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Segredos do DNA

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O dinamismo de metrópoles que abrigam universidades de pesquisa

Novos testes tentam identificar tumores em estágio inicial e orientar o seu tratamento

Recuperação da Mata Atlântica pode contribuir para o bem-estar social

Projeto muda métodos e melhora índice de alfabetização

Empresa paulista lança ônibus elétrico

Profissionais mal treinados aumentam risco de família vetar doação de órgãos

Segredos do DNA

Brasileiros descobrem mutação que mitiga distrofia muscular em cães e genes humanos de doenças raras

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Propulsão na bancada

Em dezenas de testes, o engenheiro aeronáutico Rene Nardi só conseguiu registrar uma vez, nesta foto, o comportamento completo do líquido que sai de uma injetora ciclone. Muito usado em foguetes e outros veículos a jato, esse aparelho faz o líquido girar dentro de uma câmara e depois o lança por um orifício, formando um cone oco. Quanto mais o cone se expande, mais se afina a folha de líquido, até rasgar e se esfumaçar em gotículas. São elas, ao evaporar rapidamente, que permitem a combustão. Nardi aperfeiçoou um modelo de cálculo que leva em conta parâmetros como o ângulo do spray (medido nas fotografias) para caracterizar o funcionamento dessa injetora e garantir seu desempenho.

Foto enviada por Rene Nardi, doutorando do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) sob orientação de Amilcar Porto Pimenta

Se você tiver uma imagem relacionada à sua pesquisa, envie para imagempesquisa@fapesp.br com resolução de 300 dpi (15 cm de largura) ou com no mínimo 5 MB. Seu trabalho poderá ser selecionado pela revista.

CAPA

14 Descobertos o gene que compensa a distrofia muscular e outros associados a doenças raras

ENTREVISTA

22 Jeter Bertoletti

Museólogo gaúcho fala do desafio de conciliar pesquisa com divulgação científica

POLÍTICA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA

28 Redes de conhecimento Pesquisador mapeia como grandes universidades influenciam a economia e o ambiente das regiões urbanas onde estão instaladas

33 Genômica

Cepids criam plataforma de dados genéticos em busca de terapias personalizadas

34 Políticas públicas

Profissionais da saúde mal treinados aumentam risco de recusa de doação de órgãos

38 Mudanças climáticas

Código Florestal deve ajudar o país a reduzir gases estufa, mas metas para 2030 dependem de modernização das indústrias, segundo relatório

42 Prêmio Nobel

Doenças parasitárias e reparo de DNA são alguns dos temas reconhecidos este ano; economista escocês, escritora bielorrussa e negociadores da paz na Tunísia são laureados

45 Nobel de Física premia a confirmação de que partículas fantasmas trocam de identidade e têm massa

CIÊNCIA

46 Saúde

Médicos monitoram resistência do parasita da malária aos remédios em uso, enquanto bioquímicos buscam alternativas

50 Neurologia

Mesmo sem alterações patológicas, envelhecimento reorganiza o funcionamento da mente

52 Física

Grupos no Brasil e no exterior usam novas métricas para identificar tendências no desenvolvimento das cidades

56 Ecologia

Estudos apontam caminhos para recuperar a Mata Atlântica e contribuir para o bem-estar social na região

60 Astronomia

Equipe internacional mapeia a energia liberada nas regiões instáveis do Sol

TECNOLOGIA

64 Biotecnologia

Nova geração de testes tenta identificar tumores mais cedo e avaliar a eficácia do tratamento

70 Empreendedorismo

Pesquisadores de pequenas empresas voltam de Londres e de Oxford com novas ideias para seus projetos no plano comercial

74 Transporte

Empresa brasileira lança ônibus elétrico híbrido menos poluente

HUMANIDADES

78 Educação

Projeto realizado durante quatro anos em três escolas promove melhoras e detecta falhas do ensino público

84 Sociedade

Modelo estatístico indica que construção de usinas hidrelétricas não traz benefícios locais

86 História

Entre os séculos XVII e XVIII, jesuítas de missões da Amazônia espanhola tiveram que lidar com versões indígenas do catolicismo

SEçÕES

3 Fotolab

5 c artas

6 on-line

7 c arta do editor

8 dados e projetos

9 Boas práticas

10 e stratégias

12 tecnociência

90 Memória

92 arte

94 resenhas

96 c arreiras

98 classificados

CAR tAS

CONtAtOS

Site No endereço eletrônico www. revistapesquisa.fapesp.br você encontra todos os textos de Pesquisa FAPESP, na íntegra, em português, inglês e espanhol. Também estão disponíveis edições internacionais da revista em inglês, francês e espanhol

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Revista

Gostaria de partilhar uma experiência para valorizar Pesquisa FAPESP. Estava em visita ao meu pai em um fim de semana quando ele me disse: “Sempre que vou à clínica, leio uma revista muito boa”. E me mostrou a capa de Pesquisa FAPESP. Ele disse que as reportagens são muito interessantes, a linguagem boa de acompanhar e comentou alguns textos. Meu pai pediu a revista para a secretária da clínica de modo a ler com calma em casa. José Maria Castelucci é o nome dele, um homem muito lúcido, de 79 anos, que adora novos conhecimentos. Foi ele quem me estimulou para a vida acadêmica! Parabéns à revista, que cumpre seu papel de divulgação da ciência.

Instituto de Ciências Biomédicas III/USP São Paulo, SP

No ambiente de perplexidade e insegurança em que vivemos, receber Pesquisa FAPESP a cada mês renova esperanças. Ler suas reportagens, sejam as dedicadas às ciências exatas ou às ciências humanas, é receber conhecimento e tranquilidade. Tranquilidade sim, porque é alentador saber que uma legião de pesquisadores trabalha com tenacidade e rigor para o aprimoramento do conhecimento científico. Por mais de uma década de leitura, seria difícil citar quais os artigos que mais me cativaram. Nos inspiradores estudos de variada natureza, como, entre outros, os dedicados a astrofísica, biologia, biotecnologia, botânica, ornitologia, artes, história, memória, enfim, até mesmo em áreas nas quais laboro (música, antropologia, etnomusicologia), os textos são corretos na forma, no conteúdo e mostram esmero no projeto gráfico. Instituições como a FAPESP tornam o Brasil melhor.

Kilza Setti

Academia Brasileira de Música

Centro de Trabalho Indigenista

São Paulo, SP

Matemática do DNA

Interessante a reportagem “A estrutura matemática do DNA” (edição 235), que apresenta o trabalho de uma equipe de

cientistas brasileiros que demonstrou, por meio de equações, que o código genético é similar ao funcionamento do sistema digital. Sinceros parabéns.

Francisco J. B. Sá Salvador, BA

Reportagens de setembro

A edição de setembro (nº 235) literalmente jogou luz sobre três excelentes assuntos. Em relação à produção comercial do etanol de segunda geração e os desafios da empresa GranBio para consolidar a posição do Brasil na área nos últimos 10 anos, vemos não apenas nosso protagonismo, mas o fato de que somente nós é que podemos vencer os desafios que essa área demanda. Na leitura do texto “H2O no nanotubo” foi inevitável pensar na poliágua, engodo ou engano de décadas, junto com outros mais recentes, como a fusão a frio. Ficando clara a seriedade do trabalho dos pesquisadores da UFABC, uma sugestão para a revista é publicar um resgate histórico dessas fraudes científicas. Por fim, fiquei aliviado com a reportagem “Água reciclada”, que mostrou que há desenvolvimento e tecnologia brasileira para o reúso da água.

Adilson Roberto Gonçalves Campinas, SP

Vídeo

Excelente o vídeo “Perigo na vizinhança”. Os pesquisadores brasileiros mais uma vez mostram a boa qualidade da ciência nacional.

Claudio Carvalho Via Facebook

Correção

Na entrevista “Memórias de um ex-combatente” (edição 236), onde está escrito imigrar leia-se emigrar.

Cartas para esta revista devem ser enviadas para o e-mail cartas@fapesp.br ou para a rua Joaquim Antunes, 727, 10º andar – CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP. As cartas poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.

www.revista P esquisa. F a P es P .br

A mais vista do mês no Facebook

política c& t

Com ajuda da ciência

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e xclusivo no site

x um estudo publicado na revista Frontiers of Molecular Neuroscience sugere que o estresse psicológico sofrido por crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (tDaH) pode acelerar o processo de envelhecimento celular. No estudo, os pesquisadores analisaram o tamanho dos telômeros — estruturas que impedem que os cromossomos se deteriorem ou se fundam com outros cromossomos — de 61 crianças com idade entre 6 e 16 anos com tDaH. verificaram que os telômeros de todas as crianças eram mais curtos que o normal para a idade delas.

x uma substância desenvolvida por pesquisadores brasileiros radicados no centro de c âncer da universidade do Novo méxico, nos e stados unidos, poderá contribuir para o desenvolvimento de um tratamento menos invasivo de alguns problemas oculares que causam perda de visão, como as retinopatias da prematuridade e do diabetes, e a degeneração macular relacionada à idade. b atizada como vasotide, a novidade é a forma modificada de uma molécula cujo potencial terapêutico foi demonstrado em 2010. a grande vantagem é que pode ser usada como um colírio, segundo mostra o artigo publicado na revista Science Translational Medicine

Rádio

Médica Lavínia

Schüler-Faccini fala sobre reaproximação de famílias separadas pela hanseníase

Vídeos do mês

Galeria de imagens

confira o registro fotográfico de Eduardo Cesar sobre os imigrantes e refugiados que chegaram a são Paulo nos últimos anos

youtube.com/user/PesquisaFa PesP

Grupo brasileiro estima risco de colisões de asteroides com a Terra Tecnologias para irrigação ajudam a reduzir desperdício de água

Assista ao vídeo:
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entre 19 e 26 de outubro no perfil de Pesquisa FAPESP

fundação de amParo à Pesquisa do estado de são Paulo

José GoldemberG

Presidente

eduardo moacyr KrieGer

vice-Presidente

coNSElho SUPErIor

c armino antonio de souza, eduardo moacyr KrieGer, fernando ferreira costa, João fernando Gomes de oliveira, João Grandino rodas, José GoldemberG, maria José soares mendes Giannini, marilza vieira cunha rudGe, José de souza martins, Pedro luiz barreiros Passos, Pedro WonGtschoWsKi, suely vilela samPaio

coNSElho técNIco-AdmINIStr AtIvo

José arana varela

d iretO r-Presidente

c arlos henrique de brito cruz d iretO r científicO

Joaquim J. de c amarGo enGler d iretO r Administr AtivO

c A rtA do E d I tor

O fim de um mistério

Nissn 1519-8774

coNSElho EdItorIAl carlos henrique de brito cruz (Presidente), caio túlio costa, eugênio bucci, fernando reinach, José eduardo Krieger, luiz davidovich, marcelo Knobel, maria hermínia tavares de almeida, marisa lajolo, maurício tuffani, mônica teixeira comItê cIENtíFIco luiz henrique lopes dos santos (Presidente), anamaria aranha camargo, carlos eduardo negrão, fabio Kon, francisco antônio bezerra coutinho, Joaquim J. de camargo engler, José arana varela, José Goldemberg, José roberto de frança arruda, José roberto Postali Parra, lucio angnes, marie-anne van sluys, mário José abdalla saad, Paula montero, roberto marcondes cesar Júnior, sérgio robles reis queiroz, Wagner caradori do amaral, Walter colli coordENAdor cIENtíFIco

luiz henrique lopes dos santos

dIrE tor A dE rEdAção alexandra ozorio de almeida

EdItor-chEFE neldson marcolin

EdItorES fabrício marques (Política), márcio ferrari (Humanidades), marcos de oliveira (Tecnologia), ricardo zorzetto (Ciência); carlos fioravanti e marcos Pivetta (Editores especiais); bruno de Pierro (Editor-assistente)

rE vISão daniel bonomo, margô negro ArtE mayumi okuyama (Editora) ana Paula campos (Editora de infografia), alvaro felippe Jr., Júlia cherem rodrigues e maria cecilia felli (Assistentes)

Fotógr AFoS eduardo cesar, léo ramos

mídIAS ElE trôNIc AS fabrício marques (Coordenador)

INtErNE t Pesquisa FAPESP online maria Guimarães (Editora) rodrigo de oliveira andrade (Repórter) renata oliveira do Prado (Mídias sociais)

rádIo Pesquisa Brasil

biancamaria binazzi (Produtora)

colAbor AdorES daniel bueno, evanildo da silveira, flávia fontes oliveira, igor zolnerkevic, Jayne oliveira, maurício Puls, oscar calavia sáez, ricardo aguiar, ricardo bitun, sandro castelli, valter rodrigues, veridiana scarpelli, yuri vasconcelos

é ProIbIdA A rEProdUção totAl oU PArcIAl dE tE xtoS E FotoS SEm PrévIA AUtorIz Ação

PAr A FAlAr com A rEdAção (11) 3087-4210 cartas@fapesp.br

PAr A ANUNcIAr midia office - Júlio césar ferreira (11) 99222-4497 julinho@midiaoffice.com.br

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PArA ASSINAr (11) 3087-4237 assinaturaspesquisa@fapesp.br

tIr AgEm 39.600 exemplares

ImPrESSão Plural indústria Gráfica dIStrIbUIção dinaP

gEStão AdmINIStr AtIvA instituto uniemP

PESQUISA FAPESP rua Joaquim antunes, no 727, 10o andar, ceP 05415-012, Pinheiros, são Paulo-sP FAPESP rua Pio Xi, no 1.500, ceP 05468-901, alto da lapa, são Paulo-sP

secretaria de desenvolvimento econômico, ciência e tecnoloGia govErNo do EStAdo dE São PAUlo

a edição de dezembro de 2010, Pesquisa FAPESP publicou reportagem cujo título era “O mistério de Ringo e Suflair”. Tratava-se de dois cães golden retriever , respectivamente pai e filhote, que vinham sendo estudados por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). Embora os animais não produzissem distrofina, proteína essencial para a integridade dos músculos, eles não pareciam ser afetados por isso. O fato intrigava os pesquisadores, que queriam saber o que tornava os cachorros praticamente imunes ao problema. Essa informação talvez pudesse ajudar a desenvolver novos tratamentos para pessoas incapazes de produzir distrofina. Cinco anos e muita pesquisa depois, a equipe da USP – trabalhando com pesquisadores de dois centros nos Estados Unidos – achou um gene, o Jagged1, localizado no cromossomo 24 dos cachorros, cuja expressão (ativação) protegia os animais (página 14). Mistério resolvido.

Para transformar essa descoberta em uma terapia que ajude as pessoas com distrofias musculares, como as de Duchenne e de Becker, é preciso percorrer um longo caminho. Novos tratamentos só serão possíveis se os pesquisadores conseguirem uma maior ativação do Jagged1 – é a anomalia nesse gene que compensa o efeito da ausência de distrofina. Uma importante parte da questão está resolvida. Agora serão necessários mais anos de pesquisa para obter resultados concretos para seres humanos.

A descoberta sobre a distrofia certamente será útil para a medicina de precisão, um conceito que agrega informações clínicas e moleculares sobre doenças para obter tratamentos específicos para cada paciente. Em São Paulo há hoje várias iniciativas de impacto nessa direção. A mais recente delas é uma plataforma comum de dados genéticos, a Brazilian Initiative on Precision Medicine (BIPMed), que reunirá centros de pesquisa

de São Paulo com o objetivo de estimular a criação de terapias a partir da genômica. O esforço da plataforma paulista reúne, por enquanto, 5 dos 17 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP (página 33). Outro trabalho de destaque nessa área é a nova geração de testes para detecção de câncer no estágio inicial da doença, que poderão auxiliar na avaliação da eficácia do tratamento (página 64).

O investimento no conhecimento parece ser um daqueles ativos que sempre dão resultado em todas as áreas, mesmo quando demoram para aparecer. Em junho, um estudo apresentado pelo reitor da Universidade de Toronto (Canadá), Méric Gertler, reforçou essa ideia (página 28). Ele mostrou que a Região Metropolitana de São Paulo, incluindo Campinas e São José dos Campos, é um dos aglomerados urbanos em que o conhecimento gerado pelas universidades mais cresceu entre 1996 e 2013, ficando atrás apenas das megalópoles de Xangai e Pequim, na China, e de Seul, na Coreia do Sul. De acordo com Gertler, as universidades multiplicaram as interações com empresas e organizações da sociedade provocando modificações altamente positivas na economia e no ambiente das cidades. Gertler analisou a produção científica das últimas duas décadas e criou dois rankings . No primeiro, São Paulo teve um crescimento percentual de 400% na produção de ciência e aparece em 4º lugar, atrás apenas dos asiáticos. O segundo ranking é baseado no volume de publicações científicas de instituições entre 2011 e 2013 e coloca o aglomerado paulista na 32ª posição. O trabalho confirma o axioma de que universidades de pesquisa são catalisadoras de dinamismo para as regiões onde estão instaladas e, com isso, impulsionam a inovação, a criatividade e, por conseguinte, a economia. Boa leitura.

DaDos e projetos

t emáticos e JoV e N s Pesquis A do R es R ece N tes

Projetos contratados em setembro e outubro de 2015

temáticos

 s equenciamento completo do exoma, paired-end RNA e genoma: novos insights sobre a natureza genética do câncer de tiroide na idade adulta e na faixa etária pediátrica e aplicações na prática clínica Pesquisadora responsável: Janete Maria Cerutti i nstituição: EPM/Unifesp

Processo: 2014/06570-6

Vigência: 01/10/2015 a 30/09/2019

 s istemas de liberação sustentada e direcionada de fármacos para o tecido epitelial

Pesquisadora responsável: Renata Fonseca Vianna Lopez i nstituição: FCFRP/USP

Processo: 2014/22451-7

Vigência: 01/09/2015 a 31/08/2020

 Nitrito e nitrato de sódio: dos mecanismos à terapêutica anti-hipertensiva

Pesquisador responsável: José Eduardo Tanus dos Santos i nstituição: FMRP/USP

Processo: 2014/23946-0

Vigência: 01/10/2015 a 30/09/2019

 Filogenia da hiperdiversa ordem characiformes (teleostei: ostariophysi) utilizando elementos ultraconservados Pesquisador responsável: Claudio de Oliveira i nstituição: IB de Botucatu/Unesp

Processo: 2014/26508-3

Vigência: 01/10/2015 a 30/09/2019

 Religião, direito e secularismo. A reconfiguração do repertório cívico no Brasil contemporâneo

Pesquisadora responsável: Paula Montero

i nstituição: Cebrap

Processo: 2015/02497-5

Vigência: 01/09/2015 a 31/08/2020

 e studo funcional de componentes do exossomo e do spliceossomo de Saccharomyces cerevisiae e de seu papel no controle pós-transcricional de expressão gênica

Pesquisadora responsável: Carla Columbano de Oliveira

i nstituição: IQ/USP

Processo: 2015/06477-9

Vigência: 01/01/2016 a 31/12/2019

 e stratégias biotecnológicas para o controle do HLB mediante transgenia

Pesquisador responsável: Leandro Antonio Pena Garcia i nstituição: Fundecitrus

Processo: 2015/07011-3

Vigência: 01/09/2015 a 31/08/2020

 m ecanismos moleculares envolvidos na disfunção e morte de células beta pancreáticas no diabetes mellitus : estratégias para a inibição desses processos e para a recuperação da massa insular Pesquisador responsável: Antonio Carlos Boschero i nstituição: IB/Unicamp

Processo: 2015/12611-0

Vigência: 01/01/2016 a 31/12/2019

 c aracterização do envolvimento do sensor de nutrientes mtoR no desenvolvimento de doenças metabólicas crônicas associadas à obesidade

Pesquisador responsável: William Tadeu Lara Festuccia i nstituição: ICB/USP

Processo: 2015/19530-5

Vigência: 01/11/2015 a 31/10/2020

 A stR id – Accessibility, social justice and transport emission impacts of transit-oriented development strategies (FAPesP- esRc -NWo)

Pesquisadora responsável: Maria de Fátima Andrade i nstituição: IAG/USP

Processo: 2015/50128-9

Vigência: 01/09/2015 a 31/08/2020

 d esigning and policy implementation for encouraging cycling and walking trips (FAPesP- esRc -NWo)

Pesquisador responsável: Antonio Nelson Rodrigues da Silva i nstituição: EESC/USP

Processo: 2015/50129-5

Vigência: 01/09/2015 a 31/08/2018

 s mart Governance of sustainable c ities (s martgov) (FAPesP- esRc -NWo)

Pesquisadora responsável: Maria Alexandra Viegas Cortez da Cunha i nstituição: FGV/EAESP Processo: 2015/50133-2

Vigência: 01/09/2015 a 31/08/2019

J oV e N s PesquisA doR es  c riação do biobanco de tecidos oculares e investigação de novos mecanismos fisiopatológicos relacionados a doenças oculares do segmento anterior Pesquisadora responsável: Monica de Cassia Alves de Paula i nstituição: FCM/Unicamp Processo: 2014/19138-5

Vigência: 01/09/2015 a 31/08/2019

 Avaliação da independência local e uso de vinhetas-âncora na e scala de s atisfação de Vida

Pesquisador responsável: Cristian Zanon i nstituição: USF – Campus Itatiba Processo: 2015/05741-4

Vigência: 01/10/2015 a 30/09/2019

 i nvestigação do metabolismo de nanomaterias absorvidos por plantas empregando-se espectroscopias vibracional e de raios X Pesquisador responsável: Hudson Wallace Pereira de Carvalho i nstituição: Cena/USP Processo: 2015/05942-0

Vigência: 01/08/2015 a 31/07/2019

 caracterização biofísica da hemoproteína do anelídeo Amythas gracilis e seu potencial uso como biossensor de contaminação ambiental Pesquisadora responsável: Patricia Soares Santiago i nstituição: Unesp – Campus Registro Processo: 2015/11447-1

Vigência: 01/10/2015 a 30/09/2019

c olaborações internacionais em publicações por grandes áreas

Porcentagem por área do conhecimento – média mundial, Brasil, universidades paulistas e países escolhidos (2009-2013)

Boas práticas

Registros inventados

Um artigo científico sobre efeitos de uma droga contra hipertensão foi retratado no final de setembro pelo The Journal of the American Medical Association (Jama). O paper, que havia sido publicado em 2013 e recebera 35 citações, sustentava que o Ramipril, medicamento usado para o controle da pressão arterial, teria um efeito benéfico suplementar: ajudaria pacientes com problemas circulatórios a caminhar sentindo menos dor. Os pilares que amparavam essa conclusão desmoronaram quando a autora principal do artigo, a australiana Anna Ahimastos, admitiu que parte dos dados do artigo foi inventada. O trabalho se baseou num ensaio clínico de três anos com 212 indivíduos, com média de 65 anos de idade, recrutados em Melbourne, Townsville e Brisbane, cidades da Austrália. Anna confessou que muitos dos pacientes de Melbourne jamais existiram e seus registros foram fabricados. Os resultados favoráveis ao Ramipril apresentados no artigo, como disse a pesquisadora a uma comissão de investigação, foram obtidos num ensaio clínico menor, feito posteriormente. Anna Ahimastos trabalhava no Baker IDI Heart and Diabetes Institute, em Melbourne, e foi demitida quando o escândalo eclodiu. A investigação teve início em junho, quando um pesquisador da instituição notou inconsistências nos dados de pesquisa que abasteceram o artigo. De acordo com a investigação interna, nenhum outro coautor sabia do problema. A chefe do laboratório onde a fraude aconteceu, Bronwyn Kingwell, disse que Anna é uma Ph. D com 10 anos de experiência, recebeu treinamento em boas práticas clínicas e estava qualificada

para o trabalho. “Trabalhamos em equipe, num ambiente de alta confiança no qual cada indivíduo assume responsabilidades sérias. Infelizmente, a pessoa que quebrou essa confiança era responsável pela coleta de dados”, afirmou Kingwell, que assinou 16 artigos com a ex-colega, entre os quais o do Jama. O instituto, embora afirme que se trata de um caso isolado, está reavaliando seus processos, principalmente os relacionados à forma como seus pesquisadores coletam e apresentam dados de pesquisa, para evitar que o incidente se repita. Outros papers publicados por Anna Ahimastos estão sendo avaliados e pelo menos um deles, publicado na revista Circulation Research, também foi retratado. Para Virginia Barbour, presidente do Committee on Publication Ethics, fórum de editores científicos que oferece orientações sobre boas práticas

científicas, casos como esse podem ser um efeito da exacerbação da cultura do “publique ou pereça”. “Sentimos que um dos problemas é a pressão para publicar, e publicar em revistas de alto impacto”, disse à rede de televisão ABC. Ela citou um estudo feito no Reino Unido em 2014 no qual pesquisadores disseram que, para atender altas expectativas, eventualmente cometem imprudências e deslizes éticos.

Revista sobre integridade

O primeiro periódico internacional totalmente dedicado à integridade na pesquisa deverá ser lançado até o início de 2016. A revista Research Integrity & Peer Review (www.researchintegrityjournal. com) é uma aposta da plataforma de revistas científicas em acesso aberto BioMed Central, do Reino Unido, para atender uma demanda de pesquisadores que se dedicam ao estudo de temas vinculados à integridade científica, como boas práticas de pesquisa e medidas para detectar e coibir abusos como fabricação de dados, falsificação e plágio. “Hoje não há revistas científicas tratando exclusivamente do processo de

revisão por pares ou de integridade científica. Esperamos que o periódico incentive não só pesquisadores, mas também agências de apoio a investir mais nessa área de investigação no campo da ética”, disse Elizabeth Wager, uma das editoras da nova publicação. Segundo ela, alguns artigos sobre integridade científica são publicados em periódicos especializados em ética e não alcançam pesquisadores de outras áreas, como ciências médicas. “Sentimos que há um interesse crescente pelo tema. É uma oportunidade de estabelecermos a integridade científica como um campo de pesquisa”, disse.

Baker idi institute em melbourne: pacientes fictícios em ensaio clínico

e stratégias

Butantan cria biotério de zebrafish

Foi inaugurado no

Instituto Butantan, em São Paulo, um biotério com capacidade para criar até 3 mil peixes adultos do tipo paulistinha, também conhecido como zebrafish A espécie tem sido cada vez mais usada como modelo animal em pesquisas científicas, principalmente na área da saúde. A plataforma foi montada no âmbito do Centro de Pesquisa em Toxinas, Resposta-Imune e Sinalização Celular (CeTICS), um dos Centros de Pesquisa, Inovação

e Difusão (Cepid) financiados pela FAPESP. “Nossa ideia é de que o local possa abrigar estudos do CeTICS e de diversos outros grupos”, disse Monica LopesFerreira, coordenadora do biotério de zebrafish De acordo com o coordenador do CeTICS, Hugo Armelin, a mobilização para criar a estrutura começou há três anos, quando ainda estava vigente o Centro de Toxinologia Aplicada (CAT), projeto aprovado no primeiro edital do

Chile amplia proteção a oceanos

O governo do Chile anunciou a criação de novos santuários ecológicos no Pacífico numa conferência internacional sobre a proteção dos oceanos sediada no país em outubro. Na abertura da conferência “Nossos oceanos”, realizada na cidade de Valparaíso, a presidente Michelle Bachelet anunciou que mais de 600 mil quilômetros quadrados (km2) ao redor da Ilha de Páscoa passarão a ser protegidos da pesca ilegal. Somada a outras reservas marinhas, o Chile passou a ter mais de 1 milhão de km2 de mar com biodiversidade preservada. “Trata-se de uma das maiores áreas protegidas do mundo”, disse Bachelet. As águas ao redor da Ilha de Páscoa abrigam espécies de atum, tubarão, marlim e espadarte. Eles são fonte de alimento para o povo Rapa Nui, que se envolveu na concepção da reserva. O governo chileno também divulgou planos de criar uma rede de águas marinhas protegidas próxima à

programa Cepid e que daria lugar ao CeTICS. “O zebrafish tem sido um dos modelos de genética mais explorados no mundo há mais de duas décadas e aqui no Brasil não há ainda laboratórios fazendo um trabalho realmente competitivo nessa área”, disse Armelin à Agência FAPESP. A proposta é que o peixe comece a ser introduzido em ambientes de pesquisa nos quais atualmente são usados camundongos e ratos.

Paulistinha: peixes são usados como modelo animal em pesquisas

Patagônia, com o propósito de defender espécies como baleias, golfinhos e pinguins. A conservação dos fiordes da Patagônia, grandes entradas de mar em meio a formações montanhosas, era uma lacuna na política ambiental chilena, segundo o ministro do Meio Ambiente chileno, Pablo Badenier. O financiamento à iniciativa nos próximos três anos foi garantido pela Fundação Waitt, dos Estados Unidos, que também investe na proteção da Patagônia argentina.

Pinguins na Patagônia chilena: novas reservas

Revolução

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) conferiu o prêmio Herói da Revolução Verde Brasileira a 10 pesquisadores. Um deles foi Heitor Cantarella, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), especialista em fertilidade do solo e um dos coordenadores do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (Bioen). Também foram premiados Mauro de Rezende Lopes, da Fundação Getulio Vargas (FGV); Alberto Portugal, pesquisador da Embrapa; Carlos Clemente Cerri, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP); Geraldo Sant’Ana de Camargo Barros, da USP; Lourival Carmo Monaco, presidente da Fundecitrus; Luiz Otávio Campos da Silva, da Universidade Federal de Viçosa; Teresa Losada Valle, do IAC; Aroldo Galassini, da cooperativa Coamo; e Ruy de Araújo Caldas, da Universidade Católica de Brasília.

Escolhidos para a FAPESP

No dia 6 de outubro, o governador Geraldo Alckmin reconduziu josé Arana Varela ao cargo de diretor-presidente do Conselho

Técnico-Administrativo (CTA) da FAPESP e nomeou três novos membros do Conselho Superior da Fundação:

Carmino Antonio de Souza, joão Fernando Gomes de Oliveira e Pedro Wongtschowski.

josé Arana Varela é físico e professor titular do Instituto de química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara. Doutor em Materiais Cerâmicos pela Universidade de Washington, é fellow da American Ceramic Society e membro da Materials Research Society, nos Estados Unidos. Foi diretor-presidente do CTA da FAPESP de 2012 a fevereiro de 2015 e membro do Conselho Superior da Fundação de 2004 a 2010.

Carmino Antonio de Souza, secretário municipal de Saúde de Campinas, é professor titular do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp). Doutor e livre-docente pela Unicamp, fez estágio de pós-doutorado na Universidade de Gênova (Itália). Suas áreas de pesquisa são onco-hematologia e transplante de medula. joão Fernando Gomes de Oliveira é engenheiro mecânico e professor titular da Escola de

Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP).

Com pós-doutorado pela Universidade da Califórnia, Berkeley, foi diretor-presidente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e diretor-presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).

Pedro Wongtschowski é engenheiro químico, mestre e doutor em Engenharia pela Escola Politécnica da USP. Preside os conselhos de administração do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) e da Embrapii, e o Conselho Superior da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei). Foi diretor-superintendente da Oxiteno e presidente da Ultrapar.

john Bardeen, Walter

Brattain e William Shockley demonstram funcionamento de transistor nos Bell Labs, em 1947

Muito artigo, pouco risco

A pressão para publicar artigos científicos continuamente pode desencorajar cientistas a buscar avanços no conhecimento inovadores, de acordo com um estudo liderado pelo sociólogo jacob Foster, professor da Universidade da Califórnia, Los Angeles. Foster e seus colaboradores montaram um banco de dados com mais de 6,4 milhões de artigos científicos das áreas de química e biomedicina publicados entre 1934 e 2008. Primeiro, analisaram se esses papers tratavam de tópicos de pesquisa já consagrados ou se propunham conexões originais. Depois, relacionaram as publicações a recompensas como citações em outros artigos e viram se seus autores foram reconhecidos com premiações acadêmicas. Constataram que 60% dos artigos não criavam novas conexões, sinal de que trouxeram pouca inovação.

Com base na sua análise das recompensas, o grupo notou que pesquisadores que apenas responderam a perguntas já estabelecidas foram mais felizes em ver seus resultados publicados, requisito para progressão na carreira. já os pesquisadores que fizeram perguntas originais e tentaram forjar novos elos na produção de conhecimento tiveram dificuldade em publicar um grande volume de artigos. Mas, quando conseguiram, foram mais recompensados com citações. Os autores sugerem que as universidades devem incentivar seus pesquisadores a assumir mais riscos, dissociando a segurança do emprego dos indicadores de produtividade. Eles observam que uma abordagem semelhante foi muito bem-sucedida em meados do século XX nos Bell Labs, onde cientistas podiam trabalhar em um projeto por vários anos sem sofrerem avaliação.

Varela e Gomes de Oliveira (ao lado), Carmino e Wongtschowski (acima): nomeados pelo governador

Tecnociência

Velho mamífero de Taubaté

O mamífero extinto

Taubatherium paulacoutoi, que viveu entre 23 e 24 milhões de anos atrás na área hoje ocupada pela Formação

Tremembé na bacia de Taubaté, no lado paulista do Vale do Paraíba, foi estudado em detalhes pela paleontóloga

Graziella do Couto

Ribeiro durante a realização de seu doutorado, defendido em setembro deste ano no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP). A partir da análise de 490 dentes e ossos de vários exemplares da espécie, cujos primeiros fósseis foram descobertos nos anos 1970 pelo

paleontólogo Herculano

Alvarenga, Graziella realizou a descrição anatômica e comparativa do esqueleto. O estudo revelou que o T. paulacoutoi, pertencente à família extinta de ungulados denominada leontinídeos, tinha aproximadamente 1,80 metro de comprimento e 80 centímetros de altura e pesava entre 280 e 350 quilos. Era, portanto, comparável em tamanho e massa corpórea a uma espécie moderna de equídeo (cavalos, jumentos e zebras).

“Essas características corroboram a hipótese de ele ter sido um herbívoro de hábitos gregários, que vivia em

Brejos isolam bicudinhos

Descrito oficialmente no final de 2013, o bicudinho-do-brejo-paulista (Formicivora paludicola) ocorre em apenas 15 brejos perto das nascentes dos rios Tietê e Paraíba do Sul, no entorno da Região Metropolitana de São Paulo. Um estudo coordenado por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Botucatu, com bicudinhos provenientes dos três brejos mais importantes indica que a

bandos à beira de um paleolago”, afirma a pesquisadora. O trabalho possibilitou ainda a reconstituição, pela primeira vez, de um esqueleto completo da espécie, agora exposto no Museu de História Natural de Taubaté (MHNT), do qual Graziella é pesquisadora e Alvarenga, fundador e diretor-presidente. T. paulacoutoi faz parte da fauna de mamíferos extinta da bacia de Taubaté, que contava com espécies endêmicas.

Reconstituição total do esqueleto de T. paulacoutoi, exposto em Taubaté

população de cada região apresenta níveis de estruturação e diferenciação genética só antes encontrados em grupos isolados de aves que habitam os topos de montanhas na África (PLoS One, 8 de outubro). Cada população vive em um brejo distante cerca de 60 quilômetros dos outros dois e parece apresentar um elevado grau de adaptação às condições locais. Por isso os autores do trabalho recomendam não transferir exemplares de uma localidade para outra. O artigo também

traz um dado relativamente otimista sobre a espécie que desde sua descoberta se sabe criticamente ameaçada de extinção: a população total pode chegar a 600 aves, o dobro da inicialmente estimada.

Bicudinho-do-brejo-paulista: divergência genética grande entre populações 2

Andar o mais depressa possível pode não ser o melhor exercício. Variar a velocidade pode queimar 20% mais calorias, de acordo com experimentos feitos na Universidade Estadual de Ohio, Estados Unidos (Biology Letters, setembro). Numa esteira em velocidade constante, voluntários foram instruídos a variar: apertar o passo para chegar à frente, e ficar para trás andando mais devagar. “Medir o custo metabólico de mudar a velocidade é importante porque as pessoas não vivem em esteiras e não andam em velocidade constante”, diz Manoj Srinivasan, coordenador do laboratório. O estudo mostra que se gasta 8% da energia das caminhadas cotidianas para começar a andar e parar. Outro resultado foi confirmar que as pessoas andam mais devagar quando a distância é curta e rápido quando precisam ir longe. A dica para queimar calorias: andar de forma que pareça pouco natural, fazendo mudanças de velocidade e rumo.

