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Pesquisa FAPESP 213

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novembro de 2013 www.revistapesquisa.fapesp.br

CARRO

Autôn O m O

Veículos sem motorista ganham as ruas

memb RA n A

C elul AR

Neurônios são mais maleáveis do que outras células do cérebro

eCO lO gi A

Pesquisadores cortam árvores para entender variações do clima

p RO duçã O

C ientífi CA Relatório mostra esforço da FaPesP pela internacionalização

O maior macaco das Américas

Paleontólogos reconstroem estilo de vida de símio extinto há mais de 15 mil anos

Delicadeza da cana-de-açúcar

O delicado desenho de fios mostra a raiz da cana-de-açúcar. ao lado, a raiz natural imersa em uma lâmina de água de 2 centímetros. acima, em vermelho, a imagem da mesma planta tratada por um programa de computador que a traduz em números: indica seu comprimento, o diâmetro e a área que ocupa no solo, entre outras medidas. “são dados importantes para avaliação de fertilizantes e bioestimulantes que favorecem o crescimento da raiz para que ela absorva mais água, explore os nutrientes do solo com eficiência e aumente a produtividade”, diz paulo Lazzarini, que faz mestrado no programa de solos e Nutrição de plantas na e scola superior de agricultura Luiz de queiroz (e salq), da universidade de são paulo (usp). ele e José Marcos Leite, doutorando, e mais o técnico de laboratório Hugo b atagello construíram uma cabine especial para fotografar a raiz em alta resolução.

Imagens enviadas por Paulo Lazzarini e José Marcos Leite, da Esalq-USP se você tiver uma imagem relacionada à sua pesquisa, envie para imagempesquisa@fapesp.br com resolução de 300 dpi (15 cm de largura) ou com no mínimo 5 Mb seu trabalho poderá ser selecionado pela revista.

novembro n.213

CAPA

16 Paleontólogos reconstroem o estilo de vida versátil do Cartelles coimbrafilhoi, o maior macaco que já habitou o continente

ent R e V i S tA

22 Jacó Guinsburg

8 Dados e projetos

9 b oas práticas

10 e stratégias

12 tecnociência

78 Memória

80 arte

grande biodiversidade e têm potencial para gerar novas moléculas

50 b iofísica

Propriedades elásticas da membrana variam segundo o tipo e a função da célula

Editor e professor conta como os livros da Perspectiva se tornaram referência na universidade

p O líti CA C ientífi CA e te C n O lÓgi CA

28 internacionalização

Simpósio em Cambridge reúne pesquisadores e estudantes brasileiros da região da Nova Inglaterra para estreitar colaborações

32 difusão

Semana Nacional de Ciência e Tecnologia chega à 10ª edição com atividades em 700 municípios

36 indicadores

FAPESP ampliou esforço para internacionalizar a ciência paulista, mostra Relatório de atividades 2012

C

iÊn C

i

A

40 ecologia

Brasileiros e alemães coletam amostras de árvores para ver variações de umidade e temperatura ao longo de séculos

46 e special b iota educação vIII

Pouco conhecidos, ambientes costeiros e marinhos abrigam

54 Física

Brasileiros analisam fenômenos inexplicados em líquido criado em colisões de partículas

te C n O lO gi A

58 Automação

Projetos brasileiros de veículos autônomos contribuem para o futuro da mobilidade urbana

66 Pesquisa empresarial

Dow investe em cana-de-açúcar como matéria-prima renovável para produção de plásticos

70 engenharia

Poli-USP vai testar processo japonês de produção de plástico biodegradável com bactéria e caldo de cana

72 recursos hídricos

Programa avalia cenários futuros para irrigação, geração de energia elétrica e obras em bacias hidrográficas

H um A nidA de S

74 Cidades

Centro de Estudos da Metrópole mostra que a desigualdade na educação básica dos municípios brasileiros é maior do que na saúde básica

e ntre futuros possíveis e o passado longínquo

na tarefa de definir qual seria o tema de capa desta edição de Pesquisa FAPESP, oscilei um tanto entre possibilidades do futuro e o passado longínquo. Uma imagem de futuro algo excitante mostrou-se a nós no começo de outubro quando um Palio Weekend Adventure da USP percorreu, sem motorista, 5,5 quilômetros das ruas de São Carlos, em São Paulo. A viagem, testemunhada pelo fotógrafo Léo Ramos e pela equipe de produção de vídeos da revista, é o ponto de partida da reportagem elaborada por nosso editor de tecnologia, Marcos de Oliveira, a partir da página 58. Vale observar que o experimento paulista afina-se com outros já levados a campo por grandes empresas, como a Mercedes, a Volks e a Google, e por instituições universitárias, a exemplo do Instituto Fraunhofer. Em tempos nos quais se reafirma, para o bem da produção do conhecimento relevante, a importância decisiva da reprodutibilidade das experiências, esse parece um bom indicador da consistência do passeio do carro autônomo em São Carlos. Já traços de um passado de mais de 15 mil anos atrás nos chegaram através da recente reclassificação da espécie a que pertence o esqueleto fóssil quase completo desencavado de uma caverna em Campo Formoso, Bahia, em 1992 (registrado pelo fotógrafo Adriano Gambarini). Não se trata de um Protopithecus brasiliensis, como até então se pensava, mas de um legítimo Cartelles coimbrafilhoi, agora devidamente reconhecido como o maior macaco que já viveu nas Américas. É ele o objeto da reportagem de nosso colaborador Igor Zolnerkevic. Sopesados objetivamente alguns aspectos de relevância de uma pesquisa e outra – a inovativa alusiva ao futuro do automóvel e a básica em paleontologia referente a um primata extinto no Pleistoceno – e exercido também o pequeno grau de arbitrariedade que o trabalho de edição sempre admite, a escolha final do assunto de capa, a partir da página 16, recaiu no

macaco cuja importância parece decisiva para a reconstituição da história evolutiva dos símios desta região do planeta.

Esclareçamos que o novo nome científico do animal em questão é uma homenagem ao paleontólogo Cástor Cartelle, hoje pesquisador na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), responsável pela descoberta do fóssil precioso na Toca da Boa Vista, considerada a maior caverna do hemisfério Sul. A renomeação do primata americano coube aos paleontólogos Lauren Halenar e Alfred Rosenberger, ambos da Universidade da Cidade de Nova York, depois de uma minuciosa análise de seu esqueleto e da comparação com outros fósseis assemelhados da América do Sul.

Ainda na seção de ciência, gostaria de destacar a reportagem de nosso editor de ciência, Ricardo Zorzetto, sobre as propriedades elásticas da membrana celular, que variam de acordo com o tipo de célula que envolve e a função que executa, a partir da página 50. Hoje já se sabe que a membrana, de aparência tão frágil quando examinada ao microscópio, é muito mais que o simples envoltório do conteúdo celular, e o grupo de pesquisa coordenado pelo físico Herch Moysés Nussenzveig, trabalhando com uma ferramenta chamada pinça óptica em células do cérebro, do sangue de outros tecidos, conseguiu constatar que tipos distintos de células apresentam propriedades elásticas de membrana diferentes.

Para finalizar, chamo a atenção para a reportagem elaborada pelo editor especial Carlos Fioravanti sobre o aparentemente paradoxal trabalho de ecólogos que, munidos de motosserras e furadeiras, cortam troncos de grandes árvores na floresta. Não, não se trata de uma crise de identidade fatal: eles, na verdade, coletam amostras de árvores para estudar variações de umidade e temperatura ao longo de séculos.

Boa leitura!

fuNDaçãO De aMparO à pesquisa DO estaDO De sãO pauLO

CeLsO Lafer

PresiD ente

eDuarDO MOaC yr Krieger

vice-PresiD ente

COnSelHO SupeRiOR

aLeJaNDrO szaNtO De tOLeDO, CeLsO Lafer, eDuarDO MOaC yr Krieger, ferNaNDO ferreira

COsta, HOráCiO Lafer piva, HerMaN JaCObus

COrNeLis vOOrwaLD JOãO graNDiNO rODas, Maria JOsé sOares MeNDes giaNNiNi, JOsé De sOuza

MartiNs, peDrO Luiz barreirOs passOs, sueLy viLeL a saMpaiO yOsHiaKi NaKaNO

COnSelHO téCniCO-AdminiStRAtiVO

JOsé araNa vareLa

Diretor PresiD ente

CarLOs HeNrique De britO Cruz

Diretor científico

JOaquiM J. De CaMargO eNgLer

Diretor A D ministr Ativo

issN 1519-8774

COnSelHO editORiAl

Carlos Henrique de brito Cruz (Presidente), Caio túlio Costa, eugênio bucci, fernando reinach, José eduardo Krieger, Luiz Davidovich, Marcelo Knobel, Marcelo Leite, Maria Hermínia tavares de almeida, Marisa Lajolo, Maurício tuffani, Mônica teixeira

COmitÊ CientífiCO

Luiz Henrique Lopes dos santos (Presidente), adolpho José Melfi, Carlos eduardo Negrão, Douglas eduardo zampieri, eduardo Cesar Leão Marques, francisco antônio bezerra Coutinho, Joaquim J. de Camargo engler, José arana varela, José roberto de frança arruda, José roberto postali parra, Lucio angnes, Luis augusto barbosa Cortez, Marcelo Knobel, Marie-anne van sluys, Mário José abdalla saad, Marta teresa da silva arretche, paula Montero, roberto Marcondes Cesar Júnior, sérgio Luiz Monteiro salles filho, sérgio robles reis queiroz, wagner do amaral Caradori, walter Colli

COORdenAdOR CientífiCO

Luiz Henrique Lopes dos santos

diRetORA de RedAçãO Mariluce Moura

editOR CHefe Neldson Marcolin

editOReS fabrício Marques (Política), Marcos de Oliveira (Tecnologia), ricardo zorzetto (Ciência) Carlos fioravanti e Marcos pivetta (Editores especiais); bruno de pierro e Dinorah ereno (Editores assistentes)

Re ViSãO Márcio guimarães de araújo, Margô Negro ARte Mayumi Okuyama (Editora), ana paula Campos (Editora de infografia), Maria Cecilia felli e alvaro felippe Jr. (Assistente) fOtÓgRAfOS eduardo Cesar, Léo ramos mídiAS eletRôniCAS fabrício Marques (Coordenador)

inteRnet Pesquisa FAPESP online Maria guimarães (Editora) Júlio Cesar barros (Editor assistente) rodrigo de Oliveira andrade (Repórter)

RádiO Pesquisa Brasil biancamaria binazzi (Produtora)

COlAbORAdOReS ana Lima, azeite De Leos, Daniel bueno, evanildo da silveira, fabio Otubo, igor zolnerkevic, Joaquim de almeida, José tadeu arantes, Larissa ribeiro, patrícia Negrão, pedro Hamdan, rodrigo petronio, sandro Castelli, valter rodrigues, yuri vasconcelos

é pROibidA A RepROduçãO tOtAl Ou pARCiAl de textOS e fOtOS Sem pRéViA AutORiz AçãO pARA fAlAR COm A RedAçãO (11) 3087-4210 cartas@fapesp.br pARA AnunCiAR (11) 3087-4212 publicidade@fapesp.br pARA ASSinAR (11) 3087-4237 assinaturaspesquisa@fapesp.br

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geStãO AdminiStRAtiVA iNstitutO uNieMp peSQuiSA fApeSp rua Joaquim antunes, no 727, 10o andar, Cep 05415-012, pinheiros, são paulo-sp fApeSp rua pio Xi, no 1.500, Cep 05468-901, alto da Lapa, são paulo-sp

seCretaria De DeseNvOLviMeNtO eCONôMiCO CiêNCia e teCNOLOgia gOVeRnO dO eStAdO de SãO pAulO

CAR tAS

cartas@fapesp.br

evolução

Lendo a reportagem “Os primeiros passos de novas espécies” (edição 212) fiquei entusiasmada com a abordagem do tema, de suma importância para o olhar evolutivo, como analisado pelo autor Carlos Fiovaranti. Contudo, não poderia deixar de esclarecer que os primeiros trabalhos mostrando a rápida emergência de novas espécies em vertebrados pela poliploidia é de minha autoria há mais de três décadas! A duplicação dos cromossomos levando à duplicação da quantidade de DNA e, portanto, gerando redundância gênica, contribui com alterações subsequentes, levando a eventuais novas funções da espécie. O surgimento e fixação de novas proteínas levam à diversificação e especiação. A emergência rápida de novas espécies mostra um caminho alternativo do neodarwinismo (microevolução), que assume que novas espécies se formam pelo acúmulo gradual de pequenas mutações e eliminação daquelas deletérias, por seleção. A poliploidia é conhecida em plantas, porém ocorre por hibridização (alopoliploidia). Nos animais que descrevi ocorre a autopoliploidia. Os resultados desse estudo foram tema de meu doutorado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, USP.

maria luiza beçak

pesquisadora aposentada do instituto butantan são paulo, sp

Conto

Li o conto “Bancarrota mnemônica” (edição 210), de Evandro Affonso Ferreira, e gostaria de parabenizar o autor, pois me parece que nesse texto a ficção supera a realidade: convivi muitos anos com uma pessoa da família com Alzheimer e houve uma fase em que o discurso era muito semelhante ao do personagem do conto. Excelente!

nyvia Cristina bandeira de Castro são paulo, sp

Correções

Na nota “Exploração empreendedora”, publicada na edição 212 (pág. 96), onde

se lê que Solange Caldarelli e sua equipe “tiveram a oportunidade de pesquisar mais de 100 sítios arqueológicos identificados onde hoje está sendo construída a usina hidrelétrica de Belo Monte”, o correto é que “ela e sua equipe tiveram a oportunidade de pesquisar mais de 100 sítios arqueológicos identificados onde hoje é construída a usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, assim como evitar que mais de uma dezena de sítios arqueológicos fossem afetados pelas linhas de transmissão que saem de Porto Velho em direção a São Paulo, para transmitir a energia gerada pelas usinas hidrelétricas do rio Madeira”. Outro trecho da nota – “‘Tive que traçar os caminhos da minha formação. Fiz cursos no exterior e busquei interagir com as pessoas certas, que hoje são consideradas pioneiras da avaliação ambiental no país’, diz Solange” – deve ser substituído por: “‘Tive que traçar os caminhos da minha própria formação nesta área. Fiz cursos com expoentes do Brasil e do exterior, nas áreas de direito ambiental, avaliação ambiental estratégica e avaliação de impactos cumulativos, por exemplo, participando de eventos da área ambiental no Brasil e no exterior, e busquei interagir com as pessoas certas, que hoje são consideradas pioneiras da avaliação ambiental no Brasil’, diz Solange, pois a arqueologia, no licenciamento ambiental, é eminentemente interdisciplinar”. As correções já foram incorporadas à versão da nota disponível no site da revista, cujo link é: http:// revistapesquisa.fapesp.br/2013/10/17/ exploracao-empreendedora/

Em um destaque à página 60 da matéria “No fio da navalha” (edição n° 211), foi publicada a frase: “Até 2015, 30% da área hoje ocupada por 60 espécies de árvores [da mata atlântica] deve ser perdida”. A data correta é até 2100.

Cartas para esta revista devem ser enviadas para o e-mail cartas@fapesp.br ou para a rua Joaquim antunes, 727, 10º andar - Cep 05415-012, pinheiros, são paulo-sp a s cartas poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.

www.revistapesquisa.fapesp.br

e xclusivo no site

x Nanopartículas porosas carregadas de fármacos também podem transportar para dentro das células moléculas indesejadas do meio de cultura celular, a mistura de vitaminas, proteínas e sais minerais que mantém as células vivas. Num estudo que ganhou a capa da edição de julho da revista Applied Materials & Interface, um grupo de pesquisadores da unicamp e unifesp explicam que essas nanoestruturas podem não ser tão eficazes para o transporte de medicamentos como se pensava, já que podem levar substâncias nocivas.

x Dados do acervo do Jardim b otânico do rio agora fazem parte da coleção da global b iodiversity information Database (gbif), portal que reúne importantes museus zoológicos e botânicos do mundo, como o Museu de História Natural de Nova york (eua) e o Jardim b otânico real de Kew (inglaterra). Os dados públicos de mais de 500 mil registros incluem data de coleta, coletor e localização. uma exceção vale para as espécies de interesse comercial: estas não aparecem no mapa da gbif

a área em amarelo indica a parte hidrofóbica (avessa à água) da nanopartícula e a área em cinza a parte hidrofílica (com afinidades com água)

Rádio

Físico explica por que as zebras são tão comuns em torneios de futebol

Vídeo do mês

Projeto inovador permite acompanhar a distância mudanças em árvores do cerrado

yO utube.COM/user/pesquisa fapesp

José Carlos Cardoso fernandes_ atualizando as ideias de Darwin sobre especiação. O microuniverso sendo desvendado na função mais simples, óbvia e importante: a reprodução. (Os primeiros passos de novas espécies)

tais Helena lacerda_ parabéns a essa biblioteca digital que a academia tanto usa, e eu também. (Quinze anos de SciELO)

Roberto d elucia_ a s mulheres estão assumindo a sua real posição nas ciências em geral. (Territórios femininos)

Carol n euber a revista deste mês está fantástica, parabéns!! (A dopamina e o imediatismo)

d iorge Vinícius ferreira_ Da série “b rasileiros que me fazem acreditar no b rasil”. (entrevista com Carlos Paz de Araújo)

d iego m essias_ Condomínio para a vida marinha: O papel ecológico dos rodolitos foi tema de estudo da universidade federal do rio de Janeiro e do Jardim b otânico do rio (A vida que brota das rochas)

Assista ao vídeo:

DADos e Projetos

t emáti COS e

J OV em pe SQ ui SA d OR R e C ente S

projetos contratados em setembro e outubro de 2013

temáti COS

x e studos científicos e aplicações inovadoras em diamante-CV d, d iamond- like Carbon (dlC) e carbono nanoestruturado, obtidos por deposição química na fase vapor pesquisador responsável: v ladimir Jesus trava a iroldi i nstituição: instituto Nacional de pesquisas e spaciais/MC ti processo: 2012/15857-1

Vigência: 01/10/2013 a 30/09/2018

x goAmazon: interação da pluma urbana de m anaus com emissões biogênicas da floresta amazônica pesquisador responsável: paulo eduardo a rtaxo Netto i nstituição: instituto de física/usp processo: 2013/05014-0

Vigência: 01/11/2013 a 31/10/2017

x e studo brasileiro sobre citomegalovirose congênita, audição e infecção secundária materna. (e studo b raCHS) pesquisadora responsável: Marisa Marcia Mussi pinhata i nstituição: faculdade de Medicina de

r ibeirão preto/usp processo: 2013/06579-0

Vigência: 01/10/2013 a 30/09/2017

JOV em pe SQui SA d OR x Sistemática das piabas (gênero hemigrammus , hyphessobrycon, parapristella e bryconella), com ênfase nas espécies do norte da América do Sul Cis-Andina pesquisador responsável: flavio Cesar t hadeo de Lima instituição: instituto de biologia/unicamp processo: 2011/51532-7

Vigência: 01/09/2013 a 31/08/2017

x impacto da apneia obstrutiva do sono e da duração do sono sobre a progressão das doenças cardiovasculares

pesquisador responsável: Luciano ferreira Drager i nstituição: instituto do Coração –fMusp

processo: 2012/02953-2

Vigência: 01/09/2013 a 31/8/2017

x Secreção de glicoproteínas heterólogas em Aspergillus: efeito do

produção indexada

padrão de glicosilação em parâmetros funcionais de glicosil hidrolases pesquisador responsável: a ndre r icardo de Lima Damasio i nstituição: Centro Nacional de pesquisa em e nergia e Materiais/MC ti processo: 2012/20549-4

Vigência: 01/11/2013 a 31/10/2017

x i munobiologia de leishmania spp: estudo do papel de C d200 e biogênese do vacúolo parasitóforo em células fagocíticas infectadas por l eishmania pesquisador responsável: Mauro Javier Cortez veliz i nstituição: instituto de Ciências b iomédicas/usp processo: 2012/24105-3

Vigência: 01/10/2013 a 30/09/2017

x m agnetos desordenados: estado fundamental, excitações e termodinâmica pesquisador responsável: e ric de Castro e a ndrade instituição: instituto de física teórica/ unesp processo: 2013/00681-8

Vigência: 01/02/2014 a 31/01/2018

x d esenvolvimento de tecnologias de prevenção à poluição: degradação e monitoramento on-line de antibióticos em esgotos pesquisador responsável: robson da silva rocha i nstituição: e scola de e ngenharia de s ão Carlos/usp processo: 2013/02762-5

Vigencia: 01/09/2013 a 31/08/2017

x Regulação epigenética em células mesenquimais humanas pesquisadora responsável: Denise Carleto a ndia i nstituição: faculdade de Odontologia de piracicaba/unicamp processo: 2013/09650-8

Vigência: 01/11/2013 a 31/10/2017

x e studo da rotação em sistemas de planetas extrassolares e as suas implicações na evolução orbital pesquisador responsável: adrian rodriguez Colucci i nstituição: instituto de geociências e Ciências e xatas de r io Claro/unesp processo: 2013/16771-6

Vigência: 01/11/2013 a 31/10/2015

Documentos de todos os tipos cadastrados no web of s cience das 24 instituições do estado com maior número de

boA s Prátic A s

acesso aberto vulnerável

Mais de 150 revistas científicas em acesso aberto admitiram publicar um artigo científico falso, assinado por autor fictício chamado Ocorrafoo Cobange e vinculado a uma instituição inexistente. O trote foi aplicado por John Bohannon, biólogo e jornalista científico, que submeteu versões do artigo a 304 revistas on-line. O paper, que descrevia as propriedades anticâncer de uma substância extraída do líquen, foi aceito por 157 publicações, inclusive algumas ligadas a editoras como a Sage e a Elsevier, e rejeitado por 98. Outras 49 não deram resposta. “Qualquer revisor com conhecimentos de química acima do ensino médio deveria ter detectado as falhas do artigo”, escreveu Bohannon na revista Science. Entre as 255 revistas que aceitaram ou recusaram o artigo, 60% não deram sinal de que os resultados haviam sido submetidos a uma avaliação por pares. Entre as 106 revistas que fizeram alguma avaliação, 70% aceitaram o artigo.

punição para citações combinadas

Ao contrário das revistas com assinaturas pagas, as de acesso aberto costumam ser financiadas exclusivamente através do pagamento de uma quantia pelos pesquisadores cujos artigos são aceitos. Uma publicação com sede no Brasil aceitou o artigo, a revista Genetics and Molecular Research. Francisco Moura Duarte, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e editor da revista, nega que tenha caído na armadilha. “Um de nossos editores associados deu um parecer sobre o mesmo artigo numa revista europeia e nos avisou sobre a possibilidade de se tratar de um falso artigo”, diz. Ele diz que o estudo foi aceito preliminarmente para ver se o autor aceitaria pagar pela publicação. “Se concordasse, o denunciaríamos”, afirma Duarte, que enviou uma carta à Science pedindo uma retratação. “A GMR não tem em seu histórico a publicação de artigo falso, ao contrário da Science”, diz Duarte, referindo-se a artigos fraudulentos seis periódicos brasileiros foram suspensos em 2013 do Journal Citation reports (JCr), índice internacional produzido pela thomson reuters, por apresentarem irregularidades nas suas citações. O JCr mede anualmente o fator de impacto dos periódicos com base nas citações recebidas por seus artigos publicados nos dois anos anteriores. Dois periódicos foram suspensos por excesso de autocitações e os outros quatro, por formarem uma espécie de cartel de citações entre si para

sobre clonagem humana publicados em 2004 e 2005. Paul Peters, presidente da Open Access Scholarly Publishers Association, disse que Bohannon perdeu a chance de fazer um estudo profundo, usando revistas tradicionais como grupo de controle, e pecou por não fazer uma seleção aleatória de publicações: 64% das que aceitaram o artigo são da Índia. Várias publicações de acesso aberto não caíram no trote. A revista PloS One, por exemplo, rejeitou o artigo.

aumentar artificialmente o fato de impacto. e ssas quatro publicações suspensas são a Clinics, da faculdade de Medicina da universidade de são paulo (usp), Jornal Brasileiro de Pneumologia, a Revista da Associação Médica Brasileira e a Acta Ortopédica Brasileira. O fator de impacto desses periódicos voltará a ser publicado em 2014. O caso foi revelado em junho, depois que a thomson reuters identificou padrões anômalos de citações que provocaram distorções dos fatores de impacto.

em agosto, a revista Nature publicou um artigo sobre o caso e ouviu Maurício da rocha e silva, ex-editor da Clinics, que reconheceu a prática de cartel e criticou a política da Coordenação de aperfeiçoamento de pessoal de Nível superior (Capes) por sobrevalorizar o fator de impacto na avaliação dos programas de pós-graduação, pressionando editores a obter índices cada vez maiores. Os periódicos suspensos integram a biblioteca scieLO b rasil, cuja

direção recomendou que os artigos envolvidos fossem retratados. “O que este grupo de editores fez é lamentável, pois os periódicos são de qualidade”, diz abel packer, diretor da scieLO, programa da fapesp que reúne mais de 280 revistas brasileiras de acesso aberto. “O problema é maior. editores e autores passaram a depender quase obsessivamente do fator de impacto dos periódicos devido a seu uso indiscriminado como indicador de qualidade em sistemas de avaliação”, afirma.

e str Atégi A s

produção integrada

a produção científica das universidades de são paulo (usp), e stadual de Campinas (unicamp) e e stadual paulista (unesp) poderá ser encontrada e consultada livremente em um único portal na internet. trata-se do repositório da produção Científica do Conselho de reitores das universidades e staduais paulistas (http://cruesp. sibi.usp.br/), criado por iniciativa e com apoio da fapesp, e lançado durante a 4ª Conferência Luso-b rasileira de acesso aberto, no dia 6 de outubro. O portal irá preservar e dar acesso à produção dos pesquisadores das três universidades estaduais paulistas. reunirá teses, dissertações, artigos, livros, resumos e trabalhos apresentados em reuniões e congressos científicos, entre outras publicações oferecidas pelas instituições em seus repositórios. por ora, o portal do Cruesp reúne

56 mil artigos publicados entre 2008 e 2012 em revistas indexadas na web of science. a meta é publicar os incluídos em outras bases, além de outros tipos de publicações. segundo Carlos Henrique de b rito Cruz, diretor científico da fapesp, o lançamento do repositório da produção Científica do Cruesp é essencial para o funcionamento de uma política de publicação de resultados de pesquisas científicas financiadas com recursos públicos em acesso aberto, como a que a fapesp está instituindo. “isso porque garante o autoarquivo de artigos publicados por pesquisadores da usp, unicamp e unesp nos repositórios dessas instituições, vencido o período de embargo estabelecido pelas revistas científicas nas quais os trabalhos foram publicados”, afirmou b rito Cruz, segundo a Agência FAPESP

Livros premiados com o Jabuti

Cinco livros contemplados na 55ª edição do prêmio Jabuti, nas áreas de crítica literária, arquitetura e urbanismo, ciências humanas e educação, contaram com o apoio da fapesp na modalidade auxílio à pesquisa – publicações.

a s cinco obras premiadas com apoio da fapesp

Na categoria teoria e Crítica Literária, Jaime ginzburg, professor associado da faculdade de filosofia, Letras e Ciências Humanas (ffLCH) da universidade de são paulo (usp), ficou em segundo lugar com o livro Crítica em tempos de violência, publicado pela editora da universidade de são paulo (edusp) e a imprensa Oficial do estado de são paulo (imesp). Na mesma categoria, Maria augusta da Costa v ieira, docente da ffLCH da usp, obteve o terceiro lugar com o livro A narrativa engenhosa de Miguel de Cervantes: estudos cervantinos e a recepção do Quixote no Brasil, igualmente lançado pela edusp e a imesp. em Ciências Humanas, renato sztutman, também professor da ffLCH, ficou em segundo lugar com O profeta e o principal: a ação política ameríndia e seus personagens, publicado pela edusp. roseli rodrigues de Mello e fabiana Marini b raga –professoras da universidade federal de são Carlos (ufsCar) –e vanessa gabassa, professora da universidade federal de goiás (ufg), ganharam em segundo lugar na categoria educação com Comunidades de aprendizagem: outra escola é possível, lançado pela editora da ufsCar. Já a obra O design sem fronteiras: a relação entre o nomadismo e a sustentabilidade, também da edusp, resultado da tese de doutorado de Lara Leite b arbosa, da faculdade de arquitetura e urbanismo da universidade de são paulo (usp), ficou com a 3ª colocação na categoria arquitetura e urbanismo.

Conselho de alto nível

O climatologista

Carlos Nobre, pesquisador do instituto Nacional de pesquisas e spaciais (inpe) e secretário de políticas e programas de pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência, tecnologia e inovação (MC ti), foi convidado a integrar um conselho de alto nível, composto por 26 cientistas de vários países, encarregado de assessorar o secretário-geral da Organização das Nações unidas (ONu), b an Ki-moon, em iniciativas e políticas sobre desenvolvimento sustentável. “O convite é um reconhecimento de que o b rasil tem uma pauta, como país, na direção do desenvolvimento sustentável, e de que a ciência brasileira busca soluções e conhecimento para nos colocar numa trajetória de sustentabilidade”, disse Nobre. entre os membros do painel há dois vencedores do Nobel de química, a israelense ada yonath e

o egípcio ahmed zewail, e um da paz, o indiano rajendra pachauri, presidente do painel intergovernamental de Mudanças Climáticas (ipCC), do qual Nobre também faz parte. O conselho deve reunir-se duas vezes por ano.

O próximo encontro está marcado para dezembro, em Nova york.

Carlos Nobre é membro da coordenação do programa fapesp de pesquisa sobre Mudanças Climáticas globais. preside o Comitê Científico do international geosphere-b iosphere programme (igbp), e os os Conselhos Diretores da rede b rasileira de pesquisas sobre Mudanças Climáticas (rede Clima) e do painel b rasileiro de Mudanças Climáticas.

O genoma e a inteligência

o empreendedor norte-americano Jonathan rothberg, conhecido por criar duas empresas de sequenciamento genético e vendê-las por centenas de milhões de dólares, lidera uma nova empreitada. Ao lado do físico max Tegmark, do massachusetts Institute of Technology, ele vai sequenciar o genoma de 400 matemáticos e físicos teóricos das mais importantes universidades dos estados Unidos, numa iniciativa batizada de Projeto

no painel de desenvolvimento sustentável

prêmio ao pioneiro da bioética

rothberg: sequenciamento do genoma de 400 matemáticos e físicos

e instein. A ideia de que é possível encontrar uma base genética para o talento dos gênios da matemática e da física é controversa. As críticas envolvem questões éticas, como a possibilidade de usar esse tipo de informação para a seleção de embriões, mas também há dúvidas se estudos com amostra restrita podem desvendar a complexidade da inteligência. “É improvável que o Projeto e instein produza dados com valor

O cirurgião e especialista em bioética w illiam saad Hossne, 86 anos, recebeu no dia 15 o troféu guerreiro da educação ruy Mesquita. a homenagem é conferida anualmente pelo Centro de integração empresae scola (Ciee) e o jornal O Estado de S. Paulo a personalidades que se destacaram no campo da educação. Hossne fundou a sociedade b rasileira de b ioética e ajudou a criar a Comissão Nacional de ética em pesquisa (Conep), coordenada por ele entre 1996 e 2007. atualmente coordena o curso de pós-graduação em bioética no Centro universitário são Camilo, em são paulo. Cirurgião formado pela faculdade de Medicina da usp, foi um dos fundadores da faculdade de Ciências Médicas e b iológicas de b otucatu, hoje vinculada à unesp, da qual é professor emérito. foi reitor da universidade federal de são Carlos (ufsCar) de 1979 a 1983 e participou da criação da fapesp, tornando-se o segundo diretor científico da fundação, entre 1964 e 1968, voltando à função entre 1975 e 1979.

“O professor Hossne contribuiu para moldar, em momentos difíceis e de consolidação da fapesp, a instância mais significativa da instituição, que é a diretoria científica”, disse Celso Lafer, presidente da fapesp, em discurso durante a premiação.

estatístico”, disse à revista Nature o geneticista daniel m acArthur no m assachusetts General Hospital, em b oston, que estuda dados genéticos de 13 milhões de pessoas para verificar como características complexas são herdadas. Já os participantes do projeto estão curiosos.

