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Diaconia em Contexto: Transformação, Reconciliação, Empoderamento. 2012

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Diaconia em Contexto Transformação Reconciliação Empoderamento

Uma Contribuição da FLM para o Entendimento e a Prática da Diaconia

Federação Luterana Mundial

– u m a C o m u n h ão d e I g r e j a s D e pa r ta m e n t o pa r a M i s s ão e D e s e n v o lv i m e n t o


DIACONIA EM CONTEXTO: Transformação, Reconciliação, Empoderamento Uma Contribuição da FLM para a Compreensão e a Prática da Diaconia


Tradução do original:

“Diakonia in Context: Transformation, Reconciliation, Empowerment

An LWF Contribution to the Understanding and Practice of Diakonia” Publicado pela Federação Luterana Mundial (FLM) – uma Comunhão de

Igrejas – Departamento para Missão e Desenvolvimento (DMD)

Assistência editorial: Pessoal do DMD/FLM

Design and Layout: LWF/OCS Staff

Tradução:

Gustavo Driau

Eva Grollova Jaap Schep

Eva-Sibylle Vogel-Mfato Sally Lim

Jan Silar

Johannes F. Hasenack

Faith Longakit

Revisão:

Laury Rinker

Editora Sinodal

Arte, diagramação:

Pessoal do Serviço de Comunicação/FLM

Capa:

Pessoal do Serviço de Comunicação/FLM Fotografia: Karita Laisi/ Missão Evangélica Luterana Finlandesa (MELF)

K. Miller-Holland

Publicado por:

Federação Luterana Mundial

150 route de Ferney Caixa postal 2100

CH-1211 Genebra 2 – Suíça

Correio eletrônico: info@lutheranworld.org

Sítio web: www.lutheranworld.org

©2009 Federação Luterana Mundial

Editado por

– Uma Comunhão de Igrejas

Federação Luterana Mundial

Não é permitida a reprodução total ou parcial dos conteú-

Rev. Dr. Kjell Nordstokke, em nome da

Documentação e ilustrações fotográficas: Dep. de Missão e Desenvolvimento (DMD/FLM) Serviço de Comunicação da FLM

Todos os direitos reservados.

dos desta obra, salvo autorização expressa da FLM.

ISBN 978-3-905676-96-9 Publicação em português sob a responsabilidade da Igreja

Créditos fotográficos:

Evangélica de Confissão Luterana no Brasil

Igreja Evangélica Luterana na América (ELCA)

Porto Alegre – RS

Missão Evangélica Luterana Finlandesa (MELF)

Archiv der v. Bodelschwinghschen Anstalten Bethel Dieter Lorenz

Rua Senhor dos Passos, 202, 4º andar – CEP 90020-180

Endereço eletrônico: secretariageral@ieclb.org.br www.luteranos.com.br


Sumário Apresentação...................................................................................................................................... 5 Prefácio.............................................................................................................................................. 6 Agradecimentos ..................................................................................................................................6 Introdução Rev. Dr. Kjell Nordstokke................................................................................................. 8 Parte I: O contexto da diaconia.......................................................................................................... 12 1. Por que é necessário ler o contexto?.................................................................................................. 12 2. Tendências globais que afetam os contextos locais............................................................................ 13 3. A ação diaconal em contextos que mudam....................................................................................... 16 4. Espirais de desesperança e espirais de esperança.............................................................................. 19 5. Problemas existenciais em todos os contextos................................................................................... 21 Perguntas para continuar a reflexão..................................................................................................... 22 Parte II: A identidade da diaconia ..................................................................................................... 24 1. A fé que confessamos no Trino Deus............................................................................................... 24 2. A diaconia como parte integrante do ser igreja................................................................................. 27 3. A diaconia da mesa..........................................................................................................................31 4. Boas obras....................................................................................................................................... 34 5. Espiritualidade diaconal................................................................................................................. 37 Perguntas para continuar a reflexão..................................................................................................... 38 Parte III: A ação da diaconia............................................................................................................. 40 1. O propósito da diaconia................................................................................................................... 40 1.1 Respondendo a pessoas e grupos..................................................................................................... 41 1.2 Ações a curto e a longo prazo.......................................................................................................... 41 2. Os propósitos fundamentais do trabalho diaconal........................................................................... 43 2.1 Transformação................................................................................................................................. 43 2.2 Reconciliação..................................................................................................................................44 2.3 Empoderamento.............................................................................................................................. 45 3. As diferentes expressões da ação diaconal........................................................................................ 47 3.1 Diaconia individual – o diaconato de todas as pessoas crentes........................................................ 47 3.2 Diaconia organizada – o esforço coletivo da comunidade............................................................... 48 3.3 Diaconia institucionalizada – uma tarefa mais estruturada ............................................................ 50 3.4 Diaconia internacional – resposta às necessidades humanas junto com a comunhão mundial de igrejas e em seu nome....................................................................................................................... 52

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4. Metodologia diaconal...................................................................................................................... 59 4.1 A importância da metodologia........................................................................................................ 59 4.2 Ver – julgar – agir............................................................................................................................ 59 4.3 Construir cidadania..........................................................................................................................61 4.4 Construir comunidade..................................................................................................................... 62 4.5 Estabelecer redes com outras pessoas..............................................................................................64 4.6 A responsabilidade de prestar contas............................................................................................... 65 5. Agentes diaconais........................................................................................................................... 66 5.1 Voluntários e voluntárias................................................................................................................. 67 5.2 Pessoal profissional.......................................................................................................................... 69 5.3 Ordens do ministério....................................................................................................................... 71 6. Capacitação para a diaconia............................................................................................................ 74 7. Diaconia e trabalho de desenvolvimento.......................................................................................... 76 8. Diaconia profética........................................................................................................................... 81 9. Diaconia e proclamação.................................................................................................................. 83 10. Diaconia e diapráxis...................................................................................................................... 87 11. Valores que norteiam um código de conduta diaconal .................................................................... 90 Perguntas para continuar a reflexão..................................................................................................... 92 Glossário.......................................................................................................................................... 94

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Apresentação

Diaconia é um das dimensões centrais do Plano de Ação Missionária da IECLB – PAMI. Já há algum tempo temos percebido a necessidade de dispor de material de estudo que auxilie na reflexão para uma melhor compreensão e consequente fortalecimento da ação diaconal nas comunidades e instituições da nossa igreja. É com alegria que colocamos em suas mãos o caderno Diaconia em Contexto. Trata-se de um importante material que foi construído em mutirão pelas igrejas-membro da FLM – Federação Luterana Mundial, e a IECLB teve

participação ativa nesse mutirão. A publicação torna-se possível com recursos da própria FLM, pelo que agradecemos. Rogamos a Deus para que tanto a diaconia comunitária quanto a institucional ajudem a fortalecer os sinais do reino de Deus aqui entre nós, e que nos tornemos, cada vez mais, igreja do cuidado, o que Jesus Cristo tanto almejou. Nestor Paulo Friedrich Pastor Presidente IECLB

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Prefácio

Estudiosos e estudiosas de Teologia e Missiologia passaram incontáveis horas estudando o tema da diaconia e escreveram muitos documentos a respeito. No prefácio de um documento como este, não cabe relacionar ou avaliar as diversas posições que defendem as distintas escolas de pensamento sobre esse tema. Contudo, ao ler esta publicação “Diaconia em Contexto. Transformação, Reconciliação, Empoderamento”, é algo novo e alentador ser lembrado de que a diaconia, na verdade, constitui o DNA, ou seja, a própria essência, do que significa ser igreja e da auto compreensão de cada comunidade. A diaconia une a igreja, e por isso ela não pode ser terceirizada para alguma agência especializada ou um grupo de profissionais. Sem dúvida, a igreja necessita de profissionais com conhecimento técnico e competência para seu ministério. Mas convém lembrar que profissionalismo traz consigo tendências que facilmente fazem com que a igreja se entenda como uma ONG. Por isso, esta publicação é oferecida às igrejas como uma contribuição luterana para o debate ecumênico em andamento sobre a compreensão da diaconia e suas estruturas relevantes. Sob esse

aspecto, diaconia é a encarnação do amor de Deus pelo mundo, através de ações humanas. É o amor dedicado, com espírito compassivo, à criação de Deus e é a base fundamental na qual o diálogo e a diapráxis inter-religiosos se tornam possíveis. Tal diálogo interativo é uma necessidade urgente no contexto de debates complexos relacionados com mudanças climáticas e seus impactos, e também em termos de como a comunidade cristã valoriza o papel de pessoas cuidadoras num mundo onde é cada vez maior a mercantilização da assistência. Recomendo, pois, esta publicação para o uso por pastoras, pastores, estudantes e grupos ecumênicos de estudo bíblico. Ela desafia cada leitor e cada leitora a interpelar continuamente a relevância das estruturas e práticas diaconais nas igrejas e nas comunidades.

Rev. Dr Ishmael Noko Secretário-geral

Agradecimentos Como se informa na Introdução, muitas pessoas partiCom apoio financeiro, agências parceiras do ciparam do processo de elaboração deste documento e DMD tornaram viável o financiamento do processo merecem ter suas contribuições reconhecidas: de reflexão comum sobre a diaconia no âmbito da a) as pessoas que participaram de oficinas Comunhão Luterana bem como a publicação deste regionais e da consulta global sobre diaconia (Adis documento e sua tradução para todos os idiomas Abeba, outubro de 2009); b) membros do grupo de trabalho na FLM. Doações especiais de parte da permanente designados para acompanharem Fundação Diakonhjemmet (Oslo, Noruega), da Igreja a redação do documento e que trouxeram da Suécia, e da Igreja Evangélica Luterana Unida contribuições importantes; c) igrejas-membro da Alemanha (VELKD) garantiram a continuidade e pessoas individuais que enviaram observações destse processo em tempo de dificuldades financeiras. enquanto o documento estava em debate A todas as nossas parceiras expressamos sincera gratiantes da redação final; d) pessoas da equipe do dão e reconhecimento. DMD e colegas do Centro Ecumênico; e) um Somos gratos e gratas pelas fotos que organizaagradecimento especial a Stefan Niederberger, ções parceiras e fotógrafos e fotógrafas colocaram à por ter assistido ao diretor do DMD em todas disposição sem custo. Sem essas doações generosas e as etapas desse processo e acompanhado o os recursos de organizações parceiras este projeto não documento em suas diversas fases. teria sido possível.

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INTRODUÇÃO

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© LWF/D. Lorenz

Introdução

espera, vá continuar nas diferentes regiões e contribuir para um processo de aprendizagem contínua, com benefícios para todos e todas nós. Reconhecendo que estamos a caminho nesse processo de aprendizagem, o documento não dá uma definição estrita de diaconia. Contudo, alguns Este documento, Diaconia em Contexto, é o resul- pressupostos fundamentais são assegurados. Um tado de um processo de coleta de experiências de deles é de que diaconia é um conceito teológico que como diaconia é praticada e entendida na vida da aponta para a identidade e a missão específicas da comunhão luterana. O propósito desse processo igreja. Outro consiste em sua implicação prática no consiste em termos uma plataforma comum sobre sentido de que diaconia é um chamado para a ação, como a diaconia é refletida em sua identidade e em como resposta aos desafios do sofrimento humano, seu exercício. Sabendo que os contextos são muito da injustiça e do cuidado para com a criação. Essa diferentes e que o trabalho diaconal é orientado compreensão um tanto aberta de diaconia também por toda uma variedade de tradições, espera-se se deve ao fato de que o próprio conceito não perque tal plataforma possa facilitar a comunicação mite uma definição precisa, nem mesmo quando entre nós e fortalecer-nos na cooperação, como consultado o Novo Testamento grego. O uso atual parceiros e parceiras na missão de Deus. Nesse do termo, em grande parte, foi sendo moldado pela processo, o presente documento visa a dar algumas maneira como pessoas cristãs tentaram cumprir linhas básicas para uma discussão, que, assim se o chamado bíblico para ser pessoas acolhedoras e

Rev. Dr Kjell Nordstokke

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próximas para com as outras, ao longo da história da igreja. Tal é também o caso no âmbito do movimento ecumênico, onde o termo diaconia adquiriu maior importância nas últimas décadas, com clara percepção de que ele expressa uma dimensão importante das igrejas em responderem aos desafios no mundo de hoje. Nessa compreensão, diaconia é vista como parte integrante da missão, ao agir decididamente sobre as causas que provocam sofrimento e injustiças humanas. Diaconia em Contexto reflete esse processo e quer contribuir para o mesmo, a partir da perspectiva luterana e à luz de como a família luterana está se dedicando à diaconia. Nesse esforço, ele segue a posição do documento sobre missão da FLM, Missão em Contexto1, que expõe missão numa forma holística, abrangendo a proclamação, o serviço (diaconia) e a incidência política (advocacy). Esse documento, publicado em 2004, não forneceu uma apresentação ampla de como a diaconia é praticada e entendida, motivo por que se achou melhor providenciar outra publicação com o foco específico nesse assunto. Assim, Diaconia em Contexto pretende responder a essa necessidade. Ele começa com uma breve análise do contexto e aponta para algumas tendências e desafios globais contemporâneos à diaconia. A segunda parte do documento traz uma introdução teológica para a compreensão da diaconia. A terceira parte descreve como a diaconia é exercida em suas diferentes expressões, desde o engajamento individual até atividades bem organizadas, locais e internacionais. É mantido o conceito de missão holística como foi desenvolvido em Missão em Contexto. De acordo com essa compreensão, diaconia é parte integrante da missão. A discussão sobre como isso

acontece, contudo, continua. Uma razão para isso são os diferentes contextos em que a igreja vive, com seu ambiente cultural, religioso e político. Não existe um só modelo de missão holística que possa ser aplicado em todos os contextos, e isso tem consequências para a forma como as diferentes dimensões da missão se relacionam umas com as outras. Também tem a ver com o fato de que, para algumas pessoas, o termo ‘”missão’” é usado num sentido em que a proclamação é o aspecto mais importante. Outras pessoas veem missão como algo mais abrangente – na linha do documento sobre missão –, incluindo tanto a proclamação como o serviço. Uma preocupação específica para muitas pessoas envolvidas no trabalho diaconal é que a ação deva ser configurada de acordo com o contexto e a natureza do trabalho. Essas preocupações deveriam evitar uma separação entre missão e diaconia, como algumas vezes tem sido o caso, e deveriam incentivar todos e todas nós a continuarmos refletindo sobre como as diferentes dimensões da missão estão interligadas e mutuamente se complementam. O documento sobre missão, de 2004, introduziu três conceitos como chaves hermenêuticas para entender a missão hoje: transformação, reconciliação e empoderamento. Esses termos também são muito úteis para a diaconia, por destacar claramente as direções do trabalho diaconal. Não deveriam ser interpretados como se um deles viesse primeiro e conduzisse para o outro; e, sim, como processos paralelos e interativos, tendo todos eles a sua origem no cuidado misericordioso de Deus pela criação e em sua ação salvífica em Jesus Cristo. Tampouco, deveriam esses três conceitos ser considerados como exclusivos, mas sempre em relação com outros conceitos importantes, como a cura, a orientação e o amparo. Este documento se dirige, antes de tudo, às 1 FLM. Missão em Contexto: transformação, reconciliação, em- lideranças na igreja e às pessoas que realizam trapoderamento. Uma contribuição da FLM para a compreensão balhos diaconais em diferentes funções. Ele tem e a prática da Missão. Publicado no Brasil sob o patrocínio como objetivo fortalecer o compromisso com a da IECLB pela Encontro Publicações, 2006, Curitiba.

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© FELM

diaconia e capacitar essas pessoas para seu trabalho diário. As consultas regionais sobre diaconia mostraram que o treinamento para a prática da diaconia é um grande desafio nas igrejas e que há falta de material para o treinamento. É de se esperar que Diaconia em Contexto também possa vir a ser útil nas instituições teológicas que queiram incluir a diaconia em suas propostas de ensino. A elaboração deste documento foi orientada por um processo de consultas regionais e globais

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– a partir de Johannesburg 2002, com foco em diaconia profética, até Adis Abeba –, consultas que produziram os elementos principais do processo de aprendizagem compartilhada até esta data.2 Ele também contém relatórios das regiões, incluindo resultados e recomendações de oficinas regionais. A todas as pessoas que participaram desses encontros expressamos nosso reconhecimento e gratidão por suas contribuições e ideias. Não foi possível fazer constar toda a rica variedade de experiências das igrejas; são trazidos somente alguns exemplos que representam as múltiplas formas do profundo compromisso com o serviço diaconal. É de se esperar que o processo de recepção deste documento venha a fazer maior justiça a essa diversidade de experiências e afirmar a natureza multicêntrica da comunhão mundial. Espera-se também que esse processo fortaleça nosso compromisso mútuo e nos ajude a formar redes de parceiros e parceiras na missão de Deus. Constituiu-se um grupo-tarefa de seis pessoas de diferentes regiões para acompanhar o processo de elaboração de Diaconia em Contexto, a saber: Gustavo Driau da Argentina, Eva Grollova da República Tcheca, Rebecca Larson dos Estados Unidos da América, Dieter Lorenz da Alemanha, Selma Shejavali da Namíbia e Jongkers Tampubolon da Indonésia. A elas, uma última palavra de agradecimento pelo apoio e pelas ideias que, em grande medida, contribuíram para o resultado desse processo. Genebra, julho de 2009. Kjell Nordstokke Diretor do Departamento de Missão e Desenvolvimento da FLM 2

O relatório da consulta de Adis Abeba foi publicado em: LWF. Serving the Whole Person. The Practice and Understanding of Diakonia Within the Lutheran Communion. Genebra, 2009. (Documentation 54/2009).


PartE I: O CONTEXTO DA DIAConia

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© LWF/J. Schep

Parte I: O contexto da diaconia 1. Por que é necessário ler o contexto? Todas as pessoas vivem e agem dentro de determinados contextos históricos. A Bíblia anuncia o agir de Deus no mundo dentro de contextos históricos específicos e, muitas vezes, em lugares tais onde há sofrimento humano. O relato do Êxodo, no Antigo Testamento, conta a intervenção de Deus em meio a experiências concretas de opressão: Eu tenho visto como o meu povo está sendo

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maltratado no Egito; tenho ouvido o seu pedido de socorro por causa dos feitores. Sei o que estão sofrendo (Êxodo 3.7). De modo semelhante, a encarnação de Deus em Jesus Cristo se deu num determinado contexto social, econômico, político, religioso e cultural, que moldou seu ministério. A ação diaconal, vista como parte integrante da missão da igreja no mundo de hoje, também é condicionada e desafiada pelos contextos concretos. Para que seja algo relevante, a diaconia “precisa de oração e discernimento dos sinais do tempo e uma leitura dos contextos a partir da fé”.1 Tal leitura do contexto é uma empreitada complexa pelo fato de que todos os contextos são multifacetados e exigem uma consideração interdisciplinar. A título de exemplo, o desafio da pan1

FLM. Missão em Contexto: transformação, reconciliação, empoderamento. Uma contribuição da FLM para a compreensão e a prática da Missão. Curitiba: Encontro, 2006. p. 12.


demia do HIV e da AIDS não pode ser enfrentado apenas sob a perspectiva médica; suas implicações sociais, econômicas, culturais e religiosas precisam ser levadas em consideração para ser plenamente entendida. O sofrimento tem relação com todas as dimensões, assim como também o cuidado e a transformação são pertinentes a todas elas. A análise do contexto precisa ser crítica, levantar questionamentos e revelar pressupostos. Especialmente, precisa incluir vozes que tendem a não serem ouvidas, tanto na igreja como na sociedade. Especialmente, é importante prestar atenção às histórias de pessoas marginalizadas e excluídas e da sua versão do por quê das coisas serem como são e onde elas veem esperança e possibilidade de mudança. Nesse processo de conhecer, analisar e classificar o contexto, é especialmente importante resguardar um espaço para os pontos de vista das mulheres e das pessoas jovens. A diaconia só poderá cumprir sua tarefa e desempenhar um papel ativo na criação de um futuro melhor se desencadear processos de transformação em que a gratuidade única, a dignidade humana e a experiência cotidiana de cada pessoa forem respeitadas. Cada pessoa deveria ter a oportunidade de não apenas contar sua história, mas também de ser ouvida e valorizada pelas outras. Somente então, todas as pessoas poderão desempenhar um papel ativo na tarefa de moldar um mundo melhor e fazer com que sejam desencadeados processos de transformação. Como ação baseada na fé, a diaconia conecta a leitura do contexto com a leitura da Escritura Sagrada. Histórias de sofrimento e opressão, da realidade contemporânea, podem ser elucidadas e melhor entendidas por histórias semelhantes da Bíblia. Mas, além disso, o testemunho bíblico nos lembra do amor e do cuidado incondicionais de Deus para com as pessoas sofridas e marginalizadas e da promessa divina de futuro e esperança. Para a diaconia, a leitura do contexto nunca é um objetivo como tal, em si mesmo. Seu propósi-

to é mobilizar a ação diaconal e assegurar que tal ação seja bem direcionada para o bem de pessoas necessitadas. Isso ajuda a colocar prioridades e formular objetivos para ações compartilhadas e para definir métodos de trabalho que sejam eficazes e baseados nos valores diaconais. Então se enxergam os recursos disponíveis; a consciência desperta para os potenciais e as limitações, e para a busca de possíveis parcerias aliadas.

2. Tendências globais que afetam os contextos locais No tempo de hoje, o contexto local não pode estruturar sua vida no isolamento. Todas as situações locais são condicionadas também por tendências econômicas, religiosas, sociais, culturais e políticas mais abrangentes. Ademais, a realidade da globalização, em grande escala, determina a vida ecológica, econômica, social, cultural e mesmo a religiosa, em todo o mundo. O documento da FLM, Missão em Contexto, menciona “Os complexos efeitos da globalização” como o primeiro assunto entre “A mudança de realidades globais que afetam os contextos global e local”. O documento mostra a natureza ambígua da globalização. Iria além do propósito do presente texto trazer uma análise completa das complexidades da globalização, com seus desafios e suas oportunidades. Por um lado, a globalização trouxe uma série de benefícios, em diferentes aspectos da vida, tais como a tecnologia da comunicação e o conhecimento científico. Também apurou a consciência para com questões sociais e de sofrimento humano ao redor do mundo, bem como a possibilidade de a gente reagir e responder a crises. De fato, é possível apontar conquistas que tornaram a vida mais fácil para milhões de pessoas. Por exemplo, mais crianças tiveram a oportunidade de frequentar a escola, e mais pessoas tiveram

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acesso à água limpa como jamais antes. Iniciativas no combate a doenças graves, como tuberculose e malária, mostram resultados encorajadores. Muito disso foi possível devido a esforços globais, tais como os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), lançados pelas Nações Unidas (ONU) em 2001. Por outro lado, também existem impactos negativos da globalização e, muitos deles, severos, especialmente quando olhamos para a globalização econômica tal como vem sendo tocada por instituições e práticas financeiras e negócios internacionais. A globalização econômica avança sob o pressuposto de que a “mão invisível” do mercado, se deixada solta para reinar com relativa liberdade, vai otimizar o bem-estar, à medida que cada indivíduo persegue seu ganho econômico. Os seres humanos são vistos, em primeiro lugar, como indivíduos com necessidades e desejos insaciáveis que competem entre si, buscando adquirir ou “ter” mais – ao invés de “ser” comunidade com os outros. Os objetivos que dominam são o crescimento econômico ilimitado, a produtividade, a propriedade e o controle, e isso é o que importa, junto com o propósito de usar quase todo e qualquer meio para conseguir maiores lucros.2 2

BLOOMQUIST, Karen L. (Ed.):. Communion, Responsibility, Accountability. Responding as a Lutheran Communion to Neoliberal Globalization. Genebra: FLM, 2004. p. 25-26. (Documentation n. 50).

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A globalização econômica, portanto, tem muitos efeitos. Um dos mais negativos é que causou um crescente abismo entre os mais ricos e os mais pobres no mundo. Ademais, as forças da globalização econômica, tais como as corporações transnacionais, não estão sujeitas © LUCSA a controles políticos e tomadas de decisão democráticas. Contudo, elas têm poder para determinar o futuro de países inteiros, especialmente quando agem em aliança com grandes nações cujos programas políticos e econômicos estão estreitamente relacionados, assim como nos impérios do passado. O consumismo, a poluição e a ameaça ao frágil ecossistema são outras consequências negativas da globalização econômica. Acontecimentos recentes chamaram a atenção para dois outros temas que causaram novas inquietações e temores: a fragilidade dos sistemas financeiros e as consequências dramáticas das mudanças do clima no mundo, principalmente para os países mais pobres e vulneráveis. Essas tendências põem em evidência a necessidade de enfrentar com urgência o desafio da pobreza. Segundo dados das Nações Unidas, em países onde as diferenças de renda estão se distanciando, no mínimo 80% da humanidade vive com menos de dez dólares americanos por dia. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, sigla em inglês) relata que até 30 mil crianças morrem por dia por causa da pobreza. Essas tendências põem em evidência a necessidade de enfrentar com urgência o desafio da pobreza. Segundo dados das Nações Unidas, em países onde as diferenças de renda estão se distanciando, no mínimo 80% da humanidade


vive com menos de dez dólares americanos por dia. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, sigla em inglês) relata que até 30 mil crianças morrem por dia por causa da pobreza. Depois de ouvir relatórios sobre condições desumanizantes impostas pela pobreza, uma consulta da FLM realizada na África, em setembro de 2006, sobre “A Pobreza e a Missão da Igreja”, concluiu: Em tempos como estes, é preciso denunciar as forças do pecado que perpetuam a pobreza. Essas forças continuam explorando nossas terras e roubam de milhões de pessoas o direito dado por Deus ao pão de cada dia e a uma vida decente. Entre essas forças estão os sistemas econômicos injustos, a escalada dos conflitos e da violência e a fuga obrigatória da população das terras de seus ancestrais. A expansão de HIV e AIDS é agravada pela pobreza. Seres humanos se veem obrigados a morar debaixo de pontes e a procurar nos lixões seu pão cotidiano. Homens, mulheres e crianças já não têm lágrimas e se veem privados de seus direitos, seus dons e potenciais. Cresce de forma alarmante o número de jovens sem emprego nem esperança. Em quase todas as situações de empobrecimento, o fardo carregado pelas mulheres que gemem sob constante labuta é chocante. Tais condições esmagadoras são intoleráveis, pecaminosas.3 A migração é uma das principais expressões dessa realidade. Não tem precedentes, em âmbito mundial, o número de pessoas refugiadas e deslocadas. Em 2007, em mais de 70 países, foram registradas quase 32 milhões de pessoas, e dessas, cerca de 14 milhões eram pessoas deslocadas em seus próprios países. Ademais, milhões de pessoas abandonaram seu país de origem em busca de um futuro melhor para si e suas famílias, procurando escapar da pobreza ou de situações de insegurança. Como trabalhadores e trabalhadoras migrantes, em geral, elas não têm os mesmos direitos e acesso a serviços como os residentes permanentes.

São passíveis de abusos e, não raro, ficam sujeitas à discriminação e xenofobia. O tráfico de pessoas é outra e, talvez, a mais dolorosa experiência de sofrimento humano. Considerado o negócio criminal de maior crescimento no mundo, esse tráfico obriga centenas de milhares de pessoas, principalmente mulheres, a submeter-se a formas modernas de escravidão, como a prostituição e a servidão doméstica. A “fluidez social” veio a ser um termo importante para descrever a tendência, na maioria das sociedades, para a mobilidade de estruturas fixas, muitas vezes determinadas por classe, composição étnica e heterogeneidade cultural, em direção a formas pluralistas de convivência. A migração e a urbanização são dois fatores importantes nesse desenvolvimento. A fluidez social pode derrubar tradicionais barreiras étnicas e culturais. Pode também causar a erosão da identidade e responsabilidade coletivas e promover formas de individualismo que deixam a pessoa só nas lutas da vida. Outra consequência dessa “fluidez” é que questões éticas são consideradas relativas, deixando a critério da pessoal individualmente decidir sobre questões como aborto, eutanásia e intervenção genética. A tecnologia moderna e os avanços da ciência fizeram com que as questões

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BLOOMQUIST, Karen L.; FILIBUS, Musa Panti (Eds.).

«So the poor have hope, and injustice shuts its mouth». Poverty and the Mission of the Church in Africa. Genebra: FLM, 2007. p. 16. (WF Studies 01/2007).

© ECCB/Jan Silar

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da vida e da morte sejam muito mais complexas do que há apenas uma geração passada. Seria possível tratar desses assuntos de forma individual? Ou não precisam eles, muito antes, estar ancorados em sistemas de valores que os localize fora do interesse imediato de ação? A “coesão social” (entendida como comunidade que representa mais que a soma dos indivíduos que a compõem) tem sido destacada como condição necessária para formar a sociedade. Como se constrói essa coesão social? Parece que ela inclui vários componentes diferentes: ideias políticas, valores éticos, convicções básicas e visões com respeito ao que é bom e pelo que vale a pena lutar. A fé tem a ver com todos esses elementos, e pessoas religiosas podem desempenhar uma função importante no processo de criar a coesão social. Esse é um dos potenciais da abertura pós-moderna para a pluralidade religiosa e cultural. O assim chamado “retorno à religião” tem essa dimensão promissora, sim; mas ele também deve ser visto em relação com a sua dimensão assustadora, a de fomentar o fundamentalismo reacionário e violento. Para a diaconia, esse desenvolvimento abre novas possibilidades para integrar a fé e a ação, para promover a esperança, o amor e a justiça em meio à realidade humana. Todas essas questões desafiam as igrejas a tornarem seus serviços de diaconia capazes para

© LWF/S. Lim

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agir com ousadia em favor das pessoas sofredoras e marginalizadas e a estarem comprometidas com a causa de promover a justiça, a paz e a integridade da criação. Essas questões têm que ser levadas em conta na hora de definir as frentes prioritárias para a ação diaconal, influindo na argumentação sobre o motivo por que determinadas atividades recebem atenção maior que outras. Elas também têm consequências metodológicas, para a maneira como se executa o trabalho diaconal. Em tudo isso – na teoria e na prática – a diaconia precisa levar em consideração a devida relação com o seu entorno e todas as suas dimensões: social, política, religiosa, econômica e cultural. A consciência da situação global não deveria desviar a atenção da realidade local e da sua importância. As tendências globais só podem ser entendidas corretamente a partir da perspectiva local, interpretando e avaliando os efeitos que elas têm na vida cotidiana do povo comum. O panorama global ajuda a entender o local, mas também vale o contrário. Foi criado o termo glocal para designar a correlação entre o global e o local, tanto em termos de análise como de ação. Contudo, a leitura do contexto local precisa ir além das perspectivas gerais; precisa ficar estreitamente ligada com as condições e os desafios locais concretos. Somente então pode ser compreendido o panorama maior, e isso capacitará os agentes diaconais a determinar com olhar crítico se o seu trabalho responde aos desafios identificados ou se há necessidade de uma renovação, uma reformulação de objetivos e estratégias, e a criação de novas alianças. Por essa mesma razão, o potencial do contexto local para resistir e até para apresentar alternativas às tendências globais não deveria ser subestimado. Um exemplo encorajador são as iniciativas em termos de comércio justo – fair trade –, que vinculam produtores e produtoras locais com consumidores e consumidoras locais em outra parte do mundo. A história fornece re-


latos incríveis de renovação e mudança inesperadas que vêm de lugares que eram considerados periferia. Ficou provado que Natanael estava errado com sua pergunta cínica: E será que pode sair alguma coisa boa de Nazaré? (João 1.46). Que isso nos sirva de alerta sempre que alguém manifesta desrespeito para com a realidade local e seu potencial de transformação.