Sachê de agroquímico

Um sachê biodegradável desenvolvido por um grupo de pesquisadores da Embrapa Instrumentação e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) poderá promover o uso mais seguro e eficaz de defensivos químicos em lavouras do Brasil. Feito à base de amido, pectina e outros polímeros, o dispositivo estoca qualquer tipo de substância solúvel em água, como fertilizantes e pesticidas.

O sachê é, então, selado por prensagem e, em seguida, inserido no solo, onde libera gradativamente as substâncias à medida que se desfaz.

A quantidade de agroquímico por sachê pode variar conforme a necessidade do

agricultor. De acordo com a química

Elaine Cristina Paris, pesquisadora da Embrapa Instrumentação, esse método de dispersão evita que o agroquímico seja levado pela água da chuva e garante um maior aproveitamento dessas substâncias pelas plantas, com menos prejuízo ao meio ambiente e também ao ser humano. Os defensivos químicos, em geral, são pulverizados manualmente sobre as lavouras ou com o auxílio de tratores. Dessa maneira, os produtores rurais muitas vezes ficam expostos a essas substâncias tóxicas, que podem causar câncer e outros efeitos adversos ao sistema nervoso central e periférico.

Embalagem biodegradável: fertilizantes e pesticidas podem ter uso mais seguro no campo

Mais aglomerados à vista

Astrônomos anunciaram a descoberta de mais 493 aglomerados de estrelas na região central da Via Láctea, o chamado bojo. A região esconde seus segredos atrás de nuvens espessas de gás e poeira, entretanto com câmeras sensíveis à luz infravermelha é possível enxergá-los. Desde 2010, a câmera infravermelha do telescópio de 4 metros Vista, do Observatório Europeu Austral (ESO), em Cerro Paranal, Chile, mapeia estruturas desconhecidas no bojo da Via Láctea (ver Pesquisa FAPESP nº 200). “As descobertas do Vista mais do que duplicaram o número de aglomerados conhecidos nessa região”, diz o astrofísico brasileiro Roberto Saito, da Universidade Federal de Sergipe, que participou do estudo publicado em setembro na Astronomy & Astrophysics. “Hoje sabemos que ali há mais de mil aglomerados.”

Registro de tempestade geomagnética (direita): auroras como a foto abaixo

A noite em que o céu pegou fogo

Pesquisadores colombianos encontraram evidências de que um espetáculo de luzes coloridas e de brilho ofuscante iluminou a cidade de Montéria, Colômbia, na noite do dia 2 de setembro de 1859. A origem dessas luzes é a mesma das auroras polares, que costumam ser vistas em latitudes próximas aos polos Norte e Sul: elas são emitidas quando partículas eletricamente carregadas expelidas pelo Sol colidem com a atmosfera da Terra. No dia 1º de setembro de 1859, o astrônomo britânico Richard Carrington observava uma mancha na superfície do Sol quando, de repente, um brilho extraordinário surgiu dela. Hoje os astrofísicos consideram a ejeção de massa de partículas carregadas do Sol associada a essa

explosão a maior já registrada. A ejeção produziu auroras polares extraordinárias pelos dois dias seguintes. Há muitos relatos nos jornais da época de que essas auroras foram avistadas em países do hemisfério Norte muito além do Círculo Ártico, onde elas normalmente aparecem. Já se sabia que cidades em Cuba e no Panamá testemunharam essas auroras. Mas agora Freddy Cárdenas e Sergio Sánchez, do colégio Gimnasio Campestre, em Bogotá, em parceria com o astrônomo Santiago Domínguez, da Universidade Nacional da Colômbia, descobriram um relato dessa aurora escrito na época pelo vigário José Inés Ruiz, da catedral de Montéria, mais ao sul que a Cidade do Panamá (Advances in Space Research).

D NOVOS ACHADOS GENÉTICOS

Mutação que mitiga a distrofia muscular em cães é descoberta e genes humanos associados a doenças raras são identificados

esde 2004, os pesquisadores do Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL), ligado ao Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), desconfiavam que o golden retriever Ringo tinha algum mecanismo molecular que mitigava o aparecimento dos sintomas mais severos da distrofia muscular, como dificuldade para andar e deglutir. O cão, a exemplo do que ocorreria posteriormente com seu filhote Suflair, nunca produziu distrofina, proteína essencial para a manutenção da integridade dos músculos, e deveria ter sucumbido à degeneração progressiva da doença. Ambos, no entanto, sempre se mantiveram praticamente normais. Ringo morreu no ano passado aos 11 anos, tendo atingido uma expectativa de vida normal para cães, e Suflair continua bem, aos 9 anos e meio. Neste mês, o grupo da USP, em parceria com colegas da Escola Médica de Harvard e do Instituto Broad, dos Estados Unidos, publicou um artigo na revista científica Cell com a explicação do fenômeno: os dois golden retriever apresentam aumento na expres-

Músculos afetados por distrofia e os cães Ringo e Suflair: mutação no gene

Jagged1 minora quadro da doença

são (ativação) de um gene, o Jagged1, que os protege de desenvolver um quadro grave de distrofia muscular. O achado é promissor, pois, na opinião dos cientistas, sinaliza a possibilidade de explorar uma nova abordagem terapêutica, com o intuito de ao menos mitigar os sintomas da doença em seres humanos, por meio do controle do funcionamento desse gene.

A alteração genética descoberta faz com que o Jagged1 seja duas vezes mais expresso em Ringo e Suflair do que em cães severamente afetados pela doença. Ou seja, o gene é ativado de forma mais intensa e produz o dobro de sua respectiva proteína nos cachorros da USP do que nos animais doentes. Segundo o estudo, a anomalia no Jagged1 compensa o efeito deletério da ausência de distrofina, causada por mutações no gene responsável por produzir essa proteína. Isso porque uma

das funções do Jagged1 é atuar sobre uma via de sinalização intracelular denominada Notch, envolvida na produção e reparação de células musculares.

“Pela primeira vez, mostramos que um animal de grande porte, sem distrofina, pode ter um músculo funcional”, diz Mayana Zatz, coordenadora do trabalho agora publicado e do CEGH-CEL, um dos 17 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiados pela FAPESP. “O paper abre caminho para testarmos novos tratamentos contra as distrofias musculares mais frequentes no homem, como as de Duchenne e de Becker, por meio de uma maior ativação do gene Jagged1.” As atuais tentativas de terapia contra as distrofias musculares, por ora com resultados modestos, concentram-se em tentar restaurar o funcionamento normal do gene da

distrofina, no qual ocorrem as mutações que interrompem a produção dessa proteína e levam ao surgimento da doença.

Conhecer as bases moleculares das patologias é um passo importante para desenvolver tratamentos mais personalizados, uma tendência da medicina do século XXI. “No futuro próximo, os médicos vão olhar as informações genéticas e de funcionamento do metabolismo das pessoas e receitar o remédio mais adequado em uma dose individualizada”, afirma Mayana. As pesquisas contra o câncer caminham nessa direção (ver reportagem na página 64), e uma iniciativa que envolve cinco Cepids, a Brazilian Initiative on Precision Medicine (BIPMed), criou uma plataforma computacional para integrar dados genéticos e clínicos de doenças e, assim, gerar tratamentos talhados para cada paciente (ver reportagem na página 33). Ambas as distrofias musculares, a de Duchenne, mais severa, e a de Becker, mais branda, são doenças recessivas que acometem essencialmente indivíduos do sexo masculino. A explicação para esse padrão de ocorrência é simples. O gene da distrofia fica no cromossomo X, do qual os homens têm uma cópia e as mulheres duas. Por isso, eles desenvolvem a doença ao herdar uma única cópia do gene com a mutação, ao passo que elas precisam de duas cópias com a alteração para manifestar a distrofia, algo muito raro de ocorrer. Quando portam uma cópia mutada, as mulheres, na maioria dos casos, são assintomáticas, mas têm, em cada gestação, 50% de risco de transmiti-la para seus descendentes. A distrofia de Duchenne afeta um a cada 3.500 recém-nascidos do sexo masculino, índice 10 vezes maior do que o de Becker.

A bióloga Natássia Vieira, que fez doutorado no IB-USP e permaneceu quase quatro anos nos Estados Unidos procurando a mutação protetora de Ringo e Suflair, foi uma das principais responsáveis pela descoberta. Ela passou uma temporada no laboratório de Louis M. Kunkel, da Escola Médica de Harvard, que identificara na segunda metade dos anos 1980 as mutações do gene da distrofina associadas à doença, e convenceu a geneticista sueca Kerstin Lindblad-Toh, diretora científica da área de Biologia do Genoma de Vertebrados do Instituto Broad, mantido por Harvard e pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), a participar do projeto. Por isso, Kunkel e Lindblad-

-Toh são, ao lado de Mayana, os coautores seniores do estudo da Cell

Como pista inicial de onde procurar a hipotética mutação protetora, Natássia contava com os dados de um experimento feito cinco anos atrás em colaboração com o laboratório de Sergio Verjovski-Almeida, do Instituto de Química (IQ) da USP. “Vimos, com o emprego de um chip de DNA, que 66 genes tinham um perfil de expressão alterado nos cães assintomáticos em relação aos animais com o quadro de distrofia”, afirma Verjovski-Almeida, que também contribuiu com o novo trabalho. No laboratório de Lindblad-Toh, Natássia sequenciou todo o genoma de Ringo e Suflair e de um terceiro golden retriever com um quadro severo de distrofia muscular. Descobriu que havia uma pequena mutação em um dos 66 genes que haviam chamado a atenção no trabalho com o IQ-USP: a troca de uma única base nitrogenada (a unidade química que compõe todo o DNA) na região que regula o funcionamento do gene Jagged1, localizado no cromossomo 24 do cachorro, era a mutação que procuravam há anos.

Em seguida, a bióloga voltou ao laboratório de Kunkel e fez experimentos com RNA mensageiro em peixes paulistinha (ou zebrafish), um dos modelos biológicos mais usados para simular doenças humanas em animais. A ideia era ver se, ao estimular a ativação do gene Jagged1, como ocorre com os cachorros, os peixes apresentariam menor prevalência de um quadro equivalente à distrofia muscular humana. Deu certo. “A incidência da doença caiu dos esperados 25% para 6%”, afirma Natássia. Dessa forma, os pesquisadores colheram fortes evidências de que a mutação no gene Jagged1, que no ser humano se encontra no cromossomo 20, é capaz de atenuar a manifestação clínica das distrofias musculares.

avanço S na S do E nça S rara S A identificação de um provável mecanismo molecular que mitiga o desenvolvimento das distrofias não foi o único trabalho recente do CEGH-CEL a produzir resultados substanciais no entendimento de doenças genéticas. Em artigo publicado on-line em 29 de setembro na revista científica Human Molecular Genetics, outro grupo de pesquisadores ligados ao centro da USP mostrou que pacientes com uma rara síndrome hereditária neurodegenerativa não apresentam uma

a IncIdêncIa dE trêS do Ença S rara S

Problemas decorrem de uniões consanguíneas

A síndrome Spoan totaliza

75 casos conhecidos no Brasil, 61 deles no Rio Grande do Norte, 5 na Paraíba, 5 em São Paulo, 2 no Ceará e 2 no Rio Grande do Sul. As deficiências intelectuais causadas por mutações nos genes Impa1 e Med25 apresentam, respectivamente, 9 e 7 casos

sequência com 216 pares de bases na região que controla o funcionamento de um gene do cromossomo 11, o KLC2. A identificação da alteração genética demorou 10 anos. Em 2005, enquanto fazia estágio de pós-doutorado no CEGH-CEL, a bióloga paulista Silvana Santos foi a principal responsável pela descoberta da doença em um município de 5 mil habitantes do interior do Rio Grande do Norte, Serrinha dos Pintos, onde um terço dos casamentos era consanguíneo, entre primos de primeiro ou segundo grau. “Foi muito difícil encontrar a mutação. Apenas com as novas técnicas de sequenciamento conseguimos ter sucesso”, comenta Mayana Zatz.

Denominada síndrome Spoan, sigla que, em inglês, significa Spastic Paraplegia, Optic Atrophy and Neuropathy, a doença causa uma série de sin-

SPoan iMPa1 MED25

tomas clínicos que levam os pacientes a viver em uma cadeira de rodas a partir da adolescência: o contínuo enrijecimento e enfraquecimento das pernas e braços, lesões progressivas nos neurônios motores e sensoriais e diminuição do campo de visão, resultante da atrofia congênita do nervo óptico (ver Pesquisa FAPESP nº 113). Esse esforço de uma década mobilizou Silvana, que desde 2008 é professora da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), em Campina Grande, pesquisadores do CEGH-CEL da USP, de outras universidades brasileiras e até do exterior e incluiu várias idas a campo pelo interior da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Durante as viagens, além de informações sobre a Spoan, os pesquisadores descobriram dois novos distúrbios neurológicos, e o mecanismo genético que os ocasiona, em comunidades relativamente isoladas do Nordeste. Essas novas doenças, igualmente raras, foram apresentadas à comunidade científica em dois trabalhos recém-publicados. “Da mesma forma que a Spoan, essas duas doenças se originam em famílias com muitas uniões consanguíneas”, afirma Silvana.  Como os estudos iniciais já indicavam na década passada, a alteração genética responsável por provocar a Spoan se encontra em uma região do cromossomo 11 com mais de 140 genes. Essa pis-

Ceará
Rio grande do norte
Paraíba
São Paulo
Rio grande do Sul

ta sempre esteve correta. O que os pesquisadores não tinham como saber era que a mutação estava em um trecho de DNA pouco estudado até alguns anos atrás. A mutação associada à síndrome não está na chamada região codificadora, a parte da sequência que contém as instruções específicas para a produção da proteína associada a cada gene de um organismo. Tal região é o lugar de ocorrência mais comum de mutações associadas ao aparecimento de patologias. Por isso, tradicionalmente é o primeiro alvo da busca por alterações genéticas com repercussões clínicas. Mas a mutação ligada à síndrome de Serrinha dos Pintos se encontra em uma área regulatória do gene KLC2.

A perda de um trecho de 216 pares de base na região que controla o gene faz com que ele funcione em excesso. O KLC2 é mais ativado do que o normal nos doentes e produz uma quantidade extra de cinesina, membro de uma classe de proteínas motoras que transportam organelas do corpo celular até o axônio, a parte do neurônio que conduz os impulsos elétricos. Ou seja, a mutação na região regulatória não leva à produção de uma forma alterada da proteína nem impede sua fabricação, como ocorre na maior parte das doenças genéticas, mas desregula a quantidade produzida da proteína. “Essa é a primeira doença autossômica recessiva descrita como resultado de uma mutação que faz um gene ganhar, em vez de perder, uma função”, diz Silvana.

Os pacientes que desenvolvem Spoan herdaram as duas cópias do gene KLC2, uma do pai e outra da mãe, com a alteração que causa a doença. É por isso que a síndrome é denominada recessiva. Pessoas com apenas uma cópia alterada são portadoras da mutação, que pode ser transmitida aos filhos, mas são clinicamente normais. Se a doença fosse dominante, bastaria ter uma cópia do gene

com a mutação para desenvolver o problema de saúde. “O defeito que causa a Spoan estava em um gene que havíamos investigado em 2006”, conta a bióloga Lúcia Inês Macedo de Souza, que se dedicou entre 2005 e 2013 a procurar a alteração genética responsável pela síndrome, durante seu doutorado e pós-doutorado no IB-USP. “Mas, na época, não tínhamos no mundo tecnologia para sequenciar todo o genoma a um custo baixo. Só conseguimos fazer isso em dezembro de 2012.”

n a caU da do zebrafish

Natural de Campina Grande, o biólogo Uirá Souto Melo, que faz doutorado sobre a Spoan sob a supervisão de pesquisadores do CEGH-CEL, realizou um experimento que reforçou a ligação do gene KLC2 com a síndrome. Ele permaneceu três meses na equipe de Nora Calcaterra, da Universidade Nacional de Rosário (Argentina), antiga parceira do centro da USP, onde usou o zebrafish para estudos sobre a função do gene. Melo injetou doses extras de RNA mensageiro (a receita química para a produção de uma proteína) extraído do KLC2 em embriões de paulistinha. Conforme a dose de RNA era aumentada, a cauda do peixe entortava mais, um fenótipo que pode ser interpretado como a manifestação de uma doença neurodegenerativa. “No momento estou tentando

c a SaMEntoS conSangUínEoS

varIaM dE 6% a 41% EM cIdadES do IntErIor da paraíba

Rua dos Judeus, em Recife, no século Xvii: mutação que causa síndrome Spoan deve ter entrado no nordeste na época do Brasil holandês com os judeus sefarditas 1

Serrinha dos Pintos:

doença Spoan foi descoberta em 2005 no município do interior do Rio grande do norte

desenvolver um camundongo transgênico com a mutação da Spoan”, afirma Melo, que passa uma temporada na Universidade da Califórnia em Berkeley. “Dessa forma, ficaria mais fácil fazer um modelo biológico da doença em um animal geneticamente mais parecido com o ser humano.”

Na década passada, por questões de custo e de limitações da tecnologia, os sequenciamentos se concentravam na região codificadora do genoma humano, que representa de 2% a 3% da sequência total. O restante do genoma, cerca de 97% da sequência, chegou até a ser denominado “DNA lixo” nos primeiros anos após o término do projeto de sequenciamento de todos os genes do ser humano, em 2003. Achava-se que não servia para nada. Mas essa visão mudou radicalmente com o passar do tempo e a criação e a disseminação de novas técnicas de sequenciamento. Hoje, conhecer a composição química de todo o material genético do homem, inclusive das áreas não codificadoras, tornou-se uma tarefa muita mais rápida, barata e, como mostra o estudo com a Spoan, importante. Segundo levantamento feito pelo National Human Genome Research Institute (NHGRI), dos Estados Unidos, o custo de sequenciar todo o genoma de uma pessoa era, em setembro de 2001, de US$ 95 milhões. Em julho deste ano, a mesma empreitada custava US$ 1,3 mil.

A descoberta da mutação no gene não abre caminho, em um primeiro momento, para a cura da Spoan, cujos afetados não têm prejuízo cognitivo nem sentem dor, mas veem sua qualidade de vida se deteriorar rapidamente. No entanto, possibilita desenvolver um teste capaz de prever a ocorrência da doença em filhos de pais portadores da mutação. Dez anos atrás, quando foi descoberta,

a Spoan tinha acometido 26 moradores (17 mulheres e 9 homens) de Serrinha dos Pintos, todos descendentes de casais aparentados, de 19 uniões consanguíneas. Agora o número de afetados chega a 61 no Rio Grande do Norte, distribuídos por oito cidades (dois terços deles em Serrinha e São Miguel), e 14 em outros quatro estados (5 em São Paulo, 5 na Paraíba, 2 no Ceará e 2 no Rio Grande do Sul). “Tivemos contato com dois casos no Egito, nos quais também confirmamos a mutação na região regulatória do gene KLC2”, diz Silvana.

M U tação E j U d EUS SEFard I ta S

Um detalhe sempre chamou a atenção dos pesquisadores quando identificaram os primeiros afetados pela Spoan em Serrinha dos Pintos. Todos os pacientes tinham nascido naquela região, eram caucasianos, descendentes distantes de portugueses ou de holandeses que dominaram parte do Nordeste no século XVII. Essa situação levou-os a formular a hipótese de que a mutação pode ter sido introduzida na região pelos europeus na época do Brasil holandês. O DNA de 68 afetados pela síndrome e de 85 familiares que carregam a mutação (mas não têm a doença) está sendo analisado para tentar determinar quando a alteração genética surgiu. Com sorte, também será possível determinar se a mutação apareceu em solo brasileiro ou foi trazida por imigrantes.

“Os dados preliminares sugerem que a mutação pode ter chegado ao Nordeste com os judeus sefarditas, originários da comunidade judaica de Portugal e da Espanha, no tempo do Brasil holandês”, diz Silvana.

Os estudos que levaram à descoberta da Spoan começaram na primeira metade dos anos 2000.

Silvana ainda morava em São Paulo e ficou intrigada com a história de uma vizinha com um tipo de paraplegia que ninguém sabia dizer exatamente o que era. Essa moça dizia ser de uma família de Serrinha dos Pintos com muitos membros afetados pelo mesmo problema de saúde. Silvana foi ao pequeno município do interior potiguar e viu que a incidência da doença e de outros distúrbios neuromotores era grande em toda aquela região. A Spoan, descrita na literatura científica em 2005, foi sua primeira descoberta, quando ainda fazia parte da equipe do CEGH-CEL na USP. Em 2008, ela foi contratada pela UEPB e deu continuidade aos estudos com doenças ligadas à consanguinidade. “Desde então, ela tem sido uma ótima parceira do nosso centro, mandando alunos para cá e fazendo estudos conjuntos”, diz Mayana Zatz. Em 2009, Silvana e seus alunos da UEPB firmaram uma parceria com 39 municípios do sertão paraibano e, com o apoio de agentes comunitários de saúde, entrevistaram 20.462 casais para tentar estabelecer a frequência de uniões consanguíneas em diferentes localidades. O resultado do estudo apontou números elevados: a taxa variou de 6% a 41%, dependendo da cidade. Em 2012, o grupo da UEPB e uma equipe de neurologistas da USP examinaram 109 indivíduos com algum tipo de deficiência física ou mental oriundos de seis municípios paraibanos com elevados índices de consanguinidade (Bom Sucesso, Brejo dos Santos, Catolé do Rocha, Belém do Brejo do Cruz, São José do Brejo do Cruz e Brejo do Cruz). Essas incursões por lugares com muitos casamentos

do IS novoS tIpoS dE dEFIcIêncIa

IntElEctUal ForaM dEScob ErtoS

EM cIdadES da paraíba

entre parentes facilitaram a descoberta de mais casos de Spoan e também de novas doenças raras, como os dois problemas neurológicos agora divulgados em periódicos científicos. “Fizemos um livro eletrônico gratuito, intitulado Tem alguma pessoa com deficiência na sua família?, e o disponibilizamos no site da UEPB ”, afirma Silvana. Uma das novas doenças é um tipo de deficiência intelectual (antigamente chamado de retardo mental) que provoca sexualidade exacerbada e alterações anatômicas na face (prognatismo, queixo proeminente e nariz muito grande), encontrada em sete indivíduos de uma mesma família originária do município de Catolé do Rocha, Paraíba. Hoje três dos afetados vivem em Mossoró, no Rio Grande do Norte, mas o núcleo original do clã é o município paraibano. Em artigo publicado em dezembro do ano passado no Journal of Medical Genetics, os cientistas descreveram a doença e a mutação no gene MED25, do cromossomo 19, que a causa. “Tivemos sorte”, comenta a bióloga Thalita Figueiredo, que fez doutorado na UEPB

MUtaçõES EM do IS novoS gEnES caUSaM a SíndroME dE noonan

Estudo amplia base molecular da doença e eleva para 11 o número de genes implicados na condição clínica

Pesquisadores do CEgH-CEl descobriram dois novos genes associados à síndrome de noonan, doença de prevalência quase tão elevada quanto a síndrome de Down. De acordo com artigo publicado em junho no Journal of Medical Genetics, mutações nos genes S0S2 e lZ tR1 são responsáveis por 3% dos casos da doença. o primeiro gene está no cromossomo 2; o segundo, no 22. um a cada 2,5 mil recém-nascidos, segundo algumas estimativas, ou um a cada mil, de acordo com outras, é acometido pela síndrome, que pode afetar diferentes áreas do corpo (ver figura ao lado). “a s anomalias mais

importantes que levam os pais a procurar o serviço médico são as cardíacas e a baixa estatura”, afirma a geneticista Débora Bertola, do CEgH-CEl e médica do instituto da Criança do Hospital das Clínicas (HC) da uSP, principal autora do estudo. “a s características clínicas da síndrome são muito variáveis. É provável que muitos indivíduos afetados nem saibam que a têm.”

Em geral, a doença não afeta a expectativa de vida dos pacientes. a síndrome de noonan é classificada como uma doença monogênica autossômica dominante. Basta herdar uma única cópia de um

Cabelos cacheados

CaR aC tERíStiC a S FíSiC a S DE CRiança CoM a SínDRoME testa larga

Baixa estatura

Cabeça em formato de triângulo invertido

Excesso de pele no pescoço

Queixo pequeno antebraço mais afastado do corpo

Deformidade no osso esterno

Mamilos muito espaçados

Embrião de zebrafish: (da esq. para a dir.) normal, pouco afetado e muito alterado pela mutação da Spoan

sob a orientação de Silvana e é a primeira autora do estudo. “Três meses depois do nosso trabalho, um grupo internacional descreveu famílias com outra mutação nesse mesmo gene.”  O MED25 faz parte de uma grande família de genes, associada a diversas formas de deficiência intelectual.

O segundo distúrbio neurológico, ainda sem nome, ocorre em razão de uma mutação identificada no gene Inositol monophosphatase 1 (Impa1), localizado no cromossomo 8. Trata-se de uma doença que causa deficiência intelectual e alterações comportamentais, como agitação e agressividade. Ela foi descoberta em uma família de Brejo dos Santos com nove afetados. “Esse trabalho abre uma perspectiva interessante para novas pesquisas”, afirma o neurologista Fernando Kok, pesquisador do CEGH-CEL e diretor médico da Mendelics, laboratório privado dedicado à análise genômica, que participou do sequenciamento das três doenças. “O lítio dado aos pacientes com transtorno bipolar inibe a ação do gene.” No entanto, antes da publicação do estudo dos pesquisadores brasileiros, que saiu em 2 de outubro na revista Molecular Psychiatry, nenhum problema mental havia sido associado ao Impa1. Os trabalhos sobre novas e velhas doenças genéticas raras no Nordeste estão longe de ter fim.

único gene com uma mutação patogênica para desenvolvê-la. antes do trabalho do CEgH-CEl, mutações em nove genes estavam associadas a 80% dos casos da doença. Em geral, os afetados têm alguma mutação deletéria em apenas um dos genes que podem causar a síndrome. Com o estudo dos brasileiros, o número de genes ligados à sindrome aumentou para 11. “a dificuldade hoje é encontrar genes que respondam por uma porcentagem muito pequena dos casos da doença”, explica Débora. “a descoberta das mutações nesses dois genes melhora a eficiência do diagnóstico molecular

da síndrome”, afirma Maria Rita

Passos-Bueno, coordenadora da área de transferência de tecnologia do CEgH-CEl. Com exceção do lZ tR1, todos os demais genes responsáveis pelo desenvolvimento da síndrome estão associados à via de sinalização R a S/MaPK, cuja desregulação parece ser crucial para a origem da doença. Para descobrir a associação dos dois genes com a síndrome, foi sequenciada a parte codificante do genoma de 50 pacientes do HC que tinham a doença, mas não apresentavam mutações nos nove genes até então sabidamente ligados à patologia.

No caso da Spoan, o desafio agora é entender o mecanismo fisiológico, a cadeia de eventos, que a mutação provoca nos afetados pela síndrome e os empurra progressivamente para uma vida em uma cadeira de rodas. A alta prevalência de distúrbios e síndromes ocasionados por casamentos entre cônjuges aparentados é um indício de que ainda há muito a ser pesquisado nessa seara. Um levantamento nacional divulgado no ano passado aponta que existem cerca de 4 mil pessoas de mais de 80 municípios, a maioria do Nordeste, que apresentam doenças genéticas de baixa incidência em comunidades relativamente isoladas do país. “Vários países dão bastante atenção às populações com alta taxa de consanguinidade ou baixa diversidade genética, como os Amish nos Estados Unidos, os franco-canadenses no Canadá, os árabe-israelenses em Israel e os finlandeses”, comenta Kok. “Ainda sabemos muito pouco sobre as doenças genéticas no Brasil.” Os avanços dos estudos genéticos, impulsionados por novas tecnologias e por uma melhor capacidade de analisar vastas quantidades de dados, estão permitindo, no entanto, conhecer um pouco mais as raízes de patologias raras, como a Spoan, e também de condições bem mais comuns, como as distrofias musculares. n

Projetos

1. CEgH-CEl – Centro de Estudos do genoma Humano e de Células-tronco (nº 2013/08028-1); Modalidade Centros de Pesquisa, inovação e Difusão (Cepid); Pesquisadora responsável Mayana Zatz (iB-uSP); Investimento R$ 9.609.746,03 e uS$ 4.676.005,00 para todo o projeto. 2. Programa de Pesquisa do núcleo de Estudos em genética e Educação da universidade Estadual da Paraíba (nEgE-uEPB); Pesquisadora responsável Silvana Santos (uEPB); Investimento R$ 200.000,00 (Propesq/uEPB, Fapesq/CnPq, Biomarin).

artigos científicos

viEiR a , n. M. et al. Jagged1 mitigates the Duchenne muscular dystrophy phenotype. cell. 12 nov. 2015.

MElo, u. S. et al o verexpression of KlC2 due to a homozygous deletion in the non-coding region causes Spoan syndrome. Human Molecular genetics. 18 set. 2015.

FiguEiREDo, t et al a homozygous loss-of-function mutation in inositol monophosphatase 1 (impa1) causes severe intellectual disability. Molecular psychiatry. 29 set. 2015.

FiguEiREDo, t et al. Homozygous missense mutation in MED25 segregates with syndromic intellectual disability in a large consanguineous family. journal of Medical genetics. 19 dez. 2014 yaMaMoto g l et al. Rare variants in SoS2 and lZ tR1 are associated with noonan syndrome. journal of Medical genetics. v. 52, n. 6, p. 413-21. jun. 2015.

entrevista Jeter Bertoletti

idade 76 anos

esPecialidade

História Natural, Museologia e Aquacultura

Formação

PUCRS (graduação, doutorado e livre-docência)

institUição

PUCRS

ProdUção cientíFica

Mais de 150 artigos científicos e 17 livros e capítulos de livros. Orientou 163 trabalhos de iniciação científica e pós-graduação

s emeador de acervos

Museólogo gaúcho fala do desafio de conciliar pesquisa com divulgação científica e organizar exposições interativas

Acoleção pessoal de um jovem estudante foi o ponto de partida do acervo do Museu de Ciências e Tecnologia (MCT) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), um imponente prédio construído numa área de 22 mil metros quadrados (m 2) no campus da universidade gaúcha. Na década de 1960, o biólogo e museologista Jeter Bertoletti ingressou na instituição para cursar História Natural. Levava na bagagem um grande interesse pela ciência e guardava no porão de casa um acervo, acumulado desde os 7 anos de idade, de rochas, minerais e pequenos animais, como aranhas, escorpiões e serpentes. A coleção originou o Museu de Zoologia da PUCRS, embrião do atual MCT, ao qual Bertoletti se dedicou até se aposentar em 2007. Em mais de quatro décadas de atividade, ampliou as coleções por meio da aquisição, coleta e doações de materiais e peças de arqueologia, paleontologia, zoologia, botânica e mineralogia. E ajudou a projetar muitos dos mais de 700 experimentos de química e física disponíveis no museu. O tempo dedicado à divulgação científica não o impediu de trabalhar como pesquisador. Sob o teto do MCT foram elaborados projetos no campo da criação de peixes, camarões e siris – atividade de pesquisa que ajudou a desenvolver no Rio Grande do Sul com o mesmo entusiasmo com que se dedicou à museologia. Uma de suas iniciativas de maior repercussão foi o Projeto Tainha, que selecionou ambientes propícios para a criação sustentável de pescados. Paralelamente, estudava características morfológicas de peixes, chegando a descrever uma nova espécie, o Trachelyopterus lucenai. Bertoletti defende a ideia de que centros e museus de ciência devem ser espaços para a produção científica. “As coleções têm um

Bruno de Pierro | R et RAtO Fernanda Chemale

apelo científico e servem de apoio à formação de recursos humanos em curadoria, por exemplo, ou taxonomia”, diz ele. Em 2007, o museólogo foi o vencedor da 27ª edição do Prêmio José Reis de Divulgação Científica, concedido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Parte do reconhecimento foi creditada ao pioneirismo no país na criação de um museu que funciona sobre as rodas de um caminhão, o Promusit. Inaugurado em 2001, foi o primeiro museu de ciência itinerante do Brasil e se tornou uma referência. Aos 76 anos de idade, o pesquisador divide seu tempo entre duas casas que projetou para morar, nas cidades de Porto Alegre e Canela.

Como começou o seu interesse pelas ciências naturais?

Estudei no Colégio Marista Nossa Senhora do Rosário, em Porto Alegre, cujo viés das disciplinas era para o lado da natureza. Havia alguns irmãos maristas que trabalhavam com história natural e isso me chamou a atenção. Quando tinha uns 7 anos, eu saía com colegas da escola em busca de pedras preciosas em Porto Alegre, que está numa região granítica. Escavávamos morros e achávamos, por exemplo, quartzo. Comecei a colecionar. Tínhamos um porão grande em casa, onde depositava esses minerais e cristais. Além de rochas e minerais, eu guardava alguns bichos, como aranhas, escorpiões e serpentes.

Na verdade, comecei a ter isso claro quando entrei na graduação. O curso da PUCRS não tinha um museu, embora estivesse bem equipado com microscópios, por exemplo. Já no primeiro ano de faculdade comecei a organizar por conta própria as coleções do curso. De 1960, quando entrei, até 1967, organizei uma linda coleção com o apoio do então reitor José Otão e do professor Jacob Kuhn, que depois se tornou o Museu de História Natural da PUCRS. Parte do acervo de minerais havia sido adquirida da Alemanha, por Faustino João, um irmão marista que na época era diretor de ciências da universidade. Como falava várias línguas, encomendou esses minerais vindos da Europa com facilidade.

mais recente. Por isso comecei a pensar na época em fazer algo novo no Brasil. Um museu que pudesse abrigar não só coleções, mas também laboratórios de pesquisa básica e aplicada.

Como foi estruturado o museu na fase inicial?

Funcionava em uma área de 220 m2 de exposições, com cerca de 7 mil peças de áreas como arqueologia, zoologia, botânica, paleontologia, geologia etc. Havia uma réplica de um mastodonte de 3 metros de altura. Tínhamos vários aquários marinhos e de água doce e cerca de 30 aparelhos interativos fabricados por mim para explicar conceitos da física e química. Acho importante salientar que na década de 1970 trabalhei como professor de matemática e coordenador de biologia de dois colégios no Rio Grande do Sul: o Marista Nossa Senhora do Rosário, onde estudei, e o Colégio Estadual Júlio de Castilhos. Em ambos também criei museus de ciência. Eles contavam com um corpo docente muito qualificado, laboratórios, bibliotecas. Com isso, comecei a introduzir aos alunos aulas práticas nessas escolas.

o número de museus é insignificante no país considerando que temos mais de 5.500 municípios

Na época, o senhor se inspirou em exemplos internacionais?

Tornou-se um colecionador... Já tinha essa tendência. Com o tempo, comecei a identificar as espécies. Minha coleção foi crescendo, sem que eu tivesse orientação de professores. Meus pais me incentivaram a cursar medicina, mas acabei fazendo História Natural na PUCRS. É uma graduação que não existe mais no Brasil. Ela dava uma noção muito mais ampla da natureza. Como eu havia criado uma coleção grande de minerais e animais, já tinha em mente trabalhar com museus de ciência.

O desejo de criar um museu de ciência o acompanhava desde a infância então?

Eu não tinha conhecimento de experiências do exterior ainda – era apenas um estudante. Em 1961, ainda no segundo ano do curso, comecei a trabalhar como monitor de mineralogia na PUC, uma disciplina complexa. Depois fui monitor de zoologia e de fisiologia vegetal. Isso, de certa forma, me ajudou a tomar ainda mais gosto pela divulgação científica. Mas eu acompanhava o que acontecia no mundo por meio de revistas internacionais. Lia sobre museus, principalmente de países da Europa e dos Estados Unidos. Eram museus grandes, mas muito estáticos. O conceito de interatividade, com atividades dinâmicas como temos hoje em dia, é

Há estudantes que chegam à universidade sem terem entrado em um laboratório antes.

