Skip to main content

Pesquisa FAPESP 224

Page 1


coração

Ácido retinoico rege a formação de átrios e ventrículos

ambiente

Uso do etanol em veículos diminui poluição do ar em São Paulo

inoVação

Estudo aponta mecanismos de atração de universidades por empresas entre V ista jean-claude bernardet Estética da miséria despolitiza documentários

Adaptação à vida em ambientes subterrâneos originou fauna de aparência incomum

out.224

Ca Pa

20 Adaptação à vida em ambientes sem luz deu origem a fauna de aparência insólita e recursos inusitados

Entr E vista

30 Jean-Claude Bernardet

O professor de cinema, ator, roteirista e escritor fala, entre outros assuntos, como o uso frequente da miséria estetizada nos documentários despolitiza o tema

POLÍti C a C i E ntÍFi C a E t EC n OLÓG i C a

38 Inovação

Estudo mostra quais fatores influenciam as parcerias entre universidades e empresas no Brasil

44 Cienciometria

Metodologia para avaliar Programa Biota-FAPESP é descrita em artigo científico

46 Ecologia

Painel intergovernamental busca estratégia para treinar quem produz conhecimento e formula políticas sobre a biodiversidade

C

iÊn C ia

48 Evolução

Câmaras cardíacas podem ser o resultado da ação do ácido retinoico, usado em cosméticos

54 Botânica

Trepadeiras estão remodelando a Amazônia, e os bambus, a mata atlântica

58 Geologia

Grandes blocos de rochas com idades e origens diferentes se combinaram ao formar os dois lados do Atlântico Sul

62 Astronomia

Buracos negros gigantes consomem menos energia do que se pensava, mas impulsionam os maiores jatos de gás e radiação do Universo

66 Obituário

Luiz Hildebrando Pereira da Silva era um dos mais respeitados especialistas em parasitologia do mundo

TECNOLOGIA

68 Ambiente

Estudo revela queda na concentração de um dos principais poluentes atmosféricos na Região Metropolitana de São Paulo liberados pelo escapamento de carros a álcool

72 Química

Utilização de grafeno duplica a produção de eletricidade em biocélulas a combustível

74 Novos materiais

Espuma feita com óxido de grafeno e nitreto de boro é leve, resistente e retoma a forma original depois de comprimida

76 Odontologia

Gel de própolis é testado para tratar efeitos nocivos da radioterapia em casos de câncer de cabeça e pescoço

HUMANIDADES

78 Urbanismo

Mapas climáticos podem facilitar a reordenação urbana

82 Música

O festejado As cantatas de J. S. Bach, livro que disseca parte da produção do compositor alemão, ganha tradução brasileira

SEçõES

4 Cartas

5 Fotolab

6 On-line

7 Carta da editora

8 Dados e projetos

Pós-doutores estrangeiros em São Paulo (2005-2013)

9 Boas práticas

› Japão reforça política contra má conduta

› Fraude científica e desvio de recursos

10 Estratégias

14 Tecnociência

86 Memória

São Paulo teve outros períodos de estiagem no passado, quase sempre relacionados ao aumento da população

88 Arte

90 Conto

“Companheiro de viagem”, por João Baptista Borges Pereira

92 Resenhas

› Martinha versus Lucrécia, de Roberto Schwarz: “A numerosa galeria dos vencidos”, por Mariluce Moura

› Descobrindo a arqueologia, de Luis Pezo Lanfranco, Cecília Petronilho e Sabine Eggers: “Passado desenterrado”, por Marcos Pivetta

Livro revê a herança dos diretores Ruggero Jacobbi, Adolfo Celi, Luciano Salce, Flaminio Bollini Cerri e Gianni Ratto ao teatro brasileiro

96 Carreiras

› Marcos Jank, executivo da BRF

› FAPESP atrai interesse de pesquisadores na Naturejobs

Doenças genéticas

A reportagem “O caminho de pedras das doenças raras” (edição 222) conseguiu de uma maneira exemplar demonstrar parte do nosso projeto realizado em Monte Santo. Temos tido repercussão positiva. Isso só reforça a necessidade premente de que a política de doenças raras de fato seja implantada em nosso país. Esse tipo de reportagem permite um canal de comunicação para milhares de famílias que estão marginalizadas. Estamos desenvolvendo um projeto de pesquisa financiado pelo PPSUS com essa finalidade e gostaríamos muito de que outras iniciativas se somassem a isso, para não pararmos apenas na localização dos casos. Não podemos depender apenas de pessoas como Lavínia Schuler Faccini, Magda Carneiro-Sampaio, Denise Cavalcanti e tão poucas outras para assumirem a resolução desses problemas. Temos que sistematizar isso, vamos nos organizar para que o nosso papel possa ter real efeito e possa atingir toda a população com necessidades. Atendi recentemente a uma paciente vinda de um povoado do município de Ribeira do Pombal, na Bahia. Na sua família existem diversos casos de doenças genéticas diferentes há pelo menos três gerações e até o momento nenhum caso foi devidamente avaliado. Ela, como o sr. José de Andrade Pereira, citado na reportagem, é mais uma heroína que venceu todas as barreiras para chegar até nós e representa apenas a ponta do iceberg de sua família.

Angelina Xavier Acosta

Faculdade de Medicina da Bahia/UFBA Salvador, BA

Achei interessante a reportagem de capa “O caminho de pedras das doenças raras”. É incrível como a genética vem ganhando espaço na pesquisa e, diga-se a verdade, desvendando e esclarecendo sempre.

Maria Augusta c . Horta

Centro de Biologia Molecular e Engenharia

Genética/Unicamp Campinas, SP

Nanopartículas

Parabéns pela reportagem “Nanopartículas verdes” (edição 223). Obrigado pela difusão da ciência que temos produzido no Grupo de Nanobiotecnologia para a Agricultura Sustentável aqui na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. A revista vem contribuindo com muita seriedade para a divulgação dos conhecimentos obtidos nas universidades e centros de pesquisa no Brasil e este é um mérito de seu corpo editorial.

Luciano Paulino da Silva Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia Brasília, DF

Divulgação e matemática

Como complemento à reportagem “Vulgarização controversa” (edição 222), a Folha da Manhã na edição de 4 de maio de 1928 já apresentava a seção Divulgação scientifica, com essa grafia, anterior, portanto, ao termo adotado pelo jornal O Estado de S.Paulo em 1941. Sobre a importante conquista da Medalha Fields por Artur Ávila, bem explorada na entrevista da edição 223, passou quase em brancas nuvens no restante da imprensa brasileira. A honrosa exceção foi a revista piauí , que não é semanal nem científica, mas lançou uma edição especial somente sobre o prêmio e o matemático.

Adilson Roberto Gonçalves Campinas, SP

Boas práticas

Com relação a plágios textuais, concordo com o físico indiano Praveen Chaddah (seção Boas práticas, edição 222) quando diz que alguns autores podem não dominar a língua inglesa ou ter dificuldade de se expressar de acordo com padrões científicos e, nesses casos, não acho nada vergonhoso ou ilícito colocar o trecho copiado entre aspas e com referência ao autor no final da publicação. Outro problema diz respeito à vaidade demasiadamente exacerbada do ser humano e aqui me refiro a pesquisadores de todo o mundo. Assumir a autoria de

pesquisa alheia, isso sim, é crime e deve ser punido.

Maria Angela Mendes Amparo Rosateli Indaiatuba, SP

Foguete brasileiro

Na reportagem “Gravidade zero” (edição 222) está escrito: “O combustível líquido a ser testado no foguete brasileiro apresenta um aspecto inovador: é formado por uma mistura de etanol feito a partir da cana-de-açúcar e oxigênio líquido”. Esse uso não é novidade. O foguete V2, utilizado pela Alemanha na Segunda Guerra e, depois, pelos EUA e pela União Soviética no pós-guerra, já utilizava uma mistura de etanol com oxigênio líquido.

Alexandre Suaide

Instituto de Física/USP

São Paulo, SP

Em “Gravidade zero” é mencionado que o empuxo do motor L5 equivale a cinco toneladas. O correto é 0,5 tonelada.

Ageu Alves

São Paulo, SP

Nota da redação: A respeito das contestações acima, o coronel Avandelino Santana Junior, do Instituto de Aeronáutica e Espaço, informa que a afirmação de nunca ter sido utilizado etanol se refere ao uso em motores-foguetes no Brasil. “Nenhum outro foguete lançado ao espaço no país utilizou esse combustível. De fato o míssil V2 utilizava uma mistura de etanol (75%), extraído da batata, e água (25%) como combustível. Já o etanol usado no lançamento do VS-30 é de alta concentração (97%) e extraído da cana-de-açúcar. Sobre o motor L5, o empuxo de cinco quilonewtons é suficiente para empurrar um bloco de 500 quilos e não de cinco toneladas”, completa.

Cartas para esta revista devem ser enviadas para o e-mail cartas@fapesp.br ou para a rua Joaquim Antunes, 727, 10º andar - CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP. As cartas poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.

F otol A b

Homenagem que veio do mar

O camarão-estalo acima é de uma nova espécie – descrita este ano dentro de um dos projetos temáticos que integram o Programa Biota –que recebeu o nome em homenagem à FAPESP, Typton fapespae “Como se trata de uma espécie com ocorrência, até o momento, restrita ao litoral paulista, decidimos homenagear a Fundação que nos apoia e permitiu desenvolver esse trabalho em colaboração com outros dois pesquisadores”, conta o biólogo Fernando Mantelatto, diretor e professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP). O objetivo do projeto que ele lidera é construir uma biblioteca genômica dos crustáceos decápodes (siris, caranguejos, camarões, ermitões, lagostas, entre outros animais) do litoral paulista. A nova espécie de camarão-estalo, T. fapespae, mede um centímetro de tamanho total e foi encontrada em São Sebastião e Ubatuba, vivendo em relação simbiótica com esponjas-do-mar.

Se você tiver uma imagem relacionada à sua pesquisa, envie para imagempesquisa@fapesp.br com resolução de 300 dpi (15 cm de largura) ou com no mínimo 5 MB. Seu trabalho poderá ser selecionado pela revista.

A pinça maior – comum para este e outros gêneros afins, mas não encontrada em outras espécies de camarões com interesse comercial –é usada na defesa e no acasalamento, para atrair a fêmea.

Imagem enviada por Fernando Mantelatto, do Laboratório de Bioecologia e Sistemática de Crustáceos da FFCL-USP

www.revista P esquisa. F a P es P .br

Exclusivo no site

x Pesquisadores brasileiros e ingleses criaram um método que usa dados compartilhados em redes sociais para estudar o comportamento urbano e a dinâmica das cidades. com informações divulgadas no Foursquare, eles mapearam hábitos alimentares de milhares de pessoas pelo mundo, como os locais onde comiam e o número de refeições que faziam ao longo do dia. o estudo foi divulgado na 8ª conferência internacional sobre weblogs e mídias sociais, promovida nos eua pela a ssociação para o Progresso da inteligência artificial.

x a diversidade de espécies de vermes que vivem entre grãos de areia, os nematoides, parece não aumentar com o tamanho do grão. Num estudo publicado na Marine Biodiversity, pesquisadores puseram à prova uma antiga hipótese: quanto mais denso o grão, mais diversa a população de nematoides vivendo nele. verificaram que o número de espécies por amostra de grão variou entre oito e 30, o que não foi determinado pelo tamanho dos grãos. também viram que as espécies que viviam em grãos mais afilados não eram as mesmas nos grãos mais densos.

Rádio

A imunologista

Ana Maria Moro, do Instituto Butantan, fala do uso de anticorpos no combate ao câncer de ovário

Vídeo do mês

Exposição reúne em São Paulo réplicas de fósseis de hominídeos encontrados no início do século XX

youtube.com/user/PesquisaFa PesP

nas redes

Jacinto Costa_ Pesquisa FAPESP, além de trazer reportagens confiáveis, ainda mostra ao público o seu conteúdo de forma acessível. recomendo! (Edição 223)

Leticia Braga_ vamos torcer para que os resultados possam ser realmente promissores e proporcionar maior expectativa de vida para as mulheres afetadas. (A construção de um medicamento)

Graziela Simone Tonin_ enquanto uns ficam sentados esperando milagres, os cientistas trabalham duro dia após dia para encontrar soluções reais. um brinde à ciência!

(A construção de um medicamento)

Rômulo Lobato_ É desse tipo de pessoa que realmente temos que ser fãs! (Cientistas de impacto)

Vitor Zamarion_ impressionante como existem coisas que a gente nem imagina que as pessoas pensam. (Luz deforma a água)

Dininha Sampaio Vieira_ Não tem uma maneira de inventarem uma substância que amenize isso?

(Destruição persistente)

Assista ao vídeo:
Pesquisadores mapearam os check-ins relacionados a locais para comer e beber

funDação De aMParo à Pesquisa Do estaDo De são Paulo

Celso lafer

Presidente

eDuarDo MoaC yr Krieger

vice-Presidente

conSElho SUPErIor

alejanDro szanto De toleDo, Celso lafer, eDuarDo MoaC yr Krieger, fernanDo ferreira Costa, HoráCio l afer Piva, joão granDino roDas, Maria josé soares MenDes giannini, Marilza vieira CunHa ruDge, josé De souza Martins, PeDro luiz Barreiros Passos, suely vilela saMPaio, yosHiaKi naKano

conSElho técnIco-AdMInIStr AtIvo

josé arana varela

d iretor Presidente

Carlos Henrique De Brito Cruz d iretor científico

joaquiM j De CaMargo engler

d iretor Administr Ativo

issn 1519-8774

conSElho EdItorIAl

Carlos Henrique de Brito Cruz (Presidente), Caio túlio Costa, eugênio Bucci, fernando reinach, josé eduardo Krieger, luiz Davidovich, Marcelo Knobel, Marcelo leite, Maria Hermínia tavares de almeida, Marisa lajolo, Maurício tuffani, Mônica teixeira

coMItê cIEntíFIco

luiz Henrique lopes dos santos (Presidente), adolpho josé Melfi, Carlos eduardo negrão, Douglas eduardo zampieri, eduardo Cesar leão Marques, francisco antônio Bezerra Coutinho, joaquim j. de Camargo engler, josé arana varela, josé roberto de frança arruda, josé roberto Postali Parra, lucio angnes, luis augusto Barbosa Cortez, Marcelo Knobel, Marie-anne van sluys, Mário josé abdalla saad, Marta teresa da silva arretche, Paula Montero, roberto Marcondes Cesar júnior, sérgio luiz Monteiro salles filho, sérgio robles reis queiroz, Wagner do amaral Caradori, Walter Colli coordEnAdor cIEntíFIco

luiz Henrique lopes dos santos

dIrE tor A dE rEdAção Mariluce Moura

EdItor-chEFE neldson Marcolin

EdItorES fabrício Marques (Política), Marcos de oliveira (Tecnologia), ricardo zorzetto (Ciência); Carlos fioravanti e Marcos Pivetta (Editores especiais); Bruno de Pierro e Dinorah ereno (Editores-assistentes)

rE vISão Daniel Bonomo, Margô negro

ArtE Mayumi okuyama (Editora) ana Paula Campos (Editora de infografia), Maria Cecilia felli e alvaro felippe jr. (Assistente) Fotógr AFoS eduardo Cesar, léo ramos

MídIAS ElE trônIc AS fabrício Marques (Coordenador)

IntErnE t Pesquisa FAPESP online Maria guimarães (Editora) júlio César Barros (Editor-assistente) rodrigo de oliveira andrade (Repórter)

rádIo Pesquisa Brasil

Biancamaria Binazzi (Produtora)

colAbor AdorES abiuro, ana lima, Catarina Bessel, Daniel Bueno, evanildo da silveira, fabio otubo, gustavo fioratti, igor zolnerkevic, irineu franco Perpétuo, joão Baptista Borges Pereira, Manu Maltez, Marina oruê, Mauro de Barros, nelson Provazi, sandro Castelli, valter rodrigues, yuri vasconcelos

é ProIbIdA A rEProdUção totAl oU PArcIAl dE tE xtoS E FotoS SEM PrévIA AUtorIz Ação

PAr A FAlAr coM A rEdAção (11) 3087-4210 cartas@fapesp.br

PAr A AnUncIAr (11) 3087-4212 publicidade@fapesp.br PAr A ASSInAr (11) 3087-4237 assinaturaspesquisa@fapesp.br

tIr AgEM 43.600 exemplares

IMPrESSão Plural indústria gráfica dIStrIbUIção DinaP

gEStão AdMInIStr AtIvA instituto unieMP

PESQUISA FAPESP rua joaquim antunes, no 727, 10o andar, CeP 05415-012, Pinheiros, são Paulo-sP FAPESP rua Pio Xi, no 1.500, CeP 05468-901, alto da lapa, são Paulo-sP

seCretaria De DesenvolviMento eConôMiCo, CiênCia e teCnologia govErno do EStAdo dE São PAUlo

c A rtA dA E d I tor A

A despedida de um cientista extraordinário

Esta carta estava pronta e a revista praticamente fechada, quando fomos informados da morte de Luiz Hildebrando Pereira da Silva, 86 anos, na noite de 24 de setembro passado. Abrir o espaço para homenagear um cientista que de muitas formas honrou e engrandeceu o Brasil era o que tínhamos então de fazer, a par de registrar a saudade que deixa em quantos tiveram o privilégio de conhecer a pessoa de inteligência fulgurante e trato ameno e cavalheiresco que ele foi sempre. Na página 66, damos alguns detalhes mais do brilhante parasitologista. Posto isso, vamos a esta edição: o Brasil tem mais de 10 mil cavernas cadastradas e até aqui se conhece muito pouco a fauna que habita esse grande mundo subterrâneo. Não surpreende que assim seja, dado que o campo de estudos da vida nessas entranhas da superfície da Terra, a chamada espeleobiologia, é tão recente no país que só nos anos 1980 um grupo de biólogos locais fez uma primeira lista das espécies abrigadas nesses sítios escuros. Desde então, mantida a ressalva de que há um vasto campo a ser percorrido para trazer à luz os traços mais marcantes de peixes, aracnídeos, insetos, caramujos, morcegos e outros bichos cavernícolas, registraram-se avanços consistentes na identificação e descrição dessa fauna de aparência às vezes bem estranha e eventualmente dotada de recursos de adaptação surpreendentes. E sobre esse avanço do conhecimento é que está construída, a partir da página 20, a reportagem de capa desta edição de Pesquisa FAPESP, elaborada pela editora Maria Guimarães, com fotos de Léo Ramos. Nos domínios da ciência ainda, destaco também desta edição uma reportagem que começa, coincidentemente, com pequenos bichos – os minúsculos peixes zebrafishs e camundongos –, base para que se avance sobre achados recentes a respeito do processo de formação e evolução do coração humano, cujas origens podem remontar, de forma intrigante, a um período espantosamente anterior ao surgimento do próprio homem no planeta. Em números, estamos falando de

um processo iniciado 500 milhões de anos atrás – a espécie humana só apareceu por aqui há 2 milhões de anos. Não bastasse essa revelação desconcertante, o estudo abordado pelo editor especial Carlos Fioravanti, a partir da página 48, ainda propõe que as câmaras cardíacas do coração humano, ou seja, os ventrículos e os átrios (antigas aurículas), podem ser o resultado da ação do ácido retinoico, esse mesmo tão conhecido por conta do uso em cosméticos. Vale a pena conferir. *

Parece evidente que respeitados grupos de pesquisa de grandes universidades estabeleçam parcerias com grandes empresas de qualquer parte, inclusive as mais distantes, e que grupos com desempenho acadêmico modesto mais facilmente se articulem com empresas pequenas e mais próximas. É isso mesmo que acontece segundo um estudo recente de pesquisadores da USP e da Unicamp, que tem, entre outros, o mérito de destrinchar os mecanismos e as engrenagens de atração das universidades por empresas, objeto da reportagem do editor-assistente de política científica e tecnológica, Bruno de Pierro, a partir da página 38.

E entre os achados surpreendentes – e positivos – servidos por esta edição há, com certeza, um lugar de destaque para a reportagem de Yuri Vasconcelos sobre um estudo conduzido na USP que comprova queda considerável, ao longo dos últimos 30 anos, de um dos principais poluentes atmosféricos na Região Metropolitana de São Paulo. Trata-se do acetaldeído, liberado principalmente pelo escapamento dos veículos movidos a etanol (página 68).

Por fim, volto ao começo da revista (página 30) para recomendar enfaticamente a bela entrevista do professor e crítico de cinema

Jean-Claude Bernardet – feita pelo editor-chefe, Neldson Marcolin, e Maria Guimarães –, que defende seus pontos de vista sempre com notável coerência e coragem, inclusive quando investe ferinamente contra uma estetização da miséria nos documentários brasileiros que a despolitiza totalmente. Boa leitura!

DaDos E projE tos

t emáticos e JoV em Pesquisador recentes

Projetos contratados em agosto e setembro de 2014

temáticos

 m etabolismo da carnosina no músculo esquelético: um estudo de múltiplas abordagens

Pesquisador responsável: Bruno

Gualano

i nstituição: Escola de Educação Física e Esporte/USP

Processo: 2013/14746-4

Vigência: 01/09/2014 a 31/08/2017

Vírus de plantas transmitidos por brevipalpus (acari: tenuipalpidae)-vtb: levantamento, identificação, caracterização molecular, filogenia; relações vírus/vetor/hospedeira; biologia, taxonomia e manejo do vetor

Pesquisador responsável: Elliot

Watanabe Kitajima

i nstituição: Escola Superior de

Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP)

Processo: 2014/08458-9

Vigência: 01/10/2014 a 30/09/2019

i dentificação de locus de interesse zootécnico na galinha doméstica

Pesquisador responsável: Luiz Lehmann Coutinho i nstituição: Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/ USP)

Processo: 2014/08704-0

Vigência: 01/08/2014 a 31/07/2017

c arreadores baseados em lipídios (sln/nlc e lipossomas com gradiente iônico) como estratégia para aumentar a encapsulação e a potência de anestésicos locais

Pesquisadora responsável: Eneida de Paula

i nstituição: Instituto de Biologia/ Unicamp

Processo: 2014/14457-5

Vigência: 01/09/2014 a 31/08/2019

c apivaras, carrapatos e febre maculosa

Pesquisador responsável: Marcelo Bahia Labruna i nstituição: Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia/USP Processo: 2013/18046-7

Vigência: 01/09/2014 a 31/08/2019

J oV em Pesquisador

e spectroscopia avançada em novos nanomateriais

Pesquisador responsável: Lazaro Aurelio Padilha Junior i nstituição: Instituto de Física/ Unicamp

Processo: 2013/16911-2

Vigência: 01/08/2014 a 31/07/2018

m ecanismos neurais de geração do padrão respiratório e do acoplamento simpático-respiratório em condições de hipóxia

Pesquisador responsável: Daniel Breseghello Zoccal i nstituição: Faculdade de Odontologia de Araraquara/Unesp Processo: 2013/17251-6

Vigência: 01/09/2014 a 31/08/2018

o modelo hidrodinâmico e as suas aplicações

Pesquisador responsável: Wei Liang Qian i nstituição: Escola de Engenharia de Lorena/USP

Processo: 2014/06354-1

Vigência: 01/09/2014 a 31/08/2018

Pós-doutores estrangeiros em s ão Paulo (2005-2013)

Número de concessões e porcentagem do total concedido para bolsas de pós-doutorado a bolsistas de outros países segundo as grandes áreas de conhecimento

Boas práticas

Japão reforça política contra má conduta

O governo do Japão anunciou a criação de um departamento especial para promover boas práticas em instituições de pesquisa e investigar acusações de desvio de conduta, informou o site de notícias norte-americano Global Post O escritório será vinculado ao Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do país e terá, entre outras missões, a de instruir as universidades a incluir em suas grades disciplinas que abordem a ética na ciência. O escritório também deverá implementar novas diretrizes que tratem de irregularidades em atividades científicas. Para que o escritório saia do papel, o ministério precisará contratar funcionários, o que depende da aprovação de um orçamento maior para a pasta no próximo ano. O governo também promete lançar, até o final do ano, um manual sobre integridade científica para os pesquisadores que recebem recursos públicos. O guia está sendo desenvolvido pelas principais agências de fomento do país em parceria com o Science Council of Japan, entidade vinculada à comunidade científica nipônica. A ideia é que sirva de parâmetro para que as instituições de pesquisa elaborem seus próprios manuais ou programas de treinamento. Segundo Makoto Asashima, diretor-executivo da Sociedade Japonesa para a Promoção da Ciência (JSPS, na sigla em inglês), entidade envolvida na elaboração do documento, o guia irá abranger questões como o uso apropriado de recursos para pesquisa, a gestão de dados e anotações de experimentos e as responsabilidades dos cientistas que são coautores em artigos científicos. “Estamos tentando colocar os pesquisadores próximos do que consideramos

o nível mais elevado da conduta responsável”, disse Asashima à revista Science.

Ele nega que a iniciativa seja uma resposta direta do governo ao episódio de má conduta envolvendo pesquisadores do Instituto Riken, uma das principais instituições de pesquisa do Japão. Segundo Asashima, as medidas têm o objetivo de resolver um problema maior, relacionado à falta de formação em integridade científica no país. O caso expôs fragilidades de um estudo sobre células-tronco. Em julho, a revista Nature cancelou a publicação de dois artigos sobre uma técnica de produção de células-tronco publicados por Haruko Obokata, jovem pesquisadora do Riken. Os artigos abordavam uma técnica que prometia simplificar a produção de células-tronco, mas perderam credibilidade quando outros cientistas não conseguiram reproduzi-la. O instituto fez uma investigação e descobriu que

Haruko plagiou e inventou dados dos artigos. Em agosto, o caso ganhou cores ainda mais dramáticas com o suicídio do biólogo Yoshiki Sasai, diretor do laboratório de organogênese e neurogênese do instituto. Ele foi orientador de Haruko Obokata e coautor dos artigos cancelados.

Fraude científica e desvio de recursos

Um artigo publicado em 2013 no British Journal of Psychiatry foi cancelado depois que uma investigação da Universidade de Genebra, na Suíça, confirmou que ele contém dados fabricados. O artigo relata uma incidência maior do que a esperada de alterações epigenéticas em pessoas com transtorno bipolar que sofreram trauma na infância e tem como autor principal Alain Malafosse, professor de psiquiatria pediátrica da universidade. A epigenética consiste no estudo de alterações na expressão gênica que independem de mudanças na sequência do DNA. Malafosse é acusado

de inventar dados referentes à metilação do DNA, que ocorre quando há adição de um grupo metila (formado por partículas de hidrogênio e carbono) à base citosina do DNA. Ex-diretor da divisão de psiquiatria do hospital universitário de Genebra, Malafosse também é acusado de desviar cerca de US$ 1,8 milhão de recursos para pesquisas. De acordo com o jornal suíço The Local, ele teria desviado o dinheiro por meio de contas bancárias a uma fundação sem fins lucrativos com sede em Montpellier, na França. Malafosse foi afastado da direção do hospital na Suíça.

Estratégias

Simpósios em Munique e Washington

A FAPESP realiza em outubro mais uma edição do simpósio internacional FAPESP Week. Pela primeira vez o evento acontece na Alemanha, na cidade de Munique, no âmbito de um acordo de cooperação entre o estado de São Paulo e o estado livre da Baviera. Entre os dias 15 e 17, pesquisadores de São Paulo e de instituições de pesquisa alemãs terão a oportunidade de compartilhar experiências e discutir colaborações científicas nas áreas de biotecnologia, nanotecnologia, energia e meio ambiente.

A FAPESP Week Munich será realizado no Deutsches Museum, em colaboração com o Ministério da Educação, Ciência e Artes do Estado da Baviera e o Centro Universitário da Baviera para América Latina. O evento também marca a aproximação entre a FAPESP e a Max Planck Society for the Advancement of Science, principal organização de pesquisa básica da Alemanha, cuja presidência fica em Munique (ver Pesquisa FAPESP nº 217). Desde 2011 a FAPESP organizou simpósios científicos voltados para divulgar a ciência feita em São Paulo e estimular colaborações internacionais nas cidades de Washington, Morgantown, Cambridge, Charlotte, Chapel Hill,

Raleigh (Estados Unidos), Toronto (Canadá), Salamanca e Madri (Espanha), Tóquio (Japão), Londres (Inglaterra) e Pequim (China). Já nos dias 28 e 29 de outubro, a FAPESP e a divisão científica do Departamento de Energia do governo dos Estados Unidos, em parceria com o Wilson Center, organizarão um simpósio em Washington para fazer um balanço das pesquisas em andamento no âmbito do experimento Green Ocean Amazon (GOAmazon) – uma chamada de projetos feita no fim de 2013 pelas duas instituições e também pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam). O evento busca impulsionar novas colaborações em estudos sobre o papel da Amazônia nas mudanças climáticas globais.

“O GOAmazon é uma experiência única de entendimento integrado de como a Amazônia funciona e como o ecossistema da região é suscetível às mudanças climáticas. É uma iniciativa estratégica para a elaboração de políticas públicas com base científica de longo prazo”, diz Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais. Ele fará uma apresentação, em um dos painéis do evento, sobre o impacto da pluma (massa de ar com poluição) de Manaus no clima da região a partir de sua interação com as emissões de compostos orgânicos voláteis pela vegetação da floresta.

Para quebrar a resistência

Bactérias resistentes crescem na placa à direita, apesar de discos que contêm antibióticos

O governo dos Estados Unidos anunciou ações para combater a ameaça das bactérias resistentes a antibióticos. A principal é a criação de uma competição, com um prêmio de US$ 20 milhões para o grupo vencedor, para o desenvolvimento de um teste de diagnóstico rápido capaz de reconhecer infecções resistentes. O Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) ainda irá determinar com precisão o escopo da disputa. Além do prêmio, o presidente Barack Obama lançou uma estratégia nacional, com metas a serem atingidas até 2020, relacionadas à vigilância epidemiológica, ao desenvolvimento de novos antibióticos e ao uso criterioso dos remédios existentes. O presidente também assinou um decreto criando um conselho de especialistas para lidar com o desafio.

O Chile quer mais

Com boa parte dos melhores lugares do mundo para observar o céu, o Chile abrigará até 2020 cerca de 70% dos telescópios do mundo, fruto de investimentos de consórcios internacionais que somam US$ 4 bilhões apenas nos quatro principais observatórios. Apesar disso, astrônomos do país se ressentem do benefício limitado que essa estrutura traz à ciência chilena. Os telescópios reservam 10% do seu tempo de observação para as instituições chilenas.

“Esse número é menor do que em outros

lugares, como as Ilhas Canárias, cujos telescópios reservam 20% do tempo de observação para instituições da Espanha e contratam pelo menos 5% de técnicos e engenheiros espanhóis”, disse à agência SciDev. Net Monica Rubio, astrônoma da Universidade do Chile. Maximiliano Moyano, astrônomo da

Do próprio bolso

O que fazer com um prêmio de R$ 300 mil? A arqueóloga Niède Guidon não teve dúvidas: destinou uma parte dessa quantia, que recebeu como reconhecimento de seu trabalho, laureada com o Prêmio da Fundação Conrado Wessel em 2013, para acelerar as obras do aeroporto de São Raimundo Nonato, no Piauí. “Paguei o que deveria ter sido pago pelo governo do estado”, conta Niède, fundadora e diretora da Fundação Museu do Homem Americano, criada em 1986 no Piauí. Segundo a pesquisadora, existe uma verba do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a construção do Museu da Natureza no município vizinho de Coronel José Dias. Mas, para que o dinheiro seja liberado, o BNDES exige que o local seja turístico – por isso, é necessário que o acesso ao município conte com um aeroporto público. Niède explica que o aeroporto de São Raimundo Nonato é registrado como particular e, para que seja homologado como público, a Agên-

Universidade Católica do norte, diz que os 10% do tempo estão se tornando insuficientes com o retorno ao país de jovens doutores em astronomia chilenos formados na Europa. “nossas universidades deveriam participar do desenvolvimento de equipamentos utilizados na modernização dos observatórios”, disse Monica Rubio.

O Atacama Large Millimeter/ submillimeter Array (Alma), inaugurado em 2013: 66 antenas de rádio instaladas a 5 mil metros de altitude

Topografia revelada

cia Nacional de Aviação Civil (Anac) exige um conjunto de obras no local. A arqueóloga prontificou-se a assumir despesas que seriam feitas pelo governo estadual por conta da urgência da homologação. Niède destinou R$ 100 mil para a contratação de funcionários e compra de materiais. “Foram instalados 16 postes de iluminação, sistema de drenagem do solo, levantamos muretas e limpamos o terreno”, diz ela. O pedido de homologação já foi encaminhado.

niède Guidon: reforma com dinheiro de prêmio

Imagens de alta resolução geradas em 2000 pela missão topográfica por radar do ônibus espacial (SRTM) da nasa serão disponibilizadas para o mundo todo a partir de 2015. Até o momento, somente os Estados Unidos podem utilizar os dados. O anúncio foi feito pelo governo norte-americano durante a Cúpula do Clima das nações Unidas, realizada em setembro em nova york. A primeira divulgação dos dados topográficos, úteis no estudo de erosões, tempestades costeiras e efeitos das mudanças climáticas, irá privilegiar a África. Os conjuntos de dados referentes aos outros continentes serão abertos no prazo de um ano. A região da América Latina e do Caribe será a próxima a ter os dados divulgados. “A oferta global dos dados topográficos do SRTM beneficiará os esforços internacionais para compreender processos naturais que moldam o planeta”, disse Ellen Stofan, cientista-chefe da nasa.

Reforma na academia

A Academia Chinesa de Ciências (CAS) passa por uma reforma cujo objetivo é estimular colaborações e aumentar o impacto de sua pesquisa. A entidade reúne 102 institutos, tem um orçamento de US$ 6,8 bilhões e emprega 60 mil pessoas. Ressente-se, contudo, de oferecer salários pouco competitivos e da fragmentação de esforços – é comum que pesquisadores de diferentes institutos trabalhem em temas afins sem saber da existência uns dos outros. “Será a maior reforma da nossa história”, disse à revista Nature Chunli Bai, presidente da CAS. O trabalho dos pesquisadores será reorganizado a partir de quatro estratégias. A primeira prevê a criação de 20 centros de excelência em ciência básica. Um exemplo: foram selecionados 40 pesquisadores de

11 institutos para trabalhar com pesquisas avançadas em neurociência – um dos alvos é desenvolver um novo modelo animal em estudos sobre doenças neurodegenerativas.

A segunda busca impulsionar pesquisas com potencial comercial, como o desenvolvimento de microssatélites e de medicamentos.

A terceira vai articular o trabalho de grandes facilities – uma fonte de luz síncrotron e um centro de estudo de proteínas, ambos em Xangai, serão interligados. A quarta estratégia, ainda embrionária, pretende apoiar o desenvolvimento regional. A remuneração dos pesquisadores também será modificada, com a ampliação do salário fixo e a redução da dependência de recursos de agências de fomento, que chegam a responder por 70% dos vencimentos.

A Índia chega a Marte

A sonda antes do lançamento: sucesso na primeira tentativa

A sonda Mangalyaan, da agência espacial indiana, completou com sucesso a sua entrada na órbita de Marte, no dia 24 de setembro. “Hoje fizemos história”, declarou o primeiro-ministro da Índia, narendra Modi, na sala de controle da missão, em Bangalore. Desenvolvida em apenas três anos, a sonda teve custo reduzido: cerca de US$ 74 milhões, ou R$ 178 milhões. A sonda norte-americana Maven (Mars Atmosphere and Volatile Evolution), que entrou na órbita do planeta vermelho dois dias antes da Mangalyaan, custou US$ 671 milhões. O premiê Modi chegou a fazer piada com o custo da sonda, lembrando que saiu mais barato do que o orçamento do filme Gravidade A Mangalyaan pesa 1,5 tonelada e vai coletar dados pelos próximos seis meses. Leva a bordo equipamentos destinados a medir a presença de

metano na atmosfera do planeta vermelho. Os responsáveis pela missão admitem que as ambições científicas são menos relevantes do que a demonstração da capacidade tecnológica do país. “Tratou-se de uma impressionante façanha de engenharia e damos as boas-vindas à Índia na sua entrada na família das nações que estudam o planeta vermelho”, disse em comunicado Charles Bolden, o administrador da nasa. A Índia é o primeiro país a colocar um satélite na órbita de Marte logo na primeira tentativa: até agora, o feito havia sido obtido apenas pela agência europeia ESA, que reúne um conjunto de países. Japão e China tentaram mandar sondas a Marte, mas fracassaram. Estados Unidos e Rússia já tiveram sucesso, mas, ao contrário da Índia, falharam em seus voos inaugurais.

