Estudo identifica fontes de poluição na baía de Todos os Santos aves Ninho fóssil reforça parentesco de flamingos e mergulhões
m edicamentos
Nanocápsulas agem contra calvície e liberam anestésicos na pele revistas cientí F icas
Acesso aberto ganha espaço e expõe novos dilemas
do império
Se você tiver uma imagem relacionada a pesquisa, envie para imagempesquisa@fapesp.br com resolução de 300 dpi (15 cm de largura) ou com no mínimo 5 MB. Seu trabalho poderá ser selecionado pela revista.
Galinha no ovo
No início da vida de uma galinha, ainda dentro do ovo (na imagem aos 2,5 dias), as células da crista neural migram para as regiões do corpo onde, já nessa fase, dão origem a diferentes estruturas: na cabeça, os nervos faciais, abaixo dela, os gânglios nervosos do tronco e, à frente, o coração, cujas válvulas têm origem nessas células. Para a equipe de Irene Yan, a técnica que permite iluminar essas células serve como instrumento para detectar possíveis alterações causadas por experimentos com o tubo neural, precursor da crista neural.
Foto enviada por Irene Yan, Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo
18 c APA
Império lusitano soube usar liberdade das elites locais e religião missionária para manter-se por cinco séculos
Polít I c A c IE ntíFI c A
E t Ecnológ I c A
34 Acesso aberto
Iniciativa do Reino Unido vai mostrar até que ponto é viável oferecer toda a produção científica na internet
40 Internacionalização
Programa-piloto atrai cientistas do exterior para formar novos grupos de pesquisa de alto nível em São Paulo
62 Dinâmica de fluidos
Técnica que estabiliza pressão na interface entre óleo e água pode facilitar extração de petróleo
64 Redes complexas
Eliminar sincronismos em redes pode ajudar no controle de multidões e de distúrbios cerebrais
E ntr E v IS tA
26 José Marques de Melo
Professor fala das dificuldades de constituir o campo da pesquisa em comunicação no Brasil
SEçÕES
3 Fotolab
6 Cartas
7 Carta da editora
8 Dados e projetos
9 Boas práticas
10 On-line
11 Wiki
12 Estratégias
14 Tecnociência
86 Memória
88 Arte
90 Conto
92 Resenhas
c IÊnc IA
44 Ambiente
Projeto mapeia fontes de poluentes e correntes marinhas na baía de Todos os Santos
50 Paleontologia
Fósseis de ovos e ossos de ave de 18 milhões de anos reforçam parentesco entre flamingos e mergulhões
54 Oncologia
Aprisionar o cálcio em compartimento no núcleo das células torna o tumor mais vulnerável à radioterapia
58 Molécula da glândula salivar do carrapato-estrela combate células cancerígenas e preserva sadias
60 Neurologia
Neurônio especial controla a chegada de informação do ambiente ao centro formador das recordações no cérebro
61 Biofísica
Estudo revela estrutura atômica de proteínas que eliminam excesso de hemoglobina no sangue
t
Ecnolog IA
66 Indústria automotiva
Empresas de autopeças instaladas no Brasil produzem soluções em conjunto com centros de P&D de outros países
70 Pesquisa empresarial
Embraer investe em parcerias para desenvolver desde biocombustíveis até inovações para cabines de aviões
76 Indústria farmacêutica
Biolab utiliza nanotecnologia em anestésico e no tratamento de calvície
h UMA n I dA d ES
80 Diplomacia
Política imigratória do Estado Novo escondia projeto de branqueamento
84 Literatura
Autobiografia de Josef Mengele revela falta de empatia pelas vítimas e culpa pelos crimes
CELSO LAFER
pre SiD ente
EDUARDO MOACYR KRIEgER
V ice-pre SiD ente
conSElho SUPErIor
ALEJANDRO Sz ANTO DE TOLEDO, CELSO LAFER,
EDUARDO MOACYR KRIEgER FERNANDO FERREIRA
COSTA , HOR áCIO L AFER PIvA , HERMAN JACOBUS
CORNELIS vOORWALD JOãO gRANDINO RODAS
MARIA JOSé SOARES MENDES gIANNINI JOSé DE SOUz A MARTINS, LUIz gONz AgA BELLUzzO, SUELY vILELA
SAMPAIO YOSHIAKI NAKANO
conSElho técnIco-AdMInIStr AtIvo
JOSé ARANA vARELA
Diretor pre SiD ente
C ARLOS HENRIqUE DE BRITO CRUz
Diretor cientíFico
JOAqUIM J. DE C AMARgO ENgLER
Diretor A D miniS tr Ati Vo
ISSN 1519-8774
conSElho EdItorIAl
Carlos Henrique de Brito Cruz (Presidente), Caio Túlio Costa, Eugênio Bucci, Fernando Reinach, José Eduardo Krieger, Luiz Davidovich, Marcelo Knobel, Marcelo Leite, Maria Hermínia Tavares de Almeida, Marisa Lajolo, Maurício Tuffani, Mônica Teixeira
coMItÊ cIEntíFIco
Luiz Henrique Lopes dos Santos (Presidente), Adolpho José Melfi, Carlos Eduardo Negrão, Douglas Eduardo zampieri, Eduardo Cesar Leão Marques, Francisco Antônio Bezerra Coutinho, João Furtado, Joaquim J. de Camargo Engler, José Arana varela, José Roberto de França Arruda, José Roberto Postali Parra, Luis Augusto Barbosa Cortez, Marcelo Knobel, Marie-Anne van Sluys, Mário José Abdalla Saad, Paula Montero, Roberto Marcondes Cesar Júnior, Sérgio Luiz Monteiro Salles Filho, Sérgio Robles Reis queiroz, Wagner do Amaral, Walter Colli
coordEnAdor cIEntíFIco
Luiz Henrique Lopes dos Santos
dIrE tor A dE rEdAção Mariluce Moura
EdItor chEFE Neldson Marcolin
EdItorES Carlos Haag (Humanidades), Fabrício Marques (Política), Marcos de Oliveira (Tecnologia), Ricardo zorzetto (Ciência) Carlos Fioravanti (Editor especial), Marcos Pivetta (Editor especial), Dinorah Ereno (Editora assistente)
rE vISão Márcio guimarães de Araújo, Margô Negro
ArtE Laura Daviña (Editora) Ana Paula Campos, Maria Cecilia Felli
Fotógr AFoS Eduardo Cesar, Léo Ramos
MídIAS ElE trônIc AS Fabrício Marques (Coordenador)
IntErnE t Pesquisa FAPESP online Maria guimarães (Editora executiva)
Isis Nóbile Diniz (Editora assistente)
rádIo Pesquisa Brasil
Biancamaria Binazzi (Produtora)
colAborAdorES Alexandre Affonso, Ana Lima, Daniel Bueno, Drüm, Evanildo da Silveira, Igor zolnerkevic, gabriel Bitar, Larissa Ribeiro, Luciano Andrade, Salvador Nogueira, Sandro Castelli, valter Rodrigues (Banco de Imagens), Yuri vasconcelos
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c A rtAS cartas@fapesp.br
Empresa que apoia a ciência brasileira
Educação científica
Excelente revista! Artigos superimportantes, trabalhos muito relevantes para o país. Uma sugestão a partir da leitura do artigo “Gargalo na sala de aula” (edição 200). Pesquisa FAPESP deveria ser distribuída para todas as escolas públicas e servir como material de base para cursos. Ou seja, deveriam adotar conteúdos da revista para que os alunos fizessem redações, explicando, por exemplo, do que trata o artigo, ou como base para pesquisas sobre os tipos de trabalhos científicos que são feitos no Brasil, por quais entidades, para que e por quê. Vejo a revista em si como uma riquíssima fonte de material didático. Gosto muito também do website e do fato de que as matérias da revista estão lá disponíveis para quem não é assinante. Por meio dessa facilidade, postei dois artigos para amigos. Um dos artigos, sobre a mandioca biofortificada (edição 200), achei especialmente importante.
Flavia de Miranda
São Paulo
Entrevista Marco Antonio Zago e jornalismo científico
Enalteço a postura e a atuação do professor Marco Antonio Zago à frente da Pró-Reitoria de Pesquisa da USP (edição 200), mas convém dizer que, no âmbito dos contratos a serem firmados entre a universidade pública e as empresas, os advogados trabalham como inibidores da sinergia propalada. A nova dimensão da USP Inovação pode estar mudando essa estrutura, mas os obstáculos são recentes. A confirmação está nessa própria edição: a reportagem sobre a Oxiteno (“Em busca de novas rotas químicas”) relata a parceria com a FAPESP em três projetos de uma chamada específica, sendo que pelo menos outros três projetos aprovados no âmbito da USP foram cancelados por falta de interesse entre as partes para resolver as cláusulas de contrato. Por fim, a reportagem de Mariluce Moura (“Histórias para contar”)
é um bonito documento histórico sobre os primórdios do jornalismo científico, mas contém um erro: a primeira “Secção Scientifica” publicada no jornal A Província de São Paulo é de 24 de janeiro de 1875 (“considerações geologicas e agronomicas applicadas”), repetida em 13/02/1875, anterior, portanto, à de 16/02/1875. Deve ter sido um problema no buscador, que encontra “scientifica”, mas não “secção scientifica”.
Adilson roberto gonçalves
Escola de Engenharia de Lorena/ USP Lorena, SP
correções
No infográfico “Cenário provável da produção agrícola em 2022”, publicado na página 29 da reportagem “Biorrefinarias do futuro” (edição 192), faltou dizer que a produção estimada de cana, pastagens e alimentos é em milhões de toneladas por ano. Saiu apenas toneladas por ano. Nessa mesma reportagem, a moeda correta que deveria ter constado do infográfico na página 30 é dólares – e não reais.
Diferentemente do que foi publicado na página 68 da reportagem “Inseto contra inseto” (edição 195), Trichogramma galloi não é um gênero de vespa, mas uma espécie.
Cartas para esta revista devem ser enviadas para o e-mail cartas@fapesp.br ou para a rua Joaquim Antunes, 727, 10º andar – CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP. As cartas poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.
c A rtA dA E d I tor A
Histórias maravilhosas de portugueses
Mariluce Moura
D IRETORA DE R EDA çãO
desfruto do privilégio especial de ter alguns amigos e amigas queridos, na faixa dos 30 aos 90 anos e de variadas formações cultural e profissional, com quem posso imediatamente trocar ideias quando um assunto me fascina ou, melhor ainda, literalmente me empolga. Isso vem a propósito do tema da reportagem de capa desta edição de Pesquisa FAPESP, um grande projeto de pesquisa sobre as dimensões do Império Português, iniciado em 2004, sob a coordenação da historiadora Laura de Mello e Souza. Mal comecei a ler a versão final do texto elaborado por nosso editor de humanidades, Carlos Haag, peguei-me pensando no quanto as narrativas da história real podem nos capturar para dentro do mesmo fascínio com o qual, primeiro, ouvimos histórias maravilhosas de fadas e bruxas, gnomos e elfos, príncipes encantados e reis sanguinários. E, mais adiante, nos entregamos, por exemplo, à extraordinária experiência estética –para nem falar de outras dimensões – que é ler Crime e castigo ou à desnorteante viagem proporcionada por Em busca do tempo perdido a quem não deserta de suas páginas. Ficcionais ou reais, as grandes histórias convergem nesse poder de deslumbrar e aprisionar nossa atenção pela mágica da narração. Mas, ao avançar na leitura da reportagem, ela já me fez pensar numa outra questão, mais restrita ao campo da história do Brasil, qual seja, as discussões tão frequentes em minha geração sobre o quanto as mazelas de nosso país derivavam das origens portuguesas da formação da nação brasileira. Foi aí que entrou em cena o meu velho
hábito de não postergar a escuta aos amigos em meio a conjecturas excitantes que me tomam de assalto.
Eu queria saber se para outras gerações era comum um gratuito exercício de imaginação sobre a possível superioridade de nosso país caso tivesse sido colonizado pelos franceses, malsucedidos em suas incursões à vasta colônia lusitana do Atlântico Sul, pelos holandeses, que até fincaram pé no Nordeste por certo tempo, ou, melhor ainda, pelos ingleses, que preferiram francamente se manter mais ao norte. Sim, era, disseram-se os consultados, situados num gradiente que, a partir de minha própria geração, se estende por 30 anos adiante e 30 anos atrás. E na boa prosa que os tempos internéticos tanto ameaçam, propuseram-me uma infinidade de outras questões levantadas por essa depreciação dos portugueses que longamente cultivamos, fruto em parte de um ressentimento pós-colonial (tão bem expresso popularmente nas piadas de português), e ao qual Laura de Mello e Souza faz referência. Eu concluí cada uma dessas conversas recomendando que meus amigos não deixassem de ler a reportagem a partir da página 18, sugestão que estendo aqui a todos os nossos leitores. E, para sustentá-la, vai esse breve e delicioso aperitivo do texto que busca expressar que conhecimentos novos o projeto sobre dimensões do Império Português tem de fato produzido: “Não se trata nem da visão do ‘império controlador’, nem do ‘império incapaz de controlar’, mas de um império que, ciente da imensidão oceânica que sepa-
rava suas partes, entendeu a necessidade de manter relações com periferias relativamente autônomas, conectadas à metrópole por laços frouxos. Sem que, no entanto, Lisboa deixasse de ser o centro de onde o poder emanava. A distância entre rei e súditos, que poderia se configurar como problema, reaparece, agora, como ‘virtude’ de governar”.
Extrema coincidência, a reportagem que abre a seção de ciência desta edição concentra seu olhar no lugar onde teve início a ação colonizadora dos portugueses neste território que se tornaria o Brasil: a baía de Todos os Santos. E o faz para relatar um programa de pesquisas de fôlego que trata de produzir conhecimento multidisciplinar dessa área, começando por uma dimensão ambiental, isto é, o mapeamento das fontes de poluição que a transtornam e das correntes marinhas que a atravessam. É exatamente aí que se encontram os primeiros resultados das pesquisas, abordados, a partir da página 44, em texto de nosso editor de ciência, Ricardo Zorzetto, que viajou à Bahia para vê-los in loco. As ambições do programa, entretanto, são muito mais amplas do que o que há de palpável até aqui e incluem estudos geológicos, antropológicos e históricos, para citar os mais importantes.
Para sair um pouco do habitual, vou destacar nesta edição o excelente texto do professor Ismail Xavier, na seção de arte, sobre Paulo Emilio Salles Gomes, uma figura-chave das reflexões sobre o cinema brasileiro e até do próprio cinema nacional (página 88). Boa leitura!
Dados e projetos
tEM át I co S E Jov EM PESQUISA dor r E c E nt ES
Projetos
tEMátI coS
contratados entre setembro e outubro de 2012
gênese e significado da tecnociência: das relações entre ciência, tecnologia e sociedade
Pesquisador responsável: Pablo Mariconda
Instituição: IEA/USP
Processo: 2011/51614-3 v igência: 01/08/2012 a 31/07/2016
Esquizofrenia e outros transtornos psicóticos: determinantes sociais e biológicos
Pesquisador responsável: Paulo R. Menezes
Instituição: FMRP/USP
Processo: 2012/05178-0 v igência: 01/09/2012 a 31/08/2016
Investigação de circuitos neuronais e marcadores biológicos envolvidos no transtorno obsessivo-compulsivo por meio de paradigmas comportamentais de medo e ansiedade
Pesquisador responsável: Euripedes Constantino Miguel Filho
Instituição: FM/USP
Processo: 2011/21357-9 v igência: 01/12/2012 a 30/11/2017
Estruturação e evolução da biota amazônica e seu ambiente: uma abordagem integrativa
(FAPESP- b I otA- n SF d IME n SI on S)
Pesquisadora responsável: Lucia garcez Lohmann
Instituição: IB/USP
Processo: 2012/50260-6 v igência: 01/09/2012 a 31/08/2017
A língua portuguesa no tempo e no espaço: contato linguístico, gramáticas em competição e mudança paramétrica
Pesquisadora responsável: Charlotte Marie Chambelland galves
Instituição: IEL/Unicamp
Processo: 2012/06078-9
v igência: 01/10/2012 a 30/09/2017
desafios em visualização exploratória de dados multidimensionais: novos paradigmas, escalabilidade e aplicações
Pesquisador responsável: Luis gustavo
Nonato
Instituição: ICMC/USP São Carlos
Processo: 2011/22749-8 v igência: 01/09/2012 a 31/08/2016
b iologia de sistemas como estratégia experimental para a descoberta de novos produtos naturais na fauna de artrópodes peçonhentos do estado de São Paulo
Pesquisador responsável: Mario Sergio Palma
Instituição: IB/Unesp Rio Claro
Pesquisa nas empresas brasileiras
Processo: 2011/51684-1 v igência: 01/10/2012 a 30/09/2016
J ov EM PESQUISA dor Monitoramento da integridade estrutural em sistemas mecânicos não lineares usando modelos de volterra Pesquisador reponsável: Samuel da Silva Instituição: FEIS/Unesp Processo: 2012/09135-3 v igência: 01/10/2012 a 30/09/2016
o papel das taxas de extinção e especiação e o efeito dos diferentes níveis de organização biológica na origem e manutenção da biodiversidade Pesquisador responsável: Tiago B. quental Instituição: IB/USP Processo: 2012/04072-3 v igência: 01/09/2012 a 31/08/2016
r F MEMS em ondas milimétricas utilizando processo c MoS comercial Pesquisador responsável: gustavo P. Rehder Instituição: Escola Politécnica/USP Processo: 2011/18167-3 v igência: 01/10/2012 a 30/09/2016
Meiose em escorpiões (Arachnida): modelo para compreender a evolução em espécies com cromossomos aquiasmáticos
Instituição: ICAq F/Unifesp Processo: 2011/21643-1 v igência: 01/09/2012 a 31/08/2016
bases moleculares da herança mitocondrial: o papel da fusão mitocondrial Pesquisador responsável: Marcos Roberto Chiaratti Instituição: Iq /USP Processo: 2012/50231-6 v igência: 01/10/12 a 30/09/16
Ensino e saúde entre o público e o privado: a experiência do complexo h SP/SPd M/EPM-UnIFESP (1956-2010)
Pesquisadora responsável: Ana Lucia
Lana Lemi
Instituição: EFLCH/Unifesp Processo: 2011/14275-6 v igência: 01/10/12 a 30/09/16
r essonância magnética nuclear de novos materiais complexos e avançados em física da matéria condensada Pesquisador responsável: Ricardo Rodrigues Urbano Instituição: IFg W/Unicamp Processo: 2012/05903-6 v igência: 01/09/2012 a 31/08/2016
Companhias nacionais classificadas entre as 1.400 que mais investem em pesquisa e desenvolvimento (P&D) no mundo classificação
boAS prátic AS
Revisor de si mesmo
Editores de várias publicações científicas decidiram redobrar os cuidados com a escolha de revisores de artigos, após a detecção de um inusitado tipo de fraude: alguns pesquisadores arrumaram um jeito de fazer o peer review de seus próprios papers para, assim, escapar das críticas que atrasam ou inviabilizam a publicação dos manuscritos. Segundo o The Chronicle of Higher Education, vários periódicos já retrataram cerca 40 artigos cujos pesquisadores praticaram esse tipo de fraude. O método era engenhoso: os autores sugeriam aos editores uma lista de nomes de revisores cujas contas de e-mail eram controladas, na verdade, pelos próprios autores. “Achei estranho, porque mandei o artigo e recebi de volta avaliações entusiasmadas em apenas dois dias. Revisores nunca respondem tão rápido”, disse Claudiu Supuran, editor-chefe do Journal of Enzyme Inhibition and Medicinal Chemistry, que descobriu e denunciou a fraude perpetrada pelo sul-coreano Hyung-In Moon, professor-assistente da Dong-A University, em Busan. Em 2010, Moon submeteu um artigo à publicação e sugeriu uma lista de potenciais revisores. Apesar da resposta estranhamente rápida, o artigo acabou publicado porque dois outros revisores de confiança da revista deram aval ao artigo. No ano seguinte, Moon mandou outro artigo e, novamente, uma lista de potenciais revisores. O que chamou a atenção de Supuran é que, embora eles pertencessem a universidades, seus endereços de e-mail eram do Gmail e do Yahoo, não das instituições. Descoberta a fraude, Supuran alertou outras publicações. O resultado é que
28 artigos do sul-coreano já foram retratados. Outro caso veio à tona em julho com a retirada de um artigo científico publicado na revista Experimental Parasitology por Guang-Zi He, pesquisador do Guiyang College of Traditional Chinese Medicine, na China. He sugeriu vários possíveis revisores que existiam de verdade, mas os e-mails informados eram todos vinculados a serviços de correio eletrônico da China, embora os nomes fossem de vários países. A suspeita levou a uma investigação, que culminou com a suspensão de um artigo publicado em fevereiro, em que o pesquisador identificava um alvo potencial para uma vacina contra uma infecção bacteriana. O caso é revelador de uma falha dos editores. A revista Experimental Parasitology pertence à editora Elsevier, que também amargou problema semelhante numa revista de matemática. A empresa, que dispõe de um banco de dados de
revisores de uso obrigatório pelos editores, informou que descobriu uma vulnerabilidade no sistema e que já o corrigiu. Qualquer autor pode sugerir nomes de revisores ou pedir que seus artigos não sejam enviados para desafetos. Mas cabe aos editores utilizar contatos de seus bancos de dados, não os fornecidos pelos autores.
Recomendações universais contra má conduta
O Interacademy Council (IAP), entidade que congrega academias de ciências do mundo inteiro, divulgou um conjunto de diretrizes sobre condutas responsáveis na pesquisa que reúne uma espécie de consenso internacional acerca do assunto. Segundo o relatório de 62 páginas, são os pesquisadores que têm a responsabilidade primária de agir de forma ética. É essencial, dessa forma, que estabeleçam regras claras de conduta já nos estágios iniciais de uma colaboração internacional, assim como combinem previamente quem assinará os artigos científicos resultantes
dessas parcerias. Revisores de artigos científicos devem agir de forma justa e declarar eventuais conflitos de interesse. Já as instituições de pesquisa precisam ter mecanismos para investigar alegações de má conduta, além de estimular programas de educação e de treinamento para estudantes e pesquisadores. Às agências de fomento cabe evitar sistemas que privilegiem a quantidade em relação à qualidade na avaliação dos cientistas. O relatório está disponível em www. interacademycouncil.net/File. aspx?id=28253.
on-line
WWW RE v ISTAPES q UISA FAPESP BR
Aglomerado globular: origem de estrelas
Exclusivo no site
Um trio de astrofísicos obteve a primeira evidência direta de que parte das estrelas do halo, a região mais externa e com menor densidade de gás e estrelas da v ia Láctea, originou-se em pequenas áreas de altíssima concentração estelar chamadas aglomerados globulares. Os pesquisadores já tinham indícios nesse sentido, mas não tinham provas até realizarem o trabalho que foi divulgado na revista Astrophysical Journal. Com a confirmação, o próximo passo será estimar mais precisamente a origem dessas estrelas, ou seja, saber em quais dos quase 160 aglomerados conhecidos elas se formaram.
A capacidade de aprender um caminho diferente ou de se situar em uma cidade depende em parte de um composto químico produzido pelo organismo chamado acetilcolina. Há décadas se sabia disso, mas apenas agora duas equipes de brasileiros demonstraram o papel da acetilcolina na aquisição e na consolidação dessa memória espacial. Para isso, eles inseriram em camundongos um gene que bloqueava apenas a liberação de acetilcolina em algumas regiões cerebrais. Publicado em outubro no site da revista PNAS, o estudo poderá contribuir para a busca de tratamento contra Alzheimer.
vídeo do mês
Geólogos encontram no Paraguai fósseis de primeiros animais com esqueleto
hilda lima_ Há pessoas que acreditam que ensinar ciências é muito fácil: basta apresentar alguns conhecimentos aos alunos e estes devem apenas repeti-los nas provas. Outras, no entanto, acham que ensinar ciências é muito difícil e evitam tratar do assunto em suas aulas (Entrevista com Bruce Alberts)
Flavia de Miranda_ A meu ver o brasileiro, SIM, tem interesse em aprender, mas o método de ensino usado e o conteúdo apresentado são da época em que a educação popular foi concebida –século XIX! (Gargalo na sala de aula)
José Sabino_ Para meus alunos que ficam preocupados com suas dissertações... à s vezes o trabalho fica encalacrado, mas refletir, ler e pensar criativamente faz parte do processo de produção científica (Entrevista com Marco Antonio Zago)
@mynickislu Parabéns, Pesquisa FAPESP, pela edição número 200! Sem dúvida a melhor revista de divulgação científica do Brasil!
c ahuebm_ Muito legal. O mapa no vídeo ficou sensacional! (O relevo econômico do interior)
Michèle Sato_ grata pela partilha de um super-recurso educativo (vídeo sobre a Comissão Rondon)
Assista ao vídeo:
Pergunte aos pesquisadores
Estruturas em escala nanométrica causam percepção de cor?
Roberto de Carvalho [via e-mail]
O que diferencia as cores é o comprimento de onda da luz, que no espectro visível ao olho humano varia entre 400 nanômetros (azul/violeta) e 700 nanômetros (vermelho-escuro). Um nanômetro corresponde a um milímetro dividido por um milhão. Objetos como gotas de vapor ou bolhas de espuma, com uma fração de milímetro, espalham a luz que incide sobre eles. é por isso que as nuvens no céu e a espuma do chope são brancas. Já estruturas muito menores que o comprimento de onda da luz visível, com um nanômetro ou menos, como moléculas simples, espalham muito pouco a luz. Elas também podem absorver a luz: o chope é amarelo, embora sua
Especialista consultado
espuma seja branca, porque as moléculas que o compõem subtraem as outras cores e deixam passar o centro do espectro, amarelo. Na escala comparável aos comprimentos de onda, as partículas causam uma interferência na luz se estiverem organizadas de forma regular, por exemplo como as lâminas de uma persiana. Esse efeito causa o multicolorido na face gravada de um CD, cujas ranhuras têm essa dimensão, e a iridescência das asas de borboleta ou das penas de pavão, recobertas por fibras da ordem de nanômetros separadas por espaços semelhantes. Essa organização é essencial para que nanoestruturas consigam causar interferência na luz.
luiz nunes de o liveira, Instituto de Física de São Carlos, USP
o QUE é, o QUE é?
Teoria dos jogos
Esse ramo da matemática estuda o comportamento de tomadores de decisão, ou jogadores, cujas ações – respeitando regras estabelecidas – afetam uns aos outros. Racional, cada jogador age conforme o que crê que os demais farão. Essa teoria tem aplicações em várias áreas do conhecimento, como ciências políticas, psicologia e biologia evolutiva.
Um ramo da teoria dos jogos muito aplicado na economia é a teoria dos matchings (pareamentos), que lida com situações em que há dois conjuntos finitos e disjuntos –como homens e mulheres ou escolas e estudantes – e pode ajudar a formar casais ou distribuir estudantes em universidades de forma estável.
Mande sua pergunta para o e-mail wikirevistapesquisa@fapesp.br, pelo facebook ou pelo twitter @PesquisaFapesp
A teoria dos matchings foi descrita em 1962 pelos norte-americanos David Gale e Lloyd Shapley, mas já era usada (Gale descobriu 15 anos depois) havia uma década para alocar médicos em programas de residência nos Estados Unidos. A comprovação de que o algoritmo usado desde 1951 era o mesmo de 1962 foi publicada por Gale em parceria com a matemática Marilda Sotomayor. Do ponto de vista da economia, o norte-americano Alvin Roth mostrou que o equilíbrio alcançado pelo mercado de médicos e hospitais é o mesmo apregoado pela teoria dos jogos. A teoria dos matchings, cuja importância rendeu a Shapley e Roth o Nobel de Economia deste ano, se tornou mais acessível aos não matemáticos graças ao livro publicado por Roth e Marilda em 1990. Roth hoje se dedica a estudar as aplicações, enquanto Marilda trabalha na teoria, liderando a escola criada por David Gale.
Especialista consultada Marilda de o liveira Sotomayor, FEA-USP
eS tr Atégi AS
O novo mapa da ciência
A revista Nature publicou uma edição especial sobre as mudanças no modo como se faz ciência hoje no mundo, em que destaca a inclusão de novos atores, como China, Índia, Cingapura, Brasil e Coreia do Sul, no cenário das nações que realizam pesquisas de alto nível. O texto sugere que a crescente globalização da pesquisa, impulsionada pela expansão de redes de colaboração em todas as regiões do mundo, está reforçando a capacidade de pesquisa dos países emergentes e alterando o equilíbrio global da ciência. “As fronteiras nacionais estão sendo superadas por redes de colaboração em pesquisa e ‘circulação de cérebros’, que possibilitam que os cientistas se movam de forma muito mais fluida em todo o mundo do que no passado”, aponta a publicação. A Nature reuniu as opiniões de oito líderes de instituições, programas e agências de fomento sobre as medidas que devem ser
tomadas para impulsionar a pesquisa em seus países na próxima década. Um deles foi o diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, que destacou o avanço científico do Brasil nos últimos 30 anos. Em 2011, o país formou mais de 12 mil doutores e publicou 35 mil artigos em revistas científicas internacionais. Porém, em média, as citações de artigos científicos de autoria de brasileiros no mesmo ano continuaram sendo as mesmas de 1994. “Cientistas brasileiros devem colaborar e publicar mais com pesquisadores de instituições de classe mundial no exterior”, indicou Brito Cruz. Uma das propostas apresentadas por ele é que o governo desenvolva um plano para apoiar cerca de uma dezena de universidades na execução de programas de excelência, que possibilite situá-las entre as 100 melhores do mundo em uma década.
Colaboração brasileira com o Nobel de q uímica
O anúncio dos vencedores do Prêmio Nobel de química, concedido no mês passado aos norte-americanos Robert Lefkowitz, da Universidade Duke, e Brian Kobilka, da Universidade Stanford, foi comemorado por uma pesquisadora brasileira que tem uma produtiva colaboração com Kobilka. Patricia Chakur Brum, professora da Escola de Educação Física e Esporte e pesquisadora do Laboratório de Fisiologia Celular e Molecular do Exercício da Universidade de São Paulo (USP), fez um pós-doutorado em Stanford entre 1999 e 2001 no grupo de Kobilka, com bolsa da FAPESP, e também teve o apoio dele em seu projeto no âmbito do programa da FAPESP Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes, entre 2003 e 2007. Foi Kobilka quem forneceu os camundongos nocaute para receptores
adrenérgicos que Patricia utilizou em sua pesquisa sobre a contribuição da hiperatividade nervosa simpática na insuficiência cardíaca (ver Pesquisa FAPESP nº 79). Ela utilizou camundongos com inativação gênica de dois receptores que regulam os batimentos cardíacos – os receptores alfa 2a e alfa 2c adrenérgicos. Os camundongos nocaute tinham hiperatividade simpática semelhante à dos humanos, o que culminou em insuficiência cardíaca grave e 50% de mortalidade aos 7 meses de idade. “O Brian me ajudou bastante e sempre o visito quando vou a Stanford”, diz Patricia, que até setembro era uma das coordenadoras da área da Saúde da FAPESP e atualmente cumpre um período sabático na Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia. O Nobel reconheceu o trabalho com receptores acoplados às proteínas g, que permitem ao corpo sentir seu entorno e adaptar-se a novas situações. Em 1970, Lefkowitz descobriu o primeiro receptor desse tipo. Na década seguinte, começou a buscar o gene responsável pela construção desse receptor e contratou o jovem Brian Kobilka para ajudá-lo.
O Nobel de química Brian Kobilka deu apoio a pesquisas de Patricia Brum, da USP
Uma semana, quatro cidades
A FAPESP realizou entre 17 e 24 de outubro a FAPESP Week 2012 em quatro cidades da América do Norte para divulgar resultados de pesquisa em andamento graças a acordos de cooperação com universidades norte-americanas e explorar possibilidades de novos convênios. No MIT foi apresentado o trabalho do professor vanderlei Bagnato, da USP, sobre fluidos atômicos feito em cooperação com a equipe de Wolfgang Ketterle, diretor do MIT-Harvard Center for Ultracold Atoms e vencedor do Nobel de Física em 2001. No mesmo evento em Cambridge o professor José Arana varela, do Instituto de química da Unesp em Araraquara e diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo (CTA)
da FAPESP, mostrou os avanços em seus estudos com semicondutores estruturados em escala nanométrica para uso em sensores de gás para controle e monitoramento ambientais, feitos em colaboração com Harry Tuller, do Departamento de Ciência de Materiais e Engenharia do MIT. O entendimento entre FAPESP e Universidade de Toronto resultou em projetos de pesquisa que foram mostrados ao público em áreas como técnicas de recuperação de solo e água, avaliação do impacto de prática de exercícios para tratamento de doenças respiratórias e de estimulação do cérebro para cuidar de depressão. Na Universidade Harvard, o diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, se reuniu com diversos dirigentes
de departamentos para negociar possíveis acordos futuros. Com o mesmo objetivo, ele visitou a Universidade West v irginia, em Morgantown. No Brazil Institute do Woodrow Wilson Center, copromomotor da semana, Brito e varela tiveram encontros com responsáveis pelas políticas públicas federais de ciência e agências federais de financiamento à pesquisa para ampliar o relacionamento entre as instituições.
