PROCLAMAR LIBERTAÇÃO Volume 44
AUXÍLIOS HOMILÉTICOS LECIONÁRIO COMUM REVISADO DA IECLB – ANO A
Editado por FACULDADES EST da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil Coordenação: Verner Hoefelmann
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© Editora Sinodal, 2019 Rua Amadeo Rossi, 467 93030-220 São Leopoldo/RS Tel.: (51) 3037-2366 editora@editorasinodal.com.br www.editorasinodal.com.br Conselho editorial de Proclamar Libertação: Júlio Cézar Adam, Martin Volkmann, Paula Naegele, Robson Luís Neu, Sissi Georg, Verner Hoefelmann Coordenação editorial: Verner Hoefelmann Produção editorial e gráfica: Editora Sinodal Série: Teologia Prática – Auxílios Homiléticos Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas/Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdades EST. Tel.: (51) 2111 1400 est@est.edu.br Fax: (51) 2111 1411 www.est.edu.br Conselho editorial: Prof. Dr. Júlio Cézar Adam (coordenador), Prof. Dr. Iuri Andréas Reblin, Prof. Dr. Oneide Bobsin, Profª Ms. Selenir Corrêa Gonçalves Kronbauer Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) P963
Proclamar libertação, v. 44: auxílios para o anúncio do evangelho / [editado por] Faculdades EST; Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil; [coordenado por] Verner Hoefelmann. – São Leopoldo: Sinodal; EST, 2019. 382 p. ; 15,5 x 22,5 cm Conteúdo: v. 44: lecionário comum revisado da IECLB – Ano A. ISBN 978-85-8194-158-5 1. Teologia prática. 2. Homilética. I. Faculdades EST. II. Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. III. Hoefelmann, Verner. CDU 251 Bibliotecária Débora Zschornack – CRB 10/1390
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APRESENTAÇÃO Prezadas irmãs e prezados irmãos! os nossos olhos, o ano corre qual água na cachoeira, mas o Salmo 90.4 nos lembra: Pois mil anos, aos teus olhos, são como o dia de ontem que se foi e como a vigília da noite. Agradecemos a Deus pela fé, pelo ânimo e pela presença de amor no ano que passou. Advento anuncia um novo ano e esperamos que seja de um novo tempo. Confiamos no Deus da vida, que a cada dia renova a sua criação. Desejamos viver sempre mais um dia, na esperança da vinda definitiva de Cristo. Ao iniciar o novo ano eclesiástico, colocamos em suas mãos uma nova edição de Proclamar Libertação. Proclamar Libertação é uma obra iniciada em 1976, com o intuito de trazer “informações exegéticas e ideias criativas para elaboração de prédicas”. O título foi retirado de Lucas 4.18 e “indica um traço próprio da prédica evangélica” (Prefácio do PL I). Proclamar Libertação é esperança antiga do povo de Israel (Isaías 61.1-4) e uma força que nos move no presente. Agradecemos por esta obra abençoada, que completa agora 43 anos. Hoje são outros 500, costumamos dizer. Novos tempos, mas Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre (Hebreus 13.8). As coisas se tornam mais rápidas e até mais fáceis com as tecnologias, mas entender o contexto parece ser uma tarefa cada vez mais complexa. As doenças são tratadas com remédios cada vez mais fortes, mas a dor da doença e da morte se agudiza. Há muitas mudanças, porém as perguntas existenciais continuam e as adversidades que nos cercam persistem. Diante dos problemas, das mudanças e de tantas perguntas, a pessoa que prepara a pregação pode ser tomada pela inquietação: o que pregar? Nesta hora, o Espírito Santo de Deus começa a agir. A oração, a leitura bíblica e o auxílio homilético nos moldam e permitem preparar a pregação. A empatia nos move a buscar soluções para os problemas, a indicar respostas para as dúvidas, a anunciar esperança. Como é gratificante saber que colegas se dedicam a preparar um estudo homilético. No Proclamar Libertação, os estudos não são uniformes, pois cada autora e cada autor refletem a partir da sua perspectiva, do seu contexto. Essa diversidade é uma grande riqueza e um grande impulso para a pregação e para o serviço na seara do Senhor. Que o Proclamar Libertação nos acompanhe no ano eclesiástico de 2020 e nos ajude a cumprir com a missão dada por Jesus: Vão por todo o mundo e preguem o evangelho a toda criatura (Marcos 16.15). Que Deus abençoe cada pregador e pregadora que anuncia a esperança do reino de Deus.
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Sílvia Beatrice Genz Pastora Presidente da IECLB
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PREFÁCIO stá em suas mãos o volume 44 de Proclamar Libertação, relativo ao calendário litúrgico de 2019/2020. O volume reúne 58 contribuições para o Lecionário Comum Revisado da IECLB (Ano A). Ele oferece informações exegéticas, reflexões homiléticas e subsídios litúrgicos para pregadores e pregadoras que têm diante de si a exigente e desafiadora tarefa de proclamar a palavra de Deus para o nosso tempo e contexto. Como tem sido praxe nos últimos anos, o volume também oferece subsídios para o Tema e Lema da IECLB de 2020, além de um texto motivador para a Campanha Nacional de Ofertas para a Missão Vai e Vem. Proclamar Libertação soma-se assim aos esforços da direção da IECLB de promover a sintonia de propósitos e a caminhada solidária das paróquias e comunidades que a compõem. Nesse mesmo sentido, cabe-nos agradecer mais uma vez à direção da IECLB pela decisão de presentear ministros e ministras com um exemplar deste volume. Externamos aqui uma palavra de gratidão a colaboradores e colaboradoras que dedicaram seu tempo e talento para a produção dos auxílios homiléticos. Sem esse precioso e dedicado trabalho, Proclamar Libertação não teria as mínimas condições de sobreviver ao longo das décadas para chegar ao presente volume. Nossa gratidão igualmente a Deus, que por meio de seu Espírito tem animado e inspirado essas pessoas nessa tarefa tão necessária e nobre. Cabe ressaltar que a causa de Proclamar Libertação tem sido levada adiante na expectativa e confiança do profeta: Assim como descem a chuva e a neve dos céus e para lá não tornam, sem que primeiro reguem a terra, e a fecundem, e a façam brotar, para dar semente ao semeador e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei (Isaías 55.10-11). Lembramos, por fim, que eventuais lacunas deste volume podem ser compensadas com a consulta a volumes anteriores. Todo o conteúdo de Proclamar Libertação está disponível no site da IECLB (https://www.luteranos.com.br/) e pode ser acessado pelo mecanismo de busca do sítio: basta digitar o nome do livro bíblico por extenso, utilizando o padrão de citação adotado (por exemplo, Lucas 10.38-42 ou Lucas 10.1-11,16-20). Muito útil igualmente é o indexador disponível até o volume 40, que reúne em sequência os textos tratados. Para acessar os textos do Antigo Testamento, utilize o link <https://www.luteranos.com. br/conteudo_organizacao/governanca-rede-de-recursos-auxilios-homileticos/ textos-do-antigo-testament>. Para acessar os textos do Novo Testamento, utilize o link <https://www.luteranos.com.br/conteudo_organizacao/governanca-redede-recursos-auxilios-homileticos/textos-do-novo-testamento>.
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Verner Hoefelmann Pelo Conselho Editorial de Proclamar Libertação
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SUMÁRIO AUXÍLIOS HOMILÉTICOS............................................................................... 9 1º Domingo de Advento – Mateus 24.36-44 ...................................................... 11 Geraldo Graf 2º Domingo de Advento – Romanos 15.4-13 .................................................... 16 Ricardo Brosowski 3° Domingo de Advento – Mateus 11.2-11 ........................................................ 21 Dione Carla Baldus 4º Domingo de Advento – Isaías 7.10-16 .......................................................... 27 Wilhelm Sell, Simone Falk Sell Noite de Natal – Romanos 1.1-7 ...................................................................... 32 Gottfried Brakemeier Dia de Natal – Lucas 2.1-14(15-20) .................................................................. 37 Astor Albrecht Véspera de Ano-Novo – Eclesiastes 3.1-13 ....................................................... 43 José Manuel Kowalska Prelicz 2º Domingo após Natal – Isaías 63.7-9 .............................................................. 49 Gerson Correia de Lacerda Epifania – Mateus 2.1-12 ................................................................................... 56 Nádia Cristiane Engler Becker 1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor) – Salmo 29 ............................ 61 André Martin 2º Domingo após Epifania – 1 Coríntios 1.1-9 .................................................. 65 Jorge B. D. Oliveira 3º Domingo após Epifania – Mateus 4.12-23 ................................................... 71 Luiz Carlos Ramos 4º Domingo após Epifania – Mateus 5.1-12 ...................................................... 79 Roberto Natal Baptista 6º Domingo após Epifania – Mateus 5.21-37 .................................................... 84 Kurt Rieck Último Domingo após Epifania – 2 Pedro 1.16-21............................................ 91 Marcos A. Rodrigues Quarta-Feira de Cinzas – Mateus 6.1-6,16-21 ................................................... 96 Léo Zeno Konzen 1º Domingo na Quaresma – Mateus 4.1-11 ..................................................... 102 Klaus A. Stange 2º Domingo na Quaresma – Gênesis 12.1-4a .................................................. 108 Eduardo Stauder 3º Domingo na Quaresma – Romanos 5.1-11 .................................................. 114 Uwe Wegner 4º Domingo na Quaresma – João 9.1-41.......................................................... 121 Emilio Voigt
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5º Domingo na Quaresma – Ezequiel 37.1-14 ................................................. 128 Marivete Kunz Domingo de Ramos – Mateus 21.1-11............................................................. 133 Cláudio Kupka Quinta-Feira da Paixão – 1 Coríntios 10.16-17 ............................................... 139 Flávio Schmitt Sexta-Feira da Paixão – Mateus 27.33-50 ....................................................... 145 Werner Wiese Domingo da Páscoa – João 20.1-18 ................................................................. 150 Roberto E. Zwetsch 3º Domingo da Páscoa – Lucas 24.13-35 ........................................................ 156 Eloir Enio Weber 4º Domingo da Páscoa – Atos 2.42-47............................................................. 162 Anelise Lengler Abentroth 5º Domingo da Páscoa – João 14.1-14............................................................. 168 Gerson Acker 6º Domingo da Páscoa – 1 Pedro 3.13-22........................................................ 173 Vera Maria Immich Ascensão do Senhor – Lucas 24.44-53 ............................................................ 177 Teobaldo Witter 7º Domingo da Páscoa – Salmo 68.1-10,32-35 ............................................... 183 Vitor Hugo Schell Domingo de Pentecostes – 1 Coríntios 12.3b-13 ............................................. 188 Júlio Cézar Adam 1º Domingo após Pentecostes (Trindade) – 2 Coríntios 13.11-13 ................... 198 Osmar Luiz Witt 2º Domingo após Pentecostes – Mateus 9.35 – 10.8 ....................................... 205 Rodolfo Gaede Neto 3º Domingo após Pentecostes – Jeremias 20.7-13 ........................................... 211 Nelson Kilpp 4º Domingo após Pentecostes – Mateus 10.40-42 ........................................... 216 Leonídio Gaede 5º Domingo após Pentecostes – Romanos 7.15-25a ........................................ 221 Paulo Roberto Garcia 6º Domingo após Pentecostes – Isaías 55.10-13 .............................................. 227 Humberto Maiztegui Gonçalves 7º Domingo após Pentecostes – Mateus 13.24-30,36-43 ................................. 232 Elke Doehl 8º Domingo após Pentecostes – Romanos 8.26-39 .......................................... 237 Claiton André Kunz 9º Domingo após Pentecostes – Mateus 14.13-21 ........................................... 242 Sandra Helena Fanzlau 10º Domingo após Pentecostes – 1 Reis 19.9-18 ............................................. 246 Nilton Giese
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11° Domingo após Pentecostes – Mateus 15.21-28 ......................................... 251 Marcia Blasi, Ketlin Lais Schuchardt 12º Domingo após Pentecostes – Romanos 12.1-8 .......................................... 256 Walter Altmann 13º Domingo após Pentecostes – Mateus 16.21-28 ......................................... 263 Marcelo Jung 14º Domingo após Pentecostes – Ezequiel 33.7-11 ......................................... 269 Roger Marcel Wanke 15º Domingo após Pentecostes – Mateus 18.21-35 ......................................... 277 Evandro Jair Meurer 16º Domingo após Pentecostes – Filipenses 1.21-30....................................... 284 Cristina Scherer 17º Domingo após Pentecostes – Mateus 21.23-32 ......................................... 290 Luiz Temóteo Schwanz 18º Domingo após Pentecostes – Isaías 5.1-7 .................................................. 296 Hans A. Trein 19º Domingo após Pentecostes – Mateus 22.1-14 ........................................... 302 Erní Walter Seibert 20º Domingo após Pentecostes – 1 Tessalonicenses 1.1-10 ............................ 307 Antonio Carlos Oliveira, João Henrique Stumpf 21º Domingo após Pentecostes – Mateus 22.34-46 ......................................... 314 Claudete Beise Ulrich Dia da Reforma – Gálatas 5.1-11 ..................................................................... 320 Odair A. Braun 22º Domingo após Pentecostes – Miqueias 3.5-12 .......................................... 325 Manoel Bernardino de Santana Filho 23º Domingo após Pentecostes – Mateus 25.1-13 ........................................... 331 Carolina Bezerra de Souza, Eriksson Mateus Tomaselli 24º Domingo após Pentecostes – Mateus 25.14-30 ......................................... 336 Norberto da Cunha Garin, Edgar Zanini Timm Domingo Cristo Rei – Efésios 1.15-23 ............................................................ 341 Renato Küntzer AUXÍLIOS ESPECIAIS .................................................................................. 349 Texto-base do Tema e Lema da IECLB para 2020 .......................................... 351 Campanha Nacional de Ofertas para a Missão Vai e Vem 2020 ...................... 359 ÍNDICES .......................................................................................................... 361 Temas e textos nos volumes I – 44 .................................................................. 361 Perícopes dos volumes I – 44........................................................................... 367 Colaboradores e colaboradoras responsáveis pelos textos do volume 44........ 381
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PRÉDICA: MATEUS 24.36-44 ISAÍAS 2.1-5 ROMANOS 13.11-14
1º DOMINGO DE ADVENTO
01 DEZ 2019
Geraldo Graf
Vigilância permanente
1 Introdução Advento significa vinda. Trata-se da preparação para receber aquele que, com certeza, virá: nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo! Nos quatro domingos de Advento, nós celebramos intensamente três aspectos dessa vinda, da revelação do Deus conosco (Emanuel): a) o nascimento da criança envolta em panos e deitada numa manjedoura (Lc 2.12); b) a presença do Salvador, que nos acompanha e nos guia em nossa vida diária e nos diz: Eu estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos (Mt 28.20b); c) o Senhor, que nos assegura que nosso futuro lhe pertence: Na casa de meu Pai tem muitas moradas e eu vou preparar um lugar para vocês. E depois eu voltarei e os levarei comigo para que onde eu estiver vocês estejam também (Jo 14.2-3). Sob essa ótica, estudamos e anunciamos a mensagem dos textos bíblicos indicados para o 1º Domingo de Advento: Isaías 2.1-5 anuncia o futuro glorioso de Deus ao povo prestes a enfrentar sofrimentos e perda dos seus valores mais sagrados: a terra prometida, a liberdade e o templo. Quando tudo parece perdido e irreversível, eis que vem o anúncio de que Deus é Senhor sobre tudo e todos e que restaurará a paz (Is 2.4). Por isso vale a pena permanecer fiel e obediente a Deus, sobretudo em tempos difíceis. Romanos 13.11-14 convida as pessoas cristãs, que também enfrentam tempos difíceis de perseguição e sofrimento, para não abrir mão de seu fiel discipulado de Cristo. É justamente nessa situação que o testemunho precisa ser mais forte. Essa certeza é ilustrada por Rabindranath Tagore (1861-1941), um cristão indiano, que escreveu: “A fé é como o canto do pássaro na madrugada, quando, em meio à escuridão, anuncia a chegada de um novo dia”. Mateus 24.36-44 relata sobre os últimos ensinamentos de Jesus antes de sua prisão e crucificação. São palavras que apontam para a necessidade de vigilância contínua em meio às dificuldades da vida. Quando tudo parece apontar para a derrota e o fracasso, a pessoa cristã fiel permanece perseverante e alerta, na certeza de que Cristo virá como o Ressuscitado, o Senhor sobre todas as coisas. O Senhor deseja nos encontrar em plena atividade comunitária, missionária
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e diaconal. Nesse sentido, entendemos as palavras atribuídas a Martim Lutero: “Se eu soubesse que o mundo acabaria amanhã, hoje eu plantaria uma macieira”. Advento é isto. É tempo de intensa atividade – não somente durante o mês de dezembro, quando nos preparamos para receber visitas de parentes e amigos, mas diária e continuamente, apontando para a necessidade de uma preparação permanente da fé, da vida em comunhão e da prática do amor de Deus nas pessoas. É assim que o Senhor quer nos encontrar quando nos surpreender com a sua vinda: com os olhos da fé voltados para o alto, com o coração e as mãos estendidas para o próximo. Perseverantes e obedientes, mesmo em meio aos sofrimentos. Sempre! O Senhor virá com certeza.
2 Exegese Sugiro a leitura da exegese feita no Proclamar Libertação v. 32, pela Pa. Anelise Lengler Abentroth (cf. bibliografia). Sob oração e suplicando a ação do Espírito Santo, estudamos Mateus 24.36-44 na perspectiva de que a mensagem fale a nós em primeiro lugar e se torne existencial para os ouvintes dentro do contexto histórico, social e eclesiástico em que vivemos. E o fazemos sob a máxima: “Vivam e creiam como se o mundo fosse acabar amanhã. Ajam e sirvam como se o mundo nunca fosse acabar”. As pessoas cristãs vivenciam e anunciam a esperança às pessoas marcadas por um mundo castigado por enfermidades, injustiças, exploração, fome, guerras e toda sorte de sofrimentos, geralmente resultado de escolhas malfeitas e da cobiça por poder, riquezas e prestígio (o pregador ou a pregadora pode incluir fatos existenciais recentes para a comunidade local). A partir dessa sua esperança, as pessoas cristãs são instadas a agir e a reagir anunciando o reino de Deus, que é infinitamente maior do que qualquer sinal da morte. Ao se aproximarem com ações concretas das pessoas afetadas pelo desânimo e pela desesperança, as pessoas cristãs dão testemunho de sua esperança e anunciam que o sofrimento não tem a palavra final. E quem garante tudo isso é aquele que virá e para quem nos preparamos: Jesus Cristo, o Salvador. No entanto, o testemunho também deve deixar claro que em qualquer dia chegará a hora que ninguém poderá evitar: a morte e o fim de todas as coisas terrenas. Todos são convidados a se preparar para essa hora e fortalecer sua fé na vida que transcende a morte. Justamente por causa da incerteza sobre o dia da volta de Cristo, somos estimulados a viver de tal maneira que, a cada momento, possamos aguardar a vinda do Salvador. Em suas palavras, Jesus nos ensina a vigiar, pois não sabemos quando será esse dia. Para tanto, precisamos estar preparados. E conforme as palavras de Cristo, a melhor preparação é viver em confiança no Senhor e praticar a sua vontade. Para ilustrar sua mensagem, Jesus usa exemplos. Remete ao dilúvio e fala da vigilância para evitar que o ladrão entre na casa. As pessoas levam uma vida normal, rotineira. Em todos os tempos. Foi assim nos tempos de Noé. Permanece assim nos dias de hoje. Cada qual com seus afazeres, com seus compromissos. E é justamente ali que todos serão surpreendidos. Por isso sempre foi e conti-
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nua sendo fundamental viver em ininterrupta preparação e vigilância, prestando atenção e obediência à palavra que é anunciada. As pessoas que se divertem em um rio ao pé da montanha precisam ficar atentas aos sinais de trovoada no alto da serra para não serem surpreendidas pela enxurrada, que desce a encosta com força destrutiva. No tempo de Noé, as pessoas acompanharam a construção da arca. Porém elas consideraram isso uma loucura e não quiseram se arrepender dos seus pecados. Por isso foram surpreendidas pelo dilúvio sem que estivessem preparadas. Jesus também compara a vinda repentina do Salvador com a ação de um ladrão, a qual exige do dono da casa uma contínua vigilância, para não ser surpreendido desprevenido. E mesmo assim, por melhor que estejamos preparados e vigilantes, não sabemos quando e como acontecerá. Seremos surpreendidos em meio à rotina diária da vida. Por isso é extremamente necessário permanecer acordado na fé e firme na prática do amor de Deus. É assim que o Senhor quer nos surpreender. Esse é o preparo que o Advento nos propõe. Eu me lembro de um tempo antes do Natal, durante minha infância, quando esperávamos uma visita que havia se anunciado. Tudo estava preparado para receber a visita, que não chegava. O jeito foi deixar o fogo acesso e os alimentos preparados para não estarmos desprevenidos caso a visita chegasse fora de hora. E foi o que aconteceu. No Advento, não nos preparamos tão somente para festejar mais um feriado de Natal. O Advento nos convida a fazer da nossa vida uma contínua preparação para receber aquele que vem nos salvar. Ele virá com certeza. Que estejamos preparados, arrependidos e firmes na fé, ativos na prática do amor de Deus e no testemunho da vontade divina ante os pecados do mundo.
3 Meditação O Advento marca o início de um novo Ano Eclesiástico. Rememoramos a história da salvação revelada por meio da vinda de Jesus Cristo no primeiro Natal. Celebramos sua presença entre nós e nos sentimos carregados pela ação do Espírito Santo. Expressamos nossa esperança pela vinda definitiva do Salvador, inaugurando assim uma nova vida. No entanto, com uma diferença: estamos um ano mais velhos. E nesse meio tempo muitas coisas aconteceram e impactaram nossa vida: ficamos doentes, nos despedimos de pessoas queridas, ficamos desempregados, nossas colheitas não vingaram ou tiveram preços abaixo da expectativa, a família passou por crises e até por separações, a situação econômica e social do país nos deixou inseguros. Todas essas situações experimentadas e sofridas apontam para um futuro incerto e preocupante. Nesse sentido, a mensagem de Advento nem sempre chega bem aos corações, pois as pessoas esperam soluções imediatas, imediatistas, para os problemas que as afligem. Algumas denominações religiosas fazem promessas de prosperidade e cura imediatas de todos os males. Por isso seu discurso costuma ser mais atraente do que a pregação do Advento. A tão esperada parúsia (vinda) não tem hora para acontecer! Conheci uma pessoa que dizia não acreditar na segunda vinda de Cristo. Importante seria cada qual cuidar de si para garantir a sobrevivência e o bem-es-
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tar de cada dia. Ela afirmava isso estando bem de saúde e tendo o suficiente para viver. Bastou ficar doente e com a vida ameaçada, que ela correu para uma igreja que lhe prometia a solução imediata de seus problemas. Outra pessoa esperava a ação dos governantes para a mudança de sua situação e a resultante felicidade. São visões individualistas e egoístas. O Advento, por sua vez, propõe ações e preparação comunitária, envolvendo a comunhão e a reconciliação – com Deus e com o próximo. A pregação precisa levar em conta essas situações “seculares” e cativar as pessoas para a correta preparação, contínua e persistente. É preciso alertar contra o imediatismo e convidar para a vigilância permanente. Na história do cristianismo, houve pessoas que afirmavam saber dia e hora da vinda de Cristo. Encontraram ouvidos e corações aflitos, que ficaram eufóricos com tal boa notícia. Porém a frustração foi maior ainda quando tais prognósticos não se cumpriram. E as pessoas perderam sua fé e deixaram de confiar nas promessas divinas. Por isso é importante fortalecer a confiança das pessoas e desvelar corretamente as palavras bíblicas que nos falam da vinda de Cristo e que apontam para a certeira surpresa que será o grande dia do Senhor. Em nenhum lugar da Bíblia está escrito que a vinda de Cristo acontecerá em cerimônia solene, com dia e hora determinados. Ela pode acontecer quando as pessoas estiverem reunidas em culto. Ela pode acontecer no dia a dia, em meio à rotina. Podemos estar em oração e estudo da Palavra, com os olhos voltados para o alto. Podemos estar compenetrados na dura lida da vida diária. Não importa onde e quando. Vai ser surpresa. O que importa é como estaremos naquele dia: afastados de Deus e do próximo, dominados pelos pecados, ou vigilantes, em perseverante preparação? A preparação para a vinda de Cristo consiste em conduzir uma vida confiante de fé e obediência ao Senhor, atentos à sua Palavra, um forte e corajoso testemunho da vontade de Deus ao mundo e a prática do amor de Deus às pessoas. É assim que o Senhor quer nos encontrar na sua vinda. E o tempo do Advento aponta para esse preparo.
4 Imagem para a prédica Sugiro uma curta encenação antes da prédica de uma situação em que as pessoas são surpreendidas sem estarem preparadas.
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados Misericordioso Deus e Pai, nós confessamos que nem sempre nós nos alegramos com a boa nova da salvação em Cristo. Somos ora impacientes e precipitados, ora desanimados e indiferentes na fé e na esperança. Por isso suplicamos: socorre-nos quando nos afundamos no abismo do medo, do ódio e da descrença. Liberta-nos do egoísmo para uma nova vida em comunhão. Que nos alegremos novamente por termos a companhia do Senhor Jesus Cristo em nossos caminhos. E que assim possamos perceber a tua presença amorosa em todos os momentos e
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situações de nossa vida. Reacende em nós a chama da esperança. Tem compaixão de nós, perdoa nossos pecados e conduze-nos para a vida eterna. Isso nós te pedimos em nome de Jesus Cristo. Amém. Absolvição Alegre-se muito, ó povo de Sião; moradores de Jerusalém, cantem de alegria, pois o seu rei está chegando. Ele fará com que todas as nações vivam em paz (Zc 9.9ss). Oração do dia Oremos a Deus, que pode transformar nosso sofrimento em alegria. Amado Deus e Pai, tu não esperas passivamente que nós vamos te procurar. Mas tu vens a nós por meio do Salvador Jesus Cristo. Por isso nós suplicamos: faze com que aproveitemos este tempo de Advento e Natal para aceitar teu convite e nos deixar envolver completamente pelo teu amor. Interrompe nossa correria e leva-nos para o silêncio do tempo de Advento. Da indiferença, transporta-nos para a obediente devoção; do medo e da dúvida, liberta-nos por Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Faze isso pela tua palavra na ação do Espírito Santo. Amém. Bênção e envio Repartam o pão com as outras pessoas. Pois ele é apetitoso apenas quando é compartilhado. Somente o pão repartido alegra muitas pessoas. Repartam a palavra de Deus com as outras pessoas. Ela é rica demais para servir apenas a vocês. Ela quer servir para a salvação de muitos. Repartam o sofrimento com as outras pessoas. O amor alivia e trata a dor dos irmãos e das irmãs. Repartam a luz com as outras pessoas. Ela espanta a escuridão para que ninguém permaneça nas trevas. É para isso que Deus nos chama, prepara, abençoa e envia! Que este tempo de Advento inaugure efetivamente um novo tempo. Vão na paz do Senhor!
Bibliografia BROOKS, David H. Prédica sobre Mateus 24.36-44. In: Göttinger Predigten im Internet. 2016. Disponível em: <www.theologie.uzw.ch>. SEGGEWISS, Bernhar. Prédica sobre Mateus 24.36. In: Predigtdatenbank. 2016. Disponível em: <www.predigten.de>. ABENTROTH, Anelise. Prédica: Mateus 24.36-44. 1º Domingo de Advento. In: SOUZA, Mauro Batista de et al. (Coords.). Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2007. v. 32, p. 9-15.
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2º DOMINGO DE ADVENTO
08 DEZ 2019
PRÉDICA: ROMANOS 15.4-13 ISAÍAS 11.1-10 MATEUS 3.1-12
Ricardo Brosowski
Misericórdia gera concórdia!
1 Introdução É Advento. Tempo de espera e de esperança. Tempo em que as comunidades preparam suas festividades para o período natalino. Tempo em que famílias organizam suas celebrações. Tempo em que pessoas pensam em presentear-se mutuamente, mesmo que seja num simples amigo secreto. Ou seja, Advento é tempo em que os relacionamentos estão em alta. O texto bíblico do Antigo Testamento nos aponta para o ramo de Jessé, de onde brotará um renovo, uma nova esperança. O texto do evangelho nos mostra um João Batista que prepara o caminho do Senhor. Ambos os textos são clássicos do período de Advento. Possuem um caráter histórico, mas também um viés escatológico. Afinal, qual é a tarefa do anúncio da mensagem de Jesus, senão anunciar a vinda derradeira do Senhor? Esse anúncio tem como espaço principal as comunidades, seja a de Roma ou as nossas. O problema é que as comunidades, em todos os tempos e lugares, são formadas por pessoas (pecadoras, egocêntricas e teimosas). Por isso o texto de Paulo aos romanos tem uma atualidade voraz e um questionamento central: quem é Cristo para a comunidade? A partir disso e da lembrança de que Deus é misericordioso, somos chamados a viver comunidade olhando para esse Cristo.
2 Exegese As cartas do apóstolo Paulo são uma interpretação teológica da vida, morte na cruz e ressurreição de Cristo. A Carta aos Romanos não é diferente. A história da comunidade de Roma começa antes de Paulo. Há notícias de que a mensagem sobre Cristo já havia sido pregada na sinagoga local. Não é possível informar quem a fundou, mas se sabe que ela foi formada por pessoas cristãs advindas do mundo judeu e do mundo gentílico. Paulo se dirige aos dois grupos. Lutero escreve, em seus prefácios a textos bíblicos, que nesse capítulo Paulo faz de Cristo um exemplo, a fim de serem tolerados também os fracos em decorrência de pecados conhecidos ou costumes impróprios. Esses fracos não devem ser repudiados, mas suportados, até que melhorem. Em suma, devemos fazer aquilo que Cristo fez – e continua fazendo – por nós. Ele suporta nossos muitos vícios, maus costumes, nossas imperfeições e ainda nos ajuda sem cessar.
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Nessa parte da carta, Paulo trata sobre problemas de relacionamentos dentro da comunidade romana. Alguns judeus convertidos não conseguiam abandonar seus costumes judaicos, praticados por quase toda a vida. Mesmo convertidos, essas pessoas cristãs não se sentiam livres para comer ou beber qualquer coisa que lhes era oferecido. Por outro lado, havia gregos e romanos (gentios) convertidos, que não viam a necessidade de cumprir as leis mosaicas. O tema “fortes e fracos” já está presente no capítulo 14. Podemos ver nos versículos 1-12 que as pessoas cristãs não concordavam em tudo, nem mesmo dentro da comunidade e dos costumes da fé. Afinal, as pessoas cristãs da comunidade de Roma, assim como as pessoas cristãs de nossas comunidades, possuíam níveis de maturidade distintos. Contudo, devemos lembrar que essas não são questões fundamentais para o evangelho. Na segunda parte desse capítulo, vemos que cabe aos fortes cuidar dos fracos. Não deveria haver julgamentos, nem nada que pudesse ferir a fé de outrem. Porém deveriam acontecer a busca pela paz e a edificação comunitária. Os três primeiros versículos do capítulo 15 mostram a vontade do apóstolo Paulo para que houvesse concórdia entre “fracos e fortes”, ou seja, que conseguissem viver em comunhão. Na nossa perícope, não são mencionados nem fortes nem fracos, que estão implícitos no texto. Tendo em vista os problemas de relacionamento da comunidade, Paulo lembra o valor da Escritura. Pois todas as coisas que foram escritas previamente, para o nosso ensino foram escritas, para que pela paciência e pela consolação das escrituras tenhamos a esperança (v. 1). Interessante notar o jogo de palavras “paciência e consolo”. Isso denota uma relação mútua, em que se espera do cristão paciência para não invadir ou diminuir a fé do outro. Mas também há consolo quando sua fé é diminuída ou violada por outros. A paciência e a consolação vêm do próprio Deus. A partir disso as pessoas cristãs são chamadas a agir de igual forma. Não como regra moral, mas sim por causa de Cristo. E é por causa de Cristo que elas podem glorificar a Deus. A versão da Bíblia NTLH, no versículo seis, utiliza a expressão “todos juntos”; a versão TEB escreve “com um mesmo coração”; Adolf Pohl em seus comentários utiliza “concordemente”. O termo “concórdia” é bem interessante, pois revela que, mesmo em uma comunidade que se encontra em tensão, ainda pode haver união, para que numa só voz e num só coração se glorifique a Deus. Ou seja, em Cristo existe a “única unidade”, a concórdia que ela precisa para ser comunidade cristã verdadeira. Na segunda parte da perícope (v. 7-13), parece haver uma elevação de nível na elaboração da exortação que Paulo vinha tecendo desde o início do capítulo 14. Não são mais utilizados termos individualizantes entre o que é de um ou de outro. A conjugação verbal passa para a segunda pessoa do plural. Isso mostra que, a partir de Cristo, não existem mais nós e eles, mas sim unidade (concórdia). Tanto pessoas cristãs advindas do judaísmo como pessoas cristãs gentílicas perfazem o todo da igreja. Desse modo, o parâmetro da vida em comunidade não é mais a forma como cada uma das vertentes vivia, e sim a forma como Cristo a viveu. É um convite a não tratar o outro na mesma medida do sofrimento que ele causou (qua-
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se que uma lei de talião), e sim na forma como Cristo acolheu a todos (no amor). Se o que Paulo pede for efetivado, o acolhimento mútuo entre ambos os partidos será sem reservas. Para as pessoas cristãs advindas do judaísmo, Paulo aponta para a aliança feita com os antepassados e para a pessoa de Jesus como ministro da circuncisão. Esse serviço de Cristo mostra que as promessas de Deus eram dignas de confiança, pois se cumpriram, e desse modo, vigoram. Porém o evangelho é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê, tanto do judeu, como do grego (gentio) (Rm 1.16). Os gentios, por sua vez, também estão inclusos na obra de Jesus. Esses devem glorificar a Deus por causa da misericórdia de Deus. Faz-se interessante destacar que a misericórdia de Deus deve ter como fruto a concórdia da comunidade. Ou seja, o sentimento de dor e solidariedade que Deus tem em relação aos seres humanos que sofrem a tragédia pessoal e comunitária do pecado, enviando seu filho Jesus Cristo ao mundo, deve servir de base para que a comunidade viva a partir do mesmo coração. A perícope encerra com bênçãos, nas quais a comunidade em sua totalidade é de novo chamada a olhar para o Deus da esperança. Deus pode dar a fortes e fracos a alegria e a paz para viverem juntos a comunidade.
3 Meditação Uma das bases da antropologia é saber que o ser humano é um ser social. Ele está inserido numa gama de redes mais amplas do que o seu próprio eu. Estando inserido nesses grupos sociais, ele adquire personalidade e identidade enquanto ser humano, mas, ao mesmo tempo, coloca suas raízes para dentro do grupo. Uma comunidade religiosa funciona da mesma forma. Viver em grupo sempre foi um grande desafio. Pessoas diferentes, que foram criadas diferentemente, que pensam de forma variada, que agem de forma diversa, são chamadas a viverem juntas. Isso não é fácil. E por não ser fácil, hoje em dia a moda está em participar de comunidades virtuais. Zygmunt Bauman (como pode ser visto em seus livros sobre a liquidez) lembra que na modernidade as comunidades virtuais vêm crescendo na mesma medida que o conceito de “amizades em rede (virtual)” também cresce. Para ele, o conceito de “comunidades” advém de laços, e não de redes. Quando se fala em laço comunitário, fala-se em algo que precede o indivíduo e que vai continuar existindo após o mesmo. O conceito de rede é expresso por meio de dois verbos: conectar e desconectar. A pessoa se liga a algo, e quando não quer mais pertencer a esse grupo, desconecta-se facilmente. Talvez por essa razão vivemos um período em que encontramos tantas pessoas solitárias. Contudo, como pessoas cristãs, nossa ideia de comunidade vai ao encontro do conceito comunidade de laços: pessoas diferentes que se reúnem por um mesmo ideal. Essa comunidade gera comunhão. Não apenas comunhão conceitual, mas comunhão concreta. Essa se manifesta no cuidado que a comunidade tem para com os necessitados e com aqueles que pensam diferente, que agem diversamente. Desse modo, pode-se afirmar que comunhão é sempre interdependência.
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Olhando para a comunidade de Roma, temos que dizer que ela vivia esses laços. Nós, enquanto comunidades contemporâneas, também temos vivenciado laços em nossos relacionamentos. Entretanto, esses laços não são vivenciados na completude da comunidade, e sim entre aqueles que possuem mais afinidades. Como fazia a comunidade de Roma, nas comunidades cristãs hodiernas também existem pessoas e grupos que se excluem mutuamente. Há aqueles que se excluem pelo que comem ou deixam de comer, pelo que bebem ou deixam de beber, pelo que vestem, pelo que jogam. Também são motivos dessas intempéries temas como: dançar, fumar, questões de gênero, raça, divergências confessionais, questões tradicionais (religiosas ou não), questões econômicas, político-partidárias e tantas outras. A comunidade romana enfrentava isso. Como prova de pertencimento a um dos partidos comunitários, tornava-se obrigatória a observância de usos e costumes (como a alimentação). E hoje em dia? Será que não condicionamos a geração de laços de outros em nossa comunidade a determinadas tradições e costumes? Paulo lembra que a comunidade tem como fundamento a obra de Cristo, tanto como operador da circuncisão como pela misericórdia para com os gentios. Será que nos lembramos de Cristo nas brigas que travamos em nossas comunidades? Somos chamados a lembrar da Confissão de Augsburgo (CA VII e VIII): “Ensina-se que sempre haverá uma única santa igreja cristã, que é a congregação de todos os crentes. E que para a verdadeira unidade da igreja basta que o evangelho seja pregado de forma reta e os sacramentos sejam administrados de modo correto”. Desse modo precisamos dizer que todas as vezes que deixamos o evangelho de lado (mesmo que inconscientemente) e colocamos alguma vontade nossa no lugar, estamos contradizendo o ensinamento da CA e também do texto que estamos trabalhando. A misericórdia de Deus para com o ser humano e sua comunidade faz com que a comunidade e o ser humano busquem viver em concórdia. Com isso não se anulam as tensões dentro da comunidade. Porém somos chamados a observar que as diferenças de opiniões ou atitudes, que nossas preferências (inclusive teológicas) não perfazem o todo do evangelho. E, desse modo, aqueles que confessam a Cristo como único e suficiente Salvador podem glorificar a Deus juntos, numa só voz e num só coração, mesmo que existam discordâncias em assuntos secundários. O texto destinado à comunidade de Roma poderia ser destinado a grande parte das comunidades cristãs ao redor do globo. É um texto cristocêntrico, que tira das mãos e dos pensamentos humanos a possibilidade de colocar empecilhos para que outros vivam os laços de uma comunidade.
4 Imagens para a prédica Algumas imagens possíveis são: o celular, o laço e o nó. Pode-se pedir que as pessoas desliguem o celular. Qual é a dificuldade de nos desligarmos do celular? Qual é a dificuldade que temos de desligar-nos das redes e de suas “ami-
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zades”? E qual o motivo de termos dificuldades de nos relacionar por meio de laços comunitários duradouros? Uma imagem complementar à do celular é a do laço. Laços são utilizados para amarrar coisas diferentes. Também simbolizam os relacionamentos humanos que, em suma, são a amarração de seres diferentes. Esses laços são baseados na parceria, olho no olho, no envolvimento, na confiança e na liberdade. São esses os referenciais que fazem as pessoas buscarem laços, seja de matrimônio, amizades ou a comunidade. Comunidades em laço implicam soma, e jamais na subtração de seres. O grande problema dos laços (relacionamentos) é que facilmente eles viram nós. E nesse ponto podemos lançar algumas perguntas e reflexões. O nó da comunidade de Roma era a comida. Quais são os nós de nossas comunidades? Onde o laço está frouxo e permite que alguns caiam? Onde o laço está muito firme a ponto de estrangular outros? (Esse exemplo pode ser representado com um laço que envolve algumas baquetas ou galhos.) Uma comunidade de laços é sempre mais viva, pois não anula e não esconde nenhum de seus membros. Mas ela também exige responsabilidade mútua de cuidado, reconhecimento, perdão, convivência e concórdia.
5 Subsídios litúrgicos Cabe lembrar que o 2º Domingo de Advento ocorre justamente no Dia da Bíblia. Cabe talvez antes de alguma leitura bíblica uma breve recordação sobre um dos pilares das comunidades da Reforma: somente a Escritura. Ela é a regra de fé da igreja, é norma normans. Aclamação do evangelho Pode ser utilizado o texto de Romanos 15.4: Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança.
Bibliografia LUTERO, Martinho. Prefácio à Epistola de S. Paulo aos Romanos. In: ______. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2003. v. 8, p. 129-141. POHL, Adolf. Carta aos Romanos. Curitiba: Esperança, 1999. (Comentário Esperança).
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PRÉDICA: MATEUS 11.2-11 ISAÍAS 35.1-10 TIAGO 5.7-10
3º DOMINGO DE ADVENTO
15 DEZ 2019
Dione Carla Baldus
O caminho segue com esperança
1 Introdução Diversas reflexões sobre o texto de prédica podem ser encontradas nas edições anteriores de Proclamar Libertação: v. III, X, 21, 27, 32 e 38. Eles oferecem ampla possibilidade de aprofundar o assunto e percorrer caminhos, por vezes, bem diferentes. O foco está na confiança nas promessas de Deus e na esperança por tempos melhores. Tende bom ânimo (Jo 16.33). É tempo de Advento! A linguagem poética de Isaías conecta o passado, o presente, o futuro; e o sofrimento ao bem-estar. Traz para a discussão a sustentabilidade da confiança e da esperança. O sofrimento da natureza torna visível o pecado humano e dá visibilidade à ação de Deus, que transforma e renova a vida onde menos se espera: da terra seca brota um jardim. Quando o sofrimento trava a visão, paralisa os passos e emudece a voz, é a esperança que dá ânimo, encoraja à confiança e não permite que o medo paralise. O sentido e a razão da esperança estão no Messias. Por esse caminho, Deus nos quer conduzir. Tiago lembra que o caminho do Reino é exigente. As adversidades trazem tensões que se refletem nos relacionamentos: queixas, julgamentos, juízo. É preciso perseverar e incentivar as pessoas a suportar com paciência os sofrimentos, no sentido de ampliar o ânimo enquanto o Senhor não vem. Os profetas, que sofreram e permaneceram fiéis, servem de exemplo, assim como as famílias agricultoras que dialogam com a terra, conhecem e respeitam o seu ritmo, cuidam, plantam e aguardam com esperança a hora da colheita. A história mostra que os sofrimentos têm seus significados e podem servir de impulso para confiar em Deus e para servi-lo, ter esperança e melhorar a vida.
2 Exegese O evangelista, que escreve por volta do ano 80 d.C., agrupa os ensinos de Jesus em cinco partes. O texto de prédica está no início da terceira parte, que traz várias controvérsias entre Jesus e adversários, além de sete parábolas que descrevem aspectos do Reino dos Céus, que necessitam de resposta humana. Mateus quer mostrar que o cumprimento das expectativas e promessas messiânicas do Antigo Testamento se cumprem em Jesus. V. 2 – João Batista está na cadeia e ouve falar do que Jesus fazia. João Batista estava acostumado a viver em espaço aberto, tendo como companhia o sol,
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a lua, o céu azul, o vento, o deserto e o horizonte. A prisão é tortura para quem se acostumou com a liberdade. O historiador judeu Flávio Josefo informa que João foi preso na fortaleza herodiana de Maqueronte, na Idumeia, no lado oriental do mar Morto. João Batista sentiu-se desafiado por essa nova e sofrida experiência. Da prisão ele ouve o relato sobre o que Jesus está fazendo. Sobre a pregação de Jesus, Mateus concentrou nos capítulos 5-7 e 10, enquanto suas atividades estão descritas nos capítulos 8 e 9. Do que João ouve brota a pergunta: V. 3 – O senhor é aquele que ia chegar ou devemos esperar outro? Será que João Batista tinha dúvidas sobre aquilo que havia pregado? Ou seus discípulos tinham dúvidas? A quem serve essa resposta? Talvez João Batista tivesse pressa em entender o que estava acontecendo, até porque a sua mensagem nem sempre condizia com as atitudes de Jesus. A perspectiva do juízo era muito forte em sua pregação (Mt 3.7-12). Mas os relatos que chegam a João são de curas, discursos sobre o amor, assuntos do dia a dia – coisas pequenas para um grande projeto de transformação aguardado em Israel. A resposta de Jesus deve confirmar seu discurso de que um novo tempo é chegado, reanimando-o em meio à angústia do sofrimento e da morte iminente. Mas a pergunta também pode conter a expectativa sobre um novo olhar do que vem a ser o reino de Deus. V. 4-5 – Digam a ele que os cegos veem... e os pobres recebem o evangelho. A resposta de Jesus recorda as palavras de Isaías a respeito dos tempos messiânicos (Is 29.18-21; 35.5-6) e da missão do servo do Senhor Deus (Is 61.1; Lc 4.18). Jesus mostra que o caminho e a estratégia estão firmados no amor e que é preciso se deixar moldar: cegos veem quando conhecem e enxergam a si mesmos, a Deus e as outras pessoas. Coxos andam quando superam suas incapacidades, suas queixas de vitimizações e enfrentam os desafios. Leprosos são purificados (curados) quando são aceitos pela sociedade. Surdos passam a ouvir quando a voz de Deus e de suas consciências influenciam para a vida. A ressurreição acontece quando a pessoa se sente capaz de enfrentar as tentações, se arrepende e se permite viver uma nova vida. Aos pobres tem-se alcançado as riquezas dos céus. São exemplos de superação. Esse processo de mudança de vida pode ser reconhecido não só nas palavras de Jesus, mas principalmente nas atitudes. A missão não é vir e ver, mas ir e contar (v. 4), espalhar a boa nova. Note que João Batista não compreendeu a essência da missão de Jesus, pois sua espera está relacionada ao juízo escatológico da ira, a instauração de um império sobre todos os reinos da terra e a eliminação dos inimigos do povo eleito. A proposta de Jesus é de distribuição de bênçãos. Por isso Jesus convida João a olhar os sinais e perceber neles como Deus está agindo para salvar as pessoas. V. 6 – E bem-aventurada é aquela pessoa que não achar em mim motivo de tropeço. João Batista e Jesus têm percepções e estratégias diferentes. Daí decorre a importância de uma abertura para os desdobramentos dos planos de Deus, tendo em vista que o ministério de Jesus não combina totalmente com as características das expectativas messiânicas correntes. Para muitas pessoas, foi e é escândalo o que Jesus fez. Esse escândalo não pode ser motivo de tropeço para não confiar,
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para perder as esperanças, se entregar ao sofrimento ou abandonar a fé. Ao contrário, faz-nos perguntar pela missão e por onde começar. Temos até aqui uma pergunta, uma resposta e uma exortação à confiança e à perseverança em tempos escuros. Na sequência, as palavras de Jesus são proferidas ao povo a respeito de João. V. 7b-10 – Jesus pergunta três vezes: “o que vocês foram ver?”. a) Foram ver um caniço açoitado pelo vento? Caniço era uma planta muito comum na beira do rio Jordão, que facilmente se dobrava com o vento. Ao comparar João com o caniço, Jesus afirma que ele não era um homem qualquer, pois ele atraía multidões. João também não era comum, e muito menos uma pessoa que se deixa dobrar diante de qualquer pressão ou sofrimento. b) Foram ver um homem com roupas finas e que mora num palácio? A simplicidade de João não o diminui, ao contrário, ele fala sem temor e com qualquer pessoa, inclusive com o rei. c) Foram ver um profeta? Profeta é a pessoa que recebe a mensagem de Deus e tem coragem de comunicá-la. Profeta tem a sabedoria e as palavras de Deus e uma coragem que só Deus pode dar. E João preenche esses requisitos. Os profetas e as profetizas foram pessoas ousadas. Jesus foi ousado, tanto que sua vida influenciou a história da humanidade, que se divide em antes de Cristo e depois de Cristo. Ambos enfrentaram as dificuldades de propor um novo jeito de viver e se relacionar no e com o mundo. V. 11 – De todos os homens... João Batista é o maior. João Batista não foi apenas mais um profeta. Ele era também o mensageiro que Deus enviou a fim de preparar o caminho para a vinda do Messias (Ml 3.1). O trabalho dele marcou o fim do tempo dos profetas e da Lei de Moisés (v. 13) e o começo do tempo do Reino dos Céus.
3 Meditação Os textos podem ter um tom alegre e festivo – é Advento! Podem evocar o ânimo e a renovação da esperança em tempos difíceis, ancorados no medo, no individualismo e na violência de todas as formas. O evangelho destaca que as atitudes de Jesus foram escândalo para muitas pessoas, pois aguardavam um grande rei que, com poder e força, mudaria o mundo. No entanto, o caminho proposto por Jesus segue um outro rumo e se sustenta em outras balizas e valores! O evangelho anima e alegra as pessoas cansadas e sobrecarregadas com os sofrimentos e amedrontadas com a realidade, em que há pouco ou quase nada de incentivo à contemplação da natureza e da vivência da riqueza dos relacionamentos. Onde parece não haver mais sentido na vida! Onde o mal e a violência parecem reinar tranquilamente. O profeta Isaías encoraja à confiança em Deus, e Tiago à paciência para suportar a espera do Reino desvelando sinais. A essência de Deus é o amor. Vale o esforço de sublinhar essa característica essencial e o que significa se sentir uma pessoa amada por Deus – sintonizada com o maior poder transformador.
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Uma via de reflexão é a do arrependimento que leva ao perdão e à mudança de vida. E esse processo está intimamente ligado ao amor. É o amor que leva ao arrependimento, que promove o perdão próprio, o perdão para com as demais pessoas e na relação com Deus. Saber-se e sentir-se uma pessoa amada por Deus, para muito além das fraquezas e falhas, torna as pessoas menos egoístas e mais humanas. Em Jesus, o que transforma e renova o mundo não é o poder, o uso da força, da violência ou do fundamentalismo egoísta da salvação, mas a mudança produzida na vida da pessoa quando ela crê: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e os pobres recebem o evangelho (v. 5). O que causa mudança são os relacionamentos mais humanos, sustentados pelo amor e desdobrados em valores como respeito, inclusão, ética, diálogo, diversidade e complementariedade de jeitos de ser e viver, exemplificados pela vida da natureza. Esses são os sinais do Reino, protagonizados na ação missionária de Jesus, os quais são repassados às pessoas crentes para ir e ensinar (Mt 28.19-20). Sem dúvida, a realidade atual assombra as pessoas com o medo de tudo, de todos e com valores que acentuam o consumismo, o acúmulo de bens, o descarte de pessoas e a exploração dos bens naturais de modo não sustentável. Esse cenário causa insegurança, pessimismo, angústia, bloqueamento dos sentimentos, solidão, falta de resiliência. Esse conjunto de sentimentos pode ser transformado pelo amor que, por ele próprio, sabe criar um dinamismo de superação, que torna as pessoas mais humanas. A exemplo de João Batista, é possível não se deixar quebrar e agitar pelo vento da injustiça e da agressão a todas as formas de vida. É possível resistir, mostrar força na fraqueza, perseverar na fidelidade à mensagem de Jesus, ter coragem para aplainar caminhos para que os sinais do Reino possam ser vivenciados. É possível uma atitude missionária, potencializando o sacerdócio das pessoas que creem, para promover relações de paz, acolhimento às pessoas sofridas e dar voz ao evangelho e aos valores do reino de Deus. Não é tarefa fácil nem há uma resposta única de como superar os sofrimentos e vivenciar mais o Reino. Mas Jesus indica o caminho que, ao ser percorrido, vai trazendo respostas construídas a partir de perguntas que brotam do cotidiano, das experiências com os sofrimentos e com as alegrias. Jesus quer conduzir pelo caminho balizado pelo amor. É preciso planejar o percurso desse caminho, confiante na ação do Espírito Santo e firme nos valores do evangelho. Ali onde há uma mudança para melhor, ali o amor reinará, e a esperança renascerá outra vez! Cabe ressaltar que a missão da igreja é reconhecida e tem credibilidade a partir de ações práticas, simples e significativas. Essa missão dá visibilidade à ação e à percepção da presença de Deus no mundo. A provocação é sair da omissão e da passividade para uma postura de protagonismo que impulsiona o “ir” e o “contar” sobre o que Jesus fez e faz. E isso inclui estimular a coerência em ver, ouvir, sentir, experimentar e falar sobre a fé cristã e integrar atitudes diaconais e missionárias. Pequenas atitudes fazem toda a diferença.
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A força de João Batista vinha do que ele acreditava. É preciso ousadia para se identificar com Jesus, tal qual João Batista o fez. Que a nossa fé também seja fortalecida!
4 Imagens para a prédica – Advento: tempo de confiança e esperança em meio a situações difíceis, tal qual Maria e José grávidos e fora dos padrões sociais; tal qual João Batista, um homem livre, agora aprisionado; e tal qual a própria insegurança do povo no exílio. Advento: tempo de recontar o passado, pensar o presente e sonhar com o futuro. Esperançar. Protagonizar valores fundantes da vida plena! – Relacionar o texto com referências sobre os sofrimentos dentro do contexto local. Podem ser citadas situações socioeconômicas, ecológicas, comunitárias, doenças, dores, lutos, perguntas sobre a sustentabilidade da missão. Lembre-se de também pontuar situações alegres e que inspiram confiança e esperança. Falar de coisas boas é espalhar o Evangelho, é participar da missão. – Um viés interessante é o de abordar a temática a partir da transformação e renovação da natureza. Usar a imagem poética e profética relacionando com a vida que precisa ser cuidada e amada de forma integral e holística. – Ilustração: um casal observou durante muito tempo um homem, que tinha como missão acender os lampiões que iluminavam as ruas e praças da cidade. Porém algo chamava à atenção naquele homem. Um dia, o casal foi conversar com o acendedor de lampiões e descobriu que ele tinha deficiência visual total. Mas isso não o impedia de acender os lampiões e possibilitar que pessoas pudessem ver o caminho, balizadas por essas luzes. Eis aí um desafio: entusiasmar e animar as pessoas com a missão de acender a “luz”, fornecendo balizas para o amor.
5 Subsídios litúrgicos 1. Jogral: Convidar alguns grupos da comunidade para fazer um jogral, interpretando o hino “Maria”, LCI 353: Todos os grupos: Maria, Maria. Grupo 1: Como foi que trocaste teus sonhos pela simples e plena alegria de servir ao Senhor ao gerar em teu ventre Jesus? Todos os grupos: Maria, Maria. Grupo 2: Como não aceitar seu chamado, se por ele nos veio a resposta aos clamores do mundo por luz e por libertação? Todos os grupos: Maria, Maria. Grupo 3: Como foi que arriscaste tua vida, o desprezo de todos na rua, um projeto de vida tranquila, o amor de José? Todos os grupos: Maria, Maria. Grupo 4: Como não aceitar esse risco, se Deus mesmo me fez sua serva? Mesmo sendo pequena, sou bênção nas mãos do Senhor. Todos os grupos: Maria, Maria.
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3º Domingo de Advento
2. Hinos: Livro de Canto da IECLB * Há sinais de paz e de graça, n° 582 * Pelas dores deste mundo, n° 56 * Ó querido e bom Jesus, n° 30 * Advento é tempo de preparação, n° 358 * Se caminhar é preciso, n° 575
Bibliografia BÍBLIA CONSELHEIRA – Novo Testamento. Barueri/SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011. BIBLIOTECA BÍBLICA. Estudos sobre Mt 11.1-30. Disponível em: <https:// bibliotecabiblica.blogspot.com/2015/02/estudo-sobre-mateus-111-30.html>. Acesso em: 04 abr. 2019.
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PRÉDICA: ISAÍAS 7.10-16 MATEUS 1.18-25 ROMANOS 1.1-7
4º DOMINGO DE ADVENTO
22 DEZ 2019
Wilhelm Sell Simone Falk Sell
Chamados e chamadas a confiar
1 Introdução Estamos no 4º Domingo de Advento, preparando-nos para o Natal. É época de presentes, luzes, enfeites e também de planos sobre como será festejada uma das datas mais importantes do calendário cristão: o nascimento de Jesus Cristo. Celebra-se a inauguração do reino de Deus, bem como se anuncia, em perspectiva escatológica, seu retorno, sua segunda vinda. Para este final de semana, ao encerrarmos o ciclo do Advento, já nos últimos preparativos para o Natal, somos levados a três textos bíblicos. O previsto para a pregação está em Isaías 7.10-16. Nessa passagem, Deus chama, por meio do profeta Isaías, o rei Acaz a um ato de fé. Em Romanos 1.1-7, o apóstolo Paulo denomina as pessoas da comunidade de fé em Roma como chamadas para pertencerem a Jesus Cristo. No Evangelho de Mateus 1.18-25, temos o relato de Deus que vem a José por meio de um sonho e o consola com o fato de que o filho que Maria está esperando não é resultado de uma traição, mas da própria obra de Deus. Assim como Maria foi chamada a confiar em Deus, agora José é chamado a confiar nele. É possível dizer que os três textos convergem numa mesma direção: Deus não abandona o povo e o chama, e seu chamado implica uma escolha: confiar ou não. Deus respeita a liberdade na qual a pessoa foi criada.
2 Exegese O texto de Isaías está inserido no bloco do Proto-Isaías (Is 1 – 39). Nesse bloco, Deus é entendido como o Senhor soberano que vem para ajuizar seu povo (Is 3.1-15; 5.1-24; 6; 9.7 – 10.4; 22; 30.1-5; 31.1-3). Para isso, ele se serve dos povos, mesmo que nem por isso eles estejam eximidos de sua culpa (Is 5.26-29; 10.5-9,24-27; 11.11-16; 13-19; 20-21; 23; 28.1-4; 29.1-10; 30.27-31; 31.4-9). O juízo permanece nesse contexto como o tema principal. No entanto, em meio a esse juízo, permanecem as grandes promessas de Deus. Especificamente as profecias dos capítulos 7 – 9.7 datam do período do rei Acaz, principalmente da época da guerra siro-efraimita. É possível pensar nos anos 734-730 a.C. Esse bloco é chamado de “livro de Emanuel”, justamente por causa da profecia que consta em 7.14.
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Na primeira parte, que compreende os versículos 1-9, Deus está como aquele que exige o exercício da fé. Há no contexto uma tensão política por causa do avanço dos assírios. A fim de evitar a dominação dos assírios, Israel (Efraim) e Síria (Arã) fizeram uma aliança para se fortalecer. Objetivaram também agrupar Judá e, por essa razão, tentaram um acordo com o rei Jotão, pai de Acaz, mas não obtiveram sucesso. Outra tentativa é feita quando Acaz se torna rei, mas o jovem rei também recusou. Assim, planejavam tirar Acaz do poder e colocar em seu lugar Tabeel (provavelmente um sírio; em todo caso alguém que simpatizava com os sírios). Diante dessa situação, Acaz pensa em pedir ajuda a Tiglate-Peleser, o rei dos assírios. É diante dessa situação que Isaías vai falar com o rei Acaz em nome do Senhor. Segundo Kamp, não sabemos onde ficavam exatamente o “aqueduto do açude superior” e o “campo do lavadeiro”; em todo caso, Acaz está verificando o abastecimento de água de Jerusalém, naquela época o ponto fraco da defesa da cidade (mais tarde, o rei Ezequias mudou o sistema de transporte de água – 2 Reis 20.20; 2 Crônicas 32.30). Isaías tem que levar seu filho Um-Resto-Volverá. Esse menino é uma “pregação andante” para o povo por causa de seu nome (cf. 10.20-22), que é um resumo da pregação profética de seu pai: Deus vai castigar seu povo pecaminoso e desobediente, de tal maneira que “apenas um resto volverá; mas o nome também mostra que, ‘contudo, um resto volverá’ e será salvo” (cf. 6.9-13) (KAMP, 1987, p. 34). Deus chama Acaz a confiar na sua promessa. Ele havia garantido a continuação da dinastia de Davi (2Sm 7). Por essa razão, ele protegerá Judá/Jerusalém. No versículo 4 é dito a Acaz: acautela-te e aquieta-te!. Expressão usual usada para dizer que Deus peleja junto com seu povo (Dt 20.1-4). Portanto, mesmo diante de todas as ameaças e de todos os indícios contrários, Deus dá a sua garantia, ele é quem tem a última palavra. Acaz é chamado a crer. Deus exige fé, mesmo contra a aparência de todos os fatos. Crer é não ver e, mesmo assim, ter fé (Jo 20.29). Crer é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem (Hb 11.1). De outro modo, não crer trará suas consequências: acontecerá a Acaz o mesmo que acontecerá a Israel. Assim, chegamos ao texto em questão. Deus, por meio do profeta Isaías, faz a Acaz uma promessa e, em seguida, quer dar um sinal para confirmar sua promessa. Algo semelhante com o que encontramos em Gênesis 15.1-6,7-21. O rei pode pedir qualquer sinal a fim de confirmar a veracidade da promessa de Deus. Deus se esforça para vencer a incredulidade de Acaz e para legitimar Isaías como seu profeta. Mas Acaz, teimoso, se recusa (v. 12). Seu interesse não está na palavra de Deus, nem em suas garantias, mas está em suas próprias convicções e demonstração de força. Acaz, assim, troca as garantias de Deus pela aliança com os assírios. A situação gera revolta em Isaías: Ouvi, agora, ó casa de Davi: acaso, não vos basta fatigardes os homens, mas ainda fatigais também ao meu Deus? (v. 13). No versículo 14, surge então a profecia de Isaías sobre um sinal que Acaz não poderá negar: uma virgem ficará grávida e ela dará à luz um filho, que receberá o nome de Emanuel, ou seja, Deus conosco. Na perspectiva da história, esse sinal pertence a Acaz. Por isso, à primeira vista, a virgem que Isaías pensa será para o
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rei demonstração do poder de Deus. A mulher será demonstração de uma pessoa com fé em Deus, como alguém que confia de todo o coração que ele cumprirá todas as suas promessas. Na perspectiva da igreja, há aqui uma profecia que vai além da história e da experiência de Acaz. Maria torna-se também exemplo de alguém que confia plenamente em Deus, apesar de todas as circunstâncias e de todas as consequências diante de sua situação. A passagem bíblica de Mateus demonstra o cuidado de Deus ao resolver as dúvidas de José. Nos versículos 15 e 16, Isaías fala da prosperidade (manteiga e mel) do menino Emanuel. Mas antes que ele saiba discernir entre o bem e o mal, será desamparada a terra daqueles reis diante dos quais o povo treme de medo. Ou seja, a falta de confiança se desdobrará em severas consequências políticas para o rei e todo o seu povo. Assim, para Acaz, a virgem e seu filho são sinais contínuos da sua incredulidade e das consequências dessa.
3 Meditação Como linha de reflexão, proponho dois pontos que o próprio texto traz: a) o convite de Deus à confiança; b) Deus promete que, apesar da desconfiança de Acaz, ele é Deus conosco. a) Confiança x desconfiança: Deus nos convida a confiar! Mesmo em meio às intempéries da vida, quando o caos e o desespero estão próximos, Deus nos convida a confiar. Nossa desconfiança é desastrosa. Ela muitas vezes nos leva a situações ainda piores. Porém Deus é conosco. É o que vemos a partir do texto previsto para a reflexão deste domingo. O rei Acaz está numa situação difícil, em grande medida fruto de sua teimosia. Está sendo ameaçado por reis vizinhos que querem invadir e anexar seu território a fim de se protegerem dos assírios. Mas, no seu desespero, ele pensa em buscar ajuda com o rei da Assíria, servindo de corredor para a guerra contra aqueles que querem tomar seu território. Ele se esforça para garantir seu lugar. No meio dessa situação caótica lhe vem a palavra de Deus por meio de Isaías, convidando-o a confiar exclusivamente em Deus, sem fazer alianças políticas para resolver seus problemas. Nos versículos que antecedem o texto previsto, a palavra de Deus encontra Acaz e diz: Acautela-te, e aquieta-te; não temas, nem se desanime o teu coração por causa destes dois pedaços de tições fumegantes (Is 7.4). Diante do poder de Deus, os maiores problemas de Acaz não passam de tições fumegantes. Num contraponto com nossa realidade pessoal, em tempos de preparação para o Natal, quando tudo parece tão agitado, é momento para refletir sobre qual é a nossa postura pessoal diante dos problemas e das dificuldades que muitas vezes nos dominam, invadem nosso coração e nos subjugam. Pelo agir do Espírito Santo, a palavra do profeta Isaías para Acaz pode ser também palavra de Deus para o nosso tempo. O convite de Deus para que tenhamos confiança nele continua de pé. Ele continua sendo Deus poderoso, diante de quem nossos maiores problemas ou conflitos não passam de tições fumegantes.
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Fato é que semelhante a Acaz, em grande medida, também nós queremos nos garantir, resolver nós mesmos, fazendo alianças com nosso próprio ego, com pessoas, com a cultura que nos cerca. Não queremos incomodar ou colocar Deus à prova com nossas questões. Mas fazemos isso porque lá no fundo o que reina é a desconfiança. Queremos de qualquer forma dar o nosso jeito. Mesmo como pessoas cristãs, que querem de todo o coração confiar em Deus, em muitas situações, acabamos caindo na descrença e na desconfiança. Nesse contexto, a confiança é sinal de fé, enquanto a desconfiança é sinal de pecado. A conclusão mais óbvia a partir disso é: desconfiança gera caos, desordem, afastamento, solidão, desespero. b) Deus conosco: Aqui entramos no segundo ponto, Deus não nos abandona. Já para Acaz e para o povo, mesmo diante da sua resposta negativa, Deus mostra um raio de esperança, que vem de um menino que há de nascer de uma virgem. Emanuel, que significa Deus conosco. No tempo de preparo para o Natal somos lembrados exatamente disto: Deus, em Jesus Cristo, está conosco. O próprio autor da história entra nela para se envolver com os problemas da humanidade e, consequentemente, com os problemas de cada um e uma de nós. Natal nos lembra de que Deus está conosco em toda e qualquer situação. Advento é tempo de parar para ouvir a voz de Deus, que vem ao nosso encontro e diz: “Não te preocupe, não tenha medo, te aquiete!”. Também no texto do evangelho vemos que José foi convidado a não temer, a confiar, e assim o fez. Confiar na voz de Deus trouxe a José a paz necessária para receber Maria como esposa, e assim ser lembrado até hoje. Deus confiou seu próprio Filho aos seus cuidados. Quando Deus se faz presente, as trevas se dissipam. Estamos no 4º Domingo de Advento. As quatro velas estão acesas. A luz é plena, forte. Deus é conosco. Seu convite à confiança permanece! Aquiete o seu coração, confie! Em confiança podemos experimentar muito mais da vida e do cuidado de Deus.
4 Imagens para a prédica Martin Luther King afirmou: “Eu tive muitas coisas que guardei em minhas mãos, e as perdi. Mas tudo o que eu guardei nas mãos de Deus, eu ainda possuo”. Martim Lutero escreveu: “Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra. Não deposito minha confiança em pessoa nenhuma deste mundo, nem em mim mesmo, tampouco em minha força, capacidade, bens, piedade ou qualquer outra coisa que eu possua. Não confio em criatura nenhuma, quer no céu, quer na terra. Considero e confio tão somente no Deus único, invisível, incompreensível, que fez os céus e a terra, e que está acima de todas as criaturas. Também não me assusta a maldade do diabo e sua companhia, pois meu Deus está acima de todos eles. Creio em Deus, mesmo que todos me abandonem ou persigam. Continuarei crendo, mesmo que eu seja pobre, tolo, ignorante e desprezado e careça de tudo. Eu creio, mesmo sendo pecador. Pois essa minha fé deve e precisa estar acima de pecado e virtude, acima de tudo o mais, para que a fé se apegue única e exclusivamente a Deus, como insiste o primeiro mandamento”. Também não desejo nenhum sinal da parte de Deus para colocá-lo à prova. Confio nele sempre, por mais que ele tarde, e não lhe determino o alvo, o tempo,
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a medida ou o meio, mas em fé verdadeira e franca deixo tudo entregue à sua vontade divina. Uma vez que ele é o Todo-Poderoso, qual a necessidade que ele não me poderá suprir? Já que ele é Criador do céu e da terra e Senhor de tudo, quem poderá roubar-me ou causar-me dano? Sim, como não poderiam todas as coisas cooperar para o meu bem, se tenho o favor daquele a quem estarão sujeitas e obedecem a todas as coisas? Por ser ele Deus, é capaz e sabe fazer com que tudo coopere para o meu bem. Por ser ele Pai, quer fazer isso e realmente o faz de boa vontade. E porque não duvido, mas confio nele, certamente sou seu filho, servo e herdeiro eterno, e ser-me-á feito conforme a minha fé.
5 Subsídios litúrgicos Oração de confissão Amado Deus e Pai, nesse tempo de preparo para o Natal, temos andado ocupados com tantas coisas. Parece que ainda há tanto a resolver; muitas vezes andamos em círculos tentando resolver nossas questões. Não conseguimos sair do lugar. Confessamos diante de ti, Senhor, que temos buscado resolver nossos problemas por nossas próprias forças, mas reconhecemos que o resultado, muitas vezes, é desastroso. Quando nos deixamos levar pela desconfiança e autoconfiança, não permitimos teu agir e com isso perdemos muito. Nossa vida fica vaga, sem sentido. Em muitos momentos, temos deixado nosso ego governar e, com isso, nos afastamos de ti e das pessoas que nos cercam. Reconhecemos que, sem o agir do teu Espírito Santo em nossas vidas, tudo fica caótico. Por isso nos achegamos à tua presença e clamamos por misericórdia e perdão. Ó Deus Emanuel, perdoa nossa desconfiança, nossa falta de fé! Conduz nossa vida, para que em ti encontremos paz, esperança, consolo, cuidado. Para isso te pedimos: perdoa nossas culpas. Em nome de Jesus Cristo. Amém!
Bibliografia LUTERO, Martinho. Castelo Forte: textos de Lutero. Ano 49, Edição comemorativa aos 500 anos da Reforma. São Leopoldo: Comissão Interluterana de Literatura, 2016. Meditação 01/01. KAMP, Peter W. van de. Profeta Isaías: comentário de Isaías 1-39. São Leopoldo: Sinodal, 1987. p. 33-35.
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NOITE DE NATAL
PRÉDICA*: ROMANOS 1.1-7
24 DEZ 2019
ISAÍAS 11.1-9 LUCAS 2.1-7 Gottfried Brakemeier
O Natal Luz original
1 Introdução Enquanto as leituras marginais são imediatamente transparentes para a festa de Natal, o texto previsto para a prédica causa alguma surpresa. As palavras de Isaías constituem-se em poderosa profecia daquilo que séculos depois aconteceria em Belém. Tornaram-se parte da mensagem de Natal, sendo por isso sempre de novo recitadas pela comunidade cristã. Da mesma forma, não há necessidade de mostrar a pertinência do segundo capítulo do Evangelho de Lucas com o nascimento de Jesus. O trecho fala do início do evento que hoje à noite comemoramos. Não assim a passagem de Romanos 1.1-7. Ela parece ser pouco apropriada para servir de base para a pregação neste dia. Qual sua relação com a festa de Natal? No entanto, a tradição homilética atribui grande importância aos versículos introdutórios da Carta aos Romanos para este momento. Parece conter um segredo, razão pela qual sempre de novo serviu de texto referencial para o discurso sobre o Natal. Sem desprezar outros auxílios, permito-me chamar atenção às Göttinger Predigten im Internet, onde no arquivo se encontram exemplos instrutivos de prédicas (em português) dos colegas Wilfried Buchweiz, Osmar Witt, Astor Albrecht e Paulo Einsfeld (cf. www.theologie.uzh.ch/predigten). Também hoje vamos inspirar nossa reflexão nesse texto do apóstolo Paulo e procurar detectar os subsídios que oferece à nossa mensagem.
2 Observações exegéticas “Paulo, servo de Cristo Jesus...”, nesses termos se apresenta o autor dessa carta. Ele a dirige aos cristãos de Roma a fim de preparar o terreno para seus planos de estender sua ação missionária à Espanha, no extremo ocidente do Império Romano (Rm 16.24). A comunidade pode ajudá-lo nos encaminhamentos. E, no entanto, os irmãos e as irmãs de fé em Roma não lhe servem de simples trampolim. Já a extensão da carta é um indício disso. O apóstolo envolve a comunidade numa reflexão teológica incomum em outras missivas suas. É verdade que essa comuni-
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Nota do editor: Conforme as Senhas Diárias, o texto bíblico previsto para a prédica é Lucas 2.1-7. As demais leituras seguem as mesmas. Portanto a pessoa oficiante pode escolher se a prédica seguirá o texto do evangelho ou das cartas.
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dade lhe era desconhecida, assim como também vice-versa. Isso certamente justificaria uma apresentação mais longa, mas não algo que na opinião de comentaristas recentes se assemelha a um verdadeiro testamento teológico. Seja como for, a Carta aos Romanos é, sem dúvida, o depoimento mais importante da pregação do “apóstolo dos gentios”, e até mesmo um dos documentos fundantes da teologia cristã. Falando de si como “servo”, Paulo aplica a si uma designação cabível a todas as pessoas que se colocam a serviço de Jesus Cristo. Quem nele crê pertence a ele, é “escravo” desse Senhor (1Co 7.22 e outros). Isso não impede que o título seja usado para destacar pessoas de exemplar piedade, a exemplo de Moisés (Js 1.2; etc.), oradores de salmos (105.26 etc.) ou, então, dos autores dos afamados hinos de “servos de Javé” no Antigo Testamento (Is 52.13 etc.). Nem todos são servos e servas da mesma maneira. Também Paulo tem o que o destaca. Ele é chamado para ser apóstolo, portanto integrante de um grupo relativamente pequeno de pessoas da primeira cristandade. Apóstolos são testemunhas da ressurreição, os quais receberam uma missão especial. Assim também Paulo (cf. 1Co 9.1; 15.8s), juntamente com outros, Deus o separou para ser arauto do evangelho. A igreja cristã é apostólica justamente por esse motivo. Está construída sobre a ação evangelizadora dessas primeiras testemunhas (Ef 2.20). A elas a cristandade deve a noção do evangelho. É verdade que esse evangelho tem raízes nas promessas do antigo pacto, como o mostra a menção das Sagradas Escrituras (1.2). Ainda assim, ele traz notícia absoluta nova. Trata de Jesus Cristo, Filho de Deus, de sua pessoa e de sua história. Para tanto Paulo lança mão de uma fórmula corrente nas comunidades. Pelo que tudo indica, os versículos 3 e 4 não foram formulados por ele, mas resumem algo que já antes dele se confessava. Existe sintonia apenas parcial entre a tradição subjacente e o pensamento de Paulo. O conteúdo do evangelho é Jesus Cristo. Quanto a isso há consenso. Mas isso não vale para a maneira de a ele se referir. Será possível afirmar que Jesus veio a ser Filho de Deus somente com a ressurreição? Aquela tradição anterior a Paulo parece insinuar uma cristologia de duas etapas. Com ela o apóstolo não concorda. Também para ele Jesus é descendente de Davi, mas jamais deixou de ser Filho de Deus. Por isso Paulo é enfático ao introduzir a fórmula com a menção desse título (1.3a). O evangelho fala de Jesus Cristo que, “segundo a carne”, veio da linhagem de Davi e, “segundo o Espirito”, do poder Deus, documentado pela ressurreição dos mortos. Também de acordo com Paulo, pois, Jesus foi um ser humano e um ser divino. Mas ele faz questão de deixar claro que Jesus não o foi sucessivamente, e sim simultaneamente. A tradição é adaptada e moldurada com palavras do próprio apóstolo, com o que esse lhe imprime outra concepção. Ele termina sublinhando ser esse Jesus Cristo “nosso Senhor”, ou seja, o Kyrios, do qual todos, enquanto cristãos e cristãs, são servos e servas (v. 4b). Não se sabe o que motivou Paulo a incorporar a fórmula de fé no início de sua carta. Estaria a comunidade de Roma articulando sua fé nesses termos, de modo que Paulo já a essas alturas pretende corrigir? Isso é pouco provável, apesar de não ser impossível. De qualquer maneira, a comunidade de Roma é composta de gentílico-cristãos (v. 5), portanto de “novatos” na fé. Desde sempre chamou a
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atenção que falta a caracterização dos fiéis de Roma enquanto “igreja”. Mesmo assim, não admite dúvidas que ela o é. Não há necessidade de uma comunidade cristã ter estrutura episcopal e estar submissa a um papa para ser “igreja em sentido próprio”. Basta haver pessoas que aceitaram sua vocação para serem santas. Com essa vocação Paulo se sente comprometido. Ao dirigir-se ao mundo gentílico, o apóstolo lhe transmite o convite do evangelho. Comunidade cristã não nasce da decisão de um grupo de pessoas em torno de determinado objetivo, e sim de uma ação de Deus. A igreja é criatura do evangelho, dizia Lutero. É o que encontra confirmação nessa passagem. No início da comunidade de Roma está o amor de Deus e o chamado a seus membros a dedicar sua vida a Jesus Cristo. É claro que isso implica um comportamento correspondente. Mas em termos bíblicos, o termo “santo” não designa alguém de conduta moral perfeita. O que se espera dos “santos” é que sua vida seja transparente para a pertença a Deus e Jesus Cristo. Cristãos são santos porque foram santificados por Deus e requisitados para seu serviço. A tal gente Paulo manda essa carta e a despacha com os costumeiros votos. Deseja-lhes graça e paz, algo que na verdade já receberam. Mesmo assim é legítimo rogar a Deus para que a cada dia as renove. Paulo nada mais faz do que desejar a seus irmãos e suas irmãs em Roma as bênçãos implícitas na contínua presença do amor Deus em Jesus Cristo.
3 Meditação Paulo proclama Cristo. Também o Natal o faz. É a razão para privilegiar um texto como esses para a pregação nessa oportunidade. Ele tem seu centro no testemunho cristológico da comunidade, acolhido e adaptado por Paulo. Jesus Cristo faz a diferença neste mundo. Seu nome é sinônimo da novidade, cujo testemunho a igreja cristã deve a todos os povos. Mas quem é Jesus Cristo? Natal periga sucumbir numa porção de coisas que lhe são estranhas. Para muitos, tornou-se a festa do Papai Noel. Para outros, o que importa são os presentes que traz. Enfim, o Natal encanta pelo mar de luzes em que banha nossas cidades. Também pessoas de outras culturas e religiões são cativadas por seu brilho e se fascinam, mesmo quando a razão dessa festa não seja conhecida. A simbologia e os ritos natalinos são fortes e continuam a deslumbrar as pessoas em todo o mundo. “Feliz Natal!” Um gesto de cordialidade passa a unir as pessoas e a espalhar um ar de paz e de amor. Quando é que teremos um “feliz Natal”? Natal – uma fugaz emoção, e nada mais? “Acima de tudo Natal é Cristo” – eis um alerta muito oportuno, lançado por parte de gente preocupada com a flagrante descaracterização do Natal em andamento na sociedade. Sem Cristo o Natal perde sua identidade. Festejamos seu aniversário hoje. Mas não basta cantar “Parabéns a você”. Os hinos de Natal são outros. A pessoa que há mais de dois mil anos nasceu é alguém bem especial. Isso apesar de ter uma biografia muito humana. Jesus nasceu em Belém, é descendente do grande rei Davi, foi educado em Nazaré como filho de José e Maria. Assim é conhecido por seus conterrâneos. Todo o Novo Testamento o
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confirma: Jesus é filho de Davi. Simultaneamente, porém, a comunidade cristã celebra nele a manifestação do próprio Deus. Nesse menino Deus chega perto da criatura para resgatá-la de dor e miséria. Ninguém conheceu Jesus de fato, enquanto o viu somente pelo lado humano. É preciso descobrir em suas palavras e em seus gestos a ação de Deus. Deus é amor. Isso tem na pessoa de Jesus a mais cabal e convincente demonstração. A comunidade cristã faria mal se desprezasse as emoções provocadas pelo Natal. Emoções fazem parte do ser humano e são condição de sua felicidade. Natal tem sua “mística”. Até certo ponto podemos acompanhar até mesmo a brincadeira do Papai Noel, cujo meio de transporte é o trenó e que também em países tropicais se veste de botas e grossos casacos de pele. Importa, porém, não permanecer preso à emocionalidade. O Papai Noel serve ao negócio e é figura estranha à Bíblia. Quem vem trazer luz a este mundo é Jesus Cristo. “Deus estava em Jesus Cristo”, vai dizer o apóstolo Paulo em outra carta sua (2Co 5.19). Deus se encarna em Jesus. Celebramos, pois, um grande mistério: no menino Jesus Deus vem visitar a terra. Nasceu na pobreza, como fugitivo, solidário com quem sofre neste mundo. Não precisamos do dogma das duas naturezas para explicar o segredo. Basta contemplar a biografia desse Filho de Davi. Em sua pessoa percebemos o sopro do Espírito divino, descobrimos a misericórdia do Pai no céu, recebemos o perdão dos pecados. Ele, Jesus, define a imagem que temos e devemos ter de Deus, a saber, a de um Deus libertador, humilde, misericordioso. Todo o discurso que apregoa um outro Deus, opressor, brutal, vingativo, não é aquele que em Cristo veio mostrar seu rosto. Ele veio não para castigar, e sim para curar, perdoar e libertar. Por isso os anjos anunciam grande alegria aos pastores no campo (Lc 2.10) e falam de salvação que ocorreu nessa “noite feliz”. O mesmo faz a comunidade cristã ao sintonizar com eles, cantando: “Jubiloso, venturoso tempo santo de Natal!”.
4 Imagens para a prédica Sugiro que a prédica explore a imagem tão natural nesta data, que é a de um aniversário. O próprio termo o indica: Natal é a festa que se faz para comemorar o nascimento de um ser humano. Há flagrantes semelhanças entre um aniversário comum e o de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, porém, caem em vista as diferenças. A comparação vai facilitar a interpretação do texto previsto para a prédica ao ressaltar o duplo aspecto da origem de Jesus. Tradicionalmente é o divino que costuma prender a atenção. Natal é uma festa bonita. Introduz num outro mundo. Falando em paz na terra, em amor, alegria, sensibiliza anseios por algo de que se sente falta neste mundo. Ao mesmo tempo, porém, Natal tem aquele outro aspecto, expresso na precariedade das condições do nascimento de Jesus, nos propósitos assassinos do rei Herodes e outros crimes humanos que costumam encher as páginas da história. Não se trata de intercalar uma pausa romântica na rotina do dia a dia. Natal quer transformar nossa realidade e introduzir algo de seu brilho em nossa vida. Por isso mesmo a outra imagem essencial dessa festa é a luz. Natal é sempre “Natal Luz”, a não ser que deixe de ser o que é. É justo, pois, acentuar o efeito
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“luz” mediante velas, lanternas e artifícios pirotécnicos. Natal quer iluminar nossas vidas. E, no entanto, os enfeites natalinos não conseguem substituir “a glória do Senhor” (Lc 2.9) que apareceu aos pastores em Belém nem pela estrela que conduziu os magos à manjedoura (Mt 2.9s). É Deus quem traz luz a este mundo. As luzes que nós acendemos, cedo ou tarde, se apagam. A luz do Natal permanece. Dela somos chamados a ser testemunhas tanto por palavra como por ação, espantando a escuridão em nós mesmos e em nosso redor.
5 Subsídios litúrgicos Confissão dos pecados e Kyrie eleison Senhor, nós não merecemos o Natal. Pois também nós cooperamos com o “apagar das luzes” neste mundo. Perdoa-nos quando isso acontece e quando acumulamos culpa junto a ti e nossos semelhantes. Ensina-nos a enxergar sofrimento alheio e a mobilizar socorro. Assusta-nos o crescimento de ódio e violência em nossa sociedade. Dá-nos coragem para combater suas raízes. Queremos mais do que um Natal, cujo efeito se resume num simples aumento do consumo de energia elétrica. Tu queres, isso sim, que resulte em mudança de estilo de vida em sociedade e na vivência pessoal. Kyrie eleison! Oração do dia Senhor, nós te agradecemos pelo Natal. Tu fizeste nascer Jesus por nós, para nos consolar, alegrar e animar. Somos como os pastores, mandados a Belém a fim de contemplar o milagre que lá aconteceu. Somos como os magos, orientados para descobrir o novo rei numa humilde estrebaria. Somos teus convidados. Como tais, pedimos-te por teus mais preciosos presentes. Dá-nos alegria, paz e amor, concedendo a todos a felicidade que o Natal promete. Amém! Oração geral da igreja Senhor, nós precisamos de teu Natal. Vivemos num mundo ameaçado, seja pelas mudanças climáticas ou pelas operações militares, seja pelos conflitos culturais e religiosos. Na maioria dos casos, é a estupidez humana que as produz. Existem por demais situações “sem Natal” neste mundo. Há gente com fome, sem moradia e sem companhia. Outras sofrem com depressões, falta de perspectivas profissionais ou graves doenças. Com todas essas pessoas nós nos solidarizamos e pedimos que realizes o que o profeta Isaías predisse ao dizer: O povo que andava em trevas viu grande luz e aos que viviam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz (Is 9.2). Amém!
Bibliografia ALTHAUS, Paul. Der Brief an die Römer. Das Neue Testament Deutsch. 10. Auf. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1966. MICHEL, Otto. Der Brief an die Römer. Kritisch-exegetischer Kommentar über das Neue Testament. 13. Auf. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1966.
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PRÉDICA*: LUCAS 2.1-14(15-20)
DIA DE NATAL
ISAÍAS 9.2-7 TITO 2.11-14
25 DEZ 2019
Astor Albrecht
Jesus nasceu: sou amado, amada por Deus
1 Introdução No texto de Isaías 9.2-7, o profeta anuncia o nascimento do Príncipe da Paz. Ele é o descendente de Davi que vai dar liberdade a seu povo e governar em justiça e paz. É uma mensagem de alegria e de esperança, uma mensagem que traz luz e libertação. Será assim por causa do amor de Deus (v. 7). O texto de Tito 2.11-14 faz um resumo da doutrina cristã. Afirma que, neste mundo, é possível viver sensata, justa e piedosamente (v. 12), porque Deus já revelou a sua graça para dar salvação a todas as pessoas. Cristo Jesus é apresentado como nosso grande Deus e Salvador (v. 13), pois ele se deu em nosso favor para sermos seu povo e que faz na terra a sua vontade (v. 14). O texto indicado para a pregação é Lucas 2.1-14. É um desafio ler essa história tão conhecida como se fosse a primeira vez, ou, então, ouvi-la na simplicidade narrada por Lucas. O presente que Deus dá à humanidade vem sem alarde. Os primeiros que ouviram a notícia do nascimento do Príncipe da Paz foram pastores de ovelhas, que, na época, eram desprezados e considerados como mendigos e até como ladrões. Assim começa o anúncio do evangelho, alcançando aqueles que não são percebidos como dignos. Assim é a graça de Deus. Assim vamos com alegria anunciar a riqueza do evangelho neste Natal.
2 Exegese A referência cronológica “naqueles dias” não informa o ano do nascimento de Jesus. São as obras historiográficas que procuram informar essas datas. Parece que os evangelistas não estavam preocupados com isso. Seu propósito não era comunicar conhecimento, mas despertar fé. Assim também Lucas relata o nascimento do Salvador de modo simples. Se em algum momento da história da humanidade houve necessidade de que anjos falassem, foi nesse momento. Do céu viera o Filho de Deus para chamar a si a humanidade. O anjo do Senhor, porém, não se apresenta de modo simples, como o arcanjo Gabriel aparecera a Zacarias lá no templo ou à virgem
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Nota do editor: Conforme as Senhas Diárias, o texto bíblico previsto para a prédica é Tito 2.11-14. As demais leituras seguem as mesmas. Portanto a pessoa oficiante pode escolher se a prédica seguirá o texto do evangelho ou das cartas.
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Maria naquela casa em Nazaré. Agora o esplendor do Senhor, a doxa = glória, o envolvia. Quando a radiante glória da luz do céu rompe a escuridão da terra, temor e pavor são sempre a primeira reação do ser humano mortal e pecador. O anjo, porém, lhes disse: Não temais (v. 10)! É a primeiríssima mensagem do Natal, muito sucinta e simples. Eis aqui vos trago boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo (v. 10). No texto original consta: eu vos evangelizo, isto é, trago-vos uma alegre notícia. Essa é a primeira característica essencial da nova aliança. A palavra euangelitzesthai = evangelizar ainda é reforçada pelas palavras “grande alegria”. Essa é a segunda característica essencial da nova aliança. E essa grande alegria é intensificada pelo fato dela valer para todo o povo. Essa é a terceira característica da nova aliança: ainda que os pastores a tenham acolhido como mensagem ao povo de Israel, na essência a afirmação expressa que a salvação vale para toda a humanidade. Ele nasceu (v. 11). O Salvador tornou-se nosso irmão de sangue, osso dos nossos ossos, carne de nossa carne e veio a ser nosso misericordioso sumo sacerdote para expiar nosso pecado e nos fazer membros de seu corpo (Ef 5.30). Ele nasceu para nós, diz o anjo. Essa é a gloriosa palavra nesta primeira pregação de Natal. Lutero diz: “Os anjos não precisam do Redentor, e os diabos não o querem. Ele veio por nossa causa, nós é que precisamos dele”. A palavra “hoje” (v. 11) define seu nascimento como fato histórico. A história de nosso Redentor não é como a história de outras pessoas, pertencente apenas ao tempo. Essa história pertence à eternidade e se renova todas as vezes que seu poder animador é experimentado por um coração humano. O anjo proclama três títulos para o menino de Belém (v. 11). Ele é o Salvador: Deus enviou o Salvador, que é simultaneamente o próprio Deus Salvador. Em nenhum outro há salvação, não há outro nome no qual as pessoas serão bem-aventuradas. Ele é Cristo: o ungido, o Messias. Os judeus esperavam que Deus enviaria um libertador muito especial. Não seria um ungido, mas sim o Ungido, o Messias. É a esse que o anjo anuncia. Ele é Senhor, termo que na Septuaginta é empregado para Deus. Cristo, o Senhor, descreve o menino nos termos mais altos possíveis. Aparece, então, uma multidão de anjos louvando a Deus com o primeiro hino de Natal (v. 14), que repercute hoje nos cultos da igreja celebrante e adoradora. A primeira parte do hino de adoração dos anjos diz o que ocorre nas alturas do céu. A segunda parte do hino de adoração dos anjos diz o que existe aqui embaixo, na terra. A primeira parte do hino – os anjos declaram que junto a Deus, nas alturas celestiais, foi manifestada uma glória incomparável com a encarnação do Filho, pois nela Deus revelou a sua graça para dar salvação a todos (Tt 2.11). A encarnação do Filho de Deus desvenda o mistério do profundo amor de Deus, o qual também os anjos anelam perscrutar (1Pe 1.12). A segunda parte do hino – a paz se refere a Jesus Cristo. O hino de louvor poderia trazer em lugar de “paz existe na terra”, “Jesus Cristo está na terra”. Em Isaías 9.6, o Messias é chamado de Príncipe da Paz. Esse testemunho está presente nas Escrituras, por exemplo, em: Efésios 2.14; João 14.27; 20.19,21,26;
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Romanos 5.1. Jesus Cristo é a paz em sua pessoa. A expressão “a quem ele quer bem” deve ser entendida como o prazer que Deus tem nas pessoas, como o favor de Deus. Refere-se à resolução da graça de Deus, que se mostrou em Cristo. Por causa do pecado o ser humano não evidencia aprovação para Deus. Mas Deus demonstra sua aprovação por intermédio de seu Filho. Essa segunda parte do cântico é o precioso conteúdo do evangelho. Por sua iniciativa Deus doa à terra seu Filho amado. Tal como Paulo escreveu em 2 Coríntios 5.19: Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo. Os pastores foram logo ver por si mesmos. Agora é preciso de fato “experimentar” a realidade do nascimento e entrar em um relacionamento mais estreito com ele. A palavra anunciada pelos anjos não era mero discurso, mas um acontecimento. Por isso dizem: e vejamos os acontecimentos (v. 15). E, assim, os pastores tornaram-se testemunhas (v. 17). Olhar com fé para o Cristo, seja na manjedoura, seja em sua vida e atuação, experimentar a amabilidade e bem-aventurança de Deus, gera testemunhas. Testemunhar é um ato feliz de cada coração crente em Cristo. Ouvimos unicamente uma frase acerca de Maria, e essa frase nos propicia uma visão de seu íntimo. Não era apenas admiração, como nos demais, ela “guardava” no coração. Os pensamentos de salvação de nosso Deus são tão grandes, profundos e ricos que um ser humano não consegue captar e absorvê-los de uma só vez. Eles precisam ser elaborados. Como diz Lutero: “Deus quer que sua palavra seja impressa em nosso coração e permaneça como uma marca que ninguém consegue lavar, como se fosse inata e natural”.
3 Meditação O evangelista Lucas é breve e simples ao narrar o nascimento do Salvador. O relato é tão simples que dá quase para dizer que não há novidade nessa palavra. O que podemos dizer sobre o Natal que ainda não foi dito? Então eu penso: pergunte para uma mãe sobre o dia em que seu filho ou filha nasceu (seja há um ou trinta anos) e se isso é algo sem importância? Isso não está bem guardado no coração? Não foi ali, quando a mãe tomou a criança pela primeira vez nos braços, que se iniciou uma história para durar toda a vida? Um filho ou filha, que deu muitas alegrias, ao dar os primeiros passos ou escrever as primeiras letras! Que também trouxe tristeza ao ser rude ou mentir! Ainda assim ele é amado. Seja lá o que for, ainda assim é filho ou filha dela. Isso não mudará! Isso me leva a perguntar: até que ponto Deus me ama? Não apenas quando estou neste dia de Natal, na igreja, com o sapato lustrado, cabelo penteado e roupa bonita, nem apenas quando no culto faço a ele minha oração e canto um hino. Até que ponto Deus me ama? Não apenas quando ajudo alguém, quando coopero em minha comunidade ou ajudo uma entidade carente, ou quando estou disposto a resolver o problema da fome no mundo. Nessas horas até eu me sinto bem comigo mesmo. A pergunta é: até quando Deus me ama, quando eu não obedeço à sua vontade? Quando eu mesmo reconheço: pôxa, eu escorreguei demais! Fui levado
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tão longe! Até quando Deus me ama, quando dentro de mim há cobiça ou inveja? Quando a língua está tão afiada que poderia cortar uma pedra? Como ele se sente então? Como fica quando bebo demais ou brigo com os outros? Quando os negócios me levam lá aonde não tem nada para negociar? Quando fico brabo com Deus por causa das coisas que me acontecem e não consigo entender, e peço a ele satisfação? Ele respondeu a essas perguntas antes que as tivéssemos feito. Para enxergar a resposta, ele iluminou o céu com uma estrela. Para a ouvirmos, encheu a noite com um coro de anjos. E para que acreditássemos, fez o que ninguém imagina: se fez carne e habitou entre nós. Como lemos em Lucas 2.6-7: Estando eles ali, aconteceu completarem-se-lhe os dias, e ela deu à luz o seu filho primogênito. Em outras palavras, Lucas escreve que Deus pôs a mão no ombro da humanidade e disse: “vocês são especiais”. Sim! E para revelar seu amor, ele fez algo extraordinário: desceu do trono e foi parar num estábulo. Tirou seu manto de luz e glória e foi envolvido em panos. Aquele que os anjos adoravam no céu aninhou-se no ventre de uma camponesa. Aquele que habitava o mais alto dos céus foi deitado num cocho. E Maria não sabia se lhe dava leite ou louvor. Deve ter dado as duas coisas, pois sabia que tinha fome e era santo. Então, meu irmão, minha irmã, quando situações difíceis vêm ao teu encontro ou, de repente, coisas ruins se passam em tua mente e o dia de amanhã se torna uma incerteza que tira hoje a tua paz, em vez de perguntar se o amor de Deus ainda permanece válido para ti, tu deverias era perceber o seguinte: Deus, o que o Senhor está fazendo aqui? Isso mesmo! Ele não te deixa, mas vem até ali onde tu estás. É ele que vem ao teu encontro. Ele te alcança. Ele vem nos limpar, perdoar, renovar e mostrar o caminho. Foi para isso que ele veio. Paulo afirmou isso muito bem ao escrever: Portanto, vocês não são mais escravos, mas sim filhos. E, desde que vocês são filhos, Deus também os fez herdeiros (Gl 4.7). Tal como foi com os pastores, a palavra anunciada no Natal quer tornar-se um evento para nossas vidas. Quando se trata das coisas de Deus, não devemos perder tempo. Quantas pessoas andam afastadas da comunidade por colocar em primeiro lugar suas opiniões, sua vontade ou seu modo de celebrar como único e agradável a Deus? Ou promovem discórdias e intrigas entre pessoas da mesma casa, roubando a alegria do lar? Quantos insistem em continuar carregando consigo o seu pecado? Por que não ir até o Salvador, que é Cristo, o Senhor (v. 11)? O que impede você de ir a Belém? De ver os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer (v. 15)? Natal: você é amado por Deus! Seu lugar é junto dele. É junto de sua comunidade. É em paz e bem junto dos seus. A salvação em Cristo nos faz pessoas novas, pessoas que vivem e testemunham com fé e gratidão o amor de Deus. Jesus veio ao mundo para iniciar uma bela história com você. Pode bem ser que você tenha falhado e não tenha sido um bom filho ou filha. Quem sabe, lá dentro, algo não vai bem. Deus não desiste de você! Ele vem ao seu encontro! O seu Salvador é muito forte! Por causa do seu amor, ele não mede esforços para nos alcançar. Ele nunca nos despreza. Também hoje a boa notícia de que Jesus
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está presente deve alegrar o nosso coração. Muito ele tem feito por nós e em nós. Muito ainda ele fará! Creiamos nele e sua luz nos iluminará! E não há nada que se compara a andar com Jesus. É amor que não acaba. Amém.
4 Imagens para a prédica Segue uma ilustração que pode ser adaptada conforme se julgar mais apropriado. Conta-se que dois peregrinos decidiram visitar a cidade de Belém nos dias do Natal. Partiram muitos dias antes, de modo que a chegada coincidisse com as festas natalinas. Um deles só pensava na viagem, na chegada a Belém para ver os lugares santos e o berço do cristianismo. Assim fez sua peregrinação: não parou em outros lugares, nada viu na viagem longa e demorada, só lhe interessava chegar. O outro, à medida que caminhava, ia observando os lugares por onde passava. Quando descobria alguma necessidade, algum problema a resolver, demorava-se ali e ajudava a resolver o problema e a cuidar das necessidades. Por isso não chegou a Belém para participar dos festejos natalinos. No entanto, dos dois, foi o segundo quem realmente festejou o Natal de forma apropriada. O primeiro só viu a festa, só a teve no dia de Natal; o segundo, embora não visse a festa em Belém, participou integralmente e durante toda a viagem do verdadeiro espírito de Natal. E enquanto o outro viveu aqueles dias só para si, este viveu a viagem inteira para os outros, dando-se e proporcionando a muitos a felicidade do amor que nasce também em Belém, na pessoa de Cristo, o Salvador.
5 Subsídios litúrgicos Acolhida Pode-se usar a palavra de Lutero: “Creiam que Cristo nasceu para vocês, e que o nascimento aconteceu para o bem de vocês. Pois a Escritura Sagrada não afirma apenas: Cristo nasceu, mas diz: nasceu para vocês. Também não afirma apenas: eu anuncio uma alegria, mas diz: eu anuncio uma alegria para vocês. Creiam que Cristo nasceu para vocês”. Oração do dia Nosso Senhor e Deus, com alegria unimos nossas vozes para louvar teus grandes feitos, o teu grande amor, a tua misericórdia que nos alcança hoje. Toda distância que nos separa de ti foi eliminada quando teu Filho veio ao mundo. Tu nos queres perto de ti. Derrama teu Santo Espírito sobre nós e faze com que nosso coração e nossa vida sejam tocados por teu amor e sejamos teus. Com tua paz, dissipa todas as trevas e enche nosso coração de esperança. Aceita o nosso louvor. Bendito é teu nome para sempre. Amém.
Bibliografia MORRIS, Leon L. O Evangelho de Lucas – introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2000.
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RIENECKER, Fritz. Evangelho de Lucas. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2005. (Comentário Esperança).
1º DOMINGO APÓS NATAL MATEUS 2.13-23 ISAÍAS 63.7-9 HEBREUS 2.10-18
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PRÉDICA: ECLESIASTES 3.1-13 MATEUS 25.31-46 APOCALIPSE 21.1-6a
VÉSPERA DE ANO-NOVO
31 DEZ 2019
José Manuel Kowalska Prelicz
Tempo de Deus, nossas ações
1 Introdução Estamos virando o ano, em nosso caso, trocamos 2019 por 2020. A celebração deste culto não teve motivação incialmente eclesial, mas terminou sendo incorporado no calendário litúrgico. Aqui vemos como a cultura também influencia a igreja. A determinação de que o ano civil terminasse em 31 de dezembro não foi eclesial. Mesmo assim, como igreja aproveitamos o momento secular da troca de calendário para pregar o evangelho. Estamos numa ocasião especial, a transição entre olhar o ano que passou e prever o ano que virá sob o olhar divino. Todos os textos bíblicos foram escolhidos ao redor da temática da virada do ano. Por isso, à diferença de outras ocasiões, temos coerência interna. Em nosso caso, os textos gravitam entre a majestade divina e o agir humano. No Evangelho de Mateus 25, Jesus em glória julga as pessoas de acordo com o seu agir diante daqueles que mais necessitavam. Em Apocalipse 21, fala-se sobre o futuro e como a ação divina determina tudo, levando a humanidade para uma nova existência, na qual não existirão os problemas atuais.
2 Exegese Recomendo a leitura sobre a origem do livro, autoria e contexto no PL 35. No presente texto, queremos somente ressaltar, junto com Andiñach, dois detalhes: a vinculação do livro com a Festa das Cabanas, em que a obra “não tende ao pessimismo, mas a aceitar a vontade de Deus, seja qual for o curso da história que nos compete viver” (ANDIÑACH, 2015, p. 411); por outro lado, também lembrar que a expressão hebel, muitas vezes traduzida por vaidade, “no contexto da obra seu sentido é fugaz, transitório, perecível [...] Não deve ser confundido com superficial ou degenerado, mas expressa essa condição de fugacidade pela qual tudo passa e vai embora sem deixar rastros” (ANDIÑACH, 2015, p. 415). Com esses comentários iniciais, podemos passar ao nosso texto em estudo. Uma primeira observação é que literariamente ele consta de duas partes, uma em verso (3.1-8) e outra em prosa (3.9-13). A delimitação inicial é dada pelos versos, mas o final em prosa poderia ter incluído os versículos 14 e 15. Versículos 1 a 8 – A parte poética versa sobre o tempo e as possíveis ações nele realizáveis. Ao todo, encontramos 29 vezes a palavra ‘et (tempo entendido como o tempo usual, período). Depois de um verso introdutório (v. 1), onde é
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apontado que “debaixo dos céus” tudo tem o seu objetivo ou propósito no tempo indicado, o poema passa por uma série de verbos antônimos colocados em pares, onde um é positivo e o outro é negativo. Cada versículo (v. 2 ao 8) apresenta dois pares de verbos. Vale ressaltar que os verbos indicam ações bem corriqueiras como abraçar, rir ou chorar, assim como também questões existenciais como nascer ou morrer, ter guerra ou paz. Os 28 verbos se abrem diante do leque da vida corriqueira dessa época, homens e mulheres são incluídos com as suas ações dentro do poema. Em geral, as versões bíblicas seguem traduções coerentes com o seu estilo e adequadas ao texto original. Apresentamos as seguintes exceções: o versículo que mais apresenta divergência nessa parte é o v. 1: a NTLH adiciona “mundo”, a ARA e NAA adicionaram “tempo” antes de “determinado” para facilitar o entendimento, mas considera-se que a NVI tem uma melhor tradução para esse verso inicial; no v. 4 a NTLH é a única que traduz o verbo raqad no piel como dançar e não saltitar; no v. 5, NVI e NTLH interpretam o tempo de deixar/afastar-se de abraçar, NAA/ARA como tempo de afastar (NTLH) ou de se conter (NVI); no v. 6, a NVI troca o ‘abed – perder por desistir, a NTLH interpreta atualizando com economizar e desperdiçar; no v. 8, a NVI interpreta guerra e paz como tempo de lutar e tempo de viver em paz. Versículos 9 a 13 – Na parte em prosa, percebemos a seguinte estrutura: 9 e 13 – O proveito 10 e 12 – Observação e saber 11 – A impossibilidade de entender plenamente as obras de Deus O proveito – O v. 9 troca a ênfase do tempo para o resultado daquilo que a pessoa que trabalha esforçadamente ou labuta ganha. Se os versículos 1 a 8 trouxeram diversas possibilidades na existência humana, aqui é perguntado sobre o propósito de tudo aquilo que cansa ou afadiga. Somente a NTLH troca amel – trabalhador – por pessoa, suavizando o pensamento do versículo, pois amal significa canseira, fadiga, labuta. Assim se está falando não que qualquer pessoa, mas daquela que se cansa com o seu trabalho árduo. No v. 13 vemos o que deveria ser o resultado, cal-ha’adam (a totalidade, cada um, qualquer + ser humano) pode comer, beber e raah – ver/observar/perceber o bom em cal sua amal. Isso quer dizer que qualquer pessoa deveria poder desfrutar, seja comendo, bebendo ou observando tudo de bom que conseguiu com o seu trabalho. Mas não por mérito próprio, pois o versículo termina lembrando que tudo isso é um presente/dádiva de Elohim. Observação e saber – O início da resposta foi escrito em primeira pessoa. O v. 10, vê/percebe que Deus dá/impõe/permite/estabelece/coloca (natan) o esforço/canseira/negócio para que os filhos dos homens, ou seja, as pessoas, se esforcem/cansem com aquilo. O v. 12 continua com sua resposta, agora não tanto procurando o motivo, mas tentando entender o que deve ser feito. Passa da observação ao saber, se no v. 10 se percebe vendo, aqui é usado yada’ – notar, descobrir, saber, compreender. Mais do que a simples observação, é necessário o entendimento. Diante da realidade percebida surge uma pergunta: se o fardo foi colocado por Deus, qual deve ser
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a resposta humana? Podemos traduzir a resposta como: eu sei/entendi que não há nada melhor do que ser feliz/regozijar-se e fazer o bem na vida. A NTLH é a que mais se aproxima da essência do texto. Para explicar essa resposta humana, todas as versões bíblicas adicionaram o sujeito, seja com pessoa, homem ou ser humano. A impossibilidade de entender plenamente as obras de Deus – Chegamos àquilo que se considera o cerne da parte em prosa: tudo fez elegante/bonito no seu tempo, também colocou o olam no coração, para que o ser humano não achasse as obras que fez Deus desde o início até o fim. No v. 11, vemos o agir divino. Por isso todas as versões, menos a NVI, adicionam Deus na primeira frase. Traduzimos asah como fazer, mas também pode ser traduzido como manufaturar, trabalhar, pôr, colocar, transformar, fabricar, aprontar, elaborar, preparar, realizar, executar, agir, intervir. O conceito de olam, traduzido pela ARA, NAA e NVI como eternidade, é muito mais amplo. Abrange o tempo como conceito constante e contínuo, também pode lembrar um tempo muito antigo assim como o futuro indefinido ou sem fim. Leb – coração não necessariamente tem que ser o coração humano. Pode-se entender também como o interior da pessoa. Deus coloca o olam no coração, pois é considerado o órgão do conhecimento. Mesmo diante de tudo isso, adam não consegue matsa’, quer dizer, que o ser humano nada consegue achar, ou seja, reconhecer e entender o agir divino. A NTLH apresenta uma interpretação do texto hebraico que permite compreender a mensagem: Deus fez suas obras e nos deu o entendimento sobre o tempo, mas nós não o compreendemos em sua totalidade.
3 Meditação O tempo é relativo, já o disse Albert Einstein com a sua teoria da relatividade. Tudo depende do ponto de vista da pessoa que observa. Quanto é muito tempo? Quanto é pouco? Enquanto escrevo, Sommarøy é notícia, uma vila que supostamente quer abolir o tempo. Pela localização ao norte da Noruega, Sommarøy apresenta no verão dias sem fim e no inverno noites sem fim. Para seus habitantes, conceitos como dia ou noite não são tão necessários. Talvez possam pensar o tempo como uma construção humana para entender o mundo e a sucessão dos eventos. Os conceitos no poema são antagônicos ou complementares? A vida precisa da morte, assim como a morte precisa da vida. Se tudo fica num extremo, será que é bom? As células do corpo humano precisam nascer e morrer. O câncer é a construção sem limite de células, o que não é bom. Os pares de conceitos apresentados no poema são as duas caras da mesma moeda. No poema, encontramos pares de verbos que são conhecidos para as pessoas comuns daquela época. Quais seriam os pares para os dias de hoje? Em que extremos podemos pensar? Individualismo e coletivismo, fanatismo ou apatia? Como podemos atualizar a lista do poema? Qual a perspectiva em que nós a colocaremos? Na vida humana atual, podemos ver que bebês nascem, a semente é plantada na terra, os bens são
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adquiridos, assim como também as pessoas morrem, a lavoura se perde, o carro é batido. A sucessão de eventos no tempo não é necessariamente excludente. O poema “[...] é um texto que vê a vida em sentido positivo e reconhece que as diversas atividades, as felizes e as infelizes, fazem parte da vida, e temos que entendê-las como momentos naturais dos dias humanos” (ANDIÑACH, 2015, p. 414). Existem coisas que desejemos ou não, existirão ou acontecerão. Farão parte da nossa vida sem que nós possamos detê-las. Aqui entra a nossa intencionalidade diante daquilo que enfrentamos. Como podemos viver diante do nascer ou do morrer? De que perspectiva vemos a vida, seja a nossa ou a das outras pessoas? O que fazemos com o “nosso” tempo? Em diversas culturas, celebra-se a troca de ano como um momento importante. Tempo de olhar para trás e sonhar para frente. No olhar para o passado, pode-se perceber que nem sempre foi como planejado ou conforme o agrado. Doença pode tornar-se tempo de aprendizagem; o sucesso profissional pode mostrar-se como uma armadilha para a quebra das relações familiares. Mesmo assim, circunstâncias adversas levam as pessoas lá onde hoje elas estão. No olhar para o futuro, muita esperança é colocada na elaboração de listas de desejos ou promessas para o ano que vem. Se a vida não incluir a esperança de um tempo melhor, as forças se perdem. Sem uma motivação para a vida, muitas pessoas se suicidam. Sem as promessas do Apocalipse, as primeiras comunidades não aguentariam tanto sofrimento e perseguição. A virada do ano é tempo de colocar tudo na balança e voltar a sonhar, ainda que o trabalho seja enfadonho, cansativo ou molesto. Naqueles poucos segundos do réveillon, tudo é permitido, sonhos são possíveis e o passado com o seu fardo fica para trás. Estamos diante da relatividade do tempo, pois o passado passou, mesmo que deixou as suas marcas, porém as pessoas podem continuar a sonhar e viver. Como é possível viver diante de tanta incerteza sobre o que virá? Como saber o que é melhor para a vida? Confiemos no conselho que nos dá Eclesiastes: vivamos bem a vida. Desfrutemos nossa vida fazendo o bem e desfrutando daquilo que temos, no momento em que o temos. A situação da nossa vida troca, aquilo que parecia tranquilo vira complicado e o complicado termina sendo simplificado. “Diante da angústia, o autor afirma que a ação de Deus e sua vontade são inexplicáveis [...] mesmo que não se possa entender o sentido da vida e que tudo pareça conduzir a nada, deve-se reservar um espaço para a ação de Deus, que, embora não cheguemos a compreender, está ali e tem um propósito para cada coisa” (ANDIÑACH, 2015, p. 416). Ainda que os seres humanos possam saber muito sobre o tempo, sempre fica a dúvida sobre o que acontecerá. Aprendendo do texto em estudo, podemos reconhecer-nos nas mãos de Deus, saber que tudo está sob o seu cuidado e sabedoria. Nós, seres humanos, não conseguimos entender tudo. Os planos de Deus são desconhecidos para nós, assim como também a disposição do tempo divino. O que acontecerá em 2020? Quem sabe? Deus! Por isso podemos entrar confiantes neste novo ano que chega iminente.
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4 Imagens para a prédica Diversas medições subjetivas do tempo: • Como ficamos nos últimos minutos do segundo tempo se o nosso time estiver perdendo, com certeza será uma atitude contrária se estiver ganhando. • Uma criança uma vez perguntou: Quanto dura a eternidade? Uma viagem de carro pode ser uma eternidade para uma criança de cinco anos. • O “experimento com marshmallow”, realizado na Universidade de Stanford com crianças pré-escolares: cada criança entrava numa sala e lhe era oferecido um marshmallow, mas se ela esperasse aproximadamente 15 minutos para comê-lo, poderia receber dois marshmallows. A imensa maioria não aguentou muito tempo e logo comeu o doce. Se elas entendessem melhor o tempo, poderiam ter esperado e recebido uma melhor recompensa. Um vídeo de Joachim Posadas sobre o experimento pode ser visto em TED.com. • O uso do tempo pode ser questionado, com perguntas tais como: • Hoje, você já disse ‘te amo” para as pessoas que você ama? • Em 2019, fez aquilo que tanto desejava fazer e sempre postergava? • Você já pensou o que quer fazer em 2020? Existem diversas formas de medir o tempo, se pudessem ser expostas durante o culto ajudarão a refletir o passo do tempo. Um calendário de 2019 pode ajudar a perceber o que aconteceu no ano que está findando, assim como também um calendário de 2020 ajudará a pensar no ano que virá.
5 Subsídios litúrgicos Receber as pessoas com velas apagadas, uma vela nova para cada mês de 2020. Durante o culto são acessas em momentos como saudação apostólica, confissão de pecados, antes de cada leitura bíblica, da pregação, da confissão de fé, da oração geral da igreja, da oração eucarística e da bênção. Na confissão de pecados pode ser usada a seguinte costura: lembramos que um ano se passou, 365 dias que estiveram à nossa disposição pela graça de Deus. Agora é momento para pensar e sentir, refletir sobre aquilo que aconteceu em 2019 e reconhecer aqueles pecados que ainda pesam em nós e pedir a misericórdia de Deus para que nos liberte desse fardo. Oração do dia: Senhor, mais um ano se passou e nós queremos agradecer-te por ele, pelas coisas boas que aconteceram, assim como também pelas coisas más. Obrigado por estar junto conosco em todo momento e por sentirmos tua presença. Ajuda-nos neste ano que se aproxima pela tua graça. Permite-nos que em 2020 possamos desfrutar de cada dia e que saibamos que tudo é feito de acordo com a tua vontade. Oramos por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém. Para a oração geral da igreja, podem ser distribuídas pequenas folhas nas quais as pessoas podem escrever seus desejos para 2020. Podem ficar sem ser lidas, mas seria importante colocá-las diante do altar no momento da oração.
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Se a paróquia/comunidade tem um calendário impresso, seria bom colocá-lo no altar durante o ofertório para dedicar as programações agendadas para o ano que se aproxima. O mesmo pode ser realizado com o planejamento missionário.
Bibliografia ANDIÑACH, Pablo R. Introdução Hermenêutica ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2015. FELDMEIER, Reinhard; SPIECKERMANN, Hermann. O Deus dos vivos. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2015.
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PRÉDICA: ISAÍAS 63.7-9 MATEUS 2.13-23 HEBREUS 2.10-18
2º DOMINGO APÓS NATAL
05 JAN 2020
Gerson Correia de Lacerda
Deus nos carrega no colo
1 Introdução Não é a primeira vez que o texto da prédica do 2º Domingo após Natal é objeto de estudo de Proclamar Libertação. Já foi analisado nos volumes 24 e 32, em trabalhos escritos por Albérico Baeske e Osmar Luiz Witt, respectivamente. Neste último, também as demais leituras são as mesmas (Mt 2.13-23 e Hb 2.1018), ao passo que, no anterior, há uma diferente (Gl 4.4-7 e Mt 2.13-15,19-23). Qual a relação entre os três textos indicados para a prédica e as demais leituras deste 2º Domingo após Natal? Podemos estabelecer que o que dá unidade entre os três textos é proclamar que Deus cuida do seu povo e o protege o tempo todo, ao longo da história. O texto de Isaías volta-se para o passado e recorda que Deus salvou o seu povo por causa do seu amor e da sua compaixão e que todos os dias, ano após ano, Ele os pegava e carregava no colo (Is 63.9). Por outro lado, o texto do Evangelho de Mateus, que conta algo ocorrido logo após o nascimento de Jesus e que o torna intensamente apropriado para o primeiro domingo após as celebrações natalinas, narra a fuga da família do recém-nascido Jesus para o Egito, a fim de evitar sua morte prematura por Herodes, bem como sua volta para a terra de Israel. Dessa maneira, o início da vida terrena de Jesus resume a história do povo hebreu no Antigo Testamento, que foi viver no Egito para escapar da fome que assolava a Palestina no final da vida de Jacó e que foi trazido de volta por Deus mesmo, que o libertou sob a liderança de Moisés, cumprindo assim a profecia que dizia: Eu chamei o meu filho, que estava na terra do Egito (Mt 2.15). Finalmente, o texto da Epístola aos Hebreus apresenta Jesus como salvador. Não é ele um salvador qualquer. Não é ele um super-homem. Ao contrário, Jesus é o Filho de Deus, o próprio Deus que assumiu a natureza humana (Hb 2.14), que sofreu, morreu e foi ressuscitado dentre os mortos, a fim de nos tornar seus filhos. Dessa forma, Jesus purifica as pessoas dos seus pecados, e todos, tanto ele como os que são purificados têm o mesmo Pai. É por isso que Jesus não se envergonha de nos chamar de irmãos (Hb 2.11). Conclusivamente, podemos, pois, afirmar que Deus nos carrega no seu colo, ao longo de todas as manifestações do seu amor, especialmente nas celebrações natalinas. “O seu Filho vem ao mundo, torna-se nosso irmão, para que todos
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possamos dizer ‘Pai Nosso’. Na manjedoura de Belém, Deus fez-se nosso irmão, por amor e compaixão de nós, para a nossa salvação” (WITT, 2007, p. 49).
2 Exegese a) Um tempo sem a grandeza imaginada Existe uma grande discussão a respeito da autoria e da época em que o texto básico da prédica deste 2º Domingo após Natal foi escrito. Ele pertence a um contexto que vai do capítulo 56 ao capítulo 66 do livro de Isaías, denominado Trito-Isaías ou Terceiro Isaías. Alonso Schökel e Sicre Diaz apresentam um resumo das principais interpretações, que são as seguintes: – Alguns especialistas acreditam que o autor de tais capítulos seja o mesmo de Dêutero-Isaías (Is 40-55). – Outros pesquisadores defendem a ideia de que o Trito-Isaías tenha sido produzido por um dos discípulos do Dêutero-Isaías. – Um terceiro grupo de estudiosos chegou à conclusão de que o Terceiro Isaías tenha tido como autor um profeta cujo nome é desconhecido e que teria proclamado sua mensagem no final do século VI e início do século V. – Um quarto grupo de especialistas supõe que o Trito-Isaías não pertence a um único autor, mas a uma pluralidade de autores. Segundo Schökel e Diaz, a última interpretação é a que predomina na atualidade. É claro que, dependendo da interpretação da autoria do Terceiro Isaías, também existe uma diversidade de posições a respeito da época em que o texto foi produzido. De acordo com os autores já mencionados, os mais recentes comentadores preferem datá-lo dos últimos decênios do século VI e início do século V. Levando em conta tal interpretação, vamos analisar o texto do Trito-Isaías como uma mensagem dirigida aos judeus que voltaram do exílio na Babilônia (597-539). Antes de serem derrotados pelos babilônios sob a chefia de seu rei, Nabucodonosor, os judeus acreditavam que nunca seriam derrotados, porque Javé os defenderia, visto que seu templo estava entre eles. No entanto, foi grande sua decepção quando as tropas babilônicas cercaram Jerusalém, conquistaram-na, profanaram e saquearam o templo de Javé, e levaram os judeus para o exílio. Os judeus perguntavam: por que Deus nada fizera para salvá-los? Será que Deus se esquecera deles ou os abandonara? Mesmo assim, havia aqueles que ainda esperavam que Deus fosse reverter a situação. E o texto de Dêutero-Isaías (Is 40-55) apresenta uma visão fantástica do que iria acontecer. O poderoso reino da Babilônia seria derrotado. O povo judeu seria libertado. Uma grandiosa estrada seria construída. Os vales seriam aterrados. Os montes e os morros seriam aplanados. E por tal estrada Deus iria caminhar levando o seu povo de volta para a terra de Israel, como um pastor carregando seus carneirinhos no colo (Is 40.1-11). Uma nova Jerusalém, com pedras preciosas, seria então reconstruída por Deus mesmo (Is 54.11-17). Dessa maneira os judeus voltaram para a sua terra, cheios de esperança. Imaginavam que estavam prestes a iniciar uma nova história, repleta de vitórias e
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de glórias. Entretanto, não foi nada disso o que aconteceu. Como afirma von Rad, “o grande sofrimento da deportação havia cedido lugar às pequenas misérias da readaptação e da reconstrução” (RAD, 2006, p. 698). A época era, pois, de grande desilusão e de intenso desencanto. b) Um povo com falta de fé A mensagem do Trito-Isaías não é a mesma dos profetas que atuaram antes da queda de Jerusalém. Estes criticaram o fato de que o povo de Israel tinha fé e esperança de que nenhum mal lhe sucederia. Mesmo diante das poderosas tropas de Nabucodonosor, que cercaram a cidade de Jerusalém, o povo manteve sua esperança e fé de que seria salvo. O problema é que a fé era depositada no templo e nos cultos, e não em Deus. Não havia obediência à vontade de Javé. A iniquidade prevalecia na vida em sociedade. As autoridades eram corruptas. Os ricos exploravam os pobres. Todavia, não havia arrependimento. Havia a confiança de que Deus protegeria o povo de Israel porque era em Jerusalém que estava o seu templo, onde os cultos de adoração lhe eram prestados. Foram essas, por exemplo, a denúncia e a crítica do profeta Jeremias, que proclamava: Mudem de vida, mudem a sua maneira de viver, e eu deixarei que vocês continuem vivendo aqui. Não confiem mais nestas palavras mentirosas: “Nós estamos seguros! Este é o Templo do Senhor, este é o Templo do Senhor, este é o Templo do Senhor” [...] Vocês roubam, matam, cometem adultério, juram para encobrir mentiras, oferecem sacrifícios a Baal e adoram outros deuses que vocês não conheciam no passado. Fazem coisas que eu detesto, depois vêm e ficam na minha presença, no meu próprio Templo, e dizem: “Nós estamos seguros!” (Jr 7.3-4, 9-10). Muito diferente é a mensagem do Trito-Isaías, porque muito diferente era a situação do povo de Israel. Diante das agruras enfrentadas na volta para a terra de Israel, a mensagem não é de crítica à fé depositada na presença do templo. Ao contrário, a mensagem é de consolação, para que o povo, mesmo passando por dificuldades, restaure sua fé no Deus que cuida do seu povo e o protege. O próprio profeta assim o declara ao proclamar: O Senhor Deus me deu o seu Espírito, pois ele me escolheu para levar boas notícias aos pobres. Ele me enviou para animar os aflitos, para anunciar a libertação aos escravos e a liberdade para os que estão na prisão (Is 6.1). c) Um Deus que promete a salvação Temos, porém, outro aspecto na mensagem do Trito-Isaías. Por um lado, como já destacamos, o profeta chama a atenção para o fato de que o povo de Israel estava desiludido e desencantado, porque imaginara que, ao voltar para a sua terra, depois do cativeiro na Babilônia, iria experimentar um tempo glorioso, no qual Deus agiria de forma poderosa e fantástica. Nada disso, contudo, estava ocorrendo. Além disso, o profeta critica a falta de fé em Deus, anunciando uma mensagem de consolação. Esse é um dos lados da moeda. Mas existe outro lado, no qual o profeta proclama a chegada da salvação prometida por Deus. Em outras palavras, as agruras da reconstrução não significavam que Javé tinha se esquecido do que ha-
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via prometido nem havia abandonado o seu povo. Ao contrário, o profeta anuncia a mensagem de um Deus que vai cumprir a sua promessa de salvação.