Abertura do congresso de 2014 da Academia Chinesa de Ciências, realizado em junho em Beijing

Apoio europeu na Amazônia peruana

Alemanha e Noruega apoiarão iniciativas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa provenientes do desmatamento na Amazônia peruana. Com mais de 68 milhões de hectares de florestas, o Peru tem uma das cinco maiores áreas de floresta tropical do mundo. Apesar da taxa de desmatamento não ser alta, ela é responsável pela emissão de aproximadamente 71 milhões de toneladas de CO2 por ano. A região está sob pressão da

agricultura, de indústrias extrativistas e de projetos de infraestrutura – problemas agravados pela falta de zoneamento ambiental. No documento assinado por autoridades dos três países, o Peru concorda em aumentar em pelo menos 5 milhões de hectares as áreas destinadas aos índios e em reduzir as emissões de carbono. A Alemanha se compromete a seguir apoiando o Peru em questões climáticas e ambientais e a Noruega des-

Goldemberg ganha prêmio

O físico José Goldemberg, de 86 anos, recebe no dia 15 de outubro o 18º Prêmio Professor Emérito – Troféu Guerreiro da Educação – Ruy Mesquita, concedido anualmente a uma personalidade com contribuição destacada ao ensino e ao avanço do conhecimento. O prêmio é promovido pelo Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee) em parceria com o jornal O Estado de S.Paulo. O homenageado é escolhido a partir de uma lista de nomes sugeridos num processo aberto, do qual participam conselheiros do Ciee, laureados em anos anteriores, pesquisadores e empresários. Goldemberg foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (1975-1979), reitor da Universidade de São Paulo (1986-1990), ministro da Educação (1991-1992) e secretário nacional do Meio Ambiente (1992) e secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (2002-2006).

Em 2008 foi agraciado com o prêmio Planeta Azul, concedido pela fundação japonesa Asahi Glass a personalidades que se destacam em pesquisa e formulação de políticas públicas na área ambiental. Atualmente, é professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP. Edições anteriores do Troféu Guerreiro da Educação reconheceram nomes como o médico e pesquisador William Saad Hossne, o economista Antonio Delfim netto, a antropóloga Ruth Cardoso, o cardiologista Adib Jatene, o tributarista Ives Gandra Martins e o zoólogo Paulo Vanzolini.

tinará cerca de US$ 47 milhões, até 2017, para a implantação de medidas que ajudem na redução das emissões de carbono. Entre 2017 e 2021, a Noruega também contribuirá com mais de US$ 240 milhões para projetos de redução do desmatamento. Entre as medidas iniciais estão a implementação de uma lei florestal no Peru e a criação de uma coalizão de empresas que se comprometam com políticas de desmatamento zero.

Floresta no Peru receberá ajuda da Alemanha e da noruega para questões climáticas

Cooperação ibero-americana

José Goldemberg: Troféu Guerreiro da Educação

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) juntou-se a outras seis universidades ibero-americanas para integrar o RedEmprendia-Solutions, um programa de cooperação entre iniciativa privada e instituições de ensino superior promovido pela RedEmprendia, iniciativa que agrega 24 universidades com atuação nas áreas de inovação e empreendedorismo. Além da Unicamp, participam da iniciativa a Universidad Politécnica de Madrid, da Espanha, o Instituto Politécnico nacional, do México, a Universidad de Antioquia, da Colômbia, a Pontificia Universidad Católica de Chile, a

Universidade de Coimbra e a Universidade do Porto, ambas de Portugal. Segundo a Agência FAPESP, o programa vai promover nos próximos três anos projetos nas universidades participantes em parceria com empresas em temas de interesse da sociedade e do mercado. O RedEmprendia-Solutions adapta para o espaço ibero-americano uma ideia concebida pela Universidad Politécnica de Madrid, que realizou uma série de projetos em cooperação com empresas. O objetivo é aproximar a pesquisa das demandas sociais e envolver a iniciativa privada na promoção da formação de talentos.

tEcnociência

A luz que enxerga o que não viu

Uma equipe internacional de físicos conseguiu o que parece impossível para um fotógrafo: obter imagens de objetos sem usar nenhum fóton (partícula de luz) que tenha entrado em contato com eles. Esses físicos produziram imagens usando uma câmera que captura fótons especiais, que mantêm apenas uma ligação a distância com aqueles que realmente iluminaram os objetos (Nature, 28 de agosto).

“Conseguimos transmitir toda a informação dos fótons que interagiram com os objetos àqueles que detectamos”, explica a física brasileira

Gabriela Barreto Lemos, que conduziu o experimento e trabalha desde 2012 na Universidade de Viena no laboratório de Anton Zeilinger, apelidado de “o bruxo de Viena” por suas experiências demonstrando as

estranhezas da mecânica quântica. Gabriela conta que achou linda a ideia do experimento. “Mas às vezes eu tinha ódio, porque não é fácil brincar com fótons que não se pode detectar.” O experimento foi feito em um circuito de espelhos por onde passam feixes de laser. Dois cristais criavam pares de fótons irmãos: um com comprimento de onda infravermelho e outro correspondente à cor vermelha. Mesmo seguindo caminhos diferentes, os fótons de um mesmo par compartilhavam informações por meio de um fenômeno chamado emaranhamento quântico. Só os fótons infravermelhos iluminavam o objeto a ser fotografado –a silhueta de um gato recortada num pedaço de cartolina, homenagem ao físico Erwin Schrödinger,

que em 1935 chamou a atenção para as consequências absurdas da mecânica quântica ao propor um experimento mental em que um gato estaria morto e vivo ao mesmo tempo. As câmeras no fim do circuito, porém, só captavam os fótons vermelhos. O circuito é montado de forma que, quando um fóton encosta na cartolina, é possível saber qual cristal o produziu. Mas, quando um fóton passa pelo buraco em forma de gato, é como se houvessem nascido em ambos os cristais ao mesmo tempo. “A imagem é criada pela sobreposição quântica das duas possibilidades”, explica Gabriela. “O que vemos na câmera só existe por não sabermos em qual cristal os fótons foram criados.” O método, patenteado pelos pesquisadores, pode ser útil para obter imagens de tecidos e células vivas.

A imagem do gato à direita foi gerada pela detecção de fótons que nunca interagiram com o molde (à esquerda)

Solos mapeados

O mapa digital dos solos brasileiros, lançado pela Embrapa Solos, do Rio de Janeiro, surge como uma importante ferramenta para auxiliar nas políticas públicas de conservação. O sistema utiliza dados ambientais disponíveis de solo, relevo, clima e outros, associando-os a modelos matemáticos e estatísticos para predizer informações que não foram medidas, mas que estão correlacionadas por meio das variáveis ambientais que determinam a formação dos solos. Um levantamento similar feito pelas técnicas tradicionais demandaria anos de trabalho dos pesquisadores, além de um alto custo. O mapeamento digital pode ser utilizado para responder à necessidade de informações para o desenvolvimento de atividades como manejo de solos na agricultura, execução de zoneamentos ambientais, manejo de recursos hídricos e planejamento de uso da terra.

Dados para agricultura, zonas industriais e recursos hídricos

Lançamento do VS-30 V13, no Maranhão: voo a mais de 100 quilômetros de altitude para coleta de dados 3

Foguete movido a etanol

O foguete suborbital VS-30 V13 foi lançado, com sucesso, no dia 1º de setembro, do Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. O lançamento ocorreu às 23h02 e o voo durou três minutos e 34 segundos, quando alcançou a área de segurança prevista para a operação. Durante o trajeto, foram coletados dados para estudos de um GPS de aplicação espacial desenvolvido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e de um dispositivo de segurança para veículos espaciais, concebido no Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE). “Os dados estão sendo analisados pelos experimentadores”, relatou o coronel Avandelino Santana Júnior, coordenador-geral da Operação Raposa, iniciada em 12 de agosto e financiada pela Agência Espacial Brasileira (AEB). O VS-30 V13 é o primeiro

dos quatro foguetes suborbitais – que ultrapassam 100 quilômetros de altitude num voo em forma de parábola e propiciam ambiente de microgravidade –a serem lançados ainda este ano (ver Pesquisa FAPESP nº 222). Também foi feita uma avaliação do desempenho do veículo, que teve o módulo de experimentos, a chamada carga útil, impulsionado pelo motor L5, movido a oxigênio líquido e etanol, durante 90 segundos. “O lançamento foi um marco importante para o programa aeroespacial, porque no Brasil não havia sido lançado ainda um veículo que utilizasse propulsão líquida”, disse Santana. Ele ressaltou que a principal finalidade da operação foi o treinamento e capacitação para futuros lançamentos que envolvam propulsão líquida.

Quando a Amazônia tremeu

Em 1690 um terremoto revirou a terra, derrubou árvores e ergueu no rio Amazonas ondas que alagaram povoados. Com poucas testemunhas capazes de deixar registros, o conhecimento sobre o evento se resume aos escritos de Samuel Fritz e Fellipe Betendorf, jesuítas que andavam em missões de evangelização dos índios na época. O geólogo Alberto Veloso, professor aposentado pela Universidade de Brasília, revisitou o grande terremoto à luz do conhecimento sismológico atual (Anais da Academia Brasileira de Ciências, setembro). E concluiu que a descrição é verossímil e condiz com deformações da crosta terrestre propostas recentemente para a região. Ele estima que o terremoto teve magnitude 7 e ocorreu na margem esquerda do Amazonas, a uns 45 quilômetros de onde hoje é Manaus. Com base na história sísmica do país, Veloso prevê que um evento dessa magnitude se repita a cada 500 anos. Para ele, é hora de usar a sismologia moderna para buscar indícios desse e de outros tremores antigos e compreender o que pode acontecer no futuro. Um tremor como o de 1690 poderia causar destruição considerável nas cidades atuais.

Inspirados no polvo

Uma das características mais marcantes de polvos e lulas é a capacidade de mudar a própria cor da pele para se camuflar no ambiente por meio da contração e expansão dos músculos. Esse movimento faz modificar a quantidade ou o tipo de pigmento em células da pele conhecidas como cromatóforos, alterando o padrão de cor do animal. Cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, conseguiram reproduzir esse efeito na superfície de um polímero – uma espécie de elastômero – usando um campo elétrico para controlar a tensão no material. Tintas embebidas no polímero responderam à tensão, permitindo que padrões previamente estabelecidos fossem exibidos. Os autores do estudo, liderados pelo engenheiro mecânico Xuanhe Zhao, demonstraram que os padrões produzidos, tais como letras e figuras, podem ser exibidos e apagados numerosas vezes. Esses polímeros poderão, no futuro, originar displays flexíveis em substituição às atuais telas de notebooks, tablets e smartphones (Nature Communications, 16 de setembro).

Discos galácticos

Os astrônomos hoje estão certos de que muitas das galáxias atuais são o produto de repetidos encontros entre galáxias menores que se fundiram após colidirem. Estudos teóricos mais antigos, porém, sugeriam que o resultado da colisão entre duas galáxias de tamanho semelhante daria origem a uma galáxia com a forma de uma mancha elíptica uniforme. Embora algumas galáxias sejam assim, a nossa galáxia, a Via Láctea, e a maioria das outras possuem um formato bem diferente: 70% delas contêm uma parte em forma de disco. Para confirmar se galáxias com disco também surgem a partir de colisões, um grupo internacional liderado pela astrônoma Junko Ueda, da Sociedade Japonesa para a Promoção da Ciência, analisou imagens do estágio final de colisões de galáxias obtidas por uma rede de radiotelescópios operando em todo o mundo em coordenação com o observatório Alma, no Chile.

A equipe conseguiu mapear a forma e a velocidade das nuvens de gás das galáxias criadas a partir dessas colisões. Os dados publicados em agosto no periódico

The Astrophysical Journal Supplement revelam que das 30 galáxias estudadas 24 contêm gás que se aglomerava na forma de um disco em rotação, semelhante ao das galáxias com disco.

Andrômeda, galáxia em forma de disco (acima), e as 30 galáxias geradas a partir de colisões de galáxias menores (ao lado)

Amigo do homem

Para os cachorros, a ação de uma pessoa é bem mais interessante do que um objeto que ela tenha em suas mãos. Parece óbvio para quem convive com esses animais que há 30 mil anos vivem em contato próximo com seres humanos, mas pesquisadores da Itália e da Áustria interpretam o resultado como um indício de que os cães têm uma noção da intenção das pessoas (PLoS ONE). O estudo testou a reação de 52

cachorros em duas situações. Na primeira, eles observavam o próprio dono manipulando um globo terrestre ou um regador. Na segunda, uma caixa preta era disposta junto a um dos dois objetos. Os animais prestavam mais atenção quando a pessoa mudava de objeto, mas não quando manipulava o mesmo objeto em local diferente, sugerindo que a ação (ou intenção) é mais importante para eles do que a configuração da cena. Quando o ator é um objeto inanimado, eles não demonstravam tanto interesse. O resultado é semelhante ao observado em estudos com saguis e bebês humanos, sugerindo que a conclusão vale para o melhor amigo do homem.

A dor da preguiça

Uma preguiça-gigante que viveu dezenas de milhares de anos atrás onde hoje é o sertão de Pernambuco deve ter suportado por muito tempo uma baita dor no pescoço. O paleontólogo Fernando Henrique de Souza Barbosa identificou uma extensa lesão óssea na segunda vértebra da coluna do animal, um quadrúpede terrícola de quase seis metros de comprimento e quase cinco toneladas – era maior que um elefante. O geólogo José Lins Rolim, hoje professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), encontrou a vértebra fossilizada da preguiça terrestre Eremotherium laurillardi no início dos anos 1970 em um tanque fossilífero, um tipo de depressão em rochas graníticas comum no Nordeste, coberta por sedimentos de tempos em tempos. Guardado no museu de paleontologia da UFPE, o exemplar foi estudado agora por Barbosa e dois colegas (International Journal of

Paleopathology, setembro).

“É provável que tenha convivido com uma dor severa”, diz Barbosa, aluno de doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A lesão que ele identificou é uma osteofitose, o popular bico-de-papagaio, marcado pela proliferação de osso na borda da articulação. Esse é um achado raro. “Encontrar fósseis já é difícil e ainda mais achar um com um problema que surge na articulação e leva tempo para atingir o osso”, diz.

Por que somos diurnos

Seres humanos e quase todos os macacos têm hábitos diurnos. Alimentam-se, brincam, trabalham e em geral se acasalam durante o dia. E dormem à noite. Um grupo coordenado pelo biólogo Mario Pedrazzoli propõe agora uma explicação genética para o surgimento desse padrão de comportamento. Ele e sua equipe na Universidade de São Paulo acreditam que essas atividades, associadas a um padrão de liberação de hormônios que se repete a cada 24

horas, dependem de uma característica genética peculiar: a repetição de um trecho do gene PER3. Estudos anteriores já haviam demonstrado que o PER3 controla o funcionamento de uma região cerebral considerada o cerne do relógio biológico dos mamíferos, responsável por regular os ritmos com período de 24 horas do metabolismo e do comportamento. Em 2005 Pedrazzoli havia observado que as pessoas com cinco repetições desse trecho do PER3

corriam mais risco de desenvolver um distúrbio do sono do que as com quatro repetições. Agora, ao investigar a origem evolutiva dessas repetições, Pedrazzoli e a bióloga Flávia Cal Sabino verificaram que elas são exclusivas dos macacos e dos seres humanos (PLoS ONE, setembro). Das 13 espécies de macacos estudadas, o menor número de repetições – apenas duas – foi observado no macaco-da-noite (Aotus azarae infulatus), de hábitos noturnos.

Bioflex 1 em Alagoas: etanol feito de bagaço e palha de cana-de-açúcar

A segunda geração está chegando

A primeira usina produtora de etanol de segunda geração em escala comercial do país começou a funcionar em setembro no município de São Miguel dos Campos, em Alagoas. Ainda em fase de aprendizado e aperfeiçoamento dos sistemas de produção, a unidade da empresa brasileira GranBio começou a fabricar etanol a partir do bagaço e da palha da cana-de-açúcar que não é aproveitada na colheita. O processo, chamado de hidrólise, quebra as paredes celulares da

planta e extrai açúcares da celulose por meio de enzimas. Os açúcares depois são transformados em etanol no processo de fermentação do caldo de cana com leveduras, de forma semelhante ao utilizado na primeira geração. A unidade, chamada de Bioflex 1, tem a capacidade de produzir 82 milhões de litros de etanol por ano. A tecnologia utilizada contou com a participação das empresas DSM, da Holanda, no fornecimento de leveduras, e Novozymes, da Dinamarca, com as enzimas para a hidrólise. A italiana Beta Renewables é a responsável pelos sistemas industriais de pré-tratamento da biomassa. A GranBio investiu US$ 265 milhões na construção do empreendimento e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), mais R$ 300 milhões. Em Campinas, no interior paulista, a empresa mantém um Centro de Pesquisas em Biologia Sintética para estudos de microrganismos, processamento de biomassa e hidrólise.

Adoçante artificial: altera a microbiota intestinal e produz intolerância à glicose 1

Tão ou mais nocivo que o açúcar

O uso prolongado de adoçantes artificiais pode causar o efeito oposto do desejado. Eles costumam ser consumidos por pessoas com diabetes ou em dieta com restrição de calorias, por se acreditar que ajudem a controlar os níveis de açúcar (glicose) no sangue. Mas, na realidade, essas formulações podem ter um efeito oposto, descobriu o grupo coordenado por Eran Elinav, do Instituto Weizmann, em Israel. Os pesquisadores ofereceram dietas diferentes a camundongos saudáveis. O primeiro grupo bebia só água; o segundo, uma mistura de água e açúcar; e o terceiro, água com uma formulação comercial de adoçante. Depois de 10 semanas, os animais do último grupo haviam desenvolvido intolerância à glicose, condição que precede o diabetes (Nature, 18 de setembro). Elinav e sua equipe viram que o adoçante causa esse efeito por alterar a microbiota intestinal,

bactérias que vivem nos intestinos e ajudam a regular processos fisiológicos, como a extração de energia dos alimentos. Roedores criados para não ter bactérias intestinais desenvolveram intolerância à glicose dias após receber transplante de microbiota de camundongos tratados com adoçante ou de bactérias cultivadas na presença de adoçante. As alterações metabólicas dos roedores foram semelhantes às de pessoas que consomem muito adoçante: ganho de peso e aumento da glicose em jejum. “Associado a outras mudanças na nutrição humana, o consumo de adoçantes coincide com o aumento na epidemia de obesidade e diabetes”, escreveram os pesquisadores. “Nossos resultados sugerem que os adoçantes podem ter contribuído diretamente para aumentar a epidemia que deveriam combater.”

Traje espacial do futuro

Ilustração da nova roupa espacial: mais leve e colada ao corpo, garante mais liberdade de movimentos

Os astronautas vão ter mais liberdade de movimentos em passeios espaciais fora das naves e no solo da Lua ou de Marte. Uma espécie de segunda pele aerodinâmica apropriada para o espaço foi projetada por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) coordenados pelo professor Dava Newman. A nova roupa espacial é mais leve que as volumosas vestimentas atuais que precisam receber uma pressão de gases para manter o astronauta no espaço. Essa função poderá ser exercida no traje espacial do futuro por uma espécie de estrutura de tecido elástico forrado com minúsculas bobinas que imitam células musculares lisas. Essas bobinas para manter a pressurização desejada podem se contrair se ligadas a uma fonte de

calor na nave. Elas moldam a roupa ao corpo do astronauta como uma segunda pele. A contrapressão mecânica exercida pela roupa faria o corpo permanecer no espaço ou em ambientes sem gravidade. Para tirar a roupa bastaria outra pequena carga elétrica. O traje voltaria a ficar solto no corpo. As bobinas são produzidas com uma liga de níquel-titânio em folhas muito finas. Esse material tem a propriedade de guardar a forma original e depois de pressionado voltar à mesma posição. O projeto foi financiado pela agência espacial norteamericana (Nasa) e pelo programa MIT-Portugal, que reúne estudantes e professores de universidades portuguesas e do MIT em pesquisas sobre sistemas de engenharia.

Piscinas do sertão

O ambiente árido e quente da caatinga baiana não é muito adequado para a preservação de pólens, que podem servir como forma de amostrar a diversidade vegetal presente e passada de uma região. Mas a bióloga Jéssica Gomes parece ter achado uma solução em seu trabalho de mestrado na Universidade do Estado da Bahia: a água retida nos tanques formados pela roseta de folhas das bromélias do gênero Aechmea são uma armadilha natural que captura esses minúsculos grãos reprodutivos ( Acta Botanica Brasilica, abril/junho). Nos tanques de 10 bromélias adultas presentes na Estação Biológica de Canudos, no nordeste da Bahia, ela encontrou 149 tipos de pólen. Conseguiu alguma identificação para 88 deles, a maior parte até o nível de espécie, suficiente para concluir que as bromélias guardam uma boa amostra da vegetação local, assim como identificar as 10 espécies mais representativas da caatinga. Mas não dá para tomar a informação de forma com-

pletamente literal: duas das espécies representadas não existem na área de estudo, indicando que o pólen deve ter sido transportado desde regiões vizinhas pelo vento ou por algum animal. Ao mesmo tempo, plantas floridas presentes na área não necessariamente estavam representadas na amostragem. Mesmo assim a coleção de pólen nessas minipiscinas pode ajudar a caracterizar a flora desse bioma.

Cuidado com o chocolate

O chocolate disponível no mercado brasileiro contém pequenas quantidades dos metais cádmio e chumbo, que em altas concentrações podem causar efeitos danosos e de longo prazo no organismo. Um grupo de químicos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) analisou 30 amostras de chocolate branco, ao leite e amargo comprados nessa cidade no início de 2014 e verificou que, embora detectáveis, os teores desses dois elementos estão dentro do limite recomendado pela legislação brasileira, assim como a da União Europeia e da

Organização Mundial da Saúde (Journal of Agricultural and Food Chemistry, agosto). Duas amostras de marcas diferentes, porém, tinham mais chumbo do que o órgão regulador dos Estados Unidos permite. Quanto maior o teor de cacau, maior a contaminação, o que sugere que a fonte da contaminação parece ser o próprio fruto. Os valores parecem bastante seguros desde que o consumo não seja exagerado. No caso mais grave detectado, se uma criança de 15 quilogramas comer 10 gramas de chocolate com 75% de cacau por dia –mais ou menos um

quadradinho –, já terá consumido 20% do cádmio tolerado pela União Europeia. Nem todo o metal ingerido é absorvido pelo organismo, mas, mesmo assim, parece prudente limitar a quantidade de chocolate amargo que as crianças pequenas consomem.

Bromélia do gênero Aechmea: reservatório de grãos de pólen na caatinga 3

Toxina no amendoim

A utilização da técnica de espectrometria de massas acoplada a recursos de imagem permitiu a pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificarem ao mesmo tempo a presença de aflatoxinas – substância tóxica produzida por alguns tipos de fungo –e do antioxidante resveratrol no amendoim. Enquanto a aflatoxina, se ingerida em grande quantidade, pode causar doenças como o câncer, o consumo de resveratrol ajuda a prevenir o infarto. O resultado da pesquisa, conduzida pelo farmacêutico Diogo Noin de Oliveira como parte do seu doutorado na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, sob orientação do professor Rodrigo Ramos Catharino, foi publicado na revista PLoS One, em 4 de março. “No equipamento, um software demarca o local a ser analisado. No final é formada uma imagem química com os locais onde há maior concentração de aflatoxinas”, relata Oliveira, bolsista da FAPESP.

capa

Gruta do Padre, na Bahia: 16 quilômetros de extensão com muita diversidade inexplorada

Adaptação a ambientes sem luz deu origem a fauna de aparência insólita e recursos inusitados

TexTo Maria Guimarães

FoTos Léo Ramos

Vida subterrânea a

cocorados junto à água ou dentro dela, em busca de invertebrados semelhantes a camarões brancos com cerca de meio centímetro de comprimento, os pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais, mal notam os romeiros que enchem garrafas plásticas com água e gritam “aleluia” em honra à pequena gruta no município de Bom Jesus da Lapa, sudoeste da Bahia. A água com fama de milagrosa é a mesma onde esses invertebrados sobrevivem em meio a latas enferrujadas e pilhas velhas. Apesar de toda a atividade humana que os cerca, esses animais que vivem ali estão ainda em processo de descrição pelo grupo liderado pelo biólogo Rodrigo Lopes Ferreira. A bióloga Rafaela Pereira deve descrever esses camarõezinhos do gênero Spelaeogammarus como parte de seu trabalho de doutorado, orientado por Ferreira. Em julho deste ano ela manejava uma redinha de aquário nas águas da gruta dos Milagres para coletar exemplares, auxiliada por

Ferreira e pela estagiária Gabrielle Pacheco. De volta ao laboratório, Rafaela precisará dissecar cada um dos minúsculos crustáceos, da ordem dos anfípodas, para medir seus apêndices, o que lhe permite comparar e caracterizar as espécies. Durante essa expedição, o grupo mineiro explorou também uma caverna de difícil acesso e pouco explorada no município de Santana, vizinho a Bom Jesus da Lapa: a gruta do Padre, que tem 16 quilômetros (km) de extensão e um paredão de pedra junto à entrada que deixa clara a insignificância do visitante. Depois de passar por uma série de amplos salões, eles tiveram de se sentar em boias para enfrentar um trecho de dois km dentro d’água. “O conduto tem 40 metros de altura”, conta Ferreira, deslumbrado com o que viu. Mesmo tendo precisado abortar a expedição mais ou menos na metade do caminho, o grupo voltou ao ar livre horas depois com pelo menos sete espécies novas de invertebrados, um feito banal para investigadores de cavernas. “Essa região da Bahia é pouco estudada, então praticamente

1

todo bicho pequeno que se encontra ali não foi descrito pela ciência”, ele afirma. De volta a Lavras, os espécimes coletados terão que entrar na fila do que ainda precisa ser analisado e descrito. Não é surpreendente que a fauna das cavernas do Brasil seja em grande parte desconhecida: a espeleobiologia, ou estudo da vida nas cavernas, é recente no país. Quando entrou na graduação em ciências biológicas na Universidade de São Paulo (USP), em 1974, Eleonora Trajano nem sonhava que se tornaria uma pioneira da espeleobiologia no Brasil e passaria a carreira investigando um meio imerso na escuridão. Ainda no início do curso, ela entrou para o Centro Excursionista Universitário em busca de aventura, e encontrou uma paixão. “A primeira lista compreensiva da fauna de cavernas foi feita por cinco biólogos do Centro Excursionista Universitário nos anos 1980”, conta a pesquisadora. Até esse ponto, boa parte das descobertas tinha sido feita por europeus. Segundo Eleonora, os animais encontrados acabavam nas mãos de zoólogos que os descreviam sem nunca ter posto os pés numa caverna. O primeiro estudo extenso desenvolvido no Brasil foi o doutorado do geneticista Crodowaldo Pavan, que depois se tornaria conhecido por estudos com a mosca-das-frutas. Pavan realizou uma análise genética do bagre-cego das cavernas de Iporanga, no Vale do Ribeira, sul do estado de São Paulo. Na tese, defendida em 1944 e tida como o primeiro trabalho de genética evolutiva animal feito no Brasil, ele afirmava que o peixe descoberto meio século antes pelo alemão Ricardo Krone não era uma espécie distinta daquela que habitava os rios fora da caverna. Eleonora explica que esse bagre é um especialista em cavernas (troglóbio) recente, com uma variação

grande dentro da espécie quanto à coloração (de branca a bastante pigmentada) e à regressão dos olhos, em geral reduzidos a ponto de não serem visíveis externamente, mas nem sempre. Ela mesma fez o doutorado com essa espécie, Pimelodella kronei, depois de uma aproximação gradual com a fauna subterrânea: um mestrado com morcegos, que passam parte do seu tempo nas cavernas, mas saem diariamente em busca de alimento. Ao comparar a ecologia, o comportamento e a morfologia desse peixe com a de seu parente mais próximo, P. transitoria, que não é um habitante obrigatório das cavernas, Eleonora verificou os efeitos destrutivos da pesquisa feita nos anos 1970 pelo francês Guy Collet. “Ele montou um laboratório dentro da caverna e fez tudo errado”, afirma. Ao traçar curvas de crescimento nos anos 1980, ela descobriu que os peixes que deveriam ter nascido em 1970 não existiam, indicando que houve mortalidade a ponto de eliminar uma geração. “A população demorou 25 anos para começar a se recuperar”, afirma, a partir de informação que obteve com o mestrado defendido em 2011 por Ana Luiza Guil, cuja missão foi repetir o doutorado da orientadora, desde 2012 aposentada do Instituto de Biociências da USP, onde ainda atua como professora sênior. Muitos desses resultados dependem de experimentos de marcação e recaptura, que dependem de acompanhar as populações ao longo de anos.

O U t RO MU nd O Os peixes brancos e sem olhos, ou com olhos minúsculos, chegam a parecer uma criação ficcional, tal a estranheza que causam. E não são exceção entre os animais das cavernas. Em maio deste ano, Rodrigo Ferreira foi coautor da descrição publi-

1 Spelaeogammarus coletados em Bom Jesus da Lapa

2 Bagre de caverna em Goiás, no laboratório da UFsCar

cada na revista Current Biology, em parceria com colegas do Japão e da Suíça, de quatro espécies de insetos do gênero Neotrogla, parecidos com moscas de menos de quatro milímetros (mm) de comprimento. A surpresa veio quando o grupo de Lavras não conseguiu identificar as espécies, encontradas em cavernas de Minas, Tocantins e Bahia, e mandou exemplares para o suíço Charles Lienhard, especialista na ordem a que pertencem, os psocópteros. Ele olhou mais de perto e percebeu que as fêmeas têm um órgão erétil semelhante a um pênis, e os machos têm uma cavidade como se fosse uma vagina. Durante a cópula, que dura cerca de 55 horas ininterruptas, as fêmeas usam esse órgão para transferir o sêmen para um reservatório dentro do próprio abdômen. “É o primeiro caso de inversão de órgãos sexuais em todo o reino animal”, afirma Ferreira. Em termos de aparência, porém, causam fascínio os animais descoloridos, transparentes como se fossem fantasmas, em geral com o corpo ou os apêndices alongados e asas reduzidas. Um representante curioso é o palpígrado, um aracnídeo. O corpo desses animais de no máximo três mm lembra o de uma formiga, mas eles têm uma longa cauda – ou flagelo – articulada com cerdas entre os segmentos que lhe dão o aspecto de uma escova de lavar mamadeiras. Duas espécies encontradas pelo grupo de Lavras em cavernas de formação ferrífera no Pará são os primeiros representantes

do gênero Leptokoenenia fora de ambientes costeiros, segundo artigo de 2013 na PLoS One que faz parte do doutorado da bióloga Maysa Villela Souza. Um agravante é que as cavernas escavadas em ferro são ameaçadas pela mineração e são mais ricas em fauna porque as propriedades geológicas levam à formação de uma infinidade de pequenos canais que servem de moradia aos pequenos animais, como sugere artigo de Marconi Souza Silva, de 2011, na Biodiversity and Conservation . Entender em que condições os ancestrais dessas espécies se estabeleceram em cavernas requer estudos mais aprofundados, um desafio e uma mina de ouro que a fauna de cavernas oferece a estudos evolutivos.

Outro grupo que vem fazendo contribuições importantes é o da bióloga Maria Elina Bichuette, que em 2006 fundou o Laboratório de Estudos Subterrâneos na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Sucessora da pioneira Eleonora Trajano, sua orientadora na pós-graduação, Elina tem grande paixão pelos peixes de cavernas, mas não deixa de lado os outros animais, como os caramujos do gênero Potamolithus que estudou no mestrado. Em viagens pelo Brasil subterrâneo, ela descobriu a primeira caranguejeira troglóbia, a primeira esponja cavernícola da América do Sul, encontrou isópodes anfíbios em cavernas do semiárido brasileiro, e muito mais, em grande parte com financiamento da FAPESP.

Jonas Gallão, um dos doutorandos do laboratório, está estudando escorpiões cavernícolas. Troglorhopalurus translucidus, encontrado em cavernas da Bahia, é a única espécie desse aracnídeo que se sabe ser troglóbio no Brasil. Com olhos reduzidos e pinças (os pedipalpos) mais compridas que a dos escorpiões que vivem fora das cavernas, ele parece bem adaptado ao ambiente. Gallão desconfia que o escorpião menos diferenciado Rhopalurus lacrau, que nunca foi encontrado fora de cavernas, também seja exclusivo delas. Em laboratório, ele tem feito testes de acasalamento e pretende analisar a potência do veneno das duas espécies. Deixará para o fim os testes de agressividade. “Eles são canibais”, explica. “São predadores de topo na caverna, não podem deixar escapar nada.” Ele também fará medições do corpo usando uma técnica conhecida como morfometria geométrica, para comparar com as espécies que vivem perto das cavernas estudadas. “A morfometria geométrica mostra diferenças sutis na forma dos animais que podem ser relacionadas com colonização de espaços confinados e elencar um possível isolamento entre as subpopulações, dados fundamentais para medidas conservacionistas”, explica a orientadora. Parentes dos tatuzinhos-de-jardim, aqueles que formam bolinhas com diâmetro de meio centímetro (cm), são o objeto de estudo da doutoranda Camile Fernandes. Nas cavernas, esses pequenos crustáceos da ordem dos isópodes são brancos ou acinzentados e têm formas variadas. Alguns se protegem formando bolas, outros se achatam para escapar de ameaças, outros têm cerdas na superfície do corpo que permitem que se enterrem sem que grãos de terra fiquem

aderidos. Os corredores, que fogem depressa de predadores, têm corpo delgado e patas longas. Camile coletou animais dentro e fora de cerca de 30 grutas na Bahia e em Goiás, e partiu dos traços morfológicos de cada espécie para fazer uma análise ecológica inédita para a fauna subterrânea brasileira, conhecida como diversidade funcional. “A ideia era testar se a caverna é um ambiente extremo para os animais que vivem nela”, explica. Ao contrário do que esperava ao considerar o ambiente sem luz e, em geral, com pouco alimento, ela concluiu que os tatuzinhos não estão sujeitos a uma pressão seletiva maior dentro das cavernas do que no meio externo. Isso porque ela esperava que a seleção natural intensa levasse ao desenvolvimento de características uniformes, e observou o contrário. “Eles são mais diversificados no ambiente subterrâneo do que

1

certos

2 o santuário de Bom Jesus da Lapa atrai multidões desde o século xVII

3 Romeiros recolhem água na gruta dos Milagres

fora, talvez porque a variação de substratos e de recursos alimentares seja maior nas cavernas.” Alternativamente, é possível que seleção natural drástica também exista onde vivem na superfície. Essa é a surpresa: em terreno pouco fértil, a vida precisa ser criativa. E a base para essa criatividade são os múltiplos ambientes que se encontram nas cavernas. Perto da entrada há bastante matéria orgânica trazida por ventos e chuvas. Quando acontecem enxurradas mais fortes, folhas e galhos podem chegar até as profundezas. O guano é mais comum nas zonas onde os morcegos descansam, onde há pouca ou nenhuma luz.

que nos depósitos mais antigos. Outra área bem diversa, por motivos ainda não completamente elucidados, foi a fronteira da mancha de detritos de morcegos, na interface com o solo.