Sim, e eu já estava preocupado com isso na época. Vi que a divulgação do conhecimento científico e a popularização da ciência deveriam estar presentes em todas as escolas. Da capital, dos municípios, do estado e até do Brasil. Hoje em dia ainda há muita falta de aulas práticas, como as de microscopia, de morfologia e de anatomia de animais. Por exemplo, a microscopia de microrganismos vivos ou em lâminas. Orientei um filme amador com alunos sobre a anatomia de um cão de rua doente. Tinha tantas lombrigas no interior do animal e atravessando diversos órgãos dele, como fígado e pâncreas, que certamente ele morreria em poucos dias. O filme foi divulgado em várias capitais, inclusive Brasília. O problema é que nossos professores, em geral, não são preparados para ensinar dessa forma. Sem

falar da falta de recursos e estrutura. O Colégio Estadual Júlio de Castilhos, por exemplo, na minha época tinha estrutura, laboratórios. Hoje, em grande parte, encontra­se tudo sucateado. Há apenas um pequeno museu, mas sem muita finalidade.

O museu passou a se chamar Museu de Ciências e Tecnologia posteriormente? Sim. O nome depois mudou por um motivo simples: eu via que a química, a física, a tecnologia e outras áreas do conhecimento não estavam presentes no Museu de História Natural. Faltava dar espaço a esses campos. O museu já era bastante visitado, havia mês em que passavam por lá mais de 2 mil alunos. Então comecei a ampliar com conteúdo de outras disciplinas. A inserção do termo “tecnologia” veio somente em 1993. O Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS hoje está instalado em 22 mil m2, com uma arquitetura própria, situado em uma área privilegiada dentro do campus da universidade. Sua estrutura tem cinco pavimentos e dois mezaninos, onde estão localizados a área de exposições, o acervo científico e didático, os laboratórios de pesquisa e de formação de professores, além de oficinas e a administração. Há ainda áreas anexas, como oficinas mecânicas, de artes, depósitos, serpentário, espaço de aquacultura e garagens. No total, são mais de 700 experimentos em cerca de 20 áreas temáticas, como Universo, Eletricidade e Magnetismo e Ser Humano.

Como o museu ganhou sua atual configuração?

Estávamos espalhados por diversos prédios até meados dos anos 1980. Em 1985, o então reitor Norberto Rauch me pediu

um projeto. Entreguei em 1988 o fluxograma que combinava com o currículo das escolas, explorando a biologia, a zoologia, a botânica, a química, a geografia e a história. Depois, com ajuda da Fundação Vitae, dirigida por Regina Weinberg, conhecemos outras experiências internacionais, no México, nos Estados Unidos e na Europa, que têm um fluxograma bem diferente do nosso.

Quais museus de ciência mais o encantam e servem de referência internacional no momento?

Cada um apresenta características próprias, pela tradição ou pela inovação. A atração, a interatividade, o ensino e a aprendizagem variam. Com o conhecimento que tenho de mais de 50 museus, posso citar alguns. O certo é que os melhores museus estão situados no hemisfério Norte e nos países mais evoluídos economicamente. Por exemplo, o American Museum of Natural History, em Nova York, é muito conhecido pela vasta coleção de fósseis. Já o Smithsonian National Museum of Natural History, em Washington,

e xpedição organizada por Bertoletti nos anos 1970 com o objetivo de selecionar peixes para pesquisas

tem mais de 120 milhões de peças, é muito forte em pesquisas, especialmente de peixes. O Museum of Science de Boston é muito interativo e dinâmico, abrange várias áreas do conhecimento humano. Ele teve um grande diretor, David Ellis, com quem trabalhei em Porto Alegre, Minas Gerais e São Paulo. Lá, a física e a matemática estão bem representadas. Estão presentes também atrações sobre dinossauros e o tubarão do famoso filme Tubarão . O California Academy of Sciences em São Francisco é um dos maiores espetáculos em matéria de museu moderno. A arquitetura é uma obra­prima. Possui áreas de interatividade, exposições diferenciadas e pesquisa biológica de destaque. Tem também o Cité des Sciences et de l’Industrie de Paris. É um grande e famoso parque de ciências, além de ser um cartão­postal da capital francesa, juntamente com o Louvre. Cito também o Deutsches Museum de Munique, um dos maiores e mais tradicionais museus do mundo. Ele se destaca pela tecnologia e pelas ciências naturais. E o Natural History Museum de Londres, com boas coleções de ciências da vida e da Terra.

Na década de 1970, o senhor criou um curso de pós-graduação oferecido pelo museu. Um museu de ciência também deve ser um centro de formação?

Em 1972, mandei um projeto para a Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] para a cria­

Bertoletti (centro) apresentando o Projeto tainha a autoridades de Rio Grande (RS) na década de 1970

ção de um curso de osteologia, a ciência que estuda os ossos. Recebi muitas críticas na época. Muita gente me dizia que um museu não pode ser uma instituição de ensino nem de pesquisa. A reitoria me comunicou que não era função do museu ter um curso de pós­graduação. Dessa forma, cancelei o curso e os alunos foram aproveitados no curso de pós­graduação de paleontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, para poder identificar, por exemplo, fêmures de animais fossilizados. As coleções têm um apelo científico e servem de apoio à formação de recursos humanos em curadoria ou taxonomia. Hoje no museu se desenvolvem três cursos de pós­graduação – Zoologia, Arqueologia e Educação em Ciências e Matemática – com centenas de alunos.

O trabalho do museu era apoiado por uma revista de divulgação científica. Qual o balanço dessa experiência? Eu criei e fui editor de duas revistas científicas do museu. Chamavam­se Comunicações Científicas e Divulgações do MCT-PUCRS . Infelizmente, a PUC acabou com elas no fim da minha gestão, em 2007. Deve ter tido umas 40 edições. Circulou muito, e mundialmente. Permitiram que fizéssemos um forte intercâmbio internacional, enviando nossas revistas para algumas das principais instituições de pesquisa do mundo, da Bélgica, Holanda, França, Inglaterra, Rússia e Estados Unidos, e recebendo exemplares de publicações dessas instituições. Com

as revistas que recebíamos, montei uma biblioteca com mais de 40 mil volumes. Deixei esse material no museu, mas a PUCRS, que tem uma das maiores bibliotecas da América do Sul, anexou esses volumes à biblioteca central.

Foi a partir dos anos 1960 que o senhor começou seu trabalho com peixes? Além dos meus trabalhos com museus, eu também pesquisava, com apoio do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]: estudava peixes que coletava no Lago Guaíba e na Laguna dos Patos. O objetivo era conhecer a fauna de maneira geral e identificar espécies. As pesquisas começaram dentro do museu e eu contava com a ajuda de alunos do curso de História Natural, que faziam um estágio no museu e no final recebiam um certificado. Nessa época, descrevi e publiquei uma nova espécie de peixe, o Trachelyopterus lucenai. No total, devo ter mais de 50 trabalhos nessa área. Paralelamente, também atuei como consultor na área ambiental. Fui contratado, por exemplo, pelo Consórcio Nacional de Engenheiros Consultores de São Paulo, pela empresa Hidroservice e por outras grandes empresas nacionais e internacionais para coordenar estudos de impacto ambiental na construção de hidrelétricas. Isso implicava um levantamento ambiental complexo, que envolvia fauna, flora, geologia, arqueologia etc. Eu coordenava equipes de mais de 100 pessoas. Eram pesquisadores que iam a campo.

O senhor trabalhou em São Paulo, não? Sim, fiz estágio no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo nos anos 1960, que era dirigido pelo Paulo Vanzolini, um dos maiores pesquisadores de lagartos do mundo. Ele me deu toda a estrutura necessária para pesquisar e queria que eu ficasse com ele, trabalhando com peixes. Com o tempo, passei a ter uma cópia da chave do museu, e ia para lá também aos sábados e domingos. O Vanzolini me arrumou a casa de uma família perto do museu, que me alugou o quarto principal. Naquela época, também recebi muito apoio do zoólogo Heraldo Britski, do Museu de Zoologia, que trabalha na área de ictiologia, o estudo de peixes.

Os resultados de seus trabalhos na identificação de espécies de peixes eram aproveitados de alguma forma pelo museu na PUCRS?

Para mim, museus de ciência e pesquisa devem caminhar juntos. Hoje, a maioria dos museus brasileiros não faz pesquisa. Há, claro, levantamentos bibliográficos, de acervo, mas não existe a preocupação de investir em pesquisa científica de fato. No meu caso, eu tinha a preocupação de manter sob o teto do museu cerca de 50 pesquisadores, dedicados exclusivamente aos laboratórios de ictiologia, herpetologia, paleontologia e ornitologia. Chegamos a organizar uma edição do Congresso Internacional de Ictiologia dentro do museu, com mais de 300 pesquisadores de todo o mundo. Nosso laboratório foi referência internacional e por meio dele recebi convites para conhecer laboratórios nos Estados Unidos.

Em 1974 o senhor criou o Projeto Tainha. Como foi?

A produção de camarões e peixes da Laguna dos Patos estava decaindo drasticamente naquele momento. As colônias de pescadores estavam em crise e a indústria de pesca do Rio Grande do Sul também estava indo mal. Comecei a comandar expedições oceanográficas, em parceria com o governo estadual, para buscar peixes. A ideia era coletar espécies e aumentar a coleção científica para pesquisa e, ao mesmo tempo, identificar peixes marinhos do Rio Grande do Sul. A Secretaria de Agricultura do estado tinha um grupo de trabalho dedicado ao desenvolvimento da indústria da pesca. Fiz uma proposta à pasta: modifi ­

Primórdios do Museu de Ciências e tecnologia: alunos participam de uma aula prática

car a estrutura do posto de piscicultura do município de Osório, como forma de introduzir a piscicultura econômica em várias áreas do estado, e implantar o projeto de seleção de ambientes em águas estuarinas e marinhas para a implementação de criadouros de espécies de importância econômica como tainhas, linguados, camarões e siris.

Quais foram os resultados desse projeto?

Implantamos a maricultura na cidade de Tramandaí, com a criação de mexilhões. Também introduzimos ostras na entrada do rio Tramandaí, mas não deu muito certo. Alguns de meus alunos depois levaram a ideia para Santa Catarina e alguns até para o Nordeste. E levamos o projeto para o Saco do Justino, uma enseada na Laguna dos Patos. Entre 1976 e 1978, a região produziu 70 mil quilos de camarão e mais de 100 mil quilos de tainha. Os grandes beneficiadores locais –que compram e beneficiam o pescado – ficaram abismados. Por exemplo, com o projeto, 30 camarões passaram a pesar cerca de 1 quilo. Queriam que eu os ajudasse, mas meu objetivo sempre foi beneficiar os pescadores mais carentes. O que eu fazia era criar zonas de alimentação natural, além de fertilização química das fazendas aquáticas. Essas áreas atraíam peixes, camarões e siris. Pegava farelo de arroz e semeava todos os dias. No total, fiz 19 projetos de aquacultura no Rio Grande do Sul.

começou para valer em 2001. O projeto foi apresentado à Vitae, que após análise e aprovação financiou toda a estrutura. Primeiramente o objetivo era atender apenas o Rio Grande do Sul, mas com o tempo a carreta começou a se deslocar para outros estados. De 2001 a dezembro de 2007, ano em que eu deixei o museu, foram realizadas 92 exposições atendendo um total de 1,7 milhão de pessoas. A demanda cresceu com o tempo e não conseguíamos atender todos. Foram 138 pedidos não atendidos no Rio Grande do Sul, 10 em Santa Catarina, cinco no Paraná, três em São Paulo. Além dos 60 experimentos interativos, em média, há oficinas pedagógicas. Não são só experimentos. Tem teatro científico, palestras,

Uma das funções desses projetos itinerantes é chegar a locais onde não há museus fixos, certo?

Sim. O número de museus de ciência no país é, sem dúvida, insignificante, considerando a existência de mais de 5.500 municípios brasileiros, para uma população de 205 milhões de habitantes. Deveríamos ter muito mais museus de ciências no Brasil. Estamos longe disso, mas se justifica a necessidade de cada cidade dispor de pelo menos um museu ou centro de ciências. Vivemos num momento especial, que exige uma mobilização geral para aumentar a sensibilidade sobre a importância da ciência e da tecnologia, não só para os estudantes, mas para toda a sociedade.

m useus de ciência

e

pesquisa devem caminhar juntos. n o Brasil, a maioria não
coloca isso em prática

projeção de filmes em 3D, microscopia ao vivo e com lâminas preparadas em laboratório.

O senhor foi pioneiro no país ao criar o Promusit, o museu de ciência itinerante da PUCRS. Como surgiu a ideia? Eu estava assistindo a um documentário do projeto itinerante Questacon, da Austrália. Um pesquisador de lá adquiriu verba e comprou um caminhão de carga, que depois foi adaptado e se transformou em um museu sobre rodas, com vários experimentos científicos e atrações. Até hoje o caminhão percorre o interior da Austrália e localidades carentes, que nunca tinham visto experimentos de física e de biologia. Aquilo me deu um estalo! Uma vontade de fazer algo similar no Brasil. Montei o projeto em casa e ele

O senhor também criou o Projeto Escola-Ciência (Proesc). Do que se trata? Diferentemente do Promusit, o Proesc consiste em um ônibus que viaja para atender alunos e professores de escolas comprovadamente carentes. Tem também o objetivo de atender portadores de necessidades especiais, meninos de rua. Ele traz dos diferentes locais crianças e adultos e os leva ao MCT. No museu, eles passam o dia sob a orientação de professores. Também são servidas refeições gratuitamente nos restaurantes da PUCRS. No caso do Proesc, é o ônibus que vai atrás das crianças.

Além da quantidade reduzida, cerca de 272 segundo o Guia de centros e museus de ciência da América Latina e Caribe, os museus também estão concentrados mais nas regiões Sul e Sudeste. Exatamente. O índice ou nível de cultura de um povo é proporcional ao número e à qualidade de seus centros e museus de ciência. No Brasil, essas instituições começaram a surgir efetivamente, como ação cultural, há apenas três ou quatro décadas. E isso não é algo que deve ser pensado somente para atender estudantes. É para a sociedade. Trata­se de uma ferramenta para melhorar a qualidade educacional, ao apresentar o conhecimento de forma interativa e lúdica. A divulgação de quaisquer atividades científicas é complexa e exige precisão dos conteúdos. A leveza da forma de apresentação torna­ se fundamental para facilitar a assimilação e a aprendizagem. A todo professor deveria ser proporcionada a oportunidade de se capacitar, através de cursos, reuniões técnicas, palestras, simpósios e estágios. As escolas devem apresentar condições físicas e arquitetônicas adequadas, com laboratórios e bibliotecas virtuais, e com obras essenciais e atualizadas, espaços para reuniões e discussões de assuntos escolares para palestras, conferências e exposições interativas, produzidas pelos alunos no modelo de feiras estudantis. n

fôlego criativo

Crescimento percentual da produção científica em cada região metropolitana entre os anos 1996 e 2013

o DNA da inovação nas metrópoles

Pesquisador mapeia como grandes universidades influenciam a economia e o ambiente das regiões urbanas onde estão instaladas

fabrício Marques

lídere S eM conheciMento

Publicações científicas de instituições de cada região metropolitana entre 2011 e 2013

Londres

Pequim

aRegião Metropolitana de São Paulo, atrás apenas das megalópoles de Xangai e Pequim, na China, e de Seul, na Coreia do Sul, aparece em 4º lugar numa lista de aglomerados urbanos em que o co nhecimento gerado pelas universidades cresceu de forma acentuada nos últimos anos, multiplicando interações com empresas e organizações da sociedade e modificando a economia e o ambiente das cidades. O ranking foi apresentado em junho por Méric Gertler, professor do Departamento de Geografia e Planejamento e atual reitor da Universidade de Toronto, no Ca nadá, em um fórum bianual que reúne líderes de universidades de pesquisa, o Glion Colloquium, na Suíça. O diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, que participou do en contro, comentou: “Foi uma agradável surpresa assistir à palestra de Méric Gertler, que aconteceu no dia seguinte à minha, e ver o destaque dado a São Paulo como cluster de produção científica”. Referência internacional em estudos sobre geografia da inova ção, Gertler compilou dados sobre a produção científica em aglo merados regionais, extraídos da base Web of Science, da empresa Thomson Reuters, e analisou redes de colaboração vinculadas a essa produção. Em seguida, comparou o desempenho de cada região entre 1996 e 2013. Nesse ranking, que mostra a evolução da produção científica nas últimas duas décadas, São Paulo, com um aumento de mais de 400%, e as metrópoles asiáticas (Xangai teve crescimento de 1000%) apareceram nos primeiros lugares, à frente de regiões como Munique, na Alemanha, Boston, nos Estados Unidos, e Londres, na Inglaterra. Gertler também apre sentou um ranking de regiões baseado no volume de publicações científicas entre 2011 e 2013. Nessa lista, São Paulo aparece na 32ª posição, com cerca de 40 mil publicações, atrás de regiões consolidadas como São Francisco, Tóquio e Berlim, mas à fren te de grandes regiões como Munique e Manchester-Liverpool. Os dados sugerem que universidades de pesquisa imprimem um dinamismo para as regiões que as abrigam, dando impulso à eco nomia, à inovação e à criatividade. Entre as 50 universidades mais bem colocadas no ranking da Times Higher Education, mostrou o reitor, apenas sete estão em aglomerados com menos de 1 milhão de habitantes – nas outras 43, a existência de uma universidade de classe mundial atrela-se a alguma grande região metropolita na, cujas empresas e instituições se beneficiam do conhecimento e dos recursos humanos gerados pela academia ao mesmo tempo que propõem demandas que desafiam o ambiente acadêmico. O aglomerado urbano de São Paulo é definido, na análise de Gertler,

Boston

tóquio-Yokohama

nova York são francisco

seul

amsterdã-roterdã

Xangai

Paris

Los angeles osaka-Kobe toronto

filadélfia

madri

Chicago

Baltimore

detroit-ann harbor

Barcelona moscou

Copenhague-Lund houston

Berlim roma

Estocolmo-uppsala

san diego, La Jolla

milão montreal

Washington seattle

Edimburgo-Glasgow

São paulo

manchester-Liverpool munique

“o gestor de um fundo de capital de risco foi direto ao ponto ao dizer: o dinheiro flui para onde as ideias fluem”, afirma gertler

como a megalópole de mais de 30 milhões de habitantes formada pela capital paulista, Campinas e São José dos Campos, onde há universidades como a de São Paulo (USP), a Estadual de Campinas (Unicamp), as federais do ABC (UFABC) e de São Paulo (Unifesp) e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), além de três institutos da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Apenas a USP, que tem seu principal campus na capital paulista, é responsável por 22% da produção científica brasileira, segundo dados da Web of Science. “Esse polo brasileiro tem uma história notável. Há apenas 25 anos, era pouco conhecido e altamente especializado. Hoje, é uma força global”, disse Méric Gertler à Pesquisa FAPESP. “De acordo com dados bibliométricos da Thomson Reuters, em 1990, a USP colaborava com 350 instituições em 28 países. Em 2014, já eram mais de 6,5 mil instituições em 145 países. Isso é extraordinário.”

Segundo ele, a parceria com universidades é crucial para a reinvenção econômica das cidades. Ele cita como exemplo a trajetória de Pittsburgh, na Pensilvânia, que conseguiu fazer a transição de principal polo siderúrgico norte-americano para uma região próspera e diversificada, referência em atividades como educação, tecnologia, saúde e serviços financeiros. “Pittsburgh se beneficiou tremendamente do impacto da Universidade Carnegie Mellon, da Universidade de Pittsburgh e de outras 35 universidades e faculdades. Da mesma forma, regiões metropolitanas como Boston, São Francisco, Raleigh e Austin se beneficiaram da influência do MIT, das universidades Harvard, Stanford, da Califórnia [em São Francisco], da Carolina do Norte-Chapel Hill, Duke, do Texas [em Austin], e outras escolas menores e menos famosas”, afirmou Gertler. “Isso também vale para o Canadá, em locais como Toronto e Vancouver, e outros, ao redor do mundo. Pense em Singapura ou na região de São Paulo, incluindo São José dos Campos e Campinas, por exemplo.”

Muitos países, reconhecendo o valor da participação em redes globais de conhecimento, selecionam algumas de suas universidades líderes em pesquisa para concentrar investimentos, o que ajuda a atrair e reter estudantes e pesquisadores

talentosos. “Isso resulta em enormes crescimentos de publicações, citações e colaborações – e é uma boa notícia para todos”, disse Gertler.

O levantamento adota uma metodologia utilizada por outros grupos de pesquisa, segundo a qual indicadores bibliométricos também funcionam para apontar, mesmo que de maneira indireta, o vigor de atividades econômicas e da sociedade civil que naturalmente se conectam com as universidades. “A pesquisa científica é, por definição, uma atividade criativa e inovadora – e ela própria é um motor do desenvolvimento urbano”, escreveram Christian Wichmann Matthiessen, pesquisador da Universidade de Copenhague, Annette Winkel Schwarz e Soren Find, da Universidade Técnica da Dinamarca, num artigo sobre cidades globais publicado em 2009 que utilizou a mesma metodologia usada por Gertler. “O gestor de um fundo de capital de risco foi direto ao ponto ao dizer: o dinheiro flui para onde as ideias fluem”, afirmou Gertler que, adverte, porém, para as conhecidas limitações do uso de indicadores bibliométricos, que em geral falam muito sobre quantidade, mas não necessariamente sobre qualidade.

Méric Gertler dedicou boa parte de sua carreira acadêmica a estudar as economias das regiões urbanas e o papel que grandes instituições, como universidades, desempenham no seu desenvolvimento. Segundo ele, há vários meios pelos quais universidades de pesquisa intensiva impulsionam regionalmente a inovação, a prosperidade e a reinvenção da economia. Em primeiro lugar, diz, universidades são fontes de dinamismo e resiliência para as economias das regiões urbanas. Elas gerenciam orçamentos vultosos e propiciam pesquisas em parceria com indústrias, instituições e organizações sem fins lucrativos. “Esse tipo de pesquisa baseado em parcerias muitas vezes leva a novos achados em ciência fundamental e aplicada. Quando parceiros locais trabalham com uma universidade, professores e alunos são tanto os provedores de novas ideias como seus beneficiários. Além disso, grande parte da pesquisa realizada dentro de nossas instituições encontra o seu caminho no mercado através de canais como acordos de licenciamento de tecnologia, patentes e startups.”

o reitor da universidade de toronto, méric Gertler: referência internacional em estudos de geografia da inovação

Formar capital humano, observa Gertler, representa a principal contribuição das universidades para suas regiões e países. “Educar os estudantes é, de longe, a mais importante forma de transferência de tecnologia das universidades. Eles são uma injeção poderosa de criatividade, compromisso e energia em sua comunidade”, diz o reitor. E isso funciona para todas as áreas do conhecimento. “Muitas vezes ouvimos que nossos países precisam de mais graduados em ciências, tecnologia, engenharia e matemática. Estes campos, é claro, são cruciais. Mas deve-se dizer que os graduados em ciências humanas e ciências sociais geram dinamismo e resiliência na mesma medida. As ciências humanas e sociais nos permitem pensar de forma ampla e profunda sobre nossos problemas e os valores que nos orientam a criar soluções.” Na era digital, segundo ele, é preciso ser capaz de analisar as informações de forma crítica e criativa, de ordenar os pontos-chaves para formar argumentos persuasivos, de ouvir e aprender com outras perspectivas.

Universidades de pesquisa também funcionam como portas de entrada que conectam suas regiões com o mundo e vice-versa. “Colaborações entre pesquisadores e publicações em coautoria estão se acentuando ao longo do tempo e cada vez mais têm caráter internacional. Não são distribuídas aleatoriamente. Com mais frequência, as parcerias internacionais são celebradas entre instituições de elite, localizadas em outras grandes regiões urbanas. Nas palavras de um recente editorial na revista Nature, a excelência busca a excelência, por isso universidades nacionais de elite também lideram colaborações internacionais”, afirma o reitor. Isso é importante, observa Gertler, porque a prosperidade presente e futura das universidades dependem de sua

capacidade de ter acesso e de usar não apenas o conhecimento produzido localmente mas também aquele produzido em outros centros principais de pesquisa e inovação em todo o mundo. As universidades, por fim, exercem uma influência estabilizadora em sua vizinhança. “Tomando emprestado um conceito do varejo, nossas instituições são como ‘lojas-âncora’ nas comunidades. O tamanho das nossas instituições gera um impacto econômico substancial em toda a região – na criação de empregos, na receita fiscal e no empreendedorismo”, diz Gertler, que também aponta o impacto local positivo das atividades de extensão exercidas por seu corpo docente, funcionários e alunos em comunidades vizinhas e bairros. Um exemplo: estudantes de odontologia da Universidade de Toronto atenderam 78 mil pacientes no ano passado, como parte da atividade de extensão.

universidades também contribuem para a reconstrução da infraestrutura física das cidades e, com frequência, desempenham papel de liderança na regeneração do tecido urbano. “Não é à toa que tantos municípios recorrem a instituições de ensino superior para dar vitalidade a seus centros urbanos envelhecidos.”

A cidade de São Paulo foi formada pela convergência de movimentos econômicos favoráveis, como o do café e a industrialização, a diversidade cultural promovida por processos migratórios e o desenvolvimento científico fomentado por grandes universidades, observa Leandro Medrano, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. “Sua liderança regional está ligada a essa singular situação que transformou uma vila na maior megacidade da América Latina em menos de um século. Tal diversidade e pujança econômica impulsionaram ciclos con-

tínuos de inovação em diversos setores, como a ciência, a cultura e as artes”, afirma. Na avaliação de Medrano, a maior ameaça a essa estrutura é a violência urbana e o desejo de confinamento de parte da sociedade. “A proliferação de condomínios fechados, verticais e horizontais, e centros comerciais poderia fracionar a cidade em microssistemas murados. E com isso prejudicar suas potencialidades como centro de inovação. Felizmente essa tendência dos anos 1980 e 1990 parece estar tomando outros rumos. São Paulo pode estar iniciando um novo ciclo de avanço em relação às suas virtualidades urbanas”, diz.

renato de Castro Garcia, professor do Instituto de Economia da Unicamp, lembra que a região de São Paulo sofreu um processo de fuga de indústrias para regiões com custos menores e facilidades logísticas. “Mas as soluções tecnológicas das empresas têm mais dificuldade de se descentralizar, porque a proximidade física e geográfica com a geração do conhecimento tem um peso importante”, afirma. Garcia orientou uma dissertação de mestrado, defendida na USP pela economista Ariana Ribeiro Costa, que analisou a dinâmica das empresas de tecnologia de informação da Região Metropolitana de São Paulo. “As empresas que se concentram na cidade e em regiões próximas a ela são intensivas em conhecimento”, diz Ariana. Ela concluiu que essas empresas seguem se concentrando nas vizinhanças da capital paulista porque, a despeito dos custos, identificam na cidade elos para sua consolidação e oportunidades de troca de conhecimento. “O contato face a face e a diversificação produtiva exercem um papel fundamental nessa concentração e nas trocas de conhecimento geradas nesses ambientes”, afirma Ariana, que utiliza o conceito de conhecimento tácito, bastante explorado por Méric Gertler em seus estudos sobre aglomerados econômicos. O conhecimento tácito, que se opõe ao conhecimento codificado em livros, é aquele que não é facilmente transferível e depende de contato pessoal, interação regular e confiança para ser repassado. O trabalho de Ariana ajuda a explicar por que a capital paulista foi a única metrópole da América Latina listada na última edição do relatório Global Startup Ecosystem Ranking 2015, que avalia o ambiente para o desenvolvimento de empresas nascentes de tecnologia, as startups. São Paulo

ocupa a 12ª colocação, superada, por exemplo, pelo Vale do Silício (Califórnia), Nova York, Los Angeles e Boston, nos Estados Unidos. No caso de São Paulo, o estudo aponta como pontos fortes o fato de ser a capital econômica da América Latina, além do financiamento às empresas nascentes de tecnologia em atividade, cujo número estimado chega a 2,7 mil. Os investimentos de fundos de capital de risco em startups tecnológicas de São Paulo em 2014 foram maiores que os feitos em empresas de Seattle, nos Estados Unidos. “São Paulo possui mais talentos do que qualquer ecossistema de startups da América do Sul”, destacam os autores do estudo.

A pujança de aglomerados de inovação desafia a ideia de que, por meio da globalização, o mundo se tornou plano, proposta num livro do jornalista norte-americano Thomas Friedman, observa Veneziano de Castro Araújo, professor de economia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

“a proximidade geográfica com a geração do conhecimento tem peso importante para as empresas”, diz renato garcia

“É certo que a globalização levou a uma convergência que permitiu a países como Índia e China ingressarem na cadeia global de fornecimento de serviços e produtos, mas continuam a existir pontos em que a competência se aglomera mesmo dentro desses países”, afirma Araújo, que em 2013 defendeu tese de doutorado na USP, também orientada por Renato Garcia, abordando os efeitos da proximidade na dimensão local da inovação no Brasil. Ele cita o exemplo da criação da Unicamp. “A universidade começou a formar engenheiros bastante qualificados e seu entorno a atrair empresas, que ampliaram a demanda por esses profissionais. A necessidade das empresas também exigiu que os engenheiros aprendessem tecnologias que não estavam disponíveis e incentivou colaborações com a universidade. E outras empresas que desejavam vir para o Brasil escolheram Campinas para se instalar, interessadas na boa interação entre a universidade e as indústrias”, explica. “A Embraer é outro exemplo e surgiu a partir da mão de obra formada pelo ITA, mas hoje absorve engenheiros formados na USP e na Unicamp. Isso é possível graças à proximidade, à especialização e ao conhecimento tecnológico da região”, afirma. Esses fatores não impedem, diz Araújo, que se intensifiquem interações entre pesquisadores e empresas de regiões distantes, mas elas não fluem com a mesma velocidade que as colaborações dentro dessas aglomerações. n

Medicina de precisão

Centros apoiados pela FAPESP criam plataforma comum de dados genéticos em busca de terapias talhadas para cada paciente

Pesquisadores de cinco Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP reuniram-se num esforço para dar impulso à medicina de precisão, abordagem que busca integrar informações clínicas e moleculares sobre doenças a fim de gerar tratamentos talhados para cada paciente. A Brazilian Initiative on Precision Medicine (BIPMed) prevê a criação de uma plataforma computacional que abrigará dados genéticos gerados pelos cinco Cepids e outros grupos brasileiros.

O banco de dados vai seguir a metodologia da Global Alliance for Genomics and Health (genomicsandhealth.org) e integrar-se a esse consórcio, composto por 300 instituições de vários países, que busca criar terapias a partir da medicina genômica. O interesse pela medicina de precisão é internacional. Em janeiro, o presidente norte-americano Barack Obama anunciou investimentos de US$ 200 milhões nesse campo de pesquisa.

Em São Paulo, já existem múltiplas ações com resultados de impacto em medicina personalizada. O Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da USP descobriu a mutação de um gene que protegeu cães de desenvolver um quadro grave de distrofia muscular. O achado tem potencial para mitigar sintomas da doença em seres humanos (ver reportagem de capa na página 14). Já uma equipe do Instituto Ludwig para a Pesquisa do Câncer e do Centro de Oncologia Molecular do Hospital Sírio-Libanês está finalizando uma nova geração de testes para detectar o câncer precocemente. A oncologia, diz Anama-

ria Camargo, líder da equipe, é das áreas da medicina em que a personalização do tratamento está mais desenvolvida (ver reportagem na página 64).

dA do S g E nô MI co S “A plataforma poderá ser consultada por qualquer pesquisador do Brasil ou do mundo interessado em saber informações sobre dados genômicos e características fenotípicas encontradas em pacientes e/ ou populações de controle, se são muito ou pouco prevalentes na população ou se estão associados a alguma doença ou condição, por exemplo”, explica Munir Skaf, professor do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (IQ-Unicamp) e coordenador do Centro de Pesquisa em Engenharia e Ciências Computacionais (CCES), um dos Cepids parceiros. Além do CCES, incumbido de organizar a plataforma computacional da BIPMed, participam da iniciativa quatro Cepids da área da saúde: o Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias e o Centro de Terapia Celular, sediados na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), o Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades, o Instituto de Pesquisa sobre Neurociências e Neurotecnologia, sediados na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. “Estamos agregando ao nosso grupo a competência de um bioinformata, o Helder Nakaya. Isso irá aumentar a produção de resultados a serem incorporados ao novo projeto”, diz Fernando de Queiroz Cunha, professor da FMRP-USP e coordenador do Cepid sobre doenças inflamatórias.

A mobilização dos Cepids, que atuam em temas na fronteira do conhecimento e recebem financiamento de longo prazo, aconteceu naturalmente. Vários desses centros trabalham com dados genéticos e lidam com o desafio de analisá-los e interpretá-los. “Para que possamos fazer análises complexas, precisamos de volumes de dados muito grandes e leva tempo para gerar um número significativo de informações capaz de indicar se uma determinada característica tem a ver com um polimorfismo genético, por exemplo”, diz Fernando Cendes, professor da FCM-Unicamp e coordenador do Instituto de Pesquisa sobre Neurociências e Neurotecnologia. O centro estuda os mecanismos da epilepsia e do acidente vascular cerebral na população brasileira e trabalha com dados genéticos e diagnóstico por imagem. “Os repositórios de bancos de dados são importantes para fazer esse tipo de análise e existem várias iniciativas mundo afora, como as que estudam o câncer e o Alzheimer”, diz. Segundo Cendes, os Cepids vão se beneficiar da iniciativa desenvolvendo ferramentas e técnicas que representam, elas próprias, avanços no conhecimento. A montagem completa da plataforma deve demorar algum tempo. “Não é um projeto que se faça em menos de quatro ou cinco anos e essa é outra razão pela qual os Cepids, que podem ser financiados por mais de 10 anos, têm vocação para organizá-lo.” n Fabrício Marques

Comparação de sequências de DnA de diversos indivíduos

Política S Pública S y

Doação de órgãos A arte de dar más notícias

Segundo estudo, treinamento deficiente de profissionais da saúde ajuda a explicar aumento na recusa das famílias brasileiras

Onúmero de famílias que não autorizam a doação de órgãos e tecidos de parentes com diagnóstico de morte encefálica aumentou significativamente no Brasil. Em sete anos, a taxa de recusa familiar dobrou, saltando de 22% em 2008 para 44% em 2015, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Países como Austrália e Reino Unido enfrentam situação semelhante que, aliada a falhas na identificação e notificação de potenciais doadores, dificulta a realização de transplantes. Um estudo conduzido por pesquisadores da Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) buscou mapear as razões da recusa familiar. O principal motivo identificado pela pesquisa é que boa parte das famílias (21%) não compreendeu o conceito de morte encefálica. Já 19% atribuíram a decisão a crenças religiosas e

outros 19% responsabilizaram a falta de competência técnica da equipe hospitalar.

No total, foram ouvidas 42 famílias que haviam sido consultadas pelo Serviço de Procura de Órgãos e Tecidos da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, ligado ao Hospital São Paulo, em 2010. A conclusão mais importante foi a de que, apesar da falta de conhecimento técnico sobre a morte encefálica, as chances de a família aderir à possibilidade de doação são diretamente proporcionais à capacidade de os profissionais da saúde criarem empatia durante a entrevista na qual a doação é solicitada aos familiares. Um dado que surpreendeu os pesquisadores é que aproximadamente 43% das famílias consideraram insuficiente o tempo dado a elas para a tomada de decisão. É certo que há pressa em conseguir a autorização, pois órgãos como coração e fígado não podem mais ser aproveitados quando

Bruno de Pierro

Transplantes que não acontecem

Famílias consultadas sobre doação de órgãos e número de recusas – de janeiro a junho de 2015

São Paulo

Rio de Janeiro

Rio Grande do Sul

Paraná

Santa catarina

Pernambuco

Minas Gerais

ceará b ahia

Distrito Federal

Goiás

Espírito Santo

Rio Grande do Norte

Pará Maranhão

Mato Grosso do Sul amazonas

Paraíba

Piauí

Sergipe acre alagoas

Rondônia

Mato Grosso

o coração para de bater. A queixa das famílias é que a abordagem foi feita de forma mecânica, até mesmo truculenta, sem respeitar o atordoamento de quem acabou de receber uma notícia trágica. “As pessoas precisam de tempo para assimilar a perda do familiar”, diz Bartira De Aguiar Roza, professora da Unifesp e coordenadora do estudo. Segundo ela, a dificuldade reside no fato de muitos médicos e enfermeiros não estarem preparados para comunicar más notícias de maneira respeitosa e esclarecedora. O estudo também indicou que, entre 1998 e 2012, cerca de 21 mil famílias se recusaram a doar órgãos. Se 80% delas tivessem aceitado a doação, supondo a possibilidade de extrair pelo menos quatro órgãos de cada doador, mais de 67 mil pacientes teriam sido transplantados nesse período.