3 Meditação a) A importância da memória para anunciar o que Deus tem feito (v. 7) Sugerimos que o primeiro ponto a ser destacado na proclamação da palavra deve ser o de ressaltar a importância da conservação da memória daquilo que Deus tem feito. O profeta proclama que irá anunciar o que o Senhor tem feito. Ele também relembra que Deus abençoou ricamente e mostrou grande bondade para o seu povo. De uma forma geral, em todos os tempos, a tendência do ser humano é a de se esquecer do passado. Não se conserva a lembrança das bênçãos de Deus. A preocupação maior é sempre com as dificuldades do presente ou com as nuvens negras que despontam no horizonte do futuro. Por isso, mesmo nos dias de hoje, as orações de gratidão são raras, ao passo que as orações de petição e de súplicas são muitas. Pode-se dizer que as orações de gratidão são feitas “por atacado”. A fórmula comum é a de se dizer: “Rendemos-te graças, ó Senhor, por todas as tuas bênçãos”. Todavia, as orações de súplicas são feitas “no varejo”, ou seja, especificam-se, cuidadosamente, a Deus quais são os pedidos e as petições. É preciso mudar essa realidade da época do profeta e também da nossa época. Temos de aprender a contar e a recordar, continuamente, as muitas bênçãos que Deus nos concede. Por isso a Bíblia, em grande parte, é um texto histórico, isto é, um texto que narra a ação de Deus no passado. E o próprio Senhor Jesus, ao instituir o sacramento da eucaristia, orientou os seus discípulos dizendo: Fazei isto em memória de mim!. b) Deus mesmo é quem salva (v. 9) O segundo ponto a ser destacado é aquele que está registrado no versículo 9, que diz: Quem os salvou foi Deus mesmo, e não um anjo ou qualquer outro mensageiro. Ao recordar o passado, existe sempre a tendência de se ressaltar a importância dos que são considerados heróis. E não faltavam grandes heróis na história do povo de Israel. Até mesmo o Senhor é chamado de Deus de Abraão, Isaque e Jacó, começando com Abraão, considerado o pai da fé. Sem dúvida alguma, Moisés poderia ser considerado o grande herói da libertação do povo de Israel da escravidão no Egito. Dentre os reis, destaca-se principalmente a figura de Davi, um homem segundo o coração de Deus. Além disso, temos os diversos profetas do Antigo Testamento, a respeito dos quais Jesus falou aos mestres da lei: Ai de vocês! Pois fazem túmulos bonitos para os profetas, os mesmos profetas que os antepassados de vocês mataram (Lc 11.48). É claro que todas essas pessoas foram importantes para a história de Israel. No entanto, elas não passavam de simples instrumentos nas mãos de Deus. Nenhum desses heróis foi “salvador da pátria”. Ao contrário, fora Deus, o próprio
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Senhor Deus, quem sempre salvara e continuava a salvar. Por isso toda confiança não devia ser depositada em pessoas, mas unicamente em Deus. Isso vale principalmente para nós, nos dias de hoje, pois não somos salvos por algum dos anjos ou por qualquer outro mensageiro divino. Nós cremos na salvação providenciada por Deus mesmo, na pessoa de Jesus de Nazaré. c) A salvação revela a graça de Deus (v. 9) Finalmente, há que se destacar que a salvação revela a graça de Deus. O povo de Israel não foi salvo tantas vezes na história do Antigo Testamento por ser melhor do que os outros povos. É claro que, em diversas ocasiões, Israel se considerou superior aos outros povos. Afinal de contas, tinha sido ele escolhido por Javé, a partir da vocação a Abraão. Daí o orgulho e a vaidade dos que se consideravam descendentes de Abraão. Não se pode, porém, esquecer que Abraão foi chamado por Deus, que lhe disse: Você será uma bênção para os outros [...] E, por meio de você, eu abençoarei todos os povos do mundo (Gn 12.2-3). Na verdade, Israel nunca fora salvo por seus próprios méritos ou por suas qualidades e virtudes. Ao contrário, o profeta do Trito-Isaías proclama: Por causa do seu amor e da sua compaixão, ele os salvou. E todos os dias, ano após ano, ele os pegava e carregava no colo (Is 63.9). Portanto a salvação revela a graça de Deus, graça essa manifestada, acima de tudo, em Jesus Cristo. E, nos dias de hoje, Deus continua a nos carregar no seu colo pela atuação poderosa do Espírito Santo.
4 Imagens para a prédica a) Os braços compridos de Deus Radiante de alegria, a menina correu para o pai com um papel na mão: – Papai, olha só o que eu desenhei. O pai olha a “obra de arte” da filha, mas não entende bem o significado do desenho: ao pé da folha, ela desenhara uma porção de rabiscos, um perto do outro; mais acima estava um vulto bem grande, com braços enormes, estendidos para baixo. – O que é para significar isso? – perguntou o pai. A menina procurou explicar o desenho: – Aqui embaixo, essas pequenas linhas são as pessoas, somos nós. E esse grande, ali em cima, é Deus. – Mas esse teu Deus parece meio desengonçado e desproporcional. Eu nem acho muito bonito. Seus braços são compridos demais – retrucou o pai. – Mas, papai – disse a filha um pouco chateada. – Exatamente aí está a beleza de Deus. Porque, para alcançar e abraçar todas as pessoas, ele precisa ter braços muito, muito compridos. O pai deu um beijo na filha e afastou-se um pouco envergonhado, pois tinha recebido um sermão muito profundo por meio de um simples desenho de criança.
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Como poderíamos chamar o eterno e poderoso Deus de pai se ele não tivesse braços compridos, com os quais ele quer abraçar cada pessoa, seja ela rica ou pobre, idosa ou jovem, e demonstrar-lhe seu imenso amor? Quando Jesus ensina o Pai-Nosso, ele quer mostrar que Deus é muito maior do que nós podemos imaginar. Mas, mesmo assim, “Deus é o nosso verdadeiro Pai”, no qual podemos confiar sempre, “que quer atrair-nos carinhosamente” e que somos “os seus verdadeiros filhos, para que lhe roguemos sem temor”. b) Pegadas na areia Uma noite eu tive um sonho... Sonhei que estava andando com o Senhor e, no céu, passavam cenas da minha vida. Para cada cena que se passava, percebi que eram deixados dois pares de pegadas na areia: um era o meu e o outro do Senhor. Quando a última cena da minha vida passou diante de nós, olhei para trás, para as pegadas na areia, e notei que, muitas vezes, no caminho da minha vida, havia apenas um par de pegadas na areia. Notei, também, que isso aconteceu nos momentos mais difíceis e angustiosos do meu viver. Isso me entristeceu deveras e perguntei, então, ao Senhor: – Senhor, tu me disseste que, uma vez que eu resolvi te seguir, tu andarias sempre comigo, mas notei que, durante as maiores tribulações do meu viver, havia na areia dos caminhos da vida apenas um par de pegadas. Não compreendo por que, nas horas em que eu mais necessitava de ti, tu me deixaste. O Senhor me respondeu: – Meu precioso filho, eu te amo e jamais te deixaria nas horas de tua prova e do teu sofrimento. Quando viste na areia apenas um par de pegadas, foi exatamente aí que eu te carreguei nos meus braços.
5 Subsídios litúrgicos No colo de Deus (Salmo 131) Como eu gostaria, Senhor, de ser como aquela criança desmamada que se aninha no colo da mãe, sem ter necessidade de mais nada a não ser do calor terno do teu abraço; sentir teu afago carinhoso me confortando; e, ao embalo da tua voz paciente, adormecer sereno (Luiz Carlos Ramos). Oração Senhor Deus Todo-Poderoso, perdoa a tua igreja: sua riqueza entre os pobres, seu medo entre os injustos, sua covardia entre os oprimidos. Perdoa-nos, teus filhos e filhas: nossa falta de confiança em ti, nossa falta de esperança em teu reinado, nossa falta de fé em tua presença, nossa falta de confiança em tua misericórdia. Restaura a tua aliança com teu povo; conduze-nos ao arrependimento verdadeiro; ensina-nos a aceitar o sacrifício de Cristo; fortalece-nos com o encorajamento do Espírito Santo. Quebranta-nos quando formos orgulhosos; fortalece-nos quando estivermos fracos; humilha-nos quando confiarmos em nós mesmos; chama-nos pelo nome quando estivermos perdidos para nós mesmos.
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Por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém! (Livro de orientações litúrgicas da VI Assembleia Geral do Conselho Mundial de Igrejas, em Vancouver, Canadá, 1983).
Bibliografia BAESKE, Albérico. Prédica: Isaías 63.7-9. 1º Domingo após o Natal. In: SCHNEIDER, Nélio; WITT, Osmar Luiz (Coords.). Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; IEPG, 1998. v. 24, p. 44-57. SCHÖKEL, L. Alonso; DIAZ, J. L. Sicre. Profetas I. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2004. (Grande Comentário Bíblico). RAD, G. von. Teologia do Antigo Testamento. 2. ed. São Paulo: ASTE; Targumim, 2006. WITT, Osmar Luiz. Prédica: Isaías 63.7-9. 1º Domingo após o Natal. In: SOUZA, Mauro Batista de et al. (Coords.). Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2007. v. 32, p. 46-50.
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EPIFANIA DE NOSSO SENHOR
06 JAN 2020
PRÉDICA: MATEUS 2.1-12 ISAÍAS 60.1-6 EFÉSIOS 3.1-12
Nádia Cristiane Engler Becker
Epifania: é para todos os povos!
1 Introdução Isaías anuncia que o tempo de humilhação e sofrimento que o povo vive será sucedido por um tempo de alegria radiante, em que o coração estremecerá e se dilatará de júbilo (v. 5). Isso acontecerá porque as trevas que encobrem a humanidade serão dissipadas pela luz gloriosa do Senhor. Essa luz iluminará e atrairá todas as nações. A luz não se deixa limitar pelas fronteiras: é desejo de Deus que sua luz ilumine e atraia todas as gentes, não apenas o povo de Israel! Também os povos do além-mar serão atraídos pela luz resplandecente! É desejo de Deus que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade (1Tm 2.4). O apóstolo Paulo descreve esse desejo de Deus como um mistério a ele revelado: os gentios são coerdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa em Cristo Jesus por meio do Evangelho (Ef 3.6). O que antes era mistério, agora foi revelado. O que estava na escuridão, foi trazido à luz. O texto do evangelho relata sobre os magos, personagens de um país oriental que estudavam os astros e viam neles sinais do curso da história humana. Eles representam, antecipadamente, os povos não judeus que foram atraídos pela luz do Salvador nascido em Belém, que chegaram a reconhecer Jesus como o Messias e que se deixaram guiar pela sua luz. O fio vermelho que perpassa as três leituras é a Epifania, a revelação da graça de Deus no Cristo nascido em Belém, que resplandece como luz sobre toda a humanidade e deseja atrair e guiar todos os povos, raças e culturas no caminho da paz. Existem pelo menos quatro possibilidades de aprofundamento: a) A temática do poder. b) A redenção de todos os povos. c) O medo que paralisa versus a fé que mobiliza. d) Qual luz me guia?
2 Considerações exegéticas Em dias do rei Herodes: Herodes Magno governou de 37 a.C. até 4 a.C. Essa data permite concluir que houve equívoco na definição do início da era cristã: o nascimento de Jesus se deu, de fato, em torno do ano 6 a.C. Herodes não foi magno na condução dos negócios do Estado, mas na crueldade e na tirania. Pela força da espada, destronou a dinastia dos macabeus, matando vários de seus componentes. Com a ajuda dos romanos, conquistou Jerusalém, causando dentro dela um horrível banho de sangue. Era, por isso, profundamente temido e odiado
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pelos judeus. Sob seu governo, parecia que a bênção de Jacó seria convertida em maldição e que Israel iria ao encontro da sua ruína definitiva. Porém Herodes era “politiqueiro” e, na tentativa de conquistar a simpatia do povo, investiu numa majestosa ampliação do templo. Do outro lado, cortejava os romanos para obter seu favor. Nesse contexto, eis que vieram uns magos. Com as partículas eis que é introduzido o surgimento do anjo que anuncia o nascimento de Jesus (1.20). A intenção é indicar surpresa. Sim, era algo inusitado que pagãos, que perante os judeus não valiam nada, viessem procurar pelo Messias. Os magos provêm, possivelmente, da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, no antigo reino babilônico, onde os judeus haviam sido exilados seis séculos antes. Esses judeus da diáspora certamente propagaram sua esperança da vinda do Salvador, de modo que os magos, ao reconhecer nos astros o sinal indicado pelas Sagradas Escrituras, se puseram a caminho, seguindo a estrela. Ela mostra o caminho, mas não é capaz de levar os magos ao local exato. É a Escritura Sagrada que vai determinar a localização (v. 5s). A estrela desaparece e só se faz ver novamente quando a direção indicada pela profecia passa a guiar o caminho dos magos. Não são as estrelas, não são os astros que indicam o caminho. É a Palavra! (DREHER, 1985). A pergunta pelo recém-nascido rei induz a enganos, pois sugere que a visita dos magos tenha acontecido imediatamente após o nascimento de Jesus. Porém, entre nascimento e visita, decorreu um tempo entre um e dois anos. O versículo 16 afirma que Herodes mandou matar todos os meninos com menos de dois anos. Maria também não ficou morando na estrebaria com a criança, mas havia encontrado abrigo numa casa (v. 11), certamente depois que as multidões que afluíram para Belém para o recenseamento haviam retornado para suas terras. O quadro que pintamos do nascimento de Jesus na estrebaria, com a estrela-guia e magos, portanto, não é biblicamente correto. Os magos dizem: Viemos adorá-lo. No original, essa palavra significa ajoelhar-se e tocar com a testa na terra. Curvar-se dessa maneira é uma declaração de total sujeição à pessoa honrada. Alarmou-se o rei Herodes, e, com ele, toda a Jerusalém. Imagino os magos decepcionados! Não apenas por que ninguém a quem perguntassem soubesse dizer algo a respeito do novo rei que havia nascido, mas também porque sua empolgação e alegria com a notícia causou susto e medo nas pessoas. Eles não sabiam que o medo do povo tinha razão de ser: Herodes era magno na tirania e não tolerava qualquer coisa que cheirasse a concorrência ou ameaça. O povo temia novo banho de sangue. Para descobrir o local do nascimento, Herodes convoca o Supremo Conselho e obtém uma resposta: Belém da Judeia. Astuto, chama os magos e os inquire a respeito do tempo exato do nascimento do temido novo rei. Dissimulado, finge estar interessado em também ir adorá-lo. No fundo, porém, planeja sufocar na raiz qualquer movimento que ameaçasse seu poderio (2.16ss). Após serem inquiridos por Herodes, os magos seguem sua busca. Eles viajam à noite. Andam no escuro, apreensivos pelas impressões colhidas em Jerusalém. Porém a aflição se dissipa diante do ressurgimento da estrela, a mesma
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que os havia guiado até ali! Estavam no caminho certo! E com intenso júbilo encontram a casa onde Maria e a criancinha estavam. Prostrados, o veneraram e, como era costume no Oriente, lhe presentearam: ouro, incenso e mirra. Alguns pais da igreja entenderam nesses presentes grande valor simbólico: o ouro, indicando que o menino é rei; o incenso, indicando a adoração devida a ele, visto ser ele o próprio Deus. E a mirra, de gosto amargo, oferecida à criancinha, indicando a amarga morte na cruz que sofreria para redimir a humanidade. Sendo três presentes, a igreja antiga também concluiu serem três os magos. Por fim, a tradição batizou-os de Gaspar, Melchior e Baltazar, que seriam representantes das três famílias de Cam, Sem e Jafé. Afirmou também serem três reis. Porém reis recebiam e não davam presentes. Reis eram venerados e não veneravam outros reis. O texto bíblico não informa nada disso. Todavia, informa que foram protegidos por Deus de serem manipulados pelo plano malévolo de Herodes ao serem prevenidos, em sonho, do intuito do tirano. Esse fato é extremamente importante! Não apenas por salvar a vida da criancinha, mas porque, ao intervir e se comunicar ele mesmo com os magos, representantes dos povos pagãos, o próprio Deus releva (epifania!) que com o nascimento da luz do mundo, a fronteira que separava judeus e pagãos foi definitivamente ultrapassada. Por meio de Jesus, Deus estabelece contato direto com pagãos. Em resposta, os magos desobedecem à ordem de Herodes e decidem obedecer à voz de Deus, prenunciando o que Pedro afirma com claras palavras em Atos 5.29: Mais importa obedecer a Deus do que às pessoas. Ao celebrar a Epifania no dia 06 de janeiro, dia dedicado à memória dos “reis” magos, a igreja cristã celebra a revelação de Cristo como o Redentor de toda a humanidade, como a luz que guia e atrai em meio à escuridão. A redenção que existe em Jesus é oferta graciosa para todos os povos e nações (Jo 3.16).
3 Meditação É Epifania! Revelação de Deus! Nos textos previstos para a celebração deste final de semana, a revelação foi e segue sendo surpreendente: o Verbo se fez carne, habitou entre nós, cheio de graça e bondade, para redimir toda a humanidade, todos os povos, raças e culturas, não apenas o povo de Israel. Sua luz resplandece sobre toda a terra e deseja iluminar, guiar o caminho de todas as gentes até o Salvador. Como mariposas atraídas pela luz, assim os povos serão atraídos pela luz de Jesus, não para a morte, mas para a vida! A exclusividade do povo escolhido encerra na manjedoura. Nesse início de evangelho já fica claro o mistério que vai ser revelado muitas vezes ao longo de todo o NT: Esse mistério não foi dado a conhecer aos homens doutras gerações, mas agora foi revelado pelo Espírito aos santos apóstolos e profetas de Deus, significando que, mediante o evangelho, os gentios são coerdeiros com Israel, membros do mesmo corpo, e coparticipantes da promessa em Cristo Jesus (Ef 3.5-6). Os judeus sentiam-se seguros da própria salvação por serem povo escolhido de Deus, porém não atentaram para os sinais que indicavam que o tempo da profecia da vinda do Messias havia se cumprido. Enquanto isso, de longe vieram
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representantes de outros povos tidos como pagãos, atraídos pela luz, e dispostos a se deixar guiar e a obedecer. A pertença ao povo de Israel e à descendência de Abraão somente não são garantias de nada, como João Batista afirma logo adiante: E não digam uns aos outros: Abraão é nosso antepassado. Pois, eu afirmo a vocês que até destas pedras Deus pode fazer descentes de Abraão (3.9). Descendência e tradição não garantem nem limitam a ação de Deus. Assim como a luz não se deixa limitar e aprisionar, também a ação de Deus alcança todo o universo. Além disto, cabe resgatar quem eram, de fato, os magos. A tradição cristã os transformou em reis e supervalorizou os presentes. Pela presença dos pobres pastores de ovelhas e dos reis magos com seus caros presentes na cena da manjedoura, tornou-se popular a interpretação de que pobres e ricos vieram adorar o Messias. É um detalhe que muda o sentido da história. Os magos representam os povos gentios, não os reis nem os ricos nem os poderosos. Esses não vieram adorar a criancinha. Herodes não foi adorar a criancinha! Seu interesse era macabro. Assim como tantos outros poderosos daquele e do nosso tempo, foi capaz de fazer manobras e cometer crueldades a fim de se manter no poder. Herodes é inteligente, controla sua raiva e medo, mostra-se bom. Estrategista e envolvente, busca aliciar os magos para colaborarem com seus interesses ocultos. Mostra-se interessado na religião, pede informações da Palavra aos sacerdotes e escribas. Investe até na ampliação do templo! Agindo assim, consegue manipular as autoridades religiosas, manipular o povo e manipular a própria Palavra para que corrobore sua ambição de permanecer no poder. Quanta semelhança com poderosos do nosso tempo! Mas não só! Também há muita semelhança com autoridades religiosas que servem a propósitos ideológicos ao propagarem discursos que mascaram a encarnação do evangelho libertador na pobreza, na marginalidade e na exclusão desde a sua primeira infância. Também há muita semelhança com o povo que, apesar de conhecer a Palavra, o poder e as promessas de Deus, fica paralisado diante da realidade. O medo é maior que a fé. E mesmo depois de ouvir sobre o nascimento do Messias, continua paralisado. Ninguém, além dos magos, vai à Belém. Quem está no poder luta para não perdê-lo. Foi assim com Herodes e segue sendo assim até hoje. Mas todo poder opressor e enganador tem seu fim decretado pelo novo inaugurado com o nascimento de Jesus. Em oposição gritante a Herodes, o menino nasce no meio do povo, na pobreza, na exclusão, na marginalidade. Vem como luz que atrai, ilumina, guia. Não como dominador, tirano. Porém quem detém o poder não desiste fácil. O poder dominante irá perseguir Jesus até pregá-lo na cruz. E aqui, de novo, epifania! Revelação do poder de Deus capaz de transformar as forças da morte em vida, em esperança e em certeza de que, por mais escuro que seja o caminho, a luz sempre vence a escuridão! Essa mensagem pode ser profundamente inspiradora diante da realidade política e econômica vivida hoje, onde muitas vezes nos vemos paralisados e sem forças para reagir. Não, os poderosos não desistem fácil! Mas a paralisia e o pensamento derrotista pertencem a quem não conhece o evangelho libertador, a força que vem da fé e a luz que guia em meio à escuridão! Essa luz, porém, não
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Epifania de Nosso Senhor
vem dos astros, das estrelas! Ela emana do próprio Deus que revela sua vontade e poder na manjedoura, na cruz e na sepultura vazia!
4 Imagens para a prédica É início de ano. Certamente, como mariposas, muitas pessoas foram atraídas e estão se deixando guiar pela luz da astrologia ou outras fontes. Uma possibilidade para a pregação é refletir a partir desse aspecto, lembrando que a estrela guiou os magos ao lugar errado, a Jerusalém. Foi a Palavra que lhes corrigiu o rumo e indicou com clareza o caminho a seguir. Há muitas luzes! Nem todas iluminam o caminho até o Messias! Outra imagem que pode ser explorada na reflexão de que a ação redentora de Deus em Jesus deseja alcançar todas as gentes é a da roda da bicicleta. O comparativo serve para falar das diferentes religiões, povos, culturas. Na roda, a parte de fora representa o mundo. A criancinha é o centro. Os raios representam as diferentes religiões, culturas e povos. Quanto mais no “mundo” as pessoas vivem, mais longe estão de Jesus, mais distantes estão umas das outras. Quanto mais se aproximam de Jesus, mais se aproximam umas das outras. Encontram-se, mas não se fundem. Correm lado a lado, convergem para o centro.
5 Subsídios litúrgicos Oração do dia Amado Deus, és Senhor de todos os povos, raças, culturas e nações! A luz e o brilho da tua Palavra encarnada penetram a escuridão que cobre a terra e sinalizam o alvorecer de justiça e paz. Ao sermos lembrados que tu te revelas na manjedoura, na cruz e na sepultura vazia, afasta de nós o medo que paralisa, fortalece-nos na fé que mobiliza! Que tua Palavra ilumine nossas vidas e guie todas as nações para andar unidas em tua luz. Nós te pedimos isso em nome de Jesus Cristo, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e bondade! Amém!
Bibliografia DREHER, Carlos A. Mateus 2.1-12. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1985. v. X.
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PRÉDICA: SALMO 29 MATEUS 3.13-17 ATOS 10.34-43
1º DOMINGO APÓS EPIFANIA (BATISMO DO SENHOR)
12 JAN 2020
André Martin
Somos filhos e filhas do dono do mundo
1 Introdução Ano novo, vida nova! Assim ouvimos muitas vezes. Preparando-nos para mais uma celebração, o texto do Salmo 29 quer ser nossa inspiração. No 1º Domingo após Epifania, lembramos o Batismo de nosso Senhor. Jesus foi batizado por João, nas águas do rio Jordão. O texto da pregação, veterotestamentário, não faz alusão direta ao batismo de Jesus, mas, em consonância com as demais leituras propostas, nos dá uma bela indicação do desdobramento do batismo de Jesus e das implicações desse em sua vida e atuação: completa dedicação ao reino de Deus, pois Deus é senhor e soberano sobre tudo e todos. Da mesma forma, é indicativo também para nossa própria vida e da vida em comunidade, haja vista ser o Batismo um dos sacramentos de nossa igreja. Mateus 3.13-17 é o texto que relata o batismo de Jesus por João Batista. Jesus comenta que precisa ser batizado para que a justiça (dikaiosyne) seja completa. A voz de Deus se faz escutar! Atos 10.34-43 nos mostra, na fala de Pedro, que Jesus Cristo, a quem ele e os discípulos testificam, é o ungido de Deus. A Cristo se reportam todas as profecias. A partir de Cristo, a bênção da paz, exaltada no final do Salmo, torna-se concreta em nosso mundo.
2 Exegese Consideramos muito interessante as ponderações de Dennis Allan sobre o Salmo 29: “Na leitura desse Salmo, percebemos ênfase especial pela repetição de algumas expressões. Vários estudiosos da língua hebraica falam do significado de palavras repetidas, e sugerem que a tripla repetição seja uma maneira de dar máxima ênfase” (ALLAN, 2019). Para interpretar o Salmo 29, usaremos a tradução de Almeida, Revista e Atualizada no Brasil (ARA). Das muitas versões em português, também comparando com a tradução de Lutero para o alemão, penso ser essa a mais interessante. Assim segue o texto bíblico do Salmo 29, com uma proposta de estruturação exegética já citada anteriormente: introdução – mensagem central – conclusão.
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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)
Introdução V. 1-2. Tributai ao SENHOR, filhos de Deus, tributai ao SENHOR glória e força. Tributai ao SENHOR a glória devida ao seu nome, adorai o SENHOR na beleza da santidade. Nesses dois versículos, temos o convite para exaltar a Deus e ao seu santo nome. No v. 1, observamos que a versão de Almeida Corrigida e Fiel traz a expressão “filhos dos poderosos”. Essa expressão não condiz com a versão hebraica. Ambos os versículos convidam para que toda a honra e toda a glória sejam prestadas a Deus. Ele deve ser adorado. O porquê disso vem nos versículos seguintes: Deus se faz sentir e se faz presente em toda a criação. Mensagem central V. 3-9. Ouve-se a voz do SENHOR sobre as águas, troveja o Deus da glória; O SENHOR está sobre as muitas águas. A voz do Senhor é poderosa; a voz do SENHOR é cheia de majestade. A voz do SENHOR quebra os cedros; sim, o SENHOR despedaça os cedros do Líbano. Ele os faz saltar como um bezerro; o Líbano e o Siriom, como bois selvagens. A voz do SENHOR despede chamas de fogo. A voz do SENHOR faz tremer o deserto; o SENHOR faz tremer o deserto de Cades. A voz do SENHOR faz dar cria às corças e desnuda os bosques; e nos seu templo tudo diz: Glória! Deus não é visto, mas sua voz se faz sentir e perceber. Reiterando o que já foi exposto no início, a tríplice repetição denota a importância que é dada à voz de Deus. Nada a consegue impedir. Ela é descrita como forças inabaláveis da natureza. Nas forças da natureza, que abalam, despedaçam, fazem tremer, está a voz de Deus. Conclusão V. 10-11. O SENHOR preside aos dilúvios; como rei, o SENHOR presidirá para sempre. O SENHOR dá força ao seu povo, o SENHOR abençoa com paz ao seu povo. Se nos versículos anteriores era ressaltada a força de Deus na natureza, aqui temos o agir de Deus para com seu povo. O salmista evoca o senhorio de Deus frente aos dilúvios. Lembramos que foi o grande dilúvio que arrasou a maldade humana na terra e proporcionou um novo começo com Noé, sua família e os animais salvos na grande arca. Mas também o versículo final é impressionante. O Deus todo-poderoso fortalece seu povo e concede a bênção. A bênção é extraordinária e somente pode vir daquele que tudo controla. A bênção que Deus dá é a paz. Essa paz provém do Deus que é todo-poderoso e que reina para sempre.
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3 Meditação Penso que devemos partir do anúncio de que estamos no domingo em que lembramos o batismo de Jesus Cristo. Especialmente chamamos a atenção para o fato que Jesus, a partir do seu batismo por João Batista, inicia sua missão. Cada vez mais ouvimos a lamúria de que os templos, local em que as pessoas batizadas congregam, buscam inspiração e orientação para a vida, estão se esvaziando. Como podemos reagir a isso? Cremos na santa igreja cristã, que nada mais é do que a comunhão dos santos, as pessoas que foram lavadas do pecado pelo batismo, incluídas em seu Reino, santificadas pelo agir do Espírito Santo, ungidas para servir a Deus e ao semelhante. Como reagimos a isso, haja vista reclamarmos cada vez mais de uma crescente sensação de “cada um por si e Deus por todos”? Repito o pensamento de Dario Schaeffer no PL suplemento 1: “O Batismo é, então, a expressão central das duas coisas mais importantes na vida do ser humano: o fato de que Deus, em Jesus Cristo, se volta ao homem, aceita-o, perdoa-o e inclui-o em sua obra salvífica e humanizadora e, com isso, em seu Reino, e o fato de que o homem, em fé, sempre de novo se volta para Deus, confessa-se a ele, torna-se obediente unicamente a ele, lhe jura fidelidade e, com isso, se humaniza e se volta ao homem sofredor ao seu lado” (SCHAEFFER, 1987, p. 201). Pergunto: que implicações tem o batismo na minha vida pessoal e comunitária? É dia de lembrar o batismo de Jesus, mas é dia especial de lembrar também nosso próprio batismo. Nesse aspecto, o Salmo 29 nos dá uma oportunidade muito interessante de abordar o batismo e as implicações desse em nossas vidas. O Salmo 29, do versículo 1 ao 9, exalta a grandeza e santidade de Deus. Ele nos mostra o exemplo de todas as hostes celestiais que glorificam a Deus. Proclama que Deus é Senhor sobre tudo, sobre toda a natureza. A voz de Deus, que produz maravilhas mundo afora, é a mesma voz que, por ocasião do batismo de Jesus diz: “Este é meu filho amado, em quem me comprazo”. A partir do batismo, Jesus inicia seu ministério. A partir do batismo, Jesus se coloca em obediência àquele que é soberano sobre tudo. A voz poderosa de Deus se fez ouvir, conforme o testemunho de Pedro, pela palavra que veio por toda a Judeia, começando pela Galileia, depois do batismo que João pregou. Volto-me novamente para o final do Salmo 29. O Senhor dá força ao seu povo, o Senhor abençoa com paz o seu povo. A perícope de Atos mostra, na fala de Pedro, que Deus ungiu Jesus com o Espírito Santo. Jesus andou entre as pessoas fazendo o bem, curando-as e livrando-as das opressões. Pedro termina dizendo que isso tudo é a concretização das profecias. Também essa é a paz com a qual Deus abençoa seu povo. Somos batizados e batizadas. Somos ungidos e ungidas. O Espírito do Senhor está sobre nós. A voz de Deus se faz ecoar e precisa ser lembrada: “Chamei-te pelo teu nome; tu és meu! Tu és minha!” Que implicações concretas traz essa verdade à minha vida? O batismo mostra-me a grandeza de Deus? Esse Deus grandioso se volta para mim em Cristo e me conclama a ser uma bênção de paz,
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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)
haja vista Deus abençoar seu povo com a paz? Que Deus esteja acima de todos e abençoe seu povo com paz acima de tudo.
4 Imagens para a prédica Lembrando as palavras do salmista em consonância com nossa condição de pessoas batizadas, lembrei-me da famosa frase de para-choques de caminhão: “Não sou dono do mundo, mas sou filho/a do dono”. Talvez seja algo com que possamos prender a atenção das pessoas presentes ao culto. Exaltar a grandeza de Deus, o dono do mundo, e chamar a atenção que, pelo batismo, somos filhos e filhas do dono do mundo e que essa condição nos torna corresponsáveis para que a bênção da paz, tão almejada por cada indivíduo, chegue a todas as pessoas.
5 Subsídios litúrgicos Penso em conduzir toda a celebração para que se estruture tal qual o Salmo previsto para a pregação: iniciando com a exaltação ao senhorio de Deus e seu grande poder; mostrando onde o poder de Deus se faz visível e palpável; finalizando com a conclusão de que tudo o que esse Deus todo-poderoso deseja é abençoar seu povo com paz, não apenas falada, mas sentida, palpável na vivência e convivência comunitária. – Iniciar a celebração com o hino do LCI 242 – Santo, Santo, Santo. – Sugerimos, dependendo de como conduziremos a pregação, encerrar com LCI 564 – Abre nossos olhos. – Como palavra de bênção e envio, sugiro usar uma formulação a partir de Lucas 4.18: “O Espírito do Senhor está sobre ti, ele te unge para pregar boas novas aos pobres. Ele te liberta e te envia para proclamar liberdade aos presos de todos os tipos de prisão e opressão, ele te abre os olhos te envia e a abrir os olhos de irmãos e irmãs que vagueiam na cegueira. Seja mensageiro do Deus altíssimo! Proclame o ano da graça do Senhor”. – Hino do LCI 263 – Paz, paz de Cristo. Coloco como sugestão para após o momento de bênção e envio.
Bibliografia A BÍBLIA SAGRADA. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2. ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993. ALLAN, Dennis. Salmo 29: A Voz do SENHOR. Disponível em: <https://www. estudosdabiblia.net/jbd639.html>. Acesso em: 25 set. 2019. GIL’EAD, Enih. Bíblia Interlinear Hebraico-Português. Clube de Autores, 2018. SCHAEFFER, Dario. O Sacramento do Santo Batismo. In: KILPP, Nelson (Org.). Proclamar Libertação – Auxílios Homiléticos/Suplemento 1. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal,1987. p. 199-209.
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PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 1.1-9 ISAÍAS 49.1-7 JOÃO 1.29-42
2º DOMINGO APÓS EPIFANIA
19 JAN 2020
Jorge B. D. Oliveira
Chamados à comunhão em Cristo
1 Introdução Os textos bíblicos indicados para este 2º Domingo após Epifania já foram trabalhados diversas vezes em Proclamar Libertação, seja nessa delimitação ou com outros recortes. Todas essas contribuições estão acessíveis no Portal Luteranos. Existe uma relação entre os textos, que é o chamado para o testemunho da fé e a comunhão com o povo de Deus. O texto de Isaías descreve o servo do Senhor como alguém chamado a anunciar a palavra de Javé, para reunir e restaurar seu povo disperso. Mas a missão do servo ultrapassa as fronteiras de uma nação, pois fará com que o povo da aliança se torne luz para todos os povos. Já o evangelho traz o testemunho do João Batista sobre Jesus como o cordeiro de Deus, que passa a ser seguido pelos discípulos. As palavras de Paulo aos coríntios demonstram a força dessa comunidade, uma vez que nela não faltava nenhum dom. Mas os dons são de serviço para fortalecer a comunhão. Por isso eles devem estar orientados e submetidos a Cristo. Na busca por um novo enfoque para a pregação, procuro abordar a importância do chamado à comunhão em Cristo para vencermos os conflitos e as divisões tão presentes em nossas comunidades.
2 Exegese Na época de Paulo, Corinto era a capital da província romana de Acaia e um rico centro comercial, situado sobre o estreito istmo que liga o território da Grécia com o Peloponeso. Edificada no alto de uma montanha e cercada por dois portos, era uma movimentada encruzilhada de comércio e centro político. Os pedágios cobrados sobre as cargas que atravessavam o istmo contribuíam muito para a riqueza de Corinto. Era uma cidade cosmopolita, que atraía pessoas de todo o Império Romano, tinha muitos templos, dos quais um era dedicado à Afrodite (deusa do amor e da fecundidade) e era conhecido pela prostituição ritualística. Os coríntios também permitiam que muitos grupos religiosos diferentes praticassem sua fé. A história da origem da igreja em Corinto foi narrada por Lucas em Atos 18.1-17. Paulo chegou à cidade em sua segunda viagem missionária, em 50 d.C., e foi o primeiro a pregar ali o evangelho. Ele foi um missionário urbano, que escolheu estrategicamente os grandes centros para facilitar o anúncio do evangelho
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2º Domingo após Epifania
a partir das comunidades judaicas. Enquanto morava e trabalhava com Áquila e Priscila, começou o seu ministério, que se estendeu por 18 meses. A comunidade cristã, como a cidade, se caracterizava por uma mistura social e racial. Havia alguns judeus (7.18; At. 18.4), mas era expressivo o número de gentios (12.2). Poucos eram membros de famílias importantes (1.26-28). A comunidade acolhia muitos escravos e alguns poucos oficiais do governo em ascensão social (Rm 16.23). A epístola foi escrita entre 54 e 55 d.C., possivelmente em Éfeso, onde Paulo viveu por três anos depois de deixar a cidade de Corinto (15.32; 16.8). Paulo a escreveu para responder a carta que recebeu de membros da comunidade, que pediam orientação sobre diversos assuntos (7.1ss). É possível que os trechos iniciados em 7.1, 25; 8.1; 12.1; 16.1,12, introduzidos sempre por “a respeito de”, representem as respostas a esses assuntos. Paulo recebeu ainda informações “dos da casa de Cloe” (1.11), além de pessoas mencionadas em 16.17. A introdução da Primeira Epístola aos Coríntios apresenta as costumeiras características do modelo epistolar usado no primeiro século e adotado por Paulo em suas cartas: começa com os nomes do remetente e do destinatário e faz uma saudação (v. 1-3). Prossegue com um parágrafo de ação de graças, mencionando os principais temas que serão amplamente tratados em toda a carta (v. 4-9). V. 1 – Paulo apresenta-se como apóstolo (= enviado), como em todas as suas outras epístolas, deixando claro que foi comissionado diretamente por Cristo como seu mensageiro autorizado (cf. At 9.3-6; 26.15-18). Portanto a mensagem que anuncia não é invenção humana. Essa declaração tem um sentido apologético, pois seus adversários em Corinto questionavam sua autoridade apostólica. Sóstenes talvez seja a mesma pessoa mencionada em Atos 18.17, dirigente da sinagoga de Corinto no tempo da primeira visita de Paulo à cidade. V. 2-3 – Paulo deixa claro que a igreja de Deus que está na cidade de Corinto não é independente ou está isolada, pois mostra que a igreja é formada por todas as comunidades que invocam Jesus. Os crentes de Corinto são chamados de santificados e chamados para ser santos. Interessante é que eles estavam sendo falhos quanto a problemas éticos, por isso a epístola toca reiteradamente no assunto da santificação. Aqui, nessa saudação, Paulo dá sinais do tema central da carta: as divisões internas; salienta o aspecto da unidade e lembra aos coríntios que eles foram chamados para pertencerem ao povo de Deus e foram separados para o serviço de Cristo. Assim eles são membros do corpo de Cristo e compartilham da sua vida. Tudo deve estar direcionado ao Cristo, para que por ele se restabeleça a unidade da igreja de Corinto. V. 4-5 – Paulo agradece a Deus pela graça dada aos coríntios por meio de Cristo, uma vez que nessa comunidade não faltava nenhum dom (1.5 e 1.7). Em tudo fostes enriquecidos nele tanto no dom de anunciar o evangelho como no dom do conhecimento. Havia ali tanto os dons de proclamação e ensino da palavra como o de entender e aplicá-la à vida. V. 6 – Quando Paulo menciona o testemunho de Cristo, está se referindo à sua própria pregação, que produzira tão abundante fruto em Corinto. As vidas transformadas dos coríntios demonstravam a validade da mensagem que lhes fora
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pregada. Paulo estivera em Corinto o tempo suficiente para pregar o evangelho. Isso não foi mérito do apóstolo, mas pura graça, presente de Deus em Jesus Cristo. V. 7-8 – Deus disponibilizou todos os dons para a igreja de Cristo. Essa riqueza gerou conflitos, que serão tratados por Paulo nos capítulos 12 e 14 dessa mesma epístola. Por hora, Paulo encoraja seus leitores, assegurando-lhes que Deus, que os agraciou com os dons necessários para o testemunho de Jesus Cristo, vai conservá-los firmes até o fim. A confiança de Paulo no poder e na fidelidade de Deus levou-o a crer que poderiam ser vencidos os erros em que estavam envolvidos os crentes coríntios, a fim de que fossem declarados inculpáveis quando tivessem de comparecer ante o tribunal de Cristo. Por isso os dons devem estar orientados e submetidos para a volta do Cristo. V. 9 – O que Deus começou, vai concluir, pois ele os chamou assim como chamou Paulo (1.1), e fez isso para a comunhão com seu Filho. Essa é a antítese da divisão, pois a união com Cristo é o caminho para curar os conflitos. A evangelização da igreja de Corinto foi completa: ela recebeu a riqueza do evangelho e da sabedoria da vida cristã. Resta agora à comunidade perseverar o testemunho até o fim.
3 Meditação A comunidade de Corinto, assim como muitas das nossas comunidades, experimentava serias ameaças como rixas, conflitos, divisões. Alguns irmãos se sobrepunham aos demais, humilhavam uns aos outros, desconsideram-se e se esqueciam do seu Senhor. Paulo sabia de tudo isso, pois fora informado por carta e pelo testemunho dos irmãos. No entanto, em vez de criticar, ele prefere agradecer a Deus pela graça dada aos coríntios por meio de Cristo. Para essa comunidade tão dividida, em que as pessoas disputavam o poder e a liderança, Paulo escreve de forma amorosa e afirma que essa é a igreja de Deus. E por isso mesmo ela deve ser dirigida pela vontade desse Deus soberano. Essa carta não era apenas para os coríntios, mas também para todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso. Isso inclui também a nós. Quantas vezes agimos como se a comunidade fosse nossa? Esquecemo-nos que ela é de Deus e deve cumprir a missão para a qual foi chamada: estar a serviço do Reino. Quantas vezes agimos como os coríntios, dividindo a comunidade em “panelinhas” e grupinhos, que quebram a comunhão com o corpo de Cristo? Por isso Paulo faz uso da autoridade de apóstolo (que significa mensageiro do Senhor), e declara que os coríntios são chamados para ser santos e santificados em Cristo. Eles foram chamados para pertencer ao povo de Deus e foram separados para o serviço de Cristo. Deus garante-lhes essa condição e os chama à comunhão e à vida cristã. Paulo acredita que, mesmo em meio à fraqueza humana, o Senhor não retira sua graça e sua paz. Nessa comunidade não faltava nenhum dom. Havia ali tanto os dons de proclamação e ensino da palavra como o dom de entendê-la e aplicá-la à vida. Mas, ao mesmo tempo, o uso de tanta graça divina também trazia dificuldades.
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2º Domingo após Epifania
Como é bom quando alguém destaca algo em nós que, de fato, é importante e nos afirma na fé. Como é maravilhoso quando outros conseguem ver em nós a riqueza da graça de Deus. Gostamos de ser valorizados por nossa fé e conduta cristã. Entretanto, Paulo não tem a intenção de glorificar e exaltar qualidades ou capacidades humanas. Ele aponta para a graça de Deus, da qual vive a comunidade. A abundância de carismas permite que as pessoas cristãs se conservem firmes no testemunho de Cristo e na esperança da revelação final. Essa esperança corresponde à contínua fidelidade de Deus, que chama a comunidade para a comunhão com ele e a fortalecerá até o fim. A mensagem de Paulo aos coríntios torna-se atual e tem a ver conosco. Questões tratadas nessa primeira carta fazem parte de problemas que enfrentamos hoje, na igreja, na família e na vida pessoal. No dia a dia da vida, lidamos com ciúmes, conflitos e divisões. Por isso a relevância dessa mensagem que nos lembra da comunhão como ponto de unidade em relação às diferenças internas. O chamado à união em Cristo coloca-nos em comunhão com outras pessoas, com as quais Deus quer promover a paz. Quando estamos unidos em Cristo, somos mais fortes. Por isso somos chamados a permanecer e a renovar o nosso batismo diariamente, na fé, nos sacramentos e na palavra de Deus. Sempre haverá à nossa volta, pessoas com sede de aceitação, reconciliação e comunhão. Por isso repartimos o amor, a alegria, a paz, e a esperança. A cura para a comunidade de Corinto estava na união com Cristo. A solução para os problemas que se repetem hoje na igreja e nos lares está justamente na comunhão com Cristo e com os irmãos e irmãs. Essa comunhão nos habilita a viver o amor, a solidariedade, a partilha. Tudo depende da fidelidade de Deus, que nos chamou para estar unidos com Cristo. Por isso o apóstolo lembra que Deus é fiel. Sua fidelidade perpassa toda a história. Deus realiza seu plano por meio de todas as incertezas da vida. E nós estamos incluídos nesse plano, pois aquele que começou boa obra em nós também há de levá-la a bom termo. Amém.
4 Imagens para a prédica Durante uma era glacial, quando parte do globo terrestre estava coberto por densas camadas de gelo, muitos animais não resistiram ao frio intenso e morreram, indefesos, por não se adaptarem às condições de clima hostil. Foi então que uma grande manada de porcos-espinhos, numa tentativa de se proteger e sobreviver, começou a se unir, ajuntar-se mais e mais. Assim, cada um podia sentir o calor do corpo do outro. E todos juntos, bem unidos, agasalhavam-se mutuamente, aqueciam-se enfrentando por mais tempo aquele inverno tenebroso. Porém, vida ingrata, os espinhos de cada um começaram a ferir os companheiros mais próximos, justamente aqueles que lhes forneciam mais calor vital, questão de vida ou morte. E afastaram-se, feridos, magoados, sofridos. Dispersaram-se por não suportar mais tempo os espinhos de seus semelhantes. Doíam muito…
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2º Domingo após Epifania
Mas essa não foi a melhor solução. Afastados, separados, logo começaram a morrer. Os que não morreram voltaram a se aproximar, pouco a pouco, com jeito, com precauções, de tal forma que, unidos, cada qual conservava uma certa distância do outro, mínima, mas o suficiente para conviver sem ferir, para sobreviver sem magoar, sem causar nenhum dano recíproco. Assim suportaram-se, resistindo à era glacial. Sobreviveram. Nem sempre é fácil relacionar-se bem. Um bom convívio não é aquele que une as pessoas perfeitas, mas aquele em que cada um aprende a conviver respeitando o outro. A convivência entre as pessoas sempre foi muito discutida. A fábula da convivência é uma lição sobre nossas relações, de autoria desconhecida. Foi adaptada da metáfora “O dilema do porco-espinho” do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, publicada em 1851.
5 Subsídios litúrgicos Hinos: 597, 599, 601, 605, 606, 607, 613, 618, 632, do Livro de Canto da IECLB. Oração Perdoa-nos, Senhor, pelas divisões que prejudicam a causa do evangelho. Muitas vezes, em vez de mostrar que somos de Cristo, deixamos de valorizar o que nos une para destacar só o que ainda nos separa. Por não sermos sempre agentes construtores de aproximação, diálogo e reconciliação, pedimos perdão a Deus, fonte de unidade. Por isso cantamos: Todos: /: Perdão, Senhor, perdão :/ Perdoa-nos, Senhor, quando não partilhamos ideias, conquistas, testemunhos e quando não nos socorremos mutuamente como convém a uma família na qual todos se reconhecem como irmãos e irmãs. Perdemos oportunidades de descobrir melhor a riqueza da fé cristã que transparece em nossa diversidade, pedimos perdão ao Senhor, que nos quer em processo permanente de crescimento. Por isso cantamos: Todos: /: Perdão, Senhor, perdão :/ O mundo ferido pela violência precisa desesperadamente de nossos esforços conjuntos para a construção da paz. Nossa solidariedade com os que sofrem pode ser muito mais eficiente se formos mais solidários e unidos entre nós, se estivermos juntos na defesa dos direitos dos mais desamparados. Por não sermos sempre capazes de juntar forças para promover o bem comum, pedimos perdão a Deus, que quer ser servido nos necessitados e na prática da justiça. Por isso cantamos: Todos: /: Perdão, Senhor, perdão :/
Bibliografia BARCLAY, William. I y II Corintios. Buenos Aires: La Aurora, 1973. BRAKEMEIER, Gottfried. A Primeira Carta do Apóstolo Paulo à Comunidade de Corinto. São Leopoldo: Sinodal, 2008.
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2º Domingo após Epifania
PORATH, Renatus. l Coríntios 1.3-9. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1990. v. XVI, p. 51-55. STIEGEMEIER, Werno. l Coríntios l.4-9. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1979. v. V, p. 228-234.
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PRÉDICA: MATEUS 4.12-23 ISAÍAS 9.1-4 1 CORÍNTIOS 1.10-18
3º DOMINGO APÓS EPIFANIA
26 JAN 2020
Luiz Carlos Ramos
Pescador de humanidade
1 Introdução O tempo após Epifania é aquele no qual nos são constantemente recordadas as diferentes maneiras como Cristo se manifestou ao mundo, tanto em gestos como por palavras. No 1º Domingo após Epifania, recordamos, como igreja, o relato do batismo de Jesus, que marca o início do seu ministério público. No 3º Domingo, que é o que nos diz respeito especificamente neste momento, o texto do evangelho selecionado apresenta os primeiros passos do itinerário público de Jesus, bem como suas primeiras palavras como pregador das boas novas a respeito do novo mundo de Deus (reino). A leitura de Isaías 9.1-4 reforça a compreensão de que Mateus é o evangelho do cumprimento do que fora profeticamente prenunciado: para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta Isaías (Mt 4.14). A leitura de 1 Coríntios 1.10-18 trata das divisões na comunidade de Corinto entre os que se dizem adeptos, uns de Apolo, outros de Paulo, ou de Cefas; outros ainda se diziam adeptos de Cristo. Uma possível conexão dessa leitura com as demais pode ser o fato de que, assim como Cristo não está dividido (1Co 1.13), devemos todos estar unidos em torno do objetivo comum, afinal, fomos todos chamados para seguir a Cristo e a pregar o evangelho (ser pescadores de gente).
2 Exegese A análise do texto pode ser dividida em dois blocos, de 12 a 17 (Jesus volta para a Galileia) e de 18 a 22 (Jesus convoca seus primeiros discípulos), com um desfecho em 23 (alusão ao ministério público de Jesus, por meio de palavras e obras). Jesus volta para a Galileia – Mateus é o evangelho do cumprimento: para que se cumprisse o que fora dito (v. 14), de modo que seu arranjo literário atende a esse propósito: o de relacionar as expectativas enunciadas na Lei, nos Profetas e nos Escritos com o ministério de Jesus. João fora preso (v. 12) e Jesus toma conhecimento disso. Na sequência de Mateus, a perícope que estamos abordando segue ao relato do batismo de Jesus por João no Jordão e da tentação no deserto. Mas as circunstâncias da prisão de João só serão dadas bem mais adiante, em 14.3-12. Essa referência antecipada parece justificar a decisão de Jesus de assumir sua missão pública. Como se, na impossibilidade de João, coubesse a ele dar continuidade à missão do Batista.
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3º Domingo após Epifania
Tal relação sugere a ideia de continuidade e sucessão, não obstante as enormes diferenças de estilo entre os dois. Jesus retirou-se para a Galileia, literalmente “apareceu publicamente na Galileia” (paraginomai). Podemos supor que Jesus tenha decidido regressar à Galileia por várias razões, entre as quais podemos listar: (1) porque a Galileia é seu lugar de origem, não obstante não retorne para Nazaré, mas se estabeleça em Cafarnaum, localizada às margens ocidentais do mar da Galileia; (2) porque, se permanecesse em Jerusalém, correria mais riscos de ser detido, assim como acontecera com João; (3) porque a periferia do mundo parece ser o centro geográfico do coração de Deus – “Galileia dos gentios”, isto é, região de não judeus: muitos dos seus habitantes haviam sido forçados a se converter ao judaísmo no período dos macabeus; (4) porque com essa referência espacial Mateus pode vincular tal acontecimento como sendo o cumprimento da profecia de Isaías 9.1-7, que ele passará a citar em seguida: Terra de Zebulom, terra de Naftali, caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios! O povo que jazia em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região e sombra da morte resplandeceu-lhes a luz (v. 15-16). Ora, as antigas terras de Zebulom e Naftali haviam sido as primeiras porções do território israelense a serem subjugadas pelos assírios em 732 a.C. De modo que, para Isaías, os primeiros territórios a experimentar a ira de Deus também seriam os primeiros a receber as novas da salvação por ocasião da vinda do Messias (cf. LUEKING, 2001). Assim, segundo Mateus, Jesus decide, digamos desse modo, começar pelo começo. Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer [à semelhança de João Batista]: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus (v. 17, compare com 3.2). Diferentemente de Lucas, Mateus usa o eufemismo “reino do céu”, em lugar de “reino de Deus”, respeitando a tradição judaica de não pronunciar o nome de Deus e fazer no lugar uma alusão indireta. Fica claro, aqui, que Jesus se propõe a levar adiante a missão do Batista. Conforme o comentário dessa passagem em The Interpreter’s Bible, o arrependimento é uma das doutrinas mais importantes no judaísmo. Implica uma profunda tristeza pelo pecado, restituição ou reparação tão rapidamente quanto possível, e uma firme determinação de não tornar a cometer aquele pecado novamente (p. 274). O reino está próximo (engizo), isto é, ao alcance das mãos. Isso dá a ideia de proximidade no tempo e no espaço. Também sugere um reino não puramente “espiritual”, mas com evidente concretude. Não é tão somente algo para se crer, mas algo para se tocar. Jesus contrapõe o Reino (basileia) dos Céus (de Deus) ao Império Romano (de César). Do campo semântico e lexical daquele contexto fazem parte termos como reino, império, rei, imperador, domínio, poder, autoridade, força etc. Na boca de Jesus, esses termos adquirem novos sentidos. Para nós, como não vivemos sob um sistema totalitário, palavras como essas perdem muito de sua força. Por essa razão, talvez fosse mais significativo, para as novas gerações, em lugar de dizer “reino de Deus”, nos referirmos a ele como o “novo mundo de Deus”.
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Esse novo mundo segue se contrapondo aos poderes hegemônicos que contradizem os princípios do evangelho. Jesus convoca seus primeiros discípulos – Caminhando (peripateo) junto ao mar da Galileia (v. 18) – essa prática peripatética de Jesus o coloca em sintonia com os profetas do passado e ainda com os mais destacados filósofos gregos. Jesus é o Messias que se faz no caminho e a caminho. Viu (eiden) dois irmãos (v. 18) – o verbo aqui utilizado denota um olhar criterioso que implica voltar os olhos, a mente, a atenção a algo, prestar atenção, observar. Como podemos perceber, o olhar de Jesus para as coisas, as pessoas e as circunstâncias, é incomum: ele consegue ver o que muitos não veem. Sua missão, em grande parte, será, a partir daqui, repartir essa sua cosmo(-)visão. Simão, chamado Pedro, e André, que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores (v. 18). Simão (que será apelidado por Jesus de Pedro) e André eram irmãos e trabalhavam juntos como pescadores. Aliás, nessa mesma hora, não estavam ociosos nem na sua hora de folga, mas em pleno labor. Chama a atenção que Jesus tenha convocado pessoas ocupadas em lugar de preferir os desocupados, supostamente mais disponíveis. Jesus mesmo era um operário da construção civil, um tektōn, geralmente traduzido por carpinteiro, mas que pode se referir a qualquer tipo de artesão ou trabalhador. Jesus rompe com o destino traçado pela sociedade do seu tempo. Naquele contexto, um filho estava como que condenado a seguir a profissão do pai. Um filho de agricultor seria agricultor, um filho de carpinteiro seria carpinteiro, um filho de pescador seria pescador, por toda a vida. Jesus quebra essa tradição. Deve ter sido um dos raríssimos, se não o único caso em que um carpinteiro tenha resolvido deixar sua família, sair da sua casa e da sua cidade, deixar sua profissão, para se tornar professor (rabi) e passar a arrebanhar alunos e alunas. Primeiro Jesus, mas depois outros passam a fazer o mesmo. Ambos, o carpinteiro e os pescadores, tomam a decisão de mudar de ares, visitar outras praias com outras paixões. E disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens. Então, eles deixaram imediatamente as redes e o seguiram. Passando adiante, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco em companhia de seu pai, consertando as redes; e chamou-os. Então, eles, no mesmo instante, deixando o barco e seu pai, o seguiram (v. 19-22). “Vinde após mim” e “o seguiram” expressam o que significa o discipulado. O mestre é o que vai adiante, em vários sentidos, como o profeta, que é o que “fala na frente”. Esse “na frente” pode ser entendido como aquele que se posta diante de um público para proclamar sua mensagem, mas também pode ser entendido como aquele que está à frente do seu tempo, o que vê e que fala primeiro, antes dos outros, o que haverá de ser. Essa é também a metáfora do pastor, tão cara para Jesus e para a tradição cristã. O pastor é o que vai na frente. É ele quem enfrenta primeiro e pessoalmente os perigos e riscos do caminho, e é dessa maneira que ele ensina o caminho àqueles e àquelas que o seguem. Os que seguem são os discípulos, os alunos, os aprendizes.
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A missão de Jesus Percorria Jesus toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo (v. 23). A missão de Jesus é sintetizada por Mateus nestes quatro verbos: percorrer, ensinar, pregar e curar. Percorrer (periagō) – a missão de Jesus não é estática, mas dinâmica. Sem desconsiderar a importância das sinagogas, mas, diferentemente dos rabinos convencionais que ficam circunscritos à suas paróquias (paraoikia), a sinagoga de Jesus era a Galileia e o mundo. Seu ministério não é sedentário, mas itinerante. Não é o do professor que espera pela vinda dos alunos até a escola, mas a daquele que leva a escola até os alunos. Ensinar (didaskō) – isto é, instruir por meio do diálogo, da conversa, mas não só: Jesus também passará a ensinar pelo exemplo. E isso o distinguia dos outros professores e mestres da Lei que tinham discurso, mas não tinham prática. Jesus ensina como quem tem autoridade (Mt 7.29), porque ele praticava o que ensinava. Pregar (kērussō) – ser, oficiar e proclamar como um arauto. O arauto era aquele que por meio de um pregão (divulgação gritada ou cantada livremente) tornava pública uma notícia. “Pregar” pode ser entendido como elemento disparador/motivador para o ensino. A pregação é ampla e irrestrita, é destinada a todos e é ouvida até mesmo por aqueles que não querem tomar conhecimento do que está sendo proclamado, uma vez que esse anúncio é feito em público e em voz alta. Ao passo que o ensino é restrito àqueles que assumem o compromisso do seguimento, do discipulado, de tornarem-se alunos e alunas do mestre. Outra diferença é que a pregação é pontual e breve, mas o ensino é gradual e continuado. Curar (therapeuō) – esse verbo significa antes de tudo servir, realizar o serviço, e, depois, sarar, curar, restaurar a saúde. A atenção dispensada por Jesus para com os enfermos recebe grande ênfase em todos os evangelhos. A enfermidade era culturalmente associada ao pecado. Tratar dos doentes era o mesmo que cuidar dos pecadores. E curar um enfermo era o mesmo que purificá-lo dos seus pecados. A pessoa enferma é aquela que está experimentando a fragilidade e a vulnerabilidade da vida. Tratar um doente é salvar essa pessoa da morte. Jesus trata o corpo e a alma do ser humano. Ir ao encontro das gentes, instruir os esquecidos, anunciar a todos as boas notícias do novo mundo de Deus e tratar terapeuticamente aqueles e aquelas em situação de vulnerabilidade, tal prática sintetiza a missão de Jesus. O evangelho não é mero dogma, mas gesto, atitude, ação, mão estendida, passos que nos reaproximam de Deus e da humanidade.
3 Meditação Transcrevo aqui trechos dos meus apontamentos para a prédica proferida em 2017, por ocasião do 3º Domingo após Epifania daquele ano: Jesus foi morar em Cafarnaum. Não porque quisesse desfrutar dos prazeres e comodidades de uma vida à beira-mar. Mesmo porque naquele contexto, e na-
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quele lugar, o mar, isto é, o lago da Galileia, era tudo, menos ponto de veraneio. Era, antes, lugar de trabalho bruto, de labuta árdua pela sobrevivência. Isso se dá logo após o batismo de Jesus por João, na Judeia, no vale do Jordão. Era de se esperar que Jesus, incumbido da importante missão de anunciar a chegada do novo mundo de Deus (que em Mateus é chamado de Reino dos Céus, para contrapô-lo ao Império Romano), era de se esperar, repito, que ele se estabelecesse mais próximo do centro do poder político, religioso, militar e econômico. Acontece que qualquer ameaça ao poder estabelecido de então era logo esmagada sumária e implacavelmente. Até mesmo o inofensivo João, que pregava no deserto e batizava com a água de rio, foi considerado ameaça pela corte, cuja consciência pesada fazia com que temessem qualquer um que lhes apontasse o dedo e tornasse explícitos seus podres poderes. Preso João, o próximo seria Jesus. Por isso o mais prudente seria refugiar-se nos confins de Zebulom e Naftali, a periferia do mundo de então, terra de gente esquecida e desqualificada: camponeses caipiras, artesãos paupérrimos e pescadores miseráveis. Gente acostumada à vida dura, que não dava nem recebia notícias. Sem saber, essa região de trevas, escondida sob as sombras da morte, tinha agora um novo hóspede: tratava-se de, nada mais, nada menos, que a verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina a toda gente (Jo 1.9). Jesus, antes operário da construção civil, que aprendera o ofício da carpintaria com seu velho pai, agora passeia pela praia com outras paixões. Perdera seu interesse pelas edificações humanas, quer agora edificar a humanidade mesma. Sabe que isso é tarefa árdua, coisa que não se faz sozinho. Por isso, certa manhã, saiu pela praia à procura de cúmplices que, como ele, também sonhassem com outras praias e outras paixões. Vocacionou, primeiro, dois irmãos, pescadores experientes, fortes e combativos: Pedro e André. E, logo a seguir, outros dois, também irmãos, bem mais jovens: Tiago e João, meninos ainda, que não tinham sido embrutecidos de todo pela crueza da vida. Decisão difícil a que tiveram de tomar: largar as redes (coisas que sabiam fazer), abandonar o barco (lugar onde se sentiam seguros), deixar o pai (pessoa em quem confiavam plenamente) e partir para o desconhecido, o incerto, o duvidoso. Mas acontece que pescar peixes eles já sabiam… construir casas, lavar barcos, consertar redes… que é tudo isso diante da tarefa de construir comunidade, pescar pecadores, religar com Deus a humanidade? Como Jesus, queriam agora navegar por outros mares, avistar outras margens. Zebedeu não se opôs. Todo pai só quer o melhor para seus filhos: “Se o que os fará felizes são essas novas praias e inéditas paixões, vão em frente, têm a minha bênção!” Como naquela radiante manhã à beira-mar na Galileia, Jesus passeia agora mesmo pela nossa praia. Você consegue ouvi-lo chamando seu nome? Ele está dizendo: “Venha e me siga, que eu farei de você pescador de humanidade”.
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4 Imagens para a prédica Conta-se de um pescador que, em pé em sua canoa, arremessava sua rede horas e horas a fio. Na maioria das vezes o homem recolhia a rede vazia. Ao final de uma longa jornada, já próximo à exaustão, o velho pescador recolhia definitivamente a sua rede, depositava-a reverentemente no assoalho do barco e remava para a praia. Uma vez aportado, ancorava o barco e começava a contar os peixes recolhidos. Um observador paciente se daria conta de que aquele trabalho que parecia quase improdutivo, ao final, se revelava muito eficiente. Os peixes recolhidos eram suficientes para a féria do dia. Com o resultado do seu trabalho, o pescador se sustentava, alimentava sua família e comercializava o excedente com algum ganho. Jesus nos convida a ser pescadores e pescadoras de gente. Não é tarefa fácil. Exige esforço e persistência. Como o pescador que repete incansavelmente o gesto de lançar a sua rede para poder obter o seu sustento, assim também todo aquele e aquela que quer “pescar humanidade” deve trabalhar sem esmorecer. Muitas vezes as redes voltarão vazias, mas isso não significa que nessas águas não haja “peixes”. Eles estão lá. Compete a nós ir até eles e estender reverentemente as redes do evangelho, na esperança de que sejam reunidos no barco do novo mundo de Deus... e nos tornemos verdadeiros pescadores e pescadoras de humanidade. (Sugestão: projetar a imagem de um pescador para que a congregação contemple enquanto a ilustração acima seja contada. No site da Pixabay há imagens que podem ser usadas sem custo, desde que sem fins lucrativos. Exemplo: <https://pixabay.com/images/id-68735/>.)
5 Subsídios litúrgicos Canção: Pescador (Vencedores por Cristo) É manhã pescador Já se lança no mar Pra pegar uns pescados Pra ganhar uns trocados para se sustentar Sol a sol com suor Céu e céu, mar e mar Quando enfrenta perigo Logo lembra do amigo Que não pôde voltar Meia volta se faz Não dá pra retornar Some o sol, some a cor Surge o medo e temor E esquece da dor E esquece do pão E esquece o metal
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Sabe que de sua vida se Deus não der guarida O que vem é fatal Pois se a vida é naufrágio Todo o esforço é fracasso Só Deus tem solução (Disponível em: <https://www.letras.mus.br/vencedores-por-cristo/715583/>. Acesso em: 02 jul. 2019.) Suíte do Pescador (Dorival Caymmi) Minha jangada vai sair pro mar Vou trabalhar, meu bem querer Se Deus quiser quando eu voltar do mar Um peixe bom eu vou trazer Meus companheiros também vão voltar E a Deus do céu vamos agradecer Adeus, adeus Pescador não esqueça de mim Vou rezar pra ter bom tempo, meu nêgo Pra não ter tempo ruim Vou fazer sua caminha macia Perfumada com alecrim (Disponível em: <https://www.letras.mus.br/dorival-caymmi/45589/>. Acesso em: 02 jul. 2019.) Nota: Essa canção costumava ser entoada pelos prisioneiros torturados nos porões da ditadura militar brasileira. Oração Tua mão sanadora (adap. de John Predmore, padre Jesuíta e pastor em Amã, Jordânia) Sagrado Coração de Jesus, tu convidas todos que estão sobrecarregados a vir a ti e encontrar descanso em ti. Ensina-nos a ir ao teu encontro nas nossas necessidades. Ensina-nos a guiar os outros até o teu sagrado coração. Ensina-nos com tua compaixão pelos outros. Ensina-nos com a tua coragem e amor por todos. Ensina-nos com a tua sabedoria e graça. Toca gentilmente nossa vida com tua mão sanadora. Amém.
Bibliografia LUEKING, F. Dean. Lectionary Commentary: Theological Exegesis for Sunday’s Texts. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 2001. v. 3. GIROY, Mark (Ed.). Pocket Book of Prayer. New York: Fall Rivers. p. 39.
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THE INTERPRETER’S BIBLE: the Holy Scriptures. New York: Abingdon; Nashville: Cokesbury, 1951. v. 7, 917 p. RAMOS, Luiz Carlos. Um carpinteiro entre Pescadores. Disponível em <https:// www.luizcarlosramos.net/um-carpinteiro-entre-pescadores>. Acesso em: 28 jun. 2019.
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PRÉDICA: MATEUS 5.1-12 ISAÍAS 9.1-4 1 CORÍNTIOS 1.18-31
4º DOMINGO APÓS EPIFANIA
02 FEV 2020
Roberto Natal Baptista
A práxis de uma vida com sentido
1 Introdução Estamos no período da Epifania. Expressamos nessa época um sentimento inesperado de compreensão de um mistério. Epifania nos revela, especialmente, o Cristo. Passamos há pouco pelo final de 2019 e agora começamos 2020. Pode ser que ainda estejamos contaminados pelas muitas “previsões” que se fazem a cada virada de ano. Na Epifania, pessoas cristãs não “adivinham” nem “preveem”. Tratamos de um mistério revelado nos evangelhos, nas boas notícias para um novo ano. O texto de pregação previsto para essa época é Mateus 5.1-12. Trata-se do famoso texto das bem-aventuranças proferido por Jesus no também conhecido sermão do monte (Mt 5 – 7). Textos como esse são textos “ocupados”. Quero dizer: textos que já foram exaustivamente trabalhados nesses tantos séculos de cristianismo. Quando nos aproximamos de textos assim, costumamos “baixar a guarda”, numa atitude do “já conheço” ou “já sei tudo sobre isso”. É sempre, portanto, um enorme desafio se aproximar de “textos ocupados”. Por outro lado, não podemos deixar de mostrar nossa satisfação pela oportunidade de ler e refletir sobre tão belo sermão de Jesus. Muitas vezes o Proclamar Libertação utilizou porções das bem-aventuranças como 5.1-10 e outras vezes (como é o caso aqui) 5.1-12. Sem levar em conta as questões de composição do texto a partir das fontes primárias, é interessante trabalhar os versos de 1-12 como uma só perícope. Afinal, a ruptura de conteúdo e de forma aparece logo e a partir do v. 13. Recomendo que olhemos para auxílios homiléticos já publicados sobre esse texto. Eles estão disponíveis no Portal Luteranos e podem ser facilmente acessados. – Ivoni Richter Reimer faz uma boa exegese do texto no volume XVIII (1993). Ela se preocupa não tanto com a prédica, mas sim em nos fornecer subsídios exegéticos para que possamos pontuar bem o texto na tensão entre a felicidade e a pobreza. – No PL IV, de 1979, Knut Robert Wellmann comentou o texto para o Dia da Reforma daquele ano. Ele aborda novamente as questões da pobreza e da felicidade. É interessante ler sua reflexão e encarar o desafio de contextualizar o texto para agora, em 2020. – A contribuição de Walfrido da Silva e Ildemar Kanitz para o PL 32 (ano de 2008), pode nos ajudar na direção da meditação. Eles nos dão algumas pistas, inclusive sugerindo imagens que podem ser incorporadas à prédica.
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– No volume 38, de 2013, temos o estudo de Ana Isa dos Reis, que nos apresenta uma análise verso a verso e aponta pistas para a prédica. Mais uma questão antes de entrarmos em nossa análise de Mateus 5.112. Junto ao texto principal da prédica, temos ainda, do Primeiro Testamento, o texto de Isaías 9.1-4, comentado algumas vezes no PL (números V, XVIII e 38). Recomendo o texto de Milton Schwantes no PL X. O texto de Isaías traz a bela imagem da luz nas trevas. No Segundo Testamento, temos o texto de leitura de 1 Coríntios 1.18-31, sobre o qual há comentários no PL V, IX, 20 e 21. A ênfase do apóstolo na Primeira Carta aos Coríntios é a “loucura” da mensagem do evangelho (a mensagem da morte de Cristo na cruz é loucura para os que estão se perdendo; mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus, v. 18). O sermão do monte também nos parece loucura?
2 Exegese Não podemos negar: Jesus veio para todos, mas muito especialmente ao “doente”, ao “pecador” (Mc 2.17). No sermão do monte, Jesus radicaliza essa sua proposta de buscar quem mais necessita de Deus e da esperança: “os humildes de espírito”, “os que choram”, “os mansos”, “os que têm fome e sede de justiça”, “os misericordiosos”, “os limpos de coração”, “os pacificadores”, “os que são perseguidos por causa da justiça”. Quero ressaltar dois aspectos nessa aproximação inicial ao texto. A primeira: observar um pouco o contexto e a composição desse texto no Evangelho de Mateus. Segundo: ater-nos na compreensão de cada “grupo” que é declarado bem-aventurado e que tipo de promessas Jesus oferece a eles. O contexto de Mateus 5 Tanto Mateus como Lucas encontraram as bem-aventuranças na fonte Q. Na versão de Mateus, o sermão do monte inicia em 5.1 e se estende até o primeiro verso do capítulo 8. Portanto nosso texto de 5.1-12 é uma pequena parte do sermão. Porém é uma bela porta de entrada. Ivoni R. Reimer apresenta a estrutura simétrica do sermão. “O evangelista parece construir o Sermão simetricamente em torno de um centro, que é o Pai-Nosso (6.9-13). Há correspondência entre as unidades antes e depois desse centro (5.1-2; 7.28-8,1a = situação e reação; 5,3-16; 7.13-27 = introdução e conclusão do Sermão; 5,17-20; 7.12 = introdução e conclusão da parte principal; 5.21-48; 6.19-7.11 = parte principal; 6.1-8: 6.14-18 = justiça diante de Deus)”. Aos lermos Mateus 5.1-12, não poderemos deixar de ler também o texto similar em Lucas 6.17-23. Antes de mais nada, é bom observar o contexto anterior. Mateus enfatiza que uma grande multidão segue Jesus, provinda de diversos locais: seguiam-no grandes multidões da Galileia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judeia, e dalém do Jordão (Mt 4.25). Lucas ressalta em 6.17-19: E Jesus, descendo com eles, parou num lugar plano, onde havia não só grande número de seus discípulos, mas também grande multidão do povo, de toda a Judeia e Jerusalém, e do litoral de Tiro e de Sidom, que tinham vindo para ouvi-lo e serem curados das suas doenças; e os que eram atormentados por espíritos imundos
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ficavam curados. E toda a multidão procurava tocar-lhe; porque saía dele poder que curava a todos. Quando comparamos as bem-aventuranças de Mateus e Lucas, percebe-se também que as ênfases são diferentes. Isso é normal, se levarmos em conta que os contextos nos quais os evangelhos foram produzidos são bem diferentes. Enquanto Lucas parece atribuir as bem-aventuranças a grupos concretos, Mateus parece ter “espiritualizado” as bem-aventuranças, como se costuma dizer. O texto de Mateus 5.1-12 Vamos acentuar algumas bem-aventuranças em Mateus. É importante perceber as diferenças entre esse texto e as bem-aventuranças de Lucas 6. Para uma maior percepção dessa análise, veja o texto de Paulo Garcia citado na bibliografia. Da minha parte, farei apenas algumas relações entre os dois textos dos evangelhos. V. 3 – A primeira bem-aventurança diz: Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus. A expressão bem-aventurados corresponde ao termo grego makarios. É interessante observar que o termo denota alguém que recebe o favor divino. Temos conceito similar também no Primeiro Testamento como, por exemplo, no Salmo 1.1. O tema da felicidade já poderia ser importante abordagem em uma prédica. Volto mais adiante a esse ponto. O segundo conceito relevante nesse nosso verso é a expressão humildes de espírito. Perceba-se que Lucas (6.20) utiliza aqui simplesmente o termo pobre. Mais enfático ainda é o contraste que ele estabelece no v. 27 com os ricos: Mas ai de vós que sois ricos porque já recebestes a vossa consolação. O termo utilizado para designar o pobre em Mateus e Lucas é o mesmo: ptochos. Não há motivos para tentar fugir do conceito da pobreza. O fato de Mateus incluir o genitivo ao termo nos dá a impressão de um conceito moral de pobre, como, por exemplo, humilde. No entanto, em muitas expressões de Jesus e nas cartas do Segundo Testamento, essa ênfase em relação ao pobre como foco principal do Evangelho de Cristo é por demais evidente. Mateus 5.3 reforça o reino dos céus como dádiva aos pobres de espírito. As expressões reino dos céus e reino de Deus se equivalem. Mateus, que destina seu evangelho a judeus, prefere utilizar reino dos céus, consoante a prática judaica de circunscrever o nome de Deus para não utilizá-lo em vão. Lucas e Marcos só utilizam reino de Deus. V. 4 – A segunda bem-aventurança diz: Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados. Os que choram é uma expressão forte devido ao uso da palavra pentheō. Lucas utiliza o verbo klaiō, chorar, lamentar. Mateus escolhe um termo que aponta para o estado de estar triste, estar aflito. Trata-se de uma profunda tristeza que toma conta de todo o ser, como na perda de um ente querido. Mateus aponta para uma cura terapêutica: serão consolados, acharão conforto. V. 5 – A terceira bem-aventurança diz: Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra. Este termo, manso (prays), é quase exclusivo de Mateus. Prays ocorre somente quatro vezes no Segundo Testamento, três delas em Mateus. Essa mansidão é característica da pessoa que tem autocontrole e tem por natureza um espírito de paz, que não tem a vingança como uma prerrogativa às
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possíveis violências que possa sofrer. A dádiva reservada a essas pessoas mansas é “herdar a terra”. Interessante: terra. V. 6 – Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos. Aqui também há uma diferença em relação ao Evangelho de Lucas, que enfatiza somente a fome: Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Mateus utiliza a expressão sede de justiça, que parece ser fruto de sua intervenção redacional, já que justiça é um termo-chave para o evangelista (cf. 5.20; 6.1; 6.33; 21.32). V. 7-9 – As três expressões seguintes não possuem paralelo em Lucas: Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus. Bem-aventurados os fazedores da paz, porque eles serão chamados filhos de Deus. O termo misericórdia também aparece nos sinóticos. Mas Mateus o utiliza mais que os outros evangelhos. Coração é o centro da vontade, dos sentimentos e da obediência a Deus, conforme a tradição judaica. Ter um coração limpo é estar inteiramente devoto a Deus. Segue a bem-aventurança aos pacificadores, os fazedores de paz. São pessoas que conseguem atuar em conflitos e levam, com a sua experiência e a sua personalidade, à paz. V. 10-12 – Por fim, os três últimos versos possuem uma estrutura diferente dos versos anteriores. Parece ser uma primeira amarração dentro do sermão do monte: Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguiram e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa. Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós. Segundo essa parte do sermão do monte, servir ao Evangelho de Jesus significa ser perseguido. Pelo menos assim o era no início do cristianismo. De fato, as propostas das bem-aventuranças – e as que se seguirão por todo o sermão do monte – são o avesso aos modelos em vigor do Império Romano e de tantos outros impérios. Hoje, para os nossos dias, as propostas de Jesus ainda são a inversão de toda a lógica socioeconômica: os últimos serão os primeiros.
3 Prédica O texto de Mateus 5.1-12 é bastante denso. Qualquer um poderia escolher apenas uma bem-aventurança e se debruçar sobre ela por alguns minutos para a sua comunidade. Mas, acima de tudo, ninguém poderia deixar de enfatizar a própria expressão bem-aventurados, bem-aventuradas. Os termos da alegria, felicidade e sentido da vida poderiam ser o foco da prédica, na minha opinião. Gosto muito da afirmação de Brakemeier em seu livro Sabedorias da fé: num mundo confuso, quando ele diz que “a alegria é o sentido da vida”. E alegria pode ser a ponte mais simples para a felicidade. Bertolt Brecht fez um pequeno poema chamado “Felicidades”, que inicia assim: “O primeiro
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olhar da janela de manhã. O velho livro perdido e reencontrado [...]”. A alegria precisa ser valorizada para que a vida adquira um sentido imediato e simples. Porém não podemos deixar de acentuar, nesta prédica sobre Mateus 5, a práxis de uma vida com sentido. Como buscar a alegria e a felicidade em um mundo de famintos, de injustiçados, um mundo de violência e sem misericórdia? A realidade precisa dar vez à utopia. Essa estabelece um horizonte e uma esperança a ser construída em vida, na realidade, somada aos muitos momentos de alegria e felicidade. Entretanto, o evangelho promete uma alegria plena e duradoura já desde a superação de elementos do cotidiano de todos nós, elementos esses que tentam nos afastar da realização plena de nossas vidas. Como havia dito anteriormente, uma bem-aventurança já nos ocuparia muito tempo em uma prédica. Um bom foco pode comunicar muito melhor do que dezenas deles. Escolha uma bem-aventurança e seja feliz. Uma boa reflexão e uma boa prédica para você e para a sua comunidade.
Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. Sabedorias da fé: num mundo confuso. São Leopoldo: Sinodal, 2014. BRECHT, Bertolt. Felicidades. Disponível em: <http://themaeducando.com.br/ blog/poema-felicidades-de-bertolt-brecht/>. Acesso em: 03 jun. 2019. GARCIA, Paulo Roberto. As bem-aventuranças em Mateus – Uma proposta de estrutura literária. São Bernardo do Campo: Instituto Metodista de Ensino Superior, 1995. Disponível em: <https://pt.scribd.com/document/404022583/ As-bens-aventurancas-em-Mateus>. Acesso em: 30 maio 2019.
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16 FEV 2020
PRÉDICA: MATEUS 5.21-37 DEUTERONÔMIO 30.15-20 1 CORÍNTIOS 3.1-9
Kurt Rieck
Além do óbvio
1 Introdução Palavras nos movem. O texto de Deuteronômio 30.15-20 exerce enorme impacto sobre o povo de Deus. Um projeto de vida é proposto: obedecer aos mandamentos do Senhor. Por vezes bem e mal vêm entrelaçados. Joio e trigo crescem juntos. Mesmo que queiramos fazer o bem, acabamos fazendo o mal. Essa escolha não é apenas uma escolha religiosa, é uma opção de vida ou morte. Os mandamentos organizam os relacionamentos e propõem a vida. O apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 3.1-9, lida com o antagonismo que existe no ser humano entre o que é carnal e o que é espiritual. É fundamental entender o que determina o agir de uma pessoa. Há uma infantilidade predominante que dificulta as relações comunitárias. Há uma maturidade espiritual esperada que se apropria de padrões divinos. No agir de Deus, o seu reino vai tomando forma e nós tomando parte. E as palavras de Jesus anunciadas no contundente sermão do monte se achegam e nos falam. Quem reuniu toda essa gente para ouvi-lo falar? Seria um acontecimento semelhante a um grande fórum, que trouxe o mais renomado dos palestrantes? O que ele disse ontem? O que ele tem a nos dizer hoje? Há muito a ser dito, a ponto de faltar linhas para analisar tantos detalhes.
2 Exegese O texto em estudo pertence ao primeiro dos cinco discursos de Jesus encontrados no Evangelho de Mateus: o sermão do monte. Dirigimos nosso olhar sobre a homilia acerca das leis de Moisés. Os mestres da Lei e os escribas julgavam que Jesus pregava contra os dez mandamentos. E isso que no versículo 17 ele claramente afirma: Não pensem que eu vim para acabar com a Lei de Moisés ou com os ensinamentos dos Profetas. Não vim para acabar com eles, mas para dar o seu sentido completo. E no versículo 20 encontramos a chave hermenêutica: Se vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus. “Com isso Jesus anuncia que a justiça é pressuposto da vontade salvífica de Deus” (MARKUS, 2013, p. 97). Encontramos uma abordagem comum ao falar dos mandamentos. Ouviste o que foi dito (v. 21, 27, 33, 38 e 43). Poucos sabiam ler. Textos escritos do Antigo Testamento tinham sua reprodução limitada. As pessoas conheciam as Escritu-
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ras Sagradas, pois elas eram lidas nas sinagogas e ensinadas pelos escribas. Na sequência segue a mesma abordagem: Eu porém vos digo (v. 22, 28, 34). Jesus chama para si a responsabilidade pelo que irá ensinar. Ele traz luz sobre temas que são colocados em segundo plano. Essa autoridade soa estranha aos mestres da Lei. Palavras semelhantes encontramos em Marcos 1.22 e Mateus 7.28 e 29. Vejamos no detalhe três ditos de Jesus. Do homicídio (v. 21 a 26): Não matarás (Êx 20.13 e Dt 5.17) Homicídio é o ato (voluntário ou involuntário) de assassinar outro ser humano. Jesus afirma que matar é mais do que tirar a vida física de uma pessoa. Matar é também: a) Irar-se com seu irmão (ficar com raiva, encolerizar-se). A presença da ira indica a falta de amor. Mas quem nunca se irou? b) Insultar o seu irmão (você não vale nada, néscio). A palavra hebraica aqui utilizada é raca. É um som que, dependendo da pronúncia, indica ódio. c) Chamar seu irmão de tolo (idiota) dentro de uma perspectiva moral. Equivale a manchar seu bom nome e reputação. A condenação para tais atos é estar sujeito a julgamento e ser jogado no inferno, local denominado de Geena, um vale ao sul de Jerusalém onde era jogado o lixo da cidade, animais e criminosos mortos, que queimava ininterruptamente. “[...] lugar onde se destruíam mediante o fogo todas as coisas inúteis e falsas. É por isto que se converteu em sinônimo de poder destruidor de Deus, o inferno” (BARCLAY, 1973, p. 152). Assim, o mandamento não se restringe em não matar o seu semelhante, mas impede até de pensar em matar alguém. Impede de cultivar qualquer sentimento agressivo contra outra pessoa. Essa atitude requer maturidade cristã. Jesus faz as pessoas pensarem num ato litúrgico: a oferta no altar de Deus. Esse ato nos remete ao primeiro altar, à primeira oferta e ao primeiro homicídio relatado no livro de Gênesis, capítulo 4. Um ato que tinha a intenção de ser sagrado torna-se motivo de assassinato. Homicídio e oferta a Deus são antagônicos. Também em Gênesis 9, quando Deus faz uma aliança com Noé, centenas de anos antes da história de Moisés, está dito: Se alguém derramar o sangue de uma pessoa, o sangue dele será derramado por outra pessoa; porque Deus fez o ser humano segundo a sua imagem (v. 6 NA). A lei de talião, encontrada nesse versículo, predomina no Antigo Testamento e segue regendo a humanidade. Jesus aponta para outra ordem, a lei do amor incondicional (Mt 5.43 e 19.19). Se toda vida pertence a Deus, a vida humana igualmente lhe pertence. Enquanto se está a caminho, há tempo para fazer acordos. Melhor não precisar buscar um juiz, pois a consequência poderá ser nefasta. Esse último bloco nos aponta para uma falta gravíssima, que com trato adequado, por mais difícil que possa parecer, ainda será melhor do que não desejar resolvê-lo. Pagar da prisão é bem mais complicado. Se ao juiz couber fazer juízo da sua culpa, os danos poderão ser ainda maiores. Melhor é não fugir da responsabilidade, reconhecer a dívida e buscar uma solução com o credor.
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Do adultério (v. 27 a 32): Não adulterarás (Êx 20.14 e Dt 5.18) Adultério é a traição que se efetiva quando alguém tem relações sexuais com outra pessoa com a qual não está casada. É a violação da fidelidade conjugal. Jesus vai além. Não basta não cometer o adultério. É necessário não haver o desejo de adulterar. Os pensamentos são tão importantes quanto os atos. As pessoas serão julgadas pelos seus desejos. “Se houver intenção de cometer adultério, é adultério” (CHAMPLIN, 1982, p. 312). A palavra grega skandalon significa “o que faz tropeçar”. Jesus afirma que é melhor fazer uma intervenção cirúrgica nas partes do corpo que fazem tropeçar do que ser jogado no inferno. Tudo o que faz pecar deve ser eliminado. Se há em nós algum hábito, algum prazer, algum relacionamento que pode nos fazer pecar, esse deve ser extirpado de nossa vida, à semelhança de uma cirurgia. Ao homem se dava facilmente a possibilidade de repudiar sua mulher. Elas eram dependentes financeiramente de seus esposos. O divórcio colocava as mulheres numa situação de extrema dificuldade. A carta de divórcio dizia assim: “Esta é a minha carta de divórcio, carta de despedida e documentação de tua liberdade, para que possas retornar a casar-te com o homem que queiras” (BARCLAY, 1973, p. 163). Mas Jesus reitera que o matrimônio é um vínculo que não deve ser rompido, exceto em caso de adultério, pois esse é quebra de confiança. O contexto cultural em que Jesus vivia era influenciado pela promíscua cultura grega, que, por sua vez, influenciou a cultura romana. A pregação de Jesus foi marcada pelo agape (amor), em que o exercício do amor incondicional é a base dos relacionamentos. Havendo agape no matrimônio, não há adultério e muito menos divórcio. Essa boa nova fez com que muitas mulheres aderissem ao chamado de Jesus. Dos juramentos (v. 33-37): Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão [...] (Êx 20.7 e Dt 5.11 RA); Não façam juramentos falsos pelo meu nome (Lv 19.12 NA) Vemos motivos pelos quais se jurava: céu, terra, Jerusalém e a própria cabeça. Céu está associado à pessoa de Deus que age no transcendente. A terra expressa o poder de Deus revelado na grandiosidade do imanente. Jurar por Jerusalém era uma maneira indireta de jurar pelo nome de Deus. A cabeça lembra o ser humano feito à imagem de Deus. Em todas as variantes é o nome de Deus que está posto como avalista. Nada justifica fazer uso de tais subterfúgios para garantir palavras ditas. As falas, os relacionamentos se tornam autênticos quando a simplicidade do sim e do não é dita com verdade. Jesus constata que as pessoas não cumpriam os juramentos e as promessas que faziam em nome de Deus. Quanta hipocrisia e quanta falsidade as regem! A ordem é clara: não jureis. A ordem recebe uma palavra a mais: não jureis falso. A ordem se consolida: diga simplesmente sim ou não. Basta ser verdadeiro e dizer sim ou não.
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3 Meditação Jesus lembra aos judeus aquilo que eles já sabiam. Nós igualmente somos lembrados daquilo que também sabemos. Os mandamentos, em sua essência, são claros e objetivos, mas no decorrer da história foram reinterpretados e, em muitas situações, desvirtuados do seu significado original. Palavras resgatam parâmetros para uma vida favorável. Vale lembrar o que o Catecismo Maior e o Catecismo Menor refletem sobre esses temas. Do homicídio Transitando pelas histórias do Antigo Testamento, encontramos muitos relatos de homicídios, a exemplo de Samuel, Saul e Davi. Como explicar as carnificinas realizadas em nome de Deus? Desse mandamento decorrem reflexões de temas como guerra justa e pena de morte. O ser pecaminoso esquece essa lei que protege a vida. Os homicídios são assim classificados: a) culposo – realizado sem a intenção de matar; b) doloso – aquele em que existe a intenção de matar; c) qualificado – em que há agravantes como: crueldade, premeditação, planejamento; d) privilegiado – cujas circunstâncias são atenuantes, sendo caracterizado, por isso, como menos grave. Dados atuais de índice de homicídio podem colaborar na ilustração da homilia. A interpretação dada por Jesus nos leva ao que antecede o homicídio, mas que igualmente tem a força de matar uma pessoa: a) Irar-se com seu irmão ou irmã (ficar com raiva). Pode haver a “ira justa”? Lutero a chama de “ira do amor, aquela que não deseja mal algum a ninguém, aquela que é simpática para com a pessoa, mas hostil para com o pecado” (LUTERO, 1982, p. 78). b) Insultar o seu irmão ou irmã (você não vale nada). Bullying é o termo pós-moderno que expressa essa preocupação de Jesus. São palavras e atitudes contra outra pessoa que a destrói, mata, intimida, agride, agindo numa relação desigual de forças. c) Chamar seu irmão ou sua irmã de tolo (idiota). Trata-se de atitudes que expressam desprezo para com seu semelhante. Nossos relacionamentos são repletos de exemplos em que palavras provocam mortes. É fácil presenciar situações nas comunidades, nos grupos, nas diretorias, entre ministros e ministras, entre lideranças leigas e clérigos em que acontecem disputas e tensões que acabam em insultos. Tudo tão humano e devastador, regido pela lei do talião. Muita dor e muito sofrimento existem quando não temos a humildade de tratar pessoalmente as tensões, ou quando nos tornamos prepotentes. Entre nós não pode ser assim. No ambiente sagrado da entrega de uma oferta, o que fazer quando a consciência faz lembrar uma desavença, ou uma atitude incorreta? Não é você que tem algo contra alguém. É alguém que tem algo contra você (v. 23). O olhar está para o outro. Deixa-se o rito sagrado de lado, pois o mais sagrado nesse momen-
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to é ir ao encontro daquela pessoa que tem uma queixa contra você. Isto se faz necessário: dar a meia volta, buscar humildemente o caminho do encontro, da reconciliação. Depois, com júbilo, mesmo chorando, retoma-se o caminho do altar para fazer a oferta que brota do coração agradecido. Do adultério A sexualidade humana está em pauta. Numa sociedade marcada pela falta de solidez, de princípios e regras, as pessoas se jogam ao prazer sexual, sem pesar as consequências de seus atos. Os meios de comunicação, que ditam a cultura, fazem um coro em favor do adultério. Como se posicionar frente a esta realidade? No tempo de Jesus, os princípios culturais apregoados pelos gregos e romanos eram semelhantes ao liberalismo de hoje. Jesus reitera que a relação sexual é presente do criador para ser usufruído no casamento. Princípios fundamentam relacionamentos no reencontro de caminhos de paz e ordem. A palavra “castidade” se faz implícita. Vem da palavra “casto”, proveniente do termo castus (latim), que significa “puro”. Essa prática, fora de moda, tem a força de se tornar a chave de uma contracultura. Como ilustração segue o link de uma reportagem referente a esse assunto: <https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2012/05/ jovens-da-igreja-catolica-optam-pela-castidade-ate-o-casamento-3749564.html>. O exercício da castidade antes do matrimônio é uma virtude, não impositiva, que qualificará a pureza do relacionamento durante o matrimônio. Casamento marcado pela agape estará construído em solo firme. O casamento é uma aliança de amor recíproco e de confiança mútua, um pacto, uma decisão de amor. Somente a falta de amor é que poderá separar um casal. Dos juramentos Os mestres judeus afirmavam: “O mundo firmemente se apoia sobre três pilares: a justiça, a verdade e a paz”. “Há quatro tipos de pessoas que estão excluídas da presença de Deus: o burlador, o hipócrita, o mentiroso e aquele que faz circular calúnias ” (BARCLAY, 1973, p. 169). Surge, em 2016, um slogan: Não é não. Trata-se de uma campanha publicitária desenvolvida por mulheres, no período de carnaval, para evitar o assédio masculino. As pessoas se passam com as outras. Um “não” não é suficiente. E se pensarmos nas promessas feitas! Lembro as palestras pré-batismais. Expõem-se o significado do sacramento, sua relevância, o impacto para a vida familiar. Tudo compreendido. Tudo aceito. Na prática, para muitos, o sim se torna não. No ensino confirmatório, o mesmo quadro se repete. E quando da bênção matrimonial? São tantos sim ditos no altar e tantos não postos em prática! Vamos nos ver livres dos falsos juramentos!
4 Imagens para a prédica Do homicídio “Guerras surgem no espírito do homem. Assim, no espírito do homem, as obras para a defesa da paz devem ser erguidas” (PEISKER, 1975, p. 24).
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Do adultério Numa viajem, sentou-se ao meu lado uma jovem grávida, que se despedia, pela janela do ônibus, de um homem e de uma criança. O ônibus pôs-se a rodar. Assim que ela soube que eu era pastor, contou sua história. Lá fora estava seu noivo e seu filho. Estava indo para a casa dos pais, pois havia descoberto que seu noivo, com o qual mora há três anos, tinha um relacionamento com outra mulher casada. Infidelidade! Afirmava ela: Como posso acreditar nas suas declarações de amor? O noivo vinha de uma família desestruturada. Deixou-se levar pela paixão, sem conhecê-lo suficientemente. Estava indo para a casa dos pais buscar conselhos. Identificou-se como luterana. Lembrou o culto infantil, o ensino confirmatório, o grupo de jovens. Contou o quanto sentia falta da igreja. Precisava retomar aquele laço. Assim se dão inúmeras histórias nesta sociedade líquida. Dos juramentos “A justiça dos fariseus consiste em não jurar falso. O Senhor confirma essa justiça proibindo, além disso, fazer qualquer juramento que seja, o que é próprio do Reino dos Céus. Assim como é impossível ser dita qualquer mentira por quem permanece calado, também será impossível ser feito um juramento falso, quando não é feito juramento algum” (AGOSTINHO, 2017, p. 73).
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados Acreditamos que sempre temos a razão. Senhor, como é fácil julgar os outros e ver neles o quão culpados são. Cristo, obrigado por receberes com uma palavra de perdão aqueles a quem o mundo despreza, mas que, no entanto, reconhecem a sua culpa. Cristo, também exortaste com severidade àqueles satisfeitos em si mesmos e que reprimem qualquer sentimento de culpa Tem piedade, de nós Senhor! Proclamação da graça de Deus Arrepender-se é reconhecer a culpa. É o senso de culpa que nos leva a Deus, que, por sua vez, nos revela o seu amor e o seu perdão. Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. Oração do dia Amado Deus, quero te dizer o quanto sou grato pelas tantas vezes que me tens carregado, que me tens animado, que me tens estendido a mão, justamente quando não sabia como continuar! Grato também que, diante de todas as minhas lamúrias e minhas queixas, dizes pacientemente: Eu te ouço! Sim, Deus, tu ouves a oração de todos nós. Ouves a nossa oração de gratidão. Ouves a nossa oração de intercessão. Ouves as nossas súplicas. Nesta manhã também estamos aqui para ouvir a tua palavra. Fala conosco, Senhor. Amém! (Adaptado das Senhas Diárias de 10.07.14, Gisela Kandler).
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Bênção Que o Senhor te acompanhe ao partires deste lugar. Que vá à tua frente para iluminar o teu caminho. Que caminhe ao teu lado para ser sempre teu amigo. Que vá atrás de ti para te proteger de qualquer dano. Que seus braços carinhosos estejam sobre ti para te sustentar quando o caminho for duro e estiveres muito cansado. E, sobretudo, que viva em teu coração para te dar sua alegria e sua paz para sempre, no caminho da unidade. Amém!
Bibliografia AGOSTINHO, Santo. O Sermão da Montanha e Escritos sobre a Fé. São Paulo: Paulus, 2017. (Coleção Patrística, v. 36). BARCLAY, William. El Nuevo Testamento, Mateo I. Buenos Aires: La Aurora, 1973. v. 13 CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Guaratinguetá,SP: A Sociedade Religiosa A Voz Bíblica, 1982. v. 1. LUTERO, M. O Sermão do Monte [1521]. In: STOTT, John. Contracultura cristã. ABU, 1982. p. 78 MARKUS, Cledes. Mateus 5.21-37. 6º Domingo após Epifania. In: HOEFELMANN, Verner (Coord.). Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2013. v. 38, p. 97 PEISKER, Carl Heinz (Hrsg.). Texte zur Predigt. Wuppertal: Brockhaus, 1975. v. 2, p. 24. RIENECKER, Fritz. Das Evangelium des Matthäus. Darmstadt: Brockhaus Verlag Wuppertal, 1981.
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PRÉDICA: 2 PEDRO 1.16-21 ÊXODO 24.12-18 MATEUS 17.1-9
ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA
23 FEV 2020
Marcos A. Rodrigues
Ver com outros olhos
1 Introdução O Último Domingo após Epifania convida-nos a contemplar a glória de Deus revelada em Jesus. Sons e luzes mais fortes do que nossos ouvidos e olhos podem suportar, acontecimentos que fogem da normalidade, são sempre hiperlativos e metáforas para a voz de Deus a nos orientar (Êx 24.12-18). Epifanias abrem as portas do coração humano para acolher sonhos, futuros e esperanças que revelam o coração de Deus. É o amor que sai do coração de Deus e se instala no coração humano, tornando a humanidade mais capaz de ver e compreender aquilo que antes estava oculto. Moisés, Elias, Josué, Jesus, Pedro, Tiago, João e outros homens e mulheres que testemunharam a força do amor serão nossos guias. Suas experiências com Deus são luzes que podem iluminar de maneira nova nossas velhas, escuras e obscuras perspectivas e expectativas sobre Deus e seu amor (2Pe 1.16-21). Seus testemunhos, que perpassam os textos deste domingo, são a estrela da manhã, anunciando que as noites escuras da alma estão terminando e que o novo dia já vai raiar. Epifania é também peregrinação! É caminhada solidária de Deus conosco! Ela nos convida a escalar montes para chegar a alturas mais próximas de Deus. Ela nos convida a descer aos vales escuros para poder adentrar na profundidade da alma humana (Mt 17.1-9). Uma jornada digna de místicos, pais e doutores da igreja. Não se trata apenas de entender o mistério do amor! Trata-se, com urgência, de viver e ser radicalmente o amor que anunciamos.
2 Exegese Não há dúvidas de que a Segunda Carta de Pedro é o escrito mais recente do Novo Testamento. Portanto o testemunho mais distante de Jesus e seus acontecimentos que temos no cânone. Sua inclusão no cânone deu-se apenas no final do século IV, nos Concílios de Hipona e Cartago. E isso talvez seja tudo o que possamos afirmar com propriedade a respeito dessa carta. Pairam dúvidas sobre sua origem, autoria e época. Além disto, ela é acusada de falta de profundidade teológica e de pobreza cristológica. Quanto a essas dúvidas, a maioria dos comentaristas afirma que o estilo sofisticado do grego utilizado difere muito do estilo usado na Primeira Carta de
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Pedro, apontando com mais intensidade para a Carta de Judas. Pesa ainda a quase total ausência de referências ao Antigo Testamento, algo abundante na Primeira Carta de Pedro. Por fim, temos o argumento de que a pesquisa científica indica que os problemas levantados na Segunda Carta de Pedro foram sentidos e vividos pela igreja somente a partir do século II. Sem muita precisão cronológica, podemos, então, situá-la nas primeiras décadas do segundo século. Um tempo muito longo! Ele não nos confere precisão cronológica, mas nos indica profusão. As ideias aqui abordadas estiveram presentes na vida das comunidades cristãs por um logo tempo. Isso, por si só, é um indício da importância dos pensamentos lavrados nessa carta para os primeiros séculos do cristianismo. Especialistas não conseguiram muito mais do que situá-la entre Roma e toda a Ásia Menor. Isso é quase todo o mundo conhecido de então. Embora isso dificulte a localização de sua origem, sugere que cópias dessa carta teriam circulado pelas comunidades desde Roma até a Ásia Menor, o que, sem dúvidas, ajudou no fortalecimento da identidade cristã. Some-se a esses elementos o fato de a carta não ser endereçada a nenhuma comunidade específica. Quanto à sua autoria, a hipótese mais plausível é a de que seu autor seja um pastor de comunidade, que ao final de seu ministério encontra-se preocupado com a influência de grupos gnósticos (falsos mestres). Eles colocavam em dúvida a divindade de Jesus, questionando se ele seria realmente filho de Deus. A divindade e a humanidade de Cristo estavam em jogo. Como era comum naquela época, seu autor usou o nome do apóstolo Pedro para dar credibilidade e legitimidade a seus postulados sobre a fé cristã. Pela fé, colocou-se como testemunha ocular dos acontecimentos que, em sua opinião, comprovam que Jesus é o filho de Deus. Enxergou com os olhos da fé aquilo que seus olhos não puderam contemplar pessoalmente. Viu a verdade de Deus naquilo que outros olhos viram. Nos primeiros séculos, não havia uma única interpretação possível a respeito de Jesus. O fato de possuirmos quatro evangelhos guardados no cânone, e não apenas um, comprova essa diversidade inicial do cristianismo. Durante quase quatro séculos, o cristianismo foi plural. Só a partir daí a ortodoxia se estabeleceu como um pensamento majoritário a respeito dos fundamentos da fé cristã. Não tanto pelo seu conteúdo, mas por oferecer a fé herdada pelos ensinamentos dos apóstolos como critério, a Segunda Carta de Pedro contribuiu com propriedade para o estabelecimento dos valores e ideias que mais tarde foram considerados apropriados para a fé cristã. Nossa carta explicita o combate aberto contra as outras possibilidades de compreensão de Deus, Jesus e do ser humano, que vinham da religiosidade do mundo romano. Trata-se de uma mensagem escrita numa época em que a fé em Jesus precisava ser validada diante de outros pensamentos e ideias a respeito de Deus. O contato diário com as religiões de mistério e seus cultos, bem como com as influências do pensamento gnóstico obrigou os cristãos a formularem seu próprio conjunto de significantes, pensamentos e valores a respeito de Jesus. Não foi apenas um tempo de profundos questionamentos. Foi acima de tudo um tempo de profundas afirmações baseadas na fé naquilo que os olhos de seguidores de Jesus,
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que precederam o autor, viram e na experiência pessoal das comunidades com o Cristo Ressuscitado. No centro desse debate estava a discussão sobre a verdadeira essência de Deus, de Jesus e do ser humano. Nossa carta nos vincula diretamente com as questões que construíram e ajudaram a definir a identidade teológica cristã. Foi do embate entre as muitas e diferentes interpretações de Jesus e seus ensinamentos que se constituiu a identidade daquilo que hoje conhecemos como cristianismo. Por trás das palavras de nossa carta está a experiência de fé de muitos e diferentes tipos de cristianismo que buscaram interpretar sua experiência com o legado de Jesus. Nossa perícope, 2 Pedro 1.16-21, discute a autoridade dos ensinamentos recebidos a respeito de Jesus. Esses ensinamentos afirmam que Jesus é o filho de Deus. Como prova disso, o autor assegura que os acontecimentos ocorridos no alto do monte (transfiguração) e voz de Deus a afirmar que Jesus é seu filho amado são provas irrefutáveis da sua divindade. Essa é a verdade a respeito de Jesus. Ele é o Filho de Deus! Embora, como a pesquisa indicou, o autor pudesse estar cronologicamente e, bem provável, geograficamente distante do ocorrido, ele considera que os ensinamentos que recebeu vieram por meio do próprio Jesus Cristo. Pelo poder de Deus (1.3) os olhos de Pedro são agora os olhos do autor. Pelo poder de Deus o monte sagrado está onde as pessoas ouvirem a voz dos ensinamentos dos apóstolos e crerem que ela revela a verdade a respeito de Jesus.
3 Meditação Epifania é um convite para orientar nossa fé a partir dos olhares que nos precederam e testemunharam a revelação de Deus em Jesus. Epifania é um convite para reorientar o que aprendemos das interpretações dos que nos precederam a partir de nossas experiências e testemunhos acerca do significado de Jesus para a realidade de nossos dias. Permitir que o passado nos ilumine como a estrela da manhã indica um novo dia pronto para raiar. Permitir que o presente ilumine o passado como o dia revela o que a noite escondeu. Dialética? Não só! Amor, compaixão, solidariedade, perdão? Com toda certeza! Essas são as luzes que iluminam e revelam o rosto de Deus em tempos passados e presentes. Um olhar panorâmico sobre os textos escolhidos para este domingo nos indica uma convergência significativa em direção à identidade e ao significado da existência de Jesus de Nazaré e o Cristo da fé para a vida e o pensamento cristão de todos os tempos. Em cima dos montes, em meio a luzes e trovões, Deus e Jesus se revelam. Por um lado, os discípulos viram no rosto de Jesus os rostos dos pais de sua fé. Por outro, as primeiras comunidades buscaram na experiência dos discípulos e apóstolos razão e sentido para sua fé em Jesus. Simplificando, a pergunta central é: quem é Jesus para os cristãos ao longo da história? No entanto, não está em jogo apenas a resposta frente ao questionamento. Ela pode e precisa ser plural. Para muito além das respostas, está em jogo a motivação usada na escolha de fundamentos que constituem cada resposta. Tempo de
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epifania não é apenas o tempo da revelação. É também o tempo de permitir que outros olhares nos revelem e ajudem a encontrar outros rostos de Deus, revelados em Jesus, os quais nós não temos observado por causa de nossas limitações, incapacidades e indiferenças. É tempo de acolher aquilo que foi revelado a outras pessoas em outros tempos e lugares. É tempo de permitir que essa revelação faça sentido em nossas vidas. O autor de nosso texto propõe que por trás de nosso olhar esteja sempre o olhar daqueles que viram e sentiram Jesus como Filho de Deus. Da experiência dos apóstolos aprendemos que Jesus é o filho amado de Deus. Essa revelação foi diversa. Os rostos de Elias, Moisés e Jesus se mesclaram. A voz de Deus, ouvida em meio aos trovões, confirmou essa mistura reveladora. Essa é a primeira imagem. A segunda imagem deve ter as cores de nossa realidade e experiências de fé. Ela precisa perguntar sobre a relevância e a importância desse Jesus para nossa vida, para nosso tempo, para nosso mundo, para nossas necessidades. Nosso tempo, sociedade, cultura (e nós mesmos) ainda sentem a necessidade de um filho de Deus que se revele? Ou já somos nosso próprio Deus, autorrevelado no espelho de nosso narcisismo? O autor do texto da Segunda Carta de Pedro, que preferiu esquecer seu próprio nome, nos aponta algo essencial para os dias atuais: a capacidade de ver com os olhos do outro. Ver com os olhos daquele que não pensa, não age, não responde ou vive como eu. Tornar sua a visão do outro. Incorporá-la ao seu jeito de crer, viver e ser. Não ter mais um nome próprio, chamar-se e reconhecer-se de outras formas. Reinventar-se! Neste sentido, epifania não revela apenas o rosto de Deus. Ela revela também o rosto de quem procura o olhar de Deus no espelho de sua Palavra.
4 Imagens para a prédica Nossos textos são cheios de recursos! Sons, imagens, lugares, montes, pessoas, luzes, trovões, voz dos céus, estrelas da manhã, noites que findam, dias que chegam podem nos oferecer caminhos dinâmicos para a pregação neste domingo de Epifania. Sugiro explorar essas possibilidades com carinho e ousadia. Convidar a comunidade a relembrar os lugares e montes sagrados da Bíblia. Lembrar que Deus gosta de se revelar de forma e em lugares especiais. Lembrar a sarça ardente, o monte Sinai, o deserto e outros lugares onde Deus se revelou ao seu povo. O texto da pregação nos convida, pela fé, a enxergar aquilo que nossos olhos não puderam e não podem ver. Confiar nas testemunhas que nos contaram por meio da Bíblia que Jesus é o filho amado de Deus. Lembrar que os discípulos foram testemunhas de algo fora do comum. Algo que revelou o amor de Deus por seu filho Jesus e o estendeu a toda a humanidade. Afirmar que agora, Deus escolheu este lugar, este templo, esta igreja, esta comunidade para se revelar a nós. Aquela velha imagem do avestruz que enterra sua cabeça para não ver o perigo e assim acredita estar salvo pode nos desafiar a falar da maneira como cremos ou descremos das coisas, inclusive daquilo que nos foi revelado na Bíblia. Também podemos utilizar aquelas imagens que, dependendo do ponto de vista,
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podem nos fazer ver coisas diferentes, todas nítidas e reais, mas que, a princípio, não conseguimos discernir.
5 Subsídios litúrgicos Penso que nossos textos nos remetem à nossa confissão de pecados. Ela pode partir daquilo que preferimos não ver, omitir, esquecer. Podemos nos perguntar se somos como Tomé, que precisa ver e tocar para crer. Ou se somos capazes de acreditar naquilo que nossos sentidos não captam. Aquilo que aprendemos de nossos pais, padrinhos e da vida em comunidade ainda é norteador de nossas decisões e prioridades? Com que olhar olhamos a realidade que nos cerca? Contudo, nossos textos nos levam também para a confissão de fé. Ela pode ser uma resposta amorosa ao que nos foi revelado por Deus: Jesus é o seu filho amado, que deu sua vida em resgate por nós. Somos livres para o amor. Não somos mais escravos do pecado. Nossa confissão de fé pode partir das imagens que temos de Jesus. Aquilo que nossos olhos já conseguem vislumbrar. O anúncio da graça pode ser um convite para enxergarmos a nós mesmos com os olhos de Deus. Somos amados e amadas por ele. Ser visto, notado com amor é libertador e capaz de transformar nossa visão de nós mesmos. Deus vê nossa aflição, a dor da viúva, o sofrimento do seu povo, vem ao nosso encontro para nos libertar da morte e do pecado.
Bibliografia VOIGT, Gottfried. Die lebendigen Steine. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1973. p. 118-125. (Homiletische Auslegung der Predigttexte, Reihe VI). CROSSAN, J. D. O Nascimento do Cristianismo: O que aconteceu nos anos que se seguiram à execução de Jesus. São Paulo: Paulinas, 2004.
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QUARTA-FEIRA DE CINZAS
PRÉDICA: MATEUS 6.1-6,16-21
26 FEV 2020
JOEL 2.1-2,12-17 2 CORÍNTIOS 5.20b – 6.10
Léo Zeno Konzen
Justos como Deus é justo
1 Introdução Iniciamos hoje o sagrado tempo da Quaresma. Ele nos convida a uma espécie de retiro de 40 dias, preparando-nos para a Páscoa. É um tempo de transformação de cada pessoa, de toda a igreja de Cristo e do mundo inteiro. Quaresma, a cada ano, é um tempo de avaliação. Somos desafiados a nos defrontar conosco mesmos, com Deus e seu projeto de vida para o mundo, com a caminhada de Jesus para a Páscoa. Como seguidoras e seguidores de Jesus Cristo, queremos viver um tempo de avaliação e de mudanças, mudanças que nos tornem melhores e mais humanos, mais semelhantes a Deus, nosso Pai. As leituras bíblicas deste dia trazem um forte apelo: o profeta Joel faz um chamamento geral para a conversão, pois constata que sua época havia se afastado muito dos caminhos da vida. Paulo, na Segunda Carta aos Coríntios, convida a não deixar passar em branco esse tempo de graça. E o evangelho nos indica práticas importantes para auxiliar-nos na caminhada de graça que é o tempo da Quaresma. Fala do jejum, da esmola e da oração. Essas práticas, quando vividas com espírito de busca de crescimento, podem ser de enorme valor. Não podem, porém, ser feitas com espírito de autopromoção. Somos convidados, portanto, a entrar com amor nesse tempo santo. Que possamos vivê-lo, não como um tempo de tristeza e “cara fechada”, mas de confiança e de esperança. Nós somos capazes de ser muito mais do que já somos. Mas a construção desse mais é um grande desafio. Por isso a Quaresma nos chama para uma atitude de coragem e conversão.
2 Exegese O Evangelho de Mateus caracteriza-se pela insistência no tema do reino de Deus (ou reino dos céus) e da nova justiça desse reino, anunciada e vivida por Jesus. O tema ocupa, de fato, todo o evangelho, direta ou indiretamente. No primeiro dos hipotéticos cinco “livrinhos” que o constituem, pode-se identificar o anúncio da justiça do reino de Deus (3 – 7); nos demais, o tema se desdobra em diversas dimensões desse reino. O texto que nos ocupa encontra-se na parte do primeiro discurso de Jesus, conhecido como sermão do monte (5 – 7). Esse, por sua vez, é introduzido por um
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pequeno conjunto de ações de Jesus (3 – 4), que abrem o primeiro bloco ou “livrinho”, de maneira a introduzir as palavras do mestre que ocupam os capítulos 5 – 7. No início da fala de Jesus estão as conhecidas bem-aventuranças e o contraste da vivência dessa nova justiça com a antiga, que, segundo o texto, é vivida e defendida pelos escribas e fariseus. Fica claro que a justiça das bem-aventuranças é bem superior, mas também constitui um desafio muito mais radical. O capítulo 6 ocupa-se, inicialmente, com práticas de justiça tradicionais no povo de Deus: a esmola, a oração e o jejum. Essas práticas, tão caras aos conterrâneos de Jesus, em especial aos fariseus, não são por ele desprezadas, mas colocadas na lógica da justiça do reino de Deus vivida e anunciada por Jesus. O conjunto dessas práticas é introduzido por uma advertência que, depois, é retomada em cada uma delas: os discípulos devem estar atentos para não praticarem essas obras para serem vistos e admirados pelas pessoas, pois, do contrário, não terão a recompensa do Pai que está nos céus. Em seguida, as palavras de Jesus abordam, uma a uma, essas práticas, mostrando de que maneira elas devem ser feitas para que cultivem efetivamente a nova justiça. Na abordagem das três práticas, há um esquema comum: a) uma advertência negativa (não façais como...) e a identificação de uma falsa intenção (para ser visto e elogiado); b) um julgamento ou condenação (já receberam a recompensa); c) uma instrução ou orientação positiva de como realizar essas práticas para que contribuam para a vivência da nova justiça. Ao falar da oração, o evangelista se alonga e insere o Pai-Nosso e a necessidade do perdão na vivência comunitária – parte que não integra o texto proclamado no culto da Quarta-Feira de Cinzas. É preciso ter em mente que o conceito bíblico de justiça é complexo. Ele inclui, mas ultrapassa as relações entre as pessoas e a distribuição das coisas e oportunidades na sociedade. É também de um conceito religioso, próximo à piedade e religiosidade. Portanto inclui uma relação com Deus. Com isso torna-se possível falar de justiça ao falar de atos de piedade ou religiosidade, como o jejum, a esmola e a oração. No texto que aqui analisamos, o foco está mais nesse sentido teológico das práticas, mas Mateus insiste, ao longo de seu evangelho, que a relação com Deus (justiça) passa pelas ações práticas, como muito bem lembra a famosa parábola do juízo final em Mateus 25.31-46. E quando se trata de ações como jejum, oração e esmola, o coração delas deve ser o cultivo da filial relação com Deus, não a autopromoção (nas palavras do evangelho: para ser visto pelos homens). Com efeito, a corrupção de ações que expressam nossa relação com Deus é muito grave, pois é usar, de alguma forma, o nome de Deus em vão, ou seja, para enganar as pessoas e a si mesmo. Na abordagem das três práticas de justiça/piedade, Jesus chama também a atenção para a recompensa a ser recebida pelo Pai, quando elas forem feitas com autenticidade. Não se define essa recompensa. Na verdade, nem se deve esperar recompensa, pois não se trata de uma negociação com Deus ou de uma relação de dar e receber. O que decorre dessas práticas feitas com objetivo adequado é justamente o aprofundamento da relação com Deus e uma identificação maior com ele. Não é por nada que o sermão do monte desafia, no seu final, a sermos perfeitos como o
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Pai é perfeito. Jejum, esmola e oração podem (e devem) nos aproximar de Deus e de seu modo de ser. Se não for isso, não valem a pena; aliás, prejudicam! Outro aspecto que chama atenção é o caráter oculto das práticas de justiça em questão. Isso não quer dizer que as boas ações que praticamos não possam ser vistas pelos outros, caso contrário não poderíamos ser luz do mundo e sal da terra, como propõe o mesmo discurso de Jesus logo após as bem-aventuranças. A questão é, obviamente, uma recuperação do coração dessas práticas, feitas não para somar méritos, mas para cultivar nossa relação filial e de amizade com Deus. A referência negativa aponta sempre aos hipócritas que, segundo o texto, praticam a justiça com espírito de autopromoção. E o método para consegui-la é apresentado em forma de caricatura: tocar trombeta... rezar de pé nas sinagogas e nas ruas... desfigurar o rosto e mostrar-se tristes... Obviamente não se trata de uma descrição objetiva, mas de imagens alegóricas para revelar o que não aparece à primeira vista. A palavra hipócrita expressa justamente um rosto falso, como o de um ator que usa uma máscara para representar um papel diferente da própria identidade. A identificação desses hipócritas é indicada mais indireta do que diretamente, mas é bastante evidente pelo conjunto do texto do sermão: trata-se das lideranças das sinagogas. Portanto há um tom de polêmica no texto. Os discípulos e as discípulas de Jesus são e devem ser muito superiores a esses falsos justos.
3 Meditação Você é daquelas pessoas que foram educadas para serem justas? Acredita no valor de a gente ser justo, apesar das injustiças que nos rodeiam? Pensa que ser justo é o que Deus pede dos seres humanos? Acredita que é possível ser semelhante a Deus, que é justo por sua própria natureza? Se suas respostas a essas perguntas forem sim, então é também para você que foi escrito o Evangelho de Mateus. Mateus percebeu que muitas pessoas do seu povo queriam ser justas e por isso seguiam orientações de vida muito exigentes. Jejuavam, davam esmolas, rezavam, pagavam suas contribuições ao templo, respeitavam rigorosamente a lei do sábado, não se misturavam com gente de má fama etc. Pensavam que, dessa forma, eles se tornariam justas e que todos deveriam ser assim. Somente então Deus voltaria a ajudar o povo. Mateus percebeu que esse jeito de buscar a justiça não era suficiente. Observou bem o comportamento de Jesus e se entusiasmou com seu jeito de ser justo. Era uma nova justiça acontecendo na prática. No centro dessa nova justiça não estavam os merecimentos que alguém pudesse obter pelo perfeito cumprimento daquelas leis exigentes, mas o compromisso com a saúde, a libertação e a promoção da vida dos seres humanos, especialmente dos pobres e excluídos. Sim, Jesus foi justo de outra maneira: comprometendo-se com a vida dos irmãos, curando suas enfermidades, desamarrando suas mãos e seus pés, soltando-lhes a língua, chamando os sem-valor e os discriminados para contribuírem na construção de um mundo de vida para todos. Mas o evangelista também percebeu que esse novo jeito de ser justo tinha uma raiz profunda: ser como Deus! Jesus era justo dessa forma porque ele era
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Deus conosco, Emanuel. Ele ensinava que nossa relação com Deus, o Pai, nos torna semelhantes a ele e nos possibilita agir como filhos dele. Ele desafiava os discípulos e discípulas a serem perfeitos como o próprio Pai. Já não era necessário conquistar Deus com boas ações ou atos religiosos. O que importava era cultivar uma autêntica relação com o Pai, que está nos céus, e traduzir essa nova identidade em ações de acolhida e fraternidade que expressassem o jeito de ser de Deus. A muitos Jesus entusiasmou com essa nova justiça do reino de Deus. A outros, porém, escandalizou. Mesmo para aqueles que se entusiasmaram com ele, não foi fácil mudar a cabeça e o coração, pois o velho esquema tinha criado raízes profundas. Por isso Mateus se esforçou para organizar seu evangelho tendo o cuidado de destacar sempre isto: Jesus, com sua prática amorosa para com os excluídos, revela uma nova justiça, a justiça do reino de Deus. Teve um trabalho enorme para justificar isso, pois muitos pensavam que essa prática de Jesus não estava de acordo com o que estava escrito na Bíblia. Mateus, então, não se cansa de mostrar que Jesus cumpre, sim, o que está escrito na Bíblia. Cumpre e até melhora isso tudo. Ele é o próprio Deus presente no meio de nós, em hebraico Emanuel. Era preciso, portanto, que as pessoas da comunidade de Mateus aprendessem de novo a ser justas. Justas elas sempre queriam ser. Mas agora tinham de aprender uma nova justiça. E tinham de cuidar para não praticar atos de piedade para merecer uma recompensa da parte de Deus, muito menos para promover a si mesmas diante dos outros. Práticas como jejuar, orar e dar esmola não podiam ser praticadas com a lógica de convencer Deus a retribuir com vantagens ou graças a quem as praticasse, ou com intenção de impressionar outras pessoas e conquistar a admiração das mesmas. Por si mesmas, essas práticas não faziam sentido. E, quando praticadas com o objetivo da autopromoção, expressavam a corrupção de coisas sagradas. Mereciam censura. Em vez de melhorar, pioravam as pessoas que as praticavam. Há uma conexão entre jejum, oração e esmola. Abster-se de bens – alimentos, bens de consumo etc. – tem sentido especial quando isso é feito para partilhar com outros mais necessitados (esmola). Jejum e partilha são irmãos! E a oração, feita no espírito apontado pelo evangelho, faz-nos desejar e praticar o bem dos irmãos e irmãs, torna-nos semelhantes a Deus, que é Pai e quer o bem de seus filhos e filhas. Jejum, esmola (partilha) e oração são práticas de uma mesma família! O início da Quaresma quer garantir, portanto, que nossos atos religiosos – cultos, ações caritativas, estudos, jejuns etc. – cultivem uma saudável e profunda relação com Deus e seu projeto de vida. Sem isso, até o bem que fazemos aos outros – tão recomendado pelo evangelho – corre o risco de nos afastar de Deus e da justiça do seu reino.
4 Imagens para a prédica “Eu quero ser como meu pai... como minha mãe... como o senhor, a senhora, como você” – dizem muitas crianças, adolescentes e até adultos. Essa expressão pode ser útil para falar da recompensa de praticarmos nossos atos de piedade sem
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interesse de autopromoção, mas para nos tornarmos semelhantes a Deus. “Quero tornar-me semelhante a Deus”, embora isso possa parecer um ideal inatingível. Outros dizem: o que vou ganhar com isso? Trata-se de uma expressão que traduz bem a mentalidade pragmática e utilitarista da cultura na qual vivemos. Esperam-se vantagens imediatas e pessoais para qualquer de nossas ações, até mesmo das práticas religiosas. No entanto, o lucro ou ganho das mesmas, quando feitas com espírito evangélico, é tornar-nos semelhantes a Deus e a seu filho Jesus. Capacitam-nos para “amar como Jesus amou, sonhar como Jesus sonhou, pensar como Jesus pensou, viver como Jesus viveu, sentir o que Jesus sentia, sorrir como Jesus sorria [...]”. E, assim, aproximam-nos do jeito de ser do próprio Deus. Quaresma é um tempo em que juntos assumimos práticas de conversão, atendendo ao chamamento do profeta Joel, mas é necessário cuidar para que as manifestações desse tempo especial não sigam a lógica da propaganda que fazemos de nós mesmos ou da promoção das aparências, mas do crescimento da nossa verdadeira identidade de filhos e filhas de Deus que se inspiram sempre nele. Essa identidade se traduz em ações que, obviamente, podem e devem ser vistas e até admiradas pelos demais. Afinal, somos chamados a ser luz do mundo.
5 Subsídios litúrgicos Podem-se fazer, neste dia, em momento oportuno, algumas preces, com resposta de toda a comunidade, como segue: Oração Confiando na misericórdia divina, elevemos a Deus Pai as nossas preces e súplicas... – Ó Deus, nosso Pai, concede a necessária sabedoria aos pastores da igreja na missão de orientar os fiéis na vivência da Quaresma. Nós te pedimos dizendo: Converte-nos, Senhor. T.: Converte-nos, Senhor. – Firma os governantes no serviço da justiça e da solidariedade para o povo brasileiro. Nós te pedimos, Senhor... – Ilumina teu povo, para que cultive na Quaresma uma verdadeira relação filial com Deus, por meio do jejum, das ações de solidariedade e da oração. Nós te pedimos, Senhor... – Livra-nos, Senhor, de praticar os atos de piedade para promover a nós mesmos. Nós te pedimos, Senhor... – Transforma nossas relações com os irmãos e irmãs de tal modo que nos tornemos semelhantes a ti, nosso Pai. Nós te pedimos, Senhor... (Outros pedidos...) (Conclusão da oração:) Ouve com bondade, ó Pai, esses pedidos confiantes de teus filhos e tuas filhas, por Cristo, Senhor nosso. T.: Amém.
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Bibliografia FABRIS, Rinaldo. Matteo. Roma: Borla, 1982. STORNIOLO, Ivo. Como ler o Evangelho de Mateus: o caminho da justiça. São Paulo: Paulinas, 1990.
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1º DOMINGO NA QUARESMA
PRÉDICA: MATEUS 4.1-11
01 MAR 2020
GÊNESIS 2.15-17; 3.1-7 ROMANOS 5.12-19
Klaus A. Stange
E não nos induzas à tentação
1 Introdução Qual o sentido de abordarmos o tema tentação em uma prédica nos dias de hoje? A tentação ainda é um problema para a comunidade cristã contemporânea? Não seria o caso de termos encontrado uma solução simples para lidar com as tentações: a gente sistematicamente cede a elas?! No mundo em que vivemos, a tentação está esvaziada de seu sentido porque também o pecado – ao qual a tentação incita, é um conceito ou uma palavra que perdeu seu sentido. A sociedade líquida na qual vivemos rejeitou os referenciais éticos derivados da tradição judaico-cristã. Experimentamos uma inversão de valores como profetizado por Jesus quando ele disse: Devido ao aumento da maldade, o amor de muitos esfriará (Mt 24.12), e descrito pelo apóstolo Paulo em sua Carta a Timóteo: Nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis. Os homens serão egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, sem amor pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem, traidores, precipitados, soberbos, mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder (2Tm 3.1-5). Em nossos dias, a tentação deixou de ser uma palavra que causa certo desconforto para tornar-se uma palavra glamorizada! Tentação passou a ser desde título de filme a marketing de perfumes e roupas íntimas. Nesse sentido, uma das tarefas da prédica será demonstrar o que está em jogo na tentação, como ela nos afeta e quais suas consequências. Ao mesmo tempo, a prédica terá a tarefa de ensinar a comunidade a lidar e resistir à tentação! Afinal, a igreja (ekklesia) é composta por aqueles que foram chamados para fora (ek-kaleo) dos esquemas vigentes deste mundo (Rm 12.1-2). O texto da tentação de Jesus foi sugerido para o 1º Domingo na Quaresma. A Quaresma convida a igreja para um período de penitência e arrependimento. Assim, faz todo o sentido o tema da tentação para o período da Quaresma. O lecionário prevê a leitura da narrativa da queda do ser humano em Gênesis 3. Também sugere a leitura de Romanos 5, que apresenta, de forma tipológica, Adão como aquele por meio do qual o pecado entrou na história da humanidade e, consequentemente, condenou todos, e apresenta Cristo, cujo ato de obediência resultou na justificação de muitos. O tema transversal aos três textos bíblicos é a postura do ser humano diante da palavra de Deus. No relato da queda, o ser huma-
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no precisa decidir se atenta para a voz do tentador ou confia na palavra do próprio Deus. O mesmo ocorre na tentação de Jesus. No texto de Romanos, lemos que Cristo foi aquele que ouviu (ob-audire – obedecer) a voz de Deus e nela confiou, abrindo o caminho para a justificação pela fé. Também sugerimos a leitura do subsídio homilético do P. Hans A. Trein em Proclamar Libertação v. 38, que inclui em seu texto um resumo das contribuições exegéticas de PL IV, PL 27 e PL 32.
