2015
IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL 3
Contribuições—do—Fórum—Teologia—e—Deiciência Publicação—coordenada—pelo— Programa Diaconia Inclusão da Igreja Evangélica de Conissão Luterana no Brasil Caixa Postal 2876 90001-970 Porto Alegre/RS Fone: (51) 3284 5400 secretariageral@ieclb.org.br Colaboração:—Ped.—Esp.—Cristian—Evandro—Sehnem,—Pa.—Ma.—Neli—Maske,—Pa.—Ma.—Iára—Müller,— P.—Murilo—Jung,—Pa.—Ma.—Sandra—Kamien—Tehzy,—Prof.—Dr.—Felipe—Koch—Buttelli.— Coordenação: Diác.—Ma.—Carla—Vilma—Jandrey Diagramação e capa: Revisão: Luis—Marcos—Sander—e—Martha—Maas Revisão Final: P.—Dr.—Mauro—Batista—de—Souza Gráica: Editora Sinodal Publicação realizada com apoio da Evangelisch–Lutherische Kirche in Bayern ”ELKB) Esta—publicação—está—disponível—em—formato— pdf —no—portal—www.luteranos.com.br. A—reprodução—parcial—ou—total—é—permitida—desde—que—indicada—a—fonte. Dados—catalográicos
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Índice Apresentação—
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Introdução—
07
As—deiciências—no—contexto—brasileiro—
09
Imago—Dei—e—deiciência—
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Orientações—para—uma—hermenêutica—a—partir—da—experiência—da—deiciência—
19
Deiciência—e—cura—
23
Práxis—comunitária—inclusiva—
27
Teologia—é—falar—de—sonhos:——Teologia—pública—e—a—inclusão—da—pessoa—com—deiciência—
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Principais—conclusões—do—Fórum—Teologia—e—Deiciência—
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Apresentação Está—em—suas—mãos—o—caderno—do—Fórum—Teologia—e—Deiciência.—Nele—está—reunido—um— conjunto—de—estudos—que—fazem—parte—de—uma—jornada—contínua.—São—um—dos—frutos—de—um— processo—de—relexão—que—a—IECLB—iniciou—mais—fortemente—em—1992,—com—a—instalação—de— uma—coordenação—especíica—para—tratar—do—tema—inclusão—da—pessoa—com—deiciência.—Ao— longo—desses—anos,—pessoas—com—deiciência,—familiares,—lideranças—comunitárias,—ministros,— ministras—e—estudantes—de—teologia—envolveram-se—em—relexões,—discussões—e—também—ensaiaram— formas— de— como— incluir— a— temática— da— deiciência— na— agenda— das— atividades— das— comunidades,—paróquias,—sínodos—e—também—nos—currículos—dos—centros—de—formação—teológica.— A—realização—do—Fórum—Teologia—e—Deiciência—é—precisamente—uma—iniciativa—que—buscou— ratiicar—a—importância—de—que—o—assunto—integre—cada—vez—mais—os—currículos—e—a—prática—dos— centros—de—formação—teológica—conveniados—com—a—IECLB.—O—Fórum—reuniu—saberes—relacionados—a—essa—trajetória—e—produziu—os—textos—presentes—nesta—cartilha.— A— Igreja— toda— é— convidada— a— derrubar— muros— de— exclusão— e— a— fomentar— comunidades— cada—vez—mais—inclusivas.—Este—material—é—um—convite—para—participar—da—construção—dessa— realidade.—Ele—foi—produzido—por—pessoas—com—deiciência,—por—pais—e—mães—de—pessoas—com— deiciência— e— por— outras— pessoas— que— convivem,— das— mais— variadas— formas,— com— pessoas— com—deiciência.—Portanto,—está—envolvida—gente—que—sabe—do—que—está—falando—e—escrevendo! Esperamos—que—este—material—desmistiique—alguns—discursos—sobre—deiciência—e—nos—motive—a—pensar—de—forma—criativa—sobre—como—construir—comunidades—que—encorajem—e—facilitem—a—plena—participação—de—todas—as—pessoas—na—vida—da—Igreja.—Uma—comunidade—mais— inclusiva—para—as—pessoas—com—deiciência—é—uma—comunidade—mais—inclusiva—para—todas—as— pessoas. Nestor—Paulo—Friedrich Pastor Presidente
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Introdução Esta—publicação—resulta—das—contribuições—e—relexões—geradas—durante—o—Fórum—Teologia— e—Deiciência,—realizado—dos—dias—quatro—a—seis—de—junho—de—2013,—na—cidade—de—São—Leopoldo/ RS.—Participaram—do—Fórum—representantes—de—dez—Sínodos—da—IECLB,—dos—três—centros—de— formação—teológica—conveniados—com—a—IECLB—”Faculdades—EST,—FLT—e—FATEV)—e—da—Fundação— Luterana—de—Diaconia,—além—da—equipe—organizadora—da—Secretaria—Geral.— O—Fórum—teve—como—objetivo—geral—promover—a—relexão—sobre—o—tema—Teologia—e—Deiciência—e,—como—objetivos—especíicos:—incentivar—a—inserção—do—tema—nas—agendas—sinodais—e— nos—currículos—dos—centros—de—formação—teológica—e—motivar—para—uma—prática—ministerial— inclusiva. A—realização—deste—Fórum—é—fruto—de—uma—longa—caminhada—do—Programa—Diaconia—Inclusão—da—Secretaria—da—Ação—Comunitária—da—IECLB.—São—mais—de—22—anos—atuando—por—meio—de— seminários—e—cursos,—com—o—objetivo—de—sensibilizar,—motivar,—orientar—e—propor—ações—para— a—construção—de—comunidades—mais—inclusivas.—O—Fórum—também—atende—a—uma—orientação— da—Rede—Ecumênica—em—Defesa—das—Pessoas—com—Deiciência—do—Conselho—Mundial—de—Igrejas— ”CMI),— que— sugere— às— Igrejas— membros— introduzir— o— assunto— deiciência— nos— currículos— das—instituições—teológicas,—pois—se—entende—que—esta—mudança—seria—uma—possibilidade—de— inluenciar—positivamente—as—atitudes—de—potenciais—ministros—e—ministras—para—a—inclusão—da— pessoa—com—deiciência. Os—textos—desta—cartilha—reletem—os—temas—estudados—durante—o—Fórum.—Inicialmente,—o— Pedagogo—Cristian—Evandro—Sehnem—nos—apresenta,—em—seu—texto,— As—Deiciências—no—Contexto—Brasileiro ,—abordando—conceitos—e—estatísticas—e—fazendo—uma—breve—explanação—sobre— as—políticas—públicas—inclusivas.— No—segundo—texto,—a—Pa.—Ma.—Neli—Maske—aborda—o—tema— Imago—Dei—e—Deiciência .—Maske— airma—que—todas—as—pessoas—foram—criadas—à—imagem—e—semelhança—de—Deus—e—que—é—urgente—o—resgate—de—uma—imagem—de—Deus—que—fala—ao—mundo—por—meio—do—fraco—e—do—inútil—aos— olhos—do—mundo,—para—os—discursos—inclusivos—e—exclusivos—da—Igreja—cristã. Orientações—para—uma—Hermenêutica—a—partir—da—Experiência—da—Deiciência —é—o—terceiro— texto,—escrito—pela—Pa.—Ma.—Iára—Müller.—Ela—expõe—alguns—pontos—a—serem—considerados—para— uma—hermenêutica—mais—inclusiva,—que—expanda—a—visão—sobre—Deus,—Jesus—Cristo—e—pessoas— com—deiciência—nos—textos—bíblicos,—e—que—modiique—a—maneira—de—ler—a—Bíblia,—levando—em— consideração—o—enfoque—de—quem—tem—a—experiência—da—deiciência. 9
Um—tema—que—está—presente—em—nossas—comunidades—e,—algumas—vezes,—de—maneira—não— tão—visível,—mas—que—na—sociedade—ganha—grande—repercussão—é—o—tema—Deiciência—e—Cura— que—é—abordado—pelo—P.—Murilo—Jung.—No—texto—seguinte,—Práxis—Comunitária—Inclusiva,—a—Pa.— Ma.—Sandra—Kamien—Tetzy—partilha—os—resultados—de—sua—dissertação—de—mestrado,—baseada— em—entrevistas,—acerca—de—como—podemos—ser—comunidade—mais—inclusiva.— Teologia—é—falar—de—sonhos:—Teologia—Pública—e—a—Inclusão—das—Pessoas—com—Deiciência— é—o—tema—apresentado—pelo—Dr.—Felipe—Gustavo—Koch—Buttelli.—O—autor—nos—desacomoda—ao— concluir—que— a—teologia—e—as—igrejas—devem—acolher—tão—profundamente—a—poderosa—mensagem—do—Evangelho—de—Cristo—e—se—solidarizar—tão—intimamente—com—a—realidade—da—deiciência— a—ponto—de—se—considerarem—positivamente—como—igrejas—e—teologias—deicientes .—Por—im,— partilhamos—as—principais—conclusões—do—Fórum. Esta—publicação—é—mais—um—passo—na—caminhada—rumo—a—uma—comunidade—mais—justa—e— inclusiva.—Desejamos—uma—boa—leitura,—um—bom—estudo,—e—que—Deus—possa—nos—animar—e—caminhar—conosco,—pois—inclusão—e—acessibilidade—são—boas—para—todas—as—pessoas. Diác.—Ma.—Carla—Vilma—Jandrey Coordenadora—de—Diaconia—Inclusão— P.—Dr.—Mauro—B.—de—Souza Secretário—da—Ação—Comunitária—
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As deiciências no contexto brasileiro Cristian—Evandro—Sehnem1 —O—presente—trabalho—apresenta—os—principais—conceitos—sobre—as—pessoas—com—deiciência— em—seu—processo—de—inclusão,—as—estatísticas—do—último—censo—do—IBGE—e,—ainda,—as—políticas— públicas—federais—voltadas—para—essa—parcela—da—população—nos—últimos—dois—anos.—Por—isso,— está—dividido—em—subcapítulos—para—facilitar—a—exposição—e—compreensão—destes—assuntos. 1. Conceitos e dados iniciais Quem—são—as—pessoas—com—deiciência?—Podemos—denominá-las—pessoas—com—necessidades—especiais?—E—por—que—diferenciá-las—das—demais—pessoas?—Estas—são—dúvidas—que—surgem— mesmo— em— projetos— de— apoio— a— este— público,— mas— que— devem— estar— claras— para— todas— as— pessoas.— Segundo—Brasil—”2009):— Pessoas—com—deiciência—são—aquelas—que—têm—impedimentos—de— longo—prazo—de—natureza—física,—mental,—intelectual—ou—sensorial,—os—quais,—em—interação—com— diversas—barreiras,—podem—obstruir—sua—participação—plena—e—efetiva—na—sociedade—em—igualdades—de—condições—com—as—demais—pessoas .—Este—é—o—conceito—mais—utilizado—atualmente—e— será—encontrado—com—frequência—em—documentos—e—pesquisas—na—área. Inicialmente,—é—importante—esclarecer—que—a—terminologia—correta—é— pessoa—com—deiciência —ou,—conforme—o—contexto,—estudante—com—deiciência,—trabalhador—ou—trabalhadora—com— deiciência—etc.—Nada—mais—de— portador ,— portadora ,— deiciente —ou— ppd ,—porque,—antes— de—tudo,—somos—pessoas,—e—a—deiciência—é—apenas—uma—dentre—inúmeras—características. As—condições—de—deiciência—são—sensoriais,—físicas,—intelectuais—e/ou—mentais.—Mas—agora— o—foco—deixa—de—estar—apenas—na—pessoa—”olhar—clínico)—e—passa—a—considerar,—também,—as— barreiras— existentes— nos— contextos— em— que— ela— está— ou— deveria— estar— inserida.— Pois— estas— barreiras—sociais—podem—e—geralmente—são—mais—impeditivas—que—a—condição—pessoal;—por— isso,—devem—ser— acessibilizadas .— Porém,—atenção—para—não—confundir— deiciência —com— necessidades—especiais .—Orienta— Fávero— ”2004):— Vale— esclarecer— que— a— substituição— de— deiciência— por— necessidades— especiais ,—ou—outro—termo—mais—amplo,—é—cabível—quando—a—intenção—for—se—referir—a—um—grupo— maior— de— pessoas— que— apresentam— algum— tipo— de— limitação— ou— diiculdade,— mas— não,— necessariamente,—têm—deiciência.—Ex.:—pessoas—com—obesidade—ou—idosas,—mulheres—grávidas,— 11
entre—outros .—Pois—as—condições—da—pessoa—com—deiciência—frente—às—barreiras—sociais—impedem— seu— ir— e— vir — com— autonomia— e— independência,— o— que— não— acontece— com— aquelas— pessoas—que—se—encontram—em—outras—situações,—mesmo—limitantes.—Por—isso—é—importante— atentarmos—para—as—terminologias. Imaginemos—uma—empresa—que,—tendo—mais—de—100—funcionários,—foi—orientada,—erroneamente,—a—atender—a—reserva—de—2%—a—5%—das—vagas—para— trabalhadores—com—necessidades— especiais .—O—proprietário,—confuso,—airmará,—diante—de—uma—iscalização—que—visita—sua—empresa,—que—atende—plenamente—a—legislação,—tendo—no—seu—quadro—funcionários—diabéticos,— gestantes— e— alguns,— ainda,— obesos.— Será— multado— e,— pior,— não— estará— contribuindo— com— a— inclusão—de—pessoas—com—deiciência.— Eis— aqui— o— ponto-chave— das— ações— airmativas.— As— pessoas— com— deiciência— devem— ser— discriminadas— para— a— inclusão— social.— Mas— trata-se— de— discriminação— positiva ,— porque— as— ações—airmativas —exigem—distinção,—diferenciação,—discriminação—do—grupo—a—ser—beneiciado—por—enfrentar—uma—desigualdade—que—se—busca—eliminar.— Compreender—a—aparente—dicotomia—entre—o—princípio—constitucional—da—igualdade—de—todos—perante—a—lei—e—o—tratamento— diferenciado—que—a—própria—Constituição—da—República—confere—às—pessoas—com—deiciência— é—fundamental—para—a—eicácia—e—aplicabilidade—das—normas—que—lhes—são—dirigidas —”GUGEL,— 2006,— p.— 45).— Assim,— justiicam-se— as— reservas— de— vagas,— isenções— de— impostos,— benefícios— sociais,—etc.—São—medidas—drásticas,—mas—temporárias,—do—contrário—tornar-se-ão—inúteis. Essa— discriminação— positiva— visa— eliminar— as— desvantagens— e— o— princípio— exclusor — que— herdamos—da—História,—ao—ponto—de—ninguém—mais—ser—considerado—pela—limitação—ou—aparência—e,—sim,—pela—humanidade—e—potencialidades—que—todos—e—todas—têm.— Se—considerarmos— as—quatro—eras—das—práticas—sociais—em—relação—a—pessoas—com—deiciência— —exclusão—”antiguidade—até—o—início—do—século—20),—segregação—”décadas—de—20—a—40),—integração—”décadas—de— 50—a—80)—e—inclusão—”década—de—90—até—as—próximas—décadas—do—século—21)— ,—este—lema—tem—a— cara—da—Inclusão —”SASSAKI,—2007,—p.—05).—Porém,—ninguém—se—engane,—acreditando—que—hoje— vivemos—apenas—a—integração—ou—inclusão:—a—tentativa—de—legalização—do—aborto—de—conceptos— com—deiciência—e—as—instituições—segregadoras—são—fatos—que—continuam—atuais. Cabe—esclarecer,—ainda,—a—diferença—entre—integração—e—inclusão.—Na—integração—a—pessoa— com—deiciência—é—que—deve—se—adaptar—à—sociedade—para—nela—conviver.—A—sociedade—mantém-se—inalterada,—não—se—modiica.—Mas—na—inclusão—a—sociedade—passa—a—ter—essa—obrigação— também,—como—já—foi—referido—acima,—porque—algumas—barreiras—são—intransponíveis—se—não— forem—adaptadas,—e—a—acessibilidade—surge—para—atender—essa—função—inclusiva. Eis—aí—o—papel—da—acessibilidade:— Condição—para—utilização,—com—segurança—e—autonomia,— total—ou—assistida,—dos—espaços,—mobiliários—e—equipamentos—urbanos,—das—ediicações,—dos— serviços—de—transporte—e—dos—dispositivos,—sistemas—e—meios—de—comunicação—e—informação,— por—pessoa—portadora—de—deiciência—ou—com—mobilidade—reduzida —”BRASIL,—Dec.—5.296/2004,— art.—8º).—Note-se—que—esta—é—mais—uma—herança—histórica:—se—as—pessoas—com—deiciência—fossem—incluídas—desde—o—início—dos—tempos,—essas—ações—já—não—seriam—necessárias.— É—preciso—esclarecer—que—a—acessibilidade—não—se—resume—apenas—a—rampas,—banheiros—e— elevadores.—São—seis—as—suas—esferas,—reproduzidas—abaixo: 1.—Arquitetônica:—elimina—barreiras—em—todos—os—ambientes—físicos—”internos—e—externos)— da—escola—[e—outros—ambientes],—incluindo—o—transporte; 2.— Comunicacional:— transpõe— obstáculos— em— todos— os— âmbitos— da— comunicação,— consi12
derada—nas—suas—diferentes—formas—”falada,—escrita,—gestual,—língua—de—sinais,—digital,—entre— outras); 3.—Metodológica:—facilita—o—acesso—ao—conteúdo—programático—oferecido—pelas—escolas,—ampliando—estratégias—para—ações—na—comunidade—e—na—família,—favorecendo—a—inclusão; 4.—Instrumental:—possibilita—a—acessibilidade—em—todos—os—instrumentos,—utensílios—e—equipamentos—utilizados,—nas—atividades—de—vida—diária,—no—lazer—e—recreação; 5.—Programática:—combate—o—preconceito—e—a—discriminação—em—todas—as—normas,—programas,—legislação—em—geral—que—impeçam—o—acesso—a—todos—os—recursos—oferecidos—pela—sociedade,—promovendo—a—inclusão—e—a—equiparação—de—oportunidades; 6.—Atitudinal:—extingue—todos—os—tipos—de—atitudes—preconceituosas—que—impeçam—o—pleno— desenvolvimento— das— potencialidades— da— pessoa— com— deiciência — ”SASSAKI,— 2009,— p.— 06).— Quando—essas—seis—esferas—da—acessibilidade—forem—consideradas,—em—todos—os—segmentos— da—sociedade,—raras—e—mesmo—nulas—serão—as—impossibilidades—de—quem—possui—uma—deiciência.— Deve-se—ressaltar,—todavia,—que—à—pessoa—com—deiciência—mantém-se—a—responsabilidade— de—”re-)habilitar-se—também.—O—processo—de—inclusão—é—uma—via—de—mão—dupla:—as—questões— sociais— cabem— à— sociedade— e— as— individuais— à— pessoa,— ao— indivíduo— ”só— e/ou— em— grupo).— E— aqui— entra— a— tecnologia— assistiva.— Tecnologia— Assistiva— é— uma— área— do— conhecimento,— de— característica—interdisciplinar,—que—engloba—produtos,—recursos,—metodologias,—estratégias,— práticas— e— serviços— que— objetivam— promover— a— funcionalidade,— relacionada— à— atividade— e— participação,—de—pessoas—com—deiciência,—incapacidades—ou—mobilidade—reduzida,—visando— sua— autonomia,— independência,— qualidade— de— vida— e— inclusão— social — ”CBTA,— 2008,— p.— 09).— E,—mesmo—que—a—tecnologia—assistiva—remeta—às—acessibilidades—universais,—é—na—adaptação— pessoal,—de—cada—indivíduo—que—faz—especial—diferença.—Como—exemplo,—pensemos—em—uma— pessoa—cega:—o—piso—tátil—é—a—acessibilidade—e—a—bengala-guia,—a—tecnologia—assistiva.—Na—internet,—outro—exemplo:—o—site—sem—barreiras—será—a—acessibilidade—e—o—software—leitor—de—tela—a— tecnologia—assistiva. Mas,—ainal,—há—tantas—pessoas—com—deiciência—que—justiiquem—todos—esses—conhecimentos—e—ações? É—importante—salientar—que—o—apoio—e—investimento—é—válido—mesmo—que—seja—para—uma—só— pessoa,—mas—a—tabela—abaixo—responde—essa—questão—com—as—estatísticas—do—último—censo—do— IBGE—no—Brasil.—Deve-se—lembrar—que—a—população—total—era—de—190.755.799—pessoas—”100%).
