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De novo, rumo à Lua

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De novo, rumo à lua

50 anos depois, agências espaciais dos Estados Unidos e de outros países querem retornar juntas ao satélite da Terra, enquanto a China tenta levar astronautas para lá por conta própria

Transplante de microbiota fecal é testado como terapia para combater infecções

Os desafios que a web, aos 30 anos, enfrenta para se manter livre, aberta e democrática

Aumento nas taxas de suicídio de jovens no Brasil intriga pesquisadores

Startup paulista lança sensor não invasivo para medir pressão intracraniana

Agências de fomento de 45 países discutem como ampliar o impacto de pesquisas

junho de 2019 | Ano 20, n. 280
Pegada de astronauta da Apollo 11

Uma parceria:

O Ciência Aberta é um programa de TV mensal, produzido pela FAPESP, que reúne pesquisadores e público em debates importantes sobre temas científicos da atualidade

Os 10 programas já produzidos estão disponíveis no site

@AgenciaFAPESP @agfapesp www.fapesp.br/ciencia-aberta

Para participar das gravações, sugestões ou críticas escreva para cienciaaberta@fapesp.br

F otol A b

Seu trabalho poderá ser publicado na revista. O cOnheciMentO eM iMAGenS

Sua pesquisa rende fotos bonitas? Mande para imagempesquisa@fapesp.br

A estética da imperfeição

Uma grande diferença de potencial elétrico – 17 mil volts em uma ponta e 0 na outra – estica fibras em fios muito finos, na escala de nanômetros, para compor membranas para filtração de água. Quando não sai perfeita, a eletrofiação forma gotas, aqui flagradas em microscópio eletrônico de varredura. “A membrana perfeita tem o mínimo de gotas possível”, define o químico Guilherme Dognani. O material, que ainda não é produzido em escala industrial no país, pode ser usado para retirar da água contaminantes como metais pesados.

Imagem enviada por Guilherme Dognani, estudante de doutorado na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (FCT-Unesp), campus de Presidente Prudente

CAPA

Estados Unidos tentam antecipar para 2024 retorno à Lua e iniciar assentamento permanente p. 18

Projeto brasileiro planeja experimento na órbita lunar para avaliar a vida sob alta radiação p. 22

Em 20 de julho, completam-se 50 anos da saga tecnológica que levou o homem à Lua p. 24

36 Financiamento

Agências de fomento discutem em São Paulo como ampliar o impacto de pesquisas

POLÍTICA C&T

40 Autonomia universitária

Decreto de 1989 criou modelo de financiamento que melhorou a qualidade das universidades paulistas

44 Difusão

Com eventos em 85 cidades, o Brasil se destacou no festival Pint of Science

ENTREVISTAS

France Córdova Diretora da NSF fala sobre equidade de gênero na ciência p. 28

CIÊNCIA

48 Medicina

Transplante de microbiota fecal é testado no combate a infecções

52 Ecologia

Flores exploram cores e odores para se esconder ou atrair abelhas específicas

55 Ambiente

Regeneração natural de florestas em áreas secas e úmidas é diferente

58 Paleontologia

Vertebrados, em tese não adaptados a ambientes secos, viviam em deserto há 280 milhões de anos

61 Física

Estudo amplia a teoria que prevê interação de matéria densa com campos gravitacionais fortes

Peter Strohschneider Presidente da DFG defende pesquisas guiadas pela curiosidade p. 32

TECNOLOGIA

62 Internet

As dificuldades que a web enfrenta para permanecer um território livre e democrático

p. 18
Capa concepção MayuMi OkuyaMa foto nasa
O astronauta
Edwin Aldrin, da Apollo 11, na Lua

12

67 Engenharia biomédica

Sensor não invasivo para monitorar pressão dentro do crânio chega ao mercado

70 Biotecnologia

Pele de tilápia é usada em cirurgias ginecológicas e no tratamento de queimaduras

hu MANIDADE s

74 Estudos populacionais

Aumento nas taxas de suicídio no Brasil mobiliza pesquisadores

80 Impunidade

Inquéritos e processos penais subsidiam trabalho sobre combate à corrupção

84 Entrevista

Heide Hackman fala sobre desafios transdisciplinares do International Council for Science

86 Educação

Pesquisa demonstra influência positiva de bibliotecas escolares

sEÇÕE s

3 Fotolab

6 Comentários

7 Editorial

8 Boas práticas

Relatório propõe reforçar mecanismos de autocorreção da ciência

11 Dados

Publicações científicas e colaborações internacionais

12 Notas

88 Obituário

Maurício Peixoto (1921-2019)

90 Memória

O físico Sérgio Porto contribuiu para a introdução e a aplicação do laser no Brasil

94 Carreiras

Pré-iniciação científica é oportunidade para alunos do ensino médio

97 Resenha

Os quartetos de cordas de Villa-Lobos: Forma e função, de Paulo de Tarso Salles. Por Nahim Marun

Leia no site todos os textos da revista em português, inglês e espanhol, além de conteúdo exclusivo

víd EO yO u T ub E COM/usEr/PE squIs A fAPE sP

Podcasts ajudam a divulgar a ciência no Brasil

Formato desperta a atenção de público disposto a se aprofundar em assuntos temáticos  bit.ly/igVPodcasts

O eclipse que revolucionou a física

Os 100 anos do fenômeno que funcionou como a primeira prova experimental de teoria de Einstein  bit.ly/igVEclipse

p O dc A st b IT Ly/PE squIs Ab r

Pesquisa Brasil

Especial Educação

O cientista político

Daniel Cara e o economista Camillo de Moraes Bassi debatem alternativas para garantir o financiamento da educação no país bit.ly/igPBR24mai19

p.48
p.

Conteúdo a que a mensagem se refere:

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Sobre a entrevista do reitor Marcelo Knobel (“O aprendizado da autonomia”, edição 279), de fato, todos deveriam saber da importância e do peso das universidades públicas no cotidiano da população. As pessoas não valorizam professores do ensino fundamental ou médio nem pesquisadores. Não sabem que não morrem com varíola ou apresentam poliomielite, ou que têm luz elétrica em casa e tantos outros benefícios porque houve quem estudasse esses assuntos. Há muito ainda a se divulgar sobre o trabalho de nossos pesquisadores em todas as áreas de conhecimento.

Lúcia Cruz

A universidade é a instituição que tem ensino, pesquisa e extensão de forma indissociável. Não havendo pesquisa, será centro universitário ou apenas faculdade. O que se quer é transformar as universidades em faculdades cuja única função é formar repetidores de técnicas sem capacidade para inovar ou criar. Para se ter ensino de qualidade é preciso desenvolver pesquisa, para que a pesquisa alimente o ensino e a extensão leve a pesquisa para a sociedade.

Bruno Abreu

Drauzio Varella

A entrevista com Drauzio Varella tem o que mais falta no meio científico: divulgação de qualidade para o público geral (“Palavra de médico”, edição 279). Sem sensacionalismo e clickbaits

Hugo Legramandi

mais lida do mês no Facebook E ntr E vista Marcelo Knobel

Na reportagem “Para tirar o sal da água’’ (edição 279), a tecnologia pode ser uma alternativa para a carência que existe em parte do país. Para as plantas terem uma boa eficiência energética, uma alternativa seria acoplar algum tipo de fonte renovável, como a energia solar, e diminuir o gasto com energia.

José Higo da Silva

Vídeos

Aprendi a ouvir podcast quando estava no Japão, em 2017, com Naruhodo (“Podcasts ajudam a divulgar a ciência no Brasil”). Ouvia a língua portuguesa enquanto aprendia sobre ciência, com descontração e seriedade. É possível fazer um trabalho sério e divertido. Parabéns aos grupos de podcasts da ciência apresentados em Pesquisa FAPESP. Helen Suzuki

Uma forma deliciosa de divulgar e saber mais sobre o universo das pesquisas, dos pesquisadores, identificando como a ciência está no nosso cotidiano e nós nem percebemos.

Simone Figueiredo

Há tantos anos acompanho fielmente o Naruhodo e o Alô, Ciência, podcasts que divulgam ciência de maneira fácil e com um toque de humor. Foi muito boa a sensação de vê-los pela primeira vez.

Tamires Oishi

Sua opinião é bem-vinda. As mensagens poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.

Fundação

Marco antonio zago

Presidente

eduardo Moacyr Krieger

vice-Presidente

COnSElhO SUPErIOr

c arMino antonio de Souza, eduardo Moacyr Krieger, ignacio Maria Poveda velaSco, João Fernando goMeS de oliveira, JoSé de Souza MartinS Marco antonio z ago, Marilza vieira cunha rudge, Pedro luiz BarreiroS PaSSoS Pedro WongtSchoWSKi, ronaldo aloiSe Pilli e vanderlan da Silva Bolzani

COnSElhO TéCnICO-AdmInISTr ATIvO

c arloS aMérico Pacheco

d iretor-Presidente

c arloS henrique de Brito cruz d iretor científico

Fernando MenezeS de alMeida d iretor administrativo

iSSn 1519-8774

COnSElhO EdITOrIAl

carlos henrique de Brito cruz (Presidente), caio túlio costa, eugênio Bucci, Fernando reinach, José eduardo Krieger, luiz davidovich, Marcelo Knobel, Maria hermínia tavares de almeida, Marisa lajolo, Maurício tuffani e Mônica teixeira

COmITê CIEnTíFICO

luiz henrique lopes dos Santos (Presidente), américo Martins craveiro, anamaria aranha camargo, ana Maria Fonseca almeida, carlos américo Pacheco, carlos eduardo negrão, douglas eduardo zampieri, euclides de Mesquita neto, Fabio Kon, Francisco antônio Bezerra coutinho, Francisco rafael Martins laurindo, hernan chaimovich, José roberto de França arruda, José roberto Postali Parra, lucio angnes, luiz nunes de oliveira, Marco antonio zago, Marie-anne van Sluys, Maria Julia Manso alves, Paula Montero, roberto Marcondes cesar Júnior, Sérgio robles reis queiroz, Wagner caradori do amaral e Walter colli

COOrdEnAdOr CIEnTíFICO

luiz henrique lopes dos Santos

dIrETOr A dE rEdAçãO

alexandra ozorio de almeida

EdITOr- ChEFE

neldson Marcolin

EdITOrES Fabrício Marques (Política C&T), glenda Mezarobba (Humanidades), Marcos Pivetta (Ciência) carlos Fioravanti e ricardo zorzetto (Editores especiais) Maria guimarães (Site) Bruno de Pierro e yuri vasconcelos (Editores-assistentes)

rEPórTErES christina queiroz, rodrigo de oliveira andrade

rEdATOrES Jayne oliveira (Site) e renata oliveira do Prado (Mídias Sociais)

ArTE Mayumi okuyama (Editora) alexandre affonso (Editor de infografia) Felipe Braz (Designer digital), Júlia cherem rodrigues e Maria cecilia Felli (Assistentes) FOTógr AFO léo ramos chaves

bAnCO dE ImAgEnS valter rodrigues

rádIO Sarah caravieri (Produção do programa Pesquisa Brasil)

rE vISãO alexandre oliveira e Margô negro

COlAbOr AdOrES augusto zambonato, Bárbara Malagoli, carla aranha, daniel almeida, Frances Jones, Karina toledo, luisa destri, Manu Maltez, Márcio Ferrari, nahim Marun, nelson Provazi, rafael garcia e renato Pedrosa

rE vISãO TéCnICA adriana valio, célio haddad, dario zamboni, Fábio Kon, Francisco laurindo, luiz nunes de oliveira e ricardo ribeiro rodrigues

é PrOIbIdA A rEPrOdUçãO TOTAl OU PArCIAl dE TE xTOS FOTOS IlUSTr AçõES E InFOgráFICOS SEm PrévIA AUTOrIz AçãO

TIr AgEm 30.260 exemplares

ImPrESSãO Plural indústria gráfica dISTrIbUIçãO dinaP

gESTãO AdmInISTr ATIvA FuSP – Fundação de aPoio À univerSidade de São Paulo

PESQUISA FAPESP rua Joaquim antunes, no 727, 10o andar, ceP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP FAPESP rua Pio Xi, no 1.500, ceP 05468-901, alto da lapa, São Paulo-SP

Secretaria de deSenvolviMento econôMico, ciência, tecnologia e inovação gOvErnO dO ESTAdO dE SãO PAUlO

carta da editora

Os horizontes da ciência

Achegada do homem à Lua é possivelmente o feito científico e tecnológico que mais impactou o imaginário popular na era moderna. Tanto parecia um feito inatingível que até hoje circulam teorias conspiratórias de que tudo não passou de uma montagem norte-americana para capturar corações e mentes ameaçados pelo regime socialista.

Acredite-se ou não, há quase 50 anos a cápsula de pouso Águia descia no mar da Tranquilidade, na face visível da Lua, e dois astronautas davam seus primeiros passos, ou pulos, no único satélite natural da Terra. Um conjunto de fatores levou a humanidade a esse feito, como disputas políticas, militares e tecnológicas entre nações, objeto de uma das três reportagens sobre a efeméride que ilustra a capa da presente edição (ver páginas 18, 23 e 24). Inspiradora da curiosidade humana, a exploração espacial fascina pessoas no mundo todo e permite a junção de três atividades essencialmente científicas – a descoberta, a compreensão e a aplicação desse conhecimento para alcançar um determinado fim.

Sem pisar lá desde 1972, os Estados Unidos querem voltar, agora com a colaboração de outros países. Com orçamento menor do que na época da Guerra Fria, a Nasa conta hoje com a Agência Espacial Europeia e o Canadá. Outros atores têm a mesma ambição. A China, com um programa espacial em ascensão, planeja, sozinha, colocar um taikonauta na Lua.

te expectativa da sociedade e de governos quanto aos benefícios econômicos e sociais da pesquisa. As demandas são legítimas e a comunidade científica tem por missão endereçá-las, mas é preciso cuidado para não empobrecer o processo de produção de conhecimento, cujos resultados muitas vezes são imprevisíveis e podem vir em prazos dilatados.

A astrofísica France Córdova (que escolheu sua profissão inspirada no astronauta Neil Armstrong), presidente da National Science Foundation, principal agência de financiamento de pesquisa básica dos Estados Unidos, destacou no encontro que o progresso da ciência depende de financiamento público e que as agências precisam ser capazes de demonstrar às pessoas por que determinado projeto de pesquisa é importante ( página 28 ). O filólogo Peter Strohschneider, que dirige a DFG, sociedade alemã de amparo à pesquisa, lembrou a diversidade dos impactos, como a ampliação das fronteiras do conhecimento, o estímulo a inovações tecnológicas ou a formação de profissionais altamente qualificados (página 32). Ele alertou que avaliar projetos com base em impactos prometidos tende a restringir o espectro da pesquisa, podendo induzir os proponentes a alinhar suas propostas às expectativas projetadas pelas agências ou a formular projetos para solucionar problemas já conhecidos.

A relação – nem sempre fácil – da atividade de pesquisa com a sociedade permeia diversas reportagens desta edição. São Paulo sediou, no começo de maio, reunião anual do Global Research Council, conselho que reúne agências de fomento de 45 países (página 36). Em pauta, o desafio de responder à crescen-

A primeira reportagem sobre os 30 anos do decreto que garante a estabilidade e a autonomia financeira das universidades paulistas conta a gênese desse arranjo (página 40). O contexto histórico após a redemocratização, com a pauta política altamente favorável a questões ligadas à educação, e a conjuntura econômica de inflação alta, tornando a gestão das instituições de ensino superior um malabarismo constante, levaram ao arranjo jurídico e orçamentário vigente.

Boas práticas

Mecanismos de autocorreção da ciência

Relatório propõe ações para reduzir quantidade de trabalhos científicos que não são confirmados em estudos posteriores

um relatório divulgado no mês passado pelas Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos forneceu bases objetivas para ampliar a credibilidade do trabalho dos cientistas, com foco na redução da quantidade de pesquisas cujos resultados acabam não sendo confirmados em estudos posteriores. Intitulado “Reprodutibilidade e replicabilidade na ciência”, o documento de 196 páginas foi encomendado pela National Science Foundation, principal agência de fomento à ciência básica norte-americana, e é fruto de um ano e meio de discussões promovidas por um comitê multidisciplinar composto por 13 pesquisadores.

De acordo com o médico Harvey Fineberg, ex-diretor da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard e presidente do comitê que elaborou o relatório, a confirmação de resultados científicos em estudos subsequentes é um mecanismo de autocorreção da ciência consagrado e de importância essencial. “Mas fatores como

falta de transparência na notificação de dados, ausência de treinamento adequado e erros metodológicos podem impedir que pesquisadores reproduzam ou repliquem um estudo”, disse o médico. “Órgãos de financiamento à pesquisa, revistas, instituições acadêmicas, formuladores de políticas e os próprios cientistas têm um papel a desempenhar na melhoria da reprodutibilidade e replicabilidade, garantindo que os pesquisadores sigam práticas de padrão elevado, compreendam e expressem a incerteza inerente às suas conclusões e continuem a fortalecer a rede interconectada de conhecimento científico, que é o principal impulsionador do progresso no mundo moderno”, afirmou Fineberg, no lançamento do documento. Para produzir um conjunto de recomendações dirigido a pesquisadores, instituições e agências de fomento, os membros do comitê consideraram necessário, em primeiro lugar, definir de forma precisa o significado dos termos “reprodutibilidade” e “replicabilidade”,

que nem sempre são bem compreendidos. O conceito de reprodutibilidade, segundo o relatório, vincula-se à capacidade de alcançar os mesmos resultados de um estudo partindo de premissas idênticas, ou seja, as bases de dados do trabalho original. Desse modo, o problema tem uma dimensão estritamente computacional, em que o essencial é ter acesso ao conjunto de informações e saber como foram armazenadas e analisadas. A recomendação principal do relatório consiste em disponibilizar de forma transparente não apenas os dados que embasaram o trabalho inicial como também os métodos, códigos, modelos, algoritmos e softwares utilizados para chegar ao resultado – pode ser útil saber até mesmo qual foi o sistema operacional e a arquitetura de hardware que ampararam a realização do estudo. O documento faz sugestões adicionais, como garantir treinamento adequado para pesquisadores sobre práticas de pesquisa computacionais, prover meios a fim de que grandes conjuntos de dados sejam preservados e disponibilizados para estudos subsequentes e investir em projetos de pesquisa para ampliar os limites da ciência da computação de modo a melhorar a capacidade de verificar a robustez de trabalhos científicos. Também propõe que revistas científicas reforcem políticas e ações que facilitem a confirmação dos experimentos descritos em seus artigos. “Os periódicos poderiam criar o posto de editor de reprodutibilidade para supervisionar esse trabalho”, disse a engenheira espacial Lorena Barba, da Universidade George Washington, em Washington, que participou do comitê multidisciplinar. Já o conceito de replicabilidade tem mais nuanças. Pressupõe a possibilidade de alcançar respostas convergentes para determinada pergunta científica, mas partindo de bases de dados independentes. Um estudo pode não ser replicável por razões variadas. Quando a causa é fraude ou viés, os casos em geral se relacionam com má conduta. Mas o problema também pode

acontecer em decorrência de incertezas inerentes às pesquisas e, nessas situações, não se pode dizer, necessariamente, que o estudo original estivesse errado. “Devido a variabilidades na natureza ou limitações de dispositivos de medição, os resultados são avaliados de forma probabilística e o processo de descoberta científica é incapaz de entregar uma verdade absoluta”, diz o relatório, que aponta uma das funções principais dos estudos de replicabilidade: “Afirmações científicas ganham uma probabilidade maior ou menor de serem verdadeiras dependendo dos resultados de pesquisas que as confirmem”.

con S tAtA ção vA lI o SA

De acordo com o documento, a constatação de que um experimento não é replicável pode inclusive ser valiosa para a ciência, ao detectar efeitos desconhecidos ou fontes de variabilidade não avaliadas. Se não é possível evitar que isso aconteça, tentar reduzir a quantidade de ocorrências é importante para evitar desperdício de tempo e de recursos. Por isso, o relatório sugere aos pesquisadores que divulguem seus achados de modo mais cuidadoso e criterioso. “Eles devem ter o cuidado de estimar e explicar a incerteza associada aos seus resultados, de fazer uso adequado de métodos estatísticos e de descrever seus procedimentos e dados de maneira clara e completa”, afirma o documento, que também recomenda evitar exageros na divulgação dos resultados para não gerar falsas expectativas.

Os responsáveis pelo relatório criticam a ênfase exagerada conferida ao chamado valor de p, uma medida que representa a probabilidade de o efeito observado dever-se ao acaso e não aos fatores que estão sendo estudados. Um valor de p menor ou igual a 0,05 é utilizado frequentemente como um indicador de significância estatística, pois sugere que os resultados são robustos. É preciso avaliar, segundo o comitê, todo um conjunto de parâmetros, como as distribuições das observações e medidas como proporções e desvios-padrão, a fim de avaliar o vigor dos dados e as incertezas contidas neles. Para ampliar a confiança em resultados de pesquisa, o relatório sugere que sejam avaliadas evidências acumuladas em diversos trabalhos científicos – o que permite saber até que ponto resultados encontrados podem ser generalizados – em vez de contentar-se com a verificação de estudos isolados. Da mesma forma, recomenda a autoridades e formuladores de políticas públicas que evitem a armadilha de desacreditar ou descartar uma conclusão corroborada por diversos trabalhos apenas porque surgiu uma evidência isolada refutando o resultado conhecido. Harvey Fineberg considera exagerada a ideia corrente de que a ciência vive uma crise de credibilidade resultante de uma escalada no número de pesquisas irreproduzíveis ou irreplicáveis. “Não existe uma crise. Mas também não há mais tempo para ser complacente com o problema”, disse. n Fabrício Marques

punição após 40 anos de assédio em Harvard

A Universidade Harvard, dos Estados Unidos, cassou o título de professor emérito do sociólogo Jorge Dominguez, especialista em estudos latino-americanos de sua Faculdade de Artes e Ciências e vice-reitor de assuntos internacionais da instituição entre 2006 e 2015, e proibiu-o de dar aulas e de participar de eventos em suas instalações. A punição ocorreu depois de uma investigação concluir que ele assediou sexualmente pelo menos 18 alunas e funcionárias ao longo das últimas quatro décadas. A universidade também prometeu investigar o comportamento de seus dirigentes, em meio a críticas de que o pesquisador foi mantido nos quadros de Harvard e até promovido apesar de repetidas denúncias de assédio.

Em um relatório de 52 páginas divulgado pelo jornal The Boston Globe, a comissão interna que investigou Dominguez apontou uma “falha institucional prolongada”. Informou também que o comportamento do pesquisador era amplamente conhecido, a ponto de as alunas recomendarem umas às outras que não fossem sozinhas a reuniões convocadas por ele no final da tarde e usassem roupas largas quando o encontrassem a fim de desestimular suas investidas.

Claudine Gay, diretora da Faculdade de Artes e Ciências de Harvard, afirmou em um e-mail dirigido à comunidade acadêmica que a investigação encontrou um padrão duradouro de comportamento em Dominguez que violava as políticas de segurança e de combate à discriminação no ambiente educacional. “Estou chocada com as descobertas do relatório e com o coração partido por aquelas que tiveram que aguentar os comportamentos descritos”, disse. Cubano radicado nos Estados Unidos desde o início dos anos

1960, Dominguez, de 74 anos, graduou-se na Universidade Yale e chegou a Harvard em 1968 para fazer doutorado – quatro anos depois, começou a trabalhar como docente.

Ele renunciou ao posto de professor em junho de 2018, acusado de assédio por várias mulheres no movimento #metoo, que deu voz a milhares de acusações de importunação e agressão sexual sofridas no ambiente acadêmico dos Estados Unidos. Entre as mulheres que denunciaram o sociólogo, um destaque foi a cientista política Terry Karl, 71 anos, hoje professora emérita da Universidade Stanford, que havia acusado formalmente Dominguez de assédio em 1983 quando era professora assistente de Harvard. Na época, o caso resultou em uma punição branda. Dominguez foi suspenso de funções administrativas por três anos, mas depois seguiu a carreira normalmente – e envolveu-se em novas acusações de assédio. Karl faz críticas duras a Harvard.

“Nunca fui apoiada pela universidade, nem na época nem agora”, escreveu. Segundo seu relato, depois que Dominguez foi punido, em 1983, um dirigente de Harvard sugeriu que ela deixasse a universidade e até lhe prometeu um posto em Yale.

Transparência em baixa

A maioria das universidades de pesquisa de países da União Europeia vem descumprindo uma norma estabelecida pelo bloco em 2014, que determina a divulgação de resultados de ensaios clínicos até 12 meses após sua conclusão. Um levantamento divulgado em abril mostrou que foram difundidos como deveriam apenas 17% dos 940 ensaios registrados por 30 grandes universidades de pesquisa europeias. O cumprimento da regra foi maior nas três universidades do Reino Unido analisadas: 93% dos resultados de ensaios feitos pela Universidade de Oxford e o King’s College London e 81% dos do University College London foram apresentados.

Já a Universidade Médica de Viena deu publicidade aos achados de apenas 7% dos 188 ensaios de que participou. A Áustria, de todo modo, saiu-se melhor do que França, Itália, Suécia e Noruega. As sete universidades desses países avaliadas no estudo não divulgaram os resultados de seus ensaios. “As grandes universidades da Europa não estão se esforçando para cumprir suas obrigações éticas, científicas e regulatórias”, diz o autor do levantamento, o cientista político Till Bruckner, que coordena o TranspariMED, grupo do Reino Unido que promove campanhas para ampliar a transparência na pesquisa médica.

DaDos

Publicações científicas e colaborações internacionais

Foram publicados 56.396 trabalhos científicos1 com autores sediados no b rasil, em 2018. desses, 21.506 (38%) incluíam coautores de outros países.

os índices de colaboração internacional apresentaram crescimento significativo na última década, passando de 25% para 38%, entre 2008 e 2018, para o b rasil como um todo. o mesmo movimento se nota em todas as regiões do mundo.

a maioria das universidades brasileiras se situa na faixa entre 30% e 45% nesse indicador. a exceção é a uFabc , que atinge 58%. usP, unicamp, uFrJ, unb e uFsc apresentam índices acima de 40%.

no mundo, as universidades mais ativas em colaborações internacionais se localizam em países europeus, com índices acima de 55%. a s universidades russas são exceção entre as europeias e se encontram em faixa intermediária no indicador.

a s universidades do chile estão bem colocadas, assim como a universidade da cidade do c abo, na África do Sul, com índices acima de 60%

a s principais universidades da Argentina e do México se situam na faixa média-alta, com 48% de artigos com colaborações internacionais.

universidades dos Estados Unidos e do Canadá se colocam em posição variada, de média a média-alta, enquanto as asiáticas, da china, coreia do sul e Japão, estão entre as que apresentam menor intensidade de colaborações internacionais.

Col Abor AçõES INtErNACIoNAIS Em 2018 (%)

UNIvEr SIdAdES ESColhIdAS, br ASIl E dEmAIS rEgIõES2

u cidade do c abo

eth Zurique

u c ambridge

u oxford

Puc chile

u sorbonne

u chile

u lisboa

ua barcelona

UFABC

ua madrid

u humboldt b erlim

u toronto

mit

uc b erkeley

u harvard

u buenos aires

una méxico

u stanford

u. Johns hopkins

USP

Unicamp

u s. Petersburgo

UFRJ

UnB

UFSC

u tóquio

u michigan

UFRGS

u l moscou

Unifesp

u. Kioto

unc chapel hill

Unesp u tsinghua

u b eijing

u tohoku

UFMG

UFSCar u nanquim

UFPR UFPE un seul

n b rasil n África

n américa latina n Ásia

n eua/c anadá n europa

NotAS 1 Publicações dos tiPos Article, Proceedings PAPer e review indexados Pelo incites /Wos/ clarivate. 2 Foram selecionadas as universidades rePresentativas, líderes em Pesquisa, em seus Países, com PreFerência Para instituições Públicas (exceto no caso dos eua , que incluem instituições Públicas e Privadas). no caso do brasil, o mesmo critério Foi adotado. a ordem de instituições com a mesma Porcentagem segue os valores antes de arredondamento. FoNtES incites/ Web oF science, clarivate/ thomsonreuters, dados extraídos em 23 mai. 2019.

Animais e plantas sob risco de desaparecer

Até 1 milhão de espécies de plantas e animais no mundo enfrentam um drástico processo de redução populacional e perda de hábitat e estão ameaçados de extinção. A abundância de plantas e animais diminuiu ao menos 20%, sobretudo no último século, em quase todos os ecossistemas. A conclusão é de um relatório de mais de mil páginas, fruto do esforço de 145 pesquisadores de 50 países. Eles analisaram quase 15 mil estudos publicados nos últimos três anos sobre o declínio da biodiversidade. Essa é a primeira avaliação global do estado de preservação da natureza feita pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES). O relatório, que teve entre seus coordenadores o antropólogo

brasileiro Eduardo Brondízio, da Universidade de Indiana, Estados Unidos, indica que cerca de 75% das terras e 66%

das áreas oceânicas foram significativamente alteradas pelo ser humano para a produção de alimento no último século. Outros impactos são a exploração descontrolada de espécies, a poluição, as alterações no clima e a introdução de espécies invasoras. Na Indonésia, Sudeste Asiático, a transformação de florestas em plantações de palmeiras para a extração de óleo destruiu o hábitat de orangotangos (Pongo sp) e tigres-de-sumatra (Panthera tigris sumatrae). Em Moçambique, na África, caçadores de marfim mataram 7 mil elefantes entre 2009 e 2011. Já na Argentina e no Chile, na América do Sul, a introdução do castor-americano (Castor canadensis) devastou várias espécies nativas de árvores. O documento alerta: se nada mudar, as metas globais de conservação e uso sustentável da natureza não serão alcançadas nas próximas décadas.

População de tigre-de-sumatra diminui com redução de seu hábitat

Um funeral para vítimas do nazismo

cerca de 300 amostras de tecidos humanos de vítimas do nazismo foram identificadas a partir de análises feitas durante três anos por Andreas Winkelmann, professor de anatomia da e scola Médica de Brandenburgo, na Alemanha. os restos mortais eram de dissidentes assassinados na prisão de Plötzensee, em Berlim, durante a segunda Guerra Mundial. Parte dos corpos dos executados nessa prisão foi usada em experimentos no instituto Universitário de Anatomia de Berlim. As amostras foram descobertas por familiares do anatomista hermann stieve (1886-1952), ex-diretor do instituto, e encaminhadas em 2016 para o Memorial

da resistência Alemã, que conduziu as análises em parceria com o hospital charité de Berlim. À época da guerra, médicos que trabalhavam no instituto de anatomia dirigido por stieve colaboraram com o regime nazista. Apesar de as investigações não terem identificado a quantas pessoas os restos mortais pertencem, constatou-se que a maioria eram mulheres, parte integrante do grupo de resistência berlinense “orquestra vermelha”. stieve fazia experimentos com tecidos genitais de executadas para analisar os efeitos do estresse e do medo no sistema reprodutivo. Após a guerra, ele não foi investigado e pôde prosseguir sua carreira. os restos mortais identificados foram enterrados em maio, no cemitério de Dorotheenstadt, em Berlim.

o maior painel de arte rupestre de s ão Paulo

c arros de motoristas que trabalham com aplicativos, em são Paulo: em são Francisco, estudo mostrou agravo nos congestionamentos

Aplicativos de transporte pioram

o trânsito

os aplicativos de transporte Uber e lyft são responsáveis pela degradação do trânsito nas ruas de são Francisco, um dos principais centros urbanos da c alifórnia, nos e stados Unidos. A conclusão resulta de um levantamento feito por pesquisadores da Universidade de Kentucky em conjunto com a Autoridade de transporte do condado de são Francisco, o órgão local de trânsito. o estudo indica que os congestionamentos na cidade cresceram 62% entre 2010, antes de

surgirem os aplicativos, e 2016, com eles em uso. empregando um modelo de simulação computacional, que levou em conta dados sobre as viagens realizadas pelas duas empresas, obras no sistema viário e o aumento da população do município, os pesquisadores estimaram que, sem os automóveis que trabalham com os aplicativos nas ruas, o aumento teria sido bem inferior, de 22% (Science Advances, maio). o comportamento dos motoristas, que estacionam em fila dupla ou em locais proibidos para pegar passageiros, foi apontado como um dos motivos para a piora do trânsito. Uber e lyft refutaram os dados. Alegam que o estudo não considerou o aumento da circulação de veículos de entregas nem a elevação do fluxo de turistas na cidade. os pesquisadores esperam que o estudo ajude autoridades a planejarem políticas de mobilidade mais adequadas para as grandes cidades.

Em um trabalho de exploração iniciado em 2014, pesquisadores das universidades de São Paulo (USP), Federal do Paraná (UFPR) e Estadual de Campinas (Unicamp) descobriram um painel de arte rupestre de 80 metros de comprimento, em Ribeirão Bonito, no centro do estado de São Paulo. Astolfo Gomes de Mello Araújo, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador da pesquisa, afirma que o painel é o maior já encontrado no estado. Nele, estão registradas gravuras que seguem o padrão de outros sítios arqueológicos da região, lembrando pegadas de pássaros – os chamados tridígitos. Também foram achadas pedras lascadas, ossos de animais e carvão. Em parceria com uma equipe do Centro Interdisciplinar de Tecnologias Interativas da Escola Politécnica da USP, os pesquisadores estão usando escaneamento a laser e outras técnicas de produção de imagens para criar modelos virtuais dos sítios encontrados. Em 2015 os pesquisadores haviam descoberto o sítio arqueológico mais antigo do estado, no município de Dourado, com objetos de mais de 12,5 mil anos.

Imagens rupestres do painel de 80 metros encontrado em Ribeirão Bonito

vestígios antigos de uso de psicoativos na

Bolívia

Uma equipe internacional de antropólogos e bioarqueólogos identificou traços de substâncias alucinógenas em uma bolsa de couro de cerca de mil anos encontrada nos Andes bolivianos. A descoberta ocorreu quando os pesquisadores procuravam registros de ocupações antigas em abrigos próximos ao vale seco do rio Sora, na região de Sur Lípez, na Bolívia. Durante os trabalhos, coordenados pela arqueóloga Melanie Miller, da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, encontraram uma sacola de couro com tábuas de madeira entalhada, tubo de aspiração, espátulas, tecido colorido e fragmentos de hastes de plantas secas unidas por cordões de lã. Os pesquisadores também acharam uma bolsa de pele animal com idade entre 905 e 1.170 anos. As análises revelaram a presença de compostos psicoativos, como cocaína, bufotenina, psilocina, harmina e dimetiltriptamina – os dois últimos contidos na ayahuasca, feita da folha de um arbusto e a casca de um cipó (PNAS, 6 de maio). A suspeita é de que a bolsa fosse usada por xamãs na condução de rituais locais. Eles agiriam como intermediários entre o mundo natural e o sobrenatural, atingindo estados alterados de consciência para conectar pessoas vivas com deidades e ancestrais que se pensava existir. Segundo os pesquisadores, é possível que o xamã que possuía a bolsa tenha consumido várias plantas diferentes simultaneamente, de modo a produzir efeitos diferentes ou estender suas alucinações.