2 Exegese 2.1 Contexto O relato da tentação de Jesus é citado pelos três evangelhos sinóticos. Todos eles também conectam o relato da tentação com a narrativa do batismo de Jesus. Percebe-se, portanto, uma intenção teológica dos evangelistas nessa associação. No ato do batismo, Jesus declara sua entrega incondicional, sua submissão absoluta ao Pai. Como resposta, o Pai declara a filiação de Jesus: este é meu Filho amado, em quem me agrado! O Filho obedece ao Pai e o Pai revela o Filho e o declara como Messias. Exatamente nesse ponto se insere a tentação. Ela tem por objetivo quebrar esse relacionamento do Filho para com o Pai e vice-versa. No âmago de toda e qualquer tentação está a tentativa do dia-bolos de nos afastar da palavra de Deus. Ele coloca em dúvida o que Deus disse e convida o ser humano a não confiar plenamente em Deus, o seduz à autonomia, a colocar as rédeas de sua vida em suas próprias mãos. Tentação não foi um episódio esporádico ou isolado na vida de Jesus, mas o acompanha desde seu nascimento, quando Herodes procura matar Jesus (Mt 2.13), se materializa na boca de seus discípulos que tentam desviar Jesus de seu propósito (Mt 16.23) e encontra seu ápice na cruz, quando o povo, depois o sumo sacerdote, os escribas, os líderes religiosos (anciãos) e os ladrões insultam Jesus (Mt 27.39-44), desafiando-o a descer da cruz e provar a todos que verdadeiramente é o Filho de Deus. 2.2 Análise de detalhes V. 1 – Já no primeiro verso experimentamos um estranhamento quando lemos que Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado. Merece destaque o fato de Jesus não se dirigir ao deserto por iniciativa própria, mas movido pelo Espírito. O paralelismo com a peregrinação de Israel no deserto é evidente. Lembrem-se de como o Senhor, o seu Deus, os conduziu por todo o caminho no deserto, durante quarenta anos, para humilhá-los e pô-los à prova, a fim de conhecer suas intenções, se iriam obedecer aos seus mandamentos ou não (Dt 8.2). O deserto é lugar de desenraizamento, é a experiência do vazio que cria disponibilidade e espaço livre para Deus. Deserto é lugar onde Deus se revela ao seu povo. Tanto o culto como as leis foram instituições que Israel recebeu no deserto. O deserto possibilita a experiência da presença de Deus (Êx 33). O deserto também é lugar de tentação. No deserto o ser humano é desnudado, se mostra como ele é. O deserto, respectivamente, a tentação arranca-lhe suas máscaras. A
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probabilidade de sucumbir e morrer no deserto/na tentação é real, de modo que Jesus nos ensinou a orar: não nos induzas à tentação, mas livra-nos do Maligno. V. 2 – Há paralelos com Êxodo 34.28, quando Moisés recebe as tábuas da Lei (cf. 1Re 19.8; Jn 3.4; At 1.3; Êx 16.35 e também o período de 40 dias da Quaresma). Entendo o jejum como expressão de uma postura da parte do ser humano, que procura ser sensível ao falar de Deus na sua vida. Sem a dimensão espiritual, o jejum se chama dieta. V. 3-4 – Chama a atenção que a tentação envolve Jesus sem aviso prévio. Ela vem de fora. Seu propósito é dissociar o ser humano de Deus. De forma concreta, a tentação sugere a Jesus que ele comprove seu vínculo com o Pai, resolvendo o problema da fome. Em sua resposta à tentação, Jesus se prende à palavra de Deus! Ele remete à própria situação de tentação pela qual o povo de Israel passou no deserto (Dt 8.3). V. 5-7 – A tentação torna-se ardilosa porque passa a manipular a palavra do próprio Deus. O Salmo 91.11-12 é citado isoladamente (cf. Sl 91.14!). Quando se despreza a exegese do texto bíblico, especialmente quando os princípios da correlação (Escritura interpreta a Escritura) e da interpretação de um texto em seu contexto são ignorados, a palavra de Deus pode ser transformada em uma palavra diabólica. V. 8-11 – Na terceira tentação, a abordagem é direta. Jesus não é mais chamado de Filho de Deus. O tentador se coloca no lugar de Deus, como opositor, como alguém que detém poder e que oferece o poder secular (no lugar do reino de Deus) em troca da adoração. A proposta é fascinante! Novamente a filiação de Jesus é questionada. Jesus reafirma sua submissão a Deus, citando o primeiro mandamento (Dt 6.4,13; Êx 20.3).
3 Meditação Como já dissemos acima, o âmago de toda tentação é a tentativa de romper a relação entre Deus e o ser humano. A tentação questiona, põe em dúvida a palavra de Deus. A tentação quer fazer o ser humano des-confiar de Deus e do seu amor. A partir desse foco, a perícope adquire sentido e significado para a comunidade cristã. Boa parte das mazelas de nossa sociedade contemporânea deriva do fato de termos perdido nossa identidade. A construção de uma identidade só é possível na relação com o outro, com o diferente. No entanto, a relação do ser humano com Deus, pai de Jesus Cristo, foi desconstruída. Nós apagamos o horizonte. Rejeitamos a transcendência e ficamos apenas com um deus imanente, humanizado. Por isso a humanidade tateia (At 17.27) em busca de um sentido para sua existência. Não seria também o caso da comunidade cristã correr o risco de viver um ateísmo prático, ou seja, permanecer a confissão nos lábios, a aparência de piedade, mas negando seu poder (2Tm 3.5; Ap 3.20)? Na primeira tentação, Jesus foi desafiado a provar a sua filiação resolvendo o problema da fome. Esta continua sendo nossa tentação: a tentação de sermos relevantes! Como comunidade cristã, como ministras e ministros, somos chamados
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a ajudar pessoas, alimentar os famintos e aliviar o sofrimento dos pobres. Jesus viveu o mesmo dilema. Mas a resposta de Jesus foi que não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Jesus se apegou à sua missão de proclamar a Palavra. Como comunidade cristã, somos perguntados pelo impacto, pela relevância que causamos no mundo. Muitas comunidades estão desanimadas, porque seus esforços parecem inúteis. O número de participantes diminui; os jovens não se sentem mais atraídos pela igreja; dedicar-se e trabalhar na igreja é pedir para ser criticado. A opinião de psicólogos, blogueiros, conselheiros de facebook tem mais crédito do que o testemunho da comunidade cristã. E o mundo à nossa volta diz em alto e bom tom: “Nós podemos cuidar de nós mesmos. Não precisamos de Deus, da Igreja, de ministras e ministros. Nós estamos no controle. E se não estamos, então devemos trabalhar ainda mais para o retomar. O problema não é a falta de fé, mas falta de competência. Se você está doente, precisa de um médico competente; se é pobre, precisa de políticos competentes [...]” (NOUWEN, 2002, p. 19-20). No Brasil, onde prevalece um liberalismo econômico que aprofunda o fosso entre ricos e pobres e emudece a justiça social, nos sentimos – como comunidade cristã – impotentes, cada vez menos relevantes e cada vez mais marginalizados. No entanto, “enquanto a eficiência e o controle são as grandes aspirações da nossa sociedade, a solidão, o isolamento, a carência de amizade e intimidade, os relacionamentos arruinados, o tédio, a sensação de vazio e depressão e uma profunda sensação de inutilidade enchem os corações de milhões de pessoas neste nosso mundo norteado pelo sucesso” (NOUWEN, 2002, p. 20). A prédica poderia convidar a comunidade a resistir à tentação pela relevância. A questão primeira não são nossas realizações, os resultados, o impacto. A questão primeira não é uma comunidade moralmente irrepreensível, bem treinada, ansiosa em ajudar todos que necessitam e a responder criativamente às questões polêmicas de nosso tempo. Tudo isso é valioso e importante, mas não é o centro. A questão central é se estamos conectados com Jesus. Porque em um mundo de solidão e desespero, há uma enorme carência de pessoas que conheçam o coração de Deus: um coração que perdoa, que cuida, que estende a mão e que quer curar. O evangelho é o que há de mais desconhecido em nosso Brasil. Portanto, para resistir à tentação por relevância, convém à comunidade cristã que ela busque a comunhão com Deus por meio da oração. Pois somente aquela pessoa que permanece diante de Deus é capaz de permanecer diante das pessoas. Por meio da oração, a comunidade cristã será capaz de aprender a ouvir a voz do Deus que é amor. Uma comunidade que permanece conectada com seu Senhor possui identidade. E havendo clareza a respeito da identidade, é possível “permanecer flexível sem ser relativista, convicto sem ser rígido, confrontar sem ofender, ser gentil e perdoador sem ser mole, e ser uma testemunha fiel sem ser manipulador” (NOUWEN, 2002, p. 29). A segunda tentação é a tentação de ser popular. Jesus foi tentado a fazer algo espetacular, algo que pudesse render muitos aplausos. No entanto, Jesus recusou-se a assumir o papel de super-homem. A ambição de ser uma estrela ou um herói individual (tão comum em nossa sociedade contemporânea) também
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não é um sentimento estranho na comunidade cristã. Frequentemente predomina na igreja a imagem do homem ou da mulher que conseguiu o sucesso sem a ajuda de ninguém, sozinho. No entanto, somos convidados a viver em comunidade, somos inseridos na comunhão dos santos, não vivemos apenas para nós mesmos. Valeria a pena uma pesquisa em torno da expressão allelon (uns aos outros) no NT. Na comunhão cristã somos convidados a nos envolver com o outro, como irmãos e irmãs na fé, que conhecem e são conhecidos, que cuidam e recebem cuidado, que perdoam e são perdoados, que amam e são amados! No exercício da confissão e da absolvição mútua somos guardados da sedução pelo poder, do exercício autoritário. Na vivência da confissão e do perdão comunitário, podem-se evitar os extremos da espiritualização (a vida cristã vivida de forma desconectada da terra) e da carnalidade (a vida cristã vivida de forma desconectada do céu). Como comunidade cristã, não somos chamados para ser populares, mas a ser autênticos. Finalmente, a terceira tentação de Jesus foi a tentação do poder. Mesmo sem perceber, essa também é a nossa tentação: temos o desejo de controlar situações complexas, emoções confusas e mentes ansiosas. Em boa medida, o protestantismo brasileiro é um exemplo de como o poder tenta e seduz: poder político, poder militar, poder econômico ou mesmo poder espiritual. A tentação de considerar o poder um instrumento apto para a proclamação do evangelho é latente. Dizemos a nós mesmos que ter poder (desde que usado a serviço do reino de Deus e em favor das pessoas) é uma coisa boa. A história brasileira recente é pródiga em exemplos que demonstram as consequências quando se cede à tentação do poder. Pensando especificamente na comunidade cristã, o que torna a tentação do poder aparentemente tão irresistível? “Talvez porque o poder oferece um fácil substituto para a difícil tarefa de amar. Parece mais fácil ser Deus do que amar a Deus, mais fácil controlar as pessoas do que amá-las, mais fácil ser dono da vida do que amar a vida. Jesus pergunta: – Você me ama? Nós perguntamos: – Podemos sentar à tua direita e à tua esquerda no teu reino? (Mt 20.21)” (NOUWEN, 2002, p. 49). A prédica quer nos chamar a resistir à tentação de substituir o amor pelo poder. Isso é possível quando nos submetemos ao discipulado. No discipulado e seguimento a Jesus, permitimos que sejamos conduzidos. No discipulado, o caminho é descendente e termina na cruz. Porque não é pelo poder ou pela dominação, mas pela fraqueza e humildade que o servo sofredor de Deus, Jesus Cristo, se manifesta.
4 Subsídios litúrgicos O Livro de Culto da IECLB apresenta propostas de liturgia para o período da Quaresma. 1 João 3.8b poderia ser usado como texto de abertura/saudação do culto. O Salmo 91 poderia substituir uma das leituras indicadas. Na entrada do culto, os participantes poderiam receber um chocolate Sensação, da Nestlé. A ponte para a tentação do chocolate poderia ser usada na in-
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trodução da prédica. A Kibom também produz um picolé com o nome Tentação. Essas imagens poderiam ajudar na introdução da prédica, ainda que esse tipo de tentação pouco tenha a ver com o sentido teológico da palavra.
Bibliografia NOUWEN, Henri. O perfil do líder cristão do séc. XXI. Belo Horizonte: Atos, 2002.
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2º DOMINGO NA QUARESMA
PRÉDICA: GÊNESIS 12.1-4a
08 MAR 2020
JOÃO 3.1-17 ROMANOS 4.1-5,13-17
Eduardo Stauder
A caminho de um tempo novo
1 Introdução O tempo de Quaresma chama-nos ao arrependimento, à mudança de vida, a caminhar em nova direção. O conjunto dos textos bíblicos para o 2º Domingo na Quaresma reafirma essa perspectiva, despertando a fé que nos coloca em movimento em busca de um tempo novo, que transforma a vida a partir de baixo, a partir da cruz. O Evangelho de João 3.1-17 apresenta o diálogo entre Jesus e Nicodemos. Nesse diálogo, Jesus mostra que, se queremos ver o reino de Deus, temos que nascer de novo. É preciso esse passo na fé de quem confia que Deus pode fazer novas todas as coisas. Para nascermos de novo, precisamos olhar para Jesus crucificado. O Filho do Homem precisa ser levantado. A cruz indica o caminho a seguir. O novo nascimento não é obra nossa, mas é ação de Deus em nossas vidas, despertando a fé que nos coloca em movimento. O texto de Gênesis 12.1-4a mostra Abrão partindo rumo a uma terra que Deus lhe mostrará. Abrão segue rumo ao novo sustentado pela promessa e pela bênção de Deus. Movido pela fé, Abrão se põe em movimento. Em Romanos 4.1-5,13-17, o apóstolo Paulo apresenta Abrão como modelo de fé. Deus aceita Abrão pela fé. A fé de Abrão na promessa de Deus é sinal da dimensão mais profunda da salvação da pessoa humana. O conjunto desses textos já foi estudado em volumes anteriores do Proclamar Libertação. Tendo Gênesis 12.1-4a como texto de pregação, foi estudado três vezes. Recomendamos a leitura desses estudos que apresentam diferentes perspectivas de como compreender esse texto.
2 Exegese Na perícope de Gênesis 12.1-4a, Javé fala para Abrão, trazendo uma ordem de êxodo e uma promessa. Antes de ouvir a palavra de Javé em Gênesis 12.1, nós temos a genealogia, a origem de Abrão (Gn 11.27-32). A história de Abraão inicia em Gênesis 11.27, onde é apresentada a descendência de Tera, pai de Abrão. Os v. 4b-5 continuam a genealogia. Gênesis 12.1-4a é uma palavra de Javé que dá um sentido teológico para a narrativa da história da vida de Abrão. A palavra de Javé tem a intenção de que a história de Abrão seja lida numa perspectiva teológica. Essa perspectiva teológica
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é feita a partir do olhar da família, da casa, do clã. Por isso a genealogia a antecede. A história de Abrão tem a presença de um Deus pessoal, que não está preocupado em formar um povo que seja um grande império, mas está preocupado em garantir a sobrevivência das famílias. A história de Abrão não é a história de um indivíduo isolado, mas de uma pessoa ligada a um grupo familiar. Gênesis 12.1-4a busca recuperar a memória histórica da origem do povo de Israel ligada aos patriarcas, apresentando um episódio da vida de Abrão no qual ele recebe uma promessa e uma bênção de Deus. A força do texto está nessa memória histórica. A pesquisa bíblica revela com certo consenso que existe uma diferença entre o contexto histórico da redação e o episódio com Abrão. A vida seminômade de Abrão teria acontecido por volta do século XIV. Observando diversos termos usados na redação do texto, acompanhamos a proposta de que a redação do texto aconteceu no início do reinado, no século X. A tradução do texto não traz grandes dificuldades, mas chamamos atenção para o final do v. 3. A Nova Tradução na Linguagem de Hoje traduz: E por meio de você eu abençoarei todos os povos do mundo. A tradução de Almeida Revista e Atualizada traduz: em ti serão benditas todas as famílias da terra. A tradução de Almeida traduz melhor o que está no texto em hebraico. O hebraico não fala em povos. É usada a palavra mispãhâ, que significa família, clã. Para o termo terra é usado ‘adamâ, que significa a terra cultivável. Devemos ter presente que terra aqui indica um espaço bem específico: a terra cultivável, a roça. Em Gênesis 12.1-4a temos uma ordem de êxodo dirigida por Javé a Abrão, associada a uma promessa. No v. 1 temos o mandato divino “sai”, que vem junto de uma promessa de bênção no v. 2 e 3. Essa promessa de bênção está estruturada em três partes (v. 2, 3a, 3b). O v. 2 fala somente de Abrão. O v. 3a fala do efeito da bênção naqueles que se aproximam de Abrão. O v. 3b fala da efetivação da bênção dada a Abrão às famílias da terra. A resposta de Abrão nos é apresentada no v. 4, “partiu”. O v. 1 anuncia a fala de Javé para Abrão. Não acontece uma epifania, uma revelação de Javé, apenas uma palavra de Javé por meio da qual ele ordena que Abrão saia. Não há nenhum tipo de intermediário entre Javé e Abrão. Javé se manifesta de forma pessoal e direta. Não é dito como é ou onde é a terra para a qual Abrão deve se dirigir. Javé irá mostrar a terra. Abrão deve sair e abandonar terra, clã, a casa do pai. Terra, clã e casa do pai são características da vida social do tempo dos reis, pois são os esteios da sociedade agrária do tempo dos reis. As expressões que aparecem no v. 2 continuam indicando para o tempo do reinado. Uma das promessas é que Javé irá engradecer o nome. Essa expressão equivale a constituir o estado monárquico (1Rs 1.47) (SCHWANTES, 1986, p. 46). A história de Abrão está sendo contada para um povo que já se encontra sedentário, vivendo sob o reinado. A origem desse povo não está no poder e na grandeza dos reis, mas está num pastor nômade. A bênção de Deus não é para a grandeza do rei. O povo será uma grande nação quando viver da bênção que
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vem de Deus. Deus abençoa Abrão, e assim Abrão se transforma numa bênção. O povo que tem sua origem em Abrão será grande quando for uma bênção. A grandeza do povo, seu grande nome se concretiza quando ele se transforma numa bênção para as famílias. O que torna o povo grande e famoso não é um grande rei, um forte exército, um formoso templo. Lembremos a parábola de Jotão: tudo isso é um espinheiro que não dá sombra e não produz fruto (Jz 9.7-15). A palavra bênção significa a força da fecundidade, ou seja, é gerar e garantir a vida. A Abrão é dada a promessa da bênção. O abençoar de Deus se realiza num processo constante. O abençoar de Deus não é um ato único, que se encerra numa única experiência. O abençoar de Deus vai acontecendo no decorrer da vida e vai se concretizando na história. No v. 3a vemos que Abrão não precisa se preocupar nem ter medo. Quem o abençoar será abençoado e quem o amaldiçoar será amaldiçoado. A relação das pessoas com Abrão será determinada pela ação de Javé. A meta de Javé não é ter um grande e numeroso povo. A meta de Javé está expressa no final do v. 3: Em ti se abençoarão todas as famílias da terra. O v. 4a apresenta a resposta de Abrão à ordem e à promessa que Javé lhe traz. É dito que Abrão partiu. Ele não diz nada. Não questiona nem se revolta. Simplesmente segue adiante. Conforme Westermann, Abrão “obedece à ordem e toma o caminho de um pastor nômade; da futura grandeza e do futuro renome ainda não se percebe nada nesse caminho. O fato de Abrão ter obedecido à ordem de Deus é o normal e natural; uma atitude ousada seria não obedecer a ela” (WESTERMANN, 2013, p. 128).
3 Meditação O tempo da Quaresma convida-nos a nos colocar a caminho. Colocamo-nos em movimento, mas seguimos pelo caminho da cruz. Temos uma direção e referência. Na Quaresma, caminhamos em direção à Páscoa. Seguimos em direção a um novo tempo. Ouvimos a voz de Deus dizendo: sai. Abrão ouviu e obedeceu a essa palavra de Deus. Saiu e caminhou em direção à terra que Deus iria lhe mostrar. O povo que era escravo no Egito também ouviu a palavra de Deus dizendo para sair da terra da escravidão. O povo obedeceu, saiu e caminhou para ser livre em direção à terra que mana leite e mel. Jesus também ouviu e obedeceu à palavra de Deus. Saiu e caminhou em direção ao reino de Deus. A palavra de Deus abre um espaço novo diante da realidade. Caminhar rumo ao novo é um ato de fé. Deus diz para nós: sai! Obedecemos ou ficamos parados? Resistimos ou seguimos adiante? Essa ordem de Deus para sair, para ir adiante não deve ser confundida com o processo migratório que presenciamos no mundo. No nosso país presenciamos o êxodo rural e hoje 90% da população brasileira vive nas cidades. Continuamos vendo pessoas migrando pelo nosso país em busca de trabalho, saúde, vida digna. No mundo, acompanhamos grandes ondas migratórias de povos que fogem da guerra e da pobreza, buscando refúgio e segurança em outros países. Deus caminha ao lado dessas pessoas e famílias que buscam por um espaço de vida. Mas
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será que podemos dizer que esses migrantes se colocaram em movimento porque Deus disse a eles: sai? Não podemos justificar como sendo vontade de Deus esses processos migratórios gerados por questões econômicas, políticas, sociais. Se o fizermos, perdemos a voz profética e permanecemos escravos no Egito. Abrão, como pastor, vivia uma vida nômade. Estava sempre a caminho, em busca de um novo lugar onde morar e cuidar do seu rebanho. Sua vida não era sedentária. O ir adiante fazia parte da sua rotina. Mas dessa vez ele vai adiante obedecendo a uma ordem de Deus, que vem acompanhada de uma promessa e de uma bênção, que o leva a ultrapassar fronteiras, mas com um objetivo de ser bênção para todas as famílias da terra. O povo de Israel não se forma por meio dos reis, do Estado, da conquista de territórios pela dominação dos exércitos. O povo se forma a partir das famílias que se põem a caminho para viver a promessa de Javé, para viver da bênção de Javé. Da mesma forma, a história de nossas comunidades de fé, da nossa igreja, não é feita fundamentalmente pelos concílios e assembleias, mas é a história das famílias. Nessa perspectiva, a igreja, enquanto instituição, ganha sentido quando se coloca a serviço da vida das pessoas, das famílias, da casa. Esse mesmo olhar pode ser lançado para o Estado Brasileiro. O Estado não é o fim, o objetivo, mas é um meio para garantir e promover a vida das famílias, da casa. Deus não está preocupado em estar acima de todos nem deseja que o Estado esteja acima de tudo. Deus nos ensina a olhar para a organização e formação da sociedade a partir das famílias, da casa, daqueles que se põem a caminho em busca de vida, de trabalho, de sobrevivência. A promessa de Javé a Abrão questiona o brado daqueles que põem o Estado acima de tudo e Deus acima de todos. Deus não se coloca acima de todos. Deus se coloca ao lado de Abrão, se coloca a serviço. Deus coloca acima do Estado a vida das famílias, daqueles que lutam pela sua sobrevivência. Deus age na história caminhando junto com Abrão, com gente que vivia escravizada, com pobres e pescadores, leprosos e cobradores de impostos. Essa gente simples, empobrecida, desvalorizada é para onde a bênção de Deus se estende a partir de Abrão. São as famílias da terra sendo abençoadas. Abrão não tinha filhos, pois sua mulher Sarai era estéril (Gn 11.30). Ele já tinha uma idade mais avançada quando recebe a ordem de Javé para sair. Javé escolhe uma pessoa que aparentemente não é indicada para a realização de seus planos. Mas o que muda toda a visão é a promessa: e te abençoarei. A bênção de Javé é a palavra-chave. Javé abençoa Abrão para que ele seja uma bênção. Bênção, muitas pessoas buscam a bênção de Deus. Muitas igrejas distribuem e oferecem a bênção de Deus. A bênção parece ser compreendida e buscada como um bem simbólico de consumo, um bem que eu posso possuir e controlar de forma individualista. Para Abrão, a bênção vem e dá sentido à sua vida, dá uma direção à sua existência numa perspectiva comunitária, coletiva. Abrão não se apropria da bênção de Deus, antes ele se vê apropriado por ela.
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4 Imagens para a prédica O movimento de Abrão foi o de partir motivado pela palavra de Javé. Este é quem ordena: Sai! A ordem de sair está acompanhada de uma crítica ao contexto que se deve abandonar. Se temos que buscar o novo, é porque existe a necessidade de mudança. Nossa vida, o contexto que nos envolve, não consegue fazer com que a vida aconteça de forma boa, justa e digna. O movimento de sair, de abandonar o velho em busca do novo pode ser explorado na pregação. Mas não devemos perder a perspectiva de que o nosso sair é conduzido pela promessa e bênção de Deus. A promessa e a bênção de Deus nos fazem olhar para a realidade como um pequeno engraxate. O engraxate em busca da sua sobrevivência volta seu olhar para os pés das pessoas. Ele procura os calçados que necessitam de graxa. Ele aprende a olhar para a realidade numa determinada perspectiva. A promessa e bênção que Deus traz a Abrão fazem viver na perspectiva de quem quer ser bênção para as famílias da terra. Não queremos ser bênção para riqueza e sucesso, mas para que as famílias, os pequenos, os crucificados deste mundo tenham vida, perdão e salvação. “[…] mesmo quando paredes impenetráveis persistem no coração humano, o seguimento de Cristo é um convite para ‘migrar’ com ele do pecado para a graça, da escravidão para a liberdade, da injustiça para a justiça, e da morte para a vida nova” (GROODY, 2009, p. 106).
5 Subsídios litúrgicos A liturgia deve refletir o tempo da Quaresma, que é tempo de parar, de silenciar, de se perguntar pelo rumo da vida. Antes da pregação pode ser cantada a música “Quem conhece o velho Abraão” (LCI, 550). Sugerimos que os cantos comunitários despertem para o movimento, sair, caminhar. Lembro o canto “Se caminhar é preciso” (LCI, 575), que poderia ser cantado após a pregação ou no final do culto, por apresentar a caminhada como vivência da fé comunitária. A meditação de Martim Lutero, Confiar somente em Deus, pode ser usada durante a prédica, ou no momento da confissão de fé: “Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra. Não deposito minha confiança em homem nenhum deste mundo, nem em mim mesmo, tampouco em minha força, capacidade, bens, piedade ou qualquer outra coisa que eu possua. Não confio em criatura nenhuma, quer no céu, quer na terra. Considero e confio tão somente no Deus único, invisível, incompreensível, que fez os céus e a terra, e que está acima de todas as criaturas. Também não me assusta a maldade do diabo e sua companhia, pois meu Deus está acima de todos eles. Creio em Deus, mesmo que todos me abandonem ou persigam. Continuarei crendo, mesmo que eu seja pobre, tolo, ignorante e desprezado e careça de tudo. Eu creio, mesmo
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sendo pecador. Pois esta minha fé deve e precisa estar acima de tudo que é e que não é, acima de pecado e virtude, acima de tudo o mais, para que a fé se apegue única e exclusivamente a Deus, como insiste o primeiro mandamento”.
Bibliografia GROODY, Daniel. O Deus da fronteira. Uma teologia da migração e o caminho humano. In: RIBLA, São Bernardo do Campo: Nhanduti, n. 63, 2009. WESTERMANN, Claus. O Livro de Gênesis: Um comentário exegético-teológico. São Leopoldo: Sinodal, 2013. SCHWANTES, Milton. A Família de Sara e Abraão: Texto e contexto de Gênesis 12-25. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 1986.
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3º DOMINGO NA QUARESMA
15 MAR 2020
PRÉDICA: ROMANOS 5.1-11 ÊXODO 17.1-7 JOÃO 4.5-42
Uwe Wegner
Os frutos da justificação por graça, acolhida na fé
1 Introdução O texto de Romanos 5.1-11 representa um testemunho resumido sobre os benefícios da fé: ela nos oportuniza o acesso à graça de Deus por Jesus e nos concede a paz com Deus. Consequência: nosso gloriar-se não se centra mais em nós mesmos, mas em Deus. Só que as dádivas recebidas em fé (acesso à graça e paz com Deus) não podem ainda ser vividas em sua plenitude aqui nesta vida e neste mundo: a realidade ainda não está totalmente submissa a Deus, razão pela qual salvação que se experimenta agora sempre é salvação permeada por problemas, aflições, tribulações. Mesmo assim, a realidade nua e crua não tira a esperança de cristãos por um mundo melhor: o amor de Deus é, em última análise, o fundamento dessa esperança. O texto de Êxodo 17.1-7 trata da água da rocha em Refidim. O povo de Israel, recém salvo da escravidão do Egito, tem uma experiência de salvação semelhante àquela de Romanos 5.3s: em meio a aflições. E a aflição narrada pelo texto é a da falta de água para tomar. O povo ficou em dúvida: Está o Senhor no meio de nós ou não? (17.7). Deus ordenou que Moisés usasse sua vara e batesse com ela contra a rocha de Refidim. Ele bateu, saiu água e o povo conseguiu matar sua sede. Houve salvação episódica, sim, mas a história de Israel pelo deserto até a terra prometida ainda seria permeada por muitas tribulações e tentações. João 4.5-42 trata da estadia de Jesus junto a samaritanos, em especial do encontro e diálogo entre Jesus e uma mulher samaritana. Em meio a essa história, um assunto que poderia relacionar-se vagamente com Romanos 5.5 seria a menção em João 4.23-24 de Deus como Espírito, ao qual caberia também adoração em espírito e verdade. Mas a relação não chega a ser estreita. No final do texto há bastante menção à fé, tanto da mulher como dos samaritanos em geral. Interessante é, nesse caso, o fator gerador da fé: no caso da mulher, foi a premonição de Jesus sobre sua situação conjugal; no caso dos samaritanos, as palavras de Jesus entre eles por dois dias de estadia. No caso do texto de Romanos 5.1-11, o fator gerador da fé é a justificação dos pecadores pela graça de Deus. Em síntese: uma ponte com o texto de Romanos 5.1ss oferece melhor a situação aflitiva do povo de Israel em Refidim – mas também só parcialmente.
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3º Domingo na Quaresma
2 Exegese A primeira palavra do versículo 1 (“justificados” = “tendo sido justificados”) resume todo o conteúdo da justificação explanado pelo apóstolo em 3.9-31 e explicado com o exemplo de Abraão no cap. 4. Toda autoavaliação sincera que qualquer um de nós fizer de sua própria pessoa chegará sempre à mesma conclusão: somos devedores a Deus, em muitos sentidos, em diferentes ações contrárias à solidariedade, em múltiplas omissões contrárias ao amor. Não tem como a gente consertar isso. Mas então, como é que somos “justificados”, considerados justos diante de Deus? Nosso texto responde: (a) que somos justificados com base no sangue derramado por Jesus (5.9), ou seja, com base em seu sofrimento e morte; (b) que a maneira como nos apropriamos dessa justificação é “por fé” (5.1). Nesse contexto a fé pode ser definida como aceitação confiante por parte do ser humano daquilo que Deus fez por ele em Jesus. Fé, claro, não deve ser entendida como sendo uma condição para a justificação, do tipo: você pode ser justificado, mas para isso tem que crer primeiramente! Isso é errado. O amor e perdão de Jesus já anteciparam tudo o que era necessário para sermos aceitos e perdoados por Deus. A fé não é condição da justificação, mas a maneira concedida a nós de nos apropriarmos dela. Deus faz tudo. Ao ser humano cabe, porém, aceitar, confiar ou rejeitar. Só que com o seguinte detalhe: até esse quesito o NT remete à autoria de Deus. Aqui, no nosso texto, no v. 5 diz: O amor de Deus é derramado no nosso coração pelo Espírito Santo. Ou seja: a fé, a confiança no amor de Deus por nós é ele mesmo que nô-la dá por meio da ação do seu Espírito! É exatamente nisto que consiste o trabalho do Espírito Santo junto aos nossos corações (v. 5): dar-nos certeza inabalável de que temos um Deus generoso. É isso que o apóstolo quer dizer quando fala que estamos firmes nessa graça (v. 2)! O que nos dá o perdão, o amor de Deus, enfim, a justificação? O v. 1 responde: (a) a paz com Deus. O v. 2 acrescenta: (b) acesso à graça de Deus e (c) um tipo especial de gloriar-se: o gloriar-se na esperança da glória de Deus e nas tribulações (v. 3). O texto afirma inicialmente: temos (exomen) paz com Deus. No grego, os manuscritos mais importantes leem o verbo no conjuntivo (exōmen; com ômega): tenhamos fé com Deus! Esse conjuntivo, aliás, pode ser ainda encontrado em diversas traduções da Bíblia para o português. A maioria dos estudiosos, contudo, opta pelo presente, contra o testemunho dos manuscritos mais importantes por uma razão de contexto: todo o contexto dos capítulos 1 a 4 parece requerer e favorecer uma afirmação de paz, não um desejo por paz. Ou seja: a tradução “TEMOS paz com Deus” tem nossa preferência. A paz com Deus o texto explica assim: paz com Deus...por intermédio do nosso Senhor Jesus Cristo! A paz que Deus concede não é, para o apóstolo, um acordo entre partes iguais em litígio, em que cada uma delas, p. ex., deve ceder até certo ponto para que um convívio razoável seja possível. Se Jesus Cristo foi o promotor da paz, então é unicamente a ele, a sua compaixão e misericórdia, ao seu perdão dos nossos pecados que devemos o estabelecimento da paz entre nós
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e Deus. Esse é o lado objetivo da paz. Ela é, essencialmente, uma ação de misericórdia de Deus em nosso favor. O que isso significa mais precisamente também pode ser esclarecido se nos dermos conta do que, segundo nosso texto, seria a realidade contrária à paz com Deus. O v. 9 diz que a paz trazida por Jesus nos libertou da ira de Deus. A ira é a manifestação do juízo punitivo de Deus. Sua ação ocorre quando as pessoas não buscam o conhecimento de Deus nem a fidelidade aos seus preceitos – o que resulta disso é, em regra, a idolatria (Rm 1.21-23). As pessoas passam a adorar coisas ou meras criaturas, por vezes a si próprias, gerando caos, insensibilidade, desrespeito e desamor social. Paulo expõe com nitidez os efeitos nocivos da ira de Deus em Romanos 1.18-32. Ter adquirido a paz com Deus é, portanto, para Paulo, ter sido libertado desse juízo punitivo de Deus e, por extensão, do seu consequente caos gerado nos relacionamentos humanos. Uma segunda realidade contrária à paz com Deus o texto descreve com o termo inimizade. Enquanto que a justificação emprega uma metáfora da esfera jurídica, no caso da inimizade/amizade Paulo faz uso de metáfora da esfera das relações pessoais. Nós fomos reconciliados com Deus quando ainda éramos inimigos seus, afirma o v. 10. Inimigos, claro, por não seguirmos a regra básica de sua vontade: amar a Deus acima de tudo e o próximo como a si mesmo (Mc 12.28-31). A inimizade com Deus, em regra – bem semelhante, aliás, é o caso da inimizade com qualquer outra pessoa –, é gerada pelo desrespeito à sua pessoa e às suas prescrições. Romanos 5.10-11 descrevem esse final da inimizade entre Deus e as pessoas pela morte de Jesus com os termos reconciliação/reconciliar; no jargão popular: fazer as pazes. Em termos subjetivos, a paz trazida pela justificação naturalmente também apresenta consequências para nosso estado de espírito interior: quem tem paz com Deus costuma ser uma pessoa alegre e grata, considerando tudo o que recebeu. Tem uma aceitação como pessoa que ninguém mais pode tirar dela. Não necessita mais afirmar-se perante Deus ou outros indivíduos com obras, status ou méritos quaisquer, mas pode praticar abundantemente o bem e a bondade como resposta de gratidão por aquilo que lhe tem sido dado na vida de Jesus. Esse último aspecto aludido sugere que nossa “paz com Deus” também não pode se resumir a meros sentimentos interiores de serenidade ou tranquilidade. Nossa gratidão a Deus vai querer manifestar-se também concretamente numa nova vida em relação aos semelhantes e à natureza como criação de Deus, que corresponda à vontade daquele que nos remiu. Pois, afinal, como diz Paulo, nós, os crentes, somos como a carta de Cristo para o mundo (2Co 3.1-3): quem se diz salvo por Cristo, mas vive como quer o diabo, não converte nem convence ninguém. A segunda coisa concedida pela justificação é o acesso à graça divina. Quando o texto fala que, por meio de Jesus, também obtivemos acesso à graça de Deus, faz uso de uma metáfora cultual e política relacionada com tronos: assim como uma simples criatura pode conseguir acesso ao trono do seu rei/imperador para pedir clemência ou algum favor e benevolência, assim como o sumo sacerdote consegue acesso ao Santo dos Santos, ao sagrado trono de Deus no templo (Êx 26.31-33) para realizar expiação pelos pecados pessoais e do povo (Lv 16), assim também nós, diz o apóstolo, conseguimos acesso a essa graça da justificação pela
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fé. A graça já foi dada: Jesus não cobrou nada pelo seu amor gratuito dedicado à humanidade, amor, como nos asseguram os v. 6-8, não pelos justos, que talvez o fizessem por merecer, mas justamente pelo seu reverso, pelos pecadores. O papel da fé é, porém, nos dar acesso a esse amor. E como é que a fé consegue isso? Ora, dispondo nossa pessoa e nosso coração para aceitá-lo, ser grato por ele e não duvidar jamais de sua veracidade – é o que o apóstolo quer dizer quando afirma que estamos firmes nessa graça. É exatamente nisto que consiste também o trabalho do Espírito junto aos nossos corações (v. 5): dar-lhes certeza inabalável de que temos um Deus generoso (cf. também 1Co 2.12; semelhantemente também Lutero na explicação ao terceiro artigo do Credo Apostólico em seu Catecismo Menor: “Creio que, por minha própria inteligência ou capacidade, não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem chegar a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo Evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé”). A fé nos certifica de que o perdão divino é imerecido, portanto gratuito: ele se constitui, em sua essência, naquela “graça” à qual temos acesso pela fé. A terceira coisa (além da paz com Deus e do acesso à graça pela fé por meio de Jesus Cristo) que nos concede a justificação é um gloriar-se na esperança da glória de Deus (v. 2). A glória de Deus pode ser definida como sua majestade esplendorosa e radiante, que ultrapassa infinitamente a majestade e o fulgor normalmente encontrados em seres humanos. É sua magnificência em grandiosidade, esplendor, beleza, amor e poder. Paulo afirma que essa magnificência divina é o orgulho, a vanglória do cristão. Afirma, inclusive, que o próprio cristão já tem participação nessa glorificação (Rm 8.30). O cristão se vangloria não do que ele mesmo tem para apresentar, mas da majestade radiante e amorosa que Deus possui e que já infundiu nos crentes. Tudo o que eles fazem, no fundo, visa testemunhar essa magnificência de Deus: Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus (Mt 5. 16). Com um detalhe: o cristão se vangloria na esperança dessa glória. A salvação que já recebemos pela fé ainda se encontra oculta na realidade nua e crua. A realidade é ainda de muita oposição e contrariedade à vontade amorosa de Deus. É preciso saber esperar por um mundo melhor, por um mundo ainda não visível a olho nu (Hb 11.1). Do contrário cai-se no entusiasmo, porém com olhos fora da realidade, vivendo uma ficção. Mas de onde tirar o alento para uma tal esperança, quando tudo parece falar contra? Em alguns textos a razão da esperança é remetida ao acontecimento da ressurreição (1Co 15.1219). Aqui em Romanos 5.1-11, em que o apóstolo reflete sobre as consequências da justificação, ele remete ao amor: Ora, a esperança não confunde (Bíblia de Jerusalém: “não decepciona”; outra tradução: “não envergonha”), pois o amor de Cristo é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (v. 5). Paulo foi pessoa profundamente impactada por esse amor imerecido e gratuito experimentado da parte de Cristo (1Co 15.8-10; Rm 8.31-39). Ele é, ao lado da ressurreição, a razão última para a firmeza de sua esperança. Paulo resume esse fundamento de sua esperança mais uma vez ao final do texto no v. 11: E não apenas isto, mas também nos gloriamos em Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo, mediante o qual
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recebemos, agora, a reconciliação. Em Romanos 8.34 temos juntas morte e ressurreição de Cristo como fundamento da esperança cristã (cf. também Rm 4.24s). Paulo sabe gloriar-se ainda de uma segunda coisa, dessa vez não ligada à esperança, mas ligada a experiências bem concretas do dia a dia. Ele diz que devemos e podemos nos orgulhar também das tribulações (aflições/sofrimentos/ adversidades). Normalmente, claro, aflições e sofrimentos não são motivo de orgulho. Não raramente, deixam as pessoas frustradas ou deprimidas ou inconformadas. O cristão vê aflições e adversidades por uma ótica totalmente diferente. Elas são para ele decorrências naturais de uma vida de fé que não se conforma com “este século”, com coisas erradas tidas por certas ou simplesmente aturadas sem resistência e protesto (Rm 12.1s). Para ele, tribulações e sofrimentos, quando decorrentes da obediência e amor a Deus e ao próximo, são, ao contrário, provas de integridade cristã! Nesse sentido são, sim, motivos de orgulho, pois consistem em oportunidades para dar firmeza à nossa fé e à nossa resistência contra o mal. O texto expressa isso dizendo que as tribulações produzem perseverança, vão nos tornando cada vez mais fortes e resistentes ao mal. A perseverança, por sua vez, produz experiência. Esse termo (no grego: dokimē) evoca algo que foi testado, comprovado e aprovado. A perseverança evidencia assim para Paulo que pelas tribulações o cristão é testado e aprovado. Bem semelhante os dizeres em Tiago 1.12: Bem-aventurado o homem que suporta com perseverança a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam. Daí o motivo do orgulho. E, claro, tudo isso só faz renovar e firmar ainda mais a esperança.
3 Meditação O texto descreve, em essência, o resultado, os frutos da justificação por graça, acolhida na fé: ela traz a paz com Deus e redireciona ou redefine as razões do nosso orgulho, da nossa jactância ou vanglória, do nosso gloriar-se em esperança. A paz recebida de Deus Sua primeira maior característica é seu caráter de pura graça, pura dádiva, de presente inesperado e imerecido. Sua raiz última é um ato de perdão dos nossos pecados. Sua motivação por excelência é o amor de Deus por nós, suas criaturas. A vida e a morte de Jesus consagraram essa paz. A segunda característica dessa paz: ela é cara, paga que foi com amor que exigiu sacrifício, perseguição, tortura, sangue e morte. Por ser a paz de Cristo fruto de amor, ela sempre terá que se firmar em luta contra o ódio, as inverdades e o egoísmo de pessoas e classes. Ela será sempre paz em meio a tribulações e à luta, que, socialmente, se traduzirá em defesa de direitos, de liberdades e de justiça, e pessoalmente, em fomento à sensibilidade, transparência, franqueza e acolhimento recíprocos.
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O novo gloriar-se das pessoas cristãs A pessoa cristã, uma vez crendo no amor de Jesus por ele, e na ressurreição, com a qual Deus o contemplou, transforma-se numa pessoa eternamente agradecida a Deus por isso. Ela deixa de ser a referência máxima em sua vida – essa passa a ser Deus. Por isso quem passa a ser exaltado agora é Deus, não mais ela próprio. Ela desiste de vanglória para si, mas vive para a glorificação de Deus: “De Deus tudo recebi, a ele tudo devo!” A pessoa fica humilde; fica muito agradável conviver com ela. Esse é um processo por vezes penoso e doloroso pra quem estava acostumado e gostava de ser o centro das atenções, mas é profundamente libertador para quem o encara. A glorificação de Deus, para a qual somos convocados, é feita em esperança. Essa é uma marca registrada da genuína fé cristã: o poder de Deus, do seu amor, da ressurreição que ele concede, nós podemos sentir e afirmar, mas só na fé e em esperança. Nesta vida e neste mundo Deus é contestado, negado e desobedecido. Seu poder manifesta-se aqui e ali, mas sempre em meio a muita sombra, nuvens e dubiedade. Por isso quem se gloria em Deus também haverá de precisar gloriar-se nas tribulações (5.3). Para muitos isso é insuportável: eles querem clareza, arrependimentos insofismáveis, manifestações poderosas irrefutáveis, bênçãos visíveis, perceptíveis e inegáveis. Só que o reino de Deus não funciona assim. É como um pequeno grão de mostarda, como semente que cresce por si só. Às vezes cresce tão devagar que a gente nem vê; outras vezes, cresce sem que a gente perceba como. Além disso, Deus não parece querer impor seu poder e reino. Se esse fosse o caso, Jesus não precisaria de uma “eternidade” para converter seus doze discípulos, nem da presença de fé nas pessoas para realizar seus milagres. Sem esperança a pessoa cristã pode perder a paciência histórica e buscar, ela mesma, se adonar do reino – nesse caso, vira entusiasta; ou então, convicta de que “aquele que vive de esperança morre de fome” e que “esperança não enche pança”; ela se portará como cética, buscando bem-estar e felicidade com os meios que estiverem ao seu dispor, independentemente de sua qualidade moral cristã ou não.
4 Prédica e imagens para a prédica A prédica poderia tematizar um dos três benefícios trazidos pela justificação: (1) a paz; (2) o acesso à graça de Deus pela fé; (3) o gloriar-se em Deus e nas tribulações com esperança. Provérbios sobre a esperança: Quem tem esperança sempre alcança. Ter esperança ensina a ter paciência. A esperança é o pão dos infelizes. Quem se contenta com a esperança morre de fome. Hinos sobre paz e graça: LCI 41, 582, entre outros
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Poesia sobre a fé: Isto a fé é para mim, de Johnson Gnanabaranam (In: GNANABARANAM, Johnson. Senhor, renova-me. Reflexões. São Leopoldo: Sinodal, 1993. p. 54. Encontra-se também no PL 29, p. 186.)
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PRÉDICA: JOÃO 9.1-41 1 SAMUEL 16.1-13 EFÉSIOS 5.8-14
4º DOMINGO NA QUARESMA
22 MAR 2020
Emilio Voigt
E voltou vendo
1 Introdução A refinada reflexão teológica com acento cristológico é uma característica do Evangelho de João. O texto previsto para o 4º Domingo na Quaresma é um exemplo. A partir da cura de um cego de nascença, o evangelista aborda com tenacidade diversos assuntos, tais como pecado, observância do sábado, fé, messianidade de Jesus. O capítulo 9 foi objeto de vários estudos em Proclamar Libertação (9.1-7: PL VIII e XIV; 9.1-11: PL 38; 9.13-17,34-39: PL 21 e 27; 9.35-41: PL VIII; 9.1-41: PL 32). Praticamente todas as contribuições apontaram para a importância de considerar o capítulo como um todo. Se essa indicação for imperiosa, estamos diante de um grande desafio. Que ênfase dar à pregação? Outra questão: a leitura dos 41 versículos requer aproximadamente cinco minutos. Como manter a atenção da comunidade durante esse tempo? O texto é constituído por várias cenas que se desenrolam em tempos e lugares diferentes. A cura e o pecado são temas que perpassam vários momentos, mas é a messianidade de Jesus o elemento central. O objetivo da narrativa é a confissão cristológica. A pregação pode ser elaborada com base em cenas ou assuntos específicos, conectando-os com os textos de leitura. Embora a extensão do texto seja um desafio, não é um impedimento para utilizá-lo na íntegra.
2 Exegese Cena 1: A cura (1-7) V. 1-2: Ao dizer que Jesus viu um cego, o evangelista pressupõe que também os discípulos o viram. Não há indicação de como eles sabiam que a cegueira o acometia desde o nascimento. Os discípulos enxergam nesse encontro fortuito uma oportunidade de aprendizagem e logo perguntam ao mestre pela etiologia da disfunção. A origem da cegueira estaria no pecado do próprio cego? Neste caso, o feto teria cometido pecado no ventre materno? Ou a cegueira seria uma sanção pela ação de um antepassado? No contexto judaico, doenças podiam ser atribuídas ao pecado (Lv 26.15ss; Sl 38), à ação de demônios (Mt 9.32-34; Mc 5.1-15) ou a constelações planetárias desfavoráveis (o “Escrito de Sem”, do final do século I a.C., é um indicativo de crenças astrológicas em círculos judaicos). Havia também opiniões baseadas nos conhecimentos médicos da época. A possibilidade de uma sanção que inclui a posteridade parece ser restrita ao caso de
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culto a outros deuses (Êx 20.4s). Considerando os v. 18-23, é improvável que pai e mãe da pessoa cega se encaixem nessa disposição. V. 3: Diferentemente dos discípulos, Jesus não considera a doença como castigo divino, mas como forma de manifestação das obras de Deus. Com isso ele retira a possibilidade de um julgamento da pessoa cega e seus familiares. Essa resposta, entretanto, pode gerar outra pergunta, talvez até mais difícil de responder: por que uma pessoa precisa passar por sofrimento para que a obra divina se manifeste? Tal qual a pergunta dos discípulos, essa questão está focada na causa da doença. A resposta de Jesus está baseada em outra perspectiva. Não é a origem que está em foco, mas a situação. Nessa situação é necessário que se manifestem as obras de Deus. Aos discípulos bastava uma resposta sobre o porquê. Queriam mais conhecimento. O mestre quer levá-los adiante, quer levá-los à ação. V. 4: As obras de Deus são realizadas por Jesus e pelas pessoas que o seguem. Em João 5.36, Jesus falou das obras de Deus como tarefa sua. Agora ele inclui o grupo de seguidoras e seguidores. Mais tarde, dirá: Aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará (Jo 14.12). A expressão Enquanto é dia pressupõe que a luz do dia oferece as condições naturais e ideais para trabalhar. A escuridão da noite impede o trabalho. O dia também tem sentido metafórico de vida. Da mesma forma, a noite é metáfora para a morte. Com isso se quer dizer para aproveitar o tempo (a vida!) que é dado. V. 5: A expressão enquanto (heōs) estou no mundo não segue a mesma lógica de enquanto (hotan) é dia. Não pressupõe que Jesus deixará o mundo porque ele não está limitado pelo tempo e espaço que definem a nossa existência e o nosso trabalho. Mesmo após a ascensão, Jesus continua presente no mundo. Ele é a luz que guia, julga, salva. Essa luz permite que as pessoas pratiquem as obras de Deus. A ausência de Cristo significaria a escuridão, a incapacidade de fazer as obras de Deus. V. 6: Em Marcos 10.46-52, o cego Bartimeu clamou pela cura. Aqui, Jesus toma a iniciativa sem que haja um pedido explícito. Com Bartimeu, Jesus faz uso apenas da palavra. Aqui, ele utiliza a saliva, considerada um recurso medicinal na Antiguidade. No Evangelho de Marcos, a saliva aparece em dois relatos de cura (7.33; 8.23). Misturando saliva com terra, Jesus faz uma massa e a aplica nos olhos do cego. Parece um médico ou curandeiro executando uma técnica terapêutica. V. 7: A massa que foi aplicada precisa ser removida. Isso explica a necessidade de ir ao tanque de Siloé. A elucidação do nome (Enviado) talvez objetive uma identificação com Jesus (o messias enviado por Deus). O tanque de Siloé era alimentado pela fonte de Guiom e garantia o abastecimento de água em Jerusalém. Há quem veja na prescrição de ir ao tanque uma indicação de que o cego precisa fazer algo pela cura, em analogia à história de Naamã (2Rs 5). Não parece provável. Um elemento comum nos dois casos é que a consumação da cura não ocorre na presença da pessoa responsável por ela. Sem conhecer quem aplicou a massa em seus olhos e lhe prescreveu ir ao tanque, o cego foi. Temos aqui uma indicação de profunda confiança, de confiança incondicional. O cego não diz qualquer palavra nessa cena, que termina com a constatação da cura: voltou vendo.
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Cena 2: A reação do público (8-12) V. 8-9: O homem curado não voltou para Jesus, mas provavelmente para o local onde costumava ficar quando ainda era cego. Ali acontece a segunda cena. Jesus afirmou que a cegueira não era consequência do pecado. Agora o evangelista traz uma informação sobre a consequência da cegueira na vida da pessoa. A cegueira implicava uma situação de extrema vulnerabilidade. Para uma pessoa cega não havia muitas alternativas além da mendicância. Tal como Bartimeu, o nosso personagem era conhecido por ser mendigo. Mas agora ele pode enxergar e a identificação cego-mendigo estava anulada. Talvez por isso as pessoas ficaram confusas e com dúvida sobre a sua identidade: era ele mesmo ou alguém parecido? Foi necessário que ele mesmo afirmasse: sou eu! V. 10-12: A pergunta sobre como foram abertos os olhos pode indicar que as pessoas queriam detalhes da cura ou que estavam questionando se um fenômeno desses era possível. O processo da cura é relatado e seu executor é mencionado. Depreende-se que Jesus era conhecido pelo nome. Mas, nesse ponto da narrativa, ainda não é reconhecido como profeta ou messias. Permanece sendo o homem chamado Jesus. Não é explicitado o motivo pelo qual as pessoas querem saber onde esse homem estaria. Queriam conhecê-lo pessoalmente? Queriam confirmar a história? Teriam também problemas para solucionar? A pessoa curada não sabe dar informações sobre o seu paradeiro. Cena 3: Fariseus questionam a pessoa curada (13-17) V. 13-14: Aquele que antes era cego foi levado a um grupo de fariseus. Não sabemos se as pessoas que o levaram são as mesmas da cena anterior. Foi um convite ou uma condução coercitiva? Não há indicações de que fariseus tivessem tal poder ou função no período anterior a 70 d.C. Em termos de narrativa, a informação de que era sábado quando Jesus fez a massa explica o interesse dos fariseus no caso. Possivelmente eles querem averiguar a cura sob a perspectiva da observância do sábado. V. 15-16: Os fariseus perguntam como o homem nascido cego podia enxergar. A breve resposta indica a razão de ele ter sido chamado. Aparentemente, o problema todo estava na “massa”. Para garantir a observância do descanso sabático, rabinos definiam atividades que eram consideradas trabalho e que, portanto, eram proibidas nesse dia. Amassar massa era uma delas. Segundo essa interpretação da Torá, Jesus violou a observância do sábado ao cuspir e fazer uma massa. Nessa perspectiva, faz sentido a alegação de que uma pessoa que trabalha no sábado não é de Deus. Por outro lado, levanta-se uma ponderação entre os próprios fariseus: se ele fosse um pecador, como poderia fazer sinais como esse? V. 17: O debate dos fariseus se estende à pessoa curada. Eles querem saber qual é a sua opinião a respeito de quem o curou. A resposta é semelhante à confissão da mulher samaritana (Jo 4.19). Também nos sinóticos encontramos declarações similares (Mt 21.46; Mc 8.28; Lc 7.16). Ao considerá-lo um profeta, a pessoa curada pressupõe que Jesus é de Deus. Com isso assume um lado no debate. Sua resposta, porém, ficou sem reação e não se diz se os fariseus chegaram
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a um consenso. Embora o sábado apareça como pano de fundo, a cena toda foi uma avaliação da pessoa de Jesus. Cena 4: Fariseus questionam os pais (18-23) V. 18-19: Os “judeus” são os mesmos fariseus da cena anterior. Eles não acreditaram que o homem havia nascido cego e chamaram os pais para confirmar a informação. Será que aquele homem se fez passar por cego a vida inteira? Os pais deveriam responder se ele era o filho, se havia nascido cego e como poderia ter sido curado. V. 20-21: A resposta às duas primeiras questões é categórica: é o nosso filho e nasceu cego. Os pais reconhecem que houve cura, porém alegam desconhecer os detalhes. Ao dizer que não sabem quem lhe abriu os olhos, admitem que houve intervenção de alguém. Mas, nesse ponto, eles “desconversam” e dizem que o filho tem idade para responder por si. “Ter idade” pode significar: idade necessária para servir de testemunha, responder juridicamente por atos, ou simplesmente a capacidade para falar. V. 22-23: O evangelista explica que a cautela dos pais é decorrente do temor de uma expulsão da sinagoga. Não está manifesto se a expulsão significa exclusão do culto ou excomunhão completa da comunidade de fé. Seja como for, um evento dessa espécie seria mais plausível no período posterior à guerra judaico-romana (66-70 d.C.). No desolador cenário pós-guerra, o cristianismo já estava trilhando caminho independente e o farisaísmo despontava como um elemento aglutinador e de reorganização do judaísmo. A confissão de Jesus como messias era considerada heresia e, como tal, refutada veementemente. É provável que o evangelista tenha em mente esse contexto. Em todo caso, a reflexão sobre a pessoa de Jesus evoluiu. Na cena anterior, Jesus foi reconhecido como um profeta. Nessa cena, já se aponta para a confissão como o Messias (Cristo). A intenção do Evangelho de João é que as pessoas cheguem a essa confissão e é justamente para isso que servem os sinais (20.31). Cena 5: Fariseus questionam novamente a pessoa curada (24-34) V. 24-25: No primeiro diálogo, os fariseus não tinham opinião conclusiva a respeito de Jesus. Agora eles afirmam que ele é um pecador. A reivindicação de “dar glória a Deus” tem o sentido de “dizer a verdade”. A verdade esperada é: a pessoa curada precisa desdizer o testemunho anterior e reconhecer que Jesus é um pecador. Sem contestar ou ratificar a afirmação dos fariseus, ela destaca um fato inquestionável: era cega e agora pode ver. V. 26-27: Pela segunda vez, os fariseus perguntam como Jesus lhe abriu os olhos. Com essa indagação, estão admitindo que houve uma cura. Mas a cura não tem importância aqui. O debate é sobre aquele que a efetuou. A pessoa curada diz que já relatara o acontecido anteriormente e indaga (com ironia?) se os fariseus também querem se tornar discípulos de Jesus. O “também” não pressupõe que a pessoa curada já segue a Jesus. Isso só acontecerá mais tarde. A pergunta indica que o discipulado é uma resposta autêntica aos sinais realizados por Jesus.
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V. 28-29: Aparentemente, os fariseus entenderam a pergunta como uma provocação e firmam sua posição: são discípulos de Moisés e não de Jesus. Eles se fundamentam na tradição de Moisés, com quem Deus falou pessoalmente (Êx 33.11). Ao dizer que não sabem de onde Jesus provém, os fariseus declaram que não reconhecem sua autoridade. Que legitimidade teria Jesus? V. 30-33: A pessoa curada insiste naquilo que aconteceu: Jesus lhe abriu os olhos. Se os fariseus sabem que Deus falou a Moisés, a pessoa curada sabe que Deus não atende pessoas pecadoras (Is 1.15), mas quem pratica a sua vontade (Sl 145.19; Pv 15.29). A afirmação “jamais se ouviu que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença” pressupõe que somente Deus pode fazer isso (cf. Sl 146.8). Se Jesus não fosse de Deus, não poderia ter aberto os olhos de um cego. Seguindo essa lógica, a acusação de que Jesus é pecador não faz sentido. Aqui a pessoa curada se aproxima mais de Jesus e se distancia dos fariseus. V. 34: A acusação de pecado, antes dirigida a Jesus, recai agora sobre a pessoa curada. Os fariseus respondem que ela nasceu cheia de pecado e não tem competência para dar palpite. A concepção de doença como consequência do pecado, presente na pergunta inicial dos discípulos, parece ser a base dessa arguição. Aquilo que os pais temiam (v. 22) acontece ao filho: ele é expulso da sinagoga. Mas isso tudo sem uma confissão explícita. Em nenhum momento a pessoa curada declarou que Jesus era o messias. E fica a pergunta: se o problema era uma ação que Jesus realizou no sábado, por que os fariseus não trataram diretamente com ele? Cena 6: Diálogo de Jesus com a pessoa curada (35-38) V. 35-36: Jesus, que era o assunto das cenas anteriores, entra novamente em cena como protagonista. Ele ouviu que a pessoa curada havia sido expulsa pelos fariseus e, ao encontrá-la, confronta-a com a pergunta: você crê no Filho do Homem? “Filho do Homem”, que pode ser traduzido por “Filho do [Ser] Humano” ou até “Filho da Humanidade”, era uma das mais importantes representações de messias no período romano-helenístico. Esse era o título habitualmente usado por Jesus como caracterização de si. A pessoa curada pergunta pela identidade do Filho do Ser Humano. Essa pergunta pode ter o sentido de “quem é” (como reconhecê-lo?) ou de “o que é” (o que ele faz?). V. 37-38: Assim como aconteceu com a mulher samaritana (Jo 4.26), Jesus se apresenta. Ele próprio é o Cristo, o Filho da Humanidade. A pessoa curada expressa sua fé com palavras (eu creio) e com um gesto de adoração (prostrou-se). Ela ganhou a possibilidade biológica de enxergar e agora enxerga também com os olhos da fé. O sinal (a cura) alcançou seu objetivo. Cena 7: Diálogo de Jesus com fariseus (39-41) V. 39: Com a confissão e a adoração, a pessoa curada sai de cena. De forma enigmática, Jesus fala sobre a razão da sua vinda. Não é uma palavra fácil de entender. Que Jesus veio para que os que não veem vejam é compreensível. Mas o que ele quer dizer com a expressão os que veem se tornem cegos? Jesus os tornará cegos? Dificilmente. A capacidade de ver tem aqui um sentido metafórico e está relacionada ao reconhecimento de Jesus como messias. Há pessoas que enxergam
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em Jesus o enviado de Deus e outras que não o veem dessa forma. O juízo não vai predestinar umas para isto e outras para aquilo, mas apenas revelar quem tem a disposição para ouvir a palavra e acolher os sinais. V. 40-41: Os fariseus ouviram falar do acontecido, questionaram a pessoa curada e seus pais e até admitiram que houve cura, porém não veem nela um sinal do messias. Por isso são considerados cegos. Essa cegueira espiritual não é ausência de fé. Fariseus eram tementes a Deus e procuravam seguir a Torá, assim como também Jesus (Mt 5.17). Onde está o problema? O problema reside na pretensiosa normatividade da interpretação farisaica e na indisposição para acolher Jesus como o messias. A questão é a cristologia. Além disso, o rigorismo na observância da lei nem sempre dava espaço para manifestação das obras da compaixão divina. Jesus retoma a temática do pecado e inverte o discurso: não é ele que tem pecado, mas os fariseus. Quem se considera uma pessoa que vê, mas não vê necessidade de chegar a Jesus, se faz a si mesma de cega e permanece no pecado.
3 Indicações para a prédica – Sugiro estruturar a prédica de acordo com as cenas e fazer a leitura do texto bíblico correspondente à medida que a cena aparece na prédica. Além de distribuir a leitura, essa organização pode ajudar a criar um clima de curiosidade: o que vem depois desta cena? – Os discípulos tinham respostas pré-concebidas, porém Jesus não confirmou nenhuma delas (nem ele pecou, nem os pais). Quando perguntamos pela razão de doença e sofrimento, temos abertura para uma resposta diferente daquela que esperamos? E como saber se uma situação de sofrimento faz parte de um plano divino? Também aqui é preciso cuidado com respostas “prontas”. Basta lembrar que Deus é Deus e não necessita compartilhar conosco sua vontade em casos circunstanciais. – Quantas pessoas, antes dos discípulos, falaram sobre a doença e sobre o cego? Sobre a origem do sofrimento é possível falar muito e ter até opiniões divergentes. Para Jesus, mais importante do que falar sobre uma pessoa é fazer algo por ela. É nesse momento que as obras de Deus se manifestam. O que significa, para uma comunidade, fazer as obras de Deus? Nem sempre uma pessoa doente pode encontrar uma cura biológica, assim como aquele cego encontrou. Mas o que a comunidade pode fazer com e por essa pessoa, além de falar sobre ela? Isso se aplica a outras situações. O que significa fazer a obra de Deus diante das desigualdades, da injustiça, do desrespeito à dignidade humana, do descaso com a Criação divina? – A cura resultou em uma reorganização da vida, mas a capacidade de enxergar ainda não é tudo. O cego curado teve a possibilidade de ver a luz do dia e experimentar a escuridão da noite. As diversas cenas mostraram que é preciso ir além do que os olhos mostram e “enxergar” em Jesus Cristo a luz do mundo. Considerando 1 Samuel 16.7, pode-se desenvolver uma reflexão em torno do ato de enxergar: o que significa “ver”? Como nós vemos as coisas e como Deus as vê?
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Bibliografia BARRET, Charles K. Das Evangelium nach Johannes. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1990. WENGST, Klaus. Das Johannesevangelium. 1. Teilband: Kapitel 1-10. Stuttgart; Berlin; Köln, 2000.
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29 MAR 2020
PRÉDICA: EZEQUIEL 37.1-14 JOÃO 11.1-45 ROMANOS 8.6-11
Marivete Kunz
Renovados
1 Introdução Ezequiel foi para o exílio na Babilônia junto com a liderança de Judá em 597 a.C. O que aconteceu com ele diz respeito ao seu ministério no começo do exílio, entre 593/592 e 571/570 a.C. (Ez 1.1; 29.17). Lá ele tornou-se um grande líder entre os cativos (Ez 8.1). Em suas pregações, ele fez uso de ações simbólicas. A grande ênfase da sua mensagem envolveu a queda e a restauração da casa de Israel e Judá. A situação era muito complicada e, após longo tempo no exílio, não havia mais esperança de um retorno para terra natal, Jerusalém. Ainda que Judá, como comunidade, continuou a existir na distante terra natal, eles eram vassalos da Babilônia. De 608 até 597 a.C., muitas coisas ruins aconteceram no reino do sul antes da Babilônia levar o povo cativo: Jeoaquim perseguiu os profetas e foi um líder tirano. Além disso, não contribuiu para melhorar a vida espiritual da nação. O filho de Jeoaquim, Joaquim, reinou três meses e então se rendeu a Nabucodonosor (2Rs 24.8-17; Jr 22.24-30; Ez 19.5,9). O último rei de Judá foi Zedequias (597-506), o terceiro filho de Josias (2Rs 24.17 – 25.7; Ez 19.11-14), e também não foi um bom rei. Ele é considerado um rei fraco (Jr 37; 38), pois devido à sua infidelidade a Nabucodonosor, acabou fazendo com que os caldeus atacassem Jerusalém. Esse é roteiro resumido da destruição da cidade, do templo e da deportação do povo para a Babilônia. Foi nesse contexto que o profeta Ezequiel atuou e tornou-se apoio para os seus. Após o povo ter que aprender a viver em terra distante, a reorganizar sua vida no exílio, o Senhor enviou, por meio do profeta, uma mensagem de restauração ao povo de Judá. A mensagem é de um recomeço, no qual o Senhor guiará seu povo em um novo projeto.
2 Exegese V. 1 – Este versículo apresenta um destaque para a expressão veio sobre mim a mão do Senhor. A mão do Senhor o acompanhava constantemente. Isso pode ser observado em várias partes do livro (1.3c; 3.14,22). Foi a mão do Senhor que conduziu o profeta a um vale, tanto em 3.22,23 como em 37.1. A palavra ossos, nesse versículo, traz a conotação de mortos em todos os aspectos. Nesse início de texto, também é importante lembrar que o profeta teve uma visão, e
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visões são muito simbólicas, não devendo ser interpretadas literalmente. O texto fala da restauração nacional do povo. V. 2 – Este versículo descreve como estavam os ossos que o profeta visualizou, ou seja, sequíssimos. Isso é um indício de que não havia mais vestígio de vida. Também se percebe que os ossos estavam espalhados. Essa foi uma visão de morte, na qual aparentemente não havia possibilidade de vida. V. 3 – Há uma pergunta aqui que evidencia ser Deus o senhor tanto da vida como da morte. Também há uma evidência da impotência do ser humano diante de cenas como a descrita nesse texto. V. 4 – Este versículo é muito significativo, porque evidencia que Ezequiel recebeu a ordem para profetizar aos ossos uma promessa de vida. V. 5 – Este versículo afirma que Deus daria espírito aos ossos secos. A palavra hebraica para espírito é ruah, a qual também aparece nos versos 6, 8, 9 e 10. A palavra também pode receber outras traduções, como hálito ou vento. Mas, nesse contexto, tal expressão é um sinal de vida, ou do princípio da vida, o espírito. O Senhor, com todo o seu poder, assim como foi na criação, iria soprar sobre os ossos e trazer vida. V. 6 – E saberão que eu sou o Senhor é como Javé seria conhecido. Significa que ele seria conhecido como o Senhor da vida. V. 9 – A presença da expressão ruah (espírito) neste versículo é fundamental, pois é ele que sopra e traz a vida. Isso é o que acontece com quem é nascido do Espírito, conforme Jo 3.9-10, ou seja, tem vida. Importante também é que essa vida é soprada dos quatro ventos e é um símbolo da concessão de vida pelo Espírito de Deus (v. 14). O processo aqui é similar ao que aconteceu em Gênesis, no ato divino da criação. V. 10 – Novamente aqui há uma menção ao espírito que teria entrado neles e trazido vida. Na criação, conforme Gênesis 2.7, quando o criador soprou nas narinas o sopro da vida, o ser humano se tornou um ser vivente. V. 11 – Toda a casa de Israel pode ser uma indicação dos sobreviventes, tanto Israel como Judá. Os ossos aqui representam toda a nação de Israel. V. 12 – A imagem do sepulcro faz pensar na morte. Este versículo, lido junto com a parte final, enfatiza o tema da vida, que é aquilo que Deus deseja para o seu povo. Ele deseja que o povo tenha vida e o reconheça como Senhor soberano da história. V. 14 – Porei em vós o meu Espírito, e vivereis é a forma como a perícope é finalizada. A expressão espírito, ou ruah, é o que comanda a nova vida, pois é o Espírito do Senhor que dá a vida e regenera. V. 11-14 – Estes são os versículos que fecham a visão. É importante observar que esta é a interpretação da visão tida pelo profeta, bem como que o profeta não está falando da ressurreição física. No texto, aparece o termo ossos oito vezes, bem como espírito. Esses são dois elementos que contrastam. Enquanto os ossos estão acompanhados pela inércia e pelo silêncio, a palavra do profeta chama o Espírito e então vem o sopro da vida, que é uma palavra que traz ânimo a seus compatriotas.
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3 Meditação A mensagem do profeta Ezequiel foi compreendida como um recado de Deus, pois o profeta enfatizou que tudo o que acontecia vinha de Deus, por meio de seu Espírito (37.1-14). Sabe-se, a partir da história, que o povo estava corrompido pelos pecados. As acusações que Ezequiel fez em várias partes do livro estavam baseadas na história de Israel e nos pecados do povo, que o profeta revelou. Por isso Deus pôs fim a tal situação e o povo foi levado cativo, inclusive o próprio profeta. Quando Ezequiel transmitiu a mensagem do Senhor, tudo ocorreu por meio da atuação do Espírito do Senhor. Segundo o texto, o profeta foi levado a um vale e ali ele teve a visão dos ossos secos. Ainda que num primeiro momento um vale e ossos possam parecer algo que não tem relação com esperança, nesse caso foi o contrário. Essa foi uma mensagem de esperança e renovação porque o profeta mostrou uma grande restauração que o Senhor faria para a nação que já estava no exílio há pelo menos 50 anos. Ezequiel 37.1-14 mostra que o povo de Deus seria reintegrado em uma só nação. Tudo o que é novo é desafiador e precisa da presença do Senhor para que haja sucesso e o desânimo não prevaleça. Tudo o que é novo também tem um propósito. No caso do texto, há duas ênfases, descritas abaixo. Elas mostram o que era fundamental e conduziria esse processo que o povo vivia, bem como porque era importante o povo ser renovado. a) Renovados pela mão e pelo Espírito do Senhor: O texto em destaque mostra que em um processo de renovação algo é fundamental: a ação da mão do Senhor e pelo agir de seu Espírito. Desde o início do livro (1.3c) se enfatiza que a mão do Senhor estava sobre o profeta. No caso de Ezequiel, a mão do Senhor estava com o profeta quando ele cumpria sua missão. É fundamental que a mão do Senhor esteja presente nos momentos de restauração, porque toda mudança pode ser algo assustador e, se não houver convicção da presença do Senhor, talvez corramos. É Deus, com sua mão estendida, que nos faz permanecer firmes diante do que vemos em suas revelações. Possivelmente o que o profeta viu foi assustador, mas não era qualquer mão que estava sobre ele, e sim a mão forte do Senhor. Por isso o profeta foi sustentado. Além da boa mão do Senhor fazer-se necessária num processo de renovação e mudança de vida, também é necessário considerar a presença vivificadora de seu Espírito. Já no início do texto (v. 2), observamos que isso é verdade, pois embora nessa visão o profeta entenda que a situação era caótica, pois os ossos estavam sequíssimos e sem sinal de vida (conforme vários versículos: 5, 6, 8, 9, 10), havia o agir do Espírito de Javé. É esse Espírito que traz a esperança da renovação, do princípio e do sopro da vida. Esse é o tempo em que o povo entende que Javé irá soprar vida, a exemplo do que fez em sua criação no início da humanidade. Javé está no comando da vida e seu Espírito trará renovação ao povo disperso. A visão dos ossos apontou para um milagre de renovação e restauração, com o povo retornando para a terra natal. Ezequiel revelou que Deus restauraria
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o povo e no futuro os levaria de volta à terra. Quando isso acontecesse, o interior das pessoas teria sido transformado: elas teriam um novo espírito e um novo coração, voltados somente ao Senhor. Pois não há renovação, não há esperança, não há vida ou mudança sem a presença do Espírito que concede a própria vida. Por isso é preciso entender que quando a forte mão do Senhor está sobre nós, seu Espírito nos fortalece. Por isso vamos em frente. Foi isso que o profeta vivenciou. Em todo processo que passamos há algo impressionante que devemos lembrar: a boa mão do Senhor e o seu Espírito estarão conosco e é isso que trará a renovação para nossas vidas. b) Renovados para reconhecer que Javé é o Senhor: Quando o povo é renovado pela boa mão e pelo Espírito do Senhor, isso está a serviço de alguma finalidade. Nesse caso era importante que o povo voltasse para Jerusalém, a fim de que todos soubessem que ele é o Senhor. O que acontecia devia levá-los a entender e testemunhar o que está dito nos versículos 13 e 14: [...] Então sabereis que eu sou o Senhor. Depois de tantos anos no cativeiro, talvez o povo já não mais acreditasse que o Senhor reinava e era soberano entre as nações. Agora chegou um momento especial, pois o Senhor esperava que, renovado, o povo reconhecesse que ele era o Senhor. Talvez tudo o que o povo experimentou no cativeiro o tenha levado a acreditar que Javé era um Deus menos poderoso que os deuses da Babilônia. Especialmente no aspecto religioso o povo deve ter enfrentado uma grande crise, tendo em vista a destruição do templo, considerado como a morada de Javé. A ação de Javé, para muitos, se restringia à sua terra. Pensava-se que ele não poderia ser adorado na Babilônia. Nesse sentido, Ezequiel foi o porta-voz de uma mudança de concepção. No cativeiro, o povo compreendeu que o seu Deus não estava limitado às paredes do templo, mas era soberano e habitava onde eles estavam. A frase E tu reconhecerás que eu sou Javé, que aparece várias vezes no livro, mostrou que esse era o propósito de Deus em seu agir. Tudo aquilo que Deus fazia era em função do reconhecimento de que ele era Deus (20.9,14,22). Desta maneira, pode-se crer que o Senhor atuou para mostrar, primeiramente, que ele era Deus, e não simplesmente por causa do povo. Em todos os momentos, Ezequiel mostrou que a ação de Deus aconteceu para que o seu nome fosse santificado entre os outros povos, da mesma maneira que deveria ser entre o seu povo escolhido. Com a frase Então sabereis que eu sou o Senhor (6.13; 7.4,9; 11.10,12; 12.20; 13.9,14,23; 14.18,23; 15.7 e outros), a santidade de Deus estava sendo ressaltada e entrava em contraste com a pecaminosidade do povo. Vários autores, como Schreiner, Kaiser e von Rad, destacam que, na compreensão do profeta, tudo foi feito pelo Senhor, para que seu nome fosse conhecido e não desonrado entre as nações (20.9,14,22), para que ele fosse reconhecido e adorado por aqueles que até o presente não o conheciam ainda ou o conheciam mal. Com Ezequiel surgem uma nova percepção e uma nova visão. Percebe-se que a presença do Senhor entre o grupo de deportados é real e essa percepção
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mostrou que o Senhor não estaria limitado a um templo e suas paredes, mas poderia ser adorado em terras estrangeiras e, ainda, ser conhecido por esses estrangeiros. A palavra de restauração dada aos desterrados foi importante, porque foi portadora de vida a eles. Nessa renovação eles entenderam que não foram esquecidos e ainda faziam parte do povo do Senhor, mesmo que tivessem enfrentado um período de exílio. Em resumo, Israel estava no cativeiro, disperso, sem esperança, sem perspectiva de vida, semelhante a uma multidão de ossos secos. Deus se manifestou por meio do profeta e mostrou que pode renovar e fazer do seu povo um novo povo ou fazer do ser humano um novo ser humano. Deus faz grandes coisas pelos seus, por meio de sua boa mão e de seu Espírito, mas é necessário não se esquecer que ele também espera que sejamos testemunhas e anunciemos sua grandeza e soberania entre as nações.
4 Imagens para a prédica O relato que segue nos faz refletir sobre aquilo que Deus nos proporciona. Após uma ação de livramento e renovação, é necessário haver um reconhecimento de que ele é o Senhor. “Furiosas ondas batiam contra o pequeno barco, no qual alguns refugiados tentavam alcançar as águas suecas. A tempestade desceu rápida e inesperadamente sobre eles. E, para aliviar o peso do barco, jogaram ao mar tudo o que puderam. A qualquer minuto, a embarcação poderia virar e todos seriam atirados nas profundas e agitadas águas do oceano. ‘Irmã Eva, ore por nós’, gritaram os refugiados. Sabiam que ela era cristã e queriam que orasse. Enquanto ela orava, renovaram-se as energias e esperanças dos refugiados. A tempestade foi passando. O barco, rumo a uma terra de liberdade e paz, movia-se, finalmente, atrás das ilhas e esconderijos. Todos estavam convencidos de que Deus havia lhes segurado com força as mãos, ajudando-os e abençoando-os” (E. During – Suécia).
Bibliografia KAISER, Walter C. Teologia do Antigo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1984. RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: ASTE, 1986.
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PRÉDICA: MATEUS 21.1-11
DOMINGO DE RAMOS
ISAÍAS 50.4-9a FILIPENSES 2.5-11
05 ABR 2020
Cláudio Kupka
Com disposição e firmeza Ouvem-se vozes de festa ao longe. Ouvem-se gritos de grande euforia. Multidão saudando um homem que chega. Quem é este que ao povo é capaz de devolver a esperança? Hosana ao Rei! Hosana ao Rei! Hosana ao que vem em nome de Deus! Ramos e vestes saúdam sua vinda. Homens, mulheres, crianças cantando. Sempre sonharam com este momento. Se calarem este povo, até mesmo estas pedras clamarão: Se a cruz foi seu trono, a coroa espinhos, o seu Reino é maior que qualquer sonho. Cristo vive e reina. Comunhão oferece para todos que de coração clamarem. Livro de Canto da IECLB , 418
1 Introdução O texto bíblico de Mateus 21.1-11 inspirou muita gente no decorrer da história do povo de Deus. Cristo saudado como rei entrando em Jerusalém é uma cena quase que apocalíptica. Cristo é digno de louvor e adoração como rei. Mas é uma história intrigante, pois o desfecho não foi aquele idealizado por seus seguidores tão empolgados pela trajetória de seu mestre. O que sucedeu àquele louvor todo? Que trono recebeu aquele rei? Mais ainda. Teria Jesus acolhido aquele louvor como se aquele fosse capaz de mudar eventualmente os rumos do seu desfecho trágico? O que se passava na mente e no coração de Jesus naquele momento? Domingo de Ramos é celebrado no começo da semana da paixão de Cristo. Cada gesto e palavra de Jesus nessa semana se revestem de uma intensidade simbólica especial. Os textos de leitura colaboram muito. Isaías 50.4-9a verbaliza o sentimento e a convicção de Jesus diante da ameaça condenatória. O Senhor é quem me defende, diz o v. 9a. Ele descreve profeticamente o sofrimento físico e emocional de Jesus. No filme Jesus de Nazaré, de Zeffirelli (1977), Nicodemos aparece recitando Isaías 53, enquanto Jesus está morrendo na cruz. Filipenses 2.5-11, o
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cântico messiânico, podia ser a narrativa de alguém distante, assistindo à entrada de Jesus na cidade. Descreve a humildade e a postura pacífica de Jesus, o servo de Deus. Devidamente acompanhado, nosso texto se coloca como um convite à nossa reflexão e meditação.
2 Exegese Em termos textuais, há discrepâncias sinóticas exatamente em relação a Mateus. É nele somente que há referência à jumenta e ao jumentinho (v. 2), enquanto os outros somente se referem a um jumentinho. Nele também é mencionada a citação de Zacarias 9.9 (v. 14,15), dando a ideia de que a maneira como acontece a entrada é cumprimento de uma profecia. Mateus, por sua vez, não descreve o momento da busca dos animais nem o questionamento do proprietário. O contexto de nossa perícope refere-se ao período em que Jesus atua na Judeia (Mt 19 em diante). Nesse período acentua-se a pregação sobre o preço do discipulado, o anúncio de sua morte e ressurreição. É provável que os discípulos não tenham percebido o real desfecho dessa ida a Jerusalém. O trecho de 20.20-28 descreve o inapropriado pedido da mãe de Tiago e João para que seus filhos pudessem sentar-se à direita e à esquerda de Jesus em seu reino, como se a perspectiva da atuação de Jesus fosse de sucesso em termos humanos. Jesus responde que se a disposição deles for a mesma de Jesus, isto é, de servir em amor e sacrifício, então poderão partilhar do mesmo cálice. Na sequência, mais parece uma ironia que Jesus tenha curado ainda dois cegos antes de planejar a entrada em Jerusalém. Em Lucas 19.41-44, um texto exclusivo daquele evangelista, Jesus se refere a Jerusalém como quem não pode ver quem é esse que a visita. O contexto posterior é conhecido. Jesus se dirige ao templo e expulsa os mercadores que transformaram aquela casa de oração, sob a licença da autoridade judaica, num covil de ladrões. Jesus segue, segundo Mateus, tratando do tema de sua messianidade e da crítica e rejeição dos representantes do povo judeu. Nosso texto pode ser dividido em três partes: (a) a preparação (v. 1-7); (b) a entrada (v. 8,9) e (c) a reação do povo de Jerusalém (v. 10,11). a) A preparação inicia com o envio de dois discípulos ao povoado de Betfagé. Essa pertencia aos limites territoriais de Jerusalém. Era uma espécie de bairro ou distrito e distava cerca de 1 km da cidade, que se preparava para a festa da Páscoa. Vindo de Jericó, o vilarejo que antecede Jerusalém é Betfagé, que significa “casa de figos”. Logo depois vem o monte das Oliveiras, o vale dos Cedros e a cidade de Jerusalém. Betfagé fica no limite da zona sabática em torno da cidade de Jerusalém. Os discípulos receberam instruções de Jesus de tomar uma jumenta e um jumentinho que estavam nesse povoado. Se alguém perguntasse algo, era para dizer que o Mestre precisa deles. A citação do v. 5 de Zacarias 9.9 tem em vista afirmar o cumprimento profético de que o Messias entrará em Jerusalém triunfante e vitorioso, mas de maneira humilde montado num jumentinho. No v. 10 há
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uma clara referência ao fim das armas de guerra e à instauração de um período de paz entre as nações. Zacarias profetiza em relação à volta do povo exilado e à reconstrução de Jerusalém. Ainda dentro da preparação da entrada, há uma primeira referência à colocação das próprias vestes dos discípulos sobre o jumentinho para que Jesus sentasse nele. Há uma série de referências importantes aqui no que diz respeito ao simbolismo do caminho tomado por Jesus. Geralmente, o cordeiro pascal era trazido de Betfagé e levado ao monte do Templo. O sol nascia justamente no monte das Oliveiras, por onde passava o caminho que Jesus tomou para chegar a Jerusalém. Provavelmente Jesus entrou pelo Portão Dourado, que está localizado na seção norte da muralha leste do monte do Templo, o qual era chamado de “O Portão da Misericórdia”. Ele é considerado o lugar por onde o Messias entrará no fim dos dias. Também de acordo com a tradição judaica, a Shekhinah /( שכינהPresença Divina) costumava aparecer pelo Portão Oriental e aparecerá novamente quando o Ungido (Messias) vier (Ez 44. 1-3). Há uma discussão se Jesus montou a jumenta e o jumentinho simultaneamente ou só um dos dois. Uma discussão irrelevante, ao meu ver. Os demais evangelhos só se referem ao jumentinho. Creio que isso resolve a questão. b) A entrada acontece em clima festivo com as pessoas espontaneamente colocando suas capas e ramos para Jesus passar. Tudo indica que esses gestos são referência à recepção efusiva de reis na cidade. Ramos eram usados na Festa dos Tabernáculos ou Festa da Colheita (Sucá/Sucot), ocasião em que o povo celebrava, ofertava sacrifícios, água e morava em tendas de ramos por sete dias, em gratidão pelo sustento de Deus durante a peregrinação no deserto e a ocupação da terra prometida. Tendas de ramos fazem referência à provisoriedade de suas moradias. Por outro lado, erguer e agitar ramos significa louvor a Deus (Sl 118.27). A entrada triunfal e os ramos da palmeira lembram também a celebração da libertação judaica em 1 Macabeus 13.51, que afirma: E entrou nela [...] com ações de graças e ramos de palmeiras, e com harpas e címbalos, e com violas e hinos e músicas. O povo à frente e atrás de Jesus o saudava dizendo: Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas! O texto refere-se ao Salmo 118.25-26, um salmo de ação de graças pela vitória de Israel que faz várias referências à esperança messiânica. Fala da pedra que os construtores rejeitaram e que se tornou a mais importante (v. 22), frase, aliás, que coincidentemente é citada pelo próprio Jesus na explicação da parábola dos lavradores maus (Mt 21.42). c) A reação do povo de Jerusalém (v. 10, 11) é espantosa. O evento literalmente abala a cidade (eseisthe – aoristo passado de seiō). Diante da pergunta sobre quem ele era, o povo fala dele como profeta, o que confere com uma das muitas designações de Jesus (Mt 16.14; Lc 7.16).
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3 Meditação Após pregar a mensagem do evangelho e sinalizar com curas e milagres essa novidade do reino de Deus, Jesus culmina sua missão indo na direção de Jerusalém, centro religioso, sede do templo. Ele enfrenta todos que o acusam e tramam sua eliminação. Jesus apresenta então claramente ao povo e aos opositores o caráter de sua mensagem a Jerusalém, que simboliza o povo de Israel. Como se diz em inglês: Jesus made a statement – Jesus faz uma declaração de seus princípios, do conteúdo de sua missão. Jesus é transparente na sua postura. Não é ardiloso nem age às escondidas. Lembremos a passagem de Marcos 14.48, 49: Vocês vêm com espadas e porretes para me prenderem como se eu fosse um bandido? Eu estava com vocês todos os dias, ensinando no pátio do Templo, e vocês não me prenderam. Ou seja, ninguém poderia estranhar que ele tivesse entrado na cidade daquela maneira. Ele não trairia sua maneira de ser e o conteúdo de sua mensagem nem na hora do confronto. Mesmo que pudesse ser postergado, era inevitável esse confronto. Lá se contraporiam dois projetos: o da autopreservação do judaísmo e o do reino de Jesus. É bom lembrarmos aqui a pregação de João Batista centrada na preparação à chegada do Messias. Quando esse Messias enfim chega a Jerusalém, espera-se um posicionamento, uma resposta. Espera-se um coração aberto ao Filho de Deus. Porém o medo da perda do poder e da ameaça à liderança deles sobre a religião judaica mobilizou essa liderança contra Jesus. Não aceitaram receber o Filho de Deus e a revelação da vontade de Deus. Jesus sinaliza sua posição ao usar o jumento, sinal de um rei que vem em paz. Aqui a novidade é que o reino de Jesus não se impõe pelo poder militar e pela violência, mas somente pela fé. Por isso é frágil diante das artimanhas humanas e permite ser aparente joguete entre os poderes romanos e judaicos e vítima da pior das penas romanas. Isso não abala Jesus. Ele cumpre todo o seu propósito, apesar de toda oposição. Jesus vem em paz, mas é ironicamente rejeitado da maneira mais ostensiva e simbólica possível. O povo sinaliza a percepção dessa oportunidade e o saúda com vestes e ramos. Se há dúvidas sobre quem saudou a entrada de Jesus ao entrar em Jerusalém (se poderia ser o mesmo que depois também gritou para que ele fosse crucificado), é verdade que Jesus aceitou esse gesto. Os discípulos põem suas vestes para Jesus sentar no jumento. Eles próprios empenharam suas vidas em compromisso com Cristo. Os discípulos também participaram desse louvor. Lucas coloca os discípulos em estado de euforia naquela entrada. Diante da crítica dos fariseus, Jesus cita aquela frase: Se eles se calarem, as próprias pedras clamarão. Parece que nada pode impedir que Jerusalém aclame seu rei. As próprias pedras serão testemunhas de que os seguidores de Jesus estavam com a razão. Jesus segue firme e consciente do conteúdo de sua mensagem e da rejeição já dada à sua mensagem e à sua pessoa. A euforia dos discípulos e do povo contrasta com a serenidade e humildade de Jesus. Ele continua focado na coerência
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Domingo de Ramos
de seu propósito e sua mensagem. Diante da aclamação ou diante da condenação, ele segue firme seu chamado. Essa é uma reflexão importante sobre nossa postura como povo de Deus. Nossa busca por clareza e firmeza de princípios deve ser um testemunho importante num mundo em que os conceitos e valores são fluidos e indefinidos. Facilmente nossa postura é acusada de ser tendenciosa e uma ameaça aos valores que sustentam nossa sociedade autossuficiente. Nossas armas para esse combate são a postura pacífica, a consciência comprometida com a vontade de Cristo e a coragem para enfrentar toda e qualquer força que pretenda destruir a criação de Deus e/ou distorcer nossa voz e serviço. Como aconteceu com Jesus, devemos estar dispostos ao sacrifício em nome do cumprimento do chamado de Deus. Devemos dizer como Pedro, diante de qualquer questionamento: Para onde iremos? Tu tens as palavras que dão vida eterna (Jo 6.68). Domingo de Ramos é momento de celebrar o louvor a Cristo e simultaneamente a vulnerabilidade de nossas intenções e nosso compromisso como discípulos. É tempo de meditar se estamos comprometidos com Cristo tanto na postura de paz como na firmeza de nosso propósito.
4 Imagens para a prédica 1. Certo dia o fósforo disse à vela: – Minha missão é te acender. – Ah, não! – disse a vela. – Tu não vês que, se me acenderes, meus dias estarão contados? Não faz uma maldade dessas, não. – Então quer permanecer toda a tua vida assim dura, fria, sem nunca ter brilhado? – perguntou o fósforo. – Mas ter que me queimar? Isso dói. Consome as minhas forças – murmurou a vela. – Tens toda razão – respondeu o fósforo. – Esse é precisamente o mistério da tua vida. Nós fomos feitos para ser luz. O que eu, como fósforo, posso fazer é muito pouco. Mas se passo a minha chama para ti, cumprirei com o sentido de minha vida. Eu fui feito justamente para isto: para começar o fogo. Tu és a vela. A tua missão é brilhar. Toda a tua dor, a tua energia se transformarão em luz e calor, e só assim poderão ser útil àqueles que necessitam de luz. Ouvindo isso, a vela olhou para o fósforo, que já se estava apagando, e disse: – Por favor, acende-me! 2. Eu acompanhei um amigo até a banca de jornal. Meu amigo cumprimentou o jornaleiro amavelmente, mas, como retorno, recebeu um tratamento rude e grosseiro. Pegando o jornal, que foi atirado em sua direção, meu amigo sorriu atenciosamente e desejou ao jornaleiro um bom final de semana. Quando nós descíamos pela rua, perguntei: – Ele sempre te trata com tanta grosseria? – Sim, infelizmente é sempre assim. – E tu és sempre tão atencioso e amável com ele?
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– Sim, sempre sou. – Por que tu és tão educado, já que ele é tão rude contigo? – Porque não quero que ele decida como eu devo agir.
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados Querido e amado Deus, confessamos que somos muitas vezes rápidos em nos comprometer com a tua causa, mas lentos em perceber o quanto a traímos com nossa maneira inadequada de viver. Perdoa-nos quando cremos que a agressividade de nossa defesa da fé traduz o real conteúdo de nossa mensagem cristã. Perdoa-nos por não saber compatibilizar a firmeza da fé com uma postura de respeito e paz para com o nosso próximo. Em nome de Jesus, oramos. Amém. Anúncio da graça Rendei graças ao Senhor, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre (Sl 118.1). Oração do dia Entra pelas portas, ó Deus, de nossa cidade. Entra pelas portas de nosso coração. Revela mais uma vez tua palavra que liberta e transforma. Que sejamos verdadeiramente acolhedores de teu amor e comprometidos com tua causa. Em nome de Jesus, teu Filho, único Senhor e Salvador, oramos. Amém. Cantos LCI 364, 416-421.
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PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 10.16-17 ÊXODO 24.1-11 MATEUS 26.36-56
QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO
09 ABR 2020
Flávio Schmitt
Comunhão é participação, também na ação
1 Introdução Os textos de leitura para a Quinta-Feira da Paixão nos colocam em sintonia com a comunhão proporcionada pelo corpo e sangue de Cristo. No texto de Êxodo 24.1-11, somos confrontados com a aliança feita por Moisés. Depois de ler o livro da aliança diante do povo, o povo responde prometendo obediência (v. 7). Em seguida, Moisés toma o sangue dos holocaustos e sacrifícios que havia sido recolhido em bacias e asperge sobre o povo dizendo: eis aqui o sangue da aliança (v. 8). Com essas palavras estava selada a aliança entre Deus e o povo. No texto de Mateus 26.36-56, temos a narrativa que fala da presença de Jesus com os discípulos no Getsêmani (que significa prensa), ocasião em que Jesus é preso. Em profundo estado de tristeza (v. 38), a tônica da primeira parte do texto gira em torno da vigília e da oração (26.36-46). Há um contraste entre o dormir dos discípulos e a atitude de oração de Jesus. Os versículos seguintes descrevem a traição (26.47-50), o papelão protagonizado por Pedro (26.51-52) e a fuga dos discípulos (26.53-56). O corpo, entregue para ser julgado e condenado, é o corpo da pessoa de Jesus. Em 1 Coríntios 10.16-17 Paulo está discutindo a função da Ceia na vida da comunidade de Corinto. O apóstolo afirma que a comunhão da comunidade ocorre no sangue e corpo de Cristo. Por ocasião do início da Quaresma, é manifestada a disposição de começar de novo, de renovar o viver diário, de deixar que as palavras do evangelho iluminem a vida das pessoas. Quaresma é um tempo para questionar a vida que se vive e oportunidade de comprometer-se com a nova vida que se espera. Agora que a Quaresma está chegando ao final, quando mais uma vez a comunidade lembra e relembra os acontecimentos que envolveram os últimos dias de Jesus, é hora de voltar a atenção para o que isso tudo significa em nossas vidas. Ao fazer memória da Quinta-Feira Santa, quando o tempo de mais uma Quaresma se abrevia, somos desafiados a olhar para os dias que se passaram e avaliar o que a Quaresma nos possibilitou. Porém, acima de tudo, a Semana da Paixão é oportunidade para olhar com mais atenção para o que Deus fez por nós na morte e ressurreição de Jesus.
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2 Exegese O texto V. 16 – O texto grego começa dizendo: o cálice (to potērion) da bênção (tēs eulogias) que abençoamos (ho eulogoumen) não é a comunhão (koinōnia) do sangue (tou haimatos) de Cristo (tou Chistou)? O pão (ton arton) que partimos (hon klōmen), não é a comunhão (koinōnia) do corpo (tou sōmatos) de Cristo? As perguntas retóricas somente podem ser respondidas com um sonoro sim. Como é possível perceber, apenas as palavras Cristo e comunhão são repetidas no versículo. Autores de auxílios de edições anteriores do PL (VII, XIII) têm chamado atenção para a inversão da sequência cálice-pão. O mais comum é a sequência contrária: pão-cálice. “Os exegetas fazem muitas suposições, dizendo que em Corinto teria havido uma sequência diferente das demais comunidades, ou que a inversão teria sido feita por Paulo para facilitar a ligação com a ideia da comunidade como pão, no v. 17” (DREHER, 1988, p. 173). A expressão “cálice da bênção“ remete à prática judaica de proferir a ação de graças sobre o cálice de vinho no final da refeição, em sinal de gratidão. A palavra “comunhão“ aponta para a união comum proporcionada pela participação na partilha do vinho e do pão. Paulo emprega a expressão “sangue de Cristo“ para falar da morte de Jesus. Com a palavra “sangue“ Paulo faz referência ao sofrimento e morte violenta de Cristo. É justamente nessa morte que reside a perspectiva salvífica de Jesus. Se a vida reside no sangue, conforme o entendimento judaico (Lv 17.11), derramar sangue significa matar (Gn 9.6). O que Paulo destaca ao falar do sangue de Cristo é o caráter salvífico da morte violenta de Jesus. Em suma, ao beber do cálice, tem-se a participação na ação salvífica da morte violenta de Cristo na cruz. De modo semelhante, o partir do pão é participação na comunhão do corpo de Cristo entregue à morte na cruz. Ao falar do pão, Paulo retoma uma prática judaica (Jr 16.7) de abençoar o pão, parti-lo e distribuir aos convivas. V. 17 – Porque (hoti o[ti) um pão (eis artos), um corpo (hen sōma), muitos somos (hoi polloi esmen), pois todos (hoi gar pantes) participamos (metechomen) de um único pão (ek tou henos artou). Chama atenção que o texto apenas destaca o elemento do pão. O que chama nossa atenção é o acento que Paulo dá ao pão. A comunidade de Corinto não teve apenas um pão em sua celebração. Mesmo assim, pode-se falar de um pão, pois os muitos pães passam a ser um em virtude de seu significado: todos eles dão participação na morte salvífica de Cristo. Também para a comunidade essa única dádiva tem um significado: a multidão de crentes torna-se um corpo. Participando da morte de Cristo ao comerem do pão, os crentes passam a formar um todo orgânico. Sua unidade não procede de decisão própria, mas é conhecida sempre de novo pelo
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Ressurreto que, na Ceia, dá participação em sua morte salvífica. Eles passam a formar uma fraternidade cristã (DREHER, 1988, p. 174).
O contexto O contexto em que Paulo transmite essas palavras à comunidade de Corinto está relacionado com a discussão iniciada em 1 Coríntios 8.1 e que se estende até o capítulo 11. Nessa parte da carta, Paulo trata da questão do consumo de carne dedicada aos deuses por ocasião do abate. A expressão carne sacrificada aos ídolos, normalmente utilizada para descrever a discussão da carta, já parte de um pressuposto cristão. No fundo, a forma como Paulo se expressa revela uma prática da sociedade de Corinto. A pergunta norteadora da discussão consiste basicamente em esclarecer se uma pessoa seguidora de Jesus pode ou não comer da carne comercializada no mercado público de Corinto e que foi abatida segundo um ritual religioso. Possivelmente a questão tenha sido colocada em discussão por parte de judeus. Para os judeus era proibido, por conta das leis de pureza e impureza, comer esse tipo de carne. Por essa razão judeus mantinham seus próprios abatedouros. Podemos pressupor que para os cristãos de origem não judaica, quem sabe acostumados com o consumo dessa carne, a questão não era assim tão relevante, embora que, pelo que nos dá a entender 1 Coríntios 8.7, esses também faziam objeção ao consumo dessa carne. Ainda assim, o assunto está colocado e o apóstolo se posiciona. Para responder à interrogação, Paulo recorre a quatro argumentos: 1. conhecimento e autoridade para o consumo de carne sacrificada: 8.1-13; 2. exemplo pessoal de desistência de liberdade: 9.1-27; 3. admoestação quanto à falsa segurança: 10.1-22; 4. liberdade e responsabilidade quando do consumo de carne sacrificada: 10.23-11 (DREHER, 1988, p. 172). Portanto o texto da pregação faz parte do terceiro ponto da argumentação do apóstolo. Num primeiro momento, Paulo recorre ao exemplo do êxodo (v. 1-13). A experiência do deserto serve como advertência. A situação é apresentada como sendo uma verdadeira tentação diante da qual a comunidade não pode sucumbir. No caminho escolhido pela comunidade reside a fidelidade ou infidelidade à aliança. Qual é a tentação? Disso o texto nos fala na sequência. A tentação é o que para Paulo é idolatria (v. 14), ou seja, não celebrar a ceia devidamente. No que diz respeito ao comer carne vendida no mercado, Paulo diz: comei de tudo que se vende no mercado, sem nada perguntardes por motivo de consciência; porque do Senhor é a terra e a sua plenitude (v. 25-26). Paulo polemiza, em 1 Coríntios 10.1-22, contra a participação em ceias pagãs com carne sacrificada a ídolos, partindo do Batismo e da Santa Ceia. Aparentemente (v. 12), os coríntios pensavam estar imunes à apostasia em virtude de sua participação nos sacramentos. Apontando para o êxodo e para a peregrinação de Israel no deserto, Paulo afirma que a salvação jamais está definitivamente garantida. Batismo e Santa Ceia não são garantia, mas chamam à obediência. A
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dádiva do Batismo e a da Santa Ceia chamam à responsabilidade. Com isso, Paulo elimina qualquer compreensão mágica dos sacramentos. Por outro lado, Paulo também evidencia que os sacramentos não têm seu significado apenas a partir da fé. Também em caso de desobediência os sacramentos têm um significado: condenação. Essa é a reação da graça oferecida para a salvação, quando rejeitada pelos seres humanos. Por isso (v. 14), em virtude da fidelidade de Deus (v. 13), a pessoa cristã nega-se, peremptoriamente, a participar de ceias cultuais pagãs, as quais Paulo designa de idolatria (v. 14). A participação nessas ceias é volta à vida anterior, pagã, da qual Cristo libertou a pessoa cristã, e provocação do juízo divino (DREHER, 1988, p. 172). Paulo dá a entender que o problema maior da comunidade não está efetivamente no problema que lhe foi informado. Pior do que a questão da carne abatida em nome de alguma divindade e consumida por pessoas que seguem Cristo em outros ambientes é o que está acontecendo na própria comunidade. Para o apóstolo, a verdadeira idolatria é outra. Trata-se das divisões existentes na igreja. Por um lado, a divisão entre ricos e pobres (1Co 11.17-22); de outro, a divisão entre os partidos: os de Paulo, os de Pedro e os de Apolo. Para completar o quadro, Paulo é considerado como um pregador de menor capacidade em relação a Apolo e a Pedro (1Co 3.4; 11.19). Como resposta à situação, Paulo centra sua argumentação na questão central: na cruz. Para o apóstolo, pão e vinho são sinais visíveis da cruz e ressurreição de Jesus. O cálice não é outra coisa que a comunhão no sangue de Cristo. O pão não é outra coisa que a comunhão no corpo de Cristo. Vinho e pão, sangue e corpo, somente serão elementos dignos da morte e ressurreição de Jesus onde e quando estiverem a serviço da comunhão entre os filhos e filhas de Deus.
3 Meditação Central para a pregação deve ser a compreensão de que o sangue e o corpo de Cristo na Santa Ceia nos dão participação na sua morte e ressurreição. Paulo é claro nisso. Pela comunhão somos incluídos no corpo de Cristo, passamos a fazer parte desse corpo. O apóstolo dá a entender que se é possível ter comunhão com o sacrifício aos ídolos, “quanto mais pão e vinho nos dão comunhão com o corpo e o sangue de Jesus, quando realmente são aceitos nesta fé” (BERNHARD, 1982, p. 109). Contudo, antes importa perguntar pelo que efetivamente significa “partir o pão”. Para a maioria das comunidades, Santa Ceia, partir o pão, não passa de um ritual do qual é necessário participar. A comunhão no sangue e corpo de Cristo pela qual a comunidade agradece deveria ser mais que um gesto eucarístico. Para fazer jus à cruz, implica a partilha do pão e do fruto do trabalho no dia a dia de quem participa do corpo. Aqui os gestos de partilha do próprio Jesus nos querem abrir os olhos para ver. Comunhão é participação, também na ação. Um ponto importante a ser considerado para a pregação diz respeito à unidade do corpo. Quem efetiva a unidade no corpo é a presença de Cristo no sangue e no pão. Ao fazer memória do que Deus fez por nós em Cristo, a comunidade
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que celebra a comunhão no corpo e sangue de Cristo se compromete e responsabiliza pela unidade desse corpo. Unidade não é resultado da boa vontade de quem participa da comunhão ou da comunidade, mas dádiva de quem se entende como acolhido na comunhão do sangue e corpo de Cristo. A prédica deveria acentuar que, enquanto tantos irmãos passam fome ao nosso lado, enquanto irmãos vivem explorados e oprimidos pelos mais fortes, enquanto irmãos nossos passam por dificuldades e sofrem injustiças que nós mesmos não gostaríamos de sofrer, enquanto tudo isso e muito mais ainda acontece ao nosso lado, a comunhão da Santa Ceia está incompleta. Enquanto não existir em nós a preocupação mais decisiva por justiça, e mais concretamente a vontade de entrar nesta luta, o processo de salvação iniciado na Santa Ceia fica fragmentado, interrompido (BERNHARD, 1982, p. 110).
Mais do que explicar o contexto da comunidade de Corinto e tirar lições da comunhão comprometida dessa comunidade, importa verificar qual é a “carne sacrificada aos ídolos” de nossa vivência de fé. Ou seja, perceber onde e como a comunhão no sangue e corpo de Jesus está sendo comprometida em nossa maneira de ser comunidade e igreja. Aqui o tema da aliança também pode ser retomado. Aliança e comunhão precisam andar juntas, em sintonia. São os dois lados de uma mesma moeda.
4 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados Senhor Deus, Cristo morto na cruz! Perdoa, quando não vivemos a comunhão que esperas de nós. Perdoa, quando tornamos leviano o sangue derramado para nos resgatar da morte para a vida. Perdoa, quando abusamos do pão da comunhão que celebramos. Reconhecemos, Senhor, que não temos tirado as devidas consequências da comunhão que temos na Ceia. Além de causar mal, temos sido omissos no serviço em favor dos irmãos e irmãs necessitados. Nossa partilha do necessário para a vida não reflete o cálice comum onde comungamos. Da mesma forma, nosso partir do pão fica entre quatro paredes e não tem alcançado as ruas, casas e becos onde estão os convidados à mesa. Perdoa, Senhor, nossa falta de fé. Cria em nós um Espírito novo e renova em nós a aliança contigo e com os irmãos e irmãs que a Ceia nos proporciona no sangue e corpo de Cristo. Tem, Senhor, piedade! Oração Senhor, em teu nome nos encontramos reunidos. Tu nos queres conduzir como teu povo, tua comunidade. Dá que por meio de teu Santo Espírito a comunhão seja edificada em nosso meio, quando partilhamos do corpo e sangue daquele que por nós morreu na cruz e foi ressuscitado. Em nome de Jesus, te pedimos. Amém.
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Oração geral da igreja Senhor Deus, Cristo Ressuscitado! Aqui estivemos reunidos como teus filhos e filhas. Como família da fé celebramos a comunhão no sangue e corpo de Cristo que nos liberta e dá vida. Agora nos voltamos a tua presença para pedir-te: – interceder pela comunidade, pela autenticidade de sua comunhão, pela partilha da vida; – interceder pela igreja, para que a comunhão dos santos permaneça viva como chama acessa em meio ao frio do inverno, em nosso país, continente e planeta; – interceder pelas necessidades e questões das pessoas da comunidade. Que a tua presença nos fortaleça e sustente, Senhor. Que o teu caminho nos desafie a caminhar pelas veredas da comunhão. Juntos, tu conosco e nós contigo, dá que testemunhemos o amor revelado na morte e ressurreição de Jesus, em cujo corpo e sangue temos comunhão. Permita que permaneçamos na tua aliança, na nova aliança, hoje e sempre. Amém!
Bibliografia BERNHARD, Rui. 1 Coríntios 10.16-17. In: KIRST, Nelson. Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1982. v. 7. BROWN, Raymond Edward. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2012. CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium, 1982. v. 2. DREHER, Martin. 1 Coríntios 10.16-17. In: HOEFELMANN, Verner. Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1988. v. 13.
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PRÉDICA: MATEUS 27.33-50 ISAÍAS 50.4-7 2 CORÍNTIOS 5.(14-18)19-21
SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO
10 ABR 2020
Werner Wiese
Uma morte (não) como todas as mortes
1 Introdução No último domingo terminou um período de 40 dias conhecido como Quaresma, que começa na Quarta-Feira de Cinzas e vai até o Domingo de Ramos. Desde o século 4 depois de Cristo, esse tempo de 40 dias que precedem a semana da Páscoa serve de modo particular para refletir sobre a vida, especialmente à vista da história de salvação de Deus em Jesus Cristo, de modo particular sua morte na cruz e sua ressurreição. A prédica de hoje inevitavelmente precisa focar no episódio da crucificação e morte de Jesus na cruz. Contudo, esse episódio não é claro por si só, uma vez que não foi crucificado somente Jesus; no mesmo dia foram crucificadas outras duas pessoas com ele, sem falar de incontáveis pessoas que foram crucificadas antes e depois de Jesus e que caíram no anonimato. Portanto, para não cair na vala comum de pessoas fadadas ao anonimato, a condenação e morte de Jesus carecem de interpretação. Os dois textos para leitura adicional no culto têm a finalidade de nos ajudar na interpretação da morte de Jesus na cruz. Apesar de serem textos de épocas muito distantes e escritos para situações bastante diferentes, portam elementos que teologicamente podem ser ligados com o sofrimento e morte de Jesus. O primeiro texto (Isaías 50.4-7) faz parte dos assim denominados “cânticos do servo do Senhor” ou “servo sofredor”, registrados acima de tudo nos capítulos 40 a 55 de Isaías. Desde cedo, o sofrimento e a morte de Jesus foram identificados com elementos desses cânticos, inclusive como cumprimento desses. Já em 2 Coríntios 5.(14-18)19-21, Paulo interpreta a morte (e ressurreição, v. 15) de Cristo como sinal do agir reconciliador de Deus abrangente no mundo. Isso não legitima suavizar o sofrimento e a morte de Jesus como expressão exclusiva do amor de Deus que isenta os agentes do processo, da condenação e crucificação de Jesus de cumplicidade.
2 Notas exegéticas e teológicas 2.1 – Notas do contexto Terminada a trama da prisão de Jesus e o processo formal – modo de dizer – para achá-lo culpado e torná-lo réu (cf. Mt 26.47 – 27.32 e os textos paralelos, incluindo o Evangelho de João), Jesus é encaminhado para a crucificação. No caminho para o local da crucificação, os agentes se depararam com um cireneu de nome Simão (Mt 27.32; cf. Mc 15.21; Lc 23.26), a quem forçaram a carregar
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a cruz (viga transversal) de Jesus. Isso porque Jesus estava exausto por conta das torturas infligidas a ele, ao ponto de não ter tido mais condições de carregar a cruz; ou foi um “ato de escárnio” que trata o Jesus condenado à morte como um “comandante” servido por um servo dele (GRUNDMANN, 1975, p. 557). O texto indicado para a prédica de hoje já foi elaborado em outros números de Proclamar Libertação (PL), por exemplo: v. 38, p. 154-158; v. 21, p. 111-116. Neste, a perícope para a pregação se estende até o v. 54. Resguardadas as diferenças menores ou maiores, o conteúdo da narrativa do texto encontra-se nos quatro relatos do evangelho. A delimitação do texto para a prédica é clara: ela inicia com a menção do local da crucificação (Gólgota) e termina com a morte de Jesus circunscrita com as palavras “entregou o espírito”. Essa delimitação deveria ser respeitada por quem prega. 2.2 – Aspectos exegético-teológicos V. 33-37 – A crucificação de Jesus. A crucificação era a mais cruel forma de execução conhecida na antiguidade. Ela foi inventada pelos persas e, por meio dos cartagineses, chegou aos romanos. Estes a aplicavam a criminosos de alta periculosidade, a escravos foragidos recapturados e a insurretos que ameaçavam a segurança do poder público. Legalmente, cidadãos romanos não podiam ser punidos com a crucificação. Jesus foi crucificado fora da cidade, no local chamado “Gólgota” (em grego Golgotha, do hebraico Gulgolet e do aramaico Golgalta, que quer dizer “lugar da caveira” [na língua grega kraniou topos – v. 33; cf. também Mc 15.15.22; Jo 19.17]), ou simplesmente “calvário” (kranion [Lc 23.33]). A maioria entre os intérpretes entende que o nome “lugar da caveira” deriva da própria topografia do local – uma colina em formato de cabeça/crânio. Uma minoria entende que “lugar da caveira” é um indicativo de que se tratava de um lugar considerado impuro (VOIGT, 1981, p. 187). Mateus não deu essa conotação ao lugar da crucificação. No local da mesma, deram a Jesus vinho com fel para beber (v. 34). Isso talvez seja uma referência ao Salmo 69.21, onde aquele que sofre espera em vão por misericórdia, mas recebe fel e vinagre no alimento. O evangelista Marcos (15.23) fala de vinho com mirra para tornar o condenado à morte inconsciente e amenizar um pouco a dor. Jesus recusou-se a bebê-lo. O evangelista Lucas omite esse detalhe. Os agentes da crucificação repartiram as vestes de Jesus como despojo legal pela ação bem-sucedida (cf. Sl 22.18) e assumiram a “segurança” para impedir qualquer intervenção de outras pessoas para libertá-lo da cruz (v. 35-36). A morte ocorria lentamente, às vezes só um dia ou mais depois da crucificação. Se um crucificado ainda não tivesse morrido até o final do dia, os guardas quebravam seus ossos como garantia contra qualquer libertação do crucificado (cf. Jo 19.31-34). No corpo do réu de morte afixava-se uma placa com a razão da condenação. Essa placa o condenado era obrigado a carregar do local do pronunciamento da sentença até o local da crucificação. Na cruz, ela era afixada acima da cabeça do crucificado. No caso de Jesus, na placa constava: “ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS”. Isso parece ter sido um misto de ironia de Pilatos contra os judeus, que não tinham rei, e um fundo de verdade da parte de Pilatos. Apesar de
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indícios da inocência de Jesus, que Pilatos reconhece (Mt 27.24; Lc 23.3-4,13ss), o fato de tê-lo condenado à morte é um indicativo claro para o que acontece com quem emite qualquer sinal messiânico: Roma não tolera quem não se submete ao seu poder absoluto e último. V. 38-45 – O cúmulo do escárnio contra Jesus. Como se não bastassem a humilhação e o tratamento desumano já sofridos antes de ser crucificado, agora pendurado na cruz Jesus sofre o escárnio social e teológico sem igual. O fato de ser crucificado entre dois “malfeitores” (v. 38) sinaliza que Jesus também é malfeitor e é o maior deles. Sobre esse episódio, o exegeta Schlatter comentou: “A política de Pilatos exigia que se evidenciasse publicamente que nesta cruz o messianismo foi julgado [...] Também nisso Pilatos deixou claro para o povo como ele (Pilatos) pensava sobre um Cristo judaico. O messianismo é motim e Jesus, por ser o Cristo, é o rei dos bandidos” (SCHLATTER, 1933, p. 781). As pessoas que passavam pelo local da crucificação transformaram o sofrimento de Jesus em espetáculo verbal da pior espécie imaginável (v. 39-40). Menear a cabeça (cf. Sl 22.7-8; cf. também Sl 44.14; 64.8) é sinal de escárnio teologicamente recheado com palavras do próprio Jesus (Mt 26.61; cf. também Jo 2.19) e com palavras ditas pelo próprio Deus a ele (cf. Mt 3.17; 17.5). Os “dignitários da religião” ou da “teocracia” (o Sinédrio), a elite do clero (principais sacerdotes), a elite teológica (escribas) e os guardiões do direito de Deus (anciãos) fazem coro com o escárnio de outras pessoas (v. 41-43). O que chama a atenção é que, enquanto Pilatos deu a Jesus o título de REI DOS JUDEUS como deboche, os dignitários da religião falam de “rei de Israel” (v. 42). O que se percebe aqui é que dois mundos diametralmente opostos pelos seus interesses – o poder de Roma (o império) e o poder de Deus (a teocracia) –, embora tenham mandamentos muito diferentes, tornam-se muito parecidos. O primeiro mandamento de Pilatos – representante do humanismo – reza: “o ser humano acima de todas as coisas” (Ecce homo – “Eis o ser humano!” – Jo 19.5). O primeiro mandamento do Sinédrio – representante da teocracia – reza: “Deus acima de todas as coisas” (Mt 26.66). Enquanto Pilatos age sem Deus, o Sinédrio age sem o ser humano. E o resultado tanto de um como de outro é o mesmo: a bestialidade que sacrifica e assassina o ser humano – no caso, Jesus, que “proclamou o reino de Deus escatológico” e questionou o mecanismo do esquema deste século – fosse ele religioso ou não (VOIGT, 1981, p. 189). V. 45-50 – A morte de Jesus. Morte decorrente de crucificação podia demorar um dia inteiro ou mais. Porém Jesus morreu relativamente rápido depois da crucificação. O evangelista Mateus registra que da sexta à nona hora (12 às 15 horas) havia trevas sobre a terra. Isso caracterizava o Yom Jahwe ou, dia do Senhor, como juízo sobre a terra (cf. Am 8.9). Jesus mesmo foi atingido pelo juízo de Deus, o que ele expressa em palavras de oração formulada a partir do Salmo 22.1: Eli, Eli, lama sabactâni? [...] Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Os dignitários da religião acabam de ter razão (v. 43): Jesus – o Filho de Deus – confiou em Deus até o fim. Porém Deus o abandonou e, consequentemente, não o quis bem. Portanto o escárnio se transformou em pura realidade. Jesus foi refutado por fatos incontestáveis e não por fake news. Os fatos na cruz colocaram em xeque as palavras do próprio Deus ditas em outras ocasiões: Este é o meu Filho
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amado em quem me comprazo (Mt 3.17). Agora o próprio Deus parece não ouvir aquele a quem sugeriu que fosse ouvido: [...] a ele ouvi (Mt 17.5). A ironia e o escárnio parecem não ter limites. O clamor de Jesus das maiores profundezas do abandono e da solidão é usado para, uma vez por todas, dar o xeque-mate do destino selado sobre aquele que confiou em Deus (v. 43a) e agora está abandonado: Ele chama por Elias [...] Deixa, vamos ver se Elias vem salvá-lo (v. 47b, 49b). Na tradição judaica, Elias é figura central do tempo messiânico que se esperava (Ml 4.5-6; Jo 1.21; Mt 17.3,11). Obviamente, Elias não viria salvar alguém que estava pendurado na cruz. Contudo, Jesus – abandonado por todos, inclusive pelo próprio Deus – não abre mão de Deus nem resigna, mas lhe entrega seu destino final, também na hora da morte: […] clamando [...] com grande voz, entregou o espírito (v. 50). As pessoas crucificadas agonizavam até a vida se esvair por completo. Entretanto, Jesus morreu conscientemente: em alta voz entregou o espírito deve ser entendido “como grito de vitória” (GRUNDMANN, 1975, p. 561).
3 Reflexões para a prédica Pregar na Sexta-Feira da Paixão e sobre textos conhecidos, como o indicado para hoje, é mais desafiador do que pode parecer à primeira vista, pois é fácil cair num senso comum. Por razões didáticas, destacamos alguns elementos que podem ser úteis: Primeiro – Na maioria das comunidades haverá culto na Sexta-Feira da Paixão. Em outras o culto acontece na Quinta-Feira da Paixão. E em algumas comunidades há culto tanto na quinta como na sexta-feira. Neste caso, provavelmente são pouquíssimas as pessoas que frequentarão os dois cultos. Isso, contudo, não significa que pregadores e pregadoras precisem preparar uma só prédica de um mesmo texto. Aliás, o calendário eclesiástico propõe dois textos diferentes para a prédica de cada um desses dias. Segundo – É provável que na Sexta-Feira da Paixão haverá pessoas no culto que não necessariamente são frequentadoras assíduas dos cultos ao longo do ano eclesiástico, mas, por alguma razão, vêm ao culto nesse dia. Não cabe a anunciantes da palavra nesse dia “adivinhar e dedar” possíveis motivos que trazem pessoas ao culto só nesse dia, mas cabe-lhes proclamar a palavra de Deus, da qual se espera que seja diferente de todas as palavras – também daquelas que a mídia disponibiliza. Terceiro – Na maioria das comunidades certamente haverá celebração da Santa Ceia; isso se dá por origem da própria Ceia do Senhor. Por isso anunciantes da palavra precisam definir como vão relacionar prédica a partir do texto previsto e a Ceia do Senhor, para não causar a impressão de que o culto é dividido em momentos distintos e desconexos. Quarto – Embora cada prédica deva ser bem e conscientemente preparada, a prédica para o dia de hoje requer atenção e esmero “redobrado”, não só pelas circunstâncias já mencionadas, mas mais ainda pelo teor do texto. Ele é destoante e desnorteador. O texto frustra expectativas humanas alimentadas de longa data. Vale lembrar que seis dias antes da Sexta-Feira da Paixão Jesus tinha entrado em
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Jerusalém sob aclamação pública de ser “rei” em Israel. Essas expectativas foram frustradas. Expectativas não só de pessoas que oportunamente tinham algum interesse em Jesus, talvez até meio escuso, ou que foram usadas como massa de manobra, mas também e em primeiro lugar as expectativas daquelas pessoas que estavam próximas de Jesus o tempo todo. Aliás, para o próprio Jesus a Sexta-Feira da Paixão transformou-se na mais dura tentação: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? É verdade, os fatos incontestáveis daquele dia não são a última realidade de Jesus e sobre ele – a ressurreição é proclamada dois dias depois. Mas justamente aqui está a questão: o evangelista Mateus não transforma o episódio da Sexta-Feira da Paixão numa “teologia da cruz” elaborada, que explicasse esse episódio como algo óbvio, cujo fim feliz é apenas uma questão de poucos dias. Consequentemente, quem prega a partir do texto para hoje faz bem de não transformar o teor da prédica em uma espiritualização rasa que ignora a dureza dos fatos e do sofrimento, em primeiro lugar do próprio Jesus, mas também a provação das muitas pessoas na comunidade de fé que confiam em Deus e, apesar disso, talvez exatamente por causa disso, clamam em voz alta ou afonicamente: Deus meu, Deus meu, por que...? É preciso primeiro saber quem é que aqui morre na cruz para só depois dizer por que e para que se morre aqui.
4 Subsídios litúrgicos Neste ponto pode-se recorrer a ótimo material elaborado e disponível em livros de culto, que ajudam na preparação dos elementos litúrgicos específicos para esse culto especial para a comunidade de fé.
Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. Sexta-feira da Paixão – Mateus 27.33-50. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2013. v. 38, p. 154-158. GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Matthäus. In: FASCHER, Erich (ed.). Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1975. SCHLATTER, Adolf. Der Evangelist Matthäus. 2. Auflage. Stuttgart: Calwer Vereinsbuchhandlung, 1933. p. 781 VOIGT, Gottfried. Die bessere Gerechtigkeit. Homiletische Auslegung der Predigttexte der Reihe V. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1981. p. 187-193.
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DOMINGO DA PÁSCOA
12 ABR 2020
PRÉDICA: JOÃO 20.1-18 ATOS 10.34-43 COLOSSENSES 3.1-4
Roberto E. Zwetsch
Páscoa – uma mulher anuncia: Vi o Senhor!
1 Introdução Este auxílio servirá para celebrar e pregar no Domingo da Páscoa. Grande dia, que, em muitas comunidades cristãs, começa já de madrugada com a vigília pascal, com caminhadas de reflexão, canto, oração, expressando o louvor e a alegria do significado da ressurreição para nós pessoas cristãs, para todas as igrejas que creem em Jesus, vivem na fé e a partir da fé no evangelho, e o colocam em prática de muitas e inusitadas formas. Este domingo precisa ser marcante para as pessoas da comunidade. Ele pode se constituir num momento de renovação pessoal, de voltar-se para o principal da vida de fé, de tal modo que o seu anúncio se torne sinal de conversão das pessoas e da comunidade, de nova caminhada, de renovação da fé batismal e do amor que recebemos e aprendemos a vivenciar a cada dia de nossas atribuladas existências. Examinando a coleção Proclamar libertação, percebi que essa perícope reaparece seguidamente no Lecionário Ecumênico de textos para pregação e, por isso, é uma das mais presentes, estudadas e meditadas. Portanto quem estiver se preparando para prédica deste domingo terá muitos recursos à mão para buscar informações e ênfases de conteúdo (http://www.luteranos.com.br/conteudo_ organizacao/governanca-rede-de-recursos-auxilios-homileticos/textos-do-novotestamento). Se me permitem, eu destacaria dois textos que podem ajudar: a) o primeiro vem do professor e pastor Gottfried Brakemeier (PL VIII, 1982), com observações breves e importantes sobre o Evangelho de João, com ênfase na teologia do apóstolo; b) o segundo é o auxílio elaborado pelo colega professor e pastor René Krüger, da IERP – Iglesia Evangélica del Río de la Plata (PL 34, 2009), com observações exegéticas precisas e pertinentes para a meditação que segue. Além desses subsídios, a perícope reaparece com estudos nos volumes XVI, XVIII, 24, 26, 38, 43. Por essa razão, aqui não vou me deter em questões exegéticas mais detalhadas, apenas retomar algumas informações que a meu ver poderão ajudar a trabalhar o foco que me parece central nesse anúncio da ressurreição de Jesus conforme a tradição da comunidade de João.
