Adquirido pelo brasil com pacote de transferência tecnológica, o primeiro caça sueco gripen está prestes a iniciar testes em voo
Olimpíada para mulheres impulsiona interesse pela matemática
Arquiteto Roberto Monte-Mor analisa a expansão das cidades sobre o campo
Instituto Pasteur de Paris cria base de pesquisa em São Paulo em parceria com USP e Fiocruz
Com recursos diversificados e amplo leque de estudos, Cebrap celebra 50 anos
Homem pode ter deixado a África há 2,5 milhões de anos, antes do que se pensava
Agosto de 2019 | Ano 20, n. 282
la, está na base do sucesso do programa Embrapa de melhoramento da cevada. “As quatro maltarias instaladas no país duas da Ambev, no Rio Grande do Sul, uma da Cooperativa Agrária Industrial, em Guarapuava [PR], e uma da Malteria do Vale, em São Paulo – são parceiras da Embrapa”, informa Minella. Outro fator que explica o êxito da iniciativa é a tec nologia por trás da criação dos novos cultivares. “Pelo método tradicional de melhoramento genético, um novo culti var leva pelo menos seis anos para fixar suas características genéticas. Depois disso, são necessários mais quatro anos em testes de campo para avaliação de rendimento, da qualidade do grão e de resistência a doenças”, explica Minella. Na Embrapa Trigo, os cientistas usam técnica de haplodiploidização, com o desenvolvimento vadas de gametas (células reprodutivas), portadoras da metade do genoma, que de forma espontânea ou artificial dá origem linhagens duplo-haploides. “Assim, alcançamos uma nova linhagem pura
Ela tem uma e cresce se metros de senvolvimento, por dia. Por giões de clima Norte, ela ções do país, usado pelas torno de 2,4 custo de cerca poucos anos de lúpulo era de pesquisadores está mudando
“Ter um importante dermos mais principalmente, escola cervejeira nheiro-agrônomo desde 2012 consultoria ba (PR), ele o mestrado
Universidade Além de baixas para que a safio para exposição o fotoperíodo, varia pouco bom para a O pesquisador pulo produzir
F otol A b
O cONhEciMENtO EM iMAgENS
Sua pesquisa rende fotos bonitas? Mande para imagempesquisa@fapesp.br
Seu trabalho poderá ser publicado na revista.
Por dentro dos cipós
Na floresta, os cipós – ou lianas – precisam ser flexíveis para resistir ao esbarrão de um tamanduá ou a um macaco pendurado. Em cortes muito finos e tingidos com corantes, esses caules revelam as partes mais rígidas em vermelho, com poros pelos quais trafega a água, e em azul as flexíveis, por onde passam os açúcares produzidos pelas folhas. A distribuição desses tecidos varia muito e confere propriedades diferentes às plantas. Algumas vergam-se muito e podem ser cortadas como manteiga (à dir.), outras têm uma estrutura em cruz (acima e no alto), que garante flexibilidade. Os padrões também ajudam os especialistas a reconhecer famílias vegetais mesmo na ausência de folhas ou flores.
Imagens enviadas pelo anatomista botânico brasileiro
Marcelo Rodrigo Pace, pesquisador na Universidade Nacional Autônoma do México
Stigmaphyllon acuminatum
Styzophyllym riparium
Perianthomega vellozoi
Caças suecos durante a campanha de ensaios em voo
POLÍTICA C&T
18 Caça sueco Gripen comprado pelo Brasil deverá iniciar testes em voo este mês
Foto de capa Gripen E da Força Aérea Sueca, similar ao modelo comprado pelo Brasil
LinuS SvEnSSon / SAAB
32 Autonomia estimulou universidades estaduais paulistas a buscar indicadores de excelência
36 Repositórios ampliam oferta de artigos em acesso aberto
38 Estudo mostra como políticos usam pesquisas para tomar decisões
42 Olimpíada para garotas tenta aumentar a participação feminina na matemática
46
Para Jean-Pierre Bourguignon, presidente do ERC, projetos arriscados fazem a ciência avançar
CIÊNCIA
50 Artefatos de pedra achados na Jordânia sugerem que humanos deixaram a África há 2,5 milhões de anos
54 Fragmento de crânio encontrado na Grécia seria o vestígio mais antigo do H. sapiens fora do continente africano
56 Instituto Pasteur de Paris, USP e Fiocruz iniciam parceria
60 Menos gasto em saúde pode frear ritmo de queda do índice de mortes prematuras ENTREVISTA Roberto Monte-Mor Arquiteto coordena equipe da UFMG no planejamento da Grande Belo Horizonte p. 26
62 Praias, rios e manguezais cobriam cadeia montanhosa hoje submersa
66 Pesquisadores medem a movimentação de dunas no Maranhão
TECNOLO g IA
68 Novo sistema de vigilância vai monitorar fronteiras brasileiras
73 Embrapa cria cultivares de café para a Amazônia
74 Software deve melhorar tratamento radioterápico contra câncer
HUMANIDADES
76 Cebrap chega aos 50 anos com múltiplos objetos de pesquisa e fontes diversas de financiamento
CAPA
p. 76 p. 62
82 Colégios de aplicação valem-se do saber científico para enfrentar desafios pedagógicos
86 Iniciativas buscam recuperar obra de filósofas e investigar sub-representação feminina
SEÇÕES
3 FotoLAB
6 ComEntárioS
7 C ArtA dA E ditor A
8 BoAS prátiCAS
Criador do blog Retraction Watch, Ivan Oransky expõe trajetória do combate à má conduta
11 dAdoS
Estudantes de baixa renda ampliam participação no ensino superior
12 notAS
90 oBituário
Francisco de Oliveira (1933-2019)
91 rESEnhA
Tarsila do Amaral, a modernista, de Nádia Battella Gotlib. Por Priscila Sacchettin
92 mEmóriA
Vidas secas, de Graciliano Ramos, é fundamental à construção do imaginário brasileiro
96 C ArrEir AS A importância da língua inglesa para a produção e a divulgação da ciência
Leia no site todos os textos da revista em português, inglês e espanhol, além de conteúdo exclusivo
vídeo yOUTUb E COM/USER/PESqUISA fAPESP
Como os vídeos podem colaborar com a pesquisa científica
Revistas publicam videoarte para dar mais transparência e didatismo a experimentos bit.ly/igVVideoArtigos
O físico que trouxe o laser para o Brasil
Sérgio Porto contribuiu para a introdução e a aplicação da tecnologia em diversas áreas no país bit.ly/igVSergioPorto
pod C ast b IT Ly/PESqUISAbR
especial 50 anos da chegada do homem à Lua
Os engenheiros José Bezerra Pessoa Filho e Lucas Fonseca falam sobre o impacto da conquista da Lua e os novos planos para explorar o satélite bit.ly/igPBR19jul19
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Mesmo tendo chegado ao Instituto de Física da Unicamp em 1975, encontrei algo que não conhecia nesse vídeo (“O físico que trouxe o laser para o Brasil”). Para quem o conheceu, e até pode perceber nas fotos, a mirada sagaz de Sérgio Porto era a marca de sua figura.
José Lunazzi
Uma alegria ver esse vídeo. Era irmão de meu pai e o conheci quando criança. Em nome da família, agradeço a homenagem.
Haroldo Pereira da Silva Porto Júnior
O trabalho “Como os vídeos podem colaborar com a pesquisa científica” é muito importante. Tanto permite perceber detalhes procedimentais que explicam diferentes resultados quanto mostra a criatividade dos pesquisadores em contornar suas privações no exercício da profissão.
Felipe Tadeu Fiorini Gomide
A pesquisa se adaptando às novas realidades.
Gabryella Rodrigues da Silva
Muito interessante. Legal saber que já temos um novo formato para divulgar a ciência. Parabéns a Atila Iamarino por participar dessa inciativa.
Daniel Gomes
Plásticos
Excelente reportagem sobre plásticos (“Planeta plástico”, edição 281). Embora tenha uma grande importância na medicina
com seus materiais descartáveis, é também o maior poluidor.
Anderson Santos
Volta à Lua
Gostei muito do retrospecto “Da guerra ao espaço” e do infográfico “Pioneiros no espaço” com a sequência de feitos da disputa URSS versus EUA (edição 280). A efeméride teve ótima edição de Pesquisa FAPESP
Fabrício Cunha
Boas práticas
Há que se pensar como promover a pesquisa científica e desestimular o plágio e as distorções dos dados sem cairmos no excesso de controle (“Mecanismos de autocorreção da ciência”, edição 280). Fazer ciência é aprender a ser responsável diante do objeto de estudo.
Rodrigo Pissara
France Córdova
Na entrevista da diretora da National Science Foundation, France Córdova (“Para entender a natureza das coisas”, edição 280), está o melhor diagnóstico que já li sobre financiamento privado versus público: “As empresas procuram retorno no curto prazo, precisam dar satisfação e rentabilidade aos acionistas. Em nosso caso, muitos de nossos acionistas nem sequer nasceram”.
Lazaro Eustaquio Pereira Peres
Sua opinião é bem-vinda. As mensagens poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.
A mais lida em julho no Facebook
arqu E ologia
Achado na Jordânia indica que homem pode ter saído da África 400 mil anos antes do que se pensava
carta da editora
Fundação
Marco antonio zago
Presidente
eduardo Moacyr Krieger
vice-Presidente
COnSElHO SUPErIOr
c arMino antonio de Souza, eduardo Moacyr Krieger, ignacio Maria Poveda velaSco, João Fernando goMeS de oliveira, JoSé de Souza MartinS liedi legi bariani bernucci, Marco antonio z ago, Marilza vieira cunha rudge, Pedro luiz barreiroS PaSSoS, Pedro WongtSchoWSKi, ronaldo aloiSe Pilli e vanderlan da Silva bolzani
COnSElHO TéCnICO-AdmInISTr ATIvO
c arloS aMérico Pacheco
d iretor-Presidente
c arloS henrique de brito cruz d iretor científico
Fernando MenezeS de alMeida d iretor administrativo
iSSn 1519-8774
COnSElHO EdITOrIAl carlos henrique de brito cruz (Presidente), caio túlio costa, eugênio bucci, Fernando reinach, José eduardo Krieger, luiz davidovich, Marcelo Knobel, Maria hermínia tavares de almeida, Marisa lajolo, Maurício tuffani e Mônica teixeira
COmITê CIEnTíFICO
luiz henrique lopes dos Santos (Presidente), américo Martins craveiro, anamaria aranha camargo, ana Maria Fonseca almeida, carlos américo Pacheco, carlos eduardo negrão, douglas eduardo zampieri, euclides de Mesquita neto, Fabio Kon, Francisco antônio bezerra coutinho, Francisco rafael Martins laurindo, hernan chaimovich, José roberto de França arruda, José roberto Postali Parra, lucio angnes, luiz nunes de oliveira, Marco antonio zago, Marie-anne van Sluys, Maria Julia Manso alves, Paula Montero, roberto Marcondes cesar Júnior, Sérgio robles reis queiroz, Wagner caradori do amaral e Walter colli
COOrdEnAdOr CIEnTíFICO
luiz henrique lopes dos Santos
dIrETOr A dE rEdAçãO
alexandra ozorio de almeida
EdITOr- CHEFE
neldson Marcolin
EdITOrES Fabrício Marques (Política C&T), glenda Mezarobba (Humanidades), Marcos Pivetta (Ciência) carlos Fioravanti e ricardo zorzetto (Editores especiais) Maria guimarães (Site) bruno de Pierro e yuri vasconcelos (Editores-assistentes)
rEPórTErES christina queiroz, rodrigo de oliveira andrade
rEdATOrES Jayne oliveira (Site) e renata oliveira do Prado (Mídias Sociais)
ArTE Mayumi okuyama (Editora) alexandre affonso (Editor de infografia) Felipe braz (Designer digital), Júlia cherem rodrigues e Maria cecilia Felli (Assistentes)
FOTógr AFO léo ramos chaves
bAnCO dE ImAgEnS valter rodrigues
rádIO Sarah caravieri (Produção do programa Pesquisa brasil) rE vISãO alexandre oliveira e Margô negro
COlAbOr AdOrES anita Prades, augusto zambonato, catarina bessel, domingos zaparolli, Fabio otubo, Frances Jones, Márcio Ferrari, olga de Mello, Priscila Sacchettin, Sidnei Santos de oliveira, renato Pedrosa, veridiana Scarpelli
rE vISãO TéCnICA archimedes Perez Filho, Karl heinz Kienitz, laercio Franco, luiz augusto toledo Machado, Maria beatriz borba Florenzano, Maria rita Passos bueno, Paulo Mazzafera
é PrOIbIdA A rEPrOdUçãO TOTAl OU PArCIAl dE TE xTOS FOTOS IlUSTr AçõES E InFOgráFICOS SEm PrévIA AUTOrIz AçãO
gESTãO AdmInISTr ATIvA FuSP – Fundação de aPoio À univerSidade de São Paulo
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Secretaria de deSenvolviMento econôMico, ciência, tecnologia e inovação gOvErnO dO ESTAdO dE SãO PAUlO
Compra de tecnologia
Ozorio de Almeida | diretora de redação
Há cinco anos, o governo brasileiro assinava o contrato para a aquisição de um lote de jatos militares da empresa sueca Saab. O primeiro modelo do caça de nova geração Gripen E está programado para decolar da cidade de Linköping, na Suécia, para iniciar a partir deste mês a campanha de ensaios em voo, a última etapa antes da entrega, prevista para 2021 –inicialmente, o prazo era 2019.
A escolha do fornecedor do Programa FX-2, de modernização da frota brasileira de aviões de combate, envolveu uma concorrência acirrada e mais de dez anos, culminando no contrato com a Saab no valor de US$ 4,1 bilhões por 36 aviões, assinado em 2014. O fator determinante na decisão teria sido a possibilidade de contribuição de empresas brasileiras no desenvolvimento dos caças – não se tratava da compra de um produto pronto – e do acordo de compensação comercial proposto pela empresa sueca. Avaliado em US$ 9 bilhões, incluiu um programa de transferência de tecnologia (ToT) para empresas brasileiras.
Até a formalização da compra o projeto de desenvolvimento dos caças avançou bastante, reduzindo, portanto, o escopo da participação brasileira, mas as empresas locais que integram o programa de ToT avaliam positivamente a iniciativa. Lideradas pela Embraer, contribuem com componentes como as telas que equipam as cabines dos jatos e partes da fuselagem – para a sua produção, há plano de instalação de uma fábrica no Brasil em 2020. Tecnologias sendo absorvidas envolvem simuladores e apoio logístico, entre outras. Reportagem de capa desta edição (página 18) apresenta o projeto, de duração prevista até 2024.
Seu sucesso dependerá da execução orçamentária e de ações articuladas entre a Força Aérea e as empresas envolvidas. Neste ano completou 50 anos o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Fundado em 1969, um dos momentos mais sombrios da ditadura militar (1964-1985), permitiu a uma equipe multidisciplinar de pesquisadores cassados de suas universidades continuar seu trabalho de investigação científica da realidade brasileira. Foi lá que a demógrafa Elza Berquó realizou trabalhos pioneiros sobre a reprodução humana na cidade de São Paulo. O Cebrap conseguiu, por meio do endowment constituído pela Fundação Ford e de uma política de financiamento diversificada, equilibrando recursos públicos e privados, sustentar-se como um centro privado sem fins lucrativos. Com um portfólio de cerca de 500 projetos de pesquisa desenvolvidos até hoje, mantem-se como um polo vibrante de produção de conhecimento sobre questões políticas, econômicas e sociais, trabalhando em conjunto com outros atores da sociedade civil em áreas como estudos da metrópole, análise da relação entre as políticas públicas e a redução da desigualdade, inclusão digital e inovação tecnológica (página 76).
À equipe inicial, composta por José Artur Giannotti, Fernando Henrique Cardoso e Cândido Procópio Ferreira de Camargo, juntou-se o sociólogo pernambucano Francisco de Oliveira, que morreu aos 85 anos em julho (página 90).
Chico de Oliveira, como era conhecido, trabalhou com Celso Furtado na Sudene de 1959 a 1964 e promovia um diálogo entre a sociologia e a economia política em sua pesquisa sobre as ambiguidades do processo de modernização do país.
Alexandra
Boas práticas
“Vejo casos demais em que nada acontece”
Criador do blog Retraction Watch, o jornalista Ivan Oransky conta como o combate à má conduta científica evoluiu nos últimos anos
Alexandra Ozorio de Almeida, de Lausanne
ojornalista norte-americano Ivan Oransky já tinha vários anos de carreira quando decidiu, com o colega Adam Marcus, também especializado em saúde, lançar um blog sobre um tema quase obscuro: as retratações de artigos científicos. A publicação de resultados é uma parte fundamental da ciência moderna: milhões de papers são publicados anualmente no mundo e, às vezes, esses documentos contêm erros. Para retificá-los, existem recursos como erratas e, em casos extremos, um artigo pode ser retratado, isto é, a revista que o publicou anuncia que os resultados nele descritos são cientificamente inexistentes. Uma parcela das retratações se deve à má conduta científica, como plágio, fabricação ou falsificação de dados.
Assim nasceu o blog Retraction Watch, hoje no radar de publicações acadêmicas e jornalísticas, cientistas e pessoas interessadas em questões relacionadas às boas práticas científicas, que alcança 150 mil visitantes únicos por mês. No primeiro post, em agosto de 2010, Oransky e Marcus justificaram a empreitada. Apesar de a ciência ter importantes mecanismos de autocorreção, eles diziam, esse processo pode ser muito demorado. Citaram como exemplo os 12 anos entre a publicação do notório paper de Andrew Wakefield, que ligava autismo a vacinas, e sua retratação pela The Lancet, seis anos depois que suspeitas
importantes sobre o trabalho haviam sido trazidas a público por um jornalista. Em segundo lugar, argumentaram que, exceto em casos como o de Wakefield, o espectro das retratações permanece obscuro, daí a ideia de formar um repositório informal, que evoluiu para um banco de dados, hoje com 19,5 mil retratações. Em terceiro lugar, serviria como fonte para jornalistas interessados em reportar fraudes e o mau uso de recursos, além ajudar pessoas preocupadas em corrigir condutas inadequadas na ciência. Por último, a dupla queria saber como as revistas tratavam essa questão: quanto tempo esperavam antes de publicar uma retratação, se periódicos com poucas retratações tinham uma revisão por pares de melhor qualidade ou se os erros eram escondidos.
Oransky, 46 anos, graduou-se em biologia na Universidade Harvard em 1994, onde entrou para o jornalismo pelo The Harvard Crimson, que editou. Também se formou em medicina na Universidade de Nova York, em 1998, na qual dá aulas de jornalismo. Com uma carreira de editor em veículos como Reuters Health, Scientific American e The Scientist, hoje é vice-presidente e diretor editorial da Medscape, organização que oferece notícias e treinamento na internet para médicos e profissionais da saúde. Frequentemente viaja para falar de seu trabalho – já esteve no Brasil quatro vezes, nas reuniões do Brispe (Brazilian
Meeting on Research Integrity, Science Publication Ethics). Em Lausanne, na Suíça, para participar de um debate sobre como reportar fraudes científicas, na 11ª Conferência Mundial de Jornalistas Científicos, ele conversou com Pesquisa FAPESP sobre seu trabalho.
Como foi a reação no início do Retraction Watch? Houve resistência? Teve gente desconfiada, mas sempre contatamos os autores dos artigos científicos, desde o primeiro dia. Nem sempre querem falar conosco, mas nós os procuramos, assim como as instituições, quando isso é apropriado. O problema não era o nosso método, mas mais o foco em más notícias. Não sei se as pessoas mudaram ou se nós mudamos. Se olharmos os grandes casos, como o de Stapel [Diederick Stapel, professor de psicologia social da Universidade de Tilburg, na Holanda, teve 58 artigos retratados por manipulação de dados], ou, voltando um pouco, o de Hwang [o veterinário sul-
um banco de dados que se tornou referência em pesquisas sobre integridade científica
-coreano Hwang Woo-suk publicou dois artigos fraudulentos na revista Science, em 2004 e 2005, sobre clonagem de embriões humanos], vemos que acontece em todos os países. As pessoas notam que esses casos, apesar de raros, não são incrivelmente raros, então se acostumaram a falar disso. Mesmo a editora Elsevier, que não foi tratada favoravelmente em nossas reportagens, depois de um tempo declarou que o Retraction Watch era bom para a ciência. Há uma percepção de que não falar no assunto faz as pessoas confiarem menos na ciência. Se há disposição de dizer que essas coisas acontecem e providências estão sendo tomadas para que não se repitam, isso deveria aumentar a confiança.
Isso implica que as instituições façam algo a respeito da má conduta. A sua percepção é de que isso melhorou? Sim, no caso de algumas retratações, o que é bom. Algumas universidades estão sendo mais transparentes e soltando re-
latórios das investigações – mas muitas ainda não. Estão sob mais pressão por conta de canais como o PubPeer [site que permite a usuários discutir e revisar artigos científicos] e nós. Hoje há jornais importantes, revistas, rádio e TV tratando desses assuntos. É mais difícil para as universidades não fazerem nada, pois alguém vai notar. Um ponto interessante para mim é que, em alguns desses casos, as evidências de má conduta eram claras e ninguém questionava. Todos tratavam como algo menor, até haver algum acontecimento externo que expusesse o problema. Veja Anil Potti, da Universidade Duke, um caso grande [médico indiano que teve 11 artigos retratados e seis corrigidos por má conduta em pesquisa sobre tratamentos contra câncer; a universidade foi acusada de desprezar evidências de manipulação de dados em uma investigação realizada em 2010]. Todos ignoraram os indícios de má conduta até que um repórter da revista Cancer Letter recebeu a documentação de uma proposta de auxílio à pesquisa no qual Potti mentiu que havia sido um Rhodes Scholar [bolsista de programa internacional da Universidade de Oxford, no Reino Unido] e pensou que talvez ele estivesse mentindo também sobre outras coisas. Daí o novelo se desfez. Gostaria que isso não fosse necessário, que fosse suficiente tratar de problemas com a pesquisa, mas frequentemente não é o bastante.
Qual é a real extensão do problema?
Vejo casos demais em que nada acontece. Há milhares de comentários no PubPeer sobre problemas encontrados em artigos. Há correspondências entre as revistas e as instituições, em que as instituições pedem retratações e as revistas não fazem nada ou demoram dois ou três anos para agir. Não conseguimos cobrir nem uma fração, ninguém consegue. Sem publicidade, sem pressão do público, nada acontece.
A retratação diz mais respeito aos pesquisadores e às revistas, mas e o papel das instituições que deveriam estar coibindo esses comportamentos?
Começamos a trabalhar com C. K. Gunsalus, professora da Universidade de Illinois, para analisar os relatórios das investigações institucionais. Muitos são terríveis: não fazem as perguntas que deveriam, não respondem adequada -
Oransky criou
mente às questões, não têm as pessoas certas nos comitês. Publicamos no ano passado no JAMA [The Journal of the American Medical Association] um checklist sobre como investigar alegações de má conduta. Muita gente começou a usar nosso checklist para avaliar os relatórios e a usar nossa base de dados, isso é muito gratificante.
Como vocês se tornaram um banco de dados, além de um site de jornalismo? Éramos bem conhecidos no ramo da saúde, então imediatamente começamos a produzir artigos de interesse para outros veículos, que passaram a nos entrevistar uma semana depois de lançarmos o site. Nos tornamos fonte – foi uma estratégia muito eficaz, não intencional. Isso foi na mesma época do caso Stapel. Havia muito interesse. Demos sorte. O nosso legado é o banco de dados. Só tivemos a ideia depois de quatro anos. Mantínhamos listas imensas de retratações para cobrir, mas não estávamos dando conta. No início, eram cinco, seis dúzias de retratações por ano, agora são 1.400. Quando aceitamos a ideia de que não conseguiríamos cobrir tudo, ficou muito mais fácil porque passamos a focar no que considerávamos importante.
Como alimentam o banco de dados?
Usam inteligência artificial?
Não, é tudo manual. Temos uma pesquisadora, atualmente apenas em meio período, que fez uma tese de doutorado sobre retratação. Ela sabe mais disso do que eu. Tem de ser assim, manual, porque as editoras são muito ruins nisso.
É intencional?
Dou a eles o benefício da dúvida. Eu aviso os problemas que vejo: às vezes corrigem, às vezes pioram, ou ignoram. Muitas retratações não estão corretamente identificadas. As editoras poderiam fazer isso muito facilmente, mas aparentemente não querem ou não é uma prioridade. Então tem que ser feito à mão. Se um algoritmo capturasse a maior parte dos casos, não precisaríamos do banco de dados. Dois anos atrás um programador disse que faria uma captura de casos para nós. Algum tempo depois ele disse ter descoberto algo fascinante: a revista Annals of Surgery teria mais retratações do que qualquer outra. Não batia com o que víamos, então pedi para ver os dados. Em
Em alguns casos, as evidências de má conduta eram claras e ninguém questionava. Todos tratavam como algo menor
Em 2010, uma retratação era suficiente para render uma reportagem. Em 2014, já tinha que ser um número grande de retratações, ou uma tendência, como revisão por pares fake. Hoje em dia, é um acordo entre as partes de US$ 112 milhões. É fácil ver o aumento das retratações e achar que a má conduta está aumentando. Acontece que as pessoas estão olhando mais para isso. A incidência de autismo vem subindo substancialmente nos Estados Unidos e no mundo: pode estar aumentando, mas claramente isso também ocorre porque as pessoas estão prestando mais atenção nessa questão. Mudou a definição.
cirurgias, faz-se uma retração dos tecidos [em inglês, retraction, mesma palavra para retratação], então nessa revista de cirurgia havia uma grande incidência de papers com “retraction” no título. O trabalho não é simples, teria que refinar muito a busca. Queríamos que o banco de dados cobrisse tudo, que não tivesse que ser à mão, até porque temos outras coisas para fazer.
Vocês organizam e oferecem o banco de dados de retratações, fazem reportagens sobre esses temas e ainda uma curadoria sobre o que outros veículos estão publicando. Vocês procuram um equilíbrio?
Tem que ter um equilíbrio. Por isso temos o banco de dados, fizemos a checklist, criamos um prêmio [DiRT Award – dirt significa sujeira, ao mesmo tempo é acrônimo para Doing the right thing, fazendo a coisa certa], geralmente concedido a cientistas honestos que retrataram artigos por erro involuntário ou por fraudes cometidas por terceiros em seus trabalhos, erros que eles quiseram corrigir. Queremos incentivar as pessoas a agirem corretamente.
Nesses quase 10 anos, o que mudou no mundo da má conduta?
Como vocês organizam seu trabalho? Já recebemos financiamento, o que nos permitia ter uma equipe, fazer mais reportagens. Hoje, somos Adam, Alison Abritis, nossa pesquisadora em regime de meio período, e eu. Adam faz boa parte dos textos, fizemos essa divisão. Eu faço a newsletter todos os dias. Amo, não parece trabalho, mas toma muito tempo e há algum estresse envolvido. A busca por financiamento é cansativa. Hoje estamos sem tempo. Eu tenho um novo trabalho, no Medscape. Mas, de alguma maneira, o Retraction Watch se tornou a minha identidade.
Para onde o Retraction Watch quer ir agora?
O objetivo é a sustentabilidade. Adam e eu podemos continuar a fazer isso de graça. Foi assim que começamos, por algum tempo recebemos alguma remuneração, mas estamos de volta ao voluntariado. Há outros custos, não muitos: o site, o banco de dados – cuja aparência é de 1988, mas mesmo assim precisa de manutenção, às vezes, novas funções –, uma remuneração para nossa pesquisadora. Quero chegar a um ponto em que não precisemos procurar financiamento. É a meta de toda organização sem fins lucrativos. Acho que estamos fazendo algo valioso, então continuar a fazê-lo seria muito bom. Gostaria de expandir, ter mais repórteres, entrar mais nas questões legais, que têm um potencial enorme de crescimento, advogados estão cada vez mais envolvidos nessa área. Gostaríamos de fazer uma newsletter, um website para eles. Seria poderoso. O importante é que seja sustentável. Se alguém assumisse, eu já estaria feliz. O que quero é que esse trabalho continue. n
DaDos
Inclusão social no ensino superior
EstudantEs dE baixa rEnda ampliam participação
matrículas (milhares) no ensino superior (es) segundo dependência administrativa e rendimento médio mensal domiciliar per capita, por quintos (de rendimentos) de classes de domicílios particulares permanentes, 2005 e 2015
(milhares)
1º quinto
2º quinto
3º quinto
4º quinto
5º quinto
Total2
entre 2005 e 2015, o número de matrículas no ensino superior brasileiro passou de 4,57 para 8,03 milhões, expansão de 76%
e studantes oriundos de famílias dos dois quintos mais baixos de renda (1º-2º quintos) passaram de 197 mil para mais de 1,3 milhão, entre 2005 e 2015, aumento de quase sete vezes, e os do grupo do 1º quinto de renda se expandiu em oito vezes
Na outra ponta de renda (4º-5º quintos), a expansão foi de apenas 35% e de 7% no quinto de renda mais alto
em função desses números, houve redução na participação dos grupos de maior renda familiar per capita (4º-5º quintos) e ampliação nos de renda mais baixa (1º-2º quintos), nas matrículas no ensino superior, tanto na rede pública como na privada
dEsigualdadE cai significativamEntE E é mEnor no Ensino supErior público
razão entre 5º e 1º quintos, renda domiciliar per capita e matrículas no ensino superior público e privado, 2005 e 2015
uma forma de medir a desigualdade na distribuição de renda ou de outros bens é dada pela razão entre os valores para o grupo de renda mais alto (5º) e aqueles para o mais baixo (1º), denominada “razão de quintos”3 Quanto menor essa razão, menor a desigualdade na distribuição dos bens considerados
Compilando-se os dados da tabela acima, os valores para as razões de quintos indicam que o ES público apresentava razões de quintos mais baixas tanto em 2005 como 2015, em relação aos valores para o ES privado os valores para 2015 mostram redução significativa nesse indicador em relação aos valores para 2005, tanto para o es público como para o privado, em período de rápida expansão do sistema
o valor de 4,3, em 2015, indica baixa desigualdade no acesso ao ensino superior da rede pública. No caso de rendimentos, esse valor é típico dos países nórdicos, entre os mais baixos do mundo3
NotAS (1) Corrigido pelo iNpC de setembro de 2015, CoNstaNte da tabela origiNal do ibge (pNad reNdimeNtos 2015, tab. 7.6). (2) No C aso da reNda média domiCiliar per capita, a liNha total os valores são as médias para todos os domiCílios CoNsiderados CoNjuNtameNte. (3) “QuiNtile ratio”. humaN developmeNt iNdiCes aNd iNdiC ators 2018 statistiC al update, uNited NatioNs developmeNt programme, table 3 - http://hdr.uNdp.org/sites/default/files/2018_humaN_developmeNt_statistiC al_update.pdf. FoNtES siNopses do CeNso da eduCação superior, 2005 e 2015, iNep/meC. síNtese de iNdiCadores soCiais 2016, tab. 4.6, ibge pNad 2015, reNdimeNtos tab. 7.6, ibge preparado pela CoordeNação de iNdiCadores de C t&i gerêNCia de estudos e iNdiC adores, fapesp.
O voo das sementes de dente-de-leão
Fluxo de ar entre os filamentos das sementes as mantém suspensas por longas distâncias
Quase todo mundo já soprou um dente-de-leão e observou suas sementes voarem ao sabor do vento. Graças ao formato semelhante ao de um paraquedas, com uma haste presa a um tufo de 100 filamentos (pappus), elas conseguem percorrer longas distâncias antes de caírem no chão. Foi assim que a espécie conseguiu se espalhar pelo mundo. Pesquisadores da Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, e das universidades de Twente, na Holanda, e Pisa, na Itália, usaram equações da dinâmica dos fluidos para analisar o comportamento de voo das sementes de dente-de-leão e conseguiram modelar os padrões de fluxo de ar que se forma em volta do pappus enquanto elas flutuam (Physical Review Fluids, 2 de julho). Sabe-se que, durante o voo das sementes, parte do ar passa ao redor do tufo de filamentos, assim como o faz ao passar por cima e por baixo da asa dos aviões. Parte do ar também passa entre os filamentos. A combinação de
fluxos provoca um redemoinho (vórtice) acima do pappus, criando uma região de baixa pressão que puxa a semente para cima, diminuindo a velocidade com que ela cai em direção ao solo. Esse mecanismo de sustentação de voo foi primeiro observado e descrito em 2018 por pesquisadores da Universidade de Edimburgo, na Escócia. Agora, no novo estudo, os pesquisadores suíços, holandeses e italianos afirmam que o modelo que desenvolveram é capaz de projetar esse vórtice sobre o pappus com as mesmas formações observadas pelos escoceses. Eles rodaram o modelo usando diferentes números de hastes e verificaram que o número ideal era 100, o mesmo encontrado em um pappus real. Com 100 filamentos, o pappus era mais estável enquanto flutuava. Quando adicionavam mais filamentos ao modelo, o voo tornava-se instável. Se reduziam o número, as sementes perdiam sustentação e a distância de voo diminuía.
Litígios sobre o clima e recordes de temperatura
O número de casos de litígio sobre mudança climática continua a crescer em pelo menos 28 países, com os Estados Unidos respondendo por mais de 75% dos processos, segundo levantamento que reuniu pesquisadores da Universidade de Leeds e da London School of Economics, ambas no Reino Unido (Global trends in climate change litigation: 2019 snapshot, julho). A maioria dos acusados é de governos, mas os processos estão cada vez mais voltados para as grandes empresas responsáveis por emissões de gases de efeito estufa. Os autores dos litígios são investidores, acionistas ativistas, cidades e Estados, que pressionam os governos nacionais a serem mais ambiciosos em relação ao clima, cumprirem a legislação ou buscarem compensação de
empresas por perdas e danos. As ações judiciais se apoiam em achados científicos, que avançam no estabelecimento de um nexo causal entre fontes de emissões e os danos relacionados ao clima. Em meio às disputas judiciais, a Europa viveu mais uma onda de calor, atribuída às mudanças climáticas, em junho, o mais quente já registrado no continente. Na França, o novo recorde nacional de temperatura foi de 45,9 °C em Gallargues-leMontueux, no sul do país.
A Espanha também relatou temperaturas superiores a 40 °C e, na Alemanha, um novo recorde nacional (39,6 °C) ocorreu no último dia do mês.
A Organização Meteorológica Mundial prevê outras ondas de calor neste verão do hemisfério Norte e estima que o número de pessoas expostas a elas aumentou em 126 milhões de 2000 a 2016 (World Meteorological Organization Bulletin, 2 de julho).
Aumenta alerta contra surto de ebola na África
Em 27 de junho, pessoas se refrescavam em fonte nos Jardins de Trocadéro
Profissionais da saúde da RDC são treinados para tratar infectados com ebola
A Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou o nível de alerta contra o surto de infecção pelo vírus ebola na República Democrática do Congo (RDC). Em 17 de julho, a instituição declarou a situação uma emergência em saúde pública de importância internacional. Esse é o grau mais alto de atenção para uma enfermidade, decretado em ocasiões extraordinárias nas quais há risco de espalhamento para outros países e sua contenção exige uma resposta coordenada de diferentes nações. A mudança de status do surto ocorreu por causa de sua progressão recente: ele se espalhou por uma região maior da RDC. O anúncio ocorreu pouco após a confirmação de um caso em Goma, cidade de 2 milhões de moradores e com aeroporto internacional no oeste do país, próxima à fronteira com Ruanda. De 1º de agosto de 2018 (quando o surto atual foi reconhecido) a 21 de julho deste ano, houve 2.498 casos de infecção por ebola e 1.649 mortes. Identificado em 1976 na RDC, o vírus já provocou cerca de duas dezenas de surtos, quase todos na África. No mais grave (2014-2016), cerca de 29 mil pessoas foram infectadas e 11,3 mil morreram. Transmitido inicialmente para o ser humano por animais silvestres, o vírus se dissemina de uma pessoa para outra pelo contato com secreções e fluidos corporais infectados. A princípio, o ebola provoca febre e cansaço, além de dores nos músculos e na cabeça. Em seguida, surgem vômitos, diarreia, manchas vermelhas pelo corpo e sinais de danos nos rins e no fígado. Pode haver sangramentos. No surto atual, 66% das pessoas infectadas morreram. Não há medicamento que elimine o vírus. O tratamento consiste em combater os sintomas. Uma vacina experimental vem sendo usada para imunizar a população. “Se a comunidade internacional não aumentar o financiamento e a resposta agora, pagaremos o preço desse surto por um longo período”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, em um comunicado à imprensa.