Reitor da Unicamp ganha prêmio José Reis

cueva del chileno na Bolívia, onde foi achada bolsa com alucinógenos (detalhe)

o físico Marcelo Knobel, reitor da Universidade e stadual de c ampinas (Unicamp), foi vencedor da 39ª edição do Prêmio José reis de Divulgação científica, do conselho nacional de Desenvolvimento científico e tecnológico (cnPq), que neste ano foi concedido na categoria Pesquisador e e scritor. A comissão julgadora ressaltou “a abrangência e a diversidade de seu trabalho de divulgação científica, incluindo o diferencial das atividades de formação pessoal para esta área”. Professor titular do instituto de Física Gleb Wataghin, da Unicamp, Knobel lidera um grupo de pesquisa no laboratório de Materiais e Baixas temperaturas. no campo da divulgação científica, colabora com o laboratório de e studos Avançados em Jornalismo, coordenou o núcleo de Desenvolvimento da criatividade e foi diretor-executivo do Museu e xploratório de ciências, todos da

Unicamp. também é editor-chefe da revista Ciência e Cultura, da sociedade Brasileira para o Progresso da ciência (sBPc). o Prêmio José reis é concedido em três categorias, que se revezam: Jornalista em ciência e tecnologia; instituição e veículo de comunicação; e Pesquisador e e scritor. neste ano, houve 91 inscrições.

Plano s é adiado para 2021

Foi adiada em um ano –de 2020 para 2021 – a implementação do Plano s, uma iniciativa de acesso aberto proposta por 19 agências de apoio à pesquisa de vários países, na maioria europeus. A decisão busca dar mais tempo para que editoras científicas transformem seus títulos hoje comercializados por meio de assinaturas em revistas que possam ser consultadas livremente na internet, em um modelo de negócios no qual os custos sejam cobertos exclusivamente por taxas cobradas dos autores dos artigos, sem onerar os leitores. “o ano de 2020 foi considerado ambicioso demais pela comunidade de pesquisadores e as editoras que genuinamente desejam mudanças”, disse à revista Nature Marc schiltz, presidente da science europe, organização que propôs o Plano s A iniciativa foi lançada em setembro passado e, como propõe uma

Marcelo

mudança radical na comunicação científica, desencadeou um debate intenso (ver Pesquisa FAPesP nº 276). em linhas gerais, o plano estabelece que pesquisas financiadas com recursos públicos deverão ser divulgadas em uma revista científica ou em uma plataforma na internet a que qualquer pessoa tenha acesso sem pagar nada por isso. A regra impõe desafios para agências de fomento, autores e editoras. As agências preveem um aumento dos custos dos projetos de investigação, pois a publicação dos papers será paga pelos autores. Muitos pesquisadores, por sua vez, reclamam da proibição de utilizar periódicos de alto impacto, mas que não são de acesso aberto. e as revistas, tanto as de editoras comerciais como as de sociedades científicas, ressentem-se da possibilidade de perder receita. o adiamento busca dar mais tempo para que todos os atores se adaptem. A mudança de data foi um dos frutos da consulta pública aberta

no início do ano para coletar sugestões de aperfeiçoamento do plano. outros pontos polêmicos foram suavizados, como a proposta de proibir publicações em revistas híbridas – periódicos de acesso fechado que cobram dos autores uma taxa extra para divulgar os artigos em acesso aberto na web. A intenção era que tais periódicos pudessem ser utilizados até 2023 e, mesmo assim, se as editoras assinassem compromissos de transformá-los integralmente em acesso aberto. Agora, o prazo vai até 2024 e serão permitidas revistas híbridas que não tenham firmado esse compromisso – bastará que concordem em ampliar a quantidade de papers em acesso aberto ao longo do tempo, podendo manter o modelo. outro recuo envolve a ideia de tabelar as taxas cobradas para publicar artigos. no lugar, será exigido apenas que as editoras sejam transparentes sobre seus custos.

o lento adeus das geleiras

Biblioteca de stuttgart, na Alemanha: prazo maior para acesso aberto

As geleiras das montanhas do sudoeste da Argentina e do nordeste da Espanha estão perdendo gelo com rapidez e podem desaparecer até o final do século. Não só elas. Também as das Montanhas Rochosas canadenses e as do sudeste da Nova Zelândia, além do glaciar Khumbu, no Himalaia, e do Jakobshawn Isbrae, na Groenlândia, segundo um levantamento de pesquisadores da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), da Escola Politécnica de Zurique e da Universidade de Friburgo, as três na Suíça (Earth’s Future, 29 de abril). Os especialistas usaram dados da literatura científica para estimar a situação de 19 mil geleiras em 46 sítios considerados patrimônio mundial. Com o auxílio de modelagem computacional, eles projetaram o que deve ocorrer com elas. Os resultados indicam que as geleiras de até 21 desses sítios podem desaparecer por completo até o final do século, dependendo da intensidade das mudanças no clima. As geleiras são consideradas um dos melhores indicadores de mudanças climáticas, porque seu volume depende da temperatura do ar, da precipitação de neve e da troca de energia com a superfície da Terra. Mesmo em um cenário de baixa emissão de gás carbônico, um dos principais responsáveis pelas alterações climáticas, elas desapareceriam de oito dos 46 sítios analisados. Segundo o estudo, até o final do século, o volume do gelo acumulado nessas geleiras deve diminuir de 33% a 60%.

A geleira Aletsch, nos Alpes suíços: derretimento à vista

Uma baleia com patas de 42 milhões de anos

Na praia de Meia Lua, sul do Peru, a 200 metros (m) de onde haviam sido encontrados há dois anos os fósseis de Mystacodon selenensis, o mais antigo parente das baleias modernas, com estimados 36 milhões de anos, pesquisadores belgas, peruanos, italianos e franceses desenterraram os ossos de uma baleia anfíbia com 4 m de comprimento, quatro patas e cauda (Current Biology, abril). Denominada Peregocetus pacificus, que significa “a baleia viajante que atingiu o Pacífico”, é uma espécie de baleia anfíbia, a primeira do Pacífico e do hemisfério Sul. Ela deve ter vivido por volta de 42 milhões de anos atrás e ilustra a fase em que as baleias ainda não haviam se adaptado inteiramente à vida marinha. De acordo com os pesquisadores, liderados por Olivier Lambert, do Instituto Real de Ciências Naturais da Bélgica, as baleias Peregocetus deviam sair do mar para dar à luz ou descansar. Seus membros favoreciam o nado e não eram muito adequados à locomoção em terra. Os cetáceos quadrúpedes originaram-se no sudeste da Ásia há mais de 50 milhões de anos a partir de mamíferos terrestres.

Conselho Europeu de Pesquisa tem novo presidente

o engenheiro italiano

Mauro Ferrari assumirá, em janeiro de 2020, a presidência do conselho europeu de Pesquisa (erc), que apoia grupos de pesquisa de excelência em várias áreas do conhecimento. Ferrari substituirá o matemático

francês Jean-Pierre Bourguignon, no cargo desde 2014. com 59 anos, Ferrari graduou-se em matemática pela Universidade de Pádua, na itália, e fez o doutorado em engenharia mecânica na Universidade da c alifórnia, em Berkeley, nos e stados Unidos.

A morte da esposa, em 1995, vítima de um tumor, levou-o a abandonar os estudos sobre o movimento das galáxias e voltar-se à área médica. “senti que tinha que fazer algo contra o câncer”, disse ao jornal espanhol El País considerado um dos pioneiros nos estudos

em nanomedicina, por criar nanopartículas que transportam medicamentos até os tumores, Ferrari matriculou-se em medicina em 2002, aos 43 anos, mas não concluiu o curso. no ano seguinte, o instituto nacional do c âncer dos e stados Unidos o colocou à frente da Aliança para a nanotecnologia contra o c âncer. À revista Nature, Ferrari disse que sua formação multidisciplinar pode ajudá-lo a estabelecer bons relacionamentos com pesquisadores que atuam em diferentes áreas.

Representação artística da baleia anfíbia

Mauro Ferrari assumirá em janeiro de 2020

Mortes

por AVC caem 30% em 15 anos

De 1997 a 2012, o número de mortes por acidente vascular cerebral (Avc) entre brasileiros com 18 a 49 anos de idade diminuiu cerca de 30%. entre os homens, passou de 4.707 óbitos em 1997 para 3.320 em 2012. redução semelhante ocorreu entre as mulheres – o número baixou de 4.437 para 3.171 (Scientific Reports, 27 de fevereiro). coordenado pelo fisioterapeuta laércio da silva Paiva, professor

E VolUção dos óbItos

Melhora no tratamento e medidas de prevenção reduzem mortes por Avc entre 18 e 49 anos

n homens n Mulheres

da Faculdade de Medicina do ABc , esse levantamento foi feito com base em registros de mortalidade disponíveis no sistema nacional de informações sobre saúde, mantido pelo Ministério da saúde. De acordo com o trabalho, a queda de mortalidade segue uma tendência verificada em outros países e decorre da melhoria nos tratamentos contra a hipertensão arterial em todos os níveis socioeconômicos e do alerta para fatores de risco para o Avc , como a dieta rica em gorduras de origem animal. As mortes por Avc representavam 3,3% do total de óbitos entre os homens com 18 a 49 anos em 1997. em 2012, eram 2,1% . entre as mulheres, a proporção passou de 8,3% para 5,2%. nesses 15 anos, cerca de metade das mortes por Avc ocorreu na região sudeste, onde vivem 42% dos brasileiros.

Plantas com raízes mineradoras

Os campos rupestres da serra do Cipó, em Minas Gerais, estão entre os terrenos menos nutritivos do mundo. Ali, uma diversidade surpreendente de plantas – estima-se que um terço das espécies nativas brasileiras – cresce, frequentemente, sobre rochas. Analisando essas plantas, pesquisadores vêm descobrindo maneiras criativas de buscar nutrientes (ver Pesquisa FAPESP nº 229). A novidade agora vem de duas espécies (Barbacenia tomentosa e B. macrantha) da família das velosiáceas, a mesma a que pertencem as canelas-de-ema. As raízes de B. tomentosa e B. macrantha têm extremidades repletas de pelos que secretam ácidos capazes de corroer as rochas e liberar fosfatos, compostos que contêm fósforo, elemento químico necessário para a multiplicação celular e o crescimento da planta (Functional Ecology, 9 de março). Aos poucos, as raízes penetram as rochas e se entranham nelas, absorvendo fósforo. Essas raízes ganharam um nome oficial: raízes velozioides. A identificação desse mecanismo exigiu o uso de microscópio tradicional e eletrônico, além de uma série de técnicas, como fluorescência de raios X e cromatografia. Coordenado pelo biólogo Rafael Oliveira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o estudo mostra uma função nova das raízes dessas plantas. “Elas desempenham um papel no intemperismo de rochas e na formação de solos que até então não era reconhecido”, diz. “Os geólogos consideram que a água, o vento e a temperatura cumprem esse papel. Aparentemente as plantas podem produzir efeitos mais importantes do que imaginávamos.”

A planta Barbacenia macrantha e suas raízes entranhadas na rocha, vistas ao microscópio (à dir.)

O retorno à Lua

Estados Unidos tentam antecipar para 2024 o regresso ao satélite natural da Terra, agora, com a meta de iniciar um assentamento permanente

Ricardo Zorzetto
Lua cheia, fotografada pela
sonda lunar Reconnaissance Orbiter

Apouco mais de um mês de completar 50 anos da chegada do homem à Lua, intensifica-se a movimentação no setor aeroespacial para permitir o retorno ao satélite natural da Terra. Nas últimas semanas, duas empresas privadas norte-americanas, a Blue Origin e a Lockheed Martin, apresentaram o desenho de módulos de pouso capazes de transportar astronautas de uma estação espacial a ser instalada na órbita lunar à superfície do astro e, dali, de volta a essa estação, à qual se acoplarão os foguetes lançados da Terra. Em 1 o de maio, a Boeing concluiu uma versão de testes em tamanho real da estação que a Nasa, a agência espacial norte-americana, planeja instalar na órbita lunar a fim de servir de base para a exploração do satélite terrestre e um possível envio de missões interplanetárias.

Em 20 de julho de 1969, um domingo, dois astronautas norte-americanos pisaram a superfície poeirenta da Lua em decorrência de uma acirrada corrida de demonstração de poder militar e tecnológico entre os Estados Unidos e a extinta União Soviética. Como antes, o desejo de voltar ao satélite terrestre envolve de novo interesses políticos, marcados pela capacidade de mobilizar os recursos humanos e financeiros para alcançar a meta, além da busca pela primazia tecnológica. O discurso oficial, porém, trata dos objetivos científicos e de planos de exploração de riquezas naturais e criação de uma cadeia econômica envolvendo atividades como mineração, comunicação, transporte de cargas e passageiros, entre outras possibilidades. Cinco décadas após a primeira alunissagem, os Estados Unidos continuam sendo os protagonistas de um possível retorno à Lua, dessa vez ameaçados pela China. No plano mais imediato, a ideia de ir à Lua e estabelecer uma base por lá está embebida, nos Estados Unidos, de um sentimento de orgulho nacional, além da ambição do presidente Donald Trump de deixar uma marca grandiosa de sua passagem pela Casa Branca. Pouco após assumir a presidência dos Estados Unidos em 2017, eleito pelo Partido Republicano, ele demonstrou o desejo de gerar um legado na área espacial quase tão marcante quanto o do democrata John Kennedy, que, no início dos anos 1960, convenceu o país a levar o homem à Lua como forma de mostrar a superioridade tecnológica norte-americana frente à União Soviética, que liderava a corrida espacial

(ver reportagem na página 24). Em abril de 1961, os soviéticos foram os primeiros a enviar um ser humano ao espaço, o cosmonauta Yuri Gagarin. Ainda em 2017, ao pedir o orçamento da Nasa e estabelecer o objetivo de levar seres humanos a Marte na década de 2030, Trump perguntou a Robert Lightfoot Jr., à época administrador em exercício da agência espacial, se não seria possível realizar a missão antes do fim de seu primeiro mandato, em 2020. O diálogo, ocorrido na Casa Branca, foi descrito por Cliff Sims, ex-oficial de comunicação de Trump, no livro Team of vipers (Equipe de víboras), publicado neste ano. Pouco depois, Trump restabeleceu o Conselho Nacional do Espaço (NSC), órgão da presidência que determina as diretrizes espaciais norte-americanas, e definiu uma meta mais modesta: levar astronautas à Lua até 2028. Em março deste ano, o plano mudou, e a viagem foi antecipada para 2024 –possivelmente na esperança de que ocorra ao fim de um eventual segundo mandato de Trump.

Voltar à Lua até essa data, dessa vez para estabelecer uma base de exploração por lá, é uma meta audaciosa com prazo exíguo. Em seis décadas, cerca de 130 missões tripuladas ou não foram enviadas ao satélite terrestre por um clube seleto (Estados Unidos, União Soviética, Japão,

Representação artística da cápsula Órion, que deverá servir para o transporte de astronautas da Terra à órbita lunar

China, Índia, Europa e Israel). Os Estados Unidos, no entanto, foram os únicos a colocar pessoas na superfície lunar e continuam sendo um dos poucos países com tecnologia, conhecimento e dinheiro para repetir o feito, embora surja no cenário outra potência econômica determinada a demonstrar poderio tecnológico: a China, que tem um setor espacial em ascensão.

Nas duas últimas décadas, a agência espacial chinesa (CNSA) instalou, por conta própria, duas estações espaciais (Tiangong 1 e 2) na órbita da Terra, levou 11 astronautas chineses (taikonautas) ao espaço e enviou nove missões não tripuladas à Lua, das quais sete foram bem-sucedidas e colocaram sondas na órbita lunar ou naves em sua superfície. A mais recente, a Chang’e 4, pousou em janeiro deste ano uma nave e um jipe-robô no lado distante do satélite terrestre. “Hoje, a China é o único país que tem razões fortes para levar seres humanos à Lua”, afirma o engenheiro mecânico José Bezerra Pessoa Filho, pesquisador aposentado do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), estudioso da história e da política da corrida espacial. “Ela se estabelecerá como potência global definitiva quando um de seus taikonautas puser os pés lá.”

A nova missão norte-americana rumo à Lua recebeu em maio o nome oficial de Artêmis, deusa grega da natureza e da caça, irmã gêmea do deus Apolo, que emprestou o nome ao programa tripulado da Nasa dos anos 1960. Para que Artêmis não fique no papel, a agência norte-americana e as empresas que colaboram com ela terão de apertar o passo e receber investimento pesado. É preciso completar o desenvolvimento do Space Launch System (SLS), um superfoguete capaz de alcançar a Lua, que, se tudo der certo, deve voar pela primeira vez no próximo ano. Também é necessário concluir os testes da cápsula Órion, o meio de transporte dos astronautas da Terra ao Gateway, a estação espacial a ser construída na órbita lunar. Essa estação deverá estar parcialmente pronta até 2024, para permitir repetidos pousos lunares em módulos reutilizáveis que ainda não existem – nas missões Apollo, as naves desciam uma única vez e depois retornavam à Terra.

“O presidente desafiou a Nasa a desembarcar a primeira mulher americana e o próximo homem americano no polo Sul da Lua até 2024, para, em seguida, estabelecer uma presença sustentada na Lua e ao seu redor até 2028”, contou William Gerstenmaier, administrador associado de Exploração e Operações Humanas da Nasa, à Pesquisa FAPESP. Em entrevista por e-mail, ele afirmou que os esforços serão liderados pelos Estados Unidos, com envolvimento significativo de parceiros internacionais. A Agência Espacial Europeia (ESA), por exemplo, já provê os sistemas de

propulsão e de energia da cápsula Órion, e o Canadá deve fornecer parte da robótica do Gateway. “Criamos padrões de interoperabilidade internacionais que permitirão que qualquer nação participe de nossos planos”, explicou Gerstenmaier.

p o R QUE volta R

Em dezembro de 1972, os astronautas da Apollo 17, Eugene Cernan e Harrison Schmitt, foram os últimos seres humanos a pisar a Lua. Demonstrada a superioridade dos Estados Unidos no espaço, o programa Apollo, que consumira parte importante do orçamento norte-americano, foi encerrado. Desde então, ninguém mais esteve lá. O desejo de retornar, porém, não desapareceu. Depois de a Nasa investir em missões não tripuladas (mais baratas) para outros destinos no Sistema Solar, em 2004, George W. Bush solicitou à agência um plano de exploração tripulada com retorno à Lua até 2020 e Marte como destino final. Estimativas iniciais indicaram que esse programa, o Constellation, consumiria em 10 anos US$ 230 bilhões (valores de 2004). Houve avanços iniciais, mas, ante a necessidade de recursos vultosos, Barack Obama o encerrou em 2009, mantendo o desenvolvimento do foguete SLS e da cápsula Órion. Os entusiastas enumeram razões para voltar à Lua. Uma é que há muito a aprender antes de mirar alvos mais desafiadores, como Marte. Por exemplo, sabe-se pouco sobre o que ocorre com o corpo humano após longos períodos em ambiente de baixa gravidade e exposto à radiação cósmica. Mesmo os astronautas que permaneceram mais tempo no espaço, na antiga estação russa Mir ou na ISS (Estação Espacial Internacional), não passaram tempo suficiente em baixa gravidade e expostos à radiação para simular a vida na Lua ou uma viagem a Marte.

A proximidade da Lua também pesa a favor de usá-la como campo de provas. A distância que a separa da Terra varia de 363 mil a 405 mil quilômetros, que podem ser percorridos em três dias. Já Marte, nos períodos de maior proximidade, fica 130 vezes mais longe, a 55 milhões de quilômetros de distância, o que representa ao menos nove meses de viagem. “A Lua é onde, juntos, desenharemos, desenvolveremos e testaremos os sistemas que, por fim, nos ajudarão a enviar astronautas ao planeta vermelho”, afirma Gerstenmaier.

Concepção artística do foguete SLS, atualmente em desenvolvimento

Ir à Lua não exige o desenvolvimento de tecnologias completamente inovadoras, segundo Oswaldo Loureda, fundador e diretor-técnico da Acrux Aerospace Technologies, startup brasileira especializada na produção de pequenos foguetes, drones e estruturas para microssatélites. Desde o programa Apollo, sabe-se chegar lá. “O desafio atual são o cronograma e os custos”, afirma. Tão importante quanto concluir o desenvolvimento de um foguete poderoso é completar os testes para a certificação de que as cápsulas em desenvolvimento são seguras para transportar seres humanos.

Agências espaciais, especialistas e amantes da exploração do espaço elencam outros interesses científicos para justificar um retorno à Lua e a construção de uma base para ocupação humana. Um é investigar a geologia do astro, possivelmente formado há cerca de 4,5 bilhões de anos dos pedaços de rocha remanescentes do impacto de um planeta chamado Theia, do tamanho de Marte, contra a Terra. A ausência de atmosfera (não venta nem chove por lá) preservaria estruturas na paisagem lunar que ajudariam a compreender a evolução do Sistema Solar. Imagina-se, por exemplo, que as crateras lunares sejam cicatrizes de um intenso bombardeio de meteoros ocorrido há 4 bilhões de anos – na Terra, esses sinais foram apagados pelo intemperismo e pela movimentação das placas tectônicas.

para retornar à lua, será preciso concluir o desenvolvimento do foguete SlS e da cápsula Órion

“Vejo a Lua como um portal para a exploração do espaço profundo”, diz o engenheiro espacial Antônio de Almeida Prado, especialista em manobras orbitais e trajetórias espaciais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A gravidade na Lua é seis vezes inferior à terrestre. Por essa razão, a superfície lunar ou estações espaciais em sua órbita permitiriam lançar naves e sondas maiores e com mais massa do que a partir da Terra, abrindo caminho para missões mais distantes e longas.

Interesses econômicos também guiam o retorno e a possível colonização do satélite terrestre. Estudos sugerem que a Lua teria uma quanti -

dade importante de minerais raros. Lá, haveria também grandes concentrações de hélio 3, uma versão do elemento químico hélio rara na Terra e que, em princípio, permitiria realizar reações termonucleares, com a liberação de muita energia. Da água congelada nas crateras do polo Sul, seria possível extrair oxigênio para os astronautas e hidrogênio para ser usado como propelente dos foguetes. Empresas privadas nos Estados Unidos e na Europa e países como a China já vislumbram formas de explorar esses recursos, em uma possível corrida mineralógica que movimentaria uma economia trilionária. Esse cenário, porém, depende do barateamento das viagens por meio do uso de naves e foguetes reaproveitáveis.

oestabelecimento de uma colônia humana lunar poderia ainda servir de experimento sociológico e antropológico, na opinião do engenheiro e empreendedor brasileiro Sidney Nakahodo, cofundador e diretor-executivo da New York Space Alliance, startup sediada nos Estados Unidos que fomenta o desenvolvimento de startups espaciais. Professor da Escola de Administração Pública e Relações Internacionais (Sipa), da Universidade Columbia, Nakahodo projeta que os moradores de assentamentos humanos fora da Terra poderiam criar novas formas de organização social e de exploração econômica, regidas por um arcabouço legal que ainda estaria por ser definido.

O Tratado do Espaço Sideral, de 1967, impede que seus signatários reclamem a posse de territórios em outros corpos celestes. Também estabelece que a exploração deve beneficiar a humani-

O jipe-robô Yutu-2, fotografado pela sonda chinesa Chang’e 4, que pousou em janeiro na face distante da Lua

dade e libera os Estados para levá-la adiante. Na ausência de um consenso internacional, Nakahodo projeta que a ocupação e a exploração lunar seguirão os moldes do que ocorreu na Antártida. Em documento assinado em 1959, os 12 países que reclamavam posse de partes continentais da Antártida se comprometeram a suspender suas pretensões por tempo indeterminado. O texto estabelece que outros países que desejem participar das discussões sobre o continente devem demonstrar que realizam pesquisas científicas substanciais na região. “Se houver um tratado nesses moldes, o Brasil só será ouvido caso se mostre capaz de desenvolver pesquisas relacionadas à Lua”, diz Nakahodo.

Por ora, sem programas governamentais destinados a estudar a Lua, o Brasil conta com um projeto privado, o Garatéa-L, que pretende enviar um nanossatélite para a órbita lunar (ver reportagem na página ao lado). “Colocar um equipamento próximo à Lua e manobrá-lo pode permitir ao país entrar para um clube restrito”, afirma Carlos Augusto Teixeira de Moura, presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB). “Seria uma demonstração de capacidade técnica que nos daria alguma voz em um cenário internacional futuro.”

Antes que essas possibilidades se tornem realidade, no entanto, é preciso recuperar a capacidade de voltar à Lua, algo que não será tão fácil quanto Trump desejaria. Em 16 de maio, um projeto de lei da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos – o equivalente à Câmara dos Deputados brasileira – adicionou US$ 1 bilhão ao orçamento da Nasa para o ano fiscal de 2020. Com o acréscimo, a agência deve receber cerca de US$ 23 bilhões, o equivalente a cerca de 0,5% dos gastos federais norte-americanos, muito distante dos 4% consumidos no auge do programa Apollo. Mesmo com a suplementação, a verba da agência deve ser insuficiente para o retorno à Lua até 2024 – alguns especialistas estimam que seriam necessários acréscimos anuais de US$ 5 bilhões a US$ 8 bilhões pelos próximos anos para atingir a meta.

A verba adicional aprovada em maio é quase 40% inferior à solicitada por Trump. Na véspera da aprovação, congressistas do Partido Democrata, de oposição ao governo, viram com desconfiança a emenda orçamentária da Casa Branca. “Vou reservar meu julgamento sobre o plano geral de pouso na Lua até que o Congresso receba informações mais concretas sobre a iniciativa”, declarou a deputada democrata Eddie Bernice Johnson, do Texas, que preside o Comitê de Ciências da casa. Segundo reportagem de 16 de maio da revista SpaceNews, especializada em política e negócios do setor espacial, Johnson está interessada em conhecer algo ainda não revelado: o custo total e os detalhes técnicos da missão. n

m issão lunar brasileira

projeto Garatéa-L planeja colocar na órbita do satélite terrestre experimento para avaliar a resistência da vida sob alta radiação

Lucas Fonseca retornou ao Brasil em 2013 e descobriu que sua formação profissional teria pouca aplicação prática no país. Graduado em engenharia mecatrônica pela Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos, ele fez mestrado em engenharia aeroespacial no Instituto Superior de Aeronáutica e Espaço da França e trabalhou por quase três anos na Agência Espacial Alemã (DLR), em um projeto da Agência Espacial Europeia (ESA). Lá, integrou uma missão pioneira, a Rosetta, que pousou uma sonda na superfície de um cometa. Sem mercado para atuar em missões espaciais por aqui, Fonseca decidiu empreender: buscou parceiros e abriu a empresa Airvantis, sediada em São Carlos. Também criou a Garatéa-L, a primeira missão planejada para colocar uma sonda brasileira na órbita da Lua.

A Garatéa, palavra que em tupi-guarani significa busca-vidas, é uma missão científica sofisticada, apesar do porte modesto e do custo baixo para o setor (US$ 10 milhões, que estão sendo levantados). Em um nanossatélite com 7 quilogramas e o tamanho de uma caixa de sapatos, Fonseca e colaboradores de quatro instituições brasileiras planejam instalar um experimento biológico. O grupo coordenado por Fabio Rodrigues, do Instituto de Química (IQ) da USP, pretende verificar se bactérias e fungos extremófilos, que vivem em ambientes extremamente inóspitos, sobrevivem no espaço.

Na órbita da Lua, Garatéa acompanhará o astro em sua trajetória ao re -

dor da Terra, passando por períodos de maior e de menor exposição à radiação espacial, vinda em especial do Sol. Na Terra, o campo magnético e a atmosfera protegem seres vivos e equipamentos da radiação espacial.

O resultado das medições automáticas dos seis meses de operação será enviado à Terra por sinais de rádio. “Se os microrganismos sobreviverem no espaço, faremos testes em laboratórios na tentativa de identificar quais mecanismos bioquímicos os protegem da radiação”, conta Fonseca, diretor de operações da Airvantis e responsável por captar o financiamento da missão. Essas informações podem ser úteis para diminuir a exposição humana à radiação ou minimizar seus danos em viagens espaciais longas.

E xt RE m ÓFI lo S

Atualmente, Rodrigues e sua equipe selecionam os microrganismos mais adequados para integrar o experimento. Em testes com balões que voaram a 25 quilômetros (km) de altitude, os pesquisadores avaliaram a resistência de três espécies de fungos e uma de bactéria, todos extremófilos, a condições de umidade e temperatura muito baixas e altos índices de radiação ultravioleta. Duas espécies de fungo (Naganishia friedmannii e Exophiala sp) sobreviveram em maior quantidade do que a bactéria Bacillus subtillis, segundo artigo publicado em 2018 na Applied and Environmental Microbiology. O experimento da Garatéa-L deve ser montado em um nanossatélite a ser de-

senvolvido pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e testado em laboratório pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ele será uma versão aprimorada de dois nanossatélites: o Itasat e o Sport. Lançado em 2018, o primeiro coleta dados de temperatura, umidade e pressão em 900 estações instaladas em território brasileiro. Já o Sport, em desenvolvimento em parceria com a Nasa e duas outras instituições norte-americanas, deverá ficar pronto em 2020 e será usado para fazer medições da ionosfera. Localizada acima de 60 km, essa camada da atmosfera sofre a influência das tempestades solares, que podem danificar satélites e afetar a orientação de aviões.

“A Garatéa será um nanossatélite mais avançado do que o Sport. Seu hardware e seu software precisarão suportar um nível bem mais alto de radiação”, afirma o engenheiro mecânico Luís Loures, do ITA, que coordena o desenvolvimento do Sport. Se seu desenvolvimento der certo, a Garatéa-L tem uma chance de ser lançada em 2022. n Ricardo Zorzetto

projeto

programa de pesquisa de observação e previsão de cintilação (Sport) (nº 16/24970-7); Modalidade projeto Temático; Pesquisador responsável Mangalathayil Ali Abdu (Inpe); Investimento R$ 3.727.020,43.

Os demais trabalhos consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

Representação artística da sonda Garatéa-L

Da guerra ao espaço

Em 20 de julho, completam-se 50 anos da chegada do homem à Lua, uma saga tecnológica e militar com reviravoltas

As disputas políticas e militares foram o motor dos avanços científicos e tecnológicos que levaram o homem ao espaço e, há 50 anos, à Lua. No domingo 20 de julho de 1969, os astronautas norte-americanos Neil Armstrong (1930-2012) e Edwin Aldrin deixaram o módulo de comando e serviço sob o controle de Michael Collins e, horas mais tarde, a bordo do módulo de pouso Águia, desceram no mar da Tranquilidade, na face lunar sempre visível a partir da Terra. O feito histórico foi acompanhado por milhões de pessoas no mundo, via transmissão televisiva, e marcou o fim da corrida espacial entre os Estados Unidos e a ex-União Soviética, as duas potências econômicas e militares da época.

Ápice da corrida espacial, a ida à Lua exigiu um investimento pesado no desenvolvimento de tecnologias que permitissem construir um foguete potente o suficiente para vencer a gravidade terrestre e impulsionar uma cápsula a cerca de 40 mil quilômetros por hora para além da órbita do planeta. A cápsula tinha de estar preparada e ser resistente o suficiente para, no retorno, ser freada pelo atrito da atmosfera terrestre e aquecida a alguns milhares de graus Celsius, sem fritar seus ocupantes. Do ponto de vista operacional, foi preciso investir no intenso treinamento físico e emocional da equipe que faria as viagens, em geral ex-pilotos de caça. Foi assim que nasceram programas como o Mercury, o Gemini e o Apollo, no lado norte-americano, e vá-

rios secretos (entre eles o Zond), no lado soviético. O objetivo era preparar astronautas e cosmonautas para resistirem às condições da viagem e, se preciso, operar e até fazer reparos nas naves durante o voo.

Só o programa Apollo, o mais conhecido, teria consumido de 1960 a 1972 US$ 163 bilhões, em valores de 2008.

Todo esse esforço, porém, começou um quarto de século antes, como resultado de uma acirrada disputa política e militar entre os Estados Unidos e a União Soviética após o fim da Segunda Guerra Mundial. Ambos os países haviam saído política e tecnologicamente mais fortes da guerra, na qual foram aliados contra a Alemanha e os outros dois países do Eixo, Japão e Itália. Com a capitulação alemã, em 8 de maio de 1945, os quatro

países que partilhariam o território germânico após a Conferência de Potsdam, em agosto, estavam atrás dos espólios de guerra. Estados Unidos, França, Reino Unido e União Soviética tinham interesse especial em uma arma alemã que, mais tarde, ajudaria o ser humano a chegar ao espaço. Essa arma era o foguete V-2 (Vergeltungswaffe Zwei, arma da vingança dois), um míssil de 14 metros de altura, capaz de viajar acima da velocidade do som e levar 1 tonelada de explosivos a centenas de quilômetros de distância.

Seu criador era o jovem e talentoso engenheiro alemão Werner von Braun (1912-1977), que se tornaria o maior desenvolvedor de foguetes do mundo, até mesmo dos que levaram o homem à Lua. Von Braun e seus colaboradores começaram a trabalhar para o exército alemão em 1932, antes da ascensão de Hitler, e, dois anos mais tarde, já tinham desenhado os primeiros mísseis impulsionados por foguetes. Em 1937, o grupo criou o V-2, do qual foram produzidas 6 mil unidades nos dois últimos anos da guerra, em grande parte por prisioneiros de campos de concentração. Um quarto deles foi lançado contra a Inglaterra e outro tanto contra outros países, causando danos consideráveis. No início de 1945, com a aproximação dos exércitos aliados, von Braun percebeu que a guerra estava perdida e decidiu se entregar aos norte-americanos com os documentos técnicos sobre os mísseis.

“A Segunda Guerra Mundial mudou tudo no campo de desenvolvimento de foguetes”, escreve Roger D. Launius, historiador-chefe da Nasa de 1990 a 2002,

no livro The Smithsonian history of space exploration, de 2018. “Antes do conflito, o progresso na área de foguetes havia sido errático, mas a iminência da guerra serviu para destacar o potencial militar da tecnologia.”

Após a derrota alemã, oficiais da inteligência norte-americana iniciaram rapidamente a operação Clipe de Papel, que levou para os Estados Unidos pesquisadores e técnicos alemães altamente capacitados, incluindo parte do time de von Braun. Em setembro, um mês após os Estados Unidos lançarem bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão, von Braun e quase 120 colaboradores auxiliaram os norte-americanos a remontarem e testarem os V-2 levados da Alemanha. Naturalizados norte-americanos, os alemães começaram, alguns anos depois, a projetar mísseis mais avançados e de maior alcance, como o Redstone, mais tarde usado no treinamento dos primeiros astronautas.

o IN íc I o Da co RRIDa Embora houvessem ocupado a parte oriental da Alemanha, onde estavam as fábricas de V-2, os soviéticos foram mais lentos. Em seu livro, Launius relata que, logo após o final da guerra, o líder soviético Josef Stalin (1878-1953) enviou à Alemanha ocupada uma equipe coordenada por Sergei Korolev (1907-1966) para entrevistar engenheiros e técnicos que haviam participado da produção do V-2 e que não tinham sido capturados pelos outros aliados. Os soviéticos recuperaram material para reconstruir 12 mísseis e, em outubro de 1946, levaram cerca de 200 alemães que haviam trabalhado na

produção do V-2 para a União Soviética. Em outubro do ano seguinte, os soviéticos testaram seu primeiro míssil.