S U bt ERR ân EO aQU át I cO

E tem também a água. As cavernas em geral são esculpidas por ela. É a água que se esgueira pelas frestas nas rochas, dissolvendo alguns de seus componentes, e entra em rios e forma lagos transparentíssimos. E é para onde Elina dirige boa parte de sua atenção, inclusive passando longos períodos nadando devagar com snorkel para observar o comportamento de peixes, tomando notas a lápis em placas de PVC submersas. Ao longo dos anos ela participou da descrição de vários bagres-cegos e outros peixes, alguns estudados em conjunto com Eleonora Trajano. Um deles é o curioso lambari Stygichthys typhlops, um dos peixes mais extremos em termos de modificação para vida em caverna, redescrito em 2010 no Journal of Fish Biology. Completamente sem olhos, esse animal despigmentado que mede cerca de cinco cm vive em cavernas de Minas Gerais, na bacia do rio São Francisco, e está seriamente ameaçado porque as águas do lençol freático onde vivem costumam ser usadas na irrigação de bananais.

parece um mundo à parte, mas as cavernas são uma extensão do mundo exterior

O grupo da Ufla investigou, recentemente, a importância das fezes desses mamíferos voadores como fonte de alimento. Uma doutoranda de Ferreira, Thais Pellegrini, estudou os depósitos de guano na caverna Lapa Nova, no noroeste mineiro. A fauna encontrada em 25 quadrados de 20 cm por 20 cm numa mancha de guano de 15 metros (m) de comprimento por cinco m de largura era de mais de 157 mil indivíduos de 12 ordens diferentes. Mais de 99% eram ácaros, conforme mostra artigo de 2013 na revista European Journal of Soil Biology. A análise mostrou que a riqueza de espécies seguia a quantidade disponível de fósforo, de matéria orgânica e a umidade do solo. Por isso, há mais espécies em pontos onde o guano é recente do

Muito da diversidade de peixes subterrâneos está no Brasil Central, onde as cavernas têm um volume de água muito grande. Um exemplo intrigante é o bagre Ituglanis epikarsticus, que vive na região de São Domingos, em Goiás, em águas escondidas mesmo de quem está dentro da caverna. “É o único registro no mundo de vertebrado em epicarste”, explica Elina, se referindo à zona da rocha abaixo da superfície onde a água infiltrada fica retida e chega às cavernas apenas em gotas que caem do teto e muitas vezes formam as famosas decorações como estalactites e estalagmites (ver infográfico). “O biólogo subterrâneo tem que ter muita noção espacial”, diz a pesquisadora. “Ele precisa saber de onde a água vem, ou pelo menos desconfiar.” Por isso, ela considera crucial a parceria com geólogos e outros espeleólogos. Com a descoberta desse peixe, Elina se interessou pela zona epicárstica e empreendeu um estudo mais amplo dessas águas em São Domingos. Ela coletou água de gotejamento em seis cavernas diferentes e encontrou 36 espécies de bichos não

A equipe da Ufla leva boias para percorrer
trechos da gruta do Padre

visíveis, conforme artigo de 2013 na Systematic Biology. “Não é porque não se vê que não é importante.” Mesmo coletando apenas um volume pequeno nessas goteiras, a fauna microscópica é diversa e muitas vezes única desse ambiente, quando se compara às águas de rios externos e dos que fluem dentro das cavernas.

Parece um mundo à parte, mas as cavernas são uma extensão do mundo exterior. Diante de flutuações climáticas e mudanças na vegetação que acontecem ao longo dos milênios, animais podem usar esses abrigos onde a temperatura e a umidade são quase constantes, mesmo que o aporte de recursos varie conforme as épocas sucessivas de secas e chuvas. Uma vez lá dentro, as populações desses bichos aos poucos se especializam até se tornarem espécies distintas. Por isso, muitas das espécies subterrâneas têm parentes próximos fora da caverna, a não ser que a espécie ancestral tenha se extinguido. O geólogo Ivo Karmann, do Instituto de Geociências da USP, não se surpreende com a ampla diversidade cavernícola do país. “Temos cavernas ao longo de uma grande variação de latitude, desde o tropical até o subtropical”, aponta no mapa. A combinação entre propriedades das rochas, variações climáticas e a variação da fauna externa conforme o bioma só podia ter esse resultado. Durante o pós-doutorado, Elina analisou cinco populações do bagrinho-cego da chapada Diamantina, Rhamdiopsis krugi, e as comparou com uma espécie que vive num rio exterior próximo. O trabalho resultou num artigo em parceria com Eleonora, Bianca Rantin, da UFSCar, e Erika Hingst-Zaher, do Instituto Butantan, recentemente aceito para publicação na revista Biological Journal of the Linnean Society. Usando morfometria geométrica, que se revelou tão importante quanto a genética para estudar a evolução e as

1 Pigmentado:

o bagre Glaphyropoma

spinosum só existe na chapada Diamantina

2 o lambari

Stygichthys typhlops se destaca pela especialização 1

possibilidades de colonização dos hábitats subterrâneos por estes bagrinhos, as pesquisadoras mostraram que há diferenciação entre as populações das duas bacias nas quais as cavernas se localizam – Irecê e Una/Utinga. Unindo a geologia à biologia, elas postulam que as linhagens estão isoladas há pelo menos 10 milhões de anos, quando se fechou a última conexão entre as bacias. “A variação da forma dos bagrinhos reflete essa separação entre as bacias”, afirma Elina, que acredita ser necessário tomar medidas de proteção para ambas as linhagens de peixes. Ao analisar os dados sobre as diferentes populações desses bagres, Eleonora imaginou um modelo de colonização em dois tempos para explicar o que viram. Tendo como ponto de partida peixes que viviam num rio ao ar livre, eles aos poucos teriam explorado espaços no sedimento debaixo do leito do rio. Os menores se estabeleceram nesse ambiente, ocupando frestas cada vez mais estreitas. O resultado é uma miniaturização

Onde estão as cavernas brasileiras

Geologia e bioma dos arredores determinam a fauna que habita o ambiente subterrâneo, concentrado em oito regiões principais

Na serra das Araras, as cavernas são menores e são raros os sistemas com rios subterrâneos bem desenvolvidos

Ao longo do planalto da Bodoquena existem muitas cavernas subaquáticas, que só se pode visitar mergulhando

pERFIL dE aFLOR aMEntO caRbOnátIcO o carste (1), relevo formado por rochas dissolvidas pela água, é propício à formação de cavernas. Abaixo dessa camada está o epicarste (2), onde pode haver bolsões de água habitada por algumas espécies. A água do epicarste chega ao interior das cavernas (3) apenas por meio de gotejamento (4). os rios subterrâneos (5) têm continuidade com os externos (6) e podem abrigar animais capazes de viver nos dois ambientes ou, quando há especialização, espécies aparentadas.

os rios subterrâneos dessa região, que teve períodos menos úmidos nos últimos 60 mil anos, são caudalosos e habitados por várias espécies de peixes, inclusive o bagre-cego Pimelodella kronei

As cavernas em formações ferríferas são menos extensas do que as calcáreas e raramente têm rios subterrâneos. Uma grande quantidade de pequenas cavidades na rocha contribui para a evolução de uma fauna mais diversa e rica em troglóbios, ameaçada pela mineração

A proximidade do carste com o mar faz com que espécies que hoje vivem em cavernas tenham ancestrais marinhos

Aqui está a fauna subterrânea mais rica do Brasil, surgida provavelmente como resultado de importantes flutuações climáticas. No último máximo glacial grande parte do semiárido era floresta

Nessa zona estão sistemas de cavernas amplos, com rios subterrâneos bem desenvolvidos que abrigam uma diversa fauna de peixes

● Cavernas ferríferas ● Cavernas carbonáticas ■ Amazônia ■ Caatinga ■ Cerrado ■ Mata atlântica ■ Pampa ■ Pantanal 1 2 3 4 5

que se observa em alguns peixes das cavernas estudadas. Em seguida, aqueles que se estabelecem em corpos d’água mais amplos, como o Poço Encantado, cuja profundidade pode chegar a 65 metros, podem desenvolver novos mecanismos de orientação no espaço. Nessas condições, talvez os maiores levem vantagem. Esse modelo se aplica a esses peixes com cerca de cinco cm. Não vale para os bagres-cegos de Iporanga, que têm 15 cm, estudados por Eleonora no início de sua carreira. “Esses devem ter entrado pela boca da caverna”, imagina a pesquisadora da USP.

E M p ERIGO

Presente na mente de todos os especialistas é o risco de perder esses mundos de lagos profundos, rios naturalmente canalizados, flores de pedra, salões que inspiram humildade e uma fauna profundamente peculiar. Em 2008 um decreto-lei aboliu a proteção integral de que as cavernas gozavam e instituiu medidas para compensar a destruição conforme a relevância da caverna. “O

1

que confere relevância máxima é a singularidade; se tudo for redundante, não há problema”, concede Eleonora. Mas não são necessários grandes estudos para se obter permissão para extrair minério, retirar água ou qualquer outro uso destrutivo. “A consulta a especialistas não foi levada em consideração nos pontos mais críticos”, conta.

A lei determina que duas expedições são suficientes para averiguar se há preciosidades animais numa caverna. O problema é que não basta. “Às vezes precisamos de quatro ou cinco visitas para parar de encontrar coisas novas”, conta Elina. O agravante é que as duas visitas exigidas não funcionam como réplicas, porque se faz uma na época seca e outra na chuvosa – quando as condições distintas podem determinar que as faunas sejam distintas. Para Eleonora, uma avaliação suficiente necessita de três anos de trabalho, o que nunca acontece.

Outra preocupação, além do uso mais destrutivo, é o turismo em cavernas. Eleonora e Elina são coautoras de um estudo liderado por Heros

1 Com suas garras, os amblipígios parecem saídos de um filme de terror

2 T. translucidus: primeiro escorpião de cavernas encontrado no Brasil

3 Minúsculo: pseudoescorpiões se escondem nos recantos

4 opilião usa apêndices alongados como se fosse uma bengala de cego

Lobo, do Departamento de Geografia, Turismo e Humanidades da UFSCar, que analisa a capacidade de visitação em cavernas turísticas como a do Diabo, no sul do estado de São Paulo. O artigo, publicado em 2013 na Tourism Management, propõe uma fórmula para calcular quantos visitantes poderiam entrar por dia, levando em conta mapas de áreas de fragilidade. A instalação de passarelas suspensas e outros recursos podem ajudar a evitar maiores danos, embora o processo de construção possa ser traumático.

O arquiteto Marcos Silverio, mestrando na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, também tomou a caverna do Diabo como estudo de caso para propor maneiras de harmonizar a necessidade de preservação ao uso pelas pessoas. Ele mesmo se apaixonou pela espeleologia muito antes de ser arquiteto. “Expressão mais rudimentar do significado da arquitetura, as cavernas foram o primeiro abrigo do homem e são locais simbólicos, que desde a pré-história estimulam a curiosidade humana em busca de aventura, mistério e beleza”, afirma. Ele alerta que, mesmo com toda a estrutura construída e a massa de turistas que frequenta a caverna do Diabo a cada ano, os danos estão concentrados no trecho turístico. Nas águas dessa caverna existe uma espécie do pequeno crustáceo Aegla strinatii, que só existe na região. Para o arquiteto, estudos ecológicos são imprescindíveis para se delimitar a proteção. É preciso saber se há uma época de reprodução na qual o animal é mais vulnerável e como minimizar os danos, por exemplo. Segundo Silverio, muitos planos de manejo são malfeitos. Uma restrição na legislação, por exemplo, é que não pode haver impactos num raio de 250 m da caverna. “Mas como se mede essa distância?” Não basta considerar a entrada e esquecer as galerias subterrâneas. É preciso pensar em tudo: o material

usado para estruturas de visitação não pode liberar substâncias contaminantes nem ser um meio propício para microrganismos, os trajetos devem ser delimitados e as estruturas (mínimas) precisam ser bem pensadas. Prato cheio para um arquiteto.

O santuário de Bom Jesus da Lapa é um exemplo de como as cavernas inspiram algo de religioso mesmo para quem não tem fé. A igreja construída dentro de uma caverna descoberta no final do século XVII atrai milhares de romeiros a cada agosto. Em seguida, uma sucessão de salões abriga um sem-fim de ex-votos. São braços, pernas, bebês de madeira ou de cera, casas em miniatura às vezes com a foto do proprietário, fotos e bilhetes nas frestas da rocha. Até os cientistas talvez não consigam evitar uma sensação de reverência. Em parte, em muitos casos é exatamente isso que os levou a estudar esse ambiente. ■

Projetos

1. Fauna subterrânea aquática brasileira: biodiversidade, biologia, evolução, ecologia e conservação (nº 2003/00794-5); Pesquisadora responsável eleonora Trajano (UsP); Modalidade Projeto Temático; Investimento R$ 518.889,68 (FAPesP).

2. As áreas cársticas de são Desidério, serra do Ramalho (sudoeste da Bahia) e são Domingos (nordeste de Goiás) representam hot spots de biodiversidade? Análise das comunidades cavernícolas e critérios para sua proteção (nº 2010/08459-4); Pesquisadora responsável Maria elina Bichuette (UFsCar); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Investimento R$ 146.201,14 (FAPesP).

Artigos científicos

BIC h U e TT e , M. e et al e volution of the subterranean catfish Rhamdiopsis krugi Bockmann and Castro, 2010 (Teleostei: siluriformes: h eptapteridae) from eastern Brazil based on geometric morphometrics. b iological Journal of the Linnean Society. No prelo. sIMÕes, L. B. et al. Aquatic biota of different karst habitats in epigean and subterranean systems of Central Brazil – visibility versus relevance of taxa. Subterranean biology. v. 11, p. 55-74. 2013. YoshIZAWA, k et al. Female penis, male vagina, and their correlated evolution in a cave insect. current biology. v. 24, n. 9, p. 1006-10. 5 mai. 2014.

Jean-Claude Bernardet

Um crítico contra a estética da miséria

Jean-Claude Bernardet não alivia. Crítico severo do atual cinema brasileiro, atira contra o uso constante da miséria como tema de documentários. “Ela nunca cria problema político porque gera um discurso do consenso, além de chamar a atenção para a piedade, a bondade e a lamentação da infelicidade”, disse. “Essa miséria tão abundantemente mostrada pelos documentários, se fosse inserida no sistema como um todo, as coisas poderiam mudar de significação e perspectiva.” Uma vez estetizada, a miséria se torna despolitizada. “É um grande achado da classe média”, observou.

Na universidade, Bernardet não foi menos incisivo. Nos anos 1980, na sua segunda passagem pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), percebeu que boa parte das teses dava mais valor à introdução teórica do que ao objeto de pesquisa. “Cortei essa prática com meus alunos”, contou. Para ele, primeiro é preciso tentar entender e questionar o objeto de estudo e saber o que o estudante quer do objeto para só depois utilizar a informação teórica. Já como crítico de cinema, marcou posição ao entender que uma das razões de ser da crítica é o diálogo com a criação e a produção do filme. E essa interação só poderia acontecer se a análise da obra estivesse voltada para o que se faz no Brasil. Escrever sobre os trabalhos de Ingmar Bergman, Federico Fellini e Michelangelo Antonioni era inútil para Bernardet. “Eles nunca me leriam e não haveria a interação desejada.”

De origem francesa, Jean-Claude Bernardet

nasceu em 1936 em Charleroi, na Bélgica, onde o pai estagiava em uma fábrica. Veio com a família para São Paulo quando tinha 13 anos, mas ficou imerso no pequeno mundo francês até os 21 anos. Os cursos realizados no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) foram os responsáveis por colocá-lo em contato com o Brasil real. Em seguida, a frequência em um cineclube paulistano e na Cinemateca Brasileira o ajudou a se estabelecer na sociedade e na cultura brasileiras como um participante influente. Na Cinemateca, Bernardet conheceu Paulo Emilio Salles Gomes, então um dos mais respeitados críticos de cinema, colunista do Suplemento Literário de O Estado de S.Paulo. O contato se mostrou frutífero, em especial para o jovem cinéfilo, que começou a escrever para a imprensa e se tornou um dos principais interlocutores da geração de cineastas que fizeram o Cinema Novo. A entrada para o mundo acadêmico ocorreu em 1965 na Universidade de Brasília (UnB), num período em que não havia professores formados em cinema e era necessário contratar profissionais da área. A partir de 1967 começou na ECA-USP. Mas foi “aposentado” por força do Ato Institucional nº 5 (AI-5), decreto baixado pelo governo militar em dezembro de 1968, e ficou sem poder ensinar em universidades públicas.

Por 11 anos trabalhou no Instituto Goethe dando cursos sobre cinema. Após a Lei da Anistia, aprovada em 1979, voltou à universidade. Sem nunca ter completado o ensino médio nem ter feito graduação, recebeu o doutorado por notório saber. Em

idade 78 anos especialidade Cinema forMação Universidade de São Paulo (doutorado) prodUção 23 livros (ensaios, ficção, coletânea de artigos, autobiografia e roteiros)

1991, ele submeteu e teve aprovado um projeto temático, na primeira chamada do programa na FAPESP. Tratava-se de pesquisar filmes sobre São Paulo com o propósito de produzir um média metragem que fosse uma colagem de filmes que falasse da cidade. O produto desse temático foi o ensaio cinematográfico São Paulo - sinfonia e cacofonia, concluído em 1994. Hoje aposentado da USP, continua sendo convidado para colaborar com roteiros e atuar como ator – atividade mais constante nos últimos anos. Foi casado com Lucila, também professora de cinema, com quem teve Ligia, que mora nos Estados Unidos. Autor múltiplo, com produção em teoria do cinema, ensaios, ficção, autobiografia e roteiros, atualmente escreve pouco, quase sempre em seu blog (jcbernardet.blog.uol.com.br).

Uma séria degeneração da retina chamada maculopatia limita drasticamente sua visão. Abaixo, a entrevista que Jean-Claude Bernardet concedeu à Pesquisa FAPESP.

No livro autobiográfico

Aquele rapaz, a impressão que se tem é a de que você faria ou estudaria literatura e não cinema. Por que uma coisa e não outra?

Pertenço a uma família que lia muito, rigorosamente todos os dias, sem exceção. Eu e meu irmão líamos desde os cinco ou seis anos. Meu presente de aniversário de 18 anos foi a autorização para ler Sartre, Simone de Beauvoir e Camus, que até então estavam proibidos em casa. Nessa época comecei a trabalhar na editora Difel, a Difusão Europeia do Livro, cujos autores principais eram esses que citei. Trabalhei também na Livraria Francesa. Então vocês têm razão em pensar que havia um caminho literário natural para mim. O que aconteceu é que na livraria e na editora eu continuava preso dentro daquele pequeno mundo em que se falava apenas francês e achei que devia romper com isso. Só não podia ser radical porque tinha o salário que me sustentava. Decidi, por isso, fazer um curso no Senai.

dois deles. Como não terminei o secundário [ensino médio], os dois primeiros diplomas que tenho são os do Senai. Foi um corte brutal na minha vida porque ninguém falava francês lá e eu falava português muito mal. Por outro lado, houve um choque social. Eu venho de uma família de classe média relativamente cultivada, do ponto de vista político e cultural. Uma família que ia ao teatro e ao cinema. Meu pai participou da Resistência Francesa durante a guerra. E no Senai estavam pessoas simples, imigrantes de outros estados. Houve também um choque cultural no seguinte sentido: esses cursos tinham uma grande base no desenho. Eu desenhava e continuo desenhando muito mal, mas tenho grande facilidade para composição. Fazíamos, por exemplo, a

paulo e milio foi o primeiro adulto a me levar a sério, que achou que eu tinha alguma competência

capa de um livro ou uma página inteira para anunciar geladeira e outros exercícios. O professor, em geral, elogiava meu trabalho porque tenho um certo senso de como equilibrar uma massa de texto com imagens. O essencial do curso era a concepção. Só que os outros alunos desenhavam, mas não tinham a menor ideia de composição, de onde colocar o objeto, os dizeres, sobre o tamanho de letra, coisas assim. Por outro lado, desenhavam com muitos detalhes. Eles não entendiam a razão do meu sucesso no curso.

eu continuasse trabalhando na livraria e na editora. Ao lado da livraria, havia um cineclube, na Galeria Califórnia, que liga as ruas Barão de Itapetininga e Dom José Gaspar, no centro de São Paulo, com fachada para as duas ruas. Um dia fui com um amigo ver o que acontecia lá. Era um cineclube que não projetava. A cada semana escolhiam um filme que estava ou que iria entrar em cartaz. Assistíamos no cinema e debatíamos no cineclube. Uma pessoa era escolhida e falava por 20 ou 30 minutos sobre o filme. Durante essa exposição analítica, ninguém intervinha. Em seguida, abria-se uma roda de discussão. Quando apareceu um filme francês me convidaram para falar, dada minha origem. Falei num português tosco, mas fui muito bem aceito. Meses depois, houve eleições para a diretoria, fiz parte da chapa, fomos eleitos e a partir disso fiz contato com a Cinemateca de São Paulo. Minha interpretação desses fatos é a de que continuo sendo um imigrante. Os franceses não formaram uma colônia aqui, não houve operários franceses que vieram colonizar ou trabalhar em massa no Brasil, como aconteceu com japoneses e italianos, por exemplo. Para mim, as atividades sobre cinema representaram também uma inserção na sociedade brasileira. O Senai era uma área de conflito por causa da diferença social. Já no cineclube e na Cinemateca estávamos mais ou menos no mesmo nível cultural e social e, portanto, havia um diálogo que se estabelecia. O que eu fazia tinha retorno. Na Cinemateca conheci o Paulo Emilio Salles Gomes, um encontro fundamental na minha vida. E o Paulo, que era duas gerações à frente da minha, foi, digamos, o primeiro adulto que me levou a sério, que achou que eu tinha alguma competência. Ele criava desafios para mim e dizia para eu me virar e resolver.

Foi nesse momento que você começou a escrever no Suplemento Cultural do Estadão?

Como se deu essa ruptura?

Já que eu estava na editora, comecei a fazer cursos de artes gráficas e completei

Lá você começou a conhecer o Brasil real. De certa forma, o ingresso no Brasil se deu pelo Senai. Foi um rompimento com o mundo exclusivamente francês, embora

O Paulo faria uma viagem longa e antes montou um grupo para escrever artigos no lugar dele, em comum acordo com Décio de Almeida Prado, que era o editor

do suplemento. Esse grupo incluía Rudá de Andrade, Gustavo Dahl, que estava no cineclube Dom Vital e na Cinemateca, Fernando Seplinski e eu. Quando Paulo voltou, reassumiu a coluna e me pediu para alternar com ele. Passei a escrever com mais regularidade. Meus artigos faziam bastante sucesso.

Nesse período, final dos anos 1950 e começo dos 1960, houve uma intensa atividade na Cinemateca. Como foi isso? Havia um público selecionado que se interessava por cinema. Não tinha estudantes de cinema porque na época não existiam cursos, mas sim jovens interessados, críticos e pessoal de teatro. Fizemos o festival francês, o russo-soviético e o italiano, que compunham uma grande retrospectiva. Outros, o tcheco-polonês, por exemplo, era um festival de atualidades, trazendo para o Brasil cineastas completamente desconhecidos aqui. Em 1961, a Cinemateca – com Rudá, Maurício Capovilla e eu – organizou uma noite de Cinema Novo, isso antes da expressão existir e de aparecerem os longa-metragens desses novos cineastas. Nós – principalmente o Rudá –tivemos a percepção de que estava se desenvolvendo uma geração de diretores de cinema totalmente diferente dos que existiam. Apresentamos os curta-metragens Aruanda, de Linduarte Noronha, O poeta do castelo, sobre Manuel Bandeira, de Joaquim Pedro de Andrade, um filme de Paulo César Saraceni e outro de Trigueirinho Neto. Glauber Rocha não veio, mas Saraceni estava aqui e houve uma briga gigantesca.

Por quê?

Quem eram eles?

Nem me lembro de todos. Mas um deles era César Mêmolo Jr., que foi o mais agressivo. Dizia que aquilo não era cinema. Tinha outros, como Carlos Alberto Souza Barros, que depois foi para o Rio. O nosso grupo aderiu totalmente à novidade. O Estadão deu uma página inteira para anunciar esse festival.

Você conseguiu entender aquele novo cinema?

Sim, nós tínhamos a consciência de que algo novo estava acontecendo e que era por aí que iríamos e queríamos afirmar isso. Eu, como crítico nascente que era, nunca concebi – inicialmente sim, mas depois mudei de ideia – o crítico como produtor de textos avaliativos e analí-

ra dar palestras sobre o método crítico, que eu não tinha a menor ideia de qual era. Aí me veio algo claro. O único leitor que me importava era o Fellini. E o que eu tinha escrito jamais chegaria até ele. Naquele momento entendi que um dos trabalhos da crítica era o diálogo com a produção e a criação. Para isso, eu precisava trabalhar com filmes e assuntos brasileiros porque era a única possibilidade de haver diálogo. Ingmar Bergman, Fellini, Michelangelo Antonioni nunca me leriam e não haveria interação. Concebi a crítica como interação, e não apenas como análise e avaliação, depois de assistir a A doce vida.

Isso o ajudou a virar professor, a explicar essa concepção de crítica em aula? Não. Nos anos 1950 e 1960 havia pequenos cursos de cinema. Comecei como aluno neles, depois fui convidado para dar aulas.

c oncebi a crítica
como interação, e não
apenas como análise e avaliação, depois de assistir a A doce vida

Os cineastas paulistas consideravam que aqueles filmes não estavam montados, começavam com planos longos, como o de Bandeira, em que ele aparece andando na rua. Era o início de um novo ritmo que depois foi se afirmando nos longas. Era um novo olhar sobre as pessoas filmadas. Os cineastas paulistas que assistiram àquilo eram todos, digamos assim, dos anos 1950, com outras formas narrativas, outra concepção de montagem.

ticos. Sempre achei que o crítico é um participante cultural pleno. Não foi a única vez que participei de atos desse tipo, portanto, isso fazia parte de uma afirmação de um trio, porque tinha Rudá, Capovilla e eu, mas, da minha parte como crítico, aquilo fazia parte de um trabalho, digamos, intrínseco. No início, quando comecei a escrever, escrevia dentro de uma certa tradição. Ou seja, o crítico avalia, analisa, julga, compara etc. Logo percebi que esse não deveria ser o trabalho do crítico mais ativo. A data em que essa ruptura ficou evidente para mim foi março de 1961, quando escrevi a crítica sobre A doce vida , de Federico Fellini, que teve uma enorme repercussão. Fui depois convidado pa-

Havia bibliografia sobre cinema à disposição? Tinha algumas referências. Para o professor, é muito importante ter acesso direto à obra, com menos mediação possível. Quando voltei para a ECA-USP em 1980, depois da Lei da Anistia, fui à biblioteca e vi que um terço das teses era uma grande introdução teórica. Havia Lacan, Barthes, estruturalismo... O objeto de pesquisa vinha depois disso e a abordagem era totalmente condicionada pelas premissas teóricas colocadas na introdução. Com meus alunos, cortei essa prática. A informação teórica deve ser posterior. Primeiro temos de entrar em contato com determinado objeto, saber o que queremos dele ou o que se destaca nesse objeto – o filme ou o diretor ou o livro, qualquer coisa. E só a partir de todo o questionamento que vamos levantar em torno desse objeto é que temos que ter um instrumental, que pode ser eclético, inclusive, dependendo do questionamento que se faz. Eu dizia que eles trabalhavam de uma maneira medieval. Havia uma bíblia, que no caso era Aristóteles, e eles a substituíam por Roland Barthes ou Lacan ou outro teórico da moda. Como organização de

pensamento não muda nada, porque o pensamento não é só um conteúdo. É também uma forma.

Isso aconteceu na USP, depois de sua passagem pela UnB. Como foi a experiência em Brasília?

Paulo Emilio foi em 1964 para o ICA, Instituto Central de Artes da UnB, onde fez um longo seminário sobre Vidas secas, o livro e o filme, que foi muito bem aceito. Na cabeça de Pompeu de Souza – futuro coordenador do que viria a ser o Instituto de Comunicações –, em 1965 se instituiria um pequeno curso de cinema. Os institutos, na UnB, poderiam se formar a partir de um tripé de três cursos iniciais. Já existia jornalismo, em 1965 teria cinema e em 1966 começaria o de televisão. Era um momento de modernização das universidades, que vinham introduzindo cursos e disciplinas já existentes na Europa havia algum tempo. As universidades não conseguiam contratar professores titulados nessas áreas porque os cursos não existiam. Portanto, chamavam pessoas do meio profissional que tivessem algum reconhecimento. Eu entrei assim na vida acadêmica. Cheguei em 1964 e saí em 1965. Fui um dos 223 que pediram demissão da UnB depois das invasões e interferências dos militares.

Além de você, quem dava o curso de cinema da UnB?

Foi essa abertura que permitiu que você fizesse o mestrado incompleto mesmo sem ter se graduado em nenhum curso? Paulo Emilio fez filosofia e Lucila era da área de letras. Nelson fez direito e nunca exerceu. Eu não tinha nada. Mesmo assim comecei o mestrado e não consegui terminar por causa da demissão, mas ele resultou no livro Brasil em tempo de cinema, escrito em Brasília e publicado em 1967.

Depois da UnB você foi para a ECA. Como chegou lá?

A USP estava na mesma situação da UnB com relação aos cursos novos. Não havia professores formados. Isso durou aproximadamente até 1971, quando se formaram as primeiras turmas e imediatamente alguns dos recém-formados ingressaram

missão dos 223, a UnB ficou praticamente sem corpo docente. A reitoria teve de criar uma comissão de reestruturação do ICA, que chamou professores para diversos setores do instituto. Para Cinema, chamaram Capovilla e eu. A essa altura eu era professor da USP e não podia trabalhar em outro estado sem autorização da reitoria. Então Rudá me cobria. Ele remanejou a grade horária para que eu desse por algumas semanas uma carga maior, depois me liberava para a UnB e eu continuava na ECA.

Grande amigo!

Quando voltei à eca-Usp, notei que um terço das teses era uma grande informação teórica

Paulo Emilio, Nelson Pereira dos Santos e Lucila Bernardet, minha mulher na época. Tínhamos a convicção de que estávamos construindo algo novo. A UnB era baseada em créditos e não em disciplinas, com maleabilidade de circulação. Havia 11 coordenadores, uma camada de professores e um exército de auxiliares de ensino. Quem dava aula realmente eram os auxiliares. O professor dava uma aula e o trabalho dos auxiliares era dividir e desdobrar essa aula em 10 ou em 20. Eram muitos jovens que estavam iniciando seus mestrados e ainda se sentiam muito próximos dos estudantes. No meu caso específico, não completei o secundário nem fiz graduação. Não tinha nenhum ranço acadêmico e o contato com os estudantes fluía bem.

no mestrado e no corpo docente. É o caso, por exemplo, de Ismail Xavier [ver entrevista em Pesquisa FAPESP nº 94], que fez parte da primeira turma da ECA, era um aluno brilhante e assim que se formou foi convidado. A partir desse momento, houve um fechamento total para quem não era graduado. Quando comecei na ECA eu já era procurado pela polícia em São Paulo. Rudá de Andrade era o chefe do departamento, que na época era Cinema, Televisão e Teatro. Ele pediu que eu fizesse algumas palestras, usando terno e gravata. Fiz e ele esperou a reação. A reitoria não se mexeu, a polícia não reagiu. A partir disso se deu a formalização de um contrato que ocorreu no segundo semestre de 1967. Ocorre que, com a de-

Rudá foi extraordinário. E não só comigo. Eu alternava meu tempo entre São Paulo e Brasília. Quando estava em Brasília, no início de 1969, nesse momento de curso intensivo para recuperar o semestre, o AI-5, editado em dezembro de 1968, me alcançou. Um dia fui avisado de que a UnB deveria interromper qualquer contato que tivesse comigo imediatamente. Era o resultado da lista dos 25 professores da USP que tinham sido cassados pelo regime. Como eu não sabia bem o que ia acontecer, fiquei escondido. Quando voltei a São Paulo, Rudá me pediu que eu fosse à ECA. Rapidamente, ele recebeu um ofício do diretor da ECA, dizendo que sabia que eu tinha penetrado nas dependências da USP, o que era proibido. Ele respondeu em uma carta admirável dizendo que sim, que eu havia estado na universidade a pedido dele, com a finalidade de retirar meus pertences e de fazer um balanço do que tinha sido feito até então. Disse também que não era tarefa do chefe de departamento proibir a entrada de alguém. A carta é extraordinária, sem uma única palavra que destoe do vocabulário protocolar e dizendo tudo o que havia para dizer. Foi um ato de coragem.

Você fez o quê?

Fiquei 11 anos fora da USP e só voltei quando a universidade aplicou a Lei da Anistia. Vários professores retornaram, como José Arthur Giannotti, Vilanova Artigas, eu. Outros não, como o Fernando Henrique Cardoso.

Como sobreviveu nesse período?

Esses estão entre os melhores anos da minha vida. Primeiro, porque a lista dos cassados foi um erro da ditadura. A cassação nos deu uma projeção internacional imediata. Na época eu era só um professor com um livro publicado. De repente, fui associado ao Fernando Henrique, Giannotti, Florestan Fernandes, Mário Schenberg e outros famosos. Cresci do dia para a noite. Mas, de qualquer jeito, eu tinha perdido tudo em 1964, em 1965 e outra vez em 1969. Estava ficando meio cansado. Das duas primeiras vezes aguentei bem, mas em 1969 já tinha uma filha e certos compromissos financeiros.

Você foi preso?

Fui interrogado, mas não preso. Estive no Chile no festival de Valparaíso quando já havia muitos brasileiros exilados lá. Comecei a fazer contatos e abriu-se a possibilidade de eu lecionar numa universidade perto de Santiago. Expliquei para Lucila qual era o plano e a resposta dela foi surpreendente:

“Não vou para o Chile porque vai acontecer lá o mesmo que aconteceu aqui”. Isso foi em 1969, Eduardo Frei ainda era o presidente e Salvador Allende estava em campanha. Não sei como ela teve essa visão. Foi categórica em relação ao Chile e acertou em cheio.

E qual foi sua decisão?

ram uma política cultural inteligente. Eu dava aulas de cinema e eles me pagavam regiamente. Com o que eu recebia podia viajar pelo Nordeste para ajudar a organizar cineclubes, falar de métodos de debates, participar de programações de filmes sem chamar a atenção da polícia, mas tendo uma margem de discussão. Ensinava também um pouco de autocensura, porque não adiantava provocar um debate maravilhoso numa semana e não ter mais debate na semana seguinte.

Até quando ficou no Goethe?

Até 1978. Em São Paulo, o diretor conseguiu que financiassem seminários, que eu organizava. Certo dia, recebi um comunicado do instituto, em Salvador, dizendo que tinham recebido um aviso da

gigantesca de documentos, com todos os artigos, os cargos, tudo que já produziu e mais um longo memorial com a narrativa de sua vida intelectual. Fiz tudo isso e escrevi um texto de 100 páginas. Não é preciso orientador, nem cursar disciplinas. Tinha cinco juízes e quatro deles se recusaram a arguir por motivos políticos, consideravam ser óbvio que não era necessário. O único que perguntou alguma coisa foi o Sábato Magaldi, que encontrou uma falha monumental: esqueci de colocar bibliografia. Ela estava no computador, mas na hora de imprimir esqueci a bibliografia. Era algo inaceitável, mas acabei obtendo o doutorado.

a lista dos professores cassados foi um erro
da ditadura por nos dar uma projeção internacional imediata

Fiquei aqui e trabalhei em uma faculdade privada nova, de São José dos Campos. Mas durou pouco porque a repressão estava atuante, de olho nos professores. Achei melhor sair. Trabalhei por um tempo com João Batista de Andrade como codiretor em quatro filmes que contavam a história do cinema paulista, em um projeto da Comissão Estadual de Cinema. Eu estava cassado e não podia receber dinheiro público e foi preciso uma pessoa me emprestar o nome, que consta nos créditos. Em seguida fui descoberto pelo Instituto Goethe. Não falo alemão, mas eles gostaram de mim e passei a dar aulas. Houve dois Goethe muito importantes no Brasil: o de Salvador e o de São Paulo. Os diretores dessas duas filiais enfrentaram a ditadura na medida do possível e tive-

embaixada da Alemanha para interromper todo o contato comigo. Avisaram que eu receberia tudo, mas não continuamos. Nesse período todo publiquei livros, fiz o jornal Opinião e escrevi um pouco no Movimento.

Quando você fez o doutorado?

Durante os anos 1980, a Dora Mourão, que era chefe de departamento, me disse que estava ocorrendo a diminuição do corpo docente da USP, que já tinha atingido algumas categorias e a próxima seria a dos professores convidados. Eu sempre tinha sido dessa categoria. Ela avisou que eu teria de fazer o doutorado e pedi à USP um por notório saber. Para conseguir, é preciso fornecer uma lista

Vamos voltar a falar de cinema. Em Brasil em tempo de cinema , de 1967, você relaciona o Cinema Novo à classe média, feito por cineastas dessa classe e dirigido para ela. Os diretores de cinema não gostaram e o livro rende polêmicas até hoje. Quase 50 anos depois, você mudaria algo no livro? As coisas que eu faria diferente, deixo para lá, porque o que foi, foi. Além de toda a gritaria que houve, a crítica mais pertinente ao livro partiu da Zulmira Ribeiro Tavares, que disse que meu conceito de classe média não tinha nenhum fundamento sociológico. Fiquei bastante chocado, mas me dei conta de que ela tinha razão. Depois, pensei o seguinte: até meados dos anos 1950, quando começamos a ter alguma reflexão sobre a classe média, não tínhamos bibliografia. A bibliografia sobre a intelectualidade, os artistas, só aparece um pouco mais tarde. Quando Arnaldo Jabor fez Opinião pública [1967], ele também não tinha bibliografia e se apegou a um conceito de classe média de John Stuart Mill, que não se aplica ao universo social mostrado pelo filme. Acho que foi uma falha minha no livro, mas era também um momento histórico da sociologia. Não tínhamos retaguarda.