“Como fã de ficção científica, gosto da ideia de ter meu próprio genoma sequenciado”, disse david Aldous, matemático da Universidade da Califórnia, berkeley.

Nobre, rajendra pachauri e ada yonath:

t ecnociênci A

a geografia do infarto

a taxa de mortalidade de pessoas com mais de 20 anos de idade por cardiopatia isquêmica, como infarto do miocárdio, que havia caído no b rasil durante a segunda metade do século passado, parou de decrescer e atingiu uma aparente estabilidade entre o ano 2000 e 2010. a constatação faz parte de um estudo liderado por Cristina b aena, da pontifícia universidade Católica do paraná (puCpr), que analisou o número absoluto de mortes registradas oficialmente no b rasil por essa causa e a comparou com informações demográficas do instituto b rasileiro de geografia e estatística (ibge). Mas essa alteração não é a mais significativa revelada pelo estudo, publicado eletronicamente no dia 25 de julho na revista Heart, em colaboração com outros pesquisadores da puCpr, da universidade de Cambridge, na inglaterra, e da universidade de roterdã, na Holanda. Os registros do sistema de informação de Mortalidade do Ministério da saúde indicam que nas regiões sul e sudeste o número de pessoas que morreram em consequência de cardiopatia diminuiu entre 2000 e 2010, mas o contrário se verificou no Norte e no Nordeste. De acordo com Cristina, a diferença não se deve

à imprecisão de registros nas áreas mais pobres. “em nossos métodos fizemos a análise ajustada para as subnotificações”, explica. a s distintas taxas de mortalidade por cardiopatia refletem as disparidades socioeconômicas que separam o Norte e o sul do b rasil em razão dos índices de desenvolvimento humano, taxas de alfabetização e estruturas de atendimento à saúde. se as tendências se mantiverem, o estudo alerta, essa divergência se agravará até 2015. segundo os autores, é hora de prestar atenção nessa variação regional para traçar políticas públicas que atendam às necessidades específicas das diferentes áreas do país na busca por combater as doenças cardiovasculares.

Jogos da reabilitação

para estimular a atividade motora e cognitiva de pessoas com lesões na medula ou no cérebro, pesquisadores da universidade federal de são Carlos (ufsCar) desenvolveram aplicativos (programas) para computadores que reconhecem os gestos humanos e possibilitam a interação com jogos e plataformas já conhecidos como Xadrez, pacman e google street v iew. a ideia é proporcionar, sem o uso de teclado e mouse, uma interação com ambientes virtuais de forma lúdica e fisicamente ativa. De acordo com o pesquisador alexandre fonseca b randão, doutorando no programa de pós- graduação em b iotecnologia (ppgb iotec), da ufsCar, a utilização dos aplicativos colabora também com o combate ao sedentarismo ao provocar uma mudança

na interação com os jogos tradicionais. um exemplo é o aplicativo denominado gestureChair desenvolvido com base em uma versão do jogo pacman. “O usuário controla o personagem com movimentos manuais rápidos, denominados swipe (para cima, baixo, direita ou esquerda)”, explica b randão. para isso, o computador deve estar equipado com um sensor de movimento. “O tratamento de reabilitação facilita e estimula o paciente a reaprender a controlar suas funções lesadas e a obter maior independência, tornando-o capaz de melhorar sua qualidade de vida”, diz. “O gestureChair é direcionado para portadores de paraplegia que compromete a função do tronco e dos membros inferiores, mas não afeta os superiores.”

Movimento das mãos controla personagem na tela e estimula a atividade motora

tamanho da floresta muda composição das árvores

A limitação no trânsito de sementes é um dos fatores que alteram a composição de florestas que se tornaram fragmentadas. A observação, fruto do trabalho conduzido por Cíntia Gomes Freitas na Universidade Federal de Pernambuco, é especialmente marcante nesse estado nordestino. A região ao norte do rio São Francisco, conhecida como Centro de endemismo Pernambuco, detém apenas

Mais óleo nas folhas

O óleo de soja, utilizado na culinária e no biodiesel, ou o de oliva e dendê são extraídos das sementes ou frutos das respectivas plantas, como ocorre de forma mais presente na natureza. Mas uma descoberta recente nos e stados unidos poderá no futuro prover as folhas desses vegetais também de teor de óleo aproveitável comercialmente. pesquisadores do Laboratório Nacional b rookhaven, do Departamento de energia dos e stados unidos, identificaram genes responsáveis pela produção de óleo nas folhas e em outros tecidos vegetais. ao aumentar a expressão desses genes, chamados

2% da mata atlântica original, divididos em ilhas de florestas separadas por plantações de cana. Amostras do conjunto das sementes que chegam ao solo em diferentes fragmentos dessa região revelam que a composição das árvores varia segundo o tamanho do fragmento e a distância que o separa da matriz florestal maior (Acta Oecologica, novembro). espécies que germinam em áreas enso-

de pDat, por meio de técnicas biotecnológicas, toda a biomassa vegetal passou a produzir altos teores de óleo, atingindo 170 vezes a mais que o normal. e ssa novidade traz a perspectiva de produção de óleos vegetais em maior quantidade e em menores porções de terra tanto para a alimentação como para o setor de biocombustíveis.

Os resultados das pesquisas, coordenadas pelo bioquímico Changcheng Xu, foram apresentados em duas revistas, a The Plant Journal (setembro) e Plant Cell (outubro).

Os experimentos foram realizados em primeiro lugar na planta-modelo Arabidopsis thaliana

semente de Rhynchosia phaseoloides; uma das espécies mais abundantes nos fragmentos

laradas são favorecidas, assim como as dispersadas por animais. os resultados indicam que apenas as sementes pequenas, que podem pegar carona com aves ou morcegos, conseguem chegar aos fragmentos mais distantes. os dispersores de sementes médias ou grandes, como as pacas, os saguis e as preguiças, não parecem se aventurar por grandes distâncias no canavial.

a meríndio com DN a europeu

aglomerados de óleo, em verde, nas células das folhas com alterações no gene pDat

O sequenciamento do genoma completo de um menino de 4 anos enterrado próximo ao lago b aikal, na sibéria, há 24 mil anos, sugere que os indígenas das américas são mais próximos dos europeus do que se imaginava. O esqueleto foi retirado de uma tumba nos anos 1920, mas só agora os geneticistas e ske w illerslen, da universidade de Copenhague, Dinamarca, e Kelly graf, da univerisade texas a&M, e stados unidos, analisaram o material. a dupla encontrou no genoma da criança sequências de DNa consideradas exclusivas dos

ameríndios atuais, juntamente com outras presentes atualmente apenas entre povos da europa e das Montanhas altai, na fronteira entre China, Casaquistão, Mongólia e rússia. a tese dos pesquisadores é que esses povos teriam migrado para a sibéria e logo em seguida miscigenado com outros povos do leste asiático, antes de atravessarem a ponte de gelo entre á sia e américa do Norte, que existia no estreito de b ering, cerca de 15 mil anos atrás. O estudo foi apresentado em outubro em santa fé, Novo México, durante a conferência paleoamerican Odyssey.

voo ininterrupto de 200 dias

Duzentos dias voando ininterruptamente, sem descer à terra firme ou ao mar para comer, descansar ou dormir. parece impossível, mas não para uma espécie de andorinhão europeu, que mede em torno de 20 centímetros e pesa cerca de 100 gramas. segundo estudo de pesquisadores do instituto Ornitológico suíço e da universidade de Ciências aplicadas de b erna, o andorinhão-real (Tachymarptis melba) é, comprovadamente, a primeira ave capaz de se manter tanto tempo em pleno voo sem recolher as asas e fazer uma parada (Nature Communications, 8 de outubro). O andorinhão faz uma migração que o

leva a deixar a europa às vésperas do inverno, atravessar o deserto do saara e se instalar na áfrica Ocidental. Durante a viagem, a espécie fica quase sete meses no ar, batendo asas ou planando. Com o auxílio de sensores instalados nos animais, que se alimentam de pequenos insetos, os cientistas obtiveram dados que indicavam a localização e a altitude de três exemplares do andorinhão ao longo da jornada para fugir do frio. por cerca de 200 dias, antes de se engajarem em atividades reprodutivas, estas, sim, desempenhadas em solo, as aves não pousaram em lugar algum.

eletricidade das bactérias

Uma combinação de bactérias, luz solar e água de esgoto pode levar a um sistema autossustentável para geração de hidrogênio, gás considerado um recurso futuro para produção de energia elétrica em geradores estacionários ou veículos. Um dispositivo capaz de produzir esse combustível que só gera vapor de água como resíduo foi desenvolvido por um grupo de pesquisadores da Universidade da Califórnia em Santa Cruz (UCSC), do

ação magnética dobra filme

andorinhão-real: quase sete meses no ar, sem pousar para dormir, descansar ou comer

pesquisadores de cinco instituições paulistas desenvolveram um material potencialmente biocompatível que se curva sob a ação de campos magnéticos. O novo material é composto por dois polímeros biocompatíveis – o látex, extraído da seringueira e com propriedades cicatrizantes, e a quitosana, polissacarídeo obtido da carapaça de crustáceos e com ação bactericida –, além de nanopartículas de magnetita. Com esses compostos, a química Celina Miyazaki produziu filmes nanoestruturados, que se depositam na forma de finíssimas camadas. ela aplicou esse material a um substrato flexível e, em testes em laboratório,

comprovou que era possível curvar o substrato pela ação de uma força magnética (International Journal of Molecular Sciences, junho). “a ideia inicial era aplicar os filmes em cateteres e tubos usados em endoscopia para ajudar a guiá-los com um campo magnético externo”, conta Celina. O novo material flexível poderia, em princípio, ser usado em músculos artificiais. “Os que existem são controlados pela passagem de corrente elétrica, que pode danificar o sistema”, explica o físico Osvaldo de Oliveira Junior, da usp em são Carlos, coordenador do grupo. antes de pensar nas aplicações, o material precisaria passar por testes de toxicidade.

Laboratório nacional Lawrence Livermore e da Universidade e stadual de virgínia (virginia Tech). ele é composto por uma célula a combustível microbial (mFC em inglês) que produz eletricidade com bactérias encontradas em águas de esgoto. na mFC, as bactérias degradam a matéria orgânica da água residual e geram eletricidade através das membranas celulares. o s elétrons gerados são agregados à eletricidade obtida de

um painel solar fotoeletroquímico para quebrar as moléculas de água em hidrogênio e oxigênio, no processo chamado de eletrólise. A vantagem do novo sistema é não utilizar energia de outras fontes para produzir hidrogênio, além de atender à necessidade de tratamento de águas residuais. Assinado pela equipe do professor Yat Li, da UCSC, o artigo foi publicado em outubro na revista ACS Nano.

Coincidências em Mercúrio

um grupo internacional de astrônomos, incluindo o francês Julien frouard, que acaba de concluir o pós-doutorado na unesp em rio Claro, acredita ter encontrado a explicação para uma das coincidências mais misteriosas do sistema solar: o movimento celeste de Mercúrio, o menor dos planetas, com apenas um terço do tamanho da terra, e o mais próximo do sol. Os pesquisadores tentaram entender a relação entre seu período de rotação, o tempo que Mercúrio leva para completar uma volta girando em torno de si, e seu período de translação, o tempo que o planeta demora para dar uma volta em torno do sol. seu período de rotação, de 58 dias terrestres, é exatamente

igual a dois terços de seu período de translação, de 88 dias. em outras palavras, a cada três dias mercurianos se completam dois de seus anos. O problema é que, por estar tão perto do sol, era esperado que a intensa força gravitacional da estrela desacelerasse a rotação de Mercúrio até o ponto em que o seu dia durasse o mesmo que o seu ano. por que esse processo foi interrompido justamente na proporção de três para dois? frouard e seus colegas apresentaram em outubro, na reunião anual da sociedade a stronômica americana, um novo modelo da história de Mercúrio, desde a sua origem há cerca de 5 bilhões de anos, e que leva em

um circuito impresso maleável

Há tempos os cientistas tentam desenvolver uma tecnologia para fabricação de circuitos impressos em substratos flexíveis usando impressoras comuns a jato de tinta. a s placas desses circuitos são uma estrutura básica sobre a qual são fixados os componentes eletrônicos de vários aparelhos, como celulares e computadores. O objetivo parece ter sido alcançado por um grupo de pesquisadores do instituto de tecnologia da geórgia e da Microsoft research, ambos nos e stados unidos, e da universidade de tóquio, no Japão. um dos protótipos feitos pela equipe é uma pequena antena sem fio, em formato de folhas e de seta, que poderia ser usada em aplicações comerciais e militares, tais como sensores de temperatura ou de detecção de vazamentos. a tecnologia funciona com a impressora a jato de tinta depositando um material condutivo formado por uma mistura de nanopartículas de prata, no lugar de tinta comum, sobre um substrato que pode ser de papel, plástico ou cerâmica. O novo método também usa princípios

conta detalhes de como o corpo rochoso do planeta sofreu com a gravidade solar. eles concluíram que a influência do sol, aliada à órbita mais alongada de Mercúrio, travou precocemente seu movimento, dezenas de milhões de anos depois de sua formação, nas proporções observadas atualmente. derivados da técnica de dobradura de origami para criar estruturas complexas, como sensores e antenas, que podem se autorreconfigurar, dobrando-se e movendo-se em resposta ao estímulo de sinais eletromagnéticos. Os pesquisadores, que contaram com um financiamento de us$ 2 milhões da fundação Nacional de Ciência (Nsf), dos e stados unidos, mostraram os resultados do projeto em setembro na suíça, em uma conferência da a ssociation for Computing Machinery (aCM).

O planeta Mercúrio, em destaque, e um registro de sua passagem diante do sol

Defensivos sob medida

antena de papel feita com jato de tinta funciona como sensor

Controlar a quantidade de agrotóxicos aplicados nas lavouras é uma tarefa nem sempre cumprida à risca, como mostra relatório da agência Nacional de v igilância (anvisa) divulgado recentemente. Das amostras de frutas, verduras e legumes analisados em 2012, 29% continham níveis de substâncias tóxicas superiores ao limite ou compostos químicos sem registro no país. para auxiliar os agricultores a calibrar a quantidade de defensivos usados nas plantações, pesquisadores das unidades da embrapa Meio ambiente, de Jaguariúna (sp), e informática agropecuária, de Campinas (sp), criaram o software gotas, que pode ser acessado gratuitamente pela rede agrolivre. O programa também ajuda a decidir a melhor combinação de bicos de pulverização e a velocidade de aplicação.

o supermacaco das Américas

paleontólogos reconstroem o estilo de vida versátil do Cartelles coimbrafilhoi, o maior símio que já habitou o continente

igor zolnerkevic

Há mais de 15 mil anos viveu onde hoje é o Brasil um macaco duas vezes maior que o muriqui, o maior macaco vivo no Novo Mundo. A prova da existência desse supermacaco das Américas é um esqueleto fóssil quase completo, descoberto em 1992 em uma caverna no município de Campo Formoso, no interior da Bahia. Descrito pelo paleontólogo Cástor Cartelle, hoje pesquisador da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), o fóssil do supermacaco foi analisado em detalhes mais recentemente por Lauren Halenar e Alfred Rosenberger, paleontólogos da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY). Lauren e Rosenberger concluíram que a espécie, batizada este ano de Cartelles coimbrafilhoi, explorava o chão da floresta tão bem quanto um chimpanzé. Ao mesmo tempo, apesar do tamanho avantajado, esse ma-

d e alto a baixo

Cartelles coimbrafilhoi era capaz de explorar o chão e escalar árvores

v iveu em uma região coberta por uma floresta densa e úmida

Com 25 a 28 quilos, o Cartelles coimbrafilhoi tinha 0,71 m da cabeça aos pés e 1,67 m da cabeça à ponta da cauda

talvez usasse a cauda, longa e grossa, para se agarrar aos galhos e se deslocar pela floresta

fOnte L aureN HaLeNar / CuNy

cacão podia escalar as árvores e se pendurar em seus galhos com a mesma habilidade, embora um pouco mais lentamente, que as espécies menores de sua família – a dos Atelidae, à qual pertencem o bugio, o macaco-aranha, o macaco-barrigudo e o muriqui. “O Cartelles provavelmente não se movia ou se comportava como nenhuma espécie de macaco do Novo Mundo viva hoje”, diz Lauren. O fóssil do Cartelles coimbrafilhoi, segundo os pesquisadores, é um dos mais importantes para reconstituir a história evolutiva, ainda pouco conhecida, dos macacos dessa região. A classificação desse fóssil em uma nova espécie – na verdade, gênero e espécie – eleva para quatro o número de espécies de macacos que viveram na América do Sul no final do Pleistoceno e hoje estão extintos. A descoberta de novos fósseis, como os encontrados nos últimos anos por Rosenberger e colaboradores em cavernas submersas da República Dominicana, deve ajudar a completar esse quadro, que ainda tem como peça importante o macaco achado em Campo Formoso em 1992.

nEstudos sugeriam que fóssil do Cartelles coimbrafilhoi misturava características de dois grupos da família dos Atelidae

aquele ano, explorando um pequeno trecho da Toca da Boa Vista, que tem 110 quilômetros de extensão e é considerada a maior caverna do hemisfério Sul, uma equipe de espeleólogos encontrou um dos esqueletos e avisou ao grupo de Cartelle, que achou dois esqueletos fósseis de macacos bastante completos, com mais de 90% dos ossos preservados (ver boxe na página 20). Os animais devem ter vivido em campos e florestas ao redor da caverna em algum momento, entre 360 mil e 15 mil anos atrás, no final do período geológico chamado Pleistoceno. Logo após a morte dos bichos, suas carcaças devem ter sido levadas por fortes enxurradas para o interior da caverna, onde seus ossos foram preservados. “Encontrar um esqueleto quase completo de qualquer táxon [grupo de organismos] é muito raro”, Lauren comenta. As primeiras descrições desses fósseis foram publicadas em 1996, em dois artigos científicos escritos por Cartelle e pelo paleontólogo norte-americano Walter Hartwig, da Universidade Touro, na Califórnia. O esqueleto detalhado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) não representou grande desafio. Estudos posteriores confirmaram que a espécie, chamada de Caipora bambuiorum, foi uma versão

maior do atual macaco-aranha. Embora pesasse cerca de 20 quilos (o dobro de um macaco-aranha), o Caipora devia se mover de maneira muito parecida, sendo capaz de usar tanto braços e pernas quanto sua cauda preênsil para se deslocar com agilidade entre os galhos das árvores. Mais enigmático era o outro esqueleto, descrito por Hartwig e Cartelle na Nature. Os pesquisadores concluíram que a hipótese mais provável era que se tratava de um segundo fóssil de uma espécie descoberta um século e meio antes em uma caverna no município de Lagoa Santa, Minas Gerais, a mais de 1.200 quilômetros da Toca da Boa Vista. Em Lagoa Santa, o paleontólogo dinamarquês Peter Lund encontrou em 1836 um fragmento de fêmur e um pedaço de osso do braço, que ele identificou como o primeiro fóssil de primata descoberto na história. O Protopithecus brasiliensis é mencionado por Charles Darwin em seu clássico de 1859, Sobre a origem das espécies, e as estimativas mais recentes sugerem que pesava até 24 quilos.

Cartelle conta, no entanto, que sempre desconfiou que era preciso confirmar se os dois fósseis eram mesmo do Protopithecus. Ele e Hartwig haviam comparado o esqueleto da Toca da Boa Vista com fotos dos fragmentos do Protopithecus brasiliensis , guardados no Museu de História Natural da Dinamarca. Os dois pesquisadores haviam notado pequenas diferenças entre os fósseis, mas as interpretaram como variação natural entre indivíduos da mesma espécie. “Pensava comigo que iria um dia à Dinamarca examinar melhor”, conta Cartelle, que ainda não teve a oportunidade de realizar a viagem.

O suposto Protopithecus da Toca da Boa Vista apresentava ainda uma combinação muito estranha de características para os pesquisadores. Em seu doutorado concluído em 2005, a bióloga Patrícia Guedes, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, concluiu que a dentição do fóssil, embora um pouco desgastada, reunia características de duas subfamílias dos Atelidae: a dos Alouattinae e a dos Atelinae. Ela observou ainda que a forma do crânio era semelhante à dos outros Alouattinae, subfamília a que pertencem os bugios, enquanto seus dentes pareciam mais com os da subfamília dos Atelinae, a mesma do macaco-aranha, do macaco-barrigudo e do muriqui. Outros estudos, tanto do crânio quanto do

uma grande família

relação de parentesco proposta pela paleontóloga Lauren Halenar para o grupo dos atelidae, que inclui espécies vivas de porte pequeno, como o macaco-aranha, e médio, como o muriqui

e sta subfamília, à qual pertencia o gênero Cartelles, abriga um único gênero vivo, Alouatta, com 10 espécies de bugios, de até 10 quilos

gêneros extintos gêneros vivos

AtelidAe

é uma das cinco famílias de macacos do Novo Mundo, formada por 29 espécies, que vivem do México ao sul da américa do sul

AtelinAe

subfamília com 3 gêneros vivos e 13 espécies: 7 de macacos-aranhas, 4 de macacos-barrigudos e 2 de muriquis, hoje os maiores macacos das américas

resto do corpo, também sugeriam que a espécie misturava características dessas duas subfamílias, separadas há mais de 12,9 milhões de anos.

para tentar resolver essas contradições, Rosenberger propôs a Lauren, então sua estudante de doutorado, que dedicasse sua tese a esmiuçar completamente os fósseis do P. brasiliensis de Lagoa Santa e da Toca da Boa Vista. Durante algumas semanas em Copenhague e em Belo Horizonte, ela mediu as formas e as dimensões dos ossos fossilizados, para depois comparar com os ossos de centenas de indivíduos de várias espécies de macacos atuais do acervo do Museu Americano de História Natural, em Nova York. O objetivo era determinar onde os fósseis se encaixavam na árvore filogenética dos macacos e

deduzir como eles se movimentavam, a partir da forma de seus ossos. “Inferimos a função dos elementos do esqueleto de espécies extintas ao comparar a forma de seus ossos com a dos ossos de espécies vivas”, Lauren explica.

“Lauren notou imediatamente que alguns dos ossos eram bem diferentes anatomicamente”, lembra Rosenberger. Em artigo publicado neste mês no Journal of Human Evolution, ele e Lauren estão propondo que cada um dos fósseis atribuídos ao Protopithecus brasiliensis pertence, na realidade, a uma espécie diferente.

O P. brasiliensis de Lagoa Santa, segundo os pesquisadores, devia ser um atelíneo. Embora seja difícil afirmar qualquer coisa mais detalhada a seu respeito a partir de dois fragmentos de ossos, Lauren supõe que a espécie fosse como um

fOnte L aureN HaLeNar / CuNy
Alouatta
Cartelles
Lagothrix Protophitecus Brachyteles Caipora Ateles
bugiO c ArtEllES
mACACO -bARRigudO muRiQui
mACACO -ARAnHA
AlOuAttinAe

muriqui, mas duas vezes maior. Já o esqueleto da Toca da Boa Vista era da mesma subfamília dos bugios, mas pertencente a um gênero diferente. Sua espécie foi batizada de Cartelles coimbrafilhoi, em homenagem a Cartelle, que há 50 anos estuda os mamíferos do Pleistoceno brasileiro – pelo menos quatro espécies extintas levam seu nome –, e a Adelmar Coimbra-Filho, um dos pioneiros da primatologia brasileira, que atuou para salvar o mico-leão-dourado da extinção.

lauren estima que o Cartelles coimbrafilhoi pesava entre 25 e 28 quilos, o que faz dele a maior das quatro espécies de grandes macacos que viveram na América pleistocênica. O C. coimbrafilhoi media 1,67 metro do topo da cabeça à ponta da cauda e a base de seu crânio e sua mandíbula lembram as do macaco-barrigudo. Mas o formato geral do crânio se parece com o de um bugio, inclusive com o mesmo grande espaço próximo à garganta, que abriga o aparelho vocal desses macacos capazes de emitir urros audíveis a até 5 quilômetros de distância. Lauren explica, no entanto, que não é possível saber se o C. coimbrafilhoi urrava tão ou mais forte do que os bugios, pois a potência do chamado desses macacos não se relaciona de maneira simples com seu tamanho – ela depende também dos hábitos sociais de cada espécie e do ambiente em que vive.

O restante do esqueleto lembra o de um macaco-aranha, só que mais robusto. O formato de seus ossos sugere uma musculatura bem desenvolvida, adaptada para escalar e se dependurar. Hartwig e Cartelle já haviam proposto que o animal devia se sentir em casa no topo das árvores. Mas, por conta de seu tamanho, alguns pesquisadores descartaram a ideia, sugerindo que a espécie vivesse apenas no chão. De modo geral, apenas as espécies menores costumam ter um estilo de vida arborícola, pois os animais grandes correm mais risco de quebrar um galho e cair. Mas nem sempre é o caso. “O peso da grande maioria dos macacos arborícolas do Velho Mundo está na casa dos 10 quilos”, explica o primatólogo Stephen Ferrari, da Universidade Federal de Sergipe. “Entretanto, o maior primata arborícola, o orangotango, pode chegar aos 100.”

Além de ser bem menor que um orangotango, o Cartelles coimbrafilhoi talvez contasse ainda com a ajuda de sua grossa e longa cauda para se

um fim de ano bom

equipe achou dois fósseis de primatas às vésperas do ano-novo

O ano de 1992 havia praticamente acabado quando Cástor Cartelle, paleontólogo especialista em preguiças extintas, fez uma das descobertas mais importantes da primatologia brasileira. era 30 de dezembro e ele e dois colegas haviam caminhado duas horas por um labirinto de túneis, passagens estreitas e abismos para chegar ao salão da toca da boa vista, onde estavam, lado a lado, os fósseis de duas das maiores espécies de macacos que viveram nas américas no final do pleistoceno. “inicialmente pensei que fossem um macho e uma fêmea”, conta Cartelle, que mais tarde saberia que os fósseis pertenciam a espécies distintas, ainda não descritas. ele e seus colaboradores Mauro ferreira e rodrigo Lopes ferreira não chegaram lá sozinhos. No dia anterior, quatro ou cinco integrantes do grupo bambuí de pesquisas espeleológicas,

uma equipe grande que durante anos mapeou a toca da boa vista, havia começado a explorar um trecho da caverna chamado “além mundo”, avistado os fósseis e levado uma amostra ao acampamento, uma escola em Laje dos Negros, distrito de Campo formoso. “alguém, não lembro quem, trouxe um crânio e nos mostrou”, conta rodrigo, à época estudante de biologia na ufMg que trabalhava com Cartelle. “vimos que era de um macaco e pedimos para nos levarem aonde o tinham encontrado.”

No dia 30 de dezembro, ao deparar com os fósseis, os pesquisadores se surpreenderam. “estava um a cinco metros do outro e o estado de conservação era impressionante”, recorda rodrigo. por mais de oito horas ele, Cartelle e Mauro esquadrinharam o chão do local coletando tudo o que encontravam do esqueleto dos macacos,

depois descritos como Caipora bambuiorum e Protopithecus brasiliensis (este, rebatizado agora de Cartelles coimbrafilhoi), e de um fóssil de preguiça. réplicas dos esqueletos estarão expostas no Museu de Ciências Naturais da puC Minas, que reabre em dezembro, depois de um incêndio no ano passado. Na época em que viveram os macacos a região de Campo formoso abrigava uma floresta tropical úmida, resultado do encontro da vegetação do atlântico com a da amazônia. Com o fim da última era glacial, o clima da região se tornou semiárido. No dia da coleta, ao calor e à secura da região se somaram as altas temperaturas da caverna. “passamos um dia na antessala do purgatório”, conta Cartelle, “nunca suei tanto”. até ele, que não bebe, naquela tarde tomou um ou dois copos de cerveja para comemorar. Ricardo zorzetto

O fotógrafo adriano gambarini registrou

Cartelle (à esq.) e seus dois colaboradores durante coleta de fósseis em 1992 na toca da boa vista. ao lado, um dos salões da caverna

Ainda não há como saber se alguma
espécie atual descende dos grandes macacos do Pleistoceno

agarrar aos galhos, embora ainda faltem estudos biomecânicos para confirmar se a sua cauda podia ser usada como um quinto membro preênsil, capaz de se pendurar em galhos e sustentar o peso inteiro do animal, como fazem várias espécies vivas da família dos Atelidae.

Em todo caso, os ossos também indicam que a espécie tinha hábitos terrestres bem desenvolvidos. “Parece provável que o comportamento do Cartelles era mais parecido com o dos chimpanzés atuais, que são trepadores habilidosos, mas passam a maior parte de seu tempo no chão”, sugere Ferrari. Patrícia concorda, lembrando que mesmo bugios e muriquis, normalmente arborícolas, às vezes exploram o chão. Recentemente a equipe da primatóloga Karen Strier, da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, registrou entre muriquis-do-norte vivendo em uma reserva particular protegida em Minas Gerais o desenvolvimento de hábitos terrestres. Em artigo publicado em 2012 na PloS One, Karen defende que a mudança de comportamento esteja ligada ao aumento da população, que passou de 60 para 300 indivíduos nos últimos 30 anos, e a falta de

espaço para tantos macacos na reserva. Segundo a pesquisadora, ao aprender a explorar o chão, os muriquis encontraram mais comida e houve um aumento da taxa de natalidade, embora os animais também tenham se tornado mais vulneráveis ao ataque de predadores.

As quatro espécies extintas de macacos brasileiros – Cartelles coimbrafilhoi, Caipora bambuiorum, Protopithecus brasiliensis e Alouatta mauroi– conviveram com a megafauna, mamíferos de grande porte, como as preguiças-gigantes e os tigres-dente-de-sabre, que habitaram as Américas no Pleistoceno e podem ter sido extintos por causa das mudanças climáticas. “Espécies grandes de primatas são muito mais vulneráveis à extinção, não importa a causa”, Lauren explica. Até o momento, não há como saber se alguma espécie de macaco atual descende da linhagem de algum desses grandalhões. “O trabalho de Lauren e Rosenberger chama atenção por mostrar a carência de dados disponíveis sobre a morfologia pós-craniana de primatas americanos”, comenta Patrícia. “Compreender a variação da morfologia dos platirrinos [grupo que inclui os macacos do Novo Mundo, com narinas distantes e voltadas para os lados] é muito importante para propor hipóteses de relacionamento entre eles e compreender a diversificação desses mamíferos na América do Sul.” n

artigo científico

HaLeNar , L. b . e rOseNberger , a . L. a closer look at the “protopithecus” fossil assemblages: new genus and species from bahia, brazil. Journal of Human evolution. v. 65, n.4, p. 374-90. out. 2013.

Jacó guinsburg

O editor da academia

idAde 92 anos eSpeCiAlidAde teatro e literatura

fORmAçãO escola de Comunicações e artes da universidade de são paulo (doutorado)

inStituiçãO universidade de são paulo

empReSA editora perspectiva

pROduçãO CientífiCA é autor de 11 livros, entre ensaios de literatura e teatro, e contos

com o mesmo humor pleno de sabedoria que faz a delícia dos leitores dos contos e peças de teatro ídiche, uma das muitas especialidades de Jacó Guinsburg, ele, aos 92 anos, à frente da Editora Perspectiva, define sua vida como “uma sequência irregular e contraditória de experiências e buscas”, cujo desenvolvimento foi dado pelo próprio curso da existência, “mais do que pelas escolas que mal frequentei e dos diplomas que não obtive”. Curiosa observação de um dos grandes mestres de crítica teatral que, como professor, passou pela Escola de Arte Dramática (EAD) de Alfredo Mesquita e, depois, ingressou na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Além disso, Guinsburg, como editor, foi responsável por apresentar ao Brasil nomes como Umberto Eco, Erich Auerbach, Bashevis Singer e tantos outros. Constam do catálogo da Perspectiva Lourival Gomes Machado, Mário Pedrosa, Antonio Candido, Décio Pignatari, Décio de Almeida Prado, tendo sido uma das editoras dos concretistas, em especial de Haroldo de Campos. Filho de imigrantes judeus e imigrante ele próprio, Guinsburg chegou ao Brasil com 3 anos vindo da Bessarábia (Europa Oriental). Garoto pobre do Bom Retiro, foi o desespero dos pais, sempre metido em política de esquerda, briga de gangues de várzea, livros e com um espírito irrequieto que, até os 20 e poucos anos, o impediu de se assentar na vida, como ele mesmo diz.

