Skip to main content

Deus, Criação e Mudanças Climáticas - Subsídios para reflexão e debate

Page 1

2010


Título do original da Federação Luterana Mundial: God, Creation and Climate Change. A resource for reflection and discussion. Os pontos de vista expressos nesta publicação não refletem necessariamente a posição oficial da Federação Luterana Mundial. Federação Luterana Mundial – Uma Comunhão de Igrejas 150 route de Ferney P.O. Box 2100 1211 Geneva 2 – Suiça Tel. + 41/22-791 61 11 Fax: + 41/22-791 66 30 © 2009, The Lutheran World Federation ISBN: 978-3-905676-69-3 Publicação no Brasil sob responsabilidade da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil-IECLB www.luteranos.com.br Rua Senhor dos Passos, 202 90020-180 - Porto Alegre/RS Tradução: Johannes F. Hasenack Revisão Final: Mauro B. de Souza Projeto gráfico e impressão: Contexto Gráfica


Sumário

Apresentação ....................................................................... 5 Prefácio .................................................................................. 7 I. Que está acontecendo? ........................................................ 9 II. Deus nas mudanças climáticas? ....................................... 13 III. O Trino Deus está profundamente relacionado com toda a criação ................................................................. 19 IV. E que dizer dos seres humanos? ...................................... 29 V. A redenção de toda a criação ............................................ 37 NOTAS ................................................................................. 43 Apêndice .............................................................................. 45


4


Apresentação

Cada vez com mais frequência e intensidade, temos testemunhado sofrimento e morte causados por violentas mudanças climáticas. Lugares próximos ou distantes têm sido atingidos por tempestades e intempéries que trazem grande prejuízo pessoal, social e econômico. Muitas comunidades da IECLB têm sido vítimas destas catástrofes. Apesar de existirem várias teorias que tentam explicar tais fenômenos, é possível afirmar que a ação humana, centrada numa visão de desenvolvimento voltado para o crescimento ilimitado e tendo o lucro como seu principal objetivo tem incidido crescente e negativamente nas condições climáticas. Em vez de se entender como parte da própria natureza, boa Criação de Deus, e responsável pelo seu cuidado, o ser humano tem se distanciado mais e mais do restante da natureza, transformando-a em objeto de exploração. Assim, a natureza passa ser entendida como um mero recurso, algo que pode ser simplesmente tomado, utilizado, poluído, destruído. Exatamente o oposto daquilo que deveria ser. No relato da criação, encontrado na Bíblia, no primeiro capítulo de Gênesis, Deus cria tudo que existe em seis dias, e no sétimo descansa. Deduz-se então que o auge da Criação é o sétimo dia, ou seja, o dia do descanso, o dia da harmonia, o dia santificado e abençoado por Deus, do qual usufrui não apenas o ser humano, mas a criação inteira. Preocupadas com a situação de ameaça à vida no nosso planeta, igrejas-membro da Federação Luterana Mundial convidam seus integrantes a refletir sobre Deus, Criação e Mudanças Climáticas. Este caderno de estudos que entregamos em suas mãos quer levantar perguntas, suscitar debates e convocar à ação no que diz respeito à nossa responsabilidade ética diante da Criação de Deus. Esperamos que o Espírito de Deus, que pairava por sobre as águas já antes da criação, nos motive a colocar nossa criatividade, nossos dons, nossos talentos e nossos recursos no trabalho de resgate ao respeito para com a criação. Queremos colocar a vida, e não lucro e bens, em primeiro lugar. Março de 2010 Walter Altmann Pastor Presidente

5


Ondas violentas em Spoon Bay, New South Wales, Austrália. ©flickr/brentbat / Brent Pearson

6


Prefácio

Estes textos fazem parte da estratégia geral da Federação Luterana Mundial (FLM) com relação ao tema das "mudanças climáticas" e os desafios inerentes. Muitas igrejas-membro da FLM estão profundamente preocupadas com este assunto e mais e mais se empenham pela busca de respostas e ações coerentes. Há crescente consciência pública dos desafios éticos colocados pela mudança climática. É imprescindível a cooperação das sociedades ecumênica, inter-religiosa e civil nos esforços em busca de mudanças em práticas locais, nacionais e globais. Contudo, mudanças climáticas são mais que mera questão ambiental, secular; constituem um desafio urgente que toca o centro da nossa fé e espiritualidade, que se reflete nas formas como vemos o mundo e como agimos. Mudanças climáticas nos levam a reconsiderar e revisar o que anteriormente era assumido e crido. Neste sentido, elas desafiam a teologia - a maneira como pensávamos sobre Deus e toda a criação, especialmente na era moderna. Em 2008 foi expedido um questionário para saber o que as pessoas em diferentes ambientes locais veem, sentem e creem em face de transformações que, no mínimo em parte, são causadas por mudanças climáticas. (O questionário está no apêndice.) O presente texto foi compilado à luz de respostas a essa pesquisa, e algumas serão citadas ao longo das páginas seguintes. As mudanças que as pessoas estão experimentando muitas vezes provocam perguntas ou suposições que são profundamente teológicas e precisam ser tratadas como tais. Este é o principal propósito do presente documento. Uma coletânea com artigos bíblicos, teológicos e éticos mais abrangentes será publicada para acompanhar e examinar mais profundamente o que está sendo adiantado aqui de forma só resumida. Deus, Criação e Mudanças Climáticas será publicado mais tarde, em 2009, como volume 5 da série "Teologia na Vida da Igre-

7


ja". Não deixem de encomendar desde já este livro contactando liesch@lutheranworld.org. A FLM também está respondendo a esse desafio por ações concretas nos seus programas de campo em muitas das áreas mais vulneráveis da terra. "Mudança climática" também tem sido uma prioridade focada pelo setor da juventude da FLM (Ver A Toolkit on Climate Change, lwfyouth@lutheranworld.org) e na incidência política partindo de posições adotadas, p. ex., pelo Conselho da FLM. Outros eventos com foco neste assunto ainda terão lugar e culminarão com a Assembleia da FLM de 2010 em Stuttgart. Pedimos que enviem suas reações para Karen L. Bloomquist (kbl@lutheranworld.org) ou Rolita Machila (rom@lutheranworld.org) Este documento também pode ser baixado do portal www.luteranos.com.br. Versões em outros idiomas estão disponíveis no portal da FLM www.lutheranworld.org, ver páginas sob Department for Theology and Studies Church and Social Issues.