O argumento não desmonta seu livro? Não desmonta, mesmo que as questões não tenham sido bem fundamentadas do ponto de vista teórico. Ainda assim

foi importante. A tal ponto que quando o festival É tudo verdade fez uma homenagem aos meus 70 anos, Eduardo Coutinho disse publicamente que o filme Cabra marcado para morrer é uma resposta às questões que eu coloquei no livro. Ele diz textualmente: “Fiz Cabra para ele”. Isso está publicado na última versão do Brasil em tempo de cinema [Companhia das Letras, 2007], foi uma transcrição da fala dele, aceita por ele. O livro tem uma longa trajetória.

Mas lhe custou algumas amizades. O que me custou muitas amizades foi mais Cineasta e imagens do povo, livro de 1985, em que eu falava dos conflitos ideológicos e estéticos dos cineastas e como eram usadas as imagens do povo. No Brasil, as pessoas me atacaram muito por causa dessas discordâncias ideológicas. Um dos que mais me atacaram na imprensa foi Glauber e de uma forma sistemática. É evidente que todos imaginam que Glauber e eu estávamos brigados. Nunca briguei com ele, ele nunca brigou comigo e sempre nos entendemos muito bem. Era tudo jogo de cena. Eu nunca respondi e ficava por isso mesmo. Entre nós nunca tivemos uma palavra ácida. Quando o encontrava depois das críticas era normal. Mas sei que as pessoas não acreditam nisso.

Incomoda a você a relação de compadrio entre críticos e artistas?

a

não apenas ver o filme, mas através dele perceber qual é o projeto do cineasta. Esse projeto não é necessariamente verbal, porque não pode ser totalmente verbalizado, já que há uma série de fatores, de audácia, de desejos, de frustrações... Acho que posso dizer que tive muita intuição quando vi o Cabra . Logo depois de sair a crítica, Coutinho me telefonou, porque estava impressionado. Bastante tempo depois, me disse que, antes de fazer o Cabra e durante a filmagem, ele lia Walter Benjamin, que não é citado no filme. Quando viu que meu texto acabava com uma citação do Benjamin, ele não acreditou. Nunca fui amigo do Coutinho no sentido de ir tomar cerveja com ele. E nunca soube que ele lia Benjamin. Mas percebi que den-

você fizer um filme sobre Almeida Jr. na Pinacoteca do Estado, se fizer o Cabra ou se entrevistar sem-teto na rua, esses três filmes, que não têm nada a ver um com outro, recebem a mesma denomição genérica de documentário. Agora, o Cabra é um marco. Não acho que se possa falar em antes e depois, porque Coutinho teve uma atitude corajosa de enfrentar a situação política da época de uma forma específica e particular. O que ele fez é o que falta no cinema brasileiro atual, distanciado de qualquer problema mais relevante da sociedade brasileira. Acredito que o cinema inteiramente patrocinado, subsidiado, financiado, paga um preço político. No Cabra, há a questão da ditadura, da situação nordestina, das ligas camponesas... Mas não é uma reportagem. Por isso é importante essa questão da teoria da história, é uma reflexão sobre perdas constantes, resgates constantes. A maioria dos filmes feitos hoje no Brasil é politicamente inexpressiva.

horizontalidade

da miséria nunca cria problema político porque gera um discurso do consenso

O meio é absolutamente promíscuo. Quando estive no jornal Opinião, no Rio, eu evitava frequentar os mesmos bares e rodas de cineastas. Fui no Antonio’s, que era o centro disso tudo na época, com Gustavo Dahl para conhecer Paulo Francis e nunca mais voltei. Essas rodas são perversas ao crítico. Sempre mantive distância.

No mesmo depoimento de Eduardo Coutinho sobre você, ele disse que o melhor que se pode dizer de uma crítica é quando ela corresponde ao desafio de um filme. Você, como crítico, concorda com isso?

A frase é bonita. Para mim faz sentido

tro do Cabra tem uma teoria de história embutida. Percebi essa história, relacionei isso por causa das minhas leituras, e não das leituras dele, e depois percebemos que estávamos na mesma sintonia. Anos depois viajamos juntos para o Canadá e conversamos muito sobre Jogo de cena, outro filme dele, de 2007, e sobre o processo de entrevista. Sobre o Cabra, nunca conversamos. Para mim foi um grande momento de realização como crítico.

Pode-se dizer que Cabra marcado para morrer foi um marco entre os documentários já produzidos no Brasil?

A palavra documentário tem pouca profundidade. Dá para usar para tudo. Se

A que você atribui o momento atual do cinema brasileiro não muito feliz?

Uma das explicações fáceis é a questão do subsídio. Não se tocam em alguns temas. Tive relações intensas com vários documentaristas, vi montagens, versões. Um deles me disse, certa vez, que os desastres ambientais da Petrobras são enormes. Sugeri então que ele fizesse um filme sobre isso. Ele me respondeu que, se o fizesse, o cinema brasileiro acabaria. Sabemos que a Petrobras é uma forte patrocinadora do cinema. Uma das questões que se coloca num certo nível de documentário é a horizontalidade. A horizontalidade da miséria nunca cria problema político, porque ela gera um discurso do consenso, além de chamar a atenção para a piedade, a bondade e a lamentação da infelicidade. Já sugeri várias vezes que a evolução do cinema devia se dar no sentido de uma verticalidade e que essa miséria tão abundantemente mostrada pelos documentários, se fosse inserida no sistema como um todo, as coisas poderiam mudar de significação e perspectiva. Acho que há uma grande

despolitização da miséria. A miséria é um grande achado da classe média. É um discurso que não cria nenhum problema. Fica a ilusão de que se está abordando questões de miséria ou de sem-teto, que estamos fazendo alguma coisa. Mas não estamos fazendo nada.

Outra reclamação constante é sobre a pobreza dos roteiros.

A importância do roteiro provém muito da desimportância da produção. Como não se consegue produzir, você faz roteiro, refaz o roteiro, faz curso de roteiro, tem concurso de roteiro... Sem produção e sem toda uma máquina para produzir isso – inclusive a dramaturgia – não se tem nada. Não é que a dramaturgia não seja importante, ao contrário. Mas, se não estiver no quadro da produção, não resolve. É preciso ter em vista um conjunto imenso de parâmetros. De como filmar, ter o circuito de distribuição antes de filmar, o filme mirar o público certo etc. Precisamos criar um sistema de produção em que entra a dramaturgia. Sozinha ela não resolve. Pode-se fazer o mais fantástico filme, mas isso não o colocará necessariamente no Cinemark.

Hoje você está mais voltado para o chamado Cinema Marginal?

O meu gosto seria estar na produção e realização de filmes políticos. A única coisa que eu não gosto dessa expressão é o fato de ela vir marcada por um movimento dos anos 1960, que é o Cinema Marginal, tocado por grandes cineastas como Júlio Bressane ou Rogério Sganzerla, entre outros. Isso é muito ruim para as jovens gerações. Eles têm que se livrar dessas referências. Parece simples, mas não é: o peso dos anos 1960 nos ombros dos jovens cineastas, dos estudantes, essa referência eterna ao Cinema Novo, ao Cinema Marginal. O bandido da luz vermelha [1968] continua sendo um filme admirável, a atuação da Helena Ignez, em A mulher de todos [1969], é espantosa. A questão é como lidar com a tradição – se ela é opressiva, não estimula a criação.

Há algum movimento ocorrendo neste momento no cinema brasileiro? Faz uns cinco anos descobri um livro chamado Cinema de garagem, um inventário afetivo sobre o jovem cinema brasileiro do século XXI. Os autores são Dellani Lima e Marcelo Ikeda, de Fortaleza. Eu sabia que no Ceará tinha novidades, mas com esse livro ficou claro que havia uma produção consistente. Antes eu já conhecia o Kiko Goifman, que dirigiu FilmeFobia em 2008, no qual participei como ator. Comecei a falar com essas pessoas. Essa expressão, Cinema de Garagem, tem muitos interesses – um deles é que não vem de fora, como Nouvelle Vague, nem da imprensa. Veio de quem faz cinema. Além disso, há uma cinematografia de Recife, em Pernambuco, que é a mais combativa atualmente, feita

É preciso que os jovens cineastas se livrem do peso do c inema n ovo e do c inema Marginal

por Marcelo Pedroso, Gabriel Mascaro e Kleber Mendonça, por exemplo.

Atualmente você trabalha mais como ator e roteirista do que como crítico. Por quê? O fato de eu ter atuado em filmes é algo esporádico. Fiz A cor dos pássaros [1988], do austríaco Herbert Broeld, porque foi filmado na Amazônia e eu queria conhecer a região. A partir de um determinado momento eu realmente mudei. Quando Kiko me convidou para trabalhar no roteiro de FilmeFobia, ele veio aqui com um roteirista. Achei a ideia interessante, mas a historinha que tinham era péssima. Vejam, eu tenho uma grande qualidade: consigo dizer coisas muito duras sem que as pessoas fiquem ressentidas.

Falei francamente que o roteiro era ruim e eles voltaram dois meses depois. Tinham mudado tudo e a ideia é que eu seria um dos personagens. Topei, com a condição de trabalhar apenas como ator, sem mexer no roteiro. Isso marcou uma virada total. Atualmente eu estou em cartaz com O homem das multidões [2012], de Marcelo Gomes e Cao Guimarães, em que fui contratado para fazer um papel. Acabo me envolvendo com uma forma de fazer cinema, o interesse por um projeto, a criação de ligações intensas e a possibilidade de discutir com os diretores seus roteiros.

Você enxerga cada vez menos. Qual é a estratégia para conseguir ver filmes? Vejo filmes brasileiros, franceses ou latino-americanos, nessa ordem, porque não falo inglês e não consigo mais ler legendas. Mas a maior parte do tempo, como não consigo ver bem as imagens, me confundo muito. Invento histórias para mim mesmo. Vou muito ao cinema acompanhado porque minha percepção visual está baixando muito. Aparentemente, a doença está estabilizada. É uma degeneração da retina, uma das múltiplas formas da chamada maculopatia. Devido à doença, a pressão do olho aumenta e isso tem que ser combatido. Dá para conseguir isso facilmente com colírios. Ocorre que tenho reações alérgicas a colírios. Já tive sangramento no olho, na pálpebra, no nariz... Isso é o que mais me preocupa. Não é diretamente a doença, mas um efeito colateral do colírio, que diminui a pressão ocular e também provoca outros problemas.

FilmeFobia mostra especificamente seu problema de visão. Isso foram eles que pediram. Está no FilmeFobia, no Pingo d’água [2014], de Taciano Valério, no Periscópio [2013], também do Kiko, até que cansei. Também escrevi sobre o problema porque já me vi em situações muito aflitivas por não reconhecer as pessoas. Achei que seria bom falar. A divulgação proporcionada pelos filmes foi positiva, mas agora chega. n

PO lític A c&t i N ovação y

As regras da atração

Estudo mostra quais fatores influenciam as parcerias entre universidades e empresas no Brasil

Acooperação entre universidades, institutos de pesquisa e empresas é um dos principais pilares na consolidação dos sistemas de inovação em qualquer país. Embora essa ideia seja amplamente difundida por meio de políticas de incentivo à inovação empresarial, faltavam no Brasil análises capazes de indicar, com dados concretos, quais são os fatores que influenciam tais parcerias. Um estudo realizado por pesquisadores da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), agora, conseguiu mostrar que algumas características relacionadas à qualidade da pesquisa acadêmica e ao tamanho dos grupos de pesquisa são determinantes para propiciar interações com empresas.

De acordo com o trabalho, grupos maiores e com desempenho acadêmico mais elevado tendem a interagir com empresas de toda parte, inclusive em regiões distantes. Já os grupos menores e com desempenho acadêmico modesto interagem com empresas mais próximas. “Quando as empresas

precisam de soluções mais complexas e específicas, elas buscam interagir com grupos de maior qualidade acadêmica, mesmo que tenham que percorrer distâncias maiores”, explica Renato Garcia, professor do Instituto de Economia da Unicamp e autor principal do estudo. Os resultados da pesquisa foram publicados em dois artigos: o primeiro, em agosto, na revista Innovation and Development e o outro na revista Estudos Econômicos, no início deste ano. Para Garcia, apesar de os grupos que interagem com empresas mais distantes estarem concentrados em centros metropolitanos, não se pode subestimar o papel dos grupos menores. “Eles são capazes de atender às demandas das empresas locais e de colaborar em processos inovativos mais simples”, diz.

Um caso emblemático de cooperação a longa distância é o do Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica (Liec), no campus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Araraquara, interior de São Paulo, com a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), localizada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Mais de

Bruno de Pierro

500 quilômetros separam as duas instituições, mas nunca atrapalharam a parceria de 25 anos.

“A distância é apenas geográfica, pois o tempo todo temos alunos ou professores do Liec nos visitando”, conta Sidiney Nascimento Silva, gerente de processos de metalurgia da CSN. Ligado ao Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento de Materiais Funcionais, um dos 17 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP, o Liec desenvolveu com a empresa 42 projetos de pesquisa responsáveis por uma redução de custos estimada em US$ 28 milhões. As pesquisas renderam a publicação de 49 artigos em revistas científicas internacionais e 156 em revistas nacionais, além de 16 pedidos de patentes depositados no Brasil e 34 prêmios. “A experiência do Liec foi decisiva para conquistarmos a confiança da CSN”, diz Elson Longo, coordenador da unidade do Liec que fica na Unesp – a outra está instalada na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

O primeiro contato entre a equipe de Longo e a CSN foi em 1989, quando o grupo de pesquisa

identificou e resolveu um problema de corrosão do queimador cerâmico do regenerador em um dos altos-fornos da usina. O feito prolongou por mais três anos a vida útil do equipamento, tempo suficiente para que a empresa pudesse planejar uma reforma completa. Nos últimos anos, o Liec tem se dedicado a desenvolver novos produtos a partir de resíduos que sobram da produção de aço. A cada tonelada produzida de aço são gerados 100 quilos de escória, um material formado por óxidos do processo de refino do aço. A escória geralmente é utilizada como brita em obras de pavimentação rodoviária, lastro ferroviário e artefatos de concreto. O grupo de Longo desenvolveu um método que aumenta a recuperação de metal residual na escória e a transforma em matéria-prima para a fabricação de cimento. O metal recuperado nesse processo é reaproveitado. “Com isso conseguimos também reduzir o passivo ambiental e deixamos de emitir 470 mil toneladas de CO2 por ano, pois a escória substitui parcialmente o calcário e o clínquer na produção de cimento”, explica Silva.

realidades diversas

Oestudo da Poli-USP e da Unicamp mostra que grandes grupos de pesquisa, embora interajam com empresas distantes, também se relacionam com parceiros próximos. Em geral, isso acontece porque eles estimulam a criação ou a instalação de empresas em seu entorno. “Empresas que lidam mais na fronteira do conhecimento tendem a se fixar próximas desses centros de excelência”, diz Renato Garcia. A tese é endossada por Luiz Gustavo Pagotto Simões, diretor da Nanox, empresa parceira do Liec, criada em 2005 e localizada em São Carlos, a menos de 40 quilômetros de Araraquara. “Estar próximo da universidade agiliza a troca de informações de forma presencial e evita falhas na comunicação”, diz Simões, que foi aluno de Elson Longo no mestrado e no doutorado. Antes de fundar a Nanox, o empresário foi pesquisador no Liec, o que o colocou desde cedo em contato com as demandas da indústria. “Essa experiência me incentivou a abrir meu próprio negócio”, diz Simões. A entrada da Nanox no mercado se deu com a produção de partículas nanoestruturadas à base de prata, com propriedades bactericidas, antimicrobianas e autoesterelizantes, desenvolvidas no âmbito de um projeto apoiado pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) da FAPESP.

Nos últimos anos, a tecnologia foi aplicada na fabricação de tapetes anti-ácaro e na superfície de metais, como instrumentos médicos e odontológicos, secadores de cabelo, purificadores de água, tintas, resinas e cerâmicas. No ano passado, a empresa obteve registro da Food and Drug Administration (FDA), agência regulamentadora de alimentos e fármacos dos Estados Unidos,

para comercializar materiais bactericidas para aplicação em embalagens plásticas de alimentos, como leite e frutas, aumentando o prazo de validade dos produtos. Outra empresa próxima ao Liec é a KosmoScience, instalada no município de Valinhos, a menos de 200 quilômetros de Araraquara. Assim como a Nanox, a KosmoScience foi criada por um pesquisador que trabalhou no grupo de Longo, o químico Adriano Pinheiro, um dos três sócios da empresa. Criada em 2003 como uma spin-off para desenvolver metodologias que comprovassem a eficácia de produtos cosméticos antes de serem lançados no mercado, a KosmoScience tem hoje grandes empresas como clientes, entre elas Natura, L’Oréal, Hipermarcas, Unilever e O Boticário (ver Pesquisa FAPESP nº 207). Com o Liec, a empresa analisa a estrutura físico-química do cabelo com o objetivo de produzir cosméticos mais específicos para cada tipo de cabelo. “Trata-se de personalizar o tratamento capilar”, explica Longo. Garcia explica que a intensidade das parcerias varia de acordo com o campo do conhecimento. Grupos que atuam na área de engenharias são os que mais estabelecem contato com indústrias, uma média de 6,7 interações por grupo estudado – lembrando que a pesquisa considera como interações desde projetos mais complexos, que buscam chegar a um produto novo, até as transferências de tecnologia e melhoramento de processos de manufatura. Nas ciências agrárias, a taxa é de 5,6 interações, enquanto nas ciências da vida, que incluem as áreas biológicas e de saúde, nas quais o

n Total de grupos na grande área

n Total de grupos que relataram relacionamentos

FOntE CENso 2010 do dirETório dos gruPos dE PEsquisa do CNPq

mais baixo: duas interações por grupo de pesquisa. O estudo também traz dados das ciências humanas, que apresentam uma média de 2,3 interações por grupo. O número é proporcionalmente maior do que o apresentado pelas ciências da vida, mas estas apresentaram 125 grupos que interagem com empresas ante 62 das ciências humanas.

Para chegar a esses resultados, Garcia e sua equipe realizaram um survey (questionário), em 2008, com 612 coordenadores de grupos de pesquisa de todo o país e avaliaram dados de 2004 de aproximadamente 2.150 grupos

Parte da pesquisa que levou ao medicamento contra insônia da EMs foi realizada no centro de pesquisa e desenvolvimento da empresa em Hortolândia, na região Metropolitana de Campinas,

“Os grupos de pesquisa menores são capazes de atender às demandas das empresas locais”, diz renato Garcia

registrados no Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil (DGP), uma espécie de censo da atividade científica realizado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os grupos de pesquisa foram agrupados de acordo com três dimensões: tamanho das equipes, tamanho dos departamentos e qualidade da pesquisa. Os grupos com maior número de integrantes (acima de 28 membros) apresentaram média de 8,6 interações, enquanto os menores (menos de 21 membros) não passaram de três interações em média. De acordo com uma esti-

mativa apresentada no artigo, um acréscimo de 10 pesquisadores em um grupo de pesquisa chega a implicar o aumento de mais de 10% no número de parcerias com empresas. Em relação ao tamanho dos departamentos nos quais os grupos estão inseridos, aqueles com mais de 75 membros, entre professores, pesquisadores e funcionários, também interagem mais com empresas do que grupos ligados a departamentos menores, com menos de 20 membros. Em relação à qualidade da pesquisa, foram considerados os critérios de avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) baseados, entre outros, na taxa de publicação de artigos científicos. O que se verificou foi que grupos bem avaliados, aqueles que publicam mais, apresentaram quase o dobro da média de interações registradas pelos grupos de menor desempenho acadêmico. Já na outra etapa do estudo, que analisou a questão das distâncias geográficas, as informações foram extraídas do censo de 2008 do DGP-CNPq, quando havia 1.462 grupos de pesquisa em 142 universidades ou instituições de pesquisa interagindo com empresas. Garcia verificou que as regiões que apresentam, ao mesmo tempo, pelo menos 100 interações de grupos e 100 interações de empresas são Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo, Florianópolis, Recife, Curitiba, Belo Horizonte e Campinas. O estudo indica que 59% das interações ocorreram entre empresas e grupos de pesquisa localizados em municípios com até 100 quilômetros de distância. Apenas 24% das interações ocorrem entre grupos de pesquisa e empresas que se localizam em municípios com distâncias iguais ou superiores a 800 quilômetros. Por isso, Garcia acredita que levar universidades a regiões mais afastadas dos centros metropolitanos causa efeitos modestos no fomento à inovação. “A empresa pode até transferir atividade de manufatura para o interior, mas o laboratório de pesquisa dela continuará próximo de regiões onde a pesquisa é mais forte, como São Paulo, Campinas, São José dos Campos”, diz ele.

Para o economista Eduardo da Motta e Albuquerque, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), a pesquisa de Garcia confirma com dados empíricos hipóteses já for-

em são Paulo

Número de

muladas. “Havia muita dúvida sobre o impacto da interação com empresas na qualidade da pesquisa. Agora, sabemos que essa qualidade é um pressuposto para a interação”, diz ele. O estudo também mostra que a qualidade da pesquisa e o tamanho dos grupos influenciam as decisões das empresas, que buscam não apenas benefícios de longo prazo, mas também soluções rápidas para problemas ligados aos processos de manufatura.

“Isso explica o fato de cerca de 40% dos grupos analisados atuarem nas engenharias, área que se mantém mais próxima das demandas de inovação nas indústrias”, explica Garcia. Por essa razão, a pesquisa optou por incluir no conjunto de empresas as organizações não governamentais e outras instituições, como fundações e hospitais, a fim de avaliar o desempenho das interações nas ciências humanas e da vida.

O estudo não se aprofunda em explicações sobre o nível relativamente baixo da interação de empresas com grupos da área de ciências da vida (biológicas e de saúde). Para Eduardo Albuquerque, da UFMG, existem duas explicações possíveis.

A primeira é metodológica: a área de ciências da vida teria mais interações do que as captadas pelos estudos, pois muitas vezes interagem não com indústrias, mas com o Sistema Único de Saúde

(SUS), hospitais, laboratórios de diagnóstico etc.

A pesquisa de Garcia, no entanto, levou em conta essa visão mais ampla, que integra hospitais e ONGs como parceiros da universidade. Outra possibilidade, observa Albuquerque, é que o baixo gasto com pesquisa e desenvolvimento nas áreas farmacêutica e de equipamentos médicos no país seja o principal responsável pelas interações mais tímidas na área. “Muitas vezes o grupo de pesquisa interage diretamente com a empresa farmacêutica no exterior”, salienta. Para o economista Marcelo Silva Pinho, da UFSCar, a indústria farmacêutica brasileira provavelmente representa um caso extremo da dinâmica tecnológica dependente de inovações desenvolvidas no exterior. Segundo ele, mesmo que tenha avançado nos últimos 15 anos, a dimensão do esforço tecnológico realizado pelas empresas brasileiras no setor continua sendo uma fração mínima, muito inferior a 1% do esforço realizado pelas líderes mundiais. Pinho é autor de um estudo da visão das empresas brasileiras sobre sua relação com a universidade.

“Características específicas da indústria farmacêutica somam-se para tornar a dinâmica competitiva do setor muito seletiva e gerar uma estrutura industrial bastante concentrada em escala global”, diz Pinho. Mesmo assim, nos últimos anos, alguns laboratórios brasileiros estão conseguindo inserir-se no mercado graças à produção de medicamentos genéricos e similares, que apresentam demandas tecnológicas a grupos de pesquisa brasileiros. “A própria absorção de tecnologias externas necessita do auxílio de universidades e institutos de pesquisa, porque a transferência de tecnologia pode exigir competências que nem sempre estão disponíveis dentro da empresa”, afirma.

um caso bem ilustrativo é o da parceria entre o Instituto do Sono e o grupo EMS, fabricante nacional de medicamentos, no desenvolvimento de novo remédio contra a insônia. O medicamento em questão é o Patz, cujo princípio ativo é o zolpidem, que já era comercializado mundialmente pela multinacional francesa Sanofi Aventis e consumido na forma oral. O EMS decidiu desenvolver uma versão do medicamento, mas com uma inovação embutida: que pudesse ser administrado por via sublingual. No total, a empresa investiu R$ 25 milhões em pesquisa e desenvolvimento. Assim, com uma ação mais rápida do que a obtida por via oral, o medicamento poderia ser usado para resgatar o sono perdido no meio da noite. Isso porque ele consegue induzir o sono em até 12 minutos após o uso, utilizando apenas metade da dose usada por via oral. A etapa farmacoquímica da pesquisa foi realizada dentro da própria EMS, que depois procurou o Instituto do Sono, em São Paulo, para a realização dos testes clínicos em pacientes.

“O desenvolvimento do medicamento é apenas uma das possibilidades de parceria com a indústria farmacêutica”, conta Dalva Poyares, diretora de pesquisa do Instituto do Sono. “Os testes clínicos também são uma oportunidade de interagir com empresas”, diz ela. Nesse caso, as etapas finais dos testes em laboratório podem ser decisivas para que a empresa possa reparar falhas que não haviam sido notadas durante o desenvolvimento do medicamento. Dalva explica que uma das substâncias presentes na versão inicial do remédio, o almorexant, após alguns meses de uso poderia alterar a função hepática do paciente. A empresa precisou substituir o componente por outro, o suvorexant, que assim como o anterior inibe a hipocretina, um dos neurotransmissores responsáveis pelo estado de vigília. Hoje, o medicamento já está disponível no mercado nos Estados Unidos e possui um registro de patente internacional. “As parcerias com instituições de pesquisa representam a oportunidade de trocar e internalizar conhecimento científico”, diz Ricardo Vian Marques, diretor de desenvolvimento estratégico da EMS.

Para Dalva Poyares, a baixa interação com empresas em ciências da vida não é culpa apenas da indústria. Para ela, os pesquisadores precisam aprimorar o contato com o setor privado e compreender como funcionam os processos de inovação. “Diferentemente dos engenheiros, que lidam sempre com patentes e legislação específica para inovação, os pesquisadores nas áreas biológicas recebem pouco treinamento para lidar com esses assuntos. Um grupo de pesquisa pode ter em mãos um conhecimento ou uma tecnologia inovadores, mas para que a indústria saiba disso é preciso que se gerem patentes nas universidades”, avalia Dalva.

se de um modo geral dificilmente a indústria farmacêutica brasileira lança um medicamento completamente novo, em Minas Gerais um caso fugiu à regra. Em 2008, a empresa mineira Hertape Calier Saúde Animal lançou uma vacina recombinante inédita no mundo contra a leishmaniose visceral canina, chamada Leish-Tec, desenvolvida em parceria com grupos de pesquisa da UFMG. A vacina foi feita por meio da inserção da informação genética de uma proteína do protozoário Leishmania chagasi em bactérias, que foram posteriormente replicadas (ver Pesquisa FAPESP nº 164).

Um dos grupos de pesquisa que se envolveram no projeto foi o de imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, liderado pelo médico e bioquímico Ricardo Tostes Gazzinelli. Desde 1995, o grupo acumula conhecimento sobre o antígeno de Leishmania, o que foi determinante para que a Hertape procurasse a equipe. “Já havíamos publicado artigos e gerado teses sobre o assunto, o que chamou a atenção da empresa”, conta Gazzinelli, que também coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Vacinas (INCTV), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Em 2004, foi firmado um acordo de transferência de tecnologia entre a Hertape e a UFMG, prevendo a participação financeira da empresa na fase de pesquisa e a produção e comercialização da vacina ao fim dos trabalhos. Por meio da parceria, a Hertape chegou a investir mais de R$ 500 mil em projetos de pesquisa em laboratórios da UFMG. Só de royalties, a universidade tem recebido cerca de R$ 100 mil por ano desde 2008 – mostrando que, muitas vezes, uma parceria em torno de um projeto pode trazer benefícios de longo prazo para a universidade. n

o alto-forno da C sN em volta redonda, no rio de Janeiro: resíduos da produção de aço encontram destino na fabricação de cimento

Cálculos inovadores

Metodologia para avaliar

Programa Biota-FAPESP é descrita

em artigo científico

Um artigo publicado por brasileiros na revista científica Scientometrics mostra a utilidade de uma metodologia para avaliar o impacto de programas de pesquisa, sobretudo quando há um universo restrito de projetos a serem analisados e o chamado grupo de controle, aquele que serve de referência para comparação, tem características diferentes das do alvo do estudo. Assinado por Fernando Colugnati, da Universidade Federal de Juiz de Fora, Sergio Firpo, da Fundação Getúlio Vargas, Paula Drummond e Sergio Salles-Filho, ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o artigo esmiúça essa metodologia de conteúdo inovador desenvolvida para avaliar o Programa Biota-FAPESP, que desde 1999 estuda a biodiversidade paulista. Para obter dados sobre o impacto do programa, o grupo comparou projetos do Biota-FAPESP com outros de características equivalentes, mas que não fizeram parte do programa. O desafio era evitar que alguns vieses confundissem os resultados. Um deles era o fato de o grupo de controle ter um número maior de projetos e, em alguns casos, com características algo diferentes. Enquanto o Programa Biota

agrega uma quantidade expressiva de projetos temáticos, que reúnem mais recursos humanos e financeiros e têm até cinco anos de duração, os projetos do grupo de controle eram, em boa medida, auxílios regulares à pesquisa, de prazos mais curtos e menor volume de recursos. Buscou-se criar, então, uma metodologia capaz de dissociar estatisticamente os efeitos dos projetos temáticos do Biota. Os pesquisadores recorreram a uma teoria estatística fundamentada na década de 1980 para estimar a probabilidade de cada projeto do grupo de controle ser comparável com um projeto do Programa Biota. Foi definido um conjunto de variáveis, como a idade do coordenador do projeto, o número de artigos que publicou ou o tamanho da equipe, que seriam potenciais vieses para o estudo, ou seja, aumentariam a probabilidade de o projeto ser do grupo Biota. Essa probabilidade recebe o nome de escore de propensão (PS, do inglês propensity score) para os projetos do grupo de controle – o inverso deste valor fornece uma espécie de peso capaz de corrigir distorções. Outro desafio era compensar o fato de os dois grupos terem tamanhos e composições diferentes e de ser uma amostra proveniente de um universo pe-

Fabrício Marques

queno de projetos. “Com o PS estimado, os projetos temáticos do grupo de controle, como eram mais raros, passaram a ter um peso maior. Assim, conseguimos dar mais homogeneidade e equilíbrio de distribuição, permitindo uma comparação entre os grupos menos enviesada com os modelos estatísticos”, diz Colugnati.

Para selecionar os projetos do grupo de controle, os pesquisadores tiveram acesso a 1,4 mil projetos de ciências biológicas da base de dados da FAPESP, mas que não faziam parte do Programa Biota-FAPESP. Uma seleção por palavras-chave (como biodiversidade, biomas) reduziu a amostra para aproximadamente 300 projetos, e uma análise caso a caso levou a uma amostra de 117 projetos para este grupo, entre temáticos, auxílios regulares e jovem pesquisador. O grupo do Biota foi constituído de 66 projetos, totalizando um universo de 183 projetos. Seus coordenadores foram convidados a preencher um questionário on-line que deu lastro à avaliação. Desse universo, 142 responderam, sendo 56 projetos do Programa Biota-FAPESP e 86 do grupo de controle. Sobre esses dados foram aplicados o escore de propensão e a modelagem estatística.

prospe C ção

O saldo da avaliação do Programa Biota-FAPESP foi positivo, tanto em produtividade científica quanto em sua capacidade de fornecer base para novas políticas públicas, ainda que tenha obtido resultados tímidos na prospecção de compostos com potencial de desenvolvimento de produtos em segmentos

Formulação de metodologias

confere a processos de avaliação a oportunidade de gerar conhecimentos novos

como o farmacêutico e o de cosméticos (ver Pesquisa FAPESP nº 210).

A avaliação do Programa Biota foi realizada por meio de um auxílio FAPESP e executada pelo Grupo de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da Inovação (Geopi), vinculado ao Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob coordenação do professor Sergio Salles-Filho, também responsável pela avaliação de programas como o de bolsas, o Jovem Pesquisador e o de Equipamentos Multiusuários (EMU) e o Programa FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), entre outros. Salles-Filho, que é coordenador adjunto de avaliação de programas da FAPESP, conta que as peculiaridades de cada programa costumam exigir o desenvolvimento de metodologias específicas para avaliação. “E às vezes não é necessário, mas aproveitamos para testar hipóteses e métodos

novos”, afirma. “O grande desafio, ao avaliar o impacto de um programa, é garantir a atribuição de causalidade, ou seja, que as medidas obtidas sejam efetivamente atribuídas ao investimento feito pelo programa, procurando isolar demais fatores que possam ter influenciado os impactos. Sempre que possível é recomendado recorrer a um grupo de controle. Mas o grupo de controle precisa ser confiável, daí a utilidade da metodologia que utiliza o escore de propensão”, explica. A metodologia tem aplicações bem definidas. “Nosso grupo trabalhou numa avaliação de empresas que utilizaram os incentivos da lei de informática e não havia grupo de controle possível, pois a grande maioria das empresas no país é usuária desses incentivos, não havendo como construir um grupo de controle confiável”, afirma. A formulação de novas metodologias, diz Salles-Filho, confere aos processos de avaliação a oportunidade de gerar conhecimento. A contribuição científica gerada pela avaliação do Biota-FAPESP não vai se limitar ao artigo da Scientometrics. O grupo do Geopi deve concluir um estudo até o final do ano comparando duas metodologias distintas, utilizando os resultados de avaliação do Biota. Uma delas é a que recorre ao grupo de controle, descrita na Scientometrics . A segunda, conhecida como metodologia de adicionalidade com verificação de causalidade, busca mensurar os impactos sem uso de grupo de controle, comparando dados do início e do fim do projeto. “O objetivo é saber se as duas metodologias produzem resultados equivalentes ou se surgem diferenças”, diz Salles-Filho. n

Capacidade em construção

Painel intergovernamental busca estratégia para treinar quem produz conhecimento e formula políticas sobre a biodiversidade

Acapacidade de produzir e tornar acessíveis conhecimentos científicos capazes de ajudar na formulação de políticas para proteção da biodiversidade varia muito entre os países. Por conta dessa assimetria, os membros da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), cuja função é organizar o conhecimento científico sobre biodiversidade para auxiliar na tomada de decisões, aprovaram em seu primeiro programa de trabalho para os anos de 2014 a 2018 a criação de uma força-tarefa voltada a promover a capacitação de profissionais e de instituições, necessária para atender às demandas da organização

Membros dessa força-tarefa reuniram-se nos dias 15 e 16 de setembro, em São Paulo, com acadêmicos, representantes do setor privado, de organizações não governamentais, de programas ambientais da Organização das Nações Unidas (ONU) e outras instituições multilaterais a fim de discutir estratégias para levantar os recursos técnicos e financeiros necessários. Segundo o norueguês Ivar Baste, membro da diretoria do IPBES e co-coordenador da força-tarefa, o en-

contro em São Paulo buscou entender como tornar o processo de construção da capacitação mais sustentável. “Queremos levantar lições aprendidas com experiências anteriores e entender como podemos comunicar, de maneira mais eficaz, a importância da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos”, afirmou. De acordo com Carlos Alfredo Joly – que, além de coordenar o Programa Biota-FAPESP, é membro do Painel Multidisciplinar de Especialistas do IPBES e integrante da força-tarefa de capacitação –, todos os 119 países que compõem a plataforma foram consultados sobre suas demandas por treinamento profissional. “Fizemos uma triagem para selecionar prioridades e avaliar como podemos atender à demanda”, disse Joly. As discussões buscavam fornecer subsídios a uma segunda reunião, também em São Paulo, entre os dias 17 e 19 de setembro, na qual os membros da força-tarefa elaboraram as propostas de trabalho para aprovação na plenária do IPBES, agendada para janeiro de 2015. Uma das principais propostas é a criação de uma matchmaking facility , ou seja, uma ferramenta que permita reunir em

um mesmo contexto as demandas por capacitação dos diversos parceiros e as ofertas de apoio feitas por instituições e indivíduos. Iniciativa semelhante foi apresentada por Richard Byron-Cox, diretor de Capacitação do Secretariado da Convenção de Combate à Desertificação das Nações Unidas (UNCCD, na sigla em inglês) e idealizador do portal Capacity Building Marketplace. “Há uma grande demanda por capacitação e há também muitas pessoas e instituições dispostas a apoiar. O problema é que a demanda está em um lugar e a oferta, em outro. Esse mercado on-line pretende ser um lugar de encontro entre aqueles que têm algo a pedir e os que têm algo a oferecer, seja um treinamento, um trabalho voluntário ou uma consultoria, sejam recursos financeiros para doação”, disse Byron-Cox. interações

Como um dos representantes do setor privado, Luiz Eugênio Mello, diretor do Instituto Tecnológico Vale, ressaltou em entrevista à Agência FAPESP que o encontro tornou clara a possibilidade de identificar “objetivos comuns”, que permitam a “interação entre governos,

Karina toledo, da Agência FAPESP

Pontos que se conectam em rede, como numa flor de eucalipto: inspiração para desenhar um sistema que interligue políticas em biodiversidade

academia e iniciativa privada para a consecução das metas da plataforma”. “A Vale é uma empresa que está presente em 30 dos 119 países-membros do IPBES e tem interesse concreto de olhar para a biodiversidade em praticamente todos eles. Também dispõe de recursos valiosíssimos. Mantém, por exemplo, uma reserva natural em Linhares [ES], que é a maior área contígua de floresta de baixa altitude remanescente na mata atlântica. Opera também a maior mina de ferro do mundo, onde mantém a Floresta Nacional de Carajás [PA]. Ambos são locais ideais para a realização de inventários e para o treinamento de pessoas”, disse Mello.