TEM—DIFICULDADE—PERMANENTE—DE—ENXERGAR?—”SE— UTILIZA ÓCULOS OU LENTES DE—CONTATO,—FAÇA—SUA—AVALIAÇÃO—QUANDO—OS—ESTIVER— UTILIZANDO)
Não consegue de modo algum: 528.624— Pessoas
Grande di- Alguma dii- Total: iculdade: culdade: 6.056.684— Pessoas
29.206.180— Pessoas
35.791.488— Pessoas
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TEM—DIFICULDADE—PERMANENTE—DE—OUVIR?—”SE—UTILIZA— APARELHO—AUDITIVO,—FAÇA— SUA—AVALIAÇÃO—QUANDO—O— ESTIVER—UTILIZANDO) TEM—DIFICULDADE—PERMANENTE—DE—CAMINHAR—OU— SUBIR—DEGRAUS?—”SE—UTILIZA— PRÓTESE,—BENGALA—OU—APARELHO—AUXILIAR,—FAÇA—SUA— AVALIAÇÃO—QUANDO—O—ESTIVER—UTILIZANDO)
347.481— Pessoas
1.799.885 Pessoas
7.574.797 Pessoas
9.722.163 Pessoas
740.456 Pessoas
3.701.790 Pessoas
8.831.723 Pessoas
13.273.969 Pessoas
Para—as—pessoas—com—deiciência—intelectual—e/ou—mental—não—se—indicaram—níveis—de—limitação.—Apenas—a—pergunta—e—duas—possibilidades—de—resposta:—sim—ou—não.— Tem— alguma— deiciência— mental/intelectual— permanente— que— limite— as— suas— atividades— habituais,—como—trabalhar,—ir—à—escola,—brincar,—etc? —Total— —2.617.025—pessoas. Por— im,— a— título— de— conhecimento,— nos— últimos— anos— têm-se— incluído— as— pessoas— com— transtornos— mentais— ”esquizofrenia,— transtorno— bipolar,— etc.)— no— grupo— de— pessoas— com— deiciência.— Curioso— porque— há— tempos— busca-se— diferenciar— deiciências— de— doenças— e— agora— faz-se— o— caminho— inverso.— E— também— tem— crescido— um— movimento— denominado— SULP— — Surdos— Usuários— de— Língua— Portuguesa,— criado— por— pessoas— com— deiciência— auditiva— pós-linguística.— Esse— movimento— diverge— do— grupo— de— pessoas— surdas— usuárias— da— LIBRAS— e— do— entendimento— de— que— todos— nesta— condição— usam-na. 2. Políticas públicas inclusivas Abaixo—estão—listadas—as—principais—leis—de—apoio—a—pessoas—com—deiciência,—mas—apenas— dos—dois—últimos—anos,—para—não—nos—estendermos—em—demasia—neste—artigo. Mesmo—que—a—legislação—não—abarque—a—amplitude—das—políticas—públicas—brasileiras,—é—por— ela—que—podemos—visualizar—suas—principais—evoluções,—organização—e—objetivos. Lei— Complementar— nº— 142,— de— 8— de— maio— de— 2013:— Regulamenta— o— §— 1º— do— art.— 201— da— Constituição—Federal,—no—tocante—à—aposentadoria—da—pessoa—com—deiciência—segurada—do— Regime—Geral—de—Previdência—Social— —RGPS.— Texto—em:—http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LCP/Lcp142.htm Decreto—Federal—nº—7.988,—de—17—de—abril—de—2013:—Regulamenta—os—arts.—1º—a—13—da—Lei—nº— 12.715/2012,— que— dispõem— sobre— o— Programa— Nacional— de— Apoio— à— Atenção— Oncológica— — PRONON—e—o—Programa—Nacional—de—Apoio—à—Atenção—da—Saúde—da—Pessoa—com—Deiciência— —PRONAS/PCD.— Texto— em:— http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Decreto/D7988. htm Decreto—Federal—nº—7.984,—de—8—de—abril—de—2013:—Regulamenta—a—Lei—nº—9.615/1998,—que— institui—normas—gerais—sobre—desporto.—”15%—dos—recursos—para—o—para—desporto). 14
Texto— em:— http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Decreto/D7984. htm Lei—Federal—nº—12.796,—de—4—de—abril—de—2013:—Altera—a—Lei—no—9.394/1996,—que—estabelece— as—diretrizes—e—bases—da—educação—nacional,—para—dispor—sobre—a—formação—de—proissionais— da—educação—e—dar—outras—providências.—”Ingresso—aos—4—anos—e—atendimento—educacional— especializado).— Texto—em:—http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12796.htm Lei—Federal—nº—12.764,—de 27—de—dezembro—de—2012:—Institui—a—Política—Nacional—de—Proteção— dos—Direitos—da—Pessoa—com—Transtorno—do—Espectro—Autista;—e—altera—o—§—3º—do—art.—98—da—Lei— nº—8.112/1990.— Texto—em:—http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Lei/L12764.htm Lei—Federal—nº—12.738,—de—30—de—novembro—de—2012:—Altera—a—Lei—no—9.656/1998,—para—tornar—obrigatório—o—fornecimento—de—bolsas—de—colostomia,—ileostomia—e—urostomia,—de—coletor— de—urina—e—de—sonda—vesical—pelos—planos—privados—de—assistência—à—saúde.— Texto—em:—http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Lei/L12738.htm Portaria—Interministerial—nº—362,—de—24—de—outubro—de—2012:—Dispõe—sobre—o—limite—de—renda—mensal—dos—tomadores—de—recursos—nas—operações—de—crédito—para—aquisição—de—bens—e— serviços—de—Tecnologia—Assistiva—destinados—às—pessoas—com—deiciência—e—sobre—o—rol—dos— bens—e—serviços.— Texto— em:— ftp://ftp.saude.sp.gov.br/ftpsessp/bibliote/informe_eletronico/2012/iels. out.12/Iels203/U_PT-INTERM-MF-MCTI-SDH-362_241012.pdf Decreto—Federal—nº—7.823,—de—9—de—outubro—de—2012:—Regulamenta—a—Lei—nº—10.048/2000,—e— a—Lei—nº—10.098/2000,—quanto—às—instalações—relacionadas—aos—Jogos—Olímpicos—e—Paraolímpicos—de—2016.— Texto— em:— http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Decreto/D7823. htm Decreto—Federal—nº—7.802,—de—13—de—setembro—de—2012:—Altera—o—Decreto—nº—5.342/2005,— que—regulamenta—a—Lei—nº—10.891/2004,—que—institui—a—Bolsa-Atleta.— Texto— em:— http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Decreto/D7802. htm Decreto—Federal—nº—7.617,—de—17—de—novembro—de—2011:—Altera—o—Regulamento—do—Benefício—de—Prestação—Continuada— —BPC,—aprovado—pelo—Decreto—no—6.214/2007.— Texto— em:— http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Decreto/D7617. htm Decreto—Federal—nº—7.612,—de—17—de—novembro—de—2011:—Institui—o—Plano—Nacional—dos—Direitos—da—Pessoa—com—Deiciência— —Plano—Viver—sem—Limite.— Texto— em:— http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Decreto/D7612. htm 15
Decreto—Federal—nº—7.611,—de—17—de—novembro—de—2011:—Dispõe—sobre—a—educação—especial,— o—atendimento—educacional—especializado—e—dá—outras—providências.— Texto— em:— http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Decreto/D7611. htm Lei—Federal—nº—12.424,—de 16—de—junho—de—2011:—Altera—a—Lei—nº—11.977/2009,—que—dispõe— sobre—o—Programa—Minha—Casa,—Minha—Vida— —PMCMV—”mínimo—de—3%—das—residências—adaptadas).— Texto—em:—http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Lei/L12424.htm Lei—Estadual—nº—13.739,—de—08—de—junho—de—2011:—Dispõe—sobre—percentual—na—distribuição— ou—venda—de—unidades—habitacionais—populares—ou—lotes—individuais—urbanos—para—pessoas— com—deiciência—”mínimo—de—10%—das—residências—adaptadas).— Texto—em:—http://www.faders.rs.gov.br/legislacao/5/435 Notas 1.—
—Assistente-técnico—em—Educação—no—Núcleo—de—Acessibilidade—na—Universidade—Federal— de—Santa—Maria.—Pedagogo—com—ênfase—em—Educação—Especial.—Santa—Maria/RS
Referências bibliográicas BRASIL. Cartilha do Censo 2010: Pessoas com Deiciência. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República/Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deiciência/Coordenação-Geral do Sistema de Informações sobre a Pessoa com Deiciência. Brasília: SDH-PR/SNPD, 2012. BRASIL. Decreto Federal nº 6.949, de 25 de agosto de 2009. Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deiciência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm>. BRASIL. Decreto Federal nº 5.296, de 2 de dezembro de 2004. Regulamenta as Leis nos 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especiica, e 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deiciência ou com mobilidade reduzida. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil/_ato2004-2006/2004/decreto/d5296.htm>. CBTA; Comitê Brasileiro de Tecnologia Assistiva. Relatório Anual 2007. Brasília: abril de 2008. Disponível em: <www.acessobrasil.org.br/CMS08/seo-publicacoes-6.htm>. COSTA, Maria Machado da. O reconhecimento da pessoa com transtorno mental severo como pessoa com deiciência: uma questão de justiça. Revista Inclusive: Inclusão e Cidadania, 15 jul. 2011. Disponível em: <www.inclusive.org.br/?p=20021>. FÁVERO, Eugênia Augusta Gonzaga. Direitos das pessoas com deiciência: garantia de igualdade na diversidade. Rio de Janeiro: WVA Editora, 2004. GUGEL, Maria Aparecida. Pessoas com deiciência e o direito ao concurso público – reserva de cargos e empregos públicos – administração pública direta e indireta. Goiânia: Editora UCG, 2006. SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: acessibilidade no lazer, trabalho e educação. Revista Nacional de Reabilitação (Reação), São Paulo, ano XII, mar./abr. 2009. _____. Nada sobre nós, sem nós: Da integração à inclusão. Revista Nacional de Reabilitação, ano X, n. 57, jul./ago. 2007. SULP. Surdos Usuários da Língua Portuguesa. Disponível em: <http://sulp-surdosusuariosdalinguaportuguesa.blogspot.com.br/>. 16
Imago Dei e deiciência Pa.—Ma.—Neli—Maske1 1. Imago Dei - a abundância do ser E—Deus—viu—que—tudo—o—que—havia—feito—era—bom —”Gn—1.18) As—pessoas—e—famílias—que—convivem—com—a—deiciência—na—sociedade—atual—experimentam— de—forma—constante—a—decepção—de—serem—vistas—e—classiicadas—dentro—dos—modelos—sociais— baseados—nas—aparências.—Esses—modelos—são—construídos—a—partir—do—parâmetro—dualista—de— correto—ou—incorreto. As—pessoas—cristãs—têm—muitas—coisas—boas—para—fazer—junto—às—pessoas—com—deiciência—e— suas—famílias.—A—prática—de—Jesus—nos—revela—a—vontade—de—Deus—em—favor—do—ser—humano—e— contra—toda—forma—de—discriminação—e—exclusão—da—sociedade. Somos— criaturas— de— Deus,— com— nossas— diferenças— e— capacidades— únicas.— Se— nossa— vida— fosse—permeada—cada—dia—por—esta—certeza,—muito—sofrimento,—exclusão—ou—abandono—não— existiriam—no—meio—de—nós.—O—que—nos—falta—para—viver—com—esta—certeza—e—amenizar—as—dores— do—mundo? Saber—que—somos—criados—por—Deus—nos—leva—para—a—dimensão—da—graça—de—Deus.—Essa—graça—nos—faz—sentir—seguros—e—com—coragem—frente—aos—desaios—e—diiculdades—da—vida.—Sermos— pessoas—criadas—à—imagem—de—Deus—nos—permite—pensar—e—acreditar—que—a—deiciência—é—só— mais—uma—característica—dentre—outras—presente—na—criação—de—Deus.— Sentir— que— somos— parte— deste— plano— da— criação— divina— nos— permite— visualizar— a— pessoa— com—deiciência—em—tudo—o—que—ela—é—como—ser—humano—e—não—fazer—dela—o—que—não—é—ou—o— que—lhe—falta—por—causa—da—sua—deiciência.—Nesta—graça—criadora—reside—a—manifestação—divina—da—abundância—de—ser—aos—olhos—de—Deus.—Trata-se—de—um—desaio—para—nós—humanos:— perceber—a—abundância—de—ser—nas—pessoas—com—deiciência. A—certeza—de—que—somos—pessoas—criadas—à—imagem—de—Deus—nos—faz—pensar:—Quem—eu— sou?—Que—sentido—tem—a—minha—vida?—O—que—Deus—estava—pensando—quando—me—criou?—Por— que—Deus—teve—esse—cuidado—para—que—eu—fosse—pessoa—única—nesse—imenso—mundo?—O—que— Ele—teria—reservado—para—mim,—qual—era—o—seu—projeto—para—minha—vida? As—palavras—têm—poder—e—criam—a—realidade.—O—que—eu—ouço—molda—o—meu—ser—e—a—minha— 17
presença—no—mundo. Desde—o—início—da—nossa—vida,—as—palavras—nos—marcam—e—contribuem—para—deinir—o—que—é— certo—e—o—que—é—errado.——As—palavras—ouvidas—gravam—na—nossa—mente—as—emoções—que—elas— expressam.—Essas—emoções—modelam—nossos—sentimentos—e—nossa—visão—de—nós—mesmos—e— das—outras—pessoas.—O—grande—desaio—da—teologia—e—da—mensagem—bíblica—anunciada—pela— Igreja—é—transmitir—a—graça—de—Deus—na—sua—criação— — a—sua—imagem—e—semelhança — —a—todas— as—pessoas,—sem—distinção.— O—discurso—da—Igreja—deve—ser—sempre—de—compromisso—com—aquelas—e—com—aqueles—que— sofrem—e—deve—estar—de—acordo—com—as—premissas—do—evangelho—de—Jesus—Cristo.—Esta—mensagem,—transmitida—em—palavras,—eleva—a—autoestima—e—leva—as—pessoas—a—acreditarem—nas—suas— capacidades—oriundas—da—graça—de—Deus.— O—que—Deus—diz—sobre—quem sou?—Como—vasos—nas—mãos—do—oleiro,—somos—modelados—por— Deus.—Ouvir—esta—palavra—de—Deus—e—compreender—suas—indicações—nos—ajuda—a—decidir—os— caminhos—que—vamos—seguir. As—pessoas—com—deiciência—convivem—com—uma—diiculdade—ainda—mais—complexa—do—que— qualquer—outra—pessoa—no—que—se—refere—ao—que—os—outros—dizem—sobre—o—seu—eu.—O—mundo— de—aparências—onde—vivemos—deposita—uma—pesada—carga—sobre—as—pessoas—com—deiciência— e—sobre—suas—famílias.—Pesa—muito—o—que—dizem—amigos,—Igreja,—escola,—família—e—sociedade— sobre—aquela—pessoa—considerada—incapaz—de—ser—por—ela—própria.— A—pessoa—com—deiciência—é—vista—como—objeto,—exposto—a—qualquer—opinião,—e—jamais—como— sujeito—das—suas—decisões,—desejos—ou—sonhos.—Portanto,—o—exercício—de—ouvir—a—voz—de—Deus— e—os—Seus—planos—para—a—vida—da—pessoa—com—deiciência—deve—ser—praticado—não—só—por—ela,— mas—também—pelas—pessoas—em—seu—entorno—”família,—escola,—comunidade—cristã).—Não—é—suiciente—a—pessoa—entender—o—plano—de—Deus—se—quem—está—em—seu—entorno—a—sufoca—e—não—a— compreende. A—questão—da—imagem—para—o—ser—humano—é—fundamental—para—a—sua—sobrevivência—e—razão—de—ser.—Para—as—pessoas—com—deiciência—não—é—diferente.—A—diiculdade—reside—nos—olhos— de—quem—vê—e—deine—de—forma—dualista—o—que—é—e—o—que—não—é,—o—que—vale—e—o—que—não—tem— nenhum—valor—para—a—sociedade.— A—luta—por—sobreviver—e—mostrar—que—se—tem—valor—é—mais—difícil—para—as—pessoas—com—deiciência.—Elas—enfrentam—grande—desgaste—para—ganhar—espaços,—serem—ouvidas—e—terem—seus— lugares—na—sociedade.—De—novo,—os—sujeitos—de—possíveis—mudanças—icam—relegados—à—condição—de—objetos—da—bondade—e—das— boas—e—misericordiosas —almas—da—sociedade. Em—nível—de—discurso—e—compromisso—de—todas—as—Igrejas—com—as—pessoas—com—deiciência,— há—muito—ainda—por—fazer.—Talvez—o—mais—importante—seja—deinir—o—discurso—teológico—sobre— a—deiciência. Ainda—fala—mais—alto—o—discurso—da—deiciência—como—um—azar—ou—falta—de—sorte—da—pessoa— e—da—família.—Fica—enfraquecido—o—discurso—e—a—possibilidade—de—descobrir—na—deiciência—um— sentido—de—vida. Hoje—muitas—pessoas—buscam—a—imagem—do—Deus—Todo-Poderoso,—da—prosperidade—e—da— glória—que—colabora—para—a—exclusão—das—pessoas—humildes—em—sua—fé—e—que—são—consideradas—fracas—diante—de—Deus.—As—pessoas—com—deiciência—sob—a—lógica—da—teologia—da—glória—são,— 18
muitas—vezes,—ridicularizadas—na—sua—forma—de—ver—e—sentir—Deus—na—sua—vida.—Ficam—expostas— à—humilhação—e—à—negação—de—suas—capacidades. Os—milagres—que—se—esperam—de—um—Deus—Todo-Poderoso—são—construídos—no—imaginário— humano—longe—de—toda—possibilidade—de—um—Deus—fraco—e—humilde—que—na—cruz—realizou—o— maior—ato—de—amor—ao—mundo.—O—poder—criado—por—regras—humanas—toma—distância—deste— Deus— da— cruz— e— regula— a— vida— e— comportamento— das— pessoas— cristãs,— classiicando-as— em— melhores—e—piores.— Na— lógica— da— teologia— da— glória— e— do— Todo-Poderoso— não— existe— a— possibilidade— de— ver— as— pessoas— com— deiciências— criadas— à— imagem— de— Deus;— não— se— permite— a— fraqueza,— a— feiura— e— a— fragilidade— nessa— visão— teológica.— O— Todo-Poderoso— é— perfeito .— 2. Imago Dei em Jesus Cristo Jesus—Cristo,—que—vem—a—nós,—entende—a—fragilidade—humana—e—se—identiica—com—ela—por— meio—de—sua—experiência—na—cruz.—Ele—sofreu—primeiro—e—abriu—o—caminho—da—esperança—e—da— coniança—na—misericórdia—de—Deus—para—com—o—mundo.—É—essa—graça—que—nos—move—a—crer— e—coniar—no—seu—perdão—e—amor—incondicional—sem—fazer—diferença—ou—acepção—de—pessoas. A—imagem—de—Deus—a—partir—de—Jesus—Cristo—nos—permite—entender—que—nenhum—sofrimento— se—compara—ao—do—Filho—de—Deus—na—cruz;—por—outro—lado,—a—pessoa—em—sofrimento—encontra— alívio—e—coniança—nesse—Deus—humilde—e—compreensivo.—Nele—encontramos—o—poder—da—cura,— do—alívio,—a—libertação—do—que—nos—oprime,—do—que—nos—persegue—e—torna—nossa—vida—dolorosa;— ele—é—nosso—refúgio—e—salvação. Na—ressurreição—vemos—a—esperança.—Ela—nos—leva—a—criar—uma—nova—visão—de—mundo,—de— humanidade.—Formam-se—novos—parâmetros—e—linguagem—nas—relações—cotidianas.—Somos— pessoas—diferentes—e—não—deicientes.—Únicos—por—sermos—imagem—de—Deus.—Somos—mais—e— não—menos.—Somos—abundância—e—não—resto.—Somos—espírito—e—alma—livres—e—não—só—corpo— limitado. Para—Deus,—somos—tesouro—em—vasos—de—barro.—Jesus—é—o—novo—que—se—apresenta—em—contraposição—às—leis—de—pureza—observadas—no—Antigo—Testamento.—Ele—vem—instaurar—um—mundo—novo—em—cada—toque,—no—ato—de—deixar-se—tocar,—em—cada—gesto—de—ouvir—e—dar—atenção— aos—gemidos—e—ao—sofrimento—humano.— Jesus—rompe—e—destrói—para—sempre—toda—barreira—de—discriminação—e—cria—uma—nova—visão— de—mundo,—de—relações—que—unem—o—espiritual—com—o—prático—e—necessário—da—vida—humana. Como—resultado—disso,—vemos—nos—relatos—registrados—nos—evangelhos—como—as—pessoas— se—sentiam—dignas—e—importantes,—suas—vidas—tinham—sentido—e—um—novo—começo,—novas—descobertas—e—possibilidades. Santo—Agostinho—dizia:— A—deformidade—de—Cristo—é—o—que—nos—forma.—Deformado—ao—ser— cruciicado—e—renovado—ao—ressuscitar. — Sua deformação é nossa beleza.” Em— sua—Teologia—da—Cruz,—Lutero—nos—fala—do—Deus—abscôndito— —oculto.—Para— Lutero,—a— chave—para—entender—as—escrituras—é—o— paradoxo .—Trata-se—de—concepções—aparentemente— contraditórias—e,—por—isso,—incompreensíveis—ao—ser—humano,—mas—que—encerram—verdades: -—Para—a—pessoa—cristã—viver—é—necessário—morrer. 19
-—A—pessoa—humilhada—será—exaltada. -—A—pessoa—rica—é—pobre. -—A—sabedoria—é—loucura. Estes—paradoxos—têm—o—seu—resumo—no—símbolo—da—cruz.—Ali—está—a—fraqueza,—a—vergonha— da—humanidade,—a—loucura—que—Deus—tomou—sobre—si—oferecendo—em—troca—a—vida—eterna—e—a— esperança.—A—redenção—da—humanidade—na—imagem—de—um—Deus—misericordioso—e—de—amor. Observando— a— realidade— atual— das— Igrejas— cristãs,— provavelmente— não— conseguiremos— resolver— o— problema— das— pessoas— em— relação— à— discriminação— ou— à— classiicação— e— ao— lugar— das— pessoas— com— deiciência— nas— comunidades— cristãs.— Talvez— jamais— entendamos— o— amor— incondicional— de— Deus,— porque— sempre— vamos— medir— o— amor— de— Deus— a— partir— dos— nossos— parâmetros— humanos— regrados— por— doutrinas— que— classiicam— as— pessoas— como— boas— ou— más,— certas— ou— erradas,— merecedoras— ou— não— do— amor— de— Deus.— 3. Sigamos reletindo sobre as seguintes questões: Acredito—realmente—ser—parte—da—criação—de—Deus?— Alguém—cria—algo—dizendo:— Isso—não—vai—servir—para—nada ? O—que—nos—faz—sentir—livres—apesar—de—um—corpo—atroiado,—paralisado? O—que—nos—atroia—o—espírito—e—não—nos—permite—viver—a—liberdade—que—Cristo—nos—deu?— Na—nossa—Igreja—cristã—e—nos—espaços—cotidianos,—pensamos—a—partir—da—lógica—da—abundância—do—ser—que—Deus—nos—deu—para—tentar—modelar—uma—linguagem—e—gestos—que—valorizem— o—que—temos—e—somos—e—que—não—só—ressaltem—o—que—nos—falta—”pensando—nas—pessoas—com— deiciência)? Como—reforçar um—discurso—cristão—que—defenda—o—justo—equilíbrio—entre—ser—imagem—de— Deus—e—as—aparências—do—mundo? Buscar—na—teologia—da—cruz—e—na—teologia—da—glória:—contribuições—e—incompreensões—de— cada—uma—para—entender—a—graça—de—Deus. Notas 1.—
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—Neli—Maske:—mestrado—em—Aconselhamento—Pastoral,—bacharelado—em—Teologia.—Pastora.— Matelândia/PR.