8


I. Que está acontecendo?

Os efeitos da mudança climática estão sendo percebidos ao redor do mundo: as temperaturas da água e do ar estão subindo em escala alarmante, afetando negativamente os habitats que sustentam a vida de peixes, animais, plantas e seres humanos. Está atingindo níveis mais alarmantes o estrago causado por secas e enchentes, ambas mais severas. Tempestades e tufões tornamse mais frequentes e intensos. Surgem novas doenças, e as antigas se espalham mais. Por exemplo, por causa de temperaturas mais quentes, cresce a procriação de mosquitos transmissores da malária. Em áreas superindustrializadas está piorando a qualidade do ar. As condições do clima afetam a saúde do povo, e em algumas regiões aumentam os óbitos relacionados com o calor1. Segundo os prognósticos, haverá uma escalada de fome à medida que o clima mudar. Está mudando a ordem predizível e confiável das coisas: quando começa o inverno ou o verão, ou quando vem o período das chuvas, se é que virá, isso se torna cada vez mais imprevisível. Está ameaçada a disponibilidade de água limpa para o sustento da vida, principalmente

“O que as pessoas locais estão percebendo? As chuvas são irregulares, e a cada ano chove menos. Arroios e rios estão secando. Em muitas áreas falta água. Colheitas menos produtivas fizeram subir o preço dos alimentos e, em consequência disso, a malnutrição. Malária e outras doenças estão se espalhando mais. As famílias disputam terras férteis onde tem água, criando conflitos.” (Zâmbia)

“O problema é que ora há sol demais ora chuva demais. A terra, as plantas, o ar, os animais e as pessoas estão sofrendo. Os animais não procriam tão bem como no passado. Doenças de pele se tornam mais frequentes.” (Tanzânia)

Quais são alguns dos efeitos de mudanças climáticas no seu contexto?

9


“Costumávamos lavrar a nossa terra começando em março, mas agora, a não ser que chova, o solo está duro demais para lavrar. No passado, as sementes ficavam na terra até o início da chuva, mas agora morrem antes que começa a chover. Conseguimos tirar menos leite de nossas vacas e cabras, por causa da escassez de pasto. Costumávamos apanhar frutas silvestres das árvores, mas agora as poucas árvores que restam nem produzem mais frutas. Nossos pais e avós consumiam leite, manteiga, mel, uma variedade de frutas e verduras, mas hoje já não é assim.” (Eritreia)

“Num sistema fluvial que abrange parte da Austrália, nenhuma gota de água desses rios chegou até o oceano nos últimos dez anos, e isso em consequência das secas causadas em parte pelo aquecimento global.” (Austrália)

10

porque grande parte dela está sendo privatizada. Casas construídas em chão aparentemente firme de repente são arrastadas por avalanches de água e barro. As estações de plantio e colheita mudam significativamente, assim como o rendimento das colheitas fica afetado com a qualidade do solo, umidade e erosão. Em alguns lugares os invernos estão ficando mais frios; em outros, mais quentes. De onde deverá vir o alimento para a vida diária e quando - isso fica mais imprevisível, tornando o direito ao alimento mais precário, especialmente para as famílias mais vulneráveis. Há quem se pergunte se ainda pode confiar na promessa de Deus a Noé: "Enquanto durar a terra, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite." (Gênesis 8.22) Como o Painel Intergover namental de Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês) concluiu em fevereiro de 2007: "Os seres humanos estão expostos à mudanças climática causada por alteração nos padrões do tempo (p. ex., intempéries mais intensas e frequentes) e, indiretamente, por mudanças na água, no ar, na qualidade e quantidade de alimentos, nos ecossistemas, na agricultura e na economia... Maior frequência de ondas de calor, de secas e inundações afetam negativamente o rendimento


das colheitas e dos animais domésticos, muito mais que pela mera mudança de estações, devendo contar-se com a possibilidade de surpresas, com impactos maiores e que ocorrem mais cedo do que previstos somente à base das principais variáveis. Tal acontece sobretudo nos setores de subsistência em baixas latitudes. A variabilidade e a mudança do clima também alteram os riscos de incêndios, de pragas e surtos patogênicos, piorando a produção de alimentos e fibras e a silvicultura." Em outras palavras, a vida humana dependia de previsibilidades conhecidas desde há longo tempo, mas elas estão mudando dramaticamente. Não sabemos de que podemos vir a depender no futuro. Como muitos estudos indicaram, é principalmente a atividade humana que está causando (ou ao menos contribuindo significativamente para) as mudanças climáticas. Contudo, para pessoas em muitos lugares da terra, que pressupõem existir uma estreita relação entre o divino e o que ocorre na natureza, as perguntas por Deus não podem ser ignoradas.

“Na nossa ilha costeira as dunas estão erodindo e seremos forçados a mudar a nossa aldeia de esquimó se a tendência continuar assim. O povo local depende da tradicional caça e pesca de subsistência, de modo que, se houver necessidade de mudar para outro lugar, isso será muito difícil para eles.” (Alaska, USA)

“Cheias recorrentes das monções inundam a terra por longos períodos, e o nível do mar está subindo. Em áreas costeiras, a água salgada do mar está atingindo a água potável. O supercultivo da terra e o uso de pesticidas estão estragando a qualidade do solo. A topografia está se transformando dramaticamente, e a biodiversidade de plantas, peixes e animais está ameaçada.” (Bangladesh)

11


Korat, Tailândia, 17 de março de 2005 Durante longa seca, o nível baixo da água permite aos moradores acampar atrás da represa para pegar os últimos peixes. © Greenpeace/Sataporn Thongma

12


II. Deus nas mudanças climáticas?

Algumas pessoas percebem as mudanças climáticas como se Deus tivesse saído de cena, tivesse sido empurrado para a margem pela atividade humana, deixando de ser ativo no cosmo. Mas para as pessoas de fé, as grandes realidades globais e cósmicas da mudança climática precisam ser consideradas à luz da reflexão sobre como entendemos Deus, a criação e a humanidade. Em muitas passagens bíblicas, fenômenos naturais, como os que ocorrem atualmente em termos de mudança climática provocada pelos homens, eram atribuídas a Deus. Pessoas em muitos lugares da terra ainda creem isso hoje. Deus tem sido considerado o agente causador de enchentes, tormentas, secas e de outras calamidades "naturais" locais e globais. As pessoas veem o que está acontecendo como sendo ação de Deus, e perguntam: por quê? Ao longo da história e sob crenças as mais diversas, desastres relacionados com o tempo muitas vezes têm sido considerados "atos de Deus". Quando ocorrem os efeitos destrutivos das mudanças climáticas, há pessoas que logo reagem dizendo: Deus deve estar punindo a gente - e neste sentido interpretam

“Deus se afastou dos seres humanos destruidores, deixando-os perecer em sua própria loucura.” (Jovem mulher da Tanzânia)

“Num mundo cada vez mais ameaçado por desmatamento, desertificação, aquecimento global, redução da camada de ozônio, perigosas emissões de carbono, efeitoestufa e múltiplas formas de degradação ecológica, a espiritualidade africana é uma espiritualidade de equilíbrio, de harmonia e integridade, sustentada por uma fé ativa na criação como dádiva de Deus.” 2

13


Uma mulher africana observa: “Onde está Deus em todo esse sofrimento? Por acaso, fomos amaldiçoadas? Está Deus nos castigando?” Outra responde: “Tenho problemas em jogar tudo isso sobre Deus! Nós, enquanto seres humanos, somos responsáveis pela desordem causada na natureza dada por Deus.”