Snowball, executando um de seus passos de dança
Múmia egípcia no Rio Grande do Sul
Pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) identificaram a cabeça de uma múmia egípcia que viveu há 2,5 mil anos e estava no Centro Cultural 25 de Julho, em Cerro Largo, Rio Grande do Sul. A peça fazia parte do acervo da instituição havia 30 anos e foi identificada em exame de radiocarbono (C14), feito nos Estados Unidos. b atizada de iret-Neferet, pertenceu a uma egípcia de 42 ou 43 anos, que viveu entre 768 a.C. e 476 a.C. O teólogo Edison huttner, coordenador do Grupo de Estudo identidade Afro-Egípcias da PUC-RS, encontrou a cabeça da
A cacatua que só quer se divertir
É característica humana balançar o corpo de modo ritmado ao som de música. Snowball, uma cacatua (Cacatua galerita eleonora), também não se acanha: eriça o topete, sacode a cabeça, ondula o pescoço, requebra e ergue as patas ao som de “Another one bites the dust”, da banda britânica Queen, e de “Girls just wanna have fun”, da cantora norte-americana Cyndi Lauper (bit.ly/vCacatua). Para uma equipe liderada pelo psicólogo Aniruddh Patel, da Universidade Tufts, nos Estados Unidos, o comportamento ritmado não é só divertido. Pode trazer revelações sobre o funcionamento cerebral dessa ave da família dos papagaios, única dançarina espontânea documentada no mundo animal além dos seres humanos – outros animais mexem o corpo de forma estereotipada para atrair a atenção de parceiros sexuais ou ganhar comida. A dona de Snowball, a norte-americana Irena Schulz, estimulava a ave dançando junto e a elogiando. A dançarina humana, no entanto, limitava-se a balançar a cabeça e acenar com as mãos, eliminando a pura imitação como a explicação para o talento da cacatua. Os pesquisadores identificaram 14 movimentos de dança e suspeitam que sejam produzidos usando regiões frontais do cérebro que incluem áreas ligadas ao aprendizado motor e aprendizado vocal (Current Biology, 8 de julho).
múmia em 2017 e submeteu-a a uma tomografia, constatando a presença de um olho artificial, prática adotada pelos egípcios antes de embalsamar os mortos.
Também observou a existência de um orifício acima do nariz, feito provavelmente para a remoção do cérebro. O pesquisador enviou um fragmento da arcada dentária a um laboratório dos Estados Unidos para confirmar a origem da múmia. Ela havia sido doada ao centro cultural entre os anos 1970 e 1980 por Marcelino Kuntz, morador da cidade que ganhara a peça de um amigo egípcio nos anos 1950. Com iret-Neferet, passam a ser duas as múmias egípcias em acervos brasileiros. As do Museu Nacional, no Rio, foram destruídas no incêndio de 2018.
Crânio de iret-Neferet, encontrado em 2017 no Centro Cultural de Cerro Largo
Campanhas não mudam
a opinião dos eleitores
Campanhas eleitorais projetadas para disseminar informações sobre o comportamento de políticos não influenciam a opinião dos eleitores. A conclusão resulta da análise de dados obtidos em experimentos feitos em vários países, entre eles o b rasil. Sob coordenação do cientista político Thad Dunning, da Universidade da Califórnia em b erkeley, Estados Unidos, equipes espalhadas pelo mundo selecionaram eleitores dois meses antes das votações em seus países e lhes aplicaram um questionário para saber a opinião sobre os políticos. Em seguida, organizaram campanhas de divulgação com
panfletos, mensagens de texto ou vídeos com informações sobre assuntos relacionados aos candidatos ou a seus partidos. As campanhas em b enin, na África, focaram no comportamento de integrantes do legislativo; no b rasil, nas irregularidades em gastos municipais; em burkina Faso, na qualidade dos serviços públicos; e, no México, na prevaricação do governo municipal. havia duas hipóteses. A primeira era a de que a disseminação de informações positivas aumentaria o apoio aos políticos. A segunda, a de que a propagação de informações negativas faria o inverso. O efeito de ambos os tipos de informação sobre a opinião dos eleitores foi, porém, inócuo (Science Advances, 3 de julho).
terapia anti-HIV evitou 9,5 milhões de mortes
Em 1987, a agência de alimentos e medicamentos (FDA) dos Estados Unidos aprovou o uso de azidotimidina (A z T), o primeiro medicamento antirretroviral para combater o hiv, vírus causador da Aids. Com efeitos colaterais intensos, o A zT acrescentou meses à vida dos doentes, e o hiv logo desenvolveu resistência aos fármacos. Outros medicamentos começaram a ser usados em associação e, como resultado, a terapia antirretroviral (TAR) evitou 9,5 milhões de mortes no mundo entre 1995 e 2015, com benefícios econômicos globais de US$ 1,05 trilhão, de acordo com um estudo da organização não governamental Avenir health, com a colaboração de pesquisadores de universidades dos Estados Unidos (Health Affairs, julho). Em todos os 44 países de renda per capita alta e nos 117 com
renda média ou baixa, os benefícios econômicos da TAR excederam os custos. No b rasil, o ganho na expectativa de vida de pessoas com hiv/Aids saltou de 3,3 anos em 1997 para 25,7 anos em 2014. Uma das consequências da disseminação da TAR é que a taxa de infeções por hiv caiu de 3,5 milhões por ano em 1997 para menos de 2 milhões em 2016 – sem o tratamento, o número projetado de novas infecções se manteria em cerca de 3,5 milhões por ano. Outro benefício foi a redução do número de crianças que perdem um ou ambos os pais por causa da Aids: o número de órfãos duplos (crianças e adolescentes que perderam os dois pais) passou de 4,5 milhões em 2010 para 4 milhões em 2015; as projeções, sem tratamento, indicavam 5,8 milhões em 2015. Atualmente a TAR é oferecida para 19,5 milhões de pessoas no mundo. Segundo o levantamento, porém, 15,2 milhões de pessoas infectadas não recebem nenhum tratamento.
E VoLUção dAS InFECçõES PoR HIV no MUndo
Projeção do total de casos por ano sem a terapia antirretroviral (ART) e com o tratamento
3,5
3
2,5 milhões
2 milhões
1,5 milhão
1 milhão
0,5 milhão
Musculação pode aliviar dores causadas por inflamação crônica das articulações
Exercício com restrição da circulação sanguínea reduz sinais de artrite
Exercícios de musculação feitos com pouco peso (carga baixa) e associados à restrição parcial da circulação sanguínea produzem fortalecimento muscular e estabilização das articulações das pernas de modo semelhante aos treinos com carga elevada. Como resultado, reduzem as dores e o incômodo da artrite reumatoide, um tipo de inflamação crônica e incurável que acomete as articulações. A doença provoca dores, deformidades e diminuição da força muscular, sobretudo em mulheres com mais de 50 anos de idade. Sob coordenação de Hamilton Roschel, coordenador do Grupo de Pesquisa em Fisiologia Aplicada e Nutrição da Escola de Educação Física e Esporte e da Faculdade de Medicina da Universidade São Paulo (USP), pesquisadores analisaram os efeitos de dois tipos de treinamento em 42 mulheres com idade entre 46 e 67 anos e artrite reumatoide, que têm mais dificuldade para trabalhar com cargas elevadas. Elas foram divididas em três grupos: um fez treinos de alta intensidade e outro de baixa intensidade associado à restrição parcial do fluxo sanguíneo usando um torniquete próximo ao músculo trabalhado. Em cada sessão, praticavam exercícios de extensão das pernas e o chamado leg press, no qual as pernas são usadas para empurrar pesos para longe do corpo. O terceiro grupo, usado como controle, não treinou. As participantes foram acompanhadas duas vezes por semana por 12 semanas e, em seguida, submetidas a testes. Verificou-se que as cargas baixas associadas à restrição parcial do fluxo sanguíneo melhoraram o desempenho e a força muscular dos membros inferiores de modo similar ao do grupo que usou cargas elevadas, reduzindo as dores articulares (Arthritis Care & Research, 29 de abril).
Espaço de sobra para plantar árvores
Há cerca de 1,6 bilhão de hectares no mundo disponíveis para a implementação de projetos de restauração florestal, boa parte deles longe de áreas urbanas e de terras agrícolas. As árvores plantadas nessas áreas seriam capazes de absorver cerca de 200 gigatoneladas de carbono da atmosfera, dois terços do total emitido pela atividade humana desde a Revolução Industrial, no século XIX. A conclusão é de um grupo internacional coordenado pelo ecólogo Jean-François Bastin, do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça. Os pesquisadores estimaram quantas árvores precisariam ser plantadas no mundo para mitigar as mudanças climáticas, onde elas poderiam ser plantadas e quanto carbono absorveriam da atmosfera. Ao analisarem quase 80 mil fotografias de alta resolução obtidas por meio de sensoriamento remoto, verificaram que, excluindo as florestas já existentes e as áreas urbanas e agrícolas, existe muito espaço para plantar árvores ( Science , 5 de julho). Mais da metade dessas terras se concentra em apenas seis países. Na Rússia, 151 milhões de hectares poderiam ser convertidos em florestas; nos Estados Unidos, 103 milhões; e no Brasil, 50 milhões. Em comentário na mesma edição da Science , o engenheiro-agrônomo Pedro Brancalion, da Universidade de São Paulo (USP), e a bióloga norte-americana Robin Chazdon, da Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, destacaram que o mapeamento pode ajudar a determinar as áreas mais adequadas para o plantio de florestas.
Área desmatada ilegalmente na Reserva biológica do Gurupi, no Maranhão
A melanina das células tumorais absorve a energia do laser e aquece, vibrando na frequência do ultrassom
As vibrações são detectadas pelo aparelho
Luz e som para detectar células tumorais
Um grupo internacional de pesquisadores desenvolveu um sistema não invasivo que usa laser e ultrassom para, através da pele, detectar células de melanoma no interior de vasos sanguíneos. Nos testes iniciais, o aparelho também destruiu as células em circulação desse tipo de câncer, o mais agressivo dos tumores de pele – células que se desprendem do
tumor e viajam no sangue podem espalhar o câncer. Criado pela equipe de vladimir zharov, da Universidade do Arkansas para Ciências Médicas, nos Estados Unidos, o equipamento recebeu o nome de Cytophone, por detectar as células por meio de ondas acústicas. Colocado sobre o antebraço, ele emite pulsos de laser que atravessam a pele e penetram nos vasos sanguíneos. A luz é absorvida pela melanina, pigmento abundante nas células de melanoma. Aquecida pelo laser, a melanina vibra e emite ondas acústicas em ultrassom, captadas por um detector. Em um teste com 47 pessoas, o aparelho foi mil vezes mais sensível do que os métodos comerciais de detecção, que exigem a análise de sangue. O Cytophone identificou células de melanoma em 27 das 28 pessoas com esse câncer de pele. Com o aumento da potência do laser, as células tumorais aparentemente foram destruídas (Science translational Medicine, 12 de junho). A equipe de zharov patenteou o Cytophone e criou uma empresa para aprimorá-lo para monitorar o ressurgimento do câncer. isso, porém, está distante. “Terão de mostrar que conseguem encontrar células tumorais em circulação em pacientes com câncer em estágio inicial testando um número maior de pessoas”, disse o oncologista Antony Lucci, do MD Anderson Cancer Center, no Texas, à revista Science
Pulsos de laser
Ondas acústicas Gel de ultrassom
Vaso sanguíneo
Célula tumoral com melanina
CytoPHonE EM Ação
Vida de ator:
festa ou fome
Matemáticos da Queen Mary University, em Londres, analisaram a trajetória profissional de 2,4 milhões de atrizes e atores de cinema e televisão registrados na Internet Movie Database (IMDb). O resultado mostra que 69% das atrizes e dos atores tiveram carreiras curtas, terminadas no ano em que começaram (Nature Communications, 4 de junho). Proporção semelhante atuou em um único papel na vida.
A partir do perfil de 1,5 milhão de atores e 896 mil atrizes que atuaram entre 1888 e 2016, constatou-se que os homens tendem a ser mais produtivos no início da trajetória e que a carreira das mulheres dura menos. As taxas de desemprego beiram os 90%, e as ofertas de trabalho privilegiam quem está estabelecido no mercado. A alta produtividade não está associada só à capacidade profissional, mas também à rede de relações profissionais. No período, somente 2% dos atores sobreviveram apenas da profissão.
Um mês macabro para as baleias-francas
Junho foi um mês cruel para as baleias-francas (Eubalaena glacialis) – estima-se que restem apenas 411 baleias-francas no mundo. Pelo menos seis foram encontradas mortas, boiando nas águas geladas do golfo de São Lourenço, na costa leste do Canadá. Entre elas uma fêmea de 40 anos chamada Punctuation, considerada uma das 100 baleias-francas ativas reprodutivamente. Sabe-se que Punctuation dera à luz oito filhotes, além de ter sido avó de pelo menos dois outros indivíduos ao longo da vida. O resultado da necropsia sugere que ela tenha morrido após ser atingida por um navio. A poucos quilômetros dali, em 4 de junho, Wolverine, um macho de 9 anos, assim apelidado por conta das cicatrizes que marcam sua cauda, também foi achado morto. Dias mais tarde, Comet, um macho de
Baleia-franca com filhote: restam cerca de 400 exemplares da espécie no mundo
34 anos, apareceu sem vida ao lado de uma fêmea desconhecida de 11 anos prestes a se tornar sexualmente madura. As carcaças de duas outras baleias foram avistadas perto da ilha Anticosti e da península Gaspé na última semana de junho. Exceto por Punctuation, as autoridades canadenses ainda não sabem quais foram as causas das mortes das baleias-francas na região. A principal suspeita é que tenham morrido por conta de complicações, como fraturas e infecções, decorrentes de lesões causadas por acidentes com barcos. Outra hipótese é que tenham se sufocado com redes usadas para a pesca de lagosta e caranguejo. Essa é uma das principais causas de morte de baleias-francas no hemisfério Norte (Diseases of Aquatic Organisms, 20 de junho).
Christopher Lee em Drácula, de 1958
o novo caça da FAB
Aeronave destinada à Força Aérea Sueca, do mesmo modelo da adquirida pelo Brasil
Primeiro jato sueco Gripen E comprado pelo Brasil iniciará em breve testes em voo; a aquisição de 36 aviões envolveu pacote de transferência de tecnologia
Depois de quase cinco anos da assinatura do contrato que selou a compra da nova geração de caças suecos Gripen que farão parte da frota da Força Aérea Brasileira (FAB), o primeiro jato está pronto para voar. A partir de agosto ele deverá decolar da pista da Saab AB em Linköping, cidade de 150 mil habitantes situada a 220 quilômetros da capital Estocolmo, na Suécia, dando início à campanha de ensaios em voo. Essa é a última etapa antes da entrega dos aviões, com início previsto para 2021. Até lá, os caças serão submetidos a uma exaustiva bateria de testes, quando todos os seus sistemas e componentes serão postos à prova.
A compra dos jatos militares, denominados Gripen E (versão monoposto, com um só lugar) e F (modelo biposto), foi oficializada em 24 de outubro de 2014, após um processo iniciado mais de uma década antes. A aeronave venceu a concorrência do Programa FX-2, destinado a modernizar
a aviação de caça brasileira, superando o F/A-18 E/F Super Hornet, da norte-americana Boeing, e o Rafale F3, da francesa Dassault. Os aviões supersônicos suecos substituirão de imediato os ultrapassados Mirage F-2000 da FAB, já desativados, e no médio e longo prazos os caças F-5M e A-1M. O pacote de 36 jatos (28 monopostos e 8 bipostos) custou 39,3 bilhões de coroas suecas – equivalente hoje a US$ 4,1 bilhões (R$ 15,5 bilhões). O último será entregue à FAB em 2024.
“O Gripen E/F é um excelente caça de quarta geração, tem ótimo desempenho e foi projetado para ser relativamente barato, fácil de manter e ágil para combater qualquer agressor”, diz o engenheiro especialista em projeto de aeronaves Álvaro Martins Abdalla, da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP).
A vitória do avião da Saab, com desempenho similar ao dos concorrentes, se deu por dois motivos principais. O primeiro foi o valor do negócio.
Yuri Vasconcelos
Um avião de combate versátil
Jato supersônico tem equipamentos de última geração
o Gripen E/f é uma aeronave de combate multimissão, capaz de efetuar ataques contra alvos em solo e no ar, fazer voos de reconhecimento e escolta e defender bases e outros aviões de ameaças externas. Ele é classificado como um caça de quarta geração avançado. Jatos indetectáveis a radares inimigos, como o avião stealth f-22 raptor, dos Estados Unidos, são denominados de quinta geração.
o projeto do Gripen (em português, grifo, criatura lendária com corpo de leão e cabeça e asas de águia) remonta aos anos 1980.
Cerca de 290 jatos das primeiras gerações foram produzidos pela saab. o primeiro Gripen E, fabricado para a força aérea sueca, iniciou testes em voo em 2018.
Componentes desenvolvidos ou produzidos por empresas nacionais para a aeronave
fuselagem dianteira – saM
displays do cockpit – aEl
Gun unit – akaer*
fuselagem central – akaer*
Caixão das asas – saM
fuselagem traseira – saM e akaer*
Cone de cauda – saM
freios aerodinâmicos – saM
*desenvolvimento do projeto
“Em termos de custo operacional e valor global da transação, o Gripen E/F foi uma escolha sábia. Ele é um dos caças mais baratos do mercado, com um bom radar e velocidade supersônica”, destaca Richard Aboulafia, analista da indústria aeronáutica e vice-presidente do Teal Group, consultoria norte-americana especializada nos setores aeroespacial e de defesa. “Creio, entretanto, que teria feito mais sentido a escolha pelo F/A-18E/F se o Brasil estivesse buscando jatos que operassem também a partir de porta-aviões da Marinha, e não apenas para servir a Aeronáutica.”
O segundo aspecto que fez com que a balança pesasse para o lado dos suecos foi o acordo de compensação comercial oferecido pela Saab, avaliado em US$ 9 bilhões – valor que inclui in-
Supersônico, o Gripen voará a velocidade superior a 2.400 km/h, mais de duas vezes a do som
Ele é dotado de mísseis, bombas e sensores de alta tecnologia, que podem atingir alvos com precisão, além do alcance visual
o avião precisa de apenas 500 metros de pista para decolar e 600 para pousar, facilitando sua ação
Radares para a detecção de alvos a longas distâncias e sistemas de guerra eletrônica para confundir forças inimigas integram o jato
vestimentos da empresa em instalações fabris no Brasil e o treinamento de engenheiros e pilotos brasileiros na Suécia. Também conhecido como offset, esse acordo, uma imposição legal quando compras militares superam US$ 5 milhões, também previu um programa de transferência de tecnologia (ToT), em prol da FAB e de companhias do país, e a participação da indústria nacional, liderada pela Embraer, no desenvolvimento do avião. Ao contrário dos finalistas Super Hornet e Rafale, a nova geração do caça sueco, cuja primeira versão fora lançada nos anos 1980, não era um projeto pronto, mas em andamento.
“O ponto-chave da escolha do Gripen é que ele ainda estava em desenvolvimento. Com isso, os engenheiros da FAB e de companhias brasileiras
ToQUE Br ASILEIro
desenvolvimento do Gripen E/F. Em 2010, relatório final de avaliação da FAB já indicava o caça sueco à frente dos outros dois candidatos. A decisão, no entanto, só foi anunciada em dezembro de 2013. Foram necessários outros 10 meses para o acerto de detalhes e a assinatura do contrato.
“O aproveitamento dos pontos fortes do Gripen – ou seja, a possibilidade de desenvolvê-lo conjuntamente e operar em seguida suas capacidades –teria um potencial maior de sucesso se o contrato de aquisição tivesse sido assinado em 2010, e não em 2014. Em quatro anos, várias tecnologias podem mudar”, ressalta Abrahão. Ele afirma, ainda, discordar da obrigatoriedade dos programas de offset. “Dependendo de quem for o ofertante, é possível que se tenha bons ou maus projetos de compensação. Nem sempre ocorre uma transferência de tecnologia em bom nível, interessante para o país. Alguns projetos podem ser insignificantes, não atingindo os objetivos desejados. Sem falar que o preço com offset é um e sem ele é outro. Isso também precisa ser considerado.”
LIMITES
D o progr AMA
O programa de offset atrelado à compra dos Gripen definiu a transferência de tecnologias em áreas identificadas pelo Comando da Aeronáutica e indicadas pela indústria nacional, em especial a do setor aeroespacial. “É o maior acordo de compensação comercial vinculado a um contrato de aquisição de produtos de defesa da FAB”, afirma o coronel aviador Paulo Roberto de Carvalho Júnior, atual gerente do Programa FX-2 e membro da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (Copac), órgão da FAB responsável pelo negócio.
poderiam participar do projeto e da construção do avião com os suecos, tornando a transferência de tecnologia mais efetiva”, afirma o economista Marcos José Barbieri Ferreira, coordenador do Laboratório de Estudo das Indústrias Aeroespaciais e de Defesa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “O Brasil não apenas absorveria uma tecnologia já consolidada – como a que Boeing e Dassault ofereciam –, mas participaria da construção desse novo conhecimento.”
Primeiro gerente do Programa FX-2, em 2008, e professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), o coronel aviador Fernando Abrahão concorda com Barbieri, embora aponte que a demora do Brasil em assinar o contrato com a Saab limitou a participação da indústria nacional em parte do
O oficial da FAB explica que a Saab é a detentora do projeto do Gripen, mas o Brasil, ao entrar como parceiro no programa de desenvolvimento do jato, irá beneficiar sua indústria. “Muitos requisitos do novo Gripen serão de propriedade intelectual exclusiva brasileira, já que são particularidades de concepção que partiram unicamente da proposta concebida aqui”, afirma Carvalho. Uma crítica que se faz ao programa de ToT do Gripen é que mais da metade dos componentes do jato é fabricado em outros países, notadamente nos Estados Unidos. Esse fator poderia configurar um impedimento para uma transferência tecnológica mais efetiva, já que tais itens teriam restrições de licença ou patente. FAB e Saab, entretanto, negam que isso ocorrerá.
De acordo com a empresa sueca, o projeto de um caça como o Gripen envolve um conjunto de tecnologias críticas e sensíveis que são específicas do fabricante da aeronave, como projeto de célula (a estrutura do avião), integração aeronáutica e de sistemas (aviônicos, radares, armamentos). “Todas elas estão no escopo de transferência de tecno -
logia para o Brasil. Essas são as capacidades que, uma vez transferidas, permitirão que indústrias brasileiras mantenham e atualizem os caças, assim como projetem aeronaves de futuras gerações”, explica Mikael Franzén, head da unidade de negócios Gripen Brasil e vice-presidente da área de negócios Saab Aeronautics.
Quinze
aeronaves serão produzidas no interior paulista em
Para o consultor Richard Aboulafia, restrições quanto à transferência de tecnologias ocorrem em qualquer programa aeroespacial. “A tecnologia realmente valiosa fica com o fabricante. E, mesmo se for repassada, que diferença isso faria? A General Electric poderia dar ao Brasil muitas informações relativas ao motor F414 que equipa o Gripen, mas o que o país faria com isso? Por outro lado, o programa de ToT pode envolver o conhecimento associado aos processos de fabricação – e isso pode ser muito útil”, comenta o especialista.
um trabalho liderado
pela Embraer
uma das compensações na esfera industrial. “O GDDN aloja todas as ferramentas e dados de engenharia, com nível de segurança cibernética e comunicação apropriado, e está integrado com o ambiente de desenvolvimento do Gripen em Linköping. Hoje, 123 engenheiros – 105 brasileiros e 18 suecos – atuam no local, que tem simuladores e tudo o mais necessário para o desenvolvimento dos jatos”, informou a Embraer por meio de sua assessoria de imprensa. Em Gavião Peixoto ainda serão construídos o Centro de Ensaios do Gripen e as instalações para montagem de parte dos caças.
pA r TI c I pAÇÃ o n Ac I on AL Além da Embraer e do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) da Aeronáutica, cinco empresas são beneficiárias do programa de transferência de tecnologia: as paulistas Akaer, de São José dos Campos, Saab Aeronáutica Montagens (SAM), de São Bernardo do Campo, Atech e Atmos Sistemas, ambas sediadas na capital paulista, e a gaúcha AEL Sistemas, de Porto Alegre. “A Saab selecionou as empresas que receberiam as tecnologias pretendidas. Cada uma participa do acordo de compensação em projetos que as capacitem para contribuir para a construção de um caça de última geração”, diz Carvalho, da FAB. O processo de ToT do Programa Gripen contempla 62 projetos divididos em quatro grandes áreas: treinamento teórico das equipes nacionais envolvidas, programas de pesquisa e tecnologia, treinamento prático (on-the-job) de profissionais brasileiros na fábrica da Saab na Suécia e desenvolvimento e produção de sistemas e dos aviões. Mais de 350 integrantes das companhias nacionais e da FAB, entre engenheiros, operadores, técnicos e pilotos, participarão na Suécia de cursos e treinamentos. Até agosto deste ano, 170 engenheiros já haviam sido capacitados em Linköping. A maior parte trabalha no Centro de Projetos e Desenvolvimento do Gripen (GDDN), localizado junto a uma unidade da Embraer em Gavião Peixoto (SP). Inaugurado em 2016, o GDDN é o hub de desenvolvimento tecnológico do jato no Brasil. Sua instalação foi prevista no acordo de offset, como
Do total de 36 caças, 23 serão montados parcial ou totalmente no interior paulista, em um trabalho liderado pela Embraer. “A Saab é responsável pela montagem de 13 unidades do Gripen inteiramente na Suécia. Outras oito aeronaves começarão a ser fabricadas em Linköping e depois serão finalizadas no Brasil com a participação de técnicos e engenheiros brasileiros”, destaca Mikael Franzén. A partir de 2021, 15 aeronaves serão produzidas inteiramente na Embraer em Gavião Peixoto, sendo que a primeira será entregue à FAB três anos depois.
“Essa integração faz parte da transferência de tecnologia prevista no contrato e visa fornecer conhecimentos práticos necessários para a execução dessas mesmas atividades no Brasil”, ex-
funcionários da saab fazem a montagem do primeiro jato destinado à faB. na página ao lado, detalhe do processo 2
plica Franzén. No último lote de aviões constam os modelos de dois lugares, cujo projeto tem forte participação da fabricante brasileira. O escopo da cooperação entre a Embraer e a Saab inclui também 900 voos de teste no Brasil.
Uma das principais contribuições brasileiras para o novo Gripen são as telas de última geração que equiparão a cabine dos jatos. Trata-se de displays, desenvolvidos e produzidos pela AEL Sistemas, subsidiária da israelense Elbit Systems, em que o piloto acessará todas as informações relativas ao voo. Inicialmente, a ideia era que fossem incorporados apenas aos aviões da FAB, mas a Saab confirmou no ano passado que também serão integrados aos 60 Gripen E/F encomendados pela Força Aérea Sueca, cuja primeira unidade será entregue no ano que vem.
“Com a harmonização dos programas brasileiro e sueco, a AEL tornou-se parte da cadeia de produção global do Gripen. Todos os pedidos futuros do avião terão os displays WAD, HUD e HMD, desenvolvidos por nós e que incorporam tecnologias nacional, israelense e sueca”, diz o coronel aviador da reserva da FAB João Alexandro Braga Maciel Vilela, gerente de Desenvolvimento de Negócios da empresa.
O Wide Area Display (WAD) é uma tela panorâmica de alta definição sensível ao toque com os principais dados do voo. Ela substituirá um conjunto de telas menores, projetadas inicialmente para o avião, enquanto o Head-Up Display (HUD) apresentará dados essenciais da missão diretamente na parte frontal do cockpit, na linha de visão
do piloto. O Helmet Mounted Display (HMD), por sua vez, é um visor integrado ao capacete que permite ao piloto ver os dados e as imagens dos alvos, elevando sua capacidade para tomada de decisão. O fornecimento dessas tecnologias para a Saab promove uma transferência de tecnologia inversa e é um exemplo de transbordamento na parceria industrial entre a companhia sueca e suas parceiras brasileiras.
proj ETo DAS FUSELAg E n S
Outra cooperação relevante no âmbito do Programa Gripen foi estabelecida com a Akaer. Em 2009, antes mesmo da definição da compra dos Gripen, a empresa de São José dos Campos foi escolhida pela Saab para ser uma das parceiras internacionais do programa de desenvolvimento do Gripen.
“Na fase de estudos preliminares trabalhamos nas fuselagens traseira e central, nas asas e nas portas do motor e do trem de pouso principal. Desde 2011, somos responsáveis pelo dimensionamento completo da fuselagem traseira, bem como pelo detalhamento e documentação de engenharia da fuselagem central e do segmento conhecido como gun unit, onde fica o canhão do caça”, informa o engenheiro de materiais Fernando Coelho Ferraz, vice-presidente de Operações da Akaer.
“O desenvolvimento de uma aeronave de caça é uma oportunidade única tanto para os profissionais envolvidos como para a Akaer e o Brasil. As tecnologias dessa aeronave não existem hoje no país e tornam o programa de transferência muito importante”, declara Ferraz. O sucesso da parceria
fez com que a Saab adquirisse 15% do capital da Akaer em 2012 e elevasse depois sua participação para 25%. No ano passado, fez novo aumento, para 28%, em uma operação de troca de ações, quando a Akaer ficou com 10% da Saab Aeronáutica Montagens (SAM) (ver Pesquisa FAPESP no 270). A implantação no país de uma fábrica de aeroestruturas, como a SAM, também foi uma das compensações de offset no âmbito do Programa FX-2. De acordo com a Saab, sócia majoritária da SAM, serão produzidos em São Bernardo seis segmentos para o Gripen brasileiro: a fuselagem traseira, o cone de cauda, o caixão das asas, os freios aerodinâmicos e a fuselagem dianteira das versões monoposto e biposto. O projeto da unidade, cujo início de operação está previsto para 2020, foi apresentado em maio do ano passado. A fábrica é dirigida pelo engenheiro brasileiro Marcelo Lima, oriundo do setor automobilístico, e contará inicialmente com 55 profissionais. Os primeiros engenheiros contratados receberam treinamento na Suécia este ano. A expectativa da Saab é de que a unidade torne-se uma fornecedora global de aeroestruturas do Gripen.
SIMULAD or ES DE Voo
Especializada em soluções para controle de tráfego aéreo, a Atech (ver Pesquisa FAPESP no 247) está absorvendo tecnologias da Saab em áreas relacionadas a simuladores e sistemas de apoio terrestre. “Estamos trabalhando em um simulador que valida as novas funcionalidades incorporadas ao caça brasileiro, como aviônicos, armamentos e o segundo assento para os modelos biposto. Antes de ser integrado ao avião, isso tudo deve ser avaliado e validado em ambiente virtual”, conta o engenheiro Giacomo Staniscia, diretor da área de Defesa da Atech, pertencente ao Grupo Embraer.
1 Cabine do Gripen E mostrando os displays Wad (tela amarela no cockpit) e HUd (projeções em verde no visor frontal). abaixo, piloto usa capacete onde será integrado o aviônico HMd
A empresa também atua no projeto de um simulador para treinamento dos pilotos – mais complexo e com mais funcionalidades do que os usados para treinar pilotos civis – e um sistema de suporte à missão. “Antes de um jato militar voar, é preciso programar sua missão, o que inclui definir o local da decolagem, estabelecer os parâmetros do voo de reconhecimento, determinar os radares e armamentos que vai utilizar. Isso é planejado previamente em terra no sistema que estamos fazendo com os suecos”, conta Staniscia.
“O conhecimento absorvido com o projeto é importante porque nos capacita a manter e evoluir os sistemas de um caça produzido com tecnologia de ponta”, acrescenta o engenheiro eletrônico André Di Luca Júnior, gerente da área de Defesa da Atech. “Ao mesmo tempo, abre oportunidades para aperfeiçoarmos nossos produtos e oferecer soluções de ponta para o mercado mundial.”
Di Luca informa que a primeira fase do ToT na Suécia com funcionários da Atech teve início
aviões comprados pelo governo sueco durante campanha de certificação
em maio de 2016, quando 13 de seus profissionais ficaram em imersão na sede da Saab para conhecer os detalhes tecnológicos. Em uma nova etapa, prevista para o próximo ano, quatro outras pessoas serão enviadas a Linköping. Os 17 profissionais que participam do projeto são engenheiros – metade deles com mestrado ou doutorado.
BA nc ADA DE TESTES
Um corpo técnico qualificado também participa na Atmos Sistemas do Programa Gripen. Voltada ao desenvolvimento de soluções eletrônicas, como radares, aviônicos e antenas, a empresa atuará na manutenção de componentes para o sistema de sensores do avião, como equipamentos de radar e de defesa. “A manutenção de partes eletrônicas das aeronaves é um serviço altamente especializado, que exige padrões elevados de qualidade”, comenta o engenheiro Fábio Fukuda, diretor da Atmos. “Ao apreender a tecnologia da Saab, iremos integrar a lista de empresas da cadeia de suporte da FAB aptas a prestar esse serviço.”
A empresa receberá e será treinada na operação de uma bancada automática de teste, que permitirá a realização de ensaios longos e complexos de aviônicos, radares e aparelhos de defesa automaticamente, de forma repetitiva, com pouca intervenção do operador. “O conhecimento prévio em radares e sistemas de micro-ondas, bem como o adquirido no projeto do anel de luz síncrotron Sirius, realizado com apoio da FAPESP, foi fundamental para desenvolvermos a bancada
de testes e sermos selecionados pela Saab”, conta Fukuda (ver Pesquisa FAPESP no 234).
Outro projeto indiretamente beneficiado pela compra dos Gripen é coordenado pelo coronel aviador Fernando Abrahão, do ITA. Ele lidera o Laboratório de Engenharia Logística (AeroLogLab-ITA) da instituição, que está sendo capacitado para prover apoio logístico aos jatos suecos. “O suporte logístico é tudo aquilo que precisa ser feito em uma aeronave para que ela continue operando com segurança depois de determinado intervalo de tempo”, explica Abrahão. “E o suporte logístico do Gripen é repleto de inovações.”
O professor do ITA explica que, quando os Gripen E/F forem integrados à frota da FAB, não será possível gerenciá-los da forma que se faz com os atuais caças F-5. “O Gripen demanda tecnologias e conhecimentos diferentes dos utilizados no F-5. Nosso laboratório vem se capacitando nessa área”, diz. O AeroLogLab tem três alunos que fazem um mestrado focado nas tecnologias logísticas do Gripen, orientados conjuntamente por Abrahão, Guilherme Rocha e Henrique Martins, todos professores do ITA, e pela Saab. Eles ficaram 60 dias na Suécia e passarão dois anos trabalhando no desenvolvimento da logística no AeroLogLab-ITA. n
Projeto d esenvolvimento final de dispositivo eletrônico para medida de posição de feixe de elétrons (ebpm) para fonte de luz síncrotron do Projeto sirius (sirius) (14/50782-8) Modalidade Pesquisa inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisador responsável fábio Haruo fukuda (atmos); Investimento r$ 953.724,38.
Roberto Luís de Melo Monte-Mor
O observador das cidades
Arquiteto coordena há 10 anos a equipe da UFMG no planejamento da Região
Metropolitana de Belo Horizonte
c arlos Fioravanti, de Belo Horizonte | R et RAto
Léo Ramos Chaves
Em 1973, ao chegar à Amazônia pela primeira vez para um trabalho de planejamento urbano no interior de Rondônia, o arquiteto mineiro Roberto Luís Monte-Mor descobriu que o que tinha estudado não bastava para explicar o que via: a impossibilidade de estabelecer distinções claras entre o espaço urbano e o rural, que pareciam fundir-se. Veio daí uma de suas principais contribuições teóricas, o conceito de urbanização extensiva, que implica o prolongamento do tecido urbano para o campo, formando espaços híbridos, identificada nas últimas décadas em todo o país.