Feira Ibero-Americana
As cidades de São Paulo, Campinas e vinhedo sediaram no mês passado a Feira Ibero-Americana da Ciência, Tecnologia e Inovação (Empírika 2012). Idealizada pelo Centro de Estudos da Ciência, Cultura Científica e Inovação (Fundação 3CIN) da Espanha, o evento acontece a cada dois anos. A Expo Barra Funda, na capital paulista, recebeu a feira entre 23 e 25 de outubro, em conjunto com a Feira Tecnológica do Centro Paula Souza (Feteps). Nos dias 26 e 27 de outubro a Empírika foi realizada em v inhedo. A parte científica do evento, o 2º Seminário Internacional Empírika, ocorreu na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “A feira tem atividades voltadas para despertar o interesse especialmente dos jovens pela ciência, como também por desafios, espetáculos de teatro, palestras, debates e atividades interativas”, disse Carlos vogt, coordenador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp, que promoveu o evento.
Brito Cruz no auditório do Wilson Center, em Washington: novas possibilidades de cooperação
Estudantes nas atividades da feira na capital paulista: evento estendeu-se a Campinas e vinhedo
O professor da Universidade de São Paulo (USP) vanderlei Salvador Bagnato foi eleito membro da Pontifícia Academia de Ciências, no vaticano. A indicação foi feita pelo papa Bento 16 no dia 27 de setembro. Doutor em física pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, Bagnato é professor titular do Instituto de Física de São Carlos e dirige a Agência USP de Inovação. Fundada em 1603, a academia tem entre seus objetivos promover o progresso da matemática, da física e das ciências naturais, além de reconhecer a excelência no campo da ciência e encorajar a interação internacional. Conta com aproximadamente 80 membros, entre homens e mulheres de diferentes países, nomeados pelo papa após terem sido eleitos pelos outros acadêmicos. Cerca de um terço dos integrantes ganhou o Prêmio Nobel.
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Plantas sem insetos
Não há dúvida de que a ecologia e a evolução das plantas são profundamente influenciadas pelos insetos. Ninguém imaginava, entretanto, que a ausência deles pudesse modificar espécies de plantas a curto prazo. Uma equipe liderada pelo biólogo Anurag Agrawal, da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, monitorou durante cinco anos um campo com mais de 12 mil prímulas (Oenothera biennis), onde cresceram 18 variedades genéticas diferentes dessas flores amareladas. Metade do campo foi tratada com inseticida para proteger as plantas das mariposas que comem suas sementes (Science, 5 de outubro). A seleção natural agiu rápido. Após três ou quatro gerações, a maioria da população das plantas protegidas
dos insetos perdeu várias das características que as ajudavam a se defender das mariposas. Aumentou o número das variedades que não produziam substâncias repelentes de insetos e das que floresciam no período em que o número de larvas de mariposas atinge seu pico. Proliferaram ainda as variedades de corpo maior, mais aptas a competir por espaço com uma espécie concorrente das prímulas, os dentes-de-leão, que também cresceram no campo, favorecidos pela ausência de insetos predadores. Os pesquisadores acreditam que a rapidez das mudanças observadas nesse experimento possa ser uma característica geral das interações entre outras espécies de insetos e plantas.
Teste rápido para detectar a leptospirose
Um novo teste, mais rápido que os tradicionais, poderá auxiliar no diagnóstico da leptospirose, doença provocada pela bactéria Leptospira interrrogans e caracterizada por febre alta e dor no corpo. Ela causa letalidade de até 15% nos mais de 500 mil casos por ano em todo o mundo. “Desenvolvemos um teste que pode ser aplicado quando o paciente chega ao hospital com sintomas sugestivos da leptospirose. Os testes confirmatórios existentes necessitam de grande aparato laboratorial e podem demorar algumas semanas para dar um resultado, principalmente
em cidades distantes dos grandes centros urbanos. Muitas vezes o doente fica curado antes de o médico receber o resultado do exame. A confirmação ou não da doença serve mais para a vigilância epidemiológica do que para o cuidado ao paciente”, diz o professor guilherme de Sousa Ribeiro, do Instituto de Saúde Coletiva, da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisador do Centro de Pesquisa gonçalo Moniz, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Salvador (BA). O novo teste pode ser usado no próprio hospital e demora apenas 20 minutos para dar um resultado. Ele é feito com apenas uma gota de sangue colocada em uma pequena plataforma que contém uma fita com antígenos da bactéria. A plataforma foi desenvolvida pela empresa Chembio, dos Estados Unidos, que possui com a Fiocruz um acordo de transferência de tecnologia. Testes foram realizados com mais de 1.100 amostras de sangue e no total apresentaram sensibilidade de 85% na fase aguda da doença, índice semelhante aos 82% encontrados com o teste Elisa, usado no diagnóstico da leptospirose.
Sem mariposas, prímulas adiantam período de floração
Encontrada tumba de rainha maia
Arqueólogos encontraram na guatemala, na América Central, a tumba de uma rainha maia do século vII. Um pequeno vaso de alabastro decorado com a imagem de uma mulher com idade avançada, com o nome da rainha inscrito em hieróglifos, foi a peça-chave para a identificação de K’abel. O túmulo com os restos mortais de um adulto foi descoberto em junho durante uma escavação no sítio arqueológico Peru -
-Waka, na região de Petén, no noroeste do país, pela pesquisadora americana Olivia Navarro e pela guatemalteca griselda Pérez. Mas só em outubro, após análise de especialistas e avaliação de evidências, a descoberta foi anunciada por David Friedel, professor de antropologia da Universidade de Washington em Saint Louis, nos Estados Unidos, diretor da expedição. K’abel fazia parte de uma família real e tinha o título
glicerina na ração animal
Resíduo da produção de biodiesel, a glicerina pode ser usada como suplemento alimentício de bovinos e cordeiros como mostraram dois estudos em universidades brasileiras. De cada litro do biocombustível produzido, sobram cerca de 10% de glicerina. Em 2011 foram produzidos 2,6 bilhões de litros e a produção deve aumentar nos próximos anos sem ainda existir destino suficiente para a glicerina. Assim, o primeiro estudo realizado na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio grande do Sul, demonstrou que cordeiros podem consumir até 30% de glicerina em substituição ao milho sem nenhuma perda em relação ao peso e ao desenvolvimento esperado do animal. O experimento foi realizado com 32 cordeiros e contou com a coordenação dos professores Cleber Pires e Luís Fernando Pelegrini. O outro estudo foi realizado
na Universidade Federal do Tocantins (UFT) com 12 vacas leiteiras e 12 novilhos que consumiram por 84 dias rações com até 24% de glicerina, o dobro do já aprovado pelo Ministério da Agricultura. Depois, eles foram abatidos em um frigorífico comercial e partes do corpo dos animais como cérebro, fígado e intestinos foram analisadas e não apresentaram toxicidade ou qualquer outra lesão. A glicerina também não alterou o peso dos animais. A coordenação dos experimentos esteve com os professores Sandro Moron e João Restle, da UFT.
Esculturas feitas de pedra, na guatemala, do rei K’ínich Bahlam (esq.), e da rainha K’abel
de “Kaloomte” (guerreira Suprema), o que significa que ela teve maior autoridade do que o seu marido, o rei K’inich Bahlam. A equipe encontrou também uma grande quantidade de joias de jade e milhares de lascas e navalhas de obsidiana (rocha de origem vulcânica). Na escavação, as pesquisadoras acharam o cômodo principal, que funcionava como um local de adoração do fogo, e abaixo dele o túmulo.
Defesa contra Aids
Anticorpos humanos ultrapotentes e sintetizados em laboratório podem indicar um novo rumo para combater o vírus HIv-1, causador da Aids.
Resíduo da produção de biodiesel pode ser aproveitado para alimentar cordeiros e bovinos
O grupo do imunologista brasileiro Michel Nussenzweig, da Universidade Rockefeller, em Nova York, mostrou (Nature, 25 de outubro) que usar uma combinação desses anticorpos pode impedir os vírus de sofrerem mutações e tornarem a medicação ineficaz. O estudo foi feito em camundongos artificialmente dotados de sistema imunológico humano, o que os deixam suscetíveis ao vírus. Usando cinco anticorpos, alguns dos camundongos
testados mantiveram níveis virais abaixo do detectável por 60 dias depois do tratamento. Uma vantagem dessa estratégia, em comparação aos coquetéis antirretrovirais, é a ausência de efeitos adversos, porque os anticorpos não são estranhos ao organismo. “Não acho que podemos curar pessoas assim, mas temos que tentar”, diz Nussenzweig. A possibilidade existe, mas plausível também seria um tratamento com anticorpos que só precisasse ser aplicado uma ou duas vezes por ano. Um grande avanço em relação ao atual consumo diário de medicamentos para combater a doença.
Perigo nas estradas
Um estudo realizado em estradas federais do país revelou que 10% de 2.235 motoristas que tiveram a saliva analisada tinham consumido algum tipo de droga psicoativa, prescrita ou ilícita. Realizado por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal do Rio grande do Sul (UFRgS),com a colaboração da Polícia Rodoviária Federal, a pesquisa validou um método analítico que reúne, no mesmo teste, 32 compostos químicos relacionados a vários tipos de substâncias. Sozinha ou com outras drogas, a cocaína foi a substância mais presente, na saliva de 129 motoristas (5,8%). Em seguida apareceram
as anfetaminas, em 69 amostras, sendo que 31 estão relacionadas aos inibidores de apetite como o femproporex e o dietilpropiona, proibidos em 2011 no Brasil. Do total de motoristas, 22 tinham consumido mais de duas classes de drogas, como cocaína e maconha, ou cocaína e benzodiazepínicos (calmantes), por exemplo. Realizado entre 2008 e
Imagem de proteínas em alta definição
Pesquisadores que trabalham com biologia molecular utilizam uma proteína verde-fluorescente, gFP na sigla em inglês, para marcar proteínas principalmente em situações de necessidade de confirmar a inserção de genes em células e tecidos biológicos. O problema é que só é possível identificar a tal proteína com microscópios fluorescentes com emissores de luz. Imagens com melhor definição são obtidas apenas com microscópios eletrônicos. Para contornar o obstáculo, pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) desenvolveram um marcador que pode etiquetar e dispor a imagem de proteínas com muita clareza
2009, o estudo colheu amostras de motoristas de carros (50,5%), motocicletas (29,6%), ônibus (10,8%) e caminhões (9,1%).
Sob a coordenação da professora Eloisa Dutra Caldas, da Faculdade de Ciências da Saúde da UnB, o estudo foi publicado na edição on-line de 24 de setembro da revista Forensic Science International
Estudo mostra que a cocaína é a droga mais consumida por motoristas brasileiros
em microscópios eletrônicos. Chamada de ascorbato peroxidase (Apex), a nova tecnologia permite também visualizar melhor as intrincadas estruturas de uma célula, o que ajuda os pesquisadores da área a entender melhor, por exemplo, as interações das proteínas e detelhes mais nítidos das células. Os pesquisadores foram liderados pela professora Alice Ting, do Departamento de química do MIT, e apresentaram o novo marcador na revista Nature Biotechnology (21 de outubro).
Imagem de célula com mitocôndria escurecida pelo novo marcador para microscópios eletrônicos
v ias do coração
Uma exposição com informações sobre a anatomia e o funcionamento do coração, o sistema circulatório e os principais elementos constituintes do sangue, chamada Vias do coração, foi aberta no dia 1º de novembro e ficará até o dia 31 de março de 2013 na Estação Ciência da Universidade de São Paulo (USP). A mostra integra o projeto Ciência Móvel – vida e Saúde para Todos, um museu de ciências itinerante que circula em um caminhão desenvolvido em parceria entre a empresa farmacêutica Sanofi e o Museu da vida, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Terminais multimídia, vídeos em 3D, bancadas de microscópios, além de um coração com mais de dois metros de altura, compõem a exposição que já foi vista por mais de 400 mil pessoas. Mais informações: www.eciencia.usp.br.
Cozinhar impulsionou evolução do cérebro
Os seres humanos são os primatas com o maior cérebro e número de neurônios, apesar de nossos corpos não serem tão grandes quanto aos dos gorilas, por exemplo. Por que a evolução dos grandes símios também não foi na direção de aumentar seus cérebros?
A resposta pode estar em uma mudança de dieta, argumentam as neurocientistas Suzana Herculano-Houzel e Karina Fonseca-Azevedo, ambas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sabendo que o custo energético de um cérebro é diretamente proporcional ao seu número de neurônios, as pesquisadoras calcularam o número máximo de neurônios que 17 espécies de primatas são capazes de manter com a energia fornecida por uma dieta de alimentos crus (PNAS, 23 de outubro). Descobriram que o número de horas
disponíveis para se alimentar e o baixo teor calórico da comida crua impõem limites severos ao desenvolvimento do corpo e do cérebro dos animais. é como se, ao longo da evolução, as espécies precisassem escolher entre ganhar massa corporal e aumentar o número de neurônios. Uma espécie como o Homo sapiens precisaria gastar mais de nove horas diárias se alimentando de comida crua para desenvolver e manter o cérebro funcionando. Esse obstáculo teria sido superado quando nosso ancestral Homo erectus descobriu o fogo. Alimentos cozidos são mais fáceis de digerir, fornecendo mais calorias que os crus. Com mais energia e tempo livre disponíveis para atividades sociais, a evolução teria favorecido o aumento do número de neurônios.
Dieta dos gorilas não sustenta corpo e cérebro grandes ao mesmo tempo
Um cristal eterno
Em janeiro deste ano, o físico teórico Frank Wilczek, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, imaginou a possibilidade de criar um “cristal espaço-temporal”. Cristais comuns, tais como os de gelo e de quartzo, são objetos cujos átomos formam padrões repetidos. Eles se organizam assim para permanecer em um estado de energia mínima. Assim como as formas de um cristal normal se repetem no espaço, o cristal espaço-temporal se repetiria também no tempo, retornando periodicamente a sua posição original. Diferentemente de um movimento periódico convencional, que com o tempo poderia se dissipar, ele faria isso sempre em um estado de mais baixa energia possível e seu movimento duraria indefinidamente. Uma equipe liderada por Tongcang Li,
na Universidade da Califórnia, em Berkeley, é a primeira a propor uma maneira de colocar a ideia de Wilczek em prática. Eles sugerem uma experiência com íons de berílio (Physical Review Letters, 19 de outubro), possível de se realizar com alguns avanços na tecnologia atual. Os íons seriam aprisionados por um campo elétrico a temperaturas extremamente baixas, próximas de -273°C. Nessas condições, os íons formariam um anel, que seria posto para girar pela ação de um campo magnético. Uma vez girando em seu estado de mínima energia, os campos poderiam ser desligados e os íons formariam o cristal que permaneceria em movimento, a princípio para sempre. Ao contrário do que parece, não seria possível usar o cristal espaço-temporal para se criar uma máquina perpétua porque não haveria como extrair energia do anel.
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Monumento aos descobrimentos, Lisboa, Portugal
Um imenso portugal
Império lusitano soube usar liberdade
das elites locais e religião missionária para manter-se por cinco séculos
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como um pequeno país com menos de 90 mil quilômetros quadrados marcou sua presença em cinco continentes, em regiões como África, Japão, China, Índia e Brasil? Nenhum império europeu colonial moderno foi tão duradouro e amplo. Portugal foi o primeiro construtor de um império global (embora os portugueses se denominassem reino, e não império, como os espanhóis), que sobreviveu em grande parte até meados dos anos 1970, tendo Macau retornado à China apenas em 1999. “O sucesso deve-se a inovações que fogem a qualquer modelo.
A relação pioneira entre centro e periferia foi marcada pela flexibilização do poder pelas elites locais, sem que Lisboa deixasse de ser o polo irradiador da autoridade. Bastante inovador foi também o uso da religião para a criação da unidade imperial”, explica a historiadora Laura de Mello e Souza, da Universidade de São Paulo (USP), coordenadora do projeto de pesquisa Dimensões do Império Português, temático iniciado em 2004 e concluído recentemente com apoio da FAPESP.
O objetivo da pesquisa, que já rendeu livros como O governo dos povos (Alameda), Contextos missionários: religião e política no Império Português (Hucitec/FAPESP) e O império por escrito (Alameda), era rediscutir o conceito de antigo sistema colonial e ver se ainda tinha operacionalidade ante as novidades que a pesquisa histórica tinha trazido. O estudo gerou cerca de 30 trabalhos acadêmicos, entre dissertações de mestrado e teses de doutorado, e foi dividido em núcleos de pesquisadores para melhor analisar as dimensões políticas, econômicas, culturais e religio -
sas do Império Português, revelando um quadro complexo e pleno de diversidades em que, diz Laura, “se percebe o múltiplo no uno”.
“Visões consagradas de uma administração colonial caótica, máquina burocrática monstruosa, emperrada e ineficiente, com um centro autoritário e colônias submissas, não dão conta da capacidade de manutenção longeva do imenso império. Houve, sim, um uso inteligente do poder por Lisboa, superando os limites da separação oceânica entre a metrópole e suas colônias”, explica a professora.
A cronologia adotada pelo projeto, entre os séculos XV e XIX, se explica por ser o período da expansão lusitana, já que, depois de 1822, não justifica a leitura em conjunto de formações tão independentes como os impérios brasileiro e português.
O projeto atualiza um debate surgido ao final da década de 1970 sobre como interpretar a economia e a sociedade da América portuguesa, reavaliando tanto a ideia de ‘sentido da colonização’, de Caio Prado, como o conceito de ‘antigo sistema colonial’, definido por Fernando Novais. O resultado, afirma Laura, é um jogo dialético entre as partes e o todo, eliminando a oposição mecânica entre metrópole e colônia,
muito além da relação Brasil-Portugal. “Nessa releitura, o Império Português aparece como pouco homogêneo e com centros políticos relativamente autônomos. É preciso questionar a ideia de uma ideologia imperial unitária”, fala a pesquisadora.
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Para ela, o ressentimento pós-colonial dos brasileiros por muito tempo deixou livre o caminho para que historiadores estrangeiros traçassem suas hipóteses e preenchessem lacunas óbvias, já que estavam desimpedidos do peso de um passado que não era o seu e contra o qual não precisavam acertar contas. “Nos últimos anos é que surgiu uma ‘voga do império’ que reuniu uma ampla gama de historiadores, nacionalidades e matrizes teóricas e historiográficas diversas”, fala.
Muitos, porém, ainda caem nas “armadilhas” historiográficas, deixando de lado a questão da escravidão ou supervalorizando o poder da leitura de textos oficiais, engano já apontado por Caio Prado em 1942 quando critica a “ótica da norma”, que, muitas vezes, permanecia “letra morta”.
“A flexibilidade das instituições político-administrativas, capazes de estabelecer um sistema complexo de relações horizontais e verticais com o poder central, intermediário e local, não anula a necessidade de compreender o sistema colonial como um conjunto hierarquizado de relações políticas”, diz Laura.
Não se trata nem da visão do “império controlador”, nem do “império incapaz de controlar”, mas de um império que, ciente da imensidão oceânica que separava suas partes, entendeu a necessidade de manter relações com periferias relativamente autônomas, conectadas à metrópole por laços mais ou menos frouxos. Sem que,
Praefecturae
Paranambucae Pars Meridionalis, georg Markgraf, 1665, 41,5 x 45 cm
Era um império de grande racionalidade que tinha consciência de que os problemas locais exigiam soluções imediatas e produzidas localmente
no entanto, Lisboa deixasse de ser o centro de onde o poder emanava. A distância entre rei e súditos, que poderia se configurar como problema, reaparece, agora, como “virtude” de governar.
“As colônias se constituíram também, mas não apenas, mimeticamente como espelhos, reproduzindo os valores socioculturais da península Ibérica. Para isso foi importante a criação pelos portugueses de um sistema de comunicação política quase universal entre Corte e colônias. O que podia parecer uma fraqueza institucional se transforma em sua força, revelada na adaptabilidade às diferentes conjunturas políticas e territoriais e, por vezes, num certo pluralismo administrativo”, lembra a pesquisadora.
A originalidade das bases do Império Português pode ser vista na criação de estruturas novas, que intermediavam a relação entre os poderes locais, nos territórios ultramarinos, e os poderes do centro.
“Os administradores portugueses que vieram, por exemplo, a certas partes do que seria o Brasil fogem ao estereótipo do ‘tiranete’ que buscava arrancar os espólios dos brasileiros. Claro que houve inescrupulosos. Mas, no geral, sabia-se que não se podia pesar a mão na relação com a colônia. A exploração muitas vezes vinha revestida da forma da intolerância, seguida da flexibilidade na aplicação das leis”, nota Laura. “Assim, dizer, como reclamava Tiradentes, que os administradores portugueses vinham para espoliar e arrancar nosso sangue, não explica muita coisa e nos enreda no discurso equivocado da dominação.
Em verdade, a administração só pode funcionar porque as elites locais participavam dele”, fala.
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A pesquisadora frisa que não se entende as relações desse império apenas com base nos documentos legais. “A Coroa sabia que não podia impor controle levando a lei ao pé da letra. Até 1822, os ‘brasileiros’ se viam como portugueses, e não como dominados”, explica. Assim, os movimentos de revolta local nem sempre eram sinônimo de “luta por independência”, mas eram reações a rearranjos. Ainda vale a definição de Tocqueville do Antigo Regime: “Uma regra rígida e uma prática flácida”.
Mas não se deve falar num “Antigo Regime tropicalizado”. Se a sociedade colonial for vista como de Antigo Regime no senso estrito, suas particularidades explodem e corroem os princípios básicos, já que era organizada e costurada pelo escravismo, algo que inexistia no ambiente europeu”, lembra Laura.
“A aquisição de escravos manchava a imagem da nobreza local, separando-a daquela do reino. Corriam-se atrás de títulos, honras e mercês, com isso aumentando a dependência junto ao rei português, que se agravou ao longo dos anos”, diz a historiadora. A especificidade da América portuguesa não residia na assimilação pura e simples do mundo do Antigo Regime, mas na sua recriação perversa, alimentada pelo tráfico, pelo trabalho de negros escravos, pela introdução, na velha sociedade, de um novo elemento, estrutural mais do que institucional: o escravismo.
Novissima et Acuratíssima Totius Americae Descriptio, John Ogilby, 1671, 43,5 x 54 cm
Mapa do Império Português (1415-1999)
O desenvolvimento e a decadência dos lusitanos, da glória até o processo de descolonização
LEGENDA
Possessões efetivas
Explorações
Áreas de influência e comércio
Reivindicações de soberania
Postos comerciais
Principais explorações marinhas, rotas e áreas de influência
Mais uma vez a solução vem por meio da flexibilização. “Pelos princípios do Antigo Regime se proibia aos portadores de ‘sangue infecto’ exercer cargos administrativos. Seria, então, impossível governar as regiões coloniais se a maior parte da elite nativa era formada por mestiços: regiões como São Paulo e Minas, por exemplo, eram praticamente habitadas por mamelucos e mulatos. Promovia-se, então, um mulato a capitão-mor e ele deixava de ser mulato e podia ascender”, nota a professora. Mesmo oficialmente sujeita às regras do antigo sistema colonial, a periferia do império usava e abusava do “jogo de cintura”.
“O projeto inova ao discutir essas peculiaridades do Império Português, dando a ele uma categoria explicativa maior A discussão nos levou a repor o conceito de sistema colonial pela ideia de que a colônia não era mera extensão da metrópole, mas um território subordinado que exerceu um papel fundamental para o império ao prover uma parcela considerável dos recursos essenciais à sua existência”, observa o historiador Jobson Arruda, da USP, membro do projeto. “O sistema imperial lusitano tinha grande racionalidade e uma consciência de que os problemas locais exigiam soluções imediatas e produzidas localmente”, continua.
Essa foi uma das principais razões do sucesso dos portugueses em face dos rivais espanhóis. “A monarquia espanhola era uma variedade de reinos, enquanto Portugal era um reino unificado. Foram feitos grandes esforços para aumentar o poder do Estado a expensas da nobreza e das comunas. Esses recursos ajudaram na expansão marítima que, por sua vez, deixou o reino
menos dependente de nobres e plebeus graças aos recursos obtidos. Em troca, esses recursos permitiram ao Estado cooptar a nobreza, o que propiciou ao rei português uma consolidação espantosa do seu poder”, explica a historiadora Ana Paula Megiani, da USP, organizadora de O império por escrito (Alameda), outra pesquisadora do projeto.
“Com essa centralidade, a monarquia portuguesa tinha uma capacidade de mando no império maior do que a espanhola, com o poder local funcionando como formas de exercício daquele poder, expressões de centralidade, e não de desmembramento do império”, avalia Ana. Ainda assim Portugal vivia uma contradição que os espanhóis não tinham: era um império sem imperador.
“Nesse contexto, a face religiosa do império é a que melhor expressa a sua universalidade. A Igreja ofereceu um substrato adequado à efetivação prática de um grupo de dogmas e princípios, tendo nas missões religiosas o seu principal instrumento operacional para cimentar as partes da totalidade”, afirma o historiador Adone Agnolin, da USP, do núcleo Religião e Evangelização da pesquisa. “A perspectiva religiosa traz a base de uma universalitas (princípio construtor de impérios herdado dos romanos), repassada, do ponto de vista político, à manutenção dos impérios, mas que, no fundo, se apoia sobre a ideia de um ‘império simbólico, unindo política e religião”, fala Agnolin.
Segundo o historiador, por meio de seus missionários, o Império Português reverte o processo de formação histórica ao encontrar seu pressuposto universal na dimensão do religioso. “O religioso é
seu instrumento privilegiado para a realização do projeto e, a partir dele, Portugal se propõe como novo e inédito modelo imperial”, diz. Laura afirma que essa visão é uma das grandes novidades trazidas pela pesquisa. “Os missionários são braços de homogeneização da fé, trazendo maior adaptabilidade dos portugueses em face dos confrontos religiosos e culturais”, fala a historiadora. A tentação de “demonizar” a Igreja é grande, mas equivocada. “Toda a ação dos agentes diplomáticos, administrativos ou comerciais, era caucionada pelos missionários, que davam legitimidade ao conjunto de ações que pretendiam o bem comum e, logo, a salvação dos homens”, afirma.
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A noção de “bem comum” compreendia, na época, a dimensão colonial ao lado do cristianismo, ainda que com tensões. Aumentar a riqueza do rei era aumentar a riqueza do reino e assim a riqueza dos vassalos cristãos. O aumento da atividade comercial e da riqueza do reino ligava-se e se fundamentava na função do rei em sua expressão do exercício da virtude teológica da caridade e do exercício das virtudes terrenas na justiça distributiva.
A unidade do reino, como unidade da comunidade, visa ao bem comum e à salvação. A finalidade do império não se restringe à colonização, vista apenas como um meio, mas à salvação, já que permite converter os gentios e sustenta a ação missionária, expansionista e universalizante da Igreja Católica.
“Essa especificidade se dá a partir da segunda metade do século XV. Na base da expansão colonial está a teologia e, nos seus rastros, os resultados de um novo comércio colonial. É nessa direção que Portugal constrói, com uma antecipação extraordinária em relação às outras nações europeias, a nova perspectiva de universalização que se constituiu na articulação entre império, teologia e comércio”, explica Agnolin. As missões, junto com o comércio, foram uma das vias privilegiadas dos primeiros diálogos com as culturas em contato com o mundo ibérico. O império dos homens era, acima de tudo, de Deus.
“Além disso, se os europeus precisavam compreender as culturas locais, era também necessário desenvolver novos instrumentos cognitivos para dar conta das novas situações do contato. Era um processo de tradução de parte a parte, em que a linguagem religiosa funcionava como área de mediação simbólica, fundamental à incorporação das populações nativas à monarquia portuguesa”, observa o historiador. As missões fizeram as necessárias “acomodações” com as diversas realidades locais.
“Se as relações entre império e religião, entre administração dos povos e as missões católicas, se deram a partir de interesses comerciais, não
Possessões coloniais
Da glória ao ocaso, cada século revela o desenvolvimento imperial
Século XvI
Século XvIII
Século XX
se pode deixar de pensar como as ‘dimensões do Império Português se sustentam no universalismo que remete à autonomização moderna de direito natural”, fala Agnolin. Assim, na base da tensão entre teologia e império, encontra-se a noção de império cujo objetivo era realizar a imposição de um governo comum para os povos, segundo as diferentes modalidades de interlocução local, como nas dimensões políticas e culturais.
Outra sabedoria lusitana era manter governos específicos para cada parte do império, adaptando-se às idiossincrasias locais. Não se governava uma região colonial da mesma maneira que se governava outra. No caso fundamental da religião, o cristianismo determinou, a partir desse contexto, um nexo entre “coisas da fé” e a “vida política”. A partir dessa perspectiva, que visava ao universal, é que a práxis evangelizadora realizou os “ajustes” necessários em relação às culturas não ocidentais particulares.
O Império Português elaborou projetos que buscavam a incorporação de outros povos, com a catequese como o veículo central dessa tentativa. “Flexibilidade e adaptabilidade, com autonomia relativa, foram instrumentos de sobrevivência desse império, com Lisboa no centro, ainda que muitas vezes sobrecarregada. Nisso o papel fundamental coube à Igreja e às ordens religiosas, mais importantes na manutenção e defesa do território lusitano do que o Estado português”, afirma o brasilianista Kenneth Maxwell, da Harvard University.
No império, a cultura europeizante, como a religião, atuou na sua manutenção. “Era uma cultura que estava embebida do ideal civilizador, mas atenta às recombinações e aos mecanismos capazes de melhor estender o seu domínio. Daí as várias
Esfera armiliar, 38,5 x 38,5 cm
A sabedoria do império lusitano era governar cada região de forma específica, flexibilizando o poder de acordo com as questões locais, dando poder em função das necessidades
formas de circulação da escrita ou os suportes de representação como a cartografia”, acrescenta a historiadora Leila Algranti, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Essa peculiaridade permitiu que, a partir do temático, fossem criados: a Biblioteca Digital de Cartografia Histórica (ver A mina dos mapas, edição 183 de Pesquisa FAPESP), o Laboratório de Estudos de Cartografia Histórica (LECH), e o Centro de Documentação sobre o Atlântico (Cenda).
Para Laura, essa questão da escrita, antes ignorada, foi outro ponto alto do projeto ao revelar como se dava a comunicação entre as partes distantes do império, independentemente da invenção da imprensa. “Foi um processo de intensificação e difusão dos modos de coletar, organizar e preservar a informação escrita, ligados à formação da burocracia e do Estado moderno e ligados à sofisticação de formas de conhecimento e às novas maneiras de ascensão social de elementos ligados à escrita”, lembra Leila.
“Em termos de Portugal e Brasil, é evidente que sem a comunicação por escrito seria praticamente inviável administrar o império. Além dos impressos, registros manuscritos de todo tipo (cartas, regulamentos, crônicas, gramáticas) desempenharam um papel fundamental na transmissão de ideias, valores, normas, costumes e saberes entre as metrópoles e suas colônias, bem como entre as diferentes possessões ultramarinas que integravam tais impérios coloniais”, observa Leila.
Ao se expandir, o Império Português sentiu a necessidade de trocar informações com mais
rapidez. “As ordens que até então eram feitas oralmente começaram a ser feitas por escrito. As normas regulavam não só a administração, mas também outras esferas, no âmbito político e jurídico, envolvendo queixas ou denúncias”, continua Leila.
Segundo ela, entender a colonização da América é captar as formas de comunicação entre conquistadores e conquistados, de integração e modificação entre o Velho e o Novo Mundo. “Essas novas análises nos levaram a ver, na base do império, uma relativização da presença metropolitana, o destaque do papel das elites coloniais e a especificidade e abrangência dos processos evangelizadores”, observa Laura.
“Com isso, as questões econômicas e sociais de fundo, ou seja, a drenagem de riquezas e a constituição de sistemas de trabalho compulsório, em especial o escravismo, são relativizadas. Os sentidos e conteúdos do império lusitano ganham uma singularidade que nos obrigou a repensar sua essência e a como se inseriu na lógica capitalista de forma particular”, diz.
Essa dinâmica colonial acabou por tornar o colonizador residente, antes ligado à soberania metropolitana, em força de autonomização. “Sua ação viabilizava o enraizamento de capital e a consecução de rotas comerciais que os tornavam independentes da metrópole”, fala Jobson.
Não se podia explorar a colônia sem a fazer crescer, sem a desenvolver, levando a tensões sempre que o poder central, em Lisboa, fosse incapaz de atender às novas necessidades locais e travasse o crescimento.
d E c A dÊnc IA
Na própria essência da manutenção do império estavam as sementes da sua decadência. “Portugal foi uma engrenagem importante para a construção do capitalismo, em especial na etapa mercantil. Mas no capitalismo não é possível manter a hegemonia para sempre, pois a sua lógica é a dinâmica de migração do centro de acumulação”, explica Ana Paula Megiani. Nos séculos XVIII e XIX não se vê mais na Europa o afluxo da riqueza entre os ibéricos. “A crise do capitalismo mercantil determinou a crise do Império Português, mas se observarmos as dimensões cultural, religiosa e politica, a duração é outra”, afirma. “O impacto da colonização lusitana foi bem maior do que a sua estrutura governamental”, lembra Maxwell. “O ponto de inflexão do império foi no período pombalino, entre 1750 e 1777. O marquês deu muita força às elites locais e se percebeu que sempre que isso não ocorria havia conflitos”, observa Laura. Cada vez mais a antiga ideia da necessidade e possibilidade de um império luso-brasileiro vai esgarçando a noção de antigo sistema colonial. “Muitos desejavam descentralizar o
império e colocar o Brasil como centro, o que vai decompondo as relações entre metrópole e colônia, a ponto de não se poder mais falar de centro e periferia”, continua a pesquisadora.