Em 1947, com Edgard e Carlos Ortiz, além de alguns amigos, criou a editora Rampa, mistura de pouco dinheiro, busca intelectual e, no fim, fracasso comercial. Mas foi a preparação para o futuro. Vendeu livros de porta em porta e traduziu muito texto, escrevendo, às vezes, ficção nas horas vagas, um bom hábito que mantém, para encanto de alguns críticos. Em 1954, convidado por Jean-Paul Monteil, trabalhou na então

recém-criada Difusão Europeia do Livro, a Difel, onde pôde editar clássicos como a Coleção Garnier; as coleções Saber Atual; História Geral da Civilização, de Maurice Crouzet; História Geral da Civilização Brasileira, dirigida por Sérgio Buarque de Holanda; A Presença da Literatura Brasileira, de Antonio Candido e José Aderaldo Castelo, entre outras coleções e títulos.

Autodidata, passou a colaborar com o Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, a convite de Décio de Almeida Prado, onde conheceu Sábato Magaldi, crítico teatral. Entre 1962 e 1963 esteve na França como bolsista para se especializar em edições e frequentou os cursos de filosofia no Collège de France. Em 1964 foi convidado para lecionar na EAD e, posteriormente, em 1967, na ECA-USP. “Eu jamais sonhara em toda a minha vida em ser professor, mesmo porque passara boa parte dela a detestar a instituição escolar”, lembra. Em 1965 fundou a Editora Perspectiva, onde publica obras de vanguarda e a bibliografia fundamental na área de humanidades, em especial a famosa Coleção Debates, marco da editora. Casado há mais de 50 anos com Gita, com um casal de filhos, Guinsburg falou à Pesquisa FAPESP

Como é a sua relação com os livros?

universo pelo qual o homem acede a si mesmo. Não só por si mesmo, mas pelo que projeta de si, que é o mundo da cultura, da humanidade e da sociedade.

Como o senhor vê a cultura e o saber. Para que eles servem?

Para o que servem é difícil dizer, eles têm um lado prático, positivo e elevado, e um lado eventualmente danoso também. Nada comparece na vida do homem unicamente com vestes angélicas. O demônio nasce também de um anjo. A cultura depende de como a definimos. Se separarmos cultura de civilização, todos os povos, até os mais primitivos, têm cultura, porque a condição do homem é cultural. E tudo o que se seguiu: até a Teoria da Relatividade de Einstein, desde a

Ser autodidata não é elogio nem ofensa, mas uma via como qualquer outra. Claro
que tem o seu preço

Não sei defini-la. Não é só de amor aos livros. Existe um pouco disso, mas não é somente isso. É uma relação que foi se estabelecendo ao longo das leituras e do meu trabalho. Eu não poderia apontar outra coisa, a essa altura da minha vida, com a qual eu tenha me relacionado e ocupado com a mesma continuidade. Não digo isso para promover nenhuma qualidade minha. Acho que uma pessoa que vive cultivando um jardim é um jardineiro nato, se a gente quiser olhar retrospectivamente, embora ele possa ter aprendido jardinagem no fim da vida. De modo que eu não saberia definir minha ligação com o livro. Não vejo, porém, o livro como o único sentido da existência e da cultura. A cultura ultrapassa o livro. O livro é um meio, um instrumento. Ele cria um

faísca que o homem obteve do atrito de duas pedras. A evolução desse processo aquisitivo, que eu não diria que é desenvolvimentista, tem sido uma marcha lenta e, muitas vezes, extremamente cruel. A consciência do que significa cultura, o reconhecimento de valores e o que eleva o ser humano acima de sua condição animal, sem dúvida, constitui um dado que existe. A preocupação de ordem ética é outro dado e é primordial. De qualquer maneira não podemos colocar o plano do universo em que se move o homem de hoje no mesmo plano que existia em qualquer outro período. Primeiro, porque as outras épocas desapareceram, e não dispomos de outros elementos de comparação. Segundo, porque suas pro-

duções foram incorporadas e transferidas pelas gerações subsequentes, haja vista o atual mundo digital que é quase o nosso hábitat. Além disso, nós não dispomos de referenciais absolutos. Dizem que foi assim... Foi de fato? Tomar os relatos históricos como pura objetividade já está demonstrado que não é uma boa medida, porque a objetividade histórica durante séculos se concentrou na formalização de certos aspectos, somente isso. E seria somente isso? A moderna história das mentalidades está pondo em xeque essa visão e destacando outros aspectos. Eles existiam, mas se dizia que a história das marginalidades na vida em sociedade era apenas o relato de fatos e eventos que não tinham importância. Veja, a tecnologia existe desde os primeiros passos do homem na Terra. Não é só a invenção do foguete. Cortar uma lasca de pedra já é tecnologia. A consciência e o avanço desse conhecimento e dos valores que ele implica são coisas fundamentais. Nesse sentido, os instrumentos para isso são de máxima importância para a vida humana. Se a pólis, no sentido geral, não só como cidade no sentido estrito, mas como vida em sociedade, é uma realidade inegável, ela implica necessariamente ethos. Ethos não é apenas moral, é política. A consciência em relação a isso é produto de desenvolvimento para o qual os diferentes instrumentos da cultura são essenciais. E não apenas o livro. Para não mencionar o papel da ciência, da filosofia, dos saberes e das diferentes artesanias na ampliação das práticas e das ferramentas cognitivas, pensemos nas artes: dança, música, pintura, escultura, teatro etc., todas elas, isoladamente ou em conjunto, interagem e afetam visceralmente nossas experiências e vivências e o horizonte de abrangência de nossa mente.

ser autodidata: para o senhor isso é um elogio ou uma ofensa?

Nem uma coisa nem outra. Foi uma realidade. Não saberia dizer até que ponto, benéfica ou maléfica. Foi até bastante sofrida em alguns aspectos. Em outros, foi uma forma de aquisição, não uma tenta-

tiva de valorizar aquilo que se apreende, porém uma apreensão já vivenciada, porquanto são experiências pessoais no jogo das circunstâncias. “O homem é sua circunstância”, para fazer de conta que cito Ortega y Gasset. Então não é nem elogio, nem ofensa, é uma via como qualquer outra. Claro que isso tem o seu preço. A educação formal, no seu processamento, produziu formas de obtenção de conhecimento aperfeiçoadas, ferramentas didáticas e instituições de ensino muito mais eficientes, em termos da racionalidade do trabalho. Isso não quer dizer nada, pois sabemos que mesmo em Auschwitz alguns dos carrascos eram homens altamente educados e formados. E daí? A coisa mais fácil que existe no mundo é também o inverso, a vítima se transformar em algoz, porque ambos coabitam nele, o que não quer dizer que o mal seja sempre uma banalidade. Há um relativismo? Sim, mas, quando partimos para o absoluto temos necessariamente que relativizar, o que não quer di zer que não devamos ter em nosso norte certos valores, porque do contrário estaremos soltos num mar sem nenhuma terra à vista. Não vejo no autodidatismo nenhuma virtude maior. Na nossa sociedade ela é mais dolorosa, justamente por isso menos eficaz. Porque o autodidata está condenado a descobrir lições e coisas que a metodologia, a tecnologia e os conhecimentos proporcionam de um modo mais sistemático, fecundo e por certo mais crítico. Por outro lado, a aquisição de ensinamentos formais implica no receptor um trabalho de autodidatismo na sua assimilação. A transformação do que isso é para ele em aquilo que fará parte dele é um processo solitário e pessoal. Porém não vejo nisso nenhum valor de caráter romântico. Passei por ele de um modo mais anárquico do que eu próprio julgava.

medida, nesse âmbito. Hábitos, práticas rituais, a língua – o ídiche particularmente – e algumas formas de pensar, de agir e de reagir aos impactos contextuais que me acompanharam, evidentemente, desde a infância. Isso no que diz respeito à moldagem marcada pelas raízes e tradições. Mas, nesse particular, é preciso ressaltar que provenho de um grupo em que o ler faz parte do ser, uma vez que desde a Antiguidade o judaísmo gerou o recinto cultual da sinagoga e nele a necessidade da leitura do texto. Aí, obrigatoriamente, o menino judeu, para preparar a sua maioridade religiosa e confirmar sua pertinência à comunidade, tem de ler a Escritura. Então, ele deve ser alfabetizado, deve conhecer os signos. E os signos, em vez

O nome perspectiva traz em si dois ângulos de visão. um deles é: muito livro, pouco dinheiro...

a cultura judaica foi essencial na sua formação?

Eu não diria que fiquei imune à sua influência, pois nasci e cresci numa família de imigrantes que se mantinha, em boa

de exclusivo monopólio do sacerdote, tornaram-se objeto de um processo de democratização, na medida em que todo fiel, para a prática de seu credo judaico, independentemente de sua classe e função sociais, deve ser provido de um acesso autorizado e reconhecido ao Livro. Este fato constitui, sem dúvida, a ponte pela qual o judeu, através de sua história, transitou pelos caminhos da exegese e da reflexão rabínicas para suas captações sobre a sociedade e o mundo, a filosofia, as ciências, as letras e as artes. Nesse sentido, poder-se-ia citar uma longa lista em que figurariam desde o platonismo de Filo, o aristotelismo de Maimônides, o racionalismo de Mendelssohn e de Salomon Maimon até, nos

anos mais recentes, Isaac Deutscher. Essa permeabilidade crítico-hermenêutica é, pois, um dado que, afora as condições específicas e próprias a cada indivíduo, veio pela tradição invadir toda a relação do judaísmo moderno na interação com os seus integrantes, sob um sem-número de feições, com certeza, nos âmbitos de sua presença e nos campos da cultura. Seria pretensão minha invocar tais características como intervenientes em minha formação, mas não posso deixar de pensar que o valor atribuído a elas no grupo em que me criei tenha algo a ver com minhas atrações intelectuais e opções profissionais. O que se evidencia na Judaica, coleção com a qual iniciei as publicações da Perspectiva, em que procurei nos seus 13 volumes descerrar alguns dos principais aspectos do pensamento religioso, filosófico e político da literatura popular e da criação literária e poética da história quadrimilenar do judaísmo. Em contrapartida, porém, devo também dizer que a minha formação se desenrolou no convívio não menor com a gente, a língua, os costumes e os problemas brasileiros desta São Paulo em que estou radicado desde 1930. É claro que na idade em que eu me encontrava quando aportei no Brasil adquiri rapidamente o domínio do português nos anos sucessivos de escola e de rua, e ele se tornou o único idioma que utilizei e utilizo e no qual sou capaz de me expressar com maior precisão. Não seria necessário acrescentar que os meus focos de interesse convergiram para o que a vida e a cultura no Brasil me comunicavam em termos de história, literatura, artes, política e, sobretudo, do jeito brasileiro de ser. Qual o produto?

É esse que está aqui.

O nome Perspectiva dá uma indicação do que o senhor pensa que deva ser uma editora?

É claro que nunca lhe dei um caráter normativo. Porém a própria denominação, a essa altura, traz em si dois ângulos de visão. Um é aquele que se descortina em cada fim de mês: muito livro e pouco dinheiro... O outro é aquele que se abre

para o infinito, pontuado por certo apego ao projeto inicial da editora, e para o qual estamos ou gostaríamos de estar avançando. Jamais passaria por minha cabeça fazer uma editora pensando preferencialmente no que iria vender. Isso é um erro! Embora a circulação do que se produz seja uma preocupação inegável, o nosso critério de escolha, para o bem ou para o mal, sempre foi e continua sendo o de uma qualificação intelectual, científica ou artística do título selecionado. É claro que erramos algumas vezes. Mas, no conjunto, a meta sempre foi a de levar ao público o melhor do cabedal já consagrado, bem como a discussão e o debate em curso de temas candentes e das incursões vanguardeiras. Portanto, temos a perspectiva voltada para o foco clássico, no sentido amplo do termo, e para o da produção atual, na medida em que esteja ao nosso alcance. Assim, um domínio entre vários outros em que temos tido uma atuação de certo relevo é o do teatro. A nossa participação nasceu, sem dúvida, da minha atividade como professor da ECA-USP. As deficiências no plano bibliográfico que eu constatava eram as que eu sentia em sala de aula. Tentei saná-las, em parte, por ser também um editor. Encaminhei as publicações da Perspectiva nessa direção sem nenhum projeto formal prévio. Daí uma inclusão de obras que vão dos gregos, dos rituais primitivos, ao pós-modernismo, além da participação marcante da produção acadêmica dos alunos em seus trabalhos de mestrado e doutorado, para não mencionar a de professores, críticos, diretores e atores de nosso teatro. Mas uma editora tem de ter antena voltada para todos os lados. Os títulos de autoajuda ou de grandes narradores de best-sellers merecem toda consideração, não só pelo que promovem em termos de público e êxito comercial, como pelo papel que podem desempenhar na complexa rede de estímulos à leitura. É a percepção que nos levou a valorizar desde o início os trabalhos sobre histórias em quadrinhos, comunicação e informação, direitos humanos, arte-educação,

judaísmo, urbanismo e arquitetura e até indagações místicas. Foi a perspectiva da nossa Perspectiva.

a editora funcionou como fonte bibliográfica para a universidade editando obras como Mimesis, de auerbach, ou a Obra aberta, de Umberto eco. Pretendíamos abrir as sendas de uma nova bibliografia que não estava sendo editada aqui no Brasil, em certas áreas. Seria injusto dizer que isto ocorria em todos os setores, uma vez que tanto a Civilização Brasileira e a Zahar quanto a Difel publicavam títulos nacionais e traduziam autores estrangeiros representativos das modernas correntes no plano dos estudos universitários e no campo político. Ainda assim, a literatura

gentes sobre os diferentes movimentos estéticos e estilísticos nos vários setores da criatividade artística no Ocidente. Nessas três coleções e nas demais, como a Perspectivas, Paralelos, Khronos, Textos, Elos, Judaica e Big Bang, temos dado a público a produção de autores de renomada competência e participação em debates nos vários ramos do conhecimento e dos saberes. Esse rol engloba nomes que vão de Le Corbusier a Hannah Arendt, de Foucault a Merleau-Ponty, de Câmara Cascudo a Sábato Magaldi e Roberto Romano, por exemplo.

Como editor,

tentei

sanar as deficiências bibliográficas que sentia na

sala de aula

quando era professor

ensaística, o debate filosófico-estético que ocorria nas décadas de 1960 e 1970 eram escassamente vertidos para o nosso público leitor. Parecia uma fonte marginal, reservada a intelectuais eleitos. Era o caso de Umberto Eco, por exemplo, que apenas alguns, como Haroldo de Campos, conheciam. E foi para promover a difusão do pensamento deste e de outros autores que criamos a Coleção Debates, com a denominação e a apresentação gráfica que a caracterizam como uma espécie de abertura da Obra aberta. A proposta foi bem acolhida em geral e, em especial, nos círculos universitários, levando-nos à nossa segunda coleção, já de caráter monográfico, a Estudos, e à Stylus, série que enfeixa ensaios conver-

e para quem o senhor faz esses livros? Para o leitor, um receptor que é uma incógnita, que eu não sei quem é, mas tenho certeza que existe. Estou convicto de que Jorge Amado não esperava que eu o lesse. Encontrei um livro dele, creio que Suor, por acaso em um sebo da rua Quintino Bocaiúva; me interessou e esse interesse me levou, depois, a Jubiabá, Capitães de areia e, na sequência, a toda sua obra. Algo parecido aconteceu, por volta do mesmo período, com as obras de José Lins do Rego, Raquel de Queiroz e acima de tudo Graciliano Ramos. Nada me conduzia a esses livros. Foi um ingresso aleatório na temática do Nordeste. Talvez essa atração tenha surgido remotamente de uma leitura ginasiana de Os sertões, de Euclides da Cunha. A sua dramática descrição de Canudos repontava, às vezes, em minha memória, menos pelo dado histórico, social e humano que a malfadada campanha representava, do que pela riqueza febricitante da linguagem. Ela me introduziu numa região e numa problemática que me eram totalmente estranhas. Repensando essa trajetória, julgo até que o ciclo do romance do Nordeste tenha um pé no sertão euclidiano. Estou aludindo a isso para rastrear em minha própria vivência as sendas que os livros podem percorrer até e com o seu não identificado destinatário. São esses leitores que tenho também em vista, e não apenas os que buscam temas definidos e especializados. Eles escapam às estatísticas

mercadológicas; porém não cabe duvidar que estejam presentes em grande número na expressão público ledor.

De que forma, para o senhor, editar um livro é uma questão política?

Toda escolha me parece ser um ato político no sentido amplo do termo. Sob esse ângulo, que também se relaciona com a liberdade de pensar e exprimir-se, não resta dúvida que o espectro dos temas das publicações deve ser tão amplo quanto possível. Mas não se pode também fugir das opções pessoais ou das preferências ideológicas. Portanto, editar é também uma questão política na qual a liberdade não se resume a um conceito abstrato. Como boa parte dos editores, creio eu, não tenho preferências rígidas, mas faço escolhas... Basta ler os títulos do catálogo da Perspectiva.

O senhor foi muito importante para os concretistas. Houve quem dissesse que Haroldo de Campos estava servindo à sinagoga paulista, porque publicou parte de suas obras comigo. Desconsiderando o evidente caráter antissemita e uma eventual dor de cotovelo, eu não vestiria essa carapuça. O meu vínculo com o grupo não teve por base as teses defendidas, mas, sobretudo, a qualidade da proposta e da produção. Acho o trabalho do Haroldo importantíssimo, e desde o início de nossa relação me pareceu que ele, Augusto e Décio representavam uma lufada apimentada, porém renovadora, na vida literária brasileira. Conheci Haroldo na Difel. Íamos editar a obra do Oswald de Andrade, sob a direção de Antonio Candido. Ele próprio sugeriu o nome do Haroldo para escrever o estudo introdutório a João Miramar. Sendo eu encarregado da edição, travei contato com Haroldo. Também como leitor do Correio da Manhã e do Jornal do Brasil, na época, eu acompanhava o movimento das letras e das discussões críticas da prosa e da poesia, em que já se notavam, com frequência, a presença do grupo concretista e o nome de Haroldo, em especial. Na mesma época, Anatol Rosenfeld chamou a minha

atenção para a audácia e estética das ideias daqueles jovens. Quando fundei a Perspectiva, me interessou não apenas o trabalho poético de Haroldo, como também o seu pensamento crítico e filosófico. Tinha um domínio vastíssimo das fontes da literatura clássica e moderna, uma extraordinária versatilidade na assimilação de idiomas e apurado ouvido musical. Mas tudo isso era posto a serviço de algo inteiramente novo, não só pelo tom como pela forma. Era uma nova concepção da escritura no jogo e nas interfaces dos signos, bem como nas suas vinculações com as ciências e os saberes. Haroldo era um verdadeiro polímata, que na sua expressão polêmica punha em polvorosa a modorra literária reinante. Qual foi a cutucada em nossas

Como o senhor vê a chegada dos meios eletrônicos para os livros?

O livro continuará, com ou sem papel, a suprir o leitor com elementos épicos, líricos ou dramáticos

letras após a renovação modernista? O concretismo e Haroldo. Eles introduziram a visão, hoje prevalente, ligada à tecnologia da informação e da comunicação, levando a extremo o que, de certa forma, já se iniciara com Mário e Oswald de Andrade. Mas o seu objetivo maior nunca foi destrutivo e, sim, construtivo. Testemunham-no as obras de Augusto de Campos, Décio Pignatari, José Lino Grünewald, Affonso Ávila e do próprio Haroldo, e de outros poetas integrantes do movimento. Poderia ainda invocar a favor destas minhas afirmações o trabalho realizado por Haroldo na coleção que dirigiu para a Perspectiva, a Signos, a qual, por si só, valida o espaço que passou a ter entre os nossos autores.

A primeira coisa é a democratização da comunicação, da informação, da cultura e do exercício da cidadania. E a extensão às mais amplas camadas da população do direito de manifestação da reivindicação, mas que traz, por tabela, a evisceração das intimidades numa exposição por vezes despudorada das relações de todo tipo. Isso para não mencionar o besteirol à solta e o uso delinquente desses meios. Mas tal é o processo sócio-humano. Esses recursos vieram para ficar e têm um poder multiplicador de ação e de inclusão social. O que não irá impedir a existência de elites com competências específicas, que se constituem de várias maneiras, nos diversos campos da atividade humana, de grupos que se estruturam em domínios econômicos, técnicos, políticos, científicos, artísticos, beneméritos etc., com maior expertise dos meios e que os utilizam. Para onde essa dinâmica vai levar? É imprevisível para mim. Se eu fosse crente, diria até que Deus talvez quisesse introduzir o aquecimento global como futuro corretivo desta disparada para o infinito. Por ora, o que se pode afirmar é que ela é um dos motores da globalização, em todas as sociedades e nações, e em todos os seus valores específicos. A situação de insulamento grupal e até pessoal desapareceu porque o contato virtual se tornou uma “realidade” e as trocas se aceleraram mais do que nunca, positiva e negativamente. Chegaremos ao livro global, em esperanto eletrônico? Seja como for, o livro continuará, com papel ou sem papel, no papel de ferramenta eficaz para suprir o seu leitor individualmente dos elementos épicos, líricos ou dramáticos que enfeixam as elaborações de seu imaginário, de suas vivências e criatividade, de um lado, e, de outro, dos produtos de sua busca na ciência, na filosofia, na mística e nos saberes. De minha parte, não consigo me entregar a tão altos voos futurológicos e permaneço no meu terra a terra de editor e leitor, entregue ao hábito, ao percurso e ao desfrute dos caracteres preferencialmente impressos. n

tramas de uma rede

simpósio em Cambridge reúne pesquisadores e estudantes brasileiros da região da Nova inglaterra para estreitar colaborações

fabrício marques

Pesquisadores brasileiros radicados nos Estados Unidos reuniram-se no dia 5 de outubro num auditório do Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Cambridge, para contar uns aos outros em que estão trabalhando e discutir meios de fazer parcerias e estreitar colaborações com instituições e empresas brasileiras. O 1° Simpósio da Comunidade Científica Brasileira na Nova Inglaterra reuniu uma plateia de 350 pessoas numa maratona de 12 horas de atividades divididas em quatro painéis temáticos e algumas palestras. “Fiquei impressionado com a qualidade dos trabalhos apresentados e com a participação na plateia de muitos alunos de doutorado e graduação”, diz o físico Marcelo Knobel, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador adjunto de Colaborações em Pesquisa da FAPESP. Knobel apresentou as oportunidades de pesquisa no estado de São Paulo aos participantes do simpósio – a FAPESP mantém modalidades de financiamento para atrair pesquisadores do exterior, como bolsas de pós-doutorado e o São Paulo Excellence Chairs, que propicia a vinda de pesquisadores de primeira linha do exterior para criar núcleos de pesquisa em universidades paulistas. O idioma oficial do simpósio foi o português – o que causou embaraço e alegria a alguns participantes, há muito radicados nos Estados Unidos. O simpósio em Cambridge foi o desdobramento de uma iniciativa criada há três anos pela jornalista Cristina Caldas, em parceria com Leo Iwai, Marcelo Mori e José Raimundo Correa, então pós-doutorandos na Universidade Harvard. Trata-se do PUBBoston, sigla para Pesquisadores e Universitários Brasileiros em Boston, que todos os meses reúne cerca de 80 pessoas para discutir temas de interesse comum e acelerar conexões em pesquisa, inovação e educa-

ção, organizado por uma comissão que mantém a rede ativa. “Moro em Boston há quatro anos e, em meu trabalho como jornalista de ciência, conheci muitos pesquisadores brasileiros fazendo trabalhos extremamente interessantes. Daí surgiu a ideia de constituir o grupo, que coincidiu com a vontade dos cientistas em conhecer os trabalhos uns dos outros”, diz Cristina, que atualmente trabalha também no Consulado do Brasil em Boston como interlocutora dos estudantes brasileiros do programa Ciência Sem Fronteiras. A ideia de promover o simpósio surgiu numa conversa com Marcelo Gleiser, professor de física e astronomia no Dartmouth College, sobre a necessidade de criar um senso de comunidade dos pesquisadores e estudantes brasileiros na região, como acontece com os de outras nacionalidades, como indianos e chineses. Parceiros como o MIT Brasil, o Banco Santander, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), a empresa Covidien, a FAPESP e o consulado integraram-se à iniciativa, que foi ampliada para a região da Nova Inglaterra, no nordeste dos Estados Unidos, onde se situam instituições como o MIT e as universidades Harvard, de Boston, Yale, Dartmouth e Brown. A conexão entre os participantes, diz Cristina, era pequena – muitos se conheceram no evento. Segundo o astrofísico Marcelo Gleiser, conhecido por escrever livros de divulgação científica, o simpósio foi importante para mostrar quem são os pesquisadores brasileiros nos Estados Unidos.

“Com o simpósio, todo mundo ficou visível. Eu mantenho contato constante com o Brasil, mas creio que sou uma exceção. A maioria das pessoas se concentra em seu trabalho e não dá muita prioridade para estabelecer relações”, afirma. Gleiser acredita que esse comportamento está relacionado a certa acomodação de pesquisadores brasileiros em relação a aproximar seu trabalho da sociedade. “Para se candidatar a um projeto ou a uma bolsa nos Estados Unidos e na Europa, o pesquisador é cobrado a dedicar algumas horas para falar em museus ou em escolas. Caiu a ficha de que, para formar os cientistas do futuro, é preciso motivar os jovens a seguir a carreira científica.” A palestra do empresário brasileiro José Almeida, presidente de uma multinacional com sede nos Estados Unidos que fabrica produtos na área de cuidados da saúde, a Covidien, é um sinal de que é possível estreitar as relações entre o meio acadêmico e a indústria, diz Gleiser. “Ele manifestou o interesse em arregimentar estagiários e contratar pesquisadores brasileiros.”

O carioca Bernardo Lemos, professor de epigenética ambiental da Harvard School of Public Health, afirma que a interação entre pesquisadores brasileiros tem avançado, em boa medida graças ao PUBBoston. “Não creio que exista um isolamento e hoje há maneiras de manter o contato apesar da distância. Mas estamos falando de pessoas muito ocupadas. O simpósio foi importante por atrair o interesse de muitos estudantes.

Teve um grupo de alunos brasileiros que soube do simpósio e veio de carro de Nova York. A motivação é importante. Gostei muito e conheci muita gente”, diz Lemos. O pesquisador fez graduação e mestrado em ecologia e genética na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Há 10 anos foi a Harvard fazer seu doutorado e permaneceu, mas mantém colaborações com instituições brasileiras como o Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro.

Um dos contatos que Lemos estabeleceu foi com Flavia Teles, pesquisadora do The Forsyth Institute, em Cambridge, e instrutora na Harvard School of Dental Medicine, em Boston. Flavia convidou vários participantes do simpósio, Lemos entre eles, para dar palestras no Forsyth. “Fiquei impressionada com a qualidade das apresentações e o alto nível de preparo dos palestrantes. Não tinha noção de que a rede de brasileiros atuando em pesquisa e ensino nos Estados Unidos era tão diversa. Conheci pesquisadores em áreas como epigenética, imunologia e abordagens matemáticas e estatísticas para lidar com volumes imensos de informação, o Big Data. Acredito que possamos colaborar em projetos em andamento e planejar parcerias futuras”, afirma Flavia. Graduada em odontologia pela UFRJ e mestre em periodontia pela UERJ, mudou-se para os Estados Unidos em 2003 com o marido, o pesquisador Ricardo Teles, que fora contratado pelo Forsyth. Ela fez doutorado em Harvard e foi trabalhar com um grupo que atua na fronteira do conhecimento sobre doenças da gengiva. Hoje comanda um laboratório que estuda micróbios na cavidade oral, com ênfase na busca de novas bactérias que podem ter um papel importante em doenças como periodontite, perimplantite e câncer oral. Mantém colaborações com grupos de pesquisa em odontologia de Belo Horizonte, Guarulhos e Curitiba, através dos quais recebe doutorandos e pós-doutorandos em seu laboratório.

f OR m A çã O SÓ lidA

A astrofísica Merav Opher, que se doutorou na USP em 1998 com bolsa da FAPESP e atualmente é professora da Universidade de Boston, espera que sua participação no simpósio atraia novos alunos. “Fui procurada por um deles. Gosto muito de trabalhar com alunos brasileiros. São diferentes dos norte-americanos, cuja formação é muito marcada pela tecnologia. Os brasileiros têm uma formação sólida, são analíticos e sedentos para trabalhar”, afirma Merav, que já coorientou o doutorado sanduíche de duas brasileiras nos Estados Unidos, uma oriunda da USP e outra do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A ideia de formar redes de pesquisadores radicados no exterior não é nova e já foi utilizada por diversos países, com graus variados de sucesso, nas últimas décadas (leia quadro). Nações como

"Alunos brasileiros têm formação sólida, são analíticos e sedentos para trabalhar”, diz a astrofísica m erav Opher

a Índia e a China, que mantêm estratégias agressivas de envio de pesquisadores para os países desenvolvidos, e outras como a Argentina, que perderam levas de pesquisadores por razões políticas e econômicas, são exemplos: aproveitam os talentos no exterior como interlocutores e alvos preferenciais para colaborações e buscam repatriar os que desejam voltar. O Brasil nunca sofreu um processo importante de fuga de cérebros, mas estima-se que 16 mil brasileiros com alta qualificação vivam no exterior. “O Brasil não considera esse capital intelectual no exterior como capital intelectual do país. Na China, cientistas radicados no exterior são ouvidos sobre a política científica do país”, diz Cristina Caldas. “O Brasil poderia beneficiar-se da contribuição de seus talentos no exterior. Eles poderiam receber alunos ou trabalhar com mentores. Não temos universidades brasileiras entre as 50 melhores dos rankings internacionais, mas temos brasileiros atuando nelas”, afirma. Leo Burd, do Centro de Aprendizado Móvel do MIT, diz que nunca viu articulação semelhante entre pesquisadores brasileiros nos 13 anos em que vive nos Estados Unidos. “Os pesquisadores que deixaram o Brasil queriam se desenvolver e enxergaram oportunidades melhores de atingir esse objetivo fora do país. O Brasil tem a ganhar se eles se articularem em redes e criarem canais para trabalhar em conjunto”, diz Burd, graduado em computação pelo ITA, mestre em design de software para educação pela Unicamp e doutor pelo MIT Media Lab.

O físico Eduardo Couto da Silva, que há dois anos decidiu retornar para o Brasil por razões pessoais depois de uma carreira de duas décadas em instituições como o Centro Europeu de Pesquisa Nuclear e a Universidade Stanford, fez uma palestra sobre sua experiência. Ele se defrontou com uma situação curiosa: instituições norte-americanas tentaram evitar que fosse embora, enquanto poucas brasileiras se interessaram em aproveitá-lo. “Na época fiquei chocado, mas hoje compreendo. A pós-graduação no Brasil tem apenas meio século, o grau de amadurecimento do nosso sistema de ciência e tecnologia ainda não é comparável com o dos países centrais e o processo de internacionalização da ciência brasileira está em curso. As agências de fomento buscam acelerar esse processo, mas não estamos no mesmo nível de maturidade.” Ele observa que não existe no Brasil um programa para atrair pesquisadores de classe mundial e mantê-los no país com financiamento garantido por um longo período de tempo. Mas ressalta que os pesquisadores não precisam voltar para contribuir com a ciência do país. Ele trabalha no Centro de Gestão e Estudos Estratégicos,

Conexões a distância

Como países criaram redes para aproveitar a contribuição de talentos no exterior

Colômbia

A Red Caldas foi criada em 1991 para integrar 900 pesquisadores radicados no exterior ao sistema de ciência e tecnologia do país. Desarticulou-se nos anos 2000, mas sub-redes em países como Bélgica e Suíça seguem ativas

Oriente MédiO

Com sede em Illinois, a Rede de Cientistas e Tecnólogos Árabes no Exterior (Asta) foi criada para servir de ponte entre cientistas radicados no exterior e instituições científicas e empresas dos países árabes

Chile

Com pouco mais de 100 membros, a rede Chile Global reúne empresários, pesquisadores e estudantes chilenos espalhados por 20 países. Oportunidades de trabalho e de projetos conjuntos são oferecidas ArgentinA

O programa Raices estimula colaborações entre pesquisadores argentinos radicados no exterior e seus colegas no país. Também repatriou 1 mil pesquisadores nos últimos anos

Brasil

A intenção do projeto Rede Diáspora Brasil é identificar e promover oportunidades de negócios envolvendo empresas brasileiras e profissionais altamente qualificados radicados no exterior

em Brasília, e envolveu-se no acordo institucional que o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) atualmente negocia com o MIT.

