CAPA (A SER CRIADA)
CARTA ABERTA
2 CARTA ABERTA 3 MOSAICO SINODAL 8 NOSSA CAPA 8 12
Amaldiçoados da cidade Mundo louco versus
igreja que traz vida
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Ser luterano na cidade
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Charge
19 IECLB NO SUDESTE 22 PROJETO 24 HISTÓRIA 26 MEDITAÇÃO 27 MULHER
EXPEDIENTE
PRESENÇA LUTERANA: Revista trimestral do Sínodo Sudeste da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil-IECLB. Diretor: Almiro Wilbert Coordenador: Guilherme Lieven Edição: Mythos Comunicação (47) 3340-8081 Diagramação: Clovis Horst Lindner Conselho Editorial: Rolf Schünemann, Geraldo Graf, Jose Manuel Kowalska Prelicz, Guilherme Lieven, Manfredo Leffler, Almiro Wilbert, Maria Cristina Faber Boog. Endereço para assinaturas e correspondência: Sínodo Sudeste – IECLB Rua Barão de Itapetininga, 255 Cj. 510 01042-000, São Paulo-SP E-mail: sinodosudeste@luteranos.com.br Telefones: 11 3257 8418 – 11 3257 8162 (fax) COLABORADORES DESTA EDIÇÃO: Adelia Lemke Graf, Elton Potin, Edson Ponick, Ernani Roepke, Geraldo Graf, Guilherme Lieven, Helio Ambrust Jr., Hermann Wille, Jose Alencar Lhulhier, Leandro Luis da Silva, Luis Guilherme, Luís H. Dreher, Nestor Paulo Friedrich, Pedro Puentes Reyes, Renatus Porath, Rolf Schünemann e Wolfgang Lauer.
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presença luterana
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SUMÁRIO
Guilherme Lieven é pastor sinodal do Sínodo Sudeste da IECLB
ESTÁ EM NOSSA AGENDA o desafio de responder a pergunta pelo sentido da existência humana. A comunidade cristã viva nas cidades, em ambientes enormes de grandes aglomerações e quase sempre confusos, é chamada a facilitar a aproximação entre as pes soas, sedentas de sentido de vida, e a presença generosa, dinâmica e libertadora de Deus; a ajudar a compreender e sistematizar a relação e o diálogo salvador entre o mundo e o trino Deus. Presença Luterana reúne reflexões e informações sobre os desafios das comunidades cristãs que não fogem do “mundo”, da realidade de cruz. Mas nele, em extrema fragilidade, se colocam como espaços para o exercício profético de revelar a vida nova em meio a dor, perdas, violência, injustiça e exploração, facilitando recomeços e lançando sinais da ação transformadora de Deus. Sem grandes pretensões, a presente edição acrescenta alguns pedacinhos como respostas e estruturas da linguagem da fé no quotidiano, no mosaico da comunidade viva. A capa destaca dois aspectos da cidade do Rio de Janeiro, relacionados ao tema principal: Ser luterano na cidade. Ao fundo, o mosaico na Escadaria do Convento de Santa Teresa, na Lapa, do artista Jorge Selarón, conhecida também como Escadaria Selarón. No primeiro plano, uma criança fragilizada e ameaçada, vítima de balas sem rumo, disparadas por mãos violentas e perdidas, separada da arte que revela o esforço de recriar e preservar a beleza, espaço de cores e luzes, traços da vida sempre acolhida pela misericor diosa presença de Deus. Neste contexto vivo e simultaneamente violentado pelas forças da morte, instala-se o chamado para sermos Igreja viva. Registra-se com louvor que essa edição da Presença Luterana é distribuída na XVI Assembleia Sinodal do Sínodo Sudeste – IECLB. Em Teófilo Otoni/MG, lideranças e ministros com ordenação das Comunidades luteranas do sudeste brasileiro se reúnem para reiterar compromissos, que já completaram15 anos de “Caminhar Juntos” com a vocação de servir e participar na missão transformadora de Deus no mundo. Assim, pela graça, participa da celebração de as pectos da história dos mais de 150 anos da presença de luteranos no nordeste de Minas Gerais. guilherme.lieven@luteranos.com.br
MOSAICO SINODAL
palavra do pastor presidente
o templo e o prédio da igreja em Ipanema foram pensados como espaço de encontro entre a fé e as obras. O Centro Social e Creche Bom Samaritano tem aberto espaço para 100 crianças e suas famílias, das comunidades do Cantagalo, Pavão e Pavãozinho. Assim, durante mais de 40 anos a paróquia concretizou o testemunho do evangelho, no qual “Deus não faz acepção de pessoas” (At 10.34). Entretanto, esse trabalho não pode ser realizado sem parcerias. A sustentação financeira do projeto acontece a partir de um círculo de amigos na Alemanha, além de convênios e apadrinhamentos locais. Entre os dias 21 de maio e 7 de junho, membros da parceria de 25 anos do “Dekanat Shweinfurt” estarão no Brasil. A gratidão para com eles é imensa, já que em abril de 1994 sua contribuição permitiu a aquisição de um imóvel anexo ao edifício da Paróquia, o que possibilitou a ampliação do espaço para o Centro Social e a Creche Bom Samaritano. Mas nossa parceria não se reduz a ajuda financeira. Ela busca partilhar a riqueza de experiências advindas do trabalho comunitário. Por isso, junto com as Paróquias Martin Luther-Centro, Esperança-Niterói e Ilha do Governador-Norte, haverá um intercâmbio com as representantes do “Dekanat Shweinfurt” Grit Plößel, Sonja Fischer, Astrid Wilde e Christhild Grafe. Vamos conversar sobre trabalho com crianças, jovens e idosos, dinâmica de comunidade, diaconia, missão, inclusão e análise da conjuntura da cidade do Rio de Janeiro. No domingo 27 de maio haverá um culto festivo pelos 25 anos de parceria na Paróquia Martin Luther. No sábado 2 de junho haverá música brasileira com o grupo de chorinho de Lélia Brasil em Ipanema.
Dr. Nestor Paulo Friedrich é pastor presidente da IECLB
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parceria de 25 anos com a igreja alemã de schweinfurt
Em Atos dos Apóstolos capítulo 1, versículo 8, lemos: “... serão minhas testemunhas..! Nestes últimos meses, tenho viajado bastante: participei de cultos de ordenação, encontros com Ministros e Ministras, reuniões com Pastores Sinodais, Assembleias Sinodais, reuniões com lideranças, encontro com empresários, com senhoras da OASE, Fórum da Mulher Luterana, LELUT, encontros e acampamento de jovens, cultos e celebrações de 90, 100, 150 anos de vida comunitária e de construção de templos. Estas viagens me proporcionaram uma visão muito interessante da IECLB. Sou categórico: há muita coisa bonita acontecendo nas nossas Comunidades! Em muitos momentos, perguntei para as pessoas com as quais estava reunido por que não divulgavam o seu trabalho? Por que não compartilhavam a experiência que estavam fazendo? Por que não usavam o jornal e o Portal da IECLB para testemunhar as bênçãos, as alegrias, o crescimento, a diferença que o viver a fé em Cristo na sua Comunidade, no seu grupo, estava lhes proporcionando?! Por que não divulgavam as ações diaconais, de ajuda, a preocupação com o meio ambiente, com as drogas, com a formação na fé, com a vida familiar, matrimonial? Afinal, este testemunho não faria diferença na vida de outras pessoas? É claro que faria e fará! O que dizer da Rede de Oração, o compartilhar de situações de doença, sofrimentos, preocupações, vitórias, o testemunho solidário, a palavra amiga, o apoio em momentos de fragilidade, doença, luto, perdas? Não nos sentimos muito mais próximos com esse compartilhar? Fortalecidos? Apoiados? Amparadas? Este testemunho faz diferença em nossas vidas? É claro que faz! Uma Igreja que testemunha, que fala sobre o agir de Deus e corresponde aos valores do seu Reino é uma Igreja que faz história e tem uma história! Igreja assim não deixará de convidar outras pessoas, não deixará de falar, de compartilhar, de testemunhar! Fazer história é muito mais do que apenas recontar um fato do passado ou narrar algo de forma imparcial, descompromissada, indiferente. Fazer história é permitir que Deus atue em nossas vidas através do Espírito Santo e nos ajude a vencer a timidez, a aperfeiçoar os dons que nos concede, a termos a coragem para arriscar mais. Trata-se de andar no Espírito, em oposição ao que é velho e não edifica a Igreja (Gl 5.16-17,22-23). Os primeiros cristãos e as primeiras cristãs foram testemunhas, isto é, pessoas que viveram intensamente a sua fé – em palavras, gestos, oração, comunhão, firmeza, vigor e paciência! A fé em Cristo lhes abriu um novo horizonte, lhes deu novas perspectivas, superou o medo, a desesperança, a morte e deu coragem, esperança e uma nova perspectiva de vida. Enfim, marcou os seus corações e a sua fé! Vamos arriscar mais?
presença luterana
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MOSAICO SINODAL
através da Instituição Beneficente Martim Lutero (IBML), a Comunidade Evangélica de Confissão Lu terana em Belo Horizonte realiza um intenso trabalho diaconal. Além desta diaconia institucionalizada, a Comunidade também pratica a diaconia comunitária através do Grupo Solidariedade. Este grupo é formado por várias mulheres voluntárias. Funciona assim: Membros e não membros doam roupas e objetos usados. Todas as sextas-feiras, o Grupo Solidariedade faz um bazar de usados, cobrando preços simbólicos. A procura é grande. O dinheiro arrecadado é revertido em cestas básicas e doações para famílias necessitadas. Para tanto, o grupo mantém um cadastro de famílias que precisam de auxílio. Além disso, o Grupo Solidariedade ajuda a cobrir despesas de combustível para o trabalho de visitação da Comunidade e colabora quando há necessidade de reformas no templo.
Geraldo Graf
DIACONIA COMUNITÁRIA
Claudia Knop
UM LOCAL PERSONALIZADO
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presença luterana
Desde o ano passado a Comunidade Evangé lica de Confissão Luterana em Juiz de Fora tem um grupo chamado Conexão GA. É um grupo de adolescentes liderados por membros do Gru po de Jovens da Comunidade sob a supervisão da Missionária Silvia Weingartner Lhulhier. A cada encontro, os adolescentes são desafiados a refletir sobre questões do cotidiano como ecologia, saúde, vocação, à luz da confessiona lidade luterana. Cada reflexão acontece a partir de uma atividade prática seguida por esportes e integração. Nos meses de abril e maio, com a devida autorização do Presbitério o grupo está pintando a sala onde acontecem suas reuniões, com temas artísticos característicos do público jovem, bem como, lixando e pintando alguns móveis de madeira.
