Expediente Identidade! Boletim do Grupo de N egr@ s da EST/IECLB Vol. 03, n. 01 e 02, janeiro-agosto/2002 Apoio: Federação Luterana Mundial Periodicidade: quadrimestral Tiragem: 2.000 exemplares Revisão: R icard o B ra sil C h arão (rcharao@terra.com.br) Programação Visual: J aquelin e O liveira (jackieo@terra.com.br) Responsáveis editoriais: Peter Theodore N ash , Ph.D. R icardo B ra sil C h arão Endereço para contato: Boletim Identidade E scola Su perior de Teologia caixa postal 14 - 93001-970 São L eopoldo - R S E-mail: identidade@ est.com .br Sites: www.est.com .br http://planeta.terra.com.br/servicos/jac kieo/identidade/ Obs.: São de total responsabilidade dos autores os textos por eles escritos.
S u p e rio r d e T e o lo g ia
IEC LB
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C ar@ leitor@, Você está recebendo o p rim eiro Identidade! deste ano. E o v. 3, os ne 1 e 2 que vêm condensados nesta edição única. Esta edição vem com uma pequena, mas significativa diferença. Se você olhar para o canto superior direito da capa deste exem plar, perceberá que ali consta o registro do ISSN de nosso Boletim. Isto significa, que a partir deste número, ele é uma publicação registrada e que tem nome em um catálogo que registra periódicos do mundo inteiro, com aproximadamente 1 milhão de periódi cos catalogados até o momento. E algo sim ples, contudo importante, pois a partir de palavras-chaves existentes neste registro, possibilita que pessoas venharn a conhecer a publicação e procurar contato caso interessadas. Além desta agradável novidade, esta edição que chega às suas mãos traz três artigos, abordando temas bastante diver sificados, mas de grande importância pa ra a comunidade evangélica negra brasi leira. Os artigos abordam: ações afirma tivas; auxílios para leitura da Bíblia; e história do protestantismo no Brasil. A importância destas três temáticas reside no fato de: possibilitarem pensar a situa ção da comunidade negra brasileira a par tir da ótica da implantação de ações afir mativas visando a real integração da co munidade negra à sociedade brasileira,
tendo assegurados os direitos de cidadania, também nas igrejas evangélicas; a Bíblia, através de uma leitura crítica e coerente com os princípios evangélicos é, sim, um instrumento de libertação e de motivação para a comunidade brasileira, neste sentido, todo cuidado se faz necessário ao utilizarmos os auxílios para leitura da Bíblia, pois eles muitas vezes podem estar refletindo preconceitos de nossa sociedade atual; por fim, um pouco de história do protestantismo no Brasil e suas relações com a comunidade negra, com o objetivo de entendermos a razão de algumas igrejas em abordar de forma franca a questão da negritude. A você amig@, uma boa leitura! Ricardo Brasil Chamo - resp. editorial
Aceita-se permuta :: Exchange is reouested :: Wir bitten um Austausch 02
Pídese canje
A Questão da Ação Afirmativa está em pauta no Brasil Peter T. Nash, Ph.D.