Orientações para uma hermenêutica a partir da experiência da deiciência Pa.—Ma.—Iára—Müller—1 Existem—variadas—hermenêuticas,—entre—outras:—a—feminista,—a—ecológica,—a—hermenêutica— homoafetiva,—a—hermenêutica—negra,—mulherista,—indígena,—de—dalits/intocáveis—na—Índia.—Todas—elas—chamam—a—atenção—para—um—olhar—mais—cuidadoso,—mais—especíico—para—os—textos— bíblicos,—para—abraçarmos—todas—as—diferenças.— Repito—aqui—o—que—Umberto—Eco—escreveu:— Como—se—aprende—sobre—a—diferença—humana?— Deve-se—ensinar—às—crianças—que—os—seres—humanos—são—muito—diferentes—entre—si—e—explicarlhes—em—que—se—diferenciam,—para—então—mostrar—que—essas—diferenças—podem—ser—uma—fonte— de—enriquecimento—para—todos. Também—quero—lhes—trazer—ao—ouvido—as—palavras—de—Boaventura—de—Sousa—Santos,—que— diz:— Temos—o—direito—a—sermos—iguais—quando—a—diferença—nos—inferioriza.—Temos—o—direito—a— sermos—diferentes—quando—a—igualdade—nos—descaracteriza.—As—pessoas—querem—ser—iguais,— mas—querem—respeitadas—suas—diferenças . Sendo—assim,—apresento-lhes—alguns—pontos,—um—desaio—para—um—novo—jeito—de—olhar,—a— im—de—considerar—uma—hermenêutica—mais—inclusiva—que—expanda—a—visão—de—Deus,—de—Jesus— Cristo,—das—pessoas—com—deiciência—nos—textos—bíblicos—e—modiique—a—maneira—de—ler—a—Bíblia,—levando—em—consideração—o—enfoque—de—quem—tem—a—experiência—da—deiciência. Este—encontro—que—nos—reúne—começou—como—um—sonho—e—está—de—consonância—com—o— trabalho da—Rede—Ecumênica—em—Defesa—das—Pessoas—com—Deiciência,—ou—Ecumenical—Disability—Advocates—Network,—do—CMI.—Esta—rede—tem—por—objetivo—abordar as—preocupações—das— pessoas—com—deiciência—na—Igreja—e—na—sociedade—em—geral.—Ela—foi—estabelecida—na—oitava— Assembleia—do—CMI—em—Harare,—no—Zimbábue,—em—1998.— EDAN—quer—que—as—Igrejas-membro—do—CMI—reconheçam—que—as—pessoas—com—deiciência— foram— historicamente— marginalizadas,— que— suas— vozes— não— foram— ouvidas— e— seus— dons— e— contribuições—foram—ignorados—por—muitos—anos—dentro—e—fora—da—Igreja.—Quer—assegurar—que— as—Igrejas—entendam—que,—para—ser—realmente—Igreja—de—Jesus—Cristo,—incluir—as—pessoas—com— deiciência—não—é—uma—opção—ou—trabalho—social,—mas—é—uma—característica—da—própria—Igreja,— seguindo—os—passos—de—Jesus. Em—2006,—na—IX—Assembleia—do—CMI,—em—Porto—Alegre,—as—pessoas—com—deiciência—reunidas— 21
na—pré-assembleia—da—então—já—criada—EDAN—assumiram—um—chamado—urgente—de—trabalhar,— junto—com—movimentos—ecumênicos,—por uma—compreensão—dinâmica—e—global—de justiça,—o— que—requer,—se—não—exige,—uma—transformação—nos—relacionamentos—interpessoais—em—todos— os—níveis—da—vida—eclesiástica—e—civil—em—direção—a—comunidades—mais—justas—e—inclusivas. Assim—sendo,—a—EDAN—deiniu—suas—oito—prioridades—a—partir—da—assembleia—de—2006,—em— Porto—Alegre,—a—serem—conquistadas—ou—implantadas—até—a—próxima—assembleia,—na—Coreia—do— Sul.—Entre—elas,—cito—somente—três:—1)—introduzir—o—assunto—deiciência—nas—Igrejas-membro;—2)— introduzir—o—assunto—deiciência—nas—instituições—teológicas;—3)—trabalhar—o—assunto—deiciência—junto—aos—movimentos—internacionais—de—direitos—humanos. Nosso—foco,—então,—é—o—assunto—deiciência—nas—instituições—teológicas—da—IECLB.—Por—que— tratar—do—assunto—deiciência—nas—nossas—instituições?—Porque—a—própria—pregação—e—muitas— atitudes—da—Igreja—proporcionaram—profundas—atitudes—de—exclusão—e—isolamento—da—pessoa— com—deiciência.—Falar—sobre—deiciência—na—teologia—é—visto—como—uma—possibilidade—de—inluenciar—positivamente—as—atitudes—de—potenciais—ministros—e—ministras—e—outras—lideranças— de—Igreja.— De— início,— pensou-se— em— fazer— palestras— com— estudantes— de— teologia— durante— o— tempo— de—formação.—Depois,—pensou-se—em—oferecer—uma—disciplina—especíica—sobre—deiciência—e— todas—as—suas—ramiicações,—como—deiciência—e—gênero,—deiciência—e—violência,—legislação,— psicologia—da—deiciência,—hermenêutica,—estatísticas,—terminologia,—etc.—Também—se—pensou— na— possibilidade— de— inserir— o— assunto— deiciência— dentro— de— outras— disciplinas— teológicas,— como—parte—delas.—Tudo—isso—foi—tentado—e—experimentado.— A—Faculdades—EST—foi—pioneira—em—cursos—sobre—teologia—e—deiciência—para—estudantes,— cursos—de—extensão—sobre—deiciência,—como,—por—exemplo,—língua—de—sinais,—cursos—com—a— Rede—Sinodal,—envolvendo—estudantes—da—EST,—corpo—docente,—funcionárias—e—funcionários—da— Rede,—e—também—introduziu—o—assunto—em—diferentes—disciplinas,—mas—não—como—algo—ixo—no— seu—currículo,—e—sim—esporádico.—Estas—mesmas—tentativas—aconteceram—em—muitos—lugares— no—mundo,—nas—regiões—do—CMI,—e—chegou-se—até—a—montar—um—rascunho—de—um—currículo— básico—lexível—o—suiciente—para—adaptações—nos—diferentes—contextos.— A—razão—de—falarmos—sobre—deiciência—dentro—da—ciência—teológica—é—muito—bem—explicada— por— Robert— Anderson:— Por— que— corpos— com— deiciência— são— poucos— e— estão— distantes— da— educação— teológica?— Acessibilidade— ”ou— falta— dela)— é— somente— uma— resposta— parcial.— Olhe— para—os—corpos—no—seu—campus—para—descobrir—que—cores,—que—vozes—e—formas—de—corpo—indicam—sobre—a—sua—comunidade—teológica.—Que—corpos—sua—comunidade—teológica—valoriza— mais?—Deixe—o—corpo—falar. 2 Sinto-me— responsável— por— lhes— trazer— esta— introdução,— já— que— tenho— uma— deiciência,— fui— fundadora— do— trabalho— com— pessoas— com— deiciência— no— Sínodo— Rio— dos— Sinos,— na— IECLB,— e— sou— coparticipante— desse— processo— da— EDAN,— na— qual— represento— o— Brasil,— e— fui— delegada— da— IECLB— na— Assembleia— do— CMI— em— Busan,— em— outubro— de— 2013. 1. Conceituando Preciso—esclarecer—ainda,—brevemente,—dois—termos:—deiciência—e—hermenêutica. O—termo—deiciência—é—uma—criação—da—sociedade—moderna—na—tentativa—de—agrupar—pessoas— com— diferentes— características,— mas— que— sofrem— efeitos— similares— diante— da— vida— em— 22
sociedade.—Este—termo—não—existia—no—oeste—nem—na—tradição—africana,—e—tampouco—na—tradição—judaico-cristã—havia—este—tipo—de—classiicação—do—ser—humano.—Isso—explica—por—que—este— termo—não—é—encontrado—na—Bíblia.—Também—explica—por—que—o—termo—vai—se—modiicando,— desde—pessoas—aleijadas,—deicientes,—pessoas—com—necessidade—especial,—pessoas—portadoras—de—deiciência—e—agora—pessoas—com—deiciência,—pois—seu—entendimento—vai—se—expandindo,—na—medida—em—que—outras—compreensões—médicas,—ilosóicas—e—antropológicas—vão—se— expandindo. O—termo—hermenêutica—quer—dizer:—uma—maneira—de—interpretarmos—textos—bíblicos.—Ela— sempre—é—contextualizada,—diz—Elizabeth—Schüssler—Fiorenza.— No—livro—Key—Concepts—in—Cultural—Theory,—editado—por—Andrew—Edgar,—o—termo—hermenêutica—é—simplesmente—descrito—como— a—teoria—da—interpretação—e—análise—textual.—As—raízes— da—hermenêutica—vêm—da—prática—da—exegese—bíblica—e—legal. —Em—outras—palavras,—poderíamos—dizer—que—hermenêutica—é—a—forma—pela—qual—interpretaremos—um—texto,—de—onde—partimos,—que—suspeitas—temos—e—que—ferramentas—usamos—para—seguir—pesquisando—um—texto. 2. Orientações Orientações—a—serem—consideradas,—quando—se—leem—e—interpretam—textos—bíblicos—a—partir— das—pessoas—com—deiciência. 1)—Levar—em—conta—a—experiência—da—deiciência—no—ser—humano,—ter—conhecimento—quanto— a—preconceitos—comuns—”primeira—coisa—que—veem—em—mim—é—minha—deiciência)—em—relação— a—elas—e—que—pode—existir—dor—física—e—emocional,—bem—como—muitas—experiências—de—exclusão.— 2)—Conhecer—um—pouco—da—história—da—deiciência—na—história—da—humanidade,—que—passou— por—diferentes—fases,—desde—a—morte—à—atual—inclusão—”pessoa—com—deiciência—e—sociedade— se—esforçam—juntas—para—uma—participação—integral),—passando—por—institucionalização—e—integração— ”pessoas— com— deiciência— fazem— um— esforço— para— parecerem— normais— e— serem— aceitas).—Não—esquecer—jamais—que—estas—fases—coexistem—ainda—hoje.— 3)—Usar—terminologia—correta—quando—a—deiciência—é—elemento—essencial.— 4)—Esvaziar-se—do—que—até—agora—ouviu—sobre—algum—texto—bíblico—e—abrir-se—a—novos— insights —de—pessoas—com—deiciência.—As—interpretações—mais—conhecidas—dos—textos—bíblicos,— provavelmente,—não—exprimem—o—que—as—pessoas—com—deiciência—sentem—ou—pensam,—pois— elas—não—eram—lembradas—em—outras—épocas.— 5)—Se—for—um—texto—de—cura,—não—tratar—a—deiciência—do—personagem—bíblico—como—uma— alegoria—ou—uma—diiculdade—emocional—ou—simbólica.— 6)—Evitar— que—pessoas—com—deiciência—sejam—consideradas—um—grupo—homogêneo—e—que,— por—isso,—se—passe por—cima—de—suas—individualidades.—Todas—têm—fé—diferente,—sexualidade— diferente,—atitudes—diferentes—frente—aos—desaios.—Somos—indivíduos—com—histórias—únicas,— como—vocês.— 7)—Perceber—que—deiciência—não—é—perda,—tragédia,—punição—de—Deus—ou—fraqueza—e—fragilidade,—mas—é—uma—condição—com—a—qual—a—pessoa—precisa—conviver.— 8)—Ter—em—mente—que—ter—uma—deiciência—é—viver—na—ambiguidade—da—criação—de—Deus:—a— vida—é—marcada—pela—boa—criação—de—Deus—e—simultaneamente—marcada—pelo—sofrimento.— 23
9)—Se—forem—trabalhados—textos—bíblicos—com—pessoas—com—deiciência,—não—explorar—somente—os—textos—de—cura,—mas—qualquer—texto,—e—descobrir—mais—sobre—o—ponto—de—vista—delas.— 10)—Tentar—quebrar—mitos—construídos—sobre—as—pessoas—com—deiciência,—para—compensar— o—seu—limite/déicit—ou—diferença—nos—seus—corpos—e—mentes:—que—são—inteligentes,—uns—anjos,— boas,—sem—pecados,—superioras—ou,—por—outro—lado,—agressivas,—infelizes,—incapazes,—assexuadas,—com—baixa—autoestima e—mal—resolvidas.— 11)—Uma—hermenêutica—a—partir—de—quem—tem—a—experiência—da—deiciência—poderá—produzir— insights —que—pessoas—sem—deiciência—não—perceberiam—”por—exemplo,—que—talvez—fosse— melhor—que—Jesus—não—tivesse—curado).— 12)—Essa—hermenêutica—precisa—constantemente—de—ajustamentos—e—processos—transformativos,—pois—a—medicina—avança,—a—antropologia—e—ilosoia—se—transformam,—termos—e—conhecimentos—sobre—a—deiciência—se—modiicam.— 13)—Prestar—muita—atenção—para—o—resultado—dessa—hermenêutica.—Traz—restauração—para— quem— tem— uma— deiciência?— Reconcilia— as— pessoas— com— deiciência— com— uma— imagem— de— pessoa—integral,—mesmo—permanecendo—a—deiciência?—Recupera,—traz—para—o—cenário—a—pessoa—com—deiciência—como—um—ser—integral,—como—pessoa—com—voz?—Encoraja—as—pessoas—com— deiciência—a—saírem—de—onde—estão?—Inclui?— 14)—Essa—chave—hermenêutica,—ou—seja,—uma—leitura—interpretativa—de—textos—bíblicos—sob—a— ótica—e—com—a—sensibilidade—para—com—as—pessoas—com—deiciência,—tem—que—partir—de:—a)—uma— análise—da—realidade—da—deiciência—num—contexto—dado—”pode—ser—social,—mundial,—regional,— local);—b)—uma—análise—de—como—na—Bíblia—se—apresentam—as—pessoas—com—deiciência. 15)—A—hermenêutica—a—partir—da—experiência—da—deiciência—precisa—buscar—revelar—o—Evangelho—e—a—plena—participação—no—Reino—de—Deus—para—quem—tem—uma—deiciência,—sem—exigir— uma—mudança—nos—seus—corpos.—
Notas 1.—
2.—
—Iára—Müller:—mestrado—em—Aconselhamento—Pastoral,—bacharelado—em—Teologia.—Pastora.— Pelotas/RS. —ANDERSON,—2003.
Referências bibliográicas AGENDE. Mulheres e violências. Brasília, 2006. ANDERSON, Robert (ed.). A Look Down the Road. In: Graduate Theological Education and the Human Experience of Disability. New York: The Haworth Pastoral Press, 2003. p. 57. EDAN. Pre-Assembly Report – Porto Alegre, 2006. ______. A Church of All and For All – Kenya, 2003. EDGAR, Andrew (ed.). Key Concepts in Cultural Theory. New York: Routledge, 1999. FRITZSON, Arne; KABUE, Samuel. Interpreting Disability. Geneva: WCC Publications, 2004. MÜLLER, Iára. Princípios para uma hermenêutica a partir da experiência da deiciência – Bolívia , 2007. ______. Hermeneutical principles from the point of view of people that experience disability – Rio de Janeiro, 2008. 24
Deiciência e cura P.—Murilo—Jung1 No—início—de—minhas—relexões,—ponderei—muito—sobre—quem—mais—fala—de—cura—em—nossos— dias—e—cheguei—à—conclusão—de—que—a—medicina—fala—mais—de—cura—do—que—a—religião. Cura,—em—nossos—dias,—não—é—com—a—religião,—a—não—ser—que—consideremos—a—medicina—uma— espécie—de—religião—do—futuro—”ainal,—até—vida—eterna—já—se—cogita).—Há—uma—expectativa—messiânica—na—medicina,—mas—não—podemos—nos—aprofundar—muito—nisso—aqui. É—pertinente—falar—de—cura—e—deiciência—diante—de—uma—sociedade—que—se—ampara—numa— deinição—jurídica—atrelada—ao—diagnóstico—médico.—Ninguém—pode—se—dizer—pessoa—com—deiciência—sem—a— autorização —das—pessoas—portadoras—de—tais—deinições.—A—medicina—mecânica—ainda—é—o—que—determina—a—deiciência.—”Impressionou-me—um—ultrassom—morfológico— onde,—com—base—nas—medidas—”por—exemplo,—da—translucência—nucal),—o—médico—airmou—que— a—Letícia,—minha—ilha,—não—teria—síndrome—de—Down.—Ou—seja,—o—padrão—de—medida—deine—tal— diagnóstico.—Porém,—a—surpresa—ao—nascer—foi—esta:—ela—tinha—trissomia). A—medicina—deine—o—que—é—doença—e—deiciência—e—ela—mesma—propõe—o—respectivo—tratamento—para—se—obter—a—cura.—E,—quando—esta—não—é—possível,—tenta-se—minimizar—a—chamada— inaptidão —frente—à—vida.—Talvez—não—seja—nosso—campo—de—atuação—como—igreja—falar—de—cura— em—relação—à—deiciência.—Ou,—ainda,—podemos—nos—perguntar:—Há—necessidade—de—falar—de— cura—quando—se—fala—de—deiciência? De—qualquer—forma,—também—é—difícil—falar—de—cura,—em—nossos—dias,—nos—âmbitos—eclesiais— e—mais—difícil—ainda—falar—de—deiciência—num—mundo—competitivo—e—extremamente—performático.—A—não—ser—que—a—deiciência—sirva—aos—interesses—do—mercado,—seja—de—bens—e—serviços—ou— até—religioso,—com—vistas—ao—lucro.—Tudo—muito—confuso,—se—a—gente—parar—para—pensar. Entretanto,—não—podemos—deixar—de—falar—de—cura—e—deiciência.—Primeiro,—porque—Jesus— Cristo—viu,—redimiu,—curou—pessoas,—e—muitas—delas—não—estavam—doentes,—mas—com—alguma— deiciência—física—ou—intelectual—”creio—que—para—Jesus—o—que—importava—não—era—a—deiciência,— e—sim—o—ser—humano—criado—à—imagem—e—semelhança,—com—sua—dignidade—fundada—no—amor— de—Deus).—Segundo,—porque—precisamos—de—uma—nova—visão—sobre—valores—que—as—culturas— humanas—criam—frente—ao—diferente. 1. Cura no Antigo Testamento Olhando—apressadamente—o—Antigo—Testamento,—percebemos—que—o—principal—termo—para— 25
designar—cura—é—rafa.—Chama—a—atenção—que—não—aparece—nada—em—relação—à—cura—de—uma— pessoa—com—deiciência—”exceto,—o—caso—da—mão—de—Jeroboão—que—se—torna—ressequida—e—logo— depois—é—restabelecida—em—1Reis—13.4-6).—O—que—pode—causar—estranheza—é—que—a—Bíblia—é—tida— como—um—livro—de—histórias—de—milagres—e—cura—e,—em—nossa—cultura,—a—religiosidade—popular—é— marcada—pelo—elemento—mágico—imediatista.—Já—escandaliza—no—AT—que—cura—e—doença—sejam— atribuídas—à—ação—de—Deus—”Êx—4.11;—Dt—28.35;—1Sm—6.3;—Is—58.8,—61.1;—Jr—14.19;—15.18;—30.17;—Ez— 34.4). Entretanto,— as— curas,— o— rafa,— referem-se,— em— sua— maioria,— à— situação— do— povo— e— à— miséria— em— que— se— encontra— frente— a— outros— povos,— aos— pecados,— à— injustiça— generalizada,— estando— até— próximo— de— um— colapso— como— nação.— A— cura— não— diz— respeito— a— um— problema— biológico,— mas,— ainda— que— se— manifeste— no— corpo,— vai— além— deste.— E,— na— profecia,— remete— a— um— período— futuro— quando— Deus— agirá— e— curará— seu— povo— ”Is— 29.18-19;— 35.6).— Diante— disso,— podemos— compreender— o— pano— de— fundo— do— anúncio— de— Jesus— Cristo. 2. Cura no Novo Testamento Jesus—Cristo—não—se—revelou—um—curandeiro—nem—um—milagreiro.—As—suas—curas—não—aconteceram—sem—um—lugar—vivencial—e—cultural.—Entretanto,—não—só—um—lugar—vivencial—e—cultural— marcante,—mas—numa—herança—de—conceitos—teológicos—que—provem—das—promessas—e—agir—de— Deus,—registrados—no—AT.—Quando—Jesus—começa—seu—ministério,—o—faz— ensinando,—pregando— e—curando —”Mt—4.23).—E—este—movimento—de—Jesus—está—de—acordo—com—o—conceito—Reino—de— Deus—formado—frente—às—promessas—de—Deus—no—AT—”em—Mt—8.4—Jesus—proíbe—a—pessoa—curada— que—fale—sobre—isso,—mas—a—exorta—para—que—reconheça—a—ação—de—Deus,—para—testemunho—do— poder—de—Deus—e—seu—Reino;—vide—também—Mt—11.2-6,—lembrando—que—João—Batista—também— anunciava— o— Reino— de— Deus).— Sei— que— nos— deparamos— com— um— chavão— que— pode— receber— muitas—interpretações;—por—isso,—usaremos—uma—compreensão—básica:—o—Reino—de—Deus—está— onde—Deus—é—Rei,—e—este—reinado—só—pode—ser—apreciado—na—escatologia—cristã. Isso—signiica—que—a—pregação,—os—ensinos—e—as—curas—existem—numa—tensão—entre—o—presente—e—o—futuro.—Voltando—para—as—curas,—percebemos—que,—ainda—que—sejam—manifestações— concretas—do—restabelecimento—da—pessoa,—ainda—este—restabelecimento—da—pessoa—é—provisório—e—aguarda—a—plenitude—frente—ao—im—que—Deus—tem—preparado,—pois—o—Reino—é—presente— e—futuro.—A—cura—é—sinal—do—im—de—forma—antecipada—devido—à—vinda—do—Reino—na—pessoa—e— obra—de—Jesus—Cristo.—Ele—é—o—portador—do—Reino—de—Deus—e—por—meio—dele—as—pessoas—são—inseridas—neste—Reino,—onde—Jesus—Cristo—é—o—mediador—da—nova—relação—do—ser—humano—e—Deus.— E—o—valor—do—Reino—é—o—olhar—com—misericórdia—para—o—sofrimento—da—pessoa.—Valor—este—que— vale—para—todas—as—pessoas—que—pertencem—a—Deus.—Misericórdia—é—o—olhar—daquelas—pessoas— que—fazem—parte—deste—Reino—e—estão—atentas—aos—sofrimentos—alheios.—Ainda—assim,—a—cura— em—Jesus—Cristo—precisa—ser—vista—como—evento—escatológico,—antecipação—do—que—será—pleno— no—último—dia.—A—cura—é—uma—das—formas—de—anúncio—e—testemunho—do—evangelho—que—Jesus— trouxe—para—o—mundo—como—novidade—de—vida. Entretanto,—ainda—que—acessível,—a—cura—não—está—disponível—mediante—fórmulas—ou—ritos.—A— própria—oração—que—Jesus—ensinou,—ainda—que—fora—de—um—contexto—de—cura,—diz:— ...—venha—o— teu—reino,—seja—feita—a—tua—vontade... .—Portanto,—ainda—que—Jesus—cure—e—use—a—igreja—para—isso,— a—cura—não—necessariamente—precisa—acontecer.—Percebo—que—Jesus—Cristo—não—tinha—um—ritual— de—cura,—nem—uma—liturgia—de—cura,—pois—Jesus—curou—sob—várias—circunstâncias—e—de—diversos— modos.—Também—cai—na—vista—que—os—termos—terapeo,—iaomai—e—sozo,—os—principais—no—grego— para—designar—cura,—simplesmente—desaparecem—nos—escritos—mais—tardios—”o—Apocalipse—só— retoma—o—tema—da—cura—no—capítulo—22.2).—Pode—ser—interpretado—que—o—fenômeno—da—cura—foi— 26
diminuindo—à—medida—que—o—evangelho—se—estabelecia—nas—comunidades—”Ef—2.20)—e—também—nos— cargos—estabelecidos—da—comunidade—de—fé.—Tiago—ainda—fala—de—cura,—mas—no—contexto—de—presbíteros,—presbíteras—e—líderes—da—igreja—que—oram—para—o—Senhor—Jesus—que—curará—e—perdoará. 3. Cura e deiciência Diante—destas—informações,—podemos—pensar—que—a—existência—de—todo—ser—humano—está— marcada—pelo—futuro.—É—o—futuro—de—Deus—que—irrompe—no—tempo—e—cria—uma—série—de—expectativas— que— estão— presentes— e— também— reservadas— para— o— im— desta— criação,— para— a— nova— criação.—Não—é—possível—deixar—de—citar—que—muitas—curas—são—claramente—relacionadas—com— promessas—da—nova—criação—”ainda—que—não—se—trate—de—um—evento—de—cura,—é—interessante—ler— 1Co—15.35ss—nesta—perspectiva). Essa—tensão—escatológica—deveria—nortear—nossa—atitude—frente—à—deiciência—também.—O— ser—humano—com—deiciência—é—um—ser—aberto—para—o—futuro—e—não—fadado—ao—passado. Não—é—de—hoje—que—ouvimos—histórias—sobre—diagnósticos—de—que—crianças—com—deiciência— não— viverão,— nem— terão— evolução,— muito— menos— aprenderão— algo,— entre— outras— barbáries— que—se—fazem.—No—entanto,—se—pensamos—em—termos—de—presente—e—futuro,—estamos—abertos—e—abertas—para—intervenções—de—Deus—não—só—em—relação—à—pessoa—com—deiciência,—mas— ao—entorno—dela,—principalmente—sua—família.—Com—ou—sem—um—milagre,—somos—incluídos—e— incluídas—no—processo—de—crescimento,—história—e—aprendizado—da—pessoa—com—deiciência.— Devemos—ser—estimulados,—estimuladas,—carregados—e—carregadas—pelo—fato—de—não—saber—o— limite—deste—ser—humano,—ainda—mais—porque—sabemos—o—alvo—que—ela—encontrará—frente—ao— Reino—que—está,—mas—ainda—virá.—Ela—não—foi—criada—para—ser—uma—pessoa—com—deiciência,—mas— para—viver—com—Deus;—este—é—seu—alvo. Com— certeza,— isso— não— dilui— os— desaios— frente— à— realidade— hoje.— Entretanto,— a— realidade— hoje— não— pode— determinar— o— que— seremos— no— futuro.— Nem— as— nossas— condições— físicas— e— intelectuais.— A— pessoa— com— deiciência— não— pode— ser— desestimulada— a— mudar— e— alargar— suas— aptidões— e— autonomia.— Ela— precisa— de— uma— perspectiva— que— abarque— o— presente— e— o— futuro— para— não— se— entregar— ao— status— quo— que— a— cerca— e— a— quer— determinar. 4. Concluindo Diante—disso,—ica—claro—que—não—podemos—falar—de—cura—no—sentido—da—religiosidade—popular—brasileira,—que—é—marcada—pelo—elemento—mágico—imediatista—que—já—foi—mencionado— anteriormente.—Não—nos—cabe—prometer—curas—e—muito—menos—chamar—pessoas—com—deiciências—de—doentes—”minha—ilha—é—muito—mais—saudável—que—eu).—A—cura—foi—um—instrumento— de—anúncio—do—Reino—e—precisa—ser—entendida—na—perspectiva—escatológica—cristã.—Fora—desta— perspectiva—perdemos—o—foco—do—Reino—de—Deus—e—prometemos—o—que—não—temos—disponível,— ainda—que—acessível.—Neste—sentido,—há—espaço—para—a—intercessão—cristã—e—a—diaconia—a—partir— da—misericórdia—revelada—em—Jesus—Cristo. Devemos—orar—e—agir—para—a—mudança—da—sociedade—e—sua—cultura—performática—em—vez— de—simplesmente—buscar—a—adequação—da—pessoa—com—deiciência—ao—mercado—de—trabalho— ”o—que—muitas—vezes—é—tido—como—inclusão).—Devemos—orar—com—as—famílias,—conversar—com— elas,—estimulá-las—a—enxergar—a—realidade—sob—outro—foco—do—que—aquele—ao—qual—estão—muitas— vezes—presas. Devemos—criar—condições—de—romper—com—lutos—e—angústias—para—dar—lugar—ao—crescimento— 27
e—cuidado—para—com—a—pessoa—com—deiciência—sem—lhe—tirar—condições—para—ser—autônoma—e— assumir—responsabilidades. Nosso—desaio—é—acolher,—dar—autonomia,—responsabilidades,—desaiar—e—estimular—a—pessoa— com— deiciência— e— sua— família— no— sentido— de— que— ela— também— é— um— ser— voltado— para— o— futuro— de— Deus— e— não— está— limitada— ao— presente.— O— evangelho— de— Jesus— Cristo— nos— faz— perceber—que—podemos—agir—e—pensar—de—maneira—diferente—hoje,—com—a—vantagem—de—saber— que— o— im— será— a— vitória— sobre— todas— as— limitações— desta— realidade,— sejam— de— ordem— cultural,— física,— emocional— ou— teológica.— E— isso— podemos— viver— hoje— pela— fé,— pela— coniança— em— Jesus— Cristo,— que— se— envolve— com— o— ser— humano— independentemente— de— sua— situação.— Nós— somos— instrumentos— de— cura— de— uma— sociedade— marcada— pelo— egoísmo— e— individualismo— de— todos— os— seres— humanos,— inclusive— das— pessoas— com— deiciência. Notas 1.—
—Murilo—Jung:—bacharel—em—Teologia.—Pastor.—Nova—Petrópolis/RS.