A presença no seminário de representantes da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) deu contornos concretos à ambição de criar pontes entre pesquisadores radicados no exterior e empresas brasileiras e gerar oportunidades em áreas que necessitam de conhecimento e tecnologia. “A ABDI foi importante para dar institucionalidade às iniciativas, o que não significa que elas devam depender do governo”, afirma Couto da Silva. Vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, a ABDI apresentou a Rede Diáspora Brasil, iniciativa em estruturação que busca conectar brasileiros no exterior com empresas e programas de estímulo à inovação. “O objetivo é criar uma plataforma de geração de negócios e projetos em áreas tecnológicas e estabelecer um canal de comunicação para conectar grupos de expatriados e oportunidades nacionais que, de outra forma, não se

China

A rede Chinese Scholars Abroad, criada para manter vínculos com chineses no exterior, perdeu importância desde 2008, quando o governo lançou plano de repatriação de pesquisadores altamente produtivos

África do Sul

A Rede Sul-Africana de Talentos no Exterior chegou a ter 2,2 mil membros em 60 países. Deixou de existir, mas deu lugar a iniciativas, como a Sable, que reúne profissionais e empresários do país radicados nos Estados Unidos

Índia

A Associação dos Profissionais Indianos no Vale do Silício congrega pesquisadores e empreendedores radicados na Califórnia, interessados em cooperar com o país natal em projetos tecnológicos

conectariam”, diz Eduardo Rezende, especialista em projetos da ABDI que esteve no MIT. “Queremos identificar oportunidades e fazer circular as informações. Empresas interessadas em se internacionalizar podem abrir oportunidades para talentos no exterior, assim como há pesquisadores e empreendedores capazes de colaborar no papel de mentores de projetos”, afirma.

O foco inicial da rede são os profissionais e as empresas brasileiras das áreas de tecnologia da informação e da saúde. Além de participar do simpósio em Cambridge, o grupo da ABDI organizou outras duas atividades nos Estados Unidos, um laboratório de aprendizagem em inovação no MIT, no dia 4, e uma oficina de trabalho na Universidade Georgetown, em Washington, com pesquisadores brasileiros de campos como biotecnologia e novos medicamentos. “Estamos construindo um diálogo com esses pesquisadores brasileiros interessados em levar a pesquisa e a inovação da universidade para as empresas nacionais”, afirma Rezende. n

A ciência vai ao público

semana Nacional de Ciência e tecnologia chega à 10ª edição com atividades em 700 municípios

b runo de pierro

na região central de Limeira, interior paulista, uma movimentação atípica de ônibus escolares nos arredores do parque da cidade chamou a atenção dos moradores em outubro. Todos os dias, os ônibus transportavam cerca de 3 mil alunos de escolas públicas da região até o Centro de Ciências, instalado dentro do parque. O local sediou o Festival de Ciências, Inclusão Tecnológica e Turismo, que ao longo de três semanas marcou a primeira participação do município na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, cuja 10ª edição foi realizada entre os dias 21 e 27 de outubro em mais de 700 cidades do país. Os responsáveis pela programação de Limeira iniciaram o festival no dia 10, antes da abertura oficial. “Começamos antes porque a quantidade de atividades era grande para caber em uma semana”, disse José Carlos Neres de Assis, coordenador da Semana na cidade e diretor do Centro de Ciências, vinculado à Secretaria Municipal de Educação. Desde a primeira edição da Semana, em 2004, um número crescente de municípios se mobiliza em torno do evento que se tornou um abrangente projeto

de difusão científica. Na primeira edição, 252 cidades foram responsáveis pela realização de 1.842 atividades. Em 2013, os números subiram para 700 cidades e aproximadamente 30 mil atividades. “Em nenhum país do mundo há um evento do gênero com essa abrangência territorial. Entre os países grandes, a Índia e a China não têm uma semana nacional de ciência e tecnologia e nos Estados Unidos e Canadá só existem semanas locais ou regionais, sem uma articulação nacional como acontece aqui”, explica o físico e criador da Semana, Ildeu de Castro Moreira, que este ano foi o vencedor da 33ª edição do Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica, em boa medida em reconhecimento por seu trabalho à frente da Semana e das atividades de popularização da ciência no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Na experiência brasileira, os municípios têm autonomia para organizar seus eventos, que incluem feiras de ciência, concursos, oficinas, tendas de ciência em lugares públicos, palestras e exibição de vídeos científicos, entre outros. “Há cidades em que a Semana produziu resultados duradouros. Belford Roxo, no

Rio de Janeiro, com a boa resposta da população às atividades da Semana, criou uma secretaria municipal de ciência e tecnologia para, entre outras finalidades, organizar o evento todos os anos”, diz Douglas Falcão Silva, coordenador-geral da Semana no MCTI, cargo que foi ocupado por Ildeu até o ano passado.

Criada para mobilizar a população, especialmente as crianças e os jovens, em torno de temas científicos, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia teve como tema em 2013 “Ciência, saúde e esporte”, com uma programação direcionada ao aprendizado sobre o funcionamento do corpo humano nos esportes. O tema foi escolhido para discutir os eventos esportivos mundiais que serão realizados no

Brasil, como a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Em várias cidades foram realizadas atividades interativas envolvendo modalidades esportivas, além de palestras com esportistas.

m O biliz A çã O

Em Limeira, além das atrações permanentes do Festival de Ciências, como o planetário, a minifazenda rural e as exposições Biomas do Brasil e Olho do céu, houve atividades com atletas da cidade campeões e medalhistas em Jogos Paralímpicos, que falaram sobre o impacto do esporte na superação da deficiência física. No estado de São Paulo, cerca de 37 cidades abrigaram atividades da Semana. Na capital, a principal atividade aconte-

um giroscópio gigante, escalada na árvore e a maior barata do mundo estavam entre as atrações que surpreenderam estudantes do ensino médio no parque Cientec, em são paulo

ceu sob coordenação da Universidade de São Paulo (USP). “O evento da universidade acontece há dois anos no Parque CienTec, que nesta edição recebeu cerca de 2 mil visitantes por dia e mobilizou mais de 300 voluntários”, afirma Roseli de Deus Lopes, uma das coordenadoras da Semana Nacional no estado.

“Nosso objetivo foi mostrar aos jovens que o conhecimento pode ser conquistado por meio de exemplos da vida cotidiana e que a curiosidade pode muitas vezes ser estimulada de maneira simples”, diz Fábio Ramos Dias de Andrade, diretor do Parque CienTec, ligado à Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP. Entre os destaques da programação estavam um giroscópio gigante, uma

trilha na floresta, escalada em árvores e a travessia, de uma plataforma a outra, utilizando uma bicicleta instalada sobre uma corda. “Nunca havia feito isso antes. Enquanto estava no alto, pude respirar ar puro, ver mais de perto as folhas da árvore e ainda ouvir explicações sobre forças da física e gravidade”, conta Patrícia Rocha Cabral, 14 anos, aluna do primeiro ano do ensino médio da Escola Estadual Simon Bolívar, em Diadema, depois de escalar uma árvore com o auxílio de alunos de graduação do Instituto de Biociências da USP, que trabalharam como voluntários. O estande do Instituto Biológico se destacava no pavilhão que reuniu exposições de unidades da USP e de outras instituições. As atrações – in-

setos vivos – à primeira vista causavam repulsa no público. O medo logo dava lugar à curiosidade e todos queriam tocar nos bichos. Os mais visitados pelas crianças eram um bicho-pau fêmea, um inseto de 22 centímetros muito parecido com um graveto; a maior barata do mundo, a de Madagascar, cujo tamanho varia de 5 a 9 centímetros; e a maior barata do Brasil, conhecida como barata-fantasma.

No interior do estado, parcerias entre cidades foram feitas para aumentar o impacto e o público. Um exemplo, diz a professora Roseli, é o município de Bauru, que participa do projeto desde a primeira edição em 2004 e concentra várias atividades. Cerca de 30 instituições participaram da Festa da Ciência – evento que integra a Semana Nacional e que, neste ano, recebeu um público de cerca de 10 mil pessoas. Parte dessas instituições e do público visitante é de cidades próximas, como Botucatu e Jaú. O evento de Bauru também inspirou a entrada de novos municípios na Semana Nacional. "Instituições de cidades como Franca, São José do Rio Preto e

"O conhecimento é conquistado por meio de exemplos da vida cotidiana", diz fábio Ramos

1 e studantes participam da abertura da semana Nacional em parintins, no amazonas

2 visitantes observam experimento durante o evento de bauru

3 atividade da semana em bauru para estimular a doação de sangue

Adamantina nos procuraram para conhecer o modelo, organizado de forma horizontal e descentralizada, não de cima para baixo. O mesmo aconteceu com universidades do Norte e do Nordeste”, explica o jornalista Luís Victorelli, coordenador da Semana em Bauru.

Bauru tem uma produção científica significativa associada à presença da Faculdade de Odontologia e do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, ambos da USP, do Instituto Lauro de Souza Lima, especializado em hanseníase, e de unidades da Universidade Estadual Paulista (Unesp), além de entidades e instituições privadas. Com a Semana, a comunidade científica da cidade engajou-se em ações de divulgação científica, diz Victorelli. Também são frutos desse engajamento a fundação, em 2012, da Associação Baurense de Ciência e Tecnologia (ABCT), que organiza atividades de divulgação científica na cidade; e a criação pelo município da Escola Parque de Difusão de Ciência e Tecnologia (a Estação Ciência de Bauru), em 2010, em fase de implementação.

A Semana Nacional cumpre um papel de levar atividades a um público pouco familiarizado com a ciência. De acordo com dados da Pesquisa de Percepção em Ciência e Tecnologia 2010, coordenada pelo MCTI, somente 8,3% da população brasileira visita, a cada ano, museus ou centros de ciência e tecnologia, plataformas utilizadas no mundo inteiro para aproximar o conhecimento científico do cotidiano da população. Um levantamento da Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciência, realizado em 2009, mostra que o país tem mais de 190 centros e museus de ciência. “Esse número ainda é pequeno. É preciso multiplicar esses espaços em todo o território, mas isto custa caro”, avalia o coordenador Douglas Falcão Silva.

pe R dA de fôleg O Ildeu de Castro Moreira diz que a adesão de novas cidades – Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, e Limeira, por exemplo –, sobretudo no interior do país, mostra que é viável criar uma mobilização nacional todos os anos. “A Semana Nacional se transformou num evento que articula governos estaduais, municipais e federal, além das instituições de ensino e pesquisa”, avalia. Ildeu admite que houve perda de fôlego em algumas cidades, como Florianópolis, que diminuiu o número de atividades promovidas. “Como se trata de um evento descentralizado, as coordenações estaduais ou municipais estão suscetíveis a modificações locais de políticas ou de governantes”, diz ele. Os exemplos mais fortes de sucesso no interior do Brasil estão na região Norte. No ano passado, o Amazonas se tornou o único estado a mobilizar todos os seus municípios – são 62 – em atividades presenciais na Semana Nacional. “Isso representa um avanço no desafio de interiorizar a ciência”, afirma Odenil-

do Teixeira Sena, secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação e coordenador da Semana no Amazonas. Para comemorar a marca, este ano a abertura do evento foi pela primeira vez transferida de Manaus, onde a cerimônia é feita desde 2004, para o município de Parintins, a 300 quilômetros da capital. Outra mudança atingiu o enfoque da programação, que dessa vez privilegiou a inovação em micro e pequenas empresas financiadas com recursos públicos. Uma dessas empresas apresentou um salame feito de cupuaçu, e outra, uma geleia de araçá-boi, fruto da Amazônia ocidental. Até 2007, a única fundação de amparo à pesquisa na região Norte era a do Amazonas (Fapeam). Hoje, apenas Roraima não dispõe de uma FAP. Segundo Sena, o surgimento das fundações criou um clima favorável para a Semana Nacional na região. Rondônia, que promoveu 20 atividades em 2004, teve mais de 2 mil este ano. Para a geógrafa Catia Zuffo, professora da Universidade Federal de Rondônia (Unir) e uma das coordenadoras que atuam na Semana no estado desde 2005, o evento amplia o contato entre a universidade e as comunidades mais afastadas. “Neste ano desenvolvemos atividades até para comunidades ribeirinhas e quilombolas. Aqui o público da área rural é expressivo”, diz. Os integrantes do Acqua Viva – grupo de pesquisa em meio ambiente e bacias

"A Semana é um evento que articula governos estaduais, municipais e federal", diz ildeu de Castro

município de São Miguel do Guaporé, uma das participantes do grupo.

hidrográficas coordenado por Catia –mostraram os resultados de seu trabalho na programação de Porto Velho e incentivaram a mobilização pela Semana no interior do estado, por meio de uma rede de voluntários. “Faço expedições de barco com meus alunos do ensino médio pelo vale do Guaporé, onde desenvolvo um trabalho articulando cultura local e consciência ambiental”, diz a professora de geografia Marlene Tomazoni, da Escola Estadual Princesa Isabel, no

O exemplo mostra como é possível adaptar atividades de divulgação científica às condições locais. “Mas uma dificuldade é que muitos municípios pensam que não têm capacidade de abrigar a Semana porque não têm universidades ou institutos de pesquisa”, conta Douglas Falcão Silva, do MCTI. Por isso o ministério ajuda algumas cidades a identificar onde está localizada sua produção científica. “Uma fábrica que desenvolveu um novo processo para confeccionar tecido, isso envolve ciência, tecnologia e inovação. Não é verdade que só é ciência o que vemos em grandes laboratórios. É preciso levar em conta os conhecimentos locais”, diz. Outro empurrão, cujos efeitos não se limitam à Semana, foi a criação em 2012 de uma aba do Currículo Lattes, na qual o pesquisador pode registrar atividades de divulgação científica. “O CNPq viu a necessidade de destacar no currículo do pesquisador as atividades que privilegiam a divulgação científica. Acreditamos que isso está incentivando um número maior de pesquisadores e estudantes a participar da Semana Nacional”, diz Ildeu de Castro Moreira. n

iND i C a DO res y

Cooperação mais forte

fapesp ampliou esforço para internacionalizar a ciência paulista, mostra Relatório de atividades 2012

oesforço para tornar a pesquisa no estado de São Paulo cada vez mais internacionalizada se destaca no Relatório de atividades 2012 da FAPESP, balançocom os principais indicadores e iniciativas da Fundação no ano passado, lançado em outubro. No ano em que comemorou seu cinquentenário, a Fundação realizou dois simpósios internacionais, um na América do Norte, outro na Espanha, em que pesquisadores de instituições paulistas apoiados por ela puderam mostrar seus trabalhos e estreitar relações com colegas do exterior.

Vinte e dois novos acordos de cooperação científica com instituições do exterior foram assinados em 2012, seis deles com agências de fomento e 16 com instituições de pesquisa ou ensino superior. Somados aos 43 celebrados em anos anteriores, a Fundação encerrou 2012 com 65 acordos de cooperação envolvendo organizações de 14 países. “O que explica o desejo da FAPESP de interagir com outras nações é que o empenho para aumentar o intercâmbio gera e amplia conhecimento em todas as áreas em que ele ocorre”, diz o presidente da FAPESP, Celso Lafer. “No mundo con-

temporâneo, a ciência é uma atividade que depende mais e mais do esforço de cooperação transfronteiras, inclusive porque muitos dos fenômenos mais importantes com que ela se depara ocorrem internacionalmente”, afirma.

A FAPESP, mostra o relatório, destinou R$ 1,03 bilhão para a pesquisa científica e tecnológica no estado de São Paulo em 2012, um volume de recursos recorde, superior em 10,2% ao liberado em 2011. Entre 2007 e 2012, a receita da FAPESP cresceu 72,49% e seu desembolso avançou 88,36%. Para realizar seu trabalho, a FAPESP contou com o apoio de 8.976 assessores que emitiram 22.941 pareceres. “O relatório mostra de forma consolidada, detalhada e transparente as realizações da FAPESP em 2012, garantindo a visibilidade pública que a fundação quer, e precisa, dar a suas atividades”, diz o diretor científico da Fundação, Carlos Henrique de Brito Cruz. Desde 2005, os relatórios de atividades são ilustrados com reproduções de obras de grandes artistas do estado de São Paulo. “Este ano temos o prazer de homenagear Tomie Ohtake, grande figura que inovou de maneira extraordinária as artes plásticas do Brasil e

investimento ascendente

evolução do desembolso realizado pela fapesp entre 2007 e 2012 (em r$) e da participação percentual de cada objetivo de fomento

ApOiO à peSQuiSA COm ViStAS A ApliCAçÕeS programa biota-fapesp; programa fapesp de pesquisa em bioenergia (bioen); programa fapesp de pesquisa sobre Mudanças Climáticas globais (pfpMCg); programa Centros de pesquisa, inovação e Difusão (Cepid); Cooperação interinstitucional de apoio a pesquisas sobre o Cérebro (CinapCe); auxílios e bolsas das áreas de engenharias, saúde, agronomia e veterinária; programa tecnologia da informação no Desenvolvimento da internet avançada (tidia); ensino público; Jornalismo Científico (MídiaCiência); programas de pesquisas em políticas públicas: pesquisa em políticas públicas e pesquisa em políticas públicas para o sus (pp-sus); programas de apoio à pesquisa inovativa em Micro e pequenas empresas: pesquisa inovativa em pequenas empresas (pipe), programas de apoio à pesquisa em empresas (pipe fase 3: pappe/ finep); pesquisa em parceria para inovação tecnológica: pesquisa em parceria para inovação tecnológica (pite), pesquisa em parceria para inovação tecnológicasus (pite-sus); programa de apoio à propriedade intelectual (papi/Nuplitec)

ApOiO à infRAeStRutuRA de peSQuiSA apoio à infraestrutura de pesquisa; rede aNsp (academic Network at são paulo); equipamentos Multiusuários; fap-Livros; reserva técnica para infraestrutura institucional de pesquisa; reserva técnica para Conectividade à rede aNsp; reserva técnica para Coordenação de programa 549.571.361

que tem o mérito de, em sua ilustrada maturidade de 100 anos, continuar se dedicando à sua obra”, ressaltou Celso Lafer. Nascida em Kyoto e radicada em São Paulo desde os 23 anos, Tomie Ohtake criou uma obra, constituída por pinturas, gravuras e esculturas, que é reconhecida internacionalmente como uma das mais representativas do abstracionismo contemporâneo.

CO n S tituiçã O

A FAPESP recebe e investe em pesquisa recursos assegurados pela Constituição paulista equivalentes a 1% da receita tributária do estado. Em 2012, a receita da Fundação alcançou R$ 1,09 bilhão, 5,6% superior à de 2011. Esse volume é composto pelos recursos do Tesouro estadual (81,93%) e outras fontes de receita (18,07%), como recursos próprios e de convênios com outras agências de fomento, empresas e instituições brasileiras e estrangeiras, interessadas em apoiar pesquisa em colaboração e em temas de interesse comum.

Na linha de programas regulares, aqueles que atendem a demanda espontânea dos pesquisadores, foram contratados 7.601 bolsas e 4.292 auxílios à pesqui-

ApOiO AO AVAnçO dO COnHeCimentO bolsas regulares no país: iniciação Científica, Mestrado, Doutorado, Doutorado Direto e pós-Doutorado; bolsas regulares no exterior: pesquisa, Novas fronteiras e bolsa estágio de pesquisa no e xterior (bepe); auxílios à pesquisa – regulares; auxílios à pesquisa – projetos temáticos, com as subdivisões: temáticos regulares, temáticos pronex e temáticos institutos Nacionais de Ciência e tecnologia, os dois últimos em convênio com o MC ti; apoio a Jovens pesquisadores; são paulo e xcellence Chairs (spec); Capacitação de recursos Humanos para pesquisa (Capacitação técnica)

O relatório é ilustrado com obras da artista plástica tomie Ohtake, que completa 100 anos neste mês

sa em 2012. Em comparação com 2011, a FAPESP destinou 20% mais recursos para bolsas. Para auxílios regulares, os recursos foram ampliados em 31%. Já no âmbito dos Programas Especiais, talhados para induzir a pesquisa e superar carências em áreas consideradas estratégicas, foram contratados 1.227 novos projetos. Entre os Programas de Pesquisa para Inovação Tecnológica, que apoiam pesquisas capazes de desenvolver novas tecnologias ou de gerar polí-

ticas públicas, 191 novos projetos foram contratados em 2012.

Universidades e instituições de pesquisa que concentram mais grupos de pesquisas recebem, naturalmente, um volume maior de recursos. Não surpreende, portanto, que 47,78% do desembolso da FAPESP em 2012 tenha se destinado a projetos coordenados por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). Outros 13,86% foram aplicados em projetos da Universidade Estadual Paulista (Unesp), 13,18% na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e 13,13% em projetos de pesquisadores de instituições federais no estado de São Paulo. A área da saúde tradicionalmente recebe a maior quantidade de recursos, porque concentra um grande volume de pesquisadores no estado. Em 2012, as pesquisas na área receberam R$ 308,36 milhões, 20,95% a mais do que em 2011 –e o equivalente a 29,79% do total desembolsado pela FAPESP. Outras áreas que se destacam são a biologia, com 17,11% do total; engenharia, com 10,59%; ciências humanas e sociais (10,4%); e agronomia e veterinária (9,41%). A ciência e a engenharia da computação, embora não estejam entre as áreas mais aquinhoa-

das, receberam em 2012 recursos 58% superiores aos de 2011.

A FAPESP mudou a classificação de seus objetivos de fomento para tornar mais claro o alcance científico, social e econômico dos projetos que apoia. A classificação se divide agora em Apoio à Pesquisa com Vistas a Aplicações (53% do total), Apoio ao Avanço do Conhecimento (37% do total) e Apoio à Infraestrutura de Pesquisa (10% do total). A Fundação agrupou como Apoio ao Avanço do Conhecimento programas que qualificam a formação de recursos humanos e estimulam a pesquisa acadêmica (ver quadro). O Apoio à Pesquisa com Vistas a Aplicações compreende os programas com claros objetivos de aplicação e interesse econômico e social. O Apoio à Infraestrutura de Pesquisa busca assegurar a infraestrutura necessária para a continuidade das pesquisas do estado de São Paulo. Até 2011, a classificação englobava Apoio à Formação de Recursos Humanos (bolsas), Apoio à Pesquisa Acadêmica e Apoio à Pesquisa Voltada a Aplicações. “Não se trata apenas de mudança de nomenclatura, e sim de um reagrupamento de programas para facilitar a compreensão de que tipo de pesquisa apoiada pela FAPESP possibilita aplicações possíveis em curto e médio prazos, quais geram conhecimento necessário para a construção de futuras aplicações e quais são os investimentos que asseguram a infraestrutura necessária para a continuidade das pesquisas, de qualquer natureza”, explica Celso Lafer.

e ng AJA mentO inte R n AC i O n A l

A intensa atividade de internacionalização que ocorre na FAPESP ganhou mais visibilidade em dois simpósios no exterior destinados a mostrar o trabalho de cientistas apoiados pela Fundação: o FAPESP Week 2012, que em outubro ocorreu em quatro cidades da América do Norte (Toronto, Cambridge, Washington e Morgantown), e o Fronteras de La Ciência, em dezembro, em duas cidades espanholas (Salamanca e Madri). Em 2013, tais iniciativas prosseguiram, com edições do FAPESP Week no Japão, no Reino Unido e, neste mês, nos Estados Unidos.

O engajamento internacional da FAPESP também levou à realização de um evento para discutir temas que estariam na pauta da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), ocorrida em junho de 2012, a

em 2012 foram contratadas 903 bolsas no exterior, 334% a mais que em 2011

partir das pesquisas realizadas no âmbito de programas da FAPESP como o Biota, sobre a biodiversidade paulista; o Bioen, de pesquisa em bioenergia; e o de Mudanças Climáticas Globais. Paralelamente a esse evento, realizou um seminário para jornalistas de vários estados brasileiros e outros países da América Latina para capacitá-los para a cobertura da Rio+20. Após a conferência, em agosto, a FAPESP realizou o segundo workshop conjunto dos programas Bioen-Biota-Mudanças Climáticas: O Futuro que Não Queremos, que reuniu 149 pesquisadores para avaliar os resultados e discutir o tom da participação de cientistas brasileiros nas próximas reuniões internacionais sobre ambiente e sustentabilidade.

A Fundação também apoiou fortemente o trânsito de pesquisadores, tanto enviando estudantes e cientistas paulistas para o exterior como trazendo pesquisa-

dores de fora. Em 2012 foram contratadas 903 bolsas no exterior, 334% a mais que em 2011. O crescimento se explica, em certa medida, pela criação da Bolsa de Estágio de Pesquisa no Exterior (Bepe), cujos beneficiadostiveram como principais destinos os Estados Unidos, Canadá, Austrália, França, Inglaterra, Espanha, Portugal e Alemanha. Outra frente importante consistiu em trazer estrangeiros para o Brasil e atrair de voltabrasileiros radicados no exterior. As bolsas de pós-doutorado no país da FAPESP têm sido concedidas a um número crescente de pesquisadores do exterior, atraídos poroportunidades de pesquisa em universidades e instituições do estado de São Paulo. Em 2012, pesquisadores vindos de outros países foram responsáveis por 15% das concessões de bolsas de pós-doutorado, com maior destaque para as ciências exatas

tomie Ohtake, 2000

e da Terra e ciências biológicas. A Fundação também financiou a vinda de 254 pesquisadores visitantes do exterior no ano passado.

O ano de 2012 marcou a criação de um programa-piloto da FAPESP, as São Paulo Excellence Chairs (Spec), que busca estabelecer colaborações entre instituições do estado de São Paulo e pesquisadores de alto nível que trabalham fora do país. Nesse programa, os pesquisadores seguem vinculados a suas instituições de origem e se comprometem a perma-

necer no Brasil durante pelo menos 12 semanas ao longo de cada um dos cinco anos mínimos de duração do projeto, coordenando um grupo de bolsistas da FAPESP, entre pós-doutores, doutores e alunos de iniciação científica. Dois projetos temáticos foram aprovados no âmbito do programa no ano passado. Um deles trouxe para o Brasil o casal de cientistas Victor e Ruth Nussenzweig, brasileiros radicados nos Estados Unidos desde a década de 1960, que se tornaram referência na busca de vacinas e trata-

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mentos contra a malária. Andréa Dessen de Souza e Silva, brasileira radicada na França, teve um projeto selecionado no programa para comandar um grupo de pesquisa no Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), em Campinas. “O programa Spec complementa a estratégia de conexões internacionais, criando um fluxo em direção a São Paulo de lideranças internacionais em pesquisa de instituições renomadas”, diz Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP. n f abrício marques

C i Ê n C i A e COLO gia y o s círculos do tempo

Ciência também se faz com músculos e suor. Com uma calça verde recém-colocada sobre a que já vestia, luvas grossas, capacete vermelho com uma tela sobre o rosto e protetores de ouvido, o botânico Gregório Ceccantini liga a motosserra, mais uma vez, no meio da tarde de 12 de setembro. O cheiro de gasolina do motor se espalha pelo ar seco da Estação Ecológica dos Caetetus, uma reserva de mata atlântica no município de Gália, região central do estado de São Paulo. A lâmina espalha serragem à medida que corta o tronco de uma árvore morta que se alonga em meio às que permanecem distintamente em pé. Depois de serrar o tronco até o fim, o professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) desliga a motosserra e a põe sobre o chão coberto de folhas secas, tira o capacete e puxa o primeiro disco de madeira da peroba-rosa.

“Vejam que lindo”, ele diz, agachando-se e colocando o disco de madeira avermelhado sobre uma das pernas para mostrar os anéis concên-

Com motosserras e furadeiras, brasileiros e alemães coletam amostras de árvores para ver variações de umidade e temperatura ao longo de séculos

t e XtO Carlos fioravanti

fOtOs léo Ramos, de gália, sp

tricos, de largura variável, que indicam a velocidade de crescimento anual das árvores: quanto mais largo, mais a árvore cresceu naquele ano, em resposta ao suprimento de água e nutrientes. Ceccantini, em colaboração com Dieter Anhuf, da Universidade de Passau, sul da Alemanha, tem examinado os anéis para ver as respostas de árvores de várias espécies do Norte e do Sudeste do Brasil às variações de umidade e temperatura, à duração das estações secas e chuvosas – enfim, às mudanças do clima – nos últimos séculos. Com árvores de Minas Gerais, a equipe da USP conseguiu detectar as variações locais do clima desde 1940 (ver gráfico na página 44), complementando os estudos de reconstituição climática em uma escala de tempo maior, da ordem de milhares de anos, feitos por meio de pólen e de minerais de cavernas. Essa abordagem tem indicado que, em algumas espécies de árvores, a elevação dos níveis de gás carbônico (CO2) na atmosfera, como a prevista para as próximas décadas, pode não ser o bastante para acelerar o crescimento, porque a

1 e 2 gregório

Ceccantini serra uma peroba-rosa já morta e extrai um cilindro de madeira de uma figueira viva

3 e 4 stefan e erika coletam amostra de madeira de uma

árvore, enquanto phillip inicia biópsia em outra

elevação da temperatura, também prevista, pode favorecer a perda de água e conter o crescimento dos tecidos vegetais.

Os anéis mais internos do disco recém-cortado da peroba-rosa são finos. A provável razão, explica Ceccantini, é que no início a árvore devia crescer timidamente à sombra de outras. Os anéis vizinhos são mais largos e sugerem que a peroba tinha chegado ao dossel, absorvia mais luz e crescia de modo acelerado. Os anéis mais próximos da casca são, outra vez, finos, sinal de que o ritmo de crescimento vinha reduzindo, ou porque a árvore já definhava antes de cair ou porque outras tinham chegado ao alto da floresta e a competição por luz se intensificara. Em seguida, Ceccantini coloca sobre o tronco cortado a fatia de madeira pesando de 20 a 30 quilos, raspa a superfície do disco com um estilete e conta os anéis com uma lupa. “Numa contagem grosseira”, ele estima, “esta árvore tem de 180 a 200 anos”. A bióloga Paula Jardim estica uma trena ao longo do tronco e conclui que a árvore de 23 metros da base até o início da copa deve ter morrido em pé e depois caído, há um ou dois anos. Ceccantini toma fôlego, recoloca o equipamento e recomeça a fatiar a peroba caída gerando muito barulho e serragem vermelha. Com as árvores vivas o trabalho é mais delicado. A poucos metros de distância, escondido pelas trepadeiras que formam uma teia de galhos entre as árvores, o geógrafo alemão Stefan Krottenthaler faz uma espécie de biópsia, perfurando o tronco de uma árvore com um tubo de metal preso a uma furadeira à gasolina. A furadeira vai e volta sobre um trilho de alumínio que ele mesmo projetou e construiu, sustentado por dois pés e por um cintu-

rão amarrado ao tronco. Ele tem de fazer força para empurrar a furadeira e fazer o tubo penetrar a madeira dura. Stefan morou dois anos e meio no Brasil, incluindo seis meses entre os índios xavantes de Mato Grosso, e faz o doutorado na Universidade Passau.

Após um bom tempo, Stefan afasta a furadeira, solta o tubo e, de dentro, retira um cilindro de 20 centímetros de comprimento com sucessivas camadas em tons de rosa, correspondentes aos anéis de crescimento da árvore. Seu colega Hans Broschek, pela primeira vez no Brasil, guarda o cilindro de madeira em uma maleta de couro enquanto Stefan faz o equivalente a um curativo na árvore, borrifando um fungicida no buraco que fez e fechando-o com uma rolha de cortiça. Duas

semanas antes eles estavam em outra reserva de mata atlântica, o Parque Estadual Vassununga, em Santa Rita do Passa Quatro, a 250 quilômetros da capital, e suaram muito mais para colher uma amostra de um jequitibá-rosa de 40 metros de altura e 3 metros de diâmetro. Nas semanas seguintes, a equipe de Ceccantini preparou e examinou todo esse material em um galpão da USP que parece uma marcenaria,

oxigênio 16 e o 18, e de carbono, o carbono 12 e o 18, da celulose da madeira. “Até o momento, os estudos que avaliam os anéis de crescimento das árvores foram realizados principalmente em regiões de elevada altitude e em florestas nórdicas”, conta Anhuf. “As pesquisas em regiões tropicais e subtropicais ainda são raras.”