O Projeto de Restauração do templo luterano de São Paulo começou em abril de 2011. Além do seu estilo neogótico, a Igreja Martin Luther possui um órgão alemão Walcker inaugurado em 1909 e vitrais de excelente qualidade artística, dois deles da famosa oficina Casa Conrado, de Conrado Sorgenicht, o mesmo vitralista do Mercado e do Teatro Municipal. O templo possui o mais antigo dos 600 trabalhos da Casa Conrado catalogados no Brasil, uma rosácea de 1908. No dia 31 de março de 2012 a primeira parte da obra do restauro foi finalizada. A fachada da igreja está pronta. No primeiro dia de abril um concerto do Coral Exultate celebrou a finalização dessa parte da obra. Um terço dos recursos para o restauro já foram captados com base na Lei Rouanet de Incentivo à Cultura. A comunidade mantém a campanha de captação dos 65% de recursos faltantes.
Stella Hawrrott
a comunidade Evangélica de Confissão Luterana de Friburgo, Paróquia de Indaiatuba-SP, iniciou suas atividades com o culto celebrado pelo P. Johann Jacob Zink, em 26 de março de 1880, na casa do sr. Karl Wel lendorf. Durante muitos anos, os cultos foram celebrados no prédio da Sociedade Escolar do Bairro Friburgo e nas casas dos membros. Em junho de 1933 foi lançada a pedra fundamental do templo, em terreno cedido pela Sociedade Escolar. Com a cooperação dos membros, em abril de 1934 o templo foi inaugurado. Os membros são assíduos aos cultos, estudos bíblicos e programações da Comunidade. Trata-se de uma grande família que trabalha unida para sua manutenção e pela sua fé evangélico-luterana. No dia 15 de abril de 2012 comemoramos 78 anos de inauguração de nosso templo, com um culto festivo, às 10h45min, celebrado pelo P. Astor Albrecht. Muito nos alegrou a participação do Co ral Jubilate da Comunidade de Indaiatuba. Confessamos que “até aqui nos ajudou o Senhor” (1Sm 7.12), e assim continuamos com a sua ajuda. Somos gratos a Deus por tudo que tem feito por nós e pelos pastores que aqui atuaram. (Hedio Ambrust Jr - Presidente).
EXTERIOR ESTÁ PRONTO
Débora Ludwig
TEMPLO TEM 78 ANOS EM FRIBURGO
templo luterano em São Paulo
presença luterana
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MOSAICO SINODAL
CRAMI NAS SALAS DO CULTO INFANTIL o presbitério da Comunidade de Campinas colocou as salas do Culto Infantil à disposição do CRAMI - Centro Regio nal de Atenção aos Maus Tratos à Infância, para o atendimento às famílias onde houve violência contra a criança durante os dias da semana. As salas, utilizadas normalmente apenas aos domingos, viram local de atendimento para as duplas “psicosociais” (psicóloga + assistente social) às famílias atendidas pelo CRAMI que têm dificuldade de acesso à sede, localizada distante do centro da cidade. O CRAMI é uma ONG que trata das questões de violência doméstica contra a criança e adolescente, que atua nesta área desde sua fundação em 4 de julho de 1985. De lá para cá já deu
atendimento a mais de 16.000 casos. Atualmente o CRAMI conta com nove duplas “psico-sociais”, duas delas para atender os casos de violência geral (espancamento, cárcere privado, negligên cia) e sete duplas voltadas à questão da violência sexual doméstica. Ao todo 270 famílias com mais de 800 crianças são alcançadas por esse trabalho só em Campinas. Com esta parceria a Comunidade de Campi nas presta um relevante serviço à cidade, sendo este mais um segmento de sua ação diaconal. Como escreveu Lutero, “Fé e amor perfazem a natureza e identidade do cristão. A fé recebe, o amor dá; a fé leva a pessoa a Deus, o amor a aproxima das demais. Através da fé ela aceita os benefícios de Deus, através do amor ela beneficia seus semelhantes.” (Dines Schäffer, presbítero e presidente do CRAMI) mulher na igreja
HISTÓRICO DA OASE DE BELO HORIZONTE
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“Maravilhas são ações ou fatos bons que nos causam profunda admiração e suscitam sentimentos de gratidão”. Sendo assim, os membros do grupo de OASE de Belo Horizonte se sentem maravilhados pelos 60 anos de trabalho e dedicação prestados à comunidade. Desde 1952, um grupo de 5 mulheres se reunia regularmente numa sala do consulado alemão: Senhora MeyerLabastille, Ilse Jung, Dora Darmstätter, Hedwig Kux e Else Möhl. Elas sabiam das dificuldades financeiras de algumas famílias e, assim, com a venda de trabalhos manuais, levantavam fundos para auxiliar as mesmas. Em 20 de março de 1957, a Assembleia da comunidade formalizou a existência desse grupo como um grupo de Senhoras Evangélicas da Comunidade, que recebeu o nome de Evangelische Frauenverein Belo Horizonte (Organização de Senhoras Evangélicas de Belo Horizonte). Na época, já eram 12 senhoras, que se reuniam na Sociedade Cultural Teuto-
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Brasileira. Posteriormente, já com 32 senhoras, passaram a se reunir regularmente na residência da Sra Christiansen. Através de campanhas o Grupo de Senhoras ajudou na construção do Hospital Evangélico, adquiriu um harmônio para a comunidade e participou ativamente da construção da Igreja da Paz, além de continuar ajudando a famílias carentes. Os anos passaram. As coisas mudaram. Mas a OASE continua firme. O grupo se reúne todas as quartas-feiras, impulsionado para a comunhão, o testemunho e o serviço. Há sempre um tema bíblico ou outro tema de interesse para reflexão. Às vezes são feitas visitas a pessoas que têm dificuldades de participar com frequência da OASE e dos Cultos. Em média duas vezes ao ano o grupo faz passeios. Quanto ao serviço, além de ajudar na comunidade e nas visitas, as participantes estão organizando enxovais de bebê para doar a mães carentes. Esta tem sido a vocação da OASE BH nos seus 60 anos de existência. E muito nos alegra saber que a OASE é atualmente o maior grupo organizado de mulheres na América Latina e existe há mais de um século. Colocamos todas as nossas atividades, grandes e pequenas, como um carinhoso agradecimento a Deus pela bondade com que Ele nos acolhe a cada dia de nossas vidas. (Adelia Lemke Graf)
Chegou a edição nº 39 da revista O Amigo das Crianças, um veículo para promover a missão de Deus entre as crianças. O periódico é coordenado pela equipe da Secretaria de Formação da IECLB e publicado pela Editora Sinodal. Todo o seu planejamento e elaboração têm como base o Plano de Educação Cristã Contínua da IECLB (PECC). Nesta edição há belas histórias bíblicas, atividades e um tema muito atual: o contato entre as pessoas e as redes de amizades que podem se desenvolver através do contato pessoal e também virtual. Claro, sem esquecer o cuidado e a atenção que tais contatos requerem. Neste ano a revista completa 75 anos de existência. Ela acompanhou crianças de diferentes gerações em sua educação na fé. Hoje, o antigo jornalzinho virou uma revista bimensal. São 20 páginas coloridas, ilustradas e preparadas para que a criança aprenda brincando, criando e convivendo com outras pessoas. Divulgue esta bonita maneira de fazer chegar a Palavra de Deus até as crianças das paróquias e comunidades da IECLB! Valor da assinatura anual: R$ 27,00. Contato pelo e-mail amigodascriancas@editora sinodal.com.br ou ligue (51) 3037-2366.
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75 ANOS DE AMIZADE
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JESUS E AS CRIANÇAS EM CANTAREIRA
o tema do ano da IECLB “Comunidade jovem – Igreja viva”já ocupa Cantareira desde o início da missão que Deus lhe confiou na zona norte de São Paulo. Jesus dá a tarefa à comunidade de ca minhar com os pais dos batizados no ensino da mensagem bíblica, que chama a criança para a vivência da fé, incentivando-a a confiar, crer, amar e colocar seus dons a serviço. Conscientes dessa missão, são desenvolvidas muitas atividades com crianças na comunidade. Além do culto das crianças, há a Semana de Férias em julho, o Caminho ao Presépio em dezembro, inicialização musical com crianças de 2 a 6 anos, grupo de flautas e violão com crianças de 7 a 12 anos, distribuição gratuita da revista “O Amigo das Crianças” e divertidas noites do pijama. As crianças esperam a noite do pijama com grande ansiedade e alegria. É um trabalho que tem crescido e trazido belos frutos. O encontro inicia às 19h do sábado com canto, oração, brincadeiras, gincana bíblica e a famosa caça ao tesouro bíblico. Um momento marcante é o preparo do culto com as crianças, para envolvê-las na liturgia do culto. A noite termina com a sessão cinema e pipoca. Na manhã seguinte, as crianças ajudam no preparo do café com participação da comunidade e seguem os últimos preparativos para o culto, o momento que coroa o encontro. Deus vem celebrar conosco e nos envolver numa celebração mais dinâmica, lúdica e espontânea. Todas as noites do pijama têm sido uma imensa bênção para a vivência da fé na comunidade. Ao ensinar a dar os primeiros passos na fé, a comunidade é também ensinada pelas crianças a revisar atitudes. É convidada a não engessar a vida de fé, mas a deixar o Espírito soprar livremente através dos dons e gestos dos pequeninos.