Além da força-tarefa, estão previstas outras duas iniciativas semelhantes no programa de trabalho do IPBES: uma léo ramos

voltada a aprimorar o processo de gerenciamento de dados e informações científicas e outra para integrar o conhecimento indígena e as pesquisas locais nos processos científicos e na avaliação e contabilização de biodiversidade e serviços ecossistêmicos. Também está programado um conjunto de avaliações globais e regionais sobre temas como agentes polinizadores e sua relação com a produção de alimentos, o problema das espécies invasoras e os processos de degradação da terra e de restauração. A ideia é que, até dezembro de 2018, seja divulgado o diagnóstico global do status da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, que deverá orientar a tomada de decisão em todas as convenções da área.

“Já em 2015 começam a ser feitos os diagnósticos regionais”, disse Joly. “Para o Brasil participar efetivamente da elaboração de um bom relatório sobre América Latina e Caribe, precisaríamos ter um bom diagnóstico nacional sobre o estado dos ecossistemas e da biodiversidade, sobre como alterações antrópicas alteraram seu funcionamento e os impactos nos serviços ecossistêmicos. Como ainda não temos esse diagnóstico,

vamos precisar trabalhar simultaneamente no nível nacional e regional. Isso só será possível com o forte engajamento da comunidade científica que atua nessa área no Brasil.”

O presidente da FAPESP, Celso Lafer, destacou que a participação de Joly nas iniciativas do IPBES é um desdobramento de seu trabalho no Programa Biota-FAPESP. Lafer também destacou a contribuição que a FAPESP tem oferecido para o processo decisório e a formulação de políticas públicas por meio de seus três principais programas de pesquisa: o Biota, o Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (Bioen) e o Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais. “É indispensável a relação entre a ciência e o processo decisório, sobretudo na área ambiental. Tendo participado como ministro [das Relações Exteriores] da Rio 92 [Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento] e da Rio +10, sempre tive muito cuidado e atenção em relação a esses aspectos e é por isso que tenho muito orgulho dos três grandes programas que a FAPESP apoia e sustenta”, disse Lafer. n

ciência EVOLUÇÃO y

e ventrículos

Um cardume de zebrafish: modelo de estudos para a formação dos átrios

Como explicar um coração tão dividido

Câmaras cardíacas podem ser o resultado da ação do ácido retinoico, usado em cosméticos

pequenos peixes de listras horizontais mantidos em um aquário no Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), em Campinas, estão mostrando muito sobre a formação e a evolução do coração das pessoas. No final de junho, depois de meses examinando os mecanismos de ativação de genes nos músculos do coração do minúsculo zebrafish, José Xavier Neto e sua equipe concluíram uma série de experimentos que reforçaram sua hipótese de que a estrutura do coração dos seres humanos, com quatro câmaras internas divididas por válvulas que regulam o fluxo do sangue, poderia ter aparecido há pelo menos 500 milhões de anos, bem antes do surgimento da própria espécie humana, há 2 milhões de anos. O coração do homem, portanto, teria nascido antes mesmo do homem. As implicações dessa conclusão são um pouco desconcertantes. “Nosso coração é praticamente o mesmo, em termos evolutivos, que o da lampreia”, assegura Xavier. Em vista da importância e dos significados do coração humano, não é muito confortável pensar nessa semelhança, já que a lampreia é um peixe alongado e primitivo, facilmente considerado muito feio, sem nadadeiras nem maxilar, e cuja boca é uma ventosa circular

com o diâmetro do corpo. Xavier parece não se importar com a proximidade. “Do ponto de vista da cladística”, diz ele, referindo-se ao sistema de classificação dos seres vivos que se baseia na relação evolutiva entre as espécies, “nunca deixamos de ser peixes. Somos peixes modificados, as nadadeiras se transformaram em braços e pernas”.

Peixes primitivos como a lampreia já apresentam um coração de quatro cavidades, mas organizadas em sequência, e não em um bloco único, como no coração humano. Em outra espécie evolutivamente muito antiga, que pode ter surgido há cerca de 400 milhões de anos, a piramboia, um peixe encontrado na Amazônia (há um exemplar também no laboratório de Campinas), alongado como uma cobra e dotado de pulmões, o coração já é mais refinado, com uma divisão interna que separa o sangue rico em oxigênio do rico em gás carbônico. Para Xavier, o mais importante, a despeito da forma, é que o trajeto do fluxo do sangue no coração já forma uma espécie de S, mais pronunciado nos peixes e mais sutil nas pessoas.

Por meio de experimentos em zebrafish, também chamados de paulistinhas e bem mais simpáticos que a lampreia, em camundongos, codornas e galinhas, a equipe de Campinas tem examinado a

T E xTO c arlos Fioravanti | FOTOs Léo Ramos

formação das câmaras internas do coração – átrios ou ventrículos, essenciais para o armazenamento ou distribuição do sangue que circula pelo organismo. Quase duas décadas de trabalho fizeram concluir que os tipos de câmara do coração devem resultar da ação do ácido retinoico. É uma ação em ondas, ora mais intensa, ora menos, em momentos específicos do desenvolvimento embrionário. Segundo ele, quando entram em contato com o ácido retinoico, células ainda pouco especializadas recebem instruções para se organizar na forma de um reservatório de sangue, ou seja, um átrio. Quando não detectam nada, formam uma forte bomba propulsora de sangue – um ventrículo.

veis por sua contração, as miosinas, são lentas. O ventrículo, de superfície rugosa e paredes mais grossas, maior que o átrio, com miosinas de ação rápida, pode contrair com força para fazer o sangue chegar a todas as células do corpo. O coração humano – um órgão do tamanho aproximado de um punho fechado, com 250 gramas (g) nas mulheres adultas e 300 g nos homens adultos, que bate 100 mil vezes por dia, bombeando cerca de cinco litros de sangue – tem dois átrios acima dos dois ventrículos.

Os estudos da equipe de Campinas e outros nessa linha estão ajudando a entender a origem de problemas cardíacos associados ao ácido retinoico, um derivado da vitamina

A bastante usado em cosméticos. “Se uma mulher usa no começo da gestação, a má-formação é quase certa. Por isso os médicos pedem um teste de gravidez antes de receitarem ácido retinoico para tratamento de pele”, diz Xavier, carioca formado em medicina pela Universidade Federal do Ceará. “O ser humano é extremamente sensível ao ácido retinoico, mas sem ele não estaríamos aqui. Tudo depende da dose e do lugar onde vai atuar.” A possibilidade de prevenção e a correção de problemas cardíacos por enquanto são remotas, porque o ácido retinoico atua nas primeiras semanas de gestação, quando a mulher em geral ainda não sabe que está grávida.

Se uma mulher usar ácido retinoico no início da gestação, a má-formação

Com os experimentos mais recentes, assim que forem publicados, Xavier pretende reforçar sua hipótese e contestar as visões antagônicas de outras equipes interessadas em elucidar os mecanismos que definem o tamanho, a forma e o modo de funcionamento de cada câmara cardíaca. Em 2008, um artigo da equipe de Deborah Yelon, atualmente na Universidade da Califórnia em San Diego, Estados Unidos, amenizou o papel do ácido retinoico, que estaria associado apenas ao tamanho do coração, e valorizou a proteína produzida a partir do gene Hox-B5, que também atua na formação do intestino e dos pulmões, com base em experimentos em zebrafish. “Quando vi esse paper”, lembra-se Xavier, “quase chorei”. “Por causa da situação de meu trabalho em 2008”, diz Xavier, “eu sabia que iria demorar para contestar”.

São estruturas bem diferentes: o átrio, de superfície lisa, funciona como um reservatório que infla ao receber sangue. As proteínas responsá-

Em 2005, como pesquisador do Instituto do Coração (InCor) da Universidade de São Paulo (USP), Xavier, com sua equipe, tinha apresentado sua hipótese sobre a formação e a evolução dos compartimentos de sangue no coração de ani-

As cores do coração: de peixe e de camundongo (ao lado)

mais vertebrados. Com base em experimentos com uma variedade impressionante de organismos, a exemplo da Ciona intestinalis, um invertebrado marinho cilíndrico que representa os parentes vivos mais próximos dos vertebrados (a formação do coração desse grupo, os tunicados, é similar aos estágios iniciais da formação do coração dos vertebrados), a equipe argumentava que o coração de câmaras de vertebrados poderia ter surgido a partir de modificações de

Depois de dissecar cadáveres, Da Vinci corrigiu Galeno ao ver que o coração era um poderoso músculo

um tubo cardíaco equivalente ao da Ciona, que é capaz de fazer movimentos semelhantes ao do intestino quando impulsiona a massa alimentar durante o processo de digestão. “Animais como a lagosta e outros crustáceos representam outro modelo para a formação das câmaras cardíacas, pois têm apenas uma câmara e são muito mais rápidos, por exemplo, que os onicóforos, vermes dotados apenas de um tubo peristáltico simples”, afirma. “As câmaras cardíacas são um atributo de vertebrados, apresentam contração simultânea e são separadas por válvulas, tudo dentro de uma membrana, o pericárdio.” Uma argumentação coerente, porém, não era o bastante. “Eu sabia que ainda teria de provar minhas hipóteses”, diz. “Tive de esperar seis anos até refazer os experimentos e mostrar o papel do ácido retinoico.”

Mesmo agora, com mais argumentos, Xavier sabe que terá de batalhar muito para fazer sua visão prevalecer; se não conseguir, poderá ser desconsiderada ou mesmo esquecida. “Hipóteses sobre evolução dificilmente podem ser testadas”, observa. Além disso, o coração facilmente engana quem procura entendê-lo. O médico romano Claudio Galeno, um dos fundadores da medicina ocidental, afirmou que o coração era feito de um tecido especial. Quase 1.500 anos depois, Leonardo da Vinci, depois de dissecar cadáveres, como Galeno, e fazer vários desenhos da anatomia do coração, sentenciou: “O coração é o principal músculo em relação à força”. Já era um avanço, mas outros equívocos persistiram. Durante séculos se pensava que as veias transportavam ar, já que estavam vazias em animais e pessoas mortas. Um século depois de Da Vinci, o médico inglês Willian Harvey descreveu a circulação do sangue em detalhes, mostrando que as veias, como as artérias, transportavam sangue e não ar.

Xavier, como outros cientistas contemporâneos, também tomou caminhos equivocados. Logo depois de chegar à Universidade Harvard para o pós-doutorado, em 1997, ele se viu atraído, quase inevitavelmente, pela ideia então em moda de que um único gene poderia ser capaz de definir a formação do coração. Havia um gene candidato, mas os experimentos – os camundongos, mesmo sem esse gene, nasciam com coração, embora morressem logo depois – indicaram que o coração dependia de muitos

genes para se formar. E ele se rendeu: “É muito mais complicado do que pensávamos”.

Depois disso, Xavier conseguiu reunir animais transgênicos e reagentes apropriados – que aos poucos caíam nas mãos da coordenadora do laboratório, Nadia Rosenthal – para planejar os experimentos que poderiam indicar coisas novas sobre a formação do coração. “Mesmo se fracassar, pensei, já sou grato por observar o desenvolvimento do embrião”, ele recorda. “E, como eu estava começando na biologia do desenvolvimento, podia ver com meus próprios olhos os processos de formação dos órgaos, sem estar contaminado pelo excesso de leitura de artigos científicos.”

Xavier começou então a examinar como a expressão da enzima betagalactosidade poderia indicar a ação do ácido retinoico em diferentes regiões do coração de embriões de camundongos de nove dias. “Quase descolei a retina tentando ver o que não existia nos embriões de camundongos”, diz ele. Aos poucos ele viu claramente o padrão de coloração definido pela ativação do ácido retinoico: “Dependendo da expressão da enzima, as regiões do coração

ficavam verdes, indicando que o ácido retinoico estava atuando naquela área, como ativador ou represssor de vários genes”.

Ele observou que até o sétimo dia da gestação, que demora 21 dias, o coração ainda não havia se formado, nem havia nenhum sinal da ação do ácido retinoico em tecidos cardíacos. Dois dias depois o coração já havia se delineado como um tubo, ocorria uma descarga de ácido retinoico e o átrio se formava. Logo depois, o ácido retinoico desaparecia e se formava o ventrículo. Outros experimentos, em codorna, indicaram que, sem ácido retinoico, o átrio não se formava e, de modo complementar, o excesso dessa substância impedia a formação do ventrículo. “O ácido retinoico é um ator que entra e sai do palco, na mesma peça, em papéis diferentes”, diz Xavier. “O ácido retinoico é de fato um ator-chave na formação das câmaras cardíacas”, observa Didier Stainier, coordenador de uma equipe da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), que estuda a formação do coração em zebrafish. Em 2002, Stainier e Deborah Yelon, que trabalhou em seu laboratório, viram o papel do ácido retinoico em um estágio anterior do de-

As quatro câmaras do coração, vistas por Da Vinci: o artista desfez o equívoco de Galeno, que imaginava apenas duas câmaras

Embrião de galinha: sob a ação do ácido retinoico

senvolvimento: com outras moléculas, poderia induzir a formação de um tecido embrionário primordial chamado endoderme (o coração vai se formar a partir de outro tecido, a mesoderme).

Segundo ele, Xavier “tem estado na vanguarda dessas investigações que, sem dúvida, levarão a insights adicionais sobre o processo de desenvolvimento do coração”.

Mesmo depois do coração formado, o ator versátil continua em cena. Em 2011, pesquisadores da Universidade Duke, Estados Unidos, mostraram que o ácido retinoico, por causa de sua capacidade de induzir a multiplicação celular, facilitava a regeneração do endocárdio, a camada interna do coração. Outra vez, o modelo experimental era o zebrafish; essa espécie é usada há décadas porque as fêmeas produzem muitos ovos, coletados com facilidade, e o embrião se forma a partir de uma única célula, em apenas um dia após a fertilização.

Depois de dois anos em Harvard, Xavier voltou feliz para o InCor disposto a montar um grupo de pesquisa em genética do desenvolvimento embrionário e continuar trabalhando como nos dois anos em que passou em Harvard. Sua primeira dificuldade foi conseguir camundongos, que não chegavam na quantidade e no prazo esperados. Ele não se acomodou e saiu perguntando onde poderia comprar ovo de galinha fertilizado e estufa, de modo a não deixar o trabalho parar. Muitos anos antes, com a mesma avidez por fazer ciência, ele tinha caçado sapos para fazer os experimentos previstos em seu estágio já no primeiro ano do curso de medicina em Fortaleza. “Desde a graduação eu já queria ser pesquisador”, diz ele, ao comentar, em seguida, que gostava muito das disciplinas básicas como bioquímica, para as quais os aspirantes a médicos normalmente torcem o nariz. Desde antes ele já gostava do mundo da ciência, acompanhando o pai,

que era professor de bioquímica na universidade, aos laboratórios e estufas de plantas. “Lembra do kit Os cientistas, da década de 1970? Eu tinha todos. Vivo nesse mundo desde cedo.”

Xavier demorou cinco anos até montar sua própria equipe e o laboratório de que precisava para retomar o ritmo de trabalho que desejava. “Se ficar sozinho, está perdido”, ele conclui. “Network é tudo.” Por meio de testes em galinhas e em codornas, ele verificou que a ação do ácido retinoico, por sua vez, era regulada pela enzima RALDH2. “Detalhei o que e quando acontecia”, diz. Ele não parou mais de aproveitar os estudos sobre outros animais – vermes marinhos, escargots, lagostas e outros – para examinar os processos evolutivos de formação do coração e, a partir de 2010, quando se mudou para o LNBio, continuou a produzir linhagens de animais transgênicos, a maioria sob encomenda, para experimentos de outros pesquisadores e de seu próprio grupo. Incapaz de se aquietar, em agosto ele percorreu outra vez a chapada do Araripe, no Ceará, em busca de fósseis de peixes com idade média de 120 milhões de anos que, examinados por tomografia, poderiam revelar um pouco mais da evolução do coração. n

Projeto

Evolução e desenvolvimento das câmaras cardíacas (nº 06/50843-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável José xavier Neto (LNBio); Investimento R$ 311.558,83 (FAPEsP).

Artigos científicos

sIMÕEs-COsTA M. s et al. The evolutionary origin of cardiac chambers. Developmental Biology. v. 277, n. 1, p. 1-15. 2005.

MOss, J. B. et al. Dynamic patterns of retinoic acid synthesis and response in the developing mammalian heart. Developmental Biology v. 199, p. 55-71. 1998.

WA xMAN, J. s et al. Hoxb5b acts downstream of retinoic acid signaling in the forelimb field to restrict heart field potential in zebrafish Developmental Biology. v. 15, n. 6, p. 923-34.

YELON D. e sTAINIER, D.Y. Pattern formation: swimming in retinoic acid. Current Biology. v. 12, n. 20, p. 707-9.

pESQUiSa FapESp 224 z 53

Florestas em transformação

Trepadeiras estão remodelando a Amazônia, e os bambus, a mata atlântica

Depois de dormir em uma rede em um acampamento na floresta a 80 quilômetros de Manaus, a ecóloga norte-americana Robyn Burnham levanta-se pouco antes do amanhecer, toma dois goles rápidos de café e embrenha-se na mata fechada à procura de lianas, um tipo de trepadeira que se enrola em árvores. Sem se abater com o calor e o suor contínuos, ela marca com fitas vermelhas as espécies que encontra entre emaranhados de folhas, galhos e troncos, para depois acompanhar seu crescimento ao longo dos anos. Em seguida, Robyn

e seus assistentes medem os caules das plantas com mais de um centímetro (cm) de diâmetro, coletam algumas amostras de ramos e as levam para o laboratório para análise e identificação da espécie. Robyn e outros pesquisadores, com base em 35 anos de observações de campo, estão vendo que as populações de lianas estão se expandindo em meio às florestas intactas do interior da Amazônia. Essa é a primeira vez que se observa esse fenômeno. Até então se sabia que a proliferação de lianas era comum apenas em áreas de vegetação degradada, co -

mo os fragmentos de florestas cercados principalmente por pastagens e estradas.

Na mata atlântica, embora o levantamento não tenha sido tão amplo, são os bambus que parecem estar remodelando fragmentos florestais, segundo estudos de pesquisadores do Instituto de Botânica de São Paulo (IBt). Os bambus, assim como as lianas, se beneficiam da fragilidade de ambientes perturbados para ganhar espaço. Essas duas constatações sugerem que tanto a Amazônia quanto a mata atlântica podem estar submetidas a pressões ambientais antes desconhecidas.

Rodrigo de Oliveira Andrade

Há tempos se sabe que as queimadas, a derrubada de vastas áreas de mata nativa para a agricultura e a pecuária e até mesmo o corte seletivo interferem na dinâmica da floresta, alterando a variedade de espécies de plantas e seu ritmo de crescimento. Agora se começa a perceber que outros fatores também podem afetar essa dinâmica. Para o biólogo norte-americano William Laurance, autor principal de dois artigos publicados neste ano na Ecology sobre o comportamento das lianas na Amazônia, uma possível explicação para o aumento da proliferação dessas plantas em áreas não degradadas é a elevação dos níveis de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. Embora abundantes e diversas em florestas do mundo todo, é nos trópicos que as lianas se encontram em maior quantidade, riqueza e variedade de formas e

tamanhos. Algumas, com caules frágeis e esverdeados, são quase imperceptíveis em meio às florestas. Outras têm cascas como as das árvores e repousam melancolicamente sobre as copas das florestas.

na Amazônia, as populações de lianas ganham espaço em áreas de mata contínua e sem histórico de perturbação

As lianas espalham-se por ambientes diversos. Podem produzir até 40% das folhas que cobrem as árvores, além de sementes e pequenos frutos que servem como alimento para pássaros e pequenos mamíferos. Em geral, as lianas sobem em espiral em volta dos troncos das árvores e as envolvem como se as estivessem estrangulando. As árvores cobertas por lianas crescem mais devagar, se reproduzem menos e morrem mais rápido – muitas não suportam o peso, por exemplo.

Percebendo esse funcionamento, os pesquisadores agora estão vendo que as

lianas podem reconfigurar a comunidade de árvores, remodelando ambientes ao favorecer a sobrevivência de algumas espécies em detrimento de outras.

Com seu trabalho de identificação de espécies de lianas, Robyn, aos poucos, está mapeando a distribuição dessas plantas em algumas áreas da Amazônia. Ela já identificou 300 espécies, muitas delas ainda não descritas. “Encontramos mais de 80 espécies em meio hectare!”, conta a ecóloga da Universidade de Michigan, que visita a Amazônia pelo menos duas vezes por ano. “Esperamos que esse censo ajude a identificar quais espécies de lianas estão se beneficiando mais desse cenário e ganhando mais espaço”, diz Robyn, que, assim como Laurance, integra o Projeto

Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Há mais de 30 anos esse projeto monitora a evolução de mais de mil quilômetros quadrados (km²) de florestas fragmentadas e contínuas na Amazônia. O trabalho de Robyn também está ampliando o conhecimento de outros pesquisadores sobre a composição das comunidades de lianas, ajudando-os a ter uma visão mais detalhada da proliferação dessas plantas. Ao longo de 35 anos, os pesquisadores desse programa foram a campo para analisar as taxas com que cresciam e morriam 60 mil árvores e 178.295 arvoretas (com menos de 10 cm de diâmetro à altura do peito) em 55 hectares de floresta contínua e 39 hectares de floresta fragmentada. O monitoramento contínuo deu origem a um sofisticado banco de dados sobre o comportamento dessas florestas. Mais recentemente, os pesquisadores também contabilizaram as populações de lianas, que representam uma parcela importante da biomassa e da diversidade das florestas, mas que até então não eram alvo de levantamentos florestais. Acompanharam o crescimento de 35 mil lianas em 66 áreas de um hectare em florestas contínuas e em fragmentos cujo tamanho varia de um a 100 hectares.

A ecóloga robyn Burnham e seu assistente, João Batista da silva, durante trabalho de campo em 2013 no qual coletaram e mediram exemplares de lianas

Por meio de simulações em computador, os pesquisadores viram que as populações de lianas estão se expandindo em áreas de florestas sem

Níveis mais altos de CO2 na atmosfera parecem acelerar o crescimento de árvores e, em especial, o de lianas na Amazônia

histórico de perturbação. “Isso foi uma supresa”, disse o ecólogo paulista José Luís Camargo, coordenador científico do PDBFF, “a proliferação de lianas é comum em áreas próximas às bordas das florestas fragmentadas”.

Nos últimos 14 anos, a população de lianas nas florestas intactas próximas a Manaus cresceu, por ano, 1% acima do esperado, segundo Camargo. Os pesquisadores acreditam que a proliferação dessas plantas nessas áreas se deve ao aumento das concentrações de CO2 na atmosfera. O CO2 parece agir como um fertilizante, que, ao acelerar tanto o crescimento das lianas quanto das ár-

vores – mas sobretudo das lianas –, contribui para a remodelação da floresta. Para as lianas, a maior concentração de CO2 supriria em parte a menor incidência de luz nesses ambientes fazendo-as proliferar mais rapidamente. Já para as árvores, intensificaria a disputa por espaço. “A competição por água, nutrientes e luz em florestas contínuas também é mais acirrada entre árvores e lianas”, diz Camargo. Nessa competição, as árvores de algumas espécies morrem mais cedo, enquanto outras sucumbem à proliferação das lianas. “Isso torna o comportamento da floresta mais dinâmico”, explica Laurance, que viveu cinco anos

4 no Brasil e hoje trabalha na Universidade James Cook, na Austrália.

Broto do bambu

Aulonemia aristulata, nativo da mata atlântica (ao lado) e xemplar de liana Bauhinia guianensis na Amazônia (acima)

De modo geral, as lianas se adaptam melhor às florestas perturbadas, em parte devido ao chamado efeito de borda –a cada ano o desmatamento acrescenta 32 mil km de bordas à floresta amazônica (ver Pesquisa FAPESP nº 205). Nas áreas de transição entre a mata fechada e as áreas abertas, as árvores caem, secam e morrem mais facilmente, por causa do excesso de luz, calor e vento. Com mais luz, as lianas, mais resistentes à seca e eficientes no crescimento, avançam e alcançam com facilidade a copa das árvores. “Essas mudanças podem diminuir os estoques de carbono, alterar vários aspectos da ecologia da floresta e reduzir a diversidade de espécies de árvores”, diz Camargo. Por essa razão, explica, as lianas costumam ajudar os pesquisadores a entender o grau de perturbação das florestas.

COM p ETIÇÃO ACIRRADA

Todos os dias, de novembro de 2008 a agosto de 2009, a bióloga Maria Tereza Grombone Guaratini e sua equipe do Instituto de Botânica de São Paulo mediam e numeravam as lianas que encontravam em ambientes com e sem bambus separados por 1 km de distância no terceiro maior fragmento de flores-

ta atlântica de São Paulo, no Parque Estadual das Fontes do Ipiranga, a 14 quilômetros do centro da capital paulista. Por lá, eles também observaram algo inesperado: as lianas estão tendo de lidar com a incômoda presença dos bambus, que, assim como elas, precisam de luz e espaço para avançar pelo ambiente. “Nessa competição, os bambus levam vantagem sobre as lianas”, diz Maria Tereza.

No estudo, Maria Tereza e colegas observaram que os bambus lenhosos da espécie Aulonemia aristulata, nativa da mata atlântica, liberam compostos químicos no solo que inibem o crescimento das árvores e até mesmo a germinação das lianas. Sem as árvores, as lianas não têm no que se apoiar em sua busca por luz – e também não conseguem se envolver em volta do caule liso dos bambus. Ao todo, os pesquisadores identificaram 1.031 exemplares de lianas com mais de um cm de diâmetro, dos quais 277 estavam em áreas dominadas por bambus e 754 em áreas não dominadas por eles. Boa parte das lianas encontradas em ambientes com A. aristulata tinha o caule grosso, o que sugere, segundo Maria Tereza, que essas plantas já estavam lá antes da invasão dos bambus.

Assim como na Amazônia, a proliferação de bambus pode estar relaciona-

da ao aumento da concentração de CO2 na atmosfera. Em 2013, Maria Tereza colocou essa hipótese à prova cultivando exemplares jovens da espécie A. aristulata em dois tipos de câmaras: uma com altas concentrações de CO 2 e outra com condições normais.

Após sete semanas, os bambus cultivados na câmara com mais CO2 realizavam 70% mais fotossíntese, eram 92% mais altos e tinham uma área foliar 104% maior do que os que cresceram na outra câmara. Em um cenário de mudanças climáticas globais, os bambus podem dominar cada vez mais ambientes, afetando a composição de espécies de árvores, segundo Maria Tereza. O que ela observou entre os bambus da mata atlântica talvez valha para as lianas da Amazônia. n

Projeto

influência de Paradiolyra micrantha na regeneração de um fragmento urbano de mata atlântica (nº 05/51747-2); Modalidade Auxílio à Pesquisa – regular; Pesquisadora responsável Maria Tereza Grombone Guaratini (iBt-sP); Investimento r$ 45.219,86 (FAPesP).

Artigos científicos

LAur Ance, W. F. et al. Long-term changes in liana abundance and forest dynamics in undisturbed Amazonian forests. Ecology. v. 95, n. 6, p. 1604–11. 2014.

GroMBone-GuAr ATini, M. T. et al. Atmospheric co2 enrichment markedly increases photosynthesis and growth in a woody tropical bamboo from the Brazilian Atlantic Forest. New Zealand Journal of Botany. v. 51, n. 4, p. 275-85. dez. 2013.

Elevação do Rio Grande

Ecos Da

SEPARAção

grandes blocos de rochas com idades e origens diferentes se combinaram ao formar os dois lados do atlântico Sul

Não, não foi engano. Em 2011, geólogos colheram amostras de granito, um tipo de rocha continental, da Elevação do Rio Grande, uma cadeia de montanhas submersas a cerca de 1.300 quilômetros (km) do litoral do Rio Grande do Sul. Pensava-se que essas montanhas seriam resultado da formação do assoalho oceânico e de erupções vulcânicas, portanto, formadas por outro tipo de rocha. Dois anos depois, por meio de um submarino, colheram outras amostras de rochas continentais, cuja análise reforçou a hipótese de que essa região do Atlântico Sul poderia de fato ser um pedaço de continente que teria submergido durante a separação da América do Sul e da África, iniciada há 120 milhões de anos.

a elevação do rio grande: agora, fragmentos de

A conclusão deu valor econômico à Elevação do Rio Grande. Em julho, o governo federal recebeu a autorização para levar adiante o plano de exploração de jazidas de cobalto dessa região, situada em águas internacionais, e a possibilidade de ali haver reservas de outros minerais, como níquel, manganês e terras-raras tornou-se mais concreta. Cresceu

também seu valor científico, por servir de argumento adicional para a hipótese de que a separação da América do Sul da África foi mais complicada e fascinante do que se pensava. Geólogos do Brasil, dos Estados Unidos, da Alemanha e da França reunidos no Rio de Janeiro em abril concluíram que os grandes blocos de rochas – ou microplacas – que formam os dois continentes e o assoalho oceânico não se afastaram como duas partes de uma folha rasgada, mas esticaram, se quebraram e se posicionaram caoticamente. Algumas partes podem ter ficado no meio do caminho e afundado, enquanto outras se afastavam e se misturavam, formando um imenso mosaico que agora se torna um pouco mais claro.

As rochas coletadas da Elevação do Rio Grande – granitos, granulitos, gnaises e pegmatitos – devem ter de 500 milhões a 2,2 bilhões de anos, de acordo com as análises de equipes da Universidade de Brasília e da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais e Serviço Geológico do Brasil (CPRM). “As idades não estão fora do que encontramos na América do Sul e na África”, diz Roberto Ventura Santos, diretor de geologia da CPRM. Segundo ele, os levantamentos

Carlos Fioravanti

Rochas de muitas idades

sísmicos indicaram que a espessura da crosta, ali, é de cerca de 30 km, “típica de crosta continental e não oceânica”, reiterando a conclusão de que se trata de um resquício de continente.

Essa descoberta, uma das mais espetaculares da geologia brasileira dos últimos tempos, trouxe algumas dúvidas. Pensava-se que as duas cadeias montanhosas do Atlântico Sul, a Rio Grande e a Dorsal Atlântica, tivessem se formado na mesma época, mas agora se cogita que pode não ter sido assim. E quais são os

n Sedimentos do Quaternário (1,8 milhão de anos atrás até os dias de hoje)

n Derrames basálticos da bacia do Paraná do Cretáceo (134 milhões de anos)

n Intrusões alcalinas do Cretáceo

n Rochas sedimentares do Jurássico (206 a 142 milhões de anos) ao Cretáceo

n Rochas sedimentares do Permiano (290 a 248 milhões de anos)

n Rochas sedimentares do Permiano ao Carbonífero (354 a 290 milhões de anos)

n Rochas sedimentares do Ordoviciano (495 a 443 milhões) e Devoniano (417 a 354 milhões de anos)

n Embasamento Pré-cambriano (4,6 bilhões a 545 milhões de anos)

efeitos da Elevação do Rio Grande? Uma cadeia com montanhas de 3.200 metros de altura no fundo do Atlântico Sul, cujo topo está a apenas 800 metros de profundidade, deve formar barreiras para a circulação oceânica, mas ainda não se sabe ao certo como. Ventura acredita que algumas respostas podem vir à tona com a análise de uma coluna com 70 metros de sedimentos do fundo do mar, que, espera-se, permitirá a reconstituição de fenômenos climáticos e geológicos dos últimos 7 milhões de anos.

“A identificação de rochas continentais na Elevação do Rio Grande muda o quadro da evolução do Atlântico Sul, que se formou com a separação dos dois continentes”, comenta o geólogo Peter Christian Hackspacher, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro. Há quase 20 anos, por meio de pesquisas de campo no Sudeste e Sul do Brasil, na Namíbia e em Angola, ele examina os sinais das possíveis forças que levaram à separação da América do Sul e da África. Suas conclusões reforçam a contestação do modelo tradicional, segundo o qual as linhas de costa dos dois continentes, representando os blocos de rochas que os formaram, poderiam se encaixar. Há um encaixe na costa do Nordeste com o Oeste da África, mas em outras regiões, como o litoral do Rio de Janeiro, parecem faltar partes do quebra-cabeça de rochas.

S ERRA do M AR R EJU v ENESCI dA

Os blocos de rochas que antes formavam um só continente se fragmentaram e se alinharam com outros, mais antigos ou mais novos, formando a região montanhosa do Sudeste brasileiro e do Oeste africano, conclui Hackspacher, em colaboração com as equipes de Ulrich Glasmacher, da Alemanha, Antonio Olímpio Gonçalves, de Angola, e de Ana Olívia Magalhães, da Universidade Federal de Alfenas, Minas Gerais. Contrariando as expectativas, blocos mais antigos, como as serras da Mantiqueira e da Bocaina, que soergueram há 120 milhões de anos, estão no interior do continente, e nas bordas, como no litoral entre os estados do Paraná e do Rio Grande do Sul, estão blocos mais recentes, com 35 milhões a 20 milhões de anos (ver mapa).

“Não estou descobrindo a roda, estou apenas medindo por outras técnicas”, diz ele, reconhecendo as bases conceituais oferecidas por professores da Universidade de São Paulo como Fernando Almeida, Umberto Cordani e Benjamim Bley Brito Neves, que já haviam reconhecido que a América do Sul era formada por microplacas de rochas com idades e

efeitos do soerguimento depois da abertura do atlântico: vale de um rio no Centro- oeste de angola com rochas formadas a 2 bilhões de anos...

FoNtE adapTado de Karl M. et al
Locais de coleta

origens variadas (ver Pesquisa FAPESP nº 188). Claudio Ricommini, também da USP, questionou um pouco mais a visão habitual da formação dos continentes ao verificar que a idade das rochas da bacia sedimentar de Taubaté variava de 33 milhões a 55 milhões de anos, bem longe dos supostos 120 milhões que deveriam ter por estarem próximas do litoral.

Há quase 10 anos, tendo à mão equipamentos para medir a idade e a variação da temperatura das rochas de acordo com a profundidade – quanto menor a temperatura, mais superficial e recente é a rocha –, Ana Olívia propôs a Hackspacher, então seu orientador de doutorado, que examinassem a idade das rochas de regiões do Sul e Sudeste do Brasil distantes da costa. Eles partiam do pressuposto de que blocos de rochas mais antigas e mais recentes sobem e afundam, expondo-se de modo alternado na superfície. A partir daí, “resultados muito bons, coerentes geologicamente e com razoável grau de confiabilidade estatística acerca dos processos responsáveis pelo soerguimento crustal das serras do Mar e da Mantiqueira, puderam ser delineados”, diz ela. Em uma série de “descobertas

espetaculares”, definiu Hackspacher, encontraram blocos de rochas com soerguimento entre 60 milhões e 90 milhões de anos, que não se encaixavam no modelo clássico de formação da América do Sul a partir da separação da África.

Centenas de medições levaram a conclusões que ajudam a desfazer conceitos antigos. Um exemplo é a provável idade da serra do Mar, a cadeia montanhosa que se estende por quase 1.500 km ao longo do litoral, do Espírito Santo a Santa Catarina. “Até 10 anos atrás, quando se começou a pôr o dedo na ferida e a se questionar alguns pressupostos da evolução geológica do Atlântico Sul”, diz Hackspacher, “todos entendiam que a serra do Mar teria se formado há 120 milhões de anos. No entanto, estamos vendo que a serra tem apenas 35 milhões anos e não é um rescaldo da separação dos continentes”.

