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Mulheres em risco

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pesquisafapesp

Dispositivo com material cerâmico captura parte do CO₂ de caminhões

Universitários indígenas enfrentam barreiras culturais, isolamento e preconceito

Região remota do Sistema Solar pode esconder planeta gigante

Mulheres em risco

Mortalidade por câncer de mama e de colo do útero está em ascensão no Brasil

Apostas ameaçam a saúde e as finanças de quase 11 milhões de brasileiros

Artistas com deficiência defendem seu espaço em cena e buscam público diversificado

sua pesquisa rende fotos bonitas?

Seu trabalho poderá ser selecionado e publicado na revista. Requisitos: beleza; estar associado a pesquisa; ter boa resolução (300 DPI)

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Mande para IMAGEMPESQUISA @FAPESP.BR

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CAPA

12 Mortalidade por câncer de mama e de colo do útero está em ascensão no Brasil

18 Como tumores originados em outros órgãos invadem o cérebro

ENTREVISTA

20 O filósofo Luiz Henrique Lopes dos Santos revisita seu percurso acadêmico e fala de seus mais de 30 anos de trabalho dedicados à FAPESP

Óleo microbiano: um de seus usos deverá ocorrer no setor de alimentos (BIOTECNOLOGIA, P. 64)

ENSINO SUPERIOR

26 Universidades expõem a baixa presença feminina no topo da carreira docente

AÇÕES AFIRMATIVAS

30 Barreiras culturais, isolamento e preconceito frustram universitários indígenas

ENTREVISTA

34 Ex-ministra na França Christiane Taubira contribuirá para a COP30 com estudo sobre a Amazônia

CIÊNCIA ABERTA

38 Plataforma permite que autores solicitem avaliação de seus preprints

BOAS PRÁTICAS

40 Nova modalidade de má conduta envolve a venda de design de produtos

DADOS

43 Colaborações científicas com a França

SAÚDE MENTAL

44 Quase 11 milhões de pessoas apostam de modo a pôr em risco a saúde e as finanças

SAÚDE PÚBLICA

48 Bebidas açucaradas alimentam o diabetes e aumentam o risco de infarto

BIODIVERSIDADE

50 Estudo lista 409 espécies silvestres de fungos comestíveis com sabor e textura variados

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

54 Eventos extremos que juntam ondas de calor, acidificação e escassez de clorofila assolam Atlântico Sul

FÍSICA

57 Interação entre ondas de luz e ondas mecânicas pode levar a avanços na área de informação quântica

ASTROFÍSICA

60 Sistema Solar pode ter planeta com massa 7,5 vezes maior que a da Terra em sua periferia

BIOTECNOLOGIA

64 Microrganismos são alternativa para a fabricação de óleos sustentáveis

ENGENHARIA AUTOMOTIVA

68 Dispositivo projetado no país retém parte do CO₂ de caminhões

ENGENHARIA BIOMÉDICA

72 Protótipo integra sensores que avaliam as condições de ocupação de ambientes

ENGENHARIA AERONÁUTICA

75 Avança o desenvolvimento do carro voador da Embraer

SOCIEDADE

76 A Nova República completa 40 anos com transformações sociais

LITERATURA

80 Produção literária colabora com a difusão internacional da obra de Chico Buarque

ARTES CÊNICAS

84 Artistas com deficiência defendem a diversidade em espetáculos brasileiros

OBITUÁRIO

88 Heloisa Teixeira (1939-2025)

MEMÓRIA

90 Há 100 anos, o médico Geraldo de Paula Souza instituía uma reforma sanitária

ITINERÁRIOS DE PESQUISA

94 Caroline Jango investiga formas de combater o racismo no ambiente escolar

RESENHA

96 O silêncio da motosserra – Quando o Brasil decidiu salvar a Amazônia, de Claudio Angelo e Tasso Azevedo. Por Patrícia Morellato

97 COMENTÁRIOS

98 FOTOLAB

Cartelas de jogos: quase 11 milhões de apostadores em risco (SAÚDE MENTAL, P. 44)

VÍDEOS

CONHEÇA A HISTÓRIA DO FUTEBOL DE VÁRZEA FEMININO Proibidas de jogar durante mais de quatro décadas, mulheres ocupam cada vez mais espaço em campinhos e campeonatos da cidade de São Paulo

O QUE SÃO E COMO

FUNCIONAM AS MOEDAS SOCIAIS

Criadas para circular em comunidades específicas, elas fortalecem o comércio local, reduzem desigualdades e oferecem crédito acessível

PODCAST A PROPAGAÇÃO DA MÁ CONDUTA

WWW.REVISTAPESQUISA.FAPESP.BR

As tendências das retratações de artigos científicos no mundo e o panorama da integridade científica no Brasil. E mais: declínio cognitivo; vítimas infantis; corte de árvores

Este conteúdo está disponível em acesso aberto no site www.revistapesquisa.fapesp.br, que contém, além de edições anteriores, versões em inglês e espanhol e material exclusivo Bebidas com açúcar demais aumentam o risco de doenças crônicas (SAÚDE PÚBLICA, P. 48)

Versos como argumentos

Câncer de mama é a segunda neoplasia mais comum em mulheres no Brasil e a que mais mata. Em 2025, são previstas 18 mil vítimas fatais. A taxa de incidência permaneceu estável neste século, mas a de mortes cresceu continuamente. É entre a população de até 40 anos que a mortalidade avança em ritmo mais acelerado, a quase 2% ao ano. Jovens concentram os casos agressivos, de diagnóstico dificultado por terem mamas mais densas e não integrarem o grupo-alvo das ações de rastreamento.

Um programa-piloto de rastreamento ativo, iniciado na cidade paulista de Mococa, propõe-se a identificar as moradoras na faixa etária de maior risco para câncer de mama e de colo do útero – que também apresenta uma mortalidade crescente, mesmo sendo prevenível em muitos casos com a vacina contra HPV. O editor de Ciências Biomédicas, Ricardo Zorzetto, mergulha em estudos para trazer um retrato desse cenário inquietante ( página 12).

Para dar algum alento, reportagem à página 48 traz uma boa notícia. O consumo de refrigerantes no país caiu 33% entre 2010 e 2021. Fator importante no controle de doenças metabólicas e cardiovasculares, o consumo dessas bebidas ultraprocessadas continua alto: brasileiros tomam, em média, quase 60 litros por ano, colocando-nos na 34ª posição mundial.

Sem que seja planejado, algumas edições desta revista têm um caráter quase temático. A vida do sanitarista Geraldo de Paula Souza chama a atenção pela diversidade de sua atuação nesse universo da saúde pública. Um dos idealizadores da OMS, ele implementou, ainda nos anos 1930, os primeiros centros de saúde no país, com uma visão de medicina preventiva e de saúde comunitária que hoje caracteriza o sistema público. Fez experimentos para avaliar a qualidade da água

em São Paulo e desenvolveu um dispositivo para purificação hídrica ( página 90).

Perito em prospectar pautas para a seção Memória, como a de Paula Souza, o editor Carlos Henrique Fioravanti recentemente recuperou um e-mail de 2015 que convocava a equipe para uma reunião com o seu então coordenador científico, Luiz Henrique Lopes dos Santos. Nela, fui apresentada à redação dessa publicação tão singular. Na casa há mais de 20 anos, o editor-chefe, Neldson Marcolin, costuma dizer a quem chega que leva ao menos um ano para começar a entender a revista – o projeto editorial, a metodologia de produção de conteúdo, o acurado processo de checagem de informações, o equilíbrio de temas, linguagens e público. Sem o benefício da clareza conceitual de LH, como nos referimos a ele, minha adaptação teria sido mais difícil. Essa qualidade, lapidada por uma vida dedicada ao estudo da lógica, aparece na entrevista que concedeu aos editores Ana Paula Orlandi e Fabrício Marques ( página 20). Em abril, produzimos uma edição especial de Pesquisa FAPESP em inglês, publicada duas vezes por ano como uma coletânea de reportagens veiculadas em português no semestre anterior. Excepcionalmente, para marcar o Ano Cultural Brasil-França, do qual a FAPESP participará em junho, preparamos conteúdo inédito sobre pesquisas e colaboração entre os dois países, em uma edição com parte em francês. Invertendo o percurso habitual, trouxemos desse material uma entrevista com a economista franco-guianense Christiane Taubira, ex-ministra da Justiça da França, que hoje ocupa a cátedra José Bonifácio, da USP ( página 34). Parlamentar por 19 anos, foi alvo de insultos racistas durante debates, que respondia com poesia. “Toda vez que eu estava em um confronto, nos momentos mais delicados, me vinham versos como argumentos.”

Peixe-leão infesta a costa brasileira notas

Em Fernando de Noronha, mergulhadores procuram eliminar a espécie invasora 1

Espécie invasora encontrada pela primeira vez em 2014 no litoral do Rio de Janeiro e em 2020 no Nordeste, o peixe-leão (Pterois volitans) espalha-se com rapidez. Em agosto de 2024, biólogos da Universidade Federal do Ceará (UFC), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Projeto Conservação Recifal (PCR) capturaram menos de 50 deles ao redor do arquipélago de Fernando de Noronha. No início de abril deste ano, voltaram e, em quatro dias, apreenderam 114 exemplares da espécie invasora, que havia reocupado os abrigos entre rochas que tinham sido limpos na expedição anterior. Com base em dados georreferenciados, pesquisadores do Ceará, Pará, Maranhão, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas e Bahia verificaram que esse animal, que se alimenta de espécies nativas de peixes, já chegou a 18 unidades de conservação marinhas do Brasil, incluindo algumas com recifes de corais e espécies endêmicas.

A área ocupada por essa espécie abarca 4 mil dos 10,9 mil quilômetros da costa brasileira. Por causa das águas quentes, o peixe listrado cheio de espinhos e sem predadores conhecidos no Brasil tem sido visto principalmente na região Nordeste, incluindo o Parque Nacional de Jericoacoara, o arquipélago de Fernando de Noronha e o Atol das Rocas. Os órgãos ambientais publicaram orientações sobre como capturar e abater o peixe-leão (Marine Environmental Research, junho).

Vacina contra chikungunya chega ao Brasil

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou em abril o registro da vacina recombinante atenuada Ixchiq (VLA1553) contra chikungunya, indicada para pessoas a partir de 18 anos e com risco de exposição ao vírus que causa a doença. A aprovação se apoia em testes bem-sucedidos de segurança e eficácia, realizados primeiramente com 4 mil voluntários nos Estados Unidos, que permitiram sua aprovação, em novembro de 2023, pela Agência de Medicamentos e Alimentos (FDA), nos Estados Unidos. No Brasil, os testes foram feitos por pesquisadores da empresa austríaca Valneva e do Instituto Butantan com 754 participantes (502 receberam vacina e 252 placebo), entre fevereiro de 2022 e março de 2023. A autorização incluiu um Termo de Compromisso entre a Anvisa e o Butantan, prevendo estudos adicionais de efetividade, segurança e farmacovigilância (acompanhamento) no Brasil. Nas primeiras semanas de 2025, o Ministério da Saúde (MS) registrou 42.785 casos prováveis de chikungunya, transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, que também é portador do vírus da dengue e zika (Lancet Infectious Diseases, janeiro; MS, 14 de abril).

Integrantes do Centro Espírita de Umbanda Caboclo Aracati, fundado em 1967

Acervo digital sobre umbandistas potiguares

Pesquisadores das universidades federal e estadual do Rio Grande do Norte (UFRN e UERN) e líderes religiosos criaram um site para preservar os registros históricos de terreiros de umbanda no estado. O acervo começou a ser formado em 2024 com documentos sobre dois babalorixás: José Clementino (1930-2021), fundador do terreiro Cabana Umbandista Pai Joaquim de Angola, e José Barroso dos Santos (1920?-1992), mais conhecido como Tenente Barroso, do Centro Humilde de Caridade São Lázaro. O site Arquivo Afro-religioso (www.arquivoafroreligioso.cchla.ufrn.br) reúne biografias, fotografias, vídeos, áudios e canções. “Os acervos documentais afro-religiosos, talvez por sua característica documental, de caráter privado, são pouco conhecidos do mundo exterior às comunidades de terreiro”, comentou o antropólogo da UFRN Luiz Assunção, coordenador do projeto, em um dos artigos acadêmicos do site. No passado, no Rio Grande do Norte, os terreiros de umbanda foram invadidos e seus líderes e adeptos perseguidos, até mesmo por um grupo de extermínio chamado Mão Branca. Em paralelo, o Museu da República, no Rio de Janeiro, recuperou 523 peças religiosas apreendidas entre 1889 e 1945 pela polícia que antes estavam no antigo prédio do Departamento de Ordem Política e Social (UFRN, janeiro).

Para saber de onde vem o ouro

Pequenas proporções de elementos químicos específicos podem indicar a origem do ouro e resolver processos judiciais ou criminais. Geólogos da Universidade de Brasília (UnB) e do Serviço Geológico e peritos da Polícia Federal (PF) analisaram 98 amostras de ouro coletadas em seis áreas (Maloca da Pista, Parima, Mutum, Xitei, Alto Catrimani e Rangel) do Território Indígena Yanomami, em Roraima, onde há muitos garimpos ilegais. Os grãos de ouro obtidos de cada amostra foram fundidos e examinados com lente binocular, microscopia eletrônica, fluorescência de raios X, microssonda eletrônica, microscopia eletrônica de varredura e mapeamento composicional. Comparadas com lingotes de origem desconhecida apreendidos pela PF, as análises apontaram o bismuto como um elemento químico-chave para determinar a origem geológica do ouro e saber se a extração era legal ou não. Também revelaram diferentes proporções de prata (mais altas nas amostras de Catrimani, Xitei e Rangel), mercúrio (principalmente em Parima e Mutum), cádmio, níquel, cobalto, zinco e tungstênio. O governo federal procura combater o garimpo ilegal na região, responsável pela destruição da floresta (Journal of Geological Society, março).

As proporções de bismuto revelam a origem do precioso mineral

Defesas frágeis contra desastres climáticos

Os deslizamentos de terra e as inundações que ocupam o noticiário no fim e início de cada ano no Brasil não são dramáticos apenas porque as chuvas são fortes, mas também porque a maioria dos municípios não tem dinheiro, equipes e recursos materiais para proteger a população. De fevereiro a maio de 2021, pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Rede Nacional de Comunidades Resilientes (Renacor) enviaram questionários on-line para representantes da defesa civil dos 5.570 municípios do país. Chegaram respostas de 1.993, dos quais 72% não tinham orçamento para implementar políticas de prevenção a desastres naturais e 67% não possuíam veículos para trabalho de campo. Em 59% dos casos, as equipes eram formadas por apenas uma ou duas pessoas, 56% não possuíam equipamentos de proteção

individual, 53% não contavam com celular com acesso à internet e 30% não tinham computador. Representantes de um em cada cinco municípios que responderam aos questionários (22%) relataram não conhecer o Cartão de Pagamento da Defesa Civil (CPDC), um dos requisitos para receber recursos federais para ações de socorro (International Journal of Disaster Risk Reduction, março).

Foguete

alemão

Casas destruídas em deslizamentos após tempestades em São Sebastião, litoral norte de São Paulo, em fevereiro de 2023

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voa por 30 segundos

A empresa alemã Isar Aerospace fez com sucesso o primeiro voo de teste do veículo de lançamento Spectrum na base de Andøya, na Noruega, e se tornou a primeira empresa espacial comercial europeia a lançar um foguete orbital da Europa Continental. Com dois estágios, capacidade de carga útil de mil quilogramas (kg), 28 metros (m) de comprimento e 2 m de diâmetro, o Spectrum fez um voo de aproximadamente 30 segundos e caiu no mar, de forma controlada. “Lançamos as bases para atender à crescente demanda global por serviços flexíveis de lançamento de satélites”, disse Daniel Metzler, CEO e cofundador da empresa criada em 2018 em Munique, na Alemanha. Os veículos de lançamento para o segundo e terceiro voos do Spectrum já estão em produção, com quase todos os componentes projetados, feitos e testados na própria empresa, que diz poder fabricar até 40 foguetes por ano. Recentemente, a Agência Espacial Norueguesa assinou um contrato com a Isar para lançar seus satélites do programa Vigilância do Oceano Ártico (Isar, 30 de março).

Com 28 m de comprimento e 2 m de diâmetro, o Spectrum decola de uma base da Noruega

Filhote de 2 meses explora o rosto de uma chimpanzé na Tanzânia

Os toques dos bebês e outros primatas

Para bebês humanos e chimpanzés, o hábito de tocar o rosto ou outras partes da cabeça dos adultos da espécie a que pertencem tem funções semelhantes: servem como forma de criar relações afetivas com indivíduos mais velhos, brincar ou pedir comida. “O toque é capaz de comunicar emoções, acalmar, fortalecer laços e regular relações sociais de um grupo em diferentes espécies de primatas e até outros mamíferos”, concluiu a psicóloga Beatriz Felício, da Universidade de São Paulo (USP). Ela e Kim Bard, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, examinaram por 36 horas oito bebês de famílias urbanas no Reino Unido, 10 de comunidades camponesas de Camarões e 12 da República Centro-africana. Atentaram-se também para quatro filhotes de chimpanzés de um zoológico no Reino Unido, três de um abrigo de animais no Japão e 12 de uma reserva ambiental na Tanzânia, na África. Registraram 222 momentos de toque no rosto e 47 em outras partes da cabeça. Os bebês de ambas as espécies tocaram mais em rostos de mulheres ou chimpanzés fêmeas do que de homens ou dos machos. Os humanos usaram o toque na mesma frequência em brincadeiras e compartilhamento de comida. Os chimpanzés da Tanzânia e do Reino Unido tocaram mais no rosto dos adultos para brincar que os do Japão. “Esse comportamento já foi identificado em macacos-prego, nos primeiros anos de vida”, comenta Felício ( Animal Cognition, fevereiro).

Uma camada de gelo de 2 km de espessura, em média

A Antártida, de acordo com um mapeamento coordenado pelo British Antarctic Survey (BAS), tem um volume total de gelo de 27,17 milhões de quilômetros cúbicos (km3), que se estende por 13,63 milhões de quilômetros quadrados (km2), com uma espessura média de 1.948 m. Reposicionado, o ponto mais espesso está na Terra de Wilkes, com 4.757 m, o equivalente a 16 vezes a altura do Yachthouse Residence Club 1, o edifício mais alto do Brasil, com 294 m, em Balneário Camboriú, Santa Catarina. Se todo esse gelo derretesse, o nível do mar global poderia subir 58 m. Conhecido como Bedmap3, o mapa incorpora mais de seis décadas de dados adquiridos por satélites, aviões, navios e até trenós puxados por cães. As informações podem ajudar a aprimorar os modelos climáticos e indicar como o gelo fluirá conforme as temperaturas sobem. “Ficou claro que a camada de gelo da Antártida é mais espessa do que imaginávamos e tem um volume maior de gelo que está aterrado [onde o gelo na borda do continente encontra o oceano e começa a flutuar] em um leito de rocha situado abaixo do nível do mar. Isso coloca o gelo em maior risco de derretimento devido à incursão de água quente do oceano que está ocorrendo nas franjas do continente”, comentou Peter Fretwell, da BAS, em um comunicado do centro de pesquisa britânico. “A Antártida é um pouco mais vulnerável do que pensávamos” (Scientific Data, 12 de março).

Altura do gelo em relação ao nível do mar (em metros)

Um braço robótico para colher frutas

Inspirados na capacidade de as fitas métricas de costura serem facilmente enroladas e desenroladas, engenheiros da Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos, usaram fitas metálicas flexíveis para construir o protótipo de um braço robótico com extremidades macias para agarrar frutas e vegetais frágeis. Chamada de Grip-tape (Grasping and Rolling in Plane, algo como “agarrando e rolando no plano”), a pinça tem duas extensões similares a dedos, cada uma com dois carretéis, formados por dois rolos de fitas elásticas de aço, que se estendem ou se retraem. Quatro motores controlam o movimento de cada dedo, que pode agarrar delicadamente os objetos e fazer movimentos de rotação, translação, torção ou transporte. Nos testes preliminares, a pinça funcionou bem para colher tomates, uvas e limões, sem danificá-los, reiterando a possibilidade de criar uma alternativa às garras rígidas. Diante dos

Emagrecedores alteram hábitos alimentares

Extremidades macias representam uma alternativa às garras rígidas

resultados, os desenvolvedores do dispositivo ressaltaram que os materiais macios e curvos oferecem muitas outras oportunidades para mecanismos robóticos reconfiguráveis. Uma delas é um aparato com três ou quatro braços que poderia propiciar maior estabilidade aos movimentos (Science Advances, 9 de abril).

Medicamentos que promovem a perda de peso, como Mounjaro, Wegovy e Ozempic, podem mudar as preferências alimentares. O fármaco que os constitui, a semaglutida, ativa os receptores celulares do peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1RA) e ajuda a reduzir o apetite. Especialistas do Departamento de Economia Agrícola e Agronegócios e da Universidade Estadual de Oklahoma, ambos nos Estados Unidos, analisaram os hábitos alimentares de 1.955 pessoas, divididas em quatro grupos: as que tomavam semaglutida, as que já haviam tomado, as que planejavam fazê-lo e as que nunca a tomaram nem pretendiam. Quem se valia de emagrecedores consumiu de 720 a 990 calorias a menos que os participantes dos outros grupos, mostrou-se mais disposto a consumir menos alimentos processados, bebidas açucaradas e carne bovina, e mais frutas, vegetais e água. “Os agonistas [ativadores de receptores celulares do GLP-1] alteram tanto a quantidade quanto os tipos de alimentos que as pessoas consomem”, comentou um dos autores da pesquisa Jayson Lusk, da Universidade de Oklahoma, ao site ScienceAlert (Food Quality and Preference, agosto).

Prêmio Álvaro Alberto

O Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia de 2025 foi concedido ao físico Antônio José Roque da Silva, professor da Universidade de São Paulo (USP), coordenador do projeto Sirius e diretor-geral do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP). Concedido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e a Marinha do Brasil, o prêmio é um dos mais importantes dessa área no Brasil. A premiação consiste em diploma, medalha, uma quantia de R$ 200 mil e uma viagem à Antártida. Silva esteve à frente da concepção e da construção do Sirius, uma das mais avançadas fontes de luz síncrotron do mundo, ao longo de 15 anos. “O Sirius é a materialização do que a ciência brasileira é capaz de fazer quando há visão de longo prazo, investimento adequado e valorização do conhecimento. É um exemplo concreto da capacidade técnica e intelectual que temos no Brasil, algo que precisa ser mostrado com orgulho para a sociedade”, comentou, em um comunicado do CNPEM.

Ganho extra: consumo maior de vegetais e alimentos integrais

O contraste entre as temperaturas da superfície pode agravar tempestades como esta, na Austrália, em 2009

Solo mais seco, tempestades mais intensas

Em 2024, a África Ocidental e Central sofreu as piores inundações dos últimos anos, com mais de mil mortes e 500 mil desabrigados. Chuvas fortes na Índia danificaram cerca de 800 casas, feriram 300 pessoas e mataram cinco. Na Argentina, em março deste ano, uma tempestade matou 13 pessoas, desabrigou mais de mil e destruiu estradas e pontes. O Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido (UKCEH) mostrou que a umidade do solo cresce ou diminui muito entre lugares a centenas de quilômetros de distância, aumentando a área e a quantidade de chuvas em até 30% e agravando seus efeitos, como nessas

Hominídeos sepultados há 110 mil anos

regiões. Um maior contraste na umidade do solo aumenta as diferenças de temperaturas do ar, muda a direção ou velocidade do vento e produz chuvas em uma área maior. As conclusões se apoiam em análises de 20 anos de dados de satélite sobre tempestades e umidade do solo na África Ocidental, África do Sul, Índia e América do Sul.

Como as condições de superfície que influenciam a precipitação podem ser observadas de dois a cinco dias antes de uma tempestade se formar, seria possível disparar alertas de inundações repentinas e evitar perdas humanas e materiais (Nature Geoscience, 4 de abril).

Escavações na caverna Tinshemet, no centro de Israel, trouxeram à tona sinais de sepultamentos do período Paleolítico Médio, entre 130 mil e 80 mil anos atrás. Lideradas por pesquisadores das universidades Hebraica de Jerusalém e de Tel Aviv, as análises dos restos de esqueletos e de ferramentas de pedra indicaram que duas espécies próximas de hominídeos, Homo neanderthalensis e H. sapiens, coexistiram e compartilharam tecnologias e comportamentos sociais, como o sepultamento humano intencional. Os cinco restos esqueléticos mostravam cuidados semelhantes aos de outras cavernas, como a posição flexionada do corpo, a proximidade com restos de animais e pigmentos ocre, possivelmente usados para pintura corporal; ali foram encontrados mais de 7.500 fragmentos ocres, com diferentes tamanhos, formas, texturas e cores. As cavernas de Tinshemet, Qafzeh e Skhul, também em Israel, são exemplos de enterros intencionais de hominídeos, com cerca de 110 mil anos. Não há consenso, mas hominídeos da espécie Homo naledi podem ter sido sepultados na África há ainda mais tempo, entre 241 mil e 335 mil anos atrás (Nature Human Behavior, 11 de março).

Yossi Zaidner, da Universidade Hebraica, escava um crânio na caverna Tinshemet

Perdas evitáveis

Mortalidade por câncer de mama e de colo do útero está em ascensão no Brasil

ZORZETTO ilustrações SANDRA JÁVERA

RICARDO

Mococa é uma cidadezinha tranquila e acolhedora no norte do estado de São Paulo onde o tempo passa devagar. Distante 260 quilômetros da capital, o município com 67 mil habitantes tornou-se pioneiro em um importante programa de saúde pública no final de abril. Começou a funcionar em duas de suas 13 unidades básicas de saúde (UBS) um sistema informatizado que muda completamente a forma em vigor no Brasil de rastrear os tumores de mama e de colo do útero.

Em vez de aguardar que as mulheres procurem o serviço público de saúde para uma consulta e, só então, sejam encaminhadas por médicos para os exames ginecológicos preventivos, funcionários dessas UBS irão encontrá-las. Com o auxílio de um programa de computador que cruza dados do Ministério da Saúde com os do município, eles identificarão as moradoras na faixa etária de maior risco para esses dois cânceres e as convidarão para, no momento adequado, fazer tanto a mamografia, uma radiografia especializada que busca alterações e nódulos nas mamas, quanto o exame de Papanicolau, que permite identificar lesões iniciais no colo do útero. As equipes de saúde também realizarão o acompanhamento posterior das mulheres que precisarem passar por exames de confirmação de diagnóstico e tratamento. O objetivo dessa alteração de procedimento é não deixar escapar tumores que possam ser tratados e reduzir o intervalo entre a identificação do câncer e o começo da terapia. Assim, espera-se iniciar a reversão de um quadro que vem se delineando em São Paulo e no restante do país nos últimos anos: o aumento da mortalidade por câncer de mama e de colo do útero, em especial entre as mulheres mais jovens, com menos de 40 anos.

“A implantação-piloto nas duas UBS de Mococa é um teste em mundo real do rastreamento organizado. Ela nos permitirá ver os problemas que surgem e realizar os ajustes e os refinamentos necessários antes de ampliar a sua implementação para as outras unidades do município e, nos próximos meses, as de outras regiões do estado”, explica o médico sanitarista Victor Wünsch Filho, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e diretor-presidente da Fundação Oncocentro de São Paulo (Fosp), a instituição que coordena os programas de rastreamento dos cânceres de mama e de colo do útero no estado.

Há alguns anos, Wünsch e sua equipe na Fosp começaram a notar que o sistema de detecção precoce dos tumores de mama e colo do útero adotado em São Paulo e nos outros estados, baseado na abordagem oportunista, estaria deixando de produzir o efeito desejado e decidiram agir. Com apoio de pesquisadores de três universidades paulistas e da Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer da Organização Mundial da Saúde (Iarc-OMS), o grupo formulou um programa para mudar a estratégia de rastreamento de passiva para ativa – o ConeCta-SP, financiado pela FAPESP e Secretaria de Estado da Saúde – e começou a colocá-lo em prática em 2022.

Desde então, os especialistas da Fosp entrevistaram 437 mulheres e 400 profissionais da saúde de 50 UBS do estado a fim de identificar as barreiras para a realização dos exames de rastreamento. Também iniciaram oficinas com gestores dos 17 departamentos regionais de saúde e dos municípios para ajudá-los a reorganizar o sistema e a implementar as mudanças. Como avanço mais recente, em 24 de abril, começou a funcionar em Mococa, ainda de modo experimental, a plataforma de informática que auxilia na identi-

ficação das mulheres que devem fazer os exames ginecológicos preventivos. A previsão é que até o final de junho ela entre em operação nas UBS de outros 19 municípios da região e, antes de setembro, nas de mais dois departamentos regionais de saúde de São Paulo.

Mudar a forma de levar as mulheres para os exames preventivos e acompanhá-las mais de perto após o diagnóstico é um esforço para alterar a trajetória das mortes por esses cânceres no país, que poderia – e até deveria – estar diferente. Em São Paulo, depois de um importante período de queda, cuja extensão varia segundo o tipo de câncer, a taxa de mortalidade por tumores de mama e de colo do útero voltou a crescer. Cerca de três anos atrás, os pesquisadores da Fosp identificaram uma inflexão nas curvas de óbito do estado a partir de 2015 (ver Pesquisa FAPESP nº 320) e, mais recentemente, começaram a se acumular evidências de que o mesmo fenômeno parece ocorrer em todo o país e pode ter se iniciado até mesmo mais cedo.

Em um artigo publicado em janeiro na revista BMC Cancer, os oncologistas Jessé Lopes da Silva e Andreia de Melo e o epidemiologista Luiz Claudio Thuler, todos do Instituto Nacional de Câncer (Inca), no Rio de Janeiro, avaliaram a evolução da taxa de mortalidade por câncer de mama no país de 2000 a 2021. O câncer de mama é a segunda neoplasia mais comum em mulheres no Brasil (perde apenas para o câncer de pele não melanoma) e a que mais mata. Neste ano, são esperados 73,6 mil novos casos de neoplasias de mama e 18 mil mortes.

Os dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Departamento de Infor-

mática em Saúde do Sistema Único de Saúde (DataSUS) obtidos pelos pesquisadores indicam que, nos 22 anos analisados, a taxa de mortes diretamente decorrentes de tumores de mama cresceu de modo praticamente contínuo no país. Passou de 10,5 óbitos a cada 100 mil mulheres em 2000 para 11,8 por 100 mil em 2021 (ver gráfico nesta página). Esse aumento ocorreu apesar de a taxa de incidência (número de casos novos por ano) ter permanecido estável. Na realidade, a incidência caiu ligeiramente para a população geral, com uma redução que não foi significativa do ponto de vista estatístico, e cresceu entre as mulheres com menos de 40 anos.

“Se a incidência geral não mudou, era esperado que a mortalidade permanecesse constante ou diminuísse, uma vez que há no país um programa de rastreamento destinado a identificar os tumores de mama precocemente, em um estágio em que são tratáveis com mais sucesso”, conta Thuler. A Lei nº 11.664, de 2008, assegurou a realização gratuita de mamografia para todas as mulheres com mais de 40 anos usuárias do SUS. Uma portaria de 2015 do Ministério da Saúde restringiu o exame para a faixa etária entre os 50 anos e os 69 anos, o que foi mantido pela Lei nº 14.335, de 2022. “Nos países desenvolvidos, apesar de a incidência se encontrar em ascensão, a mortalidade vem caindo porque, neles, o rastreamento funciona bem e leva ao tratamento nos estágios iniciais, quando a taxa de cura é mais elevada”, afirma o epidemiologista. “No Brasil, estamos na contramão do que é desejável.”

No estudo da BMC Cancer, Silva, Thuler e De Melo notaram também que o ritmo de aumento da mortalidade foi mais acelerado entre as mais jovens. Ele cresceu, em média, à razão de 1,8% ao ano entre as mulheres com menos de 40 anos,

O avanço das mortes por tumores cervicais

Crescimento a partir de 2014 preocupa, em especial abaixo dos 50 anos

60-69 anos 50-59 anos 40-49 anos

enquanto esse avanço ocorreu em velocidade três vezes mais baixa (0,6% ao ano) na faixa dos 50 aos 69 anos e duas vezes menor (0,9% ao ano) entre aquelas com mais de 70. Efeito semelhante foi observado pela equipe da epidemiologista Miranda Benoudia, da Universidade de Calgary, no Canadá. Em um artigo na Nature Medicine, o grupo comparou a evolução da taxa de mortalidade por câncer de mama em 46 países e constatou que o Brasil era um dos sete em que ela aumentou entre 2008 e 2015, de modo mais acentuado entre as mulheres com menos de 50 anos.

Ta mbém há no país uma disparidade étnica associada ao câncer de mama. Em outra análise, Silva, Thuler e colaboradores compararam a evolução da taxa de mortalidade entre brancas e negras de 2000 a 2020 e constataram que ela cresceu a um ritmo quase quatro vezes maior no último grupo em relação ao primeiro. A taxa de mortalidade aumentou, em média, à velocidade de 0,6% ao ano entre as brancas e de 2,3% entre as negras, embora os tumores de mama fossem mais frequentes em mulheres brancas (havia 101 casos para cada 100 mil) do que nas negras (60

para cada 100 mil), segundo resultados publicados em 2024 na Breast Cancer Research and Treatment “De modo geral, as mulheres negras têm nível educacional mais baixo, vivem em regiões mais pobres e enfrentam mais barreiras de acesso ao diagnóstico e ao tratamento”, relata Silva.

“Identificar e tratar o câncer de mama em mulheres jovens é um desafio”, afirma a oncologista Maria Del Pilar Estevez Diz, da Faculdade de Medicina da USP (FM-USP) e diretora do corpo clínico do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), o maior hospital oncológico do país. Segundo a especialista, que não participou dos estudos de mortalidade, as razões são várias. Uma é que as mulheres com menos de 50 anos não integram o público-alvo dos programas de rastreamento do setor público de saúde, que atende cerca de 75% da população brasileira, restringindo o acesso a mamografias preventivas. Além disso, elas têm a mama mais densa, com mais tecido produtor de leite e menos gordura, o que dificulta a visualização de alterações na mamografia. Nessa faixa etária, também são mais frequentes os cânceres mais agressivos, que evoluem mais rapidamente. “Os médicos precisam estar atentos e valorizar a queixa dessas pacientes, pensando na possibilidade de câncer”, conta.

Seja na mama ou em outras partes do corpo, o câncer é uma doença que ocorre com mais frequência à medida que se envelhece. Com os anos, as células perdem a capacidade de corrigir eventuais erros que surgem no material genético durante a divisão celular ou em consequência da exposição a fatores ambientais carcinogênicos, como a luz solar, bebidas alcoólicas, tabaco ou poluentes. Como resultado, elas passam a se multiplicar de maneira desenfreada, originando o câncer.

“Em 80% a 90% dos casos, o câncer surge espontaneamente, pelo acúmulo de defeitos no DNA ao longo da vida”, explica a oncologista especializada em genética Maria Aparecida Koike Folgueira, também professora da FM-USP e pesquisadora do Icesp. “A parcela restante é de origem hereditária. A pessoa herda dos pais genes com alterações que favorecem o desenvolvimento do câncer.” Esse parece ser o caso de uma parte importante dos tumores de mama que ocorrem em mulheres mais jovens.

Em um estudo coordenado por Folgueira, o oncologista Rodrigo Santa Cruz Guindalini analisou o perfil genético do tumor de mama de 1.663 mulheres de todas as regiões do Brasil. Dessas, 335 (20%) apresentavam tumores decorrentes de alterações genéticas de origem hereditária, segundo artigo publicado em 2022 na revista Scientific Reports Entre as mais jovens, com menos de 35 anos, essa proporção, como era esperado, foi significativamente maior do ponto de vista estatístico: 25,8%.

FONTE MELO, M. S. ET AL SCIENTIFIC REPORTS. 2024

Os genes mais frequentemente alterados foram o BRCA1, o BRCA2 e o TP53, que atuam no reparo de erros que surgem aleatoriamente no DNA. Mudança no padrão de mortalidade semelhante à observada para as neoplasias de mama também vem sendo registrada nos últimos anos no Brasil para o câncer de colo do útero, ou cervical. Esse é o quarto tipo de câncer mais comum (quando se contabilizam os tumores de pele não melanoma) e o quarto mais letal. A estimativa é que surjam 17 mil casos novos e ocorram 7 mil mortes no país em 2025.

Os primeiros sinais de inversão na tendência de mortalidade foram percebidos pela equipe da Fosp e documentados em um artigo publicado em 2023 na Revista de Saúde Pública. No trabalho, a epidemiologista Carolina Luizaga analisou a evolução da mortalidade por câncer de colo do útero no país de 1980 a 2020. Ao longo dessas quatro décadas, a proporção de mulheres que morrem por esse tipo de neoplasia em cada grupo de 100 mil diminuiu quase pela metade. Eram 10,1 em 1980 e 5,6 em 2020.

Essa tendência geral, no entanto, esconde contrastes importantes. Quando olhou para intervalos mais curtos, Luizaga constatou que, em nível nacional, a taxa de mortalidade parou de cair em 2014 e, dali em diante, tornou-se estável, como publicado na Revista de Saúde Pública . O estado de São Paulo, porém, destoou do padrão nacional. Nele, a taxa de mortalidade por câncer de colo do útero passou a crescer a partir daquele ano ao ritmo de 1,2% ao ano.