Bartira reconhece que a crença religiosa interfere. Em um dos casos de recusa, uma mulher

amapá, Roraima e tocantins não notificaram entrevistas com familiares de potenciais doadores no período levantado

contou que não doaria os órgãos da mãe porque acreditava na ressurreição. “A interpretação pessoal de textos religiosos pode levar a uma postura desfavorável à doação, ainda que nenhuma religião se oponha a ela”, afirma Bartira. Mesmo nesses casos, a pesquisadora acredita que a culpa não deve ser totalmente atribuída à família, pois o desempenho do profissional da saúde que propõe a doação também pode ser decisivo. Tanto isso é verdade que, quando questionado se mudaria de opinião, 70% do total de famílias respondeu que hoje optaria pela doação.

Para outro autor do estudo, João Luis Erbs Pessoa, diretor técnico da Central de Transplantes da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, uma das principais funções do profissional que lida com doações de órgãos deve ser esclarecer todas as dúvidas dos familiares. “Quem tem a obrigação de entender de morte encefálica são

os médicos e enfermeiros, não a família”, diz Pessoa.

O grau de instrução escolar dos familiares que participaram da pesquisa foi diversificado: 29% deles concluíram o ensino fundamental, 33% o ensino médio, 36% se graduaram e 2% tinham doutorado. A maior parte das famílias (48%) tinha renda de um a três salários mínimos e 64% declararam-se católicos. “A pesquisa indica que o que está em jogo não é saber se a população conhece o conceito de morte encefálica, mas sim se é bem tratada pelos profissionais da saúde. Muitas vezes subestimamos os familiares, mas eles sabem quando os procedimentos da entrevista são equivocados”, explica Pessoa.

Oestudo sugere investir mais no treinamento das pessoas que trabalham na captação de órgãos. Em Santa Catarina, estado com uma das menores taxas de recusa familiar ( ver gráfico na página 35), os coordenadores de transplantes que atuam em hospitais da rede pública de saúde passam por curso de comunicação em situações críticas, oferecido pela Secretaria Estadual de Saúde. “Os profissionais aprendem a dialogar com sensibilidade com os familiares e a se colocarem à disposição para esclarecer dúvidas”, diz Joel de Andrade, coordenador estadual de transplantes de Santa Catarina.

Experiências desse tipo também têm sido colocadas em prática na Unifesp, no Hospital das Clínicas da Universidade

“As pessoas precisam de tempo para assimilar a perda do familiar”, diz

Bartira De Aguiar Roza, da Unifesp

de São Paulo (HC-USP) e no Hospital Israelita Albert Einstein, na capital paulista. “O diagnóstico de morte encefálica é angustiante e desperta muitas dúvidas. É uma morte que não parece morte, pois o coração continua batendo. Isso faz com que a família ainda tenha esperanças de recuperação”, explica Juliana Gibello, professora do curso de Comunicação de Más Notícias do Albert Einstein, criado no início do ano. Com carga horária de 30 horas e on-line, o curso é direcionado a médicos, enfermeiros, psicólogos, entre outros profissionais. Os módulos abrangem desde conceitos fundamentais da comunicação interpessoal até os processos que envolvem morte e luto. Ao longo de todo o curso, os alunos discutem casos clínicos. “Esse tipo de treinamento e discussão deveria ser feito desde a graduação nos diversos cursos da área da saúde”, sugere Juliana.

As iniciativas brasileiras buscam inspiração no modelo espanhol de doação de órgãos, que se tornou referência internacional. A taxa de recusa familiar na Espanha é hoje uma das menores do mun-

A resistência em alguns países

taxas de recusa familiar a potenciais doações de órgãos em 2014

do, de 17%. Parte desse sucesso se deve à forma como profissionais da saúde lidam com as famílias. “Respeito e empatia são o cerne da questão”, disse à Pesquisa FAPESP Carmen Segovia Gomez, uma das fundadoras da Organização Nacional de Transplantes (ONT), criada em 1989, vinculada ao governo espanhol. Além da coordenação nacional de captação de órgãos para transplantes, outra tarefa da ONT é organizar cursos de comunicação de más notícias. A entidade foi a primeira no mundo a criar esse tipo de treinamento para profissionais da saúde.

“Essa formação específica permite que o profissional desenvolva habilidades de comunicação para fazer com que um familiar em crise de luto sinta-se livre e confiante para tomar sua decisão”, conta Carmen, que atualmente dirige o curso da ONT. Em uma das etapas do curso, os alunos interagem com atores, que fazem o papel de familiares recebendo a notícia da morte encefálica. Na simulação, os alunos são instruídos a fazer uma abordagem sensível, perguntando primeiro como era a vida do familiar, do que ele gostava, para só então abrir a possibilidade de autorizar a doação. Na província espanhola de Alicante, esse tipo de abordagem chegou a zerar a recusa nos anos 1990. Nos últimos anos, Carmen também colaborou como consultora em alguns filmes do cineasta Pedro Almodóvar, como Tudo sobre minha mãe (1998), no qual a personagem de uma enfermeira que atua na coordenação de transplantes em um hospital foi inspirada no trabalho da fundadora da ONT.

Embora a prioridade na Espanha seja promover boas práticas de comunicação entre profissionais da saúde, o país também investe em campanhas de esclarecimento. Marcelo José dos Santos, pesquisador da Escola de Enfermagem da USP, participou como aluno do curso oferecido pela ONT, durante uma viagem à Espanha em 2001. Segundo ele,

FOnTE coMiSSão EuRoPEia/ oNt

lá a doação de órgãos é um tema apresentado a crianças e adolescentes desde o ensino básico, por meio de programas educativos. “No Brasil, ainda temos muito trabalho a fazer nesse sentido. Não basta investir só em treinamento dos profissionais da saúde”, adverte. “Aqui, a população ainda confunde muito morte encefálica com coma, por exemplo”, diz Santos, que atualmente realiza um estágio de pós-doutorado sobre o assunto, cujos resultados parciais mostram que a recusa familiar é maior ainda em relação à autorização de doação de tecidos ósseos, pele e córnea. Uma das pistas para explicar a rejeição seria o fato de as famílias desconhecerem a possibilidade desse tipo de doação ou terem aversão à ideia de que o corpo seja mutilado.

Também os Estados Unidos e o Reino Unido passaram a investir em campanhas. No primeiro caso, os esforços têm contribuído para aumentar o número de doadores. Atualmente, mais de 100 milhões de norte-americanos, pouco mais de um terço da população, declaram-se doadores de órgãos. Apesar disso, o governo segue preocupado com a recusa familiar, que no momento está em torno de 22% no país.

Uma pesquisa feita pela Rede de Transplantes e Procura de Órgãos norte-americana (OPTN) mostrou que os motivos que levam famílias a não doar órgãos de parentes são os mesmos encontrados em outros países. Uma das estratégias adotadas pelo governo foi esclarecer a população por meio do site Organ Donor (www.organdonor. gov), pelas redes sociais e campanhas em rádio e TV. Pesquisadores também são convidados a participar para divulgar informações sobre procedimentos relacionados à doação.

O Reino Unido apresenta atualmente uma taxa de recusa familiar de 42%, uma das mais altas do continente europeu. No ano passado, o número de doações caiu pela primeira vez em 11 anos. Segundo um levantamento do National Health Service (NHS), o sistema público de saúde inglês, 16,9 milhões de pessoas – cerca de um terço dos adultos no Reino Unido – admitem que nunca consideraram a possibilidade de se tornarem doadoras de órgãos. Outros 4 milhões declararam ser doadores, mas nunca avisaram um familiar. Para tentar reverter isso, o governo britânico criou um site (www.organ-

chegada de órgãos para realização de transplante em hospital no Paraná

velado, o número de órgãos doados caiu 20% no país.

“Respeito e empatia são o cerne da questão”, diz Carmen Segovia sobre a abordagem das famílias

donation.nhs.uk) com esclarecimentos sobre o processo de doação de órgãos.

Segundo Bartira Roza, uma das hipóteses que explicam o aumento da recusa familiar em alguns países da Europa é a repercussão negativa de um episódio ocorrido na Alemanha em 2013. Na ocasião, descobriu-se que o responsável pelo setor de transplantes do Hospital Universitário de Göttingen, manipulou a fila de transplantes, alterando dados médicos de pacientes que esperavam por um órgão. Após o escândalo ser re-

Bartira lembra que o Brasil já passou por situação parecida, quando uma mudança na legislação resultou na queda drástica do número de doações. Em 1997, foi instituída a doação presumida, pela qual todo cidadão passou a ser considerado doador de órgãos, a menos que optasse por registrar o desejo contrário no documento de identidade. O efeito foi o oposto do desejado. No Nordeste, a maioria dos indivíduos declarou-se não doadora na hora de tirar ou renovar a identidade. “As pessoas tinham medo de entrar nos hospitais e morrerem por conta do descaso”, conta Bartira. Em 1998, uma medida provisória instituiu a autorização familiar nos casos de ausência de manifestação nas carteiras nacionais de habilitação ou nos registros de identidade. Somente em 2001 a doação consentida pela família foi incorporada na legislação. Para a pesquisadora, qualquer mudança na lei pode determinar o sucesso ou o fracasso das doações de órgãos no país. “As estratégias precisam estar em sintonia com o contexto cultural e ético da sociedade”, diz Bartira. n

Projeto avaliação das causas de recusa familiar para a doação de órgãos e tecidos (nº 2012/05348-2); Modalidade auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisadora responsável b artira De aguiar Roza (unifesp); Investimento R$ 10.382,80.

Do D esmatamento à poluição urbana

Código Florestal deve ajudar o país a reduzir gases estufa, mas metas para 2030 dependem de modernização das indústrias, mostra relatório

emissões de gases do efeito estufa causadas pelo desmatamento da Amazônia podem ser zeradas a partir de 2030 caso o novo Código Florestal brasileiro seja implementado integralmente. Essa é a principal conclusão do relatório Land use change in Brazil: 2000-2050, realizado por pesquisadores ligados ao projeto “Redução de emissões por desmatamento e degradação florestal (Redd-PAC)”, financiado pela International Climate Initiative, do governo alemão, com apoio da FAPESP. Os resultados do estudo foram apresentados no dia 7 de outubro na sede da Fundação, em São Paulo, e serviram de parâmetro para a elaboração da proposta brasileira de redução de emissões de gases de efeito estufa (INDC, na sigla em inglês), levada em setembro pela presidente Dilma Rousseff à Conferência das Nações Unidas para a Agenda de Desenvolvimento Pós-2015, em Nova York. Segundo o estudo, com a progressiva redução do desmatamento, mais esforços deveriam ser direcionados para combater a poluição gerada por outros setores, como o energético e o industrial. Sem investimentos em energias renováveis e na modernização de linhas de produção, por exemplo, será mais difícil o Brasil

emissões brasileiras

Evolução do lançamento de CO2 no país por setor

Complexo industrial de Cubatão, na baixada santista (à esq.), e área de reflorestamento para compensação ambiental das obras do Rodoanel, em são Paulo: o peso da indústria na emissão de gases de efeito estufa vem aumentando

cumprir a promessa de diminuir suas emissões em 37% até 2025 (em relação a 2005) e em 43% até 2030. A meta brasileira será apresentada pelo governo durante a 21ª Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas (COP 21), que ocorrerá entre os dias 30 de novembro e 11 de dezembro em Paris.

Uma das projeções fornecidas pelo estudo indica que, em um cenário de plena aplicação do Código Florestal, com a restauração de áreas desmatadas nas margens de rios e em nascentes, seriam reflorestados cerca de 11 milhões de hectares (ha) no país até 2030. E as reduções de emissões por desmatamento no Brasil poderiam chegar a 110 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) em 2030. Essa marca representaria uma queda nas emissões de 92% em relação a 2000, quando se atribuiu ao desmatamento cerca de dois terços do CO2 lançado na atmosfera pelo país. “Isso significa que, para o Brasil, os desmatamentos tendem a deixar de ser um grande problema para o clima. O foco principal, neste momento, deve ser reavaliar a questão energética e o impacto da indústria nas emissões de gases de efeito estufa”, explicou Gilberto Câmara, pes-

Mudança de uso da terra
Mudança de
Fonte institutO dE EnERgia E MEiO aMbiEntE (iEMa)

quisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coordenador do projeto Redd-PAC, que contou a com a participação de pesquisadores dos institutos de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Internacional para Análises de Sistemas Aplicados (Iiasa, na sigla em inglês) da Áustria, além do Centro para Monitoramento da Conservação Mundial do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. “Não precisamos de mais legislação ambiental para conter o desmatamento. A questão hoje é fazer cumprir o Código Florestal”, disse Câmara.

Aprovado em 2012, o código busca combater o desmatamento ilegal. Determina a recuperação de áreas de reserva legal e torna obrigatório o Cadastro Rural Ambiental (CAR), instrumento criado para regularizar propriedades rurais e monitorá-las. O relatório estima que, com o cumprimento de tais medidas, o Brasil poderá conciliar produção agrícola com proteção ambiental. A expectativa é de que a área cultivada cresça nas próximas décadas, indo de 56 milhões de ha em 2010 para 92 milhões de ha em 2030, podendo atingir 114 milhões em 2050. Na avaliação dos pesquisadores responsáveis pelo trabalho, a atual legislação ambiental possibilita a ampliação do uso da terra, tanto para a produção de alimentos quanto para a de bioenergia, sem fazer com que o desmatamento cresça. No caso das pastagens, a expectativa é de que haja até uma redução da área utilizada, conforme sejam desenvolvidas técnicas para o aumento da produtividade.

“É preciso reavaliar o setor de energia e o impacto da indústria nas emissões”, diz
Gilberto Câmara

“Projetamos uma redução em 10 milhões de ha de área de pastagem entre 2010 e 2030. Nesse ano, deveremos ter aproximadamente 230 milhões de cabeças de gado no país, ocupando 30% menos área por cabeça do que em 2000”, ressaltou Câmara. Atualmente, existe no país cerca de 200 milhões de cabeças de gado em uma área de aproximadamente 200 milhões de ha –média de uma cabeça por hectare. Esse tipo de pecuária, chamada de extensiva, predomina no Brasil. Para que as projeções do estudo aconteçam, o país precisa aumentar os investimentos em métodos alternativos capazes de elevar a produtividade agropecuária sem prejuízos ambientais. Um exemplo de técnica ainda incipiente

por aqui é o sistema silvipastoril. Nele, o gado é criado em meio a florestas, em pastos arborizados, o que permite manter até cinco animais por hectare e produzir de 10 mil a 15 mil litros de leite por ano/ha, sem adubação e quase sem suplementação alimentar (ver Pesquisa FAPESP nº 192). “Reduzir o desmatamento implica fazer um melhor uso do solo. No entanto, diferentemente do que se pode imaginar, ainda não resolvemos esse problema no Brasil”, disse Sergius Gandolfi, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP). Segundo Gandolfi, que participou dos debates que antecederam a aprovação do novo Código Florestal, é preciso ver a lei não só pelo impacto nas emissões, mas de maneira ampla. Para ele, uma retomada do Código Florestal anterior, que obriga a recuperar mais florestas, é necessária e ainda possível. Também permitiria, diz Gandolfi, uma maior e mais precoce redução das emissões, além de efetivamente salvar rios, lagos, mangues etc. “Retomar parte da legislação anterior é possível, porque atualmente tramitam no Supremo Tribunal Federal quatro ações diretas de inconstitucionalidade [Adins] contra o atual Código Florestal”, diz. O Ministério Público Federal questiona a constitucionalidade de dispositivos da nova lei relacionados às áreas de preservação permanente (APPs), à redução da reserva legal e também à anistia para quem promove degradação ambiental. “Assim, o documento aprovado há três anos ainda pode ser revertido em muitos pontos importantes”, explica Gandolfi. De acordo com o pesquisador, cerca de 90% dos percursos de rios do país estão concentrados em calhas inferiores a 10 metros de largura. Para essas áreas, a legislação anterior, de 1965, previa uma faixa de proteção ciliar de 30 metros a cada margem, para proteger os riachos. “O código atual permite que a faixa de proteção seja reduzida de acordo com o tamanho da propriedade. Pode ter, por exemplo, apenas 5 metros, ou seja, seis vezes menor”, explicou. Segundo Gan-

Mina de carvão na China: o país se comprometeu a reduzir emissões, mas só a partir de 2030

dolfi, uma faixa de proteção florestal de 5 a 8 metros não seria capaz de fazer a retenção de sedimentos e excesso de adubo que vão para os rios. “Isso mostra como o uso do solo ainda permanece precário no Brasil, com áreas de margens de rios e nascentes que deveriam ser reflorestadas, para garantir a segurança hídrica, sendo legalmente convertidas em áreas de produção”, diz.

m u Danças estruturais

Além do Brasil, outros países anunciaram suas propostas voluntárias para conter as emissões de gases de efeito estufa. Os Estados Unidos, responsáveis por 14% das emissões globais, pretendem reduzi-las em até 28% em 2025, em comparação com 2005. Já a China, responsável por 28% das emissões no mundo, reafirmou recentemente seu compromisso de alcançar o seu nível máximo de emissões de gases estufa no ano de 2030 ou antes dessa data, se for possível. Atualmente, segundo dados oficiais, o carvão atende a 66% da demanda energética do país, à frente do petróleo (18,4%) e do gás natural (5,8%).

As reduções esperadas nas emissões, porém, não seriam capazes de livrar o planeta de um aumento de temperatura de 2,7 graus Celsius até 2050. “Com os INDCs anunciados até o momento por alguns países, a redução da emissão no mundo poderia chegar até 40% em média”, disse Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP, no evento realizado na FAPESP. “Essa taxa, no entanto, pode ser ainda menor, pois as metas variam bastante em cada país, o que dificulta a definição de uma estimativa mais precisa. Para garantir que o

aumento médio não passe de 2 graus, o corte das emissões globais teria que ser da ordem de 70%”, afirmou. Gilberto Câmara propôs direcionar o debate para um dilema. “Queremos seguir para o lado do petróleo, com o pré-sal, ou para o lado dos combustíveis renováveis?”, indagou. Ele explicou que em 2035 o país deverá produzir aproximadamente 6 milhões de barris de petróleo por dia, ao mesmo tempo que é um dos países com maior potencial de produção de bioenergia do mundo. “Enquanto nosso consumo energético de combustíveis fósseis é da ordem de 20% da matriz energética, o consumo mundial de petróleo é de 50%. Quem projeta hoje um Brasil grande exportador de petróleo, projeta um mundo muito mais quente”, criticou. Rubens Maciel Filho, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ponderou que não é de uma hora para outra que se muda a matriz energética do país. “Temos um caminho interessante para andar junto com o petróleo, ainda aproveitando um pouco do que for retirado de águas profundas”, disse. “Talvez possamos aproveitar uma parte da renda do pré-sal e aplicar no desenvolvimento de biocombustíveis. A energia da biomassa, como a cana-de-açúcar, passa a ser estratégica a longo prazo”, salientou Maciel. Segundo o presidente da FAPESP, o físico José Goldemberg, para que o Brasil consiga cumprir os compromissos que serão apresentados na conferência de Paris em dezembro é importante investir na modernização do setor industrial brasileiro, localizado principalmente no estado de São Paulo. “A modernização

integração entre lavoura, pecuária e floresta no interior paulista: aumento da produtividade e baixo impacto ambiental

significa adotar inovações tecnológicas que não só reduzam o consumo de energia e outros insumos, mas também levem a indústria a um desempenho comparável ao dos países industrializados”, escreveu Goldemberg em um artigo publicado no dia 19 de outubro no jornal O Estado de S.Paulo

proto Colo C limáti Co

No dia 8 de outubro, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente assinou um protocolo de intenções com a FAPESP, a fim de implantar o Protocolo Climático do Estado de São Paulo. O objetivo é auxiliar empresas a identificar ou desenvolver tecnologias voltadas à mitigação e adaptação aos impactos das mudanças climáticas. Treze dias depois, em um encontro realizado para apresentar o protocolo a empresas, associações e entidades empresariais paulistas, a secretária estadual do Meio Ambiente, Patricia Iglecias, disse que a parceria com a FAPESP permitirá apoiar principalmente as pequenas e médias empresas, para as quais é mais difícil implementar medidas de redução de emissões. “As grandes empresas e setores mais estruturados já possuem iniciativas nessa área”, disse à Agência FAPESP.

A adesão ao protocolo pode ser feita pelo site da secretaria (www.ambiente. sp.gov.br/spclima). Representantes de grandes empresas, como Unilever, Grupo Votorantim e Carrefour, já assinaram um memorando de entendimento em relação ao documento. O protocolo institui um sistema que atribui pontos, num total de nove, às informações prestadas pelas empresas, como dados de inventários de emissão de gases de efeito estufa, metas voluntárias e medidas de adaptação climática, entre outros aspectos. Para Oswaldo dos Santos Lucon, assessor para mudanças climáticas da secretaria, o peso da indústria nas emissões de gases de efeito estufa aparece de diversas formas. “Desde o uso de combustíveis fósseis para transporte e logística até o impacto dos produtos finais, como no caso dos automóveis”, disse. n b runo de pierro

A safra 2015 do Nobel

Doenças parasitárias e reparo de DNA são alguns dos temas reconhecidos; economista escocês, escritora bielorrussa e negociadores da paz na Tunísia são laureados

oanúncio do Nobel de Medicina ou Fisiologia de 2015 causou surpresa pelo tema premiado e pelo perfil de um dos vencedores. A busca por terapias contra doenças tropicais há tempos estava fora do radar do Nobel, embora tenha sido bastante prestigiada nas primeiras edições do prêmio, no início do século XX. Este ano, porém, foi reconhecida por meio do trabalho do irlandês William C. Campbell, da Universidade Drew, nos Estados Unidos, do japonês Satoshi Omura, da Universidade Kitasato, e da chinesa Youyou Tu, da Academia Chinesa de Medicina Tradicional.

Campbell, de 85 anos, e Omura, de 80, desenvolveram uma droga eficaz no combate a duas doenças causadas por vermes, a filariose linfática (ou elefantíase) e a oncocercose, conhecida como “cegueira dos rios”. Desde a década de 1960, Omura estudava um grupo de bactérias, as Streptomyces, conhecidas por produzir compostos com atividades antimicrobianas. Trabalhando no Japão, Omura isolou diferentes cepas de Streptomyces, cultivou-as em seu laboratório e selecionou 50 com potencial terapêutico. Nos Estados Unidos, Campbell verificou que uma dessas culturas era eficiente contra parasitas. Isolou seu agente, batizado de

Avermectina, e o modificou quimicamente com o objetivo de obter um componente mais eficaz, a Ivermectina.

O trabalho teve impacto sobretudo nos países em desenvolvimento, onde a dificuldade de prevenir e tratar doenças parasitárias produz resultados dramáticos. “O aspecto mais importante a ser ressaltado em relação aos premiados deste ano é o fato de os resultados de suas pesquisas terem beneficiado diretamente a população, sobretudo os mais pobres”, comentou o parasitologista Erney Plessmann de Camargo, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP).

3 O reconhecimento a Campbell e Omura acabou, de certa forma, ofuscado pela trajetória incomum da chinesa Youyou Tu, de 84 anos. Ela passou a maior parte da carreira no anonimato, não tem grau de doutorado e realizou seu trabalho dentro das fronteiras da China, com pouca interação com outros grupos. Nos anos 1960, Tu, então com 39 anos, recorreu à medicina tradicional chinesa em busca de uma forma mais eficiente de combater a malária. A China estava em meio à Revolução Cultural de Mao Tsé-tung quando a pesquisadora foi incumbida de liderar uma equipe para encontrar uma droga contra a doença, que tinha incidência elevada em seu território.

me Dicina

o irlandês william c ampbell (esq.), o japonês satoshi omura (ao lado) e a chinesa youyou Tu, nos anos 1950 e hoje (acima): drogas eficientes contra moléstias tropicais

Tu buscou informações em antigos textos médicos chineses e pesquisou remédios populares. Coletou 2 mil medicamentos potenciais, a partir dos quais sua equipe produziu 380 extratos de 200 plantas diferentes. Em 1971, isolou um composto ativo do arbusto Artemisia annua, que o conhecimento tradicional dizia trazer alívio para os sintomas da doença. “Durante a Revolução Cultural, não havia meios práticos para realizar ensaios clínicos de novos medicamentos. Assim, eu e meus colegas nos oferecemos para ser os primeiros a tomar o extrato”, recordou-se Tu, em artigo escrito para a revista Nature Medicine em 2011. Depois de verificar que o extrato não era tóxico, seu grupo foi à província de Hainan, região com alta incidência de malária, para testar a sua eficácia clínica em pacientes infectados. Quem recebeu o extrato livrou-se rapidamente dos sintomas da malária. Dois anos mais tarde, seu grupo sintetizou um derivado do composto 10 vezes mais potente que o extrato original, abrindo caminho para uma nova classe de agentes antimaláricos que elimina o parasita logo nas primeiras fases de seu desenvolvimento.

O primeiro texto científico escrito em inglês sobre o medicamento, conhecido como artemisinina, foi publicado em 1979, mas seus autores ficaram anônimos, como era comum na China naquela época. Youyou Tu só seria reconhecida pela descoberta recentemente. A malária afeta hoje cerca de 200 milhões de pessoas. Estima-se que a artemisinina reduza em 20% a mortalidade da doença quando administrada com outras drogas, salvando aproximadamente 100 mil vidas por ano.

Os três vencedores do Nobel de Química ajudaram a elucidar os mecanismos que reparam os danos sofridos constantemente pelo material genético. O sueco Thomas Lindahl, 77 anos, do Instituto Francis Crick e do Laboratório Clare Hall, do Reino Unido, mostrou que o material genético decai a uma taxa que deveria tornar impossível a vida na Terra. De acordo com seu estudo, cada uma das células humanas sofre perda de bases, blocos que compõem o DNA, 10 mil vezes ao dia, a uma temperatura de 37 graus Celsius. Também identificou os mecanismos de reparo por remoção de bases, que se contrapõem constantemente ao colapso do DNA. O norte -

economia

Angus Deaton, professor da Universidade Princeton: aumento da precisão de indicadores econômicos básicos, como os de renda e pobreza

literatura

A escritora svetlana Alexievich, ucraniana criada na Bielorrússia: rara premiação de um autor de não ficção

-americano Paul Modrich, 69 anos, do Instituto Médico Howard Hughes e da Universidade Duke, nos Estados Unidos, demonstrou como a célula corrige erros da divisão celular por um mecanismo conhecido como  mismatch repair, que reduz a frequência de erros quando o DNA se replica. O turco Aziz Sancar, 69 anos, da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, verificou como as células reparam os danos causados pelos raios ultravioleta. Defeitos nesse mecanismo estão por trás do câncer de pele após exposição ao sol.

Os ganhadores do Nobel de Física foram o japonês Takaaki Kajita, 56 anos, da Universidade de Tóquio, e o canadense

química

Aziz sancar (ao lado), Thomas lindahl (abaixo, à esq) e Paul modrich: mecanismos que reparam os danos sofridos pelo material genético

Arthur B. McDonald, 72 anos, da Queen’s University, em Kingston, Canadá. Eles ajudaram a demonstrar que os neutrinos, partículas elementares da matéria que se formam em abundância no interior do Sol, podem mudar de identidade (ver reportagem na página 45).

Conhecido por estudos sobre consumo, bem-estar e desigualdade, o escocês Angus Deaton, de 69 anos, professor da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, foi agraciado com o Nobel de Economia. Ele ajudou a aumentar a precisão de índices econômicos básicos, entre eles os de renda e pobreza, ao criar modelos que analisam dados individuais dos consumidores e das empresas e aproximar a teoria econômica dos métodos estatísticos. A premiação traz uma lição importante para os analistas econômicos, segundo Eduardo Haddad, professor do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). “Deaton mostra que é preciso conhecer bem os dados com que se trabalha e todas as suas vicissitudes”, diz Haddad. “Essa talvez seja a fase mais importante de um trabalho empírico em economia.” Segundo a Real Academia de Ciências Sueca, os estudos de Deaton trouxeram respostas a várias questões. Uma delas é: como os consumidores distribuem seus gastos entre diferentes bens? Nos anos 1980, o escocês desenvolveu um modelo flexível e simples para estimar a demanda por bens. Sua abordagem tornou-se uma ferramenta-padrão de análise no meio acadêmico e na política econômica. Também ajudou a responder à pergunta: como grande parte da renda da sociedade é gasta e quanto é economizada? Segundo Deaton, a análise

de dados individuais dos consumidores é a chave para entender a interação entre renda e consumo ao longo do tempo.

O Prêmio Nobel da Paz de 2015 foi concedido ao Quarteto de Diálogo Nacional da Tunísia, formado em 2013 por quatro organizações civis daquele país. O Comitê Norueguês do Nobel destacou a contribuição decisiva da organização no estabelecimento de um processo político pacífico em um momento em que o país estava à beira de uma guerra civil, com assassinatos com motivação política e agitação social generalizada, após a chamada Revolução de Jasmin, em 2011, que levou à queda do presidente Ben Ali, no cargo desde 1987.

O Nobel de Literatura de 2015 foi concedido à escritora Svetlana Alexievich, 67 anos, nascida na Ucrânia e criada na Bielorrússia. A Academia Sueca atribuiu o prêmio “a seus escritos polifônicos, um monumento ao sofrimento e à coragem em nosso tempo”. Nenhuma das obras da escritora foi publicada no Brasil. Os livros de Svetlana falam de pessoas que lutaram em guerras como a do Afeganistão ou das vítimas do acidente da usina nuclear de Chernobyl, ocorrido na Ucrânia em 1986. Sua irmã morreu e sua mãe ficou cega em consequência do acidente. Esta foi uma das raras vezes em que o prêmio foi concedido a um autor de obras de não ficção. n

A metamorfose dos neutrinos

Nobel de física premia a confirmação de que partículas fantasmas trocam de identidade e têm massa

os dois pesquisadores que compartilharam o Prêmio Nobel de Física deste ano coordenaram experimentos a centenas de metros abaixo da superfície da Terra. O físico japonês Takaaki Kajita, da Universidade de Tóquio, e o canadense Arthur McDonald, professor emérito da Queen’s University, repartiram o prêmio e 8 milhões de coroas suecas por terem comprovado que os neutrinos, uma das partículas abundantes no Universo, mudam de identidade à medida que viajam. Segundo os físicos, essas transformações – as oscilações de sabor – só podem ocorrer se os neutrinos tiverem massa. A experiência de McDonald foi conduzida em laboratório instalado numa mina operada pela empresa brasileira Vale. Há três tipos de neutrinos: eletrônico, muônico e tauônico. Por não terem

física

Arthur mcDonald e Takaaki kajita: confirmação da massa e da troca de sabores dos neutrinos em detectores como o de sudbury (ao lado)

carga elétrica e quase não interagirem com outras partículas, são difíceis de detectar e já foram apelidados de partículas fantasmas. Quando se descobriu como observá-los, viu-se que o número detectado era inferior ao previsto.

Em 1998, o grupo coordenado por Kajita no Super-Kamiokande, um observatório instalado em uma mina de zinco no Japão, verificou que o número de neutrinos muônicos da atmosfera que chegavam ao detector variava segundo a direção de origem. Esse resultado sugeria que parte teria se transformado em um sabor que não podia ser detectado ali. Na mesma época, a equipe de McDonald conduziu no Canadá experimentos que permitiram contabilizar a proporção dos três tipos de neutrinos gerados no Sol. A comparação dos resultados demonstrou que essas partículas de fato mudavam de sabor e tinham massa.

O grupo de McDonald realizou os experimentos no Sudbury Neutrino Observatory (SNOLab), instalado a 2 mil metros de profundidade em uma mina de níquel operada desde 2006 pela mineradora brasileira Vale. A empresa cede o espaço e providencia condições de funcionamento e segurança para o SNOLab. “Esse Nobel de física representa um caso em que a academia se beneficia da interação com a indústria para gerar conhecimento”, diz Luiz Mello, gerente executivo de Inovação e Tecnologia da Vale. “É um compromisso da Vale aproximar os atores da indústria e da academia.” A empresa tem minas a céu aberto no Brasil nas quais talvez se possa realizar experimentos. “Estamos abertos a ouvir propostas e identificar como contribuir”, diz Sandoval Carneiro Junior, especialista técnico em parceria e recursos da mineradora. n

ciência saúde y

Corrida contra a malária

Médicos monitoram resistência do parasita aos medicamentos em uso, enquanto bioquímicos buscam alternativas

aerradicação mundial da malária parecia estar próxima de ocorrer em 1979 quando a equipe da farmacologista chinesa Youyou Tu publicou seu estudo demonstrando a ação potente da artemisinina, princípio ativo obtido da erva Artemisia annua, contra a espécie mais letal do parasita causador da doença, o protozoário Plasmodium falciparum. A identificação e a síntese em laboratório do composto salvaram milhões de vidas por reduzir drasticamente a mortalidade por malária e renderam a Tu o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia deste ano (ver reportagem na página 42). Desde os anos 2000, no entanto, a artemisinina e seus derivados vêm perdendo parte de seu poder antimalárico em cinco países do Sudeste Asiático.

“Nessas regiões, a artemisinina, que antes eliminava o parasita do sangue do paciente no segundo dia de tratamento, só consegue agora depois do terceiro dia”, diz o médico Marcus Vinícius Lacerda, pesquisador da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), do governo do Amazonas, em Manaus. “Já existe uma pequena po-

pulação de P. falciparum resistente à artemisinina, problema que deve começar a crescer e se espalhar à medida que o tratamento eliminar os parasitas ainda sensíveis ao efeito desse composto”, conta Lacerda, que também é pesquisador do Instituto Leônidas e Maria Deane, da Fundação Oswaldo Cruz em Manaus.

Lacerda acompanha um efeito parecido na Amazônia brasileira, mas envolvendo o Plasmodium vivax, espécie responsável por 85% dos casos de malária no Brasil. Em um trabalho a ser publicado na revista Lancet Global Health, Lacerda e seus colegas da FMT-HVD realizaram um ensaio clínico de fase 3 para avaliar a segurança e a eficácia do combate ao P. vivax com um medicamento fabricado pela empresa farmacêutica Sanofi. O novo remédio combina dois compostos: o artesunato, obtido a partir da artemisinina, e a amodiaquina. No trabalho, a eficácia dessa combinação foi comparada com a do fármaco cloroquina, usado no mundo todo para tratar a malária causada por P. vivax. Os pesquisadores acompanharam por 42 dias dois grupos de pacientes da cidade de Manaus – cada

grupo recebeu um tratamento diferente. Nesse período, foi avaliada a capacidade das drogas de reduzir – e até mesmo eliminar completamente – o número de parasitas no interior dos glóbulos vermelhos do sangue. O estudo demonstrou que a combinação de artesunato e amodiaquina funciona melhor que a cloroquina. Mais importante: revelou também que a cloroquina falhou em 10% dos casos.

Esse resultado, apresentado na XIV Reunião Nacional de Pesquisa em Malária, realizada no início de outubro em São Paulo, reforça os achados de estudos anteriores conduzidos por Lacerda. Ele já havia observado que de 5% a 10% dos casos de malária causada por P. vivax em Manaus não respondem bem ao tratamento com a cloroquina, um medicamento relativamente barato em comparação com os derivados de artemisinina.

“Esse é um dado alarmante”, considera o médico Marcelo Urbano Ferreira, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP). Ferreira investiga o risco de surgir resistência aos medicamentos antimaláricos na Amazônia, especialmente no Acre. Até o momento, sua equipe

não encontrou evidência de resistência de Plasmodium vivax à cloroquina no Alto Juruá, hoje a região brasileira com maior incidência de malária.

“A Organização Mundial da Saúde sugere que uma terapia deve ser trocada quando falha em mais de 10% dos casos”, diz.