As elites locais ganham um status inédito. A vinda da família real em 1808 apressou o movimento, ao criar a estranha situação de uma colônia que também era a sede do império.
“Os temores ante a autonomização dos grupos locais só aumentaram com a Revolução Francesa e o avanço de Napoleão, o que fez parte da elite portuguesa pensar seriamente essa mudança de papéis como a única forma de manter o Brasil”, diz Laura.
Em 1822, o processo se consolidou. “Mas uma parte do antigo império só se libertou após um processo doloroso de guerras civis, como na África, em que forças externas entraram em campo, graças à recusa do regime salazarista de negociar”, lembra Maxwell.
Essa intransigência, segundo o brasilianista, deixou poucas alternativas e nos anos 1970, quando o império na África acabou, restaram lutas da Guerra Fria e o apartheid da África do Sul, com Cuba, EUA e a ex-URSS estendendo seus conflitos nas antigas colônias portuguesas.
Não havia mais como “essa terra seguir seu ideal/ Se transformar num imenso Portugal”, a bravata lusitana de Fado tropical, de Chico Buarque. n
Dimensões do Império Português – nº 2004/10367. Modalidade: Projeto Temático. Coordenadora: Laura de Mello e Souza – USP Investimento: R$ 578.580,17 (FAPESP).
Meridionalis
Americae Pars, Petrus Plancius c. 1592-1610
39,5 x 55,5 cm
Projeto
José Marques de Melo
A prima pobre das ciências sociais
Mariluce Moura
IdAdE 69 anos
ESPEcIAlIdAdE Comunicação e jornalismo
ForMAção
Universidade Católica de Pernambuco (graduação em jornalismo), Universidade Federal de Pernambuco (graduação em ciências jurídicas e sociais) e Universidade de São Paulo (doutorado)
InStItUIção
Universidade Metodista de São Paulo
O campo da pesquisa em comunicação tem pouco prestígio acadêmico no Brasil e José Marques de Melo, há 40 anos um dos maiores batalhadores por sua constituição no país, diz isso com todas as letras. Em parte, reconhece, isso guarda relação com as próprias dificuldades epistemológicas da área – afinal, um século depois de estabelecidas nos Estados
Unidos, essa especialidade, ciência, para alguns, pseudociência, para muitos, não conseguiu identificar claramente seu objeto. “Comunicação, na verdade, não é uma área autônoma de pesquisa. Como todas as ciências aplicadas, ela incorpora contribuições que vêm das demais ciências, das exatas e das humanas”, ele pondera.
Nesta entrevista a Pesquisa FAPESP Marques fala sobre essa estranha e prolongada crise de identidade de um campo que reúne nada menos que 25 mil professores e 250 mil estudantes no país e a entremeia com sua própria trajetória profissional, que, a pesquisadores de outras áreas bem estabelecidas, pode soar extremamente ziguezagueante. Reflete sobre circunstâncias políticas que interferiram, para além do desejável, na universidade e na vida pessoal e relata algumas saborosas histórias de um brasileiro que transitou do sertão de Alagoas para a mais prestigiosa universidade brasileira.
Em 1972, você era chefe do Departamento de Jornalismo da ECA (Escola de Comunicações e Artes). E trabalhava para constituir o campo da pesquisa em comunicação no Brasil. Gostaria que contasse esse começo.
O cargo era de diretor do Departamento de Jornalismo da Escola de Comunicações Culturais, que depois se transformou na ECA. Considero-me um privilegiado porque tive a oportunidade de conviver com Luiz Beltrão, de fato o pioneiro
da pesquisa científica de comunicação no Brasil. Quando ele fundou, em 1961, o curso de jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco, estabeleceu um diferencial na formação de jornalistas no país, que foi exatamente introduzir a dimensão da pesquisa científica em paralelo à prática profissional.
Você já era jornalista àquela altura?
Sim, comecei minha trajetória em Alagoas, na Gazeta de Alagoas, depois no Jornal de Alagoas, dos Diários Associados. Fui um excelente jornalista do interior fazendo cobertura da minha cidade para o jornal da capital.
Qual cidade?
Eu nasci em Palmeira dos Índios, famosa por um de seus prefeitos [o escritor], Graciliano Ramos, mas vivia em Santana do Ipanema. Meu pai, negociante de produtos agrícolas, tinha sociedade com um empresário de transporte numa linha de ônibus entre Palmeira dos Índios, aonde chegava um trem, e Belmiro Gouveia, aonde chegava outro que vinha do São Francisco. Por um tempo ele viveu em Palmeira dos Índios, justamente no período em que minha mãe estava grávida de mim – sou o mais velho de quatro irmãos. Logo depois minha mãe se mudou para Santana do Ipanema. E para concluir a questão do começo no jornalismo: eu fazia a cobertura dos acontecimentos de Santana do Ipanema, aquelas coisas corriqueiras, casamento, eleição, briga política, Dia das Mães, problema na feira, o grupo escolar que está desabando. Vivia no dualismo entre narrar os fatos como as autoridades queriam ou como eu os via. A imprensa e o dever da verdade, de Rui Barbosa, virou minha bíblia.
Recife resignado, prestar vestibular para engenharia, como minha família queria. Mas eu não tinha condição de fazer engenharia, não dominava matemática, física e química. Resolvi fazer direito. Mas no dia em que saiu o resultado do vestibular no jornal o que mais me interessou foi uma pequena notícia ao lado que dizia que a Universidade Católica ia criar o curso de jornalismo. Não tive dúvida: deixei a comemoração dos vitoriosos do vestibular e fui à Católica perguntar onde era o curso de jornalismo. Lá estava um senhor que me atendeu, era o professor Luiz Beltrão [1918-1986]. Durante duas semanas estudei nas bibliotecas públicas de Recife, me preparei e passei também no vestibular de jornalismo. Enfim, resolvi estudar direito e jornalismo. Naquele
seis e ia para o curso de jornalismo. Era uma loucura.
não
é possível fazer bom jornalismo especializado
desconhecendo o conteúdo
Sua família tinha algo contra você ser jornalista?
Tinha tudo. Quando eu disse que ia fazer vestibular para jornalismo, meu pai disse que eu ia arrumar encrenca e observou, além disso, que curso superior de jornalismo só tinha em São Paulo e no Rio e ele não podia me custear no Sul. Fui para
momento a Sudene [Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste] estava se instalando e abrindo concurso para contratar pessoal. Fiz o concurso, passei e durante seis meses fiz um curso intensivo de oficial de administração dado pela Fundação Getúlio Vargas, com dois focos: economia nordestina e gestão nordestina. Os que tinham diploma universitário faziam o curso de técnico do desenvolvimento econômico, coordenado por um ilustre baiano, Nailton Santos, irmão do geógrafo Milton Santos. E no final do intensivo tive o privilégio de ser destacado para trabalhar no gabinete do superintendente, Celso Furtado. Eu estudava direito pela manhã, entrava na Sudene ao meio-dia e ficava até as
Você conta uma história curiosa ligada ao jornalismo especializado ali. Sim. Quando me formei, fui trabalhar na divisão de divulgação e editoração da Sudene, onde fazíamos revistas, boletins, jornais. Eram cinco ou seis jornalistas. Com Luiz Beltrão, um excelente professor, eu aprendera os fundamentos teóricos do jornalismo. E em dado período eu já tinha sido treinado para a prática diária em Recife, no jornal Última Hora, desmantelado em 1964. Ali aprendi jornalismo com Milton Coelho da Graça na base da pedagogia do grito. Antes, a certa altura, como tinha sido militante político, vinha da JUC [Juventude Universitária Católica], ligada à esquerda católica, e passei para a Juventude Comunista, ligada ao Partido Comunista, fui trabalhar com [o governador] Miguel Arraes. Tornei-me chefe de gabinete de seu secretário de Educação, Germano Coelho, quando estava no primeiro ano da faculdade ainda, com 20 anos. Depois fui trabalhar no Movimento de Cultura Popular e estava ali como diretor administrativo quando veio a debacle de 1964. Voltei para a Sudene e é aí que se dá esse caso que você lembrou: deparei com a tarefa de fazer uma reportagem sobre a economia nordestina. Os economistas da Sudene a abominaram, rasgaram e jogaram fora. No início fiquei muito abalado, mas depois refleti e vi que em parte tinham razão: não é possível fazer bom jornalismo especializado, econômico ou científico, por exemplo, desconhecendo o conteúdo. Porque há que se situar entre aquele que produziu o conhecimento e aquele que não sabe sobre este conhecimento.
Quando decidiu mudar para São Paulo? Depois que superei problemas de prisão, IPM [Inquérito Policial Militar] etc., porque fizera parte do governo Arraes, voltei para a faculdade e me formei. Naquele primeiro momento da ditadura, quem era da intelectualidade logo era solto, mas ficavam incomodando. Em todo in-
quérito no Recife eu era envolvido, de tal maneira que não tinha condição de viver lá. Antes de me mudar para São Paulo tive a sorte de ganhar uma menção honrosa no Prêmio Esso, o que me deu certa notoriedade em Recife. Aí consegui uma bolsa de estudos da Unesco, respaldada por Luiz Beltrão, e fui fazer o curso de pós-graduação em jornalismo que havia no Ciespal [Centro Internacional de Estudios de Periodismo]. Fiquei seis meses em Quito, Equador.
Já em São Paulo, qual foi sua primeira atividade profissional?
Cheguei em julho de 1966 e fui à luta. Fiz teste na Editora Abril e passei na revista Realidade. Mas um amigo me sugeriu trabalhar em publicidade, na qual ganharia muito mais e terminei no Inese [Instituto Nacional de Estudos Sociais e Econômicos], com o dobro do salário que ganharia na Abril. Ocorre também que eu começara uma experiência docente em Pernambuco quando Luiz Beltrão fora para a Universidade de Brasília [UnB] assumir a direção da Escola de Comunicação e me passou suas aulas. Por seis meses fui professor e gostei da experiência. Ao chegar aqui, tomei conhecimento da criação da Escola de Comunicações Culturais da USP. Soube que estavam buscando professores e fui ao diretor, o professor Julio García Morejón, um espanhol, titular da cadeira de língua e literatura espanhola. Ele me entrevistou e sugeriu que me inscrevesse para o concurso.
jornalismo e integrante de um grupo ideologicamente não radical, que envolvia os professores Antonio Candido e Antônio Soares Amora, entre outros. Quem rejeitava era sobretudo um pessoal conservador ligado à educação, como Roque Spencer Maciel de Barros e Laerte Ramos de Carvalho. Passei no primeiro concurso e fui contratado só algum tempo depois.
A essa altura, o conceito de comunicação se desenvolvia no Brasil. Não, isso só acontecerá nos anos 1970.
Um marco seriam os seminários de Wilbur Schramm e Daniel Lerner, organizados em 1970 pela UnB, com apoio da embaixada americana. Mas desde o final dos anos 1960 já se estudavam os
meios de comunicação como extensões do homem, já no fim dos anos 1970.
Mas voltemos a seu trabalho na ECA. Minha ida à USP foi precedida pela entrada na Cásper Líbero. Quando a ECA começou em 1967, começava também a famosa greve dos excedentes. Então recebi um convite da Cásper, que estava implantando a cadeira de teoria da comunicação, posteriormente fundamentos científicos da comunicação. Foi aí que propus ao diretor criar um Centro de Pesquisa da Comunicação Social.
Foi gilberto Freyre quem leu e difundiu no b rasil o primeiro e pouco conhecido livro de Mcluhan
Existia então uma oposição da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas à criação da Escola de Comunicação?
A Faculdade de Filosofia deveria ter recebido essa nova área do conhecimento, mas havia um grupo que não queria isso. Então, a mulher do reitor Luís Antonio da Gama e Silva, dona Edi Pimenta da Gama e Silva, convenceu o marido a criar a Escola de Comunicações Culturais. Ele criou uma comissão e chamou alguns professores da Faculdade de Filosofia para essa comissão que estruturou a escola. Dela fazia parte Morejón, então um jovem muito empreendedor, da ala favorável ao
trabalhos de Marshall McLuhan, não? Não, McLuhan só chega em 1970, via Recife, com as primeiras leituras de Gilberto Freyre e Luiz Beltrão. Freyre, que vinha usando a imprensa como fonte de pesquisa, leu e difundiu o primeiro livro de McLuhan, pouco conhecido no Brasil, The mechanical bride: folklore of industrial man, que igualmente se valia de jornais e revistas, considerado material de terceira classe, como fonte de estudos. E Luiz Beltrão leu e difundiu A galáxia de Gutemberg. Depois viria O meio é a mensagem. Quem vai difundir McLuhan no Sul, como os nordestinos se referem ao Brasil abaixo do Rio de Janeiro, é Anísio Teixeira, que prefacia A galáxia de Gutemberg, e Décio Pignatari, que traduz Os
Você tinha ali a noção clara de que trabalhava por um novo campo de pesquisa. O fundador do campo de pesquisa em comunicação no Brasil é Luiz Beltrão, em Recife. Ao criar em 1963 o Instituto de Ciência da Informação, ele logo começou a desenvolver estudos dos meios de comunicação. Realizei lá, sob orientação dele, um trabalho de iniciação científica sobre o noticiário policial na imprensa nordestina, com análise de conteúdo, medições etc. Depois fiz a pós-graduação no Ciespal e fui aluno de Bruce Westley, Malcolm Maclean e Joffre Dumazedier. Já lera os trabalhos de Wilbur Schramm e Daniel Lerner, autores fundamentais para a comunicação. Tinha, portanto, essa noção do campo e da necessidade de expandi-lo. Acho importante sempre destacar que Beltrão fez uma introdução importante no Recife e difundiu isso para o Brasil inteiro. Foi ele quem criou a primeira revista científica da área, Comunicações e Problemas. Então, crio o centro da Cásper Líbero e começo a desenvolver uma série de pesquisas que repercutem mal na academia.
Por quê?
Por preconceito em relação ao objeto. Formei várias equipes, por exemplo, uma que estudava o conteúdo das histórias em quadrinhos e perguntavam: “Mas histórias em quadrinhos? Só tem porcaria...”. Fiz um grupo sobre o Diário de S. Paulo, pois estudamos todos os jornais em circulação. Mas a pesquisa que pior repercutiu foi sobre telenovelas.
Mas a linha de pesquisa de telenovelas logo se tornaria uma tradição na ECA. Não, isso só aconteceu nos anos 1990. Quando fui diretor da Escola, verifiquei que o curso de rádio e televisão ensinava tudo, menos telenovela, o principal produto de exportação de nossa indústria cultural. Criei, por portaria, o Núcleo de Estudo de Telenovela, tentei obter recursos para ele em todas as fundações da USP e não consegui.
Em 1967, você fundou o centro da Cásper. E quando passou a ensinar na USP?
Em maio de 1967. Foram contratados três professores inicialmente para o jornalismo: Flávio Galvão, um jornalista de O Estado de S. Paulo, José Freitas Nobre, que era advogado, e eu, com a incumbência de chefiar os dois, porque tinha uma pós-graduação e podia ficar em tempo integral na USP. Foi aí que tive que fazer uma opção.
Entre a Cásper e a USP?
Não, entre a riqueza e a pobreza. Ganhava muito bem no Inese e fui ganhar a metade na USP. Aí fiquei, primeiro, de 1967 a 1974. Até 1972 trabalhei implantando o Departamento de Jornalismo e Editoração e desenvolvi uma série de atividades, com pesquisa e profissionalização conjugadas. Mas o ano de 1972 marcou minha vida porque fui descoberto pelos serviços de inteligência e, quando terminou a 4ª Semana de Estudos Jornalísticos, fui processado pelo decreto-lei 477 [versava sobre punições, inclusive expulsão de estudantes e demissão de professores e funcionários acusados de atividades subversivas na universidade]. O motivo do meu inquérito foi uma apostila que eu havia feito em 1968, chamada “Técnica do lide” e que circulara no país inteiro. Eu dava minhas aulas de jornalismo como os professores americanos: lide, conceitos etc., depois vinha a parte prática, os alunos iam aos jornais investigar essas coisas. Uma dessas aulas do lide [ lead, no original inglês, parágrafo de abertura de uma notícia que, classicamente, deve informar ao leitor o que, como, quando onde e porque aconteceu aquilo que é
o motivo daquele texto] foi dada no dia seguinte à morte do estudante Edson Luís [o primeiro estudante morto pela ditadura de 1964, em 28 de março de 1968], no Calabouço [o restaurante universitário do Rio de Janeiro]. Os alunos fizeram a parte prática do lide em cima daqueles fatos do dia. Esse material entrou na apostila que chegou até no exterior, coisa que eu desconhecia. Meu inquérito foi um negócio kafkiano. A publicação logo foi tirada de circulação na ECA e eu fui condenado. A comissão que me processou aqui na USP, com o então reitor Miguel Reale, recomendou que eu fosse demitido e impedido de lecionar no país por cinco anos. Foi um episódio dramático, mas não acuso ninguém, falo no Reale porque era ele a autoridade.
fevereiro de 1973 e me tornei o primeiro doutor em jornalismo no Brasil, o que naturalmente virou notícia. Isso irritou profundamente as autoridades da USP e os serviços de segurança. A essa altura a ECA já estava sob intervenção militar, fora nomeado um interventor, Manuel Nunes Dias, que era agente da repressão e, quando minha banca foi designada, ele disse que queria entrar. A banca foi composta por meu orientador, Rolando Morel Pinto, Antônio Soares Amora, Julio García Morejón, Virgílio Noya Pinto e este Nunes Dias, em relação ao qual eu não deveria reagir, por recomendação de meu orientador. Ele destroçou a tese. Basicamente dizia que eu estava citando marxistas e a bronca maior era com [o historiador] Nelson Werneck Sodré. No final, todos me deram 10, menos o interventor. Mas a perseguição na universidade era tanta que me aconselharam a sair do país. Pedi à FAPESP uma bolsa de pós-doutorado, obtive e fui para os Estados Unidos. Fiquei um ano lá.
Uma apostila com exercícios sobre o lide tratando da morte de Edson luís serviu de pretexto ao IPM
Havia um esquema montado na reitoria, os órgãos de segurança estavam lá dentro. O processo correu o ano inteiro. A USP finalmente me condenou e enviou o processo para o Ministério da Educação, porque o ministro tinha de homologar o resultado. O ministro Jarbas Passarinho disse que não ia punir esse caso porque se via que o autor não era um terrorista e o decreto destinava-se a combater terroristas. Ele me absolveu, mas a estrutura da universidade não assimilou, criou uma reação. Fui proibido de sair do país, fui afastado da chefia do departamento e fiquei só como professor. Então decidi me dedicar inteiramente à minha tese de doutorado. Inscrevi a tese em dezembro de 1972, defendi em
E qual foi o seu foco?
Como a pós-graduação no Brasil estava mudando, fui observar como funcionava a pós-graduação, em especial no jornalismo. Quando voltei, o relatório foi aprovado pela FAPESP. Mas a USP não queria nem saber, fui demitido. Só depois soube das circunstâncias: o comandante do II Exército mandara uma instrução para a USP demitir os comunistas mais notórios. Marilena Chauí era a primeira da lista, depois vinha Paulo Emilio Salles Gomes. Fui demitido sumariamente, sem direito a indenização, sem qualquer explicação. E só voltei com a Anistia, em 1979.
Como você sobreviveu nesse período?
Tive vários convites para sair do país, mas Silvia [sua mulher] não queria. Fui dar aula em outras faculdades, com muita dificuldade porque os órgãos de segurança diziam sempre que eu não podia. A Igreja Metodista estava instalando uma faculdade de comunicação em São Paulo e um dos pastores que eu já conhecia de Recife me chamou para trabalhar lá. Fui e três meses depois prepostos
dos órgãos de segurança foram fazer pressão sobre o reitor. Ele mandou que se colocassem dali para fora, porque ali era uma casa de Deus, onde trabalhava quem ele queria.
E quem era esse reitor valente?
Chamava-se Benedito de Paula Bittencourt, era membro do Conselho Federal de Educação. Ele mandou me chamar e me tranquilizou. Eu prometi levar para ele os dois livros que tinha escrito, pedi que lesse e lhe assegurei que pediria demissão se ele achasse que tinha algo comprometedor. Dois meses depois ele me chamou e disse que não havia problema nenhum, eu apenas não deveria fazer proselitismo em sala de aula. Foi então na Metodista que sobrevivi, pude trabalhar e, em seguida, instalei a pós-graduação. Montei um corpo docente com um pessoal que vinha do exterior, acolhi professores como Fernando Perrone, que estava exilado na França, Paulo José, exilado no Canadá, e logo a pós da Metodista foi considerada curso top pela Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior]. Ficou reconhecido no país inteiro. Criei a revista Comunicação e Sociedade, mais ou menos uma sucessora da revista do Beltrão, que circulou de 1967 até, se não me engano, fins de 1970. Mas teve outras publicações da área. A ECA mesmo tinha a Revista da Escola de Comunicações Culturais, o Jornal do Brasil tinha os Cadernos de Jornalismo
Você foi carregando sua experiência de uma instituição para outra, não?
Sim, trouxe de Recife para a USP, por exemplo, toda a experimentação com jornais que Beltrão fazia, mas com uma vantagem: a riqueza. Aqui era possível ter o jornal-laboratório, em vez do jornal-cobaia, dissecando os jornais existentes e fazendo uma proposta sobre como fazê-los melhor. Aliás, a primeira tarefa que recebi de Morejón foi exatamente instalar um jornal-laboratório. Apresentei um projeto, montei a estrutura e começamos a importar o equipamento. Enquanto a oficina gráfica não chegava, usávamos serviços particulares, não dava para editar nada em outras instituições da USP por causa da censura. Nossa primeira experiência prática foi
e até poderiam montar uma agência de notícias. Então, a primeira experiência laboratorial da ECA foi a agência universitária de notícias. Os alunos faziam a cobertura do seminário e elaboravam um boletim diário que ia para a imprensa do Brasil inteiro.
A revista Comunicação e Sociedade sucedeu a publicação criada por
luiz b eltrão
Como você conciliou suas várias frentes de trabalho nessa fase?
Fiz um grande malabarismo. As primeiras pesquisas feitas na Cásper publiquei no livro Comunicação social – Teoria e pesquisa, o primeiro best-seller da comunicação no Brasil. Cheguei a vender 20 mil exemplares, seis edições sucessivas, e isso só não prosseguiu porque depois de algum tempo a parte empírica das pesquisas estava defasada e eu pedi para suspender. Fiquei de reescrever, mas nunca reescrevi nenhum livro. Escrevi mais de 20 livros, perdi a conta, e tem uns 70 que organizei ou coordenei.
sugestão de Freitas Nobre: fizemos um Seminário Internacional sobre Pesquisa em Rádio e Televisão, em maio de 1968 e convidamos algumas personalidades para vir falar sobre a pesquisa em mídia, entre elas Edgar Morin, Roberto Rosselini e Andres Guevara. Só que esquecemos de fazer o timming com o movimento de maio de 1968. Quando essa turma chegou na ECA, os alunos não a deixaram entrar. Estavam em greve, ocupando o prédio da escola. A Unesco tinha investido muito, o Itamaraty também e ficamos naquele impasse. Mas Lupe Cotrim, que era muito querida entre os estudantes, decidiu ir se entender com eles. Argumentou que não se tratava de aula, que teriam a oportunidade de ouvir discursos alternativos
E as experiências de pesquisa na USP? Criei um Centro de Pesquisa em Jornalismo para analisar o jornalismo em geral, jornais de bairro etc. A grande dificuldade que tínhamos originalmente era a falta de um corpo docente em tempo integral, os jornalistas não queriam se dedicar somente a ensino e pesquisa. Mas pouco a pouco fomos formando uma geração voltada a ensino, pesquisa e extensão. Nesta última, por exemplo, tínhamos contratado dois professores, o de diagramação e o de fotojornalismo. O primeiro era Hélcio Deslandes, grande capista, arquiteto e artista plástico que vinha da área de publicidade. Ele ensinava os alunos a fazerem uma diagramação sintonizada com as melhores tendências da época, e quem olhar os jornais-laboratório da ECA no período verá coisas belíssimas.
E o de fotojornalismo?
Era Thomaz Farkas, formado engenheiro eletrônico na Poli, mas fotógrafo apaixonado por cinema, dono da Fototica. Ele dava aula mandando os alunos, primeiro, irem à feira de Pinheiros ou a algum outro lugar fotografar e, na volta, dava as aulas teóricas – o que era muito mal visto na época. Queriam que eu cortasse seu ponto. Até que Farkas desapareceu. Tinha sido preso. Eu, chefe de departamento, tinha que dar um atestado informando que ele não havia comparecido ao trabalho. Mas mostrei o ponto assinado, porque fizemos um rodízio de professores e cada dia um dava aula no lugar dele. E foi assim até que o Farkas foi solto. Além de professor, ele foi um benemérito da ECA. Deu de presente o “projeto” do laboratório, cuja aquisição foi feita pela universidade, cabendo-lhe também a implantação desse tipo de iniciativa. No final, fomos cinco professores cassados no Departamento de Jornalismo: Freitas Nobre, Farkas, Jair Borin, Sinval Medina e eu.
Quando você voltou para a ECA? Voltei em 1979, com a Lei da Anistia. O departamento estava destruído. O último dos nossos professores a ser vitimado foi Vladimir Herzog, contratado havia pouco para dar telejornalismo, quando foi morto. Nosso retorno não foi tranquilo. O corpo docente foi mudado durante o mandato de Manuel Nunes Dias e, se não fosse o movimento de alguns professores pela volta dos cassados, não teríamos retornado. [José] Goldemberg já era o reitor e nos recontratou. Mas como no Diário Oficial só se publicara que nosso contrato tinha sido encerrado, não que fôramos cassados, tive que fazer de novo toda a carreira. Alguns anos depois recuperei o salário de professor titular. Fiquei até 1993, quando me aposentei. Minha trajetória nesse período foi, acima de tudo, reconstruir o Departamento de Jornalismo. Também repeti as “semanas de jornalismo” e a primeira foi sobre Marx e o jornalismo, pauta dos estudantes. Lembro que na primeira Semana de Jornalismo, em 1969, debatemos sensacionalismo e foi um grande mal-estar tratar desse tema na USP. Levamos Romão Gomes Portão, editor do Última Hora, um editor do Notícias Populares, Talma de Oliveira, que dramatizava notícias no rádio e assim por diante. Mas também levamos Alberto Dines e um ainda desconhecido frei Evaristo, frade franciscano que trabalhava no Carandiru, com a Pastoral Carcerária. No último dia iam falar da visão ética do jornalismo sensacionalista, chegaram todos os convidados, menos o frei. Decidimos dar início sem ele, mas aí da plateia o frei levantou a mão, apresentando-se: Paulo Evaristo Arns. Ele já era bispo auxiliar de São Paulo e eu não sabia. Dois meses depois foi nomeado arcebispo e cardeal. Foi depois desta “semana” que circulou pela primeira vez o Jornal do Campus.
soal que tinha duplo salário, publicou e causou a maior celeuma. Chamaram-me na reitoria e avisaram que iam tirar o subsídio do jornal. A universidade criou o Jornal da USP para substitui-lo. Na ocasião até banquei, porque era chefe de departamento e tenho que defender a liberdade de imprensa. Mas hoje, olhando bem, sei que se tivessem pesquisado mais teriam visto que não era ilegal. Era o chamado adicional noturno. Todos que davam aula num só turno e passaram a dá-las à noite tiveram o salário dobrado.
Quando você voltou à Metodista?
Depois de me aposentar recebi um convite para montar a Cátedra Unesco no Brasil. A Metodista já me convidara para implantar o doutorado. Então fui para
o s jornalistas não queriam se dedicar em tempo integral a ensino e pesquisa
implantar o doutorado em comunicação e levei a cátedra. Dediquei-me a isso desde então. Quero me aposentar no próximo ano, quando completo 70 anos e quero ter tempo livre para escrever.
Que balanço você faz da pesquisa em comunicação no Brasil hoje?
gundo no ranking de papers selecionados para o principal evento internacional de nossa área, a International Association for Media and Communication Research (IAMCR), mas a pesquisa brasileira não consegue deslanchar no sentido de liderança. Por quê? A primeira razão é não termos autoestima intelectual. O campo ainda não tem identidade própria, trabalha com objetos cada vez mais perto de uma identidade, mas falta assumir isso. E são poucos os pesquisadores brasileiros que se preocupam com essa questão, como Muniz Sodré e Maria Immacolata Vassalo Lopes. Comunicação não é uma área autônoma de pesquisa. Como todas as ciências aplicadas, ela incorpora contribuições que vêm das demais ciências, das exatas e das humanas.
Há quem defenda, como Muniz Sodré, que o objeto dessa ciência, digamos assim, é a relação comunicacional. Há várias teorias sobre isso e eu entendo que o objeto é um pouco mais amplo que a mera relação. O campo tem, institucionalmente, duas divisões: a comunicação interpessoal, que vem da retórica, da psicologia, do comportamento, da educação; e a comunicação de massa, que tem uma tradição basicamente jornalística, depois se amplia para a publicidade e as relações públicas. Nos Estados Unidos o campo é bifurcado: tem a Associação para a Educação em Jornalismo e Comunicação de Massa e a Associação Norte-americana de Comunicação, que envolve retórica, linguagens, comunicação interpessoal, argumentação...
E o Jornal do Campus permaneceu até quando?
Até quando publicou uma matéria sob o título “Os marajás da USP”. Bernardo Kucinski assumira a chefia de redação, descobriu a folha de pagamento do pes-
Na verdade, sou muito crítico. É um campo que cresceu muito, em 2013 vamos completar 50 anos de atuação e já somos o segundo país em número de pesquisas – à nossa frente só estão os Estados Unidos, que têm uma tradição de 100 anos. Temos recursos, temos 250 mil estudantes, 25 mil professores e muitos doutores. Nossa presença nos congressos internacionais é marcante, somos o se-
O esforço que grupos como o da Universidade Federal da Bahia (UFBA) fazem para articular comunicação e cultura também é uma busca de identidade? Temos várias maneiras de criar identidade que não pelo objeto. Os estudos de cultura procuram se desvencilhar do objeto comunicação de massa em busca de algo um pouco mais nobre.
Mas a parca autoestima que você atribui aos pesquisadores da comunicação decorre dessa dúvida sobre objeto ou do escasso reconhecimento acadêmico?
Penso que do pequeno reconhecimento acadêmico. Meu diagnóstico é que a comunicação continua sendo o primo pobre das humanidades e das ciências sociais aplicadas aqui no Brasil porque temos sempre uma associação desqualificando a outra, quando devíamos estar unidos, brigando por recursos para todo o campo, e não para segmentos.
Mas, para além dos problemas institucionais, há profundas divisões teóricas. Acho que o problema é mais taxionômico do que teórico. Não há muito avanço no Brasil em teoria da comunicação.
Vários programas de pós quase se inviabilizaram por insuficiência de pontuação na Capes. Como isso está?
Esse problema ainda não está resolvido, tanto que a área de comunicação não tem interface internacional. Houve, em minha maneira de ver, uma tentativa das regiões emergentes, lideradas pela Bahia, de assumir uma posição de liderança nacional em contraposição aos dois maiores polos de pesquisa, São Paulo e Rio de Janeiro. O pessoal da Bahia é muito sério, tem gente muito boa, mas faltou compreensão histórica para o problema. A ECA e a ECO [Escola de Comunicações] foram escolas que formaram quase toda a geração de pesquisadores de comunicação em atuação no país, mas foram se agigantando e perdendo as características que correspondem às exigências das agências de fomento. Quando fui diretor da ECA, empreendi um movimento de desconcentração da pós-graduação, que tinha então mil alunos. Baixamos o número para selecionar mais, procuramos subdividir essa pós-graduação em vários programas, mas infelizmente isso não prosperou. Agora está começando a voltar o projeto que estabelecemos no começo dos anos 1990, quando implantamos pós-graduação em cinema, em biblioteconomia, de modo semelhante ao que se tinha nas artes, em que teatro, artes plásticas e música eram e são projetos separados, cada um com sua identidade. Mas só uma reorganização nesses moldes pode prosperar, porque comunicação é tudo e não é nada.
Afora os brasileiros que você já citou ao longo da entrevista, quem são os teóricos da comunicação de sua preferência? Não sei se posso falar em predileção, porque tenho sempre a ambição de ter independência filosófica. Meus autores preferidos nesses anos todos têm sido Raymond Nixon e Fernand Terrou. Alguns companheiros de geração com quem tive muita afinidade foram Herbert Schiller e George Gerbner, nos Estados Unidos, e, entre os franceses, Bernard Miege.
E como são suas relações com Barbero? São boas relações, mas não tão íntimas. Sou muito avesso a culto às personalidades. Acho que Barbero é um pesquisador de grande valor, mas cultuado a ponto de
compreender o que acontece no mundo contemporâneo e o que ocorre ao redor do ser humano, na comunidade e na sociedade. O jornalismo científico em particular é um campo fundamental porque é um campo da democratização do conhecimento. É onde o jornalismo se põe como uma forma de conhecimento.
Qual foi sua maior contribuição ao campo da comunicação no Brasil?
d
evemos assumir que o campo da comunicação ainda não tem identidade
própria
ele próprio se sentir mal em relação a isso. Tenho promovido na Cátedra Unesco uma série de seminários para projetar o pensamento latino-americano. Comecei com Luis Ramiro Beltrán, que é o pai das políticas nacionais de comunicação, depois Jesús Martin-Barbero, com a teoria das mediações, Eliseo Verón... Tenho trazido todas essas pessoas porque acho que os jovens precisam conhecer as diferentes tendências de um campo.