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NOSSA CAPA
“Amaldiçoados da cidade” A comunidade cristã está naturalmente envolvida no exercício de cidadania nos problemas da grande cidade, e é chamada a envolver-se nos diferentes níveis de busca de soluções diaconais, contribuindo com competências profissionais e serviços voluntários de seus membros. A prática do amor que nasce da fé deverá permear toda a ação social, política e produtiva dos membros da comunidade cristã. Projetos da diaconia da Igreja devem permanecer em diálogo constante com o processo maior de pensar e construir cidade a partir dos seus cidadãos mais injustiçados. Dr. Renatus Porath é pastor voluntário e professor do Centro Bíblico Verbo, em São Paulo/SP
no intenso agito de uma cidade grande como São Paulo, em pouquíssimo tempo se conhece os verdadeiros perdedores da metrópole. Na parada obrigatória junto ao se máforo (sinal), os ocupantes do veículo têm um recorte das contradições que marcam a maior cidade do hemisfério sul. Meninos e meninas a caminho da adolescência entram em cena atropelando-se mutuamente para limpar o parabrisa de algum carro que parou em troca de uns poucos centavos. A cena se repete em inúmeros cruzamentos, e diversas posturas vão se cristalizando diante desse cenário, no qual motoristas e passageiros passam a atuar também. Sempre há motoristas dispostos a entregar alguma moeda para desencargo de consciência. Muitos de nós já nos tornamos insensíveis diante dessa situação quase insolúvel. Ainda outros se negam a contribuir para a cultura da mendicância,
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acreditando que algum programa social da cidade ou uma das muitas ONG’s se encarregue de proteger esses cidadãos em situação de risco. A contradição da cena fica ainda mais complexa quando adultos parados na esquina recolhem o dinheiro que as crianças acabaram de ganhar. Um estudo do cientista social Luis Eduardo Soares cha mou essas meninas e esses meninos de “os amaldiçoados da cidade”. Mesmo quando programas sociais as abrigam em casas especiais procurando dar uma resposta institucional, o insucesso dessas iniciativas, vendo as crianças retorna rem à rua na primeira oportunidade é flagrante. Deve-se isso ao fato de que o anonimato na casa-abrigo não dá conta de uma necessidade maior de todo ser humano: a visibilidade. A estrutura psíquica requer visibilidade para todo ser humano. Apesar de todos os riscos e de abuso de
almejada poderá vir pela manchete nos meios de comunicação que faz referência à ação criminosa, ou pela via negativa por parte da autoridade policial que deteve a “pessoinha” infratora. Garantir visibilidade a esses pe quenos cidadãos que correm toda espécie de riscos – os meninos e as meninas – tem a ver com o sentido do convívio humano nesses aglo merados urbanos que chamamos de cidade. Somente uma força tarefa poderá planejar um processo urbano que dê conta desse enorme desafio a partir destes “amaldiçoados da cidade”. Deverão compor essa frente de trabalho: representantes dos mais diferentes setores da administração da coisa pública, agentes da pesquisa
e das ações relacionadas à vida em comum na cidade, especialmente lideranças das comunidades dos empobrecidos, somadas às vozes dos setores produtivos e seu mercado. A comunidade cristã estará natu ralmente envolvida nesse exercício de cidadania nos diferentes níveis contribuindo com competências profissionais e serviços voluntários de seus membros. Ela não precisa necessariamente desenvolver o exer cício de uma cidadania cristã para marcar presença na luta pelos direitos dos mais ameaçados e na construção de relações igualitárias. A prática do amor que nasce da fé deverá permear toda ação social, política e produtiva dos membros da comunidade cristã. Projetos da diaconia da Igreja deverão
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toda ordem a que estão expostos, na rua essas crianças ainda encontram identidade no seu grupo, mesmo conferindo-lhe um apelido jocoso. Segundo esse estudo do cientista so cial, a forma mais eficaz de devolver a visibilidade que a sociedade negou às suas crianças carentes é uma arma em punho, quer seja ela uma faca ou outro objeto cortante ou uma pistola. Não há como não tomar conhecimen to de alguém que assim nos aborda; temos que levá-lo a sério. Conforme a situação, entregamos a essa pessoa em plena adolescência os poucos pertences de valor que portamos para não perder a vida. Para quem desde o berço não experimentou respeito à sua frágil vida, não custa muito tirar a vida de outrem. A visibilidade tão
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permanecer em diálogo constante com esse processo maior de pensar e construir cidade a partir dos seus cidadãos mais injustiçados. A comunidade de Jesus Cristo é convidada a nutrir sua fé que se materializa na prática do amor (Gl 5,6b) com a Palavra de Deus. Espe cialmente para entender-se como corpo de Cristo inserido no corpo social chamado cidade, ela terá que ouvir o testemunho bíblico de quem viveu os desafios da cidade. mantidas as devidas propor ções, a cidade na era pós-industrial ainda tem estruturas em comum com a realidade urbana de outros tempos e espaços. A cidade dos tempos bíbli cos e os grandes centros urbanos dos impérios no contexto dos escritos do Antigo e Novo Testamento suscita ram experiências similares às nossas no que diz respeito a dor, violência, injustiça, desigualdade, exclusão e, finalmente, no que tange a explora ção e o empobrecimento sob o jugo de impérios que estavam de plantão. Há analogias entre as experiências de então e aquilo que vivenciamos numa realidade tão contraditória e adversa como é ser cidadão numa metrópole brasileira. A busca por sentido diante de dor e violência, injustiça e desi gualdade, responsabilidade e culpa, exploração e empobrecimento tem situações análogas, lá e cá, tanto na formulação de perguntas quanto na elaboração de respostas. O indivíduo do mundo bíblico com seus dramas e suas angústias, com suas alegrias e esperanças en contra equivalências na realidade da pessoa e da comunidade que lê esses testemunhos. É claro, outros tantos
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desafios não encontram equivalên cias no texto bíblico, porque são bem próprios de nosso tempo e da nossa realidade e, sejamos sinceros, são becos sem saída construídos por nós de forma tão irresponsável. Pensemos só no dilema ecológico em que nós nos metemos, e que exige respostas e ações ousadas da nossa e das próximas gerações. Também a forma como o Antigo Testamento, em especial, lida com as grandes estruturas políticas, sociais e econômicas de seu tempo impressio na qualquer leitor atento. A grande política internacional interessa às comunidades que estão por detrás destes textos. O Egito e todo o seu po derio bélico são avaliados pela crítica profética com uma soberania inusita da; com uma sobriedade trata essas realidades como passíveis de crítica, sugerindo até insubmissão quando a potência do Nilo desfila seu poderio como intocável qual grandeza divina. Esperar ajuda de uma potência polí tica como se fosse um Deus, como se fosse detentor do espírito divino é uma postura idólatra inaceitável; para o profeta e sua comunidade, é negação de Deus na prática política e, portanto, é algo condenável que está sob o interdito da Palavra de Deus (Is 31,1ss). Talvez devamos aprender a fazer teologia política com os profetas e seus simpatizantes no AT. A comunidade cristã precisa redescobrir essa liberdade que nasce de sua fé para lidar com as estruturas de seu tempo que geram um convívio desigual na sociedade. Uma estrutura agrária, por exemplo, que gera um acúmulo de terras nas mãos de uns poucos e só favorece o agronegócio, reduzindo ex-proprietários em mão de obra barata e forçando outros
tantos ao êxodo rural, no mínimo, precisa ser submetida a uma avalia ção sóbria de uma comunidade que confessa que terra é criação de Deus para usufruto de todos os seres vivos (Is 5,8-10; Mq 2,1-3). Terra não pode ser absolutizada e tornada intocável, uma vez transformada em proprieda de privada; ela continua com função social e deverá oferecer sustento para toda a biodiversidade. Os desmandos dos impérios que destroem povos inteiros, roubam as suas riquezas e submetem seus poucos sobreviventes a exílio e con dições indignas de vida é desmas carada especialmente na literatura profética (Is 10,5-15; Naum 3,1-7; Habacuque 2,6-19). A gente se surpreende que essas grandes estruturas internacionais estão na agenda de profetas e co munidades que, durante séculos, alimentaram a sua fé com esses textos para sobreviver nas mais di ferentes crises. É na cidade, no entanto, que o profeta forja seus instrumentos de análise desta realidade maior. Ele aprende primeiro a ser profeta na cidade para depois fazer sua crítica dura contra o império opressor de seu tempo. O profeta urbano Isaías se volta primeiro contra a Jerusalém de seu tempo, chegando a entoar um cântico fúnebre sobre ela (Is 1,2123). Uma doença mortal a acometeu, seu corpo social estava infectado de um vírus que leva o profeta a exercer a função de carpideira, chorando a morte de uma pessoa querida. A cidade de Jerusalém do sé culo VIII a.C. perdera a sua razão de existir. As estruturas da cidade estavam todas intactas, nenhuma invasão estrangeira à vista, amea
da doença. Os moradores da cidade não se mobilizaram quando grupos poderosos se apropriaram dos recur sos materiais destinados a meninos e meninas, órfãos de pai e mãe. Não houve quem se organizasse para de ter o roubo do direito das mulheres abandonadas à própria sorte. O agir que sustenta vida comunitária não aconteceu. Em vez do agir em favor do concidadão órfão e da concidadã viúva, os moradores da cidade deram espaço para o seu oposto, o agir contra os segmentos mais despro tegidos da cidade. Com isso a razão de existir da cidade foi perdida (Is 1,24s). Aquela cidade pôs tudo a per der; esta que fora presenteada com a justiça salvadora de Deus, esse agir benfeitor que concede vida plena em todas as suas ruelas e seus becos. Deus elegera a cidade como lugar de sua moradia (Is 48) garantindo sua presença que faz bem para todos os moradores, e ela foi transformada
no seu oposto (Is 1,21). Toda essa dedicação carinhosa de Deus deveria resultar numa dedicação igual entre todos os moradores nas suas mais diferentes relações. Se a justiça de Deus é seu agir em favor daquela que elegera como sua parceira na terra, a Jerusalém do tempo de Isaías, como é possível seus cidadãos não expres sarem a sua gratidão com gestos ou sados de amor em relação aos mais ameaçados nas ruelas e becos? A fé que recebe os benefícios da presença salvadora de Deus nos torna livres e gratos para traduzi-la em ações de amor corajoso e solidário. Lutero o formula assim: “A fé recebe, o amor dá; a fé leva a pessoa a Deus, o amor a aproxima das demais. Através da fé ela aceita os benefícios de Deus, através do amor ela beneficia seus semelhantes.”
