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23 MAR - 22 ABR 2022
DA ANATOMIA CIRÚRGICA À IRREALIDADE DA IMAGINAÇÃO ÁLVARO LARANJEIRA SANTOS
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(Página deixada propositadamente em branco)
Nasci em agosto de 1960, tenho 61 anos. Filho de uma professora de francês e de um escultor, tive uma infância privilegiada em que as artes e a literatura marcaram uma presença indelével. Contudo, escolhi a Medicina. Sou médico desde 1985 e cirurgião cardíaco desde 1996. Durante os anos de dedicação profissional mantive-me atento ao mundo artístico, interessado em aprender, em ver exposições, enriquecer o olhar. Sempre desenhei. Desenhava nos tempos mortos, em todos os momentos, à mesa dos restaurantes, no hospital à espera de entrar para o bloco operatório, nas longas noites de vigília e de urgência, nas reuniões intermináveis de assuntos desinteressantes. Desenhava horas e horas, dias, semanas, meses, durante anos. A minha mão foi ficando mais leve, o traço fluído e as folhas brancas iam-se enchendo de riscos, linhas, manchas, cor. A imaginação voava perdida. No outro lado do cérebro a cirurgia cardíaca era uma vocação, a aorta e o arco uma paixão. Doenças raras em doentes com pouca esperança, anatomias muito complexas, maus prognósticos, resultados incertos, risco cirúrgico elevado. Desenvolver diferentes estratégias cirúrgicas para abordar estes doentes, constituía um enorme desafio que não pude resistir. Trabalhei com uma excelente equipa, estudando e planeando os passos e as técnicas para reduzir o número de complicações e atingir os melhores resultados. Nos relatórios operatórios, as ilustrações destas técnicas e os detalhes das opções cirúrgicas, eram fundamentais. Os desenhos passavam a fazer parte da história do doente. Um esquema, uma imagem vale mais do que mil palavras. Após 30 anos de experiência, aos últimos doze quase exclusivamente dedicados a intervenções na aorta torácica, soma-se uma enorme casuística nesta área. Surge, naturalmente, um novo projeto. Um livro de memórias cirúrgicas 350 Casos Clínicos. Cirurgia complexa da aorta torácica: Estratégias, opções e resultados nos aneurismas, nas dissecções e nas reoperações. O que fiz, como planeei, quais as estratégias escolhidas e quais os resultados. Esta exposição é uma pequena amostra das ilustrações do livro. São muito técnicas. Foram escolhidas entre as 1500 presentes, a razão de ser das 500 páginas do texto, dividido em 24 capítulos. Três anos de pesquisa e de trabalho diário.
Como nunca deixei de desenhar, além dos desenhos dos relatórios operatórios (refeitos) apresentam-se na exposição os rascunhos recuperados, colados e reinterpretados pela imaginação subconsciente. Na continuidade desta pulsão desenhística automática, ao sabor da pena, neste caso da caneta, estão expostos outros conjuntos de colagens, trabalhados nos detalhes até à exaustão, realizados nos últimos anos. Enfim, trata-se de uma exposição de um cirurgião que realmente teria preferido ser artista. Álvaro Laranjeira Santos
DA ANATOMIA CIRÚRGICA À IRREALIDADE DA IMAGINAÇÃO Os adultos fazem negócios. Têm rublos nos bolsos. Quer amor? Pois não! Ei-lo por cem rublos! E eu, sem casa e sem tecto, com as mãos metidas nos bolsos rasgados, vagava assombrado. À noite vestis os melhores trajes e ides descansar sobre viúvas ou casadas. A mim Moscovo me sufocava de abraços com seus infinitos anéis de praças. Nos corações, nos relógios bate o pêndulo dos amantes. Como se exaltam as duplas no leito do amor! Eu, que sou a Praça da Paixão, surpreendo o pulsar selvagem do coração das capitais. Desabotoado, o coração quase de fora, abria-me ao sol e aos jactos d’água. Entrai com vossas paixões! Galgai-me com vossos amores! Doravante não sou mais dono de meu coração! Nos demais - eu sei, qualquer um o sabe! O coração tem domicílio no peito. Comigo a anatomia ficou louca. Sou todo coração - em todas as partes palpita. Oh! Quantas são as primaveras em vinte anos acesas nesta fornalha! Uma tal carga acumulada torna-se simplesmente insuportável. Insuportável não para o verso deveras. Vladimir Maiakovski – “Adultos”