2 Observações exegéticas Relendo a perícope com atenção, percebe-se que ela é composta de pelo menos duas narrativas que, originalmente, estiveram separadas e foram então
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reunidas pelo evangelista João. Isso se pode ver nas ligações que ele estabelece entre os versículos 1-10 e depois 11-18. No v. 1, lemos sobre a ida de Maria Madalena ao sepulcro onde o corpo de Jesus fora depositado após ser baixado da cruz por José de Arimateia, auxiliado por Nicodemos. Ela e outras mulheres, mais o discípulo amado, já haviam estado junto à cruz até o desfecho da vida de Jesus. Maria foi ao sepulcro de madrugada no primeiro dia da semana e viu que a pedra estava revolvida. Correu depressa para avisar Pedro e outro discípulo, e ambos foram conferir. O texto diz que o discípulo a quem Jesus amava correu mais e chegou antes ao sepulcro, mas foi Pedro quem entrou nele e viu os lençóis e, à parte, enrolado, o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus. Mas o corpo não estava mais ali. Só então o outro discípulo entrou, viu e creu, diz o texto (v. 8). Essa parte termina afirmando que ninguém ainda havia compreendido a Escritura, que era necessário ele ressuscitar dentre os mortos. Laconicamente, essa parte termina dizendo que os dois discípulos então voltaram outra vez para casa. Emilio Voigt (PL 43, p. 161) escreve algo importante sobre essa parte do texto: se os discípulos começam a crer que Jesus ressuscitou, essa fé ainda não convence, pois ela fica “sem consequência. Não há manifestação de alegria nem de testemunho da ressurreição. Aliás, os dois [...] não falam uma palavra sequer em toda a cena”. Fé que não se traduz em consequências palpáveis fica inerte, não gera o seguimento para o qual o ressuscitado nos chama na Páscoa. Ainda não chegou a ser completa. Precisa ser transformada por um encontro que mexe com a alma, o coração, a mente, mãos e pés. A segunda parte do texto, a meu ver, guarda o centro e foco da perícope. E essa luz recai sobre Maria Madalena (cf. PL 24, texto de Claudete Beise Ulrich e Carlos L. Ulrich). Singularmente, todos os relatos da paixão, crucificação e ressurreição de Jesus mencionam a teimosa presença das mulheres junto ao mestre amado. Algumas delas já o acompanhavam desde a Galileia. Num tempo em que as mulheres eram desqualificadas e consideradas impuras muitas vezes, é impressionante registrar sua presença e a importância que essa fidelidade representou nas primeiras comunidades. Na perícope em estudo, Maria Madalena, que fora curada por Jesus e de quem saíram sete demônios, o que significa que ela foi curada integralmente, é personagem central. A prédica deveria acompanhá-la com atenção e carinho. Ela tem muito a nos ensinar ainda hoje. Sobretudo num tempo carregado de tantas sombras, injustiças e violências desmedidas em todos os âmbitos da vida pessoal, social e ambiental. Cada dia nós encontramos exemplos nos noticiários, muito embora em muitos deles a mídia tente suavizar o que é apenas a ponta do horror que se espalha qual erva daninha. Maria Madalena chora junto ao sepulcro. Vem em busca do corpo de Jesus. Mesmo num gesto desesperado, não pode admitir que ele fique abandonado. Seu gesto parece louco e sem sentido. É um gesto de amor gratuito, para o qual não existe recompensa. É uma entrega da presença solidária que nem na morte se acaba. Ou talvez precisamente por causa da morte, se prova de uma forma extrema. Vítor Westhelle oferece algumas páginas memoráveis sobre esse gesto das mulheres em seu livro O Deus escandaloso (p. 127ss), quando retoma a teologia da cruz e aponta para a “prática da ressurreição”: “Para aquelas mulheres, aquela
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cruz não era ainda o fim de tudo; ainda havia um trabalho a fazer”. E essas ações começam com uma mulher chorando. A dor do luto, da perda, da tristeza precisa ser externada, vivida desde a mais profunda solidão. Mas é nesse momento que, ao olhar para dentro do sepulcro aberto, Maria vê dois anjos. Eles lhe perguntam: Mulher, por que choras? Ela responde da forma mais direta possível: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram (v. 13). Ao voltar-se, viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. Então foi Jesus que lhe perguntou: Mulher, por que choras? A quem procuras? O texto continua no conhecido estilo de João, aquele dos mal-entendidos: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Ela pensa que é o jardineiro. E mais, imagina poder realizar algo sem sentido, pois não tem forças para isso nem saberia para onde levar o corpo. Parece que aqui está implícito todo o problema da pureza e impureza em relação à lida com mortos segunda a tradição cultural-religiosa judaica. Maria Madalena não leva isso em consideração. Seu sofrimento quase a deixa cega. Então vem a palavra que abre a vida e o coração dessa mulher extraordinária. Jesus a chama pelo nome: Maria! Só então ela como que desperta do seu pesadelo e responde na sua língua: Rabbouni (em aramaico, língua de Jesus também, quer dizer meu mestre). Sua resposta remete à palavra de Jesus em João 10.3: As ovelhas ouvem a sua voz, ele chama pelo nome as suas próprias ovelhas. E elas então respondem: Meu mestre! Nosso mestre! Segundo René Krüger, o uso do termo arameu esclarece de forma convincente que estamos diante de material redacional muito antigo, que vem da tradição das primeiras comunidades, embora esse evangelho tenha sido escrito por volta do final do século 1. Há uma relação familiar popular e reverente nessa resposta de Maria. Nos versículos 17 e 18, temos então algo que desconcerta. Jesus parece não aceitar a aproximação de sua fiel discípula: Não me detenhas, diz Jesus. Sua presença é diferente agora, não mais como antes da crucificação. Ele está ali, mas o sentido de sua presença é outro. Sem cair em especulações, basta perceber que o Ressuscitado não chama a reverência para si, mas aponta, instiga para o testemunho aos meus irmãos. Essa é a urgência que se apresenta. Quer dizer, de agora em diante a relação pessoal com o mestre se dá em comunhão com os irmãos e irmãs. É com eles e elas que o Ressuscitado aparece, se reúne, abençoa e envia. E isso fica patente com as palavras de Jesus que Maria deve transmitir: Vai ter com meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e o Pai de vocês, para o meu Deus e o Deus de vocês (v. 17). No v. 18, afinal, reencontramos aquela mulher que chora, que busca, que está afundada na tristeza e na dor, completamente mudada. Agraciada com a presença de Jesus, que a chama pelo nome, Maria se transforma ou é transformada. Ela fica tomada de uma grande alegria (eu-angelion) e se torna a primeira testemunha pública do Ressuscitado. Mesmo que seu nome ou de outras mulheres não sejam mencionados por Paulo em 1 Coríntios 15.5ss, não é possível ignorar na mensagem cristã este fato atestado aqui: Maria Madalena foi a primeira pessoa que anunciou, que proclamou: Vi o Senhor! Cristo vive! Essa tradição é tão ou mais importante justamente num tempo em que as mulheres não tinham nenhum valor. Ocorre que – por causa de Jesus Ressuscitado – as mulheres são
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finalmente reconhecidas. Elas testemunham, elas proclamam. Modernamente, creio poder afirmar: elas fazem teologia.
3 Meditação A pregação da Páscoa adquire a maior relevância em qualquer tempo, mas nos dias em que vivemos, ela se torna ainda mais urgente e relevante. Pois falar que a vida vence a morte, que Deus está ali junto aos crucificados para levantá-los e chamá-los para uma nova vida é crucial para a comunidade cristã, para o mundo. Essa narrativa, recontada na prédica, pode suscitar muita emoção. Penso especialmente nas mulheres de nossas comunidades, muitas vezes não suficientemente valorizadas, desde as mais jovens até as mais idosas. Aqui está bem nítido o papel central das mulheres como discípulas do Mestre Jesus. Nossa colega Wanda Deifelt chega a afirmar que a partir desse relato podemos dizer que Maria Madalena foi a “apóstola dos apóstolos”, uma vez que o verbo grego significa “enviar”, de onde temos “envio”. O Jesus Ressuscitado – ao falar com Maria pelo nome – não permite que ela fique enlevada adorando-o de forma estática (como me parece que sucedeu da mesma forma com os discípulos no monte de transfiguração cf. Mateus 17.2ss). Ele a envia para dar notícia aos irmãos. E ela vai e fala. Há uma dinâmica clara e desafiadora no encontro com o Ressuscitado, que é precisamente a dinâmica missionária. Aí temos um dos pontos centrais da mensagem da Páscoa. Ela não apenas nos causa emoção por nos encontrarmos com o Senhor vivo no meio de nós. A Páscoa – como no êxodo – é travessia, é envio, é testemunho, é chamado para viver a fé no caminho, na caminhada, na comunhão, na busca dos outros, da comunidade e para além dela. Vi o Senhor! afirma Maria e conta adiante o que se passou com ela e como venceu a dor, a tristeza e o luto, passando a proclamar com ousadia que Cristo vive, que Jesus não nos deixa órfãos, que segue adiante e nos chama a segui-lo pelos caminhos do mundo, especialmente lá onde pescadores, prostitutas, doentes mentais, pessoas sem rumo e sem teto, vulneráveis em todos os sentidos nos aguardam para escutar uma palavra que salva, para segurar a mão estendida, para acompanhar a luta pela vida que não tem limite ou fronteira. Páscoa é mensagem transformadora, e se me permitem dizer, revolucionária. Ontem, hoje e amanhã. Concluindo a meditação, segue um poema que escrevi faz tempo (Flor de maio, p. 53): Páscoa, travessia ... Páscoa, travessia da morte para a vida. A vida recobrada – nova – como o voo esplêndido da garça branca sob o céu azul da compaixão de Deus. Páscoa da saudade e da ternura da beleza e da esperança da novidade faceira
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ao canto do galo madrugador. Jesus conosco para sempre. Espírito de Cristo, a liberdade aqui e inteira a dignidade plena desta vida redimida abrindo em flores e cheiros. Páscoa – assumir os riscos todos. Viver ressurreição cada dia com a certeza: “Eis que estou com vocês todos os dias até o fim dos tempos”.
4 Subsídios litúrgicos Como essa perícope é a escolhida para o Domingo da Páscoa, um bom auxílio litúrgico – especialmente em comunidades que celebram a vigília pascal na madrugada – pode ser encontrado PL XVI, com um roteiro da vigília elaborado pelo pastor Ronald Baesler, a partir de sua experiência comunitária e pastoral. Ele traz um roteiro completo com os passos de uma vigília, diálogos com a comunidade e orações. De minha experiência pessoal, posso testemunhar sobre o impacto que tais vigílias causam em quem delas participa, especialmente em pessoas afastadas da comunidade ou até mesmo pessoas que nem conhecem uma comunidade cristã. Na Faculdades EST, há anos se celebra essa vigília dentro do Tríduo Pascal, que começa na quinta-feira com o lava-pés, passando pelo culto das trevas da Sexta-Feira da Paixão, para chegar na vigília, que termina com a alegria da celebração da ressurreição no alvorecer do domingo. Esse culto – celebrado com a Santa Ceia – normalmente termina com um ágape, em torno de uma farta mesa comunitária para a qual cada pessoa ou família leva algo a compartilhar. Onde quer que essa celebração venha sendo realizada, os testemunhos de quem dela participa sempre são efusivos, gratos, gerando uma nova visão sobre o sentido da Páscoa e a missão que dela recebemos, isto é, de anunciar adiante que Cristo vive, está entre nós e nos envia para viver neste mundo a fé e o amor que salva, redime e liberta de todas as formas de escravidão, do passado e do presente. O poema citado por Nélio Schneider (PL XVIII) pode ser inserido na liturgia: Assim como a árvore está oculta na semente, assim como o pássaro está oculto no ovo, assim como a criança está oculta no útero materno, assim está oculto neste mundo o reino de Deus. Um dia se romperá a casca da semente, se partirá a casca do ovo, gritará a mãe nas dores de parto: vida nova está nascendo! Será a dor do mundo, a dor da mãe que está dando à luz? (Johnson Gnanabaranam, cristão indiano)
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Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. Observações introdutórias referentes ao Evangelho de João. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1982. v. VIII, p. 7-15. KRÜGER, René. Domingo da Páscoa: João 20.1-18. In: Proclamar libertação. São Leopoldo: Sinodal, 2009. v. 34, p. 162-168. WESTHELLE, Vítor. O Deus escandaloso. O uso e abuso da cruz. Trad. Geraldo Korndörfer. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2008. ZWETSCH, Roberto. Flor de maio. Poemas. São Bernardo do Campo: Nhanduti, 2014.
2º DOMINGO DA PÁSCOA PRÉDICA: 1 PEDRO 1.3-9 JOÃO 20.19-25 ATOS 2.14a,22-32
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3º DOMINGO DA PÁSCOA
26 ABR 2020
PRÉDICA: LUCAS 24.13-35 ATOS 2.14a,36-41 1 PEDRO 1.17-23
Eloir Enio Weber
Fica conosco: um gesto diaconal
1 Introdução A partir de meados de 1990, o Domingo Misericordias Domini passou a ser denominado, na IECLB, de Dia Nacional da Diaconia, porque a mensagem central nos leva a refletir sobre a misericórdia de Deus. O conjunto de três textos colocados para este domingo nos traz a mensagem do Deus misericordioso que veio em forma humana em Jesus Cristo e que, movido pelo seu imensurável amor, morreu na cruz, mas no terceiro dia ressuscitou e apareceu aos seus discípulos. Esse agir de Deus nos convida para promovermos gestos diaconais. O texto do evangelho relata o evento do entardecer da Páscoa. Dois discípulos iam, tristes e abatidos, para Emaús e foram surpreendidos por um caminhante, que andou com eles. Ele falou sobre o projeto de salvação de Deus. Em seguida, em um gesto diaconal, os dois convidaram o terceiro caminhante para ficar e o hospedaram. No fim, reconheceram-no quando ele partiu o pão. Há uma bonita ponte entre os textos, pois Atos dos Apóstolos traz à memória a primeira pregação pública da igreja cristã (colocando Pentecostes como marco de fundação da igreja). Nessa pregação, Pedro aponta para a morte e ressurreição de Jesus, chama ao arrependimento e convida para o batismo. A primeira pregação cristã traz o teor e o balizamento para todas as mensagens proferidas do púlpito a partir de então. Já o texto de 1 Pedro aponta para a centralidade de Cristo e as consequências disso para nossa vida e nosso agir cristão. O serviço (diaconia) da pessoa cristã está amparado no agir primeiro de Deus em Cristo e que leva ao amor fraternal não fingido (1Pe 1.22 NAA). Temos, portanto, um conjunto bonito para refletir sobre a misericórdia divina e a diaconia cristã.
2 Exegese Dentre os evangelhos sinóticos, Lucas é o evangelista que mais relatos exclusivos apresenta. Segundo a tradição, seu autor era médico. Escreveu o evangelho para as pessoas de fala grega, que eram muito críticas. Justamente por apresentar Jesus com um rosto bastante humano, o Evangelho de Lucas aprofunda o entendi-
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3º Domingo da Páscoa
mento dos ensinamentos dele e ajuda a apreciar mais plenamente seu amor e sua compaixão por toda a humanidade, destacando, assim, seu agir diaconal. O texto de prédica aparece também no final secundário do Evangelho de Marcos (16.12-13). Mas trata-se provavelmente de um resumo do texto de Lucas, incorporado por algum copista ao segundo evangelho. É o texto de Lucas, portanto, que serve de fonte primária e exclusiva para essa tradição. Lucas narra com detalhes o acontecimento do entardecer do dia da Páscoa, talvez 12 horas após os primeiros rumores sobre a ressurreição e os contatos do Cristo ressurreto com algumas pessoas. Esses dois homens estavam indo para Emaús (palavra que significa “águas quentes”), vilarejo próximo a Jerusalém. Pode-se imaginar o abatimento, a tristeza e a desesperança nesse caminhar. O fato de caminharem em dois é significativo, pois a convivência e o desabafo são necessários e terapêuticos diante da perda. Na caminhada conjunta, um exerce a diaconia ao outro. A diaconia acontece em “mão dupla” – ambos doam e recebem. Nessa troca, a cura fermenta. Nessa dinâmica diaconal, um terceiro caminhante se junta à dupla. Eles não o reconhecem, pois os olhos deles estavam como que impedidos de o reconhecer (v. 16 NAA). Algumas vezes já se classificou esse fato como falta de fé. No entanto, não consigo ser categórico quanto a isso. Prefiro olhar o fato como reflexo da profunda tristeza que sentiam e a tendência humana de não conseguir fazer as leituras claras diante de uma situação de crise. O gesto de Jesus de achegar-se a eles de forma sensível e leve, fazendo perguntas poimênicas, terapêuticas e que provocam reflexão, é de uma beleza e profundidade diaconal ímpar. Poder-se-ia dizer facilmente que se trata de uma aula de clínica pastoral. Três perguntas marcam o início da conversa entre Jesus e os dois caminhantes (v. 17-19): a) Jesus pergunta o que eles estavam conversando ao caminhar. Trata-se de uma pergunta aberta, que possibilita uma série de respostas. Provoca reflexão e sentimentos para a pessoa questionada. É uma boa pergunta para iniciar uma conversa. b) Cleopas (o único dos dois que é identificado pelo nome) não responde. Ele reage como se estivesse na defensiva. Talvez acuado com o que houve em Jerusalém. Precisava sentir com quem estava conversando, para ter segurança. A gente não sabe a entonação de sua voz, mas a pergunta pode ser compreendida quase como um xingamento ou, no mínimo, um espanto diante da desinformação. c) Jesus devolve a pergunta. E de novo usa um questionamento bastante aberto. Com essa segunda pergunta Jesus consegue o que desejava desde o início da conversa: que falassem dos acontecimentos e, assim, refletissem (de forma curativa) sobre os mesmos. Falar sobre as crises nos auxilia a ensaiar e buscar insights de cura. Com isso Jesus busca uma aproximação diaconal, de serviço, de aceitação e de compreensão. Os v. 19b até 24 trazem a resposta dos discípulos. Inicialmente falam sobre a identidade de Jesus, de como o experienciaram e da esperança de que fosse ele quem haveria de redimir Israel (v. 21 NAA). Chamo a atenção desse aspecto da esperança bastante popular no Antigo Testamento e que está presente no contexto
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3º Domingo da Páscoa
da Páscoa – que o Messias enviado por Deus haveria de restaurar Israel, conduzindo-o novamente a seus momentos áureos. Outro aspecto importante da resposta deles é quando falam do que as mulheres relataram: que foram ao túmulo, viram a pedra removida e não acharam o corpo de Jesus. Fato confirmado por alguns dos nossos (leia-se, homens), para confirmar a informação das mulheres (aspecto sociológico importante: testemunho feminino não tinha credibilidade para aquele contexto). Somente a partir desse ponto Jesus começa a falar e explicar as Sagradas Escrituras. Elas são utilizadas para iluminar as experiências da vida. Quando chegaram ao vilarejo, foi a vez de Jesus ser “diaconado”. Com a proximidade da noite, houve a preocupação em não deixar esse estranho caminhante seguir sozinho o seu rumo. O convite, no fundo, é um desejo: Fique conosco... (v. 29 NAA). A proximidade que a diaconia proporciona se reflete no desejo de continuar a conviver e a desfrutar da companhia. Ser “diaconado” acende o desejo de “diaconar”. Na janta, o estranho caminhante abençoa e parte o pão. Nesse momento ele é reconhecido. O gesto evoca as ceias de Jesus com os discípulos, sobretudo a última ceia antes da paixão, quando ele se doou em forma de pão e vinho em favor da humanidade. Jesus é reconhecido e, por meio do sacramento, a fé cristã é desafiada a tornar-se ativa e reconhecida no mundo como diaconia. Diante do reconhecimento de que Jesus estava com eles, realiza-se a Páscoa (passagem) para aqueles dois caminhantes. A presença física dele é substituída pela fé, que crê na presença constante dele em suas vidas e fortalece para a caminhada cristã de cuidado, compreensão e acolhimento (ações diaconais). Eles, então, entenderam porque o coração nos ardia no peito, quando ele nos falava pelo caminho (v. 32 NAA). Poder-se-ia afirmar com toda a certeza que os seus corações arderam não somente quando o ouviram falar, mas também enquanto eles falavam e caminhavam com Jesus. A troca de cuidados (diaconia) faz arder o coração e fermenta a cura das chagas e das dores que carregamos. Jesus faz esse ardor acontecer. A reação deles diante de tão grande (re)encontro é bonita. Eles vencem o cansaço da caminhada do final da tarde e se colocam a caminho de volta a Jerusalém. A novidade não cabia neles, precisava ser compartilhada. Experiências diaconais precisam ser celebradas em comunidade. O grupo de discípulos representa essa comunhão celebrativa e curadora de irmãos e irmãs na fé. A experiência diaconal precisa passar pela celebração comunitária, assim ela recebe significado e é retroalimentada.
3 Meditação Fica conosco, porque é tarde, e o dia já declina: um convite diaconal, de cuidado, de proteção, de acolhimento e de hospitalidade. Esse gesto/convite é fruto de alguém que sente seu coração arder. Somente alguém que foi tocado pela Palavra produz essa diaconia da hospitalidade.
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O convite parte do coração grato de quem recebeu consolo e esperança nas palavras ditas por aquele caminhante que, inicialmente, parecia desavisado ou desatualizado dos acontecimentos trágicos ocorridos em Jerusalém. Esse gesto/convite sempre mexeu comigo de uma forma diferente, desde tenra idade. Porque toda vez que ouço ou leio essa palavra, lembro que já fui “diaconado” e hospedado de uma forma muito parecida. Compartilho, aqui, a minha experiência. Nasci e cresci em uma localidade à beira do rio Turvo, no interior de Três Passos/RS. O rio Turvo é de tamanho médio, mas muito perigoso por causa da correnteza da água. A travessia do rio era feita por canoas. Havia vizinhos que faziam o trabalho de travessia. Certo dia, fui com meu pai a uma casa comercial no lado oposto do rio. Eu tinha em torno de sete anos na época. Saímos no meio da tarde e a previsão era voltar antes do anoitecer. No entanto, a pessoa que deveria atender o meu pai demorou e isso atrasou muito a nossa volta. Para voltar, andamos a pé e, quando chegamos ao rio, para a travessia, já era noite. Chegamos à casa do seu Laufer, que, por coincidência, é filho da parteira que me trouxe ao mundo. Seu Laufer disse: “Mas, Alindo (era assim que chamam o meu pai, Arlindo), está escuro e o rio está forte hoje. Você está com o seu filho. É melhor vocês ficarem aqui. A gente chama o vizinho do outro lado para ele avisar a sua esposa. Amanhã, bem cedo, atravessamos”. Depois de insistir, ele acabou convencendo o meu pai. Hoje penso que foi a forma que ele usou para dizer a nós a mesma palavra que Jesus ouviu dos dois caminhantes: Fica conosco, porque é tarde, e o dia já declina. Em pouco tempo, a Frau Laufer pegou um galo, o marido havia preparado um chimarrão e depois de um tempo estávamos jantando, à luz de um liquinho, pois a energia elétrica não havia chegado ainda naquele lugar. Confesso que até hoje, quando fecho os olhos e lembro aquela noite, sinto o gosto da sopa de frango e da galinhada servidas. Até hoje não sei se o gosto ficou na minha lembrança porque a comida da Frau Laufer realmente estava ímpar, se eu que estava com muita fome ou se esse é o gosto da gratidão. Acho que esse é o gosto de quem experimenta o doce sabor de ser diaconado, da pessoa que recebe o convite: Fica conosco, porque é tarde, e o dia já declina. Em gestos de diaconia acolhedora é que se reconhece o Jesus ressurreto. Não só no gesto de partilhar o pão, mas em colocar-se inteiramente ao lado de quem necessita. As necessidades podem ser momentâneas ou duradouras: as primeiras são semelhantes àquelas apresentadas no texto e a que vivenciei com o meu pai, na casa dos Laufer; as outras são mais delicadas, pois precisam de acompanhamento de longo prazo – geralmente são situações de pobreza ou de saúde fragilizada. Na diaconia do acolhimento está presente: Sempre que o fizeram a um destes meus pequeninos irmãos, foi a mim que o fizeram (Mt 25.40 NAA). Vivemos em uma sociedade complicada, individualista e, por vezes, perigosa demais para dizer fica conosco, porque é tarde, e o dia já declina. Nesses tempos conturbados, é necessário atualizar a diaconia do acolhimento, a fim de não correr riscos, mas, especialmente, para não ser insensível diante das reais necessidades que estão em nossa volta, em nossa rua, na porta de nossa casa.
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O que não muda, no entanto, é a base da nossa ação diaconal em dizer fica conosco, porque é tarde, e o dia já declina, porque só somos capazes de fazê-lo se o nosso coração arder. E a presença de Jesus, hoje, por meio do Espírito Santo, é que realiza essa obra em nós. Isso é graça, é agir gracioso de Deus em nós. Em resposta de gratidão somos desafiados a abrir nossos braços, corações e portas.
4 Imagens para a prédica Eu gosto de ouvir e contar histórias. A neurociência explica o fato de as pessoas gostarem de ouvir histórias contextualizadas com a sua realidade. No entanto, penso que é necessário ter muito cuidado para não transformar a pregação em um remendo de histórias. Elas podem dar a impressão (e, muitas vezes, de forma correta) de uma pregação bastante rasa teologicamente. Portanto cuidado! O texto bíblico proposto para a pregação é bastante plástico. Pode ser lido e, depois, durante a pregação, ser recontado, colocando a análise e a reflexão exegética e teológica. Eu faria isso. O presente estudo que apresento, na parte da exegese, traz subsídios para contar a história, destacando os principais pontos e refletindo a partir deles. O tema do domingo, Dia Nacional da Diaconia, deve aparecer. A Misericordias Domini precisa aparecer bem forte na celebração deste dia e, como destaquei acima, o conjunto de textos nos dá subsídios teologicamente sólidos para a temática do serviço, do acolhimento, da hospitalidade, da diaconia. Se for do seu agrado, penso que a história que compartilhei acima se adapta muito bem para exemplificar, na prática, o que o texto bíblico nos traz. A história faz uma ligação entre o texto bíblico, a prática diaconal do acolhimento e a vivência do mandamento do amor decorrente do batismo. Imagino que com esse conjunto de fatores tem-se condições de elaborar uma boa pregação: profunda teologicamente, mas leve e simples para a pessoa que vai participar da celebração.
5 Subsídios litúrgicos Penso que a celebração do Dia Nacional da Diaconia precisa receber um destaque na vida comunitária, especialmente no mundo individualista em que vivemos e, nos últimos tempos, mais preconceituoso e intolerante. O texto bíblico, com sua plasticidade, permite preparar um ambiente muito especial para a celebração. A estética da preparação não pode ser descuidada nem deve se sobrepor ao evangelho. A partir do Evangelho de Cristo, o central, o ambiente precisa ressaltar a mensagem de salvação. Proponho que se faça um caminho pelo qual as pessoas necessariamente tenham que passar para entrar no templo para a celebração. Pensando no caminho que os dois (três) caminhantes fizeram, pode-se colocar placas com palavras significativas para a reflexão sobre a caminhada da vida, sobre o texto bíblico e sobre a diaconia do acolhimento (fica conosco). Esse caminho pode passar pela pia batismal (lembrando o texto bíblico de Atos) e culminar na cruz (textos de
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1 Pedro e, especialmente, de Lucas). Durante a celebração, trocam-se as placas com algumas palavras de envio, para serem lidas na saída do templo. Sugestões de hinos LCI 564: Dá-nos olhos claros LCI 567: Canção do cuidado LCI 568: Nem só palavra é amor LCI 571: Viver com Jesus é cantar O Povo Canta 112: No caminho de Emaús
Bibliografia BÍBLIA SAGRADA. Nova Almeida Atualizada. Barueri/SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.
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4º DOMINGO DA PÁSCOA
PRÉDICA: ATOS 2.42-47
03 MAIO 2020
JOÃO 10.1-10 1 PEDRO 2.19-25
Anelise Lengler Abentroth
Vida partilhada: um sonho possível?
1 Introdução Ao buscar referências bibliográficas para escrever este subsídio, deparei-me com a publicação no PL XI, para o 7º Domingo após Trindade, escrita pelo P. Bertoldo Weber, disponível no Portal Luteranos (http://www.luteranos.com.br/ conteudo/atos-2-41a-42-47). Faço menção dessa publicação pela sua importância e atualidade. Mesmo que tenha sido escrito no século passado, em 1985, recomendo sua leitura. O livro de Atos, provavelmente escrito no final do primeiro século pelo autor do Evangelho de Lucas, nos relata o caminhar das primeiras comunidades até os confins da terra. Por alguns, ele é chamado de “Evangelho do Espírito”, pois conta que o Espírito Santo prometido fez nascer a igreja e a impulsionou para o testemunho de Cristo para todos os povos. Esse testemunho corajoso e aberto transformou vidas, relações e estruturas sociais, que se chocaram frontalmente com interesses econômicos, políticos e religiosos vigentes. Tanto pelas descrições do modo de vida comunitário, bem como pelo empenho apostólico, encontramos em Atos um jeito de ser igreja um tanto utópico, diante da nossa experiência de ser e viver comunidade. Porém essa reflexão pode ser desafiadora para todas as comunidades, a fim de redescobrir sua própria identidade e seu desafio missionário.
2 Exegese Os primeiros 12 capítulos do livro de Atos tratam da divulgação da Palavra em Jerusalém e na Palestina. Nossa perícope se insere na descrição do modo de vida da comunidade primitiva de Jerusalém (1 – 5). Conforme Gottfried Brakemeier, “trata-se de sumários, isto é, de unidades literárias que têm a forma de resumos formulados por Lucas com base em algumas breves notícias históricas que a ele vieram da tradição” (BRAKEMEIER, 1985). As características da primeira comunidade podem ser descritas assim, conforme o texto: a) perseveravam na doutrina dos apóstolos; b) cultivavam a comunhão entre os irmãos e as irmãs, também de bens; c) partiam o pão (Santa Ceia) nas casas; d) a oração era prática assídua; e) testemunhavam os sinais e as maravilhas feitos pelos apóstolos.
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As primeiras comunidades cristãs constituíam o grupo dos seguidores de Jesus (At 1.15), de lideranças reconhecidas (At 1.13), uma comunidade que realiza suas reuniões (At 1.15ss; 2.1; 12.12) e faz no mesmo lugar sua oração cotidiana (At 2.46), vive em comunhão (4.32) praticando a fé, a unidade e a partilha de bens (At 2.44ss; 4.32; 4.34-37), de sorte a merecer a estima de todo o povo (At 2.47). As primeiras comunidades cristãs não se fecham em si mesmas, mas abrem-se à universalidade do testemunho do anúncio da Boa-Nova de Jesus Cristo morto e ressuscitado (At 2.10; 15.21). O evangelista Lucas idealiza as primeiras comunidades cristãs partindo do plano de Deus no Antigo Testamento. As características delas se formam seguindo os ensinamentos propostos pelos apóstolos, na tentativa de viver segundo os ensinamentos e a prática de Jesus. Perseverar na doutrina dos apóstolos é mais do que permanecer fiel à pregação dos fatos ocorridos em Jerusalém. Jesus é o eixo central da vida deles. Sem Jesus ressuscitado, a vida perderia todo o sentido. Perseverar significa ocupar-se dedicadamente e colocar seus ensinamentos em prática no dia a dia. A palavra remete à ação e esta confirma a palavra. Conforme Eduard Lohse, o conteúdo da mensagem contém uma cristologia simples: Deus legitimou Jesus através de seus feitos milagrosos (2.22). Não obstante os judeus o rejeitaram e o pregaram na cruz (2.23), ao passo que Pilatos queria libertá-lo (3.13). Na morte de Jesus cumpriu-se a morte e ressurreição do Messias pronunciadas no AT. Pela ressurreição Deus o exaltou e o empossou à sua direita (2.36; 5.31; 13.23). Desse modo ele se tornou kyrios e sōtēr, de sorte que em seu nome todo o mundo alcança a salvação (4.12). Para que se possa receber a salvação, são necessários arrependimento e conversão (2.36; 3.19) bem como o batismo (2.38). Quem pertence a Jesus será salvo no juízo vindouro (10.42) [...]”(LOHSE, 1972, p. 169).
Lutero afirmou que é na pregação da Palavra, na comunhão, no partir do pão e na oração que se reconhece a igreja de Cristo. Da tradição judaica, os seguidores e seguidoras de Jesus trouxeram consigo o aprendizado da oração no templo. De Cristo, aprenderam a partilha do pão, não apenas como uma celebração simbólica, o pão eucarístico, mas como uma refeição comum, na qual o pão sobre a mesa é o pão que sustenta a vida e precisa estar na mesa de todos. Aparece então pela primeira vez a palavra omothymadon (literalmente, mesma alma, unânimes), que nesse texto vai exprimir a união das pessoas cristãs, chamada de koinonia/comunhão. A comunhão evidencia-se na partilha de bens, pois à medida que alguém tinha necessidade, eles vendiam suas propriedades e distribuíam entre todos (2.45). Pesquisadores falam em uma comunhão de consumo, já que o que tinham era partilhado. Não há relatos de uma comunhão de produção. Desta forma, não podemos falar em um sistema econômico comunista, pois o que se percebe são
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ações baseadas na espontaneidade amorosa presente na comunhão de irmãos e irmãs na fé. Para os discípulos e as discípulas de Jesus, a forma como viviam era consequência do evangelho. A comunhão verdadeira não é apenas espiritual, mas assume todos os aspectos da vida, inclusive os bens materiais. Muitos vieram da Galileia, onde eram pescadores. Abandonaram sua base de sustentação econômica e se fixaram em Jerusalém. Ali necessitaram das doações voluntárias dos irmãos e irmãs que tinham posses. Privados do seu meio de produção, e por causa da demora da parúsia, passaram a ter necessidade de ajuda. Apesar do texto não fazer referência, é sabido que os primeiros cristãos aguardavam a volta gloriosa do Senhor, como ele havia prometido, e para eles isso seria em breve. Assim, o tempo era necessário para a missão de levar o evangelho a todos os povos. Certamente a comunhão e a partilha experimentadas não foram perfeitas nem sem problemas. Baseavam-se no cumprimento de Deuteronômio 15.4, onde a vontade de Deus expressa que não deve haver pobres no meio do seu povo. Porém o relato de Atos 5.1ss revela que Ananias e Safira venderam sua propriedade e retiveram uma parte do dinheiro para seu uso. A não observância do compromisso comunitário põe por terra a estrutura econômica. A condenação ao casal não se dá pelo fato de terem retido parte, mas sim por terem mentido para enganar a comunidade. A mentira é um ato diabólico que equivale a mentir ao próprio Espírito Santo, incorrendo naquele pecado sem perdão. A partilha põe fim à discriminação social. Com isso se vence a paralisia da indigência. O critério da partilha é muito objetivo: é a necessidade de cada um (Êx 16; Jo 6.1-5). Essa necessidade decreta a lei da vida comunitária (Dt 15.4; Lc 1.53; Sl 107.9) A exigência de se suprir as necessidades humanas é um direito somente possível em uma sociedade que coloca o bem-estar de todos acima do individual. Desigualdades significam o rompimento da aliança com Deus. Weber afirmou: “[...] em cima de toda a propriedade privada pesa uma hipoteca social” (WEBER, 1985, p. 286). Brakemeier escreve que, na visão de Lucas, a comunidade primitiva está em sintonia com um tradicional sonho grego, quando em Atos 4.34a são assumidos os termos que fazem alusão às palavras de Aristóteles: “aos amigos tudo é comum”. Muitos filósofos gregos esboçam a utopia da posse coletiva dos bens como o ideal para uma sociedade igualitária, fraterna, educada nas virtudes. Platão afirmava que a propriedade privada é a fonte de todos os males. Aristóteles admite a propriedade particular tão somente quando estiver a serviço do bem comum. Assemelham-se entre eles o desejo de libertar as pessoas da gula e tirania exercida pelas posses (pelo amor ao dinheiro). Na visão bíblica, temos a denúncia contundente dos profetas sobre o acúmulo das posses. A memória bíblica deixa claro que a terra pertence a Deus e tudo o que nela contém (Sl 24.1). Ao ser humano cabe a responsabilidade de administrar os bens da terra, a fim de garantir a vida digna a todos. O abuso da justa distribuição dos bens coloca as pessoas sob o juízo divino.
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3 Meditação À primeira vista, nosso texto traz um retrato da comunidade que temos como sonho ou utopia. Apresenta-nos um grupo unido e orante. As pessoas que creram em Cristo eram fiéis à escuta da palavra de Deus, na celebração da eucaristia e nos encontros de oração nas casas, na partilha e na ajuda a quem precisasse. A estrutura da igreja primitiva estava sempre em função dos deveres essenciais que eram: anunciar a palavra de Deus, animar a comunidade, assistir os pobres. A certeza da presença do Espírito Santo era identificada pelos sinais e prodígios feitos pelos apóstolos, que os animava e fortalecia. Percebemos que essa maneira de viver comunidade colocava por terra os valores vigentes da sociedade, defendidos pelo Templo e suas lideranças judaicas. Sem Templo, vai se formar um povo reconciliado alegre, simples, com consciência de que são a “Casa de Deus”, e isso ninguém lhes pode arrancar. Lucas retoma o projeto igualitário e fraterno de Cristo. Esse novo estilo de vida atrai a simpatia de muitos; o movimento cresce com gente de todas as partes do mundo. A vida unânime e partilhada mudaria o rumo da sociedade. A partir de Jesus ressuscitado e presente é restaurada a prática de uma sociedade dentro do projeto de Deus, anunciada pelos profetas. São curadas as relações sociais e vencida a paralisia da indigência, da exclusão. Se pudéssemos resumir em poucas palavras as características dessa comunidade ideal, que crescia dia a dia em número de pessoas, que iam sendo acolhidas e salvas, diríamos: – Os primeiros cristãos eram fiéis na doutrina dos apóstolos, na escuta da palavra de Deus, nos encontros de oração nas casas e no culto (At 2.42). – Os primeiros cristãos tinham tudo em comum: comunhão de pão na eucaristia, comunhão de bens, para que não houvesse indigência e necessitados. – Tinham temor e louvor a Deus, alegria e singeleza de coração, experiência partilhada de liderança. Na igreja das casas, provavelmente, mulheres eram líderes e encontravam o seu espaço. Somente esses três tópicos já podem dar grandes subsídios para a reflexão. Queremos nossas comunidades assim também, com pessoas fiéis, com clareza doutrinária, atentas ao estudo da Palavra, presentes nos cultos e nos encontros em casas. Até aí tudo bem. Podemos investir em cursos, encontros, formação bíblica e confessional. Diversificamos os horários dos cultos. Moldamos os cultos com temáticas atraentes, nos esforçamos para que as celebrações sejam acolhedoras e bem preparadas. Criamos grupos de reflexão e oração que se encontram nas casas, nos bairros. Assim a igreja está mais próxima, presente na vida das pessoas. Ok! Mas precisamos perguntar: a Palavra refletida tem se tornado palpável e real na solidariedade e na partilha material? A comunhão do pão que se reflete na comunhão dos bens para que não haja pobres e necessitados representa o espinho na carne para todos nós. Até onde vão nosso despojamento e nosso engajamento cristão para que o sistema político e econômico de desgraça não domine nosso ser, fazer e desejar?
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Estamos acostumados com a prática das doações e campanhas de roupas, calçados, materiais de construção, ação entre amigos e amigas, almoços e jantares em favor de pessoas ou instituições. De certa forma, exercitamos a comunhão de consumo para com irmãos e irmãs na fé que passam por dificuldades. Mas bem sabemos que a cada dia, mais e mais a exploração e a miséria estão crescendo, pois os pedintes estão batendo à nossa porta, e nossos próprios parentes estão desempregados ou tendo que se tornar “autônomos”, já que perderam seus direitos trabalhistas e hoje lhes resta vender sua força de trabalho sem uma perspectiva de aposentadoria digna. A igreja em Atos é enviada ao mundo. Jesus não quer uma comunidade de iguais, mas sim de pessoas que servem umas às outras com seus diferentes dons. Também nossas comunidades, por vezes, perderam essa dimensão. Estão fechadas em si mesmas, trabalhando apenas para sua sustentação, esquecendo do envio que Jesus deu ao subir ao céu. Vivemos tempos em que o individualismo impera. A solidariedade foi substituída pela meritocracia. As mídias afastam-nos da realidade de vida das pessoas. As relações familiares estão enfraquecidas. Penso que o partir do pão de casa em casa com alegria e singeleza de coração é um passo que ainda precisamos dar. Pois nas casas a compaixão se manifesta, a empatia acontece, as mãos se encontram, e a verdadeira solidariedade brota. Mas também é nas casas, na realidade da vida que somos confrontados com as grandes cruzes que pesam sobre as pessoas. É ali que Deus está. E o Espírito Santo nos anima e inspira para ações diaconais que transformam vidas e desestabilizam os poderes de morte que aí estão. Brakemeier pergunta: “Será possível, pois, alcançar o objetivo de erradicar pobreza e necessidade sem engajamento sócio-político? Pergunta-se pelo tipo de serviço exigido pelo evangelho e pela situação concreta” (BRAKEMEIER, 1985, p. 6). Não podemos implantar o modelo utópico da comunidade primitiva. Mas podemos reafirmar nossos fundamentos da fé e nos deixar conduzir pelo Espírito de Deus, que quer o cuidado e a partilha dos bens da terra, numa comunhão fraterna entre povos e pessoas. Ainda nos lembramos das reflexões sobre o Tema do Ano de 2018 e 2019: Igreja. Economia. Política. A economia precisa cuidar da organização e da justa distribuição dos meios que sustentam a vida. A política necessita ordenar as relações de convivência e deve proteger a vida. Nossa tarefa como igreja cristã é buscar por uma sociedade mais adequada ao projeto de Deus. Para que isso aconteça, sabemos que precisamos mudar a forma de ser igreja, voltando-nos à fonte do evangelho e às primeiras comunidades. A igreja não é estanque, precisa estar atenta às mudanças na sociedade, à economia, à política, mantendo-se fiel a Jesus Cristo e ao Espírito Santo. As primeiras comunidades são inspiração para nós. Elas foram crescendo, descobrindo e aperfeiçoando sua caminhada, não sem erros e dificuldades internas e externas. Mas testemunharam a Palavra até os tempos de hoje, como comunhão de pessoas pecadoras, mas justificadas pela graça de Deus.
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4 Imagens para a prédica As únicas relações que ainda permanecem um pouco mais sólidas em nossos tempos são as da pequena família, que cuida de mim ou aquela de quem eu cuido. Também entre irmãos e irmãs, primos e primas, tios e tias, as relações estão enfraquecendo. Podemos partir dessa imagem da família para lembrar o que nos une. Algumas refeições, comemorações esporádicas ou situações de sofrimento, doença, sepultamento acontecem. Isso ainda faz com que as pessoas se encontrem. Então podemos perguntar: o que nos une como famílias? Apenas os laços de sangue? Ainda oramos uns pelos outros? Temos nos encontrado em comunidade? E o sentimento de cuidado e amor de uns para com os outros como está? Será que esse cuidado também passa pelas dificuldades materiais e financeiras? Então, se já estamos tendo tantas dificuldades com aquelas pessoas tão próximas de nós, como tem sido, na prática, nosso cuidado e solidariedade com as pessoas “de fora”? Como nossa comunidade tem colocado em prática a diaconia que quer transformar vidas? Um grupo escolar, certa vez, foi fazer um piquenique às margens de um rio. O que não esperavam é que a correnteza estivesse um pouco mais forte do que o normal. Enquanto se divertiam jogando bola, avistaram uma criança descendo rio abaixo, dando a nítida impressão de que estava se afogando. Prontamente, dois professores entraram no rio para salvá-la. Neste mesmo tempo, mais duas crianças desciam levadas pela correnteza. Agora, eram duas pessoas no rio para salvar três crianças. Porém mais uma apareceu na curva do rio e a situação se tornou caótica. Nisso, um dos professores saiu da água. O outro perguntou aflito: – O que estás fazendo? Por que não me ajudas a salvar as crianças? O professor, correndo rio acima, apenas responde gritando: – Preciso ir ver o que está fazendo com que essas crianças estão sendo jogadas no rio. Nossa tendência é agir nas consequências de sistemas econômicos e sociais excludentes, que penalizam os mais pobres ou fragilizados. Porém o sistema permanece e somos moldados por ele. Como comunidades, precisamos deixar o Espírito de Deus agir e nos empoderar para encontrar maneiras de modificar o que aí está.
Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. O “socialismo” da Primeira Cristandade. São Leopoldo: Sinodal, 1985. CASONATTO, Odalberto Domingos. A origem das primeiras comunidades cristãs nos Atos dos Apóstolos. Disponível em: <https://www.abiblia.org/ver. php?id=7137>. Acesso em: 30 maio 2019. LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1972. WEBER, Bertoldo. 7º Domingo após Trindade: Atos 2.41a,42-47. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1985. v. XI, p. 284-290.
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5º DOMINGO DA PÁSCOA
10 MAIO 2020
PRÉDICA: JOÃO 14.1-14 ATOS 7.55-60 1 PEDRO 2.2-10
Gerson Acker
O caminho e a forma de caminhar
1 Introdução Não sei por quais caminhos Deus me conduz, mas conheço bem meu guia. Martim Lutero O tempo pós-pascal é um convite para a comunidade reunida em culto experimentar as maneiras como o Cristo ressurreto se apresenta. No Evangelho de João 14, texto previsto para a pregação, Jesus se apresenta como “o caminho” a ser seguido. Em Atos 7.55-60, nos é relatado o apedrejamento de Estevão, que sofre tal condenação por confessar Jesus como “O caminho” e não apostatar de sua fé. A perícope de 1 Pedro 2, fundamento do sacerdócio geral de todas as pessoas crentes, testifica em exemplos bem concretos o que significa seguir o caminho de Cristo. Queremos experimentar, ao longo deste subsídio, homilético as nuanças do Cristo como “O caminho” e como o guia da vida de fé.
2 Exegese A segunda metade do Evangelho de João é intitulada “o livro da glória”, pois deixa a temática do ministério público de Jesus com seus sinais reveladores e passa para o período de sua glorificação, isto é, sua morte e ressurreição, na qual a glória e a presença de Deus se manifestarão. Nesse bloco, encontramos os discursos de despedida (caps. 13 a 17), a narrativa da paixão (caps. 18 a 19), a ressurreição (cap. 20) e o epílogo (cap. 21). A perícope de João 14.1-14 está dentro do bloco dos “discursos de despedida”. Ao que tudo indica, esse texto faz parte do discurso iniciado em 13.31 e que só termina em 14.31. O discurso de despedida de Jesus inicia com uma palavra de conforto e confiança. A ideia de ficar sem o Messias desperta medo nos discípulos. Por isso Jesus quer acalmar seus corações. O termo “coração” é empregado como o centro dos sentimentos e da fé, da vida espiritual mesma (Rm 10.9-10). A ausência de Jesus não deve abalar a vida de fé de seus seguidores e seguidoras. Nesse processo doloroso, crer no Pai e no Filho é fundamental para a superação desse “vazio”. Jesus insiste na necessidade da fé, afirmando que vai preparar um lugar para eles e voltará para levá-los com ele (v. 3). O termo “moradas” é uma tradução melhor do que “mansões” que encontramos em algumas traduções, posto
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não haver aqui qualquer indicação de luxo e, sim, aponta a amplitude da casa de Deus. Por um lado, “as moradas” podem indicar uma promessa de parousia, ou seja, a volta de Jesus que levaria os fiéis a um paraíso futuro e desconhecido. A igreja primitiva esperava por essa volta com ardente esperança (1Ts 4.16-18). Por outro lado, se tomarmos o capítulo 14 todo como referência, as tais “moradas” que Jesus vai preparar não se localizam em algum lugar geográfico, mas serão encontradas dentro dos próprios fiéis. O discurso de Jesus é interrompido duas vezes, primeiramente por Tomé (v. 5) e, em seguida, por Filipe (v. 8). Tais intervenções oferecem a oportunidade para maiores explicações, ao passo que revelam também a incapacidade dos discípulos de compreenderem o mistério de Deus, ou seja, apesar de terem convivido com Jesus, eles não o compreendem. A incompreensão dos discípulos tem mão dupla: não entendem como a partida de Jesus seja um ir ao Pai e não entendem como o Cristo pode ser a via que eles devem percorrer para chegar à mesma meta. O discurso pretende ajudar os discípulos a reconhecer seus motivos de fé e coragem. Portanto o tema central do discurso não é a partida (morte-ressurreição) de Jesus, mas a situação dos discípulos que permanecem. Jesus afirma Eu sou o caminho, a verdade e a vida (v. 6a). Diferentemente dos evangelhos sinóticos em que encontramos parábolas, ditos e discussões, no quarto evangelho, as palavras de Jesus são preponderantemente discursos continuados ou dialogados. Esses discursos frequentemente culminam na fórmula ego-eimi (Eu sou), reproduzindo o autotestemunho de Jesus para a humanidade. As palavras figuradas (caminho, verdade, vida) não são nem comparações nem metáforas. É discurso autêntico. À primeira vista, parece que se deveria entender assim: Jesus é como a estrada que conduz à verdade e à vida. No entanto, o verso 6b: ninguém vem ao Pai senão por mim, coloca maior ênfase sobre o vocábulo caminho, não em vida ou verdade. Logo, a vida e a verdade não são propriamente a meta para a qual Jesus conduz, mas a razão que lhe permite proclamar-se “O caminho”. Nos escritos de Paulo, por exemplo, é Deus que prevalece como sujeito do caminho de Cristo. Ressurreição e exaltação, respectivamente, são interferência escatológica de Deus no mundo. Segundo Goppelt, o “clímax dessa intervenção, ou seja, do caminho de Cristo é, segundo Paulo, a cruz” (GOPPELT, 1983). Tomé pergunta: Como poderíamos saber o caminho?. A resposta de Jesus fala de uma fé que não se baseia em métodos ou procedimentos, mas em uma pessoa. O próprio Jesus é “O caminho”. Por meio de Jesus e nele chegamos ao Pai, conhecemos o Pai, vemos o Pai. Filipe se reveza com Tomé ao perguntar, não se dando conta de que Jesus já lhe respondeu, afirmando ser o caminho, isto é, o lugar onde o Pai se manifesta. Jesus responde, certamente decepcionado: Eu estou convosco há tanto tempo e não me conheceste? Aquele que me vê, vê ao Pai (v. 9). E Jesus segue explicando sua união perfeita com o Pai: suas palavras e suas obras são do Pai (v. 10-11). No Evangelho de João, por diversas vezes, encontramos a declaração da unidade essencial existente entre Pai e Filho, de tal modo que todas as obras e afirmativas sobre o Filho podem ser reputadas como representantes da vontade
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do Pai, servindo de provas de que o Pai estava realizando seu querer por meio do Filho (Jo 5.19; 8.39; 10.30,38). No término da perícope, a expressão em verdade, em verdade salienta a importância, a autoridade e a certeza daquilo que é afirmado em seguida. Só em Jesus é que se pode ter a experiência do Pai. As palavras, a existência e as obras de Jesus são clara expressão do próprio Deus. Ao afirmar que quem crer fará obras ainda maiores, parece que o evangelista João pensa no percurso missionário dos primeiros tempos apostólicos, ou talvez na experiência cristã de cada indivíduo, se entendermos a expressão pedir algo em meu nome como uma relação de proximidade e intimidade com Cristo por meio da oração.
3 Meditação Jesus sabe que a hora de sua morte está próxima. Desde o início do seu ministério, ele foi muito consequente em seus atos. Jesus sabia que suas atitudes despertavam a ira e o ódio dos poderosos de seu tempo e que mais cedo ou mais tarde, essas autoridades arranjariam alguma forma de matá-lo. Mas antes da morte, Jesus mais uma vez se preocupa com seus discípulos. Jesus precisa acalmar os corações aflitos e apontar-lhes um caminho e uma forma de caminhar. Nós ainda hoje precisamos dessas orientações do Mestre. Jesus aponta um caminho: ele mesmo é “O caminho” que nos leva ao Pai. Quem conhece Jesus, conhece Deus. Jesus é misericordioso. Deus é misericordioso. Jesus ama incondicionalmente cada um de nós. Deus ama incondicionalmente cada um de nós. Deus e Jesus são um só! Precisamos, como parte da missão da igreja, apontar para esse caminho. Pessoas andam perdidas e precisam da nossa ajuda para encontrar um rumo em suas vidas. Jesus aponta uma forma de caminhar: ele se preocupava com as pessoas de forma integral. Conversava, curava, dava de comer aos famintos e de beber aos sedentos. Andava com prostitutas, fariseus, pobres, leprosos, gente de má fama; a esses não recriminava, mas amava incondicionalmente. Caminhar com Jesus significa levar ao extremo a compreensão de amor ao próximo. Significa caminhar ao lado das pessoas, compartilhando cargas, partilhando alegrias e pesares. A vida com Jesus é dinâmica, movimentada, cheia de surpresas. Por outro lado, também é uma vida com todas as características dos caminhos, isto é, com altos e baixos, com dificuldades, com momentos de calma e segurança, mas que finalmente nos levará ao destino certo. A caminhada cristã não é livre de obstáculos. Diante desses não podemos nos esquivar. A Bíblia está repleta de relatos de homens e mulheres que, ao optarem seguir o caminho de Deus, não tiveram uma caminhada fácil. O próprio Jesus seguiu seu caminho rumo a Jerusalém, apesar do horizonte da cruz. Penso que uma das premissas evangélicas mais sublimes e certas é de que toda caminhada cristã genuína passa obrigatoriamente pela cruz. É impossível caminhar com e como Jesus sem atritar com o sistema opressor que ostenta seus caminhos tortuosos, suas fake news e seus sinais de morte. O que nos sustenta nessa caminhada? A certeza de que não caminhamos sozinhos. O próprio Cristo caminha conosco.
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Esse é o testemunho de fé nas palavras de Lutero: “Não sei por quais caminhos Deus me conduz, mas conheço bem meu guia”.
4 Imagens para a prédica Escolher o caminho de Cristo e não se desviar dele apesar dos obstáculos é um desafio diário que nos compromete em palavras, pensamentos e ações. Existem muitos testemunhos de fé que podem nos inspirar na caminhada cristã. Lembro-me de Malala Yousafzai, adolescente paquistanesa de 11 anos, que em 2009 começou a se manifestar contra a proibição de estudar. Ela continuou a frequentar a escola apesar das ameaças do Talibã. Em 2012, aos 14 anos, Malala levou um tiro no rosto quando voltava da escola. Um soldado talibã mascarado entrou no ônibus armado com um rifle e perguntou: “Quem é Malala? Digam ou atiro em todo mundo”. Malala se identificou e o homem atirou na cabeça dela na frente de todos os passageiros. A menina entrou em coma e quase morreu. Quase que como milagre sobreviveu. Hoje autora de um best-seller, Malala ainda fala sobre a violência e a opressão contra as mulheres em países mulçumanos e defende a educação para todas as pessoas. Em 2014, recebeu o prêmio Nobel da Paz por seus esforços. Teria sido fácil e cômodo para Malala deixar de lado esse caminho. Mas ela decidiu trilhá-lo, mesmo correndo riscos. O caminho de Malala é muito parecido ao caminho do Cristo: nessa caminhada há cruz, mas também graça.
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados Amado Deus, quantas vezes enveredamos por caminhos tortuosos e nos perdemos dentro do labirinto do nosso orgulho e egoísmo. Mostra-nos o caminho certo! Quantas vezes somos portadores de mentiras! Quantas vezes caluniamos e falamos mal de nosso próximo. Purifica nosso pensar e falar! Confessamos-te, Senhor, nossos pecados e nossa tendência de fomentar sinais de morte. Liberta-nos dessa carga e ajuda-nos a caminhar com mais leveza. Por Cristo: o caminho, a verdade e a vida. Amém. Kyrie eleison No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra.
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O poeta Oswald de Andrade transforma em poesia a difícil experiência das “pedras no caminho”. Irmãos e irmãs caem, tropeçam e se machucam nas “pedras” deste mundo. Muitos se cansam e desistem da caminhada porque as pedras se tornam intransponíveis. Em solidariedade aos que sofrem, cantemos: (após a costura litúrgica, a comunidade canta o Kyrie de sua escolha). Oração do dia Bondoso Deus, livra-nos da fé simplória de que na vida tudo tem que dar certo. Que os reveses, as dificuldades e os tropeços no caminho sejam para o nosso crescimento. Dá-nos forças para caminhar seguindo os passos de Cristo. Que tua Palavra seja a bússola que nos leva a ti. Por Cristo, que contigo e o Santo Espírito vive e reina eternamente. Amém.
Bibliografia BERGANT, Diane; KARRIS, Robert (Orgs.). Comentário Bíblico. São Paulo: Loyola, 1999. v. 3. GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 1983. v. 1.
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PRÉDICA: 1 PEDRO 3.13-22
6º DOMINGO DA PÁSCOA
JOÃO 14.15-21 ATOS 17.22-31
17 MAIO 2020
Vera Maria Immich
Aparta-te do mal e faze o bem
1 Introdução O presente subsídio quer iluminar o 6º Domingo da Páscoa. Como diz Teobaldo Witter: “Páscoa não é só um domingo, mas é um período que compreende sete domingos. É um período do Ano Litúrgico que corresponde ao primeiro Domingo da Páscoa e vai até Ascensão do Senhor. Temos, portanto, 40 dias de Páscoa do Senhor. Certamente, sonhamos e vivemos Páscoa todos os dias, pois, a realidade da Páscoa do Senhor é a nossa esperança eterna”. Deus vem revelar-se à comunidade reunida por meio de sua santa palavra. Neste domingo, três textos querem nos comunicar seu amor e sua orientação. Em Atos 17, Paulo se prepara para pregar em Atenas e sabe que não será fácil. Ele terá que enfrentar os estoicos, que davam ênfase à lógica e à razão e acreditavam que Deus fosse uma pessoa; os epicureus acreditavam que a vida surgiu ao acaso. E nenhum desses grupos acreditava na ressurreição. Logo, Paulo, que pregava a esperança na ressurreição e vida eterna, devia preparar-se para enfrentar resistência. No texto de João, Jesus diz que vai subir para junto do Pai, deixando o Espírito Santo com os seus discípulos como mediador. Ele nos apresenta as várias funções do mediador como aquele que é advogado e protetor em quaisquer circunstâncias. Ele é santificador. No texto de nossa pregação, 1 Pedro 3.13-22, encontramos orientações para um caminho de fidelidade a Deus, orientado para o bem e evitando o mal, para o testemunho humilde em meio às tribulações.
2 Observações exegéticas Na compreensão de alguns autores, essa carta foi escrita primeiramente às pessoas cristãs que foram expulsas de Jerusalém e dispersadas pela Ásia Menor nos anos 62 a 64 d.C. Seu conteúdo nos impacta pela semelhança com nossos tempos. É palavra viva e dinâmica, orientação às primeiras pessoas cristãs e para nós hoje. Pedro está encorajando e animando aquele grupo de pessoas cristãs que sofria perseguições. A perseguição iniciou em Jerusalém pelos judeus e foi aumentando e se expandindo até o descalabro de Nero César, que acusou as pessoas cristãs de incendiar Roma, quando, na verdade, acredita-se que ele próprio tenha mandado fazer isso.
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Pedro já havia sido preso, torturado e nada o havia quebrado em sua esperança e fé no ressurreto. Ele, que outrora havia fraquejado e negado Jesus Cristo, agora estava firmemente alicerçado nele, estava assumindo sua vocação de pedra, Pedro, profetizada por Jesus (Jo 1.42). O texto reafirma um dos grandes consolos que encontramos em Cristo: independentemente do que acontece, recebemos sempre força, perdão e vida eterna. Portanto sem medo e sem alarde, mas seguindo em frente com confiança. Pedro exorta ao testemunho coerente e manso no mundo conturbado e violento. Lembra que santificar o nome de Jesus é honrá-lo em meio ao sofrimento e à angústia, em meio às tentações de retribuir na mesma proporção quando nos sentimos agredidos. A mansidão da qual nos fala Pedro motiva aquelas comunidades da Ásia, Capadócia, Galácia e Bitínia a anunciar o evangelho, renunciando a radicalismo e fanatismo, nos permite uma ponte aos dias atuais. Coerência e constância no anúncio, santificando o nome do Senhor e não o envolvendo na promoção do ódio, da violência e da perseguição. No mundo passamos por provações e sofrimentos, sendo esses os momentos mais propícios ao testemunho e ao fortalecimento na fé. A dádiva do batismo é trazida como alicerce de nossa pertença a Deus e nossa purificação. Não estamos sós neste mundo, mas além de pertencermos a Deus, também pertencemos a uma grande e, às vezes, conflituosa família estendida, qual seja, as pessoas batizadas no Senhor. E ao ascender ao céu, Jesus está à direita do Deus Pai, revelando a autoridade absoluta de Deus que está em todos os lugares.
3 Meditação A pregação poderá ser orientada por uma estrutura básica: – Relacionar aspectos do texto com a atualidade. – O que significa testemunhar e resistir hoje? – O que promove o testemunho e a resistência? Vivemos tempos caóticos no mundo e no Brasil. Assistimos estarrecidos ao crescimento do antissemitismo, à perseguição de pessoas cristãs no mundo, ao conflito Israel x Palestina com envolvimento mundial, direitos humanos e trabalhistas sendo relativizados em nome da concentração do capital. Enquanto um seleto grupo enriquece cada vez mais, um enorme contingente humano padece de fome, de falta de água potável e de moradia digna. Uma vida humana tem valor diferente, dependente do contexto onde ela nasce, seja país, família ou até continente. Uma tragédia na África, por exemplo o ciclone que atingiu Moçambique em 2019, varrendo centenas de vidas, e o incêndio na igreja/monumento histórico de Notre Dame, em Paris, nos impactaram de maneiras diferentes. Os dois eventos invadiram nossos meios de comunicação com peso diferenciado e reuniram recursos financeiros para a reconstrução com diferença incomparável. Notre Dame deve ser reconstruída e a África não deve ser abandonada. Não temos que optar entre uma reconstrução e outra. Reunimos recursos para ambas e devemos fazê-lo.
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Todavia, do caos emerge a possibilidade do novo. Da denúncia ao anúncio. Orar e agir localmente com mais afinco e fé, com mais confiança e humildade, com mais esperança em meio à desesperança. Precisamente esse contexto fala e grita com nossos valores e nossa fé. É o tudo ou nada que marca o nosso desalento devido às dificuldades crescentes ou que reafirma nossa fé e nossa esperança. “Deus sussurra em nossos ouvidos por meio de nosso prazer, fala-nos mediante nossa consciência, mas clama em alta voz por intermédio de nossa dor; este é seu megafone para despertar o homem surdo” (C. S. Lewis). As adversidades são oportunidades para testemunharmos nossa fé e para sermos instrumentos da revelação do amor de Deus a este mundo em trevas e guerras, em lutas desumanas e em corrupção. É para este mundo que Jesus quer se revelar, quer lembrar o que ele ensinou. Oportunidade ímpar para fazermos o que é certo, mesmo quando tantos optam pelo mais fácil e vantajoso. É oportunidade de reconhecer, testemunhar e viver de acordo com o senhorio de Jesus Cristo independente dos outros e deste mundo. É ser aquele pássaro que crê que consegue apagar o fogo na floresta, embora seja pouca a água que consegue transportar; ele continua incansavelmente, porque acredita que essa é sua missão. Deus saberá o impacto dessa ação e também sua mais sincera intenção. Não importa o que os outros fazem, importa o que eu faço. Não importa sequer se me provoca sofrimentos, talvez deboche por parte do mundo e de seu poder destruidor e aniquilador de toda esperança e de todos os intentos, que não levam seu carimbo e sua credencial de sucesso. Zelar pelo que é certo e estar sempre pronto para testemunhar e testificar com esperança, alegria e mansidão, não como fanáticos donos da verdade e da razão, mas como ovelhas humildes que reconhecem que sua força e seu alicerce não vêm de si mesmos, mas do Senhor que chama e capacita. Para que dessa forma não somente o que cremos, mas a forma e o jeito também sejam parte desse testemunho. Porque convém sofrer fazendo o que é certo e justo do que ser condenado por fazer o que é fácil e inadequado. Passar por provações, encontrar dificuldades, muitas vezes é necessário e Deus o permite para que aprendamos e desenvolvamos persistência e humildade. Nem tudo sempre estará ao alcance de nossas mãos ou temos o caminho para alcançar. Abrir estradas e aplainar colinas para chegar ao objetivo pode ser necessário para crescermos na fé, na esperança e na humildade. O início do texto pode ser a parte final de nossa pregação, o arremate: quem há de vos maltratar se fordes zelosos do que é bom? Mas ainda que... Fazer o bem sem risco de sofrer é cômodo e nos convence, mas não é garantia, e nem por isso devemos desistir. Persistir, convictos de que, sem importar as adversidades, é o próprio Cristo que concede força, perdão e vida eterna. Essa força se transforma em persistência criativa, o perdão, em alento renovador, mesmo em meio a erros e desacerto. Gotffried Brakemeier, em seu livro “Fazer o bem faz bem”, lembra que somos criados para o bem, para importar-nos com o coletivo, com a comunidade. Nosso bem-estar e felicidade dependem do outro, do grupo, da comunidade e da sociedade. Como então não se importar com o sofrimento alheio, se dele também depende meu bem-estar? O autor nos lembra de que o Pai de Jesus Cristo não
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tolera nem o ódio aos inimigos, aos maus, aos incrédulos, porque quer reuni-los em uma só família. Quer nos reunir em uma só família. Pai e mãe não abandonam filhos, nem aqueles que se desviaram, mas também para esses têm uma palavra de arrependimento e restauração e o mais profundo desejo de reuni-los em família.
4 Imagens para a prédica O ouro e a prata são depurados pelo fogo, mas é o Senhor que revela quem as pessoas realmente são (Pv 17.3). Ser depurado é ser transformado e ter a oportunidade de ser nova criatura. Ouro e prata precisam perto de mil graus para derreterem, precisam de mãos habilidosas e com conhecimento para realizar essa manipulação/transformação. Precisam também de uma razão e objetivo para fazê-lo. Não é esporte. Envolve risco e perigo. Transformar esses metais em uma linda joia requer técnica e amplo e milenar conhecimento, talvez facilitado pela modernidade, mas que em sua essência permanece igual. O ser humano, para ser transformado em nova criatura, também demanda tempo, técnica e conhecimento. Demanda mãos habilidosas e muitos responsáveis, porque ele não é somente matéria a ser transformada, mas história, sentimentos, sonhos, expectativas e o sopro do Espírito Santo de Deus, podendo quebrar se não manuseado com cuidado.
5 Subsídios litúrgicos Hinos
LCI 33: Eu quero ser LCI 558: Haja paz na terra LCI 165: Estou pronto, Senhor
Bênção Que o Deus criador nos recrie para a comunhão e a partilha. Que o Filho salvador nos salve do egoísmo e do desamor. Que o Espírito Santo nos sopre para a fraternura dos filhos e filhas de Deus. Vão na paz e no amor, no abraço, na salvação e no sopro do Trino Deus. Amém!
Bibliografia BÍBLIA DE ESTUDO DA REFORMA. Sociedade Bíblica do Brasil. Barueri: São Paulo, 2017. BRAKEMEIER, Gottfried. Fazer o bem faz bem. São Leopoldo: Sinodal, 2019. WITTER, Teobaldo. 6º Domingo da Páscoa: 1 Pedro 3.13-22. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2013. v. 38, p. 188-194.
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PRÉDICA: LUCAS 24.44-53 ATOS 1.1-11 EFÉSIOS 1.15-23
ASCENSÃO DO SENHOR
21 MAIO 2020
Teobaldo Witter
Vocês são minhas testemunhas
1 Introdução Estamos na época da Ascensão de Jesus. Muitas vezes essa data passa sem que a comunidade tome conhecimento do fato. No entanto, Ascensão é uma data litúrgica muito importante no calendário cristão. Qual é o lugar do dia da Ascensão na vida celebrativa da comunidade cristã de hoje? Como celebramos a Ascensão do Senhor em nossas comunidades e no nosso contexto? Penso que seria importante recuperarmos essa celebração festiva, que aponta para a glorificação de nosso Senhor Jesus Cristo. Os textos previstos para esse tempo estão em torno do signo da Ascensão do Senhor e da teologia que a sustenta. O tema trata de um símbolo que toca um imaginário religioso muito presente e difundido. Isso, por si só, tem sua dificuldade para o desenvolvimento da liturgia na realidade brasileira secularizada. Contudo, nas reflexões que seguem, procuro destacar elementos do texto bíblico que ajudam a dar um significado sensível e humano à Ascensão. O texto do evangelho para a pregação tem a continuidade em Atos dos Apóstolos. A perspectiva do próprio texto é a atividade apostólica. A relação com os primeiros versículos de Atos oportuniza o enriquecimento de detalhes para a percepção das atitudes dos discípulos. A relação com o texto indicado na Epístola aos Efésios ajuda, do mesmo modo, a identificar elementos centrais na interpretação do texto indicado, bem como fornece motivos relativos ao tema litúrgico. Para a compreensão e entendimento humano, as provas jurídicas dão credibilidade, legitimidade e reconhecimento aos fatos. O fato Jesus Cristo, testemunhado nas Sagradas Escrituras, tem nuvens de testemunhas. E milhares foram testemunhas oculares. Certamente, não há nenhum outro acontecimento do mundo que tenha mais testemunhas do que o fato Jesus Cristo. Elas não se esgotam no testemunho da época de seu nascimento, vida, ensino, morte e ressurreição. São de todos os tempos e lugares. Jesus mesmo providencia e instrumentaliza suas testemunhas: Eis que estarei com vocês todos os dias até o fim dos tempos (Mt 28.20). Segundo Lucas 24.44-53, Jesus, após sua ressurreição, se encontra com seus discípulos. Ensina sobre o cumprimento da Lei de Moisés, dos Profetas e Salmos. Abriu o entendimento deles para que pudessem compreender as Escrituras. Ensinou sobre seu sofrimento, sua morte e sua ressurreição. E que pregassem o arrependimento e perdão dos pecados. E os incumbiu de serem suas testemunhas. E que em Jerusalém seriam investidos pelo Espírito Santo. E os levou para
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a cidade de Betânia, onde foram abençoados. Durante o ato da bênção, Jesus foi levado ao céu. Em estado de adoração, alegria e júbilo, eles foram para Jerusalém, reunindo-se no templo. Atos 1.1-11 é a introdução ou o desenho do projeto missionário do livro de Atos dos Apóstolos. Dá continuidade ao tema da Ascensão de Lucas 24. Faz menção ao fato de Jesus ter padecido e estar vivo na presença deles após a ressurreição. Os discípulos querem saber de Jesus sobre o fim dos tempos, quando o reino de Israel seria restaurado. Jesus responde que ninguém sabe, somente o Pai. Depois os orienta sobre os próximos passos, ou seja: receberam o Espírito Santo para serem suas testemunhas em Jerusalém, na Judeia, Samaria e até os confins da terra. Os discípulos tiveram dificuldade em entender o que estava acontecendo. E ficaram olhando para o céu. Vieram dois varões e explicaram que Jesus foi e voltará. Vão em paz com a missão de Deus no mundo. Nesses passos o livro Atos dos Apóstolos caminha. Em Efésios 1.15-23, o apóstolo Paulo escreve a respeito da fé e da prática do amor da comunidade. Por isso menciona louvor e graças a Deus por todo bem expresso pela comunidade. E ora e torce para que Deus conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento divino. Ensina sobre a graça de Deus nas ações realizadas em Jesus Cristo, ressuscitando-o entre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todos os poderes ou nomes, para sempre. Agraciou a igreja com a presença de Jesus Cristo, sendo a comunidade o seu corpo. A comunhão da igreja é a presença de Jesus e comunhão nele, no entendimento de Dietrich Bonhoeffer.
2 Exegese No texto que resume o encontro de Jesus ressuscitado com seus discípulos, encontramos elementos significativos para a fé cristã. Há de se considerar que os discípulos ainda vivem sob o impacto da crucificação e morte de Jesus. É verdade que já tiveram algumas informações importantes sobre o aparecimento dele após sua crucificação. Algumas pessoas do grupo foram testemunhas oculares e tiveram a experiência do encontro com ele. Mas ainda restam muitas dúvidas. Nem todas podem ser tiradas. Mas precisam de uma explicação mais consistente de que aquele homem era mesmo Jesus ressuscitado. Então, Jesus se encontrou com seus discípulos e os cumprimentou com a saudação da paz. Além da saudação, nesse encontro Jesus realizou cinco gestos: 1. Mostrar suas mãos e seus pés e pedir que os discípulos toquem em suas feridas. 2. Comer junto com os discípulos. 3. Explicar as Escrituras com base naquilo que nelas consta a respeito de Jesus. 4. Vocacionar a comunidade para o testemunho cristão das coisas que Jesus viveu, fez, sofreu, ensinou e comungou com eles. 5. Abençoar a comunidade apostólica.
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Depois, foi elevado ao céu na presença deles. Enquanto isso, os discípulos continuam no mundo para o testemunho, louvor, glorificação, sempre na confiança da realização da promessa do perdão dos pecados e de Pentecostes. O texto indicado para a pregação do Evangelho de Lucas (24.44-53) impulsiona para uma visão de conjunto de todo o evangelho. Sua redação traz conexão com o que segue no livro Atos dos Apóstolos. Ambos os aspectos se desenham como horizonte de interpretação do evangelho. Lucas, que é autor de ambos os textos, ressalta que o testemunho da Boa-Nova é movido pela experiência de encontro com o Cristo vivo e glorificado, cuja memória é celebrada pelas comunidades de fé em torno do partilhar do pão e da leitura das Escrituras, sob a ótica do que se cumpriu em Jesus, sua crucificação e ressurreição. O relato de Lucas é uma leitura ou uma revisão de fontes do testemunho sobre a pessoa e a obra de Jesus (1.1-4), com alguma contribuição pessoal do autor, em termos de conteúdo e de estilo. Seu foco investigativo minucioso é teológico. Faz uma rememoração litúrgica detalhada do que fora realizado e ensinado por Jesus. Busca instrução na fé a seus leitores, personalizados em Teófilo (1.3). Teófilo é seu interlocutor e com quem dialoga diretamente. Certamente os dois conversam muito. E Teófilo tinha dúvidas e curiosidades que Lucas quer esclarecer. Lucas escreve seu evangelho e Atos dos Apóstolos a partir de dados que buscou em testemunhos com provas jurídicas. Ele zela pela organicidade da narrativa e, ao mesmo tempo, o faz com uma declarada intenção literária e poética no reconhecimento de alguns temas e, sobretudo, dos discursos de Jesus. Segundo SANTOS (2010, p. 02), “Lucas parece querer alcançar seus ouvintes de modo semelhante aquele com que o “estranho” que acompanhava os discípulos a caminho de Emaús expunha as Escrituras: fazendo-os arder no coração (24.32)”. O texto inicia com a palavra de Jesus que menciona um detalhe do seu encontro com os discípulos de Emaús e em outros momentos. São estas as palavras que lhes falei quando estava com vocês (v. 44). Ensinou que sua missão foi o cumprimento do que estava escrito na Sagrada Escritura a seu respeito na “Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. O texto inicia com o estudo bíblico de Jesus com os discípulos sobre questões mencionadas. Nessa formação continuada para a vida cristã, Jesus faz os seus olharem para o passado, para o entendimento do que fora dito a seu respeito. Mas o principal objetivo é a vida presente que está muito complicada. No caso, as Escrituras Sagradas iluminam a vida, ajudam a atender o presente e abrir o entendimento e a visão para o futuro do testemunho cristão. É a metodologia do estudo bíblico contextualizado. Era necessário que se cumprisse tudo o que de mim está escrito (v. 44-49). O bloco todo foi escrito a partir dessa palavra. Nela estão elementos importantes para o que segue nos v. 45s – uma interpretação cristológica das Escrituras na boca do próprio Jesus: a necessidade de cumprimento do que fora “dito/escrito” sob a autoridade das Escrituras. Lucas, seguindo suas fontes, legitima essa interpretação cristológica de Jesus em sua identificação com a tradição messiânica do servo de Deus (cf. Lc 4.16-21). Também situa o ensino do conteúdo da fé no Cristo na comunhão eucarística (24.43).
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No v. 44, a partícula de tempo “a seguir” remete ao que antecede esse momento do relato. Lucas dedica o fechamento de seu relato ao testemunho em torno do encontro com o Cristo ressuscitado, caracterizando a presença de Jesus na situação da partilha de alimentos (24.30,43). Lucas recorre a essa situação “eucarística” para caracterizar o encontro com o Jesus ressuscitado. Esse argumento eucarístico, junto com a expressão lhes abriu o entendimento (v. 45), remete ao ocorrido no caminho entre Jerusalém e Emaús (24.13-35). Segundo SANTOS (2010, p. 02), “a maneira como Jesus se dirige ao grupo de discípulos – ‘caminha’ e ‘come com eles’ – implica também uma comunhão de entendimento, isto é, de uma fé compartilhada e confessada comunitariamente”. A explicação de Jesus sobre o que as Escrituras dizem a seu respeito é a interpretação cristológica que provoca o “ardor no coração” dos discípulos no caminho de Jerusalém a Emaús (cf. 24.32), sendo que o abrir dos olhos e do entendimento se dá mediante o partir do pão (24.30). No v. 47, o tema do comissionamento na pregação do arrependimento “em nome do Cristo” converge com Mateus e Marcos. Para SANTOS (2010, p. 03), “Lucas dedica outro livro para narrar seu desdobramento; na verdade, como vimos, o testemunho apostólico ilumina toda a sua narrativa (1.1-4) e enfatiza o argumento missiológico de sua teologia”. A compreensão das Escrituras é confirmada no v. 48: Vós sois testemunhas dessas coisas (cf. At 1.8). Esse compromisso é confirmado na comunhão de fé entre os discípulos e ouvintes desse evangelho. Não se trata, porém, de um comprometimento formal. Concordo com SANTOS (2010, p. 03) que escreveu que o “testemunho a que o evangelista se refere surge da experiência de encontro com o Cristo ressuscitado, o messias revelado, agora sob a promessa” (v. 49): Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai. Essa formulação de Lucas busca uma teologia do Espírito Santo, cuja chave de interpretação está na noção de promessa, evocada numa relação trinitária entre o Filho que envia a promessa (Espírito Santo) do Pai. Jesus encerra suas palavras (v. 49) ordenando que os discípulos permaneçam na cidade de Jerusalém (cf. 24.33) até que do alto sejais revestidos de poder. Para Lucas, Jerusalém é um tema teológico, pois a Cidade Santa é o lugar messiânico onde o evangelho inicia e desde onde as nações o receberão. [...] enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu (v. 50-53). Erguendo as mãos, os abençoou. São três ações simultâneas: Jesus abençoa. Jesus se distancia. Jesus é elevado ao céu, o lugar de onde virá a promessa. Os três elementos sugerem novamente uma teologia trinitária: Lucas relaciona a Ascensão de Jesus com a promessa do Espírito Santo, identificando a comunhão dessa promessa com a fé no Cristo, agora colocado sobre todas as coisas, o cabeça de um corpo pleno entre as nações e tudo o que existe (cf. Ef 1.22-23). Por fim, imbuídos da promessa – não ainda revestidos de poder –, os discípulos retornam a Jerusalém e fazem do Templo o lugar da espera pelo cumprimento da promessa de Jesus (v. 53).
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3 Meditação O Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos foram escritos já contando com a demora da segunda vinda de Jesus, ou do fim dos tempos. Como ninguém, a não ser o Pai, sabe quando será o dia, a comunidade deve esperar com fé e ações condizentes. Por isso ler, explicar, ensinar e entender o que as Escrituras dizem a respeito de Cristo e seu povo é fundamental. Em Lucas 24, pelo menos duas vezes, Jesus faz estudo bíblico. Nesse estudo, ele encontra o que está por trás das palavras e dos fatos. A comunidade deve encontrar Cristo nos textos e nos testemunhos bíblicos. Sem essa dimensão, a manjedoura é só palha, a cruz é só madeira, a palavra é só história, a eucaristia é somente comunhão humana, o batismo é só lavagem e o culto é só encontro de amigos e amigas humanos. Mas a comunidade cristã encontra algo mais, algo que, quem sabe, não se vê, mas faz arder o coração, ou seja, Cristo crucificado, vivo e presente, em comunhão profunda, ampla e larga. A segunda insistência de Lucas é a organização do testemunho. Nesse texto da pregação ele faz a ponte com o planejamento missionário, em diferentes passos. O planejamento é Atos dos Apóstolos. Depois da ação do Espírito prometido por Jesus antes da sua Ascensão e enviado pelo Pai, os apóstolos louvam a Deus e dão testemunho. O testemunho conta com o martírio, conforme Atos (exemplo At 7.1ss e outros). O testemunho não é “sombra e água fresca”, mas conta com prisões, perseguições etc. Terceiro, os textos de Lucas contam com a comunidade. Na demora da vinda definitiva de Cristo, o povo se encontra em comunidade. Nela se realizam o louvor, a glorificação de Deus, o ensino da Palavra, o repartir do pão, as orações, a comunhão. Não pode faltar a alegria, o júbilo. Pessoas cristãs são pessoas felizes, jubilosas, agradecidas. Tudo por causa de Jesus que as reconcilia com Deus, perdoa seus pecados e lhes dá vida e salvação. Sem que seus problemas, suas dores e sofrimentos estão na comunhão de Jesus. Seu amor é na comunhão de Jesus. A comunidade é Jesus Cristo presente no mundo (Bonhoeffer). Nessa realidade, estão perto do reino de Deus. Nos elementos exegéticos se podem encontrar outras referências para a pregação. É importante lembrar à comunidade sobre a Ascensão de Jesus e de seus ensinos naquele momento. Eles são significativos para a vida cristã e a comunidade de Jesus.
4 Imagens para a prédica Quando eu era criança e adolescente, não entendia o que era essa tal de Ascensão de Jesus. Imaginava que Jesus se despediu de seus amigos, deu ordens e prometeu voltar logo. Depois foi embora. Mas nunca mais voltou. Demorei a entender a relação entre o mundo físico e metafísico. Penso que Jesus não foi embora para outro espaço geográfico. Ele está presente no amor que não se vê, mas existe e dá movimento à vida. Aliás, ele é o amor. Sua presença continua, não é
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plena, mas está presente em seus sacramentos, na Palavra, na sua comunidade e nas pessoas que sofrem as dores do mundo. Que imagem as pessoas da comunidade têm da Ascensão de Jesus? Quando fiz estudos bíblicos sobre os textos da Ascensão, fiz a dinâmica de desenhar como seria o evento. Depois, as pessoas relataram. Ou, em estudo em grupo, foi feita a dinâmica de representação teatral. Saíram coisas interessantes, que ajudaram a explicar os textos. No culto não há tempo para isso. Mas se poderia fazer algo prático para o momento: pedir que as pessoas fechem seus olhos e acompanhem mentalmente a leitura pausada do texto. Depois da leitura, pedir para algumas pessoas relatarem o que perceberam e o que imaginaram. Prestar atenção nas palavras. Fiz essa dinâmica algumas vezes. Num desses momentos, uma pessoa falou que ela sentiu solidão. Na semana seguinte, fiz uma visita pastoral, quando falamos sobre a solidão que ela vivia na vida real. A fala dela foi importante para o trabalho pastoral.
Bibliografia BONHOEFFER, Dietrich. Vida em comunhão. 10. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2015. 107 p. GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. 3. ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1988. SANTOS, Joe Marçal. Meditação sobre Lucas 24.44-53. In: VOLKMANN, Martin (Coord.). Proclamar Libertação: Auxílios para o anúncio do Evangelho. São Leopoldo: Sinodal; IEPG-EST, 2010. v. 35.
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PRÉDICA: SALMO 68.1-10,32-35 JOÃO 17.1-11 1 PEDRO 4.12-14; 5.6-11
7º DOMINGO DA PÁSCOA
24 MAIO 2020
Vitor Hugo Schell
O Senhor se levanta vitorioso e conduz seu povo em triunfo
1 Introdução O texto do Salmo 68.1-10,32-35 aponta para a vitória de Deus sobre seus inimigos. Enquanto a religião popular cananeia celebrava de forma cultual a vitória do deus Baal sobre a divindade da morte, celebrando o fechamento das portas do inferno e a ascensão do deus Baal reinante e poderoso sobre o mais alto monte como mais alto deus, doador de toda a fertilidade, Israel festeja e afirma que o mais alto Deus é o SENHOR vitorioso, que não vem do mundo dos mortos, mas, como celebrado no Salmo, do monte Sinai, local de sua autorrevelação a Israel. Seus grandes feitos, que precedem seu aparecimento e exaltação, seriam a libertação do povo do Egito, sua condução pelo deserto, a concessão da terra e a vitória sobre Sísera (Jz 4), vitória essa que provavelmente está no pano de fundo do que é apresentado pelo salmo. São inevitáveis as prontas associações com o que nos apresenta o texto do Evangelho de João 17.1-11, início da oração sacerdotal de Cristo. É chegada a hora da glorificação do Pai por meio do Filho, que receberá toda a autoridade sobre a humanidade. Por meio da vitória do Filho há a possibilidade de vida eterna. A glorificação de Jesus passará inevitavelmente pelo sofrimento na cruz. Lá será o lugar de sua vitória. A hora chegada é hora de esvaziamento, humilhação, sofrimento e morte. Não existem atalhos. O próprio Senhor entrega-se à morte para dar a vida aos seus filhos e suas filhas. Os discípulos e as discípulas desse Senhor, a quem Pedro escreve (1Pe 4.1214; 5.6-11), são chamados à alegria enquanto experimentam temporariamente o fogo que surge [...] para os provar, enquanto participam dos seus sofrimentos e são por causa dele insultados. Humilhação resultará em exaltação no tempo certo.
2 Exegese O Salmo 68 é um canto de vitória que pode ser comparado ao canto de Moisés em Êxodo 15 e ao canto de Débora em Juízes 5. Trata-se de um convite, de palavras de motivação ao louvor. Como no Salmo 118, temos aqui traços de celebração litúrgica, de procissão acompanhada de canto de louvor. O Salmo 68 celebra a presença de Deus no Sinai, a partida do povo e a história da sua peregrinação pelo deserto, resistências enfrentadas e vitórias até o momento final da concretização da presença de Deus no Templo.
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Esse salmo parece seguir a concepção do cronista, segundo a qual o povo somente alcança o descanso quando o Senhor entra no seu Templo. Como pontuam Carniti e Schökel, o “ponto de partida do Sl 68 é tomado de Nm 10 ou de uma fonte comum” (CARNITI; SCHÖKEL, 1996, p. 850). Em foco está a partida da arca em marcha: Sempre que a arca partia, Moisés dizia: “Levanta-te ó SENHOR! Sejam espalhados os teus inimigos e fujam de diante de ti os teus adversários” (Nm 10.35). A relação com o primeiro verso do Salmo 68 é clara. O que em outros textos é relatado como uma marcha confusa e desordenada, em Números é mostrado como marcha organizada de tribos alinhadas em procissão. Nos v. 2-6 são contrastados os inimigos e aqueles que são honrados por Deus. Os inimigos são obrigados a bater em retirada diante da manifestação vitoriosa de Deus. Assim como o vento dissipa a fumaça e como a cera se derrete no fogo, assim são dispersados os inimigos. Muitos textos veterotestamentários falam do fogo como elemento da divindade (como, p.ex., Is 33.14; Sl 50.3; Dn 7), e aqui, tanto a figura do vento que leva e dissipa a fumaça como a da cera que derrete apontam para a derrota, para a dispersão e a falta de solidez dos inimigos de Deus (compare o Sl 1). Enquanto os inimigos são dissipados, aos justos, por outro lado, estão reservadas a alegria e a exultação (v. 3). Os v. 1 e 2 expressam a realidade de derrota do ímpio diante do agir de Deus. Deus mesmo é o ator principal. No v. 3 os justos são conclamados à alegria e à exultação diante de Deus pela vitória recebida. Para eles, a epifania significa júbilo, alegria e felicidade. O início do v. 4 conclama ao cântico, ao louvor ao seu nome e à exaltação do Deus vitorioso, descrito como aquele que cavalga sobre as nuvens (compare o Sl 104.3). O Senhor é descrito como aquele que vitoriosamente cavalga as nuvens a despeito de toda a fama atribuída na mitologia sírio-cananeia ao deus Alyian Baal, como “cavaleiro das nuvens”. Como em um deserto sem estradas a carruagem vai abrindo caminhos, assim o Senhor é quem cavalga sem impedimento sobre as nuvens. Ele não é outro senão o Senhor, numa clara identificação do ator principal, do salvador com o Deus dos pais, que age na libertação do êxodo do Egito. Os v. 5 e 6 descrevem esse vitorioso adiante como Pai para os órfãos e defensor das viúvas, como Deus que dá um lar aos solitários, [e] liberta os presos para a prosperidade. O Senhor tem as marcas do verdadeiro rei, que protege os indefesos, defende os oprimidos, que faz justiça. Órfãos e viúvas estão no foco da mensagem profética (compare, p. ex., Is 1.17 e 23; Jr 7.6; 22.3 e Ez 22.7; 35.17). No Senhor, órfãos têm um pai e viúvas têm um justo juiz. O solitário, o Senhor faz com que possa viver em família. É inevitável a identificação de tudo o que aqui se apresenta com o que se mostra na trajetória de Jesus de Nazaré, como ungido de Deus nas páginas dos evangelhos, com sua missão descrita de forma condensada, p. ex., por Lucas em 4.18ss, onde Jesus atribui a si mesmo o conteúdo das palavras de Isaías 61.1-2. A associação do cristianismo ao que nos é apresentado no Salmo 68 é inevitável também ao lermos as palavras do v. 18 do Salmo em questão, sendo citadas pelo autor da Carta aos Efésios em atribuição à obra de Jesus Cristo. O salmo enfatiza que comunhão, justiça e prosperidade numa terra fértil são as marcas da vida con-
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quistada pelo Deus vitorioso, enquanto os rebeldes vivem em terra estéril. O que se traduz por rebelde se aplica ao filho (veja Dt 21.18) e ao povo insubordinado (compare Jr 6.28 e Salmo 78.8). Os v. 7-10 são parte de uma segunda seção do salmo, parte essa que ressalta a provisão de Deus durante a peregrinação pelo deserto. À sua presença a terra tremeu e os céus gotejaram, afinal, o próprio Sinai fora abalado na presença de Deus. “Desta forma, atuam as duas testemunhas clássicas da divindade, céu e terra (p. ex. Is 1,2; Dt 32,1; Sl 50,4)” (CARNITI; SCHÖKEL, 1996, p. 857). Em meio à exaustão, o povo de Deus, chamado de sua herança, experimentou chuva sendo derramada, e por meio dela reestabelecimento. Os necessitados experimentaram a provisão de Deus enquanto habitavam no deserto. Os v. 32-35 finalizam o Salmo 68 conclamando novamente ao louvor ao Senhor. As nações, por bem ou por mal, deverão reconhecer o poder de Deus. Convidados ao louvor são os reinos da terra (v. 32). O agir de Deus, salvando e conduzindo seu povo Israel, traz consequências às nações; e os versos anteriores ressaltam as ofertas trazidas por esses povos: Por causa do teu templo em Jerusalém, reis te trarão presentes [...]. Ricos tecidos venham do Egito, a Etiópia corra para Deus de mãos cheias (cf. v. 29 e 31). O v. 34 repete tradições já apresentadas no início do salmo. O Senhor cavalga os céus e troveja com voz poderosa. O tema do cântico é a história de libertação experimentada e que deve ser sempre novamente atualizada na vida daqueles que estão em procissão, a qual, como bem afirma Stadelmann, “ao narrar os episódios históricos de salvação, não tem por objetivo apenas evocar o passado, e sim tornar sempre presente o fato da libertação, como ação divina sempre atual, para suscitar nos fiéis da procissão a experiência existencial de salvação, cujo sinal é a alegria da alma” (STADELMANN, 2015, p. 374-375).
3 Meditação Em tempos de ódio, polarização e da utilização – de forma geral, irrefletida – de imagens bélicas retiradas da própria Escritura para descrever a realidade, assim como vista de forma privilegiada pelo “segmento evangélico” (segmento!), o texto do Salmo 68 pode trazer algumas balizas importantes, especialmente ao ser interpretado – assim como deve ser aqui – à luz do Novo Testamento. O texto do Salmo 68 enfatiza o poder de Deus, que se levanta e causa inevitavelmente a dispersão dos inimigos que se colocam contra o seu povo. Assim como a fumaça é dissipada e levada pelo vento, e assim como a cera é derretida pelo fogo, assim os ímpios perecem na presença de Deus. Ímpios e justos são contrastados. Enquanto estes exultam de alegria, aqueles perecem na presença de Deus. O salmo traz à memória e canta a peregrinação do povo pelo deserto desde a libertação do Egito até seu estabelecimento na terra prometida. Celebra inclusive a presença de Deus no Templo em Jerusalém. O Senhor se levanta e a vitória acontece. Ao deixarmos que o texto de João 17, sugerido como leitura bíblica, lance luz sobre o que temos aqui no Salmo 68, novas perspectivas são possíveis. Aqui se torna inevitável a associação do levantar-se de Deus e da fuga de seus ini-
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migos com a glorificação do Filho de Deus e o recebimento de sua autoridade sobre a humanidade, o recebimento da glória que tinha com o próprio Pai antes que o mundo existisse (cf. Jo 17.1-5). Em Jesus de Nazaré, porém, não se via alguém que se levanta causando medo, colocando em fuga seus inimigos. Isso não aconteceria! A glorificação do Senhor teria a ver com sofrimento, humilhação e, por fim, morte. Na cruz, o próprio Filho de Deus é feito inimigo. Ou como diz o apóstolo Paulo em 2 Coríntios 5.21: Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus. Longe de ser alguém que se manifesta como quem cavalga as nuvens, Jesus Cristo, o Filho de Deus, é aquele que experimenta ele mesmo a peregrinação, com o pé bem no chão. O Senhor que acompanha os peregrinos pelo deserto, que vai adiante deles abrindo-lhes caminho, afugentando e dispersando os inimigos, é louvado no salmo como pai dos órfãos e juiz das viúvas, como aquele que dá um lar a solitários e liberta os presos para a prosperidade (v. 5-6). É clara também aqui a possível identificação de Jesus de Nazaré como Senhor que liberta da escravidão, da opressão e injustiça, e faz com que se viva em família. Sinais claros dessa nova realidade de salvação foram colocados por Jesus. Em Mateus 11.5 nos é relatada parte da resposta que deveria ser dada a João Batista ao questionar a respeito da identidade de Jesus de Nazaré: os cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas novas são pregadas aos pobres [...]. É interessante percebermos que, no confronto com Jesus, os verdadeiros inimigos – justos aos seus próprios olhos – são afugentados e dispersos, e os que não eram considerados justos são justificados, recebem nova vida por sua graça. Para ele as nações são atraídas. Outro aspecto muito interessante trazido pelo Salmo 68, nos v. 7-10, é a provisão de Deus para com o povo a caminho. A história da peregrinação do povo de Israel em direção à terra prometida está cheia de marcas da provisão de Deus, que acontecia na hora certa. Também a rebeldia, à qual se refere o v. 6, faz parte dessa história de peregrinação. À luz do Novo Testamento, associações com a trajetória das discípulas e dos discípulos de Jesus se tornam claras. O povo de Deus peregrina pelo deserto e o próprio deserto se torna em analogia para aquilo que enfrentam as pessoas cristãs na sua jornada terrena (cf. 1Pe 1.17). A Carta aos Hebreus, por exemplo, não poupa palavras no desenvolvimento da comparação dessa jornada com aquela do povo de Israel. O sustento aos peregrinos é assegurado em meio aos percalços do caminho. O salmo aponta para a realidade de que o Senhor está à frente do seu povo enquanto marcha pelo ermo: Quando saíste à frente do teu povo, ó Deus, quando marchaste pelo ermo [...] (v. 7). O Senhor está à frente! Chuva generosa e refrescante é experimentada no momento da exaustão. A experiência do povo de Israel trazida à memória e que resulta em louvor no salmo deve apontar para a certeza do agir de Deus em tempos de dificuldade e perseguição, experiência também dos discípulos e discípulas de Jesus em todos os tempos. No final do Salmo 68, temos outra imagem: a partir do estabelecimento do templo em Jerusalém as nações são levadas necessariamente ao reconhecimento (v. 29-31) do senhorio de Deus. Por fim a soberania de Deus não será mais algo escondido ou questionado, mas se tornará notória entre as nações.
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Em Jesus, as nações são acolhidas e atraídas. Do oriente são trazidos presentes e da Etiópia se vem procurar pelo Deus verdadeiro (lembremos os presentes dos magos e do etíope de Atos 8, por exemplo). Em Jesus, o Cristo de Deus, a vitória está presente e assegurada; e a verdadeira justiça e impiedade se definem. Por fim, a realidade é revelada. Jesus se levantará, por fim, vitorioso. Esse salmo, cantado em momentos de celebração, não somente trazia à memória os feitos de Deus, como também chamava à experiência e à inclusão bem pessoal na experiência do povo. Por meio de Cristo também somos incluídos nessa experiência, no louvor por sua vitória, na libertação oferecida e na certeza de sua companhia durante a peregrinação. Amém.
4 Imagens para a prédica Os diferentes aspectos centrais dos textos reservados à leitura bíblica, tanto da oração sacerdotal de Jesus como da exortação da Primeira Carta de Pedro devem ser ressaltados durante a prédica. Os episódios dos evangelhos nos quais o próprio Jesus se mostra como aquele que cumpre as promessas do Antigo Testamento como libertador de seu povo, prometendo-lhe ser “pão da vida” e “fonte que faz jorrar rios de água viva”, e que o sustenta durante a peregrinação à terra da salvação (como, p.ex., em Jo 6 e 7), podem muito bem ilustrar a mensagem do salmo em questão.
5 Subsídios litúrgicos Além de vários hinos disponíveis no Livro de Canto da IECLB que ressaltam a mensagem da pregação e levam ao testemunho do agir de Deus na história pessoal de cada participante do culto, podem ser utilizados na moldagem da liturgia outros meios visuais como filmes que ressaltam a superação de desafios pela igreja que está a caminho. Sugere-se o uso de imagens que mostrem os desafios da igreja na atualidade, associadas aos desafios durante a peregrinação de Israel no deserto, assim como imagens que enfatizem a providência de Deus e a promessa da presença de Jesus Cristo, que vitorioso e detentor de toda a autoridade, promete não deixar quem nele crê.
Bibliografia SCHÖKEL, Luís Alonso; CARNITI, Cecília. Salmos I: salmos 1-72. Tradução, introdução e comentário. Trad. João Rezende Costa. São Paulo: Paulus, 1996. KRAUS, Hans-Joachim. Psalmen II. 2. Teilband. Psalmen 64-150. 4. Durchgesehene und mit Literaturnachträgen ergänzte Auflage. In: HERMANN, S.; WOLFF, H. W. (Hrgs.). Biblischer Kommentar Altes Testament. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1972. Bd. XV/2. STADELMANN, Luís I. J. Os Salmos da Bíblia. São Paulo: Loyola; Paulinas, 2015. p. 374-375
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DOMINGO DE PENTECOSTES
31 MAIO 2020
PRÉDICA*: 1 CORÍNTIOS 12.3b-13 NÚMEROS 11.24-30 JOÃO 20.19-23
Júlio Cézar Adam
Diferentes dons, diferentes pessoas, um mesmo Espírito
1 Introdução Estamos celebrando Pentecostes, a festa do Espírito Santo. Por isso os textos bíblicos previstos no Lecionário Comum da IECLB falam sobre a ação do Espírito e do Espírito Santo. Falar sobre o Espírito e sua ação na vida de pessoas e na vida de comunidades e da igreja é algo fundamental, não só no dia de Pentecostes, mas na vida da igreja, por no mínimo três motivos: 1) O Espírito Santo é uma das pessoas da Trindade e entender o Espírito é arriscar perscrutar as pegadas de Deus. Tenho a impressão que falamos pouco sobre o Espírito Santo nas nossas comunidades, deixando o Espírito como algo “espiritual”, misterioso, espontâneo, inominável demais. Acho que o Espírito é tudo isso, assim como o é o próprio Deus Trino. Faz parte, porém, da vida de fé e da teologia comunitária entender e perceber o que ousamos chamar de Deus. 2) O tema do Espírito Santo é assunto abundante no contexto eclesial e religioso brasileiro. Há muitos “espíritos” circulando por aqui e muitas teologias sobre o Espírito e sua ação. Por isso faz-se necessário e até urgente discernir os espíritos e refletir sobre o que entendemos e como percebemos o Espírito Santo. 3) Não por último, cabe reafirmar que não existe igreja sem fé e não existe fé sem a ação do Espírito Santo. Logo, nada mais importante do que falarmos do Pentecostes de ontem e de hoje. Falar do Espírito é falar da igreja e da fé na atualidade. No livro de Números 11.24-30, temos uma manifestação interessante do Espírito. Conta o texto que no arraial, Moisés, junto com o conselho de setenta anciãos, recebe o Espírito de Deus e profetizam enquanto o Espírito está sobre eles. Dois homens, Eldade e Medade, que não estavam entre os setenta, também recebem o Espírito e profetizam no arraial. A atenção do texto parece estar justamente nessa ação não prevista do Espírito. A força do Espírito se expande para além da organização e do controle humano. A ação do Espírito é livre e soberana. O texto do evangelho fala da aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos no Domingo da Páscoa (escrevi um auxílio homilético sobre esse texto no PL 38). Aqui, Jesus sopra sobre os discípulos o Espírito, enviando-os para a mis-
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Nota do editor: Conforme as Senhas Diárias, o texto bíblico previsto para a prédica é João 20.1923. As demais leituras seguem as mesmas. Portanto a pessoa oficiante pode escolher se a prédica seguirá o texto do evangelho ou das cartas.
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são de perdoar pecados. A ação do Espírito aqui está diretamente relacionada ao Cristo ressuscitado, algo importantíssimo para a teologia evangélica luterana: a pneumatologia luterana imprescindível está vinculada à cristologia. O Espírito é o novo sopro de vida (Gn 2.7), fortalecendo a comunidade dos discípulos, célula geradora da igreja, para sua missão de expandir o perdão gerado na cruz, por Cristo, ao mundo. Na carta de Paulo aos coríntios, em 1 Coríntios 12.3b-13, por sua vez, texto previsto para a pregação do Domingo de Pentecostes, fala-se dos dons e carismas que o Espírito Santo desperta nas pessoas e na igreja, na reunião do povo de Deus. A diversidade dos dons é aqui resguardada. Os dons e carismas são diversos, mas o Espírito é o mesmo (v. 4). Há diversidade nos serviços e nas realizações, mas o Senhor é o mesmo (v. 5 e 6). A ação do Espírito gera efeitos diversos, amplos e abrangentes. E mais: a força do único Espírito age em cada indivíduo, pelo batismo e, ao mesmo tempo, congrega todos, na diversidade, em um só corpo. Pentecostes, portanto, remete a uma variedade de manifestações de uma força que vai além daquilo que conseguimos prever e estabelecer (texto de Nm 11.24-30). O mesmo Espírito age em indivíduos e desperta dons e carismas individuais e diversos para serem usados em um mesmo corpo, a igreja. O que cria a unidade não é a mesmice de dons e carismas, mas a diversidade de dons proveniente das individualidades tocadas pelo Espírito (texto de 1Co 12.3b-13). A ação do Espírito está total e fundamentalmente vinculada à ressurreição de Cristo, ao evento da cruz, à Páscoa. A ação do Espírito tem a ver com Jesus Cristo. A partir dele, do seu sopro novo, uma nova realidade é criada: a igreja do perdão (texto de Jo 20.19-23).
2 Exegese Corinto Que cidade e que povo são esses onde uma comunidade cristã é criada? Corinto era uma grande cidade portuária, cosmopolita e próspera. Um centro de conexão na Europa (um hub, diríamos hoje), ligando comercialmente o Oriente ao Ocidente. Era também um hub de diferentes filosofias e espiritualidades, que disputavam clientela. Italianos, gregos, egípcios, sírios, judeus habitavam a cidade e traziam sua herança intelectual, costumes sociais, crenças e práticas religiosas. Exatamente por isso Corinto era conhecida por sua diversidade, cultura, comércio, paganismo, imoralidade e grande riqueza (2Co 1). A fama moral da cidade não era boa. Além do comércio, a cidade se destacava por sua atividade industrial, como a fabricação de cerâmica. Destacam-se as construções majestosas, como o Templo de Apolo. A cidade era também sede administrativa do Império Romano. Do ponto de vista cultural, Corinto se equiparava a Atenas, Alexandria, Tarso. Estamos em uma cidade grande, rica, diversa e complexa. Ao mesmo tempo, uma cidade com elites econômicas, intelectuais e religiosas, em uma ponta, e operários, grupos marginalizados e subjugados, na outra ponta. Apesar dos desa-
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fios que Corinto representa, Paulo, contando com sua formação grego-helenista e sua fé, enfrentou a cidade. É provável que ele tenha permanecido em Corinto por cerca de dois anos, situados pela pesquisa entre os anos 51 a 53. Sabe-se que ele retornou à cidade em outro momento. A comunidade e a primeira carta Que comunidade é essa para quem Paulo escreve duas cartas? A Primeira Carta aos Coríntios deve ter sido escrita nos anos 55 a 56. Ou seja, a comunidade tinha se tornado cristã há não mais que cinco anos. Muitos eram cristãos por menos tempo, inclusive. Exatamente por isso Paulo lhes escreve para corrigir desvios da compreensão e vivência da fé cristã, principalmente tensões internas da comunidade. É provável que Paulo tenha escrito à comunidade respondendo a uma consulta (7.1) e a informações recebidas (5.1) que lhe fazem, pois ele sabe a situação que a comunidade se encontra. Importante ressaltar que Corinto é uma das mais conhecidads comunidades paulinas e as duas cartas enviadas à comunidade perfazem em volume quase a metade da correspondência incontestavelmente paulina. Encontramos informações sobre os inícios da comunidade em Atos 18.1-18. Paulo vem desolado de Atenas (1Co 2.1-5) e experimenta novos métodos missionários, aproximando-se de um casal (Áquila e Priscila) e trabalhando com eles na fabricação de tendas. Aos sábados, ele prega o evangelho na sinagoga local, contando com a ajuda da comunidade de Filipos (Fp 4.10-20). A boa nova baseada no escândalo da cruz, porém, não tarda a despertar a oposição dos judeus locais. O apóstolo é obrigado a abandonar a evangelização na sinagoga e a casa de Tício Justo, nas proximidades, é transformada em local de reuniões. O trabalho missionário volta-se, então, para os gentios. Judeus, como Crispo, líder da sinagoga, somam-se ao grupo. Importante lembrar que, em Corinto, Paulo escreve sua Primeira Carta aos Tessalonicenses e, durante uma visita posterior à comunidade, o apóstolo escreve a Carta aos Romanos. Os dons espirituais Paulo dedica um capítulo inteiro para falar dos dons espirituais. Uma olhada rápida no capítulo nos leva a no mínimo uma percepção: dons espirituais estão relacionados à unidade corporal da igreja. Ou seja, o tema dos dons não tem relevância em si, mas pensar dons só tem sentido como forma de entender e pensar a igreja, uma vez que havia facções na comunidade (cap. 1), elitismos e conflitos em torno dos dons espirituais (cap. 2; 12; 13), imoralidade sexual (cap. 5; 6; 10), objeções à autoridade de Paulo (cap. 9), uma heresia nascente sobre a ressurreição (cap. 15), práticas aberrantes no culto e na eucaristia (cap. 11). Exatamente o assunto dos dons e da organicidade da igreja é posterior ao capítulo 11, onde Paulo retoma o ensino sobre a Eucaristia, texto fundamental para a compreensão do sacramento. Ali transparece o conflito entre os fracos e os fortes economicamente. O capítulo que segue à discussão sobre os dons é o conhecido capítulo 13, onde Paulo fala sobre o amor. Eucaristia, dons e amor não estão assim alinhados por acaso. Interessante observar que se no capítulo 12 Pau-
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lo fala dos mais diferentes dons espirituais, no capítulo 13 ele dedica um capítulo inteiro para um único dom: o amor! O capítulo 12 pode ser entendido à luz do evento de Pentecostes, em Atos 2.17, que, por sua vez, está baseado na profecia de Joel 2.28ss: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos (At 2.17). A comunidade parece estar vivendo essa manifestação dos dons, mas com dificuldade de discernir e entender sua procedência, significado e função para a vida comunitária. Estavam na ignorância e confundidos no que se refere a esses dons (v. 1 e 2), a ação do Espírito e à essência da igreja, o amor. Provavelmente os dons se manifestavam durante o culto e, supostamente, espelhavam experiências do passado pagão da comunidade, das religiões gentílicas, dos cultos de mistério, fenômenos extáticos, entusiásticos ou até mesmo orgiásticos. É para dentro desse “pentecostes descontrolalo e hierarquizado” que Paulo escreve. O mesmo Espírito opera e o faz com base na confissão básica da comunidade: Jesus Cristo é o Senhor. Olhemos cada versículo mais de perto: V. 3b – Por outro lado, ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo. A relação entre cristologia e pneumatologia está evidente nessa introdução à perícope. Assim como não é possível falar e entender o Espírito sem Jesus Cristo, só podemos entender Jesus Cristo pelo Espírito Santo, porque só o entendemos na fé. O Espírito Santo é, então, o foco da mensagem. V. 4 – Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. Falar de Jesus pelo Espírito Santo significa experimentar dons. A fé se manifesta e é experimentada nos dons diversos. Aqui Paulo dá o tom de todo o texto: a diversidade de dons e a unidade no mesmo Espírito, criador e dinamizador dos diferentes dons. É muito provável que havia na comunidade disputa sobre dons melhores e piores, dons mais espirituais que outros. Ou é provável que estivesse havendo certo regramento do que seriam dons do Espírito. V. 5 – E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. A fé desperta os dons e a fé desperta serviços, na mesma dinâmica da diversidade e da unidade do mesmo Senhor. V. 6 – E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. Da mesma forma ocorre com as realizações. São três ações diferentes: dons, serviços e realizações. Interessante que, nesses três versículos (4, 5, 6), podemos ver destaque para a Trindade: Espírito (dons espirituais/carismas), Senhor, Jesus (serviços, diaconia), Deus (realizações, virtudes, milagres – o termo aqui é energēmatōn). Fica muito claro, assim, o ordenamento dado por Paulo. É o mesmo Deus, com seu Espírito, por meio de Cristo, que opera, energiza tudo em todos para o fortalecimento da fé da comunidade. V. 7 – A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso.
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A ação do Espírito é dada a toda e cada pessoa e não apenas aos destacados, aos melhores. Não há proveito próprio nas manifestações do Espírito, pelo menos não do Espírito de Jesus Cristo. A finalidade da manifestação não se encerra em si mesma, mas visa a um fim proveitoso à comunidade. O fim proveitoso é o evangelho, que não prescinde da cruz. V. 8 – Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; A partir desse versículo até o final de perícope, Paulo passa a falar sobre as diferentes manifestações dos dons, serviços e realizações, apontadas no início da perícope. E aqui algo interessantíssimo: o Espírito quer variedade! Paulo não contrapõe a variedade e a diversidade de manifestações (mesmo em se tratando de uma realidade diversa como o era Corinto e provavelmente a comunidade), mas organiza a diversidade sob a manifestação de um só e mesmo Espírito. Segue-se uma lista dos dons: a palavra de sabedoria; a palavra de conhecimento. V. 9 – a outro, no mesmo Espírito, a fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar; a fé; e os dons de curas; V. 10 – a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um, variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las. Operações de milagres; profecia; discernimento de espíritos; variedade de línguas; capacidade de interpretá-las; V. 11 – mas um só e o mesmo Espírito realiza todas essas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente. O apóstolo cita nove dons do Espírito, o que não quer dizer que sejam todos. Poder-se-ia organizá-los em três grupos de três: a) palavra de sabedoria, de conhecimento e fé; b) cura, milagres e profecia; c) discernimento de espíritos, línguas e interpretação de línguas. Walter não sugere uma hierarquia entre eles, mas uma linha descendente, começando com a palavra de sabedoria e terminando com o dom de línguas. O tempo todo, de forma enfática e repetitiva, após cada dom, Paulo realça o no mesmo Espírito. Nesse versículo (11), o apóstolo reforça isso dizendo que o Espírito distribui como lhe apraz, individualmente. V. 12 – Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo. E aqui Paulo inicia sua metáfora da igreja como um corpo, com muitos membros, reforçando a ideia da corporeidade, da integralidade, da unidade da igreja em sua diversa, rica, complexa, estranha, assustadora diversidade e variedade. A unidade em torno de Cristo e por causa de Cristo se dá na diversidade. V. 13 – Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito. E Paulo não deixa dúvidas de que diversidade se trata. É a diversidade de Corinto, diversidade de povos, de classes, condições sociais, profissões, crenças, compreensões de mundo e de vida... É a diversidade de judeus, gregos, escravos e livres, fortes e fracos, homens e mulheres, unidos e unidas no mesmo corpo, a igreja, por meio do batismo, o mergulho no Cristo, fonte da fé, esperança e amor.
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3 Meditação Estamos em Pentecostes. Como falei já na introdução deste auxílio, é um excelente momento para refletir com a comunidade sobre o Espírito Santo e Pentecostes. Além disso, outro tema encarnado no texto de 1 Coríntios 12 é o dos dons, carismas, serviços e realizações da vida de fé de pessoas e da comunidade. Nosso texto mostra o quanto essas ações espirituais diversas estão relacionadas tão somente à unidade, à organicidade da igreja, corpo de Cristo, a comunhão das pessoas santificadas, para a proclamação do Evangelho de Jesus Cristo no mundo. Um terceiro tema que deveria ser abordado é a questão da diversidade na igreja, tema candente na atualidade, no Brasil e no mundo. Espírito Santo Espírito Santo é a terceira pessoa da Trindade. Ele se manifesta de forma muito especial em Pentecostes (At 2), cumprindo a promessa feita por Jesus Cristo de enviar o Consolador, o Parácleto, que continuaria caminhando com a comunidade. Jesus Cristo, ressuscitado, nos envia para o mundo com e por meio do Espírito Santo. Vemos, assim, que o tema do Espírito Santo e de Pentecostes não se restringe a Atos 2. Esse Espírito Santo, em grego e em hebraico “vento”, está relacionado ao Espírito divino, presente ao longo de toda a história de Deus com seu povo, desde a criação. O Espírito Santo é um poder criador, dinamizador e vivificador. O Vento divino é uma força dinamizadora (uma dinâmica, como o termo grego que aparece no versículo 10 da nossa perícope), uma forma energizadora, presente na vida, na criação, no sopro, no álito de vida soprado nas narinas do ser humano no Gênesis. O Espírito Santo está totalmente imbricado com Jesus Cristo, aquele que viveu e ensinou o evangelho e por causa do evangelho foi morto em uma cruz e ressuscitado por Deus, por meio do Espírito. Por isso o Espírito Santo está sempre totalmente relacionado ao Cristo. Separar a Trindade é sempre um risco! O texto do Evangelho de João 20.19-23 deixa isso muito explícito, quando o próprio Cristo ressuscitado sopra o Espírito Santo sobre os discípulos, enviando-os a perdoar pecados. Por isso podemos dizer que não existe fé sem a ação do Espírito Santo. O Espírito nos introduz num relacionamento com Deus. O Espírito Santo sopra onde quer e da maneira como quer, em quem quiser (ver, p. ex., o texto de Nm 11.24-30). Nossas igrejas não são antenas para captar o sinal do Espírito Santo. O Espírito sopra também fora das igrejas, em outros ajuntamentos de gente, em outros movimentos, em outras expressões religiosas, na cultura, na natureza, na política, na sociedade, gostemos ou não. Paul Tillich trabalhou muito bem essa dimensão na sua Teologia da Cultura, usando o método da correlação. Dons Tudo é dado pelo mesmo Espírito. Os dons não são propriedade de pessoas nem resultados do seu esforço, talento ou poder. Dons são dados pelo Espírito,
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assim como a fé. Eles não servem para o engrandecimento da própria pessoa, mas servem para promover a Cristo e o seu evangelho. Não há dons melhores que outros. Sua efetividade está muito mais na diversidade e particularidade do que na sua função isolada. Como membros de um corpo, diferentes, mas organicamente integrados, assim devem ser entendidos os dons do Espírito Santo. O texto não fala apenas de dons, mas também de serviços, realizações. O texto relaciona nove dons, usando termos não tão comuns no meio protestante histórico. São termos mais usados em igrejas pentecostais, como o dom da profecia, de cura, milagres, discernir espíritos, falar em línguas. Em igrejas históricas há outros nomes para a diversidade de dons, como o dom de pregar o evangelho, o dom da música, o dom de pastorear, o dom de servir as pessoas vulneráveis e pequeninas, o dom de ensinar e educar, o dom de visitar pessoas, fazer boa comida, zelar pelos bens da comunidade, o dom de administrar, o dom de conviver, respeitar, cuidar e reconciliar. Dons, serviços e realizações se misturam e confundem em nossa vida de fé comunitária. Quais seriam os novos dons que o Espírito desperta? Lutar pela igualdade e justiça social, proteger a criação de Deus, promover uma cultura de paz on-line e off-line, cuidar do sentido da vida, certamente poderiam entrar na discussão. Não esquecer, porém, que a fé, a esperança e o amor são dons supremos e que o mais importante de todos é o amor. Diversidade O Espírito Santo lida com a diversidade e a dinamiza. Não é um Espírito de padronização, engessamento, fixação, controle. Desconfio o tempo todo quando todas as manifestações do Espírito começam a ficar muito parecidas e muito padronizadas. Acho estranho que creiamos de jeitos tão padronizados, oremos do mesmo jeito no sul e no norte do planeta, celebramos culto quase com as mesmas liturgias, falamos as mesmas teologias etc. Até mesmo os pentecostais, de quem aprendemos sobre a dinamicidade gerada pelo Espírito, na prática eclesial e espiritual, há muita padronização, fixação e controle. Teria o Espírito ficado menos criativo e dinâmico? Observemos que já no evento extraordinário de Atos 2 a diversidade está provocativamente presente, na maioria das vezes ignorada. Não é por acaso que o relato lista diversos povos e línguas que estavam presentes. A manifestação do Espírito não faz com que todos falem uma mesma língua, e sim permite e usa as diferentes línguas (culturas, costumes, crenças, jeitos etc.), usa a diversidade para falar. Todas as pessoas entendem, apesar da diversidade e das diferenças. Uma confusão babélica com efeito contrário porque conduzida pelo mesmo Espírito. Paulo parece ir nessa mesma frequência no nosso texto, na medida em que explora as diferentes manifestações de dons, carismas, serviçõs e realizações sob o mesmo Espírito. Paulo aproveita a diversidade de dons e, eu diria, a diversidade de Corinto, de judeus, gregos, escravos e livres, homens e mulheres, ricos e pobres, adultos e crianças, para perceber a ação do Espírito. A diversidade de dons é semelhante à diversidade dos nossos corpos. Somos um corpo por causa dos membros diferentes que temos. Caso contrário, seríamos uma coisa amorfa, como o Geleia do filme Caça Fantasmas.
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Falar de diversidade hoje, no Brasil, parece que é atentar contra a “ordem” e os “bons costumes”. Forças religiosas e políticas, nas igrejas e fora delas, tendem a ver a raiz de todos os problemas atuais, como a violência nas famílias e na sociedade, na diversidade. Acabem com a diversidade e as diferenças e todos nossos problemas estarão resolvidos! A diversidade, porém, assim como entendeu Paulo, não era um problema, mas sim uma solução. Diversidade é fruto da dinâmica do Espírito Santo. Estranho, então, que nossas igrejas sejam tão padronizadas, tão temerosas com a diferença de dons, carismas, serviços e realizações. O texto de 1 Coríntios 12 nos leva a pregar e libertar as diferenças. O Espírito Santo, a partir de Jesus Cristo, é o critério. O mesmo Jesus Cristo que não escapou da diversidade de pessoas pecadoras, prostitutas, publicanas, estrangeiras, samaritanas, mulheres, crianças, pobres, nuas, presas, famintas. Pregar esse texto significa denunciar toda forma de enclausuramento eclesiástico e social. Como diz Welker, “O Espírito de Deus age persistentemente contra diferenças injustas. Ele transforma e relativiza diferenças naturais e culturais quando caracterizadas por injustiça, falta de amor e falta de esperança. Isso não significa, porém, que o Espírito Santo simplesmente elimine as diferenças. A unidade do Espírito é, antes, a unidade e a interação dos diferentes dons do Espírito” (WELKER, 2008, p. 10).
4 Imagens para a prédica Toda liturgia deveria ser uma liturgia de Pentescostes, começando com a decoração do espaço litúrgico, com panos e paramentos representativos, os hinos e cantos, a alegria litúrgica, uma grande festa. Poder-se-ia enumerar os dons da comunidade e colocá-los expostos, com palavras ou fotos, nas laterais do templo e durante a pregação retomá-los. Para a prédica, especificamente, lembrei uma figura usada pelo estudante de Teologia Arthur Schiller quando pregou sobre a oração sacerdotal de Jesus (João 17.1a,20-26), tematizando a unidade na diversidade. Arthur usou a figura do quebra-cabeça para ilustrar essa desafiadora tarefa. Viver a diversidade dos dons do Espírito em nossos dias também é um desafio, um risco, inclusive. Um quebra-cabeça é feito de peças diferentes entre si. Graças à diferença entre as peças, conseguimos montá-lo, com dedicação, muita paciência e cuidado. Como um quebra-cabeça são os dons que recebemos do Espírito Santo. Como peças de um quebra-cabeça, todas fazem parte de um mesmo jogo, todas são necessariamente diferentes, todas, porém, formam a mesma imagem. A beleza do jogo, tanto do processo como do resultado, está em sua diversidade. É o mesmo Espírito, a mesma imagem, que dinamiza, orienta, guia a montagem. Assim como no jogo de quebra-cabeça, o processo é tão gostoso quanto o resultado. Viver a igreja é isto: o processo é parte do próprio sonho, o Evangelho de Jesus Cristo. Cruz e graça fazem parte do jogo. Paciência, dedicação e amor, muito amor, evitam que o quebra-cabeça seja um jogo e não um quebrar de cabeças de fato.
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5 Subsídios litúrgicos Bênção dos dons espirituais Eu, o Deus da Vida, o Cristo das Diferenças e o Espírito da Diversidade, Te abençoo com a vida, e porque te dou a vida, te abençoo com inquietação, perguntas, incômodos, principalmente em relação à falta de vida, e porque te causo distúrbio, te abençoo com comida, água, cama para dormir, amigos e família, para que tu encontres abrigo, consolo na caminhada, e porque te abençoo com pessoas e com amor, te abençoo também com sentimentos fortes, paixões, desejos, vitalidade, para que possas te relacionar com o mundo, criar e gerar vida, dar e receber carinho, repartir cuidado... e porque te dou impulso de vida, te abençoo com coragem, indignação, mas também com sonhos, visões, possíveis lutas em nome de um mundo melhor, bem melhor, mais justo, digno, pacífico, para todo ser que respira e existe, e porque te abençoo com senso político e ético, te abençoo com Jesus Cristo, pois, se nada der certo, se não te importares com nada, se faltar o mínimo para viver, se teus amigos te decepcionarem, se tuas relações te frustrarem, tuas lutas e sonhos derem em nada, tu possas entregar tua vida inteira para Cristo e ele te carregará. E porque te dou Jesus Cristo, te abençoo com o Espírito Santo, para que ele, independente da situação, apesar de tudo e de todos, te dê dons e te carregue na fé,
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em mim, o Deus da Vida. Amém.
Bibliografia HOEFELMANN, Verner. Corinto: contradições e conflitos de uma comunidade urbana. In: FERREIRA, Joel A. et al. (Orgs.). Sociologia das Comunidades Paulinas. Petrópolis: Vozes; São Bernardo do Campo: Imprensa Metodista; São Leopoldo: Sinodal, 1990. p. 21-33. (Estudos Bíbliocos, 25). WALTER, Eugen. A primeira Epístola aos Coríntios. Petrópolis: Vozes, 1973. WELKER, Michael. O Espírito Santo. Estudos Teológicos, São Leopoldo, v. 48, n. 1, p. 5-17, 2008.
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1º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 13.11-13 07 JUN 2020
GÊNESIS 1.1 – 2.4a MATEUS 28.16-20
(TRINDADE) Osmar Luiz Witt
Comunidade no poder do trino Deus
1 Introdução Os textos bíblicos deste domingo convidam à reflexão sobre a fé no trino Deus e as manifestações dessa fé na vida em comunidade. Trata-se de textos breves, mas que sinalizam o modo como a fé cristã dá expressão e sentido à sua compreensão de Deus. A leitura cristã do relato da criação segundo o livro de Gênesis distingue ali o trino Deus em seu agir criador. O evangelista Mateus apresenta o mandato que Jesus conferiu aos seus seguidores e seguidoras, instruindo-os a batizar em nome do trino Deus. A formulação trinitária tinha seu lugar na prática litúrgica das primeiras comunidades cristãs. O texto indicado para a pregação, por sua vez, recolhe essa formulação litúrgica em forma de bênção proferida para a comunidade de Corinto numa palavra de despedida do apóstolo Paulo. “A despedida é excepcionalmente breve, sem menções nominais. Contém uma das fórmulas trinitárias mais claras do NT, e que entrou como saudação na liturgia eucarística” (Bíblia do Peregrino, nota de rodapé).
2 Exegese O contexto de Paulo em Corinto Um auxílio já publicado nesta série de auxílios homiléticos caracterizou assim a cidade onde Paulo fundara uma comunidade cristã: “Corinto, uma florescente cidade portuária, tem no comércio sua principal atividade. Esse comércio tornou-se próspero, em grande parte graças ao grande número de escravos, que são a principal força de trabalho de Corinto. E, através de seu trabalho, eles se constituem no sustentáculo da economia coríntia. Como centro de cultura grega, ocorrem em Corinto confrontos de diferentes correntes de pensamentos e religiões. [...] Nesse palco, entre fins de 49 e meados de 51, em sua segunda viagem missionária, vindo de Atenas, Paulo logrou fundar uma pequena comunidade. Permanecendo ali por 18 meses (At 18.1-18), sua mensagem teve aceitação principalmente nas camadas mais pobres da população (1Co 1.26-29) e entre escravos (7.21 e 12.13). Mas também algumas pessoas de posses ajudaram a constituir a comunidade (11.21ss). E essa constituição tão diversificada da comunidade de Corinto deve ter contribuído grandemente nos conflitos e tensões que apareceram mais tarde” (GREUEL, 1983, p. 240-241).