O efeito observado em São Paulo mostrou-se mais intenso e válido para todo o país quando a

A queda na vacinação

equipe da Fosp analisou as tendências por faixa etária. Entre as mulheres mais jovens, com idade variando de 25 a 39 anos, a taxa de mortalidade deixou de cair e passou a aumentar a partir de 2007, à velocidade de 2,5% ao ano. Esse efeito começou até um pouco mais cedo, em 2006, no Sudeste e ampliou sua magnitude (5% ao ano) a partir de 2013. “Os dados deixam claro que essa inversão de tendência ocorre pelo aumento na taxa de mortalidade das mulheres jovens”, conta Luizaga. O grupo da Fosp suspeita que comportamento semelhante tenha ocorrido com o câncer de mama, mas a análise dos dados coletados ainda não foi concluída.

O que Luizaga e colaboradores começaram a notar anos atrás para o câncer cervical foi, de certo modo, confirmado agora pela equipe da epidemiologista Tainá Raiol, da Universidade de Brasília (UnB) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na capital federal. Averiguando os dados nacionais para o período 2000-2021, Matheus Santos Melo, aluno de doutorado de Raiol, constatou que, de 2014 em diante, a taxa de mortalidade por neoplasias de colo do útero para de cair e passa a apresentar um aumento discreto. Novamente, o crescimento é em boa parte atribuído às mais jovens. A mortalidade subiu para as mulheres com idade entre 20 e 29 anos ao longo de todo o período analisado e, a partir de 2011, para as faixas etárias dos 30 aos 39 e dos 40 aos 49, segundo artigo publicado em outubro na revista Scientific Reports (ver gráfico na página 15).

“Esses dados mostram que o Brasil está longe de alcançar a meta proposta em 2020 pela OMS de eliminar as mortes por câncer cervical como problema de saúde pública. Para isso, seria preciso baixar o número de casos novos por ano, a taxa de incidência, para 4 casos em cada 100 mil

mulheres. Hoje, essa taxa é de 15,4 por 100 mil e a de mortalidade é de 5,8 por 100 mil no país”, lembra Melo.

Enquanto o câncer de mama ocorre com mais frequência em regiões e países ricos, associado à obesidade, ao tabagismo, ao consumo de álcool e ao sedentarismo, os tumores malignos de colo do útero são mais comuns em áreas pobres. Uma boa notícia é que as neoplasias cervicais podem ser facilmente prevenidas por meio da vacinação. Em cerca de 98% dos casos, os tumores malignos de colo do útero surgem em consequência de infecção pelo vírus do papiloma humano, o HPV, contra o qual há imunização disponível no SUS desde 2014. “A vacina previne 90% dos casos desse câncer”, conta o cirurgião Reitan Ribeiro, da Universidade McGill, no Canadá, e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO). “Se fosse gestor público, investiria todas as minhas fichas na imunização para eliminar o problema”, afirma.

Avacinação gera imunidade contra quatro variedades do vírus (duas associadas ao câncer e duas a verrugas genitais) e é recomendada para meninas e meninos na faixa etária dos 9 aos 14 anos, quando a grande maioria ainda não iniciou a vida sexual. Em nível populacional, porém, seu efeito protetor se torna evidente depois de anos, uma vez que os tumores de colo do útero e outros cânceres associados ao HPV evoluem lentamente. Em sua estratégia de eliminação do câncer de colo do útero, a OMS propõe que 90% das meninas estejam vacinadas até os 15 anos. No Brasil, no entanto, a cobertura encontra-se abaixo disso nos últimos anos. Dados do Ministério da Saúde indicam que ela havia alcançado toda a população-alvo nos primeiros anos, mas passou a cair a partir de 2017. No ano passado, 82,5% das garotas com idade entre 9 e 14 anos foram vacinadas (ver gráfico na página ao lado).

Ao menos por ora, no entanto, a queda da imunização não explica o aumento recente da mortalidade. A justificativa mais plausível, válida tanto para o câncer de mama como para o de colo do útero, é a falha no sistema de rastreamento e na oferta de terapias no tempo adequado. A Lei nº 12.732, de 2012, determina que a pessoa com câncer atendida no SUS receba o primeiro tratamento até 60 dias depois da confirmação do diagnóstico. No caso dos tumores malignos de mama e colo do útero, no entanto, ela continua sendo largamente descumprida, apesar de melhora recente. Segundo dados do Painel Oncologia, do DataSUS, em 2024, 41% dos casos de câncer de mama começaram a ser tratados após o intervalo definido pela lei. No caso das neoplasias de colo

do útero, a proporção que iniciou a terapia tardiamente foi ainda maior: 47,7%. Dois estudos dos quais participou a epidemiologista Marianna Cancela, do Inca, indicam haver uma grande disparidade regional. Para os tumores de mama, o atraso variou de 33% no Rio Grande do Sul a 57% no Acre, de acordo com artigo publicado em 2021 na Scientific Reports. No caso das neoplasias cervicais, segundo dados publicados em 2023 na revista Ciência & Saúde Coletiva, a proporção foi de 38% no Piauí e de 65% no Rio Grande do Norte. Uma consequência desses atrasos é que, quando a paciente chega ao médico, o tumor em grande parte das vezes já se encontra em estágio avançado de progressão, o que exige terapias mais modernas, nem sempre disponíveis no SUS, e torna o tratamento menos eficaz, reduzindo a chance de cura. “Há uma diferença gritante entre as opções de terapia disponíveis no SUS e no sistema privado para os tumores avançados”, conta a cirurgiã Fabiana Makdissi, líder do Centro de Referência em Tumores de Mama do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo.

Além de falhas no rastreamento e na oferta de terapia por parte do sistema público de saúde, razões pessoais parecem contribuir para o atraso na identificação e no tratamento desses cânceres femininos. Em São Paulo, as 437 mulheres entrevistadas antes da implantação do ConeCta-SP elencaram uma série de motivos para a não realização dos exames preventivos no tempo adequado. Muitas tinham medo de encontrar algo errado ou sentiam constrangimento de fazer os exames, enquanto outras afirmavam não ter tempo ou achar desnecessário, uma vez que “não estavam sentindo nada”. Elas também relataram barreiras do sistema público, como dificuldade de agendar os exames e tempo de espera elevado. Em São Paulo, a expectativa é que o quadro comece a mudar – e as taxas de mortalidade voltem a cair – com o avanço da nova estratégia de rastreamento, acompanhada de campanhas de conscientização das mulheres e de ajustes na oferta dos tratamentos. O desafio é fazer isso o mais rápido possível e de modo efetivo para um universo de quase 15 milhões de pessoas. No fim de 2022, Pernambuco iniciou um programa semelhante – o Útero é Vida – que está reorganizando o sistema de saúde para fazer o monitoramento ativo do câncer de colo do útero. A previsão é acompanhar 370 mil pernambucanas na fase-piloto, ainda em implantação. “O rastreamento oportunístico funcionou até certo ponto. Depois, perdeu efetividade e deixou de ter impacto na mortalidade”, afirma Luizaga, da Fosp. “Está na hora de mudar.” l

O projeto e os artigos científicos consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

A conquista do cérebro

Tumores de outros órgãos coagem células do sistema nervoso a lhes permitir que se instalem entre os neurônios

GISELLE SOARES ilustração SANDRA JÁVERA

Como as células tumorais que já haviam crescido em órgãos como o pulmão, rins e intestinos chegam ao cérebro, protegido por barreiras que deveriam impedi-las de avançar? Pesquisadores de Alagoas e de São Paulo encontraram uma possível explicação: as células tumorais emitem sinais químicos que agem sobre as células do sistema nervoso central e lhes permitem atravessar a parede dos vasos sanguíneos e se instalar no encéfalo, uma estrutura com cerca de 86 bilhões de neurônios formada pelo cerebelo, na base do cérebro, e pelo próprio cérebro. Uma vez no cérebro, as invasoras ficam protegidas das células de defesa, que, em outras partes do corpo, tentariam destruí-las.

CAPA

Esse mecanismo emergiu por meio da observação das interações moleculares entre três tipos de células: as tumorais, os astrócitos (células cerebrais que nutrem e sustentam os neurônios) e as células dos vasos sanguíneos da barreira hematoencefálica, uma espécie de membrana que normalmente impede a entrada no cérebro de moléculas, células e impurezas que poderiam prejudicar o funcionamento dos neurônios. As conclusões se apoiam nas análises fornecidas por uma técnica chamada sequenciamento de RNA de célula única, que revela o comportamento molecular de cada célula. Os aparelhos examinaram 128.421 células extraídas de 36 amostras de tumores no cérebro decorrentes do espalhamento (metástase) de cânceres originalmente iniciados na mama, no pulmão, na pele (melanoma), nos rins, nos ovários e no intestino.

As metástases cerebrais representam 6% de todos os casos de câncer por ano e são 10 vezes mais comuns que os tumores originados no próprio cérebro. Estima-se que em 20% das pessoas com câncer – principalmente de pulmão, mama, intestino e rins –, as células tumorais sairão dos órgãos em que se formaram e chegarão ao cérebro. Nesses casos, mesmo com as diversas possibilidades de intervenções médicas, a sobrevida após o diagnóstico é baixa.

“Com uma técnica chamada transcriptômica espacial, que mapeia onde genes específicos estão ativos no tecido cerebral, conseguimos ver exatamente onde cada célula interage com o ambiente ao redor”, diz o biólogo Carlos Fraga, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), campus de Arapiraca, principal autor do artigo detalhando os resultados, publicado em março na revista Brain Research. Coautor do estudo, o imunologista Helder Nakaya, do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP), acrescenta que os métodos de

análise indicaram também quais células estão próximas umas das outras e como se organizam no ambiente tumoral.

De acordo com esse estudo, as células tumorais produzem uma proteína chamada fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), que age sobre as células dos vasos sanguíneos da barreira hematoencefálica e estimula a formação de novos vasos, por onde elas avançam. Outros compostos aumentam a permeabilidade vascular, facilitando a passagem das células tumorais. Em seguida, as células tumorais liberam outras substâncias, entre elas as integrinas, que chegam aos astrócitos e permitem que os invasores não sejam reconhecidos como maléficos, instalem-se entre as células nervosas e voltem a se multiplicar. Genes específicos, como ITGA8, NRP1 e PLXND1, atuam como mediadores da interação entre células tumorais e a barreira hematoencefálica.

“Uma contribuição importante desse trabalho foi a identificação de mecanismos comuns usados por células tumorais de origens diferentes para ultrapassar a barreira cerebral”, comenta o médico Roger Chammas, diretor do Centro de Investigação Translacional em Oncologia do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), que não participou do estudo. “Essas descobertas ainda precisam ser validadas em estudos mais amplos, mas já representam um avanço significativo.”

A equipe responsável por essas descobertas pretende, assim que possível, analisar os chamados tumores primários, formados no próprio cérebro, como os glioblastomas. “Queremos comparar os tumores primários com as metástases cerebrais para entender melhor o trajeto das células tumorais, desde o tecido em que se formaram, passando pela corrente sanguínea, até se instalarem no cérebro”, adianta Nakaya. l

Os projetos e os artigos científicos consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

O chamado da lógica

Filósofo revisita seu percurso acadêmico e conta sobre os mais de 30 anos do trabalho na gestão do financiamento à pesquisa na FAPESP

ANA PAULA ORLANDI E FABRÍCIO MARQUES retrato LÉO RAMOS CHAVES

Em 1972, com apenas 22 anos de idade, Luiz Henrique Lopes dos Santos tornou-se docente no Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), onde fizera graduação e hoje é professor sênior. Na época, ele integrava uma leva de jovens pesquisadores convocada a preencher o vácuo deixado pela aposentadoria compulsória e precoce de professores perseguidos pelo regime militar. Com a orientação de grandes nomes como Otília Arantes, José Arthur Giannotti (1930-2021) e Oswaldo Porchat (1933-2017), Santos construiu uma carreira que percorreu a filosofia da lógica e a história da filosofia em instituições como a USP, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a École Normale Supérieure, em Paris, a Universidade Paris 7 e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua produção acadêmica envolve principalmente as obras do matemático, lógico e filósofo alemão Gottlob Frege (1848-1925), tema de sua tese de doutorado defendida em 1981, na USP, e do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) – uma de suas contribuições mais destacadas foi a tradução para o português, acompanhada de introdução crítica, do Tractatus logico-philosophicus, escrito em 1921 por Wittgenstein.

Em paralelo à docência e à produção em filosofia, atuou na gestão do fomento à pesquisa. Por mais de três décadas, foi coordenador de filosofia e de humanidades da Diretoria Científica da FAPESP, avaliando milhares de projetos propostos por pesquisadores e ajudando a formular programas da Fundação. Seu trabalho na FAPESP incluiu a coordenação científica da revista Pesquisa FAPESP por 21 anos e a formulação do Código de Boas Práticas da Fundação, em 2011. Em uma tarde de verão com chuva forte, ele recebeu Pesquisa FAPESP em seu apartamento em São Paulo para a entrevista a seguir.

ESPECIALIDADE

Filosofia da lógica e história da filosofia

INSTITUIÇÃO

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências

Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP)

FORMAÇÃO

Graduação (1971) e doutorado (1981) pela USP

De onde vem seu interesse pela filosofia?

Quando entrei no movimento secundarista, por volta dos 15 anos, comecei a ler filosofia política e logo migrei para a filosofia em geral. Mas na hora de decidir qual carreira seguir fiquei indeciso entre a trajetória mais clássica, que no meu caso seria o direito, e a filosofia. Venho de uma família com muitos advogados e meu pai, que era corretor de valores, queria que eu estudasse direito. Fiz vestibular para os dois cursos e em 1968 iniciei direito na USP pela manhã e filosofia na PUC-SP [Pontifícia Universidade Católica de São Paulo] à tarde.

Quando decidiu seu caminho profissional?

Na década de 1960, a carreira acadêmica, percurso natural de um filósofo, era muito pouco institucionalizada. Dava uma certa insegurança. Quem me colocou no rumo da filosofia foi Otília Arantes, que era minha professora na PUC e foi uma das minhas grandes referências acadêmicas. Ela me mostrou que aquele caminho profissional era possível. Quando resolvi transferir meu curso de filosofia para a USP, muito por influência da Otília, eu já pressentia que a balança estava pendendo para a filosofia. Prestei vestibular de novo e ingressei na turma de 1969.

Como foi essa mudança para a filosofia da USP?

Um pouco frustrante. Naquela época, o departamento perdeu professores, que foram perseguidos pelo regime militar. No primeiro mês tive aula com José Arthur Giannotti, que pouco depois foi aposentado compulsoriamente, a exemplo do Bento Prado Júnior [1937-2007]. Outros tiveram que fugir do Brasil, como Ruy Fausto [1935-2020]. O departamento ficou completamente desfalcado. Em meados de 1969, marquei uma entrevista na cara e na coragem com Giannotti no Cebrap [Centro Brasileiro de Análise e Planejamento], que ele ajudou a fundar, e disse: “Fui para a filosofia da USP por causa de professores como você, que agora não estão mais lá. O que eu faço?”. Giannotti estava preparando um artigo sobre Durkheim [1858-1917], que é um teórico da sociologia, e pediu que eu lesse alguns textos e fizesse uma exposição para ele. Passei no teste e, a

partir daí, fiz de maneira informal o que hoje se chama de iniciação científica, com orientação do Giannotti. A cada 15 dias, eu ia à casa dele para discutir sobre Kant. Ficamos muito amigos.

Formou-se em direito e filosofia?

Por três anos, fiz os dois cursos de forma simultânea. Foi assim até o assistente do Oswaldo Porchat, meu professor de lógica, aceitar uma ótima proposta de emprego, em termos financeiros, no Banco do Brasil. No fim de 1970, Porchat me procurou e disse que, se eu terminasse o curso no ano seguinte, poderia ser contratado como seu assistente. Para conseguir fazer dois anos em um precisei abandonar o direito, mas larguei o curso sabendo que iria começar uma carreira na filosofia. O chamado de Porchat foi decisivo porque eu estava entre a estética e a lógica.

Como foi tornar-se professor universitário tão jovem?

Obviamente ficava muito nervoso. Eu tinha 22 anos, era mais novo do que a maioria dos alunos. Mas, como disse, o departamento estava muito desfalcado. Lembro que foram contratados outros professores da minha geração como Carlos Alberto

de Moura, Ricardo Ribeiro Terra, Olgária Mattos, entre outros. Parte deles foi convidada pelo Giannotti para participar de um seminário no Cebrap, que durou entre 1971 e 1973. Essa experiência foi muito importante para a minha formação por causa do alto nível dos debates.

A notícia do emprego deixou seu pai mais tranquilo em relação à sua escolha profissional?

Ele ficou aliviado ao saber da novidade, pois era muito preocupado com meu futuro. Infelizmente, morreu pouco depois, aos 49 anos, no fim de 1971. Era um homem bem de vida, mas que não chegava a ser rico. Preferia viajar a guardar dinheiro. Com a morte dele, minha mãe, que era dona de casa, precisou se sustentar. Ela foi trabalhar com o irmão e decidiu cursar ciências sociais. Com cerca de 43 anos, passou no vestibular da USP, na década de 1970. A gente costumava se cruzar na universidade, eu como professor e ela como aluna. Após a formatura, foi trabalhar na Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso, onde ficou até se aposentar nos anos 1990. Sua função era cuidar da parte de alfabetização e nesse trabalho teve contato com presidiários como Chico Picadinho, famoso assassino em série dos anos 1960 e 1970. Minha mãe era muito dinâmica e já na época de dona de casa se ligou à militância católica progressista. Isso, inclusive, influenciou minha entrada no movimento secundarista em 1964, pouco antes do golpe militar.

O que estudou no mestrado?

Quando meu pai morreu, minha mãe precisou trabalhar fora e na mesma época, com cerca de 43 anos, entrou no curso de ciências sociais da USP

Não tenho título de mestre. Comecei a fazer minha pesquisa de mestrado em 1972, na USP, sobre o matemático, lógico e filósofo alemão Gottlob Frege, com orientação do Porchat. Entretanto, quando eu ia começar a escrever a dissertação, Porchat me chamou para ser seu braço direito no Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência e também no Departamento de Filosofia que ele iria montar na Unicamp. Isso foi em 1975. Ao aceitar o convite, ele me alertou que seria inviável dar continuidade à pesquisa de mestrado naquele momento.

Como nasceu a ideia do centro?

Porchat teve a ideia de criá-lo na USP, mas o departamento de filosofia rejeitou a proposta por divergências ideológicas.

Vivíamos em um ambiente muito polarizado. Nós, da lógica, éramos considerados reacionários e alienados por supostamente nosso campo ser vinculado ao capitalismo, no entender de algumas pessoas do departamento. Mas Porchat era muito amigo do então vice-reitor da Unicamp, o engenheiro e físico Rogério Cesar de Cerqueira Leite [1931-2024].

Ele disse ao reitor da Unicamp na época, Zeferino Vaz [1908-1981], que estava ali uma oportunidade de ouro para a universidade na área da filosofia. Zeferino se apaixonou pela ideia de um centro interdisciplinar e deu as condições materiais que nenhuma iniciativa ligada à filosofia tinha na época no Brasil. Isso possibilitou, por exemplo, trazer pesquisadores visitantes do exterior e organizar colóquios internacionais. O centro foi fundado em 1977 e permanece na ativa.

Qual era a composição dele?

Era formado por pesquisadores do departamento de filosofia da Unicamp e de áreas como matemática, sociologia, física, linguística e teologia. Fui destacado para fazer a cooperação com o Instituto de Estudos da Linguagem, onde ministrei aulas entre 1977 e 1981.

Havia uma comunidade de lógicos no Brasil?

Existia, mas era, e ainda é, muito pequena. O mais renomado era Newton da Costa [1929-2024], que na época estava na USP, mas representava uma grande influência para alguns integrantes do centro como Ayda Arruda e Itala D’Ottaviano. Nessa época, eu também me aproximei de Newton e de sua lógica paraconsistente, tendo publicado alguns trabalhos. Para além das contribuições à seara da lógica, o centro foi fundamental para a formação de uma comunidade acadêmica da filosofia no Brasil. Na época, havia vários núcleos com pessoas muito qualificadas espalhados por vários estados do Brasil. Ao articular essas ilhas de conhecimento por meio de suas atividades, o centro contribuiu, por exemplo, para a criação da Anpof [Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia], em 1983.

O que estudou no doutorado?

Meu doutorado, orientado pelo Porchat, foi uma extensão daquela pesquisa inacabada de mestrado. Busquei entender co -

O centro que criamos na Unicamp nos anos 1970 foi fundamental para a formação de uma comunidade acadêmica da filosofia no Brasil

mos a disciplina de Introdução à Filosofia no primeiro ano de graduação. Ele dava o que chamava de aula magna e eu fazia seminários com os alunos, dissecando os textos, lendo e relendo várias vezes. Formamos várias gerações de filósofos.

Na década de 1990, o senhor traduziu para a Edusp o Tractatus logico-philosophicus, escrito em 1921 pelo austríaco Ludwig Wittgenstein. Quais foram os desafios desse trabalho?

mo Frege, na segunda metade do século XIX, promoveu uma ruptura no modelo lógico aristotélico, que vigorou por cerca de 2 mil anos. Para responder às questões que surgiram durante sua pesquisa sobre os fundamentos da matemática, ele foi obrigado a repensar a lógica. Assim, concebeu o que hoje chamamos de lógica matemática. Fui contratado na Unicamp como professor doutor com o compromisso de finalizar a tese em 1980, mas foi uma luta concluir a pesquisa. Entre 1975 e 1978 praticamente não mexi na tese porque estava imerso na burocracia do departamento e do centro, ministrando aulas e realizando seminários. Em 1978, voltei a ela e fiz a defesa em 1981. O trabalho foi publicado em 2008, como O olho e o microscópio [Nau Editora].

O senhor ficou na Unicamp até 1981. Por que resolveu voltar para a USP? Por uma questão pessoal. Eu tinha me separado e meus filhos, que ainda eram pequenos, moravam com a mãe em São Paulo. Como não queria ficar na estrada, voltei para o departamento de filosofia da USP. Nesse momento, Giannotti também retornou para a USP e juntos ministráva-

Não é fácil traduzir do alemão para o português uma escrita tão complexa como a de Wittgenstein, que é um dos grandes filósofos da linguagem. Para se ter ideia, o estudo introdutório que fiz para explicar o lugar do Tractatus na história da filosofia é mais longo do que o próprio Tractatus. Giannotti já havia traduzido essa obra e escrito uma introdução para ela em 1968. Foi a segunda tradução no mundo, após a inglesa, e foi um trabalho hercúleo do Giannotti, pois Wittgenstein tinha morrido havia apenas 17 anos. Ele era um contemporâneo e não havia praticamente literatura sobre sua obra. Na década de 1990, a Edusp propôs que Giannotti fizesse uma nova edição da sua versão para o português.

O próprio Giannotti disse que o trabalho que ele fez nos anos 1960 tinha muitos erros. O senhor concorda? Tinha alguns erros não da tradução do alemão em si, mas conceituais, porque se tinha muito pouca familiaridade com aquele universo na época. É o caso de termos específicos da filosofia alemã do fim do século XIX, referentes a filósofos como Franz Brentano [1838-1917], que pouca gente lia no Brasil. Ao receber o convite da Edusp na década de 1990, Giannotti pediu que eu fizesse uma revisão, mas achei que o trabalho ficaria um frankenstein e propus refazer a tradução. Giannotti topou e me passou a missão.

Entre 1986 e 2007, Giannotti esteve à frente do Programa de Formação de Quadros do Cebrap. Qual foi sua participação nele?

Tratava-se de um programa interdisciplinar de formação voltado a estudantes de pós-graduação de várias áreas do conhecimento, viabilizado por um convênio entre a Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível

Superior] e o Cebrap. Era difícil de entrar. Ao longo de dois anos, esses alunos participavam de atividades como seminários sobre antropologia, ciência política, sociologia, economia e filosofia. Os encontros aconteciam duas vezes por semana e entre os professores estavam Paul Singer [1932-2018] e Ruth Cardoso [1930-2008]. Eu participei ativamente do núcleo de filosofia até ir para Paris, no fim dos anos 1990.

O senhor chegou à FAPESP em 1986. Como era a Fundação naquela época? Em 1986, o Flavio Fava de Moraes, que era o diretor científico da FAPESP, me convidou para substituir o João Paulo Monteiro [1938-2016] na área de filosofia na Coordenação de Ciências Humanas e Sociais. Não havia um coordenador-geral, mas essa função, pela personalidade e pela história, era ocupada pelo Leôncio Martins Rodrigues [1934-2021]. Havia o Boris Fausto [1930-2023] na história, a Maria Alice Vanzolini na psicologia, a Cláudia Lemos na linguística e eu na filosofia.

O volume de trabalho na época era pequeno em relação ao que se tornou hoje, não é isso?

Íamos às segundas-feiras e, na primeira parte da reunião, comentávamos a rodada de domingo do futebol – o Boris, como eu, era um corintiano fanático. Tinha uns 15 ou 20 processos para analisar por semana. Cada um recebia uns quatro. Estudava, relatava, decidia se dava ou não o auxílio ou a bolsa. E íamos embora. Era um outro mundo. Tinha acabado de acontecer uma mudança que transformaria o perfil da FAPESP, que foi uma emenda à Constituição estadual, apresentada pelo deputado Fernando Leça e aprovada em 1983, que determinou que os repasses do Tesouro à FAPESP, que eram de 0,5% da arrecadação de impostos na época, fossem calculados com base no ano em curso e repassado em duodécimos mensais. Antes, o cálculo era feito com base na arrecadação do ano anterior e o dinheiro chegava corroído por 13 meses de inflação. Após a Emenda Leça, a Fundação tomou consciência de que tinha potencial financeiro para dar voos mais altos. Isso se completou em 1989, quando a nova Constituição Estadual ampliou para 1% da arrecadação estadual os recursos para a Fundação.

Na prática, como essa ambição se materializou?

Um dos marcos foi a iniciativa dos projetos temáticos. A FAPESP tinha tido grandes projetos nos anos 1960 e 1970, mas eram pontuais, como o levantamento da biodiversidade da Amazônia feito pelo zoólogo Paulo Vanzolini [1924-2013], na década de 1960. Os projetos temáticos foram a primeira linha regular de grandes auxílios. Surgiu uma discussão na FAPESP se valia dar tanto dinheiro para as humanidades – uma coisa era dar bolsas de mestrado, outra era aprovar o orçamento de um projeto temático. O mérito foi do Fava, que realmente bateu o pé. Um dos primeiros temáticos em humanidades foi um projeto do cineasta Jean-Claude Bernardet, da USP, cujo produto foi um filme. Eu permaneci como coordenador de filosofia até 1989. O Leôncio saiu e o Fava me convidou para assumir como coordenador adjunto. Até 1989, os coordenadores de área iam à FAPESP uma vez por semana e não tinham nenhuma relação orgânica com a Fundação. Com a criação, pelo Fava, da figura dos coordenadores adjuntos, eles passaram a fazer a mediação entre os coordenadores de área e o diretor cien-

tífico. Em 1993, o José Fernando Perez assumiu a diretoria científica, me pediu para continuar e eu aceitei.

Em 1997, o senhor se afastou da FAPESP para passar um período na França, mas retornou à Fundação na volta ao país. Como foi esse retorno? Fiquei dois anos em Paris como pesquisador visitante na École Normale Supérieure e professor na Universidade Paris 7, e a [antropóloga] Paula Montero me substituiu. Quando voltei, no começo de 1999, fui chamado para trabalhar junto com a Paula porque já havia necessidade de dois coordenadores adjuntos nas áreas de humanidades. O Perez tinha uma dinâmica criativa própria e reestruturou a diretoria científica. Ele aumentou o número de adjuntos e toda semana nos reuníamos durante duas ou três horas em uma roda de conversa para falar sobre o que estava acontecendo. Muitos programas da FAPESP nasceram dessas reuniões. A efervescência do período do Perez teve a ver com ter gente de todas as áreas conversando. Isso foi levado a uma escala ainda maior quando o Carlos Henrique de Brito Cruz assumiu a diretoria científica, em 2005. Tudo passava pelos adjuntos. Uma vez por mês, 15 adjuntos se reuniam e conversavam a tarde inteira.

Com quantos diretores científicos trabalhou?

Um dos primeiros projetos temáticos em humanidades foi do cineasta
Jean-Claude Bernardet, da USP, cujo produto foi um filme

Foram quatro. A última gestão, do Luiz Eugênio Mello, foi muito comprometida pela pandemia. Ele fez milagres. Me substituiu na coordenação adjunta pela Ângela Alonso, mas só foi conhecê-la pessoalmente no fim do mandato. Ele manteve a diretoria científica funcionando e fez coisas importantes, como o esforço para gerar pesquisas sobre a Covid-19 e os primeiros projetos do Programa Geração, voltados para pesquisadores mais jovens, ainda sem vínculo de emprego. Impulsionou também a adoção de políticas de inclusão e equidade. A gestão do Fava deu mais ambição à FAPESP e criou uma estrutura institucional para a Fundação trabalhar criativamente. O Perez aproveitou isso, graças à personalidade dele. Era a personificação do entusiasmo. Quando o Brito assumiu, havia uma quantidade enorme de programas com quatro, cinco anos. O Brito, também pela personalidade dele, racional,

sistemático, botou ordem, formalizou, viu o que funcionava e o que não. Intensificou e aperfeiçoou os programas existentes e deu início a um forte esforço de internacionalização da pesquisa paulista.

Como foi sua contribuição para a implementação do Programa Ensino Público?

Uma das revoluções que o Perez fez foram os programas de pesquisa tecnológica, principalmente em parceria com empresas. Mas ele teve a sabedoria de considerar a pesquisa aplicada de forma ampla. Pesquisa em humanidades pode ser aplicada e resultar na formulação e na implementação de políticas públicas. A ideia do Perez era a de que, se é pesquisa aplicada, é preciso ter um parceiro que potencialmente vá usá-la. Daí surgiu a ideia de começar com o ensino público, fazendo pesquisas em parceria com escolas públicas. Chamamos a Maria Malta Campos, da PUC-SP e Fundação Carlos Chagas, para nos assessorar. Eu coordenei durante um tempo e passei a bola para Marilia Sposito. Como deu certo, teve demanda, parceria, teve tudo, foi lançado depois o Programa de Políticas Públicas.

Como surgiu a revista Pesquisa FAPESP, da qual o senhor seria o coordenador científico entre 2001 e 2022? O conceito nasceu de conversa da então diretora de redação Mariluce Moura com o Perez. Eu peguei o bonde andando, porque estava em Paris quando a ideia surgiu. Desde o início, o objetivo foi fazer uma revista de divulgação, não da FAPESP, mas da ciência brasileira e particularmente da paulista. Em segundo lugar, tinha que ser um veículo de caráter jornalístico e orientado por cientistas. Para isso, foi fundamental ter sido um projeto vinculado à Diretoria Científica. Isso permitiu a criação de padrões que garantiram a qualidade que a revista desenvolveu.

O senhor se refere, por exemplo, à revista ter um Comitê Científico composto por coordenadores de área e adjuntos da Diretoria Científica? Desde o início, as reportagens da revista eram lidas pelos coordenadores das áreas dos temas abordados. A ideia era ter um equilíbrio entre a linguagem jornalística e o rigor científico. De um lado, tinha gente que dizia que a revista não

A política de boas práticas deve ser pedagógica, mas

uma maneira

de

educar

é

não deixar impunes as coisas erradas

era suficientemente rigorosa do ponto de vista científico. De outro, que apresentava coisas difíceis de entender pelo público leigo. As críticas dos dois lados nos davam a ideia de que a revista estava no caminho certo, o caminho do meio.

Em 2001, o senhor e o professor Perez escreveram um artigo sobre conflito de interesses na pesquisa. Foi o início do debate que levaria ao Código de Boas Práticas, uma década depois? Foi uma coisa localizada. A FAPESP não tinha uma política de conflito de interesses porque nunca havia tido um problema sério sob esse aspecto. E houve um problema grave em um projeto de um pesquisador para avaliar os riscos do amianto para a saúde. Investiu-se muito dinheiro, os resultados foram favoráveis ao amianto. Aí, descobriu-se que o pesquisador tinha relação com uma empresa produtora de amianto.

E como surgiu o Código de Boas Práticas Científicas?

Apareceu, para mim, de supetão. Em setembro de 2010, eu havia feito uma cirurgia de apêndice no Rio e estava me

recuperando, quando recebi o pedido do Brito para estudar o que existia no mundo sobre boas práticas. Eu fiz esse estudo, que resultou em um texto, do inicio de 2011, que está até hoje no site da FAPESP. Aí o Brito me pediu para redigir um anteprojeto de um código de boas práticas. Durante seis meses, me dediquei a essa tarefa. Discuti o anteprojeto com o Celso Lafer, então presidente da FAPESP, que deu o estofo jurídico necessário. Saiu a segunda versão, que o Brito circulou entre pró-reitores e sociedades científicas. Fizemos uma ampla consulta e publicamos no fim de 2011. Dez anos depois do código, todas as universidades públicas paulistas possuíam comissão de boas práticas.

Depois o senhor passou a acompanhar os casos de má conduta que chegavam à Fundação.

Eu sempre insisti, e o Brito apoiou muito fortemente, que o principal eixo da política de boas práticas deve ser o pedagógico. Mas uma das maneiras de educar é não deixar impunes as coisas erradas que acontecem. É preciso ter um sistema rigoroso e justo de recebimento de denúncia e de investigação e transparência nos resultados. Isso dá trabalho. Quando se recebe uma denúncia, tem que garantir um tempo de defesa. São as instituições que têm condições de investigar o que acontece nas suas dependências. Elas podem fazer isso de maneira isenta e objetiva, mas há situações em que se deixam levar pelo corporativismo. Nesses casos, é preciso recusar a investigação da instituição e se cria uma crise política. Eu cuidei disso de 2011 até 2023. A maior parte dos casos não deu confusão, mas os poucos que deram foram difíceis.

Hoje o senhor se divide entre São Paulo e Rio de Janeiro?

Sim. Sou professor sênior na USP e oriento trabalhos na pós-graduação da filosofia. Além disso, sou professor colaborador da UFRJ, onde participo de seminários e ministro cursos livres. Como estou aposentado, agora tenho mais tempo para me dedicar à escrita acadêmica. Nos últimos cinco anos estou me debruçando sobre o pensamento de Aristóteles e já publiquei alguns artigos a respeito. Mas não tenho pressa. A produção teórica na filosofia é um trabalho que exige paciência. l

A desigualdade no espelho

As seis universidades públicas paulistas comparam seus indicadores de inclusão e gênero

MARQUES

As mulheres são maioria no ambiente acadêmico do país – segundo dados do Ministério da Educação (MEC), elas eram no ano passado 55% dos estudantes de pós-graduação brasileiros. Depois que ingressam na carreira docente, contudo, muitas encontram obstáculos para ascender: quanto mais perto do topo, maior é a presença de homens, que seguem dominando cargos de prestígio e de liderança. Um relatório recém-lançado, o “ Índex da igualdade de gênero nas universidades públicas do estado de São Paulo”, apresentou um diagnóstico robusto e atualizado sobre as barreiras à inclusão feminina na academia. O documento compara dados sobre a participação de homens e mulheres como pesquisadores e servidores das universidades de São Paulo (USP), estaduais de Campinas (Unicamp) e Paulista (Unesp), e as federais de São Paulo (Unifesp), de São Carlos (UFSCar) e do ABC (UFABC). No nível de professor doutor, que é o início da carreira, as mulheres são 44,8% dos docentes das seis instituições, mas o índice cai para 40,6% no degrau seguinte, o de professor associado, e para apenas 29,4% o de titular. Esse cômputo geral é uma média que dilui as disparidades existentes entre as universidades. A Unifesp, que tem tradição na área da saúde, onde há mais mulheres, é a menos desigual de todas – as docentes são 51,1% do total e 48,2% dos titulares. No extremo oposto aparece a UFABC, que tem uma concentração maior de quadros em áreas que, segundo a tendência atual, são mais masculinas, como ciências exatas e algumas engenharias, e conta com apenas 32,7% de mulheres entre o conjunto de docentes e 18,8% entre professores titulares. Um outro dado eloquente do relatório é o que combina gênero e raça. O índice de negros e negras entre os professores dessas universidades é muito baixo e isso quase não varia entre os gêneros: entre os docentes homens há 1,2% de pretos e 4,4% de pardos e entre as mulheres 1,1% de pretas e 3,9% de pardas.

“O relatório é uma carta de gênero das universidades paulistas”, define uma das coordenadoras do “Índex”, a socióloga Maria Arminda do Nascimento Arruda, vice-reitora da USP, que destaca o valor do documento para reafirmar o compromisso das seis instituições em promover a equidade. A reitora da Unesp, a química Maysa Furlan, considera que ele será referência para balizar políticas de inclusão e monitorar seus efeitos no futuro.

“Estamos criando uma memória sobre a participação das mulheres nas universidades paulistas que traz consciência sobre os problemas e permite olhar para as carreiras e pensar onde é possível avançar”, diz.