“Não é punição divina, mas a lógica das consequências, o fato de que neste universo físico criado por Deus, com essa maravilhosa atmosfera, determinadas ações são causas de outros acontecimentos. É a física do dióxido de carbono e de outros gases de estufa que seguram o calor. Você não pode continuar aumentando o gás carbônico sem aquecer o planeta.” (USA)

14

determinadas passagens bíblicas. As pessoas são aconselhadas a simplesmente esperarem e aguentarem o juízo de Deus, ao invés de fazerem algo para mudar no que é considerado como sendo determinado por Deus e, assim, inevitável. Como pessoas crentes sustentamos que Deus, de alguma forma, está envolvido nas mudanças climáticas - especialmente para nos acordar para a urgência do que está acontecendo - mas não podemos atribuir mudanças climáticas somente a "atos de Deus". Também devemos voltar-nos para a ciência, pela qual aprendemos a ver mais profundamente e com maior respeito o que Deus criou. Muitos dos problemas relacionados com mudanças climáticas surgiram pela forma como os seres humanos abusaram daquilo que Deus criou para o bem de todas as criaturas. Desde há muito tempo a igreja ensinou que devemos ser bons administradores e cuidadores do que Deus tem dado, e ela deve continuar ensinando isso. Mas o desafio vai muito além. Em grande escala, muitos aspectos globais da crise do clima em mudança surgiram pela forma como entendimentos inter-relacionados sobre Deus, a criação e os seres humanos influenciaram e cunharam profundamente as modernas sociedades, instituições e estilos de vida. Essas interpretações foram legadas através de séculos de dou-


trina eclesiástica, a qual, por exemplo, separava a natureza da graça. O pensamento ocidental, que tendia a separar os seres humanos do restante da criação, contribuiu para o surgimento da industrialização e do capitalismo. E tais desenvolvimentos, por sua vez, se espalharam mundo afora. Durante séculos, aqueles pressupostos e as práticas deles decorrentes contribuíram cumulativamente, e agora desastrosamente, para as mudanças climáticas, que ameaçam seriamente o futuro da vida no planeta como a conhecemos. O efeito da mudança do clima é semelhante ao da fome - ela enfraquece, fere, e mesmo que não seja a única causa de morte, empurra a gente para essa direção.

“Por que estão acontecendo as mudanças? Por causa da ganância, do descuidado e do egoismo humanos.” (Tanzânia)

Essas conjeturas implicam • que Deus é transcendente, imutável, todo-poderoso, um monarca ou patriarca celeste governando lá em cima e controlando o mundo, um Deus intocado pelas realidades terrestres; • uma visão de mundo com Deus no topo, então os homens por cima de mulheres, crianças, animais e, embaixo, o resto da criação; • que, como agentes de Deus, os seres humanos devem usar ou exercer poder sobre o resto da criação;

15


Que falas, imagens ou ensinamentos vocês ouviram na igreja, que refletem essas conclusões?

“Necessitamos de novas formas de reflexão e comportamento, novas formas de perceber a realidade. O capitalismo dos nossos dias não tem futuro. Precisamos construir um sistema econômico sustentável. Isso pode parecer uma utopia. Mas não há futuro sem a ajuda de Deus. Deus pode fazer milagres – até transformar os corações humanos.” (República Tcheca)

Para a maioria dos aborígenes da Austrália, o Espírito do Arco-Íris emerge da terra e retorna à terra, onde o seu poder está eternamente presente. Este Espírito está sempre tão perto como a terra, deixando pegadas no chão como lembrança da sua promessa de voltar da terra. Em contrapartida, os missionários cristãos apresentaram um Deus morando longe da terra, no céu.” (Austrália)

16

• que Deus age primariamente na história, e não também na e pela natureza; • que somente as pessoas humanas, e especialmente as cristãs, têm o benefício da graça ou da redenção de Deus; • que questões espirituais estão separadas do que é "desta terra" ou incorporado na mesma. A influência e os efeitos de pressupostos como estes se espalharam por toda a terra através da conquista, da construção de impérios, dos movimentos missionários e do desenvolvimento econômico. Isso continua hoje através dos acelerados processos de globalização. Esses pressupostos fundamentaram e promoveram hábitos e práticas em volta ao mundo, de modo que agora reconhecemos que, ao longo do tempo, contribuíram dramaticamente para a mudança do clima e estão ameaçando a vida como a conhecíamos até os dias de hoje. Tais práticas implicam: • uma vida econômica baseada na infinita busca de crescimento e lucro cada vez maiores movido pela ganância, o que a crise econômica global está expondo de forma impiedosa no tempo presente; • uma crescente dependência da extração de combustíveis fós-


seis para fomentar esse desenvolvimento; • práticas conquistadoras de colonização e dominação, especialmente na busca constante de maiores recursos e mercados; • ideologias patriarcais que perpetuam o controle e a opressão das mulheres e da terra; • a discriminação de todos aqueles vistos como "outros" por causa do seu gênero, raça, etnia, casta, status econômico ou político; • a conjetura de que alguns aspectos da criação (tais como árvores, água ou ar) são dispensáveis, ao invés de respeitar e dar valor a toda a criação; • um antropocentrismo que tende a valorizar tão somente o que serve para fins humanos. A mudança climática está provocando a necessidade de alterações em algumas crenças a respeito do clima que por muito tempo eram tidas como naturais e tranquilas. Mudanças climáticas podem literalmente estar derretendo icebergs, mas também revelam "icebergs" metafóricos de como Deus, os seres humanos e o restante da criação têm sido conceituados de forma que contribuem para a destruição e as injustiças que escalaram durante o regime atualmente predominante de mudança do clima.

“A natureza foi criada para compartilhar o bem-estar, não para ser transformada em mera fonte de lucro, não para trocar o verde das florestas pelo verde do dólar.” (Peru)

“A sociedade tradicional do Sri Lanka tem sido fortemente influenciada pelo Budismo e vivido em harmonia com a natureza... Foi a estratégia materialista e consumista ocidental, considerada o suprassumo do desenvolvimento, que abalou o fundamento do viver sustentável, condição básica para as nossas culturas.” (Sri Lanka)

Crenças e práticas como as aqui mencionadas precisam ser questionadas. Temos que levar em consideração como Deus, a criação e a humanidade estão inter-relacionados. Como poderíamos aprender daquilo que outras crenças e tradições locais desde há longo tempo creram e praticaram?