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Pode-se afirmar, pois, que a comunidade de Corinto experimentou muitos conflitos e tensões, e que as cartas de Paulo refletem essa situação e buscam orientar, instruir, repreender e conclamar a que se busquem a unidade e a concórdia. Além de escrever as cartas, o apóstolo visitava a comunidade para apoiá-la, também para corrigi-la, e para defender seu ministério do ataque de adversários. Assim, “Paulo programa nova visita (2Co 1.15-16; 1.23 – 2.1). A primeira carta pressupõe uma estada de Paulo em Corinto. 2 Coríntios 12.14 e 13.1 anunciam uma terceira visita, o que significa que nesse meio tempo ele esteve lá uma segunda vez. E parece que nessa segunda visita Paulo teve problemas (2Co 2.5; 7.12). Ao que parece, ele teve que abandonar a comunidade. E esse incidente faz Paulo substituir a visita programada em 2 Coríntios 1.15-16 por uma carta, escrita em meio a sofrimento e angústia, com muitas lágrimas (2Co 2.4-10; 7.12). Essa carta parece ter produzido bom efeito, pois Tito traz notícias de que ela foi bem digerida (2Co 7.8-13)” (GREUEL, 1983, p. 241-242). Portanto “Paulo escreve antes de visitar a comunidade pela terceira vez (13.1). É um momento de crise extrema. Essa crise irrompeu pela influência de líderes infiltrados na comunidade – que o apóstolo acusa de estarem ‘mercadejando a palavra de Deus (2.17)’” (MARTINI, 1995, p. 159). Esses líderes representam a corrente judaico-cristã (2Co 11.22) e parecem opor-se à liberdade com que Paulo proclama o evangelho para pessoas que não são de origem judaica. Dizem-se legítimos apóstolos (11.5,13; 12.11). Segundo eles, “Paulo não é apóstolo, pois não tem atestado legal (13.3,7), não exigiu seus direitos, a saber, que a comunidade o sustentasse (11.8s). Para eles, Paulo, como homem de pequena estatura, não sabe se impor, nem inspira confiança. Suas palavras parecem deploráveis (11.6). Quando ausente, aí sim, suas cartas são rigorosas (10.1ss). A comunidade está impressionada com esses homens. As tendências entusiastas dentro da comunidade são as que se inclinaram em favor desses pseudoapóstolos (2Co 12.1-10). “Paulo debate-se dessa forma em sua carta com esses novos grupos surgidos dentro da comunidade” (GREUEL, 1983, p. 242). Ele pretende fazer com que os membros da comunidade vejam que sua postura tem sido distinta. Ao abrir mão de ser financeiramente mantido pela comunidade e dedicar-se ao trabalho manual para assegurar seu sustento, dá mostras de situar-se em uma “rede de relações” distinta daquela das pessoas que o criticam (cf. MARTINI, 1995, p. 159). Em síntese pode-se afirmar que o contexto está marcado pela divisão da comunidade de Corinto em distintas correntes, e que Paulo faz uma defesa contundente de seu ministério frente a seus críticos que produzem essa desunião. O texto Após haver apontado para o que julgava não estar bem na vida da comunidade de Corinto e após haver rebatido os argumentos dos que não o consideravam a altura do carisma de apóstolo, Paulo inicia a saudação de despedida (que é o início da perícope em estudo), com a palavrinha loipon (de resto, no restante, quanto ao mais). Ou seja, apesar de sentir-se no dever de repreender sua comunidade, ele não se esquece de qual é a fonte de que tanto ele quanto ela vivem! Como que vi-
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rando a página, ele convida a comunidade para alegrar-se: chairete (alegrai-vos). O tema da alegria cristã aparece com força na Carta aos Filipenses, e também aqui na Segunda Carta aos Coríntios o apóstolo recorda que a alegria é essencial para a vida cristã. Alegria é o que resulta do agir de Deus na vida de cada pessoa e também na vida da comunidade. Ela é expressão de uma existência que se sabe amparada por Deus, também nos momentos mais duros e conflituosos. Nas recomendações que seguem, ou mais que isso, nos imperativos que Paulo apresenta, há indicações de caminhos e de posturas novas, que resultam da fé. Como que emoldurados pela alegria e a paz, a nova vida que resulta da comunhão que o Espírito Santo cria, deve se manifestar numa caminhada de unidade. Assim, os verbos katartitsesthe (deixai-vos aperfeiçoar), parakaleisthe (deixai-vos consolar ou aconselhar), e froneite (sejam concordes, tenham o mesmo modo de pensar) refletem a mesma ideia e busca de unidade pela qual o apóstolo se empenhou em toda a sua carta. “Esta saudação traz um cunho peculiar e tem em mira um alvo especial. Desdobrando-se em diversos termos que se assemelham, ela é empregada tendo em vista as facções, as desavenças e as discórdias existentes no seio da comunidade coríntia” (SCHELKLE, 1967, p. 253-254). Por fim, como que selando suas recomendações, o apóstolo pede aos membros da comunidade em Corinto que eirēneuete (preservem a paz). A alegria e a paz formam a moldura de uma vida comunitária baseada no seguimento de Jesus. Essa moldura se rompe quando não se dá atenção à correção e ao aperfeiçoamento que Deus promove, deixando que as discórdias e desavenças se sobreponham à unidade. As formas passivas dos verbos servem ao propósito de fazer ver que é o próprio agir de Deus na comunidade que tem como resultado a alegria, o aperfeiçoamento, o aconselhamento, a concórdia e a paz. Os cinco imperativos vêm acompanhados de uma promessa: O Deus de amor e de paz estará com vocês (v. 11b). “E a promessa deve ser vista dialeticamente: Deus só pode morar com eles se entre eles houver paz e amor; e só pode haver paz e amor entre eles se Deus habitar com eles. O ser de Deus é caracterizado por paz e amor. E a vida da comunidade deve espelhar este ser divino” (GREUEL, 1983, p. 243). Na sequência, Paulo recomenda que se pratique o sinal concreto de concórdia e de paz: o ósculo, o beijo. “Provavelmente, encerrava-se a prédica, [...] convidando a todos para o ósculo santo. Em vista disso e como, certamente, toda carta apostólica que chegasse era lida em substituição à pregação, Paulo termina a sua externando o mesmo convite. O ósculo representa paz e congraçamento não somente dos ouvintes entre si, como também desses com o apóstolo ausente e distante. Assim como, de ordinário, o primeiro ósculo partia do pregador presente e dele se espalhava pela igreja, Paulo ausente também participa, por intermédio de sua carta, do ósculo fraternal da comunidade. Desta forma, reatam-se os laços de amizade e íntima união entre ambos” (SCHELKLE, 1967, p. 254). A prática do ósculo também aparece em outras passagens de Paulo (Rm 16.16; 1Co 16.20; 1Ts 5.26; 1Pe 5.14), demonstrando seu lugar na vida comunitária. A saudação de todos os santos, mais do que mera formalidade, lembra aos coríntios sua pertença ao povo do Senhor que abrange outras regiões, no caso,
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provavelmente, as pessoas cristãs da Macedônia (cf. 2Co 9.2). Eles e elas não estão sozinhos em Corinto, mas são amparados por irmãos e irmãs que vivem noutras situações e que com eles se solidarizam. O versículo final, a bênção apostólica, acentua o tema da Trindade. “Esta fórmula trinitária, provavelmente de origem litúrgica (cf. também Mt 28.19), tem seu eco em numerosas passagens das epístolas [...] (Rm 1.4s; 15.16,30; 1Co 2.10-16; 6.11,14,15,19; 12.4-6; 2Co 1.21s; Gl 4.6; Fl 2.1; Ef 1.3-14; 2.18,22; 4.4-6; 2Ts 2.13; Tt 3.5s; Hb 9.14; 1Pe 1.2; 3.18; 1Jo 4.2; Jd 20.21; Ap 1.4; 22.1; cf. At 10.38; 20.28; Jo 14.16,18,23)” (Bíblia de Jerusalém, nota z). A comunhão que Paulo espera ver na comunidade cristã em Corinto é possível porque o Espírito Santo a cria. Assim como há unidade na Trindade, Paulo conclama para a unidade em Corinto. Termina sua carta com uma saudação trinitária, invocando o Deus que é unidade e comunhão.
3 Meditação Pois não anunciamos a nós mesmos; anunciamos Jesus Cristo como o Senhor e a nós como servos de vocês, por causa de Jesus (2Co 4.5). Quando o apóstolo Paulo assim se expressou, ele o fez porque estava na situação de precisar defender seu ministério de suspeitas e ataques por parte de pessoas da comunidade de Corinto. Ele viveu a experiência de ter seu ministério contestado pelos fiéis. Diziam que ele não era apóstolo verdadeiro, pois não tinha visões, não tinha poder de fazer milagres e não havia nele manifestações poderosas do Espírito (12.1ss). Pelo contrário, sua fala não era boa de escutar, era fraco e humilde na presença de seus críticos, que o acusavam de ser corajoso somente nas cartas que escrevia (10.1; 11.6). Paulo reage, afirmando, por exemplo, que tem rejeitado tudo o que é feito às escondidas e tudo o que é vergonhoso. Não tem agido de má fé e nem falsificado a mensagem de Deus. Ao contrário, tem agido sempre de acordo com a verdade [...] (4.2). Na Bíblia, lemos sobre pessoas que se consideravam indignas ou, então, incapazes para levar a seus semelhantes a palavra do Senhor. Pensemos em como reagiu Moisés quando recebeu a incumbência de falar ao faraó no Egito: Quem sou eu para ir falar com o rei do Egito e tirar daquela terra o povo de Israel? (Êx 3.11). Também o profeta Jeremias tentou se desculpar dizendo: Senhor Eterno, eu não sei como falar, pois sou muito jovem (Jr 1.6). Paulo, porém, foi criticado por pessoas de uma de suas comunidades. Em resposta, ele afirmou: Nós não somos como muitas pessoas que entregam a mensagem de Deus como se estivessem fazendo um negócio qualquer. Ao contrário, foi Deus quem nos enviou, e por isso falamos com sinceridade na sua presença, como servos de Cristo (2.17). A consciência desse mandato divino faz do apóstolo não um dominador, mas servo da comunidade, e a sua pregação tem como objetivo confessar que Cristo é o Senhor e levar a comunidade a espelhar isso em sua vida. Esse é o tesouro que a comunidade recebeu, do qual ela vive e é incumbida de anunciar ao mundo todo: falamos porque cremos. Antes, porém, que a gente se sinta indigno ou muito fraco para a tarefa, assim como Moisés e Jeremias, ou antes que nos sintamos muito seguros, como
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os críticos de Paulo em Corinto, ouçamos o que o texto de Paulo diz a seguir: Nós que temos esse tesouro espiritual somos como vasos de barro comum para mostrar que o poder supremo pertence a Deus, e não a nós. Muitas vezes estamos em dificuldades, mas não somos derrotados. Algumas vezes ficamos em dúvida, mas nunca desesperados. Temos muitos inimigos, mas nunca nos falta um amigo. Às vezes somos feridos, mas não destruídos. Nessas palavras o apóstolo resume a existência cristã vivida na tensão entre a força e a fraqueza. Como testemunhas do Evangelho de Cristo experimentamos, por um lado, nossa própria limitação e, de outro, o auxílio que Deus dá. Como bem escreveu Lutero: “Não digas: ‘Sou perfeito, não posso cair’. Mas humilha-te e teme, a fim de que, estando, hoje, em pé, não caias amanhã. Sou doutor em Teologia e já, durante vários anos, proclamei a Cristo e lutei contra o diabo nos seus pseudodoutores, mas tenho experimentado que isso me causou muitas dificuldades. Não posso repelir a Satanás como gostaria de fazer. Não posso nem sequer apoderar-me, assim, de Cristo como a Escritura mo apresenta, mas, frequentemente, o diabo me sugere um falso Cristo. Mas graças a Deus que nos conserva na Palavra, na fé e na oração, a fim de que saibamos que se deve andar na presença de Deus em humildade e temor e que não devemos orgulhar-nos de nossa própria sabedoria, justiça, doutrina e fortaleza, mas no poder de Cristo que, quando nós somos fracos, é poderoso e sempre vence e triunfa por nós, fracos, a quem seja a glória para sempre. Amém” (LUTERO, 2008, p. 196). Deus transforma pessoas fracas, de quem pela aparência ou pela falta de belos discursos não se espera muito, em portadores da Boa-Nova. Assim se reconhece que a força que transforma vidas vem de Deus e não pode ser confundida com força humana. Se o apóstolo fosse alguém que, pela aparência exterior, pudesse provocar admiração, talvez o conteúdo do vaso, o tesouro, acabasse ficando em segundo plano. No entanto, ele afirma: Não pregamos a nós mesmos. Nós mesmos somos apenas o recipiente frágil que guarda um tesouro valioso. É surpreendente o modo como Deus age. Ele se revela justamente ali onde achamos que é inútil buscá-lo. Ele escolhe aquilo que o mundo acha que é loucura, para envergonhar os sábios; e, para envergonhar os poderosos, ele escolheu o que o mundo acha fraco. Deus escolheu aquilo que o mundo despreza, acha humilde e diz que não tem importância, para destruir o que o mundo pensa que é importante. Isso quer dizer que ninguém pode se orgulhar na presença de Deus (1Co 1.27ss). Orgulho e autossuficiência não combinam com o modo pelo qual Deus age. A tentação de cada pessoa cristã e da igreja é de querer ser mais do que um frágil vaso de barro que contém um tesouro precioso. A tentação é dar preferência ao reconhecimento público, é mostrar poder, influência, prestígio. Paulo, porém, não indica esse caminho para a comunidade de Corinto. Antes aponta para o sofrimento que ele enfrenta por amor do evangelho. Seguir Jesus, lembra Paulo, não significa trilhar um caminho de sucesso e de reconhecimento. É o caminho da cruz: Levamos sempre nos nossos corpos mortais a morte de Jesus para que também se veja a vida dele nos nossos próprios corpos. Durante a nossa vida estamos sempre em perigo de morte por causa de Jesus, para que se veja a vida dele no nosso corpo mortal (4.11s). Paulo entende o sofri-
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mento por causa do evangelho como participação no sofrimento de Cristo, a fim de que a comunidade viva. Somente assim, tendo parte no sofrimento de Cristo, ele pode recomendar às suas comunidades que sigam seu exemplo. Não porque ele tenha de si mesmo algo que mereça ser imitado. Ele mesmo não é melhor que os cristãos a quem dirige sua carta. Também enfrenta limitações, também precisa enfrentar espinhos na própria vida. Compara a sua vida com a de um atleta que precisa treinamento constante para alcançar seu alvo. É dessa forma que o apóstolo se entende a serviço de Cristo. Por isso também o fato de Deus usar as coisas humildes e fracas não poderá servir como desculpa para a gente se acomodar ou até descuidar da tarefa que nos é confiada. A paz entre as pessoas da comunidade em Corinto, pela qual o apóstolo tanto se empenha, não deverá ser confundida com a relativização do evangelho que ele lhes anunciou. A busca pela verdade (11.3-4) e o anseio de concórdia requerem de nós uma postura de humildade. Desse modo, alegrar-se, deixar-se aperfeiçoar, deixar-se aconselhar, ter o mesmo modo de pensar e preservar a paz correspondem inteiramente ao modo como o trino Deus age em nossas vidas e na vida da igreja. O apóstolo Paulo poderá, pois, servir como um sinal de alerta e também como uma palavra de conforto e encorajamento: às vezes, passamos por situações de absoluto desânimo e cansaço. Os projetos comunitários não se realizam, parece que tudo conspira contra os planos que fazemos, as pessoas em quem confiamos, por alguma razão, nos decepcionaram. Aí vêm o cansaço e a sensação de que nada adianta, pois tudo parece ser em vão. A boa notícia que o apóstolo Paulo nos oferece é esta: acreditar que a vida das pessoas que integram a comunidade pode ser conduzida à unidade. A alegria e a paz são a moldura de uma comunidade que se deixa guiar, corrigir e consolar pelo trino Deus em sua Palavra. Passos da pregação 1. Apresentar a situação de conflitos vividos na comunidade cristã em Corinto. 2. Descrever o pensamento e a atuação de Paulo em vista dos conflitos experimentados, sobretudo pela atuação de grupos que se opunham ao seu ministério. 3. Apontar para a vida de alegria e paz, frutos da fé de uma comunidade que se deixa corrigir e aconselhar pelo trino Deus em sua Palavra sempre criadora.
4 Auxílios litúrgicos Oração Deus, fonte de amor! Agradecemos que nos reúnes aqui para servir-nos com tua Palavra e sacramento. Concede que o nosso louvor a ti seja sincero. Capacita-nos com teu Espírito Santo em nossa disposição de viver em paz com tudo o que criaste. Acolhe nossas orações e responde-nos no tempo certo, de acordo com a tua vontade. Não permite, Senhor, que a dor e a injustiça nos sejam indiferentes. Fortalece-nos na fé, na esperança e no amor. Oramos em nome de Jesus, que contigo e o Espírito Santo é luz para os nossos caminhos, desde sempre e para sempre. Amém.
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Oração de intercessão Deus, que nos amas e pedes que nos amemos. Obrigado por tua Palavra neste dia. Deixa que ela se manifeste em nossas vidas nesta nova semana que iniciamos. Vai conosco e conduze-nos para que de nossas palavras e atitudes resulte algo bom para as outras pessoas. Rogamos que tenhamos sempre autoridades que colocam em primeiro lugar o bem do povo que governam e não seus próprios interesses. Rogamos que tua igreja em todo o mundo seja fortalecida para que a ninguém fiquemos devendo nada, senão o amor com que tu nos amaste em Jesus. Rogamos por nossas famílias, perto e longe de nós, que tu lhes dês proteção e guarida e que a tua bênção se derrame sobre todas as pessoas que nos são queridas. Rogamos pelas pessoas que estão doentes, nos hospitais e nas casas. Fortalece, Senhor, e restitui saúde de acordo com o teu querer. Rogamos pelas pessoas que cuidam de quem está doente ou de quem está só. Dá-lhes forças renovadas. Tu conheces os motivos de gratidão e também os pedidos de socorro que estão guardados no silêncio de nossas mentes e corações. Nós os colocamos, em oração silenciosa, em tuas mãos para que nos ajudes a carregar. Oramos em nome de Jesus. Amém.
Bibliografia GREUEL, Sigolf. Domingo da Trindade: 2 Coríntios 13.11-13. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1983. v. IX, p. 240-246. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia; Canoas: Ulbra, 2008. v. 10: Interpretação do Novo Testamento – Gálatas – Tito. MARTINI, Romeu R. 1º Domingo Após Pentecostes (Santíssima Trindade): 2 Coríntios 13.11-13. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1995. v. 21, p. 158-163. SCHELKLE, Karl Hermann. Segunda Epístola aos Coríntios. Petrópolis: Vozes, 1967. 278 p. (Novo Testamento 8).
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PRÉDICA: MATEUS 9.35 – 10.8 ÊXODO 19.2-8a ROMANOS 5.1-8
2º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
14 JUN 2020
Rodolfo Gaede Neto
A comunidade local como lugar onde a obra de Jesus tem continuidade
1 Introdução O texto escolhido para a pregação no 2º Domingo após Pentecostes é um precioso presente, uma verdadeira bênção para quem tem a tarefa de pregar e para a comunidade que tem a oportunidade de ouvir. Ele trata do tema da edificação da comunidade eclesial. Chama a atenção para o papel da comunidade local. Esta é a questão que angustia o evangelista Mateus: como a comunidade local pode ser espaço para a continuação da obra de Jesus? A partir dessa pergunta-chave, o apóstolo traz para a nossa reflexão temas, como estes: como definir a causa mais urgente da comunidade cristã? Qual é a motivação teológica para o engajamento de alguém nessa causa? Como relacionar o ministério de Jesus com o ministério da comunidade? Como lidar com a tensão entre uma ação ingênua de compadecimento e uma atitude transformadora de compaixão, na perspectiva do reino de Deus? Como lidar com a tensão entre poder e serviço na igreja? Creio que essas são questões sempre atuais e desafiadoras para a comunidade de seguidores e seguidoras de Jesus. Que a pregação deste dia possa contribuir para uma reflexão frutífera sobre a identidade, o perfil e a missão da comunidade de fé, localmente situada.
2 Exegese Não é por acaso que nosso texto de pregação é composto de três partes distintas, colocadas nesta sequência: 9.35-38; 10.1-4 e 10.5-8. É que com essa montagem Mateus consegue fazer a ponte entre o ministério de Jesus (9.35-38) e o ministério das pessoas enviadas à seara do Senhor (10.1-8). A intenção é a de afirmar que as pessoas enviadas para a seara do Senhor deverão se inspirar na atuação de Jesus, ter a atuação de Jesus como referência e modelo e, assim, dar continuidade à obra iniciada por ele. Se Jesus percorria as cidades e povoados ensinando, pregando o evangelho do reino de Deus e curando toda sorte de doenças e enfermidades, olhando para as multidões, percebendo sua aflição e seu desamparo, e tendo compaixão delas (9.35s), então as pessoas enviadas à seara do Senhor também deverão curar toda sorte de doenças e enfermidades, expelir espíritos imundos (10.1), procurar as ovelhas perdidas da casa de Israel, pregar a proximidade do reino de Deus, curar enfermos, ressuscitar mortos, purificar leprosos e expelir demônios (10.7s).
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A perícope é parte de um bloco maior de textos (9.35 – 11.1), que pode ser intitulado de “a incorporação dos discípulos e das discípulas na obra de Jesus”. Aí aparece claramente o pensamento teológico de Mateus de que os discípulos e as discípulas, moldados e moldadas segundo a imagem de Jesus, promoverão a multiplicação das atividades que Jesus realizava. Esta é a forma de Mateus responder à pergunta que o angustiava: como a obra de Jesus terá continuidade na comunidade? Uma vez definido o conteúdo da atuação das pessoas enviadas, Mateus coloca na fala do próprio Jesus a lamentação pela escassez de pessoas disponíveis para atuarem na comunidade. O número pequeno de pessoas disponíveis contrasta com o tamanho da demanda. E o tamanho da demanda é proporcional ao tamanho do sofrimento das pessoas no contexto da comunidade de Mateus: há necessidade de dar atenção às multidões “cansadas e exaustas” (no grego, as palavras usadas são mais fortes: “caídas e prostradas”); há necessidade de buscar as ovelhas perdidas da casa de Israel, de curar as pessoas doentes e enfermas, expelir demônios e espíritos imundos, purificar leprosos, pregar a proximidade do reino de Deus e até ressuscitar mortos. O conjunto das demandas que o texto apresenta é um retrato do cenário social do momento histórico e do contexto político e econômico da comunidade de Mateus no final do primeiro século. É muito sofrimento. É muita doença. É muita gente esmorecida e caída. É muita gente perdida e desamparada. É muita gente escravizada por forças malignas. É muita morte. Na compreensão de Mateus, a atuação de Jesus se dava junto a essas multidões. E o envio de suas seguidoras e seus seguidores tem como destino essas mesmas multidões. Essa é a seara do Senhor. Essa é a comunidade que precisa ser edificada. Lembrando a pergunta angustiante que movia Mateus (como a obra de Jesus terá continuidade na comunidade cristã?), podemos constatar agora que a pergunta eclesiológica (como edificar a comunidade eclesial?) é, ao mesmo tempo, uma pergunta pelo cuidado que as pessoas enviadas à seara do Senhor devem exercitar em relação às multidões desamparadas. Na compreensão de Mateus, ser igreja é cuidar das pessoas em situação de desamparo. E diga-se aqui que, segundo os estudiosos desse texto, Mateus não está tematizando o envio de pessoas ordenadas à igreja (em sentido ministerial), mas o envio de pessoas seguidoras de Jesus à comunidade pastoreada pelo próprio Mateus, que clama por ajuda urgente. A comunidade local é o lugar onde a obra de Jesus tem continuidade. A comunidade local é a seara do Senhor. Ela carece de pessoas colaboradoras. Da parte de Mateus há muita clareza de que a comunidade pertence a Deus e não ao apóstolo. Por isso quem envia trabalhadores e trabalhadoras para a seara é o próprio Deus. À comunidade cabe orar a Deus, pedindo que ele envie mais gente para cuidar das pessoas desamparadas em seu meio. A grande inspiração para o ingresso no discipulado, ou a grande inspiração para se deixar enviar à comunidade, é o olhar de compaixão de Jesus quando vê o povo naquela situação de “ovelhas sem pastor”, de pessoas caídas, doentes, moribundas... A imagem daquele povo desamparado desencadeou a compaixão de Jesus. O vocábulo usado em grego sugere que a compaixão de Jesus carac-
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teriza seu comportamento. Com essa afirmação, Mateus coloca todo envio dos discípulos e, com isso, todo envio de pessoas à comunidade, sob o motivo da compaixão de Jesus. Se as pessoas enviadas à seara do Senhor se caracterizam pela sua identificação com o mestre Jesus, então elas exercitam o tempo todo esse olhar de compaixão para com o povo que se encontra em situação de desamparo. A compaixão é a referência teológica central de nosso texto. Se alguém quer edificar comunidade, tome por referência a teologia da compaixão.
3 Meditação A comunidade eclesial pertence a Deus e não ao apóstolo. Essa afirmação volta a ter relevância em nossos dias, quando há quem coloque à venda um templo com determinado número de fiéis. Também não nos é desconhecida a existência de acentuado “coronelismo” em igrejas brasileiras, além da existência de igrejas que são propriedades de “apóstolos”. Não demorou muito até que essa forma de manipulação da comunidade religiosa fosse explorada eleitoreiramente na política brasileira. Esse cenário religioso, em pleno desenvolvimento nestes tempos pós-modernos, forjou outro modelo de comunidade de fé: uma macrocomunidade, sem contornos geográficos, sem definição eclesiológica, sem sentimento de pertença e sem comprometimento solidário com os demais adeptos e as demais adeptas. A “igreja” funciona como supermercado, abastecendo a cesta religiosa das pessoas avulsas que acorrem aos templos. Ela tende a “engolir” a pequena comunidade local, da mesma forma como o hipermercado “engole” o mercadinho do nosso bairro e a big rede de farmácias “engole” a “farmaciazinha” da nossa rua. Essa situação nos desafia a falar, com urgência, sobre a importância da comunidade local. Só a comunidade local pode proporcionar uma convivência de proximidade em que as pessoas se conheçam, conversem, visitem-se, ajudem-se formando um corpo comunitário solidário, de pertencimento e comprometimento mútuos. Na Igreja de Cristo importa resistir a qualquer impulso de possessividade. Para as pessoas enviadas à seara do Senhor, a comunidade é uma dádiva, não uma posse. Aceitá-la como tal significa amá-la. E isso torna justas e saudáveis as relações entre trabalhadores e comunidade. Importa também resistir à ideia da massificação e, assim, preservar o perfil da comunidade local, como espaço onde a obra de compaixão de Jesus tem continuidade. A Constituição da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil reza, em seu Art. 8º, que “a Comunidade, que vive e anuncia o Evangelho, é a menor unidade orgânica e a base de trabalho da IECLB”. Quando a igreja pertence ao “apóstolo” ou ao “coronel”, não creio que o olhar para o povo desamparado seja um olhar de compaixão, como o de Jesus. Porque a forma como Jesus olha para “as multidões” tem a ver com o propósito de serviço (ministerium), enquanto a posse da comunidade tem a ver com o propósito de exercer o poder (imperium). Não é por acaso que algumas “igrejas” brasileiras se tornaram verdadeiros impérios. Quando dois discípulos de Jesus imaginavam que no reino de Deus eles estariam, sob o comando de Jesus, exercendo o poder no estilo de Roma, Jesus lhes esclareceu que entre as pessoas que
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o seguem não se age como os governadores que dominam e os maiorais que exercem autoridade sobre as pessoas; pelo contrário, aí se exercita o serviço, a diaconia, o cuidado (Mt 20.20-28) em favor das pessoas doentes, enfermas, leprosas, escravizadas, cansadas, caídas, desorientadas como ovelhas que não têm pastor (Mt 9.35 – 10.8). O texto da pregação propõe claramente que a comunidade cristã seja uma comunidade diaconal. Porque nela a obra de Jesus tem continuidade e porque as pessoas que aceitam o envio para a comunidade se deixam moldar segundo a imagem do próprio Jesus, que não veio para ser servido, mas para servir (Mc 10.45). Talvez seja oportuno lembrar que o olhar de compaixão de Jesus (que neste texto é trazido como inspiração para as pessoas que se deixam enviar à comunidade) não é um olhar ingênuo, assim como a diaconia não é um trabalho ingênuo. Jesus sabia que atrás de tanta doença, de tanto cansaço, aflição e desorientação do povo, de tanta morte, havia um sistema político e econômico com concentração do poder e das riquezas. Jesus também sabia que não era por acaso que “na casa de Israel” havia um contingente tão elevado de pessoas que viviam como “ovelhas perdidas”, pois conhecia o sistema religioso com seu aparato de leis excludentes, concebido e mantido pelos escribas e fariseus. Se Jesus não tivesse conhecido e não tivesse falado sobre esses contextos, não teria sido perseguido e morto. Portanto a compaixão de Jesus acontece após um “olhar” para as multidões (9.36). Esse é um olhar aguçado, que reflete a capacidade de perceber, de avaliar e analisar o que se passa. Portanto é um olhar crítico. A compaixão é antecedida por um olhar interessado em compreender os fatos. Ter a capacidade de um olhar mais aguçado, crítico em relação ao que está no entorno não facilita em nada a vida de quem aceita o envio para a seara do Senhor. Ainda menos quando há muito o que ser olhado e quando há sistemas poderosos e complexos a serem percebidos atrás do sofrimento das pessoas. Seria essa uma razão da escassez de trabalhadores e trabalhadoras disponíveis na comunidade de Mateus? No Brasil, a escassez não é um problema quando se trata de gente que queira trabalhar nas igrejas. Todo dia criam-se novas igrejas e surgem novos pregadores. O problema é a escassez de pessoas com olhar aguçado e crítico em relação aos sistemas geradores de sofrimento (desemprego, pobreza, doenças, resignação, morte). A Constituição da IECLB, em seu primeiro artigo, afirma que ela “é igreja de Jesus Cristo no País”. Sabemos que essa afirmação é resultado de um processo de reflexões e debates que durou décadas. Ela necessitou desse tempo para fazer a opção de não continuar sendo igreja estrangeira no Brasil, sem comprometimento com o ambiente em que estava inserida. Ao fazer essa opção, ela estava consciente de que isso implicaria a responsabilidade de dar testemunho do Evangelho de Jesus Cristo no contexto da sociedade brasileira. Talvez pudéssemos afirmar que, principalmente desde o Manifesto de Curitiba (aprovado no VII Concílio Geral, em 1970), a IECLB exercita um olhar mais aguçado e crítico para as questões maiores, que historicamente determinam a vida das pessoas na nossa sociedade. Seguiu-se, em 1978, a aprovação do documento “Nossa responsabilidade social” pelo XI Concílio Geral, em Joinville/SC. Creio que essa postura passou a caracte-
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rizar a IECLB, passou a fazer parte de sua identidade. Com o perfil de uma igreja que faz perguntas, que olha para o seu entorno, que observa, que percebe, que analisa, que aprendeu de Lutero a perguntar “o que significa isto?”, ela pode ser uma igreja que faz diferença no nosso cenário religioso. Lembrando que o olhar precede a compaixão e que a compaixão segue ao olhar observador, o texto da pregação desafia a exercitar as duas coisas: olhar e compadecer-se. A pregação sobre nosso texto é oportunidade para desafiar a comunidade local a aguçar seu olhar e a adotar a compaixão como comportamento.
4 Imagens para a prédica 1. Descrever o cenário da comunidade eclesial pastoreada pelo apóstolo Mateus: havia muitas pessoas doentes, com lepra, escravizadas por espíritos malignos, caídas de tanto cansaço e fraqueza, desanimadas, desorientadas como ovelhas sem pastor. 2. Descrever o desafio de edificação dessa comunidade: por um lado, ela tem a enorme demanda de cuidar de toda essa gente; por outro lado, ela tem poucos colaboradores e poucas colaboradoras para assumir esse cuidado. 3. Descrever o cenário religioso brasileiro em que não há escassez de gente para trabalhar nas igrejas: a cada dia surgem novas igrejas e novos pastores e, em alguns casos, constroem-se verdadeiros impérios, pertencentes a alguns “apóstolos”. 4. Descrever o ministério de Jesus: percorria as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades. Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas. 5. Descrever como Mateus compreendia o envio: as pessoas que aceitam o envio para trabalhar na comunidade devem se inspirar no modo de atuação de Jesus, que, ao olhar para as pessoas que sofriam, compadeceu-se delas. No cenário religioso brasileiro há escassez de pessoas com esse olhar observador e crítico de Jesus. 6. Descrever como a IECLB procura ser “Igreja de Jesus Cristo no País”: historicamente, ela exercita um olhar mais aguçado para a realidade presente; faz perguntas, procura perceber o que se esconde atrás do sofrimento das pessoas, analisa os sistemas geradores de sofrimento. Esse olhar desencadeia atitudes (comportamentos) de compaixão com as pessoas que sofrem e se torna o irrenunciável compromisso com ações diaconais. Essas não são intervenções ingênuas, mas transformadoras, porque o evangelho do reino de Deus é transformador e porque a comunidade local é o lugar onde a obra de Jesus tem continuidade. 7. Descrever a importância da comunidade local como espaço em que as pessoas se aproximam, se encontram, conversam, se conhecem, se visitam, se ajudam, formando um corpo comunitário solidário, de pertencimento e comprometimento mútuos; espaço em que os membros cooperam com igual cuidado, em favor uns dos outros. De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam (1Co 12.26).
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5 Subsídios litúrgicos Saudação informal Saudar a comunidade, destacando sua identidade como comunidade eclesial local, onde acontece a continuidade da obra de Jesus. Confissão de pecados Pedir perdão pela tentação de fazermos da comunidade uma posse (a minha igreja, a minha comunidade) e pela tentação da massificação, em detrimento do funcionamento diaconal da comunidade local. Kyrie
Clamar a Deus pelas dores das pessoas mundo afora, que são vítimas de sistemas geradores de sofrimento. Oração do dia Orar pelo fortalecimento da coesão da comunidade local, fortalecimento do sentimento de pertença, de cooperação, de solidariedade, de compaixão. Intercessão Interceder pelas pessoas da comunidade local que estão doentes, cansadas, fragilizadas, desamparadas, deprimidas, resignadas, desorientadas, escravizadas por forças dominadoras, moribundas.
Bibliografia GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Matthäus. Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament. 6. Aufl. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1986. SCHWEITZER, Eduard. Das Evangelium nach Matthäus. Das Neue Testament Deutsch. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1976. v. 2, p. 150-154.
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PRÉDICA: JEREMIAS 20.7-13 MATEUS 10.24-39 ROMANOS 6.1b-11
3º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
21 JUN 2020
Nelson Kilpp
Sofrimento em decorrência da fidelidade a Deus
1 Introdução Na série Proclamar Libertação já foram publicados três auxílios homiléticos sobre o texto (N. KIRST, v. VIII, 1982; S. B. GENZ, v. 21, 1995; e J. MORAES, v. 38, 2013). Em 1982, PL ainda seguia a série de perícopes da Alemanha, que localiza o nosso texto na época da Paixão (Domingo Oculi), sem dúvida para mostrar a analogia entre o sofrimento do homem de Deus Jeremias e do filho de Deus Jesus. Os dois estudos mais recentes localizam o texto no período pós-Pentecostes, de acordo com o Lecionário Comum, cujo Próprio 7 (12º Domingo do Tempo Comum) tem por tema as adversidades decorrentes do seguimento a Jesus. No texto do evangelho, Jesus admoesta seus discípulos a não temer os que matam o corpo (Mt 10.28), pois Cristo não os abandonará, e aqueles que perdem sua vida por minha causa (Mt 10.39), de fato, a encontram. Assim como o profeta Jeremias teve que sofrer por causa de sua fidelidade a Deus, também os discípulos de Cristo podem ser perseguidos por causa de seu testemunho. Como o dia 24 de junho é dia de São João Batista, parece-me bastante plausível incluir em nossa meditação o sofrimento e martírio deste último profeta do Antigo Testamento. Seria um tanto forçado enquadrar também a epístola no tema do domingo.
2 Exegese Nelson Kirst faz uma ótima análise exegética do texto, de modo que posso ater-me a alguns aspectos. O texto é a última e mais marcante das “confissões” de Jeremias, nas quais o profeta lamenta o sofrimento que sua missão lhe causa e acusa o próprio Deus como responsável último pelas dores sofridas em decorrência de seu ministério. O lamento segue a estrutura de um salmo individual de lamentação: descrição da situação de aflição (v. 7-10), expressão de confiança e prece por vingança (v. 11s), convocação ao louvor (v. 13). V. 7: Tu me seduziste, SENHOR, e eu me deixei seduzir; tu me agarraste e me dominaste. Sou motivo de riso todo dia, todos zombam de mim. Os termos fortes beiram a blasfêmia (KIRST, 1982, p. 146). O profeta acusa Deus de ter-se aproveitado de sua ingenuidade, como uma moça que se deixa encantar com as promessas de um pretendente (cf. Êx 22.15). Ao contrário de seu ancestral Jacó (Gn 32.25s), na luta corporal com Deus o profeta é totalmente subjugado. Até
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aqui a linguagem metafórica. Seguem, na segunda parte do verso, os fatos: o profeta é motivo de chacota por causa de sua insólita mensagem. V. 8: Pois, sempre que falo, preciso berrar; tenho que gritar: “Violência! Opressão!” Porque a palavra do SENHOR se me tornou vergonha e zombaria todo dia! Assim como o profeta anunciou a violência e opressão de seu tempo contra os mais fracos da sociedade (Jr 5.26-28; 7.5s), ele próprio se tornou, agora, vítima de violência (cf. 20.2). V. 9: Quando pensava: “Não quero mais lembrá-la! Não mais falarei em seu nome!”, havia em meu coração como um fogo a queimar, encerrado em meus ossos. Tentava suportá-lo, mas não conseguia. As tentativas de esquecer a palavra de Deus e afastar-se da missão não vingaram, porque um intenso e irresistível ardor interno constrangia o profeta a continuar anunciando o juízo de Deus. V. 10: Sim, ouvia a calúnia de muitos: “Terror de todos os lados! Denunciai-o! Vamos denunciá-lo!” Todos os meus amigos esperam por minha queda: “Talvez ele se deixe enganar, então o dominaremos e nos vingaremos dele!” O cerne da mensagem profética de juízo – terror de todos os lados (Jr 20.3s) – é citado ironicamente pelos adversários de Jeremias, que não creem que Deus possa castigar gente do próprio povo escolhido. Além de ser caluniado e enganado por pessoas amigas, o profeta também sofre perseguição e atentados contra sua vida, inclusive por membros da própria família (cf. Jr 11.18s). V. 11-12: Mas o SENHOR está comigo qual poderoso guerreiro; por isso meus perseguidores tropeçarão e não prevalecerão. Ficarão muito envergonhados por não obterem êxito, uma desonra eterna, inesquecível. Mas, ó SENHOR dos Exércitos, tu que sondas o justo e que vês os rins e o coração! Verei tua vingança contra eles, pois a ti confiei minha causa! Os versículos unem dois elementos do salmo de lamentação: a expressão de confiança e a súplica por vingança contra os inimigos. Quando uma pessoa se dirige em oração a Deus, existe obviamente a esperança de ser ouvida. Essa confiança pode ser expressada trazendo exemplos de experiências de auxílio recebidas no passado ou por reflexões sobre a essência divina – em nosso caso, a onisciência e justiça divinas. Ao entregar a vingança a Deus, o orante desiste dela. V. 13: Cantai ao SENHOR, louvai ao SENHOR! Porque ele livrou a vida do pobre da mão dos malvados. A conclamação ao louvor não mais se dirige a Deus, mas à comunidade, que é convidada a juntar-se ao suplicante em seu louvor após este ter recebido a ajuda desejada. O versículo pressupõe um momento posterior ao da aflição. Apesar de o texto fazer uso de linguagem sálmica padronizada, ainda é possível perceber a experiência singular do profeta. Não é por acaso que o texto foi colocado após o incidente com o sacerdote Urias, que levou o profeta ao tronco (Jr 20.1-6). Jeremias é conhecido como o profeta que sofre por causa de sua missão de anunciar um Deus justo que não deixará impune nem seu próprio povo. Isso produz inimizade e conflito. A futura perseguição do profeta já se encontra no relato de sua vocação: pelejarão contra ti, mas não prevalecerão (1.19). Ao mesmo tempo, no entanto, Deus promete sua presença auxiliadora: Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar! (1.8).
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3 Meditação 1. O seguimento de Cristo não é uma marcha triunfal pela vida rumo à eternidade. Ainda vivemos sob o signo da cruz. E a cruz não é mero adereço em nossas igrejas, peitos e pescoços. Ela sinaliza que fidelidade à Palavra pode levar ao sofrimento. O texto retrata como essa fidelidade à Palavra trouxe sofrimento e perseguição ao profeta Jeremias. Poucas comunidades ainda conhecem as histórias bíblicas. Por isso é legítimo narrar um pouco da vida sofrida desse profeta: foi perseguido (36.26), sofreu um atentado (11.18ss), foi processado (26.7ss), golpeado e colocado no tronco (20.2), foi açoitado e preso (37.15), lançado numa cisterna (37.6) e, por fim, sequestrado e levado ao Egito contra sua vontade (43.5ss). Em toda a sua trajetória foi vítima de zombaria, ou seja, de tentativas de destruição moral. Isso porque sua mensagem não agradava a seus ouvintes. O profeta não falava o que seus ouvintes queriam ouvir. Suas profecias não eram um show religioso que levava seu auditório ao delírio. Suas palavras eram duras, que não temiam mostrar a sujeira do sistema político-religioso existente e apontar para as trágicas consequências. A fidelidade à Palavra também teve consequências para a vida de João Batista. Sua crítica ao tetrarca Herodes e à vida devassa da corte levou-o à prisão e à morte (Mc 6.14ss). Por permanecer fiel à sua missão (cf. Mt 4.1ss), também Jesus foi preso e levado à cruz pelas autoridades religiosas e políticas de sua época. Conforme Mateus 10.24-39 – o evangelho do dia –, Jesus não veio para trazer a paz, mas a espada (v. 34), ou seja, não veio com um discurso que tranquiliza as consciências, mas veio trazer a verdade que dilacera o manto que encobre a sujeira. A fidelidade a essa Verdade – que é Cristo – pode levar à perseguição de seus discípulos. A Verdade pode levar a tensões e conflitos e dor, pois ela não admite alternativas nem evasivas. 2. Frequentemente se traça um paralelo entre o sofrimento do profeta Jeremias e o de profetas modernos como Martin Luther King, Mahatma Gandhi ou Oscar Romero. Também é possível ver analogias entre o sofrimento profético motivado pela fidelidade à missão e os problemas e dores que pregadores, pastores ou pastoras enfrentam em suas próprias comunidades. Não faltam relatos em que ministros da Palavra são perseguidos por causa de seu engajamento político ou por expor realidades desagradáveis dentro da própria comunidade. Esse conflito entre “profeta” e o poder constituído ou o pensamento da cultura dominante – o “senso comum” – de uma época perpassa a história da igreja e da própria humanidade (p. ex., Galileo Galilei). Sem dúvida, poderíamos citar diversos casos de obreiros ou ministros de igrejas que atualmente sentem ou já sentiram a dura realidade de calúnia, desprezo, ameaça e abandono – inclusive por parte de pessoas próximas – causada por seu posicionamento profético. 3. Nem todas as pessoas aguentam as tensões oriundas do ministério pastoral e desistem. Há colegas que ficam doentes e precisam afastar-se de seu ministé-
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rio, pelo menos temporariamente. Também nesses momentos, podemos derramar todas as nossas dores diante de Deus. Jeremias e Jó nos ensinam que podemos – ou devemos? – brigar com Deus. Podemos queixar-nos dele. Podemos acusá-lo. Não precisamos ser politicamente corretos. Podemos até expressar nosso desejo de vingança. Pois, ao delegarmos a vingança a Deus, desistimos de realizá-la pelas próprias mãos. 4. A confiança de que Deus está conosco nos sustenta, fortalece e nos anima a continuar. Essa confiança se renova na oração e na solidariedade. Mas no “Deus conosco” ou “Deus comigo” residem, no mínimo, duas tentações. A primeira é a da autovitimização. Nem todo problema ou sofrimento é causado por nossa atuação profética. Há problemas que surgem por outros motivos. Nesses casos, certamente podemos dirigir-nos a Deus, mas não seria legítimo jogar a culpa nos “outros”. Nem sempre os outros são os culpados. Também nós podemos ter nossa porção de culpa. Em segundo lugar, há uma grande diferença quando pessoas perseguidas e oprimidas afirmarem: “Apesar de tudo Deus está conosco!” e quando os soldados da tropa de elite do nacional-socialismo de Hitler inscrevem nas fivelas de seus cintos: “Deus está conosco!”, ou quando a casa da moeda estadunidense imprime nas cédulas de um dólar o lema “In God we trust”. Também os poderosos costumam dizer “Deus está conosco!” Também os profetas de salvação que, na época de Jeremias, anunciavam a “paz”, fortalecendo, assim, as mãos dos perversos (Jr 23.14), diziam-se mensageiros de Deus e confiavam em sua presença. Aqui há necessidade de discernir os espíritos.
4 Imagens para a prédica Se a prédica iniciar com informações sobre a vida sofrida do profeta, pode-se passar para a constatação de que uma vida de fé autêntica nem sempre é um mar de rosas. Há altos e baixos. Há tensões e conflitos. Assim foi com João Batista e com Jesus. Também é assim na vida de obreiros eclesiásticos que, em sua fidelidade à vocação e à Palavra, às vezes, necessitam falar coisas que não agradam. Pode-se fazer isso sem soberba e sem dedo em riste. Afinal, o pastor ou a pastora tem a tarefa de “perturbar os confortados”, mas também de “confortar os perturbados” (MORAES, 2013, p. 221). Talvez a imagem da toalha bonita que cobre a louça suja seja adequada para uma abordagem cautelosa. (A imagem é de autoria de Milton Schwantes, que a utilizou numa prédica de leitura no extinto Distrito Uruguai sobre o texto do evangelho: “eu vim trazer a paz e não a espada!”) A sábia dona de casa, ao receber a visita inesperada da vizinha antes que tivesse tido tempo de lavar a louça suja do almoço, joga uma bela toalha de mesa sobre a pia com a louça suja para escondê-la da visita. A bela toalha é equiparada ao discurso de paz e tranquilidade, que procura agradar as pessoas, mas, de fato, esconde a sujeira. A “espada” do profeta e de Jesus é aquela que rasga a bela fachada e coloca a descoberto a sujeira humana. Isso significa tensão e pode redundar em conflito (cf. Mt 10.34-36). Não hão de faltar exemplos de profetas e
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pregadores da história da igreja que foram perseguidos por des-velarem a sujeira da igreja e da sociedade. Essa foi a parte do “perturbar os confortados”. Quanto ao “confortar os perturbados”, desprezados, perseguidos e caluniados, podemos remeter ao simbolismo da cruz, que para nós não é apenas instrumento de morte, mas, por causa de Jesus, também é fundamento de nova vida e paz com Deus. Tenho uma pequena “cruz de mão” confeccionada por cristãos palestinos da madeira de velhas oliveiras; ela só tem 2x3 cm e cabe na mão fechada; suas hastes arredondadas, sem quinas nem arestas, se encaixam perfeitamente entre os dedos da mão fechada. Essa cruz é fácil de levar no bolso da calça ou em qualquer bolsa. Ela não é um talismã, mas segurá-la em momentos de dor e angústia pode ser confortante por lembrar aquele que por nós sofreu.
5 Subsídios litúrgicos Oração do dia Querido Deus, tu queres que encontremos descanso e paz em meio às agruras e adversidades de nossa vida. Dá que nosso corpo se recupere, que nosso espírito se renove e que nossa alma se fortaleça na promessa de tua presença! Permite que tua Palavra nos conforte e oriente! Amém! Confissão de fé Cremos que Deus caminha conosco e nos protege. Cremos que sua força e bondade são maiores do que nossa fraqueza e angústia. Cremos que Jesus Cristo está vivo entre nós, sempre disposto a consolar-nos e orientar-nos. Estamos comprometidos com ele e com sua causa e com a felicidade de todas as pessoas. Cremos que o Espírito Santo age em nós, cremos que é força, sustento e coragem que nos possibilitam buscar a integridade de caráter, uma vida de paz e justiça e a fraternidade humana, tendo o amor por distintivo. Assim Deus nos ajude! Intercessões Pelas pessoas que sofrem discriminação, desprezo, calúnia (migrantes, negros, indígenas); pelas pessoas que passam por momentos de dúvida quanto à sua fé; pelas pessoas que se sentem abandonadas por Deus e por amigos e amigas; pelas pessoas que sofrem perseguição por causa de suas posições políticas e religiosas.
Bibliografia GENZ, Sílvia Beatrice. 5º Domingo após Pentecostes: Jeremias 20.7-13. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; IEPG, 1995. v. 21, p. 181-185. KIRST, Nelson. Domingo Oculi: Jeremias 20.7-13. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1982. v. VIII, p. 145-150. MORAES, Jilton. 2º Domingo após Pentecostes: Jeremias 20.7-13. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2013. v. 38, p. 219-224.
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4º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
28 JUN 2020
PRÉDICA: MATEUS 10.40-42 JEREMIAS 28.5-9 ROMANOS 6.12-23
Leonídio Gaede
As três pernas da missão
1 Introdução Se é bom dar notícia boa, Jeremias não se concedeu esse direito. A previsão do futuro próximo não fornecia condições para sentir-se bem, dizendo o que agradaria ao ouvido alheio. Essa parte coube a Hananias, que tomou a liberdade de trocar a realidade nua e crua pelo prazer momentâneo de pintá-la com cores que agradam. Paulo sabe que não adianta querer tocar o céu com os dedos se a escada está estendida no chão. Explica que, por meio da libertação, deixamos de ser escravos do pecado. A escada foi posta de pé e isso nos tornou escravos de Deus. Agora temos condições de tocar o céu, por isso somos servos de Deus e não da lei. Vamos continuar pecando porque não somos mais controlados pela lei? É claro que não! A escada não pode ser deitada de novo. Em Mateus 10, Jesus é apresentado como o bom pastor que tem compaixão da parte dispersa do rebanho. Os discípulos de Jesus abraçam a missão porque o bom pastor se compadece das ovelhas desgarradas. O compadecimento de Jesus cria a missão. Na missão aos dispersos, os discípulos recebem os mesmos poderes do mestre: expulsar demônios e curar enfermidades. No capítulo 10 acontece, portanto, a definição do que vem a ser o apóstolo: é o pequeno enviado que recebe a mesma incumbência e o mesmo poder, bem como a mesma perseguição do mestre evangelizador do reino e libertador dos oprimidos. Esta parece ser a linha que une os três textos: a fidelidade ao compromisso com a realidade (Jeremias), com a novidade de vida (Paulo) e com a missão (Mateus).
2 O texto e a vida No tempo da minha infância, às vezes a comunidade se reunia em uma forma de culto em que o oficiante não era pastor, era alguém chamado leitor. Acontecia um culto de leitura. Desconfio que era percebido pela comunidade como um culto de segunda categoria. Provavelmente por isso era menos frequentado. O Evangelho de Mateus, quando define a missão dos apóstolos, nivela a importância da atividade dos pequenos com a atividade do mestre. Esse nivelamento acontece em poder e em sofrimento. Assim como o mestre, os discípulos vão curar as enfermidades e expulsar os demônios e, assim como o mestre, serão perseguidos.
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Impressiona aquilo que se torna uma espécie de poder central na missão: curar doentes e expulsar demônios. Os apóstolos têm a missão de propagar a novidade do reino de Deus. Eles são portadores dessa novidade. E a tarefa de propagar inclui testemunho dado com novidade de vida levada, isto é, testemunho dado com a vivência do que é proposto. Há que vivenciar a justiça do reino. Essa vivência choca-se com a lei do seguimento da velha religião estabelecida. Por isso a missão inclui também uma resistência ativa à forma de perseguição daí decorrente. O que impressiona é a estratégia proposta para resistir à perseguição. Não é conveniado o combate entre os sujeitos da resistência e os sujeitos da perseguição. Não se propõe combater com novas teorias a lei que sustenta o velho sistema religioso e assim impede a novidade do reino de Deus. O que se estabelece é o discípulo pequeno tornar-se apóstolo pequeno com autoridade equiparada ao mestre no que se refere à cura e ao exorcismo. Quem não aceitar essa autoridade estará sujeito às mesmas consequências advindas da desobediência ao Pai que enviou seu Filho, e que agora está enviando seus discípulos. Também nisso há equiparação. Os versículos 40-42 Todas as informações acima parecem estar condensadas nos poucos versículos que formam a base da pregação neste 4º Domingo após Pentecostes. O núcleo está na unidade entre Deus, Jesus e a pessoa agente missionária. A unidade está no compromisso e simplesmente reside neste fato: o que vale para um, vale para outro. Esse princípio missionário não é uma singularidade de nosso texto. Repete-se nos quatro evangelhos: Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim; e quem vos rejeitar a mim me rejeita; quem, porém, me rejeitar rejeita aquele que me enviou (Lc 10.16); Qualquer que receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me recebe; e qualquer que a mim me recebe, não recebe a mim, mas ao que me enviou (Mc 9.37); Em verdade, em verdade vos digo: quem recebe aquele que eu enviar, a mim me recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou (Jo 13.20); Quem receber esta criança em meu nome a mim me recebe; e quem receber a mim recebe aquele que me enviou; porque aquele que entre vós for o menor de todos, esse é que é grande (Lc 9.48). Temos, portanto, como marca missionária, esse compromisso entre as partes: quem se dispõe a ser agente na missão de Deus tem o exato tamanho de Deus em poder e em sujeição à perseguição. E Lucas ainda traz um componente que está na raiz dessa marca: “o menor de todos é que é grande”. Como diz Gorgulho, trata-se da missão dos pequenos (GORGULHO; ANDERSON, 1981). Por isso valem os critérios de Jeremias, mostrando a Hananias que não adianta bendizer o mal, e de Paulo, mostrando aos romanos que não adianta legalizar a fé. A missão dos pequenos Imaginemos alguém, no tempo dos primeiros apóstolos de Cristo, sendo enviado por ordens do imperador romano para missionar em nome da preservação e do crescimento de seu império. Certamente estaria entre suas atribuições
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a correção de desvios das ordens imperiais, a condenação e punição dos súditos culpados por uma eventual transgressão de tais ordens. Também é possível imaginar que alguém com o encargo de levar a causa adiante em nossas igrejas, congregações e comunidades, sinta-se incumbido de corrigir quem não tenha cumprido alguma norma estabelecida ou alguma tarefa assumida. Algo assim certamente faz parte do esforço de manter o que se constituiu. Não foi por acaso que a frase cunhada por Zagalo “vocês vão ter que me engolir” pegou o chão fértil da propagação. Na mesma linha estão frases como “vou dizer umas verdades para ele”, “vou mostrar com quantos paus se faz uma canoa”, “o que é teu está guardado” etc. São frases que navegam nas águas do pensamento da imposição do que é correto no sujeito incorreto, no pior estilo colonizador. Por isso sugiro que a pregação deste domingo não feche o foco no horizonte paroquial, mas abra o foco para o reino de Deus. A instituição de organismos para abrigar o ponto de partida de uma missão tem lá o seu ônus. Isso, porém, não deve, na minha opinião, ser central na pregação sobre Mateus 10.40-42. Aqui Jesus instrui os pequenos enviados a não viver corrigindo o errado, porém a viver praticando o reino. A missão para a qual Jesus enviou seus discípulos não tinha como atribuição aplicar corretivo em quem estivesse vivendo de modo errado ou praticando um erro. Em lugar disso, a partir de Mateus 10.40-42 e de seu contexto, podemos constatar que o portador e a portadora da missão de Deus têm as seguintes atribuições: 1) Andar em novidade de vida. Quem anda em novidade de vida pratica a coerência entre o seu próprio modo de vida e o modo de vida que sugere a outras pessoas com aquilo que diz e faz (Rm 6). Além disso, em segundo lugar e não em primeiro, quem anda em novidade de vida pode tornar-se referência, exemplo a ser seguido, pois a coerência de vida testemunha uma paz que dá vontade de se ter. Andar em novidade de vida inclui, pois, o testemunho como depoimento (Mt 10.5-13). É depor a vivência em prosa e verso e não passar adiante um produto ensacado, que é como poderia ser compreendida uma norma, uma lei, uma regra, uma exigência do tipo tem que ser assim e não pode ser diferente. 2) Proclamar o reino de Deus. O anúncio do reino de Deus não acontece na base da afirmação de que pode ser que aconteça. Não é na base da afirmação de que talvez seria bom contar com isso (Mt 10.27). Uma proclamação acontece na base da afirmação de que já está estabelecido. Na tensão entre a realização do reino de Deus “já agora e ainda não”, sua proclamação depõe em favor do “já agora”. “Embora haja forças demoníacas a vencer, Deus manifesta seu poder. O mundo não escapou das mãos de Deus. Já agora Deus é Rei e Senhor, embora seu reinado sofra resistência” (BRAKEMEIER, 2019, p. 27). 3) Produzir sinais do reino na vida de outras pessoas. A missão de Deus não só inclui o viver de acordo e a proclamação da realidade do reino, mas também a produção de resultados que confirmam e afirmam a existência do reino. Embora Jesus diga que não veio trazer a paz, mas a espada (Mt 10.34), ele não fornece armas aos discípulos que se tornam apóstolos. Ele lhes confere poder de curar doenças e expulsar demônios. Essa é a produção de sinais do reino na vida de outras pessoas. A missão do reino não se realiza com debates teóricos ortodo-
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xos, mas com semeion, isto é, com sinais que fazem reconhecer o reino de Deus. Jesus, o remetente dos pequenos apóstolos, sabe que o melhor jeito de encarar o embate com os perseguidores emissários do Império Romano é expulsar os demônios e curar os doentes subjugados ao império.
3 Meditação Quando uma pessoa se destaca localmente naquilo que faz, outra pessoa, hierarquicamente superior, seguindo sua visão de gestora, pinça aquela pessoa do seu local de atuação e a insere em lugar estratégico. Agora a pessoa com atuação local destacada depara-se com uma nova situação, diferente daquela em que se destacou. É desafiada a repetir a proeza da atuação destacada agora em um contexto mais amplo, coordenando a atuação de pessoas que fazem o que ela fazia. O objetivo suposto é atingir outras e mais pessoas. Algo parecido acontece em diferentes instituições. Também na política, o destacado político local costuma ser convidado a candidatar-se a deputado, pretendendo uma atuação regional, um raio mais amplo de atuação. Não é essa compensação que Jesus promete aos seus enviados, não obstante ele também fale de recompensa (lempsis /rendimento, compensação) quando designa discípulos a serem apóstolos. A promessa de recompensa não é, porém, um pinçar do apóstolo de um lugar menos significante para um lugar mais abrangente. Quem abraça a missão de Deus dada por Cristo é afirmado e confirmado naquilo que faz, onde o faz, com o acolhimento e sendo compensado junto com quem o acolhe.
4 Imagens para a prédica Um banquinho de três pernas não se torna manco em chão irregular. As três pernas da missão que se adaptam ao chão irregular são: – viver a novidade do reino; – proclamar a existência do reino; – produzir sinais do reino. Ou: – A comunidade é o guarda-chuva da instituição, não o contrário. – Deus é o guarda-chuva da agência missionária, não o contrário. – O Batismo é o guarda-chuva da pessoa missionária, não o contrário. Um banquinho de quatro pernas não se adapta a um chão irregular. A quarta perna pode referir-se a qualquer instituição que pretenda assumir a missão em lugar de Deus, pinçando pessoas da comunidade para serem profissionais da missão e que, pinçadas, não conseguem ajudar Deus a enviar as pessoas batizadas da comunidade. Ontem acompanhei uma mulher idosa batizada, com dificuldade de caminhar, numa visita à casa de outra mulher idosa batizada, com dificuldade de caminhar. As duas conversaram durante duas horas. Essa atividade vai promover as três pernas da missão durante um bom tempo na vida dessas duas mulheres
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idosas batizadas, com dificuldade de caminhar. Elas, por algum tempo: 1) vão viver distraídas das maldades deste mundo a partir das doces recordações da boa tarde (novidade); 2) vão pronunciar doces palavras sobre Deus e a igreja a partir das recordações da boa tarde (proclamação); 3) vão sentir menos dor ao caminhar concentradas nas emoções da boa tarde (sinal).
Bibliografia GORGULHO, Frei Gilberto S.; ANDERSON, Ana Flora. A justiça dos pobres – Mateus. São Paulo: Paulinas, 1981. BRAKEMEIER, Gottfried. Fazer o bem faz bem: uma introdução à ética. São Leopoldo: Sinodal, 2019.
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PRÉDICA: ROMANOS 7.15-25a ZACARIAS 9.9-12 MATEUS 11.16-19,25-30
5º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
05 JUL 2020
Paulo Roberto Garcia
A fragilidade que derruba muros
1 Introdução A fé deveria promover a vida, a comunhão e a esperança. Porém em nosso mundo assistimos a religiões promovendo divisões, conflitos e guerras. No texto de Zacarias 9, encontramos o convite à alegria porque o Rei virá como um rei justo, humilde e salvador. Um rei que destruirá os instrumentos de guerra e de morte para promover a paz. Esse é o papel da fé: anunciar a esperança. Quando a prática da fé constrói muros, segrega pessoas e pratica violências, reproduzem-se as condições que levaram as palavras de Jesus a serem relembradas pelo Evangelho de Mateus como uma palavra de juízo: Mas a que compararei esta geração? É semelhante a meninos que, sentados nas praças, gritam aos companheiros: “Nós tocamos flauta, mas vocês não dançaram; entoamos lamentações, mas vocês não prantearam” (Mt 11.16-17). As pessoas de fé passam a ser como crianças mal-humoradas que não querem brincar de nada! Porém o texto de Mateus conclui essa palavra de juízo afirmando que Deus revela aos pequeninos a sua sabedoria (Mt 11.25-30), ou seja, não há espaço para a violência e a arrogância. Se o papel da fé é o de gerar esperança e vida e não o de construir muros e praticar violências entre os seres humanos, por que, então a arrogância de se julgar “melhor” do que os outros e de segregar? Nossa perícope – Romanos 7.15-25a – contesta essa arrogância humana e apresenta uma visão diferenciada do ser humano, em que a partir da culpa encontramos a possibilidade da restauração pela graça. Nela, somos desafiados e desafiadas a assumir nossos limites, reconhecer nossa falibilidade e a dependência de Deus. Ao fazermos isso, nos tornamos aptos e aptas a anunciar a esperança que derruba muros e promove a vida. Isso é o que abordaremos a seguir.
2 Exegese Nosso texto é um divisor de águas na Carta aos Romanos. Ele encerra uma primeira sessão, e a encerra de uma forma pessimista. Esse pessimismo faz parte da estratégia literária da carta. Por isso precisamos ver, em primeiro lugar, a estrutura da carta e a localização do texto nessa estrutura.
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A organização da carta A carta de Paulo aos romanos está organizada em dois grandes blocos separados por um capítulo que exerce um papel de dobradiça no texto. O primeiro bloco é formado pelos capítulos 1 a 7. Nossa perícope encerra esse bloco. O tema é a vida sob a lei. Paulo inicia com a discussão sobre a lei natural dos gentios, passa à lei judaica e conclui que nem o gentio nem o judeu (mesmo tendo uma lei boa dada por Deus) conseguem seguir a lei. O resultado é a constatação do fracasso. Esse é o tema de nossa perícope. O segundo bloco, constituído pelos capítulos de 9 a 15, tem como tema a vida sob a graça. Esse bloco é marcado por uma vida de compromisso com o outro, com os inimigos (incluindo o imperador) e com os fracos da comunidade. O culto racional é uma vida de compromisso. A conclusão desse bloco é a graça que atinge o indivíduo, que se espalha por meio da vida de compromisso com toda a criação. O capítulo 8 é a dobradiça que permite a mudança do primeiro para o segundo bloco. A passagem da vida sob a lei judaica para a vida sob a graça é definida a partir da ênfase do capítulo: o Espírito. A palavra Espírito ocorre 34 vezes em Romanos. Dessas, 20 vezes só no capítulo 8! Como no grego, a língua original do Novo Testamento, a repetição é uma forma de enfatizar algo. A repetição exaustiva da palavra Espírito mostra que o que permite a passagem da vida sob a Lei para a vida sob a graça é o Espírito. Ou seja, não está na capacidade humana fazer essa transição. Por isso nossa perícope é divisora de águas. Ela apresenta um clímax na discussão. A falência dos esforços humanos – Romanos 7.15-25a Para abordar o texto, precisamos entender o objetivo de uma conclusão desse bloco tão terrível, quase deprimente: Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? (Rm 7.15). Por que Paulo organiza o texto nessa construção dramática? Aqui temos um ponto importante dessa perícope. Ela aborda um tema fundamental para o pensamento paulino: o efeito de uma religiosidade baseada na Lei e o relacionamento entre os seres humanos. Isso é o que veremos a seguir. 1. A Lei e a arrogância A Lei é entendida por Paulo como algo positivo. Ela aponta para a vontade de Deus. Porém a experiência do povo de Deus foi marcada por uma divisão entre os que não cumpriam a Lei e os que se entendiam cumpridores da Lei. Deste modo, esses que se consideravam cumpridores se arvoravam da primazia na relação com Deus. A Lei, que deveria ter um papel de orientação para a vida, converteu-se em um elemento para promover a discriminação e, inclusive, a perseguição. A arrogância dos que se apresentavam como cumpridores da Lei (os puros) se transformava em justificativa para a separação dos que não seguiam ou não cumpriam a Lei (impuros). Mais que isso, justificava o sofrimento dos pobres, enfermos, mulheres, crianças e estrangeiros como resultado da infidelidade deles.
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Esse sistema cruel e discriminatório é enfrentado por Paulo nessa primeira parte da Carta aos Romanos. 2. A Lei e a falência dos esforços humanos Paulo irá definir nesse bloco que ninguém consegue seguir a Lei. De um lado, encontramos os gentios, que, mesmo tendo sua lei natural, não conseguem segui-la. De outro lado, temos os judeus, que mesmo recebendo a Lei de Deus e mesmo sendo ela boa, não a conseguiram seguir: Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, concordo com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isso já não sou eu, mas o pecado que habita em mim (Rm 7.15-17 NAA). A Lei, sendo boa, transforma-se de orientadora em acusadora e evidencia o pecado que habita no ser humano. Aqui entra um ponto fundamental da argumentação de Paulo nessa carta. A impossibilidade humana de cumprir a Lei torna, de um lado, todos culpados devido ao não cumprimento. Porém, ao mesmo tempo, torna todos iguais na falência e todos igualmente carentes da graça de Deus. Ou seja, Paulo parte do argumento da falência para criar a igualdade. Essa concepção se refletirá, por exemplo, na fórmula batismal encontrada em Gálatas 3.26-28: Pois todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos vocês que foram batizados em Cristo de Cristo se revestiram. Assim sendo, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vocês são um em Cristo Jesus. Essa fórmula mostra que, no batismo, todos, por serem revestidos de Cristo, são iguais. Isso porque antes do batismo todos eram iguais na culpa. Ou seja, na necessidade da graça de Deus e na restauração em Cristo reside a igualdade dos seres humanos. Por isso, frente à pergunta Quem me livrará do corpo desta morte? (Rm 7.25), a resposta de Paulo é uma ação de graças: Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor! (Rm 7.25). Em Cristo somos resgatados da “lei do pecado” e conduzidos para a restauração de vida. Esse será o tema do bloco compreendido nos capítulos 9 a 15 da carta. Ou seja, nossa perícope encerra uma grande discussão que aponta que o ser humano não tem condições de por si só cumprir nem a lei judaica nem a lei natural ou a lei dos gentios. Por isso ninguém é melhor que ninguém, muito pelo contrário, todos são igualmente culpados e igualmente necessitados da graça de Deus. Essa necessidade será suprida por Jesus Cristo.
3 Meditação Nosso mundo é um mundo da competição. Uma competição que adentra todas as relações humanas e ganha contornos de violência. Uma violência que alcança o absurdo de ser praticada em nome de Deus. Aqueles e aquelas que não apresentam os atributos ou os comportamentos exigidos por um grupo são considerados inferiores, impuros, rebeldes, e outros adjetivos na tentativa de justificar o exercício da violência contra eles. A violência é exercida em forma de discursos, gestos e também fisicamente. É um tempo de medo.
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Mesmo entre aqueles e aquelas que pertencem a um mesmo grupo, uma mesma linha, um mesmo pensamento, a violência se estabelece na forma de competição. Não basta estar em um grupo considerado “melhor”, há que ser o melhor dentro desse grupo. Esse processo de construção de muros e de construção de instrumentos de violência acontece em todos os segmentos da sociedade: está no âmbito do trabalho, das relações sociais e políticas, e está também no âmbito religioso, entre lideranças, entre igrejas, entre grupos de uma mesma igreja. Essa é uma visão muito ruim de nosso mundo. Diante dela o texto paulino nos convida a afirmar: Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? (v. 24). A constatação paulina é que essa crise (tanto do mundo do texto como do nosso mundo) é derivada da arrogância humana. Nós nos julgamos capazes de fazer o bem, nos tornando construtores do caminho que nos aproxima de Deus e de sua pureza. Ao constatar o fracasso de qualquer tentativa, somos convidados e convidadas a reconhecer que somos todos “miseravelmente” iguais e, consequentemente, carentes da graça de Deus. Nessa igualdade no fracasso, os muros construídos se tornam marcos de nossa arrogância, que é falsa, pois se baseia em uma visão equivocada que temos de nós mesmos. Em Cristo, tudo deve mudar. O reconhecimento da necessidade da graça deve produzir o fim dos muros. Em uma leitura da fórmula batismal de Gálatas 3.26-28, temos em Cristo o fim, tanto dos muros étnicos (nem judeu nem grego) como dos muros de gênero (nem mulher nem homem) e dos muros sociais (nem livre nem escravo). Toda a vida deve ser transformada. A leitura negativa da existência humana transforma-se na possibilidade de, despidos de nossa arrogância, em Cristo vivermos a dimensão de um mundo sem muros, sem divisões, com a esperança que permite partilhar o que o profeta Zacarias anunciou: Alegre-se muito, ó filha de Sião! Exulte, ó filha de Jerusalém! Eis que o seu rei vem até você, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta. Destruirei os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém; os arcos de guerra serão destruídos. Ele anunciará paz às nações; o seu domínio se estenderá de mar a mar e desde o Eufrates até os confins da terra (Zc 9.9-12 NAA).
4 Imagens para a prédica O mundo em que vivemos é um mundo marcado pela arrogância e pela violência, que levam à construção de muros que separam aqueles e aquelas que se julgam superiores daqueles e daquelas que eles consideram inferiores. Podemos exemplificar essa realidade usando uma citação de Zygmunt Bauman encontrada em seu livro Confiança e medo na cidade: Como bem sabemos, as cercas têm dois lados. Dividem um espaço antes uniforme em “dentro” e “fora”, mas o que é “dentro” para quem está de um lado da cerca é “fora” para quem está do outro. Os moradores de condomínio mantêm-se fora da desconcertante, perturbadora e vagamente ameaçadora – por ser turbulenta e con-
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fusa – vida urbana, para se colocarem “dentro” de um oásis de tranquilidade e segurança. Contudo, justamente por isso, mantêm todos os demais fora dos lugares decentes e seguros, e estão absolutamente decididos a conservar e defender com unhas e dentes esse padrão; tratam de manter os outros nas mesmas ruas desoladas que pretendem deixar do lado de fora, sem ligar para o preço que isso tem. A cerca separa o “gueto voluntário” dos arrogantes dos muitos condenados a nada ter. Para aqueles que vivem num gueto voluntário, os outros guetos são espaços “nos quais não entrarão jamais”. Para aqueles que estão nos guetos “involuntários”, a área a que estão confinados (excluídos de qualquer outro lugar) é um espaço “do qual não lhes é permitido sair” (BAUMAN, 2009, p. 23-24).
Essa imagem da criação de cercas que separam o gueto voluntário dos arrogantes é uma imagem forte do que encontramos em muitos espaços de nossas cidades. Isso pode ser associado a exemplos locais.
5 Subsídios litúrgicos Para o momento de confissão, sugerimos a poesia de Cora Coralina. Cora Coralina representa o potencial de igualdade que há entre os seres humanos. Poetisa que iniciou sua carreira aos 75 anos de idade, possuidora apenas da 4ª série primária, encantou e encanta os leitores e as leitoras de todos os tempos. Na poesia abaixo, encontramos a possibilidade de confessar a necessidade de aceitar nossas fragilidades, assumir uma postura humilde e assim, reencantar nosso mundo. Humildade Senhor, fazei com que eu aceite minha pobreza tal como sempre foi. Que não sinta o que não tenho. Não lamente o que podia ter e se perdeu por caminhos errados e nunca mais voltou. Dai, Senhor, que minha humildade seja como a chuva desejada caindo mansa, longa noite escura numa terra sedenta e num telhado velho. Que eu possa agradecer a Vós, minha cama estreita, minhas coisinhas pobres, minha casa de chão, pedras e tábuas remontadas. E ter sempre um feixe de lenha debaixo do meu fogão de taipa, e acender, eu mesma,
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o fogo alegre da minha casa na manhã de um novo dia que começa.
Bibliografia BAUMAN, Zygmunt. Confiança e medo na cidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. SAMPLEY, J. Paul. Paulo no Mundo Greco-Romano. Um Compêndio. São Paulo: Paulus, 2008.
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PRÉDICA: ISAÍAS 55.10-13 MATEUS 13.1-9,18-23 ROMANOS 8.1-11
6º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
12 JUL 2020
Humberto Maiztegui Gonçalves
A Palavra não voltará vazia!
1 Introdução Sempre que nos deparamos com as três leituras para cada domingo, tentamos descobrir a ligação entre os textos ali indicados. Essa questão nem sempre é tão evidente. Nesse domingo há uma ligação mais forte entre a leitura de Mateus, na parábola do semeador, e o texto da pregação. Ambos apresentam a interação entre a palavra de Deus e a terra que a recebe gerando frutos. Já a ligação com o texto da Carta aos Romanos não parece tão evidente. A chave pode estar em Romanos 8.6, onde se usa a palavra grega fronēma. O significado desse termo pode ser “mente” ou “mentalidade”, como de fato a tradução de Almeida indica em 8.27: aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito. Sendo assim, podemos entender Romanos 8.6 a partir de dois sentidos em conflito: o da carne (cuja mentalidade é de morte) e o do Espírito (cuja mentalidade é de vida e paz). Aplicando isso a Isaías 55.10-13 e Mateus 13.1-9,18-23, poderíamos dizer que a ação da Palavra revela a vida e a paz e, portanto, a ação produtiva da Palavra revela a presença do Espírito (solidário/comunitário) e denuncia a ação da carne (individualista/egoísta). Assim, o sentido geral das leituras seria que a finalidade da Palavra é revelar a vontade – mentalidade ou caráter – vivificadora e pacificadora de Deus na história humana. Vejamos mais profundamente essa relação no texto da pregação.
2 Análise exegética O contexto Essa parte do livro do profeta Isaías chamada de Dêutero-Isaías (40 – 55) corresponde ao contexto do final do exílio babilônico (próximo ao ano 538 a.C., quando o imperador Ciro da Pérsia decreta o fim do exílio; cf. Ed 1.1-3). A ascensão política do rei Ciro, visto como um “messias” enviado para libertar o povo do exílio (cf. Is 45.1) aponta para a ação de Deus na história e desafia a preparar o povo para retornar e reconstruir Israel. A pregação se dirige às “vítimas atingidas pela catástrofe”, o que faz necessário enfrentar “a desesperança e o desespero de seus contemporâneos que se lamentam: ‘Javé me abandonou’ (49.14; 40.27; cf. 45.15: ‘um Deus que se esconde’)”, gerando “uma contradição entre a palavra do profeta (sic) e a realidade com que o povo convive” (SCHMIDT, 2002, p. 245246). Boa parte desses textos foram apresentados de forma oral. Schmidt afirma
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que “na base de Is 40-55 estão palavras isoladas, pronunciadas oralmente, que foram posteriormente ordenadas e transformadas em unidades temáticas e querigmáticas” (SCHMIDT, 2002, p. 247). O contexto histórico apresenta o desafio de fecundar a história de um povo destruído e desanimado, e para isso a palavra de YHWH precisa ser espalhada ou semeada. O texto Por se tratar de poucos versículos, foi feita uma tradução própria que permitisse ver com mais clareza as ligações internas do texto: V. 10 – Porque, como aquela que desce – a chuva e a neve – desde os céus e para onde não volta. Porque, se molha a terra, faz nascer, faz germinar, e da semente ao semeador e pão ao que come. V. 11 – Assim será a minha palavra, aquela que sai da minha boca, não voltará para mim vazia. Porque se faz aquilo que eu desejo, cumpre aquilo que eu lhe mandei. V. 12 – Porque na alegria voltarás e na paz sereis trazidos, porque os montes e as colinas baterão palmas. V. 13 – E ao invés de espinheiro, se erguerá o cipreste e será para YHWH por nome e por sinal eterno que será cortado. O texto tem um ritmo próprio, bem discursivo, marcado pelo uso abundante de porque (em hebraico kiy) e “aquilo/aquela” (em hebraico asher). No centro fica claramente a primeira parte do v. 11, onde faz referência à “minha palavra” (em primeira pessoa), que se refere a YHWH, embora destoe da menção a YHWH no v. 13, em terceira pessoa. As figuras de linguagem estão diretamente ligadas à natureza, não como teofania (manifestação divina por meio de fenômenos naturais), mas como analogia, seguindo a eco-lógica, que faz a criação ensinar sobre Deus, e se alegrar junto com o povo quando a palavra de YHWH se realiza. O advérbio condicional “se” – também destacado em negrito – é colocado antes e depois do centro, cumprindo um papel importante na apresentação do futuro a ser gerado. Ainda chama a atenção no v. 13 o uso das palavras “ao invés” (tahat), usadas para fazer comparações muito semelhantes a que aparecem em Trito-Isaías (56 – 66), especialmente no seu centro (Is 60.17; 61.3,7). Intencionalidade A síntese teológica do texto está no versículo 11a. O texto faz um percurso temporal entre o presente e um futuro condicional (se...). O versículo 10 é o presente, convidando as pessoas que ouvem a observar o movimento da água e ou da neve ao regar a terra. A imagem evoca a época do ano quando o degelo das montanhas do Líbano fazia a água circular pelo rio Jordão e seus afluentes e promovia o florescimento e a germinação do solo. Certamente uma época de esperança! A lembrança desse ciclo eterno convida a acreditar que Deus – tendo como sinal a ascensão do Império Persa e a progressiva derrota do Império Babilônico – está fazendo algo semelhante na história, promovendo que a água e a neve (contidas pela opressão e o exílio) gerem uma nova história! Os sinais estão na natureza que começa a brotar, onde há felicidade para quem semeia e alimento para quem
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tem fome. No v. 11b o texto aponta para o futuro, lembrando que a palavra de YHWH é capaz de realizar transformações semelhantes, mas isso “se”. A Palavra precisa fazer a vontade divina que a gerou (“o que eu mandei”). Está implícita a possibilidade de que a Palavra seja desviada (como a água pode ser), impedindo que realize seu objetivo vital. Então o v. 12 apela para uma fé histórica e concreta que se traduz na volta das pessoas oprimidas para essa nova vida. Como sinal, a natureza celebra a libertação de forma estrondosa. Montes e colinas batendo palmas! Não como um terremoto aterrorizante, mas um som alegre e festivo de palmas. Então chegamos ao intrigante v. 13, que se apresenta como um manifesto do novo tempo, lembrando – no sentido contrário – a parábola de Jotão em Juízes 9.7-15, onde o espinheiro acaba com todas as árvores da floresta. No final do livro dessa comunidade, apela-se ao urgente compromisso de reverter a realidade de sofrimento e morte. Não há mais o que esperar, o tempo é o presente, a palavra já está descendo e molhando o chão da história, apenas se faz necessário acreditar e superar o medo.
3 Meditação Palavra sinal Hoje, como na metade do século 6 a.C. entre o povo exilado na Babilônia, vivemos desafios imensos e nos sentimos derrotadas e derrotados, com pouca ou nenhuma esperança. Hoje os sinais naturais – embora ainda possa ser apreciada a exuberante beleza da natureza – também apontam para sofrimento e morte. Parece que está prevalecendo, até entre pessoas que dizem partilhar de nossa fé cristã, mais a mente egoísta da carne do que a mentalidade solidária do Espírito (cf. Rm 8.6). Mas a história sempre tem muitos lados. Assim como a natureza apresenta beleza e destruição, assim a história apresenta desesperança e encorajamento. Se, de um lado, vemos o preconceito, a discriminação, a exclusão, a exploração humana e ambiental, avançar quase que sem obstáculos, por outro lado, vemos comunidades que vivem, plantam, lutam, cantam, gritam, ocupam espaços, dançam, proclamam o que os povos indígenas chamam de “bem viver” e que na Bíblia e no texto de Dêutero-Isaías para esse domingo é chamado de “vida e paz”. O desafio de hoje, como foi para aquela comunidade exilada na Babilônia, é ver os sinais certos, os sinais eternos, que sempre estão aí, como o próprio Deus, para animar as pessoas que querem que a palavra da vida cumpra seu propósito. Palavra ação Nossa teologia é desafiada, pois ela não pode “conter” a palavra, deixá-la presa dentro de nossos templos ou comunidades, ou apenas como um “luxo” para quem tem fé. As barragens são sempre perigosas, pois inundam e matam. Nossa eco-teo-lógica deve fluir e chegar aonde quem semeia espera a semente e quem tem fome espera o pão. Para que a teologia flua, temos que “abrir” e não “fechar”. O texto de Isaías coloca a água e a neve no fluxo da história, pois a história não volta atrás! Quando a palavra divina fermenta a história, muda-a definitivamente, sem volta. Então, por que temos a sensação de que a história volta e que os males
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do passado, mais do que as coisas boas, se repetem? Se formos seguir a eco-teo-lógica desse texto, isso pode ser sinal de que a terra (isto é, a história) não foi suficientemente molhada pela palavra transformadora. Algo semelhante ao que aponta a parábola do semeador em relação às sementes que caem na beira do caminho, ou nas pedras e no meio dos espinheiros. Para que seja mais eficiente, é necessário que a palavra se traduza em movimento! No caso das pessoas daquele tempo, era o movimento, a desacomodação, de depois de mais de 40 anos, uma nova geração, começar tudo de novo. Hoje precisamos lembrar o custo que teve a história de autoritarismo que tanto mal fez ao povo do Brasil e a outros povos da América Latina. Acreditávamos que a democracia tinha sido reconquistada, que avançávamos no pagamento das dívidas históricas com o povo negro escravizado e os povos indígenas exilados em sua própria terra. Acreditávamos que as mulheres, as crianças, as pessoas idosas, as pessoas com deficiência, as pessoas LGBTI, as pessoas migrantes, teriam um futuro melhor, em que seriam vistas em pé de igualdade com todas as outras pessoas. Mas a história nos surpreendeu e nos desafia a proclamar por meio de atos concretos de solidariedade, com a mente do Espírito, que Deus está aqui presente e pode nos conduzir para a festa final, onde até os montes e colinas baterão palmas, e onde a aliança da vida e da paz nunca será quebrada.
4 Imagens para a prédica Na natureza/criação Em primeiro lugar, o texto nos convida a mostrar os contrastes na natureza. De um lado, a natureza viva, deslumbrante, e do outro lado, a destruição como a de Mariana, Brumadinho, vazamentos de óleo, desmatamento, envenenamento etc. Na humanidade/igreja/comunidade Assim como podemos mostrar a beleza e a destruição na natureza, na humanidade e na igreja/comunidade podemos mostrar a solidariedade, a partilha, a ação transformadora de pessoas, comunidades, movimentos, que não se dobram diante dos sinais de morte, mas dão sinais de vida e de paz e, por outro lado, mostrar a imagem da igreja (templos e salões) vazia, comunidades voltadas para si mesmas, e do lado de fora pessoas mendigando e sofrendo violência. Diante dessas imagens, podemos nos perguntar: onde está a Palavra que liberta e transforma? Nos sonhos e horizontes futuros Qual é o futuro que podemos sonhar com Deus que envia essa palavra que não voltará vazia? Temos essa fé histórica que acredita que no lugar de espinheiros podem brotar ciprestes e que haverá um mundo onde haja sementes boas para quem semeia e pão para todas as pessoas com fome? O que nos impede de acreditar nisso? Esse muro entre o presente desesperador e os bons sonhos da Palavra pode ser superado pela mentalidade do Espírito (Rm 8.6)? Como? Onde já vemos a Palavra transformando? Sentimos que a Palavra já está nos transformando ou ainda está contida longe de nossos sonhos?
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5 Subsídios litúrgicos Algumas boas músicas, como Isaías 40 – 55, nos desafiam no mesmo sentido transformador e têm sua história. A primeira e muito bem conhecida é “Momento novo”. É bom que antes de cantar a música lembremos de onde ela veio. O autor dessa música, o pastor metodista Ernesto Barros Cardoso – falecido em 19 de dezembro de 1999 – disse: “Momento novo é uma das canções mais apreciadas pelos encontros ecumênicos e populares. Ela expressa o que sentimos, pensamos e desejamos: estarmos juntos na mesma roda, em defesa da vida, respondendo ao chamado de Deus. Unindo o cordão enfrentaremos as forças que produzem a morte em nosso bairro, cidade, país… Sem discriminar, excluir ou julgar os que entram nessa roda” (CEBI). Outra música que vai nesse mesmo sentido é “Que estou fazendo se sou cristão”, cuja história de composição remonta a 1967. Conta Ivan Pereira Guedes que: “[...] em pleno regime militar no Brasil, João Dias de Araujo, então com 36 anos, fazendo mestrado em Princeton, EEUU, foi desafiado pelo maestro João Wilson Faustini a compor um hino que tratasse da realidade brasileira e desafiasse os evangélicos a tomarem uma atitude bíblica diante da situação caótica do país. Nasce então a letra do cântico ‘Que estou fazendo?’, conhecido mais pela primeira linha do poema ‘Que estou fazendo se sou cristão?’, que veio a ser inserido em diversos cancioneiros denominacionais e gravado por diversos cantores evangélicos nacionais” (Historiografia Protestante).
Bibliografia CEBI. Disponível em: <https://cebi.org.br/noticias/deus-chama-a-gente-pra-um-momento-novo-ha-19-anos-partia-o-autor-desta-musica/>. Acesso em: 29 jan. 2019. HISTORIOGRAFIA PROTESTANTE. Blog. Disponível em: <http:// historiologiaprotestante.blogspot.com/2018/05/que-estou-fazendo-se-soucristao-musica.html>. Acesso em: 29 jan. 2019. SCHMIDT, Werner. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 2002.
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7º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
19 JUL 2020
PRÉDICA: MATEUS 13.24-30,36-43 ISAÍAS 44.6-8 ROMANOS 8.12-25
Elke Doehl
O que cultivamos?
1 Introdução A palavra do evangelho indicada para a pregação nesse tempo de Pentecostes já foi trabalhada em três oportunidades na Série Proclamar Libertação: v. 18, v. 21 e v. 32, nas quais podemos encontrar subsídios exegéticos preciosos. Todos os comentários mencionam que a parábola em questão é exclusiva do Evangelho de Mateus, que ela reflete sobre a presença do reino de Deus, e que nessa espera, há comparação entre duas plantas – o joio e o trigo. O trigo, a boa planta, é semeado pelo dono da terra. O joio, considerado como a planta má, é semeado pelo inimigo do dono da terra. Ao final, no tempo certo, ocorrerá a colheita e apenas naquele momento haverá a separação entre bons e maus frutos. As leituras paralelas, Isaías 44.6-8 e Romanos 8.12-25, falam da restauração da esperança na salvação. Mesmo em meio a situações e sinais de não vida e desesperança em que se vive, Deus se faz presente. Afinal, somos filhas e filhos de Deus mediante o batismo e, com confiança, esperamos por aquilo que não vemos. A preocupação da pregadora, ao se deparar com um texto que já foi pesquisado e refletido algumas vezes, é: como trazer um novo enfoque? Que novo enfoque é possível destacar e que instigue uma novidade para a mensagem? Informações e comentários exegéticos dos textos em questão podem-se verificar nos volumes citados acima.
2 Observações exegéticas Mateus 13.24-26 – A palavra de Deus faz crescer a comunidade. Pois é a partir do ouvir da Palavra que se chega à fé. O semeador, Deus/Jesus Cristo, faz a semeadura. A pessoa que ouve a Palavra acolhe a semente e a cultiva. No meio do cultivo, além da planta boa, desenvolve-se também o joio. Na vida de cada pessoa há o bem e o mal, há santidade e pecaminosidade ao mesmo tempo. Nela, a palavra é semeada. De onde vêm a semente e a planta má e pecaminosa? A “planta má” pode se instalar por meio de pensamentos, atitudes, tradições, costumes ou reações, que vão sendo absorvidos com o passar do tempo. Mateus 13.27-28a – O inimigo, o mal que se instala dentro das pessoas, age de forma silenciosa, como aconteceu no texto, enquanto o semeador estava “descansando”. Será que o perigo surge quando alguém se acomoda ou se dá por satisfeito? É possível reconhecer já as sementes más ou apenas os frutos que delas emergem?
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7º Domingo após Pentecostes
Mateus 13.28b-30 – Diante da constatação da “invasão maligna”, a reação imediata é de arrancar o mal pela raiz. Mas será que é possível identificá-lo de forma rápida, a fim de eliminá-lo? Será que não podem permanecer ramificações das raízes que fazem a planta má ressurgir logo mais adiante – tal qual um câncer? A primeira reação dos lavradores (discípulos) foi extrair o que veio atrapalhar o trigo e seu crescimento. O dono da terra – Deus/Jesus Cristo diz: Deixa-os crescer juntos até a colheita!. Em outras palavras, o que vai determinar o produto final é o fruto – para separar o trigo do joio, o bom e o ruim, o amigo do inimigo, apenas no dia da colheita. Mateus 13.37-38 – Quem semeia a boa semente é o Filho de Deus. O campo, a terra é o mundo, as pessoas. A boa semente, trigo, são as filhas e os filhos do Reino. O joio são as filhas e os filhos do maligno. Mateus 13.39s – A separação acontecerá ao final. A colheita se assemelha ao fim do mundo e ao juízo. Aí o joio será separado e queimado.
3 Meditação 1) O que poderia ser a boa semente? A boa semente, sem dúvida, é o amor de Deus, que ele coloca em nossa vida. É o amor com o qual cada uma de nós foi feita. Vocês se lembram da criação? Depois que o ser humano recebeu o sopro do amor de Deus, Deus disse que tudo o que criara era muito bom. Em seu conjunto, a criação é boa, pois ela é a criação de Deus. Nós podemos provar isso. Quanta riqueza e beleza na natureza! Quanta harmonia nas leis da natureza e quanta diversidade de animais e plantas! Tudo integra o conjunto do amor que Deus tem por suas criaturas. A partir desse amor, somos capazes de cuidar e amar. 2) O que é o joio? Uma erva ruim! Algo que não presta. O contrário da boa semente. Ela é a semente que prejudica a boa colheita, compromete a qualidade daquilo que Deus criou tão puro e belo. Mas será que, de fato, não presta para nada? Não será o joio o que ajuda a impulsionar o zelo pelo bom fruto? Não será a contradição ao bem a fortalecer o cuidado? 3) Quem semeou o joio? Um inimigo o semeou. Pode-se recorrer à lembrança da serpente no jardim do Éden. De onde ela surgiu? Por si só suas palavras não fariam efeito. Apenas a acolhida das palavras na forma de atitudes é que produzem efeito. A simples semeadura da semente do joio não seria problema. A problemática está na terra que possibilita a germinação e o crescimento dessa semente. Quem mesmo é o inimigo do bom fruto? 4) O que seria a terra onde foram semeadas a boa semente e também o joio? É isso mesmo: é o próprio ser de cada ser humano: seu pensamento, seu coração, sua alma, seu entendimento, sua inteligência, toda a sua força. O ser humano é uma terra onde se pode colher o trigo, a boa semente, mas também onde se pode colher o joio, a má semente. Há quem diga que o maior inimigo de cada qual é seu próprio eu. O que lhe parece? 5) Quem seriam os empregados? Num primeiro momento, são aquelas pessoas dispostas a servir ao patrão, que é Deus, ou Jesus. São também aquelas pessoas dispostas a cuidar para que a criação permaneça limpa e boa. Parecem
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bem-intencionadas: querem prontamente tirar o joio do meio do trigo. Assim boa parcela das pessoas aprende a pensar: deve-se arrancar pela raiz aquilo que não presta, extirpar toda maldade, toda mentira, todo egoísmo, tudo de ruim que existe em nós. Mas a boa intenção nem sempre se revela boa em seus resultados. 6) Então, por que mesmo o patrão, Jesus/Deus, não permite que o joio seja arrancado? Por que ordena que ambos cresçam juntos? Pode-se perceber que essa parábola é muito mais profunda do que parece. Jesus não está tentando explicar o porquê do sofrimento em meio a nosso mundo. Tampouco está procurando o culpado disso. Procurar culpados pelas coisas que dão errado no mundo, no país, na cidade, na comunidade e até mesmo na casa parece ser uma necessidade humana. Jesus também não parece estar preocupado com a pureza, com a limpeza da plantação. Isso parece ser coisa nossa, ou pelo menos dos seus “empregados”. Parece que ao longo da história todas as vezes que o ser humano achou que deveria fazer alguma limpeza, acabou arrancando junto o trigo. Parece que se tenta cuidar da vida, combatendo o joio com um poderoso herbicida. Só que, ao combater o joio, ainda assim, o trigo não está perfeito. Quantas vezes um herbicida deixa resíduos ruins nas plantas boas! Quantas vezes um herbicida deixa o próprio solo improdutivo! O que Deus espera do ser humano? Ele espera que o ser humano seja paciente. Que, em confiança, saiba esperar a hora da colheita. Que na hora da colheita se colha o trigo, mas que até lá saiba admirar e valorizar aquilo que de bom foi plantado. Algumas ervas impróprias para o consumo humano, depois da colheita, podem ser transformadas em adubo orgânico. Talvez se possa dizer que mesmo aquilo de ruim que é semeado pode ser reaproveitado de uma outra forma. A dinâmica da história da humanidade e da vida são mostras nessa direção. Interessante é parar de estabelecer culpa para as coisas erradas e deixar o amor de Deus crescer. O amor de Deus é diferente do ódio, do desprezo e tudo o que impede a vida em comunhão. Pergunta motivadora: enquanto comunidade e pessoas cristãs, como vencer a tentação de tratar bem todas as pessoas que pensam de modo diferente, que agem diferente, que são diferentes de nós, num tempo de intolerância e falta de limites? Não apenas, hoje, mas em toda a existência de comunidade cristã fica evidente a presença do mal no meio do bem. Assim como o joio no meio do trigo, o mal está presente no meio social, comunitário, no lar. Nas relações humanas isso se evidencia de forma concreta em palavras, gestos e atitudes. Fato é que a paciência de Deus é imensa para com a sua criação, a fim de esperar o tempo certo para que na colheita aconteça a separação. Deixa-os crescer juntos até a colheita! Essas palavras sugerem cuidado e respeito até mesmo com aqueles que chamamos de maus. Como vencer a tentação de não arrancar antes do tempo a planta? Como agir, de forma paciente, mesmo não admitindo ou concordando com a forma que a pessoa age e pensa de maneira muito diferente da maior parte das pessoas. Como reaprender a tolerância? (Arriscar situações da comunidade local.) A espera paciente para o tempo certo da colheita pode ser interpretada no sentido de que Deus não quer perder nenhuma das sementes semeadas. Ele
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confia que algo a poderá modificar e transformar. Esse algo representa o tempo necessário, que também é ressaltado no texto do evangelho, da semeadura, o crescimento e amadurecimento da planta até sua colheita. Isso requer sabedoria.
4 Imagem para a prédica Se é bom ou se é mau... Um homem muito rico, ao morrer, deixou suas terras para seus filhos. Todos eles receberam terras férteis e belas, com exceção do mais novo, para quem sobrou um charco inútil para a agricultura. Seus amigos se entristeceram com isso e o visitaram, lamentando a injustiça que lhe havia sido feita. Mas ele só lhes disse uma coisa: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”. No ano seguinte, uma seca terrível se abateu sobre o país, e as terras dos seus irmãos foram devastadas, mas o charco do irmão mais novo se transformou em um oásis fértil e belo. Ele ficou rico e comprou um lindo cavalo branco por um preço altíssimo. Seus amigos organizaram uma festa, porque coisa tão maravilhosa tinha acontecido. Mas dele só ouviram uma coisa: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”. No dia seguinte seu cavalo de raça fugiu e foi grande a tristeza. Seus amigos vieram e lamentaram o acontecido. Mas o que o homem lhes disse foi: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”. Passados sete dias, o cavalo voltou trazendo consigo dez lindos cavalos selvagens. Vieram os amigos celebrar essa nova riqueza, mas o que ouviram foram as palavras de sempre: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”. No dia seguinte, seu filho sem juízo montou um cavalo selvagem. O cavalo corcoveou e o lançou longe. O moço quebrou uma perna. Voltaram os amigos para lamentar as desgraças: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”, o pai repetiu. Passados poucos dias, vieram os soldados do rei para levar os jovens para a guerra. Todos os moços tiveram de partir, menos o seu filho de perna quebrada. Os amigos se alegraram e vieram festejar. O pai viu tudo e só disse uma coisa: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”. Assim termina a história, sem fim e com reticências. Ela poderá ser continuada, indefinidamente. Somos personagens dessa história também. Aquilo de bom ou ruim que acontece conosco, devemos ser sábios para aceitar com resignação. Lembre-se: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”. (Rubem Alves)
5 Subsídios litúrgicos Hinos
LCI 462 (início do culto) LCI 172 (leituras) LCI 157 (antes e depois da pregação) LCI 568 (recolhimento da oferta)
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Motivação para a confissão de pecados Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum pensamento mau e guia-me pelo caminho eterno (Sl 139.23-24). Relacionar situações de intolerância que fazem as pessoas tropeçar. Intercalar com o hino LCI 33. Glória Relacionar, junto com a comunidade, sinais de boas atitudes que já percebemos como bons frutos. Intercalar com o hino LCI 142.
Bibliografia ALVES, RUBEM. Se é bom ou se é mau... Blog sobre Rubem Alves. Disponível em: <https://rubemalvesdois.wordpress.com/2011/07/06/se-e-bom-ou-se-emau/>. BROWN, Raymond Edward. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004. CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. 4. ed. São Paulo: Milenium, 1983. v. 6.
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PRÉDICA: ROMANOS 8.26-39 1 REIS 3.5-12 MATEUS 13.31-33,44-52
8º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
26 JUL 2020
Claiton André Kunz
Somos mais que vencedores
1 Introdução Ao escrever a Carta aos Romanos, Paulo devia estar perto do final da sua terceira viagem missionária. Foi nessa ocasião que o apóstolo estava se preparando para voltar a Jerusalém, tendo Roma como seu próximo destino (At 19.21; 20.16). Corinto é o local mais provável onde a carta foi escrita. Quando Lucas nos conta que Paulo passou três meses na Grécia (At 20.3), o mais provável é que o apóstolo tenha ficado em Corinto (2Co 13.1,10). Uma confirmação disso está no fato de que Paulo tenha feito recomendação de uma mulher que vivia em Cencreia, um dos portos de Corinto. Possivelmente foi ela que entregou a carta na igreja em Roma. A data mais provável da redação da Carta aos Romanos é o ano de 57 d.C. Os destinatários são os cristãos de Roma. Alguns dizem que Paulo se refere a dois grupos existentes na igreja em Roma: judeus e gentios. O que interessa para Paulo é que esses grupos aprendam a se aceitar e a se respeitar (15.7ss). Romanos tem sido há muito a base da espinha dorsal da teologia cristã. A maior parte dos termos técnicos, como justificação, imputação, adoção e santificação, é extraída do vocabulário de Romanos, cuja estrutura de argumentação constitui a coluna vertebral do pensamento cristão. A carta do apóstolo Paulo à igreja em Roma é o documento mais importante da teologia. Ela causou diversas reações nos seus leitores. Agostinho, por exemplo, se converteu por causa dela; Martim Lutero descobriu que a justificação do pecador é por meio da graça etc. A carta de Paulo aos romanos sempre é maior do que as tentativas de interpretá-la. Ela é um testemunho comovente do evangelho de Jesus Cristo. Essa carta é caracterizada pela sua forma de diálogo: o apóstolo não somente compartilha as suas opiniões, mas envolve os leitores e as leitoras em suas considerações, formulando perguntas que ele imagina que os romanos tinham. A Carta aos Romanos trata do Deus que torna as pessoas justas para que possam viver com ele e de acordo com a sua vontade. A carta afirma que todas as pessoas – judeus e gentios – vivem em contradição com os princípios de Deus. Portanto necessitam de Jesus Cristo, que intervém de forma vicária em suas vidas.
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2 Exegese Algumas observações exegéticas do texto de Romanos 8.26-39: V. 26a – A expressão nos ajuda em nossa fraqueza (synantilambanetai tē astheneiai hēmōn) é um composto notável, que acontece somente aqui e na petição de Marta de que Maria a ajudasse (Lc 10.40). Aqui Paulo descreve o Espírito Santo como se colocando ao nosso lado e, ao mesmo tempo, em nossa fraqueza, antes que seja demasiadamente tarde. V. 26b – Quando o texto afirma que o Espírito Santo “intercede” por nós, o texto original usa o termo hypertynchanō, no presente do indicativo ativo, denotando uma ação contínua por parte do Espírito. O termo significa pedir ou interceder em favor de alguém. É uma palavra pitoresca que denota a libertação por alguém que “chega casualmente” onde está alguém em perigo e, “em seu favor” intercede com “gemidos inexprimíveis” ou com “suspiros que substituem palavras”. O termo grego alalētos usado aqui denota algo impossível de ser falado. V. 27 – Quando afirma que o Espírito intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus, temos no original a expressão kata Theon. O Espírito Santo, que em João 14.16 é chamado de outro paraklētos, é aquele que está ao nosso lado, interpretando nossas orações diante de Deus, e, conforme a vontade de Deus, intercede pelos santos. V. 28 – A palavra grega synergei, que pode ser traduzida como cooperar, dá a ideia de trabalhar junto ou trabalhar com o outro. É desse termo que vem a nossa palavra sinergia. V. 29 – Quando se atribui a Cristo o termo primogênito, utiliza-se no original o termo prōtotokos. Por primogênito poder-se-ia pensar no Filho de Deus como o “primeiro que foi gerado”, mas isso criaria um sério problema em nossa cristologia e doutrina da Trindade. Por isso é preciso entender que prototokos não está relacionado com “ser gerado” (que seria o caso de prōtogenēs), mas com a prioridade e a supremacia de Cristo, assim como também em Colossenses 1.15. V. 30 – Para “glorificou” Paulo usa edoksasen, no aoristo. O aoristo fala de Deus que vê o fim desde o início, e em seus decretos e propósitos todos os eventos futuros são abrangidos. V. 31 – Que diremos, pois, diante destas coisas? (no grego, pros tauta). Desde o versículo 12 em diante, Paulo está apresentando as razões para a certeza da santificação final dos filhos de Deus. Em forma de perguntas retóricas, ele arremata: Se Deus é por nós, quem será contra nós? Não há ninguém que pode ser comparado com Deus. Chamam a atenção as preposições gregas usadas na expressão por nós (hyper) e contra nós (kata). Hyper denota “sobre”, enquanto kata denota “abaixo ou contra”. V. 32 – Aquele que não poupou vem da expressão original ouk epheisato, na forma aoristo médio de feidomai, um verbo antigo utilizado na Septuaginta para o sacrifício de Isaque em Gênesis 22.16. V. 33 – Paulo utiliza o verbo egkalesei para falar da acusação contra os escolhidos de Deus. O verbo egkaleo é um termo antigo e significa “apresentar-se
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como acusador (termo legal)” numa causa diante do tribunal ou “acusar”. O termo é usado no NT em Atos 19.40; 23.29 e 26.2. Neste caso em Romanos, Satanás é o grande acusador dos santos. Entretanto, ele terá que enfrentar o Grande Juiz, Deus, que é quem justifica seus filhos, de acordo com o seu plano de justificação (3.21-31). V. 34 – O verbo katatrinōn é traduzido por “condenará”. A pergunta é: quem é capaz de se apresentar diante de Deus, com calúnias ou mesmo acusações verdadeiras, porquanto temos um advogado no Tribunal de Deus (1 João 2.1), que está à direita de Deus, e que intercede por nós. Nosso advogado pagou com seu sangue a dívida dos nossos pecados. A dívida está paga e nós estamos livres (8.1). V. 35 – O verbo chōrisei traz a ideia de espaço. A pergunta é se alguém pode interpor uma distância entre o amor de Cristo e nós? Poderia alguém induzir a Cristo a deixar de amar-nos? Paulo então troca a figura quem (tis) por o que (ti), mencionando circunstâncias que não podem induzir a Cristo a nos amar menos. V. 36 – Enfrentamos a morte todos os dias. O verbo grego thanatoumetha está no presente do indicativo na voz passiva, trazendo a ideia de um martírio contínuo, como em 1 Coríntios 15.31. V. 37 – O verso 37 inicia com a conjunção alla (mas, porém), deixando claro que não seremos separados. Para “mais que vencedores” encontramos no original a palavra hypernikōmen, que pode ser traduzida por vencer ou conquistar. Aparece somente aqui no NT. A preposição hyper intensifica o verbo, dando a ideia de que “estamos tendo uma gloriosa vitória”. V. 38 – pepeismai gar, um particípio perfeito passivo, pode ser traduzido por “estou convencido”. As circunstâncias mencionadas são aquelas que as pessoas temem (vida, morte, anjos, demônios, presente, futuro ou quaisquer poderes), para não deixar nada omisso. V. 39 – dynēsetai hemas chōrizai pode ser traduzido por “nada é capaz de separar”, ou nada tem a capacidade de separar. Está no aoristo do infinitivo voz ativa do verbo chorizo (mesmo verbo que no verso 35). O amor de Deus, que está em Cristo Jesus, é vencedor sobre todas as forças possíveis, desencadeadas em oposição.
3 Meditação Há segurança para a salvação? Os primeiros capítulos da Carta aos Romanos poderiam ser estruturados da seguinte maneira: a) a condenação (cap. 1 – 3): judeus, gentios, na verdade, todos (3.23) estão perdidos; b) a justificação (cap. 4 – 5): justificados, pois, pela fé temos paz com Deus (5.1); c) a santificação (cap. 6 – 8): princípios, aplicação e o poder da santificação. Em todos esses capítulos, o apóstolo Paulo faz uma série de perguntas retóricas, como se estivesse debatendo com alguém. Paulo lança a pergunta e ele mesmo propõe a resposta. No capítulo 8, de forma geral, poderíamos fazer alguns resumos dessas perguntas:
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– Há saída para o pecado (8.1-11)? Sim, é preciso estar em Cristo (em quem já não há condenação) e viver no Espírito. – Há saída para o sofrimento (8.18-25)? Sim, precisamos ter esperança, paciência e dependência. – Há segurança para a salvação (8.26-39)? É claro que existe. Mas em que está baseada essa segurança, se passamos por fraquezas (v. 26), nem sequer sabemos orar (v. 26) e muitas coisas ao nosso redor parecem conspirar contra nós (v. 28)? Paulo então passa a argumentar: a) Temos segurança da salvação, porque Deus é por nós (v. 31-32). A pergunta retórica do verso 31 é quem poderá vir contra nós, se Deus é por nós? Se Deus não poupou nem o seu próprio Filho para proporcionar a salvação ao ser humano, não cuidaria de nós também em todos os sentidos, lutando por nós e por nossas vidas? O caso de Jó, no Antigo Testamento, poderia ser colocado como um exemplo disso. Em 1 João 5.18, vemos que aquele é nascido de Deus, o próprio Deus o protege e o Maligno não o atinge. O mais interessante é que essa segurança não nos é dada pelo nosso esforço, pelos nossos méritos, mas é “de graça!”, conforme o verso 32. Poderíamos ainda inverter a pergunta: por um lado, se Deus é por nós, quem será contra nós?, mas, por outro lado, se Deus é contra nós, quem será por nós? b) Temos segurança da salvação, porque ninguém pode nos acusar (v. 3334). A pergunta de Paulo é quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus? Se é Deus quem os justifica, ninguém terá condições de acusá-los de qualquer coisa. A parábola do fariseu e do publicano (Lc 18.9-14) constitui um belo exemplo de que a justificação vem da graça e misericórdia divina e não por méritos próprios. Se já é complicado fazer alguma acusação contra os escolhidos de Deus, seja por calúnia ou mesmo com algum fundo de verdade, Paulo vai mais a fundo e pergunta: Quem os condenará? E a resposta fulminante é: foi Cristo que morreu por nós. E ele não apenas morreu, mas também ressuscitou, e está à direita de Deus, intercedendo por nós. Em 1 João 2.1-2, percebemos que temos um intercessor, na verdade, um advogado junto ao Pai para nos defender, que é o próprio Jesus Cristo. A palavra que está no original é paraklētos, ou seja, aquele que foi chamado para estar ao nosso lado, para nos defender. Se é Jesus que vai nos defender junto ao Pai, quem poderia nos condenar? c) Temos segurança da salvação, porque nada pode nos separar do amor de Deus (v. 35-39). A próxima pergunta retórica de Paulo é sobre quem nos separará do amor de Cristo? Seria tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada etc. Paulo sabia muito bem o que era isso, pois constantemente passou por essas lutas, mas Deus jamais o abandonou. Nos versos 38 e 39, Paulo é ainda mais contundente, quando afirma que nem a morte nem a vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação tem a capacidade de nos separar do amor de Deus.
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As expressões gregas “nem... nem” expressam totalidades, e a ideia é que, apesar dessas totalidades, Deus está no controle. Absolutamente nada nem ninguém em qualquer lugar, em qualquer tempo, em qualquer situação, será capaz de nos separar do amor de Deus. É muito interessante que Paulo sempre fala do amor de Deus e de Cristo como garantia dessa segurança, e não do nosso amor, pois o nosso é sempre instável e limitado. Por tudo isso Paulo afirma que somos mais que vencedores por meio daquele que nos amou.
4 Imagens para a prédica: Saber para Salvação Um jovem que havia acabado de concluir um curso universitário atravessava um rio em companhia de um pescador crente. O “sábio” rapaz iniciou a conversa indagando se o barqueiro havia estudado gramática e latim. Com a resposta negativa, o universitário respondeu: – Você perdeu um bom tempo da sua vida! Logo formulou outra pergunta: – Sabe alemão e inglês? – Não – respondeu o “ignorante” barqueiro. – Pois então perdeu muito mais tempo da sua vida – acrescentou o viajante. – Conhece história e filosofia? Quando tentava formular a terceira pergunta, um forte vento inesperadamente arrebatou o barco, que começou a afundar. Os dois foram lançados na água. Enquanto o rapaz se debatia, o barqueiro lança sua única pergunta: – O companheiro sabe nadar? – Não! – foi a resposta num tom de espanto e terror. – Então você perdeu a vida inteira! – retrucou o pescador, que, estendendo o braço, conseguiu segurar o universitário e salvá-lo do afogamento.
Bibliografia RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. Chave linguística do Novo Testamento grego. Trad. Gordon Chown e Julio Zabatiero. Santo Paulo: Vida Nova, 1988. ROBERTSON, Archibald Thomas. Imágenes verbales en el Nuevo Testamento. Barcelona: CLIE, 1989. (Tomo 4 – Las epístolas de Pablo).
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9º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
02 AGO 2020
PRÉDICA: MATEUS 14.13-21 ISAÍAS 55.1-5 ROMANOS 9.1-5
Sandra Helena Fanzlau
A matemática da vida
1 Introdução O texto da multiplicação dos pães e peixes (Mt 14.13-21), previsto para o 9º Domingo após Pentecostes, é muito conhecido do Novo Testamento. Ele está presente nos quatro evangelhos. No Evangelho de Mateus temos dois relatos sobre esse tema, o texto em estudo e um relato semelhante no capítulo seguinte. A importância do pão nos tempos bíblicos é indicada em repetidas referências a ele nas Escrituras. A referência constante da partilha do pão mostra a importância dessa temática na vida das comunidades primitivas. Nos evangelhos, além dos relatos da multiplicação, Jesus ensinou a orar pelo pão de cada dia, e ele próprio se denomina o pão da vida (Jo 6.35). O centro da nossa perícope é a partilha do pão e dos peixes. No entanto, importa não perder aspectos que fazem uma espécie de moldura para o texto em estudo: a tristeza e a tentativa de ficar sozinho de Jesus após receber a notícia da execução de João Batista, a compaixão de Jesus pelo povo e a presença das mulheres e das crianças na comunhão da partilha. Das leituras propostas, o texto de Isaías 55.1-5 pode ser relacionado diretamente ao texto da pregação, pois a promessa profética de fartura de alimento, sem gasto, se concretiza no ministério de Jesus, no momento que mais de cinco mil pessoas são alimentadas. O texto de Romanos 9.1-5 pode ser abordado de forma paralela, considerando que Paulo se compadece do seu povo, assim como Jesus se compadeceu de um povo sofrido e sem rumo.
2 Aspectos exegéticos V. 13a – Jesus ouvindo isto, retirou-se. A frase remete à execução de João Batista, a pedido de Herodes, tetrarca da Galileia. Os títulos dados pelos editores das Bíblias acabam, por vezes, influenciando a interpretação dos textos. No caso dessa perícope, o aspecto da notícia da morte de João Batista acaba ficando “esquecido”. Mas esse detalhe não pode ser esquecido, pois é justamente esse fato de dor que leva Jesus para o deserto. Além do sofrimento pela morte, Jesus sabe que ainda não é hora de enfrentar o poder opressor constituído. V. 13b – Sabendo-o, as multidões vieram das cidades, seguindo-o por terra. Quem é esse povo? O que busca? A multidão, que o segue pelas estradas “empoeiradas”, revela a messianidade de Jesus. Quanto tempo esse povo caminhou
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para encontrar Jesus? Talvez um dia inteiro! O v. 15 aponta para o fim da tarde. Quanto tempo esse povo levaria para voltar para suas casas? V. 14b – Compadeceu-se dela (da multidão) e curou os seus enfermos. Jesus sofre com a morte de João Batista, mas não se mantém indiferente à dor do povo. O olhar compassivo cura e restabelece a dignidade da vida. A compaixão, o olhar, a cura e o alimento revelam a dimensão integral da ação do Messias. V. 15 – Ao cair da tarde, vieram os discípulos a Jesus e lhe disseram: o lugar é deserto e vai adiantada a hora; despede, pois, as multidões, para que, indo pelas aldeias, comprem para si o que comer. Despedir a multidão era a solução mais fácil, para que cada um compre para si o que comer. Na opinião dos discípulos, cada pessoa deve dar conta da sua própria subsistência, de sua própria fome, de sua própria vida. V. 16 – Jesus, porém, lhes disse: Dai-lhes vós mesmos de comer. Jesus não aceita essa solução simplista e individualista, pois o que não promove vida abundante não faz parte do plano do reino de Deus. Percebe-se aqui, como em outros momentos da caminhada de Jesus, que até as pessoas que estavam perto de Jesus, que acompanhavam sua missão, têm dificuldade de entender a construção de um reino que não reproduz a realidade. Jesus chama para a responsabilidade e a misericórdia. A fome é responsabilidade de todas as pessoas que o seguem. Por isso: dai-lhes vós mesmos de comer. Jesus reparte a responsabilidade da partilha, do alimentar a multidão com seus seguidores. V. 17 – Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes, reagem os discípulos. Diferentemente do Evangelho de João, onde um menino oferece os pães e os peixes, aqui não sabemos de onde esses surgem. V. 19 – O ato de solicitar que a multidão se assente, para que possa comer junto, cria um espaço de construção de novas relações humanas e com Deus. Rosane Pletsch escreve: “O momento ali vivido em torno do pão, as pessoas sentadas à relva, céu aberto, cansadas e doentes, era um espaço e tempo litúrgicos. Isso mostra que, na perspectiva cristã, o cotidiano é espiritual. Nesse sentido, o pão para cristãos/ãs é um pão sagrado, pois é por Deus abençoado. E são mãos abençoadas as que o partem e dividem. Pão abençoado e abençoados/as as pessoas que o distribuem. O pão que sacia a fome é o mesmo que alimenta a alma; é alimento material e espiritual” (PLETSCH, 2002, p. 199-200). V. 20 – Um alimento simples, do cotidiano, pão e peixe, torna-se refeição completa: todos comeram e se fartaram. E há para mais pessoas, pois as sobras não são apenas migalhas, mas doze cestos. O ato de recolher as sobras indica que o pão é importante e não pode ser desperdiçado. V. 21 – Muita gente participou do ato. E toda essa gente foi incluída na comunhão, mesmo as pessoas que numericamente não tinham valor. Mulheres e crianças também foram alimentadas e fartas pela comunhão e partilha.
3 Meditação A comensalidade é aspecto marcante no ministério de Jesus. O tema da alimentação é relevante no cristianismo primitivo. Sentar-se à mesa com alguém
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era sinal de pertença, acolhimento e partilha. Atos 2.46-47 mostra que a comensalidade da comunidade cristã promove profundas mudanças na ordem social e nas relações humanas. Hoje, muitas vezes, se faz até piada sobre o assunto, insinuando que é mais fácil juntar pessoas na igreja quando há algo para comer. Esquece-se de que onde o pão é partilhado, a vida é compartilhada. Acaba-se fazendo como os discípulos queriam: comprem para si o que comer. Lembro uma situação vivida aqui na paróquia. Uma vez por mês, nas quartas à tarde, realiza-se o culto dos idosos. Durante alguns meses percebi que uma mãe muito jovem vinha com seus filhos. Fiquei intrigada, pois também a via com as crianças nos cultos noturnos. Qual era o real motivo? O lanche, servido após o culto dos idosos! E essa por vezes era a única refeição do dia para aquela mãe e suas crianças. Na atual realidade, a ideia de que o problema da outra pessoa não é meu, se difunde também dentro das nossas comunidades. A dinâmica de que cada pessoa é responsável pelo seu próprio sustento é cada vez mais forte. Ler o texto da multiplicação dos pães e dos peixes para dentro dessa realidade é trazer os sinais do reino de Deus para muito perto de nós. Jesus, ao convidar o povo para se assentar e provocar a partilhar, não apenas queria saciar a fome, mas estava transmitindo que no reino de Deus haverá fartura, haverá sobras para distribuir. A multiplicação e partilha de pão é exemplo de economia solidária, e as primeiras comunidades reproduzem essa prática solidária em seu agir diário (At 2.44; 4.32-33). E onde acontece uma economia solidária, não há desperdício. No reino de Deus não há famintos. A necessidade da partilha, do repartir se alicerça na tradição bíblica (Is 58.7) e é uma implicação da justiça e do amor. A economia de Jesus tem como centro o coletivo, a partilha ao invés do individual e do acúmulo. Reino de Deus significa abundância de comida, de saúde, de curas, como também aparece em nossa perícope. A multiplicação dos pães e peixes não cai do céu, como o maná, mas brota do chão, brota das mãos dispostas para a partilha, ou, como diz uma canção: “pois, as mãos mais pobres, é que mais se abrem para tudo dar”. Quando o povo de Deus consegue sentar, render graças, reconhecer a presença e o sustento que vem de Deus, a multiplicação acontece. Acontece a multiplicação do alimento, dos dons, da vida, das curas, dos olhares e dos saberes. E nessa multiplicação há espaço, há lugar para todas as pessoas, sem distinção de idade, gênero ou raça.
4 Imagens para a prédica O texto é rico em imagens que podem ser usadas na pregação. Mas é importante eleger uma. a) No culto anterior, solicitar que cada pessoa traga um alimento para partilhar. Preparar uma mesa onde os alimentos possam ser colocados. Iniciar o culto com a saudação e a invocação. Em seguida, convidar a comunidade para um momento de confraternização. Após esse momento, recolher “as sobras” e colocá-
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-las sobre o altar. Refletir sobre o que fazemos com as sobras. O que é sobra para algumas pessoas é refeição completa para outras. b) Distribuir pequenos pães ou pedaços de pães para uma parte da comunidade. No momento da pregação, provocar a reflexão: o que faço com o pão que está em minhas mãos? c) A ênfase está na partilha, na abundância alcançada quando muitas mãos se dispõem a colaborar.
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados Articular a confissão de pecados em torno do individualismo e na não disposição para a partilha e comunhão. Kyrie
Com as “sobras” sobre o altar, lembrar que uma parte da população sobrevive das sobras, daquilo que outras pessoas descartam. Bênção da partilha Deus, ao partirmos o pão, mais uma vez antes de nos separarmos, olhamos para ti e confessamos nossos desejos. Acompanha-nos em nossas atividades, protege-nos em nossas dificuldades. Acolhe-nos em nossas necessidades, porém, mais do que isso: Ensina-nos a partilhar nossos bens, nossos dons; ensina-nos relativizar as leis e as tradições que oprimem; dá-nos coragem para romper com tudo o que nos separa de ti. Teu é o Reino, teu é o verdadeiro poder e tua é a glória para sempre. Amém. (Inês de França Bento) Há um documentário, já antigo, mas muito atual, que poderá ser usado para estudos em grupos que se ocupam com a mesma temática durante a semana. Não é adequado para o momento do culto por ser extenso. Trata-se de Ilha das Flores, um curta-metragem brasileiro, do gênero documentário, dirigido por Jorge Furtado e produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre, disponível em: <https:// www.youtube.com/watch?v=bVjhNaX57iA>.
Bibliografia BENTO, Inês de França. Tempo Comum. In: ALVES, Rubens. Culto e Arte. Petrópolis: Vozes, 2000. PLETSCH, Rosane. 11º Domingo após Pentecostes: Mateus 14.13-21. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; IEPG, 2002. v. 27, p. 198-201.
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PRÉDICA: 1 REIS 19.9-18 MATEUS 14.22-33 ROMANOS 10.5-15
Nilton Giese
Sobre crises purificadoras
1 Exegese Um profeta exitoso, mas desmotivado O pastor e professor Carlos A. Dreher fez excelente trabalho exegético sobre esse texto no Proclamar Libertação, v. 18, de 1992. Menciono aqui alguns aspectos de sua reflexão: “Ao lado de Moisés, Elias é a maior figura profética do passado. Elias sempre se apresentou como uma pessoa forte e vigorosa. Foi capaz de determinar a suspensão de chuva e orvalho (17.1). Fez milagres assombrosos, até mesmo o de ressuscitar uma pessoa morta (17.8-24). Enfrentou o rei com destemor (18.17s; 21.17ss). Foi capaz de evocar fogo do céu, tanto para consumir o holocausto (18.38) quanto para eliminar os que o afrontaram (2Rs 1.9ss). Mas, agora, em 1Rs 19, é tudo ao contrário. Elias apresenta-se como um fracassado, angustiado, cheio de dúvidas e frustrações com relação à eficácia da fé que anuncia.” Como era a vida no lugar onde Elias vivia? O Reino de Israel surgiu como desmembramento do reino de Judá em 926 a.C. Naquele tempo, o rei Salomão impôs a todos os súditos uma série de impostos. As tribos do Norte se rebelaram contra o rei Salomão e fundaram um reino autônomo. Seu primeiro rei, Jeroboão I (926-907), foi sucedido por seu filho Nadabe. Mas o reino de Nadabe não durou dois anos. Ele foi assassinado por Baasa, que assumiu o trono (906-883). O filho de Baasa, chamado Ela, chegou a suceder o pai, mas, igualmente, não ultrapassou o período de dois anos. Dinastias não logravam configurar-se no reino de Israel. Isso não precisa ser avaliado negativamente. Certamente quer mostrar que no reino de Israel havia forças populares capazes de interferir no poder. Mas tudo muda a partir de 882 a.C. Naquele ano aconteceu uma disputa sucessória muito sangrenta que envolveu diversos pretendentes ao trono. O relato de 1 Reis 16.8-22 nos dá os detalhes. O general Zinri assassina o rei Ela, assumindo o poder em seu lugar. Mas Zinri ficou apenas sete dias no poder. Tempo suficiente para exterminar toda a família real. No entanto, uma nova revolta militar leva Zinri a cometer suicídio, incendiando o castelo real, no qual se encontrava. A partir de então, dois generais (Tibni e Omri) passam a disputar o poder, contando cada qual com apoio de parte do exército. Tibni é derrotado e Omri é o vencedor.