Como é a relação entre suas visões da comunicação em geral e o campo do jornalismo científico?
A comunicação só tem sentido quando serve para construir alguma coisa. Então jornalismo é fundamental para
Aquilo a que venho me dedicando há quase 50 anos, com muita atenção, são os gêneros jornalísticos. Tenho uma proposta de classificação dos gêneros no país em cinco vertentes: informativo, opinativo, interpretativo, utilitário ou de serviços e o diversional, que, equivocadamente em minha opinião, chamam de jornalismo literário. Vivemos numa sociedade onde o hedonismo predomina e os jornalistas precisam fazer algum tipo de matéria que seja mais atraente para o cidadão comum, que não sejam só os fatos do cotidiano, daí o jornalismo diversional. Meu texto mais antigo nesse sentido é minha tese de livre-docência na USP, inicialmente publicada como Opinião no jornalismo brasileiro , depois republicada com algumas alterações, como Jornalismo opinativo, no qual basicamente estudei só os textos opinativos. E estou escrevendo um livro, que não sei se vou concluir, sobre os gêneros jornalísticos no Brasil. É uma tarefa hercúlea, fiz só 30% e precisaria agora parar para pesquisar. Eu quero partir de Hipólito da Costa e chegar ao jornalismo de hoje. Quero passar pela imprensa do século XIX quando ela começa a se tornar empresarial à imprensa do século XX, já industrial, e chegar à imprensa de hoje.
Esse livro carrega, então, a ambição da grande história do jornalismo no Brasil. Quando entreguei meu projeto de tempo integral na USP, apresentei meu projeto de desenvolvimento do jornalismo no Brasil. E minha tese de doutorado já era sobre as razões pelas quais a imprensa se retardou no Brasil. Venho trabalhando nisso há anos. n
P olít I c A c&t
ACESSO ABERTO y
c onhecimento livre
Iniciativa do Reino Unido vai mostrar até que ponto é viável oferecer toda a produção científica na internet
Fabrício Marques
A escalada das revistas gratuitas
Número de publicações no Diretório de Revistas de Acesso Aberto (Doaj)
Impactos da internet na ciência
1996
A Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos cria o Medline, o mais abrangente índice de literatura médica do planeta, disponível de graça na web
1997
A FAPESP lança o programa SciELO. A iniciativa hoje disponibiliza 239 publicações e gera 36 milhões de artigos baixados por mês gratuitamente
1999 é rebatizado de arXiv o mais popular arquivo de preprints de artigos científicos criado em 1991. Hoje reúne 745 mil textos em matemática, física e computação, entre outros
2001 é deflagrada a Iniciativa de Acesso Aberto de Budapeste, campanha mundial que propôs o acesso aberto a todas as novas publicações científicas revisadas por pares
2003 é lançada a PLoS Biology, primeira das sete publicações mantidas pela Public Library of Science (PLoS), organização criada para estimular o acesso aberto
2004
O google lança o google Scholar, ferramenta que permite pesquisar artigos científicos, trabalhos acadêmicos e publicações de universidades
Pesquisadores de várias áreas do conhecimento, bibliotecários e especialistas em ciência da informação reuniram-se no final de outubro em eventos realizados em mais de uma centena de países para discutir os rumos do acesso aberto, expressão que engloba um conjunto de estratégias para difundir a produção científica de forma livre e gratuita por meio da internet. As discussões da 6ª Semana do Acesso Aberto, iniciativa de uma aliança internacional de bibliotecas universitárias, abordaram temas como a influência das plataformas digitais no modo de fazer ciência, mas também foram marcadas por um avanço alcançado recentemente. Em julho, um anúncio feito pelo governo do Reino Unido estabeleceu que, a partir de 2014, todos os artigos científicos que resultarem de pesquisa financiada com recursos públicos deverão estar disponíveis gratuitamente em meios eletrônicos. Significa dizer que ninguém terá de pagar para ter acesso a papers de pesquisadores britânicos financiados por agências governamentais.
A iniciativa do Reino Unido é um marco pela magnitude da produção científica do país: quase 8% de todos os artigos publicados no mundo por ano, segundo a base de dados Thomson Reuters. A experiência poderá alterar padrões internacionais para o acesso aberto, que hoje é dividido em duas vertentes principais. Uma delas é a chamada “via dourada” (golden road), em que as próprias revistas oferecem o acesso gratuito a seu
2008
Institutos Nacionais de Saúde dos
Estados Unidos (NIH) estabelecem que a base de dados PubMed deve receber cópias de todos artigos ligados a pesquisas financiadas pela agência
2012
Reino Unido anuncia que todos os papers vinculados a pesquisas financiadas com verba pública serão disponibilizados gratuitamente a partir de 2014
RANkING DOS PAÍSES
Número de revistas com acesso aberto em 2012
Estados unidos 1.260
Brasil 782
Reino unido 573
Índia 446
Espanha 423
Egito 340
Alemanha 256
Canadá 247
Romênia 241
Itália 223
turquia 203
Colômbia 191
frança 165
Irã 159
Polônia 141
o s níveis de abertura
Diferentes modelos convivem na comunicação científica
direitos do leitor direitos autorais direitos de divulgação divulgação automática
Acesso livre logo após a publicação
Acesso livre após embargo de seis meses
Acesso livre após embargo de 12 meses
Acesso livre para alguns artigos, mas não todos (modelo híbrido)
Assinaturas e outras formas de pagamento são exigidas para a leitura
Autor detém direitos autorais, sem restrições
Autor detém direitos autorais, com algumas restrições na reutilização da versão publicada
Autor detém direitos autorais, com várias restrições na reutilização da versão publicada
O editor detém os direitos, com algumas concessões para o autor
O editor detém os direitos com exclusividade
Autor pode divulgar qualquer versão para qualquer repositório ou site
Autor pode divulgar a versão final do manuscrito para qualquer repositório ou site
Autor pode divulgar a versão final apenas para certos repositórios ou sites
Autor pode divulgar apenas o rascunho da versão final para certos repositórios ou sites
Autor não pode depositar nenhuma versão do trabalho em repositórios
conteúdo. São típicas dessa estratégia as revistas da Public Library of Science (PLoS) ou a coleção de periódicos da biblioteca SciELO Brasil, um programa financiado pela FAPESP. A segunda vertente é conhecida como “via verde” ( green road). Nessa modalidade, o pesquisador arquiva no banco de dados de sua instituição uma cópia de seus artigos científicos publicados numa revista comercial. Quem quiser ler o artigo sem pagar pode recorrer a esses repositórios. Surgiram outras variantes. Algumas publicações permitem que os autores depositem cópias de seus artigos em repositórios, mas exigem que a divulgação só seja feita de seis meses a um ano após a publicação, para preservar seus ganhos nesse período inicial. Outras abrem mão do embargo e divulgam artigos na internet até mesmo antes da publicação da revista em papel – mas cobram uma taxa adicional do autor para fazer a divulgação livre e antecipada. O modelo foi batizado de acesso aberto híbrido, pois as publi-
As revistas disponibilizam cópias dos artigos automaticamente para repositórios de sua confiança
As revistas disponibilizam cópias dos artigos automaticamente para repositórios de sua confiança após seis meses
As revistas disponibilizam cópias dos artigos automaticamente para repositórios de sua confiança após 12 meses
As revistas não disponibilizam cópias dos artigos automaticamente para repositórios
As revistas não permitem a divulgação de artigos repositórios
cações divulgam tanto artigos em acesso aberto, num esquema típico da via dourada, como papers no modelo convencional, exigindo dos leitores o pagamento de taxas ou assinaturas.
Atualmente, mais de 20% dos resultados de pesquisa no mundo são publicados em regime de acesso aberto – no Reino Unido esse quinhão chega a 35%. O padrão da via verde é mais comum: com exceção da área médica, há mais artigos disponíveis em repositórios do que em revistas de acesso aberto (ver quadro na página 38). A iniciativa do Reino Unido pode, contudo, mudar essa tendência. O Comitê Finch, que propôs estratégias para a comunicação científica britânica, sugeriu prioridade na adoção da via dourada, pagando mais para que as revistas divulguem os artigos em acesso aberto. Com isso, os repositórios institucionais da via verde, que são bastante usados pelos pesquisadores britânicos, poderiam enfraquecer seu papel de divulgadores da ciência publicada em revistas comerciais.
Embora os Conselhos de Pesquisa do Reino Unido (RCUK) tenham afirmado que não vão abandonar os repositórios, a expectativa é de que as editoras apostem fortemente num modelo híbrido para os artigos britânicos. “As revistas certamente vão ampliar a duração do embargo para divulgação de artigos em repositórios e, assim, forçar os autores a pagarem mais para publicar em acesso aberto”, disse Stevan Harnad, pesquisador húngaro radicado no Canadá, que é editor de revistas científicas e ativista do movimento do acesso aberto. Se esse caminho de fato vingar, exigirá mais investimentos de autores e de suas instituições para publicar seus artigos, produzindo um efeito contrário ao proposto pelo acesso aberto, que busca simplificar e baratear a difusão da produção científica com a ajuda dos meios digitais. Segundo o relatório do Comitê Finch, a estratégia da via dourada vai demandar investimentos adicionais entre £ 40 milhões e £ 50 milhões por ano, dos quais £ 38 milhões seriam destinados ao pagamento de taxas de publicação em acesso aberto. “Fazer uma transição para a via dourada vai gerar mais gastos que deveriam ser evitados”, afirmou Peter Suber, diretor do Programa de Acesso Aberto da Universidade Harvard e pesquisador da Sparc, aliança de bibliotecas que coordenou a 6ª Semana do Acesso Aberto.
para Rogério Meneghini, coordenador científico da biblioteca SciELO Brasil, os próximos passos desse embate forçosamente abordarão o patamar de lucros das grandes editoras. “As editoras fazem um trabalho benfeito que exige investimentos tanto em tecnologia como na avaliação por pares e precisa ser rentável. Mas os lucros dessas empresas, na casa dos 30% a 40%, são desproporcionais”, afirma. “Tem agora de haver uma negociação para definir quem vai pagar a conta e garantir que os custos, necessários para manter a qualidade das publicações, sejam assimiláveis pelas universidades e os autores”, explica. Um round do embate entre editoras e cientistas
aconteceu em fevereiro. A editora Elsevier, que publica mais de 2 mil periódicos, foi criticada por apoiar um projeto no Senado norte-americano que buscava reverter a política criada em 2008 pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) pela qual toda pesquisa apoiada pela instituição passou a ser oferecida em acesso aberto. Cientistas de prestígio, entre os quais três matemáticos ganhadores da Medalha Fields, convocaram um boicote às revistas da editora, que acabou recuando do apoio ao projeto. “Ouvimos preocupações de autores, editores e revisores segundo as quais o projeto de lei era inconsistente com o nosso tradicional apoio à expansão do acesso à literatura científica de forma gratuita ou de baixo custo”, informou a editora. A Elsevier ainda anunciou a redução do preço do download dos artigos de matemática de cerca de R$ 45 para R$ 19 cada.
O presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Jorge Guimarães, acredita que negociações com as editoras podem, de fato, reduzir os custos para ter acesso às revistas. “Temos feito isso no portal de Periódicos da Capes e vem funcionando”, diz, referindo-se à base de dados que reúne o acervo, com textos completos, de mais de 33 mil periódicos internacionais de todas as áreas do conhecimento. Para acessá-la, é preciso ser pesquisador ou professor de uma instituição cadastrada na Capes. “Há 10 anos, o acesso a 1.800 revistas consumia quase 10% do nosso orçamento. Hoje são 33 mil revistas, que utilizam 4,2% do orçamento”, afirma. “É uma iniciativa tão consolidada que pesquisadores brasileiros fazendo estágio nos Estados Unidos ou na Europa preferem usar o portal da Capes aos portais das instituições que os recebem, porque lá o acesso aos periódicos não é tão completo”, afirma. Guimarães, porém, é cético em relação aos desdobramentos da iniciativa do Reino Unido. “Os britânicos precisam fazer experiências com esse modelo antes de implantá-lo. Uma imposição do acesso aberto poderia fazer com que os britânicos deixassem de publicar em revistas de alto impacto como a Nature, e eles certamente não querem isso”, afirma. Segundo Guimarães, a expansão do acesso aberto vai impor custos adicionais. “Não adianta apenas estabelecer o acesso livre sem pensar em outros componentes. Se não puderem cobrar pelo acesso a revistas, as bases de dados passarão a cobrar, por exemplo, para fazer a busca dos artigos em suas ferramentas. E essas ferramentas são essenciais para qualquer
A implantação do acesso aberto no reino Unido vai demandar investimentos adicionais de até £ 50 milhões por ano
35% dos resultados de pesquisa no reino Unido são publicados em regime de acesso aberto
As revistas tornam os seus artigos (todos ou uma parte deles) livremente acessíveis no momento da publicação
São os autores que tornam acessíveis os seus artigos, depositando uma cópia num repositório institucional ou temático
Estudo com uma amostra de 1.837 artigos mostrou o alcance do acesso aberto
Total de acesso aberto 20,4% divididos em:
Publicação
o perfil do acesso aberto em cada disciplina – em %
Medicina
Bioquímica, genética molecular e biologia
Outras áreas da medicina
Matemática
Ciências da Terra
Ciências sociais
química e engenharia química
Engenharias
Física e astronomia
36 milhões de artigos da coleção Scielo são baixados a cada mês de forma gratuita
pesquisador acompanhar o que está acontecendo em sua área”, diz o presidente da Capes. Não é de hoje que cientistas defendem a ideia de que o conhecimento precisa ser difundido de forma livre para que a sociedade possa apropriar-se dele. Mas o acesso aberto começou de fato a frutificar a partir dos anos 1990 com o advento da internet e sua capacidade de distribuir informação com custo baixo. A rede mundial de computadores propiciou a eclosão de iniciativas como o repositório arXiv, criado em 1991, por meio do qual pesquisadores divulgam dados de seus estudos, submetendo-os à análise de colegas antes que sejam publicados. Hoje o arXiv reúne quase 800 mil textos nos campos da matemática, física, ciências da computação, biologia quantitativa e estatística que podem ser acessados via internet. Dados gerados pelo acelerador de partículas do Cern, por exemplo, foram lançados primeiro no arXiv, que se consagrou como uma ferramenta de compartilhamento de informações entre os especialistas em física de altas energias. Nos anos 2000 novas iniciativas tentaram organizar o caminho do acesso aberto. A Public Library of Science (PLoS), uma organização sem fins lucrativos voltada para estimular a criação de revistas científicas com acesso aberto, lançou em 2003 a PLoS Biology, a primeira das sete publicações mantidas pela instituição. O conjunto de revistas é visto como um exemplo bem-sucedido de publicações com acesso aberto, pelo valor modesto que cobra dos autores e por alcançar um fator de impacto superior ao da maioria das revistas de
acesso aberto. O fator de impacto da PLoS One, por exemplo, é de 4 – significa dizer que seus artigos são citados, em média, quatro vezes cada um em outras publicações. Quando um artigo científico é aceito nos periódicos da PLoS, o autor precisa desembolsar US$ 1.350. Depois disso, os textos ficam com acesso livre para cientistas e não cientistas. Já quando o paper é publicado numa revista tradicional de uma grande editora, o custo médio para o autor é de US$ 2 mil por artigo. Mas os leitores também pagam para ter acesso, por meio de assinaturas das publicações ou da aquisição de um cópia do artigo desejado. Nos últimos anos, grandes universidades também se empenharam em disponibilizar seu conhecimento na rede. O Massachusetts Institute of Technology lançou o MIT OpenCourseWare, iniciativa para colocar on-line todo o material educacional de seus cursos. A plataforma hoje tem 1 milhão de visitantes por mês. A Universidade Harvard estabeleceu em 2008 uma política para divulgar os trabalhos de seus pesquisadores na internet, criando um repositório de acesso livre.
Há um conjunto de dados que atestam a expansão do acesso aberto. O número de revistas nesse regime teve uma forte expansão na década passada. Dados do Diretório de Revistas de Acesso Aberto (Doaj, na sigla em inglês) mostram que a quantidade de publicações cadastradas saltou de 741 em 2000 para 8.282 em 2012. A adesão ao acesso aberto entre os diversos campos do conhecimento não é uniforme (ver quadro nesta página). Um estudo publicado em 2010 na revista PLoS One, que analisou uma amostra de artigos científicos, revelou que os pesquisadores da área de química são os que menos recorrem ao acesso aberto (13% do total de artigos), enquanto os das ciências da Terra são os que mais publicam (33%). O número de repositórios de instituições no mundo saltou de 250 em 2003 para 2.300 no ano passado. “Os avanços, contudo, ainda não tiveram fôlego para colocar em xeque o modelo de comunicação científica tradicional. Persiste uma forte demanda dos pesquisadores, principalmente os de nível mais elevado, para publicar em revistas de alto impacto vinculadas a grandes editoras”, diz Rogério Meneghini, da SciELO.
O Brasil é o segundo do ranking de países que mais dispõem de revistas de acesso aberto, com 782 publicações contabilizadas pelo Doaj. Só perde para os Estados Unidos, com 1.260. “A trajetória do Brasil é única no mundo”, diz Pablo Ortellado, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP e membro do Grupo de Políticas Públicas para o Acesso à Informação da universidade. “Graças à criação da biblioteca SciELO Brasil, a estratégia do Brasil é apontada como uma espécie de ‘via
diamante’, pois sustenta um conjunto de revistas em acesso aberto com investimentos públicos e, na maioria das vezes, não cobra nada dos autores para publicar. Temos uma política de acesso aberto muito bem-sucedida”, diz o pesquisador.
lançada em 1997 como um programa especial da FAPESP, a Scientific Electronic Library Online (SciELO) alcançou, no final de 2011, 239 publicações de todos os campos do conhecimento que geraram uma média mensal de 36 milhões de artigos baixados da internet de forma livre e gratuita – 1,2 milhão por dia. Os periódicos só são admitidos na coleção depois de passarem por crivos que atestam sua qualidade, como a existência de um corpo editorial qualificado, a relevância em seu campo do conhecimento, a assiduidade da publicação e o cumprimento de uma série de normas técnicas que regem a comunicação científica internacional. Graças a esse aumento de qualidade, mais periódicos brasileiros puderam ser incorporados nos últimos cinco anos a bases de dados internacionais, como a Web of Science (WoS), da Thomson Reuters, e a Scopus, da Elsevier. Em julho passado, a FAPESP e a divisão de propriedade intelectual e ciência da Thomson Reuters anunciaram um acordo para integrar a coleção SciELO à Web of Knowledge, a mais abrangente base internacional de informações científicas. A hospedagem das revistas da SciELO na base busca ampliar a visibilidade e o acesso à produção científica do Brasil e de outros países da América Latina e Caribe, além da África do Sul, Espanha e Portugal.
Pablo Ortellado aponta, porém, um paradoxo na situação brasileira. “O impacto da política de acesso aberto é pequeno em áreas de pesquisa muito internacionalizadas, como física ou biologia molecular, porque seus autores buscam publicar em revistas internacionais de alto prestígio, e não nos periódicos brasileiros”, diz o pesquisador. Para ele, novas estratégias no campo da via verde, a dos repositórios institucionais, são necessárias no país. “A USP começou a organizar um reposi-
é forte a demanda dos pesquisadores, principalmente os de nível mais alto, para publicar em revistas de alto impacto
tório com todas as teses e artigos de seus pesquisadores, mas não há muitos exemplos desse tipo no Brasil”, afirma. Um projeto de lei do senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) propõe que as instituições públicas de educação superior e as unidades de pesquisa criem repositórios para abrigar a produção científica apoiada com recursos públicos. Monografias, teses, dissertações e artigos ficariam disponíveis na internet para acesso livre. O Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) promoveu a criação de 50 repositórios instituicionais no país, além de contribuir com o desenvolvimento de mais de 700 revistas científicas eletrônicas, por meio do uso do Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas (SEER). Para integrar essas iniciativas, o Ibict vem desenvolvendo o portal OASISBR, que integrará o conteúdo de repositórios digitais, da Biblioteca Brasileira de Teses e Dissertações, do SciELO e de revistas científicas eletrônicas brasileiras. A ideia é integrar também repositórios estrangeiros. “Os repositórios institucionais ajudam a acelerar a pesquisa em termos globais”, diz Helio Kuramoto, tecnologista sênior do Ibict. “Os artigos depositados em repositórios têm mais chance de serem citados e com mais rapidez do que quando disponibilizados apenas pelas revistas científicas. Portanto, ganham maior visibilidade. E há casos de teses que tiveram milhares de downloads, o que seria inalcançável sem os repositórios“, afirma. n
Aliança de alto nível
Programa-piloto atrai
cientistas do exterior para formar novos grupos de pesquisa em São Paulo
Dois projetos temáticos já foram aprovados no âmbito do São Paulo Excellence Chairs (Spec), um programa-piloto da FAPESP que busca estabelecer colaborações entre instituições do estado de São Paulo e pesquisadores de alto nível radicados no exterior. Um dos projetos deverá trazer para o Brasil o casal de cientistas Victor e Ruth Nussenzweig, ambos de 84 anos, brasileiros radicados nos Estados Unidos desde a década de 1960, que se tornaram referência internacional na busca de vacinas e tratamentos contra a malária. Andréa Dessen de Souza e Silva, brasileira radicada na França, também teve um projeto selecionado no âmbito do programa e vai comandar um grupo de pesquisa no Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), em Campinas. Desde 2000 Andrea lidera um grupo de pesquisa de patogenia bacteriana do Instituto de Biologia Estrutural de Grenoble, na França.
A meta do programa Spec é atrair para o país cientistas de renome, a fim de que coordenem projetos temáticos em sua área de atuação em universidades e laboratórios paulistas. Os pesquisadores seguem vinculados a suas instituições de origem, mas se obrigam a permanecer no Brasil durante 12 semanas do ano ao longo dos pelo menos cinco anos de duração do projeto, coordenando um grupo de bolsistas da FAPESP, entre pós-doutores, doutores e até alunos de iniciação científica. “A vinda de pesquisadores com currículos de alto nível tem como objetivo nuclear grupos de pesquisa em áreas nas quais queremos ter excelência e permitir que esses grupos avancem com mais velocidade”, diz Hernan Chaimovich, assessor especial da Diretoria Científica da FAPESP. A iniciativa, segundo ele, se insere na estratégia da FAPESP de estimular a internacionalização da ciência paulista. “A missão da FAPESP é melhorar a qualidade da ciência, da tecnologia e da
O casal Ruth e victor
Nussenzweig, em São Paulo: projeto temático e formação de núcleo de pesquisa na Unifesp
inovação no estado de São Paulo e é para isso que buscamos a internacionalização. Queremos que os grupos formados por iniciativas como o Spec estejam aptos a conseguir apoio em agências de fomento internacionais”, afirma. O programa está franqueado a instituições e pesquisadores de currículos notáveis interessados em estabelecer parcerias.
Pesquisas desenvolvidas nos Estados Unidos pelo casal Nussenzweig deram origem a protótipos de vacinas testados na década de 1980, que, no entanto, só conseguiram garantir imunidade por períodos muito curtos. Desde 1960, Victor e Ruth vincularam-se à Universidade de Nova York, onde trabalham até hoje – ambos no campo do parasita da malária. Atualmente o casal está engajado em duas frentes: a busca de uma vacina contra a malária causada pelo parasita Plasmodium vivax e técnicas para nocautear proteínas essenciais para o desenvolvimento do parasita.
novo S I n I b I dor ES
d ois projetos foram aprovados no âmbito do programa e outros dois estão em avaliação
riu-se para os Estados Unidos há 25 anos. Antes de se fixar na França, fez doutorado na Universidade de Nova York e pós-doutorado primeiro no Albert Einsten College of Medicine e depois na Universidade Harvard. Especializou-se no estudo da estrutura de proteínas usando técnicas em bioquímica e cristalografia. “Sempre trabalhei com o estudo da estrutura de proteínas ligadas à medicina. Já trabalhei com HIV, com inflamação”, diz. Seu foco atual é a virulência de bactérias, por meio do estudo da estrutura tridimensional das proteínas que formam a parede bacteriana. O objetivo é compreender as estruturas para a síntese e a reparação da parede bacteriana e tentar bloquear processos infecciosos. “Um alvo são as estruturas que propiciam a resistência a antibióticos”, afirma. É esse o foco do trabalho que desenvolverá em Campinas.
O projeto temático que Victor e Ruth deverão coordenar na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) busca caracterizar enzimas essenciais para o desenvolvimento do plasmódio e encontrar novos inibidores, com potencial para o desenvolvimento de drogas contra a malária. “Vou trazer um pesquisador chinês que trabalha comigo em Nova York há quatro anos e também vamos recrutar outros doutores e pós-doutores”, diz Victor. Eles trabalharão na Unifesp com pesquisadores que acolheram na Universidade de Nova York, em doutorados ou pós-doutorados, como os professores Maurício Martins Rodrigues, Sérgio Shenkman e Nobuko Yoshida. O termo de outorga do projeto deve ser assinado nas próximas semanas.
Em julho passado, Andréa Dessen de Souza e Silva tornou-se a primeira pesquisadora selecionada no âmbito do programa-piloto. Formada em engenharia química pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em 1987, transfe-
Há tempos Andréa queria voltar ao Brasil. “Mas tenho uma posição em Grenoble, dois filhos pequenos e não queria retornar definitivamente. O formato do programa Spec foi perfeito”, diz ela, que no ano passado havia feito uma palestra no LNBio e iniciou conversas com o diretor do laboratório, Kleber Franchini, para colaborar com a instituição. Além da contratação pelo LNBio de um assistente de pesquisa que fez pós-doutorado com Andréa na França, o brasiliense David Neves, o grupo também terá dois bolsistas de doutorado e um de pós-doutorado. “Tenho uma pessoa da minha confiança coordenando o grupo em Campinas”, diz Andréa. Segundo ela, o arranjo vai permitir um forte intercâmbio entre Campinas e Grenoble, com trânsito de pesquisadores das duas instituições. Outros dois projetos estão sendo avaliados pela FAPESP no âmbito do Spec, um na área de mudanças climáticas e outro em ciência dos materiais. “As propostas podem ser feitas em qualquer área do conhecimento, desde que envolvam pesquisadores de alto nível”, diz Chaimovich. n Fabrício Marques
Projeto mapeia fontes de poluentes e correntes marinhas na baía de Todos os Santos
ricardo Zorzetto, de Salvador
Paisagem soteropolitana:
fim de tarde na baía de Todos os Santos
A saúde da baía p
assava um pouco de 11 horas da terça-feira 16 de outubro quando o barco pilotado pelo químico Jailson Bittencourt de Andrade parou junto a um banco de areia no canal que liga a baía de Aratu à imensidão de águas cor de esmeralda da baía de Todos os Santos. Na faixa de areia exposta pela maré baixa cerca de 40 mulheres e algumas crianças, todas negras, andavam de cócoras olhando para o chão. Elas mariscavam. Com uma colher ou apenas com os dedos, desenterravam um pequeno molusco que chamam de chumbinho ou papa-fumo, pouco maior que a unha do polegar. São necessárias horas de trabalho, quase sempre sob um sol intenso, para encher um cesto grande de mariscos, que, depois de limpos, pesam dois quilos e são vendidos a R$ 17 para os comerciantes de pescados da região. Como têm baixo valor comercial, o chumbinho e outros mariscos, como a lambreta e o sururu, são a principal fonte de proteína animal de quase 15 mil famílias de pescadores e catadores de moluscos da baía de Todos os Santos. Vivendo abaixo da linha de pobreza, muitas dessas famílias se alimentam hoje de modo semelhante ao dos primeiros seres humanos que milhares de anos atrás ocuparam a costa do que viria a ser o Brasil.
Atualmente, porém, é recomendável consumir com moderação os peixes e frutos do mar apanhados em Aratu, Itapagi, Suba e em outras áreas mais industrializadas da baía de Todos os Santos. Eles estão contaminados. Concentram alguns metais em níveis superiores aos aceitos por autoridades da saúde
como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Muitos desses metais são elementos químicos que, em concentrações bem baixas, são essenciais para uma boa saúde, mas, em níveis altos, podem ser tóxicos. Comer os pescados e os moluscos de áreas contaminadas algumas vezes na semana não chega a causar risco à saúde, afirmam os pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) que, sob a coordenação de Andrade, vêm mapeando nos últimos anos a poluição ambiental na baía de Todos os Santos. Mas os pescadores e os catadores de mariscos, que consomem frutos do mar quase todos os dias, tornam-se mais vulneráveis a desenvolver problemas de saúde associados à exposição contínua a elevadas concentrações de alguns desses metais.
quem corre mais risco são as crianças”, comentou Vanessa Hatje, coordenadora do Laboratório de Oceanografia Química da UFBA, que acompanhou a visita aos pontos da baía de Todos os Santos em que foram feitas as medições. “É que a capacidade de diluir elementos químicos no organismo está diretamente relacionada à massa corporal”, explicou a oceanógrafa, braço direito de Andrade na primeira fase do Projeto Baía de Todos os Santos. Planejado para seguir até 2038, esse projeto, do qual participam quase 50 pesquisadores, investiga as características físicas, biológicas, culturais e históricas da região e, assim, contribui para a gestão sustentável dessa baía, a segunda maior do país – menor apenas que a de São Marcos, no Maranhão.
Entre 2006 e 2010, Vanessa, o oceanógrafo Manuel Nogueira de Souza e Cláudia Windmöller, da Universidade Federal de Minas Gerais, coletaram moluscos em 34 pontos da baía de Todos os Santos. A análise química demonstrou que ao menos quatro elementos (arsênio, zinco, selênio e cobre) aparecem em concentrações relativamente altas em mariscos e ostras. Os moluscos mais contaminados, segundo artigo publicado em 2011 no Marine Pollution Bulletin, haviam sido apanhados em Aratu, próximo ao local em que as marisqueiras trabalhavam naquela manhã de outubro, e no estuário do rio Subaé, a noroeste dali. Era até de se esperar que fosse assim. A baía de Aratu, localizada cerca de 20 quilômetros ao norte de Salvador, abriga um dos três portos mais movimentados da baía de Todos os Santos. Aratu está cercada por indústrias químicas, petroquímicas, metalúrgicas e de alimentos, entre outras. A menos de 50 quilômetros a nordeste dela, está instalado o polo petroquímico de Camaçari, o maior da América do Sul. Já no estuário do rio Subaé, no extremo noroeste da baía de Todos os Santos, a principal fonte de contaminantes foi por um longo período a mineradora Plumbum. Desativada em 1993, ela lançou por quase três décadas quantidades apre-
ciáveis de chumbo, cádmio, arsênio e zinco no Subaé.
“Havia poucos estudos, quase todos de circulação restrita, sobre a contaminação ambiental na baía”, conta Andrade, que coordena também o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Energia e Ambiente. “Essas pesquisas se baseavam em medições pontuais, que usavam técnicas distintas; agora estamos estabelecendo protocolos que permitirão acompanhar a evolução no tempo”, diz o químico, que anos atrás conduziu uma avaliação da qualidade do ar na baía de Todos os Santos, chamada de Kirimurê pelos Tupinambá que habitavam a região antes da chegada dos europeus.
Pescadores e catadores de mariscos, que consomem frutos do mar todos os dias, tornam-se mais vulneráveis a desenvolver inflamações
Seu grupo instalou estações medidoras de poluentes em três pontos: na rodoviária da Lapa, um movimentado terminal de ônibus no centro de Salvador; no porto de Aratu, onde há intenso transporte de cargas e minérios; e em Bananeira, uma vila de pescadores com cerca de mil habitantes na ilha de Maré. O resultado, de certo modo, surpreendeu. O ar da rodoviária era o mais poluído, como alguns já imaginavam. Mas
Porta de entrada do b rasil
A baía de Todos os Santos, suas ilhas e seus principais afluentes
não se esperava que o ar em Bananeira pudesse ser quase tão ruim quanto o do porto de Aratu, distante cinco quilômetros. “Em algumas horas do dia, é como se os moradores de Bananeira estivessem dentro do porto”, disse Andrade, apontando para um conjunto de casas entre plantações de banana, enquanto conduzia o barco pelo canal que separa a ilha de Maré do porto.
Além de medir os níveis de contaminantes de forma sistemática e a longo prazo, os pesquisadores tentam compreender a dinâmica de transporte e destino dos contaminantes na baía e o impacto sobre os organismos vivos. Com Francisco Barros, do Laboratório de Ecologia Bentônica da UFBA, Vanessa avaliou a concentração de metais na água, nos sedimentos e na fauna dos três principais rios que deságuam na baía – o Jaguaripe, o Paraguaçu e o Subaé. Eles verificaram que a Plumbum, mesmo fora de operação há três décadas, ainda polui o Subaé e áreas adjacentes. No inverno, a chuva lava os reservatórios e pilhas de escória da antiga mineradora e carrega mais contaminantes para o rio, que fica a menos de 500 metros de distância. De modo geral, os metais dissolvidos na água aderem a partículas em suspensão e se acumulam progressivamente nos sedimentos do fundo dos rios à medida que se caminha para a foz. Em alguns pontos, a concentração atinge níveis tóxicos para a fauna de bentos.