renatus.porath@gmail.com
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çando seus portões. O templo com seus sacerdotes e cantores cuidavam do culto a seu Deus; o palácio com o governante e seus conselheiros negociavam tratados com os vizi nhos e fechavam acordos com a liderança do interior do estado. A cidade, capital do estado de Judá, não apresentava qualquer risco a nenhuma de suas estruturas vitais. Aparentemente o corpo social não evidenciava qualquer debilidade que sugerisse pouco tempo de vida. Como o profeta a mando de seu Deus precisa fazer um diagnóstico tão cruel sobre a cidade com a qual tanto se identificara? Ele põe o dedo na ferida mortal depois de andar pelas ruelas e becos da Sião de seu tempo: a cidade não sabe cuidar de seus cidadãos mais frágeis. O “direito do órfão” está sendo pisado com os pés; a “causa da viúva” reclamando direito à vida e cidadania não chega às devidas instâncias. Os cidadãos influentes da cidade barram qualquer processo com propina e suborno. Mesmo que milhares de “Jerusa léns” do tempo de Isaías caibam numa cidade com uma estrutura complexa como é o grande aglome rado urbano brasileiro, esse critério profético para avaliar o sentido do convívio humano na cidade conti nua de pé. A prática da justiça que no antigo Israel outra coisa não é senão a “ação em favor da outra pessoa” construindo assim espaço e visibi lidade para todos, especialmente para órfãos e viúvas que represen tam os mais fracos a quem se nega cidadania (Is 3,13-15). O profeta urbano Isaías sentencia o fim para esse corpo social chamado Jerusalém que não soube extirpar os inícios
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NOSSA CAPA
Mundo louco versus igreja que traz vida A Comunidade viva é portadora da promessa num mundo louco e estranho. Ela é espaço para a reconstrução de identidades pessoais perdidas em meio ao caos urbano marcado pelo absurdo. Dr. Luís H. Dreher é professor na UFJF em Juiz de Fora/MG
“QUE MUNDO LOUCO este em que vivemos!” Quem já não pronunciou tal frase ao vivenciar, ver ou ouvir sobre as mais variadas situações, mormente no contexto das grandes cidades, de perto ou mesmo à distância? Ou pela televisão que invade, para bem e para mal – e: para do mal lembrar! – todos os lares e cantos do país? Por outro lado, quantas vezes já não nos vimos perguntando, ou ao menos imaginando-nos dizer, em primeiríssima pessoa: “Que mundo estranho este em que nós vivemos!” O primeiro diagnóstico, de um mun do tantas vezes “louco” e fora dos trilhos, levanta a demanda pela ação justa e amorosa. Fé cristã e mesmo sua forma de “religião” são sempre ação – também a que não parece “devota” ou ligada ao culto dominical, que se dá fora da comunicação específica à fé. Por um lado, o contato com um “mundo louco” se alimenta do, e se
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revigora no, conforto e familiaridade. Por outro, também deles desarraiga – inclusive da familiaridade da convi vência e da ação caracteristicamente “religiosa”. Mobiliza para além do es panto e do medo, conclama para mais ação e para ações diferentes, diante de novas tarefas e a novos desafios. É que a fé cristã está sempre no mundo ao seu alcance e dele não foge, por menor que ele seja; e dele cuida – sem com ele confundir-se nem nele esgotar-se. As ações por fé e da fé têm, pois, pelo menos elas, uma qualidade ética: trata-se, em resumo, da prática do amor em todos os níveis da vida. Não se trata de moralismo, ou da defesa intransigente de costumes fora de contexto. Pois não há fé sem corpo e particularidades diante dos quais cabe ser tão responsável quanto pos sível, confiando em Deus. Não há ja mais verdadeira fé sem ação, embora a fé seja a qualidade mais ou menos
oculta das ações, não podendo ser mensurada. Só Deus vê o coração, e melhor do que nós mesmos, por mais que exploremos nosso íntimo! O segundo diagnóstico, de um mundo estranho, é tão importante e real para quem vem da fé cristã quanto o primeiro. Este é mais raro de achar e mais difícil de pronunciar. Mas é ele que levanta a demanda não só por ação, como também por verbalização do sentido. Além de pessoas que não podem não agir no mundo, “inter-ferindo” com os outros – correndo até o risco de ferir – todos somos sujeitos que nos perguntamos, coletiva e individualmente, “que sentido faz isso tudo”. Todos/ as lembramos de perguntas, mesmo não explicitamente formuladas, so bre o famoso “sentido da vida”. “De onde vim/viemos? para onde vou/ vamos? quem sou eu/somos nós?” A fé cristã propõe algumas respos tas, que não são só teóricas, nas quais os cristãos se demoram. Já por isso, “estranho”, aqui, não remete a um as pecto constitutivamente alheio e hostil do mundo, mas aponta a um “todo” para cuja explicação e acabamento só mesmo o Deus plenamente envolvi do do Antigo e do Novo Testamento basta. Assim, a fé cristã propõe que a pergunta pelo sentido está funda mentalmente respondida para os que creem. Mas isso liberta para agir mais e melhor, livrando ao mesmo tempo do desespero e da inação que a pergunta pelo sentido pode suscitar. Assim é que vivemos todos, tam bém os que vêm da fé cristã, entre a familiaridade e o estranhamento diante do mundo e das situações concretas. Vivemos na liminaridade, se quisermos, mas os cristãos creem fazê-lo para além do desespero e das
City Chaos, Mary Carol Williams
ilusões. É o que diz João 17.11ss., especialmente vv. 14-15: “...não são do mundo, assim como eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal.” É neste “meio” que se situam a ética cristã e suas práticas do amor, mesmo quando o amor é exigente e intransigente, quiçá causando des conforto em arranjos já postos. Tais práticas, porém, não se expli cam sem a confiança numa dimensão de sentido que as transcende. A fé é primeiramente confiança no Deus mesmo que se doa e justifica por mediações concretas: criação, encar nação/cruz/ressurreição e presença do Espírito Santo na Comunidade Viva. Ora, um espírito santo significa tanto vida plena como regeneração do intelecto, isto é: ajuda nos discer nimentos diante de um mundo lou co, cuja estranheza e incompletude básica se quer, humanamente é claro, esconder. (Isso pode soar abstrato, mas é apenas a formulação geral de vivências que todos/as podemos
reportar, mesmo que não sejam to talmente idênticas.) Dizer que o mundo é estranho é dizer que ele ainda carece de, e aguarda uma explicação e comple tamento finais. Mas é dizer isso não com base numa técnica de obser vação, seja ela a da perspectiva de terceira pessoa de um pesquisador das coisas naturais e humanas, seja aquela da contemplação escapista de formas de religião que, no fim das contas, implicam depreciar a boa criação da qual Deus, pela fé, não está simplesmente ausente. Outro modo de dizer o mesmo é focalizar a doutrina cristã – aqui, especialmente do ponto de vista evangélico-luterano – do ser huma no. Esta doutrina estabelece uma distinção fundamental que situa o ser humano, individual e/ou cole tivamente, a uma só vez “diante do mundo” (de Deus!) e “diante de Deus” (como tal), e no último caso sempre como objeto, não sujeito, da justificação. Abre-se, aqui, um
terreno fértil para a compreensão da identidade cristã. Ela é identi dade aberta, confiante, mas sempre autocrítica, portanto não arrogante: sem pretensões de abarcar o mundo, e sem querer possuí-lo como a posse eventualmente mais legítima. Mas também sem pretender abandoná-lo à própria sorte! Assim, a seiva própria a animar uma “Comunidade Viva”, à altura da dádiva divina, instiga a combinar alegria e identificação com a profun didade e o distanciamento de quem já foi, e é, constantemente assegu rado – não carecendo de construir a própria segurança. Só para quem já foi assegurado/a por Deus a autocrí tica é uma possibilidade real e criati va, e não a vereda da autodestruição. (Pode-se acrescentar: profundidade e distanciamento não são marasmo e “mesmidade”, assim como excitação psicológica não é sempre o mesmo que alegria cristã.) De igual modo, a personalidade cristã “a caminho”, quer expressa in dividual e/ou coletivamente – como Comunidade Viva! –, somente é compreensível como um “todo”. O incrível é que, para os evangélicoluteranos, este todo se acha em uma relação diferenciada consigo mesmo “internamente”, p. ex. quando dize mos aos cristãos que depois de Jesus Cristo somos, ao mesmo tempo, sem confusão ou separação, “justos e pecadores”. Se levamos isso a sério, qualquer forma de fundamentalis mo cristão é uma impossibilidade lógica, pois a arrogância – visível ou disfarçada – está desde sempre (teologicamente) liquidada. Mas justamente aqui é preciso acrescen tar liquidade sem que isso nos leve ao medo, ao isolamento e à sensação
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de impotência: “(...) tudo posso na quele que me fortalece”. (Filipenses 4.13). Não estamos sós. Mas a personalidade cristã, pessoa individual e pessoa que é comuni dade enquanto ser ético (agente no mundo), também se acha em relações diferenciadas “externamente”. Sempre está em relação com o mundo natural e com o mundo social das liberdades, das alteridades, p. ex. dos modos de vida alternativos. Respeita estas diferenças, mas a elas não se deixa simplesmente assimilar. O cristianis mo evangélico-luterano por princí pio repele projetos hegemônicos. E embora não seja ingênuo quanto aos interesses e a todos os jogos de poder, não deriva seu poder de si próprio. E se tem poder, só o tem realmente de modo transferido e ao modo de testemunha de um Deus vivo – do qual dependemos, e que de nós não depende. “Não pela força, mas pela palavra”, como reza o princípio refor matório (cf. Zc 4.6!). Assim, a postura mais legítima de uma Comunidade Viva diante das diferenças, das alteridades sociais e culturais, não é ser simplesmente seu advogado, “falando em nome dos que não têm voz”. Isso seria fácil, poderia ser até mesmo uma forma de usurpação. Comunidade Viva pre cisa, antes, “transitar” em seu todo, sair de si, e não simplesmente enviar embaixadores ou mensageiros. Faz isso, porém, sabendo que o mundo tem muito de louco e de estranho, também por ser ela mesma parte do mundo. A Comunidade Viva é um “todo mundano e exterior” e um “todo mundo espiritual e inte rior”, se quisermos usar expressões que costumam ser objeto de indevi da polarização. Este “todo” se dirige
É só nas relações reais que se torna possível considerar e respeitar os diferentes sem recair no acobertamento dos conflitos ou em sua solução violenta.
Dr. Luís H. Dreher
ao “mundo louco” com a justiça do amor, segundo critérios evangélicos. E se volta ao “mundo estranho” com a pregação da salvação, segundo critérios divinos – critérios que não são sua posse, embora os anuncie na forma da promessa. No fundo, somos apenas “inquilinos” do Deus trinitário. Com isso está de acordo a visão do ser humano individual e comuni tário esposada por Lutero. Para ele, o humano é “todo externo” e “todo interno”. Quer isso dizer que sua verdadeira substância – se quiser mos: sua “espiritualidade”, no nosso caso a cristã – só se realiza numa relação fundamental, primeira, com Deus. Tal personalidade, cuja identi dade já não está à mercê de fissuras e construções próprias – e que, por tanto, não desespera realmente – já foi (re)inaugurada em Jesus Cristo.