Ferreira nota, entretanto, que esse nível elevado de resistência do P. vivax deve ocorrer apenas em Manaus. Junto com Lígia Gonçalves, pesquisadora visitante no ICB-USP, e Pedro Cravo, da Universidade Federal de Goiás, Ferreira fez uma revisão na literatura científica em busca de casos de resistência de P. vivax à cloroquina na América Latina. Dos anos 1990 para cá, há relatos de resistência no Brasil, no Peru e de turistas infectados na Guiana. Neste ano também surgiram relatos de resistência do P. vivax na Amazônia boliviana, próximo à fronteira com Rondônia. “Ainda é um fenômeno raro no país, mas a vigilância é fundamental”, diz Ferreira, que publicou a revisão no ano passado na revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. Desenvolvida por pesquisadores alemães nos anos 1930 para substituir o quinino, que ainda fun-

Para vencer o parasita: em laboratório da UsP, pesquisadores testam novos compostos contra a malária

ciona, mas provoca efeitos colaterais graves, a cloroquina foi o principal antimalárico usado nas campanhas mundiais de erradicação da doença após a Segunda Guerra Mundial. Já nos anos 1950 começaram a surgir os primeiros relatos de P. falciparum resistentes à cloroquina na América do Sul e no Sudeste Asiático. Em pouco menos de 40 anos, a resistência se disseminou pelo mundo. “Atualmente, as únicas regiões do mundo nas quais ainda existe P. falciparum sensível à cloroquina são a América Central, o Haiti e a República Dominicana”, conta Ferreira.

De meados dos anos 2000 para cá, as autoridades internacionais da saúde recomendam que os compostos derivados de artemisinina sejam sempre administrados em conjunto com uma droga com mecanismo de ação diferente. O objetivo é evitar a disseminação de variedades de P. falciparum resistentes à artemisinina. No Brasil, por exemplo, a malária causada por P. falciparum é tratada com uma combinação de um derivado de artemisinina, o artemeter, com lumefantrina. “Ainda que o parasita desenvolva resistência a uma das drogas, ele não vai sobreviver se não desenvolver resistência à segunda também”, explica Ferreira. Apesar dessa estratégia, já há relatos de resistência a terapias combinadas no Sudeste Asiático. “Temos de estar sempre vigilantes e buscar novas formulações de drogas, com outros mecanismos de ação bioquímica.”

Em Manaus, de 5% a 10% dos casos de malária por P. vivax já não respondem mais à cloroquina

Alguns pesquisadores tentam caminhos alternativos para alcançar o mesmo objetivo. Pedro Melillo Magalhães, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenou um estudo que testou o emprego de um chá antimalárico, feito a partir de folhas de uma variedade enriquecida da Artemisia annua, com uma concentração 100 vezes maior de artemisinina do que a da erva selvagem, em 17 pacientes não-graves do Pará infectados pelo P. falciparum. O chá eliminou a presença do parasita em todos os pacientes em até três dias após seu uso. No entanto, o protozoário reapareceu nos doentes antes de se completar um mês de terapia. Para preservar a saúde dos participantes do trabalho, feito em parceria com pesquisadores do Instituto Evandro Chagas, do Pará, e da Universidade de Oxford, na Inglaterra, os pacientes receberam o tratamento convencional contra a malária (artemeter e lumefantrina). “O emprego do chá sozinho obteve os mesmos resultados que o uso da artemisinina isolada”, afirma Magalhães, que trabalha na divisão de agrotecnologia do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp. “Mas com

uma dose equivalente a um terço da recomendada para a artemisinina.”

Para evitar que os parasitas reapareçam nos pacientes, Magalhães defende o uso combinado do chá com um medicamento antimalárico, em esquema parecido com o que se emprega atualmente a artemisinina. O próximo passo dos estudos do pesquisador da Unicamp será testar essa terapia combinada de chá mais uma medicação em pacientes do Pará com malária causada pelo P. vivax

Via S alt E rnati Va S

O bioquímico Rafael Guido, do Laboratório de Química Medicinal e Computacional da USP em São Carlos, ressalta a necessidade de se encontrarem novos alvos no metabolismo do plasmódio para medicamentos contra a malária. “Quase todos os que existem convergem para os mesmos alvos”, explica. O grupo dele está estudando a enolase, proteína usada pelo parasita para produzir energia. Estudos recentes têm mostrado que o gene que produz a enolase não está ativo apenas dentro da célula, onde funciona a fábrica de energia, mas também em outros lugares, como na membrana celular – na qual tem uma função na sinalização celular. O grupo de Guido acaba de descobrir uma região que pode revelar uma nova função da enolase e começou a testar a atividade de uma série de substâncias contra essa proteína.

São compostos fornecidos pela organização não-governamental Medicines for Malaria Venture (MMV), que fez uma curadoria em bases de dados da indústria farmacêutica e selecionou os promissores. “Já se sabe que eles têm atividade contra a malária, mas não se sabe o mecanismo”, diz Guido. Nos testes, alguns dos compostos foram bem-sucedidos em bloquear a enolase. “Cinco compostos conseguiram 100% de inibição, 10 inibiram 80% da expressão da enolase e 38 obtiveram 50% de inibição”, adianta. Agora falta trabalhar com essas substâncias para deixá-las mais potentes sem afetar a enolase humana.

Um dos problemas para encontrar novos antimaláricos é que ainda não se conhece a função de metade dos cerca de 5 mil genes das duas espécies do parasita. “É muito difícil estudar uma via bioquímica quando não se sabe quais genes codificam as proteínas envolvidas nela”, diz a química Célia Garcia, do Instituto de Biociências da USP. Desde o final dos anos 1990, o laboratório de Célia vem desvendando como funcionam algumas dessas vias bioquímicas essenciais à sobrevivência dos parasitas causadores da malária. São conjuntos de reações químicas que permitem ao protozoário perceber o ambiente a sua volta, em especial quando invade os glóbulos vermelhos e se multiplica em seu interior.

Célia e sua equipe demonstraram, por exemplo, que o parasita é capaz de controlar a concentra-

sangue infectado com Plasmodium falciparum: ao invadir o glóbulo vermelho, o parasita cria uma bolsa ao seu redor e controla os níveis de cálcio

ção de cálcio ao seu redor, algo fundamental para que consiga se multiplicar, e também sincronizar sua fase reprodutiva aproveitando a melatonina, composto que regula o ciclo de vigília e sono do corpo humano. Em parceria com o grupo do bioquímico Andrew Thomas, da Universidade de Rutgers, Estados Unidos, a pesquisadora vem testando uma série de compostos com o potencial de bloquear a capacidade do parasita de perceber a melatonina. Ela e outros químicos brasileiros também buscam identificar compostos que atuem em outras vias bioquímicas do parasita.

O bioquímico alemão Carsten Wrenger, do ICB-USP, segue uma abordagem diferente. Quando trabalhava em Hamburgo, Wrenger e seus colegas identificaram na metade conhecida do genoma das duas espécies de Plasmodium duas vias bioquímicas essenciais para o metabolismo do parasita e ausentes nas células do ser humano. Assim como os seres humanos, o Plasmodium precisa das vitaminas B1 e B6 para sobreviver. Sem elas, mais de 100 enzimas essenciais não funcionam. Mas, enquanto as pessoas só as obtêm por meio da dieta, o protozoário fabrica suas próprias vitaminas.

Em 2013, Wrenger e colegas sintetizaram em laboratório um composto a partir do qual o Plasmodium produz uma versão defeituosa da vitamina B1. “Esse composto é inerte para o organismo humano e o parasita o modifica criando uma versão da vitamina que não funciona”, explica Wrenger. “Sem a vitamina, o metabolismo do parasita para.” Ele continua a buscar e desenhar compostos que impeçam o protozoário de produzir as vitaminas B1 e B6. “Identificar esse tipo de composto é complicado”, diz. “A vantagem é que ele poderia atuar em mais de 100 alvos ao mesmo tempo.”

No Instituto de Química da Unicamp, o químico Luiz Carlos Dias e sua equipe trabalham des-

de 2013 com a MMV no aprimoramento de uma nova classe de compostos promissores contra a malária. São moléculas que inibem a atividade da enzima PI(4)K, identificadas em 2013 por pesquisadores da empresa farmacêutica Novartis. Em testes com animais de laboratório, esses compostos foram capazes de eliminar as variedades de P. falciparum e P. vivax mais resistentes aos medicamentos hoje disponíveis para tratar a malária. Segundo Dias, o que mais desperta o interesse nessa molécula é que ela consegue matar o parasita nos diferentes estágios de seu ciclo de vida no organismo dos mamíferos. “Atualmente nenhum medicamento faz isso, apenas compostos que ainda estão em ensaios clínicos”, afirma. A partir da estrutura do inibidor da PI(4)K, Dias e seus colaboradores sintetizaram cerca de 60 compostos e encaminharam para serem testados em instituições de pesquisa de diferentes países. Apesar de promissores, um experimento realizado na biofarmacêutica AbbVie, nos Estados Unidos, e na Universidade de Dundee, na Escócia, mostrou que esses compostos interagem com uma das 140 proteínas quinases humanas testadas. Os pesquisadores não sabem qual a consequência dessa interação, mas, para não correr riscos, precisarão alterar a estrutura dessa classe de compostos. “Temos de entender como eles interagem com a quinase do parasita e com a humana para aumentar a primeira interação e impedir a segunda”, explica Dias. Ele pretende criar um consórcio com equipes de outras universidades paulistas para realizar parte dos testes com células e animais de laboratório no país. n

Projetos

1. Genômica funcional em Plasmodium (nº 2011/51295-5); Modalidade Projeto Temático; Pesquisadora responsável Célia regina da silva Garcia (IB-UsP); Investimento r$ 2.068.066,18.

2. Metabolismo de vitamina B no parasita da malária humana Plasmodium falciparum e a sua validação como alvo para quimioterapia (nº 2010/20647-0); Modalidade Bolsa no País – Programa Jovem Pesquisador; Pesquisador responsável Carsten Wrenger (ICB-UsP); Investimento r$ 179.861,70.

3. Pesquisa clínica de extratos vegetais no tratamento da malária a partir de matéria-prima padronizada: Artemisia annua (var. CPQBa) (nº 2009/53639-3); Modalidade Projeto Temático-Pronex; Pesquisador responsável Pedro Melillo de Magalhães (CPQBa-Unicamp); Investimento r$ 16.874,70.

4. descoberta e planejamento de inibidores de enolase de Plasmodium facilparum como novos agentes antimaláricos (nº 2014/26313-8); Modalidade Bolsas no Brasil – Pós-doutorado; Pesquisador responsável rafael Victorio Carvalho Guido (IFsC-UsP); Bolsista lorena ramos Freitas de sousa; Investimento r$ 169.558,00.

artigos científicos

GoNÇalVes, l a et al emerging Plasmodium vivax resistance to chloroquine in south america: an overview. Memórias do instituto Oswaldo cruz. v. 109 (5). ago. 2014.

alVes, e et al encapsulation of metalloporphyrins improves their capacity to block the viability of the human malaria parasite Plasmodium falciparum nanomedicine. v. 11 (2). fev. 2015.

CHaN, X. W. a et al. Chemical and genetic validation of thiamine utilization as an antimalarial drug target. nature communications 28 mai. 2013.

O cérebro sujeito ao tempo

Mesmo sem alterações patológicas, envelhecimento provoca uma reorganização do funcionamento da mente

Assim como a pele ganha rugas e os cabelos ficam brancos, o cérebro muda conforme a pessoa envelhece. São alterações estruturais e também funcionais, na forma como as diferentes regiões desse órgão se comunicam e relacionam. Resultados publicados na revista Cerebral Cortex ajudam a caracterizar essas mudanças. “Observamos que o cérebro passa por um processo de reorganização”, explica Geraldo Busatto Filho, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), um dos autores do artigo. “Funções mentais importantes exigem integração e sincronia entre diferentes áreas.”

Luiz Kobuti Ferreira, autor principal do estudo e também da FM-USP, conta que o estudo avaliou pareamentos entre 278 regiões do cérebro inteiro. Entre os três mais importantes resultados do trabalho, realizado com ressonância magnética funcional, está o aumento da associação, em idosos, entre áreas de funções diferentes que não precisariam se comunicar para realizar as respectivas tarefas. O exame, que permite ver o cérebro em funcionamento, mostrou que a área responsável pela visão, por exemplo, tem conexão fraca com aquela relacionada ao raciocínio lógico em jovens e adultos. Entretanto, conforme

a idade aumenta, essas áreas passam a funcionar mais em conjunto.

“Uma das teorias sobre isso diz que certas regiões cerebrais não conseguem exercer sua função tão bem quanto antes e recrutam outras áreas como forma de compensação, o que leva a uma perda de especialização”, diz Ferreira. Esse tipo de funcionamento pode deixar o cérebro mais suscetível a ruídos, dificultando a execução de tarefas que exigem atenção ao mundo externo. Como os idosos avaliados eram saudáveis e não apresentavam problemas cognitivos, também é possível que a maior conexão entre diferentes áreas esteja relacionada à maior experiência de vida e aprendizado.

Outra diferença entre o cérebro de jovens e de idosos é uma perda de sincronia entre regiões. Durante a infância e a adolescência, algumas redes cerebrais começam a se comunicar mais entre si e passam a ficar ativas simultaneamente, enquanto regiões com funções diferentes podem fazer o processo contrário: se uma delas está ativa, a outra não está. Um exemplo são as regiões responsáveis pela atenção, ativadas diante de uma ameaça, e a Rede de Modo Padrão (Default Mode Network, em inglês), um conjunto de regiões ativo quando a pessoa está alheia ao mundo externo. Em uma parte dos

idosos estudados a sincronia entre essas regiões, que é forte em jovens e adultos, fica reduzida.

Pares de regiões fortemente associadas entre si também podem se tornar menos conectadas em idosos. Essa observação foi constatada principalmente na Rede de Modo Padrão e corroborou estudos anteriores realizados com regiões específicas do cérebro.

Os achados complementam trabalhos anteriores do grupo de Busatto, que analisaram como o envelhecimento afeta o cérebro do ponto de vista estrutural. “O cérebro de idosos apresenta uma diminuição de volume que pode ser explicada por várias alterações, incluindo diminuição da densidade de conexões sinápticas, da atividade de neurotransmissores e perda dos prolongamentos dos neurônios”, diz ele.

Ainda não é motivo para se sentir derrotado. O processo de envelhecimento cerebral pode ser minimizado pela prática de exercícios físicos, por uma dieta saudável e por não fumar, além de estar bem psicologicamente e participar de atividades mentalmente estimulantes. Outros grupos se concentram em compreender como se dá o envelhecimento não saudável do cérebro, como o de Carlos Alberto Buchpiguel e Daniele Farias,

Ricardo Aguiar

Exercícios físicos, além de uma vida intelectualmente estimulante, ajudam a manter a juventude cerebral

do Centro de Medicina Nuclear da USP, em colaboração com o grupo de Busatto. “Eles estão analisando pacientes com comprometimento cognitivo leve e estágio inicial de doença de Alzheimer, responsável por mais da metade dos casos de demência”, diz Busatto. “Está sendo usada a técnica de PET para fazer imagens do acúmulo de fragmentos do peptídeo beta-amiloide no cérebro para analisar, em conjunto com exames de ressonância magnética funcional, se esses acúmulos estão relacionados com mudanças nos padrões de conectividade cerebral”, explica, referindo-se a um tipo de tomografia que permite monitorar determinadas substâncias químicas no organismo.

Estudar o que acontece no cérebro em pacientes com Alzheimer é o objetivo também de Marcio Balthazar, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp): tanto alterações estruturais e funcionais que ocorrem no cérebro como as semelhanças e diferenças entre o envelhecimento saudável e o patológico.

Balthazar observa que pacientes com Alzheimer, em comparação com idosos saudáveis, apresentam uma desativação menor da Rede de Modo Padrão durante a realização de tarefas voltadas para o mundo externo, o que resulta numa

menor capacidade de atenção e concentração. Ele também detecta uma maior quantidade de conexões entre áreas do cérebro que exercem diferentes funções. Conforme a doença avança, o cérebro dos pacientes diminui muito mais de tamanho quando comparado a cérebros saudáveis, e deixa de recrutar outras regiões como forma de compensação.

p RE v E n IR E RE m E d IAR

Um dos principais desafios para Balthazar é encontrar métodos para detectar a doença de Alzheimer da maneira mais precoce possível. Uma ideia é unir os padrões de conectividade cerebral com o que já se sabe sobre a deposição da proteína beta-amiloide, principal responsável pela perda de conectividade e por problemas cognitivos na doença. “Nossos resultados mais recentes indicam que é possível utilizar níveis de beta-amiloide para predizer o grau de conectividade cerebral”, explica. Ele ressalta que a ideia de utilizar a proteína e imagens cerebrais como biomarcadores tem potencial, mas ainda precisa ser refinada para ser utilizada com sucesso na área clínica.

Outro objetivo é descobrir um tratamento eficaz para a doença de Alzheimer, que hoje não tem cura. O grupo de Bal-

thazar estuda, atualmente, se o exercício físico – que ajuda a prevenir a doença –pode ter efeito também como tratamento. “Resultados preliminares indicam que exercícios físicos têm potencial para retardar não apenas o aparecimento, mas também a progressão da doença.” n

Projetos

1. Recuperação de memória autobiográfica e envelhecimento cerebral: um estudo através de ressonância magnética funcional (nº 2011/00475-3); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Geraldo Busatto Filho (FM-UsP); Investimento R$ 69.463,87.

2. Neurociência translacional da doença de Alzheimer: estudos pré-clínicos e clínicos do peptídeo b-amiloide e outros biomarcadores (nº 2012/50329-6); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Geraldo Busatto Filho (FM-UsP); Investimento R$ 3.082.570,79.

3. Biomarcadores na doença de Alzheimer e comprometimento cognitivo leve: estudo de métodos de ressonância magnética funcional e marcadores liquóricos e plasmáticos (nº 2011/17092-0); Modalidade Jovens Pesquisadores; Pesquisador responsável Márcio Balthazar (FCM-Unicamp); Investimento R$ 226.940,05.

Artigo científico

FERREIRA, L. K. et al. Aging effects on whole-brain functional connectivity in adults free of cognitive and psychiatric disorders. Cerebral Cortex On-line. 26 ago. 2015.

As medidas do

Desde 2003 uma equipe liderada pelo físico Geoffrey West, do Instituto Santa Fé, nos Estados Unidos, acumula evidências de que o desenvolvimento das cidades obedece a certas regularidades estatísticas. É uma espécie de física do crescimento urbano, regido por fórmulas matemáticas relativamente simples – as chamadas leis de escala ou potência – que permitem fazer previsões sobre as propriedades de uma cidade. As leis de escala tornam possível estimar com precisão razoável os valores que os indicadores socioeconômicos e de infraestrutura de uma cidade podem assumir, conhecendo-se apenas o seu número de habitantes. De modo geral, funcionam para cidades de diferentes tamanhos, de metrópoles a vilarejos, com as mais variadas histórias e culturas, na Europa, na Ásia e nas Américas. As cidades brasileiras também obedecem a essas leis de escala, verificaram recentemente os físicos Haroldo Ribeiro, Luiz Alvez, Renio Mendes e Ervin Lenzi, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná. Em um estudo publicado em setembro na revista PLoS One, eles confirmaram que é possível usar essas leis para enxergar tendências no desenvolvimento urbano do Brasil no espaço e no tempo. Com base nessas tendências, a equipe paranaense desenvolveu um modelo matemático simples e simulou a evolução de oito indicadores socioeconômicos – os índices de trabalho infantil, desemprego, analfabetismo, homicídio, renda familiar, idosos, homens e mulheres – em 1.605 municípios brasileiros. “Ao colocar os resultados dessas

crescimento urbano

Grupos no Brasil e no exterior usam novas métricas para identificar tendências no desenvolvimento das cidades

previsões em mapas, conseguimos identificar as regiões do Brasil em que esses indicadores devem aumentar e aquelas em que devem diminuir quando forem medidos no censo nacional de 2020”, diz Ribeiro (ver mapas na página 55).

Ribeiro ressalta que as leis de escala revelam tendências nos indicadores socioeconômicos que podem passar despercebidas ou serem distorcidas pela maneira convencional como especialistas em planejamento urbano avaliam esses indicadores. Relatórios e guias para políticas públicas costumam medir o desempenho de cidades com tamanhos diferentes ou a evolução de uma mesma cidade cuja população cresceu levando em conta os valores médios de indicadores socioeconômicos divididos pelo número de habitantes. Assim, tenta-se averiguar como as taxas de desemprego, analfabetismo ou homicídio evoluem de um lugar ou de um período para outro tomando-se por base os dados per capita . “A análise per capita , em princípio, elimina o efeito do tamanho da população e permite comparar cidades com populações de tamanho diferente”, explica Ribeiro. “Quando não consegue eliminar esse efeito, porém, essa análise pode introduzir vieses nos indicadores.”

A origem desses vieses é uma suposição que se faz a priori. Ao usar esses

indicadores para comparar cidades com populações de tamanhos diferentes, os pesquisadores assumem implicitamente que o crescimento das cidades acontece sempre de maneira linear. Seguindo esse raciocínio, uma cidade de 2 milhões de habitantes seria apenas uma versão duas vezes maior de uma cidade com 1 milhão de habitantes. Assim, seria esperado, por exemplo, que a cidade maior tivesse em média duas vezes mais homicídios do que a menor. Mas essa regra nem sempre funciona.

c A m U ndongo S E E lEFA nt ES

Cálculos feitos por Ribeiro e seus colegas indicam que, em 2010, uma cidade brasileira com 2 milhões de habitantes tenderia a apresentar mais de duas vezes mais assassinatos – precisamente, 2,44 vezes mais – do que uma cidade com a metade dessa população. Esse resultado indica que nem sempre os índices per capita eliminam completamente o efeito do tamanho da população e que as cidades grandes não são apenas versões ampliadas de cidades pequenas. Elas são qualitativamente distintas. E a maneira como elas diferem lembra o que ocorre com animais grandes e pequenos, como o elefante e o camundongo.

Nos anos 1930, o biólogo suíço Max Kleiber estudou a influência do tama-

nho dos mamíferos na fisiologia de seus corpos. Kleiber comparou o número de calorias que animais de diferentes espécies precisam consumir todos os dias para se manterem vivos. E verificou que, independentemente do tamanho, o metabolismo obedecia sempre uma lei matemática de escala. No caso dos mamíferos, a quantidade de energia necessária para viver aumentava seguindo uma lei de potência em que o expoente era o número 0,75. Isso significava que um animal com o dobro da massa de outro precisava consumir só 1,68 vez mais calorias, e não o dobro de energia.

O fato de esse expoente ser menor que 1 significa que um animal maior necessita proporcionalmente de menos energia que um menor. Por essa razão, um elefante precisa de 40 mil quilocalorias por dia para se manter vivo, enquanto um camundongo consome apenas 4 quilocalorias. A quantidade de energia que o elefante ingere é 10 mil vezes maior do que a que o camundongo consome, embora a massa total do primeiro seja 220 mil vezes maior que a do segundo. No final dos anos 1990, Geoffrey West e seu grupo descobriram que essa economia é decorrente da forma como a energia é distribuída pelo corpo: quanto maior o animal, mais eficientemente a energia chega aos diferentes pontos do seu corpo.

Em 2003, West e sua equipe verificaram que uma lei de escala idêntica determina o crescimento das cidades. Dados de cidades dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia mostravam que indicadores de infraestrutura urbana como o número de postos de gasolina, a malha viária e o comprimento total dos cabos da rede elétrica aumentam com o tamanho da população da cidade seguindo a lei de Kleiber. Quando a população de uma cidade dobra, a infraestrutura necessária para atendê-la não precisa ser duas vezes maior, mas apenas 1,68 vez – esse fator varia um pouco de país para país. “É como se a cidade grande otimizasse o uso de seus recursos”, explica Ribeiro. Matemáticos e físicos chamam esse padrão de crescimento de sublinear.

Uma lei de escala semelhante regula o crescimento dos indicadores socioeconômicos. Mas o ritmo é diferente. Enquanto os indicadores de infraestrutura tendem a crescer mais lentamente à medida que a população aumenta, os índices socioeconômicos aumentam de maneira acelerada, mais do que dobrando quando a população da cidade dobra. West observou que, nesses casos, indicadores de crescimento econômico como o produto interno bruto e o número de patentes geradas aumentam cerca de 2,22 vezes. Do ponto de vista econômico, portanto, uma cidade de 2 milhões de habitantes é mais eficiente e produtiva do que duas cidades de 1 milhão de habitantes cada uma – padrão de crescimento conhecido

Indicadores socioeconômicos

crescem de maneira acelerada com o aumento do tamanho da população

consumo de eletricidade por domicílio. Também há categorias de indicadores que podem apresentar diferentes ritmos de crescimento. Em um artigo publicado em agosto no Journal of Urban Health , uma equipe liderada pelo físico brasileiro Luis Rocha, do Instituto Karolinska, na Suécia, comparou vários indicadores de saúde pública de cidades no Brasil, nos Estados Unidos e na Suécia. Nos três países, a incidência de doenças infecciosas como a gripe e a Aids aumentou de modo superlinear, talvez porque a aglomeração maior de pessoas nas cidades grandes facilite a transmissão dessas enfermidades. Já as mortes por ataque cardíaco e suicídio cresceram sublinearmente. A explicação para esse resultado ainda é controversa. Os pesquisadores suspeitam que tenha a ver com o fato de as cidades maiores terem rede hospitalar mais bem estruturada e com uma dificuldade maior de se isolar socialmente.

como superlinear. Infelizmente, como qualquer habitante de uma metrópole pode adivinhar, indicadores de baixa qualidade de vida, como a taxa de desemprego ou de homicídio, também crescem mais ou menos na mesma proporção. Mas há exceções. Nem todos os indicadores aumentam de maneira não linear. Alguns deles, tanto de infraestrutura como socioeconômicos, podem crescer na mesma proporção que a população, de modo linear, caso do

EvolU ção br ASI lEI r A

No trabalho da PLoS One, Ribeiro e seus colegas analisaram os dados de 1.605 municípios brasileiros, obtidos nos anos de 1991, 2000 e 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DataSUS). Como esperado, os indicadores socioeconômicos de renda familiar, desemprego e homicídios cresceram com a população da cidade de maneira superlinear. Já os índices de trabalho infantil e analfabetismo fugiram à regra, crescendo de maneira sublinear: cidades maiores parecem erradicar esses problemas mais facilmente.

Os pesquisadores observaram outra tendência clara: ao longo do período estudado, os índices medidos nas cidades brasileiras se aproximaram dos valores projetados pelas leis de escala. Em 1991, por exemplo, a cidade de Peixoto de Azevedo, em Mato Grosso, tinha um número de homicídios muito maior do que o esperado para uma cidade de seu tamanho. Ao longo das últimas décadas, porém, o número de homicídios da cidade caiu, se aproximando do esperado pela lei de escala obtida pela equipe de Ribeiro. Já as cidades brasileiras que tinham menos homicídios do que o esperado pela lei de escala sofreram um aumento de casos de homicídio. Ribeiro arrisca uma explicação. “Parece que

o b rasil em 2020

os mapas mostram como devem evoluir alguns indicadores até o fim da década em relação a 2010 em 1.605 municípios

HomICÍdIoS os índices de assassinato devem crescer mais no interior (círculos avermelhados) e diminuir no litoral e no Sul do país

As cores avermelhadas representam crescimento superlinear (acelerado) no índice; as azuladas, crescimento sublinear (desacelerado)

rIo

As taxas de analfabetismo, segundo a projeção, devem se agravar principalmente no Nordeste brasileiro

A população masculina deve aumentar mais nos estados do Nordeste e diminuir nas regiões Sudeste, Centro- oeste e Norte ANAlFABETISmo

o crescimento da população feminina apresenta tendência oposta à masculina: deve aumentar mais no Centro-Sul do país

quando há homicídios em excesso os cidadãos ficam preocupados e cobram políticas para reduzi-los”, especula. “Já quando a taxa de homicídios está muito baixa, parece que as pessoas ignoram o problema e esses índices logo voltam a subir.” Dos oito indicadores analisados pelo grupo, o único que não segue essa tendência é o analfabetismo, que tende a aumentar nas cidades onde já é alto e diminuir ainda mais onde já é baixo. “Parece um efeito de autoalimentação”, Ribeiro sugere. “Quanto mais educadas, mais as pessoas exigem educação.”

“Leis de escala permitem realizar previsões, mas esses índices também dependem das políticas adotadas pelos governos, o que não é levado em conta por esse estudo”, critica o geógrafo Cosmo Antonio Ignazzi, da Universidade Paris 1, na França, que pesquisa leis de escala nas cidades brasileiras. Ribeiro reconhece o problema e acredita ser muito difícil quantificar o efeito de políticas públicas em um modelo matemático. “Nosso modelo não é determinístico”, ressalta Ribeiro. “Entretanto, nosso trabalho e o de outros pesquisadores mostram que o efeito dessas políticas é limitado pelo tamanho da população da cidade.”

Ignazzi também questiona a maneira como os físicos definiram as áreas urbanas em sua análise, considerando cada município uma cidade. “A metodologia do estudo é boa, mas eles adotaram a unidade errada. Municípios são unidades político-administrativas. Não é uma boa escolha, pois não leva em conta as grandes conurbações em torno de capitais brasileiras como Manaus, Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro.”

“Realmente, a escolha da definição de unidade urbana é crucial, mas não há até agora um procedimento à prova de falhas para definir os limites de uma cidade”, responde Ribeiro. “Em nosso trabalho comparamos os resultados agregando ou não os dados dos municípios que compõem as 39 regiões metropolitanas do Brasil e não observamos diferença apreciável em nossas conclusões.” n Igor Zolnerkevic

Artigos científicos

AlVES, l. G. A. et al. Scale-adjusted metrics for predicting the evolution of urban indicators and quantifying the performance of cities. ploS o ne. 10 set. 2015. roCHA, l. E. C.; THor SoN, A. E; l AmBIoTTE, r . The non-linear health consequences of living in larger cities. Journal of Urban Health. v. 92 (5), p. 785-99. out. 2015.

Uma nova chance para a Mata Atlântica

Estudos apontam caminhos para recuperar a floresta e contribuir para o bem-estar social na região

Maria Guimarães

Fotos Eduardo Cesar

Ali era a casa da minha avó”, ouviu a ecóloga Camila Rezende em plena mata na região serrana do estado do Rio de Janeiro. Surpresa por não ter percebido estar num antigo povoado, ela aos poucos começou a enxergar os resquícios do passado. “No meio da Mata Atlântica de repente tinha um limoeiro, por exemplo, e pedras que foram o esteio de uma casa”, conta a pesquisadora, doutoranda na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob orientação do ecólogo Fabio Scarano. O achado fortuito a levou a investigar a reconstituição espontânea dessa floresta que já ocupou mais de 1 milhão de quilômetros quadrados (km2) espalhados por 17 estados brasileiros, e hoje está reduzida a pouco menos de 12% dessa área – a maior parte em manchas florestais de 50 hectares ou menos. Reverter esse quadro pode ser essencial para combater efeitos das mudanças climáticas globais para a população humana, como mostram trabalhos que compõem o volume especial sobre Mata Atlântica da revista científica Biodiversity and Conservation publicado em setembro deste ano.

Camila avaliou o que aconteceu de 1978 para cá no município de Trajano de Moraes, uma área de 600 km2 no norte da serra fluminense. A região foi ocupada (e desmatada) nos séculos XVIII e XIX, sobretudo para a instalação de cafezais. Mas, com a crise do café ocasionada pela quebra da bolsa de valores em 1929, as plantações foram abandonadas e a floresta aos poucos voltou a colonizar seu espaço. Nas fotos aéreas e de satélite de 1978, 1988, 1999, 2006 e 2014, a ecóloga viu que havia ali muitas áreas de floresta em regeneração. O cenário, no entanto, estava longe de ser homogêneo. “Usamos modelagem espacial para entender por que algumas áreas se regeneraram e outras não”, explica Camila. Nesses 36 anos, a cobertura florestal ali aumentou em mais de 3 mil hectares, um crescimento de 15%.

No modelo estatístico que montou, para cada unidade amostral ela calculou a probabilidade de regeneração da floresta dadas as condições ecológicas. Entre as variáveis mais importantes, ela destaca o tipo de relevo: quanto mais acidentado, mais difícil a ocupação e mais acentuada a regeneração, enquanto áreas planas continuam sendo ocupadas e utilizadas. Em seguida, outros fatores importantes foram a incidência solar, a distância em relação a áreas urbanas (áreas mais próximas a cidades têm menos chances de serem abandonadas), a qualidade do solo e a distância de fragmentos florestais que sirvam como fonte de sementes.

Um projeto de restauração dessa mesma área com técnicas tradicionais de plantio direto custaria, estima-se, cerca de US$ 15 milhões. Para Camila, o custo e o contexto de mudança climática dão importância para uma mudança de olhar sobre as matas recentes, historicamente vistas como de segunda categoria. “As florestas regenerantes são cada vez mais valorizadas pelos serviços ambientais que proporcionam, como a estocagem de carbono, a produção de água e o ganho de biodiversidade associado”, explica. Em sua opinião, entender como funciona a regeneração espontânea pode ajudar a planejar o reflorestamento, direcionando recursos para áreas que de fato carecem de plantio. Na prática, trata-se de dar uma mãozinha à natureza em seu talento para recuperar território assim que as pessoas se afastam. Essa ajuda, que precisa ser avaliada caso a caso, pode consistir

em fazer corredores ou ilhas de vegetação que sirvam como fonte de sementes para a regeneração, ou esperar que a mata se instale para fazer o enriquecimento da biodiversidade em seguida.

E SSA d ESConh ECI dA

Levar em conta as regras de funcionamento da floresta pode ser útil quando se pensa em ampliar a escala para outras regiões brasileiras. E algumas delas são muito pouco conhecidas, conforme revela estudo do ecólogo Renato Lima, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP). Ele mostrou que os inventários florestais já feitos na Mata Atlântica se limitaram a uma área que corresponde a 0,01% do que resta desse

tipo de vegetação. Para chegar a essa estimativa, Lima e colaboradores compilaram todos os levantamentos já feitos na Mata Atlântica lato sensu, na qual é baseada a definição legal dessa floresta. No mosaico que compõe essa definição ampla de Mata Atlântica, que inclui fisionomias distintas como a arenosa restinga e a peculiar floresta de araucárias da serra gaúcha, algumas regiões foram mais estudadas do que outras – pouco foi feito na Bahia e no Mato Grosso do Sul. “As implicações de um conhecimento tão limitado são importantes para decisões de conservação”, pondera Lima. “Quando se fala em conservar espécies ameaçadas, é preciso saber sobre qual conhecimento tais decisões se baseiam.”

Inventário incompleto

Uma proporção pequena da Mata atlântica foi estudada; lacunas maiores estão no Mato grosso do sul e na Bahia

Áreas de estudo

Formações pioneiras

Estepe

Floresta estacional decidual

Floresta estacional semidecidual

Floresta ombrófila aberta

Floresta ombrófila densa

Floresta ombrófila mista

rios e lagos

savana

A área inventariada nesses estudos foi somada e comparada às estimativas da organização não governamental (ONG) SOS Mata Atlântica sobre a área dos remanescentes. De acordo com o ecólogo, não é surpreendente que se tenha estudado uma proporção tão pequena da Mata Atlântica. “Se fizéssemos o mesmo com outros biomas, o resultado seria parecido; poucos biomas têm uma grande porcentagem amostrada.”

Apesar de não ser surpreendente, a estimativa é alarmante quando vista no contexto do desmatamento que continua a ser feito, numa taxa estimada em 200 mil km2 por ano, de acordo com o relatório de 2014 da SOS Mata Atlântica. “A taxa de desmatamento é quatro ordens de magnitude maior do que as taxas de levantamentos das florestas remanescentes”, compara o pesquisador. “Em longo prazo, se esse quadro se mantiver, a floresta desaparecerá antes de estudarmos o pouco que restou.”