Referências bibliográicas Bíblia Sagrada: nova versão internacional. São Paulo, 2002. Chave bíblica. Sociedade Bíblica do Brasil, 1998. GINGRICH, F. Wilbur; DANKER, Frederick W. Léxico do NT – Grego/português. São Paulo: Vida Nova, 2000. The Greek New Testament: Third Edition (corrected). Stuttgart: United Bible Societies, 1983. SCHÖKEL, Luis Alonso. Dicionário bíblico hebraico-português. Trad. Ivo Storniolo, José Bortolini. São Paulo: Paulus, 1997. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2000. KROEFF, Paulo. Possibilidades e desaios da pessoa com deiciência: contribuições da logoterapia e da teoria sistêmica. Ribeirão Preto: IECVF, 2012. BRAKEMEIER, Gottfried. O segredo do milagre: uma perspectiva bíblico-teológica. São Leopoldo: Sinodal, 2012. PANNENBERG, Wolfhart. Teologia Sistemática. Santo André/São Paulo: Academia Cristã/Paulus, 2009. v. II, p. 102-2
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Práxis Comunitária Inclusiva
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Pa.—Ma.—Sandra—Kamien—Tehzy2 Ser—comunidade—cristã—pressupõe—colocar-se—no—caminho—do—seguimento—de—Jesus—Cristo—e— ser—Ele—a—orientação,—a—base—para—o— con-viver ,—o—elo—que—nos—une—como—igreja.—Nas—palavras— de—Brakemeier:— A—comunhão—com—Cristo,—pois,—estabelece—a—comunhão—dos—comungantes— entre—si—e—os—transforma—em—comunidade,—igreja 3.— A—Igreja—é,—por—deinição,—um—lugar—e—um—processo—de—comunhão—aberto—a—todas— as—pessoas;—ela—convida—todas—e—não—faz—discriminação.—[...]—É—uma—comunidade—de— pessoas—com—dons—diferentes,—que—se—complementam—entre—si.—[...]—a—Igreja—precisa— reconhecer—as—premissas—básicas—de—igualdade—e—dignidade—na—mensagem—cristã— e—promovê-las—como—prioridade—em—todos—os—seus—trabalhos.—Incluir—as—pessoas— com—deiciência—e—envolver-se—com—elas—não—é—mera—opção—para—as—Igrejas—de—Cristo.—É—característica—do—ser—da—Igreja.4 A—premissa—da—igreja—como—lugar—de—todas—as—pessoas—foi—e—ainda—é—muitas—vezes—colocada— no— horizonte— do— utópico,— e— este— é— entendido— como— impossível.— Viver— em— comunidade— é— conviver— em— constantes— tensões,— e,— assim,— como— não— existe— ser— humano— perfeito,— não— existe—comunidade—humana—perfeita.—Mas—não—buscar—uma—igreja—perfeita—não—signiica—que— a—busca—por—uma—igreja—aberta—a—todas—as—pessoas— —que—não—discrimine,—onde—as—individualidades—convivam—e—se—complementem,—onde—as—diferenças—e—igualdades—sejam—reconhecidas— e—respeitadas,—onde—as—pessoas—tenham—o—mesmo—valor— —não—seja—a—busca—por—uma— igreja— possível —ou—simplesmente— igreja . Buscaremos,—neste—texto,—apontar—algumas—contribuições—sobre—inclusão—na—comunidade.— Nessa—busca,—confrontamo-nos—com—a—distância—entre—a—prática—comunitária—que—acreditamos—estar—de—acordo—com—o—seu—fundamento,—que—é—Cristo,—e—a—realidade—percebida—pelas— pessoas— no— viver— comunitário.— Acredito— que— nesta— realidade— comunitária— percebida — encontramos—questionamentos—e—pistas—para—o—ser—igreja— inclusiva .—E—também—provocações!— Não—enxergo—a—Igreja—como—um—todo—preocupada—com—esta—questão.—[Pessoa—3].— Considero—a—Igreja—ainda—muito—elitista—e—discriminatória,—contrariando—os—ensinamentos—de—Cristo.—[Pessoa—7]. 1. Os muitos no Um : Igreja como Corpo de Cristo Nós,—embora—muitos,—somos—um—só—corpo .—Esse—canto—litúrgico—muito—usado—nas—celebra29
ções—eucarísticas—em—comunidades—da—IECLB—remete—talvez—à—mais—conhecida—metáfora—da— eclesiologia—paulina,—interpretada—como—metáfora—da— unidade—na—diversidade .—Esta—metáfora—nos—oferece—elementos—interessantes—para—reletirmos—sobre—as—relações—e—os— lugares — de—todas—as—pessoas—na—convivência—comunitária.—O—texto—se—encontra—na—Primeira—Carta—do— Apóstolo—Paulo—à—Comunidade—de—Corinto—”1Co—12.12-27). As—informações—contidas—nas—cartas—de—Paulo—à—Comunidade—de—Corinto—revelam—uma—comunidade— real —que,—ao—trilhar—os—primeiros—passos—na—fé,—vivenciava—diiculdades,—conlitos,— inseguranças—e—dúvidas—na—convivência—na—diversidade—num—contexto—onde—o—sincretismo— com—a—cultura—e—pensamentos—locais—tornava-se—um—constante—desaio.—Assim,—essas—cartas— não—são—uma—exposição—sistemática—da—doutrina—cristã,—mas—tentam—responder—e—orientar— sobre—questões—concretas—vividas—pela—comunidade. Visando—o—bem—comum—da—comunidade—e,—por—consequência,—a—sua—ediicação,—Paulo—usa— a—conhecida— metáfora—do—corpo —como—critério—e—caminho—para—a—inter-relação—entre—diversidade—e—unidade—em—evidente—conlito—na—comunidade.—Assim,— o—remédio—para—a—rivalidade— não—se—encontra—no—esforço—para—impor—uma—homogeneidade,—mas—o—reconhecimento—de— que—a—diversidade—é—legítima—e—necessária— —e,—portanto,—desejável— —para—que—o—corpo—funcione .5 Ao—usar—a—metáfora—do—corpo—para—a—vida—comunitária,—Paulo—dá—a—ela—um—sentido—diferente do usado regularmente6,—talvez—até—inverso—ao—usual,—que—era—de—manutenção—e—legitimação—da—hierarquização—social—e—política.—Com—ela,—o—apóstolo—estabelece—uma—relação—de— interdependência—e—igualdade—de—valor—entre—os—membros,—sem—a—qual—o—corpo—não—é—corpo. Paulo—rompe—com—a—ideia—de—superioridade—de—dons—que—hierarquiza—os—membros—do—corpo,—que—era—presente—na—comunidade.—Ao—falar—sobre—os—dons,—o—apóstolo—tira—os—carismas—da— excepcionalidade —que—sustenta—o—status—e—ressigniica-os—como—o— criador—e—animador—de— uma—comunidade—articulada—e—diversiicada 7,—não—uniforme,—mas—plural,—onde—as—diferenças— constituem—e— ediicam —o—corpo.—Esse—entendimento—provém—da—compreensão—de—que—se— Deus—é—quem—dispõe—os—membros—no—corpo,—qualquer—tipo—de— querelas,—menosprezo—de— umas—às—outras—”das—partes—do—corpo)—ou—vanglória—ofendem—[sic]—o—Deus—doador . Sendo—Cristo—o—elo—entre—os—membros—do—corpo—e—as—diferenças—vistas—e—compreendidas— como— dons —recebidos—de—Deus,—estabelece-se—um—novo—princípio—organizador—da—convivência—no—corpo—e—na—vida—em—comunidade,—onde—as—diferenças—que—nos—causam— insegurança — não— precisam— ser— evitadas— ou— entendidas— como— ameaças,— e,— assim,— os— membros— podem— acolher-se—mutuamente,—como—recomenda—o—apóstolo: A—fé—cristã—liberta—da—necessidade—de—autoairmação,—porque—tem—experimentado— a—justiicação—pela—graça.—Consequentemente,—o—princípio—da—comunidade—cristã— já—não—é:— os—iguais—tendem—a—associar-se—entre—si ,—mas:— acolhei-vos—mutuamente— como— Cristo— vos— acolheu— para— a— glória— de— Deus — ”Romanos— 15.7)— Por— isso— a— comunidade—cristã—é—comunidade—de—diferentes—que—já—não—experimentam—suas— diferenças—como—uma—ameaça—mútua,—mas—como—enriquecimento—recíproco.—Tais— tipos—de—comunidades—constituem—a—coniguração—social—viva—da—justiicação—pela— graça.8 O—apóstolo—lembra—também—que—a—multiplicidade—de—dons—na—comunidade—é—dádiva—divina,—o—que—airma—a—dignidade—atribuída—a—todos—os—membros—do—corpo.9 Ao atribuir a dignidade—de—todos—membros—do—corpo,—isto—é,—de—todas—as—pessoas,—à—graça—de—Deus,—Paulo—afasta— a—possibilidade—de—relacionar—a—dignidade—com—funcionalidade,—qualidade—ou—faculdade—es30
pecial—do—ser—humano,—que—ica—isento—de—comprovar—sua—dignidade—por—méritos—próprios,—e,— consequentemente,—a—falta—de—dignidade—não—pode—ser—relacionada—ou—justiicada—pela— falta — de—determinados—pré-requisitos—localizáveis—na—pessoa.—Assim,—ela—não—é—concessão—de—uma— pessoa—a—outras,—mas— direito—humano —de—todas.—E,—como—direito,—precisa—ser—desdobrada— na—práxis—diária.— A—igualdade—diz—respeito—aos—direitos—humanos—e—não—às—características—das—pessoas,—enquanto—seres—que—sentem,—pensam—e—apresentam—necessidades—diferenciadas—e—que,—por—direito—de—cidadania,—devem—ser—compreendidas,—valorizadas—e— atendidas—segundo—suas—exigências—biopsicossociais—individuais.10 Aqui—vale—esclarecer—que—a—compreensão—da—dignidade—humana—expressa—pela—ideia— imagem—de—Deus ,—que—muitas—vezes—foi—interpretada—como— imagem—da—perfeição—divina —e—usada—para—justiicar—um—modelo—de—ser—humano—ideal—e—perfeito,—excluindo—todas—as—pessoas— que—não—correspondem—a—esse—modelo,—principalmente—as—que—trazem—em—seus—corpos—as— marcas—visíveis—desta— imperfeição ,—não—corresponde—à—compreensão—bíblica—de—imagem—de— Deus—e,—por—isso,—não—encontra—nela—nenhuma—fundamentação—teológica. Consequentemente,—a—dignidade—proveniente—de—Deus—requer—desdobramentos— numa—lista—de—direitos—humanos.—Sua—violação—equivale—a—uma—afronta—ao—próprio— Deus.—Como—imagem—de—Deus,—as—pessoas—são—declaradas—propriedade—divina—e,— por—isso,—imunes—ao—arbítrio—humano.—Elas—têm,—perante—o—foro—humano,—o—direito—à—cidadania—e—à—proteção—à—vida.—Dignidade—não—permite—permanecer—[sic]—um— conceito— abstrato.— Opõe-se— concretamente— a— todas— as— formas— de— escravidão— e— assassinato.—Precisa—traduzir-se—em—práxis.11 Outro—aspecto—importante—a—ser—destacado—do—texto—de—1—Coríntios—12.12-27—é—que,—para— Paulo,—a—ideia—de—corpo—não—dilui—as—individualidades,—mas—as—inter-relaciona,—pois—elas—são— geradoras—da—diversidade—essencial—ao—corpo,—são—unidas—e—não—uniformizadas—pela—experiência—compartilhada—em—Cristo.—Um—membro—por—si—só—não—é—o—corpo,—nem—vários—membros— iguais—constituem—o—corpo.— Ninguém—reúne—em—si—a—plenitude—do—corpo,—todos,—porém,— participam —dele,—tomam—parte—dele 12.—Corpo—de—Cristo—só—existe—na—diversidade—de—nossos—corpos—que—se—relacionam.—Se—neste—corpo/comunidade—que—somos—existem—ausências,—somos— ainda—um—corpo?— 2. As falas do corpo: falas que dizem, silêncios que falam Muitas—coisas—foram—ditas—pelas—sete—pessoas—que—participaram—da—pesquisa—para—a—minha— dissertação—de—mestrado,—e—não—só—com—as—palavras,—que—revelavam—diferentes—olhares—da— e—para—a—vida—comunitária.—De—quem—está—habituada—e—viciada—no—papel—de— falar ,—de—quem— se—esperam—palavras,—os—olhares—muitas—vezes—buscavam— autorização —para—dizer.—Assim,—o— ouvir —como—pesquisadora—foi—uma—experiência—muito—interessante.—Interessante—e—algumas— vezes— incomodante —a—percepção—do— lugar —em—que—somos—colocadas—e—que,—em—momentos—da—entrevista,—transcende—a—pastora—e—se—mistura—à—instituição,—e—para—as—quais—nem—tudo— pode—ser—dito.—Só—para—a—pastora,—em—of,13—é—claro!—E—essas—falas,—embora—não—ditas,—falam— muito. Assim,—na—difícil—tarefa—de—manter—fechada—a—boca—da—pastora—que—os—conhecidos—olhares— pediam—para—que—falasse—por—eles,—desviei—o—olhar—que,—ao— fugir ,—autorizava,—buscando—o— distanciamento—nem—sempre—alcançado,—mas—necessário—para—que—a—pesquisadora—pudesse— ouvir—o—que—a—pastora—não—poderia. 31
2.1. O corpo fala: inclusão?!?... O— que— você— entende— por— inclusão?— Muito— se— fala— sobre— inclusão— na— atualidade.— Muitas— são—as—compreensões—e—as—pessoas—que—tentam—explicá-la,—tornando-se—impossível—limitá-la— em—um—conceito.—Ainal,—o—que—entendemos—por—inclusão?—E,—quando—falamos—nela,—de—qual— inclusão—estamos—falando?— Inclusão—tem—sido,—nos—últimos—anos,—tema—e—objeto—de—muitos—debates,—livros,—seminários— e—congressos.—Muitas—são—as—pessoas—especialistas— autorizadas —a—discorrer—sobre—o—assunto.—Diferentes—são—as—abordagens—e—as—compreensões—de—inclusão.—Muitas—são—as—discordâncias—sobre—a—melhor—abordagem—conceitual—do—assunto.—Muitas—são—as—bandeiras.—Muitas—são— as—demandas.—Muitos—são—os—questionamentos—”graças—a—Deus!).—No—contexto—eclesial,—percebemos—nas—falas—comunitárias—que—são—tímidos—os—avanços.—Existem—alguns—consensos.—Há— várias—experiências—que—estão—dando— certo .—Mas—podemos—airmar:—alguns—passos—já—foram— dados,—muitos—ainda—precisam—ser—dados—e—inclusão—diz—respeito—a—TODAS—as—PESSOAS!—Aceitando—a—provocação—de—Cláudia—Werneck,—autora—de—livros—sobre—inclusão:— Todos—mesmo? Quando—falamos—em—inclusão—dentro—da—igreja/comunidade,—percebemos—que—ela—ainda— não—diz—respeito—a—todas—as—pessoas.—Não—questiono—com—isso—a—existência—de—grupos—ou—departamentos—especíicos—nas—comunidades,—sínodos—ou—igreja—que—se—ocupam—da—temática.— Esses—grupos—têm—desenvolvido—um—trabalho14 essencial,—tanto—para—as—pessoas—diretamente— envolvidas—neles,—quanto—para—a—provocação—da—discussão.—Mas—desconio—que,—às—vezes,—a— setorização— isente —as—demais—de—se—envolverem. Outro—ponto—que—percebemos—é—que,—na—maioria—das—vezes—em—que—falamos—em—inclusão,— ela—é—entendida—como—inclusão—de—pessoas—com—deiciência.—Talvez—isso—ocorra—pela—proporção—que—a—discussão—ganhou—no—campo—da—educação—a—partir—da—Lei—de—Diretrizes—e—Bases—da— Educação—Nacional—n.9394/96,—que—garante—o—acesso—a—todas—as—pessoas— preferencialmente— na—rede—regular—de—ensino .—É,—também,—nesse—campo—de—saber—que—encontramos—a—maior— parte—da—literatura—sobre—o—assunto.—Segundo—Rosita—Edler—Carvalho,—a—proposta—de—educação— inclusiva [...]—”a)—traduz-se—pela—substituição—de—um—modelo—centrado—no— defeito —da—criança—para—um—modelo— ambiental —que—considera—as—variáveis—que,—perversamente,— têm—produzido—a—exclusão—educacional—escolar—e—político-social—de—inúmeras—pessoas;—”b)—não—diz—respeito,—exclusivamente,—ao—alunado—da—educação—especial—e—sim— a—qualquer—aprendiz;—”c)—que,—em—decorrência,—essa—proposta—implica,—necessariamente,—análises—críticas—da—escola—que—temos—e—que—precisa—mudar—sua—cultura—e— suas—práticas—para—exercitar—a—cidadania—de—todos—os—seus—aprendizes;—”d)—que—essa— escola—relete—a—sociedade—na—qual—se—insere,—podendo—contribuir—para—que—esta—se— torne—menos—elitista.15 Quanto—à—legislação—sobre—inclusão,—segundo—Romeu—Sassaki,—no—Brasil—ela—é—rica—e—variada,—embora—com—muitos—pontos—negativos—um—caráter—integracionista.—Em—relação—às—pessoas—com—deiciência,—o—autor—airma—que—existem—dois—tipos—básicos—de—leis:—as—gerais—e—as— especíicas,—e—elas—podem—ser—deinidas—como—integracionistas—ou—inclusivas.—Segundo—ele: Leis—gerais—integracionistas—são—aquelas—que—contêm—dispositivos—separados—sobre—a—pessoa—com—deiciência—para—lhe—garantir—algum—direito,—benefício—ou—serviço.—[...]—Leis—gerais—inclusivas—seriam—aquelas—que,—sem—mencionar—este—ou—aquele—segmento—da—população,—dão—clara—garantia—de—direito,—benefício—ou—serviço—a— todas— as— pessoas,— sem— distinção— de— cor,— gênero— ou— deiciência.— Esse— tipo— de— lei— 32
ainda—está—por—ser—formulado.—Leis—especíicas—integracionistas—são—aquelas—que— trazem—no—seu—bojo—a—ideia—de—que—a—pessoa—com—deiciência—terá—direitos—assegurados—desde—que—ela—tenha—capacidade—de—exercê-los.—Leis—especíicas—inclusivas— são—aquelas—que—trazem—no—seu—bojo—a—ideia—de—que—a—pessoa—com—deiciência—terá— direitos—assegurados—mediante—modiicações—no—ambiente—físico—e—humano—que— facilitem—o—exercício—desses—direitos.16 Nós—não—precisamos—de—mais—leis,—precisamos—que—se—cumpram—as—que—já—temos 17.—Essa— airmação—feita—por—uma—pessoa—surda—num—debate—sobre—inclusão—aponta—para—o—fato—de— que—leis—e—projetos—não—garantem—inclusão.—A—adaptação—social—é—necessária,—mas—não—muda— as—formas—de—olhar—para—as—pessoas,—para—a—diversidade—e—a—diferença.— Assim,—as—relexões—sobre—inclusão—se—expandem—para—além—das—leis—e—propostas—pedagógicas,—estando—diretamente—ligadas—às—formas—de—ver—e—compreender—o—ser—humano—em—suas— multiplicidades—dentro—dos—paradigmas—vividos—na—atualidade.—Pressupõem—a—necessidade— de—mudança—em—todos—os—âmbitos—sociais,—frente—às—gigantescas—exclusões—presentes—em— nossa—sociedade—globalizada,—partindo—do—pressuposto—de—que— [...]—o—ser—humano—não—nasce—pronto;—faz-se—na—interação—com—os—outros—e—com—o— meio—cultural—e—ambiental.—Seus—direitos—também—são—construção—histórica.—Por— isso—é—que—seres—[sic]—humanos—podem—ou—não—se—constituir—em—sujeitos—de—direitos,—a—depender—da—qualidade—das—relações—estabelecidas.18 Segundo—o—autor,—neste—processo— a—educação—tem—um—lugar —ou,—podemos—dizer,— vários ,— e—também—a—igreja—é—chamada—a—reletir—sobre—sua—práxis—e—ressigniicá-la,—buscando—caminhos—alternativos—para—uma—comunidade—que—se—pretende—inclusiva.—A—partir—deste—pano—de— fundo,—olhamos—para—as—falas—da—comunidade.— As—respostas—das—pessoas—entrevistadas—sobre—a—pergunta:— O—que—você—entende—por—inclusão? —revelam—diferentes—compreensões—e—ênfases,—que,—às—vezes,—se—misturam—na—resposta— de—uma—mesma—pessoa.—Todas—as—sete—pessoas—entrevistadas—apontaram—para—o—aspecto—da— adaptação,—mas—com—ênfases—diferentes:—algumas—focadas—no—ambiente,—nas—pessoas—e—nos— grupos—que—recebem—e— possibilitam —a—inclusão,—abrindo— espaço —ou—estando—preparados— para— atender —a—pessoa—com—deiciência;—outras—focadas—na—pessoa—com—deiciência,—ou—no— seu—esforço,—que— mostra—ser—capaz —de—estar—ali.— Bom,—eu—entendo—que—inclusão—ocorre—quando—pessoas—são—possibilitadas,—pessoas—com—alguma—deiciência—têm—a—possibilidade—de—participar—junto—com—pessoas— que—não—têm—deiciência,—destas—mesmas—atividades,—[...]—as—mesmas—tarefas,—ou— mesmas— possibilidades,— mesmo— encontrando— diiculdades— diferentes,— mas— que— estejam—inseridas—[...].—[Pessoa—1]. Todas—as—sete—pessoas—apontaram,—em—algum—momento—da—sua—fala,—para—a—ligação—entre— inclusão—e—o—direito—à—igualdade—e—à—não—discriminação,—mesmo—que—indiretamente.—Mas,—às— vezes,—como—transparece—na—fala—da—pessoa—5—transcrita—abaixo,—parece—que—o—foco—muda—do— direito—para—a—sensibilidade,—quando—se—mencionam—diretamente—as—pessoas—com—deiciência. A—inclusão—exige—transformação—do—sistema—e—ruptura—de—padrões.—Necessita—de— mudanças—que—beneiciam—todas—as—pessoas.—A—sociedade—se—adapta—para—atender— as— necessidades— das— pessoas— com— deiciência— e,— com— isso,— aprende— a— ser— mais— sensível— e— atenta— às— necessidades— de— todos.— A— inclusão— defende— os— direitos— de— 33
todas—as—pessoas—com—ou—sem—deiciência—[...].—[Pessoa—5]. Destaco—ainda,—a—partir—das—entrevistas,—as—compreensões—de—inclusão—como— levar—junto ,— não—esconder,—e—também—localizada—no—convívio—entre—iguais—”no—espaço—deles).—A—partir—desta—compreensão,—a—comunidade—torna-se—um—lugar—que— causa—impaciência ,—pois—pressupõe— silêncio—e—imobilidade,—a—não—ser—no— permitido —senta—e—levanta—das—liturgias.— Outro—pressuposto—para—a—inclusão—é—o—da—necessidade—de—existir—um—sentimento—de—aceitação—e—reciprocidade—por—parte— daquele—que—pretende—ser—o—que—acolhe ,—que—se—dá—na—convivência—com—a—diversidade—e—no—respeito—às—diferenças—de—cada—pessoa.—Cabe—ainda—destacar— que—a—inclusão—é—um—processo—que—provoca—mudanças—neste— conviver —em—comunidade—e— que—eventos—pontuais,—como— o—culto—na—semana—nacional—da—pessoa—com—deiciência ,—pouco—contribuem—para—desencadear—esses—processos.—A—realização—desta— Semana —em—muitas— comunidades—é—o—único—momento—em—que—o—assunto—da—inclusão—é—abordado,—normalmente— com—o—foco—na—pessoa—com—deiciência,—apesar—das—recomendações—em—contrário. Bom,—em—primeiro—lugar—eu—compreendo—que—para—que—haja—inclusão,—é—necessário— que—também—haja—um—encontro—e—a—vivência—de—diferentes—pessoas.—E,—daí,—nós—poderíamos—citar—todas—elas,—as—pessoas—com—deiciência,—pessoas—de—outras—classes,— de—outras—raças—[...]—Então,—é—um—assunto—que—não—se—refere—somente—a—pessoas— com—deiciência,—mas—diz—respeito—a—todos.—Então,—também,—aprender—com—o—outro,— aparentemente—menos—favorecido.—[...]—não—uma—relação—onde—um—dá—e—o—outro— recebe,—mas—onde—um—aprende—com—o—outro.—Respeitando,—então,—diversidade—ou— respeitando— a— forma— do— outro— ser,— a— forma— com— que— o— outro— age,— percebendo— que—eu—também—sou—diferente.—Por—exemplo,—a—Semana—Nacional—da—Pessoa—com— Deiciência,—eu—compreendo—que—ela—é—muito—importante,—mas—muitas—vezes—pra— mim—ela—é—quase—que—uma—tentativa—somente—de—fazer—com—que—a—sociedade—e—as— pessoas—relitam—sobre—a—situação—das—pessoas—com—deiciência.—Em—si,—ela—pouco— promove—a—inclusão,—pra—que—isso—aconteça—como—eu—digo,—tanto—que—se—houvesse— a—inclusão—de—fato,—também—nós—não—precisaríamos—lembrar—da—semana—nacional.— Isso—faria—parte—do—nosso—cotidiano.—Então,—essa—valorização—da—pessoa—com—deiciência,—ela—precisa—acontecer—todo—dia,—no—dia—a—dia—e—não—somente—naquela—semana— ser—lembrada,—e—de—repente—trazida—ao—culto—ou—a—um—encontro,—ao—contrário,—acho— que—é—uma—caminhada,—um—encontro,—é—a—vivência—que—você—tem—todos—os—dias—que— vai—crescendo—e—se—aperfeiçoando.—[Pessoa—6].