17


Goro ICDP, Dadymus, Etiópia, março de 2008. Só resta pó. Gado sedento. © Magnus Aronson/IKON

18


III. O Trino Deus está profundamente relacionado com toda a criação

Quando as pessoas pensam em "Deus", elas muitas vezes imaginam um ser supremo que reina sobre e acima de toda a terra como regente todo-poderoso ou monarca (quase sempre como "ele"). Quando algo vai mal na natureza, como ocorre sob as mudanças climáticas, assumese de imediato que isso é causado por "Deus" - como ator todo-poderoso posicionado fora e controlando tudo que acontece na terra. Ao longo dos tempos e em muitas tradições religiosas, os povos têm rezado e oferecido sacrifícios para que Deus proporcionasse condições favoráveis para o crescimento das plantações, protegesse de tempestades e enchentes e controlasse as forças naturais do meio ambiente. Afinal, não é Deus o poder absoluto sobre todo o cosmo e, por isso, o Único capaz de controlar todas as coisas, inclusive as mudanças climáticas? Muitas passagens bíblicas parecem refletir tal entendimento de Deus. Elas muitas vezes são interpretadas de uma forma que faz separação demasiado rígida entre Deus e a natureza. Em parte, isso aconte-

“Ó Deus, por que não intervéns? Por que deixas continuar mudanças climáticas tão destruidoras?” “Ó Deus, por que não cuidas um pouco melhor daquilo que criaste?”

19


“A ruína da terra é a ruína da morada de Deus.” 3

20

ceu para distinguir o entendimento do antigo Israel sobre Deus de algumas das religiões naturais, segundo as quais o destino dos homens era determinado pelos deuses que agiam nos ciclos e nas forças da natureza. Mas uma separação radical entre Deus e a natureza se torna um problema quando é ignorado o relacionamento profundo que Deus tem para com toda a criação, como relatado no início de Gênesis e em muitos outros lugares na Bíblia. "Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos, toda a terra está cheia da sua glória" (Isaías 6.3). A glória aqui é a presença vibrante de Deus, que anteriormente era representada como a nuvem de fogo da presença de Deus no Sinai. Mais tarde, ela "enchia" o tabernáculo, e então todo o templo de Salomão. Mas aqui Isaías vai mais longe: ele declara que a real presença de Deus enche toda a terra, a qual é o santuário de Deus. O Deus revelado nas Escrituras hebraicas não é imutável, à semelhança de alguns outros deuses. Deus está relacionado com a criação e com a história, não por ser imune ao espaço e ao tempo mas por cumprir promessas. A "vontade de Deus" não deveria ser simplesmente igualada a fenômenos naturais, insistindo que Deus está causando tudo o que acontece. Mas, ao mesmo tempo, talvez possamos vislumbrar o que Deus criou e pretende, e isso contrasta com o colapso ou a destruição dos delicados tecidos da


criação que está ocorrendo através das mudanças climáticas. A criação é boa porque Deus criou tudo que existe, se bem que não tudo o que acontece na criação seja bom. No livro de Jó, quando Jó chega às profundezas do desespero, ele não só acusa Deus de estar maltratando injustamente as pessoas humanas, mas também se queixa de Deus pelo tratamento duro imposto à criação. Jó reclama que Deus usa a sabedoria divina para reter as águas até estar tudo seco e de largá-las para devastar a terra (Jó 12.15). Nos capítulos 38 e 39, Deus leva Jó para um roteiro pelos vários aspectos do cosmo para instruílo sobre os "caminhos" misteriosos do mundo natural. Não é para que Jó tente dominar a natureza, mas para pesquisar como Deus tem criado tudo que existe e para descobrir como os seres humanos cabem nos desígnios de Deus, complexos e misteriosos. Aqui, e em outras partes da Bíblia, começamos a ter uma nova percepção de quem Deus é - não um monarca controlador de tudo, que pune mesmo o inocente, mas o Deus revelado e, contudo, encoberto em toda a criação. A graça e o amor de Deus são afinal mais significativos que seu domínio e poder. Deus está intimamente relacionado com os seres humanos e com o restante da criação, presente em meio à vulnerabilidade e ao sofrimento.

“Depois disto, o Senhor, do meio de um redemoinho, respondeu a Jó:... Quem encerrou o mar com portas, quando irrompeu da madre? … e disse: Até aqui virás, e não mais adiante, e aqui se quebrará o orgulho das tuas ondas?” (Jó 38.1, 8, 11)

21


“Acaso, a neve deixará o Líbano, a rocha que se ergue na planície? Ou faltarão as águas que vêm de longe, frias e correntes? Contudo, todos os do meu povo se têm esquecido de mim...” (Jeremias 18.14-15a)

“A criação é o teatro da graça de Deus.” 5

22

Hoje, somos chamados para uma mudança similar na maneira como imaginamos a Deus ou pensamos sobre ele, já que estamos em meio a uma criação que sofre os efeitos de mudanças climáticas. Aqueles que pouco usaram os recursos da terra são os que se veem mais dramaticamente afetados. Contudo, culpar a Deus por isso não é a resposta. Como as Escrituras com recorrência nos lembram, a infidelidade humana para com Deus é o problema. Isso se mostra no tratamento injusto dado a pessoas e ao restante da criação. Joseph Sittler, ecologista e teólogo luterano do século XX, insistiu em que a natureza vem de Deus, não pode ficar separada de Deus e é capaz de ser portadora da glória de Deus.4 Graça é a essência fundamental de Deus, como Criador, Redentor, Sustentador. Graça é a pura datividade, doação: da vida, do mundo e de nós mesmos. Somos "justificados" pela graça mesmo em nossa relação com as coisas da natureza. Condenação (o contrário de justificação) está presente na ausência de uma misericordiosa consideração para com a natureza, como quando poluímos a natureza ou a usamos como depósito de lixo. Isso confere com a visão de Martim Lutero no século XVI: toda a criação é a habitação de Deus. Deus não está distanciado ou colocado acima dela, e sim, Deus está dentro, com e sob tudo que é


criacional. Apesar de todas as negatividades - tais como a perturbação e a destruição que ocorrem devido à mudança climática - nós ainda confiamos que Deus está agindo neste mundo, muitas vezes oculto sob o seu contrário. Isso também constitui o cerne do que Lutero entendia como teologia da cruz: Deus não pode ser visto nem procurado atrás da criação nem ser deduzido dela, mas somente ser reconhecido nela e por intermédio dela. A cruz revela quão radicalmente Deus está imanente na criação. Ao longo da história da igreja, houve muito debate sobre o que é mais central a respeito de Deus. Para algumas pessoas, o conceitochave tem sido a força todo-poderosa de Deus, já para outras, o eterno amor de Deus. Para os luteranos e muitos outros cristãos o mais importante é que Deus é amor. Deus procura estar em íntima relação com o que Deus criou, incluindo os seres humanos: muito mais estando com do que estando acima ou distante da criação. É o Espírito de Deus (ruach, substantivo feminino no hebraico) que transmite este sentido de intimidade entre Deus e a criação. Deus está vivo e ativo enquanto Espírito, dando vida a tudo que existe. O "sopro", o "hálito" de Deus expressa a bondade criadora e preservadora da vida. O Espírito de Deus é o inesgotável e perene poder criador de

“O formidável segredo da criação é a inabitação de Deus na criação.”6

“Através da teologia da cruz, o sofrimento no e do mundo é reconhecido como o lugar do trabalho criador de Deus.”7

Por que algumas pessoas procuraram separar Deus da criação, como se Deus assim tivesse que ser protegido?