Professor na Faculdade de Ciências Econômicas e na Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Monte-Mor coordena desde 2009 a equipe da UFMG que participa do planejamento metropolitano de Belo Horizonte, auxiliando na definição de prioridades de investimentos. Em uma das disciplinas na Escola de Arquitetura, seus estudantes visitam municípios e ajudam a implementar ações definidas no plano diretor. Monte-Mor trouxe da França, incorporou e ampliou o conceito de trama verde e azul, que implica valorização e integração de áreas verdes e cursos d’água nas cidades e tem sido usado na reformulação da Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Natural de Conselheiro Lafayete, descendente de portugueses e indígenas, cantou, com voz de baixo, no coral Ars Nova, da UFMG, e depois no Glee Club, coral masculino da Universidade da Califórnia em Los Angeles, Estados Unidos (Ucla), enquanto fazia o doutorado. Monte-Mor tem um filho, o psicólogo Diogo, e um neto, que vivem em Portugal. Ele conversou com Pesquisa FAPESP em junho na UFMG.
idade 72 anos
especialidade
Planejamento urbano instituiçãO
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
FOrmaçãO
Graduação em arquitetura (1970) pela UFMG, mestrado em planejamento urbano e regional (1980) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutorado (2004) pela Universidade da Califórnia, Los Angeles (Ucla) prOduçãO cientíFica
35 artigos
Como a universidade participa da elaboração do planejamento metropolitano de Belo Horizonte?
O plano metropolitano começou a ser discutido na década de 1990, mas foi em 2008 que começaram as tratativas para implementá-lo. A primeira parte, o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado da Região Metropolitana de Belo Horizonte, foi aprovada pelo governo estadual em 2011. Do lado da universidade, esse trabalho envolveu 57 professores de 14 áreas, 80 estudantes de graduação e pós e 20 técnicos. Combinamos duas abordagens: a visão abrangente, como era pedido, com o planejamento estratégico, que determina metas de curto, médio e longo prazo. Resultado: as 28 grandes políticas públicas são desmembradas em 96 programas, cada qual com um conjunto de tarefas, os agentes e as normas legais envolvidas. De 2013 a 2015 fizemos o macrozoneamento metropolitano, que era um dos programas do plano diretor. Na época não havia diretrizes federais, porque nenhum outro trabalho desse tipo havia sido feito no Brasil. Com a Agência Metropolitana, estabelecemos que o macrozoneamento teria Zonas de Interesse Metropolitano, definidas com os municípios e com limites geográficos claros, e as Áreas de Interesse Metropolitano, sem limites claros, que definem os espaços para implementação de políticas prioritárias, como habitação. E agora, de 2016 a 2019, estamos trabalhando na revisão dos planos metropolitanos de 11 dos 34 municípios da região metropolitana que aderiram às condições que propusemos.
Quais condições?
Os municípios teriam de criar um grupo de acompanhamento, formalizado por decreto do prefeito, e o espaço do plano, para qualquer pessoa acompanhar o que está sendo feito. Cada grupo tem de 12 a 16 pessoas e é paritário, metade prefeitura e Câmara, metade sociedade civil. Às vezes os conflitos surgem já dentro do grupo, por exemplo, entre prefeituras ligadas ao setor imobiliário e a parte do grupo preocupada com questões ambientais. Continuamos trabalhando com os grupos por meio de uma disciplina que criei há uns quatro anos na Escola de Arquitetura chamada Lumes.
Que disciplina é essa?
Queríamos que o planejamento servisse para todos: governo, sociedade civil e empresas
próximo do aeroporto, com uma invasão muito grande de novos moradores. Ali estamos usando uma biblioteca para reunir os moradores e promover a apropriação dos espaços de cultura. O pessoal da arquitetura ainda está trabalhando em outra cidade, Raposos, na recuperação de um conjunto arquitetônico próximo de uma igreja. Foi um líder comunitário que pediu para participar do Lumes, e o padre da cidade abriu a casa dele para os alunos ficarem lá. É um trabalho de longo prazo, que contribui para a formação dos alunos, mas as limitações são grandes. Em Ribeirão das Neves, ajudamos na apropriação de um prédio, com um pessoal do hip hop; mudou o prefeito e acabou tudo. Mas alguns dos meninos que participaram dos debates fizeram vestibular e entraram na UFMG.
Como a universidade conseguiu espaço no planejamento metropolitano de Belo Horizonte?
É uma experiência que nasceu de um programa de implementação e expansão do plano diretor chamado Lumes, Lugares de Urbanidade Metropolitana, que faz parte da política de democratização dos espaços metropolitanos. Esse programa foi inspirado na proposta do Gilberto Gil [ministro da Cultura de 2003 a 2008] e do Célio Turino [secretário do Ministério da Cultura de 2004 a 2010] sobre pontos de cultura, que poderiam ativar o corpo social brasileiro. Essa disciplina é ministrada aos sábados e aberta a estudantes de qualquer curso. Em janeiro, uma colega e eu conversamos com os grupos de acompanhamento. Depois voltamos aos municípios com os alunos, que discutem com a população o que pode ser feito. Estamos trabalhando em três municípios. Um é Matosinhos, para implantar um parque. Os meninos da arquitetura estão desenhando equipamentos de ginástica de baixo custo, áreas de piquenique, trilhas e entradas. O outro é Nova União, que tem uma comunidade jovem muito articulada com a prefeitura, onde estamos desenvolvendo um projeto de reciclagem. O terceiro é Vespasiano,
O professor José Abílio Belo Pereira era de um órgão do governo estadual responsável pelo plano metropolitano e também do Conselho Metropolitano, que incluía representantes de universidades. Em setembro de 2009 ele nos convidou para conversar com o pessoal da Secretaria de Desenvolvimento Regional e Política Urbana e ver se a universidade teria interesse em colaborar. Colocamos algumas restrições. Não interessava simplesmente fazer um plano. Para nós, esse trabalho sempre foi um conjunto de estudos para o planejamento, que víamos como permanente. Queríamos que o resultado servisse para o governo, para a sociedade civil e para as empresas.
Quais problemas identificaram?
A Região Metropolitana de Belo Horizonte tem aproximadamente 5,5 milhões de habitantes, dos quais 2,5 milhões na capital. Alguns municípios industriais da periferia, como Contagem e Betim, e outros ligados a lazer, com chácaras e condomínios, como Nova Lima e Lagoa Santa, cresceram bastante. Mas havia uma diferença grande de qualidade de vida: Belo Horizonte concentrava os serviços e a periferia era frágil, não se desenvolvia direito, como ocorre no Rio de Janeiro e em outras regiões metropolitanas; São Paulo é o modelo oposto, com uma periferia forte. Tínhamos de inverter prioridades, buscar o equilíbrio e investir
na periferia. Agora está mudando porque fortalecemos os municípios pequenos. O Ministério das Cidades estabelecia a participação intensa da população como um dos pressupostos da elaboração dos planos metropolitanos. Acrescentamos elementos da teoria do planejamento, particularmente de um professor meu do doutorado, John Friedmann [19262017], da Ucla. Quando eu estava lá, ele publicou um livro, Planning in the public domain: From knowledge to action [Princeton University Press, 1987], sobre as grandes correntes do planejamento urbano. A dominante é o que ele chama de reforma social, centrada no estado, de cima para baixo. Ele mapeia outras duas correntes: a mobilização social, de origem marxista e anarquista, que vê o Estado como inimigo; e o aprendizado social, que adotamos diretamente, segundo o qual o planejamento sai da exclusividade do Estado e passa parcialmente para a população. Nessa abordagem, assumimos que o conhecimento tecnocientífico equivale ao conhecimento gerado na vida cotidiana. O planejador aprende com o cidadão e vice-versa. O que propúnhamos, com o respaldo do Estatuto da Cidade, era construir o planejamento de baixo para cima e transformar os cidadãos, dentro do possível, de objetos para sujeitos do planejamento.
Deu certo?
Dentro das limitações, sim. O processo participativo foi bem intenso, mas também houve reações. Em 2009, na primeira apresentação que fiz do plano, um construtor, que era membro do Colegiado Metropolitano, perguntou: “Vocês estão querendo construir um plano só
para os pobres? Se não fosse o Cedeplar [Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG], responsável por isso, eu ficaria muito preocupado”. A interação com as empresas, particularmente com as mineradoras, foi muito difícil. As mineradoras não participam dos debates, apesar do impacto da mineração de ferro. São mais de 40 barragens na região metropolitana.
Que mudanças vocês propuseram?
Criar uma região metropolitana policêntrica compacta, deixando de lado a visão inicial de uma região monocêntrica dispersa. Belo Horizonte se mantém como centro principal, mas propusemos três centros metropolitanos, um em Betim, outro no norte, perto do aeroporto, e o terceiro no sul, na saída para o Rio. Há também oito subcentros metropolitanos, que viraram zonas de interesse metropolitano, centros microrregionais, de apoio à atividade rural, e eixos de desenvolvimento ao longo das estradas federais e estaduais. Tentamos reduzir o perímetro urbano ao máximo, para evitar o espraiamento da urbanização e a supervalorização da terra, que joga a população pobre ainda mais para a periferia. Nos planos municipais, criamos as zonas de transição do rural para o urbano. Continuam sendo rurais, mas já estão aprovadas como possíveis de se transformarem em urbanas.
É uma solução conciliadora entre os interesses imobiliários e os dos municípios. Os donos das terras têm de pagar a outorga de mudança de uso do solo, mas em compensação será mais simples do que se tivesse de aprovar a mudança do plano diretor na Agência Metropolitana. Nesse caso, já está aprovado previamente no plano diretor. Em Baldim, Vespaziano e Nova União essa ideia já foi aprovada completamente, em outros gerou brigas no grupo de acompanhamento que foram parar no Ministério Público.
Como surgiu o conceito de trama verde e azul?
Em 2008, o governo de Minas Gerais fez um acordo com o governo regional de Nord Pas-de-Calais, uma região de mineração de carvão do norte da França. Na década de 1990, o governo francês fechou a produção de carvão mineral e ficaram pilhas imensas de dejetos de mineração, parecem pirâmides, transformadas em atração turística. A região conseguiu se refazer e hoje está lá uma estação ferroviária nova, a Lille-Europa, com trens rápidos, que liga à Inglaterra e outros países da Europa, ao lado da antiga, a Lille-Flandres. Depois do convênio entre os governos a UFMG fez um acordo de cooperação com a Universidade de Lille e começamos a interagir. Fui para lá diversas vezes e conheci o processo de trama verde, depois incorporaram o azul e virou trame vert et blue, que usaram para criar percursos turísticos. Em 2011 incorporamos esse conceito, que é a revalorização das áreas verdes e dos cursos d’água, e demos uma dimensão que chamo de lefebvriana [do sociólogo francês Henri Lefebvre, 1901-1991],
Belo Horizonte, com destaque a lagoa da Pampulha e o ginásio Mineirinho
que vê o urbano como espaço da festa e do encontro. No plano metropolitano, a trama verde e azul identifica as unidades de conservação e parques estaduais, municipais e federais implantados ou previstos, a rede de hidrografia, os pontos culturais, igrejas, grutas, cachoeiras, ainda com grau de abstração grande. No plano municipal, cada município tem um mapa da trama verde e azul, que inclui as áreas de conservação, as vias de pedestres e de ciclistas, as propostas de parques lineares e os espaços de encontros. Com base nesse conceito, implementamos corredores ecológicos, unindo parques da cidade, nas áreas de interesse metropolitano. O apoio da população foi fortíssimo e a trama virou uma bandeira do planejamento metropolitano. As propostas estão agora nos municípios, devem virar projeto de lei, mas só vão andar se a população, o poder público e as empresas comprarem a ideia e participarem da implantação. Temos de ampliar ao máximo essa participação. Existem conceitos e aplicações similares nos corredores ecológicos de Campinas e de São José dos Campos, no interior paulista. Rio Branco, no Acre, fez um parque linear de 6 quilômetros e está planejando outro, do aeroporto até a cidade.
Como chegou à ideia de urbanização extensiva?
Eu era monitor na Fundação João Pinheiro e trabalhava com o professor e sociólogo Teodoro Lamounier [1939-2018]. Em 1972, ele me disse que estavam montando o primeiro curso de planejamento urbano no Brasil para formar gente para trabalhar nos planos metropolitanos. Ele perguntou se eu queria fazer o curso, com a condição de voltar e trabalhar com eles depois. O curso estava sediado na UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro] e foi ótimo, com estudantes e professores do mundo inteiro. Quando voltei, um ano e meio depois, o plano metropolitano tinha ido para outro órgão e a fundação começou a vender serviços para o governo federal, principalmente para a fronteira agrícola da Amazônia. E me mandaram fazer o planejamento de um lugarejo do então território de Rondônia chamado Vila Rondônia, hoje Ji-Paraná. Eles achavam que tinha 6 mil habitantes e descobri que eram 14 mil. Vi que todos tinham ido para lá por causa
A expansão do
tecido urbano para o campo leva também o germe da polis, da política, e o da civitas, da cidadania
no Cedeplar, onde tinha sido contratado. Fiz uma reflexão sobre esse processo e mostrei que o pessoal de fronteira não poderia prescindir de uma base urbana. Ficou claro para mim que havia um movimento de expansão do espaço urbano que perpassava a fronteira toda. Ninguém andava sem veículos motorizados, consequentemente a rede de serviços de veículos e motores era imensa.
Quais as implicações desse conceito?
de terra, embora ninguém quisesse sair da cidade, perder o acesso à educação e à urbanidade. Os colonos recebiam uma ajuda de custo para construir as casas, até começarem a produzir, mas tinham de desmatar a floresta e plantar arroz, com estradas precaríssimas e distâncias imensas. Cansei de ver gente com saco de arroz para pagar a passagem de ônibus e levar o filho ao médico na cidade. A economia agrícola era frágil. O que segurava o pessoal eram as atividades urbanas – a mulher que lavava roupa na casa dos funcionários do governo e ficava na cidade porque queria os filhos na escola. Depois de quatro meses, voltei com a cabeça completamente virada. O governo federal tinha criado a CNPU [Comissão Nacional de Política Urbana] para regionalizar o planejamento urbano e me contrataram para planejar Rondônia, que ia virar estado. Em 1976 e 1977, visitei Rondônia inteira para fazer esse trabalho. Em 1979, tive de escrever o mestrado em três meses para dar aula
É um processo de urbanização que se impõe para muito além das cidades, integrando espaços rurais e regionais ao espaço urbano e industrial, por meio da expansão dos serviços e de infraestrutura. É como se a cidade estendesse seus tentáculos sobre o campo, porque todos querem ter energia elétrica e acesso à internet. Como resultado, forma-se um espaço híbrido, que não é nem cidade nem campo. A expansão do tecido urbano consolida as formas capitalistas de produção, porque os moradores do campo precisarão trabalhar para comprar o celular, e leva também o germe da polis, da política, e o da civitas, da cidadania. Quem está fora da cidade, além de conforto, quer legislação, salário mínimo, previdência, enfim, cidadania. Índios, sem-terra, atingidos por barragens, quebradeiras de coco, garimpeiros e seringueiros se politizaram, estão organizados em movimentos sociais e atingiram todo o território. Nos últimos 30 anos, a urbanização extensiva atingiu praticamente todo o país, a partir das regiões metropolitanas, articulando os centros industriais, fontes de matérias-primas, rede de transportes, energia e comunicações. No fim do século XX, a produção do espaço nas fronteiras da Amazônia e do Centro-Oeste já se dava a partir de uma base urbano-industrial que emanava dos centros metropolitanos e de seus desdobramentos sobre as regiões agrárias articuladas à base agroindustrial do país. Quando consolidou essa abordagem? Durante o doutorado, na Ucla. Meu orientador era o geógrafo Edward Soja [1940-2015]. Apesar de ter um percurso aparentemente típico de arquiteto, com especialização em urbanismo, mestrado e doutorado em planejamento urbano, tive uma formação transdisciplinar: na especialização cheguei perto da sociologia, no mestrado me encantei com econo -
mia – meu orientador e os examinadores eram economistas – e no doutorado me envolvi com geografia – meu orientador e minha banca eram de geógrafos. Soja estava começando a ler Lefebvre, que eu já conhecia. Foi no início do doutorado que surgiu o termo urbanização extensiva, que apresentei em um encontro de geógrafos em 1987, em Baltimore, Estados Unidos, e no ano seguinte em um congresso em Porto Rico. Meus primeiros interlocutores foram os integrantes de um grupo de estudos da Amazônia aqui no Cedeplar liderado por Donald Sawyer. Eles perguntavam se eu estava falando de urbanização precária, da periferia, não tinham lido Lefebvre direito, não conseguiam entender...
Esse conceito está nas obras de Lefebvre?
Não dessa forma. No livro O direito à cidade, de 1968, ele diz: “Está nascendo uma prática política nas cidades que ninguém está vendo e vai transformar tudo”; é a luta pela cidade, em detrimento da luta pela habitação. Ele diz que a invenção da ideia da habitação como algo separado da cidade é uma estratégia da classe burguesa para tirar a classe trabalhadora do espaço do poder, da festa, da riqueza coletiva, que são as funções que ele atribui às cidades. No Revolução urbana, de 1970, ele descreve o processo de explosão e implosão urbana. O industrial transforma a cidade em uma unidade produtora; em consequência, o que era a antiga cidade implode e se verticaliza,
como ocorreu em Manhattan, a expressão máxima desse processo. E o resto explode em algo que é basicamente para reproduzir a força de trabalho, que não é a cidade porque não é o espaço da festa, da riqueza e do poder, mas simplesmente da habitação e reprodução. Segundo Lefebvre, esse tecido urbano que se sucede à cidade industrial e se estende ao campo e a todo o espaço social é virtualmente planetário, vai atingir o mundo inteiro.
Você concorda com isso?
Concordo. Em maio visitei um colega na Índia e conheci o estado de Querala, com 30 milhões de habitantes, qualidade de vida equivalente à da Europa e uma economia baseada em agricultura, serviços, turismo, medicina ayurvédica, onde o rural e o urbano já se misturaram completamente. Muita gente está discutindo esses fenômenos. Um professor de Harvard, Neil Brenner, pediu para traduzir e publicar dois textos meus em uma coletânea que ele publicou em 2014, Implosions/explosions: Toward a study of planetary urbanization, e deu grande visibilidade a esse debate. Um dos textos tinha saído em 1994 em um livro organizado pelo geógrafo Milton Santos [1926-2001], Território, globalização e fragmentação. Esse meu trabalho de 1994 foi o primeiro de maior divulgação, em que eu falava que à urbanização extensiva necessariamente corresponderia uma naturalização extensiva. É o encontro da cidade com a natureza
ou o urbano natural. Depois do livro fiz uma apresentação em um seminário da USP que Milton Santos organizou. Meu debatedor era um geógrafo famoso, Pedro Geiger. Ele disse: “Esse negócio está muito esquisito, não faz sentido”. Milton foi quem me deu suporte: “Não se preocupe com as críticas, você tem que ousar pensar”. Na época as pessoas não entendiam o que eu estava falando, mas agora entendem. Um amigo que mora em Londres me contou que vai na casa das pessoas e não tem mais lugar para sentar, só tem planta. A garotada mora em apartamento e tem até minhocário.
Depois do trabalho em Rondônia, você voltou para a Amazônia?
Nunca parei de ir. Durante o doutorado ia sempre, para examinar os processos de urbanização em Rondônia, norte de Mato Grosso, sul do Pará e norte do Tocantins. Visitei Machadinho do Oeste, em Rondônia, pela primeira vez em 1984, em um projeto com colegas do Naea [Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará]. Acompanhamos a entrada dos colonos em reservas coletivas, que depois viraram reservas extrativistas. Todo mês de julho levava para lá de 15 a 20 alunos e ficávamos o mês todo, entrevistando todo mundo. Depois voltei em 2005, 2007 e 2010.
O que mudou por lá?
Hoje Machadinho é uma cidade. A economia está consolidada, com produção de café, cacau e gado. Em 2010, um paranaense me disse: “Quando eu vim pra cá eu tinha medo da floresta, ficava doido para derrubar isso tudo, agora volto para o Paraná e fico com pena de ver como é aquilo e vejo que a nossa riqueza aqui é a floresta”. Estão aprendendo a plantar debaixo das árvores da floresta. Em outra pesquisa, examinei a natureza do urbano em três reservas extrativistas: uma de terra firme, no Acre; uma ribeirinha, perto de Santarém, no Pará; e as reservas marinhas do litoral paraense. Passei uma semana em cada lugar. A forma como os moradores veem o urbano depende da posição relativa deles. Se estão perto da cidade, só querem escola, posto de saúde e apoio para a produção; não querem os serviços urbanos porque dizem que junto vem o “bulixo”, que é o boteco, como chamam, e bala. Se estão mais distantes, controlam melhor essa interação. n
em Machadinho do oeste (Ro), em 2010, segurando um pente-de-macaco
política c&t y
a corrida por indicadores de excelência
rankings e comparações internacionais reconhecem o desempenho das universidades estaduais paulistas, que buscam mais impacto
fabrício Marques
aautonomia financeira conquistada em 1989 pelas universidades de São Paulo (USP), Estadual de Campinas (Unicamp) e Estadual Paulista (Unesp) permitiu que elas semeassem um espaço entre as melhores instituições de ensino superior e de pesquisa do mundo. A garantia de um percentual fixo da arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) incentivou, por exemplo, a produção científica das três instituições a se multiplicar por 16 nos últimos 30 anos e o número de doutores formados a crescer sete vezes. Um reflexo desse investimento pode ser visto no dia 17 de julho, quando a revista inglesa Times Higher Education (THE) divulgou a última edição de sua pesquisa de reputação de universidades, baseada na opinião de 11 mil pesquisadores e acadêmicos de diversos países.
A USP foi a única instituição brasileira a figurar entre as 100 de maior prestígio no mundo, dividindo o pelotão do 81º ao 90º lugar com a Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, a Universidade Livre de Berlim, a Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, entre outras.
Os entrevistados apontaram as 15 instituições de maior destaque em relação a pesquisa e ensino – metade da lista é ocupada por universidades norte-americanas. “A autonomia financeira e administrativa foi um divisor de águas para as universidades estaduais paulistas”, afirmou o atual reitor da USP, Vahan Agopyan. “Conseguimos programar o futuro por meio de planos financeiros plurianuais e isso produziu uma melhora em todos os nossos indicadores.” A pesquisa de reputação é um entre vários componentes do ranking das melhores universidades que a THE divulga anualmente, cuja metodologia também considera indicadores de ensino, pesquisa, internacionalização, inovação e empregabilidade. Nesse ranking geral, a USP aparece entre as 300 melhores do mundo. A Unicamp foi classificada entre as 500 melhores e a Unesp entre as mil. Na avaliação de Jacques Marcovitch, reitor da USP entre 1997 e 2001, a autonomia teve um impacto notável na governança das três instituições. “Ela aumentou a responsabilidade dos dirigentes sobre a construção do futuro das universidades, pois não havia como responsabilizar terceiros
esta é a terceira reportagem de uma série sobre os 30 anos da autonomia financeira das universidades estaduais paulistas
a amplitude da pós-graduação
doutores formados em grandes universidades e % de suas matrículas na pós-graduação em 2017
doutores formados
% de matrículas na pós-graduação
pelas dificuldades e desafios que as instituições iam enfrentar”, afirma. As universidades se preocuparam em medir seu desempenho, a princípio por meio de indicadores simples, como o número de artigos publicados, e mais recentemente de métricas envolvendo a avaliação do impacto científico, econômico e social de sua produção. “As diferentes áreas do conhecimento, que davam pesos distintos para as atividades de ensino, pesquisa e extensão, acabaram construindo valores comuns integrando essas três dimensões”, diz Marcovitch, que lidera um projeto para criar um sistema de indicadores de desempenho das três universidades capaz de mensurar a sua influência no desenvolvimento do estado e do país. Comparações internacionais costumam ser úteis para mostrar pontos fortes e vulneráveis das universidades e os resultados de seus esforços para se manter competitivas. As universidades estaduais paulistas são bem avaliadas em indicadores da produção científica e de formação de profissionais de alto nível, mas perdem pontos quando se contabiliza o impacto internacional da pesquisa que realizam – as citações, em geral, cresceram em uma velocidade bem menor do que o número de artigos. Segundo a Clarivate Analytics, entre 2011 e 2016, o impacto da produção da Unicamp foi de 0,94, o da USP de 0,93 e o da Unesp de 0,79 – aquém da média mundial, igual a 1. “O maior desafio para as universidades
é transformar sua produtividade extremamente alta em alto impacto de citações, apesar da ausência de políticas públicas robustas que valorizem o impacto sobre a produtividade, como vemos em outros países, como a China”, diz Marcovitch. A tendência aparece de forma clara no ranking produzido pelo Centro de Estudos em Ciência e Tecnologia (CWTS) da Universidade de Leiden, Holanda, que se baseia em indicadores como número de artigos publicados em inglês e citações. A USP aparece em um honroso 8º lugar no ranking geral, que leva em conta o número de artigos entre 2014 e 2017, à frente de instituições norte-americanas como as universidades de Stanford ou da Califórnia em Los Angeles. Já na lista que se detém sobre os artigos de maior impacto – a quantidade de trabalhos de cada instituição que está entre os 10% mais citados do mundo –, a posição da USP cai para 81º lugar. A Unicamp aparece em 183º lugar em número de artigos e em 322º no dos 10% dos artigos mais citados. A Unesp desponta em 138º lugar em volume e 353º entre artigos com mais citações. “A qualidade da produção científica brasileira é heterogênea e as universidades paulistas têm o que avançar em relação à internacionalização da pesquisa e à ampliação das colaborações internacionais, ainda que todas venham investindo e obtendo progressos”, diz José Augusto Chaves Guimarães, professor do Departamento de Ciência da
USP Harvard Califórnia, los angeles Imperial College london
o lugar nos rankings acadêmicos
a posição de UsP, Unicamp e Unesp nas edições mais recentes de algumas classificações internacionais
tiMES HigHEr
EdUcation (tHE) - 2019
251º a
401º a 500º Unicamp
QUacQUarElli
SyMondS (QS) - 2019
acadEMic r anking of World UnivEr SitiES (arWU) - 2018
Unicamp e Unesp
demic Ranking of World Universities (Arwu), produzido pela Universidade de Shangai, as duas instituições coreanas apareciam entre as 400 melhores do mundo no início dos anos 2000 – e hoje despontam no pelotão entre a 76ª e a 100ª posição. “São instituições jovens, fundadas na mesma época em que nossas universidades conquistaram a autonomia, extremamente dinâmicas e focadas na competição internacional. Isso se reflete no avanço nos rankings internacionais.”
R801º a 1.000º Unesp
Informação do campus de Marília da Unesp, que até recentemente fez parte da Comissão Institucional para Avaliação dos Rankings da universidade.
Universidades
jovens e com foco em tecnologia têm superado as brasileiras em classificações internacionais
Na competição internacional, não basta manter a excelência. É preciso acompanhar ou superar a velocidade com que os rivais progridem. Ao contrário do que acontece no Brasil, governos centrais de vários países investem concentradamente em grupos seletos de universidades para mantê-las no rol das melhores do mundo. A Alemanha lançou em 2005 a Iniciativa de Excelência, para estimular as instituições a competir por recursos e promover colaborações. Já foram investidos € 4,6 bilhões e 14 universidades ganharam o selo de elite, obtendo recursos extras. Na classificação do THE, havia nove universidades alemãs entre as 200 melhores do mundo em 2005. Hoje, elas são 22. Já a China criou nos anos 1990 a Liga C9, associação de nove universidades que reúnem 3% dos pesquisadores, recebem 10% dos investimentos de pesquisa e são responsáveis por 20% das publicações e 20% das citações do país. Renato Pedrosa, professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp e coordenador do Programa FAPESP de Indicadores de Ciência, Tecnologia e Inovação em São Paulo, chama a atenção para outra tendência: a emergência de instituições de porte menor e foco em inovação e tecnologia. Ele menciona o exemplo de duas universidades sul-coreanas, o Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Coreia (Kaist), que é público, e a Universidade de Ciência e Tecnologia Pohang (Postech), privada. De acordo com o Aca-
ankings podem ser úteis para compreender como as instituições são vistas pelo público externo, observa o reitor Vahan Agopyan, mas não faz sentido para universidades brasileiras direcionar estratégias para galgar posições nessas listas. “Os salários dos nossos docentes precisam respeitar o teto do funcionalismo estadual e eu não poderia contratar um ganhador do Prêmio Nobel para trabalhar na USP – o que nos levaria a ganhar posições em rankings. Nem isso faria sentido. Com o salário dele, posso contratar 100 jovens pesquisadores talentosos que vão ajudar a manter a excelência da instituição”, diz. Uma característica das estaduais paulistas é a sua abrangência em relação às áreas do conhecimento. “É mais difícil elevar indicadores em universidades com esse perfil, ao contrário, por exemplo, do Instituto Karolinska, da Suécia, que se dedica à área da saúde e inovação biomédica e tem alto reconhecimento internacional com isso”, diz Aluísio Cotrim Segurado, da Faculdade de Medicina da USP, coordenador do Escritório de Gestão de Indicadores de Desempenho Acadêmico (Egida) da universidade. USP, Unicamp e Unesp obtêm reconhecimento mais destacado em listas que avaliam desempenho em campos específicos do saber. No ranking Arwu, a USP aparece na 151ª e na 200ª posição geral, mas está entre as 50 melhores do mundo em disciplinas como ciência e tecnologia de alimentos (8º lugar), odontologia (9º), agricultura (9º) e biotecnologia (36º). A Unicamp, em 300º lugar no ranking geral, desponta em 5º lugar em ciência e tecnologia de alimentos e 50º em odontologia, enquanto a Unesp apresenta resultados mais expressivos em agricultura (29º lugar) e veterinária (34º).
O destaque em ciências agrícolas é fácil de entender. A contribuição do Brasil na
áreas de destaque em classificações setoriais
Cursos classificados entre os 50 melhores no Global Ranking of Academic Subjects da Universidade de Shangai, edição 2019
Ciência e tecnologia de alimentos
odontologia
agricultura
Veterinária
Biotecnologia
Ciência e tecnologia de alimentos
odontologia
agricultura
Veterinária
Rankings by Subject, edição 2019 USp
produção científica mundial está na casa de 2,8%, enquanto nas ciências agrícolas a participação chega a 8%. “O investimento de São Paulo em ciências agrícolas é antigo e deu origem a instituições como o Instituto Agronômico de Campinas e a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP”, diz Renato Pedrosa, da Unicamp. “A presença da Unesp no interior do estado está ligada à excelência da universidade em veterinária e ciências agrárias”, afirma José Guimarães. No caso da odontologia e da biotecnologia, são áreas da pesquisa em medicina e saúde, na qual o Brasil também investiu e formou pesquisadores de alto nível e em boa quantidade. Para Pedrosa, a pesquisa brasileira conseguiu concentrar capacidades em várias áreas nas quais consegue destacar-se. “Entre os países com mais publicações sobre zika e microcefalia entre 2014 e 2018, o Brasil aparecia em segundo lugar, atrás apenas dos Estados Unidos, e também tinha muitos dos papers altamente citados”, diz.
Pedrosa calculou o custo de manter o sistema intensivo de pós-graduação nas estaduais paulistas, comparando-o com o de 15 grandes universidades que também têm mais de 20% de seus alunos em cursos de mestrado e doutorado. Enquanto o dispêndio médio por matrícula de alunos de graduação e de pós-graduação foi de R$ 53 mil na USP, de R$ 56 mil na Unicamp e de R$ 38,9 mil na Unesp, chegou a R$ 328 mil em Harvard. “Quanto mais intensiva em pós-graduação, maior o dispêndio por aluno da instituição. Mas o que se vê é que as três universidades estaduais paulistas não são caras, consideradas as referências internacionais”, diz Pedrosa.
oCursos classificados entre os 50 melhores no QS World University
odontologia
Ciências do esporte engenharia de minas
Geografia arquitetura
engenharia civil agricultura
odontologia
odontologia
O trio de universidades também se distingue pela intensidade com que se dedica à pós-graduação. Em 2017, a USP formou 3.078 doutores, desempenho superior, em termos quantitativos, ao de grandes universidades de pesquisa do mundo: Harvard formou 1.528 doutores naquele ano e a Universidade da Califórnia em Berkeley, 1.182. A performance da Unesp (1.227 doutores em 2017) e da Unicamp (997) também foi expressiva (ver Pesquisa FAPESP nº 281). “Juntas, as três universidades estaduais paulistas são responsáveis por 40% dos títulos de doutorado do Brasil. Nenhum outro país tem um grupo restrito de instituições com tamanho peso”, afirma Pedrosa. É em programas de pós-graduação que a maior parte da pesquisa das universidades se desenvolve. Isso ajuda a explicar por que pesquisadores das três estaduais paulistas participam de 35% da produção científica nacional. Pilares do sistema brasileiro de pós-graduação criado nos anos 1960, USP, Unicamp e Unesp são responsáveis por 12% dos mais de 4 mil programas de mestrado e doutorado do país. Segundo recente avaliação dos programas feita pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), 465 programas do país receberam notas 6 e 7, as mais elevadas da escala. Trinta por cento desses programas estão nas estaduais paulistas.
modelo de financiamento de USP, Unicamp e Unesp é único. “A ideia de receber um percentual da arrecadação tributária é fruto de uma cultura muito específica que deu certo no estado de São Paulo, mas a estabilidade na oferta de recursos que ela propicia está presente nas grandes universidades de pesquisa”, afirma Agopyan. Nos Estados Unidos, universidades se financiam por meio de fundos patrimoniais, resultantes de doações de ex-alunos e empresas, da competição por recursos de pesquisa e da cobrança de taxas dos alunos, enquanto as públicas recebem recursos em geral atrelados a objetivos específicos. O orçamento da Universidade da Califórnia em Berkeley, pública e estadual, foi de US$ 2,8 bilhões no ano fiscal de 2017 e 2018. A origem é pulverizada: 33% provêm de taxas de matrícula, 14% de recursos estaduais, 15% de agências de fomento, 9% de parcerias públicas ou privadas e 10% de atividades educacionais, 10% de doações, 5% de rendimentos e 4% de outras receitas. Já a França aprovou em 2007 uma lei que conferiu mais autonomia a suas universidades públicas – elas puderam se tornar proprietárias de seus prédios e usá-los como garantia para fazer empréstimos. Mas foram obrigadas a cumprir metas medidas a cada quatro anos, e apenas as que atingem o desempenho esperado ampliam o financiamento público. Para Vahan Agopyan, a experiência internacional pode ajudar a aperfeiçoar o modelo das estaduais paulistas. “Podemos melhorar nosso sistema, pois a oscilação na arrecadação de impostos impõe desafios para a nossa governança.” n
P U blicações científicas y
Produção mais visível
Universidades estimulam pesquisadores a armazenar e tornar disponíveis cópias de seus artigos em repositórios institucionais
os repositórios institucionais, grandes bancos de dados nos quais as universidades armazenam e disponibilizam ao público sua produção científica, começam a ganhar expressão no país. Um exemplo é o da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que foi criado em 2013 e hoje dispõe de cópias de 39,8 mil artigos publicados em acesso aberto (quase 40% deles vinculados a projetos apoiados pela FAPESP) e 37 mil em acesso restrito. De acordo com Flavia Bastos, coordenadora das bibliotecas da Unesp e coordenadora-executiva do repositório institucional da instituição, o trabalho vem rendendo frutos. “A visibilidade das pesquisas foi acentuada e se tornou fácil encontrar artigos do repositório em sites de buscas como o Google”, diz.
A Unesp criou um sistema que coleta de forma automática artigos publicados por seus pesquisadores, arquivando-os depois de confirmar a autoria. “Também verificamos as restrições impostas pelas revistas e guardamos as cópias obedecendo a essas limitações”, diz, referindo-se a consultas ao site Sherpa/RoMEO
(www.sherpa.ac.uk/romeo/index.php) –serviço que mostra a política de revistas e editoras em relação a acesso aberto e direitos de arquivamento em repositórios. Atualmente, a universidade prepara mudanças para poder arquivar preprints de seus pesquisadores e dados brutos obtidos em trabalhos científicos.
A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) acumulou, desde 2015, mais de 155 mil documentos em seu repositório institucional que já geraram 7,8 milhões de downloads, sendo 1,4 milhão no exterior. “Também implantamos o Portal de Periódicos da Unicamp, com todos os periódicos publicados pela universidade com o objetivo de reunir, apoiar a qualificação e disponibilizar em acesso aberto”, afirma Valeria Martins, coordenadora do sistema de bibliotecas.
Já a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que há cinco anos abastece seu repositório com a produção de seus pesquisadores, vai adotar uma nova estratégia para ampliar o acervo em acesso aberto, composto hoje por 24,5 mil artigos – 21% deles vinculados a projetos apoiados pela FAPESP –, além de 11 mil
dissertações de mestrado e 7 mil teses de doutorado, entre outros. Ainda neste ano, os pesquisadores terão a opção de depositar eles próprios documentos no repositório, que atualmente recebe itens coletados automaticamente. “Os repositórios são importantes para divulgar o trabalho dos docentes e ajudam as universidades a prestar contas sobre a sua produção”, afirma Maria Eduarda dos Santos Puga, coordenadora da rede de bibliotecas da Unifesp.