Por isso, Lima destaca a importância de direcionar os trabalhos futuros para as áreas menos conhecidas, além de reduzir o desmatamento. Ele conta ainda que o governo federal está estimulando os estados a conduzirem inventários florestais. Santa Catarina já concluiu sua parte, amostrando 60% do que se conhece de Mata Atlântica no estado. O problema, segundo o pesquisador, é que o Inventário Nacional Federal usa uma metodologia um pouco diferente dos outros estudos já realizados, como considerar árvores cujos troncos tenham no mínimo 10 centímetros de diâmetro à altura do peito. “Faz sentido para a Amazônia, mas estudos na Mata Atlântica se preocupam com as árvores jovens e incluem diâmetros a partir de 5 centímetros”, explica. “Vai ser difícil reunir os dados novos com os já existentes.”

Para racionalizar os estudos e economizar recursos, Lima está coordenando, em parceria com Alexandre Adalar-

do e Paulo Inácio Prado, professores do IB-USP, a construção de uma base de dados on-line colaborativa que reunirá os inventários florestais no Brasil e estará disponível para ser usada pela comunidade científica. O projeto, batizado de TreeCo (abreviação de Neotropical Tree Communities Database), é uma extensão natural do diagnóstico feito para a Mata Atlântica e já tem dados sobre 2 milhões de árvores.

F U t U ro

O trabalho de Lima não representa mero romantismo de um apaixonado pela flora, pela fauna e a rede de interconexões entre elas. “Talvez a espécie mais ameaçada seja a nossa própria”, alerta Fabio Scarano, da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) e da UFRJ. No domínio da Mata Atlântica vivem mais de 100 milhões de brasileiros e reside o motor econômico do país. Embora 90% da população re

FontE rEnato liMa/Usp
no domínio da Mata Atlântica vivem mais de 100 milhões de brasileiros e reside o motor econômico do país

sidente no bioma esteja aglomerada em centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro, mais da metade da terra dedicada à agricultura no país também está nesse bioma. Em um artigo de revisão, Scarano e Paula Ceotto, da ONG Conservação Internacional, examinaram os efeitos da mudança de uso da terra e das mudanças climáticas locais na floresta e na população humana. “Ambientes que perderam muito de sua capacidade de suportar sistemas vivos são muito mais vulneráveis”, afirma. “E as pessoas pobres são ainda mais vulneráveis.”

Para Scarano, que integra o grupo de autores do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), ainda é preciso fazer muitos estudos sobre cenários futuros. “Estima-se que espécies migrarão para o sul à medida que a temperatura aumenta, mas o problema é que já tem gente vivendo nessa área, não tem muito espaço sobrando”, ressalva. Mesmo assim, ele é otimista quanto à possibilidade de uma adaptação baseada em ecossistemas, que inclui pagamento por serviços ambientais, a restauração da floresta e o fortalecimento e a ampliação

plantação de palmito disputa espaço com a floresta no Vale do ribeira, interior de são paulo

de áreas protegidas. Para isso, Scarano advoga uma integração cada vez maior entre pesquisadores, tomadores de decisão e gestores de políticas públicas e a população, que deve ser informada e convencida do que deve mudar para beneficiar a todos. “Otimizar os recursos e cuidar do ecossistema equivale a gerar renda a partir de turismo, de uma agricultura mais produtiva e da descoberta de possíveis fármacos, por exemplo.”

A visão otimista de Scarano se baseia na resiliência natural da floresta, revelada no trabalho de Camila, e na noção de que os interesses da população humana convergem com a preservação da natureza. Segundo ele, o Brasil tem vocação para dar esse passo e usar os ecossistemas como parte da solução para os impactos do aquecimento global no bem-estar social. Mas precisa ser mais rápido do que tem sido. “Temos prazo até 2030; se até lá não alterarmos nossos padrões de consumo e de uso da terra, deveremos chegar a 2050 com 2 graus Celsius de aumento na temperatura, com efeitos danosos sobre a vida como conhecemos”, avisa. Muito depende do que sair da Conferência do Clima em Paris, a COP 21, em dezembro. “Se as metas propostas pelo governo brasileiro forem concretizadas, estamos a 15 anos de um paraíso ambiental”, exagera o pesquisador. n

projeto

o papel da diversidade funcional na estruturação de comunidades arbóreas tropicais: uma abordagem baseada em modelos (nº 2013/08722-5); Modalidade Bolsa no país – regular – pós-doutorado; Pesquisador responsável paulo inácio prado (iB-Usp); Bolsista renato augusto Ferreira de lima (iB-Usp); Investimento r$ 131.224,64. artigos científicos

liMa , r a . F. de. et al. How much do we know about the endangered atlantic Forest? reviewing nearly 70 years of information on tree community surveys. Biodiversity and Conservation v. 24, n. 9, p. 2135-48. set. 2015. rEZEnDE, c l. de. et al atlantic Forest spontaneous regeneration at landscape scale. Biodiversity and Conservation. v. 24, n. 9, p. 2255-72. set. 2015. scarano, F. r . & cEotto p. Brazilian atlantic Forest: impact, vulnerability, and adaptation to climate change. Biodiversity and Conservation. v. 24, n. 9, p. 2319-31. set. 2015.

Explosão registrada pelo satélite Solar Dynamics Observatory, da Nasa: janela para investigar a geração de energia no plasma confinado em regiões próximas às manchas solares

ASTRONOMIA y

na origem das explosões solares

Equipe internacional mapeia a energia liberada nas regiões instáveis do Sol

ofísico brasileiro Pierre Kaufmann anda apreensivo com um experimento que deve começar nas próximas semanas. A agência espacial norte­americana (Nasa) planeja lançar em 1º de dezembro, a partir da base dos Estados Unidos na Antártida, um balão que subirá a 40 quilômetros acima do nível do mar transportando dois equipamentos para estudar o Sol. Um desses aparelhos é o Solar­T, um telescópio fotométrico duplo projetado e construído pela equipe de Kaufmann para analisar uma faixa especial da radiação solar (ver Pesquisa FAPESP nº 219). Se tudo correr como o planejado, o Solar­T, que integrará um experimento da Universidade da Califórnia em Berkeley, deve passar de duas a quatro semanas coletando ininterruptamente a luz emitida pelo Sol, que nessa época do ano nunca se põe no polo Sul

O motivo da inquietação do físico é que a Nasa pretende lançar o Solar­T desligado e só ativá­lo quando o balão atingir a altitude máxima. “Essa estratégia aumenta o risco de falha, que é inerente a qualquer missão em balão estratosférico”, diz Kaufmann, que acompanhou os testes do telescópio nos Estados Unidos em condições semelhantes às que enfrentará nos céus da Antártida. “Em todas as ocasiões, o equipamento se saiu muito bem, mas as avaliações foram feitas com ele ligado”, conta o físico, coordenador do Centro de Astronomia e Astrofísica (Craam) da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “O problema de lançá­lo inativo”, explica, “é que, se algo não funcionar após a subida, não é possível consertar”.

Enquanto sobrevoar o continente gelado, o Solar­T deverá captar a energia que emana das explosões solares em duas frequências específicas: 3 e 7 terahertz

(THz), que correspondem a uma fração da radiação infravermelha distante. Situada no espectro eletromagnético entre a luz visível e as ondas de rádio, essa faixa de radiação permite observar mais facilmente a ocorrência de explosões associadas aos campos magnéticos das regiões ativas do Sol, que muitas vezes lançam em direção à Terra jatos de partículas de carga negativa (elétrons) aceleradas a grandes velocidades. Nas proximidades do planeta, essas partículas atrapalham o funcionamento de satélites de telecomunicações e de GPS, produzem as auroras austrais e boreais.

A radiação nessa faixa do infravermelho também torna possível investigar fenômenos que transferem energia da superfície do Sol, a fotosfera, onde a temperatura não passa dos 5.700 graus, para as camadas superiores e mais quentes: a cromosfera, onde as temperaturas

Rumo à estratosfera: o telescópio Solar-T, que será lançado em breve na Antártida, a bordo de um balão, para observar as explosões solares nas faixas de 3 e 7 THz

alcançam 20 mil graus, e a coroa, que está a mais de 1 milhão de graus.

Apesar de abrir essas janelas para observar o Sol, a radiação em terahertz, que já foi chamada de raios T, sempre foi pouco utilizada. O motivo era que havia – e ainda há – alguns desafios para detectá­la. O primeiro é que a atmosfera terrestre impede que a maior parte dessa radiação chegue aos telescópios no solo. Além disso, não é qualquer telescópio que enxerga a radiação em terahertz.

“Para detectar ou produzir uma imagem do Sol nessas frequências é preciso usar um telescópio feito apenas de espelhos, porque as lentes de vidro ou de materiais ópticos comuns absorvem essa frequência de radiação”, explica Matthew Penn, astrônomo associado do Observatório Solar Nacional (NSO) e do McMath­Pierce Solar Facility, ambos no Arizona, Estados Unidos.

Outro complicador é que os detectores não podem ser feitos de silício, transparente a essas frequências de energia, e têm de estar refrigerados a temperaturas muito baixas. “Antes de Pierre Kaufmann começar a trabalhar nessa área, havia pouca observação do Sol nessas frequências porque era difícil explorar a tecnologia”, conta o astrônomo Stephen

White, do Laboratório de Pesquisa da Força Aérea, no Novo México, também nos Estados Unidos.

Kaufmann espera que os dados do Solar­T contribuam para alimentar um gráfico que vem ajudando a construir há cerca de 30 anos. Essa curva representa o perfil da energia emitida na origem das explosões do Sol, em geral observadas na região das manchas que de tempos em tempos tingem a superfície da estrela. É uma espécie de assinatura energética dessas explosões, que, na opinião de físicos, astrônomos e astrofísicos, pode ajudar a desvendar os fenômenos que as originam.

Ográfico da quantidade de radiação lançada ao espaço em cada frequência começou a ser delineado nos anos 1960, a partir de observações das explosões solares. Por muito tempo, ele registrava apenas a radiação emitida na faixa das ondas de rádio – com frequência entre 30 megahertz (MHz) e 30 gigahertz (GHz) –, as menos energéticas do espectro eletromagnético na faixa de rádio. Em 1972, John Castelli e Jules Aarons, do Laboratório de Pesquisa Cambridge da Força Aérea (AFCRL) dos Estados Unidos, produziram um perfil energético das explosões solares reunindo dados de 80 eventos. O gráfico tinha a forma aproximada da letra U e indicava que a maior parte da energia liberada nessas explosões estava em duas faixas das ondas de rádio de energia e frequência baixas: um bom tanto tinha frequência inferior a 1 GHz, enquanto o outro tanto ficava na faixa entre 3 GHz e 30 GHz.

Explosões observadas na faixa do infravermelho podem ajudar a

entender

como o Sol acelera partículas

Um pouco antes, em 1968, os pesquisadores C. D. Clark e W. M. Park haviam obtido indícios de que uma radiação de frequência maior e mais energética pudesse ser produzida nas erupções solares. Usando o telescópio do Queen Mary College, da Universidade de Londres, eles detectaram pulsos de energia a 250 GHz, frequência cerca de 30 vezes maior que as correspondentes a micro­ondas e inesperadamente muito intensas. Talvez porque fossem esparsos, esses e outros dados na região das micro ­ ondas não ganharam muita atenção. “Apesar de várias sugestões, por muito tempo os pesquisadores dessa área ignoraram esses indicativos”, conta Kaufmann.

A suspeita de que as explosões solares pudessem liberar muito mais energia só ressurgiram duas décadas mais tarde, em parte consequência do trabalho de Kaufmann. Com o radiotelescópio de Itapetinga, instalado em Atibaia, interior de São Paulo, ele observou uma explosão solar ocorrida em 21 de maio de 1984. Os registros indicaram que a maior parte da energia era emitida em ondas milimétricas, na frequência de 90 GHz, na forma de pulsos de centésimos de segundo de duração. Era um novo sinal de que havia mais a ser descoberto sobre as explosões. “Na época, percebemos que existia um componente das explosões que alcança frequências mais altas”, conta o físico. Em parceria com pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ele desenvolveu equipamentos que foram instalados em diferentes observatórios para registrar a energia em

frequências mais elevadas. No início da década passada, Kaufmann e sua equipe monitoraram explosões solares com o Telescópio Solar de Ondas Submilimétricas (SST), instalado no Complexo Astronômico El Leoncido, nos Andes argentinos, e registraram um fluxo de radiação que voltava a crescer em 0,2 e em 0,4 THz. Esses resultados levaram Kaufmann e o pesquisador Rogério Marcon, do Instituto de Física da Unicamp, a desenvolver equipamentos capazes de detectar frequências ainda mais altas, na região dos 30 THz. Com um telescópio de 30 THz instalado em El Leoncito e outro na cobertura de um dos prédios do Mackenzie, no centro de São Paulo, o grupo do físico brasileiro, que envolve pesquisadores da Argentina e dos Estados Unidos, já registrou três explosões solares – uma em 13 de março de 2012, outra em 1o de agosto de 2014 e uma terceira em 27 de outubro de 2014 – que liberaram grande quantidade de energia nessa faixa do espectro eletromagnético. Uma análise englobando diferentes regiões do espectro revelou que, na realidade, esses eventos produzem de 10 a 100 vezes mais energia no infravermelho distante (terahertz) do que nas micro­ondas (gigahertz), segundo artigo

publicado em junho deste ano no Journal of Geophysical Research – Space Physics. Além das observações do grupo de Kaufmann, Matthew Penn e sua equipe registraram emissões em 30 e 60 THz. Ao completar o perfil energético das explosões com os novos dados, o gráfico assume a forma da letra W – e não mais de U, como haviam indicado Castelli e Aarons nos anos 1970. Essa assinatura sugere que as explosões coincidem com fluxos energéticos intensos em duas faixas de radiação: uma nas ondas de rádio, menos energética, e outra no submilimétrico e no infravermelho, mais energética e com limite ainda desconhecido.

Uma possível fonte dessa energia seriam elétrons acelerados a velocidades próximas à da luz em regiões densas da superfície solar que, ao serem freados por campos magnéticos intensos, emitiriam radiação na faixa do infravermelho. Outra é que essas partículas aceleradas aqueceriam mais o plasma da cromosfera, que, em consequência, responderia liberando radiação.

“Por enquanto, ninguém consegue explicar esse espectro duplo”, diz Kaufmann, que, além de financiamento da FAPESP, também recebe apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia, do Fundo Mackenzie de Pesquisa e do Escritório de Ciência da Força Aérea norte­americana.

“Ainda não temos exemplos suficientes dos eventos observados em terahertz para explicar como pode haver uma

emissão em uma gama tão ampla”, diz Stephen White, do Laboratório de Pesquisa da Força Aérea norte­americana e colaborador de Kaufmann. “Imaginamos que isso possa revelar como o Sol acelera partículas a altas energias.”

Enquanto não se encontram as respostas, Kaufmann tenta completar a curva com mais informações em mais frequências, na esperança de que os dados ajudem a esclarecer os fenômenos geradores das explosões. Recentemente ele e Marcon concluíram um novo telescópio, o Hats (High Altitude Terahertz Solar Telescope), que vai operar nas faixas de 0,85 e 1,4 THz em um observatório a mais de 5 mil metros de altitude em Famatina, nos Andes argentinos. Também já está pronta a versão mais moderna dos detectores que devem aprimorar a capacidade de observação dos telescópios em El Leoncito. Antes disso, Kaufmann aguarda ansioso pela subida do Solar­T. “Estamos por conta da Nasa”, diz. “Mas o Sol também tem de colaborar e produzir explosões nesse período.” n

Projeto

Diagnóstico de explosões solares em inédito intervalo espectral, de micro-ondas até frequências THz: desafios para interpretação (FLAT) (nº 2013/24155-3); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Pierre Kaufmann (UPM); Investimento R$ 1.836.374,29.

Artigo científico

KAUFMANN, P. et al. Bright 30 THz impulsive solar bursts. Journal of Geophysical Research – Space physics. 30 jun. 2015.

Brilho fugaz: frequentes nas proximidades das manchas solares (regiões ativas do Sol), as explosões liberam energia em diferentes faixas do espectro eletromagnético

tecnologia BIOTECNOLOGIA y

Teste múltiplo: célula eletroquímica usada na detecção simultânea de três proteínas ligadas ao câncer de próstata

Um flagra no câncer

Nova geração de testes tenta identificar a doença mais cedo, avaliar a eficácia do tratamento e auxiliar na escolha da terapia

Ricardo Zorzetto e evanildo da silveira

esquisadores brasileiros trabalhando no país e no exterior estão finalizando uma nova geração de testes laboratoriais para detectar o câncer precocemente, antes que se torne identificável por meio de exames clínicos. De modo geral, quanto mais cedo a doença é descoberta, maior é a chance de sucesso no tratamento e até mesmo de cura. São pelo menos quatro os novos testes. Desenvolvidos por equipes em São Paulo, São Carlos e na Espanha, eles usam estratégias distintas para captar sinais de tumores em amostras de sangue, urina e outros fluidos corporais. Caso se mostrem eficientes nos próximos estágios de avaliação pelos quais ainda precisam passar, eles talvez possam, em situações específicas, substituir testes mais invasivos como biopsias e punções e servir de complemento aos exames clínicos e de imagem.

Os dois testes que se encontram em estágio mais avançado de desenvolvimento foram elaborados pela equipe da geneticista Anamaria Camargo no Instituto Ludwig para a Pesquisa

do Câncer (ILPC) e no Centro de Oncologia Molecular do Hospital Sírio-Libanês (HSL), em São Paulo. Ambos se baseiam na análise genética das características do tumor de cada paciente e representam um passo rumo à medicina personalizada, que prevê a possibilidade de realizar diagnósticos mais precisos e prescrições sob medida para cada paciente. “A personalização ocorre em todas as áreas da medicina, mas é mais desenvolvida em oncologia, por causa das bases genéticas do câncer”, diz Anamaria. No Brasil, esse modelo, que depende da identificação da causa genética das enfermidades (ver reportagem na página 14), ainda é incipiente. Ele começa a ser implementado em alguns hospitais particulares e agora ganha impulso no estado de São Paulo com uma iniciativa de cinco centros de pesquisa que estão se reunindo em um projeto para fazer avançar a medicina de precisão (ver reportagem na página 33).

O primeiro teste consiste na análise de um painel gênico para orientar a terapia do câncer. Para a elaboração do painel, os pesquisadores cruzaram informações sobre as

À caça de mutações: no detalhe (acima) e na página ao lado, lâmina que recebe amostras de DNA tumoral a serem sequenciadas no Centro de Oncologia molecular do Hospital sírio-Libanês

alterações genéticas recorrentes nos tumores humanos com informações sobre as vias moleculares alteradas nesses tumores e os alvos de drogas comumente usadas no tratamento da doença. No total, selecionaram os 494 genes alterados com maior frequência em diferentes tumores e que servem de alvo para algum tipo de medicamento. “Esse painel pode ajudar a guiar o tratamento, porque algumas dessas mutações tornam o tumor sensível a certos compostos”, explica Anamaria.

Centros avançados de tratamento do câncer, como o Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York, ou o MD Anderson Cancer Center, no Texas, também possuem seus próprios painéis, cada um com um número diferente de genes. E já os disponibilizam para seus médicos selecionarem a droga mais eficaz para tratar cada paciente.

anamaria e seu grupo atualmente trabalham na validação do painel gênico do Sírio-Libanês. Eles sequenciaram o material genético dos tumores de 12 pessoas atendidas no hospital e identificaram as mutações específicas de cada câncer. “Já analisamos sete casos e estamos concluindo outros cinco”, conta a geneticista. Até o momento, segundo a pesquisadora, o teste produzido no Sírio mostrou 100% de sensibilidade e 100% de especificidade e se saiu tão bem quanto outro mais amplo, de 600 genes, desenvolvido pela empresa norte-americana de análise genômica Foundation Medicine e disponível no mercado.

Em outra avaliação, o biomédico Luís Felipe Campesato e o bioinformata Pedro Galante, ambos do HSL, demonstraram que o painel do Sírio também pode ser usado para orientar o tratamento do câncer com uma classe de medicamentos que se tornou disponível apenas nos últimos anos: os imunoterápicos.

São moléculas que estimulam o sistema de defesa a atacar as células tumorais e que vêm produzindo resultados animadores contra alguns tipos de tumor, em especial de pele e pulmão. “O tratamento com esses medicamentos é caro e só

beneficia parte dos pacientes”, diz Anamaria. “Por isso é importante identificar quem vai responder.”

Usando uma estratégia de bioinformática, Campesato e Galante confrontaram a capacidade do painel do Sírio e do painel da Foundation Medicine de associar a quantidade de mutações (carga mutacional) de tumores de pele e de pulmão com a resposta aos imunoterápicos. Em estudo publicado em outubro na revista Oncotarget, eles demonstraram que ambos foram tão eficientes quanto o sequenciamento de todo o genoma humano.

De acordo com o trabalho, os imunoterápicos foram eficientes para 70% das pessoas com câncer de pulmão que apresentavam elevado número de alterações gênicas. Nos casos de sucesso, os pacientes permaneceram ao menos seis meses livres do câncer depois do tratamento – metade deles não apresentava sinais do tumor 18 meses após o uso da medicação. Já entre as pessoas com poucas alterações gênicas, os compostos funcionaram em apenas 20% dos casos.

“Nosso teste se mostrou viável do ponto de vista científico, agora é preciso demonstrar que tem aplicabilidade prática”, afirma o bioquímico Luiz Fernando Lima Reis, superintendente de pesquisa do HSL. Antes que possa ser usado pelos médicos do hospital, será preciso passar por uma fase de certificações e de ganho de escala.

Em paralelo ao desenvolvimento do painel de genes, o grupo de Anamaria trabalha na produção de um teste individualizado para verificar se o tratamento antitumoral está funcionando como o esperado e detectar a recaída da doença. Sua equipe começou a trabalhar nesse teste a pedido do grupo dos cirurgiões digestivos Angelita Habr-Gama e Rodrigo Oliva Perez, do Instituto Angelita e Joaquim Gama.

No início dos anos 1990, Angelita, uma pesquisadora e cirurgiã respeitada internacionalmente, propôs uma estratégia ousada e menos agressiva para tratar certos casos de câncer de reto. A terapia padrão para combater tumores nesse órgão consiste na retirada definitiva da porção final do intestino, seguida de um tratamento à base de rádio e quimioterapia para evitar o reaparecimento do tumor. Em busca de uma saída que evitasse

e xame que mede a quantidade de Dna tumoral no sangue pode avaliar resposta à rádio e à quimioterapia

a eliminação do órgão, ela inverteu a ordem da terapia e passou a tratar seus pacientes primeiro com radiação e medicamentos e a acompanhá-los de perto com exames de imagem. Assim, conseguiu evitar a cirurgia em 28% dos casos (ver Pesquisa FAPESP nºs 162 e 195).

ante o risco de o câncer ressurgir, Angelita e Perez se uniram a Anamaria para produzir um exame molecular que permita detectar o mais cedo possível se o tratamento funcionou ou se o problema reincidiu. Eles chegaram a um teste genético personalizado que já se mostrou viável, mas precisa ser aprimorado. A partir de uma amostra do tumor, os pesquisadores determinam as alterações genéticas específicas do paciente. Concluído o tratamento combinado, eles passam a coletar apenas amostras de sangue de tempos em tempos para medir a quantidade de DNA tumoral circulante. Em princípio, essa estratégia deveria permitir encontrar tumores residuais após a terapia, além de focos metastáticos não detectáveis por exames clínicos ou de imagens.

Um ensaio-piloto com quatro pessoas com câncer de reto mostrou que o teste ainda não foi tão sensível quanto os pesquisadores inicialmente imaginavam para detectar a doença residual após a terapia. Depois do tratamento, ele não foi capaz de detectar a chamada doença residual mínima, situação em que resta menos de 10% do número inicial de células tumorais. Mas conseguiu identificar a presença de câncer quando esse número passava dos 20%. O teste, no entanto, mostrou-se bastante eficaz para avaliar a resposta ao tratamento e detectar a diminuição no tamanho do tumor. Ele permitiu antecipar em 18 meses a progressão da doença e a detecção clínica de metástases.

Esse resultado, publicado também em outubro na Oncotarget, sugere que o teste tem potencial para servir de marcador de resposta ao tratamento e para o monitoramento da doença após a intervenção terapêutica. Os níveis de DNA tumoral no sangue diminuíram no caso em que a terapia combinada de radiação e medicamentos funcionou. E aumentaram nos dois pacientes em que o tumor voltou a crescer.

“Os dados sugerem que a quantidade de material genético alterado na circulação é proporcional ao tamanho do tumor”, conta Lima Reis. A equipe do hospital planeja agora usar o teste com outros 20 pacientes do Sírio-Libanês.

Enquanto os pesquisadores da capital buscam formas de detectar tumores a partir do seu material genético diluído no sangue, em São Carlos, o químico Ronaldo Censi Faria trabalha para aprimorar a precisão do teste sanguíneo usado para fazer o diagnóstico inicial dos tumores de

próstata. Faria é professor do Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e desenvolveu um sensor para identificar simultaneamente três proteínas sanguíneas associadas ao câncer de próstata.

Hoje o exame de sangue usado para identificar alterações na próstata só mede os níveis do antígeno prostático específico (PSA) e pode indicar a presença de tumor antes dos sintomas clínicos do câncer. O problema é que há casos da doença em que o PSA não se altera e casos em que o seu nível aparece elevado sem que exista tumor. “Por isso trabalhamos com a detecção do PSA, do antígeno de membrana específico da próstata ou PSMA e do fator plaquetário 4, o PF-4, para um diagnóstico mais preciso”, esclarece Faria. “A ideia é diminuir o risco de falsos resultados.”

Faria começou a desenvolver o sensor entre 2011 e 2012, durante um estágio de pós-doutorado na Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos. A detecção dos biomarcadores ocorre por meio da emissão de luz, resultado de uma reação química (eletroquimioluminescência). No dispositivo, a intensidade de luz é proporcional à concentração das proteínas no sangue. O sensor contém eletrodos descartáveis de grafite sobre os quais são depositados anticorpos. Quando um dos três biomarcadores interage com os anticorpos, uma reação química ocorre e produz luz.

Outro tipo de dispositivo foi desenvolvido pela química brasileira Priscila Monteiro Kosaka, do Instituto de Microeletrônica de Madri (IMM), na Espanha. Chamado de sensor nanomecânico, ele

é feito de silício e tem o formato de um trampolim de piscina, como uma base e uma “prancha”, cujo tamanho não passa de meio milímetro. “Cada trampolim vibra em uma determinada frequência de ressonância”, explica Priscila. “Mas quando algo se deposita na sua superfície, essa frequência de ressonância muda de maneira proporcional à massa aderida.” Se a amostra de sangue contém o biomarcador do câncer, ocorrem duas alterações no sensor: a sua frequência de ressonância se altera e a amostra muda de cor.

tanto Faria como Priscila afirmam que seus dispositivos são mais sensíveis e precisos que os métodos de diagnóstico existentes. “No sistema que desenvolvemos, os limites de detecção chegam a ser mil vezes menores do que os do teste Elisa, em concentrações da ordem de femtograma por mililitro”, assegura Faria. “Isso possibilita que se faça uma grande diluição do soro humano, o que leva a um menor consumo de amostras e minimiza possíveis interferências.”

Além disso, Faria diz que o sensor que desenvolveu detecta mais de um biomarcador simultaneamente. “O número de falsos positivos e negativos chega a 40% com o uso apenas do PSA como indicador para câncer de próstata”, explica. “A detecção múltipla, usando três proteínas diferentes, possibilitará um diagnóstico mais preciso.”

Priscila também assegura que seu nanossensor é muito sensível e específico. “Nos ensaios em laboratório simulando uma amostra de sangue, ocorreram dois erros a cada 10 mil ensaios”, afirma. “Nosso método é capaz de identificar o bio-

Preparação do teste para câncer de próstata: captura de biomarcadores proteicos em amostras de soro sanguíneo utilizando partículas magnéticas

sensor desenvolvido na

UFsCar: eletrodos descartáveis de grafite sobre os quais se depositam os anticorpos contra biomarcadores do câncer

testes mais sensíveis para identificar proteínas tumorais no sangue ainda levarão anos para chegar ao mercado

marcador mesmo que sua concentração não ultrapasse 100 moléculas numa amostra de sangue.”

Devido à elevada sensibilidade e especificidade desses dispositivos e ao seu baixo custo, eles poderão vir a ser utilizados em exames de sangue de rotina, segundo Faria. “Isso pode impactar a saúde pública porque as chances de cura, no caso do câncer, são maiores quando o diagnóstico é realizado precocemente, além de os custos de tratamento serem muito menores”, diz.

A má notícia é que isso não é para logo. “Pode levar ainda 10 anos para chegar ao mercado”, estima Priscila. “Nosso objetivo é um nanossensor ultrassensível e de baixo custo.” Faria, por sua vez, não tem previsão para o uso do seu dispositivo nos serviços de saúde. “O sistema necessita de mais estudos até se conseguir um produto final que possa ser utilizado em hospitais e clínicas”, reconhece. “Mais pesquisas devem ser realizadas em relação à detecção de várias proteínas simultaneamente e à automatização do método.”

Para o químico especialista em bioanalítica

Emanuel Carrilho, do Instituto de Química de São Carlos, da Universidade de São Paulo (USP),

os dois tipos de sensores são promissores. “São plataformas diferentes, com biossensores diferentes, mas o que ambos têm de muito interessante é a capacidade de multiplexação, ou seja, poder detectar vários biomarcadores num único ensaio”, diz. “A multiplexação deve permitir um diagnóstico completo, que mostrará se há câncer e de qual tipo ele é.”

Outro aspecto importante destacado por ele é o uso de nanopartículas, que amplificam os sinais dos dispositivos. Para Carrilho, que também é pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Bioanalítica (INCTBio), o desafio para os novos sensores é ter anticorpos para todos os tipos de câncer. n

Projetos

1. Tratamento neoadjuvante em câncer de reto: identificação de uma assinatura gênica capaz de predizer a resposta ao tratamento e desenvolvimento de biomarcardores personalizados para avaliar a doença residual mínima (no 2011/50684-8); Modalidade Auxílio à Pesquisa – regular; Pesquisadora responsável Anamaria Camargo (ILPC); Investimento r$ 361.226,21.

2. Desenvolvimento de biossensores para determinação de biomarcadores proteicos visando à aplicação no diagnóstico precoce e monitoramento de câncer (nº 2011/02259-6); Modalidade Bolsa no Exterior; Bolsista ronaldo Censi Faria (UFsCar); Investimento r$ 10.780,00 e Us$ 35.400,00.

Artigos científicos

CArPINETI, P. et al. The use of personalized biomarkers and liquid biopsies to monitor treatment response and disease recurrence in locally advanced rectal cancer after neoadjuvant chemoradiation. oncotarget. 6 out. 2015.

CAmPEsATO, L. F. et al. Comprehensive cancer-gene panels can be used to estimate mutational load and predict clinical benefit to PD-1 blockade in clinical practice. oncotarget. 1o out. 2015.

KADImIsETTY, K. et al. 3D-printed supercapacitor-powered electrochemiluminescent protein immunoarray. Biosensors and Bioelectronics. v. 77, p. 188-93. mar. 2016.

Cursos para líderes inovadores

Pesquisadores de pequenas empresas voltam de Londres e de Oxford com novas ideias para seus projetos no plano comercial

visão ampliada dos negócios e muitos elogios. Assim se pode resumir a opinião de pesquisadores e coordenadores de projetos do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) da FAPESP que participaram do Leaders in Innovation Fellowships Programme da Royal Academy of Engineering (RAEng), com cursos realizados em Londres e Oxford, na Inglaterra, em março deste ano. O evento irá se repetir em dezembro e tem o objetivo de capacitar pesquisadores em empreendedorismo e comercialização de produtos tecnológicos, além de incentivar a criação e participação em redes internacionais de inovação e tecnologia.

A parceria foi estabelecida entre a FAPESP e a Royal Academy of Engineering no âmbito do Fundo Newton, programa mantido pelo governo britânico para promover o desenvolvimento social e econômico por meio de ações de pesquisa e inovação. No Brasil, o fundo é coordenado pela Rede Britânica de Ciência e Inovação (SIN), que fomenta colaborações científicas e tecnológicas entre o Brasil e o Reino Unido. Para esse

programa, o Fundo Newton contribuiu com o financiamento da viagem e estadia dos 23 coordenadores de projetos do Pipe durante duas semanas.

“No Brasil é raro uma empresa startup ser eficiente tanto no desenvolvimento da tecnologia quanto em sua comercialização. O Pipe tem empresas com pesquisa sólida, mas muitas vezes sem boa formação em negócios. É preciso que os empreendedores apliquem metodologias modernas para a busca de seu modelo de negócio e façam adaptações em seus produtos para desenvolvê-los comercialmente”, diz Fabio Kon, professor de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP) e um dos coordenadores adjuntos da Diretoria Científica da FAPESP na área de Pesquisa para Inovação.

“O sucesso de uma pequena empresa apoiada pela FAPESP depende não só da qualidade do projeto de pesquisa realizado, mas da capacidade de suas lideranças

Marcos de Oliveira

para desenvolver a empresa. O programa com a Royal Academy Engineering nos ajuda a oferecer treinamento prático e objetivo sobre como desenvolver as oportunidades de negócio para uma pequena empresa aumentando as chances para seu crescimento”, explica Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP. “O curso é destinado a pesquisadores que estejam no início da etapa de definição do modelo de negócio”, completa Kon. Foram escolhidas empresas que participam do programa Pipe na fase 1, quando são realizadas as pesquisas iniciais que devem demonstrar a viabilidade técnica do projeto.

M U dA nd O CA b E ç AS

A primeira semana na Inglaterra foi de treinamento com especialistas ingleses nas áreas de geração do modelo de negócio, apresentação em público do próprio negócio e técnicas de negociação. O principal método de trabalho foi o Business

Model Canvas, um sistema muito usado atualmente para validar a ideia comercial da empresa, identificando fornecedores e clientes potenciais. “Tudo isso me fez ter insights sobre alternativas do meu modelo de negócio”, diz Roberto Speicys Cardoso, sócio da Scipopulis, de São Paulo, empresa que desenvolve aplicativos e sistemas de controle de ônibus nas cidades. “Com o nosso aplicativo, é possível saber que horas um ônibus de uma linha específica passa em um determinado ponto em São Paulo”, conta Cardoso, que também tem um contrato de análise da velocidade dos ônibus com a prefeitura de São Paulo. “Os palestrantes ingleses e os mentores [profissionais especializados em empreendedorismo, inovação ou da área de atuação da empresa] me fizeram ver que meus competidores podem se transformar em parceiros em alguns momentos para facilitar uma negociação com prefeituras ou outras empresas maiores.”

Para Val Fontanette, sócia e fundadora da Itera, empresa que cria soluções tec-

nológicas na gestão de documentos eletrônicos, uma das grandes contribuições dos cursos na Inglaterra foi enxergar formas de escalar os negócios em nível global. “As aulas práticas de oratória e de modelo Canvas nos capacitaram para apresentações a investidores estrangeiros e assim acessar recursos financeiros para poder escalar nosso negócio”, diz Val. A empresa Itera, instalada no Centro de Desenvolvimento das Indústrias Nascentes (Cedin) de São Carlos (SP), quer atuar no mercado de Big Data, que reúne e processa dados em grandes quantidades com o objetivo de gerar novas informações principalmente na internet. Marcos Valadares, sócio da Pluricell, também conseguiu ver outros ângulos do negócio de sua empresa durante a estada na Inglaterra. Sua empresa está incubada no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), em São Paulo, e desenvolve tecnologia para diferenciação de células pluripotentes induzidas (iPS na sigla em inglês) transformando-as em células de vários órgãos do corpo destinadas a experimentos científicos in vitro e para desenvolvimento de fármacos e cosméticos. “Voltei com uma visão comercial mais crítica e percebi que falta uma ferramenta para vender a nossa tecnologia”, explica Valadares.

novas visões sobre planos de negócio e produtos escaláveis em nível global

intensa atividade durante duas semanas em cursos sobre como apresentar a empresa para clientes

“Eu e meus sócios temos forte formação acadêmica e grande dificuldade em pensar no mercado, porque ficamos mais no campo tecnológico.” Ele gostou também da segunda etapa do curso realizada na Isis, empresa de comercialização de pesquisa e tecnologia da Universidade de Oxford. “Conhecemos como eles transformam uma ideia em negócio. Lá, a taxa de sucesso das empresas é perto de 80%”, diz.