Várias faculdades já reservaram vagas para pessoas negras e indígenas. Até a capa da revista d i r e c i o na da a pessoas que trabalham na administração de faculdades e de universidades brasileiras, Educação Superior, botou o assunto na capa da edição de agosto. Nas conversações entre os aspirantes ao trono de FHC e universitários e universitárias, a questão de cotas, alvos e metas não falta. O Globo do dia 18 de agosto de 2002 destacou as gafes e os desencontros de Ciro Gomes consigo mesmo. Um dia disse uma coisa e retirou-a no próximo dia. No fim reelaborou a sua fala, dizendo que ele precisa do conselho de uma pessoa que conheça melhor o que seria um bom programa para o Brasil. Porque estou a favor da Ação Afirmativa? Estes programas funcionam bem. Sou um filho destas políticas e sei que na medida em que elas entraram em vigor nos E U A , f i z e r a m um grande sucesso. Havia uma época nos EUA, em que todos os médicos, advogados e boa parte dos pastores negros eram formados por um
sistema paralelo e separado das universidades para os brancos. Ainda na minha geração poucas pessoas negras e latinas tinham a oportunidade de estudar numa boa faculdade. Injustiças passadas não me importam: eu me preocupo com as injustiças atuais Acredito que há uma dívida significante para todo o trabalho forçado dos Africanos, depois dos Afro-descendentes e mais tarde para o trabalho braçal que foi sub valorizado. Também vejo como justo o clamor para a restituição pelos danos em milhares de casos, nos quais vários sistemas sociais conspiraram, com sucesso, para bloquear o caminho de uma pessoa negra. Apesar disso, opto por entender reparações e ação afirmativa como questões distintas. O Brasil usufrui de uma boa reputação no que diz respeito às
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"relações raciais", mas tal reputação é baseada no mito da "democracia racial". A nt h o n y Marx, um antropólogo que escreveu sobre raça nos EUA, Brasil e África do Sul, {Marx 1994}acredita que o mito foi alimentado cuidado samente para agilizar a dominação do povo negro. A lógica de Marx é que a falta de linhas firmes entre os vários grupos étnicos e a proliferação de dúzias de categorias raciais mantiveram sempre viva a esperança de que indivíduos, ou pelo menos seus descendentes, pudessem melhorar seu estado racial informal. Esse sistema exercitou tanta influência nas suas vidas quanto qualquer sistema formal, bem como aqueles do "separados mais iguais" nos EUA e do apartheid (separados) na República da África do Sul. Em qualquer caso, não importa qual índice seja escolhido, os dados de hoje mostram que no Brasil, em m é d i a , as p e s s o a s A f r o descendentes nunca usufruem dos benefícios de cidadania no mesmo n í v e l q ue as p e s s o a s de descendência européia. Quer dizer que, em qualquer âmbito: acesso aos serviços de saúde, à renda, acesso à formação acadêmica e técnica, o caminho para a cidadania plena é mais rigoroso e mais longo para os Afro-descendentes do que é para os descendentes dos europeus.
Será bom para o Brasil Mais de metade dos Brasileiros são Afro-descendentes. Quer dizer que, mais da metade da população brasi leira está sendo excluída do seu di reito e do seu dever de contribuir para e de compartilhar a riqueza do avanço do Brasil. Se o Brasil optar por continuar não aproveitando to da a sua capacidade humana, ele não pode participar do mundo mo derno como ele é. Nenhum país po de competir no mundo atual com somente metade de sua população. Também o evangelho nos convida para um banquete, no qual todos compartilham na medida das suas necessidades. Não dá para importar mais uma coisa do mercado Estadu nidense ou Australiano, nem Sul Afri-cano. No ensino básico, médio e superior somos líderes inovadores. E um dom de Deus que temos da nossa tradição alemã. Mas como to dos os dons dados por Deus, se fica mos com tudo, ela apodrece, assim como a maná na época do Êxodo. O que temos tem que ser suficiente para a comunidade inteira. A diferença agora é que a comunidade não é mais somente aquela pessoa de pele clara e com sotaque alemão. Peter T. Nash é Professor de Antigo Testamento e Hermenêutica Negra na Escola Superior de Teologia da IECLB. Tam bém é coord en a d or do P ro je to N e g r it u d e na B íb lia e na Ig r e ja , desenvolvido nesta mesma instituição.