Amostras coletadas no b rasil
seguirão para a análise de isótopos de oxigênio e carbono na Alemanha

ao lado de lagos com plantas de flores brancas e estufas de plantas. Os discos de madeira são aplainados, lixados até ficarem brilhantes e cortados. Depois são analisados sob um equipamento que determina a distância entre os anéis, que por sua vez indica a taxa anual de crescimento e a idade de cada árvore. Feita a cronologia, de 5 a 10 amostras de cada espécie e de cada lugar seguirão para Potsdam, onde a equipe da USP e a de Dieter Anhuf e Gerd Helle vão determinar os teores de dois isótopos (formas) estáveis de oxigênio, o

A proporção entre os isótopos indicará os efeitos da chuva e da temperatura sobre o crescimento das árvores e até a origem e a direção da chuva que chegou a elas. Deixando de lado os detalhes técnicos, o raciocínio é simples: como o oxigênio 18 é mais pesado e precipita mais facilmente que o 16, a água que o contém em maior concentração deve ter vindo de uma região próxima, como o Sul do país ou o Atlântico Sul, enquanto a água com mais oxigênio 16 deve ter vindo de regiões mais distantes, como a Amazônia.

“O interior de São Paulo representa uma situação de transição”, diz Stefan, “porque está sujeito à influência de massas de ar do norte e do sul. Como é esse jogo?” Ele espera que a proporção entre os isótopos revele qual massa de ar predominava sobre a outra nas estações chuvosas e secas, ao longo dos anos. Depois, “por meio de uma matemática muito sofisticada”, diz Ceccantini, os pesquisadores esperam converter as informações sobre a sequência dos anéis e a proporção entre os isótopos em gráficos que indiquem como a variação do clima e a circulação da umidade na atmosfera – os chamados rios voadores – influenciaram o crescimento das árvores da mesma espécie em lugares diferentes ou de espécies diferentes no mesmo lugar ao longo dos últimos séculos.

étrabalhoso, lento e difícil. A boa notícia é que essa abordagem já está dando certo, ao indicar as reduções no crescimento das árvores em resposta à redução da precipitação e à elevação da temperatura. Em 2010, com base no mesmo tipo de análise, Roel Brienen, da Universidade de Leeds, Inglaterra, e outros especialistas do México e da Holanda analisaram os anéis de uma espécie de árvore do sul do México, Mimosa acantholoba, e concluíram que o crescimento, ao menos dessa espécie, pode diminuir em até 37% nos anos de El Niño, o aquecimento das águas do Pacífico equatorial, uma possível causa de estiagens na América do Sul. Além disso, usando modelos matemáticos de simulação climática, eles estimaram uma redução de até 20% na taxa de crescimento dessa espécie, no cenário de maior emissão de gás carbônico na atmosfera, como previsto para as próximas décadas.

A vida de um jatobá

gráfico mostra variações de crescimento das árvores em 60 anos

Jatobá-do-cerrado (H. stigonocarpa)

índiCe

Jatobá-da-floresta (H. courbaril)

Em Minas Gerais, as variações no ritmo de crescimento dos jatobás é que estão revelando as oscilações da chuva e da temperatura desde 1940 (ver gráfico acima). Durante dois anos, Giuliano Locosselli, da equipe de Ceccantini, analisou os anéis dos troncos de duas espécies de jatobás –a de floresta, Hymenaea courbaril, a de cerrado, H. stigonocarpa – que viviam em uma mata no município de Matosinhos, a 80 quilômetros de Belo Horizonte. A escolha do lugar foi casual: Ceccantini estava ali perto em um levantamento arqueológico quando soube que a mata seria derrubada, refez os planos para aproveitar o momento, conseguiu salvar 20 discos de jatobá e voltou feliz com a caça inesperada: “Lotamos nossa caminhonete”, recordou. A mais antiga das amostras, como viram depois, tinha 145 anos – do Morro do Diabo, uma reserva de mata atlântica no extremo oeste do estado de São Paulo, trouxeram uma amostra ainda mais antiga, com 190 anos.

As duas espécies responderam de modo diferente às variações do clima nas últimas cinco décadas. De acordo com as análises das larguras dos anéis, do calibre dos vasos condutores de seiva e da eficiência de uso da água, detalhadas em um estudo publicado em 2012 na revista Trees, a chuva tem um efeito pronunciado sobre o crescimento dos anéis e dos vasos condutores de seiva do jatobá-da-floresta, enquanto a temperatura parece ter uma influência maior sobre o crescimento da espécie do cerrado. Ambas apresentaram um ganho de eficiência no uso da água – já que reduziram a perda por transpiração, mas só as árvores com as menores taxas de crescimento –, sugerindo que essas espécies não respondem de modo proporcional ao aumento de

concentração de CO2 na atmosfera.

“Vemos o aumento gradual de CO 2 nos anéis, mas essas espécies de jatobá não crescem mais com mais CO 2 , como se esperava”, afirma Locosselli. Segundo ele, o aumento da concentração de CO2 na atmosfera, previsto para as próximas décadas, deve compensar o efeito da elevação da temperatura: “As árvores crescem menos se a temperatura sobe, porque tendem a perder mais água”. Outro trabalho de que participou indicou que o Podocarpus, um gênero de conífera hoje restrito a áreas de clima frio e úmido do sul do país, sobrevive em ilhas de vegetação do Morro do Chapéu, no norte da Bahia, crescendo menos de 1 milímetro por ano, sete vezes menos que as representantes da mesma espécie que vivem ao sul. Locosselli pretende em outubro coletar jatobá, pela segunda vez, no Pará – essas amostras devem ajudar a rastrear variações na extensão das massas de ar vindas do Atlântico sobre a Amazônia. Desde agosto, quando começaram a trabalhar juntos, o grupo de São Paulo e o da Alemanha coletaram 120 amostras de jatobás, jequitibás e outras espécies no estado de São Paulo e de mais de uma centena de árvores de Goiás, Bahia, Rondônia e Pará, “incluindo três cabreúvas de cerca de 240 anos!”, ressalta Ceccantini. “Em dois anos, queremos chegar a 400 novas amostras.” A coleção de madeiras (xiloteca) sob sua responsabilidade tem 5 mil amostras catalogadas e 3 mil em fase de registro.

1 Cilindros de madeira são identificados e acondicionados antes de seguir para a alemanha

2 e 3 Depois de polido, disco é analisado por aparelho que infere as condições de clima em que cresceu a árvore

e spécies diferentes de jatobá respondem de modo distinto a variações de umidade e temperatura

Uma das expedições de agosto, ao Parque Estadual Carlos Botelho, a 200 quilômetros da cidade de São Paulo, foi particularmente difícil, sob uma chuva contínua. “Não choveu muito”, recordou-se Locosselli, “mas foi o bastante para cada um de nós cair algumas vezes”. Tiveram de caminhar horas a fio até acharem outra árvore da mesma espécie que haviam coletado, atravessando terrenos escorregadios e ladeiras – a altitude ali varia de 50 a 800 metros – em meio a um inferno de trepadeiras. Pela primeira vez no Brasil, o geógrafo alemão Philipp Pitsch tomou muita chuva, viu as bromélias crescendo sobre uma diversidade imensa de árvores e com uma mistura de êxtase e medo concluiu que estava em uma autêntica selva. “As florestas da Alemanha têm árvores de apenas duas ou três espécies”, ele se lembrou depois, no início da noite, no alojamento da reserva de Gália. Para ele o cansaço do fim do dia era intenso não só porque não estava acostumado a andar em florestas tropicais, mas também porque, por ter servido dois anos no Exército e ser um dos mais fortes do grupo, era o mais requisitado para carregar os discos de madeira e os equipamentos pesados. “Era um lugar lindo”, assim Erika Righetto Ifanger lembrou-se da mata de Carlos Botelho, também pela primeira vez em uma floresta com um grupo de pesquisadores. “Sim, garoava todo dia, mas foi bom porque assim ninguém pegava carrapato e mosquito.” Escoteira dos 6 aos 21 anos, agora no último ano do curso de biologia, Erika usou uma motosserra em campo pela

primeira vez na manhã de 12 de setembro, para cortar uma peroba-rosa, como a que Ceccantini tinha cortado no dia anterior. Pouco antes, com um chapéu à Indiana Jones e vários instrumentos de trabalho presos em um cinto, Ceccantini tinha furado, à mão, com uma sonda especial, o tronco de uma figueira, que não tem anéis de crescimento, mas cuja idade ele pretende reconstruir por meio de isótopos de espécies vizinhas na mata.

depois de cortar a madeira, Erika carregou os discos até a caminhonete estacionada em uma pequena estrada que corta a floresta de Caetetus, enquanto Philipp Pitsch, com um lenço azul na cabeça, perfurava uma árvore com uma das furadeiras, Hanz e Paula o ajudando porque o trilho de alumínio estava sendo usado por Stefan. “Aqui, o suor é garantido”, diz Ceccantini. “O mais difícil é depois do terceiro ou quarto dia, quando o corpo já está doendo e temos de continuar.” Em Caetetus há muito trabalho. Há cerca de 20 anos, de 2 mil a 3 mil árvores caíram por causa provavelmente de uma tempestade muito forte – e as que não apodreceram ainda são encontradas por toda a reserva. Há também um bocado de gratidão. “Todas essas árvores grandes se devem a um só homem, Olavo Amaral Ferraz, que protegeu essa mata na fazenda dele, depois comprada pelo governo para criar a reserva”, reconhece Ceccantini. Locosselli pede para não esquecer os mateiros – Nelson Donizetti Correa e Antônio Crema, em Vassununga, Natanael Ozorio da Silva e Pedro Ozorio da Silva, em Carlos Botelho, e Sergio Aparecido Esborini, em Caetetus – que os acompanham na mata, ajudam a encontrar e identificar as árvores, escolhem os caminhos e alertam para os perigos de acidentes ou de animais venenosos que normalmente eles são os primeiros a ver. “Em um dos dias em Carlos Botelho, nos perdemos de seu Pedro, um senhor de 62 que anda na mata mais rápido que qualquer um de nós, e passamos o dia inteiro para encontrar apenas uma árvore”, diz Locosselli. “Sem eles, não teríamos coletado nem a metade do que coletamos.” n

projeto

twentieth century changes of tree ring isotopes in southeastern b razilian forests: how do climate conditions influence growth and water use efficiency and thus enforce tree migration (fapesp-Dfg) (2012/50457-4); modalidade Linha regular de auxílio a projeto de pesquisa; Coords. gregório tápias Ceccantini – usp e Dieter anhuf – universidade de passau; Investimento r$ 236.482,86 (fapesp) e € 336.380,00 (Dfg)

artigos científicos

brieNeN, r . J. et al. Climate-growth analysis for a Mexican dry forest tree shows strong impact of sea surface temperatures and predicts future growth declines. global Change biology. v. 16, p. 2001-12. 2010. LOCOsseLLi, g. M. et. al a multi-proxy dendroecological analysis of two tropical species (Hymenaea spp., Leguminosae) growing in a vegetation mosaic. trees. v. 27, n.1, p. 25-36. 2012

s egredos do azul do mar

pouco conhecidos, ambientes costeiros e marinhos abrigam grande biodiversidade e têm potencial para gerar novas moléculas

Do litoral de cabo Orange, no estado do Amapá, ao singelo curso d’água de Arroio Chuí, extremo sul do Rio Grande do Sul, incluindo os arquipélagos de Fernando de Noronha e de São Pedro e São Paulo e as ilhas de Trindade e Martim Vaz, a costa brasileira é famosa pela beleza e diversidade de suas paisagens, compostas por praias, costões rochosos, dunas e falésias, entre outros ambientes. Já a parte menos conhecida do litoral nacional é aquela que se encontra submersa e parcialmente oculta pela linha do mar, num mundo abaixo da superfície, constituído por ecossistemas extremamente ricos e complexos. “Dos 2,2 milhões de espécies marinhas conhecidos no mundo, apenas 9% foram descritas. Significa que desconhecemos mais de 90% da biodiversidade de nossos ambientes costeiros”, destacou a bióloga Mariana Cabral de Oliveira, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), em sua palestra durante o penúltimo encontro do Ciclo de Conferências Biota-FAPESP Educação, no dia 24 de outubro, em São Paulo.

Ao mesmo tempo, ressaltou a pesquisadora, as altas taxas de extinção, induzidas pelas atividades humanas, como a sobrepesca, poluição, urbanização e transferência de organismos que podem se tornar invasores, têm contribuído para que o trabalho de identificação das espécies marinhas se torne ainda mais complicado. Para se ter uma ideia, estudos estimam que a atual comunidade científica internacional precisaria de aproximadamente 360 anos e US$ 263 milhões apenas para identificar esses animais. “Estamos diante de um enorme desafio”, alertou Mariana. “Grande parte da biodiversidade marinha permanece desconhecida, enquanto a degradação e a exploração excessiva dos recursos naturais fornecidos por esses ambientes são cada vez maiores. Paralelamente, não dispomos de recursos, humanos e financeiros, suficientes para estudar por completo essa variedade de organismos.”

Para a bióloga, uma abordagem que facilitaria esse processo seria a do DNA Barcoding, ou Código de Barras de DNA (ver Pesquisa FAPESP nº 167 ). A ideia é simples: gerar uma etiqueta molecular a partir de uma pequena sequência de DNA para cada espécie, de modo a ser possível identificá-la. “Esse seria um sistema prático e uniforme para a identificação de espécies em

Rodrigo de Oliveira Andrade

escala global”, disse. Para isso, também seria necessário um banco de dados bem estruturado. Esse banco já existe: é o The Barcode of Life Data Systems. “À medida que ele é alimentado com informações coletadas, como fotografias, informações taxonômicas etc., novas etiquetas são criadas, sendo possível compará-las com outras sequências”, explicou. De acordo com Mariana, esse sistema pode ser usado mesmo quando as técnicas taxonômicas tradicionais não são viáveis. “Para identificarem uma espécie, os taxonomistas geralmente precisam do organismo inteiro. Com o DNA Barcoding, é possível trabalhar com fragmentos desses organismos, desde que se possa extrair seu material genético.” Projetos desenvolvidos no âmbito do Biota-FAPESP já utilizam essa abordagem. Um deles, realizado numa parceria entre o Instituto de Biociências da USP, o Instituto de Botânica e a Universidade Estadual Paulista de São José do Rio Preto, tem estudado a diversidade, morfologia e distribuição geográfica de macroalgas vermelhas do estado de São Paulo. Muitas das espécies marinhas são, inclusive, de grande importância socioambiental. É o caso das algas: “Até 50% do oxigênio disponível no planeta é produzido por elas”, afirmou Mariana. Já as microalgas do plâncton são essenciais nos ciclos geoquímicos globais, enquanto as macroalgas, multicelulares, podem ser fonte de alimento para uma ampla variedade de organismos marinhos, e também para o ser humano. Segundo estudo

publicado, em 2012, na revista PloS One, o Brasil tem os maiores e mais contínuos bancos de algas calcárias do mundo, uma das responsáveis pela formação dos recifes naturais. Sua área equivale à da Grande Barreira de Corais, na Austrália. Apenas o banco de Abrolhos tem cerca de 20.900 quilômetros quadrados (km2).

As algas, na verdade, têm sido um recurso natural cada vez mais explorado pelo homem. O cultivo de Nori (Pyropia spp.), aquela alga que envolve o sushi, movimenta uma indústria de US$ 3 bilhões apenas no Japão. Outra indústria bastante relevante baseada no cultivo desses organismos é a produção de hidrocoloides, um tipo de gelatina extraída de algumas espécies de algas, além da produção de biomassa para biocombustível ou como fonte de moléculas para aplicações diversas. “Usadas como biofábricas, as algas têm ainda um diferencial positivo: são capazes de utilizar a energia solar e remover o gás carbônico (CO2) da atmosfera, ao passo que geram bioprodutos de interesse econômico”, afirmou Mariana. Ao todo, cerca de 2 mil espécies de algas foram descritas no Brasil. Os grupos com as maiores quantidades de espécies identificadas são as diatomáceas, rodofíceas — as algas vermelhas — e as dinofíceas. A diversidade de espécies que vivem em ambientes costeiros no Brasil não se restringe apenas à flora marinha. Levantamentos realizados por pesquisadores brasileiros estimam que a fauna litorânea contabilize mais de 10 mil espécies.

Molusco Tambja stegosauriformis: substâncias isoladas com potencial para desenvolvimento de fármacos

“É curioso observar o contraste em relação à diversidade e à abundância de espécies entre as duas costas da América do Sul”, disse a bióloga Maria de los Angeles Gasalla, do Instituto Oceanográfico (IO) da USP. Segundo ela, na costa do Atlântico o número de espécies de peixes é maior do que no litoral do Pacífico. Na costa brasileira, 10,5% das espécies de peixes que habitam os recifes de corais são endêmicas. Nas regiões Sul e Sudeste, muitos peixes têm importante valor comercial, como a pescada-foguete (Macrodon ancylodon), a sardinha-verdadeira (Sardinella brasiliensis) e o bonito-listrado (Katsuwonus pelamis).

Apesar de apresentar uma maior riqueza de espécies, a margem oriental da América do Sul abriga uma menor abundância por espécie de peixes do que a borda ocidental. “Neste cenário, o Brasil se destaca também pela grande diversidade de moluscos, mais de 1.800”, destacou Maria. A costa brasileira abriga ainda uma vasta diversidade de crustáceos, peixes, águas-vivas e esponjas, entre outros.

A zona costeira e marinha do Brasil, incluindo a zona econômica exclusiva e a extensão da plataforma continental, abrange uma área de 4,5 milhões de km², dos quais cerca de 34% são considerados pelo Ministério do Meio Ambiente como áreas prioritárias para conservação. “Ao menos em termos burocráticos, no entanto, somente 1,8% está sob proteção de Unidades de Conservação Marinha. Isso não implica que essas unidades funcionem adequadamente, que tenham sido bem delimitadas cientificamente, nem que estejam realmente protegidas dos impactos antrópicos”, afirmou Maria.

Esse percentual está muito abaixo da meta 11 de Aichi, proposta pela Convenção sobre Diversidade Biológica das Nações Unidas, que prevê pelo menos 10% de áreas marinhas ou costeiras protegidas. Já as áreas de concessão para exploração de gás e petróleo seguem aumentando e ultrapassam

os 12%. “Os objetivos das unidades de conservação devem ser muito claros em relação ao que, de fato, estariam protegendo. Do contrário, não chegamos a lugar algum”, disse a bióloga do IO. Para atender as necessidades humanas de renda, emprego e alimentação, é crucial, de acordo com a pesquisadora, manejar a pesca adequadamente e regulá-la. Segundo Carlos Joly, coordenador do programa Biota-FAPESP, em São Paulo, desde 2008, 90% do litoral está protegido por um mosaico de Áreas de Proteção Ambiental e Áreas de Relevante Interesse Ecológico. O potencial do pouco conhecido universo marinho também pode ser aproveitado do ponto de

esquerda para a direita,

As paisagens da costa brasileira

variedade de ambientes farorece biodiversidade marinha

Laguna/barreira, dunas, marismas e stuários, planície de maré, manguezais

Dunas, cristais de praia, falésias

Cristais de praia, dunas, falésias, recifes de arenito

Costões rochosos, laguna/ barreira, manguezais Cristais de praia, deltas, falésias, recifes de arenito

Da
Maria gasalla, roberto b erlinck e Mariana Cabral de Oliveira
Cabo Orange
arroio Chuí equador
trópico de Capricórnio

vista aplicado. Ao longo dos anos, muitos organismos marinhos têm sido ou foram usados como fontes de novas substâncias para a indústria farmacêutica e de cosméticos. Pigmento obtido da glândula dos moluscos Murex groschi e Murex recurvirostris, a púrpura-de-tiro foi, por exemplo, usada por séculos, desde a Antiguidade até o fim da Idade Média, para tingir vestes. “Essa foi uma das primeiras indústrias químicas baseada em substâncias extraídas de organismos marinhos”, disse Roberto Berlinck, do Instituto de Química da USP de São Carlos. Superexplorados, esses moluscos se extinguiram em meados do século XV. A estrutura da púrpura-de-tiro só foi desvendada bem mais tarde, em 1909, muito tempo depois de seu uso comercial ter sido abandonado.

Agente S A ntitum ORA i S

Mais recentemente, diversas moléculas isoladas de organismos marinhos têm sido testadas como candidatos a antitumorais. A esqualamina, por exemplo, substância isolada das vísceras do tubarão Squalus acanthus, já está em fase de testes clínicos. “Ela pode ser um agente inibidor da angiogênese, o mecanismo de crescimento de novos vasos sanguíneos a partir dos já existentes que favorece a proliferação de células tumorais”, disse Berlinck.

alta concentração de compostos químicos em seu manto externo. ao lado, duas espécies de algas marinhas, fundamentais para a produção de oxigênio

Outro exemplo de substância potencialmente útil no combate ao câncer é a ecteinascidina-743, isolada da Ecteinascidia turbinata, um organismo invertebrado de aspecto esponjoso que vive grudado a rochas. Os pesquisadores observaram que essa substância pode ser usada na quimioterapia para danificar o material genético das células tumorais. Atualmente essa substância está em fase de testes clínicos.

Berlinck e outros pesquisadores têm se dedicado ao estudo das defesas químicas dos nudibrânquios, um grupo de moluscos sem conchas com significativa ocorrência no Brasil, no qual estão inseridas as lesmas-do-mar. Num estudo sobre um molusco do gênero Doris, eles isolaram uma substância conhecida como xilosil-MTA, um nucleosídeo modificado com átomo de enxofre. Foi o primeiro relato dessa substância, cujo potencial farmacológico ainda será investigado, em um espécime desse gênero no país. Outros moluscos, como os do gênero Tambja, têm atraído a atenção por serem pequenos e concentrarem muitos compostos químicos em seu manto externo como mecanismo de defesa. Segundo Berlinck, diversas substâncias com potencial farmacológico já foram isoladas desses animais.

O Ciclo de Conferências Biota-FAPESP Educação é uma iniciativa do Programa Biota-FAPESP, em parceria com a revista Pesquisa FAPESP, voltada à discussão dos desafios ligados à conservação dos principais ecossistemas brasileiros (ver programação ao lado). As palestras, que se encerram em novembro, apresentam o conhecimento gerado no Brasil sobre o tema e pretendem contribuir para a melhoria da educação científica e ambiental de professores e alunos do ensino médio. n

para mais informações: www.biota.org.br www.biotaneotropica.org.br www.agencia.fapesp.br

21 de nOVembRO (14h00-16h00) biODiversiDaDes eM aMbieNtes aNtrópiCOs –urbaNOs e rurais

Conferencistas

Luciano M. verdade (Cena-usp, são paulo) elisabeth Höfling (ib -usp, são paulo) roseli buzanelli torres (iaC)

+10

Molusco Nudibranquio Tambja (acima):

fronteiras fluidas

propriedades elásticas da membrana variam segundo o tipo e a função da célula

cada célula do organismo é como uma metrópole agitada em que, em vez de carros e pessoas, circulam continuamente moléculas e estruturas de tamanhos e tipos variados, essenciais para mantê-la viva. Toda essa movimentação, por vezes frenética, ocorre em um espaço limitado, definido por uma estrutura extremamente delgada e maleável: a membrana celular. Formado por uma dupla camada de lipídios, um tipo de gordura que lhe dá a viscosidade de um óleo fino e o torna relativamente fluido, esse revestimento das células abriga aqui e ali proteínas incrustadas. Nos últimos anos vem crescendo a compreensão de que a membrana, de aspecto frágil ao microscópio, desempenha funções bem mais complexas do que a de somente separar o conteúdo interno do meio externo das células.

“A membrana é muito mais do que o pacote envolvendo o conteúdo celular”, resume o biólogo Bruno Pontes, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente em um estágio de pós-doutorado no Instituto de Mecanobiologia da Universidade Nacional de Cingapura, no Sudeste Asiático, Bruno integra uma equipe no Rio que investiga as características físicas da membrana celular e recentemente mediu, com nível inédito de precisão, suas propriedades elásticas.

Coordenado pelo físico Herch Moysés Nussenzveig, conhecido internacionalmente por seus

estudos em óptica, o grupo da UFRJ inclui biólogos, matemáticos, além de, claro, físicos. Em uma série de testes feitos nos últimos anos os pesquisadores usaram um feixe de laser bastante concentrado para manipular em laboratório a membrana de células do cérebro, do sangue e de outros tecidos. Com essa ferramenta chamada de pinça óptica – no ponto de maior concentração, o laser induz o surgimento de dipolos elétricos que permitem atrair e mover objetos microscópicos e, por exemplo, manusear células vivas sem as danificar –, eles constataram que tipos distintos de células apresentam propriedades elásticas de membrana diferentes.

Em experimentos bastante delicados, Bruno usou o laser da pinça para aprisionar esferas microscópicas de um material plástico e, em seguida, fazê-las aderir a diferentes pontos da membrana das células. Segundos mais tarde ele puxava cada uma das esferas a uma velocidade constante até que se formasse um tubo alongado de membrana – a força necessária para esticar a membrana e formar um tubo é da ordem de dezenas de piconewtons, alguns trilionésimos da força que a gravidade exerce sobre uma maçã. Medindo o raio do tubo e a força necessária para formá-lo, foi possível obter as duas grandezas físicas que determinam a elasticidade da membrana: a tensão superficial (resistência a se

Ricardo zorzetto
Captura: célula de defesa chamada macrófago (amarelo) emite prolongamentos e envolve uma hemácia, antes de a digerir

romper) e a rigidez de curvatura (resistência a se dobrar). Em alguns casos, a elasticidade da membrana variou tanto de um tipo celular para outro que, segundo Nussenzveig, “saltou aos olhos que deve existir uma relação direta entre as propriedades da membrana e a função que a célula desempenha no organismo”.

os neurônios, as células mais abundantes no cérebro, responsáveis pelo armazenamento e pela transmissão de informações, foram também aquelas com membrana mais flexível entre os cinco tipos de célula avaliados. Com formato bastante característico, o neurônio tem uma região mais volumosa, o corpo celular, onde fica o núcleo, e outra composta por prolongamentos mais estreitos e alongados, os axônios e dendritos, por onde os sinais elétricos trafegam até chegar ao neurônio seguinte. No cérebro, um neurônio se conecta a outros por meio dessas extensões que podem ser remodeladas constantemente. Como preservam essa plasticidade e são bastante assimétricos, faz sentido, segundo o grupo da UFRJ, que sua membrana seja mais maleável. O segundo colocado nessa espécie de ranking de flexibilidade foram os astrócitos, de acordo com os resultados que os pesquisadores publicaram em julho deste ano na revista PloS One. Os astrócitos têm a aparência de estrela e são o segundo tipo de célula mais abundante no cérebro, onde desempenham os papéis essenciais de nutrir os neurônios e de regular a formação de sinapses, conexões entre um neurônio e outro.

Curiosamente, a célula cerebral com membrana mais rígida é também a que costuma ser mais ativa e é capaz de sofrer mais deformações: a micróglia. Semelhante ao astrócito, mas com prolongamentos mais extensos, a micróglia é a principal célula de defesa do sistema nervoso central. Com esses prolongamentos, ela sonda o ambiente o tempo todo à procura de células doentes e agentes infecciosos. Quando os encontra, emite prolongamentos e os engloba para em seguida os destruir, num processo chamado fagocitose.

Na interpretação dos pesquisadores, faz todo o sentido que as propriedades físicas da membrana variem segundo o tipo de célula. Afinal, células diferentes desempenham funções distintas no organismo.

“A membrana faz a interface entre o interior da célula e o meio externo, permitindo a interação entre ambos”, lembra o físico, coordenador do Laboratório de Pinças Ópticas da UFRJ. “Ela também detecta sinais químicos e estímulos mecânicos do ambiente ao redor e os transmite para o interior da célula. Ao mesmo tempo, serve de plataforma para a célula exibir sinais para o restante do organismo, indicando, por exemplo, a necessidade de se produzirem anticorpos. Além disso, a membrana dá forma à célula e também se deforma, permitindo à célula se mover por meio da emissão de projeções”, conclui.

puxa, dobra e estica

pesquisadores da ufrJ usaram pinças ópticas para extrair esferas plásticas aderidas à superfície das células e medir propriedades elásticas da membrana

NeurôNiO

Nos experimentos feitos na UFRJ, Bruno e os outros pesquisadores da equipe de Nussenzveig constataram também que a membrana da micróglia apresenta as mesmas propriedades elásticas da membrana de outras células de defesa: os macrófagos, que são produzidos na medula dos ossos e lançados na corrente sanguínea, por meio da qual se espalham pelo corpo (com exceção do sistema nervoso central). De modo semelhante à micróglia, os macrófagos também realizam fagocitose, emitindo prolongamentos que identificam, englobam e destroem tanto células velhas como agentes infecciosos e partículas estranhas ao organismo.

projeção da membrana

e sfera

plástica

Para o grupo da UFRJ, uma origem embrionária comum pode explicar o fato de a membrana dos macrófagos e a das micróglias compartilharem as mesmas propriedades elásticas. Ambas as células são provenientes da mesoderme, uma das três camadas de células que formam o embrião em seus estágios iniciais (as demais células do sistema nervoso central se originam na ectoderme). E conservam muitas características em comum, embora migrem para regiões diferentes do corpo durante o desenvolvimento – a micróglia vai para o sistema nervoso central, enquanto o macrófago circula pelos tecidos periféricos.

“São como irmãos que foram criados juntos na infância e depois de adultos foram viver em países diferentes”, compara Bruno. “Eles preservam muitas características em comum, embora vivam separados e em contextos diferentes.” Nussenzveig lembra que tanto a micróglia quanto o macrófago têm de suportar forças intensas e grande deformação da superfície durante a fagocitose, o que justificaria que tivessem membranas mais resistentes.

Essa rigidez, porém, não é permanente. Ela é cerca de quatro vezes superior à da membrana dos neurônios quando a micróglia e o macrófago estão inativos, em um estado de dormência. E cai a

FonTe HerCH MOysés NusseNzveig e bruNO pONtes / ufrJ

NeurôNiO

MeMbraNa CeLuL ar

CIToe SqUeLe To núcleo celular

Laser permite mover a esfera e esticar a membrana, que se deforma e origina um tubo como o que a célula emite na fagocitose

cerca de metade da inicial quando essas células de defesa são ativadas.

Os pesquisadores registraram esse aumento de flexibilidade quando trataram os macrófagos e as micróglias com compostos encontrados nas paredes de bactérias. Esses compostos despertam as células de defesa e as tornam ativas. “A diminuição da rigidez de curvatura facilita a essas células se dobrarem e emitirem prolongamentos, preparando-se para fagocitar”, explica Nussenzveig.

Asemelhança que encontraram entre macrófagos e micróglias também foi observada entre astrócitos e células de glioblastoma, um tipo devastador de tumor cerebral que resulta da proliferação descontrolada de astrócitos. “Ainda não sabemos os detalhes de como essas propriedades influenciam a função de uma célula”, diz Bruno. “Mas o fato de as constantes elásticas mudarem de acordo com o ambiente e o estado em que a célula se encontra certamente exerce alguma influência sobre o seu desempenho”, conta o biólogo, que em Cingapura trabalha com a equipe de Nils Gauthier tentando compreender melhor como essas propriedades elásticas da membrana poderiam orquestrar uma série de fenômenos no interior da célula.

proteína da membrana

ao ser puxada, a membrana arrasta com os lipídios o citoesqueleto de actina

Camada dupla de lipídios

projeção da membrana

Contato entre a esfera plástica e a membrana

sentido da força

feixe de laser que movimenta a esfera plástica

“Esses são indícios bastante consistentes de que as propriedades elásticas da membrana conservam uma relação direta com a função da célula no organismo”, diz Nussenzveig. No trabalho publicado na PloS One, a equipe da UFRJ demonstrou também que a flexibilidade da membrana não depende apenas dos lipídios que a formam. O que determina em grande parte sua rigidez é o chamado citoesqueleto de actina: uma rede difusa de filamentos da proteína actina que se distribuem pelo interior da célula e se ancoram nas proteínas aprisionadas na membrana.