Em termos de poder de destruição a distância, a União Soviética estava atrás dos Estados Unidos. Só em 1949, os soviéticos testaram sua primeira bomba atômica, que, além de mais pesada, exigia o uso de aviões, navios ou submarinos para chegar à América do Norte e atingir o país que se tornava seu principal oponente. Com a piora nas relações com os ex-aliados, Stalin criou um programa de desenvolvimento de mísseis de longo alcance, coordenado por Korolev, um habilidoso engenheiro e gestor. A partir do V-2, os soviéticos desenharam mísseis cada vez mais potentes, até chegar ao R-7, o primeiro míssil balístico intercontinental. O R-7 era capaz de alcançar os Estados Unidos, mas só poderia ser lançado de alguns pontos da União Soviética. Enquanto os Estados Unidos começavam a usar os mísseis em pesquisas dos efeitos da atividade solar na Terra, planejavam lançar um satélite para coletar dados geofísicos da Terra e iniciavam programas para levar seres humanos ao espaço, Korolev vislumbrou uma jogada de marketing. Convenceu Nikita Krushev (1894-1971), sucessor de Stalin, a substituir o material explosivo de um R-7 por um satélite simples e colocá-lo no espaço. Em 4 de outubro de 1957, foi lançado o Sputnik 1, o primeiro objeto artificial na órbita do planeta – o satélite esférico de 84 quilogramas emitia um bip rastreável no mundo todo por operadores de rádio. “Esse feito teve um impacto simbólico importante”, explica o enge-

Foto tirada pelo astronauta
Neil Armstrong mostra sua própria sombra (à esq.) e o módulo de pouso da Apollo 11

nheiro mecânico José Bezerra Pessoa Filho, pesquisador aposentado do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), em São José dos Campos, e estudioso da história e da política da corrida espacial. “Mostrou aos Estados Unidos que a União Soviética tinha condições de atingi-los com armas nucleares em meia hora.”

Um mês depois do Sputnik, os soviéticos lançaram um foguete com a cadela Laika a bordo, colocando o primeiro ser vivo no espaço. Eles marcavam o segundo gol, antes que os Estados Unidos conseguissem pôr em órbita seu primeiro satélite, o Explorer 1, em janeiro de 1958.

Um lo N go p ER c URS o Incomodado com o avanço do país comunista, o então presidente norte-americano, o general Dwight Eisenhower (1890-1969), criou em 1º de outubro de

pioneiros no espaço

1958 a Nasa, unificando sob a administração de uma agência civil todos projetos relacionados ao setor espacial. Menos de uma semana depois, Eisenhower estabeleceu como meta para a agência colocar um norte-americano no espaço.

De 1958 a 1963, sete pilotos de caça foram treinados para ir ao espaço no projeto Mercury. Menos de um mês antes de o astronauta Alan Shepard (1923-1998) fazer o primeiro voo até a alta atmosfera, os soviéticos surpreenderam novamente. Em 12 de abril de 1961, o cosmonauta Yuri Gagarin (1934-1968) completou uma órbita ao redor da Terra a bordo da nave Vostok 1. Em seguida ao voo, o presidente norte-americano John Kennedy (19171963) fez um discurso cumprimentando os soviéticos e reconhecendo a desvantagem de seu país. “Estamos atrás... e as notícias vão piorar antes de melhorar, e

Os diretores de voo da Apollo 13 Gerald Griffin, Eugene Kranz e Glynn Lunney (na primeira fila, a partir da esq.) comemoram o pouso dos astronautas na água

Soviéticos lideraram os primeiros anos da disputa com os norte-americanos

out. 1957

primeiro satélite artificial (Sputnik 1)

Nov. 1957

Cadela Laika, primeiro ser vivo no espaço (Sputnik 2)

Jan. 1958

primeiro satélite americano (Explorer 1)

Set. 1959

primeira sonda lunar (Luna 2)

abr. 1961

Yuri Gagarin é o primeiro homem no espaço

levará certo tempo para alcançá-los”, disse Kennedy.

O voo de Shepard, em maio daquele ano, não atingiu a órbita, assim como o voo seguinte, realizado em julho por Virgil Grissom (1926-1967), cuja cápsula, após o retorno, afundou no oceano – ele foi resgatado a tempo por um helicóptero. Só em fevereiro de 1962, os norte-americanos voltariam a sentir orgulho. John Glenn (1921-2016), a bordo da cápsula Friendship7, completou três voltas ao redor da Terra. Em junho do ano seguinte, os soviéticos voltariam a incomodar novamente, colocando a primeira mulher, Valentina Tereshvova, no espaço.

Em seus primeiros meses de governo, Kennedy amargava outros contratempos, como o apoio à frustrada tentativa de invadir Cuba. Ainda em abril de 1961, ele pediu a seu vice, Lyndon Johnson (1908-1973), que consultasse a Nasa sobre a possibilidade de os Estados Unidos realizarem um feito difícil de ser alcançado pelos soviéticos. Com a garantia da equipe de von Braun de que seria possível levar um homem à Lua e trazê-lo de volta, em 25 de maio daquele ano, Kennedy fez um discurso impactante. “Acredito que esta nação deve comprometer-se a atingir o objetivo, antes que esta década termine, de

missão soviética

abr. 1962

primeira nave a atingir o lado oculto da Lua (Ranger 4)

missão norte-americana

Jun. 1963

primeira mulher no espaço (Valentina Tereshkova)

pousar um homem na Lua e devolvê-lo em segurança à Terra”, afirmou ao Congresso norte-americano. E prosseguiu: “Nenhum projeto de espaço neste período será mais impressionante para a humanidade, ou mais importante para a exploração espacial no longo prazo. E nenhum será tão difícil ou caro de realizar”. Era o início do programa Apollo.

Em paralelo ao projeto Mercury, encerrado em 1963, a Nasa treinou os astronautas no projeto Gemini para realizar manobras de acoplamento em órbita, necessárias para ir à Lua e retornar dela. Nesse meio tempo, missões robóticas dos Estados Unidos e da União Soviética foram enviadas ao satélite da Terra, novamente com os soviéticos saindo à frente. Em janeiro de 1967, em um voo simulado em solo, a Apollo 1, que seria lançada semanas mais tarde, pegou fogo e matou asfixiados os astronautas Virgil Grissom, Edward White (1930-1967) e Roger Chaffee (1935-1967). Com o revés, a Nasa mudou os planos e realizou uma série de voos sem tripulantes, com a na ve controlada remotamente. Só em 21 de dezembro de 1968, os astronau tas Frank Borman, James Lovell e William Anders deixariam o planeta a bordo da Apollo 8 e, na véspera de Natal, entrariam na órbita lunar. Em uma das 10 voltas ao redor da Lua, Anders tirou uma foto que se tornaria icônica: a Terra emergindo no horizonte lunar, hoje conheci da como Earthrise (o nascer da Terra). Antes de encerrar as trans missões para o comando da missão naquela noite, os três astronautas en viaram uma mensagem de Natal a quem os acompanhava em terra. Revezando

-se, leram os primeiros versos do Gênesis, deixando em silêncio e com os olhos marejados os integrantes do comando da missão, em Houston.

Houve ainda duas missões de teste –uma na órbita terrestre e outra na lunar – antes de o homem pôr, de fato, os pés na Lua. Em 16 de julho de 1969, a cápsula Apollo 11 partiu da Flórida, impulsionada pelo foguete Saturno 5, projetado sob o comando de von Braun, levando os astronautas Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins para a Lua. Collins permaneceu a bordo do módulo na órbita lunar, enquanto Armstrong e Aldrin desceram à superfície do satélite no módulo apelidado de Águia. “[É] um pequeno passo para [um] homem, um

grande salto para a humanidade”, disse Armstrong ao pisar o solo lunar.

Em duas horas, ele e Aldrin plantaram a bandeira norte-americana, coletaram rochas e fizeram fotos. Ao partir, deixaram uma parte do módulo com a mensagem: “Aqui, os homens do planeta Terra puseram os pés na Lua pela primeira vez, em julho de 1969. Viemos em paz em nome da humanidade”. Nos anos seguintes, outras seis naves foram à Lua, das quais cinco pousaram. Uma explosão no tanque de oxigênio danificou o módulo de serviço da Apollo 13 e obrigou os astronautas James Lovell, Fred Haise e John Swigert (1931-1982) a retornar sem descer no satélite natural da Terra. Segundo o historiador Roger Launius, as missões seguintes instalaram cerca de 50 equipamentos na superfície lunar e geraram dados publicados em mais de 10 mil artigos científicos. Elas também trouxeram 400 quilogramas de rochas, analisadas por quase 60 laboratórios. Na Apollo 15, os astronautas David Scott e James Irwin (1930-1991) encontraram uma rocha de 4 bilhões de anos, hoje conhecida como Pedra Gênesis. O desinteresse do público e os cortes orçamentários do início dos anos 1970, durante a Guerra do Vietnã, levaram a Nasa a cancelar as três missões finais do programa.

Em dezembro de 1972, Eugene Cernan (1934-2017) e Harrison Schmitt, da Apollo 17, foram os últimos a pisar a superfície da Lua. Deste então, ninguém mais voltou. Com a morte de Korolev em 1966 e problemas para desenvolver o foguete N-1, capaz de alcançar a Lua, os soviéticos nunca colocaram um cosmonauta lá. n Ricardo Zorzetto

Fev. 1966

primeiro pouso controlado na Lua (Luna 9)

Dez. 1968

1ª missão tripulada a orbitar a Lua (Apollo 8)

Jul. 1969

primeiros homens na Lua (Apollo 11)

Dez. 1969

2ª missão tripulada (Apollo 12)

Jul. 1971

3ª missão na Lua (Apollo 14)

Jul. 1971

Estreia do jipe lunar (Apollo 15)

abr. 1972

5ª missão na Lua (Apollo 16)

Dez. 1972

Última missão tripulada à Lua (Apollo 17)

local DE poUSo Da S mISSõES tRIpUlaDa S
apollo 15
apollo 17
apollo 11
apollo 16
apollo 14
apollo 12
Mar da Tranquilidade
Mar das Crises
Cratera Tycho
Cratera Copérnico
Mar da Serenidade
Mar das Chuvas
Oceano das Tempestades

Para entender a natureza das coisas

Diretora da National Science Foundation fala sobre a importância de financiar a ciência básica e analisa a contribuição das ciências humanas para a sociedade

Bruno de Pierro*

Foi o astronauta norte-americano Neil Armstrong, em sua histórica viagem à Lua em julho de 1969, que inspirou a jovem France Córdova, na época com 21 anos, a mudar radicalmente os rumos de sua carreira profissional. O feito reacendeu um antigo interesse por astronomia, justamente quando se formava em literatura inglesa na Universidade Stanford, nos Estados Unidos – o predomínio masculino no ambiente acadêmico a havia desencorajado de cursar física. Depois de trabalhar como redatora e re-

visora de texto, incluindo uma passagem pelo jornal Los Angeles Times, Córdova concluiu, em 1979, o doutorado em astrofísica no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), em Pasadena.

Ao longo de quatro décadas, assumiu diversas posições de liderança, como a de cientista-chefe da agência espacial norte-americana (Nasa) – foi a primeira mulher e a pessoa mais jovem a desempenhar essa função, entre 1993 e 1996 –, de chanceler da Universidade da Califórnia, em Riverside, em 2002, e de reitora da Universidade Purdue, em

France Córdova: “É preciso demonstrar por que um projeto de pesquisa é importante para as pessoas”

2007. Em 2014, o presidente Barack Obama escolheu-a para dirigir a National Science Foundation (NSF), principal agência de apoio à pesquisa básica dos Estados Unidos, com orçamento superior a US$ 8 bilhões, o equivalente a R$ 32 bilhões. Sob sua direção, a agência financiou, por exemplo, o projeto Ligo (Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory), que detectou ondas gravitacionais em 2015, rendendo um prêmio Nobel dois anos mais tarde a três físicos norte-americanos que lideraram a pesquisa.

Nascida em 1947 em Paris, filha de mãe irlandesa e pai mexicano, France Córdova esteve em São Paulo entre os dias 1º e 3 de maio para participar do 8o Encontro Anual do Global Research Council (GRC), que reuniu dirigentes de agências de apoio à pesquisa de 45 países. Em entrevista à Pesquisa FAPESP, ela falou sobre equidade de gênero na ciência e o impacto da pesquisa básica na sociedade e comentou as ambições do Plano S, uma iniciativa de acesso aberto para publicações científicas lançada pela Comissão Europeia.

A senhora foi cientista-chefe da Nasa e atualmente comanda a agência de fomento com um dos maiores orçamentos do mundo. De que forma a NSF apoia programas para estimular a participação feminina na ciência?

A equidade de gênero é uma grande preocupação e temos várias ações em andamento. Em muitas áreas, incluindo a minha, física, a representação feminina ainda é muito baixa, assim como nas engenharias e na matemática. O problema é menor nas ciências biológicas e sociais. Podemos dizer que, nos Estados Uni -

dos, o panorama está mudando de forma constante, mas lentamente. A NSF tem um programa chamado Advance, que investe em abordagens sistêmicas para aumentar a participação e o avanço das mulheres nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática [Stem]. O objetivo é encorajar as mulheres a buscar postos de liderança nas universidades. Fui pesquisadora principal desse programa quando dirigia a Universidade Purdue. Quando fui para a NSF, teve início o programa Includes [acrônimo para “inclusão de comunidades de aprendizes de descobridores sub-representados em engenharia e ciência em toda a nação”], que envolve mais de 70 programas-piloto por todo o país com diferentes estratégias para ampliar a representação da mulher e de outras minorias.

Qual é a ambição do Includes? Ele abrange desde programas de computação para crianças até estratégias para aumentar o número de faculdades e disciplinas em áreas estratégicas. Algumas dessas ações são lideradas por grupos comunitários, outras por universidades, fundações e sociedades científicas. Criamos uma rede para que esses projetos se comuniquem. Recentemente, concedemos um financiamento para que os participantes se reúnam, troquem experiências e aprendam boas práticas uns com os outros. Nossa expectativa é de que isso possibilite ganhos de escala dessas iniciativas para que não morram quando o projeto acabar. Queremos descobrir como fazer projetos que se tornem, de fato, exemplos de boas práticas de modo que sejam replicados em muitos outros lugares.

Que obstáculos a senhora teve de enfrentar para alcançar posições de liderança?

Tenho a opinião de que todos temos desafios, não importa quem você seja ou qual trabalho esteja fazendo. Um motorista de caminhão, por exemplo, está sujeito a muitos percalços quando vai de uma parte a outra do país. Sempre há obstáculos. Mas, evidentemente, mulheres na área de ciência e tecnologia enfrentam tipos particulares de desafios. Quando se é um motorista de caminhão, aprende-se com colegas de profissão em quais lugares não deve parar, qual estrada pegar, qual é a melhor tecnolo -

Boa parte de nosso portfólio compõe-se de pesquisas movidas pela curiosidade e nem temos ideia de quais descobertas vão surgir a partir delas

gia para fugir do trânsito. Aprende-se à medida que se experimenta a estrada e encontra pessoas solícitas e capazes de dar boas orientações. É possível tentar coisas novas: contornar o obstáculo ou tentar atravessá-lo. Tenho tido muitos desafios pelo caminho. Algumas vezes encontrei pessoas apegadas a posições de poder. Mas sempre há quem possa te apoiar e é preciso aceitar essa ajuda.

A reunião do GRC deste ano discutiu formas de avaliar o impacto econômico e social da ciência. Como fazer isso em relação à pesquisa básica?

Não é preciso adivinhar o impacto que a pesquisa básica terá em 10 ou 100 anos, até porque no caso da pesquisa movida pela curiosidade é difícil saber qual será seu resultado. Mas é preciso demonstrar por que um projeto de pesquisa é importante para as pessoas. Cerca de 50% das propostas que recebemos mencionam impactos como aumentar a representatividade das mulheres ou de pessoas

com baixo nível socioeconômico. Ou apresentam alguma estratégia para o treinamento da próxima geração. Portanto, estamos interessados em saber o impacto que a pesquisa pode ter em um período mais curto de tempo. Todas as propostas enviadas à NSF precisam incluir um plano indicando como os dados serão preservados e geridos e outro, de impacto, que deve envolver escolas e buscar o alcance público. Os astrônomos, por exemplo, criaram as chamadas star parties, que convidam a população a observar o céu noturno.

O financiamento público de pesquisas nas áreas de ciências humanas, como sociologia e filosofia, vem sendo questionado em muitos países, incluindo os Estados Unidos e o Brasil. Como demonstrar o impacto dessas áreas?

A NSF não financia projetos em filosofia, mas apoiamos estudos em economia e comportamento social. Na área de economia, já financiamos pesquisas que vieram a ganhar o prêmio Nobel. Um trabalho que encomendamos às Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos identificou uma série de casos que evidenciam como as pesquisas em comportamento social têm colaborado com disciplinas como as ciências da computação, ajudando-as a interpretar, por exemplo, por que há usuários da internet que cometem abusos ou fraudes. Com isso é possível entender que nem sempre as pessoas utilizam a tecnologia da forma mais apropriada. Isso reflete uma questão social, não tecnológica. Muitos projetos sobre segurança cibernética financiados pela NSF envolvem especialistas em comportamento social. Há estudos segundo os quais mais da metade das mortes causadas por desastres naturais, como terremotos e furacões, ocorre porque as vítimas não souberam tomar as melhores decisões no momento de escapar do perigo. Apoiamos pesquisadores para desenvolver métodos capazes de auxiliar as pessoas a responder corretamente aos alertas de desastre e isso exige conhecimento sobre comportamento humano.

Há um grau de interdisciplinaridade também em estudos sobre inteligência artificial, não?

Sim, e o campo do comportamento social

tem se mostrado essencial no desenvolvimento de novos algoritmos. Grandes empresas, como a Amazon, estão preocupadas em identificar e corrigir vieses discriminatórios embutidos em algoritmos de inteligência artificial. Estamos realizando chamadas em parceria com a empresa para financiar projetos que reúnam cientistas da computação e especialistas em comportamento social para encontrar soluções.

Na sua avaliação, estamos em um bom momento para fazer ciência, considerando que há pessoas em posição de poder que negam as mudanças climáticas e que movimentos anticientíficos, como o terraplanismo, ganham adeptos? Sim. Quanto mais elementos anticientíficos surgem, mais temos de acelerar a ciência. Não somos uma agência regulatória. Não estabelecemos regras sobre o que fazer com a ciência e também não elaboramos políticas públicas. A NSF é uma agência de fomento à pesquisa e a melhor forma de desfazer mitos e entender a verdadeira natureza das coisas é financiando pesquisas sobre como o planeta funciona.

Um dos temas discutidos na reunião do GRC foi a questão do acesso aberto às publicações científicas. Qual a posição da NSF sobre o Plano S, que propõe a divulgação imediata na web de artigos financiados com recursos públicos? Estamos, no momento, seguindo a política de acesso aberto estabelecida em 2016, sob a administração anterior. Isso não significa que não possa haver mudanças no futuro. Atualmente, a NSF determina que os artigos que resultem de projetos financiados pela agência sejam disponibilizados em acesso aberto um ano após sua publicação. Esta é a posição oficial da NSF no momento. O acesso aberto é uma questão importante e estamos discutindo, mas ainda não temos uma posição oficial em relação ao Plano S.

O governo dos Estados Unidos está propondo um corte de 12% no orçamento da NSF, mas a Câmara dos Deputados do país fez uma contraproposta, sugerindo um aumento de 7% das verbas para a agência em relação ao ano passado. Qual é sua expectativa em relação a isso?

O Congresso tem garantido o orçamento da NSF nos últimos anos. Mas, por enquanto, estamos esperando a decisão final. Ainda não está claro se o Congresso e a Casa Branca poderão chegar a um acordo sobre os gastos em 2020, antes do início do ano fiscal, no dia 1º de outubro de 2019. Estamos gratos pelo dinheiro que recebemos e sempre informamos o Congresso sobre o que já fizemos com os recursos que recebemos.

O que pode acontecer se o corte for aprovado?

Se aprovado, é claro que haverá corte nas atividades da NSF. Sempre buscamos ser mais eficientes e efetivos. Estamos fazendo mais parcerias, com empresas como Amazon e Boeing, por exemplo, como forma de expandir nossa base de recursos. Muitas vezes o setor privado é capaz de fazer coisas que o financiamento público não pode. Empresas e fundações privadas podem oferecer prêmios a pesquisadores ou promover competições. Governo e indústria devem trabalhar juntos e as parcerias público-privadas podem ser aprofundadas. Não

buscar apenas o lucro, mas também fazer avançar certas áreas de pesquisa importantes para o país. Mas isso não substitui o financiamento público, é apenas parte de nosso portfólio. As empresas procuram retorno no curto prazo, precisam dar satisfação e rentabilidade aos acionistas. Em nosso caso, muitos de nossos acionistas nem sequer nasceram. São nossos netos e bisnetos que vão se beneficiar da pesquisa que estamos financiando e conduzindo hoje. Boa parte de nosso portfólio compõe-se de pesquisas movidas por curiosidade e nem temos ideia de quais descobertas vão surgir a partir delas ou quanto tempo levaremos para nos beneficiar dos resultados.

Qual é a sua avaliação sobre a reunião do GRC realizada em São Paulo?

Eu aprendi muito com o GRC. Esta é a sexta reunião de que participo e sempre faço mais amigos. Em cada reunião escolhemos tópicos diferentes para discutir. O que o GRC faz melhor é reunir financiadores de pesquisa para conversar sobre os desafios comuns e quais soluções funcionaram bem. É muito interessante poder levar esse conhecimento para casa e discutir como aplicá-lo.

Como as discussões realizadas no evento poderão ajudar as agências a desenvolver melhor seu trabalho?

n em sempre as pessoas utilizam a tecnologia da forma mais apropriada e isso reflete uma questão social, não tecnológica

Perguntei aos integrantes do governing board [conselho diretor] como suas agências têm se beneficiado e eles disseram que as discussões do GRC permitem alavancar as ações que desenvolvem em seus países. Quando os participantes se reúnem e chegam a acordos sobre determinados princípios, como fizeram novamente este ano em relação à avaliação de impacto da pesquisa, isso realmente faz a diferença. É uma motivação para as agências seguirem nessa direção. O GRC tem grupos de trabalho voltados para assuntos específicos, como equidade de gênero na ciência e acesso aberto. Não há outra organização capaz de reunir as principais agências de fomento do mundo em torno dessas questões. O progresso da ciência depende de financiamento e as agências precisam ser capazes de demonstrar os benefícios da pesquisa para as pessoas que oferecem os recursos. n

*colaborou Karina Toledo, da Agência FAPESP

Liberdade para buscar o desconhecido

Presidente da Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa, a DFG, diz que é preciso preservar o espaço de pesquisas guiadas pela curiosidade dos cientistas

rodrigo de Oliveira a ndrade

o

filólogo alemão Peter Strohschneider, de 63 anos, defende que o apoio equilibrado a todas as áreas do conhecimento é essencial para qualquer país comprometido com o desenvolvimento no longo prazo. No entanto, destaca o potencial das ciências humanas: “Sem elas, estaríamos condenados a uma visão ingênua e limitada sobre as sociedades e suas dinâmicas e desafios”. Presidente da Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG), principal agência de fomento à ciência básica no país, ele esteve em São Paulo no início de maio para o 8º Encontro Anual do Global Research Council, o GRC (ver reportagem na pág. 36). Na entrevista a seguir, Strohschneider fala sobre as expectativas das sociedades em relação aos impactos econômicos e sociais de pesquisas, tema central do encontro, e a importância de manter um ecossistema equilibrado de financiamento, no qual sejam contemplados projetos talhados para gerar novos produtos e tecnologias e também aqueles guiados apenas pela curiosidade intelectual dos cientistas.

Por que o GRC decidiu discutir as expectativas em relação aos impactos econômicos e sociais da pesquisa?

O GRC lida com a relação entre ciência, pesquisa, sociedade e economia desde que foi criado. Já tratou dela em diferentes ocasiões, mas a decisão concreta de começar a discutir esse assunto de modo mais amplo se deu na reunião do último ano, em Moscou, na Rússia. Decidiu-se à época que o tema da reunião de 2019 deveria ser como as agências de financiamento poderiam lidar com essas expectativas.

Qual a importância dessa discussão hoje?

O aumento das expectativas sobre impactos sociais e econômicos da pesquisa não é algo novo.

O debate sobre se a ciência deveria se preocupar apenas em buscar a verdade, por meio de um conhecimento puro e integrado, ou almejar obter resultados que pudessem ter alguma utilidade prática se desenvolve desde que a ciência existe.

A questão com a qual os sistemas de pesquisa estão tendo de lidar nos últimos anos não envolve

Na DFG, Strohschneider atua para manter um ecossistema equilibrado de apoio a pesquisas que gerem inovações incrementais e disruptivas

apenas o crescimento de expectativas sobre impactos sociais e econômicos, mas também sobre impactos diretos e imediatos. O aumento dessas expectativas não reflete necessariamente uma deficiência da pesquisa, mas uma mudança do discurso acerca de expectativas políticas e justificativas sociais para o financiamento da ciência.

Há riscos ao se adotar o impacto econômico e social como critério para decidir se um projeto deve ou não ser apoiado?

A questão não é se a pesquisa deve ou não ter impacto. Nenhum pesquisador reivindicaria o direito de desenvolver um trabalho se não esperasse que ele pudesse ter algum impacto. Da mesma forma, nenhuma sociedade espera que os cientistas se dediquem a projetos que não tenham potencial de impacto. Não é essa a questão, pois não há pesquisa inócua em relação ao seu impacto. No entanto, as pesquisas podem apresentar diferentes tipos de impacto, como ampliar as fronteiras de algum tipo de conhecimento, contribuir para o desenvolvimento das sociedades, estimular inovações tecnológicas ou promover a formação de mão de obra científica qualificada. A questão principal é como as agências de financiamento podem lidar ou responder a essas expectativas sociais e econômicas.

E como o GRC tratou essa discussão? Optamos por nos concentrar em duas abordagens. Uma delas consiste em discutir se os impactos sociais e econômicos podem ser adotados pelas agências financiadoras como um critério no processo de decisão de financiamento de um projeto. Em outra frente, avalia-se se esses impactos deveriam ser adotados como um critério de avalia-

ção das pesquisas concluídas ou ainda em desenvolvimento. Ambas as abordagens exigem uma reflexão cuidadosa por parte das lideranças das agências de financiamento.

Por quê?

Os riscos de se implementar critérios de avaliação dos impactos de pesquisas concluídas ou em desenvolvimento são consideravelmente menores quando comparados aos riscos de se adotar critérios durante o processo de decisão de financiamento de projetos de pesquisa. Um projeto representa uma promessa. Decidir se um projeto será financiado com base no impacto esperado significa tentar antever algo que nem sequer começou e não se sabe se existirá. Não se pode dizer que isso seja uma base sólida de avaliação. Além disso, haveria o risco de os proponentes tentarem alinhar a seleção de seus tópicos de investigação às expectativas de impacto futuro das agências. Isso restringiria o espectro de suas pesquisas e a produtividade de seus autores, uma vez que os estimulariam a formular projetos apenas para solucionar problemas já conhecidos. Um sistema de financiamento científico moderno e produtivo precisa estar aberto ao financiamento de pesquisas que se debrucem também sobre questões desconhecidas pela sociedade.

Como isso vem sendo tratado pela DFG? Não muito diferente do que a FAPESP está fazendo. Nosso orçamento é de € 3 bilhões por ano. Esse valor vem sobretudo de impostos, dinheiro público repassado pelo governo federal e também pelos 16 estados alemães. Apenas uma pequena parcela da nossa receita advém de recursos privados. No entanto, independentemente do tamanho do orçamento, o objetivo basilar de toda agência de financiamento, nacional ou estadual, deve ser o de criar e manter um ecossistema equilibrado de pesquisa e financiamento, no qual sejam contempladas as pesquisas feitas com o objetivo de gerar novos produtos e tecnologias e também as guiadas pela curiosidade intelectual dos pesquisadores. É importante que as agências estabeleçam esse equilíbrio, ainda que seja legítimo que as sociedades esperem que estudos financiados com dinheiro público tragam um retorno tangível e imediato ou solucio -

Os regimes autocráticos temem a liberdade das ideias e o debate intelectual promovido nas universidades e vão sempre tentar restringir sua autonomia

preciso estar aberto a essa abordagem, que tem o potencial de produzir o que chamo de novo-novo, não o velho-novo ou o novo que eu já esperava. Os sistemas de pesquisa das sociedades modernas não podem focar apenas em inovações incrementais, que promovam pequenas melhorias ou atualizações em produtos, serviços, processos ou métodos já existentes. Precisam investir também em projetos que possam resultar em inovações disruptivas, um conhecimento que não se esperava obter quando se iniciaram os esforços de pesquisa.

nem problemas que elas julguem relevantes naquele momento. É fundamental que parte do financiamento não obedeça às hierarquias de relevância pública e expectativa de impacto e seja investida de modo autônomo, com o objetivo de preparar a sociedade para problemas que ela ainda não conhece.

Por que é importante manter o financiamento à pesquisa guiada pela curiosidade intelectual dos cientistas? É comum as sociedades questionarem a aplicação do dinheiro público nesse tipo de pesquisa, privilegiando atividades que deem um retorno visível e imediato, ainda mais em tempos de crise econômica e escassez de recursos. No entanto, é importante manter o financiamento porque a pesquisa guiada pela curiosidade tem o condão de produzir um tipo realmente novo de conhecimento, um conhecimento capaz de ir além das expectativas iniciais do cientista e da agência financiadora. Vivemos em sociedades, economias e culturas fortemente baseadas na noção de renovação, inovação e progresso, e os sistemas de pesquisa constituem a principal máquina responsável pela produção do conhecimento transformador. É

Como as agências financiadoras podem ajudar governos e tomadores de decisão a compreender e valorizar o investimento nesse tipo de pesquisa? Deixando claro que existem diferenças entre os sistemas sociais, políticos, econômicos e científicos que constituem as sociedades modernas e que cada um desses sistemas trabalha com princípios próprios e distintos uns em relação aos outros. Por exemplo, no âmbito do sistema educacional, as universidades, as escolas primárias e secundárias, os jardins de infância, cada um trabalha com um tempo próprio, específico em relação aos seus objetivos. Assim como o sistema educacional, o sistema de pesquisa também trabalha com um tempo próprio. Ocorre, no entanto, que o sistema de pesquisa precisa de tempo e financiamento. Ele também trabalha com base em perspectivas de longo prazo. É importante que os governos e tomadores de decisão percebam essas diferenças e entendam que as sociedades entrarão em colapso se elas não forem capazes de lidar com os sistemas que as compõem. No final das contas, esse argumento, apesar de mais complexo, tende a ser mais pertinente para os políticos e tomadores de decisão do que o discurso alternativo, baseado em promessas relacionadas aos possíveis impactos da pesquisa. O risco dessas promessas é que nem todas serão cumpridas em prazos que possam ser previstos.

Por exemplo?

A cura do câncer vem sendo reivindicada por cientistas de todo o mundo nos últimos 50 anos. No entanto, ainda hoje, as pessoas morrem por conta de complicações associadas ao câncer. O que a sociedade assimila disso é que algumas

das promessas feitas pelos sistemas de pesquisas foram exageradas, e isso não ajuda a gerar uma relação de confiança entre esses sistemas e a sociedade e seus governantes. Pelo contrário.

Como a DFG lida com esse assunto e que lição países como o Brasil poderiam tirar da experiência alemã?

Não sei ao certo que lição o Brasil poderia tirar, mas posso dizer, em relação ao sistema de pesquisa e de ensino superior da Alemanha, que os políticos aceitam e compreendem que a atuação seja feita de forma integrada e complementar, de modo a promover o equilíbrio entre o que chamamos de ciência básica e aplicada. Nesse sentido, o financiamento feito pelo Ministério Federal da Educação e Pesquisa da Alemanha torna-se complementar ao sistema da DFG. Claro que vez ou outra enfrentamos pressões para mostrar o impacto social ou a relevância econômica dos projetos que financiamos. No geral, porém, os líderes alemães compreendem a importância de se ter um programa que atue de forma autônoma em relação ao financiamento de diferentes tipos de pesquisas, sejam elas orientadas por programas temáticos e, portanto, aplicadas, ou guiadas pela curiosidade.

Em um discurso na reunião do GRC, o senhor mencionou riscos relacionados à onda de governos populistas em diversos países. Quais são esses riscos? Está cada vez mais claro que a ascensão de governos populistas ou de novas formas de políticas autocráticas está associada, entre outras coisas, ao surgimento de movimentos anti-intelectuais ou anticientíficos. Os casos envolvendo as mudanças climáticas e as vacinas são os mais comuns, mas nas últimas décadas passamos a testemunhar esse fenômeno também no âmbito dos estudos de gênero e das discussões sobre a importância das ciências humanas e da autonomia das universidades. O caso da Turquia é exemplar. Desde a tentativa frustrada de golpe de Estado, em julho de 2016, o presidente Recep Erdoğan vem promovendo demissões em massa de acadêmicos, com base em alegações duvidosas de ligações com o terrorismo. Na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orbán reduziu os recursos ou privatizou universidades, censurou conferências com temas que não eram de seu agrado.

Como podemos explicar esse fenômeno? Tem a ver com pelo menos dois fatores, na minha avaliação. Um deles diz respeito ao fato, observado ao longo da história, de os regimes autocráticos ou ditatoriais tradicionalmente terem medo da liberdade das ideias e do debate intelectual promovidos nas universidades. O outro ponto envolve a falta de compreensão por parte desses governos do que é uma universidade e qual a sua função. Isso está diretamente relacionado ao fato de esses governos negligenciarem as complexidades intrínsecas às sociedades modernas. Ao fazerem isso, ignoram, ou são incapazes de compreender, como funciona um sistema de pesquisa atual. Basta pegarmos o exemplo das humanidades. Eu estou convencido de sua importância no desenvolvimento das sociedades modernas. Compartilho da ideia de que as sociedades seriam simplesmente incapazes de se desenvolver e prosperar sem as humanidades. Sem elas, estaríamos condenados a uma visão ingênua e limitada acerca das sociedades e suas estruturas, dinâmicas e desafios.

Qual a importância de preservar a autonomia das universidades diante desse cenário?

Eu diria que as universidades são as máquinas por meio das quais as sociedades modernas produzem suas dinâmicas internas. Vez por outra, isso pode desencadear revoluções estudantis, mas não por culpa do sistema universitário, e sim de um processo inerente ao funcionamento dessas instituições no âmbito das sociedades modernas. Elas são dinâmicas, produzem tensões e mudanças de pensamento entre gerações. Isso contribui para que as pesquisas avancem, para que relações sejam revistas. A autonomia das universidades é o princípio basilar desse processo. Os governos autocráticos têm medo desse tipo de dinâmica e dessa capacidade de mudança e vão tentar de todas as formas restringi-las, interferindo na autonomia das universidades.

a s pesquisas guiadas pela curiosidade têm o condão de produzir um tipo de conhecimento que vai além das expectativas dos cientistas e das agências de financiamento

Como avalia a declaração de princípios aprovada na reunião do GRC? Fiquei muito contente com ela. Espero que contribua para o aprimoramento do debate sobre as expectativas da sociedade em relação aos impactos das pesquisas e ajude a orientar os membros do GRC. A questão é como tomar as melhores decisões, como elaborar prioridades para o sistema de pesquisa, como torná-lo equilibrado e plural em cada um dos países-membros do GRC.

O senhor acha que isso pode ser aplicado em países com contextos tão diferentes?