Grandes universidades mantêm repositórios bem organizados que são fundamentais para centralizar e disseminar sua produção científica e armazenar dados de pesquisa. Recentemente, a Universidade de São Paulo (USP) decidiu dar incentivos para que seus pesquisadores arquivem cópias de artigos e documentos de sua autoria no repositório da Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica. O objetivo é permitir que o conhecimento gerado na universidade seja consultado livremente na web. Segundo Jackson Bittencourt, diretor técnico da agência e pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB), a
intenção é dar apoio aos pesquisadores para que tornem seus artigos disponíveis para download rapidamente, de preferência logo após a publicação. Em certos casos, isso não é possível porque alguns periódicos impõem um período de embargo para divulgação na internet ou só permitem a divulgação de versões preliminares do trabalho. “Queremos tornar o acesso aberto uma política mais evidente para os pesquisadores da USP”, diz Bittencourt.
A USP tem arquivado 20% de sua produção científica disponível no repositório institucional, no qual é possível consultar 32 mil teses e 47 mil dissertações. Parte dos artigos de seus pesquisadores está publicada em um conjunto de 183 periódicos de institutos e faculdades da USP, com mais de 90 mil artigos em acesso aberto. Mas, como a política de acesso aberto é recente, apenas 41,6 mil papers de autores da USP que foram divulgados em outras publicações estão disponíveis no repositório. A instituição quer ampliar o conjunto de artigos depositados sem que os autores tenham trabalho com isso. “Se o pesquisador informar que um
paper foi publicado, teremos mecanismos digitais para obter uma cópia e arquivá-la”, diz Bittencourt.
VErtENtES
A criação de repositórios é uma das opções do movimento de acesso aberto, criado para disseminar as publicações científicas na web sem cobrar nada dos usuários. O acesso aberto tem duas grandes vertentes. Uma delas é a via dourada, por meio da qual as editoras franqueiam o acesso ao artigo assim que ele é publicado, sem custos para o leitor – na maioria dos casos, a conta é paga pelos pesquisadores, através da taxa de publicação de artigos (APC), ou por subsídios de agências ou universidade. No Brasil, a maioria dos periódicos de acesso aberto não cobra taxa de publicação. A segunda vertente é a via verde, na qual os pesquisadores depositam em repositórios uma cópia do artigo publicado em periódico fechado, que pode ser a versão final ou a anterior à revisão pela editora. As duas vias são complementares: um autor que não possa pagar para publicar em acesso aberto pode esco -
lher um periódico fechado que permita o depósito do paper em um repositório, tornando-o acessível.
A via dourada disseminou-se nos últimos anos, impulsionada pelo interesse das editoras, que a incorporaram em seu modelo de negócios. “Já a via verde depende muito da existência de políticas públicas e institucionais que pressionem os pesquisadores a arquivarem sua produção”, observa Abel Packer, coordenador da biblioteca de revistas de acesso aberto SciELO Brasil. Segundo ele, o uso dos repositórios avançou no mundo, nos últimos anos, graças a determinações de agências de fomento, como os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, obrigando pesquisadores que receberam financiamento a depositar uma cópia dos artigos em algum desses arquivos. “Em alguns casos, a prática enfrenta resistência de pesquisadores, que preferem publicar em revistas de acesso aberto temendo que as citações feitas em artigos depositados em repositórios não sejam agregadas a estatísticas oficiais. Isso pode ser evitado inserindo na versão disponível no repositório a referência à versão final do artigo publicado”, diz Packer.
A FAPESP atualizou recentemente sua política de acesso aberto, exigindo que autores de trabalhos resultantes de projetos e bolsas financiados pela Fundação os divulguem em periódicos de acesso aberto ou que permitam o arquivamento dos artigos em um repositório público. A política não interfere na escolha do pesquisador sobre as revistas em que considera melhor publicar seus trabalhos. Igualmente, não obriga a publicação em revistas de acesso aberto com ou sem cobrança de APCs. Quem optar por depositar o artigo em um repositório institucional deverá fazê-lo assim que o paper for aprovado para publicação ou em prazos compatíveis com as restrições de cada revista. “Recomendamos que as bibliotecas universitárias instruam os autores a informá-las por meio digital sempre que um trabalho for submetido, enviando já a cópia do preprint ou do postprint e as informações bibliográficas”, disse à Agência FAPESP o diretor científico da Fundação, Carlos Henrique de Brito Cruz. “Cabe à biblioteca fazer o seguimento do processo e incluir no repositório a versão permitida pelos editores.” n Fabrício Marques
Parte significativa dos políticos no Brasil tende a rever suas opiniões quando exposta a evidências obtidas por meio de estudos científicos. Eles também estão dispostos a incorporar o conhecimento produzido por esses trabalhos em seu repertório teórico, aplicando o na formulação ou no aprimoramento de políticas públicas. As conclusões se baseiam em análises realizadas por um grupo internacional de pesquisadores, entre eles a economista brasileira Diana Moreira. Em um trabalho publicado em fins de junho no repositório do National Bureau of Economic Research (NBER), eles avaliaram o interesse de prefeitos e autoridades de várias cidades brasileiras pelo conhecimento produzido por estudos acadêmicos sobre a eficácia de políticas públicas, como eles consumiam esse tipo de informação e até que ponto se valiam de tais resultados para respaldar decisões ou balizar a implementação de estratégias setoriais. “Um dos principais resultados do nosso estudo é que esses líderes políticos querem usar as
Quando a ciência molda Ações
Estudo avalia interesse de políticos brasileiros por pesquisas acadêmicas e como os resultados influenciam seu processo de tomada de decisão
evidências obtidas em estudos no processo de tomada de decisão, desde que os trabalhos envolvam grandes amostras”, destaca Moreira, que concluiu seu doutorado na Universidade Harvard em 2017 com uma tese sobre governança na área de educação e hoje é professora assistente do Departamento de Economia da Universidade da Califórnia em Davis, nos Estados Unidos.
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores avaliaram a percepção e a receptividade de prefeitos, viceprefeitos e secretários municipais de 2.150 cidades brasileiras acerca de dados sobre a eficácia de políticas públicas. O levantamento foi realizado durante duas reuniões promovidas pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), em Brasília, em maio de 2017 e 2018. A escolha dos prefeitos para analisar o impacto do conhecimento científico foi proposital. Moreira explica que o sistema adotado nos municípios brasileiros é considerado ideal para esse tipo de estudo, uma vez que o papel desempenhado pelos prefeitos tende a ser análogo ao de chefes de Estado de
muitos países. “Eles são eleitos diretamente pelo povo e individualmente podem exercer um poder considerável nas decisões políticas das cidades que administram”, destaca a economista. “E, como acontece em muitos países, os administradores locais costumam ter dificuldade para acessar informações resultantes de projetos de pesquisas.”
Os pesquisadores dividiram o estudo em duas partes. Em um primeiro momento, apresentaram aos políticos reunidos no evento da CNM algumas estratégias de promoção do desenvolvimento infantil por meio de estímulo e brincadeiras desempenhadas por adultos com crianças de até 6 anos. Para que os políticos compreendessem melhor essas estratégias, a equipe lhes apresentou o programa brasileiro Criança Feliz, implementado em 2016 pelo governo federal e que prevê visitas domiciliares de professores e profissionais da saúde com o objetivo de promover o desenvolvimento de crianças em seus primeiros anos de vida, articulando essas atividades com ações de saúde, educação e assistência social.
Rodrigo de Oliveira Andrade
Os políticos em seguida tinham de responder a um questionário eletrônico em que manifestavam impressões e expectativas em relação aos impactos que esses programas poderiam ter caso fossem implementados em seus municípios. Os pesquisadores depois lhes apresentaram alguns estudos, selecionados aleatoriamente, que analisavam a aplicação e a eficácia dessas estratégias de promoção do desenvolvimento infantil em diferentes países no mundo. Os políticos, no entanto, não tinham acesso aos resultados dos trabalhos. “Destacávamos apenas o local em que os estudos haviam sido desenvolvidos e a amostra avaliada por cada um deles”, explica Moreira. O objetivo, segundo ela, era determinar quais estudos despertavam mais curiosidade nos participantes em saber os resultados. Por meio de um método comum de avaliação econômica e social de políticas públicas, avaliouse a demanda dos políticos para conhecer os resultados dos estudos. Os pesquisadores distribuíram para cada prefeito ou secretário 100 bilhetes, cada bilhete com uma chance de
ganhar uma viagem para visitar a Universidade Harvard e participar de atividades relacionadas à situação político econômica do Brasil. Em uma situação hipotética, os participantes podiam guardar seus bilhetes para o sorteio ou usar alguns, ou todos eles, para serem informados sobre os resultados dos estudos pelos quais mais se interessavam. Verificouse que os políticos se mostravam dispostos a pagar, em média, 45 tíquetes para conhecer as conclusões dos estudos. No entanto, eles se dispunham a pagar ainda mais quando as pesquisas haviam sido feitas com grandes amostras, demonstrando pouco interesse pelos resultados de trabalhos baseados em amostras pequenas ou feitos em países com nível de renda parecida com a do Brasil. “Esses dados indicam que os líderes políticos são capazes de processar as informações desses estudos desde que seus resultados sejam apresentados de modo descomplicado”, afirmam os autores.
Em um segundo experimento, realizado com uma amostra de 1.818 prefeitos, os pesquisadores avaliaram em que medida a apresentação de evidências científicas envolvendo a implementação de
s ociedades com instituições políticas pluralistas costumam tomar decisões mais balanceadas e qualificadas
determinada política pública exerceria alguma influência nas decisões de administradores em relação à aplicação de estratégias semelhantes em seus municípios. Para isso, a equipe organizou uma sessão paralela ao evento realizado pela CNM, na qual apresentou aos participantes estudos científicos tratando dos impactos do envio de cartas de advertência aos contribuintes para lembrálos de quitar seus débitos fiscais. “Escolhemos essa política pública porque seu impacto é bem documentado em muitas pesquisas e porque ela tende a ser barata e fácil de implementar”, diz Moreira. Os participantes podiam escolher participar ou não das apresentações.
“Curiosamente, os prefeitos que mais compareceram eram os mais jovens”, destaca a economista. Meses após as apresentações, os pesquisadores contataram os prefeitos que haviam participado das apresentações para saber se eles tinham adotado a política pública abordada. Constataram que a participação dos políticos nessa sessão aumentou em 10 pontos percentuais as chances de eles colocarem em prática os lembretes ao contribuinte em seus municípios. Moreira reconhece que os resultados obtidos em seu estudo poderiam ter sido diferentes caso as políticas públicas abordadas tratassem de temas mais complexos, polêmicos ou com grande poten
Observatório de tendências
Projeto analisa prioridades de diferentes governos em relação à agenda de políticas públicas
Pesquisadores de diversos países trabalham juntos para montar um banco de dados que permita mapear e analisar a atenção de governos a políticas setoriais e os principais atores envolvidos na construção de agendas e formulação de políticas públicas. o comparative agendas Project (caP) reúne mais de 20 países, entre eles o b rasil, único da américa latina a integrar a iniciativa por meio do laboratório de Estudos sobre a agenda Governamental no b rasil. criado em 2015, o projeto brasileiro é coordenado pela socióloga ana cláudia niedhardt c apella, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de araraquara, e pelo cientista político Felipe Gonçalves b rasil, atualmente
pesquisador em estágio de pós-doutorado no Departamento de Governo da Universidade do texas, em austin, nos Estados Unidos. a construção desse banco de dados é feita por meio do levantamento de Mensagens ao congresso nacional, leis aprovadas, medidas provisórias, emendas constitucionais, discursos de posse e pesquisas de opinião pública. “os documentos são coletados e depois tratados a partir de um processo de codificação, aplicado para padronizar os dados e apontar o nível de atenção dos governos para diversos setores”, explica Felipe b rasil. “Desse modo é possível estabelecer análises comparadas entre os países”, destaca o pesquisador. Em um estudo ainda em andamento eles tentam identificar variáveis
comuns nos discursos dos presidentes Donald trump, dos Estados Unidos, e Jair b olsonaro, do b rasil. “a análise comparada dos discursos dos dois evidencia um foco exacerbado em temas gerais e não relacionados a políticas públicas”, diz. “os discursos raramente abordam soluções para problemas reais e muitas vezes têm como foco questões como família, religião e costumes.” segundo o pesquisador, esse esforço de levantamento e análise de dados é importante para a compreensão do processo de produção de políticas públicas no b rasil. “os resultados nos permitirão entender as especificidades do processo de produção e padrões de mudança de políticas públicas no país em relação ao mundo.”
cial de impacto econômico e político. Administradores públicos têm opiniões prévias mais arraigadas em relação a certas políticas e isso pode dificultar a incorporação de evidências científicas que apontam para outro sentido.
t em A s cO mplexO s A cientista política Flavia Donadelli, professora de gestão pública e assessoria política na Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia, que não participou do estudo publicado no NBER, conta que os políticos brasileiros são pouco permeáveis a mudanças de opinião em relação, por exemplo, a políticas ambientais. “Muitos políticos do Congresso Nacional, pelo menos nos casos que estudei, valorizavam pouco informações científicas e baseavam suas decisões em interesses econômicos ligados a setores específicos, como o agronegócio”, destaca.
Donadelli analisou a tramitação de três alterações na regulamentação ambiental no Congresso brasileiro entre 2005 e 2015: o código florestal, a lei de acesso a recursos genéticos e a regulamentação de pesticidas. A análise se deu à época em que a pesquisadora fazia seu doutorado na London School of Economics and Political Science, em Londres, Reino Unido. Sua pesquisa tomou como base atas, relatórios, documentos produzidos pelas comissões e textos aprovados e sancionados pelos parlamentares. Ela constatou que, apesar da participação ativa da comunidade científica em audiências públicas com deputados e senadores, a influência das evidências apresentadas foi mínima. “A ciência nesse caso contribuiu pouco para o aprimoramento de políticas ambientais brasileiras”, afirma a pesquisadora.
Donadelli destaca que estimar a relevância da ciência na definição de políticas públicas é uma tarefa bastante complexa. “Existem diversos outros fatores que podem influenciar tanto na incorporação do conhecimento pelos parlamentares quanto na articulação política para o desenvolvimento e a implementação de políticas públicas”, explica. Frequentemente, ela diz, o impacto se restringe apenas ao uso de argumentos científicos em debates públicos.
O cientista político Felipe Gonçalves Brasil, pesquisador em estágio de pós doutorado no Departamento de Gover
no da Universidade do Texas, em Austin, nos Estados Unidos, concorda com Donadelli. “A simples apresentação de evidências científicas consistentes aos políticos não significa que elas serão incorporadas a determinada política pública”, afirma o pesquisador, integrante do Laboratório de Estudos sobre a Agenda Governamental no Brasil (ver box). “Isso porque as relações políticas costumam ser permeadas por conflitos partidários, convicções ideológicas, influência de interesses privados e disponibilidade orçamentária.”
Também em muitos casos os políticos, mesmo concordando com as evidências apresentadas, optam pelo caminho contrário, temendo perder apoio de sua base eleitoral ou grupos econômicos. No entanto, Felipe Brasil destaca que o estudo publicado no NBER é importante por desenvolver uma metodologia capaz
de permitir aos pesquisadores identificar padrões e isolar variáveis, a fim de desenvolver estratégias capazes de ampliar a influência da ciência no processo de tomada de decisão.
Se não é viável alcançar todas as variáveis, é possível fazer bem a lição de casa em algumas delas, como tornar o conhecimento científico mais acessível aos parlamentares. Uma estratégia possível nesse sentido, segundo o cientista político, seria investir mais em escolas de governo, instituições públicas criadas para promover a formação, o aperfeiçoamento e a profissionalização de agentes públicos. “Outra possibilidade seria ampliar ações coordenadas envolvendo representantes públicos e setores do universo acadêmico”, ele diz.
Isso pode ajudar a tornar as instituições políticas mais inclusivas e a fazer com que os processos de consulta a fontes que apresentem evidências contraditórias sejam incorporados nas decisões de maneira mais efetiva. “Sociedades com instituições políticas pluralistas tendem a tomar decisões mais balanceadas e qualificadas, envolvendo mais atores no processo de tomada de decisão”, destaca Donadelli. “Ao mesmo tempo, informações técnicas, dados científicos e pesquisas de impacto fornecem subsídios para discussões mais consistentes”, completa a cientista política. n
Projetos
1. agenda governamental brasileira: Mapeamento e análise do período 1995-2014 (nº 18/16289-3); Modalidade auxílio à Pesquisa – regular; Pesquisadora responsável ana cláudia niedhardt c apella (Unesp); Investimento r$ 21.175,00.
2. abordagens teóricas e metodológicas para o estudo da dinâmica das políticas públicas: o brasil na perspectiva do comparative agendas Project (nº 18/11032-4); Modalidade bolsas de Pós-doutorado; Pesquisadora responsável ana cláudia niedhardt capella (Unesp); Bolsista Felipe brasil (Unesp); Investimento r$ 244.959,33.
Olimpíadas científicas y
Um lugar para as M NINAS matemática na 3
Uma competição
só para garotas busca criar um ambiente mais acolhedor para os talentos femininos da disciplina
Olga de Mello
oInstituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) vai organizar no segundo semestre uma olimpíada de matemática exclusivamente para participantes do sexo feminino. Trezentas alunas do 8º e do 9º anos do ensino fundamental e dos três anos do ensino médio de escolas de todos os estados do país serão convidadas a disputar a competição, batizada de Torneio Meninas na Matemática (TM2). Elas estão sendo recrutadas por seu bom desempenho nas edições de 2018 da Olimpíada Brasileira de Matemática nas Escolas Públicas (Obmep) e da Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM), que mobilizam 18 milhões de
estudantes de mais de 50 mil instituições de ensino e são organizadas pelo Impa e pela Sociedade Brasileira de Matemática.
“O torneio quer atingir meninas no país inteiro e ser um incentivo adicional para as que se interessam pela disciplina”, explica o diretor-geral do Impa, Marcelo Viana. Um dos objetivos da iniciativa é tentar evitar que o interesse das garotas pela matemática decaia ao longo da vida escolar, como acontece hoje no Brasil. Na Obmep de 2018, por exemplo, apenas 30% dos medalhistas no ensino fundamental eram do sexo feminino e a proporção ficou ainda menor, na casa dos 20%, entre os participantes do ensino médio.
Mas a meta principal é mais abrangente: trata-se de criar um ambiente e uma rede de relacionamento mais amigáveis para as alunas que gostam de matemática, longe dos estereótipos que, na escola e na sociedade, atribuem às mulheres uma dificuldade inata para a disciplina, o que justificaria a enorme predominância masculina entre seus profissionais e pesquisadores. “Não há intenção de separarmos mulheres e homens pelo conhecimento, mas criar um ambiente estimulante para elas, já que a disparidade na área as leva a desanimar e a seguir outros cursos”, diz Viana.
Dados da Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apontam uma prevalência masculina de 65% nas áreas Stem, sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharias e matemática. Nesta última, o problema é especialmente acentuado. Um exemplo recente: havia apenas 60 mulheres entre os 594 estudantes de mais de 100 países que participaram da Olimpíada Internacional de Matemática de 2018, realizada na Romênia. Desde 1936, a União Internacional de Matemática concede, a cada quatro anos, a medalha Fields para até quatro matemáticos com, no máximo, 40 anos de idade, que tenham se destacado por contribuições excepcionais
A equipe que representou o Brasil na olimpíada feminina em Kiev: medalha de ouro inédita
para a disciplina. Entre os 60 ganhadores da medalha, apenas uma mulher, a iraniana Maryam Mirzakhani (1977-2017), radicada nos Estados Unidos, recebeu a Fields, em 2014. Quase não foi receber o prêmio, pois fazia tratamento contra o câncer que a matou três anos depois (ver Pesquisa FAPESP nº 258). O fenômeno é gritante no próprio Impa, que tem apenas uma mulher entre seus 48 pesquisadores – Carolina Araújo, especialista em geometria algébrica com doutorado na Universidade de Princeton, Estados Unidos.
Das medalhistas do Torneio Meninas na Matemática sairá o grupo que vai representar o Brasil na 9ª Olimpía-
da Europeia Feminina de Matemática (EGMO), que ocorrerá na Holanda em abril de 2020. A EGMO surgiu em 2012 com a ambição de criar uma raia própria para as garotas interessadas em matemática. O Impa organizou a participação brasileira nas três últimas edições dessa olimpíada e cuidou da preparação das delegações de estudantes. Na 8ª edição do evento, realizada em abril deste ano em Kiev, na Ucrânia, o Brasil conquistou uma inédita medalha de ouro, além de duas de bronze, com a equipe formada por Mariana Bigolin Groff, 17 anos, de Frederico Westphalen (RS); Ana Beatriz Studart, também de 17, de Fortaleza (CE); Bruna Nakamura, 16, de Indaiatuba (SP); e Maria Clara de Lacerda Werneck, 17, do Rio de Janeiro (RJ). No ranking geral, o Brasil ficou em 20º lugar entre 49 países. O treinamento para a olimpíada feminina se baseia no mesmo modelo dos participantes da OBM: há encontros presenciais com mentores e, sobretudo, longas jornadas de estudo e práticas de exercícios. A maioria dos alunos de alto desempenho é atraída, muitas vezes
com bolsas de estudo, para colégios com atividades voltadas para essas competições. No caso das garotas, a preparação é mais abrangente. Duas jovens mentoras que concluíram a graduação há pouco tempo ajudam a estimular as alunas.
“Hoje acompanho seis meninas do ensino médio em fase de preparação para olímpiadas. Mesmo distante, mantenho conversas regulares com todas, algumas em grupo por vídeo, outras individuais. O foco é mantê-las empolgadas”, diz a cientista da computação paulista Deborah Alves, de 26 anos, uma das líderes da equipe que foi à Ucrânia. Depois de passar cinco anos nos Estados Unidos, onde cursou matemática e ciência da computação na Universidade Harvard e trabalhou em uma empresa de tecnologia, Alves voltou ao Brasil em 2017 e ajudou a criar uma startup que conecta médicos de família com empresas que querem fornecer assistência de saúde aos funcionários, mas não oferecem planos de saúde.
“Já nas primeiras participações em olimpíadas e nos treinamentos oferecidos pela OBM, as garotas são poucas e a tendência é o número reduzir-se ainda mais nos ciclos seguintes. Elas acabam se sentindo sozinhas e em situação de inferioridade”, diz a matemática carioca Luize D’Urso, de 22 anos, que também atuou como mentora da equipe brasileira na EGMO. “Por isso, tentamos conversar sempre por vídeo para incentivá-las nos estudos e dar conselhos. Ou seja, um tratamento mais personalizado e motivacional.” Luize D’Urso orientou a equipe com as credenciais de quem ganhou sete medalhas na Obmep nos ensinos fundamental e médio, conquistadas quando cursava um colégio militar. Graduada em matemática na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) em 2018, foi a única caloura de sua turma. Diz não ter estranhado, já que, quando treinava para a Obmep, havia visto muitas meninas deixarem de lado cursos e treinamentos em matemática em geral por falta de estímulo das famílias. “Muitos pais não gostam que as filhas
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Luize D'urso, de 22 anos, orienta a equipe olímpica feminina e criou um projeto na puC-rio para treinar meninas de escolas públicas aos sábados
Muitas vezes, nem os professores tratam meninos e meninas de forma igualitária, diz a matemática luize D'Urso
estudem matemática em nível competitivo e passam a cobrar dedicação a outras disciplinas quando estão em época de prestar vestibular. Já os meninos são mais estimulados ao pensamento lógico e à matemática. O problema é estrutural; muitas vezes, nem os professores conseguem tratar meninos e meninas de maneira igualitária”, afirma.
atualmente, D’Urso faz mestrado na PUC. Numa mostra de como o mundo das mulheres da matemática é pequeno, sua orientadora é Carolina Araújo, a única pesquisadora do Impa. D’Urso também está à frente de um projeto batizado de Matemática para Garotas, que recruta estudantes de ensinos fundamental e médio do Rio e dá aulas de lógica nas tardes de sábado em uma sala cedida pela PUC. “Esta -
mos perdendo muitas meninas que poderiam contribuir para a nossa equipe na Olimpíada Internacional de Matemática e ainda mais para a ciência. Participar das competições estimula carreiras nas áreas de exatas, matemática, física ou engenharia”, afirma D’Urso.
A inédita medalha de ouro na EGMO de Kiev foi uma conquista da gaúcha Mariana Bigolin Groff, de 17 anos. Vencedora de seis medalhas na Obmep, ela deixou a pequena cidade de Frederico Westphalen, na divisa com Santa Catarina, para viver nos últimos três anos em três capitais – Porto Alegre, São Paulo e Fortaleza –, atendendo a seguidos convites de escolas que lhe ofereceram bolsas de estudo. Hoje, estuda no Colégio Farias Brito, na capital cearense, que fornece moradia e alimentação com outros bolsistas. Atualmente, sente-se tranquila vivendo longe da família. Há quatro anos, quando deixou Porto Alegre para morar em São Paulo, a saudade a fez retornar para Frederico Westphalen. “Eu era muito jovem e depois de um ano quis voltar para casa. A experiência compensa, mas exige maturidade”, diz Mariana, cuja trajetória começou no 7º ano, quando disputou pela primeira vez a Obmep. Na EGMO, já havia conquistado medalhas de bronze e prata nas edições de 2017 e 2018. O ouro em Kiev fechou seu ciclo de participações olímpicas na fase do ensino médio.
Ela conta que se sentia intimidada quando participava do treinamento de olimpíadas mistas. “Era a única menina
Não podemos
aceitar a cultura arcaica que segrega as mulheres das ciências exatas, afirma Marcelo Viana, do Impa
graduação nos Estados Unidos, mas o curso ainda não foi escolhido. “No sistema universitário americano, a graduação começa com um núcleo comum de disciplinas de formação genérica. Não é preciso chegar lá sabendo o que vai cursar”, diz.
anuma turma preparatória de 35 alunos para a OBM. Houve casos em que os meninos se reuniram num quarto do hotel para jogar e eu não quis ir. Não me sentia bem-vinda e me questionava se deveria estar mesmo fazendo isso.” Ao ingressar no grupo exclusivamente feminino que disputou a EGMO, sentiu-se mais confortável. “Vimos que não estávamos sozinhas e ficamos mais confiantes de que também pertencemos a esse lugar”, afirma. Quanto ao futuro, pretende fazer
cearense Ana Beatriz de Castro Studart, de 17 anos, trouxe de Kiev uma medalha de bronze na EGMO, depois de ganhar uma de prata em 2018. Quando cursava o 6º ano no Colégio Militar de Fortaleza, começou a participar de competições de matemática, física e robótica. No ano seguinte, representou o país na Olimpíada Rioplatense de Matemática, que reúne na Argentina estudantes de vários países latino-americanos. Mais tarde, recebeu uma oferta de bolsa de estudos no mesmo Colégio Farias Brito, o mesmo onde Mariana Groff estuda – a instituição de ensino de Fortaleza é conhecida por investir na preparação de olimpíadas de ciências exatas. De algumas amigas, Ana Beatriz ouvia que era melhor não tentar do que errar. Ao surgir a oportunidade de disputar a EGMO, a princípio teve dúvidas se deveria competir. “Eu não tinha certeza se queria participar de uma olimpíada dividida por gênero porque na época eu ainda não entendia o quanto isso é importante.” Ela faz planos para estudar fora do Brasil: “Tenho um interesse específico na matemática aplicada à pesquisa biológica para me aprofundar na área de pesquisa”. Marcelo Viana, do Impa, esclarece que o empenho em incluir cada vez mais mulheres nas competições internacionais busca garantir mais diversidade para a matemática e incentivar talentos com potencial para ajudar no desenvolvimento do país, mas não só por isso. “Não queremos privilegiar a matemática em detrimento das ciências humanas ou biológicas. Filosofia, sociologia, biologia e história, entre tantas ciências, são essenciais para o crescimento do país e a formação do cidadão”, diz Viana. “Mas não podemos aceitar que uma cultura arcaica e machista siga segregando as mulheres das ciências exatas e da matemática em particular. É muito difícil apagar os fatores socioculturais que fomentam esse fenômeno, mas é nossa obrigação lutar contra essa disparidade”, afirma. n
Cerimônia de premiação da obmep, em julho: garotas levaram apenas 22% das medalhas de ouro
a ambição produz inovação
Para o presidente do Conselho Europeu de Pesquisa, é preciso financiar projetos de risco e ajudar a sociedade a compreender o potencial transformador da ciência
apoucos meses de terminar seu mandato na presidência do Conselho Europeu de Pesquisa (ERC), que financia grupos de pesquisa de excelência em várias áreas, o matemático francês Jean-Pierre Bourguignon, de 71 anos, diz estar convicto de que uma das coisas mais importantes na vida de um pesquisador é preservar sua liberdade criativa. “De certa forma, é para isso que o ERC foi criado há 12 anos: garantir que as ideias mais ambiciosas e inovadoras sejam apoiadas”, afirma Bourguignon, que será substituído pelo engenheiro italiano Mauro Ferrari a partir de 2020. O ERC é um órgão vinculado à União Europeia que foi criado em 2007 com o objetivo de apoiar cientistas de seus países-membros e colaborações transnacionais de pesquisa em temas da fron-
teira do conhecimento. A instituição investe 17% dos € 77 bilhões do orçamento do Horizonte 2020, principal programa científico do bloco. Dentre os pesquisadores apoiados pelo ERC, destacam-se seis vencedores do Nobel e quatro da medalha Fields, um dos mais importantes prêmios da matemática.
Bourguignon esteve em São Paulo no início de maio para o 8º Encontro Anual do Global Research Council, o GRC. Na entrevista a seguir, ele fala sobre a importância de financiar projetos de alto risco envolvendo inovações e como avaliar os impactos sociais e econômicos da pesquisa guiada pela curiosidade dos cientistas.
O ERC já financiou aproximadamente 9 mil projetos de pesquisa na fronteira do conhecimento. Com que objetivo?
até o fim do ano, o matemático francês
Jean-Pierre Bourguignon seguirá à frente de iniciativa europeia de fomento à pesquisa de fronteira
Bruno de Pierro
O ERC é fruto do esforço da comunidade científica europeia, que por muito tempo batalhou pela sua criação. Havia a percepção de que os programas científicos dos países não ofereciam condições para que os pesquisadores europeus propusessem grandes ideias. Era preciso que o risco envolvido em projetos mais ambiciosos fosse compartilhado pela União Europeia. O ERC, portanto, nasceu com a missão de proporcionar o máximo de liberdade aos pesquisadores. Para isso, foi necessário criar um enquadramento jurídico que permitisse financiar pesquisadores individuais, o que foi possível com a assinatura do Tratado de Lisboa,
em 2007, que reformulou o funcionamento da União Europeia. O ERC se tornou um instrumento bastante competitivo, para o qual devem ser submetidas propostas realmente inovadoras, que envolvam risco científico e tecnológico. Nosso orçamento anual é de € 1,8 bilhão, o que nos faz ser bastante seletivos. Os 9 mil projetos que você mencionou foram selecionados de um universo de mais de 65 mil propostas enviadas desde a criação do conselho.
Qual a importância de financiar pesquisas de alto risco?
Há dois lados envolvidos nessa questão.
O primeiro é que o ERC financia pesquisas com recursos públicos. A responsabilidade é muito grande e nem sempre é fácil explicar para a população que financiamos projetos que podem dar errado. Mas acreditamos que, dessa forma, podemos estimular a produção de conhecimento novo e atingir resultados inesperados. O outro ponto é que a comunidade acadêmica tende a ser muito conservadora. A forma como as pessoas avaliam o trabalho de seus pares se baseia naquilo que elas conhecem. É comum que novas ideias sejam encaradas com desconfiança e, portanto, não encontrem respaldo financeiro facilmente. Meu trabalho tem sido convencer os membros das comissões de avaliação do ERC de que devemos assumir riscos. Se temos dois bons projetos, mas um é mais ambicioso que o outro, devemos apostar no mais audacioso.
O setor privado também não tende a ser conservador na hora de assumir riscos? Depende muito do perfil de quem está no comando da empresa. De fato, as decisões das companhias geralmente são baseadas em fatores financeiros e econômicos, não científicos. Vou dar o exemplo de uma multinacional que atua no setor de computação. Não citarei o nome, mas talvez seja facilmente reconhecida. Pesquisadores dessa empresa aconselharam os diretores a transformar totalmente o sistema operacional que produzem há anos e que, segundo eles, está obsoleto. A resposta da diretoria foi: estamos lucrando com esse sistema, para que mudá-lo? Atitudes desse tipo, baseadas em aspectos financeiros, podem representar um impedimento para promover grandes mudanças em termos de inovação. Evidentemente há empresas mais visionárias, como a norte-americana Apple, que assumiu riscos e abriu espaço para o mercado de smartphones.
Como justificar para a população o investimento público de alto risco em ciência básica?
É fundamental divulgar amplamente na sociedade pesquisas que conseguiram chegar a resultados importantes, embora isso tenha levado muito tempo para acontecer. É o caso dos programas para detectar ondas gravitacionais realizados pelo Observatório Interferométrico de Ondas Gravitacionais, o Ligo, nos Estados Unidos, e o Observatório
Interferométrico Europeu, o Virgo. A ideia por trás desses projetos é antiga e foram necessários vários anos para construir os equipamentos apropriados. Eles exigiram tecnologias muito sofisticadas para identificar e medir os sinais de ondas gravitacionais. Como justificar para a sociedade os recursos investidos nessas máquinas? Mostrando que, graças a elas, foi possível recentemente comprovar um fenômeno que havia sido antecipado por uma teoria de Albert Einstein.
Mas, nesse caso, a população precisa entender a relevância do fenômeno, já que não há um benefício imediato relacionado a ele.
Sim, e por isso digo que, para explicar ao público o potencial transformador da pesquisa, é necessário que ele compreenda tanto os conceitos básicos da ciência quanto os mais novos. Veja a biologia, por exemplo. É uma área que, ao longo da história, passou por inúmeras transformações e novos conceitos surgiram. A biologia ensinada nas escolas no passado é muito diferente da biologia praticada atualmente, que apresenta alto grau de interação com outras disciplinas, como tecnologia da informação e estatística. Fala-se hoje em bioinformática, cujos estudos geram uma enxurrada de informações sobre sequências de DNA e proteínas. Levar ao público esse conhecimento, que está sendo produzido praticamente em tempo real, é um grande desafio e exige um esforço de longo prazo, até que as pessoas se sintam familiarizadas com esses conceitos.
Uma grande preocupação em muitos países, incluindo o Brasil, é com o retorno da pesquisa na forma de resoluções para problemas da sociedade. A pesquisa guiada pela curiosidade corre o risco de ficar em segundo plano? Há dois pontos centrais nesse debate, na minha opinião. O primeiro é o prazo disponível para obter uma resposta. Se você precisa de uma solução para amanhã ou depois de amanhã, será necessário confiar no conhecimento existente hoje. Isso vale para assuntos urgentes, que exigem tomadas de decisão imediatas. Nesse caso, você não investirá em pesquisa de longo prazo, muito menos naquelas guiadas pela curiosidade do cientista. Mas para desenvolver uma nova vacina, por exemplo, talvez o conhecimento dispo-
nível no momento não seja suficiente, e então pesquisas mais básicas sejam necessárias. O ERC apoia um projeto que traz uma abordagem completamente diferente para o desenvolvimento de vacinas, ao analisar a estrutura química de açúcares, que fazem parte da formulação de várias delas. Trata-se de um trabalho de pesquisa básica que pode resultar em uma nova linha de vacinas no futuro. Muitas vacinas atualmente em fase inicial de desenvolvimento podem se beneficiar desse estudo.
Uma das linhas de financiamento do ERC, chamada de Consolidator Grant, é voltada para pesquisadores que querem conquistar independência. O que isso significa?