Já a economista Mônica Schröder, vice-reitora da UFABC, diz que o documento é um instrumento de reflexão para as universidades. “Ele nos oferece dados concretos que confirmam desafios que já conhecíamos e também nos ajudam a identificar aspectos que merecem atenção e esforços.” Segundo ela, os resultados estão levando a UFABC a fortalecer políticas que já vinham sendo implementadas, a exemplo da obrigatoriedade da diversidade em bancas de concurso e promoções seguindo critérios de gênero e raça, ou a criação de vagas docentes para campos de estudos de gênero e de relações étnico-raciais na universidade. A predominância masculina é uma herança da formação dos quadros docentes da UFABC, criada em 2010. “A partir daí, passamos a enfrentar um período desafiador de restrições orçamentárias, o que limita nossas oportunidades de contratação”, afirma. Schröder observa que, apesar disso, mulheres ocupam metade das pró-reitorias da instituição e muitas técnicas administrativas ascenderam a posições de liderança.

O “Índex” é o resultado da articulação de pesquisadoras que ocuparam, nos últimos quatro anos, os cargos executivos de reitora ou vice-reitora nas seis instituições. “A contingência de haver mulheres na alta gestão das seis universidades, todas lidando com os impactos da pandemia na produtividade acadêmica feminina, favoreceu a

Autoria feminina na Unicamp

Um estudo publicado na revista Cogent Education analisou a representação de gênero em publicações científicas da base de dados Scopus de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entre 2019 e 2023 – nesse período, 58% das publicações tiveram autores da universidade do sexo masculino e 42% do feminino. As mulheres estavam à frente em estudos da área interdisciplinar (53% do total), em ciências da saúde e ciências da vida (51%) e eram minoria em ciências sociais (39%) e ciências físicas (33%). “Embora na subárea de física as mulheres só respondam por 27% da produção, observamos que o impacto, em citações, dos artigos delas é até um pouco maior do que o dos colegas do sexo masculino”, afirma Marilda Bottesi, assessora da Pró-reitoria de Pesquisa da Unicamp, autora principal do artigo. O trabalho também investigou se a taxa de aprovação de projetos de pesquisadores e pesquisadoras da Unicamp pela FAPESP poderia indicar um subfinanciamento das mulheres como causa da desigualdade de gênero na produção acadêmica da Universidade – e concluiu que essa hipótese não se confirmava.

A barreira da raça

Distribuição de docentes por sexo e cor no conjunto das seis universidades

80,3%

Branca

Feminino

aproximação”, diz Maria de Jesus Dutra dos Reis, vice-reitora da UFSCar. O ponto de partida do trabalho do grupo foi uma reunião na USP, em 2022, entre Nascimento Arruda, que acabara de assumir a vice-reitoria da universidade, a coordenadora-geral da Unicamp (segundo posto na hierarquia), a infectologista Maria Luiza Moretti, e a pró-reitora de Pós-graduação, a cientista política Rachel Meneguello. “Durante a conversa, surgiu a discussão de por que mulheres chegam a vice-reitoras, mas o cargo de reitor é ocupado quase sempre por homens”, conta Nascimento Arruda, lembrando que, na USP, a exceção foi a gestão da reitora Suely Vilela, entre 2005 e 2009. Nesse encontro, surgiu a ideia de criar uma rede formada pelas gestoras das universidades, que se transformou no Fórum Paulista pela Igualdade de Gênero nas Carreiras Científicas e Acadêmicas. Uma primeira dificuldade do fórum foi reunir dados comparativos. Logo se viu que as informações disponíveis conversavam pouco entre si. “As universidades estaduais têm um sistema de progressão na carreira diferente das federais e foi um grande desafio harmonizar os dados”, explica Moretti, da Unicamp. A etapa seguinte foi realizada por um grupo de 18 técnicos das instituições que passaram a compilar dados e produzir informações suplementares comuns a todas as instituições. A formação desse grupo de trabalho foi pactuada em 8 de março de 2024, durante o seminário Mulheres e Instituições, realizado pelo Fórum.

Sem surpresa, os dados mostraram que há certa proximidade no número de homens e mulheres em cargos técnicos e docentes no início da trajetória profissional, mas a balança pende de maneira vigorosa para o lado dos homens no topo da carreira. No caso da USP, elas são 42% dos professores doutores e apenas 29,4% dos titulares. É certo que essa proporção vem mudando: dos novos 196 professores titulares que a USP aprovou entre 2022 e 2024, 76 foram mulheres, chegando perto de 40% a proporção de docentes do sexo feminino que ascenderam ao nível mais alto da carreira no último triênio.

Nascimento Arruda observa que as mulheres progridem na carreira de forma mais tardia do que os homens e a maternidade é um ponto de inflexão. “Muitas pesquisadoras se tornam mães quando estão fazendo o doutorado”, diz. Entre 2001 e 2019, 2.180 alunas de pós-graduação da USP se licenciaram para ter filhos. Mas isso gera um impacto na produtividade acadêmica – elas momentaneamente param de publicar –, o que lhes cobra um preço. “Havia alguns programas de pós-graduação que tinham a prática de desligar alunas

e pesquisadoras que se licenciavam na gravidez, para que as notas na avaliação da Capes não fossem comprometidas pela queda na sua produção. Na gestão do reitor Vahan Agopyan, uma portaria proibiu esse expediente”, recorda-se a vice-reitora.

Reis, da UFSCar, aponta uma mudança que permitiu o aumento de docentes do sexo feminino no topo da carreira – na universidade, 45,5% dos professores são mulheres, mas a proporção entre titulares é de 33,1%. “O MEC, até os anos 1990, adotava uma forte política de contenção de custos através da limitação do número de vagas disponibilizadas para concursos de titulares nas instituições federais de ensino superior. Havia poucos concursos e os homens costumavam sair em vantagem”, explica. “Nos anos 2000, o titular passou a fazer parte da progressão na carreira. Isso permitiu que qualquer docente, atingindo critérios de desempenho e produção, pudesse concorrer a titular e ajudou a mudar o perfil institucional, gerando uma maior equidade da distribuição por gênero.”

Os dados da Unesp apontam um quase equilíbrio de gênero entre os professores doutores (47% mulheres e 53% homens), mas há uma grande concentração masculina nos cargos mais altos: eles são 74,4% dos professores titulares. “Nas universidades estaduais, os docentes enfrentam um obstáculo para ascensão que não existe nas federais, o concurso para livre-docente”, diz a reitora Maysa Furlan. Entre as dificuldades enfrentadas pelas mulheres, ela destaca o desafio de conciliar a atividade profissional com o cuidado da família. “Na pandemia, pesquisadores homens e mulheres tiveram que trabalhar em casa, mas o impacto na produção científica foi maior para elas, que assumiram a maior parte das responsabilidades domésticas.”

No caso da Unicamp, 43,2% dos professores doutores são mulheres e a proporção cai para 26,6% dos titulares. Moretti observa que, embora as áreas de exatas e engenharias tradicionalmente tenham mais homens entre alunos e docentes, a universidade tem várias unidades em que a presença feminina se destaca. Mas ela conta que atualmente apenas quatro mulheres ocupam cargos de direção nas 24 unidades da Unicamp e a universidade é a única estadual paulista que nunca teve uma mulher como reitora. Ela própria se candidatou ao cargo recentemente, mas sua chapa ficou em terceiro lugar. “A chapa vencedora é masculina e meu sucessor será um homem.” Ela atribui as dificuldades de reconhecimento das mulheres a preconceito. “O normal ainda é considerar que homens são mais bem preparados e não votar em mulheres”, diz.

O teto de vidro

Distribuição de docentes por sexo e nível de carreira nas seis universidades

EM %

Feminino Masculino

A pneumologista Lia Azeredo Bittencourt, vice-reitora da Unifesp, afirma que a vocação inicial da universidade para a área da saúde permitiu um equilíbrio maior de gênero. “Além disso, dispomos já há um bom tempo de uma Pró-reitoria de Assuntos Estudantis e Políticas Afirmativas que cuida de assuntos relacionados à diversidade sexual e equidade de gênero”, diz. É a segunda vez que a universidade tem mulheres como reitora (a socióloga Raiane Assumpção) e vice-reitora e há predominância feminina nos cargos mais altos. “Mas isso acontece porque esses cargos, como vice e pró-reitores, são designados pela reitora. Quando se trata de um cargo de diretor escolhido pela comunidade, candidatos homens são frequentemente os mais votados”, afirma.

Em comum, as seis universidades vêm criando políticas para aumentar a inclusão de professores e professoras pretos e pardos – a reserva de vagas em concursos é uma delas. Nas federais, um expediente tem sido o de abrir processos seletivos para preencher certo número de vagas aglutinadas e sortear quais delas serão destinadas a candidatos negros. A Unicamp fará, neste ano, um concurso para preencher 24 vagas de docentes exclusivas para pretos e pardos. A USP também instituiu recentemente uma política que recomenda a reserva de uma a cada três vagas de docentes abertas para candidatos pretos e pardos – quando isso não for possível, esses candidatos terão bonificação na pontuação dos concursos. “A política de inclusão só agora começa a ser amplamente legislada na pós-graduação e sua concretização pode ser um dos caminhos profícuos para ampliar a diversidade entre os docentes das instituições de ensino superior”, diz Reis, da UFSCar. l

FONTE "INDEX DA IGUALDADE DE GÊNERO NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS DO ESTADO DE SÃO PAULO” (2025)
Doutor Associado Titular

Via de mão dupla entre a universidade e a aldeia

Número de estudantes indígenas no ensino superior cresce de maneira expressiva, mas grupo enfrenta desafios para permanecer na universidade e se formar

SARAH SCHMIDT

As universidades brasileiras nunca receberam tantos estudantes indígenas quanto atualmente. Dados do Censo de Educação Superior do Ministério da Educação mostram que, em 2022, havia cerca de 70 mil alunos de centenas de etnias matriculados em instituições de ensino superior (29% em públicas e 71% em privadas) – em 2009, eram 11,4 mil. A expansão obrigou as instituições a se organizar para promover a inclusão e responder às demandas desse novo público, mas também gerou tensões e atritos. Entre as barreiras enfrentadas pelos alunos indígenas, algumas são bem conhecidas pelos demais estudantes, como os problemas para se sustentar financeiramente ou dificuldades para acompanhar os estudos, assim como situações de isolamento. Mas também há entraves de caráter cultural, relacionados, por exemplo, a lacunas na proficiência em língua portuguesa ou à pouca familiaridade com a vida urbana e questões do ambiente acadêmico

relativas a prazos. Os estudantes relatam, ainda, episódios de preconceito e afirmam que não se sentem culturalmente representados nos currículos dos cursos e na composição do corpo docente.

“Os indígenas são o grupo cuja presença, em termos relativos, mais cresceu no ensino superior neste século, o que demonstra que eles têm um grande interesse em dar continuidade aos estudos”, avalia a pedagoga e antropóloga Chantal Medaets, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ela coordena o Observatório Indígenas e Quilombolas no Ensino Superior (Obiques), que mapeia ações afirmativas nas universidades públicas do país.

Uma dificuldade de atender às demandas, segundo ela, é que se trata de um público muito diverso. “Há desde estudantes que vieram de comunidades distantes, dentro de terras indígenas, até jovens que moravam e trabalhavam em grandes cidades. Alguns já cursaram outras universidades. Cada trajetória é única”, destaca Medaets. A Unicamp tem cerca de 500 alunos

Indígenas durante marcha pela educação no campus da Pampulha da UFMG, em abril de 2022

indígenas e, desde 2018, promove um vestibular específico para eles, com uma oferta anual de 130 vagas. Desde 2022, o processo é realizado em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Nas provas, a redação versa sobre temas do cotidiano dos candidatos e as questões discursivas buscam utilizar textos de autores de povos originários.

A inclusão dos indígenas nas universidades ganhou ímpeto graças à lei de cotas, de 2012, que reservou vagas para autodeclarados pretos, pardos e indígenas (PPI) na proporção em que esses grupos estão presentes na população. Muitas instituições também criaram processos seletivos exclusivos para indígenas – algumas delas no início dos anos 2000, antes mesmo da lei. Segundo dados coletados por Medaets e outros colegas pesquisadores, parte deles indígenas, em 2021 e 2022, vestibulares ou provas adaptadas eram realizadas por 28 das 69 universidades federais brasileiras (40% do total) e 22 das 41 universidades estaduais (53%).

Em artigo publicado no ano passado na revista Novos Estudos, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Medaets e colaboradores mostraram que a criação de um vestibular indígena na Unicamp, assim como aconteceu em outras instituições brasileiras, surgiu e cresceu na esteira da mobilização por cotas para pretos e pardos. “Enquanto na defesa das cotas para negros predomina o argumento da inclusão como mecanismo de justiça social, no caso indígena prevalecem argumentos a favor da valorização da diferença cultural. A tônica é a defesa da entrada de saberes indígenas nos espaços acadêmicos”, escreveu. Outra peculiaridade é que essas iniciativas foram idealizadas com pouca participação de lideranças dos povos originários – de 50 universidades que criaram processos seletivos para indígenas, eles encontraram somente 11 com registro de colaboração de organizações ou líderes das etnias. O artigo menciona, como contraponto, o caso da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), que tem uma presença significativa de alunos indígenas, embora não tenha um vestibular exclusivo. Ao ouvir os movimentos locais dos povos originários, a instituição criou cursos talhados para suas demandas, com uma licenciatura oferecida na Terra Indígena Alto Rio Negro, no município de São Gabriel da Cachoeira (AM).

A inclusão dos estudantes indígenas exigiu a criação de estratégias de acolhimento apropriadas para as suas necessidades. “Eles são o grupo da população que menos acessa e menos conclui o ensino médio e isso tem reflexos quando alcançam o ensino superior”, diz o psicólogo Everson Meireles, do grupo Diversifica: Inclusão e Diversidade da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Em um artigo publicado em janeiro na Revista Educação e Políticas em Debate, o grupo de Meireles analisou o perfil de 10.736 indígenas com matrículas ativas até 2018 nos cursos de graduação em 65 instituições federais de ensino superior.

Embora 87,2% tivessem renda familiar per capita de até 1,5 salário mínimo, apenas 56,8% relataram participação em algum programa de assistência estudantil, como alimentação e moradia. O engajamento em atividades de pesquisa (7,46%) e extensão (6,43%) foi menor do que a média de outros estudantes cotistas, que era, respectivamente, de 11,9% e 8,4%. A maioria era do sexo feminino (52,5%) e 43,5% eram aldeados, ou seja, viviam em comunidades e territórios indígenas. O estudo também comparou percentuais de ingresso de 3 mil indígenas por meio da Lei de Cotas de acordo com a porcentagem dessa população em cada estado do país e viu que em 14 deles os estudantes estavam sub-representados.

O antropólogo José Jorge de Carvalho, da Universidade de Brasília (UnB), coautor do artigo, destaca outras dificuldades. “Muitos dos aldeados vivem em comunidades onde o português não é a primeira língua ou sequer é falado cotidianamente”, diz ele, que coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa. Com base em resultados de estudos qualitativos, Carvalho afirma que a convivência na universidade não é isenta de conflitos. “O ambiente pode ser hostil e há discriminação por diferenças culturais.”

“Eu costumo ser a última escolhida na hora de formar grupos na sala de aula, e já aconteceu de professores perguntarem em público se estou conseguindo acompanhar a matéria, como se eu fosse atrasada por ser indígena”, conta a estudante Angelina Ferreira, de 26 anos, da etnia Baniwa. No início de 2023, ela se mudou de São Gabriel da Cachoeira para estudar arquitetura e urbanismo na Unicamp. Veio acompanhada do filho de 5 anos, da irmã (que passou no curso de pedagogia), da sobrinha, de 11 anos, e do pai, encarregado de cuidar dos netos enquanto as filhas estudam.

“A assistente social perguntou: ‘Por que trazer seu pai?’. Eu penso: por que não trazer? A família e a coletividade são muito importantes”, conta. Um mês antes de chegar em Campinas, ela viveu uma situação traumática: seu irmão, de 19 anos, que cursava administração na Unicamp, suicidou-se. “Ele era muito tímido e ficava isolado. Quando cheguei, entendi o que ele pode ter passado. Eu comia sozinha, me sentia muito solitária no curso. Vi casos de racismo, dentro e fora da universidade. Ele não tinha estrutura para lidar com isso”, conta Ferreira.

Luiz Medina, da etnia Guarani, de Dourados (MS), também se queixa de preconceito. “Já ouvi que nós, indígenas, não vamos conseguir fazer ciência, e que ‘daqui a pouco a universidade vai começar a falar até de horóscopo’ por estarmos aqui”, conta ele, que ingressou na Unicamp pelo vestibular indígena em 2019, incentivado pela mãe – que cursava doutorado em ciência política na instituição – e se formou em administração pública no ano passado. Medina faz mestrado interdisciplinar em sustentabilidade e proteção social na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, com bolsa da FAPESP. Estuda as comunidades tradicionais do Vale do Ribeira (SP). Não há dados nacionais consolidados sobre evasão dos estudantes de graduação indígenas. Levantamentos pontuais indicam que o problema existe, mas igualmente grave é a retenção, a demora em terminar o curso. “Há a necessidade de ampliar o apoio para permitir a continuidade e a

Em 2023, na Unicamp, ocorreram as primeiras formaturas dos estudantes que ingressaram pelo Vestibular Indígena (na foto, Jeovane Ferreira Lima); abaixo, representantes de diversas etnias pintam o Teatro de Arena da universidade

conclusão dos estudos. É preciso reconhecer suas trajetórias e seu tempo de formação, que pode ser mais longo, principalmente na concessão de bolsas”, avalia Maria Aparecida Bergamaschi, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), instituição que também oferece anualmente vagas em um vestibular indígena em cursos que são acordados com lideranças de etnias da região. Estudo publicado em novembro de 2023 por autoras da Universidade Católica de Brasília na revista Educação analisou a trajetória acadêmica de estudantes indígenas que ingressaram na UnB entre 2004 e 2013. No total, foram 108 alunos de 35 etnias. Até o segundo semestre de 2017, só 25,5% haviam concluído o curso, embora 92,1% já pudessem tê-lo feito. Outros 43,5% foram desligados, por cancelamento ou por não concluírem o curso dentro do período máximo. Na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), até dezembro de 2021, o índice de evasão entre 62 alunos indígenas e quilombolas era de 17,64%, e 80,64% estavam demorando mais para se formar do que o esperado, segundo dados

Anaquiri, primeira indígena a defender um mestrado na UFG

levantados pela assistente social Janaina Guerra para sua pesquisa de doutorado em política social e direitos humanos na Universidade Católica de Pelotas (UCPel), defendida em março deste ano. “Em 2021, ainda havia estudantes indígenas que tinham ingressado na graduação em 2013”, observa Guerra, que integra a equipe da recém-criada Pró-reitoria de Ações Afirmativas e Equidade da UFPel.

Um relatório apresentado em 2023 e elaborado pela Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp analisou o desempenho de 2019 a 2023 de estudantes estratificado por formas de ingresso e mostrou que o grupo de ingressantes pelo Vestibular Indígena apresenta as maiores taxas de evasão dentre todas as formas de entrada na Unicamp. Os dados também apontaram que o ritmo de formação era mais lento do que o da média do corpo discente – eles completaram apenas 40% do que seria esperado. Para combater o problema, a universidade instituiu, neste ano, uma mudança no currículo. Os indígenas terão que cumprir, no primeiro ano, uma formação inicial composta por conteúdos essenciais das diferentes áreas do conhecimento. Depois de concluí-la, iniciarão os cursos nos quais conquistaram vagas. “Essa mudança visa possibilitar um percurso mais tranquilo nos cursos e foi elaborada numa ampla discussão que envolveu diferentes setores da universidade, incluindo os coletivos de estudantes indígenas”, explica a antropóloga Artionka Capiberibe, uma das coordenadoras da iniciativa, batizada de Programa Formativo Intercultural para Ingressantes pelo Vestibular Indígena.

Professores da Universidade Federal do Pará (UFPA) oferecem cursos de extensão de reforço em português, matemática e informática, para garantir a permanência nos cursos e diminuir a retenção e a evasão. Na instituição, 41% dos 105 estudantes indígenas que ingressaram entre 2010 e 2014 acabaram cancelando suas matrículas, segundo artigo publicado em janeiro de 2025 na Educação e Políticas em Debate. “Muitos sentem falta da família e comunidade”, explica a historiadora e antropóloga Denise Machado Cardoso, da UFPA, uma das autoras do artigo.

Em 2024, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) iniciou a oferta de um curso de licenciatura intercultural para professores indígenas. As 80 vagas oferecidas – 40 em 2024 e 40 neste ano –foram preenchidas. A proposta político-pedagógica do curso – alternando atividades na universidade e na comunidade – teve a participação de docentes das universidades públicas paulistas e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), para responder a uma demanda do Fórum de Articulação dos Professores Indígenas do Estado de São Paulo. “A escolha do campus na Baixada Santista se deveu à proximidade com comunidades indígenas no litoral e a aderência da proposta pedagógica do campus, que tem a interdisciplinaridade e o território como elementos estruturantes”, afirma a reitora da Unifesp, Raiane Assumpção. Carvalho, da UnB, defende que o ingresso seja reformulado, com a adoção de um modelo flexível em que os alunos indígenas possam escolher onde estudar considerando fatores como proximidade geográfica e apoio familiar. Para ele e para Bergamaschi, é preciso inserir no currículo mais disciplinas, estudos e projetos de extensão que tratem dos conhecimentos indígenas, contemplando cosmovisões e idiomas desses povos.

A artista e arte-educadora Mirna Anaquiri foi a primeira indígena a defender uma dissertação de mestrado na Universidade Federal de Goiás (UFG), em 2017, e hoje é doutora em artes visuais pela mesma instituição. Em dezembro, tornou-se docente da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), em Teixeira de Freitas. Após se tornar mestre, recebeu mensagens de mulheres de várias etnias, interessadas em ingressar na academia. A educadora afirma que o processo de adaptação envolvendo indígenas e universidades precisa ser uma via de mão dupla. “Fala-se em dar mais tempo para que os alunos possam se adaptar ao ambiente acadêmico, mas e quanto aos professores? Também vão estudar e incorporar os conhecimentos indígenas a suas atividades? Se a resposta for não, o processo continuará desigual”, avalia. l

O projeto e os artigos científicos consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

Mirna

Uma amazônida com voz global

Depois de ser deputada e ministra na França, a economista franco-guianense se prepara para contribuir para a COP30 com um estudo sobre a diversidade das populações locais

MARIA GUIMARÃES

Nascida na Guiana Francesa e com formação universitária em economia, Christiane Taubira foi deputada francesa por 19 anos e deputada europeia por cinco anos. É autora da lei que leva seu nome e torna crime contra os direitos humanos a prática de escravização e tráfico de pessoas. Entre 2012 e 2016, foi ministra da Justiça no governo do presidente François Hollande. Aos 73 anos e com a vida política encerrada, voltou a viver em Caiena, capital franco-guianense e sua cidade natal.

Desde outubro de 2024, Taubira ocupa a Cátedra José Bonifácio, programa da Universidade de São Paulo (USP) que, a cada ano, recebe uma personalidade da região ibero-americana para realizar estudos sobre um tema candente da atualidade. Ela é a primeira titular francófona.

Sua pesquisa, intitulada “Sociedades amazônicas: Realidades plurais, um destino comum?”, dará origem a um livro que deve ficar pronto até setembro e será apresentado na conferência sobre mudanças climáticas (COP30) a ser realizada em Belém em novembro. Com sua eloquência calibrada pela experiência em batalhas políticas e pela escrita de poesia, ela pretende contribuir para dar visibilidade aos povos da região durante a reunião multilateral.

Seu livro A escravidão contada à minha filha está sendo lançado este mês pela editora Todavia e é uma reflexão fundamental sobre as consequências, que persistem até hoje, das práticas colonialistas.

Nas – praticamente inexistentes – horas vagas, Taubira gosta de ler, ir ao cinema, a espetáculos musicais e pedalar. No final de março, ela conseguiu uma fresta entre os compromissos nas universidades Federal do Pará e do Estado do Pará para conceder esta entrevista a Pesquisa FAPESP, por chamada de vídeo.

A senhora assumiu a Cátedra José Bonifácio em outubro, com um projeto sobre sociedades amazônicas.

Quais são os objetivos?

Aceitei ocupar a Cátedra José Bonifácio por um ano acadêmico por sua própria natureza, ou seja, a abertura a questões que afetam as Américas e principalmente as Américas do Sul e Central. Eu suscitei interesse como figura internacional: ex-ministra da Justiça da França, ex-membro da Assembleia Nacional e do Parlamento Europeu. Para mim, ao mesmo tempo, fazia sentido por minhas raízes na Amazônia. Por isso, escolhi trabalhar com sociedades amazônicas, que, como pretendo destacar, são plurais, independentemente da unidade geográfica.

A senhora está trabalhando com uma rede de pesquisadores?

Absolutamente. Cerca de 60 pesquisadoras e pesquisadores de vários níveis de formação – inclusive pós-graduação – se

inscreveram para participar. Em janeiro fizemos uma consulta para ver quais estavam dispostos a escrever um texto, e assim temos 35 propostas de contribuições para o livro que deve ficar pronto em setembro. Haverá também escritos de minha autoria e convidei outras personalidades para se manifestarem também. Eu disse aos pesquisadores e pesquisadoras que sou muito exigente e quero rigor e, ao mesmo tempo, a capacidade de ir além do ambiente acadêmico para questionar as capacidades paradigmáticas das reflexões que teremos sobre a Amazônia e também sobre outros ecossistemas frágeis como o Cerrado e o Pantanal no Brasil, mas também a floresta tropical do Congo, a floresta boreal do Canadá, os recifes de corais da Austrália e o oceano.

A publicação com esses trabalhos será apresentada na COP30?

Sim. Estarei na conferência, esse é um

dos motivos pelos quais estou passando alguns dias em Belém agora. Trabalho com ambas as universidades, a federal e a estadual. Também estou fazendo contatos institucionais com as autoridades de Belém e participando das trajetórias de uma série de eventos que serão preparados para essa cúpula internacional. Por isso o livro precisa estar pronto em setembro.

Em relação à COP30, discute-se muito sobre a possibilidade de os povos amazônicos terem algum protagonismo. É possível, na sua opinião? Se não for possível, será um escândalo. Não se pode ir à casa das pessoas, sentar em suas salas de estar, falar alto, beber, comer, sujar e ir embora. Isso não se faz. Seremos muitos lá, as organizações estão se mobilizando. De qualquer forma, haverá também a COP social, a Cúpula dos Povos, onde a liberdade de expressão poderá ser maior. Eu tenho

Taubira durante visita à sede da FAPESP, em março

a oportunidade de falar alto como uma figura internacional de alto escalão, tenho acesso à mídia internacional. Direi isso em voz alta e com antecedência: “Tenha cuidado com seu comportamento, tenha cuidado com sua expressão, não seja indiferente ao que está acontecendo onde você chega”. Não adianta reclamar depois. A ONU [Organização das Nações Unidas] foi criada em uma época na qual o mundo era imperialista, no final da Segunda Guerra Mundial, e o imaginário multilateral está impregnado disso. O Império Francês ainda existe, com seus territórios ultramarinos, assim como o Império Britânico. O Português está bem desmantelado, mas ainda mantém conexões com as antigas colônias da África lusófona, como Angola e Moçambique. Ainda estamos em luta contra as metrópoles coloniais. Então o que peço é que questionemos essa marca ainda presente.

Sua posição é muito especial, por ser europeia e amazônica ao mesmo tempo. Como esses dois mundos se unem?

Eu diria que existem vários mundos dentro de mim, felizmente. É isso que dá interesse à minha presença em lugares diferentes, por ser profundamente amazônica. Também sou o que se chama de créole, guianense. Além de ser francesa sem nenhum tormento, nem na cabeça nem no coração. Acumulei uma experiência de trabalho significativa na Europa, mas nunca parei de viajar pelo mundo como representante política, enquanto integrante do Parlamento fran-

cês e do Parlamento europeu. Em 2008 escrevi um relatório sobre acordos de parceria econômica entre a União Europeia e os países da África, do Caribe e do Pacífico, quando a França presidia a União Europeia. Essa variedade muito grande de experiências me torna cada vez mais consciente do que significa ser da Amazônia. Isso me enraíza na minha origem, mas também no mundo: ao atravessar sociedades, continentes, períodos e assuntos, pertenço completamente à humanidade. Tenho uma consciência aguçada e constante desse pertencimento. Quando estou em um país, trago comigo o que vi, ouvi e entendi nos outros países.

Quando se fala em salvar a Amazônia, o que está em pauta é o interesse global, não as realidades locais e culturais. Como podemos integrar essas perspectivas?

Isso é absolutamente verdade, e é por isso que peço aos pesquisadores e pesquisadoras que questionem o imaginário multilateral no projeto sobre a Amazônia. Que ponham em causa a questão dos amazônicos em sua unidade geográfica, sua pluralidade vinculada à história que se tornou nacional. Que levem em conta a verticalidade das relações entre os países amazônicos e sua conexão com as antigas metrópoles coloniais. As relações com a ONU: tanto as instâncias multilaterais como a percepção que elas têm da Amazônia. É importante reconhecer que as Amazônias são diversas, contraditórias, múltiplas. São comunidades indígenas que estão lá há milhares de anos e construíram redes urbanas muito densas. Essas comunidades cruzaram continentes e entraram em conflito umas com as outras. Com a chegada dos europeus, muito rapidamente aconteceu o tráfico e a escravidão de seres humanos, que levaram a novas realidades sociais, novas comunidades. Os quilombolas, as comunidades de marrons da minha América. Essa história gerou conflitos, mas também encontros. Daí vieram casamentos e miscigenação, e também troca de conhecimento. Meu desejo é que possamos descrever as Amazônias como indígenas, mas também como comunidades mestiças, como sociedades urbanas altamente sofisticadas, inclusive com construções arquitetônicas

de forte influência europeia, como o Teatro Municipal de Manaus. E quando a ONU diz que precisamos salvar a Amazônia, “o pulmão verde da Terra”, ela é que tem um problema. É preciso que ela aceite que as pessoas que ali vivem têm consciência dessas realidades compostas e, por meio de suas relações milenares com a floresta, conhecem essa biodiversidade e sabem como estabelecer relações em uma perspectiva de equilíbrio e de conservação. Existe um tratado de cooperação, a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, OTCA, que envolve uma consciência de que há trabalho a ser feito entre os nove países que têm uma porção da Amazônia. Mas os Estados são órgãos políticos: eles podem proteger ou destruir. Existe uma percepção global unitarista, uniformizadora, que é mortífera. A Europa dominou o mundo por quase quatro séculos com essa relação de violência, opressão e negação das comunidades e

culturas que encontrou, já que “descobriu” as Américas.

Como economista, a senhora tem interesse na bioeconomia como uma oportunidade de desenvolvimento para a região e sustento das populações locais?

Absolutamente. A economia neoliberal global unificou o mundo e globalizou os circuitos. Somos esmagados por referências culturais que vêm de um ou dois países e se impõem ao resto do mundo. Vivemos em um mundo onde os fluxos financeiros e os circuitos de mercadorias se movem com facilidade e abundância, mas onde há cada vez mais bloqueios para as pessoas, as ideias e os valores. Há pessoas que não podem migrar porque não tem visto, e entram em botes para atravessar oceanos. Acho que essa economia voraz é destrutiva, ela é responsável por muita pobreza e fome. Ela chega a matar. É também responsável por uma destruição da biodiversidade que empobrece populações em países do Sul, em particular, e desequilibra o planeta. Não faltam alternativas a essa economia mortífera; existe uma bioeconomia fincada em relações diferentes com a natureza, com princípios renováveis. Devemos viver sem essa violência da ideologia da natureza como um corpo a ser conquistado, que aliás se aplica também às mulheres. Podemos pensar em uma escala mais razoável do que o mercado global, a competitividade e a concorrência selvagem.

A ONU foi criada em uma época na qual o mundo era imperialista, e o imaginário multilateral está impregnado disso

A Amazônia também tem problemas muito sérios de violações de direitos humanos, um tópico proeminente na sua carreira. Que possibilidades vê? Acredito que a questão da legitimidade está na base, ou seja, que os indivíduos podem se autodeterminar. Devemos saber respeitar o fato de que as comunidades humanas, mesmo que sejam de 150, 3 mil ou 20 mil pessoas, sabem se organizar. O papel do Estado é garantir que essa organização não prejudique os outros. Se prejudicar, a Justiça existe para impedir. O que causa danos são aquelas unidades econômicas que ficam presas nas garras da economia global produtivista. São elas que oprimem os outros, que destroem a natureza, que põem em risco a saúde e a existência das comu -

nidades. As comunidades que vivem lá conhecem seu ambiente, sabem o que é bom para elas, não destroem, não prejudicam os outros. A violação dos direitos humanos é inaceitável em qualquer lugar.

Como a pesquisa acadêmica pode contribuir para a defesa desses direitos? Primeiro, lançando luz sobre as realidades sociais e culturais. Pedi aos pesquisadores que também atentem às cosmogonias, porque para a Europa há ali apenas um Deus, uma civilização, uma cultura, uma língua. As comunidades constituíram sua conexão com a criação do Universo, com o mundo ao seu redor. Eles deram nomes a lugares, árvores, animais, modificaram seu ambiente. Isso faz parte do nosso patrimônio comum. Não basta ver se a mandioca está sendo bem plantada e vendida a um bom preço, isso não é a essência dos direitos humanos. O que é fundamental é o direito de ser você mesmo, de existir, de se identificar. Também é preciso haver uma capacidade de autossuficiência nas comunidades.

Geralmente, o conhecimento acadêmico e a política são vistos como coisas muito distintas. Qual a conexão entre eles?

Meu compromisso político sempre foi alimentado pelo conhecimento, que constantemente renovo. Me envolvi com militância desde o ensino médio. Fazíamos greves para reivindicar o ensino de literatura afrodescendente do Brasil, dos Estados Unidos, da África – literaturas que não fossem europeias, de que eu aliás gostava muito. Não pedíamos cadeiras mais confortáveis. Não usufruí dos resultados, mas os que vieram depois de nós sim: tinham um salão com biblioteca, clube de xadrez, clube de fotografia e assinaturas de revistas estrangeiras, incluindo a Granma , de Cuba. Minhas lutas políticas, portanto, estiveram desde o início ligadas ao conhecimento. Ministros trabalham muito, mas mesmo quando eu era titular da Justiça, continuei indo à ópera, ao teatro, a ler todas as noites. Ia às livrarias para comprar livros e às universidades para conversar com os alunos, ouvir suas perguntas e ler obras acadêmicas. Conhecimento e política realmente andam de mãos dadas, e quero que os pesquisadores e pesquisadoras entendam isso.

As Amazônias são diversas, múltiplas; comunidades que estão lá há milhares de anos e construíram redes urbanas muito densas

minação ainda existem. Por que a ONU diz “nós salvaremos a Amazônia”, mas não diz à Noruega “salvaremos seu rio, porque vocês não são sérios”?

O livro está em formato de diálogo. Ele de fato tem as perguntas da sua filha como ponto de partida? Tenho duas filhas e dois filhos, mas escrevi com perguntas semelhantes às que uma delas me fazia na pré-adolescência. Eu o escrevi depois que a Assembleia Nacional e o Senado da França adotaram a lei que reconhece o tráfico e a escravidão como crimes contra a humanidade. É o único país desenvolvido a ter essa lei, chamada de Lei Taubira. No ano seguinte, o concurso René Cassin, que envolve todas as escolas francesas, foi sobre a escravidão. Pensei: “Os jovens precisam ter material sobre o assunto em todas as áreas – história, economia, cultura, civilização, línguas”, porque só existiam livros muito técnicos. Escrevi muito rápido, à noite, durante duas semanas, para que estivesse pronto a tempo para a competição.

A senhora também é poeta e chegou a usar poesia para efeito político no Parlamento francês. Como explica essa opção?

No seu livro A escravidão contada à minha filha , recém-publicado pela editora Todavia, conhecer e revisitar a história parece crucial para entender as consequências da escravização.

Houve escravização até mesmo sob os romanos, mas o tráfico de escravizados e a escravização do século XV, que durou até o século XIX, e, em alguns países, até o século XX, moldaram o mundo. As marcas ainda são visíveis, é o sistema no qual vivemos até hoje. O fato de ter transformado milhões de seres humanos em mercadoria, de ter utilizado uma força de trabalho gratuita durante quatro séculos, de ter ocupado territórios após o genocídio dos indígenas para monoculturas agrícolas, para garimpos, foi o que impulsionou as revoluções industriais na Europa. Então o mundo inteiro carrega a marca do tráfico e da escravização. Precisamos entender por que certas relações de do -

Quando eu era membro do Parlamento, mas especialmente quando era ministra, eu dizia que os poetas eram meus melhores amigos. Enfrentei algumas batalhas muito difíceis; a da lei sobre tráfico e escravização durou quase quatro anos, entre 1998 e 2001. Na Assembleia, foi muito violento. Ouvi insultos racistas como me chamarem de macaca, dizerem que eu voltasse à minha árvore. Cheguei a parar a sessão para que o deputado se desculpasse. Eu não ligo, mas não permito que ofendam as vítimas, as pessoas para quem eu fazia as leis. Havia menos insultos no rádio do que hoje nas redes sociais, que não existiam, e eram mais filtrados. Mas ainda assim foi muito difícil. Toda vez que eu estava em um confronto, nos momentos mais delicados, me vinham versos como argumentos. Eu não tinha poesia nas minhas anotações, ela surgia espontaneamente. Eu dava a resposta do poeta e as pessoas ficavam desarmadas. A poesia é a substância profunda do pensamento humano e a beleza suprema. l

Me dá um feedback?