Uma das prerrogativas da Arte é a instauração. Penso que já deixei registada algures a definição de arte que costumo dar aos meus alunos: «Arte é introdução no nosso ambiente, pelo ser humano, de formas que antes não existiam e que podem ser experimentados esteticamente». Trata-se de uma definição que se prefere à mais lata boutade atribuída a Marcel Duchamp: «Qualquer coisa é arte se um artista o disser». Para se compreender esta particular exposição de Álvaro Laranjeira há que cruzar este ponto de partida com um assunto a ser necessariamente abordado, que é a candente ligação da Arte à Ciência. No presente são vários os artistas que se dedicam à ciência e vários cientistas que se dedicam à arte, nem sempre sendo os resultados obtidos de assinalar de parte a parte. Fica normalmente um travo a anacronismo, como sucede com as criações do cipriota Stelarc, no âmbito do projeto Amplified Body / Involuntary Body / Third Hand, uma terceira mão que pode ter leitura plástica, claras aplicações coreográficas, mas que tem uma caligrafia horrível, ou a orelha de teflon que o
referido criador implantou no antebraço no âmbito do Extra Ear Project, mas que se torna totalmente inútil, já que nasceu completamente surda. Poderão ser ainda referidas as bem mediáticas operações plásticas da francesa Orlan, tantas vezes alvo de incompreensão, por fúteis. Mas há casos nobres como o de Eduardo Kac, criador de uma planta que não pode ser encontrada na natureza, num projeto realizado a partir da biologia molecular e, sobretudo, o do cientista da Universidade de Berkeley, Ken Goldberg com um número muito relevante de artigos científicos, publicados na esfera da Robótica e em particular da Robótica Médica, que paralelamente e em estreita ligação e derivada da sua pesquisa científica se dedica a uma produção artística vasta e bem curiosa. O caso de Álvaro Laranjeira é bem diferente. Antes de mais há que referir o seu percurso científico que o levou a cirurgião cardiotorácico em estruturas relevantes, sendo de mencionar a sua investigação na área da Medicina, aí instaurando ao definir/criar novos procedimentos que o conduzem à partilha dos processos que desenvolveu com a comunidade através da sua compilação em publicação científica. Fica desde logo a pergunta provocatória, à luz da definição anteriormente proposta de Arte: será que esses procedimentos inovadores podem ser escrutinados sobre o ponto de vista estético? Não pode existir qualquer dúvida, sobretudo quando o criador plasma a sua atividade nos seus inovadores desenhos e evidencia que, também, a sua visão científica é marcada por um ponto de vista estético. Importa agora referir a forma como cultiva o desenho. Num mundo onde os artistas multimédia são privilegiados, Álvaro Laranjeira não tem qualquer outra preocupação que não o cultivar de forma absolutamente pessoal o desenho e de que forma… Já conhecíamos o seu impulso para o desenho, nomeadamente séries anteriores, marcadas por interações, autorretratos, mas também as séries de desenhos eróticos, agora vai muito mais além. Álvaro Laranjeira desenha por impulso, de forma quase obsessiva, onde e quando pode, sempre. Sem esforço, mas de forma árdua, o que o leva a assumir uma nova forma de composição, que lhe passa a ser muito própria, diversa de tudo quanto se viu até aqui, carregada e complexa, não linear, a que também não é alheio o suporte eleito, já que muitas vezes desenha sobre papéis que recicla, que desenha e depois agrega, criando composições bem complexas, onde a temática varia de acordo com o que lhe vai na alma. Pode começar por um autorretrato que é irónico, às vezes quase cruel, servindo muitas vezes de ponto de partida para uma análise do autor perante a vida, com o que de melhor esta tem, mas também com as perplexidades que a mesma suscita. As representações podem ser feitas à vista ou pelo contrário metafóricas, vindo à memória a máxima desse João Baptista mais conhecido por Molière «Je prends mon