Creio que sim. Claro que será preciso adaptar ou modificar alguns pontos para que possam ser implementados em cada contexto. São princípios, não leis concretas. A proposta é que ajudem a orientar o processo de decisão. Nós os formulamos de modo claro e objetivo para serem facilmente implementados pelos membros do GCR. Em um momento em que a liberdade de pesquisa está sob pressão e cresce o ressentimento em relação a temas como mudanças climáticas globais, o papel do GRC torna-se ainda mais importante. Minha expectativa é de que os princípios endossados na reunião favoreçam o estabelecimento de uma rede de financiadores capaz de contribuir para um sistema internacional de pesquisa livre, aberto e produtivo. n

Benefícios do investimento em ciência

Reunião do Global Research Council em São Paulo

tratou do desafio de lidar com as expectativas crescentes da sociedade em relação aos impactos da pesquisa

Fabrício Marques, com Agência FAPESP

Cerca de 50 dirigentes de organizações de fomento à pesquisa de 45 países reuniram-se em São Paulo entre os dias 1º e 3 de maio para discutir políticas de financiamento à ciência e compartilhar experiências no 8º Encontro Anual do Global Research Council (GRC), entidade criada em 2012 para estimular a cooperação entre agências e semear boas práticas de gestão. A reunião foi organizada conjuntamente pela FAPESP, pelo Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), da Argentina, e pela German Research Foundation (DFG), da Alemanha. O tema do evento foi o desafio de responder a expectativas crescentes de governos e sociedades em relação aos benefícios econômicos e sociais da pesquisa – e de

lidar com cobranças para que a seleção e a análise dos resultados de projetos científicos sejam orientadas pelo impacto que podem alcançar. Nos últimos anos, os sistemas de avaliação vêm sendo pressionados a mensurar de forma mais ampla os efeitos positivos gerados pela pesquisa. Em vez de se ater exclusivamente à qualidade dos projetos, à robustez de seus resultados e ao mérito dos pesquisadores – critérios que nortearam o avanço da ciência por muito tempo –, a avaliação vem incorporando outras dimensões, como a possibilidade de subsidiar políticas públicas e de gerar aplicações com valor comercial ou potencial para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Isso criou novas tensões no trabalho das agências de fomento, que vêm se tornando intensas em diversos países.

Plenária do GRC no Hotel Renaissance, em São Paulo: agências compartilham experiências sobre gestão e financiamento

Uma declaração de princípios endossada pelos participantes do evento mostrou os contornos desse desafio. O documento pontua que nenhuma pesquisa é livre de impacto, mas ressalta que os ganhos podem aparecer de várias formas, como o avanço do conhecimento, a formação de profissionais de alto nível e a produção de inovações. Embora considerem naturais e legítimas as cobranças para que o investimento público em pesquisa produza resultados palpáveis, os signatários observam que o impacto nem sempre é previsível – ele pode ser mais ou menos intenso que o esperado ou demorar mais para ocorrer do que se gostaria. E ressaltam que descompassos entre expectativa e realidade não representam uma fraqueza dos sistemas de ciência e tecnologia, tampouco um déficit de qualidade das pesquisas.

O físico Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, lembrou que os benefícios da pesquisa, às vezes, aparecem tardiamente e mencionou o Google como exemplo da dificuldade de medir o impacto. “Os dois criadores foram bolsistas da National Science Foundation [NSF] em 1994, em um programa que visava criar bibliotecas digitais e métodos para a classificação de livros. Em 1998, desenvolveram o algoritmo que ranqueia páginas de internet. Em 1999, tentaram vender a empresa por U$ 1 milhão, mas ninguém se interessou. Baixaram o preço para U$ 700 mil. Ninguém quis. Se fôssemos avaliar o impacto do Google naquele momento, seria considerado um fracasso”, contou Brito Cruz, que no encontro foi eleito chair do Governing Board do GRC.

A astrofísica France Córdova, diretora da NSF, a principal agência de apoio à pesquisa básica dos Estados Unidos, enfatizou que é mais valioso demonstrar a importância de um projeto para as pessoas do que tentar adivinhar o impacto que ele terá. Segundo ela, a preocupação com os benefícios da ciência permeia o trabalho dos pesquisadores. “Cerca de 50% das propostas que recebemos mencionam impactos como aumentar a representatividade das mulheres ou de pessoas com baixo nível socioeconômico. Ou apresentam alguma estratégia para o treinamento da próxima geração”, afirmou (ver entrevista na página 28).

S oc IE dA d ES con S c IE nt ES

Segundo a declaração de princípios, lidar de forma positiva com as expectativas sobre os impactos econômico e social é importante para tornar as sociedades mais conscientes sobre os benefícios da ciência e aproveitar melhor essa contribuição. “Em alguma medida, os sucessos da ciência levaram as nações a acreditar no poder do conhecimento para desenvolver suas sociedades”, observou o biólogo Molapo Qhobela, presidente da National Research Foundation, da África do Sul. “À medida que mostramos que esse poder pode mudar a vida das pessoas, elas esperam que isso aconteça e passam a demandar mais.”

A questão central é encontrar um equilíbrio no financiamento a pesquisas com impacto econômico e social, que respondem à cobrança pelo retorno do financiamento público à ciência, e a projetos de investigação interessados primordialmente em fazer avançar o saber. “É preciso considerar tanto os retornos sociais e econômicos como a virtude da pesquisa orientada pela curiosidade, voltada a ampliar as fronteiras do conhecimento, como elementos essenciais para fomentar o desenvolvimento de ecossistemas nacionais vibrantes de pesquisa”, considerou o filólogo alemão Peter Strohschneider, presidente da DFG (ver entrevista na página 32).

O GRC defende a primazia do mérito científico na seleção de projetos para financiamento e recomenda separar os procedimentos de avaliação de excelência e os de impacto. De acordo com a declaração, o benefício econômico e social é um critério útil para induzir pesquisa aplicada, mas pode gerar efeitos colaterais indesejados se for adotado de modo indiscriminado em ciência básica – evitando, por exemplo, que um pesquisador apresente um projeto de escopo amplo ou arriscado por receio de que ele seja mal avaliado.

Representantes de agências de 45 nações participaram dos três

dias

de discussões

Uma base científica em todas as disciplinas permite enfrentar novos desafios que surgem na sociedade

sua instituição rejeita adotar o impacto social como critério para seleção de projetos porque isso comprometeria o ímpeto dos pesquisadores de correr riscos e o interesse da instituição de investir em pesquisas transdisciplinares. “Consideramos que nossa responsabilidade é de que a pesquisa encontre os mais altos estágios de qualidade e excelência”, disse, pontuando que a Áustria tem outra agência de fomento dedicada a aplicações da ciência.

A declaração de princípios ressalta a necessidade de investir em pesquisas de todos os campos do conhecimento, inclusive em áreas que podem não despertar interesse da sociedade em um momento específico. Isso porque a natureza dos desafios muda ao longo do tempo e é preciso estar preparado para enfrentá-los. “Manter uma ampla base de conhecimento é um pré-requisito para responder oportunamente quando surgem novos desafios da sociedade”, diz o documento.

O ecólogo Klement Tockner, presidente da Austrian Science Fund (FWF), agência que financia pesquisa básica na Áustria, explicou que

O encontro também deu voz a outras discussões. Representantes de agências de fomento da América Latina debateram a necessidade de ampliar o financiamento para manutenção de grandes instalações científicas, como a fonte de luz síncrotron brasileira Sirius, que está sendo finalizada em Campinas (SP), e o Laboratório Argentino de Feixes de Nêutrons (LAHN), em Ezeiza, na Região Metropolitana de Buenos Aires. “O custo de manutenção é muito alto. Será preciso obter recursos, de diferentes fontes, para que essas infraestruturas estejam permanentemente a serviço de multiusuários da comunidade científica latino-americana e F oto

internacional. Para isso, será preciso assegurar uma maior cooperação entre as agências de fomento à pesquisa da região”, disse Jorge Tezon, gerente de desenvolvimento do Conicet, principal agência de fomento à pesquisa da Argentina.

A importância de ampliar o espaço das mulheres na pesquisa também mobilizou os participantes do encontro. O Grupo de Trabalho sobre Gênero do GRC compilou 53 casos de promoção da participação feminina, distribuídos por 28 países. Um dos exemplos foi o da NSF, que desde 2001 investiu US$ 315 milhões para ampliar a inclusão e a equidade de gênero na força de trabalho científica dos Estados Unidos. Na Nova Zelândia, o Conselho de Pesquisa em Saúde conseguiu ampliar em 16% o contingente de pesquisadoras candidatas

tezon, do Conicet, Brito Cruz, da FaPe SP, e Strohschneider, da DFG, fizeram um balanço do evento

em um de seus programas ao investir em estratégias para prevenir vieses de gênero na avaliação de projetos. Outra iniciativa, da National Natural Science Foundation of China (NSFC), elevou para 40 anos a idade limite para participar de dois de seus programas. Com isso, o número de inscrições femininas cresceu 51% – a maternidade, como se sabe, costuma atrasar a carreira das pesquisadoras. “Os estudos de caso dão um quadro do estado atual da participação das mulheres em pesquisas científicas e indicam o que fazer para implementá-la”, disse a matemática Phethiwe Matutu, da National Research Foundation South Africa.

Ac ESS o A b E rto

Em um encontro paralelo à reunião, foram apresentadas iniciativas para estimular o acesso aberto a publicações científicas. Enquanto o Brasil mostrou o alcance da biblioteca virtual SciELO, criada em 1997 e que hoje reúne quase 300 revistas científicas franqueadas livremente na web, Colleen Campbell, pesquisadora da Max Planck Digital Library, apresentou a Open Access 2020 Initiative, que busca realocar recursos hoje gastos com a assinatura de periódicos para apoiar modelos de negócio sustentáveis de acesso aberto. Arianna Becerril, diretora da Rede de Revistas Científicas da América Latina e Caribe, Espanha e Portugal (Redalyc) – biblioteca digital que adota modelo parecido com o do SciELO –, falou sobre a AmeliCA, plataforma que busca promover o acesso aberto na América Latina e no hemisfério Sul, enquanto o sul-africano Molapo Qhobela, mostrou a African Open Science Platform, uma infraestrutura para a colaboração em pesquisa. “Nós, financiadores de pesquisa, não podemos resolver sozinhos a questão do acesso aberto, mas somos um elemento essencial e precisamos trabalhar juntos, assumir a responsabilidade de nosso papel no sistema acadêmico”, disse David Sweeney, presidente da Research England, um braço da principal agência de financiamento à pesquisa do Reino Unido, o UK Research and Innovation, incumbido de promover transferência do conhecimento científico para a sociedade. Sweeney apresentou o Plano S, iniciativa apoiada por um consórcio de agências, por meio da qual, a partir de 2021, todas as publicações científicas resultantes de pesquisas financiadas com recursos públicos passarão a ser divulgadas exclusivamente em acesso aberto (ver Pesquisa FAPESP nº 276). O encontro do GRC de São Paulo foi o primeiro realizado no Brasil. As três edições anteriores ocorreram em Moscou, na Rússia, Ottawa, no Canadá, e em Nova Délhi, na Índia. O próximo encontro, em maio de 2020, terá como sede Durban, na África do Sul, e vai abordar o engajamento público com a ciência e as pesquisas orientadas para responder a desafios globais e regionais. n

p O lítica c&ty

A construção do futuro

Decreto de 1989 criou um modelo original de financiamento que permitiu o crescimento extraordinário das universidades estaduais paulistas

Fabrício Marques

Oarranjo jurídico e orçamentário que garantiu estabilidade no financiamento das universidades estaduais paulistas completou três décadas de funcionamento. No dia 2 de fevereiro de 1989, o então governador de São Paulo, Orestes Quércia (1938-2010), assinou o Decreto nº 29.598, que estabelecia a autonomia de gestão financeira para as universidades de São Paulo (USP), Estadual de Campinas (Unicamp) e Estadual Paulista (Unesp), reservando um percentual fixo de 8,4% da arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para custear as três instituições. O Conselho dos Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), criado dois anos antes, ficou encarregado de organizar a distribuição dos recursos – em um primeiro momento, a USP recebeu 4,46%, a Unicamp, 2%, e a Unesp, 1,94%.

O decreto de 1989 tornou-se um marco no sistema de ensino superior brasileiro por produzir um modelo capaz de sustentar e fortalecer três

das maiores universidades de pesquisa do país, respeitando a liberdade de gestão e preservando o ambiente acadêmico da disputa por verbas com outros órgãos públicos e áreas de governo. Hoje, USP, Unesp e Unicamp respondem juntas por 35% de toda a produção científica nacional indexada na base de dados Web of Science. Curiosamente, as regras definidas naquele decreto são ainda hoje excepcionais, pois o modelo jamais vicejou fora de São Paulo. Nenhum outro estado adotou princípios semelhantes, tampouco as universidades federais chegaram a gozar de autonomia financeira. Também é notável que a regra se ampare em um simples decreto – cogitava-se que a Constituição Estadual ou a legislação ordinária tratassem do assunto, mas isso não aconteceu.

Mesmo assim, o modelo vem sendo reafirmado, ano a ano, nas leis orçamentárias aprovadas pela Assembleia Legislativa e foi chancelado por todos os governadores – dois deles, Luiz Antonio Fleury Filho e Mário Covas (1930-2001), am -

Esta é a primeira reportagem de uma série sobre os 30 anos da autonomia financeira das universidades estaduais paulistas

O governador

Orestes Quércia assinou o decreto da autonomia (íntegra ao lado) diante de reitores, como José Goldemberg, da USP, e do secretário de Ciência e Tecnologia Luiz Gonzaga Belluzzo

va Constituição Federal. O artigo 207 da Carta promulgada em 1988 estabelece “autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial” para as universidades e diz que elas “obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”. O físico José Goldemberg, reitor da USP entre 1986 e 1990, lembra que a versão preliminar desse artigo desenhado na Assembleia Constituinte continha uma ressalva que comprometia ou ao menos postergava o seu objetivo. “O final do artigo informava que a autonomia seria implantada ‘na forma da lei’. Isso remetia a discussão para a legislação comum e adiava sua implantação, o que aconteceu, aliás, com muitos outros artigos da Constituição”, recorda-se. O reitor da USP aproveitou a proximidade com o então senador Mário Covas, sub-relator da Constituinte com quem trabalhara na gestão do governador André Franco Montoro (1983-1987), e convenceu-o da importância de remover o adendo e manter a autonomia como uma regra geral. “Da forma como foi aprovado, não era mais necessário regulamentá-lo”, conta Goldemberg.

pliaram o percentual dedicado às universidades, que desde 1995 corresponde a 9,57% do ICMS.

“Essa reafirmação também distingue São Paulo dos demais estados e mostra a importância que as universidades têm na sociedade paulista”, diz o linguista Carlos Vogt, reitor da Unicamp entre 1990 e 1994. “Ninguém até hoje ousou profanar esse santuário.”

A conquista da autonomia financeira pelas universidades estaduais paulistas se enquadra no contexto histórico da redemocratização do país e, em particular, da elaboração de uma no -

O decreto da autonomia faz referência ao artigo 207. Mas a decisão do governador Orestes Quércia também teve razões particulares e conjunturais. A crise da década de 1980 produziu surtos de inflação alta e uma sucessão de planos econômicos que tentaram em vão controlá-la. Esse ambiente gerava perdas salariais e elas alimentaram greves que paralisaram as universidades estaduais paulistas em anos anteriores. “O governador sentiu que as pressões por verbas e reajustes seriam recorrentes. Ele não tinha intimidade com o ambiente acadêmico, mas, baseado no bom senso, teve a ideia de reservar um percentual da arre-

cadação e deixar para os reitores os bônus e os ônus de administrar esses recursos”, recorda-se Frederico Mazzucchelli, professor do Instituto de Economia da Unicamp, que era secretário de Economia e Planejamento do governo paulista. Segundo o economista, Quércia comunicou a ele sua ideia no meio de uma viagem de avião. “O governador me disse: ‘A gente dá o dinheiro para eles e acabou’.”

Mazzucchelli procurou o secretário de Ciência e Tecnologia Luiz Gonzaga Belluzzo, seu colega da Unicamp, e os dois passaram a trabalhar em uma proposta. “Curiosamente, a reação inicial dos reitores não foi favorável. Eles ficaram assustados e desconfiados. Apenas o reitor da Unesp Jorge Nagle ficou entusiasmado já no primeiro momento. Nossa briga foi mostrar aos reitores que aquilo era uma coisa importante”, lembra. Foi preciso também vencer vozes contrárias dentro do governo. O então secretário de Administração Alberto Goldman opôs-se à vinculação de recursos por considerar que ela impõe agendas de setores a governos democraticamente eleitos, mas foi voto vencido. Após várias rodadas de discussões com os reitores e secretários de governo, chegou-se à fórmula dos 8,4% do ICMS, que representavam a média do que as universidades haviam recebido nos três anos anteriores. “O reitor da Unicamp Paulo Renato Souza [1945-2011], que havia sido secretário da Educação anos antes, ajudou a fazer os cálculos”, recorda-se Goldemberg.

Em fevereiro de 1989, quando o decreto ficou pronto, o governador chamou os reitores a seu gabinete e oficializou o modelo. O geólogo Paulo Milton Barbosa Landim, que havia acabado de assumir o cargo de reitor da Unesp em substituição a Nagle, lembra que o governador mencionou a pressão das universidades como uma de suas motivações. “Ele foi claro em dizer que, por conta da autonomia didático-pedagógica que as universidades já detinham, não tinha ingerência no seu funcionamento. E considerou que, então, era melhor que a autonomia também fosse financeira e os reitores cuidassem também dos problemas dos professores e dos salários.”

Na opinião de Carlos Vogt, a discussão sobre os motivos do governador é secundária: “O importante é que havia um contexto que levou à autonomia e o governador tem o mérito de assinar o decreto. Isso é o que fica e seus desdobramentos são importantes até hoje para as universidades”. Vogt atribui o modelo a uma experiência particular do estado de São Paulo, que foi a criação da FAPESP, em 1962, apoiada à época em um fundo patrimonial formado pelo governo e na vinculação de 0,5% da arrecadação de impostos do estado para financiar a pesquisa

a agenda da pesquisa e das universidades ganhou força nos anos 1980 e era valorizada na a ssembleia legislativa, lembra a loysio
Nunes Ferreira

científica. “A FAPESP nasceu de um movimento em favor da inteligência, da produção científica e cultural que permeou a Assembleia Constituinte de 1947. Isso criou um paradigma que diferenciou o estado e foi uma referência importante para que se estabelecesse o movimento no sentido da criação da autonomia financeira das universidades”, afirma o linguista, presidente da Fundação entre 2002 e 2007.

Não foi por coincidência, observa Vogt, que, oito meses depois do decreto de Quércia, a nova Constituição Estadual paulista ampliou de 0,5% para 1% a fração da receita tributária estadual destinada à FAPESP, incorporando o investimento em desenvolvimento tecnológico às atribuições da Fundação. “A agenda da pesquisa e das universidades ganhou força naquela época e era valorizada pelos deputados estaduais do PMDB, que eram maioria na Casa”, recorda-se o então líder do governo na Assembleia Legislativa Aloysio Nunes Ferreira, autor da emenda que ampliou o percentual de recursos para a FAPESP na Constituição paulista. Segundo ele, outras iniciativas em favor da ciência marcaram os governos Montoro e Quércia, como a criação da carreira de pesquisador científico e a revitalização dos institutos estaduais de pesquisa. “A redemocratização deu impulso às reivindicações da universidade. O governador Quércia, um político que ganhou expressão justamente na redemocratização, era sensível a isso”, afirma.

O efeito prático da autonomia é que as universidades puderam se organizar e planejar seu desenvolvimento. Segundo José Goldemberg, foi possível dar sequência ao esforço, que se iniciara em meados dos anos 1980, de reformular as carreiras de docentes e técnicos em moldes mais adequados para a universidade. Também acabou a necessidade de sair de “chapéu na mão” em diversos órgãos do governo para garantir recursos para as instituições. “Eu me lembro de ter de conversar com a Secretaria de Administração sobre as regras de pagamento de diárias e horas extras para motoristas que levavam diretores de unidades da USP do interior para São Paulo”, conta Goldemberg. Após o decreto, a Unicamp lançou seu Projeto Qualidade, que incentivou os professores a obterem, no mínimo, o doutorado. “Metade do corpo docente naquela época era de professores-mestres. Hoje são praticamente todos

iNDicaDORES DE pRODUtiViDaDE

O balanço dos 30 anos de autonomia

a evolução de indicadores das três universidades estaduais paulistas desde que passaram a gozar de autonomia financeira, em 1989 – só o número de docentes e de funcionários caiu

16,14 | Publicações Web of Science

doutores”, observa Vogt. “Mesmo um ambiente de turbulência econômica, como o que se seguiu ao Plano Collor, em 1990, pode ser enfrentado pelas universidades com a garantia dos recursos.”

Alguns conflitos perduraram. A Unesp, a mais jovem e descentralizada das universidades estaduais paulistas, ressentia-se do quinhão do ICMS que lhe coube. “O cálculo foi feito com base no que as universidades haviam recebido nos três anos anteriores, mas a Unesp foi sacrificada porque pouco antes do decreto, em agosto de 1988, seus custos fixos aumentaram bastante

6,91 | Títulos de doutorado 4,02 | Títulos de mestrado 2,99 | Matrículas de PG

2,08 | Matrículas de graduação 2,32 | Títulos de graduação

1,76 | Vagas de graduação

1,51 | Receita do Tesouro

0,99 | Docentes

| Funcionários

* Valores médios de 2017, corrigidos pelo iGP-Di

com a incorporação de uma grande unidade, a Universidade Municipal de Bauru. E a média dos três anos não considerou isso”, lembra Landim. O problema foi atenuado com as decisões dos governadores Fleury e Covas de elevarem o percentual em 1990 e 1995, ainda que o acréscimo tenha sido distribuído entre as três universidades. “Foi a Unesp que esteve mais à frente dessas articulações”, diz o ex-reitor. Ele atribui à autonomia a consolidação da Unesp. “Tínhamos como espelho a USP e a Unicamp, que eram as duas melhores do país, e a estabilidade dos recursos nos ajudou a moldar a nossa qualidade.”

Odecreto da autonomia financeira trazia uma recomendação que não foi seguida. Sugeria-se que as universidades não ultrapassassem com gastos de pessoal 75% dos recursos recebidos do Tesouro. Em anos recentes, o crescimento dos gastos com salários e a queda na arrecadação de impostos decorrente da crise econômica as obrigaram a utilizar reservas e a fazer cortes, porque o comprometimento com salários superou o total dos repasses. “Se há algo de que me arrependo foi não ter brigado para que a recomendação fosse uma obrigatoriedade”, afirma José Goldemberg. “Na época, achamos que ficaria estranho o governo nos obrigar a fazer algo no texto de um decreto que nos garantia autonomia.” Segundo o ex-reitor da USP, o comprometimento dos recursos com salários tornou-se um inimigo da autonomia universitária. “Para exercer uma gestão realmente autônoma, é preciso ter uma margem de recursos que permita ao reitor investir no rejuvenescimento da universidade e no investimento em áreas emergentes. Com a crise, os atuais reitores perderam muito dessa capacidade.” n

Com eventos em 85 cidades, o Brasil se destacou no Pint of science, festival que acontece em 24 países

Carla Aranha

Ciência entre goles de cerveja

Na penúltima semana de maio, bares de 85 cidades brasileiras ofereceram aos clientes um programa inusitado: no lugar de música ao vivo, a atração eram pesquisadores de vários campos do conhecimento, que apresentavam seus trabalhos e respondiam a perguntas dos frequentadores, entre goles de cerveja. Era o festival Pint of Science, criado no Reino Unido em 2013 e hoje realizado simultaneamente em 24 países, como Espanha, Tailândia, Canadá, Estados Unidos e Costa Rica – em nenhum deles o evento espalhou-se por tantas cidades como no Brasil.

Violência urbana, jogos digitais, arqueologia, línguas indígenas e comunicação foram alguns dos múltiplos temas abordados no festival.

Boa parte do público é formada por leigos.

“Levar informação científica para pessoas que não estão familiarizadas com a ciência é um dos nossos objetivos”, diz a bióloga Natalia Pasternak Taschner, coordenadora nacional do festival.

No dia 22, uma quarta-feira chuvosa e de trânsito intenso em São Paulo, dezenas de pessoas chegaram antes das 19h ao bar Tubaína, no bairro da Bela Vista, para assistir a palestras sobre exoplanetas e a formação do Universo.

O local estava lotado – quem não conseguiu um lugar, procurou ouvir do lado de fora, na calçada. Rogério Rosenfeld, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Física e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e Adriana Valio, coordenadora de pós-graduação em ciências e aplicações geoespaciais da Universidade Mackenzie, falaram sobre a expansão do Universo e planetas em outras galáxias.

Até os garçons pararam para ouvir. “Queria saber mais sobre as estrelas anãs e o Universo

e finalmente consegui entender melhor esse assunto, que parece bem complexo”, conta a advogada Paula Silva, de 28 anos.

No Delirium Café, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, os temas abordados eram múltiplos: times de pesquisadores de diversas áreas – da física quântica à ciência do esporte, passando por vulcanologia e mudanças climáticas –propuseram-se, nas noites dos dias 21 e 22, a peregrinar de mesa em mesa e responder a todo tipo de pergunta. “Foi uma delícia conversar sobre ciência em um bar lotado”, diz o físico Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), um dos participantes.

O festival expandiu os seus limites. Em São Paulo, pela primeira vez houve eventos do Pint of Science na zona leste da cidade. Pesquisadores de diferentes áreas se reuniram para um papo sobre ciência no Armazém 77, bar localizado no tradicional bairro da Penha. Eles apresentaram seus trabalhos e discutiram, entre outros temas, os cortes impostos pelo governo para o financiamento da ciência e tecnologia e educação no país. No dia 21 de maio, a psicóloga Elizabete Cruz, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, falou sobre os processos de gestação e parto e sua relação com questões de raça e gênero. Em seguida, as farmacêuticas Jeanine Vargas e Elizabeth Ferreira, ambas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, apresentaram o conceito de doenças negligenciadas, com foco em doença de Chagas e leishmaniose, explicando suas causas, consequências e tratamentos. Para fechar a noite, o bioquímico Maurício Baptista, do Instituto de Química da USP, expôs alguns resultados de suas pesquisas envolvendo os

No Delirium Café, em são Paulo, o festival teve apresentações (na página ao lado) e rodízio de cientistas nas mesas, como o físico Paulo Artaxo (à esq.)

efeitos da luz solar visível na pele. Ele também discutiu a importância do uso de filtros solares para a saúde da pele.

Na mesma noite, a hamburgueria Taverna Medieval – ponto já tradicional do Pint of Science no bairro paulistano da Vila Mariana – estava repleta de convivas compartilhando mesas sem deixar um assento vago. Ali ouviram, vários deles usando os capacetes com chifres que fazem parte da ambientação bem-humorada, sobre como a neurociência embasa a pesquisa sobre bem-estar e puderam refletir sobre modos mais saudáveis de se viver. Os palestrantes eram a psicobióloga Elisa Kozasa (vestindo o que afirmou ser um manto medieval, dentro do espírito irreverente do evento), pesquisadora do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein, e o engenheiro-agrônomo Carlos Henrique Amaral de Souza. Só ao fim o público soube que ele é também monge budista – usa o nome lama Rinchen

Kyenrab. A abertura da noite foi uma apresentação resumida da peça teatral Mary e os monstros marinhos, do grupo Companhia Delas, que conta a história da inglesa Mary Anning, descobridora de fósseis no século XIX, atividade inédita para uma mulher à época.

Na cidade gaúcha de Alegrete, o bar Tio Bola Cervejas Especiais teve apresentações sobre nanotecnologia, modelagem atmosférica e mudanças climáticas. Já em Belém, as atividades se espalharam por quatro bares e abordaram temas como dietas e Amazônia. Moradores de Nilópolis, na Baixada Fluminense, aprenderam um pouco sobre neurociência, no

bar Garage, Rock & Beer, com Thiago Matos Pinto, especialista em ciência da computação do campus Nilópolis do Instituto Federal do Rio de Janeiro.

O Pint of Science foi criado em maio de 2013 em Londres por dois pesquisadores do Imperial College, o biólogo Michael Motskin e a neurocientista Praveen Paul, especialistas em doenças degenerativas. A ideia surgiu um ano antes, quando eles convidaram pacientes de Parkinson, Alzheimer e esclerose múltipla para conhecer o laboratório onde trabalhavam e suas pesquisas. “Sempre tivemos vontade de comunicar ao público do que trata o nosso trabalho, de uma maneira simples e acessível, e a interação com os pacientes em 2012 mostrou que isso é possível”, diz Praveen Paul. A dupla procurou donos de pubs em Londres e apresentou a eles a ideia de levar cientistas para falar sobre suas áreas em dias da semana, entre segunda e quarta-feira, quando os bares costumam ficar mais vazios. A conta é paga pelo cliente – o pub fica responsável pelo equipamento audiovisual e de som. “Muita gente foi e vimos que nossa ideia seria um sucesso”, conta Motskin.

Com a ajuda de colegas, Motskin e Paul criaram um site para divulgar o Pint of Science. A intenção era promover a ideia no Reino Unido e difundir o conceito do festival para outros países, com o objetivo de aproximar os cientistas e a sociedade em um ambiente informal. Pesquisadores de outros países ficaram sabendo do evento e resolveram reproduzi-lo. “É importante comunicar o que é o conhecimento científico, desfazer preconceitos e mostrar que os cientistas são pessoas comuns, como todo mundo”, diz Natalia Pasternak.

A primeira edição brasileira aconteceu em 2015, em dois bares de São Carlos, no interior de São Paulo, por iniciativa da jornalista Denise Casatti, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP. Ela obteve autorização dos mentores britânicos, conversou com os donos dos bares e cuidou da programação. No ano seguinte, Natalia Pasternak assumiu a coordenação. Em 2016, o Pint of Science foi realizado em sete cidades, entre elas São Paulo, São Carlos, Campinas e Belo Horizonte. “Era quase uma ação entre amigos, que estavam fazendo um esforço conjunto para promover o festival no país”, lembra a

A peça Mary e os monstros marinhos antecedeu a fala de pesquisadores na Taverna Medieval, em são Paulo
No Armazém 77, no bairro da Penha, o Pint of science chegou à zona leste de são Paulo

bióloga. “O desafio maior foi convencer os estabelecimentos comerciais a participar, porque ninguém conhecia o evento e não entendiam por que queríamos falar sobre ciência em um bar ou restaurante em plena segunda ou terça-feira.”

Em 2017, alcançou 22 cidades brasileiras e, no ano passado, 56 municípios sediaram o evento. Em três anos, o festival cresceu a ponto de ter oito coordenadores regionais e uma equipe nacional de 10 pesquisadores, que atendem a um público de centenas de pessoas e filas de pesquisadores desejosos de participar. Cerca de 2 mil voluntários, entre cientistas, jornalistas e analistas da comunicação, colocaram o festival de pé neste ano. Todos doam seu tempo para a realização das palestras e a escolha dos bares. As sugestões de temas a serem apresentados são analisadas durante meses pelos coordenadores. É tomado um cuidado especial para haver um equilíbrio entre temas científicos complexos e outros com os quais o público já tem algum contato.

Os pesquisadores em geral saem felizes com essa troca. “Aprendemos a nos comunicar de uma maneira acessível, para que todos entendam, ao invés de usar termos científicos com os quais estamos acostumados”, diz Patricia Brum, do Departamento de Biodinâmica da Escola de Educação Física e Esporte da USP. Ela explicou as atividades do seu laboratório e o impacto do exercício físico no organismo em um bate-papo no Finnegan’s Pub, em São Paulo, em 2017. Patricia conta que ficou meses prepa-

rando sua apresentação, que teve a colaboração da filha Ana Luiza, à época com 13 anos. A adolescente teve a ideia de desenhar um ônibus de dois andares, com um motorista, sentado, e um cobrador subindo e descendo os degraus, para mostrar a diferença na atividade física diária realizada por cada um deles. “Ela gosta de ciência e lê muito”, diz a pesquisadora. “É ótimo poder envolver as novas gerações na busca pelo conhecimento.”

Despertar a curiosidade e levantar questionamentos é um dos objetivos do Pint of Science. O bioquímico Walter Colli, do Instituto de Química da USP, participou da edição do evento em 2016 no qual fez uma apresentação sobre biotecnologia e segurança alimentar. “Muitas vezes, há um desconhecimento sobre o significado das palavras, o que acaba criando ideias equivocadas”, afirma. “É o que acontece, por exemplo, com o termo ‘transgênicos’. Pouca gente sabe realmente do que se trata e a maioria tem medo, por acreditar ser algo prejudicial à saúde, o que está longe da verdade.”

Para os organizadores e pesquisadores envolvidos no evento, a participação crescente do público e a diversidade de temas contribuíram para impulsionar a divulgação científica. “Quanto maior o número e a qualidade dos canais utilizados para transmitir o conhecimento, melhor”, diz Alicia Kowaltowski, também do Instituto de Química da USP. Em 2016, ela abordou os mecanismos do metabolismo do corpo humano no restaurante Tartar & Co, em São Paulo, e no ano seguinte voltou a participar do festival, dessa vez na Pizzaria Dona Firmina, no bairro de Moema. Gostou das experiências e espera repeti-las. “Gostei muito de poder usufruir da oportunidade de estar com o público trocando ideias de uma forma tão agradável sobre o que acontece com o nosso corpo”, afirma. Ao menos uma parte dos participantes que assiste aos eventos acaba se engajando nos assuntos, gerando novas interações com os pesquisadores. Desde o ano passado, uma vez por mês é realizada uma conversa de 20 minutos sobre física com pesquisadores da área no bar Tubaína, organizada pelo Centro Internacional de Física Teórica/ Instituto Sul-americano para Pesquisa Fundamental (ICTP/SAIFR), que também promove eventos sobre ciência no Instituto Moreira Salles, em São Paulo. “Observar o interesse das pessoas e o quanto o festival abre as portas para o conhecimento é muito gratificante”, diz Natalia Pasternak. n

*Colaboraram Maria guimarães e rodrigo de oliveira Andrade

Cenas do festival no Brasil: 2 mil voluntários organizam a programação e escolhem os bares

Bactérias contra doenças

Transplante de microbiota fecal e alimentos com microrganismos vivos são testados no combate a infecções

VEr são ATuAlIz ADA EM 10/06/2019

alterar a população de microrganismos que habitam o intestino humano com fins terapêuticos é uma área de pesquisa em alta. Mais de 500 pessoas no mundo já se submeteram ao transplante de microrganismos do intestino, a chamada microbiota, para tratar uma infecção recorrente causada pela bactéria Clostridium difficile que nem sempre desaparece com o uso de antibiótico. Reconhecido em 2013 por uma decisão provisória da FDA, a agência de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, mas ainda sem o status de procedimento médico, o transplante de microbiota fecal (TMF) consiste na transferência de fezes de um doador saudável para uma pessoa doente, geralmente por colonoscopia, para repor a microbiota e restabelecer o equilíbrio do organismo. A eficácia dessa técnica contra C. difficile pode atingir 90%, embora o tempo de duração dos benefícios seja incerto. Além das bactérias, fazem parte da microbiota intestinal vírus, fungos e vermes. Evidenciada em laboratório nos últimos anos, a capacidade de as bactérias eliminarem outras bactérias e fortalecerem as defesas ou regularem o metabolismo do organismo em que se abrigam está sendo avaliada em cerca de 150 testes clínicos em andamento principalmente nos Estados Unidos; se avançarem, poderiam representar novas estratégias de tratamento para doenças intestinais, câncer, diabetes e transtornos psiquiátricos. As perspectivas de novos tratamen-

tos gerados pelo uso do microbioma motivaram a abertura, em 2012, da OpenBiome, organização não lucrativa norte-americana que opera como um banco público de fezes para transplantes. No Brasil, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) criou, em setembro de 2017, o Centro de Transplante de Microbiota Fecal. Desde o início de 2018, o centro mineiro fez o TMF para tratar infecções por C. difficile resistentes a antibióticos em seis pessoas, das quais cinco apresentaram bons resultados. A técnica não funcionou em uma das mulheres, que depois voltou ao tratamento por antibióticos e não apresentou mais diarreias; uma das hipóteses cogitadas para explicar esse resultado é que o transplante possa ter favorecido a ação dos antibióticos. Como nem a doação nem o transplante estão regulamentados no Brasil, há muito a ser feito. “Ainda não sabemos ao certo como selecionar doadores”, reconhece o gastroenterologista Daniel Terra, gerente do centro. “Temos de ser muito cautelosos.” Um grupo inicial de 134 voluntários foi selecionado por meio de entrevistas e de exames que rastrearam agentes causadores de infecções, principalmente C. difficile; no final, restaram apenas dois doadores.

A Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, tratou duas pessoas por TMF, com sucesso em um dos casos. O primeiro, em junho de 2014, era um homem de 85 anos que procurou o hospital com uma he-

Placa de cultura com Yersinia pseudotuberculosis, que pode causar uma infecção benéfica no organismo humano

morragia digestiva. A causa era um sangramento no duodeno, logo estancado, mas apareceu uma infecção urinária e cinco dias após uma intensa diarreia. Os médicos identificaram C. difficile e diagnosticaram colite pseudomembranosa, não resolvida com sucessivos antibióticos.

Com a colaboração do biólogo Josias Rodrigues, do Instituto de Biociências da Unesp, também em Botucatu, a equipe do gastroenterologista Fernando Romeiro recolheu fezes da filha do paciente oito horas antes do transplante, o primeiro realizado na universidade. O material foi diluído em soro fisiológico, filtrado e implantado por colonoscopia na porção inicial do intestino grosso. “Não sabíamos se e quando o paciente poderia melhorar, porque já estava bem debilitado”, relatou Romeiro. Um dia depois do transplante, o homem de 85 anos já se sentava na cama e se alimentava normalmente, sem cólicas nem diarreia. Exames não identificaram as toxinas de C. difficile nas fezes e ele deixou o hospital três dias depois.

O outro caso foi o de um rapaz de 17 anos que chegou ao hospital com diarreia sanguinolenta e dores abdominais. O diagnóstico revelou uma doença inflamatória intestinal chamada retocolite ulcerativa. Como os medicamentos não funcionaram, submeteu-se a um TMF, com fezes doadas pelo pai. Depois de 30 dias, os sintomas reapareceram. Oito meses depois foi feito outro transplante, que também não resolveu. O rapaz então ingressou em um estudo clínico de avaliação de um novo fármaco, que aplacou parcialmente sua doença.

“Hoje sabemos que o transplante de microbiota fecal deve ser repetido algumas vezes por semana, para as bactérias se fixarem no intestino”, comenta a também gastroenterologista da Unesp Ligia Sassaki, coordenadora desse trabalho, publicado em fevereiro na Journal of International Medical Research. Segundo ela, talvez o melhor não seja um doador único, mas uma combinação de fezes de doadores selecionados. Os médicos pretendem avaliar em seus pacientes, assim que possível, o efeito de fibras vegetais, que mostraram ação anti-inflamatória em experimentos com modelos animais realizados pelo biólogo Luiz Stasi, também da Unesp de Botucatu.

p r obiÓtico S

Outra linha de pesquisa explora os efeitos dos alimentos e bebidas com microrganismos vivos, os probióticos, como os iogurtes. Não é uma abordagem nova: no livro O prolongamento da vida, de 1906, o imunologista ucraniano Elie Metchnikoff (1845-1916) argumentava que o consumo de leite fermentado preparado com Bacillus bulgaricus –ou seja, iogurte – poderia ajudar a viver mais. Os probióticos são fáceis de produzir e usar, mas ainda há debates sobre a padronização da pro-

dução e sua ação no organismo. “Não sabemos se as bactérias consumidas como probióticos conseguem efetivamente colonizar o intestino e ter os mesmos efeitos em todas as pessoas”, alerta a pesquisadora Caroline Ferreira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em Diadema. Ela verificou que a atividade das bactérias varia de acordo com a genética do organismo em que se instalam. A suplementação alimentar com Bifidobacterium adolescentis reduziu parcialmente a alergia respiratória em camundongos da linhagem genética Balb/c, mas praticamente não teve efeito nos de outra linhagem, a C57BL/6, como descrito em abril de 2018 na Beneficial Microbes

Os benefícios das bactérias ainda não estão claros e os resultados das pesquisas às vezes são contraditórios. Em 2015, um grupo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul apresentou um estudo na revista Nutrition and Cancer mostrando que as 23 pessoas que haviam passado por cirurgias de câncer abdominal e receberam uma mistura de quatro bactérias – Bifidobacterium bifidum, Lactobacillus acidophilus, L. rhamnosus e L. casei – por 14 dias apresentaram uma taxa três vezes menor de infecções e um tempo de internação 50% menor que o grupo controle, também de 23 participantes.

Da mesma forma, as relações entre a microbiota e o câncer ainda são incertas. “Tomar probiótico pode não ser uma boa estratégia para quem vai fazer imunoterapia”, observa a bióloga Diana Nunes, pesquisadora do A.C.Camargo Cancer Center. No início de abril, ela assistiu à palestra da médica Jennifer Wargo, pesquisadora do MD Anderson Cancer Center da Universidade do Texas, em um congresso sobre câncer em Atlanta, nos Estados Unidos. Wargo apresentou os primeiros resultados de seu estudo com

A bactéria

Clostridium difficile, combatida com o transplante de microbiota fecal

Isolamento de microrganismos intestinais de camundongo em laboratório da usP

46 pessoas com câncer, indicando que tomar probióticos livremente reduzia em 70% a resposta à imunoterapia.

No chamado trato gastrointestinal, o canal que se estende da boca ao ânus, vivem cerca de 100 trilhões de bactérias, uma quantidade 10 vezes maior que a de células humanas. Entre tantos micróbios, uma das estrelas do momento é Bifidobacterium longum, espécie inofensiva que habita o intestino e a vagina. Em um estudo publicado em fevereiro na revista Nutrition, pesquisadores do Centro de Pesquisa em Alimentação e Nutrição de Roma mostraram sua capacidade de aumentar as populações de um tipo de células de defesa, os linfócitos, que normalmente caem com o envelhecimento, em um grupo de 45 pessoas com pelo menos 75 anos de idade, em comparação com o grupo controle, de 34 pessoas.

E F E i to S variáv E i S Novamente, os resultados devem ser vistos com cautela. “Os efeitos variam de acordo com as espécies e linhagens de Bifidobacterium”, observa a bióloga Angélica Vieira, da UFMG. Em seu laboratório, ela usou uma linhagem de B. longum isolada de crianças sadias para testá-la no tratamento de

gota, artrites, pneumonia e outras infecções respiratórias em modelos animais. Dois outros probióticos, Lactobacillus casei e Propionibacterium freudenreichii, reduziram a mucosite, inflamação dos tecidos de revestimento da boca, garganta e intestino, comum em pessoas que passam por tratamentos quimioterápicos contra o câncer, como detalhado em um artigo de setembro de 2018 na Frontiers in Microbiology. Dietas à base de pectina, um tipo de fibra vegetal, ou com acetato, um ácido graxo (gordura) de cadeia curta produzido em abundância por essa espécie de bactéria, também levaram a resultados positivos em modelos animais. Inversamente, uma dieta pobre em fibras agravou as doenças.

“Alguns tipos de infecção, quando não são fatais, podem beneficiar o organismo”, diz a biomédica Denise Fonseca, da Universidade de São Paulo (USP). Em um estudo publicado na revista Cell em 2015, quando fazia um estágio de pós-doutorado nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, ela verificou que a bactéria Yersinia pseudotuberculosis causava lesões nos vasos linfáticos do intestino, responsáveis pelo transporte de partículas de gordura chamadas quilomícrons, e interferia em sua absorção. Ao mesmo tempo, causava uma inflamação crônica no tecido adiposo de camundongos. Esse efeito, no entanto, não era ruim. Os animais ganhavam peso e aumentavam a sensibilidade à insulina pelo tecido adiposo, a absorção de glicose, e, portanto, a capacidade de aproveitar carboidratos.

Outras espécies de bactérias da microbiota intestinal – avaliadas em colaboração com a imunologista Yasmine Belkaid, do NIH, e o biólogo Vinicius de Andrade Oliveira, da Universidade Federal do ABC, mostraram uma capacidade ainda maior que a de Yersinia para melhorar o metabolismo de açúcares em animais alimentados com dietas à base de carboidratos, favorecendo o ganho de peso. “Essa estratégia poderia ser eventualmente útil no contexto da desnutrição, em parte causada pela baixa absorção dos alimentos”, diz Fonseca.

“Temos de rever nosso conhecimento à luz das descobertas recentes sobre a microbiota”, conclui o biólogo Dario Simões Zamboni, professor da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto. “Não somos um organismo isolado, mas um conjunto de organismos”, diz ele. n

Projeto

Cicatriz imunológica pós-infecção intestinal aguda e desenvolvimento de desordens metabólicas: Estudo das interações entre a microbiota e sistema imunológico do mesentério (nº 15/25364-0); Modalidade Jovem Pesquisador; Pesquisadora responsável Denise Morais da Fonseca (usP); Investimento r$ 1.690.720,55.

os artigos científicos consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line desta reportagem.

Anfitriãs

seletivas

Flores exploram cores e odores para se esconder ou atrair abelhas específicas

Quando voa pelo campo uma abelha vê, ao longe, composições em tons de verde. O colorido só se revela de perto. Exceto o vermelho, invisível para ela. Já as aves têm nos olhos um arsenal maior de estruturas que lhes permitem enxergar o vermelho. As cores são o principal modo de comunicação entre plantas e polinizadores, mas a percepção por olhos humanos não basta para entender a complexidade desse relacionamento. Vem dessas diferenças sensoriais a noção, já antiga, de que flores polinizadas por aves tendem ao vermelho, e aquelas que

As amplas paisagens dos campos rupestres abrigam um mosaico repleto de biodiversidade

se beneficiam da ação das abelhas têm mais frequentemente flores amarelas. Há mais, porém, do que atrair polinizadores, de acordo com o grupo liderado pela bióloga Patrícia Morellato, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro. A novidade é que a invisibilidade seletiva pode ter seus benefícios, excluindo visitantes indesejados.

A ecóloga Maria Gabriela Camargo, durante pós-doutorado no laboratório de Morellato, chegou a essa conclusão depois de analisar as cores de flores (283 espécies) polinizadas por animais (244 espécies de abelhas e 39 de beija-flores)

nos campos rupestres da serra do Cipó, em Minas Gerais. Ela mediu o espectro da luz refletida pelas flores e outras partes das plantas e relacionou ao seu principal polinizador, conforme artigo publicado na edição de abril da revista New Phytologist em parceria com colegas da Alemanha e São Carlos e de Minas Gerais.

De volta ao laboratório, Camargo percebeu diferenças na luz refletida por flores conforme o polinizador habitual, reiterando a importância da cor na atração. Aquelas visitadas por beija-flores emitem comprimentos de onda mais longos, invisíveis para abelhas. Ela construiu diagramas representando o espaço visual de aves e abelhas e plotou neles as flores conforme seu polinizador, mapeando como os animais enxergam as flores. Os resultados indicam que a maior parte das flores polinizadas por beija-flores não é vista como colorida pelas abelhas, sejam elas vermelhas (mais frequentemente), amarelas ou brancas. Os beija-flores veem todas as cores, contrariando o dogma de que gostam de vermelho, e são especialmente atraídos por contrastes marcantes. “Flores vermelhas não são facilmente detectadas pelas abelhas, e percebemos que evitá-las pode ser importante porque nas flores polinizadas por beija-flores elas podem roubar o néctar sem polinizar”, diz Camargo.

As pesquisadoras também perceberam que marcações conhecidas como guias de néctar – linhas, pontos ou manchas, nem sempre visíveis aos olhos humanos, que funcionam como trilhas demarcadas – aparecem em 52% das flores de abelhas e em 26% daquelas polinizadas por beija-flores. “Os guias otimizam a manipulação, porque permitem que as abelhas direcionem sua ação e passem menos tempo andando pela flor”, diz Camargo, explicando por que as marcações seriam favoráveis para os insetos e para as flores.

Um colorido que esconde a flor em vez de atrair, selecionando o visitante, representa uma mudança em como se

vê essas relações ecológicas. “Foi um achado espetacular que as cores possam servir como filtro floral”, diz o biólogo alemão Klaus Lunau, da Universidade de Düsseldof, especialista em polinização e coautor do estudo. “É uma novidade que atrair polinizadores seja apenas uma das funções das cores das flores, que também possam servir para espantar herbívoros e outros visitantes indesejados”, completa.

Três particularidades do campo rupestre tornam sua vegetação de baixa estatura, com curiosas estratégias de sobrevivência no solo pobre e pedregoso em que cresce (ver Pesquisa FAPESP nº 229), ideal para esse estudo de comunidades de polinizadores. É um ecossistema caracterizado por grande diversidade de plantas, que têm abelhas e beija-flores como os principais polinizadores e onde, por ser uma vegetação aberta, as flores são visíveis de longe com um bom contraste em relação ao pano de fundo, favorecendo a comunicação visual. As pesquisadoras da Unesp esperam repetir o mesmo tipo de análise para outros ambientes, como florestas, com outro repertório de espécies e condições distintas, para verificar se as conclusões se mantêm.

Para Camargo, um diferencial do estudo foi ter confirmado, na natureza, a hipótese da exclusão de abelhas e padrões de coloração já descritos para atraí-las. Morellato completa que agora será possível avançar mais no entendimento de como se organizam as interações no campo rupestre.

V I S ão not U r n A

Além de afirmar que o olhar modificado sobre a polinização poderá trazer novidades em estudos futuros, Klaus Lunau destaca a importância da diversidade brasileira. “Muitas questões estão sem resposta porque a maior parte dos estudos foi feita com abelhas europeias e duas espécies de mamangavas, ignorando a grande diversidade não só desses gêneros, mas também de abelhas sem ferrão e solitárias.” Ele tem contribuído

Flores de configuração aberta, como esta Luxemburgia, são típicas para polinização por AbelhA s

O fundo dos tubos alongados de Augusta longifolia, de cor invisível para abelhas, só pode ser atingido por beijA-FlOres

para a redução desse desconhecimento em parceria com a bióloga Isabel Alves-dos-Santos, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), em experimentos conduzidos no apiário. “Aqui as condições são boas para experimentos porque podemos treinar, alimentar e manipular as abelhas”, conta ela. “Dois estudantes do Klaus vieram da Alemanha, e no final do período de estudo as abelhas os seguiam de um lado para outro no jardim!” Eles examinaram duas espécies de abelhas sem ferrão, Partamona helleri e Melipona bicolor, e

detectaram que as preferências não são homogêneas. A primeira espécie tendia a escolher azulados, enquanto a segunda não parecia ter preferência por cores específicas, de acordo com artigo publicado em setembro de 2018 na PLOS ONE. Embora a cor seja a principal forma de sinalização das flores, aparentemente outros sentidos podem ser mais importantes para Melipona Nos últimos anos, o grupo da USP começou a explorar a vida noturna das abelhas. Sem luz para ser refletida, à noite as cores deixam de cumprir seu papel.

Alves-dos-Santos se interessou pelo assunto quando seu aluno Guaraci Duran Cordeiro, estudando o cambuci (Campomanesia phaea, árvore típica da Mata Atlântica), percebeu que as flores já tinham sido visitadas quando ele chegava às 6 horas. Encontrou quatro espécies de abelhas noturnas ativas nas flores a partir de quando abriam às 4h30. As espécies noturnas de abelhas foram em grande parte ignoradas até agora. “Abelhudo não sai à noite”, brinca a pesquisadora. Mais recentemente, o grupo da USP tem estudado as flores do guaraná (Paullinia cupana), que abrem na madrugada, por volta de 2h, e documentado várias espécies de polinizadores noturnos. Em pomares escuros, onde os pesquisadores não conseguem enxergar as flores, as abelhas seguem as trilhas químicas por meio das antenas e se orientam perfeitamente para o que interessa. Em parceria com o biólogo Stefan Dötterl, da Universidade de Salzburgo, na Áustria, o grupo da USP está destrinchando quimicamente esses odores, conforme mostram em artigo de julho de 2018 na Frontiers in Plant Science. A proporção entre os componentes químicos pode ser crucial para filtrar as espécies de abelhas atraídas, potencializando uma relação mais produtiva. “As abelhas do gênero Apis tendem a visitar flores da mesma planta, o que não é útil para espécies que exigem polinização cruzada”, exemplifica a pesquisadora, referindo-se à necessidade de o pólen de uma planta fertilizar outro indivíduo. “Outras abelhas variam mais entre plantas.” n

Projetos

1. combining new technologies to monitor phenology from leaves to ecosystems (nº 13/50155-0); Modalidade Parceria para inovação tecnológica (Pite); Convênio microsoft research; Pesquisadora responsável leonor Patrícia cerdeira morellato (unesp); investimento r$ 1.842.134,97 (FaPEsP).

2. diversidade florística e padrões sazonais dos campos rupestres e cerrado (nº 10/51307-0); Modalidade Parceria para inovação tecnológica (Pite); Convênio Vale-Fapemig-FaPEsP; Pesquisadora responsável leonor Patrícia cerdeira morellato (unesp); investimento r$ 441.438,71 (FaPEsP).

os artigos e projetos consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

Como as florestas renascem

Em áreas secas, as árvores de madeira dura são as primeiras a se regenerar naturalmente, ao contrário do que ocorre em zonas úmidas

Uma colaboração internacional que reúne 85 pesquisadores de 16 países está tentando entender melhor os mecanismos de regeneração de florestas tropicais da América Latina que foram desmatadas. O grupo, batizado de 2ndFOR, relata em seu mais recente estudo que a dinâmica de mudanças progressivas, ao longo do tempo, na composição das espécies de árvores, processo denominado sucessão florestal, ocorre de maneira diferente em função do nível de umidade predominante nas áreas desflorestadas. Em um artigo publicado em 22 de abril na revista científica Nature Ecology & Evolution, os cientistas mostram que, nas florestas tropicais mais úmidas, as primeiras espécies a ressurgir em áreas desmatadas são as de madeira mais leve e mole, que crescem mais rapidamente e apresentam menor valor comercial. Num segundo momento, recuperam-se as de madeira mais densa e dura, que demoram mais para se desenvolver e alcançam preços mais elevados. Esse comportamento era esperado, pois está de acordo com a visão tradicional sobre o processo natural de regeneração florestal em áreas degradadas. Mas, nas florestas mais secas, ocorre o contrário: inicialmente, reaparecem as árvores de madeira densa e, em seguida, as mais leves.

Árvore de embaúba na amazônia brasileira, espécie que é uma das primeiras a se regenerar em áreas úmidas

“Ficamos surpresos ao ver padrões de sucessão totalmente opostos para florestas em zonas chuvosas e secas”, afirma Lourens Poorter, ecólogo da Universidade de Wageningen, na Holanda, primeiro autor do estudo. Os pesquisadores também analisaram florestas situadas em um clima intermediário, a meio caminho entre o úmido e o seco. Nesse caso, observaram que a regeneração inicial inclui igualmente árvores de madeira mais densa como mole. No longo prazo, após algumas décadas de regeneração, tanto as florestas de áreas secas como as úmidas tendem a apresentar espécies arbóreas dos dois tipos.

S EQUES t R o d E CAR bono

As conclusões do trabalho da rede 2ndFOR se baseiam em um corpo de dados robusto o suficiente para permitir comparações entre florestas tão diferentes quanto a Mata Atlântica paulista, em um clima relativamente úmido, e o Petén mexicano, em uma zona árida. O grupo usou dados de mais de 1.400 fragmentos de floresta analisados em 50 dos seus 58 sítios de pesquisa. Os locais de amostragem foram escolhidos por terem florestas secundárias, regeneradas de forma natural, com idades distintas de crescimento. Foram observadas desde áreas do Pará, desmatadas há 10 anos, até fragmentos de floresta no Panamá, que estão crescendo depois de terem sido destruídos e abandonados há 100 anos.

A importância de reservar áreas de floresta para regeneração tem crescido nas últimas décadas, sobretudo por causa da questão climática. À medida que o planeta demora mais e mais para reduzir seu ritmo de emissões de dióxido de carbono (CO2), as florestas secundárias se tornam mais importantes na política de mitigação do aquecimento global. Árvores em crescimento absorvem mais carbono. Melhorar o entendimento sobre o processo de regeneração de áreas desmatadas fornece novos subsídios para os formuladores de políticas. As novas informações podem ajudar a decidir quais áreas devem ser priorizadas e quais estratégias de recomposição florestal são mais eficazes. “Com base nesse conhecimento, se formos fazer um plantio em uma área de solo degradado, podemos escolher algumas espécies arbóreas com madeira mais densa, antevendo a falta de água que as plantas vão enfrentar no

A geografia da regeneração

Estudo foi feito em 1.400 fragmentos de floresta de 50 sítios da américa latina

n Florestas secas

n Florestas úmidas

Sítios estudados

Espécies de madeira dura

crescimento lento

toleram condições adversas, como sombra e seca

normalmente com madeira mais escura

Espécies de madeira leve

crescimento rápido

não sobrevivem em áreas de pouca água e luz

costuma ter madeira clara

florE stas SEca S

c ampo desmatado

Árvores de madeira dura são as primeiras a se regenerar. Elas resistem à falta de água

Em seguida, quando o ambiente se torna menos desafiador, ressurgem as árvores de madeira leve

com o tempo, espécies dos dois tipos passam a coexistir

florE stas úmida S

Área desflorestada

com muita água e luz solar no ambiente, as espécies de madeira leve lideram a regeneração

Em um segundo momento, recuperam-se as espécies de madeira dura

como nas florestas secas, os dois tipos de árvores se restabelecem no ambiente úmido

floresta seca na região de chanela no méxico

local”, afirma o engenheiro-agrônomo Pedro Brancalion, da Escola Superior de Agricultura Luís de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), de Piracicaba, coautor do estudo do 2ndFOR.

O grau de umidade das florestas tropicais, em última instância, pode alterar drasticamente a forma com a qual uma área desmatada inicia seu processo de regeneração. Algumas espécies de plantas precisam da proteção fornecida pelo dossel da floresta para não ressecarem quando expostas em excesso à luz solar. Por isso, nas florestas secas, as árvores de madeira densa – de crescimento lento, mas mais tolerantes à escassez de água –são as mais importantes na fase inicial de recuperação. Depois que elas se estabelecem, as espécies de madeira menos dura, que perecem mais facilmente em razão do estresse hídrico, vêm a reboque.

Nas florestas chuvosas, como não há períodos de grandes secas, as madeiras menos densas largam na dianteira na primeira etapa de recolonização, pois são mais eficazes em absorver nutrientes e crescer. Isso explica, por exemplo, por que a capoeira (mata que cresce depois de uma floresta ter sido cortada) em climas mais chuvosos, como na Amazônia, é repleta de embaúbas, plantas leves de madeira oca, enquanto as florestas desmatadas em clima mais seco se regeneram a partir de espécies de madeira densa e dura, como o pau-ferro.

“E S t I lo d E V I dA ”

A dinâmica da recomposição florestal depende de diferenças no metabolismo que influenciam o “estilo de vida” das árvores. As espécies com estratégias denominadas conservadoras são favorecidas em ambientes com menor disponibilidade de recursos naturais, como em solos pobres, em lugares com pouca luz e água. Assim, ganham precedência nas florestas de clima relativamente mais seco. As que apresentam estratégias aquisitivas são favorecidas em ambientes com mais recursos, como terrenos mais férteis e locais chuvosos e

ensolarados. Elas são as primeiras a reaparecerem nas florestas úmidas.

As mudanças climáticas são talvez o principal fator que motiva a adoção de políticas públicas em prol da regeneração de áreas de florestas desmatadas. Um grupo de 30 países já incorporou a seus planos de mitigação a recomposição de 91 milhões de hectares de florestas até 2020, área do tamanho da Venezuela. Até 2030, segundo uma meta global assumida no âmbito do Acordo de Paris para reduzir as emissões de CO 2, 350 milhões de hectares de florestas degradadas teriam de ser recuperadas. Como isso será feito, ninguém ainda sabe.

Segundo estudos da rede 2ndFOR, estratégias de restauração florestal com intervenção direta, que envolvem o plantio de mudas, nem sempre compensam. A degradação de solo, a competição com plantas invasoras e eventuais incêndios podem comprometer os resultados dessa abordagem. “Se possível, a restauração florestal deve contar com a regeneração natural, a chamada restauração passiva. Ela é mais barata e leva a uma vegetação mais diversificada e resiliente”, diz a ecóloga Ima Vieira, do Museu Paraense Emílio Goeldi, instituição afiliada ao 2ndFOR. “Apenas em áreas degradadas onde a regeneração natural é difícil, o plantio de árvores é uma boa alternativa.”

A absorção de carbono não deve ser a única motivação para restaurar florestas, afirmam os pesquisadores. Florestas estão associadas à melhoria do solo e à qualidade da água para consumo. A biodiversidade que elas sustentam abriga um potencial ainda pouco explorado

de prospecção de novas substâncias e biomateriais, sem falar na importância que as matas têm para a manutenção dos modos de vida de comunidades locais. Mesmo quando se leva em conta apenas a biodiversidade, análises feitas pela rede 2ndFOR indicam que há maneiras diferentes de medir o sucesso de restauração de uma floresta.

Um trabalho do grupo publicado em março de 2019 na revista Science Advances indica que, em média, as florestas secundárias tropicais precisam de 20 anos para recuperar 80% da riqueza de espécies encontradas em uma floresta madura preservada. Para apresentar a mesma configuração de espécies de uma mata conservada, a escala de tempo é maior. “Apesar de as florestas regenerantes recuperarem rapidamente boa parte das espécies, pode levar séculos até que venham a ter as mesmas espécies da mata original”, comenta Brancalion. “Na verdade, não sabemos se isso um dia será possível, porque nem sempre temos ideia da real diversidade que existia em muitas áreas desmatadas.” n

Projeto

c ronossequência e efeito da paisagem na sucessão secundária de florestas tropicais (nº 14/14503-7); modalidade bolsa de doutorado; Pesquisador responsável Pedro b rancalion (UsP); Beneficiário r icardo Gomes césar; investimento r$ 168.055,58. artigos científicos

PoortEr , l et al. Wet and dry tropical forests show opposite successional pathways in wood density but converge over time. nature Ecology & Evolution. 22 abr. 2019.

roZEndaal, d m a et al biodiversity recovery of neotropical secondary forests. Science advances. 6 mar. 2019.

Um estranho no Grand Canyon

Pegadas fósseis de 280 milhões de anos são o primeiro registro de vertebrados, em tese, não adaptados a ambientes secos em um antigo deserto

Marcos Pivetta

não muito longe da Trilha do Eremita, uma das mais conhecidas rotas de caminhada do Parque Nacional do Grand Canyon, no estado norte-americano do Arizona, um bloco de arenito de 4,6 metros (m) de comprimento por 2,2 m de altura foi encontrado em 2013. A pedra gigante despencara de uma das encostas que pontuam a paisagem árida e montanhosa da região. Esse bloco provém de rochas sedimentares formadas pelo processo de compactação e cimentação dos grãos de quartzo de um deserto que existiu ali há aproximadamente 280 milhões de anos, no início do período Permiano. Em uma das faces do bloco, havia quatro trilhas de pegadas fossilizadas, vestígios deixados por animais da pré-história que andaram por aquelas paragens quando havia um deserto com dunas formadas pelo vento. Em outras seis localidades da região, também em rochas do Permiano da formação geológica denominada Arenito Coconino, foram achados mais 12 conjuntos de rastros semelhantes. Paleontólogos do Brasil, dos Estados Unidos e da Alemanha estudaram as pegadas fósseis e chegaram a uma conclusão inesperada: os vestígios foram produzidos por animais peculiares que, em teoria, não deveriam ter vivido em um deserto, pois não fazem parte do grupo reconhecidamente apto a sobreviver e se reproduzir longe de ambientes úmidos, os amniota.

de animal em

de arenito (à esq.) que pertenceu a antigo deserto que existiu no Parque nacional do grand C anyon (acima), nos e stados Unidos

Rastros
bloco
VeR são atUalizada em 06/06/2019

As pegadas fossilizadas representam o primeiro registro conhecido de um enigmático grupo extinto de vertebrados denominados diadectomorfos, quadrúpedes que tinham algumas características de anfíbios e outras de répteis, em um deserto. “Essa é a evidência mais antiga de colonização de um ambiente desértico por vertebrados anamniotas, que não estavam, em princípio, aptos a viver em locais tão áridos”, comenta o paleontólogo Heitor Francischini, que hoje faz estágio de pós-doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), principal autor do artigo que descreve as pegadas, publicado no periódico científico Paläontologische Zeitschrift em 13 de maio deste ano. “Não

esperávamos encontrar o registro desses animais em rochas provenientes de um paleodeserto.”

Os anamniotas são vertebrados cujos embriões não são revestidos por membranas (o âmnio, o cório e o alantoide) que lhes servem de proteção contra o ressecamento e choques mecânicos. Seus ovos são desprovidos de uma casca rígida. Essa característica obriga esses animais, hoje representados pelos peixes e anfíbios, a viver dentro ou perto da água, onde depositam diretamente seus ovos. Os amniotas, que hoje incluem os répteis, os mamíferos e as aves, gestam seus filhotes dentro do próprio corpo ou depositam na terra seus ovos, que têm casca dura. De aparência que lembra um

corpulento lagarto, com patas curtas, os diadectomorfos são considerados como animais de transição entre os anamniotas e os amniotas. “Antes dessas pegadas, pensávamos que apenas alguns tipos de amniotas viviam em desertos antigos”, diz Spencer Lucas, curador da seção de paleontologia do Museu de História Natural e Ciência do Novo México, em Albuquerque, outro autor do estudo. “Agora sabemos que os habitantes desses ambientes eram muito mais diversos.”

Francischini foi chamado para estudar as pegadas fósseis encontradas no bloco de arenito em 2017, quando, como parte de uma bolsa-sanduíche do seu doutorado, passou uma temporada no museu norte-americano sob supervisão de Lucas.

ilustração de como teria sido o animal que deixou as pegadas fósseis no Parque nacional do grand Canyon

Como o brasileiro estuda icnofósseis, vestígios deixados por animais que permanecem preservados nas rochas, os rastros encontrados no Grand Canyon se tornaram objeto de um novo trabalho. A sucessão de pegadas, associadas ao gênero Ichniotherium, foi produzida por animais adultos e juvenis que tinham cinco dedos sem garras. Seu tamanho varia entre 11 e 37 centímetros, indício de que esses seres podiam passar de 1 m de comprimento. Esse tipo de pegada é comumente encontrado na Europa e com menor frequência na América do Norte e na África.

A n CES tr A l Co MUM

Sua descoberta em rochas associadas a um paleodeserto, se for corroborada por outros achados semelhantes, talvez possa levar a uma nova revisão na classificação dos diadectomorfos, grupo que tem sido alvo de reavaliações à medida que surgem mais evidências sobre seu provável modo de vida. Atualmente, eles são considerados como o grupo mais próximo dos primeiros amniotas, que surgiram por volta de 350 milhões de anos atrás. Ambos os grupos são vistos como muito próximos em termos evolutivos e teriam descendido de um ancestral comum. No entanto, cada linhagem teria seguido um caminho distinto, sendo, aparentemente, apenas os amniotas especializados em se reproduzir sem a presença de água. Pelo menos, essa é a interpretação mais clássica. “A presença de diadectomorfos em um ambiente árido significa que eles

Vertebrados anamniotas não geram embriões com membranas que os protejam do ressecamento

provavelmente teriam que ser capazes de se reproduzir como hoje fazem os amniotas, seja dando à luz a seus filhotes ou botando algum tipo de ovo com casca”, pondera o paleontólogo Juan Carlos Cisneros, da Universidade Federal do Piauí, que estuda répteis dos períodos Permiano e Triássico e não participou do trabalho sobre as pegadas fósseis do Arizona. “Contudo, nunca foram encontrados ovos desse grupo de animais com casca. Por isso, essa questão continua em aberto.” Há ainda outra possibilidade: hoje existem alguns anfíbios anamnióticos adaptados a desertos, que se reproduzem por meio de ovos sem cascas e que não são incubados no corpo dos pais. Ainda

Phoenix tucson las Vegas R io Colorado

Local onde os rastros foram encontrados

ESTADOS UNIDOS

MÉXICO

que incomum, esse tipo de acomodação também pode ter ocorrido no passado. Desde 1918, um ano antes de o parque nacional ter sido criado, a região do Grand Canyon apresenta registros de pegadas fósseis. Segundo Vincent Santucci, coordenador do programa de paleontologia do Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos, esse tipo de vestígio é descoberto com regularidade nessa área do Arizona. “Há uma abundância de pegadas fósseis no Arenito Coconino, o que sugere que muitos vertebrados viviam nesse antigo deserto”, comenta Santucci, que também assina o novo estudo. “Mas nenhuma delas, até então, se parecia com a de um diadectomorfo.” n

artigo científico

FR anCisCHini, H. et al. on the presence of ichniotherium in the Coconino s andstone (Cisuralian) of the grand Canyon and remarks on the occupation of deserts by non-amniote tetrapods. Paläontologische Zeitschrift 13 mai. 2019.

Grand Canyon

Física y

Fluidez no espaço-tempo curvo

Estudo amplia o poder explicativo de teoria que prevê interação de matéria densa com campos gravitacionais fortes

Em artigo a ser publicado no periódico Physical Review Letters, três físicos brasileiros provaram dois teoremas matemáticos que reforçam a chamada teoria Israel-Stewart, concebida nos anos 1970 para prever a interação de fluidos viscosos – líquidos, gases ou plasmas que apresentam resistência a seu fluxo – movendo-se a velocidades próximas à da luz e interagindo com campos gravitacionais extremamente fortes. Os cálculos feitos pelos pesquisadores demonstram a compatibilidade da teoria de Israel-Stewart com a relatividade geral de Albert Einstein (18791955), inclusive para situações em que o espaço-tempo é curvo e há formação de matéria ultradensa. Um exemplo é a colisão, seguida de fusão, de duas estrelas de nêutrons, corpos celestes extremamente compactos e energéticos.

“A viscosidade é uma característica universal dos fluidos que descreve sua resistência ao fluxo, como ocorre quando o mel escorre nas paredes de um recipiente. Fenômenos semelhantes também estão presentes nas fusões de estrelas de nêutrons”, explica Jorge Noronha, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), um dos autores do trabalho. “Embora existisse uma expectativa grande na comunidade científica

ilustração da fusão de duas estrelas de nêutrons, cenário em que a teoria israel-stewart explica a movimentação de fluido viscoso

de que as equações de Israel-Stewart pudessem ser usadas para estudar esse fenômeno, até a publicação do nosso trabalho ninguém sabia se elas de fato estavam corretas se fossem aplicadas nesse caso”, diz Marcelo M. Disconzi, da Universidade Vanderbilt, em Nashville, nos Estados Unidos, coautor do estudo. O terceiro nome a assinar o trabalho é Fábio S. Bemfica, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Desde os anos 1940, várias propostas para formular uma teoria de fluidos viscosos compatíveis com as ideias de Einstein foram feitas. Essas tentativas, no entanto, esbarravam sempre em um problema: violavam o princípio de causalidade, fundamental na teoria da relatividade. Há quase meio século, os físicos Werner Israel, canadense, e John Stewart (1943-2016), britânico, resolveram, aparentemente de forma parcial, o problema ao criarem uma teoria que estava

em harmonia com a relatividade em certas situações. Mas as soluções propostas pareciam simplistas demais para prever consistentemente como fluidos viscosos se comportam quando a estrutura do espaço-tempo pode se dobrar e formar singularidades, regiões em que a matéria e a energia se comprimem em um único ponto. “Nossa prova matemática mostra que a teoria de Israel-Stewart é poderosa o suficiente para descrever o transporte de matéria nesse cenário extremo”, comenta Noronha. n Marcos Pivetta

Projeto

Física hadrônica em colisões nucleares de altas energias (nº 17/05685-2.) Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Jun Takahashi (Unicamp); Investimento R$ 1.644.757,82. artigo científico

BEMFica , F. s et al. c ausality of the Einstein- israel-stewart Theory with bulk viscosity. Physical Review Letters. No prelo.