Antes desse trabalho, se acreditava que os tubos de membrana que se formam quando a célula é manipulada com uma pinça óptica fossem constituídos de membrana pura, ou seja, quase exclusivamente lipídios. O grupo da UFRJ demonstrou que ao puxar a membrana, junto com os lipídios, também se arrasta o citoesqueleto. Observações anteriores, realizadas pelo grupo do Michael Sheetz, diretor do Instituto de Mecanobiologia em Cingapura, onde Bruno faz seu pós-doutorado desde o início do ano, não levavam em consideração a influência dessa rede de fibras proteicas. Essa situação, para os pesquisadores da UFRJ, não condiz com a realidade. “Uma célula com membrana pura, desacoplada do citoesqueleto, não existe porque

seria muito instável”, explica Nussenzveig. “Na célula, a membrana fica ancorada em uma espécie de tapete de actina, o córtex, que lhe confere maior rigidez.”

Seu grupo também verificou que a membrana das células é dezenas de vezes mais resistente do que se imaginava. Especialista em óptica e criador do Laboratório de Pinças Ópticas da UFRJ, ele e os físicos Nathan Bessa Viana e Paulo Américo Maia Neto perceberam que, de um modo geral, as pinças ópticas – elas consistem em um sistema de laser acoplado a um microscópio – sofriam de uma espécie de defeito de visão, que interferia nas medições. Esse defeito é uma aberração óptica chamada astigmatismo, uma alteração no foco do laser diminui a força que ele é capaz de exercer. Depois de 13 anos estudando o assunto, a equipe da UFRJ afirma ter finalmente identificado a causa do problema e encontrado uma forma de corrigi-lo. “O trabalho descrevendo essas correções já foi submetido e deve ser publicado em breve”, conta Nussenzveig.

“Finalmente a pinça está completamente entendida a partir de primeiros princípios”, diz o físico. Com isso ele acredita que seu grupo conseguiu o controle completo sobre a pinça e como aumentar seu poder de captura. “Até os nossos trabalhos, a calibração era feita de modo indireto, comparando com força hidrodinâmica, causada pelo atrito da microesfera plástica com o fluido”, conta. Como consequência da calibração menos precisa dos instrumentos, viam-se diferenças grandes, da ordem de até 10 vezes, nas medições feitas por laboratórios distintos. “Nosso grupo é o único que até o momento obteve a calibração absoluta e nossos resultados são confiáveis dentro da precisão que é possível alcançar em biologia celular”, afirma Nussenzveig, que, aos 80 anos, continua entusiasmado com suas pesquisas e sabe que ainda se está longe de conseguir um modelo físico da membrana celular. “Há teorias que procuram analogias com materiais que a gente conhece para descrever o funcionamento da membrana das células”, conta. “Mas são rudimentares. Não basta tratar os materiais como sistemas inertes, passivos. É preciso levar em conta as reações da célula como sistema vivo.” n

artigo científico

pONtes b et al. Membrane elastic properties and cell function. PLoS one. 3 de jul. 2013.

Sopa primordial

brasileiros ajudam a analisar fenômenos inexplicados em líquido criado em colisões de partículas

A3

… desfazendo essas partículas em seus constituintes, os quarks e os glúons...

2

o choque comprime e esquenta os prótons e os nêutrons desses núcleos...

Enquanto o bóson de Higgs foi descoberto analisando o resultado de colisões de um próton contra outro, parte dos físicos envolvidos nos experimentos do LHC, incluindo pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Universidade igor zolnerkevic

1

núcleos de chumbo são acelerados a velocidades próximas à da luz

descoberta mais famosa do Grande Colisor de Hádrons (LHC) foi, sem dúvida, a detecção da partícula elementar conhecida como bóson de Higgs. Anunciada em 4 de julho de 2012, essa descoberta rendeu o Nobel de Física deste ano a Peter Higgs e François Englert, dois dos físicos teóricos que propuseram sua existência nos anos 1960. Mas o tal bóson, que explicaria a origem da massa de todas as partículas elementares, não é a única coisa interessante que vem aparecendo nas colisões produzidas desde 2009 pelo mais poderoso acelerador de partículas já construído, instalado na fronteira da França com a Suíça e coordenado pela Organização Europeia para Pesquisas Nucleares (Cern).

Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal do ABC (UFABC), estão mais interessados em usar a energia do acelerador para fazer núcleos atômicos de chumbo, com 82 prótons e 126 nêutrons, colidirem uns contra os outros. A energia dessas colisões desfaz os prótons e os nêutrons (partículas compostas) em seus componentes elementares, partículas indivisíveis chamadas quarks e glúons.

Por um brevíssimo instante após a colisão, os quarks e glúons formam um líquido: o plasma de quarks e glúons, um estado da matéria pouco conhecido, mais denso que a matéria do núcleo dos átomos e cerca de 250 mil vezes mais quente que o interior do Sol. Os físicos brasileiros colaboraram com análises divulgadas neste ano que revelaram comportamentos completamente inesperados desse plasma, para os quais ainda não há uma explicação convincente.

“A energia extrema dessas colisões recria as mesmas condições da matéria nuclear nos primórdios do Universo”, explica Jun Takahashi, físico da Unicamp que integra a equipe do A Large Ion Collider

Experiment (Alice), o único dos detectores do LHC – são quatro – projetado para observar as colisões de chumbo. Takahashi e outros pesquisadores paulistas apresentaram alguns resultados recentes dos experimentos no LHC durante workshop realizado em agosto na FAPESP. Os físicos acreditam que até cerca de 10 milionésimos de segundo depois do Big Bang, a explosão que teria gerado o cosmo há 13,8 bilhões de anos, o Universo era preenchido por um oceano de quarks e glúons – alguns chamam essa condição de sopa primordial –, que, ao esfriar, originou os prótons e os nêutrons. O fato de a matéria do Universo atual estar aglomerada em estrelas e planetas, e não espalhada pelo espaço como uma nuvem uniforme de gás e poeira, é ao menos em parte resultado de ondulações nessa sopa. “Estudar o comportamento coletivo dos quarks e dos glúons ajuda a entender como o Universo evoluiu”, conclui Takahashi.

Outro mistério que envolve a interação entre quarks e glúons é a origem da massa. O bóson de Higgs só explica a

fábrica de b ig b angs

Colisões entre núcleos de chumbo realizadas no LHC produzem plasma de quarks e glúons

… que formam um líquido

250 mil vezes mais quente que o interior do Sol. nesse líquido, novos quarks são criados

o plasma expande e esfria quase instantaneamente. Seus quarks então se combinam em novas partículas, os hádrons, cujas trajetórias são registradas por detectores como o Alice (abaixo) 4

massa das partículas elementares, como os elétrons, os múons e os seis tipos conhecidos de quarks, além de suas correspondentes antipartículas (partículas idênticas com cargas elétricas opostas). Como os elétrons são extremamente leves, a massa dos átomos vem quase toda do núcleo, feito de prótons e nêutrons. Essas partículas são compostas: formam-se pela união de trios de quarks, ligados pela força nuclear forte, transmitida por partículas sem massa, os glúons, emitidos e absorvidos pelos quarks. A soma da massa dos quarks de um próton ou de um nêutron representa só 1% de sua massa total. Os 99% restantes vêm da energia da interação de seus quarks e glúons.

CO mp OR tA mentO CO leti VO

Desde os anos 1970 os físicos acreditam ter encontrado as leis gerais que descrevem a força nuclear forte, mas ninguém entende bem os detalhes do movimento coletivo dos quarks e glúons. “É como o caso da água”, Takahashi compara. “Sabemos que é feita de moléculas de H2O,

mas conhecer isso não diz como a água se transforma em vapor, resultado do comportamento coletivo das moléculas.”

No Universo atual quarks e glúons nunca estão isolados. Tanto os quarks quanto suas antipartículas (antiquarks) sempre se unem em partículas compostas que recebem o nome de hádrons – esses hádrons podem ser, como os prótons e os nêutrons, feitos de trios de quarks (bárions) ou de pares de quarks e antiquarks (mésons). O motivo é que, ao contrário das demais forças fundamentais da natureza, que perdem intensidade com a distância, a força nuclear forte aumenta à medida que dois quarks se afastam um do outro. “Pense em duas bolas conectadas por um elástico”, explica o físico David Chinellato, da Unicamp, que também participa do Alice. “Quando uma se afasta da outra, a tensão no elástico aumenta, e quando elas se aproximam o suficiente, a tensão desaparece e as bolas se movimentam livres.”

O objetivo das colisões de núcleos pesados é comprimir prótons e nêutrons até que seus quarks e glúons fiquem sol-

5

PLASmA de qUArk S e GLúonS em exPAnSão

tentativas de derreter os hádrons

e xperimentos começam a mapear o comportamento de quarks e glúons a temperaturas e densidades diferentes

TemPer ATUr A

7 tRilHÕe S °C

3,5 tRilHÕe S °C

2 tRilHÕe S °C mudança de fase

O pl ASmA

A temperaturas maiores que 2 trilhões de graus ocorre uma mudança de fase. os hádrons se desfazem e seus quarks e glúons se comportam como em um líquido

lHC

o mais potente acelerador do Cern produz plasma duas vezes mais quente que o rHIC. quando sua energia dobrar até 2018, talvez consiga transformar o líquido de quarks e glúons em um gás

RHiC o acelerador rhic obteve o plasma de quarks e glúons pela primeira vez em 2005. Atualmente o rhic tenta caracterizar como se dá a mudança de fase a densidades mais elevadas

tos por um instante. A energia da colisão também cria novos pares de quarks e antiquarks, além de outras partículas elementares. Em seguida, a temperatura e a densidade no ponto de colisão começam a diminuir e os quarks se recombinam, formando milhares de novos hádrons, cujas trajetórias são registradas pelos detectores do experimento.

Indícios de que os quarks poderiam se libertar dos hádrons e mésons começaram a surgir nos anos 1980 e 1990 no acelerador Super Proton Synchrotron no Cern. Mas a descoberta do plasma de quarks e glúons só ocorreu em 2005, quando pesquisadores do Colisor de Íons Pesados Relativísticos (Rhic), nos Estados Unidos, anunciaram ter evidências suficientes de que colisões de núcleos de ouro haviam produzido um estado em que quarks e glúons não estavam presos no interior de hádrons, mas também não estavam totalmente livres, como as moléculas de um gás ideal. Para a surpresa

de todos, os quarks e os glúons pareciam formar uma gota de líquido capaz de fluir perfeitamente, quase sem viscosidade.

Em novembro de 2010, o LHC interrompeu suas colisões entre prótons isolados e realizou por um mês suas primeiras colisões de núcleos de chumbo, com uma energia cerca de 14 vezes maior que a das colisões no Rhic – mais colisões de chumbo foram repetidas em novembro de 2011 e no início deste ano. Alguns modelos teóricos previam que nesse nível de energia quarks e glúons se comportariam como um gás, mas foi observado um estado líquido semelhante ao registrado no Rhic. Estima-se que as gotas do plasma de quarks e glúons produzidas no LHC sejam duas vezes maiores que as do Rhic e que sua temperatura tenha chegado a 7 trilhões de graus (250 mil vezes a temperatura do núcleo do Sol).

As colisões de chumbo no LHC são estudadas por quase 1.200 pesquisadores de 36 países que trabalham no detector

quark

quark quark

Glúon Glúon báRiOn méSOn

HádROnS os quarks se combinam e formam partículas chamadas hádrons. Hádrons compostos por trios de quarks unidos por glúons são bárions. duos de quark e antiquark recebem o nome de mésons

denSIdAde

Alice. A participação brasileira no experimento é coordenada pelo físico Alejandro Szanto de Toledo, que trabalhou no Rhic até 2006. Ele e seus colegas Alexandre Suaide e Marcelo Munhoz, todos da USP, estudam hádrons feitos de quarks do tipo charm e bottom, milhares de vezes mais pesados que os quarks up e down , que constituem os prótons e os nêutrons. “O interessante é que esses quarks precisam de muita energia para se formar”, explica Munhoz. “Eles aparecem bem no início da colisão e por isso podem contar toda a história dela, porque têm tempo de interagir com tudo o que se forma em seguida.”

A ped RA e O ped R egulHO

Uma expectativa dos pesquisadores era que os hádrons de quarks mais pesados perderiam menos energia que os de quarks mais leves ao atravessar o plasma, assim como uma pedra gigante sofre menos a ação da correnteza de um rio do que um pedregulho. “Isso não foi

Glúon
HádROnS
fOnte brOOKHaveN NatiONaL L abOratOry

A HiStÓRiA dO uniVeRSO

Há 13,8 bilhões de anos, o universo era preenchido pelo plasma de quarks e glúons, que gerou os prótons e os nêutrons e depois os átomos

iníCiO dO tempO depOiS de depOiS de HOJe

10 microssegundos

explicação. “Uma delas considera que essa estrutura surge porque o plasma se assemelha a um líquido que escoa sem viscosidade”, conta Sandra. “E que as partículas que se formam refletiriam esse comportamento coletivo.”

big bang nêutrons

quarks Glúons

Prótons elétrons livres

380 mil anos

13,8 bilhões de anos

Átomos

pRimeiRAS pARtíCul AS o Universo expande e esfria o plasma de quarks e glúons, que passa por uma mudança de fase

pRimeiROS

HádROnS os quarks se combinam em hádrons, sendo prótons e nêutrons os mais estáveis

observado no Rhic nem no LHC”, diz Munhoz. “Ou não entendemos direito como os quarks perdem energia, ou não entendemos as propriedades do plasma.”

Takahashi e Chinellato se concentram em analisar os hádrons feitos de quarks mais leves, produzidos em maior quantidade nas colisões. Chinellato coordena o trabalho de 80 pesquisadores que estudam hádrons contendo o quark strange, cerca de 100 vezes mais pesado do que os quarks up e down. Em artigo divulgado em julho no repositório eletrônico ArXiv, os pesquisadores do Alice observaram que em certa faixa de momento (grandeza que dá uma ideia da energia das partículas) as colisões de chumbo tendem a produzir mais bárions (trios) contendo quarks strange do que mésons (duos) de quarks strange, efeito esperado por algumas teorias. Mas, inesperadamente, o Alice também observou um efeito semelhante, de intensidade menor, em colisões de núcleos de chumbo con-

pRimeiROS átOmOS o Universo esfria mais e os elétrons se combinam com prótons e nêutrons, formando os átomos

tra prótons, nas quais, em princípio, o plasma não deveria se formar. “Há vários mecanismos físicos possíveis para explicar isso”, diz Takahashi. “Estamos tentando entender qual é o mais adequado.” Novos fenômenos envolvendo núcleos pesados também estão sendo descobertos pela equipe de outro detector do LHC, o Compact Muon Solenoid (CMS), do qual participam 3 mil pesquisadores de 40 países – entre eles, o grupo coordenado por Sergio Novaes na Unesp e na UFABC. Na Unesp, a física Sandra Padula desenvolve e aplica técnicas para combinar trajetórias das partículas produzidas nas colisões e, assim, estimar o tamanho do sistema formado, o movimento coletivo das partículas e outras propriedades do meio de que vieram. Um dos efeitos observados em colisões entre núcleos de ouro no Rhic e entre núcleos de chumbo no LHC foi o surgimento de uma estrutura que lembra uma cordilheira (ridge), que gerou várias tentativas teóricas de

O problema é que uma versão semelhante desse efeito também foi observada no CMS, em colisões entre prótons e em colisões entre prótons e núcleos de chumbo – duas situações em que não se esperaria a formação do plasma.

As colisões no LHC estão suspensas desde fevereiro. O acelerador foi desligado para passar por melhorias que devem aumentar a energia de suas colisões e a sensibilidade de seus instrumentos. Os experimentos recomeçam em 2015 e espera-se que até 2018 a energia seja o dobro da atual. “Estão sendo desenvolvidas simulações do que pode acontecer nesse nível de energia”, diz Sandra, “mas acho o inesperado mais interessante.”

Em 2018, o LHC deve parar novamente para mais melhorias. O grupo de Szanto, em parceria com a equipe do engenheiro Wilhelmus Van Noije, da Escola Politécnica da USP, deve participar da construção de componentes microeletrônicos para aprimorar o sistema de detecção do Alice. Novaes e sua equipe, por sua vez, deverão participar do criação de componentes microletrônicos para melhorar a capacidade de detecção do CMS. n

projetos

1. física nuclear de altas energias no rhic e LHC (nº 2012/04583-8); modalidade projeto temático; Coord. a lejando szanto de toledo if/usp; investimento r$ 2.789.509,20 (fapesp).

2. f ísica experimental hadrônica no r hic e LHC (nº 2012/02895-2); modalidade Linha regular de auxílio a projeto de pesquisa; Coord. Jun takahashi – if/unicamp; investimento r$ 104.995,95 (fapesp).

3. Centro regional de análise de são paulo: participação nos experimentos Dzero e CMs (nº 2008/02799-8); modalidade projeto temático; Coord. sergio ferraz Novaes – ift/unesp; investimento r$ 2.026.797,78 (fapesp).

4. projeto de um a sic de aquisição e processamento digital de sinais para o time projection Chamber do experimento alice (2013/06885-4); modalidade Linha regular de auxílio a projeto de pesquisa; Coord. wilhelmus van Noije – escola politécnica/usp; investimento r$ 858.978,38 (fapesp)

artigos científicos

aLiCe Collaboration. Multiplicity Dependence of pion, Kaon, proton and Lambda production in p-pb Collisions at sqrt (sNN) = 5.02 tev eprint arxiv:1307.6796. jul. 2013.

CMs Collaboration. Multiplicity and transverse-momentum dependence of two-and four-particle correlations in p-pb and pb-pb collisions. Physics Letters b v. 724, n. 213. mai. 2013.

fOnte L awreNCe
berKeLey NatiONaL
L abOratOry

te C n O lO gi A autOM açãO y

No campus da usp
em s ão Carlos, alunos no banco de trás acompanham o teste do carro sem motorista e em movimento

Carro sem motorista

projetos brasileiros de veículos autônomos trazem contribuições para o futuro da mobilidade urbana

marcos de Oliveira

deixar o motorista livre em seu assento para ler, cochilar, acessar um smartphone e até jogar videogame. Tudo isso dentro do veículo em movimento. É o que promete o carro autônomo previsto para ser comercializado nos próximos 10 ou 20 anos. Por enquanto, os esforços estão no campo da pesquisa, principalmente em universidades, algumas empresas da indústria automobilística e na Google, que também mantém um projeto experimental. No Brasil, um Palio Weekend Adventure da Universidade de São Paulo (USP) foi o primeiro carro autônomo autorizado a trafegar em ruas de uma cidade – São Carlos, no interior paulista – num percurso de 5,5 quilômetros (km) no início de outubro. O carro, comprado em uma concessionária Fiat, foi adaptado com uma série de equipamentos por um grupo de pesquisadores do Instituto de Ciências Matemáticas e da Computação (ICMC) e da Escola de Engenharia do campus da USP são-carlense. “Um dos grandes problemas do momento é a falta de tempo das pessoas e as perdas de horas no trânsito principalmente nas grandes cidades”, diz o professor Denis Wolf, do ICMC, coordenador do projeto Carro Robótico Inteligente para Navegação Autônoma (Carina), que tem financiamento da FAPESP e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), principalmente por meio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Sistemas Embarcados (INCT-SEC).

“Existem estudos científicos mostrando que carros ordenados e em velocidade adequada, trocando informações automaticamente entre si e com sensores em postes e no solo que, por sua vez, se comunicam com a companhia de trânsito, podem aumentar a capacidade de fluxo de veículos em até 300% em vias urbanas e três vezes nas rodovias. E isso só é possível com os carros autônomos”, diz Wolf. Um futuro possível dentro das

cidades inteligentes, com semáforos e sinalização de pista, por exemplo, trocando informações com os carros. Sinais de wi-fi e de GPS – Global Positioning System de localização por satélite – dos veículos, dos celulares e de outros aparelhos portados pelos passageiros de todos os veículos, inclusive motos, caminhões e ônibus, formariam uma rede de informações que traria condições ideais para todos trafegarem com mais segurança e maior rapidez.

As tecnologias para esse novo mundo estão sendo formatadas como mostram as experiências de São Carlos e de mais duas universidades brasileiras, as federais do Espírito Santo (Ufes) e de Minas Gerais (UFMG). A equipe paulista é composta por dois professores, além de Wolf, e 15 alunos de mestrado e doutorado, e conta com um mecânico responsável pela adaptação do carro. Eles desenvolveram o sistema de controle, com softwares de comando, e criaram uma inovação que deve ser patenteada assim que terminar o desenvolvimento. É um motor elétrico na barra de direção que se acopla e magnetiza o mecanismo fazendo o carro movimentar o volante de acordo com os comandos dos computadores, que são dois. O primeiro está instalado no porta-malas, com grande capacidade de processamento e formato industrial capaz de suportar vibrações e altas temperaturas. Ele recebe as informações dos sensores externos, como os lasers, câmeras e um sistema de GPS muito avançado que indica a posição do veículo num mapa em uma tela ao lado do motorista. Esse processador indica o que o carro deve fazer conforme as informações recebidas e repassa para outro computador, esse de menor porte, instalado no porta-luvas.

“O menor tem a função de controlar o hardware do veículo, como, por exemplo, girar o volante a 10 graus, acelerar ou frear”, diz Wolf. O freio possui um mecanismo chamado de atuador linear que age sobre um pistão para acioná-lo conforme mensagem dos computadores de bordo. Esse sistema é uma contribuição do grupo de pesquisa de veículos autônomos da UFMG. O câmbio é automatizado de fábrica e troca as marchas conforme a necessidade do motor do carro. “Também desenvolvemos e ainda não implantamos um sistema que engata a ré conforme o software de controle do veículo.”

Como a segurança é fundamental, a qualquer momento o motorista pode tomar o comando do carro apertando um botão no painel que desliga todos os sistemas eletrônicos que não sejam os convencionais do veículo. Com isso, o condutor volta a ser o comandante. No modo autônomo, os olhos do motorista são substituídos por lasers e câmeras que funcionam em 360°, da mesma forma da usada no sistema Google Street View em que é possível identificar cada local num mapa com tudo ao redor em localidades previamente filmadas

Controle da autonomia

vários sistemas e equipamentos garantem a segurança

SenSORe S l ASeR

são dois, um no teto e outro na frente. emitem milhares de feixes de luz por segundo em todas as direções para identificar tudo que está num raio de 50 metros em volta do carro. são inócuos à saúde humana

n sisteMa De perCepçãO

n sisteMa De prOCessaMeNtO

n  sisteMa De atuaçãO

Motor elétrico magnético na barra de direção faz girar o volante de acordo com os comandos ditados pelos computadores

fReiO/ACeleRAdOR

um mecanismo chamado atuador linear aciona o freio conforme comandos do computador que também aciona o acelerador

CâmeRA 360º

formada por duas lentes que medem a profundidade em 3D. identificam a luminosidade e a forma de pessoas e animais

Capta sinais de satélites para identificar a localização do veículo (latitude e longitude) e transferir para o sistema de processamento o percurso a ser seguido gpS

COmputAdOR 1

f ica no porta-malas e tem grande capacidade de processamento para receber as informações dos sensores externos e indicar o que o carro deve fazer para o computador 2

COmputAdOR 2

Câmbio automatizado, tela de comando e informações e um botão no painel que desliga os sitemas autônomos e torna o carro manual COmAndOS é menor e fica no porta-luvas. tem a função de acionar todos os hardwares do veículo, indicando, por exemplo, que o volante deve girar 10º à direita

fOnte DeNis wOLf/usp
pAinel

Denis wolf, da usp: autônomo pode aumentar fluxo do tráfego nas cidades em até 300%. ao lado, o carro nas ruas de são Carlos

por um carro da empresa. São dois lasers, um na frente e outro no teto. Os dois também em 360° emitem 700 mil pontos de luz por segundo para mapear tudo o que está ao redor numa distância de 50 metros de raio, medindo quão perto estão outros carros, postes, pessoas, cachorros, as guias e qualquer outro obstáculo, sempre informando o ângulo e a altura em relação ao veículo. “É um laser invisível a olho nu que não traz prejuízos à saúde humana”, diz Wolf. A câmera estéreo, com duas lentes, opera com o laser instalado na frente do carro e estima a profundidade das coisas ao redor, além de interpretar e informar as faixas de trânsito. “Nesse ponto estamos no meio do desenvolvimento, por enquanto o carro trafega nas faixas da pista, mas logo conseguiremos que ele identifique se elas são contínuas ou duplas, além de reconhecer as faixas de pedestres.”

O trajeto do carro é preestabelecido no mapa mostrado no monitor, mas durante o percurso é possível o ocupante mudar esse caminho por qualquer motivo. No futuro, as informações das condições de tráfego poderão determinar as mudanças de forma autônoma de acordo com os comunicados que o veículo receber da companhia de trânsito ou da administradora da rodovia. As imagens no monitor também mostram os obstáculos e as pessoas ao redor do veículo.

O carro, chamado de Carina II – o Carina I foi um carro de golfe elétrico que rodou apenas no campus –, percorreu primeiro as vias dentro do campus da USP em São Carlos, em 2012, e em outubro deste ano ganhou

as ruas da cidade, com apoio da Secretaria Municipal de Transporte e Trânsito, que afastou outros veículos do percurso e o escoltou com duas motos. “Até onde sabemos esse é o primeiro teste de um carro autônomo com todas as autorizações em vias públicas da América Latina”, diz Wolf, que não tem financiamento ou parceria com nenhuma indústria de autopeças ou automobilística. “Com o financiamento da FAPESP e do CNPq compramos o carro por R$ 50 mil em 2010 e todos os equipamentos principais como lasers e câmeras foram importados. Os lasers custaram R$ 110 mil, e a câmera 360° mais R$ 40 mil sem o imposto de importação porque são aparelhos para pesquisa comprados via CNPq”, diz Wolf.

grupo da uSp firma parceria com outro

da

universidade de Ohio, nos e stados unidos, para avançar nos

estudos

“Mas ainda temos um longo caminho porque o nosso carro ainda não faz ultrapassagens e a velocidade é limitada a 40 quilômetros por hora (km/h) por questão de segurança”, diz. Os estudos vão se aprofundar com a interação com um grupo da Universidade do Estado de Ohio (OSU), nos Estados Unidos, por meio de um projeto dentro de um acordo de cooperação firmado entre a FAPESP e a universidade norte-americana. “O grupo de Ohio é mais voltado para a engenharia elétrica e menos para a computação como o nosso. Eles têm mais de 15 anos de experiência e estão mais avançados na parte de controle e de instrumentação, mas nós estamos na frente na interpretação e processamento das imagens captadas por câmeras e sensores”, diz. Mesmo trabalhando na evolução do sistema, o grupo da USP já pres-

tou consultoria para empresas do setor agrícola e de veículos de grande porte, em projetos que os empresários preferem não comentar.

Embora com muitos projetos, o grupo de São Carlos não é o mais famoso do país. De forma involuntária, a equipe liderada pelo professor Alberto Ferreira De Souza, do Laboratório de Computação de Alto Desempenho (Lcad) do Departamento de Informática da Ufes, ficou conhecido no Brasil por ter se envolvido num pequeno acidente com a apresentadora Ana Maria Braga, da Rede Globo, num programa ao vivo na manhã do dia 22 de abril deste ano. Após realizar o percurso previsto no modo autônomo, o carro passou para manual por um erro humano. Com isso, o veículo se movimentou – não estava com o freio de mão puxado e encontrava-se em uma pequena descida – atingindo com a porta aberta a apresentadora que foi ao chão e sofreu ferimentos leves na boca e nas mãos. “Com o nervosismo do programa ao vivo deixamos de seguir as regras de segurança no momento em que desligamos o automático e passamos para o manual”, lembra De Souza. “Mas ela foi muito simpática com a gente e até ficou preocupada com uma possível repercussão negativa ao nosso projeto.” Mas o que aconteceu foi o contrário, muito mais gente se interessou em conhecer “o carro que anda sozinho”.

O grupo da Ufes, formado por mais três professores e nove alunos de mestrado e doutorado, desenvolveu o software que faz o controle do carro, mas o foco de interesse a longo prazo dos pesquisadores é entender como o cérebro humano funciona em relação à cognição visual para melhorar a visão dos carros. “O cérebro é capaz de criar representações internas, como, por exemplo,

medir o volume de algo, algumas pessoas fazem isso olhando para um móvel e dizem o tamanho aproximado, ou então um jogador de tênis que tem que calcular com precisão a velocidade da bola e a posição da raquete”, explica De Souza. “No carro, o universo é bem sofisticado porque existem os semáforos, por exemplo, e regras determinadas para todos. Queremos entender os modelos neurais, e não apenas matemáticos, de situações que indicam onde a pessoa está, em que lugar. Mas talvez os carros não precisem ter tanta informação como nós.”

Para levar à frente esse experimento, De Souza adquiriu, com financiamento do CNPq e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo (Fapes), um veículo Ford Escape híbrido, dos Estados Unidos. Ele contratou uma empresa norte-americana para modificar o carro com mecanismos para controlar o volante, freio, acelerador, câmbio e demais instrumentos via computador, além de instalar as câmeras e lasers de visão de 360°. Depois a equipe do professor Alberto desenvolveu o software de inteligência artificial de controle e navegação autônoma do carro. No total, o veículo já custou R$ 500 mil. Para sair à rua, o carro está aguardando a resolução de problemas burocráticos para emplacamento e regularização. Por enquanto, os testes são feitos dentro do campus da Ufes, em Vitória. A ambição do grupo é, em 2014, fazer o carro ir até Guarapari, a 50 quilômetros, e avançar na pesquisa com redes neurais principalmente no entendimento das regras de trânsito.

Ao contrário de Alberto, que adquiriu o carro em 2012 com os mecanismos de acionamento via computador prontos, o grupo do professor Gui-

1 a stra pioneiro da ufMg, montado em 2007

2 ford e scape, da ufes: equipamento para entender modelos neurais e melhorar a visão dos carros

é preciso uma legislação específica para os autônomos.
uma das perguntas é de quem será a culpa em caso de um atropelamento

lherme Augusto Silva Pereira, do Departamento de Engenharia Elétrica da UFMG, ainda em 2007 começou a montar um carro autônomo do zero. “Compramos, com o auxílio da Fapemig [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais], os equipamentos, como lasers, câmeras estéreo e GPS, e fizemos a instalação de toda a parte de automação interna e externa de uma forma que o sistema pode ser instalado em qualquer veículo”, diz Pereira. O carro utilizado é um Astra 2003 que foi ganho em uma competição, por outro grupo da universidade, da fabricante General Motors. Ao longo desses anos, Pereira e seus alunos refizeram toda a arquitetura de controle do carro e desenvolveram um controlador de velocidade que abrange de zero a 40 km/h. “Já existem controladores que partem dos 30 km/h. Nós fizemos um novo porque esse equipamento será essencial nos carros autônomos do futuro, quando será necessário, num engarrafamento, andar a menos que 40 km/h atrás de outro veículo com auxílio de sensores.” O Astra da UFMG também está circunscrito às ruas do campus em Belo Horizonte. “Como o carro foi doado, ele não tem número de chassi e não pode ser emplacado”, diz Pereira.

Ainda temos que evoluir muito e o caminho que outros grupos também buscam é a navegação que evite obstáculos, com a identificação de uma pessoa, um poste ou outro veículo, sabendo discernir o que está à frente”, diz Pereira. “Buscamos o mapeamento semântico dos obstáculos ao colocar nome e identificar o tipo de problema a enfrentar.” Ele acredita que os veículos autônomos estejam saindo do âmbito da pesquisa, pelo menos, na área de montagem dos carros. “Empresas da indústria automobilística já estão com modelos avançados. Por exemplo, a Nissan anunciou que terá um carro elétrico autônomo em 2020”, diz Pereira.