Plataforma permite que autores solicitem uma avaliação de seus trabalhos científicos publicados como preprints

Patrício Câmara Araújo, pesquisador do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), recebeu no mês passado o parecer de um especialista avaliando um trabalho de sua autoria que mapeou os temas mais abordados nos estudos sobre formação de professores no país – ele havia divulgado o manuscrito em 2024 no repositório SciELO Preprints, plataforma brasileira que reúne estudos ainda não revisados por especialistas, os chamados preprints A apreciação, além de destacar aspectos positivos do texto acadêmico, sinalizou pontos que poderiam ser aperfeiçoados e mais bem explicados.

“Uma das observações do parecerista é a de que adotei uma definição de revi-

são bibliométrica, área do conhecimento que analisa a produção científica por meio de métodos estatísticos e matemáticos, que precisa ser mais bem conceituada”, diz Araújo, que é docente de filosofia e metodologia da investigação científica no IFMA. “Apesar de ter publicações em vários periódicos, estou começando a pesquisa na área de bibliometria e, por isso, procurei primeiro publicar o trabalho como preprint ”, explica.

Quando transferiu o texto para o repositório, ele selecionou uma opção autorizando o compartilhamento em uma plataforma norte-americana de revisão aberta, a PREreview, que tem uma parceria com a SciELO desde 2022. Foi por meio dela que o físico Daniel Fontes, que faz doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de

Ciências da Universidade de São Paulo (USP), encontrou o artigo de Araújo e, de forma voluntária, produziu o parecer com as recomendações. Fontes soube da existência da PREreview quando fez uma disciplina sobre publicação científica, que abordou o processo de revisão por pares aberta. Um dos objetivos da plataforma é de que jovens pesquisadores tomem contato com a avaliação por pares.

“Achei a proposta interessante e pensei que seria bacana contribuir”, observa o físico, que estuda redes de colaboração científica da comunidade de pesquisa em educação em ciências no Brasil. Para chegar ao artigo de Araújo, Fontes filtrou os manuscritos publicados na plataforma em português na área de ciências sociais e buscou o que havia de mais recente em educação. Para realizar pareceres ou solicitá-los, é preciso que autores ou revisores façam um login com o seu cadastro no sistema Orcid, formado por uma sequência de números que identificam o pesquisador. “Costumo fazer pareceres para periódicos nacionais e internacionais e neles há uma dimensão de julgamento. O objetivo, além de avaliar o manuscrito e eventualmente recomendar correções, é ajudar a editoria a decidir sobre o aceite ou a recusa do manuscrito. Mas, ao avaliar um preprint, essa condição não existe e o objetivo é apenas colaborar”, conta Fontes, que também pretende submeter um manuscrito de sua autoria para avaliação na plataforma. Por enquanto, o serviço ainda é pouco conhecido. Segundo dados do PREreview, desde a sua criação, em 2017, até meados de abril, a plataforma tinha 3.307 autores e revisores cadastrados e havia recebido 795 solicitações de revisão de preprints, sendo que 64 tinham obtido alguma avaliação (8,1%) – dessas solicitações, 526 vieram via SciELO Preprints. O Brasil é o terceiro país com mais visitas ao site, atrás dos pesquisadores dos Estados Unidos e do Reino Unido.

A adesão ainda restrita espelha a dificuldade que os preprints têm de atrair leitores e gerar apreciações de seus conteúdos. No servidor do SciELO, de 3.330 manuscritos publicados nos últimos três anos, menos de 5% receberam algum tipo de avaliação ou comentário. “Isso ocorre com outros servidores parecidos pelo mundo. Há uma quantidade muito maior de manuscritos do que pesquisadores dis-

poníveis para analisá-los”, observa o especialista em tecnologia e mídias digitais Alex Mendonça, coordenador da plataforma brasileira. Um ponto fraco do PREreview é não dispor de um sistema para avisar todos os autores quando surge um parecer sobre seus preprints – quando um pesquisador recorre ao serviço via SciELO, por exemplo, não é notificado e precisa visitar regularmente a plataforma para saber se apareceu um feedback (avaliação). “Quando uma revisão é publicada, encorajamos os revisores a entrarem em contato com os autores para informá-los de que revisaram seu trabalho, caso desejem”, informou a equipe da plataforma, por e-mail, a Pesquisa FAPESP. O SciELO também não tem um sistema de notificação para essas avaliações.

Há duas formas de solicitar uma revisão de um preprint na plataforma: depositando o trabalho em um repositório já integrado ao PREreview, a exemplo do SciELO Preprints, ou informando o DOI (Digital Object Identifier) do documento, se ele estiver depositado em repositórios cadastrados. O autor pode receber comentários curtos ou revisões longas e mais estruturadas. O revisor voluntário é quem decide como quer fazer seu parecer e, se quiser ajuda para formular a análise, pode recorrer a um modelo que traz uma sequência de perguntas (em inglês) a serem respondidas, por exem-

plo, se a introdução explica adequadamente o objetivo da pesquisa. Também há instruções sobre comportamento: os avaliadores devem ser respeitosos com os autores e dar feedbacks construtivos. Cinco profissionais fazem parte da equipe que trabalha em tempo integral para a plataforma, que é apoiada pelas fundações Gates e Mozzilla e a Chan Zuckerberg Initiative. “A ideia é trazer mais transparência para a revisão por pares, que ainda hoje é um processo opaco controlado por grandes editoras com fins lucrativos”, observa o bibliotecário Edilson Damasio, da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Ele é um dos embaixadores voluntários da plataforma, os chamados champions, que têm como tarefa oferecer suporte e treinamento para comunidades de seus países. Damasio destaca que todo parecer recebe um DOI automático e fica disponível no repositório Zenodo. O PREreview também oferece treinamento para quem quiser se aperfeiçoar como revisor: a equipe da plataforma faz avaliações de manuscritos ao vivo, transmitidas por videoconferência, para treinar novos avaliadores. Também há workshops, alguns deles pagos.

Há um número maior de manuscritos do que de especialistas dispostos a analisá-los

A plataforma disponibiliza uma página com guias e materiais em licença livre para orientar as revisões ou municiar treinamentos para avaliadores. Esse conteúdo tem sido usado pela cientista da informação brasileira Janaynne Carvalho do Amaral, que faz estágio de pós-doutorado na Universidade de Illinois Urbana-Champaign, nos Estados Unidos. Sua pesquisa aborda a avaliação por pares aberta e a importância de capacitação em revisão para a formação de pesquisadores. Desde 2023, ela oferece esse tipo de treinamento para estudantes de graduação e pós-graduação da universidade norte-americana, usando os materiais do PREreview em oficinas. Em um workshop recente, recebeu 80 pesquisadores do Cazaquistão que passaram um período na universidade. “Esse tipo de iniciativa estimula o trabalho colaborativo e ajuda a aperfeiçoar a revisão por pares”, afirma Amaral, que relatou as experiências dos primeiros workshops em artigo publicado em fevereiro de 2025 na revista Learned Publishing l

O artigo científico consultado para esta reportagem

O contorno da fraude em estampas vulgares

Especialistas identificam nova modalidade de má conduta acadêmica relacionada à venda de design de produtos

Um novo tipo de desvio ético foi detectado por especialistas em integridade científica: pesquisadores de universidades da Índia estão pagando a empresas fraudulentas sediadas no país para aparecerem como detentores de registros de design de produtos, que são protegidos pelo Escritório de Propriedade Intelectual (IPO) do Reino Unido. Embora não tenham tido participação criativa na geração dos desenhos, que muitas vezes nem são obras originais, os acadêmicos indianos marcam pontos em processos de avaliação

e vantagens na forma de salários e promoções na carreira em suas instituições.

A trapaça explora vulnerabilidades do sistema de recompensas das universidades da Índia, que não fazem distinção entre esse tipo de registro e uma patente, e também aproveita lacunas da legislação do Reino Unido, que promove a proteção de desenhos de modo rápido e desburocratizado, uma vez que analisa aspectos ornamentais e não técnicos. “O Reino Unido permite que idealizadores de desenhos preservem suas criações de forma barata e fácil, sem o árduo e custoso processo de obtenção de uma patente formal”, afirmou à revista Science Emily Hudson, especialista em propriedade intelectual da Universidade de Oxford.

As empresas fraudulentas fazem propaganda dos registros à venda como se eles fossem “patentes de desenho”, uma categoria existente no sistema de propriedade intelectual dos Estados Unidos que é mais difícil de se obter, uma vez que avalia também a originalidade e a inovação. Mas os desenhos comercializados apresentam frequentemente formatos toscos ou bizarros e dificilmente teriam vocação comercial. Um exemplo é a imagem de um sapato com uma câmera acoplada e portas USB ao redor da sola, apresentado como uma inovação para deficientes visuais – outro é um dispositivo capaz de supostamente diagnosticar câncer de pele, que meramente incorpora uma tela atrás do gatilho de uma pistola Glock. “Os fraudadores são tão preguiçosos que chegam a reutilizar imagens de registros antigos”, escreveu Brett Trout, advogado especializado em patentes nos Estados Unidos, em seu blog. É o caso de um desenho simplório de uma caminhonete de linhas retas, com painéis solares instalados no teto e no capô, registrado como um “veículo movido a energia solar com inteligência artificial”.

“Basicamente, trata-se de uma dupla fraude, porque os desenhos não são patentes e seus detentores não são inventores”, disse à revista Times Higher Education (THE) a advogada Sarah Fackrell, da Faculdade de Direito Chicago-Kent, coautora de um estudo que revelou esse tipo de má conduta. O trabalho foi depositado no repositório de preprints Zenodo, mantido pela União Europeia, e aceito para publicação pelo International Journal for Educational Integrity. Dois dos autores, o biólogo Reese Richardson, da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, e o especialista em fraudes científicas Nick Wise, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, descobriram o novo golpe quando investigavam um tipo semelhante de fraude acadêmica: a atividade das chamadas fábricas de papers , serviços ilegais que vendem a autoria de artigos científicos, em geral falsos. Ao monitorar perfis que fazem propaganda desses serviços em redes sociais, como Facebook, WhatsApp e Telegram, os pesquisadores notaram que também havia anúncios de registros de desenho

chancelados pela IPO à venda por valores entre 2 mil e 30 mil rúpias indianas (de R$ 140 até R$ 2 mil). A propaganda informava explicitamente que esse tipo de propriedade intelectual valia pontos em sistemas de classificação acadêmica na Índia.

Richardson e Wise foram então procurar os desenhos anunciados nos registros do escritório do Reino Unido e se depararam com figuras que classificaram como “infantis”, algumas delas inspiradas em imagens disponíveis em acervos públicos. O passo seguinte foi analisar os pedidos de proteção apresentados nos dois anos anteriores. Foram encontrados cerca de 2 mil desenhos suspeitos registrados por ao menos oito empresas espúrias, cujos detentores eram acadêmicos ou universidades da Índia. “A prática demonstra que empresas consolidadas na economia global de fraudes acadêmicas e educacionais estão se expandindo para novos mercados e diversificando seus serviços”, disse Richardson à THE . Segundo ele, especialistas em integridade acadêmica deveriam considerar a escrita fantasma de teses e ensaios, a compra de artigos produzidos por fábricas de papers e a comercialização de desenhos como práticas de um mesmo mercado. “Demonstramos que esses serviços são frequentemente oferecidos lado a lado.”

Oes tudo faz uma série de recomendações para coibir esse tipo de má conduta. A principal é que universidades examinem com cuidado informações sobre propriedade intelectual de seus pesquisadores a fim de garantir que sejam recompensados apenas os responsáveis por patentes e desenhos industriais realmente inovadores. Outra sugestão é endereçada a governos e escritórios de patentes: eles devem investigar a ação de indivíduos que registram um grande número de desenhos ou que vinculem muitos autores em um mesmo registro.

Os autores do estudo ressaltam o dano que esse tipo de má conduta científica causa ao sistema de proteção de propriedade intelectual, poluindo seus arquivos com desenhos sem sentido nem utilidade e erodindo sua reputação. “Essas empresas estão explorando pessoas usando recursos do governo no Reino Unido. As autoridades deveriam usar todos os meios necessários para pôr fim a essa prática”, disse Richardson. Enquadrar os serviços fraudulentos pode ser mais complicado do que se imagina, pois, ao contrário do que ocorre com artigos científicos, não há ilegalidade em comercializar a propriedade intelectual dos desenhos. Em um e-mail enviado à revista Science, um porta-voz do IPO ressaltou que os desenhos podem ser comprados e vendidos sem embaraço e que não considerava apropriado fazer comentários sobre casos ocorridos em jurisdições fora do Reino Unido. l FABRÍCIO MARQUES

Governo da China pune 26 pesquisadores por má

conduta e divulga casos em relatório na internet

AF undação Nacional de Ciências

Naturais da China, agência que financia pesquisa básica no país, divulgou em seu site um extenso relatório com os resultados de 15 investigações sobre pesquisadores e universidades que cometeram violações éticas, a exemplo de plágio, manipulação de imagens e compra de autoria de artigos científicos. A instituição informou as sanções que aplicou a 26 indivíduos responsabilizados por má conduta. A maioria foi proibida de apresentar novos projetos à agência ou de atuar como avaliadores de projetos de pesquisa por períodos de 3 a 7 anos, mas também houve casos de revogação

Crítica de autores

sobre a pressão de revisores para incluir citações leva à retratação

de artigo

Arevista científica International Journal of Hydrogen Energy, da editora Elsevier, anunciou a retratação de um artigo publicado em novembro de 2024. A justificativa é de que o processo de avaliação do paper foi comprometido após os revisores solicitarem a inclusão de referências bibliográficas consideradas redundantes. Embora manipulação da revisão por pares e inclusão de citações desnecessárias sejam motivos relativamente comuns para o cancelamento de artigos, o caso é inusitado porque foi denunciado em público pelos próprios autores do paper, ainda que inadvertidamente. Depois de alterarem o conteúdo do artigo por recomendação dos revisores,

do financiamento com devolução de recursos já liberados e até de banimento do sistema de pesquisa chinês.

Há diversos casos de plágio e adulteração de imagens em papers publicados. Um exemplo é o de Zekuan Xu, da Universidade Médica de Nanquim, em Jiangsu. Ele vai passar três anos sem poder pedir financiamento por haver publicado uma dezena de artigos com imagens idênticas, que foram utilizadas para representar resultados diferentes. Um dos destaques do relatório foram os problemas de integridade na Universidade para Nacionalidades da Mongólia Interior, no norte do país, apontada como negligente com o monitoramento e a apuração de episódios de má conduta entre seus pesquisadores. Há menções a cinco docentes da instituição, acusados de desvios éticos na produção de uma dezena de artigos científicos.

O caso mais grave foi o do farmacologista Wei Chengxi – ele foi proibido permanentemente de receber recursos públicos para pesquisa e os dois projetos financiados pela fundação que coordena-

uma etapa habitual do processo de revisão por pares, os autores resolveram fazer uma crítica ao pedido de inclusão de novas referências, por considerá-las supérfluas. Um dos parágrafos da nova versão do paper afirmava: “Conforme fortemente solicitado pelos revisores, citamos aqui algumas referências [3547], embora sejam completamente irrelevantes para o presente trabalho”. Os autores, contudo, não esperavam que o artigo seria publicado com a crítica, como acabou acontecendo, provavelmente por descuido dos editores.

Qing-Miao Hu, professor do Instituto de Pesquisa de Metais da Academia Chinesa de Ciências em Shenyang, autor correspondente do artigo, explicou ao site Retraction Watch que ficou surpreso com a publicação e que seu grupo concordou com a retratação. O artigo foi submetido novamente para a revista e seria revisado por outros avaliadores. Há suspeita de manipulação de indicadores de citação em favor de dois pesquisadores russos, cujos nomes aparecem nos artigos incluídos a pedido nas referências. A editora Elsevier segue investigando o caso.

va foram cancelados. Comprovou-se que o pesquisador cometeu vários tipos de fraudes, como compra de dados experimentais para utilizar em papers, falsificação de dados e atribuição imprópria de autoria de artigos. A investigação também constatou que ele pediu reembolso dos recursos utilizados para compra de dados experimentais, alegando que o dinheiro fora gasto com reagentes.

Kebin Chen e Lei Chen, médicos de hospitais da província de Shandong, no leste da China, foram incriminados por comprar a autoria de artigos científicos e confiar a terceiros a submissão dos trabalhos a revistas – prática típica das fábricas de papers, serviços ilegais que produzem estudos fraudulentos sob demanda de clientes. Já o estudante de cardiologia Xu-He Gong, da Universidade Médica da Capital, em Beijing, comprou dados e terceirizou para uma empresa a realização dos experimentos de uma pesquisa, de acordo com a investigação. Ele terá de devolver os recursos alocados pela agência e não poderá apresentar novos projetos até 2029.

CONTEÚDO EXTRA

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➔ Estudos sobre a dinâmica da produção científica indicam que colaborações entre autores de diferentes países aumentam a quantidade de citações que recebem

➔ Os gráficos abaixo mostram os números de publicações científicas1 com colaboração internacional2 para Brasil e São Paulo, destacando a parcela das cooperações com a França. Em termos relativos, tais colaborações são maiores para São Paulo do que para o Brasil ao longo de todo o período, atingindo 11,7% e 10,6%, respectivamente, em 2024

Publicações com colaboração internacional

➔ Os dados gerais mostram que 45,6% das publicações do Brasil com colaboração internacional incluem autores originários de São Paulo. Essa proporção aumenta para 51,8% quando se consideram apenas as publicações com coautores residentes na França, indicando o importante papel deste país nas colaborações de São Paulo

de impacto de citações por categorias

PUBLICAÇÕES COM COLABORAÇÃO DO BRASIL E DE SÃO PAULO COM A FRANÇA São Paulo – França Brasil – França França

➔ Sobre a relação entre colaborações internacionais e citações por publicação, o gráfico à esquerda mostra que os valores desse indicador3 são muito mais elevados quando se consideram as parcerias entre domínios geográficos em comparação com os valores do indicador para todas as publicações de cada país/região

PUBLICAÇÕES DO BRASIL, DE SÃO PAULO E DA FRANÇA

➔ Para as publicações em colaboração entre Brasil e França, o índice de impacto aproximou-se de 3, em 2023. Para as que envolvem São Paulo e França, situou-se entre 3 e 4, no mesmo ano, evidenciando o quanto as colaborações internacionais influenciam positivamente os índices de impacto, mesmo para países como a França, que têm sistemas de pesquisa maduros

NOTAS (1) PUBLICAÇÕES DO TIPO “ARTICLE”, “PROCEEDINGS PAPER” E “REVIEW” DA BASE WEB OF SCIENCE, CLARIVATE. (2) PUBLICAÇÕES COM COAUTORES LOCALIZADOS EM MAIS DE UM PAÍS. (3) O INDICADOR UTILIZADO É O “CATEGORY NORMALIZED CITATION IMPACT” DA PLATAFORMA INCITES, CLARIVATE. CONSIDERA A MÉDIA DE CITAÇÕES POR PUBLICAÇÃO, PARA UM CONJUNTO DE PUBLICAÇÕES, LEVANDO-SE EM CONTA O ANO, A ÁREA E O TIPO DA PUBLICAÇÃO, NORMALIZADO PELA MÉDIA MUNDIAL, QUE PASSA A TER O VALOR 1,0 (4) COMO O NÚMERO DE CITAÇÕES DEMORA CERTO TEMPO PARA SE ESTABILIZAR, OS DADOS DE 2024 DEVEM SER CONSIDERADOS PRELIMINARES. FONTE CLARIVATE/INCITES ELABORAÇÃO FAPESP/DPCTA/GIP

BRASIL
SÃO PAULO
São Paulo Brasil

Como joga o brasileiro

Levantamento indica que quase

11 milhões de pessoas apostam de modo a pôr em risco a saúde e as finanças

Apostar em jogos de azar de modo a pôr em risco a saúde física, mental e financeira é hoje uma questão de saúde pública relevante no Brasil e, segundo alguns especialistas, quase tão grave quanto a dependência do álcool e do tabaco. Atualmente, 10,9 milhões de brasileiros com mais de 14 anos, o correspondente a 6,8% da população nessa faixa etária, jogam de forma a criar para si próprios problemas emocionais, familiares, econômicos ou com o trabalho e são classificados como jogadores de risco. O mais preocupante é que cerca de um em cada oito desses jogadores – o que equivale a 1,4 milhão de pessoas ou 0,8% da população acima dos 14 anos – apresenta um padrão de apostas mais comprometedor, compatível com o diagnóstico de transtorno do jogo, uma enfermidade caracterizada pelo desejo incontrolável de jogar mesmo diante de prejuízos.

Apresentados no início de abril em um evento na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), esses números foram calculados a partir de informações coletadas de uma amostra representativa da população brasileira. Eles ajudam a delinear um retrato atualizado de quem aposta – e como

Loteria, a modalidade de aposta mais popular no país

se aposta – no país depois da disseminação e da legalização das plataformas de jogos de azar on-line. Até então, os dados nacionais obtidos com metodologia científica datavam de quase 20 anos antes, e as informações mais recentes disponíveis haviam sido obtidas por instituições privadas especializadas em análises de comportamento e tendências (ver Pesquisa FAPESP nº 344).

A equipe da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) da Unifesp chegou à estimativa atual de quantas pessoas apostam no Brasil e da proporção que o faz de maneira nociva por meio dos dados obtidos na terceira e mais recente edição do Levantamento Nacional sobre Álcool e Drogas (Lenad), realizado entre 2023 e 2024. Divulgado no final de março em Brasília, durante o lançamento do Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid), o Lenad III foi conduzido pela pesquisadora Clarice Sandi Madruga e financiado pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad), que mantém um convênio com a Unifesp sob a coordenação do psiquiatra Ronaldo Laranjeira.

A terceira edição do levantamento ampliou o tamanho da amostra e ouviu 16.608 brasileiros com 14 anos de idade ou mais de 349 municípios, distribuídos por todas as regiões do país – nas anteriores, haviam sido entrevistadas entre 3 mil e 4 mil pessoas. O Lenad III também expandiu o universo de temas investigados. Além de responder questionários sigilosos de autopreenchimento sobre o consumo de álcool e tabaco, o participantes forneceram informações sobre o uso de cigarros eletrônicos (dispositivos eletrônicos para fumar ou vapes), de medicamentos que podem causar dependência e substâncias psicoativas ilícitas. O levantamento coletou ainda indicadores de saúde física e mental e determinantes sociais de saúde. Os resultados devem ser pormenorizados em publicações temáticas nos próximos meses. Um módulo específico do Lenad III avaliou a frequência e o impacto dos jogos de apostas no país. Nele, 4.860 pessoas – sendo 876 adolescentes com idades entre 14 e 18 anos, de ambos os sexos, e 3.984 homens e mulheres adultos – responderam nove perguntas do Índice de Gravidade do Jogo Problemático (PGSI, na sigla em inglês), um instrumento que avalia os prejuízos pessoais, sociais e financeiros relacionados ao comportamento de apostar e identifica o nível de risco de desenvolver o chamado transtorno do jogo.

Divulgados agora, os dados sobre jogo estão detalhados em um documento de 60 páginas – o

Caderno temático – Jogos de aposta na população brasileira – e sugerem que o risco associado ao hábito de apostar do brasileiro se intensificou em relação ao observado no primeiro levantamento, embora os indicadores que investigam jogos de apostas não sejam diretamente comparáveis entre as duas edições, por terem usado instrumentos de aferição diferentes.

No Lenad I, realizado em 2005 e 2006 sob a coordenação de Laranjeira, os entrevistadores coletaram informações de 3.007 pessoas com mais de 14 anos em 144 cidades brasileiras. Na época, ainda existiam casas com jogo de bingo eletrônico e máquinas caça-níqueis e 88,3% da população não jogava, como foi detalhado em artigo publicado em 2010 na revista Psychiatry Research. Já 9,4% eram jogadores ocasionais, 1,3% tinha algum grau de problema com jogos e 1% se enquadrava na categoria dos jogadores patológicos, aqueles que apostam repetidamente apesar de já ter sofrido prejuízos financeiros, emocionais ou nas relações familiares e sociais.

No levantamento atual, feito ainda no início da recente febre das bets e das plataformas on-line de aposta, a proporção de pessoas que não jogam foi de 82,6% – esse número é quase seis pontos percentuais inferior ao observado no Lenad I. Os 17,4% restantes, número que corresponde a quase 28 milhões de brasileiros, distribuem-se da seguinte forma: 10,6% jogam de modo esporádico, sem enfrentar problemas; 3,4% são jogadores com baixo risco de se tornarem dependentes; 2,6% com risco moderado; e 0,8% jogador problemático (ver gráfico na página 42). Os últimos são aqueles que somaram mais de 8 pontos na escala PGSI, que vai até 27, e possivelmente já desenvolveram o transtorno do jogo, uma forma de dependência induzida pelo comportamento, e não por uma substância química, registrada no Manual de diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM) e na Classificação estatística internacional de doenças e problemas relacionados com a saúde (CID).

“Há indícios preocupantes de aumento de comportamentos problemáticos relacionados às apostas”, comenta o psiquiatra Hermano Tavares, da Universidade de São Paulo (USP), que detalhou os resultados do Lenad I na Psychiatry Research e não participou da versão atual do levantamento. “Esses sinais começaram a se intensificar durante

Hábito arriscado

Proporção da população que jogou no último ano ou o fez com diferentes graus de risco de se tornar dependente

82,6 %

Não jogam 10,6 %

Jogam sem risco 3,4 %

Jogam com baixo risco 2,6 %

Jogam com risco moderado

%

Jogo problemático

a pandemia, período que impulsionou as apostas on-line, e ainda não perderam força. Atualmente, a dependência do jogo é a terceira mais comum entre os brasileiros. Supera a da cocaína e do crack e fica atrás apenas da do álcool e do tabaco. A rede pública de saúde não está preparada para lidar com isso”, afirma.

FONTE JOGOS DE APOSTA NA POPULAÇÃO BRASILEIRA – RESULTADOS 2023 / CADERNO TEMÁTICO LENAD III / UNIFESP (2025)

O mapa do perigo

Região Sul concentra a maior proporção de apostadores, enquanto o Nordeste tem a maior fração dos que jogam de forma arriscada

Proporção de pessoas que apostam em cada região

Fração de apostadores com algum grau de risco de desenvolver transtorno do jogo

FONTE JOGOS DE APOSTA NA POPULAÇÃO BRASILEIRA – RESULTADOS 2023 / CADERNO TEMÁTICO LENAD III / UNIFESP (2025)

“Esse transtorno se manifesta quando a pessoa perde o controle sobre o hábito de apostar, que passa a ocupar um papel central em sua vida e traz prejuízos significativos”, explica o psiquiatra Daniel Spritzer, que faz pós-doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e é colaborador do Lenad III. “Isso inclui apostar mais do que se deveria ou poderia, perder dinheiro e voltar a apostar para tentar recuperá-lo ou precisar aumentar cada vez mais os valores para sentir o mesmo prazer inicial”, detalha. Os sinais de alerta incluem ansiedade e angústia quando não se consegue apostar, além de comportamentos como pedir dinheiro emprestado ou vender bens para continuar jogando.

Aproporção de jogadores varia de acordo com a região do país. O Sul concentra a maior fração deles (20,4% das pessoas com mais de 14 anos apostam) e o Nordeste a menor, 16,3% (ver mapa ao lado). A relação entre as duas regiões se inverte quando são consideradas as proporções de indivíduos que apostam de forma arriscada: a maior fração de apostadores (52,3%) com algum grau de risco (baixo, médio ou elevado) de transtorno do jogo está no Nordeste, enquanto essa proporção é bem menor no Sul (29,8%) e no Sudeste (28%) (ver gráfico ao lado).

A prevalência de formas arriscadas ou problemáticas de jogar também foi mais alta (52,8%) entre as pessoas com renda mensal de até um salário mínimo – R$ 1.212,00 na época da pesquisa –, em comparação com a parcela da população que recebia dois salários mínimos ou mais (21,1%).

“Indivíduos com renda inferior a um salário mínimo correm três vezes mais risco de apresentar um padrão de jogo de risco ou problemático, independente do sexo e da idade”, conta Madruga.

A modalidade de aposta preferida do brasileiro são as loterias, embora as plataformas de aposta on-line já apareçam em segundo lugar, à frente do tradicional jogo do bicho. Dos apostadores, 71,3% jogam na Mega-Sena, Quina, Lotomania e afins, enquanto 32,1% preferem as bets e 28,9% o jogo do bicho (ver gráfico na página 43).

Há praticamente dois jogadores homens para cada mulher (64,8% ante 35,2%) e, seguindo uma tendência já observada em estudos internacionais, também no Brasil três grupos de apostadores

são os que correm mais risco de desenvolver o transtorno do jogo: os adolescentes, as pessoas de mais baixa renda e os adeptos das plataformas de apostas on-line. “Por estarem altamente disponíveis, com acesso pelo celular, e apresentarem a possibilidade de reforço imediato da sensação de gratificação e recompensa, os mecanismos das apostas on-line aumentam significativamente o número de pessoas com risco para o transtorno”, explica a pesquisadora da Unifesp.

O jogo é proibido no Brasil para menores de 18 anos. Mesmo assim, 4% dos apostadores identificados no Lenad III eram adolescentes (ver gráfico abaixo). A maioria dos jovens que aposta (84,1%) o faz por meio de plataformas on-line e, embora seja um grupo pequeno, concentra uma das mais elevadas proporções de pessoas com risco de desenvolver transtorno do jogo: 55,4%, ante 37,7% entre os adultos. “O cérebro dos adolescentes ainda está em desenvolvimento. Por isso, eles são mais influenciáveis pela publicidade, que é ostensiva e voltada ao público jovem. A literatura médica indica que adolescentes correm um risco de 2 a

As modalidades mais populares e o perfil etário

Loterias ainda são as mais procuradas, seguidas das plataformas de aposta on-line, preferida dos adolescentes

Plataformas de aposta on-line, acessadas por 81,4% dos adolescentes que jogam

4 vezes maior do que os adultos de desenvolver problemas com jogos de azar”, conta Spritzer. Madruga reforça que um dos fatores que tornam as plataformas digitais mais perigosas é a ilusão de controle que proporcionam aos apostadores. “No caso das bets, os jogadores acreditam que podem compreender e manipular os resultados de algo que, na realidade, é aleatório”, explica a coordenadora do Lenad III. Essa racionalização, segundo a pesquisadora, assemelha-se à de usuários de drogas como cocaína e crack, que muitas vezes acreditam ter controle sobre o próprio consumo e não se enxergam como parte do grupo de pessoas com problemas. “O estudo deixa claro que o jogo é uma ferramenta poderosa para gerar transtornos, em uma proporção que já ultrapassou a de quase todas as drogas psicoativas. É fundamental implementar regulações mais rígidas para proteger os mais vulneráveis”, enfatiza.

Como saída para tentar amenizar os problemas com jogos, os autores do Lenad III, em colaboração com pesquisadores do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e da UFRGS, elaboraram um conjunto de recomendações (disponível na versão on-line da reportagem). “Elas se baseiam nas melhores evidências científicas disponíveis sobre medidas que foram adotadas em outros países e se mostraram efetivas para enfrentar esse desafio de saúde pública”, conclui Madruga. l

O artigo científico e o levantamento consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

O doce, nem tão doce

Bebidas açucaradas alimentam o diabetes e aumentam o risco de infarto

Refrescantes e reconfortantes, sim. Mas os refrigerantes, sucos industrializados e até mesmo o cafezinho adoçado do dia a dia mostram, cada vez mais claramente, seus efeitos indesejados. Além do excesso de calorias, essas bebidas também aumentam o risco de doenças crônicas, em razão do desequilíbrio que causam no organismo.

O consumo excessivo de bebidas adoçadas contribuiu diretamente, em todo o mundo, para desencadear 2,2 milhões de novos casos de diabetes tipo 2 – de forma simplificada, quando o organismo produz insulina, hormônio responsável pela absorção da glicose, mas não a utiliza adequadamente – e 1,2 milhão de casos de doenças cardiovasculares em 2020, de acordo com uma pesquisa internacional com participação de brasileiros publicada em janeiro na Nature Medicine. O Brasil está entre os países com consumo classificado como intermediário alto, na 34ª posição mundial e

em 6º lugar na América Latina e Caribe, uma das regiões mais atingidas por esse problema. No país, 24,4% dos novos casos de diabetes tipo 2, já diagnosticada em 14 milhões de pessoas no território nacional, e 11,3% dos de doenças cardiovasculares estão associados ao consumo dessas bebidas. Por ano, de acordo com o Ministério da Saúde, incluindo outras causas, como o tabagismo e o excesso de colesterol no sangue, cerca de 400 mil pessoas morrem por causa de doenças cardiovasculares, principalmente infarto.

O problema é preocupante também pelo fato de as bebidas adoçadas estarem à mão em muitos estabelecimentos que vendem alimentos. A boa notícia, do ponto de vista da saúde pública, é que a produção caiu de 16,9 bilhões de litros de refrigerantes para 12,6 bilhões e o consumo per capita por ano de 88,9 litros para 59,5, de 2010 a 2021, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas (Abir) (ver infográficos na versão on-line desta reportagem).

O levantamento na Nature Medicine reuniu dados de 184 países, abrangendo 2,9 milhões de indivíduos, o equivalente a 87,1% da população mundial. O país que mais consome bebidas açucaradas é a Colômbia, com um consumo de aproximadamente 600 mililitros (mL) diariamente, enquanto no outro extremo está a China, com um consumo médio de 7 mL por dia.

As estimativas consideraram fatores como idade, sexo, nível de educação e local de residência de cada país. Para lidar com a falta de dados em alguns locais, um modelo matemático combinou informações de diferentes níveis – nacional, regional e global – para gerar previsões mais precisas. “Esse método permite lidar com diferenças entre os dados disponíveis e incertezas nas amostras, garantindo estimativas mais confiáveis”, explica a coordenadora do estudo, a nutricionista Laura Lara-Castor, em estágio de pós-doutorado na Universidade de Washington, nos Estados Unidos.

Entre os brasileiros adultos, o consumo médio semanal de bebidas ado - FOTO

çadas estimado nesse estudo foi de 4,1 porções de 240 mL, o equivalente a um copo normal quase cheio (140 mL) por dia. Em 2020, a equipe da nutricionista Regina Fisberg, da Universidade de São Paulo (USP), detectou valores mais altos na capital paulista: adolescentes tomavam em média, por dia, 668,4 mL de bebidas adoçadas, adultos 502,6 mL e pessoas com mais de 60 anos consumiam 358,2 mL.

ADOLESCENTES

De acordo com esse levantamento, publicado em fevereiro de 2020 na Revista Brasileira de Epidemiologia , o consumo era maior entre adolescentes com excesso de peso, adultos fisicamente ativos e idosos de menor renda. Famílias com menor renda per capita tendem a consumir mais café e chá adoçados, enquanto adolescentes com maior poder aquisitivo bebiam mais sucos de fruta adoçados. As conclusões reforçam a tendência global apresentada na Nature Medicine : pessoas mais jovens, residentes em áreas urbanas e com maior escolaridade, apresentam um risco mais elevado para o diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares provocados pelo consumo de bebidas adoçadas.

“Entre os adolescentes, quanto maior a renda, maior o consumo de bebidas adoçadas”, observa a nutricionista Amanda de Moura Souza, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), cujas pesquisas foram utilizadas para as análises publicadas na Nature Medicine. “Essa tendência pode mudar na idade adulta, quando as pessoas com maior poder aquisitivo ampliam o acesso a serviços de acompanhamento em saúde e as possibilidades de mudança no estilo de vida, com uma alimentação mais saudável e uma prática mais frequente de exercícios físicos, que amenizam o problema.”

Fisberg, que também colaborou com o trabalho publicado na Nature Medicine, alerta: “O efeito das bebidas açucaradas no diabetes é considerável porque se trata de açúcares de liberação rápida no sangue”. Açúcares como sacarose (açúcar refinado) podem elevar rapidamente os níveis de glicose no sangue e agravar o diabetes tipo 2. A frutose, um dos principais componentes da sacarose, é metabolizada principalmente no fíga-

33%

foi

a queda de consumo

de

refrigerantes no Brasil de 2010 a 2021, favorecendo o controle de doenças metabólicas

anteriores, também começou a cair, indicando que algo afetou a alimentação da população de maneira geral”, observa a nutricionista Luiza Eunice Sá da Silva, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordenadora do estudo.

Para reduzir efetivamente o consumo de bebidas adoçadas, os especialistas sugerem a implantação de medidas combinadas, que vão do fortalecimento do Programa Nacional de Alimentação Escolar, fundamental para a educação e a segurança alimentar desde a infância, à taxação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a tributação desse tipo de bebida como uma das medidas de maior custo-benefício à saúde pública.

do. Seu excesso promove a inflamação e o acúmulo de gordura nas células desse órgão, prejudicando seu funcionamento.

O consumo de açúcar também favorece a hipertensão arterial, por alterar os níveis sanguíneos de compostos como o ácido úrico, um inibidor do óxido nítrico, que ajuda a relaxar os vasos sanguíneos e a equilibrar a pressão arterial. Outro efeito é o aumento dos níveis de triglicerídeos no sangue, que modificam a estrutura do colesterol de baixa densidade, favorecendo a formação de placas de gordura que causam acidente vascular cerebral ou infarto.