2.2. O corpo fala: entre experiências e rampas Quando—se—pediu—para—as—pessoas—relatarem—algumas—experiências—de—inclusão—a—partir— do—contexto—no—qual—estavam—inseridas,—eu—tinha—em—mente—os—contextos—eclesiais—que—elas— representam:—o—comunitário;—ainal,—exceto—a—pessoa—da—coordenação—nacional—dos—trabalhos—com—pessoas—com—deiciência,—todas—as—demais—são—lideranças—em—suas—comunidades,— sendo—que—a—maioria—ocupa—cargos—diretivos.—Foram—relatadas—as—seguintes—experiências—de— inclusão—no—contexto—comunitário: No—ano—passado,—alunos—da—APAE—participaram—do—Chá—de—Advento—da—OASE.—Sua— participação—não—foi—destacada—para—os—demais.—Como—as—demais—pessoas,—foram— servidas,—receberam—hinários—para—cantar—e—ouviram—o—Grupo—de—Canto—da—OASE.— Foi—uma—experiência—bem—legal!—[Pessoa—7]. 34
[...]—no—entanto,—uma—experiência—de—inclusão,—ela—começa—a—se—fazer—aos—poucos— também,—e—eu—percebo—isso—muito—bem—quando—nos—cultos—uma—menina,—ela—normalmente— em— todos— os— cultos— ela— participa,— e— o— que— ela— faz,— ela— chega,— ela— nos— abraça,—abraça—a—mim—e—[...],—e—[...]—que—canta,—sem—medo.—[...]—e—ela—chega—e—conversa,—e—outras—pessoas—com—que—ela—tem—também—um—pouco—mais—de—contato,—ela—faz— a—mesma—coisa,—senta—no—primeiro—banco,—ora—o—Pai-Nosso—e—todo—mundo—na—Igreja— consegue—ouvir—e—eu—penso—assim,—que—coisa—bonita,—que—coisa—se—mais—pessoas— com—deiciência—izessem—a—mesma—coisa—que—ela—faz,—porque,—com—isso,—aos—poucos—eu—também—tenho—a—impressão—de—que—a—própria—comunidade—já—não—vê—mais— ela—como—uma—pessoa—estranha,—não—como—uma—ameaça,—não—como—alguém—que— de—repente—nos—cause—medo,—mas—como—alguém—que—tá—ali,—né.—[Pessoa—6]. No—primeiro—relato—feito—pela—pessoa—7,—é—importante—destacar—a—participação— como—as—demais—pessoas ,—que—não—focaliza—a—deiciência—como— diferencial .—Quantitativamente—falando,—chama—a—atenção—a—aproximação—numérica—dos—relatos:—um—encontro—no— chá—de—Advento— da—OASE ,—uma—moça—que—participa—dos—cultos.—E,—mesmo—que—não—tenha—sido—estabelecido— ou—delimitado—um—número—de—experiências—ou—um—período—de—tempo—determinado—dentro— do—qual—elas—se—localizassem—”p.—ex.,—um—ano—ou—mais),—é—evidente—que—o—fato—de—não—terem— sido—relatadas—outras—experiências—de—inclusão—não—signiica—que—tais—experiências—não—tenham—ocorrido. Considerando—que,—das—seis19—pessoas—entrevistadas,—apenas—foram—mencionadas—as—experiências—acima—citadas,—guardadas—as—proporções,—esses—dados—nos—oferecem—um—panorama—realista;—preocupante,—mas—ainda—assim—realista,—sobre—quanto—e—como—caminhamos— comunitariamente—em—direção—a—uma—práxis—inclusiva.—Não—considerei—a—existência—de—rampa— na— entrada— da— igreja,— apontada— por— duas— pessoas— como— experiência— de— inclusão,— por— ser— adaptação—arquitetônica—exigida—pela—lei. No—entanto,—foram—relatadas—várias—experiências—de—inclusão—em—contextos— fora —da—comunidade,—a—maioria—experiências—observadas—ou—vivenciadas—no—contexto—proissional—de— cada—pessoa.—Essas—experiências—correspondem—ao—campo—de—atuação—em—que—cada—pessoa— está—inserida:—empresarial,—educativo-social—e—político.—Nestes—contextos,—foram—mencionadas—experiências—de—inclusão—no—mercado—de—trabalho—dos—que— têm—mais—capacidade ,—uma— pessoa—apontou—positivamente—para—a—legislação—que—determina—a—proporção—de—pessoas— com—deiciência—dentro—do—quadro—funcional—de—empresas,—e—houve—dois—relatos—dentro—do— campo—educativo.—
2.3. Nas falas do corpo: a percepção das ausências Vários—trabalhos—e—pesquisas,—como—de—Mary—R.—G.—Esperandio20—e—Elizabete—C.—C.—Renders21,— têm—apontado—para—a—invisibilidade—e—a—ausência—das—pessoas—com—deiciência—nos—discursos— teológicos—e—na—vida—comunitária.—Isso—é—percebido—em—diferentes—contextos—eclesiásticos,— sendo—um—desaio—para—todas—as—igrejas—a—busca—de—caminhos—que—viabilizem—a—participação— comunitária—de—todas—as—pessoas. A—partir—da—percepção—desta—realidade,—também—nas—comunidades—da—IECLB,—e—buscando— sua—conirmação—ou—não,—perguntamos—às—pessoas—entrevistadas:— Como—você—vê—a—participação—das—pessoas—com—deiciência—nas—práticas—comunitárias? —Todas—as—respostas—apontam—para—a— quase—total —ausência—de—participação—destas—pessoas—na—comunidade:— Olha,—de— modo—geral—eu—penso—que—a—participação—das—pessoas—com—deiciência,—ela—é—quase—mínima — 35
[Pessoa—3];— Bem,—não—tenho—como—airmar,—mas—minha—percepção—é—de—que—não—há—muita— participação—do—portador—em—trabalhos—comunitários —[Pessoa—3];— Eu—acho—que—tem—ampliado,—mas—ainda—está—bem—aquém—do—que—deveria —[Pessoa—1];— Eu—já—vi,—há—um—tempo—atrás,—em— função—de—uma—pessoa —[Pessoa—2]. Essa—última—fala—levanta,—através—do—exemplo—desta— uma—pessoa —que—era22 uma liderança muito—ativa—dentro—de—uma—das—comunidades,—um—aspecto—muito—importante—relativo—à—participação—das—pessoas—com—deiciência—na—vida—comunitária,—e—que—não—se—limita—somente—ao— contexto—eclesial:—é—o—aspecto—da— autorização ,—da—referência.—Explico—com—um—trecho—deste— relato: Tu—sabes—que—o—fato—de—ela—ser—uma—PPD,—isso—também—facilitava—pra—ela—esse—diálogo—com—as—famílias,—né,—pra—trazer,— traz—o—teu—ilho ,—porque,—não—sei—qual—era—o— termo—que—ela—usava,—mas—é—aquela—história,—a—pessoa—se—aina.—Tu—tá—me—convidando,—vamos—pro—Beira-Rio?—Tu—é—colorado?—Não,—sou—do—Grêmio,—meu,—então—o—que— vais—fazer—lá?—Nós—temos—que—estar— ains ,—temos—que—ser—do—mesmo—time,—e—a—H.— era—do—mesmo—time—que—aquelas—pessoas.—[Pessoa—2]. Esse—aspecto—é—ressaltado—também—por—outra—pessoa—entrevistada—a—partir—de—seu—contexto—proissional: [...]—eu—trabalho—num—setor—onde—a—gente—tem—muito—contato—com—pessoas—com— deiciência,—e—eu—observo—que—quando—os—grupos—se—organizam—ou—têm—uma—liderança—que—trabalha—com—esses—grupos,—e—incentiva—elas—para—a—vida—normal,—assim,— de—fazer—as—coisas—que—normalmente—se—faz,—né,—quando—uma—pessoa—portadora—de— deiciência—observa—que—a—outra—está—fazendo—determinadas—coisas,—ela,—eu—percebo—que—ela—se—sente—autorizada—a—fazer—também.—[Pessoa—1]. Será—que—a—não—participação—das—pessoas—com—deiciência—na—comunidade—está—relacionada—com—a—percepção—de—que—o—espaço—comunitário—não—é—um—espaço—de/para— todas—as—pessoas ?—Será—que—as—pessoas—com—deiciência—se—sentem— autorizadas —a—estar—na—igreja?—O—que— nos—diz—a—pessoa—4—quando—fala—que—o—ilho—com—deiciência,—quando—vai—à—APAE,— é—pra—ver— como—ica—faceiro,—lá—ele—vê—o—mundo—dele,—ele—observa,—ele—ica—faceiro,—ica—bem—diferente ,— e—num—outro—momento—airma—que—o—ilho—ica—impaciente—na—igreja?— Além—de—perceber—a— ausência —das—pessoas—com—deiciência—na—igreja,—as—entrevistas—apontaram—alguns—outros—motivos—da—não—participação,—que—levantam—outros—questionamentos.— São—eles:—o—preconceito—e—a—discriminação,—a—manifestação—de—um—sentimento—de— compaixão —direcionado—à—pessoa—com—deiciência,—que—é—considerada— inferior ,—culpa—ou—vergonha— ligadas—à—concepção—de—deiciência—como— castigo—ou—fruto—de—pecado ,—falta—de—motivação— por—não—se—sentir— bem-vinda —na—comunidade—e—falta—de—conhecimento—que—sustenta— tabus — e—estereótipos—em—relação—à—deiciência,—como—podemos—ver—no—depoimento—da—pessoa—6: [...]—imagino—que—isso—se—dê,—em—grande—parte,—por—um—sentimento—de—culpa,—de—vergonha—da—própria—família—em—ter—uma—pessoa—com—deiciência—e—não—querer—mostrar—isso—à—comunidade,—às—demais—pessoas.—Mas,—por—outro—lado,—também—muitas— vezes—há—falta—de—abertura—que—se—dá—pras—famílias—e—ilhos—com—portadores—de—deiciência,—há—uma—falta—de—conhecimento,—de—convivência—que—desmistiique—a—deiciência—e—permita—esse—encontro—das—pessoas.—A—concepção—de—deiciência—como— castigo,—ela—é—muito—presente—nas—pessoas,—na—família—e—na—sociedade,—e—isso—gera— um—forte—sentimento—de—culpa—e—medo—e,—consequentemente,—o—afastamento—de— muitas—famílias—da—comunidade.—A—S.,—em—um—dado—momento,—compartilhou—que— 36
se—não—fosse—a—perseverança—dela—em—continuar—participando—e—se—fazer—presente,— ela—teria—desistido.—E—assim,—eu—percebo—isso—em—relação—a—muitas—outras—famílias,— não—precisa—falar—isso,—[...]—no—momento—em—que—você—não—é—bem-vindo—a—um—espaço,—você—não—retorna—a—ele,—quer—dizer,—é—culpa—da—comunidade?—Nem—sempre,— mas—é—algo—que—precisa—ser—muito—bem—trabalhado,—reletido.—Claro—que—também— a—gente—sabe—que,—em—outros—momentos,—essa—pouca—participação—dessas—pessoas—com—deiciência,—ela—também—é—devido,—é—devida—à—sua—falta—de—locomoção,—de— possibilidade—de—ir—até—um—culto,—até—um—encontro.—Mas—muitas—vezes—penso—eu— que—também—são—desculpas,—quando—não—se—tem—motivação—pra—isso.—Não—se—tem— abertura—pra—isso.—É—como—se—as—pessoas—não—se—sentissem—bem-vindas.—É—mais—ou— menos—isso. Os—motivos—acima—levantados—não—se—restringem—ao—contexto—comunitário,—e—muitos—deles— são—vivenciados—em—outros—contextos.—Fica—o—desaio—e—o—questionamento:— Vejo—como—uma— necessidade—o—chamamento—de—pessoas—[...]—para—o—seio—dos—trabalhos—da—comunidade.—Não— apenas—como—beneiciárias—de—campanhas.—Considero—a—Igreja—ainda—muito—elitista—e—discriminatória,—contrariando—os—ensinamentos—de—Cristo .—
2.4. Igreja e inclusão: questionamentos, papéis, possibilidades... Quando—falamos—na—relação—entre—Igreja—e—inclusão,—só—podemos—falar—a—partir—da—perspectiva—da—fé.—E—fé—entendida—aqui—a—partir—da—imagem—bíblica—do—caminho—”hodos)—que—acompanha—todo—o—ministério—de—Jesus,—que—se—colocou—como—caminho—e—que—é—o—fundamento—da— Igreja.—É—a—partir—desta—perspectiva—que—as—pessoas—responderam—sobre—como—viam—o—papel— da—Igreja—em—relação—à—inclusão—e—o—que—achavam—necessário—para—uma—comunidade—inclusiva.—Essas—falas—reletem—suas—compreensões—de—Igreja,—misturando—expectativas—e—questionamentos,—bem—como—apontam—caminhos—e—possibilidades—para—uma—práxis—comunitária— inclusiva. Diante—das—grandes—demandas—apontadas—pelas—relexões—sobre—inclusão,—os—trabalhos— desenvolvidos— pela— Igreja— tornam-se— pouco— expressivos,— evidenciando— o— quanto— precisamos—avançar—em—nossas—relexões—e—atuação.—É—o—que—evidencia—o—relato—da—Pessoa—3:— Bem,— não—consigo—dizer—que—ela—é—ativa—nesta—área.—Não—enxergo—a—Igreja,—como—um—todo,—preocupada—com—esta—questão .—Ampliando—um—pouco—o—foco—da—comunidade—para—o—contexto—do— Sínodo—através—da—atuação—da—pessoa—7,—veriicamos—que—essa—percepção—não—muda,—mesmo— considerando—que—o—trabalho—em—nível—de—coordenação—sinodal—abrange—um—número—maior— de—comunidades:— Muito—pequeno,—irrelevante .—E—na—sequência—da—colocação—aponta—o—despreparo— como— um— dos— possíveis— motivos— para— esta— realidade,— o— que— evidencia— que— boa— vontade —não—basta—para—uma—práxis—inclusiva,—fazendo-se—necessário—o—suporte—de— conhecimentos ;—conforme—suas—palavras:— Talvez—pelo—despreparo—dos—próprios—pastores,—como— ocorre—com—os—professores—que—também—não—são—preparados—para—um—trabalho—de—inclusão— e—sucesso—de—deicientes,—pobres,—rejeitados... .— Outro—ponto—importante—apontado—quanto—ao—papel—da—Igreja—é—o—do—espaço—ocupado—pela— comunidade—enquanto—entidade—religiosa—dentro—da—organização—social—e—política—local,—onde— a—Igreja—pode—ser—mais—uma— voz —na—busca—de—uma—sociedade—mais—justa,—mais—inclusiva,— passando—do—papel—de— conservadora—e—moralista —ao—exercício—de—ser—profética,—buscando— contribuir—para—as—mudanças—necessárias—a—uma—sociedade—mais—humana.—O—exercício—deste— papel—é—apontado,—também—em—outros—momentos—nas—entrevistas,—como—um—ponto—necessário—para—uma—comunidade—mais—inclusiva.—Assim,—a—vida—comunitária—não—é—entendida—como— 37
algo— à—parte —da—realidade—social—e—política,—mas—nela—tem—um—papel [...]—bastante—importante—de—se—inserir—onde—são—criadas—políticas—públicas—pra—que— essas—possibilidades—de—inserção—dessas—pessoas—aconteçam.—Acho—que—a—Igreja— tem—essa—responsabilidade—e—muitas—vezes—a—gente—separa—muito—as—coisas,—e—eu— penso—que—também—pela—comunidade—a—gente—tem—que—ter—essas—propostas—e—em— muitos—momentos—são—levadas.—Eu—sei—que—igrejas—às—vezes—têm—esse—lugar—também—pra—poder,—politicamente—eu—falo,—pra—criar—essas—políticas—públicas,—pra—estar— nos— conselhos,— para— estar— lá,— se— fazer— representar— nas— associações,— enim— [...].— [Pessoa—1]. Paulo—Freire,—em—seu—texto—sobre— O—papel—educativo—das—igrejas—na—América—Latina ,—ao— falar—da—Igreja—profética,—coloca—que—nessa—linha—profética [...]—a—educação—se—instauraria—como—método—de—ação—transformadora.—Como—práxis—política—a—serviço—da—permanente—libertação—dos—seres—humanos,—que—não—se— dá,— repitamos,— nas— suas— consciências— apenas,— mas— na— radical— modiicação— das— estruturas—em—cujo—processo—se—transformam—as—consciências.23 Trago—esta—colocação—de—Paulo—Freire—por—acreditar—que,—a—partir—de—um—olhar—educativo—da— práxis—comunitária ,—o—convívio—em—comunidade—pode—ser—potencializado—para—desencadear— processos— inclusivos.— Exempliicando— a— partir— das— colocações— numa— das— entrevistas,— o— intenso—convívio—comunitário,—quando—baseado—na—interdependência—entre—as—pessoas,—pode— nos—sensibilizar—para—o—outro—e—para—a—outra,—proporcionando—um—autoconhecimento—mais— profundo—e—honesto,—tornando-nos—mais—humanos.—Como—nos—airma—Morin: [...]—a—compreensão—de—nossas—fraquezas—ou—faltas—é—a—via—para—a—compreensão—das— do—outro.—Se—descobrimos—que—somos—todos—seres—falíveis,—frágeis,—insuicientes,— carentes,—então—podemos—descobrir—que—todos—necessitamos—de—mútua—compreensão.24 Uma—importante—preocupação—com—os—papéis—da—Igreja—e—o—que—é—necessário—para—uma—comunidade—inclusiva—aponta—diretamente—para—o—aspecto—educativo—dentro—da—comunidade,— o— falar—claramente—sobre ,—isto—é,—viabilizar—e—estimular—espaços—de—discussão.—Todas—as—pessoas—entrevistadas—apontaram—a—ligação—entre—deiciência—e—pecado,—castigo—ou—falta—de—fé,—o— que—demonstra—a—urgente—necessidade—de—falar—sobre—o—assunto,—ainda—mais—considerando— que— esses— argumentos— ou— justiicativas— fomentam— e— mantêm— estereótipos— e— pré-conceitos ,—sem—falar—na—visão— caritativa ,—baseada—na— pena —que—essas—compreensões—acarretam.— Isso—podemos—veriicar,—por—exemplo,—a—partir—do—depoimento—abaixo—transcrito: [...]— penso— que— é— necessário— acontecer,— na— comunidade,— dentro— das— famílias,— também—um—maior—esclarecimento—no—que—se—refere—à—deiciência,—às—causas,—às— diiculdades,—mas—também—às—possibilidades—de—uma—pessoa—com—deiciência,—e— isso—muitas—vezes—se—fala—muito—pouco,—por—isso—também—ela—é—um—tabu—entre—as— pessoas.—Muito—preconceito—existe,—muito—medo—existe—com—a—desinformação—das— pessoas,—e—isso—a—gente—percebe—no—relacionamento—com—as—pessoas,—às—vezes—nas— próprias—crianças,—e—aí—eu—posso—relatar—também—a—minha—experiência—quando—ainda—era—mais—jovem—e—cuidava—do—meu—irmão,—com—síndrome—de—Down,—onde—algumas—crianças—até—falavam—assim:— Eu—não—posso—brincar—com—ele,—porque—senão—eu— também—vou—icar—doente ,—daí—tá,—quando—você—é—mais—jovem,—mais—criança,—você— não—se—dá—conta—disso,—você—não—sente—a—gravidade—disso,—mas—depois—você—começa—a—perceber—que—não—é—assim,—e—que—isso—realmente—é—incutido—pelas—pessoas,— 38
pela—sociedade,—às—vezes—até—sem—maldade—ou—por—desinformação—de—fato.—É—uma— diiculdade—que—também—precisa—ser—superada,—e,—além—disso,—pra—que—aconteça— também—a—inclusão—na—comunidade,—penso—que—nós—também—precisamos—nos—dar— conta,—também,—da—nossa—real—condição—humana,—saber—das—nossas—limitações,—saber—das—nossas—fraquezas,—saber—que—não—somos—como—pensamos—muitas—vezes,— autossuicientes.—E—a—pessoa—com—deiciência,—ela—nos—confronta—com—isso,—ela—nos— faz—perceber—que—nós—precisamos—dos—outros,—que—nós—temos,—sim,—fraquezas,—limitações,—mas—que—nem—por—isso—nós—somos—menos—ou—inferiores,—então—eu—penso— que—isso—também—é—algo—importante,—que—a—gente—tenha—presente,—saber—da—nossa—condição.—Outras—pessoas,—inclusive—as—pessoas—com—deiciência,—elas—também— têm—potencialidades—que—precisam—ser—descobertas—e—trabalhadas,—em—relação—a— isso—percebo—quanto—também—às—vezes—é—prejudicial—e—difícil—um—relacionamento— das—pessoas—quando—há—compaixão,—pena,—delas.—Essa—pena,—ela—diicilmente—contribui—pro—crescimento—do—grupo,—pra—vivência—do—grupo;—ao—contrário,—ela—cria—uma— relação—desigual,—como—eu—disse—no—início,—porque—é—uma—relação—onde—um—dá—e—o— outro—simplesmente—recebe,—e—pra—que—aconteça—essa—inclusão—é—necessário—que— ambos— aprendam— um— com— o— outro.— Nesse— sentido,— acho— que— é— também— como— você—se—coloca—diante—da—pessoa,—muitas—vezes—a—postura—de—pena,—de—compaixão,— ela—traz—consigo—uma—ideia—de—que—tu—estás—acima—ou—em—um—lugar—melhor—que—a— outra—pessoa—também,—muitas—vezes—as—pessoas—acabam—desde—do—início—da—infância—aprendendo—que—elas—estão—num—lugar—abaixo—dos—outros.—[Pessoa—6]. Por—último,—mas—não—menos—importante,—quero—destacar—ainda—um—aspecto—que—é—apontado—quase—como—uma—característica— inerente —ao—ser—Igreja,—mas—que—muitas—vezes—é—entendido—como—assistencialismo,—que—é—a—questão—da—solidariedade.—Acredito—que—a—solidariedade— faz,—sim,—parte—do—ser—Igreja,—tanto—quanto—faz—parte—do—ser—humano.—Não—a—entendo—como— um— sentimento —que—temos—em—relação—ao—outro,—uma—qualidade—que—nos—torne— pessoas— de—bom—coração —e—que—mantém—o—outro—no—lugar—de— receptor —ou— recipiente —de—nosso— favor,—mas—como—um—compromisso—com—o—outro—e—com—a—outra—que—me—leva—a—questionar—a— situação—em—que—esse—outro—e—essa—outra—se—encontra—e—a—buscar—mudanças.— Neste—sentido,—busco—embasamento—no—conceito—de—sensibilidade—solidária—de—Hugo—Assmann,—que—não—se—ocupa—diretamente—com—as—questões—das—pessoas—com—deiciência,—mas— sua—preocupação— consiste—na—integração—ou—inclusão—da—massa—dos/as—excluídos/as—na—vida— social,—nas—condições—de—possibilidade—de—viverem—uma—vida—digna—e—prazerosa 25,—aproximando-se—assim—do—nosso—tema.—Para—ele: A—sensibilidade—solidária—é—uma—forma—de—conhecer—o—mundo—que—nasce—do—encontro—e—do—reconhecimento—da—dignidade—humana—dos—que—estão— dentro-e-fora — do—sistema—social;—um—conhecimento—marcado—pela—afetividade,—empatia—e—compaixão—”sentir—na—sua—pele—a—dor—do/a—outro/a).—Por—isso—mesmo,—é—um—conhecimento—e—uma—sensibilidade—que—estão—comprometidos,—que—vivem—a—relação—de— interdependência—e—mútuo—reconhecimento—de—um—modo—existencial,—visceral,—e— não—somente—intelectual.26