Celso Tomazin Júnior contou que conseguiu melhorar a elaboração do seu plano de negócios e a comercialização de sua empresa, a Chimtec, incubada na EsalqTec, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP, em Piracicaba. Ele desenvolve um produto à base de óleo de laranja para substituir antibióticos sintéticos utilizados na produção de etanol, quando as bactérias contaminam o processo e competem com a levedura que transforma o açúcar do mosto da cana em álcool. “Eu já tinha participado do curso Empretec, do Sebrae, que também foi muito intenso, mas o que contou na Inglaterra foi a cultura que eles têm de empreendedorismo. Minha mentora me ajudou muito no estudo do plano financeiro e investimento e para a negociação da tecnologia”, explica Tomazin Júnior. Uma nova visão de negócios também deve provocar mudanças na vida comer-

cial da Solstício Energia, de Campinas (SP), que em junho deste ano deixou a Incubadora de Empresas de Base Tecnológica (Incamp) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Foi muito bom saber como eles veem o que nós construímos”, diz Bruno Wilmer Fontes Lima, sócio da Solstício. “Nosso projeto é o desenvolvimento de um painel fotovoltaico para energia solar mais fácil de instalar e que proporciona uma diminuição do custo da estrutura”, diz Lima. “Como há dois anos instalamos sistemas convencionais, nossos mentores ingleses acham que devemos desenvolver a tecnologia, mas também continuar com um bom serviço. A inovação tem que estar integrada no que a empresa já faz.”

g ES tã O dA I n OvA çã O

Tanto o Pipe quanto o Leaders of Innovation contam também com a participação de pequenas empresas que estão no mercado há algum tempo e buscam um novo processo de pesquisa tecnológica, como é o caso da Apis Flora, empresa de Ribeirão Preto (SP), que tem 33 anos. “Trabalhamos com produtos farmacêuticos à base de própolis, mel e medicamentos fitoterápicos e agora estamos desenvolvendo um novo fármaco originário da biodiversidade brasileira para tratamento de candidíase”, explica Andresa Aparecida

Berretta de Silva, farmacêutica e gerente de Pesquisa e Desenvolvimento e Inovação da empresa. Para ela, os cursos foram interessantes porque promoveram em especial a gestão da inovação e como dar valor ao produto obtido, numa linguagem mais fácil de entendimento. “Esse medicamento inovador poderá ser negociado com uma outra empresa ou com investidores no mercado.”

Na apresentação de cada empresa realizada no final da primeira semana em Londres, para a qual os empreendedores foram treinados, acadêmicos e profissionais de várias empresas e investidores ocuparam o papel de juízes. Em uma dessas apresentações, que foram divididas em dois grupos de brasileiros, o ganhador foi Rogério Junqueira Machado, um dos sócios da Reciclapac, empresa também incubada no Cietec. “A comissão julgadora gostou da minha apresentação porque utilizei um conceito que nos foi proposto: startup tem que pensar grande e seu produto precisa ser escalável em um padrão global”, diz Machado. “Mostrei que em vez de resíduo uma embalagem pode ser reelaborada e reutilizada.”

A Reciclapac foi formada depois que Machado saiu da General Motors (GM), onde trabalhou por 28 anos nas áreas de suprimentos e exportação, e tomou contato com o resíduo gerado pelas embala-

gens de peças automotivas, muitas feitas de madeira, que entram ou saem do país. “Criamos um processo em que pegamos aquelas embalagens, reciclamos e vendemos para a própria empresa, trazendo no final uma redução de custo e a eliminação do resíduo”, diz Machado, que quer expandir essas ações. “A remanufatura das embalagens chega a reduzir em 85% o consumo de energia e de materiais. São embalagens complexas que acondicionam o câmbio de automóveis, por exemplo, e pesam mais de 100 quilos.”

Além dos cursos, das mentorias e do conhecimento adquirido em Oxford no campo da propriedade intelectual, os coordenadores dos projetos Pipe puderam vivenciar a companhia de empreendedores de outros países, como Taiwan e Vietnã, que faziam as mesmas ativida-

des em recintos separados. “Eu conheci e troquei informações com Nguyen Van Truc, diretor do Centro de Treinamento e Comercialização de Tecnologia do Ministério da Ciência e Tecnologia do Vietnã”, lembra Celso Tomazin, da Chimtec.   Outro resultado que agradou os participantes do grupo de brasileiros que esteve na Inglaterra foi o entrosamento entre eles, mesmo tendo projetos tão diferentes. Com a amizade formada e a necessidade de manter a experiência de troca de informações, eles formaram um grupo de discussões no aplicativo WhatsApp. “Voltamos de lá motivados e o grupo é uma oportunidade de trocar opinião sobre vários assuntos que envolvem as empresas”, diz Bruno, da Solstício. “É também um modo de nos ajudarmos”, conta Andresa, da Apis Flora. n

> mais informações sobre o Fundo newton em bit.ly/1mtfu4t

Projetos

1. d esenvolvimento de um medicamento para tratamento de candidíase vulvovaginal (nº 2013/50496-2); Modalidade Pesquisa inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisadora responsável andresa aparecida Berretta e silva (apis Flora); Investimento r$ 425.262,37, Us$ 123.911,50 e r$ 33.282,60 (Bolsas).

2. Uma aplicação móvel para obtenção de informações atualizadas de transporte público a partir do conhecimento coletivo (nº 2013/50812-1); Modalidade Pesquisa inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisador responsável roberto speicys c ardoso (s cipopulis); Investimento r$ 47.152,87, Us$ 990,00 e r$ 111.970,80 (Bolsas).

3. módulo integrado – painel solar fotovoltaico com estrutura de fixação, fiação e microinversor integrado (nº 2013/50662-0); Modalidade Pesquisa inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisador responsável Bruno Wilmer Fontes Lima (solstício Energia); Investimento r$ 73.620,00 e r$ 2.928,00 (Bolsas).

4. avaliação da eficiência do óleo bioativo da citricultura no controle bacteriano em fermentação alcóolica (nº 2013/50704-4); Modalidade Pesquisa inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisador responsável celso Tomazin Júnior (chimtec); Investimento r$ 33.600,00 e r$ 44.917,20 (Bolsas).

5. diferenciação de células-tronco pluripotentes induzidas em hepatócitos e sua caracterização para uso em testes de droga (nº 2013/50263-8); Modalidade Pesquisa i novativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisador responsável m arcos c osta Valadares (Pluricell); Investimento r$ 131.221,00, Us$ 4.750,00 e r$ 149.623,20 (Bolsas).

6. avaliação de viabilidade de reúso de caixas de madeira descartáveis na indústria automobilística (nº 2014/50399-0); Modalidade Pesquisa inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisador responsável rogério Junqueira machado (reciclapac); Investimento r$ 85.313,20 e r$ 82.438,50 (Bolsas).

7. E-share miner: gerenciamento de informação apoiado pela descoberta de conhecimento via taxonomia de tópicos (nº 2012/51181-2); Modalidade Pesquisa inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisador responsável marco antonio Pereira (itera); Investimento r$ 54.816,58 e r$ 76.283,40 (Bolsas).

Ônibus mais sustentáveis

empresa brasileira lança veículo elétrico híbrido menos poluente

seguindo tendência entre fabricantes multinacionais

Yuri Vasconcelos

Uma tecnologia de transporte flexível e ambientalmente vantajosa está em operação na Grande São Paulo desde meados de outubro. Trata-se do Dual-Bus, um ônibus elétrico híbrido fabricado pela Eletra, empresa 100% nacional, com sede em São Bernardo do Campo (SP). Veículos híbridos possuem duas fontes de energia – um gerador a diesel e um banco de baterias – e são bem menos poluentes do que os ônibus movidos exclusivamente a combustíveis fósseis. A vantagem do Dual-Bus é a versatilidade, porque ele também é capaz de operar exclusivamente como trólebus ligado à rede elétrica aérea ou como um veículo elétrico puro que utiliza apenas a bateria alimentada pelo gerador a diesel e não precisa ser conectado a uma tomada para recarregar. O Dual-Bus é o primeiro ônibus do gênero produzido no Brasil. Outras fabricantes, como a sueca Volvo e a

Dual-Bus: funciona como trólebus, elétrico ou híbrido mantido por baterias recarregadas por um pequeno motor a diesel

chinesa BYD, também investem no país em novas tecnologias de transporte urbano de passageiro baseadas em tração elétrica, as duas também com baterias recarregáveis.

“A possibilidade de um mesmo ônibus funcionar como híbrido, trólebus ou elétrico puro agrega vários benefícios para a operação, porque com a mesma frota é possível atender a diversos sistemas”, diz o engenheiro Paulino Fumio Hiratsuka, gerente de engenharia, desenvolvimento e produto da Eletra. “Além disso, a matriz energética pode ser modificada de acordo com a evolução da tecnologia de geração e armazenamento ou mesmo dos custos envolvidos.” Ele explica que o Dual-Bus pode ser empregado numa linha qualquer inicialmente como trólebus, em seguida continuar no modo híbrido – com o acionamento do gerador, que é um motor menor em relação aos tradicionais, e do banco de baterias – e finalizar o percurso operando como um veículo elétrico, sem nenhuma emissão de poluentes. Nos trólebus, em caso de falta de energia é possível desconectar da linha superior e seguir por alguns quilômetros com as baterias. Uma chave no painel de controle permite ao motorista escolher o modo de funcionamento do veículo.

“Ônibus como o Dual-Bus da Eletra são ideais para o centro de grandes metrópoles, onde a preocupação com o nível de poluentes é constante. Essas tecnologias de mobilidade sustentáveis vêm conquistando espaço no setor de transporte público de passageiros”, afirma o engenheiro Wanderlei Marinho, membro do Comitê de Veículos Elétricos e Híbridos da Sociedade de Engenheiros da Mobilidade (SAE, na sigla em inglês) e professor de pós-graduação em Engenharia Automotiva do Instituto Mauá de Tecnologia, em São Caetano do Sul. O Dual-Bus está circulando no Corredor Metropolitano ABD, uma via exclusiva da Grande São Paulo para ônibus e trólebus. Com extensão de 33 quilômetros, ela liga o bairro de São Mateus, no leste da capital paulista, ao Jabaquara, na zona sul, atravessando os municípios de Mauá, Santo André, São Bernardo do Campo e Diadema.

TRAÇÃO ELÉTRICA

O modelo criado pela Eletra é tracionado apenas pelo motor elétrico, e a energia para mover esse motor vem de um banco de baterias e de um motor gerador – esse conjunto também tem a função de recarregar as baterias do veículo. Esse modelo de veículo elétrico híbrido funciona com as duas fontes de energia (motor gerador e baterias)

operando simultaneamente. Como o motor gerador só é usado para produção de energia (e não para tracionar o ônibus), ele é menor que um motor convencional a diesel. O resultado é uma diminuição de emissão de poluentes de 95% em relação à de um ônibus a diesel comum. Outro ponto de destaque do novo modelo da Eletra, segundo o engenheiro Hiratsuka, é que ele não demanda investimentos em infraestrutura de recarga para as baterias. “Quando está operando como híbrido ou elétrico, as baterias também são recarregadas nas frenagens por meio de um sistema conhecido como Kers, sigla em inglês para sistema de recuperação de energia cinética”, diz Hiratsuka. Quando o freio é acionado, o motor elétrico vira um gerador e a energia que seria desperdiçada na frenagem é reaproveitada e armazenada no banco de baterias. O ônibus pode rodar até 20 quilômetros como elétrico puro, utilizando somente a energia das baterias. Com capacidade para 153 passageiros, o Dual-Bus tem 23 metros de comprimento e seu chassis articulado de quatro eixos foi fabricado pela Mercedes-Benz. O motor elétrico foi desenvolvido pela WEG, de Santa Catarina. O gerador, por sua vez, é formado por um motor veicular Mercedes-Benz movido a diesel e um gerador também feito pela WEG. Segundo a gerente comercial da Eletra, Iêda Maria Alves de Oliveira, o Dual-Bus custa 35% mais do que um ônibus similar a diesel, mas sua manutenção é cerca de um terço mais barata. Presente no mercado brasileiro há 30 anos, a Eletra é especializada na fabricação de trólebus, ônibus elétricos e híbridos. Em 1999, ela criou o primeiro ônibus elétrico híbrido com tecnologia brasileira (ver Pesquisa FAPESP nº 92). Hoje, a marca está presente em cerca de 320 ônibus com tração elétrica em operação na Grande São Paulo e outros 82 em cidades do exterior, como Rosário, na Argentina, com 20 veículos, e Wellington, na Nova Zelândia, com 62.

ELÉTRICOS SUECOS

Uma das maiores fabricantes mundiais de ônibus, a Volvo Buses, também investe em veículos com baixa ou zero emissão de poluentes. Seu portfólio de soluções para o transporte público de passageiros inclui versões de ônibus elétricos híbridos, elétricos e híbridos (motor elétri -

Ônibus de dois andares lançado neste ano pela chinesa BYD, em Londres. a empresa está finalizando uma fábrica em c ampinas (sp)

mundo, são mais de 2 mil veículos em circulação em 21 países.

Veículos elétricos começam a demonstrar um custo de operação menor ou igual aos movidos a diesel

co, motor a diesel e baterias elétricas). Dos três, apenas o último é produzido no Brasil. Em 2012, dois anos após o lançamento mundial do híbrido, a unidade de Curitiba foi a primeira a fazer o modelo fora do continente europeu. Com capacidade para 100 passageiros, o híbrido da Volvo adota a tecnologia com dois motores, um a diesel e outro elétrico, operando de forma independente. Já foram produzidas no país mais de 400 unidades do veículo, que roda em Curitiba, Foz do Iguaçu, Campinas e Sorocaba e foi exportado para Bogotá, na Colômbia. No

“No nosso modelo, o motor elétrico é usado para arrancar o ônibus e acelerá-lo até aproximadamente 20 quilômetros por hora. A partir dessa velocidade, entra em funcionamento o motor a diesel”, explica o engenheiro Idam Stival, coordenador de engenharia de vendas da Volvo no Brasil. “Quando o veículo está parado no trânsito, em pontos de ônibus ou em semáforos, o motor a diesel fica desligado. Nosso veículo opera 20% do tempo como elétrico e 80% no modo diesel.” De acordo com Stival, o híbrido da Volvo consome até 35% menos combustível e, consequentemente, emite 35% menos gás carbônico. Em um ano de operação, o veículo deixa de jogar na atmosfera 33 toneladas de CO2 quando comparado aos ônibus a diesel com a mesma capacidade de passageiros. “Embora a tecnologia tenha sido desenvolvida fora do Brasil, o modelo que roda aqui foi tropicalizado e atende às regras de conteúdo local para financiamento via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)”, diz o engenheiro Renan Shepanski, da área de engenharia de vendas.

Há um ano, a Volvo lançou comercialmente na Europa o seu primeiro modelo de ônibus elétrico híbrido. Diferentemente da versão fabricada pela Eletra, o veículo conta com a tecnologia plug in, que permite recarga rápida nos

Híbrido da volvo fabricado no Brasil tem dois motores, um elétrico e outro a diesel

pontos de embarque e desembarque de passageiros com um conector preso a uma espécie de poste que é ligado a um adaptador no teto do ônibus. Com isso, ele é capaz de rodar 70% do tempo no modo elétrico, usando apenas a energia das baterias, e os 30% restantes no modo híbrido, a diesel. O resultado é uma redução do consumo de combustível e de emissão de dióxido de carbono em até 70%, em comparação com o ônibus diesel convencional. Por receber recar-

gas rápidas de energia, ele possui maior autonomia de operação no modo elétrico.

“O elétrico híbrido da Volvo é um sistema que funciona bem, mas exige investimento e intervenção na infraestrutura viária para instalação das estações de recarregamento das baterias”, afirma o engenheiro Wanderlei Marinho, da SAE. Segundo a Volvo, seu elétrico híbrido é indicado para trajetos mais longos e menos travados, como corredores de transporte exclusivos para ônibus.

opção na europa: no desembarque e no embarque de passageiros, recarga rápida das baterias

ELÉTRICOS CHINESES

Outra empresa que começa a produzir um ônibus ambientalmente sustentável no Brasil é a chinesa BYD (iniciais de Build Your Dreams ou “Construa Seus Sonhos”). Em agosto foi inaugurada em Campinas a fábrica para produção de ônibus elétricos da empresa. A BYD é uma das maiores fabricantes mundiais de baterias recarregáveis e ônibus elétricos. A empresa lançou neste ano em Londres, na Inglaterra, um ônibus elétrico de dois andares, o double-decker. A empresa pretende investir no Brasil US$ 400 milhões em três unidades industriais no país até 2018. A fábrica de Campinas terá capacidade para produzir entre 500 e mil ônibus por ano.

Por meio de um acordo com a SP-Trans, autarquia responsável pela gestão do transporte público na capital paulista, a BYD iniciou em setembro a primeira etapa de testes de desempenho do modelo K11. Ele foi projetado para circular em corredores exclusivos de ônibus e tem autonomia de 260 quilômetros e capacidade para 120 passageiros. “A BYD já comercializou ônibus e veículos elétricos em mais de 150 cidades em 45 países e estamos percebendo que, além dos ganhos ambientais, os ônibus elétricos estão mostrando que os custos de operação são similares ou menores que o dos veículos convencionais a diesel”, diz Adalberto Maluf, diretor de relações governamentais da BYD. n

Alfabetização para valer humanidades EDUCAÇÃO y

Projeto realizado durante quatro anos em três escolas promove melhoras e detecta falhas do ensino público

os números são oficiais. Segundo os resultados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) 2014, anunciados em setembro pelo Ministério da Educação (MEC), uma em cada cinco crianças do 3º ano do ensino fundamental das escolas públicas só tem capacidade de ler palavras isoladas e 56,7% só conseguem localizar uma informação explícita em um texto longo se ela estiver na primeira linha.

O 3º ano – no qual se encerra o primeiro ciclo do ensino fundamental – deveria ser aquele em que se completa a alfabetização. Como a meta frequentemente não corresponde à realidade, foi criado em 2012 o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), um compromisso dos governos federal, estaduais e municipais para tentar alcançá-la. Dois anos antes, também com o intuito de melhorar essas estatísticas, tornou-se obrigatório o ensino fundamental de nove anos, que acrescentou uma série ao início do processo de alfabetização.

“Criam-se novas políticas, mas não se prevê como vão funcionar”, critica Claudemir Belintane, professor da Faculdade

márcio Ferrari | FOtOs Léo Ramos

Aula de alfabetização na Escola de Aplicação da UsP, uma das três incluídas no projeto sobre o programa para as primeiras séries do ensino fundamental

Brincadeira de senha, com recombinação de sílabas, antes de entrar na sala de aula (abaixo) e as palavras a serem decifradas pelas crianças na lousa

Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Ao todo, 326 crianças foram envolvidas no estudo, do qual participaram alunos de graduação e pós-graduação das três instituições e os próprios professores das escolas receberam bolsas para atuar na pesquisa.

de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Embora os números de inclusão educacional tenham atingido quase a totalidade da população em idade escolar, as deficiências do ensino não permitem comemorações. “Não temos mais uma escola excludente, mas alunos que ficam excluídos dentro da própria sala de aula”, prossegue Belintane. Segundo ele, um só professor em sala de aula quase nunca dá conta da alfabetização de todos os alunos, que chegam à escola com diferentes graus de capacitação para ler e escrever. “Assim, acham um padrão mediano, apoiando os alunos que já têm condições de aprender e deixando de lado os que não têm”, afirma Belintane. No entanto, as diferenças são naturais em qualquer grupo de alunos. “É preciso entender que a heterogeneidade não traz necessariamente alunos problemáticos, mas modos diferentes de entrar no código escrito a partir da cultura de cada um”, diz o pesquisador.

Entre 2011 e 2014, Belintane esteve à frente do projeto “O desafio de ensinar a leitura e a escrita no contexto do ensino fundamental de nove anos”, com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O objetivo do trabalho foi construir uma proposta de alfabetização e leitura para o primeiro ciclo. O projeto se desenvolveu nas Escolas de Aplicação da USP e da Universidade Federal do Pará (UFPA) e numa escola pública em Pau dos Ferros, esta sob responsabilidade de pesquisadores da

Uma avaliação realizada pelos pesquisadores – de 12 a 15 em cada escola – constatou a alfabetização de mais de 90% dos alunos, além de “um nível alto de leitura e produção textual”. Os bons resultados foram confirmados pela ANA da escola da USP. Antes do projeto, as notas dessas escolas pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do MEC eram bem diversas: 7,3 para a paulista, 5,8 para a paraense e 4,9 para a potiguar. O Ideb ainda não fez uma avaliação posterior.

A prática foi simultaneamente de verificação e intervenção, com um escopo ambicioso, que incluiu diagnósticos e avaliações contínuas dos alunos, investigação da formação dos professores e elaboração de uma política de articulação entre as séries e entre os ciclos. “Enquanto nós pesquisávamos, também melhorávamos o ensino de um ano para o outro”, conta Belintane. O primeiro ano, 2011, foi de implantação e organização na 1ª série, enfrentando certa resistência e o período de adaptação dos professores. O pesquisador percebeu, da parte dos professores em geral, boa disposição para receber “uma intervenção muito grande” em suas rotinas de sala de aula. “O ensino fundamental de nove anos estava começando a ser implantado e ninguém sabia muito bem o que fazer”, diz. “Isso nos deu argumento para propor mudanças no programa do ciclo.”

CO n Ta R his TÓR ias

A intervenção deu ênfase à oralidade como elemento introdutório para a alfabetização e ao uso de diversos suportes para ensinar leitura e escrita, inclusive os eletrônicos. A importância da oralidade vem sendo pesquisada e defendida por Belintane, que escreveu o livro Oralidade e alfabetização – Uma nova abordagem da alfabetização e do letramento (Cortez Editora, 2014) baseado em parte em uma pesquisa anterior, feita com apoio da FAPESP em uma escola estadual da zona oeste da cidade de São Paulo. Um novo livro sobre o assunto está programado para 2016, agora com base no banco de dados e nas observações resultantes da pesquisa mais recente. Além de artigos em revistas, o projeto Desafios, como ficou conhecido entre os participantes, originou

até agora quatro teses de doutorado e seis dissertações de mestrado, além de um filme documentário em fase de edição.

As estratégias de uso da oralidade englobaram contação de histórias e jogos como adivinhas, trava-línguas e parlendas. Essas práticas, originadas da tradição popular, fazem parte de uma espécie de memória coletiva, mas costumam passar ao largo das salas de aula. “Para os professores que não estão habituados a usá-las, eu peço que puxem pela memória da própria infância”, conta Belintane. De início, mesmo a contação de histórias deve, no entender do educador, ser feita pelo professor sem um suporte escrito.

“Uma das constatações que eu trouxe de projetos anteriores é que o Brasil é um país oral”, diz Belintane. “Os alunos respondem bem quando trazemos as atividades por via da música, da rima, da métrica ou da contação de histórias, textos que são trazidos na memória. Não se trata de conversa cotidiana, que é fragmentária.” Mesmo as crianças que têm pouca afeição à escola e dão vazão à agitação física na sala de aula costumam gostar de ouvir histórias e respondem a elas com um sossego do corpo. Envolver o grupo num círculo de contação de histórias é também um modo de integrar as crianças que tendem a se isolar.

A ideia de trabalhar com esse tipo de material responde à formação de uma matriz textual que será necessária na escrita e na leitura, por corresponder a narrativas. “Se o aluno não tem narrativas na memória, ele se alfabetiza precariamente”, afirma Belintane. Aos poucos, o professor vai misturando contação e leitura em voz alta, ou então, numa fase mais adiantada, narra a história oralmente até o clímax e entrega a solução da trama por escrito – os que têm dificuldades leem junto com um colega. “O aluno tem que ler textos de grande extensão”, diz Belintane. “As avaliações do governo muitas vezes propõem o texto de uma propaganda, uma tirinha em quadrinhos ou um texto curto. Isso melhora as estatísticas, mas o aluno que lê de forma lenta ainda não é um leitor. Diante de um texto grande ele se perde.”

Belintane é crítico da crença da escola construtivista de que as crianças devem ser expostas a diversos tipos de texto. Segundo ele, nos anos iniciais da escolarização a imaginação das crianças deve ser acionada e satisfeita. Belintane concorda com o filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) quando, ao criticar o pragmatismo na educação, disse que as crianças devem ler coisas “inúteis” – isto é, não necessariamente

Participação nas aulas e aprendizado da escrita: atenção à singularidade e à imaginação dos alunos

relacionadas à realidade imediata com que convivem. É uma postura diferente da defendida pela educadora Magda Becker Soares, professora emérita da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da instituição (Ceale). Para ela, os alunos precisam desde o início serem expostos à função social da escrita. “As crianças se alfabetizam para ler textos que circulam no contexto social e para escrever em eventos em que a escrita é necessária”, diz Magda. “A alfabetização deve basear-se em textos produzidos em situações reais, visando a leitores reais.”

sin Gu L a R idades

Belintane vem observando há tempos o interesse das crianças por mitos e costuma recorrer a antologias de contos populares, de matriz indígena, africana ou europeia, como os compilados por Luís da Câmara Cascudo (1898-1986). “As crianças que entram na nova primeira série têm apenas 6 anos de idade, mas muitos professores trabalham praticamente apenas com giz, lousa e elementos de alfabetização, sem estimular sua imaginação”, diz Belintane. Ele recomenda que os professores dispensem livros didáticos (sobretudo as cartilhas) e produzam ou procurem materiais contextualizados em relação aos diagnósticos sobre os alunos da classe, usando simultaneamente aqueles que têm suporte em

papel e ferramentas contemporâneas, de filmes a tablets e jogos de computador.

Para os envolvidos no projeto coordenado por Belintane, esse esquema tradicional, centrado no chamado professor regente (aquele que comanda e se responsabiliza pelas atividades principais da sala de aula), não consegue manejar a diversidade e as demandas múltiplas da classe. Na Escola de Aplicação da USP, a professora Natalia Bortolaci – que se baseou na experiência como bolsista do projeto para fazer sua dissertação de mestrado em pedagogia, uma proposta de currículo para a nova 1ª série do ensino fundamental – participou e acompanhou de perto a elaboração de procedimentos para cada criança da classe. Durante o projeto, pela presença de mais professores do que os contratados pela escola, as classes puderam ser reduzidas de 30 para 20 alunos, o que já facilita uma atenção personalizada. Em cada sala havia dois professores, um deles para “questões singularizadas”. “Isso deu a possibilidade de observação e intervenção mais pertinentes no caso dos alunos com maior resistência a aprender ou que chegam com menos cultura escolar”, conta Natalia.

O projeto Desafios promoveu diagnósticos com quatro níveis de domínio de leitura e escrita e classificou as crianças. Segundo Natalia, isso permitiu que todos os alunos pudessem ser desafiados a aprender mais, mesmo os que chegam com domínio da leitura e da escrita. Foram promovidas atividades simultâneas sobre um

mesmo tema, mas com graus diferentes de dificuldade. E, uma vez por semana, o “professor de ciclo” convidou os que têm mais dificuldade para atividades fora da sala de aula, com trabalhos a partir da oralidade. Em outros momentos as atividades misturaram os grupos, com a ideia de que os que sabiam mais ajudassem os que sabiam menos. Na Escola de Aplicação da UFPA as experiências foram além, com grupos que reuniram alunos de diferentes séries. O trabalho com quatro perfis de estudantes continuou na instituição mesmo depois do fim do projeto. A ideia de separar alunos por graus de habilidades é vista com cautela por muitos educadores. “Fazer separações traz para dentro da escola os preconceitos que a sociedade dissemina sobre os mais fracos socialmente”, diz Leda Tfouni, professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP.

No trabalho de diagnóstico para a 1ª série, os professores do projeto Desafios elaboraram no início do ano portfólios por aluno, que reúnem registros de atividades realizadas na pré-escola e, quando possível, informações obtidas com os pais. Trabalhos semelhantes são realizados dentro do conceito de “dobradiças” entre as séries e ciclos: no fim e no início do ano alunos das duas séries seguidas se encontram e conversam. O trabalho de conhecimento e diálogo com o aluno é constante. Belintane adotou os conceitos de “escuta” e “transferência” da psicanálise para trabalhar com os alunos em atividades relacionadas à alfabetização. Jogos e exercícios são utilizados para tomar um contato mais profundo com as crianças. “O aluno com dificuldades é muito sensível e é difícil lidar objetivamente com ele; mas é possível ter alguém dentro da classe para

cuidar disso, sem ter de recorrer a um psicopedagogo externo ao ambiente escolar”, diz Belintane.

FOR ma ÇÃO

A escuta a esse aluno empresta a ideia de “atenção flutuante” de Sigmund Freud (1856-1939), segundo a qual é nos detalhes aparentemente sem importância da fala que uma pessoa se revela mais profundamente. Espera-se com isso encontrar o “ponto de giro”, a partir do qual o aluno sai do papel de suposta incapacidade de aprender. Um exemplo de transferência é o de um aluno muito resistente ao aprendizado e com uma história pessoal de abandono que, por meio de atividades de contação de histórias promovidas por uma das pesquisadoras do projeto Desafios, identificou-se com o personagem Pequeno Polegar (um andarilho solitário), e esse foi seu ponto de giro.

Desafiando a prática das teorias construtivista e sociointeracionista – que pregam a exposição do aluno, desde o início do processo de alfabetização, a textos completos de diversos gêneros –, Belintane acredita na utilização dos elementos constitutivos das palavras – sílabas e letras –em combinações e recombinações. Na Escola de Aplicação da USP, o professor, na entrada da sala de aula, brinca de “senha” com os alunos. Cada um pega, sem ver, um cartão com duas palavras (por exemplo: chuchu e vagem) e busca formar outra com uma sílaba de cada (chuva). Em outra atividade, uma lista na lousa mostra palavras estranhas que os alunos, acrescentando e tirando letras, transformam em termos conhecidos. As deficiências do ensino da alfabetização percebidas durante o projeto Desafios e nas pesquisas anteriores de Belintane levaram, inevitavelmente, a uma avaliação da formação do professor. Para ele, quem alfabetiza precisa ser um “professor leitor”. “A formação dos professores precisa sair do envolvimento mais ideológico, marcado pela adesão a correntes, e debruçar-se mais sobre as demandas reais do ensino brasileiro, sobretudo as da própria escola em que se dá aula”, diz Belintane. “Falta conhecimento das técnicas de alfabetização e dos recursos necessários ao domínio do alfabeto.” Leda Tfouni concorda: “De que adianta um professor com a cabeça cheia de teorias famosas, sem saber direito o que fazer com isso?”. Belintane acredita que o projeto Desafios possibilitou que o ensino nos cursos de Pedagogia integrantes fosse repensado e melhorado nas três universidades envolvidas. n

Cidades alteradas

Modelo estatístico indica que construção de usinas hidrelétricas não traz benefícios locais

Associada desde sempre à ideia de desenvolvimento do país, a construção de usinas hidrelétricas também vem sendo defendida como fator de progresso econômico local, isto é, nas regiões do entorno do reservatório. Essa ideia está presente no discurso do governo federal, expresso no texto dos Programas de Aceleração do Crescimento (PAC) 1 e 2, de 2007 e 2010, e repetido quando são lançados os licenciamentos de hidrelétricas como a de Belo Monte, atualmente em construção no Pará. Verificar, em números, a validade dessa afirmação é o objetivo do projeto de pesquisa “Performances de desenvolvimento dos municípios brasileiros afetados por usinas hidrelétricas”, encabeçado por Evandro Mateus Moretto, coordenador do Programa de Pós-graduação em Ciência Ambiental (Procam) do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP) e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH-USP).

Até agora os estudos de impacto das hidrelétricas tratavam das consequências ambientais. Faltavam ferramentas para testar a modificação dos indicadores de

desenvolvimento humano concomitante à construção e operação das usinas, incluindo os possíveis efeitos da compensação financeira recebida pelos municípios que tiveram áreas alagadas. O modelo adotado pelo projeto do pesquisador do IEE, que se encerra em fevereiro de 2016, envolve 159 usinas que foram inauguradas até 2010 com capacidade instalada igual ou superior a 20 mW, constituindo um universo de 647 municípios alagados e 1.154 vizinhos não afetados.

Para realizar as análises, foram utilizadas as 256 variáveis utilizadas pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), disponíveis para os anos de 1990, 2000 e 2010, para a produção do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que inclui as dimensões de riqueza, longevidade e escolaridade. As variáveis – sistematizadas pelo PNUD a partir de mensurações oficiais, como do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) – foram utilizadas para comparar os grupos de municípios alagados e seus vizinhos, com o objetivo de verificar se o desenvolvimento nos períodos de análise dentro

da hidrelétrica de

Obras
Aimorés, em Itueta (MG), no ano de 2004: dados não indicam benefícios vindos do aproveitamento da compensação financeira recebida

de cada uma das regiões hidrelétricas é igual ou diferente entre os dois grupos de municípios.

No conjunto das 159 usinas hidrelétricas, as análises mostram que há uma forte tendência de piora no desempenho do IDH durante o período de instalação das usinas hidrelétricas, quando ocorrem importantes impactos decorrentes da instalação e funcionamento dos canteiros de obras. “De forma geral, os indicadores melhoram em ambos os grupos de municípios, mas crescem menos no grupo mais próximo aos canteiros de obras, que serão os municípios alagados ao final da implantação”, constata o pesquisador. No caso do complexo hídrico de Pelotas-Uruguai, na divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina, por exemplo, foi possível identificar que os municípios que abrigam as casas de força das quatro hidrelétricas destacaram-se em alguns indicadores, como foi o caso do maior crescimento do PIB em relação aos outros municípios. Isto, provavelmente, está associado à própria dinâmica econômica que a construção da usina imprime na localidade. Nesses municípios, as oportunidades de trabalho crescem, mas só durante a construção, que emprega várias centenas de trabalhadores, e não depois que a hidrelétrica entra em operação, o que envolve não mais do que 20 pessoas em alguns casos.

tr A b A lho d E CA mpo

Numa análise específica do impacto das compensações financeiras não foi detectada correlação estatística entre os recursos recebidos pelos municípios alagados e a melhora de cada uma das 256 variáveis do IDH, o que é um forte indício de que elas não estão sendo devidamente aproveitadas pelos governos locais para promover suas agendas de desenvolvimento.

zada, mas já em andamento, realize um estudo de caso “à exaustão” nas regiões de três hidrelétricas em operação e uma a construir em Rondônia, além das bacias do rio Teles Pires, no Mato Grosso, e do rio Tapajós, no Pará.

Algumas observações in loco foram feitas pelo gestor ambiental Daniel Rondinelli Roquetti em seu mestrado sob orientação de Moretto, que se dedicou a verificar impactos socioecológicos da construção da usina de Barra Grande, que faz parte do complexo estudado por Carina Sernaglia Gomes entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Ele percebeu que as obras da usina provocaram, nos municípios da região, “uma transformação social associada a mercados ilegais”, além do aumento da criminalidade e da incidência de doenças sexualmente transmissíveis. Efeitos ainda piores foram verificados por Simone Athayde, do Centro de Estudos Latino-americanos da Universidade da Flórida (EUA), entre os povos indígenas das regiões afetadas por hidrelétricas no Xingu, incluindo Belo Monte. “Os impactos negativos afetam até o sistema de conhecimento do ambiente por esses povos e não admitem compensação; são incalculáveis sob o ponto de vista monetário”, diz a pesquisadora.

Simone e Moretto não se opõem às hidrelétricas como opção principal dos governos brasileiros para a geração de energia. “Não há dúvida de que elas contribuem para o desenvolvimento da economia do país, mas nada prova que favoreçam as regiões em que são construídas”, diz Moretto. Ele supõe que o discurso oficial nesse sentido queira resgatar uma associação histórica que sempre houve entre barragens e desenvolvimento das sociedades locais. “Mas o benefício das hidrelétricas não é o mesmo de outros tipos de barragens, dedicadas a prover irrigação e abastecimento público da própria localidade, por exemplo; no Brasil, grandes usinas hidrelétricas não são feitas para gerar energia elétrica para a região onde estão localizadas.” n márcio Ferrari

“Já é possível afirmar que as usinas hidrelétricas não induzem aquele desenvolvimento local preconizado pelos documentos oficiais de planejamento, mas ainda não podemos estabelecer precisamente quais são as relações de causa e consequência entre as usinas e cada uma das variáveis analisadas”, afirma Moretto. Para isso, é necessário trabalho de campo. A intenção é que, a partir de abril, uma parceria entre a USP e a Universidade da Flórida, envolvendo cerca de 15 pesquisadores, ainda não formaliprojeto

Performances de desenvolvimento dos municípios brasileiros afetados por usinas hidrelétricas (nº 2013/14111-9); Modalidade Auxílio à pesquisa – regular; Pesquisador responsável Evandro Mateus Moretto (IEE-USp); Investimento r$ 35.466,16.