3. A ação diaconal em contextos que mudam A ação diaconal tem mudado de uma geração para a outra de acordo com as condições contextuais. Deve-se isso, parcialmente, a desafios como aqueles mencionados acima; também depende das condições ideológicas e do tipo de interpretação que se dá à intervenção diaconal na sociedade. Na maioria das regiões, as tendências globais têm efeitos significativos para a obra diaconal. Elas criam novos desafios e alteram as condições para a intervenção diaconal, e algumas delas foram mencionadas no texto acima. Mas existem também realidades locais ou regionais que afetam o trabalho diaconal. Em muitos países do hemisfério Sul, o empobrecimento generalizado tem consequências para a igreja. Tornou-se mais difícil manter instituições diaconais, como hospitais, na maioria dos contextos. O apoio financeiro dos parceiros e das parceiras do hemisfério Norte está diminuindo. Assim, algumas igrejas talvez cheguem à conclusão de que não podem mais manter o trabalho e podem, eventualmente, transferir hospitais para as mãos do governo ou para o setor privado, argumentando que essas instituições são uma herança do tempo quando missionários estrangeiros traziam consigo recursos suficientes do exterior, e que o trabalho diaconal de hoje deveria ser mais flexível, estar mais orientado para as necessidades da própria comunidade,

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Hauptarchiv der v. Bodelschwinghschen Anstalten Bethel

e menos dependente de estruturas onerosas. Por outro lado, é doloroso quando as igrejas precisam abrir mão do seu empenho no âmbito da saúde, especialmente numa época de enormes desafios, tais como a pandemia da AIDS. No âmbito local, a pobreza tem expressões diferenciadas, causadas por razões distintas. Mau governo, corrupção, conflitos étnicos e guerra civil são alguns dos fatores que aumentam o sofrimento das pessoas que vivem em pobreza. Ao mesmo tempo, também existem fatores que desafiam as igrejas a renovar o seu compromisso diaconal, a achar novos caminhos para cuidar das pessoas que vivem em pobreza e opressão e a trabalhar com elas para lhes restituir a dignidade e defender seus direitos. O Leste europeu é uma região que experimentou mudanças dramáticas nas últimas décadas. No passado, as igrejas estiveram envolvidas com diferentes tipos de trabalho diaconal, mantendo inclusive muitas instituições. Quando os comunistas assumiram o poder, todo esse tra-

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balho foi interrompido e muitos prédios foram confiscados pelo governo. Quando o comunismo caiu, as igrejas sentiram-se desafiadas a revitalizar o seu compromisso diaconal. Especialmente, nessa primeira nova fase, elas puderam contar com forte apoio de parceiras diaconais do Ocidente, que lhes deram condições para desenvolver serviços de assistência. Mas em breve viram que não poderiam ficar dependendo dos recursos externos, tampouco poderiam voltar à situação de antes do comunismo e à posição que as igrejas então haviam ocupado como igrejas. Havia uma necessidade clara de reorientar o engajamento diaconal de acordo com os novos desafios e as novas condições políticas. Na Europa ocidental também aconteceram mudanças significativas nas últimas décadas. Em consequência do estabelecimento do Estado do bem-estar social, nos anos de 1950 e 1960, as instituições diaconais foram integradas ao sistema. O processo foi diferente nos diversos países. O princípio fundamental, contudo, era que o acesso


verba pública. Em outros lugares, uma atitude de suspeita mútua impede tais relações. A questão é se, para que funcione a cooperação entre autoridades do governo e a diaconia, é necessária a tradicional aliança “estado-igreja” ou se podem ser criadas outras formas de relação, como, por exemplo, no âmbito da sociedade civil.

4. Espirais de desesperança e espirais de esperança O panorama do mundo globalizado, como aqui apresentado, pode ser percebido como uma espiral de desesperança. As dificuldades e o sofrimento experimentados no nível pessoal estão relacionados com experiências correspondentes em outros níveis, como o social, o político e o ideológico. Nesse processo, o sentimento de impotência e medo não só se confirma, mas até aumenta. No nível político, em alguns países, percebese que os subsídios para os alimentos básicos estão sendo reduzidos, muitas vezes em consequência de pressão por parte de autoridades financei© LWF/D. Lorenz

a serviços de saúde e de assistência social se baseava na solidariedade e na justiça, não na caridade. Outro pressuposto importante era que esses serviços deviam ser realizados por profissionais e de acordo com normas públicas. Os serviços modernos de bem-estar social já não podiam basear-se em motivações e valores religiosos, mas passaram a apoiar-se em ideais políticos e preocupações sociais. Isso teve forte impacto na ação diaconal, principalmente ao ser ela financiada com dinheiro público ou ser, de outras formas, integrada nos programas de saúde pública e bem-estar social. Poderia dizer-se que, em tais situações, a secularização da sociedade levou a uma certa secularização das instituições e dos serviços diaconais. Enquanto isso continua sendo uma questão a resolver, surgiu outro problema no decorrer das últimas décadas. Os sistemas de bem-estar social vieram a sofrer pressão em alguns países ocidentais. Os críticos dizem que os serviços não são eficientes e que são caros demais. Estão sendo fomentadas privatizações e outras soluções orientadas pelo mercado. Em que lugar se inserem as instituições diaconais nessa discussão? Como organizações sem fins lucrativos, elas não são comerciais e, por isso, nem públicas nem privadas. Muitas vezes, resistem à exigência de ser rentáveis, especialmente quando a “rentabilidade” viria às custas de valores fundamentais e da qualidade do serviço assistencial. De que maneira a identidade ideológica diferente da diaconia responde a esses diversos desafios? Porventura o trabalho diaconal traz consigo valores agregados e competência específica? Será que existe o risco de pressões políticas e financeiras deturparem a identidade da ação diaconal? A relação entre a diaconia e as autoridades governamentais, muitas vezes, espelha a relação entre a igreja e o estado em determinado país. Em alguns lugares, isso quer dizer estreita cooperação no sentido de que o trabalho diaconal é executado em nome do governo e custeado inteiramente com

ras internacionais. Em outros países, os serviços públicos para o bem-estar social sofrem cortes ou são eliminados. Em ambos os casos, as pessoas mais pobres são as mais afetadas. No nível ideológico, isso se explica pelo neoliberalismo orien-

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tado pelo mercado; e ainda há quem reclame que a política do bem-estar social é muito onerosa e poderá prejudicar a economia nacional. Em muitos países, a riqueza privada cresceu concomitantemente com o empobrecimento das instituições públicas, o que, provavelmente, reflita uma tendência para a individualização na cultura pós-moderna. A individualização é o estilo de vida de seres humanos autônomos que buscam oportunidades individuais, cada qual por si só responsável pelo próprio futuro. Mas, infelizmente, nem todas as pessoas são capazes de alcançar vida de bem-estar nessas condições. Pode haver razões pessoais, econômicas ou culturais, ou mesmo uma combinação delas, que impedem as pessoas de terem a parte que lhes cabe do que se consideram bens e direitos comuns. Ao invés disso, são marginalizadas no acesso a tais bens e direitos. A espiral da desesperança não apenas acrescenta uma experiência negativa à outra enquanto relaciona um nível com outro, mas também tem uma espécie de efeito centrífugo, no sentido de que joga mais para fora, para a margem, as pessoas apanhadas nesse sistema. A marginalização, portanto, deve ser vista como uma experiência multidimensional. Ela tem uma dimensão pessoal quando priva as pessoas da autoestima. Então, são estigmatizadas e silenciadas. No nível social, criam-se mecanismos de exclusão justificados ideologicamente. Dito seja que descrever a realidade dessa maneira é muito unilateral e, felizmente, a maioria das pessoas experimenta a vida de forma muito mais rica do que a apresentada nessa espiral de desesperança. As pessoas experimentam amor e bondade e vivem relacionamentos que dão motivos para a esperança e o futuro. A experiência também mostra que é possível romper a espiral. O ponto de entrada pode ser qualquer um dos diferentes níveis: o individual, o social, o político ou o ideológico. A luta contra a segregação racial (apartheid) é um exemplo importante de diferen-

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tes atores que encontraram diferentes pontos de entrada para o mesmo objetivo. Como seres humanos, cada qual vive sua vida como pessoa individual e como parte de uma comunidade, como membro de família, como vizinho e vizinha, como colega, como amigo e amiga, como cidadã e cidadão. O conhecido conceito africano de ubuntu transmite um entendimento de pessoa como o estar em relação com outras pessoas. O arcebispo Desmond Tutu a descreve como pessoa cuja autoafirmação provém do saber de que pertence a um todo maior, para o qual está aberta e disponível. Por isso todas as pessoas sofrem diminuição quando uma delas é humilhada ou menosprezada, torturada ou oprimida. Essa identidade pode ser imaginada como uma espiral em que as relações estão conectadas de tal forma que sempre se expandem e incluem outras pessoas. Assim Nelson Mandela, certa vez, descreveu Ubuntu: Um viajante que atravessa um país vai parar numa aldeia, e ele não precisa pedir comida ou água. Uma vez que para, as pessoas lhe dão comida e se ocupam com ele. Esse é um aspecto de Ubuntu, mas existem vários outros. Ubuntu não quer dizer que as pessoas não devam ocupar-se consigo mesmas. A pergunta, portanto, é a seguinte: Você está disposto a atuar dessa forma para que a comunidade no seu entorno possa tornar-se melhor?4 Está claro que conceitos como ubuntu podem ser usados de forma romântica, que idealiza uma tradição, sem reconhecer a dura realidade social e as experiências de fragmentação na sociedade sul-africana. Uma de suas virtudes é que inclui o cuidado pelo próximo de forma holística. Além disso, aponta para a importância de estar relacionado com outras pessoas, de forma a manter sempre viva a esperança. A seguir, o diagrama de uma espiral pode ser útil para ilustrar esse conceito. 4

http://en.wikipedia.org/wiki/Ubuntu_(philosophy)


Fig. 1: A espiral da esperança O ponto de partida aqui é o entendimento de que a dignidade humana se expressa e se afirma num leque de dimensões e nas relações entre as mesmas. É isso que cria comunhão, e é assim que são vivenciados os valores da comunhão. A dimensão política diz respeito ao fato de que a vida política depende de cidadãos e cidadãs, que expressam sua esperança e sua visão do futuro. Podemos encontrar exemplos para isso nos múltiplos movimentos sociais que formam a sociedade civil, com seu poder para fortalecer a democracia e os processos de política participativa, a partir de baixo. Isso tem a ver com a dimensão ideológica, que define o que é verdade, o que é bom e justo; dessa vertente, as pessoas propõem iniciativas para promover a solidariedade, a paz e o cuidado pela criação, de acordo com a sua visão do mundo e seus valores. É na dimensão social que fica claro se cada pessoa recebe espaço para participar de acordo com a sua própria identidade e seu engajamento. Se não há espaço, a ideologia pode tornar-se totalitária, o que ocorre quando se permite apenas uma verdade ou se expressa apenas um entendimento da esperança.

A esfera social tem a possibilidade de estabelecer mecanismos de inclusão, de capacitação para participar e reconhecer que as diferenças humanas constituem um potencial, não um problema. As muitas dimensões da realidade, naturalmente, são bem mais complexas do que essa ilustração mostra. Também existem contradições dentro de cada uma das dimensões, que não permitem o empenho por uma vida melhor de forma tão pronta como alguém poderia esperar. Apesar de tudo isso, os roteiros de estrada sempre têm sido importantes para as pessoas em movimento. A esperança também precisa de roteiros para seus caminhos. A questão real é se a esperança, como profunda ansiedade em cada ser Em 2003, a Igreja Evangélica Mekane Yesus, da Etiópia, iniciou um projeto para crianças que ficaram órfãs em consequência de AIDS. Em sua maioria, durante anos, já tinham vivido sozinhas e sem qualquer ajuda ou esperança para o futuro. A igreja empenhou-se junto com as lideranças das comunidades para identificar as 150 crianças mais carentes a serem incluídas no projeto. O objetivo não era apenas providenciar comida e abrigo, mas integrá-las em novas famílias. Em todos os casos, essas crianças encontraram acolhida em famílias de sua antiga vizinhança. Foram colocados recursos à disposição dessas famílias para pudessem providenciar comida, camas e cobertores, bem como os artigos necessários para a escola. Visitas regulares por pessoas da igreja lhes facilitaram acesso a tratamento médico e à continuação dos estudos. Depois de três anos, solicitou-se a essas crianças que dissessem qual tinha sido a maior mudança que esse projeto trouxera para suas vidas. Todas elas responderam da mesma forma: Agora temos um lugar para passar a noite, ter comida a cada dia, frequentar a escola, e agora vivemos com novos pais, irmãs e irmãos. A transformação mais maravilhosa é que antes vivíamos abandonadas e não tínhamos onde ficar, mas agora pertencemos a um grupo, e isso nos dá esperança para o futuro. humano por algo melhor por acontecer, está fundamentada naquilo que somos como criação de Deus. A esperança não apenas é uma dimensão intrínseca do ser. Todos nós já vimos a esperança

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se tornar realidade, como ficou testemunhado com muitas histórias familiares: um membro da família se recupera de grave doença, um problema comunitário é resolvido por ação conjunta, ou pessoas oprimidas alcançam a liberdade. Em tais momentos, as espirais de esperança foram expressas e trouxeram forças para uma realidade maior, em suas dimensões política, ideológica e social. A diaconia vê-se desafiada pela espiral da desesperança e, em sua ação, ela busca reforçar a espiral da esperança. A diaconia toma iniciativas de acompanhamento às pessoas quando avançam passo a passo, tendo a visão de transformação, de reconciliação e de empoderamento.

so redor, tentando prejudicar e destruir relações e responsabilidades. Por vezes, agimos em contrário às mais profundas convicções e deixamos de fazer o que se espera de nós. As boas intenções também podem ser experimentadas como seu oposto. Sob o ponto de vista teológico, isso tem a ver com o conceito do pecado original, o reconhecimento de que todos os seres humanos, por sua própria natureza, praticam ações pecaminosas. Essa realidade faz de todos e todas nós vítimas do mal, tão bem como também nos faz corresponsáveis pelo mal que é feito. Mas essa não é a verdade toda. Em Cristo, nós somos nova pessoa (2 Coríntios 15.17), que já não está mais escravizada ao poder do pecado. Por isso a ação diaconal procura resistir ao mal em todos os níveis, incluindo os níveis social e político. O mal precisa ser enfrentado e denunciado. A ação diaconal anuncia, com vigor, maneiras alternativas de ser pessoa humana, à luz da É importante lembrar que algumas dimensões fé, do amor e da esperança. O contexto, naturalmente, vai ter influência fundamentais da vida humana são constantes e independentes dos diferentes contextos. Elas na forma como vamos enfrentar esses desafios revelam desafios existenciais que sempre requerem existenciais. Dentro de uma espiral de desespeuma resposta diaconal, por exemplo, o fato de que rança, muitas vezes, vem dor sobre dor. Tal pode todos e todas somos vulneráveis a doenças, dor e ser o caso tanto numa sociedade rica como em sofrimento, e de que somos seres mortais que não lugares de extrema pobreza. Da mesma forma, o podem escapar da morte. Sob essa perspectiva, sofrimento pode ser mitigado onde espirais de esfica claro que a diaconia é uma tarefa e uma pos- perança abrem espaços para o cuidado, a solidariedade e o compromisso com a justiça, enfim para sibilidade em todas as situações humanas. Ademais, todos e todas nós experimentamos o amor em Cristo que nunca desiste, porém suporta a força destrutiva do mal, dentro de nós e ao nos- tudo com fé, esperança e paciência (1 Coríntios 13.7).

5. Problemas existenciais em todos os contextos

Perguntas para continuar a reflexão 1. Quais são os problemas mais prementes na sociedade que exigem resposta diaconal da igreja? Eles são locais, regionais ou globais? 2. Como está sendo realizado o serviço diaconal em sua igreja? Como responde aos problemas mencionados na questão anterior? 3. No seu contexto, é relevante “a espiral da esperança”? (p. 20) Como você a usaria para interpretar a situação em que vive?

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Part II: A identidade da diaconia

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Parte II: A identidade da diaconia

ao terminar o trabalho da criação de cada dia: E © EYCE Deus viu que o que havia feito era bom (Gênesis 1). O Salmo 19 até anuncia uma celebração cósmica de Deus como Criador: O céu anuncia a glória de Deus e nos mostra aquilo que as suas mãos fizeram. Cada dia fala dessa glória ao dia seguinte, e cada noite repete isso à outra noite. Não há discurso nem palavras, e não se ouve nenhum som. No entanto, a voz do céu se espalha pelo mundo inteiro, e as suas palavras alcançam a terra toda (versículos 1-4a). De forma semelhante, o autor do Salmo 8 louva o Criador: Ó SENHOR, Senhor nosso, a tua grandeza é vista no mundo inteiro (v. 1). E continua falando do papel Como pessoas cristãs, confessamos a fé no Trino surpreendente e da dignidade dos seres humanos: e Uno Deus. É essa fé que constitui a identidade Quando olho para o céu, que tu criaste, para a lua e para as estrelas, que puseste nos seus lugares – que é um da igreja e, assim, a identidade da diaconia. simples ser humano para que penses nele? Que é um A fé em Deus, o Criador, confessa que ao SENHOR ser mortal para que te preocupes com ele? No entanto, Deus pertencem o mundo e tudo o que nele existe fizeste o ser humano inferior somente a ti mesmo e lhe (Salmo 24.1). A fé no Criador também implica deste a glória e a honra de um rei (v. 3-5). Essa fé contrasta com as visões do mundo que admiração e louvor, reconhecendo a dignidade e a profunda qualidade do que é criado. Isso corres- reduzem a criação a coisas materiais, que os seres ponde à conclusão a que chegou o próprio Criador humanos podem livremente consumir e até des-

1. A fé que confessamos no Trino Deus

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perdiçar. O material nunca é só material, e sim uma expressão da bondosa vontade de Deus e objeto do seu amor infinito. A boa criação de Deus não pode ser reduzida a objeto do consumo humano, mas merece respeito e cuidado. Todos os seres pertencem, juntos, ao ecossistema de relações mútuas e de interdependência. Principalmente, nestes tempos de alarmante crise ecológica, esse ponto de vista sistêmico se torna prioridade muito urgente. A dignidade dos seres humanos tem suas raízes mais profundas no fato de terem sido criados à imagem de Deus. Isso, porém, não justifica qualquer tipo de antropocentrismo, que considere que todas as outras criações estão a serviço dos seres humanos. Pelo contrário, Deus confia ao gênero humano a responsabilidade especial de cuidar da sua criação na função de administradores e administradoras. A ação diaconal afirma essa vocação e procura mostrar as oportunidades para sermos parceiros e parceiras na missão de Deus. Essa ação confessa a presença constante de Deus no mundo como Criador – a cada dia e em todas as situações –, somando a sua voz à proclamação cósmica da glória do Trino e Uno Deus. Esse conceito de criação contínua encontra expressão no Catecismo Menor de Lutero:

que trabalhem em cooperação com todas as pessoas de boa vontade, reconhecendo que cada ser humano é criado à imagem de Deus, tendo por isso o mandato de ser colaborador de Deus, no amor e no cuidado contínuos de Deus pela criação toda. Contudo, a fé cristã não ignora que as forças do mal, a injustiça e a morte tentam destruir a vida a cada dia – tanto fora como no seio da igreja – e que há situações em que essas forças parecem sair vitoriosas. Mas, mesmo então, prevalece a esperança baseada na mensagem que Deus é o Deus da Vida, que dá futuro e esperança, especialmente às pessoas pobres e excluídas (mesmo quando não [há] motivo para ter esperança... Romanos 4.18; A fé é a certeza de que vamos receber as coisas que esperamos e a prova de que existem coisas que não podemos ver. Hebreus 11.1). Essa fé dá os impulsos para a diaconia resistir ao mal e a promover a justiça, a advogar com e em favor das pessoas necessitadas e a agir com ousadia, colocando sinais de esperança transformadores.

A fé em Jesus Cristo confessa-o como o Deus encarnado, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para salvar muita gente (Marcos 10.45). Aqui Jesus se refere à missão messiânica usando o termo “servir” (em grego: Creio que Deus me criou junto com todas as cria- diakonein), numa forma que faz da proclamação

turas, e me deu corpo e alma, olhos, ouvidos e todos os membros, inteligência e todos os sentidos, e ainda os conserva; além disto, me dá roupa, calçado, comida e bebida, casa e lar, família, terra, trabalho e todos os bens. Concede cada dia tudo de que preciso para o corpo e a vida; protege-me de todos os perigos e guarda-me de todo o mal. E faz tudo isso unicamente por ser meu Deus e Pai bondoso e misericordioso, sem que eu mereça ou seja digno. Por tudo isso devo dar-lhe graças e louvor, servi-lo e obedecer-lhe. Isto é certamente verdade.

Deus ama toda a humanidade. Porque Deus nos amou primeiro, somos, por nossa vez, capazes de amar e respeitar a dignidade de cada pessoa. O pensamento e a ação diaconais se dirigem, sobretudo, para aquelas pessoas cuja dignidade sofreu ofensa. Para isso se pressupõe uma base espiritual alicerçada sobre a obra de Deus e o servir de Cristo. A igreja, portanto, tem o mandato de dar testemunho a toda a humanidade do amor de Deus para com o mundo em Jesus Cristo. A atividade diaconal é uma das formas desse testemunho. Fonte: DIAKONIA CHARTER da Federação Europeia de Diaconia, 2000

Essa visão de mundo motiva as pessoas cristãs para toda sorte de ação diaconal, e também para

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e da diaconia dimensões integrais da sua vinda, como sendo o irromper do reino de Deus. Desde o princípio, a proclamação de Jesus realça a natureza ampla da sua missão. A diaconia de Jesus tem várias dimensões. Ela é um ato de libertação e reconciliação, de cura e de erguimento daquelas pessoas que são como ovelhas sem pastor (Mateus 9.36), colocando-se ele, especialmente, ao lado das pessoas que sofrem, das que são vítimas de opressão e de marginalização. Por meio da diaconia de Jesus, a dignidade humana é afirmada e defendida. Ela cria e reforça vínculos de relacionamento – vínculos que permanecem mesmo ainda em tempos de sofrimento e de morte. Assim, a diaconia dá um testemunho profético dos valores do reino de Deus. Tudo isso revela uma outra dimensão da diaconia de Jesus: sua autoridade para convidar as pessoas, ainda que sejam pecadoras, a fazer parte da comunidade messiânica que ele estabelece e para capacitá-las por seu poder a participar da sua missão. Isso é dito no mesmo momento em que institui a Santa Ceia: Mas entre vocês eu sou como aquele que serve (Lucas 22.27). Assim, a diaconia de Jesus não só cria comunidade, mas também capacita aqueles e aquelas que lhe pertencem. É uma manifestação da graça de Deus que reconcilia, transforma e dá poder. Essa é também a mensagem central do relato de Jesus ter lavado os pés de seus discípulos (João 13). Mesmo que não apareça neste capítulo, a palavra

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diaconia descreve o ministério de Jesus como uma ação poderosa no sentido de que os discípulos “têm parte” com ele (João 13.8). Por conseguinte, o lavapés não é, em primeiro lugar, uma demonstração ética de humildade, e, sim, o anúncio da chegada de uma nova era na história da humanidade; demonstra a autoridade diaconal de Jesus, pela qual é proclamada a inclusividade da nova comunidade de discípulos (João 1.12). A fé no Espírito Santo pede que o sopro vivificador de Deus desperte a fé pela graça e permita a participação na vida e na missão da comunhão das pessoas crentes. A história sobre a vinda do Espírito Santo, em Atos 2, relata esse acontecimento, pois conta como os discípulos, antes assustados, foram transformados quando o Espírito desceu sobre eles e como foram capacitados por seu poder para a missão de que foram incumbidos. No dia de Pentecostes, o apóstolo Pedro anunciou a vinda do Espírito Santo como cumprimento da promessa do profeta Joel: Os filhos e as filhas de vocês anunciarão a minha mensagem; os moços terão visões, e os velhos sonharão. Sim, eu derramarei o meu Espírito sobre os meus servos e as minhas servas, e naqueles dias eles também anunciarão a minha mensagem (Atos 2.17-18). A menção expressa das pessoas jovens, de mulheres e até de escravos destaca a natureza inclusiva da obra do Espírito, contradizendo, em boa parte, o que se costuma considerar a ordem natural da autoridade. Isso corresponde perfeitamente ao fato de Jesus, com frequência, inverter a ordem social da sua época, dando voz a pessoas das quais se esperava que ficassem caladas. O Espírito Santo faz da inclusão um valor fundamental na vida da igreja e na prática diaconal. O Batismo constitui um espaço sagrado na vida da igreja, onde a inclusividade é anunciada de maneira radical, dado que até as crianças ainda pequenas são acolhidas na comunhão das pessoas crentes. Ao mesmo tempo, o Batismo é o momento exato em que o Espírito Santo concede poder


para a participação na missão de Deus. De acordo com uma antiga tradição da igreja, a pessoa batizada recebe uma vela para que se recorde, juntamente com todas as pessoas batizadas, da palavra de Jesus aos discípulos: Vocês são a luz para o mundo. (...) Assim também a luz de vocês deve brilhar para que os outros vejam as coisas boas que vocês fazem e louvem o Pai de vocês, que está no céu (Mateus 5.14 e 16). Nos ensinamentos de Paulo, isso está relacionado com os dons (carismas) do Espírito: Existem tipos diferentes de dons espirituais, mas é um só e o mesmo Espírito quem dá esses dons. Existem maneiras diferentes de servir, mas o Senhor que servimos é o mesmo (1 Coríntios 12.4-5). Esses dons preparam a pessoa cristã para o serviço, mas também preparam a comunidade como um todo para representar o corpo de Cristo. Assim se sublinha o valor da variedade de dons, da mesma forma como um corpo consiste de diferentes membros. Paulo alerta que não se dê mais importância a uns que a outros e lembra que, no corpo, inclusive os membros menores são vitais e não podem se perder. Na tradição luterana, essa doutrina do valor igual dos dons conduziu ao que se entende como o sacerdócio de todas as pessoas crentes, o que também pode ser reformulado como a diaconia de todas as pessoas crentes, para a qual todas as pessoas batizadas estão chamadas e qualificadas, independentemente de seu aparente status ou condição social. A condição fundamental para essa realidade é o derramamento do Espírito Santo e o dom da comunhão com Cristo. O Batismo faz-nos partícipes da morte e da ressurreição de Cristo, para que assim também nós vivamos uma vida nova (Romanos 6.4). Em Cristo, que é a luz do mundo, as pessoas que o seguem são transformadas para que também elas sejam a luz do mundo. É isso que diz a explicação de Lutero sobre o Espírito Santo no Catecismo Menor: Creio que, por minha própria inteligência ou capacidade, não posso crer em Jesus Cristo, meu

Senhor, nem chegar a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo Evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé. Assim também chama, reúne, ilumina e santifica toda a Igreja na terra, e em Jesus Cristo a conserva na verdadeira e única fé. Nesta Igreja ele perdoa, cada dia e plenamente, todos os pecados a mim e a todas as pessoas que crêem. E, no último dia, ressuscitará a mim e a todos os mortos e dará a vida eterna a mim e a todas as pessoas que crêem em Cristo. Isto é certamente verdade.

Realmente, essa é uma base sólida para a pessoa ser incluída e também ser investida de poder para participar na missão de Deus.

Diaconia é o ministério do cuidado da igreja. É o evangelho em ação e se expressa no amor ao próximo, na criação de comunidades inclusivas, no cuidado pela criação e na luta pela justiça. Definição de Diaconia, Plano para a Diaconia da Igreja da Noruega

2. A diaconia como parte integrante do ser igreja Desde o princípio, foi imprescindível para a comunidade cristã dar continuidade à missão diaconal de Jesus. A lembrança dos seus ensinamentos, certamente, plasmou os valores e as qualidades de seu estilo de vida: Pois eu dei o exemplo para que vocês façam o que eu fiz (João 13.15); e: Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês (João 20.21). Assim, pois, a diaconia se tornou um conceito fundamental da vida das comunidades cristãs em todo o Império Romano. Diaconia também veio a ser o termo usado para a designação de posições de liderança na igreja (p. ex., Romanos 11.13; 2 Coríntios 4.1; Colossenses 4.17). O relato da instalação de sete novos lí-

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deres na comunidade de Jerusalém, em Atos 6, mostra como a marginalização das viúvas gregas pôs em cheque a natureza inclusiva da igreja. Não era só a dignidade daquelas pessoas que se deixava de lado na diaconia diária que estava em risco, mas o próprio caráter diaconal da comunidade. Ignorar essa situação teria sido ignorar o poder devastador do pecado e seu potencial de destruir o que Deus tinha reconciliado em Cristo. A instalação dos sete, todos com nomes gregos e que, por isso, provavelmente representassem o ambiente cultural e social das viúvas, não foi somente uma questão prática para fazer as coisas de melhor forma. Os sete estavam cheios do Espírito Santo (v. 3), o que nos lembra que o Espírito, que dá vida à igreja, também é o poder que abençoa seu estilo de vida diaconal. O relato termina assim: A palavra de Deus continuava a se espalhar. Em Jerusalém o número dos seguidores de Jesus crescia cada vez mais... (Atos 6.7). A diaconia, portanto, está relacionada com os valores éticos e as estruturas da comunidade. Em outras palavras, é uma expressão daquilo que a igreja é por sua própria natureza e daquilo que se manifesta na sua vida diária, em seus planos e projetos. Por isso é natural que se chamem determinados atos concretos de diaconia. Um exemplo já mencionado é a distribuição diária de comida e de outras coisas em falta, conforme Atos 6.

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Outro exemplo é a coleta de ofertas organizada por Paulo e seus companheiros para a comunidade pobre em Jerusalém. O Novo Testamento, em várias passagens, se refere a essa iniciativa e chama-a simplesmente a diaconia. O comentário mais longo se encontra em 2 Coríntios 8 e 9. A maneira como o apóstolo Paulo exorta a comunidade em Corinto para que participe do levantamento da coleta é interessante e instrutiva, inclusive hoje, em termos de desenvolvimento de uma teologia da diaconia. Para começar, é importante perceber que Paulo não se refere explicitamente à pobreza que afeta a comunidade em Jerusalém. Pode ser que a situação dessa comunidade matriz já fosse bem conhecida e por isso não fosse necessário falar mais a respeito. Muito mais provável, porém, é que isso se deva à compreensão básica da diaconia como algo fundamentado em princípios teológicos e eclesiológicos, e não, em primeira linha, nas diferentes situações de necessidade humana. Para Paulo, a diaconia é uma expressão da koinonia, da nova comunhão do povo de Deus em Jesus Cristo. Não deixa de ser interessante que Paulo, inclusive, use a expressão a koinonia da diaconia (2 Coríntios 8.4). As comunidades cristãs em Corinto, na Macedônia, em Jerusalém e noutros lugares estão unidas para a diaconia e, ao mesmo tempo, unidas pela diaconia, antes de tudo pela missão diaconal de Jesus: Porque vocês já conhecem o grande amor do nosso Senhor Jesus Cristo: ele era rico, mas, por amor a vocês, ele se tornou pobre a fim de que vocês se tornassem ricos por meio da pobreza dele (2 Coríntios 8.9). Uma palavra-chave aqui é “graça”. A maneira como Paulo usa essa palavra nos leva a entender que a graça é mais que uma atitude; ela se manifesta como intervenção concreta, como


aquela manifestada no Jesus encarnado e na sua obra de salvação. A comunhão é criada e sustentada pela graça de Deus como obra do amor. Estar em Cristo implica estar na sua graça e participar de sua constante obra ativa de amor. A prática da diaconia, sua ética de inclusividade e o mútuo compartilhar de recursos implicam, claramente, exigências éticas, mas sua base está na experiência da graça de Deus e no dom de pertencer à comunhão criada pela graça divina. Enquanto possamos ter a impressão de que diaconia seja algo exclusivamente espiritual e distante da vida cotidiana, a última parte de 2 Coríntios 8 nos mostra quão prática a diaconia tem que ser. Paulo levanta questões de organização e de responsabilidade ao lidar com dinheiro arrecadado, assim apontando para a importância do ser responsável e transparente ao realizar a diaconia. Mas também aqui encontramos referências à comunhão. A honestidade é uma questão de relações, tanto com Deus como com as pessoas próximas. Desonestidade significaria romper a comunhão. Também é significativo que Tito, a quem se dá uma função-chave na organização da diaconia, seja apresentado como companheiro de trabalho (no grego original: koinonos, 2 Coríntios 8.21), o que sublinha a parceria e o compromisso no bem-estar da comunhão. Em 2 Coríntios 9, a íntima relação com a liturgia da igreja é outra dimensão que se acrescenta à teologia da diaconia: a diaconia nasce e cresce a partir da celebração litúrgica e tem como alvo dar graças a Deus por seu presente, que palavras não podem descrever (2 Coríntios 9.15). A diaconia é uma resposta a situações concretas de sofrimento, de necessidade e de injustiça; é o cumprimento do mandamento do amor e, em tudo isso, é uma expressão do que a igreja crê e confessa: a graça de Deus para a cura do mundo. Assim, portanto, a diaconia é um elemento intrínseco do ser igreja. Como tal, não pode

limitar-se à atividade de algumas pessoas encarregadas, ou que seja necessária só por condições sociais externas. A diaconia está profundamente relacionada com o que a igreja celebra em sua liturgia e anuncia em sua pregação. Da mesma forma, por sua vez, a liturgia e a proclamação estão relacionadas com a diaconia. A comunhão (koinonia) da igreja torna-se visível por meio de suas três expressões mais importantes.