As categorias de financiamento são organizadas de acordo com a experiência profissional dos candidatos. Um pesquisador que obteve o doutorado há dois anos não está no mesmo patamar de alguém que se titulou há 20 anos. Nesse sentido, não podemos esperar que os pesquisadores mais jovens tenham publicado um grande volume de artigos científicos nem liderado um grupo de pesquisa. Na categoria Consolidator, voltada para pesquisadores com experiência de 7 a 12 anos desde a conclusão do doutorado, damos condições para que
ele possa formar seu próprio time, o que configura certo nível de independência na carreira. Mas independência é algo relativo e difícil de mensurar. O conceito varia de acordo com a área do conhecimento. Um matemático pode se tornar independente assim que conclui o doutorado e provar aos pares que conseguiu desenvolver algumas ideias próprias. Em outras áreas, o pesquisador é mais dependente de fatores externos. Um biomédico que pretende fazer experimentos laboratoriais depende de equipamentos específicos, que não pertencem só a ele. Também necessita de uma estrutura que inclui técnicos e participação de pacientes voluntários. Portanto, é difícil estabelecer uma definição única do que seja um pesquisador independente.
Projetos que envolvem diferentes áreas do conhecimento tendem a ser os de maior sucesso, até do ponto de vista econômico
Há três anos, o senhor anunciou que o ERC começaria a monitorar os resultados das pesquisas que financia, com o objetivo de mostrar à sociedade o valor da pesquisa básica. Como isso é feito? Há diversas formas de medir o impacto da ciência na sociedade. Uma delas, pouco considerada, é o poder que a pesquisa tem de capacitar os profissionais envolvidos em um projeto, independentemente do resultado alcançado. Todas as etapas de uma pesquisa contribuem na qualificação dos participantes. Então esse é um valor intrínseco à ciência, afinal ajuda a formar pessoas que depois atuarão nos setores público ou privado. No caso do ERC, os projetos são avaliados em um período de no mínimo dois anos após sua conclusão. A avaliação é feita por especialistas de alto nível selecionados por um conselho científico. Eles devem analisar os projetos segundo critérios como impacto científico, grau de interdisciplinaridade, aplicação de novos métodos e impacto social e econômico. Em 2018, dos 225 projetos avaliados, 16% foram considerados disruptivos, com alto grau de novidade, e 59% resultaram em avanços científicos importantes. Além disso, 70% geraram resultados com aplicações que não haviam sido previstas inicialmente pelo projeto e 60% conseguiram reunir áreas científicas que não tinham muita interação. Dessa forma, é possível fazer uma correlação entre o sucesso do projeto e seu grau de interdisciplinaridade. Os projetos que envolvem diferentes áreas do conhecimento tendem a ser os de maior sucesso, inclusive do ponto de vista econômico.
Como o ERC avalia o impacto de pesquisas financiadas nas áreas de ciências humanas, como filosofia e sociologia? As ciências sociais e humanidades representam uma parte substancial dos projetos do ERC. Chegamos a investir cerca de € 460 milhões nessas áreas. Recentemente, conversei com uma jovem pesquisadora chamada Charlotte Ribeyrol, da Universidade Sorbonne, em Paris, que está estudando a influência das cores na literatura britânica do século XIX – o que parece bastante instigante. Ela reuniu um conjunto de evidências que mostram que na segunda metade do século XIX a criação de novas cores, a partir da produção industrial de pigmentos e corantes sintéticos, foi bastante difundida especialmente no Reino Unido. Ela mostra que, naquele momento, o nome dessas novas cores começa a despontar em textos literários. Um dos autores abordados na pesquisa é o escritor Oscar Wilde [1854-1900], que em determinada obra menciona a malva, uma cor próxima do violeta e do magenta, sintetizada por um químico inglês em 1856. Naquela época, a malva foi uma das cores mais produzidas e utilizadas na indústria, na produção de tintas e corantes para o tingimento de tecidos. Essa pesquisa mostra como um avanço da química industrial influenciou movimentos estéticos.
A seleção de um projeto deve levar em consideração seu potencial impacto na sociedade?
Há um esforço permanente do ERC em evitar que o impacto seja usado como um critério para selecionar projetos. Isso não significa que não estejamos interessados no possível impacto da pesquisa. Apenas não queremos que o impacto seja o critério principal. É grande o número de casos cujo resultado do trabalho é diferente daquele esperado no projeto inicial. As pessoas começam com uma ideia clara do que querem, mas no meio do caminho percebem que podem fazer algo diferente do que haviam imaginado, muitas vezes algo até mais surpreendente. É o que ocorreu, por exemplo, com a especialista em nanociência Cinzia Casiraghi, da Universidade de Manchester, Inglaterra. Em uma de suas linhas de pesquisa financiadas pelo ERC, ela descobriu um jeito de desenvolver tintas para impressão
s empre foi baixo o número de brasileiros entre os pesquisadores principais do ErC, o que é uma surpresa.
Há muitos cientistas de qualidade no país
a jato utilizando grafeno, um material extremamente resistente e maleável. A pesquisa chamou a atenção da indústria, que pode utilizar o método na fabricação de embalagens inteligentes, de baixo custo e altamente flexíveis. Há outros projetos dessa pesquisadora que também resultaram em tecnologias a partir do grafeno e que despertaram o interesse de grandes companhias, entre elas a Samsung. E quando você conversa com ela, descobre que essas realizações, com potencial de aplicação na indústria, não estavam previstas no projeto inicial.
Como vê a participação de brasileiros em projetos financiados pelo ERC? Cientistas brasileiros podem participar de pesquisas apoiadas pelo ERC de duas maneiras. Uma é na condição de pesquisador principal. Nesse caso, os candidatos precisam ser afiliados a alguma instituição da Europa por pelo menos a metade do seu tempo de trabalho e devem apresentar um projeto a ser selecionado em uma competição. Outra maneira é por meio de um convênio com o Confap [Conselho Nacional das Funda-
ções Estaduais de Amparo à Pesquisa], que permite que cientistas brasileiros participem de grupos de pesquisa financiados pelo ERC por períodos de 3 meses a um ano. O número de brasileiros que são pesquisadores principais no ERC sempre foi baixo, o que é uma surpresa, já que o Brasil é um país grande com muitos cientistas de qualidade. Sabemos que o suporte à pesquisa no Brasil varia muito de um estado para outro e que a FAPESP faz um excelente trabalho no estado de São Paulo. Uma outra possibilidade que gostaria de destacar é a seguinte: neste ano, o ERC lançou uma chamada denominada Synergy, na qual até quatro pesquisadores podem unir forças para enfrentar um desafio científico verdadeiramente ambicioso. Criamos a possibilidade de que um dos pesquisadores principais resida fora da Europa, sem que o país de origem tenha de financiar a participação dele no projeto. Das propostas que foram submetidas este ano, pelo menos 20% têm não europeus. Espero que os brasileiros participem desse programa e estabeleçam mais parcerias com pesquisadores europeus, ainda mais tendo a possibilidade de apoio pelo ERC em um momento em que o financiamento à pesquisa passa por dificuldades no Brasil.
Quais áreas do conhecimento o senhor identifica como as mais promissoras atualmente?
Um dos campos que tem recebido atenção do ERC é a ciência da informação quântica, uma das próximas fronteiras do conhecimento no mundo. A China investirá, até 2030, centenas de bilhões de dólares nesse campo, que busca utilizar propriedades quânticas para melhorar o processamento e a transmissão de informação. Na Europa, as pesquisas em informação quântica têm assumido posição de destaque. Em 2016, a Comissão Europeia anunciou a criação do European Flagship for Quantum Technologies [EFQT], uma iniciativa que promete investir € 1 bilhão em 10 anos. E o ERC se prestou, nos últimos anos, a apoiar pesquisadores nessa área, dando a eles liberdade e autonomia para criarem e testarem novas ideias. O ERC ajuda a Europa a capacitar cientistas para grandes programas de pesquisa. Isso ocorre em outras áreas importantes, como novos materiais e biotecnologia. n
diáspora
2,5 milhões de anos
Artefatos de pedra lascada achados na Jordânia seriam indício de saída de humanos arcaicos da África 400 mil anos antes do que se pensava
VER sãO ATuALIz AdA Em 01/08/2019
Um grupo de arqueólogos e geólogos de universidades brasileiras afirma ter descoberto os mais antigos indícios da saída de hominídeos da África, considerada o berço da humanidade. As camadas geológicas em que foram encontrados seixos lascados e lascas, oriundos de escavações feitas entre 2013 e 2016 no vale do rio Zarqa, na Jordânia, foram datadas por três métodos distintos e atingiram a idade máxima de aproximadamente 2,5 milhões de anos. Se os dados estiverem corretos, esses artefatos líticos teriam sido produzidos pelas mãos de humanos arcaicos pertencentes a populações de Homo habilis, a primeira espécie conhecida do gênero Homo, 400 mil anos antes do registro considerado até agora como o mais antigo da presença de hominídeos fora do continente africano. “Nosso estudo muda a história da humanidade em quase meio milhão de anos”, afirma o bioarqueólogo Walter Neves, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), coordenador da equipe que fez as pesquisas na Jordânia e escreveu um artigo científico sobre os achados. A área do
Marcos Pivetta
vale do rio Zarqa em que foram encontradas as pedras lascadas dista cerca de 40 quilômetros de Amã, a capital jordaniana, e hoje é circundada por projetos agrícolas e cidades.
A datação e a caracterização das peças líticas da Jordânia, polêmicas como quase todas as descobertas que envolvem os primórdios do homem, foram publicadas on-line no dia 9 de julho no periódico científico Quaternary Science Reviews. Além de possivelmente retroceder no tempo a saída de humanos arcaicos da África, esses vestígios de pedra lascada também seriam um indício de que a primeira espécie de hominídeo a deixar o continente-mãe pode não ter sido o Homo erectus, hipótese mais aceita atualmente. Há 2,5 milhões, idade dos sítios de Zarqa, existia apenas uma espécie de hominídeo que trabalhava a pedra lascada, o Homo habilis, cujo nome deriva justamente da habilidade de ter sido o primeiro humano arcaico a talhar fragmentos de rocha. Por isso, Neves e seus colegas deduzem que essa espécie deve ter sido a autora dos artefatos de Zarqa. A presença de água na região, um atrativo para a vida, percebida por meio de indícios geológicos, remonta pelo menos ao período em que os seixos foram trabalhados.
Mais antiga espécie conhecida do gênero Homo, o H. habilis chegava a uma altura máxima de 1,4 metro (m) e o volume de seu cérebro era de cerca de 650 centímetros cúbicos (cm3), enquanto o de um chimpanzé varia entre 300 e 500 cm3. Mais desenvolvido, tendo surgido provavelmente por volta de 1,8 milhão de anos atrás na África, o H. erectus podia medir entre 1,60 e 1,80 m de altura e tinha um cérebro de pelo menos 850 cm3, volume próximo ao do homem moderno, o H. sapiens (de pelo menos 1.100 cm3).
Nas escavações na Jordânia, não foram identificados fósseis de ossadas de hominídeos, limitação que dificulta a confirmação da presença de populações de H. habilis na área durante a
pré-história remota. Os pesquisadores acharam apenas vestígios de alguns animais que viveram, em diferentes períodos da pré-história, na região de Zarqa, como um mamute, um bovídeo auroque e restos de cavalo. “É muito raro encontrar esqueletos humanos em sítios paleolíticos”, comenta o arqueólogo italiano Fabio Parenti, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), outro membro da equipe e coautor do trabalho. “Quando não temos ossos, falamos das pedras [lascadas pelo homem].” Segundo os pesquisadores, os cerca de 2 mil artefatos líticos obtidos em Zarqa apresentam características inequívocas de terem sido feitos por mãos humanas e não de forma natural, debate que sempre surge quando são achadas novas evidências arqueológicas com potencial de “reescrever” a pré-história. “Fomos muito conservadores ao selecionar as peças para o estudo”, comenta Parenti.
Os seixos lascados e lascas obtidos em Zarqa seriam característicos da chamada indústria lítica Olduvaiense, muito primitiva e associada ao H. habilis, registrada na África há pelo menos 2,4 milhões de anos. Trata-se basicamente de seixos a partir dos quais são produzidas lascas. O que
Exemplares de pedra lascada escavados no vale do rio zarqa (acima e à esq.), e visão geral da área onde estão os sítios estudados (abaixo)
diferencia as peças dessa indústria é seu formato mais angular (os seixos de origem natural são mais arredondados), com cantos lascados em ângulos menores que 80 graus. “Encontramos em um barranco de 120 metros que escavamos uma concentração anormal de artefatos de pedra”, diz o arqueólogo Astolfo Araújo, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, outro membro da equipe. “Os hominídeos não caçavam nessa época. Essas lascas deviam ser usadas para descascar carniça”, explica Neves. Os pesquisadores exploraram os afloramentos que apareciam nas paredes dos terraços, cavando nos cortes verticais abertos no solo árido e compactado da região abertos por projetos agrícolas. “O solo é tão duro que usamos até uma britadeira nas escavações”, conta Araújo. Assim tiveram acesso ao conteúdo depositado nas camadas sobrepostas de sedimentos fluviais.
achado S da c hina E G E ór G ia O resultado das escavações na Jordânia, em que foram encontrados possíveis artefatos de pedra lascada, mas não fósseis dos autores dessas peças, lembra o de outras descobertas recentes da paleoantropologia, especialidade que reúne conhecimento da antropologia, da arqueologia e da etnologia para estudar as origens e o desenvolvimento dos primeiros humanos. No ano passado, uma notícia semelhante veio do extremo Oriente.
Pesquisadores chineses publicaram artigo em julho de 2018 na revista Nature no qual relataram a descoberta de peças da indústria lítica, como os arqueólogos denominam os artefatos de pedra trabalhados por mãos humanas, datadas em 2,1 milhões de anos na localidade de Shangchen, no centro-leste do país asiático. Antes das pedras lascadas de Zarqa agora descritas, essas peças da China eram consideradas como as evidências mais antigas de hominídeos fora da África. Como na Jordânia, as escavações em Shangchen não revelaram ossos humanos fossilizados.
Há também uns poucos sítios que parecem contar uma história mais completa sobre o início da dispersão de humanos arcaicos fora da África, com a presença de artefatos de pedra e de fósseis de hominídeos. O caso mais conhecido e emblemático envolve a cidade de Dmanisi, a cerca de 90 quilômetros de Tbilisi, capital da república da Geórgia, no Cáucaso, ponto de encontro entre o leste europeu e o oeste asiático. Além de revelar uma indústria lítica e fósseis de animais, escavações feitas na região encontraram fragmentos de esqueletos de hominídeos datados em 1,8 milhão de anos. São as ossadas de hominí-
a Jordânia é parte de um corredor de passagem pelo qual hominídeos teriam saído da África
a dispersão inicial do gênero
Homo
sítios arqueológicos contendo fósseis e ferramentas de seres humanos primitivos que viveram entre 3,3 milhões e 1,5 milhão de anos atrás estão distribuídos pela África, Europa e Ásia
dmanisi (Geórgia)
ain Boucherit (Argélia) 2,4 m.a.
Idade aproximada, em milhões de anos (m.a.) Ferramentas de pedra Fósseis humanos
Gediz (Turquia) 1,2 m.a.
Ubeidiya (Israel) 1,3-1,2 m.a.
Ledi-Geraru (Etiópia) 2,8 m.a.
ain Fil (síria) 1,9
Zarqa (Jordânia) 2,5 m.a.
Shangchen (china) 2,1 m.a.
Yanmou (china) 1,7 m.a.
turkana (Quênia)
olduvai (Tanzânia) 1,9 m.a. Sangiran (Indonésia) 1,5 m.a.
nihewan (china) 1,66 m.a.
Equador
Trópico de câncer
Réplica de crânio de Homo habilis, espécie humana arcaica que pode ter produzido as pedras lascadas encontradas no vale do rio zarqa
deos mais antigas descobertas em outro continente que não a África. O destaque, misterioso, dos achados georgianos são cinco crânios, de tamanho e características diferentes, obtidos em escavações realizadas nas duas últimas décadas. Até hoje não há consenso sobre a que espécie, ou espécies, de hominídeo pertenceu essas ossadas, se ao H. erectus (hipótese mais difundida), a uma forma local de humano arcaico ou mesmo ao H. habilis. Diferentemente dos sítios de Dmanisi, os do vale do rio Zarqa, na Jordânia, são pouco conhecidos. Embora tenham sido escavados por franceses e italianos entre 30 e 40 anos atrás (Fabio Parenti participou de trabalhos de campo na área no final dos anos 1990), são alvo de poucas publicações científicas. A equipe de Neves resolveu trabalhar na região porque a Jordânia, no Oriente Médio, seria parte de um corredor de passagem natural para os hominídeos saírem da África para a Ásia. No entanto, quase não há registros antigos da presença de hominídeos no Oriente Médio. “Ficamos muito surpresos quando nossas datações deram 2,5 milhões de anos para as camadas geológicas mais antigas com artefatos líticos”, reconhece o geólogo italiano Giancarlo Scardia, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro, especialista em paleomagnetismo e primeiro autor do estudo. “Mas acho que não há como questionar nossas datações.” Os três
métodos usados para determinar a idade da formação Dawqara (camada geológica) em que estavam os artefatos de pedra foram a datação por isótopos de elemento argônio, o decaimento do urânio para o chumbo e o paleomagnetismo. Os resultados das análises indicaram que a região deve ter sido habitada por hominídeos por um período contínuo de 500 mil anos, entre 2,5 e 2 milhões de anos atrás.
Desde 2017, Neves, Parenti, Araújo e Scardia vinham tentando publicar o artigo com os dados da Jordânia em um periódico científico. Submeteram, sem sucesso, o trabalho a quatro revistas. Em dezembro de 2018, Scardia apresentou um resumo do estudo em um congresso da União Americana de Geofísica. No final de sua fala, um dos editores da Quaternary Science Reviews convidou-o a publicar o trabalho em sua revista. “Enfrentamos muita resistência”, reconhece Scardia. “Imagino que, se tivéssemos um pesquisador conhecido de uma grande universidade do exterior como coautor do trabalho, teríamos conseguido publicar o artigo com mais facilidade.” Neves prevê que o artigo deverá ser alvo de muitas críticas vindas do exterior. Até agora, o trabalho não obteve muita repercussão fora do Brasil, ao menos na imprensa. Ele talvez tenha sido ofuscado por outro estudo, publicado na mesma semana que o trabalho sobre a Jordânia, sobre a possível descoberta do mais antigo fóssil de H. sapiens fora da África (ver reportagem na página 54).
“A equipe que realizou essas escavações na Jordânia é muito qualificada, não vejo razões para duvidar dos resultados”, pondera a arqueóloga Niède Guidon, diretora-presidente da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), de São Raimundo Nonato, no Piauí. “Tudo está enterrado e, à medida que novas escavações são realizadas, temos novas descobertas.” Além de professores de universidades brasileiras, também assinam o artigo com descobertas no vale de Zarqa os pesquisadores Daniel P. Miggins, da Universidade do Estado do Oregon, nos Estados Unidos, e Axel Gerdes, da Universidade Goethe, da Alemanha, apresentados a Neves por Scardia. Cerca de 80% dos trabalhos da equipe foram financiados por projetos da FAPESP e o restante pela Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research, de Nova York. n
Projeto
Evolução biocultural hominínia do vale do rio zarqa, Jordânia: uma abordagem paleoantropológica (nº 13/22631-2); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Walter Neves (usP); Investimento R$ 208.048,98.
Artigo científico
sc ARdIA. G. et al chronologic constraints on hominin dispersal outside Africa since 2.48ma from the zarqa Valley, Jordan. Quaternary Science reviews. v. 219, p. 1-19. set. 2019.
homo sapiens
no Peloponeso
fragmento de crânio de 210 mil anos encontrado no sul da Grécia seria o vestígio mais antigo da presença de humanos modernos fora da África
Em 1978, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Atenas encontrou dois crânios incompletos de hominídeos na caverna Apidima, situada na costa da península de Mani, no sul da Grécia. Desde então, o material, fragmentado, e obtido em um contexto geológico de difícil datação, não tinha sido alvo de trabalhos de grande impacto. No mês passado, um artigo publicado na revista científica Nature pela equipe da paleoantropóloga grega Katerina Harvati, da Universidade de Tübingen, na Alemanha, colocou um dos crânios, denominado Apidima 1, no centro de uma polêmica: esse pedaço de esqueleto teria pertencido a um Homo sapiens que viveu na região do Peloponeso há 210 mil anos, segundo o estudo.
Se estiver correta, essa hipótese confere ao Apidima 1 o status de mais antigo vestígio do H. sapiens fora da África, onde o homem moderno teria se originado há aproximadamente 350 mil anos. Atualmente, o fóssil mais antigo fora do continente africano atribuído a um H. sapiens, embora sem consenso absoluto, é uma mandíbula de 190 mil anos atrás achada na caverna Misliya, em Israel. O Apidima 2, o outro crânio, seria de um neandertal, que habitou o Mediterrâneo 170 mil anos atrás. Espécie de hominídeo que ocupou parte da Eurásia antes do H. sapiens, com quem conviveu em alguns períodos e lugares, os neandertais se extinguiram por volta de 40 mil anos atrás.
Harvati e seus colegas digitalizaram os dois fragmentos de esqueletos – o Apidima 1 consiste na parte de trás de um crânio, o Apidima 2, na
porção facial – e fizeram reconstituições de como teria sido o formato de ambos com o emprego de técnicas de modelagem tridimensionais. “Embora o Apidima 1 seja mais incompleto, sua parte de trás é diferente da dos neandertais e de hominídeos anteriores”, explica a paleoantropóloga. “Realizamos análises estatísticas completas de sua forma e todos os resultados apontam para a conclusão de que seja um H. sapiens. Também ficamos surpresos com as descobertas e é natural que haja algum ceticismo entre os colegas.” Em relação aos neandertais, essa parte do crânio dos humanos modernos é mais arredondada, traço presente no Apidima 1. No outro crânio, o Apidima 2, as reconstituições indicam que seu dono tinha uma arcada supraciliar, protuberância óssea acima das órbitas dos olhos, bastante desenvolvida, característica típica dos neandertais. As conclusões do estudo estão longe de ser consensuais. Em junho deste ano, pouco antes da publicação do artigo na Nature , a paleoantropóloga francesa Marie-Antoinette de Lumley, do Instituto de Paleontologia Humana, de Paris, lançou uma brochura de 78 páginas sobre os dois crânios do Peloponeso. No livreto, classificou o Apidima 1 e o Apidima 2 como representantes de um grupo de Homo erectus, espécie de hominídeo mais arcaico do que os humanos modernos, que estava evoluindo para se tornar uma população de neandertais. A datação de Lumley dos dois crânios foi de aproximadamente 160 mil anos, 50 mil anos a menos do que a obtida pela equipe de Harvati para o Apidima 1.
Apidima 1, parte de trás do crânio encontrado em caverna grega que teria pertencido a um Homo sapiens que viveu há 210 mil anos
Mar Jônico
Mar Mediterrâneo
Mar Egeu
TUNÍSIA
Apidima 2, crânio de 170 mil anos atribuído a um neandertal
Outros pesquisadores também consideraram exagerada a idade de 210 mil anos associada ao suposto fragmento de crânio de H. sapiens. Os autores do trabalho na Nature usaram um método de datação baseado na presença de certas formas dos átomos dos elementos urânio e tório no osso fossilizado. A técnica permite datar material com idade de até 300 mil anos. Segundo Warren Sharp, especialista em datações que usam o elemento urânio e pesquisador da Universidade da Califórnia em Berkeley, os resultados das análises de partes do Apidima 1 não foram conclusivas e forneceram datas que variaram entre 300 mil e menos de 40 mil anos. “As datas aparentes abrangem um grande período e não sabemos se alguma delas é realmente confiável”, disse Sharp à revista Science.
A procura por vestígios de diferentes espécies de hominídeos que, em momentos diversos da pré-história, deixaram a África – desde as formas mais arcaicas como o Homo habilis e o Homo erectus, até a mais moderna, o H. sapiens – é um tema sujeito a revisões e debates conforme surgem novos achados, quase sempre controversos (ver reportagem na página 50). Os fragmentos de crânios do Peloponeso, em especial o Apidima 1, devem ser mais um desses casos. Para o arqueó -
logo brasileiro Mark Hubbe, da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, as evidências encontradas apoiam as conclusões do trabalho de Harvati. “Temos sempre de levar em consideração que o fóssil de Apidima 1 é composto por apenas parte do neurocrânio”, pondera Hubbe. “Não duvido de que ele seja mesmo um humano moderno. Mas, nesse momento, é difícil dizer como ele se compara a outros fósseis de H. sapiens da África.”
A arqueóloga Mercedes Okumura, do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da Universidade de São Paulo (USP), tem posição semelhante. “O trabalho tem algumas limitações incontornáveis, como o contexto geológico em que os fósseis foram encontrados, o problema das datações e o fato de o suposto fóssil de H. sapiens ser bastante incompleto”, comenta Okumura. “Nenhuma dessas limitações é ‘culpa’ dos autores do estudo e penso que eles fizeram um bom trabalho ao analisar um material tão árduo.” n Marcos Pivetta
Artigo científico hARVATI, K. et al. Apidima cave fossils provide earliest evidence of Homo sapiens in Eurasia. nature. 10 jul. 2019.
c averna apidima
GrÉcia atenas
ITÁLIA
TURQUIA
LÍBIA
Uma nova frente contra do E nças E mE rgE nt E s
Instituto Pasteur de Paris, USP e Fiocruz iniciam parceria, sob coordenação de biomédica paulista
Dezessete laboratórios de pesquisa, incluindo um de nível de biossegurança 3, em uma escala de 1 a 4, para estudo de vírus de alto risco, começaram a ocupar uma área de 1.700 metros quadrados em dois andares de um dos prédios novos do campus paulistano da Universidade de São Paulo (USP), na Cidade Universitária. Trata-se da Plataforma Científica Pasteur-USP (SPPU), inaugurada no início de julho, como resultado de um acordo entre o Instituto Pasteur de Paris, a USP e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Rio de Janeiro, antecipando a possível criação de uma unidade no Brasil da renomada instituição francesa, que completou 130 anos – não confundir com o instituto do mesmo nome com sede em São Paulo, criado em 1903, especializado em pesquisa sobre o vírus da raiva e ligado à Secretaria de Saúde do Estado.
Com um orçamento inicial de cerca de R$ 8 milhões, resultante de um projeto de pesquisa recém-aprovado pela FAPESP, a equipe de São Paulo vai trabalhar com doenças emergentes e negligenciadas, principalmente as que levam ao comprometimento do sistema nervoso central, como zika, dengue, febre amarela, influenza e doença do sono animal. “Queremos agir antes que as epidemias apareçam”, diz a biomédica paulistana Paola Minoprio, que começou em 2014 a articular a construção da plataforma, da qual é a coordenadora pelo Pasteur. Pela USP, o coordenador é o biólogo Luis Carlos de Souza Ferreira, diretor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB). Graduada pela Universidade de Mogi das Cruzes, Minoprio fez mestrado na USP e doutorado na Universidade Paris 6, já trabalhando em um laboratório do Instituto Pasteur na capital francesa. Ao ser contratada, em 1985, tornou-se uma
pasteurienne, um título de prestígio científico, e há três anos decidiu voltar a São Paulo. Especializada em doença de Chagas, no início de 2019 fez as malas e, com Tico, seu cachorro de 20 anos, e La Samba Dora de Bourgogne, a gata de 10, voltou de vez para São Paulo, aos 63 anos, atraída pelo desafio profissional de integrar o Brasil à rede internacional de centros de pesquisa ligados ao Pasteur de Paris. Ela permanece vinculada ao instituto francês e, na entrevista a seguir, conta dos projetos a serem executados no Brasil.
Qual a dimensão da rede internacional do Instituto Pasteur?
São 33 institutos ligados ao Pasteur de Paris, em 25 países, com um total de 23 mil pesquisadores. Em geral o Pasteur participa da definição das estratégias científicas, mas nem sempre, porque cada instituto tem seu próprio estatuto e formas próprias de financiamento. O
Carlos Fioravanti
de Paris é uma instituição privada de utilidade pública, sem fins lucrativos. A maior parte dos fundos, cerca de 60%, vem dos royalties da venda de vacinas e kits de diagnósticos, de 20% a 25% de doações e heranças, e o restante do governo francês, principalmente do CNRS [Centro Nacional de Pesquisa Científica] e Inserm [Instituto Nacional da Saúde
e Pesquisa Médica]. O Pasteur de Montevidéu, criado em 2004 com base em uma dívida da Primeira Guerra Mundial do governo francês, hoje é inteiramente mantido pelo governo uruguaio, mas membros do Pasteur de Paris fazem parte da direção e do conselho de administração. O da Itália manteve o nome original, Fondazione Cenci Bolognetti,
"Os participantes da rede internacional do Pasteur estão ligados pela vontade de resolver problemas de saúde pública"
e sempre foi privado. O da China é público, com participação da Academia de Ciência Chinesa. O da Guiné, na África, está sendo construído, a pedido do governo, depois que as equipes de Paris participaram do treinamento de pessoal, do atendimento de pacientes e das pesquisas de campo para deter o surto do vírus ebola, há uns quatro anos.
Como lidar com diferentes culturas de cada país?
As pessoas que trabalham na rede internacional do Pasteur, a Riip, estão ligadas pela vontade de resolver problemas de saúde pública. Há muita interação. A Diretoria Internacional do Pasteur de Paris organiza reuniões anuais da rede, por meio da Associação da Rede Internacional do Pasteur, a Pina, para discutir as prioridades de pesquisa e de cursos. A rede está também dividida por regiões, na Europa, na América, na Ásia, na África e no Magreb [região noroeste da África]. A região América da rede inclui Canadá, Guadalupe, Guiana Francesa e Uruguai, onde há institutos formalizados, e o Brasil. Aqui não há ainda um instituto ligado à Riip, mas a Fiocruz, desde 2004, participa da rede como instituição correspondente.
Qual foi seu papel na criação da Plataforma Pasteur USP?
Em 2000, o então diretor-geral do Pasteur, Philippe Kourilsky, me deu uma missão: criar uma rede de pesquisa, ensino e inovação entre o Pasteur e as instituições acadêmicas do Mercosul. Com colegas da Argentina, Uruguai, Paraguai, Brasil e Chile criamos uma rede de 55 instituições acadêmicas, centros de pesquisa e 11 universidades, a Amsud-Pasteur. Em cinco anos, realizamos 23 cursos regionais, três jornadas de bioempresas, no Brasil, no Uruguai e no Chi-
le, e vários estudantes sul-americanos participaram de cursos em Paris. A rede foi importante para a criação do Instituto Pasteur de Montevidéu em 2004. Em 2014, o então diretor do instituto, Christian Bréchot, me disse: “É inevitável aumentar nossas colaborações com o Brasil”. Procurei o professor Erney Plessmann de Camargo, com quem iniciei minha carreira de pesquisadora no estágio de último ano da faculdade. Ele me aconselhou a conversar com Marco Antonio Zago, então reitor da USP e atual presidente da FAPESP. Ele também sugeriu que eu conversasse com Celso Lafer, então presidente da FAPESP, e Jorge Kalil, que era o diretor do Instituto Butantan. Os três se interessaram em apoiar uma estratégia que pudesse levar à implementação de um Instituto Pasteur no Brasil.
Como fizeram?
A decisão do Pasteur privilegiou a proposta da USP. Zago havia parado todas as construções no campus, mas depois destinou cerca de R$ 35 milhões para terminar o complexo de prédios em que nos instalamos. Eu trouxe engenheiros do Pasteur para definirmos a planta e as necessidades dos laboratórios de pesquisa com a Superintendência de Espaço Físico da USP. De 2014 até 2017, trabalhei metade do ano em Paris e metade aqui, acompanhando a construção. Em junho de 2015, foi assinado um acordo tripartite de cooperação científica entre o Pasteur, a USP e a Fiocruz, que prevê a criação de um Instituto Pasteur no Brasil. Uma primeira etapa transitória dessa iniciativa preconiza a criação de uma plataforma que permite a consolidação das relações científicas entre os parceiros, enquanto a segunda fase antecipa as condições para a criação do Instituto Pasteur do Brasil e sua inclusão na Riip. A estratégia científica foi aprovada pelos parceiros em 2016, levando-se em conta que o país é um dos centros mundiais da biodiversidade, que as doenças crônicas avançam em razão do envelhecimento e as mudanças climáticas e ambientais favorecem a migração de vetores e o aparecimento de novos vírus e doenças. Em abril de 2017 começou a funcionar o primeiro escritório administrativo do Instituto Pasteur no Brasil, no prédio da Aucani [Agência USP de Cooperação Acadêmi-
a primeira dificuldade foi associar um instituto privado francês com uma universidade pública paulista e uma fundação do governo federal
lecendo para a implementação do Instituto Pasteur do Brasil. Em São Paulo, a SPPU focalizará seus esforços em parte da estratégia científica, principalmente a que lida com doenças emergentes e negligenciadas, que levam ao comprometimento do sistema nervoso central, como zika, dengue, febre amarela, influenza e doença do sono animal. Pensamos na possibilidade de criar uma outra unidade em Eusébio, no Ceará, com a Fiocruz; se der certo, estaremos próximos do Instituto Pasteur da Guiana Francesa, onde implementamos uma vectopôle, um polo de estudo que estuda migração de insetos vetores de agentes causadores de doenças. Queremos agir antes que as epidemias cheguem ao Brasil, como uma célula de intervenção de urgência. Na epidemia de zika os melhores cientistas e médicos infectologistas do país criaram uma rede, com apoio da FAPESP. Com nosso conhecimento em genômica e migração de vetores, podemos prever o deslocamento de novos vírus e estudar suas relações com o organismo antes que a epidemia chegue. A reunião de julho foi também importante para aproximar alguns grupos brasileiros, como os do Instituto Evandro Chagas e da Fiocruz, que farão parte desse trabalho.
Quem faz parte da equipe?
ca Nacional e Internacional], por meio do qual, como gestora, posso negociar com qualquer instituição acadêmica ou de pesquisa, organismos oficiais nacionais e internacionais. Em julho de 2017, um novo acordo criou o primeiro espaço físico, destinado à Plataforma Científica Pasteur-USP, a SPPU. No início de julho deste ano, antes da inauguração da SPPU, reunimos pesquisadores da região América da rede internacional, do Instituto Pasteur do Senegal e de outros países da região, como Argentina, Chile, Peru, Bolívia e Costa Rica, organizamos um simpósio sobre arboviroses e resistência a antibióticos, discutimos iniciativas comuns e no último dia nos reunimos para ver como poderíamos trabalhar juntos. Os diretores e cientistas do Pasteur se encontraram com os diretores e cientistas de outras instituições.
O que vocês pretendem fazer aqui? Uma estratégia multissites está preva-
A SPPU contará inicialmente com pesquisadores especializados em neurobiologia, Patrícia Beltrão Braga, em diagnóstico viral, Edison Durigon, em filogenia de arbovírus, Paolo Zanotto, em imunopatologia, Jean Pierre Peron, e eu, que sou especializada em interação entre patógenos e hospedeiros. Tentaremos modificar os genes que tornarão o vírus zika e outros microrganismos coloridos ou luminescentes para verificar como se espalham e causam inflamação em modelos animais. Helder Nakaya, biólogo de sistemas, lidará com big data e analisará dados imunológicos, genômicos e epidemiológicos. Contaremos também com Eduardo Massad, especialista de modelos matemáticos e epidemiologia tropical. Pedro Teixeira da Silva, que foi coordenador de biossegurança da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, passou um ano no Pasteur de Paris para se aperfeiçoar em biossegurança de laboratórios nível 3 e está agora aqui na Plataforma para transmitir normas de boas práticas, que serão úteis para uniformi-
zar a maneira de trabalhar em pesquisa no Brasil com as amplamente utilizadas no exterior. Continuo ligada ao Pasteur, negociei de três a quatro viagens por ano para lá, mas terminei meu trabalho científico em Paris e meu último estudante defendeu o doutorado em dezembro. Meu laboratório continua pertencendo ao departamento do Pasteur chamado Global Health, só que, como coordenadora da Plataforma, não posso mais estar lá e aqui ao mesmo tempo. Trouxe para cá a maioria dos equipamentos de meu laboratório, em um contêiner de 40 metros cúbicos, para transformá-los em multiusuários. Chegaram em maio e devem estar funcionando em setembro, com outras aquisições da SPPU financiadas pela FAPESP.
Que dificuldades enfrentou para implantar a Plataforma?
A primeira foi associar uma instituição privada de utilidade pública estrangeira com uma universidade pública autárquica do estado de São Paulo e uma fundação ligada ao Ministério da Saúde. Como são instituições com regimes administrativos diferentes, ainda não sabemos se o futuro Instituto Pasteur do Brasil será uma filial do de Paris, uma fundação ou uma Oscip [organização da sociedade civil de interesse público]. Outro problema é a montagem das equipes. Nosso objetivo não é simplesmente incorporar aleatoriamente pesquisadores, mas identificar um problema científico relevante,
ver quem é a melhor pessoa no Brasil ou fora com mais chance de resolvê-lo e trabalhar em conjunto.