Cristianismo negociado

Entre os séculos XVII e XVIII, jesuítas de missões da Amazônia espanhola tiveram que lidar com versões indígenas do catolicismo

Aevangelização dos índios da Amazônia pelos europeus não se reduziu a uma absorção passiva do pensamento ocidental. As noções cristãs tiveram de ser traduzidas para as línguas ameríndias e adquiriram significados que os missionários não podiam controlar – mesmo porque muitas funções religiosas eram na verdade exercidas pelos nativos, dada a escassez de padres. A conversão não foi propriamente uma imposição unilateral e sim um “diálogo intercultural”, no qual os indígenas adaptaram o cristianismo a suas matrizes de pensamento. A amplitude desse intercâmbio intelectual vem sendo estudada pelo historiador Francismar Alex Lopes de Carvalho em seu estágio de pós­doutorado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH­USP) desde 2013. A pesquisa abrange as missões de Maynas e Mojos, criadas nos atuais Equador e Bolívia por jesuítas a serviço da Espanha. O material ana lisado pelo pesquisador, em grande parte inédito, foi localizado em arquivos

e bibliotecas na Espanha, na Itália, em Portugal e nos Estados Unidos.

A primeira etapa do trabalho de Carvalho foi concluída e resultou na publicação, este ano, de um artigo na revista Varia Historia, editada pela Universidade Federal de Minas Gerais, e de um segundo aceito na revista Anuario de Estudios Americanos, da Escuela de Estudios Hispano­Americanos de Sevilha (Espanha). De acordo com o pesquisador, as missões de Mojos foram estabelecidas em 1682 e prosperaram devido à produção de cacau, sebo, cera, açúcar e tecidos. Reuniam 24.914 índios batizados em 1713. Já as de Maynas, criadas em 1638, não tiveram a mesma sorte. Atingidas por sucessivas epidemias, não conseguiam sobreviver sem subvenções da administração colonial. Produziam grãos, cacau e salsaparrilha, mas sempre em pequenas quantidades. Em 1719 somavam apenas 7.966 almas.

Carvalho interessou­se por esse diálogo intercultural entre europeus e indígenas ao elaborar sua tese Lealdades negociadas: povos indígenas e a expansão dos impérios

ibéricos nas regiões centrais da América do Sul (segunda metade do século XVIII), defendida em 2012 no Departamento de História da FFLCH e publicada como livro pela editora Alameda em 2014. Nesse trabalho, ele observa que a conquista da Amazônia por portugueses e espanhóis se baseou numa política de cooptação dos líderes tribais, por meio da qual os caciques barganhavam vantagens materiais em troca do apoio aos colonizadores. Finda a tese, ele passou a estudar de que maneira os indígenas da região se apropriaram do catolicismo – e constatou que as negociações entre europeus e nativos também se estendiam à esfera ideológica. Os índios assimilavam os conceitos cristãos, mas conferiam significados estranhos às noções originais, o que levou à emergência de um cristianismo híbrido.

Essa “barganha espiritual” começava nas “entradas missionárias” – prática que provavelmente remonta ao padre Manoel da Nóbrega em São Paulo no século XVI: ladeados por soldados, os jesuítas “convidavam” os índios a migrar para suas

Mauricio Puls
JOHN CARTER BROWN LIBRARY
Gravura europeia do século XVI representa o demônio escravizando indígenas do Novo Mundo: ecos da estratégia de catequização adotada pelos jesuítas

povoações; se eles não quisessem, “estariam sujeitos a uma ‘guerra justa’ movida pela tropa”, conta Carvalho. O objetivo dessas entradas era obrigar os nativos a aceitar “a fé pelo medo”, como esclareceu o cientista político José Eisenberg no livro As missões jesuíticas e o pensamento político moderno (UFMG, 2000).

omesmo procedimento era aplicado na Amazônia. Contudo, como as fronteiras ali ainda eram fluidas, portugueses e espanhóis precisavam disputar a lealdade dos índios. O convencimento, portanto, tinha de ir além da mera violência. Pedro Puntoni, professor da FFLCH­USP e orientador da tese de Carvalho, observa que “o contexto da fronteira é decisivo” para explicar a negociação com os líderes tribais, que resultou na concessão de benefícios econômicos e certa autonomia administrativa às etnias.

Como eram poucos, os missionários repassavam aos índios diversas atribuições, como as tarefas de catequistas, sa­

cristãos, músicos e fiscais da doutrina. A delegação dessas funções, quase todas de caráter espiritual, restringia muito o poder dos jesuítas para impor suas ideias. “Nas missões de Maynas”, explica Carvalho, “os missionários tiveram de lidar com interpretações alternativas que os índios faziam da doutrina cristã, as quais os padres não podiam evitar de todo, porque dependiam dos conceitos disponíveis nas línguas locais e de auxiliares nativos para fazer avançar a conversão”.

Essa resistência indígena ao pensamento europeu se manifestava aos missionários como obra do demônio. Daí a profusão dessa figura nos relatos dos jesuítas. Mas, como escreve o autor em seu artigo publicado na Varia Historia, tais menções não constituíam apenas uma rejeição aos indígenas e sim “uma tentativa de estabelecer pontes analógicas por meio das quais o diálogo intercultural e a negociação do universo do sagrado podiam fluir”.

Por que a figura do demônio adquiriu tal centralidade no diálogo intercultu­

ral? Segundo Carvalho, tudo começou porque muitos religiosos partilhavam da convicção de que, após a cristianização da Europa, “o demônio e sua horda infernal haviam se retirado para a América”. O Novo Mundo estava sob “a tirania de Satanás” – daí a obsessão em identificar traços demoníacos nas crenças exóticas.

“É nesse cenário de ‘demonização’ das deidades indígenas que os padres operaram uma metamorfose nas entidades espirituais que causavam danos na figura cristã do diabo”, diz Carvalho. Nessa metamorfose, porém, o conceito cristão experimentou mudanças relevantes. Os índios incorporaram o demônio cristão como uma divindade a mais em seu panteão ou simplesmente passaram a chamar de diabo certos espíritos malignos já conhecidos.

Os religiosos nem sempre podiam evitar deslocamentos no significado do termo “demônio” devido à estratégia linguística que eles adotavam. Para enaltecer as noções cristãs, diz Carvalho, “os jesuítas preferiam manter em espanhol os termos positivos e centrais para a Igreja, como Deus, sacramentos etc., e lançar mão das palavras nativas para descrever o negativo”. Tamanha sutileza, porém, acarretava consequências inesperadas, pois os missionários não podiam controlar os significados atribuídos às antigas entidades indígenas, nem tampouco impedir que os nativos usassem esses termos negativos para denotar os próprios espanhóis.

A tradução dos conceitos europeus para o pensamento tribal enfrentava outras limitações. Se os nativos aceitaram bem a ideia de demônio, o mesmo não se pode dizer da ideia de inferno. “O conceito parecia absurdo aos indígenas”, explica o pesquisador. “Como dar crédito à existência do inferno, um lugar onde seus antepassados, que não haviam conhecido o cristianismo, padeceriam eternamente juntos com os mais prestigiosos guerreiros e xamãs?”

As dificuldades dos jesuítas não cessavam aí: as tentativas de eliminar o papel dos xamãs como intermediários com o mundo espiritual também fracassaram. “Os missionários não podiam destruir completamente a crença comum no poder dos xamãs porque eles mesmos eram aceitos nas comunidades como xamãs mais poderosos, generosos e efetivos”, assinala Carvalho. “O missionário era visto como

Página de rosto de um léxico da língua dos índios tucanos escrito por um jesuíta (ao lado) e vista do século XVIII de uma aldeia da missão de Maynas

alguém que possuía a inusual capacidade de manipular forças espirituais. Por essa razão, era um provedor tanto de benefícios como de pragas e maldições.”

em outras palavras: os padres eram respeitados pelos indígenas, em parte porque assumiram funções como a distribuição de bens e a intermediação com o mundo sobrenatural, que eram da competência dos xamãs. De acordo com Carvalho, os jesuítas não podiam, portanto, investir contra alguns dos esquemas de pensamento nativos que asseguravam a sua aceitação. Empenharam­se, assim, em relegar os feiticeiros indígenas ao ostracismo, salvo em alguns casos em que, por não se oporem ao Evangelho, podiam ser incorporados como auxiliares.

Nem sempre, contudo, os missionários eram bem­ sucedidos em negociar sua inserção nas comunidades, e não foram

raros os casos de sublevação e martírio de padres. Na dissertação A expressão da vontade: relações interétnicas e rebelião indígena nas missões de Maynas (16851698), defendida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC­ SP) em 2009, a atual doutoranda Roberta Fernandes dos Santos mostrou as dificuldades do padre Enrique Richter em estabelecer uma missão às margens do rio Ucayali. “Ao que parece”, sugere Carvalho a respeito desse episódio, “o padre teria rompido a negociação inicial que facultou sua aceitação pelos índios, ao não suprir os itens prometidos, ausentar­se por longos períodos e impor uma disciplina que não foi tolerada”. A rebelião culminou com o assassinato do jesuíta em 1695.

Mas é precisamente nessas situações de conflito que a “demonização” das crenças indígenas mostrava sua face positiva. No artigo “Contato, guerra e negociação: redução e cristianização de Maynas e Jeberos pelos jesuítas na Amazônia no século XVII”, publicado na Revista de História Unisinos em 2007, Fernando Torres ­ Londoño, professor do Departamento de História da PUC­ SP, observa que a presença do demônio acabava por eximir os indígenas de qual­

quer “responsabilidade quando emergia o conflito”.

Na visão dos jesuítas, explica Carvalho, como as rebeliões podiam ser creditadas a Satanás, abria­se um canal de reconciliação com os revoltosos. “A rigor”, conclui o pesquisador, “atribuir ao demônio a responsabilidade pelos martírios e destruição das missões tornava os índios tão humanos quanto os europeus”. n

Projeto

O governo dos índios: instituições municipais ibéricas e identidades indígenas nas missões de Maynas e Mojos (segunda metade do século XVIII) (2012/06580-6); Modalidade Bolsa no País – Pós-doutorado; Pesquisador responsável Pedro Luís Puntoni (FFLCH-USP); Bolsista Francismar Alex Lopes de Carvalho (FFLCH-USP); Investimento R$ 160.172,31.

Artigos científicos

C ARVALHO, F. A. L. de Imagens do demônio nas missões jesuíticas da Amazônia espanhola. Varia Historia. v. 31, n. 57, p. 1-45. set.-dez. 2015.

C ARVALHO, F. A. L. de Estrategias de conversión y modos indígenas de apropiación del cristianismo en las misiones jesuíticas de Maynas, 1638-1767. Anuario de Estudios Americanos. No prelo.

Livro

C ARVALHO, F. A. L. de Lealdades negociadas: povos indígenas e a expansão dos impérios ibéricos nas regiões centrais da América do Sul (segunda metade do século XVIII). São Paulo: Alameda, 2014. 596 p.

Trigo e milho bem moídos

Moinhos d’água expressam os modos de produção desde o século XVII

Carlos Fioravanti

Instalados no Brasil pelos colonizadores europeus, os moinhos de pedra movidos a água eram comuns no centro-sul do país. O registro mais antigo sugere que os primeiros moinhos foram construídos entre 1614 e 1616 em São Paulo.

Os maiores eram utilizados para moer trigo, enquanto os menores, espalhados também por estados vizinhos a partir do século XVIII, serviam para triturar milho, usado para alimentação de pessoas e de animais domésticos. Com a eletricidade e a industrialização de alimentos, perderam utilidade. A maioria desapareceu, outros viraram ruínas, como em um sítio em Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo, mas ainda há dezenas em funcionamento em sítios e fazendas, em geral com uso secundário ou turístico.

“Hoje os moinhos de pedra são quase um fóssil tecnológico”, diz o historiador Franscisco Andrade, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Representam um elo com uma tradição técnica iniciada na Europa há mais de dois milênios.” 1

Moinho vertical de Gramado, RS, construído por imigrantes italianos

Andrade encontrou três moinhos d’água em funcionamento nos municípios mineiros de São Gonçalo do Rio das Pedras e Ouro Branco. Em Boa Esperança ele conheceu o artesão Gilson José Guimarães, que fabricava as peças mais importantes do moinho, os discos de pedra, a partir de blocos de granito, e explicou a relação entre os sulcos das pedras e seu uso para moer milho.

Em São Paulo, Andrade encontrou outros moinhos inteiros, embora a maioria estivesse inativa, em antigas fazendas de café do Vale do Paraíba e da região de Itu.

Em Silveiras ele conheceu Josias Mendes Florêncio, um raro operador de moinho (ou moleiro). Mineiro nascido em 1931, ex-tropeiro e fabricante de balaios, Florêncio explicou como funcionava o moinho, com descrições que muitas vezes convergiam com as de um tratado escrito pelo engenheiro espanhol Pedro Juan de Lastanosa entre 1564 e 1575. O moinho de Silveiras foi construído em 1916 e permaneceu inativo durante décadas, até Florêncio consertá-lo, nos

anos 1980, e começar a usá-lo para moer milho e fazer fubá para ele e para os vizinhos. Nos estados de Goiás, Minas, Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo, predominavam os moinhos de roda horizontal, com no máximo 4 metros de altura. A água dos rios bate em uma roda horizontal de madeira, que aciona um eixo vertical, ao qual está encaixado um dos discos de pedra. A pedra gira sobre outro disco de pedra, fixo, triturando os grãos colocados entre eles. No sul, os mais comuns são os moinhos de roda vertical, chamados de azenha, usados para moer trigo. Em um artigo publicado em janeiro na revista Anais do Museu Paulista, Andrade observou que os moinhos no Brasil eram de menor porte e mais simples que os construídos em Portugal e na Espanha, embora mais numerosos, por causa da abundância de rios com quedas-d’água.

e reconstituição do moinho do Sítio do Morro, em Santana do parnaíba, Sp

“Os moinhos de água agregam o Brasil colonial às mais profundas tradições civilizatórias e, dada sua importância, eram considerados um investimento a ser sempre controlado pela Coroa e seus governantes”, comenta o arquiteto e professor da Unicamp Marcos Tognon, orientador do trabalho de Andrade. Ele lamenta o descuido com os discos de pedras, também chamados de mó. “As pedras de mó, geralmente em granito rosa ou cinza, são encontradas em uma situação de largo desleixo, como apoio de vasos, plano de mesas e até mesmo como bancos despretensiosos sob árvores frondosas”, diz ele. “Quem se senta ou se apoia sobre elas não sabe que essas peças possuem papel central na ocupação do interior brasileiro colonial.” n

Ruínas
azenha em Ibitinga, Sp, em foto de Guilherme Gaensly, 1906

Um modo de dançar

Grupo da USP traduz os princípios do Tanztheater alemão

Ao criar o Laboratório de Pesquisa e Estudos em Tanz Theatralidades (Lapett), em 2011, dentro do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (ECA-USP), a professora, pesquisadora e coreógrafa Sayonara Pereira sabia que um dos primeiros desafios seria mostrar as dimensões da expressão Tanztheater. Mais do que “dança-teatro”, na tradução comum no Brasil, conhecida particularmente pelas obras da coreógrafa alemã Pina Bausch (1940-2009), o termo, para ela, deve ser visto hoje como um modo de pensar e fazer dança a partir dos ensinamentos dos pioneiros desse movimento, mas levando em consideração as contribuições de quem cria e de quem interpreta.

Acredita-se que o coreógrafo e pedagogo alemão Kurt Jooss (1901-1979) tenha sido o primeiro a empregar o conceito, em 1935. É dele a coreografia A mesa verde, de 1932, considerada a manifestação inicial do Tanztheater, na qual trata das agruras da guerra, inspirando-se em danças macabras alemãs do século XV. Seu tema e sua construção, com diversos esquetes, fugiam dos recursos comuns ao balé clássico e fizeram dela um marco para a época. Ainda hoje, companhias pelo mundo mantêm a obra em repertório.

“A característica do Tanztheater foi transcender a técnica do balé clássico, utilizando-se da dramaticidade do teatro”, diz Sayonara. Uma seguidora do Tanztheater, a bailarina e coreógrafa alemã Susanne Linke, foi quem indicou Sayonara para

a Folkwang Hochschule de Essen (hoje Folkwang Universität der Künste), na Alemanha, dirigida à época por Pina Bausch. Isso aconteceu depois de vê-la num teste em 1984, quando Sayonara começava a carreira em Porto Alegre, sua cidade natal. “Desenvolvi em Essen o início da minha caligrafia coreográfica e o esboço da pedagogia de dança que eu viria a elaborar”, conta a professora.

Formado por alunos de graduação e pós-graduação do curso de Artes Cênicas da ECA e de universidades parceiras, o Lapett conta hoje com seis participantes. Sem obrigatoriamente terem conhecimento prévio em dança, os atores-dançarinos são selecionados anualmente, no início do primeiro semestre, por meio de uma aula-teste.

de

Os encontros do Lapett acontecem duas vezes por semana. Têm pouco mais de três horas de duração e combinam treinamento corporal, exercícios para desenvolver as qualidades expressivas dos movimentos e aulas teóricas sobre a história do Tanztheater e suas coreografias. As matrizes com que Sayonara trabalha podem ser gestos do cotidiano (andar, comer, escovar os dentes) ou a exploração de novos planos espaciais.

“Não existe uma aula que ensine técnicas do Tanztheater”, afirma a professora, que é também autora de um livro sobre as relações do grupo alemão com seu trabalho, Rastros do Tanztheater no processo criativo Es-boço (editora Annablume).

“É um modo de condução do trabalho, preocupado com o intérprete, seus sentimentos, suas

(também abaixo), e cena de Unterwegs (acima), resultados do diálogo entre o Lapett e o Tanztheater

sensações e suas memórias. Kurt Jooss sugeria que o intérprete já traz em seu corpo o material para ser lapidado.”

Sayonara procura integrar pesquisa e prática no Lapett. “Ela sempre deixava clara a vontade de conhecer o que cada um tinha para mostrar, dizer e defender por meio do movimento”, conta Rafael Sertori, hoje mestrando em Artes Cênicas na ECA com bolsa da FAPESP, que participou do Lapett entre 2011 e 2013 e integrou o elenco de Momento(s) de silêncio (2012), primeiro espetáculo do grupo. “Conforme os encontros semanais do grupo iam acontecendo, ela teve a sensibilidade de perceber o surgimento de temas comuns em nossas conversas, nos textos e nas imagens que trazíamos.”

“O trabalho sempre começa tentando acionar a memória do corpo dos intérpretes, as sensações e os sentimentos”, diz Sayonara. Em Vãos, que estreou em agosto, a coreógrafa recorreu a fotos. Cada intérprete pesquisou e depois fotografou espaços ou situações que identificou com a sugestão: o que seriam os vãos da cidade, quem são os habitantes desses espaços? O primeiro impulso é sempre a pesquisa individual dos participantes. A partir disso, Sayonara sugere gestos ou sequências para a construção a ser elaborada.

O Lapett também deu impulso para o segundo pós-doutorado de Sayonara. Com bolsa da FAPESP, a partir de dezembro ela estará na Freie Universität Berlin para desenvolver o projeto “Arquivos corporais dos intérpretes: memórias levadas para a cena” “O grupo é sempre matéria de inspiração”, diz. “Tento agora pensar o meu ‘fazer’, conceituar de forma acadêmica os trabalhos que realizei pensando prioritariamente na prática.” n

A bailarina Bárbara Lins, na coreografia Momento(s)
silêncio

Para compreender fenômenos complexos

João Baptista Borges

Pereira e Renato da Silva Queiroz (organizadores)

Edusp

280 páginas | R$ 52,00

Os movimentos messiânicos e milenaristas ocorridos no Brasil em meados dos séculos XIX e XX são tão diversos em suas configurações e situações histórico-sociais que, por vezes, os conceitos analíticos são insuficientes para classificá-los. Não é para menos: a realidade tal como ela é, de fato, não pode ser apreendida em sua totalidade, apenas problematizada conceitualmente. É nesse sentido que o conjunto de artigos que compõe a coletânea Messianismo e milenarismo no Brasil – organizada pelos antropólogos João Baptista Borges Pereira e Renato da Silva Queiroz – pretende contribuir para um tema já clássico. Publicada originalmente numa edição especial da Revista USP (no 82, de 2009), a coletânea conta com 11 artigos escritos por especialistas, sendo um inédito.

Apesar da diversidade das abordagens, é possível apontar um ponto de convergência entre os artigos: trata-se de demonstrar que os diferentes movimentos sertanejos e suas utopias escatológicas tendiam a ser interpretados por seus observadores contemporâneos (e ainda hoje) como irracionalidade ou obstáculo aos ideais modernos (a República, a ciência etc.). Além disso, na maioria dos casos, as revoltas sertanejas tiveram fins trágicos. No caso de Canudos, como bem retrata Walnice Galvão, uma série de ambiguidades marcou a leitura desse movimento, começando pela cobertura jornalística (e literária) do próprio Euclides da Cunha. Sua obra Os sertões pode ser tomada como exemplo: ora denuncia os exageros da civilização em relação aos sertanejos, ora simpatiza com aqueles a quem descreve como “fanáticos”.

Além disso, há por parte dos autores um esforço elogiável em não tomar um tema clássico como esgotado. A propósito, Lísias Negrão faz um excelente inventário bibliográfico do estado atual das pesquisas, privilegiando três movimentos específicos: o de Juazeiro, Canudos e Contestado. Com exceção do artigo de Rodrigo de Sousa que abre a coletânea e cujo objetivo é traçar um quadro histórico do messianismo judaico primitivo (e seus desdobramentos), os demais textos fazem uma releitura dos principais estudos acerca dos movimentos messiânicos no Brasil. Marcio de Godoy aponta para a apropriação dos ideais

bíblicos por parte dos portugueses e as trovas proféticas de Gonçalo Bandarra em momentos de crise da corte que permitiram a construção mítica de dom Sebastião, cuja figura faria ecos também no Brasil Colônia. Por sua vez, Renato Queiroz analisa o episódio que ficou conhecido como “a aparição do demônio de Catulé”, protagonizado por membros da Igreja Adventista da Promessa em Minas Gerais, em 1955.

Outro eixo analítico que coloca em nova perspectiva os estudos dos movimentos messiânicos são os referenciais teóricos da psicanálise tal como articulados por Antonio Máspoli na análise do conflito do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto (movimento ocorrido no estado do Ceará entre 1894 e 1937) e por Heloisa Módolo, que investiga o aspecto psicológico dos “delírios religiosos” (o caso de Jacobina e seus liderados, os Mucker). Apesar dos “riscos” de tal abordagem, a proposta rende reflexões interessantes.

Por fim, do ponto de vista da construção das memórias em torno de fenômenos fixados num passado histórico, são interessantes os artigos de Celso Menezes e de Julio Cesar Melatti. Nessa direção, o artigo inédito de Gladson da Cunha trata de explorar um movimento messiânico que ficou conhecido como Estado União de Jeová. Cabe ainda mencionar a reconstituição histórica que Cristina Pompa faz do “movimento de Pau de Colher” a partir de seus protagonistas, argumentando que o movimento ressignificou os símbolos de devoção do catolicismo sertanejo: o festejo de santo, a romaria e a procissão-penitência. Em todos esses casos, mitos e ritos se entrelaçam com a história.

O livro reacende, pois, um debate clássico e articula diferentes elementos analíticos: tão diversos quanto o objeto em questão são também as abordagens e os referenciais teóricos cujo quadro interdisciplinar é sempre bem-vindo para a compreensão de um fenômeno complexo e multifacetado. Sua leitura (não apenas obrigatória, mas também agradável) é indispensável para especialistas e interessados.

Ricardo Bitun é coordenador do curso de pós-graduação do Programa de Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana

Messianismo e milenarismo no Brasil
Mackenzie.

A produção indígena de conceitos

Oscar Calavia sáez

Cosac Naify / n – 1 Edições

320 páginas | R$ 45,00

Metafísicas canibais é um volume denso cuja leitura exige familiaridade com as duas disciplinas que ele cruza: a antropologia e a filosofia. Mas nele se destaca uma questão prévia, que traz à tona um interlocutor prévio: o que pode a filosofia fazer com o pensamento do outro, ou seja, desses povos outrora chamados “selvagens”, dos quais a antropologia nos dá notícia? Por muito tempo a resposta foi: nada. No pensamento dos outros nada podia se detectar além de erro; ou, no melhor dos casos, noções rudimentares cuja versão desenvolvida nos pertence. Mais tarde, o tom mudou: reconheceram-se formas diferentes de uma racionalidade humana comum, e a paleopsiquiatria ou a paleoecologia tornaram-se etnopsicologia e etnoecologia, aptas para ser incluídas dentro de uma razão ampliada, que, no entanto, continuava sendo a nossa. O autor Eduardo Viveiros de Castro denuncia uma inclinação narcisista da nossa cultura, que o pensamento pós-colonial, longe de interromper, tem levado ao seu máximo vigor: a todo pensamento “outro” cabe ser uma versão precária ou uma projeção do pensamento do Ocidente.

Sem tal narcisismo, seria possível reconhecer que os “outros” trazem a esse pensamento elementos que não estão na sua tradição, ou que só aparecem nela quando as ideias dos outros os ativam. O autor postula que “todas as teorias antropológicas não triviais são versões das práticas de conhecimento indígenas”. O pensamento do outro nos fornece conceitos com os quais é possível pensar.

O canibalismo pode ser um bom exemplo, ou mesmo um modelo, desses conceitos. É uma tese provocativa, porque nos nossos dicionários o canibalismo não passa de um modo bárbaro de alimentação, que reduz um semelhante a comida. Bem outra era a concepção dos Tupinambá, os “canibais” por excelência: matar o inimigo não era para eles assimilá-lo, mas assumir o seu nome, tornar-se o inimigo, tornar-se outro. A prática canibal acontecia dentro de uma filosofia do devir; e filosofias do devir já houve muitas, mas essa, adaptando uma expressão de Tim Ingold citada no livro, é uma filosofia do devir com seus sujeitos (e os hábitos desses sujeitos) dentro. Em contraste com a tradição do Velho Mundo que pensa mediante similitudes e generalizações, e cujas

metáforas estão tomadas da consanguinidade (da paternidade como modelo da produção à fraternidade como modelo do social), a dos “selvagens” toma como paradigma o outro (um inimigo) e a “alteração”. O resultado é uma versão perspectivista e desunificada disso que nós chamamos “a grande cadeia do ser”.

Uma metafísica canibal é uma metafísica que deixa de lado as constantes e as invariantes e foca a diferença e a produção da diferença. As sínteses que nela interessam são as que criam e multiplicam: sínteses disjuntivas – um termo que, como muitas outras inspirações do livro, procede da filosofia de Gilles Deleuze, não em vão eivada de leituras etnológicas.

O objetivo do livro não é definir uma etnofilosofia com sua área demarcada dentro de um mapa multicultural do pensamento. Há, de fato, muitas afinidades entre essas ideias e correntes da ciência atual que têm deixado de lado a taxonomia e a busca de teorias unificadas para explorar uma proliferação de relações horizontais. Veja-se, por exemplo, a mudança de ênfase da semântica para a pragmática, do combinatório para o fractal ou diferencial. Talvez não haja melhor ilustração dessa afinidade do que as descobertas recentes a respeito da troca de informação genética entre microorganismos: uma troca, ou uma captura à margem da reprodução, que altera os seus protagonistas e revela uma agência inesperada em níveis do ser muito longe do humano – quem sabe o velho animismo de volta, agora pela porta da biologia. Falar de multiplicidade e horizontalidade e recusar totalidades e hierarquias leva o argumento para a política, pois a ordem hegemônica está baseada numa ontologia unitária, que define objetivos comuns, necessidades universais. Metafísicas canibais reivindica aquele Manifesto antropofágico da vanguarda de 22, designando para a antropologia uma tarefa de “descolonização permanente do pensamento”: afirmar perspectivas outras – múltiplas, portanto – contra essas figuras do Todo expressas nas ideologias totalitárias, mas de um modo quiçá mais efetivo no credo global.

Metafísicas canibais
Eduardo Viveiros de Castro
Oscar Calavia sáez é professor adjunto do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisador do CNPq.

parcerias

talentos

verdes

Três brasileiros estão entre os melhores em premiação na alemanha relacionada ao desenvolvimento sustentável

O desenvolvimento sustentável e a internacionalização acadêmica são dois temas atuais que, reunidos em um prêmio de âmbito mundial, podem ser muito positivos para a carreira dos ganhadores. Foi o que aconteceu com três brasileiros premiados no Green Talents Award, realizado pelo Ministério Federal da Educação e Pesquisa da Alemanha, por seus projetos de pesquisa nas áreas de hidrologia e ciência do solo, energia renovável e agropecuária. Paulo Tarso Sanches de Oliveira, que faz estágio de pós-doutorado na Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP), Larissa Marchiori Pacheco, mestranda na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da USP (FEA-RP), e Paula de Carvalho Machado Araujo, mestranda na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), ficaram entre os 27 escolhidos de um total de 574 inscritos de 91 países.

Os Green Talents ganham duas semanas de visitas e interação com pesquisadores

em universidades e instituições alemãs como o Fraunhofer Fokus, Centro de Competência para Água de Berlim, Instituto Ecológico, e empresas como a Henkel e a ThyssenKrupp Steel, entre outras. Paulo Tarso é bolsista de pós-doutorado da FAPESP em um projeto que estuda os mecanismos hidrológicos e de erosão do solo do Cerrado brasileiro. “Além de trazer prestígio internacional, o prêmio Green Talents tem ajudado a ampliar minha rede de contatos na Alemanha com potenciais parcerias de pesquisa”, diz Paulo. “No período de 15 dias tive reuniões com pesquisadores na área de hidrologia nas universidades de Stuttgart, de Potsdam e no Instituto de Meteorologia Max Planck. Esses encontros foram produtivos e geraram colaboração em dois novos artigos científicos.” Agora ele pretende conseguir uma posição como professor. Deve, ainda, aproveitar outra vantagem em ser um Green Talent, que é ficar por três meses na Alemanha em 2016 para estudos. “Acredito que essa parceria tende a se

prolongar e trazer benefícios às pesquisas que já desenvolvo no Brasil.”

Para Larissa, que pretende trabalhar como pesquisadora e docente, “o prêmio foi importante por prestigiar o trabalho realizado por pesquisadores que ainda estão iniciando a atuação profissional”. Ele oferece também oportunidades de parcerias com instituições alemãs para compartilhamento de conhecimento. “O contato com pesquisadores e profissionais me mostrou as possibilidades de atuação como pesquisadora e me proporcionou definir os meus objetivos para os próximos anos”, diz ela, que estuda as atitudes das empresas frente aos recursos naturais e ao desenvolvimento sustentável dentro da perspectiva da inovação verde.

Paula Araujo, a terceira brasileira, é mestranda em agricultura orgânica na UFRRJ e trabalha como técnica do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia. Ela é veterinária e seu estudo é na área de criação animal com projetos relacionados ao manejo agroecológico das pastagens.

“Os encontros individuais com três experts da minha área foi o momento mais importante do prêmio porque pude compartilhar minhas iniciativas e experiências e ter o retorno positivo deles”, contou. “Além disso, o contato abre novas oportunidades de parcerias entre o Instituto Mamirauá, a UFRRJ e outras instituições da Alemanha.” n Marcos de Oliveira

universidades que mais formaram empreendedores

A aproximação entre o mundo empresarial e o acadêmico por meio do incentivo a pesquisadores empenhados em transformar trabalhos científicos em produtos comerciais pode ser um forte fator de internacionalização das universidades. É o que mostra o recém-lançado PitchBook Universities Report, que apresenta o ranking das 10 universidades no mundo que mais produziram candidatos a empresário. Eles receberam o chamado capital de risco, um subsídio que costuma vir de investidores e ajuda a transformar ideias em realidade rentável. Ao todo, os programas de graduação dessas instituições — encabeçadas pelas universidades Stanford e da Califórnia, em Berkeley, e pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), todos nos Estados Unidos — formaram um grupo de empreendedores que, de 2010 a 2015, criaram mais de 3 mil empresas que receberam US$ 33,5 milhões. O relatório apresenta ainda as instituições com os melhores programas de pós-graduação e MBA e destaca o oferecido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), de São Paulo. A fundação está entre as cinco instituições de ensino com o melhor MBA fora da Europa e dos Estados Unidos. O documento propõe que o caminho para transformar uma pesquisa em um negócio bem-sucedido requer mais do que um bom gerenciamento do modelo de negócio. É preciso investir em redes de contato, de professores a investidores e sócios, formando um nexo humano que permita ter um fluxo de recursos para inovar. n rodrigo de Oliveira andrade

Versado em fibras ópticas

físico brasileiro passou 30 anos nos e stados unidos, trabalhou na nasa, e volta para desenvolver empresa em são José dos c ampos

Aos 52 anos, o físico Claudio Egalon, com vasta experiência em fibras ópticas, voltou neste ano ao Brasil com a aprovação de um projeto do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) da FAPESP. Ele vivia em Los Angeles, nos Estados Unidos, tinha uma empresa, a Science & Sensors, na qual desde 2008 desenvolvia para o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) um sensor de fibra óptica para medir a concentração de nutrientes em soluções líquidas para o cultivo de plantas usando hidroponia. “Durante esse projeto consegui desenvolver também um colorímetro na forma de um kit educacional. O dispositivo mede nutrientes no cultivo de plantas em hidroponia”, conta. Agora, no projeto Pipe ele desenvolve um sensor para medir, até em nanômetros, o nível do líquido nesse tipo de plantio. “Quero saber o quanto a planta consome de água. Essa informação ajuda a diagnosticar as condições de saúde das plantas.” Em todos esses sensores, Egalon utiliza fibras ópticas com iluminação lateral, na qual a luz ilumina a superfície cilíndrica do dispositivo. Ao usar vários LEDs ao longo da fibra, essa técnica cria pontos sensores com apenas um detector. Egalon é formado em física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fez mestrado e doutorado no College of William & Mary, e um segundo doutorado na Universidade Old Dominion, ambos nos Estados Unidos. Depois

ele se tornou pesquisador no Centro de Pesquisas da Nasa Langley, onde ficou por 10 anos trabalhando com sensores de fibras ópticas. Entre 1993 e 1994, foi o primeiro brasileiro a fazer experimentos de microgravidade a bordo do avião da Nasa KC-135, usado no treinamento de astronautas. No voo, por meio de manobras parabólicas, é criada a condição de falta de peso quando os passageiros flutuam dentro da aeronave. “Fiz esse voo seis vezes”, diz. Depois de sair da Nasa, ele deu aulas na Universidade de Porto Rico e ainda trabalhou no laboratório da Força Aérea Americana, Philips Research Site, no Novo México. Em 1998, Egalon foi para a Intelligent Optical Systems (IOS), perto de Los Angeles, uma pequena empresa de sensores. Voltou ao Brasil em 2002 com a aprovação de seu primeiro projeto Pipe para desenvolver um sensor de fibra que identificasse íons de cloro em concreto armado, mas não conseguiu seguir para a segunda fase. “Voltei para os Estados Unidos e dei aulas em colégios enquanto tentava financiamento para os meus projetos”, diz. Em 2006, ele conseguiu financiamento da National Science Foundation (NSF) para desenvolver um sensor de fibra óptica para umidade relativa com aplicações em estruturas inteligentes como pontes e naves espaciais. Depois, conseguiu dois projetos do USDA até 2011. Ao longo dos anos Egalon acumulou 26 patentes. “Agora estou em São José dos Campos desenvolvendo uma empresa de pesquisa e consultoria.” n M. O.

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