Apesar de o consumo de bebidas adoçadas ainda ser alto, a tendência de queda diminuiu ao longo dos anos no Brasil. De acordo com um estudo publicado em março de 2024 na Revista de Saúde Pública , de 2007 a 2021 o consumo regular dessas bebidas na população caiu de 30,9% para 14,0% e a média diária ingerida passou de 430,4 mL para 287,4 mL. Entre 2015 e 2021, no entanto, a tendência de queda desacelerou. “O consumo de frutas e hortaliças, que vinha crescendo em anos

Os efeitos seriam grandes. Estima-se que uma taxação adicional de 20% das bebidas adoçadas, sobre as quais já se cobram 36,56% de impostos, elevaria o preço do produto, diminuiria as vendas e o consumo e evitaria 37.303 novos casos de diabetes em homens, 56.757 em mulheres e 5.386 mortes de homens e 6.075 de mulheres nos próximos 10 anos no Brasil, de acordo com um estudo publicado em setembro de 2022 na Diabetes Research and Clinical Practice. Em 20 anos, a taxação resultaria em uma queda de até 12,4% nos novos casos da doença e uma redução de 13,7% nas mortes associadas ao diabetes em homens e 12,7% em mulheres.

“Estamos falando de doenças crônicas que estão surgindo cada vez mais cedo”, comenta a nutricionista Carla Cristina Enes, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, coordenadora desse estudo. “Além da perda de qualidade de vida para as pessoas e suas famílias, há uma sobrecarga no sistema de saúde pública.”

As perspectivas seguem essa tendência. O governo federal aprovou no ano passado uma reforma tributária visando à criação de um imposto único nacional e de um tributo seletivo sobre produtos considerados nocivos à saúde, entre eles os refrigerantes e outras bebidas açucaradas, com a intenção de desestimular o consumo. l

O projeto e os artigos científicos consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

Cogumelos no cardápio

Em sentido horário a partir do alto, à esquerda: Pleurotus albidus, Tremella fuciformis, Cookeina tricholoma, Collybia sordida e Pleurotus djamor, a primeira e a última em cultivo

Estudo lista 409 espécies silvestres de fungos comestíveis com sabor e textura variados e propõe modo de cultivo para produção

Com gosto suave de pimenta ou parecido com o de camarão, de consistência macia, fibrosa ou cartilaginosa, cogumelos silvestres podem ser usados para fazer molhos, omeletes, saladas, picles, missô e doces. Embora pouco conhecidas e ainda difíceis de achar, 409 espécies comestíveis crescem em diversas cores e formas nos troncos das árvores e no solo da Mata Atlântica e dos outros biomas brasileiros, segundo estudo publicado em dezembro de 2024 na revista IMA Fungus, que teve a participação de pesquisadores de oito estados brasileiros.

Para fazer a lista, os especialistas compilaram os dados das espécies já registradas para o país a partir da lista de um estudo mundial com 2.189 espécies comestíveis, elaborada por pesquisadores de 14 países e publicada em 2020 na revista Comprehensive Review in Food Science and Food Safety. Depois, fizeram um levantamento bibliográfico para cada uma delas, e coletas de campo para confirmar a identificação por meio de análises de DNA.

“A base do conhecimento sobre a comestibilidade das espécies está na etnomicologia, ciência que estuda a relação entre fungos e sociedade”, detalha o micólogo Nelson Menolli Jr., coordenador do Laboratório de Ensino, Pesquisa e Extensão em Micologia (IFungiLab) do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP) e coautor dos dois artigos. Das 409 espécies, 59 impõem restrições ao consumo que envolvem a necessidade de serem cozidas ou de algum outro cuidado no preparo e consumo pa-

ra evitar reações adversas. As outras 350 podem ser consumidas sem nenhum efeito prejudicial.

Menolli coordena um projeto realizado no âmbito do programa Biota FAPESP que tem o objetivo de estudar a diversidade de cogumelos do Brasil, incluindo as espécies comestíveis silvestres. Os cogumelos são as estruturas reprodutivas de alguns fungos que se desenvolvem a partir do micélio, o conjunto de filamentos que forma a sua estrutura e se espalha sob o solo ou por troncos de árvore.

“É a mais ampla compilação de cogumelos comestíveis do país”, avalia a micóloga chilena Giuliana Furci, da Fundação Fungi, uma organização não governamental (ONG) sediada em Nova York, Estados Unidos, em conversa com Pesquisa FAPESP. Segundo ela, que não participou do estudo, a lista deve crescer porque muitos indígenas e coletores rurais comem cogumelos sem saber de que tipo de organismo se trata. “Alguns desses fungos não têm a configuração de haste e chapéu e parecem com um graveto, recife de coral, uma ostra ou um peixe”, observa.

“Confirmamos a identidade e a ocorrência no país de 86 espécies comestíveis da lista inicial, com base na literatura ou em análise genética”, afirma Menolli. Para as 323 espécies restantes, serão necessários estudos mais detalhados de amostras a serem coletadas em campo – em sete anos, foram 120 expedições em 11 estados. “A identificação precisa das espécies é importante para evitar intoxicação”, alerta o pesquisador. Estima-se que cerca de 1% das 29 mil espécies de cogumelos conhecidas no mundo pode cau-

sar diarreia, vômito ou intoxicação, e cerca de 30 delas chegam a ser mortais.

“Não há experimento que indique se uma espécie de fungo pouco estudada é tóxica, pois muitos compostos são desconhecidos”, ressalta a micóloga Mariana Drewinski, autora principal do artigo da IMA Fungus, resultado de seu doutorado no Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA). Hoje ela lidera uma empresa de cultivo, que visa à comercialização de cogumelos comestíveis. “Se não tem certeza da identificação, aprecie com os olhos, mas não coma”, adverte.

No doutorado, Drewinski estudou o potencial de cultivo de quatro espécies de cogumelos comestíveis silvestres do Brasil como alternativa aos três que já contam com cultivo comercial estabelecido: shitake (Lentinula edodes), shimeji (Pleurotus ostreatus) e champignon (Agaricus bisporus), todos de origem europeia ou asiática. “O shitake, por exemplo, cresce em temperaturas de 16 graus Celsius [°C] a 20 °C”, relata a bióloga. Os silvestres podem crescer em clima mais quente, em todas as regiões do país, ampliando a região produtiva atualmente concentrada no Sul e Sudeste.

Uma estratégia dos pesquisadores para encontrar cogumelos comestíveis é fazer contato com coletores independentes pelas redes sociais. Foi assim que o etnomicólogo Cristiano Coelho do Nascimento, estudante de doutorado no IPA e um dos autores do artigo publicado em dezembro, chegou em 2022 ao bairro de Parelheiros, extremo sul do município de São Paulo.

“Cerca de 15 moradores forrageiam cinco espécies de cogumelos silvestres”, relata Nascimento. Os fungos crescem em uma área preservada de Mata Atlântica e são usados para consumo próprio ou para a venda em pequenas quantidades a vizinhos e restaurantes. Como a colheita é restrita ao período de reprodução e os cogumelos duram cerca de dois a três dias, o transporte é difícil e o fornecimento irregular.

O chef Raphael Vieira, do 31 Restaurante, na região central paulistana, compra os cogumelos desde 2010. “Eu não achava que eles fariam sucesso, mas os clientes gostaram”, relata ele, que se especializou em comida vegetariana. “O que me agrada é a possibilidade de criar novos pratos, baseados na variedade de sabores, nos tipos de fibra e nas técnicas de preparo dos cogumelos.” No restaurante, o chef prepara na grelha, em temperatura baixa, o cogumelo conhecido popularmente como chapéu-de-sol ou chapeleta

Como cultivar cogumelos nativos

Já verificado em algumas espécies, o potencial de cultivo pode representar uma boa alternativa comercial

1

Colete o cogumelo na natureza. É preciso conhecer bem as espécies comestíveis para evitar as tóxicas

2

Um fragmento do interior do cogumelo é depositado em meio de cultura, onde crescem filamentos finos chamados hifas. A amostra deve estar fresca

3 Filamentos (micélio) são transferidos para o inóculo, substrato feito de grãos como sorgo ou trigo, onde cresce

4

Blocos feitos com o inóculo são mantidos em estufa, no escuro e com baixa umidade. Os micélios crescem e colonizam o bloco

5

Transferidos para uma estufa com umidade, os blocos são colonizados aos poucos pelo micélio

6

Chega a hora da colheita

Em sentido horário a partir da direita: Laetiporus gilbertsonii, Macrocybe titans em cultivo, Phillipsia dominguensis e Favolus brasiliensis

(Macrolepiota bonaerensis), colhido em Parelheiros. “Fica com textura de ostra e sabor delicado e único.” A espécie produz cogumelos brancos com escamas alaranjadas de até 24 centímetros (cm) de altura e chapéu com até 12 cm de diâmetro.

Segundo Furci, da Fundação Fungi, caçar cogumelos é tradição em países da Europa, onde há guias populares para as espécies locais. Na Itália, é necessário fazer um curso e obter licença para coletar e identificar os fungos para consumo. “No passado, as pessoas levavam os cogumelos até o farmacêutico, que indicava os comestíveis”, relata. “No México, coletores vendem centenas de espécies em mercados locais, uma tradição que remonta aos povos pré-colombianos”, conta ela, que já colheu cogumelos nas ruas de Santiago, no Chile, seu país natal.

Em análises preliminares do valor nutricional dos cogumelos silvestres cultivados pela equipe de Menolli, o químico e farmacêutico Aníbal de Freitas Santos Júnior, da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), verificou que, assim como as espécies comerciais de origem estrangeira, as que ocorrem no Brasil são fonte de aminoácidos e micronutrientes essenciais, que o organismo não produz e precisa obter dos alimentos. “Eles contêm gorduras insaturadas, que auxiliam no aumento do colesterol bom, o HDL, e diminuição do ruim, o LDL, além de serem ricos em fibras e minerais, como potássio, ferro, zinco, dentre outros”, observa o pesquisador.

Os maiores coletores de cogumelos comestíveis do país são os Yanomami, etnia indígena que vive no norte do Amazonas e de Roraima e no sul da Venezuela. Só os Sanöma, subgrupo da etnia, consomem 15 espécies de cogumelos, segundo o livro Cogumelos: Enciclopédia dos alimentos Yanomami, de 2016, em que Menolli é coautor e foi ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Gastronomia. Uma mistura dessas espécies de cogumelos colhidas na área yanomami é vendida no site Sanöma, mas estava esgotada quando esta reportagem foi elaborada.

“Os fungos são tão diversos quanto plantas e animais, mas pouco estudados”, ressalta Menolli. Segundo ele, mesmo nos cursos de graduação em ciências biológicas é incomum encontrar uma disciplina específica sobre o tema. Apenas cerca de 6% das espécies de fungos são conhecidas, de um total estimado de 2,5 milhões.

“Os fungos se desenvolvem normalmente em locais úmidos e temperaturas médias, e são comumente associados por grande parte da população a doenças, sujeira e podridão”, observa o pesquisador. Para mudar o que chama de “negativismo fúngico”, ele e sua equipe criam material educativo e de divulgação científica, como livros de colorir, páginas nas redes sociais, exposições e passeios de observação e degustação na mata.

“Nas trilhas, a primeira reação é de medo, seguido pelo encanto com a diversidade de cores, formas e sabores.” l

Os projetos e os artigos científicos consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

Sufoco triplo no oceano

Eventos extremos compostos, que juntam ondas de calor e episódios de alta acidificação e de escassez de clorofila, tornaram-se frequentes a partir de 2009 no Atlântico Sul

Um tipo de evento extremo triplo que era praticamente inexistente 20 anos atrás no Atlântico Sul – a combinação de ondas de calor marinhas, escassez de clorofila e acidificação acentuada do mar – começou a ocorrer com assiduidade na porção abaixo do Equador desse oceano a partir de 2009, de acordo com artigo publicado em 16 de abril na revista Nature Communications. É a primeira vez que um estudo mapeia a frequência e a intensidade desse fenômeno composto nesse segmento do Atlântico.

A ocorrência dos eventos foi analisada ao longo de dois períodos de 10 anos consecutivos (de

Vista área de corais que sofreram branqueamento na localidade potiguar de Rio do Fogo durante onda de calor em 2020. No detalhe, imagem submarina de coral que perdeu a cor

1999 a 2008 e de 2009 a 2018) em seis regiões do Atlântico Sul, três perto da costa brasileira e três do litoral da África. Em todas, durante o primeiro intervalo de tempo, não houve registro de nenhum evento que juntasse concomitantemente os três tipos de extremos. No segundo período, a história mudou completamente. Os episódios de eventos triplos começaram a aparecer e a se tornar relativamente comuns. De acordo com a região em análise, a duração mínima acumulada do total de eventos triplos variou de 17 a 49 meses na segunda década coberta pelo estudo (ver quadro comparativo na página 56 ). Os episódios concomitantes mais severos reunindo ondas de calor, alta acidez e pouca disponibilidade de clorofila abrangeram áreas que representavam entre 4% e 18% da extensão total de cada região.

“A partir de 2016, esse fenômeno triplo passou a ocorrer praticamente todo ano”, destaca a oceanógrafa física Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), primeira autora do artigo. Segundo o trabalho, o verão da temporada 2015-2016 foi excepcional em termos de intensidade e abrangência espacial de eventos triplos compostos nas seis regiões estudadas.

As áreas analisadas no lado oeste do oceano, próximas à costa brasileira, foram a do Atlântico Equatorial (ao largo do Nordeste), do Atlântico Subtropical (Sudeste) e da Confluência Brasil-Malvinas (Sul). Na margem leste, nos arredores da África, foram alvo do trabalho as regiões conhecidas como Atlântico Equatorial oriental (ao largo da Nigéria, Camarões e Gabão), a Frente de Angola (colada a esse país e à Namíbia) e o Vazamento das Agulhas (ao sudoeste da África do Sul).

Distúrbios climáticos intensos que ocorrem nessas zonas podem afetar a pesca e a maricultura local. Águas mais quentes e ácidas aumentam a mortalidade de espécies marinhas e causam o

fenômeno do branqueamento de corais, indicativo de enorme estresse. A menor presença de clorofila no mar, pigmento verde natural indispensável para a realização de fotossíntese em plantas e algas, aponta uma redução na disponibilidade de fitoplâncton, essencial na dieta de muitos organismos marinhos.

Para confirmar a ocorrência de um evento triplo, é necessário que cada um dos três fenômenos extremos se sobreponha simultaneamente em pelo menos 1% da área de interesse. O estudo centrou sua análise nos meses de verão, de dezembro a março. A incidência de ondas de calor no Atlântico Sul se baseou em informações produzidas pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), dos Estados Unidos. A ocorrência de eventos extremos de alta acidez foi obtida a partir de dados do Met Office Hadley Centre, do Reino Unido. Os extremos de baixa concentração de clorofila no Atlântico Sul foram inferidos a partir de um modelo da Nasa, a agência espacial norte-americana, que calcula a concentração do pigmento natural verde nos oceanos.

Para a oceanógrafa Leticia Cotrim, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), que não participou do estudo, o diferencial do artigo é produzir dados sobre a frequência e a extensão de eventos extremos marinhos compostos por três alterações concomitantes. “É um trabalho inovador. Até então, havia apenas estudos que analisavam um tipo de evento extremo de forma isolada ou, no máximo, dois juntos, geralmente em outros oceanos que não o Atlântico Sul”, comenta Cotrim. “Os resultados do trabalho podem orientar projetos de conservação oceânica, além de servirem de subsídio para atividades econômicas que dependem do mar.”

Um dado preocupante do estudo diz respeito ao aumento do processo de acidificação no Atlântico Sul. Entre 1998 e 2008, esse fenômeno praticamente não existia nessa porção do oceano, com exceção de dois pontos mais ao norte, perto do continente africano. A partir de 2009, o Atlântico Sul começou a ficar muito mais ácido. Essa alteração está associada ao aumento da temperatura média global nas últimas décadas decorrente da subida nas emissões de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono (CO₂) e o metano (CH₄), que esquentam o planeta. “Temos episódios de acidificação marinha cada vez mais frequentes. Essa tendência parece aumentar a ocorrência desses eventos compostos triplos nos últimos 10 anos”, diz, em entrevista a Pesquisa FAPESP, o oceanógrafo Thomas Frölicher, da Universidade de Berna, na Suíça, outro autor do artigo.

A escalada dos eventos extremos triplos

Ocorrência simultânea de episódios de ondas marinhas de calor, acidificação acentuada e escassez de clorofila no Atlântico Sul entre 2009 e 2018

Equador

Atlântico

Equatorial ocidental 17 meses 18%

América do Sul

Trópico de Capricórnio

Duração total dos eventos triplos

Proporção da região afetada pelo fenômeno

O clima da Terra, que esquentou cerca de 1,5 grau Celsius (ºC) desde meados do século XIX por conta das emissões de gases de efeito estufa decorrentes de atividades humanas, estaria hoje ainda mais tórrido sem os oceanos. Eles absorvem 90% do calor da atmosfera terrestre e 30% das emissões de CO₂. Mas esses serviços ambientais têm um custo para os mares. A absorção da maior parte do calor terrestre impulsiona as ondas de calor marinhas. A retirada de quase um terço do principal gás de efeito estufa torna suas águas mais ácidas.

Em anos de El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais da parte central e leste do oceano Pacífico equatorial, tudo se intensifica. Essa alteração climática deflagra mudanças na atmosfera que interagem com as condições oceânicas. “O El Niño atua como um agente remoto sobre os fatores locais que observamos. Portanto, em anos com El Niño, como entre 2015 e 2016, a incidência de eventos extremos triplos nas seis regiões do Atlântico Sul é certamente alta”, explica Rodrigues. Em outro artigo no qual a pesquisadora da UFSC também é coautora, publicado em março de 2025 na revista Communications Earth & Environment, as ondas de calor sozinhas, mesmo quando não há aumento acentuado da acidez marinha, são suficientes para causar danos extensos a recifes de corais em áreas perto do Equador. Em águas muito quentes e com outros fatores de estresse, como excesso de luz solar, os corais expulsam as algas que dão cor aos seus tecidos, provocan-

Atlântico Subtropical ocidental

37 meses 14%

Atlântico Equatorial oriental

40 meses 15%

Frente Angola-Benguela

49 meses 4%

Confluência Brasil-Malvinas

39 meses 9%

do seu branqueamento. Desde a década de 1980, esse tipo de evento extremo se tornou 5,1 vezes mais frequente e 4,7 vezes mais intenso em águas tropicais do Atlântico Norte e Sul.

Um episódio recente que chamou a atenção foi a forte onda de calor marinha que atingiu os arredores de Rio do Fogo, município litorâneo do Rio Grande do Norte, entre o verão e o outono de 2020. O aquecimento das águas locais levou ao branqueamento de 85% dos corais duros e de 70% de zoantídeos, animais com corpo geralmente mais mole que habitam recifes. “A água atingiu 32 °C; no verão, o normal ali é 28 °C”, diz o biólogo Guilherme Longo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), outro autor do artigo. “Várias espécies de coral da região apresentam um limite termal médio de 29,7 °C. Se expostas a temperaturas acima desse patamar, elas começam a sofrer danos biológicos.”

Segundo Longo, as ondas de calor têm aumentado em frequência, intensidade e extensão, afetando mais áreas da costa do Nordeste. Em 2024, ano mais quente na história recente do planeta, um evento extremo térmico sem precedentes assolou a região. “A extensão do fenômeno e a mortalidade de espécies foram um pouco maiores no ano passado que em 2020. Muitas espécies tinham acabado de sair de um distúrbio muito intenso e passaram por outro em seguida”, comenta o biólogo. Com o aquecimento global em alta, novos recordes negativos devem assolar o Atlântico. l

Os artigos científicos consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

Vazamento das Agulhas

22 meses 9%

FONTE REGINA RODRIGUES (UFSC)
Oceano Atlântico África

A luz do som

Controlar as interações entre fótons e fônons pode gerar lasers mais refinados e facilitar o processamento de informação quântica

DANILO ALBERGARIA

Desenho mostra cavidade no interior de cristal optomecânico no qual ondas de luz (em vermelho) interagem com ondas mecânicas da estrutura. Essa ação produz dois feixes de luz em sentido contrário, um rosa e outro azul

Quando se propaga por um material, um feixe de laser de intensidade significativa modifica ligeiramente a densidade do meio físico e gera ínfimas vibrações. Essas oscilações acústicas distorcem o material e podem causar alterações nas características originais da luz. Dois artigos científicos recentes, com participação de físicos brasileiros, apresentam progressos experimentais no controle das interações entre ondas de luz (fótons) e ondas acústicas ou mecânicas (fônons) no interior de um meio físico, fenômeno brevemente descrito acima.

“Os trabalhos mostram avanços que podem auxiliar no desenvolvimento de dispositivos para sistemas de comunicação quântica”, diz Gustavo Wiederhecker, do Instituto de Física Gleb Wataghin da Universidade Estadual de Campinas (IFGW-Unicamp). O pesquisador é coautor de um dos artigos e coordena o Programa FAPESP QuTIa em Tecnologias Quânticas, no âmbito do qual os estudos foram realizados.

O primeiro artigo saiu em 15 de março na revista Nature Communications. Ele apresenta um cristal de silício com um design que tem como objetivo dissipar o calor muito rapidamente e aumentar a eficiência no processamento de informação baseada em qubits (bits quânticos). O segundo estudo, disponibilizado on-line em 21 de março no periódico Physical Review Letters, relata uma nova estratégia para manipular a polarização da luz, isto é, o plano (vertical ou horizontal) em que vibram suas ondas eletromagnéticas. Esse último avanço pode ser útil para produzir feixes de lasers mais finos e puros, o que, em tese, pode ampliar a capacidade de transmissão de dados em fibras ópticas.

Ambos os trabalhos foram conduzidos por físicos da Unicamp em parceria com universidades norte-americanas. Com enfoques diferentes, os estudos contribuem para o desenvolvimento de dispositivos ópticos capazes de fazer a chamada transdução quântica por meio de oscilações acústicas. Esse processo consiste em usar vibrações mecânicas para fazer a conversão da informação quântica entre duas formas de energia, de um comprimento de onda do espectro eletromagnético para outro. Para o desenvolvimento de redes quânticas, é preciso transformar, sem perda significativa de informação, qubits codificados em frequências de micro-ondas em bits quânticos que trabalham com a luz visível.

É sobre esse ponto que se concentram os esforços do artigo que saiu na Nature Communications. O trabalho indica que a transdução quântica pode ser feita usando um cristal de silício com o qual a luz pode interagir ao longo de um plano em duas dimensões. Até agora, tinham sido usados como transdutores apenas cristais cuja estrutura permite interações com a luz em uma dimensão, ou seja, somente em uma dada direção.

A desvantagem desses cristais unidimensionais é a sua propensão para o aquecimento residual. O material absorve parte da energia da luz e perde eficiência no processo de transdução. “O design do nosso cristal foi pensado para ‘conversar’ com os qubits supercondutores e para dissipar o calor muito rapidamente”, explica Thiago Alegre,

do IFGW-Unicamp, que assina o estudo ao lado de André Primo, que concluiu doutorado sob sua orientação em 2024, e colegas da Universidade Stanford, dos Estados Unidos.

Para contornar o ganho de temperatura, os pesquisadores projetaram um cristal optomecânico bidimensional com estruturas que chamaram de “bumerangues” e “adagas”. Mais externos, os “bumerangues” funcionam como escudos contra interações do cristal com o ambiente, evitando perturbação mecânica. As estruturas internas, as “adagas”, servem para aprisionar a luz inserida no cristal com uma fibra óptica. Além de confinar os fótons entre si, as “adagas” também vibram, gerando ondas acústicas. Os fônons dessa vibração interagem com os fótons entre as “adagas” e se acoplam a eles. O acoplamento quântico faz com que uma alteração no estado dos fótons cause uma mudança quase instantânea nos fônons e vice-versa. Isso mostra que, no dispositivo, é possível converter informações contidas na luz para vibrações acústicas.

A transmissão de informações entre processadores quânticos ocorre normalmente em materiais supercondutores que operam na frequência das micro-ondas e a temperaturas extremamente frias, próximas do zero absoluto, nos arredores de -273,15 graus Celsius (ºC). Uma linha de transmissão de micro-ondas entre esses dispositivos teria de operar a temperaturas semelhantes, visto que a informação quântica nessas frequências se desorganiza a temperaturas mais altas. Na prática, o resfriamento necessário para construir redes quânticas mais longas, que sejam maiores do que alguns poucos metros, esbarra nessa limitação térmica.

A geometria do cristal proposto pela Unicamp e seus parceiros contorna o problema do aquecimento residual, mas ainda precisa ser refinada para lidar melhor com a tarefa de converter a informação quântica de uma forma de energia para outra. O controle das vibrações acústicas do cristal durante o processo de conversão dos dados das frequências de micro-ondas para as da luz visível ainda não é perfeito. Se esse objetivo for atingido, será possível transmitir dados quânticos por laser ao longo de extensas redes de fibras ópticas. “As fibras são ótimos isolantes térmicos e as informações carregadas pela luz não são perturbadas por variação de temperatura”, comenta Primo.

Para o físico Anderson Gomes, da Universidade Federal de Pernambuco, que não participou do trabalho, o estudo tem grande originalidade. “Ele expande a fronteira do conhecimento em optomecânica”, diz Gomes. “É o primeiro passo para a demonstração de transdução com um cristal de silício bidimensional.”

Imagem de guia de onda criada na Unicamp (retângulo preto) acoplada a duas fibras ópticas

O segundo artigo trata do fenômeno conhecido como espalhamento de Brillouin. Esse processo ocorre quando a luz incide sobre um meio e altera algumas de suas propriedades em função da influência das vibrações acústicas do material. O resultado dessa interação entre fótons e fônons é que a luz espalhada pode apresentar frequência (cor) diferente da luz incidente. Na área de comunicações, a manipulação desse tipo de espalhamento, proposto em 1922 pelo físico francês Léon Brillouin (1889-1969), é atualmente empregada para medir temperatura e pressão em fibras ópticas.

No trabalho do periódico Physical Review Letters, os físicos direcionaram um feixe de laser em guias de onda feitas com niobato de lítio (LiNbO₃) com o intuito de tentar mudar sua polarização, o plano em que vibram suas ondas eletromagnéticas. Esse tipo de alteração pode produzir lasers mais puros e finos, que tendem a ser mais eficientes em transmitir informações. Guias de onda são estruturas que confinam e direcionam a propagação de ondas eletromagnéticas (geralmente laser) ou vibrações mecânicas. O niobato de lítio é um material usado em telecomunicações e tem uma estrutura microscópica hexagonal, parecida com a de um favo de mel. Uma de suas propriedades é ser anisotrópico: a mudança na orientação de sua estrutura modifica sua interação com a luz. Guias de onda são normalmente feitas com materiais isotrópicos, como o nitreto de silício (Si₃N₄), que interagem da mesma maneira com a radiação eletromagnética independentemente da direção em que suas estruturas estão orientadas.

Além de ser anisotrópico, o niobato de lítio foi escolhido para ser usado no experimento por apresentar outra característica desejada: é um material piezoelétrico, ou seja, produz cargas elétricas quando vibra ou sofre algum estresse mecânico. Experimentos feitos no Laboratório Integrado de Fotônica do IFGW indicam que mudar o nível de inclinação das guias de onda de LiNbO₃ altera a intensidade de espalhamento de luz. A frequência eletromagnética das ondas espalhadas também difere de acordo com o ângulo.

Nas guias de niobato de lítio, a luz que interage com as vibrações é espalhada em polarização cruzada. Se o feixe de laser inicial tem direção horizontal, a luz refletida pelos fônons do meio físico apresenta polarização vertical, e vice-versa. “Essa forma de manipular a informação transmitida pela luz pode ser útil para fabricar guias que funcionem como conversores de polarização”, comenta o principal autor do estudo, o físico Caique Rodrigues, que concluiu doutorado na Unicamp no início de 2025 sob orientação de Wiederhecker. Além de Rodrigues, assinam o trabalho Wiederhecker, Alegre e outros quatro pesquisadores do grupo de óptica da Unicamp, além de colegas da Universidade Harvard, dos Estados Unidos.

O físico Cleber Mendonça, do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP), que não participou do estudo, destaca que o resultado do trabalho reforça a possibilidade de manipular a polarização da luz com algo similar a uma chave óptica. “Dessa forma, poderia ser possível selecionar a polarização da luz que se propagaria ou não no interior de fibras ópticas”, diz ele. l

O projeto e os artigos científicos consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

Hipotético Planeta 9

Na órbita do Planeta 9

Em roxo, órbitas de objetos do cinturão de Kuiper que seriam influenciadas pela presença de um hipotético

Estudo sugere que Sistema Solar é compatível com a existência de um corpo gigante e desconhecido, com massa 7,5 vezes maior que a da Terra, em seus confins

MARCOS PIVETTA

Depois que Plutão foi destituído do status de planeta em agosto de 2006 pela União Astronômica Internacional (IAU) por ser muito parecido com novos objetos então recém-descobertos além da órbita de Netuno, a hipótese de que ainda poderia haver mundos a serem descobertos nos confins do Sistema Solar voltou a ser aventada com certo entusiasmo. Porém, nos 10 anos seguintes, nada de muito significativo ou excitante saiu dessas buscas.

Até que em 2016 dois astrônomos do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), Mike Brown e Konstantin Batygin, publicaram um artigo no periódico The Astronomical Journal formalizando uma ideia sugerida dois anos antes por Chadwick Trujillo, da Universidade do Norte do Arizona, e Scott Sheppard, da Carnegie Institution for Science: muito além do cinturão de Kuiper, na periferia do Sistema Solar, deve haver um planeta gigante desconhecido. O cinturão é uma região em forma de anel que se inicia logo depois de Netuno, o planeta mais distante do Sol. É constituído por milhões de corpos gelados de tamanhos variados – pequenos, médios e grandes, um dos maiores sendo o próprio Plutão.

Não havia (e não há até hoje) nenhuma prova observacional da existência desse suposto mundo novo, apelidado por Brown e Batygin de Planeta 9. Mas, segundo os defensores dessa hipótese, sua presença seria a melhor explicação para dar conta do estranho padrão de movimentação de aproximadamente uma dezena de objetos do cinturão de Kuiper que foram identificados nos últimos 20 anos, como o planeta anão Sedna e corpos designados apenas por nomes técnicos, compostos de números e letras. Esses astros apresentam uma órbita elíptica extremamente alongada que sempre se desloca para uma mesma região do céu. Sua movimentação pouco usual seria decorrente de interações gravitacionais com o desconhecido e avantajado Planeta 9 (ver figura na página ao lado).

Um trabalho coordenado por astrofísicos brasileiros, publicado em fevereiro deste ano na ver-

são on-line da revista científica Icarus, refina essa hipótese e calcula quais seriam a massa e a localização do Planeta 9 mais compatíveis com a atual configuração do Sistema Solar, inclusive com as órbitas inusitadas de corpos do cinturão de Kuiper.

Segundo o estudo, baseado em simulações computacionais que tentam reproduzir a formação da parte mais externa do Sistema Solar há 4,5 bilhões de anos e sua evolução até hoje, o Planeta 9 deveria ter uma massa 7,5 vezes maior do que a da Terra e se localizaria a aproximadamente 600 unidades astronômicas (AU). Ou seja, estaria 600 vezes mais longe do Sol do que a Terra (uma AU equivale à distância média da Terra ao Sol, cerca de 150 milhões de quilômetros). Para efeito de comparação, cabe destacar que Netuno fica a cerca de 30 AU do Sol.

“Com esses parâmetros, o Planeta 9 leva, em nossas simulações, à formação dos quatro planetas gigantes gasosos (Júpiter, Saturno, Urano e Netuno), do cinturão de Kuiper e de toda a parte mais externa do Sistema Solar com características similares às que atualmente conhecemos. Houve um match perfeito”, diz o astrofísico Rafael Ribeiro, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Guaratinguetá, autor principal do estudo. “Trabalhos anteriores, de outros grupos de pesquisadores, apontavam que o Planeta 9 deveria ter uma massa de 10 a 15 vezes maior do que a da Terra.”

Um dos grandes diferenciais do artigo é ter conseguido reproduzir nas simulações a geração de uma classe muito rara de objetos do Sistema Solar, os cometas eclípticos de porte pequeno. A órbita desse tipo de corpo segue o mesmo plano da Terra e seu período orbital (tempo que demora para dar uma volta ao redor do Sol) é muito curto, da ordem de 20 anos. Apenas quatro cometas eclípticos, com diâmetro maior do que 10 quilômetros, são conhecidos.

No modelo computacional, com a introdução do Planeta 9 no cenário de formação do Sistema Solar, a quantidade gerada desses corpos errantes com características especiais variou de 1,8 a 3,6, resultado da mesma ordem de grandeza dos qua-

tro cometas eclípticos conhecidos. “O trabalho demonstra que os parâmetros mais atualizados e refinados que propomos para o Planeta 9 são amplamente consistentes com a existência dessa população de cometas”, comenta o astrofísico brasileiro André Izidoro, da Universidade Rice, nos Estados Unidos, outro autor do estudo.

No artigo, os pesquisadores ainda estimam o grau de excentricidade da provável órbita do Planeta 9 – quanto alongada seria sua trajetória em torno do Sol – e seu plano de inclinação, de cerca de 20 graus, em relação aos demais planetas. No Sistema Solar, os planetas conhecidos giram em torno da estrela-mãe com inclinações próximas a zero grau. “Basicamente, o que fazemos nas simulações é introduzir o hipotético Planeta 9 no processo de formação do Sistema Solar e ver quais resultados são produzidos”, explica o físico Othon Winter, coordenador do grupo de dinâmica orbital e planetologia da Unesp, que também assina o trabalho. “Alterando a massa e a distância, testamos se alguma configuração do Planeta 9 é compatível com a formação de um sistema como o nosso.” A abordagem não prova a existência de um novo mundo. Apenas sugere que o Planeta 9,

A queda de Plutão

Desde que não seja um satélite natural, como a Lua, um corpo celeste do Sistema Solar merece o status de planeta apenas se obedecer a três condições: estar em órbita em torno do Sol; ter massa suficiente para que sua gravidade o leve a apresentar uma forma quase redonda; e ter a vizinhança de sua órbita livre de objetos significativos que pudessem entrar no seu caminho. Foi com esse trio de regras objetivas que a União Astronômica Internacional (IAU) aposentou, em 26 de agosto de 2006, o conceito antigo e vago de planeta, associado à ideia de um corpo errante e luminoso que podia ser visto no céu. Os oito primeiros planetas do Sistema Solar (Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno) se encaixavam na nova caracterização. O então ainda considerado nono planeta, o caçulinha da turma, descoberto apenas em

com certa massa e localização, não é incompatível com a existência do Sistema Solar.

Se esse novo mundo de fato existir e estiver onde o artigo sugere, será um desafio obter uma prova cabal de sua presença nos fundos do Sistema Solar. Um corpo celeste situado a 600 AU estaria muito além dos domínios do cinturão de Kuiper, cujos objetos se encontram, grosso modo, entre 30 e 50 unidades astronômicas do Sol. Por ora, não há instrumentos de observação capazes de enxergar com clareza o que existe para além do cinturão, estrutura que se encontra 20 vezes mais perto da Terra do que o recôndito onde poderia estar o Planeta 9. A rigor, segundo os cálculos dos brasileiros, esse mundo estaria “perdido no espaço interestelar” entre o fim do cinturão e o início da hipotética nuvem de Oort.

Diferentemente do cinturão de Kuiper, que comprovadamente existe e é muito menor, a nuvem de Oort permanece como uma proposição teórica, embora amplamente aceita pela comunidade de astrofísicos. É descrita como uma grossa bolha ou esfera que envolveria todo o Sistema Solar. A exemplo do cinturão, seria formada por corpos rochosos gelados de tamanho variado, restos da formação do Sistema Solar. Sua borda teria início a 2 mil AU do Sol, quase 3,5 vezes mais distante do que a localização prevista no novo estudo para o

1930, não. “Plutão é um ‘planeta anão’ segundo a definição acima e é reconhecido como o protótipo de uma nova categoria de Objetos Transnetunianos [situados depois de Netuno]”, escreveu a direção da IAU na resolução B6 divulgada naquela data.

No mesmo documento, a entidade determina que um planeta anão, além de não ser um satélite, deve obedecer às duas primeiras condições impostas aos planetas, mas não precisa ter sua órbita livre de outros corpos celestes.

As decisões da resolução resguardaram o conceito de planeta dentro do Sistema Solar para apenas oito objetos conhecidos. Se a mudança não tivesse sido adotada, outros objetos do cinturão de Kuiper, muito parecidos com Plutão, também teriam de ser considerados planetas. Descoberto em 2005, o objeto transnetuniano denominado Éris era

Por 76 anos, Plutão foi considerado um planeta, até ser rebaixado à categoria de planeta anão

um desses casos. Com massa maior que a de Plutão, chegou a ser anunciado como um novo planeta – até que a resolução da IAU barrou sua entrada no clube planetário, expulsou Plutão da turma e reduziu seus membros a oito.

As partes do Sistema Solar

Cinturão de Kuiper

Distância do Sol entre 30 e 50 unidades astronômicas (AU)*

* AU equivale à distância média entre a Terra e o Sol

Obs.: o tamanho dos planetas e dos objetos celestes e a distância entre eles estão fora de escala

Planeta 9. Cometas com períodos longos, que demoram mais de 200 anos para dar uma volta em torno do Sol, seriam originários da nuvem de Oort.

Há expectativa de que o Observatório Vera Rubin, em fase final de construção no Chile e previsto para entrar em operação ainda em 2025, consiga confirmar ou descartar a existência do Planeta 9 após um ou dois anos de funcionamento. Financiado pela National Science Foundation (NSF) e pelo Departamento de Energia (DOE), ambos dos Estados Unidos, o telescópio tem um espelho de 8,4 metros (m) e conta com a maior câmera astronômica já construída, de 3.200 megapixels. Uma de suas primeiras missões é fazer uma varredura detalhada do Sistema Solar, incluindo a enorme região depois de Netuno onde o hipotético novo mundo pode estar. “Com um pouco de sorte, é possível que o Vera Rubin consiga observar o planeta onde achamos que ele possa estar”, comenta Winter. Mesmo que não tenha sucesso em produzir imagens de um novo mundo nos confins do Sistema Solar, o observatório situado nos Andes chilenos poderá, ao menos, reforçar ou descartar a principal crítica direcionada aos defensores da hipótese do Planeta 9. Os céticos em relação à existência desse planeta argumentam que não há evidências indiretas robustas de que exista um novo mundo desconhecido além da órbita de Netuno. A propalada tendência de alguns objetos do cinturão de Kuiper de exibir uma órbita extremamente alongada que penda sempre para

Nuvem de Oort Entre 2.000 e 200.000 AU

Hipotético

Planeta 9

Cerca de 600 AU

a mesma região do céu, formando uma espécie de cluster de objetos em razão da presença do Planeta 9, não passaria de uma ilusão provocada por um viés observacional. Corpos que estão na fase de sua órbita mais perto do Sol e em um plano similar ao dos planetas são mais fáceis de serem flagrados do que objetos em outras condições.

“Nossos dados dos objetos mais extremos [situados depois de Netuno] são completamente consistentes com uma distribuição aleatória”, disse no ano passado, à revista Astronomy, a astrofísica Samantha Lawler, da Universidade de Regina, no Canadá, que estuda corpos celestes do cinturão de Kuiper. “Realmente, não acho que exista cluster algum.”

De qualquer forma, há consenso de que a entrada em funcionamento do observatório no Chile será importante para encaminhar os estudos sobre a procura de novos mundos no Sistema Solar. “O Vera Rubin pode não descobrir o planeta diretamente, mas vai nos permitir entender se as estranhas órbitas de alguns objetos distantes do cinturão de Kuiper realmente existem ou se são um viés de nossas observações atuais”, diz, em entrevista por e-mail a Pesquisa FAPESP, o astrofísico italiano Alessandro Morbidelli, do Observatório da Côte d’Azur, em Nice, na França. “Ele vai fazer um mapeamento exaustivo nessa região. Se as órbitas desses objetos forem reais, o planeta estará lá.” Um dos maiores especialistas na dinâmica sobre a formação do Sistema Solar, Morbidelli assina o artigo na Icarus com os colegas brasileiros. l

O projeto e os artigos científicos consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

Sol Planetas
Planetas
FONTES ESA E RAFAEL RIBEIRO DE SOUZA (UNESP)

RedOil, óleo microbiano ainda em desenvolvimento, destinado ao setor de alimentos

Biofábricas de óleos sustentáveis

Microrganismos oleaginosos podem ser alternativa para a produção de biocombustíveis e de ingredientes para as indústrias de alimentos e cosméticos

Três anos após ser criada, a startup de biotecnologia ÄIO acaba de colocar no mercado seu primeiro produto: um óleo rico em gordura, fibra e proteína, elaborado a partir de resíduos agroindustriais e leveduras oleaginosas, um tipo de microrganismo. Com sede em Talin, capital da Estônia, país europeu localizado às margens do mar Báltico, a empresa foi fundada pela biotecnóloga paulista Nemailla Bonturi e pelo bioengenheiro estoniano Petri-Jaan Lahtvee, pesquisadores da Universidade Tecnológica de Talin (TalTech).

Com composição similar à dos óleos vegetais tradicionais, o novo produto é apresentado na forma de pó – no jargão do setor, é um óleo encapsulado – e já obteve autorização das autoridades regulatórias europeias para uso como ingrediente na fabricação de cosméticos. Uma segunda inovação, um óleo líquido de cor vermelha batizado de RedOil, destinado ao setor de alimentos, encontra-se em estágio avançado de desenvolvimento. A previsão é enviar um pedido de liberação aos órgãos regulatórios da Europa até o fim do ano. Os óleos microbianos – ou single cell oils (SCO) –, como são conhecidos, podem se tornar uma alternativa à gordura animal e aos óleos ve-

YURI VASCONCELOS

getais, como o de palma, que está presente em cerca de 50% dos alimentos embalados e até 80% dos cosméticos e produtos de higiene. Se ganhar escala, podem ser usados para a fabricação de biodiesel e do combustível sustentável de aviação (SAF), rota tecnológica em adoção pela indústria aeronáutica para reduzir a pegada de carbono do setor aéreo (ver Pesquisa FAPESP nos 317 e 337).

“Somos uma das empresas pioneiras no mundo nesse mercado”, comemora Bonturi, que se mudou para a Estônia em 2016, ao finalizar o doutorado. Ela integrou a primeira turma de graduação em biotecnologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Assis, e fez mestrado e doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob orientação do engenheiro químico Everson Alves Miranda, estudioso de óleos microbianos no país.

“O foco do meu doutoramento era estudar os óleos microbianos como matéria-prima para a produção de biodiesel. Depois de defender minha tese, a instabilidade política no país [em 2016] me impulsionou a buscar oportunidades na Europa. Encontrei uma vaga na Universidade de Tartu, na Estônia, para pesquisar leveduras como fábricas microbianas, em um grupo liderado por Petri [Lahtvee]. Os requisitos eram os da minha expertise: biologia sintética e bioprocessos”, recorda-se.

A colaboração com Miranda continuou e vários doutorandos da Unicamp receberam bolsa de estudo para fazer parte de suas pesquisas na Estônia. “Petri começou a se interessar por leveduras oleaginosas, que se tornaram o principal tema de investigação do grupo. Com os avanços da pesquisa, percebemos que o óleo microbiano tinha aplicações com maior potencial econômico nos setores de alimentos e cosméticos. Em 2022, quando já havíamos nos transferido para a TalTech, fundamos a ÄIO”, recorda-se Bonturi.

VANTAGENS DOS MICROBIANOS

Os óleos microbianos podem ser produzidos não apenas por leveduras – a ÄIO usa em suas formulações Rhodotorula toruloides –, mas também por bactérias, fungos e algas oleaginosos, denominação dada a microrganismos que contêm mais de 20% de sua massa seca em lipídios. “Seus principais componentes são os triacilgliceróis, moléculas que ao serem esterificadas [um tipo de reação química envolvendo um ácido graxo e um álcool] podem resultar no biodiesel, e os carotenoides,

que são compostos pigmentados lipossolúveis, presentes em vegetais e alimentos de origem animal”, explica Miranda, que se aposentou no ano passado, mas continua coorientando alunos de doutorado nessa linha de pesquisa.

Duas importantes vantagens desses óleos sobre os vegetais, ressalta o engenheiro, são a não competitividade por terras agricultáveis produtoras de alimentos e a mitigação de emissões de carbono na atmosfera. Estima-se que o mercado de óleos vegetais e gordura animal produza mais de 1 milhão de toneladas de dióxido de carbono (CO₂) por ano – em 2023, foram gerados no mundo cerca de 53 gigatoneladas de CO₂ equivalente, medida internacional que estabelece a equivalência entre todos os gases de efeito estufa (metano, óxido nitroso e outros) e o CO₂. “Nossos óleos e gorduras usam entre 74% e 97% menos terra do que os convencionais e são produzidos de forma sustentável, reduzindo consideravelmente as emissões de CO₂”, afirma Bonturi.

O menor tempo para a fabricação é uma das características dos óleos microbianos. Enquanto a produção de óleos vegetais depende do plantio,

Óleo encapsulado (no alto) e gordura feitos pela startup estoniana

cultivo, colheita e processamento de plantas oleaginosas – um processo que leva meses ou anos, demanda elevado gasto de água e ocupa extensas áreas –, os óleos microbianos são produzidos em algumas horas em reatores, tanques onde são colocados os microrganismos e um substrato que servirá de alimento para eles crescerem.

“Em termos bem simples, seria como se, em vez de transformar açúcares em álcool, como acontece no processo tradicional de fabricação de cerveja ou vinho, a levedura se alimentasse do açúcar e engordasse. Naturalmente, são vias metabólicas diferentes”, afirma Bonturi. “Depois do cultivo, separamos e coletamos as leveduras. No caso da biomassa seca de nossa levedura [o óleo encapsulado], temos uma fase de secagem. Para a obtenção do óleo líquido, é preciso adicionar uma etapa de extração após a coleta das leveduras.”

Diversos substratos podem ser usados para o cultivo, como cana-de-açúcar, amido de milho ou resíduos das indústrias alimentares, agrícolas e madeireiras. A ÄIO usa serragem, o principal subproduto gerado na Estônia, rico em xilose, um tipo de açúcar. “Os microrganismos não precisam ser cultivados a partir de resíduos, mas o uso dessa matéria-prima contribui para a sustentabilidade ambiental e econômica”, destaca Miranda, que recebeu apoio da FAPESP para a realização de suas pesquisas.

A fase de cultivo do microrganismo oleaginoso, de acordo com o engenheiro, é um ponto-chave no sucesso e na economia do processo. “O desafio é ter meios de cultura com fontes de carbono e energia, contidas nos açúcares, de baixo custo que permitam alta produtividade do biorreator”, relata Miranda. Na etapa de recuperação e purificação do bioproduto, ele destaca, é importante não utilizar solventes tóxicos.

no

Acúmulo de lipídios em levedura oleaginosa observado com coloração fluorescente por vermelho do Nilo

“Usar microrganismos para converter compostos de baixo custo, como resíduos da agroindústria, em proteínas, óleos ou outras moléculas de alto valor agregado é uma estratégia interessante para não precisar recorrer a fontes tradicionais, como animais e plantas”, destaca o engenheiro químico Andreas Karoly Gombert, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, especialista em leveduras. “Desde que a natureza das moléculas seja a mesma ou parecida, óleos microbianos podem ser uma opção para substituir óleos vegetais na fabricação de cosméticos, alimentos industrializados e itens de higiene.”

A ÄIO dispõe de uma planta-piloto com capacidade de 300 litros. A estrutura é usada para testes de leveduras e otimização de processo. A produção comercial, no momento, é contratada de fábricas terceirizadas. Dentro de dois ou três anos, a startup pretende contar com uma planta própria para a fabricação em escala industrial. Ao mesmo tempo, planeja licenciar a tecnologia para interessados em produzir o insumo. A escalabilidade da produção ainda é um desafio a ser vencido pela empresa.

Até o momento, a ÄIO, formada por 20 funcionários e pesquisadores, já arrecadou mais de € 8 milhões em fomento de pesquisa e € 7 milhões em capital privado. No fim de 2024, a companhia venceu a categoria de Alimentos na Baltic Sustainability Awards, evento que reuniu mais de 70 empresas inovadoras do Báltico. Na mesma época, Bonturi foi agraciada pela Unicamp com o prêmio Egresso Destaque.

Bonturi
laboratório de pesquisa da empresa em Talin, na Estônia

“Foi um reconhecimento à trajetória dela como pesquisadora. Desde pequena, Nemailla sonhava em tornar-se cientista”, comenta Miranda. “Ela tem grande capacidade de aprender, interagir com diferentes grupos e aceitar desafios. Teve a ousadia de ir para um país desconhecido e, em pouco tempo, passou de uma pós-doc do Petri para gerente do laboratório de pesquisa e sócia dele na ÄIO.”

Cerca de 20 artigos sobre o tema foram publicados pelo grupo de Miranda e Bonturi. A conversão de xilose em óleo microbiano por R. toruloides mediante diferentes condições de cultivo, como uso de luz e adição de peróxido de hidrogênio, foi o foco de um trabalho na Frontiers in Bioengineering and Biotechnology, em 2020. “A irradiação de luz resultou em 70% mais carotenoides e 40% mais lipídios em comparação com as condições então estabelecidas como ideais de crescimento. Já a presença de peróxido de hidrogênio, a popular água oxigenada, não afetou a produção de carotenoides, mas culminou em alto teor de lipídios”, resume Miranda.

Um trabalho mais recente, publicado na Journal of Cleaner Production , em 2022, apresentou uma análise técnico-econômica-ambiental da produção integrada de bioetanol de primeira geração, bioeletricidade e biodiesel em uma biorrefinaria de cana-de-açúcar, na qual o óleo microbiano da levedura R. toruloides alimentaria

a unidade de biodiesel. Os autores concluíram que o processo integrado exibe um desempenho econômico positivo, indicando ser uma opção industrial viável.

“A equipe do professor Miranda tem alta relevância na construção de conhecimento científico no campo da engenharia microbiana com foco no desenvolvimento de biorrefinarias”, comenta o biólogo Rafael Silva Rocha, fundador da empresa de big data genômico ByMyCell e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) entre 2015 e 2022. “Nosso grupo focava o desenvolvimento de abordagens de biologia sintética para uso de óleos microbianos como precursores de moléculas de alto valor agregado”, diz.

COMBUSTÍVEL DE AVIAÇÃO

Serragem usada como substrato para crescimento das leveduras oleaginosas (no alto) e cosméticos feitos com o óleo da ÄIO

No Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, pesquisadores avaliam a produção do combustível sustentável de aviação a partir de óleos microbianos derivados do caldo de cana. O processo envolve a extração e o tratamento físico-químico do caldo, seguido da conversão de açúcares em lipídios por leveduras oleaginosas, conforme artigo publicado na Bioresource Technology, em janeiro.

“O processo de hidrotratamento de ésteres e ácidos graxos [Hefa] é a principal tecnologia usada para a produção do SAF, mas a disponibilidade limitada das matérias-primas convencionais e as possíveis implicações para a sustentabilidade restringem sua escalabilidade”, diz a engenheira química Tassia Lopes Junqueira, líder da pesquisa. Nesse contexto, diz ela, óleos microbianos são uma alternativa promissora. “Um obstáculo a ser superado é o alto custo de produção do óleo microbiano, devido à necessidade de biorreatores aeróbicos de grande porte”, afirma Junqueira.

De acordo com o estudo da Bioresource Technology, o custo de produção de SAF a partir de óleos microbianos é estimado entre US$ 1,83 e US$ 3 por litro, valor até quatro vezes superior ao querosene de aviação, de origem fóssil, mas compatível com outras rotas do combustível sustentável. “O uso de óleos microbianos pode aumentar em quatro vezes o rendimento de SAF por hectare em comparação ao óleo de soja”, ressalta Junqueira. Com base nesses resultados, os próximos passos da equipe do CNPEM incluem a prospecção e a manipulação genética de leveduras oleaginosas da biodiversidade brasileira. “Esse esforço é fundamental para viabilizar a produção de óleo microbiano em larga escala e aumentar a sua competitividade econômica.” l

Os projetos e os artigos científicos consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

Para capturar o CO²

Porosos e semiesféricos, os pellets criados na UFMG têm 1 cm de diâmetro

Sistema desenvolvido no país retém até 17% das emissões de dióxido de carbono dos motores a diesel

Um reator abastecido com um inovador material cerâmico capaz de capturar dióxido de carbono (CO₂) tem potencial de reduzir o impacto ambiental de motores a diesel, que equipam caminhões, ônibus, tratores, máquinas industriais e geradores de energia. A inovação é fruto de uma parceria entre a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Instituto Nacional de Tecnologia (INT), unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) sediada no Rio de Janeiro, e uma montadora de automóveis, que prefere se manter anônima. Um pedido de patente do material foi depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), em janeiro deste ano. Em testes realizados no fim de 2024, quando um protótipo do reator foi instalado em um caminhão, a tecnologia foi capaz de adsorver 7,7% do CO₂ emitido em todo percurso – adsorção é o processo pelo qual moléculas ou íons ficam retidos na superfície de um material por meio de interações químicas ou físicas. O ensaio empregou a metodologia Real Driving Emissions (RDE), padronizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que mede a emissão de poluentes em condições reais de circulação dos veículos. O caminhão percorreu 170 quilômetros (km) passando por áreas urbanas, rurais e um trecho rodoviário. Levando em conta apenas o trajeto urbano, o desempenho foi ainda melhor, com a retenção de 17,2% dos gases.

“Ficamos satisfeitos com o resultado. Agora, estamos trabalhando para ampliar o nível de captura para 30% em qualquer tipo de percurso”, diz o químico Jadson Cláudio Belchior, do Departamento de Química da UFMG e coordenador do projeto.

O material cerâmico adsorvedor de CO₂ criado pela equipe de Belchior é produzido com um conjunto de reagentes químicos, em sua maioria inorgânicos e abundantes na natureza – a composição é mantida em segredo até que a patente seja concedida. Misturados, formam um material

pastoso que é depois transformado em pellets semiesféricos com 1 centímetro (cm) de diâmetro. “O material é microscopicamente poroso, o que permite ao CO₂ entrar e reagir com as substâncias químicas”, descreve o pesquisador.

Os pellets são dispostos em um reator com o formato de um cilindro metálico e cujo tamanho final ainda está sendo definido. Este, por sua vez, é instalado no sistema de escapamento, o conjunto de peças que conduz o gás de combustão do motor para fora do veículo ou máquina. O material cerâmico retém apenas o CO₂, o que significa que o sistema de escapamento continua necessitando do catalisador, peça que reage com os outros gases poluentes (ver infográfico na página 70).

CONTROLE DA TEMPERATURA

Para que os pellets cerâmicos consigam reter o dióxido de carbono, o gás precisa estar em uma temperatura inferior a 110 graus Celsius (ºC). “Acima desse patamar, o material é inerte em relação ao CO₂”, informa Belchior. Um desafio é esfriar o gás. A combustão do diesel no motor ocorre a cerca de 600 ºC. “Essa temperatura cai rapidamente e chega ao sistema de escapamento na casa dos 250 ºC, ainda muito alto para tornar viável a tarefa de adsorção”, detalha o químico. Ele destaca, ainda, que o gás não chega ao reator numa temperatura homogênea, o que faz com que a parcela acima de 110 ºC não reaja com o material. O dióxido de carbono que não é retido pelos pellets é liberado no ambiente, sem gerar resíduos.

A solução encontrada para esfriar o gás foi instalar no sistema de escapamento, entre o motor e o reator, uma tubulação expansora, com maior diâmetro. “É um mecanismo usual para ampliar a troca de calor e acelerar o resfriamento. Funciona como o tubo do radiador”, explica a engenheira mecânica Valéria Said de Barros Pimentel, pesquisadora do INT. As equipes do INT e da montadora foram responsáveis pelo desenvolvimento do reator e do sistema de escapamento, além do estabelecimento da metodologia RDE usada nos ensaios em campo.

Para melhorar o desempenho do sistema e alcançar a almejada meta de 30% de captura de CO₂,

será necessário reduzir mais ainda a temperatura com a qual o gás resultante da combustão chega ao reator. O aperfeiçoamento da troca térmica na tubulação expansora, informam os pesquisadores, é uma das prioridades em estudo. A equipe do INT avalia melhoras tanto no design da peça quanto no material metálico empregado. Outra possibilidade, segundo Pimentel, é a busca de maior eficiência dos pellets cerâmicos de forma a reduzir o espaço ocupado e permitir o uso de reatores menores, ampliando o circuito de resfriamento antes de chegar ao reator.

A redução da temperatura do gás no reator tem ainda uma segunda função: diminuir o custo de regeneração do material cerâmico. Para a separação do CO₂ retido, os pellets passam por um processo simples de aquecimento. “Ocorre que, quanto maior a temperatura de captura do CO₂, maior terá que ser a temperatura da fonte de calor usada no processo de regeneração, o que resulta em maior gasto energético e custo do processo”, esquematiza Belchior.

Em artigo publicado no periódico Fuel, em 2019, a equipe da UFMG apresentou detalhes do processo regenerativo do material cerâmico, essencial para sua reutilização – os estudos, ainda em estágio preliminar, foram feitos em bancada de laboratório. “Quando o gás capturado está a 100 ºC, os pellets precisam ser aquecidos a temperaturas na ordem de 340 ºC para serem regenerados”, conta Belchior. “Pretendemos reduzir a temperatura do gás capturado para algo entre 80 ºC e 90 ºC a fim de diminuir o gasto energético no processo

Como o sistema funciona

de regeneração.” No artigo do Fuel , os autores informam que a análise termogravimétrica dos pellets cerâmicos concluiu que eles podem ser reutilizados em 10 ciclos de adsorção de CO₂. Termogravimetria é uma técnica que avalia as qualidades físico-químicas dos materiais submetidos à variação de temperatura.

A proposta dos pesquisadores é promover a economia circular, ou seja, dar uma finalidade produtiva para o CO₂ retido nos reatores. A ideia é envasar o gás em cilindros e depois vendê-lo para as indústrias de alimentos, bebidas e fabricantes de combustíveis sintéticos, onde o CO₂ é usado como insumo.

Outro desafio a ser superado pelas equipes da UFMG e do INT é criar um “kit reator”, fácil de instalar no sistema de escapamento dos veículos. “O sistema deve permitir a fácil substituição dos

Saiba como o gás carbônico é capturado no escapamento do veículo

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Os gases de combustão do motor a diesel chegam ao escapamento a 250 oC, muito quente para a captura do CO₂

2 Para reduzir a temperatura, são direcionados por uma tubulação expansora

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Em seguida, passam pelo catalisador, que promove reações de redução dos hidrocarbonetos, do óxido de nitrogênio e do monóxido de carbono

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O CO₂ atinge o reator abaixo de 110 oC. Dentro dele, pellets cerâmicos porosos conseguem reter parte do gás

Jadson Belchior, coordenador da pesquisa, e a aluna Daniele Leal preparam amostra do material cerâmico para avaliar sua eficácia na captura de CO₂

5 Ao final do período de uso, os pellets são aquecidos para recuperação do CO₂, que pode ser envazado e comercializado. O material é reaproveitado

Os pellets são depositados no protótipo do reator, instalado no escapamento de um caminhão

pellets do reator”, diz o pesquisador da UFMG. Ele estima que um caminhão de uso intensivo terá que fazer a troca diária do material, mas será preciso realizar novas rodadas de testes, com o produto acabado, para definir um padrão de troca. Além de todas as soluções tecnológicas que precisam ser encontradas para a inovação chegar aos usuários, o estudo de viabilidade econômica do processo ainda não foi elaborado. A expectativa dos cientistas é que o sistema apresente um custo final baixo, já que as substâncias químicas e as peças metálicas empregadas são de fácil acesso e de valor comercial reduzido.

Oprojeto do adsorvedor de CO₂ foi inscrito em 2022 no Programa Rota 2030 – Mobilidade e Logística, do governo federal, que apoia o desenvolvimento tecnológico do setor automotivo. Em 2024, o Rota 2030 foi substituído pelo Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover). Entre as metas estabelecidas no programa sucessor está a necessidade das montadoras aderentes de reduzir em 50% as emissões de carbono de seus veículos até 2030, em relação às emissões de 2011.

As emissões de gases de efeito estufa do setor de transportes, no entanto, são crescentes. De acordo com o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, as emissões dessa atividade no Brasil aumentaram 3,2% em 2023 e alcançaram o recorde de 223,8 milhões de tone -

ladas de CO₂ equivalente – medida internacional que estabelece a equivalência entre todos os gases de efeito estufa (metano, óxido nitroso e outros) e o CO₂. O transporte de carga foi o principal responsável pelo aumento. Naquele ano, o país emitiu 2,67 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente. “O desenvolvimento de tecnologias capazes de capturar CO₂ diretamente de fontes móveis, como caminhões, é de grande relevância em face dos atuais desafios de descarbonização do setor de transportes”, diz o químico Pedro Vidinha, da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI), apoiado pela FAPESP. O trabalho realizado pela UFMG e pelo INT, avalia Vidinha, é promissor ao propor uma solução inovadora e potencialmente adaptável à realidade brasileira. “A possibilidade de capturar até 17% das emissões de CO₂ diretamente no escape dos veículos representa avanço significativo”, afirma.

A equipe de Belchior iniciou o desenvolvimento de materiais cerâmicos capazes de capturar CO₂ em 2007. O grupo já depositou 21 pedidos de patente, incluindo a do projeto atual. Dessas, 11 patentes foram concedidas, sete delas nos Estados Unidos. A primeira foi depositada quando a equipe conseguiu fazer a captura do gás a uma temperatura de 600 ºC. Tratou-se mais de uma prova de viabilidade, já que o CO₂ retido nessa temperatura torna inviável o processo de regeneração do material cerâmico.

Uma segunda fase do projeto ocorreu entre 2015 e 2018, com apoio da Petrobras, Fiat (hoje Stellantis) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), quando a equipe conseguiu reduzir a temperatura do processo para 300 ºC, ainda alta para tornar viável o processo. Na época, o óxido de cálcio (CaO) era a principal substância química usada como insumo do material cerâmico, conforme descrito em artigo publicado na International Nano Letters, em 2020. A experiência rendeu ao grupo da UFMG o Prêmio Inventor 2019, da Petrobras. O foco do projeto, na ocasião, era a captura de CO₂ resultante da combustão de gasolina e etanol.

O projeto atual, que visa reter o CO₂ em motores a diesel, exigiu do grupo uma investigação nova de substâncias químicas adequadas ao processo. O foco na captura do diesel atende aos interesses da montadora parceira da iniciativa. A meta pessoal de Belchior é fazer uma apresentação prática do sistema, já com as melhorias necessárias, durante a reunião da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, a COP30, a ser realizada em Belém, no Pará, no fim do ano. l

Os artigos científicos consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

ENGENHARIA BIOMÉDICA

Sensores do bem-estar

Protótipo reúne dispositivos que avaliam a qualidade do sono e do ar de ambientes internos

FIORAVANTI

Estação brasileira de pesquisa na Antártida: no verão o Sol está quase sempre no céu e no inverno reina a escuridão

Ànoite, feche um pouco a janela, abra a porta do quarto, saia logo da sala, vá dormir, mas não durma demais. Em resposta ao excesso de luminosidade ou de gás carbônico (CO₂) e a horários irregulares de sono, recomendações desse tipo podem vir a se tornar comuns em residências, refeitórios, salas de reuniões, estações de trem, entradas de prédios e outros espaços públicos fechados, como já se faz com medições de ozônio e de poluição atmosférica nos relógios de rua.

Essa é a meta de um grupo de arquitetos, engenheiros e físicos da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que desenvolveu um monitor de ambientes internos. Descrito em um artigo publicado em janeiro na revista Internet of Things, o dispositivo avalia a qualidade

do ar e a luminosidade e poderá gerar instruções individuais, emitir avisos gerais ou ser usado na gestão do bem-estar de estudantes, professores e outros profissionais. O protótipo que vem sendo testado, em sua terceira versão, é um disco branco com 15 centímetros de diâmetro; a quarta versão, em construção, é hexagonal, todos semelhantes a relógios de parede sem ponteiros.

Sem similares conhecidos, o dispositivo da Ufes reúne aparelhos que normalmente funcionam separadamente: sensores da intensidade de cada faixa de luz, de umidade, temperatura e CO₂. Ele dispõe também de um sistema de comunicação, via bluetooth, que capta informações sobre sono e atividade física das pessoas registradas em relógios inteligentes, conhecidos como smartwatches. O monitor coleta, armazena e transmite grandes conjuntos de dados, que são analisados remotamente, gerando indicações sobre possíveis ajustes no ambiente ou no comportamento dos usuários dos smartwatches (ver infográfico abaixo e na página 74).

“Reunir todas essas informações em um só aparelho é um grande avanço”, comenta o educador físico Marco Túlio de Mello, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), especialista em medici-

Vigilante remoto

na do sono (ver Pesquisa FAPESP nº 252), que não fez parte da pesquisa. “Saber os níveis de oxigênio e gás carbônico é fundamental para pessoas com dificuldades respiratórias, do mesmo modo que conhecer a temperatura é importante para quem tem problemas de termorregulação, como indivíduos que sofreram lesões medulares. O próximo passo seria acrescentar uma forma de comunicar essas informações sobre o ambiente para melhorar o bem-estar das pessoas.”

Sem sair de sua sala em Vitória, a arquiteta Daniela Marins, em estágio de pós-doutorado na Ufes e responsável pelo desenvolvimento do protótipo, recebeu e analisou as informações coletadas durante os dois testes de campo, ambos realizados de novembro de 2020 a janeiro de 2023, na estação brasileira de pesquisa na Antártida e na Escola de Aprendizes-marinheiros do Espírito Santo (Eames), na capital capixaba.

No primeiro teste, depois de responderem a questionários sobre seus hábitos de sono, 51 militares e pesquisadores usaram smartwatches, que liberavam as informações acumuladas toda vez que passavam

O monitor capta continuamente informações sobre as pessoas e o ambiente

1 Smartwatches registram o sono e a atividade física das pessoas

FONTE DANIELA MARINS (UFES)

Sensores de CO2 , temperatura e umidade

Sensor de luminosidade

Botão de ligar

Painel LED

2 O monitor capta, armazena e transmite os dados dos smartwatches sobre luminosidade, umidade, temperatura e CO2

perto dos três monitores instalados em paredes de espaços internos da estação.

“As janelas dos laboratórios e dormitórios da estação são bem estreitas, mas as da sala principal são superamplas e recebem muita luz natural no verão”, observa Marins, com base nas informações coletadas pelos monitores e repassadas aos responsáveis pela estação. “Poderiam aproveitar mais a sala não só para as refeições, mas também para reuniões e como espaço de convivência.”

Na Artártida, dormir bem é um privilégio. Por causa da inclinação do eixo do planeta, de novembro a fevereiro, durante o verão no hemisfério Sul, o Sol praticamente não sai do céu e a luminosidade é intensa, dificultando o sono; no inverno, ocorre o inverso e reina a escuridão durante quase toda a estação, o que ajuda a dormir, mas também desregula o sono.

“Quando estamos na Antártida, perdemos nossa grande referência, o Sol, a noção do tempo e a hora de dormir e acordar. Quando damos conta é noite, mas, por causa da luminosidade, achamos que ainda é dia”, comenta o educador físico da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Thiago Mendes. Ele esteve lá em 2020, como parte do projeto de pesquisa científica Mediantar, que

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Uma estação remota recebe os dados e gera indicações sobre ajustes no ambiente ou no comportamento dos usuários dos smartwatches

Efeitos

da luz ao longo do dia

A claridade e a escuridão interferem na produção hormonal e no ritmo circadiano, que regulam o sono

MANHÃ, DAS 6H ÀS 10H

A luz é brilhante, com intensidade crescente. Os tons mais azulados do espectro luminoso estimulam a produção de hormônios

NOITE, DAS 19H ÀS 6H

A luz artificial, especialmente a azul emitida por aparelhos eletrônicos, pode prejudicar o ritmo circadiano e o sono

integra o Programa Antártico Brasileiro (Proantar) e avalia os efeitos das condições ambientais extremas sobre a saúde física e mental. O pesquisador acompanhou a coleta de dados do monitor capixaba, enviados para a Ufes inicialmente por rede de internet 4G. Seu plano é levar os novos protótipos em construção na próxima viagem, prevista para outubro, e ampliar as medições.

Nos ambientes urbanos longe do extremo Sul da Terra, o excesso de luminosidade artificial pode, igualmente, prejudicar o sono. Segundo o médico Sérgio Tufik, coordenador do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que também não participou da pesquisa, a maior exposição às luzes durante a noite e a menor exposição à luz natural durante o dia, comum nas cidades, desregula a produção do hormônio melatonina, mais intensa na ausência de luz, e altera os processos fisiológicos e comportamentais, incluindo o humor (ver Pesquisa FAPESP nº 313). Em um artigo publicado em janeiro na revista Diagnostics, pesquisadores da Universidade Médica de Tyumen, na Rússia, observaram que o humor e o comportamento de pessoas idosas melhoraram com ajustes na iluminação do ambiente.

Na Eames, em Vitória, a pedido dos pesquisadores, 37 militares e professores usaram smartwatches, conectados via bluetooth a outros três protótipos do monitor. Os registros indicaram que dormiam pouco e mal em três situações: em março e dezembro, que marcam o início e o fim do período de aulas, e nos fins de semana, quando deixam o regime de internato, saem para se divertir na cidade e quebram o padrão de sono, dormindo mais que o habitual, o que não é recomendável.

No prédio da Eames, concluíram os pesquisadores, o problema era a luz comedida. Como a construção é um antigo forte adaptado para funcionar como escola, as paredes são grossas e as janelas, pequenas, o que dificulta a entrada de luz natural. “Janelas pequenas são uma forma de economizar em materiais de construção e facilitar o isolamento térmico”, diz Marins. “A solução para conciliar a luminosidade e a temperatura seria repensar as janelas, usando materiais mais transparentes ou rebatedores de luz.”

Em escolas, às vezes o problema é o excesso de luz, que reduz a concentração e prejudica a aprendizagem. A legislação brasileira estipula uma faixa média de 300 lux, a medida de luminosidade (uma lâmpada incandescente de 100 watts equivale a 1.500 lux), para salas de aula (ver infográfico na versão on-line desta reportagem), mas um grupo de pesqui-

Também conhecido como relógio biológico, o ritmo circadiano é o ciclo natural de aproximadamente 24 horas que regula as atividades diárias do organismo, como sono e vigília

MEIO-DIA, DAS 10H ÀS 16H

A luz é mais intensa e estimulante, com um espectro predominantemente azul, ainda que o almoço possa gerar sonolência

ENTARDECER, DAS 16H ÀS 19H

A intensidade da luz diminui gradualmente e o espectro se desloca para os tons vermelhos, estimulando a produção de melatonina, o hormônio do sono

sadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) mediu mais de 2 mil lux em seis salas de três escolas municipais do estado. Os resultados, detalhados em novembro na revista PARC – Pesquisa em Arquitetura e Construção, confirmaram as reclamações dos 95 alunos entrevistados sobre a luminosidade extrema. “A intensidade da luz natural não pode ser ignorada”, enfatiza Marins.

“A abordagem do grupo da Ufes pode ser relevante para a qualidade de vida de trabalhadores, estudantes ou pesquisadores em lugares inóspitos”, comenta o engenheiro eletrônico Antonio Mauricio Ferreira Leite Miranda de Sá, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ), que trabalha nessa área e não participou da pesquisa.

Examinando a configuração do aparelho, descrita no artigo da Internet of Things, ele imagina outras aplicações: “Poderia ser usado também, por exemplo, para registrar e alertar sobre vazamento de gás em casas e edifícios ou comportamentos atípicos, como a imobilidade durante o dia, por horas seguidas, principalmente de pessoas que moram sozinhas”, sugere. l

Os artigos científicos e a tese de doutorado consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

FONTES WAHL, S. ET AL. BIOPHOTONICS. 2019 / DANIELA MARINS (2023)

Decolagem no horizonte

Embraer planeja iniciar em breve os ensaios em voo de seu carro voador, previsto para entrar em operação comercial em 2027

YURI VASCONCELOS

AEve Air Mobility, empresa pertencente à Embraer, deve começar em meados do ano os ensaios em voo de seu carro voador, etapa fundamental do desenvolvimento e da certificação do aparelho com as autoridades regulatórias. Conhecidos como veículos elétricos de decolagem e pouso vertical (eVTOL), os carros voadores são vistos como uma alternativa mais sustentável para a mobilidade aérea nas próximas décadas. Projetados para deslocamentos rápidos dentro de cidades ou de curta distância entre centros urbanos, são movidos por baterias e motores elétricos, que não emitem gases poluentes durante sua operação.

Durante a campanha de ensaios em voo, que deve durar alguns meses, a empresa verificará se o que foi projetado em seus laboratórios corresponde ao que foi produzido. “Além de analisar o desempenho, a segurança e a manobrabilidade da aeronave, a empresa verá se o equipamento atende às regulamentações em termos de poluição, emissões de ruído, entre outros itens”, explica o engenheiro aeronáutico William Roberto Wolf, da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (FEM-Unicamp).

O primeiro protótipo em escala real do eVTOL foi apresentado no ano passa-

O protótipo em escala real do eVTOL da Eve durante apresentação na Inglaterra, em julho de 2024

do. A aeronave é dotada de oito rotores (conjunto formado pelo motor e hélice) para o voo vertical, na decolagem e no pouso, e asas fixas para o deslocamento na fase de cruzeiro. “Como parte de nossa campanha de testes em solo, realizamos em janeiro o primeiro teste do pusher [motor localizado na cauda], responsável pela propulsão durante o voo de cruzeiro”, informou a Pesquisa FAPESP Johann Bordais, CEO da Eve.

Com uma carteira que soma 2,8 mil intenções de compra, a maior do segmento, a Embraer espera se estabelecer como um competidor relevante nesse novo segmento aeronáutico. “A companhia leva vantagem. Já projetou diversos modelos de aeronave e tem grande expertise na área. O projeto da Eve, ao mesclar rotores e asas, dará maior autonomia ao aparelho, o que agrega valor ao projeto”, comenta Wolf.

Entre engenheiros, técnicos e pesquisadores, quase mil pessoas trabalham em tempo integral no desenvolvimento do eVTOL. A produção será em uma fábrica em Taubaté, no interior paulista. “Nosso plano é ter uma produção inicial de 120 unidades por ano, expandindo de forma modular conforme a demanda de mercado. A capacidade máxima será de 480 unidades por ano”, afirma Bordais.

Várias companhias no mundo têm programas em andamento de eVTOL. A norte-americana Joby Aviation plane-

ja iniciar a operação comercial de seus carros voadores em 2026. A expectativa da Eve é a de que seu eVTOL comece a voar com passageiros em 2027. “A grande maioria das empresas desse setor não deve sobreviver”, diz o engenheiro mecânico Domingos Alves Rade, da Divisão de Engenharia Mecânica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos. “Além da dificuldade inerente de projetar uma nova aeronave, o processo de certificação é complexo e oneroso.”

Rade dirige o Centro de Pesquisa em Engenharia para a Mobilidade Aérea do Futuro, conhecido como Flymov, criado em 2023 por FAPESP e Embraer. Seu objetivo é fazer estudos sobre temas que contribuam para a competitividade da indústria aeronáutica brasileira. As pesquisas são realizadas em três áreas: aviação de baixa emissão de carbono, sistemas autônomos e manufatura avançada.

“A sinergia entre os conhecimentos que estamos gerando e os interesses comerciais da Embraer é elevada”, comenta Rade. “O projeto da Eve está claramente inserido na proposta de mobilidade aérea do futuro. Estamos certos de que parte de nossos estudos poderá ser usada pela Embraer no projeto de seu eVTOL.” l

O projeto consultado para esta reportagem está listado na versão on-line.

A Nova República, aos 40

Período de redemocratização tem entre suas marcas os avanços sociais e os planos econômicos

DANILO ALBERGARIA ilustrações VERIDIANA SCARPELLI

Há 40 anos, em 21 de abril de 1985, morria Tancredo Neves (1910-1985). Não fosse por uma infecção generalizada, o político mineiro teria sido o primeiro civil a assumir a Presidência da República após 21 anos de ditadura militar. Três meses antes, ele havia vencido a eleição presidencial indireta no Congresso Nacional, numa chapa costurada com um antigo apoiador do regime, o político maranhense José Sarney, que acabou assumindo o cargo. De maneira tortuosa, o processo de redemocratização manteve no poder políticos que haviam dado sustentação à ditadura. Conciliador e conservador, Tancredo apaziguava as inquietações dos militares que, de saída do Palácio do Planalto, temiam a ascensão da oposição ao poder. Durante sua campanha presidencial foi cunhada a expressão “Nova República” para designar um sistema democrático marcado pela conciliação, em que um acerto de contas com os abusos ditatoriais estava fora de questão.

“Em um original jogo de palavras, lançado para sinalizar que não perseguiria as Forças Armadas, [Tancredo] apresentou sua candidatura como ‘mudancista’ ao invés de ‘oposicionista’.” Essa passagem emblemática da redemocratização brasileira, marcada por rupturas e continuidades com o passado autoritário, está descrita no livro Democracia negociada: Política partidária no Brasil da Nova República (FGV Editora, 2024). Nele, o historiador Leonardo Weller, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV EESP), e o cientista político Fernando Limongi, docente na mesma instituição e também na Universidade de São Paulo (USP), oferecem uma síntese da história política brasileira das últimas quatro décadas. Em meio a outros pontos, mostram que a democracia brasileira nesse período se caracterizou pela resolução de conflitos com arranjos consensuais

entre a elite política, o que garantiu duas décadas de estabilidade econômica e política entre 1994 e 2013. Além disso, eles procuram explicar como um sistema baseado em negociações com representantes de interesses conflitantes foi capaz de produzir mudanças sociais significativas e sem precedentes na história do país.

De acordo com Limongi, o próprio sucesso das democracias em promover soluções negociadas pode gerar insatisfação por parecer um grande acordo entre elites que buscam preservar seus interesses. “Mas, quando olhamos os dados, vemos que a democracia se move, produz mudança, ainda que mais lenta do que gostaríamos que fosse”, avalia o pesquisador. “Desde a década de 1980 o Brasil cresceu pouco, mas os indicadores sociais melhoraram muito e um estado de bem-estar social, mesmo imperfeito, passou a funcionar”, acrescenta Weller. Segundo o Banco Mundial, a extrema pobreza atingia 25% da população brasileira em 1985. Trinta e sete anos após a redemocratização, em 2022, esse índice se encontrava em 3,5%. Para explicar a redemocratização, Weller e Limongi voltam ao governo do general Ernesto Geisel (1907-1996), iniciado em 1974. Após o período de repressão violenta desde 1968, com prisões arbitrárias, tortura e assassinato de opositores, o presidente e seu núcleo de poder optaram pela reabertura política. Os pesquisadores apontam que Geisel era conivente com a brutalidade da linha-dura, mas via a necessidade de distensão para não perder o controle da caserna. A reabertura foi, nas palavras dos autores, “lenta, gradual e titubeante”, um trocadilho com a frase de Geisel, de que a abertura seria “lenta, gradual e segura”. Apesar da pressão popular, a emenda que propunha eleições diretas para presidente amargou derrota no Parlamento em 1984 e, no ano seguinte, a chapa Tancredo-Sarney foi eleita. Com Sarney na Presidência, instalou-se em 1987 a Assembleia Nacional Constituinte. Segundo

o cientista político Antônio Sergio Rocha, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus de Guarulhos, a ala progressista do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) dominou o processo no início, mas a maioria conservadora se articulou e ofereceu resistência. O exemplo mais simbólico do impasse está na incapacidade de os congressistas concordarem sequer com o teor do preâmbulo do texto constitucional. A saída foi a negociação entre os líderes das bancadas, que costuravam acordos pontuais, acomodando as visões de mundo e os interesses em conflito. “Ao longo de 20 meses desenrolou-se uma batalha campal no Congresso e a Constituição teve nove versões antes do texto definitivo”, conta Rocha, que no momento finaliza quatro volumes do projeto “Memória da Constituinte”, coordenado por ele no Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec). Os livros, previstos para serem lançados em 2025, vão trazer, entre outros assuntos, uma cronologia detalhada de eventos ocorridos na assembleia entre 1987 e 1988.

Oresultado foi uma Carta que não promoveu reformas nas estruturas de propriedade, mas deu a base para a construção de um estado de bem-estar social. O texto previu, por exemplo, alguma assistência de saúde aos mais pobres, mas manteve um sistema híbrido em que os mais ricos continuariam podendo pagar para ter tratamento de alta qualidade. Ainda assim, o Sistema Único de Saúde (SUS) é um dos frutos do documento. Na avaliação do historiador Fernando Perlatto, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a Constituição, apesar de ser cheia de contradições, avançou muito na consolidação de direitos civis e sociais, como o exercício da soberania popular não apenas pelo sistema representativo, mas também por plebiscitos e referendos. “A pressão de movimentos sociais ajudou a Constituição a consolidar elementos democráticos”, aponta o pesquisador.

Os civis herdaram da ditadura uma grande dívida externa e uma inflação galopante. Sobrinho de Tancredo, Francisco Dornelles (1935-2023) foi o primeiro-ministro da Fazenda da Nova República a tentar domar a inflação. Sem respaldo político, Dornelles durou apenas cinco meses no cargo, sendo substituído pelo empresário Dilson Funaro (1933-1989), que propôs um ajuste nas contas do governo, a renegociação da dívida externa e, principalmente, o congelamento de preços, salários e taxas de juros. Seu Plano Cruzado controlou a inflação no começo, mas em menos de um ano não resistiu ao aumento de preços e culminou na moratória da dívida externa. O economista

Luiz Carlos Bresser-Pereira substituiu Funaro em 1987. O Plano Bresser focou em novo ajuste das contas públicas e congelamento de preços, mas também naufragou em pouco tempo. Já Maílson da Nóbrega, último ministro da Fazenda de Sarney, propôs um programa de privatizações e ajuste fiscal que não surtiu efeito e viu o aumento de preços chegar ao status de hiperinflação – mais de 50% ao mês – no final de 1989.

Esses personagens são analisados no livro Os homens da moeda: O que pensavam os ministros da Fazenda da Nova República (1985-2018), organizado pelo economista Ivan Salomão, da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, e lançado no ano passado pela Editora Unesp. Escritos por Salomão em colaboração com outros pesquisadores, cada um de seus 15 capítulos é dedicado ao pensamento, à produção intelectual e à atuação política daqueles que comandaram a política econômica do país durante a Nova República, de Dornelles a Henrique Meirelles (que exerceu o cargo entre 2016 e 2018). Apesar do título, Os homens da moeda também analisa a atuação de Zélia Cardoso de Mello, a primeira – e até agora única – mulher a ocupar o cargo.

O livro conta como Cardoso de Mello tentou, no início do governo de Fernando Collor de Mello, em 1990, controlar a inflação ao diminuir a liquidez – a quantidade de moeda em circulação –por meio de uma medida drástica: o sequestro de ativos financeiros que incluíam as cadernetas de poupança. O plano rapidamente se tornou impopular e não derrubou a inflação. A instabilidade econômica precipitou uma crise política que culminou em 1992 no impeachment de Collor, um outsider conservador que, para surpresa de muitos, havia derrotado candidatos progressistas nas primeiras eleições diretas para presidente desde 1960.

Os homens da moeda mostra que a inflação só seria controlada com o Plano Real, a partir de 1994, no governo de Itamar Franco (1930-2011), marcando o início de duas décadas de estabilidade política e econômica. No período também se consolidou o presidencialismo de coalizão – em linhas gerais, nesse sistema o Executivo usa cargos no governo para barganhar apoio no Legislativo e imprimir seu programa político.

A estabilização econômica permitiu a universa-

Os civis herdaram da ditadura uma grande dívida externa e uma inflação

lização da educação básica e a implementação de programas de transferência de renda, como o Bolsa Escola, durante os dois mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), de 1995 a 2002. Os dois primeiros governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), entre 2003 e 2010, também seguiram a cartilha da contenção dos gastos públicos, mas apostaram no aumento real do salário mínimo e ampliaram programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, que produziram importantes transformações sociais no país. Na avaliação de Salomão, isso mostra que é possível operar mudanças no contexto brasileiro mesmo com uma parcela minúscula do orçamento federal. “O aumento do salário mínimo foi fundamental para promover o ingresso de famílias de baixa renda no mercado consumidor e, com isso, impulsionar o crescimento econômico, que chegou a 7,5% ao ano em 2010”, lembra o economista.

As mudanças sociais produzidas durante a Nova República ocorreram em meio a um crescimento econômico médio menor do que o registrado entre 1930 e 1980. Na avaliação de Salomão, uma confluência de fatores favoráveis no período anterior – a rápida urbanização com abundância de mão de obra que facilitou investimentos em produção industrial – não se repetiu a partir dos anos 1980. Uma das teses centrais do livro de Weller e Limongi é que a democracia brasileira, apesar de se mover lentamente, entregou em duas décadas de estabilidade muitos avanços sociais sem precedentes na história do país: sistemas de saúde e de educação foram universalizados e dezenas de milhões saíram da fome e da pobreza extrema.

Entre 2013 e 2016, um processo de crise política e econômica culminou no impeachment da

presidente Dilma Rousseff (PT) e na ascensão de forças políticas saudosas da ditadura militar. Em meio ao desgaste institucional, o término da Nova República tem sido aventado por analistas que chamam a atenção para o esgotamento do sistema político dos últimos 40 anos. “A partir de 2013, grupos políticos que propuseram retomar elementos da ditadura militar direcionaram seus ataques principalmente aos pilares democráticos da Constituição Federal de 1988”, avalia Perlatto, um dos organizadores do livro A Nova República em crise (Appris, 2020).

De acordo com Salomão, o arranjo político do governo de Jair Bolsonaro (2018-2022), que deu ao Poder Legislativo amplo controle sobre o orçamento federal, reduziu de forma drástica o poder de barganha do Executivo e iniciou o que o economista chama de “semipresidencialismo de fato”, sendo um dos motivos pelos quais considera que a Nova República acabou. “Estreitou-se a capacidade do governo em formular e fazer política econômica”, avalia.

Para Limongi, há exagero nos anúncios de morte da Nova República. “A Constituição continua valendo e o calendário eleitoral está aberto”, diz o pesquisador. Weller concorda que o sistema esteja passando por mudanças, “mas não necessariamente vivemos em outro regime”, ressalvando que “se a tentativa de golpe de Estado em 2023 tivesse sido bem-sucedida, seria diferente”. Por sua vez, Perlatto considera que o embate entre setores progressistas e reacionários ainda deve ser considerado uma disputa política dentro da Nova República, mas chama a atenção para aspectos de continuidade com o passado autoritário. “O papel dos militares na ordem política e a militarização do aparelho de segurança pública não devem ser normalizados”, alerta o historiador. l

Os livros consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

Circuitos estrangeiros

Ao articular experiência histórica e inventividade ficcional, produção literária colabora com a difusão internacional da obra de Chico Buarque

Em uma cena do filme Os boas-vidas (1953), de Federico Fellini (1920-1993), um dos personagens, em meio a um delírio etílico, faz uma proposta insólita a um amigo: abandonar tudo e partir para o Brasil. Embalados por imagens exóticas, personificadas na época pela cantora Carmen Miranda (1909-1955), cineastas italianos desse período idealizaram o país como um lugar idílico, repleto de sensualidade, alegria e paisagens naturais, capaz de abrigar sonhos impossíveis no contexto da Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Décadas depois, a presença de Chico Buarque em Roma, durante o exílio entre 1969 e 1970, deu início a um processo de revisão desse imaginário, segundo o brasilianista Luca Bacchini, da Universidade de Roma La Sapienza, na Itália.

Pesquisador de vínculos históricos e culturais entre Brasil e Itália há mais de duas décadas, Bacchini dedicou boa parte de sua pesquisa à relação

Buarque em Paris, na França: escritor ajudou a desconstruir imagens estereotipadas sobre o Brasil

de Buarque com a nação europeia. Ele recorda que, na década de 1970, o artista lançou ali discos, gravou músicas em parceria com compositores célebres como Ennio Morricone (1928-2020) e teve canções interpretadas por vários cantores consagrados, como Sergio Endrigo (1933-2005) e Mina Mazzini. Segundo Bacchini, a canção “A banda”, por exemplo, foi adaptada em italiano em duas versões, sendo que uma delas alterou o sentido original para adequar-se à interpretação de Mazzini. “Quando Chico chegou autoexilado à Itália, as gravadoras criaram estratégias para lançá-lo no mercado local, que tinha uma imagem estereotipada sobre o Brasil. Houve um esforço teimoso para moldá-lo ao gosto italiano”, explica. O pesquisador considera que, pelo fato de as canções de Buarque não mobilizarem tal imaginário, acabaram por ajudar a desconstruir estereótipos em relação à cultura brasileira. “Porém o artista pagou um preço por isso e foi incompreendido por um mercado que, naquela época, estava acostumado a consumir um tipo específico de brasilidade”, afirma Bacchini, que no momento prepara dois livros. Um deles sobre o exílio italiano de Buarque e outro envolvendo sua produção literária.

Da mesma forma que aconteceu com sua carreira na música, Buarque enfrentou resistência para ter a trajetória literária reconhecida no país europeu. “No ambiente universitário italiano, ele não era considerado um autor representativo da literatura brasileira, mas sim um músico que, eventualmente, escrevia romances”, comenta Bacchini. De acordo com o pesquisador, situação similar ocorreu com Vinicius de Moraes (1913-1980) na Itália, que ainda é visto como um músico que fazia poemas e não propriamente como um poeta. Essa visão, no caso de Buarque, começou a mudar nos últimos anos, sobretudo depois da vitória do prêmio Camões , em 2019. “Embora na academia italiana prevaleça uma visão engessada do cânone literário, há cada vez mais alunos que descobrem o Brasil e sua língua por meio dos livros de Chico”, afirma Bacchini.

Atualmente, o pesquisador está ministrando na Universidade de Roma La Sapienza um curso anual dedicado exclusivamente ao autor. “Entre as novas gerações, o romancista é quase mais popular do que o músico. Tenho alunos que nunca ouviram músicas como “Apesar de você” ou “Cálice”, mas já leram Budapeste ou Bambino a Roma”,

diz Bacchini, recordando que, entre 1953 e 1955, o historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), pai do artista, ocupou a primeira cátedra de literatura brasileira em La Sapienza.

Buarque tem seis livros traduzidos para o italiano, como Leite derramado, Budapeste e Essa gente. No Brasil, ele publicou seus primeiros textos ainda adolescente no jornal do colégio onde estudava na capital paulista e, em 1966, um conto de sua autoria saiu no jornal O Estado de S. Paulo. Em 1974, escreveu a novela Fazenda modelo (Civilização Brasileira), mas seu romance de estreia, Estorvo, foi lançado bem mais tarde, em 1991, pela Companhia das Letras, editora que publicou sete de seus 11 livros. Além do italiano, títulos como Estorvo, Benjamim e Budapeste ganharam versões em espanhol e inglês.

Nos Estados Unidos, a literatura de Buarque tem colaborado para tornar o conjunto de sua obra mais conhecido, segundo o pesquisador norte-americano Charles A. Perrone, professor emérito do Departamento de Espanhol e Português da Universidade da Flórida. Ele estuda a obra musi-

Autor sentado em frente a uma igreja em Roma, na Itália, durante o exílio, em 1969

cal de Buarque desde a década de 1970. Segundo o pesquisador, no âmbito da música Buarque é menos conhecido na América do Norte do que artistas como Milton Nascimento, Caetano Veloso e Gilberto Gil, mas a publicação de Estorvo começou a mudar esse cenário. “Vertido para o inglês como Turbulence [Editora Pantheon, 1993], o livro teve boa acolhida pela crítica inglesa e norte-americana, especialmente após a tradução, a partir do fim dos anos 1990, de ensaios do crítico Roberto Schwarz sobre a ficção de Buarque”, relata Perrone, autor de livro publicado em 2022, em que analisa as 11 canções do disco que leva o nome do artista, lançado em 1978. “De forma geral, o público norte-americano não compreende a poesia presente nas canções de Chico, e a linguagem de seus romances acabou sendo mais aceita, especialmente fora de circuitos acadêmicos.”

Já em Portugal, a obra de Buarque percorreu um caminho distinto. A portuguesa Clara Rowland, da Universidade Nova de Lisboa, observa que o artista é conhecido no país desde o começo de sua carreira, nos anos 1960, e diferentes gerações cresceram escutando as suas músicas. De acordo com a pesquisadora, que é professora do Departamento de Estudos Portugueses da instituição, a força desse vínculo ficou evidente em 2019, quando o artista venceu o Prêmio Camões, do qual ela foi uma das juradas. Instituído em 1989 pelos governos de Brasil e Portugal, o reconhecimento é considerado o principal prêmio de literatura em língua portuguesa. “Testemunhei a comoção com que a notícia foi recebida em Portugal. A reação das pessoas foi explosiva”, recorda Rowland, em entrevista a Pesquisa FAPESP. Para a pesquisadora, a presença do som, da música e da voz são elementos centrais na literatura de Buarque. Em seu livro mais recente, Bambino a Roma , em que aborda as impressões de uma infância vivida e imaginada na cidade italiana, a

Livros inserem, com sutileza, elementos que revelam a complexidade da formação social do país 1

reconexão com um amigo de infância acontece quando o autor canta um samba em italiano. “A música funciona como um fio condutor que leva os personagens de volta a si mesmos e reorganiza fragmentos do passado”, propõe. Na visão de Rowland, o livro, que foi lançado em Portugal e no Brasil no ano passado, articula experiências autobiográficas e reflexões sobre o ato de escrever. Em um dos episódios, por exemplo, o protagonista percorre Roma de bicicleta, levando consigo um mapa. Quando o papel desgastado se rompe, ele desenha no verso sua própria versão da cidade, ou seja, uma Roma imaginada que, segundo o narrador, “se constrói de dentro para fora”.

Rowland considera ainda que Buarque domina a criação de canções como poucos artistas de forma contínua, ao longo de décadas. “A sua produção literária, por outro lado, parte de uma zona de risco, apresentando experimentações, desvios e retornos. A irregularidade na qualidade dos textos faz parte desse movimento de exploração da escrita, que os próprios livros dele, aliás, tematizam”, observa.

Os livros de Buarque são tema de uma edição especial da revista Literatura e Sociedade, publicada no final do ano passado, que compila análises de pesquisadores de diferentes áreas sobre a trajetória literária do autor. Organizadora da publicação, Maria Augusta Fonseca, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), relaciona a obra buarquiana com uma tradição literária iniciada com Machado de Assis (1939-1908), que ganhou continuidade com os modernistas Mário de Andrade (1893-1945) e Oswald de Andrade (1890-1954). Na sua perspectiva, livros como Leite derramado (2009) dialogam com obras machadianas como Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom Casmurro (1899), e também com Memórias sentimentais de João Miramar (1924), de Oswald de Andrade. Segundo ela, a despeito das diferenças temáticas, todos esses trabalhos apresentam uma forma fragmentária e trazem reflexões sobre mundos em que conexões se desfazem, convocando o leitor a reconstruí-las. “Nos livros do autor, se sobressaem a musicalidade do andamento narrativo e a presença do humor, que domina criticamente os relatos”, propõe. O foco histórico constitui um dos traços mais marcantes da trajetória literária de Buarque. “Ela lida diretamente com os impasses do Brasil contemporâneo, sem perder de vista camadas históricas que o estruturam. Seus textos procuram mostrar como o país permanece preso a contradições fundantes, como a pobreza, a desigualdade e a violência”, observa Fonseca. Essa característica está presente, por exemplo, em Leite derramado, obra em que o protagonista, um homem de 100

Produção literária de Buarque

parte de uma zona de risco, apresentando experimentações, desvios e retornos

anos à beira da morte, dita a sua vida a uma enfermeira. “O personagem atua como um tirano não apenas da palavra, mas também da história, carregando todos os vícios e as visões da elite a que pertence”, comenta. “O idoso rememora sua trajetória de forma aparentemente acrítica, exaltando comportamentos e valores que, hoje, soam abomináveis, como a defesa da escravidão e de preconceitos de classe.” Para a pesquisadora, esse narrador, na superfície, parece apenas contar a sua vida. Mas, no subtexto, tece uma crítica incisiva à sociedade brasileira. “No livro, Buarque insere, com discrição, elementos que revelam a complexidade da formação social do país, incluindo os vínculos familiares entre senhores e escravizados, que aparecem diluídos na narrativa. É preciso atenção para perceber informações entranhadas no texto”, aponta.

Oprofessor de filosofia Denilson Soares Cordeiro, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), observa que é possível ler a obra de Chico Buarque a partir da visão de radicalismo do crítico literário Antonio Candido (1918-2017). De acordo com essa ideia, radicalismo é uma perspectiva histórica de crítica social e política. “Chico revela, em sua literatura, um modo radical de ser escritor, mas esse radicalismo de classe média tem limites impostos por sua própria posição social”, afirma. Essa tensão se expressa em Anos de chumbo e outros contos (2021), que explora temas como brutalidade policial e militar, violência sexual, loucura e miséria social. Um dos contos narra a história de uma menina de 14 anos que é vendida pelos pais ao tio miliciano. “Apesar de tudo, a menina narradora conta a situação com

amenidade”, diz. Cordeiro destaca que essa característica se repete em outros contos do livro, que tratam a violência extrema com certo tipo de distanciamento. “O autor expressa, assim, os limites de seu radicalismo, marcando a fronteira política da literatura que produz”, defende o pesquisador.

A ficção literária oferece a Buarque a possibilidade de elaboração estética e política de temas que já se insinuavam em suas canções, de acordo com o sociólogo Marcelo Ridenti, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nesse sentido, o pesquisador avalia que nos romances, e especialmente em Benjamin (1995), o autor trabalha com a dimensão subjetiva do tempo, que se confronta com o curso da história objetiva. “No livro, que trata da obsessão do protagonista pela morte de sua amada, o foco de atenção não é o tempo teorizado dos historiadores, mas o tempo vivido e sentido pelas personagens”, analisa.

Essa abordagem permite, segundo Ridenti, pensar criticamente sobre o esvaziamento do imaginário popular que projetou o Brasil como “país do futuro”. Segundo o pesquisador, esse horizonte se dissolveu nas últimas décadas, com o enfraquecimento de projetos coletivos de transformação. “Mesmo os governos de esquerda têm tido dificuldades em propor alternativas a uma sociedade centrada no consumo e na exploração do trabalho”, observa. Para o sociólogo, Buarque capta esse esfacelamento da percepção do tempo histórico. “Ele expressa como a utopia que marcou a construção do imaginário revolucionário brasileiro nos anos 1960 e 1970 cedeu lugar a uma sensação de deslocamento temporal.” l

Os artigos científicos e o livro consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

Buarque (no centro) na cerimônia do Prêmio Camões, em 2023, realizada no Palácio Nacional de Queluz, em Sintra, Portugal

Poética acessível

Cenas do espetáculo Cidade cega, do grupo baiano Noz Cego, com direção de Carlos Alberto Ferreira

Artistas com deficiência defendem a presença de corpos não normativos em espetáculos brasileiros

ARTHUR MARCHETTO

Imagine uma peça de teatro em que, em vez de luzes e cortina, o público se depare com a escuridão. Um breu absoluto, que começa do lado de fora, com o espectador sendo guiado pela equipe do espetáculo até seu assento. Se alguém precisar sair, é preciso levantar a mão, falar a numeração da cadeira e interromper a apresentação. Além disso, quem sai, não volta. Não existem cenários. O cheiro de café recém-passado e o tilintar de talheres anunciam uma cozinha. Mais adiante, chaves girando na fechadura, buzinas e motores sugerem uma rua movimentada. Em seguida, o som da água e o aroma de um sabonete indicam que alguém toma banho – e as gotas que respingam na plateia colocam o espectador ali, dentro do banheiro. Ao final, uma lanterna se acende. Pela primeira vez, é possível ver os rostos de quem conduziu aquela travessia sensorial: o elenco do Teatro Cego.

Composta por atores cegos e atores que enxergam, além de músicos, a companhia paulistana criada em 2012 é um dos 13 grupos brasileiros analisados por Lucas Almeida Pinheiro no livro Teatro e artistas com deficiência visual: Poéticas do acesso à cena (Editora Unicamp, 2024). “Esses espetáculos não são feitos exclusivamente para pessoas com deficiência”, conta Pinheiro, professor do curso de artes cênicas da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná. “O desafio desses grupos é ressignificar a dimensão visual tão presente no teatro. Nas montagens há um trabalho muito mais pormenorizado de recursos auditivos, táteis, olfativos e até mesmo do paladar.”

Na obra, resultado de sua tese de doutorado, defendida em 2022 na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o pesquisador trabalha, entre outras questões, com grupos que suprimem

a visão do espectador por uso de vendas – a exemplo do Teatro dos Sentidos, do Rio de Janeiro, e algumas obras do Noz Cego, de Salvador – ou com encenações no escuro, como o Teatro Cego. “A ideia é convidar o espectador que enxerga a se aproximar, mesmo que pontualmente, do universo perceptivo de uma pessoa que não enxerga”, explica Pinheiro. “Entretanto, na ausência de iluminação e de informações visuais, e por ser balizada em diálogos entre as personagens, esse tipo de encenação não é capaz de abranger, por exemplo, pessoas surdas sinalizantes [que se valem da Língua Brasileira de Sinais (Libras)].”

Parte dos grupos analisados por Pinheiro não suprime a visão do espectador que enxerga e trabalha com a audiodescrição, um recurso de acessibilidade. “Na forma convencional, o profissional da audiodescrição acompanha ensaios ou assiste à gravação de espetáculos para encontrar pausas ou silêncios. Nesses momentos, descreve o que está acontecendo em cena. A pessoa cega ou com baixa visão ouve a audiodescrição por meio de fones de ouvido, que estão conectados via ondas de rádio ao microfone de quem faz a audiodescrição”, conta o pesquisador. “Entretanto, isso exige uma infraestrutura do espaço onde é apresentado o espetáculo. O ideal é que o narrador fique em uma cabine com isolamento acústico para que sua fala não incomode os outros espectadores, mas no Brasil esse profissional costuma trabalhar no mesmo espaço do técnico de som e de luz.”

Como alternativa, algumas companhias produzem textos dramatúrgicos mais descritivos. É o caso do Coletivo Grão – Arte e Cidadania, grupo paulista criado em 2012 pela diretora, dramaturga e produtora Cintia Alves e pela musicoterapeuta e compositora Juliana Keiko, que reúne artistas que enxergam, cegos, ouvintes e surdos. “É como se

essas companhias incorporassem a audiodescrição à estrutura do espetáculo. Quando, por exemplo, um ator entra por um lado do palco e senta-se, outro personagem menciona o movimento e diz ‘Ah, você vai se sentar aqui’”, diz Isa Etel Kopelman, do Departamento de Artes Cênicas da Unicamp e uma das organizadoras de dossiê sobre arte e deficiência publicado em 2023 na Pitágoras 500: Revista de Estudos Teatrais. “Isso permite que os espectadores cegos façam as próprias interpretações sem que uma voz externa explique o espetáculo.”

Apresença em cena de artistas com deficiência não é novidade. O performer Felipe Monteiro, professor do Programa de Mestrado Profissional em Artes da Universidade Federal de Uberlândia (Profartes-UFU), lembra que já no século XVIII os chamados show de horrores (ou freak shows), comuns na Europa, exploravam esses corpos para fins de entretenimento. “Além de serem constrangidos em público, os artistas nessa condição eram obrigados a executar atividades incomuns e arriscadas, como engolir objetos”, conta o pesquisador, autor do livro Subjetividade(s) e(m) performance: Corpo, diferença e artivismo (Editora CRV, 2020). “Muitos deles vinham de camadas sociais mais pobres e se submetiam a isso como forma de sobrevivência.”

Em meados do século XX, esse cenário começou a mudar na medida em que se consolidava o discurso em torno dos direitos humanos. Nos anos 1960, já existiam grupos fora do Brasil com uma proposta ética e humanista. “Manifestações artísticas feitas por pessoas com corpos diferenciados surgem principalmente a partir daquela década, com a arte da performance e por meio de iniciativas como o Teatro Nacional do Surdo, companhia norte-americana fundada em 1967”, prossegue Monteiro, portador de amiotrofia espinhal progressiva, doença neuromuscular que provoca perda muscular progressiva.

Também datam desse período as primeiras experiências cênicas do diretor norte-americano Robert Wilson, um dos principais nomes da cena teatral contemporânea, que não apenas inseriu pessoas com deficiência em seus espetáculos, bem como refletiu sobre a questão nos enredos. Uma de suas montagens é O olhar do surdo (1970), ópera silenciosa parcialmente inspirada nas percepções de um menino com deficiência auditiva. Segundo Monteiro, um marco para artistas e pesquisadores ocorreu nos anos 1980 com as artes da deficiência, movimento cultural que eclodiu nos Estados Unidos e no Reino Unido.

No Brasil, grupos com essa proposta emergiram na década de 1990, como informa Marcia

Berselli, do Departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul. Entre eles figura o Roda Viva Companhia de Dança, que surgiu na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em 1995 como Roda Viva Dança sobre Rodas, então composta de dançarinos cadeirantes. “Foi uma das primeiras iniciativas na profissionalização de artistas com deficiência no país, cujas montagens tiveram, inclusive, repercussão internacional”, diz Berselli, que está à frente do grupo de pesquisa

Teatro Flexível: Práticas Cênicas e Acessibilidade Uma das integrantes da companhia foi a pesquisadora, coreógrafa e performer Carolina Teixeira. Autora do livro Deficiência em cena, publicado em 2011 e reeditado 10 anos depois, ela tem os membros esquerdos paralisados em função de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico que sofreu na infância.

Outra iniciativa desse período é o Grupo Benjamin Constant. A companhia amadora que reunia crianças e adolescentes funcionou entre 2003 e 2015 no Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, especializado no atendimento a pessoas com deficiência visual. A experiência se desdobrou no Corpo Tátil, grupo profissional fundado em 2015, que existe até hoje e é composto apenas por adultos. As duas propostas foram idealizadas pela diretora teatral Marlíria Flávia, que não tem deficiência visual. “Ela desenvolveu práticas para fazer com que esse corpo que não enxerga consiga fazer uma mimese de um corpo que enxerga”, conta Pinheiro, da UEM. E exemplifica: “No caso de um ator que precise pescar em cena, sem nunca ter pescado na vida ou visto alguém pescando, 1

A pesquisadora e coreógrafa Carolina Teixeira na performance Poética protética

em vez de ajustar o corpo dessa pessoa, Marlíria propõe amarrar uma corda na cadeira da plateia e pede para esse ator puxar a corda. Depois, o processo se inverte e o ator se torna o peixe fisgado. Assim, se cria uma fisicalidade de alguém que está pescando.”

Segundo Berselli, da UFSM, o processo de formação de artistas no Brasil é ainda muito centrado em corpos que respeitam um padrão de normalidade. “Os outros que não se enquadram nessas perspectivas se tornam dissidentes, como corpos com deficiência, pessoas de faixas etárias avançadas ou que envolvam questões de gênero”, observa a pesquisadora. “Essa temática inclusiva deveria estar mais presente nos cursos de artes cênicas desde a graduação.”

No momento, Monteiro, da UFU, desenvolve o projeto de pesquisa “Corpos diferenciados e artivismo”. “A ideia é discutir o corpo com deficiência sem estigmatização ou discurso de superação, por exemplo. Faço isso por meio de produções cênicas que trazem corpos com deficiência, mas que não são evidenciados ou destacados por esse aspecto”, relata. Da lista fazem parte montagens encenadas por estrangeiros, como os performers Nicola Fornoni, da Itália, e Kamil Guenatri, nascido na Argélia e radicado na França, além de brasileiros, a exemplo dos bailarinos Marcos Abranches, de São Paulo, Carolina Teixeira, do Rio Grande do Norte, e Edu O., pseudônimo de Carlos Eduardo Oliveira do Carmo, professor da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Em tese de doutorado defendida em 2023 na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Edu O. refletiu sobre suas vivências na dança a partir

da teoria crip (teoria aleijada), desenvolvida pelo acadêmico norte-americano Robert McRuer, da Universidade George Washington, nos Estados Unidos, que questiona a normatividade compulsória do corpo em nossa sociedade. Com isso, criou o próprio conceito: a bipedia compulsória na dança. “A bipedia que organiza o mundo a partir de seu ponto de vista quer excluir e invisibilizar outras experiências”, constata o pesquisador, que é cadeirante.

Edu O. participa do Grupo X de Improvisação em Dança, sediado em Salvador. A companhia, criada no fim dos anos 1990 pelos professores da UFBA Fátima Daltro e David Iannitelli, não foi concebida a partir da deficiência física dos bailarinos. Porém a presença de integrantes com essa condição impactou o processo de criação do grupo. A partir de 2008, por exemplo, seus espetáculos passaram a contar com audiodescrição, recurso pouco utilizado em montagens de dança. “Quando não são focadas nas pessoas com deficiência, as companhias de dança não nos acolhem. Suas práticas e reflexões são voltadas para um corpo bastante normativo: em geral, jovem, magro e branco”, afirma o pesquisador.

Desde 2023, Edu O. coordena o Mapeamento Acessa Mais, fruto de uma parceria entre o Ministério da Cultura e a UFBA. O objetivo é fazer um levantamento em âmbito nacional de profissionais com deficiência no campo das artes cênicas, como produtores, técnicos e artistas. O relatório, em fase de organização e análise de dados, já reúne quase 4 mil nomes. Para ele, o diagnóstico é claro: “Falta visibilidade, mas não falta produção”. l

O bailarino Edu O. (terceiro a partir da esq.) em apresentação do Grupo X de Improvisação em Dança

Radar cultural

Teórica feminista, Heloisa Teixeira

ajudou a divulgar a poesia marginal e criou a Universidade das Quebradas

ANA BEATRIZ RANGEL

Teixeira em registro de 2023, no Rio de Janeiro

Em 2023, Heloisa Teixeira – até então conhecida como Heloisa Buarque de Hollanda – tomou posse como imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). Entretanto, o cerne de seu trabalho intelectual e acadêmico esteve sempre ligado à produção artística que “desafiava a eternidade da poesia”, como ela mesma descreveu em entrevista no ano passado ao podcast da revista literária Quatro Cinco Um. Os antagonistas da imortalidade literária eram os poetas da geração mimeógrafo, que ganharam o título de “geração” em razão do lançamento em 1976 da antologia 26 poetas de hoje (Editorial Labor), organizada por Teixeira. Professora emérita da Escola de Comu-

nicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela morreu no dia 28 de março, aos 85 anos.

A publicação da coletânea e posteriormente, em 1980, de sua tese de doutorado intitulada “Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde (1960/70)” (Editora Brasiliense), defendida no ano anterior na UFRJ, foram duramente criticadas por legitimar uma produção considerada vulgar e mal escrita. No entanto, como defendem os sociólogos André Botelho, professor da UFRJ, e Caroline Tresoldi, pesquisadora da mesma instituição, no artigo “Democratização da cultura: Heloisa Buarque de Hollanda e a crítica brasileira dos anos 1970” (2025), Teixeira buscou “documentar a pluralidade de

estratégias da poesia como uma espécie de território privilegiado do testemunho de uma experiência social jovem”. A coletânea iluminou muitos nomes da dita poesia marginal, como Ana Cristina Cesar (1952-1983) e Roberto Piva (1937-2010), destaca Marcos Siscar, do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Heloisa teve papel fundamental na promoção da nova poesia dos anos 1970, no sentido de referendar aquela produção”, afirma o pesquisador. Com o tempo, sua tese se tornou um marco da crítica cultural do Brasil, como ressalta Botelho, autor da biografia Helô Teixeira: Crítica como vida (Bazar do Tempo, 2024), em parceria com Tresoldi. “O trabalho não só inovou na temática, como também desafiou a forma tradicional do discurso acadêmico, valendo-se da narrativa em primeira pessoa”, conta o sociólogo.

Teixeira nasceu em Ribeirão Preto (SP) em 1939, mas se mudou na infância para o Rio de Janeiro, cidade onde cresceu e construiu a trajetória acadêmica. Formou-se em letras clássicas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) em 1961, e três anos depois iniciou a carreira de professora universitária na UFRJ, como assistente do crítico literário Afrânio Coutinho (1911-2000). Na ocasião, ministrava disciplinas sobre os escritores Lima Barreto (1881-1922) e José de Alencar (1829-1877).

A pesquisadora sempre buscou criar um diálogo entre a literatura e outras manifestações artísticas. Em sua dissertação de mestrado, “Macunaíma: Da literatura ao cinema” (1978), defendida na UFRJ, analisou a transposição do clássico de Mário de Andrade (1893-1945) para as telas. O cinema, aliás, foi não só objeto de pesquisa, mas de prática; ela dirigiu documentários, entre os quais se destacam Joaquim Cardozo (1977) e Dr. Alceu (1981). Na década de 1980, esteve à frente do Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro, a convite do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), então vice-governador do estado.

A crítica sobre o autoritarismo dos anos de chumbo e suas influências sobre a produção cultural do país tornou-se fundante de sua trajetória acadêmica. Além das tensões do cenário político

brasileiro, o estágio de pós-doutorado em sociologia da cultura, em 1984, supervisionado por Jean Franco (1924-2022), na Universidade Columbia, em Nova York (EUA), fez com que ela acrescentasse uma nova camada ao seu trabalho de pesquisa: os estudos de gênero e raça.

Professora aposentada de literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP), Nádia Battella Gotlib conheceu Teixeira nos anos 1980, quando foi criado o grupo de trabalho “A mulher na literatura”, ligado à Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll). “Heloisa estimulou e sedimentou os ‘estudos da mulher’ no país, com a publicação de várias obras sobre o feminismo”, diz Gotlib.

A vinculação aos movimentos feministas se consolidou academicamente em 1986, quando Teixeira fundou na UFRJ o Centro Interdisciplinar de Estudos Contemporâneos (Ciec) para desenvolver pesquisas sobre a produção cultural contemporânea, com foco nos debates de raça e gênero. Naquele período, também publicou o livro Tendências e impasses: O feminismo como crítica da cultura (1994), pela editora Rocco.

A pesquisadora não deixou de acompanhar a emergência da quarta onda feminista – o que inclusive a motivou a renunciar em 2023 ao sobrenome do primeiro marido, o advogado Luiz Buarque de Hollanda (1939-1999). Nos últimos anos lançou títulos que continuaram a

mobilizar intensos debates intergeracionais, a exemplo do ensaio Feminista, eu? (Bazar do Tempo, 2022), além de ter organizado obras como Explosão feminista: Arte, cultura, política e universidade (Companhia das Letras, 2018) e Pensamento feminista hoje: Sexualidades no Sul Global (Bazar do Tempo, 2020). Em 1994, Teixeira idealizou o Programa Avançado de Cultura Contemporânea (Pacc), projeto de extensão vinculado àquela universidade, que articula ensino e pesquisa em formatos experimentais. Mais tarde, em 2009, criou ao lado de Numa Ciro, doutora em literatura pela UFRJ, a Universidade das Quebradas, vinculada ao Pacc e descrita pela pesquisadora no discurso da ABL como seu “maior projeto”. Trata-se de um programa de especialização e aperfeiçoamento para produtores e artistas das periferias, baseado no intercâmbio de saberes acadêmicos e populares.

Desde a fundação, o projeto acolheu “800 participantes, ampliando o acesso democrático a instituições de pesquisa e valorizando a diversidade”, conta Eduardo Coelho, professor da Faculdade de Letras da UFRJ e atual coordenador do Pacc. O trabalho da Universidade das Quebradas é mais um registro do esforço da pesquisadora em construir “canais de escuta, de encontro e de diálogo com demandas plurais” no universo acadêmico, acrescenta Drica Madeira, coordenadora pedagógica da iniciativa, que foi orientada por Teixeira no doutorado em letras na UFRJ.

Voltada a produtores e artistas das periferias, a Universidade das Quebradas busca o intercâmbio de saberes acadêmicos e populares

No ano passado, Teixeira, por meio da Universidade das Quebradas, organizou um ciclo de conferências e oficinas sobre o escritor Machado de Assis (1839-1908), em parceria com a ABL. Com o título “Machado quebradeiro”, o evento tratou do autor e de sua obra pelos recortes de raça e classe. “Heloisa gostava de provocar ‘curtos-circuitos’ com o objetivo de estabelecer novas formas de circulação e compartilhamento de ideias”, comenta Hélio de Seixas Guimarães, professor de literatura brasileira da USP e estudioso de Machado.

Teixeira morreu por complicações de uma pneumonia e insuficiência respiratória aguda. Deixa os filhos Lula, Pedro e André, além de sete netos. Era viúva do fotógrafo João Carlos Horta, morto em 2020. l

Diretrizes para a saúde pública

Há 100 anos, o médico Geraldo de Paula Souza instituiu uma reforma sanitária valorizando a água clorada, os centros de saúde e a boa alimentação

SUZEL TUNES

No registro de fundação da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1948, há uma referência especial a um brasileiro. Logo no início de seu discurso de posse da presidência da Conferência Internacional de Saúde de 1946, em São Francisco, nos Estados Unidos, o cirurgião norte-americano Thomas Parran (1892-1968) fez um agradecimento ao “Doutor de Paula Souza” e ao “Doutor Szeming Sze” –o sanitarista Geraldo Horácio de Paula Souza (1889-1951) e o diplomata Szeming Sze (1908-1998), representantes do Brasil e da China. Os dois, ele ressaltou, foram os responsáveis pela articulação que permitiu a realização daquele encontro e a introdução da saúde como um dos temas da assembleia de criação da Organização das Nações Unidas (ONU), a chamada Carta das Nações Unidas, um ano antes, que viabilizou a criação da OMS.

A Carta das Nações Unidas “nem sequer continha os termos saúde ou higiene”, comentou Paula Souza em uma entrevista à extinta Rádio Excelsior em 26 de novembro de 1949. Nessa entrevista,

citada em um artigo de 1984 na Revista de Saúde Pública , ele contou que havia proposto a criação de “uma agência de saúde pública internacional, dependente das Nações Unidas ou a elas filiada”, mas a sugestão só foi aceita depois de “longas conversações e arranjos” e o apoio da delegação chinesa.

Paula Souza era uma figura conhecida no meio acadêmico brasileiro e internacional. Doutor pela então recém-criada Escola de Higiene e Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e primeiro diretor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), havia empreendido, em 1925, uma reforma sanitária que ampliava a visão centrada em obras de infraestrutura e incluía a educação sanitária. Inspirada no modelo norte-americano disseminado pela Fundação Rockefeller, a reforma se baseava na criação de centros de saúde e cursos de educadores sanitários para formar o que ele chamava de “consciência sanitária” da população. “A grande contribuição de Paula Souza foi apostar na formação de agentes de saúde

pública para prevenir a disseminação de muitas doenças infecciosas”, sintetiza o historiador Jaime Rodrigues, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus de Guarulhos.

ELITE CAFEEIRA

O sobrenome Paula Souza já era conhecido e respeitado no final do século XIX, quando o futuro sanitarista nasceu, em Itu, interior paulista. Seu pai, Antônio Francisco de Paula Souza (1843-1917), representante da elite cafeeira paulista, foi um engenheiro de projeção nacional, deputado estadual, fundador e, por 24 anos, até morrer, o primeiro diretor da Escola Politécnica, que viria a formar a USP. O filho preferiu as ciências biomédicas. Com 16 anos, ingressou na Escola de Farmácia de São Paulo e três anos depois iniciou outra graduação, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Durante as férias, trabalhava na Politécnica da USP com o médico-veterinário suíço-brasileiro Roberto Hottinger (1875-1942), que o encaminhou para estágios na Alemanha, França e Suíça.

Nas primeiras décadas do século XX, as chuvas já causavam problemas na cidade de São Paulo, forçando os carros, como o da Saúde Pública (à dir.), a andar pela calçada

Dejetos de uma latrina (à dir.) caem sobre córrego Saracura Grande, no atual bairro do Bixiga, perto de uma área usada por lavadeiras (à esq.)

Em 1913, formado em medicina, Paula Souza começou a trabalhar como assistente de Hottinger em seu laboratório da Escola Politécnica. Juntos, fizeram uma série de experimentos para avaliar a qualidade da água distribuída na cidade de São Paulo. “Eles se preocupavam com as doenças de veiculação hídrica, como a febre tifoide”, explica a cientista social Cristina de Campos, da Universidade São Judas Tadeu, que estudou a trajetória do médico em seu mestrado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, com apoio da FAPESP. Hottinger e Paula de Souza desenvolveram um dispositivo

chamado perfector, à base de ozônio, para purificação da água. Mais tarde, como diretor do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo, a cloração da água distribuída na cidade seria sua primeira medida.

Em 1914, Paula Souza assumiu o cargo de professor assistente do Departamento de Química da recém-criada Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. O passo seguinte, crucial para sua formação, seria o doutorado em higiene e saúde pública nos Estados Unidos, por meio da Fundação Rockefeller. A formação nos Estados Unidos só foi possível pelo convênio firmado entre a Rockefeller e o governo paulista que criou, em 1918, o Instituto de Higiene, embrião da FSP-USP (ver Pesquisa FAPESP nº 264). O acordo previa o envio de dois médicos brasileiros como bolsistas para estudar na Escola de Higiene da Johns Hopkins. Os escolhidos foram os médicos Francisco Borges Vieira (1893-1950) e Paula Souza, que se tornaram os primeiros brasileiros a receber o título de doutor em higiene e saúde pública. “Como representantes da alta elite paulistana, eles foram escolhidos a dedo”, afirma o médico Guilherme Arantes Mello, da Unifesp, que escreveu sobre essa fase da saúde pública no Brasil em um artigo de dezembro de 2011 na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos.

Retrato de Paula Souza em seu gabinete de trabalho

Paula Souza assumiu a direção do Instituto de Higiene logo que voltou dos Estados Unidos, em 1921. Dez anos depois, por sua iniciativa, o instituto foi transformado em Escola de Higiene e Saúde Pública do Estado e incorporado à USP em 1934. Em 1945 foi renomeada como Faculdade de Higiene e Saúde Pública, ainda sob sua direção, e ganhou o nome atual em 1969.

Em 1922, Paula Souza assumiu a direção do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo e três anos depois promulgou um novo Código Sanitário, que enfatizava a educação sanitária dos moradores da cidade. Ele argumentava que um ambiente saneado seria ineficiente sem a formação de uma “cultura sanitária”. A economista Maria Alice Rosa Ribeiro, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), reproduz em seu livro História sem fim... Inventário da saúde pública (Unesp, 1993) o trecho de uma conferência em que ele explicita esse ponto de vista, não sem uma boa dose de preconceito: “Coloquemos o caboclo ignorante na casa do patrão e este na choça do caboclo, ou o proprietário de Higienópolis no cortiço do Brás e a família inculta no palácio do primeiro e observe o acerto do que afirmo: rápida seria a transformação da choça e do mucambo em locais compatíveis com a vida digna, bem como a da casa grande e do palácio nos mais perigosos antros da doença e da miséria”.

Dentro dessa concepção, o indivíduo deveria ser educado a fim de não colocar em risco toda a sociedade. “Havia uma

demanda social para o controle das epidemias, que afetavam ricos e pobres e traziam prejuízos às atividades econômicas”, destaca a enfermeira sanitarista Maria Cristina da Costa Marques, coordenadora do Centro de Memória da FSP-USP, que guarda o acervo de Paula Souza. “Esse é um modelo que se consolida de braço dado com um projeto político e econômico de fortalecimento do estado.” Sob influência da eugenia, pseudociência racista que apregoava o melhoramento da “raça brasileira”, buscava-se formar uma nação de trabalhadores disciplinados, fortes e saudáveis. Segundo Marques, Paula Souza, como outros sanitaristas da época, era influenciado pela eugenia.

Paula Souza trouxe dos Estados Unidos o modelo dos health centers, os centros de saúde, com um papel essencialmente preventivo: visavam popularizar bons hábitos de higiene e divulgar temas de interesse sanitário por meio de aconselhamento pessoal, palestras, folhetos e exposições. Papel-chave nesse trabalho de orientação e divulgação cabia às educadoras sanitárias, que também atuavam nas escolas e em visitas domiciliares. Um Curso de Educação Sanitária foi criado em 1925, no Centro de Saúde Modelo instalado no Instituto de Higiene. Destinava-se a professoras primárias, como estratégia para compensar a escassez de enfermeiras.

A partir de São Paulo, a ideia dos centros de saúde se espalhou por todo o país. “Foi um tsunami rockefelleriano”, brinca Mello. Na Bahia, a reforma sanitária também data de 1925. O enfermeiro sanitarista Nildo Batista Mascarenhas, da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), conta que essa reforma também mirava o controle das doenças infectocontagiosas pela educação nos centros de saúde e nas visitas domiciliares, a cargo das visitadoras sanitárias, como eram chamadas as educadoras no estado. Paula Souza e Antônio Luis Cavalcanti de Albuquerque de Barros Barreto (1892-1954), à frente da Subsecretaria de Saúde e Assistência Pública da Bahia, “eram frutos do mesmo projeto político de saúde pública, do grupo de Carlos Chagas [1879-1934] e outros higienistas renomados”, diz Mascarenhas,

Educadora sanitária (à dir.) orienta mulher sobre como melhorar os cuidados com a higiene das crianças
Paula Souza (em primeiro plano, à esq.) com seus colegas da Universidade Johns Hopkins

um dos autores de um artigo sobre a política de saúde na Bahia publicado em novembro de 2020 na Revista Baiana de Saúde Pública. Filho da elite pernambucana, Barros Barreto também foi bolsista da Rockefeller e se formou doutor em Saúde Pública pela Johns Hopkins.

A Revolução de 1930, que colocou Getúlio Vargas na Presidência do país, marcou o início de um período de centralização das ações de saúde, que inibiu as iniciativas estaduais. “A nova política de saúde se voltaria gradativamente para a atenção médico-hospitalar, em detrimento das ações de saúde pública destinadas à coletividade”, diz Mascarenhas. Em meio à instabilidade política e a resistências na Assembleia Legislativa do estado, Paula Souza não conseguiu instalar todos os centros de saúde que almejava: dos oito planejados, apenas três saíram do papel, o centro modelo, no Instituto de Higiene, e outros dois nos bairros do Brás e Bom Retiro.

Mesmo assim, a semente do novo modelo de medicina preventiva já estava lançada, argumenta Mascarenhas, que vê na educadora ou visitadora sanitária similaridade com o atual agente comunitário de saúde, pensado como o elo do serviço de saúde com os domicílios. “Esse modelo permanece na saúde pública brasileira”, observa. “O centro de saúde com essa perspectiva comunitária, integrada com as famílias, é uma herança histórica muito clara dessa estratégia.”

A orientação nutricional era uma parte importante da educação sanitária preconizada por Paula Souza, que conheceu a profissão de nutricionista nos Estados Unidos. Entre 1932 e 1933, ele orientou a primeira pesquisa sobre hábitos alimentares da população realizada na cidade de São Paulo. O inquérito alimentar demonstrou dificuldades no consumo de feijão em comparação com outros alimentos. Ele sugeriu, então, a criação de feijoarias populares. “Seriam criadas cozinhas distritais, onde se poderia comprar feijão em pequenas quantidades, já cozido, assim como se comprava pãozinho na padaria, que havia substituído o pão feito em casa.

A panela de pressão ainda não era comum e o feijão, de alto valor nutritivo, era o alimento cujo preparo consumia mais tempo e combustível”, conta Rodrigues. O Serviço Social da Indústria (Sesi) chegou a instalar uma cozinha distrital no bairro do Tatuapé, mas as feijoarias não foram adiante.

Com apoio da FAPESP, Rodrigues reuniu 2.600 documentos sobre o sanitarista, apresentados no Inventário analítico do Arquivo Geraldo Horácio de Paula Souza, publicado pela FSP-USP em 2007. A pesquisa correu com relativa facilidade porque o médico guardava toda a correspondência e os recortes de jornal que o citavam. “Havia inclusive cópias carbonadas das cartas que ele enviava. Era como se ele já tivesse a pretensão de construir uma memória que ficasse após sua morte”, comenta.

Paula Souza trabalhou de 1927 a 1929 em Genebra na Organização de Saúde da Liga das Nações, que procurava solucionar problemas globais de saúde pública. Enfraquecida, a Liga foi extinta logo após a Segunda Guerra Mundial e parte de suas funções incorporadas pela OMS.

Paula Souza foi um dos vice-presidentes da instituição criada em 1948 até morrer, três anos depois, aos 62 anos, de infarto fulminante, às vésperas de uma viagem a trabalho. l

Os projetos, os artigos científicos e os livros consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

Como parte da educação sanitária, crianças aprendem na escola a escovar os dentes
Paula Souza participa da cerimônia de assinatura da constituição da OMS, em 22 de julho de 1946 em Nova York

Na teoria e na prática

A pedagoga Caroline Jango investiga formas de combater o racismo no ambiente escolar

Minha opção pela área da educação aconteceu ainda na adolescência. Aos 14 anos, ingressei no Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério [Cefam], em Campinas, cidade próxima a Hortolândia, onde cresci, no interior de São Paulo. Fruto de uma política pública estadual, o curso durava quatro anos, funcionava em período integral e os alunos recebiam uma bolsa de estudo. Minha mãe é dona de casa e meu pai metalúrgico. Por ter sido educada em uma família da classe trabalhadora, o ensino médio profissionalizante se desenhava como uma oportunidade segura de carreira.

Seja na vizinhança de minha casa, na escola ou no ambiente de trabalho, percebia que o racismo e a discriminação eram (e ainda são) práticas recorrentes, que muitas vezes acontecem de modo velado. Desde cedo entendi que era possível melhorar as condições socioeconômicas, como foi o caso do meu pai, mas

não fugir da opressão racista. E foi na universidade que comecei a encontrar as respostas para a profunda indignação que sentia em relação a essa injustiça.

Em 2005, ingressei no curso noturno de pedagogia da Faculdade de Educação da Unicamp [Universidade Estadual de Campinas]. Já no primeiro ano, comecei a pesquisar sobre racismo na educação. Em meu trabalho de conclusão de curso [TCC], investiguei os mecanismos de discriminação racial na educação infantil. Entrevistei professores que, como eu naquela ocasião, trabalhavam nas creches da rede municipal de educação de Paulínia [SP]. A partir da abordagem da psicologia social, busquei compreender as representações sociais em materiais didáticos, como livros e jogos, e de que forma esses recursos, enquanto escolhas pedagógicas, reforçam mecanismos de discriminação étnico-racial.

Após terminar a graduação, em 2008, passei a conciliar meu trabalho na creche com uma atividade de formação de

professores em várias cidades do estado de São Paulo, a partir dos resultados da pesquisa do TCC. Para mim, esse é o verdadeiro sentido de uma pesquisa: compartilhar os resultados do estudo para além dos meus pares da academia, algo que faço até hoje.

Aos 22 anos, concluí a graduação e, incentivada pela minha orientadora no TCC, a professora Ângela Fátima Soligo, submeti um projeto de pesquisa e fui aceita no programa de mestrado em educação da Unicamp, que iniciei em 2010. Na pesquisa investiguei as representações sociais que as crianças negras têm sobre a escola. Entrevistei 57 alunos do ensino fundamental, com idades entre 8 e 9 anos, de escolas dos 19 municípios da Região Metropolitana de Campinas, a exemplo de Hortolândia. Foi a partir da fala de uma das meninas ouvidas pelo estudo que surgiu o título da dissertação, “‘Aqui tem racismo!’: Um estudo das representações sociais e das identidades das crianças negras na

Jango no laboratório

Ubuntu Maker (à esq.) e no Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério ( primeira à dir.)

escola”. O trabalho acabou virando um livro com o mesmo título [Editora Livraria da Física, 2018], que hoje compõe o material de formação de professores da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

Em 2013, um ano após ter concluído o mestrado, passei em um concurso para pedagoga no Instituto Federal de São Paulo no campus de Hortolândia (IFSP-HTO) e logo em seguida fui convidada para assumir a então recém-criada diretoria adjunta de desenvolvimento comunitário na Pró-reitoria de Extensão do instituto, sediada na capital paulista. Tive a oportunidade de participar da construção dessa iniciativa, um projeto que acabou inspirando o tema do meu doutorado, realizado também na Unicamp e defendido em 2018. Na tese busquei entender o potencial dessa proposta no sentido de promover a história e a cultura africana e afro-brasileira.

Em minha passagem pela Pró-reitoria participei da criação do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas [Neabi], que coordenei por cinco anos e em 2025 completa 10 anos. Formado por servidores, pesquisadores e estudantes do IFSP, o Neabi busca novos caminhos de inserção efetiva do indígena e

do afro-brasileiro em todas as esferas da sociedade, das quais foram e ainda são excluídos. Ainda hoje a representatividade de servidores negros no IFSP não chega a 20%. Temos desafios gigantescos a ser transpostos e acredito que um dos caminhos é criar repertórios baseados na cultura africana e afro-brasileira para diferentes públicos.

Foi pensando nisso que, em 2019, já de volta ao campus de Hortolândia, idealizei o projeto de pesquisa “AfroIF: Currículo, pensamento decolonial e formação docente”. Com a participação de pesquisadores do Neabi e recursos da organização não governamental Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades [Ceert], realizamos entre 2020 e 2022 um diagnóstico das práticas pedagógicas dos professores que atuam na educação básica técnica dos 36 campi do IFSP. Em seguida, a partir das informações coletadas, promovemos um ciclo formativo orientado à reeducação das relações étnico-raciais e de gênero.

Faltava contemplar o eixo de extensão do projeto. Isso aconteceu em 2020, quando me tornei diretora-geral do campus de Hortolândia do IFSP e me dediquei à criação do laboratório Ubuntu Maker. Equipado com impressoras 3D, o Ubuntu conta com a participação de alunos e professores do instituto. Ali, produzimos material didático afro-referenciado – como jogos e mapas – que possa auxiliar a reduzir a desigualdade racial na educação.

O nome é inspirado na filosofia africana Ubuntu, que valoriza a solidarie -

dade e o trabalho coletivo. Desde o ano passado, por meio de recursos de uma emenda parlamentar federal, o Ubuntu Maker se desdobrou em um programa de ciência cidadã e de divulgação científica que atende 10 escolas da rede pública estadual nas cidades de Hortolândia, Sumaré e Paulínia, sempre com foco na educação antirracista e antissexista.

À frente do IFSP-HTO também pude contribuir na construção de uma parceria com o Ceert e com a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão [Secadi], ligada ao Ministério da Educação, para executar um programa de formação para gestores na área de equidade racial. Entre junho e dezembro do ano passado, cerca de 450 gestores educacionais, de mais de 120 municípios do país, participaram desses cursos.

Fico na direção do instituto até 2029. Um de meus objetivos é possibilitar a ampliação do programa Ubuntu Maker a partir da consolidação de espaços adequados no IFSP-HTO e em outras instituições, possibilitando que mais estudantes tenham acesso aos projetos. Além disso, pretendo fazer do nosso campus uma referência em educação antirracista, mas sei que isso é algo que não depende só de mim. Também quero escrever um livro sobre gestão feminista e antirracista para compartilhar minha experiência e, quem sabe, inspirar outras mulheres, especialmente outras mulheres negras, a trilharem o caminho da pesquisa e da gestão. l

SAIBA MAIS
Ubuntu Maker

Para estancar a destruição

Osilêncio da motosserra: Quando o Brasil decidiu salvar a Amazônia , escrito pelo jornalista Claudio Angelo com colaboração do ambientalista Tasso Azevedo, é um livro fenomenal, que relata os caminhos do desmatamento e de sua redenção em um Brasil tentando se estabelecer como uma democracia. A narrativa jornalística é construída com sólida base de dados e mais de duas centenas de entrevistas. Ao longo de 20 capítulos de leitura fluida e cativante, cheios de histórias e bastidores, conhecemos políticos, ambientalistas, cientistas, indigenistas e lideranças comunitárias e religiosas que marcaram, com sua vida e morte, a história da devastação da Amazônia e seu entorno, além das estratégias traçadas para estancar essa destruição entre 2005 e 2012.

com destaque para a criação e o desenvolvimento do sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que monitora as mudanças do uso do solo, o desmatamento e as queimadas. Outro ponto alto é a existência de um movimento socioambiental com sólida base social, mas também científica, que, com atores políticos e governamentais, concatenou uma inesperada vitória da conservação sobre a destruição predatória da Amazônia.

A leitura é deliciosa e instigante. Entretanto, se você, como eu, gosta de uma cronologia linear de acontecimentos, os capítulos não mantêm uma linha do tempo unidirecional: faz voltas, às vezes repetidas, ao passado e a certos personagens. Isso torna a leitura em alguns momentos difícil e traz uma certa sensação de déjà vu .

Editora Companhia

das Letras

472 páginas

R$ 109,90

É notável como a intricada (re)construção histórica feita pelos autores demonstra como uma visão enviesada da época da ditadura militar de “integração” da Amazônia marca (até tempos recentes) o destino da região, deixando mortos, órfãos e muita impunidade. Essa ação desenhada nos anos 1960 e 1970 resultou em desmatamento desenfreado, loteamento político do território, aniquilação de povos indígenas e também em uma estrutura de latifúndios, grilagem, extração de madeira e mineração ilegal, sustentada pelo crime organizado que tentamos deter até hoje.

Em tempos do filme Ainda estou aqui, os autores narram com destreza como a ditadura não ceifou apenas a vida de deputados e cidadãos. Com a pecha de integração nacional, o regime militar promoveu a devastação florestal associada à dizimação de povos indígenas. Tudo lastreado por uma distribuição duvidosa de dinheiro público a fundo perdido ao agronegócio, que tem papel central nesse processo de degradação da mata pelo “pé de boi”.

O alto índice de desmatamento, que se inicia na ditadura militar, tem como marcos na discussão de sua avaliação e contenção a entrada do Brasil no cenário ambiental no governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992), primeiro presidente eleito pelo voto popular após 21 anos de regime militar, e a Rio-92. Mas a destruição da floresta só teve uma queda expressiva no período de 2005 a 2015. Tudo isso é narrado oferecendo o contexto do crescimento da ciência das mudanças do clima,

Porém a força da narrativa vence e desvenda os personagens reais, chave da criação de uma consciência nacional de conservação contra o desmatamento e da luta pelo desenvolvimento sustentável e pela justiça ambiental e social. É emocionante ver quantas mulheres estiveram envolvidas nessa caminhada. E também perceber a importância do contexto histórico e de nomear personagens, o que só é possível devido à experiência e participação pessoal de Angelo e Azevedo em todo esse processo.

Os autores mostram que o debate multissetorial do que seria integrar a Amazônia sem desmatá-la e das opções para seu uso sustentável conseguiu se impor (em certa medida) aos interesses econômicos e políticos imediatistas de uma pequena minoria detentora de latifúndios. Contudo, nos capítulos finais, eles alertam que essa é uma luta contínua e que sofreu retrocessos após 2015, com grandes perdas e danos à floresta amazônica e ao Cerrado, bem como aos povos indígenas. A explosão do desmatamento entre 2018 e 2022 transformou o Brasil, antes líder, em pária ambiental.

Em 2023, o ecocídio foi interrompido com a volta da busca de um modelo de desenvolvimento que mantenha viva – com desmatamento zero –a maior floresta tropical da Terra. Espera-se que esse projeto prospere.

A bióloga Patricia Morellato é professora da Unesp, campus de Rio Claro, e coordenadora do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças Climáticas (CBioClima).

PATRICIA MORELLATO
O silêncio da motosserra – Quando o Brasil decidiu salvar a Amazônia
Claudio Angelo (com a colaboração de Tasso Azevedo)

PRESIDENTE

Marco Antonio Zago

VICE-PRESIDENTE

Carmino Antonio de Souza

CONSELHO SUPERIOR

Antonio José de Almeida Meirelles, Helena Bonciani Nader, Herman Jacobus Cornelis Voorwald, Marcílio Alves, Maria Arminda do Nascimento Arruda, Mayana Zatz, Mozart Neves Ramos, Pedro Luiz Barreiros Passos, Pedro Wongtschowski, Thelma Krug

CONSELHO TÉCNICO-ADMINISTRATIVO

DIRETOR-PRESIDENTE

Carlos Américo Pacheco

DIRETOR CIENTÍFICO

Marcio de Castro Silva Filho

DIRETOR ADMINISTRATIVO

Fernando Menezes de Almeida

pesquisafapesp

COMITÊ CIENTÍFICO

Luiz Nunes de Oliveira (Presidente), Américo Martins Craveiro, Ana Claudia Torrecilhas, Ana Maria Fonseca de Almeida, Carlos Américo Pacheco, Carlos Graeff, Celio Haddad, Dario Simões Zamboni, Daniel Scherer Moura, Deisy de Souza, Douglas Zampieri, Eduardo Zancul, Eduardo Magalhães Rego, Fernando Menezes de Almeida, Fabiana Cristina Komesu, Flávio Henrique da Silva, Flávio Vieira Meirelles, Gustavo Dalpian, Helena Lage Ferreira, João Pereira Leite, José Roberto de França Arruda, Liliam Sanchez Carrete, Luiz Vitor de Souza Filho, Marcio de Castro Silva Filho, Mariana Cabral de Oliveira, Marco Antonio Zago, Maria José Giannini, Marta Arretche, Michelle Ratton Sanchez Badin, Nina Stocco Ranieri, Paulo Schor, Reinaldo Salomão, Richard Charles Garratt, Rodolfo Jardim Azevedo, Sergio Costa Oliveira, Sydney José Lima Ribeiro, Sylvio Canuto

COORDENADOR CIENTÍFICO

Luiz Nunes de Oliveira

DIRETORA DE REDAÇÃO

Alexandra Ozorio de Almeida

EDITOR-CHEFE

Neldson Marcolin

EDITORES Fabrício Marques (Política Científica e Tecnológica), Carlos Fioravanti (Ciências da Terra), Marcos Pivetta (Ciências Exatas), Maria Guimarães (Ciências Biológicas), Ricardo Zorzetto (Ciências Biomédicas), Ana Paula Orlandi (Humanidades), Yuri Vasconcelos (Tecnologia)

REPÓRTERES Christina Queiroz e Sarah Schmidt

ARTE Claudia Warrak (Editora), Júlia Cherem Rodrigues e Maria Cecilia Felli (Designers), Alexandre Affonso (Editor de infografia)

FOTÓGRAFO Léo Ramos Chaves

BANCO DE IMAGENS Valter Rodrigues

SITE Yuri Vasconcelos (Coordenador), Jayne Oliveira (Coordenadora de produção), Kézia Stringhini (Redatora on-line)

MÍDIAS DIGITAIS Maria Guimarães (Coordenadora), Renata Oliveira do Prado (Editora de mídias sociais), Vitória do Couto (Designer digital )

VÍDEOS Christina Queiroz (Coordenadora)

RÁDIO Fabrício Marques (Coordenador) e Sarah Caravieri (Produção)

REVISÃO Alexandre Oliveira e Margô Negro

REVISÃO TÉCNICA Ana Maria Fonseca de Almeida, Angela Krabbe, Deisy de Souza, Fabiana Komesu, Jean Ometto, José Roberto Arruda, Gabriela Pellegrino Soares, Gustavo Wiederhecker, Gustavo Romero, Maria de Fátima Morethy Couto, Reinaldo Salomão

COLABORADORES Ana Beatriz Rangel, Arthur Marchetto, Danilo Albergaria, Domingos Zaparolli, Frederico Salles, Gilberto Stam, Giselle Soares, João Marcos Rosa / Nitro, Mariana Ceci, Marina Sader, Patricia Mariuzzo, Patrícia Morellato, Renata Fontanetto, Renato Pedrosa, Sandra Jávera, Sinésio Pires Ferreira, Suzel Tunes, Veridiana Scarpelli

MARKETING E PUBLICIDADE Paula Iliadis

CIRCULAÇÃO Aparecida Fernandes (Coordenadora de Assinaturas)

OPERAÇÕES Andressa Matias

SECRETÁRIA DA REDAÇÃO Ingrid Teodoro

É PROIBIDA A REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL DE TEXTOS, FOTOS, ILUSTRAÇÕES E INFOGRÁFICOS SEM PRÉVIA AUTORIZAÇÃO

TIRAGEM 28.250 exemplares

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DISTRIBUIÇÃO RAC Mídia Editora

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PESQUISA FAPESP Rua Joaquim Antunes, nº 727, 10º andar, CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP FAPESP Rua Pio XI, nº 1.500, CEP 05468-901, Alto da Lapa, São Paulo-SP

Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO

VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS

Esse aumento foi global (“Violência escolar aumenta nos últimos 10 anos no Brasil”, edição 350). Outros países que nunca tinham registrado essa violência nas escolas começaram a notificá-la, sobretudo após o incidente de Columbine (1999), nos Estados Unidos, que ocorreu quando a internet e os avanços nos meios de comunicação estavam a se tornar mais generalizados. Parabéns por organizar os estudos em variáveis. Essas violências são muito complexas e não podem ser interpretadas de maneira unívoca.

Heidany Melo

Está uma loucura mesmo. A grande maioria é de alunos e alunas que respeitam o professor, mas existe uma minoria que atrapalha e, dependendo da situação, tudo se complica.

Henrique Ribeiro

EXAME DE MAMA

Finalmente uma esperança para nos livrar daquela tortura medieval chamada mamógrafo (“Micro-ondas para caçar tumores”, edição 350).

Ana Paula Fuzaro

Rezei tanto para um cientista descobrir um aparelho melhor que o de mamografia, que causa muita dor. Para minha surpresa, veio essa esperança

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maravilhosa. Espero que a visualização se torne eficaz.

Regina Sanches

CÓDIGOS DE CONDUTA

Excelente texto (“Estudo analisa a importância de códigos de conduta em conferências para prevenir assédio sexual”, edição 349). É um ponto de partida para que congressos brasileiros estabeleçam códigos de conduta.

Roseli Rodrigues de Mello

INOVAÇÃO

Pesquisa muito relevante, que permite entender os acertos do modelo de parcerias que são necessárias ao desenvolvimento da ciência brasileira (“As teias que ligam universidades e empresas”, edição 350).

Marcus Cesso

JORGE AMADO

Para mim, é o maior escritor brasileiro (“Expressão nacional”, edição 350). Por vezes, repudiado por ser muito popular. Genial e honesto, merece toda reverência.

Ademar Martins Ferreira

Sua opinião é bem-vinda. As mensagens poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.

CONTATOS

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fotolab o conhecimento em imagens

Sua pesquisa rende fotos bonitas? Mande para imagempesquisa@fapesp.br Seu trabalho poderá ser publicado na revista.

Voo breve

A foto acima é uma visão rara: você dificilmente encontrará um adulto da ordem dos efemerópteros. Como sugere o nome, eles vivem no máximo 24 horas, o tempo de se reproduzirem. Os machos, como esse, morrem logo após a cópula. As fêmeas ainda precisam cumprir uma missão, que é voar rio acima para depositar os ovos às suas margens. As ninfas imaturas dessa espécie recém-descrita, Cloeodes tovauna, vivem nas águas do Parque Estadual Serra do Brigadeiro, na porção leste de Minas Gerais. A presença desse inseto costuma indicar ambientes aquáticos saudáveis.

Imagem enviada pelo entomólogo Frederico Salles, professor da Universidade Federal de Viçosa

TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

THELMA KRUG

PhD em Estatística Espacial pela University of Sheffield, no Reino Unido, Thelma Krug foi pesquisadora da Coordenação de Observação da Terra no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), do MCTIC, vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), para o sexto ciclo do painel (outubro de 2015 –outubro de 2022), e copresidente do grupo de trabalho do IPCC sobre Inventários Nacionais de Gases de Efeito Estufa de 2002.

EVENTO PRESENCIAL 30 MAI 2025

das 10h às 11h30

Essa conferência debaterá as orientações das políticas nacionais relacionadas ao desenvolvimento de fontes renováveis, exploração de petróleo e melhoria da eficiência energética de equipamentos elétricos e veículos automotores para subsidiar as discussões na COP30. A conferência terá foco em questões relacionadas à captura e armazenamento de carbono (BECCS) e à captura, uso e armazenamento de carbono (CCUS) em atividades de difícil abatimento, especialmente nos setores energético e industrial, e no desenvolvimento de rotas de produção, armazenamento e uso de hidrogênio de baixo carbono. www.fapesp.br/conferencias

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