Fig. 2: As dimensões do ser igreja A principal finalidade desse diagrama consiste em mostrar que estas três dimensões, de celebração, proclamação e serviço, estão inter-relacionadas de tal forma que cada uma se origina nas outras duas e, de fato, não existiria sem as outras. A diaconia não pode ser separada daquilo que a igreja proclama e celebra. Não há hierarquia entre essas dimensões, e todas elas são expressão de comunhão. De forma semelhante, fica claro que a proclamação e a celebração da igreja precisam estar ancoradas na diaconia. Caso contrário, a pregação pode ser percebida como proselitismo e a celebração, como espiritualismo. As três dimensões se orientam e se estimulam uma pela

A igreja é uma congregação de pessoas reunidas na palavra e no Espírito de Cristo para um só corpo, constituído por vários membros, cada um com uma função e um trabalho dedicados ao melhoramento do corpo todo e de todos os seus membros Martin Bucer, 1538

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outra. Se uma das dimensões falta, a vida e a missão da comunhão não podem ser desenvolvidas plenamente. Continuaria sendo um corpo que sofre, porque um membro vital foi amputado. A chave da identidade diaconal é que suas dimensões vertical e horizontal são inseparáveis. Sem a dimensão vertical, a diaconia perde sua visão espiritual do mundo e suas raízes naquilo que a igreja proclama e celebra. Ela corre o risco de tornar-se mera ação social, determinada por interesses e objetivos seculares. A dimensão horizontal é igualmente indispensável para a diaconia. Sem ela, a diaconia perderia seu chão na vida real e não continuaria sendo uma resposta aos desafios da sociedade. Se isso acontecesse, a diaconia viria a ser espiritualizada e por demais limitada por seu marco teológico-eclesiástico. Por isso a diaconia tem que ser dialética, e isso de tal forma que comunique as perspectivas vertical e horizontal. Isso quer dizer que a reflexão sobre a diaconia há de ser interdisciplinar e levar em conta os aportes da ciência teológica e da social. A afirmação de que as dimensões vertical e horizontal da diaconia estão inter-relacionadas não quer dizer que ambas possam ser mescladas sem discernimento crítico. Na Parte III do presente livro, trata-se da relevante questão de como se relaciona a diaconia com a proclamação. Um

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aspecto central dessa questão é como distinguir ambas as dimensões sem separá-las nem misturálas. Uma boa prática diaconal se orienta por sua identidade cristã e pela fé no Deus da misericórdia. A perspectiva bíblica da dignidade humana não é respeitada quando se usa a ação diaconal como oportunidade para propagar ensinamentos morais ou religiosos, sobretudo em situações em que as pessoas são muito vulneráveis e dependem da ajuda alheia. Uma vez que a graça de Deus é dom gratuito, a ação diaconal há de ser generosa e incondicional. Somente então ela será reflexo e testemunho do presente [de Deus] que palavras não podem descrever (2 Coríntios 9.15). Quando a igreja é entendida conforme as dimensões de celebração, proclamação e serviço, também se torna claro que a diaconia não pode ser silenciosa, mas que precisa levantar sua voz publicamente. Como ação baseada na fé, ela sempre se dará conta daquilo que motiva a sua ação e dará testemunho do amor de Deus, que alimenta a fé e transmite esperança. Da mesma forma, a diaconia há de ser fiel a seu mandato profético e denunciar as práticas e estruturas pecaminosas que causam sofrimento e degradam a dignidade humana; e levantar sua voz em favor de uma sociedade mais humana e justa. Muitas vezes, ministros e ministras diaconais têm cumprido uma função pioneira na hora de a igreja assumir seu papel de igreja para as outras pessoas, uma comunidade que serve e – ainda mais importante – uma igreja com e das pessoas pobres. As três dimensões do ser igreja, aqui expostas, implicam uma visão alternativa do mundo, uma visão baseada em valores como a igualdade e a mutualidade nas relações humanas. A inclusividade passa a ser uma chave vital para testar se a identidade conferida pela graça de Deus está sendo expressa na vida da igreja. Em assumindo essa função, a diaconia pode desafiar a igreja a não se conformar com o status quo, mas a fazer frente às estruturas humanas de poder, não somente na sociedade, mas também dentro de suas próprias estruturas.


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Os modelos e as práticas de liderança são uma área importante para pôr isso à prova. Toda liderança implica o exercício de autoridade e o uso de poder. Mas há uma enorme diferença entre exercer o poder sobre as pessoas e exercê-lo para as pessoas. Jesus usou sua autoridade messiânica (em grego: exousía) como poder para erguer as pessoas doentes e oprimidas, para incluir as doentes e as excluídas na sociedade e até mesmo na comunhão do seu reino, e para qualificá-las com o seu poder para participar da sua missão no mundo. Essa autoridade exercida em favor das pessoas, em defesa da sua dignidade e para fins de transformação, reconciliação e empoderamento, é o tipo de autoridade que Jesus recomendou aos apóstolos no exercício de suas funções de liderança (Marcos 10.42-45; João 13.15; 20.21). Não se trata de poder sobre as pessoas, como muitas vezes se pode experimentá-lo no mundo, onde quem detém o poder usa a sua autoridade para subjugar as pessoas, para silenciá-las e usálas como massa de manobra. Uma outra área é aquela relacionada com o gênero. O acesso que as mulheres têm ou não têm a posições de liderança e de tomada de decisões mostra claramente como as igrejas praticam a inclusividade como valor fundamental na vida da igreja. A partir desse entendimento, a ordenação da mulher está, antes de mais nada, fundamentada teologicamente como uma expressão visível da dignidade de todo o povo de Deus e sua vocação de participar plenamente na missão de Deus. O mesmo pode ser observado com relação à juventude e às pessoas idosas. Quando as pessoas jovens são animadas a participar ativamente e assumem funções de liderança, isso é importante não só para o bem da juventude, mas para o bemestar de toda a comunidade, pois ela necessita da perspectiva e da participação da gente jovem. De forma semelhante, a contribuição das pessoas idosas se perde quando suas experiências e sua sabedoria não são honradas.

Na verdade, o segredo dos modelos inclusivos e participativos de convivência é que todas as partes envolvidas se beneficiam. O entendimento teológico de ser uma comunhão assim o afirma, pois confessa que a própria comunhão é dom de Deus e que esse dom é plenamente vivido quando nós, como membros diferentes de um só corpo, nos reconhecemos uns aos outros e compartilhamos mutuamente os dons que temos recebido.

3. A diaconia da Mesa A Ceia do Senhor5 é outro espaço importante na vida da igreja que implica a inclusão e o empoderamento. Ao sermos servidos pelo Senhor da Mesa, também somos fortalecidos e fortalecidas para nosso serviço 5

N. do T.: “Santa Ceia” e “Ceia do Senhor” são os termos mais usados para este sacramento, no âmbito da IECLB. Mas também têm aceitação, nas comunidades e igrejas de confissão luterana, outras designações, do âmbito ecumênico: “Eucaristia”, “Santa Comunhão” – como reza a versão inglesa deste documento da FLM – , “Sacramento da Mesa”. Nesta tradução, as diferentes designações são usadas, alternadamente, como sinônimos.

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diaconal. Na tradição das igrejas ortodoxas, a diaconia, por vezes, é chamada de liturgia depois da liturgia, assinalando o mistério da transformação experimentada na mesa e que prepara os e as participantes para ser agentes de transformação, empoderamento e reconciliação, ao retornarem da mesa para a vida cotidiana. A celebração da Santa Comunhão anuncia o amor incondicional de Deus em Cristo e a natureza inclusiva da diaconia de Deus. Nós todos e todas chegamos à mesa com as mãos vazias e com o reconhecimento de que somente pela graça de Deus em Cristo temos acesso à comunhão da mesa. O fato de que o próprio Cristo convida para a Santa Ceia nos anima e mobiliza a participar da diaconia de Deus no mundo. Essa compreensão desafia as igrejas que costumam celebrar a Santa Comunhão só poucas vezes por ano. Acontece, porém, que algumas igrejas administram esse sacramento de uma forma que exclui a participação daquelas pessoas que, devido a certos comportamentos, são consideradas “indignas” da participação.6 Tal uso moralizador da disciplina eclesiástica pode obscurecer a dimensão diaconal da Santa Ceia e seu poder como sacramento transformador e “espaço de inclusão” num mundo com tantas formas de exclusão. O fato de considerar alguém indigno de participar da celebração da Santa Ceia pode ter diversas formas hoje, mas sempre deveria ser 6

Talvez com referência a 1 Coríntios 11.27; mas nesta passagem não se trata de pessoas indignas, e sim de maneiras indignas.

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motivo de a igreja examinar sua própria posição. Não faz muito tempo, algumas igrejas negavam às pessoas o acesso à Mesa do Senhor por causa da cor da sua pele. Hoje, algumas pessoas são estigmatizadas porque vivem com HIV, ou porque a situação da família delas não é considerada moralmente aceitável. A vocação para a inclusividade sempre será uma expressão importante da natureza diaconal da igreja. Em sua carta à comunidade em Corinto, o apóstolo Paulo critica severamente essas formas de celebrar a Ceia do Senhor (1 Coríntios 11). Ao invés de ser um espaço de comunhão, havia se tornado um momento em que se manifestavam divisões e egocentrismo. Ao pedir que esperassem uns pelos outros, muito provavelmente Paulo se referia às pessoas mais pobres dentre eles e elas, as que tinham que trabalhar até o fim da tarde devido à sua condição de escravos e escravas ou servos e servas. Se outras pessoas já iniciavam a Ceia sem permitir que as mais pobres participassem da celebração, a dimensão diaconal da comunhão estava em perigo. Além da inclusividade, a Eucaristia tem outras dimensões diaconais relevantes. Em diferentes formas, todas elas expressam o poder transformador da graça de Deus em Jesus Cristo e contribuem para a identidade fundamental da diaconia. A hospitalidade é outra dimensão da diaconia. O Novo Testamento contém um bom número de narrativas sobre a hospitalidade (Lucas 7.3650; 14.7-24; 22.14-30). Elas refletem os valores e as atitudes do período da antiguidade, conforme os quais a comunhão à mesa significa muito mais do que apenas comer em conjunto; implica amizade, aceitação social mútua e solidariedade. Daí provém que Jesus tenha escandalizado tantas pessoas ao comer com aquelas que a “gente de bem” não queria em suas mesas. Convidado para a mesa na casa de Simão, o leproso, Jesus defendeu com firmeza a mulher que o ungiu. Naquele momento, até os próprios discípulos ficaram alterados por Jesus ter permitido que aquela mulher se aproxi-


masse da mesa onde ele estava sentado (Mateus 26.6-13). Desta maneira, Jesus demonstrou que a hospitalidade de Deus é um elemento fundamental de sua missão messiânica, naquele espírito que, muito tempo antes, tinha sido proclamado pelo salmista: Preparas um banquete para mim, onde os meus inimigos me podem ver. Tu me recebes como convidado de honra e enches o meu copo até derramar. Certamente a tua bondade e o teu amor ficarão comigo enquanto eu viver. E na tua casa, ó SENHOR, morarei todos os dias da minha vida (Salmo 23.5-6). Na tradição diaconal da igreja, tal acolhida é dada a pessoas sem teto, a órfãos, órfãs e viúvas. Às vítimas de perseguição se concede asilo. Ao proceder assim, a igreja corre o risco de ser perseguida, pagando o preço de sacrificar sua própria vivência pacífica no seio da sociedade. Mas é mandato da

diaconia profética oferecer hospitalidade, seguindo o exemplo de Jesus. Assim o afirma a exortação apostólica: Repartam com os irmãos necessitados o que vocês têm e recebam os estrangeiros nas suas casas (Romanos 12.13). Essa forma de hospitalidade também implica incidência política, defesa e proteção. Compartilhar é outra profunda dimensão diaconal da comunhão à mesa. Não só palavras, histórias e experiências são compartilhadas junto à mesa, mas, naturalmente, a comida e a bebida. Aqui não falamos de mesa como um tipo de mobília, mas mais como metáfora para o espaço onde as pessoas se sentam em torno de uma refeição, compartilhando os dons de estarem juntas. A mesa é, sobretudo, um espaço privilegiado para a reconciliação. A mesa permite que as pessoas se vejam face a face, com nomes e identidades, com suas histórias e ansiedades. O espírito

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do compartilhar cria novas relações, que mais facilmente ensejam perdão e novos começos. O fato das pessoas cristãs experimentarem a reconciliação na Mesa do Senhor motiva-as para o ministério da reconciliação da igreja (2 Coríntios 5.18). Importa observar que o grego original diz diaconia da reconciliação, sem dúvida tomando como modelo a diaconia de Jesus e seu enfoque holístico ao lidar com sofrimento e injustiça. O mistério da transformação é o núcleo da Eucaristia. O pão e o vinho comuns de cada dia são recebidos como o corpo e o sangue preciosos de Cristo. Pecados são perdoados e pessoas pecadoras são transformadas para serem agentes de transformação ao retornarem à vida cotidiana. O desalento é transformado em esperança e disposição para servir com alegria. É isso que experimentaram os discípulos de Emaús quando seu companheiro de caminhada partiu o pão na sua casa e se revelou como o Senhor ressuscitado à sua mesa. De uma forma misteriosa, o hóspede ainda desconhecido assumiu a função de hospedeiro, abrindo-lhes os olhos enquanto compartilhava com eles o pão e o vinho. As dádivas da mesa lhes fortaleceram o corpo, a alma e o espírito e lhes deram coragem para voltar a Jerusalém, ansiosos para compartilhar com os outros discípulos o que lhes havia ocorrido. Naturalmente, há também situações em que é difícil detectar qualquer sinal de transformação, es-

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pecialmente à luz do que a gente experimenta na vida cotidiana. Mesmo assim, a confiança no mistério da transformação continua atraindo as pessoas crentes à mesa com a oração “Vem, Senhor, transforma o mundo!” E, com recorrência, encontrarão nova inspiração em histórias de transformação, como aquela de Zaqueu, que convidou Jesus para sua mesa, mas se deu conta de que ele mesmo era o convidado. Essa experiência o transformou e o fez declarar: Escute, Senhor, eu vou dar a metade dos meus bens aos pobres. E, se roubei alguém, vou devolver quatro vezes mais (Lucas 19.8). Essa história mostra que a compaixão e a justiça são sinais visíveis da transformação e, por conseguinte, são também sinais de que a igreja é agente de transformação.

4. Boas obras Fazer bem às outras pessoas é parte integrante da nova vida dada por Cristo. Pessoas crentes luteranas sempre ficam desconfiadas quando as boas obras são acentuadas como exigências necessárias. Teme-se que uma atenção demasiada às obras (ou aos atos) possa abalar o princípio da justificação só pela fé. Por essa razão, alguns luteranos, algumas luteranas, em princípio, podem até achar pro-blemática a diaconia, principalmente quando ela é apresentada como uma parte daquilo que constitui a igreja. Por isso é útil recordar como a Confissão de Augsburgo (CA) apresenta a doutrina luterana sobre as boas obras: Ensina-se ainda que essa fé deve produzir bons frutos e boas obras, e que, por amor de Deus, se deve praticar toda sorte de boas obras por ele ordenadas, não se devendo, porém, confiar nessas obras, como se por elas se merecesse graça diante de Deus. Pois é pela fé em Cristo que recebemos perdão dos pecados e justiça, como


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diz o próprio Cristo: “Depois de haverdes feito tudo isso, deveis dizer: Somos servos inúteis” (Lucas 17.10). Assim também ensinam os Pais. Pois Ambrósio diz: “Assim está estabelecido por Deus que aquele que crê em Cristo é salvo, e tem a remissão dos pecados não por obras, mas pela fé somente, sem mérito” (CA VI).

O que se rejeita é que se entendam as boas obras como atos realizados com a intenção de obter méritos diante de Deus e das pessoas. O que se defende são as boas obras como expressões visíveis da nova vida em Cristo dada pela fé, como está escrito na Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação: Graça como comunhão do ser humano justificado com Deus, em fé, esperança e amor, é sempre recebida pela ação salvífica e criadora de Deus. Contudo, o ser humano justificado tem a responsabilidade de não desperdiçar esta graça, mas de viver nela. A exortação de fazer boas obras é a exortação de praticar a fé. A graça, como fraternidade dos justificados com Deus na fé, na esperança e na caridade, é sempre recebida da obra criadora e salvífica de Deus. Mas é da responsabilidade dos justificados não desperdiçar a graça que vive neles. A exortação a fazer boas obras é a exortação a praticar a fé (...)”7 Para Lutero, isso está profundamente relacionado com sua compreensão do amor de Deus, presente no mundo através de Jesus Cristo. Todas as pessoas batizadas são agraciadas em Cristo com o mesmo amor, e suas ações expressam a boa vontade de Deus para com toda a criação. Por isso a obediência cristã não é uma obediência a normas morais ou piedosas, num esforço para chegar a ser

como Jesus, mas uma obediência ao que somos em Cristo; não depende do comprometimento e da força de vontade, mas decorre da nova vida em Cristo e da presença animadora do Espírito Santo. É importante ter isso em mente ao se apresentar a diaconia como resposta de gratidão dos cristãos e das cristãs ao que têm recebido pela fé. Neste caso, poder-se-ia ter a impressão de que a diaconia seria uma espécie de segundo ato, enquanto a justificação seria o primeiro ato. A diaconia, então, seria entendida como uma consequência da fé, uma obrigação de produzir boas obras em gratidão pela graça dada em Cristo, e não como uma parte integrante daquilo que constitui a fé. Lutero não compreendia a justificação pela fé desta maneira, como uma obra dramática em dois atos. A pessoa crente é justificada em Cristo, e somente em Cristo. E isso tem duas dimensões, ambas de igual importância fundamental. Por um lado, significa ser um/uma com Cristo em sua relação com Deus-Pai e de chegar a ser, em Cristo, filhos e filhas justificados de Deus. Por outro lado, isso implica ser um e ser uma com Cristo em sua missão no mundo, um e uma com ele em sua diaconia. Lutero elabo-ra essa compreensão em sua obra “Da Liberdade Cristã”, onde se encontra o famoso aforismo que diz: O cristão é um senhor libérrimo sobre tudo, a ninguém sujeito. O cristão é um servo oficiosíssimo de tudo, a todos sujeito.8 Essa dupla identidade, de ser ao mesmo tempo senhor livre e servidor, tem seu modelo em Jesus

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Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação. São

Leopoldo: Sinodal; São Paulo: Paulinas; Koinonia, 1999. p. 29, letra D.

LUTERO, Martinho. Da Liberdade Cristã. In: Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1989. v. 2, p. 437.

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Cristo: Ele tinha a natureza de Deus, mas (...) abriu mão de tudo o que era seu e tomou a natureza de servo, tornando-se assim igual aos seres humanos (Filipenses 2.6-7). Pelo Batismo, a pessoa crente passa a ter parte dessa identidade. Lutero diz: Concluímos, portanto, que a pessoa cristã não vive em si mesma, mas em Cristo e em seu próximo, ou então não é cristã. Vive em Cristo pela © LWF/J. Schep fé; no próximo, pelo amor. Pela fé é levada para o alto, acima de si mesma, em Deus; por outro lado, pelo amor desce abaixo de si, até o próximo, assim mesmo permanecendo sempre em Deus e seu amor...9 Tudo isso nos poderia levar a pensar que a diaconia é fácil de explicar e fácil de realizar. Mas, naturalmente, a realidade é muito mais complexa. Assim como qualquer outra ação humana, a diaconia, por vezes, falha e erra seus objetivos. Teologicamente, isso se baseia no conceito de simul iustus et peccator (simultaneamente justificado/justificada e pecador/pecadora), que é o entendimento que uma pessoa cristã, apesar de justificada pela graça, continua sendo pecadora. A vida cristã está condicionada pela luta entre o que já somos em Cristo e o que continuamos sendo como seres humanos pecadores. Essa rea9

LUTERO, 1989, v. 2, p. 456.

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lidade não deveria nos tornar pessimistas, levarnos a dizer que não é possível fazer bem as coisas. Tampouco deveria tornar-nos ingênuos, ingênuas, pensando que as boas pessoas são capazes de fazer o que sempre é bom. Mas deveria dar-nos uma compreensão realista de nossa condição de seres humanos, nossas limitações e nossa índole pecaminosa, mas também de nossa dignidade como seres criados à semelhança de Deus e nossa vocação como membros do corpo de Cristo. No entanto, ainda há outros termos teológicos que podem ser úteis para orientar a diaconia, ao lidarmos com a dialética entre o que é novo em Cristo e o que continua conforme a situação do passado. No Novo Testamento, utiliza-se o termo aion (século, o tempo presente: Efésios 2.7; Gálatas 1.4; Colossenses 1.26) para descrever os distintos períodos do tempo até o cumprimento final do plano de salvação de Deus, e também as tensões entre esses períodos. Assim como Lutero, há teólogos e teólogas que preferem falar dos dois reinos: um é o mundo presente, onde, como cidadãos e cidadãs, estamos sujeitos e sujeitas às suas limitações e ao sofrimento; outro é o reino de Deus, que, segundo o anúncio de Jesus, estava próximo e, com Ele, já tinha chegado, e nesse reino também nós esperamos o cumprimento de todas as bênçãos (Marcos 1.15; Mateus 12.28). A ação diaconal realiza-se no marco dessa simultaneidade do que já é e do que ainda está por vir. Ela dá testemunho da graça de Deus e do cuidado pela criação, sempre que somos empoderados e empoderadas para fazer o bem, com outras pessoas e para outras. Mas nossas ações, não raro, também refletem as deficiências e a corrupção humanas. Essa realidade deveria alertar-nos contra conceitos românticos e até triunfalistas da diaconia. Ela precisa ser exercida com espírito de autocrítica e de realismo; e, mesmo assim, nunca perder a convicção de que, pela graça de Deus, frágeis potes de barro podem conter tesouros (2 Coríntios 4.7).


5. Espiritualidade diaconal Ora et labora (latim = ora e trabalha), o famoso lema de São Benedito, lema que veio a ser, mais tarde, uma fórmula a orientar a vida em mosteiros e conventos, aponta para a inter-relação entre a vida espiritual e o trabalho diaconal. A fórmula não diz somente que ambos os elementos são importantes, mas que dependem um do outro. A verdadeira oração está encarnada nas experiências da vida real e na luta contra as forças da morte. Da mesma forma, o trabalho diaconal tem suas raízes naquilo que a fé e a esperança anseiam por ver. O culto litúrgico e a diaconia alimentamse mutuamente na vida cotidiana da igreja. A maioria dos elementos da liturgia tem uma clara dimensão diaconal. Quando os sacramentos são administrados corretamente (Confissão de Augsburgo VI), eles servem de veículos da graça que perfaz a identidade diaconal, tanto na vida cristã individual como na vida da comunhão. Era uma prática bem estabelecida na igreja primitiva e um sinal visível dessa interconexão entre o culto e a diaconia o fato de que os diáconos10 levavam para as pessoas pobres o pão que sobrava depois de celebrar a Santa Ceia. Essa diaconia era chamada de liturgia depois da liturgia, tornando visível a ponte entre os dois momentos da graça transformadora em favor das pessoas pobres. A espiritualidade da diaconia é norteada pelo mistério da transformação e pela significância do que aparentemente é insignificante. Está inspirada na promessa do Senhor, que se identifica com as pessoas nuas e famintas (Mateus 25). Ela considera visitas pastorais e hospitalidade não só como formas de atividade diaconal, mas como momentos de en-

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Naquele tempo, geralmente homens, se bem que as mulheres também desempenhavam tarefas diaconais importantes.

Fazemos o trabalho de Deus não porque Deus necessite que o façamos, mas porque nosso próximo o necessita. Fazemos o trabalho de Deus em nome de Cristo para a vida do mundo.

Bispo Mark S. Hanson, Presidente da FLM de 2003 a 2010

contro espiritual com anjos; pois alguns que foram hospitaleiros receberam anjos, sem saber (Hebreus 13.2). A espiritualidade pode ser encarada como uma forma de ver as coisas num sentido mais profundo. A espiritualidade diaconal vê a presença de Deus na vida cotidiana e, principalmente, em situações onde as pessoas lutam pela vida com dignidade. Ela conhece a Deus como aquele que proclama: Eu tenho visto como o meu povo está sendo maltratado (...); tenho ouvido o seu pedido de socorro (...). Sei o que estão sofrendo. Por isso desci para libertá-los (Êxodo 3.7-8). Essa maneira de ver a Deus está mais próxima de verbos que indicam intervenção salvadora do que de substantivos que expressam algo estático. A espiritualidade diaconal vê os seres humanos como criados e dotados por Deus. Da mesma forma, a comunhão humana é vista como o espaço onde a paz e a justiça podem ser vividas, promovidas e entrelaçadas. O fato de que cada pessoa é dotada com dons diferentes nos permite perceber a riqueza de uma comunidade em que os dons são compartilhados. A espiritualidade diaconal procura descobrir e afirmar a riqueza dessa pertença mútua na igreja e na sociedade Finalmente, a espiritualidade diaconal é determinada pela teologia da cruz. Essa teologia afirma que somente Deus pode acabar com o mal. A cruz de Jesus Cristo é o não de Deus à autoconfiança humana; anuncia a vitória salvífica de Deus sobre o sofrimento, a injustiça e a morte. A compaixão e a graça de Deus criam uma espiritualidade sensível para com as pessoas que sofrem e mobilizam a solidariedade para ações corajosas. Essa espiritualidade é alimentada pela fé de que em Jesus Cristo já foi aberto o caminho que leva

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da cruz (via crucis) para a ressurreição (via resurrectionis). Em outras palavras, rejeita os caminhos fáceis e as respostas simplistas a desafios complexos; e, no final, está disposta a pagar o preço por tais ações diaconais de solidariedade e compromisso em favor de um mundo melhor. Assim, portanto, a espiritualidade diaconal não só determina o que fazemos, mas também o que somos. Ela molda a pessoa inteira e move o coração de todas as pessoas envolvidas. A diaconia converte-se numa forma de vida, numa forma de ser neste mundo. A espiritualidade diaconal é uma experiência holística que dura a vida toda; ela empodera e renova o coração de tal maneira, que a diaconia chega a ser um certo habitus, um modo de ser que nos orienta e motiva na forma de viver. Essa compreensão holística da espiritualidade diaconal provém de uma prática espiritual firmemente assumida e arraigada na vida. Assim, portanto, espiritualidade diaconal é uma força importante para as pessoas sempre atentas às necessidades das outras. Ajuda a reconhecer as próprias necessidades e a levá-las diante de Deus no culto, na oração e nos ritos. As pessoas voluntárias, ministros e ministras diaconais de tempo integral, que frequentemente realizam tarefas muito exigentes, são convidadas a aceitar o convite de Jesus: Venham a mim, todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, e eu lhes darei descanso

(Mateus 11.28). É importante ter tempo e espaço para a alimentação espiritual. Quando profissionais, voluntários e voluntárias sobrecarregados se dão conta de que estão sofrendo a síndrome de esgotamento físico e mental (burn-out), a espiritualidade diaconal torna-se um recurso importante do seu compromisso de servir. Talvez com uma pitada de humor, Jesus conta a história dos servos que voltam para casa depois de um longo dia de trabalho. Mas em vez de terem descanso, o dono da casa manda que preparem a janta. Assim deve ser com vocês. Depois de fazerem tudo o que foi mandado, digam: “Somos empregados que não valem nada porque fizemos somente o nosso dever” (Lucas 17.10). À primeira vista, essas palavras podem dar a impressão de que a diaconia é um serviço sem descanso, que nem sequer o Senhor reconhece, e de que as pessoas engajadas na diaconia são servas inúteis. A espiritualidade diaconal, no entanto, vê isso de forma diferente: como a liberdade absoluta de servir, que independe de qualificações individuais, de relatórios de realizações e do eventual aplauso das pessoas em volta. Essa liberdade, com recorrência, se alimenta da graça de Deus, quando também sentimos que não somos deixados trabalhando sozinhos na seara, mas somos acompanhados e acompanhadas pelo Senhor e muitas outras pessoas que proporcionam comunhão e compartilhamento.

Perguntas para continuar a reflexão 1. Em que medida a reflexão teológica apresentada na Parte II combina com os ensinamentos e a proclamação na sua igreja? 2. Quais são as conexões entre esse entendimento teológico e as diferentes expressões do trabalho diaconal na sua igreja? Como essas conexões poderiam ser aprofundadas e desenvolvidas? 3. Neste capítulo são citadas algumas passagens bíblicas para o entendimento teológico da diaconia. Que outros textos e conceitos vocês acrescentariam e que até poderiam receber maior atenção? 4. Conforme a sua experiência, como a diaconia está relacionada com a vida de culto (celebração litúrgica) e a espiritualidade? Como vocês gostariam de aprofundar essas relações?

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PartE III: A ação da Diaconia

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Parte III: A ação da Diaconia 1. O propósito da diaconia No Dicionário do Movimento Ecumênico define-se a diaconia como “o serviço responsável do Evangelho através de atos e palavras prestado pelos/as cristãos/ãs em resposta às necessidades do povo”.11 Essa definição contém vários elementos significativos. Em primeiro lugar, está claro 11

Dictionary of the Ecumenical Movement. Genebra: WCC Publications, 2002. p. 305.

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que a diaconia é ação e não pode se limitar a declarações e boas intenções. A diaconia consiste em atos e palavras que constituem um “serviço responsável”, o que significa ação pela qual somos responsáveis. Em segundo lugar, diz-se que a diaconia é realizada por pessoas cristãs. Isso não pode ser entendido de forma excludente, como se somente pessoas cristãs fossem capazes de prestar um “serviço responsável”; mas é uma afirmação da natureza distinta do trabalho diaconal. Em terceiro lugar, o trabalho diaconal tem foco específico: as necessidades das pessoas. Por isso não é correto usar o termo diaconia para qualquer tipo de boa obra. Uma interpretação tão ampla do termo poria a perder sua função. Na longa tradição da igreja, a diaconia sempre esteve vinculada à situação das pessoas enfermas, pobres e marginalizadas, sendo realizada para acompanhar, ajudar e defender as pessoas vulneráveis.


Assim, a pergunta fundamental é: como a igreja responde às necessidades das pessoas vulneráveis? Essa é uma pergunta que merece ser refletida melhor. Só então a diaconia poderá ser um “serviço responsável”.

1.1 Respondendo a pessoas e grupos Um primeiro assunto a ser abordado é se são as necessidades de pessoas individuais ou as necessidades de grupos que demandam uma resposta diaconal. Por outro lado, da antropologia cristã procede um imperativo ético para defender a dignidade de cada ser humano e sua capacidade de ser um sujeito capaz de assumir a responsabilidade pela própria vida e exercer a participação cívica. Com demasiada frequência acontece que pessoas individuais se veem reduzidas a partes anônimas de um grupo-alvo, ou são caracterizadas como vítimas, clientes ou beneficiárias. Por isso é importante lembrar que cada pessoa traz consigo experiências individuais de sofrimento e de esperança bem como capacidades que terão que ser confirmadas e fortalecidas no processo de transformação. Por outro lado, também importa recordar que uma abordagem individualista do trabalho diaconal traria muitas limitações. Por exemplo, está claro que a pobreza, que tem forte impacto individual, é uma realidade de sistemas que afetam amplos setores das populações. Quando, na década de 1960, os povos latino-americanos se deram conta da crescente pobreza no seu continente, eles chegaram à conclusão de que a pobreza não é uma realidade dada, mas algo muitas vezes “produzido” por processos históricos, injustos e opressores. As pessoas são feitas pobres, são empobrecidas. Nas iniciativas para superar a pobreza, esse pano de fundo deve ser levado em consideração. A pobreza é uma realidade social e política, e não somente o infortúnio de algumas pessoas. Sem essa perspectiva, a pobreza poderia ser interpretada como destino pessoal

devido à falta de formação, ou mesmo à preguiça, sugerindo entender que as pessoas pobres são as únicas responsáveis por sua condição de pobreza. Segundo os ensinamentos cristãos, o maior mandamento é amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente. (...) E ame os outros como você ama a você mesmo (Mateus 22.37-39). Responder ao próximo quando o próximo é uma comunidade ou um grupo de pessoas afetadas também tem a vantagem de que muitas pessoas, e não só indivíduos, podem ser envolvidas nos processos diaconais de transformação. É possível formar redes de contatos e estimular iniciativas organizadas e respostas institucionais. Isso é pertinente em inúmeras situações: para pessoas que vivem com HIV e AIDS, para habitantes de uma comunidade urbana pobre, para familiares de pessoas viciadas etc.

1.2 Ações a curto e a longo prazo Um serviço diaconal responsável terá que trabalhar com objetivos a curto e a longo prazo. A parábola do bom samaritano ilustra claramente esse aspecto ao descrever os diferentes passos de sua ação. O primeiro passo consistiu em “aproximar-se” do

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homem gravemente ferido no caminho. Com esse passo se expressam solidariedade e a superação de medo e de apatia em relação ao sofrimento alheio. “Aproximar-se” também é necessário para ver o que aconteceu e o que é necessário. O segundo passo concentra-se em responder à necessidade imediata do sofrimento usando os recursos existentes – neste caso, ataduras, óleo e vinho – para iniciar o processo de cura. O terceiro passo tem a ver com a reabilitação e a volta à vida normal, com providências para ajuda continuada, se necessário. Num debate em grupo sobre esse texto, alguém perguntou: “Para onde foi o samaritano depois de ter deixado a vítima na pensão?” Foi sugerida uma resposta interessante: “Ele foi para o escritório do prefeito e fez um relato da situação, exigindo providências contra a violência e para a proteção das vítimas”. Isso, naturalmente, é pura imaginação, mas leva para mais outro passo, o de incidência política, que manifesta a estreita relação entre compaixão e justiça, e a necessidade de manter unidos os diferentes objetivos na ação diaconal. Assim, portanto, mesmo quando o trabalho diaconal assume a forma de ação emergencial para aliviar um sofrimento humano imediato – o que sempre deverá ser prioritário –, é preciso prestar a devida atenção ao contexto mais amplo do sofrimento e a suas causas fundamentais.