“Existem exemplos que provam que a tecnologia é viável, como nos Estados Unidos, onde a Google com um Toyota Prius adaptado para ser um carro autônomo percorreu milhares de quilômetros, e na Alemanha, onde a Mercedes, a Volks e o Instituto Fraunhofer possuem protótipos”, diz o engenheiro Ricardo Takahira, gerente de Novos Negócios em Veículos Elétricos e Inovação da Magneti Marelli, e membro dos comitês de veículos híbridos, elétricos, telemática e infotainment (informação e entretenimento) da Sociedade de Engenheiros da Mobilidade (SAE Brasil). “Mas ainda é preciso muita coisa, inclusive uma legislação específica para o carro autônomo. De quem seria a responsabilidade se por ventura esse veículo atropelasse alguém? Seria do proprietário, da montadora? Haveria seguro para este tipo de carro? São perguntas que ainda fazemos”, diz Takahira. “A tecnologia tem que andar de mão dada com a legislação.” O professor De Souza cita também a preocupação futura com hackers que

frequência das estrelas e dos carros

automação veicular utiliza cada vez mais radares que podem interferir em outros setores

Os automóveis atuais estão ganhando equipamentos eletrônicos sofisticados como o adaptative cruise control (aCC). Com uso de sensores na dianteira, o próprio sistema, sem a participação ativa do motorista, controla a aceleração ou o freio e mantém uma distância segura do veículo que vai à frente, evitando uma colisão em caso de uma parada brusca. Nesses casos, um dos problemas que surgem para os veículos autônomos é a necessidade do uso de uma frequência de radar de 79 gigahertz, a mesma reservada no b rasil e em todas

as américas para uso em radioastronomia. O rádio-observatório do itapetininga, em atibaia (sp), do instituto Nacional de pesquisas e spaciais (inpe), utiliza essa banda para captar dados do espaço. “e xistem comissões, inclusive da anatel [agência Nacional de telecomunicações] e da união internacional de telecomunicações [itu, na sigla em inglês], que estudam o assunto porque nos e stados unidos e na europa já existem acordos para uso dessa frequência em radares automotivos”, diz takahira. e sses

radares nos veículos produzem interferências nos rádio-observatórios se um único veículo estiver localizado a uma distância de 30 quilômetros. “um grupo de estudos da anatel tem participado das discussões na itu e no Comitê interamericano de telecomunicações tentando apoiar e estabelecer critérios de compatibilidade entre esses serviços para que os radares possam ser usados em bandas de frequências que não prejudiquem os serviços científicos em andamento”, diz o pesquisador José w illians v ilas b oas, do inpe.

podem entrar no sistema operacional do carro e até provocar acidentes.

Para Takahira ainda faltam mapas eletrônicos de grande definição de todas as localidades para que a navegação eletrônica possa ocorrer, além de sinalização eletrônica das placas. Também seria necessário encontrar soluções básicas para problemas de sujeira na lente das câmeras, por exemplo, que podem levar a interpretações errôneas pelo software de imagem. São detalhes a serem resolvidos aos poucos da mesma forma que os carros já estão se tornando autônomos. Ele se lembra de veículos como o Touareg da Volkswagen vendido no Brasil que estaciona sozinho em uma vaga por meio de sensores e câmeras.

Algumas dificuldades no caminho dos carros autônomos começam a ser resolvidas como aconteceu nos Estados Unidos para favorecer os veículos experimentais da Google. Para rodarem com mais tranquilidade nas ruas, os estados da Califórnia, Nevada e Flórida emitiram leis que permitem testes com esses tipos de veículos. Assim, eles já percorrem milhares de quilômetros sem motorista, apenas acompanhados de engenheiros no interior dos veículos. A Google conta com cinco carros, um Prius e três Lexus RX, da Toyota, e um Audi TT. O sistema de controle dos carros chamado de Google Chauffeur é coordenado pelo engenheiro Sebastian Thrun, do Laboratório de Inteligência Artificial da Universidade Stanford e também um dos inventores da Google Street View. A equipe de Thrun ganhou

um prêmio de US$ 2 milhões em 2005 da Agência de Pesquisa Avançada de Defesa (Darpa, na sigla em inglês) do Departamento de Defesa dos Estados Unidos com um projeto de carro autônomo. Depois foram contratados pela Google. Existem muitas experiências no mundo, principalmente na Alemanha, na Itália, no Japão e em Israel. O professor Wolf analisa que se a tecnologia evoluir e for aprovada ainda vai faltar a pergunta: “Quem compraria esse carro?”. Além de mais caro, seria um carro monitorado por uma infinidade de sensores nas ruas e nas estradas. “Não daria para sair ultrapassando rapidamente outro carro como se faz hoje, correndo mais que os outros ou dirigindo mais devagar que o fluxo.” Wolf ainda vai mais à frente num possível futuro. “Poderia existir um dia que ninguém mais compraria um carro, seria só pedir pelo telefone que um veículo sem motorista pegaria a pessoa num lugar e levaria para outro cobrando apenas o trajeto.” n

projetos

1. instituto Nacional de Ciência e tecnologia de sistemas embarcados Críticos (iNC t-seC) (n° 2008/57870-9); modalidade projeto temático-iNC t; Coord. José Carlos Maldonado – usp; Investimento r$ 2.639.677,06 (para todo o iNC t-seC) fapesp

2. a Collaborative effort for safer and More efficient tranportation with intelligent vehicles. (fapesp-Osu/2013) (n° 2013/50332-0); modalidade Linha regular de auxílio a projeto de pesquisa; Coord. Denis fernando wolf – usp; Investimento r$ 21.660,00 (fapesp)

3. projeto Carina - Carro robótico inteligente para Navegação autônoma (n° 2011/10660-2); modalidade Linha regular de auxílio a projeto de pesquisa; Coord. Denis fernando wolf – usp; Investimento: r$ 55.753,20 (fapesp)

em são Carlos, dois computadores controlam as informações dos sensores externos e acionam os comandos do veículo

a s reportagens da pesquisa fA pe Sp retratam a construção do conhecimento que será fundamental para o desenvolvimento do país. acompanhe essa evolução sem perder nenhum movimento

www.revistapesquisa.fapesp.br

renovação química

Dow investe em cana-de-açúcar como matéria-prima renovável para produção de plásticos

dinorah ereno

criada no final do século XIX nos Estados Unidos, a Dow Química tem hoje em seu portfólio mais de 5 mil produtos que servem de matéria-prima para diversos setores, como automotivo, eletrônico, eletrodoméstico, de energia, tintas e revestimentos, agricultura e cuidados pessoais. Em 2012, a companhia empregou cerca de 54 mil funcionários e suas vendas atingiram US$ 57 bilhões no mundo. Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) chegaram a US$ 1,6 bilhão. No Brasil, onde se estabeleceu em 1956 com um escritório de vendas, conta atualmente com mais de 2,4 mil funcionários, 15 unidades fabris e quatro centros de pesquisa em que trabalham cerca de 300 pessoas, entre técnicos e pesquisadores. O escritório de São Paulo, onde também fica um dos centros de pesquisa, é a sede da América Latina. No ano passado, a empresa registrou no país vendas de US$ 3,3 bilhões. “Temos projetos globais para buscar matérias-primas renováveis e o foco está no Brasil”, diz o engenheiro químico John Biggs, de 58 anos, diretor da Dow para a América Latina. Um desses projetos, em colaboração com a japonesa Mitsui, tem como objetivo a fabricação de polietileno de baixa

a partir da esquerda, Henrique Noguchi e iris tébéka (em pé), fernanda bueno e John biggs (sentados) e Daniel Cardinali

densidade – utilizado na fabricação de embalagens flexíveis, filmes industriais e artigos plásticos – a partir do etanol da cana-de-açúcar. As duas empresas são parceiras em todas as etapas do projeto, iniciado com a formação de um canavial em uma área de 17 mil hectares e a construção de uma usina com capacidade para produzir 240 mil metros cúbicos de etanol por ano em Santa Vitória, Minas Gerais. O projeto prevê ainda a construção de uma fábrica de transformação de etanol em etileno e a produção de biopolímeros. A transformação do etanol em etileno é feita pelo processo de desidratação por meio de um catalisador, que acelera a reação química. “No final do processo, o etileno e a água já saem separados”, diz o inglês Biggs, que está na Dow desde 1985 e no Brasil há quase nove anos. “A água será utilizada no sis-

tema de produção de vapor para geração de energia elétrica.”

Daniel Albuquerque Cardinali, de 28 anos, engenheiro de P&D de matérias-primas renováveis, faz parte da equipe de Biggs desde que entrou na Dow em 2011 como trainee . “Mais de 50% das novas contratações nessa área são feitas pela chamada anual do programa de trainee ”, relata Biggs. São cerca de 14 mil inscritos para 50 vagas, das quais oito destinam-se à área de pesquisa. Cardinali cursava o primeiro ano de mestrado na área de engenharia e ciência dos materiais na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – onde também se graduou em engenharia dos materiais – quando ingressou na empresa. Seu trabalho se divide em duas vertentes: pesquisa e desenvolvimento de novas rotas tecnológicas para os renováveis e

emp R e SA

dOw QuímiCA

Centro de P&d são paulo, sp nº de funcionários 2,4 mil

Principais produtos Matérias-primas para setores automotivo, eletrônico, eletrodoméstico, de energia, tintas e revestimentos, agricultura e cuidados pessoais

desenvolvimento de novos negócios, o que significa identificar oportunidades interessantes para a Dow, seja com outras empresas, institutos de pesquisa ou universidades para construção de parcerias. “A inovação na Dow é apoiada em colaborações com parceiros brasileiros e externos”, diz Cardinali.

Na área de renováveis, por exemplo, a empresa tem parcerias com o Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE) e com as universidades de Queensland, na Austrália, e do estado de Ohio, nos Estados Unidos. Entre as atribuições de Cardinali está,

por exemplo, a negociação com possíveis parceiros sobre a divisão da propriedade intelectual na exploração de tecnologias. “Meu dia a dia é bastante dinâmico, com visitas a universidades, institutos de pesquisas, além de participação em eventos e simpósios com o objetivo de criar uma rede de colaboração.”

duplO diplO m A

Henrique Formaggi Noguchi, de 25 anos, que trabalha atualmente como engenheiro de desenvolvimento e aplicação do grupo de elastômeros, também passou pelo processo de seleção para escolha dos novos trainees de 2012. Formado em engenharia de materiais pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), ele participou de um programa de intercâmbio da universidade com a École Centrale Paris para obtenção de

John biggs, engenheiro químico, diretor de P&d da dow para a América Latina

Iris raquel maia Tébéka, química, pesquisadora de P&d de matérias-primas renováveis

duplo diploma. “Pelo intercâmbio, cursei quatro anos da faculdade aqui e dois na França”, diz. Aprovado na Dow para uma das vagas na área de P&D, Noguchi trabalhou inicialmente no grupo de pesquisa de renováveis. “Durante oito meses pesquisei tanto a parte agrícola como a química da palha da cana, que tem bastante celulose e hoje, após a proibição gradativa da queimada da cana crua, é deixada principalmente no campo”, relata. Os resultados de suas pesquisas passaram a integrar outros projetos da Dow, como o de produção de polietileno de baixa densidade com a Mitsui. Após a experiência inicial, Noguchi assumiu o cargo de engenheiro de desenvolvimento e aplicação do grupo de elastômeros e tornou-se responsável pela carteira de clientes de algumas aplicações na América Latina. Nessa

London south b ank polytechnic: graduação

ufpe: graduação; usp: doutorado universidade de estocolmo: pós-doutorado daniel Albuquerque Cardinali, engenheiro de materiais, engenheiro de P&d de matérias-primas renováveis

Henrique kenji Formaggio noguchi, engenheiro de materiais, engenheiro de desenvolvimento e aplicação do grupo de elastômeros

Fernanda bortolane bueno, engenheira química, engenheira trainee de desenvolvimento e aplicação no grupo de elastômeros

ufsCar: graduação e mestrado

usp e école Centrale paris: graduação

unicamp: graduação

1 teste de resistência a fungos e algas

2 análise de resinas

3 Diluição de produtos biossintéticos

4 e studos de troca de calor

função, ele presta assistência técnica para os clientes e acompanha também o desenvolvimento de aplicações para novos produtos desenvolvidos nos Estados Unidos e Europa, onde estão os principais centros de pesquisa e desenvolvimento da empresa. “O desenvolvimento de aplicações engloba, além da fórmula e do processamento do produto, o posicionamento do cliente no mercado”, diz Noguchi. “Trabalho com a equipe comercial e de marketing, porque uma invenção por si só não tem valor no mercado.”

Com menos de 10 meses na Dow e ainda na condição de trainee na área de P&D, Fernanda Bortolani Bueno, de 25 anos, também trabalha no grupo de elastômeros, com atendimento técnico aos clientes. “A partir da necessidade do cliente, analisamos se podemos adaptar os nossos produtos à sua demanda ou até a necessidade de criar novos processos ou tecnologias”, relata a engenheira química graduada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Semanalmente ela fala com a líder do seu grupo nos Estados Unidos, que acompanha sua evo -

lução profissional. No Brasil ela tem o respaldo de uma tutora (coaching), que também foi trainee cinco anos atrás.

Os principais parceiros nas pesquisas feitas no Brasil são a Escola Politécnica da USP e o Departamento de Engenharia de Materiais da UFSCar. “Temos uma relação de colaboração quase permanente”, diz Biggs. O estreito relacionamento também resulta no contato com alunos que posteriormente são contratados para a área de P&D, a exemplo do que ocorreu com a química Iris Raquel Maia Tébéka, de 27 anos, graduada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ela veio para São Paulo em 2007 fazer o doutorado direto na área de síntese orgânica na USP e, durante uma visita do pesquisador Rui Cruz – que na época pertencia ao grupo de matérias-primas renováveis da Dow – ao Instituto de Química teve um primeiro contato com o programa de recrutamento da empresa. “Não tinha ainda um caráter de seleção, mas o contato se manteve e resultou em uma entrevista antes de eu viajar para o pós-doutorado na Universidade de Estocolmo, na Suécia”, relata Iris.

ROtAS A lte R n Ati VAS

Quando ela retornou ao Brasil em fevereiro deste ano, após três anos em Estocolmo, já começou a trabalhar como pesquisadora de P&D de matérias-primas renováveis. “Fiz meu percurso acadêmico completo, mas sempre tive certeza de que queria trabalhar na indústria e em uma área em que a formação acadêmica

funcionários participam do processo de inovação com sugestões de ideias em portal e soluções para desafios reais

fosse indispensável”, diz. Seu trabalho diário é pesquisar o desenvolvimento de novos processos e inovações que possam substituir as rotas petroquímicas por rotas alternativas renováveis. Não é uma pesquisa tradicional de laboratório. “Aqui tratamos, analisamos e aplicamos todo tipo de dados experimentais obtidos nas colaborações com laboratórios externos”, diz Iris. “Tudo o que analisamos, mesmo em termos de dados experimentais e de pesquisa bibliográfica, tem de ser cruzado com uma análise financeira do mercado e de dados internos da empresa, como custo de produção, mercado e logística.”

A Dow também está à frente de um projeto de pecuária sustentável em Paragominas, no Pará, para aumentar a produtividade do rebanho bovino de forma sustentável, por meio de parcerias. Em 2010 teve início o primeiro piloto do projeto em seis fazendas na região, com intervenções simples como a fertilização das pastagens, a utilização de espécies forrageiras mais produtivas e o controle das plantas invasoras. “Um ano após o início do projeto, as fazendas já eram consideradas um exemplo em manejo sustentável e tiveram sua produtividade quadruplicada”, diz Biggs. A produção passou de 0,8 para 3,66 arrobas por hectare.

A empresa incentiva seus funcionários a participar do processo de inovação por meio de canais como o Idea Central, um portal em que todos podem dar sugestões, e o Innovation@Dow Challenge, que consiste em propostas de soluções para desafios reais. Anualmente promove o Innovation Award, que premia os projetos mais inovadores apresentados por pesquisadores da América Latina. No ano passado, por exemplo, o vencedor propôs o desenvolvimento de um revestimento impermeabilizante para lajes, telhados e coberturas, lançado com o nome comercial de Telhado Branco, para reduzir a temperatura nas cidades. “Estudos demonstram que, ao utilizar essa solução, há um ganho considerável em eficiência energética com redução de até 5ºC na temperatura interna e de até 18ºC na superfície externa do telhado”, diz Biggs. n

parceria doce

poli-usp vai testar processo japonês de produção de plástico biodegradável com bactéria e caldo de cana

Aação de um microrganismo descoberta no outro lado do mundo poderá dar origem a um plástico biodegradável produzido a partir da cana-de-açúcar. Pesquisadores da Universidade de Ryukyus, em Okinawa, no Japão, descobriram no melaço da cana uma variedade da bactéria Bacillus coagulans capaz de fermentar o açúcar em alta temperatura, até 54ºC. No caso do caldo fermentado para a produção de etanol, que utiliza a levedura Saccharomyces cerevisiae , a temperatura vai até 34°C. Se passar disso o microrganismo morre. O ambiente suportado pela B. coagulans evita a presença de outros microrganismos, o que diminui o custo em relação a gastos para evitar a contaminação do processo. Agora uma parceria entre os japoneses, a Universidade de São Paulo (USP) e a empresa Biopol, com sede em Santana de Parnaíba, na Região Metropolitana de São Paulo, tenta viabilizar a produção do polímero, primeiro em escala-piloto. O líder do grupo brasileiro, Cláudio Oller, professor do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da USP (Poli-USP), explica que para evitar a contaminação em temperaturas abaixo de 30ºC a solução é realizar o processo num recipiente fechado e esterilizado, mas isso

é mais difícil e caro. “É aí que está a grande vantagem da bactéria descoberta pelo professor Shinichi Shibata”, diz Oller. “Como ela atua em altas temperaturas, não sofre a competição de outros microrganismos. Por isso, a fermentação ocorre num ambiente aberto e mais barato.”

O grupo da Universidade de Ryukyus descobriu o B. coagulans há cinco anos e desde então realizou uma série de experimentos que levaram ao desenvolvimento de um plástico biodegradável a partir do açúcar granulado. Em 2008, Shibata e o brasileiro Tunehiro Uono criaram a Biopol Polímeros Vegetais, para transformar a pesquisa acadêmica em um produto para o mercado. Shibata já esteve sete vezes no Brasil. O encontro dos dois aconteceu por meio da televisão. “Meu irmão morava em Tóquio e viu no noticiário um relato da pesquisa de plástico verde no Japão com açúcar. Ele concluiu que o local provável da pesquisa seria em Okinawa, região subtropical que cultiva cana-de-açúcar. E a minha filha reside lá. Ela é formada em química na USP e pedi que investigasse no meio acadêmico. Foi assim que chegamos ao professor Shibata”, diz Uono. O produto final é um tipo de polímero de ácido láctico (PLLA), semelhante aos feitos de petróleo, mas biodegradável. “É um tipo de poliéster”, explica Reinaldo

Compósito para peças

a garapa é obtida pelo processo de difusão, em que a cana é preparada em pedaços e a sacarose é extraída por lavagem repetitiva

Giudici, colega de departamento de Oller na Poli e que também participa do projeto. “Ele pode ser usado para produzir filmes para embalagens, peças de computador, utensílios, fios e fibras para tecidos, ou ainda materiais biodegradáveis e biocompatíveis para aplicações em medicina, por exemplo.” No início deste ano a Biopol, por meio de Uono, procurou a Poli para propor o desenvolvimento da tecnologia no Brasil. A parceria entre a universidade e a empresa para o desenvolvimento do produto foi intermediada

evanildo da Silveira
fOnte CL áuDiO OLLer / usp
CaNa-De-açúC ar pOLietiLeNO
DifusãO
de automóvel
bagaço
eXtrusãO

d o caldo de cana ao plástico

processo de produção é semelhante à fabricação de etanol mas utiliza uma bactéria no lugar da levedura na fase de fermentação

ferMeNtaçãO

purifiC açãO pOLiMerizaçãO fiOs fibras

O bagaço misturado ao polietileno pode resultar em peças para carros. O caldo recebe a bactéria e é fermentado

biomateriais e filmes para embalagens

O resultado é um monômero precursor do polímero de ácido láctico (pLL a), um plástico biodegradável

pela Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FDTE), ligada à Poli. “Nós fazemos a ponte entre a universidade e a empresa”, explica o engenheiro André Gertsenchtein, diretor superintendente da FDTE. “Para dar início ao projeto, entramos com cerca de R$ 200 mil, que depois nos serão ressarcidos. Agora vamos negociar com o BNDES em busca dos recursos necessários para desenvolver o produto”, diz Gertsenchtein. Uono calcula que sejam necessários R$ 10 milhões.

bactéria Bacillus coagulans: encontrada no melaço da cana

trientes, como nitrogênio e fósforo, por exemplo, necessários ao metabolismo do B. coagulans. “Quando se usa o açúcar, é necessário acrescentar esses micronutrientes, o que encarece o processo”, explica. “A ideia é usar a garapa como insumo durante a safra da cana e o açúcar na entressafra.” O objetivo é que o novo plástico possa ser produzido pelas usinas brasileiras de açúcar e álcool. “O processo é bem parecido”, revela Uono.

C uS tO m A i OR

Em maio deste ano Oller, sua colega de departamento Elen Aquino Perpetuo, a diretora de operações da FDTE, Edith Ranzini, e Uono viajaram até Okinawa, para conhecer os resultados das pesquisas do professor Shibata. De volta ao país, o grupo resolveu desenvolver um projeto mais abrangente. Em vez de usar apenas açúcar, um insumo caro, decidiu testar a produção do plástico também a partir do caldo da cana, um produto mais barato. Além disso, segundo Oller, ela é fonte de carbono e de vários micronu-

Para aumentar a viabilidade econômica do projeto, Oller e sua equipe querem também aproveitar o bagaço. “Depois de retirar a sacarose que ainda resta, nós o misturamos com polietileno para fazer um compósito, que pode ser usado para fabricar peças automotivas”, conta. “O problema é que este compósito tem um odor desagradável e não serve para fazer componentes internos de carros. Nosso desafio agora é encontrar uma maneira de eliminar o cheiro.” A previsão é que em dois anos a tecnologia do plástico biodegradável e a do compósito sem odor estejam prontas para serem transferidas para a indústria. Hoje o polietileno feito de petróleo é mais barato do que os plásticos de origem vegetal. “Ainda não fizemos uma análise de todo o processo, com o aproveitamento do bagaço e da garapa”, diz Oller. “Mas se conseguirmos um custo competitivo o mercado para o nosso plástico pode ser enorme.” Para o professor Sandro Mancini, do curso de engenharia ambiental da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Sorocaba, o plástico biodegradável ainda tem problemas em relação ao custo, superior aos plásticos convencionais. “Mas o polímero com o qual o professor Oller trabalha pode representar um avanço porque o barateamento do processo e a abundância do melaço de cana no Brasil devem facilitar a produção”, diz Mancini. Outro especialista, o professor Telmo Ojeda, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), em Porto Alegre, diz que de forma genérica o biodegradável custa entre 1,5 e 5 vezes mais do que o petroquímico. “Essa situação tende a mudar conforme aumentam a escala de produção e a eficiência dos processos produtivos. Em geral, o consumidor aceita pagar cerca de 10% a mais por um produto com menor impacto ambiental”, diz Ojeda. n

Lactato Caldo de cana
pLL a
bactéria Bacillus elegans

i mpactos antecipados

programa avalia cenários futuros para irrigação, geração de energia elétrica e obras em bacias hidrográficas

Um modelo computacional criado pelo pesquisador gaúcho Samuel Beskow, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, consegue simular o comportamento de bacias hidrográficas brasileiras e a influência que a mudança no uso do solo exerce sobre ele. “O programa dá suporte para a tomada de decisões, como a permissão de usar água de um rio para irrigação, a mudança adequada de uso do solo e o potencial para estabelecimento de um reservatório”, diz Beskow, graduado em engenharia agrícola. Ele desenvolveu o modelo – chamado Lavras Simulation of Hydrology (Lash) – durante o seu doutorado na área de hidrologia e simulação hidrológica feito na Universidade Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais, e na Universidade Purdue, nos Estados Unidos. “Com o programa é possível traçar cenários relacionados à irrigação, geração de energia elétrica, navegação e até fornecer informações hidrológicas para dar subsídio ao dimensionamento de obras hidráulicas, como bueiros, canais, pontes e barragens”, diz Beskow, que tem como parceiros no projeto pesquisadores das universidades do Tocantins, de Lavras e Purdue.

Os modelos usados atualmente no Brasil são importados dos Estados Unidos e da Europa, o que pode resultar em limi-

tações, na avaliação do pesquisador. “Por conta do clima e do solo, dentre outras características, as bacias hidrográficas brasileiras, bem como seus regimes hidrológicos, podem apresentar características consideravelmente distintas das europeias e americanas”, diz Beskow. O monitoramento dos recursos hídricos no país foi implementado principalmente em bacias hidrográficas com grandes aproveitamentos hidrelétricos, para irrigação ou para abastecimento urbano, e os dados fluviométricos – que englobam medição dos níveis de água e vazão dos rios – ainda são insuficientes para a realidade econômica e ambiental do país. “Os grandes rios são monitorados, mas há inúmeras bacias de porte menor em áreas agrícolas onde a análise é escassa”, diz.

O programa Lash foi o vencedor do 34º Prêmio Fundação Bunge Juventude 2013 na área de recursos hídricos e agricultura. “O modelo é muito importante porque pode ser aplicado tanto a pequenas bacias hidrográficas como às de grande porte”, diz José Galizia Tundisi, professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP) e orientador de pós-graduação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), responsável pelo programa mundial de formação de gestores de recursos hídricos da Rede Global de Academias de Ciências (IAP, na

vista aérea do rio guandu, em piraí (rJ): modelo hidrológico orienta a tomada de decisões em relação à água e ao solo

sigla em inglês). “Ele é uma ferramenta de gestão muito avançada”, diz Tundisi, que atualmente ocupa o cargo de secretário municipal de Desenvolvimento Sustentável, Ciência e Tecnologia de São Carlos, no interior paulista.

A náli S e independente

A primeira versão do Lash foi concluída em 2009 e aplicada em pesquisas sobre modelagem de chuva e vazão em sub-bacias hidrográficas da bacia do Rio Grande – que contempla os estados de São Paulo e Minas Gerais –, com potencial para geração de energia hidrelétrica. Na segunda versão, desenvolvida desde 2011 e em fase de conclusão, o modelo hidrológico foi aprimorado para ser usado por empresas, comitês de bacias hidrográficas, associações de usuários de recursos hídricos e instituições governamentais ligadas ao setor.

O programa é dividido em módulos compostos por mapas, gerenciados no ambiente de sistemas de informações

geográficas (SIGs), que caracterizam a bacia hidrográfica e bancos de dados com informações meteorológicas como temperatura, velocidade do vento e precipitação e também sobre tipo e uso do solo. Os usuários podem importar e armazenar dados de várias estações de monitoramento. “Um aspecto interessante é a divisão da bacia em sub-bacias, o que resulta na análise do balanço hídrico de forma independente.” O modelo também permitirá analisar a erosão e o transporte de sedimentos nos cursos d’água. “Com o cruzamento das informações conseguimos analisar a suscetibilidade de uma determinada bacia à estiagem e à cheia, eventos de chuva e o que elas causariam, com intervalos de horas ou de dias”, relata Beskow, que coordena o Laboratório de Simulação Hidrológica e Processamento de Dados e o programa de pós-graduação em Recursos Hídricos na UFPel.

O software permite identificar o comportamento de um curso d’água e prever o volume de água disponível durante época

de cheias e de estiagens. “Além de gerar informações, o modelo é um instrumento para estudos de viabilidade técnica e econômica de empreendimentos que necessitam da utilização de recursos hídricos provenientes de cursos d’água.” Na avaliação de Tundisi, o Lash representa uma inovação tanto do ponto de vista da pesquisa como de ferramenta para gestão. “Entre as inovações do programa estão, por exemplo, a plataforma de geoprocessamento de drenagem, que envolve áreas críticas das bacias hidrográficas, e o fato de poder ser aplicado a diferentes regiões do Brasil.” n d inorah ereno

artigos científicos

besKOw s., MeLLO, C.r., NOrtON, L.D., siLva a .M. performance of a distributed semi-conceptual hydrological model under tropical watershed conditions. Catena. v. 86, n. 3, p. 160-71, 2011.

besKOw s.; NOrtON, L.D.; MeLLO, C.r . Hydrological prediction in a tropical watershed dominated by Oxisols using a distributed Hydrological model. water Resources management. v. 27, n. 2, p. 341-63. 2013.

H um A nidA de S C i Da D es y

Diagnóstico abrangente

Centro de estudos da Metrópole mostra que a desigualdade na educação básica dos municípios brasileiros é maior do que na saúde básica

José tadeu Arantes, da Agência FAPESP

Aqualidade da saúde e da educação básica no Brasil registrou sensível melhora nas duas últimas décadas. Essa evolução refletiu no Índice do Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), que cresceu de 0,493 para 0,727 entre 1991 e 2010, atingindo um patamar considerado alto na avaliação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), em estudo divulgado em julho de 2013. A evolução do IDHM não foi maior porque os índices da qualidade da educação, mesmo tendo crescido, ainda ficaram extremamente baixos.

Indicadores obtidos pelo Centro de Estudos da Metrópole (CEM) em 10 anos de pesquisa revelam que, enquanto os ganhos de qualidade no atendimento da saúde foram mais ou menos uniformes para o conjunto dos municípios brasileiros, na educação aprofundaram-se as disparidades. “A desigualdade na saúde básica é menor do que na educação básica”, constata Marta Arretche, coordenadora do CEM, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP.

Os municípios com muitos pobres têm dificuldades para melhorar o desempenho de seus estudantes, constatou a pesquisa, que avaliou, por meio de 10 indicadores, o desem-

penho da saúde e da educação básica de todos os municípios brasileiros ao longo da década de 2000. “Se o desempenho da saúde básica está fracamente associado ao percentual de pobres do município, o desempenho dos sistemas municipais de educação básica tem uma associação forte e negativa com a taxa de pobreza”, ela afirma.

A pesquisa, que comparou a trajetória e o desempenho de cada um dos municípios brasileiros, deixou algumas perguntas em aberto. Já existem fortes evidências de que o modelo de universalização tem influência no desempenho de cada um dos sistemas: enquanto a saúde básica tem gestão centralizada no Sistema Único de Saúde (SUS), a educação básica é municipalizada. “É inegável que o SUS tem uma influência muito positiva no melhor desempenho do setor”, diz Arretche. “E, dado que a universalização do ensino fundamental ocorreu por meio da municipalização, as relações entre presença de pobres e desempenho escolar afetam mais fortemente as escolas da rede municipal.”

A pesquisa sobre o desempenho dos sistemas de educação e saúde integra o portfólio de investigação desse Cepid constituído em 2000, no primeiro edital do programa, com o objetivo de entender os processos de reprodução das de -

fila de 150 metros formada por pessoas em busca de 50 vagas temporárias em empresa de são paulo, em outubro de 2004: força de trabalho jovem, crescentemente feminina e mais escolarizada

ao lado, alunos durante aula em escola municipal na capital paulista em 2010: universalização do ensino fundamental ocorreu por meio da municipalização

sigualdades nas metrópoles e fornecer dados e subsídios para a formulação de políticas públicas.

“Os estudos do Centro foram organizados segundo três grandes eixos temáticos: atividades econômicas e mercado de trabalho; o Estado e suas políticas; e a sociabilidade dos cidadãos”, diz Eduardo Marques, professor livre-docente do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do CEM de 2004 a 2009.

O eixo atividades econômicas e mercado de trabalho englobou temas como reestruturação produtiva e competitividade, emprego e desemprego e, mais recentemente, os impactos do aumento da escolaridade da população no mercado de trabalho.

tRAJ etÓR i AS OC upAC i O n A i S

Nesse eixo temático, uma das pesquisas foi conduzida por Nadya Guimarães, professora titular do Departamento de Sociologia da USP e diretora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos da Metrópole, sediado no CEM, e buscou compreender a intensa reestruturação macroeconômica e micro-organizacional ocorrida no Brasil a partir dos anos 1990. “Em primeiro lugar, analisamos o que se passava com as trajetórias dos indivíduos no mercado de trabalho quando se contraía a atividade produtiva e se ampliava o desemprego, como ocorreu entre nós na primeira metade dos anos 2000”, contou Nadya Guimarães.