O salmista glorifica a Deus: “Tu voas nas asas do vento … Tu fazes rebentar fontes no vale … Fazes crescer a relva para os animais … Envias o teu Espírito, eles são criados, e, assim, renovas a face da terra.” (Salmo 104. 3, 10, 14, 30)

23


“Louva o Espírito na criação, o sopro de Deus, a origem da vida: O Espírito voa sobre as águas, urgindo mundos a nelas viver. Fonte de respiração para tudo que respira, vida no qual todas as vidas começam.” 8

“A versão radical da transcendência divina, que mais e mais foi determinando o teísmo clássico e acabou sendo incorporado pela Reforma, produziu a fantasia de um Deus fora do mundo... e a crença da divina onipotência. Essa versão de divindade, separada, afirma honrar a transcendência de Deus, mas na verdade está muito mais preocupada com nossas próprias honras humanas... Uma parte demasiado grande da cristandade camuflou a ganância como prêmio de imortalidade privada, como sendo louvor a Deus, como se quanto mais levantássemos a Deus, tanto mais também nós fôssemos subir.” 10

24

Deus, a força provedora de vida da criação e da recriação, regendo não por um poder controlador mas por impotência. Deus derruba nossos conceitos humanos de poder. A ação transformadora de Deus vai por sobre e para além das barreiras levantadas pelos homens, não podendo ser limitada por valores e sistemas dominantes, como aqueles que contribuíram para as mudanças climáticas. O Espírito de Deus ajuda aos seres humanos a perceber Deus em meio à criação.9 Deus governa por aparentar impotência. Em sua confissão de fé no Trino Deus, a igreja tem insistido em que Deus é essencialmente um Deus relacional, não autônomo, mas um Deus-em-comunhão. Isso o distingue fundamentalmente de conceitos que consideram Deus um ser autossuficiente e separado da criação, controlando-a "de fora" ou "de cima", como um governante imperial. O Deus que é amor procura estar perto, não distante, da criação. A intenção da teologia trinitariana não consiste em definir a Deus ou a "substância" de Deus, mas em descrever todo o movimento gracioso e inter-relacionado de Deus que procura comunhão - relação íntima - com o que Deus criou. Criação é muito mais que mero cenário para a principal ação redentora de Deus na história humana. É a redenção de toda a criação que está em jogo (Romanos 8), não a redenção que nos livrasse da criação.


Os trabalhos de Deus em termos de criação, preservação e redenção não são três operações separadas ou separáveis, mas são uma obra única, cujo propósito é exatamente o parto, o nascer do mundo que Deus quer. Deus está "em trabalho de parto" no mundo, para o mundo, para que possa vir a ser o que, em sua concepção, ele é.11 Em outras palavras, Deus é a fonte, o poder e o alvo - o espírito que vivifica os complexos processos da criação. Deus é a origem de todo ser, e não alguém que intervém de fora. Nestes termos, teólogos como Sallie McFague se referem a Deus: como o corpo-alma de todo o universo, criando, guiando e salvando tudo que existe. Não se trata de conceber Deus como uma vontade ou um intelecto que ordena e controla o mundo; e sim, Deus é o hálito que vivifica e energiza o planeta vivo e respirante. Deus permeia, sofre com e energiza o mais íntimo ser de tudo que é criado, em termos conhecidos e irreconhecíveis, em termos que são tanto íntimos como transcendentes. 12 Podemos apenas receber gratamente este mistério, mas não resolvê-lo. Descrever a atividade de Deus de tal maneira orgânica é mais apropriado do que à semelhança de u'a máquina, o que tem acentuado os problemas que encaramos no pre-

Que implicação tem isso com a maneira como nós, eventualmente, nos dirigimos a Deus e nos referimos a ele?

Reflitam sobre como saberes ou tradições espirituais populares caracterizaram vocês. Corresponde isso ao ensino que vocês ouviram na igreja? Por que, ou por que não?

25


Quais são alguns dos inter-relacionamentos na criação dos quais as mudanças do clima nos tornam mais conscientes?

“Na aldeia tanzaniana de Ngofila as pessoas creem que Deus está irado por causa da derrubada das florestas tradicionais aonde o povo costumava ir para praticar orações e rituais.” (Tanzânia)

“No Círculo da Vida dos povos aborígenes da América do Norte o círculo simboliza a harmonia e integridade fundamental que existe entre todos os seres criados – incluindo animais e pássaros, árvores e pedras – com solidariedade, reciprocidade, respeito e amor. Nós todos pertencemos a uma grande comunidade, onde tudo está interconectado e interdependente.”

26

sente. O modelo de máquina pressupõe que um controle racional é o que importa, sendo Deus o último recurso consertador. Ao invés disso, o foco muda de controle para relacionamentos - relacionamentos interdependentes em toda a criação. Nisso há semelhança com a maneira como tradições e crenças nativas têm visto o relacionamento entr e Deus e a criação. A interdependência de todas as coisas tem sido sabedoria comum ao longo da maior parte da história do mundo - todos os relacionamentos necessários para o florescer da vida, incluindo a previsibilidade do clima. Muitos povos nativos desde há tempos remotos cultivaram tal visão ecológica da vida, em contraste com perspectivas que valorizam a vida humana às custas de outras formas de vida. Levando a criação a sério como sendo a morada de Deus significa que o espaço físico da criação se torna importante. Essa dimensão espacial tem sido celebrada há tempo, por exemplo nos salmos: "Quão amáveis são os teus tabernáculos, Senhor dos Exércitos!… mesmo o pardal encontrou casa … os teus altares." (Salmos 84.1-3) Nós moramos em Deus que nos circunda, desde antes e além de todo tempo: "Senhor, tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração. Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo,


de eternidade a eternidade, tu és Deus." (Salmos 90.1-2) A incarnação - Deus se tornando inteiramente humano em Jesus de Nazaré - constitui o testemunho mais claro do profundo relacionamento de Deus com a criação. Nele são conjugados a divindade e a humanidade, o céu e a terra. As festas principais do ano litúrgico acentuam isso em vigorosas formas poéticas e simbólicas. No Natal, o céu e a natureza cantam glória a Deus e uma estrela brilhante do céu é lincada com um humilde presépio na terra. Na Sexta-Feira da Paixão, Deus é revelado no Um que sofre e morre com toda a criação, e na Páscoa os céus e a terra exultam com o Deus vivo. No Pentecostes, o vento do Espírito soprou do céu dando poder às pessoas da Igreja primitiva para se comunicarem a despeito das diferenças condicionadas pela existência terrena.

“Na África, a filosofia do Ubuntu, que diz respeito especialmente às relações que os seres humanos têm uns com os outros, reconhece que a comunidade também inclui animais, plantas e tudo o mais da criação – tudo contribui para o bem-estar da comunidade.”