... e estrada Florianópolis-São

Joaquim, que cruza a serra do rio do rastro em Santa Catarina com rochas vulcânicas formadas há 134 milhões de anos

O fato de o rio Tietê correr para oeste é uma indicação de fenômenos geológicos mais recentes. Segundo Hackspacher, se a serra tivesse se formado há 120 milhões de anos, o rio provavelmente correria para o mar, não para o interior do continente. Hoje a hipótese mais examinada é que essa cadeia de montanhas poderia ser um efeito

da formação dos Andes, iniciada há cerca de 60 milhões de anos, que poderia ter gerado grandes ondulações, afetando o relevo, com baixos, como a região do Pantanal mato-grossense, e altos, como as serras da Mantiqueira e do Mar. “Não acho difícil aceitar essa possibilidade, mas as provas ainda não são suficientes”, diz ele.

Hackspacher e seus colegas estão vendo fenômenos semelhantes na Namíbia e em Angola. Em junho, complementando os levantamentos em terra, um navio oceanográfico alemão registrou sinais de placas de rochas, aparentemente com idade similar à da Elevação do Rio Grande, próximas ao litoral da Namíbia. n

projeto

História de exumação da plataforma sul-americana, a exemplo da região Sudeste brasileira: termocronologia por traços de fissão e sistemáticas ar/ar e Sm/nd (nº 2000/03960-5); Modalidade projeto Temático; Pesquisador responsável peter C. Hackspacher (Unesp); Investimento r$ 1.282.335,65 (FapeSp).

artigos científicos

Karl, M. et al. evolution of the South atlantic passive continental margin in southern Brazil derived from zircon and apatite (U–Th–Sm)/He and fission-track data. Tectonophysics. v. 604, p. 224-44. 2013.

SaloMon, F. et al. Major paleostress field differences on complementary margins of the South atlantic. EGU 13, p. 10894. 2013.

Eficiência monumental

Buracos negros gigantes consomem menos energia do que se pensava, mas impulsionam os maiores jatos de gás e radiação do Universo

Continua justa a reputação de os buracos negros serem imensos glutões ou aspiradores de pó de escala cósmica, capazes de sugar inexoravelmente tudo o que estiver a seu redor – em geral consomem o gás do meio interestelar, embora não sejam raros os buracos negros maiores, encontrados nos centros das galáxias, engolirem estrelas inteiras de uma vez. Esses buracos negros gigantes, entretanto, não consomem tanto gás quanto se pensava. Viu-se agora que, na verdade, eles expulsam para bem longe de sua vizinhança quase tanto gás quanto arrastam para lá. Mesmo com uma dieta menos calórica do que os astrofísicos supunham até pouco tempo atrás, esses buracos negros ainda têm energia suficiente para disparar jatos de gás acelerado a velocidades comparáveis com a da luz que se estendem por milhões de anos-luz para fora de suas galáxias. Esses jatos são os maiores e mais poderosos aceleradores de partículas do Universo (ver Pesquisa FAPESP nº 200). “É completamente contraintuiti-

vo”, diz Rodrigo Nemmen, pesquisador do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP). “Como o gás que estava caindo no buraco negro passa a escapar dele profusamente?”

Nemmen juntou-se ao astrofísico Alexander Tchekhovskoy, da Universidade da Califórnia em Berkeley, Estados Unidos, para comparar com mais precisão a quantidade de energia que, na forma de gás quente, alimenta os buracos negros gigantes com a quantidade de energia que emana deles na forma de jatos. A dupla analisou dezenas de buracos negros gigantes no centro de galáxias observadas pelo telescópio espacial de raios X Chandra. O estudo sugere que a energia dos jatos é quase sempre maior do que a fornecida pelo gás quente absorvido pelo buraco negro. Em muitos casos, os jatos são mais que três vezes mais energéticos do que o gás que o buraco sorve. Nemmen compara o absurdo da situação com a

de um motor imaginário que fornecesse ao automóvel três vezes mais energia do que a contida em seu combustível. “Tem alguma coisa errada, pois a conservação da energia é a lei da física mais fundamental que existe”, diz.

Jatos de partículas e radiação emitidos pelo buraco negro da galáxia Centauro A, distante 12 milhões de anos-luz da Via Láctea

Apenas uma solução para o paradoxo não viola as leis da física. Os jatos disparados pelo buraco negro só podem ser tão energéticos se houver uma fonte extra de energia, muito mais poderosa do que o gás quente. Embora a análise de Nemmen e Tchekhovskoy não esclareça definitivamente que fonte é essa, os números que encontraram favorecem uma teoria discutida desde o final dos anos 1970 pelos astrofísicos: a ideia de que os jatos são criados por campos magnéticos moldados e fortalecidos por uma energia que vem de dentro do próprio buraco negro. Um buraco negro, Nemmen explica, é uma região esférica do espaço com uma força de atração gravitacional tão forte que uma espaçonave – ou qualquer outro

Igor

objeto – precisaria alcançar uma velocidade maior do que a da luz para escapar dele. A fronteira do buraco é chamada de horizonte de eventos. “Se nem a luz escapa, e ela é a coisa mais rápida do Universo, uma vez ultrapassado o horizonte de eventos, nada escapa”, ele diz. Os astrônomos não fazem ideia do que existe dentro dos buracos negros, que surgiram primeiro como solução matemática de uma das equações da teoria da relatividade geral, publicada por Albert Einstein em 1915. Mas desde os anos 1960 os pesquisadores acumulam evidências indiretas de que buracos negros de vários tamanhos existem em abundância no Universo.

rodí ZI o gaú C ho Há provas suficientes, por exemplo, de que no centro da Via Láctea reside um objeto escuro consideravelmente menor que o Sistema Solar, com uma massa 4 milhões de vezes maior que a do Sol. “Levando em conta tudo o que sabemos sobre gravitação e astrofísica, tem de haver um buraco negro ali”, diz Nemmen. “As observações astronômicas, especialmente as do telescópio espacial

Campos magnéticos

próximos ao horizonte de eventos podem transferir energia do buraco para o gás ao redor

Hubble, estabeleceram que a maioria das galáxias possui um buraco negro em seu centro.”

O buraco negro no centro da Via Láctea, porém, é diferente dos encontrados no centro de outras galáxias. Ele perma-

nece tranquilo a maior parte do tempo – engolindo um pouco de gás ou uma estrelinha de vez em quando –, enquanto os localizados no centro de algumas galáxias são muito mais ativos e brilham milhares de vezes mais do que todas as estrelas das galáxias que os abrigam.

Esse brilho vem da radiação emitida pelo gás do meio interestelar que cai copiosamente em direção ao centro galáctico. “Esses buracos negros ficam como eu em um rodízio de churrasco, se alimentando vorazmente”, diz Nemmen, que nasceu na cidade gaúcha de Passo Fundo, fez graduação e doutorado em Porto Alegre, na Universidade Federal do Rio Grande de Sul, e assumiu o cargo de professor na USP em abril, depois de realizar um estágio de pós-doutoramento na Nasa.

Vivendo nesse regime de rodízio gaúcho, esses buracos negros também chamados de núcleos ativos de galáxias (AGNs, na sigla em inglês) fazem outra coisa extraordinária: emitem um par de imensos jatos de gás brilhante para fora de suas galáxias. O gás desses jatos viaja pelo espaço intergaláctico, emitindo radiação de altíssima energia.

d uas ou três formas de ser morto por um buraco negro

Cair em um buraco negro é fatal. Ultrapassado o horizonte de eventos, não é possível escapar nem pedir socorro. O destino de uma pessoa que conseguisse atravessar essa região é ser desintegrada por forças gravitacionais antes de alcançar o centro do buraco negro, a dita singularidade, que os físicos não sabem ao certo o que é. O que muita gente não imagina, porém, é que buracos negros podem ser mortais mesmo a vários anos-luz de distância. “Os fenômenos mais energéticos do Universo acontecem na vizinhança de buracos negros”, informa o astrofísico Rodrigo Nemmen, da USP, à plateia de suas palestras de divulgação científica. Nas apresentações feitas neste ano em São Paulo Nemmen usou as

diferentes formas de ser exterminado por um buraco negro para introduzir ao público a astronomia e a física desses objetos cuja existência até hoje só foi inferida por observações indiretas. “É a didática do fatalismo”, conta Nemmen.

Ser frito por radiação é uma das maneiras de ser morto por um buraco negro. Quando uma estrela com uma massa centenas de vezes maior que a do Sol colapsa, seu núcleo se transforma em um buraco negro. Esse buraco negro se alimenta do material restante de modo tão explosivo que lança um jato de partículas e radiação conhecido como explosão de raios gama, capaz de incinerar tudo o que estiver no caminho.

Não é só no início de sua vida que os buracos negros lançam

para o espaço tempestades de radiação. Buracos negros, grandes ou pequenos, costumam atrair para suas proximidades nuvens de gás que compõem o disco de acreção. A rotação do disco aquece o gás a tal ponto que ele passa a emitir níveis de radiação que causariam câncer em alguém a vários anos-luz de distância.

Tão ruim quanto se aproximar desse disco pode ser ficar no caminho de um jato de gás e partículas expelido pelo buraco negro de um núcleo galáctico ativo. Em 2007 astrônomos observaram uma galáxia ser atingida em cheio pelo jato de sua vizinha, que recebeu o nome de galáxia da morte. Os planetas da galáxia atingida devem ter sofrido uma chuva de radiação.

Mesmo que sobrevivesse à radiação, alguém próximo a um buraco negro correria o sério risco de ter seu corpo esticado como um espaguete – a essa morte alla italiana os físicos chamam de espaguetificação. Na vizinhança do horizonte de eventos, a diferença da força gravitacional entre os pés e a cabeça de uma pessoa caindo em direção ao buraco negro pode ser suficiente para esticar e espremer seu corpo até transformá-lo em espaguete. Quanto mais próximo do horizonte de eventos, maior a probabilidade de que o turbilhão criado pela rotação do buraco negro também espaguetifique o corpo de quem estiver por ali, fazendo-o girar de uma maneira que Nemmen compara a uma roda de tortura medieval.

máquina supereficiente

energia dos jatos emitidos pelo buraco negro é maior que a do gás que o alimenta

Os pesquisadores ainda debatem a origem desses jatos. Uma das possibilidades envolve o disco de gás que gira bem próximo ao horizonte de eventos.

“O gás gira com muita energia e poderia ser desviado e canalizado em jatos”, diz Nemmen. Outra possibilidade, segundo ele, envolve os campos magnéticos gerados pelo gás quente eletricamente carregado bem próximo ao horizonte de eventos. “Esses campos conseguiriam extrair energia do próprio buraco negro e transferi-la ao gás”, explica.

Essa transferência de energia seria possível porque, além da força de atração para dentro do horizonte de eventos, os buracos negros possuem grande energia de rotação, que obriga tudo a sua volta a girar em um mesmo sentido. Esse redemoinho espacial arrastaria as linhas do campo magnético do gás em volta do horizonte de eventos, como fios de lã enrolados em um novelo. Já em 1977, cálculos dos astrofísicos Roger Blandford e Roman Znajek sugeriram que a energia dessas linhas poderia esculpir e impulsionar os jatos. Desde então, simulações em computador dos AGNs, algumas realizadas por Tchekhovskoy, colega de Nemmen, confirmam que o mecanismo de Blandford-Znajek é a fonte de energia mais provável para os jatos.

“Os estudos teóricos têm sugerido fortemente isso, mas as observações ainda não testaram essas ideias muito bem”, diz Nemmen. Para comparar melhor as observações com a teoria, ele e Tchekhovskoy resolveram pensar nos

entra nessa região, qual sua velocidade e temperatura. Nem todo o gás que adentra essa esfera cai direto no buraco negro. O gás é tão quente, tão turbulento e gira tão depressa que boa parte dele acaba ganhando força para escapar antes que seja tarde demais. “Estudos anteriores estimaram esse abastecimento de forma inadequada”, afirma Nemmen. “Observações do centro da Via Láctea e da galáxia NGC3115 feitas nos últimos dois anos mostram uma perda enorme de gás.”

AGNs como máquinas. “Imagine um motor que não podemos examinar por dentro”, Nemmen compara. “Pode-se tentar entender como a máquina funciona medindo o seu rendimento, comparando quanto combustível o abastece com a energia que sai dele.”

ESFE ra I mag I nár I a

Vasculhando dados do telescópio espacial Chandra, a dupla selecionou 27 AGNs que foram observados com detalhe suficiente para determinar quanta energia entra em uma esfera imaginária em volta do buraco negro com um raio de cerca de 1 ano-luz e quanta sai dela. Para estimar a energia que abastece essa máquina, eles calcularam quanto gás

Já a energia que escapa da máquina, os astrofísicos mediram observando como os raios X emitidos pelos jatos inflam duas enormes cavidades de gás quente abaixo e acima das galáxias (ver Pesquisa FAPESP nº 144). “Sai mais energia do que entra”, conclui Nemmen. “Fazendo as contas, fomos capazes de explicar esse rendimento assumindo que a energia extra deve vir da rotação do buraco negro.”

A conclusão coincide com a de outro estudo de Tchekhovskoy, publicado em junho na Nature. Ele e seus colegas encontraram uma relação entre os campos magnéticos dos jatos e a luz emitida pelos discos de gás. Essa relação só faz sentido se os jatos tiverem sido criados por linhas magnéticas alimentadas pelos buracos negros. Nemmen lembra, porém, que há incertezas nas observações. Dados mais consistentes exigirão medições mais precisas dos jatos. “Para observarmos a formação dos jatos diretamente”, explica, “precisaremos de um telescópio de raios X com resolução milhares de vezes melhor que a do Chandra”. n

A galáxia Cygnus A (ponto brilhante) e os jatos impulsionados pelo buraco negro que reside em seu centro
Rotação do buraco enovela linhas de campo magnético que ajudariam a dar forma e a impulsionar os jatos de energia e radiação
BURACO NEgRO
diSCOdE ACREçãO
liNhASdE CAMPOMAgNÉTiCO

Morreu no dia 24 de setembro, em São Paulo, o pesquisador e médico sanitarista Luiz Hildebrando Pereira da Silva, aos 86 anos de idade. Ele estava internado havia algumas semanas no Instituto do Coração (InCor), em São Paulo, por conta de uma pneumonia. Hildebrando não reagiu ao tratamento e teve falência múltipla dos órgãos. O corpo do professor seria velado na presença apenas da família e de amigos, como informou um dos mais próximos, o parasitologista Erney Plessmann de Camargo, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP).

“Conheci Hildebrando na Faculdade de Medicina da USP em 1959 e desde então trabalhamos juntos em muitas pesquisas”, disse Camargo, que nos anos 1990 colaborou com Hildebrando em estudos sobre a malária em Rondônia.

Professor emérito da USP e da Universidade Federal de Rondônia, Luiz Hil-

O cientista das doenças tropicais

Luiz Hildebrando Pereira da Silva era um dos mais respeitados especialistas em parasitologia do mundo

debrando era um dos mais respeitados especialistas em doenças tropicais do mundo. Passou a maior parte da carreira na França, no Instituto Pasteur, para onde se transferiu depois de ser perseguido pelo governo militar instituído no país em 1964, quando exercia o cargo de professor associado da Faculdade de Medicina da USP. Voltou ao Brasil nos anos 1990 e passou a trabalhar em pesquisas sobre a malária em Rondônia.

Formado em medicina pela USP em 1953, viajou no ano seguinte com o parasitologista Samuel Pessoa para Misericórdia de Piancó, no sertão da Paraíba, onde participou da organização do Laboratório de Parasitologia e do ensino da disciplina na nova Faculdade de Medicina de João Pessoa. Lá desenvolveu, entre 1954 e 1956, pesquisas sobre a epidemiologia da esquistossomose e da doença de Chagas. Foi lá que, através da lente de um microscópio e à luz de gambiarra, viu o parasita Schistosoma mansoni, de

alta incidência em áreas litorâneas do Nordeste, mas até então inédito no sertão. Sentiu, pela primeira vez, “a emoção estética da descoberta”, como contou numa entrevista em 2013, ao vencer a 12ª edição do Prêmio da Fundação Conrado Wessel, categoria Medicina.

Convidado para se tornar professor-assistente de parasitologia na FMUSP, retornou a São Paulo e desenvolveu, entre 1956 e 1960, pesquisas em quimioterapia da tripanossomíase americana. Aprovado no concurso para livre-docente, conseguiu uma bolsa do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica (CNPq) para estágio de pós-doutorado. Passou um ano na Universidade Livre, em Bruxelas. Em 1962 e 1963 trabalhou no Instituto Pasteur com o pesquisador François Jacob, que acabara de publicar com Jacques Monod o modelo de regulação da expressão gênica em procariontes, que lhes valeu o Prêmio Nobel de Medicina de 1965. Voltou ao

Brasil em fins de 1963 e organizou com o professor Erney Camargo o Laboratório de Genética de Protozoários na Faculdade de Medicina da USP.

Veio o golpe militar. Militante comunista desde a adolescência, Luiz Hildebrando passou três meses preso no navio Raul Soares, denunciado por recolher fundos e dar asilo a procurados. Acabou demitido por ato do governador Ademar de Barros, no último dia da vigência do Ato Institucional nº 1. Voltou a Paris e ao Instituto Pasteur, mas em 1967, estimulado por uma campanha de repatriamento de cientistas promovida pelo Ministério das Relações Exteriores, organizou no Brasil um curso sobre genética molecular no Departamento de Bioquímica da USP. No ano seguinte, aceitou a posição de professor no Departamento de Genética da USP em Ribeirão Preto, trabalhando com genética de eucariontes unicelulares. Em 1969 foi novamente demitido, desta vez pelo Ato Institucional nº 5, e voltou a Paris, onde reassumiu sua posição no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) e seu posto no Pasteur. No exílio, virou referência intelectual dos exilados brasileiros na França, no cargo de secretário político da base do Partido Comunista Brasileiro em Paris.

Ao ver pela primeira vez no sertão o Schistosoma mansoni, muito comum no litoral, sentiu “a emoção estética da descoberta”

Em 1971 foi nomeado chefe da Unidade de Diferenciação Celular do Departamento de Biologia Molecular do Pasteur. Em 1976 foi convidado por Jacques Monod, diretor do Pasteur, a organizar uma nova unidade de Parasitologia Experimental. A unidade foi criada em 1978 com o objetivo de desenvolver pesquisa sobre biologia molecular de parasitas da

malária, particularmente de Plasmodium falciparum. Foi um período de intensa atividade, com uma equipe que desenvolveu estudos em modelos experimentais e em voluntários humanos sobre moléculas candidatas a vacinas contra a malária. Em 1990, ainda em Paris, em colaboração com Erney Camargo, organizou uma equipe de pesquisa em Rondônia. Aposentou-se no Pasteur em 1996 e decidiu retornar ao Brasil.  Prestou concurso na USP e se tornou professor titular de parasitologia em 1997, assumindo a direção dos programas de pesquisa em Rondônia, numa frente avançada da USP na Amazônia, que reduziram o percentual de registros de malária em Rondônia de 40% para 7% do total de casos da doença na região amazônica em uma década. Ali montou o Centro de Medicina Tropical (Cepem), na Secretaria da Saúde de Rondônia, e criou o Instituto de Pesquisa em Patologias Tropicais (Ipepatro), que reúne especialistas e pesquisadores formados nos programas de pós-graduação da Universidade Federal de Rondônia. O Ipepatro foi absorvido pela Fundação Oswaldo Cruz e se tornou uma das cinco novas unidades da Fiocruz em 2009. Luiz Hildebrando Pereira da Silva era casado e tinha cinco filhos. n

tecnologia AMBIENTE y

a r mais limpo

Estudo revela queda na concentração de um dos principais poluentes atmosféricos na Região Metropolitana de São Paulo liberados pelo escapamento de carros a álcool

Yuri Vasconcelos

oar que os paulistanos respiram está menos poluído. Um estudo recente feito por cientistas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/ USP) revelou que, nos últimos 30 anos, caiu consideravelmente a concentração de acetaldeído na atmosfera da Região Metropolitana de São Paulo. Esse poluente, que faz parte do grupo dos aldeídos, é liberado principalmente pelo escapamento de veículos movidos a etanol. Além de provocar irritação nas mucosas, nos olhos e nas vias respiratórias e desencadear crises asmáticas, os aldeídos são substâncias carcinogênicas em potencial. Também contribuem para o aquecimento global. De acordo com os resultados da pesquisa realizada na USP, a queda na concentração de acetaldeído deve-se basicamente a dois fatores: aperfeiçoamento da tecnologia de motores automotivos e políticas públicas implementadas no país nas últimas décadas voltadas ao controle da poluição veicular, notadamente o Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve).

Os resultados do estudo são, de certa forma, surpreendentes, porque nos últimos anos verificou-se um aumento substancial no número de veículos movidos a etanol (ou álcool). Lançados em 2003, os carros com tecnologia flex, que podem ser abastecidos com gasolina, álcool ou uma mistura dos dois, já são a maior parte da frota nacional, com mais de 20 milhões de unidades em circulação. A gasolina vendida nos postos de combustível, por sua vez, é misturada ao álcool nas refinarias numa proporção de 75% de gasolina e 25% de álcool. “Apesar do aumento da frota que utiliza etanol, um biocombustível renovável feito a partir da cana-de-açúcar, não se verificou uma elevação no nível de acetaldeído no ar da Grande São Paulo. Pelo contrário. Nossas medições, realizadas entre 2012 e 2013, apontaram uma concentração média de 5,4 partes por bilhão (ppb) de acetaldeído na atmosfera, enquanto um estudo de 1986 mostra que esse valor era cerca de três vezes maior, de 16 ppb”, diz o químico e pós-doutorando do IAG

Thiago Nogueira, que liderou a pesquisa. Parte por bilhão é uma medida de concentração utilizada para mensurar substâncias químicas quando as soluções são muito diluídas.

Uma tecnologia automotiva fundamental para frear o aumento dos aldeídos são os catalisadores. Esse equipamento é instalado junto ao escapamento do carro com a função de tratar os gases gerados no processo de combustão antes que eles sejam liberados no ambiente. Todos os veículos atuais, para atender ao Proconve, saem de fábrica equipados com catalisadores de três vias, que recebem esse nome por ajudar a reduzir a presença dos principais poluentes atmosféricos exalados pelos automóveis: monóxido de carbono (CO), óxidos de nitrogênio (NO2) e compostos orgânicos voláteis, grupo no qual se inserem os aldeídos.

“Sem o catalisador seria impossível diminuir a presença de aldeídos na atmosfera, ou de qualquer outro poluente veicular”, explica o engenheiro mecânico Henrique Pereira, membro da comissão técnica de motores da SAE Brasil (Sociedade dos Engenheiros da Mobilidade). “Os catalisadores transformam os gases nocivos resultantes da queima do combustível, entre eles os aldeídos, em compostos menos agressivos à saúde humana e ao ambiente.” De acordo com Pereira, embora seja uma peça fundamental para a melhoria da qualidade do ar, os catalisadores não seriam eficientes caso os motores não tivessem sido aprimorados. “Para que o catalisador atinja um melhor rendimento, o motor do carro precisa receber uma mistura ideal de combustível e ar. Nesse sentido, a injeção eletrônica foi uma inovação mandatória para o bom funcionamento dos motores e, em consequência, dos catalisadores”, diz Pereira. A injeção eletrônica, componente que substituiu os carburadores dos carros existentes até os anos 1980, prepara uma combinação ideal de combustível e ar para o motor.

Outra estrutura aprimorada pelos fabricantes de automóveis com o objetivo de limitar a emissão de poluição foi a câmara de combustão, o local onde ocorrem as explosões da mistura ar-combustível. “Ao melhorar a eficiência da quei-

ma da mistura, os carros diminuem a emissão de substâncias poluentes. Isso ajudou a reduzir a emissão de aldeídos pelos automóveis movidos a etanol”, diz o engenheiro químico Alfredo Sílvio Castelli, diretor da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA).

O desenvolvimento de motores se deu, em larga medida, em função da aprovação de programas e leis ambientais mais restritivas. Com o objetivo de reduzir e controlar a contaminação atmosférica por fontes móveis, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) lançou em 1986 o Proconve, que estabeleceu prazos, limites máximos de emissão para automóveis nacionais e importados. “Antes da regulamentação das emissões no país com o Proconve, os fabricantes de automóveis projetavam seus modelos focando em dois fatores principais: o desempenho do motor e o consumo de combustível. Não se priorizavam as emissões”, conta Pereira. “Com o Proconve, o controle das emissões passou a ser prioritário no desenvolvimento de novos veículos.”

FUEL Poluente originário da queima do etanol nos motores

EvoLução EM MAIS dE 30 ANoS

A proporção entre o número de habitantes em relação a cada veículo na Região Metropolitana de São Paulo caiu de 14,8, em 1980, para 3, em 2011

Desde a implantação do programa, o limite de aldeídos vem caindo continuamente. Durante sua primeira fase, não havia um padrão para emissão desses compostos orgânicos formados por uma combinação de átomos de carbono, oxigênio e hidrogênio. A partir da segunda etapa do Proconve, em 1992, ficou estabelecido que os automóveis deveriam sair da fábrica emitindo no máximo 150 miligramas (mg) da substância por quilômetro rodado. Cinco anos depois, na terceira fase, esse valor caiu para 30 mg e atualmente, na quinta fase, o limite é de 20 mg por quilômetro rodado. “O Proconve, definitivamente, ajudou a melhorar a qualidade do ar das cidades brasileiras. Hoje, os chamados veículos leves fabricados no Brasil, grupo que engloba os automóveis, os utilitários e as camionetas, obedecem a um limite de emissão de poluentes no mesmo padrão do encontrado nos Estados Unidos”, diz Castelli. “Os carros movidos a etanol no passado emitiam uma quantidade maior de acetaldeído do que os automóveis flex fabricados hoje”, afirma. “O estudo é interessante por mostrar como se encontra atualmente a atmosfera da Região Metropolitana de São Paulo”, opina o engenheiro Francisco Emilio Nigro, professor da Escola Politécnica da USP e assessor técnico da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo.

concentração localizada

O estudo realizado no IAG da USP mediu não apenas a concentração de acetaldeído no ar de São Paulo, mas também de formaldeído – outro tipo de aldeído, emitido principalmente por veículos movidos a diesel ou a gasolina – e de óxidos de nitrogênio (NO e NO2) e de ozônio (O3). As amostras analisadas foram coletadas no telhado do edifício do IAG no campus da USP no bairro do Butantã, na zona oeste de São Paulo, entre junho de 2012 e maio de 2013. Na comparação com estudos anteriores, verificou-se um acréscimo na concentração de formaldeído – 8,6 ppb agora, ante 5,4 ppb três décadas atrás.

FUEL

O trabalho também compilou medições da concentração de aldeídos dentro de túneis na cidade de São Paulo realizadas nos últimos 20 anos. “A vantagem das medidas nesses locais é que elas isolam os poluentes emitidos pelos veículos daqueles liberados por outras fontes, como indústrias ou queimadas, e também dos poluentes formados por reações fotoquímicas na atmosfera”, explica Nogueira. Foram comparadas concentrações principalmente de três túneis na capital paulista: Presidente Jânio Quadros, Maria Maluf e um do Rodoanel. Os dados revelam uma redução acentuada de acetaldeído, de 60 ppb, no túnel Jânio Quadros em 2004, para 13,3 ppb no mesmo túnel em 2011. Quanto ao formaldeído, a redução foi de 50 ppb para 10,3 ppb.

Fonte
Fonte

e missões nos túneis

Jânio QUadroS

mínimo – máximo ppbv (partes por bilhão de volume)

os pesquisadores fizeram medições em túneis porque esses locais isolam os poluentes dos veículos de outras fontes como fábricas e queimadas

Os resultados completos da pesquisa estão descritos em um artigo publicado na edição on-line, em setembro, da revista Fuel. A importância de estudar a concentração na atmosfera de compostos orgânicos voláteis, como formaldeído e acetaldeído, e de óxidos de nitrogênio é que eles, indiretamente, interferem no clima. Ambos são substâncias que, em condições ideais de temperatura e radiação solar, sofrem reações fotoquímicas, dando origem a poluentes secundários como o ozônio. “Esse poluente frequentemente ultrapassa os padrões de qualidade do ar na Região Metropolitana de São Paulo”, diz Maria de Fátima Andrade, professora do IAG e coautora do estudo. “Há uma relação entre os compostos primários e secundários que faz a queima do etanol, apesar de diminuir a poluição primária, não ter melhorado a secundária”, diz. Os primários são os aldeídos, monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, óxido de enxofre e hidrocarbonetos, e entre os secundários está o ozônio. Segundo Maria de Fátima, o ozônio formado na troposfera (camada mais próxima da superfície terrestre) contribui para o aquecimento local, diferentemente do ozônio existente na estratosfera (nível mais elevado da atmosfera), que tem a função de absorver radiação solar, impedindo que grande parte dos raios ultravioleta chegue à Terra.

“Apesar da redução de alguns dos compostos precursores de ozônio, como o acetaldeído, a concentração desse gás não tem diminuído nos últimos anos em São Paulo. É importante estudar o que está determinando esse comportamento. Será que não cai por conta da diferença entre os compostos orgânicos voláteis e os óxidos de nitrogênio? E qual o papel do etanol na produção de ozônio em São Paulo? Essas são perguntas que ainda precisam ser respondidas”, afirma Maria de Fátima. O estudo que detectou a queda de concentração de acetaldeído em São Paulo foi feito no âmbito do projeto temático, com duração de quatro anos, coordenado pela professora do IAG e iniciado em 2011. n

Projetos

1. Narrowing the uncertainties on aerosol and climate changes in São Paulo State – nuances-Sps (nº 2008/58104-8); Modalidade Auxílio Pesquisa – Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais –Projeto Temático; Pesquisadora responsável Maria de Fátima Andrade (uSP); Investimento R$ 2.083.587,98 e uS$ 1.314.236,24 (FAPESP)

2. Avaliação das emissões veiculares de compostos orgânicos e inorgânicos provenientes da combustão de biocombustíveis e suas contribuições na qualidade do ar na RMSP (nº 2011/18777-6); Modalidade Bolsa no País – Regular – Pós-doutorado; Pesquisadora responsável Maria de Fátima Andrade (uSP); Bolsista Thiago Nogueira (uSP); Investimento R$ 267.841,44 (FAPESP).

Artigo científico

NoGuEIRA , T. o et al. Formaldehyde and acetaldehyde measurements in urban atmosphere impacted by the use of ethanol biofuel: Metropolitan Area of São Paulo (MASP), 2012-2013. Fuel. v. 134, p. 505. 13. out 2014.

Ponte de elétrons

Utilização de grafeno duplica a produção de eletricidade em biocélulas a combustível

transferência energética

equipamento semelhante a uma bateria automotiva converte energia química em elétrica

Representação gráfica do grafeno: uma folha com átomos de carbono em formato hexagonal

ografeno pode duplicar a produção de energia elétrica em biocélulas a combustível, como demonstrou um grupo de pesquisadores do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do ABC (Ufabc), em Santo André, na Região Metropolitana de São Paulo. Descoberto em 2004 por Andre Geim e Konstantin Novoselov, da Universidade de Manchester, na Inglaterra, o grafeno, além de render o Prêmio Nobel de Física aos dois pesquisadores pelos experimentos realizados, provocou uma corrida mundial em busca da utilização desse novo material caracterizado por ser uma folha de carbono com espessura atômica e detentor de propriedades elétricas, mecânicas e ópticas

Os pesquisadores brasileiros, sob a liderança do professor Frank Crespilho, do IQSC-USP, mostraram no artigo de capa da edição de setembro da revista Physical Chemistry Chemical Physics que folhas de óxido de grafeno presas em fibras flexíveis de carbono facilitam a transferência de elétrons em biocélulas a combustível, dispositivos que convertem energia química em energia elétrica com a ajuda de enzimas e podem ter como combustível, por exemplo, a glicose existente no sangue para suprir de eletricidade marca-passos ou dispensadores subcutâneos de medicamentos. As biocélulas são uma fonte de energia alternativa

ainda restrita a laboratórios. As biocélulas desenvolvidas em São Carlos são semelhantes a baterias e possuem dois eletrodos de fibra de carbono flexível, o cátodo, o polo positivo, e o ânodo, negativo. Elas são uma das mais recentes novidades em estudos no campo das fontes energéticas. Uma das opções de combustível para esse dispositivo é o uso da garapa, o caldo de cana repleto de açúcares.

As biocélulas podem ter tamanho microscópico ou serem maiores, do tamanho de pequenas caixas plásticas que podem receber a garapa para gerar eletricidade e recarregar baterias de celulares, tablets ou até notebooks. Uma célula pode fornecer uma tensão elétrica um pouco maior que 1,0 volt (uma pilha do tipo AA, por exemplo, tem 1,5 volt). O grupo de Crespilho já trabalha com esses equipamentos desde 2010 (ver Pesquisa FAPESP nºs 182 e 205). Pensando em melhorar o desempenho elétrico desses dispositivos, os pesquisadores colocaram folhas de óxido de grafeno entre o eletrodo e a enzima glicose oxidase. Com isso, a transferência de elétrons para a célula aumentou em pelo menos duas vezes, o que representa o dobro de produção de eletricidade.

O processo de liberação de elétrons ocorre pela oxidação da glicose, que acontece na superfície do ânodo, onde é colocada a enzima glicose oxidase produzida a partir do fungo Aspergillus niger. Com isso, os elétrons são transferidos para a

Marcos de Oliveira

eletrodo com grafeno e enzima glicose oxidase oxidam as moléculas de glicose do sangue ou da cana e extraem os elétrons para o circuito elétrico

À esquerda, fibra flexível de carbono utilizada nos eletrodos. ao lado, fibra de carbono é esfoliada para produção

o fluxo de elétrons passa para o outro eletrodo, encontra o oxigênio e passa novamente a incorporar o combustível utilizado

superfície do eletrodo da biocélula que os utiliza como eletricidade. Esse fluxo de elétrons passa para o outro eletrodo, o cátodo, onde o oxigênio é reduzido. O processo conhecido como oxirredução se refere à oxidação (perda de elétrons) da glicose e redução (ganho de elétrons) do oxigênio, ambos dissolvidos no sangue.

A presença do grafeno transforma-se numa espécie de ponte ao diminuir a distância entre o centro da enzima e a superfície dos eletrodos de carbono, facilitando a passagem dos elétrons. “Já mostramos que ele funciona melhor que os nanotubos de carbono porque aproveita melhor as

propriedades da enzima. Recentes estudos mostraram ainda que os nanotubos podem degradar a glicose oxidase, o que não acontece quando usamos grafeno”, diz. Crespilho, que atualmente passa um período como professor visitante no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech). “Estou num projeto que visa compreender como o DNA e outras biomoléculas, como proteínas, interagem com a superfície de outros materiais no aspecto de transferência de carga elétrica”, conta. “A ideia é fortalecer essa área em São Carlos e aplicar no futuro esses conhecimentos em bioeletrônica molecular.”

infra E strutura da alEM anha

Além do óxido de grafeno em fibras flexíveis, Crespilho aguarda a construção de uma biocélula a combustível com folhas individuais de grafeno que um aluno seu do IQSC está montando no Instituto Max Planck, na Alemanha. “Deverá ser a biocélula mais fina já construída”, diz Crespilho. “Ainda não temos no Brasil toda a infraestrutura para fazer esse dispositivo, que deverá ter dois eletrodos com a espessura de menos de um nanômetro (equivalente a um milímetro dividido por um milhão)”, diz. Por isso, o doutorando Rodrigo Iost, com bolsa da FAPESP, vai tentar montar até o fim do ano essa nova biocélula. “Tivemos no ano passado um projeto temático [financiado pela FAPESP durante quatro anos] aprovado sob a coordenação do professor Osvaldo Novais, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP. Esse projeto vai melhorar a nossa infraestrutura e vai permitir a produção de novos filmes nanoestruturados para aplicação biológica. Aí conseguiremos construir os biodispositivos e vamos aplicá-los não só em biocélulas, como também em aparelhos bioeletrônicos implantáveis”, diz Crespilho. O projeto em bioeletrônica molecular desenvolvido pelo grupo é também vinculado ao Instituto Nacional de Eletrônica Orgânica (Ineo-INCT), com sede no IFSC em São Carlos. n

projetos

1. interação entre biomoléculas e sistemas celulares com nanoestruturas oD, 1D e 2D utilizando métodos eletroquímicos (nº 2009/15558-1); Modalidade auxílio à pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Frank crespilho (Usp); Investimento R$ 92.262,80 e Us$ 50.821,57 (Fapesp).