“Em uma das estações no estuário do rio Subaé não encontramos seres vivos no sedimento”, diz Barros, que agora realiza testes para verificar se o desaparecimento dos bentos é consequência da toxicidade do substrato ou um estresse natural daquele trecho do rio. Barros descobriu recentemen-
te que os estuários tropicais funcionam de modo diferente dos ambientes temperados. Na baía de Todos os Santos a diversidade de espécies de bentos – moluscos, poliquetas e alguns peixes – aumenta continuamente à medida que sobe a salinidade da água, enquanto em estuários da Europa e dos Estados Unidos a variedade de espécies costuma oscilar: é maior nos trechos de baixa e alta salinidade e menor nos de salinidade intermediária.
como o aporte de água de origem fluvial é pequeno se comparado ao volume total da baía, a troca de água entre a baía e o oceano, por meio da maré, determina em grande parte a capacidade de diluição e dispersão de contaminantes e material particulado em suspensão. Na tentativa de compreender em detalhes a circulação e o transporte de água e materiais para dentro e fora da baía, o geógrafo Guilherme Lessa, especialista em sedimentologia, iniciou o monitoramento das correntes que circulam na baía de Todos os Santos. Uma vez por mês ele percorre 10 estações e mede as características físico-químicas (salinidade, temperatura e material particulado) e coleta plâncton. Em três das estações, um equipamento mais simples, do tamanho de uma lanterna, registra continuamente informações sobre o material em suspensão e sobre a salinidade e a temperatura da água. Assim, espera-se caracterizar a direção e a velocidade das correntes que movem as partículas no interior da baía em diferentes períodos do ano. “Queremos verificar se a baía de Todos os Santos está importando água e material particulado do oceano ou exportando para ele”, explica.
Sob sol intenso: mulheres coletam mariscos no canal de Aratu
Utilizando dados de corrente coletados em 2003, Lessa mediu a circulação de água entre a baía de Aratu e a baía de Todos os Santos. A análise preliminar indica que, no inverno, correntes mais profundas conduzem água da baía maior para a menor. Já as águas que originalmente se encontravam em Aratu saem para a baía de Todos os Santos por correntes mais superficiais. Segundo Lessa, há indícios de que no verão esse fluxo é invertido.
Ainda não é possível saber se o que ele viu nessa área também vale para a comunicação entre a baía de Todos os Santos e o oceano Atlântico. Até o final do ano Lessa deve instalar equipamentos que medem o fluxo de água (correntômetros) em dois pontos da baía, que complementarão as informações que vêm sendo coletadas. Ele calcula que será preciso colher dados continuamente por 15 anos para mapear os ciclos de troca de água entre a baía e o oceano. É que o clima, responsável por alterar a velocidade e a direção dos ventos, das chuvas e da salinidade da região costeira, oscila no Atlântico Sul de acordo com ciclos de 3 anos, 10 a 14 anos e 30 anos de duração.
Zelinda Leão e Ruy Kikuchi, geólogos da UFBA que acompanham a saúde dos corais na costa brasileira, esperam que os dados sobre as correntes
de
físico-químicas da água (ao lado) e banco de corais (acima)
registro histórico e cultural
Enquanto parte dos pesquisadores se dedica a conhecer os aspectos físicos e biológicos da baía de Todos os Santos, a etnógrafa gal Meirelles e o historiador Caio Adan, ambos da Universidade Estadual de Feira de Santana, atuam, respectivamente, no registro de características culturais que começam a se perder e informações históricas desconhecidas do público. Por quase cinco anos, gal morou na comunidade Baiacu, na ilha de Itaparica, e registrou o modo de vida e as diferentes técnicas usadas pelos pescadores artesanais da baía de Todos os Santos, um conhecimento que parece não interessar às gerações mais novas. “Nas comunidades há falta de emprego e os jovens têm admiração pela vida em Salvador, mas, se vão para a capital, só conseguem bicos e subemprego”, conta gal. Dessa etnografia da pesca nasceram o vídeo Pesca de mestres e a série de fotos O peixe nosso de cada dia,
exposta na comunidade dos pescadores. Com o sociólogo Milton Moura, da UFBA, gal trabalhou no registro fotográfico e em vídeo dos festejos tradicionais de Ilha de Itaparica que comemoram a independência do Brasil. Ela auxiliou ainda Caio Adan a se embrenhar em arquivos e museus do Brasil e da Europa. Em visitas a acervos na Bahia, no Rio de Janeiro, em Portugal e na Espanha, ele teve acesso a cerca de 200 mapas feitos entre os séculos XvI e XX e iniciou a documentação do patrimônio cartográfico da baía de Todos os Santos.
Nesse material há preciosidades, como um mapa de meados do século XvII mostrando como as redes eram dispostas na pesca do xaréu, peixe grande cuja captura exigia a participação de dezenas de homens. Ou ainda uma carta encontrada no arquivo do Itaramaty, no Rio, indicando a existência de um canal
que não se conhecia na península de Itapagipe. Esse canal, que não se sabe se foi de fato construído, facilitaria a navegação entre a região norte e o centro de Salvador.
A partir do século XIX, Adan notou que as cartas se tornam mais técnicas e precisas. “Possivelmente para auxiliar a navegação na baía”, explica o historiador, que planeja descrever o material que reuniu e montar um banco
Equipamento para medição
características
Pesca do xaréu: detalhe do mapa Brasilia qua parte paret belgis, de georg Marcgraf, 1647
marinhas na baía ajudem a esclarecer o que vem ocorrendo com os corais. Na baía de Todos os Santos existem dois grandes bancos de corais: um na região interna, próximo à ilha dos Frades; e outro em mar aberto, em frente à ilha de Itaparica. Nos últimos anos, Zelinda e Kikuchi observaram vários episódios de branqueamento dos corais.
os corais perdem sua cor natural e se tornam esbranquiçados quando algas microscópicas que vivem em seu interior, as zooxantelas, morrem ou são eliminadas – essas algas fornecem oxigênio e nutrientes que auxiliam os corais a produzir um esqueleto calcário. Embora nem sempre signifique a morte do coral, o branqueamento é indício de que algo não vai bem. Kikuchi suspeita que o problema na baía de Todos os Santos se deve à elevação global da temperatura da água do mar, a episódios de aumento de partículas em suspensão, que turvam a água e reduzem a penetração de luz, e possivelmente à poluição química. Em 2011 os pesquisadores observaram branqueamento em vários pontos próximos ao porto de Salvador, que estava sendo dragado. Além disso, há quase uma década
de dados na internet e torná-lo disponível para outros pesquisadores.
Segundo Adan, uma avaliação inicial dos mapas corrobora a ideia de que a baía de Todos os Santos desempenhou função central na formação do estado da Bahia. Por muito tempo, inclusive, ela foi compreendida como um espaço mais amplo do que o delineado pelo acidente geográfico de mesmo nome.
na praia: fotos sobre o cotidiano da pesca em exposição para a comunidade ribeirinha
constataram o desaparecimento de uma das oito espécies nativas da costa brasileira que viviam ali, o Mussismilia braziliensis. Mais recentemente, equipes da UFBA, da Uerj, da Ufal e da ONG Pró-Mar relataram o espalhamento do coral-sol, espécie invasora adaptada a ambientes turvos. Não é de hoje que as águas e o ambiente no entorno dessa baía pagam um preço alto por ela ter servido de porta de entrada para o Brasil. Desde que a expedição do navegador português Gaspar de Lemos aportou ali em 1˚ de novembro de 1501, Dia de Todos os Santos na tradição católica, houve sucessivas alterações. A fundação de Salvador em 1549 por Tomé de Souza, enviado do rei de Portugal para criar uma cidade-fortaleza e iniciar a ocupação das terras do Novo Mundo, forneceu os braços e os machados que transformaram em lenha e madeira a exuberante mata atlântica, abrindo espaço para a cana e os engenhos de açúcar, a unidade agroindustrial mais avançada do Brasil colonial. A mudança mais intensa, porém, ocorreria mais tarde, com a descoberta de petróleo no Recôncavo Baiano e a instalação em 1950 da refinaria Landulpho Alves, no município de Mataripe, que levariam o governo da Bahia a apostar na petroquímica como modelo de desenvolvimento econômico.
Houve recentemente uma retomada no desenvolvimento industrial da região, com investimento em um novo polo metal-mecânico, na ampliação de portos e na construção de estaleiros. “Nos últimos tempos se adotaram medidas de controle para reduzir a emissão de metais, mas pouco se avançou”, explicou Vanessa no retorno da expedição pela baía. “Em vários pontos o esgoto doméstico ainda alcança os rios e a baía sem tratamento.” Apesar desses problemas, a baía de Todos os Santos ainda conserva áreas bem preservadas, como a foz do rio Jaguaripe, ao sul da ilha de Itaparica. Sua saúde, de modo geral, é considerada bem melhor que a da baía da Guanabara, no Rio de Janeiro, que ocupa uma área três vezes menor e está rodeada por uma população três vezes maior. Mas Vanessa teme que não continue assim por muito tempo. Antes de o barco aportar na marina, ela lamentou: “Acredito que as condições ambientais ainda vão piorar muito antes de começar a melhorar”. n
Artigos científicos
1. BARROS, F. et al. Subtidal benthic macroinfaunal assemblages in tropical estuaries: Generality amongst highly variable gradients. Marine Pollution Bulletin. out. 2012.
2. HATJE, V.; BARROS, F. Overview of the 20th century impact of trace metal contamination in the estuaries of Todos os Santos Bay: Past, present and future scenarios. Marine Pollution Bulletin. jul. 2012.
3. SOUZA, M. M. et al. Shellfish from Todos os Santos Bay, Bahia, Brazil: treat or threat? Marine Pollution Bulletin. out. 2011.
Exibição
PALEONTOLO g IA y
Mergulhão
De pequeno a médio porte, essa família de aves lembra vagamente um pato acinzentado. Vive em água doce ou salobra. Apesar de ter uma anatomia bastante distinta da dos flamingos, forma um grupo irmão dessas aves de longas pernas. seu ninho é revestido de gravetos e pode conter vários ovos
o ninho do “flaminlhão”
Fósseis de ovos e ossos de ave de 18 milhões de anos reforçam parentesco entre flamingos e mergulhões | Marcos Pivetta
Paleoflamingo
sua provável aparência devia ser similar à de um grande flamingo atual, mas seus hábitos reprodutivos eram semelhantes aos dos mergulhões. fazia ninhos flutuantes, compostos por uma estrutura de gravetos, em ambientes lacustres e salinos. Cada ninho abrigava cinco pequenos ovos
A plumagem em tom róseo, as grandes pernas, o bico e o pescoço tortos são marcas registradas dos flamingos modernos. Habitantes de áreas costeiras e ambientes salobros, essas aves atingem 1,5 metro de altura e fazem ninhos de barro no qual depositam um grande e único ovo
ela tinha a estrutura óssea e provavelmente a aparência similares às de um grande flamingo atual, com pernas longas, pescoço comprido, bico curvo e talvez a plumagem já apresentasse o característico tom róseo. A altura atingia por volta de 1,5 metro. Mas seus hábitos reprodutivos – botar vários ovos em um ninho com estrutura de gravetos erigida em ambiente lacustre – lembravam os de um mergulhão moderno, ave de pequeno ou médio porte que, aos olhos de um leigo em ornitologia, parece um tipo de pato acinzentado. Assim, com pinta de flamingo e comportamento de mergulhão, devia ser a extinta ave que, há cerca de 18 milhões de anos, depositou em território espanhol cinco pequenos ovos num abrigo flutuante revestido por uma frágil moldura lenhosa. Esse longínquo ser alado construiu o mais antigo ninho fóssil de ave registrado na literatura científica, cujos vestígios praticamente intactos foram encontrados no que um dia foi um raso lago de água salina, hoje soterrado por camadas e mais camadas de sedimentos, na bacia calcária do rio Ebro, norte da Espanha. “É o primeiro ninho flutuante conhecido e a primeira evidência de uma estrutura para abrigar ovos de ave”, diz o biólogo Luís Fábio Silveira, curador das coleções ornitológicas do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP), um dos autores de um estudo sobre o material fóssil espanhol publicado em 17 de outubro na revista Plos One.
Flamingo
Ao lado do ninho, que protegia ovos semialongados com dimensões máximas de 4,5 por 3 centímetros, foram resgatados uns poucos fragmentos de ossos do pé (tarso e metatarso) e um bem preservado tibiotarso esquerdo, a popular coxa da ave. “Analisamos, em separado, o tibiotarso e o ninho com os ovos e chegamos à mesma conclusão”, afirma Silveira. “Trata-se de um paleoflamingo, um gênero e espécie novos e extintos dessa família de aves.” Especialista em ovos de répteis e aves, o paleontólogo suíço Gerald Grellet-Tinner, do Centro Regional de Investigaciones Científicas y Transferencia Tecnológica (Crilar), da Argentina, e do Field Museum de Chicago, também não tem dúvidas de que o ninho foi feito por um flamingo primitivo. “Os ovos são tecidos biomineralizados que apresentam morfologia funcional e valor filogenético igual ao dos ossos de um esqueleto”, afirma Grellet-Tinner, que também assina o estudo no periódico científico. “Desse ponto de vista, a casca de um ovo é uma impressão digital e fornece informações específicas sobre uma espécie.” A microestrutura dos ovos foi analisada com o emprego de cinco diferentes técnicas de microscopia eletrônica a fim de aumentar a confiabilidade dos resultados obtidos.
ágUAS SA lI n AS
Os gravetos e o restante do material vegetal utilizados para fazer o ninho também foram determinados, embora nesse caso de forma mais genérica. Os gravetos eram de uma planta da vasta família das Fabaceae, as populares leguminosas, que englobam desde alimentos como a soja e o feijão até árvores como a cerejeira e o pau-brasil. O ambiente em que os fósseis foram resgatados, de água com alto teor de salinidade, também é associado a flamingos, que vivem na beira de mares ou em estuários de rios. Os mergulhões, que submergem para pegar peixes, preferem, por sua vez, água doce, embora também possam ser vistos em cursos d’água salobra. O ninho com os ovos e o tibiotarso foram descobertos por paleontólogos espanhóis em 2003 quando desenvolviam trabalhos de campo na chamada formação Tudela que precederam a construção de uma barragem destinada a evitar cheias do rio Ebro. Nessa região de clima semiárido já haviam sido encontrados fósseis de crocodilos, tartarugas, cobras e ostracodos, um tipo de crustáceo de uns poucos
A última morada do velho flamingo
O paleoninho e os ossos do flamingo extinto foram encontrados na formação Tudela, na bacia do rio Ebro, norte da Espanha (região amarela no mapa)
o paleoflamingo habitava a beira de um lago de água salina. gravetos de seu ninho eram da família das Fabaceae, as populares leguminosas
milímetros. Por não serem especialistas em aves, os pesquisadores ibéricos procuraram se cercar de estudiosos desses animais, aos quais repassaram o material obtido na escavação. Recorreram a Silveira, que fez toda a análise da parte óssea, comparando os ossos encontrados no Ebro com material osteológico das coleções de aves do MZ-USP e do Museu de História Natural de Taubaté (MHNT). Contataram também Grellet-Tinner, que ficou responsável por estudar o ninho e os ovos.
Entre 12 e 29 milhões de anos atrás existiu um gênero extinto de ave, o Palaelodus, que às vezes é apresentado como dono de uma anatomia e estilo de vida intermediário entre a morfologia e o comportamento de flamingos e mergulhões. Segundo os pesquisadores, o novo fóssil não pertence a esse gênero desaparecido. No máximo, é um parente que pode ter sido contemporâneo do Palaelodus Isso não quer dizer que o paleoninho do Ebro seja pouco importante do ponto de vista evolutivo. Ao contrário. Os cientistas o classificam como mais um aliado de uma teoria que ganhou força nos últimos
FRAN ç A PORTUgAL
ESPANHA
Madri
Zaragoza
b arcelona N
Mar Mediterrâneo
Pamplona
Pirineus
Bacia do Ebro
A coxa entregou o bicho
Phoenicopterus ruber, espécie atual de flamingo
Agnopterus sicki, espécie extinta de flamingo
Phoenicopterus croizeti, espécie extinta de flamingo
Ave extinta do gênero Palaelodus, parente distante dos flamingos
O novo paleoflamingo
O ninho de 18 milhões de anos: a mais antiga estrutura feita para abrigar ovos de aves
anos: a de que flamingos e mergulhões, embora hoje exibam morfologia e comportamento muito diferentes, são realmente grupos irmãos.
Estudos da anatomia e da genética dessas aves sugerem que, num passado remoto, antes de divergirem e darem origem a duas famílias distintas de animais alados, elas tiveram um ancestral comum há mais de 20 milhões de anos, durante a época geológica denominada Mioceno. Os novos fósseis recém-descritos nas páginas da Plos One reforçam ainda mais essa ideia. “Esse artigo abre portas para muitas especulações evolutivas sobre esses grupos de aves”, afirma o paleontólogo Herculano Alvarenga, diretor do Museu de História Natural de Taubaté, especialista em aves fósseis.
Anc ES tr A l co MUM
Ainda não batizada com um nome científico, a nova espécie de paleoflamingo parece indicar que os primeiros exemplares dessa família de aves tinham hábitos reprodutivos e de construção de ninhos semelhantes aos dos mergulhões do passado. É possível que tais práti -
cas remontem ao hipotético ancestral comum das duas famílias de aves. Esse comportamento consistia, grosso modo, em botar vários ovos pequenos em um ninho revestido por gravetos, procedimento que se manteve até os dias de hoje entre as 22 espécies de mergulhões vivas, mas que desapareceu entre as seis espécies atuais de flamingos.
Sob esse ponto de vista, o fóssil espanhol seria um resquício de um tempo remoto em que os ninhos de mergulhões e flamingos exibiam estrutura parecida. As espécies vivas de flamingos constroem abrigos de barro para seus futuros filhotes e não usam nenhum revestimento de ramos no entorno dessa estrutura. Em cada ninho põem geralmente apenas um único e grande ovo, bem maior do que os presentes no fóssil na bacia do Ebro (ver ilustração no início desta reportagem).
Um dos primeiros desafios da dupla Silveira e Grellet-Tinner foi determinar se os cinco ovos protegidos por uma estrutura circular de graveto, que aparentemente flutuava na beira do antigo lago, formavam mesmo um ninho construído que se manteve milagrosamente preser-
vado por milhões de anos. Havia a possibilidade remota de que cada ovo tivesse uma origem distinta e sua junção, um ao lado do outro, no interior do abrigo de madeira, fosse obra do acaso. Mas todas as evidências levantadas pelos pesquisadores derrubaram essa hipótese: os cinco ovos eram iguais, do mesmo tipo, e o contexto em que o ninho fora encontrado sinalizava que a estrutura de gravetos não era fruto de movimento fortuito da natureza. A descoberta, ao lado do ninho, de ossos de uma ave reforçou ainda mais essa teoria. “Encontrar ovos (fossilizados) é raro. Encontrar ninhos é ainda mais raro. Mas encontrar ovos em um ninho e conseguir estabelecer a que grupo eles pertencem é algo muito raro e interessante”, comenta o paleontólogo Alexander Kellner, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Não é possível saber com certeza se os ossos vieram da ave que fez o ninho, mas essa hipótese é plausível. Afinal, as análises do brasileiro e do suíço foram conduzidas de forma independente – um só soube do veredicto do outro ao final do trabalho – e ambos concluíram que o tibiotarso e os ovos eram de alguma forma primordial de flamingo hoje não mais presente na Terra. “Aparentemente, os ossos encontrados pertenceram a um único exemplar de ave”, diz Silveira. Por um motivo que nunca será conhecido, o animal possivelmente morreu ao lado do ninho. Não dá para afirmar nem mesmo se o osso pertenceu a uma fêmea ou a um macho. Flamingos do sexo masculino não botam ovos, mas podem chocá-los no ninho de sua fêmea.
Infelizmente, não há outros ninhos fósseis parecidos com o resgatado na bacia do rio Ebro. Qualquer comparação desse tipo dependerá de uma eventual descoberta de uma segunda estrutura de gravetos com ovos de aves, um tipo de achado bastante improvável dada a fragilidade desse tipo de construção, de acordo com os especialistas. Mas quem sabe a história ocorrida em terras espanholas se repita algum dia em outro canto do globo. n
Artigo GRELLET-TINNER, G. et al. The first occurrence in the fossil record of an aquatic avian twig-nest with phoenicopteriformes eggs: evolutionary implications. Plos One. Publicado on-line 17 out. 2012.
oncologia y
Proteína antitumoral
Encontrada na glândula salivar do carrapato-estrela, molécula combate células cancerígenas e preserva sadias
c arrapato-estrela: alimentação garantida por mecanismo na saliva que impede coagulação do sangue
Uma proteína encontrada na glândula salivar do carrapato-estrela (Amblyomma cajennense) mostrou em testes promissora atividade antitumoral e anticoagulante. O achado foi feito pelo grupo de pesquisa coordenado pela professora Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, diretora do laboratório de Bioquímica do Instituto Butantan e integrante do programa Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP. “A proteína, chamada Amblyomin-X, mata apenas as células tumorais, sem oferecer risco para as saudáveis”, diz Ana Marisa. Os pesquisadores mapearam como se dá a morte das células e os mecanismos envolvidos na ação. A proteína Amblyomin-X inibe a atividade do proteassoma, um complexo enzimático que tem por função eliminar proteínas indesejáveis a fim de manter a integridade celular. “Estudamos o modo de atuação da proteína para induzir à morte programada das células, processo conhecido como apoptose.”
Os próximos passos são os testes pré-clínicos, que serão realizados por duas empresas brasileiras seguindo padrões internacionais para avaliar, por exemplo, a toxicidade da proteína recombinante e qual a dose que poderá ser usada para tratamento em pacientes. Essa fase está prevista para durar cerca de oito meses. “Se tudo correr de acordo com o previsto, os testes em pessoas serão liberados após essa etapa”, diz Fernando de Castro Marques, presidente da União Química, empresa farmacêutica parceira da pesquisa. A expectativa é que um possível medicamento tenha como foco, além do melanoma, o câncer de pâncreas e o renal. “A ação no câncer de pâncreas é o que mais nos interessa, porque não existe tratamento medicamentoso atualmente para esse tipo de tumor”, ressalta. Em outubro, pesquisadores do Butantan, representantes da empresa e da FAPESP estiveram na Agência Nacional de Vi-
Dinorah Ereno
gilância Sanitária (Anvisa) para tratar das etapas necessárias para o registro do produto. As três partes são detentoras da patente da nova molécula. A previsão é que até o início de 2015 uma nova fábrica seja construída em Brasília, onde a União Química tem um polo industrial, para produção da nova molécula.
As pesquisas começaram em 2000 com a bióloga Simone Simons, que estudava carrapatos. “Como eles são hematófagos e precisam deixar o sangue sem coagular para poderem se alimentar, decidimos estudar o mecanismo de anticoagulação promovido pela saliva do carrapato-estrela”, diz Ana Marisa, que trabalha também com uma linha de pesquisa em anticoagulantes presentes em sanguessugas. A dificuldade de caracterização bioquímica dos componentes da saliva do ácaro fez com que os pesquisadores optassem pela via de análise dos genes expressos na glândula salivar. “Foram analisados mais de 2 mil genes para ver se existia algum que pudesse traduzir uma proteína inibidora do fator X (10) da coagulação, essencial para a formação da trombina, enzima-chave para esse processo.” A tradução é o processo de síntese ou fabricação de proteínas.
I n I b ID or P l AS mát I co
As indústrias farmacêuticas, segundo Ana Marisa, estão em busca de um medicamento anticoagulante novo que tem como alvo o fator X, que possa diminuir o tempo laboratorial necessário para uma terapia convencional de anticoagulação. “Identificamos um clone que poderia ser utilizado para produzir uma molécula com atividade inibitória do fator X”, relata. A partir desse clone foi produzida a proteína recombinante, utilizando um sistema de expressão em bactéria, e a análise da sua atividade no sangue comprovou sua eficiência como anticoagulante.
A caracterização bioquímica e estrutural da proteína obtida revelou semelhanças
"A ação no câncer de pâncreas é o que mais nos interessa", diz Fernando de c astro marques, da União Química
com um inibidor plasmático chamado TFPI, que ajuda a controlar a coagulação. “Na literatura científica já estava sendo discutido o papel desse inibidor na proliferação de células.” Por isso os pesquisadores decidiram testar a proteína recombinante em células presentes nos vasos sanguíneos e também em culturas de células tumorais. “Ficamos surpresos com os resultados porque o tratamento com a proteína manteve intactas as células normais, mas matou as tumorais”, relata. Diante disso, o foco da pesquisa foi ampliado para a atividade seletiva da nova molécula contra células tumorais. O próximo passo foi testar a proteína recombinante in vivo. Os testes foram feitos em dois grupos de camundongos com melanoma, o tipo mais grave de câncer de pele. Os animais que não foram tratados desenvolveram tumor e morreram em cerca de um mês. No grupo que recebeu a proteína durante 42 dias, o melanoma desapareceu. No início dos anos 2000, o Centro de Toxinologia Aplicada instalado no Instituto Butantan já era um dos 10 Cepids criados pela FAPESP e mantinha uma parceria com os Laboratórios Biolab-Sanus, União Quí-
mica e Biosintética. A União Química interessou-se pela nova molécula e fez os depósitos de patente no Brasil, com extensão para Europa, Ásia e Estados Unidos. E não parou nisso: “Contratamos uma empresa de biotecnologia nos Estados Unidos para, por meio de engenharia genética, construir um gene sintético e um novo sistema de expressão da molécula que aumentassem o rendimento na produção”, diz Castro Marques. O projeto que teve início em 2000, mas só começou a ser direcionado para um antitumoral em 2005, reúne hoje um grupo de oito pesquisadores do laboratório de Bioquímica, além de colaboradores da Universidade de São Paulo (USP), como o professor de oncologia Roger Chammas, o médico especialista em pâncreas José Jukemura, ambos da Faculdade de Medicina, e o professor Eduardo Reis, do Instituto de Química, que atua em genômica e biologia molecular. Selecionado pelo Fundo Tecnológico (Funtec) do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o projeto vai receber R$ 18 milhões que serão destinados para o Instituto Butantan e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) traçarem uma rota de produção da proteína recombinante de forma escalonada e fazerem uma análise econômica para instalação de uma fábrica destinada à produção industrial da molécula. n
Projetos
1. Centro de Toxinologia Aplicada; 2. Mecanismos de ação do Amblyomin-X em diferentes linhagens celulares normais e tumorais – nº 2005/50560-6; 3. Avaliação do mecanismo de ação pró-apoptótica do Amblyomin-X – nº 2010/52669-3. Modalidades: 1. Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); 2 e 3. Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa. Coordenadores: 1. Hugo Armelin –Instituto Butantan; 2 e 3. Ana Marisa Chudzinski Tavassi – Instituto Butantan. Investimento: 1. R$ 1 milhão por ano para todo o Cepid (FAPESP); 2. R$ 227.833,93 (FAPESP); 3. R$ 249.786,30 (FAPESP).
neurônio olM, em verde, conecta as células da camada superficial às da camada profunda do hipocampo
o porteiro da memória
neurônio especial controla a chegada de informação do ambiente ao centro formador das recordações no cérebro
Foi necessário quase um século para descobrir a função de um tipo especial de célula cerebral descrito pelo médico e neuroanatomista espanhol Santiago Ramón y Cajal. Essas células, que recebem o nome complicado de neurônios oriens lacunosum-moleculare (OLM), estão no hipocampo, estrutura profunda do cérebro associada à aquisição da memória. Como uma ponte que une as duas margens de um rio, os neurônios OLM colocam as células da camada mais superficial do hipocampo em contato com as das áreas mais profundas. Mas nesse tempo todo o papel dessas células permanecia obscuro. Agora, em um artigo publicado na edição de 7 de outubro da revista Nature Neuroscience , o neurocientista mineiro Richardson Leão, com pesquisadores dos
Estados Unidos e da Suécia, demonstrou que os neurônios OLM são uma espécie de porteiro da memória.
“Conseguimos isolar e manipular essa população de neurônios”, conta Richardson, pesquisador do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Usando técnicas de biologia molecular, ele e pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia, identificaram uma proteína que é produzida exclusivamente por esse tipo de neurônio. Em seguida, eles desenvolveram camundongos transgênicos em que marcaram essa proteína com outra vermelho-fluorescente. Eles também inseriram no animal transgênico uma terceira proteína que, acionada por pulsos de laser, colocava o neurônio em ação. artigo científico
Nos experimentos, eles observaram que, uma vez ativados, os neurônios OLM bloqueavam a chegada de informações sensoriais do ambiente ao hipocampo e acionavam os mecanismos químicos de recuperação das informações armazenadas no cérebro. Um exemplo pode ajudar a entender. Quando alguém caminhando na rua vê um conhecido, a informação captada pelos olhos chega à região mais superficial do hipocampo. É aí que os neurônios OLM entram em ação. Ao transferir essa informação para a área mais profunda, esses neurônios ativam o mecanismo de recuperação da memória – que permite, por exemplo, lembrar quem é mesmo o fulano –, mas impedem a chegada de mais dados do ambiente. “Os neurônios OLM desligam um circuito e ligam outro”, conta Richardson, que também trabalhou em colaboração com pesquisadores da Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos. n r icardo Zorzetto
LEÃO, R. N. et al. OLM interneurons differentially modulate CA3 and entorhinal inputs to hippocampal CA1 neurons. Nature Neuroscience. 7 out. 2012.
limpeza molecular
Estudo revela estrutura atômica de proteínas que eliminam excesso de hemoglobina no sangue
uma equipe de oito pesquisadores dinamarqueses e noruegueses e um brasileiro alcançou uma meta perseguida desde os anos 1960: resolver em nível atômico a estrutura das proteínas que se articulam para evitar que a hemoglobina – a proteína carregadora de oxigênio e que dá a cor avermelhada ao sangue – atinja concentrações tóxicas para o organismo e capazes de lesar os órgãos do corpo. O trabalho foi publicado na edição de 20 de setembro da revista Nature. Segundo o professor Cristiano Luis Pinto de Oliveira, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), que participou do estudo, a descoberta poderá contribuir no desenvolvimento de remédios que aliviem crises de intoxicação por hemoglobina, sofridas por portadores de doenças do sangue congênitas e malária.
Transportadas pelas hemácias, as células vermelhas do sangue, as moléculas de hemoglobina são feitas de quatro subunidades, cada uma contendo um íon de ferro que reage facilmente com outros elementos químicos, especialmente com átomos de oxigênio. Isso faz da hemoglobina a principal difusora do oxigênio pelos tecidos do corpo.
Quando porém essa proteína sai das hemácias, ela se separa em dois dímeros (cada um com duas subunidades), deixando os íons de ferro muito expostos. Altas concentrações de hemoglobina nessa forma podem ser tóxicas. O problema é mais agudo nos rins, onde há a tendência de essa molécula se acumular por ser a função do órgão depurar o sangue. Também sofrem com esse distúrbio os pacientes de certas doenças hereditárias e portadores do parasita da malária, cujas hemácias são constantemente rompidas e liberam excesso de hemoglobina no plasma.
DE
complexo proteico: haptoglobina (azul) adere a subunidades de hemoglobina (vermelho) e as neutraliza
O organismo humano tem um mecanismo natural para eliminar o excesso dessa proteína. Há em circulação no sangue outra proteína, a haptoglobina, que se liga aos dímeros de hemoglobina, envolvendo e neutralizando seus íons de ferro. Esse complexo hemoglobina-haptoglobina (Hb-Hp) por sua vez é retirado do sangue por células denominadas macrófagos. Essas células fazem isso por meio de proteínas chamadas receptores CD 163. Através da ligação a locais específicos, os receptores “fisgam” e retiram os complexos Hb-Hp da circulação sanguínea.
A estrutura átomo por átomo da hemoglobina é conhecida desde 1959, quando pesquisadores conseguiram crescer um cristal da macromolécula e observar como ela interfere na passagem de raios X, fenômeno conhecido como difração. Mas até recentemente não havia sido possível fazer o mesmo com a haptoglobina e o complexo Hb-Hp. “A dificuldade principal era a forma peculiar da haptoglobina, difícil de cristalizar”, explica Oliveira.
Sob coordenação do biomédico Soeren Moestrup, da Universidade de Aarhus, Dinamarca, os pesquisadores iniciaram em 2006 a busca pela condição ideal para purificar e cristalizar as substâncias desejadas. O esforço aliou diversas técnicas bioquímicas e biofísicas. Oliveira colaborou na análise de como os raios X são espalhados pelas moléculas em solução aquosa. A técnica permitiu a confirmação de que o formato das moléculas cristalizadas é o mesmo daquelas dissolvidas em água. As estruturas em alta resolução obtidas mostram como a haptoglobina se forma a partir de duas subunidades (em azul-claro e azul-escuro na figura acima), conectadas de uma maneira nunca antes vista em proteínas. Mostram ainda como se forma o complexo Hb-Hp e este se liga aos receptores CD 163. n Igor Zolnerkevic
artigo científico
ANDERSEN, C.B.F. et al. Structure of the haptoglobin–haemoglobin complex. Nature. v. 489. 20 set. 2012.