bien où je le trouve», que tão bem se cola ao que desenha. Há a representação de coreografias de dança, de corpos marcados pela dor, o sonho da razão que produz monstros que também havia perturbado Francisco de Goya está omnipresente e também, obviamente, a representação da mulher que tem um lugar muito relevante, que perpassa em muito nos seus desenhos livres. A mulher é assumida como um pretexto para o autor manifestar de alguma forma a sua perplexidade perante o mundo, vivendo uma vida bem contraditória, pelo que esta pode ser representada de forma hiperbólica, metafórica, paradoxal, no fundo verdadeiro oximoro. Agora vai muito mais longe, voltando a instaurar. Numa exposição muito coerente, várias áreas do desenho são tocadas, primeiro, quase como uma forma de introdução e enquadramento, é exposto um conjunto de desenhos, organizados em painéis de dimensão significativa; depois, tem a generosidade de partilhar connosco montagens dos estudos para uma obra científica que escreveu e ilustrou: 350 Casos Clínicos. Cirurgia complexa da aorta torácica: Estratégias, opções e resultados nos aneurismas, nas dissecções e nas reoperações, onde expõe as diversas intervenções que tem feito, com um número muito significativo de estudos de caso, apontando para novas formas de operar. São as ilustrações desta obra que culminam nesta exposição, ou seja, um conjunto de desenhos, onde a cor também entra, que mostram as intervenções passíveis de ser feitas. Aqui também se inova ao nível do desenho científico. Há objetivamente instauração, fugindo-se do naturalismo habitual, que não tem qualquer inovação, entrando-se em novos caminhos. O desenho continua a ser científico, continua a ilustrar, mas permite também novas leituras estéticas. Enfim, coisas da aorta…
Paulo Morais-Alexandre Académico correspondente da Academia Nacional de Belas-Artes; Professor Coordenador da Escola Superior de Teatro e Cinema do Politécnico de Lisboa; Pró-presidente para as Artes do Politécnico de Lisboa; Comendador da Ordem do Ouissam Alaouite (Reino de Marrocos). Afiliação institucional: Instituto Politécnico de Lisboa, Escola Superior de Teatro e Cinema, Avenida Marquês de Pombal, 22 B, 2700-571 Amadora, Portugal; Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes, Centro de Investigação e de Estudos em Belas-Artes (CIEBA), Largo da Academia Nacional de Belas-Artes, 1249-058 Lisboa, Portugal;. E-mail: pmorais@estc.ipl.pt.
Da Anatomia Cirúrgica à Irrealidade da Imaginação
POLITÉCNICO DE LISBOA ÁLVARO LARANJEIRA SANTOS - DA ANATOMIA CIRÚRGICA À IRREALIDADE DA IMAGINAÇÃO EXPOSIÇÃO DE DESENHO 23 de março de 2022 a 22 de abril de 2022
Coordenação do Espaço Artes Politécnico de Lisboa: Paulo Morais-Alexandre Curadoria: Paulo Morais-Alexandre Céu de Vasconcelos Fotografia: Rita Laranjeira Santos Edição: Politécnico de Lisboa Conceção Gráfica: DesignLab4u Paginação: Gabinete de Comunicação e Imagem do IPL Impressão: Gráfica 99 Montagem da Exposição: Ângelo Ramiro, Miguel Serra, Vítor Faria Copyright ©Álvaro Laranjeira Santos - 2022 - Todos os direitos reservados. Proibido reproduzir e copiar
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23 MAR - 22 ABR 2022
DA ANATOMIA CIRÚRGICA À IRREALIDADE DA IMAGINAÇÃO ÁLVARO LARANJEIRA SANTOS
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