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus … E o Verbo se fez carne e habitou entre nós...” (João 1.1,14)

27


Esta foto fala por si - ©LWF/D.-M. Grötzsch

28


IV. E que dizer dos seres humanos?

No Ocidente dos últimos séculos, e em grande parte do mundo de hoje, os pensamentos acima expostos ficaram obscurecidos. Algumas pessoas agiram como se fossem semideuses, que podem comandar e controlar, para seus próprios interesses, a terra, as árvores, o ar, a água e as outras criaturas, incluindo comunidades humanas vulneráveis. Isso muitas vezes acontece em nome do "desenvolvimento" ou do "progresso". Ar, água, solo e plantas são valorizados enquanto podem promover desenvolvimento ou progresso humanos, e não por seu próprio valor intrínseco. A acumulação de dinheiro e bens suplantou a economia libertadora do Criador baseada em sinergia, cooperação e justiça promotora de vida para toda a criação. Em consequência disso, as delicadas interdependências na criação foram perturbadas. O protesto da criação agora está sendo experimentado pelas mudanças do clima. Ser criatura em meio à criação está no âmago de uma antropologia cristã. Contudo, muitas pessoas perderam o sentimento de serem parte de um cosmo vivo, em transformação dinâmica, que tem sua existência em e através de Deus.

“A causa maior da desintegração da natureza é a aparente inabilidade da espécie humana de compreender a sua solidariedade essencial com todas as outras formas de vida e de agir segundo essa compreensão.”13

“Por causa do incrível progresso tecnológico, as pessoas tendem a esquecer as coisas mais orgânicas, mais básicas, tais como a responsabilidade para com as futuras gerações, os relacionamentos e, naturalmente, Deus. Costumávamos apoiar-nos na sabedoria das pessoas mais idosas, mas hoje em dia, para as gerações mais novas no comando, há menos necessidade de Deus ou quaisquer outros valores transcendentes. As pessoas tendem a pensar serem capazes por si mesmas de alcançar, aprender e descobrir qualquer coisa que queiram.” (Pessoa jovem da Polônia).

29


“Vivemos em sistemas de interconexão que favorecem tanto a vida pessoal como a comunidade em que ela vive com tudo que é criacional.”14

“Viver um estilo de vida egoísta e desperdiçar recursos naturais leva ao rompimento do vínculo entre a humanidade e Deus, mas também entre a humanidade e o resto da criação de Deus.” (Estônia)

30

Com base nas duas histórias da criação em Gênesis 1 e 2, os seres humanos muitas vezes se consideraram serem a coroa da criação ou o principal propósito de Deus ter criado tudo o mais. Isso provém do malentendido do chamado para "dominar sobre" (Gênesis 1.28), o que levou à exploração da criação, sem senso de responsabilidade e compromisso para prestar contas a Deus pelo que criou e confiou às mãos humanas. Em Gênesis 2, em meio às plantas e à água do jardim, Deus forma o primeiro ser humano do pó da terra e sopra vida para dentro do 'adam'. Cultivar e guardar o jardim - preservar e cuidar a criação de Deus - este é o mandato dado às criaturas humanas; elas devem ser servas do resto da criação, não dominadoras. Isso é algo semelhante ao que consta em Marcos 10.4145, onde Jesus chama seus discípulos para lhe seguirem em servindo e não em dominando os outros. Achar que as criaturas humanas estão separadas ou acima da natureza pode resultar numa completa liberdade de ação no tocante à criação - usando e explorando-a de formas que servem aos objetivos humanos, ou como "matéria prima para a sustentação e o engrandecimento".15 Ao invés disso, a criação tem em si uma dignidade e um propósito que vão além dos propósitos humanos. Pecado e salvação são questões tanto espirituais como terrenas; têm


a ver com a maneira de como nos relacionamos com as formas da presença de Deus que encontramos em nossa vida diária comum. Pecado é a falha de viver a partir da matriz relacional que compartilhamos com o restante da criação e com Deus. É nossa recusa de deslocarmos a nós mesmos do centro do mundo. Tentamos escapar da nossa condição de criatura e dos relacionamentos e da vocação nela implicados. Pecado é viver de maneira falsa, em contrário aos relacionamentos apropriados que constituem a realidade. Quando os relacionamentos são violados, resultam injustiça, abuso e destruição. Pecado é a negação de aceitar os limites e as responsabilidades do lugar humano dentro do todo da criação. Exclusão ambiental na forma de exílio é um tema central no Antigo Testamento, e isso tem muito a ver com a condição daqueles milhões que já se acham forçados a migrar de suas terras ancestrais por causa de seca ou inundação causadas pelas mudanças climáticas.18 As escrituras dos profetas do Antigo Testamento com recorrência nos lembram que Deus não vai tolerar injustiças infligidas a outros seres humanos e ao restante da criação através de poder dominador, controle e opressão. Contudo, em muitas dessas passagens onde Deus responde a injustiças, Deus é retratado como um dominador masculino, todo-controlador, ou como guerreiro

“A não ser que resgatemos um senso de seres humanos que são parte do resto das criação, ‘vamos conseguir uma faxina suficiente nos processos industriais para assegurar lucro e uma vida razoavelmente confortável só para uma geração, mais ou menos, e falharemos em atingir o cerne do problema’.”17

“Na verdade, a terra está contaminada por causa dos seus moradores, porquanto transgridem as leis, violam os estatutos, e quebram a aliança eterna.” (Isaías 24.5)

31


que age de forma punitiva, violenta, destrutiva. O problema é que tais passagens parecem legitimar (sem transformar) formas de violência contra a humanidade e a criação. O poder de mudar as injustiças deveria ser coerente com o propósito maior de Deus, o de restaurar e transformar a criação. Carol Dempsey mostra como isso é transmitido especialmente nos capítulos 42, 49, 52, 63, 61 e 65 do livro de Isaías:

“Pois eis que eu crio novos céus e nova terra … e nunca mais se ouvirá nela nem voz de choro nem de clamor … Eles edificarão casas, e nelas habitarão; plantarão vinhas, e comerão o seu fruto … Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o Senhor.” (Isaías 65.17,19, 21,25)

“Naquele dia, farei um acordo com os animais selvagens, com as aves e com as cobras, para que não ataquem a minha amada. Quebrarei as armas de guerra, os arcos e as espadas; não haverá mais guerra, e o meu povo viverá em paz e segurança.” (Oseias 2.18)

32

(1) A redenção da espécie humana está vinculada com a restauração da criação; (2) a comunidade humana tem responsabilidade para com toda a criação; (3) a visão de Isaías 65.1725 não deve continuar sendo apocalíptica ou escatológica, mas precisa tornar-se uma realidade para o planeta e para a vida no planeta; (4) a visão divina para toda a criação é uma visão que fala de respeito para com tudo que vive e com uma vida vivida em equilíbrio e relacionamento... O foco precisa mudar do uso de poder para dominar, controlar e oprimir para o uso do poder para empoderar-se a si mesmo e aos outros e libertar toda a criação do seu gemido e opressão.19 O chamado para o arrependimento, em Marcos 1.15, pode ser ouvido como um chamado para retornar a um relacionamento apro-


priado para com o Criador e a criação, "um chamado para sermos libertados do nosso sentimento humano de termos que ser Deus, e assumirmos ao invés disso nosso lugar de direito no mundo como humildes bípedes na roda da criação com todas as outras criaturas."20 Dado hoje o kairós das mudanças climáticas, há uma urgente necessidade de arrependimento ou conversão.