SUbUnIDADE
hEmoglobInA
rEcEPtor cD 163
hAPtoglobInA
tensão sob controle
Técnica que estabiliza pressão na interface entre óleo e água pode facilitar a extração de petróleo
uma dupla de físicos teóricos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) identificou uma solução incrivelmente simples para um problema que a indústria petrolífera enfrenta há décadas: a formação dos chamados dedos viscosos, protuberâncias fluidas que surgem quando os engenheiros injetam água dentro de rochas porosas para empurrar o petróleo armazenado nelas em direção ao poço de extração.
O ideal seria que a água funcionasse como um pistão, deslocando uniformemente o líquido mais viscoso. Acontece, entretanto, que minúsculas diferenças de pressão na fronteira entre os dois fluidos tendem a se amplificar e originar rapidamente pequenos tentáculos de água, os tais dedos viscosos, que avançam no interior da massa de petróleo e empurram apenas parte dela. “A água forma canais preferenciais que varrem uma área bastante limitada do reservatório”, explica o engenheiro mecânico Márcio
Carvalho, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), que pesquisa métodos de recuperação avançada de petróleo para a Chevron, Petrobrás e Repsol. Segundo Carvalho, os dedos viscosos são um dos principais fatores que fazem com que em alguns casos se aproveite apenas 30% da capacidade de um reservatório.
As empresas petrolíferas resolvem parcialmente o problema acrescentando à água polímeros que aumentam sua viscosidade. Isso estabiliza a interface com o petróleo, reduzindo a formação dos dedos viscosos. “Mas esse processo tem um custo alto e uma logística complicada”, diz Carvalho.
Os físicos José Américo de Miranda e Eduardo Dias, ambos da UFPE, auxiliados por Carvalho e Enrique Alvarez-Lacalle, da Universidade Politécnica da
Tentáculos fluidos: diferenças de pressão na superfície de contato entre a água e o óleo geram estruturas em forma de dedos
Uma questão de velocidade
ritmo de injeção de um líquido em outro mais viscoso determina a forma das bolhas
Catalunha, Espanha, propuseram uma solução que, a princípio, parece ser mais prática. Em artigo na Physical Review Letters, eles verificaram que o simples controle da velocidade com que a água é injetada nas rochas pode eliminar completamente os dedos viscosos.
sem aceleração
água
Água injetada à velocidade constante em óleo cria instabilidades na fronteira entre os fluidos. a bolha de água ganha uma forma cheia de dedos
velocidade
dedos viscosos espalhamento uniforme tempo aceleração constante
água
a s instabilidades desaparecem quando a velocidade de injeção da água aumenta com aceleração constante. a bolha de água se espalha de modo uniforme
Para simular em laboratório a maneira como os líquidos fluem pelos poros das rochas, os pesquisadores que estudam os dedos viscosos usam um aparato conhecido como célula de Hele-Shaw, relativamente fácil de construir. Primeiro, eles preenchem o espaço milimétrico entre duas placas de vidro paralelas com um fluido viscoso, por exemplo óleo mineral. Em seguida, abrem um pequeno furo na placa de cima e, por ele, injetam continuamente um fluido menos viscoso, como a água. Logo a forma circular da bolha de água vai dando lugar a um padrão radial de dedos cada vez mais complicado. “Os dedos bifurcam, quadrifurcam e assim por diante”, explica Miranda. Essa técnica é usada desde 1958, quando os físicos britânicos Philip Saffman e Geoffrey Taylor demonstraram que as equações matemáticas que descrevem a formação dos dedos viscosos nas células de Hele-Shaw são as mesmas que explicam o surgimento deles em rochas porosas. Mas foi só a partir de 2009 que diversos grupos de pesquisadores começaram a desenvolver métodos efetivos de manipular a formação dos dedos nas células.
S I m P lES DE m AIS
Miranda e Dias investigavam a matemática por trás de um desses métodos quando descobriram uma abordagem simples de atacar o problema e reduzir o tamanho dos dedos. Os cálculos sugeriam que os dedos viscosos sumiriam caso, em vez de injetar um fluxo constante de água, como normalmente se faz, o volume injetado inicialmente fosse pequeno e aumentasse linearmente com o tempo (ver o infográfico ao lado).
“A solução podia ser uma função matemática complicadíssima, mas não”, lembra Miranda, “é simplesmente uma linha reta”. O resultado parecia bom demais para ser verdade. De início, a dupla desconfiou que as aproximações feitas nos cálculos deixassem de valer à medida que a força de injeção da água aumentasse com o tempo.
A teoria foi posta à prova no laboratório de Carvalho. Ele e Dias fizeram
testes em uma célula de Hele-Shaw, controlando por computador o fluxo de água injetada. “Realmente a injeção de um volume que aumenta linearmente estabilizou a interface”, diz Miranda. Simulações por computador feitas por Alvarez-Lacalle confirmaram a solução do problema.
Os experimentos e as simulações sugerem que os dedos viscosos não devem se formar nem mesmo se a injeção de água se tornar forte demais. “Contanto que a bomba de água seja eficiente, o processo melhora com o tempo”, explica Miranda.
Esse não é o primeiro trabalho a conseguir eliminar os dedos viscosos. Neste ano, dois outros grupos de físicos publicaram métodos diferentes capazes de impedir a formação de dedos viscosos – em um deles, inclina-se a placa de vidro superior da célula de Hele-Shaw; no outro, a placa superior é substituída por uma membrana elástica. Não há, porém, uma maneira óbvia de essas abordagens serem aplicadas na extração de petróleo, como é o caso da solução proposta pelos brasileiros.
“Também há desafios tecnológicos para implementar nossa solução, como controlar o bombeamento de água”, afirma Carvalho. “Mas esses desafios podem ser superados.” Ainda que se alcance esse controle, efeitos inesperados da passagem dos líquidos pelas rochas porosas podem surgir e atrapalhar a extração de petróleo, segundo o físico Alberto Tufaile, da Universidade de São Paulo. Evitar a formação dos dedos viscosos é importante não apenas para o mundo do petróleo e dos fluidos em geral. Diversos processos de crescimento na natureza são regidos por equações matemáticas parecidas ou idênticas às que descrevem os dedos viscosos. Miranda acredita que a solução encontrada por eles poderia ser adaptada para impedir o crescimento desordenado de cristais semicondutores na indústria microeletrônica. Ou, ainda, que possa auxiliar no planejamento da aplicação de medicamentos para evitar o espalhamento de tumores pelo corpo, uma vez que parte dos tumores cresce como uma árvore que se ramifica. n Igor Zolnerkevic
artigo científico
E.
DIAS,
O. et al. Minimization of viscous fluid fingering: a variational scheme for optimal flow rates. Physical Review Letters. v. 109 (14). 5 out. 2012.
Efeitos da simultaneidade
Eliminar sincronismos em redes pode ajudar
no controle de multidões e de distúrbios cerebrais
Salvador nogueira
Parece haver uma forma bastante simples de evitar que a atividade em rede tão complexas e distintas quanto a internet ou o cérebro humano se torne sincronizada, o que as impede de funcionar adequadamente. Em trabalho publicado na revista Scientific Reports, pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Escola Politécnica de Zurique (ETH), na Suíça, propõem que é possível quebrar o sincronismo de um sistema interferindo em alguns pontos-chave, sem precisar atuar sobre o todo. “Exemplos de sincronização podem ser encontrados num amplo espectro de fenômenos, como o disparo de neurônios, as cascatas de laser, as reações químicas e a formação de opinião”, afirmam os pesquisadores no artigo. “Mas, em muitos casos, a formação de um estado coerente não é desejada e precisa ser atenuada.”
Em todo sistema que opera de algum modo como uma rede é possível (e muitas vezes provável) que se crie um sincronismo em sua atividade. E muitas vezes esse processo é prejudicial ao seu contínuo funcionamento. O trabalho do matemático Vitor Louzada e dos físicos José Soares Andrade Junior, Nuno Araujo e Hans Herrmann foi justamente tentar desenvolver uma estratégia que permitisse quebrar o sincronismo e manter o sistema saudável.
Hoje em dia quando se fala em rede logo se pensa em computadores interligados. Mas a rigor todo conjunto de elementos conectados em que a atividade de um influencia a dos demais pode ser tratado, do ponto de vista matemático, como uma rede. Um exemplo lembrado pelos pesquisadores foi a inauguração da Millenium Bridge (ponte do Milênio), em Londres, em 2002. Uma multidão se aglomerou à entrada da passagem, para cruzá-la logo que fosse inaugurada. Quando o trânsito foi autorizado, todos iniciaram uma frenética caminhada pela ponte e, em razão do tamanho da multidão, criou-se um sincronismo entre os passos dos caminhantes. Resultado: a vibração conjunta levou a um balanço lateral da estrutura que assustou quem estava ali. Em outras situações, a sincronização de uma rede pode ser bem mais perigosa. É o caso da doença neurológica conhecida como epilepsia. Nas crises epilépticas os neurônios entram em sincronismo, disparando impulsos simultaneamente. O resultado é uma convulsão. Na doença de Parkinson, em que há uma gradual perda de controle dos movimentos, o problema é semelhante: a sincronização nos disparos neuronais leva ao descontrole motor. Para combater esses problemas, os médicos desenvolveram dispositivos conhecidos como marca-passos cerebrais,
que, implantados no cérebro, emitem impulsos elétricos que interrompem o sincronismo e restauram a atividade normal. Contudo, esses sistemas existentes hoje precisam levar em conta todo o conjunto da atividade cerebral antes que possam entrar em ação. O resultado é uma resposta lenta e um nível de controle menos fino sobre a necessidade ou não de intervenção na rede neuronal.
O diferencial do trabalho publicado na Scientific Reports é mostrar, primeiro na teoria e depois em simulações de computador e em experimentos com seres vivos, que é possível evitar o processo de sincronização sem interferir na rede inteira. Além de reduzir a intervenção necessária, a resposta pode ser iniciada de maneira local, sem nem mesmo levar em conta o conjunto da rede. No estudo, os pesquisadores sugerem que é possível incluir na rede o que eles chamam de contrários, entradas de dados pontuais que seguem na contramão da tendência de sincronização. Aplicando esse
a sincronia dos passos de milhares de pessoas cruzando ao mesmo tempo a Millenium Bridge, em londres, em 2002, fez a ponte oscilar
princípio ao exemplo da Millenium Bridge, seria como se o governo tivesse treinado alguns atores para caminhar sempre fora de sincronismo com a multidão. Com uns poucos contrários distribuídos de maneira inteligente ao longo da ponte, seria possível impedir que o sistema entrasse em sincronia e que a ponte começasse a oscilar.
I nt E rv E nçõ ES loc AIS
O mesmo vale para a epilepsia. Em vez de implantar no crânio um marca-passo desajeitado que leve em conta toda a rede, seria possível desenvolver dispositivos diminutos que interagissem individualmente com neurônios e, levando em conta apenas as conexões próximas (o estado local), fossem capazes de atuar como contrários no momento apropriado para eliminar o risco de sincronização. O sucesso dessa estratégia dependeria de instalar os dispositivos nos pontos de interligação ou hubs, as regiões que mantêm o maior número de conexões na rede.
O grupo testou essa estratégia no sistema nervoso de um verme muito usado para pesquisa científica, o Caenorhabditis elegans , cujo organismo é relativamente simples, por se tratar de um ser pluricelular. Com um total de cerca de mil células, ele foi o único organismo vivo cujo sistema nervoso foi completamente mapeado. Como o conhecimento de sua rede neuronal é completo, foi possível identificar onde instalar os contrários e impedir o sincronismo de suas células cerebrais. Segundo os pesquisadores, essa foi uma prova de princípio importante. O teste mostrou que os cálculos feitos pelo grupo estavam corretos e abriu a perspectiva de que marca-passos cerebrais mais eficientes possam ser criados no futuro.
Mas ainda há desafios a serem superados. Numa rede imensa, como o cérebro humano, o desafio de identificar os hubs é bem maior. “A dificuldade em realizar essa tarefa depende da complexidade da rede envolvida", afirma Andrade. “Uma possível forma de encontrar os tais hubs é por meio da monitoração espacial da atividade do cérebro, o que pode revelar as regiões em que a atividade neuronal é tipicamente mais alta.”
A aplicação dessa estratégia parece ser mais simples no caso das redes de computadores, por maiores que sejam. Como essas redes podem ser mapeadas mais facilmente, torna-se menos trabalhoso identificar os hubs e interferir em seu funcionamento, dissipando potenciais ataques de hackers que tentem sobrecarregar o sistema induzindo a sua sincronização. Já a aplicação social desse novo conhecimento pode ser controversa. É provável que ninguém se opusesse à tentativa de impedir a Millenium Bridge de balançar lateralmente. Mas o que dizer de alguém que se aproveitasse de um grupo de contrários posicionados em pontos estratégicos de uma plateia com a intenção de atrapalhar uma estrondosa salva de palmas? n
artigo científico
LOUZADA, V.H.P. et al. How to suppress undesired synchronization. Scientific Reports. v. 2 (658). 2012.
t E cnolog IA
in DÚ s T ria aUTo M oT i Va y
Parceria multinacional
Empresas de autopeças instaladas no Brasil produzem soluções em conjunto com a matriz e centros de P&D de outros países
Yuri vasconcelos
osistema flex fuel foi inteiramente desenvolvido nos laboratórios brasileiros da multinacional alemã Bosch e da italiana Magneti Marelli. Essa tecnologia, que permite ao automóvel funcionar com etanol, gasolina ou qualquer mistura entre os dois combustíveis, foi criada por engenheiros brasileiros e contou com o apoio das matrizes na Alemanha e na Itália. Conhecido pelo pioneirismo no uso em larga escala de biocombustíveis, principalmente o etanol da cana-de-açúcar, o Brasil tenta se firmar também como um polo de inovação na área de componentes automotivos. Para isso, conta com o apoio de vários centros de pesquisa e desenvolvimento de indústrias de autopeças instalados no país. Além da Bosch e da Magneti Marelli, a alemã Mahle também trabalha em várias soluções, boa parte delas direcionada aos combustíveis alternativos. Esses centros, em conjunto com as indústrias de veículos instaladas no país, vão desenvolver a tecnologia necessária para o cumprimento do novo regime automotivo anunciado pelo governo federal no início de outubro. Pelo acordo, as fabricantes de veículos terão isenções no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) se apresentarem investimentos em pesquisa e desenvolvimento em itens como melhor eficiência no
gasto de combustíveis. Avanço que certamente se reflete no futuro do sistema flex
“O flex fuel é um exemplo muito positivo”, diz Celso Eduardo Fávero, chefe de engenharia de desenvolvimento de produtos da Bosch no país. “Recebo pelo menos um telefonema por semana de gente de outros países indagando sobre biocombustíveis. As normas e produtos para etanol que estão lá fora partem do Brasil. Isso significa que estamos transferindo tecnologia”, diz ele. O envolvimento da engenharia brasileira da Bosch com as tecnologias para uso do álcool combustível começou em 1985 e em meados da década seguinte a empresa forneceu o sistema flex ao primeiro automóvel do mundo (um veículo Ômega, da General Motors do Brasil) que podia rodar com qualquer mistura de etanol ou gasolina. Os automóveis flex foram colocados no mercado nacional em 2003 e quatro anos depois a Bosch deu início à exportação de sistemas flex fuel semelhantes, que passaram a equipar modelos da montadora Peugeot vendidos na Suécia e na França. Nesses países, a gasolina recebe uma adição de 5% a 85% de etanol. O investimento em pesquisa na empresa resultou recentemente em uma nova bomba de combustível para motores flex. O dispositivo é responsável por deslocar o combustível que está no tanque do carro para o sistema de alimentação do motor.
mAhlE
Produto: filtro de combustível
líder no mercado nacional de filtros de combustível, com 90% de participação, a Mahle está em estágio final de desenvolvimento de um novo filtro para motores flex fuel, mais eficiente e durável do que os convencionais. o projeto foi elaborado pelos engenheiros e técnicos do centro de P&D da empresa em Jundiaí (sP), o segundo maior do grupo no mundo. o desenvolvimento contou com apoio da matriz, localizada em stuttgart, na alemanha.
Bielsko-Biala frankfurt gerlingen
mAgnE tI mArEllI
Produto: amortecedor semiativo
o desenvolvimento do produto envolveu engenheiros da empresa em Turim, na itália, Mauá (sP), no Brasil, e Bielsko-Biala, na Polônia, além de um fornecedor de Väsby, na suécia. os italianos fizeram a coordenação do projeto e a criação dos sistemas eletrônicos e os brasileiros desenvolveram o projeto mecânico. Uma empresa sueca de autopecas, a Öhlins racing, forneceu a eletroválvula que equipa o amortecedor. o produto foi montado e testado na Polônia.
boSch
Produto: sistema flex fuel
a Bosch desenvolveu o sistema flex fuel que faz os carros rodarem com gasolina, álcool ou qualquer mistura entre os dois combustíveis. Desenvolvido por engenheiros brasileiros, em campinas (sP) com apoio da matriz alemã, na cidade de gerlingen, um protótipo do sistema foi lançado em 1994 e o primeiro modelo comercial em 2003. a divisão de gasoline systems da empresa no Brasil é o centro de competência mundial para o etanol e coordena os principais desenvolvimentos mundiais que o grupo faz com esse biocombustível.
Väsby
Turim
Mauá Jundiaí
campinas
Presença do etanol no mundo
além do Brasil, outros países usam uma mistura de gasolina e álcool como combustível veicular
o Brasil foi um dos pioneiros no uso do etanol em veículos. É também o único que tem carros com motores programados para rodar apenas com etanol ou com qualquer mistura desse combustível e gasolina – no caso, os automóveis flex na Europa, muitos países acrescentam 5% de etanol anidro (sem água) na gasolina, combustível que no linguajar técnico recebe o nome de E05. Há estudos para elevar esse percentual para 10%. nos Estados Unidos, a mistura varia de 5% a 10%, embora em cerca de 1% dos postos seja possível encontrar o E85 –gasolina com 85% de etanol. na suécia, 40% dos postos oferecem esse combustível (E85). no Brasil, a gasolina também recebe uma adição expressiva de etanol anidro, entre 18% e 25%.
Energia relativa comparada à gasolina E05
O desafio da empresa foi criar um componente mais durável e com melhor desempenho do que o convencional – a Bosch detém cerca de 80% do mercado desse produto no Brasil. “As bombas que trabalham em motores flex sofrem sérios problemas de degradação. O etanol é um combustível muito agressivo que causa corrosão em alguns componentes do motor. Para tornar as bombas mais resistentes, a solução encontrada por nossa equipe foi aplicar um tratamento superficial que protege os componentes suscetíveis ao ataque do etanol”, explica Ederson Conti, gerente de engenharia de desenvolvimento de software da Bosch. Assim como ocorreu com o sistema flex, a nova bomba foi feita pelos engenheiros brasileiros, com ajuda de outros da matriz, na Alemanha. “Foi um trabalho multidisciplinar e também multicultural”, afirma Conti. O produto, já usado em larga escala pelas montadoras instaladas no Brasil, é exportado para outros países, entre eles Estados Unidos, Suécia e Tailândia.
Os engenheiros da divisão de amortecedores da Magneti Marelli no Brasil também trabalham em conjunto com seus congêneres italianos no desenvolvimento de novos produtos. Um dos mais recentes é um amortecedor semiativo com comando eletrônico de última geração que, desde 2009, equipa dois carros sofisticados do grupo Fiat, o Alfa Mito e o Lancia Delta. A novidade do amortecedor semiativo é que ele confere mais estabilidade ao veículo, porque conta com uma central de processamento e sensores localizados em pontos estratégicos do carro.
O produto começou a ser desenvolvido em 2003 e coube à divisão de amortecedores no Brasil criar o projeto mecânico da peça. O trabalho foi coordenado pela matriz, na Itália, que também projetou os sistemas eletrônicos e a lógica de controle. Um fornecedor da Suécia elaborou a eletroválvula, componente para o funcionamento do sistema, e a unidade da Magneti na Polônia fez a montagem e os testes finais do produto. “O centro técnico de amortecedores em Mauá, em São Paulo, é um dos nove centros de competência da Magneti no mundo. Isso se deve ao fato de a especialização de nossa unidade em amortecedores ser antiga, anterior mesmo à aquisição da Cofap pela Magneti Marelli”, conta Luiz Bloem Júnior, gerente de engenharia de inovação da unidade de amortecedores da Magneti Marelli. “Interagimos com equipes de outros países em projetos de engenharia simultânea”, diz Bloem. A empresa italiana comprou a fabricante brasileira Cofap em 1997. A multinacional detém 72% do mercado de amortecedores originais do país e produziu 29,6 milhões de peças em 2011. A multinacional italiana também desenvolveu, no início da década passada, um sistema para motores flex no Brasil diferente daquele da Bosch. Enquanto o da companhia alemã usa um sensor físico para fazer a leitura de combustível e determinar os parâmetros do funcionamento do motor, o da Magneti, batizado de Software Flexfuel Sensor, emprega a quantificação do oxigênio presente nos gases do escapamento e, assim, calibra o sistema para trabalhar com as diferentes misturas de álcool e gasolina.
Mistura etanol e gasolina Flex fuel
“As pesquisas iniciaram-se em 1997 e o produto, todo elaborado no Brasil, foi lançado em 2003. A partir dele, a unidade brasileira da Magneti Marelli foi definida como o centro de referência para o desenvolvimento de sistemas para combustíveis alternativos. Recebemos muitas solicitações da matriz e se qualquer unidade da empresa no mundo quiser fazer um desenvolvimento nesta área, nós somos consultados”, diz Eduardo Campos, gerente comercial da divisão de powertrain da empresa. A Magneti detém 43% do mercado nacional de sistemas biocombustíveis.
r E t E r AS I m PU r EZAS
Localizado no município de Jundiaí, a 50 quilômetros de São Paulo, o centro de tecnologia da Mahle é considerado o centro de competência mundial da empresa no desenvolvimento de filtros para combustíveis alternativos. A unidade de P&D da empresa, uma das 30 maiores indústrias automotivas do mundo, faz parte de uma rede composta por oito centros similares espalhados pelo mundo e é formada por 230 técnicos e engenheiros. “O Brasil é o segundo maior centro de tecnologia da Mahle em orçamento, pessoal e produtos”, diz o brasileiro Ricardo Abreu, vice-presidente mundial de P&D da Mahle. “A necessidade de desenvolvimento de soluções para o mercado brasileiro de biocombustíveis faz a unidade no Brasil ganhar importância em termos globais”, diz ele.
Uma dessas soluções, em estágio final de desenvolvimento, é um filtro de combustível de nova geração para aplicação em motores flex fuel. A função desses filtros é reter impurezas presentes no combustível que podem afetar negativamente o funcionamento do motor. A primeira geração de filtros flex ficou pronta em 2003. A segunda tem a função de duplicar ou triplicar a vida útil do equi-
o próximo desafio do sistema flex são os motores a injeção direta, apontados como sucessores dos motores atuais
laboratório do centro de tecnologia automobilística da Bosch, em c ampinas
pamento, hoje de cerca de 10 mil quilômetros –metade da durabilidade dos filtros destinados a motores que rodam exclusivamente com gasolina. “Existem três razões para a vida útil dos filtros dos carros movidos a etanol ou flex ser tão baixa”, explica Fabio Moreira, gerente de P&D da divisão de filtração e periféricos de motor da Mahle. “A primeira está relacionada à quantidade de contaminantes presentes no etanol brasileiro, cerca de 40% maior quando comparada à gasolina. A segunda razão é devido ao consumo do veículo flex, até 30% maior quando comparado ao movido apenas a gasolina. E a terceira está relacionada à formação de uma substância gelatinosa no filtro, que ocorre devido a certas condições. Esse gel entope a superfície filtrante e reduz sua durabilidade”, diz Moreira. Para contornar os problemas, a empresa desenvolveu dois modelos de filtro – o Double-Flex e o Flexible Packing. Os dois foram bem aceitos, mas houve uma preferência pelo Flexible Packing. Além da maior área filtrante e uma vida útil, estimada em 30 mil quilômetros, o motorista troca apenas o cartucho do elemento filtrante – feito de uma espécie de papelão –, preservando o corpo plástico do filtro. Os testes de durabilidade da nova peça devem ser iniciados no segundo semestre de 2013 e, se tudo correr bem, ela estará no mercado em 2015. Apesar de reconhecer a importância do trabalho dos centros de P&D de algumas multinacionais do setor de autopeças, o professor Eduardo Vasconcellos, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/ USP), acredita que ainda falta muito para o Brasil ser reconhecido como um centro de referência no desenvolvimento de soluções para a indústria automobilística. “As empresas de componentes automotivos têm diferentes posturas em relação ao papel de suas subsidiárias em termos de P&D. Para mim, o Brasil tem condição de fazer muito mais do que em geral as matrizes permitem.” O professor Francisco Nigro, da Escola Politécnica da USP, concorda com o colega da FEA. “Não estamos nos firmando como um centro gerador de tecnologia em biocombustíveis. Estamos tentando melhorar a eficiência energética dos motores a etanol, mas, quando o comparamos com os motores a gasolina feitos lá fora, vemos que ainda estamos longe”, diz Nigro. Ele se refere, por exemplo, aos motores a injeção direta em que o combustível é injetado na câmara de combustão do motor em alta pressão. Esse tipo de tecnologia é apontado como sucessor dos motores atuais porque economiza combustível e diminui a emissão de poluentes. n
voos de futuro
Embraer investe em parcerias para desenvolver de biocombustíveis a inovação em cabines
Dinorah Ereno
AEmbraer, terceira maior fabricante de jatos comerciais do mundo, atrás apenas das gigantes Boeing (Estados Unidos) e Airbus (União Europeia), foi criada para transformar ciência e projetos de pesquisa em produtos tecnológicos.
“O conhecimento está no DNA da empresa”, diz Mauro Kern, vice-presidente de engenharia e tecnologia da Embraer, onde começou há 30 anos.
“No pós-guerra havia a visão de que a indústria aeronáutica poderia ser uma grande incentivadora para a tecnologia no país”, relata o engenheiro mecânico formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
O primeiro movimento nesse sentido foi a criação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em parceria com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), dos Estados Unidos, para a formação de engenheiros aeronáuticos. Depois veio o Centro Tecnológico de
Aeronáutica (CTA), que nas décadas de 1950 e 1960 desenvolveu projetos com o objetivo de formar uma base de conhecimento tecnológico.
Um deles viabilizou a indústria aeronáutica em 1969: “A Embraer foi constituída para produzir o avião Bandeirante”, diz Kern. Novos projetos vieram a reboque, como o do monomotor agrícola Ipanema no final dos anos 1960 e produzido em série a partir de 1972. “O primeiro avião certificado no mundo para voar com biocombustível é produzido até hoje.”
Entre 1983 e 1984, Kern passou seis meses na Itália dedicado ao programa AMX, linha de aviões militares desenvolvida em colaboração com duas empresas italianas e voltada à capacitação da indústria nacional em integração de sistemas. O engenheiro eletrônico formado pelo ITA Andrea Barp, da área de simulação e modelagem de sistemas da Embraer, também passou uma temporada na Itália em 1983 junto com outros jovens pes-
a partir da esquerda, alexandre filogonio, Paulo anchieta, fernando fernandez, allan Pereira, Mauro Kern e andrea Barp, na sede em são José dos c ampos quisadores. “O grau de integração e a complexidade dos sistemas embarcados na aeronave eram considerados avançados para a época, principalmente por causa do software embarcado”, diz ele. Os desafios do grupo brasileiro foram superados com muito estudo, e o conhecimento adquirido nessa jornada permitiu que, cinco anos depois, a Embraer já fizesse o software embarcado da aeronave AMX.
Na verdade, a empresa procurou adquirir autonomia em todas as etapas de desenvolvimento e construção de uma aeronave. Quando, por exemplo, Kern voltou ao Brasil, foi alocado em uma filial da empresa criada para desenvolver competência em trens de pouso e hidráulica fina. “Fui o primeiro engenheiro do corpo técnico dessa filial”, diz Kern. Foram vários programas de cooperação e desenvolvimento até 1996, quando a Embraer certificou o trem de pouso do ERJ 145 (jato regional de 50 assentos), o primeiro total-
mente desenvolvido pela empresa. Em 1999 Kern foi para a matriz, onde se dedicou aos projetos das séries Embraer 170 e 190, linha de jatos comerciais com capacidade para 70 até 120 assentos. Inicialmente trabalhou como engenheiro-chefe do projeto 190, depois assumiu a diretoria dos programas 170 e 190 e a vice-presidência da aviação comercial. Há um ano e meio, Kern responde pela vice-presidência de engenharia e tecnologia, função que abarca todos os programas aeronáuticos da empresa.
Barp, que trabalhava com aviões de defesa para uso militar, também foi chamado para o programa de jatos regionais Embraer 170 e 190 em 2000. “Minha tarefa era ajudar a fazer a integração dos modelos de simulação aos dispositivos de ensaios, que até então eram quase estáticos”, diz. Sem uma simulação realista das condições de voo, não seria possível preparar a aeronave para o seu primeiro teste no ar. Nessa época, a Embraer
delegava a fornecedores a responsabilidade pela integração e desenvolvimento do software embarcado – que responde pela conexão de tudo que está no avião e por uma série de funcionalidades importantes para a competitividade do produto e dos serviços a ele associados, o que trazia dificuldades aos desenvolvimentos. Em 2005, Barp começou a estudar as causas fundamentais desses obstáculos. Para reverter esse quadro, colocou o foco em métodos, procedimentos, ferramentas e ambientes que estendessem o uso da modelagem matemática e da simulação de sistemas ao longo de toda a cadeia de valor de fabricação de uma aeronave, que engloba testes, certificação e suporte aos clientes.
Na Embraer a área de pesquisa e desenvolvimento (P&D) é distribuída em competitiva e pré-competitiva. A competitiva foi responsável, desde o ano 2000, pela família de jatos comerciais 170, 175, 190 e 195, chamada E-Jets, com capacidade de 70 a 120 assentos, o Legacy 600, que marcou a entrada da empresa no mercado da aviação executiva, além dos Phenom 100 e 300, que são jatos executivos pequenos para até 11 ocupantes, e do Lineage 100, jato executivo com interior de 120 metros quadrados, com vários ambientes para os passageiros. Atualmente estão sendo desenvolvidos os Legacy 450 e 500 e o KC 390, um avião cargueiro militar, “o maior da categoria e o maior já projetado pela Embraer”, segundo Kern. “Ele tem características de desempenho muito interessantes, como aterrissagem em pistas curtíssimas e reabastecimento durante o voo”, relata. Na escolha do portfólio de projetos de desenvolvimento tecnológico há uma interação muito intensa entre
a aviação comercial, a executiva e a de defesa e segurança. Em 2011, a receita líquida da Embraer foi de R$ 9,8 bilhões, 63,6% correspondentes ao segmento de aviação comercial.
há uma interação entre a aviação comercial, a executiva e a de defesa e segurança
No desenvolvimento pré-competitivo não existe um produto em vista, mas tecnologias que poderão ser usadas em futuros projetos, a exemplo da soldagem por atrito, processo feito em estado sólido para produzir soldas pela rotação ou pelo movimento de peças sob compressão. “Essa soldagem permite um alívio de peso interessante para a indústria aeronáutica”, diz Fernando Fernandez, engenheiro mecânico formado pela Escola de Engenharia Industrial de São José dos Campos com mestrado no ITA, que trabalhou com a tecnologia no período de 2003 a 2011. Por enquanto, a soldagem por atrito será usada apenas em um pequeno painel do avião Legacy 500, que até o final do ano estará no ar. Desde o ano passado, Fernandez analisa tecnologias “com um olhar para daqui a 15 ou 20 anos”.
A Embraer tem vários projetos em cooperação com institutos de pesquisa, universidades e outras empresas. Um dos exemplos é o Centro de Engenharia de Conforto (ver mais em Pesquisa FAPESP nº 194), projeto em parceria com as universidades de São Paulo (USP), Federal de Santa Catarina (UFSC) e Federal de São Carlos (UFSCar), com apoio da FAPESP e da Financiadora de Estudos e Projetos
linha de montagem de jatos comerciais
2
(Finep). O laboratório de conforto, com cerca de 300 metros quadrados, tem como objetivo melhorar o interior das aeronaves e o nível de bem-estar dos passageiros.
No projeto financiado pela FAPESP “Aeronave silenciosa: uma investigação em aeroacústica”, um grupo formado por 70 pesquisadores da Embraer, da USP, da Universidade de Brasília, da UFSC e da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) desenvolve métodos e equipamentos para supressão de ruídos. As primeiras discussões que levaram ao projeto tiveram início em 2003, com a participação de Allan Kardec Pereira, 47 anos, engenheiro aeronáutico formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
O acoplamento entre vibração e ruído interno em aviões foi tratado no pós-doutorado de Pereira na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em engenharia mecânica. O pesquisador trabalhou por dois períodos na Embraer. O primeiro foi em 1989 na área de desenvolvimento de produto.
No começo da década de 1990, Pereira voltou para Minas, onde fez mestrado na área de otimização na UFMG, e depois doutorado na
r$
9,8 bilhões
foi a receita líquida da empresa em 2011
Unicamp em controle de vibrações. Na volta para a Embraer, em 2001, trabalhou nas áreas de desenvolvimento de produto e depois anteprojeto, responsável pela criação dos primeiros conceitos de um novo produto. “Trabalhei nos primeiros projetos do Phenom 100 e 300 e do Legacy 500”, diz.
Em abril deste ano, um projeto desenvolvido pela empresa em associação com um consórcio de empresas portuguesas e o instituto de engenharia industrial Inegi, ligado à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, venceu o Crystal Cabin Award na categoria Conceitos Visionários, prêmio internacional de inovação para interiores aeronáuticos. Chamado de Life, o projeto apresenta uma nova concepção para a aviação executiva do futuro, com materiais como cortiça e couro, fibras ópticas e diodos emissores de luz (LEDs).
mE no S c A rbono
Técnicos trabalham nas várias etapas de fabricação, como instalação acústica (abaixo)
A Embraer também participa de consórcios com outras empresas do ramo e institutos de pesquisa para o desenvolvimento de novas tecnologias de manufatura, de materiais compostos, estruturas metálicas e sistemas embarcados. “Temos projetos em várias frentes e de várias naturezas”, diz Kern. Uma das frentes são os projetos para desenvolvimento de biocombustíveis. Um deles, em parceria com as empresas norte-americanas Amyris e GE, com a participação da Azul Linhas Aéreas, tem como foco a produção de biocombustíveis para jatos a partir do etanol da cana-de-açúcar. Outro, em colaboração com a Boeing e financiamento da FAPESP, tem como objetivo identificar alternativas sustentáveis para o desenvolvimento e produção de biocombustíveis destinados à aviação comercial no Brasil.
“Os biocombustíveis gerados a partir de fontes renováveis, além de serem uma alternativa ao querosene de aviação obtido do petróleo,
também contribuem para reduzir a emissão de carbono”, diz Alexandre Tonelli Filogonio, formado em engenharia mecânica pela UFMG e com pós-graduação em engenharia econômica pela Fundação Dom Cabral, que lidera um grupo dedicado ao tema de combustíveis alternativos na área de desenvolvimento tecnológico pré-competitivo. Pelos dados do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), a aviação comercial responde por 2% das emissões totais de gás carbônico (CO 2) geradas pelas atividades humanas. O desafio é reduzir as emissões de maneira que em 2050 elas sejam equivalentes à metade do que foi emitido pelo setor em 2005, conforme compromisso assumido pela indústria em abril de 2008 e ratificado em março de 2012. Uma área com destaque na Embraer é a de monitoramento da saúde de aeronaves, coordenada por Paulo Anchieta, de 46 anos, que tem uma singular trajetória pro -
laboratório de testes e checagem de materiais (à esquerda) e painel do legacy 450 (acima)
o monitoramento funciona como uma ferramenta preventiva de análise dos componentes do avião
fissional. Ele começou há 26 anos como técnico mecânico, depois foi transferido para o setor de engenharia, onde preparava dados matemáticos utilizados pelos engenheiros para avaliação das estruturas dos aviões. Com formação em colégio técnico, Anchieta decidiu cursar matemática na Universidade Salesiana em Lorena, no interior paulista. “Com o curso, tive a oportunidade de auxiliar mais engenheiros em outras frentes que eles não tinham domínio”, diz.
insTiTUiçõE s qUE forMaraM PE sqUisaDorE s Da EMPrE sa
mauro Kern, vice-presidente de engenharia e tecnologia
UFrgS – graduação
Andrea b arp, área de simulação e modelagem de sistemas ItA – graduação
Fernando Fernandez, área de desenvolvimento de materiais e processos
Allan Kardec Pereira, desenvolvimento tecnológico
Alexandre tonelli Filogonio, área de combustíveis alternativos
Paulo Anchieta, área de monitoramento da saúde de aeronaves
Escola de Engenharia Industrial – graduação ItA – mestrado
UFmg – graduação e mestrado Unicamp – doutorado e pós-doutorado
UFmg – graduação Fundação Dom c abral – pós-graduação
Universidade Salesiana de lorena e Unesp de guaratinguetá – graduação
O trabalho de monitoramento funciona como uma ferramenta preventiva de análise dos componentes dos aviões, com o objetivo de evitar contratempos futuros. A tecnologia de gerenciamento da saúde de sistemas, chamada de PHM (prognostics and health management), foi eleita em 2009 como uma das 10 tecnologias mais promissoras para a aviação pelo Instituto Americano de Aeronáutica e Astronáutica (AIAA).
A experiência de Anchieta com aviões militares foi o passaporte que o levou a ser convidado a trabalhar no projeto de monitoração e saúde de aviões comerciais. “A estrutura do avião militar é monitorada como se fosse uma inspeção de saúde nas pessoas”, compara Anchieta, que cursou engenharia mecânica no curso noturno na Faculdade de Engenharia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Guaratinguetá para poder assumir funções mais compatíveis com o seu conhecimento e experiência.
A crise financeira do início da década de 1990, que resultou em cortes drásticos de funcionários
na empresa, transformou-se em aprendizado para Anchieta. “Tive que fazer várias funções.” Na época, apenas 30 pessoas eram responsáveis por todas as tarefas de engenharia relacionadas à análise estrutural. Hoje, dos mais de 17 mil funcionários, 4 mil estão na engenharia, entre engenheiros e técnicos projetistas aeronáuticos. Ainda na década de 1990, incentivado pela empresa, Anchieta cursou várias disciplinas de pós-graduação no ITA, o que ampliou consideravelmente seu leque de conhecimento teórico. Ao assumir a liderança da equipe de monitoramento da saúde de aeronaves, Anchieta procurou parceiros para desenvolver inovações para a aviação comercial. Inicialmente entrou em contato com a Faculdade de Engenharia Mecânica da UFU e a Faculdade de Engenharia da Unesp de Ilha Solteira. As colaborações foram estendidas com a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, além de pesquisadores da UFMG e do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), de Campinas. Alguns projetos já foram encerrados e renderam frutos.
DE t E cção P r E coc E
A pesquisa em parceria com a federal de Uberlândia resultou em um novo projeto para desenvolver a serialização do sistema de monitoração estrutural. “Estamos desenvolvendo um sistema de software e hardware, baseado na tecnologia chamada de impedância eletromecânica, para fazer o trabalho sensorial nos aviões”, diz Anchieta. A partir de resultados de vibração, os sensores irão apontar se existem falhas, onde se localizam e a possível severidade delas. O
Jatos executivos
Phenom 100 (esquerda) e lineage 100 (acima) e representação artística do cargueiro militar Kc 390 (direita), em desenvolvimento
sistema será aplicado primeiro nos ensaios de fadiga de aeronaves. “Haverá um ganho fantástico, porque a detecção de uma trinca em fase inicial evitará prejuízos futuros com a sua propagação.” A próxima etapa é dar condições para que o sistema sensorial seja qualificado para utilização em voos, tanto de aeronaves militares como comerciais e executivas.
Em julho deste ano, no European Workshop Structural Health Monitoring (SHM), em Dresden, na Alemanha, foi realizado um congresso sobre a tecnologia e Anchieta foi o vencedor do prêmio anual, indicado pelo professor de astrofísica Fu-Kuo Chang, da Universidade Stanford. A escolha do premiado é feita por um comitê internacional, do qual participam 120 pessoas ligadas às áreas acadêmica, governamental e industrial, como a Nasa, agência espacial norte-americana, centros de pesquisa americanos, europeus, australiano e japoneses, além de profissionais que atuam na Airbus, Boeing e Bombardier. n
remédio em
Biolab utiliza nanotecnologia na produção de anestésico e de medicamento para tratar calvície
representação artística mostra a relação de tamanho entre nanopartículas, na cor rosa, e um fio de cabelo
Evanildo da Silveira
Fármacos produzidos na forma de cápsulas nanométricas é a nova estratégia tecnológica da Biolab, empresa farmacêutica brasileira sediada em São Paulo. A inovação se apresenta em dois medicamentos que estão em desenvolvimento, um creme anestésico e uma solução para tratamento da alopecia, principalmente na calvície ou, em menor grau, na falta de pelos no corpo A novidade é composta de nanocápsulas feitas de um polímero, uma espécie de plástico biodegradável que libera os princípios ativos lentamente no organismo e provoca uma ação terapêutica mais prolongada, além de reduzir os efeitos colaterais. Os medicamentos, resultado de uma parceria que já dura uma década entre a Biolab e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), estão em testes clínicos e deverão ficar prontos para uso no final de 2013, depois de passarem pelo crivo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Para o diretor de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Biolab, Marcio Falci, a ideia de desenvolver os dois novos produtos surgiu na área de gestão do conhecimento da empresa. Esse setor mantém um banco de dados com todo o conhecimento da Biolab e com informações sobre o que é feito e pesquisado no mundo no campo de atuação da empresa. “Isso nos possibilita estabelecer tendências, estudar os avanços tecnológicos relacionados com as linhas de nossos medicamentos e pesquisas, conforme o interesse estratégico da empresa”, explica. “Também fazemos o mapeamento das instituições de pesquisa,
de universidades e seus pesquisadores, o que auxilia em muito nossa prospecção tecnológica para produtos futuros.”
Foi assim que um dos estudos realizados concluiu que os mercados de anestésicos e de drogas capilares tinham um bom espaço para crescimento. “Para atender às necessidades médicas detectadas, a inovação que poderíamos incorporar, no sentido de oferecer tratamentos mais eficientes e seguros, apontava para o emprego de nanotecnologia nos princípios ativos de produtos já existentes”, explica Falci. “O nanoencapsulamento foi escolhido por já fazer parte de nossas ferramentas produtivas.”
Os princípios ativos que serão utilizados são a prilocaína e a lidocaína, no caso do anestésico, e a finasterida para a calvície. Todos são conhecidos pela comunidade médica e usados em vários medicamentos existentes no mercado. A empresa recorreu à antiga parceria com a UFRGS que já havia dado resultado positivo na formulação de outros produtos nanotecnológicas, no caso cosméticos e protetores solares (ver Pesquisa FAPESP nº 167), para absorver a nanotecnologia em seus novos produtos. Dois grupos de pesquisa atuam em conjunto na universidade, um coordenado pela farmacêutica Adriana Pohlmann, do Instituto de Química, e outro pela também farmacêutica Sílvia Guterres, professora da Faculdade de Farmácia.
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “Recebemos apoio financeiro do MCTI [Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação], por meio do CNPq”, conta Adriana. “A empresa deu a sua contrapartida também e começamos o trabalho, que se estendeu até 2007, quando depositamos um pedido de patente no INPI [Instituto Nacional de Propriedade Industrial].” A partir daí, coube à Biolab prosseguir com o desenvolvimento dos medicamentos, realizando testes em seres humanos e planejando a produção em grande escala. Na UFRGS foi desenvolvida a tecnologia de nanoencapsulamento dos princípios ativos usados pela Biolab, que entram na composição do anestésico e do medicamento capilar. As nanocápsulas são esféricas, com um diâmetro médio de 200 nanômetros – 1 nanômetro equivale a 1 milímetro dividido por 1 milhão. Para comparar, um fio de cabelo tem a espessura de cerca de 50 mil nanômetros. No caso específico dos dois medicamentos da Biolab, o uso das drogas se fará por meio de aplicação tópica na forma de suspensão, creme ou gel. “Por causa das pequenas dimensões das nanocápsulas, elas atingem apenas a camada da pele na qual será produzido o efeito terapêutico desejado, no caso, a derme, sem que os princípios ativos atinjam a corrente sanguínea e provoquem problemas colaterais”, explica Falci. “Em contato com a pele, elas podem se romper ou ocorrer a erosão da parede polimérica, liberando gradualmente as substâncias ativas no local da derme que se buscou atingir.” i n DÚ s T
O trabalho conjunto para a formulação das nanocápsulas com a Biolab começou na UFRGS em 2005, em resposta a um edital de 2004 do Conselho
c omposição e ação das nanocápsulas
fármacos no interior de nanoesferas agem em camada profunda da pele
Princípio ativo
núcleo oleoso
Parede polimérica
Ação
a s nanocápuslas conseguem ultrapassar os poros da pele e da epiderme, o que não acontece com os produtos tradicionais. nessa passagem, as paredes biopoliméricas se rompem comPoSIção as nanocápsulas são formadas a partir de um polímero biodegradável que se solidifica contendo o princípio ativo em seu interior e um óleo que o torna solúvel
e o princípio ativo do medicamento chega à derme, mas não penetra nos vasos sanguíneos. Dessa forma, o medicamento age efetivavemente na região a ser tratada
Nanomedicamentos, como os dois desenvolvidos pela Biolab, se inserem num contexto maior, uma verdadeira revolução tecnológica que é a nanotecnologia. Trata-se da engenharia de materiais em escala de átomos e moléculas, que começa a causar impacto em várias áreas industriais, na agricultura, na biologia, além da medicina e farmacologia. Alguns produtos com essa tecnologia já estão no mercado. Entre eles, podem ser citados vidros e cerâmicas autolimpantes, tecidos que não mancham, fármacos que circulam pela corrente sanguínea até chegar ao órgão doente, além dos sensores de línguas eletrônicas mais sensíveis que a humana na distinção de sabores. De acordo com um estudo de 2010 da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), chamado Panorama da Nanotecnologia no Mundo e no Brasil, em 2004, os produtos nanotecnológicos movimentaram na economia mundial não mais do que US$ 13 bilhões, o que representava menos que 0,1% da produção global de bens manufaturados naquele ano. Três anos depois, esse mercado havia crescido 10 vezes, chegando a US$ 135 bilhões (incluindo semicondutores e equipamentos eletrônicos). A previsão é de que esse valor chegue a US$ 1 trilhão no próximo ano e atinja US$ 2,95 trilhões em 2015 ou mais de 15% de todos os bens industrializados fabricados no planeta.
Hoje a maior parcela desse mercado é do setor químico, 53%, seguido pelo de semicondutores, 34%.
tE m P o DE AP rovA ção
Na área da saúde, a nanotecnologia é empregada na indústria de produtos médicos, veterinários, material para diagnóstico por imagens e, em maior quantidade, na área de cosméticos. Em relação a esses últimos, a Biolab já tem no mercado a linha Photoprot, de protetores solares, também desenvolvida em parceria com a UFRGS. A empresa lançou ainda a linha Skan, composta por um musse de limpeza e um gel-creme para o controle da oleosidade da pele. Nesses casos, o tempo entre o início do desenvolvimento do cosmético e a sua chegada às prateleiras das farmácias é menor, porque a legislação para a liberação desses produtos é menos rigorosa em relação aos novos medicamentos.
A Biolab pretende trabalhar para mudar esta situação, tornando mais rápida a liberação da venda de novas drogas. “Vamos solicitar ao governo que se crie uma fila especial na Anvisa para medicamentos que tenham inovação”, diz o diretor científico da Biolab, Dante Alario Junior. “Como o incentivo à inovação faz parte da política científica do atual governo, cremos que nossa solicitação faz sentido. Hoje uma nova droga pode levar de um ano e meio a dois anos para
ser analisada e liberada pela Anvisa. Para produtos inovadores esse prazo deveria ser menor. Do jeito que está há risco de a inovação já estar velha quando a venda do medicamento for permitida.”
No caso do nanoanestésico, a Biolab estima que o mercado potencial é de cerca de R$ 30 milhões por ano. Quanto ao produto para a calvície, a perspectiva é maior ainda: R$ 95 milhões. “Esses produtos tiveram crescimento inferior ao do mercado total farmacêutico, que aumentou 59% em unidades vendidas e 89,65% em faturamento nos últimos cinco anos”, conta Falci. “Em comparação, o mercado para anestésicos cresceu, no mesmo período, 54% em vendas e 77% em faturamento, e o de tratamento da alopecia, 48% e 46,7%, respectivamente.”
A empresa não revela quanto investiu nos dois novos produtos. “Na verdade, não sabemos, porque não discriminamos os gastos projeto por projeto”, justifica Alario Junior. “Investimos em pesquisa desenvolvimento e inovação entre 7% e 8% do nosso faturamento anual, que em 2012 deverá chegar a R$ 780 milhões.”
Para sanar essa lacuna, a companhia contratou uma consultoria para analisar os investimentos em cada projeto e verificar como ela pode aproveitar melhor os benefícios da Lei da Inovação, a chamada Lei do Bem, que incentiva as indústrias a investirem em produtos inovadores. n
EPIDErm
núcleo oleoso e parede polimérica
Princípio ativo
Inovação em grupo
Empresas farmacêuticas brasileiras se unem para gerar novos medicamentos
aindústria farmacêutica nacional passa por uma nova fase. Depois da aposta nos genéricos, que ajudou os laboratórios brasileiros a se capitalizar e fortalecer, o setor pretende agora transformar o país num polo de inovação, com foco em drogas sintéticas avançadas, fitoterápicas e, principalmente, medicamentos biotecnológicos. O caminho escolhido para alcançar esse objetivo é a união de esforços. Assim, foram criadas neste ano duas grandes empresas, a Orygen e a Bionovis, cada uma formada por quatro companhias nacionais, com o objetivo de realizar pesquisas e desenvolver novos fármacos.
A criação das duas empresas foi estimulada pelo BNDES, que desde 2003 realiza estudos e tenta apontar caminhos para o setor farmacêutico nacional. Em 2004, o banco lançou o Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Cadeia Produtiva Farmacêutica (Profarma), que tinha, entre seus objetivos, reduzir o déficit comercial da cadeia produtiva farmacêutica, além de estimular a realização de atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação (P, D & I)no país. Em 2010 começou a sondagem para a criação de uma grande companhia a partir da união de nove laboratórios. Durante o processo de discussão, o grupo se dividiu e surgiram a Orygen e a Bionovis.
A primeira a ser criada foi a Bionovis, em março deste ano, unindo Aché, EMS, União Química e Hypermarcas. Com capital de R$ 500 milhões – 25% de cada uma – a empresa vai pesquisar, desenvolver e comercializar medicamentos biotecnológicos. “Vamos construir em 2013 um laboratório de pesquisa e desenvolvimento e uma fábrica para produzir os remédios”, diz o presidente da nova empresa, Odnir Finotti. “Nessa primeira etapa, estamos fechando parcerias com duas companhias internacionais, que irão transferir para nós a tecnologia para a produção de dois anticorpos mo-
noclonais, um para doenças do sistema imunológico e outro para câncer.”
Em maio surgiu a Orygen, também com capital de R$ 500 milhões, formada pelos laboratórios Biolab, Cristália, Eurofarma e Libbs. Para presidi-la, os quatro foram buscar em Nova York o cientista britânico Andrew Simpson, ex-diretor científico do Instituto Ludwig, que já trabalhou no Brasil e, inclusive, foi coordenador-geral dos projetos genomas da bactéria Xylella fastidiosa e do câncer iniciados no final dos anos 1990 e financiados pela FAPESP (ver Pesquisa FAPESP Especial dos 50 anos). “A nova empresa quer estabelecer a capacidade de gerar anticorpos monoclonais terapêuticos em escala industrial no Brasil, o que possibilitará ampliar o acesso desses produtos no país, e também desenvolver novas moléculas terapêuticas por meio de um ativo centro de P, D & I”, diz Simpson. “A fundação da Orygen e da Bionovis forma um agrupamento industrial farmacêutico mais completo no país, tornando possível a produção e comercialização de medicamentos complexos.”
No campo institucional essas oito companhias e mais a Hebron se uniram e criaram a associação Grupo FarmaBrasil (GFB), que tem como missão fortalecer a indústria nacional de medicamentos. Juntas, elas respondem por 36% de todo o volume de remédios fabricados no Brasil e 53% dos genéricos, empregam cerca de 30 mil pessoas e investem, em média, 6% de seu faturamento em pesquisa e desenvolvimento. Segundo o presidente da entidade, Reginaldo Arcuri, a associação surgiu para colocar em prática uma agenda estratégica, que vem sendo discutida desde 2010. Ela inclui a adoção de uma política industrial para o setor, visando aumentar a capacidade de inovação dos laboratórios nacionais e a produção de fármacos no país. “A participação das empresas nacionais no mercado de medicamentos passou de 4,7% em 1998 para 20,86% em 2011, o que representa um crescimento de mais de 400%”, diz. “Isso significa que a indústria nacional é capaz de responder não só aos desafios, mas às oportunidades geradas pelo conjunto de políticas públicas para a área da saúde no Brasil.” n Evanildo da Silveira
Produzir medicamentos biotecnólógicos complexos é o principal objetivo das duas novas empresas
o s indesejáveis
Política imigratória do Estado novo escondia projeto de branqueamento
c arlos haag
Navio de emigrantes de lasar segall (1939/41), pintura a óleo com areia sobre tela, 230 x 275 cm
D i P lo M acia y
Quando, em 1995, o Arquivo Histórico do Itamaraty foi aberto ao público, parte da documentação revelou que a instituição havia participado da política racista e discriminatória de estrangeiros do Estado Novo, colocando o passado do Ministério das Relações Exteriores na incômoda posição de “porteiro do Brasil”. Uma nova pesquisa, Imigrante ideal (Civilização Brasileira), do historiador Fábio Koifman, da Universidade Federal Rural Fluminense (UFRF), isenta o Itamaraty de toda a responsabilidade por essa política restritiva. “É um equívoco historiográfico, já que se ignora que, entre 1941 e 1945, o Serviço de Visto estava alocado no Ministério da Justiça, o real responsável pela palavra final da aceitação ou não de estrangeiros”, diz Koifman. Esse foi o único momento na história da República que a atribuição não esteve no âmbito do Itamaraty. O pesquisador afirma que é a primeira vez que se analisa o papel central do Ministério da Justiça, de seu titular, o jurista Francisco Campos (1891-1968), e de Ernani Reis (1905-1954), parecerista do ministério, burocrata que, através de sua interpretação, dizia, baseado na legislação, quem entrava ou não no país. Suas sugestões quase sempre eram aceitas pelo ministro e se baseavam na seleção dos imigrantes “desejáveis”, que se encaixassem no projeto de “branqueamento” da população brasileira da ditadura Vargas. Negros, japoneses e judeus, assim como idosos e deficientes, não estavam nos padrões estabelecidos e eram recusados como “indesejáveis”. A pesquisa de Koifman começou quando ele encontrou o decreto-lei 3.175, de 1941, que passava o poder de decisão de concessão dos vistos do Ministério das Relações Exteriores para o Ministério da Justiça. Mas o Serviço de Visto em si não foi criado por decreto, embora existisse com papel timbrado e tudo. Não foi, porém, instituído formalmente e sua verba vinha de outros órgãos. “Ele foi criado para isolar seus técnicos e tomar as decisões de forma puramente técnica e fria. Eles achavam mais fácil negar o visto do que ter de decidir no porto”, conta o historiador. “Todo o processo não chegou a conhecimento público e é nele que o Francisco Campos explica para Vargas por que o Brasil deveria restringir a imigração”, fala. Funcionários do Itamaraty eram obrigados a informar o ministério com detalhes sobre a pessoa que pedia o visto e aguardar o parecer do ministro para concedê-lo ou não. A desobediência de
h U m A n IDADES
diplomatas às diretrizes do ministério provocava ação direta de Vargas, que poderia determinar a instauração de inquérito administrativo ou até a demissão sumária do infrator. “Esse controle aumentou quando a situação europeia se agravou com a guerra e a escalada do antissemitismo na Alemanha. Judeus e perseguidos políticos começam a sair da Europa, gerando um aumento da demanda nos consulados. Nesse momento, a política imigratória brasileira se voltou contra eles.”
“No início do Estado Novo cabia ao Itamaraty gerir a política de vistos, mas isso mudou a partir de 1941. Essa troca refletia o debate na elite brasileira sobre qual era o imigrante ‘desejável’ para o ‘aprimoramento’ do povo brasileiro”, fala Koifman. Vargas era simpatizante aberto do ideário eugênico. Em 1930, num discurso de campanha à Presidência, avisou: “Durante anos pensamos a imigração apenas em seus aspectos econômicos. É oportuno obedecer agora ao critério étnico”. Em 1934, durante a Constituinte, o lobby eugenista, bem organizado, conseguiu a aprovação de artigos baseados nas teorias racistas. O alvo, então, era o japonês. De forma silenciosa foi institucionalizado um sistema de cotas para cada nacionalidade que foi manipulado para restringir a entrada de orientais no país.
“O Brasil não foi o único a adotar medidas restritivas contra imigrantes e até ‘demorou’ a implantá-las. Democracias como os EUA e o Canadá já o faziam nos primeiros anos da década de 1920”, lembra o autor. Mas, uma vez iniciado o processo, foram rápidos. Não satisfeitos com as leis de 1934, setores da elite e intelectuais exigiram uma maior intervenção do Estado e uma seleção mais rigorosa na política imigratória. O resultado foi o decreto-lei 3.010, de 1938: exigia-se do solicitante de vistos que se apresentasse pessoalmente ao cônsul para que o diplomata visse o candidato e relatasse se era branco, negro, ou se tinha alguma deficiência física. “Segmentos letrados da sociedade brasileira e muitos homens do governo, incluindo Vargas, acreditavam que o problema do desenvolvimento brasileiro estava relacionado à má formação étnica do povo. Achavam que trazendo ‘bons’ imigrantes, ou seja, brancos que se integrassem à população não branca, o Brasil em 50 anos se transformaria em uma sociedade mais desenvolvida”, conta o pesquisador. O estrangeiro ideal era branco, católico e apolítico. A preferência pessoal de Vargas era pelos portugueses. “A maioria dos imigrantes vindos de Portugal era de origem modesta e instrução limita-
da, acostumados à ditadura salazarista”, diz Koifman. Europeus, mas sem “ideias dissolventes”, ao contrário dos grupos intelectualizados originários da Alemanha, França, Áustria, entre outros países, que produziam reflexões em jornais e livros sobre as mazelas nacionais. O ministro da Justiça detestava particularmente os intelectuais estrangeiros e chegou a propor o fechamento total do Brasil à imigração enquanto durasse a guerra na Europa, medida que o pragmatismo de Vargas rejeitou.
“O Brasil, que não contribuiu para que se criassem na Europa as perseguições e as dificuldades de vida, não pode se converter numa fácil hospedaria da massa de refugiados. Não nos serve esse white trash, rebotalho branco que todos os países civilizados refugam”, argumentava Campos, também conhecido como “Chico Ciência”. “Um dos inspiradores intelectuais do Estado Novo foi influenciado pelos fascismos português e italiano, defendendo uma legislação imigratória calcada nas teorias eugênicas americanas.” Para Campos, na contramão do entusiasmo pela imigração em voga no país desde o século XIX, estrangeiros só atrasavam o desenvolvimento do país, “parasitas” que nada contribuíam para o progresso nacional. “Os judeus, por exemplo, só se dedicavam a atividades urbanas, ao pequeno comércio. O problema é que Campos e Reis logo perceberam que essas eram as mesmas atividades às quais os portugueses se dedicavam, apontando a Vargas essa contradição, para ira do ditador, que queria imigrantes de Portugal”, fala Koifman.
O que abalou Campos, cuja ideologia não era isenta de interesses pessoais. Chico Ciência disputava as atenções de Vargas com Oswaldo Aranha, então à frente do Itamaraty. Para atacar o rival, martelava a tecla de que, apesar das restrições, estrangeiros continuavam a entrar no Brasil, prova da incompetência do Itamaraty na gestão da questão imigratória. Bem-sucedido, convenceu o ditador da validade de suas ideias e ganhou o poder
de seleção de “desejáveis” e “indesejáveis” para o seu Setor de Vistos. Não conseguiu, porém, impor o ideário eugênico que admirava, sendo obrigado a “tropicalizá-lo”. “As raças admiradas pelos americanos eram minoria num país composto majoritariamente por grupos considerados ‘inferiores’”, lembra o historiador. Isso levou Campos a se concentrar no combate aos imigrantes “infusíveis” que, supostamente, tinham um grau de miscigenação baixo e, logo, não serviam ao projeto de “branqueamento” por miscigenação, entre esses, os judeus.
no b rasil, apenas em 1934 foram criadas as primeiras leis restritivas, política que países como os
Estados Unidos e c anadá aplicavam desde os anos 1920
Pedido de visto feito para oswaldo aranha, com a negativa do chanceler de Vargas
“Mas as restrições à entrada de judeus, tema recorrente nos estudos sobre a política imigratória do Estado Novo, devem ser vistas num contexto maior, em que vários outros grupos foram igualmente classificados como “indesejáveis”. Se a condição de judeu dificultava a emissão de um visto, a comprovação da ausência dessa condição tampouco era garantia de um visto”, avisa Koifman. Para o pesquisador, o antissemitismo de um fascista como Campos não era análogo ao racismo dos nazistas. “Após a Intentona Comunista de 1935 o Estado adotou uma visão genérica dos judeus que os associava ao comunismo, um antissemitismo de fundo político compartilhado por Vargas”, observa o pesquisador. Nas palavras de Campos: “Os judeus se tem aproveitado do descuido das autoridades brasileiras. Embora o Brasil não seja fascista ou nacional-socialista, o certo é que esses elementos comunizantes, socialistas, esquerdistas ou liberais leem por uma cartilha que está longe de nos convir”. Sem negar o antissemitismo de membros individuais do governo e da sociedade brasileira, Koifman acredita que o critério adotado mais importante, ao lado da “ameaça vermelha”, era a capacidade, ou não, da suposta capacidade de “fusão” dos imigrantes. “A preocupação estava no potencial de união de europeus brancos com descendentes de africanos e indígenas, condição necessária para conseguir o ‘aprimoramento’ das gerações futuras”, fala. “O Estado Novo não queria reproduzir o racismo, então muito em voga nos EUA e na Europa. A segregação deveria ser evitada a qualquer custo, pois dificultaria a miscigenação, força-motriz do ‘branqueamento’”, diz. Vargas não tolerava racismos contra grupos étnicos dentro do Brasil. Esse cuidado também se devia à manutenção de uma boa imagem internacional, para agradar, em especial, os EUA, cuja política racial para os
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outros não refletia a sua realidade interna. “Ser acusado de racista ativo, nas décadas de 1930 e 1940, colocava qualquer nação, diplomata ou intelectual, em posição constrangedora de alinhamento com a política de exclusão da Alemanha nazista”, explica a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de São Paulo (USP) e autora do estudo referencial Antissemitismo na era Vargas (1987). “Ainda assim o Estado Novo, por meio do Ministério da Justiça e de uma política nacionalista, não admitia fissuras, combatendo grupos migrantes, vistos como elementos de ‘erosão’. O ideal do regime era a homogeneidade em detrimento da diversidade”, continua.
A mb I gUIDADES
Para o brasilianista Jeffrey Lesser, da Emory University e autor de A questão judaica no Brasil (1995), é preciso cuidado ao retratar as políticas de imigração da época apenas com base em documentos oficiais, do Itamaraty ou do Ministério da Justiça. “Os escritos dão conta das ambiguidades que regiam essa política. Como explicar, por exemplo, a entrada expressiva de judeus logo após os decretos restritivos e a absorção expressiva desses grupos ao lado de árabes e japoneses na sociedade brasileira em fins dos anos 1930”, questiona. Para ele, houve muita incongruência entre discurso e prática, gerando curiosos paradoxos. “Os imigrantes viraram o discurso eugênico de brancura, que os discriminava, em favor de seus interesses e conseguiram conquistar um
espaço na sociedade. Perceberem que ser branco no Brasil era melhor do que ser negro e também adotaram a retórica eugênica.”
“Há uma série de boletins policiais sobre brigas entre estrangeiros e negros. Imigrantes pobres não queriam ser vistos como os novos escravos e afirmavam sua superioridade atacando os negros”, conta Lesser. Se os documentos contam uma história, no cotidiana do Estado Novo o movimento xenófobo não funcionou como pretendido. O brasilianista não nega o discurso contra a imigração e o antissemitismo das elites brasileiras, mas, ao estudar casos reais, viu que a ação do governo era mais flexível do que letra “dura” dos papéis timbrados. “Um bom exemplo é que, antes de colocar em vigor, em 1934, as leis que restringiam a entrada de japoneses, o governo brasileiro avisou o ministro das Relações Exteriores do Japão. Um diplomata brasileiro contou ao ministro japonês o que estava para acontecer e o acalmou prometendo que os orientais continuariam a entrar no Brasil, utilizando cotas de países como a Finlândia, que praticamente não eram usadas”, conta. Lesser reuniu outros casos do “jeitinho brasileiro” de tratar os entraves da legislação.
1 Passaporte cancelado pelos nazistas, mas aceito pelas autoridades brasileiras
2 Visto de otto Maria c arpeaux, incluído na cota de judeus católicos
Para o americano, a história mais rocambolesca dessa flexibilidade que não se lê nos arquivos oficiais é a cooptação secreta pelo Itamaraty de funcionários do consulado alemão, para que eles falsificassem a assinatura do cônsul, liberando imigrantes para entrar no Brasil. “Numa palestra chamei o cônsul de nazista e pessoas da plateia ficaram indignadas, mostrando vistos assinados pelo cônsul, a quem chamavam de herói, sem imaginar que eram falsificações”, conta.
Koifman respeita a hipótese de Lesser sobre uma “negociação” das leis, mas afirma que os documentos do Serviço de Visto não sustentam essa visão. “A lei foi, sim, aplicada, e a maleabilidade estava condicionada à origem do imigrante. Basta ver a questão pouco conhecida dos suecos: eles tinham colônia representativa no país e tampouco se interessavam em imigrar para o Brasil, mas o Serviço de Visto estava particularmente interessado na vinda deles” observa.