3. Conclusão A—IECLB—traz—uma—marca—em—sua—trajetória—que—ainda—hoje—determina,—talvez—inconscientemente,— a— vida— comunitária:— o— de— ser— fechada .— Esta— característica— pode— estar— ligada— às— diiculdades—vividas—pelos—imigrantes—alemães,—que,—ao—serem—excluídos—na—sociedade,—fe39
charam-se—em—guetos.27—Essa—herança—histórico-cultural—não—justiica,—mas—explica—a—desconiança—e—a—diiculdade—de—aceitação,—por—parte—de—comunidades,—de—pessoas— estranhas —à— sua— tradição ,—não—só—em—relação—às—pessoas,—mas—também—às—mudanças—e— novidades .— A—partir—da—criação—da—Coordenação—Nacional—para—o—trabalho—com—pessoas—com—deiciência,—a—relexão—sobre—inclusão—ganha—novo—ritmo—dentro—da—Igreja.—Dentro—das—várias—propostas—e—trabalhos—desenvolvidos—neste—setor,—destaco—o—importante—papel—de—ajudar—a—Igreja,— as—comunidades—e—os—sínodos—a—se—perceberem—como—protagonistas—no—compromisso—com— a—inclusão.—Através—dos—diversos—cursos,—seminários—e—assessorias—promovidos,—muitos—passos—importantes—já—foram—dados—em—muitas—comunidades.—Mas—muitos—ainda—precisam—ser— dados,—e—acredito—que—é—urgente—provocar—essa—relexão—dentro—de—comunidades—que—ainda— veem—a—inclusão—como—um—assunto—que—diz—respeito—apenas—às—pessoas—com—deiciências—e— suas—famílias.—Neste—sentido,—vejo—como—fundamental—romper—com—a—ideia—de—que—inclusão— é—ter—um—grupo—de—apoio—às—pessoas—com—deiciência.—Não—questiono—a—importância—deste— trabalho,—mas—será—que—ele—não—reforça—a—ideia—de— atendimento ,—que,—por—sua—vez,—pode— reforçar—a—ideia—de— algo—que—precisa—ser—resolvido —e,—quando—não—há—sucesso,—busca-se—o— consolo—espiritual ,—que—indiscutivelmente—também—faz—parte—do—papel—da—Igreja,—mas—será— que—não—contribui—para—a—sustentação—da—ideia—de— deiciente ? Chamou—a—atenção—nas—entrevistas—realizadas—para—esta—pesquisa—a—quantidade—de—vezes— em—que—aparece—nas—falas—a—compreensão—de—deiciência—como—pecado—ou—castigo.—O—entendimento—de—deiciência—como—falta—ou—falha—é—tão—presente—em—nós,—que—vivemos—nestes—tempos—de—consumismo—exacerbado,—de—culto—ao—corpo,—não—à—saúde,—que—é—difícil—conseguirmos— nos— livrar —desta—compreensão—de—deiciência,—que—o—próprio—termo—expressa.— Considerando— que— as— diferenças— apresentadas— pelas— pessoas— com— deiciência— são— entendidas—como— qualidades—negativas— —tão—marcantes—e—signiicativas—porque—relacionadas— como—ao—que—lhes—falta 28,—e—que—esta—forma—de—olhar—foi—e—ainda—é—justiicada—por—compreensões—religiosas,—é—urgente—uma— aprendizagem —que—possibilite—outras—formas—de—olhar—para— as—pessoas.—Como—comunidade,—o—que—nos—une—é—a—fé—em—Jesus—Cristo—como— hodos ,—o—que— Ele—aponta—para—nossa—prática—comunitária? Neste—sentido,— o—olhar —de—Jesus—às—pessoas,—expresso—em—sua—prática,—articulado—com—a— metáfora—paulina—da—Igreja—como— corpo ,—oferece—caminhos—para—repensar—as—práxis—comunitárias.—Jesus—rompeu—com—muitos—paradigmas—em—sua—época,—e—sua—mensagem—do—Reino— de— Deus— oferecia— às— pessoas— outra— perspectiva— para— a— vida.— O— questionamento— de— leis— e— tradições—presentes—na—atuação—de—Jesus—nos—chama—a—romper—com—o—medo—do— sempre—foi— assim —e—a—ter— coragem —como—Igreja—de—deixar—o—confortável—lugar—em—que—muitas—vezes— nos—colocamos—e—lutar—efetivamente—pela—vida—digna—para—todas—as—pessoas,—tão—presente—em— nossas—pregações.—Isso—leva—a—questionar—se—realmente—somos—uma—Igreja—de— todos—e—para— todos ,—ou—se,—pelos—menos,—realmente—queremos—ser. A—metáfora—paulina—de—Igreja—como— corpo —estabelece—o—princípio—da—interdependência— e—igualdade—entre—os—membros—do—corpo—e,—com—isso,—rompe—com—a—possibilidade—de—hierarquização.—Este—talvez—seja—o—primeiro—desaio—do—texto.—O—reconhecimento—dessa—interdependência—é—um—processo—de—aprendizagem—mútua,—onde—não—há—espaço—para—atitudes—baseadas— em—relações—de—poder,—onde—um—está—acima—do—outro—ou—da—outra,—que—geralmente—levam—a— atitudes—de—pena—e—compaixão—e—em—nada—contribuem—para—a—dignidade—das—pessoas. Outro—aspecto—importante—já—apontado—neste—texto—é—que,—na—convivência—no—corpo,—as— diferenças—e—individualidades—são—preservadas—e—vistas—como—contribuição—que—enriquece—as— 40
relações.—Diante—da—padronização—e—também—na—luta—por—direitos—e—reconhecimento—do—valor— e—da—dignidade,—o—papel—das—diferenças—é—fundamental.—Mas,—ao—mesmo—tempo—em—que—elas— nos—diferenciam,—marcam—limites,—demarcam—lugares,—elas—também—nos—afastam.— Daí—a—relevância—de—enfatizarmos,—em—nossa—busca—e—em—nossas—relexões—sobre—inclusão,— pontos— de— aproximação,— semelhanças— que— nos— aproximem,— que— respeitem— as— diferenças— enquanto—diferenças,—sem—tentar—compensá-las—ou—justiicar—seu—valor.—Nesses—processos—de— construção—da—convivência,—é—fundamental—estabelecermos—outras—formas—de—olhar—para—as— diferenças—e—ter—claro—que Diferença— é— sempre— diferença,— ela— nunca— deixa— de— ser— diferença,— não— pode— ser— compreendida— como— um— momento— especíico— — e— não— desejável— — no— processo— de—construção—de—igualdades—sociais.—A—diferença—é—construída—histórica,—social—e— politicamente.29 Diante—dos—caminhos—percorridos,—dos—questionamentos—e—descobertas—que—esse—caminhar—pelas—relexões—sobre—inclusão—provocou,—cabe—aqui—ainda—destacar—a—convivência—comunitária—como—um— campo—potencial —para—processos—inclusivos.—Durante—as—entrevistas,— observando—as—falas—das—pessoas,—percebe-se—a—busca—de—muitas—coisas—na—comunidade/igreja.—Dela—se—esperam—muitas—coisas,—nela—se—idealizam—muitas—coisas,—nela—se—constroem—muitas—relações,—nela—falta—espaço—para—muitas—pessoas,—nela—há—espaço—para—muitas—pessoas.— A—vivência—da—fé—une—as—pessoas—em—semelhantes—sonhos,—esperanças,—desejos,—inquietudes,—dúvidas,—etc.—Independentemente—do—que—as—leva—à—comunidade,—elas—estão— ali .—Esse— estar—ali—em—busca—de—algo—potencializa—os—encontros—comunitários—como—espaços—ricos—para— o— aprender—a—viver—junto .—E—aqui—cabe—o—desaio,—feito—em—algumas—entrevistas,—de—se— falar — mais—claramente—sobre—os—assuntos,—relacionar—os—textos—bíblicos—com—a—realidade.—A— Igreja— da—palavra —fala—pouco...—esquecendo—que— nosso—silêncio —muitas—vezes—reforça—compreensões—que—não—são— coerentes —com—o—Evangelho—do—Reino.—Inclusão—diz—respeito—a—todas—as— pessoas!— Como—contraponto,—ou—não,—inalizo—com—as—palavras—de—Bauman: Somos— todos— interdependentes— neste— nosso— mundo— que— rapidamente— se— globaliza,— e— devido— a— essa— interdependência— nenhum— de— nós— pode— ser— senhor— de— seu—destino—por—si—mesmo.—Há—tarefas—que—cada—indivíduo—enfrenta,—mas—com—as— quais—não—se—pode—lidar—individualmente.—O—que—quer—que—nos—separe—e—nos—leve— a—manter—distância—dos—outros,—a—estabelecer—limites—e—construir—barricadas,—torna—a—administração—dessas—tarefas—ainda—mais—difícil.—Todos—precisamos—ganhar— controle—sobre—as—condições—sob—as—quais—enfrentamos—os—desaios—da—vida— —mas— para—a—maioria—de—nós—esse—controle—só—pode—ser—obtido—coletivamente.—Aqui,—na— realização—de—tais—tarefas,—é—que—a—comunidade—mais—faz—falta;—mas—também—aqui— reside—a—chance—de—que—a—comunidade—venha—a—se—realizar.—Se—vier—a—existir—uma— comunidade—no—mundo—dos—indivíduos,—só—poderá—ser—”e—precisa—sê-lo)—uma—comunidade—tecida—em—conjunto—a—partir—do—compartilhamento—e—do—cuidado—mútuo;— uma—comunidade—de—interesse—e—responsabilidade—em—relação—aos—direitos—iguais— de—sermos—humanos—e—igual—capacidade—de—agirmos—em—defesa—desses—direitos.30
41
Notas 1.—
2.—
3.—
4.—
5.—
6.—
7.— 8.—
9.— 10.—
11.—
12.— 13.—
14.—
15.— 16.—
17.—
18.—
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Extrato— do— 3°capítulo— da— dissertação— de— mestrado— intitulado— Simplesmente— igreja:— algumas—contribuições—para—a—práxis—comunitária —que—serviu—de—base—para—as—relexões— no—Fórum—de—Teologia—e—Deiciência. Sandra— Kamien— Tehzy:— mestrado— em— Teologia— Prática,— bacharel— em— Teologia.— Pastora.— Toledo/PR. BRAKEMEIER,— Gottfried.— A— Primeira— Carta— do— Apóstolo— à— Comunidade— de— Corinto:— um— comentário—exegético-teológico.—São—Leopoldo:—Sinodal,—2008.—p.—133. CONSELHO—MUNDIAL—DE—IGREJAS.—Uma—Igreja—de—todos—e—para—todos:—uma—Declaração— Teológica—Provisória.—São—Paulo:—Aste,—2005.—p.—30-31. El— remedio— para— la— rivalidad— no— se— encuentra— en— un— esfuerzo— por— imponer— una— homogeneidad—sino—en—el—reconocimiento—de—que—la—diversidad—es—legítima—y—necesaria— — y—por—tanto,—deseable— —para—que—el—cuerpo—funcione —”tradução—própria)—”FOULKES,—Irene.— Problemas—pastorales—en—Corinto:—comentário—exegético-pastoral—a—1Coríntios.—San—José:— DEI,—1996.—p.—349). A—imagem—do—corpo— original—da—tradição—estoica—era—popular—na—época—e—frequentemente— usada—na—literatura.—Tinha—sua—versão—mais—afamada—na—fábula—de—Menenius—Agrippa,—que— por—ela—conseguiu—debelar—um—conlito—de—classe—em—Roma —”BRAKEMEIER,—2008,—p.—164). BARBAGLIO,—Giuseppe.—As—cartas—de—Paulo.—v.—2.—São—Paulo:—Loyola,—1991.—p.—329. La—fe—cristiana—libera—de—la—necesidad—de—autoairmación,—porque—ha—experimentado—la— justiicación—por—la—gracia.—Consiguientemente,—el—principio—de—la—comunidad—cristiana—ya— no— es:— los— iguales— tienden— a— asociarse— entre— sí ,— sino:— acogeos— mutuamente— como— os— acogió— Cristo— para— gloria— de— Dios — ”Romanos— 15.7).— Por— eso— la— comunidad— cristiana— es— comunidad—de—desiguales—que—ya—no—experimentan—sus—diferencias—como—una—amenaza— mutua,—sino—como—un—enriquecimiento—recíproco.—Tal—tipo—de—comunidades—constituyen—la— coniguración—social—viva—de—la—justiicación—por—la—gracia —”MOLTMANN,—Jürgen.—Diaconia— en—el—Horizonte—del—Reino—de—Dios:—hacia—el—diaconado—de—todos—los—creyentes.—Tradução— de—Constantino—Ruiz—Garrido.—Guevara:—Editorial—Sal—Terrae,—1987.—p.—24). BRAKEMEIER,—2008,—p.—166-167. EDLER— CARVALHO,— Rosita.— Educação— inclusiva:— com— os— pingos— nos— is .— Porto— Alegre:— Mediação,—2004,—p.—17. BRAKEMEIER,—Gottfried.—O—ser—humano—em—busca—de—identidade:—contribuições—para—uma— antropologia—teológica.—São—Leopoldo:—Sinodal,—São—Paulo:—Paulus,—2002.—p.—45-46. BRAKEMEIER,—2008,—p.—168. Em—of —signiica— depois—que—o—gravador—era—desligado ,—mas—a—conversa—sobre—o—assunto— continuava. Um— exemplo— importante— nesta— questão— são— os— trabalhos— desenvolvidos— na— área— do— aconselhamento— pastoral,— como— o— apresentado— na— pesquisa— de— MÜLLER,— 1999.— Esses— trabalhos—muitas—vezes—são—entendidos—como— exclusivos —para—as—pessoas—com—deiciência— e/ou—familiares,—o—que—pode—reforçar—a—ideia—de—que—essas—questões—dizem—respeito—apenas— aos— atingidos ,—alavancando,—assim,—poucas—mudanças—na—práxis—comunitária.— EDLER—CARVALHO,—2004,—p.—14-15. SASSAKI,—Romeu—Kazumi.—Inclusão:—construindo—uma—sociedade—para—todos.—6.—ed.—Rio—de— Janeiro:—WVA,—2005.—p.—151-152. Por—ocasião—do—2º—Ciclo—de—Debates—sobre—Inclusão—sob—o—tema—Universidade—Inclusiva,— ocorrido—em—11—de—agosto—de—2007—na—UNISINOS. CARBONARI,— Paulo— César.— Diversidade— e— educação:— ensaio— de— compreensão— das— raízes— para—indicar—alternativas.—In:—KLEIN,—Remí;—BRANDENBURG,—Laude—E.;—WACHS,—Manfredo— C.— Ensino— Religioso:— diversidade— e— identidade:— V— Simpósio— de— Ensino— Religioso.— São—
Leopoldo:—Sinodal/EST,—2008.—p.—35. 19.—
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28.— 29.—
30.—
No—total—foram—sete—pessoas—entrevistadas,—mas—nessa—questão—deixei—de—fora,—na—análise— das—entrevistas,—a— pessoa—da—coordenação—nacional —devido—ao—caráter—institucional—das— experiências—relatadas. ESPERANDIO,—Mary—Rute—Gomes.—A—produção—da—”in)visibilidade—da—pessoa—portadora—de— deiciência— mental:— uma— cartograia— de— uma— comunidade— batista.— São— Leopoldo,— IEPG,— 2001. RENDERS,—Elizabete—Cristina—Costa.—Por—falar—em—ausência...:—as—pessoas—com—deiciência.— São—Bernardo—do—Campo,—UMESP,—2006. Era —porque—ela—faleceu—no—ano—passado. FREIRE,—Paulo.—O—papel—educativo—das—igrejas—na—América—Latina.—In:—Ação—cultural—para—a— liberdade—e—outros—escritos.—9.—ed.—Rio—de—Janeiro:—Paz—e—Terra,—1982.—p.—127. MORIN,— Edgar.— Os— sete— saberes— necessários— à— educação— do— futuro.— 9.— ed.— São— Paulo:— Cortez;—Brasília,—DF:—UNESCO,—2004.—p.—100. ASSMANN,—Hugo;—SUNG,—Jung—Mo.—Competência—e—sensibilidade—solidária:—educar—para—a— esperança.—Petrópolis,—RJ:—Vozes,—2000.—p.—90. ASSMANN,—2000,—p.—134. Essa—característica—é—apontada—por—pesquisadores—como—SCHÜNEMANN,—Rolf.—Do—gueto—à— participação:—o—surgimento—da—consciência—sociopolítica—na—Igreja—Evangélica—de—Conissão— Luterana—no—Brasil—entre—1960—e—1975.—São—Leopoldo:—Sinodal,—1992. EDLER—CARVALHO,—2006,—p.—139-140. SKLIAR,— Carlos— ”Org.).— Educação— &— exclusão:— abordagens— socioantropológicas— em— educação—especial.—Porto—Alegre:—Mediação,—2006.—p.—23. BAUMAN,—Zygmunt.—Comunidade:—a—busca—por—segurança—no—mundo—atual.—Rio—de—Janeiro:— Jorge—Zahar,—2003.—p.—133-134.
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Teologia é falar de sonhos: Teologia pública e a inclusão da pessoa com deiciência Dr.—Felipe—Gustavo—Koch—Buttelli—1 1. Introdução Inicialmente,— é— importante— considerar,— ainda— que— brevemente,— o— tipo— de— aproximação— que—se—faz—de—cada—discussão.—O—tipo—de—compreensão—que—tenho—de—mim—mesmo—será—determinante—para—o—tipo—de—abordagem—que—promovo—sobre—qualquer—tema.—Este—procedimento— é—especialmente—útil—como—iniciativa—franca—e—honesta—que—identiica—quais—potencialidades— minha—aproximação—carrega—consigo—e—quais—são—suas—vulnerabilidades. Esta—talvez—seja—a—primeira—relexão—sistematizada—que—promovo—sobre—o—tema—da—inclusão— da— pessoa— com— deiciência.— Não— é,— no— entanto,— a— primeira— vez— que— penso— sobre— isso,— até—porque—os—trabalhos—que—tenho—desenvolvido—têm—a—inclusão—como—pauta—permanente.— Portanto,—este—procedimento—tem—sido—um—caminho—de—duas—vias,—em—que—me—situo—também— como—alguém—em—processo—de—aprendizagem,—apreciando—tantos—testemunhos—engajados—e— implicados—com—a—realidade—de—convívio—com—a—deiciência—ou—com—pessoas—com—deiciência.— Por—outro—lado,—desejo—que—minha—abordagem—possa—somar—no—que—diz—respeito—ao—diálogo— profundo—com—a—realidade—existencial—das—pessoas—com—deiciência—e—à—possibilidade—de—trazer,—desta—experiência,—decorrências—práticas—para—a—relexão—teológica. Neste—sentido,—acho—pertinente—o—convite—para—sugerir—uma—abordagem—desde—a—teologia— pública,—independentemente—do—que—venha—a—ser—isto—de—fato.—O—que—chama—a—atenção—é—o— interesse—e—a—consciência—prévia—de—que—a—inclusão—da—pessoa—com—deiciência—é—um—tema— importante—a—ser—discutido—desde—a—perspectiva—teológica.—Por—outro—lado,—a—pergunta—pelo— aspecto—público—desta—relexão—aponta—para—a—consciência—de—que—esta—relexão—teológica—sobre—a—experiência—e—condição—da—pessoa—com—deiciência—deve—se—desenvolver—desde—e—para— dentro—do—espaço—público,—articulando-se—com—a—sociedade—civil,—com—o—Estado—e—com—outras— instituições—religiosas—estratégicas—para—superar—diiculdades—e—vivenciar—a—inclusão—de—modo— mais—qualiicado—e—amplo. Esta—perspectiva—me—desaia—pessoalmente—e—chama—à—responsabilidade—aquelas—pessoas— que—reletem—sobre—o—papel—da—teologia—no—espaço—público,—atentando—ao—inconteste—fato—de— que—a—inclusão—da—pessoa—com—deiciência—deve—perilar-se—no—rol—das—lutas—por—libertação— no—contexto—da—sociedade—democrática,—pautando—nossa—agenda—e—demandando—o—nosso— comprometimento,— se— verdadeiramente— consideramos— que— o— compromisso— cristão— parte— das—margens—e—dos—espaços—em—que—a—exclusão—e—a—violência—se—expressam—do—modo—mais— 45
nefasto,—como—é—o—caso—da—realidade—de—exclusão—da—pessoa—com—deiciência.