O futuro

da web

Ao completar 30 anos, a tecnologia que transformou o mundo moderno enfrenta desafios para continuar sendo um território livre, democrático e plural

Aweb tornou-se balzaquiana. Em março deste ano, a World Wide Web, ou simplesmente www, completou três décadas de existência. Sua invenção mudou a cara da internet, massificou seu uso e provocou profundas transformações na maneira pela qual as pessoas se relacionam e os negócios acontecem. A ideia brotou da cabeça do físico britânico Tim Berners-Lee, quando tinha 33 anos e era pesquisador da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern), na Suíça. Naquela época, a internet, uma rede conectada de computadores localizados em diferentes lugares, já operava havia duas décadas, mas de forma bem diferente. Com recursos restritos, era usada principalmente para troca de informações entre pesquisadores da área acadêmica. Não existiam sites, redes sociais nem ferramentas de busca.

“A www permitiu a fácil interconexão de dados distribuídos ao redor do globo e transformou-se em um componente fundamental da internet moderna”, afirma o cientista da computação Fa-

bio Kon, professor do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP) e editor-chefe do Journal of Internet Services and Applications. A ferramenta idealizada pelo cientista britânico, segundo Kon, foi decisiva para a popularização da internet, que tem hoje 4,4 bilhões de usuários, quase 60% da população global. “A rede trouxe muitas coisas boas e praticamente não conseguimos mais viver sem as comodidades que ela nos proporciona”, opina. “Mas, por outro lado, ela amplifica alguns fenômenos negativos e indesejados que já existiam na sociedade.”

A ideia que originou a web, destaca o cientista da computação Roberto Marcondes César Júnior, do grupo Ciência de Dados do IME-USP, tem uma gênese interessante que revela a importância da pesquisa básica para consolidação de grandes projetos científicos. “Ao ler a sugestão de Berners-Lee para criação de um sistema de compartilhamento de dados de pesquisa, seu superior imediato no Cern, Mike Sendal, destacou

Yuri Vasconcelos

no documento que a proposta era ‘vaga, mas estimulante’”, conta Marcondes. “Para ele, a ideia ainda não estava muito clara, e foi preciso mais alguns anos de pesquisa em laboratório para que o www se concretizasse e se transformasse na ferramenta que viria a revolucionar o mundo.” Outro aspecto apontado pelo pesquisador é a importância da web para o avanço das pesquisas em inteligência artificial (IA). “Alguns dos algoritmos de IA existentes hoje têm raiz em estudos iniciados muitos anos atrás. A criação da World Wide Web disponibilizou na rede uma grande quantidade de informações, permitindo que os algoritmos trabalhassem numa escala de dados muito superior, processo essencial para o refinamento deles. Sem a invenção de Berners-Lee, talvez estivéssemos bem atrasados em relação à revolução de IA”, destaca Marcondes. Nas comemorações dos 30 anos da web, Berners-Lee expressou preocupação com os rumos que a internet está tomando e fez um apelo para o estabelecimento de uma nova ética para lidar com

os problemas surgidos a partir dela. Em entrevista à rede britânica BBC, ele externou o temor de que ela caminhe para um futuro disfuncional. De acordo com o cientista, o escândalo envolvendo a consultoria Cambridge Analytica, do Reino Unido, acusada de usar dados privados de 87 milhões de usuários do Facebook para finalidades políticas durante a campanha presidencial dos Estados Unidos em 2016, revelou quão frágil é a privacidade dos usuários na rede mundial de computadores.

Em carta aberta divulgada em 12 de março passado, dia da efeméride, Berners-Lee listou três áreas específicas de disfunção que, para ele, estão prejudicando a web: intenções maliciosas, como hacking e assédio on-line; projetos duvidosos, entre eles modelos de negócios que recompensem cliques; e consequências negativas não intencionais da rede, com destaque para discussões agressivas e polarizadas. Para combater esses desvirtuamentos, o físico britânico lançou o projeto Contract for the web, um conjunto de princípios com o objetivo de fortalecer a liberdade e a abertura da internet (ver box na página 65).

ne U tralidade de rede

“Precisamos de um novo contrato para a web, com responsabilidades claras e rígidas para que aqueles que detêm o poder possam agir melhor”, declarou Berners-Lee durante a última Web Summit, maior conferência europeia sobre tecnologia da internet, ocorrida em Londres no fim de 2018. “Algumas questões de regulamentação têm que envolver governos. Outras claramente incluem as empresas. Se você é provedor de acesso, precisa se comprometer a entregar neutralidade de rede. Se é uma companhia de rede social, precisa garantir que as pessoas tenham controle sobre seus dados.”

A neutralidade da rede mencionada por Berners-Lee, segundo a Coalizão Global pela Neutralidade de Rede, que reúne ativistas de vários países, é o princípio segundo o qual o tráfego da internet deve ser tratado igualmente, sem discriminação, restrição ou interferência, independentemente do emissor, recipiente, do tipo ou conteúdo. Com isso, pretende-se garantir que a liberdade dos usuários não seja limitada pelo favorecimento ou desfavorecimento de transmissões do tráfego da internet as-

a ferramenta que mudou o mundo

Doze momentos importantes da história da internet e da web

1981

o protocolo tcp/ip vira a linguagem padrão da rede; o termo internet é usado pela primeira vez

1969

Surge nos eUA a arpanet (rede da Agência para Projetos de Pesquisa Avançada), precursora da internet no mundo

1973

A Arpanet realiza as primeiras conexões internacionais com a inglaterra e a noruega

sociado a conteúdos, serviços, aplicações ou dispositivos particulares.

“Desde sua origem, a internet se propôs a ser plural e de acesso amplo, ou seja, as pessoas conectadas teriam acesso a todo tipo de conteúdo que lhes interessa, independentemente de filtros e controle de tráfego dos pacotes de dados”, ressalta a advogada Cíntia Rosa Pereira de Lima, da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da USP e líder do grupo de pesquisa Observatório do Marco Civil da Internet no Brasil. Graças à neutralidade da rede, por exemplo, uma operadora não pode reduzir a velocidade de acesso a determinado site nem cobrar para que o usuário usufrua de certo serviço na internet, como a oferta de streaming da Netflix.

A pesquisadora se preocupa também em apontar alguns problemas decorren-

1988

A FAPe SP cria o projeto da rede anSp (Academic network at São Paulo), que três anos depois se tornaria a primeira rede brasileira a integrar-se à internet

1989

tim Berners-lee lança o conceito da World Wide Web

tes das mudanças geradas pela internet, sobretudo nos relacionamentos interpessoais, nos modelos de negócio e no que ela chama de monetização de dados pessoais. “Como estudiosa do tema, percebo que, com a proliferação das redes sociais em escala global, como Facebook e sites de relacionamento, as pessoas passaram a se preocupar mais com a quantidade de relacionamentos, desconsiderando a qualidade deles”, avalia a especialista. No campo das relações comerciais, segundo ela, a internet e a www alteraram substancialmente a forma de contratação de produtos e serviços, que se tornou cada vez mais abstrata e automatizada.

“Os contratos de compra e venda no comércio eletrônico são muitas vezes lesivos ao consumidor. Eles são elaborados de forma proposital para desestimular a leitura pelo internauta, que na

1990

Apresentado o navegador pioneiro WorldWideWeb

1993

e studantes da Universidade de illinois em Urbana-Champaign (eUA) criam o primeiro navegador web gráfico, o Mosaic

1998

larry Page e Sergey b rin criam a ferramenta de busca google. Antes dele, outros buscadores já haviam sido lançados, mas sem o mesmo sucesso

maior parte das vezes fecha o negócio sem saber que o contrato contém cláusulas abusivas ou renúncia de direitos”, destaca. Por fim, no tocante à monetização dos dados dos usuários, Lima avalia que eles passaram a ser considerados commodities. “Os dados pessoais tornaram-se informações valiosas para o marketing direto, sendo muitas vezes usados de forma indiscriminada pelas empresas visando exclusivamente a obtenção de lucro.”

Especialista em direito digital e professor de governança e regulação da internet na FGV Direito Rio, na capital fluminense, Luca Belli concorda com a avaliação de que é preciso trazer a internet de volta aos trilhos. “Ela foi concebida como uma rede transparente, descentralizada e distribuída, mas nos últimos quatro ou cinco anos vemos um fenôme-

2004

lançamento do Facebook. Quinze anos depois, a maior rede social do planeta agrega 2,3 bilhões de usuários

2018

b erners-lee lança o contract for the Web, um conjunto de princípios para corrigir o que ele chama de “disfuncionalidades” da rede

2007

Steve Jobs cria o iphone, que acelerou a massificação da computação móvel por meio dos smartphones

2014

Promulgado o Marco civil da internet, lei federal que regula o uso da rede no b rasil

no de alta concentração, com algumas plataformas, como Facebook, Google e Twitter, atraindo a atenção da maioria dos usuários. Isso é negativo porque poucas corporações acumularam muito poder e passaram a ter acesso a uma elevada quantidade de informações dos internautas”, afirma.

Belli alerta para um fato associado ao fenômeno de concentração, que é a existência de certa opacidade sobre o funcionamento dessas organizações, privadas e fechadas. Os dois fatores, concentração e opacidade, facilitam a manipulação dos usuários, por exemplo, por meio da disseminação de fake news. “Há uma relação direta entre desinformação e aglutinação de plataformas. É muito mais fácil espalhar boatos em quatro ou cinco aplicativos dominantes, que agregam a maior parte dos usuários das redes so -

c ontrato para a web

os princípios que todos devem seguir para recolocar a internet nos eixos

gOVernOS

garantir que todo mundo possa se conectar à rede e participar ativamente dela

manter a internet disponível, o tempo todo, com acesso integral aos internautas

respeitar o direito fundamental dos indivíduos à privacidade

eMpre Sa S

tornar a internet acessível a todos, garantindo que ninguém seja excluído

respeitar a privacidade e os dados pessoais dos consumidores

Desenvolver tecnologias que deem vazão ao melhor da humanidade cidadãOS

Ser criadores e colaboradores na web para que seu conteúdo seja rico e relevante

Construir comunidades que façam um debate civilizado e respeitem a dignidade humana

lutar pela web para que ela permaneça uma plataforma aberta e pública para pessoas em todos os lugares do mundo, agora e no futuro

tim b erners-lee: preocupação com as disfuncionalidades da internet

ciais, do que disseminá-los em um grande número de diferentes plataformas de médio ou pequeno porte.”

Segundo o especialista, para reverter esse quadro e fazer com que a internet volte a ser um ambiente mais aberto e competitivo, é preciso adotar medidas que garantam a portabilidade, a interoperacionalidade e a segurança dos dados. Portabilidade é o direito que o internauta tem de levar seus contatos, fotos, mensagens e tudo o mais de uma rede social para outra, enquanto interoperacionalidade é a fixação de padrões que permitem a exportação e importação de dados entre as plataformas.

A portabilidade já está prevista na Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, marco legal para a privacidade na internet no país aprovado em 2018 e que vai entrar em vigor no próximo ano. Mas a definição dos padrões técnicos para implementá-la depende da criação de uma autoridade nacional de proteção de dados, o que ainda não ocorreu de fato – apesar de ter sido instituída por uma medida provisória do governo no início do ano, ela não existe concretamente. “Até que essa autoridade comece a funcionar, é impossível fazer a portabilidade de dados”, aponta Belli. Para ele, também é fundamental a implementação de um arcabouço sólido de cibersegurança, que defina com precisão comportamentos ilícitos, a fim de combater a ação de hackers e evitar violação de informações.

pr O ce SSO ci V ili Z atÓ ri O

Um dos pioneiros da internet no país, o engenheiro eletricista Demi Getschko, presidente do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), responsável por coordenar o registro de nomes de domínio na internet brasileira, admite que a rede mundial de computadores enfrenta problemas, mas defende que o que se vê nela, conforme já expresso pelo matemático norte-americano Vint Cerf, um de seus fundadores, é a representação do que existe no mundo real. “A internet é uma espécie de espelho da sociedade. Atacar a internet, quebrar o espelho, não adianta nada. A realidade vai continuar existindo”, opina.

A popularização da rede, conforme Getschko, permitiu enxergar coisas que antes não eram vistas. “A maioria das pessoas envolvidas com ela é do bem, mas existe uma exuberância, uma ânsia de participar do processo, de falar sem pensar, que com o tempo, esperamos, vai assentar”, pondera. “Não sou muito favorável à legislação em excesso. Tenho dúvidas sobre a qualidade e a eficiência de normatizações para corrigir os excessos na rede. Como ela não tem fronteiras, qualquer legislação local tende a falhar. E sempre haverá alguém que se comporte fora das normas.”

Para o presidente do NIC.br, que esteve diretamente envolvido com a chegada da internet no Brasil, no fim dos anos

glossário

muita gente confunde internet e web, mas elas são diferentes

internet rede de computadores espalhados pelo mundo interconectados pelo protocolo tCP/iP, criado pelos norte-americanos Vint Cerf e robert kahn no início da década de 1970

Web

Uma das ferramentas para acessar a internet. A web (ou www) utiliza o protocolo httP para fazer a transferência de informações e depende de navegadores para funcionar

Http

Sigla em inglês de protocolo de transferência de hipertexto (informação exibida em formato digital, que pode conter dados em formato de imagem, som, vídeo etc.). idealizado por t im b erners-lee no início dos anos 1990, funciona associado ao protocolo tCP/iP

1980 (ver Pesquisa FAPESP nos 180 e 221), a forma de corrigir desvios é por meio de um processo civilizatório e educacional. “Precisamos amadurecer e conscientizar os usuários. É muito bom que todos estejam falando – no passado, pouquíssimos falavam e todo mundo ouvia de vez em quando.” Hoje todos falam, lembra Getschko, porque a web e a internet permitiram. “Evidentemente, isso gera certo ruído. Mas prefiro ouvir essa cacofonia ao silêncio”, diz o cientista. “Sou otimista quanto ao futuro da internet.” n

Projetos

1. Sistema integrado de informações em ciência e tecnologia para o estado de São Paulo e rede AnSP (no 94/03675-6); Modalidade Auxílio à Pesquisa – regular; Pesquisador responsável nelson de Jesus Parada; Investimento r$ 7.889.773,58.

2. interligação de instituições de ensino, pesquisa e desenvolvimento do estado de São Paulo a rede AnSP: estudo de viabilidade e projetos dos sistemas de comunicação de dados possíveis de serem utilizados (no 94/03598-1); Modalidade Auxílio à Pesquisa – regular; Pesquisador responsável n elson de Jesus Parada; Investimento r$ 49.780,00.

ENGENHARIA BIOMÉDICA y

Crânio preservado

Chega ao mercado dispositivo não invasivo criado por startup paulista para monitorar a pressão intracraniana

Frances Jones

Os médicos intensivistas do Hospital Sírio-Libanês, na capital paulista, contam desde o ano passado com um novo dispositivo que monitora de forma não invasiva um parâmetro importante em pacientes de Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Um pequeno sensor colocado na cabeça, sobre o cabelo, e preso por uma faixa ( head band ), transmite dados sobre a pressão intracraniana via cabo a um monitor à beira do leito de pessoas que sofreram traumatismo craniano ou acidente vascular cerebral (AVC), apresentam hidrocefalia ou tiveram outras patologias cerebrais – os chamados pacientes neurocríticos.

Resultado de um esforço de pesquisa iniciado há 12 anos no Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP) e apoiado pela FAPESP por meio de cinco auxílios do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), o aparelho tem atraído a atenção de neurologistas e ganhado prêmios por seu caráter inovador. Ele consegue monitorar a pressão dentro do crânio sem a necessidade de furar a calota craniana e inserir um sensor no interior do cérebro, o procedimento mais utilizado para a medição (ver Pesquisa FAPESP nº 221).

O sensor é preso na cabeça do paciente por uma faixa

A brain4care, startup que desenvolveu e comercializa essa solução, já firmou um segundo contrato com a Rede D’Or, rede hospitalar com unidades no Rio de Janeiro, em São Paulo e em outras capitais. Há também seis negociações para venda do dispositivo praticamente concluídas e outras 20 em estágio menos avançado, de acordo com Plínio Targa, sócio e CEO da empresa. Segundo ele, a brain4care, cuja sede fica em São Carlos, no interior paulista, deve atingir o equilíbrio financeiro da operação brasileira com a comercialização de 180 sensores. A expectativa é de que esse objetivo seja alcançado em meados de 2020.

O projeto que deu origem ao dispositivo nasceu a partir de uma inquietação pessoal do físico e químico carioca Sérgio Mascarenhas Oliveira, professor aposentado da USP, hoje com 91 anos. Em 2006, ele foi diagnosticado com hidrocefalia, enfermidade caracterizada pelo acúmulo de líquido no cérebro. Inicialmente, no entanto, os médicos achavam que o cientista sofria de doença de Parkinson. Inconformado com a dificuldade para chegar ao diagnóstico, o que normalmente requer um procedimento invasivo para sua confirmação, Mascarenhas iniciou no ano seguinte as pesquisas nos laboratórios do IFSC-USP que resultariam na criação do sensor. O desenvolvimento teve participação de pesquisadores de diversas instituições, como as faculdades de Medicina da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da USP de Ribeirão Preto, além de médicos do Hospital São João, da Universidade do Porto, em Portugal. Em 2014, Mascarenhas e dois colegas, o farmacêutico-bioquímico Gustavo Frigieri Vilela, que foi seu aluno de doutorado na USP de São Carlos, e o engenheiro Rodrigo Andrade, decidiram criar a startup, que até abril último se chamava Braincare. “A brain4care agora é a nossa

O físico sérgio Mascarenhas, da usP, inventor do dispositivo

marca global”, diz Targa, que entrou no negócio em 2016 como investidor-anjo ao lado do empresário Carlos Bremer, ambos engenheiros formados na USP de São Carlos. “Estamos desenvolvendo um plano estratégico para entrar no mercado norte-americano. Queremos começar a operar lá a partir de 2020”, afirma o CEO, ressaltando que patentes relacionadas ao dispositivo já foram concedidas nos Estados Unidos e na Europa. No final de 2017, a empresa recebeu um aporte de US$ 5 milhões do fundo de investimentos Miletus, encabeçado pelo

O desenvolvimento do sensor contou
com a participação de pesquisadores de diversas universidades públicas

empresário Horácio Lafer Piva, presidente do conselho da Klabin, produtora e exportadora de celulose e papel. Com isso, o fundo se tornou o sexto sócio da empresa. “É a primeira vez que a família faz um investimento fora do negócio de papel e celulose”, declarou Piva ao jornal Valor Econômico. “Somos muito focados na companhia e por isso não desviamos nossa atenção. Mas esse é um projeto com um propósito maior: estamos dando acesso a um novo sinal vital que é a pressão intracraniana.”

Como indica a fala de Piva, os sócios da brain4care querem contribuir para que a pressão intracraniana, também chamada de PIC, seja tão acessível quanto os cinco sinais vitais hoje comumente avaliados pelos médicos – temperatura, pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória e dor. “O novo nome da empresa surge nesse contexto. Nasce como uma marca que propõe que, olhando para o cérebro, você pode cuidar da sua saúde em geral”, explica Targa.

“Com o avanço de nossas pesquisas, descobrimos que a pressão intracraniana está relacionada não apenas a distúrbios neurológicos, como trauma craniano, hidrocefalia e tumor cerebral, mas também a doenças cardiológicas, eclâmpsia [quadro de hipertensão em mulheres grávidas] e patologias relacionadas ao fígado, por exemplo”, diz o executivo.

SOLUÇÃO WIRELESS

Os empreendedores esperam que, em breve, o dispositivo esteja disponível em clínicas e até em ambulâncias. Em fevereiro deste ano, a empresa obteve autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para comercializar uma nova versão do sensor, agora wireless, que dispensa monitor e uso de cabos. Os sinais são transmitidos via bluetooth do aparelho para um celular, tablet ou computador.

Um aplicativo permite a visualização dos dados em tempo real na beira do leito e, ao mesmo tempo, envia-os para a nuvem, onde são processados e um relatório é gerado automaticamente, ficando acessível a médicos e enfermeiros mesmo a distância. Para os hospitais, cada sensor tem o custo de R$ 3,5 mil mensais. Nesse período, eles podem fazer quantas monitorações forem necessárias.

O modelo de negócio com foco na prestação de serviço com equipamento

Os dados da pressão intracraniana do paciente são mostrados em um tablet ou monitor à beira do leito

2

em comodato (um tipo de empréstimo), assim como a estratégia para tornar a PIC um novo sinal vital, foi concebido no Vale do Silício em 2017 quando a startup foi acelerada pela Singularity University, um centro de inovação com sede na Califórnia. O aporte do fundo de investimentos Miletus permitiu a montagem de uma estrutura operacional mais profissional em São Carlos e a abertura de um escritório em São Paulo. “Com isso, a brain4care deixou de ser uma startup de pesquisa para passar a ser uma empresa operacional”, destaca Targa.

DESAFIOS FU t UROS

No Sírio-Libanês, os três aparelhos adquiridos pela instituição monitoram pacientes da neuro-UTI. “Estamos muito animados com a parceria”, ressalta o intensivista José Mauro Vieira Júnior, diretor de qualidade e segurança do hospital. De acordo com ele, o dispositivo ainda tem limitações, como o fato de não gerar um valor absoluto da pressão dentro do crânio – em pessoas sadias, ela deve variar de 5 a 15 milímetros de mercúrio (mmHg). No monitoramento convencional, feito de forma invasiva, o resultado do exame é dado em forma numérica, o que não ocorre com o produto da brain4care. Por enquanto, o

sensor entrega informações na forma de gráficos que mostram tanto a morfologia do pulso da pressão intracraniana –como ocorre em um eletrocardiograma – quanto a tendência da PIC ao longo do período monitorado. Por causa dessa restrição, a inovação da brain4care não é empregada no Sírio de forma isolada e independente, mas em conjunto com outros exames, entre eles doppler transcraniano, avaliação ultrassonográfica da bainha de nervo óptico, tomografia e eletroencefalograma.

“Existe, sim, um grande potencial para uso do aparelho, e não tenho a menor dúvida de que a brain4care está trabalhando para o seu sensor entregar um resultado numérico, por meio de um algoritmo matemático, que mostre o valor absoluto da medida da pressão”, avalia Vieira Júnior. “Isso é relevante porque muito do que fazemos hoje em dia é baseado em valores da PIC. É a partir deles que se chega ao diagnóstico de hipertensão intracraniana.” O médico intensivista destaca também que “a comunidade médica aguarda com ansiedade evidências clínicas robustas que comprovem o real valor do dispositivo na aplicação à beira do leito”.

Dentro do Sírio, um grupo liderado pelo neurointensivista Fábio Machado

está desenhando um projeto de pesquisa para comparar o dispositivo da brain4care com as outras tecnologias disponíveis para se monitorar a PIC à beira do leito. Além desse estudo, existem outros 28 em andamento relacionados ao uso do aparelho e pressão intracraniana, de acordo com Plínio Targa.

Essas pesquisas envolvem cerca de 300 pesquisadores, incluindo profissionais de universidades como USP de Ribeirão Preto, UFSCar, Federal de São Paulo (Unifesp) e de Stanford, nos Estados Unidos. “Na nossa visão, a investigação científica é core do nosso negócio. Se tem gente interessada em fazer pesquisa científica sobre pressão intracraniana, nós somos parceiros”, diz Targa. n

Projeto

Desenvolvimento de um equipamento para monitoramento minimamente invasivo da pressão intracraniana (nº 08/53436-2) modalidade Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisador responsável sérgio Mascarenhas Oliveira (sapra/s.A.); Investimento R$ 654.281,90.

Artigo científico

MA sCARENHA s, s et al The new ICP minimally invasive method shows that the Monro-Kellie doctrine is not valid. acta Neurochirurgica. 2012.

Os demais projetos mencionados estão listados na versão on-line.

na pele da tilápia

Material biológico já conhecido para o tratamento de queimaduras começa a ser usado em cirurgias ginecológicas

oCentro de Atenção Integral à Saúde da Mulher da Universidade Estadual de Campinas (Caism-Unicamp) foi palco de um procedimento experimental inédito no fim de abril. Pela primeira vez, cirurgiões usaram pele de tilápia-do-nilo (Oreochromis nicoticus) na reconstrução do canal vaginal de uma paciente transexual que havia se submetido, anos atrás, a uma malsucedida cirurgia de redesignação sexual, passando de homem a mulher. O procedimento é fruto de uma extensa pesquisa sobre o uso da pele de tilápia para finalidades médicas iniciada há quatro anos no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da Universidade Federal do Ceará (NPDM-UFC), em parceria com o Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ), de Fortaleza.

A paciente trans, cuja identidade foi preservada, procurou a equipe do cirurgião Leonardo Bezerra, do Departamento de Saúde Materno-Infantil da UFC, após saber dos bons resultados do uso de pele do peixe na reconstrução vaginal –técnica conhecida como neovagina – de 10 mulheres portadoras de um raro distúrbio congênito, a síndrome de Mayer-Rokitansky-Kuster-Hauser, que as faz

nascer sem o canal vaginal ou com ele pouco desenvolvido. A mesma equipe já havia operado com êxito uma mulher que teve de reconstruir a vagina por causa de sequelas de um câncer ginecológico.

“A opção que a paciente trans tinha era fazer um autoenxerto com segmento de intestino, uma cirurgia extremamente agressiva, demorada e com complicações a longo prazo”, diz Bezerra. “O uso da pele de tilápia permite uma operação mais simples, rápida e menos invasiva. O epitélio da pele de tilápia funciona como arcabouço e suporte para o desenvolvimento do epitélio vaginal, com elasticidade, dimensão e funcionalidade adequadas.”

Tanto na cirurgia feita na Unicamp quanto nas realizadas no Ceará, nas mulheres com a síndrome de Rokitansky, as pacientes ficam cerca de uma semana com um molde acrílico envolto na pele de tilápia dentro do canal vaginal. Depois a prótese é retirada e a pele do peixe deixada no local. “O colágeno [da pele da tilápia] vai sendo destruído, as moléculas são ‘quebradas’ e a pele do animal é incorporada ao tecido. Isso faz com que células presentes no canal vaginal se diferenciem em outras, formando o epitélio vaginal”, explica o médico Ma-

A pele do peixe passa por um rigoroso processamento até ser liberada para fins medicinais

noel Odorico de Moraes, coordenador do NPDM e professor da Faculdade de Medicina da UFC. Não há necessidade de medicar os pacientes com drogas imunossupressoras, pois o material biológico não é colocado dentro da cavidade abdominal, mas na vagina, que é uma extensão da pele humana. “Até hoje não houve nenhum caso de rejeição”, diz Moraes. A equipe cearense tem sido bastante procurada por pacientes transexuais que fizeram cirurgia de redesignação sexual de homem para mulher, com resultados insatisfatórios, pela técnica clássica, na qual se usa a pele do próprio pênis para a construção da neovagina. “Ocorre que, antes da cirurgia, elas fazem um tratamento hormonal para que o corpo

adquira características femininas, o que reduz o tamanho do pênis. Com isso, sobra pouca pele de pênis e a vagina fica pouco funcional”, conta Leonardo Bezerra, da Faculdade de Medicina da UFC.

REDE DE p ESQUISA

Moraes lidera desde 2015 a pesquisa com pele de tilápia, ao lado do cirurgião plástico Edmar Maciel, presidente do IAQ. O estudo teve início quando eles abraçaram uma ideia original do cirurgião plástico Marcelo Borges, professor da Faculdade de Medicina de Olinda (PE). Após ler uma reportagem sobre artesanato feito com pele de tilápia, Borges imaginou que poderia usar o material para tratar queimados por ser muito rico em colágeno e

se tratar de um item barato – em geral, é descartado pela indústria pesqueira. O uso de curativos biológicos para tratar feridas e queimaduras não é novidade no mundo. Além da própria pele humana, disponibilizada por bancos de pele, usa-se pele de porco, entre outros materiais. Hoje, a linha de pesquisa com a pele de tilápia tem a participação de 189 colaboradores distribuídos em sete estados e outros seis países – Estados Unidos, Alemanha, Holanda, Colômbia, Guatemala e México. “Todos eles são coordenados por nosso grupo”, afirma Maciel. O material biológico é objeto de 43 projetos de pesquisa conduzidos dentro e fora do Brasil. Além do bem-sucedido tratamento de queimados e da reconstrução de vagina,

estão sendo estudados outros usos do material em procedimentos odontológicos e veterinários. “Até agora depositamos cinco pedidos de patente no Brasil e no exterior”, diz Maciel. Entre os produtos em teste, destacam-se scaffolds (suportes estruturais), biomaterial projetado para ser empregado na produção de válvulas cardíacas e telas para reparos de tendões e hérnias abdominais. “Só para scaffolds, há mais de uma dúzia de possíveis empregos diferentes”, informa o cirurgião plástico.

O material biológico utilizado pelos pesquisadores é fornecido pelo banco de peles de tilápia da UFC, construído pela empresa Biotec Solução Ambiental com patrocínio da Enel, distribuidora de energia elétrica no Ceará. Pioneiro no Brasil, o banco atualmente é mantido com apoio do Centro Universitário Christus (Unichristus), instituição privada de ensino superior de Fortaleza. As peles, provenientes de peixes criados em tanques de água doce, são doadas pela empresa de pescados Bomar, de Itarema, no litoral cearense.

Antes da aplicação nos pacientes, o material passa por um rigoroso processo de limpeza, descontaminação e esterilização nos laboratórios da UFC (ver infográfico abaixo). No Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo, as peles são submetidas a radioesterilização em um irradiador industrial multipropósito, construído pelo Ipen com auxílio da FAPESP. A lavagem e a esterilização retiram qualquer

Curativo com a pele do peixe é usado para tratar paciente vítima de queimadura

resquício de odor do material, embora mantenha o desenho característico da pele do peixe. Antes da liberação para uso clínico, as peles passam por testes de qualidade microbiológicos, histológicos e de toxicidade celular.

c I c At RI z A ção m AIS R áp IDA De acordo com Odorico Moraes, entre os 300 pacientes tratados para queimadura até hoje, 30 deles crianças, não houve nenhum caso de infecção. O Ministério da Saúde está estudando a inclusão da pele de tilápia no tratamento de queimados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em geral, a terapia para queimaduras é feita com sulfadiazina de prata, uma pomada antimicrobiana e cicatrizante, sendo que os curativos

c omo é feito o processamento

usados exigem troca diária. Os feitos com pele de tilápia podem ser substituídos em intervalos de tempo maiores, poupando o incômodo para o paciente, material e mão de obra hospitalar. Os médicos e pesquisadores relatam redução de custos, diminuição no tempo de cicatrização e de dor com o curativo biológico.

O possível efeito analgésico interessou a um grupo de doutorandos de periodontia da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP). Eles desenvolvem um estudo-piloto para o uso do curativo biológico em procedimentos cirúrgicos periodontais, que envolvem os tecidos de proteção e suporte dos dentes, como gengiva e osso. “Estamos bem animados e a expectativa

Pele passa por vários processos antes de ser utilizada em procedimentos médicos

pREpARAção DA pELE

Na empresa de pescados que fornece o material aos pesquisadores da ufC, a pele é retirada do peixe por uma máquina, lavada e armazenada em uma caixa isotérmica

Frascos com as peles

LImpE z A

2 1 3

Pesquisadores raspam o material para retirada de restos de músculo e fazem o recorte da pele, que é transferida para frascos onde será descontaminada

Pele

Músculo

DEScontAmInAção

A pele é incubada sob agitação constante à temperatura ambiente em quatro diferentes soluções de descontaminação

Agitador

é alta com relação à possibilidade de tirar a dor do paciente”, declara Gustavo Manfredi, doutorando da FOB.

Uma aplicação inusitada ocorreu no exterior. Após tomar conhecimento da pesquisa no Brasil, a veterinária Jamie Peyton, da Universidade da Califórnia em Davis, nos Estados Unidos, usou a pele de tilápia para tratar de dois ursos e um leão-da-montanha feridos em incêndios florestais na Califórnia. Segundo informações da universidade, os ursos começaram a andar logo após a aplicação do curativo biológico nas patas feridas, sugerindo um efeito imediato na melhora da dor. Um dos ursos acabou comendo a nova pele, mas a rápida recuperação surpreendeu os veterinários americanos.

Outro experimento envolvendo a pele de tilápia deverá ocorrer com o envio de amostras ao espaço em um foguete, em junho deste ano. A ideia partiu do Clube de Astronomia Louis Cruls, de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, participante do projeto Cubos no Espaço, que tem parceria da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos. “Vamos analisar se a estrutura molecular e as proteínas da pele de tilápia, em especial o colágeno tipo 1, sofrerão alterações após ficar na estratosfera, sob baixa pressão e intensa radiação”, conta o médico Edmar Maciel, do IAQ.  Com relação à cirurgia realizada na paciente transexual em Campinas, que passava bem em meados de maio, a ex-

Pesquisadora do banco de peles de tilápia da ufC faz a limpeza e o recorte do material

pectativa é verificar se a pele da tilápia vai mesmo se transformar em epitélio vaginal. “Não se sabe se a transformação desse tecido vai ocorrer do mesmo modo como nas mulheres com síndrome de Rokitansky”, diz o ginecologista da Unicamp Luiz Gustavo Oliveira Brito, que participou da operação.

“A cirurgia não é nova, mas o material é diferente”, ressalta. Em outros lugares, afirma, usa-se membrana amniótica (da placenta) ou material sintético, feito de látex. Ele acredita, no entanto, que, se houver uma empresa interessada, a pele de tilápia poderá ser uma boa alternativa. “Tudo depende da viabilidade do produto.” Brito, Bezerra e equipe trabalham em um artigo científico relatando o caso, que será submetido para publicação no segundo semestre. n Frances Jones

DESIDRAtAção

4 5

O material é congelado a -80 oC durante 16 horas, liofilizado (desidratado) e embalado a vácuo em envelopes plásticos

Liofilizador

RADIoEStERILIz Ação

No Ipen, em são Paulo, a pele sofre radiação ionizante por cinco horas para eliminar microrganismos. depois de ser reidratada com soro fisiológico, está pronta para uso

Envelopes com a pele liofilizada

Projeto

Construção e implantação de irradiador industrial multipropósito de Co-60 (nº 97/07136-0); Modalidade Programa Equipamentos Multiusuários; Pesquisador responsável Leonardo Gondim de Andrade e silva (Ipen); Investimento r$ 1.868.012,76. Artigos científicos

MOr AEs, M. O. et al study of tensiometric properties, microbiological and collagen content in nile tilapia skin submitted to different sterilization methods. cell and t issue Banking. v. 19, ed. 3, p. 373-82. set. 2018. BEZErr A L. r . P. s et.al. Tilapia skin fish: A new biological graft in gynecology. Revista de medicina da UFc v. 58. n. 2. 2018.

FontES C ArLOs rOBErTO kOsCky PAIEr (ufC) E MONICA MAThOr (IPEN)

EJuventude extraviada

Pesquisadores buscam

explicações para o aumento nas taxas de suicídio

cometido por jovens no Brasil

Versão atualizada em 25/06/2019

ntre 2000 e 2012, 49,4% dos 172 países da Organização Mundial da Saúde (OMS) registraram quedas superiores a 10% nas taxas de suicídio. Na contramão dessa tendência, no Brasil houve um aumento de 10,4%, com crescimento significativo entre a população jovem. Estatísticas mais recentes do Ministério da Saúde indicam que as mortes autoprovocadas na faixa etária de 10 a 14 anos subiram 40% entre os meninos e 30% entre as meninas, entre 1997 e 2015. “Conflitos psíquicos, abuso de álcool e drogas, exposição à violência, além da escassez de políticas públicas integradas para a prevenção de comportamentos suicidas são algumas hipóteses para esse panorama”, analisa a antropóloga Sandra Garcia, coordenadora do Núcleo de População e Sociedade do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que desde o ano passado pesquisa o fenômeno no Brasil.