Porém, ela quer ser continuamente reapropriada numa teia amorosa de relações expansivas, porém não dominantes. Relações com as dife renças; com os/as diferentes; com o mundo familiar e o mundo fora do comum; com o supostamente normal e o tido por destoante; e, fi nalmente, com o estranho que busca e demanda explicação quando, ainda que por um minuto somente, saímos da correria e paramos para pensar. Então, o “todo externo” do sercristão não se esgota nas externali dades outras – as outras formas de ação, de crença e de participação no mundo social. Isso por causa da iden tidade ganha de presente num “todo interno” que nos afeta. Porque o sercristão é comum (familiar) e também diferente (ele mesmo em parte “estra nho” dentro de um mundo estranho), a autêntica espiritualidade cristã não se assusta diante do que é outro e exterior por já viver uma promessa de vida imorredoura, para além da vida presente que nunca existe sem cruz e cruzes particulares. Em nossos dias, fala-se muito da perda do papel de transmissora de valores e mesmo de identidades das comunidades (cristãs) tradicionais e da comunidade em geral. Os meios de comunicação de massa arrogamse, não raro, o papel de consciência coletiva, assumindo inclusive o papel de árbitros e negociadores da moralidade, das diferenças entre alteridades em conflito. Nossa socie dade nacional é complexa, e marcada desde sua constituição por mazelas e ambiguidades, também de natu reza cultural e não só pertinentes à estratificação social, que marcaram profundamente nosso etos. Por ve zes, estas mazelas são verdadeiros
empecilhos para a melhoria integral da vida e de sua – hoje tão propala da – “qualidade”. Está-se longe de configurar o tão acalentado sonho brasileiro de uma harmonia (com pleta), por via de regra apenas slogan e retórica interessada de alguns políticos, empresários do futebol e – pasme-se – e até cientistas do âmbito sociocultural e político. Está-se longe da harmonia porque, provavelmente, ela seja impossível no fluxo de uma vida só humana, baseada apenas em valores humanos, sem referência ao transcendente, ao absoluto – para os cristãos: ao Deus trinitário e envolvido. Mas o resultado positivo da crise das ilusões humanas é que a própria ideia de uma harmonia que implica o amordaçamento dos conflitos ou o sacrifício das diferenças está saindo de moda. Que os conflitos devam ser ex pressos, que se busquem, pela ação, soluções provisórias ou permanentes para os mesmos; mas que, ao mesmo tempo, não se desespere por achar que isso é o todo da vida; só é possível, para quem crê, através de relações reais vividas do ponto de vista dos critérios evangélicos e da confiança na promessa divina. É só nas relações reais que se torna possível considerar e respeitar as/os diferentes sem recair no acobertamento dos conflitos ou em sua solução violenta. Relações reais são, por exemplo, aquelas mais possivelmente livres das dinâmicas midiáticas da dissimula ção, do mascaramento, da anonimi zação e da globalização cultural: são relações em que meios e ferramentas não se tornam em fins em si, mas po dem referir-se a critérios que sabem conjugar a promessa divina absoluta e a relatividade da vida humana. Mas
relações reais – e se poderia dizer: em que de fato pode haver confiança – implicam dois fatores: segurança quanto à própria identidade; e abertura para a liberdade e os direitos das/ dos diferentes, sem abandono dos próprios, nem da integridade externa da existência pessoal. Neste sentido, relações reais só podem ser constituídas e refeitas num face-a-face e num cotidiano comum em que se possa aprender a confiar. Todos que somos cristãos sa bemos, em maior ou menor grau, que o valor real da comunidade – mesmo quando se está um pouco afastado – é uma evidência. Comunidades de fé, mesmo as mais “tradicionais”, são já do ponto de vista sociológico (meramente externo) ferramentas qualificadas para a (re-) constituição das identidades individuais e sociais. Ao mesmo tempo, num nível mais profundo, elas descortinam propos tas ou “ofertas” de sentido. Atualmente, fazem-no para uma espécie de subjetividade urbana e complexa, que se constrói (supos tamente) cada vez mais “descolada” do mundo, aí entendido como o domínio heterônomo da cultura, da comunicação e da política de massas. A Comunidade Viva, viva também por achar-se no seu tempo e no seu espaço próprios, sabe disso. E ela faz sua oferta não como o vendedor de bens próprios, mas como o inquilino que pode sublocar cada vez mais e mais espaço, e espaços diferentes, na casa do Deus amoroso: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar” (João 14.2).
dreher.teol.filos@googlemail.com
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NOSSA CAPA
Ser luterano na cidade Além do delírio ou da saudade
Ms. Hermann Wille é pastor da IECLB na Par´quia Santo Amaro, São Paulo / SP
a CIDADE TEM ALGO DE BOM – Sob diversos aspectos essenciais para a existência humana, a grande cidade é um lugar que viabiliza a vida. Justamente em ambientes de enormes aglomerações, os mais variados talentos podem conviver e aprender entre si, potencializando sua capacidade criadora e inovadora. Na cidade, os seres humanos au mentam as chances de ganhar o seu sustento e o acesso ao que existe de mais avançado. a CIDADE NOS FORÇA A OLHAR PARA FRENTE – Cristãos luteranos pertencem a um núcleo de pessoas alertas, atraídas por novas con figurações possíveis da vida e da sociedade. Sendo assim, são pessoas que trazem pressupostos para lidar com a cidade que assusta, fascina e causa estranheza. Sabemos que a cidade não gosta de prato feito. Ela é múltipla, nos força a olhar para a frente. O desafio é buscar a “alma” da cidade. a CIDADE COBRA CONHECIMENTO E SABEDORIA – Há um tesouro es condido na cidade. Ele é perene, não perde seu valor – atualizado, passa a valer mais com o passar do tempo.
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“Em Cristo estão escondidos todos os tesouros do conhecimento e da sabe doria.” (Colossenses 2.3). O tesouro está definitivamente plantado no coração do mundo; de tão profundo, abrangente e significativo, não o al cançaremos plenamente. Por mais que nos esforcemos, continuará escondido parcialmente, meio arredio. NOVOS ESPAÇOS – Viver na cidade grande exige mudanças subjetivas e a reeducação das pessoas. Exige também novas habilidades e maneiras inovadoras de se relacionar consigo, com os outros e com o meio. Os mo dos de viver herdados do passado, majoritariamente rural, já não são suficientes para as pessoas participa rem das atividades da trama social. A cidade global, concentradora de informações e serviços, volta as costas para as suas origens e adere à ‘cultura global’. Os valores locais vão sendo postos à sombra e assim a cidade reconstrói seus espaços, acelera o seu ritmo de vida e se afirma como metró pole multicultural e cosmopolita. NOVAS APROXIMAÇÕES – Nossa missão é ensaiar e testar novas apro ximações. Tentar encontrar mais um pedacinho do tesouro. Caso
encontrarmos, ótimo. Em caso ne gativo, sabendo que o tesouro existe, precisamos refinar nossa forma de aproximação. Esta, por sua vez, nos levará a novas tentativas e ações. Neste sentido, a ação da igreja deve manter uma constante disposição para ser reformada. A coragem de pensar e agir para além da zona de conforto fará com que a fé cristã luterana permaneça valorosa, seja significativa e duradoura. SITUAÇÕES INÉDITAS – Viver a fé cristã e luterana é uma experiência humana. Exercitar esta experiência qualifica a vida como um todo. Esta fé será bem sucedida caso fizer dife rença na vida das pessoas diante de situações inéditas. ‘Ide a todos’... ‘Eis que estarei com vocês em todas as situações e em todos os momentos.’ (Cf. Mateus 28.19-20) ‘Vocês podem ir, eu já estarei lá, o potencial do meu tesouro já estará à disposição de vocês. Vocês serão surpreendidos, reencantados e motivados!’ medos inéditos – Situações inéditas nos confrontam com medos inéditos. O medo da mudança vem do desejo de controlar a situação. Quem pretende controlar não ensina a viver almejando a autonomia, não aceita a ideia de emancipação e não contempla o conceito de liberdade. Estas conquistas centrais do pro testantismo são um patrimônio da humanidade, não podem ficar pelo caminho. possibilidades inéditaS – O fascínio do tesouro acalenta em nós, para além do medo e da vontade de controlar, a perseverança e o compromisso, já que algo valoroso
pode ser desvendado e descoberto. Trata-se de uma ação importante para promover a vida das pessoas, justamente em meio à urbe que, por vezes, é implacável e faz com que muitos fiquem pelo caminho, excluídos. identidade desorganizada – A desorganização da identidade atin ge fortemente as pessoas que vivem nos centros urbanos. O recrutamento das religiões evangélicas e pentecos tais, transformadas em espetáculos pela televisão, arrebanha as massas formadas pelas migrações internas, multidões que abandonaram seus rincões e se alojaram nas periferias das grandes cidades, perdendo os seus ‘microclimas’ culturais. Eles en contram na religião televisiva resquí cios de uma identidade perdida e a sensação de pertencimento. Isto lhes é tão fundamental que, para mantêlo, tornam-se alvo fácil, sujeitos a manipulações de todo tipo. identidade acuada – Nossas comunidades também possuem o seu ‘microclima’. Sem ele não dá para viver e se constituir. O proble ma reside no fato de nos apegarmos sobremaneira ao que já foi estabe lecido e, diante da estranheza que a cidade causa desenvolvermos um apego redobrado àquilo que nos é confortável e familiar. O hábito de nos apegarmos ao conhecido nos indispõe com o mundo, que cobra transformações para o bem e para o mal. E, por vezes, este caminho não tem volta. Neste sentido preci samos de coragem e discernimento. O hábito ‘natural’ de nos apegarmos ao conhecido também nos indispõe para seguir o Cristo que percorreu
o caminho até a cruz. Ele se perdeu para ressurgir revigorado lá na fren te, carregando em si o eterno poder restaurador de Deus. ‘certezas’ perigosas – O fundamentalismo mais obscuro das religiões é uma reação radical ao desmentido dos limites de velhas certezas. Não é fácil admitir que nosso universo não é assim como pensávamos. Antigos hábitos mor rem devagar e, mesmo combalidos, causam estragos. O preço que se paga em função desses hábitos é inestimável. Ficamos devendo o testemunho diante do mundo e cor remos o risco de nos perdermos em relação a nós mesmos. Precisamos de uma teologia exigente, fiel ao princípio protestante. princípio protestante – “O protestantismo tem um princípio situado além de suas realizações. É a força crítica e dinâmica presente em todos os feitos protestantes, sem se identificar com nenhum deles. Não se encerra numa definição. Não se esgota em nenhuma relação históri ca; não se identifica com a estrutura da Reforma, nem do cristianismo primitivo, nem mesmo com formas religiosas. Transcende-as como transcende qualquer forma cultural. Por outro lado, pode aparecer em qualquer uma delas. Trata-se de um poder vivo, dinâmico e atuante [...] Contém o protesto divino e humano contra qualquer reivindicação abso luta feita por realidades relativas.” (Paul Tillich, teólogo luterano). a equação do futuro – O princípio protestante fala de uma força viva. Ela fará com que sejam
direcionados esforços no sentido de uma articulação com as neces sidades legítimas que a sociedade tem. Também viabilizará a tradução dessas expectativas na experiência da fé que restaura e qualifica a vida. Esta é a equação do futuro. A edu cação e a fé que fizeram diferença no passado fazem diferença hoje e farão amanhã. um caminho desafiador – A questão não é se a atuação cristã, nos moldes luteranos, deve ser mais ou menos rigorosa no sentido piedoso ou militante. O desafio é garantir que a educação cristã se transfor me numa linguagem que permita às pessoas descrever, estruturar e compreender o mundo. O caminho até esse ponto é desafiador. O dinamismo da cidade não aceita coisas prontas e defasadas. O ‘tesouro’ Cristo já foi revelado em boa parte. Lutero se deparou com um belo quinhão, que transformou decisivamente uma época, mas, ainda assim, foi apenas uma parte. O tesouro continua aí, parcialmente encoberto, a ser descoberto por nós, nos dias de hoje, na grande cidade. Quer movimentar pessoas que têm ‘fome de realidade’. Não como mera transposição fotográfica do real, muito menos criação artificial de um real inexistente. O tesouro ‘real’ é a reconstituição possível do sentido da vida na experiência pessoal, comu nitária e ambiental. suplantar polaridadeS – As experiências carismáticas pos suem a doença da ‘subjetividade exacerbada’. O desafio teológico e pastoral está em procurar conciliar polaridades, tais como o subjetivo
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e o objetivo, o antigo e o moderno. Esta ‘resistência’ aparente revela uma atitude desconfiada frente a uma era onde tudo parece se dissolver e escorrer entre os nossos dedos (Zygmunt Bauman, sociólogo). Na comunicação da palavra, na edu cação e na prática sociodiaconal se realiza uma ação original, além da ‘ordem natural’ e estabelecida. Os agentes comunitários reinventam suas ferramentas para formar seres humanos preparados para desafios que nem sequer surgiram ainda. Fomentar a fé em comunidade, educar e agir é trabalhar com ele mentos que ainda não estão aí, sem deixar de dar estes passos no mundo real. Orientar-se pelo mundo real e
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procurar expressá-lo na perspectiva do tesouro escondido define e amplia a dimensão preciosa da vida e do mundo. A legitimidade do nosso ‘fazer religioso’ reside na capacidade que os seres humanos terão de aplicar os conteúdos desta fé em situações inéditas. O objetivo inadequado de outras épocas era a padronização. Agora, é a criatividade, a persona lização das experiências. O passado era centrado nos conteúdos padroni zados, o futuro dá atenção especial ao aprendiz: “o sacerdócio real de todos os crentes.” Somos herdeiros de uma cultura de educação e prática da fé para a vida inteira e para todas as áreas da vida que envolve a todos!