Essa atenção às implicações de longo prazo relacionadas com as causas originárias há de ser considerada desde o começo, na maneira como se realiza a diaconia. A reflexão sobre as causas deve estar presente desde o início, quando são formulados os objetivos de uma tarefa diaconal. Alguns dos elementos mais importantes são: 1. afirmar e defender a dignidade das pessoas; 2. destacar e promover os direitos das pessoas; 3. desencadear processos de empoderamento das pessoas; 4. criar espaços para dar às pessoas acesso aos direitos, à participação e à responsabilidade na sociedade (construção da cidadania); 5. colocar alicerces com vistas à transformação social. Quando esses elementos estão presentes, há boas razões para a esperança de que o trabalho diaconal possa contribuir para uma mudança significativa, não só na vida de indivíduos, mas também na igreja e na sociedade. Isso pode corresponder a um princípio que também se aplica ao desenvolvimento: um processo de transformação da condição humana que vise à justiça, à paz e à integridade da criação.12 No entanto, tendo apontado para esse contexto mais amplo da ação diaconal e a necessidade de objetivos multifacetados, deve ser lembrado que nem toda ação diaconal será capaz de corresponder a essa ambição abrangente. Ainda assim, o trabalho diaconal continua 12

Em 1990, o CMI organizou a Convocação Mundial sobre Justiça,

Paz e Integridade da Criação, em Seul, Coreia do Sul. Na Assembleia de Canberra, em 1991, o CMI confirmou energicamente o processo de Justiça, Paz e Integridade da Criação; por conseguinte, foi criada a Unidade da Justiça, Paz e Criação.

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2. Os propósitos fundamentais do trabalho diaconal O documento da FLM Missão em Contexto destaca transformação, reconciliação e empoderamento como as três dimensões da missão que “permeiam todos os empreendimentos da missão (...) e fornecem critérios com os quais a igreja julga sua fidelidade na missão diante de Cristo, que a enviou ao mundo”.13 Como parte integrante da missão da igreja, a transformação, a reconciliação e o empoderamento são também conceitos-chave para a diaconia: indicam os propósitos fundamentais do trabalho diaconal e, ao mesmo tempo, mostram como se faz e em que valores se baseiam esse trabalho.

2.1 Transformação Missão em Contexto descreve a transformação como “um processo contínuo de total reorientação da vida com todas as suas aspirações, ideologias, estruturas e valores. A transformação é um processo contínuo de rejeição daquilo que desumaniza e profana a vida, e de adesão àquilo que reafirma a santidade 13

FLM. Missão em Contexto: transformação, reconciliação, empoderamento. Uma contribuição da FLM para a compreensão e a prática da Missão. Curitiba: Encontro, 2006. p. 33-34.

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sendo uma tarefa significativa e valiosa, como, por exemplo, quando uma pessoa em estado terminal é acompanhada ao último descanso sob cuidados e oração. Em situações quando uma mudança aparentemente não é possível, a ação diaconal tem a incumbência de oferecer sinais de esperança através do seu ministério de presença e acompanhamento, inclusive quando não há sinais de esperança na ausência de sinais de esperança.

da vida e a presença de dons em todos e promove a paz e a justiça na sociedade”.14 A transformação compromete e muda todas as pessoas que participam. Assim a diaconia transformadora ajuda a superar as, assim chamadas, síndromes dos/das atendentes, as práticas e as relações que separam “nós” de “eles/elas”. No final, ninguém escapa da vulnerabilidade. Todos e todas nós necessitamos ser transformados e transformadas, reconciliados e reconciliadas e empoderados e empoderadas. Por essa razão necessitamos da diaconia, em primeiro lugar da diaconia de Deus revelada em Jesus Cristo, e depois do cuidado e do acompanhamento mútuos. Evidentemente, a transformação é um processo. Mas, ao mesmo tempo, ela traz consigo a visão do alcance de determinadas metas, chegando a uma nova situação, em que se respeita mais a dignidade humana, com paz e justiça para mais pessoas. Assim, a transformação está estreitamente relacionada com o que também pode ser designado como mudança, progresso ou desenvolvimento sociais. A partir de um ponto de vista teológico, a transformação é um lembrete da renovação constante da criação de Deus (em latim: creatio continua), 14

Missão em Contexto, p. 34.

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dado que, a cada nova manhã, vivemos a experiência de que a escuridão da noite se transforma na luz de um novo dia que vai nascendo. Como povo de Deus, vemos a transformação como dom da graça de Deus, pelo qual lhe devemos louvor e serviço, vinculando o trabalho diaconal com a exortação de São Paulo: Não vivam como as pessoas deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma completa mudança da mente de vocês. Assim vocês conhecerão a vontade de Deus, isto é, aquilo que é bom, perfeito e agradável a ele (Romanos 12.2). Assim, portanto, a transformação rechaça o conformismo. Expressa uma forma alternativa de vivenciar a vontade de Deus, como se diz no documento “Missão em Contexto”: A transformação percebida à luz da ressurreição de Cristo é o desdobramento da natureza potencialmente doadora de vida de toda a criação e uma expressão da atuação da graça de Deus na natureza. Realizar transformação na e através da igreja para todo o mundo é a obra contínua do Espírito Santo. 15

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15

: FLM. Missão em Contexto: transformação, reconciliação, empoderamento. Uma contribuição da FLM para a compreensão e a prática da Missão. Curitiba: Encontro, 2006. p. 34.

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2.2 Reconciliação Para as pessoas cristãs, a reconciliação é dom misericordioso de Deus, segundo a mensagem de que Deus em Jesus Cristo reconciliou consigo o mundo. Esse dom é uma promessa para um mundo decaído, e a diaconia procura dar testemunho dessa promessa através de iniciativas que fomentam a paz e a reconciliação. Como povo de Deus equipado para a missão, a igreja está chamada a participar da missão reconciliadora de Deus, suplicando às pessoas, em nome de Cristo, que se reconciliem com Deus (2 Coríntios 5.19) e entre elas mesmas. A reconciliação referese, em primeiro lugar, à ação de Deus pela qual se restabelece a relação dos seres humanos com Deus. Ao mesmo tempo, esse restabelecimento implica a transformação e o empoderamento para “o ministério (em grego: diakonia) da reconciliação”. O conceito de “diakonia” nos recorda claramente que a diaconia de Jesus, sua maneira incondicional de estar com as pessoas pobres, sua defesa profética das pessoas excluídas, seus atos de cura e – por último, mas nem por isso menos importante – seu anúncio de perdão e de nova vida sob a promessa de uma nova era ainda por chegar, é o caminho a ser seguido pela igreja em sua missão de reconciliação. Segundo Robert Schreiter, a reconciliação abre uma nova narrativa, que vence a narrativa da mentira. 16 Em situações de violência e opressão, não se permite às vítimas contarem suas histórias, e a verdadeira reconciliação não pode acontecer quando não se revela a verdade sobre o passado. Quando se declarou anistia em El Salvador, depois dos anos de brutal violação dos direitos humanos, fez-se isso com a condição de que as pessoas responsáveis pela tortura deveriam ficar em liberdade. E, assim, a narrativa do opressor foi mantida como a versão oficial, aquela em que todo mundo deveria crer. De forma muito diferente se procedeu na África do 16

SCHREITER, Robert J. Reconciliation: Mission and Ministry in a Changing Social Order. Maryknoll, 1992.


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Uma análise teológica sobre reconciliação que reflete as experiências da África do Sul consta em GRUCHY, John W. de. Reconciliation. Restoring Justice. Minneapolis: Fortress, 2002.

2.3 Empoderamento Como conceito teológico, o empoderamento relaciona-se com a compreensão bíblica da criação: todo ser humano é criado à semelhança de Deus, com capacidades e aptidões, independentemente de sua aparente condição social. © LWF/G. Driau

Sul, depois de abolido o apartheid, quando Nelson Mandela designou uma Comissão da Verdade e da Reconciliação, que recebeu a tarefa de contar a verdadeira história dos anos passados, para o bem da reconciliação e da cura das feridas.17 Não se permite que a verdade sempre seja contada; ela exige um ambiente de segurança e de mútuo respeito. Em alguns casos, a confidencialidade precisa fazer parte desse ambiente, já que também pode acontecer que se manipule a verdade para aumentar o ódio e a violência. Isso tem ocorrido com frequência com as mulheres que contam a verdade. Por outro lado, suas histórias, como vozes das pessoas vulneráveis e silenciadas, devem receber atenção tanto maior. Seus relatos podem vir a ser os processos de reconciliação mais convincentes e eficazes. A reconciliação e a justiça estão profundamente relacionadas entre si. Ficou notório que o trabalho da Comissão da Verdade e da Reconciliação de fato contribuiu para desmascarar a “verdade” do período do apartheid na África do Sul. Mas será que contribuiu significativamente para restaurar a justiça? Algumas pessoas acham que a anistia geral não só concedeu impunidade aos responsáveis por atrocidades, mas que também aceitou silenciosamente o fato de que os males continuam tendo um efeito dramático na vida das pessoas pobres. Isso confere com o conceito cristão de reconciliação: ela nunca leva as pessoas de volta à situação em que estiveram antes. Reconciliação é mais que a eliminação do sofrimento da vítima e a conversão do opressor e da opressora. A reconciliação conduz as pessoas a uma nova situação: dá-lhes poder para relações e responsabilidades renovadas.

Ademais, relaciona-se com a promessa de Pentecostes: Quando o Espírito Santo descer sobre vocês, vocês receberão poder e serão minhas testemunhas (...) até nos lugares mais distantes da terra (Atos 1.8). A história de Pentecostes conta como os discípulos foram transformados, como foi superado seu medo, como suas perguntas do passado foram substituídas por palavras que proclamavam os poderosos feitos do Senhor, e sua linguagem se transformava de acordo com o contexto que os rodeava. A igreja está convicta de que Deus continua a dar poder às pessoas, não somente aos apóstolos e a outras pessoas que assumiram liderança, mas especialmente àquelas que, raras vezes ou nunca, ganham oportunidade para falar. Essa convicção deveria determinar a ação diaconal, sua metodologia e sua escala de prioridades. Tal ação dá testemunho da fé em Deus, que revela sua graça e seu poder de escolher aquilo que

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A tarefa de construir pontes é inerente à própria natureza da diaconia. Como se observou anteriormente, o uso do grego clássico da palavra diaconia aponta para a missão de intermediário, intermediária, de mensageiro, de mensageira, ou até de embaixador encarregado, de embaixadora encarregada de restabelecer relações, de curar e reconciliar. Na igreja antiga, o diácono era chamado de “o ouvido e a boca do bispo”. Eram os diáconos que tinham a responsabilidade de trazer para dentro da igreja as histórias das periferias, as histórias das pessoas pobres e doentes. A tarefa de ser a pessoa intermediária é exitosa quando as distâncias podem ser cobertas por pontes. Quando isso acontece, a ação diaconal pode contribuir para a transformação da igreja, tanto em seu centro como em sua periferia. Todas as atividades diaconais, incluídas aquelas que respondem a necessidades © LWF/J. Schep imediatas, são motivadas pela incumbência abrangente de estabelecer relações. Como o mundo despreza, acha humilde e diz que não tem valor (1 Coríntios 1.28). Isso tem servido de estímulo método diaconal, o acompanhamento busca suaos agentes diaconais na América Latina para perar o isolamento e a exclusão e descobrir camiacrescentar um conceito paralelo a empoderamento, nhos que possam proporcionar possibilidades para a saber, a dignificação, o que significa: criar práticas um compartilhar mais amplo em termos de solidiaconais que realcem a dignidade das pessoas e dariedade mútua. Um encontro regional latinolhes deem a capacidade de ser “sujeitos” tanto na americano sobre diaconia definiu essa tarefa como “diaconia migrante”, num contexto onde as pessoas igreja como na sociedade. Deveria ser lembrado que o empoderamento amiúde estão na estrada, tentando sair da pobreza. Uma pessoa intermediária precisa ter a casempre implica uma transferência de poder, o que significa que os desequilíbrios do poder devem ser pacidade de escutar as diferentes versões de uma abordados de maneira crítica. A diaconia deveria história e tratar de entender o porquê dessas difedestacar essa questão constantemente, não só na renças. Depois, será necessário mediar, construir sociedade e nas relações entre quem ajuda e quem pontes de entendimento e de aceitação. De novo, recebe ajuda, mas também com relação à prática cabe salientar a relação com a construção da codiaconal e a forma como se estabelece e se vivencia munhão, com a definição de procedimentos de o poder na igreja. Demasiado frequente, evita-se reconciliação e inclusão. Há inúmeras situações que pedem a ação diafalar do poder na igreja; em alguns casos, ele até é conal de construir pontes dentro e fora da igreja. camuflado com termos como serviço.

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Isso nos leva para a primeira e mais básica expressão do trabalho diaconal, a saber, a expressão da diaconia individual que, em geral, é espontânea na vida cotidiana e se manifesta através de uma grande variedade de boas obras. Muitas vezes, poder-se-ia dizer que a diaconia individual consiste no comportamento humano habitual – ações que as pessoas estão acostumadas a realizar de forma natural para ajudar, independentemente de sua fé e visão de mundo. Já se tem dito que o trabalho diaconal responde, em primeiro lugar, às necessidades concretas das pessoas. Um importante texto bíblico que apoia essa interpretação se encontra em Mateus 25.31-46: as pessoas famintas, sedentas, forasteiras, sem roupa, enfermas e prisioneiras são apontadas como aquelas que necessitam de cuidado e atenção. Aqui, novamente, está claro que não só as pessoas cristãs são motivadas a agir quando confrontadas com tais necessidades. No entanto, a dimensão diaconal específica desse texto é a forma como a identidade cristã relaciona a ação com Cristo e com sua identificação com as pessoas necessitadas: Quando vocês fizeram isso ao mais humilde dos meus irmãos, foi a mim que fizeram (Mateus 25.40). A parábola do bom samaritano (Lucas 10.2537) é outro texto bíblico que, ao longo dos séculos, tem inspirado pessoas cristãs para a diaconia. O elemento de surpresa no texto é que alguém de fora, que representa um grupo religioso desprezado e marginalizado, age de maneira compassiva quando vê seu próximo necessitado, enquanto o sacerdote e o levita passam de largo. Num contexto em que se discute sobre como herdar a vida eterna, e provocado pela pergunta: Mas quem é o meu próximo?, Jesus conta a história daquele que 3.1 Diaconia individual – o diaconato demonstrou misericórdia e conclui: Pois vá e faça a de todas as pessoas crentes mesma coisa. Mas agora a pergunta se inverteu de: Quem é o meu próximo? para: Quem foi o próximo Como se observou no capítulo anterior, todas as do homem assaltado? Em outras palavras, não é a pessoas batizadas recebem poder para a diaconia. definição do outro, da outra, que habilita para a

As pessoas que vivem com HIV e AIDS, muitas vezes, são estigmatizadas pela comunidade. Grupos migrantes são discriminados. As mulheres sofrem violência e suas vozes não são ouvidas. As crianças de pais e mães pobres recebem educação inferior. Em situações como essas, a diaconia não pode limitar sua responsabilidade a denunciar a injustiça – o que naturalmente é importante –, mas tem que encontrar maneiras de mediar. Iniciativas e projetos concretos são ferramentas que podem contribuir no processo de construir uma sociedade mais justa e sustentável. O papel de intermediação da igreja também pode ser exigido em conflitos políticos complicados. Quando Madagascar sofreu uma grave crise em 2002, e novamente em 2009, as lideranças nacionais das igrejas desempenharam um importante papel facilitando o diálogo entre dirigentes políticos. Na República Democrática Alemã, as igrejas proporcionaram um espaço aberto para que as pessoas se reunissem e expressassem a esperança de um novo tempo, dando força à onda que levou ao colapso do regime em 1989. Uma intermediação não pode permanecer calada. A comunicação é um ingrediente fundamental na construção de pontes. Muitas vezes, tal comunicação precisa ser paciente e diplomática; mas há também situações quando a comunicação tem que ser profética e fazer ouvir a voz das pessoas sem voz e das que sofrem.

3. As diferentes expressões da ação diaconal

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Em pesquisas, foram documentadas as péssimas condições de vida nos contextos urbanos do século I, quando a expectativa de vida ficava abaixo dos 30 anos: condições insalubres, escassez de água potável, proliferação de enfermidades, afluência constante de imigrantes, conflitos étnicos. Nesse contexto, a igreja iniciou sua missão e seu ministério, e sua prática diaconal foi experimentada como algo radicalmente novo e diferente. Rodney Stark descreveu como o cuidado para com as pessoas doentes e marginalizadas, a forma acolhedora das comunidades e a fé firme no poder da ressurreição atraíam pessoas de todas as classes sociais e criaram uma igreja que, em poucos séculos, de um pequeno grupo inicial passou a tornar-se o principal movimento religioso do Império Romano.18 Desde então, temos um sem-número de exemplos de iniciativas que foram tomadas e organizadas em comunidades e igrejas locais de todo o mundo. Em tempos de peste, pessoas doentes eram visitadas e as mortas, sepultadas. Em períodos de guerra, as pessoas refugiadas eram acolhidas e asiladas. Os tempos podem mudar, mas nunca houve um momento em que as necessidades deixaram de existir ou as comunidades não lhes respondessem. O mandamento que Jesus deu aos seus discípulos ao saber que o povo estava com fome – deem vocês mesmos comida a eles (Mateus 14.16) – 3.2 Diaconia organizada – o repercutiu em diversos contextos e foi relacionado esforço coletivo da comunidade com muitas formas de assistência, até os dias de hoje. Tal diaconia, porém, precisa estar organizada, Muitas vezes, a comunidade toda responde a desafios diaconais. Atos 6.1 conta-nos que e é necessário atribuir a alguém a responsabilidade a comunidade de Jerusalém organizou uma de organizá-la. Essa é a realidade para qualquer diaconia diária, provavelmente um sistema pelo coisa que se considere importante. Por ser vital a qual as pessoas pobres recebiam comida todos celebração, organiza-se e prepara bem o tempo os dias. Aconteceu, porém, que a organização e o espaço para os cultos, com pessoas responteve que ser melhorada, e novas lideranças sáveis devidamente autorizadas. Com a diaconia foram identificadas e incumbidas para realizar o acontece o mesmo. Para ser realizada de forma trabalho. Mais tarde, Paulo organizou uma coleta de dinheiro – chamada simplesmente de diakonia 18 STARK, Rodney. The Rise of Christianity. A Sociologist – entre as comunidades gregas, com a finalidade Reconsiders History. Princeton NJ: Princeton University de ajudar a comunidade pobre de Jerusalém. Press, 1996. atuação compassiva, e sim uma qualidade dada por Deus a cada ser humano de ser próximo das outras pessoas. Na maioria das vezes, tais ações não precisam ter nome, já que em e por si mesmas são consideradas naturais e corretas. No entanto, poderia ser útil destacar sua importância dando-lhes um nome significativo. Depois de uma oficina sobre diaconia realizada no Brasil, disse uma mulher: Agora sei que aquilo que sempre vim fazendo tem um nome. É diaconia! Ela falou do seu engajamento em favor de mulheres e homens agricultores pobres que foram vítimas de intoxicação por pesticidas, da sua participação em atividades de direitos humanos e seu costume de visitar as pessoas doentes ou solitárias de sua comunidade. Eu sempre senti que tudo isso tinha algo a ver com a minha fé, mas não sabia que tinha propriamente um nome. Agora eu sei, disse ela. Ter esse conhecimento talvez não signifique que a gente faça outras coisas ou que as coisas sejam feitas de outra maneira, se bem que possa significar isso também. Em todo caso, em se chamando esse trabalho de diaconia, deixa-se claro o que é feito, identifica sua fonte, motiva e habilita para continuar agindo nesse espírito.

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sistemática e não deixar nunca de ser parte da vida da igreja, necessita de estruturas e lideranças. Na igreja da Suécia, cada comunidade tem a obrigação de apresentar um plano ao bispo ou à bispa no qual constem a diaconia, a celebração litúrgica, a educação e a missão. O plano ajuda a comunidade a ver todas as dimensões de seu trabalho e tê-las em mente quando se definem prioridades, responsabilidades e os recursos necessários. Pode acontecer que o trabalho diaconal na comunidade chegue a ser entendido como ajuda a uma gente pobre “aí fora”. Mas há um crescente reconhecimento do fato de que a diaconia não é “para” outros e outras, e sim “com” outros e outras. De acordo com a compreensão bíblica, ajuda é uma expressão do amor (1 Coríntios 13), que tem lugar num marco de reciprocidade e igualdade (2 Coríntios 8.13-15). O serviço diaconal é uma bênção para quem o presta e para quem o recebe. Ademais, quem recebe ajuda hoje pode amanhã ser a pessoa a cuidar de outrem. Em sociedades onde as diferenças sociais permitem que algumas classes sejam muito mais privilegiadas que outras, a ajuda, com demasiada frequência, pode converter-se em caridade, o que significa que as pessoas bem afortunadas, por sua própria benevolência, proporcionam alguma assistência às pessoas pobres. Neste caso, a providência de ajuda pode acentuar as diferenças e criar situações em que algumas pessoas sempre são “as que ajudam e têm os recursos”, enquanto outras sempre são “as que recebem ajuda e não têm recursos”. Não resta dúvida, grande parte do serviço diaconal tem sido organizada como obra de caridade através da ação de pessoas ricas e poderosas em favor das pessoas pobres. Essas práticas deveriam ser profundamente questionadas. Tal ajuda tende a ser paternalista e alienante, pois é organizada de acordo com o que traz benefícios e serve às necessidades de quem ajuda. Na América Latina, essa prática, muitas vezes, é chamada de assistencialismo, pois seu objetivo é assistir, e não dar espaço para a igualdade e a mutualidade. Por isso, posto que essa forma de agir

Fortalecer as famílias

Durante os últimos três anos, sempre nas manhãs de terça e sexta , Nancy Krause se dirigiu à prisão do município de Polk para dar uma hora de aula às pessoas presas sobre a importância do pai e da mãe nas famílias. Este curso faz parte do Serviço Luterano de Iowa, Estados Unidos da América; no programa móvel sobre como ser pai e mãe são oferecidos cursos de educação contínua aos habitantes do município que não têm facilidade para viajar - como imigrantes, pessoas presas ou sem-teto, que vivem em abrigos. Grande parte desses pais e mães têm atrás de si uma vida de probreza. “A pobreza limita as opções da gente”, disse Nancy Krause sobre sua experiência de ensino na prisão. “Você vive num mundo de poucas escolhas e de possibilidades limitadas.” perpetua a diferença e a separação, é provável que não contribua para uma mudança autêntica. Essas observações poderiam dar a impressão de que a caridade seja algo negativo. Pelo contrário, é uma virtude que pertence à tradição da igreja. O teólogo sul-africano Molefe Tsele declarou, na consulta da FLM sobre diaconia profética: “Devemos resistir à tendência de converter a caridade num palavrão. Deus demonstra caridade com toda a sua criação. É necessário que a sociedade como um todo se torne mais caritativa”.19 A verdadeira caridade está relacionada com a comunidade e a justiça. A diaconia provinda da comunidade fortalece a inclusividade e a mutualidade ao lidar com desafios de sofrimento e injustiça. Ela sublinha o valor de fazer as coisas em conjunto e a convicção de que todas as pessoas têm dons e podem participar quando se trata de trabalhar pelo que é bom e correto. É semelhante ao ditado africano: “Se queres chegar depressa, caminha sozinho. Se queres chegar longe, caminha acompanhado”. 19

BÖTTCHER, Reinhard (Ed.). Prophetic Diakonia: «For the Healing of the World». Report. Johannes-burg, África do Sul, novembro de 2002. Genebra: FLM, 2002. p. 54.

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3.3 Diaconia institucionalizada – uma tarefa mais estruturada Há situações em que os desafios diaconais exigem esforços que vão além do que pode ser organizado no nível comunitário. Muito cedo na história da igreja, reconheceu-se que o trabalho diaconal, com frequência, exigia estruturas mais sólidas. Criaram-se hospitais, orfanatos, albergues para as pessoas sem teto. Continuaram existindo fortes vínculos entre as comunidades e essas instituições. Sem esses vínculos e sem o apoio constante dos membros da igreja, essas instituições não existiriam. Também havia uma consciente continuidade da identidade. O próprio nome “hospital” refletia o mandato da igreja de praticar a hospitalidade diaconal. A arquitetura dos hospitais mais antigos igualmente revela a relação entre fé e cuidado assistencial, uma vez que os quartos eram construídos geralmente de tal maneira que todos e todas as pacientes podiam ver o altar e, assim, ser lembrados e lembradas da mensagem de que Deus é quem cura as pessoas doentes. O movimento diaconal moderno, que iniciou na Alemanha nos anos de 1830, levou à criação de um sem-número de instituições diaconais, não ape-

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nas neste país, mas em toda a Europa e em outros continentes. Devido ao fato de que, naquele tempo, a igreja oficial estava estreitamente relacionada com o estado, as iniciativas de missão e diaconia tiveram que ser organizadas como associações privadas. Sem dúvida, estavam dentro da igreja, mas eram organizações independentes em sua relação com as autoridades eclesiásticas. Um dos pioneiros desse movimento diaconal foi Theodor Fliedner, um pastor em Kaiserswerth, pequena comunidade perto de Düsseldorf, na parte ocidental da Alemanha. Em setembro de 1833, ele e sua mulher Friederike abriram um lar para acolher ex-presidiárias. Seguiram-se outras iniciativas, como um Kindergarten e um hospital. Logo se deram conta da necessidade de pessoas capacitadas e, três anos depois, fundaram uma casa matriz para diaconisas, que recebiam formação como enfermeiras e professoras de jardim de infância. Nas décadas seguintes, milhares de mulheres foram sendo formadas e consagradas como diaconisas. A casa matriz, em muitos sentidos, era semelhante a um convento católico. As irmãs, como de fato eram chamadas, estavam comprometidas a seguir as regras da comunhão, o que significava a obediência, o compartilhar de recursos e o celibato. Também em setembro de 1833, Johann Hinrich Wichern inaugurou um abrigo para crianças sem lar de um bairro pobre de Hamburgo (Alemanha). Ele foi motivado pela convicção de que uma boa educação as salvaria da miséria, especialmente se a educação incluísse qualificação para uma profissão. Isso mostra que a educação era uma parte integrante da ação diaconal organizada, um instrumento importante para superar a pobreza. Por essa razão, muitas instituições educacionais foram criadas ao longo da tradição da diaconia. Algumas delas foram destinadas a meninos e meninas de famílias pobres e socialmente desfavorecidas; outras davam oportunidades de formação escolar a jovens que tradicionalmente não tinham acesso às escolas públicas, por razões como cegueira, surdez ou doença mental.


Esse desenvolvimento se alinha perfeita- pessoais. Em meio às macroestruturas oficiais, o mente com o firme compromisso de Lutero com pietismo criou espaço para iniciativas e conduziu a educação. No tempo da Reforma, Lutero propôs ao estabelecimento de instituições de ensino, de que os mosteiros passassem a ser escolas públicas. saúde e de cuidado social. Como consequência Lembrou aos pais e às mães que eles haviam rece- desse movimento, existem atualmente em torno bido as crianças como presente de Deus e que por de 30 mil instituições diaconais na Alemanha. isso eram responsáveis pelo seu bem-estar diante Isso se tornou viável graças a um complexo sistema de Deus, sendo essencial a educação. Ele escreveu de financiamento, que conseguiu criar fortes vínaos líderes políticos na Alemanha e recomendou culos com as autoridades governamentais. a criação de escolas para todas as crianças, lemApesar de essas instituições funcionarem brando-os de que o progresso de uma cidade não como entidades de saúde e de bem-estar social depende apenas do acúmulo de grandes tesouros, da segundo as normas e as exigências do governo, construção de muros de fortificação, de casas bonitas, de muitos canhões e da fabricação de muitas armaduras (...) Muito antes, o melhor e mais rico progresso para uma cidade é quando possui muitos homens bem instruídos, muitos cidadãos ajuizados, honestos e bem educados.20 Não é possível expor aqui, de forma mais extensa, o movimento diaconal do século XIX, os múltiplos atores que dele participaram e as diferentes formas que essas pessoas engajadas deram ao compromisso diaconal naquele tempo. Mas cabe destacar que esse movimento mudou profundamente o papel da mulher na igreja e na sociedade. Pela primeira vez, as mulheres solteiras receberam educação e se lhes deu uma posição. Graças a seu trabalho, foram © LWF/J. Schep surgindo os modernos serviços sociais de saúde e assistência. Foram desenvolvidos modelos continua existindo forte vinculação com as insque mais tarde seriam adotados pelo estado, quan- tituições diaconais, os organismos eclesiásticos do se criaram os sistemas de seguridade social. nacionais e as comunidades locais. Em muitos Em muitos sentidos, o movimento diaconal casos, garantem a manutenção do trabalho diafoi inspirado pelo pietismo e por sua espirituali- conal ministerial, contribuindo com recursos dade um tanto individualista. A força da sua in- financeiros, tendo a gestão administrativa nas fluência consistia no enfoque pessoal com seu ape- comissões administrativas e outras funções de lo à vocação individual, centrando-se nas relações liderança, bem como a participação de pessoas voluntárias e o acompanhamento espiritual. 20 LUTERO, Martinho. A Necessidade de Criar e Manter Nos Estados Unidos da América, a Igreja Escolas Cristãs. Exortação às Autoridades Municipais da Evangélica Luterana na América (ELCA, sigla Alemanha. In: Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; em inglês) conta com a filiação de organizações Porto Alegre: Concórdia, 1994. v. 5. p. 309.

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O movimento missionário moderno, muitas vezes, institucionalizou-se como uma estrutura independente dentro da igreja. Somente depois da Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) de 1961, em Nova Delhi, a missão foi plenamente integrada na visão ecumênica do ser igreja e deixou de ser vista como uma atividade desempenhada por algumas poucas organizações, loca© ELCA/Laury Rinker lizadas principalmente no Norte. É do ministério social que prestam serviços em difícil visualizar uma integração plena similar da todo o país. Existem, aproximadamente, 280 diaconia, especialmente da diaconia institucional, organizações de serviços de saúde e sociais em na vida da igreja. Isso se deve ao fato de que milhares de comunidades, que atendem a mais de algumas igrejas não reconhecem a diaconia seis milhões de pessoas por ano, ou seja, uma de institucional como parte integrante do que a cada cinquenta estadunidenses. Cinco por cento igreja é e faz, mas também devido à tendência de dessas organizações são bastante grandes e estão algumas instituições diaconais de organizarem à disposição em muitos lugares de muitos estados. seu trabalho com independência das estruturas É preciso destacar que grande parte dessas in- eclesiais existentes. Isso constitui um desafio às stituições dá um testemunho bem especial do cui- instituições e à igreja, mas não em todos os casos. dado cristão para com as pessoas necessitadas. Elas Outras igrejas, por exemplo, na América do fomentam a competência profissional e a respon- Norte, desenvolveram estruturas que garantem sabilidade civil. Um lar para jovens grávidas e mães às instituições uma liderança profissional e uma solteiras no Brasil torna-se um espaço para prepará- independência institucional, enquanto asseguram las para o futuro e defender-lhes a dignidade huma- à igreja a participação nos órgãos diretivos, na. Em Madagascar, um projeto para o desenvolvi- definindo assim em conjunto a missão que as mento de comunidades rurais permite aos pequenos instituições realizam e sua relação com a igreja. agricultores e às pequenas agricultoras reconhecerem seu próprio potencial e melhorarem a produção sustentável de alimentos. Um centro de capacitação 3.4 Diaconia internacional: resposta na Índia oferece oportunidades à gente jovem que às necessidades humanas junto com a ficou excluída dos sistemas de formação existentes. comunhão mundial de igrejas e em seu nome Muitas instituições diaconais do hemisfério Sul foram fundadas por missionários e A própria natureza ecumênica21 da igreja implica missionárias. No entanto, muitas delas não que a diaconia não pode ser limitada em sua ação puderam mais ser mantidas quando as respectivas por fronteiras geográficas, étnicas, sociais ou mesassociações missionárias reduziram seu apoio mo religiosas. Esse entendimento marcou profunfinanceiro e seu pessoal. Também há exemplos admiráveis de instituições diaconais que foram criadas por iniciativas locais, coerentes com os 21 A palavra “ecumênico” é derivada do grego “Oikoumene”, respectivos contextos. que significa “o mundo habitado” ou “o mundo todo”.