Como está seu trabalho com Chagas? Baseada numa estratégia diferente da de outros pesquisadores que se interessavam principalmente em determinantes antigênicos imunodominantes de microrganismos patogênicos, orientei minha atenção para o sistema imunológico como um todo, com as respostas específicas e não específicas contra o agente agressor. Meu orientador do doutorado foi o imunologista português Antonio Coutinho, que dizia: “O sistema imunológico não foi feito para nos proteger contra nada, mas para ‘nos’ conhecer e ‘re-conhecer’. Tudo que não é você é estranho, e o organismo trata de incorporar para encontrar o equilíbrio ou eliminar”. No doutorado, em vez de analisar a resposta específica ao parasita, como grande parte dos parasitologistas, examinei a totalidade do sistema imune em presença de algo estranho, o Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas. Descobri que menos de 2% da resposta imune de um hospedeiro contra um organismo é específica. Vi que os parasitas ativam uma resposta indiscriminada, majoritariamente não específica, estimulando a produção de anticorpos de baixa afinidade contra os microrganismos patogênicos. Em 2000, descobri que o T. cruzi, assim que entra no organismo, produz a enzima proli-
na racemase, que estimula uma grande produção de anticorpos não específicos pelos linfócitos B. Assim ele balburdia todo o sistema imune e se instala no hospedeiro. Sete a 10 dias após a infecção, a resposta específica antiparasitária se faz presente, propiciando a morte de grande parte dos parasitas, mas os que já estão nos tecidos permanecem. Em 2001, com minha equipe, consegui mostrar que injetar a prolina racemase evitava a balbúrdia causada pelo parasita e induzia uma proteção de 90% a 95%. Essas descobertas tiveram boa repercussão, mas foram decepcionantes para mim.
Por quê?
Os 5% dos parasitas que sobram continuam se multiplicando e a doença avança. Então a proteção não é esterilizante. Depois, em associação com colegas das áreas de dinâmica molecular, cristalografia, química médica e modelização in silico de drogas, identificamos inibidores da prolina racemase. Obtive um financiamento da Associação Nacional de Pesquisa (ANR) para desenvolver inibidores até fase I. Esses compostos são também inibidores da prolina racemase da bactéria Clostridium difficile, que causa infecções de tratamento difícil. Terminei meu trabalho em Paris nessa fase, mas espero avançar com meus colegas da França e do Brasil. Agora vou voltar minha atenção para outro tripanosoma, o T. vivax, que causa doença do sono animal, e para os vírus emergentes, tema principal da SPPU.
Por que decidiu voltar de vez para São Paulo?
Há três anos, tive de decidir se eu iria continuar só lá, com uma antena em Paris, ou nas idas e vindas para cá. Além do fato de minha mãe estar com 89 anos, havia o desafio de carreira. Estou trabalhando com Chagas há mais de 30 anos em Paris. Como vou acabar minha carreira na França? Não fiz nada pelo meu país, pois saí daqui muito jovem. Ninguém acreditava que essa plataforma iria acontecer, mas vou me sentir feliz se, daqui a alguns anos, quando me aposentar, vir os jovens que estamos formando agora trabalhando aqui, no Brasil, em coisas importantes, de impacto para a saúde pública e global. n
Minoprio (segunda fila, à dir.) com a equipe de seu laboratório do Instituto Pasteur, em Paris
Saúde contingenciada
Simulações indicam que redução de gastos em programas de atendimento básico pode frear ritmo de queda do índice de mortes prematuras no Brasil
aadoção de medidas de austeridade fiscal pelo governo federal pode desacelerar o ritmo de queda dos índices de mortalidade prematura no Brasil até 2030. Esse tipo de óbito contabiliza as mortes de indivíduos com menos de 70 anos de idade que poderiam ter sido evitadas caso tivessem tido acesso a alguma forma pública de atendimento primário, em casa ou em postos de saúde. As mortes prematuras costumam estar associadas a infecções respiratórias, hipertensão arterial, deficiências nutricionais, entre outras complicações. A conclusão é de um grupo internacional coordenado pelo biólogo italiano Davide Rasella, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ele e sua equipe analisaram os possíveis impactos da Emenda Constitucional nº 95, que em 2016 instituiu por 20 anos o teto dos gastos públicos, na cobertura de dois programas de atendimento primário, o Estratégia Saúde da Família (ESF) e o Mais Médicos. Por meio de simulações feitas a partir de modelos matemáticos e estatísticos, eles estimaram o impacto do contingenciamento de recursos públicos na área
da saúde de 5.507 municípios brasileiros. Usaram como base do trabalho dados do Banco Mundial, do Ministério da Saúde e dos institutos Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). No estudo, publicado em abril na revista BMC Medicine, eles projetaram os resultados para os próximos 10 anos à luz de quatro cenários. Em um deles, a cobertura do ESF diminui pouco e alcança 80,4% da população em 2030 – hoje ela é de 84,7%.
Em outro, a cobertura desse programa é reduzida para 37,8%, mas o Mais Médicos é mantido. Uma terceira situação hipotética prevê o fim do Mais Médicos e a redução da cobertura do ESF para 16% da população. Um quarto cenário, considerado ideal, garante o acesso universal aos dois programas.
Em todos os casos simulados, inclusive no mais pessimista, as projeções indicam uma redução do índice médio de mortalidade prematura no Brasil até 2030. Esse valor hoje é pouco superior a 45 mortes por ano a cada 100 mil habitantes. No entanto, o ritmo de redução desse tipo de óbito se torna menos expressivo conforme os investimentos em saúde se
reduzem. No cenário mais otimista, com o acesso universal aos serviços oferecidos pelos dois programas, o índice cairia para 38 mortes por 100 mil habitantes em 2030. No de maior redução de gastos, a diminuição seria mais modesta, para 43 óbitos por 100 mil. Segundo o estudo, haverá 48.546 mortes prematuras a mais na próxima década se o cenário de maior contração de investimentos prevalecer no lugar dos níveis vigentes de cobertura nos dois programas avaliados.
Rasella esclarece que o impacto da redução da cobertura do ESF seria mais significativo nos municípios mais pobres do país. No estudo, os pesquisadores destacam ainda que a taxa de mortalidade precoce por complicações associadas a doenças infecciosas e deficiências nutricionais seria 11,7% maior no pior cenário em comparação à situação atual de cobertura nessas regiões. “A redução da cobertura do ESF atingiria pessoas mais vulneráveis do ponto de vista socioeconômico e que apresentam piores quadros de mortalidade em comparação ao resto da população”, destaca o biólogo. No entanto, os números obtidos nas projeções não seriam representativos
Rodrigo de Oliveira Andrade
Ritmos distintos
redução dos índices de mortalidade prematura é menos expressiva conforme os investimentos em saúde diminuem
pROj EçãO dA cOBERtURA dA pOpUl
cenário 1 cobertura estável da ESF
cenário 2 contração da ESF com manutenção do Mais Médicos
cenário 3 contração da ESF e encerramento do Mais Médicos
Cenário 1 Cobertura estável da ESf
Cenário 2 Contração da ESf com manutenção do mais médicos
Cenário 3 Contração da ESf e encerramento do mais médicos
Cenário 4 Cobertura universal da saúde
a assistência entre novembro de 2018 e maio deste ano.
O Mais Médicos é mais recente. Foi lançado em 2013 pelo governo federal para expandir o número de médicos para áreas carentes e afastadas dos centros urbanos no Brasil. O programa custa em média R$ 1,1 bilhão por ano, segundo estudo publicado na revista Pan-americana de Saúde Pública. Conta com quase 18 mil profissionais, muitos de Cuba. Estima-se que 2 mil dos 8 mil médicos cubanos que vieram para o Brasil permaneçam no país (nem todos no Mais Médicos).
cenário 4 cobertura universal da saúde
Para o médico Victor Wunsch, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), que não participou do artigo publicado pelo grupo de Rasella, esse tipo de estudo serve de alerta aos gestores públicos da saúde em relação às consequências de políticas formuladas e aplicadas no presente. Ele ressalta que esses trabalhos nem sempre são levados em conta pelos governantes no processo de tomada de decisão. “Mesmo os epidemiologistas costumam ser céticos em aceitar resultados de estudos de simulações, uma vez que conjunturas políticas e econômicas podem mudar em breves períodos de tempo”, pondera Wunsch. “Mas o estudo na BMC Medicine é um ótimo exercício sobre prováveis cenários futuros decorrentes de políticas públicas e permite obter a perspectiva de seus possíveis impactos na saúde.”
de todos os impactos causados pela diminuição dos investimentos no ESF e Mais Médicos. Isso porque a taxa de mortalidade precoce equivale a apenas uma parcela de todos os óbitos registrados no país, entre 10% e 15%. Outro estudo feito com a mesma metodologia pelo grupo da UFBA, publicado em 2018 na revista PLOS Medicine, calcula que o corte de verbas no ESF e no programa Bolsa Família resultaria em 19.732 mortes a mais de crianças de até 5 anos até 2030.
M O d E lO I d EA l
O ESF foi criado em 1994 e é considerado uma das principais portas de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS). Inclui ações de prevenção, recuperação e reabilitação de doenças e outros problemas a partir do trabalho de equipes formadas por diferentes profissionais da saúde. A
iniciativa conta com 43 mil equipes, que visitam os pacientes em suas casas. “Em 25 anos de existência, o ESF se mostrou o modelo ideal de atenção primária à saúde, contribuindo para a redução da taxa de mortalidade infantil e de internações por condições passíveis de prevenção”, destaca a epidemiologista Rosália Neves, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul. Ela é uma das autoras de um estudo publicado em 2018 na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde sobre o ESF no Brasil. No trabalho, constatou que a cobertura do programa cresceu desde sua criação. Em 2006, alcançava 45,3% da população brasileira, em 2016, 64%, o equivalente a 123 milhões de pessoas. Recentemente, contudo, sua cobertura passou a cair. O Ministério da Saúde estima que 3 milhões de pessoas deixaram de contar com
Além do aumento de mortes prematuras em indivíduos da população economicamente ativa, que são projetadas no estudo, Wunsch ressalta que eventuais reduções no nível de atendimento primário no SUS podem produzir sequelas difíceis de mensurar para as famílias e a sociedade. “A disponibilização de atenção ambulatorial de qualidade permite reduzir as internações hospitalares e favorece uma economia importante dos recursos públicos”, comenta. n
artigos científicos
ra SElla d et al mortality associated with alternative primary healthcare policies: a nationwide microsimulation modelling study in Brazil. BMC Medicine. v. 17, p. 1-11. abr. 2019.
nE vES r g et al. Time trend of family Health Strategy coverage in Brazil, its regions and federative units, 20062016. Epidemiologia e Serviços de Saúde. v. 27, n. 3, p. 1-8. set. 2018.
ra SElla , d et al. Child morbidity and mortality associated with alternative policy responses to the economic crisis in Brazil: a nationwide microsimulation study. PLOS Medicine. mai. 2018.
FOntE ra SElla, d et al BMc MEdIcInE
Revelações de um arquipélago submerso
Praias, rios e manguezais cobriam cadeia
montanhosa que estava acima do nível do mar
há 40 milhões de anos
Carlos Fioravanti
Versão atUalizada em 08/08/2019
até afundar no oceano Atlântico, há cerca de 40 milhões de anos, a Elevação do Rio Grande, a maior cadeia montanhosa submersa da margem continental brasileira, deve ter sido um arquipélago com acidentes geográficos como os encontrados hoje ao longo do litoral. Em uma expedição com o navio de pesquisa Alpha Crucis em janeiro e fevereiro de 2018, uma equipe do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) mapeou os topos aplainados da elevação e identificou terraços marinhos dispostos em degraus, com canais fluviais, dunas, cavernas e resquícios de manguezais. As dragas trouxeram à tona amostras de rochas vulcânicas e corais e esponjas que cresciam nas paredes de uma fenda que corta o centro das três partes da elevação. Os resultados da viagem foram detalhados em um artigo publicado em maio na revista científica Frontiers in Marine Science
Situada a 1.300 quilômetros (km) de Porto Alegre, com cerca de 150 mil km2, o equivalente a três vezes a área do estado do Rio de Janeiro, e profundidades que variam de 700 a 2 mil metros (m), a Elevação do Rio Grande tem sido mais estudada nos últimos anos por causa de seu valor econômi-
co. Em 2015, a Autoridade Internacional do Fundo Marinho (ISA) concedeu à Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), empresa pública vinculada ao Ministério de Minas e Energia, o direito de investigar por 15 anos as possibilidades de exploração econômica das crostas de ferro e manganês das rochas da elevação, ricas em cobalto, níquel, molibdênio, nióbio, platina, titânio, telúrio e outros elementos químicos. Em um levantamento preliminar, apresentado em um congresso de 2015 na Flórida, Estados Unidos, a CPRM relatou a identificação de 9.729 km2 com alta reflectância (reflexo da radiação), indicando a provável ocorrência de crostas de ferro e manganês. Em dezembro de 2018, o governo brasileiro solicitou à Organização das Nações Unidas a ampliação da plataforma continental para além das 200 milhas marítimas (370 km) para incluir a elevação.
“Precisávamos de dados técnicos para consolidar a reivindicação brasileira”, diz o geólogo Roberto Ventura Santos, ex-diretor da CPRM e professor da Universidade de Brasília (UnB). Por sua vez, pesquisadores de instituições públicas de pesquisa do Brasil e de outros países, como o Serviço Geológico dos Estados Unidos e a Uni- noc / UK
(no alto) e
(à esq.) na região central do platô da elevação do rio
Peixes de mar profundo do gênero Allocyttus e corais negros dos gêneros Stichopathes
Bathypathes
grande
versidade de Kingston, do Reino Unido, promoveram expedições com o propósito de conhecer a região. Como resultado, a história dessa região submersa está sendo pouco a pouco recuperada. O que hoje é uma cadeia de montanhas sob o mar deve ter sido parte do supercontinente Gondwana. Em consequência de processos tectônicos e do calor do interior da terra que subia para onde hoje está o arquipélago de Tristão da Cunha, quase no meio do Atlântico, Gondwana começou a se quebrar entre 146 milhões e 100 milhões de anos atrás, formando as atuais América do Sul e África.
Com base na análise das fraturas do assoalho oceânico e dos movimentos das placas tectônicas, a geofísica Michelle Graça, da CPRM, em um estudo realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e na Universidade de Liverpool, Inglaterra, concluiu que até cerca de 80 milhões de anos atrás a Elevação do Rio Grande deveria estar unida – ou ao menos próxima – à cadeia Walvis, um conjunto de montanhas com 3 mil km de extensão a 600 km da Namíbia, na África. Os movimentos das placas tectônicas e os jatos de magma do interior da Terra separaram as duas elevações e deram a elas suas atuais feições, a Walvis em formato de cadeia montanhosa e a Rio Grande como um platô, com topo achatado, como detalhado em um artigo publicado em março na Marine and Petroleum Geology
O alto da montanha
os degraus dos terraços marinhos (no alto) poderiam resultar da erosão costeira e o cânion (abaixo) de antigos rios, no topo do rio grande, entre 600 e 800 metros de profundidade
“As duas elevações estavam separadas há 50 milhões de anos”, observa Graça. Segundo ela, a Elevação do Rio Grande parou de se formar e, segundo coletas recentes, abriga blocos de rochas com idades de cerca de 83 milhões e 47 milhões de anos. Em contrapartida, a Walvis continua se formando como resultado da subida de magma, com blocos de rochas com 1 milhão a 30 milhões de anos na região mais próxima de Tristão
2
anêmona do gênero Paraphelliactis, do platô da elevação
da Cunha e de até 114 milhões de anos na costa da Namíbia (ver mapa). De acordo com análises do grupo de Santos, publicadas em maio na revista Terra Nova, a expulsão de lava mais recente da elevação deve ter ocorrido entre 44 milhões e 40 milhões de anos, quando a cadeia montanhosa ainda estava acima do nível do mar. Nessa época, começou a submergir “provavelmente em consequência do peso de um vulcão e da lava e da movimentação de placas tectônicas que fizeram a crosta afundar”, pondera o geólogo Luigi Jovane, do IO-USP e coordenador da expedição com o Alpha Crucis à região, em colaboração com britânicos e norte-americanos. “Mas ainda vimos muito pouco”, aflige-se. A expedição da USP examinou apenas a parte mais rasa de um dos três blocos rochosos da Elevação do Rio Grande. Curiosamente, a área que o governo brasileiro reivindica é formada por antigos blocos do atual continente africano, de acordo com os estudos mais recentes. “As rochas da Elevação do Rio Grande pertenceram ao lado africano do Gondwana”, afirma Graça. Santos, da UnB, chegou à mesma conclusão: “A composição e a idade das rochas da Elevação do Rio Grande que analisamos são mais próximas das do continente africano”. A ideia de que essa cadeia de montanhas poderia fazer parte da África emergiu em
Duas elevações submersas
a rio grande e a Walvis devem ter estado juntas há 80 milhões de anos
2011, quando geólogos da CPRM coletaram ali amostras de granito e gnaisse com até 2,2 bilhões de anos, mais antigas que as rochas do assoalho marinho, que chegam a no máximo 240 milhões de anos. A descoberta mudou o olhar sobre essa região, até então vista como resultado da formação do assoalho oceânico e de erupções vulcânicas.
A m b I E n t E FR ág I l
Dois anos depois, por meio de um minissubmarino de pesquisa de águas profundas, pesquisadores brasileiros e japoneses colheram outras amostras de rochas continentais, cuja análise reforçou a hipótese de que essa região do Atlântico Sul poderia de fato ser um pedaço de continente que teria submergido durante a separação da América do Sul e da África (ver Pesquisa FAPESP nº 224). Segundo Santos, as duas elevações podem ser os pedaços que faltavam para completar o quebra-cabeça da junção entre a América do Sul e da África. Enquanto o litoral do nordeste brasileiro encaixa-se bem com o oeste da África, o sudeste e o sul não casam com o sul do continente africano.
“É um ecossistema peculiar”, comenta o biólogo Paulo Sumida, do IO-USP, que participou da expedição à região. Sua equipe encontrou ali uma das primeiras ocorrências no Atlântico Sul da associação simbiótica entre a esponja Sarostegia
oculata e a anêmona Thoracactis topsenti formando ramificações semelhantes às de corais. O biólogo Paulo Corrêa, também do IO, está descrevendo os padrões de biodiversidade da região, com prováveis espécies novas. Trata-se também de um ambiente frágil, “de renovação muito lenta”, observa Sumida.
Bactérias capazes de produzir oxigênio a partir de amônia e de sulfato parecem ser as principais fontes de energia para os organismos da Elevação do Rio Grande, de acordo com a bióloga do IO-USP Vivian Pellizari. “As crostas de ferro e manganês sobre as rochas abrigam comunidades microbianas próprias e uma diversidade biológica menor que a dos sedimentos próximos”, diz ela, com base em um trabalho da oceanógrafa e doutoranda do IO Natascha Bergo sobre a origem das crostas.
Os pesquisadores estão inquietos com os possíveis impactos da exploração econômica, embora ainda não existam tecnologias para extrair minérios do fundo do mar. “Muitos organismos que estão lá refletem a vida nos oceanos há milhões de anos, quando não havia oxigênio na atmosfera”, diz o biólogo Frederico Brandini, também do IO, que observou que as águas do alto da Elevação do Rio Grande são pobres em nutrientes. Sumida acrescenta: “Qualquer intervenção pode facilmente levar os organismos à extinção”. n
Projeto
marine ferromanganese deposits: a major resource of e-tech elements (nº 14/50820-7); Modalidade Projeto temático; Pesquisador responsável frederico Pereira Brandini (UsP); Investimento r$ 8.823.844,62.
artigos científicos
JoVane, l et al multidisciplinary scientific cruise to the rio grande rise. Frontiers in Marine Science. v. 6, a252, p. 1-7. 24 mai. 2019.
graÇa , m c et al crustal thickness mapping of the central south atlantic and the geodynamic development of the rio grande rise and Walvis ridge. Marine and Petroleum Geology. v. 101, p. 230-42. mar. 2019. santos, r. V et al dating gondwanan continental crust at the rio grande rise, south atlantic. Terra Nova on-line. 2 mai. 2019.
Elevação do Rio Grande
~1.500 km
Cadeia Walvis
Dorsal Mesoatlântica
Oceano Atlântico
Tristão da Cunha
Porto Alegre
São Paulo
bR ASIl
URUGUAI ARGENTINA
NAMÍBIA ÁFRICA DO SUL ANGOLA
Brasília
A dança das dunas
Pesquisadores coletam dados de alta precisão sobre a movimentação dessas formações arenosas nos Lençóis Maranhenses
As dunas da península de Caburé, na porção mais ao norte dos Lençóis Maranhenses, podem migrar vários metros em poucos meses, em especial na estação seca do ano, entre julho e dezembro. Nesse período, os ventos são mais fortes, o nível de água acumulada nas lagoas entre as dunas diminui bastante e esses grandes montes de areia, muitas vezes em forma de lua crescente, tornam-se ainda mais movediços. “Essas dunas são extremamente dinâmicas e podem perder um terço de sua área ou até mudar inteiramente de local”, afirma o oceanógrafo Denilson da Silva Bezerra, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Em
dezembro de 2015 e em janeiro de 2017, ele e colaboradores do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Universidade Ceuma, em São Luís, capital maranhense, realizaram medições de alta precisão em 1.700 pontos do campo de dunas próximo à praia de Caburé, uma antiga vila de pescadores e ponto de hospedagem de turistas no município de Barreirinhas. Nos 14 meses que separaram a primeira da segunda medição, as dunas de Caburé perderam, em média, 30 centímetros (cm) de altura. De acordo com os resultados publicados em maio na revista Scientific Reports, cerca de 61 mil me-
tros cúbicos de areia (algo entre 90 mil e 100 mil toneladas) foram deslocados no sentido nordeste-sudoeste pelos ventos, que lá atingem 70 quilômetros por hora. A península de Caburé é uma língua de areia aprisionada entre o oceano Atlântico e o rio Preguiças e ocupa uma área de quase 3 mil hectares, o equivalente a 2% do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, que tem as dimensões do município de São Paulo e é o maior campo de dunas da América do Sul. Em Caburé, a maior parte (77%) dessas formações arenosas tem de 1 a 3 metros (m) de altura e 22% superam os 3 m – as mais altas chegam a quase 12 m. No interior do parque, as dunas são maiores, podendo atingir 20 m de altura por mais de 200 m de extensão em linha reta.
O trabalho coordenado por Bezerra é um dos raros a realizar medições in loco da altura das dunas e a indicar como se movimentam. Para isso, os pesquisadores usaram aparelhos de GPS geodésicos montados sobre quadriciclos que subiam
e desciam as dunas a uma velocidade constante, próxima à da caminhada de uma pessoa. O GPS geodésico é bem mais preciso do que o disponível nos telefones celulares e automóveis – a margem de erro do primeiro é da ordem de milímetros, enquanto a do segundo chega a vários metros – e permitiu ao grupo obter medições precisas de elevação, latitude e longitude das dunas, usando como base pontos de referência predeterminados.
b A se pA r A simul A ções
“Conseguimos medir de forma direta o padrão de movimentação das dunas”, conta Bezerra, que iniciou as medições quando ainda era professor da Ceuma, uma universidade particular que estimula seu corpo acadêmico a realizar pesquisa. Antes desse trabalho, poucas medições in loco haviam sido realizadas. A maior parte dos modelos computacionais que simulam a dança das dunas é alimentada por medições feitas por satélite, que têm margem de erro muito
maior. Embora a superfície analisada seja pequena, o grau de detalhamento obtido pelos pesquisadores deverá servir de referência para validar observações mais abrangentes feitas com outros métodos.
“As medições precisas feitas por esse grupo são muito importantes para o progresso das simulações”, afirma o físico alemão Hans Herrmann, da Universidade Federal do Ceará (UFC). Ele desenvolve modelos matemáticos para investigar a dinâmica das dunas nos Lençóis Maranhenses (ver Pesquisa FAPESP nº 205) e afirma que sempre foi difícil trabalhar com os dados de altura obtidos por imagens de satélite. “Existe pouco contraste óptico nas fotos, e isso afeta a precisão”, explica Herrmann.
Cercado por três grandes biomas –Amazônia, Cerrado e Caatinga – e importante ponto turístico no Brasil, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses desperta há tempos o interesse de pesquisadores por ser uma paisagem que, apesar da movimentação individual das
dunas, mantém-se estável há alguns milhares de anos. O parque, aliás, não se resume às cadeias de montes curvos de areia: tem lagoas sazonais, praias, manguezais e um rio. Entender o comportamento de suas dunas é importante para ajudar a inferir o passado da região e sua provável evolução, além de gerar potencial benefício para seus moradores. “O entorno é habitado, e as dunas afetam a vida das pessoas quando avançam sobre os vilarejos”, explica Bezerra, que pretende realizar medições in loco em outras 10 áreas dos Lençóis Maranhenses. Por essa razão, conseguir antecipar as transformações de longo prazo nas dunas, ainda que difícil, pode permitir planejar melhor a distribuição das moradias, a pesca e o turismo. n rafael Garcia
artigo científico
santos, a . L. s et al. Modelling dunes from Lençóis Maranhenses national Park (Brazil): Largest dune field in south america. Scientific Reports on-line. 15 mai. 2019.
Cadeia de dunas na região de Caburé, no Maranhão
Vigilância na fronteira
Previsto para estar totalmente operacional em 2035, o Sisfron irá monitorar quase 17 mil quilômetros da divisa terrestre brasileira com 10 países
veR São atualizada em 25/09/2019
Em aproximadamente seis meses, um trecho de 650 quilômetros (km) da fronteira brasileira com o Paraguai deverá contar com um sofisticado sistema de vigilância. Esse é o prazo estimado pelo Exército Brasileiro para que esteja 100% operacional a primeira fase do Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron). Um dos principais programas em curso das Forças Armadas, o Sisfron vai utilizar de forma integrada um conjunto de radares, sensores e sistemas de comunicações para detectar e informar em tempo real a ocorrência de movimentação física na fronteira terrestre brasileira. O objetivo do sistema, visto por especialistas como um importante incentivo à indústria nacional, é permitir aos órgãos federais e estaduais de defesa e segurança coibir atos ilícitos como tráfico de armas e drogas, contrabando, roubos de cargas e veículos, crimes ambientais e conflitos fronteiriços.
O sistema de monitoramento se estenderá pelos 16.886 km que formam a linha limítrofe entre o Brasil e 10 países vizinhos. Quando estiver pronto, vigiará uma área de 2.553.000 km² – 27% do território nacional –, abrangendo 570 municípios em 11 estados brasileiros, do Amapá ao Rio
Grande do Sul. O sistema foi concebido em 2011 e o compromisso inicial do governo federal era investir R$ 12 bilhões em 10 anos para concluir o projeto em 2022. Hoje é executado de acordo com o permitido pelo orçamento e o prazo se tornou mais longo – a previsão é de que seja finalizado em meados da década seguinte.
A dificuldade de construir um sistema de vigilância como esse se deve a sua complexidade. Uma das características da fronteira brasileira é a diversidade geográfica. Existem desde trechos de floresta densa e rios caudalosos até áreas urbanas – onde uma rua marca a divisa entre países – e trilhas ermas facilmente transformadas em vias para o tráfico e o contrabando. Segundo o general de brigada Sérgio Luiz Goulart Duarte, gerente do Programa Sisfron, essa diversidade exige que as soluções tecnológicas para monitoramento e comunicação sejam adotadas conforme as características de cada localidade e da capacidade operacional dos diversos comandos militares. Atualmente, a vigilância da fronteira brasileira é feita pela Polícia Federal (PF) nos postos legais e em conjunto com os respectivos comandos militares regionais do Exército nas demais áreas. Isso não vai mudar. Missões de vigilância
módulo que permite a transmissão de dados em campo, embarcado em viatura do e xército
Domingos Zaparolli
são realizadas em saídas de rotina ou motivadas por informações e evidências colhidas de forma aleatória. Com o Sisfron, uma série de recursos eletrônicos coletará e transmitirá dados de forma contínua, permitindo uma resposta imediata (ver infográfico na página 71).
A base do Sisfron, tanto como ideia quanto como sistema, remonta ao Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) e ao Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), projetos implementados na primeira década deste século e voltados ao monitoriamento da região amazônica. A capacidade de empresas e instituições brasileiras projetarem um sistema do porte do Sisfron, segundo especialistas, é resultado, em boa medida, do fato de o país ter participado do desenvolvimento do Sivam junto com a fabricante Raytheon.
nacionali Z a ÇÃ o
A empresa Savis Tecnologia e Sistemas, do grupo Embraer Defesa & Segurança, é a integradora da primeira fase do programa, ou seja, a responsável pela convergência tecnológica e a gestão dos múltiplos fornecedores. “Estamos aplicando toda a capacidade desenvolvida pela Embraer em engenharia de sistemas aéreos para gerir um sistema de defesa terrestre”, declara o CEO da Savis, Nilson Santin.
A arquitetura tecnológica do Sisfron é a mesma adotada por países como Estados Unidos, Rússia, Israel e Alemanha para proteger suas fronteiras terrestres, com a diferença de que o sistema brasileiro é o único de grande porte em implementação atualmente. “É um sistema avançado, o que abre possibilidades mercadológicas para a Savis e para os fornecedores envolvidos no
militares em uma unidade móvel de Comando e Controle do Sisfron; abaixo, detalhe da tela com informações de radar
projeto”, diz Santin. O alvo em potencial da Savis e das empresas envolvidas no desenvolvimento do Sisfron são países que não contam com uma indústria de defesa estruturada.
Uma demanda do Exército brasileiro é alcançar o máximo de nacionalização possível nos equipamentos do Sisfron; a participação de conteúdo local, por ora, ronda a casa de 75% dos fornecimentos. A própria Savis, juntamente com a Embraer, é responsável pelo desenvolvimento de alguns dos principais equipamentos de monitoramento, como o hardware dos sensores Mage/ Comint (Medidas de Apoio de Guerra Eletrônica/ Communications Intelligence), que trabalham com softwares da alemã Saab Medav. O Mage/ Comint é um sistema de captação de sinais eletromagnéticos que rastreia a comunicação via rádio, muito usado em guerra eletrônica.
Outro desenvolvimento, totalmente nacional, é o radar Sentir-M20, capaz de detectar uma pessoa rastejando a 2 km ou andando a 10 km e um veículo blindado a 30 km. Como explica Fabio Caparica, diretor-executivo da Savis, a integração de sistemas permite uma operação onde o Sentir-M20 detecta o alvo e aciona uma câmera, que passa a acompa-
a estrutura do Sisfron
Conheça as tecnologias que compõem o sistema e como ele deverá funcionar
eQUipaMentoS
n um sistema de captação de sinais eletromagnéticos (mage/ Comint) rastreia as comunicações via rádio
coMUnicaÇÕe S
n Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SgdC-1), previsto exclusivamente para uso em áreas remotas
n Radares de vigilância integrados a câmeras de longo alcance detectam um pedestre distante 10 km, veículos a 20 km e blindados a 30 km
n agentes usam aparelhos ópticos dotados de tecnologia eletrônica para visão diurna e noturna em versões móveis (monóculos acoplados a capacetes e binóculos termais) e fixas, controlados remotamente
n Telefonia VoIP e redes locais sem fio
n Torres de transmissão de voz e dados em uhf, vhf e micro-ondas
centroS De coManDo e controle
n Unidades fixas nos comandos militares e conectadas a órgãos de segurança contam com tecnologia para tratar e analisar dados colhidos em campo e tomar decisões
n Unidades móveis em veículos estrategicamente posicionados têm os mesmos instrumentos dos centros fixos
nhá-lo. A informação transmitida em tempo real ao centro de comando possibilita a identificação do alvo e a tomada de decisão.
Subsidiária da israelense Elbit, a gaúcha AEL Sistemas, com sede em Porto Alegre, é a fornecedora de equipamentos optrônicos para o Sisfron, como câmeras multissensores de visão noturna e diurna, sensores termais e sistemas de visão noturna. Sergio Horta, CEO da AEL, explica que componentes e partes dos equipamentos são feitos em Israel – os brasileiros encarregam-se da montagem, integração e manutenção dos sistemas. “A ideia é que, no fim do ciclo de instalação, o Brasil possa manter os sensores em atividade, independentemente do fornecimento externo de assistência técnica ou mesmo de componentes”, informa. O sistema de criptografia (transformação de um texto em código) e a autenticação (proteção da mensagem transmitida) adotados no Sisfron são produtos nacionais. O CommGuard é uma plataforma desenvolvida pela campineira Kryptus Segurança da Informação com o apoio da FAPESP. Roberto Gallo, CEO da Kryptus, avalia que é essencial um sistema de defesa adotar uma solução nacional de garantia de segurança de comunicações.
Gallo menciona que alguns dos sistemas vendidos por empresas de outros países contam, por determinação legal ou orientação de seus governantes, com mecanismos embutidos que permitem a interceptação da comunicação e acesso aos dados. Com isso, autoridades estrangeiras podem acessar informações sensíveis. “Um sistema de monitoramento de defesa com seu sigilo violado perde sentido estratégico, pode se tornar inútil”, afirma.
Os professores Héctor Luis Saint-Pierre e Samuel Alves Soares, membros do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (Gedes), são céticos em relação à efetividade do Sisfron no combate a ações ilícitas na fronteira. “Existe um fascínio pela tecnologia que sobrepõe a estratégia”, diz Soares, que também é coordenador do Programa Interinstitucional de Pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas. Para o pesquisador, o investimento público em tecnologia de defesa é lento, limitado pela disponibilidade orçamentária. “A tecnologia, no entanto, está disponível no mercado para quem tem dinheiro, e quem tem é o traficante, que pode contratar sistemas que burlam as estruturas tecnológicas adotadas e recrutar pessoas treinadas pelo
Exército, ex-soldados, para obter informações e desenvolver rotas alternativas”, destaca Soares.
Segundo Saint-Pierre, o tráfego terrestre de armas, drogas e mercadorias contrabandeadas se dá principalmente em pontos tradicionais de fronteiras, em que há infraestrutura e logística estabelecidas, e não em lugares ermos. “É um combate que se faz com inteligência e cooperação internacional”, declara. Para ele, mais do que novas tecnologias, efetivo é saber com antecedência por onde passará a mercadoria ilícita, quem são os agentes públicos facilitadores e como se dá a movimentação de recursos que financiam a operação.
O general Duarte, gerente do Sisfron, afirma que o sistema não substitui a necessidade do trabalho de inteligência nos pontos tradicionais de fronteira. Sua função é inibir o uso de rotas alternativas às convencionais, que já são vigiadas pelos órgãos de segurança pública. Segundo o militar, em 2016, quando já operava parcialmente, o Sisfron permitiu apreensões de 133 toneladas de drogas, cigarros, armamentos e munições por rotas alternativas em Mato Grosso do Sul. Em 2018, foram 204 toneladas. “O ideal seria estender o mais rápido possível o Sisfron por toda a fronteira nacional”, afirma.
lenta iMpleMentaÇÃo
A implantação do sistema avança vagarosamente. Quando foi projetado, a média de gastos anuais, apenas para implementação, foi calculada em R$ 1,2 bilhão. Os recursos efetivamente investidos desde o início do projeto, em 2011, no entanto, foram em média de R$ 204 milhões por ano. Em 2019 o orçamento previsto era de R$ 310 milhões. Após contingenciamento, ficou em R$ 220 milhões.
“Estamos executando o projeto conforme o que é liberado pelo governo”, conta o general Duarte. O cronograma atual prevê a conclusão do Sisfron em 2035, quando o Amapá estará integrado ao sistema.
A fase 1 começou a ser implementada em 2015 e está 90% ativa, faltando a integração de áreas remotas que dependem de comunicação via satélite para a transmissão dos dados coletados aos centros de controle e comando em Dourados e Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. Dificuldade que o general Duarte acredita que será superada após a definição de uma negociação em curso para o uso do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC-1), controlado pela Telebrás e pelo Ministério da Defesa.