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Omri é elevado ao trono, que passa a ocupar com mão de ferro. Será o primeiro rei a conseguir instaurar uma dinastia em Israel, que durou 46 anos. Um período de estabilidade política e prosperidade econômica De Omri (882-871) sabemos que ele procurou dar sustentação a seu governo com uma série de alianças externas e internas, no que foi seguido por seu filho Acabe. Externamente, abriu caminho para a Transjordânia, subjugando os moabitas. Por meio do casamento de seu filho Acabe com a princesa Jezabel, conseguiu fortalecer as relações com as cidades costeiras da Fenícia, o que lhe propiciava abertura comercial para o Mediterrâneo. O filho Acabe (871-852) conseguiu, posteriormente, abrir o caminho para o sul, ao reatar relações com o Reino de Judá por meio do casamento de sua filha Atália com o príncipe herdeiro Jeorão, filho do davidida Josafá. Para o nordeste, os arameus ainda representavam problemas. Guerras constantes contra eles marcaram o período (1Rs 20; 22). A política dos reis omridas consistiu em buscar sustentação junto a todas as camadas e tendências da população. Isso incluía os cananeus, isto é, a população não javista do país. Os reis omridas defendiam a tolerância e até mesmo a assimilação do culto agrário a Baal. Isso não significou eliminação ou marginalização do javismo. Acabe continua adorador de Javé. O problema que se cria, porém, é o sincretismo. A população passa a ver Javé e Baal em pé de igualdade e, muitas vezes, chega a confundi-los. A pergunta de Elias no monte Carmelo é que melhor o evidencia: Até quando mancareis para os dois lados? (1Rs 18.21). O povo não vê mais diferença entre Javé e Baal. Do ponto de vista ideológico, Baal também vai ganhando espaço. Seu culto representa melhor o esquema hierárquico da realeza e justifica mais claramente uma monarquia com características absolutistas (1Rs 21). Por outro lado, o culto a Javé vai perdendo lugar. No Êxodo, o essencial era que Javé ouve os clamores do povo, que vai adiante deles na luta pela libertação. Esse Javé queria uma sociedade solidária e fraterna. Esse referencial utópico foi ficando para trás. O culto a Baal oferecia um horizonte imediatista, que oferece o pão de cada dia. O culto a Baal, tipicamente agrário, celebra o ciclo da natureza. Nesse culto, a fecundidade, tanto da terra como da vida animal e humana, tem papel central. A fertilidade promove a economia. Quanto mais produtos, tanto mais tributos, base para o comércio promovido pela corte. Por isso o rei defende o culto a Baal, o que lhe garante o direito ao tributo. É nesse contexto que Elias proclama a seca (1Rs 17.1). Agora a eficácia dos deuses está em discussão. Quem garante a natureza? Javé ou Baal? Contudo, o rei não está preocupado com as disputas religiosas. Isso parece ser coisa para Elias e para a mulher do rei, chamada Jezabel. Enquanto ambos brigam entre si, o rei persegue seus reais interesses. Em meio à seca, o rei Acabe não está preocupado com Deus nem com o povo. Ele quer garantir seus cavalos e seus mulos (1Rs 18.5), ou seja, a base do exército e do comércio. Cavalos são fundamentais para o exército; mulos transportam cargas nas caravanas. Mas Elias proclama que Javé não admite reis que não pensam no bem-estar dos mais pobres. Javé é o Deus que continua ouvindo o clamor do seu povo. A
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dinastia de Omri havia trazido prosperidade econômica a Israel. Mas ao mesmo tempo fez com que as pessoas abandonassem a utopia de uma sociedade justa e fraterna. A utopia de uma sociedade campesina solidária foi substituída por práticas cultuais devassas, que reduziam mulheres e homens, animais e a terra a meros objetos de reprodução. Mesmo que Elias tivesse feito várias demonstrações que o poder de Javé é superior ao de Baal, mesmo assim, o povo não queria saber. O culto a Baal era mais sedutor. A camada majoritária da população, inclusive os mais empobrecidos, se renderam às graças de Baal. Depois de muitos conflitos, Elias joga a toalha. Decide largar tudo com a justificativa: Só eu sobrei! A volta às origens Elias se retira, vai para Horebe/Sinai, local da revelação de Javé. O texto fundamental é Êxodo 3, no qual se dá a revelação de Javé por excelência, mas além dele, Juízes 5, Êxodo 19; 33; Deuteronômio 33. Todos eles identificam o monte santo como o local revelador da presença de Deus. Foi ali que Moisés conheceu o Deus que vê, que ouve, que conhece o clamor e a aflição de seu povo e que desce para livrá-lo (Êx 3.7s). Foi ali que se estabeleceu a aliança entre Javé e seu povo (Êx 19.1ss), dando-lhes a sua lei, reveladora de sua vontade (cf. Êx 24; 33). Não é, pois, à toa que Elias vai ao Horebe. Ele vai em busca de seu Deus, no momento de sua maior frustração. Estando em Horebe, Elias ouve a palavra de Javé: Que fazes aqui, Elias? Deus bem sabe por que Elias estava ali. Mas é necessário que ele mesmo expresse a razão de sua busca por Deus. E aí Elias conta sua história. Elias espera que Deus tome as dores de seu profeta e castigue o povo que virou as costas para Javé. Mas a resposta de Javé a Elias é outra. Deus deixa claro que ele não quer castigar o povo rebelde. Esses fenômenos da natureza (ventania, terremoto, fogo) são relatados em outros trechos da Bíblia como instrumentos do juízo de Deus. Ventania é um instrumento ameno do juízo de Deus (Jó 1.19; Jr 4.11-13; Ez 13.11-13; Jn 1.4; Êx 10.13; Sl 11.6). Terremoto é um instrumento mais forte do juízo de Deus (Ez 38.18-23; Mt 27.52). O fogo é um instrumento por excelência do juízo de Deus (Gn 19.24; Ml 3.19; Is 66.15s; Ez 38.22 e 39.6). No entanto, a ausência de Deus nesses fenômenos deixa bem claro que Deus não deseja a morte de seu povo, ainda que seja um povo incrédulo e desobediente. Elias deve ter ficado decepcionado. Ele esperava uma atitude de vingança de Javé. O que Deus vai fazer para castigar esse povo que trocou de utopia, que trocou de horizontes, que abandonou o compromisso de construir uma sociedade fraterna e justa por rituais de fertilidade? O que Javé vai fazer? Ouve-se apenas o som de uma calmaria silenciosa. Um silêncio audível. Só depois de ouvir esse silêncio é que Elias ouve a voz de Javé. Quando nada mais parece audível, então a voz de Javé se faz ouvir. E Javé pergunta outra vez: Que fazes aqui, Elias? Elias conta outra vez sua história. Mas ele já sabe que Deus não vai castigar o povo desobediente. Elias já entendeu que a presença de Deus não está no juízo. Mas Elias quer saber se Deus vai deixar tudo isso assim mesmo.
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E Deus responde dizendo que o povo precisa aprender com suas escolhas. Um povo que abandona a liberdade pela segurança, que trocou a liberdade pela segurança é um povo que reduziu seus horizontes de vida. Por isso, ao invés de anunciar o juízo, Deus envia Elias para “ungir” Hazael, Jeú e Eliseu. São lideranças que prometem segurança, mas a incumbência deles é nitidamente de juízo (quem escapar da espada de Hazael, Jeú o matará. Quem escapar da espada de Jeú, Eliseu o matará). Parece a mesma progressão dos instrumentos naturais (ventania, terremoto, fogo). No entanto, Deus volta a dizer que a destruição e a matança não são obras de Deus. São consequência das escolhas das pessoas. Deus não quer a destruição seu povo. Ele espera que seu povo se arrependa e volte para ele. Não apenas uma parte do povo. Mas todo o povo. O número sete mil é simbólico. O número sete simboliza a plenitude e mil a multidão. A salvação da plenitude da multidão, esse é o desejo de Deus.
2 Meditação As crises são purificadoras Martim Lutero ensinava que devemos ler os textos bíblicos com a seguinte pergunta: De que maneira esse texto promove a Cristo? Jesus está de acordo com o que esse texto ensina? Jesus chamava as pessoas a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Façam aos outros o que querem que eles façam a vocês, pois é isso que quer dizer a Lei de Moisés e os ensinamentos dos profetas (Mt 7.12). A predestinação na igreja luterana é que a salvação é para todas as pessoas. No entanto, quem decide se afastar do Pai, Jesus simplesmente o deixa ir. Assim foi com o jovem rico, foi assim com o filho pródigo (Mt 19.16-30 e Lc 15.11-32). Jesus convida, mas não obriga. Quando as pessoas se afastam da vontade de Deus, Jesus deixa simplesmente que elas experimentem o amargo de suas escolhas. Deus não castiga. Deus apenas fica para trás e deixa que a pessoa siga o caminho que escolheu. Em Mateus 12.22-33, a comunidade de discípulos no barco representa bem a imagem de uma igreja que deixa Jesus fora do barco. O barco é ameaçado pelas ondas. Nesse momento, o desespero dos discípulos é que Jesus não está com eles no barco. E de tão apavorados os discípulos não conseguem ver Jesus se aproximando. O medo os aterroriza. Para eles, real é apenas aquela forte tempestade. Por isso as crises não representam o castigo de Deus. Crises são oportunidades de purificação, por meio das quais Deus quer nos fazer ver que andamos por caminhos equivocados e que necessitamos libertar-nos de interesses pessoais, das falsas teologias, de convicções políticas enganosas e dos horizontes imediatistas. O apóstolo Paulo enfatiza que todas as pessoas são pecadoras e necessitam da justificação por graça da parte de Deus. Mas o apóstolo Paulo externa sua preocupação e tristeza com o fato de que justamente o povo de Israel, ao qual foram conferidas as promessas de Deus e do qual partiu a salvação de Deus para o mundo, não entendeu/aceitou o propósito de Deus de salvar a todos por meio de sua graça manifestada em Jesus Cristo. Até mesmo o povo de Israel foi envolvido por caminhos próprios de salvação/justificação, rejeitando o caminho proposto por Deus.
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Os caminhos próprios de salvação, a navegação da comunidade de discípulos sem a presença de Jesus, tudo isso ainda representa ainda hoje uma tentação para a igreja. Isso acontece quando a igreja decide fazer um planejamento olhando apenas para si mesma, preocupada apenas com situações imediatas de falta de dinheiro ou de baixa participação dos membros.
3 A caminho da prédica Antes de definir ações e atividades para resolver problemas imediatos, precisamos revisitar o sentido de nossa utopia. A que Deus queremos servir? Aquele que garante apenas o pão de cada dia? Ou um Deus que, além do pão, quer que construamos um mundo com paz, fraternidade e justiça? Javé – o Deus de Elias – deseja um mundo de liberdade e de justiça, onde as pessoas sejam solidárias e vivam como irmãos e irmãs. Uma realidade assim talvez seja impossível de alcançar. Mas a utopia é mais necessária que o pão. Já dizia o poeta Mario Quintana: “Se as coisas são inatingíveis... ora! Não é motivo para não querê-las... Que tristes os caminhos, se não fosse a presença distante das estrelas!”. A utopia não é o oposto da realidade. A utopia pertence à realidade. Sem ela seria impossível falar de esperança. Ficaríamos apenas com o que nos pode oferecer o deus Baal. Um conformismo e uma apatia diante da boa sorte – ou má sorte – da vida. No entanto, a utopia sempre fará que digamos NÃO a qualquer situação opressora. Por isso os grupos portadores de sentido como as igrejas cristãs, nos momentos de crise pessoal e institucional, devem manter viva a utopia do reino de Deus. Como comunidade cristã, nós devemos resolver nossas crises, não apenas com atitudes imediatistas, mas com a reflexão sobre nossos horizontes utópicos.
4 Subsídios litúrgicos Oração Senhor, nosso Deus e Pai, que cuidas de nós com amor de mãe. Ensina-nos o silêncio da humildade, o silêncio da sabedoria, o silêncio que fala sem palavras. Amar em vez de odiar, conquistar amigos, responsabilizar-se pelo bem-estar dos outros, começar de novo, enxergar-se a si mesmo nos outros, perdoar a culpa. Essa é a utopia que alimenta nossa fé em ti. Nos momentos de crise, dá que tenhamos ouvidos abertos para ouvir o sopro do teu Espírito Santo. Em nome de Jesus. Amém. Bênção Trilha o teu caminho e não deixes a dúvida tomar conta de ti. Lembra-te: o Senhor te acompanhará quando procurares fazer o que for correto. Nos momentos de escuridão, ele será a tua luz. Sê confiante e perceberás tal verdade. Que assim Deus te abençoe. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
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PREGAÇÃO: MATEUS 15.21-28 ISAÍAS 56.1,6-8 ROMANOS 11.1-2a,29-32
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16 AGO 2020
Marcia Blasi Ketlin Lais Schuchardt
Um encontro transformador
1 Introdução O Evangelho de Mateus se distingue dos demais sinóticos em vários aspectos. Particularmente chama atenção o papel das pessoas estrangeiras na relação com Jesus. O texto indicado para pregação é uma narrativa de um encontro entre Jesus e uma mulher estrangeira, apresentando as tramas da vida cotidiana, a importância das experiências das pessoas, a sabedoria e a fé transformadora da mulher e a universalidade do reino de Deus. A passagem de Romanos 11.1-2a,29-32 faz menção à infidelidade de Israel e à misericórdia de Deus, reafirmando a inclusão do povo gentio. A partir da pergunta que se desenrola nos capítulos anteriores (9 – 10), sobre a fidelidade de Deus em relação à sua promessa de libertar e salvar o seu povo, o capítulo 11 é a confirmação de que Deus é, sim, fiel à sua promessa de salvação. O texto de Isaías nos fala de um pedido muito especial, um pedido pela manutenção dos direitos e da prática da justiça. Deus reitera sua promessa de salvação e inclui também as pessoas estrangeiras no plano de salvação. Ambas as passagens apresentam um Deus misericordioso, que oportuniza a aproximação, o encontro e a inclusão para viver o seu Reino.
2 Exegese e comentário V. 21 – Por conta de conflitos com as autoridades religiosas judaicas sobre a interpretação correta da Lei, especialmente pela controvérsia sobre a transgressão das leis e tradições de pureza e impureza, Jesus saiu da Galileia e partiu para as terras de Tiro e Sidom. Essas terras faziam parte da Fenícia, que pertencia à Síria, na faixa costeira do mar Mediterrâneo, uma região entre a Galileia e o mar. Ele e os discípulos estavam em terras estrangeiras. Os altos impostos cobrados pelas autoridades obrigavam camponeses e camponesas a sobreviver em condições de pobreza e fome. Talvez Jesus tenha optado por essa localidade com o intuito de passar sem chamar muito a atenção, mas a sequência do texto mostra que, mesmo nos lugares mais longínquos e em terras estrangeiras, Jesus já era conhecido. V. 22 – Veio ao encontro de Jesus, clamando, uma mulher cananeia (o evangelista Marcos afirma a identidade da mulher como siro-fenícia). Trata-se de uma mulher que não pertencia à tradição judaica; era uma gentia. Seu nome não é
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mencionado, somente sua origem étnica. A mulher roga por sua filha e se refere a Jesus como “filho de Davi”, o que indica que ela conhecia a fama de Jesus, mestre da Galileia, e esperançava no seu poder de curar sua filha. V. 23 – Em Mateus 8.5-13, Jesus atendeu ao apelo de um gentio, um centurião que pediu pela cura de um rapaz. Em Mateus 8.28-34, Jesus estava em território gentio e exorcizou duas pessoas endemoniadas. Dessa vez foi diferente, Jesus, em sua primeira reação, apenas silenciou. Incomodados e constrangidos com o silêncio de Jesus e os gritos de clamor que não cessavam, os discípulos pediram: Despede-a!. V. 24 – A resposta de Jesus foi dura: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Segundo algumas pesquisas, Jesus sabia que dedicar-se extensivamente ao povo gentio e samaritano (inimigo do povo judeu) poderia comprometer a aceitação de sua missão messiânica entre o povo judeu, para o qual, segundo as profecias, fora enviado. Imperava nesse tempo a perspectiva de exclusividade de um povo. A mensagem de um reino universal era ainda revolucionária e assustadora demais, ou até mesmo Jesus não se sentia ainda preparado para tal. V. 25 – Sem desanimar, a mulher fez o que estava ao seu alcance. O sofrimento da filha era grande e ela estava convencida de que era uma oportunidade única de ver sua filha liberta. Talvez tomada por desespero e esperança, medo e confiança, a mulher se ajoelhou diante de Jesus e clamou por socorro. Em sua ação, a mulher demonstrou ser portadora de uma fé notável e transformadora. V. 26 – Diante da ação da mulher, a resposta de Jesus foi ainda mais dura. Usou uma metáfora ofensiva para convencê-la a deixá-los seguir o caminho sem mais alvoroço. Jesus diz: Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorros. Chamar uma pessoa de “cachorro” era um enorme insulto (veja Mt 7.6). V. 27 – Mesmo com toda humilhação, a mulher assumiu o risco de receber uma resposta ainda mais dura. Ela recriou o discurso e reagiu com seu poder argumentativo: Porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem das mesas de seus donos. Mesmo embaixo da mesa os cachorrinhos também participam da abundância da casa. A mulher sabia sua origem e sua condição. Ela não esperava fazer parte do banquete, mas confiava que até as migalhas das bênçãos de Deus eram suficientes para salvar sua filha. V. 28 – O argumento da mulher convence Jesus então e ela recebe o que pede: Ó mulher, grande é tua fé. Seja feito para contigo como tu desejas.
3 Meditação Nos versículos anteriores ao texto indicado para a pregação, Jesus havia ensinado discípulos, multidão e até alguns fariseus de que o que contamina a pessoa não é o que entra pela sua boca, mas o que sai dela, aquilo que sai do seu coração e se manifesta na vida como homicídio, adultério, roubo, falso testemunho (Mt 15.19). O texto deixa implícito que não é a raça, o gênero, a etnia, as deficiências ou classe social que define a pessoa, mas a maneira como ela vive a sua vida.
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A mulher cananeia saúda Jesus com as palavras: Filho de Davi, tem compaixão de mim. Conscientemente ou não, o que a mulher faz é lembrar a ancestralidade comum que tanto Jesus como ela têm, afinal, três mulheres na genealogia de Jesus em Mateus 1.1-16 são mulheres estrangeiras: Raabe, Tamar e Rute. As ancestrais da mulher são ligadas às ancestrais de Jesus. Ao chamar Jesus de Senhor, a mulher demonstra que reconhece o seu poder e compaixão por todas as pessoas que chegam até ele. Ela pede que ele tenha compaixão dela. É um pedido pessoal e familiar. O que aflige a filha também a atinge. A mulher apresenta seu pedido e anseia pela cura. O que vem não é o que ela espera. Difícil imaginar o silêncio de Jesus ao apelo da mulher que acontece logo depois desses ensinamentos. Ela é uma mulher que precisa de ajuda, e o que ele dá é o silêncio. Quando ele fala a resposta é ainda pior. Jesus a compara aos cachorros, animal desprezado pelo povo judeu. Muitas pessoas já tentaram explicar ou abrandar essa atitude de Jesus, mas ela revela a necessidade constante de ouvir e refletir. A mulher é rápida e ousada. Como muitas mulheres, deve conhecer bem palavras duras e insensíveis. Como mãe de uma criança doente, ela deve ter ouvido muitas acusações e respostas vazias. Para ela já basta! Ela reivindica o direito à vida digna. Ela confessa que há o suficiente para alimentar quem tem fome. Nesse ponto acontece uma reviravolta na narrativa. Ao assumir que pode ser uma “cachorrinha”, a mulher reivindica seu lugar ao redor da mesa – ou embaixo da mesa. Jesus percebe isso. Provavelmente ela sentia na pele a condição de viver recebendo migalhas, tanto de comida como de dignidade. Ela entendia muito bem a importância de dar prioridade para as crianças, pois ela mesma o estava fazendo, seu objetivo era curar a filha. Foi na sua resposta a Jesus que a mulher transformou a metáfora que excluía numa metáfora de inclusão. Jesus foi desafiado a repensar suas palavras e atitudes. Ele muda de ideia e não somente cura a filha, mas garante que ao redor da mesa sempre haverá espaço para quem quiser e precisar (veja a meditação da Pa. Vera Weissheimer no PL 32, p. 257). É interessante que Jesus nunca diz que a filha está curada, mas que será feita a vontade da mulher. A persistência e a fé da mulher mudaram a situação, viraram a mesa. A fé gera persistência e a persistência alimenta a fé. De qualquer maneira, a persistência e a fé são capazes de transformar as pessoas e o mundo.
4 Imagens para a prédica O mundo vive uma crise humanitária, ambiental, ética e social. A cada dia os meios de comunicação mostram imagens de pessoas tentando atravessar mares em barcos superlotados, atravessar muros e fronteiras. São pessoas migrando em busca de vida, de comida, de segurança, de dignidade. Os riscos para as mulheres geralmente são maiores. Muitas vezes elas são obrigadas a “pagar passagem” com seus próprios corpos. Ser uma pessoa estrangeira em qualquer lugar, também no Brasil, não é fácil no contexto atual. A cada dia há notícias de atos de violência. A xenofobia, o ódio a pessoas estrangeiras é realidade diária em nosso país e ao redor do mundo.
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Inicie a pregação trazendo relatos de acontecimentos recentes. Reflita com a comunidade como é a vida de um povo forçado a migrar por guerras e violência. Sempre é bom lembrar que muitas famílias de imigrantes que vieram da Europa a partir de 1800 vieram por necessidade e buscando vida digna. Não são somente as pessoas de hoje tentando entrar na Europa ou nos EUA que fazem isso. A história humana é uma história de migrações. Reflita com a comunidade a angústia de acompanhar uma criança doente sem encontrar respostas e não ter a possibilidade de buscar a ajuda necessária. Essa carga muitas vezes é assumida sozinha pelas mulheres. A ação, a insistência e persistência da mulher cananeia podem ser presenciadas a cada dia nas filas nos postos de saúde e emergências dos hospitais. Lembre-se de mencionar que Jesus foi desafiado por uma mulher estrangeira, mas, na verdade, ele também é estrangeiro quando é procurado pela mulher. Ele está em Tiro e Sidom. Esse fato muitas vezes passa despercebido. Mesmo assim, a mulher o saúda com respeito e reconhece que ele é o Messias anunciado ao povo judeu e pede ajuda. Pela sua fé insistente, sua perspicácia e ousadia, Jesus abre seu ministério para todas as pessoas que precisam dele. A graça e o amor de Deus se manifestam onde menos esperamos. Mesmo que a acolhida a pessoas estrangeiras possa causar medo e insegurança, ela pode também trazer a oportunidade de conhecer novas culturas e tradições. Mudar conceitos, ideias e pensamentos não precisa significar perdas. Mudar de ideia amplia horizontes, e Jesus não teve medo de fazer isso. Já não é possível ter mesas fartas e desperdício enquanto milhares vivem embaixo das mesas brigando pelas migalhas que caem. Que assim como a mulher cananeia, reconheçamos nosso lugar como filhas e filhos de Deus e ousemos propor outro modelo de vida digna para todas as pessoas. O encontro entre Jesus e a mulher cananeia foi transformador tanto para a mulher como para Jesus. Que seja assim também na nossa vida.
5 Subsídios litúrgicos Hinos
LCI 605 (Momento novo). LCI 155 (Deus é meu amparo).
Oração Deus de amor, agradecemos por nos reunires como tua família. Ao redor do mundo, muitos filhos e muitas filhas tuas clamam por auxílio. Há doenças que não entendemos. Há angústias e dores de todos os tipos. Há pessoas espalhando ódio e rancor. No meio de tudo isso, nós confiamos na tua promessa de não nos deixar sós. Ajuda-nos a testemunhar teu amor, acolhendo as pessoas aflitas com compaixão. Isso te pedimos por Jesus Cristo, teu Filho amado. Amém. Kyrie
LCI 56 (Pelas dores deste mundo, ó Senhor).
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11º Domingo após Pentecostes
Bênção Que a insistência, a perseverança e a coragem para argumentar brotem e floresçam em ti, para que tuas decisões possam ser ouvidas e tuas necessidades respeitadas. Que tua boca profira palavras de bênção e tua voz seja ouvida quando se faz necessário clamar, gritar e denunciar. Que o silêncio e o medo sejam afastados de ti, para que novos diálogos e possibilidades de se relacionar façam parte da tua caminhada. Que tuas experiências cotidianas não sejam de migalhas de felicidade, migalhas de dignidade, migalhas amor e migalhas de justiça. Mas que, como um farto banquete, as alegrias preencham tua casa e tua vida. Que a fé e ousadia da mulher cananeia nos inspirem na luta por justiça social, no combate à pobreza, à violência, e nos animem a manter vivas a esperança e universalidade do reino prometido. Que assim nos abençoe o trino Deus. Amém. Envio
Vão em paz e acolham irmãs e irmãos com alegria.
Bibliografia CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium, 1982. 6 v. REIMER, Ivoni Richter. “Não temais... Ide ver... e anunciai: mulheres no Evangelho de Mateus. RIBLA. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, n. 27, 1997. p. 149-166. WEISSHEIMER, Vera. Mateus 15.21-28. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 2007. v. 32, p. 255-258.
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12º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
23 AGO 2020
PRÉDICA: ROMANOS 12.1-8 ISAÍAS 51.1-6 MATEUS 16.13-20
Walter Altmann
Não se conformar, mas deixar-se ser transformado
1 Introdução 1.1 O contexto histórico da Epístola aos Romanos A carta do apóstolo Paulo aos romanos é aquela que mais se aproxima de uma sistematização de sua teologia. Ele a escreve em Cencreia, cidade portuária grega, perto de Corinto, em algum ano da segunda metade da década de 50 depois de Cristo, antes de viajar de volta a Jerusalém, para fazer a entrega da coleta que efetuou nas comunidades que surgiram de sua pregação ou pelas quais passou em sua atuação missionária até então, em benefício dos pobres dentre os santos que vivem em Jerusalém (Rm 15.26). Era um compromisso que ele assumira no concílio de Jerusalém (At 15). Depois disso Paulo pretendia missionar na Espanha, no extremo oeste do Império Romano, após haver criado comunidades na parte leste do império. Ele passaria então por Roma (Rm 15.24), capital do império, onde já havia comunidade(s) cristã(s), oriunda(s) possivelmente de judeus convertidos à fé cristã e lá residentes, mas entrementes também com membresia gentílica. De forma muito diferente do que planejado, Paulo haveria de chegar a Roma, com o que os Atos dos Apóstolos encerram seu relato, mas jamais haveria de alcançar a Espanha. Ele foi preso ainda em Jerusalém sob a acusação de haver profanado o Templo (At 21.27-29); e posteriormente, acusado de sedição (At 24.5-6), foi enviado a Roma por ter cidadania romana. Preso em Roma por dois anos, haveria de, com toda probabilidade, ser condenado à morte e executado por decapitação, modalidade prevista para os cidadãos romanos. A essa comunidade cristã em Roma Paulo se apresenta a si e a sua teologia. Contrariamente a outras epístolas, em que Paulo se reporta a situações específicas e concretas, inclusive conflitos, nas comunidades a que se dirige, nessa Paulo faz “simplesmente” uma espécie de balanço de sua atuação apostólica e, por assim dizer, um resumo de sua teologia. Daí sua alta relevância. (Mais informações, em minha contribuição sobre Romanos 5.1-5, no PL 40, p. 168-170.) 1.2 A importância da Epístola aos Romanos na história da igreja Desde os tempos da igreja antiga até hoje, a Epístola aos Romanos tem exercido uma influência decisiva em momentos cruciais da história da igreja e do desenvolvimento teológico.
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Destaque-se a importância para a Reforma. É amplamente sabido que a chamada “redescoberta do Evangelho” por Lutero se deu a partir da passagem de Romanos 1.17, a partir da qual ele desenvolveu a doutrina da justificação pela fé, pela fé somente, conforme entendimento também de Romanos 3.28. Essa nova compreensão da justificação não só ocasionou uma reviravolta na vida de Lutero, como se constituiu no núcleo central de toda a pregação da Reforma. Já para o fim da vida, em 1546, no Prefácio à Epístola de S. Paulo aos Romanos, Lutero haveria de escrever: “Esta epístola é, sem dúvida, o escrito mais importante do Novo Testamento e o mais puro evangelho. É digno e merecedor de que o cristão não só o conheça de cor, palavra por palavra, mas também com ela se ocupe diariamente, como pão diário para a alma, pois ela jamais poderá ser lida ou contemplada em demasia” (LUTERO, 2003, p. 129). Já o Reformado João Calvino escreveu, em 1539, importante comentário à Epístola aos Romanos, em que afirma em seu início que “se porventura conseguirmos atingir uma genuína compreensão desta Epístola, teremos aberto uma amplíssima porta de acesso aos mais profundos tesouros da Escritura” (CALVINO, 2001, p. 23). É sabido também que a leitura dos textos de Lutero acerca de sua experiência espiritual ao interpretar Romanos foi catalisadora para a própria experiência espiritual de João Wesley, de cuja pregação e atuação veio a surgir o metodismo. Já no século 20, após a Primeira Guerra Mundial, um comentário à Epístola aos Romanos, neste caso de Karl Barth, em duas edições bastante diferentes uma da outra, de 1919 e 1922, serviu para uma reviravolta fundamental na própria história da Teologia. Barth acentuou a alteridade de Deus, contrapondo sua ação misericordiosa a todo e qualquer projeto do ser humano de se estabelecer ele próprio como seu deus.
2 Considerações exegéticas O apóstolo Paulo começa o capítulo 12 com uma exortação que introduz os capítulos a seguir, dedicado às consequências práticas para a vida de quem foi justificado pela fé, e isso na comunhão de irmãos e irmãs na fé. Dizer que é uma “ética”, após os capítulos “dogmáticos” de 1 a 8 (e os capítulos 9 a 11 que tratam da relação entre judeus e gentios) é um exagero. O que é correto é reconhecer, nos capítulos iniciais, o caminho da salvação, ficando superado o estado de pecado do ser humano, e isso exclusivamente pela graça de Deus, recebida em fé. À base dessa premissa, o apóstolo dá orientações para a vida de quem chegou à fé, como resposta à ação de Deus. É o sentido da referência às misericórdias de Deus logo no início do v. 1. Como se Paulo dissesse: “Do fato de que vocês são pessoas beneficiadas pelas misericórdias de Deus decorre que vocês agora vivam da maneira a seguir descrita”. Será um “culto [serviço] a Deus em meio ao mundo” (KÄSEMANN, 1974, p. 313). A seguir, fica realçada a radicalidade dessa nova “postura” de vida. A referência ao “corpo” deve ser entendida no sentido de integralidade da entrega a que o apóstolo exorta. De um lado, não se trata, pois, de uma simples renovação
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espiritual, no sentido de que se tenha chegado à fé e se passe a louvar a Deus, mas em uma mudança que abarca a pessoa por inteiro. Isso fica realçado também pelo toque antiespiritualizante que pode se depreender da referência a um “culto racional”. Fé cristã não se externa simplesmente em emoções, mas também em raciocínio. Também esse presta culto a Deus, quando calcado na misericórdia recebida na fé. De outro lado, não se pode extrapolar esse sentido, como se o apóstolo estivesse excluindo a dimensão espiritual da vida de fé. A entrega do corpo é ela própria um exercício espiritual. A referência ao “sacrifício” leva à culminância a exortação à apresentação do “corpo”. Trata-se, realmente, de uma entrega total, não de uma parte ou algo ocasional, vez por outra, em determinadas circunstâncias etc. É total “nosso ser relacionado ao mundo”, “no cotidiano” (KÄSEMANN, 1974, p. 315). Há, naturalmente, a associação ao sacrifício de cordeiros no templo judaico. Mas, no entendimento cristão, esses foram substituídos pelo sacrifício do Cordeiro Jesus de uma vez para sempre. Contudo, o termo “sacrifício” ainda pode ser utilizado, como aqui, para a própria vida em decorrência da fé, expressando sua radicalidade, mas já não é um sacrifício que mata, mas um sacrifício “vivo”, isto é, contínuo, sempre em todas as esferas e momentos da vida. Assim, ele também é “santo e agradável a Deus”, pois desdobra para dentro da realidade do mundo a própria vontade de Deus. (Ainda no entendimento de KÄSEMANN, 1974, [p. 315 e 317], Paulo pode estar aqui empregando, em parte, elementos de uma parênese batismal.) O v. 2 exemplifica ainda mais claramente a consequência dessa nova vida: uma não conformidade com o estado atual do mundo leva a uma radical transformação do próprio eu, pelo qual a mente, motivada pela fé, se torna capaz de reconhecer qual é, naquela realidade, a vontade de Deus que não coíbe a liberdade, mas é boa e agradável, não é parcial, mas perfeita. Mais uma vez, também desse ângulo, fica claro que se trata de uma transformação radical de todo o ser. “Verdadeiro culto a Deus significa congruência com a vontade de Deus para louvor a ele no pensar, no querer, no agir” (KÄSEMANN, 1974, p. 316). A partir do v. 3, pelo restante do capítulo 12, mais 13, 14 e até 15.13, o apóstolo Paulo desdobra as premissas teológicas estabelecidas nos v. 1-2 em consequências práticas para a vida. Não o faz de modo legalista, prescrevendo ações específicas para situações determinadas, mas colocando tudo sob o critério formulado em 13.8: A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei. Na perspectiva do amor, há grande liberdade nas escolhas práticas. Ainda assim, o apóstolo Paulo dá uma série de outras recomendações a considerar. Ele de imediato chama a atenção para o fato de que a vida se desenvolve sempre na relação com outras pessoas e, no caso da pessoa que chegou a crer, em comunhão com outras pessoas que compartilham sua fé. Ela integra um corpo (v. 4) e desse é um membro, um entre vários outros. Logo, cada qual deve pensar com moderação (v. 3) acerca de si, acerca de seu papel nesse corpo. Há um limite de “conveniência” em como pensar de si mesmo, e o limite é dado precisamente pelo alcance dos demais membros. Inclusive a fé não deve ser vista
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como algo absoluto, também ela tem uma medida (ainda v. 3) e deve se somar à fé de outras pessoas no corpo. São mencionados vários carismas (dons), sempre com a menção de um determinado espírito em que eles devem ser exercidos. Dentre os carismas é mencionada, em primeiro lugar, a profecia (v. 6), que devemos entender não erroneamente como a previsão de eventos futuros, mas como a própria proclamação do Evangelho da salvação, do qual o apóstolo, já lá no início da carta, disse não se envergonhar (1.16). Logo, esse carisma deve ser exercido “na proporção da fé”, pois é à fé que a proclamação convoca. Em segundo lugar, é mencionado o ministério. Melhor tradução é a diaconia, isto é, o serviço às pessoas necessitadas, assumido como tarefa com a qual a própria comunidade é incumbida. É um serviço que sem dúvida requer dedicação (v. 7a), desprendimento. Em terceiro lugar, o ensino, a catequese podemos dizer, que deve ocorrer com esmero (v. 7b). Em quarto lugar, o ofício de exortar, que podemos entender como o cuidado pastoral, o qual requer dedicação (v. 8a). Seguem-se, sem grande distinção, a contribuição (doação), dada com liberalidade, entenda-se particularmente às pessoas pobres (v. 8b), o ofício de presidir, na comunidade, que seja com diligência (v. 8c), e a misericórdia, ações gerais de amor, que ocorram com alegria (v. 8d).
3 Meditação Paulo retoma aqui o tema de corpo e membros, já abordado na Primeira Epístola aos Coríntios (caps. 12 e 13), também o tema dos carismas (dons). Como lá, os membros, com seus respectivos dons, se complementam e nenhum pode se sobrepor aos demais. Como lá, também aqui, a descrição culmina com o dom do amor (1Co 13). À diferença da exposição em 1 Coríntios, a relação dos dons é em Romanos mais sucinta. Falta, em especial, qualquer referência àqueles dons que se convencionou equivocadamente de considerar como carismáticos, como os dons de curar, o de operar milagres e o falar em línguas (1Co 12.9-10). Não se deve derivar desse fato que Paulo não os considerasse dons legítimos no corpo de Cristo, se não teria feito uma crítica contundente a eles na Primeira Carta aos Coríntios. Mas pode-se concluir que ele não os considerava dons indispensáveis no seio de uma comunidade, se não os teria mencionado em Romanos. É um testemunho eloquente de que para Paulo também na forma em que uma comunidade vive e se organiza deve prevalecer não uma imposição legalista, mas a liberdade do amor. Todo e qualquer dom é carismático, no sentido de que ele provém do Espírito de Deus. Observa-se ainda em Romanos, mais claramente do que em 1 Coríntios, que, ao empregar a imagem do corpo e seus membros, Paulo não sugere qualquer hierarquia entre os dons, a não ser que se quisesse entender a sequência como uma ordem hierárquica, o que consideramos descabido. Paulo fala que há diferentes dons (v. 6), não de que haja dons superiores e outros inferiores; todos são de igual valor, ainda que diferenciados, porquanto todos segundo a graça que
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nos foi dada (v. 6), indistintamente a todos. O que importa é que eles têm funções diferentes (v. 4), e assim se complementam uns aos outros. Encaminhando-se à pregação, há que considerar, então, os seguintes aspectos: Primeiramente, trata-se em Romanos 12.1-8 de uma palavra à comunidade cristã e a cada um de seus membros. Ou seja, não se trata de um tratado ético para a organização da sociedade em geral ou exortações à convivência humana, mesmo que alguns dos critérios arrolados possam servir para uma boa convivência na sociedade também. Aqui é abordado fundamentalmente o ser humano como alguém que pela graça de Deus foi justificado e chegou à fé, e está inserido numa comunidade de irmãos e irmãs. Em segundo lugar, é importante observar que Paulo faz suas exortações à conduta cristã não como algo que a pessoa cristã pudesse produzir a partir de suas qualidades morais pessoais, mas apenas à base do fato de que foi uma pessoa agraciada pelo agir de Deus em Cristo. Seu agir torna-se uma resposta de louvor a Deus, em ação direcionada em favor de seu próximo. Por ser uma resposta à ação de Deus, ela pode ser dada não como carga, mas em grande liberdade e alegria. Em terceiro lugar, não há na perícope nem no contexto textual de Romanos qualquer legalismo. Cada membro e a comunidade como tal são chamados a discernir em responsabilidade própria qual a vontade de Deus, condizente com as necessidades reais e com os dons a cada qual conferidos. Ainda assim, a vida cristã se caracteriza por radical renovação pessoal de todo o ser. Há nela essencialmente uma dimensão de não conformidade com o estado do mundo com seu pecado, seu mal, sua violência, sua injustiça e quanto mais se quiser agregar. Essa não conformidade implica uma transformação de todo o ser, a começar pela própria mente, mas abrangendo a orientação da pessoa, não mais voltada para si mesma e seus interesses próprios, mas engajada na comunidade e em favor do próximo que padece necessidade. Assim, em quarto lugar, ainda que inserida na vida da comunidade de fé, a ação de quem crê não se limita à fronteira dessa comunidade, mas, ao contrário, prioriza a ação para além desses muros, para dentro da sociedade. Por meio de proclamação, diaconia, ensino e serviço, a comunidade cristã não pensa prioritariamente em si mesma, mas antes de tudo em dar um testemunho vivo no seu entorno, tornando-se um instrumento da paz e da justiça. Por fim, em quinto lugar, fica realçado que os carismas (dons) são multiformes e todos contribuem para um testemunho eficaz e de credibilidade. Será preciso tomar em conta que todos eles gozam da mesma dignidade na comunidade cristã como corpo de Cristo, que é constituído pela conjunção de todos os seus membros. O verdadeiro culto a Deus consiste na “entrega da existência corpórea no espaço costumeiramente designado de profano e, exigido de modo permanente, no cotidiano do mundo, processo em que cada pessoa cristã é simultaneamente sacrifício e sacerdote. Aqui se proclama o sacerdócio geral de todas as pessoas que creem” (KÄSEMANN, 1974, p. 317).
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4 Pistas para a prédica O tema da prédica sugerido é: não se conformar, mas deixar-se ser transformado. Esse poderia ser muito brevemente mencionado no início da prédica, para ser retomado mais adiante. A seguir, poderia ser referida a imagem óbvia que o próprio texto traz: o corpo e seus membros, de fácil compreensão. Dever-se-ia realçar a diversidade dos membros e sua complementaridade no corpo, inclusive que são iguais em dignidade, só distinguindo-se por função diversa. Pode haver referência ao sacerdócio geral das pessoas que creem. O passo seguinte pode ser a referência a que esse corpo, a comunidade, e cada um de seus membros, isto é, cada pessoa que crê, são chamados a servir com seus dons, não apenas no âmbito da própria comunidade (o que tampouco fica excluído), mas sobretudo em suas relações com o próximo, seja no âmbito familiar, profissional ou na sociedade. A comunidade e cada um de seus membros são chamados a ser instrumentos de paz e justiça na sociedade, bem como de cuidado para com qualquer pessoa que padece necessidade. A seguir o tema da prédica pode ser retomado. A comunidade cristã e cada um de seus membros, tendo experimentado a ação misericordiosa e salvadora de Deus, já não podem se conformar com o estado do mundo, com suas mazelas, injustiças e sofrimentos. Logo, se dispõem a serem transformados em suas vidas pelo amor de Deus, tornando-se também instrumentos desse amor em suas relações, em seu meio. Por fim, pode-se concluir que tudo isso é a forma viva de louvor a Deus em nossas vidas.
5 Subsídios litúrgicos As orações do culto haverão de expressar: 1. O pedido de perdão para quando tenhamos pensado mais em nós mesmos, em vez de em nosso próximo em suas necessidades e quando, como comunidade, tenhamos dado atenção apenas às atividades internas dela, descuidando-nos da tarefa de testemunhar a fé na sociedade. 2. A gratidão por Deus, em sua graça, ter-nos conduzido do pecado à fé, de modo que podemos viver transformados e em liberdade. 3. Pedido a Deus que possamos viver, em amor, a serviço de nosso próximo, de pessoas com necessidades, discriminadas ou excluídas. 4. Pedido a Deus que nossa comunidade e a igreja toda possa ser, em palavra e ação, um sinal de paz de justiça, e dar um testemunho eficaz ao amor de Deus a todo e qualquer ser humano. Sugestão de hinos LCI 591 [HPD II, 446] – Arde a voz em meu peito. LCI 575 [HPD II, 432] – Canção de caminhada.
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Bibliografia KÄSEMANN, Ernst. An die Römer. 3. ed. revista. Tübingen: Mohr (Siebeck), 1974. p. 313-330. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia. 2003. v. 8: Interpretação Bíblica; Princípios, p. 129-141 e 321-323. CALVINO, João. Romanos. 2. ed. São Paulo: Parakletos. 2001. p. 23-31 e 431-445.
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PRÉDICA: MATEUS 16.21-28 JEREMIAS 15.15-21 ROMANOS 12.9-21
13º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
30 AGO 2020
Marcelo Jung
Lições do caminho do discipulado
1 Introdução Antes do tempo de Pentecostes (iniciando no Advento), a igreja cristã lembra de modo especial o indicativo de Deus, ou seja, o que Deus, em seu amor, fez em nosso favor: sua vinda ao nosso encontro pela encarnação em Jesus Cristo; sua revelação em Jesus Cristo a todos os povos; a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo para a salvação de todas as pessoas; o envio do Espírito Santo como cumprimento da promessa de Jesus Cristo. Após o tempo de Pentecostes (até o domingo da Eternidade ou de Cristo Rei) a igreja cristã lembra de modo especial o imperativo de Deus, ou seja, ao que a igreja cristã é chamada, animada e capacitada a realizar como resposta ao amor de Deus: viver a nova vida em Jesus Cristo pelo testemunho, crescimento, amadurecimento, fidelidade à palavra de Deus; imitação de Jesus Cristo; e espera pela sua volta. Por ser um tempo após Pentecostes, a lembrança do imperativo de Deus é acompanhada pela certeza de que é somente no poder e na ação do Espírito Santo que a igreja pode fazer aquilo que é chamada a fazer. Igreja se realiza e realiza sua obra com a participação humana, mas não é projeto e realização humana, é resultado da ação do Espírito Santo na vida das pessoas que creem em Jesus Cristo. É sob essa perspectiva do tempo após Pentecostes que somos convidados a fazer a leitura e o preparo do texto de Mateus 16.21-28. Numa primeira leitura já é perceptível que o tema principal da perícope pode ser chamado de “caminho do discipulado” (ou “caminho do seguimento a Jesus”). A conexão com os textos previstos para a leitura bíblica se dá: pela vivência do “discipulado” do profeta Jeremias (Jr 15.15-21), o qual necessitou de uma espécie de renovação do chamado e das promessas que o acompanhariam (v. 19), visto que estava questionando se o caminho que estava se colocando à sua frente era realmente o caminho proposto por Deus pelo qual ele deveria seguir (v. 18); e pelas orientações práticas da vida de discipulado para a qual Paulo chama a igreja de Roma a viver pela fé em Jesus Cristo (Rm 12.9-21).
2 Exegese Como proposta de estrutura, percebe-se que a perícope é composta por três momentos: Jesus expõe com clareza o seu caminho (v. 21); seu discípulo Pedro o
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questiona a respeito do caminho (v. 22); e Jesus corrige Pedro e expõe com clareza e ênfase, a Pedro e aos demais discípulos, não somente o seu caminho, mas também o caminho dos seus discípulos e o resultado do discipulado (v. 23-28). Detalhes do texto: V. 21 – Desde esse tempo, começou Jesus a mostrar aos seus discípulos... A perícope inicia indicando que a exposição que Jesus fará sobre o seu caminho (v. 21) tem como referência um acontecimento anterior. O sentido da expressão descreve o acontecimento anterior como um ponto ou etapa concluída, a partir da qual se inicia uma nova etapa (RIENECKER; ROGERS, 1995, p. 37; Bíblia de Estudo NHTL, 2012, p. 1.134). A perícope imediatamente anterior (16.13-20) revela que o acontecimento referencial é a confissão de Pedro. Em meio a muitas atividades, Jesus tem um momento a sós com seus discípulos e lhes pergunta: Quem dizeis que eu sou? E Pedro (em nome dos demais discípulos) responde com o reconhecimento e a confissão: Tu és o Cristo (Messias), o Filho do Deus vivo. Dentro da estrutura do Evangelho de Mateus, pode-se entender que esse reconhecimento e essa confissão encerram o que chamaremos aqui de “lição nº 1 do discipulado: reconhecer quem é Jesus”. Desde o chamado dos primeiros discípulos (4.18-22) Jesus iniciou uma etapa de ensino e manifestação para revelar quem, de fato, ele era. Não simplesmente um profeta (16.14), mas o Messias prometido. Essa etapa de ensino e revelação se encerrou no momento em que os discípulos reconheceram quem é Jesus. Detalhes importantes: esse reconhecimento e essa confissão não decorreram de capacidade humana, mas do poder de Deus (v. 17); esse reconhecimento foi considerado por Jesus como fundamento para a edificação da sua igreja (v. 18). A partir daí inicia a “lição nº 2 do discipulado: conhecer o caminho de Jesus”: Lhe era necessário... O caminho de Jesus não é uma escolha entre outras, mas é aquilo que necessariamente precisa acontecer. Nesse contexto tem o sentido de fazer parte do plano divino (LOUW; NIDA, 2013, p. 598). Mais adiante, Jesus confirmará esse mesmo caminho em dois outros momentos (17.22-23; 20.17-18). Seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdote e escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia. O anúncio de sua morte já era chocante, pois, segundo a expectativa do povo judeu, o Messias não deveria morrer, mas restaurar o reino de Israel. Mais chocante ainda é que Jesus anuncia que será morto na cidade do reinado do Messias e pela mão dos que deveriam ser os primeiros a recebê-lo como rei. V. 22 – E Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo... A palavra usada para a ação de Pedro descreve não uma opinião ou sugestão contrária, mas uma forte desaprovação (LOUW; NIDA, 2013, p. 390). Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá... Essa expressão pode ser traduzida literalmente por “misericórdia para ti”; na frase tem o sentido de “que Deus tenha misericórdia de ti, não permitindo que passes por essa situação” – “que Deus não permita, Deus te livre disso” (LOUW; NIDA, 2013, p. 668). V. 23 – Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: arreda Satanás. A ação de Pedro é identificada com a ação do tentador (Mt 4.10); de pedra para edificação
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(16.18) ele passa a ser pedra de tropeço; antes Pedro estava em sintonia com o Pai (16.17) e agora não cogita das coisas de Deus, e sim das dos homens. É significativo que, apesar de identificar Pedro com Satanás, Jesus reage diferente a ele: ao Satanás Jesus ordenou retira-te (4.10 – hypage – afastar-se da presença, com a implicação de que há uma mudança de relacionamento [LOUW; NIDA, 2013, p. 171]), para Pedro Jesus ordenou arreda – a expressão grega é hypage opisō mou, a mesma expressão utilizada no chamado ao discipulado (Mt 4.19; 10.38; 16.24), por isso a NTLH traduz “Saia da minha frente”, e a NVI “para trás de mim”. Jesus não afasta Pedro, mas o coloca na posição original e correta do discípulo, não na frente do mestre – guiando seus passos –, mas atrás do mestre – seguindo seus passos. O trecho a seguir, v. 24-28, confirma essa possibilidade de interpretação. V. 24 – Se alguém quer vir após mim (opisō mou), a si mesmo se negue, tome sua cruz e siga-me. O discipulado tem três exigências radicais: a) Negar a si mesmo: literalmente recusar-se a pensar em ou mostrar preocupação por si mesmo (LOUW; NIDA, 2013, p. 319-320). No caso de Pedro, isso significa não se preocupar com a autopreservação e a segurança própria. Essas preocupações ficam atrás na fila da prioridade. Jesus e o compromisso com ele estão em primeiro lugar. b) Tomar a cruz: estar preparado para enfrentar sofrimento e até a morte (LOUW; NIDA, 2013, p. 257). c) Seguir a Jesus: seguir e acompanhá-lo como alguém que toma a frente e determina a direção e rota de deslocamento (LOUW; NIDA, 2013, p. 182). V. 25 – Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem quiser perder a vida por minha causa achá-la-á. Jesus inverte a cogitação humana (v. 23) e desafia a crer que o seu caminho, mesmo que leve ao sofrimento e morte, é o caminho da vida. No Evangelho de Mateus, o único que pode realizar o ato de salvar é Jesus. Nas duas únicas vezes em que o verbo é usado para descrever a ação humana, ele indica a impossibilidade do ser humano salvar-se (Mt 19.25). Além disso, Jesus, o único que pode salvar, optou por não salvar a si mesmo (Mt 27.40-42), em favor da humanidade. V. 26 – Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca de sua alma? O contexto (morte e vida) indica que a expressão alma significa não uma parte constituinte do ser humano (conforme a filosofia grega, o mundo interior), mas é o ser humano como um todo (conforme o pensamento hebraico). A cogitação humana, o ir na frente de Jesus, pode resultar em alcançar muitos benefícios e ganhar muitas vantagens, mas resulta, ao mesmo tempo, em perder a si mesmo. V. 27 – A proposta de Jesus faz sentido quando se observa que o referencial de investimento da vida que ele propõe é o julgamento do Pai na glória. As promessas reservadas para a glória, tanto da salvação como da perdição, relativizam os resultados que podem ser alcançados neste mundo. V. 28 – As possibilidades de interpretação deste versículo são: a segunda vinda de Jesus, a qual os primeiros cristãos criam que ocorreria estando eles ainda em vida; a sua morte e ressurreição (Lc 24.26; Jo 12.23; 13.31-31; At 3.13); ou a transfiguração, relatada na passagem seguinte (Bíblia de Estudo Almeida, 1999, p. 39; Bíblia de Estudo NTLH, 2012, p. 1.135).
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3 Meditação Depois de terem sido chamados por Jesus, ingressado no discipulado e recebido revelação por ensinamentos e sinais, os discípulos foram submetidos ao “primeiro exame” no caminho do discipulado. Jesus lhes perguntou: [...] vós [...] quem dizeis que eu sou? E Pedro, fazendo-se porta-voz do grupo, respondeu: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. A “lição nº 1” do discipulado estava aprendida. O “resultado do exame” não podia ser melhor. Os discípulos reconheceram e confessaram que Jesus é o Cristo, o Messias prometido no AT, o Filho do Deus vivo. Jesus confirmou essa verdade revelando que os discípulos não a constataram por recursos humanos, mas a receberam do próprio Pai – estando em sintonia com ele; e Jesus anunciou que essa verdade seria o fundamento para as etapas que viriam adiante na história da igreja (Mt 16.13-20). Essa lição aprendida, esse reconhecimento e essa confissão sobre Jesus, marcou o fim da primeira etapa do caminho do discipulado. Os discípulos sabiam quem é Jesus: o Cristo, Filho do Deus vivo; aquele que foi prometido no AT; o ungido de Deus que traria a restauração de todas as coisas; aquele que, na expectativa dos judeus daquela época, restauraria o reino de Israel. Aprovados na “lição nº 1”, os discípulos avançam para a nova etapa do discipulado. Na lição seguinte, Jesus, o Cristo, Filho do Deus vivo, expõe com clareza qual será o seu caminho: é necessário ir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitar. A nova lição trouxe espanto e decepção geral para os discípulos. Ela parecia não combinar com a “lição nº 1”. Jesus não é o Cristo/Messias, Filho do Deus vivo? Então, o Cristo/Messias não deveria estabelecer o seu reinado? Não deveria livrar o povo de Israel do jugo opressor do Império Romano? Não deveria ir para Jerusalém, ser recebido pelas autoridades religiosas e políticas e começar ali o seu reinado de glória? Não deveria trazer o céu para a terra? A “lição nº 2” não podia estar nos planos de Deus para o Cristo/Messias! Pedro resolve tomar a dianteira dos demais discípulos e chama Jesus ao lado. Sua proposta parece muito piedosa e humanitária (é cogitação das coisas dos homens), mas é a voz do tentador. Pedro quis tomar a dianteira também daquele que deveria estar na frente. Sua fala sugere: Senhor, não sigamos o teu caminho, mas segue tu o nosso caminho! Pedro não abre mão de ter o Cristo/Messias, o Filho do Deus vivo, junto de si, mas não quer andar atrás dele; não quer aceitar o caminho no qual ele vai; não quer andar na direção que ele indica; não quer dar os mesmos passos que ele dá. A sintonia com Deus (v. 17) dá lugar à cogitação humana (v. 23): Jesus, é muito bom estar contigo porque tu és Deus, mas não se faça a tua vontade e sim a nossa vontade. Não faz do teu caminho benção sobre nós, mas abençoa o nosso caminho. Abre mão do teu caminho e assume o nosso caminho. A resposta de Jesus é dura: tua sintonia não é mais com o Pai, mas é com o tentador! A resposta de
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Jesus é amorosa: volta para a posição correta do discípulo; não queira me guiar no teu caminho, mas me deixe te guiar no meu caminho! E Jesus não ensina apenas qual seria o caminho do Cristo/Messias, mas também ensina que esse mesmo caminho é o caminho do discípulo. Se alguém quer ser meu seguidor, esqueça os seus próprios interesses, esteja pronto para morrer como eu vou morrer e me acompanhe (NTLH). O chamado de Jesus não é para tê-lo em nossa companhia e ele abençoar nosso caminho. Mas é para andar no seu caminho, seguir seus passos e contar com sua presença e bênção nesse caminhar com ele na direção em que ele vai e indica. Por mais contraditório e impossível que possa parecer, o caminho de Jesus – o caminho de sofrimento e morte por segui-lo, o caminho de morrer para os próprios interesses e viver em Jesus e para Jesus o caminho de matar nosso senhorio e deixar viver o senhorio de Jesus – é o caminho da vida! E por mais atraente que seu resultado seja – a vida –, esse caminho não é uma possibilidade humana, é milagre de Deus. Por isso só é possível seguir esse caminho pela fé, pela confiança total no guiar de Jesus, pela firme confiança nas promessas de Jesus, confiança essa que se torna concreta na obediência. Esse texto nos visita com o questionamento sobre o tipo de caminhada que temos buscado ter com Jesus. Tanto individualmente como em comunidade. Toda pessoa cristã e toda comunidade cristã querem Jesus junto de si na caminhada da vida. Mas nessa caminhada com Jesus, quem está na frente? Quem segue atrás? A vontade de quem é feita? Quem guia e quem segue? A pergunta é muito importante e necessária porque nos é sempre mais conveniente e tentador o caminho que Pedro queria tomar: Jesus, tu vens comigo e abençoa a minha vida. Eu reconheço e confesso que tu és Deus e eu te quero comigo, mas eu é quem indico o caminho, eu é que sei a vida que quero ter; eu sei onde quero chegar. Para fazer uma “medição” se é essa a nossa situação, observemos o conteúdo de nossas orações (individuais e comunitárias): pedimos que Deus nos mostre o seu caminho e nos fortaleça para nele andar ou mostramos o nosso caminho, já decidido pelas nossas preferências e opiniões, e pedimos para Deus o abençoar? Pedimos que Deus nos coloque em sintonia com a sua vontade e nos capacite para realizá-la ou apresentamos nossas vontades e pedimos que ele as atenda e nos satisfaça? É significativo que ao ensinar os seus discípulos a orar (o Pai-Nosso), Jesus os ensinou a pedir em primeiro lugar: pela confiança da filiação para com o Pai, pela santificação do seu nome, pela vinda do seu reino e pela realização da sua vontade. Depois se pode e se deve pedir: pelo sustento diário, pelo perdão, pelo fortalecimento nas tentações, pelo livramento do mal. Os discípulos podem e devem dirigir seus pedidos ao Pai. Mas antes de pedir o que Deus deve fazer por eles, devem pedir, Senhor, o que queres que eu faça / nós façamos? Antes de pedir que Deus abençoe seus projetos, devem pedir, Senhor, qual é o teu propósito e quais são os teus projetos para nós? Antes de pedir, Senhor, vem comigo/conosco, devem pedir, Senhor, onde queres que eu vá / que nós vamos?
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O questionamento que a Palavra nos traz é desafiador. O caminho de Jesus é, na verdade, uma missão impossível para os seres humanos. Caminhar no caminho de Jesus, só por milagre. Por isso é bom lembrar que esse texto vem nos visitar no tempo após Pentecostes. O Espírito Santo nos capacita a crer no chamado de Jesus, nos possibilita suportar a pregação, nos faz perceber onde nos desviamos do caminho dele, nos conduz ao arrependimento, nos leva à confissão, nos consola com o perdão e nos impulsiona a viver nova vida a partir do chamado e no chamado de Jesus ao discipulado.
4 Imagens para a prédica Uma imagem inspiradora para a prédica pode ser a proposta de tradução de “A Mensagem: Bíblia em linguagem contemporânea”: Quem quiser seguir-me tem que aceitar a minha liderança. Quem está na garupa não pega na rédea. Eu estou no comando. Não fujam do sofrimento. Abracem-no. Sigam-me, e eu mostrarei a vocês como agir. Autoajuda não é ajuda, de jeito nenhum. O autossacrifício é o caminho – o meu caminho – para que vocês descubram sua verdadeira identidade (PETERSON, 2011, p. 1.402).
5 Subsídios litúrgicos Liturgia de entrada Hino: HPD 1, 76 (LCI 461). É um hino próprio do tempo de Pentecostes. Lembra que a comunidade pode contar, ainda hoje e todos os dias, com o Consolador divino. Liturgia da palavra Hino: HPD 1, 85 (LCI 462). É um hino próprio do tempo de Pentecostes. Pede por ensino e por destruição das ilusões que se podem cultivar como se fossem vida cristã. Liturgia de saída Hino: HPD 1, 210 (LCI 604). É um hino para quem quer seguir em fidelidade a Jesus. Como a pregação foi desafiante, o hino serve de oração que busca o auxílio do Único que pode auxiliar, recolocar no caminho e possibilitar a caminhada.
Bibliografia LOUW, Johannes; NIDA, Eugene. Léxico grego-português do Novo Testamento baseado em domínios semânticos. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013. PETERSON, Eugene H. A Mensagem: Bíblia em linguagem contemporânea. 5. reimp. São Paulo: Vida, 2014. RIENECKER, Fritz; ROGRES, Cleon. Chave linguística do Novo Testamento grego. São Paulo: Vida Nova, 1995.
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PRÉDICA: EZEQUIEL 33.7-11 MATEUS 18.15-20 ROMANOS 13.8-14
14º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
06 SET 2020
Roger Marcel Wanke
E você, já faz parte da missão de Deus neste mundo?
1 Introdução Na IECLB, estamos falando nos últimos anos sobre missão. Esse assunto nunca pode deixar de ser tratado, pois ele é o DNA da comunidade cristã. A igreja de Jesus Cristo deixa de ser igreja se não tiver a missão em sua essência. O texto previsto para a pregação do 14º Domingo após Pentecostes tem um forte apelo missionário. E não poderia ser diferente. Deus não chama seus profetas, muito menos sua igreja para permanecerem no mesmo status quo, em sua zona de conforto. Deus chama a viver a missão que ele mesmo nos concede. Pelo fato de Deus amar os perdidos, os perversos e querer a sua salvação, ele chama a sua igreja para anunciar o evangelho, convidando as pessoas a se converterem de seus maus caminhos, a fim de segui-lo pela fé, em amor e para a esperança. Nesse sentido, o texto previsto para a pregação do profeta Ezequiel 33.7-11 nos confronta com uma verdadeira intencionalidade missionária de Deus e uma tremenda responsabilidade missionária concedida por Deus a cada pessoa cristã. Deus não se agrada da perdição e da condenação das pessoas. Por isso ele chama cada pessoa cristã, sua comunidade e lhe dá uma tarefa sublime: advertir o perverso do juízo e anunciar-lhe a salvação. Qualquer semelhança com a distinção reformatória entre Lei e Evangelho não é mera coincidência. Também a missão da igreja depende dessa distinção. Dois textos acompanham a pregação como leituras bíblicas: na primeira, trata-se de uma orientação importantíssima de Jesus, dada aos seus discípulos no famoso “Discurso da Igreja”, em Mateus 18.15-20, no qual Jesus explica o que significa pertencer à comunidade dos seus discípulos. Nos v. 15-20, o assunto aborda a forma de tratar um irmão culpado, que não admite sua culpa. Perverso na Bíblia é sempre aquele que não reconhece o seu pecado, a sua culpa e não se arrepende. É interessante perceber que Jesus não despreza pessoas que são culpadas e não admitem suas culpas. Após três tentativas de promover a reconciliação entre as pessoas que vivem em pecado e culpa, Jesus não as expulsa, mas pede que seus discípulos as considerem como gentios e publicanos. Ora, gentios e publicanos são o alvo da missão de Deus no Novo Testamento. A comunidade de Jesus não se livra tão fácil das pessoas que são o alvo da missão de Deus. Por isso Jesus promete estar presente no meio daquelas pessoas, sejam duas ou três, que vivem do perdão e estão reunidas em seu nome (Mt 18.20).
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Já a exortação de Paulo em Romanos 13.8-14, texto da segunda leitura bíblica, destaca o fato de não ficar devendo nada a ninguém, exceto o amor com o qual nos amamos uns aos outros. Isso só é possível quando entendemos o que Deus fez por nós em Jesus Cristo (Rm 1 – 11). O atalaia de Deus é aquele que experimentou o amor de Deus, no encontro pessoal com Deus (Rm 1), no arrependimento, na confissão do pecado (Rm 3), na experiência do perdão de Deus (Rm 6 –7) e na mudança de vida (Rm 12.1-2), caracterizada pela conversão de seus maus caminhos, tornando-se discípulo e discípula de Jesus Cristo.
2 Análise exegética O profeta Ezequiel vive e atua em um dos momentos mais trágicos da história do povo de Israel: o período do exílio babilônico. Nascido numa família sacerdotal em Jerusalém, pouco antes das reformas promovidas pelo então rei Josias (622 a.C.), testemunha e experimenta o desastre, que sobreveio a Jerusalém, provavelmente em 598 a.C., com a invasão de Nabucodonosor, rei da Babilônia (cf. 2 Reis 22 – 25). Ezequiel foi levado à Babilônia, naquele mesmo ano, no primeiro contingente de cativos de Judá e instalado num assentamento de refugiados, próximo ao rio Quebar, um canal afluente do rio Eufrates, no sul da Babilônia, nas proximidades da cidade de Nipur. O tempo na Babilônia parece não ser tão temporário como se pensava (Jr 28). Mas depois de receberem uma carta do profeta Jeremias, que ainda estava em Jerusalém (Jr 29.1-23), a comunidade exilada na Babilônia percebe que o tempo deles ali seria longo. Deus, porém, não os deixou sem sua Palavra na Babilônia. Cinco anos mais tarde (cf. Ez 1.1-2), Deus chama Ezequiel para ser seu profeta no meio da comunidade exilada, às margens dos rios da Babilônia (Sl 137). O livro de Ezequiel apresenta duas vezes a narrativa de vocação de Ezequiel. Ele é chamado por Deus e comparado a um atalaia (cf. Ez 3.16-21; 33.1-20), um vigia, que ficava numa torre e tinha a tarefa de avisar os moradores de sua cidade, caso visse algum perigo se aproximando, principalmente algum exército ou bando de salteadores chegando para conquistar a cidade. O atalaia era tão responsável pela segurança da cidade, que se ele não avisasse o seu povo e alguém viesse a morrer, por ocasião de uma invasão, ele pagava com sua vida pela morte de pessoas de seu povo. O livro de Ezequiel pode ser subdividido em quatro partes principais: a) os oráculos de Juízo contra Jerusalém (Ez 1 – 24); b) os oráculos de juízo contra as nações (Ez 25 – 32); c) os oráculos de salvação e restauração de Jerusalém e de Judá (Ez 33 – 48); d) as últimas visões de Ezequiel: a restauração do Templo, do príncipe e da terra (Ez 40 – 48). A partir disso, podemos perceber que a nossa perícope encontra-se no início de uma série de oráculos de salvação. A perícope destaca uma nova instrução ao profeta sobre a justiça de Deus e a responsabilidade individual, tanto do ser humano perverso e pecador, diante de seu pecado e da necessidade do arrependimento e da conversão, como do atalaia, justo e perdoado de seu pecado e que tem a tarefa de avisar, advertir o perverso de seus maus caminhos. O texto pode ser estruturado a partir das quatro ocorrências da expressão “e tu” [veata’] marcando claramente o chamado e o diálogo de Deus a Ezequiel:
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v. 7 v. 9a v. 9b v. 10 v. 11
E tu: o chamado de Ezequiel como atalaia em favor dos perversos Mas tu: a conversão do perverso de seu caminho e de seu pecado Mas tu: o livramento do juízo de Deus sobre o seu atalaia E tu: a conversão do povo de Israel que é perverso Fundamentação da missão: o Senhor não se agrada da morte do perverso As quatro ocorrências da expressão “e tu” [veata’] na perícope em questão apontam também para essa dimensão bem individual da responsabilidade missionária do atalaia. A salvação do perverso e sua própria salvação estão sob sua responsabilidade. Vejamos agora alguns detalhes a respeito do conteúdo e da interpretação dessa perícope: E tu: o chamado de Ezequiel como atalaia em favor dos perversos (v. 7-8) Após a tarefa do atalaia ser descrita em detalhes nos v. 1-6, Deus chama Ezequiel pessoal e individualmente a assumir pela segunda vez sua tarefa de atalaia diante do seu povo exilado na Babilônia. Deus o chama de filho do homem. Essa expressão aparece 97 vezes no Antigo Testamento e 93 somente no livro de Ezequiel. Ela não pode ser confundida com a mesma expressão usada no livro de Daniel. Aqui, refere-se à humanidade, à pequenez e à fragilidade do profeta diante da presença do Deus eterno. Algumas versões bíblicas em português traduzem por homem mortal. A imagem do atalaia aparece bem pouco no Antigo Testamento, mas o suficiente para impactar quem lê os textos, nos quais ela aparece (cf. Is 21.6-11; Os 9.8; Jr 6.17; Ez 3.16-27). Deus instituiu Ezequiel, acima de tudo, por atalaia em favor da casa de Israel, que está exilada na Babilônia. Eles são o alvo, neste momento, da missão de Ezequiel. Por isso essa perícope abre o bloco dos oráculos de salvação de Judá. Ezequiel é chamado a fazer duas coisas básicas: ele deve ouvir a palavra de Deus da boca do próprio Deus. Depois de ouvir o que Deus tem a dizer, Ezequiel deverá advertir [avisar] a casa de Israel acerca de Deus e de seu juízo. No v. 8, encontramos o conteúdo que deve ser anunciado por Ezequiel e ao mesmo tempo as implicações dessa sua tarefa homilética sobre si mesmo: quando Deus disser que o perverso deverá ser condenado, por causa de seu pecado e de seu caminho distante de Deus [no hebraico há uma ênfase, conhecida por figura etimológica que literalmente diz: morrer morrerás, ou seja, certamente morrerás – Cf. Gn 2.17; Rm 6.23] e o profeta não o advertir, para se arrepender de seu caminho e de sua perversidade, então o atalaia terá de prestar contas diante de Deus e pagará com sua própria vida pela vida dos perversos. Aqui é importante lembrar que o texto está falando da advertência aos perversos diante do juízo de Deus. O povo de Judá estava, no exílio babilônico, experimentando exatamente o juízo de Deus. O texto deixa claro que o chamado a ser atalaia foi dirigido por Deus ao seu profeta. Contudo, essa era a tarefa dada por Deus a cada pessoa pertencente ao povo de Israel. O povo de Israel foi chamado a ser bênção a todas as famílias da terra (Gn 12.1-3), a ser luz para os gentios (Is 42.1-7) e a anunciar o fim do juízo de Deus sobre o perverso (Jonas). Mas não foi bem isso que aconteceu em sua história.
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Mas tu: a não conversão do perverso e o livramento do atalaia (v. 9) No v. 9 aparece duas vezes a expressão hebraica veata’. Agora, no entanto, a conjunção “vav” assume uma conotação adversativa. Por isso duas vezes ela é traduzida como “mas tu”. Essa situação adversa, descrita aqui, prevê o livramento do atalaia, caso o perverso não se converta de seu mau caminho, mesmo com a advertência e o anúncio do juízo por parte do atalaia. O perverso certamente morrerá, mas o atalaia terá sua vida poupada, livrada da morte. Pecado tem consequências: o juízo de Deus. A advertência do profeta, enquanto atalaia, deve ser dirigida tanto ao perverso como ao justo. Ao primeiro, para que se converta e mude a direção de sua vida. Já ao segundo, para que não se desvie do bom caminho e se torne, ele mesmo, um atalaia. O atalaia tem, portanto, uma responsabilidade missionária muito grande. Isso lembra, de certa forma, o testemunho de Pedro e João diante do sinédrio: pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos (At 4.20), bem como do próprio apóstolo Paulo, que aos judeus em Corinto diz: Sobre a vossa cabeça, o vosso sangue! Eu dele estou limpo e, desde agora, vou para os gentios (At 18.6), como também, após ter testificado tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em Jesus Cristo, diz aos presbíteros da igreja de Éfeso em Mileto: Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo do sangue de todos; porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus. Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue (At 20.26-28). E tu: a conversão do povo de Israel (v. 10) Pela quarta vez Deus chama Ezequiel com “e tu”. Deus retoma o diálogo com o seu povo por meio de Ezequiel. O povo estaria dizendo que o peso do seu pecado está sobre eles e que, por isso, estão desfalecendo (cf. Sl 32) e assim clamam a Deus: Como, pois viveremos?. A resposta de Deus virá no v. 11. Mas o que chama a atenção aqui é a ocorrência de dois termos bíblicos (“transgressão” e “pecado”), que juntamente com o termo “iniquidade” do v. 8, formam nessa perícope a tríade do conceito veterotestamentário de pecado. Pecado no Antigo Testamento é errar o alvo, se afastar de Deus. A partir disso vem a iniquidade do ser humano, que o leva à culpa e, por fim, ele se rebela contra Deus e pratica a transgressão dos mandamentos de Deus. Tudo isso está no pano de fundo do juízo de Deus nesse texto. Para a conversão de tudo isso, Deus chama Ezequiel para ser o seu atalaia diante do povo de Israel. Fundamentação da missão: o Senhor não se agrada da morte do perverso (v. 11) Diante da pergunta decisiva em relação ao juízo de Deus feita retoricamente pelo povo de Israel no v. 10: Como, pois, viveremos?, Deus responde no v. 11 de forma concreta, por meio de a) um juramento: Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus; b) uma reafirmação de sua intencionalidade missionária na promessa: não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva;
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c) um apelo duplo e enfático à conversão de seu próprio povo: Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; d) uma pergunta retórica: pois por que haveis de morrer, ó casa de Israel? Deus não tem prazer na morte do perverso, mesmo quando esse perverso é o seu próprio povo, como é o caso aqui em Ezequiel. O Senhor é o criador, Deus da vida. Ele se alegra com aqueles que voltam para ele e vivem com ele. Ezequiel sabe que a vida vem da justiça de Deus e que a morte vem do pecado. Isso não é um processo meramente natural, mas uma questão de fé, ou seja, uma decisão de fé. Por isso a conversão é fundamental. Todos os profetas do Antigo Testamento, desde Samuel até Malaquias, enfatizaram a conversão do povo de Israel e o chamaram ao arrependimento constantemente. O Senhor quer a conversão de seu povo. E isso é pura graça de Deus. Não existe, em toda a Bíblia, graça que permita pecar. Quem prega diferente disso engana a si mesmo e a seus ouvintes. Deus não deseja o juízo, mas a conversão, que salva diante do juízo (cf. Jr 4; Jl 2; Jn 3 – 4; Rm 2). O como, pois viveremos com o peso do pecado dito pelo povo de Israel contrasta claramente com o como, pois morrereis, ó casa de Israel, questionado por Deus. Trata-se, portanto, aqui neste texto, de uma questão de vida ou morte. Diante disso, é muito bom saber que Jesus Cristo assumiu o papel do verdadeiro atalaia. Ele pagou com sua vida pelo pecado tanto do perverso como do justo. O nosso sangue e o dos outros não é mais cobrado de nós mesmos. Mas Jesus derramou o seu sangue por nós. Contudo, a tarefa da igreja de Jesus Cristo e de cada pessoa cristã continua sendo a intencionalidade missionária de Deus, de chamar o perverso à conversão e trazer-lhe a salvação. Jesus, o verdadeiro Filho do Homem, veio para buscar e salvar o perdido (Mc 10.45).
3 Meditação Como a análise exegética mostra, a perícope de Ezequiel 33.7-11 fala da intencionalidade missionária de Deus, que não se agrada da morte do perverso, mas quer a sua conversão de seus maus caminhos e de seu pecado, transgressão e culpa, ou seja, a sua salvação. Para que isso aconteça, Deus chama pessoas e as institui como seus atalaias. Isso traz para nós uma série de implicações. Vejamos brevemente algumas delas, que podem nos inspirar para a pregação. a) A intencionalidade missionária de Deus não é a mesma coisa que universalismo – Embora seja uma interpretação teológica muito comum, o universalismo não é bíblico. Ele negaria a revelação exclusiva de Jesus Cristo, bem como a sua obra vicária em favor da humanidade. A tarefa missionária da igreja é conduzir pessoas para Jesus, o Salvador, porque Deus amou o mundo de tal maneira, que essa foi a sua intenção, para que ninguém se perdesse (Jo 3.16). Mas o texto mostra que o Deus salvador, revelado em Jesus Cristo, por um lado, não força ninguém a segui-lo. Por outro, porém, envia pessoas para adverti-los de sua condenação, caso não se converterem de seu caminho e de seu pecado. Jesus já assumiu o juízo do perverso sobre si. Mas se o perverso não se converter ao Senhor, a ira de Deus continua sendo real. Por isso o ser humano deve ser pergun-
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tado por sua postura em relação a Deus. Ou ele está aos pés da cruz e diante de Deus, ou ele está em pé diante de si mesmo e distante de Deus. b) A intencionalidade missionária de Deus não é a mesma coisa que proselitismo – O texto deixa claro que os perversos e perdidos são o alvo da missão intencional de Deus. No texto de Ezequiel, o perverso pode ser tanto os povos e nações vizinhas de Israel, que viviam em idolatria (cf. Ez 25 – 32), como e, infelizmente, o próprio povo de Israel, como é o caso da perícope em questão. Deus quer alcançar as pessoas que estão fora da igreja cristã. Porém fazer parte do povo de Israel, do povo da aliança, que tinha o templo de Jerusalém, que fazia todos os sacrifícios, que tinha a Lei e os Profetas, não bastava para experimentar a salvação de Deus. Ezequiel, como atalaia, tem uma tarefa bem importante: chamar ao arrependimento. c) A intencionalidade missionária de Deus não é a mesma coisa que conversionismo – Embora muitas pessoas hoje tenham dificuldades com o termo e o conceito bíblico conversão, é inegável a sua presença e o seu convite na Bíblia. A perícope dessa pregação é testemunha clara dessa intenção e desse convite de Deus. Mas também Jesus não veio a este mundo para convidar pessoas a se envolver em ações sociais, muito menos em movimentos sociais, ou a ficar enclausuradas em suas igrejas, reclusas da sociedade e de seus problemas. O chamado principal da igreja é para a fé, ou seja, para a conversão. A primeira pregação pública de Jesus registrada na Bíblia deixa bem claro esse propósito: [...] foi Jesus para a Galileia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho (Mc 1.14-15). Jesus Cristo mesmo foi o verdadeiro atalaia de Deus. Por isso a tarefa do atalaia não é converter pessoas, mas adverti-las do juízo e anunciar-lhes a salvação. Elas devem saber que estão perdidas e devem ser avisadas da condenação e da necessidade do arrependimento. A intenção de Deus é claríssima! Deus quer a conversão do ser humano em sua direção. Por isso é o próprio Deus que converte o ser humano para viver com ele e segui-lo em seus caminhos. O ser humano não consegue por seu próprio esforço se converter a Deus. Ele precisa ser convertido por Deus. É por isso que discipulado não significa convidar Jesus para andar comigo. Pelo contrário, discipulado na Bíblia é sempre Deus que me convida a seguir os seus passos. Para seguir os seus passos é necessário haver a conversão, a mudança de direção dos caminhos, a transformação de vida. Isso Deus faz. O que eu faço é apenas anunciar às pessoas o que Deus fez na vida delas em Jesus Cristo e o que ele pode fazer na vida delas a partir de Jesus Cristo. Ezequiel é um livro de visões em todos os sentidos. Além das visões típicas da tradição profética e apocalíptica (por isso o livro de Ezequiel é reinterpretado na tradição da apocalíptica judaica, bem como no livro neotestamentário de Apocalipse de João), o livro de Ezequiel nos mostra uma nova visão acerca de quem é Deus. Ele nos mostra uma nova visão de quem é o ser humano. Ele nos mostra uma nova visão da comunidade do povo de Deus. E na perícope em estudo, ele nos mostra claramente uma nova visão da intenção missional de Deus, ou seja, a
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conversão e a salvação dos perdidos e uma nova visão do chamado missional de seu profeta e de seu povo, ou seja, ser um atalaia que adverte os perversos do seu pecado, que os convida para se converterem de seus maus caminhos ao Senhor, para que experimentem a justiça de Deus. Isso significa que estamos diante de um dos textos mais inspiradores, desafiantes e fundantes da missão e para a missão da igreja neste mundo e para a missão da IECLB no Brasil.
4 Imagens para a prédica O texto é muito rico e já traz em si mesmo uma imagem, que pode ser usada para explicar o papel e o chamado de Ezequiel e da comunidade, respectivamente, como atalaia de Deus. Inicie sua pregação retratando o contexto literário próximo (Ez 33.1-6) por meio da imagem de uma torre de vigia e explore esse aspecto, a fim de introduzir o conteúdo da pregação. Essa torre de vigia poderia ser compreendida em nossos dias com o endereço e o papel de nossas comunidades em nossas cidades. Por exemplo, as torres de nossas igrejas, são parecidas com as torres de vigia, das quais fala a nossa perícope. Que papel tem a torre da nossa igreja? Até onde vai a visão missionária de nossa comunidade? Ela vai além da sombra da torre da nossa comunidade? Que papel missionário tem a nossa igreja em nossa cidade? Estamos alertas, como atalaias, em favor da salvação das pessoas perdidas de nossa cidade? Subsídios para essa imagem podem ser encontrados tanto no primeiro PAMI (2000-2008), como também no segundo PAMI (2008-2012-2018). As Metas Missionárias da IECLB (2019-2024) também contemplam de forma fundamental essa intencionalidade missionária. Um aspecto teológico muito importante aqui nesta perícope deveria ser considerado também na sua reflexão homilética. Ezequiel é o primeiro em toda a história literária e teológica do Antigo Testamento que estabelece a responsabilidade pessoal pelo pecado do ser humano e a responsabilidade individual na tarefa missionária (Ez 14.12-23; 18.1-32; 33.10-20). Essa responsabilidade pessoal e individual deveria ser retomada nas formulações dos tópicos da pregação. Assim, tanto a estrutura como a teologia da perícope são preservadas e valorizadas na pregação. Veja abaixo a sugestão: Tema da pregação: E você, já faz parte da missão de Deus neste mundo? – Deus chamou você para ouvir o que ele tem a dizer às pessoas deste mundo – Deus chamou você para advertir as pessoas diante do seu juízo – Deus chamou você para convidar as pessoas a se converterem de seu caminho – Deus chamou você para amar os perdidos e a conduzi-los para Deus
5 Subsídios litúrgicos Liturgia de entrada Para o início do culto, considerando o calendário litúrgico (Domingo após Pentecostes) e a ênfase teológica do livro profético de Ezequiel como um todo,
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pode ser cantado o hino Deus está presente (LCI 14). Como o tema do culto é o chamado para a missão da pessoa cristã e da comunidade cristã, pode-se cantar ainda os hinos previstos com esse tema: Deus sempre me ama (LCI 581), nesse caso, seria uma boa sugestão. No momento da confissão dos pecados, nada melhor do que cantar com a comunidade um hino que expressa tanto o peso do pecado como a alegria daquele que, após a conversão ao Deus vivo e verdadeiro, por meio da obra redentora de Jesus Cristo: Foi na cruz (LCI 585). Liturgia da palavra Antes da pregação, sugere-se cantar o hino Há sinais de paz e de graça (LCI 582). Após a pregação, sugere-se cantar o hino Deus fará que tua vida tome um rumo salutar (LCI 589). Liturgia de despedida Ao final do culto sugere-se cantar o hino Vem, derrama a paz (LCI 288), ou ainda o hino Quem quer cantar do amor (LCI 588).
Bibliografia MAIER, Gerhard. Der Prophet Hesekiel. Wuppertaler Studienbibel. Wuppertal: Brockhaus, 2000. BRANDENBURG, Hans. Hesekiel: Priester, Seher, Prophet. 2. Aufl. Giessen und Basel: Brunnen Verlag, 1977. NIHAN, Christophe. Ezequiel. In: RÖMER, Thomas; MACCHI, Jean-Daniel; NIHAN, Christophe (Orgs.). Antigo Testamento: história, escritura e teologia. São Paulo: Loyola, 2010. p. 435-458. ANDIÑACH, Pablo R. Introdução Hermenêutica ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 2015.
DIA DA PÁTRIA PRÉDICA: SALMO 33.12-22 DANIEL 4.31-32,34 1 TIMÓTEO 2.1-7 LUCAS 20.19-26
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PRÉDICA: MATEUS 18.21-35 GÊNESIS 50.15-21 ROMANOS 14.1-12
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13 SET 2020
Evandro Jair Meurer
Qualidade e reciprocidade do perdão
1 Introdução Quantas vezes o tema do perdão deve ainda fazer parte do Proclamar Libertação? Sete? Bem, então faltam só duas, pois esta é a quinta vez que o texto de Mateus 18.21-35 é pauta homilética (X, XVIII, 30, 32). Mas você há de convir: nem se fosse a 77ª ou a 490ª vez, o tema do perdão e principalmente sua real e integral vivência seriam contempladas. Se concordamos com Gerson Monteiro (www.extra.globo.com) de que “Perdoar é sinal de inteligência”, o QI da maioria de nós é muito baixo. Somos expert em ofender e perdoar só de boca, mas não esquecer. A qualidade do perdão é que importa e não somente a quantidade de vezes. Só esse argumento já é suficiente para nos animar à preparação de mais uma prédica sobre a parábola do credor incompassivo (O empregado mau, cf. NTLH) e sobre a infinitude qualitativa do perdão. O final do Gênesis (50.15-21), que nos relata sobre a magnanimidade de José para com seus irmãos e suas lágrimas derramadas diante da memória das palavras do falecido pai, Jacó, são um pilar para a unidade temática. Uma parábola real a respeito de 11 motivos (irmãos) para perdoar. Romanos 14 (1-12), mesmo não enfocando o tema do perdão, pode colaborar com a temática. Paulo apela para a tolerância em relação à fraqueza de fé e ao julgamento que se faz mutuamente, que constantemente se manifesta de diferentes formas nas diversidades presentes na comunidade. Tolerância e perdão se relacionam intimamente
2 Exegese Numa estruturação singela, o texto poderia ser dividido em duas partes: a) V. 21 e 22: a indagação de Pedro e a resposta de Jesus. Ah, esse Pedro! Sempre o mais metido, ousado, intrépido, curioso, inteligente, temperamental, espontâneo, ingênuo, interessado dentre os 12 apóstolos, sempre tomando a dianteira em palavras e ações: seja para andar sobre as águas (Mt 14.28-33), responder às perguntas de Jesus (Mt 16.13-20), cortar a orelha de alguém (Jo 18.15-18), ou negar Jesus três vezes (Mt 26.69-75), sem contar seu protagonismo conforme relatos de Atos dos Apóstolos (cap. 2 – 4). Agora, aqui, ele aparece lançando uma pergunta para Jesus. A NTLH é precisa na formula-
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ção: Senhor, quantas vezes devo perdoar o meu irmão que peca contra mim? Sete vezes?. A informação de Pedro ter chegado mais perto (aproximando-se) de Jesus para questioná-lo não é mero detalhe. Um “particular” com Jesus faz parte do processo de discipulado, mas da mesma forma a prudência em não se expor diante da temática ou da dúvida é legítima. O interesse em aprender é crucial. A preocupação numérica recebe uma resposta numérica à altura. Pedro parece conhecedor e querer restringir o tema do perdão à contabilidade de Gênesis (4.2326). Mas vai conhecer agora a matemática evangélica da Boa-Nova de Jesus. Pedro está conseguindo ver somente o cotidiano viciado em números, leis e limites. Jesus está falando de reino dos Céus. Pedro representa a voz da quantidade, Jesus é porta-voz da qualidade. O modo humano de pensar é quantitativo. O modo divino, celestial de ver as coisas é qualitativo. O importante não está na quantidade mínima ou máxima de vezes que se venha a conseguir perdoar alguém, mas na qualidade desse receber e dar perdão. b) V. 23-35: a parábola Falar por parábolas é algo típico de Jesus. Em sua missão de explicar a nova proposta de Deus e o seu jeito novo de “acertar as contas”, ele apela constantemente para esse recurso de linguagem. “O QUE SÃO PARÁBOLAS? […] As parábolas narram um caso fictício que tem a ver com a vida. De forma geral, a parábola é caracterizada por um elemento de comparação. […] Em aramaico, […] o termo ‘parábola’ tinha o sentido de ‘palavra enigmática’. Parábola é uma comparação que contém um enigma, um mistério, um elemento surpresa. Quem ouve precisa refletir e descobrir o sentido. Se é preciso descobrir o sentido, então é possível que uma parábola seja compreendida de maneira diferente. Sim, a parábola possibilita a diversidade! […] Jesus não espera somente que nós desvendemos o enigma das parábolas. Suas parábolas têm uma aplicação, ou seja: convidam para a ação” (Curso Redescoberta do Evangelho. 1 – Parábolas de Jesus, p. 6). A ilustração enigmática, mesmo que se referindo a questões do mundo de negócios da época (crédito-débito, ativo-passivo, dívida-quitação, cobrança-acordo, cem-milhões), em sua essência vai muito além. A parábola aponta para postura de vida, atitude coerente, diferenciada, qualificada, sistêmica. Congruência e simetria entre o receber e conceder, aqui no caso perdão, mas na verdade vale para muitos outros valores desse reino alternativo apresentado por Jesus. Bastaria apenas raciocínio lógico, um mínimo de inteligência, para pressupormos o que deveria ter acontecido: um foi perdoado em “milhões”, logo, natural e logicamente, este mesmo perdoaria facilmente a dívida de alguns poucos grãos de “milhos”. Mas justamente no desnaturado e ilógico agir humano, de ontem e de hoje, é que reside a necessidade e a importância da parábola. Se recebemos perdão de uma dívida milionária, por que não somos capazes de perdoar o mínimo? A NTLH fala em “acerto de contas”. É uma tradução “perigosa”, se pensamos nos numerosos “acertos de contas” que acontecem atualmente no mundo das drogas, por exemplo, quando simplesmente alguém “apaga” outro alguém. Con-
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tudo, magicamente, a expressão na Bíblia na Linguagem de Hoje nos remete ao que, no mundo da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, conhecemos como o momento da “rescisão de contrato”. Uma hora tensa, difícil! Aplicação das regras, cálculos frios, sem dó! Por outro lado, com raras exceções, é um momento capcioso para o executor ou a executadora e para o executado ou a executada. Bem o sabe quem (como este que voz escreve) já esteve em ambos os lados. Mas na “parábola” (infelizmente ficção enigmática) acontece uma surpresa: perdão, amplo perdão, irrestrito perdão, miraculoso perdão, extremo perdão, infinito perdão, qualificadíssimo perdão... Milhões de moedas de prata (v. 23 NTLH) é bem mais chocante do que dez mil talentos (Almeida). São 350 toneladas. Cem milhões de dólares hollywoodianos. Muito pouco ainda, se fôssemos mensurar, em dinheiro, o preço da esposa, dos filhos e, quem sabe, ainda netos e netas. Valores incomparáveis aos míseros cem denários, digamos, três salários mínimos, contrapostos na sequência da parábola. E observem só, a diferença de postura: Ele pegou o seu companheiro pelo pescoço e começou a sacudi-lo, dizendo, “Paga-me o que me deves!” (v. 26 NTLH). A comparação está posta, o enigma, apresentado. Não são números que interessam, mas a qualidade e a reciprocidade do perdão (igualmente, v. 33, Almeida). Por isso mesmo tristeza (v. 31 Almeida) é pouco como reação de quem assistiu à cena. Revolta (NTLH) parece mais real, humano e, no mínimo, justo e coerente diante da situação. E não é nem o caso de se pensar em caguetagem aqui, mas sim de defesa daquele irmão, companheiro (com certeza até sindicalizado como eles). Em fim, seja o cara amigo, colega de trabalho ou um baita de um safado, malandro, miserável (v. 33 NTLH), “Aquilo não tá certo, minha gente!”, pensaram eles. Indignação (v. 34 Almeida) parece brando. Ficar com muita raiva (NTLH) parece mais dramático e dentro do real. O Pai Celeste quer bem isto: perdão sincero ao seu irmão (v. 35 NTLH), perdão qualificado, simétrico, coerente e lógico na reciprocidade. Caso contrário: É isso o que meu Pai, que está no céu, vai fazer com vocês [...] (v. 35 NTLH).
3 Meditação Pensando na atualidade da parábola narrada a Pedro, não há como fugir de cruzarmos a ponte para o momento brasileiro atual. Jogando no Google a expressão “perdão da dívida”, nos deparamos com diversas possibilidades de linkar fontes jornalísticas que nos dão conta sobre “O perdão bilionário que Bolsonaro quer dar ao agronegócio” (https://www.terra.com.br/noticias/brasil/o-perdaobilionario-que-bolsonaro-quer-dar-ao-agronegocio; acesso em: 06 maio 2019). Que “bondade maravilhosa” essa do nosso presidente do Brasil, de sinalizar apoio à aprovação do Projeto de Lei 9.252/2017 (até então parado na Câmara) que concede perdão total das dívidas acumuladas por produtores rurais e agroindústrias com o Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (FUNRURAL) – um impacto da ordem de R$ 17 bilhões aos cofres públicos, pelas contas da Recita Federal (https://www.valor.com.br/brasil/6034935/bolsonaro-quer-perdoar-divida-ruralrombo-e-de-r-17-bi). A “bondade presidencial” (já prometida em campanha)
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surpreende quando o valor devido por esses é maior do que a economia prevista pelo governo com as mudanças nas aposentadorias dos servidores públicos da União (13,8 bilhões de reais) com a proposta de Reforma da Previdência em trâmite (https://www.cartacapital.com.br/politica/anistia-para-ruralistas-superaeconomia-da-previdencia-com-servidor/). Se nossa pregação dominical não tem mais nada a dizer sobre a realidade social que nos cerca, somos os mais infelizes dos pregadores e pregadoras. Mexer nos direitos de aposentadoria de milhões de trabalhadores e trabalhadoras brasileiros e anistiar centenas de grandes empresários rurais, no mínimo deveria gerar em nós a mesma indignação dos colegas de trabalho daquele servo que não soube perdoar o seu conservo e do seu senhor que o entregou aos verdugos. Semana da Pátria sem denúncia e anúncio evangélico não é compatível com uma compreensão e prática do “evento igreja”, da forma como Vítor Westhelle propõe em livro com esse título. “Um novo modelo de igreja que coloca a comunidade cristã protestante em condições de lidar com a esfera pública.” A ponte para o pessoal e comunitário se faz mais naturalmente. Primeiramente apontando enfática e insistentemente para a graça divina capaz de, em Jesus Cristo, nos anistiar de toda a nossa culpa. Graça e perdão incondicional que nos são concedidos no crucificado e ressurreto. Graça essa que, incondicionalmente, nos faz agir na mesma moeda: com perdão incondicional “a quem nos tem ofendido” (Pai-Nosso). Graça essa que nos afasta dos números e nos quer aproximar de um perdão qualificado e sistêmico com esse perdão já oferecido e recebido em Cristo. A parábola está em sintonia com a “regra de ouro” de Jesus no sermão da montanha: Façam aos outros o que querem que eles façam a você (Mt 7.12 NTLH). O perdão que gostaríamos de receber cabe-nos praticá-lo também, sempre. Um ensino universal que deveria reger não somente pessoas cristãs. Perdoem como vocês querem ser perdoados. “É perdoando que se é perdoado” (Oração de São Francisco). Um perdão horizontal em recepção e doação, acolhimento e partilhamento. Uma via de duplo e mútuo sentido. Esse é o perdão qualitativo. Mais importante do que a quantidade desejada, esperada ou eventualmente limitada. O hino “Falar com Deus”, de Lineu Soares e Valdir Lima, que transcrevo abaixo, é muito conveniente para o tema do perdão. A 4ª estrofe é composição minha, pensada justamente para contemplar o aspecto do lamento e pedido de perdão coletivo, social, pelo mundo: o Kyrie eleison! 1. Na oração encontro calma, na oração encontro paz. Orar a Deus faz bem à alma, falar com Deus me satisfaz. Grande é o nosso Deus, e as obras que ele faz. O seu amor não tem limites, em seu perdão encontro paz.
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2. Falar com Deus, que privilégio! Abrir a alma ao Criador! Sentir que os céus estão abertos, e ouvir a voz do Salvador! 3. Falar com Deus é o que eu preciso! Pois Ele é fonte de poder. Só nEle a vida faz sentido, pois nos dá forças pra viver. 4. Interceder por sua luz. Pedir a Deus transformação. Tem piedade, ó meu Jesus! No mundo há dor. Tem compaixão! Mahatma Gandhi foi grande ao afirmar: “O fraco nunca pode perdoar. Perdão é um atributo dos fortes”. Sua ideia é com certeza evocar a grandeza que envolve o ato de perdoar e, por consequência, a pessoa perdoadora.
4 Imagens para a prédica De forma singela carrego comigo e sempre que possível reparto três motivos por que devemos perdoar: um motivo espiritual, um motivo psicológico e um motivo relacional. Ou, para dizer de modo diferente: perdoamos, primeiro, por causa de Deus; segundo, por causa da gente mesmo, e terceiro, por causa da outra pessoa. 1. Perdoar por causa de Deus: É vontade e ensinamento de Jesus e ele deu o maior exemplo. Uma oração para o fim do dia/à noite Se eu feri alguma alma hoje, se causei a saída de alguém, se estou perdido na minha própria desgraça, Senhor Deus, perdoa. Perdoa o pecado que confessei para ti. Perdoa meus pecados secretos também. Oh, Senhor Deus, vigia a mim e a minha própria desgraça. Senhor Deus, amém! 2. Perdoar por causa de nós mesmos: Para que carregar isso com a gente? “Perdoa os outros, não porque eles merecem perdão, mas porque você merece paz.” E depois tem mais: esqueça! “O primeiro a pedir desculpas é o mais corajoso. O primeiro a perdoar é o mais forte. E o primeiro a esquecer é o mais feliz”.
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3. Perdoar por causa das outras pessoas que pecaram, pecam e pecarão contra nós. E ainda buscaremos dizer como Jesus na cruz: Perdoa-lhes porque não sabe o que fazem!
5 Subsídios litúrgicos Proponho que na liturgia de abertura se use como recurso para a confissão de pecados o hino “Se sofrimento te causei, Senhor”. A música tem letra de C. M. Battersby, 1913, com adaptação de Humberto Cantoni, 1966, alterado por Joaquim Silvério Costa, 1987. Battersby é um desconhecido. No YouTube você encontrará uma versão cantada por Elvis Presley (An Evening Prayer), que os mais dados à língua inglesa vão poder fazer melhor uso. Porém a melodia que se consagrou na hinologia cristã há décadas vem da Música 1, versão coral de Pablo Sosa, 1959, arranjo de Ralph Eugene Manuel, 1975, e Música 2: Charles Hutchison Gabriel, 1856-1932. Confira abaixo a letra mais usual no mundo evangélico. No HPD 150 e LCI 36 está a versão conhecida na IECLB. 1. Sim, sofrimento te causei, ó Deus! E ao meu exemplo o fraco tropeçou, e eu não andei nos bons caminhos teus. Perdão, Senhor! 2. Sim, vão e fútil foi o meu falar e amor a meu irmão não demonstrei; ao sofredor eu não quis ajudar. Perdão, Senhor! 3. Sim, negligente foi o meu viver, sem me dispor a pelejar por ti, e firme em teu trabalho eu não quis ser. Perdão, Senhor! 4. Escuta, ó Deus, a minha oração e vem livrar-me do pecado vil. Renova este pobre coração! Amém, Senhor! Minha sugestão e prática têm sido: – Cantar a estrofe 1 e, com um fundo instrumental do mesmo hino, orar confessando nosso pecado individual. – Cantar a estrofe 2 e, com o mesmo hino instrumental ao fundo, apresentar em oração o pecado relacional.
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– Cantar a 3ª estrofe e apresentar o pecado social, as dores e o pecado do mundo, ainda com a mesma melodia de fundo musical instrumental. – Encerrar com a 4ª estrofe cantada. Muito provavelmente você não terá tempo hábil para isso, mas, com certeza, será muito bom se um grupo (de canto ou coral) preparar o hino “Falar com Deus” (cf. acima) para apresentá-lo após as palavras de absolvição.
Bibliografia WESTHELLE, Vítor. O evento igreja: chamado e desafio a uma igreja protestante. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2017.
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20 SET 2020
PRÉDICA: FILIPENSES 1.21-30 JONAS 3.10 – 4.11 MATEUS 20.1-16
Cristina Scherer
Permanecer na missão requer parceria
1 Introdução Quem funda a comunidade cristã na cidade de Filipos é o próprio apóstolo Paulo, entre 49 e 50. Em Atos 16.11-40 narra-se a primeira visita de Paulo àquela cidade, para onde retorna mais duas vezes (cf. 2Co 8.1-6 e At 20.6). Ali o evangelho é anunciado pela primeira vez na atual Europa. A cidade leva esse nome porque era antiga e fora reconstruída pelo rei Felipe II, da Macedônia. Era uma importante colônia romana. Em Filipos ocorreu a conversão da comerciante Lídia e do carcereiro, sendo esse o nascimento da comunidade cristã naquela região. O que Paulo mais deseja na vida é ser servo de Jesus Cristo e anunciar o evangelho. Todo o resto é para ele perda e lixo (3.8). Paulo agradece aos que colaboram no anúncio (1.5) e participam com ele na defesa e na confirmação do evangelho (1.8,16). Contratempos como prisão e perseguição são vistos como contribuição para o progresso da evangelização (1.12-13). Ele fica triste pelo fato de alguns anunciarem Cristo por inveja e espírito de competição (1.15), mas o que quer é não fracassar na manifestação de Cristo (1.21). Entre os colaboradores no anúncio, Paulo agradece a Timóteo (2.22), Evódia e Síntique (4.3) e toda comunidade de Filipos (4.15). Paulo encontra-se possivelmente em Éfeso ou Roma, preso (1.7), e dali escreve a carta. A comunidade de Filipos envia Epafrodito para ajudar Paulo materialmente. Quando Epafrodito retorna (2.25ss), Paulo envia a carta com ele a fim de motivar os filipenses a crescer na fé e na comunhão e a persistir no testemunho cristão com alegria. Motiva para uma vida de humildade e unidade, a exemplo de Cristo, e anima para estarem firmes diante das intrigas de inimigos (judaizantes, romanos). Por meio da carta recebida, os filipenses possivelmente foram consolados, pois souberam que quaisquer que fossem os sofrimentos que tivessem de enfrentar, seriam sustentados em meio a tudo; que sofriam pela mesma causa que o companheiro/apóstolo estava sofrendo; que sofriam, não por causa de alguma maldade praticada, ou da qual pudessem ser acusados, mas porque confiavam no Filho de Deus, o Cristo vivo!
2 Exegese V. 21 – O Cristo vivo pulsava em todo o ser de Paulo. No entanto, diante dos sofrimentos, calúnias, prisões, açoites (cf. 2Co 11.16-33), ele afirma que a
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morte poderia representar um fim para isso tudo, um alívio físico, psíquico e antropológico. Diante da situação em que Paulo se encontrava, a morte poderia ser um ganho. V. 22 – A prisão de Paulo é consequência de sua missão, de sua tarefa. Independente de estar livre ou preso, ele coloca sua vida a serviço da evangelização, animando os irmãos. Se partisse para a eternidade, estaria longe desse “vale de lágrimas e dores”, o que para ele parecia mais conveniente. No entanto, pensar só em si mesmo seria uma opção inaceitável, e optar pelos outros, como sempre fizera, o deixava perplexo. Se ele não fizesse grandes esforços, se não usasse seus direitos como cidadão romano, facilmente poderia morrer na prisão. Ele sabia que a escolha não dependia dele mesmo, mas de Deus. No final, opta por continuar a viver e continuar servindo. Vence seu desejo de solidão e aposta na parceria da missão. V. 23-24 – Aqui Paulo continua verbalizando seus desejos e seu dilema: partir e estar logo com Cristo ou permanecer e estar junto com irmãos e irmãs na fé? Concluir sua missão de maneira solitária ou continuar firme na missão, junto a outras pessoas? V. 25 – Paulo expressa sua convicção, aquilo que sua consciência lhe revela e que pulsa em seu ser como discípulo de Cristo: ele decide permanecer e permanecer junto, fazendo uma combinação do verbo menō (permanecer) e paramenō (junto+permanecer = permanecer junto). Estar junto é expressão da alegria plena a qual são convidados a sentir (4.4) e anunciar. Alegria que vem de uma vida de comunhão, de esperança e amor. V. 26 – Essa vivência do evangelho seria motivo de orgulho e altivez da comunidade. Paulo não esconde o direito de gloriar-se, de envaidecer-se, de partilhar as vitórias do evangelho, depois de tantas lutas e sofrimentos. A expressão kauchēma significa altivez, orgulho ou sentimento de superioridade. Esse orgulho em Cristo é lícito, porque será sempre um orgulho íntimo, próprio e encorajador, que se alimenta da confiança no evangelho e da esperança na parúsia em Cristo (v. 23). Paulo espera “permanecer e continuar junto” com os filipenses e promete revigorar o crescimento na fé com seu retorno à comunidade. V. 27 – Paulo faz um pedido à comunidade: Uma só coisa peço a vocês: comportem-se como pessoas dignas do Evangelho de Cristo. Paulo sabe que eles continuarão firmes, estando ele presente ou não. Ele deseja que eles continuem firmes nessa luta dura e difícil, sem medo dos adversários. Esse modo de comportar-se dignamente, tal qual o evangelho exige, revela-se na vida em comunhão. O verbo synathleō significa lutar com comum esforço, lutar irmanado de corpo e alma no mesmo projeto ou contra o mesmo inimigo. Para tanto Paulo ainda usa o verbo stēkō, que significa estar de pé, erguido. Nesse contexto, pode-se traduzir como: estar firme, forte, erguido, em contraposição ao que poderia ser um comportamento ou posição derrotista, desanimada ou lamuriosa diante dos embates com os inimigos e adversários. Ser um só corpo e uma só mente (v. 27; At 4.32; 1Co 16.13; Ef 4.3) se constitui numa necessidade imperativa frente aos opositores e adversários.
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V. 28 – Não temei nenhum dos vossos inimigos [...]! O “não temor” é um tema forte na relação de Jesus com seus discípulos: Não tenhais medo deles (Mt 10.26); Não temais os que matam o corpo [...] (Mt 10.28). A situação não é pacífica, e não é apenas Paulo que está em perigo por estar na prisão. Os filipenses também estão em dificuldades, enfrentam lutas com seus opositores. Há os que atrapalham o caminho porque anunciam o evangelho por inveja (1.15-17), mas há também os que se postam em trincheiras inimigas, se colocam em linhas opostas, os antikeimenōn, que podem ser vistos como opositores, agressores e inimigos, romanos ou judaizantes. São motivados a estar de pé e não temer para que os inimigos não se sintam vencedores. V. 29 – A “teologia da resistência” produz um agraciamento em Cristo. A fé vivida torna-se verdade, justiça, santidade e resistência em todas as horas e situações. O ato de crer é uma profissão de fé no compromisso, em todas as circunstâncias. Por isso a fé produz a resistência, e a resistência constrói o amor, pois só o amor constrói (1Co 8.1). Mas essa construção do amor segue outra vez o exemplo de Cristo: Se alguém quiser vir depois de mim, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e me siga (Mc 8.34). A capacidade da doação de si em favor de alguém ou de uma causa maior exige o esvaziamento para um preenchimento perfeito com uma nova realidade (o exemplo de Cristo, 2.5-11). O evangelho traz consigo a experiência do oposto. Todo aquele que encontrou Jesus estará, invariavelmente, encontrando à sua frente os adversários do evangelho, porque todo amor radical pelo evangelho envolve a hostilidade dos seus antagonistas. V. 30 – A missão não é um caminho de flores, mas muito mais um “caminho entre espinhos”. O uso do termo agōn (luta, batalha, combate) aponta para o desfecho da opção pelo evangelho. O segredo maior que anima Paulo é este: Para mim o viver é Cristo! E por vida de serviço e de vivência do evangelho que ele vai optar e se empenhar até o fim.
3 Meditação a) Servir por amor ao evangelho A verdadeira atitude do evangelizador ou da evangelizadora está na sua maneira de se colocar a serviço de todos para conquistar a todos. Paulo faz qualquer coisa para ganhar pessoas para o reino de Deus (cf. 1Co 9.19-22). Esse servir vai até as últimas consequências, deixa-se envolver por dúvidas, conflitos, desejos bem humanos. Já ouvimos a expressão de que a dúvida é irmã da fé. Quem não fica em conflito interior consigo mesmo diante do servir, da missão que Deus nos confia, não sabe dos percalços da fé, e de como Cristo desce ao nosso encontro para nos salvar, ajudar, consolar, animar e fazer ficar firmes e ir adiante, apesar dos pesares, mas na certeza de que haverá alegria e júbilo no céu e na terra por termos feito a melhor opção.
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b) Desejos conflitivos Nossa vida é feita de muitos desejos. Desejamos muitas coisas. Algumas pessoas talvez até tenham o desejo de abandonar o barco, de deixar de apostar numa vida de comunhão, partilha, de motivar para ações de solidariedade em meio à dor. Às vezes queremos largar tudo e jogar tudo ao léu. Desejos que estiveram presente com o profeta Jonas e com os trabalhadores da vinha, conforme as leituras que acompanham o texto de hoje. Sim, os desejos da nossa natureza humana nos habitam, assim como também estiveram com Paulo. Respondemos a eles ou à vontade de Deus? Paulo escreveu da prisão e sabe que existe a possibilidade de ele ser assassinado. Ao mesmo tempo, ele se sente responsável pela caminhada da comunidade. Reconhece que vão sofrer com sua morte e que ainda poderia realizar um trabalho frutífero para o reino de Deus: Se eu ainda continuar vivendo, poderei realizar um trabalho útil. Por isso, não sei o que escolher (1.24). Esses desejos conflitivos são muito comuns hoje em dia, quando rápidas e profundas transformações modificam a nossa compreensão do mundo e nossa capacidade de situar-nos nele e comprometer-nos com a sua transformação. São muitas e variadas as tendências nessa busca por uma boa qualidade de vida, nesta tumultuada e complexa realidade do mundo de hoje. c) Permanecer na missão requer parceria Não há outra saída, outra solução. Escolhamos a melhor parte: estar juntos, permanecer na missão, ficar firme, estar em pé. Paulo opta por ficar e não por cessar seus sofrimentos e estar prontamente com Cristo. Muitos outros nomes podem ser dados para essa caminhada em conjunto na missão de viver e anunciar o evangelho: fraternidade, sororidade, irmandade, companheirismo, comunhão, parceria, amizade, comunidade, igreja... Seja qual nome usarmos, todos são unânimes num quesito: se queremos vencer, ter boa qualidade de vida, se queremos lutar contra forças inimigas, precisamos estar unidos, unidas, juntos e juntas, em fé, esperança e amor. Caso contrário o inimigo vencerá. Essa mensagem que animou e confortou Paulo na prisão continua nos motivando e capacitando ainda hoje diante das adversidades, de perigos e sofrimentos que o mundo impõe. Diante desta realidade, somos chamados e chamadas a resistir, lutar e juntos vencer, por amor ao evangelho e sua mensagem de paz e comunhão, alegria e irmandade! Vida cristã só tem sentido se for uma vida partilhada, em comunhão, em que as pessoas se fortalecem mutuamente e são fiéis ao preceito evangélico de Romanos 12.5: Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram! Façamos isso em comunhão e na certeza de que Cristo habita em nós e nos fortalece para a missão. Dinâmica: Partilhe exemplos da vida da comunidade em que pessoas, agindo juntas, encontraram soluções para conflitos e problemas! Se quiser, peça para pessoas darem um breve testemunho no culto.
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4 Imagens para a prédica Comentário sobre Filipenses 1.27-30 por Johannes Bugenhagen: A unidade em Cristo resulta em humildade e amor. “Quando isso acontece? Sempre que guardamos o ensino de Cristo inalterado e puro, não permitindo que qualquer ensino humano que exalte as obras e tragicamente cause separação seja acrescentado a ele [...] o corpo santo de Cristo. Em resumo, nada mais resultará senão uma amarga disputa, logo que permitirmos qualquer outra coisa além da pura e simples Palavra de Deus. Se isso não acontecer, elogiaremos a nós mesmos, julgaremos os outros, nos consideraremos melhores que os outros e, então, seremos separados do corpo de Cristo juntamente com as seitas [...] Por outro lado, onde estiver o puro e claro evangelho, sempre haverá também uma fé simples e um amor puro. Entre aqueles que mantêm a única Palavra de Deus, não pode haver divisão. Aqueles que reconhecem que receberam todas as coisas da misericórdia de Deus são incapazes de elogiar a si mesmos. Aqueles que sempre se lembram disso são incapazes de acusar ou julgar uns aos outros. E, de fato, cada um fica de pé ou cai do seu próprio mestre e, embora entre eles existam diferentes dons, diferentes obras, diferentes práticas e diferentes perseguições, ninguém pode ridicularizar o chamado do outro, mas o que cada um faz deve agradar a todos. Eles suportam as fraquezas uns dos outros. Eles utilizam seus dons para o bem uns dos outros. Cada um sofre com o outro; cada um ajuda o outro. Em resumo, cada um se dedica ao outro, não se considerando igual ao outro nem à altura do outro. É assim que os cristãos devem tratar uns aos outros.” (Apud TOMLIN, 2015).
5 Subsídios litúrgicos Acolhida “Não caminhes diante de mim: talvez não conseguirei acompanhar-te. Não caminhes atrás de mim: talvez não conseguirei guiar-te. Caminha ao meu lado, na amizade” (Albert Camus). Poema: O Que Restará de Ti (It rastreatra de Toi) O que restará de ti é tudo aquilo que deste E não o que guardaste nos cofres enferrujados. O que restará de ti e de teu jardim secreto é uma flor esquecida jamais fenecida. E tudo que deste nos outros florescerá. Pois aquele que perde a vida um dia encontrará. O que restará de ti é tudo que ofereceste De braços abertos numa manhã ensolarada E tudo que perdeste ao longo da jornada. E tudo que sofreste nos outros reviverá. Pois aquele que perde a vida um dia a encontrará. O que restará de ti: uma lágrima caída, um sorriso brotado nos olhos do coração.
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É verdade, o que restará de ti é o que semeaste, dividiste com os que buscam a felicidade. E tudo que semeaste nos outros germinará Pois aquele que perde a vida um dia a encontrará! (O Que Restará de Ti é uma tradução livre de autoria de Miguel Falabella do poema francês “It rastreatra de Toi” e foi recitado em homenagem à atriz Márcia Cabrita no Programa Fantástico em 12/11/17, por ocasião de seu falecimento.) Absolvição dos pecados “Deus não é alguém que olha para cima, pois não há ninguém que esteja acima dele, ele também não olha para os lados, pois não há ninguém que se iguale a ele, mas Deus olha para baixo, pois ali está o povo no meio da sua criação” (Martim Lutero). Leitura do Salmo 86.15-16 Confissão de fé “Nada conheço e nada quero conhecer em questões divinas, exceto meu Senhor Cristo. Ele deve ser tudo que concerne à minha salvação e ao que deve ser tratado entre Deus e mim. E embora eu experimente muitas tentações e resistência da parte do diabo, do mundo e de minha própria consciência, precisando, inclusive, sofrer a morte por causa disso, permanecerei nessa fé. Estou determinado a viver e a morrer nela” (LUTERO, 2010, p. 93). Sugestão de hinos: Grupo Ânima – Parceria no caminhar (http://www.luteranos.com.br/textos/parceria-no-caminhar) – Bom que já nos pertencemos (http://www.luteranos.com.br/textos/bom-que-ja-nos-pertencemos)
Bibliografia MAZZAROLO, Isidoro. Carta de Paulo aos Filipenses. Rio de Janeiro: Mazzarolo, 2011. MESTERS, Carlos; LOPES, Mercedes. Elogio da Amizade. Círculos Bíblicos sobre a Carta aos Filipenses. São Leopoldo: CEBI, 2009. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia; Canoas: Ulbra, 2010. v. 11. TOMLIN, Graham. Filipenses e Colossenses – Comentário Bíblico da Reforma. São Paulo: Cultura Cristã, 2015.
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17º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
27 SET 2020
PRÉDICA: MATEUS 21.23-32 EZEQUIEL 18.1-4,25-32 FILIPENSES 2.1-13
Luiz Temóteo Schwanz
Entre “o sim e o não”, somos filhos e filhas de Deus, aperfeiçoados e aperfeiçoadas na graça!
1 Introdução Um dos textos de leitura para o 17º Domingo após Pentecostes é Ezequiel 18.1-4,25-32. Por meio do profeta, Deus transmite aos deportados a mensagem de que o exílio não aconteceu por causa das transgressões dos antepassados, mas por causa das próprias iniquidades do povo. Por isso o profeta conclama a que não se repita mais em Israel o conhecido provérbio: os pais comeram as uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram (v. 2b), para dizer que os que estão no exílio estão colhendo a injustiça dos pais. Nos versículos finais, o texto chama a uma conversão, à formação de um novo coração e espírito, pois Deus não tem prazer na morte de quem quer que seja e conclama: convertei-vos e vivereis! O outro texto de leitura é Filipenses 2.1-13, dentro do qual está o famoso hino cristológico da carta. O hino trata da kenosis de Cristo, que se esvaziou a si mesmo, entregando a sua glória divina, a fim de viver uma vida humana em meio a sofrimento e morte de cruz. O pano de fundo do hino é baseado no esquema bíblico de humilhação, seguido pela exaltação, no qual a pessoa justa que sofre é recompensada por Deus (Sl 49.15-16; Mt 23.12). Ressalta-se no hino o tema da obediência: Jesus é o Filho obediente que sofre a morte, e morte de cruz, para proporcionar salvação! O texto previsto para a prédica é o de Mateus 21.23-32, em que Jesus é questionado sobre autoridade do seu ensino. Jesus responde a seus interlocutores com uma outra pergunta, da qual faz depender a sua própria resposta. Como eles não respondem, para não cair em contradição, Jesus também não responde qual a origem da sua autoridade. Na sequência, Jesus lhes conta a parábola de dois filhos: o primeiro diz que vai trabalhar na vinha de seu pai e depois desiste, enquanto que o segundo diz que não vai e depois se arrepende e vai. Jesus compara o segundo filho a pessoas marginais da sociedade, que são mal vistas, mas acabam fazendo a vontade do pai. Esses, na opinião de Jesus, precedem sacerdotes e anciãos no reino de Deus. O fio condutor que perpassa os três textos é a questão da obediência. Será que pais que comem uvas verdes (desobedecem), embotam (mancham) os dentes dos seus filhos? Não! Por isso Ezequiel conclama: jamais direis este provérbio em Israel. Filipenses 2 fala do Cristo que foi obediente a ponto de sofrer morte
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e morte de cruz. E o evangelho, texto da prédica, nos fala da parábola dos dois filhos, um desobediente e outro obediente.
2 Exegese Mateus foi escrito por volta de 80/90 d.C. num contexto judaico-cristão, razão das muitas alusões ao Antigo Testamento nesse evangelho. Sua autoria é atribuída ao discípulo Mateus, o cobrador de impostos. Diferentemente dos outros evangelhos, Mateus costuma usar a expressão basileia tōn ouranōn (reino dos Céus) em vez de basileia tou Theou (reino de Deus), como em Marcos. Curiosamente, nessa perícope, no v. 31, usa-se a expressão reino de Deus. O texto em questão se encontra após a entrada de Jesus em Jerusalém, a purificação do templo, algumas curas realizadas, o episódio da figueira estéril, e antes da parábola dos lavradores maus. Em verdade, parte da perícope (Mt 21.2327) é matéria sinótica, enquanto 21.28-32 é matéria exclusiva de Mateus. Mateus informa, no final do sermão do monte, que Jesus ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas (Mt 7.29). Ao ensinar no templo, os principais sacerdotes e os anciãos do povo o questionam sobre sua autoridade (exousia): com que autoridade fazes essas coisas? – referindo-se aos atos insólitos que Jesus acaba de praticar: a entrada messiânica em Jerusalém, a expulsão dos cambistas e as curas milagrosas no templo. As autoridades religiosas da época querem pegar Jesus em contradição (assim como, mais tarde, os saduceus com respeito à ressurreição – Mt 22.23-33). Jesus lhes coloca uma contrapergunta: de onde procede o batismo de João: dos céus ou dos humanos? Eles, caindo em si, notaram que se dissessem “dos céus”, Jesus lhes perguntaria por que não creram nele; se dissessem “dos humanos”, eles seriam questionados pelo povo, pois todos consideravam João como profeta. Como os sacerdotes e anciãos não chegam a nenhuma resposta, tampouco Jesus lhes revela com que autoridade realiza seus feitos. Na sequência, Jesus conta a parábola dos dois filhos, que é matéria exclusiva de Mateus. Essa parábola, no versículo 32, faz uma aplicação surpreendente a João Batista: ele vivenciou o que o pai da parábola experimentou, ou seja, a rejeição dos que assumiram para si o serviço da seara, mas efetivamente vivem distantes de Deus. Afirmação com teor semelhante se encontra também em Lucas 7.29-30, em contexto diferente. Por isso se pode supor que Mateus a tenha introduzido nessa parábola para conectá-la com o trecho anterior. Ou a referência a João Batista já constava na parábola, razão pela qual o evangelista a inseriu após a discussão sobre a autoridade de Jesus. A parábola original poderia ter concluído com o v. 31. J. Jeremias afirma que seu sentido original visava justificar a boa nova do evangelho a pessoas desprezadas (no caso, publicanos e pecadores). A referência a João Batista confere a ela uma aplicação histórico-salvífica que lhe era estranha (JEREMIAS, 1976, p. 83-84). Para publicanos e meretrizes, a promessa do evangelho que justifica por graça e fé já se cumpriu. Os que dizem não e vão precedem no Reino àqueles que dizem sim e não vão. Estes não estão
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excluídos da ação salvífica, mas necessitam de metanoia, ou seja, mudança de mentalidade e de rumo.
3 Meditação Se no início do texto Jesus é questionado com respeito à sua autoridade, ao longo do texto a situação se inverte e Jesus passa para a ofensiva, encurralando os sacerdotes e anciãos do povo em suas contradições. Do mesmo modo, nós também somos questionados em nosso labor teológico e em nosso dia a dia sobre nossas posturas políticas, teológicas ou filosóficas. Algumas vezes nos portamos como o primeiro filho da parábola, que aparentemente atende o apelo do pai para ir trabalhar na vinha, mas depois não vai. Essa falta de obediência pode expressar-se, por exemplo, na ausência de voz profética que anuncia a justiça e denuncia as injustiças deste mundo, como o faziam os profetas veterotestamentários. Outras vezes podemos estar entre aqueles que não querem enfrentar muitas situações, mas no fim acabam cedendo e vão trabalhar, empenhando-se na seara do Senhor, onde, segundo Jesus, há poucos trabalhadores efetivamente dispostos a ampliar seu ministério. A parábola nos fala de pessoas que não querem ir, mas depois vão, e de pessoas que respondem positivamente, mas depois não vão. São duas respostas diferentes para a mesma tarefa. Nesse sentido, a parábola nos traz uma grande lição e nos ajuda a discernir entre palavra e ação. Temos que aprender a olhar para além das palavras e promessas, não só no sentido negativo (a pessoa não faz o bem que diz fazer), mas também no positivo (a pessoa faz o bem, mesmo dizendo que não). Foi com base nessa parábola, por exemplo, que o pastor Oskar Pfister via em Sigmund Freud um “filho” que disse “não”, por se considerar uma pessoa agnóstica, mas que fez a vontade do Pai ao criar instrumentos para libertar as pessoas de seus grilhões da patologia mental. Nessa perspectiva, podemos refletir também sobre muitas pessoas do meio secular que desenvolvem saberes, ações, conhecimentos que servem para a cura de alguém e estão cumprindo a vontade do “Pai”, mesmo que “de boca” não confessem a fé ou alguma crença. Jesus mesmo disse que não é quem diz Senhor, Senhor que entrará no reino dos céus, mas quem faz a vontade do Pai (Mt 7.21). Assim, o texto nos ajuda a abrir os olhos para a verdade de Deus que vai além dos muros da igreja. Deste modo, não precisamos nos preocupar com as filhas e os filhos que dizem sim ou não. Não precisamos nem podemos separar o trigo do joio, já que essa é tarefa exclusiva do Pai. Jesus relaciona os principais sacerdotes e os anciãos do povo com o filho que diz “sim” para o Reino, mas na verdade vivem de legalismos, regras e medo do povo. Já os cobradores de impostos e as prostitutas, pessoas desprezadas e à margem da sociedade da época, aceitaram e creram no batismo de João Batista. Logo, as pessoas humilhadas creram e por isso Jesus afirma que essas precedem àquelas autoridades no reino de Deus. Seguidamente os evangelhos nos mostram que os grupos menosprezados, como os “publicanos e pecadores” (Mc 2.16; Mt 11.19; Lc 15.1), os “publicanos e prostitutas” (Mt 21.32) , os “pecadores” (Lc 7.37;39) são alvos da boa nova de
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Jesus. Esses termos e designações provavelmente foram cunhados pelos adversários de Jesus, a saber, intérpretes da lei, anciãos do povo, fariseus, saduceus e outros grupos religiosos e políticos. O termo “pecador” significava, no tempo de Jesus, não apenas as pessoas que desprezavam notoriamente os mandamentos de Deus, e por isso eram marcados pela opinião pública, mas também pessoas que exerciam profissões desprezadas. Segundo a opinião popular, seriam profissões que levariam à imoralidade e à desonestidade. Dentro dessa segunda categoria estavam, entre outros, os jogadores de dados, os usuários desses jogos, os coletores de impostos, os publicanos e os pastores de ovelhas (desses se suspeitava que conduziam seus rebanhos para pastagem alheia ou surrupiavam os produtos do rebanho, cf. JEREMIAS, 2011, p. 177). Levemos em conta que quando os evangelhos falam de “pecadores”, referem-se a pessoas que levavam uma vida de má fama, bem como aos que se dedicavam a uma vida laboral desprezada. Isso fica evidente quando se fala de meretrizes e publicanos (Mt 21.32), ladrões, falsários, adúlteros e publicanos (Lc 18.11). Importante notar que o Salvador veio justamente para que essas pessoas pudessem ter uma metanoia, uma mudança de mentalidade. Não só esses, publicanos e meretrizes, mas também os que já se achavam garantidos no reino dos Céus, como os principais sacerdotes e anciãos do povo, foram chamados ao arrependimento e à conversão. O texto nos instiga a refletir sobre a nossa palavra dita e a nossa ação, que devem ser coerentes, mesmo que às vezes façamos ao contrário. Muitas vezes o nosso querer é um, mas devido às circunstâncias, o nosso agir difere. Somos pessoas pecadoras e não conseguimos agir plenamente conforme a vontade de Deus. Graças ao agir libertador e gracioso de Deus, somos aperfeiçoados diariamente, o que constitui o processo de santificação. Às vezes estamos na condição do primeiro filho: dizemos sim, e não vamos! Outras vezes também dizemos que não vamos e acabamos indo, abraçando a causa do reinado de Deus! Isso nos revela a nossa condição de pessoas simultaneamente justas e pecadoras. Por isso o arrependimento diário é necessário. O velho ser humano em nós (‘adam) é esse filho que diz que vai, mas desiste, porque está corrompido pelo afastamento de Deus (pecado). Outras vezes estamos desanimados e dizemos que não vamos, mas acabamos indo, o que é um sinal de que Deus não desiste de nós. Assim, como pessoas justas e pecadoras, entre o sim e o não, somos santificados e aperfeiçoados na graça, mesmo sendo imperfeitos.
4 Imagens para a prédica Como os três textos fazem menção à obediência, sugiro iniciar a prédica contando uma história sobre um menino obediente. Havia, certa vez, no interior do Japão, um casal que morava na roça e fabricava sandálias de palha. Eles tinham um filho de 12 anos. O garoto era muito obediente. Um dia, a mãe pegou três palhas, deu a ele e disse: “Filho, vá à cidade e compre, com essas palhas, três peças de seda”. O menino obedeceu na hora. Pegou as três palhas e saiu. No caminho, foi visto por uma mulher que lavava
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cebolas em um riacho. Ela pediu ao menino para lhe dar aquelas três palhas para amarrar as cebolas. “Dar eu não posso”, disse o garoto, “porque essas palhas valem três peças de seda”. A mulher lhe deu então três cebolas em troca das palhas, e o menino continuou a viagem. Mais adiante, passando diante de uma hospedaria, o dono viu o garoto com as cebolas e pediu a ele que as cedesse, para ele fazer um molho, pois chegaram hóspedes e ele não tinha as cebolas. “Ceder, não”, disse o menino, “pois estas cebolas valem três peças de seda”. O homem então lhe deu, pelas cebolas, um vidro de molho. E o menino continuou a viagem. Um pouco à frente, um fabricante de espadas viu o garoto passando com o vidro de molho. Correu ao seu encontro e lhe pediu aquele molho. Ele acabara de receber visitas e não sabia onde encontrar tempero para servi-los. “Dar eu não posso”, disse o menino, “pois esse molho vale três peças de seda”. O homem trocou então o molho por uma espada. O garoto colocou a espada na cintura e continuou o seu caminho. Já estava bem perto da cidade, quando escutou um barulho. Era a princesa que passava com sua comitiva. Quando a princesa viu o menino com a espada, pediu ao cocheiro que parasse a carruagem. Ela desceu, aproximou-se do garoto e lhe disse que não era permitido uma criança usar espada, e que ele devia entregar aquela espada. “Entregar, não”, respondeu o menino, “esta espada vale três peças de seda”. A princesa quis saber o porquê, e ele contou a história. Ela o levou até o palácio e lhe deu as três peças de seda. A criança voltou para casa e entregou a seda para a sua mãe. O caminho da obediência sempre é o melhor, mesmo que no começo nos pareça impossível (Pe. Antônio Queiroz). Além do tema da obediência, podemos relacionar um elemento central do texto, metanoia (mudança de mentalidade) com o tema do batismo e conversão diária, quem sabe, ler ou projetar o Catecismo Menor acerca do batismo. E abordar o nosso compromisso como pessoas batizadas. Lembrar que, em diferentes momentos da vida, podemos estar na condição do filho que diz “sim” e “não” vai. E em outro momento podemos estar na condição do filho que diz que “não vai” e depois vai para a vinha. Salientar nossa simultaneidade de pessoas justas e pecadoras que são aperfeiçoadas diariamente na graça por meio da fé em Cristo Jesus.