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damente a Federação Luterana Mundial e sua identidade em termos de vocação e finalidade.22 Um dos principais fatores que levaram à fundação da Federação Luterana Mundial, em 1947, por ocasião da sua primeira assembléia, em Lund (Suécia), foi a necessidade de providenciar ajuda humanitária ao povo europeu que estava sofrendo em consequência da Segunda Guerra Mundial. Havia uma forte motivação de autoajuda nos estatutos originais do Serviço para Refugiados da Federação Luterana Mundial, pois, no pós-guerra, uma em cada seis pessoas luteranas era refugiada ou deslocada e necessitava de ajuda. Isso conferiu à Federação Luterana Mundial uma forte orientação de ajuda a pessoas refugiadas – característica presente até hoje. Contudo, o que preocupava a segunda assembleia, a de Hannover, em 1952, foi o risco de que a FLM, de forma igual à sua antecessora, a Convenção Luterana Mundial, fosse desaparecendo, pouco a pouco, depois de terem sido atendidas as necessidades imediatas das pessoas luteranas no período depois da guerra. Numa decisão histórica, a assembleia afirmou o caráter permanente do compromisso das igrejasmembro de ajudar as pessoas necessitadas, mas com um novo enfoque. A ajuda deveria ser prestada a quem dela necessitasse, no sentido de “fazer o bem sem olhar a quem”, por obediência ao Evangelho. Desta forma, ficou estabelecido que, em seus trabalhos de campo, a FLM se empenharia em responder às necessidades humanas, com o mandato claro de estender a ajuda para além dos limites da comunhão luterana. Para o Departamento de Serviço Mundial (DSM) da FLM, encarregado de realizar esse 22

O texto a seguir se baseia na palestra de Brian Neldner no

«Development Education Forum», em junho de 1997. Um relato da história do Serviço Mundial da FLM consta também em «Let Us Help One Another: Service in the LWF», em SCHJØRRING, Jens Holger; KUMAR, Prasanna; HJELM, Norman A. (Eds.). From Federation to Communion. The History of the Lutheran World Federation. Minneapolis: Fortress Press, 1997. p. 85-141.

trabalho em nome das igrejas-membro da FLM, o ponto de partida é a necessidade humana. Um dos pontos-chave das atribuições e responsabilidades do DSM, aprovadas pela Assembleia de Hannover, é o mandato de conduzir, administrar (...) tais serviços [que] terão enfoque global e beneficiarão pessoas necessitadas sem distinção de raça, sexo, credo, nacionalidade ou orientação política. A tarefa de responder às necessidades humanas através do trabalho do DSM deve ser vista em relação com a contrapartida equivalente do Departamento de Missão e Desenvolvimento (DMD), cuja tarefa consiste em fortalecer o tes-temunho das igrejas pela missão e pelo desenvolvimento. Isso acontece, em parte, mediante programas coordenados pelo secretariado em Genebra. Alguns programas estão sob a responsabilidade de um dos escritórios regionais e, então, relacionados com os problemas de uma região específica, por exemplo, a pobreza na África, a cooperação inter-religiosa na Ásia, as dívidas ilegítimas na América Latina ou as relações entre o estado e a igreja na Europa. Outros programas são coordenados por escritórios de competência mundial, com enfoques como HIV e AIDS, questões de gênero, a participação da juventude, o desenvolvimento de recursos humanos e os serviços de comunicação. Ademais, o DMD está coordenando o apoio a uns 230 projetos elaborados e executados pelas igrejas-membro da FLM. Nisso, a tarefa principal do DMD consiste em financiar os projetos e acompanhar as instituições mantenedoras nos processos de implementação e prestação de relatórios. Ao longo da sua história, a FLM tem mantido sua identidade confessional e conferido um crescente caráter ecumênico aos trabalhos de assistência humanitária internacional. Com uma inovadora estrutura ecumênica de ajuda às pessoas refugiadas na África, em princípios da década de 1960, houve estreita cooperação com outras entidades. A FLM criou

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o Serviço para Refugiados Cristãos da Tanganica (hoje Tanzânia), em nome do Conselho Mundial de Igrejas, e passou a cooperar com o Conselho Cristão da Tanzânia. A seguir, um programa similar foi iniciado na Zâmbia. Ao mesmo tempo, um programa da FLM para pessoas refugiadas chinesas em Hong Kong se desenvolveu para um serviço social muito amplo, o qual, depois, foi confiado às mãos do Conselho Cristão de Hong Kong. As grandes secas da África, desde o início da década de 1970, motivaram a ação coordenada dos organismos eclesiásticos da FLM, do Conselho Mundial de Igrejas e das agências católicas, através da Caritas Internacional e suas respectivas entidades nacionais, na Ação das Igrejas Contra a Seca na África. A partir daí, foram iniciadas novas ações conjuntas, não só no âmbito internacional, mas resultando em novas formas de cooperação entre as igrejas locais, como na Etiópia e Eritreia. Atualmente, o forte envolvimento da FLM na Ação Conjunta das Igrejas (ACT, Action by Churches Together) confirma seu crescente compromisso ecumênico. Em 1970, a resolução sobre os direitos humanos da Assembleia de Evian estabeleceu um

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marco de referência e o compromisso da FLM, por meio de suas igrejas-membro, de trabalhar em zonas de conflito. A partir daí, prestou-se ajuda das mais diversas formas a pessoas envolvidas em lutas de libertação ou afetadas pelos combates, especialmente em Moçambique, Angola e Namíbia. Tratava-se de ajuda a pessoas exiladas e refugiadas, de operações de repatriação, reconstrução, reabilitação e desenvolvimento, bem como de serviços sociais e pastorais para contingentes exilados e/ou envolvidos nas lutas de libertação. O atendimento pastoral à população namibiana no exílio, organizado em cooperação com as principais igrejas da Namíbia e os conselhos cristãos dos países de asilo, foi realizado pela FLM através do Departamento de Serviço Mundial (DSM). A decisão da Comissão de Serviço Mundial, em 1974, de começar a trabalhar no país islâmico da Mauritânia foi um passo importante, uma vez que demonstrou o conceito de compromisso global do DSM, em nome de todas as igrejas-membro da FLM. Tais programas têm um papel importante em termos de construção de pontes com povos de países com outras religiões majoritárias. Em 1997, o Conselho da FLM ratificou que a FLM entende a promoção dos direitos humanos como algo intrínseco da ajuda humanitária e do desenvolvimento A capacidade operacional do DSM é mantida com muitos recursos de entidades doadoras intergovernamentais e governamentais (back-donors), encaminhados via organismos de cooperação relacionados com a FLM. Pelo Serviço Mundial da FLM, esses recursos são canalizados para programas de serviço cristão às pessoas próximas necessitadas, no mais amplo sentido. O DSM também trabalha em estreita cooperação com a Organização das Nações Unidas (ONU). Recorde-se que, já em sua primeira assembleia, a FLM manifestou suas preocupações com pessoas refugiadas


e deslocadas ao secretário-geral da ONU. Naquele mesmo ano, a FLM passou a ser uma organização credenciada pela ONU. Essa é a origem da parceria de longa data do DSM com organismos especializados da ONU, especialmente o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). A FLM encara o seu trabalho como sendo complementar ao da ONU, cuidando principalmente dos contatos pessoais, o que deve continuar sendo a característica da cooperação com todas as entidades governamentais e intergovernamentais. Nos próximos anos, os desafios à resposta humanitária internacional serão determinados por decisões políticas, questões econômicas e calamidades naturais. Também a cultura, o fundamentalismo e as divisões religiosas condicionarão a forma do atendimento. A FLM pode ser uma intermediária, uma “ponte diaconal”, entre essas divisões ao prestar ajuda às pessoas necessitadas, por intermédio de suas igrejas e em seu nome. Hoje, o DSM (juntamente com seus programas associados) opera em 36 países da África, da Ásia, da Europa, da América Latina e do Caribe. A maior parte do seu orçamento anual de 100 milhões de dólares americanos é dedicada a programas humanitários e de desenvolvimento. Norteado pelo lema “Defender os direitos das pessoas pobres e oprimidas”, o DSM definiu seis prioridades para a sua atuação:

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6. Proteção ao meio ambiente.

Como já foi exposto, os luteranos e as luteranas compartilham esse compromisso com outras pessoas cristãs. Por conseguinte, a diaconia internacional tem sido uma parte essencial do movimento ecumênico, já desde seus primórdios. Em 1922, foi fundada, em Zurique (Suíça), a Central Europeia de Ajuda Intereclesiástica (Europäische Zentralstelle für 1. Resposta e prevenção em casos de calami- kirchliche Hilfsaktionen, EZ), sob os auspícios do Conselho Federal das Igrejas de Cristo na América dades. e a Federação de Igrejas Protestantes da Suíça, aos quais, mais tarde, se somaram outras igrejas da 2. Criação de comunidades sustentáveis. Europa. A Central foi transferida para Genebra em 1928 e, em 1945, integrou-se no Conselho Mundial 3. Luta contra o HIV e a AIDS. de Igrejas (CMI). Em 1938, quando Willem A. Visser’t Hooft 4. Promoção da paz, da reconciliação e dos difoi solicitado a assumir a função de primeiro sereitos humanos. cretário-geral do CMI, ele colocou como condição que houvesse um departamento de ajuda interecle5. Transformação das relações de gênero.

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siástica, porque, segundo ele, “não poderia haver uma forte comunhão ecumênica sem a prática da solidariedade”. Em 1949, um ano depois da primeira assembleia do CMI, em Amsterdã, o Comitê Central declarou que a ajuda intereclesiástica é uma obrigação permanente do CMI e que a maneira mais eficaz de prestá-la é de forma ecumênica. Em 1971, essa unidade do CMI passou a ser chamada de Comissão de Ajuda Intereclesiástica, Serviço Mundial a Refugiados, cuja sigla em inglês é CICARWS. O mandato dessa Comissão era ajudar as igrejas a manifestar sua solidariedade, compartilhando seus recursos humanos, materiais e espirituais, e a facilitar esse intercâmbio, a fim de promover justiça social, desenvolvimento humano e alívio das necessidades humanas. Pelo fim da década de 1980, a unidade começou a ser mais dinâmica e procurou ajudar as igrejas e os grupos relacionados em suas reflexões sobre a raiz dos problemas, e a achar metodologias que lhes permitiriam responder de forma mais abrangente às necessidades humanas. Em consequência disso, a CICARWS reduziu seu envolvimento com projetos os mais diversos, mas prosseguiu com um sistema de projetos prioritários para responder de maneira bem concreta a essas prioridades e aos desafios mais prementes do movimento ecumênico. Em 1992, a unidade passou a chamar-se Compartilhar e Servir.

Como já foi assinalado, o sofrimento depois da Segunda Guerra Mundial motivou as lideranças eclesiásticas de muitos países a criar estruturas de ajuda humanitária internacional. Inclusive, já antes disso, em 1922, foi fundada na Dinamarca a Folkekirkens Nødhjelp (DanChurchAid) para responder às necessidades do Leste europeu, com o mandato especial de acompanhar as igrejas minoritárias dessa região. Simultaneamente, em resposta à conjuntura desafiante da Segunda Guerra Mundial, em todo o mundo foram surgindo organizações similares relacionadas com as igrejas. Na verdade, algumas dessas organizações foram criadas para acolher refugiados e refugiadas que vinham da Europa depois da guerra. Mais tarde, esse trabalho foi ampliado para uma diaconia internacional. Em fins da década de 1950, muitos desses organismos ou agências de cooperação haviam voltado sua atenção às emergentes nações independentes do hemisfério Sul e sua luta para superar a pobreza e os padrões do colonialismo. Surgiram novas iniciativas. As igrejas protestantes da Alemanha iniciaram um programa chamado Pão para o Mundo, em 1959. Hoje, essa organização apoia mais de mil projetos, em cooperação com igrejas locais e organizações parceiras na África, Ásia, América Latina e Leste europeu, sob o lema Justiça para os pobres. As agências de cooperação, por um lado, são instrumentos para indivíduos e comunidades que consideram ser do seu dever cristão não limitar a diaconia ao próximo imediato, mas estendê-la a todas as pessoas que sofrem. Por outro lado, elas são braços de igrejas locais (ou nacionais) incumbidas e direcionadas por elas com o objetivo claro de lutar contra a pobreza e a injustiça e de apoiar as organizações parceiras para fazê-lo. As agências, por isso, podem ser vistas como intermediárias, incumbidas que são por seus constituintes para a ação diaconal em cooperação com parceiros e parceiras em outros lugares do mundo.

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Desde os anos de 1970, muitas dessas agências de cooperação receberam ajuda financeira dos seus respectivos governos e passaram a participar cada vez mais no trabalho de desenvolvimento a longo prazo. As iniciativas de incidência política, em termos de promoção e defesa de causas, também se tornaram uma prioridade importante do seu trabalho. Ao longo das últimas décadas, isso motivou algumas mudanças na forma como os organismos de cooperação entendem o seu trabalho. Em primeiro lugar, e principalmente, eles reconhecem mais claramente a sua função como agentes de transformação, tanto em seu próprio contexto como no hemisfério Sul. Isso provém de uma melhor compreensão das razões estruturais da pobreza e do fato de que as causas principais das necessidades humanas, na maioria das vezes, estão relacionadas com sistemas de opressão e injustiça. Em segundo lugar, o reconhecimento dessas realidades torna claro que o trabalho de desenvolvimento não é uma tarefa simples, mas exige competência profissional. Quando se organizou a diaconia ecumênica, depois da Segunda Guerra Mundial, ela ganhou formas de operação multilateral; pois os desafios a serem atendidos na Europa do pós-guerra eram demasiado amplos para uma só igreja ou agência de ajuda. A partir dos anos de 1970, a cooperação bilateral foi crescendo e veio a ser a forma mais comum de diaconia internacional, geralmente preferida devido ao contato direto entre as parceiras de cooperação. Prefere-se, com frequência, a cooperação bilateral, por ser considerada mais rápida e mais eficaz do que os esforços multilaterais. Por outro lado, o bilateralismo também traz consigo alguns problemas. Algumas igrejas da África cooperam bilateralmente com muitas parceiras; mas corresponder aos objetivos estratégicos, aos requisitos de apresentação de relatórios etc. de cada entidade implica muito trabalho. O aspecto multilateral permite uma melhor cooperação. Na

Na consulta sobre “Entendimentos Atuais de Diaconia”, realizada em 1982 em Genebra, a diaconia foi definida como um sistema ecumênico de compartilhar recursos, resumindo esse entendimento em oito fraseschave. A diaconia • é essencial para a vida e o bem-estar da igreja; • está voltada para o nível local; • é mundial em solidariedade internacional; • impede o crescimento e a sustentação de estruturas injustas; • preocupa-se com as dimensões estruturais e políticas; • é humanitária para além da família da fé; • é mútua; • é liberadora ao insistir na capacitação e promover a participação do povo; Fonte: CMI. From Inter-church Aid to Jubilee. A brief history of ecumenical diakonia in the World Council of Churches. Genebra, 2002. p. 13.

parceria bilateral também há o problema de como lidar com o desequilíbrio de poder. No caso da cooperação multilateral, estão envolvidas mais entidades e o poder pode ser compartilhado de forma mais tranquila. Outra vantagem da cooperação multilateral consiste em seu potencial para conectar um maior número de agentes e a troca de conhecimentos e experiências dentro de uma rede mais ampla. Esses desdobramentos também suscitaram motivações para uma cooperação ecumênica mais intensa. Desde o início da década de 1990, as agências de cooperação do hemisfério Norte se reuniram regularmente como a Rede de Dirigentes de Agências. Com o tempo, porém, se manifestou uma crescente preocupação pelo fato de que as igrejas e os serviços de resposta relacionados com as igrejas do hemisfério Sul não estavam presentes na mesa dessas reuniões. Em 1995, foi criada a Ação Conjunta das Igrejas, hoje bastante conhecida pela sigla em inglês ACT (Action by Churches Together ou ACT International), para dar uma resposta coordenada global às

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Podemos destacar nove afirmações bíblicas e teológicas em favor da diaconia ecumênica em meio à globalização:

Diaconia ecumênica • precisa responder ao nosso contexto, o global e o local; • constitui um chamado para participar da missão de Deus; • é diaconia profética; • é transformadora e vai em busca da justiça; • é inseparável da koinonia, da comunhão; • é diaconia global, pertinente a todas as pessoas e a toda a criação; • empenha-se por curar, reconciliar e reconstruir; • visa construir relações justas, praticar a mutualidade e o compartilhar. Somos chamados a estarmos unidos na missão de Deus no exercício de uma diaconia compassiva, reconciliadora, transformadora, buscadora de justiça e profética. Source: Chris Ferguson e Ofelia Ortega: Ecumenical Diakonia. Documento não publicado do CMI, 2002, p. 3.

emergências. Já em 2000, fundou-se a Aliança Ecumênica de Ação Mundial (AEAM, ou conforme a sigla em inglês: EAA – Ecumenical Advocacy Alliance) para coordenar, no âmbito global, as ações de incidência política e de sensibilização das igrejas e das organizações com elas vinculadas com relação a questões concretas (atualmente, HIV/AIDS e segurança alimentar). Seguiram-se iniciativas para fortalecer a cooperação em termos de desenvolvimento, e o CMI foi solicitado a coordenar o processo. Em fevereiro de 2007, a entidade ACT para o Desenvolvimento foi fundada como “uma aliança global de igrejas e organismos afins que têm o mandato de trabalhar ecumenicamente para o desenvolvimento e que decidem atuar em conjunto” com o objetivo de “promover e facilitar a cooperação entre os/as participantes a fim de melhorar sua eficácia e o desenvolvimento transformador”. 23 23

Disponível em: <www.actdevelopment.org/pages-sp/documents-sp.html> - ver se existe versão em português neste site.

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Já em 2009, ACT para o Desenvolvimento estava composta por setenta organizações ocupadas com desenvolvimento a longo prazo, isso em mais de 150 países. Contava-se, no conjunto das organizações, com um orçamento anual de aproximadamente 1,4 milhões de dólares americanos. Seu foco está direcionado para o desenvolvimento a longo prazo, fortalecendo a capacidade de seus participantes e a cooperação entre os mesmos. Já no princípio, ficou claro que deveria haver um forte relacionamento entre o trabalho humanitário, o trabalho de desenvolvimento e o de incidência política, e que, preferivelmente, a cooperação deveria ser coordenada por uma aliança global. Por esse motivo, envidaram-se grandes esforços para unir ACT Internacional e ACT para o Desenvolvimento. Depois de um cuidadoso processo, que incluiu consultas regionais, as assembleias de ACT Internacional e as de ACT para o Desenvolvimento decidiram, por larga maioria, fusionar as atividades e iniciar sua caminhada como a nova ACT Aliança, unificada em janeiro de 2010. Não resta dúvida de que houve necessidade urgente de coordenar a diaconia internacional e que a criação dessas alianças constitui uma ferramenta importante nessa direção. Esses esforços, ao mesmo tempo, suscitaram preocupações com relação a uma mutualidade mais ampla da resposta diaconal. Um dos assuntos que preocupam diz respeito à concentração de poder e de como garantir que as agências do hemisfério Norte não tenham um papel dominante nas novas estruturas. Outra preocupação tem a ver com o que se entende por desenvolvimento e a pergunta como o estabelecimento de ACT para o Desenvolvimento se relaciona com as igrejas e a interpretação holística da missão. Uma terceira preocupação diz respeito à natureza de um trabalho profissional e eficaz e coloca a pergunta: quem tem o poder de determinar quando e de que maneira o objetivo é alcançado. Apesar da ACT Internacional e ACT para o Desenvolvimento procurarem ser instru-


mentos globais da diaconia, restam interrogações sobre a questão se é possível impor os programas, os diagnósticos e as exigências dos organismos de cooperação do hemisfério Norte às igrejas e organizações do hemisfério Sul. Essas questões, certamente, continuarão constando na agenda das discussões ecumênicas. A consulta global sobre diaconia da FLM realizada em Adis Abeba, em outubro de 2008, reafirmou a rica tradição dos organismos ou agências que continuam desempenhando um papel importante na diaconia internacional. Mas ela declarou também que há ainda a necessidade de debater em conjunto a questão das funções e dos enfoques. A consulta recomendou que se buscassem novas sinergias e conectividade para promover um diálogo honesto entre os parceiros do hemisfério Sul e do hemisfério Norte sobre novos paradigmas para a cooperação na missão e na diaconia que sejam mutuamente benéficos e complementares. Nesse empenho, os enfoques baseados nos pontos fortes e nos direitos são fundamentais, visto que se pressupõe que cada pessoa individual bem como a comunidade local tenham contribuições importantes a dar para garantir a integridade e a sustentabilidade do que se faz.

4. Metodologia diaconal 4.1 A importância da metodologia Já enfatizamos a importância de um bom planejamento no trabalho diaconal. Um elemento-chave do bom planejamento é a formulação de objetivos e metas. Outro é a definição dos métodos. A palavra “método” provém do grego meta + hodos e significa viajar ou seguir um caminho. A metodologia presta atenção à maneira como se usa um método para alcançar um objetivo específico.

Para a prática diaconal, a questão da metodologia é decisiva. Nenhum método é neutro, pois todos eles têm uma carga de valores. Por isso uma tarefa essencial consiste em identificar os métodos de trabalho que favoreçam os processos de participação e empoderamento, e que afirmem os valores básicos do trabalho diaconal. A assim chamada “hermenêutica da suspeita” pode ser uma ferramenta importante para introduzir perspectivas críticas na atividade diaconal. Hermenêutica significa “forma de interpretação” e requer uma mente inquisitiva. Isso implica perguntar: a quem servem os interesses que estão por trás do que se diz e se faz? O mundo e seus problemas da perspectiva das pessoas poderosas têm aparência diferente daquela da perspectiva dos grupos marginalizados. Uma diaconia bem planejada precisa levar em conta esse conflito e dar espaço às vozes que são ignoradas. Essa prática é de boa tradição bíblica e aponta na direção da diaconia profética.

4.2 Ver – julgar – agir O modelo ver – julgar – agir, usado por teólogos e teólogas latinoamericanos, tem sido amplamente aceito como ferramenta útil para conectar teoria e prática. Ficou demonstrado ser, também, um método muito valioso para planejar e pôr em andamento atividades diaconais.

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Tr a b a l h a r com esse método implica dar três passos consecutivos: O primeiro é ver, que significa fazer uma análise detalhada do que está sendo feito, a partir da perspectiva das ciências sociais e de outras disciplinas pertinentes, a fim de obter uma visão geral fidedigna da realidade do contexto onde acontece a atividade diaconal. Essa análise deveria, nesse © LWF/J. Schep primeiro passo, prestar atenção às experiências e aos testemunhos provenientes do contexto. Como se enxerga a realidade na perspectiva das pessoas pobres e marginalizadas? O que se aprendeu com a atual prática diaconal e com outros grupos comprometidos com o desenvolvimento e a transformação? Quais são os pontos fortes e os pontos fracos dessa intervenção? Assim se abre espaço para o que, por vezes, se chama de conhecimento silencioso e para vozes que nem sempre são ouvidas numa reflexão formal. O segundo passo é julgar, ou seja, o momento de introduzir preocupações e impulsos da fé e da identidade cristãs na reflexão sobre a práxis. Enquanto o primeiro passo é, sobretudo, analítico, com base no conhecimento secular, esse segundo passo é mais hermenêutico, no sentido de que trata de interpretar o que se vê e se analisa. Como

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discernir o que está ocorrendo como sinais dos tempos à luz da palavra de Deus e da promessa do reino de Deus irrompido com Jesus Cristo?24 De que maneira somos desafiadas, como pessoas cristãs, a agir, tendo em mente o mandato de participar na missão holística de Deus? Que tipo de ação diaconal poderia ser uma resposta relevante? Tal diagnóstico vai ajudar a igreja a levantar sua voz profética para denunciar a injustiça e o pecado, e para anunciar, em palavra e ação, a boanova do cuidado de Deus para com as pessoas em pobreza e sofrimento. Em algumas situações, pode resultar ser útil esperar por esse segundo passo antes de utilizar ferramentas teológicas de interpretação. Quando se começa apenas com a reflexão teológica, a perspectiva pode ficar por demais estreita. A interação dialética entre a observação analítica e a reflexão teológica proporciona à ação diaconal um saudável enfoque interdisciplinar, podendo darlhe valor agregado por seu caráter de intervenção social profissional. O terceiro passo é agir, ou seja, trazer as percepções dos dois primeiros passos para a arena da atividade diaconal. É de se esperar que isso faça com que a ação seja mais analítica e disciplinada, mais focada nos propósitos e mais eficaz. Apesar de esse método ser apresentado como um procedimento em três passos, convém lembrar que o primeiro passo parte da ação e que o terceiro passo deveria conduzir a uma nova reflexão sobre a práxis. O processo, portanto, é circular ou de espiral. Isso não significa que se justifique a si próprio, uma vez que perspectivas e perguntas críticas deve¬riam acompanhar o processo em todos os três passos.

24

FLM. Missão em Contexto: transformação, reconciliação, empoderamento. Uma contribuição da FLM para a compreensão e a prática da Missão. Curitiba: Encontro, 2006. p. 25.


4.3 Construir cidadania

pessoas se capacitam para assumir novos papéis na sociedade, em defesa de seus próprios direitos e Ao discutir o propósito da diaconia (Parte como participantes ativas nos movimentos sociais III.1), foi levantada a pergunta se o trabalho e políticos. Esse desafio de construir cidadania está diaconal deveria dirigir-se a pessoas individuais, ou a grupos, ou a comunidades locais inteiras. presente em muitos lugares do mundo. Devido Durante muitos anos, a tendência ia no sentido às experiências vividas durante o comunismo, os de se dar preferência a atividades que envolviam povos do Leste europeu reconhecem que precisam comunidades inteiras; contudo, novas experiências aprender a tomar iniciativas em conjunto para indicam para a importância de incluir também se tornar cidadãos participativos e responsáveis. o enfoque individual. Em muitos casos, não é Em muitos países ocidentais percebe-se que cada necessário diferenciar essas opções, e sim convém vez menos pessoas participam na vida política usar enfoques que permitam a sinergia de ambos, organizada e que as organizações de pessoas voluntárias estão perdendo membros. os estímulos mútuos. O compromisso diaconal de construir Uma experiência desse enfoque de sinergia foi desenvolvida na África do Sul durante o cidadania é motivado por esses desafios sociais e período do apartheid. A população sul-africana políticos. Mas também é determinado pela antiga negra, por exemplo, sofria muitas injustiças tradição do catecismo que, assim como os Dez porque empregadoras e empregadores brancos Mandamentos, nos mostra caminhos para viver lhes negavam ou simplesmente ignoravam como pessoas cidadãs. O método para construir cidadania contém os direitos existentes na lei. Essa situação fez com que algumas entidades diaconais criassem três elementos principais: incidência política, eduprogramas para enfrentar as questões políticas e cação e mobilização. Todos esses elementos conjurídicas. Iniciaram-se campanhas nos subúrbios tribuem para o processo de transformação, que tem delimitados para a po-pulação negra com a múltiplas dimensões. No nível pessoal, a gente nefinalidade de despertar a consciência das pessoas cessita acreditar em seus dons e superar as atitudes e empoderá-las para reivindicar seus direitos. Ao de inferioridade ou o tipo de fatalismo que aceita o mesmo tempo, foi oferecida assessoria jurídica às destino sem fazer perguntas. No nível social, há nepessoas que necessitavam de documentação para cessidade de adquirir conhecimentos e competências e ser treinado para participar em atividades orter maior proteção como assalariadas e cidadãs. Na América Latina, realizou-se uma ganizadas. Uma questão importante nesse processo experiência semelhante em termos do conceito de é evitar a manipulação, tal como fazer a gente copiar construir cidadania mediante o esforço comunitário o modo de pensar, seja qual for, dos formadores e motivado pelo sonho de uma sociedade mais das formadoras. O verdadeiro empoderamento justa. Entende-se cidadania como o conjunto de permite às pessoas criarem suas próprias opções, direitos que dá a uma pessoa a possibilidade de mesmo contrariando algumas expectativas que a participar ativamente na governança da vida de mantenedora de um projeto possa ter. Ficou provado que construir cidadania é funseu povo. Carecer de cidadania significa ficar à margem ou excluída da vida social, das tomadas damental para fortalecer a competência democrátide decisão, e ficar relegada a uma posição inferior ca na sociedade. A democracia precisa ser construínum grupo social. Construir cidadania, por isso, da a partir de baixo. Pessoas cidadãs empoderadas implica iniciativas e processos pelos quais as sabem como abordar as necessidades de direitos da

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gente comum e como dar apoio às suas reivindicações. Nisso estão incluídos os direitos civis bem como os direitos econômicos, sociais e culturais. Pessoas cidadãs empoderadas sabem como se empenhar para influir nas decisões e nas políticas importantes que afetam suas vidas, conhecem formas de chamar os governos à responsabilidade e estão comprometidas com uma coexistência pacífica nas sociedades multiétnicas e pluralistas.

4.4 Construir comunidade Existe um forte vínculo entre construir cidadania e construir comunidade. Os projetos que se dirigem às necessidades de um grupo específico – como as pessoas com deficiência física, por exemplo – contribuirão para o bem-estar de toda a comunidade. Em alguns contextos, a diaconia tem a capacidade de criar espaço para a ação política. Tal foi o caso, por exemplo, na América Central, durante o período das ditaduras militares, na década de 1980. Por isso nenhuma ação diaconal pode ser vista isolada do contexto social e político. O desenvolvimento comunitário tornou-se uma atividade importante na diaconia internacional. Seu objetivo é que toda a comunidade, e não só um grupo privilegiado, participe e se beneficie do trabalho que está sendo realizado. Seu método é incluir tantos setores como possível ao se trabalhar com a comunidade: água, saneamento, segurança alimentar, educação, questões ambientais, de gênero etc. Seja qual for o ponto de entrada para a ação diaconal: socorro de emergência, reabi l itação, © LWF/D. Lorenz

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preparo para situações de calamidade ou qualquer forma de empenho pelo desenvolvimento – os esforços deveriam ser intrinsecamente relacionados com o objetivo comum de desencadear uma dinâmica participativa e integrada. Esse enfoque de integração é orientado pelo saber de que todos esses setores estão relacionados entre si e que um desenvolvimento sustentável só é possível quando se avança em todas as frentes. Em geral, isso constitui um desafio demasiado exigente, pois nenhum e nenhuma agente, sozinhos, podem atender tarefas de tal variedade. Por isso é de fundamental importância formar redes e colaborar com parceiros e parceiras locais. Durante as últimas décadas, aprendeu-se que a sustentabilidade, no nível local, requer uma intensa participação e apropriação dos processos de transformação. Por essa razão o desenvolvimento comunitário trata de empoderar pessoas individuais e grupos, facilitando a esses grupos o acesso ao treinamento para alcançar mudanças em suas próprias comunidades. As capacitações, muitas vezes, visam a criar poder político mediante a formação de amplos grupos sociais que cooperam numa agenda comum. Os e as agentes de desenvolvimento comunitário precisam saber como trabalhar num corpo a corpo com indivíduos e como atingir as situações das comunidades no contexto de coletivos sociais mais amplos. Para agentes diaconais sempre constitui um desafio exigente manter o equilíbrio entre seu próprio papel (e poder) e o papel (e poder) da comunidade local. Deve ser prioridade máxima para eles e elas aprender a escutar de forma atenciosa e comprometer-se com os enfoques, opiniões e soluções encontradas em conjunto. Soluções impostas de fora não funcionam. Elas implicam uma violação da integridade de indivíduos e da comunidade, bem como do conhecimento e da tomada de decisões que fazem parte do exercício de sua cidadania. Por esse motivo, atualmente, organismos de cooperação e outros e outras agentes diaconais procuram reduzir


a importância do seu próprio papel na implementação de projetos complexos e, ao invés disso, buscam parceiros e parceiras locais com bom conhecimento das condições do contexto. Outros problemas podem surgir quando o trabalho tem a ver com temas sensíveis como, por exemplo, a posse da terra, questões de gênero ou práticas culturais como a mutilação genital feminina. Até que ponto os e as agentes diaconais podem ser francos e explícitos ao abordar esses assuntos? Deveriam usar sua autoridade para levantar questões de justiça, ou significaria isso abusar de seu poder? Por outro lado, será que ficar calados não seria equivalente a descumprir a dimensão profética do trabalho diaconal? Nos últimos anos, ficou cada vez mais claro que o trabalho diaconal precisa fundamentarse nos direitos. O Serviço Mundial (DSM) da FLM tem incluído o procedimento a partir dos direitos fundamentais como um de seus principais métodos estratégicos: O método baseado nos direitos fundamentais implica, antes de mais nada, fazer com que haja maior consciência dos direitos em todos os níveis, tanto entre as pessoas sem poder como entre as detentoras do poder. Os objetivos de desenvolvimento também são objetivos dos direitos humanos. Destacar os direitos humanos no contexto de desenvolvimento ajuda a dirigir a atenção para as desigualdades estruturais que causam e mantêm o empobrecimento e a exclusão. A referência deliberada aos padrões e objetivos dos direitos humanos ajuda a garantir que se preste a devida atenção às causas fundamentais da pobreza e da exclusão ao serem formulados e implementados programas de desenvolvimento, bem como ajuda a evitar que projetos meramente técnicos se tornem ponto de referência para as atividades de desenvolvimento. Com esse enfoque também se reduz o risco de que

as pessoas pobres sejam vistas como objetos de caridade.25

Assim como está claro que a ação diaconal não pode nunca ocultar sua identidade cristã, assim também é evidente que não pode negar seus valores fundamentais nem seu compromisso com a justiça e a dignidade humana. Contudo, a forma de corresponder a esses princípios pode depender do contexto local.

4.5 Estabelecer redes com outros e outras © FELM

Nos últimos anos, a sociedade civil veio a ser um campo importante para promover a participação das pessoas e as mudanças sociais. A sociedade civil, por vezes, chamada de “terceiro setor”, quando vista em relação ao estado e ao mercado, que podem ser considerados os outros dois setores básicos da sociedade. Fortalecer a sociedade civil significa equilibrar o poder desses dois outros setores, como diz a seguinte definição: Sociedade civil refere-se ao campo da ação coletiva sem coerção em torno a interesses, propósitos e va25

LWF. Uphold the Rights of the Poor. Global Strategy 2007-2012. Genebra: Departamento de Serviço Mundial, 2007. p. 9.