Anualmente são registrados 1 milhão de suicídios no mundo e, para cada morte, informa Garcia, estima-se a ocorrência de pelo menos 20 tentativas sem êxito. A partir da análise de dados do Ministério da Saúde, pesquisadores do Cebrap e do Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” (Nepo) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificaram que, no Brasil, o suicídio foi a quarta causa de morte entre indivíduos de 15 a 29 anos, entre 2011 e 2016, com números quatro vezes superiores para os homens (9 mortes por 100 mil habitantes) em relação às mulheres (2,4 mortes por 100 mil habitantes). À exceção do grupo etário de 15 a 19 anos do Centro-Oeste, em todas as regiões do país as mulheres tentam mais vezes acabar com a vida do que os homens. “Entre meninas de 10 a 14 anos da região Nordeste a incidência de casos de automutilação chega a 39,7%”, informa Garcia. A pesquisadora também chama a atenção para o aumento entre os indígenas. “Entre essa população, a proporção de mortes por suicídio para cada 100 mil habitantes é de 12, o dobro da média nacional (5,7)”, diz. Segundo a pesquisadora, historicamente, o Sul do Brasil registra a maior quantidade de suicídios, com 12 mortes por 100 mil habitantes ao ano. “Há 10 anos, na região Norte do país esse valor era de 7. Agora também chegou a 12 suicídios por 100 mil habitantes, crescimento que foi motivado pelo aumento do suicídio indígena”, analisa. Em relação ao panorama global, a antropóloga observa que, nos países de alta renda, a mortalidade por suicídio é 3,5 vezes maior entre os homens. Por outro lado, a incidência de ideias suicidas é maior entre as mulheres. Apesar da tendência de cresci-

Christina Queiroz

mento, no Brasil a prevalência de suicídio segue subestimada devido à baixa notificação de casos ou erros de classificação. Algumas mortes são consideradas “acidentais” ou registradas como “causa indeterminada”, seja por conta de erros de notificação ou mesmo por omissão da própria família, relata Garcia.

Responsável por estabelecer essa nova linha de investigação no Cebrap, a demógrafa Elza Berquó, professora emérita da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), conta que decidiu incluir o tema do suicídio nos estudos demográficos depois de identificar dois fenômenos: o aumento de jovens HIV positivo e o avanço de casos de gravidez indesejada. “Por que esses fenômenos ocorrem em um momento em que os adolescentes podem se prevenir utilizando, por exemplo, preservativos ou pílula do dia seguinte?”, pergunta. Ao buscar respostas, Berquó levantou a hipótese de que os jovens passaram a querer correr riscos como forma de encontrar sentido para suas vidas.

s aúde mental

Calcula-se que mais de 90% dos casos de suicídio estejam associados à existência de algum transtorno mental, incluindo depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia. Estudo desenvolvido por pesquisadores das instituições norte-americanas San Diego State University, Florida State University, Lynn University e Pomona College analisou a incidência de transtornos mentais e casos de suicídio em adolescentes e adultos nos Estados Unidos. A pesquisa identificou que, entre 2005 e 2017, as taxas de depressão aumentaram 52% entre adolescentes de 12 a 17 anos e, de 2009 a 2017, subiram 63% entre adultos de 18 a 25 anos. Nessa faixa etária, o mesmo estudo constatou que houve aumento de 71% nos registros de sofrimento psicológico grave entre 2008 e 2017. Tais tendências de crescimento são fracas ou inexistentes em adultos com mais de 26 anos, o que indica mudança geracional na incidência de transtornos mentais. O estudo sugere que o aumento do sofrimento psicológico entre os mais jovens pode estar relacionado com o uso de comunicação eletrônica e mídias digitais, além de redução nas horas de sono.

“No Brasil, identificamos que a depressão está atingindo pessoas mais jovens, cada vez mais solitárias e imediatistas. É uma geração que recorre à automutilação como forma de representar a dor”, afirma o psiquiatra Neury José Botega, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Guilherme Vanoni Polanczyk, do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (FM-USP), explica que, em determinados casos, um transtorno mental não tratado ou tratado de forma indevida pode culminar em suicídio.

perfil do jovem suicida

mortes conforme faixa etária entre 2014 e 2016, no Brasil

a 14 anos

avanço dos casos

crescimento percentual da taxa de suicídios por 100 mil habitantes segundo a faixa etária, no Brasil

10-14 anos 15-19 anos 20-29 anos 30-59 anos

Atentos a esse panorama, pesquisadores do Instituto de Psiquiatria (IPq) da FM-USP, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que integram o Instituto Nacional de Psiquiatria do Desenvolvimento (INPD), analisaram o desenvolvimento de 2.511 crianças de 6 a 12 anos matriculadas em escolas públicas de Porto Alegre e São Paulo e identificaram 651 delas com algum tipo de transtorno mental como ansiedade, fobias, déficit de atenção, hiperatividade e esquizofrenia. “Dessas, 81% nunca receberam tratamento psiquiátrico ou psicológico. Verificamos também que crianças pardas apresentaram maiores chances de não serem tratadas, quando comparadas com as crianças brancas”, afirma o psicólogo Daniel Fatori, pós-doutorando no IPq e um dos autores do trabalho. Polanczyk explica que cerca de 14% das crianças e adolescentes do mundo possuem algum tipo de transtorno mental. “Em países desenvolvidos, cerca de 35% das crianças com esses

transtornos recebem tratamento, mas no Brasil o atendimento cai para cerca de 18%”, informa. De acordo com ele, os transtornos mentais surgem a partir da combinação de fatores genéticos, biológicos e ambientais. “Ainda não há possibilidade de intervenções curativas”, diz. Por outro lado, cada vez mais estudos procuram desenvolver estratégias de prevenção, na medida em que o reconhecimento e a intervenção precoce garantem uma melhor evolução dos quadros clínicos. “Prejuízos no vínculo mãe-bebê, como, por exemplo, em casos de depressão materna, abandono e violência, representam situações de alto risco para a ocorrência de transtornos mentais ao longo de toda a vida”, diz.

O projeto sob a coordenação de Polanczyk envolve a identificação de adolescentes grávidas que vivem em situações de extrema pobreza em São Paulo. “Acompanhamos essas jovens desde o primeiro trimestre de gestação até o bebê completar 2 anos, elaborando ações para melhorar os vínculos afetivos, evitando situações de abuso e violência”, explica o pesquisador, lembrando que 75% dos adultos com transtornos mentais apresentaram os primeiros sintomas antes dos 18 anos. Polanczyk recorda, ainda, que a psiquiatria da infância e da adolescência representa um campo científico novo, com os primeiros estudos feitos por universidades europeias apenas na década de 1960. No Brasil, médicos de saúde da família e pediatras têm treinamento limitado em questões de saúde mental de crianças e adolescentes. São poucos os que sabem, por exemplo, avaliar a ocorrência de ideias suicidas.

Dificuldade adicional, pontua Sandra Garcia, envolve a Portaria nº 104 do Ministério da Saúde. Publicada em janeiro de 2011, ela determina que autoridades médicas municipais notifiquem compulsoriamente todas as tentativas e os casos de suicídio registrados. Apesar de a iniciativa ter propiciado melhor controle da incidência de violência autoprovocada, seu formulário é falho. Não prevê, por exemplo, a inclusão de informação sobre tentativas anteriores. “Ter um histórico de tentativa prévia representa o mais importante indicador para o suicídio. O formulário deveria exigir esse dado”, afirma. Levantamento feito pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic) mostra que 85% das crianças

d

eterminantes para

o suicídio

sOCiOdemOgráFiCOs

• desemprego

• migração

• isolamento social

• Guerras e conflitos armados

psiCOlógiCOs

• conflitos interpessoais

• perda de familiares ou amigos

• mudanças políticas e financeiras

• discriminação

COndições ClíniC as

• transtornos mentais

• depressão e alteração de humor

• alcoolismo

• dores crônicas e lesões graves

e adolescentes entre 9 e 17 anos no Brasil utilizavam a internet em 2017, o que corresponde a 24,7 milhões de pessoas. “Cerca de 80% desses usuários possuem o hábito de navegar todos os dias. Embora estejam totalmente conectados, podem estar isolados. Ou seja, se atravessam um processo de depressão ou angústia, quando se desconectam talvez não encontrem suporte adequado, o que tende a aguçar o sofrimento”, analisa a antropóloga do Cebrap. Apesar da inexistência de estudos que evidenciem relação direta entre o uso abusivo de tecnologia e a ocorrência de sintomas depressivos ou ansiosos, Polanczyk considera necessário avaliar não apenas o número de horas que os jovens passam em frente a telas de computador, tablets e celulares, mas também o conteúdo acessado. “A pergunta que devemos fazer é: quem faz uso de qual conteúdo? Um adolescente com sintomas depressivos que, por exemplo, tem dificuldades sociais pode buscar na internet situações que reflitam ou potencializem seu estado emocional em sites que incentivam a automutilação ou mesmo o suicídio”, alerta o psiquiatra.

p O pulaçã O vulnerável

A situação socioeconômica do país é outro fator que pode estar relacionado ao aumento dos suicídios. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) divulgada em 2017, 23% dos jovens brasileiros de 15 a 29 anos – ou seja, 11,2 milhões de um total de 48,5 milhões – não estudavam nem trabalhavam em 2016. Entre 2016 e 2017 houve um crescimento de 5,9% desse contingente, sendo a maioria pobre e com baixa escolaridade, dois terços do sexo feminino e a metade delas com filhos. Além disso, 41% dos jovens brasileiros abandonam o ensino médio antes de sua conclusão, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Jovens à margem do sistema de ensino e do mercado de trabalho e sujeitos às vulnerabilidades econômicas e sociais estão mais expostos a problemas mentais e ao abuso de substâncias lícitas e ilícitas”, enfatiza Garcia, do Cebrap.

Atenta às oscilações socioeconômicas que ocorreram no Brasil entre 2006 e 2015, pesquisa desenvolvida na Unifesp também identificou correlação entre desemprego, crise econômica e suicídio. Um dos autores do trabalho, o psiquiatra Elson Asevedo, da Escola Paulista de Medicina, conta que o estudo reconheceu a vulnerabilidade da população entre 15 e 19 anos. “Observamos que, em momentos de crise econômica, os suicídios aumentaram nessa faixa etária”, informa, explicando que, além de dados do Ministério da Saúde, a pesquisa trabalhou com informações sobre o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, taxas de desemprego e o Coeficiente de Gini, que

taxas brutas de suicídio

Por 100 mil habitantes entre 15 e 29 anos, em 2012

Japão

Chile

Argentina

Estados Unidos

Suécia

Noruega

Canadá

Suíça

Brasil

México

Reino Unido

Senegal

Portugal

Gana

Itália

Espanha

mede a desigualdade. Outro achado envolve o crescimento do suicídio nas capitais. “Enquanto o suicídio de adolescentes aumentou 13% no Brasil, nas capitais o percentual correspondente foi de 24%”, diz. “Nas grandes cidades, as pessoas estão mais expostas a fatores de risco para transtornos mentais, como a violência, e costumam ter menos laços de coesão social.”

C A m I n ho S pA r A A pr E v E nção

Algumas universidades têm criado programas para lidar com a situação. A USP, que no ano passado registrou ao menos quatro casos de suicídios envolvendo seus alunos, conta desde julho com o Escritório de Saúde Mental. “Em contato com familiares, amigos e professores dos alunos que tiraram a própria vida, constatamos que os atos tiveram motivações distintas. Dois dos casos envolveram jovens que apresentavam algum tipo de transtorno mental e pareciam estar com dificuldades para lidar com frustrações, mas outro surpreendeu toda família e comunidade escolar”, conta Andrés Eduardo Aguirre Antúnez, vice-diretor do Instituto de Psicologia (IP) da USP e coordenador do escritório. “É preciso estar atento a pessoas que andam muito isoladas e verbalizam que a vida não vale a pena. O suicídio pode ser cometido em um impulso, em situações que representam um enigma até mesmo para o clínico mais experiente”, diz. A maioria dos 115 estudantes que passaram pelo escritório em seus seis primeiros meses de funcionamento

relatou sofrimento em decorrência de situações de violência ou desamparo familiar, conta Antúnez. Todos que aceitaram foram encaminhados para atendimento nos institutos de Psicologia ou Psiquiatria da instituição. “Além de tratar esses jovens, estamos produzindo conhecimento. Atualmente, há quatro pesquisas de doutorado e pós-doutorado sendo conduzidas a partir dos casos que chegam ao escritório”, informa. Em relação às políticas públicas para a redução das taxas de suicídio, Neury Botega, da Unicamp, lembra que, para serem efetivas, elas precisam considerar as peculiaridades históricas, sociais e econômicas de cada país. De acordo com ele, em nações como China e Índia, em que eram altas as taxas de suicídio entre as mulheres, os percentuais caíram à medida que se acomodou o processo de urbanização. “Nas cidades, com mais liberdade, o papel social das mulheres foi mudando. Muitas passaram a viver com mais autonomia em relação aos maridos”, diz. Países como Áustria e Austrália, que registravam elevadas taxas de mortes autoprovocadas por armas de fogo, colocaram em prática campanhas de desarmamento, enquanto o Reino Unido, com percentuais elevados de suicídios entre idosos, criou um projeto de atenção à população acima de 60 anos. “Na Rússia, a redução dos suicídios está associada a leis para restringir o uso de álcool e, na Suécia, que nos anos 2000 enfrentou recessão econômica, a estratégia envolveu um programa de apoio aos desempregados”, compara o pesquisador da Unicamp.

No Brasil, as políticas para prevenção do suicídio estão concentradas no Ministério da Saúde, incluindo a Portaria nº 104 de 2011 e campanhas de conscientização. Até recentemente, o país não contava com legislação de alcance nacional, situação que mudou no final de abril com a promulgação da Lei nº 13.819/19, que instituiu a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio. Desde então, escolas públicas e privadas são obrigadas a notificar os conselhos tutelares sobre casos de violência autoprovocada, mesmo que não confirmados. Para Sandra Garcia, do Cebrap, tal obrigatoriedade pode ser prejudicial em situações em que o sofrimento do jovem está associado a abusos cometidos por familiares, uma vez que o conselho tutelar tem o dever de acionar os responsáveis sempre que notificado. “As escolas precisam trabalhar em conjunto com os serviços de saúde para acolher esses jovens”, diz. Asevedo, da Unifesp, vê a nova lei com bons olhos. “Ela coloca o assunto como prioritário na agenda do governo e favorece o desenvolvimento de políticas públicas integradas”, finaliza. n

Os artigos científicos consultados para esta reportagem estão listados

A Justiça que tarda, mas (aparentemente) não falha

Combate à corrupção é estudado a partir do trâmite de inquéritos policiais e processos penais

Aimpunidade em casos identificados de corrupção no Brasil pode ser inferior a 5%. Esse é o percentual de processos que, entre 2010 e 2016, em varas pertencentes aos estados de Alagoas, São Paulo e Rio de Janeiro e ao Distrito Federal, deixaram de ser julgados em razão da lentidão da Justiça. “A prescrição é vista pelo senso comum e retratada na mídia como um mecanismo pelo qual se evita que acusados de crimes sejam levados a julgamento, beneficiando os infratores ao estender prazos”, observa o cientista político José Álvaro Moisés, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador de estudo desenvolvido pelo Núcleo de Políticas Públicas da instituição (NUPPs) em parceria com a Associação Brasileira de Jurimetria (ABJ). “Partimos desse ponto de vista para verificar se a impunidade realmente ocorre e qual sua dimensão”, explica.

A pesquisa “Justiça criminal, impunidade e prescrição” reuniu, além do coordenador, seis pesquisadores e quatro estagiários, com o objetivo de buscar indícios de impunidade no que se convencionou denominar Sistema de Integridade brasileiro. O SI, como se tornou conhecido, é composto por instituições judiciárias e policiais destinadas ao cumprimento da lei nos casos de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. “O termo está relacionado, na ciência política, ao estudo da qualidade da democracia e à perspectiva de preservação da integridade da administração pública”, informa Moisés, que aponta o sistema como responsável pelo desencadeamento da operação Lava Jato em 2008. Para compreender como as instituições brasileiras vêm enfrentando a impunidade desde esse momento, os esforços dos pesquisadores se dividiram em dois eixos principais: o mapeamento do fluxo e da duração de inquéritos policiais e processos penais, envolvendo crimes

Luisa Destri

UnIvEr SO DA pESQUISA

SIStEmA DE IntEgrIDADE (SI)

Composto por instituições

judiciárias e policiais destinadas ao cumprimento da lei nos casos de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro

CrImES & prOCESSOS

• Corrupção ativa e passiva

• tráfico de influência

• Lavagem de dinheiro

prOCESSOS & DESFEChOS ativo, quando o caso segue em andamento

denúncia arquivada

Condenação

arquivado sem resolução do mérito

resultados mistos

(condenação e absolvição)

Prescrição

desse tipo e a identificação do perfil dos atores que operam no SI.

Com auxílio da tecnologia de informação, em tribunais de primeira instância foram coletados dados de mais de 4 mil processos, envolvendo crimes como corrupção ativa e passiva, tráfico de influência, lavagem de dinheiro, entre outros. Todos os processos foram classificados segundo um dos seis possíveis desfechos: ativo, quando o caso segue em andamento, denúncia arquivada, condenação, arquivado sem resolução do mérito, resultados mistos (condenação e absolvição) e prescrição. Nos tribunais de Justiça de São Paulo e do Rio de Janeiro, de onde saíram as maiores quantidades de casos da amostra – 1.625 e 1.010, respectivamente –, 3% dos processos prescreveram. O índice mais elevado de prescrição, ou seja, 10%, ocorreu no Tribunal de Justiça do Distrito Federal: em três de 31 ações o Estado perdeu a oportunidade de julgar a responsabilidade de investigados por crimes dessa ordem em razão da longa duração dos processos.

“A pesquisa é um marco no debate sobre a impunidade no Brasil”, comenta o cientista político Rogério Arantes, também do Departamento de Ciência Política e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP). “Seguramente a opinião pública brasileira, que não acredita no funcionamento da Justiça porque os crimes prescrevem, esperaria um percentual muito mais alto do que o encontrado pelo estudo”, avalia. Para a socióloga Ludmila Ribeiro, professora do Departamento de Sociologia e pesquisadora do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ainda que o índice esteja abaixo do que se poderia esperar, não se trata de uma boa notícia. “A prescrição é algo que não deveria acontecer. É o Estado mostrando toda a sua ineficiência: os agentes abrem um processo, mas perdem a oportunidade de punir o responsável por determinado crime porque demoram tempo demais”, afirma.

Analisando a proporção de cada etapa de tramitação de um processo judicial – que ao todo leva, em média, 6,5 anos –, a pesquisa concluiu que o maior tempo é dedicado à instrução do processo, isto é, à reunião de provas por parte do juiz. Na inter-

pretação de Ribeiro, que assim como Arantes não integra a equipe do projeto, o dado mostra que a prescrição não é causada pela interposição de recursos por parte da defesa – que desse modo produziria intencionalmente demora no processo –, e, sim, pela ineficiência sistêmica do Poder Judiciário.

Considerada alta, a taxa de arquivamento chamou a atenção dos pesquisadores. No universo analisado, um em cada cinco processos foi encerrado sem que houvesse decisão judicial. “A rigor, não se pode dizer que o arquivamento é impunidade, pois o Estado de fato agiu naquele caso: após o inquérito policial, um integrante do Ministério Público ou um juiz decidiu pelo arquivamento. A taxa é enorme, mas talvez esteja relacionada a questões meramente técnicas, não associadas à impunidade”, avalia Fernando Corrêa, cientista de dados e diretor-técnico da ABJ. Na opinião de Arantes, entender por que os processos são arquivados é uma boa questão para investigações futuras.

Apesquisa também analisou mais de 3 mil decisões judiciais em tribunais de segunda instância, nos mesmos estados de Alagoas, Rio de Janeiro e São Paulo e no Distrito Federal, com o objetivo de compreender se o foro privilegiado, ao permitir que processos envolvendo autoridades públicas tramitem em instância superior, implicaria gargalos. A conclusão foi de que cerca de 45% dos pedidos de foro privilegiado não são admitidos, o que, segundo os pesquisadores, seria um indício de ineficiência do sistema, já que as razões para a negação do pedido estão previstas na legislação – quando ocorre a perda de mandato, por exemplo, fazendo com que o processo passe novamente à primeira instância, ou quando compete à Justiça Eleitoral conduzi-lo. “Se as regras fossem outras, talvez o sistema fosse mais eficiente. Isto é, poderia haver menor número de interrupções da tramitação dos processos, o que por sua vez poderia acarretar uma investigação mais rápida”, afirma Corrêa.

A prescrição é algo que não deveria acontecer.
É o Estado mostrando toda a sua ineficiência, diz Ludmila r ibeiro

No que diz respeito à Polícia Federal, os números chamaram a atenção dos pesquisadores. Em um tempo médio de 936 dias de investigação, cerca de 2,5 anos, foram solucionados 95% de 3.885 inquéritos instaurados e concluídos entre 2003 e 2018, com identificação de autoria em 38% deles e conclusão de que em 57% dos casos, apesar da denúncia, não houve crime ou o indivíduo apontado como responsável não o era de fato. Ainda que o dado global sugira alta eficiência, o índice é visto com ressalvas. Para a professora da UFMG, seria preciso investigar o que de fato ocorre

nesses casos. “Como o inquérito policial é sigiloso – e não público como a maioria dos processos judiciais –, não temos como saber por que há tantas suspeitas que não resultam em crimes ou em indicação de acusado”, observa Ribeiro.

AtOrES Em DEbAtE

O segundo eixo do estudo, voltado à identificação do perfil dos atores que trabalham no combate à corrupção, foi desenvolvido com a aplicação do método Q, uma “ferramenta de captação de subjetividades”, na definição do coordenador da pesquisa. A metodologia consiste em um formulário eletrônico com afirmações sobre a área de atividade pesquisada, neste caso a atuação da Justiça criminal e a corrupção. Ao preenchê-lo, cada um dos respondentes classificou as informações de duas maneiras: organizando-as conforme a relevância que lhes atribui e apontando seu grau de identificação, em uma escala que vai de -5 (discordo completamente) a +5 (concordo completamente).

As afirmações eram tanto de caráter geral – “o salário mínimo no Brasil é justo”, “a lei é igual para todos”, “a pobreza e a desigualdade estão na raiz da corrupção” – quanto específico, voltadas a mecanismos jurídicos – “a prisão

em segunda instância combate a corrupção”, “a prisão cautelar é injusta”, “a condução coercitiva fere direitos”. O objetivo era duplo: apreender a visão do respondente sobre sua atividade e o modo como insere sua atividade na sociedade. De acordo com o cientista político José Veríssimo, pesquisador do NUPPs, “ao convidar o participante a montar um mapa bastante complexo de circunstâncias e de opiniões acerca de sua atividade laboral, o método privilegia o modo como ele entende sua atividade cotidiana”. O conjunto de assertivas foi elaborado coletivamente pela equipe que, como hipótese, estabeleceu dois tipos de atores: os garantistas-contratualistas e os garantistas-igualitaristas, definidos, respectivamente, como aqueles que privilegiam a visão do indivíduo perante a lei e aqueles que “reconhecem que desigualdades estruturais desafiam a Justiça no sentido de que a lei seja ‘igual para todos’”.

Embora tenha sido enviado a 1.842 destinatários, entre magistrados, promotores, procuradores e delegados da Polícia Federal, o questionário foi respondido por apenas 40 pessoas. Os dados passaram, então, por dois momentos de análise. Em primeiro lugar, os tipos ideais, desenhados na etapa de elaboração do questionário, foram ajustados, permitindo à equipe estabelecer algumas correlações: entre os 27 garantistas-contratualistas se acredita que “a prisão em segunda instância combate a corrupção, que a lentidão processual

AL

Tempo médio de investigação 936 dias

95% de 3.885 inquéritos instaurados e concluídos entre 2003 e 2018 foram solucionados

38% deles com identificação de autoria

igualitaristas houve 8% de prescrição, enquanto essa taxa ficou em 3% entre contratualistas; estes, porém, arquivaram mais processos (19% contra 8%) e condenaram menos (40% diante de 46%). Além de o universo considerado ser pequeno, trata-se de um método não amostral, indutivo, que relaciona crenças e comportamentos. Por isso, os pesquisadores alertam que as conclusões não podem ser estendidas para a totalidade da Justiça brasileira. “O método indica que a maneira como o grupo expressa questões envolvidas na atuação profissional é uma tendência no interior dessa comunidade analisada”, explica Moisés. Para Veríssimo, os resultados encontrados refletem o debate jurídico atual, como a prisão após condenação criminal em segunda instância, em discussão no Supremo Tribunal Federal (STF). “A questão que resume o teor do questionário poderia ser: que tipo de garantias individuais e a que custos individuais se podem aplicar aos fluxos da Justiça? Esse é o debate que o Judiciário está fazendo hoje”, explica o cientista político do NUPPs. Também para Arantes os perfis encontrados coincidem com as principais discussões a respeito de como se deve dar o combate à corrupção: “Um grupo de atores acredita que a Justiça deva funcionar de acordo com as regras processuais e garantir a todos os envolvidos o pleno direito de atuação que essas regras conferem. Para outro grupo, a Justiça deve aportar algo novo, indo além das regras em busca de um objetivo final”.

gera impunidade e que a multiplicidade de recursos causa a prescrição”, segundo o relatório da pesquisa. Já os 13 garantistas-igualitaristas não apostam em fluxos e procedimentos mais rápidos como resposta para efetividade e garantia da Justiça e “demonstram-se contrários, por exemplo, à condução coercitiva, menos críticos à política como fator de controle do Judiciário e extremamente propensos a uma avaliação estrutural das circunstâncias que envolvem situações de crime”.

No segundo momento, os dados obtidos a partir dos questionários foram combinados à primeira parte da pesquisa, isto é, os pesquisadores observaram o andamento de processos sob responsabilidade dos juízes que responderam ao questionário. Resultado: entre

Desenvolvida em aproximadamente um ano, a partir do início de 2018, a pesquisa inova ao realizar um levantamento inédito de informações processuais, obtidas com auxílio de ferramentas computacionais descritas em detalhes no relatório que está disponível no site do CNJ, como parte da série Justiça Pesquisa. “Entre os trabalhos desenvolvidos pela ABJ, este é um estudo atípico. Aqui há várias camadas de interpretação e muito material para discussão”, completa Corrêa. Além do relatório final, os dados da pesquisa também podem ser consultados na página da ABJ, na internet (https://abj.org.br/). n

e studo moisÉ s, J. a . (coord.). Justiça Criminal, impunidade e prescrição. Conselho nacional de Justiça on-line. 2019.

Conhecimento unificado

Organizações de ciências naturais e sociais se reúnem em conselho internacional para fomentar pesquisas transdisciplinares

Criado em julho de 2018, o International Science Council (ISC) é uma organização não governamental com sede em Paris, na França, que nasceu da fusão entre um conselho voltado às ciências naturais, o International Council for Science (ICSU), e outro dedicado às ciências sociais, o International Social Science Council (ISSC). Em entrevista à Pesquisa FAPESP, a CEO do ISC, a sul-africana Heide Hackmann, doutora em ciência e tecnologia pela Universidade de Twente, na Holanda, conta que a união das organizações visa fomentar pesquisas transdisciplinares em áreas como desenvolvimento sustentável e tecnologias digitais, além de ampliar a articulação entre o conhecimento científico e a formulação de políticas públicas. Hackmann esteve em São Paulo em maio para participar da reunião do Global Research Council (GRC), um encontro anual de agências de fomento de todo o mundo (ver reportagem na página 36).

Por que os dois conselhos se fundiram? O ICSU existia desde 1931. O ISSC, desde 1952. Ao unir as culturas das ciências naturais e sociais, o novo conselho pretende incentivar a busca por soluções integradas e inovadoras para desafios globais. Também queremos atuar como porta-voz da ciência no mundo. Representamos cerca de 40 associações científicas internacionais, além de 140 organizações nacionais, incluindo sindicatos, conselhos acadêmicos e de pesquisa. No Brasil, a Academia Brasileira de Ciências [ABC] e a Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais [Anpocs] fazem parte da nossa rede. A socióloga política Elisa Reis, professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é vice-presidente do conselho.

Qual a importância do desenvolvimento de pesquisas integradas?

Os desafios para garantir o desenvolvimento sustentável e erradicar a pobreza, por exemplo, não podem ser superados

por uma disciplina científica isoladamente. É necessário buscar respostas com base no conhecimento integrado para resolver problemas como a fome, as desigualdades sociais e as mudanças climáticas. O ISC pretende promover o diálogo interdisciplinar entre as ciências nos três níveis: global, nacional e regional. A cooperação será mais efetiva à medida que se amplie a articulação com formuladores de políticas públicas, tomadores de decisão e líderes empresariais.

Quais são os desafios metodológicos e práticos do novo conselho?

O ISC reúne as ciências naturais e sociais na mesma esfera institucional, mas ainda é um desafio criar oportunidades concretas para que essas áreas atuem conjuntamente na resolução de problemas. Para os próximos três anos, estabelecemos áreas prioritárias em que desejamos causar impacto global. Uma delas envolve os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável do planeta, estabelecidos pela

Organização das Nações Unidas [ONU] para serem atingidos até 2030. O papel do conhecimento científico consiste em encontrar caminhos que garantam o uso sustentável e igualitário dos recursos naturais. Outra área diz respeito às tecnologias digitais, que estão revolucionando os meios pelos quais a informação e o conhecimento são adquiridos, armazenados, comunicados e utilizados. Precisamos entender as oportunidades e os desafios que surgiram com a chamada revolução digital. Pretendemos, ainda, criar iniciativas internacionais

a disseminação de desinformação. Nossos integrantes se articulam em todo o mundo para assegurar a presença da ciência em debates políticos que envolvam, por exemplo, o Acordo de Paris, assinado por 195 países com o propósito de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Produzimos relatórios para a ONU que servem de base para alguns de seus programas, entre eles ações para reduzir os riscos de desastres naturais e socioambientais. Copatrocinamos iniciativas internacionais como a rede International Network for Government Science Advice [INGSA], que conecta cerca de 5 mil pesquisadores envolvidos na criação e no compartilhamento de políticas públicas elaboradas com base em evidências científicas. O INGSA é uma plataforma colaborativa para intercâmbio de políticas, capacitação e pesquisas entre organizações de assessoria científica.

E em relação à liberdade científica, qual deverá ser a atuação do ISC?

Hackmann: intenção de ampliar a articulação entre a produção científica e a elaboração de políticas públicas

Salvaguardar a liberdade e promover a responsabilidade científica, o rigor e a relevância das pesquisas também constituem prioridades do conselho. Queremos mostrar que o avanço da ciência é um bem público em qualquer país. Para isso, temos um comitê que trabalha para garantir a liberdade de ir e vir, de associação, de expressão e de comunicação entre os cientistas.

Que desafios enxerga para a ciência no Brasil?

para fomentar estudos transdisciplinares. Temos um programa com duração de cinco anos para apoiar a produção de pesquisas sobre sustentabilidade global desenvolvidas por cientistas em início de carreira na África.

O ISC pretende participar do processo de formulação de políticas públicas? Queremos ampliar a articulação entre a produção científica e a elaboração de políticas públicas, por meio da criação de estruturas institucionais que permitam compartilhar conhecimento e neutralizar

Recebemos com preocupação as declarações vindas do Ministério da Educação sobre a proposta de retirar financiamento para o ensino de filosofia e sociologia nas universidades públicas. Uma eventual interrupção de recursos para essas áreas afetaria a rede interdisciplinar de ideias críticas que circulam entre os pesquisadores em diferentes partes do mundo. As inovações oriundas de estudos em filosofia e sociologia são fundamentais para resolver problemas enfrentados pela sociedade, além de proporcionar diversidade de ideias e habilidades importantes para o desenvolvimento nacional e a competitividade econômica. O ISC pretende agir, por intermédio de seus integrantes, toda vez que o exercício da ciência for ameaçado. n Christina Queiroz

Espaços de aprendizagem

Bibliotecas escolares exercem impacto positivo entre os alunos, principalmente nos de famílias de baixa renda, indica estudo

Há duas datas previstas em lei para a universalização das bibliotecas nas escolas públicas do Brasil. Pela Lei nº 12.224, de 2010, todas as unidades de ensino devem estar equipadas com bibliotecas até 2020; pelo Plano Nacional da Educação (PNB), até 2024. Parece difícil imaginar que qualquer um desses prazos será cumprido. Segundo o Censo de 2017 do Ministério da Educação (MEC), 61% das escolas ainda não têm bibliotecas. Além disso, desde 2015 está suspensa a distribuição de livros pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) do governo federal.

Para avaliar o impacto das bibliotecas no aprendizado dos alunos e pesar quais são os fatores que garantem um funcionamento eficaz, o Instituto Pró-Livro (IPL) – fundado em 2006 por associações nacionais de editoras – promoveu pesquisa em 17 estados do país envolvendo cerca de 500 escolas (de um total

de 142.573) com bibliotecas ou salas de leitura que participaram da Prova Brasil em 2015. Os resultados iniciais do estudo, intitulado “Retratos da leitura – Biblioteca escolar”, foram anunciados em abril. “Temos duas conclusões principais”, informa a socióloga Zoara Failla, gerente de pesquisas do IPL. “A primeira é que bibliotecas e salas de leitura promovem melhor desempenho dos alunos em português e matemática. A outra é que o impacto se torna maior conforme aumenta a vulnerabilidade social das regiões em que as escolas se inserem.” O objetivo principal foi correlacionar os dados obtidos na aplicação de questionários presenciais com os resultados de desempenho medidos pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O índice Saeb é composto pelos resultados da Prova Brasil e da Avaliação Nacional da Educação Básica (Aneb). O Ideb é calculado

segundo duas variáveis apuradas pelo MEC: as taxas de aprovação e evasão, levantadas pelo censo educacional, e as médias do Saeb. Ambas são divulgadas a cada dois anos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) do MEC. O Ideb tem escala de 0 a 10, servindo como um ranking das escolas. Já a escala Saeb é um medidor de aprendizagem dos alunos e vai de 0 a 500, para cada disciplina.

Nas instituições de regiões mais vulneráveis o impacto chega a 0,5 no Ideb. Para efeito de comparação, entre 2015 e 2017 o Ideb do país cresceu 0,3 ponto. A escala Saeb também indica avanços. O desempenho em português aumenta 5 pontos, na comparação entre a escola em que a biblioteca funciona melhor e aquela em que funciona pior. Esses 5 pontos equivalem a meio ano de aprendizado entre a 5ª e a 9ª séries. Outro dado significativo se refere à presença de um bom acervo nas bibliotecas escolares,

Márcio Ferrari

com crescimento de 6 pontos em português e 10 pontos em matemática. Em relação ao Ideb o aumento é de 0,4 ponto.

O economista Sérgio Firpo, professor do Insper, realizou o trabalho de metodologia, amostra e análise com três colegas do instituto. Sua interpretação é que o ensino público, ao constituir bibliotecas escolares, supre aquilo que as famílias mais ricas oferecem a seus filhos em casa. “Muitos alunos vêm de contextos que não têm a cultura do livro, mas terão que se inserir em uma sociedade em que o livro é fundamental, mesmo com o avanço das tecnologias digitais”, diz Regina Zilberman, professora do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

c I nco tóp I co S

A primeira fase do estudo do IPL foi delimitar a amostra a ser pesquisada de acordo com as notas obtidas em português e matemática, formando um grupo das melhores escolas e outro das piores. Essas amostras foram organizadas em quatro níveis de indicadores socioeconômicos. Partiu-se então para entrevistas com diretores, professores de português e responsáveis pelas bibliotecas.