“Suponha que realmente acreditemos que a devastação da terra é uma blasfêmia!” 21

Precisamos mudar: • da independência humana para a interdependência humana com o restante da criação; • de fazer separações baseadas em oposições e dualismos para priorizar equilíbrios e conexões inter-relacionadas; • do controle tecnológico para o respeito e o cuidado para com a criação e seus recursos e o uso balanceado dos mesmos, inclusive através de tecnologias adequadas; • da criação como mero palco para o culto humano para uma criação que pulsa com vida, com paixão e adoração a Deus; • do foco num Deus que age exclusivamente na história humana para o Deus ativo em,

“Voltem para o Senhor, nosso Deus, pois ele é bondoso e misericordioso; é paciente e muito amoroso e está sempre pronto para mudar de ideia e não castigar.” (Joel 2.13)

33


com e através das realidades espaciais de toda a criação, da qual os seres humanos são participantes; • de um foco na redenção da humanidade predominantemente cristocêntrico para um pensamento trinitariano, que leva mais a sério a criação, o Espírito e os inter-relacionamentos em todo o cosmo, sendo toda a criação o escopo da redenção; • de pecado como quebra de relacionamento só entre pessoas humanas e Deus para as formas pecaminosas com que são rompidos os relacionamentos com a criação; • da graça de Deus separada da natureza para a graça de Deus conhecida na, com, através e transformadora da natureza; • da transcendência que é espiritualizada e excluída da vida e de questões que tangem a criação para uma percepção do divino misteriosamente ativo em, com e através do que é criado; • da obsessão com progresso e desenvolvimento medidos em termos econômicos para o que vai resultar em vida mais sustentável para toda a criação;

34


• de um comprometimento para com o sistema do mercado global para uma visão inspirada da economia de Deus em favor do bem-estar de tudo, incluindo a própria terra; • de um foco apenas voltado para correções tecnológicas e mercadológicas para a cura e a salvação da criação.

35


Estima-se que mais de 60 mil pessoas ficaram desalojadas em consequência da inundação no distrito de Sunsari, sudeste do Nepal, em setembro de 2008. © LWF/DWS Nepal

36


V. A redenção de toda a criação

A ira de Deus não conduz para o julgamento mas para a redenção - não só dos seres humanos mas de toda a criação: "... na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus." (Romanos 8.21) Por causa da graça transformadora de Deus, nem tanto por causa do medo, somos empoderados de mudar nossas atitudes, estilos de vida e práticas - para consertar o estrago. Do jeito como as coisas estão agora, não podemos continuar com business as usual, ou seja, com a manutenção das tendências atuais. Pelo contrário, o Deus da graça, que está ativo através, com e na natureza, está revelando quão urgente é resgatar o significado espiritual de valorizar nosso bem comum juntamente com o restante da criação. 22

“A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.” (Romanos 8.19-21)

No quarto século, Santo Ambrósio escrevia: "Porque o mistério da incarnação de Deus é a salvação de toda a criação."23 Salvação é a direção da criação, e a criação é o lugar da salvação.24 Em outras palavras, na salvação se trata da saú-

37


Por acaso, isso é diferente do seu entendimento de salvação? Como?

“Pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coises. Nele tudo subsiste. … porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.” (Colossenses 1.16-17, 19-20)

38

de e do bem-estar de toda a criação. O ministério libertador, curador e inclusivo acontece dentro e em favor da criação. Em Cristo, Deus se identifica com todos os corpos que sofrem, incluindo o sofrimento da própria criação. Este enfoque cósmico de Cristo é desenvolvido principalmente em Colossenses 1. Aqui o horizonte da salvação ou redenção ou reconciliação é ampliado significativamente. Seu foco não está nos seres humanos; na verdade, eles nem mesmo são mencionados neste trecho. Em vez disso, aqui é celebrada e relação íntima de Cristo com toda a criação, desde antes do alvorecer dos tempos. A plenitude de Deus chega a morar corporalmente na criação. Os poderes deste mundo são colocados no seu devido lugar, e relações rompidas em toda a criação são restauradas ou reconciliadas. De forma semelhante em Romanos 8, a salvação não abrange somente a humanidade mas todo o cosmo. A própria criação tem saudade da revelação daqueles que, pelo poder do Espírito, virão resgatar toda a ordem criada e fazer brotar aquela justiça e paz pela qual toda a criação está gemendo. Isto se baseia na promessa bíblica de novos céus e nova terra (Isaías 65 e 66) e no relato da criação em que as pessoas humanas são incumbidas de cuidar da criação. A liberdade da qual a criação tem saudade se tornará realidade através de


agentes humanos transformados pelo Espírito, para trazer justiça sábia, curadora e restauradora para toda a criação.25 Na vida terrena de Jesus como retratada pelos evangelhos, vêmo-lo como alguém constantemente desafiando os dualismos tradicionais vigentes na vida do povo: masculino acima do feminino, ricos acima dos pobres, pessoas humanas acima da natureza. Seu amor e sua justiça compassivos abrangiam toda a criação, levando-o a transpor toda sorte de barreiras do seu tempo. De forma semelhante, mudanças climáticas atravessam fronteiras tanto naturais como construídas pelos homens, entre comunidades, entre estados e nações, entre terras, entre águas, entre vizinhos próximos e distantes, entre ricos e pobres, entre diferentes culturas, entre o passado e o futuro. Muitos dos seus efeitos não se importam com fronteiras. As mudanças do clima nos alertam que estamos nisso todos juntos. O futuro da vida no planeta é que está em jogo. Mas alguns sofrem o impacto e as consequências em escala muito maior que outros e são muito mais vulneráveis. Sob a mudança climática a natureza veio a ser "os novos pobres", tão vulnerável e supérflua como têm sido pessoas e comunidades pobres. É nisso que especialmente precisamos colocar nossa atenção e nossas prioridades. A igreja é muito mais do que só mais um ator na sociedade civil

Reflitam sobre exemplos no Evangelho em que Jesus transpôs fronteiras como essas.