Como revela o caso de um sueco que passou mal numa viagem, desembarcou para se tratar e, quando percebeu, já estavam tratando do seu visto. Ele não queria ficar no país. “Ao mesmo tempo, muitas pessoas com todas as condições de emigrar, que tinham os documentos necessários, enfrentavam medidas protelatórias e pareceres que dificultavam sua entrada, se não fosse o ‘imigrante ideal’. Isso mostra como os critérios se baseavam na bandeira da eugenia”, explica. Para Koifman, isso desmascara o discurso nacionalista e a flexibilidade com as leis, reduzidos à sua real dimensão: a utopia de aprimoramento étnico. n
memórias plácidas do anjo da morte
autobiografia de Josef Mengele revela falta de empatia pelas vítimas e culpa pelos crimes
“
Quando um passarinho feliz canta, ele não canta para mim. Sempre que uma estrelinha brilha ao longe, ela brilha para outro e não para mim.” O carente autor do poema ingênuo foi capaz de injetar produtos químicos em olhos de crianças para deixá-los azuis, extrair órgãos de pessoas ainda vivas e costurar gêmeos, sua obsessão, “criar siameses”. No Brasil, Josef Mengele (1911-1979), um dos nazistas mais procurados do planeta, virou escritor.
O “anjo da morte”, responsável pela seleção de quem viveria ou não em Auschwitz, morreu afogado em Bertioga. Apenas em 1985 a polícia descobriu seu paradeiro e, em sua casa em Diadema, encontrou mais de 3 mil páginas de escritos, hoje guardados na sede da Polícia Federal. “Entre os textos há uma autobiografia que nos permite analisar a mente de um criminoso. Ele escreveu em liberdade e sem a obrigação de considerar a opinião pública, que condenava seus atos. Assim, o tom geral é de franqueza na avaliação de sua vida e atos”, explica Helmut Galle, professor de literatura da Universidade de São Paulo (USP), autor de um estudo sobre os escritos de Mengele, que faz parte do Projeto Temático Escritas da violência, apoiado pela FAPESP.
A autobiografia, com 500 páginas, tem um narrador em terceira pessoa e é escrita em forma ficcional, com o protagonista “Andreas” como o alter ego do nazista. O livro serviria para passar “bons conselhos” ao filho e justificar seus atos no campo de extermínio. Mengele não teve sucesso em nenhuma das duas tarefas e seu filho rejeitou a total falta de culpa do pai e seu silêncio sobre os crimes nas memórias. “A leitura desses escritos é uma tarefa sofrida. Há um silêncio incômodo sobre as atividades na guerra e uma terrível vaidade prazerosa com que conta futilidades da infância e de sua vida após a fuga em 1945.”
Apenas o nascimento e o batismo do protagonista se esparramam por longas 74 páginas. Num paradoxo, quase não há referências aos judeus, por cujas mortes ele foi responsável. Uma das poucas acontece durante uma conversa de Andreas com um camponês que acusa o capital judeu pela guerra. Mengele responde: “Aí muito se exagera, mas algo deve ser verdade. Seria, porém, essa guerra que o judaísmo internacional impôs à Alemanha que impossibilitou uma solução pacífica da questão judaica. E se esses eventos acontecessem em época de guerra, assumiriam formas bélicas, condicionadas
m engele quer se colocar na posição de suas vítimas para provar que é mais forte e capaz de sobreviver
pelas situações gerais alteradas e, não finalmente, pelas reações psicológicas”.
“É estranho imaginar o nazista, no Brasil dos anos 1970, ainda culpando os judeus pelo próprio genocídio e sua total certeza ética sobre a legitimidade do Holocausto”, observa Galle. Mengele se mostra como contraponto à fraqueza judaica, dotado da força e da persistência diante dos obstáculos. Suas lembranças o levam para 1947, quando, em fuga, se refugia numa fazenda na Alemanha, disfarçado de agricultor. “Não existe o esquivar, a fuga e a recusa porque a existência crua está em jogo. Andreas distribui o esterco com a força e suprime a dor infernal na articulação da mão, pensando que somente se pode sobreviver sendo mais duro que aquilo que a existência intransigente traz.”
S obr E v I vênc IA
“Mengele quer se colocar na posição de suas vítimas para provar que é mais forte do que elas, não sucumbindo na luta pela sobrevivência”, analisa o pesquisador. Para Galle, o “anjo da morte” quer livrar-se da culpa mostrando a sua experiência e culpando os judeus mortos pelo seu fim. “Como o camponês, cujo corpo quer desistir e quase ‘grita’ por dores, Mengele cria uma persona, que acredita ser
os diários do "anjo da morte", com suas anotações; acima, foto de Mengele em 1937, ao entrar para as ss
ele, capaz de suprimir esses impulsos, fingindo indiferença diante de todos. Em Auschwitz, ele teve, internamente, algum sentimento e se revoltou, em algum momento, com seu ‘trabalho’ cruel. Mas essa voz foi extinta pela aparência da persona fria”, observa o pesquisador. “Nas 500 páginas do texto não há nenhum sinal de empatia. Só se vê o sofrimento do protagonista e as acusações dos que lhe causam esse sofrimento. Pode-se supor que ele também não teve essa função psíquica.” O autor assassino, continua Galle, quer controlar sua imagem externa, mostrando apenas força e poder, e produz esses textos para ter controle sobre a memória que os outros tinham dele. “Uma das cenas mais significativas do livro é quando o protagonista sonha que é um bebê que passa o tempo todo dormindo ou gritando. Mengele se vê como inocente e justo, imaginando ser aquilo que nunca admitiu em si e que quis destruir em suas vítimas: a criatura física, nua e indefesa.”
Em nenhum momento aborda a questão da culpa, porque, para ele, “não existem juízes, apenas vingadores”. “Atribui a responsabilidade da morte da mãe aos médicos ‘incapazes’, colocados pelos Aliados no lugar dos ‘bons médicos’ na-
zistas. Também culpa aqueles que fizeram ‘falsas acusações’ contra ele pela perda materna”, diz o pesquisador. Em uma carta de 1974, chega a expressar “remorso pelos crimes que cometemos contra o ‘povo escolhido’”. As aspas traem a sua visão real, pois, mesmo num momento de raro arrependimento, considera os judeus como “absurdos”. Afinal, o que acreditava ver a seu redor parecia confirmar suas crenças. “O Brasil é bom país para se viver, apesar da mistura racial. Mas há muitas pessoas que pensam como eu e são simpáticas ao nazismo e à ideologia racial”, escreve. Mas incomodava-se com as brasileiras, que “abusavam do batom e da maquiagem, sempre prontas para a promiscuidade sexual”.
Despreza as mulheres em geral. “A biologia não admite direitos iguais. Mulheres não deveriam trabalhar em posições altas e sua atividade deve depender do preenchimento de uma cota biológica. O controle de natalidade deve ser feito com esterilização daquelas com genes deficientes.” Além das mulheres, preocupava-se com a superpopulação do planeta. “O nosso experimento em raças falhou, mas é preciso tomar medidas drásticas para combater o excesso de pessoas. Os homens precisam tomar uma decisão para sobreviver aos tempos modernos. Se a eugenia não funcionou no curto prazo, precisamos de outra solução igualmente radical”, anota.
As anotações refletem seus estudos de genética e antropologia nos anos 1930, que o levaram a fazer o doutorado sob a orientação do professor Otmar von Verschuer, diretor do Kaiser Wilhelm Institut. Lembrando-se dos “bons tempos” acadêmicos, escreve: “Sabemos que a evolução controla a natureza por seleção e extermínio. Os incapazes de aceitar essas regras de seres mais capacitados serão exilados ou extintos. Homens fracos não devem se reproduzir. É a única forma da humanidade existir e se manter”. A partir de 1943, o discípulo passou a enviar ao mestre provas “físicas” e relatórios de seus experimentos “fascinantes” com seres vivos em Auschwitz.
“Fui um jovem imaturo e solitário. Tudo seria diferente se viesse de um lar feliz com pessoas que tomassem conta de mim”, escreve o homem que ordenou a “limpeza” de um galpão com 750 judeus dentro, jogando gás venenoso para conter uma infestação de piolhos. n c arlos haag
m E mór IA
terapias para os trópicos
livro de cirurgião-barbeiro
português mostra as curas usadas nas Minas gerais do século xViii
marcos Pivetta
em 1735, a Officina de Miguel Rodrigues publicou em Lisboa a primeira edição do livro Erário mineral, que trata das práticas médicas empregadas na então capitania de Minas Gerais, epicentro do ciclo do ouro no Brasil Colônia. O autor da obra, apontada como um dos primeiros tratados sobre medicina brasileira ou tropical redigido em português, era o cirurgião-barbeiro Luís Gomes Ferreira. Português da região do Douro, Gomes Ferreira havia exercido sua profissão na terra natal e na Índia e morara por três anos em Salvador antes de se fixar na região da antiga Vila Rica, hoje Ouro Preto. Quando se mudou em 1710 para essa parte da colônia, seu intuito era fazer fortuna na mineração. Mas, ao perceber que a busca por lavras auríferas não lhe seria tão rentável, decidiu tocar em paralelo as artes curativas que aprendera em Portugal. Afinal havia poucos médicos e cirurgiões-barbeiros na região e cuidar dos doentes podia ser vantajoso. Ficou famoso por suas curas, mudou constantemente de localidade em busca de novas oportunidades e deixou Minas apenas em 1731, quando atravessou o Atlântico de volta à pátria-mãe.
A experiência acumulada nas duas décadas que passou tratando os poderosos senhores de escravos e seus cativos enfermos numa terra distante e distinta de Portugal forneceu a base para as informações presentes no livro. Após o retorno à terra natal, Gomes Ferreira escreveu em menos de um ano Erário mineral. Na obra, fala dos principais males que acometiam os moradores locais, em especial os escravos, e dos tratamentos que usou para combater as doenças. Para ele, o clima frio e úmido da capitania estava por trás de quase todos os males. A alimentação, a moradia e o fato de a mineração obrigar os escravos a ficar muitas horas dentro da água ou embaixo da terra eram outros fatores associados às enfermidades. Como as condições de vida e os problemas de saúde em Minas eram diferentes dos que predominavam na Europa, o cirurgião-barbeiro teve de se adaptar à nova
além de usar seus instrumentos em cirurgias, gomes ferreira tinha uma botica para fazer medicamentos
realidade. “Gomes Ferreira tinha mais liberdade e sensibilidade para absorver conhecimentos de outras fontes além da medicina europeia”, afirma a historiadora Júnia Ferreira Furtado, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que coordenou a publicação em 2002 de uma nova edição do livro com apoio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). Por esse motivo, muitos remédios usados pelos índios e incorporados à medicina colonial pelos paulistas constam da obra. Receitas que incluíam ossos, gorduras, pedaços de animais ou bichos inteiros, saliva, urina e muitas plantas da região estão presentes nas páginas do livro.
“O Erário mineral não foge à regra: tudo vale para curar”, afirma o médico e escritor Ronaldo Simões Coelho,
em um texto publicado junto com a edição patrocinada pela Fiocruz/Fapemig do livro do cirurgião-barbeiro no qual lembra que essa é, historicamente, a postura dos homens dedicados à medicina.
Não era comum cirurgiões-barbeiros, que tinham um saber baseado na prática médica, redigir livros no século XVIII.
Teorizar e escrever sobre curas era uma tarefa da alçada dos médicos, que tinham uma formação
o bra incorpora conhecimento dos índios e é um dos primeiros tratados de medicina brasileira redigido em português
realizar operações, como amputações, era tarefa dos cirurgiões-barbeiros
teórica, escolástica, ainda moldada na medicina galênica e na teoria dos humores. Também não era prerrogativa dos cirurgiões-barbeiros receitar medicamentos e/ou formulá-los como se fosse um boticário. No entanto, Gomes Ferreira, que era dono de uma botica, fazia tudo isso nos sertões das Minas Gerais.
A primeira edição do Erário mineral, da primeira metade do século XVIII, pode ser baixada gratuitamente no site do Google Books. Basta digitar o título da obra e fazer uma pesquisa para chegar ao arquivo com o escrito. A versão de 2002 – que, além do texto original, traz artigos de estudiosos com comentários sobre o livro – também pode ser obtida na internet, mais precisamente no site da Scielo. Júnia Ferreira Furtado pretende publicar uma nova edição do Erário mineral na qual vai incorporar 50 páginas redigidas por Gomes Ferreira para uma edição dos anos 1750 do livro.
Página do Erário mineral, de 1735, e retrato de luís gomes ferreira: curas prescritas por um prático
Presença de Paulo Emilio
seminário, livro e projetos de edição de textos do
crítico confirmam seu papel central na cultura
um interesse especial pela figura de Paulo Emilio Salles Gomes, como crítico, pesquisador e professor, notável desde sua morte em 1977, ganhou expressão singular neste ano. O 45º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro o homenageou com um seminário que reuniu críticos, cineastas, professores e estudantes num debate sobre seu legado; em paralelo ao seminário foi publicado o livro organizado por Maria do Rosário Caetano, O homem que amava o cinema e nós que o amávamos tanto, uma coleção de artigos e depoimentos que veio confirmar seu papel central na cultura e na formação de novas gerações desde o final dos anos 1950, quando sua intervenção crítica teve enorme repercussão a partir de sua coluna no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo.
Em setembro, o grupo de pesquisa Formação do Brasil Moderno, coordenado por pesquisado -
Paulo Emilio na sede da cinemateca Brasileira, 1975, são Paulo
Ismail Xavier
res da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), debateu as reflexões de Paulo Emilio sobre o percurso do cinema brasileiro. No seminário de estudos anual, o grupo inseriu, desse modo, a questão do cinema em seu campo de interrogações centrado na avaliação e atualização da problemática desenvolvida por Antonio Candido em seu clássico livro Formação da literatura brasileira, de 1959.
Na Inglaterra, professores do King’s College (Universidade de Londres), coordenados por Maite Conde, preparam um livro com seleção de textos de Paulo Emilio. No Brasil, está em andamento a edição de inéditos e a reedição de seus textos publicados aqui e no exterior, projeto coordenado por Carlos Augusto Calil para a Editora Cosac Naify, com o apoio da Cinemateca Brasileira.
Essas iniciativas marcam a amplitude da interlocução alcançada por ele a partir de sua intervenção na imprensa, sua luta pela Cinemateca e sua atividade como professor pesquisador. Esta última se iniciou nos anos 1960, momento em que o cinema, em muitos países, encontrou lugar na academia como área de pesquisa. Se era comum universidades incorporarem a experiência dos críticos e dos historiadores ligados às cinematecas, no caso da USP houve uma migração da cultura da Cinemateca brasileira, através dos primeiros professores de cinema da ECA, em 1967, como Paulo Emilio, Rudá de Andrade e Jean-Claude Bernardet.
Paulo Emilio estudou filosofia na USP no início dos anos 1940, momento em que criou o Clube de Cinema da Filosofia, iniciativa simultânea à fundação da revista Clima pelo grupo de jovens amigos que tiveram enorme impacto na história da crítica de cultura no Brasil: Antonio Candido, Décio de Almeida Prado, Paulo Emilio, Gilda de Mello e Souza, Ruy Coelho, Lourival Gomes Machado. Foi o momento em que se configuraram as indagações do grupo no plano da história cultural, e sua pergunta pelo processo de formação dirigida aos vários setores da cultura brasileira, seu empenho em consolidar, no terreno do ensaio e da pesquisa erudita, um espírito de atualização herdado do Modernismo. Tal espírito se expressou mais tarde na fundação da Cinemateca brasileira, em 1954, liderada por um Paulo Emilio ciente de que um arquivo de filmes era condição para levar os estudos do cinema no Brasil a novo patamar, viabilizando pesquisas e atuando como centro formador. Nas universidades, seu esforço de organização do campo se consolida e seu poder aglutinador dá vida à pesquisa cinematográfica na USP, após sua experiência de ensino na Universidade de Brasília em 1964-65.
A par da força de sua escrita que nos encanta e esclarece, Paulo Emilio é presença singular
Paulo Emilio entre os alunos e a apreciação do cinema, no curso da UnB, em registro também incomum
c apa da revista
Clima e do livro de ruy coelho sobre o movimento paulista
porque marcou de forma notável os que o conheceram. Erudição, sensibilidade política e rara personalidade permitiram ao intelectual empenhado uma forma de atenção a situações concretas de que resultaram as sínteses mais argutas de que dispomos. Sínteses que, partindo do cinema, iluminaram aspectos da cultura e da formação social brasileiras. Neste sentido, o que lhe devemos é a afirmação de um espírito de pesquisa ao mesmo tempo rigoroso e abrangente, capaz de definir um projeto de longo alcance que fez convergir inclinações particulares para uma investigação compreensiva da cultura, articulando diferentes aspectos do trabalho intelectual – história, crítica e teoria. Enfim, um resultado auspicioso de sua paixão pelo concreto, apontada por Gilda de Mello e Souza como o seu traço por excelência. n
Principais livros de Paulo Emilio sobre cinema: Jean Vigo [1957], cosac naify, Edições sesc sP, 2009; Humberto Mauro, Cataguazes, Cinearte, Perspectiva, 1974; Cinema: trajetória no subdesenvolvimento, Paz e Terra, 1980; Crítica de cinema no Suplemento Literário, 2 v., Paz e Terra, 1982; Paulo Emilio: um intelectual na linha de frente, c arlos c alil e Teresa Machado (orgs.), Brasiliense-Embrafilme,1986
*o comentário de gilda de Mello e souza está no artigo “Paulo Emilio: a crítica como perícia”, in O Baile das quatro artes –Exercícios de leitura (são Paulo, livraria Duas cidades, 1980).
Estímulo e resposta
c arlos c astelo
rebeca Richardson resolvera agora apoiar a mão direita sobre o queixo.
A posição na mesa da biblioteca era incômoda. Precisava esticar-se de quando em vez, alongar bem a coluna para poder voltar à leitura.
É bastante difundido o estudo do efeito de liberação de alimento a intervalos de tempo fixo e variável em pombos promovido por Skinner. Os animais foram dispostos numa caixa. E, desconsiderando seu comportamento, um alimento era liberado para que o consumissem.
Iniciava-se a temporada do calor úmido em São Paulo, ambiente bem diverso do Finsbury Park londrino de onde viera para o Brasil há dois anos, recém-casada e recém-formada em psicologia.
O psicólogo notou que, por um tempo determinado, os pombos agiam como se o alimento fosse associado ao que faziam. Um deles, por exemplo, começou a mexer a cabeça para um lado e para o outro. Um segundo animal promovia volteios na gaiola. E assim por diante.
A tese de mestrado na universidade a fizera tomar contato com autores e conceitos que não eram propriamente de sua preferência, para dizer a verdade. A maioria eram ideias comportamentais de Burrhus Skinner.
Esse padrão de comportamento das aves foi cunhado por Skinner de supersticioso. Tal trabalho de investigação comportamental foi extremamente valioso para toda uma geração de pesquisas relativas à superstição em psicologia experimental.
Largou o livro pesadamente sobre a mesa iluminada apenas por um spot . A intensidade do gesto foi tal que os outros pesquisadores a olharam de modo reprovador.
A frase “os pombos podem ser supersticiosos”, em especial, a deixara mais irritada que o normal. Sua formação como psicóloga a fazia sempre pensar nas entrelinhas, nos sonhos e outros meandros
da existência. E ela sabia que o fato de lançar a brochura daquela maneira tão inadequada não era apenas uma prosaica neurastenia.
Desde que o tema “comportamento operante” entrara por seus olhos verdes e míopes, encharcara sua pele branca e aveludada, que tudo se transformara numa crônica falta de paciência.
O fato é que preferia a escola de Carl Rogers, diametralmente oposta ao pensamento determinista skinneriano. Não podia aceitar que fatores como controle e previsibilidade sobrepujassem os de liberdade e realização pessoal. Mais: que a clássica teoria do “estímulo-resposta” pudesse ainda hoje conviver com estudos mais contemporâneos. Notava que, ao começar a folhear aqueles livros – os de Pavlov também –, suas faces abrasavam-se. A raiva ganhava fortes contornos e, de uns dias para cá, a acompanhava até depois que deixava a biblioteca e ia para casa.
As lembranças da família em Londres, as dificuldades em se relacionar com os locais e especialmente as relações com o marido a irritavam de maneira despropositada. A sorte – se é que isso não é uma superstição – era Jim ser muito paciente. Tratava-a como uma princesa. Sua fala era calma e pausada, ainda agora quando Rebeca dirigia-se a ele de modo áspero.
Moravam há um tempo considerável em São Paulo, mas ainda não tinham um núcleo fixo de amigos. Talvez fosse o que apoquentava a esposa, prejulgava Jim – que era físico e bem menos afeito que ela às idiossincrasias da mente humana. Por isso tinham ido àquela festa dias atrás.
Ambos viviam para os estudos. Era preciso extravasar um pouco de vez em quando. Aconteceu no apartamento de Ximenes, um funcionário do Departamento de Biologia da universidade. Algo bem simples, cada um levava suas latinhas de cerveja e algum petisco. Rebeca preparou um britânico kidney pudding, que ficou totalmente esquecido sobre a mesa da cozinha, ao lado de garrafas de vinho, vodca, cascos de cerveja e cinzeiros cheios de pontas de cigarros de maconha.
Rebeca inicialmente desgostou-se com os sons altíssimos provenientes das caixas. A música era
boa, mas os hábitos dos brasileiros, suas danças extravagantes, meneios e a excessive familiarity cansavam-lhe a alma.
Deixou Jim na cozinha experimentando uma caipirinha preparada pela namorada de Ximenes e encostou-se numa quina da sala para observar a movimentação. Alguns casais dançavam colados, outros mais soltos. O calor que emanava de seus corpos suados e em movimento embaçava os vitrôs do vetusto apartamento. Depois de alguns minutos de frenesi, a música cessou e um rapaz moreno, troncudo e com uma tatuagem de cobra no antebraço pegou do violão e entoou uma dolente canção.
O intermediate Portuguese de Rebeca não conseguiu compreender quase nada da letra, mas a repetição do refrão e o tom a deixaram inebriada. O rapaz moreno cantou mais três peças.
Rebeca, até então distante e calada, decidiu perguntar a uma estudante de serviço social, que aguardava a vez de ir ao banheiro, quem era o cantor. — É o Toni, ele é de Pernambuco e tem uma banda. Vão se apresentar só essa semana em São Paulo. Depois voltam pro Nordeste.
Jim, que se embriagava com facilidade, veio abraçar Rebeca dizendo com voz pastosa: time to go Para sua admiração, a esposa, que raramente bebia, respondeu o pedido com um sorriso radiante: — Just one for the road?
Ficaram até Toni pegar o violão e sair andando pela calçada, o sol nascendo como moldura.
Os livros de Skinner agora tinham que ser deixados quase que instantaneamente de lado após uma breve leitura. A irritação à simples visão do termo “behaviorista” transformava-se em ódio quase físico. Mesmo o fato de continuar estudando psicologia passou a ser colocado em xeque. Discutira isso com Jim certa noite e acabaram por se
machucar bastante com as palavras. Passaram-se alguns dias e o silêncio continuava insistindo em pesar entre os dois como uma pedra fundamental. Num final de tarde, na biblioteca da universidade, Rebeca decidiu digitar num programa de busca o nome da banda de Toni. A nota de um portal de cultura saltou na tela informando que ainda se apresentavam em São Paulo. E muito perto de onde ela estava. Sem pensar levantou-se, pegou um táxi e dirigiu-se ao teatro. Assistiu ao show anonimamente.
Quando teve início a música que Toni cantara na festa, Rebeca levantou-se da poltrona e postou-se numa quina do teatro. Na mesma posição em que a ouvira aquela noite no apartamento de Ximenes. Haveria ainda mais duas apresentações da banda. Rebeca compareceu a todas. E, sempre que aquela canção começava, repetia o gesto de ir para a quina do teatro para ouvi-la de pé. Na saída do último espetáculo deixou que Toni a notasse. Ele a olhou como se tivesse uma lembrança remota de que a conhecia. Ela respirou fundo, venceu a inércia da timidez e foi até ele. Falou, firme, com seu sotaque habitual:
— Eu te vi cantando no apartamento e agora vim te ver no show
Toni deu um meio sorriso. Beijou-lhe a bochecha, quase fraternalmente e voltou ao camarim carregando a tatuagem de cobra no antebraço. Rebeca e Jim voltaram a se falar, planejam agora ter um filho quando ela terminar sua tese de mestrado sobre a confluência entre Wilhelm Reich e a semiótica. E, para evitar aborrecimentos, ela nunca mais leu sequer uma linha de Skinner.
carlos castelo é escritor, compositor e um dos criadores do grupo musical língua de Trapo. autor, entre outros, de O caseiro do presidente (nova alexandria) e Orações insubordinadas (ateliê Editorial).
o leitor em percurso cósmico
S.
genômica e evolução –moléculas, organismos e sociedades
francisco M. salzano oficina de Textos
274 páginas, r$ 64,00
novas descobertas, inovações e contestações desafiam, no mundo da ciência, a elaboração de textos robustos, abrangentes e atuais. Nesse cenário, a genética impõe-se soberana. Patrona de todas as formas de vida, com complexa origem interdisciplinar, a genética cresce no impulso dos avanços das tecnologias capazes de explorar códigos dos seres vivos, retroiluminar histórias evolutivas, manipular genomas, revelar fenômenos epigenéticos e unir, cada vez mais, vida biológica e ambiente. Por tudo isso, poucos geneticistas conseguem, isoladamente, englobar em um só livro temas de genômica, evolução, moléculas, organismos e sociedades. Francisco M. Salzano, todavia, com respaldo no próprio currículo científico, produz um livro que põe o leitor em percurso cósmico da origem do Universo às questões das ações afirmativas do Brasil atual. Teorias sobre origem da vida e extraordinária riqueza de dados sobre diversidade genética, genômica e funcional reafirmam a amplitude de conhecimentos do autor. Visões “histórico-filosóficas” do mundo desde a Grécia clássica e considerações filosóficas atuais são também discutidas com pinceladas de opiniões pessoais, quase sempre polêmicas. O conteúdo central do livro, todavia, reafirma a maestria do autor naquilo que domina por formação e devoção: genética, evolução, genômica, genomas humanos e não humanos. O autor “solo” também traduz notória competência na articulação de enorme quantidade de conhecimentos visando condensá-los em volume único. Ao longo de todo o livro, recorre, e com bom efeito didático, a sínteses de informações compactadas em tabelas, boxes e quadros, além de algumas figuras e gráficos. Ainda que o livro esteja destinado a estudantes, colegas e “leitor bem informado”, será dos estudantes o maior benefício como fonte indispensável de consulta
sobre quase tudo em genética-genômica. Apenas os avanços sobre fenômenos epigenéticos deixarão o consultor sem resposta, o que em nada decresce o mérito do livro.
Poucos geneticistas conseguem, isoladamente, englobar em um só livro temas de genômica, evolução, moléculas, organismos e sociedades
Tradicionais posições pessoais do autor sobre questões sociais específicas fazem-se presentes, e às vezes em redação que foge do estilo científico e migra para o mundo da emoção. Não obstante a ampla cultura geral do autor percebe-se escapar-lhe a percepção (ou aceitação) que a diversidade cultural da humanidade inclui crenças e religiosidades como traços antropológicos da espécie. Vincular anticiência à religiosidade é generalizar preconceitos. Por outro lado, remeter aos oprimidos a responsabilidade pela própria situação, assim como identificar nos ignorantes a culpa pela ignorância científica, parece pretender inocentar os opressores e retirar dos cientistas a responsabilidade de compartilhar seus saberes com as massas. A opção pela eliminação das crenças místicas e míticas a fim de construir um futuro otimista para a humanidade é refutada pela existência e pelo valor da contribuição de respeitáveis cientistas religiosos, no Brasil e no exterior. A ausência de citações de leituras sobre ética, bioética e integridade científica fundamenta o livro apenas nas visões pessoais do autor.
Não há dúvida de que a ciência contribuiu, sim, para uma melhoria da vida no mundo, conforme afirma o autor, mas também assim o fizeram a ética, a filosofia, as artes plásticas, a literatura, a música, a poesia etc. Finalmente, o livro Genômica e evolução – Moléculas, organismos e sociedades traz a dupla marca de Francisco M. Salzano: competência científica e depreciação da cultura religiosa dos povos.
Eliane
Azevêdo
Eliane S. Azevêdo é pesquisadora em genética e bioética, professora emérita da faculdade de Medicina e ex-reitora da Universidade federal da Bahia (UfBa).
Da “alteridade” à produção da diferença
m elvina Afra m endes de Araújo
Selvagens, civilizados, autênticos: a produção das diferenças nas etnografias salesianas (1920-1970)
Paula Montero Edusp
520 páginas, r$ 72,00
oproblema do deciframento do “outro” – ou da alteridade – constitui-se objeto privilegiado da antropologia. No entanto, se, desde meados do século XIX, esse interesse se expressa na descrição dos “outros” não ocidentais a partir de categorias cunhadas com base na organização social própria das sociedades ocidentais, o advento da descolonização e consequente redução das distâncias morais entre os “nós” e os “outros” nos impulsionam a olhar para a constituição destes de outra forma. E é, sobretudo, este o convite feito por Paula Montero em Selvagens, civilizados, autênticos. Ao tomar como objeto de análise as etnografias elaboradas por missionários salesianos sobre populações indígenas brasileiras – Bororo, Xavante e indígenas do alto rio Negro –, a autora pretende pensar como a prática missionária traduziu simbolicamente a alteridade em diferença, reduzindo um “outro” ininteligível a um diferente. Para tanto, Paula analisa a escrita missionária e seu modo de descrever os índios, partindo do pressuposto de que a forma como estes são descritos está intimamente relacionada ao modo como a convivência entre índios e missionários se desenrola. Esta suposição, bem como a análise realizada a partir dela, traz importantes consequências para o modo como o fazer antropológico foi e ainda é pensado e praticado.
Em primeiro lugar, esta empresa supõe uma análise que leve em consideração as mudanças nas relações entre índios e missionários decorrentes do desenvolvimento de sua convivência, levando em consideração o modo como se relacionam, as trocas materiais e simbólicas efetuadas, as posições destes agentes frente a questões envolvendo colonos, agentes do Estado etc., bem como as transformações advindas com o passar do tempo. Esse tipo de observação permite decifrar as grades de leitura que tornaram possível a esses missionários formularem determinados tipos de concepção sobre esses índios. Ou seja, trata-se de um investimento num tipo de estudo que envolve a comparação ao longo do tempo e que também atente para as especificidades existentes no interior do contexto de cada missão. Por outro lado, supõe que a alteridade não é constituída ontologicamente, mas construída a partir do modo como os “outros” são descritos. Ou seja, trata-se de um investimento que coloca
em evidência a forma como a própria antropologia foi constituída. Nesse sentido, vale destacar que o modo como a antropologia formulou suas questões relaciona-se intimamente ao tipo de inquietação dos missionários em seus esforços de compreensão e descrição das populações nativas com as quais trabalhavam. Assim, temas como parentesco ou família, religião e magia, cultura ou civilização constituíram-se como categorias formadoras de um quadro de referências que permitiu a uns e a outros “traduzir” os nativos em termos passíveis de serem compreendidos no mundo ocidental. Este tipo de perspectiva nos convida a sair do registro do contato, que marca boa parte dos estudos voltados a temas relativos às missões entre populações nativas, e a pensar esses quadros descritivos como constituídos a partir de relações entre mediadores. Isso implica, portanto, deixar de lado análises baseadas no encontro de cosmologias, e, por consequência, da existência de “outros” ontologicamente diferentes, e passar a uma análise focada na observação do modo como os agentes constroem simbólica e praticamente os termos e possibilidades de suas relações. Estas possibilidades não são, como quiseram entender certos leitores da teoria da mediação, baseadas em acordos ou consensos construídos pacificamente ou sem a existência de conflitos. As noções de acordo e consenso aqui mobilizadas dizem respeito aos resultados de negociações práticas e simbólicas eivadas de disputas, mas que, de um modo ou de outro, permitiram o início ou a continuidade da convivência.
Por fim, Paula Montero em Selvagens, civilizados, autênticos nos brinda com um texto, ao mesmo tempo, denso, saboroso e emocionante. Denso pelas razões já expostas acima e por conta da maneira como tece relações entre temas, contextos e teorias. Saboroso porque bem escrito e envolvente. Emocionante pelas aventuras narradas e por colocar em cena o rigor acadêmico, a seriedade da análise, a clareza com que os argumentos são demonstrados e a provocação que sempre marcaram o estilo desta que é mestre no verdadeiro sentido do termo.
melvina Afra mendes de Araújo é professora de ciências sociais da Universidade federal de são Paulo (Unifesp) e pesquisadora do centro Brasileiro de análise e Pesquisa (cebrap).
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February 3 - 8, 2013 | São Paulo, Brazil
The main goal of the São Paulo Advanced School is to promote creative discussions on molecular oncology, from its concepts to its potential translation into practice. The program will gather experts in cancer biology and treatment of cancer creating an exceptional environment for learning and for sharing information based on cutting-edge science.
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apresentado por Mariluce Moura, diretora de redação da revista Pesquisa faPesP, e por c elso filho, diretor da rádio UsP, o Pesquisa b rasil traz informações de ciência, tecnologia, meio ambiente, humanidades.
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Por isso, um de nossos valores é o Empreendedorismo, que nos move ao questionamento e à ousadia.
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Com uma equipe própria de pesquisadores, técnicos e profissionais, em uma unidade voltada exclusivamente à Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, a Biolab atende aos padrões internacionais de excelência requeridos. Estabelecemos parcerias sólidas, com instituições de ensino e pesquisa e demais organizações que, como nós, assumem com paixão a missão de levar mais qualidade de vida e saúde às pessoas.
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