2. Do sonho às lutas públicas Toda—teologia—deve—partir—de—um—sonho.—Parte—da—esperança,—da—fé,—da—escatológica—expectativa—e—da—imaginação—criativa—de—que—o—mundo—pode—e—deve—ser—diferente—do—que—é.—Por— isso,—o—tema— teologia—pública—e—inclusão—da—pessoa—com—deiciência —me—pareceu—asséptico— e—demasiadamente—neutro—no—que—diz—respeito—ao—necessário—envolvimento—que—temos—que— ter—com—os—nossos—sonhos—e—os—nossos—desejos—mais—profundos,—utópicos,—de—construção—de— um—mundo—mais—inclusivo.—Deste—modo,—decidi—colher—três—depoimentos—que—dessem—voz—à— carência—de—esperança—e—à—necessidade—de—articular—sonhos—neste—percurso—relexivo. O—primeiro—depoimento—é—do—historiador—uruguaio—Eduardo—Galeano.—O—autor—de—Veias— Abertas—da—América—Latina,—radicado—na—Argentina,—apresenta—reiteradamente—sua—tentativa— de—ler—a—história—da—América—Latina—desde—as—margens,—desde—os—fragmentos—de—histórias—silenciadas.—Olhando—através—dos—discursos—dominantes,—das—versões—vencedoras—da—história,— que—se—inscreveram—nos—livros—didáticos—e—nas—nossas—visões—de—mundo,—Galeano—procura— encontrar—pedaços—de—espelho,—que—reletem—a—experiência—daquelas—pessoas—que—não—tiveram—suas—narrativas—perpetuadas—na—história—oicial.—Este—parece—ser—um—contínuo—desaio— que—nos—cabe—ao—fazer—teologia,—a—saber,—colher,—ouvir,—imaginar—e—dar—voz—às—experiências— invisíveis,—silenciadas—e—que,—por—vezes,—nem—sabem—de—si—mesmas,—vivendo—na—sombra—dos— discursos—dominantes.—Neste—processo,—também—os—sonhos—são—esquecidos,—perdidos—e—calados.—Deixam—de—existir?—É—o—sobre—isso—que—relete—Galeano: O—século—XX,—que—nasceu—anunciando—paz—e—justiça,—morreu—banhado—em—sangue—e—deixou— um— mundo— muito— mais— injusto— que— o— que— havia— encontrado.— O— século— XXI,— que— também— nasceu—anunciando—paz—e—justiça,—está—seguindo—os—passos—do—século—anterior.—Lá—na—minha— infância,—eu—estava—convencido—de—que—tudo—que—na—terra—se—perdia—ia—parar—na—lua.—No—entanto,— os— astronautas— não— encontraram— sonhos— perigosos,— nem— promessas— traídas,— nem— esperanças—rotas.—Se—não—estão—na—lua,—onde—estão?—Será—que—na—terra—não—se—perderam?— Será—que—na—terra—se—esconderam?2 Outro—autor,—desta—vez—um—teólogo,—que—relete—sobre—a—importância—da—esperança—para—a— relexão—teológica—é—o—frei—dominicano—sul-africano—Albert—Nolan.—Albert—Nolan—foi—um—ativista— contra—o—apartheid,—fundou—o—Instituto—de—Teologia—Contextual—na—África—do—Sul,—que—promoveu—relexão—e—diversas—iniciativas—no—movimento—de—contextualização—da—relexão—teológica.— A—teologia—contextual—na—África—do—Sul— —e—em—diversos—outros—países— —tornou-se—uma—referência—da—teologia—da—libertação,—reletindo—sobre—a—necessidade—de—construção—de—saberes— que—partam—da—realidade—existencial—de—quem—vive—a—experiência—da—exclusão—e—o—sofrimento— dela—advindo.—Nolan—também—foi—um—dos—principais—mentores—e—redatores—do—documento— Kairós,— publicado— na— África— do— Sul— em— 1986.— Este— documento— foi— uma— das— referências— da— virada—do—posicionamento—das—igrejas—contra—o—apartheid,—que—até—então—permaneciam—em— um—posição—de—neutralidade.—Nolan—formulou—uma—teologia—do—kairós,—ou—seja,—uma—teologia—que—identiica—o—tempo—oportuno—da—ação—de—Deus—na—realidade—sul-africana.—O—teólogo— se— tornou— uma— das— referências— na— discussão— da— chamada— teologia— profética.— Em— recente— publicação,—Nolan—identiica—que,—diferentemente—dos—tempos—de—luta—contra—o—apartheid,— vivemos—em—um—tempo—em—que—as—esperanças—estão—se—esvaindo.—Assim—ele—descreve—seu— diagnóstico—sobre—nosso—tempo: Uma—característica—importante—dos—nossos—tempos,—porém—[...]—é—o—desespero.—Vivemos— 46
em—tempos—de—desespero.—Durante—séculos,—vivemos—a—experiência—da—esperança—e—do—otimismo—de—um—tipo—ou—de—outro— —política,—econômica,—cientíica—e—religiosa.—Hoje,—de—repente,— quase—todos—mergulharam—em—um—estado—de—desespero.—Esse—é—o—nosso—novo—contexto,—ou— pelo—menos—o—estado—de—espírito—que—sentimos—com—mais—intensidade—em—nossos—dias.—[...]— Vivemos—em—tempos—de—desespero,—não—só—porque—as—pessoas—construíram—suas—esperanças—sobre—a—areia—movediça,—mas—também—porque—muitos—estiveram—esperando—por—coisas— erradas3.—— Ora,—a—esperança—é—elemento—básico—da—fé—cristã.—A—pessoa—cristã—é—aquela—que—se—caracteriza—pela—esperança,—como—assevera—o—apóstolo—Paulo,—ao—referir-se—à—fé—de—Abraão,—em—Rm.— 4.18:— Abraão,—esperando—contra—a—esperança,—creu,—para—vir—a—ser—pai—de—muitas—nações .— Nossa—relexão—teológica,—especiicamente—no—que—diz—respeito—à—inclusão—da—pessoa—com— deiciência,—precisa—partir—da—esperança.— Um—último—depoimento—é—do—arcebispo—anglicano—Desmond—Tutu.—Tutu—recebeu—o—Prêmio— Nobel—da—Paz—em—1986—pela—sua—incessante—luta—contra—o—racismo—e—contra—o—apartheid—na— África—do—Sul.—Foi—o—primeiro—arcebispo—negro—da—Igreja—Anglicana—na—África—do—Sul—e,—durante— o—apartheid,—vivia—ilegalmente—em—área—reservada—a—pessoas—brancas—no—regime—de—segregação—racial—que—marcava—o—apartheid.—Depois—do—im—do—apartheid,—Tutu—coordenou—a—Comissão—de—Verdade—e—Reconciliação—na—África—do—Sul,—que—procurou—promover—a—reconciliação—e— oportunizar—a—vida—pacíica—em—sociedade—entre—pessoas—negras—e—brancas.—Tutu—se—destacou— pela—luta—pela—paz—mundial—de—diversas—maneiras,—tornou-se—um—ícone—na—luta—contra—o—HIV/ AIDS—e,—mais—recentemente,—tem—sido—uma—das—principais—referências—de—protesto—e—denúncia— contra—o—apartheid—promovido—pelo—Estado—de—Israel—contra—o—povo—palestino. Em—ocasião—recente,—Desmond—Tutu—formulou—a—importância—dos—sonhos—para—a—construção—de—uma—sociedade—mais—igualitária—e—inclusiva—nos—seguintes—termos: Nós—temos—um—Deus—extraordinário,—que—é—onipotente.—Mas—este—Deus,—extraordinária—e— paradoxalmente,—também—é—impotente.—Quando—alguém—está—com—fome,—nós—não—vemos— samusas —[comida—tradicional—sul-africana]—descendo—do—céu.—Se—uma—pessoa—faminta—tem— que—ser—alimentada,—este—Deus—onipotente—espera—por—nós—para—sermos—parceiros—de—Deus,— para—que—o—milagre—da—alimentação—dos—famintos—aconteça.—[...]—Eu—suplico—a—vocês—que—sonhem.—Sonhem—o—mais—idealisticamente—que—vocês—puderem!—Sonhem—o—sonho—de—Deus.— Sonhem—quando—vocês—forem—sair—para—um—mundo—que—é—tão—desigual.—Sonhem—com—um— mundo—diferente!—[...]—Deus—espera—por—você,—você,—você...—para—sonhar—o—sonho—de—Deus,— de—um—tipo—diferente—de—mundo.—Um—mundo—com—compaixão,—um—mundo—cuidadoso,—um— mundo—de—partilha,—e—Deus—diz,—eu—não—tenho—ninguém,—exceto—você,—você,—você...—E—Deus— diz:—me—ajude!—Por—favor,—me—ajude!—Ajude-me—a—realizar—o—meu—sonho. Neste— sentido,— identiico— que— nossa— tarefa— enquanto— igreja,— em— especíico— no— âmbito— da—relexão—teológica,—é—a—de—alimentar—sonhos,—suscitar—esperanças,—projetar—um—futuro— diferente.—Esta—pergunta—está—presente—na—discussão—sobre—a—inclusão—da—pessoa—com—deiciência,—como—é—possível—perceber—em—cartilha—organizada—pela—IECLB—em—2011,—chamada— Normal—é—ser—diferente.—Ali—é—colocada—a—pergunta—que,—penso,—deve—nos—guiar—nesta—relexão—sobre—como—podem—a—teologia—e—a—igreja—contribuir—para—realizar—os—sonhos—e—as—esperanças—das—pessoas—com—deiciência:— Pode—a—Igreja—hoje—ser—esperança—para—pessoas—com— deiciência? —”IECLB,—2011). 3. Introdução à teologia pública ou por que falar em teologia pública Após—um—breve—trajeto—que—ressaltou—o—papel—dos—sonhos—e—da—esperança—para—a—relexão— 47
teológica,—a—pergunta—que—guia—esta—relexão—é—pela—contribuição—que—a—teologia—pública,—enquanto—uma—ferramenta—bastante—utilizada—recentemente,—pode—oferecer—para—a—luta—pela— concretização— dos— sonhos— e— das— esperanças— no— que— diz— respeito— à— inclusão— das— pessoas— com— deiciência.— Inicialmente,— podemos— perguntar— por— que— abordar— esta— questão— desde— a—teologia—pública.—Ou—posto—de—outra—maneira:—qual—é—o—diferencial—ou—a—especiicidade—de— uma—abordagem—desde—a—teologia—pública—para—discutir—a—inclusão—da—pessoa—com—deiciência.—Para—responder—a—este—questionamento,—é—importante—apresentar—brevemente—o—que—se— compreende—de—modo—mais—geral—e—em—diferentes—contextos—por—teologia—pública.—Após—este— percurso,—apresentarei—uma—sugestão—de—percepção—de—teologia—pública—que—pode—contribuir— de—modo—mais—adequado—para—a—efetivação—dos—sonhos—das—esperanças—de—quem—projeta—um— futuro—”e—um—presente)—de—inclusão—e—de—solidariedade. O—teólogo—sul-africano—Dirk—Smit—forneceu—uma—ferramenta—interessante—para—compreendermos—de—modo—geral—o—que—se—tem—falado—sobre—teologia—pública—por—aí4.—Ele—identiicou— alguns—discursos—que—circulam—e—que—acabam—deinindo—as—percepções—do—que—venha—a—ser— teologia—pública.—Chama—estes—discursos—de—narrativas—ou— estórias .—No—inglês—há—uma—distinção—entre—a—palavra—história—”history)—5—e—o—que—chamávamos—de—estória—”story).—Alguns—teóricos—da—língua—portuguesa—insistem—em—dizer—que—a—palavra— estória —não—existe—e—sugerem— que—devamos—falar—em—narrativas.—Trago—este—breve—excurso—na—relexão—para—recordar—que— toda—história—é— estória —ou—narrativa.—A—pretensão—de—objetividade—das—narrativas—sempre— está—no—projeto—político—dos—sujeitos—que—a—defendem.—Toda—história—é—uma— estória ,—portanto,—sempre—apresenta—um—ponto—de—vista—e—um—projeto,—uma—agenda—política.—Por—isso,— consideraremos,—como—o—faz—Dirk—Smit,—que—há—uma—diversidade—de—versões—sobre—o—que—é— teologia—pública—e—nós—devemos—construir—aquela—que—mais—nos—interessa—e—que—diz—respeito— à—nossa—vida—e—nossas—preocupações,—se—realmente—acharmos—que—é—importante—falar—sobre— a—publicidade—da—relexão—teológica.— Smit—faz—uma—diferenciação—entre—as—narrativas—ou—estórias—dominantes—e—as—que—eu—chamo—de—alternativas,—que—foram—construídas—nas—lutas—por—libertação—no—contexto—do—hemisfério—sul,—e—as—estórias—que—se—preocupam—com—um—súbito—retorno—da—religião—ao—mundo—que— até—então—era—secularizado—e—que,—de—fato,—é—caracterizado—pela—pluralidade—religiosa. As—narrativas—dominantes—vêm—dos—contextos—que—historicamente—se—compreendem—sempre— como— os— produtores/exportadores— do— conhecimento,— portanto,— identiicam— objetivamente—a—gênese—do—pensamento—em—suas—ileiras—acadêmicas.— a)—A—primeira—narrativa—dominante—trata—da—formulação—ou—uso—do—termo—teologia—pública— nos— Estados— Unidos— da— América.— Em— 1974,— o— teólogo— luterano— Martin— Marty— descreveu— a— ação—de—Reinhold—Niebuhr,—também—teólogo,—como—teologia—pública6,—uma—vez—que—Niebuhr— era—uma—referência—para—discutir—ética—e—política—na—sociedade—como—um—todo,—não—apenas—no— meio—teológico—ou—religioso.—Este—tipo—de—prática,—bem—como—a—atuação—pelos—direitos—civis—de— pessoas—negras—por—parte—de—Martin—Luther—King—Jr.,—foi—caracterizada—como—teologia—pública,— o—que—Robert—Bellah—veio,—posteriormente,—a—explorar—como—exercício—de—uma—Religião—Civil7.— Ou—seja,—há—uma—moral—religiosa—ou—uma—teologia—pública—presentes—nas—posturas—e—atitudes— políticas— éticas,— que— devem— pautar— e— construir— um— comportamento— civil— norte-americano— ético—e—moral.—Teologia—pública,—neste—caso,—pauta—uma—razão—secular.—Neste—sentido,—David— Tracy—também—foi—uma—inluência—marcante8—ao—dialogar—com—a—perspectiva—habermasiana— de—que—a—teologia—deve—apresentar-se—enquanto—um—discurso—público9,—traduzido—para—a—linguagem—da—sociedade—secular.—No—contexto—da—esfera—pública,—como—deine—Habermas,—a—teologia—é—mais—um—dos—discursos—que—se—apresenta—e—trabalha—dialogicamente—para—constituir— consensos—para—a—melhoria—da—vida—em—sociedade.— 48
b)—A—segunda—narrativa—dominante— —que—compete—com—a—primeira,—mas—que—argumenta— na—mesma—linha— —de—teologia—pública—enquanto—uma—razão—secular—encontra—berço—na—Europa,—mais—especiicamente—na—Alemanha.—A—preocupação—com—a—relexão—sobre—a—publicidade— da—Igreja—”Kirche—und—Öfentlichkeit)—já—fora—formulada—por—Helmut—Thielicke,—em—1947.—No— entanto,—foi—o—teólogo—Wolfgang—Huber—que,—em—1972,—airmou—que—a—teologia—deveria—tornarse—pública—e—aberta.—Neste—sentido,—teologia—pública—não—é—um—programa,—como—parece—ser—a— visão—norte-americana,—mas—um—modo—de—fazer—teologia,—aberta—às—questões—da—sociedade—e— atuante—crítica—e—construtivamente. c)—Ambas—as—abordagens—anteriores—apresentam—uma—visão—semelhante.—Teologia—pública—é—um—discurso—racional—que—deve—se—projetar—ao—espaço—público—para—dialogar—e—debater— construtiva—e—criticamente—com—outras—razões—ou—outros—discursos.—As—teologias—públicas—que— chamo—de—alternativas,—no—entanto,—diferenciam-se—qualitativamente—das—anteriores.—Tratase—das—teologias—forjadas—nas—lutas—por—libertação.—Estas—teologias—encontram-se—majoritariamente—no—hemisfério—sul,—explorado—política—e—economicamente—e—em—constante—busca—por— libertação—nas—relações—coloniais,—em—todas—as—dimensões—da—colonialidade—”política,—econômica,—cultural,—epistemológica,—etc.).—Elas—encontram—reduto—nas—teologias—de—libertação,—nas— teologias—negras,—asiáticas,—feministas,—indígenas,—etc.—Estas—teologias—não—se—compreendem,— via—de—regra,—como—teologias—públicas,—sobretudo—se—considerarmos—as—acepções—apresentadas—anteriormente.—São—teologias—políticas.—A—atuação—pública—destas—teologias—não—é—tanto— racional—em—termos—de—construção—de—um—discurso—público,—traduzido—para—uma—linguagem— secular,—mas—uma—atuação—militante—e—de—resistência.— Esta—abordagem—das—teologias—públicas—de—resistência—ou—de—lutas—públicas—parte—do—pressuposto—de—que—a—avaliação—de—que—a—teologia—tem—um—papel—público—a—desempenhar—e—deve— reletir—sobre—sua—atuação—pública—na—sociedade—não—é—uma—premissa—única—das—narrativas— dominantes.—Também—no—hemisfério—sul—esta—demanda—e—esta—relexão—se—desenvolveram,— por— outros— caminhos— e— com— outros— rostos.— É— evidente— que— esta— identiicação— prática,— teológica— e— política—das— teologias— da—libertação— como— teologias— públicas—tem— um— risco,— mas— tem— também— um— caráter— positivo.— O— risco— é— de— subsumir— a— experiência— das— teologias— de— libertação—e—de—permitir—uma—anexação—destas—a—uma—pretensa—teologia—pública—universal,— determinada—novamente—pelas—narrativas—dominantes—de—teologia—pública.—Airmar—a—pluralidade—das—abordagens—e—o—caráter—narrativo—de—cada— estória —sobre—teologia—pública—ajuda— a—compreendermos—que—esta—preocupação—pela—publicidade—da—teologia—surgiu—em—diversos— lugares—e—de—diversas—maneiras.—Teologia—pública—deve—ser—policêntrica—e—contextual.—O—caráter—positivo—está—relacionado—à—possibilidade—de—articularmos—uma—relexão—ampla—e—aprofundada—sobre—o—papel—da—teologia—no—contexto—democrático—e—religiosamente—plural—que— vivemos.—Por—isso,—Smit—identiica: Em—cada—caso—a—narrativa—da—teologia—pública—foi—diferente,—baseada—em—histórias—particulares—e—nos—respectivos—contextos.—Não—se—trata,—consequentemente,—de—ideias—particulares— sobre—teologia—pública—da—experiência—americana—sendo—gradualmente—conhecidas—e—aceitas— nestes—contextos—também.—A—verdade—é,—antes—disso,—que—todas—essas—sociedades—têm—suas— próprias— histórias— particulares— concernentes— ao— papel— da— teologia— na— vida— pública,— seja— o— termo—teologia—pública—utilizado—ou—não.—De—fato,—essa—contextualidade—radical—e—complexa—é— parte—integrante—da—história—da—teologia—pública10.— d)—Outro—fator—que—ressalta—a—importância—da—discussão—sobre—o—caráter—público—da—teologia—e—da—religião—é—o—advento—da—globalização,—de—uma—sociedade—civil—globalizada—que—atua— em—rede—e—plural—do—ponto—de—vista—religioso.—Neste—espaço,—há—uma—atuação—forte—do—movimento— ecumênico.— É— possível— percebermos— uma— preocupação— do— Conselho— Mundial— de— 49
Igrejas—”CMI),—por—exemplo,—com—o—caráter—público—da—teologia.—Sobretudo—desde—a—década— de—1960,—o—CMI—tem—promovido—a—priorização—de—uma—pauta—política,—que—compreende—como— fundamental—a—atuação—pública—da—instituição.—Assim,—o—CMI—teve—papel—determinante—nas— lutas—contra—as—ditaduras—latino-americanas—e—também—na—luta—contra—o—apartheid—na—África— do—Sul,—ao—sugerir—temas,—promover—debates—e—apoiar—ações—políticas—de—resistência.— Outro—aspecto—que—trouxe—fortemente—à—pauta—internacional—o—papel—público—da—religião— foi—o—atentado—às—Torres—Gêmeas—nos—Estados—Unidos.—Ao—menos—no—contexto—do—hemisfério— norte,—este—fato—teria—marcado—um—retorno—do—sagrado,—uma—ressurreição—da—religião—num— mundo—que—já—havia—se—desencantando,—como—dizia—Max—Weber.—Este—último—ponto—talvez— não—seja—muito—signiicativo—para—nós—que—vivemos—na—América—Latina—”no—hemisfério—sul,—de— modo—geral),—uma—vez—que—aqui—a—religião—sempre—esteve—presente—e—sempre—fez—parte—da— vida—individual—e—coletiva,—a—ponto—de—precisarmos—reiteradamente— discutir—a—laicidade—do— Estado,—os—limites—da—religião—no—espaço—público.—Neste—sentido,—a—discussão—sobre—teologia— pública—é—importante,—sobretudo—no—que—diz—respeito—à—relação—entre—Estado—laico—e—religião— e—à—defesa—da—pluralidade—e—diversidade—religiosa.— No—Brasil,—a—relexão—sobre—teologia—pública—tem—se—concentrado—em—torno—de—três—eixos— principais.— a)—O—primeiro—articula—a—cidadania—acadêmica—da—teologia.—Procura—formular—uma—epistemologia—para—a—teologia—que—possibilite—a—sua—aproximação—ao—universo—acadêmico,—que—permita—um—diálogo—interdisciplinar—que—discuta—o—papel—da—teologia—na—universidade—brasileira— e—o—papel—da/o—teóloga/o—neste—contexto11. b)—Outro—espaço—de—relexão—sobre—teologia—pública—encontra—reduto—no—sul—do—Brasil,—mais— especiicamente—nas—Faculdades—EST,—e—pergunta—pelas—contribuições—que—uma—relexão—sobre—teologia—pública—pode—oferecer—à—sociedade,—mas—também—à—academia12.—Ambas—as—relexões— são— desenvolvidas— desde— espaços— semelhantes— e— dialogam— entre— si.— A— linguagem— acadêmica—é—preponderante—nestas—abordagens,—o—que—nos—permite—inferir—que—estes—dois— tipos—de—teologia—pública—dialogam—mais—com—os—padrões—dominantes—de—teologia—pública,— que—se—preocupam—em—desenvolver—um—discurso—teológico—que—dialogue—racionalmente—com— a—sociedade—e—com—a—academia.—Há—abordagens—críticas,—nestes—contextos,—que—identiicam— este—tipo—de—aproximação—e—que—criticam—este—procedimento,—uma—vez—que—fomenta—uma—relexão—teológica—alheia—e—desconectada—da—produção—teológica—latino-americana—e—das—lutas— por—libertação13.—Algumas—abordagens—têm—identiicado—como—mais—interessante—a—discussão— da—teologia—desde—a—perspectiva—dos—direitos—humanos,—o—que—garantiria—um—melhor—vínculo— da—relexão—teológica—com—as—lutas—por—libertação,—o—que—caracteriza—historicamente—a—produção—das—teologias—de—libertação14.— c)—Uma—terceira—vertente—ainda—bastante—incipiente—procura—apresentar—uma—relexão—sobre—teologia—pública—que—pergunte—pela—sua—relação—com—a—sociedade—civil—e—com—movimentos— sociais.—Pergunta—pelo—papel—das—igrejas—e—da—relexão—teológica—no—fomento—à—cidadania15,— na—melhoria—das—condições—sociais—das—populações—mais—vulneráveis—e—na—luta—pública,—junto— com— o— Estado— e— com— o— restante— da— sociedade,— pela— concretização— dos— direitos— humanos,— civis,—sociais—e—culturais.—Tenho,—particularmente,—tentado—desenvolver—este—tipo—de—abordagem16—e—fortalecer—uma—noção—de—teologia—pública—que—esteja—intimamente—vinculada—ao—que— chamo—de—paradigma—de—libertação,—sobre—o—qual—a—teologia—pública—deveria—se—constituir—e— que—ela—deveria—qualiicar17.—