“Em parceria com a Fundação Seade [Sistema Estadual de Análise de Dados], fizemos uma pesquisa por amostra domiciliar que alcançou 55 mil

indivíduos na Região Metropolitana de São Paulo, os quais tiveram as suas trajetórias ocupacionais retraçadas desde o Plano Real [1994] até o momento da enquete [2001]”, disse a pesquisadora. Posteriormente, uma subamostra de casos foi analisada em profundidade e acompanhada entre os anos 2002 e 2005, de modo a explorar como esses indivíduos interpretavam a sua experiência de busca por oportunidades no mercado de trabalho.

Para melhor entender a especificidade de São Paulo, os pesquisadores conduziram estudo similar, em parceria com colegas japoneses e franceses, nas regiões metropolitanas de Tóquio e de Paris. Tais metrópoles estavam igualmente sujeitas a mudanças importantes nas condições de acesso ao trabalho e ao crescente risco de desemprego, mas se distinguiam do caso brasileiro pela robustez dos seus sistemas políticos de proteção – público, no caso francês, e privado, no caso japonês.

“Observamos que, em São Paulo, as trajetórias eram marcadas por intensas transições entre ocupação, desemprego e inatividade, dando lugar a percursos ocupacionais erráticos, movidos pela premência de obter, a qualquer custo, a sobrevivência imediata”, diz Nadya Guimarães. “Isso refletia a natureza restrita das políticas de proteção aos desempregados, tanto no que respeitava a sua capacidade de incluir os potenciais demandantes quanto no que concernia aos benefícios como o seguro desemprego ou o sistema público de apoio à requalificação, intermediação e colocação de mão de obra”, acrescenta.

A pesquisa constatou que eram as redes pessoais de sociabilidade os mecanismos pelos quais

na pesquisa sobre trabalho, viu-se que as agências de emprego haviam se transformado em um poderoso segmento econômico

os indivíduos procuravam e encontravam não apenas o trabalho, mas também o suporte imediato para encarar o desemprego ou a inatividade.

“Na Região Metropolitana de São Paulo, onde 8 em cada 10 entrevistados afirmaram procurar trabalho por meio de seus familiares, amigos e conhecidos, e 7 em cada 10 diziam ter encontrado o seu último trabalho recorrendo a redes pessoais, eram esses mecanismos informais os mais eficazes para ultrapassar o desemprego. Mas nossos dados mostraram também que as oportunidades de emprego criadas nesses circuitos de sociabilidade eram de baixa qualidade e menor durabilidade”, relata a pesquisadora.

Estudos comparativos evidenciaram que tal característica era recorrente nas demais metrópoles brasileiras, porém em intensidade variável, sendo tanto mais relevante quanto mais precários e pouco formalizados eram os mercados – assim, era mais eficaz no Nordeste (notadamente em Recife e Salvador) do que no Sudeste e no Sul (em especial, Porto Alegre).

Ati V idA de eme R gente

Em um segundo momento, os pesquisadores analisaram a reconfiguração das relações de trabalho no Brasil, na segunda metade da década de 2000.

“Observamos, pela análise de estatísticas do Mi-

nistério do Trabalho e do Emprego (Rais-Migra), que, quando se ampliaram os empregos formais no Brasil, havia crescido muito mais rapidamente um tipo especial de emprego com carteira assinada: aquele propiciado pelo que denominamos ‘intermediadores de oportunidades de trabalho’, como as agências de emprego ou as empresas de trabalho temporário”, informa Nadya Guimarães.

“Em um mercado caracterizado pela força das redes pessoais de sociabilidade, cresciam, e de modo acelerado, os mecanismos mercantis que ligavam os indivíduos que procuravam empregos aos postos de trabalho disponíveis”, diz a pesquisadora da USP.

Um novo levantamento amostral, com cerca de 1.600 casos, entre trabalhadores à procura de emprego em agências da Região Metropolitana de São Paulo no ano de 2004 revelou que se tratava de uma força de trabalho mais jovem, crescentemente feminina e mais escolarizada, que se encontrava em busca, no mais das vezes, de seu primeiro emprego.

“A maioria deles encontrava, por meio dos intermediários, o seu primeiro posto formalmente registrado de trabalho. Mas os vínculos eram de pequena duração e os ganhos salariais eram muito menores do que aqueles experimentados pelo salário mínimo no pós-2005”, diz Nadya Guimarães.

Por outro lado, as empresas dedicadas à intermediação de trabalho haviam se transformado em um poderoso segmento da atividade econômica, organicamente integrado aos que contratavam os seus serviços, como os pesquisadores puderam verificar utilizando a Pesquisa da Atividade Econômica Paulista.

Segundo a pesquisadora, mais do que isso, nesse ramo de atividade o Brasil se destacava entre os países líderes no cenário internacional do trabalho intermediado. “Exploramos estatísticas comparativas internacionais para os anos 2008 a 2010 e vimos que o Brasil ombreava com países reconhecidos no mundo do trabalho intermediado e temporário, como Japão, Inglaterra, Espanha, Holanda e Estados Unidos, tanto pelo número de agências de emprego e pelo número de trabalhadores intermediados como por sua participação na receita gerada pelo setor em escala internacional”, diz ela. “Ou seja, no mesmo movimento de crescimento econômico pelo qual o emprego se ampliava, as relações de trabalho pareciam progressivamente se reconfigurar, diversificando-se pari passu com a dinâmica econômica.” n

projeto

CeM - Centro de estudos da Metrópole (nº 2013/07616-7); modalidade Centro de pesquisa, inovação e Difusão (Cepid); Coord. Marta arretche/usp; Investimento r$ 1.357.627,72 e us$ 29.705,00 por ano para o CeM (fapesp).

Capa do primeiro número da Revista da Faculdade de Direito de São Paulo: título surgido em 1893 nas arcadas (ilustração), como é conhecida a faculdade de Direito do largo de são francisco

Antigas páginas acadêmicas

portal da usp traz a coleção completa de algumas das primeiras revistas científicas editadas em suas faculdades

marcos pivetta

neste mês de novembro o Portal de Revistas da Universidade de São Paulo (USP) torna disponível na internet a coleção completa de alguns dos primeiros periódicos científicos produzidos por faculdades dessa instituição. Os títulos mais velhos remontam ao fim do século XIX ou ao começo do XX e alguns foram lançados por unidades acadêmicas que existiam antes do advento da USP, em 1934, e à universidade foram incorporadas no momento de sua criação. No endereço www.revistas.usp.br poderão ser encontrados todos os números de periódicos como a Revista da Faculdade de Direito de São Paulo  – a mais antiga da coleção, que começou a ser editada em 1893 e permanece até hoje viva – ou a Revista de Medicina, da Faculdade de Medicina, criada em 1916 e igualmente ainda impressa. O texto integral de certos títulos surgidos após o estabelecimento da USP também está agora disponível na web. Esse é o caso, por exemplo, do Boletim de Botânica, fundado em 1937, quando a área se abrigava na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), primeiro nome da atual Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

(FFLCH), e da Revista de História, impressa desde 1950 pelo Departamento de História. Ambas continuam sendo editadas até hoje.

“Nossa ideia é reunir num único lugar, de acesso aberto, o acervo de todos os periódicos científicos já publicados pela universidade”, diz André Serradas, chefe da seção de apoio ao credenciamento de revistas do Sistema Integrado de Bibliotecas da USP. “Seremos uma fonte de pesquisa para historiadores da ciência, interessados na produção científica dos primórdios da universidade, e também para quem queira acompanhar seus trabalhos atuais.” Às vezes, um período de um título está disponível num endereço da internet enquanto o restante está em outro lugar ou pode nem ter sido digititalizado. Ao reunir todos os números de uma revista num único site, a iniciativa da USP facilita o trabalho de consulta. Hoje o portal, que completa cinco anos de funcionamento, dispõe do arquivo integral de mais de

primeiros títulos são do final do século xix e início do xx, criados por unidades que a uSp incorporaria no momento de sua criação, em 1934

O número inicial da Revista de Medicina, surgida em 1916, 15 anos antes da inauguração da sede atual da fMusp (ao lado)

Revista de História: publicação criada em 1950 na antiga ffCL (abaixo) 3

100 revistas e 50 mil documentos. A meta é chegar a cerca de 500 revistas digitalizadas. Algumas revistas foram mudando de nome, às vezes também de perfil, ao longo dos anos. Nessas situações, os responsáveis pelo portal optaram por publicar cada fase de um determinado periódico científico em separado dentro do site da USP, mas sempre ressaltando que o novo título é uma espécie de continuação do anterior. Dessa forma, dentro do item que abarca as publicações de medicina veterinária, o portal traz três revistas cuja história se encontra totalmente entrelaçada: a Revista da Faculdade de Medicina Veterinária, que surgiu em 1938 e manteve o nome até 1972; a Revista da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, nova denominação do título anterior que foi adotada de 1972 até 1990; e, por fim, Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal

, título em

inglês empregado desde então para dar visibilidade internacional ao periódico. O mesmo ocorre com a revista editada há quase 70 anos pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), de Piracicaba. O periódico surgiu em 1944 com o nome de Anais da Escola Superior de Agricultura luiz de Queiroz. Em 1992, passou a ser publicado com o título Scientia Agricola.

“O acesso on-line às revistas facilita muito nosso trabalho”, diz o historiador Andre Mota, coordenador do Museu Histórico Prof. Carlos da Silva Lacaz da FMUSP. “Será ótimo para estimular novas pesquisas.” No doutorado, ele estudou o surgimento da Revista de Medicina, que traz a produção científica dos alunos. No pós-doutorado, parte de sua documentação de pesquisa foi o periódico estudantil O Bisturi, de caráter mais descontraído, publicado desde 1930, com algumas interrupções, pelo centro acadêmico da Medicina da USP.

A revolução da luz

Dois pioneiros da arte cinética mostram que a corrente anteviu conceitos que só nasceriam na contemporaneidade

não faltam razões para que, de seu nascimento nos anos 1950 até agora, a arte cinética tenha sido pouco mostrada no mundo. A arte cada vez menos material, que explora efeitos visuais por meio de movimentos físicos, foi defendida por artistas de vanguarda que desprezavam o mercado. Este ano, entretanto, grandes exposições se dedicam a dois de seus pioneiros – o argentino Julio Le Parc e o brasileiro Abraham Palatnik – e agora parece claro que, apesar de terem sido ofuscados pelo concretismo e a art pop, tratava-se de uma arte à frente de seu tempo. O portenho Le Parc, conhecido por posições políticas contundentes, declinou de convites importantes como uma individual no Museu de Arte Moderna de Paris. Ao ganhar o prêmio de pintura na Bienal de Veneza em 1966 (desbancando o azarão Roy Lichtenstein), discursou contra a art pop norte-americana. Aos 85 anos de idade veio pessoalmente inaugurar duas exibições concomitantes no Brasil, logo depois do sucesso internacional da homenagem realizada pelo

Sphère bleue instalação de Julio Le parc que pode ser vista na galeria Nara roesler, em são paulo
Ana weiss

Palais de Tokyo em Paris e visitada por mais de 180 mil pessoas. “Acho que os diretores de museus se curvam diante dos anseios do mercado”, disse ele em São Paulo, na abertura da mostra na galeria Nara Roesler, transformada pelas instalações que se alteram com o movimento do corpo e do olhar –não do artista, mas do espectador. As obras chegam com um tom de missão cumprida. A meta de Le Parc era transcender a geometria (que dominava o movimento concretista da América Latina) e propor uma interação, através da instabilidade do olhar.

Assim como Le Parc, há quem diga que o potiguar Abraham Palatnik tenha antecipado o 3D. A estratégia de usar a retina para recriar a sensação espacial faz parte tanto da obra de um como de outro. Palatnik é um dos destaques da exposição 30 X Bienal, retrospectiva das três décadas da Bienal em São Paulo, em cartaz no pavilhão da instituição, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Ambos foram, porém, muito além do ilusionismo que alimenta os laboratórios de tecnologias virtuais. Le Parc se lançou num projeto político quando conseguiu obter um produto artístico cujo resultado depende sempre do público final. Era o que ele queria quando expunha nas ruas, na juventude em Paris dos anos 1960, período em que criou o GRAV, grupo influenciado por cabeças de chave do modernismo, como Victor Vassarely e Piet Mondrian. Era mais do que vencer a matemática da arte concreta. Le Parc queria atingir a imaterialidade da arte. E a luz passou a ter um domínio e uma participação cada vez maior no seu trabalho.

ótico à tela da série Progressões, que abraham palatnik passou a realizar nos anos 1960. abaixo, um de seus aparelhos cinecromáticos, de 1955

Algo parecido ocorreu com Palatnik. Menos aguerrido politicamente que o colega argentino, mas igualmente conectado com a pintura sobre tela, o filho de judeus russos largou os pincéis e passou a se dedicar a fabricar, na entrada dos anos 1950, máquinas lúdicas, equipamentos que batizou de aparelhos cinecromáticos depois de conhecer os trabalhos dos internos do Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, no Rio. Levado ao manicômio pelo crítico Mário Pedrosa, Palatnik experimentou uma espécie de colapso criativo. Parou de pintar, se trancou em casa. Meses depois se desfez do material de pintura e começou a trabalhar nos objetos que viajaram o país recentemente numa grande retrospectiva realizada pela ArtUnlimited e exibida pelo Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília e de Belo Horizonte. A peça que agora o representa na mostra histórica da Bienal chegou a ser recusada pela comissão julgadora do evento então recém-criado, em 1951. “Eles disseram que não havia como classificar o trabalho”, comentou em depoimento publicado no texto do catálogo que acompanha a mostra. O Aparelho cinecromático, engrenagem equipada com lâmpadas elétricas coloridas, acabou na primeira edição da Bienal de São Paulo graças a uma desistência da delegação japonesa.

A dimensão política de Le Parc e a busca poética de Palatnik atravessaram mais de meio século para chegar em grandes centros de exposição com um frescor próprio dos contemporâneos. Caminhando contra a situação, eles se aproximaram como poucos de tendências que norteiam a vida de seus netos: a desmaterialização, a interação e o compartilhamento. E começaram isso num tempo em que o ambiente virtual não existia nem como ideia. n

acima, ripas de madeira conferem efeito

O inimigo oculto

Rodrigo petronio

são pré-colombianos. Precisamos limpar a área.

Prossegue uma dissertação sobre as condições específicas daquele sítio. O lavrador e sua mulher olham o rosto robusto e o movimento dos lábios do rapaz; as palavras se fundem; blocos de imagens uma hora ou outra compõem um quadro legível de sensações. Em seguida submergem em uma massa de sílabas sobrepostas.

– E a nossa casa?

O jovem lamenta com gestos brandos e some na escuridão atrás dos montes como um véu.

– Mais pra cima.

Os tratores levantam as bocas cheias de terra e placas de cal, despejam-nas nos arredores do casebre; formam uma vala com uma ilha incrustada em seu centro. O homem anda vagaroso entre os operários, velozes de um lado para outro; agacha-se perto de uma árvore; observa os aventais brancos ao vento enquanto um naco de terra escorre entre seus dedos feito areia fina. Ao longe cavalos trinam as patas na lama enrijecida, puxam os arados e somem sob a pátina em ruínas de casas caiadas amarelas e brancas. Agora são esses, os ditos que vêm me enfeitiçar e carregar minha vida. Sempre tem alguém brincando com a gente, e por trás de tudo talvez Deus deve brincar com todo mundo. Sua mulher vem com o vento à distância. O vestido esvoaça, os olhos apertados pelos infinitos grãos vermelhos; flutua como um tecido rasgando ar. Diz três palavras e carrega o esposo atrás de si. Alguns latidos, serras brandas; o sol mingua, sustenta-se um pouco mais no horizonte. Mancha de amarelo-sangue e de tristeza a faca azul do oeste. – Preciso fazer um reparo nisso – bate com as mãos grossas nos batentes do umbral. Pisa no

pórtico da cozinha; os ferrolhos doentes e os degraus rancorosos deixam escapar alguns gemidos. – Não precisa de mais nada. Agora não precisa de mais nada – ela responde dobrando a quina da parede em direção ao quarto do filho anoitecido. Pelo postigo quebrado de vidro, fita em silêncio. Os homens à beira da vala tomam nota e recolhem cacos em pequenos odres de cores diferentes. É isso que eles querem? Mas não sabem direito para que querem? Ninguém consegue me explicar o porquê das coisas? O porquê de seu mistério ou de sua razão? Vai à pia e envolve carinhosamente a gamela de barro, as mãos espalmadas com toda sua superfície; entorna a água até a boca de uma caneca. Ninguém sabe de nós, aqui. O homem do governo vem e faz as suas coisas. Mas correção nem sempre é justiça. Quem nos ouvirá se a gente gritar? O advogado da cidade vai vir atrás da nossa voz? Ou vem só pra dizer que não estamos mesmo do lado da verdade? A escuridão cobre tudo. Apenas o lusco-fusco de insetos na mata forra toda a dimensão a perder de vista. Aqui é o esquecimento. Aquilo que ninguém conhece. Ninguém sabe que existe. Nem na imaginação. Não, é mais que esquecimento. É um tipo de morte. Isso. Têm muitos mortos debaixo de mim agora. Debaixo desse assoalho. Bate com os pés nas ranhuras azinhavradas e elas gemem descontínuas. Sim, estar assim. Quieto com as mãos trançadas no joelho. Senta-se na cadeira de fórmica, ombros retesados. Intui movimentos através do vidro, acima do forno de lenha. Esses idiotas vão continuar se mexendo como estopa? Mosquitos brancos debaixo das luzes de mercúrio. Esse tempo vai passando, a gente sente ele passar. É uma lesma. Cresce e diminui. Deixa um rastro de gosma nojenta. Assim as coisas vão se

fazendo. Vão passando. Vagarosas. Sempre passando. Para sempre.

Os dias e as noites das estações deslizam pela memória e se retraem dentro da casa. Os três não saem mais; as rachaduras crescem como trepadeiras. Toupeiras fixam os esgares do sol entre moinhos. As luzes se refratam formando uma constelação de sal; os corpos dos bichos de buchos cheios estendidos nos tapumes. Os restos de comida sob as moscas. Os detritos da gente se acumulam nas ruelas sem calçadas, formando mapas. Quanto tempo faz? Parece que foi ontem. Esses sujeitos chegaram aqui com suas maletas. Todas as noites os vultos circundam a casa e se misturam com as roupas; mexem-se no varal e farfalham em busca de sentidos ocultos sob os sinais do tempo; espelham seus reflexos nos cacos da vidraça apodrecida. Por todo lado a gente está cercado. Por todas as portas tem gente. Um idoso de óculos enfia a cara pela fresta da janela; pede um copo d’água. Segura o arreio do cavalo. Relincha enorme, a cabeça deformada entre os restos das contas de vidro. Olha para mim. Quem ele pensa? Repito o velho ritual; satisfaço o homem. Parte limpando a boca com a manga da camisa sem dizer palavra. Que horas são? Descerro as mãos dos joelhos e percebo. Eu me perdi; todos estão dormindo. É madrugada e apenas o jovem, à beira da vala, observa cansado um caco sob a luz trêmula.

Vou me aproximando assim bem de manso e quando ele me percebe estou muito perto. Ele

sente a lâmina brilhar sua ponta do outro lado, as costas no respaldo do meu braço, a garganta presa dentro da minha mão esquerda. Sinto o calor escorrer nos meus dedos. Seguro ele assim, de manso, os pés sem tocar o chão, por um momento me encho de tanto sonho era como se todo aquele silêncio da mata verde e nós dois ali era como se a gente fosse uma única vida batendo um só coração até a hora em que eu ouço o som fofo do seu corpo dentro do poço, e a chuva começa forte como sempre, enlameando tudo, limando as paredes de terra, e forra seu corpo com delicadeza de um manto, ele ali desaparece debaixo de um tapete vermelho líquido. Tira a mulher do sono, o filho às costas. A barraca de lona diminui atrás dos passos na estrada até se transformar em um ponto de névoa diluído na mata; e finalmente some na mais completa escuridão que funde a terra e o firmamento. Ao cruzarem as fronteiras e o breu das propriedades vizinhas, a carabina desperta. Sai da tocaia com o chapéu em meia-lua. Mira na direção precisa entre o rastro de uma nuvem avermelhada e as luzes difusas do último horizonte. Eles vão ver. Dessa vez esses animais não escapam.

Rodrigo petronio é escritor. autor, organizador e editor de dezenas de obras. atualmente é professor da pós-graduação em argumento e roteiro do curso de cinema da faap. Ministra oficinas de escrita criativa e cursos livres na Casa do saber, na fundação ema Klabin e no Museu da imagem e do som (Mis), onde criou e coordena o Núcleo de Narratividade.

o s desconhecidos da floresta R e S

patrícia negrão

zo’é

rogério a ssis

editora terceiro Nome

128 páginas, r$ 70,00

Afotografia da vista área da terra indígena Zo’é é um instigante convite para adentrar no mundo de um povo até pouco tempo sem contato com os kirahi, nome dado aos “não índios”. Imagens de estreitas trilhas na floresta Amazônica conduzem o leitor às moradias da etnia que permaneceu, até os anos de 1980, praticamente isolada. No ensaio fotográfico Zo’é, de Rogério Assis, os indígenas vão, aos poucos, se revelando. São mulheres em seus afazeres domésticos e no cuidado com os filhos; crianças em momentos de lazer e plena liberdade; homens na caça e na roça; idosos e seus xerimbabos, como são chamados os animais de estimação. Tudo captado pelo olhar sensível e artístico de Assis. A obra do fotógrafo paraense proporciona uma viagem pelos costumes e rituais dos Zo’é, que ocupam uma área de 644 mil hectares entre os rios Cuminapanema, Urucuriana e Erepecuru, no noroeste do Pará. Somam hoje 270 indivíduos espalhados em 12 aldeias não fixas; conforme as necessidades de caça e plantio, eles mudam de lugar dentro da reserva. Em 1989, a convite da Funai, Assis se tornou o primeiro profissional a registrá-los. Vinte anos depois, retornou à região e completou seu trabalho e suas observações sobre a cultura desse povo apontado por ele como “solitário”, “hospitaleiro” e “bem-humorado”. Um texto de apresentação do antropólogo Márcio Meira, ex-presidente da Funai, e outro mais extenso, com interessantes informações etnológicas da antropóloga Dominique Tilkin Gallois, complementam o livro. Professora do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Centro de Estudos Ameríndios, Gallois soma importantes estudos de diferentes comunidades indígenas da região e pesquisa os Zo’é desde 1989.

Dados linguísticos e históricos apontam que o grupo é de tradição tupi-guarani. A palavra Zo’é significava “nós” e, segundo a antropóloga, passou a ser usada pelos indígenas para se referir a si mesmos somente nos anos 1980, quando missionários e agentes da Funai iniciaram as primeiras aproximações com a etnia. Para a estudiosa, a transformação do pronome em etnônimo é sinal de que “os Zo’é estão aprendendo a se pensar como índios”. Relatos feitos por eles indicam que, há

pelo menos 90 anos, já mantinham contatos esporádicos com os brancos. Revelaram, por exemplo, que tiveram mulheres raptadas por castanheiros. Contaram também que caçadores deixaram gaiolas e ferramentas abandonadas em suas áreas, sem chegar, no entanto, a haver encontro entre eles. O livro ressalta que os contatos dessa etnia com os brancos começaram efetivamente em 1982, por meio de brasileiros e norte-americanos da Missão Novas Tribos do Brasil. Conquistados aos poucos pelos presentes deixados em suas trilhas, os indígenas passaram a aceitar os visitantes em suas aldeias. Porém essa tentativa de evangelização fez com que eles adquirissem doenças antes desconhecidas. Em 1989, os missionários pediram socorro à Funai, pois muitos Zo’é estavam morrendo vítimas de uma epidemia de gripe. Para protegê-los, a Funai implementou o Sistema de Proteção aos Índios Isolados. Em 2001 criou a Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema, unidade de preservação e isolamento da terra indígena Zo’é.

Os primeiros registros de Assis, em 1989, são, portanto, de um povo adoentado e ameaçado de extinção. Já em 2009, quando ele retornou à região, encontrou outra realidade: “A recuperação de bases socioculturais e hábitos alimentares, e a valorização da autoestima, ajudaram o povo Zo’é a não só superar as doenças, como também a se desenvolver e aumentar a população”.

Os Zo’é são polígamos e um dos mais curiosos rituais, entre os muitos que praticam, é um furo feito no queixo das crianças, logo após elas trocarem a dentição, no qual é colocado um adorno de osso denominado embe’pot. Esse ornamento, que pode ser constatado nas fotografias de Assis, é usado pelos homens e mulheres ao longo de toda a vida. Outro enfeite apreciado pelas meninas e jovens é a tiara com penugem de urubu-rei ou de mutum. Já os idosos não escondem as rugas em todo o corpo: quanto mais “secos”, mais respeitados pelos familiares. A contemplação das fotos e a leitura dos textos propiciam, com poesia e sutileza, a reflexão sobre um modo de vida no isolamento da floresta e sem acesso ao contexto do mundo contemporâneo.

negrão é jornalista, coordenadora de conteúdo e coautora do livro Brasileiras guerreiras da paz (Contexto, 2006).

patrícia

carreiras

inovação aberta

Consultor ajuda empresas a ampliar leque de parcerias para pesquisa

A trajetória profissional do engenheiro Bruno Rondani, de 33 anos, foi marcada desde o início pela atuação em gestão da inovação e estratégia empresarial. Em 2001, quando ainda cursava a graduação em engenharia elétrica na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ele conseguiu um estágio na sede da francesa Thales, que atua nos setores aeroespacial e de defesa. Lá na França Rondani teve o primeiro contato com conceitos de inovação e negócios.

Ao retornar para o Brasil, para concluir a graduação, logo foi contratado pela Omnisys, empresa que havia firmado um convênio com a Thales (depois, em 2006, ela foi adquirida pela francesa).

“Ainda estagiário, inscrevi a Omnisys no Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe-FAPESP), que nos apoiou com R$ 1,2 milhão.” Com esse recurso, a empresa montou seu centro de pesquisa em parceria com a Unicamp e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em São Caetano do Sul (SP), e Rondani foi promovido a gerente de projetos. Em 2003 ele iniciou um mestrado em engenharia na Unicamp. “Ao mesmo tempo passei a me envolver com gestão de projetos e com captação de recursos para pesquisa tecnológica na empresa”, conta Rondani, que em 2004

deixou a Omnisys e criou, na Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp, a Allagi, especializada em serviços de inovação aberta (open innovation, em inglês) – termo cunhado pelo norte-americano Henry Chesbrough. O open innovation é baseado na utilização de caminhos internos e externos à empresa para alavancar o desenvolvimento de novas tecnologias. “O objetivo era auxiliar empresas a estabelecer parcerias de inovação com a universidade e a montar projetos de captação de recursos.” Entre os primeiros clientes da Allagi estava a Telefônica. Em 2008, Rondani deixou a operação da Allagi (mantendo-se ainda como sócio) para se dedicar ao doutorado em administração de empresas na Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (FGV-SP). “Sentia falta de novas ideias. Eu vinha da ciência, mas queria me aprofundar no mundo dos

rondani: ciência de mãos dadas com os negócios 1

negócios”, diz ele. No entanto, não foi preciso muito tempo para Rondani perceber que não se contentava só com um projeto. No mesmo ano fundou o Centro de Open Innovation Brasil, responsável pela organização de seminários sobre o assunto no país. A atuação de Rondani chamou a atenção da Saab, empresa sueca especializada na produção de aeronaves.

“Eles queriam montar um centro de P&D no Brasil, e fiquei responsável por essa operação.”

Com o apoio da Saab, Rondani articulou a criação do Centro de Pesquisa e Inovação Sueco-Brasileiro, em São Bernardo do Campo, que acabou se tornando o tema de sua tese. Concluído o doutorado, Rondani passou a se dedicar ao Centro de Open Innovation, que em 2013 se tornou o Wenovate, organização sem fins lucrativos dedicada a incentivar e promover projetos de inovação. Entre eles estão a realização do Open Innovation Week, um dos maiores eventos internacionais sobre o tema, e a promoção de treinamentos e certificações ligados à inovação aberta.

Rondani também ministrou cursos e palestras em algumas instituições no país e no exterior, entre elas na faculdade de engenharia da FEI em São Paulo, na escola de negócios da Fundação Instituto de Administração e no Programa de Educação Continuada da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). “A inovação é uma área híbrida, envolve economia, tecnologia, gestão, ciência e leis. Cada vez mais a universidade e a empresa se aproximam, e portanto não é possível mais pensar numa carreira só científica ou só de negócios”, diz Rondani.

iNOvaçãO

n ovas oportunidades

pesquisador cria empresa ao identificar demanda tecnológica

Desde os 13 anos de idade, o capixaba Ronaldo Carvalho Moura Júnior, hoje com 32 anos, se interessa pela interação entre computadores e seres humanos. Essa ideia se consolidou quando ele ingressou no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, interior de São Paulo, onde se graduou em engenharia da computação em 2004. “Na faculdade, percebi que poderia alcançar meu objetivo ao apostar na pesquisa feita por empresas”, diz Moura, que teve os primeiros contatos com o assunto quando estagiou em projetos envolvendo empresas e a Fundação Casimiro Montenegro Filho, instituição de pesquisa vinculada ao ITA. Restando poucos meses para se formar, Moura teve de fazer uma escolha: ou ia seguir para o mercado de trabalho, como grande parte de seus colegas, ou investia na área que mais lhe interessava, a de visão computacional. “O problema era que não havia empresas atuando nesse segmento no Brasil. A saída foi abrir meu próprio negócio”, conta ele.

A Monity começou a operar em 2006, depois que Moura

identificou no setor de segurança uma demanda por sistemas computacionais em vídeo. Trata-se de uma tecnologia na qual o computador tem a habilidade de reconhecer objetos em vídeo e obter informações de forma automática por meio de imagens. Por exemplo, uma câmera de segurança conectada a um software pode ser programada para fazer o reconhecimento facial de pessoas autorizadas a entrar num prédio. A empresa nasceu dentro da Incubaero, incubadora de empresas de base tecnológica do ITA, e hoje atende clientes do setor de transporte. Um dos principais produtos é um sistema de câmeras em tempo real via internet 3G, que utiliza um hardware e um software desenvolvidos pela empresa. A tecnologia da Monity hoje pode ser encontrada em carros da guarda municipal de São José dos Campos e em caminhões da Rapidão Cometa, empresa de transportes de carga. A vida de empresário não afastou Moura da universidade. Entre 2005 e 2010 ele fez um mestrado no ITA na área de visão computacional. “Uma empresa de inovação que não acessa o conhecimento científico é muito limitada. A pesquisa acadêmica me permite ter contato com novas ideias e teorias que, embora possam não ter aplicação tecnológica, são fundamentais para o desenvolvimento de produtos inovadores”, diz Moura.

2 Moura: interação entre homens e computadores

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CiÊn C i A em temp O R e A l

O CO nteúdO de pe SQuiSA fA pe Sp nãO teR min A AQui.

Na edição on-line você encontrará vídeos, podcasts e mais notícias. afinal, o conhecimento não espera o começo do mês para avançar.

O Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Comunicação e Práticas de Consumo (PPGCOM-ESPM) divulga o edital para contratação de professor doutor. A carga horária é de 40 horas semanais. As inscrições estão abertas até 22/11/2013.

Edital completo no site: www.espm.br/ppgcom

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FV10i

® Sistema de Microscopia

Confocal a Laser

Descobri uma nova maneira de ver imagem High-End.

Eu precisava de um sistema que me proporcionasse a mesma imagem High-End de um microscópio confocal e que pudesse ser utilizado na minha bancada. Com o FV10i, eu consegui tudo e muito mais – qualidade superior de imagem em uma solução compacta e fácil de usar, sem a necessidade de uma sala escura para os procedimentos de fluorescência. Agora eu posso focar na ciência ao invés de focar no sistema.

Não é hora de você ver imagem High-End em uma nova perspectiva?

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 (011) 3046.6400 |  obl-microscopia@olympus.com

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“Uso somente para pesquisa, documentação clínica e educação”

Para saber mais sobre o produto acesse pelo QR Code ou visite o site www.olympusamericaFV10i.com

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