5 Subsídios litúrgicos Hinos
LCI 29 – Senhor, Tu nos chamaste LCI 51 – Cristo acolhe o pecador LCI 503 – Quem só em Deus o Pai confia São hinos que, no decorrer do culto, auxiliam na reflexão.
Oração Em algum momento poderia ser usado e adaptado o seguinte texto como oração: “O Reino de Deus é chegado! É tempo da vida mudar! Apostai tudo aquilo que tendes nesta nova e importante notícia! O Reino de Deus é chegado! ...Sacudindo a poeira dos móveis... remexendo os porões encardidos... espalhando a verdade esquecida... Construindo os sonhos perdidos... O Reino de Deus é chega-
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do! ...restaurando as vidas feridas... envolvendo as pessoas sozinhas... apoiando os tristes, cansados... instaurando um tempo melhor!” (PEREIRA; CARDOSO, 1993, p. 31) Versículo de aclamação do evangelho Ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para a glória de Deus Pai (Fp 2.10-11). Bênção Que a paz dada por Jesus Cristo te renove no caminhar diário. Que a paz, como dom do Espírito Santo, te fortaleça para proclamar que em Deus há um mundo de paz. Deus te bendiga (Livro de Culto, p. 325/bênção 3).
Bibliografia JEREMIAS, Joaquim. As parábolas de Jesus. São Paulo: Paulinas, 1976. JEREMIAS, Joaquim. Teologia do Novo Testamento. Nova Edição Revista e Atualizada. São Paulo: Hagnos, 2011. PEREIRA, Nancy; CARDOSO, Ernesto. Novos gestos, novos olhares. Rio de Janeiro: Instituto de Estudos da Religião, 1993.
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18º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
04 OUT 2020
PRÉDICA: ISAÍAS 5.1-7 MATEUS 21.33-46 FILIPENSES 3.4b-14
Hans A. Trein
Vocês são os caras!
1 Introdução O texto de prédica recebeu três auxílios homiléticos: Proclamar Libertação VII, p. 87; XIII, p. 147; 21, p. 252. Constato que a explicitação do profeta Isaías, de quais eram as “uvas bravas” que a vinha de Deus estava produzindo, no trecho logo a seguir de Isaías 5.8ss, não recebeu nenhum auxílio homilético. Será que esse texto não aparece na ordem de textos bíblicos previstos para pregação? É de se perguntar por quê! No Brasil da escandalosa desigualdade, as críticas proféticas são brilhantemente atuais. A vinha é uma figura muito presente no Primeiro e no Novo Testamento, imagem de beleza, fertilidade, potencial para a produção do que dá prazer na vida. Vai além da sobrevivência nua e crua. A vida sem a doçura da uva e o sabor do vinho é menos vida. A vinha de Deus é o seu dileto povo que lhe dá prazer, cujas uvas boas são juízo e justiça. Isso é o que torna a vida mais vida. No texto de leitura, em Mateus 21.33-46, a vinha parece significar o povo arrendado a um grupo de governantes que mata os profetas e, enfim, o próprio filho do dono da vinha, quando esses vêm colher os respectivos frutos, que lhe cabem. Esses governantes estão construindo uma sociedade sem a pedra angular principal, o que fará ruir toda a construção. Na segunda leitura bíblica, de Filipenses 3.4b-14, o apóstolo Paulo reflete sobre a autoconfiança enganosa de fazer parte do povo eleito (da vinha) de Deus: confiar na carne, nos seus próprios méritos, ou seja, na salvação pela observância da lei. Diante de Cristo, toda essa autoconfiança, aparentemente lucro, se transforma em perda total, vira refugo! O vinho novo rompe os odres velhos! Não existe justiça própria, meritocracia! Há somente a justiça que procede de Deus mediante a fé em Cristo! A localização desses textos mais para o final do ano eclesiástico acentua o juízo de Deus sobre as suas vinhas de ontem e hoje (KILPP, 1995, p. 253).
2 Exegese A estrutura do texto pode ser distinta no seguinte drama em três atos: V. 1-2 – Anúncio e desenvolvimento da narrativa V. 3-4 – Desafio aos ouvintes de fazerem o seu julgamento
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V. 5-6 – Anúncio do próprio juízo e das consequências V. 7 – Interpretação da narrativa (aqui está a verdadeira acusação) Essa é uma estrutura semelhante àquela em que o profeta Natã envolve o rei Davi a fazer um julgamento de si próprio, quanto à morte de Urias (2 Samuel 12): Tu és o homem! A estrutura pode ter ainda outros títulos: V. 1-2 – “O meu amado” fez tudo pela vinha, mas ela deu uvas bravas. Retrospecto sobre a ação salvífica originária de Deus. V. 3-4 – Convite a julgar o que mais se poderia ter feito. A resposta inferida é: “Nada”! V. 5-6 – Anúncio do que o dono vai fazer com a vinha. Deixará a vinha à sua própria sorte. Em v. 6b fica claro que é Deus o dono da vinha, pois controla as chuvas. V. 7 – Identificação dos elementos da parábola. Vocês são os caras! Embora um tanto estranho, pelo tema que aborda, a narrativa poderia ser uma trova numa vindima. Entretanto, os ouvintes da trova são identificados no v. 3: moradores de Jerusalém e homens de Judá, governantes e militares. O lugar da trova, portanto, é a cidade que concentra o poder econômico, político e religioso. Nos v. 5-6, o trovador torna-se porta-voz do seu amigo e anuncia o que fará: a proteção da vinha será destruída, a vinha deixada à sua própria sorte; os verbos em infinitivo absoluto deixam indefinido o sujeito dessa ação, que só no v. 6 volta a ser o vinhateiro/amigo (CROATTO, 1989, p. 51). O v. 7 identifica claramente os elementos da metáfora: o camponês é Deus e a vinha é a casa de Israel e os homens de Judá. Esses são os culpados da frustração do vinhateiro. As uvas bravas que produziram é o quebrantamento da lei e os clamores (das pessoas injustiçadas). Os ouvintes convidados para julgar juntos, na verdade, também são os acusados que agora são desafiados a pronunciar um julgamento sobre si mesmos, em face das “uvas bravas” que produziram. Dá para imaginar o choque que esse pessoal da cidade sentiu! Os v. 8-24 descrevem claramente as “uvas bravas” produzidas pelos moradores de Jerusalém e os homens de Judá: acumulam bens, fazem festas e banquetes, circulam apenas em suas rodas, não têm noção da vida precária do povo; são vaidosos e praticam a iniquidade; ao mal chamam bem e ao bem mal; consideram-se sábios e inteligentes, valentes para misturar bebida forte; absolvem o ímpio mediante suborno e negam justiça ao justo. Rejeitam a lei de Iahweh. A vinha como povo pelo qual Deus tem especial predileção, com todo o imaginário prazeroso e produtor de justiça, shalom e felicidade, é recorrente em ambos os testamentos bíblicos. O Salmo 80.8 retrocede essa figura ao êxodo: Trouxeste do Egito uma parreira, o povo de Israel; expulsaste os outros povos e plantaste essa parreira na terra deles. A visão de Isaías 25.6: O Senhor dos Exércitos preparará para todos os povos sobre esta montanha, um banquete com as mais finas comidas, uma festa com vinhos selecionados, com as melhores e mais finas iguarias, com os melhores vinhos selecionados. No capítulo 65.17-
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22, Isaías agrega um elemento de justiça social à sua visão dos novos céus e da nova terra: o passado de desgraças será esquecido, as pessoas construirão casas e morarão nelas, farão plantações de uvas e beberão do seu vinho, não serão mais expropriadas dos frutos de seu trabalho; todos terão o prazer de aproveitar as coisas que eles mesmos fizeram. Entretanto, como aqui, também outros profetas se valem dessa bela figura da vinha para criticar os desvios das lideranças políticas e religiosas do povo dileto. De modo semelhante Jeremias 2.21 traz um dito de Deus: Eu mesmo a plantei como videira excelente, da semente mais pura. Como, então, você se tornou uma planta degenerada, como de videira brava? Ezequiel 15.1-8 é ainda mais contundente quando compara o tronco da videira com a madeira de outras árvores e chega à conclusão de que a madeira da videira só serve mesmo para ser queimada, nem se fala mais de uvas bravas. No Novo Testamento, Jesus é apresentado como a videira verdadeira: Eu sou a videira verdadeira, e o meu Pai é o lavrador (João 15.1). Eu sou a videira, e vocês são os ramos (João 15.5). Essa videira produz vinho novo. Os odres velhos não o suportam (Marcos 2.22). Esse vinho novo rebenta as estruturas tradicionais. É esse o servo sofredor ao qual Isaías já apontava em suas profecias nos capítulos 42 e 49-52, onde por vezes se fica em dúvida, se o profeta está falando do povo escolhido de Israel ou apontando para o Messias? A parábola dos lavradores maus, de uma das leituras previstas, o desenha com detalhamento histórico. São necessárias estruturas novas, para acolher esse vinho novo. A fé da ressurreição é capaz de prover esses odres novos?
3 Meditação O texto é de juízo, a profecia é dura. No entanto, o método do texto é envolvente. No v. 5, o dono da vinha torna-se o juiz do imbróglio, mas só depois de buscar ouvidos abertos e pensamento participativo, bem ao estilo Paulo Freire. O juízo, à primeira vista, não parece ser muito severo: o dono apenas tira a proteção da vinha, que agora pode ser “colhida” por animais e estranhos; não investirá mais nada na vinha, nem mão de obra nem material. A natureza tomará o seu curso. As videiras não serão mais podadas, dispenderão sua energia vital em ramos selvagens, o inço invadirá e competirá com as videiras pelo alimento mineral da terra. É o quadro da dor para uma vinha! Que significado pode ter essa retirada de proteção da vinha, quando se pensa na relação de Deus com o seu povo? Dentre os três textos bíblicos previstos para este domingo, a gente fica com mais vontade de pregar sobre o texto de Filipenses – ainda mais se ampliado até o v. 21. Este, no fundo, nos diz mais respeito. Não faz muito sentido ficar tripudiando sobre o povo de Israel, incorrendo ainda em associações que resultaram em graves tragédias históricas contra o povo judeu. Cabe ao povo judeu e ao judaísmo refletir a sua história com o seu Deus! A nós cristãos e cristãs caberia refletir sobre os atuais “inimigos da cruz” e “adoradores do seu próprio ventre”, em que se transformaram as pessoas seguidoras de Cristo, “visto que só se preocupam com as coisas terrenas”. Na história da igreja cristã não temos nenhum
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motivo para presunção ou arrogância! Essa história apenas confirma a afirmação teológica descoberta por Paulo, na Carta aos Filipenses, de que todos os méritos próprios ou a justificação por obras são perda, diante da única possibilidade de sermos agraciados com a justiça de Deus mediante a fé em Cristo, sem ter a presunção de já tê-lo alcançado. É necessário correr atrás, conquistar aquilo para o que já fomos conquistados por Cristo Jesus (v. 12). Entretanto, se entendemos que, como seguidores de Cristo Jesus, estamos incluídos no extenso povo de Deus – afinal, continuamos com o Primeiro Testamento em nossa Bíblia –, as admoestações dos profetas também se referem a nós. Ou seja, somos desafiados a nos perguntar se também nos tornamos vinha que produz uvas bravas. Quais são nossos frutos como pessoas cristãs? A pergunta não é feita a nós como indivíduos, mas como comunidade cristã localizada. Uma das mais nefastas evoluções para o cristianismo foi sua individualização. A fé cristã tornou-se um assunto particular e íntimo. Essa evolução tem vetores externos, como p. ex., a evolução de sociedades agrárias para sociedades urbanas. Contudo, também tem aí o dedo do confundidor-mor, que é a abstração espiritualizante da fé como assunto só entre mim e Deus. A pessoa fica sozinha e sente-se impotente diante da injustiça social e das políticas perversas, adotando uma postura meramente moralizante. Sua ação neste mundo fica extremamente limitada, na maioria das vezes, hipócrita ou angustiante, para não dizer quase impossível. Essa perversão da fé cristã retira toda a sua dimensão social e a correspondente ação diacônica. E a diaconia não é apenas enterrar vítimas da violência e da opressão, nem apenas consolar enlutados, ou dar esmolas a empobrecidos; também não é pedir aos oprimidos e espoliados que aguentem, até chegarem novos tempos. Conforme o nosso texto, é exercer juízo e justiça. Isso, obviamente, não está limitado pela ética individual, pois a justiça só se torna efetiva por meio da ação comunitária e política. A pessoa individual sente que pouco ou nada pode fazer para mudar uma situação de injustiça estrutural. O amor de Deus tem de ser traduzido em ação política – hoje, econômica, social e ambiental – por nós que pretendemos ser o seu povo! Se deixarmos apenas os governantes fazerem política, nos colocaremos na condição de sofrer política: quem não faz política, sofre política! Teria Lutero razão quando diz que só há governos perversos e miseráveis contra o povo porque as igrejas, com suas comunidades, não cumpriram com sua obrigação de pregar o evangelho com palavras e ações correspondentes? (WA 19, 440-6).
4 Imagens para a prédica A imagem da vinha convida para uma prédica mais narrativa. Lothar C. Hoch dá um exemplo no PL volume VII. Kilpp indica para a decoração visual do ambiente de culto com ramos novos, folhas novas, podadeiras, enxada, pedras... (KILPP, 1995, p. 256). Sugiro uma prédica em três partes: – Contar a história de um amigo vinhateiro e enólogo, seguindo o método e a estrutura dada pelo texto. A história terá mais impacto se contiver elementos atuais: zelo do amigo na escolha do solo, do lugar com a melhor incidência do
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sol, cuidado na escolha das videiras, adubação própria para a viticultura, cerca para evitar invasão de animais, câmeras vigilantes nos quatro cantos da vinha, equipamento para fazer o vinho... Uvas bravas poderiam ser uvas azedas, que são inaproveitáveis por causa da ferrugem ou porque têm uma maturação muito irregular, ou porque apodrecem antes de ficarem maduras. Então vem a pergunta que envolve as pessoas ouvintes: o que mais o amigo poderia ter feito com essa vinha? Um momento de silêncio certamente é adequado nesse ponto, para, então, seguir com a decisão própria do amigo: largar de mão, reaproveitar a cerca pra outra coisa, vender o equipamento, deixar o inço tomar conta, deixar que vire mato, descanse, antes de pensar em utilizar a terra para outra coisa. Quanto mais rica e detalhada a história, mais atenção se conseguirá prender na comunidade ouvinte. É preciso criar a ideia de que o amigo não falhou em nada. A graça de Deus é plena e abundante. Deus investiu e continua investindo muito nas pessoas que escolhe para cooperar com ele na sua bela criação. Não deixa faltar nada. E o que Deus colhe de nós como frutos de seu investimento? E, se de repente parasse de investir, como seria? – Nesse ponto se pode recordar uma breve história da salvação à base do texto de Mateus, para fazer a ponte entre o povo escolhido do Primeiro Testamento e a ekklesia, o povo escolhido do Novo Testamento, o Corpo de Cristo, do qual todos somos membros, “raça eleita”, “sacerdócio real”, “nação santa”, “povo de propriedade exclusiva de Deus” (1Pe 2.9). – Em seguida, exemplificar uvas azedas e bravas como os desvios listados em Isaías 5.8ss e as atitudes criticadas por Paulo na Carta aos Filipenses: a autoconfiança enganosa de nossos dias, “confiar na carne”, nos seus próprios méritos, ou seja, na salvação pela observância da lei, ou seja, salvação pela adequação cínica dentro de uma estrutura econômica, social e política que produz injustiça e morte e pode levar o planeta para a destruição total. Diante de Cristo, toda essa autoconfiança, aparentemente lucro, se transforma em perda total, vira refugo! A crítica profética dirige-se principalmente aos governantes, mas não exclui a nós como pessoas comuns que elegemos os governantes! Portanto o v. 7 também pode dizer: nós, comunidade cristã, somos os caras! Nós somos a vinha que Deus pode deixar à sua própria sorte se continuarmos a produzir uvas bravas, entre outras coisas, elegendo governantes obtusos, perversos, destrutivos! Nós nada merecemos! Mas Deus, pelo investimento que fez e faz em nós, merece que produzamos uvas doces que dão vinho excelente! Empenhemo-nos por estruturas econômicas, sociais e políticas justas e vida abundante para todas as pessoas!
5 Subsídios litúrgicos Hino: LCI 474 – Ó terras, todas celebrai Kyrie
Deus de justiça e misericórdia. Trazemos-te o nosso lamento. Vivemos num país tão ricamente abençoado, mas tão maltratado pelos nossos governantes. A violência não apenas aumenta, mas ainda é incentivada. O povo está doente e
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não tem onde buscar atendimento. Os projetos de educação escolar visam formar gente que repete coisas sem pensar. Atrás de cada pessoa desempregada há dependentes em vulnerabilidade. A fome e a falta de oportunidades geram insegurança e criminalidade. Tem, Senhor, piedade! Oração Deus todo-amoroso, que desde os tempos mais antigos investiste tuas bênçãos e teu trabalho criativo no teu povo eleito, para que fosse uma luz para as nações, na organização de uma sociedade justa e pacífica, e qual uma vinha desse frutos bons e o prazer do vinho para alegrar toda a tua criação, nós te pedimos: continua investindo a tua graça e as tuas bênçãos também em nós – apesar de que nossos frutos ainda são azedos e pouco aproveitáveis –, para que em tudo o que fazemos, tenhamos em mente o objetivo de melhorar o mundo em que vivemos, para a tua maior honra e glória. Isso te pedimos em nome de Jesus Cristo que contigo e com o Espírito Santo vive e reina, de eternidade a eternidade. Amém.
Bibliografia KILPP, Nelson. Auxílio Homilético sobre Isaías 5.1-7 para o 20º Domingo após Pentecostes. In: SCHNEIDER, N.; DEIFELT, W. (Eds.). Proclamar Libertação. São Leopoldo: IEPG; SINODAL, 1995. v. 21. p. 252-257. CROATTO, J. Severino. ISAÍAS – O profeta da justiça e da fidelidade. São Paulo: Vozes; Imprensa Metodista; São Leopoldo: Sinodal, 1989. (Série Comentário Bíblico, v. I: 1-39.)
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11 OUT 2020
PRÉDICA: MATEUS 22.1-14 ISAÍAS 25.1-9 FILIPENSES 4.1-9
Erní Walter Seibert
O que fazer com o convite gracioso de Deus?
1 Introdução Jesus ensinou muitas vezes por meio de parábolas. Encontramos, nos evangelhos, cerca de 40 parábolas. Elas normalmente ajudavam as pessoas a assimilar lições complexas de uma maneira bem simples. Mas parábolas, ao mesmo tempo, ocultam certas verdades. Em Mateus 13.10-15, os discípulos perguntaram ao Mestre por que ele ensinava por meio de parábolas. A resposta de Jesus é intrigante. Se, por um lado, algumas pessoas chegam ao entendimento por meio de parábolas, por outro lado, há também aquelas a quem o ensinamento ficará oculto. Por tudo isso, quando estamos diante de uma parábola, é preciso alguma cautela para ver se estamos de fato entendendo o texto. A parábola sempre era ensinada dentro de um contexto. O contexto ajuda a esclarecer o ensinamento da parábola. No caso da parábola em foco, podemos dizer que o contexto para sua compreensão começa no capítulo 21, com a chegada de Jesus a Jerusalém. Ali, na cidade mais importante da Palestina, a capital, ele vai ao templo. Esperava-se que no templo estivessem todos os que seriam salvos. Ali estavam os poderes religiosos, os que, em linguagem popular, representavam Deus. Mas, do pátio do templo, Jesus expulsou os que faziam o comércio “sagrado”. No dia seguinte, no mesmo templo, Jesus foi questionado sobre a legitimidade de sua autoridade pelos chefes dos sacerdotes e alguns líderes judeus. Jesus termina esse diálogo contando três parábolas: a dos dois filhos, a dos lavradores maus e a da festa do casamento. O que há em comum nas três parábolas é o fato delas mostrarem que nem todos os que parecem ter legitimidade de fato a têm. Nem todos são salvos. As aparências enganam.
2 Exegese O tema da parábola é o “reino dos céus” (hē basileia tōn ouranōn). As expressões “reino de Deus” e “reino dos céus” têm sentido semelhante. Em Mateus, que foi escrito para judeus, é mais comum a expressão “reino dos céus”. Pode ser porque no contexto judeu havia restrições para usar o nome de Deus. Mas há mais que isso. Reino dos céus faz um contraste com os reinos deste mundo. A origem do reino, que é de Deus, não está neste mundo. O reino é dos céus. Ou seja, não é um reino qualquer, mas o próprio reino de Deus.
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A imagem que descreverá o reino dos céus é do cotidiano: um rei preparando a festa de casamento de seu filho. Há empregados do rei envolvidos desde a distribuição dos convites até a preparação da festa. A festa tem fartura e um belo e grande local para sua realização. Aí começam os problemas. Os mensageiros do rei que foram levar os convites tiveram problemas. Alguns convidados simplesmente não deram importância ao convite do rei e foram tratar do que achavam mais importante: negócios, trabalho e ocupações. Outros mensageiros inclusive foram agredidos e mortos. O rei se irrita ao receber essa notícia e manda matar os assassinos e queimar suas cidades. Essa é a primeira cena da parábola. Até aqui a festa continuava marcada, mas não havia convidados para festejar. Aí vem a segunda providência do rei. Ele envia novamente seus empregados para distribuir convites, desta vez tentando trazer todos para a sua festa. Diz o texto que vieram “bons e maus” (ponērous kai agathous). Agora sim, o salão ficou cheio de gente. Aparentemente tudo estava bem. Aí vem a terceira cena da parábola. O dono da festa, andando entre os convidados, viu que alguém não estava usando as roupas de festa. Esse convidado foi retirado da festa para um lugar escuro, onde chorava e rangia os dentes. E a conclusão da parábola diz: muitos são convidados, mas poucos são escolhidos. Alguns aspectos da parábola não são difíceis de entender. O rei é Deus. A festa é dele. Ele é gracioso e quer dar a festa. Ninguém paga para estar presente. O convite foi dado primeiro a alguns e depois a todos. Ou seja, afinal o convite é universal. Ninguém é obrigado a aceitar o convite. Mas, por outro lado, o convite é tão especial que, se alguém não o aceita, o problema não está no convite, mas na pessoa que não aceita. O normal seria aceitar o convite. Um detalhe interessante da parábola é que os que não aceitaram o convite tiveram uma atitude de menosprezo ao convite e alguns até de violência contra o convite. Não há razão nenhuma para uma pessoa que não quer aceitar um convite ser violenta contra o mensageiro. Mas na parábola contada por Jesus esse detalhe aparece. Outro ponto de destaque é na terceira cena da parábola, quando é encontrado um convidado sem roupa de festa, ele é expulso da festa. Aparentemente, ele não estava fazendo nada de errado. Apenas não tinha a roupa adequada. Mas, na cultura daquele tempo, e de certa maneira até na cultura brasileira, numa festa de casamento, ninguém nos diz que roupa devemos usar, mas usamos a melhor roupa para honrar aqueles que nos convidam. Se aceitamos o convite, queremos honrar quem nos convidou. Se não nos portamos de forma adequada, não deveríamos estar na festa. Com esses destaques no texto, podemos tentar entender a parábola. Deus convida as pessoas para o seu reino. Estar no reino dos céus é como estar numa preciosa festa de casamento. Os convites são feitos pelos “mensageiros” ou servos de Deus. Ninguém é obrigado a aceitar o convite. Mas até hoje muitos desprezam esse convite e muitas vezes os mensageiros são perseguidos e até mortos. Parece estúpido, mas continua acontecendo. Deus continua convidando a todos. Ele insiste que quer todos no seu reino. A dignidade não está no convidado, mas naquele que convida. O convite é
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gracioso. Os que aceitam o convite naturalmente sabem que nessa festa o comportamento adequado é usar a veste nupcial. Quem aceita o convite se porta de maneira adequada para honrar seu anfitrião. Se ele não fizer isso, ele será jogado para fora da festa. No contexto bíblico, quando Jesus contou essa história, seus interlocutores que ocupavam lugares de destaque na religião e sociedade entenderam o recado. Eles passaram a perseguir o “filho do rei” que lhes trazia o gracioso convite. Como isso ocorre na nossa sociedade hoje? Todos os que estão na igreja vão ser salvos? Como deveria ser o nosso comportamento de convidados na festa do rei?
3 Meditação Quando pensamos no que esse texto nos traz de mensagem para hoje, vamos nos surpreender como essa parábola pode ser atual. A pregação normalmente é feita no ambiente da igreja. Os ouvintes, em sua maioria, se não na totalidade, são membros da igreja. O que esse texto diz para as pessoas que estão na igreja? Com quem elas se identificam? Elas são os convidados? Elas são os mensageiros que saem a convidar as pessoas? Alguém pode se identificar com os dois personagens? Será que alguém persegue os mensageiros de Deus nos dias de hoje? A igreja cristã é a religião mais perseguida em nossos dias e com maior número de mártires. Que pensamos dessa situação? O que podemos fazer para mudar isso? É possível mudar? Ainda pensando nos membros da igreja, quem seriam as pessoas que estão sem veste adequada para a festa? Por que apenas o rei percebeu que elas estavam sem a roupa adequada? Qual seria a “roupa” adequada para estarmos nas bodas do filho do rei? Todos esses questionamentos ajudam a contextualizar o texto. Podemos, no entanto, ir adiante na contextualização da história em nossos dias. Quando os servos do rei saíram a fazer convites para a festa de casamento, eles encontraram pessoas que não deram atenção ao convite e algumas chegaram a matar os mensageiros. Onde encontramos oposição ao convite de Deus hoje? Como essa oposição se manifesta? Na parábola, o rei mandou destruir as cidades onde havia pessoas que se opuseram ao seu convite. Isso ainda acontece hoje? Deus interfere na vida daqueles que não aceitam seu convite? Ou isso apenas é força de expressão? Todas essas perguntas podemos nos fazer ou ajudar os ouvintes a fazerem. Muitas dessas perguntas, possivelmente, não têm respostas absolutamente certas ou erradas. Devemos ouvir a reflexão que o texto bíblico provoca. As perguntas são delicadas e fortes. O que fica evidente na história é que o convite é gracioso, que o rei quer que as pessoas estejam na festa. A história ressalta o amor do rei e que ele não é indiferente ao que acontece. É importante que a mensagem tenha, como na parábola, esse direcionamento. Embora a história mostre que nem todos serão salvos, em nenhum momento ela dá a entender que há injustiça na posição do rei, ou que seu convite não seja sincero e bom. Ir à festa e honrar o rei com a vestimenta adequada é o que se espera de cada pessoa.
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A essência do convite vemos na pessoa e obra de Jesus Cristo, o filho do rei. Ele convida a vir a ele os cansados e sobrecarregados. Ele tem piedade de todos. Ele oferece sua graça dando perdão, vida e salvação. Nessa etapa da preparação homilética é elaborado o esboço da pregação. O título do auxílio homilético pode servir como tema da pregação. É útil para o ouvinte preparar um título de tal forma que ele provoque uma pergunta na mente do ouvinte. Isso faz com que a pregação seja um diálogo com o ouvinte. As respostas à pergunta do ouvinte serão as partes da pregação. Sugerimos como título a seguinte frase: O que fazer com o convite gracioso de Deus? a) Rejeitar b) Aceitar e viver de forma indigna c) Aceitar e viver uma vida de fé
4 Imagens para a prédica A imagem mais forte para a prédica nos é dada pelo próprio texto. Quem nunca recebeu um convite de casamento? Como reagimos quando recebemos um convite? Sempre ficamos felizes? Quais os convites que recebemos e não gostamos? Se ficamos felizes, por que ficamos assim? No reino dos céus, quando recebemos convites, como reagimos? Sempre estamos dispostos a aceitar, ou temos mil e uma desculpas para não aceitar? Quando não aceitamos os convites no reino dos céus, nos lembramos de que estamos rejeitando aquele que nos está convidando? Como deveríamos reagir de forma positiva? A segunda imagem que podemos explorar é a da roupa adequada para a festa. Alguns convites para festa já dizem qual é a roupa adequada que se espera que os convidados usem. Nos casamentos, a preocupação com roupas adequadas, aparentemente, é só dos noivos, dos pais dos noivos, dos padrinhos e dos aios ou pajens. Mas, sabemos que, na verdade, todos se preocupam com a roupa adequada. Evidentemente a imagem da roupa adequada tem a ver com o comportamento adequado das pessoas no reino dos céus. Esse comportamento adequado é opcional, é devido, ou é algo natural? O comportamento adequado da pessoa cristã no reino dos céus é para conquistar méritos (é devido), é opcional (cada um faz como bem entende), ou ele é um fruto espontâneo da fé? Por que vivemos a vida cristã e qual a maneira adequada para essa vida?
5 Subsídios litúrgicos O texto do Antigo Testamento para este domingo, Isaías 25.1-9, também utiliza a imagem de uma festa, um banquete, para descrever o amor de Deus e a obra da salvação. Deus, por sua graça e amor, prepara esse delicioso banquete para seus filhos. O texto da epístola, Filipenses 4.1-9, apresenta vários conselhos. Nas leituras da série trienal, muitas vezes, a leitura da epístola segue uma sequên-
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cia própria, dando oportunidade para quem prega de fazer uma série de prédicas sobre um livro específico da Bíblia. Esse é o caso dessa leitura da epístola. Ela não está diretamente relacionada com as demais leituras do dia. No entanto, no culto cristão, a imagem da festa, do banquete, para o qual Deus convida está presente de forma muito especial na celebração da Santa Ceia. Valorizar a Santa Ceia como uma refeição onde participamos comunitariamente da celebração da graça de Deus pode ser feito na pregação. Embora o texto não esteja relacionado com a Ceia e deva-se tomar cuidado para não forçar comparações para além do texto, mencionar esse sacramento é perfeitamente possível. O próprio ambiente do culto, normalmente, lembra uma festa. Há música, são cantados hinos, o lugar do culto é enfeitado com flores e outros adornos que mostram que estamos em um ambiente festivo.
Bibliografia BÍBLIA DE ESTUDO NAA. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2018.
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PRÉDICA: 1 TESSALONICENSES 1.1-10
20º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
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ISAÍAS 45.1-7 MATEUS 22.15-22 Antonio Carlos Oliveira João Henrique Stumpf
A quem serve a idolatria?
1 Introdução São vários os temas que poderiam ser trabalhados a partir dos versículos iniciais da Primeira Carta aos Tessalonicenses. No entanto, quando se analisa brevemente os outros textos sugeridos para o 20º Domingo após Pentecostes (Isaías 45.1-7 e Mateus 22.15-22), é possível identificar um tema que é comum aos três textos: o chamado de Deus é acima de tudo um convite para abandonarmos os valores, as crenças, as posturas, os pensamentos e as práticas não condizentes com a vontade de Deus, para podermos esperar, confiar e viver de acordo com os princípios da palavra de Deus.
2 Exegese Há um amplo consenso entre exegetas de que a Primeira Carta aos Tessalonicenses foi escrita por Paulo, Silvano e Timóteo, conforme afirmação na saudação da carta (1.1). Silvano deve ser identificado como Silas (cf. At 17.4), importante membro da comunidade de Jerusalém, que fora enviado também à Antioquia (cf. At 15.22). Timóteo é o principal auxiliar de confiança de Paulo em suas viagens missionárias e trabalhos de evangelização (COLLINS, 2011, p. 411). A epístola foi escrita por volta do ano 51 da era cristã. Há um amplo consenso entre exegetas de que essa epístola é o escrito mais antigo do Novo Testamento, a primeira das cartas escritas por Paulo (BOHN GASS, 2006, p. 153). Segundo Atos 17.1-15, Paulo chegou em Tessalônica por volta do ano 50 depois de Cristo, vindo de Filipos, onde havia sofrido perseguição. Depois de um ou dois meses que Paulo e Silas haviam iniciado o trabalho missionário em Tessalônica, alguns judeus se organizaram para forçar a saída deles da cidade. Dali eles foram a Bereia, de onde novamente foram expulsos, indo parar em Atenas (BOHN GASS, 2006, p. 153-154). Com o objetivo de consolidar a formação da comunidade cristã em Tessalônica, Paulo enviou Timóteo e Silas, que, ao retornarem da viagem missionária, trouxeram notícias referentes ao grupo de cristãos e cristãs de Tessalônica. Com base nas animadoras notícias trazidas pelos enviados, Paulo e sua equipe escreveram a Primeira Carta aos Tessalonicenses.
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Tessalônica era uma grande cidade para os moldes da época. Como capital da região da Macedônia e ainda por estar localizada perto do mar, onde navios de vários lugares atracavam, concentrava uma diversidade cultural e comercial enorme. “Sua população era diversificada: cada qual com sua cultura, língua, deuses, folclore, superstições, tradições etc. Os comerciantes levavam e traziam mercadorias do mundo inteiro. Na cidade há pensões, hospedarias, saunas, teatros, praças, santuários, prostituição” (BOHN GASS, 2006, p. 153). A comunidade de Tessalônica representa um grupo de pessoas, minoritário, sem respaldo político, econômico, cultural e social dentro de um grande centro urbano, composto por centenas de propostas semelhantes, por uma pluralidade de religiões e filosofias. Paulo e sua equipe parecem ter claro o risco que essa pequena comunidade corre nesse cenário. O risco de sucumbir pela diversidade de outras propostas é grande. Essa percepção é um dos principais motivos para o envio de Timóteo e Silas aos tessalonicenses, e especialmente uma importante motivação para a edição dessa carta. Paulo e sua equipe escrevem com o objetivo de manifestar sua alegria pelo desenvolvimento da comunidade, orientá-la em algumas questões práticas e teológicas e ainda estimular a perseverança e a esperança, tão necessárias para a sustentabilidade dessa comunidade. O tom amistoso da carta deve ser compreendido dentro desse contexto. Além dos muitos elogios que Paulo faz ao longo da carta a respeito da forma como os e as tessalonicenses recepcionaram o Evangelho de Cristo, a carta procura orientar a comunidade diante de algumas preocupações teológicas que ela parece ter, como a respeito da segunda vinda de Cristo. As pessoas da comunidade de Tessalônica, por acreditarem que a vinda de Cristo seria iminente, ou seja, que aconteceria nos próximos meses ou anos, preocupavam-se em como se daria a ressureição daqueles e daquelas que já tinham falecido. Paulo sustenta que a morte não é empecilho para a ressurreição em Cristo, pois, no final da história, tanto aquelas pessoas que estão vivas como também as mortas serão igualmente reunidas em torno de Cristo para viver na plenitude do reino de Deus. Como não é possível saber nem o dia nem a hora da vinda gloriosa de Cristo, convém às pessoas cristãs viverem a fé no dia a dia, vigiando e orando, abandonando os ídolos e confiando unicamente em Jesus Cristo, respeitando a vida e o corpo, se esforçando na construção de relações de trabalho dignas e livres da opressão de umas pessoas sobre as outras. Enfim, para Paulo a espera pela realização plena do reino de Deus deve ser exercitada na esperança e na vivência cotidiana, como expressão da fé cristã que nos leva a abandonar os ídolos, os valores absolutos colocados pela sociedade que nada têm a ver com os valores e princípios ensinados por Jesus Cristo. O trecho para a pregação, 1 Tessalonicenses 1.1-10, apresenta, em tom de ação de graças, os temas que serão aprofundados no restante da epístola. V. 1 – O primeiro versículo destaca os autores, o destino da carta e faz uma saudação à comunidade de Tessalônica. V. 2-5 – Nos versículos 2 e 3, Paulo afirma que dá graças a Deus em oração pela boa recepção do evangelho em Tessalônica. Os motivos específicos pelo seu agradecimento é que a fé dos e das tessalonicenses é vivida ativamente na vida
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cotidiana. O amor manifestado em ações e a esperança na vinda definitiva de Cristo são cultivados mesmo em meio a muitas tribulações e dificuldades enfrentadas. No versículo 4, Paulo se refere às pessoas da comunidade de Tessalônica com o termo grego adelphos, que significa irmãos, demonstrando que a intensa e verdadeira comunhão deve ser um dos fundamentos da comunidade cristã, elemento que será melhor trabalhado por Paulo, anos depois, quando escreve a Primeira Carta aos Coríntios (1Co 12.1ss). Ainda no versículo 4, Paulo refere-se às pessoas da comunidade como amados de Deus, deixando claro que o motivo da eleição dos e das tessalonicenses é o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo. Por outro lado, a prova da eleição é a forma como eles e elas receberam e vivenciam o evangelho, por meio da fé ativa, do amor vivenciado na prática e da firme esperança na parúsia. No versículo 5, Paulo reconhece que a boa recepção do evangelho pela comunidade em Tessalônica é obra do Espírito Santo, que agiu por meio do testemunho dos apóstolos quando esses estavam em Tessalônica (COLLINS, 2011, p. 411). V. 6-8 – Os versículos destacam a importância do seguimento exemplar dos e das tessalonicenses aos ensinamentos dos apóstolos e do evangelho. Na medida em que as pessoas da comunidade em Tessalônica se tornaram imitadoras dos apóstolos e seguidoras fiéis de Jesus Cristo, tornaram-se exemplos para outras pessoas que vieram a se tornar cristãs. O versículo 8 ainda afirma que por meio dos exemplos dos cristãos e das cristãs tessalonicenses a palavra de Deus foi repercutida e alcançou outros povos (COLLINS, 2011, p. 412). V. 9-10 – Nos versículos finais do trecho, especialmente no versículo 9, Paulo chama novamente a atenção para a importância que o anúncio do evangelho feito por ele e sua equipe teve para a conversão dos cristãos e das cristãs de Tessalônica. A conversão nesse contexto deve ser entendida como sinônimo de “voltar” ou “tornar”, ou seja, como um movimento de mudança de direção (COLLINS, 2011, p. 412). Logo, a conversão implica o afastamento e abandono dos ídolos (v. 9) em prol da esperança e confiança unicamente em Jesus Cristo. Para Paulo, não é possível conciliar a esperança e a confiança em ídolos com a fé em Jesus Cristo. Cabe compreender qual é o significado de ídolos para Paulo, para posteriormente buscarmos compreender quais são os ídolos em nosso contexto contemporâneo.
3 Meditação O convite que o texto previsto para este domingo nos faz é para colocarmos nossa confiança e esperança somente em Deus e em ninguém mais. Em todos os textos bíblicos previstos para esta data, somos alertados e alertadas que viver segundo a palavra de Deus, manifestada em Jesus Cristo, significa abandonar os ídolos. O termo ídolo provém do grego antigo eidōlon e pode ser traduzido como simulacro ou representação enganosa. Como vimos, na época do apóstolo Paulo, a cidade de Tessalônica concentrava uma grande diversidade de crenças e filosofias. Seguir Cristo, para as pessoas cristãs tessalonicenses, representou a necessidade de abandonar princí-
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pios, posturas, pensamentos, práticas e crenças não condizentes com a fé cristã. O elogio feito por Paulo diante da percepção de uma fé vivenciada na prática cotidiana, no dia a dia, nos sugere que suas antigas condutas, costumes e práticas foram transformados pela fé cristã. Nesse contexto, o abandono aos ídolos, muito mais que o afastamento dos antigos “deuses”, presentes em outras religiões, tem a ver com o abandono dos ídolos presentes na cultura, na política, na economia. Tem a ver com as representações que a sociedade endeusa para conferir padrões e valores a determinados grupos e pessoas, mas que não passam de falsos deuses a partir da perspectiva cristã. A idolatria está presente também hoje em dia, inundando os sentidos das pessoas, principalmente a visão e audição. Na grande mídia, os canais de televisão ou rádio constantemente trazem à tona o sentimento de idolatrar artistas ou personalidades pela sua beleza, talento, poder econômico. Vincula-se à imagem desses astros e estrelas os referenciais e padrões de comportamento e de consumo que as grandes marcas e empresas querem disseminar na sociedade. Esse tipo de “propaganda” influencia pessoas adolescentes, jovens e adultas a consumir determinados produtos ou a imitar certos comportamentos por entenderem que, por esse meio, estarão se aproximando e se assemelhando àqueles e àquelas que idolatram, alcançando assim a tão sonhada liberdade e felicidade. Nesse mesmo sentido, a internet e as redes sociais, entre elas Facebook, Instagram, Tinder e WhatsApp, poluem os relacionamentos quando disseminam a apologia ao abuso do álcool, da pornografia, da violência, da discriminação, do preconceito, do culto à imagem das pessoas. Nos últimos tempos também se tornou escandalosa a manipulação política e ideológica. A essa altura pode-se perguntar: a quem serve essa idolatria? Quem ganha e quem perde com esses tipos de comportamento? Certamente, quem ganha não são as famílias, os grupos e pessoas historicamente violentados pela opressão e preconceitos, ou as comunidades. As palavras do apóstolo Paulo e seus colaboradores nesses versículos iniciais da carta aos irmãos e as irmãs tessalonicenses as convida a ter consciência e a medir suas atitudes a partir da fé em Jesus Cristo e segundo a esperança da ressurreição. Atualizando essa mensagem, pode-se compreender que, inevitavelmente, nós nos tornamos pessoas que “imitam” e reproduzem comportamentos. Nesse sentido, podemos nos perguntar: quem estamos imitando com nossas palavras e atitudes? O chamado bíblico é para que nos tornemos imitadores e imitadoras de Jesus e de seus apóstolos: a única imitação que nos conduz à verdadeira liberdade. Dessa forma, nos tornemos multiplicadores e multiplicadoras do evangelho da vida plena e da ressurreição. Isso certamente liberta de fazermos ou seguirmos ídolos e falsos mestres. Sendo “seguidores” e “fãs” unicamente de Cristo, teremos valores verdadeiros e comportamentos coerentes com o reino de Deus. O seguimento aos ídolos implica nos deixarmos influenciar e determinar pelos valores e padrões que esses propagam. A busca por alcançar os padrões de beleza, de consumo e de poder impostos pelos ídolos nos leva a adotar o egoísmo, o individualismo, a ganância, como valores e posturas centrais para nossa vida. Essa não é a proposta de Jesus Cristo. Seguir o mestre de Nazaré significa aban-
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donar os ídolos que propagam tais valores e padrões. Somos todos aceitos e todas aceitas da forma como somos e conseguimos ser. Não necessitamos alcançar padrões para obter a salvação. A salvação é presente de Deus. Como gratidão a esse presente, nós nos esforçamos para caminhar o único caminho que conduz à vida plena e à verdadeira liberdade, o caminho ensinado por Cristo, que tem no amor, na solidariedade, na compaixão, na partilha e na busca por um mundo melhor para todas as pessoas as suas guias fundamentais.
4 Imagens para a prédica Era uma vez um papagaio que havia nascido em cativeiro. Com poucos dias, foi vendido para uma família, que lhe deu o nome de Louro e o colocou em uma gaiola pendurada nos fundos da casa. Ele se acostumou a comer o que lhe davam e a ter as penas das asas cortadas. Aos poucos aprendeu que se ele repetisse os sons que ouvia no dia a dia daquela família, isso agradaria seus donos e lhe traria atenção. E assim ele fazia: “Mãeeeee!”; “Paieee!”. A família se empolgou e começou a repetir insistentemente pequenas frases e trechos de canções preferidas. Logo a pequena ave cantarolava “até a pé nós iremos...”, “atirei o pau no gato...”. E assim os meses e os anos foram passando, até que um dia o Louro conseguiu escapar da gaiola e se esconder na copa de uma árvore. Ali ele ouviu outros sons, ouviu outras aves. Encontrou outros papagaios, que, diferentes dele, não imitavam as pessoas, mas tinham seus próprios cantos. Louro se sentiu livre e arriscou improvisar um novo canto. Aos poucos, abriu as asas para a verdadeira vida de papagaio. Essa história pode ajudar a refletir sobre o que significa sermos imitadores ou imitadoras. Pode-se perguntar: qual é o canto verdadeiro do papagaio? Será que o papagaio só sabe imitar? Só em liberdade é possível cantar um canto verdadeiro, um canto autêntico. Jesus veio para nos lembrar qual é a nossa verdadeira voz; é a ele que devemos imitar, repetir suas frases e gestos de amor. Somente a partir do caminho de libertação ensinado por Cristo será possível experimentar, ainda de que de forma parcial, a verdadeira liberdade.
5 Subsídios litúrgicos A canção do Senhor na terra brasileira Letra e música: Jaci Correa Maraschin 1. Como vamos cantar este canto imprevisto, tão distantes do lar, tão num mundo sem Cristo? A canção do Senhor tem de ser verdadeira para ser o louvor, na terra brasileira. 2. Como vamos cantar se é tão grande a maldade, se tem gente a chorar com temor e ansiedade? A canção do Senhor tem de ser a primeira à injustiça se opor na terra brasileira.
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3. Como vamos cantar se o irmão é explorado, se lhe fazem calar, se ele é sempre anulado? A canção do Senhor tem de ser verdadeira para ser o louvor na terra brasileira. 4. Como vamos cantar sem amor, liberdade, sem poder partilhar o calor da igualdade? A canção do Senhor tem de ser mensageira de inefável amor na terra brasileira. Migrante Letra e música: Frei Domingos 1. Peregrino nas estradas de um mundo desigual, espoliada pelo lucro e ambição do capital, do poder do latifúndio enxotado e sem lugar, já não sei por onde andar... Da esperança eu me apego ao mutirão. Est.: Quero entoar um canto novo de alegria, ao raiar aquele dia de chegada em nosso chão. Com meu povo celebrar a alvorada, minha gente libertada, lutar não foi em vão! 2. Sei que Deus nunca esqueceu dos oprimidos o clamor, e Jesus se fez do pobre solidário e servidor. Os profetas não se calam, denunciando a opressão, pois a terra é dos irmãos... E na mesa igual partilha tem que haver. 3. Pela força do amor o universo tem carinho, e o clarão de suas estrelas ilumina o meu caminho; nas torrentes da justiça meu trabalho é comunhão. Arrozais florescerão... E em seus frutos liberdade colherei! Confissão de fé Creio em Deus, que criou a mim e a todas as criaturas; que me deu e sustenta meu corpo com todos os seus membros e meu espírito com todas as suas faculdades; que me provê abundante e diariamente o alimento, vestimenta e habitação e todo o necessário para a vida. Que me ampara contra todo perigo e me protege e guarda de todo mal; e tudo isso ele faz sem nenhum mérito ou dignidade de minha parte, por sua pura bondade e sua divina misericórdia. Isso é certamente verdade. Creio que Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é meu Senhor. Redimiu a mim, perdido e condenado, libertando-me do pecado, da morte e do poder do maligno, não com ouro ou com prata, mas com seu sangue e seus sofrimentos e por sua morte inocente, para que eu lhe pertença para sempre e viva uma vida nova como ele mesmo, que ressuscitou dentre os mortos, vive e reina eternamente. Isso é certamente verdade. Creio que o Espírito Santo me chama pelo Evangelho, me ilumina com seus dons e me santifica, me mantém na verdadeira fé, na igreja que ele congrega dia a dia. É ele também quem perdoa plenamente meus pecados, assim como a todos os crentes. É ele quem no derradeiro dia me ressuscitará dentre os mortos e me dará, com todos os fiéis em Cristo, a vida eterna. Isso é certamente verdade. (Martim Lutero)
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Bibliografia COLLINS, John Joseph. 1 Tessalonicenses. In: BROWN, Raymond Edward; FITZMYER, Joseph A.; MURPHY, Roland Edmund. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos. São Paulo: Academia Cristã; Paulus, 2011. BOHN GASS, Ildo. As comunidades cristãs da primeira geração. 2. ed. São Leopoldo: CEBI; São Paulo: Paulus, 2006.
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21º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
25 OUT 2020
PRÉDICA: MATEUS 22.34-46
LEVÍTICO 19.1-2,15-18 1 TESSALONICENSES 2.1-8
Claudete Beise Ulrich
Amar é um ato revolucionário que se revela no viver cotidiano
1 Introdução Este texto é escrito num momento histórico extremamente difícil no Brasil. Há muita falta de empatia e facilmente espalha-se o ódio por aqueles e aquelas que não pensam igual ou vivem de forma diferente. Neste sentido, a resposta de Jesus aos fariseus sobre qual é o grande mandamento na lei continua atualíssima. Precisamos recuperar a empatia, o respeito e o amor a todos e todas sem preconceito ou discriminação. O que nos torna verdadeiramente humanos é aprender a amar e servir ao outro e deixar a outra pessoa ser ela mesma. Não precisamos tornar a outra pessoa à nossa imagem e semelhança. Aprender a respeitar a outra pessoa é sinal de crescimento e de amadurecimento cristão e cidadão. Qual é o grande dos mandamentos na lei? Essa pergunta ainda soa entre nós e a resposta de Jesus nos leva a uma transformação na vida cotidiana e a uma religação tríplice: com Deus, com a pessoa próxima e conosco mesmos. A leitura do Antigo Testamento de Levítico 19.1-2,15-18: [...] Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor, lembra a importância do amor ao próximo. A vingança e a ira não devem ser guardadas ou exercidas, mas o amor ao próximo como a si mesmo deve ser praticado. Isso está na lei e é assinado pelo Senhor. O texto de Novo Testamento (1 Tessalonicenses 2.1-8) afirma que Paulo, Silvano e Timóteo dirigem-se à igreja dos tessalonicenses não somente para oferecer o evangelho, mas a própria vida. Assim, querendo-vos muito, estávamos prontos a oferecer-vos não somente o evangelho de Deus, mas, igualmente, a própria vida; por isso que vos tornastes muito amados de nós (1Ts 2.8). Tudo o que Paulo, Silvano e Timóteo fizeram foi motivado pelo amor a Deus, sem se preocupar com bajulações às pessoas ou com ganâncias pessoais, razão pela qual eles foram amados. As narrativas do Novo e do Antigo Testamento apontam para o ponto central da prédica que é a necessidade urgente de recuperar o sentido profundo do amor como experiência humana ligada a Deus.
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2 Exegese O Evangelho de Mateus apresenta Jesus que não se nega a responder perguntas difíceis. Ele não foge da presença daqueles que não gostam da sua atuação. Só esse fato já demonstra como Jesus entende a relação com as pessoas. Foi feita uma indagação e essa necessita ser levada a sério. O texto encontra-se dentro de um bloco de controvérsias, dentro de uma discussão rabínica. Do método de discussão rabínica consta: o rabi responde a três perguntas e depois também interroga com três perguntas. É dessa forma que a narrativa de Mateus 22.34-46 está construída. Os fariseus perguntam a ele: Mestre, qual é o grande mandamento na lei? Atrás dessa pergunta há a tentativa de pegar Jesus em uma cilada. Quando os fariseus fazem a pergunta, Jesus se encontra no templo. O templo é um lugar simbólico muito importante. Ele é espaço de ensino e de cumprimento das leis, bem como também a aplicação de sacrifícios reparatórios para quem não cumpre as mesmas. E é ali, no templo, que um grupo de fariseus, novamente, quer colocar Jesus à prova (Mt 22.35). O Evangelho de Mateus vem descrevendo como diferentes grupos tentam colocar Jesus em apuros (Mt 22.15). Jesus já havia calado a boca dos saduceus (Mt 22.34). Os saduceus formavam um partido judaico poderoso, que controlava a religião a partir do templo. Os fariseus também eram um grupo de grande influência, conhecedores das leis. Os fariseus constituíam a linha religiosa dominante em Israel. Eles querem que todo o povo siga suas orientações religiosas, baseadas na lei (GOPPELT, 1983, p. 66). Os fariseus armam uma nova armadilha para Jesus com a seguinte pergunta: Mestre, qual é o grande mandamento na lei? (Mt 22.36). Jesus responde a partir da memória afetiva da comunidade religiosa na qual se encontra. Ele lembra a centralidade do amor. Ele coloca o amor como motivação maior para todo agir. Jesus relativiza as leis, doutrinas e tradições. Leis, doutrinas e tradições só são importantes se tiverem como fonte primeira o amor. Amor significa serviço desinteressado à pessoa próxima. O amor a Deus está ligado com o amor ao próximo e também com aprender a amar a si mesmo. Há necessidade de equilíbrio entre a lei e a prática do amor. Jesus aponta para o amor, que está acima da lei. Ele aponta para a memória da narrativa sagrada do Antigo Testamento, a um dos livros da lei judaica, o Deuteronômio (6.4-5): Amarás o Senhor, teu Deus [...]. Jesus aponta para um amor intenso, isto é, com todos os sentidos: coração, alma e entendimento. O amor necessita ser expresso em palavras e ações de forma concreta. Na segunda parte do mandamento, Jesus recupera, do Pentateuco, do livro de Levítico (19.18) o seguinte: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Também nessa parte do mandamento encontra-se a necessidade da experiência da profundidade do amor. Amar o outro e a outra como a si mesmo, esse é um tremendo desafio de alteridade, de aceitação plena da outra e do outro assim como se apresentam, sem discriminação de classe social, gênero, orientação sexual, cor/etnia, geração, doença, entre outras.
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Jesus completa, dizendo: [...] destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas (Mt 22.40). Jesus afirma que as Escrituras são relativas, isto é, somente é absoluto o amor e esse dá sentido às Escrituras. O amor é colocado por Jesus como critério para ler qualquer narrativa bíblica. As narrativas bíblicas são memórias da comunidade cristã primitiva e que ainda hoje apresentam desafios para a prática cristã. Toda ação que se afirma cristã necessita estar firmada na prática do amor solidário e transformador. Jesus, com sua resposta, acusa os fariseus de estarem traindo o projeto de Deus, pois esses colocam a letra da lei acima da humanidade. Incomodados pela resposta de Jesus, eles ficam silenciosos e sem resposta. No entanto, nos versículos seguintes, novamente os fariseus estão reunidos, tramando aparentemente algo contra Jesus (Mt 22.41). Na segunda parte do texto, é Jesus quem passa a questioná-los (Mt 22.42), fazendo também acusações fortes contra fariseus, incluindo também os doutores da lei (Mt 23.1-36), de modo que [...] ninguém podia responder-lhe nada. E a partir daquele dia, ninguém se atreveu a interrogá-lo (Mt 22.46). Os fariseus estavam nus, totalmente desmascarados. A letra da lei mata. Ela necessita ser interpretada em cada momento histórico e contexto. Amar intensamente é acolher, cuidar, escutar com atenção, buscar conhecer a história do outro. Mateus 25.31-46 coloca de forma clara como esse amor necessita acontecer e se materializar na vida cotidiana. Quando Jesus coloca o amor como critério único para o cuidado e promoção da vida, ele abre possibilidade para todos e todas fazerem parte das bênçãos de Deus. Para muitos fariseus e outros grupos sectários do tempo de Jesus, os pobres eram considerados ignorantes e por isso, na concepção deles, estariam excluídos. Somente eles se achavam com esse privilégio, porque conheciam as leis. Não é o simples conhecer e cumprir a lei que garante a salvação, mas sim a prática do amor. Jesus derruba com suas afirmações muitos muros que impediam o acesso dos pobres (mulheres, crianças, doentes, órfãos, viúvas, entre outros grupos) ao reino de Deus. As leis eram muitas, mas muito difíceis de serem cumpridas. Por isso Jesus propõe o caminho do amor. No entanto, não se pode esquecer que o amor é sempre tríplice: a Deus, ao próximo e a si mesmo. Ele rompe com uma espiritualidade sem compromisso e com um amor egoísta e consumista, voltado somente para si mesmo.
3 Meditação O que significa viver o amor no tempo em que vivemos? Como definimos o amor? O que significa amor a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo entendimento? O que significa amor ao próximo? O que significa amor a si mesmo? O que significa amor ao próximo como a si mesmo? Como essas dimensões de amor estão interligadas e necessitam se concretizar na materialidade da vida cotidiana? Talvez seja interessante iniciar com perguntas, já que o texto de Mateus também está recheado de perguntas. Jesus é perguntado e ele faz perguntas. Grupos fazem perguntas a Jesus e eles também são questionados. Essa é a forma como o texto é apresentado em sua narrativa.
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Amor é mais do que um simples sentimento. É um compromisso de serviço com amor ao próximo, que também alcança aqueles e aquelas que pensam e vivem diferente. Somente o amor transforma. As leis necessitam estar aí para o serviço de amor ao próximo. Toda a Escritura necessita ser lida a partir do amor para transformar a vida cotidiana. Não tenhamos medo de responder perguntas. Não tenhamos medo de colocar nossa posição cristã e afirmar o amor em meio a situações de ódio, de ganância, de falta de respeito com as pessoas e com toda a criação. O amor é serviço ao próximo. O amor transforma. A lei é importante, mas ela não garante a transformação se não existir amor comprometido. Amar é um ato revolucionário que acontece no cotidiano.
4 Imagens para a prédica Sugerimos primeiramente ler o texto previsto para a pregação e perceber sua lógica, isto é, a forma como o mesmo é construído por meio de perguntas e respostas, baseadas nas memórias narrativas do Antigo Testamento e nas questões que norteavam a comunidade cristã do evangelista Mateus. A lei necessita do acréscimo do amor. Importante não espiritualizar o amor. A prática do amor é a forma concreta da fé em Deus se manifestar na relação com as pessoas e o mundo. Refletir em seguida sobre o que significa o amor construído a partir da mensagem profética de Jesus. O amor a Deus, ensinado por Jesus, rompe com a lógica mercadológica de propostas religiosas de nosso tempo. Amar a Deus de todo o teu coração – O coração representa o lugar da vida interna do ser humano. Ali tem lugar para a alegria, o temor, a dor, a esperança, o desejo, o pensamento. Amar a Deus de toda a tua alma – A alma é sinal de vida. É também considerada a fonte da vontade e dos sentimentos. Amar a Deus de todo o teu entendimento – Pode significar a inteligência, o intelecto, a razão, o conhecimento, passando pela experiência. O uso dos três termos enfatiza a necessidade de amar a Deus integralmente. O amor necessita passar pelo corpo, pela razão e emoção. A vivência desse amor é reposta ao amor que já recebemos de Deus. Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro (1Jo 4.19). Ao grande mandamento de amar a Deus Jesus acrescentou o amor ao próximo como a si mesmo. Jesus rompe com todo amor baseado no egoísmo e no consumismo. O amor é serviço que busca a transformação de realidades violentas, preconceituosas, discriminatórias, racistas, homofóbicas, machistas, patriarcais, que não afirmam a vida abundante que se mostra na diversidade. Viver e praticar esse amor ensinado por Jesus necessita ser prática cotidiana de conversão, de arrependimento, de confissão de pecados, pois, por natureza, somos sujeitos egoístas e pecadores. A prática do amor não é somente um ato isolado, mas necessita se consolidar em políticas públicas cidadãs, de mudanças/ transformações nos lugares onde vivemos para que acabe com a violência, a fome e a desigualdade social. Não queremos mais homofobia, racismo, machismo, violência, suicídios. Necessita-se trabalhar o amor que também valorize a autoes-
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tima, a autonomia do sujeito. A prática do amor busca também a construção de uma sociedade justa com uma educação, saúde e segurança pública de qualidade. A prática do triplo mandamento do amor (amor a Deus, ao próximo e também a si mesmo), que está interligado, resume toda a vida da pessoa cristã cidadã. A prática do amor cristão também nos desafia ao engajamento diaconal na comunidade ou em grupos que se propõem a mudar situações de injustiça, intolerância, fome, medo, pobreza, violência, morte. Amar é um ato revolucionário que se revela na prática cotidiana.
5 Subsídios litúrgicos Tema do culto: Amar é um ato revolucionário que se revela no viver cotidiano. Buscar testemunhos de pessoas e instituições comprometidas com as lutas contra os diferentes tipos de violências, trabalho com a agricultura agroecológica, com pessoas deficientes, com pessoas que lutam contra a doença do álcool e/ou das drogas, trabalho de mães/mulheres que tiveram seus filhos assassinados e lutam na justiça. Exemplos de amor comprometido que buscam transformações no cotidiano. Sugestão de hinos LCI 341 – A cada dia nasce de novo o sol HPD 1, 176 – Deus teu amor é qual paisagem bela LCI 609 – Palavra não foi feita para dividir LCI 308 – Ilumina nossas ruas Confissão de pecados Oh Deus de todo amor e ternura, tu que te moves em toda a vida, perdoa-nos por nossa falta de amor. Temos praticado muitas injustiças. Somos pessoas preconceituosas. Há crianças perambulando pelas ruas sem escola, sem teto, sem comida. Há mulheres sofrendo violência doméstica. Muitas pessoas são discriminadas por sua cor da pele e outras por sua orientação sexual. A terra está sangrando, pois florestas são derrubadas, águas são poluídas, sementes são plantadas e cultivadas com muito veneno. Há muita ganância e falta de um amor comprometido com toda a criação. Oh Deus, perdoa-nos e orienta-nos na construção de um mundo de justiça e de paz. Em nome de Jesus, que nos ensinou o amor, mostra-nos o caminho para o arrependimento e a mudança sincera em nossa forma de viver. Amém. Kyrie
LCI 56 – Pelas dores deste mundo
Oração Deus, teu poder é de amor! Nós te agradecemos que Jesus nos mostrou esse grande e maravilhoso amor. Queremos fazer nossos corações se abrirem e
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estarem abertos para todas as pessoas a partir do amor incondicional ensinado e ofertado por Jesus. Que o Espírito Santo nos ajude. Amém. Abraço da paz e da reconciliação Cada pessoa pode dizer para a outra: “Que o Deus amoroso aumente em ti o amor”; e a outra pessoa responde: “Que assim seja. Obrigada por este desejo”. Bênção A bênção amorosa de Deus venha sobre ti e te ensine a amar com o coração, a alma e o entendimento. A bênção amorosa de Deus venha sobre ti e te ensine a amar teu próximo como a ti mesmo. A bênção amorosa de Deus venha sobre ti para que possas viver no cotidiano o grande mandamento do amor. Assim te abençoe Jesus, o Cristo, que ensinou a praticar o amor. Assim te abençoe o Espírito Santo, sopro de vida, na prática diária do amor a todas as pessoas e toda a criação. Amém.
Bibliografia ULRICH, Claudete Beise. Mateus 22.34-46. In: SOUZA, Mauro Batista de; BEULKE, Gisela; KILPP, Nelson (Coords.). Proclamar Libertação: auxílios homiléticos. São Leopoldo: Sinodal, 2007. v. 32, p. 298-306. GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal; Petropólis: Vozes, 1983. v. 1.
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DIA DA REFORMA
PREGAÇÃO: GÁLATAS 5.1-11
31 OUT 2020
ISAÍAS 62.1-12 MATEUS 5.1-10
Odair A. Braun
Reforma e liberdade
1 Introdução A passagem de Gálatas 5.1-11 já foi amplamente trabalhada em edições anteriores de Proclamar Libertação, que podem servir de aporte extra na preparação da mensagem para o Dia da Reforma de 2020. Em relação às leituras, destacamos que Isaías 62.1-12 mostra que Deus age de modo libertador. O profeta menciona que Deus não se calará, não ficará quieto até que a sua justiça seja plena e resplandeça. O profeta também menciona que há guardas sobre as muralhas de Jerusalém, apontando para a necessidade de vigiar, estar atento. Nessa perspectiva, há que pensar nos desafios da igreja, que deve estar sempre em reforma, sempre em busca de caminhar junto ao seu povo, que tem necessidades e desafios próprios. Surge então um paralelo a explorar: estar junto e estar apto a preparar o caminho, colocando dons e tempo a serviço. Mateus 5.1-10 descreve a liberdade que Deus concede em Jesus Cristo. Faz menção à riqueza alcançável quando há disposição para seguir, servir, testemunhar e deixar a palavra de Deus orientar os passos, e aponta, de modo especial, públicos que precisam ser alcançados, com prioridade, pela igreja e suas comunidades. Gálatas 5.1-11 apresenta uma passagem tão rica quanto desafiadora. Logo o primeiro versículo nos leva à essência de todo o livro de Gálatas, ou seja, que para a liberdade foi que Cristo nos libertou (Gl 5.1). E, a seguir, arremata a grandiosa notícia com um indicativo de que não podemos permanecer passivos, que temos um papel a exercer. Por isso, permaneçam firmes e não se submetam, de novo, a jugo de escravidão (Gl 5.1b). Portanto o tema fundamental da passagem de Gálatas 5.1-11 versa em torno da liberdade e dos desafios que a mesma traz aos nossos dias. Considerando que esse texto deve inspirar o Dia da Reforma de 2020, estamos diante de um tema de vastas possibilidades e desafios. Que com liberdade e ousadia possamos interagir com os textos e, inspirados, levar a mensagem de ânimo e esperança, que tem suas raízes fixadas na liberdade que alcançamos em Cristo Jesus, e que é um dos grandes legados da Reforma de Lutero.
2 Exegese A passagem em estudo encontra-se inserida num contexto maior, que vai de Gálatas 3.1 a Gálatas 5.15. Esse contexto é marcado pelos paralelos, ou seja,
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relação lei e evangelho, lei e promessa, lei e fé, lei e liberdade, lei e Cristo. Gálatas não dá espaço a dúvidas: a salvação é obra de Deus por intermédio da graça, devendo ser acolhida pelos cristãos e cristãs, por meio da fé, confiança e entrega a ele e seus ensinamentos. Tal entrega deve levar ao serviço em amor e solidariedade frente a irmãos e irmãs, frente ao mundo. Obra não salva; obra deve ser fruto do amor recebido de Deus e, como fruto, não pode ser segurado, escondido: deve estar a serviço do próximo, da humanidade, do meio no qual estamos inseridos; deve transparecer e nos levar a ser sal da terra e luz do mundo, de sorte que as duras realidades do meio social sejam transformadas a partir do serviço em amor e solidariedade vindo de Cristo, que concede liberdade e vida renovada. Paulo levou os gálatas a conhecer Deus e a sofrer transformação de vida. Gálatas 4.13 demonstra que os gálatas receberam Paulo enfermo e que ele, mesmo nessa condição, anuncia a Boa-Nova. Gálatas 3.27 demonstra terem sido batizados, resultado do trabalho de pregação da Boa-Nova anunciada por Paulo. Gálatas 3.16 demonstra que os gálatas acolheram o evangelho e passam a ter uma relação direta com Deus, sem intermediários. Tornaram-se livres (Gl 4.3,8-9). E Gálatas 5.1 afirma, de modo enfático, que Cristo libertou para a liberdade. Esquecer isso faria retornar a escravidão e todas as consequências decorrentes. Gálatas 4.8-9 indica que as comunidades nas quais Paulo pregou eram constituídas por ex-integrantes do paganismo, sendo alcançados pelo evangelho, que foi acolhido com alegria (Gl 4.14-15), a mesma alegria revelada em Gálatas 5.1, ao conhecer Cristo e, assim, alcançar a liberdade. Porém Gálatas 5.7 evidencia que o fervor inicial passou e que desvios voltam a ser observados naquela jovem comunidade. Esses desvios levam Paulo a novamente anunciar aos gálatas, como forma de fazê-los retornar ao caminho da verdade e do bom testemunho, que dá, promove e concede a liberdade. Gálatas 5.1-11 é perpassado pelo tema da liberdade, força propulsora da Reforma encabeçada por Lutero. A liberdade concedida por Cristo, de que trata essa passagem bíblica, faz parte da grande descoberta libertadora feita por Lutero e que ainda hoje inspira e deve continuar inspirando a igreja luterana em todas as suas frentes de atuação, tanto no Brasil como fora dele. Uma liberdade preciosa, imensurável, pois é concedida por meio do sacrifício de Jesus na cruz, a favor dos que nele creem. As igrejas da Galácia (território incorporado ao Império Romano em torno do ano 25 a.C.) estavam vivendo com muitos “ruídos” decorrentes de pregações que mostravam compreensões divergentes do que Paulo pregava. Atos 16.6 informa que Paulo passou pela região da Galácia e lá organizou as comunidades. Pouco se sabe sobre essa região, mas isso não diminui sua importância para a igreja, em processo de formação, e, consequentemente, para os nossos dias. Deve estar presente na preparação desta mensagem que aquela igreja era proveniente de um grupo que tinha forte influência do paganismo e que muda de vida e de rumo quando Paulo lhes apresenta o evangelho. Isso, todavia, não impede que surjam desvios de conduta, de entendimento e de orientação. Paulo, diante das falsas pregações, além de alertar para o caminho tortuoso que estava sendo trilhado, também aponta para a perda da liberdade, a escravidão e outras
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consequências que poderiam resultar desses caminhos, os quais colocavam em risco a liberdade concedida pelo sacrifício de Cristo na cruz a favor da humanidade. Em Gálatas 5, Paulo menciona a liberdade dada por Cristo e aponta para a fraternidade e amor que devem ser decorrentes, derivados dessa liberdade, que de nada adianta, assim entende e defende Paulo, se não houver compromisso com as transformações e mudanças que precisam acontecer, seja na vida pessoal, familiar ou em sociedade. Nessa perspectiva, a Reforma desencadeada por Lutero significou um forte brado de contestação aos desvios que eram experimentados pela igreja da Idade Média. Gálatas 5.1-6 é, como já dissemos, o centro de todo o livro. Paulo, antes perseguidor dos cristãos, se torna o grande anunciador do evangelho, de sorte que apresenta o fundamento da vida cristã, a liberdade concedida por Cristo. Percebe-se a necessidade de discernir e optar entre a liberdade e escravidão, Cristo e lei. Gálatas 5.7-11 demonstra a necessidade de haver resistência e permanecer firmes na fé, na entrega e na confiança em Cristo, não se submetendo à escravidão, que é o resultado do afastamento de Deus e seus ensinamentos. Nessa perspectiva, Gálatas destaca que Cristo é o sujeito da libertação. Da mesma forma que Gálatas 1.4 e 2.20 apontam, de modo inequívoco, que Cristo liberta do pecado, Gálatas 3.13 aponta para a libertação da lei. Portanto somente Cristo liberta da escravidão e, libertos, temos caminho livre para servir e colocar dons a serviço, o que resume um dos pilares da Reforma: o sacerdócio geral de todas as pessoas crentes. Gálatas 5.2-4 é desdobramento negativo da tentativa de assegurar a salvação por meios humanos. Na contramão dos ruídos presentes na comunidade dos gálatas, que anunciavam a justificação como forma de chegar à presença de Deus, Paulo afirma, enfaticamente, que isso na verdade afastaria. Gálatas 5.5-6 traz o lado positivo, pois contra o erro e desvio somente há possibilidade por meio da liberdade e da fé. Em Gálatas 5.7-11, Paulo diz que as dúvidas que foram plantadas em meio à comunidade não vêm e não são de Deus. Se não são de Deus, dele afastam. Desta forma, Paulo deseja despertar e orientar a comunidade para que se mantenha firme na fé em Cristo, exercendo a liberdade que essa fé nos concede. Lutero seguiu esse mesmo caminho e, por isso, é justo e importante que em dias atuais o Dia da Reforma seja festejado e celebrado com alegria e júbilo, como forma de inspiração para persistir na caminhada e no serviço.
3 Meditação Dando passos para a construção da pregação deste dia, que necessariamente gira em torno da dimensão da liberdade, propomos um breve roteiro orientador que visa dar praticidade na elaboração da mensagem. Vejamos: a) Olhar para trás e aprender b) Olhar para o presente e ousar no testemunho c) Olhar para o futuro e agir com confiança, pois o evangelho é libertador A Reforma tem um importante ponto de propulsão quando Lutero lê, medita e interpreta Romanos 3.28, segundo o qual o ser humano é justificado pela
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fé, independentemente das obras da lei. Depois de Romanos, o livro de Gálatas ocupa importante espaço na elaboração teológica de Lutero. A liberdade redescoberta por Lutero, e que tem Jesus Salvador como fonte de salvação, reside no entendimento da vida na fé, com ações movidas pelo amor. A Reforma faz recordar e quer aguçar o desejo por liberdade recebida de Cristo. Tal liberdade, desafiadora, deve nos manter comprometidos e vigilantes, pois armadilhas e ciladas estão em toda parte, prontas para levar à escravidão. Liberdade, a Reforma recorda isto também, é um valor, algo importante para os dias atuais e não é alcançada por força própria. Liberdade é presente de Cristo para a humanidade e deve pressupor agir com amor (Gl 5.13). Assim sendo, a liberdade por Cristo concedida desafia e chama para que, com amor, prestemos serviço em favor do próximo e do mundo, frente à criação de Deus, da qual usufruímos em nosso dia a dia. A liberdade exige compromisso com o próximo e, assim sendo, também a igreja e suas comunidades devem avaliar, constantemente, seus atos, sua atuação, sem jamais esquecer que é sua função e seu dever estar ao lado das pessoas que buscam vida plena, digna e abundante, perpassada pela justiça e a paz. A Reforma precisa ser celebrada. Ela trouxe liberdade, mostrou o “rosto” de amor e de graça de Deus para com a sua criação, para com a humanidade. A Reforma que traz liberdade não pode ser esquecida. Onde e como ela é celebrada? No que ela nos inspira? Reforma é questionamento saudável para toda a igreja e suas comunidades, assim como aos seus fiéis. Nossa raiz e fundamento é ser igreja da Reforma, voltada à verdade do evangelho, principalmente porque, em nossos dias, essa verdade tem sido questionada e, muitas vezes, escamoteada: há falsas leituras e interpretações do evangelho; há exploração política do e a partir do evangelho. Reforma faz olhar para essa realidade sem se calar diante de desvios e desmandos. Por fim, a Reforma espera, de cada qual, determinação e ousadia, desprendimento e coragem de testemunhar e anunciar, assim como fez Lutero. A liberdade é alcançada e precisa ser preservada. Não pode passar por ameaças nem ser posta em dúvida. Qual o caminho que leva à liberdade? Essencialmente aquele que passa pela entrega, confiança e seguimento de tudo o que é ensinado, vivido e demonstrado por Jesus. A liberdade dada por Cristo estava em risco quando Paulo escreve o texto em estudo. De certa forma, Paulo deseja fazer a comunidade de Gálatas e, por consequência, as nossas comunidades, acordar, despertar dos erros, dos desvios, dos falsos ensinamentos que estavam sendo colocados em seu meio. O que significa a Reforma do século 16 e qual a sua relevância para os dias atuais? O que significa liberdade? No que ela compromete? Falsos ensinamentos se apresentavam na comunidade e questionavam aquilo que Paulo havia ensinado. Os chamados judaizantes trazem de volta regras como a necessidade da circuncisão como forma de chegar a Deus. Paulo, nesse contexto, lembra que o evangelho é central, que está acima das regras do mundo, que a liberdade alcançada por Cristo a tudo subjuga. O projeto de Jesus Cristo e a liberdade por ele concedida também estavam em perigo quando Lutero, na Idade Média, ergue a sua voz e dá nova orientação, nova interpretação à palavra de Deus. Em nossos dias, a situação de perigo se repete: há teologias diversas e
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distintas que, por vezes, usurpam o evangelho para benefícios próprios. Cabe, mais uma vez, estar vigilantes, atentos e determinados a testemunhar. Não há possibilidade de vida cristã se não houver caminhada com Deus, com o Espírito Santo. A ausência do Espírito Santo de Deus dá espaço para o desvio do caminhar e, consequentemente, para o pecado. Assim como Gálatas 2.1-11 aponta que a coisa mais importante para o cristão é a liberdade que Cristo alcançou e oferta, Gálatas 5.13-15 ensina que o amor deve ocupar o espaço que é conquistado quando alcançamos essa liberdade. Que o amor nos faça confiar e nos impulsione ao serviço e ao testemunho.
4 Imagens para a prédica Uma possível cena a ser explorada ao longo da celebração, de modo especial no culto, poderia ser a colocação de três ou quatro pombas presas numa gaiola nas imediações do altar. Pode ser de tal forma que, desde o começo do culto, se aponte para elas, como se comportam; que se possa falar do significado de estar preso, sem liberdade de ir e vir, no caso, de voar; que se possa refletir sobre as muitas privações que o “engaiolamento” provoca. Após a pregação, com os devidos cuidados, as aves devem ser libertadas em frente à igreja, chamando a atenção para que as pessoas observem o comportamento na revoada. Destacar que as pombas devem estar livres e soltas, conforme criadas por Deus. Traçar paralelos dessa liberdade das aves com a liberdade alcançada pela igreja a partir da Reforma de Lutero, assim como os desafios que nos são colocados, na atualidade, para que sejamos corresponsáveis por essa liberdade.
5 Subsídios litúrgicos As orações e petições devem dar prioridade ao tema liberdade e aspectos dele decorrentes. Da mesma forma, os hinos para o dia devem priorizar a liberdade que recebemos e os desafios e compromissos que ela nos faz enfrentar. Bênção O Senhor derrame sobre ti a paz. O Senhor te dê sensibilidade para perceber os dons ofertados a ti O Senhor te ensine a amar sem esperar recompensa. O Senhor te ensine a servir com justiça e misericórdia. O Senhor te acalme quando estiveres eufórico, achando que tudo depende de ti. O Senhor te ofereça segurança e fé. O Senhor te carregue quando estiveres cansado. O Senhor seja a tua fortaleza e porto seguro nas horas de dor, dúvida e sofrimento. O Senhor seja fonte de alegria da tua vida e a razão para servi-lo. O Senhor seja contigo em todos os caminhos, para todo o sempre. Assim te abençoe o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Amém.
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PRÉDICA: MIQUEIAS 3.5-12
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01 NOV 2020
MATEUS 23.1-12 1 TESSALONICENSES 2.9-13
Manoel Bernardino de Santana Filho
Uma profecia para os sem-terra
1 Introdução Miqueias é um alerta contra a falsa religião e a arrogância por parte dos profetas aliado ao roubo e à corrupção dos governantes da nação. O livro começou a ser escrito na época do profeta Miqueias, um agricultor do interior de Judá, chamado por Javé para denunciar os crimes da sua nação. Como homem do campo vivendo no círculo de pequenos camponeses e donos de rebanhos oprimidos por leis injustas, Miqueias é um personagem que se preocupa com as injustiças que sofrem seus concidadãos. Além dos impostos, é provável que recrutassem trabalhadores para conduzi-los a Jerusalém. O pano de fundo é a questão dos latifúndios, impostos, roubo à mão armada, trabalhos forçados e profetas que não falam da parte de Deus. A ligação entre os textos acontece por meio do caráter de denúncia que se percebe em cada um deles. O texto do Evangelho de Mateus condena o farisaísmo, ao mesmo tempo em que prepara a comunidade para o perigo que ele traz. Ainda que se reconheça o valor dos ensinamentos transmitidos por eles, se condenam as suas práticas que em nada se parecem com o conteúdo de seus ensinos. Os escribas, como professores da lei, se assentaram na “cadeira de Moisés” e ocuparam esse lugar com razão. No entanto, havia discrepância entre o ensinar e o praticar. Seu modo de agir nada tinha a ver com o seu ensino. No texto aos tessalonicenses encontramos o contraponto para essas práticas daninhas para a fé. Paulo mostra como agiu com correção e lisura em sua relação com aquela igreja. Procurou transmitir com fidelidade os ensinamentos recebidos do Senhor, ao mesmo tempo em que procurou se apresentar como alguém que anuncia a mensagem desinteressadamente. Ou seja, tanto Miqueias como Mateus denunciam falsos procedimentos por parte daqueles que têm a missão de praticar a justiça, enquanto a perícope da Primeira Carta aos Tessalonicenses mostra a forma correta de se proceder.
2 Exegese “Miqueias” significa “quem é assim como Deus, o Senhor?” Foi um profeta do Reino do Sul, Judá. A profecia alcança a época de Jotão e Acaz e também o tempo de Ezequias. Foi chamado para profetizar sobre Judá e Jerusalém, mas também sobre Samaria.
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É também chamado “o morastita”, na Septuaginta, devido à cidade de Morasti, aldeia de Judá, distante 35 km a sudoeste de Jerusalém. Esse dado é importante porque nos situa em ambiente campesino, em contato direto com os problemas dos pequenos agricultores, vítimas de grandes latifundiários. O profeta denuncia os falsos profetas, que pretendem proclamar a palavra de Deus. Na opinião de Miqueias, só dizem vaidades e mentiras. Esses falsos profetas levam o povo à ruína. Eles fazem errar o “meu povo” (5), diz o Senhor. Esse meu povo não é um termo genérico de ricos e pobres, autoridades e súditos. São os roubados, expulsos de suas casas, desapossados de suas terras, vendidos como escravos, esquartejados como animais. E chegaram a essa situação não só pela cobiça dos poderosos, mas também por obra e graça dos falsos profetas. Com palavras concisas, o profeta denuncia a “teologia da opressão”. Em todas as épocas e culturas, a sociedade procurou argumentos religiosos para roubar, saquear, escravizar e matar. Se não para justificá-lo expressamente, ao menos para tranquilizar a consciência. Geralmente, atrás de todo ato de opressão há ideologia que a apoia. Em Israel não foi diferente. As autoridades e os ricos necessitavam de base de ordem moral que justificasse sua conduta e acalmasse algum escrúpulo. É aqui que entra o falso profeta proporcionando oráculos divinos e visões. Para eles só cabem guerra ou paz. Uns são dignos de castigo, outros de viverem bem. Nisso coincidem com os verdadeiros profetas. A diferença está no que toca a cada grupo. Para o falso profeta, a paz e o bem-estar encontram-se a serviço dos ricos, dos que podem dar-lhes de comer; a guerra e a desgraça correspondem aos que não lhes enchem a boca. Com essa interesseira atitude, fomentam o que Miqueias chama “guerra santa” contra o povo de Deus (5). Aquilo que para Miqueias é matança cruel, os falsos profetas consideram ato sagrado para maior glória de Deus. Os dirigentes da nação, os políticos, os sacerdotes, e os pregadores eram responsáveis pela inversão dos valores morais: aborreciam o bem e amavam o mal. Se ousassem, os pobres e os inocentes da terra teriam muito que dizer sobre os ricos fazendeiros que oprimiam os camponeses e a gente humilde da terra. Quão diferente era o ministério do fiel pregador Miqueias! Ele estava cheio de poder do Espírito do Senhor (3.8). Ele reprovou corajosamente o materialismo interesseiro, a crassa injustiça, e a falsa religiosidade dos líderes da nação, que persistiam em dizer que o Senhor estava com eles, e que nenhum mal aconteceria (3.11). Miqueias predisse exatamente o contrário e vaticinou o desmoronamento da cidade santa e do templo, que se tornariam montões de ruínas cobertas de mato (3.12). Um julgamento muito sério da parte daquele que não julga pelo que está diante dos olhos, mas pelo que vê o fundo do coração. São quase todos os dirigentes do povo que merecem tal julgamento. Os chefes, tanto do Estado como da religião, são aqueles a quem essa mensagem é endereçada, pois trabalhavam de mãos dadas, também nas outras nações. Por não respeitarem a lei de Deus “sobre todas as coisas”, preferiam o mal ao bem. Sua atitude de opressão e violência conduz o povo nesse caminho. E essa responsabilidade está sobre os seus ombros. Sua tirania se dirigia especialmente contra os praticantes da religião, cuja vida piedosa para eles se constituía numa
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constante acusação. Essas pessoas não conheciam compaixão, assim também o Senhor iria negar-lhes a sua compaixão. Visto que não queriam ouvir as súplicas e os suspiros dos oprimidos, também Deus iria mostrar-se surdo perante seus gritos de agonia no dia do ajustamento de contas. No v. 6, por quatro vezes é retratada a escuridão em que esses tais profetas andavam e faziam o povo de Deus andar. Tem mais culpa do que o povo, porém este, desprezando os bons profetas, mandados a ele seguidamente da parte de Deus, perseguindo e matando-os, não está também isento de culpa. Esses bons profetas estão cheios do Espírito Santo (8), e a Deus dão toda a glória. Miqueias se confessa ser instrumento cheio do Espírito Santo. Esse o faz pregar a lei dura, para que os poderosos, assustados, perguntem pela salvação, que o profeta estava pronto a anunciar. Miqueias ataca os líderes em Israel e seus falsos profetas (9-11). Traz como exemplo a maneira totalmente corrupta de seus processos judiciários. Reedificam Jerusalém à base de sangue, de crimes sangrentos. Provavelmente aqui está a denúncia do alistamento forçado para trabalhos escorchantes ao qual a gente humilde não podia fugir. Aceitam dinheiro, presentes, enfim, agem corruptamente. Mas são insensíveis ao que realmente importa, que é praticar o direito para promover a justiça. No v. 12, aprendemos que tal hipocrisia é considerada por Deus pior do que a rebeldia e idolatria aberta. Assim, os que queriam reerguer Jerusalém são a causa de sua destruição. A cidade santa será lavrada como uma vassoura e o templo e as partes fortificadas terão o mesmo fim.
3 Meditação O camponês Miqueias comparou Israel a um pomar e a uma videira depois da época de colheita, quando não se encontram mais frutas. Por analogia, desapareceu da sociedade a pessoa piedosa e honesta que produz bons frutos. Em escala nacional, praticava-se o mal. Os chefes da nação estavam de mãos dadas para cometer injustiça, suborno e cobiça. A falta de confiança era geral, e se estendia até o seio da família. A palavra vinda da parte de Deus era agora uma palavra rara porque rareavam as pessoas que a poderiam entregar com integridade. Miqueias fala de profetas, adivinhos e videntes que não constituem diferentes tipos de profetas. O que está em vista, com maior probabilidade, são as diferentes formas pelas quais os profetas recebiam de Deus as suas mensagens. Havia aqueles ligados ao templo e outros santuários espalhados pelas cidades de Judá, sem conexão com o templo. O mais importante, no entanto, para uma compreensão sociológica da função desses profetas no contexto social da época é que eles “socializavam” a legitimação ideológica do projeto de Estado, ou seja, juntamente com o sacerdócio, preenchiam a função de educadores ou doutrinadores do povo, transmitindo conforme os interesses do monarca que os mantinha. Desta forma, sua função, que devia ser de legitimar o projeto de Deus para a nação, se desvirtuava como
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legitimadores do projeto do Estado e ajudava o monarca a manter a hegemonia sobre a sociedade civil. A situação de Israel era desesperadora. No entanto, Miqueias confiava no Senhor. O profeta se identificou com seu povo, confessando o pecado que merecia o julgamento divino. Com clarividência, olhou além da derrota certa do povo de Deus e discerniu o dia distante, mas seguro, quando Sião, reedificada e ampliada, atrairá todas as nações. O Senhor será o seu pastor, e as nações respeitarão finalmente o povo de Deus. Miqueias louvou o Senhor que perdoará o seu povo, lançando todos os nossos pecados nas profundezas do mar. Ele baseou essa confiança na aliança que Deus fez com os patriarcas, a quem revelou a sua “misericórdia”. Cumprir-se-á a promessa do Senhor a Israel, e as nações saberão que Deus ama com amor eterno. O dia anunciado está chegando. O dia do julgamento, do qual tantos profetas tinham falado, estava se aproximando. Para Samaria veio dentro de uma década; para Jerusalém durou mais de um século; mas o julgamento final de todas as pessoas ainda está no futuro. Mas o fiel diz: eu, porém, olharei para o Senhor. Miqueias fala de si mesmo: eu estou cheio de força, de justiça e de fortaleza. Sim, ele é o homem que Deus levantou para se contrapor àquele estado de corrupção em todo o sistema legal. Sua missão só se tornou relevante porque os profetas da época perderam o rumo de sua função ao se deixar comprar a serviço dos ricos e dos poderosos. Mas Miqueias é aquele que confia no Senhor, mesmo quando todos ao seu redor descambam para o erro. É aqui que ele se estabelece como profeta e intercede pela nação, fazendo sua confissão e sua oração em conjunto com a nação pecaminosa. Levanta-se, mesmo tendo caído em desânimo. A pessoa piedosa vê a adversidade apenas como espécie de disciplina diária. Os ídolos forjam-se como representações de divindades. A mente humana tenta tecer religiões, mas o perdão e a misericórdia são atributos exclusivos do próprio Deus, e só ele os revela. O escândalo que se abateu sobre Israel foi duramente denunciado por Miqueias. O povo foi conduzido à idolatria, no sentido religioso, e à perdição, no sentido político-social. No entanto, ao que me parece, o profeta está mais preocupado com o roubo dos ricos que leva os pobres à ruína. Não é muito diferente de nossos dias quando ideologias políticas são mascaradas com uma fachada religiosa para escravizar, esganar e oprimir. O direito do pobre é tirado, sua liberdade é tolhida porque sem recursos não adianta dizer que se tem liberdade. Os ricos e os poderosos no tempo de Miqueias buscaram base de ordem moral que justificasse sua conduta e acalmasse os possíveis escrúpulos. Ao comparar os tempos e as épocas, vemos que apenas mudaram os personagens, mas as operações ligadas para se criar mecanismos de opressão e de exploração continuam os mesmos. É preciso que outros homens e mulheres com o caráter de Miqueias sejam levantados por Deus para combater o erro. Esses são alguns dos ensinamentos de Miqueias para a nossa vida.
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4 Imagens para a prédica Um alerta: o falso profeta (segundo Karl Barth) O falso profeta é o pastor que agrada todo mundo. Seu dever é dar testemunho de Deus, mas ele não o vê e o prefere, porque vê muitas outras coisas. Segue seus pensamentos humanos, conserva-se interiormente calmo e seguro, evita habilmente tudo quanto o incomoda. Não espera senão poucas coisas ou mesmo nada da parte de Deus. Pode calar-se, mesmo quando vê homens atravancando seus caminhos com pensamentos, opiniões, cálculos e sonhos falsos, por quererem viver sem Deus. Retira-se sempre quando devia avançar. Compraz-se em ser chamado pregador do evangelho, condutor espiritual e servidor de Deus, mas só serve aos seres humanos. Sonha, às vezes, que fala em nome de Deus, mas não fala a não ser em nome da igreja, da opinião pública, das pessoas respeitáveis e da sua “pequena” pessoa. Ele sabe que, desde agora e para sempre, os caminhos que não começam em Deus não são caminhos verdadeiros, mas não quer se incomodar nem incomodar os outros; por isso é que pensa e diz: “Continuemos prudentemente e sempre alegres em nosso caminho atual: as coisas se arranjarão”. Ele sabe que Deus quer tirar as pessoas da impiedade e que a luta espiritual deve ser travada. No entanto, prega a “paz”, a paz entre Deus e o mundo perdido que está em nós e fora de nós. Como se tal paz existisse! Sabe que seu dever consiste em proclamar que Deus quis uma nova vontade, uma nova vida, porém deixa reinar o espírito do medo, do engano, de Mamon, da violência – a muralha construída pelo povo (Ez 13.10), o muro oscilante e manchado. Ele disfarça-o pintando com as cores suaves e consoladoras da religião para o contentamento de todo mundo. Eis aí o falso profeta!
5 Subsídios litúrgicos A igreja, em seus cultos e liturgias, deve conduzir a pessoa a refletir sobre todas essas situações, ao mesmo tempo em que não deve se deixar desanimar porque o Deus a quem servimos é aquele que está atento aos movimentos da história e no devido tempo ele há de intervir. Devemos ter em mente que em nossos sonhos e projetos de vida, tanto particular e familiar quanto comunitário, é preciso que se clarifique o grupo de opressores, daqueles que detêm o poder político, econômico, judicial e religioso. Denunciar homens públicos e seus sacerdotes e profetas; esses opressores, que se apresentam como homens religiosos, que conhecem e invocam as tradições da fé e clamam por Deus nos momentos de dificuldades, sabem da importância de assim agirem; é preciso falar do oprimido com palavras concretas e imagens vivas, mostrando profunda compaixão por essa gente, conhecendo de perto os seus problemas; é preciso não atribuir tanta importância ao centro do poder, seja
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Jerusalém ou Brasília. Aliás, é preciso mostrar em cores vivas que esses centros, literalmente falando, irradiam, em seu respectivo tempo, o projeto de opressão desenhado pelos poderosos. É de lá que se legisla e se aplicam as leis que não punem o culpado. Portanto a capital, pensava Miqueias, devia ser eliminada. Ele não pertence ao grupo que ama Jerusalém, nem seus edifícios, nem seu progresso. Não acredita em seus tribunais. Ele é o profeta que percebe o reverso da trama porque vê que prosperidade e progresso foram construídos com o sangue do pobre e à base de injustiça. No entanto, a profecia deixa uma mensagem de esperança. O que nos move para frente é a capacidade de sonhar, de desejar que o amanhã seja melhor que o dia de hoje. Os que continuam sonhando são aqueles que haverão de experimentar aquilo que o Senhor tem preparado para os seus.
Bibliografia SICRE, José Luís. Com os Pobres da Terra; justiça social nos profetas de Israel. Trad. Carlos Felício da Silveira. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2011. ZABATIERO, Júlio Paulo Tavares. Miqueias: Voz dos Sem-Terra. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 1996.
DIA DE FINADOS 02 NOV 2020
PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 15.35-38,42-44a ISAÍAS 35.1-10 MATEUS 22.23-33
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PRÉDICA: MATEUS 25.1-13
23º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
08 NOV 2020
AMÓS 5.18-24 1 TESSALONICENSES 4.13-18
Carolina Bezerra de Souza Eriksson Mateus Tomaselli
Como a festa pode ser melhor?
1 Introdução Em geral, a parábola em Mateus 25.1-13 é interpretada em relação à parúsia, que tarda, mas para a qual a igreja deve estar preparada. A esse tema também estão relacionados os dois textos indicados para a leitura. Amós trata do Dia do Senhor como motivação para a igualdade social e a condenação do injusto. 1 Tessalonicenses trata do consolo do reencontro da igreja com Cristo. Tal leitura, porém, é desconfortável. Sente-se compaixão pelas jovens tolas, cujas tochas se apagam pela demora do noivo. Esse é uma figura desagradável, rude, tarda demais e as deixa de fora, apesar de todo o esforço em estar à procura e à espera de participar da festa. Sob essa ideia, incomoda ter Deus ou Jesus associados ao noivo desagradável, e às jovens tolas, aos crentes que não vigiaram. Porque, por essa imagem, o texto trata de quem vai ficar de fora ou dentro do Reino e percebe-se que, mesmo fazendo bastante, todos correm o risco de ficar de fora. Ao mesmo tempo, a parábola parece contradizer outros textos de Mateus, que dizem que a escolha será pela justiça das pessoas. Então nos perguntamos: não havia azeite nessa casa? Onde está a noiva? As jovens poderiam ajudar-se e ir juntas pelo caminho com cinco tochas? Se tardava o noivo, por que não apagaram as tochas para economizar? Todas dormiram, isso é vigiar? Só aquelas que não tinham azeite ficaram de fora? Por que uma imagem festiva se transforma em uma imagem de exclusão? Que Deus de amor é esse? Munidos desse desconforto, adentremos no texto.
2 Exegese As parábolas dos evangelhos nos são distantes por tempo e cultura. Soma-se a isso a tendência alegórica de interpretação, que foi amplamente usada ao longo da história interpretativa desse texto, associando Jesus ao noivo, o reino dos céus à festa de casamento e as virgens tolas àqueles que não vigiaram. Também eram dados significados ao óleo, como sendo boas obras, e à porta fechada, como sendo juízo escatológico quando a mensagem pode ser mais geral. “Fato é que Mt 25.1-13 geralmente foi lido com a tendência de colocar as cinco virgens tolas no centro da atenção, usando-se o texto opressivamente enquanto possibilidade de identificação negativa e como instrumento disciplinar e repressor de
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desejos de mulheres” (RICHTER REIMER, 1999). Por isso, com perguntas e suspeitas, nos aproximamos do texto. O entendimento dessa parábola precisa ser definido pelas ênfases e radicalidades de Mateus (a fé ativa, a justiça, a missão e o juízo) e pelo seu lugar na retórica narrativa. Assim, mais do que especular o quando e como, a parúsia é uma certeza que exige orientação sobre o agir comunitário para poder passar pelo juízo futuro. Essa parábola é material exclusivo do Evangelho de Mateus, originado na própria cultura comunitária, revelando-a. Está quase ao final do evangelho, antes da paixão, na sessão apocalíptica, no quinto discurso de Jesus, momento de ele prever e explicar o que vai ocorrer entre sua paixão, ressurreição e retorno. Após os enfrentamentos com líderes religiosos no Templo de Jerusalém, Jesus dá ensino dedicado aos que o seguiam, condenando o Templo, logo ao sair de lá, e, no monte das Oliveiras, explicando sobre o fim do mundo, o seu retorno e o que há de vir antes disso. Usa uma série de parábolas intercaladas com explicações, imperativos e alertas sobre a vigilância e não saber quando: a da figueira (Mt 24.32-44); a do bom e do mau servo (Mt 24.45-51); a das dez virgens (Mt 25.113) e a dos talentos (Mt 25.14-30). A parábola é conectada ao final do sermão do monte. As palavras que classificam as virgens, tolas (mōros) e sábias/prudentes (fronimos), também são utilizadas em 7.24-27. Também a expressão do noivo não vos conheço tem o mesmo significado da expressão de desconhecimento em 7.23. Sobre as virgens é dito que, naquele tempo (o tempo que antecede ao fim, ao qual Jesus vem se referindo), o reino dos céus poderá lhes ser comparado (ou contrastado?). Pelo contexto, a parábola pode representar a vida da comunidade: o cenário não precisa ser o fim dos tempos, e sim o momento liminar da própria comunidade, com seus horrores e injustiças, que deve ser contrastado ao reino dos céus como fonte de esperança de um mundo melhor (BLICKENSTAFF, 2005, p. 79). O termo virgens denota mulheres que não tiveram relações sexuais com homens, jovens de cerca de doze anos, aptas para o casamento. Depois, evolui para mulheres que não vivem relações de dependência com homens pelo casamento. Nesse contexto, mostra o status das jovens na sociedade: em oferta para o mercado nupcial. Para Luise Schottroff, esse texto é escrito de uma perspectiva patriarcal: as jovens estavam em uma concorrência para estar na festa, uma ocasião de prova para elas, e serem consideradas sábias e boas esposas (cf. Pv 31.18 e Ec 22.4), para entender o que cercava essa tradição das mulheres e casamento (SCHOTTROFF, 2007, p. 40-42). As lâmpadas são tochas (ver o que outros volumes de Proclamar Libertação já abordaram sobre isso: o v. 24, com texto de Ivoni Richter Reimer; e o v. 30, de Carlos Luiz Ulrich) que precisavam ser embebidas em azeite ocasionalmente, comumente usadas em procissões festivas de casamento até o local da festa, que costumava ser aberta à população local. Era improvável tamanho atraso do noivo e que convidados atrasados fossem impedidos de entrar, como cinco das jovens. Assim, o final da parábola é uma hipérbole trágica que faz o autor deixar de lado
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qualquer outra possibilidade verossímil de conclusão. A exortação à vigilância feita por Jesus, narrador da parábola, ao final, tem o mesmo tom da história do noivo que tarda e deixa alguns de fora. A primeira dificuldade interpretativa é a divisão das jovens entre sábias e tolas, não por estarem à espera do noivo atrasado ou por adormecerem (o que contradiz com o tema da vigilância), mas apenas por terem ou não provimento de uma mercadoria, que podia ser adquirida por todas, uma vez que as tolas saem a comprar. Isso combinado à disputa pelo matrimônio separa as próprias mulheres, que se recusam a compartilhar o azeite e entram na festa sem aquelas que não foram previdentes em relação ao grande atraso do noivo. O efeito sobre quem ouve/ lê leva a querer se identificar com as sábias, mas ficar em dúvida se na verdade se identificam com as tolas e ter grande simpatia por elas, pois a classificação não parece justa. O uso dos termos sábio e tolo é recorrente, mas não muito coerente ao longo do evangelho. O termo tola pode significar fraqueza intelectual ou pessoa que não tem respeito a Deus e é entendido como um grande insulto, como chamar alguém de imbecil. Mas acusar alguém de tolo em meio à convivência contradiz o próprio evangelho (5.22). Também o termo oposto, sábia, é usado com referência às serpentes (10.16), que são usadas como acusação aos fariseus (23.33). Outro problema: a porta se fecha e o noivo rude se recusa a abrir. Esse noivo não se assemelha ao Deus justo que cuida do desamparado. Tal ação era declarar a morte social das moças, que seriam incapazes para o casamento, uma imagem de opressão social, injusta com o esforço feito. Isso não combina com um reino dos céus que ampara e acolhe o necessitado e débil. Essa imagem não combina com o alvo de missão de atingir a todos.
3 Meditação Toda parábola exige uma resposta de quem a recebe. Mas qual é a nossa resposta para uma história tão incômoda? O exemplo das dez virgens é trágico e, ao mesmo tempo, claro: todos estamos expostos ao mal social, ao juízo, ao detalhe não considerado que pode nos deixar de fora, sujeitos ao rótulo de tolos ou em necessidade. A disputa no meio do grupo não resolve a situação de que alguns não participam da festa. Talvez a melhor resposta a essa parábola seja a comunitária. Entendendo que a imagem do reino de Deus nos anima com esperança de um mundo melhor, do qual queremos que todos participem, a resposta pode ser com ênfase na missão em termos de serviço: rever o conceito de vigilância para termos comunitários, ou seja, ser vigilantes comunitariamente ao ponto de não deixar que ninguém se desampare. Apenas o agir comunitário no suprimento das necessidades um dos outros pode cobrir as incompletudes pessoais e levar todos a fazer parte do momento festivo. Portanto o tema da vigilância cristã se conecta à expectativa repleta de esperança pelo retorno de Jesus e à ética do cristão que ilumina o seu meio. A vigilância se liga tanto à oração, à sobriedade, ao uso de talentos, como à sabedoria e ao agir com responsabilidade para com as outras pessoas, fazendo do amor ao
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próximo e do serviço as regras da convivência. A festa pode ser mais alegre se todos colaborarem para que todos entrem.
4 Imagens para a prédica Após a leitura, estimular a comunidade a expressar incômodos em relação ao texto, criar finais alternativos para a parábola que solucionem os incômodos, sugerir ações das jovens que pudessem levar todas a participar da festa.
5 Subsídios litúrgicos Para o espaço litúrgico, sugerimos que se utilizem lâmpadas, como as virgens, no lugar das velas no altar, que também podem servir para mostrar, durante a leitura e a prédica, diferenciando-as de tochas, mostrando que ambas iluminam assim como a pessoa cristã deve iluminar o seu ambiente. Também é possível explorar a ideia do óleo, com unção, por exemplo. Saudação Igreja de Jesus aqui reunida, celebramos este culto em nome de Deus, que nos criou e deseja que ouçamos a sua Palavra; em nome do Filho Jesus, que se entregou para nos salvar, e em nome do Espírito Santo, que nos dá entendimento da palavra de Deus e nos ensina a crer nela e no seu Filho Jesus. (+) Amém. Oração Querido Deus, chegamos humildemente a tua presença para agradecer por nossa vida. Obrigada por mais esta oportunidade de nos reunir como teus filhos e tuas filhas para louvar, agradecer, mas principalmente para interceder. Pedimos que estejas conosco e nos dês muita força e ânimo. Não te esqueças de nós. Somos teus e tuas. Como acompanhaste patriarcas e matriarcas, estejas também conosco. Em nome do nosso Senhor Jesus Cristo, que vive de eternidade a eternidade. Amém. Envio
Vamos agora, caminhemos nos caminhos da paz, na graça do Espírito Santo de Deus, cientes do nosso compromisso cristão de ensinar e viver por fé, na graça de Deus, na perspectiva do reino de Deus que, em Jesus Cristo, acolhe todas as pessoas. Enquanto caminhamos, vamos dizer ao mundo todo que Deus é bom, justo e, por meio do perdão, mediante confissão, faz acontecer vida e salvação. Amém! Hinos
LCI 112 – Ensina-nos, Senhor LCI 620 – Meu tempo LCI 625 – Vigiar e Orar
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Bibliografia BLICKENSTAFF, Marianne. ‘While the Bridegroom is with them’: Marriage, Family, Gender and Violence in the Gospel of Matthew. Londres; Nova York: T&T Clark International, 2005. SCHOTTROFF, Luise. As parábolas de Jesus. São Leopoldo: Sinodal, 2007. RICHTER REIMER, Ivoni. Antepenúltimo Domingo após Pentecostes: Mateus 25.1-13. In: SCHNEIDER, Nélio; WITT, Osmar L. (Orgs.). Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1999. v. 24, p. 312-322.
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24º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
15 NOV 2020
PRÉDICA: MATEUS 25.14-30
JUÍZES 4.1-7 1 TESSALONICENSES 5.1-11
Norberto da Cunha Garin Edgar Zanini Timm
A natureza dos talentos
1 Introdução A sugestão de leitura do Antigo Testamento, Juízes 4.1-7, foca na narrativa da advertência e convocação que a juíza Débora faz a Baraque para que enfrente as tropas de Sísera, comandante do exército de Jabim, rei de Canaã, sob o qual se encontravam os filhos de Israel. Ela promete a Baraque o envio dos inimigos até o ribeiro Quison, onde aconteceria o enfrentamento bélico. Representa o chamado de Débora para que Baraque realize a missão que Deus está lhe confiando. Deve utilizar seu potencial para libertar o povo de Israel. A leitura da epístola, 1 Tessalonicenses 5.1-11, reporta-se à inexistência de previsão sobre a época da volta do Senhor. Insta para que todos estejam sempre preparados a qualquer tempo. Nunca há previsão sobre quando terminará nosso envolvimento na missão que Deus nos tem dado. O texto indicado para a prédica está alicerçado sobre a narrativa de Mateus. Ainda que Lucas 19.11-27 apresente um paralelo, esse possui tantos detalhes distintos, que parece se constituir noutra história. A narrativa de Mateus representa ser a mais aproximada das tradições originais. O final do ministério terreno de Jesus se aproximava. Os textos anteriores ao capítulo 19 retratam discursos realizados já em Jerusalém. Essa parábola se encontra no escopo da proximidade do reino de Deus, ou como prefere Mateus, reino dos Céus. A parábola está ambientada num contexto urbano, diferente de boa parte das parábolas contadas por Jesus. Mesmo que a ilustração se reporte aos recursos financeiros, não deve ser tomada como exemplo para justificar qualquer expertise de investimentos ou de empreendedorismos. De forma nenhuma ela se presta para sustentar argumentos sobre fundamentação das desigualdades sociais do tipo: “Deus concedeu mais bênçãos para uns e menos para outros”.
2 Exegese V. 14 – Os textos mais antigos se reportam apenas que ele viajou; a expressão “ausentando-se do país” não aparece em alguns originais; o substantivo doulos se reporta a escravos. Tratava-se de escravos de confiança, habitualmente encarregados por seus senhores de tarefas de alta responsabilidade. Suas posses
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(hyparchonta), por analogia, tratava-se de tudo aquilo que Jesus havia compartilhado com seus discípulos: a fé, a autoridade, o olhar para os humildes etc. Esses se constituíam nos talentos outorgados. V. 15 – O talento (talanta) consistia numa moeda que originalmente tinha sido uma medida de peso. Essa moeda equivalia a seis mil denários. Um denário representava o salário de um trabalhador por um dia. Portanto um talento representava cerca de 18 anos de serviços de um trabalhador. V. 16-17 – Colocou-os para trabalhar (ērgasato): os servos que receberam cinco e dois talentos colocaram o capital para trabalhar por meio de empreendimentos diversos. Isso tem o sentido de fazer boas ações. Esse verbo aparece em outras duas partes do NT: 1) em Mateus 26.10, quando Jesus repreendeu os discípulos que criticavam a mulher que o havia ungido, no sentido de que ela havia realizado uma ação meritória; 2) em Marcos 14.6, em texto paralelo, com a mesma conotação. V. 18 – Cavou um buraco e escondeu (ekrypsen): a prática de enterrar bens duráveis, como moedas, joias, peças de ouro e prata era comum no tempo de Jesus, pois não havia cofres seguros o suficiente e o sistema bancário era insipiente. Isso representava uma atitude que agregava a maior segurança possível ao redor do bem. Há outras parábolas nas quais esse mesmo tema aparece, como, por exemplo, em Mateus 13.44. V. 19 – Ajustou as contas (synairei) tem o sentido de verificar o que fora produzido e o que caberia a cada um dos escravos. Cada servo necessitava fazer um relatório das atividades realizadas a partir do recebimento daqueles talentos. Não se tratava apenas de receber, mas de verificar o que caberia também aos operadores, que certamente receberiam o seu pagamento. V. 20 – Confiaste-me (paredōkas) é mais que entregar: o senhor “confiou” os cinco talentos. Como servos, eles inspiravam a confiança, inclusive sobre seus bens, a parte mais sensível de boa parte dos seres humanos. Não era diferente no primeiro século. V. 21 – Foste fiel (piste, gr.): ser fiel significa desenvolver aquilo que recebeu; não deixar parado; não se acovardar. Entra no gozo (charan): tratava-se de se apropriar da porção da alegria, de participar da intimidade do senhor, do seu palácio. Essa consistia na parte do pagamento do servo. Os escravos tinham acesso aos palácios, mas apenas para trabalhar. Participar da alegria do senhor significava sentar à mesa dos banquetes. V. 26 – Mau e negligente (oknēre): ninguém está desculpado por ser negligente porque sua porção foi menor ou considerada muito pouco. V. 29 – Será tirado (arthēsetai) aponta para uma expressão coloquial, um ditado popular adotado por Mateus e por outros evangelistas. Tratava-se de uma expressão proverbial comum (Mt 13.12, 21.43; Mc 4.25; Lc 8.18, 19.26). Para quem aproveitava a oportunidade, os benefícios se ampliavam, mas quem deixava passar a oportunidade acabava perdendo a vez. V. 30 – Choro e ranger de dentes (klauthmos, brygmos) sinalizava o futuro das pessoas que, mesmo tendo conhecido o Senhor, se tornaram infiéis do ponto
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de vista da sua contribuição ao reino de Deus. As pessoas seriam julgadas por não realizarem o que lhes era adequado.
3 Meditação Essa parábola, narrada por Mateus, remete ao cenário da parousia. Jesus estava em Jerusalém, da qual não sairia vivo. Sua ausência poderia ser compreendida como a ausência do senhor da parábola. Ficaram os seus discípulos com a incumbência de fazer render a missão que ele tinha lhes atribuído. Quando se trabalha com analogias, faz-se necessário realizar a migração sociocultural e ambiental para que se entenda a mensagem adequada da parábola. Neste caso, Jesus mencionou escravos de confiança porque em sua época os trabalhadores eram escravos. Evidentemente tinham um perfil distinto dos escravos africanos que havia em nosso país. Mas pensando nessa contextualização, é necessário entendê-los como missionários que operavam com o evangelho. Os talentos não deveriam ser entendidos como habilidades e dons recebidos, mas como aquilo que o Senhor deixou para todos os seus seguidores: fé, autoridade, humildade, misericórdia entre outros. Esses são os nossos talentos. Quem foi transformado pela graça de Cristo tem o compromisso de tomar os seus talentos e se colocar a operar. Toda obra da pessoa cristã necessita ser um investimento dos talentos recebidos. Não importa se é ministro ou ministra eclesiástica, professor ou professora, gestor ou gestora, operário ou operária manual – todos necessitam realizar os investimentos adequados utilizando esses talentos. A fé, a esperança, a misericórdia, precisam comparecer como estratégias na operação do cotidiano. É por meio dessas operações vinculadas aos talentos que o testemunho acontece e, consequentemente, a expansão do reino de Deus se realiza. Imagine-se omitir a fé em qualquer atitude da pessoa cristã: qual seria o resultado? De que maneira a pessoa cristã justificaria uma ação sem a misericórdia? É importante perceber que a quantidade de talentos recebidos pelos servos não tinha relação com a capacidade de qualquer um deles de realizar os negócios. Não há como mensurar os talentos que recebemos do Senhor: quantidade de fé, de misericórdia, de postura de humildade. A analogia deve ser relacionada à recepção dos talentos. Mesmo aquele que recebeu um, estava instrumentalizado para realizar os negócios do seu senhor. Dessa forma, é inconveniente estabelecer relação entre quantidades como se uma pessoa cristã fosse mais “talentosa” que outra. É notável a atitude do terceiro servo, porque ele fez exatamente o que o direito canônico judaico recomendava: enterrar o bem. Era considerado o meio mais seguro de proteger o dinheiro. Os outros dois servos, assim como ganharam outro tanto, arriscaram perder tudo, mas foram hábeis para realizar o negócio do seu senhor. É bem provável que esse terceiro servo consistia numa analogia aos escribas e fariseus, que, mesmo cumprindo a Lei, não produziam frutos e justiça. Trabalhar para o Senhor para o engrandecimento do reino de Deus quase sempre representa riscos. Não apenas em nações cujas culturas discriminam o cristianismo. O servo fiel a Cristo pode ser alvo de discriminação em qualquer local, até porque pauta sua rotina por princípios éticos e valores de sua fé. Não nos cabe
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“enterrar” o talento edificando normas, regulamentos, instituições para preservar o que recebemos. O Senhor espera que o exercício do talento recebido se multiplique, para que o Reino se expanda. A parábola fala de ajustar contas como se fosse uma espécie de momento no qual o servo estaria diante do seu senhor para depositar o que lhe pertencia. No cotidiano, a prestação de contas é contínua, pois nosso operar no reino de Deus nos acompanha diariamente em cada ação, em cada atitude. Nessa senda, recebemos o selo da confiança do Senhor. Assim como aconteceu com os escravos da parábola, temos um depósito de talentos, que não nos pertence, mas pelos quais precisamos, fielmente, dar contas a Jesus Cristo, senhor do Reino. Ser negligente é se omitir diante dos desafios de cada dia sobre esses bens fundamentais que ele colocou à nossa disposição. Quem tem receberá mais e o que não tem perderá aquilo que tinha: isso se reporta a uma expressão proverbial da cultura popular, que provavelmente foi adotada por Jesus em diferentes momentos. O choro e o ranger de dentes podem ser associados à percepção de que o reino de Deus está triunfando, mas que se não desenvolvemos os talentos recebidos, estamos completamente alijados desse processo, porque escolhemos outro caminho, mais seguro ou mais confortável. Entretanto, a ênfase maior está reservada aos servos que realizaram o trabalho de multiplicar os talentos. Esses foram convidados a entrar na alegria do senhor. Isso equivalia, na ilustração, a participar das entranhas do palácio, com suas festas e banquetes. Por analogia, cumprir nossa missão equivale à recompensa de participarmos, com alegria, da comunhão com Cristo em sua Santa Mesa, a certeza de que fazemos parte desse Reino. A ênfase da interpretação deveria recair sobre a natureza dos talentos. Há bastante confusão entre as pessoas cristãs sobre isso, como se fossem habilidades concedidas por Deus a cada pessoa cristã individualmente. Por analogia à parábola, o talento se constitui em todo o capital espiritual que Cristo nos deixou enquanto acesso à palavra de Deus, à fé, à misericórdia, à humildade, à consideração do humano, à preocupação com os mais fragilizados etc. Esses são os talentos que recebemos e com os quais precisamos trabalhar incessantemente na missão do reino de Deus. Seria interessante desconstruir a falsa ideia de que os mais habilitados são também os mais queridos pelo Senhor. Todos são amados por ele, mas os preguiçosos, que não colocam o capital que ele nos deu a serviço do Reino, que cercam esses talentos com regulamentos, leis, instituições, não participarão da glória de ver o seu Reino triunfando. Não terão a alegria de ter participado da sua construção.
4 Imagens para a prédica Montar uma cena simples constituída de três pessoas que se reúnem para montar um enfeite para uma sala de crianças. As três recebem papel e tesoura. Uma delas resolve recortar o papel e transformá-lo numa série de crianças de mãos dadas. A outra faz uma dobradura, transformando-o noutro desenho/objeto, como chapéu ou barco. A terceira sacode os ombros e diz que está sem inspiração,
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devolve o papel ao pastor ou à pastora e vai sentar-se no seu banco. Terminada a tarefa (que deve ser rápida), o pastor ou a pastora convida as duas para decorarem a sala das crianças com seus artefatos. Nisso consiste a alegria de participar dessa parte do Reino, enquanto a terceira simplesmente ficou de fora da missão.
5 Subsídios litúrgicos Oração participativa Oficiante: Senhor, recebemos talentos por tua graça; permite que possamos colocá-los em ação para a grandeza do teu Reino. Todos: Que a tua Palavra, Senhor, apareça por meio dos nossos testemunhos, em palavras, ações e atitudes. Oficiante: Que a fé, a esperança e o amor façam parte do nosso agir cotidiano, no nosso meio social, seja de trabalho, sociedade ou na família. Todos: Senhor Jesus, que a missão que pediste para que realizemos traga frutos de justiça e de misericórdia para as pessoas com as quais convivemos. Amém.
Bibliografia JEREMIAS, Joachim. As parábolas de Jesus. Trad. João Rezende Costa. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1978. 238 p. (Nova Coleção Bíblica, 1). KLIEWER, Gerd Uwe. Penúltimo Domingo do Ano Eclesiástico. In: KAICK, Baldur van (Coord.). Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1977. v. 2. Disponível em: <http://www.luteranos.com.br/conteudo_organizacao/ governanca-rede-de-recursos/proclamar-libertacao-volume-ii-1977>. Acesso em: 27 fev. 2019.
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PRÉDICA: EFÉSIOS 1.15-23
DOMINGO CRISTO REI
EZEQUIEL 34.11-16,20-24 MATEUS 25.31-46
22 NOV 2020
Renato Küntzer
Em Cristo está tudo o que Deus destina ao universo
1 Introdução O Domingo Cristo Rei faz parte da tradição litúrgica recente e foi incluída na nossa liturgia pelo lecionário ecumênico. Celebra a Jesus Cristo como Rei, que foi ressuscitado dentre os mortos e está sentado à direita de Deus, foi colocado acima de todo principado, autoridade, poder, domínio, de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro. Jesus Cristo é confessado como o rei soberano de todo o universo. O texto sugerido para a pregação é acompanhado pela leitura de Ezequiel 34.11-16,20-24, onde, ao contrário de autoridades e poderes que abusam do povo, a autoridade que vem de Deus projeta liberdade, vida e segurança para todas as pessoas. A leitura do Evangelho de Mateus 25.31-46 compromete a comunidade ao reconhecimento e compromisso com a pessoa concreta de Jesus e às suas práticas de amor e justiça. A igreja, como corpo de Cristo, reflete valores e práticas de Jesus dentro do mundo. A Carta aos Efésios é difícil de ler e compreender. Mais do que uma carta, é um tratado teológico minuciosamente elaborado. Por isso é necessário retroceder ao tempo do texto, ao fundo sócio-cultural-religioso no ambiente do Império Romano, antes de fixar os olhos no tempo presente, para dentro da realidade brasileira. A Epístola aos Efésios não é, provavelmente, de autoria do apóstolo Paulo, nem é endereçada à comunidade de Éfeso, cuja referência falta em importantes manuscritos gregos. Os exegetas propõem sua datação por volta do ano 90, pois o conjunto de assuntos da carta são os problemas da igreja pós-apostólica. É uma síntese teológica formada a partir do entusiasmo litúrgico dos discípulos de Paulo, que vivem da herança deixada pelo apóstolo (Ef 2.20). Paulo está entre os apóstolos que servem de fundamento para a igreja, estando presente nas comunidades pela sua herança. A carta também não trata de nenhum problema específico da comunidade de Éfeso. Não há polêmicas, nem perseguição, nem infiltração de heresias ou erros frequentes nas comunidades pressupostas na carta. Antes, trata de problemas globais das comunidades. Lida com a questão da identidade e pertença. Importante é consolidar a igreja una e santa totalmente ligada a Cristo, a pedra angular do fundamento, e participante de sua santidade. A intenção teológica da epístola é animar a pertença à santidade da igreja para compensar as fraquezas das comunidades locais. É uma igreja que tem suas raízes e sua cabeça nos céus, que venceu os poderes e é superior a todos os poderes terrestres. Assim ajudou a resistir e a desafiar o mundo romano. “O mundo
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cristão rompeu com o paganismo e caminha na Igreja, associada intimamente a Cristo, mergulhando na santidade desta Igreja, longe da corrupção do sistema romano. A Igreja separa-se por uma vida santa que admite as estruturas fundamentais da sociedade, mas confia em que pode santificá-las pelo modo de vivê-las. Este é o desafio de todos os cristãos instalados numa sociedade estruturada” (COMBLIN, 1987). Não se trata de uma proposta de igreja missionária. É um tratado eclesiológico. É uma igreja santa e incorruptível em meio à cultura romana. Ela tenta achar seu papel na sociedade.
2 Exegese Conforme os comentários, há um consenso em identificar na carta dois temas teológicos. Eles estão colocados qual uma imagem dentro da moldura da saudação inicial (1.1-2) e das saudações finais (6.21-24) – Ef 1.3 – 3.21: Cristo, a igreja e a revelação do plano de Deus. – Ef 4.1 – 6.20: Exortações éticas. Nossa perícope faz parte do primeiro tema teológico da carta (1.3-23), que é uma síntese única e original do cristianismo de tradição paulina. Ela anuncia a soberania de Deus: tudo procede de Deus. Deus recapitulou todos os acontecimentos e as coisas na terra e nos céus, e tudo conflui para o Cristo crucificado (1.10) e ressuscitado, por amor à humanidade. Agora a perícope prevista para a prédica: 1.15-23. De modo resumido podemos afirmar que ela aborda internamente dois assuntos: v. 15-19 expressam ações de graça pela atuação da comunidade, e v. 20-23 tematizam o triunfo, a primazia de Cristo e da igreja. Sugiro utilizar a versão atualizada de João Ferreira de Almeida. 15 – Por isso também eu, tendo ouvido falar da fé que entre vós há no Senhor Jesus e do vosso amor para com todos os santos, 16 – não cesso de dar graças por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações, 17 – para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê o espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele; 18 – sendo iluminados os olhos do vosso coração, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos, 19 – e qual a suprema grandeza do seu poder para conosco, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, 20 – que operou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar-se à sua direita nos céus, 21 – muito acima de todo principado,
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e autoridade, e poder, e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; 22 – e sujeitou todas as coisas debaixo dos seus pés, e para ser cabeça sobre todas as coisas o deu à igreja, 23 – que é o seu corpo, o complemento daquele que cumpre tudo em todas as coisas. A atuação da comunidade é motivo de agradecimento e de oração por suas ações de amor em relação aos irmãos e às irmãs. Não se expressa nada de particular em relação às ações de amor. Não se nomeiam ações concretas, somente uma referência geral (v. 15-16). Na sequência há uma série de petições endereçadas a Deus de nosso Senhor Jesus Cristo o Pai da glória, o qual foi a razão do bendito que anuncia com convicção a soberania de Deus e que tudo procede de Deus (1.3-14). Pede pelo espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele (de Deus). Aqui dá para sublinhar o caráter trinitário das petições. Primeiro vem Deus, depois o Cristo e por fim o Espírito Santo. Dessa presença decorre a luz dos olhos do coração para que a comunidade enfim entenda que tudo procede de Deus: para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos, e qual a suprema grandeza do seu poder para conosco. A comunidade (vós) é espaço de esperança, herança e poder. Há nela vocação, riquezas e suprema grandeza. Qual é a origem dessa esperança, herança e poder? Cristo, ressuscitado de entre os mortos e sentado à direita de Deus nos céus. A esperança, a herança e o poder da comunidade advêm da presença da suprema grandeza, do poder e força de Deus em Cristo. Esse Cristo glorificado, à direita de Deus nos céus, identificado por meio de termos exuberantes, com suprema grandeza, poder e força, torna a comunidade uma experiência totalmente superior a qualquer outra experiência. Isso, por meio da esperança, por meio da herança na glória de Deus e por meio do poder das obras que Deus realiza. Toda essa extraordinária experiência é para vós. Quantas maravilhas, grandeza e riquezas em vós! Há um conhecimento da esperança, herança e poder superior que é o conhecimento da realidade da comunidade (vós) unida por Deus ao Cristo que está: acima de todo principado, e autoridade e poder, e domínio, e de todo nome que se nomeia,
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e sujeitou todas as coisas debaixo dos seus pés, e para ser cabeça sobre todas as coisas Deus exaltou Jesus acima de todos os poderes (principado, autoridade, poder, domínio). Há uma superioridade do poder de Cristo. Deus sujeitou todas as coisas debaixo dos pés de Cristo e o fez cabeça sobre todas as coisas. Acima de todos os poderes, de todas as coisas e cabeça sobre tudo e todos, significa que o universo e tudo que nele está, nada escapa da soberania de Cristo. Agora e no século vindouro. Espaço e tempo estão sob a soberania de Jesus Cristo ressuscitado e à direita de Deus. Tudo está debaixo dos seus pés e ele é cabeça sobre todas as coisas. No texto há uma construção teológica crescente. Ela chega ao ápice da sua construção ao afirmar: o deu à igreja, que é o seu corpo, o complemento daquele que cumpre tudo em todas as coisas. A igreja é o corpo de Cristo. Portanto ela goza da mesma grandeza, poder e honra que Cristo. Toda essa extraordinária riqueza é para vós. O auge da formulação teológica é celebrar a igreja que é unida a Cristo. Cristo está acima de tudo e dirige tudo. E se a igreja é o corpo de Cristo, ela também está acima de tudo. Por causa da cabeça, Cristo, se exalta o corpo, a igreja. Cristo é, para a igreja, a cabeça. Daí a dignidade da igreja. Ela tem como cabeça a suprema autoridade do universo. A igreja é o complemento daquele que cumpre tudo em todas as coisas. Todos os bens de Deus que estão em Cristo são identificados na igreja. Todas as coisas que Deus envia para o mundo passam pela igreja e por intermédio da igreja vão se realizar no mundo. “A igreja, como plenitude de Cristo, reflete valores e práticas de Jesus dentro do mundo. Dessa plenitude de Cristo ela é receptora, sendo convidada a repassá-la e vivenciá-la cada vez melhor na sociedade circundante” (WEGNER, 2016).