ser é transcender – Vamos redescobrir as lições do princípio que move a história. O que qualifi ca a nossa vida não é atingir níveis fantasiosos e exaltados; ou investir no cultivo saudoso, repetitivo e ri goroso dos nossos antigos hábitos, mas aprender a aceitar as limitações ao mesmo tempo em que tentamos transcendê-las. Esta é a missão maior de todo ser humano! Somos protestantes. Nós resistimos trans cendendo o mundo. Se somos de Cristo, transcendemos. “Ide. Eu estarei com vocês...”
hermannwille@gmail.com
IECLB NO SUDESTE
Luiz Guilherme
Assembleia sinodal
é presidente da Assembleia Sinodal
motivado e inspirado por alguns que me precederam na história. Espero que Deus me conduza sempre, dando sabedoria, olhos e ouvidos atentos, palavra e tom corretos para que as pessoas possam participar e tudo fluír
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o modelo eclesiológico da IECLB com a instância sinodal com pleta 15 anos. No Sínodo Sudeste, a instância reúne 29 paróquias com 39 comunidades, na região centro e leste de Minas Gerais, no Estado do Rio de Janeiro e São Paulo. Nessa área, o desafio de ser Igreja de Jesus Cristo é enorme. Implica em dis tâncias, pluralidade de contextos e exige fidelidade, doação, criatividade e alegria para participar da missão, dinâmica de vida instalada no mun do por Deus em Jesus cristo. Desde a narrativa bíblica sobre a primeira igreja até a atualidade, muitas transformações aconteceram. Provavelmente, os apóstolos não po deriam prever tanta diferença, mas esperamos estar agindo dentro da visão de missão do Trino Deus. Nos últimos anos, a IECLB rees truturou suas instâncias criando os 18 Sínodos. Na mudança estrutural se amplia a participação dos leigos, que no âmbito do sínodo passam a presidir a Diretoria, o Conselho Sinodal e a Assembleia, em parceria com o pastor sinodal e seu vice, que podem focar-se mais na gestão ecle siástica. É uma proposta que envolve a participação de diversas pessoas agindo de forma complementar e em parceria, para que tudo vá bem. Presidir a Assembleia Sinodal é um serviço desafiador para o qual fui
de forma a facilitar o melhor para a Igreja. O mundo tem passado por mudanças sempre rápidas, mas as as sembleias sinodais não têm a mesma facilidade. Então buscamos preservar o importante e buscar atualizações coerentes e prudentes. A XVI Assembleia Sinodal de 2012, em Teófilo Otoni-MG, pre tende estar muito próxima da comu nidade e sua comemoração de 150 anos. A ideia é interagir, marcando presença, deixando-se inspirar na comunidade, nos seus trabalhos e desafios. Oremos para que a nossa Igreja seja viva sempre.
ênfase missionária
MISSÃO NA REALIDADE URBANA
O Sínodo Sudeste, com sede em São Paulo e por abrigar em sua área de atuação as três maiores metrópoles brasileiras, tem como desafio a participação na missão de Deus em contextos urbanos. Ao mesmo tempo, depara-se com o desafio de não esquecer os problemas da realidade rural, uma vez que algumas de suas comunidades também estão presentes em tal contexto. Devido ao grande leque de possibilidades e às variadas frentes de ação, uma das ênfases deste Sínodo reside na formação de lideranças que disponibilizem seu tempo e seus dons para maior eficácia no trabalho. Outra ênfase na ação do Sínodo Sudeste é a participação na missão de Deus, com vistas aos desafios naturalmente colocados pela realidade urbana. Neste contexto tão marcado por violência, desconfiança, anonimato e outras tantas características que contribuem para o distanciamento entre as pessoas, a vivência comunitária de fé quer ser uma experiência sempre mais valorizada, com o intuito de aproximar pessoas e fazer com que se sintam irmãs na fé e numa caminhada que visa a transformação de toda esta realidade em Reino de Deus.
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IECLB NO SUDESTE
A ANÁLISE de informações e da dos referentes ao trabalho de nove instituições e projetos diaconais ligados à IECLB está disponível no Balanço Sociodiaconal do Sínodo Sudeste - IECLB. O balanço foi ela borado em parceria com a fundação Luterana de Diaconia-FLD. Os dados e as informações analisa das permitem uma visão clara das ati vidades e dos programas sociodiaco nais de instituições ligadas e gestadas por lideranças e membros de comuni dades evangélicas luteranas. Com essa fotografia é possível olhar com mais objetividade as múltiplas dimensões de acolhimento, cuidado, motivação, preparação, formação e acompanha mento oferecidos e implementados pelas diferentes instituições. O Balanço Sociodiaconal foi construído pelo Sínodo Sudeste e a Fundação Luterana de Diaconia. Os dados reunidos consideraram temas como Governança, Planejamento, Comunicação, Incidência Pública e Transparência/Sustentabilidade. A maioria das instituições socio diaconais do Sínodo Sudeste tem uma história de 30 a 40 anos, for jadas em plena ditadura militar, com programas que responderam aos desafios da época e foram re definidos a partir da Constituinte Cidadã e do Estatuto da Criança e Adolescente. Desenvolvem trabalhos diaconais desde o apoio a marítimos, moradores de rua, até o atendimento
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Balanço sociodiaconal
As Instituições buscam transparência nos recursos financeiros e respondem com zelo e qualidade às demandas dos seus apoiadores.
a crianças, adolescentes, jovens, famílias na Grande São Paulo, interior e capital de Minas Gerais e na cidade do Rio de Janeiro. São Instituições que têm credi bilidade. As parcerias públicas e privadas são de longo prazo. Nos últimos três anos aten deram mais de 40 mil pessoas. Agregam mais de 120 colabora dores com atuação integral. São projetos sustentados em comuni dades / Paróquias da IECLB. Suas diretorias são compostas por pessoas voluntárias que assumem o compromisso de gerenciar as atividades e cuidar da Diaconia da Igreja. Destaca-se ainda a interação das instituições com as forças de efetivação das po líticas públicas, com os espaços de incidência pública: Conselhos de direitos, de assistência social, de alimentação escolar e em fóruns. As Instituições primam pela transparência em relação aos recursos financeiros e respon dem com zelo e qualidade às demandas dos seus apoiadores. São acompanhadas por seus órgãos de governaça e controle, publicam balanços e, inclusive, são auditadas anualmente. instituições
SOCIODIACONIA NO SUDESTE Centro Social Heliodor Hesse – Santo André-SP; Centro Comunitário Casa Mateus – Mauá – SP; Programa Comunitário da Reconciliação – Santo Amaro, São Paulo-SP; Missão aos Marinheiros – Santos – SP; Centro Social Talita Cumi – Ferraz de Vasconcelos – SP; Centro Social Sal da Terra – Vila Campo Grande, São Paulo – SP; Lar Idosas OASE – São Paulo-SP; Moradores de Rua – Centro de São Paulo-SP; Centro Social e Creche Bom Samaritano – Ipanema, Rio de Janeiro-RJ; Associação Educacional Evangélica Luterana – AEEL – Teófilo Otoni – MG; Instituição Beneficente Martim Lutero – IBML – Belo Horizonte – MG; Projeto Alvo – Ação Luterana de Voluntários – Rio Claro-SP.
Jovens das 46 comunidades da IECLB no sudeste brasileiro reuniram-se em Limeira / SP, no final do mês de abril. A pauta do encontro foi tingida pelo estudo do tema do ano da Igreja: “Comunidade JOVEM Igreja Viva”, com o lema de Jeremias 5.1a “Antes que eu te formasse no ventre, te conheci”. A vocação da juventude é a construção da esperança. Ela vive e anuncia esperanças através do seu comportamento, opções, ideais, aptidões e criatividade. Tem o dom de desenhar traços que revelam realidades novas. A história nos conta que muitas lideranças jovens foram transforma doras, promoveram mudanças sociais, culturais e políticas. A juventude sempre teve facilidade para articular poderes, gestos e ações que trans formam sonhos em realidade. Marcados por uma realidade de cruz, discriminação, criminalização e morte, os jovens do Sudeste são motivados para dizer sim à vida em comunidade e aproximar-se com os sinais de paz, solidariedade, respeito, dignidade e amor. O desafio dos jovens, chamados para a vida na realidade de morte, é sempre como sonhar e construir esperança em dias e noites tenebrosos. As comunidades vivas convidam e abrigam jovens que, com coragem e fé, se dispõem a integrar e partici-
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COMUNIDADE JOVEM
par de uma comunhão, que reúne múltiplas dimensões da vida, cores e pontas, perdas e vitórias, ao ponto de sinalizar a transcendência da existência. Significa aderir a uma proposta de vida que não se conforma com a realidade vazia de liberdade, encanto e sentido. Inclui arriscar-se no caminho da espiritualidade que percebe a presença do Deus Criador, generoso, sintonizado com o mundo vida e morte, livre dos poderes transitórios e forte pelo Espírito que sopra dignidade e eternidade. A Comunidade jovem sinaliza a autonomia da ação salvadora de Deus no mundo. Ação que acontece em meio à fragilidade, à diferença e aos diferentes numa dinâmica em que cada um, cada uma, pode participar na condição de protagonista, terceirizada pela movimentação de variadas opiniões, do permanente diálogo e da constante partilha. Na prática significa desafiar e ajudar jovens a colocarem e apropriarem-se de compromissos que, com esperança, podem assumir na comunidade e na sociedade, deixando-se tocar e conduzir pela presença de Deus. O encontro em Limeira despertou nos jovens a sede de vida, e os aproximou das do amor, das ações maravilhosas e das palavras de Jesus.
quem você pensa que é?