Para Roberto Gallo, que também preside a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (Abimde), a restrição orçamentária não significa que o Sisfron será um sistema defasado tecnologicamente quando implementado, uma vez que, em cada fase, são compradas as versões mais atualizadas dos equipamentos. Além disso, ele destaca que a tecnologia de defesa é elaborada de forma a ser relevante por décadas e normalmente é dimensionada para estar mais de 10 anos à frente das soluções disponíveis no mercado civil, de forma que não possa ser facilmente burlada por traficantes, contrabandistas e outros criminosos que atuem em áreas de fronteiras. n
Projeto
Projeto de módulo criptográfico de alto desempenho ( h S m ) (nº 04/02906-8); Modalidade Pesquisa inovativa em Pequenas empresas (Pipe); Pesquisador responsável Roberto alves gallo filho (Kryptus); Investimento R$ 16.584,46.
embarcação de reconhecimento e vigilância do e xército em missão no lago de itaipu, na fronteira com o Paraguai
agronomia y
O café da floresta
Dez novas cultivares da espécie canéfora têm potencial para triplicar a produtividade na região
Frances Jones
Um novo capítulo na história do café na Amazônia pode estar se abrindo este ano, com o lançamento pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) das 10 primeiras cultivares híbridas da espécie canéfora (Coffea canephora), com potencial para ao menos triplicar a produção média da lavoura. Uma cultivar é o resultado de melhoramento genético e só pode ser reconhecida como tal após demonstração de que difere, fenotípica e geneticamente, de outros cultivares existentes. Uma variedade é uma variação da planta da qual descende, mas que não foi submetida a uma seleção. Essas cultivares híbridas resultam do cruzamento de duas variedades diferentes, no caso, os cafés robusta e conilon, pertencentes à espécie C. canephora.
A novidade desse lançamento, segundo o pesquisador Alexsandro Teixeira, da Embrapa Rondônia, é que as cultivares foram criadas a partir da caracterização individualizada de diferentes clones (cópias genéticas de determinadas plantas, neste caso obtidas por multiplicação vegetativa), o que é inédito na cultura do café amazônico. Isso significa que cada cultivar tem características específicas associadas à produtividade, qualidade da bebida e resistência a doenças, entre outras. Normalmente, as cultivares de café canéfora são formadas por mais de um clone.
Diferentemente do cafeeiro arábica (Coffea arabica), comum nas lavouras do Sudeste, que se autofecunda, as plantas da espécie canéfora possuem fecundação cruzada, isto é, são autoincompatíveis. Para produzirem grãos necessitam de duas plantas diferentes e compatíveis, uma fornecendo pólen para a outra. Assim, tendo características selecionadas para o clima amazônico, as 10 cultivares podem ser combinadas de acordo com sua compatibilidade, cruzar entre si, potencializando seu cultivo na região, com maior produção de grãos.
A caracterização individual das 10 cultivares clonais permite que o cafeicultor saiba quais devem ser combinados na lavoura – antes, essa combinação era aleatória. Entre as novas cultivares – batizadas de Robustas Amazônicos e lançadas após 15 anos de pesquisas com o apoio do Consórcio Pesquisa Café –, há três grupos de compatibilidade. Para obtenção de lavouras mais eficientes, recomenda-se o plantio conjunto das mudas de seis clones, duas de cada grupo.
m AIO r pr O d U t I v I dA d E
Quinto maior produtor nacional de café, Rondônia tem uma área plantada com a espécie canéfora estimada em 72 mil hectares e uma produção de 2 milhões de sacas por ano. Enquanto a variedade conilon tem como característica ser com-
pacta, com plantas menores e resistentes à seca, a robusta é mais tolerante a doença e produz bebida de melhor qualidade. Por fatores históricos, em Rondônia houve muitos cruzamentos de plantas conilon com robusta, resultando em cultivares híbridas. “O que fizemos foi direcionar o melhoramento para explorar mais essa hibridação”, detalha Teixeira. “A Embrapa pegou o material mais produtivo de conilon e de robusta e fez o cruzamento entre eles dentro do campo experimental.” De acordo com o agrônomo, as 10 novas cultivares, já registradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e disponíveis em viveiros credenciados, podem atingir uma produtividade de 80 sacas por hectare (ha) – com irrigação, supera 100 sacas/ha. Hoje, a média do estado gira em torno de 30 sacas/ha.
“Todas as propriedades que visitei em Cacoal, já com as novas cultivares, eram irrigadas e produziam uma média de 110 sacas por hectare”, conta Marco Antônio Campos, vice-presidente de Administração e Finanças da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). “Eles conseguiram uma produtividade alta, com um custo baixo”, diz. “Além disso, o produto tem uma qualidade surpreendente.” n
Detalhe de um pé de café plantado com uma das cultivares lançadas pela embrapa
engenharia B iomédica y
Tratamento acessível
Software criado no Brasil busca ampliar atendimento em radioterapia oncológica em países em desenvolvimento
Um software criado por uma empresa paulista promete dar mais segurança e agilidade aos procedimentos de radioterapia oncológica em países em desenvolvimento. O Sistema de Informação para Planejamento Radioterápico (Siprad) foi criado pela i-Medsys, empresa de Ribeirão Preto (SP) especializada no desenvolvimento de sistemas médicos, e está em fase de registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e na agência norte-americana Food and Drug Administration (FDA).
A função do software é realizar o planejamento do tratamento, etapa em que participam diversos profissionais, entre eles rádio-oncologista, dosemetrista e físico médico. O planejamento determina a dose e os diferentes ângulos de administração da radiação, que é efetuada por um aparelho afastado do paciente, o acelerador linear. Também define limites e volumes da área do corpo humano que receberão o tratamento, tornando-o mais eficaz e reduzindo efeitos colaterais. “O planejamento é a etapa mais crítica do tratamento radioterápico”, diz o rádio-oncologista Harley Francisco de Oliveira, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia. Ele explica que uma dose
administrada de forma inadequada pode provocar danos a tecidos saudáveis. Na ausência de um sistema de planejamento de radioterapia (TPS), como o Siprad, os médicos definem a região-alvo do tratamento e a dose da radiação com base na observação visual de imagens de tomografia ou ressonância magnética. O risco de erro passa a ser maior. Essa é a situação de muitos serviços de radioterapia do país, principalmente os que atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Dados do Ministério da Saúde indicam que 10,3 milhões de procedimentos radioterápicos foram realizados pelo SUS em 2017. A escassez de equipamentos para o tratamento, como aceleradores lineares, e de sistemas TPS resulta em um tempo médio de espera entre o diagnóstico e o início da radioterapia de 113 dias. O problema é que a implementação da tecnologia para o tratamento é dispendiosa e o acesso é limitado fora dos grandes centros hospitalares do país. Um acelerador linear custa por volta de US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 5,5 milhões). O custo da licença de um programa RTPS (Radiation Therapy Treatment Planning) da norte-americana Varian, uma das líderes do mercado global junto com a sueca Elekta, pode variar de US$ 10 mil a
mais de US$ 100 mil, segundo Humberto Izidoro, diretor-geral da empresa na América Latina. O preço final depende das funcionalidades configuradas e do número de usuários credenciados para cada funcionalidade. A clínica ou hospital também precisa de uma estação de trabalho exclusiva para operar o RTPS.
De acordo com Diego Fiori de Carvalho, sócio-diretor da i-Medsys, a proposta do Siprad é se diferenciar pelo menor custo de implementação e manutenção. A licença completa do sistema, cujo desenvolvimento contou com apoio do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) da FAPESP, é estimada em cerca de US$ 10 mil, mesmo valor da licença da Varian para uma única funcionalidade e um usuário. Outra diferença é que os TPS importados demandam estações de trabalho exclusivas, enquanto o Siprad funciona em computadores pessoais. O software brasileiro, segundo Carvalho, possui as mesmas funcionalidades que os sistemas concorrentes e é compatível com os aceleradores lineares produzidos pela Varian e Elekta.
O Siprad surgiu a partir de uma demanda do serviço de radioterapia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Univer-
sidade de São Paulo (HCRP-USP), então coordenado por Harley Oliveira. “O alto custo das licenças de TPS limita a expansão dos serviços de radioterapia, sobretudo os públicos, que demandam investimentos governamentais”, diz o médico. A i-Medsys, empresa graduada no Supera Parque de Ribeirão Preto, já atendia o HCRP com o sistema de gerenciamento de imagens LyriaPacs, também desenvolvido com apoio da FAPESP.
A nova demanda do HCRP levou os sócios Diego Carvalho e José Antônio Camacho a realizar o Programa Treinamento em Empreendedorismo de Alta Tecnologia Pipe Empreendedor. “Esse programa nos estimulou a ter um plano de negócios para o Siprad adequado à realidade brasileira”, relata Carvalho. Para isso, os sócios visitaram hospitais públicos e filantrópicos de seis estados.
Uma das metas da i-Medsys é atender a demanda por TPS resultante do Plano de Expansão da Radioterapia no SUS, que prevê a aquisição de 140 aceleradores lineares. A iniciativa original data de 2012, quando o Ministério da Saúde anunciou uma concorrência para a aquisição de 80 equipamentos – seis anos depois, foram acrescidas 60 máquinas. A concorrência original foi vencida
pela Varian, cujo contrato, assinado em 2013, previa a entrega dos equipamentos, a construção de uma fábrica no país, um centro de treinamento e a transferência de tecnologia.
Segundo Izidoro, diretor da Varian, até o início de julho foram entregues 18 aceleradores lineares. Com o novo acordo firmado em 2018, o total de equipamentos a serem fornecidos pela Varian chegará a 100. O investimento é estimado em R$ 505 milhões. As outras 40 máquinas e respectivos TPS serão adquiridos por meio de convênios ainda não definidos. É nesse cenário que a i-Medsys quer se inserir.
A pr ESENTA ç ão NA o NU
Atualmente o Siprad está sendo testado no Centro de Tratamento em Rádio-Oncologia (CTR), em Ribeirão Preto, e no Instituto de Radiologia (HC-InRad), em São Paulo. “Estamos aprimorando as ferramentas de contorno e a performance geral do programa. Ainda é cedo para uma avaliação definitiva”, comenta o médico rádio-oncologista Fábio Prado Luz, do HC-InRad. Para ele, trata-se de um programa promissor e em franca evolução. “Solicitamos alterações e somos atendidos, o que não ocorre com programas estrangeiros. Isso faz diferença.”
Imagens ilustrativas do tratamento radioterápico contra câncer
Harley Oliveira, que faz avaliação do Siprad no CTR, diz que o sistema apresenta vantagens importantes, além do menor custo: um banco de dados remoto, que utiliza o sistema de computação em nuvem, e a possibilidade de realizar a tarefa de planejamento a distância, via web. O custo de implementação e manutenção e os diferenciais do programa levaram a Divisão de Saúde Humana da Agência Internacional de Energia Atômica das Nações Unidas a convidar a equipe da i-Medsys a mostrar o projeto neste ano em sua sede, na Áustria. A agência busca soluções de software para tratamento de câncer compatíveis com as demandas de países em desenvolvimento. “Atendemos os requisitos na agência e fomos estimulados a participar de licitações internacionais quando tivermos as certificações”, diz Carvalho. n Domingos Zaparolli
Projetos
1. Siprad: Sistema de planejamento radioterápico (nº 15/08412-1); Modalidade Pesquisa inovativa em Pequenas empresas (Pipe); Pesquisador responsável diego fiori de carvalho (innolution); Investimento r$ 553.828,32. 2. arcamed: um arcabouço para construção de sistemas de apoio a diagnósticos médicos (nº 05/60038-5); Modalidade Pesquisa inovativa em Pequenas empresas (Pipe); Pesquisador responsável diego fiori de carvalho (innolution); Investimento r$ 471.239,25.
moDElo Eficaz
Cebrap completa meio século com múltiplos objetos de pesquisa e estrutura de financiamento apoiada na captação de recursos de fontes diversas
oCentro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) chega aos 50 anos com linhas de pesquisa reformuladas, atendendo a novas demandas da sociedade e com uma estratégia de captação de recursos equilibrada entre o financiamento público e o privado, com aportes das três esferas de governo, agências de fomento, organizações internacionais, empresas e entidades do terceiro setor. Estabelecido durante a ditadura militar (1964-1985), com cerca de 500 projetos de investigação científica desenvolvidos até hoje, com destaque para estudos pioneiros sobre temas como população, instituições políticas, mercado de trabalho e desigualdade, o centro segue refletindo sobre as principais questões políticas, econômicas e sociais e é hoje uma das mais sólidas instituições de pesquisa em ciências humanas do Brasil.
O Cebrap foi concebido em 1969 por um grupo multidisciplinar de professores afastados da universidade em virtude de perseguição política –entre eles o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, o filósofo José Arthur Giannotti, a demógrafa Elza Salvatori Berquó e o sociólogo e demógrafo Cândido Procópio Ferreira de Camargo (19221987), todos da Universidade de São Paulo (USP). A partir de 1975, sua operação foi impulsionada com a constituição de um endowment , fundo patrimonial filantrópico, pela Fundação Ford, com aportes que totalizaram US$ 3,47 milhões (em valores atualizados). “A fundação estava empenhada em fomentar a criação de institutos de pesquisa no Brasil, para evitar a evasão massiva de intelectuais, conforme já tinha acontecido na Argentina”, lembra Giannotti, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Em entrevista dada este ano para vídeo
Brasileiros em busca de emprego: mercado de trabalho é objeto de estudos do centro desde a sua fundação
Christina Queiroz
d iálogo com o setor privado cria propostas de interesse público e impulsiona a estrutura de financiamento
em comemoração ao cinquentenário do centro, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso explica que a obtenção de apoio financeiro começou a ser delineada em interlocução com o defensor norte-americano de direitos humanos Peter Bell (1941-2014), que desde 1964 trabalhava no escritório da Ford, no Rio de Janeiro.
Até meados da década de 1990, além da Ford, instituições como a Fundação MacArthur e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) apoiavam, ainda que com volume menor de recursos, as operações do Cebrap. O dinheiro era utilizado no custeio administrativo e na remuneração de um quadro fixo de cerca de 20 pesquisadores, mantidos independentemente da quantidade de investigações em curso. “Fundações como Ford e MacArthur, apesar de liberais na acepção política norte-americana, eram progressistas e defendiam valores democráticos. Para exercer um contrapeso ao contexto autoritário, apoiaram distintas organizações da sociedade civil durante as ditaduras latino-americanas”, explica o cientista político Adrian Gurza Lavalle, da FFLCH e diretor científico do Cebrap entre 2008 e 2010.
A socióloga Angela Alonso, da FFLCH e presidente do Cebrap nos últimos quatro anos, conta que com parte dos recursos do endowment se adquiriu, na década de 1980, um conjunto de salas comerciais na cidade de São Paulo. Aluga-
dos, tais imóveis subsidiaram o custeio do centro até meados dos anos 2000, quando foram vendidos por cerca de R$ 3 milhões, hoje investidos em aplicações financeiras. Antes disso, no final de 1976, outra parcela do endowment havia sido utilizada na aquisição das atuais instalações, no bairro de Vila Mariana. A opção pela sede própria aconteceu por razões de segurança, depois de atentado a bomba na casa que abrigava o centro, em Higienópolis, naquele mesmo ano.
De acordo com Alonso, o estatuto do Cebrap prevê que o montante principal do endowment só pode ser utilizado mediante autorização prévia de assembleia de associados e do conselho fiscal, em situações consideradas críticas, quando, por exemplo, não for possível sustentar a operação administrativa ou honrar direitos trabalhistas. “Fora dessas situações, o centro está autorizado a gastar apenas os recursos que ultrapassem a correção do montante principal”, detalha.
p onto de virada
Até então subsidiado principalmente por linhas internacionais de fomento, a redemocratização do país em meados dos anos 1980 representou um novo desafio ao centro. Se por um lado a volta à democracia significou o fim da pressão política sofrida por alguns de seus integrantes e trouxe novas perspectivas para o desenvolvimento da
Pesquisas analisam participação de organizações sociais na construção da democracia. na foto, assembleia de metalúrgicos no abC (1979) 1
pesquisa científica – uma de suas frentes de trabalho passou a ser a análise da nova conjuntura e seus desdobramentos na sociedade civil e em contextos urbanos –, também exigiu a revisão da estratégia de sustentação financeira. Ao deixar de ser visto como país em situação de vulnerabilidade, o Brasil viu decrescer o apoio de instituições internacionais, que passaram a direcionar seus investimentos a países do Leste Europeu, da África e América Central. O cientista político Fernando Limongi, da FFLCH, conta que quando assumiu a presidência do Cebrap, em 2001, a única linha de financiamento institucional que ainda se mantinha era a da Finep. “Naquele momento, fomos obrigados a nos reorganizar”, recorda. “Deixamos de ter uma equipe permanente de pesquisadores e o centro passou a se sustentar a partir de recursos obtidos para o desenvolvimento de projetos específicos. Criamos um caixa comum, formado pelo overhead de cada uma dessas iniciativas, que desde então tem nos permitido arcar com
as despesas administrativas”, explica Limongi. Na mesma época, de acordo com ele, fundações internacionais também adotaram um novo modelo gerencial, priorizando o apoio a projetos com aplicação prática e resultados mensuráveis, diferentemente de estudos majoritariamente acadêmicos, que até então prevaleciam entre as atividades desenvolvidas pelo Cebrap.
Além dos estudos convencionais, subsidiados principalmente por agências públicas de fomento à pesquisa, e de serviços de consultoria e pesquisa aplicada prestados a órgãos públicos, o Cebrap passou a desenvolver investigações para o setor privado e organizações do terceiro setor. “Os trabalhos para o setor privado vêm ganhando força, nos últimos 10 anos. Temos conseguido criar projetos para empresas que pensam os problemas da sociedade, caso das análises de mobilidade urbana para o banco Itaú, de impacto social para a Natura e de acompanhamento do Legislativo Federal para o jornal Valor Econômico”, informa o sociólogo Carlos Torres Freire, que desde 2015 responde pela diretoria científica da instituição. Hoje 35% dos recursos do centro advêm de agências de fomento como a FAPESP, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) – no caso da FAPESP, desde 1962 foram concedidos 442 fomentos, entre auxílios à pesquisa e bolsas, intensificados a partir dos anos 2000. Outros 15% do orçamento provêm de linhas de financiamento internacionais, enquanto 20% resultam de parcerias com o setor governamental e envolvem, por exemplo, diagnósticos georreferenciados sobre pobreza; transferência de tecnologia para dimensionamento de favelas; avaliações demográficas; e iniciativas que propõem intervenções diretas no contexto urbano. Pesquisas de interesse público para o setor privado respondem por outros 18% dos recursos, estando os 12% restantes relacionados a serviços prestados para organizações do terceiro setor.
envolvem temas como desigualdade e mobilidade
Zona sul da cidade de são Paulo e ciclista na marginal Pinheiros: pesquisas sobre o meio urbano
Ruth Cardoso (1930-2008), Elza b erquó, josé arthur giannotti e Francisco de oliveira (1933-2019), em sentido horário, reunidos no Cebrap em 1994
A antropóloga Paula Montero, da FFLCH e presidente do Cebrap entre 2008 e 2015, explica que para assegurar a saúde financeira do centro são necessários pelo menos 20 projetos de pesquisa em desenvolvimento, simultaneamente. Hoje há 28 em andamento. Cerca de 20% do financiamento desses trabalhos destina-se ao custeio operacional. Atualmente a gestão do Cebrap é feita por um presidente, uma diretora administrativa e um diretor científico. O trabalho de captação de recursos, que envolve a prospecção de editais e o estabelecimento de parcerias com organizações não governamentais (ONGs), governos e empresas, está a cargo do diretor científico e dos coordenadores dos 15 núcleos de pesquisa da instituição.
“Pesquisadores mais jovens têm revelado ampla capacidade para pensar novas formas de financiamento, dialogando com o setor privado para desenhar propostas de interesse público que impulsionem a sustentação financeira da casa”, afirma Montero. Outro aspecto relacionado à vitalidade do Cebrap decorre do empenho em formar pesquisadores. “Contar com novas gerações de profissionais que têm a mesma relevância no debate público e na produção científica também se revelou uma maneira de atrair recursos”, observa Alonso. Integram o Cebrap hoje sete profissionais em funções administrativas, cerca de 50 pesquisadores contratados em projetos, além de 30 bolsistas de pós-doutorado, doutorado, mestrado, iniciação científica e treinamento técnico. Os voluntários não remunerados somam três dezenas e incluem tanto aqueles diretamente ligados a projetos de pesquisa quanto os envolvidos em atividades institucionais.
“A estratégia para assegurar nosso equilíbrio financeiro é não depender apenas de uma fonte, conciliando a capacidade de realizar pesquisa acadêmica com o atendimento de demandas de aplicação e difusão do conhecimento”, resume o filósofo Marcos Nobre, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp) e atual presidente do Cebrap. Além da pesquisa propriamente dita, o centro edita a revista Novos Estudos, financiada pela Fundação Carlos Chagas (FCC), promove atividades de capacitação, seminários sobre temas relevantes do debate público e atividades de divulgação científica.
t emas C lássi Cos e emergentes
A capacidade de reconfiguração da estrutura de financiamento desenvolveu-se de forma paralela ao esforço do Cebrap de renovação das áreas de atuação, que hoje envolvem linhas de pesquisa seminais, mas também estudos sobre temas emergentes. A temas clássicos na agenda de pesquisa, presentes desde a fundação do centro, como mercado de trabalho, sindicalismo, pobreza, movimentos sociais, população e instituições políticas, nos últimos 10 anos vieram somar-se outros, como inovação, internet e inclusão digital, observa o diretor científico Freire, indicando a questão metropolitana como exemplo. “O tema faz parte da agenda do Cebrap desde sua fundação. O livro São Paulo 1975: Crescimento e pobreza [Edições Loyola, 1976], publicado a partir de estudo elaborado para a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, sobre as conexões entre desenvolvimento econômico e miséria na cidade, é um dos nossos trabalhos mais relevantes”, diz o sociólogo. “Nos anos 2000, pesquisas sobre a temática urbana foram reconfiguradas. Hoje, uma área importante é a que trata de mobilidade.”
Outro tema clássico, cuja abordagem vem se transformando junto com a instituição, diz respeito às relações entre Estado e sociedade civil. Adrian Lavalle conta que, no começo dos anos 2000, tais estudos buscavam compreender como essas interações se estruturaram desde o fim da ditadura. “Trabalhava-se com a hipótese herdada pela literatura de transição de que a sociedade
1969 1971
Criado por um grupo de professores de distintas áreas do conhecimento, o Cebrap inicia pesquisas sobre movimentos sociais, demografia e instituições políticas
Publicado o primeiro número de Estudos Cebrap, revista de ensaios que a partir de 1981 passou a se chamar Novos Estudos
civil definharia, após o retorno à democracia, algo que não se confirmou. Constatamos que a sociedade cresceu de modo contínuo e ampliou sua incidência sobre as políticas públicas, notadamente sobre aquelas de índole social”, comenta. Dentre as investigações pioneiras que se mantiveram e seguiram atraindo recursos ao longo de toda existência do centro, uma das principais envolve os estudos populacionais conduzidos pela demógrafa Elza Berquó (ver Pesquisa FAPESP nº 262). Na década de 1960, Berquó fundou o pioneiro Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip), na Faculdade de Higiene e Saúde Pública, hoje Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. Com apoio financeiro da Organização Pan-americana da Saúde (Opas), a pesquisa do Cedip rompeu com paradigmas anteriores que estudavam apenas os determinantes do comportamento reprodutivo. Partiu-se do pressuposto de que mecanismos mais complexos, ou seja, os modos de organização da produção e do trabalho, mediados por instituições como família, escola e religião, acabariam por influenciar o comportamento reprodutivo. Temporariamente interrompida com o golpe militar e a aposentadoria compulsória de Berquó, a pesquisa foi retomada com sua ida para o Cebrap. Anos depois, a primeira ação afirmativa em prol da população negra, concebida pela demógrafa no centro, recebeu aporte de US$ 2 milhões da MacArthur. Outra iniciativa de fôlego que tem aportado conhecimento novo e subsidiado políticas públicas é o Centro de Estudos da Metrópole (CEM), fundado por um grupo de pesquisadores do Cebrap a partir do primeiro edital dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP em 2000. Montero, que fez parte dessa equipe, conta que o CEM foi desenvolvido tendo como um de seus objetivos realizar a transferência de conhecimento à sociedade. “Com a criação do CEM, o Cebrap consolidou sua trajetória na elaboração de pesquisas interdisciplinares de alta performance, em sintonia com a agenda dos governos”, considera a antropóloga. A cientista política Marta Arretche, diretora do CEM, explica que a instituição tem se dedicado à análise das relações entre políticas públicas e desigualdade,
com base em diferentes abordagens disciplinares e metodológicas. “Na origem, nossa agenda de pesquisas estava voltada para a metrópole paulistana”, conta. “Gradativamente esse escopo foi sendo ampliado de modo a captar a diversidade de situações urbanas e metropolitanas do Brasil.” Também em sintonia com as demandas provenientes da esfera pública, em 2004 o sociólogo Glauco Arbix, da FFLCH, elaborou para o então Ministério do Desenvolvimento estudo comparativo sobre estratégias de inovação em sete países. “O trabalho envolveu 40 pesquisadores e resultou na produção de relatórios que mais tarde fomentaram o desenvolvimento de algumas políticas federais de ciência e tecnologia”, relata. O desafio da construção democrática permanece como pano de fundo de todas as pesquisas em andamento na instituição. n
Projeto
há 442 auxílios à pesquisa e bolsas concedidos pela FaPEsP a pesquisadores ligados ao Cebrap. ver bv.fapesp.br/48035.
Correspondência do defensor de direitos humanos Peter b ell marca o início da interlocução entre a Fundação Ford e o Cebrap
1975
doações da Fundação Ford constituem endowment de Us$ 3,47 milhões (em valores atualizados)
1980 2001 1990
Transição para a democracia abre novos campos de estudo sobre raça e religião e incentiva análises das relações entre o legislativo e o Executivo
Perda de financiamento institucional, motivando o centro a diversificar o portfólio de pesquisas e a repensar as fontes orçamentárias
Criação do Centro de Estudos da metrópole com recursos da FaPE sP início de pesquisas sobre inovação, internet e inclusão digital
Unidade da USP: atividades são desenvolvidas com pesquisadores de várias áreas da universidade
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Educação y
Conhecimento articulado
Vinculados a instituições de ensino superior, colégios de aplicação valem-se do saber científico para enfrentar desafios pedagógicos
Os colégios de aplicação surgiram a partir de decreto federal de 1946 como espaço destinado à experimentação de metodologias pedagógicas e à prática docente dos alunos matriculados na disciplina de didática dos cursos de pedagogia e das licenciaturas de ciências humanas, biológicas e exatas. Essas relações entre profissionais de diferentes níveis de ensino – colégio e universidade – tornaram possíveis reflexões não apenas sobre a educação básica como também levaram os parceiros envolvidos a pensar junto com a escola, favorecendo a busca de soluções inovadoras para problemas pedagógicos. Atualmente há 17 estabelecimentos vinculados a instituições federais e cinco ligados a universidades estaduais.
O caso do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) é emblemático desse modelo. A partir da articulação com pesquisadores da empresa júnior i9 Consultoria, da Faculdade de Engenharia da instituição, conseguiu-se aperfeiçoar o processo de aprendizagem de um aluno com paralisia cerebral. Em 2016, Eduardo Wehrlich Ferreira cursava o quinto ano do ensino fundamental no colégio, utilizando placas de papel para se comunicar e participar das aulas. Apesar do desenvolvimento cognitivo adequado aos seus então 10 anos de idade, sua capacidade de interagir era limitada.
Para que Eduardo pudesse utilizar tecnologias de comunicação alternativa, a escola adquiriu um computador espe-
Em santa c atarina, tecnologia assistiva desenvolvida na uFsc ajuda Eduardo a se comunicar
cial. Os recursos saíram de um projeto de formação de professores, voltado a questões de acessibilidade, desenvolvido pelo Laboratório Interdisciplinar de Formação de Educadores (Life) da UFSC e financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Dotado de um recurso de tecnologia assistiva, o computador é operado por meio do movimento ocular e funciona integrado a um software de comunicação. Graças ao equipamento, desde então Eduardo se comunica com o auxílio de símbolos e textos que aparecem na tela e geram falas sintetizadas. Luana Zimmer Sarzi, professora de educação especial da escola, já trabalhava com Eduardo, auxiliando-o nas atividades pedagógicas. Com a chegada do computador, passou a apoiá-lo na utilização das novas ferramentas. Apesar da melhoria na aprendizagem e do ganho de autonomia para se expressar, Eduardo conseguia utilizar o equipamento, alojado sobre uma carteira escolar, apenas quando estava em sala de aula. Além da limitação espacial, a falta de fixação desajustava o sensor à linha dos olhos do estudante, impedindo o acesso adequado aos comandos.
Foi a vez do educador Hamilton de Godoy Wielewicki, coordenador do Life, entrar em cena. Disposto a articular alunos e professores da graduação e docentes do colégio na busca por uma solução para os desafios de aprendizagem de Eduardo, ele procurou o Departamento de Engenharia de Produção Mecânica da universidade. “Precisávamos de um suporte para computador adaptado aos espasmos involuntários do aluno, que fosse de baixo custo”, conta Wielewicki. A ideia era criar algo que, mais tarde, pudesse ser replicado em escala comercial. Em 2017, depois de um ano de trabalho conjunto no laboratório, envolvendo bolsistas, pesquisadores e professores da Faculdade de Engenharia e do colégio, o projeto foi concluído. Um protótipo de braço mecânico foi fabricado pela empresa catarinense GW Usinagem e instalado na cadeira de rodas de Eduardo. Desde então, valendo-se dos movimentos oculares, ele consegue acessar, com precisão, os comandos do computador, que pode ser levado a diferentes espaços. O engenheiro e doutorando no laboratório de robótica da UFSC Julio Cesar Frantz solicitou a patente da invenção. “Articulados com a universidade, conseguimos solucionar um problema pedagógico com recursos tecnológicos e criar um produto de baixo custo, que pode servir a outras pessoas com problemas similares ao de Eduardo”, observa Wielewicki. No colégio de Florianópolis, 71 dos 945 estudantes são alunos de educação especial.
Em resultados recentes do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), essas instituições alcançaram notas superiores à média de outras escolas públicas. Em 2015, a Escola de Aplicação (EA) da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP), que completa 60 anos de existência em 2019, por exemplo, conseguiu o primeiro lugar entre os estabelecimentos públicos da capital para o ensino fundamental II, obtendo a nota 6,6. Em 2015, o Ideb médio do país foi de 4,5.
Professora do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Maria Lúcia de Souza Barros Pupo coordena, há cerca de três anos, um projeto de mediação teatral. Diego de Castro Camelo, aluno da graduação e integrante do projeto, desenvolve parte do estudo com a Escola de Aplicação. Este ano, organizou duas idas ao teatro com nove turmas da escola, totalizando 240 crianças. “O trabalho começa com um momento prévio à ida ao teatro, em que apresentamos a linguagem teatral e o tema da obra, e outro posterior, em que fazemos um balanço, procurando prolongar a experiência e os vínculos dos estudantes com a peça”, resume Camelo. Adriana Silva de Oliveira, professora de artes cênicas na mesma EA, explica que trabalhos como esse permitem criar situações de aprendizagem em que a criança pode dialogar com a obra teatral a partir de seu próprio repertório.
Não raro, a parceria com pesquisadores da universidade resulta na incorporação de metodologias ao projeto pedagógico.
laboratório da uFsc reúne alunos em projetos interdisciplinares
Caso do trabalho desenvolvido entre 2011 e 2014 por Claudemir Belintane, professor da Faculdade de Educação. Com apoio da Capes, o projeto “O desafio de ensinar a leitura e a escrita no contexto do ensino fundamental de nove anos” envolveu as escolas da USP, da Universidade Federal do Pará e um colégio público em Pau dos Ferros, no Rio Grande do Norte, em uma proposta de alfabetização e leitura com ênfase na oralidade (ver Pesquisa FAPESP nº 237). “Essa metodologia propõe, por exemplo, exercícios às crianças em processo de alfabetização para que busquem palavras escondidas dentro de outras palavras, incentivando-as a ler a partir dessas associações”, explica Fátima Morissawa, vice-diretora da EA da USP.
CUrríCUlo rEnovAdo
Outro projeto desenvolvido a partir da parceria entre a escola e a FE envolveu a reestruturação do currículo de ciências do fundamental I. Entre 2014 e 2017, Lúcia Helena Sasseron e Martha Marandino, professoras da FE, realizaram reuniões mensais com as docentes do ensino fundamental I da escola para que, juntas, buscassem melhorias no ensino dessa disciplina. Ficou estabelecido que o currículo de ciências passaria a incluir, além de conteúdo conceitual, informações a respeito de como a ciência opera, na busca por conhecimento. “Nessa nova abordagem, os alunos aprendem a cultura científica a partir de elementos do cotidiano, em um projeto chamado de alfabetização científica, que envolve atividades na horta da escola e em museus”, conta Sasseron,
Estudantes dos colégios de aplicação são vistos como potenciais pesquisadores da universidade
destacando que essa foi uma das diretrizes estabelecidas, em 2017, pela Base Nacional Comum Curricular.
A EA tem matriculados 740 alunos do ensino fundamental ao médio – todos ingressantes por sorteio público – e cerca de 36 professores, a maioria contratada em regime de dedicação exclusiva.
“Esse regime de contratação reflete no aprendizado dos alunos porque permite que os docentes dediquem parte de sua carga horária a atividades de pesquisa, trabalho que reverbera no processo de ensino, fazendo com que os conteúdos sejam abordados com viés inovador”, analisa Carlota Boto, da FE. O docente de artes visuais da escola, Marcelo de Salete Souza, por exemplo, venceu em 2018 os prêmios Jabuti, no Brasil, e Eisner, referência no universo das histórias em quadrinhos e concedido anualmente durante a San Diego Comic-Con, nos Estados Unidos. O reconhecimento se deu pela publicação, quatro anos antes, do livro Cumbe, que aborda a escravidão no Brasil e é resultado de pesquisas sobre o período colonial e a população negra.
“Desenvolvemos atividades pedagógicas sobre o Brasil colonial e a escravidão a partir dessas histórias em quadrinhos. É uma forma instigante de atrair esses jovens para o estudo”, afirma.
pesquisa da Eca-usp investiga estratégias para aproximar jovens espectadores da linguagem teatral
Em esforço para levar as práticas pedagógicas para além da universidade, o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco, com nota 8,1 no Ideb de 2011, a mais alta da rede pública para o ensino fundamental II em todo o país, organiza projetos de capacitação de professores da rede pública. Madson Góis Diniz, vice-diretor da instituição, conta que 90% do corpo docente do colégio tem doutorado, o que permite a seus professores atuar também na educação superior.
O Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação da Universidade Federal
de Goiás, por sua vez, oferece um programa de mestrado profissional stricto sensu, acolhendo projetos relacionados com o cotidiano escolar. Seu diretor, Alcir Horácio Silva, por exemplo, orientou pesquisa conduzida por Grazielle Lopes da Mota Bueno, professora da rede municipal de ensino, que resultou em um glossário de educação física em libras, capaz de melhorar o envolvimento de alunos com deficiência auditiva nas aulas. Em 2015, o colégio obteve nota média de 559 no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), valor superior à média nacional, de 556.
No Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe (UFS), alguns alunos dos últimos anos do ensino fundamental e médio atuam como bolsistas em programas de iniciação científica júnior. “Com isso, nossos estudantes se tornam potenciais pesquisadores da universidade”, finaliza o diretor, André Oliveira Silva Jarske. n Christina Queiroz
Pensadoras ocultas
Iniciativas no Brasil e no exterior tentam recuperar a obra de filósofas e investigam a sub-representação feminina nessa área do conhecimento
Apresença de mulheres na história da filosofia é tão remota quanto a própria história da filosofia – há registros de pensadoras desde a Grécia antiga. “Edith Stein [1891-1942], Hannah Arendt [1906-1975] e Simone de Beauvoir [1908-1986], as célebres representantes do século XX, não apareceram do nada; elas estão sobre ombros de gigantes femininas antes delas”, afirma Ruth Hagengruber, diretora do Centro para a História de Mulheres Filósofas e Cientistas, da Universidade de Paderborn, na Alema-
nha, uma referência mundial no assunto. “Ao criá-lo, em 2006, nosso objetivo era renovar o discurso acadêmico sobre a longa tradição das mulheres filósofas.” No Brasil, o tema vem ganhando força nos últimos anos. Sucessivas conferências acadêmicas têm dado frutos como o blog Mulheres na Filosofia e a Rede Brasileira de Mulheres na Filosofia, que surgiram do II Encontro Vozes: Mulheres na Filosofia, realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 2018, em sequência da primeira edição realizada na Universidade Federal do
Márcio Ferrari
Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2017. “A proposta é intensificar a conversa entre alunas, pesquisadoras e docentes de todas as regiões do país e criar espaços para uma discussão ampla que questione as razões do silenciamento das filósofas do cânone e da absurda desigualdade de gênero na área de filosofia”, informa uma das coordenadoras do projeto, Yara Frateschi, professora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (IFCH-Unicamp).