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© LWF/E.-S. Vogel-Mfato

lores compartilhados. Em teoria, suas formas institucionais são distintas daquelas do estado, da família e do mercado, ainda que, na prática, os limites entre estado, sociedade civil, família e mercado costumem ser complexos, difusos e negociados. Comumente, a sociedade civil abrange uma diversidade de espaços, agentes e formas institucionais, que variam em seu grau de formalidade, autonomia e poder. As sociedades civis, com frequência, são habitadas por organizações tais como organizações registradas beneficentes, não governamentais de desenvolvimento, grupos comunitários, organizações de mulheres, organizações religiosas, associações profissionais, sindicatos, grupos de autoajuda, movimentos sociais, associações comerciais, grupos de coalizão e de incidência política.26

Fortalecer as estruturas horizontais na sociedade e, assim, promover os princípios democráticos é geralmente visto como uma das principais funções da sociedade civil. Outra experiência é que uma boa governança depende da existência de redes informais independentes. As igrejas e as organizações religiosas são agentes importantes na sociedade civil. Esse campo proporciona às igrejas uma nova oportunidade para exercer um papel ativo na sociedade, o que, muitas vezes, não ocorreu no passado – especialmente na Europa – quando a igreja era uma parte do poder estatal. Como agente na sociedade civil, a igreja já não procura obter poder como parte de um modelo 26

Definição conforme a London School of Economics and Political Sciences. Disponível em: <www.l-se.ac.uk/collections/ CCS/what_is_civil_society.htm>

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hegemônico, mas procura oportunidades para participar em questões públicas importantes e servir ao bem-estar comum. Para a diaconia, a sociedade civil representa uma oportunidade única para influir na sociedade como um todo. As iniciativas diaconais podem ser vistas como exemplos pioneiros de responsabilidade pública. Isso tem a ver com a convicção fundamental de que a diaconia sozinha não pode assumir responsabilidade por todos os desafios humanos e sociais, mas deveria construir alianças com todas as pessoas de boa vontade. A liberdade interna de cada participante, de cada parceria, deveria ser respeitada e estimulada. A sociedade civil oferece uma boa plataforma para criar redes de contato e para a comunicação. É importante que os e as agentes diaconais explorem essa possibilidade e levem seu trabalho para esse contexto maior do engajamento público. A sociedade civil também abre possibilidades para a incidência política em favor de determinadas causas. Em casos onde a ação diaconal não possa dar atenção adequada a questões de justiça, pode ser útil criar vínculos com outros e outras agentes da sociedade. Isso também pode significar estabelecer relações com estruturas governamentais. Em alguns países, as experiências do passado criaram uma profunda desconfiança com relação às autoridades políticas, enquanto que, em outros países, as igrejas têm sido muito leais aos governos, eventualmente até submissas. Em tais contextos, é possível criar alianças, de preferência com agentes afins. Com isso, o diálogo com as autoridades governamentais de um país pode obter maior peso, ganhar em qualidade e contribuir para a transparência dos debates públicos em geral. Ao mesmo tempo, as causas das igrejas e seu trabalho diaconal ganham maior visibilidade.

4.6 A responsabilidade de prestar contas Com recorrência, a responsabilidade mútua de prestar contas (accountability, em inglês) é destaca-


da como um valor fundamental na diaconia internacional. Esse compromisso de mútua responsabilidade não pode faltar, por exemplo, na cooperação entre duas ou mais entidades parceiras. Normalmente, a responsabilidade da prestação de contas implica dois componentes essenciais: a obrigação de dar resposta e a exequibilidade. O primeiro componente refere-se à obrigação de justificar decisões e ações; o segundo, à capacidade de assegurar que seja executada uma medida combinada. Quando é mútua a responsabilidade de prestar contas, todos e todas as participantes têm o mesmo direito de cobrar dos outros e das outras responsáveis que respondam por seus compromissos. Na realidade, isso nem sempre é assim, pois, não raro, há assimetrias nas relações entre os parceiros e as parceiras. As relações tradicionais entre doadores e doadoras e beneficiários e beneficiárias trazem consigo desequilíbrios de poder e na tomada de decisões e deveriam ser questionadas, especialmente no trabalho diaconal. Por outro lado, deve ser afirmado e enfatizado que, no trabalho diaconal, são fundamentais a capacidade de gestão e a execução prática eficaz, ambas incluindo a responsabilidade mútua de prestar contas. Sem esses componentes, por melhores que sejam as intenções, não se chegará a realizar algo substancial e responsável. Hoje em dia, o planejamento, o monitoramento e a avaliação (PMA) conjuntos tornaram-se uma ferramenta útil para que os organismos financiadores do hemisfério Norte e suas entidades parceiras do hemisfério Sul melhorem a capacidade de gestão e as práticas do trabalho. A motivação consiste em “melhorar seus métodos internos de trabalho, para otimizar os limitados recursos humanos e financeiros na luta contra a pobreza e a injustiça”, e também em “melhorar a comunicação entre as organizações do Sul e as agências de cooperação do Norte, através da harmonização dos sistemas de gerenciamento de informação, orientando-os para a aprendizagem, e não somente para a prestação de contas, e

garantindo a troca oportuna de informações relevantes nas etapas essenciais de cada projeto ou programa. Isso deve melhorar a cooperação entre parceiros que colaboram para alcançar os mesmos objetivos de desenvolvimento”27 A Declaração de Paris, um acordo internacional assinado em 2005 por líderes políticos e instituições de desenvolvimento sob os auspícios da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), é um exemplo significativo do mais elevado nível político de um compromisso conjunto para melhorar a qualidade de ajuda e seu impacto no desenvolvimento. Um dos princípios-chave desse compromisso é o fortalecimento dos mecanismos de prestação de contas que obrigam mutuamente as agências doadoras e quem recebe a ajuda e dão garantias de controle público do cumprimento dos compromissos.28 Essas medidas não deveriam ser interpretadas como exigências dos parceiros e das parceiras externos, ainda que haja o risco de que, como detentores e detentoras de poder, eles e elas possam cortar seu apoio se as entidades parceiras do Sul não cumprirem determinadas condições formuladas pelos patrocinadores e pelas patrocinadoras. Todos e todas as agentes deveriam aderir aos princípios de planejar e prestar contas como sendo algo de seus próprios fatores positivos, valores e competências. A comunicação é importante, e a sinceridade no tocante a desequilíbrios de poder deveria ficar na agenda dos diálogos.

27

Construindo pontes em PMA. Orientações para uma boa prática

28

de projetos de desenvolvimento com base comunitária implementados por ONGs dos países do Sul com o apoio de agências ecumênicas europeias. Publicado por ICCO, Kasanyangan Foundation, Países Baixos, 2001, p. 8. Disponível em: <www.icco.nl/documents/pdf/PMe-portugees.pdf>.

Para mais informação ver: “Declaração de Paris sobre a Eficácia da Ajuda ao Desenvolvimento – Apropriação, Harmonização, Alinhamento, Resultados e Responsabilidade Mútua”: Disponível em: <http://www.oecd. org/dataoecd/56/41/38604403.pdf>.

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Boa gestão e boas práticas de trabalho são necessárias para o bem do projeto a ser realizado. Sobretudo, a competência diaconal profissional deveria ser reforçada para o bem das pessoas envolvidas com o trabalho e sua dignidade na luta por uma vida melhor. Também nas igrejas precisa-se de uma maior responsabilidade na prestação de contas. Não é aceitável que algumas lideranças eclesiásticas digam que são “responsáveis somente diante de Deus”, quando deixam de prestar contas de recursos financeiros. Os e as líderes das igrejas deveriam ser os primeiros e as primeiras a dar exemplos de uma mordomia cristã responsável e transparente. Um problema comum no trabalho com projetos é que a entidade mantenedora, muitas vezes, anseia por fazer muito mais do que é possível levando em consideração os recursos disponíveis. Um bom planejamento é fundamental. Nesse es-

necessidades, mas numa análise séria que inclua os pontos fortes e os recursos disponíveis. Assim, muito provavelmente, o projeto se torne mais fácil de administrar, além de mais sustentável. Não é fácil para as igrejas optarem por fazer menos, mas fazê-lo melhor. No entanto, convém lembrar que há muitas outras organizações à parte da igreja e que a diaconia não pode assumir responsabilidade por todos os desafios na sociedade. Por isso é importante buscar alianças com outros e outras agentes. E para as igrejas se torna cada vez mais urgente dirigir o foco de sua ação para áreas onde seu empenho diaconal possa ser uma contribuição a mais significativa e específica.

5. Agentes diaconais

© LWF/F. Longakit

A diaconia conta com muitos e muitas participantes. A maioria deles e delas são anônimos e anônimas, já que fazem o que consideram ser “natural e certo” ao verem-se confrontados e confrontadas com o sofrimento, a necessidade ou a injustiça. Isso ocorre, principalmente, em relação com o que foi descrito no capítulo anterior como diaconia individual. Mas também com relação às outras expressões da ação diaconal, é normal que muito mais pessoas estejam participando do que aquelas com responsabilidade direta. Deveria ser uma prioridade darse maior visibilidade às pessoas que se empenham em tal serviço, não só para honrar sua dedicação, tágio pode ser útil realizar uma análise DAFO29 mas também para animar outras para que sigam ou outro tipo de avaliação, como pode ser a ava- seu exemplo. Não resta dúvida de que haveria mais liação dos pontos fortes e uma indagação avalia- gente disposta a participar num serviço diaconal se dora de outros aspectos. Como resultado, a van- simplesmente se mostrassem oportunidades. As mulheres sempre desempenharam um tagem proporcional do e da titular do projeto se tornará mais clara, uma vez que a atividade não papel-chave no trabalho diaconal, e é muito deveria basear-se unicamente numa avaliação das comum que haja mais mulheres do que homens engajados tanto no trabalho voluntário quando no 29 Análise DAFO, das iniciais: Debilidades, Ameaças, Forças, assalariado. Pode haver muitas razões para esse fato, inclusive razões históricas. É uma realidade que Oportunidades.

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deveria despertar indagações e reflexão crítica. As diaconisas desempenharam um papel de grande importância no movimento diaconal que começou na Alemanha na década de 1830. Isso tem a ver com o fato de que, na época, não havia oportunidades de trabalho para as mulheres fora de casa. Assim, numa perspectiva histórica, esse movimento contribuiu, significativamente, para proporcionar às mulheres um espaço maior na igreja e na sociedade. Ao mesmo tempo, era comum que as mulheres fossem excluídas de posições de liderança na sociedade e nas igrejas. Inclusive numa casa matriz de diaconisas, quase sempre um homem, em geral um pastor, ocupava o posto mais alto. Em muitos lugares, a situação continua sendo assim ainda hoje, sendo homens os que ocupam posições de liderança e que de fato tomam as decisões no tocante às atividades diaconais. Em outros casos, mulheres podem estar entre as lideranças, mas as tomadas de decisão e a elaboração de orçamentos ficam a cargo dos homens. Outra triste realidade é que, em muitas partes do mundo, os homens têm melhores salários que as mulheres, ainda que façam o mesmo serviço. Essa é uma injustiça herdada que claramente nega o espírito e os valores da diaconia. A crença de que a diaconia é, antes de tudo mais, uma tarefa para mulheres pode ser o motivo de, por vezes, se falar de “feminização” da atividade diaconal. Isso pode ter sua causa na interpretação equivocada de que a diaconia (e a mulher) tem importância secundária na vida das igrejas, por ser entendida como cuidado e serviço humilde. Essa “feminização” da diaconia está em desacordo com sua base teológica, já que a diaconia é parte integrante de todo o corpo de Cristo, formado por mulheres e homens, chamadas e chamados a participar. Assim, portanto, no trabalho diaconal, urge adotar um enfoque de gênero que inclua as dimensões práticas e estratégicas. Uma análise de gênero aborda o conjunto das práticas socializadas, quer na família, quer na igreja ou na sociedade.

As funções atribuídas a cada gênero no trabalho diaconal podem ser criticamente discutidas a partir da seguinte pergunta: deveriam simplesmente refletir o que se pratica no contexto ou poderiam representar uma alternativa, uma proposta de participação igual para mulheres e homens? É importante perceber que esse enfoque se baseia na identidade da diaconia e no seu compromisso com a inclusividade e com uma sociedade participativa. Uma análise de funções na diaconia, da perspectiva de gênero, deveria basear-se tanto na fé e na teologia como nos direitos. Deve ser destacado que mulheres e homens são criados à semelhança de Deus, com a mesma tarefa de mordomia, e, pelo Batismo, tornam-se membros da mesma comunhão e recebem poder do Espírito Santo para ser, por igual, responsáveis por toda a criação de Deus. Nesse processo, poderá ser útil refletir sobre como mulheres e homens podem assumir a parte que lhes corresponde no trabalho diaconal. Suas capacidades e seus papéis são similares ou diferentes? Será que não pode também acontecer que o engajamento no trabalho diaconal venha a transformar as funções de homens e mulheres na igreja e na sociedade? Ou será que sucede o contrário, ou seja, que as igrejas atrasam na sociedade os processos que fomentam o reconhecimento e o destaque dos papéis femininos? Importa que esse enfoque seja prático, que ofereça ajuda concreta a mulheres e homens pelo treinamento e pela organização. Empoderamento implica uma mudança das estruturas de poder. Neste caso, significa desconstruir as formas de pensar que dão poder exclusivo aos homens e criar ambientes propícios e estratégias que garantam igualdade na participação e na liderança.

5.1 Voluntários e voluntárias Fato é que a maior parte do trabalho diaconal é realizada por pessoas comuns que não recebem

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não governamental Changemaker, formado originalmente por gente jovem que trabalhava com a Ajuda da Igreja da Noruega (Norwegian Church Aid). São exemplos de mobilização de jovens para atividades de sensibilização e incidência política no âmbito internacional, com o objetivo de atacar as causas fundamentais © LWF/F. Longakit da distribuição desigual de recursos entre os países ricos do Norte e os países pobres salário. Isso também ocorre quando se trata de do Sul. Um terceiro exemplo é o programa de uma obra diaconal organizada. Também ali as Jovens Adultos na Missão Global (sigla em inglês: pessoas voluntárias desempenham um papel YAGM – Young Adults in Global Mission) da Igreja decisivo. Naturalmente, o papel do voluntariado Evangélica Luterana na América (ELCA). Tendo em mente esses antecedentes, o paé muito valorizado, e muitas igrejas fazem campanhas para chamar pessoas voluntárias para pel das pessoas voluntárias merece uma reflexão cooperar. Isso se baseia na firme convicção de que mais profunda do que a de praxe, especialmente a vida da igreja não pode depender só das pessoas quando se espera que elas se ocupem com tarefas determinadas pelo pessoal assalariado. Importa que recebem salário pelo que fazem. Em alguns casos, as pessoas voluntárias lembrar que uma pessoa voluntária não é uma são altamente qualificadas, que investem suas auxiliar de alguém que é pago, mas uma pessoa competências profissionais em atividades diaconais que, com seus talentos e capacidades, pode execomo doação. Médicos e médicas ou dentistas cutar tarefas importantes. Muitas igrejas criaram e podem dedicar algumas horas de seu tempo livre mantêm serviços de linha direta para pessoas que cada semana a uma clínica diaconal para pessoas lutam com dificuldades diversas, facilitando-lhes pobres. Alguns e algumas profissionais consideram pedirem ajuda por telefone. Normalmente, esses isso um “serviço de boa vontade”, como uma serviços são atendidos por pessoas voluntárias com oportunidade de devolver à comunidade algo do que bom treinamento profissional. Em termos de trabalho diaconal, receberam da sociedade. Em outros casos, quando as próprias pessoas voluntárias passam necessidade, especialmente no nível comunitário, é muito podem até receber um pequeno reconhecimento importante a tarefa de recrutar, motivar, treinar pelo que fazem, como, por exemplo, uma refeição e acompanhar pessoas voluntárias. Pois elas, com demasiada frequência, acham que se exige demais gratuita ou ajuda de custo. Em muitos países, existem programas delas e que são abandonadas no serviço. Algumas organizados para pessoas jovens que estejam já deixam o serviço depois de um breve período, dispostas a passar um ano ajudando outras pessoas às vezes com a consciência pesada ou com um como voluntárias. Um exemplo interessante é o sentimento de abuso. Por isso é importante que assim chamado Diakonisches Jahr (ano diaconal) sejam incluídas em processos de planejamento e na Alemanha, pelo qual as igrejas oferecem a avaliação e que sejam respeitadas como parceiras jovens entre 16 e 27 anos a possibilidade de servir de valor no trabalho. As pessoas voluntárias, em comunidades ou instituições diaconais. Outro normalmente, vão sentir-se mais à vontade em suas exemplo é o movimento juvenil internacional tarefas quando se lhes oferecem oportunidades de

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capacitação e crescimento. E, por último, mas nem por isso menos importante: a maioria delas veem uma profunda relação entre sua fé e seu serviço, e isso precisa ser reconhecido e fomentado. De certa maneira, pode-se dizer que o termo “pessoa voluntária” está sujeito a um certo mal-entendido, especialmente quando se dá a impressão de uma diferença fundamental entre pessoas voluntárias e pessoal contratado. Isso, naturalmente, pode ser o caso em trabalhos diaconais muito especializados, onde responsabilidades específicas exigem a correspondente competência, sendo o trabalho organizado conforme tais especialidades. Mas esse fato não justifica uma hierarquia entre os e as profissionais e as pessoas voluntárias, nem pode servir de argumento para reservar competências e responsabilidades diaconais a uma elite profissional. Como o termo “voluntário” provém da palavra latina “voluntas”, que significa “vontade”, pode-se entender que trabalho voluntário depende da vontade pessoal. Do ponto de vista humano, isso faz sentido. Contudo, ao referir-se ao serviço diaconal do ponto de vista teológico, pode-se dar um passo a mais e falar de serviço como a vocação conferida a todas as pessoas batizadas e como expressão de um novo estilo de vida, empoderado pelo Santo Espírito de Deus. Martim Lutero elaborou sua doutrina sobre a ética da vocação e da profissão a partir desse entendimento e apontou para o mundo como o lugar onde se vivencia a vocação cristã. Isso significava, por exemplo, que um agricultor e uma agricultora deveriam considerar seu trabalho diário como serviço dado por Deus, o mesmo valendo para um sapateiro, um professor e uma professora. Quer dizer que o trabalho secular, e não só o trabalho no âmbito da igreja, é entendido como uma vocação, sendo a vida cotidiana um campo importante para expressar o cuidado de Deus para com a criação. Sem dúvida, essa doutrina é significativa para a atividade diaconal.

5.2 Pessoal profissional Com esse entendimento, que poderíamos chamar de “diaconato de todas as pessoas crentes”, podemos agora abordar o papel que todas as pessoas trabalhadoras profissionais qualificadas desempenham na diaconia. Alguém poderia perguntar o que acontece quando “boas obras” são realizadas por profissionais que recebem salário pelo que fazem. Continuam sendo “boas obras”, segundo a interpretação teológica desse conceito? Seguindo a posição de Lutero de que tudo que se faz “de boa fé” é bom, pode-se afirmar, com certeza, que a idoneidade profissional ou a percepção de um salário não tira o valor de uma boa obra. Pode até aumentar a qualidade do que se faz. A capacitação e a competência profissionais são, em primeiro lugar, um meio para garantir a qualidade do trabalho diaconal organizado, tanto no nível da diaconia comunitária quanto no nível das instituições diaconais. Tradicionalmente, diáconos

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e diáconas e diaconisas são as pessoas que recebem tal treinamento específico; mas também outros e outras profissionais, como pessoas do ramo da saúde e dos serviços sociais, administradores e administradoras, economistas, participam da tarefa de assegurar a qualidade profissional do trabalho diaconal. Qualidade, aqui, se entende em dois sentidos: como a contribuição (que implica motivação, atitudes, habilidades etc.) e como o desempenho que depende da forma de realizar o trabalho e do resultado. A profissionalização dos serviços de saúde e do trabalho social sucedeu, principalmente, depois da Segunda Guerra Mundial e, em muitos casos, esteve relacionada com o desenvolvimento de estruturas de assistência social. Seu objetivo era,

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por um lado, melhorar a condição das pessoas que trabalhavam nesse campo e proporcionar-lhes boa formação e boas condições de trabalho. Por outro lado, e o que é mais importante, o objetivo da profissionalização era melhorar os serviços àquelas pessoas que necessitavam deles. Passou a ser uma exigência oficial que um e uma assistente social ou agente da saúde tivesse conhecimentos para intervir em situações complexas de sofrimento, a fim de melhorar a qualidade de vida de uma forma que respeita a dignidade da pessoa necessitada.

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É possível ver o mesmo processo na profissionalização do trabalho diaconal. De fato, as instituições de formação diaconal desempenharam um papel pioneiro na profissionalização dos cuidados à saúde e do serviço social. Na diaconia, o principal objetivo da profissionalização é garantir a qualidade do cumprimento do serviço. O trabalho diaconal qualificado tem diferentes dimensões. Uma delas, naturalmente, é a dimensão da gestão, que significa um trabalho bem organizado, com a responsabilidade de prestar contas desde o planejamento até a execução, demonstrando o uso adequado dos recursos com bons relatórios. Mais importante, contudo, ainda é a dimensão dos conteúdos, que diz respeito ao resultado do que se faz, e se as metas definidas estão sendo alcançadas de acordo com os objetivos estabelecidos. Isso pressupõe que o trabalho profissional implique ferramentas analíticas, conhecimento de metodologia e referenciais de valores. De qualquer forma, a mais importante é a dimensão humana. A verdadeira qualidade do trabalho diaconal reside em como se respeita a dignidade humana de acordo com a visão holística, como são superados os modelos de exclusão, como as pessoas são empoderadas para serem sujeitos de suas próprias vidas e, eventualmente, como isso contribui para a transformação da sociedade. Essa qualidade também inclui competência para lidar com a dimensão espiritual de tais processos no que diz respeito a situações individuais, à capacidade de responder às necessidades espirituais de maneira profissional, incluindo a fé, a espiritualidade e a religião na compreensão abrangente da vida humana. Todas essas questões são relevantes para a diaconia internacional. Novas oportunidades e novos desafios exigem a adaptação dos conhecimentos e das habilidades profissionais. Às vezes, tem-se a impressão de que se trata de um aspecto que diz respeito, principalmente, a organismos e agências de cooperação ocidentais, por imposição de doadores governamentais e suas crescentes exigências de performance e relatórios. Isso pode ser importante, mas a verdadeira razão para que o trabalho diaconal seja profissional


é o compromisso com a qualidade do que se faz e do que se pretende alcançar. Sem rodeios: a melhor razão para ser profissional é o respeito e o cuidado para com as pessoas que são atendidas pelo ministério diaconal. O discernimento crítico é um componente inerente à capacitação profissional. Mas é fundamental que tal discernimento também se torne autocrítico e levante perguntas no tocante aos riscos e às limitações do trabalho profissional. Ele poderia, por © LWF/J. Schep exemplo, ser realizado de maneira elitista, que descarta a sabedoria e a participação de não demanda qualificações que superem, em muito, o profissionais. Também pode se tornar problemático que uma comunidade ou igreja local tenha à sua quando leva a uma espécie de elitismo que reserva disposição. Mas, mesmo então, estaria errado ignorar o trabalho diaconal a especialistas diaconais, ou o papel da igreja local e a especificidade de sua quando se norteia num secularismo fechado, que contribuição diaconal, especialmente na perspectiva não deixa espaço para valores e práticas espirituais. de longo prazo. O trabalho diaconal tem por objetivo empoderar Diante de tais atitudes, a gente comum se sente impotente e, muitas vezes, silenciada. Em tais casos, as pessoas para que participem em processos de a pessoa profissional é percebida como “tecnocrata”, mudança. A capacidade para alcançar esse objetivo como fica claro no relato de uma experiência do deve ser parte integrante do treinamento e da Madagascar. Um projeto foi visitado por represen- competência profissional diaconais. Tais competências tantes de uma agência parceira que vinha apoiando se expressam nos enfoques e na metodologia. Mas o trabalho por muitos anos. Depois da visita, as pes- também se revelam numa compreensão holística da soas que implementavam o projeto disseram com realidade humana e na capacidade para mobilizar a fé, tristeza: “Só pediram documentação e informes. a espiritualidade e os sistemas de valores ao participar Levaram muito tempo examinando nosso sistema de atividades que tenham como finalidade melhorar contábil, mas só pouco tempo para conversar com a as condições de vida. gente envolvida no projeto. E não fizeram perguntas sobre os impactos do projeto na vida cotidiana”. A consulta de Adis Abeba insistiu numa “cultura 5.3 Ordens do ministério de escutar” no trabalho diaconal e considerou ser fundamental “que a competência profissional inclua As diaconisas, as diáconas e os diáconos, pessoas habilidades e compromissos locais e esteja aberta ao formadas e contratadas para os serviços diaconais, mútuo empoderamento”. De fato, é importante frisar representam uma forma explícita de trabalho a inter-relação de todas as expressões da diaconia, diaconal profissional. Algumas igrejas luteranas tendo cada uma o mandato de apoiar e fortalecer as adotaram o diaconato como sendo parte do outras, ainda que, em determinadas circunstâncias, ministério da igreja, e ali (na Suécia e no Brasil, se possa atribuir a uma das expressões um papel de por exemplo), as diaconisas, as diáconas e os liderança ao organizar o que precisa ser feito. Tal diáconos representam uma parte integrante pode ser o caso numa situação de emergência, que do ministério com ordenação, enquanto que

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outras igrejas reservam o termo “ordenação” a pastores e pastoras e usam termos como “envio”, “comissionamento” ou “consagração” quando diáconos e diáconas iniciam oficialmente seu ministério. Outro exemplo temos na Indonésia, onde a Igreja Cristã Protestante Batak (HKBP) tem uma escola de formação para diaconisas e, em 1983, tomou a decisão de ordenar as diaconisas.

Ouço dizer, de vez em quando, que o aconselhamento pastoral e a diaconia precisam estar separados. A diaconia, por vezes, é definida como o Evangelho em ação. Sentar-se junto a outro ser humano é uma ação significativa que produz sentido. Assim, pois, para mim, a assistência pastoral e a diaconia estão intrinsecamente vinculadas. Stigs Kerstin Olsson, diácona na comunidade de Säfe, Igreja da Suécia

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No entanto, não há consenso entre os luteranos e as luteranas no tocante à natureza e à função do ministério diaconal. Lutero aboliu a tradição católica de que, antes de ordenar um homem a sacerdote, ele devia fazer parte da ordem de diáconos por algum tempo, normalmente um ano. O assim chamado diaconato transitório continua sendo a norma nas igrejas que entendem o ministério de maneira hierárquica, como é o caso da Católica Romana e da Episcopal Anglicana. Na opinião de Lutero, um diácono não deveria ser uma espécie de minissacerdote, mas uma pessoa que ajuda as pessoas pobres em suas necessidades. Lutero comentou que a igreja precisava de tais diáconos, mas se tomaram poucas iniciativas para criar uma nova ordem de diáconos nas igrejas luteranas no tempo da Reforma. De fato, o pastor veio a ser a única expressão do ministério, fortemente orientado pela ortodoxia luterana e sua leitura da Confissão de Augsburgo, que define o ministério da igreja, principalmente, como um ministério de pregação do Evangelho e administração dos sacramentos. Isso se interpretaria, normalmente, como o ministério pastoral. As ordens de diáconos e diaconisas que foram criadas mais tarde, ao longo do movimento diaconal do século XIX, não estavam relacionadas com o ministério da igreja, se bem que foram tomadas algumas iniciativas para estabelecer tais vínculos. Comissionados para o trabalho diaconal em instituições de saúde e de assistência social, o mandato dos diáconos não implicava “pregar o Evangelho e administrar os sacramentos” no sentido estrito dessa expressão. Em outras palavras, mesmo que reconhecidos como obreiros da igreja, não pertenciam ao ministério da igreja. Nos últimos anos, uma possível renovação do ministério diaconal foi frequentemente discutida, tanto nos círculos ecumênicos como no seio das igrejas luteranas. Um forte impulso foi dado pelo CMI e sua Comissão de Fé e Ordem que, em 1982, publicou o documento “Batismo, Eucaristia,


Ministério” (BEM) sobre a compreensão do Batismo, da Santa Ceia e do ministério. No BEM, presta-se atenção ao tríplice ministério do bispo, presbítero (pastor) e diácono, como era reconhecido na igreja primitiva. No que diz respeito ao ministério diaconal, o BEM declara: Hoje, há uma forte tendência em muitas igrejas para a restauração do diaconato como ministério ordenado com dignidade própria e concebido para ser exercido permanentemente. Em muitas igrejas, atualmente, existe uma forte tendência a restaurar o diaconato como ministério ordenado com sua própria dignidade e concebido para ser exercido permanentemente. (...) Os diáconos representam no seio da igreja a sua vocação de serva no mundo. Sustentando em nome de Cristo um combate no meio das inumeráveis necessidades da sociedade e das pessoas, os diáconos dão o exemplo da interdependência do culto e do serviço na vida da Igreja. Exercem uma responsabilidade no culto da comunidade. Por exemplo, fazem a leitura das Escrituras, pregam e conduzem os fiéis na oração (...) Participam no ensino da comunidade. Levam a cabo um ministério de caridade. Desempenham certas tarefas administrativas e podem ser eleitos para responsabilidades de governo30

Algumas igrejas luteranas moldaram o ministério diaconal de acordo com essa ampla tradição da igreja. Normalmente, diáconos e diáconas têm a responsabilidade primordial de coordenar os trabalhos diaconais da comunidade local e, ademais, espera-se que desempenhem uma função nos cultos, podendo incluir tarefas específicas como, por exemplo, conduzir as intercessões pelas pessoas doentes e necessitadas ou cuidar das condições para que todas as pessoas

possam participar da Santa Ceia, também aquelas com necessidades especiais. Quando se discute sobre o ministério diaconal, muitas vezes, nota-se um certo ceticismo em relação à compreensão do ministério da igreja desdobrado em três ministérios específicos (quatro na IECLB), especialmente quando se interpreta isso hierarquicamente, sendo o ministério diaconal o mais baixo, depois dos ministérios episcopal e pastoral. A tradição luterana conhece só um ministerium ecclesiasticum. Por outro lado, a maioria das pessoas luteranas reconhece que há uma diferença entre o episcopado e o pastorado.31 Se bem que se pode dizer que representam duas expressões do mesmo ministério, a pergunta é se o ministério diaconal pode ser compreendido como outra expressão necessária? O debate não deveria ater-se ao tríplice ministério, mas buscar entender o que significa ser igreja no mundo de hoje. Depois de discutir esse assunto, em 2004, os bispos da Igreja da Noruega chegaram à conclusão de que as reflexões sobre a natureza diaconal da igreja, junto com os desafios contemporâneos, dão boas razões para incluir o diaconato no ministério eclesiástico, o qual, então, é visto como uma dimensão fundamental do ministério único da igreja, como um princípio teológico que pode ser aplicado quando a igreja decide reestruturar seu ministério de uma forma que inclua o diaconato. Neste caso, o diácono e a diácona não são entendidos como “minissacerdotes”, mas como pessoas com formação diaconal específica que as qualifica a assumir uma função de liderança na igreja. O diaconato, então, é entendido como expressão do bene esse, do bem-estar da igreja, em função da sua identidade e missão no mundo, e não como uma conclusão doutrinária no sentido 31

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Batismo, Eucaristia, Ministério. São Paulo: ASTE; CONIC; KOINONIA, 2001. p. 53, item 31 e comentário.

FLM. O Ministério Episcopal na Apostolicidade da Igreja.

Declaração de Lund. Lund/Suécia, 26 de março de 2007. Arquivo da IECLB.

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de que o ministério da igreja tenha que ser organizado dessa forma. A consulta da FLM sobre diaconia profética, realizada em Johannesburgo em 2002, destacou, em sua mensagem final, a importância da liderança diaconal e exortou as igrejas para que criassem e fortalecessem a formação para a diaconia. Como um ministério, ela deveria ser plenamente integrada nos ministérios ordenados, consagrados e remunerados, como um reflexo do significado fundamental da diaconia para o ser da igreja.32 Aqui também, o ponto de entrada é a compreensão do ser igreja. Se a diaconia é uma dimensão intrínseca do ser igreja, isso também deve se refletir na liderança da igreja. Essa questão foi aprofundada durante uma consulta da FLM sobre o ministério diaconal na missão da igreja, realizada em São Leopoldo, Brasil, em 2005. Estamos convencidos de que, por uma série de razões, a importância da diaconia para o testemunho da igreja cresceu nos últimos anos. A maioria das igrejas-membro se encontra em contextos sociopolíticos e multi-religiosos diferentes e, por vezes, em situações de minoria. (...) Sob essas condições, o

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ministério diaconal pode ser uma maneira especialmente eficaz de expressar o amor de Deus.33 O relatório da consulta declara ademais: Entendemos diaconia como um componente que diz respeito ao centro e à essência da igreja e da sua missão no mundo. Testemunho diaconal é a manifestação de diaconia na vida da igreja, sendo cada pessoa cristã chamada a participar, através do batismo na vida diária, como expressão do sacerdócio de todos os crentes. Ministério diaconal é uma expressão específica do ministério único da igreja (ministerium eccclesiasticum, Confissão de Augsburgo, artigo 5). (...) Somos de opinião que o potencial da nossa tradição luterana ainda não foi plenamente aproveitado. O único ministério público da igreja (Confissão de Augsburgo, artigos 5 e 14) é de instituição divina. Contudo, na luz das realidades históricas em constante transformação, a igreja precisa assumir a tarefa de estruturálo de novo. Como vimos, o próprio testemunho bíblico bem como a história da igreja, inclusive a luterana, revelam que não existe um modelo uniforme ou universal de estruturar o ministério público34 33

O Ministério Diaconal nas Igrejas Luteranas. Documento final

da referida consulta no arquivo da IECLB, fl. 2. Ver também: <www.lutheranworld.org/what_we_do/dts/Programs/ DTS_Statement_Diakonia-005_ES.pdf, 2>. 34 O Ministério Diaconal nas Igrejas Luteranas, fl. 3.