Essa pergunta acompanhou os jovens durante os dois dias de um retiro chuvoso em Limeira. Normalmente identificada como uma pergunta agressiva e violenta, feita quando alguém perde os argumentos e apela para a diminuição da outra pessoa, os participantes foram desafiados a responder “quem você pensa que é?” com honestidade e amorosidade. Inspirados no Salmo 139, na frase “sou batizado”, sempre de novo repetida por Lutero, e nas palavras de Bonhoeffer (“Quem quer que eu sempre seja, ó Deus, tu me conheces, sou teu”), os jovens refletiram sobre sua individualidade e sua participação protagonista em comunidade e sociedade. A vocação de Jeremias foi o ponto de partida para o trabalho em grupos, que apontou para as qualidades e os dons que se pode colocar à disposição de Deus para promover e preservar vida justa, digna e abundante. Outra pergunta (Você sabe com quem está falando?) levou a refletir sobre o chamado do profeta Samuel. A partir de uma leitura participativa do texto, os jovens colocaram no papel compromissos que querem assumir na comunidade e na sociedade para testemunhar a Palavra de Deus. Cat. Edson Ponick
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Os jovens reunidos para ouvir a palestra do catequista Edson Ponick, que esteve no encontro em Limeira.
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PROJETO
Luteranos nas prisões O específico de uma assistência pastoral de luteranos voltada para a população carcerária. Wolfgang Lauer é pastor da IECLB e coordena o projeto de Pastoral Carcerária em São Paulo / SP
ser luterano na prisão – Co nhecemos as pessoas que vivem nas prisões? Quem são? O que sabemos sobre as suas experiências e ambi ções? Elas pedem para ser visitadas por cristãos das igrejas? Temos co ragem de entrar nas áreas marginais da existência humana, nos limites de insegurança jurídica e violência, de solidão, impotência e culpa, da falta de solidariedade humana? Três exemplos de situações assim na área do Sudeste: “Sou consultor financeiro. Alguém desconhecido me acusou de fraude. Após a acusação puramente preconceituosa, e sem qualquer investigação judicial, fui imediatamente preso e colocado em uma prisão. Não houve um processo judicial e, só depois de cinco meses, foi expedida uma ordem judicial de soltura e fui liberado. As experiências de viver em uma cela superlotada, fal ta de cuidados médicos e a exposição à violência estão impressas até hoje na minha mente.” “Meu irmão está gravemente vi ciado em drogas. Ele também esteve na prisão por posse de drogas e teve
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que cumprir pena. Agora ele está fora da prisão, mas continua dependente. É terrível conviver com o seu sofri mento. Eu sou um pastor. Não posso falar nada dessa situação na minha comunidade, pois quem sabe, depois não confiem mais em mim. Como pastores devemos dar exemplo. Famí lia significa muito para nós. Deslizes não são facilmente perdoados.” “Fiz negócios em Nova York diversas vezes. Um dia aconteceu que me envolvi em um acidente de trânsito e fui preso. Isso porque aos olhos do juiz eu poderia fugir, por ser estrangeiro. Minhas tentativas para convencer o juiz falharam. Eu tive que ir para a cadeia. Era deprimente ver todo dia as portas e as grades de aço. Os corredores barulhentos e o ruído das botas dos guardas nos corredores. Eu experimentei pela primeira vez o sentimento de impotência.” Luteranos conhecem a realidade da prisão. E não são casos isolados. Presos e funcionários penitenciários vivem o isolamento uns dos outros e da sociedade.
o que nos leva a esses nãolugares? – Ou o que nos mantém longe deles? Estamos dispostos a subir os muros que nos diferenciam uns dos outros e que nos fazem in diferentes? Quanto nos custa vencer o medo e alimentar a vontade de ir até a realidade dos presos, de olhar para eles em vez de desviar o olhar, de escutá-los em vez de condenar? Aqueles que visitam presos têm experiências como a que teve a lute rana de uma cidade do Paraná: “Na primeira visita ao filho de um amigo, confesso que tive medo. Estava certa de que cadeia é lugar de marginal! Mas depois cada visita tornava-se especial: É um filho de Deus carente de todas as formas. Para chegar até ele seguí amos os protocolos da prisão. Mas, lembro-me de cada momento, do seu olhar de desespero, que expressava o arrependimento pelo ato cometido, a certeza de que não valeria a pena ser diferente, pois carregaria um carimbo em sua vida: ex-presidiário.” A minha primeira visita ao Ca randiru, em São Paulo, foi vivida com sentimentos semelhantes. Fui carregado de ansiedade e depressão. Somente depois recebi a recom pensa: A alegria da visita. Descobri a individualidade de cada pessoa. Percebi a abertura dos presos para a mensagem da comunidade cristã, permitindo que sua coragem encare o preconceito e permita o novo co meço, construindo o compromisso e a confiança de que é amado por Deus do jeito que é e na situação em que vive. Cristãos conhecem, desde a Re forma de Lutero, a condição dialética da existência cristã, em duas pala vras: “o cristão é justus et peccator”. O cristão é ao mesmo tempo justo
e pecador. Em Jesus Cristo temos perdão dos pecados. Teologicamente expresso, nós somos justos diante de Deus não por causa de nosso próprio esforço, mas “pela fé”, na confiança em Jesus Cristo, que liberta os fardos pessoais do nosso passado. O amor de Deus e a devoção nos fazem livres do fardo da dívida e prontos para novos começos. Hoje esta mensagem chega às pri sões de São Paulo, quando luteranos e cristãos de outras igrejas visitam os presos não para condená-los nova mente, pois já o foram pela justiça, mas para ir ao encontro deles com empatia, dispostos a percebê-los e escutá-los. A mesma mensagem che ga também aos familiares dos presos, que geralmente estão assustados ou carregados de valores impiedosos e desastrosos em relação à expectativa da volta do preso para casa. migração das áreas rurais para as cidades – Ao longo das últimas quatro décadas a migração para as grandes cidades do sudeste ocasionou profundas convulsões so ciais. O desemprego, os inadequados programas de educação para pobres e marginalizados ocasionaram a forma ção de assentamentos informais ur banos onde se istalaram os excluídos de recursos básicos para a vida e de direito ao exercício da cidadania. Os conflitos sociais, a repressão e os controles institucionais da socie dade exigiram a construção de uni dades prisionais. Hoje existem 156 prisões superlotadas nas periferias das cidades de São Paulo. A guerra urbana continua e, com isso, cresce rapidamente a população carcerária. O número de jovens nas prisões e centros de detenção é assustador.
As políticas sociais parecem impotentes. A administração geral do sistema prisional não tem um plano a médio e longo prazos para controlar ou responder a este desafio humano. Em vez disso, cresce de forma assustadora a militarização do sistema prisional. Não estão disponí veis recursos para a reabilitação dos presos, serviços psicológicos e mé dicos. O prisioneiro não é percebido em sua individualidade, a partir do critério da dignidade. Vivemos numa sociedade que criminaliza os direitos e a dignidade humana. Quando uma pessoa está sofren do, condenada à prisão ou não, é Cristo quem está sofrendo. A IECLB no Sínodo Sudeste ouviu o chamado de Cristo para visitar quem está na prisão. Está disposta a inserir-se nes sa realidade de sofrimento para ouvir o necessitado, escutar seu clamor e nela anunciar a graça de Deus. A criação de um programa de pastoral e assistência carcerária efi caz se fundamentou no chamado de
Deus ao seu povo, com foco sobre a recuperação individual e social do detento, através de atenção espiri tual, aconselhamento psicológico e proteção da dignidade humana. Não aceitará influência de avaliações e receitas pré-fabricadas de grupos com interesses religiosos, econômi cos e sociais que conflitem com o evangelho. Jesus, Pedro, Paulo, Dietrich Bonhoeffer, Martin Luther King fo ram prisioneiros, acusados de atos criminosos e condenados pelo Es tado por crimes contra o interesse público. Eles tiveram que adentrar a prisão para poder oferecer uma vida nova aos outros. Podemos di zer que nós hoje devemos a nossa salvação a criminosos – literal mente se quiserem –, a infratores. Assim os primeiros cristãos foram percebidos e julgados por impera dores romanos. Jesus, os apóstolos e os primeiros cristãos viram nos presos seres amados de Deus: Justus et peccator. Seria desejável que cristãos lu teranos, com parceiros ecumênicos e humanitários, se sintam chama dos a colaborar como voluntários no projeto de Pastoral e Assistência Carcerária. Este engajamento pode ocorrer por diferentes formas: visitas a detentos sem distinção religiosa, ideológica, étnica ou outras; disponibilização de servi ços profissionais de psicoterapia, medicina – clínica geral, jurídica e humanitária. O projeto está aberto para discussão conjunta, um deba te interdisciplinar sobre as bases éticas e bíblicas de uma Pastoral e Assistência Carcerária cristã, volta da para toda a população carcerária de São Paulo.
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história
Teófilo Otoni 150 anos de comunidade
Dr. Rolf Schünemann
Pastor da IECLB em São Paulo / SP
a nau igreja navega com o seu povo nas correntes das águas calmas ou bravias da sociedade e do mundo. Enfrenta tensões e conflitos dos mais diversos. A ocupação do espaço geo gráfico brasileiro ao longo dos séculos aconteceu às custas da exploração da natureza e do desrespeito para com os povos originários (índios). Os governantes e as elites políticas e econômicas direcionaram seus em preendimentos para novas fronteiras geográficas e, para tal, contaram com a participação de mão-de-obra escra va ou imigrante.
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Filadélfia ou Nova Filadélfia surge por iniciativa de um político que hoje dá nome à cidade: Teófilo Otoni. Representante do Estado de Minas Gerais no Parlamento, sedia do no Rio de Janeiro, Teófilo Otoni fundou a Companhia de Comércio e Navegação do Rio Mucury em 1847. Um decreto lhe dava o monopólio da navegação na região do sul da Bahia e Nordeste de Minas Gerais, a concessão de terras para colonização e a construção de estradas. Em função deste empreendimento a companhia firmou um contrato com a firma Schlobach & Morgenstern, de Leipzig/Alemanha para a arregimen tação de colonos que foram fixados à margem do Rio Todos os Santos. A Comunidade Evangélica de Teófilo Otoni surge na esteira deste processo. Os imigrantes protestantes elegeram um presbitério e, mesmo sem a pre sença de um pastor, realizaram suas celebrações. Um templo de madeira havia sido erguido e seu uso efetivo aconteceu com a chegada do pastor Leonard Hollerbach em 1862. Vítimas das doenças tropicais e em conflito com os índios botocudos que habitavam a região, a situação dos colonos era profundamente
precária e piorou com a falência da Companhia. A presença de um pregador, enviado pela Sociedade Missionária de Basileia e bancado nos primeiros tempos pelo império, foi muito significativa já que entre as suas atribuições estava também a direção da primeira escola local. Data, portanto, desta época a sua vocação educacional. A atuação da comunidade e seus pastores sempre abrangeu uma vasta região geográfica e durante décadas ela figurou entre as comunidades evangélicas mais distantes do sul do Brasil. A dispersão geográfica se refle te ainda hoje na grande quantidade de pontos de pregação. Dentro desta
UM PASTOR NOS BRAÇOS DO POVO A notícia sobre a Abolição dos Escravos espalhara-se pelo Brasil afora e chegou também a Teófilo Otoni/MG. As pessoas submetidas aos rigores e injustiças da escravidão durante séculos irromperam em grande festa. Elas se reuniram em grupos e foram às ruas, numa demonstração de grande contentamento. Isso na pacata Teófilo Otoni de 2.500 habitantes não significava pouca coisa. Pastor Leonhard Hollerbach estava tranquilo em sua casa. Ao ouvir o alarido, saiu para ver o que estava acontecendo. Andou cerca de 100 metros. Os (ex) escravos, ao reconhecê-lo, foram a seu encontro e o carregaram nos ombros em grande júbilo e alegria. Diziam: “Veja! A escravidão acabou! Aconteceu o que o senhor sempre afirmou que ia acontecer“. Isso tinha um grande significado, num contexto em que conflitos e tensões faziam parte do cotidiano dos fazendeiros, entre eles inclusive alguns imigrantes, que adotaram o regime escravocrata.
realidade aconteceu um rápido abra sileiramento (bilinguismo) e também uma sensibilidade missionária. A forte auto-determinação laica, presente desde as origens, fez com que, ao longo do tempo, a comuni dade não ficasse isenta de tensões, conflitos e rupturas. Pastores es trangeiros (até 1970) e ministros/ as brasileiros/as sempre tiveram que contar com esta consciência. Graças à conjugação de esforços construiu-se uma grande teia de grupos de colabo radores que participam ativamente da missão de Deus no nordeste de Minas e Sul da Bahia. rolfschu@luteranos.com.br
testemunho da história Mas por que a festa? O Pastor Hollerbach não fazia parte de nenhuma agremiação abolicionista. Aliás, como estrangeiro nem poderia se envolver com questões de natureza política. A gratidão e o reconhecimento tinham a ver com a sua atitude pastoral e missionária. Pregava o evangelho em alemão, português e francês a todas as pessoas, indistintamente (fazendeiros, empregados e escravos). Consolava e confortava as pessoas machucadas por castigos e desmandos escravocratas (interrompia o castigo infligido a escravos amarrados). O que movia a ação do Pastor Hollerbach era o princípio bíblico segundo o qual todas as pessoas têm igual dignidade porque foram criadas à imagem e semelhança de Deus. Ele estava em sintonia com a postura da Sociedade Missionária de Basiléia, que repelia a escravidão. Graças a seu carisma, deu um testemunho corajoso e ousado, numa realidade social e política bastante adversa e conturbada. Por ocasião de seu sepultamento, em 1899, todas as pessoas da localidade (inclusive o padre) acompanharam o cortejo fúnebre.
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RIO + 20
COMPROMISSO COM O AMBIENTE A Cúpula dos Povos acontecerá no Aterro do Flamengo no Rio de Janeiro, paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável – Rio + 20. Os dois eventos, que acontecerão em junho no centro geográfico do Sínodo Sudeste, confrontarão centenas de lideranças políticas e civis, movimentos sociais, também representantes religiosos com os graves problemas ambientais enfrentados pela humanidade. Sabemos que as ameaças ambientais no planeta têm a influência direta da Injustiça socioambiental, sustentadora de modelos econômicos e políticos em todo o mundo, que denuncia a gravidade da falha humana ao cuidar ou usufruir da Criação. As comunidades do Sínodo Sudeste não poderão ficar indiferentes à Rio + 20. O que está em pauta, dentro da nossa casa, é o compromisso com a justiça ambiental, com a Criação de Deus, com o seu chamado para a resistência aos poderes de morte. Urge o fortalecimento dos valores evangélicos, a ética cristã, que impulsionam o compromisso com os esforços dos povos pela defesa da “casa”, do mundo em que vivemos. Em outras palavras, nossas comunidades estão confrontadas com a agenda dos povos: Participar da construção de um mundo ecologicamente justo, atentas ao chamado e presença de Deus nesse benigno movimento. Esse processo de mobilização dos países e povos já tem uma história permeada de perdas, danos, mas também vitórias. Por exemplo, foi decidido em Durban que em 2013 começará a vigorar o segundo período de compromissos do Protocolo de Kyoto. O resultado do envolvimento dos países nesse processo culminará no Pacto Global do Clima. Entretanto é lamentável que países como Canadá, Japão e Rússia, Estados Unidos e China, maiores poluidores do mundo, não assumiram o acordo. Dizemos sim para a agenda e meta da Cúpula dos Povos que articulará grupos de discussão autogestionados, organizações e movimentos e, certamente, sistematizará proposições para favorecer e despertar o diálogo com a sociedade sobre a construção, com justiça, dos Territórios do Futuro.
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MEDITAÇÃO
VOCÊ É CURIOSO?
Qual é a sua maior curiosidade? Você segue Jesus porque oferece bênção sou porque transforma a sua vida?
Leandro Luis da Silva é pastor da IECLB em Cosmópolis /SP.
UM DITADO BEM CONHECIDO diz que a “curiosidade matou um gato!” Este ditado era muitas vezes usado para alertar uma pessoa de que um “mal” pode ocorrer se ela for muito curiosa. Na Europa da Idade Mé dia, as pessoas não gostavam de gatos e então preparavam armadilhas para os pequenos bichanos. A curiosidade do gato realmente acabava levando-o a morte. A expressão “a curiosidade matou o gato” era então usada por líderes para inibir a busca do conhecimento bíblico e científico e pregar mentiras. Todas as pessoas têm um lado curioso na vida, e não somente isso, desde bem pequenos somos ensinados a ser curiosos com as coisas, seja por um belo presente embalado que aguça nossos sentimentos de curiosidade, seja a busca por mais conhecimento. Passamos parte da infância e adolescência querendo saber sobre a origem do mundo, das espécies, da vida, porque estamos neste mundo, qual é o nosso futuro, entre outras tantas perguntas existenciais ou não que nos movem a vida toda. Porém, diferente dos gatos, para encontrar respostas para a vida buscamos felicidade e uma vida boa. Na época de Jesus, a curiosidade também foi uma forte ferramenta de conhecimento e de busca. Os evangelhos contam que muitas pes soas o seguiam, curiosos que se preocupavam com que tipo de sinais ou milagres seriam contemplados. Durante o seu ministério, várias pessoas buscavam vê-lo: curiosos (multidões), interesseiros, seguidores e discípulos. Os curiosos só estavam com Jesus porque era algo novo, interessante de ver, mas decidiram ir embora quando a ‘ novidade’ foi embora ou quando não era mais moda seguir Jesus... Lembramos de incidentes como o de Nicodemos, que procurou Jesus à noite, escondido, preocupado em não ser visto, mas ao mesmo tempo curioso sobre como ele poderia “nascer de novo” (João 3.4). Ou Zaqueu, que chegou a subir numa árvore para poder enxergar Jesus
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(Lucas 19.4). E ainda, Pedro seguia Je sus de longe quando ele foi levado para ser julgado (Lucas 22.54). Aliás esta é também uma realidade ainda em nossos dias. Pessoas curiosas seguem Jesus por causa das bênçãos e sinais que ele pode fazer, mas poucas querem realmente andar em “novidade de vida” com nosso Salvador e Senhor. Na verdade preocupam-se mais em ter um Salvador e pouco em ter um Senhor de suas vidas. Qual é a sua realidade de “curioso/a”? Você tem buscado a Deus por causa das suas bênçãos e milagres ou porque “ele tem as palavras de vida eterna” (João 6.68)? A maior curiosidade da vida é saber que somos amados e amparados por Deus em Cristo Jesus. Muitos podem tê-lo como um amuleto, um adereço ou mesmo uma mera tradição. Mas sejamos curiosos o bastante para per ceber que Jesus é muito mais. É nosso amigo, nosso companheiro na jornada da vida, nosso salvador, aquele que entregou-se por nós. A maior curiosi dade é perceber que ele nos ama! Ama apesar das nossas falhas, fraquezas e pecados. Seja curioso por buscar Deus e encontrar o maior presente da vida, que é o próprio Filho de Deus. Nosso maior presente – Jesus! pastorleandro@luteranos.com.br
MULHER
95 anos da OASE de Petrópolis a oase de Petrópolis comemorou 95 anos de existência no dia 18 de abril. Estiveram presentes vários grupos de OASE do Sínodo Su deste. A programação iniciou com a recepção aos grupos convidados, seguido de culto no templo da Comunidade. Recordamos um pouco da história da OASE. No livro “Comunidade Luterana em Petrópo lis – 160 anos – A história de nossa comunidade em seus 160 anos”, na p. 23 e 24 consta: “As atividades da Associação, segundo as atas,
eram de auxiliar as pessoas necessitadas, sendo que em 8 de janeiro de 1919 eram auxiliadas 141 pessoas, auxílio financeiro a senhora residente em asilo, procurar as famílias que tinham crianças em idade escolar, ajudar nas festividades e datas comemorativas. No estatuto consta que, a associação não dá nenhuma vantagem às associadas, ao contrário, solicita das mesmas sacrifícios, sendo a finalidade principal ações beneficentes, e incentivar as atividades da comunidade e escola.” A OASE continua com estes mesmos objetivos, buscando também refletir na Palavra de Deus em seus encontros sema nais, bem como promover a comunhão e a amizade. A programação do dia seguiu com almoço delicioso e sobremesa. À tarde, tivemos a homenagem dos grupos presentes aos 95 anos de nossa OASE: Dança Sênior, Canções Folclóricas que nos recordaram o passado (luar do sertão, chuá-chuá …). Quando nos demos conta, a hora tinha passado e já era chegado o momento de cantar Parabéns a Você e assoprar as velas do bolo. Foi um dia muito agradável, de fraterna comunhão entre irmãos e irmãs na fé, momento es pecial que ficará na memória da história da OASE de Petrópolis. desafiadas a partilhar
FÓRUM DA MULHER LUTERANA O Fórum da Mulher Luterana surgiu em 1990 por ocasião da VIII Assembleia da Federação Luterana Mundial, que aconteceu em Curitiba/PR. Tem como objetivo geral refletir sobre o papel da mulher luterana na família, na Igreja e na sociedade. A cada dois anos acontece um encontro nacional. O último aconteceu em Campinas/SP, no âmbito do Sínodo Sudeste. Cristina Guilherme, da Comunidade de Rio Claro, representa o Sínodo na Coordenação do Fórum. Durante o Fórum, as mulheres luteranas participaram do avanço da presença e influência da mulher nas comunidades e nas instâncias da Igreja. Ajudou na divulgação das atividades e compromissos de mulheres na Igreja para grupos e segmentos femininos. Já despertou e fomentou mulheres a apropriarem-se de espaços de reflexão e exercício de liderança também na sociedade. As metas do Fórum da mulher Luterana são desafiadoras. Apesar dos avanços na legítima ocupação de espaço por parte das mulheres brasileiras na sociedade, há muito caminho pela frente a ser percorrido, também na Igreja.
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Este manual é um bom subsídio para compreender a fé e o pensamento que embasam a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB, tanto para as pessoas que já são seus membros como para aquelas que pretendem ingressar nela ou que desejam conhecer os valores que norteiam os luteranos.
Promoção válida até 30/06/12 ou enquanto durar o estoque