4 Meditação A primeira afirmação teológica da Carta aos Efésios é que o universo inteiro está subordinado a Cristo. Todos os bens de Deus, o Pai, estão em Cristo. Nele está tudo o que Deus destina ao universo. Eis um assunto bom para pregação. Como se dá isso na atual conjuntura? Ali, no contexto da influência do Império Romano, a comunidade procura se definir e situar. O projeto de Deus é superior ao projeto imperialista dos romanos. Ainda hoje continuamos cercados por forças e poderes. Não mais oriundos de uma cosmovisão mitológica da época bíblica. Hoje, forças e poderes decidem o curso deste mundo segundo os seus interesses e desejos. Sistemas corporativos e políticos se apoderam de pessoas e instituições e controlam vida e morte. Em nosso contexto brasileiro, esses poderes se manifestam nas estruturas injustas,
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nos mecanismos de exclusão e na lógica de morte que justifica a miséria da maioria da população. Como, dentro dessa realidade, podemos verificar a manifestação da autoridade de Cristo e que tudo e todos estão sob o domínio de Deus? Toda a plenitude que está em Cristo está também na igreja. Segundo Lutero, a igreja é corpo místico de Cristo. Essa igreja não coincide necessariamente com a igreja visível, reconhecida na diversidade das comunidades cristãs ou na igreja institucional. A verdadeira igreja é invisível aos olhos humanos; somente Deus a conhece. É por meio da igreja invisível, na qual somos enxertados pela vida em comunidade, que nos tornamos membros da mesma e assumimos a responsabilidade de refletir valores e práticas presentes em Jesus de Nazaré. Essa é a extraordinária riqueza para nós. O que se destaca é a tarefa inclusiva da igreja por meio da experiência comunitária e não a exclusividade por meio da instituição, qualquer que seja. A igreja reflete valores e práticas de Jesus, orientada especialmente pela cruz. Nessa comunidade, tudo se vive em Cristo, imagem constante na carta. O rosto humano de Deus, Jesus Cristo, é a razão da construção da igreja/comunidade universal e que se define como serviço à paz (2.14). Deus, por meio de Cristo, sabe na própria carne o que é a violência, a tortura e a traição causadas pelo poder político, econômico e religioso. Por isso o caminho da igreja/comunidade é o caminho de Jesus. O triunfo da igreja está na sua pobreza e fraqueza. Nessa comunidade de alcance universal, o corpo de Cristo, não há armas, e os pesadelos de conflitos armados e guerra ficaram para trás, assim como os muros das separações. Não há violência, e sim comida, trabalho e dignidade. Nela, não se alimenta a discriminação, pois não há divisão entre excluídos e incluídos. Todos e todas se acercaram da comunidade (2.13). Não há eleitos, mas membros do corpo de Cristo, onde sobressaem a paz e a reconciliação. O critério do amor mútuo. O que diferencia a pessoa cristã é que ela sabe de antemão. Na igreja visível se manifesta a realização do plano de Deus para com toda a humanidade. O plano de Deus consiste em que o ser humano participe da vida divina em e por Cristo. Jesus concretizou uma opção fundamental e uma causa da qual não abriu mão. A luta de Jesus por uma causa não o tornou um homem eclesiástico, religioso, preso aos estreitos limites do que é conveniente. Sua causa revelou as regras religiosas legalistas de época e as limitadas esperanças dos líderes religiosos e políticos. Sua causa o conduziu à vida, à profecia, às praças, ao encontro com as massas populares, da dor humana, do conflito público, ao confronto com os líderes religiosos e autoridade políticas. Será que a prática de Jesus não consegue sequer nos criticar quando tentamos estreitar e domesticar o evangelho, confinando-o aos limites estreitos da instituição e do que é socialmente conveniente? Vale a pena a causa de Jesus, ou é melhor abandoná-la? Quando iremos confiar que o Espírito Santo também pode descer sobre nós, chamando-nos à esperança, à gestação e ao nascimento de um tempo novo? Ou nossa esperança depende somente de nosso próprio entusiasmo, de nosso otimismo, ou do animado fervor das multidões?
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Jesus chama ao seguimento e à vivência de uma igreja da misericórdia. Uma igreja que se esvazia, assumindo a condição de serva. Essa igreja serva necessita de líderes que não se identificarão pelo poder, mas essencialmente pelo serviço.
4 Imagem para a prédica Senhor, existem cristãos mudos, que, enquanto não se mexe com eles, ficam tranquilos, por mais que o mundo se arrebente. Não protestam contra as injustiças, porque estão escravizados e foram seduzidos, comprados pelo medo ou pelo oportunismo. Outros, porque nada têm como serviço, para eles a fé é uma coisa que nada tem a ver com a vida; vale só das nuvens para cima... Nós te pedimos, Senhor, pelos cristãos que estão em silêncio; que tua palavra lhes queime as entranhas e os faça superar sua indiferença. Que não se calem como se nada tivessem a dizer. Senhor, sabes o que convém à tua igreja, se um fervor de catacumbas ou a rotina de uma proteção oficial. Dá-lhe o que seja melhor, ainda que seja a perseguição ou a pobreza. Livra-nos do silêncio daquele que “boceja” diante da injustiça. Livra-nos do silêncio prudente para não nos comprometer. Receamos ter limitado teu evangelho; agora já não tem mais arestas, nem espanta ninguém; temos pretendido convencer-nos que tudo é possível e tudo é permitido, servir a ti, privilegiar a si próprio e ignorar o próximo. Senhor, livra a tua igreja do desejo de ser igual a tudo, que não pareça uma sociedade a mais com seus donos, acionistas, privilégios, profissionais e burocracia. Que tua igreja nunca seja muda e cega, uma vez que ela é instrumento da tua palavra, que prega livremente, sem rodeios nem covardias.
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Que jamais se cale diante dos que se escondem debaixo de peles de ovelha nem daqueles que se portam como lobos famintos. (Tradução livre de um poema de Luiz Espinal, Bolívia.)
Bibliografia COMBLIN, José. Epístola aos Efésios. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal; São Bernardo do Campo: Metodista, 1987. WEGNER, Uwe. Ascensão do Senhor: Efésios 1.15-23. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2016. v. 41, p. 181-184.
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AUXÍLIOS ESPECIAIS
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TEXTO-BASE DO TEMA E LEMA DA IECLB PARA 2020 Tema: Viver o Batismo Lema: Eu escolhi vocês para que deem fruto. (João 15.16) “A vida cristã é simplesmente um batismo diário, iniciado uma vez e em constante andamento.” (Martim Lutero, Catecismo Maior) O XXXI Concílio da Igreja, realizado em 2018 na cidade de Curitiba/PR, aprovou as cinco metas missionárias da IECLB para o período de 2019-2024. As metas definem as áreas prioritárias e o rumo da nossa ação missionária. São propósitos para toda a igreja. A primeira meta diz que queremos ser uma “Igreja que valoriza o sacerdócio geral, capacita as pessoas e aprofunda a fé para seu testemunho na Igreja e no mundo”. O Tema do Ano de 2020 tem como pano de fundo especialmente essa meta. Viver o Batismo é viver o sacerdócio geral de todas as pessoas que creem. O Batismo é a origem e a base para o exercício do sacerdócio. Mas como entendemos o Batismo e o sacerdócio geral? Nada melhor do que recorrer ao tesouro da tradição bíblica e luterana, bem como às manifestações da IECLB sobre esses assuntos. O texto-base que apresentamos é um resumo sistematizado desse precioso tesouro de que dispomos. Batismo como sacramento O Batismo é um sacramento. Sacramentos são meios da graça de Deus, ou seja, são meios que Deus utiliza para conceder perdão e salvação. Um sacramento possui três componentes: mandamento divino, promessa da graça e elemento visível. Seguindo esse pressuposto, a Igreja Luterana reconhece dois sacramentos: o Batismo e a Santa Ceia. Esses sacramentos foram instituídos por Jesus Cristo (= mandamento divino), oferecem perdão e salvação (= promessa da graça) e são perceptíveis na forma de água, pão e fruto da videira (= elemento visível). O mandamento divino no Batismo é a instrução de Jesus: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que tenho ordenado a vocês (Mateus 28.18-20). A promessa da graça no Batismo é a afirmação de Jesus: Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado (Marcos 16.16). Sobre o mandamento e a promessa, Martim Lutero escreveu: “Nessas palavras você deve observar, em primeiro lugar, que aqui se trata de mandamento e instituição por parte de Deus, que não se deve duvidar de que o Batismo seja coisa divina, não concebida ou inventada por humanos [...]. A palavra e o mandamento de Deus estão aí a instituir, fundamentar e confirmar o Batismo” (Catecismo Maior). Jesus Cristo delegou a tarefa de batizar na condição de ressuscitado que recebeu de Deus toda a autoridade no céu e na terra. A legitimidade do Batismo está, portanto, na autoridade divina. Por isso o Batismo não é um ato humano,
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mas de Deus: “ser batizado no nome de Deus é ser batizado não por pessoas, mas pelo próprio Deus. Mesmo que se realize pela mão humana, é autêntico ato [ou obra] do próprio Deus” (Catecismo Maior). O elemento visível no Batismo é a água. Ela é necessária para a vida das plantas, dos animais e dos seres humanos. Sem água não podemos viver; por isso ela é símbolo de vida. A água tem o poder de purificar, o que faz dela um símbolo de renovação. A água também pode destruir e, neste sentido, simboliza a morte. Todas essas representações são úteis para falar sobre o Batismo, porém a água do Batismo não é apenas um elemento simbólico, “mas é a água contida no mandamento de Deus e ligada à palavra de Deus. [...] Sem a palavra de Deus a água é só água e não é batismo” (Catecismo Menor). Não é o sentido simbólico, a qualidade ou a quantidade de água que dignificam o Batismo, mas a palavra de Deus. Qual é o efeito do Batismo? Para Lutero, o objetivo do Batismo é tornar a pessoa bem-aventurada. Bem-aventurada, na percepção do Reformador, é a pessoa que entra no reino de Cristo e vive com ele eternamente. Quando somos batizadas e batizados em nome do trino Deus, a dignidade de carregar esse nome nos é dada. E “onde estiver o nome de Deus, somente pode haver vida e boa-aventurança” (Catecismo Maior). O Batismo nos torna pessoas bem-aventuradas porque realiza em nós o perdão dos pecados. Isso acontece unicamente pela ação de Deus: ele nos salvou, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia. Ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna (Tito 3.5-7). Unida à palavra de Deus, a água do Batismo afoga o pecado e nos faz ressurgir como nova pessoa. Ganhamos assim a identidade de pessoas justificadas por Deus. Embora os nossos pecados sejam afogados, não estamos totalmente livres do poder do mal. Durante toda a vida carregaremos a ambiguidade de sermos, ao mesmo tempo, pessoas justificadas e pecadoras. A graça de Deus, todavia, permanecerá e sempre poderemos retornar a ela sem a necessidade de um novo Batismo. Por ser obra de Deus, o Batismo acontece uma só vez e vale para toda a vida. A prática do rebatismo é inadmissível porque menospreza a obra de Deus. O Batismo nos torna pessoas bem-aventuradas porque nos une a Cristo: todos vocês que foram batizados em Cristo, de Cristo se revestiram (Gálatas 3.27). O Batismo estabelece um vínculo pessoal com Jesus e nos torna participantes da sua vida, morte e ressurreição: Fomos sepultados com ele na morte pelo batismo, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida (Romanos 6.4). O Batismo nos torna pessoas bem-aventuradas porque nos agracia com o Espírito Santo. A pessoa batizada em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo está colocada sob o âmbito da ação do trino Deus. Neste sentido, a Igreja Luterana reconhece que o Espírito Santo é concedido no Batismo. Por meio do Espírito
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Santo, Deus nos purifica e dá nova vida. É por isso que Lutero afirma que o Batismo é “um banho de novo nascimento no Espírito Santo” (Catecismo Menor). Batismo e fé O artigo 9 da Confissão de Augsburgo declara que o Batismo é necessário e que por ele se oferece a graça de Deus. A falta de fé não invalida o Batismo: “Se a palavra estiver junto com a água, o Batismo será autêntico, mesmo que não seja corretamente recebido ou usado, uma vez que ele não está vinculado à nossa fé, como disse, mas à palavra” (Catecismo Maior). Ainda assim, a promessa de Jesus Cristo diz: Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado (Marcos 16.16). Como entender que o Batismo traz salvação, porém somente será salva a pessoa que crer? Essa aparente contradição pode ser dissipada se considerarmos a distinção entre eficácia e proveito: “A graça de Deus é sempre eficaz, embora a pessoa batizada possa permanecer sem proveito dela, se não houver a fé” (Diálogo sobre o Batismo – 2005). Por meio da fé, a pessoa batizada recebe o que Deus lhe prometeu no Batismo. Sem a fé, o Batismo não será aproveitado. Entretanto, é preciso lembrar que também a fé não é obra humana: Porque pela graça vocês são salvos, mediante a fé; e isto não vem de vocês, é dom de Deus (Efésios 2.8). Somos filhas e filhos de Deus pela fé e pelo Batismo (Gálatas 3.26s). Essa identidade é uma concessão divina. Nós não controlamos a ação de Deus e por isso também reconhecemos que pessoas não batizadas podem ser salvas. O Batismo é um meio da graça, porém não é a única possibilidade para a salvação: “A graça de Deus pode dispor e dispõe de outros recursos. A graça de Deus é maior do que os meios que ele coloca à disposição da Igreja para partilhá-la” (Livro de Batismo). Batismo e vida comunitária O Batismo se dirige à pessoa em particular e cria um vínculo pessoal com Cristo. A partir do acontecimento único do Batismo, a pessoa é revestida de Cristo e está em Cristo. Estar em Cristo significa fazer parte do corpo de Cristo: Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, mesmo sendo muitos, constituem um só corpo, assim também é com respeito a Cristo. Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um só corpo (1 Coríntios 12.12s). O vínculo com Cristo é pessoal, porém não é individual. Do corpo de Cristo participam as pessoas batizadas das diferentes denominações cristãs, formando assim a santa igreja cristã, que confessamos por meio do Credo Apostólico. A união com Cristo e com o Espírito Santo nos torna participantes da igreja cristã. Mas o Batismo também nos vincula a uma comunidade específica e à IECLB em âmbito nacional. O guia comunitário Nossa Fé – Nossa Vida diz que a IECLB “é o convívio de pessoas por ela batizadas ou admitidas, diferentes umas das outras, todas elas, no entanto, chamadas para viverem seu batismo”. O Batismo é celebrado em culto comunitário justamente para assinalar que a comunidade integra a pessoa em seu convívio, a fim de que possa desenvolver e viver a fé.
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A IECLB admite ao Batismo crianças, pessoas jovens e adultas. Ao batizarmos crianças, reconhecemos que a graça de Deus não depende de nosso mérito ou entendimento. Nesse aspecto seguimos o que Lutero escreveu no Catecismo Maior: “Levamos a criança com a ideia e na esperança de que ela acredite, e rogamos que Deus lhe dê a fé, mas não é com base nessa que batizamos, e sim com base na ordem dada por Deus”. Uma comunidade que batiza crianças precisa assumir a responsabilidade pela educação cristã para despertar e manter viva a confiança na graça de Deus. O Programa Missão Criança, desenvolvido em muitas de nossas comunidades, é um exemplo do compromisso com a educação cristã. Por meio do Missão Criança, temos a possibilidade de cumprir com a tarefa de batizar, educar na fé cristã e promover a vivência comunitária da fé. Batismo e a luta contra o pecado Lutero escreveu que é necessário observar três coisas no Batismo: o sinal, o significado, a fé (Obras Selecionadas, v. 1, p. 415-424). • O sinal consiste em mergulhar a pessoa na água em nome do trino de Deus e tirá-la novamente. Por meio desse sinal somos reconhecidas e reconhecidos como povo de Cristo. Lutero considerava que a imersão na água representa bem o significado de afogar o pecado, porém não insistiu nessa modalidade de Batismo. • O significado é um morrer para o pecado e uma ressurreição na graça de Deus: “o velho ser humano, concebido e nascido em pecado, é afogado, e um novo ser humano, nascido na graça, surge e se levanta”. O afogamento do pecado e o renascer na graça de Deus acontecem ao longo de toda a vida. Somente com a morte o significado do Batismo se realizará por completo. • A fé. Precisamos crer que o Batismo nos une com Deus e que Deus quer nos tratar com misericórdia, não nos julgando com todo o rigor a que teria direito. Sem a fé, a pessoa iria desesperar em seus pecados. A partir do Batismo carregamos o sinal de Deus, porém a natureza humana permanece pecaminosa. Qual seria então o benefício do Batismo, se ele não afasta completamente de nós o pecado? O benefício, segundo Lutero, é que Deus se alia conosco. No Batismo, Deus faz um pacto que nos permite enfrentar a luta contra o pecado: “ainda que maus pensamentos ou desejos se manifestem e ainda que, por vezes, peques e caias, se tornares a te erguer e a entrar na aliança, teus pecados já se foram por força do sacramento e do pacto, como diz São Paulo em Rm 8.1” (Obras Selecionadas, v. 1). Porque a natureza pecaminosa permanece até a morte, a vida cristã é um constante reviver o Batismo: “por arrependimento diário, a velha pessoa em nós deve ser afogada e morrer com todos os pecados e maus desejos. E, por sua vez, deve sair e ressurgir nova pessoa, que viva em justiça e pureza diante de Deus para sempre” (Catecismo Menor). Assim como Deus se compromete conosco, também nós precisamos nos dispor a subjugar o pecado. A pessoa que cair em
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pecado deve se lembrar do Batismo com toda força e confiança, sabendo que Deus não a quer condenar. O próprio Lutero escreveu a frase “sou batizado” para lembrar-se da ação misericordiosa de Deus. É necessário, entretanto, precaver-se da negligência e da falsa segurança. A partir da afirmação de que Deus não considera o pecado, mas quer dar a salvação, alguém poderia pensar: vou viver a vida do jeito que quero e, na hora da morte, me arrependerei e me lembrarei do meu Batismo. Para quem pensa assim, Lutero escreve: “Ao pecares tão petulante e deliberadamente, confiante na graça, toma cuidado que o juízo não te pegue e se antecipe ao teu arrependimento” (Obras Selecionadas, v. 1). O Batismo pode ser comparado a uma roupa que se usa todos os dias para vencer o mal e permanecer na fé. O fruto do Batismo Eu escolhi vocês para que deem fruto (João 15.16). Esse é o Lema bíblico que acompanha e aprofunda a reflexão sobre o Tema do Ano 2020. O Lema provém do contexto de uma comparação: Deus é o lavrador, Jesus é a videira e as pessoas que o seguem são os ramos da videira (João 15.1-17). Jesus escolheu pessoas para o discipulado, para anunciar e vivenciar o reino de Deus. Pelo Batismo, Deus igualmente nos escolhe e nos chama para produzir o fruto do seu reino. A palavra “escolher” não significa que Deus seleciona algumas pessoas para a salvação e outras para a condenação. Deus quer salvação abrangente e ilimitada, e é por isso que o Batismo se destina a todas as pessoas. Também a convocação para produzir fruto é destinada a todas as pessoas. Eu sou a videira verdadeira, e o meu Pai é o lavrador. Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto ele limpa, para que produza mais fruto ainda (João 15.1s). A função do ramo é dar fruto, e ele somente pode fazer isso porque duas condições lhe foram dadas. Em primeiro lugar, o ramo foi limpo: Vocês já estão limpos por causa da palavra que lhes tenho falado (João 15.3). O ramo não é “autolimpante”, mas é limpo por Deus. Pela Palavra e pelo Batismo, Deus nos perdoa e capacita a dar fruto. Em segundo lugar, o ramo dá fruto porque está ligado ao tronco: Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim vocês não podem fazer nada (João 15.5). É a videira que alimenta o ramo. Fora da videira, o ramo não pode dar fruto e tampouco pode viver. Fora da videira, o ramo deixa de ser ramo e se torna lenha. O que nos possibilita dar fruto é o vínculo com Jesus Cristo, estabelecido pelo Batismo. O Batismo traz proveito na medida em que permanecemos nele. E “permanecer” é justamente a orientação que Jesus dá: permaneçam no meu amor. Se vocês guardarem os meus mandamentos, permanecerão no meu amor (João 15.9-10). Permanecer no amor de Cristo equivale a guardar – no sentido de praticar – seus mandamentos. Sem a disposição para seguir os ensinamentos não há discipulado nem permanência em Cristo. O fruto da videira é a uva. A partir da uva é possível fazer suco, vinho, geleia, doce e outros produtos. Qual é o fruto que se espera da pessoa batizada e da comunidade cristã? A palavra de Jesus não deixa dúvidas: O meu mandamento é este: que vocês amem uns aos outros, assim como eu os amei (João 15.12). O
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fruto do discipulado é o amor. Esse é o fruto essencial, do qual serão derivados outros “produtos”. Permanecer no amor de Cristo é praticar seus mandamentos. Praticar os mandamentos equivale a praticar o amor. É no amor, portanto, que se decide a permanência em Cristo. Mas de que amor estamos falando? Na Bíblia, o amor entre pessoas tem o sentido de promover a vida na perspectiva de Deus. Deus quer a salvação de todas as pessoas, quer vida digna e bem-estar para todas as pessoas, quer justiça e paz em todos os lugares. Amar significa buscar o bem-estar em sentido amplo e universal. Não é tarefa simples e requer, entre outras coisas, empenho na promoção da paz e da justiça, disposição e desprendimento para ajudar a quem necessita. Quem ama anuncia o reino de Deus às pessoas e procura vivenciar com elas os sinais desse reino. O amor é a expressão máxima da fé e a característica básica da comunidade cristã por um motivo elementar: ele é o princípio do agir de Deus. Tudo o que Deus faz é motivado por amor. Deus escolheu Israel e o libertou da escravidão do Egito por amor: Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho (Oseias 11.1). Jesus Cristo morreu na cruz por amor: Ninguém tem amor maior do que este: de alguém dar a própria vida pelos seus amigos (João 15.13). Nós podemos amar porque já fomos agraciadas e agraciados com o amor divino: Como o Pai me amou, também eu amei vocês (João 15.9). Dar fruto outra coisa não é do que transmitir o amor que recebemos de Deus. Nossa ação é decorrência da ação de Deus. Batismo e sacerdócio geral de todas as pessoas que creem O sacerdócio geral de todas as pessoas que creem é elemento constitutivo da fé cristã e teve papel decisivo na Reforma Protestante. Igreja Luterana é igreja que anuncia e vivencia o sacerdócio geral. E o que significa “sacerdócio geral de todas as pessoas que creem”? O sacerdócio geral parte do princípio de que Jesus Cristo é o nosso mediador: Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus (1 Timóteo 2.5). Jesus Cristo, o mediador e grande sumo sacerdote (Hebreus 4.14), nos confere a dignidade de sacerdotes e sacerdotisas. Cada pessoa, a partir da fé em Cristo, é chamada para testemunhar as obras de Deus: Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamar as virtudes daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1 Pedro 2.9). Com base em 1 Pedro 2.9, Martim Lutero afirmou com muita convicção: “todos nós somos ordenados sacerdotes através do Batismo” (Obras Selecionadas, v. 2, p. 282). Utilizando a imagem da igreja como um corpo (1 Coríntios 12.12ss), Lutero insistiu que todas as pessoas batizadas fazem parte do corpo de Cristo e todas exercem uma função. Quem faz parte do corpo recebe do corpo e contribui com ele. Um membro do corpo não pode simplesmente decidir não contribuir para o corpo. Por isso o sacerdócio é compromisso de toda pessoa cristã. Não se trata de um grupo seleto, mas de toda a comunidade, aliás, de toda a cristandade. Nenhuma pessoa cristã está excluída, muito pelo contrário, cada pessoa tem a incumbência de participar na missão de Deus. Neste sentido, falamos de sacerdócio geral de todas as pessoas que creem.
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A finalidade do sacerdócio é a proclamação da palavra de Deus e a realização da sua obra no mundo. Mas por que Deus não faz a sua obra sozinho, já que pode e sabe perfeitamente fazê-la? Lutero levantou essa pergunta e deu também a resposta: “Sim, ele o pode perfeitamente, mas não quer fazê-lo sozinho, quer que obremos com ele e nos dá a honra de querer efetuar a sua obra conosco e através de nós. [...] Da mesma forma, embora unicamente ele seja bem-aventurado, quer nos dar a honra e não ser bem-aventurado sozinho, mas nos quer bem-aventurados junto com ele” (Obras Selecionadas, v. 2, p. 124). Deus é todo-poderoso e não depende de nós. Mesmo assim, Deus nos chama para fazer parte da sua obra. O sacerdócio é, portanto, um privilégio. Deus nos concede o privilégio de ser instrumentos do seu agir. A pessoa que reconhece a ação de Deus é tomada por tamanha gratidão que não pode calar e ficar de braços cruzados. Ela vira testemunha e coopera com Deus. Neste sentido, o sacerdócio é também uma resposta de gratidão a Deus. O sacerdócio geral é afirmação da igualdade das pessoas batizadas e implica a valorização dos diferentes dons: “Os membros da comunidade têm muitos dons, nem sempre conhecidos e despertados. Todos eles devem ser utilizados na busca do alvo da comunidade: ser instrumento da missão de Deus no mundo” (Nossa Fé – Nossa Vida). Mesmo que todas as pessoas sejam sacerdotes e sacerdotisas, a igreja necessita de ministérios organizados e de pessoas especialmente qualificadas para certos serviços. Por isso existe o ministério com ordenação. Na IECLB, o ministério com ordenação se desdobra em quatro ênfases: pastoral, catequética, diaconal e missionária. Sacerdócio geral e ministérios específicos existem para servir a Deus. Cada pessoa contribui com seu dom e sua capacitação para a obra de Deus no mundo. Viver o Batismo O Tema e o Lema do Ano 2020 nos chamam para vivenciar o Batismo e a fé. Muitas perguntas podem ser feitas a partir do Tema e do Lema: O que significa ser pessoa batizada em nosso contexto? Como podemos nos vestir com a “roupa do Batismo”? O que entendemos por pecado e por luta contra o pecado? Que ações concretizam o amor, que é o fruto do discipulado? Como vivenciar o sacerdócio geral na comunidade e fora dela? Essas e outras questões que surgem no contexto da vida comunitária indicam que a vivência do Batismo é dinâmica e desafiadora. Temos muito a refletir e a realizar. O Batismo não permite ficar inerte. Batismo não é o ponto de chegada, mas o ponto de partida para a jornada na fé. É transformação e efeito ao longo da vida. Na vivência do Batismo, permanecemos em união com Cristo e nos colocamos a serviço, tal qual cantamos: Sempre quero estar contigo, sempre a ti, Jesus, servir; não me afasto, em ti me abrigo, teu caminho hei de seguir. És da minha vida a vida, da minha alma és o vigor. Eu sou vide a ti unida; a videira és tu, Senhor. (Livro de Canto da IECLB, 606) Presidência da IECLB
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CAMPANHA NACIONAL DE OFERTAS PARA A MISSÃO VAI E VEM 2020 Texto Motivador “Que significa este batizar com água? Significa que, por arrependimento diário, a velha pessoa em nós deve ser afogada e morrer com todos os pecados e maus desejos. E, por sua vez, deve sair e ressurgir nova pessoa, que viva em justiça e pureza diante de Deus para sempre.” (Martim Lutero – Catecismo Menor) O que significa Batismo para você? Para algumas pessoas, ele não passa de um rito, que aconteceu quando criança, sem nenhuma conexão com o dia a dia. Para outras, o Batismo lhes concedeu um vínculo à comunidade cristã, da qual não se sentem participantes. Para outras pessoas, o Batismo é um acontecimento que traz consequências para toda a vida... Nossa confessionalidade luterana ensina que o Batismo é um evento que se situa no centro da vida da pessoa. Pelo Batismo, a pessoa ingressa na comunidade cristã e é marcada por compromissos éticos e de fé. O Batismo marca o início de uma vida totalmente nova, voltada à fidelidade a Deus. Isso significa que “Batismo não é um ponto de chegada, mas um ponto de partida. Marca o início de uma vivência cristã, de um diário e constante apropriar-se de sua promessa, até a morte” (Livro de Batismo). O Batismo atende a questões essenciais para a existência humana, tais como: a maldade, que deturpa nossas melhores intenções; os diferentes poderes, que prendem o potencial humano; a fragilidade e os limites humanos, que tiram da vida a esperança. Resumindo, o Batismo nos coloca no caminho de Deus e marca a existência humana como uma luta diária contra o mal e a favor do bem. Neste ano, a chamada do Tema da Igreja propõe: “Viver o Batismo”. Mas como é possível viver o Batismo no dia a dia? O Batismo não é algo do passado, mas algo que acontece todos os dias. Nele, “Deus toma morada na pessoa, através de seu Espírito Santo, e a faz, desse modo, inatingível em seus direitos fundamentais, mas também a desafia, em primeiro lugar, em seus deveres de filha de Deus, de imagem de Deus para com o mundo e a sociedade que ajuda a construir” (Proclamar Libertação, Suplemento 1 – Catecismo). Pelo Batismo, a vida é como uma oficina em constante trabalho em prol de uma nova pessoa e de um novo mundo. Noutras palavras, no Batismo recebemos perdão, libertação e salvação para vivenciar e transmitir aquilo que recebemos. O Batismo marca a opção de amor que Deus faz por nós com a finalidade de nos tornar instrumentos do seu agir. Por isso o Lema do Ano diz: “Eu escolhi vocês para que deem fruto” (João 15.16). A vida cristã é vida em fidelidade a Deus e, justamente por isso, conduzida por aquilo que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, de boa fama (Filipenses 4.8). A Campanha Nacional de Ofertas para a Missão Vai e Vem abraça o desafio lançado pelo Tema e Lema do Ano em 2020 de Viver o Batismo de forma que pro-
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duza frutos. Nesse contexto, a Campanha entende que viver o Batismo é abraçar os bens mais preciosos de Deus: o mundo e a vida com toda a sua diversidade. O Batismo nos impulsiona e capacita para diariamente frear toda espécie de mal e para dia a dia construir uma novidade de vida nos âmbitos da pessoa, da família, da comunidade de fé, da sociedade e da criação. Ser pessoa batizada é ser pessoa engajada, comprometida com a missão de Deus. Quem é batizada e batizado coloca seus dons, habilidades e recursos a serviço da missão de Deus, para produzir frutos de perdão, libertação e salvação. Como diz Martim Lutero no Catecismo Maior: “a vida cristã é simplesmente um batismo diário, iniciado uma vez e em constante andamento”. Considerando as Metas Missionárias 2019-2024, com indicativos para o fortalecimento da Ação Missionária nos âmbitos nacional, sinodal e local, a Campanha Vai e Vem convida a Viver o Batismo. Vamos, em conjunto, – criar espaços para refletir, estudar e dialogar sobre a Missão de Deus. Sobre onde e como se têm manifestado o perdão, a libertação, a salvação e a transformação para uma nova vida; – sustentar o testemunho da missão de Deus pela oração; – promover ações missionárias vinculadas à vivência do Batismo na família, na comunidade, na sociedade; – ofertar generosamente em apoio às iniciativas missionárias. Rogamos que o bom Deus, que nos deu o seu abraço no Batismo, nos fortaleça na fé, na esperança e no amor para que dia a dia possamos viver em novidade de vida para assim santificarmos este mundo, que ainda é de Deus. Amém! Saudações em Cristo, Presidência da IECLB
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ÍNDICES TEMAS E TEXTOS NOS VOLUMES I – 44 A ceia do Senhor – O sacramento do altar ..........................................................................34, p. 369 Advento – Celebração .........................................................................................................29, p. 325 AIDS – Um grande desafio ................................................................................................XV, p. 304 Ação de graças .............................................................................. XII, p. 300; 20, p. 322; 33, p. 394 Ação de graças pela colheita ...................... 32, p. 212; 34, p. 371; 35, p. 370; 36, p. 365; 37, p. 348 Achados e perdidos – experiências ................................................................................ XVII, p. 288 A indústria da ilusão: como encarar o “Feliz e Próspero Ano Novo”? (Tg 4.13-17) ...........IX, p. 34 Armas da morte: “Quem brinca com fogo acaba se queimando” (Zc 9.9-10) ....................... X, p. 91 Associação popular: “A união faz a força” (Ne 5.1-12) .......................................................IX, p. 83 As três primeiras petições do Pai-Nosso.............................................................................39, p. 359 A velhice ...............................................................................................................................VI, p. 43 Batismo, alocução para ......................................................................................................26, p. 357 Batismo, culto de ............................................................................21, p. 327; 24, p. 358; 27, p. 299 Bênção matrimonial .........................................................................................XIX, p. 310, 317, 319 (Jr 29.13) .............................................................................................................................20, p. 351 (Ct 8.7) ................................................................................................................................20, p. 353 (Ec 4.9-12) ..........................................................................................................................21, p. 329 (Ct 1.2-3) ...........................................................................................................21, p. 332; 22, p. 311 Bíblia e arte ..........................................................................................................................XV, p. 77 Breve exortação à confissão ................................................................................................39, p. 375 Cadê a mulher? (Jz 5.24-31) .................................................................................................. X, p. 37 Carnaval: festejar é preciso (Jo 2.1-11) ................................................................................IX, p. 41 Celebração da Santa Ceia (Lc 24.13-35) ..............................................................................VI, p. 40 (Sl 133.1-3) .........................................................................................................................22, p. 300 Coluna social – promoção da fraternidade ou projeção egoísta? (Gl 3.28) ........................ XII, p. 70 Como pode peixe vivo viver fora d’água fria? O colono na cidade (Ec 4.1-4) .................... X, p. 84 Componentes éticos da organização popular ................................................................. XVII, p. 281 Comunidade cristã: instrumento ou entrave para as lutas populares – uma avaliação (Ap 22.10-16)......................................................................................................... X, p. 11 Confirmação (Fp 3.12-16).................................................................................................... II, p. 187 (Dt 30.11-20) ...................................................................................................................... VIII, p. 23 (Jo 6.66-69) ....................................................................................................................... XII, p. 293 (Mt 5.14-16) ........................................................................................................................20, p. 339 (Ap 1.9-18)........................................................................................................................ XX, p. 342 Constituição – as leis a serviço de quem? (Dt 17.14-20) .................................................... XII, p. 51 Contribuição para a igreja – Pago para ter (2Co 8.1-5) ..................................................... XIII, p. 18 “Criança, não verás país nenhum como este!” (Êx 1.8-22) ................................................IX, p. 107 Culto como evento celebrativo ........................................................................................... XIV, p. 9 Culto de instalação de lideranças de comunidade (Hb 13) .................................................21, p. 309 Culto em época de eleição (1Sm 11.1-15) ............................................................................V, p. 337 Culto eucarístico (Mc 14.32-42) .........................................................................................20, p. 346 Culto eucarístico (alocução para)........................................................................................23, p. 237 (Lc 22.14-15) ......................................................................................................................20, p. 349 Culto para o Dia dos Povos Indígenas ................................................................................22, p. 295 Cultura popular: quando a vida se faz escola (1Co 8.2) .................................................... XIII, p. 42
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Curandeirismo: um “jeitinho” popular de cura? (Mc 5.25-34) ........................................... XII, p. 27 Deus na marginalidade .........................................................................................................XVI, p. 9 Dedicação de templo ...........................................................................................................26, p. 361 Dia das Crianças (Zc 8.1-8) ................................................................................................24, p. 337 Dia de Ações de Graças (Gn 8.15-22) .....................................................................................I, p. 68 (Jo 4.31-38) .......................................................................................................................... II, p. 256 (Ec 3.1-8) ..............................................................................................................................VI, p. 48 (1Tm 4.4-5) ...................................................................................................................... XIII, p. 298 (Mt 13.24-30,36-43)...................................................................................................... XVIII, p. 289 Dia da Colheita (2Co 9.6-15) ................................................................................................V, p. 323 (Dt 26.1-11) .........................................................................................................................20, p. 317 Dia do Colono (Gn 2.4b-15) .................................................................................................V, p. 330 Dia de Finados (Is 25.1,(6-7)8-9) ......................................................................................34, p. 353 (Fp 3.20-21) .......................................................................................................................... I, p. 143 (1Co 15.50-58) ................................................................................................................... III, p. 176 (1Co 15.35-39,42b-44)..........................................................................................................V, p. 256 (Mt 22.23-33) ................................................................................................................... VIII, p. 336 (2Pe 3.8-14).................................................................................................................... XVII, p. 237 (Jo 5.24-29) ................................................................................................................... XVIII, p. 267 (1Co 15.12-20) .................................................................................................................... 32, p. 311 (Is 35.1-10)..........................................................................................................................35, p. 347 (1Ts 4.13-18) .......................................................................................................................36, p. 335 Dia da Independência (1Pe 2.13-17) ......................................................................................I, p. 109 (1Tm 2.1-4) .......................................................................................................................... II, p. 336 (Mc 12.13-17) .....................................................................................................................III, p. 138 (Hb 13.12-16)........................................................................................................................V, p. 205 (Mt 6.9-13) ..........................................................................................................VI, p. 53; 20, p. 328 Dia das Mães (Lc 15.8-10)...............................................................................................XIX, p. 305 Dia da Reforma (Gl 5.1-11) ...................................................................................................I, p. 125 (Jo 8.31-36) .......................................................................................................................... II, p. 383 (Rm 3.19-28) .......................................................................................................................III, p. 169 (Mt 5.1-10) .......................................................................................................................... IV, p. 212 (Ap 14.6-7)............................................................................................................................V, p. 249 (Mt 10.26b-33) ....................................................................................................................VI, p. 291 (Is 62.1-12)....................................................................................................................... VIII, p. 331 (Mt 10.26b-33) ................................................................................................ XII, p. 268; 34, p. 347 (Gl 5.1-6)........................................................................................................XIII, p. 267; 35, p. 341 (Fp 2.12-13) .......................................................................................................................XV, p. 282 (Jo 8.31-36) ................................................................................................................... XVII, p. 225 (Mt 5.1-10) ..........................................................................................................................32, p. 307 (Jr 31.31-34)........................................................................................................................36, p. 329 Dia de Penitência (Is 1.10-17) ...........................................................................................XV, p. 297 Dia do Trabalhador (Dt 5.12-15) ..........................................................................................III, p. 62 (2Ts 3.6-13) .............................................................................................................................V, p. 97 Dia do Trabalho (1Co 7.29-32a) .......................................................................................... II, p. 213 (Ez 34.1-2 (3-9), 10-16, 31) ................................................................................................VI, p. 170 (Tg 5.1-6) ......................................................................................................................... XIII, p. 285 Dia dos Pais (Pv 4.10-19) ...................................................................................................21, p. 321 Dia Internacional da Mulher (Ct) ........................................................................................21, p. 316 Domingo de Louvor através da Música ............................................................33, p. 401; 37, p. 353
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Domingo de Penitência (vide também: Dia de Penitência [Mt 12.33-35, (36-37)])......... XII, p. 307 (Ap 3.14-22)..................................................................................................................... XIII, p. 304 Domingo de Ramos (Mc 14.3-9; Jo 12.12-16) .................................................20, p. 309; 36, p. 134 Ecologia – A vida está a perigo (Gn 2.8-15) ...................................................................... XIII, p. 74 Educação: para a liberdade ou para a opressão? (Ec 9.13-18) ............................................... X, p. 25 Em busca de espaço – o deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) ......................... XII, p. 34 Empregadas domésticas (Gn 21.8-21) ............................................................................... XIII, p. 60 Entre morte e eternidade: morrendo um pouco a cada dia (Is 65.17-25) ..............................IX, p. 15 Epifania, reflexões para o período de ..................................................................................27, p. 303 Época da Paixão I (Is 55.6-7) ................................................................................................VI, p. 24 Época da Paixão II (Mt 26.36-46).........................................................................................VI, p. 29 Época da Paixão III (Sl 130.4) ..............................................................................................VI, p. 34 Época da Paixão IV (Mt 11.28-30) .......................................................................................VI, p. 37 Estado, pátria, governo (Jz 9.7-15) .......................................................................................IX, p. 98 Estudo bíblico numa conferência (Jo 1.1-18) ....................................................................XVI, p. 42 Estudos bíblicos com pequenos agricultores ..................................................................... XIV, p. 60 Exercício homilético ........................................................................................................... XII, p. 91 “E viu Deus que isto era bom...”...................................................................................... XIV, p. 101 Férias: alienação ou antecipação do reino de Deus? (Ec 3.9-15) .......................................... X, p. 16 Festa da Ascensão de Jesus Cristo ......................................................................................30, p. 303 Fome, instrumento de submissão (Mq 3.1-4) .......................................................................XI, p. 45 Formatura – estudar para ganhar mais? (Jr 22.13-19) ....................................................... XIII, p. 80 (Is 65.17-25)........................................................................................................................20, p. 334 Futebol: lazer ou instrumento de alienação? (Jz 2.11-15).....................................................XI, p. 20 Hermenêutica feminista latino-americana ....................................................................... XIV, p. 101 Ídolos da opressão (Is 44.9-20) .......................................................................................... XIII, p. 50 Inauguração da igreja (Mc 4.30-32; Mt 13.31-32; Lc 13.18-19) ...................................... XII, p. 313 Inauguração de uma igreja (Is 24.12-16a) ....................................................................... XIII, p. 312 Introdução a Dêutero-Isaías ............................................................................................... VIII, p. 16 João Batista: por que rolou sua cabeça? (Mc 6.14-29) .......................................................... X, p. 74 Joga limpo, Brasil ...............................................................................................................38, p. 363 Jubileu 500 anos da Reforma ..............................................................................................38, p. 373 Kurusu Ñe’engatu – Palavras que a história não pode esquecer ................................... XVII, p. 275 La comunidad luterana y la práctica de una pastoral de vida ..............................................XV, p. 71 La lucha por la tierra en el Paraguay ...................................................................................XV, p. 55 Leitura da Bíblia entre indígenas .........................................................................................XV, p. 61 Lepra – uma doença que assusta? (Nm 12.9-16) ................................................................ XII, p. 18 Libertação: vitória sobre a cruz! (1Jo 3.13-18) .....................................................................IX, p. 57 Lutero e a educação.............................................................................................................41, p. 345 Lutero e a música ................................................................................................................40, p. 335 Marketing e igreja ...................................................................................................................24, p. 7 Medicina popular – mutirão da saúde (Mt 12.22-28) ...........................................................XI, p. 77 Meditação sobre a oração ...................................................................................................31, p. 303 Meditação sobre o tema “Terra” – I: terra na nova sociedade (At 4.32-37) .........................V, p. 310 Meditação sobre o tema “Terra” – II: terra para todos..........................................................V, p. 316 Migração: esperança ou desespero? (Lv 25.8-17, 23-28, 35-43) ..........................................XI, p. 65 Missão (1Co 12)................................................................................................................. XIII, p. 34 Movimento negro: “Alma não é branca, negro não é luto, preto não é cor!” (Am 9.7-10) .... X, p. 128 Movimentos populares: povo unido jamais será vencido (Mc 10.32-45) ............................ X, p. 106 Mulheres agricultoras.........................................................................................................XVI, p. 15
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Mulheres na Reforma Protestante .......................................................................................40, p. 341 Na estrebaria do mundo a criança é esperança (1Co 1.26-31) ..............................................IX, p. 24 O assalariado empobrece produzindo riqueza (Ec 5.18) ....................................................... X, p. 65 Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus .......................................... II, p. 176 Lucas ................................................................................................................................... X, p. 139 João ..................................................................................................................................... VIII, p. 7 O deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) ............................................................ XII, p. 34 O desafio de ser autor de PL ................................................................................................XV, p. 12 O ecumenismo na formação de lideranças...........................................................................XV, p. 33 O evangelho no Clube de Mães – ocupação do solo urbano em Canoas .............................XV, p. 17 O índio: nosso irmão na caminhada pela libertação (Ef 2.11-22) .......................................... X, p. 48 O Lecionário Ecumênico ...................................................................................................XV, p. 315 O nosso Pai que está no céu ................................................................................................39, p. 351 O trabalho na Rondônia com agricultores vindos principalmente do Espírito Santo ..........XV, p. 46 O veneno nosso de cada dia (Dt 8.6-10) ............................................................................. XII, p. 11 Pago para ter (2Co 8.1-15) ................................................................................................. XIII, p. 18 Pai-Nosso: pão, perdão e liberdade .....................................................................................39, p. 364 Palavra e pregação em Lutero .............................................................................................40, p. 348 Pastoral Ecumênica de Periferia ........................................................................................ XIV, p. 91 Pentecostes: o Espírito sopra onde quer e quando aprouver (1Jo 4.1-6) ..............................IX, p. 72 Perdas – Alocução para Sepultamento (Jo 11.17-37) .........................................................22, p. 304 Planejamento familiar: genocídio planejado? (Sl 112) ....................................................... XII, p. 77 Por uma linguagem integradora de mulheres e homens .................................................... XVII, 257 Posse de novo Presbitério, Conselho Sinodal ou Conselho Diretor (liturgia) ....................28, p. 368 Posto de Saúde: vitrine da miséria (Mc 3.1-6)..................................................................... X, p. 114 Proclamar Libertação I – aspecto político (Lc 4.14-21) .........................................................VI, p. 7 Proclamar Libertação II – aspecto eclesial (1Pe 2.15-17) ....................................................VI, p. 13 Proclamar Libertação III – aspecto individual (Lc 4.14-21).................................................VI, p. 19 Propriedade e expropriação (Ne 5.1-6 [6-12]) ................................................................... XIII, p. 11 Quaresma: dor solitária ou solidária? (Is 58.1-12)................................................................IX, p. 50 Quem não faz política sofre política (1Rs 12.1-15) ..............................................................XI, p. 95 Relato de una caminata del pueblo con la Biblia ...............................................................XVI, p. 21 Ressurreição de que e para quê? (1Co 15.35-38) .............................................................. XIII, p. 29 Roteiro para encontros de preparação visando à ordenação ao pastorado junto à IECLB ...31, p. 307 Sacerdócio geral – vamos pegar juntos! (Ef 4.7-16).............................................................XI, p. 85 Semana do excepcional .................................................................................................. XVII, p. 264 Semana dos povos indígenas ..............................................................................................24, p. 347 Sepultamento..............................................................XIX, p. 321, p. 323, p. 325, p. 327; 22, p. 240 (Jo 6.28-40) .........................................................................................................................20, p. 355 (Jo 19.25-27) .......................................................................................................................20, p. 360 (Sl 39.5-7) ...........................................................................................................................20, p. 362 (Sl 142.1-2,5a) ....................................................................................................................21, p. 336 (Ec 3.1-8) ............................................................................................................................28, p. 365 Servo-arbítrio / livre-arbítrio...............................................................................................40, p. 329 Sindicato: órgão de assistência ou instrumento de defesa dos trabalhadores? (1Co 12.20-26) ......................................................................................................................XI, p. 55 Superstição: produto de angústias (Rm 8.31-39) ..................................................................IX, p. 91 Teatro popular com crianças, adolescentes, jovens e adultos na periferia urbana de Belém ................................................................................................................XVI, p. 37 Tema e Lema da IECLB 2017 …........................................................................................41, p. 339
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Tema e Lema da IECLB 2018.............................................................................................42, p. 343 Tema e Lema da IECLB 2019.............................................................................................43, p. 355 Tema e Lema da IECLB 2020.............................................................................................44, p. 351 Tendências atuais de valorização das nações de indivíduos, individualidade na sociedade e influências dos novos movimentos religiosos nesse quadro ...........................20, p. 7 Tóxicos – exploração e dependência (Pv 24.10,14) ........................................................... XII, p. 45 Trabalhador: entre a carência e o desemprego (Dt 24.14-35) ...............................................IX, p. 63 Trabalhando com agricultores sem terra ............................................................................ XIV, p. 78 Trabalho com agricultores assentados ............................................................................... XIV, p. 20 Trabalho com idosos ..................................................................................................... XVIII, p. 297 Todas as religiões são boas? (Cl 2.8-10) ...............................................................................XI, p. 35 Uso da Bíblia em estudos com colonos que migram ......................................................... XIV, p. 68 Vida: celebração da esperança em meio à morte (Sl 138.1-8) ................................................XI, p. 9 Vida está em perigo: socorro! (Gn 2.8-15) ........................................................................ XIII, p. 74 Vigília pascal ....................................................................................................................XVI, p. 146 Violência no campo (Js 8.1-8) ............................................................................................ XII, p. 61
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PERÍCOPES DOS VOLUMES I – 44 ANTIGO TESTAMENTO Gênesis 1.1-4a, 26-31; 2.1-4a ....................... VIII, p.185 1.26-31; 2.1-3 .................................... III, p. 105 2.4-15 ................................................ 28, p. 301 2.4b-15 ..............................V, p. 330; 35, p. 211 2.7-9,15-17; 3.1-7 ........ 30, p. 66; XVIII, p. 84; ......................................... 35, p. 127; 40, p. 150 2.8-15 ............................................... XIII, p. 74 2.18-24 ..........22, p. 254; 25, p. 282; 33, p. 343 3.1-9 .................................................XII, p. 170 3.1-19(20-24) ................................... 25, p. 214 3.1-24 ................................................VI, p. 133 3.8-15 ................................................ 39, p. 195 4.1-16 ..........................VII, p. 203; XIII, p. 246 8.1-13 ...............................................XV, p. 135 8.15-22 .........................................I, p. 71; p. 78 11.1-9 ........................ XII, p. 205; XVII, p. 130 12.1-4 ............................................ XVIII, p. 88 12.1-4a ........ VII, p. 165; 38, p. 125; 44, p. 108 15.1-6 ............26, p. 256; 34, p. 283; 40, p. 231 15.1-12,17-18 .................................... 43, p. 122 17.1-13 ................................................ 27, p. 40 18.1-10a(10b-14).............20 , p. 208; 37, p. 223 18.20-21(22),23-32 ........................... 20, p. 214 21.8-21 ............................................. XIII, p. 60 22.1-13 ..............................................VI, p. 144 22.1-14(15-18) .................................... 22, p. 65 28.10-17(18-22) .................................. 22, p. 71 32.23-31 ........................................XVII, p. 240 32.23-33 .....................................II, p. 207(374) 45.3-11,15 ........................................... 43, p. 98 50.15-21 .........................24, p. 272; 27, p. 240; ......................................... 35, p. 295; 38, p. 284 Êxodo 1.8-22 ............................................... IX, p. 107 2.1-10 ................................................ 28, p. 181 3.1-14 ...............................................XII, p. 154 3.1-8,13-15 ........................................ 26, p. 108 6.2-8 .......................... XVIII, p. 218; 30, p. 214 12.1-14 ............................ 21, p. 108; 40, p. 109 13.20-22 .............................................. 25, p. 46 16.1-5(6-11),12-21(22-30) ................ 28, p. 276 16.2-4,9-15 ........................................ 36, p. 251 16.2-3,11-18 ....................................XIV, p. 283 19.2-8a ............................................. 21, p. 176 20.1-3(4-6),7-8(9-11),12-17 ................ 22, p. 75
20.1-17 .............................................. 42, p. 101 22.21-27 ............................................ 21, p. 280 24.1-11 ............................ 32, p. 123; 38, p. 146 24.3-11 .......XVI, p. 224; 25, p. 164; 28, p. 272 24.12,15-18 ........................ 21, p. 78; 32, p. 79 32.7-14 .......... XV, p. 225; 23, p. 177; 37, p. 272 33.18-23 ............................................VI, p. 102 34.4b-10 .........................III, p. 153; XV, p. 273 34.29-35 ............................ 25, p. 123; 37, p. 87 Levítico 19.1-2,9-18 ........................................ 38, p. 101 Números 6.22-27 ................33, p. 58; 36, p. 48; 40, p. 48 11.11-12,14-17,24-25 ..................... VIII, p. 205 11.24-30 .......................... 32, p. 169; 41, p. 196 12.9-16 ...............................................XII, p. 18 21.4-9 ........ VII, p. 101; XIII, p. 159; 22, p. 80; ......................................... 33, p. 146; 39, p. 114 24.15-19 ...........................................XV, p. 120 Deuteronômio 4.1-2,6-8 .......................... 22, p. 235; 36, p. 274 4.32-34,39-40 ................................... 27, p. 148 5.12-15 .............................. III, p. 43; 38, p. 171 6.1-9 .................................................. 33, p. 373 6.4-9 ............................XV, p. 246, XIX, p. 164 7.6-12 ................................................VI, p. 219 8.6-10 .................................................XII, p. 11 8.7-18 ................................................ 37, p. 348 10.12-22 ............................................ 26, p. 336 11.18-21,26-28 ................ 21, p. 164; 32, p. 184 17.14-20 .............................................XII, p. 51 18.15-20 ..........XIX, p. 67; 31, p. 57; 33, p. 92; ............................................................. 39, p. 81 24.14-15 ..............................................IX, p. 63 26.1-11 .............................. 33, p. 394; 40, p. 81 26.3-11 ................................................ 26, p. 91 30.9-14 .............................................. 34, p. 257 30.11-20 ........................................... VIII, p. 23 30.15-20 ............................ 34, p. 303; 35, p. 93 32.36-39 .............................................. 23, p. 79 34.1-12 ............................XVII, p. 74; 29, p. 77 Josué 1.1-9 ...................................................VII, p. 36 8.1-8 ...................................................XII, p. 61 24.1-2a,13-25 .................. III, p. 117; 39, p. 262 Juízes 4.1-7 .................................................. 32, p. 319
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5.24-31 ................................................. X, p. 37 9.7-15 ..................................................IX, p. 98 Rute 1.1-19a .............................................. 29, p. 289 1 Samuel 2.1-10 .................... II, p. 176 (343); VII, p. 113 2.18-20,26 ........................................... 40, p. 43 3. 1-10(11-20) ..................................... 42, p. 64 3.1-10(19).........................XIX, p. 55; 31, p. 44 3.1-10,19 ............................................. 25, p. 86 11.1-15 ................................................V, p. 337 2 Samuel 7.1-11,16 ............................................ 36, p. 24 7.4-6,12,14a,16 ................................... 25, p. 35 11.26-12.10,13-15 ..........29, p. 199; 34, p. 231; ........................................................... 40, p. 189 12.1-10,13-14 ....................................IX, p. 264 12.1-10,13-15a .................................XV, p. 261 1 Reis 3.5-12 .............................. 24, p. 240; 32, p. 236 3.16-28 .............................................. 30, p. 143 8.(21-23,27-30)41-43 ....................XVII, p. 141 8.22-24,26-28 ....................................VI, p. 189 8.22-30 .............................................XII, p. 191 8.41-43 .............................................. 29, p. 188 17.8-16 ....... XVI, p. 292; 31, p. 286; 36, p. 346; .......................................... 39, p. 332; 42, p. 323 17.17-24 ... XVII, p. 146; 29, p. 192; 37, p. 193 19.1-8(9-13a) .................................... 22, p. 226 19.1-13a ..................XIV, p. 185; XVIII, p. 204 19.1-18 ................................................ III, p. 92 19.4-8 ................................................ 33, p. 285 19.9-13a ........................................... 30, p. 204 19.9-18 .............................................. 44, p. 246 19.(14-18)19-21 ..........XVII, p. 159; 29, p. 205 2 Reis 2.1-12 ............................................... 36, p. 105 2.9-18 ................................................ 37, p. 174 4.42-44 .............................................. 39, p. 238 5.1-14 .................................................. 31, p. 71 5.1-19a ...............................................VII, p. 58 Neemias 5.1-5(6-12) ....................................... XIII, p. 11 5.1-12 ..................................................IX, p. 83 8.1-2,5-6 ............................ 20, p. 183; 34, p. 95 11.(1-3)4-6,10-11,16,24-29(30-36) ... 31, p. 263 Jó 7.1-7 ................................XIX, p. 73; 31, p. 63 19.23-27a .......................................... 37, p. 329 38.1-11 ............................ 25, p. 221; 42, p. 208
Salmo 1......................................................... 39, p. 177 8 .......................................................... 43, p. 50 16....................................................... 38, p. 165 22....................................................... 40, p. 115 22.1-19 .............................................. 35, p. 169 22.1-12,17-20 .................................... 30, p. 104 22.2-12,17-20 ...............................XVIII, p. 116 23..................................... 35, p. 187; 40, p. 137 29......................................................... 44, p. 61 31.1-5,15-16 ...................................... 41, p. 171 46.1-7(1-11) .................. 26, p. 313; 37, p. 311 68.1-10,32-35 .................................... 44, p. 183 84.1-6 ................................................ 43, p. 313 105.1-7 .............................................. 38, p. 356 111 ....................................................... 26, p. 27 112 ......................................................XII, p. 77 116.1-2,12-19 .................................... 42, p. 124 118.1-2,19-29 .................................... 41, p. 130 118.14-29 ......................................... 43, p. 166 130.4....................................................VI, p. 34 147.12-20 ............................................ 39, p. 54 Eclesiastes 1.2,12-14; 2.18-23 ............................ 43, p. 254 1.2; 2.18-26 ....................................... 20, p. 225 3.1-8(-13) ............................VI, p. 48; 35, p. 51 3.1-13 .................................................. 44, p. 43 3.9-15 ................................................... X, p. 16 4.1-4 ..................................................... X, p. 84 5.18....................................................... X, p. 65 9.13-18 ................................................. X, p. 25 10.12-18 ........................................... 43, p. 275 Provérbios 8.22-31 .............................................. 23, p. 109 9.1-6 .................................................. 42, p. 248 9.1-6,10 ............................................. 22, p. 230 9.7-13 ................................................ 23, p. 172 16.1-9 ............................................... VIII, p. 80 24.10-14 ............................................XII, p. 45 30.5-9 ................................................ 26, p. 215 Isaías 1.1-9 ............................................... XIII, p. 116 1.10-17 .............................................XV, p. 297 2.1-5 ................VI, p. 225; XVIII, p. 9; 30, p. 9 5.1-7 .......... VII, p. 87; XIII, p. 147; 21, p. 252; ........................................................... 44, p. 296 6.1-13 .......... VI, p. 198; XII, p. 213; 42, p. 187 7.10-14 ................................................ 21, p. 37 7.10-14(15-17) . ..............XIII, p. 104; 32, p. 27 7.10-16 ................................................ 44, p. 27
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9.1-4 .................................................... 38, p. 80 9.1-6 .............................................. XVIII, p. 31 9.1-6,10 ............................................. 22, p. 230 9.2-7 ....................................V, p. 294; 38, p. 39 11.1-5 ............................................... XVI, p. 63 11.1-9 ............ XVIII, p. 58; 33, p. 31; 37, p. 31; ...............................................39, p. 30; 43, p. 33 11.1-9(10-11)...................................XIV, p. 148 11.1-10 ................................ 27, p. 16; 38, p. 15 12.1-6 ................................................ 26, p. 114 24.12-16a ....................................... XIII, p. 312 25.1,8-9 ............................................. 43, p. 324 25.6-8 ............................................. XIX, p. 114 25.6-9 ............21, p. 258; 31, p. 128; 34, p. 353 29.17-24 ...........................................XII, p. 233 29.18-24 ............................................ III, p. 130 30.(8-14),15-17 ...................................VI, p. 97 33.13-17,22 ....................................... 36, p. 187 35.1-10 .........21, p. 273; 24, p. 306; 28, p. 346; .........35, p. 22; 35, p. 347; 38, p. 334; 41, p. 19 35.3-7 ...........................31, p. 248; XIX, p. 237 35.3-10 ...........................X, p. 158; XIV, p. 115 35.4-7a .............................................. 33, p. 315 40.1-11 ......VIII, p. 40; XIV, p. 124; XIX, p. 15; ..................................................31, p. 9; 42, p. 15 40. 21-31 ............................................. 42, p. 81 40.25-31 ............................................IX, p. 216 42.1-7(-9) ...........21, p. 51; 25, p. 80; 35, p. 69; ........................................... 39, p. 131; 41, p. 64 42.14-21 ........................ XVIII, p. 92; 30, p. 72 43.1-7 ........................II, p. 132 (299); 40, p. 58 43.16-21 .............................................. 40, p. 97 44.1-5 ................................................ 33, p. 401 44.6-8 .............................. 35, p. 246; 38, p. 242 44.9-20 ............................................. XIII, p. 50 45.1-7 .............................. 21, p. 264; 32, p. 293 45.19-25 ............................................ 40, p. 298 45.22-25 .............................................. 28, p. 49 49.1-6 .................................. III, p. 85; 37, p. 58 50.4-9 ....................II, p. 28, (195); XIII, p. 166 50.4-9a .............................. 30, p. 94; 42, p. 268 50.4-10 .........................XIX, p. 241; 31, p. 252 51.1-6 ................................................ 32, p. 259 52.7-10 ............XV, p. 100; 22, p. 37; 33, p. 70; ............................................................. 39, p. 58 52.13 – 53.12..................... V, p. 72; IX, p. 196; .................... XV, p. 185; XII, p. 109; 36, p. 146 53.4-12 .............................................. 39, p. 310 53.10-12 ............................................ 25, p. 294 54.7-10 ...........................IX, p. 183; XV, p. 170
55.1-5 .... III, p. 68; VIII, p. 213; XVIII, p. 198; ......................................... 30, p. 197; 41, p. 244 55.1-9 ................................................ 34, p. 120 55.6-7 ..................................................VI, p. 24 55.6-11 ................................................ 34, p. 63 55.(6-9),10-12a .............................. VIII, p. 119 55.10-11 ............................................ 24, p. 223 55.10-13 ............................................ 44, p. 227 56.1,6-8 .................... XVIII, p. 213; 30, p. 209; ......................................... 35, p. 274; 38, p. 263 58.1-9a .............................................XV, p. 147 58.1-12 ..............IX, p. 50; 33, p. 125; 39, p. 97 58.5-9a ................................................ 24, p. 88 58.7-12 .............................................XII, p. 300 60.1-6 ........... V, p. 11; VIII, p. 92; XVII, p. 39; .............................24, p. 63; 29, p. 54; 38, p. 63 61.1-3(4-9),11 ................................ XIII, p. 120 61.1-3,10-11 ....................................... 28, p. 20 61.1-3,11,10 .......................................VII, p. 44 61.10 – 62.3......XIX, p. 42; 25, p. 68; 28, p. 59 62.1-5 .................................. 20, p. 23; 28, p. 31 62.1-12 ................II, p. 256, (423); VIII, p. 331 62.6-7,10-12 ...............XIX, p. 279; 22, p. 272; ........................................................... 24, p. 297 63.7-9 .................................................. 44, p. 49 63.7-9(10-16) ...................... 24, p. 44; 32, p. 46 63.15-64.3 ........................................ XIII, p. 91 63.15-16;19b-64.3 ..................... I, p. 152, (159) 63.15-17,19; 64.(1-2)3-7 ....................... 22, p. 9 64.1-9 ...................................... 33, p. 9; 39, p. 9 65.17-25 ............................IX, p. 15; 30, p. 133 66.10-14 ........29, p. 213; 37, p. 217; 43, p. 234 Jeremias 1.4-10 ........................ VII, p. 184; XIII, p. 228; ............................................................. 37, p. 82 7.1-11 ............................................ VIII, p. 257 7.1-11(12-15) ..................................XIV, p. 301 7.21-26 ................................................ 30, p. 15 8.4-7 ...........................VIII, p. 349; XIV, p. 390 9.22-23 ...............................................VII, p. 71 11.18-20 ...... XIX, p. 246; 31, p. 256; 39, p. 287 14.7-10,19-22 .................. 37, p. 305; 40, p. 286 15.15-21 ....XVIII, p. 222; 30, p. 220; 41, p. 266 17.5-8 .................................................. 23, p. 55 20.7-13 ......VIII, p. 145; 21, p. 181; 38, p. 219; ........................................................... 44, p. 211 22.13-19 ........................................... XIII, p. 80 23.1-6 ...........................XVI, p. 217; 42, p. 232 23.2-6 ................................................ 20, p. 301 23.5-8 .............................. VI, p. 62; XII, p. 103
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23.16-29 .............II, p. 144, (311); XIII, p. 209; ........................................................... 37, p. 251 26.8-15 ................................................ 26, p. 97 28.5-9 .............................. 21, p. 186; 32, p. 208 29.1,4-14a ........................................... III, p. 34 31.1-13 ................................................ 29, p. 35 31.7-9(-14) ........................ 25, p. 301; 35, p. 58 31.10-13(14)....................................XVII, p. 34 31.31-34 ............................ 22, p. 85; 36, p. 329 33.14-16 .................................. 26, p. 9; 43, p. 9 Lamentações 3.21-26,31-32 ....................................VI, p. 269 3.21-33 ............................ 25, p. 226; 39, p. 212 Ezequiel 2.1-5 .................................................. 36, p. 226 2.1-8a ................................................ 25, p. 231 2.3-8a;3.17-19 ............................II, p. 96, (263) 17.22-24 ............................................ 33, p. 239 18.1-4,21-24,30-32............................IX, p. 247 18.1-4,25-32 ...................................... 41, p. 291 18.1-4,25-37 ...................................... 27, p. 243 33.7-9 ................................................ 27, p. 230 33.7-11 .............................................. 44, p. 269 34.1-2(3-9),10-16 .............................. 21, p. 192 34.1-2(3-9),10-16,31 .........................VI, p. 170 34.11-16,23-24 ...............24, p. 328; 35, p. 363; ........................................................... 38, p. 347 37.1-3(4-10),11-14 ..................... XVIII, p. 103 37.1-3,11-14 ........................................ 30, p. 89 37.1-14 ........XV, p. 193; 24, p. 117; 32, p. 108; ......................................... 33, p. 228; 44, p. 128 37.24-28 ........................................... VIII, p. 55 Daniel 5.1-30 ................................................ III, p. 188 7.(1-12)13-14(15-28) .... XVI, p. 311; 39, p. 344 12.1-3 .......................... XIX, p. 296; 31, p. 293 Oseias 5.15 – 6.2....................... XVIII, p. 95; 30, p. 83 5.15 – 6.6........................................... 21, p. 169 11.1-4,8-9 ........................ 24, p. 323; 27, p. 284 Joel 2.1-2,12-17 ........................ 36, p. 111; 41, p. 98 2.12-18 .............................................XII, p. 166 2.21-27 .............................................. 32, p. 212 2.28-29 .............................................. 21, p. 153 Amós 3.1-8 .................................... 24, p. 75; 30, p. 54 5.6-7,10-15 ...................... 36, p. 309; 42, p. 292 5.18-24 ............................ 35, p. 352; 41, p. 326 5.21-24 ...............................................VII, p. 76 6.1a,4-7 ............................................. 43, p. 291
6.1-7 ................................ 23, p. 189; 37, p. 286 7.7-15 ................................................ 33, p. 264 7.10-15(16-17) ............................... XVI, p. 211 8.4-7 .................................................. 23, p. 181 9.7-10 ................................................. X, p. 128 Jonas 3.1-5(6-9),10 ...................XIX, p. 61; 31, p. 52; ............................................................. 36, p. 81 3.10-4.11 ........................................... 32, p. 274 Miqueias 3.5-12 ................................................ 44, p. 325 5.1-4a .............................. VI, p. 88; XII, p. 114 5.2-4 .................................................... 29, p. 21 5.2-5 ................................XVI, p. 63; 27, p. 29; ............................................. 34, p. 30; 40, p. 24 6.1-8 ....................24, p. 79; 27, p. 58; 35, p. 87 6.6-8 ...........................VIII, p. 324; XIV, p. 385 Habacuque 1.2-3(4); 2.1-4 ..............................XVII, p. 219; ......................................... 29, p. 281; 34, p. 327 Sofonias 3.14-20 ................................ 20, p. 20; 37, p. 20 Zacarias 7.9-10 ................................................ 26, p. 267 8.1-8 ................................................. 24, p. 337 9.9-10 ............X, p. 91; XIX, p. 106; 31, p. 107 9.9-12 ................................................ 41, p. 227 12.7-10(11) ....................................XVII, p. 153 Malaquias (2.17)3.1-5......................................... 25, p. 207 2.17 – 3.5.............................................. 23, p. 9 NOVO TESTAMENTO Mateus 1.18-25 ......................... XVIII, p. 25; 24, p. 29; .............................30, p. 19; 35, p. 28; 41, p. 24 2.1-12 .......... X, p. 193; XVIII, p. 49; 25, p. 74; ............................................. 32, p. 62; 44, p. 56 2.13-18(-23) .......................V, p. 304; 35, p. 46; ............................................................. 38, p. 47 3.1-12 ........................... XVIII, p. 15; 24, p. 24; ............................................. 35, p. 14; 41, p. 14 3.13-17 ........ X, p. 206; XVIII, p. 53; 24, p. 67; .............................30, p. 44; 32, p. 66; 38, p. 68 4.1-11 ................. IV, p. 14; 27, p. 70; 32, p. 85; ......................................... 38, p. 119; 44, p. 102 4.12-17 .............................................XII, p. 142 4.12-23 .......... XVIII, p. 61; 35, p. 81; 44, p. 71 4.23-25 .............................XII, p. 35; XII, p. 34
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5.1-10 ............ IV, p. 212; 32, p. 307; 41, p. 315 5.1-12 ............ XVIII, p. 64; 38, p. 85; 44, p. 79 5.13-16 ............................................... X, p. 390 5.13-16(17-20) .............................. XVIII, p. 69 5.13-20 ................................................ 41, p. 81 5.17-20 .............................................. IV, p. 125 5.20-37 .......................... XVIII, p. 73; 38, p. 96 5.21-37 ................................................ 44, p. 84 5.38-48 ....................II, p. 193,(360); X, p. 460; ............................................. 35, p. 99; 41, p. 92 6.1-4 ...........................VIII, p. 279; XIV, p. 332 6.1-6,16-21 ...... 34, p. 115; 37, p. 94; 38, p. 114; ................................................................ 44, p. 96 6.5-13 .................... II, p. 57, (224); XIV, p. 247 6.9-13 ............................. VI, p. 53; VIII, p. 192 6.16-18 .............................................. IV, p. 133 6.24-34 ............................ IV, p. 180; 32, p. 179 6.25-34 ............................ X, p. 428; 38, p. 352 7.15-23 .............................................. IV, p. 140 7.21-29 ......XVIII, p. 157; 24, p. 178; 30, p. 163 7.24-27 ..............................................VI, p. 233 9.1-8 .................................................. IV, p. 198 9.9-13 .....VIII, p. 110; XVIII, p. 161; 32, p. 188 9.35-10.8 ................... XVIII, p. 170; 44, p. 205 10.7-15 .....................................II, p. 104, (271) 10.24-39 .......................... 32, p. 204; 41, p. 216 10.26-33 ....XVIII, p. 176; 30, p. 168; 34, p. 347 10.26b-33 .... VI, p. 291; XII, p. 268; 43, p. 318 10.26-36 .......................................XXIV, p. 203 10.34-39 ...........................................XII, p. 274 10.34-42 .................... XVIII, p. 181; 30, p. 174 10.40-42 .......35, p. 229; 38, p. 225; 41, p. 222; ........................................................... 44, p. 216 11.2-10 ............................................... X, p. 170 11.2-11 .............III, p. 215; 21, p. 30; 27, p. 22; .............................32, p. 21; 38, p. 21; 44, p. 21 11.16-19,25-30 .................................. 32, p. 221 11.25-30 ....XVIII, p. 186; 24, p. 216; 30, p. 184 12.14-21 .............................................. 36, p. 63 12.22-30 ............................................ IV, p. 217 12.33-35(36-37) ...............................XII, p. 307 12.38-42 ............... II, p. 225, (292); XII, p. 175 13.1-9(18-23) .................21, p. 196; 27, p. 188; ........................................30, p. 189; 35, p. 240; ......................................... 38, p. 237; 41, p. 233 13.24-30(36-43) ....... XVIII, p. 289; 21, p. 203; ......................................... 32, p. 229; 44, p. 232 13.31-33 ............................................ 38, p. 247 13.44-46 .............II, p. 150, (317); VIII, p. 253; ...................................... XIV, p. 295; 35, p. 253
13.44-52 .......................... 21, p. 207; 27, p. 194 14.13-21 .........................21, p. 213; 24, p. 245; .......................27, p. 198; 32, p. 241; 44, p. 242 14.22-33 .......VI, p. 109; 24, p. 249; 27, p. 202; .......................35, p. 267; 38, p. 258; 41, p. 249 15.21-28 .......................... X, p. 445; 21, p. 218; .......................27, p. 208; 32, p. 255; 44, p. 251 16.13-19 .............................................. 23, p. 40 16.13-20 .........................24, p. 260; 27, p. 216; .......................35, p. 278; 38, p. 268; 41, p. 259 16.13-20(23).............................. II, p. 72, (239) 16.21-26 ......... 21, p. 223; 27, p. 222; 32, p. 264 16.21-28 ............................................ 44, p. 263 17.1-9 .......... X, p. 216; XVIII, p. 78; 30, p. 60; ........................................................... 35, p. 114 18.1-5 ................................ 37, p. 48; 38, p. 310 18.15-20 ...........II, p. 123,(290); XVIII, p. 226; .......................30, p. 227; 35, p. 290; 41, p. 273 18.21-35 .................... X, p. 467; XVIII, p. 232; .......................30, p. 234; 32, p. 269; 44, p. 277 19.16-26 .................................. II, p. 182, (349) 20.1-16a ...... IV, p. 7; X, p. 221; XVIII, p. 236; ........................................................... 30, p. 239 20.1-16 ...........................29, p. 296; 35, p. 302; ......................................... 38, p. 290; 41, p. 285 20.17-28 .............................. 21, p. 96; 27, p. 87 21.1-9 ............................... III, p. 194; X, p. 149 21.1-11 ............................ 38, p. 140; 44, p. 133 21.14-17 ................ II, p. 52, (219); XII, p. 185; ........................................................... 37, p. 353 21.23-32 .......................... 32, p. 282; 44, p. 290 21.28-32 .................... VI, p. 247; XVIII, p. 243 21.33-43(-46) ........... XVIII, p. 250; 35, p. 315; ......................................... 38, p. 304; 41, p. 297 22.1-10 (11-14) ......... XVIII, p. 254; 30, p. 243 22.1-14 ......... IV, p. 205; VI, p. 207; 32, p. 289; ........................................................... 44, p. 302 22.15-21(-22) ........... XVIII, p. 259; 35, p. 323; ......................................... 38, p. 314; 41, p. 308 22.23-33 ... VIII, p. 336; XVI, p. 288; 20, p. 285 22.34-40 ............................................ IV, p. 194 22.34-46 ............................................ 44, p. 314 22.34-40(41-46) .............. 30, p. 253; 32, p. 298 23.1-12 ..................II, p. 158, (325); 30, p. 259; ........................................................... 35, p. 335 24.1-14 ........................ VI, p. 68; XVIII, p. 275 24.15-28 ............................................ IV, p. 222 24.36-44 .............................................. 44, p. 11 24.37-44 ....21, p. 21; 27, p. 9; 32, p. 9; 38, p. 9 25.1-13 .........IV, p. 243; XI, p. 336; 24, p. 312; ......................................... 30, p. 277; 44, p. 331
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25.14-30 .................II, p. 233, (400); X, p. 394; ................ XVIII, p. 272; 30, p. 286; 41, p. 331; ........................................................... 44, p. 336 25.31-37 ...................................... XVIII, p. 297 25.31-46 ....IV, p. 231; X, p. 472; XVIII, p. 298; ............. 21, p. 302; 27, p. 291; 32, p. 51; p. 324; ............................................................. 41, p. 44 26.14-27.66 ....................................... 35, p. 157 26.30-56 ...................................... XVIII, p. 109 26.36-46(-56) ... VI, p. 29; 35, p. 162; 38, p. 154 26.36-56 ............................................ 41, p. 135 26.57-75 ........................................... 24, p. 122 27.11-26 ............................................ 32, p. 116 27.33-50 ............................................ 44, p. 145 27.33-50(51-54) ........... VIII, p. 162; 38, p. 154 27.33-54 ............................ 21, p. 111; 27, p. 99 27.33-56 ..........................................XIV, p. 201 28.1-10 ...........................VI, p. 167; 24, p. 139; ......................................... 35, p. 176; 41, p. 147 28.16-20 ........X, p. 374; 30, p. 156; 34, p. 203; .......................35, p. 222; 40, p. 156; 41, p. 205 Marcos 1.1-8 ...................................22, p. 14; 28, p. 13; ............................................. 33, p. 16; 39, p. 13 1.4-11 ... 22, p. 48; 28, p. 64; 36, p. 69; 42, p. 56 1.9-15 .............................. 33, p. 132; 39, p. 102 1.12-15 ...........XIX, p. 79; 25, p. 129; 31, p. 84 1.14-20 ...............22, p. 56; 28, p. 73; 33, p. 84; ............................................. 39, p. 75; 42, p. 71 1.21-28 .............XVI, p. 99; 28, p. 79; 36, p. 86 1.29-39 ..............28, p. 87; 33, p. 101; 39, p. 87 1.32-39 .......................... VI, p. 284; XII, p. 261 1.40-45 ........ VI, p. 258; XII, p. 241; 36, p. 100 2.1-12 ............................... X, p. 453; 28, p. 100 2.18-22 ........................................... VIII, p. 105 2.23-28 ..... VIII, p. 311; XIV, p. 367; 22, p. 169; ........................................................... 28, p. 228 2.23-36 .............................................. 42, p. 193 3.1-6 .................................................... X, p.114 3.20-35 .......XVI, p. 192; 28, p. 233; 36, p. 209 3.31-35 ..............................................VI, p. 252 4.26-29 .............................................. VI, p. 113 4.26-34 .........22, p. 175; 28, p. 240; 36, p. 216; ........................................................... 42, p. 203 4.30-32 .............................................XII, p. 313 4.35-41 ......XVI, p. 200; 22, p. 182; 28, p. 247; ......................................... 32, p. 244; 39, p. 209 5.21-24a,35-43 ...............28, p. 253; 33, p. 378; ........................................................... 39, p. 327 5.21-43 .............................................. 42, p. 216 5.24b-34 ............................................ 22, p. 188
5.25-34 ...............................................XII, p. 27 6.1-6 ...........XVI, p. 205; 22, p. 200; 28, p. 260 6.1-13 .............................. 33, p. 256; 39, p. 218 6.6b-13 .........................XIX, p. 201; 25, p. 236 6.14-29 ............. X, p. 74; 36, p. 235; 42, p. 225 6.30-34 ......XIX, p. 206; 25, p. 241; 31, p. 208; ........................................................... 33, p. 270 6.30-34,53-56 .................................... 39, p. 231 6.34-44 ............................................. 30, p. 247 7.1-8,14-15,21-23........XIX, p. 233; 31, p. 242; ......................................... 33, p. 309; 39, p. 270 7.24-37 ............................ 36, p. 279; 42, p. 263 7.31-37 .......... IV, p. 163; X, p. 408; 22, p. 239; ........................................................... 28, p. 307 8.22-26 .......................VIII, p. 269; XIV, p. 317 8.27-35 .......XVI, p. 247; 33, p. 323; 39, p. 280 8.31-38 .........X, p. 234; XIX, p. 83; 25, p. 134; ...........................31, p. 91; 36, p. 121; 42, p. 97 9.2-9 ..........XVI, p. 105; 28, p. 108; 33, p. 119; ............................................................. 42, p. 87 9.17-29 ..............................................VI, p. 278 9.30-37 ......XVI, p. 255; 22, p. 245; 36, p. 289; ........................................................... 42, p. 273 9.38-50 .........22, p. 250; 28, p. 322; 33, p. 334; ........................................................... 39, p. 293 9.43-48 ................II, p. 138, (305); XVI, p. 263 10.2-12 ..........28, p. 326; 36, p. 303; 42, p. 283 10.13-16 ............................................ 28, p. 313 10.17-27 ....XII, p. 256; XVI, p. 268; 22, p. 260; ........................................................... 33, p. 348 10.17-31 ............................................ 39, p. 305 10.32-45 ............................................. X, p. 106 10.35-45 ....28, p. 289; XVI, p. 277; 34, p. 270; ......................................... 36, p. 316; 42, p. 298 10.46-52 ...... XVI, p. 283; 22, p. 265; 39, p. 315 11.1-11............................. 33, p. 160; 39, p. 126 12.1-12 .............................................. X, p. 242 12.13-17 ............................................ III, p. 138 12.28-34 .......................... 36, p. 340; 42, p. 318 12.41-44 ........VI, p. 138; 22, p. 281; 33, p. 387 13.1-8 .............................. 36, p. 353; 42, p. 329 13.1-13 .......XVI, p. 302; 22, p. 286; 28, p. 351 13.24-31 ............................................ 28, p. 358 13.24-37 .................................. 36, p. 9; 42, p. 9 13.31-37 ..........................................XIV, p. 397 13.33-37 .............................XIX, p. 9; 25, p. 17 14.3-9 ................................VI, p. 149; 22, p. 93 14.6-9 ...............................................XII, p. 181 14.12-26 ....XVI, p. 134; 22, p. 104; 28, p. 144; ........................................................... 36, p. 140
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14.17-26 ............................................VI, p. 156 15.1-15(16-20) .............XVI, p. 129; 28, p. 139 16.1-8 ......... IV, p. 144; X, p. 294; XVI, p. 153; ...................... 22, p. 112; 28, p. 159; 36, p. 152; ........................................................... 42, p. 136 16.9-14(15-20) ...........VIII, p. 173; XIV, p. 225 16.12-18 .......................... 33, p. 184; 39, p. 148 16.14-20 .............................................. IV, p. 77 Lucas 1.1-4 .................................................. 23, p. 200 1.26-33(34-37),38 ........... VI, p. 81; XII, p. 109 1.26-38 .........XVI, p. 56; XIX, p. 27; 22, p. 28; .............................28, p. 26; 33, p. 24; 39, p. 24 1.39-45(46-55) .................... 26, p. 20; 37, p. 26 1.(39-45)46-55(56) ............................ X, p. 175 1.46-55 ................................................V, p. 288 1.47-55 ................................................ 43, p. 28 1.57-66 .............................................. 24, p. 200 1.67-79 .............................V, p. 270; VIII, p. 30 1.68-79 ................................................ 43, p. 14 2.1-7 .... 30, p. 24; 34, p. 38; 38, p. 33; 39, p. 36; ............................................................. 40, p. 29 2.1-7,8-14,15-20............................... XVI, p. 63 2. (1-7)87-20 ....................................... 42, p. 31 2.1-14 ....... I, p. 161, (168); X, p. 181; 32, p. 41 2.(1-14)15-20 .....24, p. 41; 34, p. 69; 37, p. 54; ............................................. 41, p. 50; 44, p. 37 2. 15-21 ............................................... 42, p. 46 2.1-20 .........III, p. 218; IV, p. 273; XVII, p. 28; .........................XIX, p. 26; 21, p. 41; 23, p. 21; .............................24, p. 34; 27, p. 34; 33, p. 37 2.22-40 ................................................ 36, p. 56 2.41-52 ................................................ 20, p. 35 3.1-9 ....................................V, p. 281; 37, p. 14 3.1-14 ..................................................VI, p. 76 3.7-18 ............ XVII, p. 21; 23, p. 15; 29, p. 16; ............................................. 34, p. 24; 40, p. 18 3.15-17,21-22 ......20, p. 40; 26, p. 36; 37, p. 64 4.1-13 ...............23, p. 60; 29, p. 81; 37, p. 100; ........................................................... 43, p. 116 4.14-21 ...............VI, p. 19; 26, p. 47; 37, p. 76; ............................................................. 43, p. 77 4.14-21(22)................20, p. 50; p. 59; 27, p. 47 4.16-21 ............................................... X, p. 186 4.21-30 ..............26, p. 54; 34, p. 100; 43, p. 83 5.1-11 ...........IV, p. 118; XVII, p. 57; 20, p. 65; ............................................................. 26, p. 59 6.17-26 ................20, p. 69; 26, p. 66; 43, p. 93 6.27-38 ................................ 20, p. 73; 26, p. 74 6.36-42 ..............................IV, p. 112; X, p. 368
7.1-10 .............................. 26, p. 206; 40, p. 176 7.11-17 ..........................IV, p. 186; VIII, p. 293 7.36-50 .... VIII, p. 262; XIV, p. 309; 26, p. 220 7.36-8.3 ............................................. 37, p. 199 8.4-10 ................................................. X, p. 228 8.26-39 ............................ 34, p. 237; 40, p. 196 9.10-17 ........................................... VIII, p. 241 9.18-24(25-26) ................ 20, p. 190; 26, p. 226 9.28-36 ..............20, p. 82; 26, p. 85; 34, p. 109 9.28-36(37-43) .................................. 43, p. 104 9.51-56 .............................................XV, p. 167 9.51-62 ..........20, p. 198; 37, p. 212; 43, p. 229 9.57-62 ............................................... X, p. 251 10.1-11,16-20 .................. 34, p. 252; 40, p. 209 10.1-12,16 ......................................... 20, p. 204 10.17-20 ............................................ 24, p. 285 10.21-24 .....................................II, p. 82, (249) 10.25-37 ... X, p. 413; XVII, p. 163; 23, p. 135; ........................................................... 43, p. 237 10.38-42 ....VI, p. 124; XVII, p. 170; 23, p. 140; ...................... 29, p. 216; 34, p. 264; 40, p. 214 11.1-13 .........23, p. 145; 29, p. 223; 37, p. 229; ........................................................... 43, p. 248 11.5-13 ..............................................VI, p. 184 11.14-23 ........................ VI, p. 297; XII, p. 283 12.13-21 .......23, p. 149; 29, p. 228; 34, p. 278; ........................................................... 40, p. 224 12.32-40 ... XVII, p. 183; 37, p. 241; 43, p. 260 12.35-40 ........................................... III, p. 226 12.41-48 ............................................VI, p. 302 12.42-48 ...........................................XII, p. 289 12.49-53 .. XVII, p. 189; 23, p. 154; 29, p. 235; ......................................... 34, p. 289; 40, p. 237 13.1-9 ............ XVII, p. 83; 23, p. 72; 29, p. 93; ......................................... 37, p. 111; 43, p. 128 13.10-17 .......................... 37, p. 257; 43, p. 271 13.22-30 .....XVII, p. 193; 23, p. 159; 29, p. 241 13.31-35 ........ XVII, p. 78; 23, p. 65; 29, p. 88; ............................................................. 40, p. 87 14.1,7-14 .......23, p. 167; 29, p. 247; 40, p. 248 14.7-14 ..........................................XVII, p. 196 14.15-24 ............................. IV, p. 96; X, p. 354 14.25-33 ....VIII, p. 235; 20, p. 251; 26, p. 277; ......................................... 37, p. 266; 43, p. 280 15.1-3,11b-32 ................ XII, p. 220; 34, p. 125 15.1-3,11-32 .................IV, p. 209; XVII, p. 88; ........................................... 29, p. 100; 40, p. 92 15.1-7(8-10) ....................................... X, p. 361 15.1-10 ......... IV, p. 106; 20, p. 255; 34, p. 309; ........................................................... 40, p. 252
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15.8-32 .............................................. 28, p. 265 16.1-9 ................................................ IV, p. 147 16.1-13 ........... 20, p. 260; 26, p. 286; 37, p. 277; ............................................................... 43, p. 286 16.19-31 ......... IV, p. 88; 20, p. 265; 35, p. 321; ........................................................... 40, p. 262 17.1-10 ............................ 20, p. 270; 26, p. 298 17.5-6 .........................VIII, p. 286; XIV, p. 346 17.5-10 ............................ 37, p. 291; 43, p. 296 17.7-10 ......................... VI, p. 117; XII, p. 160 17.11-19 ...... IV, p. 172; X, p. 421; XX, p. 275; .......................26, p. 305; 34, p. 371; 40, p. 275 17.20-35 ..............................................V, p. 275 18.1-8a ........................... 20, p. 291; 23, p. 213 18.1-8 ...........VIII, p. 343; 26, p. 325; 37, p. 301; ............................................................... 43, p. 307 18.9-14 .......... IV, p. 158; 28, p. 333; 34, p. 340 18.18-23 ...........................................XII, p. 249 18.31-43 ......................................... VIII, p. 124 19.1-10 ...............II, p. 112, (279); VIII, p. 219; .................... XIV, p. 275; 37, p. 324; 40, p. 292 19.28-40 ....... 26, p. 121; 34, p. 138; 37, p. 116; ......................................... 40, p. 103, 43, p. 144 19.41-48 ........................... IV, p. 153; X, p. 401 20.9-19 ..........................XVII, p. 94; 29, p. 105 20.27-38 ........23, p. 223; 34, p. 359; 43, p. 335 21.5-19 ............................ 20, p. 296; 37, p. 336 21.25-36 .......... III, p. 209; XVII, p. 9; 34, p. 9; ............................................................... 40, p. 9 22.7-20 ............................ 20, p. 116; 26, p. 126 22.31-34 ....................VIII, p. 131; XIV, p. 172 23.33-43 ........26, p. 344; 34, p. 365; 40, p. 322 23.(26-32)33-49 ..........XVII, p. 102; 29, p. 119 23.33-49 ..........................VI, p. 162; 37, p. 127 23.35-43 ........................................XVII, p. 248 24.1-11(12) ........................................ 20, p. 127 24.1-12 ........... II, p. 201; 37, p. 132; 40, p. 121 24.13-35 .........VI, p. 40; 21, p. 125; 27, p. 114; .......................32, p. 137; 38, p. 176; 44, p. 156 24.36b-48 .......................................... 42, p. 148 24.36-49 ... XVI, p. 164; XIX, p. 128; 36, p. 162 24.44-53 ........28, p. 201; 35, p. 206; 44, p. 177 24.(44-49)50-53 ...........XIX, p. 148; 22, p. 145 24.50-53 ............................................. X, p. 331 João 1.1-5,9-14 ........XIX, p. 35; 25, p. 39; 31, p. 24; ............................................. 37, p. 36; 40, p. 35 1.1-14 .................................................. 43, p. 38 1.1-18 .................................. 33, p. 30; 29, p. 46 1.(1-9)10-18 ........................ 33, p. 64; 38, p. 59
1.6-8,19-28 ......XIX, p. 22; 25, p. 29; 31, p. 14; ............................................................. 42, p. 20 1.19-23(24-28) ................. VIII, p. 49; 36, p. 19 1.29-34 ............................................. VIII, p. 98 1.29-34(35-41) ............. XVIII, p. 57; 21, p. 55; ............................................. 35, p. 75; 41, p. 70 1.35-42 .............................................XII, p. 227 1.43-51 ........ XII, p. 129; XVI, p. 92; 22, p. 52; ............28, p. 68; 34, p. 80; 36, p. 76; 40, p. 53; ............................................................. 43, p. 58 2.1-11 .................IX, p. 41; 20, p. 44; 26, p. 40; .............................34, p. 89; 40, p. 64; 43, p. 69 2.13-22 ...........................VI, p. 237; XIX, p. 87 3.1-11(15) ........................................... X, p. 347 3.1-17 .............22, p. 165; 28, p. 220; 32, p. 91; ....................... 33, p. 232; 39, p. 189; 41, p. 112 3.14-21 ..........XIX, p. 95; 25, p. 144; 31, p. 96; ......................................... 36, p. 128; 42, p. 107 4.1-11 ............................................... 31, p. 149 4.5-26 ................................ 21, p. 82; 35, p. 139 4.31-38 ......................................II, p. 89, (256) 4.46-54 .............................................XII, p. 148 5.1-9 .................................................. 37, p. 168 5.1-16 ..............................................XIV, p. 360 5.1-16(18)....................................... VIII, p. 304 5.19-21 ............................................XIV, p. 215 5.24-29 ... XVIII, p. 267; 22, p. 277; 29, p. 302; ........................................................... 30, p. 271 5.39-47 ..............................................VI, p. 204 6.1-15 ........... IV, p. 24; X, p. 383; XIX, p. 211; .......................25, p. 247; 31, p. 213; 36, p. 245 6.(22-23)24-35 ............XIX, p. 217; 21, p. 218; .....25, p. 254; 33, p. 280; 36, p. 365; 39, p. 245 6.35................................................. VIII, p. 151 6.35,41-51 ....................... 36, p. 257; 42, p. 242 6.37-40(41-43),44 ....................II, p. 200, (367) 6.41-51 ......XIX, p. 220; 25, p. 259; 28, p. 284; ........................................................... 31, p. 226 6.51-58 ......XIX, p. 225; 31, p. 232; 33, p. 292; ........................................................... 39, p. 257 6.56-69 ............................ 36, p. 269; 42, p. 253 6.60-69 .......XIX, p. 229; 25, p. 264; 31, p. 237 6.66-69 .............................................XII, p. 293 7.14-18 ............................................. VIII, p. 87 7.37-39a ..... XVI, p. 187; 22, p. 158; 28, p. 211 7.37-39 ....... VI, p. 194; XII, p. 199; 22, p. 158; ........................................................... 35, p. 216 8.1-11 ............................................. VIII, p. 228 8.21-30 .......................VIII, p. 138; XIV, p. 179
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8.31-36 .................II, p. 216, (383); VIII, p. 73; ......................................................XVII, p. 225; ......................................... 23, p. 209; 42, p. 307 9.1-7 ...........................VIII, p. 248; XIV, p. 290 9.1-11 ................................................ 38, p. 135 9.1-41 .............................. 32, p. 104; 44, p. 121 9.13-17,34-39 ...................... 21, p. 91; 27, p. 81 9.35-41 ........................................... VIII, p. 299 10.1-5,27-30 ...............................II, p. 40, (207) 10.1-10 ......... 21, p. 133; 27, p. 119; 32, p. 144; ........................................................... 41, p. 165 10.11-16 .............................................. IV, p. 53 10.11-18 ....XIX, p. 135, 25, p. 181; 31, p. 139; ........................................................... 33, p. 199 10.11-18,27-30 ................................... X, p. 310 10.14-16,27-29 .................................... 33, p. 50 10.22-30 .......................... 29, p. 141; 37, p. 149 10.22-30(31-39) ............................XVII, p. 117 11.1,3,17-27 ...........II, p. 188, (355); 35, p. 151 11.1(2),3,17-27(41-45) ....................... X, p. 434 11.1-5,17-21 .................... 37, p. 319; 40, p. 310 11.1-45 .............................................. 41, p. 123 11.47-53 ................... VIII, p. 157; XIV, p. 192; ......................................... 21, p. 103; 33, p. 154 12.1-8 ................................................ 43, p. 140 12.12-16 .......................... 36, p. 134; 42, p. 118 12.12-19 ........................... X, p. 269; 20, p. 110 12.20-26 ............................................. X, p. 258 12.20-30 ............................................ 25, p. 150 12.20-33 ....XIX, p. 102; 31, p. 103; 33, p. 154; ........................................................... 39, p. 120 12.44-50 ........................................... VIII, p. 65 13.1-15,34-35 ..................................... X, p. 277 13.1-17,31b-35 .................................. 43, p. 149 13.1-17,34 ......................... 30, p. 99; 34, p. 144 13.31-35 ....XVII, p. 121; 29, p. 149; 34, p. 144; ............................................... p. 191; 40, p. 145 14.1-6 ...............................................XII, p. 134 14.1-12 .......... 21, p. 139; 27, p. 124; 39, p. 170; ............................................................. 42, p. 169 14.1-12(14)...............II, p. 63, (230); 35, p. 192 14.1-14 .............................................. 44, p. 168 14.8-17(25-27) ................ 34, p. 219; 43, p. 211 14.15-19 ...........................................XV, p. 232 14.15-21 ........34, p. 165; 35, p. 200; 41, p. 177 14.23-27 ............................. IV, p. 82; X, p. 341 14.23-29 ......................XVII, p. 126; 29, p. 154 15.1-8 ..............X, p. 317; XIX, p. 139; 25,189; .......................31, p. 146; 36, p. 174; 42, p. 158 15.9-12(13-17) ................................XIV, p. 374
15.9-17 .....................VIII, p. 317; XIX, p. 143; ....................... 25, p. 192; 33, p. 211; 39, p. 165 15.(18)26-16.4.................................... X, p. 337 15.26-27; 16.4b-11 .........20, p. 171; 26, p. 191; ........................................................... 36, p. 197 15.26-27; 16.4-15 .............................. 42, p. 181 16.5-15 ................................................ IV, p. 65 16.12-15 ......... 20, p. 177; 26, p. 200; 37, p. 184; ............................................................... 43, p. 217 16.16-23a .......................... IV, p. 57; VI, p. 179 16.16,20-23a .........................VI, p. 129; p. 176 16.22-28 .............................................. IV, p. 72 16.23b-28,33 ...................................... X, p. 323 17.1-11 .........21, p. 148; 27, p. 132; 38, p. 200; ........................................................... 41, p. 191 17.1a,6-19 ......................................... 33, p. 221 17.1-15 .............................................. 24, p. 159 17.9-19 .............................. IV, p. 31; 25, p. 197 17.(9-10)11-19 ..............XIX, p.153; 31, p. 157 17.20-26 ....................... VIII, p. 198; 29, p. 168 18.33-37 .......................XIX, p. 299; 31, p. 296 18.33-38a .......................................... 36, p. 358 19.16-30 ....... IV, p. 38; X, p. 284; XIX, p. 110; .....25, p. 170; 31, p. 123; 33, p. 168; 39, p. 136 20.1-18 .........34, p. 162; 38, p. 159; 43, p. 160; ........................................................... 44, p. 150 20.1-2,11-18 ..................................... 24, p. 230 20.1-9(10-18) ........... XVIII, p. 120; 26, p. 136; ........................................................... 30, p. 109 20.11-18 .....................VIII, p. 166; XIV, p. 207 20.19-23 ........24, p. 173; 30, p. 150; 38, p. 206 20.(19,23)24-29............ X, p. 301; XIX, p. 119; ........................................................... 32, p. 134 20.19-31 .... XIX, p. 119; 21, p. 121; 27, p. 110; ......................................... 29, p. 128; 31, p. 133 20.26-31 ............................................ 37, p. 138 21.1-14 ........................XVII, p. 111; 29, p. 136 21.1-19 ............................ 34, p. 178; 40, p. 131 21.15-19 ......................................... VIII, p. 179 21.20-25 .............................................. 34, p. 53 Atos 1.8-14 ............................................... 24, p. 168 1.1-11 .................20, p. 155; p. 160; 26, p. 182; .....29, p. 161; 32, p. 162; 38, p. 195; 43, p. 197 1.15-26 .........................XVI, p. 184; 28, p. 206 1.3-4(5-7),8-11 ..................................XI, p. 242 1.15a,21-26 ....................................... 36, p. 193 2.1-13 ................................................XI, p. 249 2.1-21 .........XIX, p. 158; 27, p. 139; 40, p. 162 2.14a,22-32 ..................... 24, p. 143; 41, p. 152
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2.14a,36-47 ....................................... 24, p. 150 2.22-23,32-33,36-39.........................XV, p. 239 2.36-41 ................................................ III, p. 59 2.41a,42-47 .......................................XI, p. 284 2.42-47 .............................................. 44, p. 162 3.1-10 ...............................................VII, p. 198 3.12-19 .............................................. 39, p. 153 3.13-15,17-26 ...............XVI, p. 158; 28, p. 165 4.5-12 ................................................ 36, p. 168 4.8-12 ............................................... 28, p. 172 4.32-35 .............................................. 42, p. 141 4.32-37 ............................................... V, p. 310 5.12,17-32 ........................................ 20, p. 130 5.27-32 .............................................. 40, p. 126 6.1-7 ............................... III, p. 134; 24, p. 155 7.55-60 .............................................. 38, p. 182 8.14-17 ............................... 34, p. 85; 43, p. 64 8.26-40 ...XIII, p. 222; XVI, p. 169; 28, p. 188; ........................................................... 33, p. 205 9.1-20 ................................................ 20, p. 136 9.36-43 .............................................. 34, p. 184 10.34-38 ..............23, p. 35; 27, p. 52; 31, p. 38 10.34-48(10.1 – 11.18) ..................... XIX, p. 49 10.34-43 .......................... 27, p. 105; 33, p. 177 10. 44-48 ........................................... 42, p. 163 11.19-30 .......................XVI, p. 178; 28, p. 196 13.16-17,22-25 .................................... 22, p. 33 13.44-52 ................................ 20, p. 140; p. 143 14.8-18 ............................................. 20, p. 148 16.6-10 .............................................. 20, p. 164 16.9-15 ........ IX, p. 171; XV, p. 141; 43, p. 191 16.16-34 ............................................ 34, p. 211 16.23-34 ......................VII, p. 122; XIV, p. 233 17.1-15 .............................................. 24, p. 159 17.16-34 ................................................I, p. 34 17.22-31 ........................ XV, p. 213; 32, p. 156 19.1-7 .................................................. 39, p. 63 Romanos 1.1-7 ................XVI, p. 77; 25, p. 55; 28, p. 54; ............32, p. 36; 36, p. 30; 38, p. 28; 42, p. 26; ............................................................. 44, p. 32 1.16-17; 3.21-28 ................................ 38, p. 327 3.19-28 .......... II, p. 169; 20, p. 278; 21, p. 267; ......................................... 25, p. 287; 33, p. 364 3.21-25a ................................ 27, p. 156, p. 272 4.1-5,13-17 ...................... 24, p. 100; 35, p. 133 4.13-25 ............................ 33, p. 138; 39, p. 108 4.18-25 ............................ 24, p. 184; 27, p. 161 5.1-5 ........ XVII, p. 137; 29, p. 180; 34, p. 224; ........................................................... 40, p. 168
5.1-8 ................................ 32, p. 197; 41, p. 212 5.1-11 ................ V, p. 51; 28, p. 122; 32, p. 98; ......................................... 38, p. 129; 44, p. 114 5.6-11 .............................. 24, p. 190; 27, p. 166 5.12-15 .............................................. 27, p. 172 5.12-19 .............................................. 41, p. 104 6.1b-11 ............................ 24, p. 211; 27, p. 183 6.3-8 ..................................................XI, p. 278 6.19-23 ............................ V, p. 164; IX, p. 258 7.15-25a ........35, p. 234; 38, p. 231; 44, p. 221 8.1-11 .............. I, p. 39; XIV, p. 253; 24, p. 111 8.12-17 ..............................V, p. 170; 36, p. 203 8.12-25 .............................................. 41, p. 239 8.14-17 ............................ 25, p. 203; 37, p. 179 8.14-17,22-27 .................................... 29, p. 174 8.18-23 ................................................V, p. 150 8.18-23(24-25) ............................ XVIII, p. 192 8.22-27 .............................................. 39, p. 183 8.26-27 .............................................. 30, p. 193 8.26-30 ..............................................IX, p. 233 8.26-39 .............................................. 44, p. 237 8.31b-39 ............................................XI, p. 144 8.31-39 .............................. IX, p. 91; 28, p. 115 8.(31-34)35-39 ............................... XVI, p. 110 9.1-5 ................................ 35, p. 261; 38, p. 252 9.1-5,31-10.4 ................................. XIII, p. 235 9.1-5; 10.1-4 ........................................V, p. 185 9.30b-33 ............................................ III, p. 124 10.5-13 ......................... XVI, p. 115; 32, p. 248 11.1-2a,29-32 .................................... 41, p. 255 11.13-15,29-32 .................................. 25, p. 255 11.25-32 ...................................... I, p. 95, (102) 11.32-36 ..............................................V, p. 126 11.33-36 ...........................................XI, p. 256 12.1-8 ............XI, p. 152; 24, p. 265; 44, p. 256 12.9-12 .............................................. 35, p. 284 12.9-21 .............................................. 38, p. 273 12.6-16 ..................................................V, p. 19 13.1-10 .............................................. 21, p. 229 13.8-10(13-14) ..................................XI, p. 107 13.11-14 ........................... IV, p. 251; 24, p. 19; ................................................. 35, p. 9; 41, p. 9 14.1-12 .............................................. 41, p. 278 14.5-9 ................................................ 21, p. 234 14.7-13 ............................................... III, p. 79 14.10-13 ...........................................XI, p. 266 15.4-13 ...............21, p. 25; 32, p. 16; 44, p. 16 16.25-27 .............................................. 31, p. 19 1 Coríntios 1.1-9 ....24, p. 70; 32, p. 72; 38, p. 75; 44, p. 65
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1.3-9 ..................................XVI, p. 51; 28, p. 9 1.4-9 ....................................................V, p. 228 1.10-17 ................................ 21, p. 60; 41, p. 75 1.18-25 ................................................ 20, p. 97 1.26-31 . ..............V, p. 190; IX, p. 24; 21, p. 65 2.1-5 .................................... 21, p. 71; 22, p. 60 2.1-10 ............................VII, p. 50; XIII, p. 126 2.1-12(13-16) ...................................... 38, p. 91 2.6-13 .................................................. 21, p. 74 2.12-16 .............................................VII, p. 150 3.1-9 .................................................... 41, p. 87 3.9-15 .............................XV, p. 266; IX, p. 269 3.16-23 .............................................. 22, p. 193 4.1-5 ................................ IV, p. 261; XI, p. 119 6.9-14,18-20 .................................. I, p. 78, (85) 6.9-14(15-17),18-20 ...................... I, p. 86, (93) 6.12-20 ................................ 33, p. 76; 39, p. 69 6.24-34 .............................................. 35, p. 106 7.29-31 ............................................... 24, p. 90 7.29-32a ..................................... I, p. 46, (213) 8.1-3 .................................................... 42, p. 76 8.2 .................................................... XIII, p. 42 9.16-23 ........... XIV, p. 264, 25, p. 96; 36, p. 90 9.24-27 ............................ XI, p. 165; 33, p. 112 10.1-13 ................................V, p. 179; 20, p. 91 10.16-17 ... VII, p. 107; XIII, p. 171; 44, p. 139 10.16-17(18-21) ................................ 31, p. 113 10.31-11.1 ......................................... 25, p. 107 11.23-26 ..........24, p. 127; 27, p. 94; 37, p. 120 11.23-29 ................................................V, p. 65 12...................................................... XIII, p. 34 12.1,4-11 ........ XVII, p. 47; 29, p. 59; 37, p. 70 12.3b-13 ............................................ 44, p. 188 12.12-21,26-27 .................... 23, p. 45; 29, p. 64 12.12-31a ............................................ 40, p. 70 12.27-13.13 .....................XVII, p. 52; 29, p. 71 12.31b-13.13 ...................... V, p. 32; XI, p. 182 14.1-3,20-25 .....................................VII, p. 158 14.12b-20 ............................................ 23, p. 49 15.1-11 .................... XVII, p. 108; 324, p. 105; ........................................... 39, p. 142; 43, p. 88 15.1-20 ................................................ III, p. 13 15.12,16-20 ..................XVII, p. 63; 32, p. 311; ........................................................... 41, p. 321 15.19-28 .......... I, p. 16; IX, p. 207; XV, p. 207; ................................... XVIII, p. 280; 25, p. 175 15.20-28 .................... XVIII, p. 280; 30, p. 293 15.35-38 ........................................... XIII, p. 29 15.45-49 ..........................................XVII, p. 69 15.50-58 ........ V, p. 78; XIX, p. 286; 26, p. 320
2 Coríntios 1.3-7 ......................................... I, p. 112, (119) 1.18-22 ..........VII, p. 14; XIII, p. 98; 25, p. 113 3.1b-6 ................................................ 25, p. 118 3.3-9 ..................................................IX, p. 283 3.12-4.2 ............................XIX, p. 76; 31, p. 78 4.3-6 ............. IX, p. 157; XIV, p. 165; 39, p. 93 4.5-12 ...........................XIX, p. 169; 31, p. 171 4.6-10 ................................................XI, p. 158 4.7-18 .................................................. III, p. 53 4.13-18 .........................XIX, p. 173; 31, p. 177 4.13-5.1 ............................................. 42, p. 198 4.16-18 ........................................... XIII, p. 192 5.1-10 .............................IX, p. 295; XV, p. 288 5.6-10 ......................... XIX, p. 178; 31, p. 183 5.6-10,14-17 ...................................... 39, p. 203 5.14-21 ................................I, p. 7; XIX, p. 181 5.(14b-18)19-21 ..........XVI, p. 140; 28, p. 153; ........................................................... 41, p. 140 5.16-21 .............................................. 43, p. 135 5.20b – 6.10......................35, p. 120; 40, p. 76; ........................................................... 43, p. 110 6.1-10 ................................................VII, p. 82 6.1-13 ................................................ 36, p. 221 8.1-9,13-14 ................................... XIX, p. 188 8.1-15 ............................................... XIII, p. 18 8.7-15 ................................................ 33, p. 251 8.9 ................................................... XV, p. 112 9.6-15 ............................... V, p. 323; XI, p. 272 (11.18,23b-30); 12.1-10 ................. XIII, p. 142 12.1-10 ..................................................V, p. 26 12.2-10 .............................................. 42, p. 220 12.7-10 .........................XIX, p. 195; 31, p. 199 13.11-13 .......IX, p. 240; 21, p. 158; 32, p. 174; ......................................... 38, p. 214; 44, p. 198 Gálatas 1.1-12 ................................................ 37, p. 189 1.11-24 ............................ 23, p. 113; 40, p. 182 2.16-21 ........................VII, p. 192; XIII, p. 241 3.(23-25)26-29 ................ 23, p. 119; 37, p. 206 3.23-29 .............................................. 43, p. 223 3.28.....................................................XII, p. 70 4.1-7 ..................................................IX, p. 144 4.4-7 .........XV, p. 106; XVIII, p. 38; 30, p. 31; ............33, p. 44; 35, p. 33; 39, p. 43; 41, p. 29; ............................................................. 42, p. 40 5.1-6 ............................................... XIII, p. 167 5.1-11 .................I, p. 118, (125), p. 124, (131); ......................................... 35, p. 341; 44, p. 320 5.1,13-25 ........ 23, p. 126; 34, p. 243; 40, p. 204
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5.25-26; 6.1-3,7-10 .....VII, p. 214; XIII, p. 253 6.14-18 .............................................. 23, p. 131 Efésios 1.3-6,15-18 .... XVIII, p. 43; 24, p. 58; 30, p. 37 1.3-14 ...............III, p. 62; 22, p. 204; 34, p. 75; ........................................................... 39, p. 225 1.3-6,15-18 .................................... XVIII, p. 43 1.15-23 ............................ 41, p. 181; 44, p. 341 1.(16-20a)20b-23 ............ 21, p. 144; 30, p. 138 1.20b-23 ........................................... IX, p. 227 2.1-10 ................................................ 30, p. 265 2.4-10 ...........................XVI, p. 120; 28, p. 128 2.11-22 ............................... X, p. 48; 36, p. 239 2.13-22 .............................................. 22, p. 209 3.1-12 ..................31, p. 30; 35, p. 64; 41, p. 59 3.2-12 ..............................XVI, p. 83; 22, p. 43 3.14-21 ..............................V, p. 212; 33, p. 275 4.1-6 .............................. V, p. 218; XIV, p. 353 4.1-7,11-16 ........................................ 22, p. 215 4.1-16 ................................................ 42, p. 238 4.17-24 .............................................. 22, p. 220 4.20-32 ................................................V, p. 235 4.25-5.2 ............................................. 39, p. 251 4.30-5.2 .......................................... XVI, p. 228 5.1-8a ...............................................XI, p. 205 5.1-9 ......................................................V, p. 46 5.8-14 ............. 24, p. 105; 35, p. 145; 41 p. 118 5.9-14 ............................................... III, p. 100 5.15-20 .........................XVI, p. 233; 36, p. 264 5.15-21 ............................................... V, p. 241 5.21(22-25),26-31 .......................... XVI, p. 236 5.21-31 .............................................. 28, p. 294 6.10-20 .........................XVI, p. 242; 33, p. 300 Filipenses 1.3-11 ............ XI, p. 324; XVII, p. 14; 29, p. 9; ............................................. 34, p. 16; 40, p. 14 1.12-21 ...............................................VII, p. 95 1.20c-27 ............................................ 24, p. 280 1.21-30 .............................................. 44, p. 284 2.1-4 ................................................ VII, p. 173 2.1-5(6-11) ....................................... 21, p. 245 2.1-13 .............................. 35, p. 309; 37, p. 297 2.5-11 ............V, p. 57; XI, p. 216; XVII, p. 97; ......... 25, p. 158; 29, p. 111; 32, p. 59; 39, p. 49 2.12-13 .............................................XV, p. 282 3.4b-14 .............................................. 34, p. 133 3.12-21 ............................ 24, p. 290; 27, p. 251 3.7-11 ................................................XI, p. 291 3.7-14 .................................................V, p. 261 3.8-14 ................................................ 20, p. 102
3.12-16 ....................................... II, p. 20 (187) 3.12-21 .............................................. 27, p. 251 3.17-21 ..............................................XI, p. 330 3.17-4.1 ............................. 20, p. 86; 37, p. 105 3.20-21 .................... I, p. 136, (137); 129,(143) 4.1-9 .................................................. 41, p. 303 4.4-7 .................................... 26, p. 15; 43, p. 23 4.10-20 ..............................................IX, p. 150 Colossenses 1.1-6 .................................................. 26, p. 233 1.11-20 .............................................. 43, p. 346 1.12-20 ............................ 23, p. 229; 37, p. 342 1.15-23 ...................................................I, p. 47 1.15-28 .............................................. 43, p. 243 1.21-28 .............................................. 26, p. 240 1.24-27 ................................................ 42, p. 50 2.3-10 .............................................XIV, p. 140 2.6-15 .............................. 26, p. 250; 40, p. 218 2.12-15 ........................................... XIII, p. 186 3.1-4 ................ III, p. 48; 21, p. 117; 32, p. 127 3.1-11 ................................................ 37, p. 236 3.12-17 ................V, p. 107; 37, p. 42; 43, p. 45 4.2-6 ...............................V, p. 114; XIII, p. 199 1 Tessalonicenses 1.1-5a ............................. 24, p. 294; 27, p. 256 1.5b-10 .............................................. 27, p. 263 1.2-10 ...............................................VII, p. 210 1.1-10 ................................................ 44, p. 307 2.1-8 .............................. 35, p. 329; 348, p. 321 2.8-15 ................................................ 27, p. 277 3.9-13 .................................... 20, p. 15; 37, p. 9 4.1-8 ................................... V, p. 38; XI, p. 315 4.13-14(15-18) .................................. 21, p. 285 4.13-18 ..........21, p. 292; 36, p. 335; 42, p. 313 5.1-8 ..................................................IX, p. 288 5.1-11 ............21, p. 297; 35, p. 357; 38, p. 340 5.12-24 ..............................................IX, p. 274 5.16-24 ................22, p. 19; 33, p. 20; 39, p. 18 2 Tessalonicenses 1.1-4,11-12 ........................................ 43, p. 330 2.1-17 .............................. III, p. 165; 40, p. 316 2.(13-15)16-17;3.1-5 ......................... 29, p. 311 3.1-5 ................................................. IX, p. 252 3.6-13 ................V, p. 97; 29, p. 317; 43, p. 341 1 Timóteo 1.12-17 ....... III, p. 74; XVII, p. 206; 29, p. 265 2.1-4 ....................................... II, p. 169, (336) 2.1-6 .................................................. 38, p. 279 2.1-8 .........XVII, p. 211; 34, p. 314; 35, p. 370; ........................................................... 40, p. 257
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3.16 ................................................ XIV, p. 132 4.4-5 ............................................. XIII, p. 298 6.6-16 ..........................XVII, p. 215; 29, p. 274 6.11b-16 ............................................ IV, p. 255 2 Timóteo 1.3-8(9-12),13-14 .............................. 23, p. 195 2.8-13 .............................. 23, p. 205; 37, p. 296 2.8a(8b-13) ..................................... XV, p. 198 2.8-15 ................................................ 43, p. 301 3.14-4.5 ........................... 34, p. 333; 40, p. 280 Tito 2.11-14 ................. II, p. 263, (430); XI, p. 128; .............................24, p. 34; 35, p. 40; 41, p. 37 3.4-7 .................. IV, p. 280; 20, p. 29; 34, p. 45 Filemom 8-21 ................................................... 29, p. 254 9b-17(18-21) .................................XVII, p. 201 Hebreus 1.1-4(5-12) ......36, p. 35; 39, p. 299; 40, p. 267 1.1-9 ............................................... XVI, p. 70 2.9-11 ...........................XIX, p. 257; 31, p. 274 2.10-18 ............................................ IX, p. 188 3.1-6 .............................................. XIX, p. 262 4.9-16 ...........................XIX, p. 268; 31, p. 281 4.12-13 ..............................................XI, p. 171 4.14-16 ..............................................XI, p. 192 4.14-16; 5.7-9 ....24, p. 133; 34, p. 153; 43, p. 154 5.1-6(7-10) ...................XIX, p. 273; 33, p. 356 5.5-10 ................................................ 42, p. 113 5.7-9 ...........XI, p. 211; XVI, p. 125; 28, p. 134 7.23-28 ............................ 36, p. 322; 42, p. 304 9.11-14 .............................................. 39, p. 322 9.15-17,26b-28 .................................. 20, p. 122 9.15,24-28 ............................................. III, p. 7 9.15,26b-28 .................................... XIII, p. 179 9.24-28 ......................................... XIX, p. 291 10.11-25 ............................................ 39, p. 337 10.16-25 ............................................ 42, p. 130 10.19-25 ..................II, p. 241 (408); IX, p. 119 11.1-2,6,8-10 .....................................IX, p. 178 11.1-3,8-16 ........................................ 20, p. 229 11.1-4 .................................................. 28, p. 39 11.8-10 .............................................XV, p. 160 11.29 – 12.2 ....................................... 43, p. 265 12.1-3 ...............................................XV, p. 178 12.1-13 ............................................. 20, p. 233 12.12-18(19-21),22-25a ...................XV, p. 127 12.18-24 ........20, p. 242; 34, p. 296; 40, p. 242 13.1-8 ................................................ 20, p. 246 13.1-8,15-16 ...................................... 37, p. 262
13.(7)8-9b ...................................... XIV, p. 153 13.12-16 .............................................V, p. 205 Tiago 1.12-18 ........................................... XV, p. 154 1.17-27 ........................... 25, p. 268; 42, p. 258 2.1-13 ........................................... XIII, p. 262 2,1-5,8-10,14-18.............. 25, p. 275; 39, p. 275 2.14-24 ............................................ III, p. 110 3.1-12 ................................................ 36, p. 283 3.13-4.3,7-8a ..................................... 33, p. 327 4.13-17 .............................. IX, p. 34; 29, p. 40 5.1-6 ........XIII, p. 265; XIX, p. 252; 37, p. 160 5.7-8 ................................................. XI, p. 114 5.7-10 ............................................ XVIII, p. 19 5.13-16 .............................................VII, p. 220 5.13-20 ............................ 36, p. 295; 42, p. 277 1 Pedro 1.(1-17)18-21 ............................... XIII, p. 152 1.17-21 .............................................. 30, p. 118 1.17-22 .... XVIII, p. 129; 35, p. 182; 41, p. 158 1.3-9 .........III, p. 22; XI, p. 221; XVIII, p. 125; ........................................................... 30, p. 114 2.1-10 ..... I, p. 55, p. 61; XV, p. 254; 32, p. 149 2.4-10 ........................ XVIII, p. 138; 30, p. 128 2.13-17 ....................................... I, p. 102 (109) 2.15-17 .............................................. VI, p. 13 2.18-25 .............................................. 30, p. 122 2.19-25 ...................................... XVIII, p. 133 2.21b-25 ............................. V, p. 91; XI, p. 229 3.8-17 ................................................. V, p. 156 3.13-22 ............................ 38, p. 188; 44, p. 173 3.15-18 ..................... XVIII, p. 146; 24, p. 165 3.18-22 .............................. 36, p. 116; 42, p. 92 4.7-11 ................................................ V, p. 120 4.13-19 ...................................... XVIII, p. 152 5.1-5 .................................................... III, p. 27 5.5b-11 ............................. V, p. 144; XI, p. 307 2 Pedro 1.3-11 .............................................. III, p. 145 1.16-19(20-21) ................................. IX, p. 165 1.16-21 .............24, p. 95; 27, p. 65; 38, p. 108; ............................................................. 44, p. 91 3.8-14 ........ XVII, p. 237; 23, p. 218; 25, p. 23; ............................................................. 36, p. 14 1 João 1.(1-4)5 – 2.2................... 22, p. 124; 36, p. 157 1.5-10; 2.1-6 ................. XIII, p. 216; 36, p. 181 2.21-25 ...............................................VII, p. 30 3.1-3 .................................................. VII, p. 21 3.1-7 .................................................. 33, p. 191
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3.13-18 ............................................... IX, p. 57 3.16-24 .............................................. 42, p. 153 3.18-24 ........................... III, p. 159; 22, p. 130 4.1-6 .................................................. IX, p. 72 4.1-11 ................................................ 22, p. 135 4.11-16 .............................................. 31, p. 165 4.7-12 .............................................. XI, p. 299 4.7-16 ................................................ V, p. 196 4.(7-16a)16b-21 .............. 22, p. 149; 39, p. 159 4.16b-21 ............................................ V, p. 135 5.1-5 ................................... V, p. 84; XI, p. 235 5.1-6 ................................................ 22, p. 118 5.9-13 ................................................ 42, p. 175 5.11-13 ............................................. XI, p. 138 Apocalipse 1.4-8 ........ VII, p. 131; XIII, p. 204; 34, p. 169; ........................................................... 42, p. 334 1.9-18 ............................VII, p. 65; XIII, p. 133 1.9-20 ................................................ 26, p. 145 2.8-11 ..........................VII, p. 228; XIII, p. 275 1.9-20 .................................................. 23, p. 84 3.1-6 .... IX, p. 127; IX, p. 135; XV, p. 89, p. 95
3.7-13 ....................... II, p. 248 (416); 36, p. 42 3.14-22 ........................................... XIII, p. 304 4.1-11 .......................................... I, p. 144(151) 5.1-14 ...................................................VII, p. 7 5.11-14 ...........23, p. 90; 26, p. 150; 37, p. 144; ........................................................... 43, p. 172 7.9-12 .......................................... XVII, p. 230 7.9-17 .......... III, p. 182; XIII, p. 110; 23, p. 94; ......................................... 26, p. 159; 43, p. 178 12.1-6 ................................................. 23, p. 26 12.7-12 ............................................ 21, p. 241 14.6-7 ................................................ V, p. 249 15.2-4 ............................................. XV, p. 218 19.11-16 .......................................... III, p. 195 21.1-5 ..............26, p. 170; 37, p. 155; 38, p. 52 21.1-6 ................................................ 43, p. 183 21.10-14,22-23 .................................. 26, p. 176 21.10,22 – 22.5.................................. 34, p. 195 22.10-16 ............................................... X, p. 11 22.12-14,16-17,20-21........................ 43, p. 205 22.12-17,20 ........................................ 23, p. 99
Observação: Os números das páginas relativas aos volumes I e II referem-se à edição desses dois volumes num só tomo; os números do volume III referem-se à 2ª edição de 1981.
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COLABORADORES E COLABORADORAS DO VOLUME 44 ABENTROTH, Anelise L. ACKER, Gerson ADAM, Júlio Cézar ALBRECHT, Astor ALTMANN, Walter BALDUS, Dione Carla BATISTA, Roberto Natal BECKER, Nádia Cristina Engler BEZERRA DE SOUZA, Carolina BLASI, Márcia BRAKEMEIER, Gottfried BRAUN, Odair BROSOWSKI, Ricardo DOEHL, Elke GAEDE, Leonídio GAEDE NETO, Rodolfo GARCIA, Paulo Roberto GARIN, Norberto da Cunha GIESE, Nilton GONÇALVES, Humberto Maiztegui FANZLAU, Sandra Helena GRAF, Geraldo IMMICH, Vera M. JUNG, Marcelo KILPP, Nelson KOWALSKA PRELICZ, José M. KONZEN, Léo Zeno KUNZ, Claiton André KUNZ, Marivete Z. KÜNTZER, Renato KUPKA, Cláudio LACERDA, Gerson Correia de MARTIN, André L. MEURER, Evandro J. OLIVEIRA, Antonio Carlos OLIVEIRA, Jorge Batista Dietrich de RAMOS, Luiz C. RIECK, Kurt
anelisevilmar@gmail.com gersonacker@yahoo.com.br juliocezar@est.edu.br albrechtastor@gmail.com walteraltmann@msn.com dionebaldus@yahoo.com.br roberto2017@hotmail.com nanaengler@yahoo.com.br carolbsouza@gmail.com retalhos13@hotmail.com brakemeier@terra.com.br psinodal@sinodoparanapanema.com.br brosowski_ric@yahoo.com.br elke.68@hotmail.com leonidiogaede@hotmail.com rodolfo@est.edu.br paulo.garcia@metodista.br norberto-garin@hotmail.com giese1959@gmail.com humbertox@uol.com.br sandrafa@luteranos.com.br g.graf@uol.com.br veraodair@gmail.com ma2jung@hotmail.com nkilpp@uol.com.br pastorkowalska@luteranos.com.br leokonzen@urisan.tche.br claiton@batistapioneira.edu.br marivete@terra.com.br renato.kuntzer@luanett.com.br claudio@paroquiamatriz.org.br gersonlacerda@gmail.com anlumartin@gmail.com evandromeu@gmail.com antonio.ieclb@gmail.com jorge.dietrich@hotmail.com luiz.ramos@textoetextura.com.br kurtrieck@gmail.com
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RODRIGUES, Marcos A. SANTANA FILHO, Manoel B. de SCHELL, Vítor Hugo SCHERER, Cristina SCHMITT, Flávio SCHWANZ, Luiz Temóteo SEIBERT, Erní Walter SELL, Wilhelm STANGE, Klaus A. STAUDER, Eduardo Paulo TREIN, Hans A. ULRICH, Claudete Beise VOIGT, Emilio WANKE, Roger Marcel WEBER, Eloir Enio WEGNER, Uwe WITT, Osmar WITTER, Teobaldo ZWETSCH, Roberto E.
marcos65br@gmail.com m.bernardinofilho@gmail.com vhschell@gmail.com crisitati@yahoo.com.br flavio@est.edu.br luizimmeister@gmail.com erni@sbb.org.br wilhelmsell@gmail.com k.stange@flt.edu.br eduardostauder@luteranos.com.br hansatrein@gmail.com claudetebeiseulrich@hotmail.com emilio.voigt@terra.com.br roger.wanke@fl t.edu.br eloir@sinodal.com.br uweest@yahoo.com.br arqhist@est.edu.br twitter@terra.com.br rezwetsch@gmail.com
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