BÖTTCHER (Ed.), 2002. p. 9.

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Essa reflexão conduziu para a seguinte trabalho diaconal deve incluir ações que vão além da conclusão: Desafiamos as igrejas-membro para que caridade e da distinção entre “nós que ajudamos” e reexaminem as formas de ordenamento do ministério “eles e elas, sem-ajuda”. Ademais, é preciso reconhecer eclesiástico e, especialmente, de fazerem isso de tal que todas as comunidades têm saberes, dons e maneira que a responsabilidade diaconal da sua missão habilidades que contribuem para a resposta diaconal. seja adequadamente articulada.35 Por exemplo, no caso de HIV e AIDS, o trabalho, desde logo, ganhará em termos de percepção concreta quando as pessoas afetadas pela doença forem envolvidas como treinadoras. Então, de imediato, as diferentes dimensões desse desafio vão adquirir uma perspectiva humana e poderão transformar-se em atos de compaixão, cuidado e justiça. A capacitação que convida para o crescimento e A ação diaconal, muitas vezes, ocorre em resposta direta às necessidades e vulnerabilidades das a mudança de atitudes é uma dimensão importante pessoas próximas, com o objetivo de fazer valer seus desse processo. Uma escola de formação diaconal na direitos. É uma reação tanto aos desafios externos Suíça, mantenedora também de uma instituição para de sofrimentos e necessidades como aos impulsos pessoas com graves disfunções mentais, costumava internos motivados pela compaixão, a solidariedade exigir dos e das estudantes de primeiro ano, como e mesmo a indignação ou o protesto quando os parte do programa, que compartilhassem um quarto com uma das pessoas internas. Esperava-se que amsemelhantes sofrem injustiça e exclusão. Provavelmente seja correto afirmar que bas as partes aprendessem com a experiência. A formação para a diaconia torna-se mais uma pessoa não pode ser formada para a ação espontânea. Contudo, também é certo que urgente quando existe um trabalho diaconal nenhuma ação é verdadeiramente espontânea, organizado. Algumas comunidades já se deram pois sempre expressará as atitudes, os valores conta de que a visitação a pessoas doentes e sozinhas e o pensamento fundamentais de uma pessoa. exige preparo. Esse preparo fará com que a pessoa Pesquisas demonstraram que as experiências visitante – e certamente também a visitada – se sinta passadas e, muitas vezes, a capacitação determinam mais à vontade. Ademais, como a visita é feita em nome da comunidade, é importante que todas as o que, habitualmente, se chama de intuição. Quer dizer que também é possível preparar-se pessoas envolvidas conheçam os objetivos desses para a diaconia espontânea e melhorar a qualidade programas de visitação. A experiência demonstra do serviço por meio de medidas de treinamento. que boas formas de preparo, de acompanhamento Pode dar-se o caso, por exemplo, que uma comu- e de avaliação daquilo que está sendo feito geram nidade situada num contexto onde muitas pessoas maior participação e trazem melhores resultados. Escutar experiências e analisar os desafios vivem com o HIV organize uma oficina para despertar a consciência das pessoas para a tarefa de do contexto social, cultural e político mais amcomo atuar para defender a dignidade humana e plo são elementos essenciais de uma boa capacitação para a diaconia. Mas, como a prática diaprestar assistência. Qualquer processo de formação deveria conal implica a ação, o treinamento prático é até incorporar o princípio fundacional de que todo mais importante. A representação de papéis – role play – em atividades de dinâmica de grupo é um 35 dos métodos preferidos para testar como fazer O Ministério Diaconal nas Igrejas Luteranas, fl. 6.

6. Capacitação para a diaconia

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as coisas, por exemplo, ao visitar uma pessoa na prisão. Outro método consiste em formar pequenas equipes que deverão atuar juntas e, nesse processo, avaliar o desempenho umas das outras. A diaconia institucionalizada, normalmente, requer níveis mais elevados de capacitação profissional. Quando, há 150 anos, na Europa, foram criadas as instituições diaconais, a formação, de imediato, passou a ser parte integrante do trabalho dessas instituições. Tais escolas de formação continuam desempenhando um papel importante sempre que se trata de preocupações diaconais na igreja e na sociedade, na educação e na pesquisa. Desde o começo, a formação era interdisciplinar. Diaconisas eram qualificadas como enfermeiras, mas também recebiam sólida formação teológica. Na Alemanha, costuma-se falar de “dupla qualificação”, tendo em mente que o e a estudante precisam ser qualificados para atuar em dois espaços distintos – clínica e igreja. Mas essa distinção não deveria ser interpretada como separação. Pelo contrário, é mister que a formação habilite a ministra ou o ministro diaconal para atuar como “intermediária ou intermediário”, para a aptidão de acompanhar pacientes em termos de necessidades físicas e espirituais. As abordagens interdisciplinares são fundamentais para a formação diaconal, a saber, pelo fato de que a realidade, por natureza, é complexa e exige análises e respostas também interdisciplinares. A intervenção profissional relacionada com o sofrimento precisa levar em consideração o fato de que se espera que profissionais bem formados sejam capazes de lidar com as dimensões física, mental, espiritual e social da vida humana. Ademais, boas lideranças diaconais, muitas vezes, no cotidiano, também precisam ter bons conhecimentos de contabilidade, finanças e administração. As lideranças mais requisitadas pelas instituições diaconais são as que têm formação em teologia combinada com administração de empresas ou gestão em saúde. Um dos pontos fortes na formação diaconal deveria ser que a dimensão da fé na ação social

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seja levada em consideração e refletida de maneira sistemática, relacionada com a teologia e outras disciplinas relevantes, tais como ciências sociais, por exemplo. Em outras palavras, a formação inclua a fé como práxis e a teologia como reflexão didática e crítica. A importância desse aspecto se evidencia não só no atendimento à saúde, em situações quando se espera da e do atendente a capacidade de lidar com as questões espirituais do e da paciente. É igualmente relevante quando a ação social adota a forma de trabalho de desenvolvimento. A interconexão entre religião e desenvolvimento ficou mais evidente, sobretudo, nesta época em que se tornou comum falar do “retorno da religião”. Como a atitude das pessoas é moldada, normalmente, por convicções religiosas e sistemas de valores, isso tem consequências para sua compreensão da realidade social e seu compromisso de mudar o que não é bom. Os e as agentes diaconais de desenvolvimento deveriam estar bem preparados e preparadas para entender o papel da religião (seus aspectos positivos e negativos) e também para mobilizar posturas e valores religiosos visando à transformação, a uma sociedade mais justa e sustentável. Como já assinalado, a teologia é uma parte essencial da formação diaconal. Mas isso também pode ser dito no sentido inverso: a diaconia deveria ser parte essencial da formação teológica. Com muita frequência, a formação pastoral carece desse componente, com a consequência de que a liderança da igreja nos diferentes níveis não dispõe das qualificações necessárias para compreender e organizar, de maneira eficaz, um trabalho diaconal. O ideal seria que a aprendizagem diaconal fosse parte de toda educação cristã. Deveria ser um tema para as turmas de culto infantil e escola dominical bem como do ensino confirmatório. Como frequentemente falta material didático sobre diaconia, as igrejas poderiam compartilhar experiências e materiais úteis já existentes, otimizando, assim, o uso dos recursos já disponíveis.


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7. Diaconia e trabalho de desenvolvimento No tempo pós-colonial, criou-se a distinção entre países desenvolvidos e não desenvolvidos (mais tarde se diria “em desenvolvimento”). A ONU declarou a década de 1960 como a primeira década do desenvolvimento e, em todo o mundo, os governos e as ONGs se mobilizaram com iniciativas de ajuda ao desenvolvimento. Esses esforços foram motivados por um clima generalizado de otimismo e esperança, acreditando-se que a transferência de conhecimentos, de tecnologia e dinheiro, rapidamente, trouxesse mudanças duradouras aos países do hemisfério Sul. Desde então, as teorias de desenvolvimento mudaram ao sabor dos ventos políticos de cada década. Na década de 1970, levantaram-se vozes radicais afirmando que a pobreza não se deve só à falta de desenvolvimento, mas que é, sobretudo, consequência da opressão e das injustas estruturas econômicas internacionais. Mais tarde, se acrescentaram outras causas. Uma delas foi a relação entre desenvolvimento e meio ambiente, o que teve como resultado a busca pelo desenvolvimento sustentável. Quando hoje falamos de sustentabilidade, sabemos que esse conceito abrange um grande leque de aspectos, entre eles, as dimensões cultural, social, econômica, ecológica e até ideológica e religiosa. As vozes mais críticas rejeitaram o próprio conceito de desenvolvimento, dizendo que está, por demais, condicionado pela racionalidade ocidental proveniente do pensamento do Iluminismo. Desse ponto de vista, “desenvolver” é concebido como levantar o patamar de um país tomando como modelo o que foi conseguido nos países desenvolvidos, como se existisse uma espécie de “hierarquia do desenvolvimento”. Especialmente na primeira fase da ajuda para o desenvolvimento, “ajudantes” e “experts” do Norte foram enviados com a tarefa de criar estruturas sociais, políticas e econômicas segundo os

modelos ocidentais (ou comunistas, quando vinham desse bloco político), com a convicção de que, dessa forma, seria garantido o desenvolvimento esperado. Como já indicado, as estruturas internacionais dos poderes econômico e político não permitem esse tipo de desenvolvimento, de transplante. Em segundo lugar, logo ficou claro que os fatores culturais e humanos são condições fundamentais nos processos de superação da pobreza. O que a ajuda bem-intencionada para o desenvolvimento procurava construir nunca poderia funcionar devido a concepções culturais ou modelos de comunidade inadequados; ou poderia ser destruído fácil ou rapidamente em consequência de mau governo e corrupção. A relação entre diaconia e desenvolvimento é um tema que merece muita atenção. Uma questão interessante é como se entende o desenvolvimento e, daí, que papel podem ter os enfoques religiosos no trabalho para o desenvolvimento. A esse respeito, cabe perguntar se é possível distinguir o trabalho diaconal para o desenvolvimento das outras formas comuns no trabalho de desenvolvimento, ou, em outras palavras, se o trabalho diaconal para o desenvolvimento é parecido com atividades similares tocadas por ONGs seculares, ou se é possível identificar qualidades diferenciadas quando a diaconia se empenha pelo desenvolvimento. Estava claro, por algum tempo, que o conceito de desenvolvimento não pode ficar limitado a iniciativas econômicas e políticas, nem pode ser entendido como trabalho de um projeto que tem por objetivo resolver um problema específico, por exemplo,

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levar água limpa para uma aldeia ou construir salas de aula para as crianças. Tais iniciativas podem ser contribuições pontuais muito importantes para os processos de desenvolvimento, mas devem ser vistas numa perspectiva mais ampla e holística, prestandose a devida atenção à questão da sustentabilidade. Em 2002, a FLM publicou um livreto intitulado Guiding Principles for Sustainable Development (Princípios Norteadores do Desenvolvimento Sustentável). Nesse guia, desenvolvimento sustentável é definido como um processo de mudança pelo qual se satisfazem as necessidades básicas e se respeitam os direitos humanos das pessoas e das comunidades em qualquer sociedade específica, enquanto que, ao mesmo tempo, se protegem as necessidades básicas e os direitos humanos de outras comunidades e das gerações futuras. (Tradução não oficial) Esse documento traz uma concepção de desenvolvimento que vai além de uma interpretação meramente técnica ou política. Não só abre perspectivas sociais e culturais, mas também mostra como o desenvolvimento pode ser interpretado numa perspectiva cristã, declarando que o con-

São listados 15 princípios gerais: 1. Desenvolvimento sustentável é um processo holístico com conexões transversais. 2. Desenvolvimento sustentável não discrimina; protege a dignidade de cada pessoa. 3. O bem-estar dos seres humanos é a prioridade do desenvolvimento sustentável. 4. Desenvolvimento sustentável é sensível para com peculiaridades culturais e espirituais. 5. Desenvolvimento sustentável não pressupõe a superioridade de nenhum modelo de governança econômica e social. 6. Desenvolvimento sustentável é participativo. 7. A capacitação das pessoas é um meio bem como um objetivo do desenvolvimento sustentável. 8. Para a implementação eficaz do desenvolvimento sustentável é necessária a sustentabilidade financeira. 9. Desenvolvimento sustentável depende da sustentabilidade institucional. 10. Desenvolvimento sustentável respeita as conquistas comunitárias. 11. Desenvolvimento sustentável é tecnologicamente apropriado. 12. Desenvolvimento sustentável depende de condições apropriadas para a saúde e a educação. 13. Desenvolvimento sustentável implica iniciativas para melhorar as condições socioeconômicas e políticas para o bem-estar humano. 14. A promoção da paz e da reconciliação é um objetivo e uma condição prévia essencial para o desenvolvimento sustentável. 15. Desenvolvimento sustentável requer que se compartilhem os recursos de forma igualitária e eficaz. Em adição a esses princípios gerais, são destacadas outras dimensões importantes:

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ceito de desenvolvimento sustentável da FLM está baseado na fé e determinado pela fé confessada pelas pessoas cristãs no Trino e Uno Deus.

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1. A Dimensão dos Direitos Humanos. Declara-se que esses princípios constituem a expressão jurídica da dignidade dada por Deus a cada pessoa, que a igreja é chamada a proteger e promover, e que o direito ao desenvolvimento implica a observância de todos os direitos humanos – econômicos, sociais e culturais bem como os direitos civis e políticos. 2. A Dimensão de Gênero. Declara-se que a proteção e a promoção dos direitos humanos das mulheres são fundamentais para a sustentabilidade do desenvolvimento; que o desenvolvimento sustentável requer a igualdade de gênero e a liderança, sem limitações, das mulheres em todo o processo de desenvolvimento, e que todos os pareceres, planejamento, acompanhamento e avaliação das atividades de desenvolvimento exigem uma perspectiva de gênero que valorize o trabalho e a experiência das mulheres. 3. A Dimensão do Meio Ambiente. Declara-se que o desenvolvimento sustentável reconhece a importância do meio ambiente; protege, mantém e regenera os recursos naturais disponíveis; o que significa incorporar a preocupação ambiental em todas as decisões e atividades de desenvolvimento. 4. A Dimensão da Comunicação. Declara-se que a comunicação constrói as comunidades humanas e lhes permite desenvolverem-se e que, por isso, o desenvolvimento sustentável depende de uma comunicação eficaz e da

qualificação de pessoas para os serviços de comunicação. Como o desenvolvimento continua sendo um ponto importante na ordem do dia do debate mundial, as igrejas são desafiadas a lhe prestar a devida aten-ção. A condição da terra e o fato de que milhões de pessoas estão longe de terem uma vida digna, bem-estar e segurança básicos urge as igrejas para a ação. Esse desafio se torna ainda maior quando igrejas precisam responder a situações em que fome e grande pobreza ameaçam a vida do povo e das comunidades onde vivem os membros da igreja. Tais ações deveriam ser empreendidas em todos os níveis da vida da igreja: a comunidade, a igreja nacional e a cooperação internacional. Para fins de coesão e eficácia, as ações nos diferentes níveis deveriam estar coordenadas umas com as outras. A diaconia como trabalho de desenvolvimento pode adquirir muitas formas. Pode ser organizada na forma de pequenos projetos ou de programas mais abrangentes; mas sempre deveria ter por objetivo o empoderamento das pessoas. Como já foi dito claramente, a análise crítica das causas fundamentais e do ambiente externo sempre deveria estar presente nesses projetos, não só para obter o resultado previsto do que se está fazendo, mas também para manter alerta a consciência para uma incidência política, para a promoção e a defesa de interesses e causas. Que distingue o trabalho diaconal de desenvolvimento? Deveria ser dito claramente que um trabalho de desenvolvimento realizado pelas igrejas não adota, necessariamente, formas dife-

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rentes de trabalhos de desenvolvimento comuns, do âmbito secular. No entanto, alguns elementos diferenciais podem ser identificados: 1. O trabalho diaconal de desenvolvimento relaciona-se com igrejas e comunidades no nível mais próximo do povo. Isso torna possível a participação popular, em especial, das mulheres que, muitas vezes, estão bem organizadas nesse nível, e também promete a continuidade daquilo que se põe em marcha, já que a comunidade continuará presente depois de finalizado um projeto. 2. . O trabalho diaconal de desenvolvimento baseia-se na fé e na cosmovisão cristãs. Em todas as suas atividades, orienta-se pela convicção de que todos os seres humanos são criados à imagem de Deus, tendo, por isso, uma dignidade inalienável, e que Deus é o defensor das pessoas pobres e excluídas. 3. O trabalho diaconal de desenvolvimento enriquece nossa fé e contribui por si mesmo

4. O trabalho diaconal de desenvolvimento permite estabelecer contato com outras crenças religiosas e sistemas de valores. Por estar baseado na fé, reconhece a importância da fé e da esperança nos processos que têm por objetivo superar pobreza e sofrimento. Com isso, abre-se uma perspectiva mais holística para o trabalho de desenvolvimento, fomentando a capacidade de relacionar entre si as diferentes dimensões da vida humana. 5. O trabalho diaconal de desenvolvimento favorece os métodos de trabalho que dão prioridade à inclusividade e aos processos que empoderam as pessoas a participar, baseando-se na compreensão de que cada pessoa recebe do Criador a capacidade de ser sujeito, com identidade própria, e que pertence como tal à comunidade que afirma e apoia essa identidade. 6. O trabalho diaconal de desenvolvimento não só se relaciona com as igrejas no nível das bases, mas também nos níveis da tomada de decisões. As iniciativas das bases (grass-roots) deveriam ter respaldo no compromisso dos e das líderes das igrejas frente às autoridades civis em assuntos de política pública, em termos de conscientização de baixo para cima (grass-tops advocacy). Essas possíveis qualidades do trabalho diaconal de desenvolvimento não eximem as igrejas dos requisitos de qualidade quando se ocupam, por exemplo, com a implementação de projetos. Um projeto precisa ser bem pensado, planejado e organizado para se alcançar o resultado pretendido. As atividades

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para uma melhor compreensão dessa fé e do sentido da vida.

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têm que ser realizadas em conformidade com os objetivos colocados e os recursos disponíveis. As finanças devem ser aplicadas de maneira responsável e transparente. Por isso, nessa área, desenvolver capacidades e fazer compreender a mútua responsabilidade de prestar contas tornaram-se questões prioritárias.

profética. Nas últimas décadas, essa expressão passou a ser amplamente usada nos círculos ecumênicos, especialmente entre as pessoas cristãs do Sul. Também a comunhão luterana adotou a expressão. A consulta da FLM sobre diaconia profética, em Johannesburgo (2002), emitiu a seguinte declaração: Reconhecemos com gratidão as múltiplas formas de trabalho diaconal realizado pela igreja no decorrer dos séculos e que necessariamente continua em nossos dias. Esse trabalho agora é desafiado a assumir formas mais proféticas de diaconia. Inspirados por Jesus e os profetas, que se confrontaram com os poderosos e clamaram por mudanças nas estruturas e práticas injustas, rogamos que Deus nos empodere para contribuirmos a transformar tudo o que leva à cobiça, violência, injustiça e exclusão humanas.37

8. Diaconia profética O movimento diaconal iniciado na Alemanha, na década de 1830, teve origem na espiritualidade pietista e seu interesse na piedade individualista. Esse pano de fundo contribuiu para que fosse natural traduzir o termo bíblico “diaconia” por “serviço humilde”, do qual diaconisas e diáconos estavam incumbidas e incumbidos. Quer servissem em instituições quer em comunidades, esperava-se dos obreiros e das obreiras diaconais que fossem “serventes humildes”. Sem dúvida, a humildade é uma virtude importante quando se trabalha com gente pobre; permite ver os valores e as capacidades das pessoas. Mas, às vezes, chegou-se a pensar que a própria diaconia deveria ser humilde, silenciosa, quase servil, não deveria provocar ninguém nem ocupar-se com assuntos políticos complicados. Nas últimas décadas, essa interpretação foi sendo revista. Pesquisadores bíblicos, tais como o australiano John Collins, 36 comprovaram que o termo grego não significa serviço humilde, e sim uma tarefa importante dada a alguém por uma autoridade maior. No Novo Testamento, o termo se refere, na maioria das vezes, a um ministério (papel de liderança) ou, como temos visto em relação a Jesus, sua missão messiânica. A partir dessa percepção, foi desenvolvido o conceito de diaconia

Um ponto de partida fundamental para a diaconia profética consiste em escutar as vozes das pessoas que sofrem e são marginalizadas. A assembleia da FLM de 1990 reuniu-se em Curitiba sob o tema “Ouvi o clamor do meu povo”, inspirado pelo testemunho bíblico da sensibilidade de Deus para com pessoas necessitadas. Eu tenho visto como o meu povo está sendo maltratado no Egito; tenho ouvido o seu pedido de socorro por causa dos seus feitores. Sei o que estão sofrendo... (Êxodo 3.7ss). A mensagem da Assembleia de Curitiba manifesta a importância do testemunho profético: O testemunho profético, em obediência à palavra de Deus, implica a confrontação com determinados valores societais, em especial, com aqueles que criam novas formas de idolatria, de buscar a realização humana sem Deus. Todo testemunho profético implica ouvir com muita atenção os gritos do povo e a palavra de Deus. (...) Muitas vezes, o

36

COLLINS, John N. Diakonia. Re-interpreting the Ancient Sources. New York: Oxford University Press, 1990.

37

BÖTTCHER, (Ed.), 2002, p. 6.

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sobre as autoridades para que tomem medidas. Um terceiro exemplo vem do Escritório Luterano da Comunidade Mundial, estabelecido na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, para manifestar preocupações e interesses da FLM. O lobby pode ser um recurso importante da diaconia política, contudo, sempre tendo em mente a regra geral de que esse exEntão, que entendemos por “diaconia profética”? pediente promova os interesses das pessoas pobres e Profecia é um termo bíblico que deve ser entendido e marginalizadas, ao invés de interesses próprios. Por sua vez, a diaconia profética tem outra usado a partir daquele contexto. Algumas vezes, fezse referência à diaconia política e à diaconia profética característica. Ela está relacionada com a naturecomo se fossem a mesma coisa. Sem negar que estão za intrínseca da diaconia, que afirma que a tarefa profética é parte do mandato e da autoridade que correlacionadas, é necessário distingui-las. A diaconia política expressa a dimensão política Deus tem dado à igreja e à sua diaconia. Na tradição bíblica, a profecia surge como do trabalho diaconal. Como a diaconia acontece na esfera pública, precisa estar consciente de seu papel resposta à revelação divina e como um mandato sociopolítico e estar pronta para erguer a voz sem- dado por Deus ao profeta. A palavra do SENHOR pre que necessário. Há muitos bons exemplos de veio a mim dizendo... Essa palavra sempre manifesta o senhorio e o poder de Deus, como em Amós O julgamento de Deus paira sobre a igreja como em 4.13: Foi Deus quem fez as montanhas e criou o vento. nenhum tempo anteriormente. Se a igreja contemporânea Ele revela os seus planos aos seres humanos. Ele faz o não resgatar o espírito de sacrifício da Igreja Primitiva, dia virar noite e anda por cima das montanhas. Este ela vai perder sua autenticidade, desmerecer a lealdade é o seu nome: o SENHOR, o Deus Todo-Poderoso. de milhões de pessoas e ser abandonada como um clube Mas também expressa a preocupação de Deus social irrelevante, sem qualquer sentido para o século XX . com a criação, especialmente com todos os povos, A cada dia encontro pessoas jovens cujo desapontamento lembrando-os que Deus é juiz e redentor, agora e com a igreja se tornou aversão aberta. nos tempos vindouros. As pessoas cristãs estão conscientes da Martin Luther King, Carta da prisão em Birmingham, 1963. importância de tal proclamação. Em tempos diaconia política. Um deles é a forma como igrejas de globalização, quando o mercado e algumas da Índia participam da luta de libertação de 250 mi- nações poderosas se julgam com o direito de ditar lhões de dalits, anteriormente chamados e chamadas as condições fundamentais da existência humana, “intocáveis” e de quem se diz, segundo o sistema de a palavra profética lembra-nos de que Deus é o castas, serem menos que humanos. Outro exemplo é Senhor da história. Qual é a relação entre profecia e diaconia? a participação de igrejas luteranas da América Latina Ambas têm a incumbência de encontrar na denúncia da ilegitimidade da dívida externa e na criação de alianças com outros e outras participantes caminhos e de construir pontes em direção à da sociedade civil, com o objetivo de exercer pressão renovação (arrependimento) e à transformação. A tarefa da diaconia é a de ser pioneira e de agir como pioneira. A diaconia nunca é só palavras, e sim, an38 LWF. I have heard the cry of my people. Curitiba 1990. Protes de tudo, ações em busca de caminhos para que ceedings of the Eight Assembly. Genebra, 1990. p. 85. possa realizar-se transformação. (LWF Report 28/29). testemunho diaconal da igreja é melhor entendido que palavras. Quando a igreja toma decisões e atua junto com as pessoas marginalizadas e deslocadas, com jovens e idosas, com mulheres e homens, ela dá testemunho da graça de Deus que abrange tudo que existe.38

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É importante observar que os profetas e as profetisas eram veementes defensores e defensoras da justiça. Reagiam, especialmente, quando se infringia a lei dada por Deus de servir à pessoa próxima. Essa, assim chamada, lei apodítica foi estabelecida no monte Sinai como parte do pacto entre Deus e seu povo. Os Dez Mandamentos são expressões centrais dessa lei. Convém observar como Lutero interpreta o mandamento em seus catecismos: não só constrangendo-nos a agir, mas comprometendonos com ações que estejam a serviço do próximo e o protejam do mal. A lei apodítica é diferente da lei casuística, feita pelos anciãos, que se reuniam para deliberar nos portões da cidade. A primeira é inquestionável: pertence ao pacto e à sua promessa de shalom e de bem-estar. É por isso que a quebra dessa lei tinha consequências tão dramáticas. Ser profético significa defender a justiça. Assim, por sua própria natureza, implica, principalmente, a tarefa de desmascarar formas sistêmicas de injustiça e de promover a justiça, ou melhor: ser precursora a serviço dessa causa. Por outro lado, a voz profética não pode ser institucionalizada pela igreja, já que é uma voz que se transmite através da igreja e não é da igreja. A mente profética tem que estar aberta para o que diz o Espírito; é movida por uma espiritualidade que constantemente se abre para novas perspectivas, para sonhos de renovação e para a esperança da salvação. Nesse tocante, convém observar que os profetas e as profetisas costumavam dirigir sua mensagem aos líderes religiosos, os quais, frequentemente, estavam envolvidos em corrupção e em opressão às pessoas pobres. Também se dirigiam às pessoas ricas, às poderosas e inclusive ao rei, por abusarem do poder. A conscientização está frequentemente relacionada com a resistência ao poder de pessoas poderosas, homens e mulheres, e a sua ideologia. A resistência pode conter o risco de sofrer e até o martírio, o que ocorreu com muitas pessoas cristãs nos primeiros séculos e, desde então, tem acompanhado a história da igreja. Conhecidos mártires de tempos

recentes são Milada Horáková, que sobreviveu a um campo de concentração nazista, mas foi sentenciada à morte pelo regime comunista em 1950, e Gudina Tumsa, que foi assassinado na Etiópia em 1979. Inclusive, hoje, é tarefa da diaconia profética dirigir-se ao corpo dirigente da igreja com a interrogação se não estamos nos conformando com este mundo (Romanos 12.2) ao confrontar-nos com problemas candentes do nosso tempo. Cabe perguntar: é justo dizer que a igreja, algumas vezes, tem imitado as estruturas de dominação e exclusão, ou que se ateve por demais a estruturas do passado e a formas tradicionais de abordar os desafios diaconais? Será que a igreja adotou um estilo de vida de consumismo religioso e de indiferença ética, ao invés de sentir-se radicalmente provocada pelos sinais da crescente pobreza e injustiça no mundo? Sem perguntas críticas proféticas, a igreja e sua diaconia caem facilmente na armadilha do triunfalismo, do eclesiocentrismo e de outras variantes da teologia da glória. Isso nos remete à tradição da reformatio continua, ou seja, da necessidade de reforma constante na vida da igreja, para que sejamos pessoas libertadas e renovadas; para que nos lembremos do mandato que Deus nos tem dado e do fato de que estamos a caminho – mesmo que seja o caminho da cruz.

Milada Horáková, advogada e personalidade política, representa a luta pela liberdade, a democracia e os direitos civis na Tchecoslováquia. Ela veio a ser a primeira mulher executada pelo regime comunista. O julgamento dela e de seus/suas doze colegas foi um júri teatral montado para fins de propaganda. Apesar de brutalmente interrogada e torturada durante meses, Milada Horáková ficou firme e defendeu a si e a seus ideais, mesmo sabendo que tal combate só iria piorar suas condições e o resultado final. Ela foi executada em 27 de junho de 1950, na idade de 48 anos. Milada Horáková era membro da Igreja Evangélica dos Irmãos Tchecos. Tradução ao português do texto disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Milada_Horakova>.

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9. Diaconia e proclamação

palavra pública. O segundo caso, que parece não apresentar nenhum problema, também requer São Francisco de Assis disse certa vez: Proclama discernimento crítico, já que a prática religiosa o Evangelho sempre e, quando necessário, usa poderia se tornar ferramenta para manipular o palavras. Esse aforismo nos diz que o Evangelho é povo, especialmente em situações de fraqueza e acontecimento e ação, o amor de Deus encarnado sofrimento. Queiramos ou não, estamos lidando no meio dos seres humanos. Mas também aponta com relações desiguais de poder. Assim, portanto, há muitas razões para para o fato de que toda ação comunica uma mensagem e um testemunho da identidade e da continuar trabalhando a relação entre diaconia e motivação da gente, que eventualmente podem ser proclamação. As experiências da prática diaconal do passado e do presente podem ajudar-nos a confirmados com palavras. Pois bem, um dos maiores desafios no perceber melhor os problemas que precisam ser trabalho diaconal é como estabelecer uma relação encarados de forma responsável. Com isso em pertinente e responsável com a proclamação. Na mente, é possível sistematizar alguns princípios mensagem da consulta sobre diaconia realizada norteadores embasados na reflexão teológica. Martim Lutero formulou um princípio imem Adis Abeba, em 2008, os e as participantes declararam o seguinte: Reconhecemos as portante. Ele rechaçou com veemência a prática dificuldades de definir claramente a inter-relação da caridade da sua época, especialmente a interentre proclamação e diaconia. Ambas são expressões pretação de que as pessoas seriam recompensadas do Evangelho e elementos centrais da missão da igreja. por Deus se dessem esmolas às pessoas pobres. A Comprometemo-nos a continuar trabalhando essa gente não pode usar as pessoas pobres para se jusquestão e a discutir como precisa ser implementada em tificar; só Deus tem poder para justificar as pessoas pecadoras. O fato de que Deus nos justifinossos múltiplos contextos.” A primeira observação a fazer diz respeito à cou por graça, pela fé em Jesus Cristo, nos torna variedade dos contextos, que não permitem uma livres para servir às pessoas pobres e libertá-las da definição única de como a diaconia e a procla- opressão da pobreza. Para Lutero, esse serviço, por mação se relacionam. É evidente, por exemplo, um lado, está intimamente relacionado com Deus que, em alguns países muçulmanos, convenha ao e, por isso, um serviço de Deus, e por outro lado, trabalho diaconal desistir da proclamação, para está totalmente dirigido à pessoa necessitada. Ora, que o trabalho seja aceito pela população local e não há maior culto a Deus do que o amor cristão para evitar acusações de proselitismo. É igual- que ajuda e serve aos carentes.39 mente evidente que, em outros lugares do mundo, Por conseguinte, é impossível reduzir a as pessoas veem um vínculo direto entre a fé e ação diaconal a um instrumento que tenha outro a ação. Esperam que se faça oração no início de propósito, diferente daquilo que ela basicamente é: uma reunião importante e veem o cuidado para um serviço ao próximo necessitado. Não pode ser com as pessoas como algo que também tem di- instrumento que serve às necessidades da pessoa mensão espiritual. que ajuda, nem pode tornar-se instrumento para Nenhum desses contextos deveria levar-nos evangelizar as pessoas. Neste caso, a ação diaconal, a tomar uma decisão precipitada. Mesmo no primeiro caso, a ação diaconal dá testemunho 39 : LUTERO, Martinho. Estatuto para uma Caixa Comunitária. do amor cristão e do cuidado para com os In: Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: próximos, ainda que não haja proclamação pela Concórdia, 2000. v. 7, p. 47.