Frateschi tem como parceiras na Rede professoras e pesquisadoras de várias
universidades brasileiras, formando o grupo empenhado em criar o blog Mulheres na Filosofia, que deverá integrar o portal de blogs científicos da Unicamp a partir de setembro. A pesquisadora prevê um espaço virtual de contatos que permita produzir e manter atualizado um mapa de gênero, ou seja, da participação feminina no ensino de filosofia. Outra aba do blog reunirá – a exemplo da enciclopédia on-line mantida pela Universidade de Paderborn – verbetes sobre mulheres filósofas brasileiras e estrangeiras e também das várias cor-
rentes do feminismo. Estarão ainda vinculados ao blog canais de podcast e de vídeos no YouTube.
A troca de informações e experiências alcançou um marco importante no mês de junho, quando Frateschi, Hagengruber e outros cerca de 30 pesquisadores estiveram reunidos na I Conferência Internacional Mulheres na Filosofia Moderna, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), organizada por Katarina Peixoto, pesquisadora da instituição, e Pedro Pricladnitzk, da Universidade Estadual de Maringá (UEM),
que estuda a obra da cientista e filósofa inglesa Margaret Cavendish (1623-1673).
Na conferência evidenciou-se a multiplicidade de iniciativas e correntes de pesquisa sobre o assunto no Brasil e em várias partes do mundo. Um dos pontos frequentes de investigação é a origem do apagamento da presença feminina nos livros de história da filosofia. “Há várias mulheres que produziram filosofia, conversando entre si e com filósofos homens”, diz Frateschi. “Algumas são lembradas nominalmente na literatura, como Elizabeth da Boêmia [15961662], importante interlocutora de René Descartes [1596-1650], mas não são lidas nem consideradas filósofas. A primeira pergunta é: por que não entraram para o cânone, que precisa ser repensado?” Uma das pistas é recuperar o ambiente de produção intelectual de uma área muito restrita, como a filosofia, o que contribuiu para que a participação feminina tenha se dado fora dos espaços de saber tradicionalmente reconhecidos.
Em parte, a atuação à margem do cânone ao longo dos séculos refletiu o menor acesso das mulheres à educação formal e às discussões intelectuais – não por acaso, os nomes mais conhecidos, como Elizabeth da Boêmia, Sophie Charlotte (1678-1749), Anne Conway (1631-1679) e Émilie du Châtelet (1706-1749), pertenciam à nobreza europeia ilustrada. Elas dialogavam com filósofos e cientistas de seu tempo por meio de cartas – um dos poucos formatos de escrita tolerados às mulheres naquele período, como lembra Tessa Moura Lacerda, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). “Era costume que as cartas escritas por rainhas, princesas e mulheres nobres fossem queimadas após sua morte, para que passasse para a história apenas o que os homens relatavam”, conta Lacerda, citando um dos motivos que dificultam o justo reconhecimento da contribuição teórica dessas mulheres. Conway e Du Châtelet escreveram tratados, mas mesmo assim sua contribuição foi minimizada pela história oficial. A participação por meios incomuns no cânone das obras filosóficas, como é o caso das cartas, chama a atenção para a necessidade de adoção de critérios e métodos de pesquisa mais amplos do
da alma, a última obra publicada pelo filósofo, em 1649.
Situação atual reforça risco de criação de estereótipos, diz Yara
Frateschi
que os tradicionais. “As cartas são um material cru e imerso em contexto histórico”, lembra Katarina Peixoto, que, ao preparar uma proposta de trabalho para um workshop em Paderborn, identificou na correspondência entre Elizabeth da Boêmia e Descartes e em estudos escritos por mulheres sobre esse diálogo um papel fundamental da pensadora na elaboração do Tratado sobre as paixões
Frateschi – que ministra cursos sobre filósofas contemporâneas como Arendt, Seyla Benhabib e, mais recentemente, Angela Davis e Bell Hooks – aponta a importância de adotar a “interseccionalidade” para uma revisão contemporânea do cânone, citando a inclusão, por exemplo, da filósofa norte-americana Angela Davis, professora da Universidade da Califórnia, cuja trajetória é marcada por estudos sociais da situação da mulher e do racismo, além de uma militância direta em causas de emancipação. “No Brasil, ainda não reconhecemos Davis como uma filósofa digna de ser estudada e lida nos cursos de graduação e é bem provável que isso se deva ao fato de ela ser não apenas uma mulher, mas uma mulher negra”, diz Frateschi.
Assim, estão no radar dos estudos brasileiros sobre as mulheres na filosofia nomes como a escritora Clarice Lispector (1920-1977), a crítica de arte Gilda de Mello e Souza (1919-2005), a educadora feminista Nísia Floresta (1810-1885) e a pioneira romancista negra Maria Firmina dos Reis (1822-1917). “Há um incon-
tornável elemento etnográfico na busca por uma filosofia de mulheres no Brasil, um trabalho não estritamente analítico”, diz Peixoto. “Por outro lado, sem o treino específico da filosofia, ou seja, sem a capacidade de reconhecer a contribuição dessas pensadoras para essa área do conhecimento, a identificação do legado de mulheres intelectuais na nossa história se torna irrelevante ou folclórico.”
Nessa tarefa Frateschi confere peso específico à discussão de gênero e raça – segundo ela, “um aporte do qual não se pode mais prescindir”. Para a pesquisadora, a presença feminina escassa na filosofia “exige dados empíricos, mas há uma dimensão propriamente filosófica, o modo como as pensadoras abordam sua situação social”. Peixoto observa que “as mulheres não passaram a reivindicar presença ou a introduzir a luta feminista na filosofia, simplesmente”. “O que está acontecendo é que filósofas qualificadas resolveram recuperar a verdade factual e as feministas, discutir filosoficamente.”
A pesquisadora desenha, desse modo, o que chama de duas vertentes contemporâneas na discussão sobre a filosofia das mulheres. Uma mais voltada à recu-
peração histórica e outra tributária da teoria crítica, como é conhecida a produção intelectual originária da Escola de Frankfurt, iniciada na década de 1930.
Entr Av ES n A FO r MA çã O
A questão que mobiliza mais urgentemente os estudos da presença feminina na filosofia, entretanto, é o conjunto de entraves que pode ser resumido na pergunta: por que tão poucas mulheres ingressam nos cursos de filosofia e, sobretudo, por que tão raramente prosseguem na pós-graduação e se tornam professoras? A questão foi esmiuçada nos estudos da pesquisadora Carolina Araújo, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS-UFRJ), divulgados parcialmente em 2016, com dados do ano anterior.
Pela primeira vez haviam sido analisados estatisticamente os números oficiais sobre a presença feminina em todos os 58 cursos de pós-graduação em filosofia do país, revelando, naquele ano, uma participação de 27% entre discentes e 21% entre docentes. “Como a carreira em filosofia é eminentemente acadêmica,
esses números retratam os padrões de sucesso profissional na área e indicam que as mulheres tinham 2,5 menos oportunidades de chegar ao cargo mais alto do que seus colegas homens”, explica Araújo. Uma evidência do fenômeno é que hoje, no Departamento de Filosofia da FFLCH-USP, o total de professores na ativa seja composto de 33 homens e 2 mulheres.
apesquisadora ampliou seu estudo com a análise da série histórica entre 2004 e 2017. Os resultados foram publicados neste ano e detectam um aumento de ingressantes na graduação, de 34,10% para 39,12%, com uma média de conclusão de 36,44% durante o período. No entanto, para considerar o ciclo de formação completo, com mestrado, doutorado e licenciatura, Araújo comparou as trajetórias imaginárias de dois alunos, um de cada sexo, e concluiu que, para a geração que ingressou na graduação em filosofia em 2005, cada homem teve o dobro da oportunidade de cada mulher de chegar ao topo da carreira profissional. Frateschi observa que, “em uma área majoritariamente masculina e em uma cultura ainda muito machista”, é visível em sala de aula que as alunas tenham mais dificuldade em falar em público e articular ideias com segurança. Para Araújo, falta entender em detalhes as razões que levam as mulheres a ser minoria entre candidatos e alunos da graduação em filosofia e por que o caminho se estreita rumo à profissionalização. Ela sugere que o monitoramento constante dos dados relacionados à questão seja tomado como “tarefa da comunidade filosófica como um todo” e que cada unidade de ensino procure as próprias explicações para o desequilíbrio. A atual situação “não é boa para ninguém”, segundo Frateschi. “Quando a maioria das pessoas que produz teorias é composta de homens, referindo-se a uma literatura majoritariamente masculina e forjando hipóteses que também serão testadas por homens, há um risco tremendo de reforço de estereótipos e construção de um conhecimento parcial”, conclui. n
Artigo científico
Ar AújO, c . Quatorze anos de desigualdade: Mulheres na carreira acadêmica de filosofia no Brasil entre 2004 e 2017. Cadernos de Filosofia Alemã. v. 24, n. 1, p. 1323. jan.-jun. 2019.
Paradoxos do progresso
A análise das contradições do desenvolvimento capitalista marcou a trajetória do sociólogo Francisco de Oliveira
Reflexões sobre as ambiguidades do processo de modernização do Brasil foram centrais no percurso intelectual do sociólogo Francisco Maria Cavalcanti de Oliveira, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Formado em ciências sociais em 1956 pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Chico de Oliveira, como era conhecido, trabalhou com o economista Celso Furtado (1920-2004) na Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) entre 1959 e 1964. Com o golpe militar, exilou-se por três anos na Guatemala e no México. De volta ao Brasil, em 1970 foi convidado para atuar no recém-criado Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), onde permaneceu até 1995. Nascido em Recife, Oliveira morreu no dia 10 de julho, aos 85 anos, em São Paulo.
Foi no Cebrap que o sociólogo desenvolveu um de seus trabalhos mais conhecidos, o ensaio “A economia brasileira:
Oliveira durante palestra em 2009: diálogo entre as ciências sociais e a economia política
Crítica à razão dualista”, publicado em 1972 no segundo número da revista Estudos Cebrap. Ruy Braga, chefe do Departamento de Sociologia da FFLCH, explica que o texto sustenta a ideia de que, no Brasil, o crescimento econômico não deveria ser encarado como uma revolução burguesa, mas como uma “progressão das contradições”. Conforme o texto, tal característica seria típica de sociedades da periferia do sistema capitalista, nas quais aspectos modernos e arcaicos coexistem. “A produção teórica de Oliveira ofereceu reflexões originais sobre o processo de modernização do país ao estabelecer diálogos entre as ciências sociais e a economia política”, avalia Leonardo Mello e Silva, também do Departamento de Sociologia da FFLCH e que foi orientado pelo sociólogo no doutorado.
Em 1980, Oliveira passou a lecionar economia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e, em 1988, tornou-se docente do Departamento de Sociologia da USP. Em 1992, recebeu o título de doutor na FFLCH por notório saber e, em 2008, o de professor emérito. “Nesse momento, ele passou a desenvolver reflexões sobre o significado dos direitos e do espaço público em uma sociedade como a brasileira: desigual, violenta e com traços de uma modernidade imperfeita”, observa Mello e Silva. Nos anos 1990, Oliveira trabalhou no projeto de pesquisa “Os cavaleiros do anti-Apocalipse” para investigar a câmara setorial do setor automotivo, colocando em paralelo a questão dos direitos coletivos, a economia política da globalização e a sociologia do trabalho. “O estudo é considerado um marco nas análises sobre as relações de trabalho no Brasil”, diz.
Em 1995, o pesquisador participou da criação do Núcleo de Estudos dos Direitos da Cidadania (Nedic) – hoje Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic), na USP. “Desde então, seus ensaios se encaminharam para o que ele designou como a ‘dialética negativa’ do desenvolvimento em um país periférico, ideia central do texto ‘O ornitorrinco’, de 2003”, conta Mello e Silva. Considerado como a atualização das ideias presentes em “A economia brasileira: Crítica à razão dualista”, o ensaio faz um paralelo entre o animal – ao mesmo tempo réptil, pássaro e mamífero – e o Brasil, país que, para Oliveira, também estava preso em um impasse evolutivo e cujo sistema capitalista se desenvolve reproduzindo desigualdades históricas, conjugando modernidade e atraso. “Oliveira dizia que, no país, o atraso é uma opção política, mais do que uma fatalidade estrutural”, conclui Mello e Silva. n Christina Queiroz
As múltiplas faces de Tarsila do Amaral
Priscila Sacchettin
Tarsila do Amaral, a modernista
Nádia Battella Gotlib
Edições Sesc
São Paulo
240 páginas
R$ 100,00
Em fevereiro, a imprensa noticiou a venda da tela A lua, pintada por Tarsila do Amaral em 1928. O comprador foi o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), um dos mais prestigiosos do mundo, responsável por organizar, no ano passado, a primeira grande retrospectiva da artista na cidade, com mais de 100 obras expostas. Recentemente, foi a vez do Museu de Arte de São Paulo (Masp) levar ao público um panorama da produção da pintora, atraindo milhares de visitantes.
Aparece em momento oportuno, portanto, a edição revista e ampliada da biografia Tarsila do Amaral, a modernista, de Nádia Battella Gotlib, professora de literatura brasileira e portuguesa da Universidade de São Paulo. O livro reconstitui a trajetória pessoal e artística de Tarsila, desde a infância até os últimos anos de vida. O mote do livro poderia ser expresso pela indagação: de quem falamos, quando falamos de Tarsila do Amaral (1886-1973)? A musa do modernismo paulista, a aristocrata do café, a pintora cosmopolita, a escritora? Para ajustar o foco sobre figura tão múltipla, Gotlib recorre a artigos de imprensa, cartas, manifestos, entrevistas, poemas, além de livros que são referência na historiografia do modernismo brasileiro. A biografia é ricamente ilustrada, ainda que a autora não se detenha em análises aprofundadas sobre pinturas e desenhos. O leitor encontrará também fotografias que revelam um pouco das amizades e dos lugares que a artista frequentava. As origens familiares da pintora, neta de abastado fazendeiro paulista, e o início da formação artística constituem o capítulo “Primeiros traços”. O tema da fusão entre as culturas local e internacional, que percorre todo o livro, é introduzido pela biógrafa na descrição do ambiente doméstico da menina. No casarão da fazenda cafeeira no interior paulista, artigos franceses fazem parte do cotidiano: livros, vinhos, partituras, remédios. O cerne da biografia é a década de 1920, tema dos capítulos “Circuito modernista”, “Pau-brasil” e “Antropofagia”. Acompanhamos a introdução de Tarsila no grupo modernista de São Paulo e a temporada na Europa em que a pintora brasileira mergulha na high life parisiense e na arte das vanguardas, tem aulas com André Lhote (18851962) e Fernand Léger (1881-1955). De volta, a
visita ao Rio de Janeiro e às cidades históricas mineiras com a “caravana paulista” dará impulso à fase Pau-brasil, “a percepção da tradição brasileira simples, em cores caipiras”, o interesse pela cultura popular e por certo primitivismo.
Tarsila pinta Abaporu em 1928, como presente para o marido Oswald de Andrade (1890-1954).
A tela marca o início da Antropofagia, e a fase de sua pintura em que “se mantém a beleza natural, mas reforçando um de seus aspectos: a face rude, bruta, bárbara, ilógica”. Esse é também o período áureo da Tarsila anfitriã, que recebe os amigos em seu casarão paulistano – as paredes forradas por obras suas e de outros artistas – e em temporadas na fazenda.
A quebra da bolsa de valores de Nova York em 1929 e a Revolução de 1930 abalam a elite cafeeira. As decorrentes transformações na vida de Tarsila são descritas no capítulo “O social”. Separada de Oswald, ela encontra no psiquiatra Osório César (1895-1979) um novo companheiro. Juntos viajam para a Rússia, em 1931. É o estopim de nova fase em sua produção, com telas de motivo social. As dificuldades financeiras levam-na a procurar atividades paralelas. Surge então a Tarsila jornalista, que publica textos sobre arte e cultura na imprensa.
“Últimos traços” abrange o período entre 1940 e 1970, quando ela “volta a explorar na sua pintura aspectos de fases anteriores”. Nos anos 1960, o reconhecimento da sua obra ocorre na sala especial dedicada a ela na VII Bienal de São Paulo, na participação especial na 23a Bienal de Veneza e, sobretudo, na retrospectiva Tarsila 1919-1958, que exibiu no Rio e em São Paulo 600 obras. Os episódios de consagração convivem com momentos dolorosos na vida pessoal, como o falecimento da única filha e da única neta.
Com linguagem simples e de maneira acessível, Tarsila do Amaral, a modernista encara o desafio de “construir uma imagem da artista, que é apenas uma, dentre tantas possíveis”. A biografia é proveitosa ao leitor iniciante e interessa ao leitor iniciado como panorama bem organizado das principais informações sobre a pintora.
Priscila Sacchettin é pós-doutoranda no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP) e professora da Escola da Cidade – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.
Intimidade sertaneja
Após oito décadas, Vidas secas, de Graciliano Ramos, continua como livro fundamental à construção do imaginário brasileiro
Christina Queiroz
Graciliano, na livraria José Olympio no Rio de Janeiro, em 1942
Nos primeiros anos da década de 1930, a cena literária brasileira foi marcada pela publicação de obras de ficção que procuravam denunciar a realidade precária de sertanejos e trabalhadores braçais no Norte e Nordeste do Brasil. Lançado em um momento em que esse gênero de romance regionalista comprometido com causas sociais experimentava seu declínio, cedendo espaço à ficção de caráter mais intimista e psicológico, Vidas secas, de Graciliano Ramos (1892-1953), inovou ao colocar no centro de sua narrativa aspectos subjetivos de uma família de retirantes, sem a preocupação de construir um retrato bem-acabado da sociedade brasileira dessas regiões, a exemplo do que faziam outros escritores do período.
O livro de Graciliano conta a história de Fabiano e sua família, formada pela mulher Sinhá Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia, que vagam pela paisagem desértica do Nordeste até encontrar abrigo em uma casa de fazenda abandonada. Na época das chuvas, quando o proprietário das terras retorna, Fabiano começa a trabalhar como vaqueiro na fazenda, onde se instala de forma definitiva. Em carta enviada a um jornalista e reproduzida em
O velho Graça - Uma biografia de Graciliano Ramos (Boitempo Editorial, 2012) – escrita por Dênis de Moraes, professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF) –, Graciliano explicou que sua intenção era expor “a alma do ser rude e quase primitivo que mora na zona mais recuada do sertão, observar a reação desse espírito bronco ante o mundo exterior, isto é, a hostilidade do meio físico e da injustiça humana”. “Diferentemente de autores como Rachel de Queiroz [1910-2003], que em seus romances mostrava distintos estratos econômicos e sociais da sociedade sertaneja, incluindo tanto figuras exploradas como seus algozes, em um espírito próximo a um realismo mais tradicional, Graciliano fechou sua narrativa na história da família de retirantes, criando uma sensação de isolamento inédita à ficção daquela época”, analisa o crítico Felipe Bier Nogueira, que desenvolve pesquisa de pós-doutorado sobre o tema
no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL-Unicamp).
Outra característica que diferencia a obra lançada em 1938 da produção contemporânea envolve a trajetória dos protagonistas. Se em autores como Jorge Amado (1912-2001) repetiam-se histórias de figuras marginais que se
tornavam heróis revolucionários, em Vidas secas Fabiano não adquire consciência de classe, mesmo depois de uma vida inteira na miséria, sendo explorado por patrões. “O romance contém uma tentativa de mostrar a realidade brasileira sem fazer concessões ao populismo literário típico de outros escritores
Autor modificou título do romance depois de ver as provas de impressão; abaixo, manuscrito do primeiro capítulo, “Baleia”
regionalistas”, diz Alfredo Cesar Barbosa de Melo, do Departamento de Teoria Literária da Unicamp. Segundo ele, essa característica aparece, por exemplo, quando Fabiano reencontra o soldado responsável por sua indevida prisão, na Caatinga. Nessa situação, ele teria a oportunidade de se vingar, mas se contém, em respeito à posição de autoridade ocupada pelo militar. Único livro escrito por Graciliano em terceira pessoa, com discurso indireto livre – recurso que faz com que, em alguns momentos, o leitor não possa identificar se quem se expressa são os personagens ou o próprio narrador –, Vidas secas guarda relação com sua experiência de 10 meses como preso político, entre 1936 e 1937, primeiramente em Maceió e depois no Rio de Janeiro, durante o regime de Getúlio Vargas (1882-1954). Para o professor de literatura brasileira Fabio Cesar Alves, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas (DLCV) da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), a vivência de “rebaixamento” experimentada pelo autor levou-o a incluir o “outro” em sua ficção, até então voltada a personagens mais próximos de sua classe social, como, por exemplo, o funcionário público que
aparece em Angústia, de 1936. Segundo o pesquisador, ao jogar luz sobre a miséria social produzida pelo avanço do capitalismo, Vidas secas também representa uma tentativa de desmitificar a ideologia do progresso. “O livro possui uma estética única de contenção de palavras e concentração de problemas nas cenas literárias”, avalia.
ESC r I tA E m PE n S ão
Quando Graciliano publicou Vidas secas já era um escritor intelectualmente consagrado, com três romances editados: Caetés (1933), São Bernardo (1934) e Angústia. No entanto, apesar do reconhecimento, Thiago Mio Salla, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e da FFLCH, lembra que ele vivia em uma situação de penúria financeira, no pequeno quarto de pensão onde morava com a mulher e as duas filhas. Para conseguir escrever, Graciliano aproveitava as madrugadas, enquanto
as crianças dormiam e o estabelecimento ainda estava em silêncio. Ele prosseguia até as primeiras horas da manhã, “em meio a muitos cigarros e alguns goles de cachaça”, registra a biografia elaborada por Moraes. Os capítulos do livro foram produzidos como contos e publicados em diferentes jornais, entre eles os cariocas O Cruzeiro, O Jornal, Diário de Notícias e Lanterna Verde, e também o paulistano Folha da Manhã. Criado a partir da experiência que o autor teve durante a infância no sertão de Pernambuco, quando presenciou o sacrifício de um cachorro, “Baleia”, o nono capítulo, foi o primeiro a ser publicado no suplemento literário de O Jornal
A boa recepção que o conto teve, especialmente entre seus pares, motivou Graciliano a prosseguir com a história, cujo título inicial seria o mesmo do último capítulo, O mundo coberto de penas. Após a impressão das primeiras
provas, Graciliano, no entanto, mudou de ideia e decidiu denominar a obra de Vidas secas. O livro saiu pela editora José Olympio e despertou a atenção de críticos como Otto Maria Carpeaux (1900-1978) e do filólogo Aurélio Buarque de Holanda (1910-1989), que celebraram seu lançamento.
traduzido para 17 idiomas, Vidas secas é hoje o livro mais vendido do escritor
O sucesso entre os intelectuais, no entanto, não se converteu imediatamente em êxito de vendas. Salla, da USP, lembra que apesar do tino comercial do livreiro José Olympio, conhecido por publicar autores de diferentes filiações ideológicas e políticas, os 20 mil primeiros exemplares de Vidas secas levaram uma década para ser comercializados. “Em parte, o livro demorou para vender por causa do esgotamento do público com histórias do Nordeste, mas também pela aridez da narrativa, que vai além do retrato da realidade de uma família de retirantes”, analisa Bier, da Unicamp. Com o passar dos anos, o fato de a publicação ter sido feita em etapas gerou debate entre os críticos, interessados em compreender até que ponto isso teria prejudicado a coesão narrativa. Rubem Braga (1913-1990) classificou-a como “romance desmontável”, ideia posteriormente discutida por intelectuais como Antonio Candido (1918-2017), considerado, inclusive pelo próprio Graciliano, como o melhor crítico de sua trajetória literária. “Apesar da publicação seriada, os capítulos não podem ser lidos em qualquer ordem. Por exemplo, a parte em
Ator Genivaldo lima no filme de nelson Pereira dos Santos (1963)
que Fabiano reencontra o soldado na Caatinga não pode ser lida antes daquela em que ele é preso injustamente”, observa Alves, da FFLCH-USP.
Im Ag I nár I o br ASI lEI ro Em 1963, o cineasta Nelson Pereira dos Santos (1928-2018) adaptou Vidas secas para o cinema. Em 1972, Leon Hirszman (1937-1987) filmou São Bernardo e em 1984 Santos rodou Memórias do cárcere, publicado em 1953. Por conta da “linguagem desencarnada”, que busca mostrar os efeitos perversos do avanço do capitalismo em um país periférico como o Brasil, Alves considera que a obra de Graciliano foi bem adaptada por expoentes do Cinema Novo, como Santos e Hirszman. “As propostas de Graciliano e do Cinema Novo convergem tanto na temática preocupada com questões sociais como na estética crua”, afirma. Bier, da Unicamp, avalia que trabalhos como
Grande sertão: Veredas, escrito por Guimarães Rosa (1908-1967), publicado em 1956, só puderam ser criados por causa da abertura proporcionada pelo livro de Graciliano. “O procedimento formal de Vidas secas possibilitou a outros escritores trabalhar com linguagem rudimentar em suas obras literárias”,
Heloísa Ramos durante comemoração, em Brasília, dos 50 anos de publicação da obra
afirma o pesquisador. Na mesma linha, Melo Grande explica que a economia vocabular utilizada pelo livro para tratar do sertão permitiu estabelecer parâmetros poéticos que, mais tarde, foram retomados por Guimarães Rosa, mas em sentido oposto. “Grande sertão: Veredas conta com uma abundância transbordante do verbo”, pondera.
Romance foi escrito durante as madrugadas, enquanto a família dormia e a pensão estava em silêncio
Depois da morte de Graciliano Ramos, os direitos de publicação de sua obra foram vendidos à Martins Fontes e, desde 1975, pertencem à Record. Traduzido para 17 idiomas, Vidas secas é hoje o livro mais vendido do catálogo da editora, com pouco mais de 1,8 milhão de cópias comercializadas e 138 edições. “Considerado um romance emblemático dos anos 1930, funcionou como peça essencial à construção do imaginário brasileiro sobre o Nordeste”, afirma Salla. Para Alves, “o livro ultrapassa a denúncia da miséria nordestina, ao atacar os pilares da sociedade burguesa”. Na avaliação de Salla, mesmo consagrado, o livro ainda oferece campos inéditos de pesquisa. “Um trabalho que até agora não foi feito envolve a análise crítica dos manuscritos da primeira edição, comparada com publicações posteriores, que permita observar as mudanças feitas na obra ao longo do tempo”, finaliza o pesquisador. n
Projeto
O mal-estar na tradição: Vidas secas e as metamorfoses do sertão (nº 16/214318); Modalidade Bolsas no Brasil – Pós-doutorado; Pesquisador responsável Alfredo Barbosa de melo (unicamp); Bolsista Felipe Bier nogueira; Investimento R$ 493.262,20.
A língua da ciência
Domínio do inglês torna-se cada vez mais imprescindível para a produção e a divulgação científica
ao publicar trabalhos ou mesmo comunicar descobertas científicas, pesquisadores de todo o mundo recorrem corriqueiramente ao inglês. Mas nem sempre foi assim. Até as primeiras décadas do século XX, as publicações dividiam-se também entre o alemão e o francês. “Essas duas línguas já foram muito importantes para a divulgação científica, até o inglês ganhar cada vez mais espaço e tornar-se o idioma universal entre os cientistas”, observa o neurocirurgião Carlos Gilberto Carlotti Júnior, pró-reitor de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP).
Ciente da necessidade de que os cerca de 30 mil alunos de pós-graduação da instituição têm de dominar a língua inglesa, a USP oferece programas e cursos como os desenvolvidos pela Agência USP
de Cooperação Acadêmica
Nacional e Internacional (Aucani), responsável por fornecer à comunidade acadêmica apoio no intercâmbio com instituições internacionais. “Hoje temos, em média, 170 disciplinas de pós-graduação sendo ministradas em inglês. Isso para que o aluno tenha acesso ao idioma e comece a se comunicar e a produzir conhecimento na própria língua estrangeira”, explica.
A preocupação da USP em relação à proficiência tem vários motivos. Em 2018, por exemplo, cerca de 15% dos estudantes que se candidataram ao Programa Institucional de Doutorado-sanduíche no Exterior (PSDE) não foram aprovados por não terem o domínio necessário da língua inglesa. Mantido pela Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (Capes), o programa destina-se à formação de recursos humanos no exterior, com estágio de pesquisa em áreas do conhecimento menos consolidadas no Brasil. “A exigência é grande para compreensão, leitura e escrita. A proficiência, que até recentemente podia ser atestada apenas por uma carta do orientador, hoje precisa ser comprovada por teste”, explica.
B AB el científic A
No livro Scientific Babel: How science was done before and after global English (University of Chicago Press, 2015), o professor de história da ciência da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, Michael Gordin, reconstitui a variação das línguas dominantes na ciência ao longo do tempo. Da predominância do grego e do latim,
passando pelo árabe e depois pelo italiano, francês e alemão, até chegar ao inglês vivia-se uma realidade de árdua compreensão, que complicava as trocas econômicas e dificultava o intercâmbio do conhecimento científico. De acordo com Gordin, foi depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com um boicote de cientistas belgas, franceses e britânicos à produção científica da Alemanha e da Áustria, que se abriu o caminho para a hegemonia das línguas francesa e inglesa, resultando posteriormente – em decorrência de fatores históricos e econômicos –na preponderância do inglês.
“Essa é também uma questão de colaboração entre os diversos pares científicos”, observa Fanny Béron, do Instituto de Física Gleb Wataghin, da Universidade Estadual de Campinas (IFGW-Unicamp). “É importante que a ciência seja produzida em diferentes línguas porque a diversidade traz uma riqueza enorme. Porém a divulgação precisa ser realizada em inglês”, completa a pesquisadora, que também é professora no curso de extensão Scientific Writing in English, oferecido pela instituição aos alunos interessados em aperfeiçoar não apenas seus conhecimentos em inglês, mas também a redação científica.
Para aperfeiçoar o idioma
A principal orientação é a prática contínua
Realize testes on-line para saber qual seu nível de proficiência.
A Universidade de Cambridge, por exemplo, oferece o serviço gratuitamente (bit.ly/2y1mhVc)
Para o engenheiro-agrônomo Gabriel Colombo de Freitas, diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Associação Nacional dos Pós-graduandos (ANPG) e aluno do curso de especialização em economia do trabalho e sindicalismo da Unicamp, as exigências do meio acadêmico em relação ao domínio da língua inglesa e a predominância do idioma na divulgação científica refletem o papel desempenhado por países como Estados Unidos e Inglaterra na geopolítica do poder. “O fato de o inglês ter se tornado o idioma da ciência e da produção do conhecimento está vinculado à hegemonia política e econômica desses países”, afirma,
Leia artigos científicos escritos em inglês. A leitura melhora o desempenho da comunicação verbal
Prepare apresentações sobre seus trabalhos acadêmicos nesse idioma. Comece com exposições breves, até se sentir seguro para elaborar produções completas
lembrando que os programas de ensino do idioma, mantidos pelas universidades públicas, ainda são muito restritos, não abarcando a totalidade da demanda.
Segundo Paulo Artaxo, do Instituto de Física da USP e integrante da equipe do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a importância da língua inglesa para a ciência deve continuar crescente. “O idioma tornou-se essencial. Na área de exatas não se consegue fazer nada sem utilizar o inglês. E não basta ter apenas o domínio instrumental, que permite a leitura de artigos, por exemplo. Há a necessidade de interação com outros pesquisadores”, diz. Com mais de 40 anos de vida acadêmica, Artaxo conta que começou a falar inglês a partir de sua participação em congressos no exterior.
Desde 2016, a Escola de Administração da Fundação
Pesquise programas de ensino de línguas como o Idiomas sem Fronteiras, oferecido pelo governo (isf.mec.gov.br)
Serviços como o BBC Learning English oferecem cursos gratuitos que incluem vídeos e podcasts (bbc.in/1BXZCDl)
Getulio Vargas de São Paulo (FGV Eaesp) oferece, em inglês, todo o conteúdo de uma turma do curso de graduação em administração de empresas. “A instituição foi uma das primeiras do país a ofertar um curso de graduação com essa característica, ou seja, 100% das aulas, trabalhos e provas realizados nessa língua estrangeira”, informa o coordenador do curso, Renato Guimarães Ferreira.
A iniciativa, que hoje atende cerca de 40 pessoas a cada semestre, começou gradativamente, com a oferta de disciplinas optativas, em que os estudantes podiam escolher entre português e inglês. n Sidnei Santos de Oliveira
Ares renovados
A partir de protótipo desenvolvido em pesquisa de doutorado, engenheira química cria startup voltada à produção de purificadores
Nos primeiros dias de aula na Faculdade de Engenharia Química da Universidade Estadual de Campinas (FEQ-Unicamp), a paulista Úrsula Luana Rochetto Doubek já estava certa de que queria atuar na área de meio ambiente. “Por influência de meu pai, desde criança tive afinidade com o campo das exatas e a graduação me permitiu unir esses dois interesses”, conta a engenheira, que após ter cursado mestrado e doutorado na mesma instituição criou a CleAir Technology, startup da Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp (Incamp) voltada à pesquisa e produção de purificadores de ar. Rochetto Doubek sempre teve planos de estudar em universidade pública. “Fui aprovada na Unicamp e sabia que lá teria boas oportunidades de desenvolver pesquisa”, lembra. Durante a graduação, fez estágio e depois foi contratada por uma multinacional do ramo. Trabalhou por dois anos, até decidir voltar à universidade para cursar especialização e mestrado. Foi quando conheceu o professor Edson Tomaz, também da FEQ, que se tornou seu orientador. “Ele já trabalhava em pesquisas na área de poluentes atmosféricos e me alertou que esse era um campo de estudos bastante promissor”, conta. Como Tomaz tinha a intenção de desenvolver um equipamento para tratar poluentes atmosféricos, durante o mestrado Rochetto Doubek se aprofundou no estudo dos chamados compostos orgânicos voláteis (COVs). Esses compostos, em condições normais de temperatura e pressão, estão presentes na atmosfera sob a forma gasosa, emitidos por fontes biogênicas, ou seja, naturais, e antropogênicas,
que resultam de atividades humanas. “São compostos bastante tóxicos que estão presentes em indústrias, principalmente as da cadeia petroquímica”, explica. Ao emiti-los diretamente na atmosfera, refinarias e bases de armazenamento de combustíveis constituem fontes de contaminação.
O purificador de ar desenvolvido por Rochetto Doubek funciona a partir de um catalisador que trata quimicamente os resíduos das fontes poluentes. “A fotocatálise heterogênea é uma tecnologia já há muitas décadas aplicada no tratamento de poluentes na fase aquosa, mas as pesquisas voltadas ao uso dessa tecnologia em poluentes gasosos são mais recentes”, explica. Desenvolvido como projeto de mestrado, o protótipo foi aperfeiçoado durante o doutorado e, em seguida, patenteado. “Com o auxílio do Pipe [Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas], em 2018, pudemos fazer uma prova do conceito e testar a viabilidade de um piloto”, conta.
Antes disso, em 2015, a pesquisa de Rochetto Doubek havia sido
Doubek: da afinidade com as disciplinas de exatas ao desenvolvimento de um purificador de ar
apresentada em conferência da Air & Waste Management Association (AWMA), evento que acontece nos Estados Unidos e reúne representantes internacionais da cadeia de produção petroquímica. “Os empresários de fora se interessaram muito por essa solução, justamente pelo fato de as leis ambientais nos Estados Unidos e na Europa serem mais rigorosas do que as daqui”, conta. “A boa aceitação me fez acreditar que estava na direção certa.”
Aos 34 anos, Rochetto Doubek trabalha agora em uma versão mais compacta do protótipo, para uso residencial e comercial. A ideia é utilizar a mesma tecnologia de descontaminação do ar para inativar bactérias e outros organismos e que o produto comece a ser vendido no próximo ano. n S.S.O.
Projeto Reator fotocatalítico industrial para degradação de compostos orgânicos voláteis em presença de luz UV-C com uso do catalisador dióxido de titânio (tio2) com ou sem o uso adicional de ozônio (nº 16/218782); Modalidade Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisadora responsável Ursula Luana Rochetto Doubek (Ursula Luana Rochetto Doubek – mE); Investimento R$ 156.506,52.
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