Os questionários abordaram cinco tópicos: espaço físico; acervo; atendimento e perfil do responsável pela biblioteca; serviços e atividades curriculares e extracurriculares; e recursos eletrônicos que deem acesso a outras bibliotecas. Os parâmetros foram definidos em 2008 em trabalho conjunto do Conselho Federal de Biblioteconomia e do Grupo de Estudos em Biblioteca Escolar da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordenado pela professora Bernadete Campello, da própria UFMG. Constatou-se que em 37% das escolas as bibliotecas ou salas de leitura são de uso compartilhado com outras atividades. Na correlação entre o espaço físico e o Ideb, as escolas com melhores condições atingem 0,2 ponto no Ideb acima das escolas do fim da lista.

Bibliotecas e salas de leitura promovem melhor desempenho dos estudantes em

português e matemática

Considerando-se o impacto da qualidade do acervo no aprendizado, o ganho no índice Saeb é de 6 pontos em português e de 10 em matemática; no Ideb é de 0,4 ponto. Os dados também sugerem alguma desatenção com os acervos das bibliotecas. Uma parcela de 62% dos entrevistados responsáveis por bibliotecas considerou seus acervos compatíveis com a quantidade de alunos, mas 60% não souberam informar quantos eram os títulos e exemplares existentes. Apenas 47% declararam catalogar o acervo com frequência.

Segundo Zilberman, da UFRGS, desde os anos 1980, quando a discussão em torno da formação de leitores começou a se aprofundar, as bibliotecas escolares passaram a ser vistas por teóricos e pesquisadores também como espaços de aprendizado e promoção de atividades. Na pesquisa do IPL, 44% dos profissionais responsáveis por espaços de leitura afirmaram que suas atividades estão ligadas aos conteúdos de sala de aula.

Ter um responsável pela biblioteca que desenvolva atividades relacionadas ao projeto pedagógico aumenta o desempenho dos alunos em português em 4 pontos nas notas do Saeb, de acordo com o estudo do IPL. Nas escolas de regiões mais vulneráveis a magnitude da correlação sobe para 16 pontos na escala Saeb. Entretanto, a finalidade básica da formação de leitores, que é o interesse pela literatura e não apenas o uso de livros didáticos, ainda não é bem atendida. A pesquisa mostra que apenas 40% dos profissionais das bibliotecas escolares indicam sempre literatura aos estudantes. “É nessa etapa do ensino que as crianças estão mais propensas a se tornarem leitoras, desde que incentivadas”, adverte Campello.

Uma das intenções da pesquisa, explica Failla, é oferecer subsídios para a adoção de políticas públicas, preferencialmente com debate prévio. “Se fosse necessário escolher os dois fatores mais importantes para tornar as bibliotecas mais eficientes, os investimentos deveriam ser em tecnologia e na formação de mediadores”, diz Campello. Das escolas pesquisadas, 61% não possuem computadores. Quanto aos mediadores, a pesquisa revela que 52% dos responsáveis por bibliotecas são professores e apenas 12% bibliotecários. Segundo Campello, uma biblioteca escolar ideal deveria combinar a formação generalista e organizadora dos bibliotecários com o conhecimento das disciplinas curriculares pelos professores.

Em breve os dados da pesquisa devem estar disponíveis para consulta na Plataforma Pró-Livro, no site da instituição. “Nossa expectativa é dar acesso às tabelas para que especialistas avaliem as respostas com mais profundidade”, diz Failla. “A multiplicidade de dados não permite estabelecer relações de causa e efeito, mas produz indicativos bastante confiáveis de correlações. Quanto mais as análises forem refinadas, mais claros serão os mecanismos do impacto das bibliotecas no aprendizado”, avalia Firpo. n

Dedicação plena à matemática

Maurício

Peixoto foi um dos criadores do Impa

Integrante da primeira geração de matemáticos profissionais do Brasil, Maurício Matos Peixoto foi um dos fundadores do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), na década de 1950. O Impa foi a primeira unidade de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), presidida pelo pesquisador de 1979 a 1980. Ele também dirigiu a Academia Brasileira de Ciências (ABC), de 1981 a 1991. Natural de Fortaleza, no Ceará, Peixoto morreu no Rio de Janeiro em 28 de abril, aos 98 anos.

“Ele acreditava na matemática quase como um sacerdócio, ao qual se dedicava de maneira plena”, contou o matemático Marcelo Viana, diretor-geral do Impa. Em 2010, Viana prontificou-se a fazer uma seleção de artigos de Peixoto, então com 89 anos e professor emérito do instituto. “Depois de fugir de mim, ele perguntou se não poderia esperar mais um ano ou dois, porque estava fazendo um trabalho que seria culminante de sua obra. Parecia que o tempo não passava para ele.”

A habilidade de Peixoto para a matemática mostrou-se primeiramente de modo inverso, ao ser reprovado nas provas dessa disciplina na segunda série do primeiro grau (atual ensino fundamental) no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Nas aulas de reforço, porém, contagiou-se com o entusiasmo do professor. Recuperou as notas,

passou de ano e decidiu que seguiria alguma profissão que dependesse da matemática.

Como os cursos universitários de matemática eram raros – o primeiro surgiu em 1934 na então recém-criada Universidade de São Paulo (USP) –, Peixoto optou por cursar a Escola de Engenharia da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Formou-se em 1942, terminou o doutorado em 1945 e conseguiu o registro de engenheiro, mas não quis trabalhar na área. Preferiu ensinar matemática até ser contratado em 1947 pela Escola de Engenharia.

Por três ocasiões lecionou nos Estados Unidos. Foi professor visitante na Universidade de Chicago (1949-1951), Universidade de Princeton (1957-1958) e Universidade Brown (1964-1970). Depois deu aulas no Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP (1973-1978). Quando voltou do primeiro período no exterior, em 1952, foi um dos que propuseram a criação do Impa, ao lado de dois ex-colegas de faculdade: o pernambucano Leopoldo Nachbin (1922-1993) e o carioca Lélio Gama (1892-1981).

Peixoto especializou-se em geometria e topologia, ramo da matemática que estuda propriedades espaciais que não se alteram quando os objetos que as possuem passam por certas espécies de transformação contínua. “Apesar de ser um matemático puro, ele sempre conseguia transformar em figuras geométricas os conceitos que preten-

de sistemas dinâmicos

Matemático é autor do teorema de Peixoto, na área
Carlos Fioravanti
Embora formado em engenharia, o pesquisador preferiu ensinar matemática

dia passar”, observou o matemático Pedro Leite da Silva Dias, diretor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG-USP). O pesquisador do Impa criou o Teorema de Peixoto, apresentado em artigos publicados em 1959, 1962 e 1963. O teorema retomava o conceito de estabilidade estrutural de sistemas dinâmicos, proposto em 1937 por dois soviéticos, o físico Aleksandr Aleksandrovich Andronov (1901-1952) e o matemático Lev Pontryagin (1908-1988). Sistemas – fenômenos que envolvem objetos em interação causal – são dinâmicos se comportam estados que se transformam ao longo do tempo segundo uma lei matemática. Um sistema dinâmico é estruturalmente estável se uma ligeira modificação na lei de transformação de seus estados não afeta suas propriedades topológicas. O teorema demonstrado por Peixoto enuncia condições matemáticas necessárias e suficientes para que uma espécie de sistemas dinâmicos, chamados bidimensionais autônomos, seja estruturalmente estável.

Segundo o matemático Tiago Carvalho, do Departamento de Computação e Matemática da USP de Ribeirão Preto, o teorema pode ser aplicado para entender fenômenos como o funcionamento de máquinas, reações químicas, relações entre predador e presas ou a evolução de doenças. “Esse foi o primeiro teorema de alto nível

na área de sistemas dinâmicos”, afirmou Viana. Segundo ele, o trabalho de Peixoto teve também importância histórica, porque fortaleceu a interação com os matemáticos das universidades de Chicago e da Califórnia (UC), em Berkeley, nos Estados Unidos, motivando-os a trabalhar mais intensamente nessa área e a receber jovens como o mineiro Jacob Palis. O então estudante Palis fez o doutorado na UC (1967) e, anos depois, presidiu o Impa (1993-2003) e a ABC (2007-2016).

Peixoto era amigo do matemático Candido Lima da Silva Dias, professor do IME-USP e pai de Pedro Dias. “Eles varavam a noite conversando sobre política e matemática. Aprendi com eles a importância de as pessoas se articularem, apesar das divergências, em busca de objetivos mais amplos”, comentou.

No final de 2007, ao assumir uma das diretorias do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), Pedro Dias pediu para conhecer a escola rural de que Peixoto cuidava, em Petrópolis, no Rio, que recebia apoio do instituto desde a gestão anterior. “Lembro do brilho dos olhos do Maurício ao mostrar o local e falar da meninada da roça, como ele dizia”, contou. O LNCC manteve o apoio ao liberar técnicos para instalar ou consertar equipamentos e redes de computadores na escola, que Peixoto havia herdado de sua primeira mulher, Marília Chaves (1921-1961), também engenheira e matemática – a primeira mulher a ingressar na ABC, em 1951.

Peixoto casou-se três vezes. Além de Marília Chaves, com Maria Lucia Alvarenga e com Alciléa Augusto. Teve quatro filhos, Martha, Marcos, Elisa e Ricardo. n

o Impa, no rio, surgiu em 1952 da proposta de lélio gama, leopoldo Nachbin e Peixoto

O físico que olhava as luzes

Sérgio Porto contribuiu para a introdução e a aplicação do laser em diversas áreas no Brasil

Rodrigo de Oliveira Andrade

olaser era uma tecnologia ainda pouco conhecida nos anos 1950, no Brasil e no mundo. A possibilidade de usar radiação para estimular a produção de partículas de luz de modo concentrado em um feixe contínuo restringia-se a filmes e séries de ficção científica. Poucos foram os cientistas que conseguiram, àquela época, enxergar as múltiplas possibilidades de pesquisa e aplicação que o laser poderia vir a ter. Um deles foi o físico brasileiro Sérgio Porto, morto há 40 anos. Ainda hoje ele é considerado por

físicos e historiadores da ciência o principal responsável por alguns dos avanços das pesquisas sobre essa tecnologia no mundo, bem como sua introdução no Brasil e aplicação em várias áreas do conhecimento para além da física.

Sérgio Pereira da Silva Porto (1926-1979) era filho de pescadores de Niterói, no Rio de Janeiro, onde nasceu. Graduou-se em química na antiga Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil – atual Universidade Federal do Rio de Janeiro – aos 20 anos de idade. Mudou-se para os Estados Unidos logo em

Feixe contínuo de luz laser produzido por Porto em seu laboratório na Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles, no final da década de 1960

seguida para fazer o doutorado em física na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore. De volta ao Brasil, em 1954, iniciou sua carreira como professor de mecânica estatística no Departamento de Física do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, interior de São Paulo. Foi no ITA, em meados de 1959, que o físico brasileiro entrou em contato pela primeira vez com as bases teóricas do laser, por meio de um artigo publicado na revista Physical Review pelos físicos Arthur Schawlow (1921-1999) e Charles Townes (1915-2015), ambos do Bell Telephone Laboratories, ou Bell Labs, companhia com forte tradição de pesquisa básica orientada para a tecnologia situada em Nova Jersey, nos Estados Unidos (ver Pesquisa FAPESP nº 151). “Porto ficou muito animado com a nova ótica dada à luz e passou a fazer vários seminários sobre o assunto no ITA”, conta o físico e historiador da ciência Olival Freire Junior, do Instituto de Física e pró-reitor de Pesquisa da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “A leitura desse artigo lhe abriu várias janelas de oportunidades ao longo de sua carreira e ele soube

aproveitá-las todas muito bem para redefinir sua própria inserção no campo científico.”

O entusiasmo de Porto pelo laser resultou, naquele mesmo ano, na vinda de um grupo de pesquisadores do Bell Labs para dar algumas palestras no ITA. “Na visita, o físico brasileiro foi convidado para voltar para os Estados Unidos e trabalhar com Townes e Schawlow”, destaca Freire. O primeiro ganhou o Nobel de Física em 1964 pelas suas contribuições no campo da eletrônica quântica, o que levou à construção de osciladores e amplificadores baseados no princípio maser-laser. Já o segundo foi laureado com o Nobel de Física em 1981, pelas suas contribuições para a espectroscopia eletrônica de alta resolução.

Freire e o historiador da ciência Walker Lins de Santana, da UFBA, o físico (no destaque), ao lado de professores do itA no início dos anos 1960

analisaram parte do trabalho de Porto e suas contribuições para a introdução do laser no Brasil em artigo publicado na Revista Brasileira de Ensino de Física. Freire explica que as condições de trabalho nas instituições científicas e universidades deterioravam-se à época no Brasil e isso contribuiu para que Porto aceitasse o convite para trabalhar no Bell Labs.

Ao ir para os Estados Unidos, Porto soube se colocar no lugar certo, na hora certa. As pesquisas envolvendo a nova tecnologia ganharam cada vez mais destaque a partir do início dos anos 1960 no mundo. Ao mesmo tempo, o físico brasileiro pôde trabalhar e interagir com alguns dos mais destacados pesquisadores dessa área – vários deles foram mais tarde laureados com o Nobel de Física por suas contribuições para o avanço das pesquisas sobre o laser, como o holandês Nicolaas Bloembergen (1920-2017) e o soviético Aleksandr Mikhailovich Prokhorov (1916-2002).

Segundo o físico Ado Jorio, do Departamento de Física e pró-reitor de Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), foi no Bell Labs que Sérgio Porto desenvolveu uma de suas principais linhas de

pesquisa e também onde o físico brasileiro teve seus anos mais produtivos. Suas contribuições envolveram o uso do laser no chamado efeito – ou espalhamento – Raman, fenômeno observado experimentalmente em 1928 pelo físico indiano Chandrasekhara Venkata Raman (1888-1970), Nobel de Física em 1930. A técnica passou a ser usada para se obter informações acerca da estrutura molecular de diversos materiais.

O espalhamento acontece quando partículas de luz (fótons) se chocam com moléculas de gás, líquido ou sólido. Seu uso no estudo das propriedades dos materiais era algo limitado em laboratórios justamente pela dificuldade de se obter uma boa e intensa fonte de luz monocromática. Porto soube identificar o potencial da nova tecnologia que despontava para suprir essa lacuna. “Ao aplicar a radiação laser para produzir o efeito Raman, ele conseguiu gerar o espalhamento de forma clara e nunca antes obtida”, esclarece Jorio. “Por meio desse trabalho, tornou-se possível usar a espectroscopia Raman para se obter informação química e estrutural de quase qualquer material, permitindo sua identificação em poucos segundos.”

nos Estados Unidos, Porto se projetou como liderança mundial nas múltiplas formas de aplicação do laser

O achado foi publicado em 1962 na revista Journal Optical Society America e despertou grande interesse da comunidade científica internacional. “O laboratório de Porto no Bell Labs se tornou um dos mais importantes no campo da espectroscopia de estado sólido”, destaca Jorio. O prestígio o levou ao cargo de supervisor de pesquisas da empresa. “Ele se valeu da posição para recrutar jovens físicos brasileiros, entre eles Rogério Cezar de Cerqueira Leite e José Ellis Ripper

em seu laboratório no Bell Labs, em 1966, usando laser para obter o espalhamento raman

Filho, para o laboratório norte-americano”, comenta Santana, que estuda a história do laser no Brasil e as contribuições de Porto nesse sentido desde o mestrado, defendido em 2006 no Programa de Pós-graduação em Ensino, Filosofia e História das Ciências da UFBA.

FOR m A çã O d E n OvOS F í SI cOS

Anos mais tarde, em 1967, Porto recebeu outro convite, dessa vez para se tornar professor titular de física e engenharia elétrica na Universidade do Sul da Califórnia (USC), em Los Angeles. “Ele aceitou o convite e, tal como no Bell Labs, fez da USC um centro de formação de físicos brasileiros.” Segundo Jorio, a estratégia contribuiu para o surgimento de vários núcleos de física de estado sólido no Brasil, os quais tinham o laser e a espectroscopia Raman como alicerces principais. “Porto tinha essa característica de se dedicar aos alunos que ele acreditava ter potencial”, comenta o engenheiro eletrônico José Ellis Ripper Filho, que conheceu o físico brasileiro em fins da década de 1950, durante sua graduação no ITA. “Esse foi o meu caso”, ele conta. “Ele me orientou muito, colaborando para o desenvolvimento da minha carreira.”

no

O período que passou nos Estados Unidos contribuiu para que Porto se projetasse internacionalmente como uma liderança nas múltiplas formas de aplicação do laser. “Mesmo assim, ele tinha expectativa de retornar de vez ao país, desde que alguma instituição de pesquisa oferecesse as mesmas condições de trabalho das quais desfrutava nos Estados Unidos”, destaca Freire.

O contexto político e econômico que viabilizou seu retorno começou a se desenhar em 1968, no governo militar de Artur da Costa e Silva (1967-1969). Segundo Freire e Santana, houve à época grandes investimentos em áreas consideradas estratégicas para o país, e o governo federal teve interesse em trazê-lo de volta para o Brasil ao conhecer seu projeto de uso do laser para o enriquecimento isotópico do urânio. “João Paulo dos Reis Velloso [1931-2019], então ministro do Planejamento, ficou responsável pelas negociações entre o governo e o físico”, destaca Freire. Para voltar, Porto exigiu a contratação de 30 doutores, laboratórios apropriados e US$ 2 milhões para financiamento de pesquisas. As universidades de Brasília (UnB) e de São Paulo (USP) negociaram, mas as conversas não avançaram.

Porto (à dir.), Zeferino vaz (centro) e Carlos Antonio rocca, secretário da Fazenda de São Paulo, em 1974

A então recém-criada Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por meio de Velloso e Zeferino Vaz (1908-1981), reitor da universidade no período, foi a única que concordou com as condições exigidas. A ideia era fazer da Unicamp um Bell Labs. Por lá, a partir de 1972, Porto dedicou-se à atividade de pesquisa e à formação de pesquisadores por meio de trabalhos com o laser e suas aplicações, os quais contribuíram para a criação do Departamento de Eletrônica Quântica no Instituto de Física Gleb Wataghin, em 1974. As pesquisas e o ambiente intelectual cultivado por Porto na Unicamp atraíram vários estudantes, entre eles o físico Carlos Henrique de Brito Cruz, atual diretor científico da FAPESP, que viria a se tornar reitor daquela universidade entre 2002 e 2005. Ele foi para a Unicamp para fazer seu doutorado e trabalhar ao lado de Porto no início de 1979, seis meses antes da morte do físico.

O trabalho de Porto e sua equipe também contribuiu para o avanço de várias áreas para além da física de matéria condensada, como a química, a engenharia e a medicina, que passou a usar o laser como ferramenta cirúrgica em áreas como oftalmologia, otorrinolaringologia, ginecologia e cardiologia. Um exemplo prático de suas pesquisas foi o desenvolvimento de técnicas de desobstrução de artérias por meio da destruição de ateromas com o uso do laser.

Sérgio Porto morreu em junho de 1979, em Novosibirsk, na antiga União Soviética, aos 53 anos de idade. Ele teve um ataque cardíaco fulminante durante uma partida de futebol com pesquisadores de vários países que participavam de uma conferência de física laser. Para Olival Freire, Porto morreu no auge da sua atividade intelectual e deixou uma valiosa contribuição científica para a física no Brasil. n

trabalhando
instituto de Física da Unicamp na década de 1970

educação

Fazendo pesquisa na escola

Pré-iniciação científica permite que estudantes vivenciem experiências acadêmicas ainda no ensino médio

Apossibilidade de ter acesso a conhecimento científico acerca de determinado tema costuma ser associada à graduação e ao seu aprofundamento, a pós-graduação. Pouco conhecida, a pré-iniciação científica permite que estudantes do ensino médio e fundamental tenham a oportunidade de experimentar o fazer acadêmico antes mesmo de ingressar em um curso superior – e são muitos os benefícios associados a essa prática. A conclusão é de um grupo de pesquisadores norte-americanos. Em artigo publicado em abril na PLOS Computational Biology, eles discutem como universidades e centros de pesquisa podem oferecer uma experiência científica significativa para alunos do ensino médio e como essa atividade

contribui para o desenvolvimento da carreira dos jovens e para a imagem das instituições que nela investem. Um dos benefícios seria o de propiciar aos estudantes a oportunidade de testemunhar a aplicação prática de conceitos aprendidos na escola. A experiência também possibilitaria a constatação de que boa parte do trabalho feito em laboratório está baseada no que é discutido e estudado em sala de aula.

Os autores reconhecem que integrar os estudantes às atividades de laboratório pode ser algo desafiador, e afirmam que o esforço contribui para disseminar a cultura científica. “Leva tempo para que os pesquisadores consigam explicar conceitos, ensinar técnicas e supervisionar os experimentos

e as análises feitos pelos estudantes. No entanto, quando essa interação é bem-sucedida, os alunos tendem a se engajar nos trabalhos da equipe”, segundo artigo assinado por Subhamoy Das, neurocirurgião da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e colaboradores. Também destacam que a pré-iniciação científica possibilita a desconstrução da imagem estereotipada de um profissional inacessível fechado em um laboratório que parte da sociedade tem sobre os cientistas e suas áreas de atuação, além de contribuir para a capacitação dos jovens para que depois possam buscar oportunidades de pesquisa na graduação.

Essa modalidade de pesquisa é bastante disseminada nos Estados Unidos. Por lá, várias instituições de

ensino superior contam com programas desse tipo, e as escolas costumam incentivar seus estudantes a fazer pré-iniciação científica, acumulando experiência que poderá servir como diferencial no ingresso ao ensino superior.

No Brasil, a modalidade ainda não é muito difundida. Poucas são as instituições de ensino superior ou pesquisa com programas voltados a esse público jovem. É o caso da Universidade de São Paulo (USP), que desde 2016 oferece o Programa de Pré-iniciação Científica e de Pré-iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, com o fito de promover a cultura científica e tecnológica entre estudantes de 15 anos ou mais sob orientação de professores das áreas de ciências humanas, exatas e biológicas. Há pelo menos 17 anos, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) os alunos do ensino médio podem fazer a pré-iniciação científica por meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica para o Ensino Médio (Pibic-EM). Eles também podem entrar em contato com a realidade acadêmica pelo Programa Ciência & Arte nas Férias, realizado todos os anos em janeiro, fevereiro e julho. Desde 2016 a matemática Cynthia de Oliveira Lage Ferreira, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, orienta alunos do ensino médio da escola estadual Álvaro Guião. “Os selecionados recebem uma bolsa mensal de R$ 100 por um ano, oferecida pela Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [CNPq]”, conta. “Eles têm aulas e participam de seminários sobre matemática e programação e fazem exercícios práticos em laboratórios de informática.” No fim, elaboram um relatório detalhando o que aprenderam e as atividades que desenvolveram ao longo do período. Segundo Ferreira, a iniciativa pretende apresentar aos alunos as possibilidades de cursos e carreiras. “Queremos aproximar esses jovens e sua comunidade da universidade e dos pesquisadores para criar uma

cultura científica na sociedade”, afirma. As atividades promovidas no ICMC-USP respeitam um cronograma que não compromete a rotina escolar do aluno, ela explica. Outro pesquisador que investe nesse tipo de iniciativa é o neurocientista Norberto Garcia Cairasco, da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Ele já orientou quatro alunos de pré-iniciação científica. Todos participaram de atividades em laboratório e realizaram projetos, depois apresentados em suas escolas. Para Cairasco, a pré-iniciação científica “mostra aos jovens que as universidades públicas pertencem a todos e que eles podem frequentá-las, beneficiando-se do conhecimento ali produzido.

Na avaliação da médica Iscia Lopes-Cendes, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, a pré-iniciação científica pode contribuir para que o estudante assuma responsabilidades e inicie um processo de amadurecimento científico. Ela conta que começou a orientar jovens alunos após voltar de seu doutorado na Universidade McGill, no Canadá. Lembra que essa era uma prática comum e bem organizada por lá. “Houve casos de estudantes que participaram de congressos com trabalhos sobre genética e neurociência”, diz.

No Brasil, a pesquisadora passou a aceitar alunos a partir de 15 anos em seu laboratório de genética molecular. “Eles me procuram interessados em participar das atividades de pesquisa”, informa. Lopes-Cendes explica que entrevista cada candidato para apresentar as atividades de seu grupo, conhecer as áreas de interesse e verificar se já desenvolveram algum experimento em suas escolas.

Eles então passam a fazer parte de um dos núcleos de pesquisa do laboratório, recebem tarefas e prazos de entrega. “As atividades são avaliadas em reuniões semanais”, informa. Ela diz que conversa antes com os estudantes para definir os dias e horários em que estarão nos laboratórios, de modo que as atividades não comprometam sua rotina escolar. Vários fazem trabalhos que depois são apresentados em congressos científicos. Quando os resultados das atividades efetivamente contribuem para uma pesquisa publicada, eles também assinam, em coautoria, os artigos científicos. n rodrigo de o liveira Andrade artigo científico

lescak, e a et al. Ten simple rules for providing a meaningful research experience to high school students. PloS Computational Biology. v. 15, n. 4, p. 1-7. abr. 2019.

Perfil

Aprender a poupar

Brasileiro radicado nos e stados unidos promove educação financeira em escolas públicas

O carioca Paulo Costa sempre sonhou em cursar graduação no exterior. Em setembro de 2009, prestes a concluir o ensino médio no Colégio Militar do Rio de Janeiro, resolveu buscar instituições fora do país. Seu plano era cursar engenharia química, por influência do pai. “Queria ir para a França, mas, como não dominava o francês, resolvi me concentrar em universidades dos Estados Unidos”, conta. Precisou correr contra o relógio para concluir todos os trâmites exigidos pelas universidades antes do fim daquele ano.

Para ganhar tempo, recorreu ao programa Oportunidades Acadêmicas, que auxilia estudantes com dificuldades econômicas no processo seletivo de programas de ensino superior em instituições norte-americanas. Inscreveu-se em 17 universidades. Ele já havia iniciado a graduação em engenharia química, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), quando os resultados começaram a ser divulgados, no início de 2010. Costa foi aceito em Yale, em Connecticut, com uma bolsa integral — estudar lá custa cerca de R$ 150 mil por ano.

Aos 19 anos, mudou-se para os Estados Unidos. Em Yale, desistiu do curso de engenharia química após assistir, por engano, a uma aula de economia. “Saí da sala certo de que era aquilo que queria fazer”, conta. Foi durante uma pesquisa de verão, na instituição, em meados de 2011, que um de seus professores o apresentou ao economista brasileiro Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central. “Ele me sugeriu trabalhar com questões ligadas à educação financeira e desenvolver algum trabalho nesse sentido no Brasil”, recorda.

Decidiram fazer uma pesquisa científica para avaliar o nível de educação financeira da população brasileira. Costa voltou para o Brasil e, sob orientação de Fraga, iniciou o projeto. Para financiá-lo, recorreu à B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, que aceitou apoiar a iniciativa. A pesquisa envolvia um questionário com perguntas sobre educação financeira, conhecimento matemático, investimentos e dívidas. “Contratamos uma empresa para aplicá-lo em 2 mil pessoas em diferentes regiões do país”, informa Costa. “Verificamos que o nível de educação financeira do brasileiro é baixo, entre outras coisas, porque o nível de educação matemática no país também é baixo”, destaca. Com base nos dados obtidos, e sob orientação de Fraga, Costa elaborou outro projeto para usar a matemática em aulas de educação financeira, e vice-versa, para jovens de escolas públicas do Brasil.

Fraga também o colocou em contato com a Secretaria de Educação do Rio de Janeiro. “A ideia era fazer um livro didático e treinar

os professores para usar o ensino da matemática para explicar noções e conceitos de economia, como taxas de juros, inflação, empréstimos e dívidas.” Ele elaborou o material e a secretaria promoveu o treinamento de professores de 12 escolas públicas da cidade do Rio. “Até o começo de 2014, pouco antes de o projeto ser descontinuado, tínhamos atuado em 20 escolas”, relembra.

De volta aos Estados Unidos, Costa concluiu a graduação em maio de 2014. Logo em seguida, iniciou o mestrado e, depois, o doutorado, ainda em andamento, na área de finanças comportamentais na Universidade Harvard. Ele segue desenvolvendo seu projeto de educação financeira para jovens, que em 2016 se transformou no livro Aprendendo a lidar com o dinheiro (BEĨ), parte do projeto “Por quê –Economês em bom português”. “Queremos inseri-lo na base curricular das escolas públicas do Brasil”, explica. “Começamos em Goiás, em 2017, e agora já estamos também em escolas de Pernambuco e São Paulo.” r .o.A.

Livro escrito por Costa é hoje usado em aulas de matemática e educação financeira

Sobre a identidade musical brasileira

AForma e função

Paulo de Tarso Salles

Edusp

376 páginas

R$ 46,40

Editora da Universidade de São Paulo publicou recentemente um estudo de grande fôlego sobre os quartetos de cordas de Heitor Villa-Lobos (1887-1959). Com este trabalho, o autor Paulo de Tarso Salles se afirma como um dos maiores estudiosos villalobianos da atualidade. Em estilo fluente, o texto foi burilado por quase uma década. Revisa em detalhes a literatura existente para, em seguida, nos trazer reflexões reveladoras de cada um dos quartetos. Durante o romantismo, o gênero quarteto de cordas experimentou um certo esgotamento estético devido, em parte, à excelência da prolífica produção da Primeira Escola de Viena, integrada por Haydn (1732-1809), Mozart (1756-1791) e Beethoven (1770-1827). No século XX, concomitantemente ao surgimento do neoclassicismo, ocorreu uma reavaliação importante da obra de Haydn, que favoreceu a aproximação de Villa-Lobos com o grande mestre dos quartetos de cordas. Compositores como Milhaud (18921974), Bartók (1881-1945), Schönberg (1874-1951), Chostakovitch (1906-1975) e especialmente Villa-Lobos se voltaram ao tradicional agrupamento. Assim, a constituição clássica de dois violinos, viola e violoncelo se confirmou como uma das formações mais importantes e duradouras da música de câmara.

Os 17 quartetos de cordas de Villa-Lobos formam o maior grupo da produção do compositor. A maior parte dos quartetos permanece fiel à forma desenvolvida por Haydn: dois movimentos rápidos que emolduram um movimento lento e um scherzo. As analogias dos métodos composicionais dos dois músicos continuam; na adaptação da forma sonata, na intertextualidade do discurso, no monotematismo, nas reprises alteradas e nas técnicas de desenvolvimento.

Os quartetos de cordas de Villa-Lobos foram compostos em dois períodos distintos e distantes 14 anos entre si. Os quatro primeiros foram escritos entre 1915 e 1917 e os 13 seguintes após 1931. Os primeiros quatro apresentam uma textura musical densa e virtuosística. O primeiro em forma de suíte, o segundo e o terceiro com os princípios da forma cíclica francesa de Franck (1822-1890) e d’Indy (1851-1931) e o quarto já se aproximando do modelo classicista. Após

um breve flerte com o estilo rapsódico no quinto quarteto, o modelo formal haydniano é definitivamente adotado do sexto ao oitavo quarteto. O nono e décimo dialogam com o expressionismo de Berg (1885-1935) e Bartók. No estilo tardio dos sete últimos Quarteto, o equilíbrio dos movimentos é mantido e os elementos da música popular brasileira são magistralmente amalgamados aos modelos da tradição europeia.

O terceiro capítulo, “Simetria, harmonia e forma”, é o mais técnico de todos. Analisa o caráter, a harmonia, forma, contraponto e as influências estéticas presentes em cada movimento. Propõe um mergulho nos recentes conceitos analítico-musicais, como a teoria dos conjuntos e os diagramas matemáticos. Salles nos surpreende ao revelar uma nova face do compositor, capaz de congregar uma intuição fenomenal a um pensamento formalista consciente e muito bem estruturado.

O fascinante universo matemático dos palíndromos, espelhamentos, rotações e translações de estruturas se funde aos estilos cariocas, ao choro, ao samba, à modinha, ao estilo infantil, ao canto de Xangô, à capoeira, ao estilo ameríndio, ao estilo nordestino, ao estilo caipira. Assim, o último e interessantíssimo capítulo arremata de forma convincente e minuciosa a análise dos elementos que constituem a sintaxe do compositor. Salles expõe o mundo emocional de Villa-Lobos que se espraia generoso na escritura dos quartetos. A combinação dessa palheta afetiva ao mais puro pensamento estruturalista constituiu a essência da genialidade do compositor.

Villa-Lobos criou parte significativa da identidade musical brasileira. Sua música possui uma força tão incomensurável que não podemos sequer imaginar um Brasil sem a ascendência de sua obra. Sua arte moldou consideravelmente nossa percepção da realidade sonora. A Alma brasileira de Villa-Lobos é livre, plural, complexa e vigorosa. Nos intolerantes dias que vivemos, sua música veemente exorta o retorno das pautas inclusivas, o respeito pelo meio ambiente, bem como a dignificação das raças e crenças formadoras da cultura brasileira.

Os quartetos de cordas de Villa-Lobos:
Nahim Marun é professor do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

classificados

Inflamação reduz conexões de neurônios obtidos em laboratório a partir de células do dente de crianças com o transtorno neurológico

textos

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Dentes de leite que chegam ao laboratório dos pesquisadores do projeto “A fada do dente”, na Universidade de São Paulo (USP), estão ajudando a conhecer melhorasalteraçõesquepodemocorrerno cérebro em algumas formas de autismo, um conjunto de distúrbios de origem neurológica que se manifestam na infância e podem prejudicar, em maior ou menor grau, as capacidades cognitiva, de comunicação e de interação social, além da habilidade motora. De causas ainda pouco conhecidas, o autismo – ou os transtornos do espectro do autismo, como preferem os especialistas – inclui quadros tão variados quanto o autismo clássico, marcado por dificuldades severasdelinguagemedeinteraçãosocial,ou a síndrome de Asperger, na qual a inteli-

gência é normal ou superior à média e a aquisiçãodalinguagemsedásemproblemas, mas são comuns os gestos repetitivos e a falta de controle em movimentos delicados. Esses transtornos atingem cerca de 1% das crianças na Inglaterra e nos Estados Unidos – não há estudos detalhadossobresuafrequêncianoBrasil – e são quatro vezes mais comuns entre meninos do que entre meninas. A partir de dentes de leite doados porcriançascomesemautismo,os gruposlideradospelosneurocientistas brasileiros Patricia Beltrão Braga,daUSP,eAlyssonR.Muotri, da Universidade da Califórnia em San Diego,nosEstadosUnidos,confirmaram queumainflamaçãoemcélulascerebrais chamadas astrócitos pode estar associada ao desenvolvimento de uma forma gravedessetranstorno.Maisimportante: ao menos em laboratório, o controle da inflamação nos astrócitos reverteu alterações que ela provoca nos neurônios, as células responsáveis por transmitir e armazenar informações no cérebro e que se encontram mais imaturas nessa forma de autismo. Como seria arriscado e antiético extrair as células do cérebro das crianças, os pesquisadores se valeram de uma alternativa engenhosa para recriá-las em laboratório. Eles recuperaram algumas células do interior de dentes que caem naturalmente na infância e usaram com postos químicos para fazê-las regressar a um estado mais versátil, a partir do

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ao menos em laboratório, o controle da inflamação nos astrócitos reverteu alte- rações que ela provoca nos neurônios, as células responsáveis por transmitir e armazenar informações no cérebro e que se encontram mais imaturas nessa Como seria arriscado e antiético extrair as células do cérebro das crianças, os pesquisadores se valeram de uma al- ternativa engenhosa para recriá-las em laboratório. Eles recuperaram algumas células do interior de dentes que caem naturalmente na infância e usaram compostos químicos para fazê-las regressar a um estado mais versátil, a partir do

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