39


“Entender a interconexão do ciclo de carbono no planeta significa que todas as ações estão interligados pelo seu efeito no ciclo de carbono – a solidariedade espiritual do povo de Deus através do espaço e do tempo.” 26

40

a tratar de mudanças climáticas. Ela tem uma dimensão global e mesmo cósmica, cruzando fronteiras de espaço e tempo. Ela inclui aqueles que contribuem de forma mais dramática para as mudanças climáticas bem como aqueles que são deixados mais vulneráveis nos processos; todos juntos, estão interconectados e transformados um no outro, como membros de UMA comunhão. A comunhão dos santos atravessa todas as fronteiras do tempo - as do passado e as do presente, bem como diz respeito às gerações futuras, cujas reais possibilidades de vida são colocadas em risco pelas mudanças do clima. Ademais, pelos sacramentos, as promessas de Deus se tornam tangíveis por elementos comuns da criação - água, pão e vinho - pelos quais somos redimidos, alimentados e empoderados. Somos redimidos por Deus, não à parte de, mas através do que foi criado. Fomos lavados nas águas da redenção no batismo e nutridos com o pão e o vinho da santa comunhão. Através destes sacramentos, o poder sustentador da vida das promessas de Deus se torna ativo em nós, como um aperitivo da festa por vir. A igreja dá testemunho da nova criação como uma comunhão, como o corpo de Cristo no mundo que Deus criou e que levará à consumação. Vivendo a partir dessa realidade presente e futura, os cristãos deveriam estar na vanguarda em apa-


rar os efeitos e mudar o curso das mudanças climáticas. Somos desafiados a ver novas possibilidades de reconciliação e restauração na criação de tal maneira que todos sejam beneficiados, não só uns poucos. A realidade da redenção de Deus é vivida à medida que nos empenhamos por maior justiça para todos. Não basta enfrentar as crises causadas por mudanças climáticas por medidas corretivas de curto prazo ou "soluções" que vão na mesma direção dos velhos caminhos do "progresso" econômico e humano que nos trouxeram até este ponto. Precisamos superar as visões estreitas, antropocêntricas, da vida e abraçar visões mais interligadas, nas quais Deus, os seres humanos e o restante da criação estão intimamente relacionados. Em agindo assim, as injustiças impostas a outras comunidades ou outras áreas da criação tornamse todas muito claras, bem como a nossa capacidade para pôr as coisas de novo em seus devidos lugares, em comunhão com o restante da criação.

“O todo terá alcançado a consumação pretendida somente quando esta criatura errante, patética, trágica e muito amada encontrar de novo o seu lugar de direito entre as criaturas.” 27

41


Glaciar de Trift, em Gadmental, Berner Oberland, Suíça. As três imagens mostram o recuo do gelo de 1948 a 2006. Da esquerda para a direita: 1948, 2002, 2006. © Greenpeace / Gesellschaft für ökologische Forschung/ G. Rohrmoser

42


NOTAS

1 Ver: www.windows.ucar.edu/tour/link=/earth/climate/ cli_effects.html&edu=high 2 Agbonkhianimeghe E. Orobator, Theology Brewed in an African Pot (Maryknoll: Orbis, 2008), p. 146. 3 Steven Bouma-Prediger e Brian Walsh, Beyond Homelessness (Grand Rapids: Eerdmans, 2008), p. 33. 4 Steven Bowman-Prediger e Peter Bakken (eds), Evocations of Grace: The Writings of Joseph Sittler on Ecology, Theology and Ethics (Grand Rapids: Eerdmans, 2009), p. 104. 5 Ibid., p. 157. 6 Larry Rasmussen e Cynthia Moe-Lobeda, "The Reform Dynamic," in Karen L. Bloomquist e John R. Stumme (eds), The Promise of Lutheran Ethics (Minneapolis: Fortress, 1998), p. 136. 7 VĂ­tor Westhelle, O Deus Escandaloso (SĂŁo Leopoldo, Editora Sinodal, 2008), p. 104. 8 Hino 682 in With One Voice: A Lutheran Resource for Worship (Minneapolis: Augsburg Fortress, 1995). 9 Michael Welker, God the Spirit (Minneapolis: Fortress, 2004), p. 334. 10 Catherine Keller "The Flesh of God" in Darby Kathleen Ray (ed.), Theology That Matters (Minneapolis: Fortress, 2006), p. 96. 11 Douglas John Hall, Professing the Faith (Minneapolis: Fortress, 1993), p. 167. 12 Sallie McFague, The Body of God: An Ecological Theology (Minneapolis: Fortress, 1993), esp. pp. 145; 147.

43


13 Hall, op. cit. (nota 11), p. 337. 14 Welker, op. cit. (nota 9), p. 160. 15 Hall, op. cit. (nota 11), p. 167. 16 McFague, op. cit. (nota 12), p. 114. 17 Sittler (1970) in Bouman-Prediger e Bakken, in op. cit. (nota 4), p. 80. 18 Michael S. Northcott, A Moral Climate: The Ethics of Global Warming (Maryknoll: Orbis, 2007), p. 161. 19 Carol J. Dempsey, The Prophets: A Liberation-Critical Reading (Minneapolis: Fortress, 2000), p. 179. 20 George Tinker, Spirit and Resistance: Political Theology and American Indian Liberation (Minneapolis: Fortress, 2004), p. 113. 21 Sittler, op. cit. (nota 17), p. 211. 22 Rolita Machila, "Why are Earth and God Angry?" item 20 (agosto de 2008) na sĂŠrie da FLM "Thinking It Over"; disponĂ­vel sob: www.lutheranworld.org/What_We_Do/Dts/DTS-Welcome.html 23 Exposition of the Christian Faith, V, VIII, 105b. 24 McFague, op. cit. (nota 12), p. 180. 25 N. Thomas Wright, in The New Interpreter's Bible, vol. 10 (Nashville: Abingdon 2002), pp. 596-7 26 Northcott, op. cit. (nota 18), p. 163. 27 Hall, op. cit. (nota 11), p. 322.

44


Apêndice

O que você vê, sente e crê face às mudanças climáticas? Uma pesquisa da FLM (2008) Que é diferente hoje? Em anos recentes, que mudanças gerais você percebeu no clima em sua área? Como isso afeta a terra, as plantas, o ar, os animais e as pessoas? Que é diferente daquilo que seus pais ou avós experimentaram? Quem? Quem ou o que está sendo especialmente afetado por essas mudanças? Quem principalmente carrega o peso? Quem ou o que é especialmente responsável pelas mudanças do clima? Por quê? Como explicam as pessoas essas mudanças? Por que estão acontecendo? (Histórias ou saberes populares bem como explicações mais científicas.) O que aconteceu de errado? Na relação entre os seres humanos e o restante da criação? Na relação entre pessoas? Na relação com Deus? Deus? Como você enxerga Deus relacionado ou envolvido com isso? Que perguntas você faria a Deus? Como fica afetada a sua fé? A que fontes espirituais você recorre? O futuro? Como você enxerga o futuro: para a sua comunidade, para gerações vindouras e para o mundo como um todo? O que você teme ou espera? Em que fontes espirituais você se apoia? Soluções? O que precisa mudar na sua sociedade? Que compromissos de escolha e compensação existem? O que está sendo feito que pode fazer diferença? Que soluções locais você iria propor?

45


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Deus, Criação e Mudanças Climáticas - Subsídios para reflexão e debate by Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) - Issuu