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4. Teologia pública e inclusão da pessoa com deiciência É—esta—última—percepção—de—teologia—pública—que—penso—ser—relevante—para—discutir/efetivar—a—inclusão—das—pessoas—com—deiciência.—É—esta—teologia—pública,—vinculada—às—lutas—por— libertação—e—visando—o—desenvolvimento—humano—e—social—integral—das—pessoas—marginalizadas,—que—pode,—em—meu—ponto—de—vista,—contribuir—para—trabalhar—pela—realização—do—sonho—e— da—esperança—da—inclusão.—Esta—teologia—pública—deve—ser—habitada—por—estes—sonhos—e—esperanças—e—deve—aprender—a—formulá-los—de—modo—efetivo—no—contexto—da—sociedade—democrática.—Deve—ser—estratégica—e—articulada—para—encontrar—meios—para—efetivar—progressivamente— os—direitos—das—pessoas—que—padecem—da—exclusão,—ainda—que—seus—direitos—já—tenham—sido— conquistados—do—ponto—de—vista—legal/constitucional. Esta—proposta—de—teologia—pública—se—diferencia—qualitativamente—das—anteriores—por—priorizar—a—práxis,—a—ação—transformadora—na—realidade—como—espaço—prioritário—para—o—desempenho—de—uma—teologia—pública.—Penso—que—a—teologia—pública—deve—articular-se—como—uma— ação—discursiva—mais—no—sentido—da—palavra-ação,—como—nos—ensinou—Paulo—Freire.—Esta—teologia—deve—ser—política—e—atuar—na—desconstrução—dos—discursos—e—práticas—dominantes,—que— operam—para—a—exclusão—das—pessoas—marginalizadas.—Esta—ação—política—que—a—teologia—pública—pode—oferecer—ocupando-se—com—o—papel—e—a—responsabilidade—das—igrejas,—da—relexão— teológica,—da—cidadã—e—do—cidadão—na—ação—transformadora—dentro—do—contexto—democrático,— plural—e—participativo. Sugiro,—resumidamente,—que—esta—teologia—pública—seja—uma—teologia—diaconal,—apresentando—um—caráter—público-prático-político—que—proporcione—a—transformação—da—sociedade— desde suas margens18.—Esta—teologia—concebe—o—espaço—público—como—um—local—estrategicamente—importante,—em—que—há—sempre—uma—luta—política—pela—formação—das—percepções—e—do— modo—de—organização—da—sociedade,—que—tende—sempre—a—reproduzir—os—padrões—de—pensamento—e—comportamento—dominantes.—A—teologia—pública—articula,—portanto,—nesta—luta—pelo— poder—de—determinação—da—realidade,—a—perspectiva—das—pessoas—marginalizadas.— Para—percebermos—o—modo—como—esta—teologia—pública—pode—efetivamente—se—concretizar— a—im—de—lutar—pela—inclusão—da—pessoa—com—deiciência,—menciono—alguns—exemplos.—David— Tracy,—em—sua—obra—Imaginação—Analógica,—tenta—fazer—uma—caracterização—dos—públicos—da— teologia:—igreja,—academia—e—sociedade.—Ainda—que—sua—deinição—seja—um—pouco—problemática—por—não—compreender—profundamente—a—necessária—inter-relação—entre—essas— distintas — esferas— da— vida— pública— da— teologia,— ela— é— didática— para— ins— de— exposição.— Ajuda-nos— também—a—compreender—por—que—algumas—abordagens—de—teologia—pública—articulam—mais— propriamente—um—dos—públicos—do—que—outros,—que—é—o—caso—da—distinção—entre—uma—leitura— mais—acadêmica—do—papel—da—teologia—e—outra—mais—social. É—possível—fazermos—uma—leitura—mais—aprofundada—do—papel—da—teologia—em—cada—um—destes— públicos ,—bem—como—da—metodologia—adequada—para—sua—aproximação—diferenciada—a— cada—um—deles.—No—entanto,—neste—espaço,—pretendo—apenas—apresentar—alguns—exemplos— do—exercício—da—teologia—pública—no—âmbito—da—sociedade,—seguindo—o—argumento—de—que,— tratando-se— da— discussão— sobre— a— inclusão— da— pessoa— com— deiciência,— a— teologia— pública— pode—representar—um—método—teológico,—um—modo—de—fazer—teologia,—útil—para—construir—a— inclusão,—em—contato—com—diversas—outras—entidades—e—agentes—da—sociedade—civil. 5. Teologia, Igreja e Sociedade Sendo—nosso—foco—a—sociedade,—o—foco—da—análise—aqui—proposta—não—signiica—que—a—aca51
demia,—através—da—relexão—teológica,—e—a—igreja—não—sejam—incluídas—nas—considerações.—Isto— é,—de—fato,—impossível,—uma—vez—que—há—uma—inegável—inter-relação—entre—estas—dimensões— ou— destes— públicos — da— teologia.— Por— isso,— apontamos— alguns— breves— tópicos— que— dizem— respeito—à—atuação—na—sociedade,—mas—que—se—referem—à—atuação—das—igrejas—ou—da—relexão— teológica. a)—Inicialmente,—é—necessário—apontar—que—há—um—diálogo—acerca—das—percepções—de—inclusão—que—partem—de—setores—organizados—da—sociedade—na—luta—pelos—direitos—das—pessoas— com—deiciência—e—que—acabam—moldando—a—percepção—de—inclusão—dentro—da—própria—igreja.— É—o—caso—da—mudança—de—paradigma—que—anteriormente—partia—do—assistencialismo—e—agora— compreende—mais—profundamente—o—compromisso—com—a—inclusão—social.—Pessoas—com—deiciência—não—são—alvos—de—iniciativas—assistencialistas—benevolentes,—mas—pessoas—com—autonomia—que—têm—o—direito—de—construírem—sua—inclusão—nos—diversos—espaços—da—sociedade.— Enquanto—a—noção—assistencialista—mantém—a—pessoa—com—deiciência—excluída—e—afastada—da— dinâmica—da—vida—em—sociedade,—a—noção—de—inclusão—chama—ao—convívio—e—desaia—a—sociedade—a—desenvolver—mecanismos—de—inclusão—e—de—acessibilidade—nos—mais—diversos—aspectos.— Este—primeiro—elemento,—que—diz—respeito—a—uma—mudança—de—paradigma,—atinge—a—igreja—e— a—teologia—e—demanda—uma—abordagem—que—estimule—atitudes—de—respeito—à—diversidade—de— pessoas—e—de—necessidades—que—as—diferentes—pessoas—têm.—Respeitar—a—diversidade—e—pensar— em—meios—de—promover—o—acesso—e—a—inclusão—são—iniciativas—que—valorizam—a—dignidade—das— pessoas—com—deiciência,—que—são—reconhecidas—enquanto—sujeitos—partícipes—da—sociedade— e—que—lutam—e—conquistam—a—equiparação—de—oportunidades.—Neste—sentido,—a—teologia—e—a— igreja—podem—formular,—desde—suas—bases,—uma—linguagem—e—uma—relexão—que—oportunizem— a—valorização—simbólica—da—diversidade—e—a—construção—de—iniciativas—de—inclusão—para—dentro— de—suas—estruturas—e,—numa—interação—crítico-construtiva,—para—outros—espaços—da—sociedade— onde—não—haja—inclusão—e—respeito—à—diversidade. Um—exemplo—deste—tipo—de—abordagem—crítico-construtiva—desde—a—igreja—para—a—sociedade—transparece—na—seguinte—manifestação—da—IECLB,—em—carta—da—presidência—de—agosto—de— 2011: Entendemos—que—a—participação—da—comunidade—cristã—e—o—testemunho—diaconal—são—de— extrema—importância—nas—organizações—e—nos—conselhos—de—direitos—das—pessoas—com—deiciência.—A—partir—do—Evangelho,—a—participação—poderá—questionar—leis—e—estruturas—que—oportunizem—e—favoreçam—a—discriminação—e—a—exclusão;—desejamos—que—os—órgãos—públicos—implementem—as—políticas—preconizadas—pela—Convenção—sobre—os—Direitos—das—Pessoas—com— Deiciência— —ONU,—que—foi—ratiicada—pelo—Estado—brasileiro—em—2008.19 b)—Neste—processo,—é—necessário—que—se—permita—e—se—oportunize—que—a—pessoa—com—deiciência—torne-se—a—agente—da—transformação—”inclusão).—Este—empoderamento—é—importante— dentro—da—relexão—teológica,—da—vida—na—igreja—e—na—sociedade,—para—que,—nestes—diferentes— espaços,—as—pessoas—com—deiciência—se—tornem—protagonistas—na—elaboração—de—planos—de— ação—que—contemplem—suas—demandas,—não—lhes—sejam—impostos—e,—por—isso—mesmo,—sejam— pertinentes—às—suas—realidades—e—diiculdades—especíicas.—Este—princípio—refere-se—à—máxima— Nada—sobre—nós,—sem—nós ,—presente—nas—relexões—sobre—a—inclusão—de—pessoas—com— deiciência— nas— discussões— sobre— políticas— de— inclusão.— A— teologia— pública— deve,— portanto,— oportunizar—o—empoderamento—de—pessoas—com—deiciência—para—que—assumam—papel—protagonista—nos—espaços—de—exercício—de—cidadania—e—nas—iniciativas—que—visem—à—inclusão—como— resultado. 52
c)— Teologia— pública— deve— ser— feita— com— a— Bíblia,— com— o— jornal— e— com— a— Constituição— nas— mãos.—Este—conjunto—de— ferramentas —da—teologia—pública—atenta—à—importância—da—manifestação—desde—a—nossa—experiência—religiosa,—mas—que—não—se—desvincule—do—que—acontece—na— sociedade—como—um—todo—e—que—tenha—por—inalidade—a—concretização—dos—direitos,—garantidos—pela—lei.—Neste—sentido,—a—teologia—deve—incentivar—para—o—conhecimento—da—sociedade,—sua—compreensão,—através—do—diálogo—com—outras—disciplinas—sociais,—mas—também—da— militância—participativa—no—cumprimento—da—lei.—Para—isso,—é—necessário—conhecer—as—leis—e— estar—integrado/a—às—lutas—pela—concretização—do—que—é—previsto—em—leis.—Por—isso,—a—teologia— pública—deve—incentivar—a—cidadã—e—o—cidadão—a—participarem—nos—conselhos—de—direitos—municipais,—estaduais—e—nacional,—como—espaços—democráticos—para—a—construção—de—políticas,— de—iscalização—na—execução—de—políticas—e—cumprimento—das—leis,—etc.—As—demandas—presentes—nestes—espaços—devem—também—ser—trazidas—para—as—igrejas—como—modo—de—estarmos— integrados—à—discussão—ampla—da—sociedade—e—como—meio—de—elaborarmos—uma—discussão— teológica—sobre—a—situação—contextual—de—vida—das—pessoas—com—deiciência. d)—Isso—deve—oportunizar—também—que—as—igrejas—e—a—teologia—sejam—pertinentes—nesta—luta— política—e—que—tenham—uma—voz—profética—no—mundo.—Por—isso,—a—igreja—e—a—teologia—devem— ser—críticas—à—sociedade—onde—ela—exclui—quem—não—se—adapta—aos—altos—padrões—estéticos,— de—desempenho—e—de—competitividade—que—obedecem—às—lógicas—de—mercado.—A—imagem—de— um—Jesus—com—deiciência—e—com—limitações—que—seu—corpo—lhe—impunha—dá—esperança—para— pessoas—com—deiciência—que—sofrem—de—pobreza,—miséria,—precariedade—de—acesso—aos—serviços—públicos—em—decorrência—de—suas—deiciências—e—do—preconceito—social.—A—mensagem—da— encarnação—de—Jesus—e—das—circunstâncias—de—sua—vida—pode—apresentar—uma—postura—crítica— e—poderosa—aos—padrões—que—a—sociedade—do—consumo,—da—disputa,—da—competição—e—da—divinização—de—padrões—estéticos—surreais,—como—menciona—o—apóstolo—Paulo: Pelo—contrário,—Deus—escolheu—as—coisas—loucas—do—mundo—para—envergonhar—os—sábios—e— escolheu—as—coisas—fracas—do—mundo—para—envergonhar—as—fortes e—Deus—escolheu—as—coisas— humildes—do—mundo,—e—as—desprezadas,—e—aquelas—que—não—são,—para—reduzir—a—nada—as—que— são;—a—im—de—que—ninguém—se—vanglorie—na—presença—de—Deus—”1Co—1.—27-29). Arrisco—concluir—dizendo—que—a—teologia—e—as—igrejas—devem—acolher—tão—profundamente— esta—poderosa—mensagem—do—Evangelho—de—Cristo—e—se—solidarizar—tão—intimamente—com—a— realidade—da—deiciência—a—ponto—de—se—considerarem—positivamente—como—igrejas—e—teologias—deicientes.—Parafraseio—a—assertiva—de—certo—arcebispo—anglicano—que—certa—vez—disse— que—a—Igreja—deveria—acolher—profundamente—as—pessoas—com—HIV/AIDS—a—ponto—de—tornar-se— ela—mesma—uma—igreja—com—HIV/AIDS.—Não—seria—o—caso—de—nos—considerarmos—uma—Igreja— com—deiciência,—acolhendo—todos—os—sofrimentos,—todas—as—diiculdades—e—toda—a—beleza—que— esta—realidade—acarreta?
Notas 1.—
2.—
3.—
Teólogo— evangélico— luterano.— Possui— mestrado— em— Teologia— Prática— pelas— Faculdades— EST—e—doutorado—em—Teologia—Sistemática—pela—mesma—instituição,—tendo—em—sua—tese—se— ocupado—com—o—diálogo—entre—teologia—da—libertação—e—teologia—pública.—Realizou—período— de—doutorado—sanduíche—na—África—do—Sul.—Atualmente,—atua—como—professor—no—curso—de— Ciências—da—Religião—da—FURB,—na—modalidade—do—PARFOR.—felipebuttelli@yahoo.com.br GALEANO,— Eduardo.— Espelhos:— uma— história— quase— universal.— São— Paulo:— LPM— Editores,— 2008. NOLAN,—Albert.—Esperança—em—tempos—de—desespero:—outras—palestras—e—escritos.—Trad.— 53
Euclides—Luiz—Calloni.—São—Paulo:—Paulinas,—2012.—p.—23. 4.—
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SMIT,—Dirk—J.—The—Paradigm—of—Public—Theology— —Origins—and—Development.—Paper—presented— at—the—International—Conference— —Contextuality—and—Intercontextuality—in—Public—Theology— in—the—University—of—Bamberg,—Bamberg/Germany,—June—2011. Ainda—há—feministas—que—procuram—usar—a—palavra—herstory,—uma—vez—que—o—preixo—his— remete—ao—pronome—masculino—dele;—ao—ressaltar—o—her,—inclui-se—a—mulher—como—sujeito— na—contação—de—estórias. MARTY,—Martin.—Reinhold—Niebuhr:—Public—Theology—and—the—American—Experience.—Journal— of—Religion,—Chicago,—ano—54,—n.—4,—p.—332-359,—1974. BELLAH,—Robert—N.—Civil—Religion:—The—American—Case.—In:—BELLAH,—Robert—N.;—HAMMOND,— Phillip—E.—Varieties—of—Civil—Religion.—San—Francisco:—Harper—&—Row,—1980. Temos—em—português—a—seguinte—obra,—de—1981,—traduzida—apenas—recentemente:—TRACY,— David.—A—imaginação—analógica:—a—teologia—cristã—e—a—cultura—do—pluralismo.—São—Leopoldo:— Unisinos,—2006.——”Coleção—Theologia—Publica—n.—7). TRACY,—David.—Theology—as—Public—Discourse.—The—Christian—Century,—Chicago,—March—19,— p.—280-284,—1975. SMIT,—2011,—p.—6. SOARES,— Afonso— Maria— Ligório;— PASSOS,— João— Décio— ”Orgs.)— Teologia— pública:— relexões— sobre—uma—área—do—conhecimento—e—sua—cidadania—acadêmica.—São—Paulo:—Paulinas,—2011. CAVALCANTE,— Ronaldo;— SINNER,— Rudolf— von— ”Orgs.).— Teologia— pública— em— debate.— São— Leopoldo:— Sinodal,— 2011— ”Teologia— pública,— v.— 1);— JACOBSEN,— Eneida;— SINNER,— Rudolf— von;— ZWETSCH,— Roberto— E.— ”Orgs.).— Teologia— pública— — Desaios— sociais— e— culturais.— São— Leopoldo:— Sinodal,— 2012.— ”Teologia— pública,— v.— 2);— CAVALCANTE,— Ronaldo.— A— cidade— e— o— gueto:—introdução—a—uma—teologia—pública—protestante—e—o—desaio—do—neofundamentalismo— evangélico—no—Brasil.—São—Paulo:—Fonte—Editorial,—2010;—ZABATIERO,—Júlio.—Para—uma—teologia— pública.—2.—ed.—São—Paulo:—Fonte—Editorial,—2011;—JACOBSEN,—Eneida;—SINNER,—Rudolf—von;— ZWETSCH,—Roberto—”Orgs.).—Teologia—pública— —Desaios—éticos—e—teológicos.—São—Leopoldo:— Sinodal/EST,—2012.——”Teologia—Pública,—v.—3). Eu—procurei—fazer—esta—discussão—entre—teologia—pública—e—teologia—da—libertação—em—minha— tese— de— doutorado:— BUTTELLI,— Felipe— Gustavo— Koch.— E— a— luta— continua:— propostas— para— uma—teologia—pública—libertadora—para—o—desenvolvimento—construída—em—diálogo—com—a— relexão—teológica—sul-africana.—[tese—de—doutorado]—São—Leopoldo,—2013. Um—exemplo—desta—abordagem—crítica—pode—ser—encontrado—em:—OLIVEIRA,—Kathlen—Luana.— Direitos—humanos,—religião—e—teologia:—desaios—e—convergências.—In:—JACOBSEN;—SINNER;— ZWETSCH—”Orgs.),—2012,—p.—109-134. CASTRO,—Clovis—de—Pinto.—Por—uma—fé—cidadã:—a—dimensão—pública—da—igreja:—fundamentos— para—uma—pastoral—da—cidadania.—São—Bernardo—do—Campo/São—Paulo:—Ciências—da—Religião/ Loyola,—2000. BUTTELLI,— Felipe— Gustavo— Koch.— Teologia— e— desenvolvimento:— pensando— em— caminhos— para—a—teologia—pública—no—Brasil—In:—JACOBSEN;—SINNER;—ZWETSCH—”Orgs.),—2012,—p.—41-68. BUTTELLI,— 2013,— p.— 161.— Cf.— também— BUTTELLI,— Felipe— Gustavo— Koch.— Public— Theology— and—Its—Necessary—Relation—to—the—Liberation—Paradigm—in—a—New—Kairos:—A—Response—to— Clint—le—Bruyns.—2012.—Disponível—em:—http://www.ecclesio.com/2012/06/public-theologyand-its-necessary-relation-to-the-liberation-paradigm-in-a-new-kairos-%E2%80%93a-response-to-clint-le-bruyns-by-felipe-gustavo-koch-buttelli/.— Último— acesso— em:— 14/12/2012. É—a—visão—apresentada—por—COCHRANE,—James.—The—Boundaries—of—Hegemony:—Coniguring— Public—Space—from—the—Margins.—Scriptura,—Stellenbosch,—n.—63,—p.—451-466,—1997. Igreja—Evangélica—de—Conissão—Luterana—no—Brasil.—Carta—da—Presidência,—10—de—agosto—de— 2011.
Principais conclusões do Fórum Teologia e Deiciência O—Fórum—de—Teologia—e—Deiciência—reuniu—ministros—e—ministras,—líderes,—estudantes,—professoras—e—professores—de—teologia.—Foi—um—espaço—de—estudo,—relexão—e—partilha—de—experiências.—Destacamos,—abaixo,—conclusões—relevantes—a—partir—das—relexões—do—encontro: a)—Deiciência—não—é—doença.—A—deiciência—pode—ter—sido—causada—por—uma—doença,—porém— ela—não—nos—torna—pessoas—doentes.—Entendemos,—conforme—a—Convenção—sobre—os—Direitos— das— Pessoas— com— Deiciência,— que— pessoas— com— deiciência— são— aquelas— que— têm— impedimentos—de—natureza—física,—intelectual—ou—sensorial,—impedimentos—estes—que,—em—interação— com—diversas—barreiras,—podem—obstruir—sua—participação—plena—e—efetiva—na—sociedade—com— as—demais—pessoas. b)— Acessibilidade— é— aquilo— que— a— sociedade— deve— oferecer— às— pessoas— com— deiciência— para—promover—a—inclusão.—São—alguns—tipos—de—acessibilidade:—arquitetônica,—comunicacional,—metodológica,—instrumental,—programática—e—atitudinal. c)—A—culpa—e—a—vergonha—de—ter—alguma—pessoa—com—deiciência—na—família—é—muito—frequente—nos—dias—atuais.—Percebe-se—que—as—pessoas—têm—bastante—presente—a—ideia—de—que—essa— situação—é—fruto—do—pecado—de—alguém—ou—castigo—de—Deus.—É—necessário—reletir—este—tema— nas—comunidades—airmando—que,—conforme—Jo—9.1-12,—deiciência—não—é—fruto—do—pecado—e— nem—castigo—de—Deus. d)—A—busca—incansável—pela—cura—das—pessoas—com—deiciência—demonstra,—de—certa—forma,— a—diiculdade—que—as—pessoas—têm—de—compreender—que—nós—fomos—criados—e—criadas—à—imagem—e—semelhança—de—Deus—e—que—não—precisamos—ser—pessoas—padronizadas,—todas—iguais,— perfeitas—e—dentro—dos—padrões—de—beleza—exigidos—pela—sociedade.—Algumas—pessoas—têm— uma—concepção—perfeccionista—e,—por—isso,—errada—da—Imago—Dei.—A—pessoa—com—deiciência— foi—criada—à—imagem—e—semelhança—de—Deus. e)—A—partir—da—experiência—da—deiciência,—a—hermenêutica—precisa—buscar—revelar—o—Evangelho—e—a—plena—participação—no—Reino—de—Deus—para—quem—tem—uma—deiciência,—sem—exigir— mudanças—em—seus—corpos. f)—A—inclusão—deve—ser—uma—característica—presente—do—ser—Igreja—como—um—lugar—de—relexão—e—crescimento. g)—A—relexão—sobre—comunidade—inclusiva—necessita—de—avanço,—como—também—a—superação—dos—preconceitos—encontrados—dentro—e—fora—das—instâncias—da—Igreja.—Podemos—sonhar— 55
com— uma— pastoral— da— pessoa— com— deiciência— em— cada— uma— das— comunidades— da— IECLB?— Somos—Igreja—que—acolhe—a—deiciência—ou—somos—uma—Igreja—com—deiciência? h)—É—imprescindível—que—os—três—Centros—de—Formação—vinculados—confessionalmente—com— a—IECLB—tenham,—em—seus—currículos,—uma—disciplina—especíica—ou—que,—pelo—menos,—abordem—o—tema—da—inclusão—de—maneira—transversal—e—ofereçam—cursos—de—extensão—que—tratem— deste—assunto—de—forma—continuada—e—frequente.—É—importante—promover—a—inserção—de—estudantes—na—prática—e—na—vivência—da—pessoa—com—deiciência. i)—É—imprescindível—que—os—sínodos—promovam—a—formação—continuada—de—seus—ministros— e—ministras—na—área—da—inclusão—da—pessoa—com—deiciência. Diác.—Ma.—Carla—Vilma—Jandrey Coordenadora—Programa—Diaconia—Inclusão—da—IECLB
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