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erradamente, se tornaria uma estratégia, um empenho consciente por combinar atividades de ajuda humana com a proclamação, com o propósito de ganhar conversões. Um resultado poderia ser, inclusive, que as decisões sobre as atividades diaconais fossem tomadas de acordo com sua possível eficácia em recrutar novos membros para a igreja. Esse método focado na missão se contradiz com o imperativo bíblico de assistir às pessoas necessitadas por obediência ao mandato divino, com ação importante em si mesma, como ficou claramente exemplificado na prática diaconal de Jesus. Ademais, é questionável, do ponto de vista ético, usar as necessidades das pessoas como oportunidade para a evangelização, porque, quando isso acontece, a dignidade e a integridade da pessoa não são devidamente respeitadas. No século XIX, a expressão “cristãos e cristãs de arroz” descrevia a situação da gente pobre da China que se filiava à igreja para receber rações diárias de comida dos missionários e das missionárias. Hoje em dia, a maioria das organizações missionárias, que trabalham de forma responsável, coopera em parceria com igrejas locais e rejeita práticas que estabelecem condições para receber ajuda, tais como exigir que as crianças participem da escola dominical e que as pessoas adultas venham regularmente para a igreja. Também é muito preocupante quando uma metodologia de missão vem a ser um espelho da divisão entre pessoas ricas e pobres no mundo, ou seja, que missionários e missionárias de países ricos explorem a divisão injusta entre pessoas ricas e pobres e encarem a condição das pessoas pobres como oportunidade para ganhar novos membros convertidos. Pelo contrário, as igrejas na missão deveriam erguer suas vozes proféticas e denunciar as condições de miséria. Também deveriam ser autocríticas com relação ao próprio enleio nas estruturas de poder. Em todos os casos, é preciso afirmar com muita clareza que, assim como o amor de Deus é incondicional, também a igreja

é chamada a ser incondicional ao dispensar seus serviços às pessoas necessitadas. As dificuldades acima referidas talvez tenham induzido algumas pessoas a adotar o extremo oposto e dizer que não podem existir vínculos entre a ação diaconal e a proclamação do Evangelho. Por exemplo, já foi dito, algumas vezes, que a diaconia internacional deveria concentrarse na ajuda humanitária e no desenvolvimento. Normalmente, isso é entendido como uma divisão de trabalho dentro da igreja, onde então alguns setores recebem o mandato de evangelizar, enquanto outros têm a tarefa de promover a justiça e lutar contra a pobreza. Possivelmente, essa posição tenha partido de uma visão muito crítica do trabalho missionário e, por exemplo, do fato de se ver o proselitismo como parte integrante do que fazem algumas entidades missionárias. Mas esse não é um retrato honesto do trabalho missionário, já que o proselitismo, normalmente, é entendido como a prática de atrair pessoas que já são cristãs para a denominação da gente, e a maioria das sociedades missionárias se distanciaria de tais práticas. Também se deveria lembrar que o trabalho da maioria das entidades missionárias normalmente inclui atividades diaconais que se realizam de

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forma incondicional, e não para fins de filiação de novos membros. O princípio de colocar uma nítida linha divisória entre trabalho diaconal e evangelismo também pode ver-se justificado pelo fato de que o trabalho, amiúde, é financiado com fundos públicos. Como o dinheiro dos governos é público, pode-se esperar que as atividades apoiadas também sejam seculares. Isso ocorre, com frequência, quando as agências de cooperação do Ocidente relacionadas com as igrejas participam na diaconia internacional e têm que aceitar as condições dos doadores originais que encaminham recursos por canais do governo (back-donors). Por trás dessa posição está o entendimento de que a prestação de serviços de desenvolvimento não deve interferir no campo religioso, em geral, porque a religião é considerada assunto privado. Na verdade, nenhuma intervenção pode ser neutra, por estar sempre condicionada por pressupostos existenciais e morais que haverão de afetar – consciente ou inconscientemente – as convicções e as práticas religiosas. Tal é o caso de qualquer trabalho de desenvolvimento, seja secular ou religioso. Agora, os doadores e as doadoras originais e os patrocinadores governamentais estão cada vez mais conscientes de que a religião é importante nos projetos de desenvolvimento. As igrejas estão sendo reconhecidas por sua proximidade aos movimentos de base e como atoras na sociedade civil. Quando agências eclesiásticas recebem financiamentos através de entidades públicas, isso acontece devido à sua identidade específica e sua capacidade de cooperar com redes afins no hemisfério Sul. Isso lhes confere um valor agregado em termos de agentes de transformação,

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aspectos que deveriam ser aproveitados na prática e incluídos em programas estratégicos. A verdadeira tarefa das igrejas consiste em achar formas de relacionar o trabalho diaconal com a proclamação que reconheça tanto as peculiaridades distintivas da diaconia como também sua imersão na missão holística da igreja. Diaconia e proclamação estão juntas na vida da igreja, mas da mesma forma como, na prática, alguns setores eclesiásticos se dedicam à proclamação, outros se especializam no trabalho diaconal. Os e as participantes da consulta da FLM sobre as igrejas na missão, realizada em Nairobi, em 1998, declararam que a missão compreende pro-clamação, serviço e trabalho em favor da justiça.40 Essa compreensão corresponde à afirmação do documento de missão da FLM de 1988, Juntos na Missão de Deus: A integridade da missão deve manifestar-se através da unidade de palavra e obra em todas as atividades de serviço da igreja. Ambas são veículos do amor incondicional de Deus que aceita as pessoas enquanto ainda pecadoras, sem olhar para sua inserção social, racial ou cultural. A palavra sem as obras falsifica a própria palavra, por tornar o Evangelho abstrato e negar o poder transformador de Deus na criação e na encarnação. A incapacidade de acompanhar o testemunho da palavra com o testemunho da vida pode fechar a porta ao Evangelho. Por outro lado, as obras sem a palavra correm perigo de degenerar em mero humanitarismo e conformidade com o contexto, falhando em transmitir a plenitude da salvação como dom de Deus. A credibilidade do testemunho, em última análise, não se baseia nas obras,

40

Relatório, p. 20.


que estão condicionadas a permanecer imperfeitas, mas no próprio Evangelho.41

O importante não é só que palavra e obra caminhem de mãos dadas, mas que, no fundo, cada ação traga consigo um testemunho que requer interpretação. É natural esperar coerência entre o viver e o falar. A ação diaconal nunca pode ser silenciosa nem deveria pretendê-lo ser. Isso significa que uma pessoa que pertence à outra religião ou uma pessoa ateísta que trabalha numa instituição diaconal, por exemplo, num hospital, também contribui para a realização daquilo que a igreja é chamada a fazer. É de se esperar que todas as pessoas respeitem a identidade cristã da instituição, seu sistema de valores e seus princípios norteadores. Por um lado, essa identidade implica pertencer a uma igreja que proclama o Evangelho. Por conseguinte, a ação diaconal não pode pretender que a proclamação não seja parte da missão da igreja no mundo. Por outro lado, as diferentes dimensões da missão deveriam manter-se unidas, e de forma tal que fique confirmado o caráter diferenciado de cada uma. Mesmo que palavra e obra não possam ser separadas, não devem ser embaralhadas a ponto de uma limitar-se a ser instrumento da outra. O que isso significa na prática pode diferir de um contexto a outro. O trabalho diaconal profissional requer reflexão crítica sobre esse assunto, a fim de evitar qualquer forma de abuso do sofrimento alheio para a propagação da mensagem cristã. Mas essa reflexão também implica ter na consciência a dimensão espiritual de todo sofrimento e do poder do Evangelho nos processos de transformação, reconciliação e empoderamento. Resumindo, podemos formular alguns princípios gerais: 41

“Juntos na missão de Deus: uma contribuição da FLM para a com-

preensão da missão”, 1988. Arquivo da IECLB. Ver também: LWF. Together in God’s Mission: An LWF Contribution to the Understanding of Mission. 1988. cap. 4.1.4. (LWF Documentation, n. 27).]

1. A ação diaconal tem sentido em si mesma. Não precisa ser justificada por outras razões; nunca deveria ser reduzida a um instrumento para outros fins. 2. A ação diaconal deve ser incondicional. Não pode permitir a colocação de pré-requisitos para alguém receber ajuda, como seja, participar de atividades religiosas. 3. A ação diaconal deve respeitar a integridade de cada pessoa e sua liberdade para expressar a fé segundo suas próprias convicções e tradições. 4. A ação diaconal precisa cuidar para que pessoas em situação de vulnerabilidade não sejam influenciadas nem pressionadas para adotar práticas e opções religiosas. 5. A ação diaconal deve reconhecer a dimensão espiritual da vida humana, e especialmente do sofrimento humano, e, por conseguinte, estar pronta para dar assistência às pessoas que pedem ajuda, incluindo orientação e aconselhamento quando solicitados. 6. A ação diaconal deve ser capaz de interpretar, de maneira holística, a realidade e os processos de mudança social. 7. A ação diaconal precisa estar preparada para responder por sua identidade baseada na fé. 8. A ação diaconal há de responsabilizar-se pelo testemunho que está dando da mensagem da igreja. É da natureza essencial da diaconia o fato de que suas dimensões vertical e horizontal são inseparáveis, e a real prova de fogo da ação diaconal consiste em como manter unidas, de forma dialética, essas duas dimensões, sem separá-las nem misturá-las. Quando separadas, a diaconia facilmente pode tornar-se secularizada. Isso significa que pode continuar sendo ação boa e necessária, mas ficaria limitada a interesses e objetivos seculares. Outra consequência dessa separação poderia ser a espiritualização da diaconia, ficando demasiado limitada por seu marco teológico e eclesial.

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termo diapráxis com relação à cooperação interreligiosa, dizendo:

© LWF/J. Schep

À luz da minha experiência na África e na Europa, vejo o diálogo como um processo vivo, uma maneira de viver em coexistência e pró-existência. Por isso eu quero introduzir o termo “diapráxis”. Enquanto o diálogo indica um relacionamento no qual é fundamental falarmos uns/umas com os/as outros/as, a diapráxis assinala um relacionamento no qual é essencial a práxis comum.42

Enfim, nossa confiança no poder do Espírito de Deus para conduzir o espírito das pessoas para a fé, a esperança e o amor nos dá liberdade para servir e confiar em Deus e na capacidade das pessoas de fazerem suas escolhas com dignidade O documento da FLM Missão em Contexto faz referência a experiências de diapráxis na Índia, onde pessoas de diferentes tradições religiosas se reúnem para a ação conjunta em solidariedade que se comprometa com a promoção da justiça, uma melhor qualidade de vida e a mitigação do sofriA ação diaconal sempre tem reunido pessoas mento humano.43 de diferentes denominações e crenças religiosas, Em junho de 2006, a FLM realizou um inclusive aquelas que se dizem ateístas, para tra- seminário em Medan, Indonésia, que reuniu pesbalharem juntas, com e em favor do povo sofrido soas cristãs e muçulmanas para compartilhar a e marginalizado. Por meio desse compromisso co- experiência do tsunami devastador e as expressões mum com a justiça na vizinhança imediata bem concretas de solidariedade e ajuda que cruzaram como na sociedade mais ampla, a diaconia tem as fronteiras religiosas nos dias que se seguiram à ajudado a superar preconceitos religiosos, com calamidade. Para a maioria das pessoas que parmotivações para o diálogo. Essa boa tradição de ticiparam, essa consulta foi a primeira oportuniconstruir pontes entre as pessoas fez do movimen- dade que tiveram para entrar num diálogo sobre to diaconal um dos fundamentos do movimento questões religiosas entre islamismo e cristianismo. ecumênico. A missão urbana, iniciada no norte da Para algumas pessoas, parecia incômodo ficar ouEuropa na metade do século XIX, constitui um vindo o que as outras diziam. Mas suas experiênbom exemplo. Ali, pessoas cristãs de diferentes cias de sofrimento comum, de ajuda mútua e de denominações somaram forças para acompanhar reconstrução conjunta de um novo futuro fizeram pessoas em necessidades causadas pelos múltiplos com que continuassem no diálogo.44 problemas sociais que vieram no rastro da industrialização e urbanização naqueles tempos. 42 RASMUSSEN, Lissi (Ed.). Bridges Instead of Walls. Experiências semelhantes ocorrem quando Christian-Muslim Interaction in Denmark, Indonesia and pessoas de religiões diferentes trabalham lado Nigeria. Genebra: LWF, 2007. p. 208-209.. a lado apoiando medidas de emergência e 43 FLM. Missão em Contexto: transformação, reconciliação, empoderamento. Uma contribuição da FLM para a compreensão desenvolvimento, com o objetivo de melhorar a e a prática da Missão. Curitiba: Encontro, 2006. p. 53. qualidade de vida das pessoas próximas. Em 1988, 44 LWF Seminar on Dialogue in Life. Relatório publicado pela a teóloga dinamarquesa Lissi Rasmussen propôs o FLM – Departamento de Missão e Desenvolvimento, Genebra.

10. Diaconia e diapráxis

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Assim, portanto, a diaconia – também na forA diaconia como diapráxis traz consigo um ma de diapráxis – abre o espírito das pessoas para profundo respeito para com outras denominações, a transformação, o empoderamento e a reconcilia- religiões e visões do mundo. Tal atitude não torna ção, até em contextos com tensões religiosas, como O Grito de um Planeta Ferido no caso de muitos países no sul da Ásia. Na Europa, fazem-se experiências relacionando a diapráxis Filhos e filhas da Terra, com a educação para a cidadania, visando a qualique sabem do bem e do mal: ficar as pessoas para participar em pé de igualdade, A vida está em perigo! Tenham cuidado! livre e democraticamente na sociedade.45 A FLM tem dado forte apoio à formação da DESCUBRAM A PLENITUDE Ação Inter-Religiosa para a Paz na África (IFAA Terra é um tapete tecido sem costuras. PA, sigla em inglês), que facilitou encontros, deNinguém tem o direito de rasgá-lo. bates e consultas inter-religiosos em várias partes da África, a fim de promover o respeito para com SINTAM A SANTIDADE as tradições religiosas de um e outro lado, desenUma santa fragrância paira sobre tudo o que existe. volvendo também iniciativas de trabalho em cauA vida deve ser valorizada, protegida e amada. sas comuns, como a garantia de água limpa. ALEGREM-SE COM A BELEZA A diapráxis dá testemunho da compreensão cristã de que todos os seres humanos receberam do A criação é uma riqueza por si mesma. Criador a mesma vocação de amar ao próximo e de Nada é só matéria-prima. ser o próximo da pessoa necessitada. Certamente, As dádivas da Terra devem ser tratadas há boas razões teológicas para interpretar a história com respeito e gratidão. do bom samaritano, em Lucas 10, como uma PENSEM NO CONTEXTO parábola sobre amar ao próximo como a si mesmo, que vale para qualquer pessoa, sem distinção de fé. O A vida de vocês está entrelaçada fato de que o samaritano foi um outsider, alguém com toda a vida na Terra. que não pertencia à comunidade de fé, parece Tudo o que vocês têm é dado como empréstimo. respaldar essa interpretação. Isso também nos ajuda Deverão passá-lo adiante aos que virão depois de vocês. a ver os cuidados e os atos de amor além daquilo LUTEM PELA JUSTIÇA que pessoas cristãs programam e fazem através do A Mãe Terra tem o suficiente para satisfazer as trabalho diaconal. necessidades de todos, mas não pode satisfazer Essa mesma interpretação confirma a imsua cobiça. portância da fé, da espiritualidade e da religião O abismo entre pobres e ricos nos trabalhos de desenvolvimento, pois expressa é um desprezo da dignidade humana. o fato de que todas as crenças têm uma função importante para construir sistemas de valor e VIVAM EM RECONCILIAÇÃO abrir horizontes para interpretar a realidade. Por Filhos e filhas da Terra, vocês que isso a religião não pode ser ignorada na ação sotêm o poder de rasgar seu delicado tecido: cial e nos trabalhos de desenvolvimento.

vocês são chamados a viver da reconciliação!

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Finn Wagle, Bispo de Trondheim (Noruega)

RASMUSSEN (Ed.), 2007, p. 208-209.

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relativas todas as crenças, no sentido de que todas “levam a Deus”, como a religiosidade popular costuma insinuar. Também não quer dizer que o trabalho diaconal deva procurar uma “neutralidade religiosa” nem que as expressões daquilo que a igreja confessa e celebra devam ser silenciadas. O ponto importante é o respeito fundamental da diaconia para com a dignidade da outra pessoa e da sua maneira de ser diferente, junto com a firme convicção de que Deus conferiu a todos os seres humanos a capacidade de fazer um bom trabalho. Etimologicamente, respeitar (em latim: respectare) significa olhar de novo, perseverar em ver mais que as próprias pressuposições e os estereótipos imediatos, olhar para além da primeira impressão ou da reação imediata da gente no encontro com outra pessoa. Quem, no início, podia parecer indigente, depois de visto como verdadeiramente é, será reconhecido como uma pessoa com sua história, suas qualificações e sua fé. Esse respeito para com a outra pessoa e sua integridade, especialmente em situações de sofrimento e injustiça, descarta a possibilidade de fazer da diaconia um instrumento para evangelizar e recrutar novos membros para a igreja. É importante repetir que a ação diaconal tem sentido em si mesma, sendo uma dimensão fundamental da missão da igreja. No entanto, o respeito para com a outra pessoa implica também respeitá-la quando decide aproximar-se espontaneamente para fazer parte daquilo que a igreja confessa e celebra. Outro aspecto importante da diapráxis é que o trabalho diaconal não deveria ser realizado no isolamento, mas em cooperação amiga com “outras pessoas de boa vontade”. Os desafios e as tarefas sempre são muito maiores que tudo o que a igreja e sua diaconia possam atender. Estabelecer alianças com outros parceiros e outras parceiras significa construir a sociedade civil e fortalecer a comunidade local para fazer frente a problemas de necessidade humana e de injustiça.

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11. Valores que norteiam um código de conduta diaconal No trabalho diaconal, o que conta não é só o que você faz, mas também como o faz. Que atitudes são expressas? Como é percebida a conduta de agentes diaconais? Essa é uma preocupação que as pessoas dedicadas à diaconia compartem com aquelas que trabalham na área da saúde e em serviços sociais. É também uma preocupação que a diaconia internacional tem em comum com o trabalho internacional em resposta a emergências e em favor do desenvolvimento. Nos encontros de pessoas com poder e com pessoas sem poder, existe o risco constante de se usar o poder de forma indevida ou até abusada. Para várias profissões foram estabelecidos códigos de conduta, que, normalmente, contêm princípios, valores, padrões ou normas de conduta que orientam os e as profissionais de uma categoria no trabalho diário. O código de conduta deveria contribuir para o bem-estar de todas as pessoas que participam do trabalho e, especialmente, garantir que seus direitos sejam respeitados. Um exemplo pertinente constitui o Código de Conduta para o Movimento da Cruz Vermelha Internacional e do Crescente Vermelho e de ONGs para serviços de socorro em casos de catástrofe, de 1994. Os compromissos decorrentes dos dez princípios fundamentais são os seguintes: 1. O dever humanitário está em primeiro lugar. 2. A ajuda prestada não fica condicionada por raça, credo ou nacionalidade das pessoas beneficiárias, nem por qualquer outro tipo de distinção. A ordem de prioridade da assistência é estabelecida unicamente em função das necessidades existentes. 3. A assistência não será utilizada para favorecer uma determinada posição política ou religiosa. 4. Tudo faremos para não atuar como instrumentos de política governamental externa.


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5. Respeitaremos a cultura e os costumes locais. 6. Procuraremos fomentar a capacidade de resposta em situações de desastre utilizando as capacidades e os meios disponíveis no nível local. 7. Deverão ser encontradas formas de incluir os beneficiários na administração dos programas de ajuda emergencial. 8. A assistência emergencial terá por objetivo satisfazer as necessidades básicas bem como reduzir a vulnerabilidade futura em situações de desastre. 9. Assumimos a responsabilidade de prestar contas perante aqueles que procuramos ajudar e perante as pessoas ou instituições de quem aceitamos recursos. 10. Em nossas atividades de informação, divulgação e publicidade, reconheceremos as vítimas de calamidades como seres humanos dignos, e não como objetos sem esperança.46

diretrizes baseadas nos valores fundamentais que caracterizam o trabalho diaconal. Naturalmente, tais diretrizes teriam que ser adaptadas aos contextos e às condições locais. Continuando, expomos como a consulta de Adis Abeba compilou elementos considerados de vital importância para uma compreensão comum da diaconia, os quais, por conseguinte, deveriam nortear nosso código de conduta. 1. 2. 3.

Do ponto de vista teológico, a diaconia: fundamenta-se na graça e é uma expressão de nossa fé cristã; é moldada pela vida e pelo serviço de Cristo; é uma ação procedente de Deus que, através de nós, vai ao encontro de pessoas com necessidades e sofrimentos (físicos, mentais, espirituais e sociais) e nas quais Cristo se faz visível; deseja refletir e testemunhar o incondicional amor e cuidado de Deus para com a criação; está arraigada na missão holística da igreja.

O trabalho diaconal deveria buscar o mesmo nível de qualidade e, por isso, aderir a tais normas de conduta. Os valores aqui expressos são compartilhados por uma grande rede de agentes 4. diaconais ao redor do mundo. A consulta sobre diaconia de Adis Abeba 5. examinou essa questão e também pediu para dialogar no sentido de estabelecer normas de conduta para a diaconia. Isso estava relaciona- No tocante aos objetivos, a diaconia: 1. procura afirmar a dignidade humana; do, concretamente, com a cooperação diaconal internacional e com a maneira como os dife- 2. procura restaurar relacionamentos rompidos e promover a cura e a reconciliação nas corentes parceiros e as diferentes parceiras devemunidades; riam cooperar. Mas é matéria relevante também 3. . cuida da integridade da criação; em outras formas de trabalho diaconal, numa 4. denuncia a injustiça e promove a paz e a justiça comunidade local ou em instituições. Não se em conformidade com sua vocação profética; trata de substituir outros códigos de conduta, 5. presta serviços às pessoas necessitadas; mas, bem mais, de acrescentar perspectivas e 6. busca a transformação de todas as pessoas envolvidas. 46 Disponível em: <http://www.ifrc.org/en/publications-andreports/code-of-conduct/more-language-versions/>.

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Em sua ação, a diaconia: 1. incorpora a compaixão, a inclusividade, a mutualidade, o respeito e a responsabilidade de prestar contas; 2. expressa solidariedade e mútua responsabilidade cruzando fronteiras e busca oportunidades para compartir recursos; 3. no âmbito ecumênico, empenha-se em criar alianças com pessoas de outras religiões e outros/ as agentes na sociedade civil; 4. a participação, o acompanhamento e o empoderamento são essenciais em sua metodologia; 5. é contextual, por isso usa métodos diferenciados; 6. está consciente de suas limitações e sabe dos riscos de criar dependência.

A diaconia como conceito deveria ficar reservada para o que pessoas cristãs fazem – espontaneamente ou de maneira organizada, em termos de iniciativas diaconais – como parceiros e parceiras na missão de Deus “para a cura do mundo”. Mas a ação misericordiosa de Deus no mundo em favor da paz, da justiça e da reconciliação não pode ficar limitada ao que se realiza mediante a ação diaconal ou ao que pessoas cristãs dizem e fazem. Daí que a diaconia não pode ser excludente nem em sua autocompreensão teológica nem na prática de seus serviços. A ação diaconal precisa ser nutrida pela confissão: Como são grandes as riquezas de Deus! Como são profundos o seu conhecimento e a sua sabedoria! (...) Pois todas as coisas foram criadas por ele, e tudo existe por meio dele e para ele. Glória a Deus para sempre! Amém! (Romanos 11.33-36).

Perguntas para continuar a reflexão 1. Segundo sua experiência, como estão relacionadas as diferentes expressões da diaconia? Dentre elas, quais são os pontos fortes e os pontos fracos? Como você vê o papel das pessoas formadas profissionalmente no trabalho diaconal? Você consideraria útil um ministério diaconal com ordenação em sua igreja? 2. No seu entender, quais devem ser o papel e a função da proclamação como parte da missão da igreja? Quais seriam o papel e a função da diaconia como parte da missão da igreja? Do seu ponto de vista, como você vê a relação entre a proclamação e a diaconia? 3. A diaconia é chamada a ser profética e a levantar sua voz em favor das pessoas marginalizadas. Como você encara esse chamado em relação com seu contexto? E pode-se responder a esse chamado pela ação diaconal? 4. O trabalho diaconal em redes foi identificado como um método importante. Como está o seu trabalho diaconal vinculado com outros grupos, outras organizações, igrejas, entidades governamentais etc.? 5. Como se realiza em sua igreja a capacitação para a diaconia? Que deveria ser melhor e como isso poderia ser conseguido?

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Glossรกrio

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Glossário Palavras-chaves usadas neste documento: Ação baseada na fé – Ação diaconal e social motivada e norteada pela fé religiosa. Ação baseada nos direitos – Expressão que se usa para designar a ação social e diaconal motivada e norteada pelos direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais. Acompanhamento – Caminhar junto às pessoas na reciprocidade e no respeito mútuo, especialmente em situações difíceis; brota dos relacionamentos que Cristo modelou em sua interação com outras pessoas.

DIACONIA – Entidade social brasileira que tem por missão “Contribuir para a construção solidária da cidadania e a garantia dos direitos humanos da população excluída na perspectiva da transformação social, preferencialmente na região Nordeste do Brasil”. Está vinculada com igrejas e entidades afins (privadas e públicas) do Brasil e do exterior. http:// diaconia.org.br/

Agenda, programa, ordem do dia – Conjunto de propósitos e objetivos que orientam a ação diaconal durante determinado período e nos mais diferentes níveis.

Diaconisa, diácona, diácono – Ministras/os ordenadas/os para o ministério eclesiástico do diaconato. Na tradição antiga, o diácono participava da liderança da igreja junto com o bispo e o ancião (presbítero, sacerdote). Na tradição protestante, as diaconisas, as diáconas e os diáconos recebem formação (teológica e profissional) para dirigir o trabalho diaconal em comunidades e instituições.

Colaboração solidária; aliança – A relação de mútua cooperação e responsabilidade de prestar contas entre pessoas ou grupos que trabalham em conjunto visando a alcançar objetivos comuns.

Dignidade – Elemento básico na compreensão cristã dos seres humanos: cada pessoa é criada à semelhança de Deus, o que lhe dá dignidade irrestrita e requer reconhecimento, respeito e afirmação.

Capacidade – O potencial inerente a pessoas, grupos e organizações para influir em seu entorno e transformá-lo; a qualificação que permite alcançar isso.

Doador original – back-donor – A entidade da qual provêm originalmente os recursos quando o dinheiro passa de uma organização a outra, por exemplo, de governos a organismos e agências de desenvolvimento das igrejas.

Caridade – Do latim caritas (amor, carinho). A prática de dar com benevolência, de pessoas individuais ou a prática organizada como obra beneficente. Cidadania – O papel cívico público de todas as pessoas, que implica direitos e deveres nos contextos local, nacional e mundial. Contexto – O ambiente, o entorno, com sua dimensão social, política, cultural, religiosa, econômica e ecológica.

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Diaconia política – Ação diaconal que se ocupa conscientemente com problemas políticos e se expressa por iniciativas diretas e indiretas na área pública.

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Eclesiologia – A compreensão teológica de igreja. Empoderamento – Neologismo já dicionarizado, criado por Paulo Freire. Mais que tradução de empowerment (que ocorre de fora para dentro), é o processo pelo qual as pessoas marginalizadas conseguem um alargamento ou reforço do poder para conquistar a gestão de suas próprias vidas e um papel participativo na sociedade.


Encarnação – Do latim in carnis, que significa “em carne”. Na teologia cristã, a doutrina de que Jesus Cristo é Deus revelado como verdadeiro ser humano. O trabalho diaconal é motivado pelo objetivo de “encarnar” a fé e o serviço cristãos na vida real das pessoas nos diferentes contextos. Estado de bem-estar social – welfare state – Modelo político aplicado principalmente nos países ocidentais depois da Segunda Guerra Mundial. Tem como objetivo combinar a democracia, o capitalismo regulamentado e a legislação de assistência social que organiza e financia com verba pública os serviços de bem-estar social, a saúde, a seguridade social e a educação de cada cidadão e cidadã. Gênero – Termo utilizado para analisar os papéis de mulheres e homens e as diferenças entre eles, desde a dimensão biológica até a social, em todos os níveis. Holístico – Na intervenção social e diaconal, um enfoque holístico é aquele que trata de interrelacionar, numa visão abrangente de igualdade, os aspectos físico, mental, espiritual e social da vida. Incidência política – advocacy – Defesa de propósitos, conscientização, sensibilização e lobby em favor de causas, por formas de testemunho público estratégico, juntamente com (ou em nome de) pessoas marginalizadas, vulneráveis ou cujas vozes foram silenciadas. Inclusividade – A atitude e a prática de incluir todos e todas, especialmente pessoas ou grupos que tendem a ser excluídos. Koinonia – Palavra grega que significa “comunhão”, empregada no Novo Testamento para a igreja (Hebreus 2.42; 1 Coríntios 1.9). No movimento ecumênico, é um conceito-chave para expressar a natureza da igreja, sua comunhão com o Trino e Uno Deus e de todas as pessoas batizadas. É também o nome de uma entidade brasileira que, por exemplo, recebe recursos

e delegação de ACT-Aliança para prestar assistência emergencial: www.koinonia.org.br Ministério – Como ministério cristão, provém da Bíblia, tradução do grego diakonia. No âmbito das igrejas, refere-se ao ministério eclesiástico com ordenação. Na IECLB, segundo o EMO (Estatuto do Ministério com Ordenação), designa os ministérios de (em ordem alfabética) catequista (com o mister de formar e ensinar); de diaconisa, diácona e diácono (com ênfase em cuidado e serviço); de missionária e missionário (com ênfase em missão e evangelização), e de pastora e pastor (com ênfase na palavra, administração dos sacramentos e formas de pastoral). http://www.luteranos.com.br/ attachments/Documentos/Estatuto do Ministerio com Ordenação - EMO.doc Missão – Do latim missio, que significa “envio”. Na teologia cristã, é o termo utilizado para o envio da igreja ao mundo. Hoje, missão é entendida como participação na missão de Deus, como missão holística, que abrange a proclamação, o serviço (diaconia) e a incidência política. Mutualidade, reciprocidade – Expressa relações que são recíprocas, tendo as pessoas e/ou entidades relacionadas entre o mesmo grau de comprometimento, tanto como doadoras como recebedoras. Neoliberalismo – Movimento ideológico e político que surgiu nos anos de 1980. Reafirma a primazia do mercado e caracteriza-se pela posição fundamental de que os mecanismos de uma economia de livre mercado, com um mínimo de intervenção política, conduziriam à liberdade política e econômica ideais. Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – ODM – Oito metas fixadas pela ONU a serem alcançadas até 2015. Respondem aos principais problemas de desenvolvimento. Fazem parte das medidas e dos objetivos que constam na Declaração do Milênio, aprovada

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por 189 nações e assinada por 147 chefes de Estado durante a Cúpula do Milênio da ONU, em setembro de 2000. http://www.objetivosdomilenio.org.br/ Organismo ou Agência de Cooperação – Termos usados na diaconia internacional para entidades com mandato focado em ajuda emergencial, humanitária e de desenvolvimento. Parceria – A relação formalizada de mútua cooperação e responsabilidade de prestar contas entre pessoas ou grupos que cooperam para atingir alvos do interesse comum. Participação – A prática de trabalhar em conjunto, compartilhar direitos, responsabilidades e decisões com vistas a objetivos comuns. Paternalista – Do latim pater, pai. Caracteriza tratamento às pessoas que reflete excesso de autoridade “paterna” sob pretexto de proteção; eventualmente, servindo-se da posição de poder para negar acesso a direitos, responsabilidades e decisões. Práxis – No trabalho social e diaconal, o termo indica uma intervenção planejada e responsável; por vezes, em contraposição ao discurso e, com relação ao diálogo, dando primazia à diapráxis. Profissional – Pessoa com formação específica concluída e que recebe salário por seu trabalho. A diaconia profissional refere-se, normalmente, a formas de trabalho diaconal organizadas e realizadas em conformidade com padrões reconhecidos de qualidade, por exemplo, na implementação

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de sistemas de planejamento, monitoramento e avaliação (PMA). Profético – Na tradição bíblica, ser profeta ou profetisa significa seguir a vocação de falar em nome de Deus contra a injustiça e em defesa das pessoas pobres e oprimidas. Responsabilidade de prestar contas – accountability – A prática de ser mutuamente responsáveis, confiáveis e prestar contas com transparência; considerada um valor fundamental nos programas da diaconia internacional e em todos os demais níveis. Secular – Do latim saeculum, mundano. Adjetivo para designar o que não pertence ao âmbito da religião. Como processo histórico, a secularização refere-se à diminuição do poder da religião na sociedade devido à emancipação da política, da ciência e da cultura. Sociedade civil – O conjunto de movimentos, organizações e instituições civis que funciona como um terceiro setor na sociedade, junto com as estruturas públicas e do mercado. Solidariedade – Do latim solidum (o todo). Originalmente, a prática de apoio mútuo entre membros de um grupo. Hoje, atribui-se-lhe maior abrangência, como apoio à causa de outros/as, especialmente das pessoas pobres e marginalizadas como expressão de pertença a uma família global. Transparência – A prática da franqueza, comunicação e responsabilidade de prestar contas, especialmente na tomada de decisões e na gestão financeira.


Federação Luterana Mundial – uma comunhão de Igrejas


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Diaconia em Contexto: Transformação, Reconciliação, Empoderamento. 2012 by Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) - Issuu