2. estudo bioeletroquímico de enzimas oxidoredutases imobilizadas em nanomateriais do tipo 1D e 2D (2013/15433-0); Modalidade b olsa no e xterior – Regular – estágio de pesquisa – Doutorado; Pesquisador Responsável Frank crespilho (Usp); Bolsista Rodrigo iost (Usp); Investimento R$ 93.415,01 (Fapesp).

3. Filmes nanoestruturados de materiais de interesse biológico (nº 2013/14262-7); Modalidade projeto Temático; Pesquisador Responsável osvaldo novais (Usp); Investimento R$ 1.150.950,14 (Fapesp).

artigo científico

maRTins, m.V. a et al evidence of short-range electron transfer of a redox enzyme on graphene oxide electrodes. Physical Chemistry Chemical Physics. v. 16 n. 33 p. 17349–18044. set. 2014.

oxIgênIo oxIgênIo

novos mat E riais y

Maleável e não deforma

Associada a outras moléculas, a folha de átomos de carbono que dá forma ao grafeno pode adquirir propriedades ainda mais surpreendentes. Uma equipe de pesquisadores da Universidade Rice (EUA), com participação de físicos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), desenvolveu um tipo de esponja extremamente leve, resistente e maleável a partir de uma reação química que junta uma variante desse material, o óxido de grafeno (GO), e a forma hexagonal do nitreto de boro (BN), composto sintético usado como lubrificante e aditivo em cosméticos. Amostras da esponja de uns poucos centímetros de tamanho foram comprimidas com moedas de um centavo de dólar e retomaram sua forma inicial sem problemas. A estrutura nanométrica do novo material, denominado GO-0.5BN, se assemelha às entranhas de um prédio em construção: os pisos e as paredes se montam sozinhos a partir de uma base de folhas de óxido de grafeno reforçada por placas de nitreto de boro. A densidade do GO-0.5BN é 400 vezes menor do que a do grafite. Formado apenas por ligações de átomos de boro e nitrogênio, o nitreto de boro apresenta uma configuração hexagonal semelhante à do grafeno, ao qual se encaixa sem maiores problemas e confere maior resistência e maleabilidade

Espuma feita com óxido de grafeno e nitreto de boro é leve, resistente e retoma a forma

original depois de comprimida

mecânica. “O novo material é estável do ponto de vista químico e térmico e pode ser usado em sistemas para armazenar energia, como supercapacitores e eletrodos de bateria, e absorver gases”, diz Douglas Galvão, do Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp, que participou do estudo. “O nitreto de boro reforça a estrutura do óxido de grafeno, que apresenta alguns buracos e pode se tornar quebradiça em certos pontos”, explica o físico teórico Pedro Alves da Silva Autreto, que faz pós-doutorado na Unicamp com bolsa da FAPESP e passou uma temporada na Rice, onde realizou simulações computacionais sobre as características do GO-0.5BN. O processo usado para obter a esponja e suas propriedades foram apresentados em artigo científico publicado em 29 de julho na revista Nature Communications.

O óxido de grafeno mantém praticamente as mesmas propriedades do grafeno puro, mas sua obtenção é mais simples e barata. Por isso, os pesquisadores preferiram usá-lo em seus experimentos. Ele pode ser produzido em grande quantidade por meio da esfoliação química do óxido de grafite. A presença de átomos de oxigênio em meio à colmeia hexagonal de carbonos do grafeno confere outra vantagem ao composto: é mais fácil fazer pilhas de folhas de óxido de grafeno – e assim criar camadas ao mesmo tempo

extremamente resistentes e finas – do que apenas de grafeno. “Esperávamos que a adição de nitreto de boro ao óxido de grafeno gerasse uma nova estrutura, mas não exatamente com o ordenamento de camadas que descobrimos”, afirma a engenheira elétrica Soumia Vinod, da Universidade Rice, primeira autora do paper sobre a esponja.

As placas de nitreto de boro hexagonal estão distribuídas uniformemente por todos os andares e as paredes da estrutura interna do material que compõe a esponja. Sua presença mantém unidas as folhas de óxido de grafeno que funcionam como uma espécie de esqueleto do GO-0.5BN. Segundo Vinod, as placas absorvem o estresse decorrente da compressão e do esticamento da esponja, evitam que os pisos de óxido de grafeno desmoronem ou apresentem rachaduras e aumentam a estabilidade térmica do composto.

se M Patente

Até chegar à formulação química da esponja apresentada no artigo científico, os pesquisadores testaram versões do novo material com diferentes proporções de seus dois ingredientes. Enquanto o pessoal da Rice misturava distintas quantidades de óxido de grafeno e de nitreto de boro, ambos os compostos na forma de pó, Autreto realizava simula -

Marcos Pivetta

de Boro

Óxido de Grafeno

internamente, a esponja é composta de pisos e paredes que se montam sozinhas a partir de uma base de camadas de óxido de grafeno reforçadas por placas de nitreto de boro

reforço estrutural

nitreto de boro em sua forma hexagonal torna as folhas de óxido de grafeno menos quebradiças e evita com que as camadas internas do material desmoronem

imagens de microscopia eletrônica mostram as camadas da estrutura interna (acima) e detalhe de uma parede de sustentação das folhas de óxido de grafeno e nitreto de boro

ções no computador tentando prever as propriedades do material em gestação e fornecer parâmetros para seus colegas refinarem o trabalho de bancada. “Eu era o único físico teórico em meio a 50 pesquisadores da área experimental do grupo do professor Pulickel Ajayan”, afirma Autreto, referindo-se ao período em que ficou na universidade americana. A versão mais estável da esponja foi a que devia metade do peso final à presença de nitreto de boro na mistura. O óxido de grafeno interage com o nitreto de boro devido à ação de catalisadores químicos. O produto final da reação, o material esponjoso, é liofilizado, ou seja, é congelado e perde sua água por sublimação. A esponja apresenta a forma do recipiente em que foi gerada. “Uma vez que tenhamos em mãos as quantidades necessárias de óxido de grafeno e de nitreto de boro hexagonal, gastamos de dois ou três dias para produzir a espuma”, explica Vinod.

Por ora, a esponja nanoestruturada que não se deforma e pode armazenar energia ou absorver gases não foi protegida por uma patente comercial. A parceria da Unicamp com a Rice deve continuar e render novos trabalhos. “Dois pós-doutores de nossa equipe vão se juntar ao grupo do professor Ajayan para continuar a colaboração”, afirma Galvão, que foi o orientador do mestrado e do doutorado de Autreto e supervisiona seu pós-doutorado. n

projeto

propriedades estruturais, mecânicas e de transporte de grafeno e estruturas relacionadas (nº 11/132597); Modalidade Bolsa de pós-doutorado; Pesquisador responsável douglas soares Galvão (iFGW/unicamp); Bolsista pedro a lves da silva autreto; investimento r$ 139.310,43 (FapEsp).

artigo científico

vinod, s et al low-density three-dimensional foam usings elf-reinforced hybrid two-dimensional atomic layers. nature Communications. 29 jul. 2014.

Parceria com as abelhas

Gel de própolis é testado para tratar efeitos nocivos da radioterapia em casos de câncer de cabeça e pescoço

um medicamento feito de própolis – espécie de resina produzida pelas abelhas para proteger as colmeias – poderá ajudar a prevenir e tratar inflamações, infecções e ulcerações bucais, comuns em pacientes que recebem radiação contra cânceres na região da cabeça e do pescoço. O gel aderente à mucosa da boca está sendo desenvolvido pela Pharma Nectar, uma pequena empresa de Belo Horizonte, em parceria com a Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Minas Gerais (FO-UFMG). Ele já passou por testes in vitro, com animais, e por avaliações clínicas em pequenos grupos de pessoas, com bons resultados. Agora, está sendo testado em um número maior de pacientes e comparado com drogas já existentes para o mesmo tipo de tratamento. Os principais tipos de câncer que atingem a região do pescoço e da cabeça são os de boca, esôfago, tireoide e laringe. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a estimativa é de que em 2014 sejam registrados no Brasil 23.710 novos casos dessas quatro espécies de tumores. O tratamento mais indicado é a radioterapia. O problema é que a radiação empregada causa efeitos colaterais graves, entre os quais a mucosite (inflamação da mucosa) e a xerostomia (falta de saliva, ou boca seca). Além disso, a radiação al-

tera a microbiota da boca, facilitando a ocorrência de infecções por microrganismos que vivem ali naturalmente, como a Candida albicans, que causa o conhecido “sapinho”. Em pacientes de radioterapia, o fungo cresce de forma descontrolada, provocando uma doença chamada candidose ou candidíase bucal. Os resultados de todas essas alterações são ulcerações e muita dor. “Alguns pacientes não conseguem comer nem falar e correm o risco de desenvolver anorexia e prostração”, diz Vagner Rodrigues Santos, professor da FO-UFMG, que está trabalhando no desenvolvimento do gel de própolis em parceria com a Pharma Nectar.

Ele conta que a ideia surgiu em 2007, quando assumiu a coordenação do Projeto de Atendimento de Suporte Odontológico ao Paciente Portador de Câncer e Irradiado na Região da Cabeça e Pescoço da UFMG. “Foi então que observei a necessidade de um produto que trouxesse melhor qualidade de vida para essas pessoas que sofriam muito com a xerostomia, mucosite e candidíase associada”, conta. “Daí me veio a ideia de criar um gel que fosse mucoadesivo e que tivesse propriedades ao mesmo tempo anti-inflamatórias, anestésicas, lubrificantes, antifúngicas, antibacterianas e cicatrizantes – todas qualidades atribuídas à própolis.”

Para isso, Rodrigues procurou a Pharma Nectar, especializada em produtos apícolas. “A empresa surgiu informalmente no início dos anos 1980, como consequência de nosso empreendimento com abelhas no interior de Minas Gerais”, conta seu diretor-executivo, José Alexandre Silva de Abreu. “Em 1986 nós a formalizamos e passamos a investir em sua estruturação física e financeira. Em 1992, criamos a Nectar Farmacêutica, quando então passamos a nos empenhar na destinação farmacêutica e funcional dos produtos das abelhas”, diz Abreu. “Exportamos para 27 países, empregando 35 pessoas.” No total, são 86 produtos de linha do portfólio da empresa.

P E rgunta S E con S ulta S

A parceria entre a Pharma Nectar e a FO-UFMG surgiu há quase duas décadas. “Logo após terminar meu doutorado em patologia bucal, em 1996, eu estava procurando uma linha de pesquisa quando um colega comentou sobre alguém que havia tratado uma micose entre os dedos do pé com extrato de própolis”, recorda Rodrigues. “Imediatamente surgiram perguntas: se a própolis trata micose do pé, pode também tratar micoses bucais? Rodrigues consultou então a literatura científica e constatou que existiam poucas pesquisas sobre própolis e infecções

Evanildo da Silveira

a própolis usada no gel é produzida pelas abelhas com resinas coletadas do alecrim-do-campo

da boca. “Com minha primeira orientanda de iniciação científica, começamos uma investigação sobre os diversos extratos encontrados no mercado de Belo Horizonte e qual deles seria o melhor para inibir o crescimento de Candida albicans”, conta. “Dentre as 16 marcas testadas, a de própolis verde da Pharma Nectar apresentou melhor resultado para a inibição do microrganismo in vitro.” Essa própolis é originária de resinas extraídas pelas abelhas do alecrim-do-campo (Baccharis dracunculifolia). A partir de então, ele focou os experimentos nessa própolis e ia todos os meses comprar amostras na farmácia da empresa. “Até que um dia a farmacêutica e sócia da Pharma Nectar [Sheila Lemos Abreu] me perguntou para que eu comprava tanta própolis”, lembra Rodrigues. “Ao responder que eu era professor da UFMG e estava testando extratos como antimicrobiano das infecções bucais, ela prontamente quis uma conversa sobre o assunto e passamos a ter reuniões mais frequentes. A Pharma Nectar passou a nos fornecer amostras de própolis bruta e extratos.” Com a própolis verde e os extratos da empresa, o pesquisador realizou uma série de experimentos e desenvolveu alguns produtos. Os estudos renderam pelo menos cinco trabalhos publicados em periódicos científicos.

Em 2009, Rodrigues procurou a Pharma Nectar para desenvolver o gel para uso exclusivo em pacientes com câncer sob tratamento radioterápico. “A ideia era que ele substituísse a bateria de medicamentos que os pacientes usam nesses casos, como saliva artificial, antifúngico, anti-inflamatório, analgésicos, entre outros, que nem sempre surtem o efeito esperado”, explica.

“O que temos observado até agora, tanto no estudo de fase II como nesse de fase III, é que os pacientes que fazem o uso adequado do gel antes de iniciar a radioterapia não têm mucosite ou, se têm, não é tão grave.” Segundo ele, foram gastos até agora em todos os estudos e testes clínicos cerca de R$ 60 mil, financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). n

artigo científico

nOrOnHa, V. r a s et al. Mucoadhesive propolis gel for prevention of radiation-induced oral mucositis. Current Clinical Pharmacology. fev. 2014. on-line

humanidades urbanismo y

para mudar os ares

mapas climáticos podem facilitar a reordenação urbana

Carlos Fioravanti, de Campinas, sP

ao comparar mapas feitos a partir de imagens de satélite e por simulação de computador, a arquiteta e urbanista Alessandra Prata Shimomura verificou que a temperatura média anual do centro da cidade de Campinas está três graus Celsius mais alta hoje do que há 10 anos. De fato, as ruas José Paulino, 13 de maio, Barão de Jaguara e outras próximas são quentes, abafadas e apinhadas de gente, embora espaçosas e limpas. Mapas de temperatura e de vento, como os que ela fez ao longo de três anos na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e apresentados em primeira mão à Pesquisa FAPESP, permitem uma revisão das estratégias de planejamento urbano, ao indicar as regiões que ficariam mais agradáveis com mais árvores para fazer sombra para os pedestres e as que deveriam ser poupadas de prédios altos demais ou muito próximos, que bloqueiam a circulação do ar, um fenômeno climático pouco

Campinas, terceira cidade mais populosa de são Paulo: entre parques e arranha-céus

Centro de Campinas mais quente

Macrozonas

1. Área de proteção ambiental 2. Área de controle ambiental 3. Área de urbanização controlada 4. Área de urbanização prioritária 5. Área prioritária de requalificação 6. Área de vocação agrícola 7. Área de influência aeroportuária 8. Área de urbanização específica 9. Área de integração noroeste

Variação de teMperatura

n 2,7 a 15,6°C n 15,6 a 17,4°C n 17,4 a 19,3°C n 19,3 a 21,1°C n 21,1 a 36,2°C

lembrado, mas relacionado ao conforto e à saúde das pessoas. Mostrando o valor dessa abordagem, um mapeamento do movimento do vento de Hong Kong em 2002 indicou os bairros mais vulneráveis e ajudou a conter o avanço da epidemia da síndrome respiratória aguda severa (Sars) nessa ilha da China.

Mapas climáticos começam a ser usados mais intensamente. No Brasil, um dos produtos gerados por trabalhos coletivos – como o Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais e a Rede Clima, financiada pelo governo federal – são mapas da vulnerabilidade das grandes cidades brasileiras aos efeitos da mudança do clima, oferecidos a prefeitos e outros gestores do espaço público (ver Pesquisa FAPESP nº 171). Ana Rocha, da Universidade Federal de Santa Catarina, e Eleonora Assis e Simone Hirashima, da Universidade Federal de Minas Gerais, valorizaram a ventilação, a iluminação natural, a umidade e a temperatura ao projetar um conjunto habitacional em Governador Valadares, no interior mineiro. “Diante da necessidade de ventilação, foi feito um estudo

do terreno utilizando maquete física e túnel de vento para caracterização dos ventos”, relatam em um artigo publicado em 2012. Elas também consideraram “indispensável promover a formação de grupos multidisciplinares e fomentar a comunicação entre os departamentos envolvidos no processo do projeto”.

alessandra preparou os mapas de Campinas em colaboração com o geógrafo Antonio Manuel Saraiva Lopes, professor da Universidade de Lisboa, que trabalha nessa área desde os anos 1990. Em 2013, em colaboração com Elis Alves, da Universidade de São Paulo (USP) de São Carlos, Lopes examinou o regime de ventos e a variação de temperatura que resultam na formação de ilhas de calor na cidade de Lisboa. Em todo o mundo, de acordo com um levantamento de Chao Ren e Edward Ng, da Universidade de Hong Kong, e Lutz Kaztschner, da Universidade de Kassel, Alemanha, 15 países – principalmente da Europa e da Ásia, e apenas dois da América do Sul, Brasil e Chile – já adotaram essa metodologia, chamada mapas

climáticos urbanos e desenvolvida nos anos 1970 na Alemanha como recurso de planejamento urbano.

Em um estudo a ser publicado na revista Urban Climate, Michael Hebbert, professor da University College London, volta ainda mais no tempo e situa os primórdios da climatologia aplicada ao planejamento urbano do século XVIII, com o meteorologista inglês Luke Howard, autor do livro The climate of London, deduced from meteorological observations, publicado em 1833, e outros trabalhos similares na França e na Alemanha. Nessa época, poluição do ar e ventilação preocupavam tanto quanto o abastecimento e a drenagem de água, mas os danos causados pelas chaminés residenciais eram mais difíceis de resolver que a qualidade da água.

“Hoje temos vários instrumentos e tecnologias, como as imagens de satélites e as fotos aéreas e mesmo os drones, que permitem olhar a cidade sob a ótica do clima urbano e facilitam o reconhecimento das áreas mais ou menos aquecidas, com maior ou menor circulação de ar; em parceria com instrumentos de medição

Fonte

outros tempos: rua barão de Jaguara com rua General osório, centro de Campinas, em 1928

Em geral, a cidade de Campinas, a terceira mais populosa do estado, depois de São Paulo e Guarulhos, “é satisfatória na escala regional, mas não se deve descuidar”, ela conclui. “Agora poderiam ser feitas análises in loco, para ajustar as conclusões e medir a satisfação dos usuários em cada lugar.” Em escala regional ou local, ela lembra, o clima não é só um atributo intocável da natureza, mas também é construído e depende das decisões das pessoas, que constroem casas ou prédios que barram o vento ou aquecem ou esfriam com rapidez.

dos mapas climáticos urbanos emergem possibilidades de ação para manter ou melhorar o chamado conforto ambiental, que faz uma cidade, principalmente sua região mais povoada, o centro, agradável ou sufocante. No caso de Campinas, uma das recomendações é preservar os corredores de ventos, como as matas, as grandes avenidas, as rodovias e o fundo dos vales, que ajudam a minimizar o efeito da temperatura nesses locais. Outra é manter a diversidade das formas de ocupação de espaço, conciliando áreas construídas e áreas verdes e abertas como a fazenda do Instituto Agronômico (IAC), já na área urbana. “Campinas ainda não é uma São Paulo”, ela compara, lembrando-se dos vastos tapetes de ruas asfaltadas e prédios quase sem árvores como os da zona leste da capital.

Em um estudo divulgado em setembro, por exemplo, o arquiteto e urbanista da Unicamp Fernando Durso Neves Caetano verificou que muros externos cobertos por plantas, chamados de muros vivos, podem reduzir em até seis graus Celsius a temperatura interna de casas e prédios em dias quentes de verão e, inversamente, retendo o calor nos dias frios.

dos!” Alessandra, até o final do ano, pretende voltar à Defesa Civil de Campinas e entregar os mapas elaborados com as informações sobre quedas de árvores, galhos, casas e prédios destelhados pelo vento, que ela pediu e lhe passaram há dois anos. “É um retorno que eu tenho de dar”, diz ela. Será seu primeiro encontro com os possíveis usuários de seus mapas. n

Projeto

dinâmica urbana e ordenamento territorial: mapa climático urbano e sua aplicação no planejamento (n. 10/19447-7); Modalidade Jovem Pesquisador; pesquisadora responsável alessandra rodrigues Prata shimomura (unicamp); investimento r$ 63.349,26 (FaPEsP).

artigos científicos

Trabalhos como o de Alessandra sugerem mais atenção a soluções simples e a conceitos antigos, embora nem sempre lembrados, de engenharia e arquitetura.

De modo mais amplo, pode-se pensar em expandir a participação dos cidadãos em suas cidades. Uma das formas cogitadas por Alessandra é a criação de agentes urbanos, que poderiam acompanhar e representar os moradores de um bairro, zelando pelo espaço público e mediando pedidos e reclamações à prefeitura. “Os moradores querem informar ou reclamar sobre problemas das ruas e geralmente têm dificuldade para encontrar com quem falar”, diz ela. “Os pedidos de podas de árvores, por exemplo, podem demorar anos até serem atendide variáveis climáticas”, diz Alessandra. Seus mapas finais, que resultaram de uma combinação de outros mapas e de informações processadas por meio de um programa de computador, indicaram que os ventos vêm do litoral, trazendo tanto a brisa do mar quanto a poluição da cidade de São Paulo, e passam ainda intensos pelas cidades de Valinhos e Vinhedo antes de entrar no centro de Campinas, perder velocidade ao atravessar a cidade e sair em direção a Limeira.

h E bb E rt, m . Climatology for city planning in historical perspective. u rban Climate. 2014. on-line roCha a . P. de a et al. Conjunto para habitação social com princípios bioclimáticos para o município de Governador Valadares, mG. Revista de arquitetura imed. v. 1, n. 2, p. 122-32, 2012.

A síntese do BA rroco

O festejado As cantatas de J. S. Bach, livro que disseca parte da produção do compositor alemão, ganha tradução brasileira

Irineu franco Perpetuo

Para explicar um dos monumentos da música ocidental, é necessário um livro não menos monumental. Depois de anos de trabalho, a Editora da Universidade Sagrado Coração (Edusc), de Bauru (SP), vai lançar, em janeiro de 2015, As cantatas de J. S. Bach, do musicólogo alemão Alfred Dürr (1918-2011).

Berlinense, Dürr foi um dos grandes especialistas do século XX no autor da Paixão segundo São Mateus e participou da edição de diversas das partituras de Bach. Uma das principais obras de referência da bibliografia da música erudita, The new grove dictionary of music and musicians , dedica um verbete a Dürr, afirmando que seus escritos sobre o mú-

sico alemão “são resultado não apenas de pesquisa puramente musicológica, mas também da investigação de outras considerações, como os aspectos teológicos e históricos da obra de Bach, e análises detalhadas das fontes”.

Meticuloso e exaustivo, As cantatas de J. S. Bach foi editado pela primeira vez em alemão, em Kassel, em 1971, atraindo desde então a atenção não apenas de especialistas, como do público em geral. Um dos mais atuantes divulgadores da música de Bach no Brasil, Carlos Siffert, reconhece seu débito para com o trabalho do musicólogo germânico. “Minha bíblia nas cantatas tem sido a obra de Dürr. Meu exemplar está riscado, marcado, rasgado de tanto uso”, conta ele, que

apresentou, na rádio Cultura FM, entre 1996 e 2012, séries de programas dedicados ao autor de O cravo bem temperado “Dürr é uma das maiores autoridades em Bach de nosso tempo”, diz Siffert. “Seu livro é abrangente e aborda não só os aspectos técnicos das obras, mas também seu contexto histórico e litúrgico e sua espiritualidade.”

Ponto culminante de uma dinastia musical ativa na Saxônia e na Turíngia entre os séculos XVI e XIX, Johann Sebastian Bach (1685-1750) compôs mais de mil obras em praticamente todos os gêneros praticados no século XVIII (à exceção da ópera). Ao absorver os estilos praticados para além das fronteiras da Alemanha protestante em que atuou, como a músi-

ca francesa e a italiana, forjou um idioma cosmopolita, que, em razão da qualidade intrínseca e da influência sobre a posteridade, fez com que ele fosse considerado a síntese do Barroco. É comum livros de história da música decretar 1750 como o fim desse período justamente por se tratar do ano da morte de Bach.

“Acredito que Bach é um compositor que transcende os cânones da história da música, uma presença acima e em torno de todos os demais compositores”, afirma Marcos Virmond, professor do Departamento de Música da Universidade Sagrado Coração (USC), de Bauru, e responsável pela revisão técnica da edição brasileira do livro de Dürr. “Mais que isso, Bach é universal e pode ser entendido em

um amplo espaço geográfico cultural”, diz Virmond, um médico de formação, que tem doutorado em música pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

MonUMento dA MúsIc A ocIdentAl

The new grove dictionary define cantata como “obra para uma ou mais vozes, com acompanhamento instrumental”. Acrescenta que ela foi “a forma mais importante de música vocal do período Barroco, à exceção da ópera e do oratório, e, de longe, a mais presente”. Não surpreende, assim, que elas ocupem papel proeminente na produção do compositor barroco por excelência que foi Bach. Virtuose do órgão, ele compôs algumas cantatas na juventude, nas pequenas cidades ger-

mânicas em que atuou como organista e regente. Porém sua produção nessa área ganhou realmente fôlego quando ele se radicou em Leipzig, em 1723, onde residiria por 27 anos, até sua morte, em 1750. Nas cantatas, Bach utilizou textos de diversos literatos. Às vezes, uma cantata pode ter texto de mais de um autor e nem sempre é possível determinar quem escreveu os textos, que podem ser de séculos anteriores. Bach compilava e musicava esses textos de acordo com a necessidade litúrgica do dia.

O compositor era o responsável pela música nos principais templos da cidade, a Igreja de São Tomás e a Igreja de São Nicolau, cujos serviços religiosos dominicais começavam aos domingos, às

7 horas, duravam quatro horas, e sempre previam música: uma cantata antes do credo e uma outra (ou então a segunda parte da mesma cantata) depois do sermão ou ainda durante a comunhão. Dessa forma, embora também tenha escrito cantatas sobre textos profanos, as de caráter sacro dominaram sua produção nessa época. O número total das cantatas de Bach não pode ser determinado com exatidão, pois estima-se que dois quintos delas se perderam – inclusive a maioria das seculares.

Aquela que talvez seja a mais célebre das melodias de Bach, Jesus, alegria dos homens, pertence a uma de suas cantatas: trata-se do coral final da BWV 147 (o índice BWV é o sistema de catalogação das obras do compositor, estabelecido em 1950 por Wolfgang Schmieder). Dentre as de temática profana, destaca-se a Cantata do café, BWV 211 – quase uma ópera cômica, que aborda, com bom humor, os hábitos de consumo desta bebida no século XVIII.

Ao aquilatar a importância das cerca de 200 cantatas do compositor alemão

Para c arlos siffert, especialista em Bach, o conjunto das cantatas é o maior monumento da música ocidental

que chegaram até nós, Siffert gosta de citar uma frase de Dürr: “Para mim, o conjunto das cantatas é o maior monumento da música ocidental, incrível por sua riqueza, variedade e paixão”.

A edIção Br A sIleIr A

A ideia de publicar o livro de Alfred Dürr em português, no Brasil, surgiu em 2002. A sugestão foi feita à Edusc por José Fernando Perez, então diretor científico da FAPESP. A empreitada parecia excessivamente ousada e ambiciosa para uma editora acadêmica de médio porte como a Edusc. Porém a irmã Elvira Milani, ex-reitora da universidade e atual coordenadora de projetos socioculturais e missionários do Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus (IASCJ), levou as palavras de Perez a sério.

“O projeto foi elaborado naquela época, mas ficou parado até que, em 2010, foi decidido encaminhá-lo para o Ministério da Cultura, que acabou aprovando-o no âmbito da Lei Rouanet”, conta Milena Balduino, assessora de projetos culturais da USC. “A irmã Elvira é uma pessoa

enérgica e determinada; visitou várias empresas da região de Bauru, que acabaram comprando a ideia.” Não menos importante do que a viabilização financeira do projeto era garantir sua excelência. “Eu não aceito um livro menos que perfeito”, dizia a irmã Elvira na época. A frase tornou-se o norte da iniciativa. A tradução foi confiada à professora Claudia Sibylle Dornbusch, livre-docente em literatura alemã da Universidade de São Paulo (USP). Em 2011, tendo em vista a quantidade de texto (1.400 páginas), ela aproveitou um seminário de tradução em Leipzig – justamente a cidade em que Bach compôs a parcela mais expressiva de suas cantatas – para convidar, como parceiro, o professor Stéfano Paschoal, da Universidade Federal de Uberlândia, especializado em letras alemãs. Claudia esclarece que a tradução do texto das cantatas não buscou preservar a métrica nem tampouco as rimas do original, já que o intuito era esclarecer seu conteúdo, e não proceder a um trabalho de recriação poética, ou preparar o texto para uma performance, o que demandaria um esforço de outra magnitude.

“Muitos trechos das cantatas são passagens bíblicas, cujas traduções têm divergências se vertidas para diversos idiomas; além disso, alguns livros bíblicos são organizados de forma diferente em diferentes línguas e tradições religiosas”, conta. “Nesse sentido, o cotejo com a tradução para o inglês foi de grande ajuda. O que adaptar, mesclar, como verter o texto bíblico amalgamado à criação literária eram questões que demandavam soluções nem sempre fáceis.” Curiosamente, diante das dificuldades na tradução, a versão para o inglês por vezes cortou parte do texto, que os tradutores buscaram resgatar integralmente.

Já Paschoal identifica no texto de Dürr três expedientes distintos. “O primeiro, a análise musical das cantatas, numa lin-

guagem altamente técnica; o segundo, sobre a história e a apreciação de cada uma das cantatas, um texto sem muitas menções ao vocabulário técnico musical, mas num estilo complexo, quase literário”, diz. “E o terceiro expediente, os textos originais das cantatas, em sua maioria, escritos nos séculos XVI e XVII, todos com referências diretas ou indiretas ao texto bíblico.”

Acima, partitura original de uma das cantatas bachianas. na página anterior, parte da edição brasileira

As especificidades do livro exigiam ainda outro especialista em música para cuidar do jargão da área, e a tarefa ficou a cargo do professor e regente Marcos Virmond, cujo caso de amor com Bach começou aos 15 anos de idade, ao descobrir um antigo long-play com suas peças para órgão em uma loja no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. “A revisão técnica de uma obra desse porte é com-

plexa, não só pela profundidade e erudição do texto como pela restrita produção de títulos sobre a música barroca no Brasil, em particular, Bach e suas cantatas”, diz.

“Em verdade, muitos dos conceitos da música como praticada em sua época têm difícil adaptação ao vocabulário musical em português”, conta Virmond. “Particularmente, alguns termos já consagrados na língua alemã no âmbito da musicologia não encontram contrapartida em nossa língua, o que dá ao trabalho de revisão técnica um caráter inovador e ousado. Assim, além de fixar um texto básico da bibliografia acadêmica sobre Bach, essa tradução do livro de Alfred Dürr talvez possa introduzir e afirmar alguns termos específicos da área da musicologia bachiana em língua portuguesa.” n

Capa do livro que será lançado em janeiro: trabalho consumiu cinco anos

1

Seca na metrópole

São Paulo teve outros períodos de estiagem no passado, quase sempre relacionados ao aumento da população

Neldson Marcolin

os ciclos de escassez de água são conhecidos dos especialistas. Mesmo em São Paulo, longe das regiões semiáridas, há períodos de estiagem às vezes prolongados. O problema torna-se agudo quando a carência de chuvas ocorre ao mesmo tempo que há grande crescimento da demanda. Ao olhar para as secas do passado na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), é fácil notar essa relação. “Sempre nos lembramos do boom populacional das décadas de 1950 e 1960, mas esquecemos do brutal aumento da população entre o fim do século XIX e a década de 1940”, diz Ricardo Toledo Silva, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e pesquisador em gestão integrada da infraestrutura hídrica urbana e saneamento. Os registros indicam que o impacto dos dois fatores – seca mais crescimento populacional – provocou falta de água em outras épocas na região.

“Entre 1874 e 1900 a capital teve sua população aproximadamente multiplicada por 10 (de 23.253 para 239.820 pessoas), e entre 1874 e 1940, por 57 (de 23.253 para 1.326.261)”, conta Toledo. “É um salto muito grande. Represa do córrego do Bispo, que fazia parte do antigo Sistema de Abastecimento da Cantareira, em 1893

Havia menos gente do que hoje, mas todos conviviam em áreas pequenas.” O crescimento descontrolado dos núcleos urbanos degrada o ambiente, impermeabiliza o solo, cria ilhas de calor, ocupa zonas ribeirinhas e afeta a precipitação de chuva.

Nos anos de 1924 e 1925, a grande seca do período levou a The São Paulo Tramway, Light and Power Company, responsável pelo fornecimento de energia elétrica para a cidade de São Paulo, a publicar em 24 de fevereiro de 1925 um anúncio nos jornais com medidas para não interromper completamente o fornecimento de energia. A Light passaria a usar a usina a vapor que já tinha, instalaria novos geradores e turbinas, concluiria uma usina em andamento e construiria nova hidrelétrica. Também passaria a comprar energia da companhia de luz de Campinas.

Outro sério ciclo de seca ocorreu entre 1951 e 1956, dentro do qual o pior ano foi o de 1953. Também a escassez de água de 1969 foi

obra do Sistema Rio Claro, realizada em Salesópolis, em 1936, para aumentar a oferta de água obra de assentamento da adutora no bairro Tatuapé para abastecer o reservatório de Belenzinho, em São Paulo (s/d)

muito divulgada pela imprensa, por conta da severidade do racionamento. Neste século, segundo Toledo, a seca mais notória da região ocorreu em 2003, na área do maior sistema metropolitano, o Cantareira. A atual, de 2014, promete ser a pior de todas, desde que as medições começaram a ser feitas na RMSP, em 1930.

“A população sofre por dois tipos de falta d’água: por escassez nos mananciais ou por insuficiência na rede de distribuição”, explica o pesquisador, que também é assessor técnico da Assessoria Especial de Assuntos Estratégicos do governo do estado de São Paulo. Hoje, o risco de falta d’água por problemas na rede de distribuição é apenas episódico, por acidente. “Mas na São Paulo dos anos 1920 até os 1970 os dois tipos de ocorrência se combinavam com muita frequência.”

O abastecimento de água transformou-se em grave problema social da capital paulista nos últimos 30 anos do século XIX. A solução foi organizar, em 1877, a

Companhia Cantareira de Água e Esgoto – encampada pelo estado em 1892. No século XX, foram criados sistemas para aumentar a oferta, como o Rio Claro (décadas de 1930 e 1940), o Alto Tietê e o novo Cantareira (ambos da década de 1970), entre outros. “Para evitar a falta d’água são necessárias medidas estruturais de longo prazo, como um novo ordenamento territorial urbano e também regional, à parte as obras de infraestrutura hídrica”, diz Toledo. Antes limitado à pequena província de São Paulo, no século XIX, agora o planejamento envolve toda a macrometrópole paulista, que engloba 180 municípios – incluindo a capital –, onde vivem 31 milhões de pessoas. Foi feito um Plano Diretor de Aproveitamento dos Recursos Hídricos para a Macrometrópole Paulista, cujos relatórios finais estavam prontos em outubro de 2013. O estudo aponta para a necessidade de criação de novos sistemas de captação e reserva, maior controle de perdas, uso racional da água e adoção de seu reúso. n

Palco italiano

Livro revê a herança dos diretores Ruggero Jacobbi, Adolfo Celi, Luciano Salce, Flaminio Bollini Cerri e Gianni Ratto ao teatro brasileiro

Livros de história do teatro frequentemente se referem ao extinto TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia, como um palco fundamental para a renovação do cenário nacional no século XX, mas também essencialmente burguês. É possível, no entanto, que haja uma imprecisão nesse rótulo, e esta revisão torna o livro A missão italiana, de Alessandra Vannucci, um trabalho de valor crucial. O TBC congregou no início de suas atividades nos anos 1940 no Bixiga um pequeno grupo de profissionais italianos que, com a economia recessiva da Itália do pós-guerra, havia deixado seu país de origem para desbravar novos palcos na América. É a trajetória desses italianos que o livro de Vannucci revê. “O TBC era o teatro das elites intelectuais de São Paulo, mas não era isso o que esses italianos queriam fazer ao chegar da Itália, e não foi esse o objetivo pelo qual de fato trabalharam”, diz a autora, sobre os diretores Ruggero Jacobbi (1920-1981), Adolfo Celi (1922-

1986), Luciano Salce (1922-1989), Bollini Cerri (1924-1978) e Gianni Ratto (1916-2005).

Contribui para o espectro dessa correção, diz Vanucci, a informação de que o diretor Ruggero Jacobbi, por exemplo, era ligado ao pensamento marxista, tendo sido perseguido tanto no Brasil como na Itália fascista, e também de que o empresário e investidor Franco Zampari, produtor e principal financiador do TBC, empenhou-se em tatear caminhos para abrir o campo da cultura ao consumo de um público mais amplo possível, eventualmente visando às massas.