Auxílios Que não auxiliam - Preconceito racial em comentários de Bíblia de estudo
Com a Reforma Protestante do s é c ul o XVI, h o u v e u m a “popularização da B íblia: sua tradução para diversos idiomas e a invenção da imprensa tornaram-na acessível ao povo e reduziram seu custo de confecção. No Brasil, a Bíblia é muito difundida principalmente no meio protestante. Há vários anos ela está entre os livros mais vendidos. Sua leitura serve de base para a formação do caráter e da opinião de um grande número de brasileiros, bem como p ara legitim ar m uitas práticas preconceituosas. Atualmente há muitas Bíblias que trazem auxílios para a leitura e elas têm aumentado consideravel mente nos últimos anos! A nossa preocupação é quanto à divergên-cias de conteúdo que existe entre es-ses auxílios e quanto à forma como são utilizados, uma vez que chegam, juntam ente com as Bíblias, aos mais diversos grupos de pessoas. Tentaremos demonstrar o porquê de nossa preocupação, utilizando-nos de dois exemplos: os textos de Amós 9.7 e Jeremias 38.7-13. Chamamos especial atenção para Amós 9.7:
Ezeouiel de Souza
B íblia Anotada e a B íblia de Jeru sa lém . A form a como os comentários dessas Bíblias de estudo abordam esse texto serve para ilustrar que precisamos ter um pouco mais de cuidado ao lê-los. Vejamos os comentários:
9.7: Não sois vós para mim ... como os filhos dos etíopes?: Por ter assumido os seus privilégios de povo eleito por Deus ser ter aceitado as responsabilidades decorrentes (ver Am 3.2, nota c), os israelitas haviam -se colocado no mesmo nível dos etíopes, um povo menosprezado pela cor de sua pele e pela sua humilde condição social. Os etíopes eram habitantes do vale do Nilo, situado ao sul do Egito (ver Gn 10.6, nota g ). Ac que tudo indica, muitos desses etíopes viviam no estrangeiros ganhando a vida como criados (cf. Jr 38. 7-13). (Bíblia de Estudo Almeida, p. 960) 7-10: Israel não tem nenhum privilégio: por causa da sua conduta moral está na mesma situação que as outras nações, e
Não sois vós para mim, ó filhos de Israel, como os filhos dos etíopes? diz o Senhor. Não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, e de Caftor, os filisteus, e de Quir, os siros? (Am 9.7)
T r a b a l h a r e m o s com com entários de quatro Bíblias diferentes: a Bíblia de Estudo Almeida, a Bíblia Edição Pastoral, a
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até pior. Deus, porém, não julga cegamente: ele vai separar os pecadores daqueles que permanecem fiéis. (Bíblia Edição Pastoral) 9.7: Todas as nações estão sob o controle de Deus; assim, os israelitas não deveriam pensar que eram o único povo em que Deus tinha interesse. {Bíblia Anotada, p. 1121) d) Isto é, um povo perdido nos confins do mundo (o atual Sudão). Israel não tem, pois, motivo para considerar-se o “primeiro dos povos” (6.1). (Bíblia de Jerusalém)
Podemos perceber que esses comentários são preconceituosos em relação ao etíopes/negros, pois podem dar margem a interpretações racistas por parte de seus leitores. Num país como o Brasil, que se diz ser uma “dem ocracia ra c ia l”, podem os perceber que o racismo é disseminado de form a m u ito su til. B asta estudarmos sobre quem eram os etíopes/negros da era bíblica para percebermos isso. O povo etíope/negro era um povo guerreiro, muito temido pelos outros povos (cf. Is. 18.2). Eles habitavam a terra de Meróe/Cush, ao sul do Egito. Na história da humanidade, podemos estudar que os faraós da ‘2 5- dinastia do Egito eram provenientes desse povo. Na Bíblia também podemos e n c o n tra r v á ria s m en çõ es a e tío p e s/n e g ro s, pois eles participaram de muitas empreitadas do exército egípcio como, por exemplo, a do faraó Sisaque contra Jerusalém (cf. lRs 14.25s). O relato paralelo de 2Cr 12.3 diz que entre seus combatentes estavam “líbios, suquitas e etíopes”. O rei Asa
guerreou contra um exército liderado por um etíope. O relato está em 2Cr 14.9ss. O evangelista Felipe batizou um eunuco etíope, que, por sua vez, já conhecia a tradição judaica (cf. At 8). O profeta Sofonias é filho de Cusi que pode ser traduzido como negro. Além desses, há muitos relatos sobre etíopes/negros na Bíblia. Vamos deter nossa atenção sobre o texto de Jeremias: durante a prisão de Jeremias em uma cisterna (Jr 38.7-13), um etíope/negro chamado Ebede-Meleque pede ao rei Zedequias que liberte Jeremias. A referência ao texto de Jeremias tenta legitimar as afirmações do comentarista. Há, contudo, outras possibilidades de interpretação dessa passagem de Jeremias: Ebede-Meleque significa, literalmente, “servo do rei”, mas há outras formas de traduzir esse nome: vassalo, m i n is t ro , oficial, empregado... Será que, no entanto, um escravo teria tanta influência sobre um rei? Não é mais coerente pensarmos que se trata de um ministro ou oficial? A favor da hipótese de que ele era um oficial está a constante afirmação: “sou teu servo, ó rei!”, que aparece várias vezes no Antigo testamento. Davi assim se dirige ao rei Saul (cf. ISm 26.18) e nem por isso alguém o considera escravo ou criado! E de, no mínimo, se estranhar que haja tal diferenciação. Após um a longa história de escravidão no B rasil, é quase automático pensarmos que se trata de um escravo negro, sem ao menos
p a s s a r em nos s as m e n t e s a possibilidade de que esse negro possua um cargo de alta confiança. Creio que “auxílios à leitura” devem ser mais críticos e menos tendenciosos. O plano de salvação é para todos os povos, não importando a cor da pele ou a cultura. Uma lição, no entanto, podemos tirar disso: ler com mais atenção e criticidade o que
está para nos “auxiliar”, pois muitas vezes isso acaba atrapalhando, dificultando a construção de nossa identidade étnica e cultural. Ezequiel de Souza (ezequiel_souza@yahoo.com.br) Estudante de teologia na Escola Superior de Teologia (EST); E. de Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Integrante do Grupo de Negr@s da EST
Negros e Protestantismo no Brasil Alguns Apontamentos Ricardo Brasil Ch
Hoje, apesar das diversas barreiras impostas pelo racismo insistentemente vivo na sociedade brasileira, a popula ção negra vai, lentamente, conquistan do alguns espaços. Este processo é lento e não se dá de forma linear, ou seja, acontecem avanços, recuos, perdas e ganhos. Nas diferentes igrejas protes tantes/evangélicas, a população negra também tem conquistado espaços. Em algumas igrejas verifica-se uma grande presença de negros, em outras menos, e em outras ainda, eles são quase ine xistentes. Se utilizarmos a já tradi cional tipologia para distinguir os dife rentes tipos de protestantismo existen te no Brasil (Protestantismo his-tórico, dividido entre igrejas de imigra-ção e de missão; pentecostalismo e; mais recen temente, neopentecostalismo) iremos perceber que a população negra encon tra-se praticamente ausente das igrejas oriundas do protestantismo de imigra ção. Em algumas igrejas oriundas do protestantismo de missão, já encontra mos uma forte presença negra. Toda via, é nas igrejas pentecostais e neopen-
tecostais que esta presença é maior. No que se refere especificamente ao século XIX, pode-se afirmar que ainda dispomos de pouquíssimos estudos na área de história da igreja, sobre protestantismo e escravidão, tanto para o protestantismo de imigração, mas também para o protestantismo de missão. Devemos ter em mente, que o estudo das relações do protestantismo com a escravidão, entendida, enquanto forma de organização do trabalho e instituição determinadora das relações entre os diferentes sociais até abolição da escravidão em 1888, é determinante para entendermos as relações do protestantismo com a comunidade negra de forma mais ampla. O protestantismo de missão, oriundo principalmente dos Estados Unidos, chega ao Brasil a partir da segunda me t a d e do século XIX.. São missionários metodistas, batistas e presbiterianos que chegam ao Brasil, em grande medida influenciados e até engajados no projeto civilizatório norte-americano, expresso na doutrina 07
p a s s a r em n o s s a s m e n te s a possibilidade de que esse negro possua um cargo de alta confiança. Creio que “auxílios à leitura” devem ser mais críticos e menos tendenciosos. O plano de salvação é para todos os povos, não im portando a cor da pele ou a cultura. U m a lição, no entanto, podemos tira r disso: ler com mais atenção e criticidade o que
está para nos “auxiliar”, pois m uitas vezes isso acaba atra p alh a n d o , dificultando a construção de nossa identidade étnica e cultural. Ezequiel de Souza (ezequiel_souza@yahoo.com.br) Estudante de teologia na Escola Superior de Teologia (EST); E. de Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Integrante do Grupo de Negr@s da EST
Negros e Protestantismo no Brasi! Alguns Apontamentos Ricardo Brasil Charão :
Hoje, apesar das diversas barreiras impostas pelo racismo insistentem ente vivo na sociedade brasileira, a popula ção negra vai, lentamente, conquistan do alguns espaços. Este processo é lento e não se dá de forma linear, ou seja, acontecem avanços, recuos, perdas e ganhos. Nas diferentes igrejas protes tantes/evangélicas, a população negra também tem conquistado espaços. Em algumas igrejas verifica-se um a grande presença de negros, em outras menos, e em outras ainda, eles são quase ine xistentes. Se utilizarmos a já tradi cional tipologia para distinguir os dife rentes tipos de protestantismo existen te no Brasil (Protestantismo his-tórico, dividido entre igrejas de imigra-ção e de missão; pentecostalismo e; mais recen temente, neopentecostalismo) iremos perceber que a população negra encontra-se praticamente ausente das igrejas oriundas do protestantismo de imigra ção. Em algumas igrejas oriundas do protestantismo de missão, já encontra mos uma forte presença negra. Toda via, é nas igrejas pentecostais e neopen-
tecostais que esta presença é maior. No que se refere especificamente ao século XIX, pode-se afirmar que ainda dispomos de pouquíssimos estudos na área de história da igreja, sobre protestantism o e escravidão, tanto para o protestantism o de imigração, mas também para o protestantismo de missão. Devemos ter em mente, que o estudo das relações do protestantismo com a escravidão, entendida, enquanto forma de organização do trabalho e instituição determinadora das relações entre os diferentes sociais até abolição da escravidão em 1888, é determ inante para entenderm os as relações do protestantism o com a comunidade negra de form a m ais am pla. O protestantism o de missão, oriundo principalmente dos Estados Unidos, chega ao Brasil a partir da segunda m e ta d e do sé c u lo X IX .. São missionários metodistas, batistas e presbiterianos que chegam ao Brasil, em grande medida influenciados e até engajados no projeto civilizatório norte-americano, expresso na doutrina
do destino manifesto, mito fundante da so c ie d a d e n o rte -a m e ric a n a . É ju s ta m e n te n e ste período, que diferentes teorias racistas, afirmando a su p e rio rid a d e da ra ç a b ra n c a , encontram-se em voga na América do Norte, na Europa, mas também entre as e lite s b r a s ile ir a s . O ra , a conseqüência disto, é que muitos missionários enviados ao Brasil, irão considerar-se cultural e etnicamente superiores ao brasileiros e ainda mais em relação aos negr@s . Daí, ao menos em parte, encontra-se um a explicação para o racismo presente em igrejas oriundas do protestantismo de missão. Contudo, necessitamos ter em mente que este racismo não se encontra apenas no protestantismo de missão, pois nós também o encontramos em igrejas oriundas do protestantismo de imigração. As causas, todavia, são outras. Os protestantes de imigração, principalmente luteranos/reformados, oriundos dos estados que viriam a compor a Alemanha em 1871, mas tam bém da Áustria e Suiça, começaram a chegar ao Brasil por volta de 1820. As colônias alemãs foram implantadas principalmente nos estados do RS, SC, PR e ES. Foram formadas colônias com uma certa homogeneidade étnica, entretanto, em função disto, não se pode afirmar que o contato entre estes imigrantes luteranos e escravos negros tenha sido esporádico. Livros de registros de comunidades protestantes, assim como livros de registros católicos, entre outros documentos do período, estão a apontar para um a presença significativa de negros escravos, mas também livres, ao menos em algumas áreas coloniais. Alguns anos mais 08
tarde, com o início do processo de institucionalização do protestantismo de imigração, passou-se a defender a exclusividade étnica, conseqüência de um modelo teológico e eclesiológico que estabelecia um a profunda relação entre igreja e germanidade. A igreja, não cabia pregar o Evangelho apenas, mas pregar o Evangelho, garantindo a preservação, ou melhor, a criação de um a identidade étnica entre os pro testantes germânicos para cá emigra dos. Este fato foi agravado, pela in tenção da elite política e econômica bra sileira em modernizar o país. Este elite via na entrada de imigrantes livres, brancos e protestantes um fator de pro gresso. Não são poucos os documentos da época em que lemos a preocupação dos governantes em garantir a entrada de “gente branca, livre e industriosa”, processo que teve como efeito colateral o abandono da população à sua própria sorte após 1888. Assim, tanto entre protestantes de missão (presbiterianos, batistas e metodistas), quanto entre protestantes de imigração (luteranos e anglicanos) não houve, a intenção de fazer missão entre a população negra. Com isto, não se está a firmar que a população negra não fosse aceita. São inúmeros os registros apontando para a presença de negr@s em comunidades protestantes. O que se está a afirmar, é que isto não foi intencional. E claro, que toda generalização corre o risco do equívoco, e não podemos esquecer que saudáveis exceções sempre existiram. Contudo, devemos ter em mente, que no caso do protestantismo de missão isto não representava uma novidade, pois em comunidades das mais diferentes con-
fissões existentes na América do Norte, também havia negros. Uma outra questão a ser levada em consideração, para se entender a presença de negr@s em comunidades protestantes é o fato de serem obrigados a isto, haja visto a conversão de seus senhores ao protestantismo. Isto pode ser verificado tanto no protestantismo de missão, quanto no de imigração. Quero ainda apontar para dois im portantes aspectos: o primeiro, refere-se ao respeito ou não à cultura negra e, o segundo, até que ponto negr@s foram, de fato, inseridos na vida com unitária como m em bros efetivos de comunidades, como parte do corpo de Cristo. A aceitação de negr@s em comunidades protestantes, não implicou, necessariamente, que sua cultura fosse respeitada. No caso do protestantismo de missão, a postura de muitos missionários, como foi descrita anteriormente, leva-me a crer que o ingresso em comunidades protestantes redundou, conseqüentem ente, não apenas na evangelização, mas também na assimilação forçada de valores culturais oriundos da experiência vivencial destes missionários. No caso de c o m u n id a d e s o riu n d a s do protestantism o de imigração, seu m on o cu ltu rism o poder te r sido tamanho, que a presença de negr@s , escravos ou livres, só se dava mediante a assimilação, o que também vinha a corroborar a idéia de sua inferioridade. Em ambos os casos, negr@s foram invisibilizad@s, isto é, estavam ali, mas era como se não estivessem. Este estar, e ao mesmo tempo não estar, reflete-se n a h is tó ria do p ro te s ta n tis m o brasileiro escrita até o momento, onde
via de regra, há completo silêncio sobre a postura do protestantism o com relação à escravidão, assim como no que se refere ao relacionamento entre branc@s e negr@s. O segundo aspecto, sobre a inserção efetiv a ou não de negr@ s em comunidades protestantes, quero fazêlo a partir de um exemplo onde uma inserção efetiva no seio da comunidade não se verifica, m as apenas a reafirmação de valores e práticas sociais já existentes na sociedade escravocrata brasileira. A Comunidade Evangélica dos Três Reis Magos, localizada em Hamburgo Velho, na Colônia Alemã de São Leopoldo, é uma das m ais a n tig a s com unidades luteranas fundadas no RS. Ela foi atendida entre 1845 e 1886 pelo pastor Johann Peter Haesbaert. Este pastor, nascido na Europa, fez sua formação no Seminário Luterano de Gettysburs
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América do Norte. Após trabalhar como pastor por mais de uma década por lá , foi enviado ao Brasil para atender a Comunidade Evangélica dos Três Reis Magos. No primeiro livro de r e g is tr o s d e s ta c o m u n id a d e , encontramos algumas referências a escravos. Estes escravos pertenciam a membros desta comunidade e em função disto, tiveram um acesso, ao que tudo indica, lim itado à sua vida comunitária. Neste livro constam 1666 batismos, sendo que 58 deles são de filhos de escravos1. Destes 58 registros de batismo, 33 são meninos e 25 de meninas, havendo um par de gêmeos. Nos registros de Hamburgo Velho, o p a sto r H aesb ae rt, que tam bém atendeu a Comunidade Evangélica São Paulo de Estância Velha, entre 1845 e 1876. Nos registros de batismo de crianças filhas de escravas dos m em b ro s de su a c o m u n id a d e , H aesbaert procedeu da seguinte maneira. As crianças são sempre denominadas filhos ou filhas de uma escrava de2. Não há referência ao nome da mãe e sobre o pai não se encontra nada. Ou seja, dentro da forma como se costumava registrar na época, estas crianças eram chamadas de filhos naturais. A mesma forma de registro é e n co n trad a em livros católicos. Perceba-se, o que está implícito, na expressão filho natural, que também é utilizada pelo pastor protestantes. Ao afirmar que a criança é filha natural, se está afirmando, implicitamente, que existe uma oposição entre natureza e civilização, ou seja, esta criança é fruto de uma necessidade biológica de seus genitores, que são negros. Isto não tem relação com civilização. Creio a partir 10
daí, tenhamos algumas pistas para compreender como este pastor via os negros, escravos ou não. Ora, a partir do momento que se entende algo ( = alguém) como natural, e que ele é oposto à civilização, a conseqüência é que o natural é passível de domínio pela civilização. Este é um dos argumentos utilizados para justificar a legitimidade da escravidão. Nos registros de batismo, acima citados, os padrinhos são, via de regra, os proprietários3 e as crianças recebem o sobrenome destes. Esta também era um a prática comum no meio católico romano. Entretanto, nos registros de Hamburgo Velho, percebe-se que o pastor Haesbaert alterou a grafia certos sobrenomes. Assim, os escravos da família Diefenthaeler, tem seu sobrenome grafado Diefentháler4. Com esta distinção, aparentem ente in significante, estabelece-se um a fron teira. Os escravos da família recebem o sobrenome desta, como era costume na sociedade católica luso-brasileira, mas ao mesmo tempo forja-se um sinal distintivo, para distinguir os membros da família e os escravos, que são negros. Contudo, no livro registro ao qual nos referimos, não constam apenas os registros de batismo. Aí também estão registrados casamentos, confirmações e sepultamentos. E é a partir destes registros, ou melhor, da ausência de registros, que se pode apontar para um a inserção apenas parcial dos escravos no seio da comunidade. Do total de 425 casamentos realizados entre 1845 e 1886, não há registro de casamento de escravos. Isto é algo importante, pois como foi apontado anteriorm ente o pastor registra as crianças escravas como filhas naturais.
Isto se deve ao fato de seus genitores terem recebido a bênção matrimonial. Percebe-se, portanto, que batismo possivelmente, foi praticado com o mesmo objetivo que era praticado entre católico romanos, isto é, havia a necessidade de batizar, pois o batismo era o rito de passagem que assinalava o ingresso nesta sociedade/comunidade cristã. Este batismo, contudo, em sua prática, encontrava-se totalm ente esvaziado de seu sentido libertador, pois acabava por rep re se n ta r a legitimação da dominação de um ser humano sobre outro. Do total de 993 confirmações realizadas no período em que o pastor Haesbaert esteve à frente da comu nidade de Hamburgo Velho, não encon tramos nenhum registro que aponte para a confirmação de um escravo. Este fato também corrobora a nossa hipó tese de um a inserção apenas parcial no seio da comunidade, pois tendo sido alijados do ensino confirmatório e da confirmação, os jovens negros foram alijados da convivência comunitária e do aprendizado das questões da fé. Pode-se inferir daí, que não havia a intenção ou interesse de que estes p a s s a s s e m a c o n h e c e r m a is profundamente a Bíblia e a doutrina luterana. O que convenhamos, poderia ser algo potencialmente perigoso. Por sua vez, do total de 402 faleci mentos registrados, apenas dois refe rem-se a escravos e são dos anos de 1879 e 1885, respectivamente. Ou seja, possivelmente os escravos não foram sepultados com a assistência religiosa do pastor. Este fato comprovado, não representa nenhum a novidade, pois vem apenas coroar uma vida que já ha
via sido de exclusão, também na comu-nidade religiosa. Este exemplo, parece apontar para um caso em que não houve integração efetiva dos escravos no seio da comunidade. Ou seja, a presença de escravos negros em um a comunidade protestante não significa, necessariamente, que estes tenham sido evangelizados e que houvesse um a real preocupação com sua dig n id ad e, en q u a n to seres humanos e cristãos. Ao que tudo indica, a prática do batismo nesta comunidade protestante veio apenas reforçar uma prática social mais ampla difundida na sociedade católica brasileira, que tinha por objetivo legitimar a instituição da escravidão. Notas
1 O primeiro livro de registros desta comunidade abrange os anos de 1845 a 1886. Os batismos a partir de 17/04/1886, os casamentos a partir de 24/07/1886 e as confirmações já desde 1885 foram feitas pelo pastor Johann Conrad Schwarz. Todo os registros anteriores foram feitos pelo pastor Johann Haesbaert. Cf. LIVRO DE R E G IS T R O S I DA C O M U N ID A D E EVANGÉLICA DE HAMBURGO VELHO.. 2 Apenas os registros feitos a partir de 1871, ano da aprovação da Lei do V;ntre Livre, que o nome das mães passa a ser citado. O registro passa a ser feito da seguinte maneira: filho/a nascida livre da escrava ... Cf. LIVRO DE R E G IS T R O S I DA C O M U N ID A D E EVANGÉLICA DE HAMBURGO VELHO, p. 4457. 3 Dos 58 registros de batismos de filhos de escravos, em apenas 9 deles os proprietários não são os padrinhos. Contudo, desses 9 casos 6 são datados a partir de 1871, ano da aprovação da Lei do Ventre Livre. 4 Isto acontece nos batismo realizados em 24/02/1850 (p. 10); 23/04/1854 (p. 17); 14/12/1856 (p. 21); 26/02/1860 (p. 27); 23/05/1862 (p. 29); 03/09/1865, 25/02/1866, 01/04/1866 (p. 34); 18/10/1868 (p. 38); 05/06/1870 (p. 40) e 30/11/1873 (p. 44).
O autor: Ricardo Brasil Charão é bacharel em teologia pela Escola Superior de T en ln cna (F .ST ) p fim h i s t ó r i a nfila L
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O navio negreiro -
Castro Alves
Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura u. se é verdade Tanto horror ,perante os céus ... O mar! Por que não apagas Com a esponja de tuas vagas De teu manto esse borrão? ... Astros! Noite! Tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão! ...
Ontem a Serra Leoa, A guerra, a caça ao leão, O sono dormido à toa Sob as tendas da amplidão ... Hoje ... o porão negro, fundo, Infecto, apertado, imundo, Tendo a peste por jaguar ... E o sono sempre cortado Pelo arranco de um finado, E o baque de um corpo ao mar ...
Quem são estes desgraçados,
Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se eu deliro ... ou se é verdade Tanto horror perante os céus ... O mar, por que não apagas Com a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão? ... Astros! noite! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão! ... (Composto em São Paulo, em 18 de abril de 1868)
São os filhos do deserto Onde a terra esposa a luz. Onde voa em campo aberto A tribo dos homens nus ... São os guerreiros ousados, Que com os tigres mosqueados Combatem na solidão ... Homens simples, fortes, bravos Hoje míseros escravos Sem ar, sem luz, sem razão ... São mulheres desgraçadas Como Agar o foi também, Que sedentas, alquebradas, De longe ... bem longe vêm ... Trazendo com tíbios passos, Filhos e algemas nos Na alma lágrimas e fel. Como Agar sofrendo tanto Que nem o leite do prato Têm que dar para Ism ael.