Houve um “certo elitismo” na trajetória do TBC, assume Vannucci, mas também a tentativa de atrair públicos de todas as classes, o que produzia uma oscilação no repertório, que exibia, ao lado de peças consideradas cultas, também “produtos de consumo popular”, diz, referindo-se a comediantes como Otello Zeloni. O revezamento integrava dois públicos até então dissociados um

Os filhos de Eduardo, de M-Gilbert Sauvajon, TBC São Paulo, 1950, direção de Ruggero Jacobbi e Cacilda Becker
Gustavo Fioratti

do outro e, assim, “houve no TBC uma tentativa de formação deste público”. Essa é apenas uma das inúmeras revisões históricas que o livro se propõe a fazer. Pela primeira vez também vem a público uma obra que se dedica a compreender as atividades e as heranças dos italianos, bem como o contexto em que eles trabalhavam e criavam, tomando-os como grupo e não individualmente. Com estilo romanceado, o livro começa sua história ainda na Itália (onde também nasceu Vannucci), situando a difícil tarefa de ser artista na época da Segunda Guerra. O fascismo fomentava um tipo de teatro mais individualista, o teatro dos grandes atores, e não deu atenção às propostas de uma geração que se formava em território cultural antifascista, visando à reconstrução da cultura democrática e que tomava o teatro épico do alemão Bertolt Brecht como um de seus nortes.

A rte no Pó S - GU err A

dramaturgia brasileira, em especial na obra de Gianni Ratto, que encenou A moratória, de Jorge Andrade, e O mambembe, de Arthur de Azevedo, ambas com Fernanda Montenegro.

A recessão no pós-guerra da Itália também jogou um balde de água fria nessa turma, e muitos diretores passaram a enxergar a América como um lugar de plateias abertas para novas propostas. “Ao migrarem para cá, eles transferiram seus sonhos, expectativas, suas frustrações”, diz Vannucci. Ademais, São Paulo já havia se habituado às turnês internacionais das companhias italianas e já via crescer o consumo de entretenimento focado nos imigrantes, cuja população ganhava volume desde o fim do século XIX. “Na Itália, há padaria, igreja e teatro para todo canto. Os italianos são bons consumidores de espetáculos. E, além disso, era possível apresentar espetáculos em italiano por aqui porque muita gente compreendia a língua”, conta Vannucci.

Uma das grandes contribuições dos italianos ao cenário artístico paulistano foi a calcificação no imaginário brasileiro da figura do diretor. Até então, espetáculos teatrais tinham como foco a figura de atores célebres, quando muito se falava no autor do texto encenado, mas o crédito para aqueles que regiam os espetáculos permanecia em um canto obscuro do cartaz. No livro, Vannucci resume que esses artistas italianos foram “apóstolos da direção como instrumento de consciência civil”, atribuindo a eles também um papel social, consolidado a partir de suas visões sobre os diversos processos de redemocratização no mundo.

A contribuição dos italianos se deu ainda por meio da constituição de um repertório cujo olhar procurava valorizar a dramaturgia do novo século. Assim, entre as peças encenadas por Adolfo Celi, viram-se Our town (1938), de Thorthon Wilder, e Huis clos (1944), célebre texto de Jean-Paul Sartre. Também houve espaço para a florescente

Para Vannucci, nos anos 1950 e 1940, o grande público queria ser admitido no círculo da cultura, e o empresário Zampari “chocaria um outro ovo” para atender à demanda, criando assim a produtora cinematográfica Vera Cruz, cujo acervo privilegiou a produção de filmes nacionais, visando fazer concorrência às grandes distribuidoras. Os italianos passam a dividir suas atividades entre teatro e cinema, mas com diversos conflitos internos: “Eles queriam fazer um cinema autoral, no estilo neorrealista, o que foi uma tentativa um tanto fracassada. A Vera Cruz, então, passou a investir em filmes de sabor mais popularesco, embasados em temáticas brasileiras, em que o papel da direção ficou submetido a parâmetros de amplo consumo, caso de Tico-tico no fubá, que foi um grande sucesso”, analisa.

A pesquisa de Vannucci iniciou-se em 1997, com bolsa de intercâmbio italiana para pesquisar a obra do diretor Ruggero Jacobbi. Ela continuou interessada na presença de seus conterrâneos no Brasil e voltou alguns anos depois para fazer doutorado na PUC-Rio e recolher o que se tornou o material de A missão italiana, beneficiando-se dos ricos acervos deixados pelos artistas. “Os viajantes”, resume, “conservam tudo, quanto mais nômades, mais eles preservam as memórias de suas vidas, talvez para dar sentido ao impulso de uma perpétua reconstituição biográfica, mesmo que para uso pessoal”. Esta pesquisa exigiu várias viagens transoceânicas da própria pesquisadora. As cartas mandadas por eles aos amigos que deixaram na Itália, e que lá se encontram até hoje, foram uma das grandes fontes dessa história inédita e repleta de boas surpresas. n

Acima, Luciano Salce e Cacilda Becker trabalhando na adaptação do Anjo de pedra, de Tennessee Williams, TBC São Paulo, 1950

c ompanheiro de viagem

Mal acabei de me sentar na poltrona três do ônibus que me conduziria ao litoral norte de São Paulo, ouço uma voz masculina “Esse lugar é o quatro?”, referindo-se à poltrona ao lado da minha. “Não sei”, respondi-lhe sem levantar os olhos, preocupado que estava em organizar algumas peças de roupa em minha mochila. Após minha fria resposta, o passageiro sentou-se a meu lado.

Foi então que pude perceber o dono da voz: cabelos quase brancos, ralos, que não autorizavam, porém, chamá-lo de careca ou calvo. Fisionomia dura, talvez rude, o que me levou a compará-lo a um camponês português. As experiências de pesquisa de campo em Portugal deixaram-me como herança a imagem do português rural como homem rústico, de pouco falar, nenhuma jovialidade, poucos sorrisos. Deve ser um descendente de português que não perdeu, entre nós, seus traços fisionômicos, pensei. Ou talvez fossem aqueles óculos de aro preto que endureciam sua aparência, dando-me a impressão de que carregava uma alma pesada. Na verdade, eu nem estava interessado nesses traços de meu vizinho. O que realmente me preocupava era a sua massa corpórea: se era magro ou gordo. Isto porque ao comprar um bilhete de ônibus acalento sempre dois desejos: primeiro que o passageiro que venha sentar-se a meu lado não tome muito espaço com seu volume corporal, seja músculo, seja gordura. Gosto de ter liberdade para me movimentar à vontade dentro dos limites de meu assento, sem ser obrigado a compartilhar calores e odores alheios. Segundo que, homem ou mulher, seja um passageiro calado. Detesto as pessoas que

se aproveitam de transitória proximidade física e começam a falar sobre tudo ou sobre nada.

Realizava aquela viagem a conselho de um amigo para contemplar a paisagem da serra de Mogi das Cruzes, só possível em ônibus, já que o carro prende o olhar nos limites da estrada. Era só isso, ou tudo isso que queria naquela manhã cheia de sol.

No fundo, uma viagem de ônibus para mim representa muito mais do que uma maneira de me transportar de um local a outro. Gosto, nessas raras viagens, de marcar encontro comigo mesmo, pensar em coisas que a pressa do dia a dia me impede de pensar, cochilar sem preocupação, construir projetos que talvez nunca passem de projetos. Uma pessoa que toma seu espaço e fala sem parar elimina esse lado prazeroso da viagem. Mas o “português” era magro e calado. Estava portanto dentro de meu perfil ideal. Até que ouço o som de um celular. (Abro este parêntesis para prevenir que não sou contra os telefones móveis, mas ninguém me verá cruzar ruas, passar por pessoas em espaços públicos, dirigir carro falando ao celular. Recuso-me a espalhar minha intimidade pelo mundo afora. Chego a ter pudor de ser obrigado a ouvir conversas que nos enfiam ouvidos adentro, sem pedir licença, sem maiores cerimônias. O celular para mim, que eu tenho, é reservado para atender eventualidades que não poderiam por motivos vários ser tratadas em outras ocasiões.) Voltando ao português e a seu celular, o toque continuou, até que o companheiro de viagem, para mim já definitivamente português, inclinou-se levemente na poltrona, sacou da cintura um celular, assim como os per-

João Baptista Borges Pereira

sonagens cinematográficos de faroeste faziam ou fazem, e em tom de desculpas disse: “É o meu”. Noto que ele amarrou mais a fisionomia já tão austera. “Claro que sou eu! Ah! Não reconheceu minha voz? Se você ligou pro meu celular, só poderia ser eu. Vá logo dizendo o que você quer. Então por que me telefonou?” Silêncio. O celular volta para a cintura e minutos mais tarde toca novamente: “Já falei que sou eu. Sim, estou no ônibus que vai para Ilhabela. Não. Estou só. Com quem você gostaria que estivesse? A manicure? Você continua desmiolada, desorientada”. Desta vez o celular fica em suas mãos, certamente à espera de outra chamada. Aproveito a oportunidade e olho os seus dedos. Unhas bem cuidadas contrastam com sua pele enrugada, seca, áspera. Realmente, havia na estória uma manicure, embora não soubesse dizer se ela ficou apenas no tratamento das unhas. Menos de 10 minutos depois, novamente o celular tocou: “Você queria vir comigo? Não se perguntou se eu queria você nesta viagem? Vocês armaram pra cima de mim. Não encontrei a chave do meu carro. Ah! Não foi você? Mas só você sabe onde guardo a chave. Para acreditar em você só com testemunhas e papel assinado. Deixe de ser mentirosa. Bem, se sua filha pegou o carro, ela fez isso para sair com o namorado. Já falei, estou cansado de bancar o bobo de vocês. Chega!”. Com essa expressão, dá por encerrada a ligação. Teimoso, o celular volta a tocar instantes depois. “Você de novo? Ah, se arrependimento matasse! Pra que, me diga, pra que eu fui me casar com você? Dei-lhe anos e muito tempo de minha vida, agora chega! Ah! Você não quer falar mais comigo? Não

fale. É só não ligar. Você é quem sabe, desligue então e passe bem.” Quase meia hora se passa. Português inquieto e celular silencioso. A mulher resolveu parar, pensei aliviado. Mal acabei de pensar, o português pegou o celular, olhou-o demoradamente, passou-o de uma mão a outra. Pôs a mão direita no queixo. Olhou para o teto do ônibus e depois para o celular. Teclou os números, impacientemente. Esperou. Nada. Insistiu uma, duas, dez vezes.

Finalmente alguém atende. “Onde você estava?” A interpelação sai alta e grosseira. “Mentira! Você mente sempre, onde você estava? Ou melhor, com quem você estava entretida? Eu sei com quem. Eu sei de tudo, não adianta jurar. Suas juras soam falsas como você. Quando eu voltar tenho uma surpresa para você na gaveta da cômoda. Você vai pagar toda humilhação que está me fazendo passar. Toda. Registre bem. T-O-D-A. Não precisa arrombar a gaveta não, sua cretina. Vou lhe dizer o que a espera e já.” Nesse instante, o motorista do ônibus anuncia: Jureia. Volta-se ao passageiro português: “Seu ponto de descida, senhor”. Ele apanha a mala, celular à mão, desce do ônibus e se põe a caminhar. Pude, então, vê-lo de corpo inteiro: corpo arquejado, talvez pelos anos, talvez pelas desavenças, talvez pelas suspeitas, talvez pelos desencontros no amor.

Acompanhei sem querer toda a estória e perdi o final. Fazer o quê? Resignei-me na poltrona, olhei a paisagem que me restava, cochilei e retornei a meus projetos e sonhos interrompidos.

João Baptista Borges Pereira é professor emérito da FFLCH/USP.

A numerosa galeria dos vencidos*

Martinha versus Lucrécia – ensaios e entrevistas produziu uma intensa e barulhenta polêmica quando foi lançado em 2012. Tudo culpa de uma das grandes peças de resistência do livro, um ensaio de 52 páginas, “Verdade tropical: um percurso de nosso tempo”. No texto de 2011, com olhar extremamente aguçado e ferramentas críticas que maneja com mestria incomparável, Roberto Schwarz embrenha-se pelas páginas do que chama a “autobiografia quase-romance” de Caetano Veloso, publicada em 1997, para nelas explorar os marcos estéticos de uma narrativa cheia de vigor literário, os pilares do tropicalismo, movimento que chacoalhou a música brasileira no encontro dos anos 1960/1970, e, em especial, os meandros de um percurso individual – artístico/ político – assombrado por incongruências, recuos e inflexões conservadoras, por vezes recobertos e apresentados como rupturas estético-políticas.

O trajeto pela intimidade da obra literária do compositor baiano, nela iluminando dobras que permaneciam protegidas pelas sombras, permite a Schwarz ir, ao mesmo tempo, abrindo passo a passo janelas que remetem com grande força e engenho o olhar do leitor para um tempo e um ambiente tempestuosos, terríveis, instaurados pelo golpe de 1964 – este, sim, uma ruptura, um corte profundo e definitivo num percurso democrático de modernização vivido por muitos com justificada euforia.

“A euforia foi desmanchada em 1964 pelo golpe, um momento estelar da Guerra Fria, quando se uniram contra o ascenso popular e a esquerda, quase sem encontrar resistência, os militares pró-americanos, o capital e o imenso fundo de conservadorismo do país, tudo com ajuda dos próprios americanos”, resume o autor (p. 75), articulando num só lance frustração individual, processo político local e movimento internacional do Capital.

Soa ligeiramente injusto, embora compreensível, o fato de a polêmica em torno de Martinha versus Lucrécia ter se concentrado só no ensaio sobre Verdade tropical. Afinal, não foi apenas em relação a Caetano que Schwarz evidenciou consequências estéticas decorrentes de mudanças de posição política. Por exemplo, em “Um jovem arquiteto se explica” (p. 223), é o respeitado Vilanova Artigas, com sua experiência também de prisão e exílio, quem vai para a berlinda em determinado instante. “Aí está

um homem que apostou a fundo no funcionalismo dos arquitetos como metodologia para chegar a uma sociedade justa”, observa o autor. “Quais os resultados? Curiosamente, ou dialeticamente, a primeira vitória que o novo padrão moderno e vanguardista lhe proporcionou teve como vítima os trabalhadores, cuja competência tradicional ficava desqualificada. Na mesma direção, a racionalidade que deveria conduzir à sociedade sem classes assumia como a sua tarefa inicial reeducar – logo quem? – a burguesia, e convertê-la à sobriedade das casas de concreto, sem ornamentação” (p. 224).

Roberto Schwarz comenta em seguida que fora e dentro da arquitetura, com o golpe de 1964, o projeto dos desenvolvimentistas de esquerda aparentemente ficava inviabilizado. Mas o modernismo arquitetônico logo pareceu ter mais chances que antes. Os arquitetos eram bem aceitos, “uma parte do programa da casa popular foi posta em prática, ao mesmo tempo que a industrialização da construção avançava um pouco” (p. 225). “Você nota”, diz Schwarz, dirigindo-se ao jovem arquiteto, “que, abalado pela derrota histórica da esquerda, o arquiteto naquele projeto e naquele momento [Artigas ao projetar a Casa Berquó] admitiu a hipótese de ver todo o seu passado como uma espécie de fantasia (...) A incerteza foi breve e logo ele retomava as coordenadas anteriores, do racionalismo progressista dogmático, para chegar à conclusão final de que tudo é desenvolvimento, desde que haja progresso de alguma espécie que seja”. Conclusão do autor: “no momento da ditadura não deixava de ser uma posição complicada”.

A memória avassaladora da ditadura, quando o golpe de 1964 completa 50 anos, foi a razão de uma espécie de relançamento de Martinha versus Lucrécia durante o seminário “O golpe de 1964 e a cultura brasileira”, realizado na USP de 17 a 19 de setembro. E esse acontecimento, ou seja, o golpe, inflexão de profundidade ainda por compreender na história do país, encaixado na dinâmica mundial do Capital e nos desencontros da experiência de esquerda no século XX, é praticamente onipresente no livro do respeitado crítico e professor de teoria literária, especialista reconhecido na obra de Machado de Assis. Ele aparece em quase todos os 16 textos que compõem o livro, elaborados entre 2000 e 2011, dos quais nove são, a rigor, ensaios, quatro são

Martinha versus Lucrécia – ensaios e entrevistas
Roberto Schwarz
Companhia das Letras
320 páginas, R$ 47 ,00

originalmente palestras e três, entrevistas. Por meio deles, o autor nos faz transitar da literatura, do cinema e do teatro à filosofia e à arquitetura, entre outros campos, sempre alternando planos, múltiplos planos e contraplanos, num ir e vir cujo efeito mais notável é produzir uma visão rica, multifacetada – dialética, talvez.

Por um instante, detendo-se ainda no ensaio sobre Verdade tropical, é interessante notar como uma cena crucial de Terra em transe, ponto-chave na narrativa de Caetano Veloso, torna-se também um lance decisivo na crítica de Roberto Schwarz ao livro. O escritor destaca as palavras que marcam a primeira reação do compositor ao golpe, no qual este via “a decisão de sustar o processo de superação das horríveis desigualdades sociais brasileiras e, ao mesmo tempo, de manter a dominação norte-americana no hemisfério” (p. 75). Nas palavras de Schwarz, “ficava interrompido um vasto movimento de democratização, que vinha de longe, agora substituído pelo país antissocial, temeroso de mudanças, partidário da repressão, sócio tradicional da opressão e da exploração, que saía da sombra e fora bisonhamente subestimado”. Para ele, “as desigualdades internas e a sujeição externa deixavam de ser resíduos anacrônicos em via de desaparecimento, para se tornarem a forma deliberada, garantida pela ditadura, do presente e do futuro”. Em seguida, ele propõe que “as consequências estéticas tiradas por Caetano, que fizeram dele uma figura incontornável, custaram a aparecer” (p. 76). É então que emerge a cena do filme de Glauber Rocha em que seu protagonista, o poeta e jornalista Paulo Martins, “originário da oligarquia, agora convertido à revolução social e aliado ao Partido Comunista e ao populismo de esquerda”, tapa a boca de um líder sindical que o chamara de doutor, berrando para o público: “Estão vendo quem é o povo? Um analfabeto, um imbecil, um despolitizado!”.

Em Verdade tropical Caetano Veloso dissera que viveu da plateia do cinema esta cena como o núcleo de um grande acontecimento. “Era a própria fé nas forças populares – e o próprio respeito que os melhores sentiam pelos homens do povo – o que aqui era descartado como arma política ou valor ético em si.” Era uma “hecatombe” que, ele diz, estava preparado para enfrentar e antever as consequências. “Nada do que veio a se chamar

‘tropicalismo’ teria tido lugar sem esse momento traumático”, afirma (p. 77-78).

Para Roberto Schwarz, quando Caetano torna suas as palavras de Paulo Martins, o que deseja marcar é o começo de um novo tempo em que “a dívida histórico-social com os de baixo – talvez o motor principal do pensamento crítico brasileiro desde o abolicionismo – deixou de existir”. Caetano, na análise do crítico, “dissociava-se dos recém-derrotados de 64, que nessa acepção eram todos populistas”. E ele vai mais fundo: “A desilusão de Paulo Martins transformara-se em desobrigação. Esta a ruptura, salvo engano, que está na origem da nova liberdade trazida pelo tropicalismo” (p. 79).

É irônico, e talvez fruto de deliberada ironia, que esse ensaio contundente da primeira à última linha esteja separado de outra peça de resistência, “Leituras em competição”, que fornece o mote para o título do livro, apenas por uma entrevista concedida pelo autor sobre Adorno. Veja-se: o lugar-cenário da crônica de Machado de Assis, “O punhal de Martinha” (apêndice, p. 307), que alimenta o primeiro ensaio do volume (p. 9) – no qual Schwarz compara explicações nacionais e estrangeiras a respeito da grandeza de Machado de Assis –, é a cidade baiana de Cachoeira, a apenas 28 quilômetros de Santo Amaro, a cidade natal de Caetano. Lucrécia em Roma, sexualmente ultrajada, usou um punhal para matar-se. A Martinha, franzina rapariga cachoeirana que Machado, em sua genial ironia, opõe a Lucrécia, usa o punhal para matar seu agressor. Ela age e define seu destino. Vale ao menos um breve registro, dada a falta de mais espaço, para informar ao leitor que os ensaios de Martinha versus Lucrécia voltam-se também para trabalhos de Chico Buarque, Francisco Alvim, José Arthur Giannotti, Francisco de Oliveira, Sérgio Ferro e Gilda de Mello e Souza*, de quem, pela beleza e involuntária adequação, tomei uma frase para título desta resenha (ela se referia aos ex-integrantes do mundo da fazenda que transitam em A moratória, de Jorge Andrade (p. 201). E por último, é um prazer registrar que a entrevista nas últimas páginas do livro (p. 280) na qual Roberto Schwarz expõe seu percurso acadêmico, ideias fundamentais e filiações intelectuais, foi originalmente publicada por Pesquisa FAPESP (http://revistapesquisa.fapesp.br/2004/04/01/ um-critico-na-periferia-do-capitalismo/).

Passado desenterrado resenhas

Luis Pezo Lanfranco

Cecília Petronilho

Sabine eggers

Cortez editora

108 páginas, R$ 38,00

amorte de um animal doméstico, em geral o cão ou o gato da família, pode ser o primeiro contato de muitas crianças com a questão da finitude da vida. Na escola de Felipe e Luísa, o óbito inesperado de Cristal, uma velha jabuti com quem os alunos brincavam diariamente no gramado, comoveu os alunos. Uma reunião foi feita para decidir que fim seria dado ao corpo do bicho. Cremar ou enterrar? A segunda opção ganhou a votação e um funcionário da escola abriu uma cova. Choro, sentimento de vazio, saudade. Cada criança se despediu de Cristal à sua maneira. A jabuti foi sepultada com todo o cuidado ao som de uma música que começou e terminou ninguém sabe como. Fechada a cova, as crianças fizeram com folhas e gravetos um círculo em torno do túmulo improvisado. Em casa à noite, Felipe e Luísa disseram ao avô Roberto, veterano arqueólogo, como fora o dia na escola. Falaram da morte da jabuti, das homenagens e do enterro em si. O avô então se pôs a contar aos netinhos que a forma de enterrar os mortos diz muito sobre um povo, uma época.

Esse episódio, narrado nas páginas iniciais de Descobrindo a arqueologia: o que os mortos podem nos contar sobre a vida?, junta elementos reais e fictícios. A história da vida e da morte da jabuti Cristal é verdadeira, mas ela não ocorreu em uma escola; seu palco foi a Creche Central da Universidade de São Paulo (USP). O arqueólogo e o casal de netinhos são uma invenção do trio de autores do livro, a bioarqueóloga Sabine Eggers, professora do Instituto de Biociências (IB) da USP, a bióloga Cecília Petronilho e Luis Pezo Lanfranco, seu aluno de pós-graduação. A criação desses personagens é uma forma de fisgar o público infantojuvenil, a quem a obra se destina, e introduzi-lo no mundo da arqueologia, ciência multidisciplinar que estuda a cultura material, os restos orgânicos, as ossadas e os sepultamentos feitos pelas sociedades do passado. As conversas entre o avô Roberto e os pequenos Felipe e Luísa funcionam como uma introdução, uma preparação, aos distintos temas e aos achados arqueológicos que serão tratados nas páginas imediatamente seguintes do livro.

Descobrindo a arqueologia é didático, instrutivo, mas sem recorrer ao tom professoral. Em textos curtos, pilulados, que lembram um microverbete

de um almanaque ou revista, a obra passa conceitos importantes para a arqueologia, como o que é estratigrafia (estudo das diferentes camadas sobrepostas de um solo), qual a diferença entre DNA nuclear e mitocondrial ou de que forma é feita a datação por carbono 14. Não faltam fotos dos achados arqueológicos, desenhos e reconstituições artísticas de como podem ter sido a aparência e o modo de vida de povos do passado (as ilustrações são de Alecsandra Fernandes). Cada sítio arqueológico associado a um povo ou cultura do passado é acompanhado de um mapa com sua localização geográfica e uma linha do tempo que informa o período em que essa sociedade floresceu. Dessa forma, o leitor toma conhecimento ou relembra “histórias trágicas e de amor, de escravo, de guerreiro, de princesa, de pirata”, para usar as palavras que constam da contracapa do livro. Alguns sítios arqueológicos são muito antigos e falam de sociedades pouco conhecidas entre o público leigo. Esse é o caso do assentamento que pertenceu a uma população de 50 caçadores de mamute encontrado nos anos 1960 na localidade de Sunghir, na Rússia. Esses indivíduos viveram em uma zona fria há 28 mil anos e são um dos mais antigos registros da presença do Homo sapiens em solo europeu. Dividindo uma tumba desse sítio, foram resgatados esqueletos de dois adolescentes, um menino e uma menina, que exames posteriores de DNA mostraram ser irmãos.

Além de abordar sítios do exterior ou que foram notícia muitos anos atrás e hoje provavelmente não fazem parte do imaginário arqueológico das novas gerações, Sabine, Cecília e Lanfranco se preocuparam em rechear as páginas do livro com achados ligados à pré-história brasileira. Esse cuidado transparece, por exemplo, nas páginas dedicadas às práticas funerárias do povo de Luzia, o famoso crânio de 11 mil anos resgatado em Lagoa Santa, Minas Gerais, e aos hábitos das populações costeiras de até 8 mil anos de idade que erigiram sambaquis (amontoados de conchas) sobretudo no trecho de litoral entre o Rio de Janeiro e Santa Catarina. As pinturas rupestres da serra do Capivara, no Piauí, também são mencionadas. É sempre estimulante ver a pesquisa nacional em uma obra de divulgação, ainda mais em livro para o público infantojuvenil.

Descobrindo a arqueologia: o que os mortos podem nos contar sobre a vida?

Conferência Brasileira de Ciência e Tecnologia em Bioenergia

Brazilian BioEnergy Science and Technology Conference

De 20 a 24 de outubro de 2014

+10

BBEST POLICY DAY BBEST POLICY DAY BIOENERGIA &

SUSTENTABILIDADE

Em 20 de outubro, junte-se a nós no BBEST para discutir os principais achados de um grupo de 134 especialistas de 24 países e 81 instituições que têm pesquisado o tema bioenergia e sustentabilidade. Será um dia para a discussão de temas abrangentes e oportunidades no setor de bioenergia, os seus benefícios no contexto das mudanças climáticas e também políticas públicas visando à expansão sustentável da bioenergia. O setor canavieiro, produtor de energia renovável, tem papel importante na discussão desses grandes temas no Brasil e essa é uma oportunidade única para participar e se juntar aos renomados conferencistas

GRANDES TEMAS

Segurança energética

Segurança alimentar

Segurança climática e ambiental

Desenvolvimento sustentável e inovação

PALESTRANTES

Carlos Henrique de Brito Cruz, FAPESP, Brasil

Engenheiro eletrônico e físico, pesquisador residente do AT&T Bell Lab. Ex-reitor da Unicamp, Diretor Científico da FAPESP e principal idealizador do Programa de Bioenergia (BIOEN) com foco em cana-de-açúcar.

Isaias de Carvalho Macedo, Unicamp, Brasil

Liderou a área industrial e depois dirigiu o CTC por mais de 20 anos. Um dos principais especialistas brasileiros em bioenergia a partir da cana-de-açúcar.

Francis X. Johnson, Instituto Ambiental de Estocolmo, Suécia

Conduz pesquisas interdisciplinares em energia/clima, com foco em biomassa e energia renovável. Tem mais de 20 anos de experiência em análises econômicas e ambientais. Trabalhou em projetos no Lawrence Berkeley Lab, Estudos Unidos, é especialista internacional na UNIDO, FAO, Comissão Européia, e conduziu estudos na Ásia e África.

Paulo Eduardo Artaxo Netto, Universidade de São Paulo, Brasil

Doutor em física da atmosfera, trabalhou nos Estados Unidos, Bélgica e Suécia. Membro do IPCC, desenvolve pesquisas sobre mudanças climáticas.

Mais detalhes e inscrição para o BBEST e o projeto SCOPE

Bioenergia e Sustentabilidade da UNESCO: www.bbest.org.br

bioenfapesp.org/scopebioenergy

Erik Fernandes, Banco Mundial, Estados Unidos

Ph.D em ciência do solo pela Universidade de Carolina do Norte (EUA), conduziu pesquisas em agricultura tropical em diversas universidades americanas. Foi pesquisador principal no programa Larga Escala BiosferaAtmosfera, patrocinado pela NASA e conduzido na Amazônia brasileira.

Agronegócio

Variações de uma trajetória eclética

Marcos Jank foi professor na USP, trabalhou no B iD, presidiu a Unica e hoje é executivo da B rF

Nascido e criado até os 18 anos em uma fazenda em Descalvado, no interior paulista, Marcos Sawaya Jank, 51 anos, especialista em agronegócio e bioenergia, tem em seu currículo uma sólida trajetória acadêmica e empresarial. Saiu da fazenda da família, produtora de laranja, leite, gado de corte, milho e frango com irrigação e tecnologias de ponta, para cursar engenharia agronômica na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba. Pretendia retornar para cuidar dos negócios, junto com o pai e irmãos, mas ao terminar a graduação em 1984 decidiu estudar economia agrícola e industrial. Foi para a França, onde fez mestrado no Centro

Internacional de Altos Estudos Agronômicos Mediterrâneos no Instituto Agronômico de Montpellier sobre política agrícola europeia.

De volta ao Brasil em 1989, começou a dar aulas na Esalq sobre gestão do agronegócio.

“Nessa época o país ainda estava fechado para o mercado internacional, tinha uma política ultraprotecionista e o foco principal era o café”, relata. Fez doutorado em administração na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), da USP, encerrado em 1996. Após 13 anos na Esalq, foi convidado pela FEA para dar aulas no Instituto de Relações Internacionais, também da USP, onde ficou por outros sete anos, período em que atuou ainda

como coordenador de pesquisa e pós-graduação.

Ao mesmo tempo que atuava na carreira docente, publicava artigos científicos, livros, artigos em jornais e revistas e dava palestras no Brasil e no exterior, Jank abria seu leque de atividades. Em 1999, a convite do então ministro Celso Lafer,

Marcos Jank: sólida carreira académica e empresarial

ocupou o cargo de assessor especial no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, durante oito meses. “Lafer me conheceu fazendo palestras na Organização Mundial do Comércio”, relata. Quando saiu do ministério, Jank foi para os Estados Unidos fazer um pós-doutorado sobre política agrícola americana na Universidade de Georgetown, em Washington, e na Universidade de Missouri, na cidade de Colúmbia, onde ficou por quase quatro anos. Nesse período, ele também deu aulas como professor visitante nas duas universidades e trabalhou no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

“Um fato curioso ocorreu quando apresentei meu trabalho de pós-doutorado, em 2002”, relata Jank. Roberto Rodrigues, ex-secretário de Agricultura do Estado de São Paulo e ex-ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, acompanhou a apresentação e teve a ideia de montar um núcleo de estudos sobre questões internacionais do agronegócio, que viria a se tornar o Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone). Jank fundou e presidiu o Icone de 2003 a 2007, quando saiu para assumir a presidência da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), cargo que ocupou até 2012, quando criou em sociedade a Plataforma Agro, consultoria dedicada ao agronegócio. Em setembro de 2013, um novo desafio foi aceito. Jank assumiu o cargo de diretor global de assuntos corporativos da BRF, empresa resultante da fusão entre Sadia e Perdigão. “A vida me levou para diversas áreas do agronegócio e me sinto um privilegiado por ter conseguido vê-las de perto por diferentes ângulos.”

oPortUniDADe S

são Paulo na feira britânica

Presente na naturejobs, FAPe SP atrai interesse de pesquisadores estrangeiros qualificados os jovens estavam interessados principalmente nas bolsas de pós-doutorado e no programa Jovem Pesquisador. “As preocupações dos candidatos diziam respeito à barreira da língua e, em alguns casos, havia questionamentos sobre a infraestrutura dos laboratórios”, diz Marie-Anne. “Nas apresentações mostramos que a infraestrutura instalada no estado compete com as da Europa, América do Norte e Japão.” Ela também relatou que, após a primeira participação na Naturejobs, foram feitos ajustes na Biblioteca Virtual da FAPESP para que os estrangeiros pudessem navegar pela base de dados.

Pela terceira vez, a FAPESP participou da maior feira anual britânica de empregos na área científica, a Naturejobs Career Expo London 2014, em sua oitava edição, realizada no dia 19 de setembro. “Durante todo o dia atendemos em nosso estande muitas pessoas interessadas em oportunidades de pesquisa em São Paulo e opções de financiamento da Fundação”, relatou o professor Roberto Marcondes Cesar Junior, da Universidade de São Paulo (USP) e membro da coordenação adjunta das áreas de Ciências Exatas e Engenharias da FAPESP. Segundo a organização, compareceram ao evento 1.200 pessoas das 1.700 inscritas. “Entre os expositores havia desde instituições de pesquisa a empresas de vários lugares do planeta, como Singapura, Alemanha e Estados Unidos.”

Cesar Junior coordenou dois workshops na Naturejobs, um sobre as oportunidades de pesquisa na FAPESP e outro sobre o panorama de pesquisa nas ciências exatas e engenharias. Um terceiro workshop, que teve como tema a área de ciências da vida, foi apresentado pelo professor Mário José Abdalla Saad, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro da coordenação adjunta dessa área na Fundação. Presente em duas edições anteriores do evento – em Londres em setembro do ano passado e em Boston, nos Estados Unidos, em maio deste ano –, Marie-Anne van Sluys, professora da USP e membro da coordenação adjunta de Ciências da Vida da FAPESP, relatou que

“Utilizamos a Biblioteca Virtual para mostrar aos visitantes onde podem encontrar informações sobre pesquisadores e grupos de pesquisa, além de indicações de contato”, diz o professor Euclides de Mesquita Neto, da Unicamp e membro da coordenação da área de Engenharia da FAPESP, que também participou das duas edições anteriores do evento. Concentrado na demanda das áreas de engenharias e ciências, Mesquita Neto atendeu cerca de 30 pessoas. “Embora não seja um número muito elevado, a qualificação das pessoas com quem conversamos era excelente”, ressalta. “Atendemos principalmente recém-doutores ou doutorandos em fim de programa das instituições da área de Boston, como MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts], universidades Harvard, de Massachusetts, Boston e Northeastern, entre outras. Ou seja, candidatos muito bem qualificados.”

FACULDADE DE ENGENHARIA MECÂNICA

CONCURSO PARA PROFESSOR DOUTOR

INSCRIÇÕES ABERTAS PARA DOIS CONCURSOS VISANDO O PROVIMENTO DE DOIS CARGOS DE PROFESSOR DOUTOR, MS 3.1, UM NA ÁREA DE PROJETO MECÂNICO E UM NA ÁREA DE MATERIAIS E PROCESSOS DE FABRICAÇÃO.

PERÍODO: 15/09/2014 a 07/11/2014

VER EDITAIS NO ENDEREÇO: http://www.sg.unicamp.br/dca/concursos/abertos/concursospara-professor-doutor/faculdade-de-engenharia-mecanica

e-mail: concurso@fem.unicamp.br fone: (19) 3521-3216

Para quEm lê E assina

Pesquisa faPE sP traz, todo mês, as mais atualizadas notícias sobre pesquisa científica e tecnológica nos vários campos do conhecimento.

Para quEm anuncia

Pesquisa faPE sP proporciona falar com um leitor qualificado, formador de opinião e que decide.

Para assinar 11 3087-4237 assinaturaspesquisa@fapesp.br

Para anunciar 11 3087-4212 publicidade@fapesp.br www.revistapesquisa.fapesp.br

QUER INOVAR?

A DESENVOLVE SP POSSUI LINHAS DE FINANCIAMENTO ESPECIAIS PARA SEU NEGÓCIO.

A Desenvolve SP – Agência de Desenvolvimento Paulista incentiva o crescimento econômico sustentável por meio de linhas de crédito de longo prazo.

Oferecemos linhas de financiamento com taxas a partir de 0,33%* ao mês e prazo de até 120 meses*, para que seu projeto se torne realidade.

Conheça os detalhes das linhas Incentivo à Tecnologia, Inovacred, da Finep, e BNDES MPME Inovadora em nosso site.

Para inovar e crescer, conte com a Desenvolve SP. Acesse desenvolvesp.com.br ou ligue (11) 3123-0464.

Ouvidoria: 0800 770 6272
*Condições gerais no site. Taxa de juros sujeita a alteração.

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook