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Prêmio FCW 2003

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F undação C o nrado W essel

Conselho Curador

Presidente

Dr. Antonio Bias Bueno Guillon

Membros

Dr. José Hermílio Curado

Dr. Reinaldo Antonio Nahas

Dr. José Antonio de Seixas Pereira Neto

Stefan Graf Von Galen

Dr. Homero Villela de Andrade Filho

Dr. Lélio Ravagnani Filho

Dr. José Álvaro Fioravanti

Capitão PM Kleber Danúbio Alencar Júnior

Diretoria Executiva

Diretor Presidente

Dr. Américo Fialdini Júnior

Diretor Vice-Presidente

Dr. Sérgio Roberto de Figueiredo Santos e Marchese

Diretor Financeiro

Dr. José Moscogliatto Caricatti

Diretor Administrativo

Dr. Adilson Costa Macedo

Fundação Conrado Wessel

Rua Pará, 50 - 15º andar

Higienópolis - 01243-020

São Paulo, SP - Brasil

Tel./fax: 11 3237-2590

www.fcw.org.br

diretoria@fcw.org.br

4 FCW apóia instituições e premia arte, ciência e cultura

10

Premiação é a maior já conferida por uma instituição no Brasil

33

Confira todas as datas do Prêmio FCW de 2004

12

Carlos Henrique de Brito Cruz se destaca na física e como articulador

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Ficção sofisticada de Lya Luft é sucesso de crítica e, cada vez mais, de público

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Inventor e empreendedor, Conrado Wessel criou a primeira fábrica brasileira de papel fotográfico

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Maria Inês Schmidt desvendou a origem inflamatória do diabetes

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Jairo Vieira criou variedades de cenoura que expandiram a cultura

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Estudos de Dieter Muehe são essenciais para o litoral brasileiro

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Philip Fearnside defende o desenvolvimento sustentado

Capa Hélio de Almeida - Fotos da capa: Maurício Torres (Meio Ambiente); Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem (Mar); Miguel Boyayan (Ciência Geral); Hélio de Almeida (Literatura); Sérgio Lima/Folha Imagem (Campo); Mari Cleide Sogayar/USP (Medicina)

Desejo realizaDo

Fundação Conrado Wessel

apóia instituições filantrópicas e premia arte, ciência e cultura

AFundação Conrado Wessel (FCW) ainda é uma organização jovem, criada em 1994. Mas esses poucos anos de vida foram suficientes para cumprir fielmente o desejo de seu idealizador, Ubaldo Conrado Augusto Wessel, de tor ná­la uma instituição que carreie recursos com “objetivos filantrópicos, beneficentes, educativos, culturais e científicos”. Hoje seis entidades recebem uma doação anual relevante que beneficia diretamente 1.600 jovens e crianças carentes e 320 adultos. A fundação oferece também, desde 2002, o maior prêmio destinado à arte, à ciência e à cultura no Brasil. Tudo isso sem ter uma empresa que vise vender produtos com sua marca. A FCW existe para fazer filantropia e premiar artistas e pesquisadores ou institutos de pesquisa com trabalhos relevantes no país.

As entidades que recebem doação são as Aldeias Infantis SOS do Brasil, o Colégio Benjamin Constant, o Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo, a Fundação

Antônio Prudente, a Promoção Social do Exército da Salvação e uma instituição de ajuda a crianças carentes escolhida anualmente pelos dirigentes da FCW. Este ano, a unidade que cuida de crianças carentes do Instituto do Coração (Incor) foi a escolhida para receber o apoio da

fundação. Em 2003 foram doados R$ 480 mil: em 2004, a doação é de R$ 640 mil.

Os Prêmios FCW de Arte, Ciência e Cultura tiveram a primeira edição em 2002. A segunda edição, em 2003, destinou prêmio à Fotografia Publicitária, na categoria Arte. Em Ciência e Cultura, os premiados foram pesquisadores em ciência e tecnologia e uma escritora. Nesses dois últimos quesitos, cada um ganhou um troféu e R$ 100 mil – o maior valor para escolhas do gênero do país. No caso da Ciência, o sistema de seleção dos ganhadores contribui significativamente para sua credibilidade entre a comunidade científica. Os nomes foram escolhidos a partir de indicações feitas por 24 univer sidades federais, cinco ministérios, três univer sidades estaduais paulistas, além do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e do Hospital do Câncer.

Por todas essas características, a FCW acredita estar contribuindo para o incentivo de atividades que farão o Brasil maior e mais valorizado do que é hoje. A presente edição destina­se a divulgar as ações da fundação para o público interessado – no caso, prováveis candidatos aos prêmios no futuro –, contar a história de Conrado Wessel (na página 6) e apresentar os ganhadores do Prêmio FCW de 2003 (a partir da página 12), conhecidos este ano. •

Jovem trabalhando com madeira na Assistência e Promoção Social do Exército da Salvação, apoiada pela FCW

Bombeiros brasileiros, apoiados pela FCW, em Sheffield, na Inglaterra: prêmio aos melhores profissionais

RetRato de um inventoR

Conrado Wessel criou

a primeira fábrica brasileira de papel fotográfico

Conrado Wessel era apaixonado pela ciência e pela arte. Inventor inato e empreendedor obstinado, criou a primeira fábrica brasileira de papel fotográfico, no início dos anos 1920, utilizando tecnologia desenvolvida e patenteada por ele. Conquistou um mercado até então dominado por fornecedores estrangeiros e formou um patrimônio imobiliário que, obedecendo ao desejo expresso em seu testamento, foi utilizado como lastro para criar uma fundação que apoiasse atividades educativas, culturais e científicas de seis entidades e incentivasse a arte, a ciência e a cultura por meio de prêmios. A fundação foi instituída em 1994, um ano depois da sua morte, aos 102 anos.

Conrado Wessel nasceu em Buenos Aires, em 1891, filho de família tradicional de fabricantes de chapéus, em Hamburgo, na Alemanha, que imigrara para a Argentina, em meados do século 19, para se es ta be le cer como es tan ci ei ra. No ano seguinte ao seu nascimento o pai, Guilherme Wessel, for mado em física, migrou para Soroca ba e, posterior mente, para São Paulo, convi da do a le ci o nar na re cém ­ fun da da Es cola Politécnica, no bairro da Luz.

A paixão pela fotografia Conrado Wessel herdou do pai, que, paralelamente às aulas na Politécnica, adquiriu uma loja de material fotográfico onde instalou um ateliê de fotografia, na rua São Bento. Ainda jovem, Conrado Wessel

ganhou dois prêmios em concur sos promovidos pela Secretaria da Agricultura.

O interesse pela fotografia levou­o ao estudo da química e, em 1911, Conrado Wessel foi para Viena, na Áustria. Lá aprendeu fotoquímica na K.K. Lehr und Versuchs Antstalt, renomada escola de fotografia, especializando­se em clichês para jornais e revistas. Voltou ao Brasil, dois anos depois, certo de que o conhecimento adquirido na Europa não era suficiente para o seu “desenvolvimento técnico e comercial”, como ele mesmo obser vou em uma breve autobiografia. Seu projeto era ambicioso: sonhava com a criação de uma fábrica de papel fotográfico nacional.

Na época, os fotógrafos do Jardim da Luz, um dos principais locais de lazer da cidade, trabalhavam com uma câmera­laboratório: uma caixa de madeira com uma objetiva sobre um tripé. A câmera era dividida em duas partes. A inferior continha os banhos de revelador e fixador utilizados para o processamento químico de filmes e papéis. O papel utilizado era importado de fabricantes como a Kodak, Agfa e Gevaert.

Para realizar seu projeto de produzir papel com qualidade equivalente ao do importado, e a preços mais baixos, Conrado Wessel matriculouse como ouvinte na Escola Politécnica.“Durante quatro anos fiz de tudo ali”, contou. “Desde a preparação do nitrato de prata até os estudos das diferentes qualidades de gelatinas. Da ação dos halogênios como o bromo, o cloro e o iodo

Conrado Wessel com aparelho fotográfico: paixão herdada do pai, professor da Politécnica

sobre o nitrato de prata. Fiz inúmeras experiências misturando o nitrato de prata ao brometo de potássio, ao cloreto de sódio e ao iodeto de potássio. Cheguei à conclusão de que a mistura de uma pequena dose de iodo ao bromo dava muito melhor resultado, assim como a adição do bromo ao cloro.” Depois de centenas de experiências, Conrado Wessel chegou a uma fórmula satisfatória para o papel, cujas provas, como ele sublinhou, agradaram muito ao seu pai.

Opróximo desafio era iniciar a produção. Faltavam­lhe no entanto dinhei ro, má qui nas e pa pel. As máquinas, ele adquiriu “por 8 contos e 500” de um estudante de fotoquímica que, tal como ele, tentara fundar uma fábrica de papel fotográfico. O negócio não tinha dado cer to e o equipa men to es ta va dis ponível. As máquinas foram instaladas num pequeno prédio de propriedade do pai, na Barra Funda, em 1921. “As fór mulas que eu havia elaborado pareciam boas, mas não poderia assegurar que seriam boas também na fabricação”, ele registrou, preocupado.

Faltava­lhe, ainda, o papel necessário para os testes, já que no Brasil não havia nenhuma fábrica que pudesse fornecer o papel baritado. O material tinha que ser comprado na França, fabricado pela Rivers, ou na Alemanha, pela Scholler. Conrado Wessel saiu à cata de um importador.“Enquanto a encomenda não chegava, estudei como pendurar o papel emulsionado para secar no pequeno espaço de que dispunha”, disse.

O acaso, ele reconheceu, ajudou­o a encontrar a solução. Conrado Wessel estava na Tapeçaria Schultz, para a qual realizava um ser viço de propaganda, quando lhe chamou a atenção o sistema de cortinas que se moviam por cordinhas usadas pelos tapeceiros. Fez um croqui do sistema utilizado na Schultz e ima ginou que, em pre gan do mé to do se me lhan te, po de ria secar mais de 100 metros de papel.

O papel chegou e a pequena fábrica iniciou sua produção.“Foi um desastre”, resumiu Conrado Wessel. Não se aproveitou mais do que 10 centímetros dos 10 metros de papel emulsionados. Nova tentativa, nova frustração. O papel, ele descreveu, estava quase todo “eivado de pequenas bolhas e outras partículas indesejáveis”.

En quan to “ma tu ta va” so bre o pro ble ma, mais uma vez o acaso – e o olhar arguto – trouxe a solução. Conrado Wessel foi chamado à fábrica das Linhas Correntes, no Ipiranga, para executar um ser viço de clichês. Sozinho no salão de espera, reparou numa pequena máquina utilizada para passar goma no ver so das etiquetas. Ele descre veu esse equipamento: “Havia uma cuba e um rolo imer so dentro dela. Com a máquina em movimento, o rolo passava uma certa quantidade da solução, deixando estrias sobre o papel, que também seguia seu cur so. Eureca, pensei, meu problema está resolvido”. Mais uma vez, fez um croqui e adaptou a máquina de emulsionagem ao modelo daquela utilizada para gomar etiquetas. E detalhou os resultados: “A máquina se resumia no seguinte: uma cuba de barro vidrado (naquela época não existia o aço ino xidável) cheia de emulsão e um rolo de ebonite que mergulhava nela. O

Conrado Wessel foi premiado em concursos de fotografias no início do século 20

papel passava entre um outro eixo fixo, regulado como o rolo. Dessa maneira, as bolhas ficavam todas na cuba. Mais tarde esse sistema foi melhorado, com mais de um rolo de ebonite, tor nando impossível o surgimento de bolhas sobre o papel. Fizemos novas experiências com pleno êxito. Vamos fa bricar e vender”, comemorou. Nasceu assim a Fábrica Privilegiada de Papéis Photograficos Wessel.

Conrado Wessel não imaginava, no entanto, que teria que enfrentar ainda a resistência dos fotógrafos, seus po ten ci ais cli en tes. “Eles ex pe rimentaram o material, acharam bons os resultados, mas julgaram melhor continuar com o postal da Ridax, da Gevaert, apesar do preço do meu ser bem menor.” Foi nessa época que ele forjou o lema que o acompanharia por toda a vida: “Insista, não desista”.

Parceria com a Kodak permitiu a construção de nova fábrica de papel fotográfico

Documento atesta “uso effectivo” do novo processo de produção de papel fotográfico patenteado por Conrado Wessel em 1921

Os negócios iam mal até que a sorte – ou talvez a história – reverteu o risco do fracasso. No dia 5 de julho de 1924, Isidoro Dias Lopes deflagrou o movimento conhecido como a Revolução dos Tenentes. São Paulo ficou sitiada, isolada do resto do país. Aos fotógrafos da Luz faltou papel importado. “Numa manhã de um dos primeiros dias de revolução, apareceu um deles em minha casa e perguntou se eu tinha postais para vender”, contou Conrado Wessel.A revolução abriu­lhe o mercado.Ao fim de 29 dias de cerco, os rebeldes se renderam. O fluxo de papel importado foi restabelecido, mas a fábrica de papéis criada por Conrado Wessel já ti nha, definitivamente, conquistado a clientela que lhe per maneceu fiel.

Os grandes fabricantes estrangeiros, como a Gevaert, tentaram ainda recuperar o mercado oferecendo produtos mais baratos. Conrado Wessel também baixou os preços. “Por incrível que

pareça, estes postais mais baratos não foram aceitos pelos ambulantes. Nem os meus, nem os da Gevaert.”A produção brasileira cresceu, Conrado Wessel comprou um prédio maior, na mesma rua, e consolidou sua posição no mercado. Não faltaram propostas de empresas estrangeiras interessadas em parceria com a agora próspera fábrica brasileira de papéis, até que Conrado Wessel firmasse um contrato com a Kodak. Ficou acertado que a empresa norte­americana construiria uma fábrica nova em Santo Amaro, com maquinário moder no, que seria administrada por Conrado Wessel por um período de 25 anos ao fim do qual a fábrica e a patente passariam à Kodak.

Ao longo desse período, com o lucro dos negócios bem administrados, Conrado Wessel comprou imóveis nos bairros de Campos Elíseos, Barra Funda, Santa Cecília e Higienópolis, que, no futuro, se tornariam o patrimônio da fundação. •

Prêmio Para ciência e cultura

FCW distribui o maior valor em dinheiro já conferido por uma instituição brasileira

OPrêmio FCW, lançado oficialmente em 2002, tem como objetivo incentivar a arte, a ciência e a cultura. Na sua primeira edição, os prêmios na área de Ciências foram distribuídos por meio de concur so nas escolas da rede pública, no âmbito de uma parceria fir mada com a Secretaria Estadual da Educação. A FCW distribuiu 18 computadores e R$ 150 mil entre as escolas, professores e alunos premiados.

Na área de Literatura, a FCW premiou três autores inéditos, selecionados por críticos literários entre 94 concor rentes: Noêmia Sar tori Ponzeto, com o romance Sonhos de galinheiro; Maria Filomena Bouissou Lepecki, com Cunhataí – Um romance da guerra do Paraguai; e Santia go Nazarian, com Olívio. O prêmio foi a edição da obra, com tira gem de 2 mil exemplares, com direito a noite de autógrafo no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo.

Na segunda edição, em 2003, a premiação adquiriu novo for mato para destacar o tra balho de pesquisadores e profissionais vinculados a univer sidades e institutos de pesquisa. O prêmio foi dividido em seis categorias: Ciência Geral, Ciência Aplicada ao Meio Ambiente, ao Campo, ao Mar, Medicina e Literatura. Para ampliar a par ticipação dos cientistas, a FCW fir mou acordo com entidades de fomento à ciência e tecnologia, entre elas a FAPESP, que

passou a integrar a comissão de organização e avaliação das candidaturas.

Os 118 candidatos que disputaram o Prêmio FCW em 2003 foram indicados por 32 univer sidades e centros de pesquisa brasileiros. A lista com o nome dos indicados foi submetida à avaliação de um júri for mado por representantes da FAPESP, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da Academia Brasileira de Letras (ABL), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do ministério de cada uma das áreas envolvidas – Cultura, Saúde, Agricultura, Meio Ambiente, Marinha e Pesca – e um representante da FCW.

Os vencedores de cada categoria receberam um prêmio no valor de R$ 100 mil – o maior já conferido por uma instituição brasileira – e uma escultura assinada por Vlavianos. O Prêmio FCW na categoria Ciência Geral foi conferido ao reitor da Univer sidade Estadual de Campinas (Unicamp), Carlos Henrique de Brito Cruz. Engenheiro eletrônico e físico, Brito foi premiado por sua pesquisa na área de física experimental, sobre fenômenos ultra­rápidos, que ocor rem em menos de 1 picossegundo (inter valo de tempo de 1 trilionésimo de segundo), além de lasers e semicondutores.

( Veja re por ta gens com os seis vencedores a partir da página 12).

Di e ter Carl Ernst Heino Muehe, professor do Depar tamento de Geografia do Institu to de Ge o ci ên ci as da Univer sidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos pionei ros na pes qui sa sobre a costa brasileira, ganhou o prêmio Ciência Aplicada ao Mar. O agrônomo Jairo Vidal Vieira, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), recebeu o prêmio Ciência Aplicada ao Campo por seu tra balho no melhoramento genético de hor taliças.

Escultura do artista Vlavianos entregue aos seis ganhadores da edição 2003 dos Prêmios FCW, além dos R$ 100 mil

O prêmio Ciência Aplicada ao Meio Ambiente foi conferido ao biólogo Philip Mar tin Fearnside, professor nor te­americano do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa) e especialista na análise de impactos da agricultura, pecuária, silvicultura e manejo florestal na região. A descober ta de que a inflamação crô ni ca tem pa pel re le van te no aparecimento do dia betes tipo 2 rendeu à endocrinologista Maria Inês Schmidt, da Univer si da de Fe de ral do Rio Gran de do Sul

(UFRGS), o prêmio na área de Medicina.

A escritora Lya Luft, au to ra de Perdas e ga nhos e Pen sar é trans gre dir , en tre outros títulos, ganhou o prêmio de Literatura. For mada em peda gogia e letras anglo­ger mânicas pela Pontifícia Univer sidade Católica do Rio Grande do Sul, Lya é mestra em literatura brasileira e por tuguesa pela UFRGS.

A cerimônia de entrega do Prêmio FCW 2003 foi realizada no dia 7 de junho de 2004 na Sala São Paulo, na capital paulista. Par ticiparam do evento o ministro da Cultura, Gilber to Gil, e a secretária estadual da Cultura, Cláudia Costin, e o vice­almirante Marcelio Carmo de Castro Pereira, representando a Marinha, entre outras per sonalidades. Na edição 2004, a premiação vai manter o mesmo for mato da anterior, identificando os pesquisadores que mais se destacarem nas seis categorias avaliadas. O nome do Prêmio Ciência Aplicada ao Mar será substituído por Ciência Aplicada à Água para ampliar a escopo do prêmio e per mitir a candidatura de especialistas em estudos sobre recur sos hídricos. •

Carreira dupla

Além de física de laser, Carlos

Henrique de Brito Cruz se destaca

também

como articulador de C&T

Ofí si co nor te-americano Charles Townes, um dos criadores do laser, costumava ouvir dos colegas que sua descoberta era uma solução à procura de um problema. Isso ocorreu no começo dos anos 1960, quando não havia nem idéia das aplicações que essa luz possibilitaria. Naquele momento, o objetivo dos cientistas era apenas “entender, explorar e criar”, nas palavras do próprio Townes. Alguns anos depois, em 1976, três alunos de graduação do curso de engenharia eletrônica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) levaram ao pé da letra essa lição. Sem orientador, decidiram tentar desenvolver seu próprio laser, um objeto de estudo ainda relativamente novo. Como havia poucos professores no país que conhecessem o assunto, recorreram à biblioteca e descobriram um texto na Scientific American que os ajudou no projeto.“Era uma seção chamada Amateur Scientist, que ensinava a fazer algumas experiências científicas”, conta o engenheiro e físico Carlos Henrique de Brito Cruz, atual reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os três jovens estudaram o assunto e conseguiram algo nada usual: sozinhos, desenvolveram um laser de gás carbônico. Em seguida, publicaram um artigo e até criaram uma empresa. O laser de gás carbônico ser via para processar alguns tipos de material úteis para empresas. Um industrial que estava quase comprando uma

máquina importada para queimar tubos de plástico ficou sabendo da experiência no ITA e sugeriu aos estudantes fazer o equipamento para ele. No Brasil, a solução tinha achado seu problema. “Como o instituto achou muito complicado fazer um convênio com ele, nós criamos uma empresa e construímos a máquina com o laser necessário para a fábrica.” O industrial pagou um terço adiantado, um terço quando eles terminaram de construir e o resto na instalação. Para Brito, esse sucesso inicial foi um dos fatores determinantes que orientou sua principal linha de pesquisa nos anos seguintes. Não pela aplicação imediata que a experiência teve, mas pelo aprendizado e fascínio que ela proporcionou. Este ano, Brito, nascido no Rio de Janeiro e criado em São Paulo, foi um dos ganhadores do Prêmio FCW na categoria Ciência Geral por sua contribuição ao estudo dos fenômenos ultra-rápidos, que acontecem em um tempo menor que 1 picossegundo, ou seja, 1 milionésimo de milionésimo de segundo. “Cheguei aos fenômenos ultra-rápidos por causa do laser, só com ele é possível fazer experimentações em períodos tão curtos”, diz.

Laser é um acrônimo de Amplificação da Luz pela Emissão Estimulada da Radiação (Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation, em inglês). Significa que é uma fonte que utiliza a luz emitida por um átomo ou molécula para estimular a emissão de mais luz por outros átomos ou moléculas e, nesse processo, ampli-

ficar a luz original. Isso faz do laser uma luz pura, sem mistura, diferentemente da luz comum, for mada de vários comprimentos de onda – ela não se disper sa, ou seja, o único desvio que sofre é quando sai pela fenda de seu emissor. Por isso pode ser direcionada para grandes distâncias e concentrada apenas num ponto. Suas aplicações são múltiplas e contemplam muitas áreas. As mais conhecidas hoje estão na medicina. Médicos já utilizam essa tecnologia em cirurgias e diagnósticos há alguns anos. A indústria foi quem primeiro descobriu

sua utilidade para fazer pequenos orifícios em materiais muito duros ou de elevado ponto de fusão, como o aço e o diamante. O processo é rápido e não altera a área em tor no do orifício. As artes gráficas e cênicas usam o laser em ho lo gra fi as, shows e efeitos especiais.

Brito continuou a trabalhar com laser quando foi fazer seu mestrado na Unicamp, em 1979, ori en ta do por Sér gio Porto, que morreu seis meses depois e foi substituído por Artemio Scala brin. A dis ser ta ção ver sou sobre laser de gás carbônico pulsado, então um problema técni co so fis ti ca do. “O tema era bom porque requeria muita ciência e al gu mas ar ti ma nhas para ser re sol vi do”, lembra ele. Foi nesse período que o pesquisador deparou com os fe nô me nos ul tra-rá pidos, que continuaram a ser estudados no seu doutorado, pós-doutorado e, atualmente, no Centro de Pesquisas em Óptica e Fo tô ni ca, financiado pela FAPESP. Ele começou, então, a fa zer ex pe ri men tos com laser com pulsos de microssegundos (milionésima par te do segundo), de picossegundos (mil vezes mais rápido que o microssegundo) e de femtossegundos (1 quatrilhonésimo de segundo).

Quando iniciou sua car reira, Brito era um dos poucos no Brasil a fazer lasers com pulsos muito cur tos, no começo dos anos 1980. “Naquela época, fazíamos trabalhos na Unicamp em que fomos pioneiros em todo o mundo”, diz.“Depois, já no meio da década de 1980, havia quatro grupos no mundo capazes de fazer laser com pulsos de femtossegundos.” A

Brito em seu laboratório: só com o laser é possível fazer experimentos em tempo muito curto

principal contribuição para o estudo dos fenômenos ultra-rápidos ocor reu quando Brito passou uma temporada no Bell Labs, nos Estados Unidos, em 1986 e 1987, depois do doutoramento. Lá trabalhou nas aplicações em como usar laser com pulsos ultra-rápidos para estudar alguns fenômenos que ocor rem com materiais diver sos. Ele par ticipou de for ma deter minante em um experimento para fazer o laser com o pulso mais cur to que jamais havia sido feito. O recorde, até então, eram 8 femtossegundos. “Demonstrei que era possível fazer pulsos de 6 femtossegundos.” A experiência teve grande visibilidade e se tor nou modelo para fazer pulsos cur tos. Por mais de dez anos ninguém conseguiu fazer pulsos com menos de 6 femtossegundos.

Uma das boas coisas da ciência de ponta é conseguir estudar e aprender coisas que nin guém consegue vislumbrar”, diz Brito.“O duro é que essa ex clu si vi da de dura pou co porque tem sempre alguém nos seus calcanhares.” Na volta ao Brasil, passou a ver seu objeto de estudo de for ma diferente. Até aquela época, ele vinha fazendo ciência. Decidiu, então, abrir o leque e constituiu um grupo que fazia pesquisa de olho nas comunicações ópticas. Na segunda metade dos anos 1990 houve um fato que deu maior importância a essa linha de pesquisa. Antes da Internet, as empresas de comunicação achavam que a largura da ban da uti li za da era su fi ci en te para tudo. Quando o uso das imagens começou a se tor nar cor riqueiro na rede, viu-se que era preciso uma largura muito maior. O foco do trabalho feito na Unicamp pelo grupo de Brito ter minou por aliar a boa ciência que já fazia com as possíveis aplicações nas telecomunicações.

Hoje Brito continua um pesquisador ativo orientando alunos, mas freqüenta menos seu laboratório em razão do cargo de reitor da Unicamp. Em 1991 tornou-se pela primeira vez diretor do Instituto de Física da Unicamp.A partir desse ano, não ficaria mais sem ocupar um lugar dentro da hierarquia da universidade e em instituições como a FAPESP. Em 1994 foi nomeado pró-reitor de Pesquisa da Unicamp; em 1995, membro do Conselho Superior da FAPESP; em 1996, presidente do Conselho Superior da mesma instituição, e em

Experiência com laser: uso contempla da medicina às artes gráficas e cênicas

2002, reitor da Unicamp. As novas exigências o levaram a se aprofundar nos temas da política científica e tecnológica e da educação.

“No período em que fui pró-reitor passei a viver uma esquizofrenia”, relata. “Na discussão de políticas para pesquisa via as idéias serem mais ou menos ‘chutadas’, sem muita base, que era o contrário do que eu realizava no laboratório: estudar e medir antes de fazer.” A falta de parâmetros o levou a pesquisar e comparar os casos de política científica no Brasil e no exterior, atividade que o ajudou quando se tor nou presidente da FAPESP e na reitoria da Unicamp. Nessa fase, Brito também percebeu alguns equívocos históricos. Em 1994 dizia-se que a univer si da de era onde se de via fa zer tecnologia para, depois, transferir para a empresa. Ele cor rigiu o foco da discussão: na verdade, a pesquisa feita na empresa é tão impor tante quanto na univer sidade. Elas ocor rem nos dois lugares por razões diferentes. Na indústria, tem a ver com competitividade e, na universidade,

com aprendizado e conhecimento.“Esse debate estava encalacrado naquela época. Eu insistia, por exemplo, que as patentes devem nascer de preferência na empresa. E que a universidade é o lugar de se trabalhar com todo o conhecimento, independentemente de considerações utilitárias que têm sido tão recorrentes no Brasil.”

As posições do pesquisador, expressas em freqüentes reuniões com os gestores de ciência e tecnologia da época e por meio de assíduos artigos em jor nais e revistas, ajudaram a mudar as perspectivas futuras para o setor. O marco foi a Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia de 2001, que, entre outras coisas, estabeleceu a importância da atividade de pesquisa e desenvolvimento realizada no ambiente empresarial. A criação dos programas Parceria para Inovação Tecnológica (PITE), em 1994, e Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE), em 1998, ambos da FAPESP, tam-

bém auxiliou na mudança de rumo neste campo, sem nunca deixar de lado a importância central da pesquisa fundamental motivada pela curiosidade do cientista.

Nos últimos dois anos, Brito tem-se dedicado especialmente à educação. O tema não é estranho para ele, coordenador de um dos projetos de Política Pública da FAPESP, numa parceria entre a Unicamp e a prefeitura de Campinas em que foram selecionadas dez escolas municipais com o objetivo de despertar vocações para as ciências entre os alunos. Agora ele procura debater a necessidade do investimento nas universidades públicas, a questão da inclusão nessas instituições e propor alternativas à política de cotas, que chama de “solução preguiçosa”. A disposição para encarar essas batalhas vem, de acordo com ele, do método científico usado desde a graduação. “Esses assuntos devem ser tratados do mesmo modo que o cientista trata sua pesquisa: primeiro tem de estudar detidamente a questão para só depois propor uma saída”, afirma.“Mas não é desse jeito que se costuma fazer política no Brasil.”

Um velho amigo, colega dos tempos do ITA, resume a trajetória profissional de Brito: “Ele transita com naturalidade entre os mais diversos tipos de inteligência, ou seja, faz física de laser com a mesma competência com que analisa e propõe políticas mais eficientes para ciência e tecnologia”, diz Gilberto Câmara, coordenador-geral de Obser vação da Terra do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), especialista em informática do setor espacial. “Essa capacidade é difícil de ser encontrada em qualquer país do mundo, não só no Brasil.” Câmara explica que os pesquisadores são naturalmente introspectivos, excessivamente concentrados no próprio trabalho em razão do alto nível de exigência, comum na pesquisa de ponta.“Eles se esquecem de olhar a sua volta e ver o que está acontecendo, ou, então, fazem apenas política e colocam a ciência de lado.”

Segundo Câmara, o atual reitor da Unicamp sempre fugiu desse padrão e conseguiu fazer uma carreira dupla. “Ele sempre argumenta baseado em dados, de modo claro, o que torna difícil rebater suas idéias”, afirma. Quase 30 anos depois da primeira experiência com laser, Brito, 48 anos, casado, com um filho, agora virou um especialista em arrumar soluções para os problemas da física, da política científica e da universidade pública. •

A cientistA dos sentimentos

Não deve causar estranheza a presença de Lya Luft entre os pesquisadores premiados

De início até causa uma certa estranheza quando se lê, na lista dos premiados da Fundação Conrado Wessel, a categoria Literatura e o nome da vencedora, a escritora Lya Luft. Afinal, a seu lado estão nomes renomados da ciência aplicada ao mar, ao campo, ao meio ambiente e à medicina.A estranheza logo desaparece ao se ler um pouco de sua prosa ou ao se conhecer melhor o perfil dessa gaúcha de Santa Cruz do Sul, nascida em 15 de setembro de 1938 e autora de 16 livros. “Tento entender a vida, o mundo e o mistério e para isso escrevo. Não conseguirei jamais entender, mas isso me dá enorme alegria”, costuma dizer Lya. Tudo, então, fica claro: essa profissão de fé deve, com certeza, ser a mesma dos outros cientistas que compartilham com ela a honraria. Lya Luft, a seu modo, é também uma pesquisadora. Mas dos sentimentos, da vida e da morte. E nisso ela, em todos os seus livros, está muito próxima de todos nós. Não sem razão, num país em que o metiê de escritor é para poucos e com poucos, ela, com sua ficção sofisticada, é um sucesso de crítica e de vendas. Nisso há um curioso paradoxo. Quem a lê logo quer achar, nas suas palavras, escor regadelas autobiográficas, confissões feitas sob a máscara do romance, da crônica, da poesia. No mesmo movimento, esse leitor sente que está diante de alguém que sabe expressar medos, dúvidas e alegrias que

são também as suas.“Cada livro meu é uma dança de sedução entre mim e meus per sonagens; entre mim e meus leitores. Meu leitor tem de ser meu cúmplice. O que posso dizer é que tento mergulhar na chamada alma humana: seres per seguidos e per seguidores, os sugados e seus vampiros, os desejosos e os desejados, os mortos e os vivos, os amantes e os desamados”, explica. Seus temas são, efetivamente, univer sais e em suas obras podemos ver (e nos ver) a luta entre homens e mulheres, entre familiares e de que for ma o tempo nos ajuda e desgraça. Para isso, Lya usa uma linguagem que mistura poesia e prosa, num bate­papo que soa ao leitor como uma conver sa ao pé do ouvido com alguém que parece nos conhecer a fundo. “Vida é esse processo misterioso da gente estar jogado no mundo. Esse aprendizado maravilhoso. Desde criança tenho o desejo de entender um pouco esse mistério das relações humanas, da natureza, do destino do homem. Sou muito tocada pela sensação do mistério, da transcendência da vida. Acho que a vida é mistério, transcendência e processo.”

Essa criança que queria entender a mágica do viver cresceu numa cidadezinha de colonização alemã for te e, na escola, lia, em alemão, poemas de Goethe e Schiller. Filha de um advogado, cresceu cercada de livros.“Meu quarto de dor mir era decorado por estantes cheias e bastava estender a mão, na cama, para pegar

Lya: “Tento entender a vida, o mundo e o mistério. Por isso escrevo”

algo para ler.” O amor pela língua e pelos pequenos a levou a Porto Alegre, onde se formou em pedagogia e letras anglo­ger mânicas.

Até hoje Lya hesita em se intitular “escritora”, preferindo afir mar que sua profissão é tradutora, que vê como espécie de missão ao apresentar para os brasileiros a grande literatura estrangeira. Tem em seu currículo mais de cem ver sões, entre as quais obras de Robert Musil, Thomas Mann, Gunther Grass, Botho Strauss, Virginia Wolf, Her mann Hesse, Doris Lessing e, com destaque, do poeta alemão Rainer Maria Rilke, a quem deu o honroso lugar de único autor a fre qüentar a sua exi gen te ca be cei ra. Ao se esforçar para recriar cada um desses autores, Lya foi aprendendo a entender o mecanismo da escrita. A timidez diante dos mestres, no entanto, a afastou da expressão pessoal.

O amor deu a ela o em pur rão que fal tava. Aos 24 anos, numa prova de vestibular, apaixonou­se pelo professor, o irmão marista e filólogo Celso Luft, então com 42 anos. O lingüista deixou a Igreja para se casar com a moça e foi pai

de seus três filhos. E também de seus “filhos” autorais. “Celso tinha uma biblioteca grande. Sempre quis escrever romances, mas tinha uma timidez intelectual. Achava que iria mexer em assuntos intensos, como morte, loucura, doenças da família, coisas que nunca tiveram a ver comigo, mas que faziam parte das minhas fantasias desde a infância.” Em 1964 escreveu seu primeiro livro de poemas, Canções do limiar, e, em 1972, lançou Flauta doce. Aos poucos, ganhava confiança e enviou a um editor paulista alguns contos, recebendo uma resposta positiva. Em 1978 surgiu seu primeiro livro de contos, Matéria do cotidiano. No ano seguinte, um acidente de car ro a fez ver o mundo e a mor te com outros olhos. Imobilizada em casa por quase um ano, reviu o desejo de ser professora univer sitá ria e venceu a insegurança para criar o seu primeiro romance, As par ceiras, de 1980. Gostou dele e os críticos também: em 1981 escreveu A asa esquerda do anjo e não largou mais da ficção.“Nunca parei para pensar se escrevia mais sobre homens ou mulheres. Contava a história para mim mesma, antes de tudo: para mim mesma preparava armadilhas, levantava dúvidas, mon ta va que bra ­ ca be ças

Aque tentava resolver mais adiante”. cada nova obra, Lya reafirmava sua temática que misturava memórias, a família como um duplo das relações humanas, a solidão, a linha quase invisível entre fantasia e realidade, a luta eterna contra a hipocrisia e a opressão, a análise suave da experiência feminina. Isso, sem nunca aceitar rótulos de gêneros. “Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem.” Daí seus livros que tocam os dois sexos, embora especiais na discussão da condição feminina.“Os homens me comovem, pois nem sempre percebemos o tamanho da solidão deles. Não se abrem com os amigos, nem mesmo com a mulher. Eles também têm medo de envelhecer e de perder a potência, não só a sexual, mas a econômica, a capacidade de se sustentar e manter o seu papel na família.”

Lya, ao contrário, não teme o tempo.

“A maturidade traz ganhos. Ao invés de se afligir com o ninho vazio e com a aposentadoria, as pessoas deveriam se orientar para curtir essa etapa como um privilégio. Se pode ler, passear, fazer novas amizades e reatar as velhas. Acho que a vida é um processo. É como subir uma montanha. Mesmo que no fim não se esteja tão

“Vida é esse processo misterioso da gente estar jogado no mundo, esse aprendizado maravilhoso”, diz a escritora

forte fisicamente, a paisagem visualizada é melhor.” A defesa apaixonada pela idade e o prazer de conversar a levaram a criar, com a terapeuta Martha Herzberg, em Porto Alegre, grupos de discussão sobre a maturidade, que ela orienta, reunindo homens e mulheres. “Uma pessoa madura pode ser tão bonita quanto um jovem. É mais tranqüila, mais harmoniosa, mais natural. A vida é feita de perdas e ganhos e depende muito da gente sair da postura de vítima. Defrontar­se com a gente mesma, na maturidade, é um susto. Mas pode ser um momento de redescoberta.”

Dessa forma, Lya aprendeu a encarar perdas e separações com calma. Em apenas oito anos, a escritora sofreu duas grandes perdas. Em 1985 separou­se de Celso Luft, após ter vivido com ele dos 25 aos 47 anos, deixou o Rio Grande do Sul e partiu para o Rio para viver com o psicanalista

e escritor Hélio Pellegrino. Mas o novo amor durou apenas três anos, encerrado com a morte de Pellegrino. Em 1992, Lya voltou a se casar com Luft e, três anos depois, ficou viúva novamente.“Acho que a morte é algo natural como a vida. Mas nunca estamos preparados. Essa é a grande fragilidade humana. Estamos pouco preparados para as coisas naturais. A civilização nos tornou seres pouco naturais. Esse afastamento da natureza traz aquilo que Freud chamou de mal­estar da civilização. Daí a morte ser tão estranha para nós, que não somos mais naturais.”

Guardou lembranças preciosas dos dois companheiros.“Há muito deles na minha personalidade e na minha literatura. O Celso foi meu professor e foi ele que me ensinou a ler com discernimento e me ajudou na busca de um texto transparente. Foi um homem sábio que me

empurrou a escrever”, conta. “O Hélio que tinha uma personalidade barroca, um verdadeiro furacão, me abriu para a tolerância e para a ousadia. Comentava alguns casos comigo e me perguntava:‘O que diz disso o seu espírito de romancista?’ E tudo era um prato cheio para mim.” Isso se percebe na publicação contínua de novos títulos: Reunião de família, em 1982; Quarto fechado (que foi editado nos Estados Unidos como The island of the dead) e Mulher no palco, ambos em 1984; Exílio, em 1987; O lado fatal, em 1989; O rio do meio, em 1996; Secreta mirada, em 1987; O ponto cego, em 1999; Histórias do tempo e Mar de dentro, ambos em 2000; Perdas e ganhos, em 2003; Pensar é transgredir, agora em 2004; e já tem pronto para edição um livro de poemas, um retorno curioso na maturidade, com Para não dizer adeus

“Todos os meus romances abordam a família, o afeto, o valor da vida e a mor te. A vida é muito preciosa. Sou otimista. O humor faz com que a gente se divirta um pouco consigo mesmo, pois perdemos muito tempo e não curtimos os momentos diver sos, presentes, que podem ocor rer aos 20, aos 40, aos 80 anos, porque se fica em busca de imagens impossíveis”, avisa. •

CapriChos de uma doença

Como a curiosidade de Maria

Inês Schmidt desvendou a origem inflamatória do diabetes

Aepidemiologista Maria Inês Schmidt, vencedora na categoria Medicina do Prêmio FCW, costuma trabalhar defronte de um computador e coordena equipes de auxiliares, estudantes e colaboradores que quase sempre se contam às centenas. Mesmo distante da rotina de laboratórios e das mazelas dos pacientes, a professora do Depar tamento de Medicina Social da Univer sidade Federal do Rio Grande do Sul é responsável por uma das mais destacadas contribu i çõ es na com pre en são do di a betes que a ciência brasileira já produziu. Seu estudo Markers of inflammation and prediction of diabetes mellitus in adults: a cohort study, parceria com outros cinco pesquisadores publicado na revista The Lancet em 1999, estabeleceu um vínculo entre processos inflamatórios e a eclosão do diabetes tipo 2. Mostrou que a moléstia endocrinológica que atinge milhões de brasileiros tem origens metabólicas comuns à doença aterosclerótica, aquela que for ma placas nas paredes das artérias.

Curiosamente, o grupo liderado por Maria Inês chegou a tal conclusão valendo­se de uma base de dados de pacientes de outro hemisfério: o Aric Study (Atherosclerosis Risk in Communities), que acompanhou 15 mil norte­americanos ao longo de nove anos em busca das causas da aterosclerose, suas seqüelas e fatores de risco. A descoberta veio à tona quando Maria Inês usou

a base para relacionar marcadores de inflamação genéricos, como o número de leucócitos, ao diabetes. A pesquisa, ao longo dos últimos cinco anos, foi citada em outros 130 artigos científicos, o que mostra sua repercussão acadêmica. Como o Aric Study congelou plasma sangüíneo dos pacientes acompanhados, o grupo poderá usar essas amostras para medir marcadores inflamatórios mais sofisticados, como a adiponectina e a interleucina­6, e confirmar a relação. A pesquisa é importante por mostrar que há uma intricada rede de mecanismos metabólicos e inflamatórios na origem do diabetes, a qual tem pontos em comum com a obesidade e o surgimento da doença aterosclerótica. A melhor notícia nesse campo, na verdade uma notícia antiga, diz respeito à forma de prevenção do diabetes.“O perfil inflamatório melhora com a perda de peso e o exercício físico”, diz Maria Inês. “Mesmo a redução de apenas 5% da gordura corporal já tem um grande impacto na prevenção do diabetes”, afirma.

Em outra grande contribuição na compreensão do diabetes, a epidemiologista coordenou, no início dos anos 1990, uma pesquisa em seis capitais brasileiras sobre as causas e conseqüências do diabetes gestacional, doença que surge na gravidez e, na maioria dos casos, vai embora depois do parto, mas revela uma predisposição para o aparecimento da moléstia em forma crônica numa idade mais tardia. O estudo multicên­

Maria Inês Schmidt: liderança para enfrentar desafios científicos

trico, encomendado pelo Ministério da Saúde, acompanhou 5 mil mulheres, do início do prénatal até sete dias depois do parto. Em duas cidades, Porto Alegre e Fortaleza, o monitoramento das mães teve seqüência por até sete anos. Por isso, algumas das duas dezenas de teses acadêmicas produzidas com base no estudo só tenham sido concluídas recentemente.

Constatou­se, na pesquisa, que 8% das grávidas com mais de 20 anos sofrem da doença. O estudo tornou­se referência internacional ao vincular a hiperglicemia com complicações na gravidez (há mais riscos na gestação e a mortalidade dos bebês é maior) e também por desvendar o papel da gordura concentrada na parte central do corpo como indicador do risco de diabetes. Ao contrário do que se vê em países mais desenvolvidos, há um tipo de mulher no Brasil, com estatura baixa e gordura acumulada no tronco – as “redondas e baixinhas’ –, cujo perfil se revelou particularmente propenso a desenvolver o diabetes. O fenômeno, diz Maria Inês, não tem origem genética, mas social. Como tais mulheres, segundo a pesquisa, têm nível de

escolaridade baixo, o mais provável é que tenham baixa estatura por deficiências nutricionais intra­uterinas ou na infância, fator que predispõe ao diabetes e à obesidade.A pesquisa ser viu para mudar crenças sobre o diabetes gestacional. Antes, os médicos tendiam a valorizar muito indicadores como níveis de glicemia discretamente elevados nas pacientes e subvalorizar o ganho de peso. O estudo mostrou que a obesidade e o aumento excessivo de peso são fatores de risco mais perigosos.

Maria Inês não sabe dizer com cer teza por que decidiu ser médica. Acredita que a mor te do pai, aos 34 anos, de um câncer no esôfago de rápida evolução, pode ter influído.“Eu via os médicos tentando atenuar a dor de meu pai, dar conforto à família e ao mesmo tempo infor mar, e acho que aquilo me marcou”, diz ela, que ficou órfã de pai aos 10 anos. No final dos anos 1960, deixou a cidade de Novo Hamburgo para cursar medicina na Faculdade de Ciências Médicas de Porto Alegre, vinculada à Santa Casa de Misericórdia. Lá, fez residência em medicina interna e endocrinológica. A carreira deu um salto em 1976, quando se mudou para os Estados Unidos e iniciou suas pesquisas na Univer sidade Johns

Hopkins, especializando­se em pediatria en do cri no ló gica. “Acho que meu interesse pelo diabetes foi despertado pelo fato de que, naquela época, era uma doença difícil de controlar e exigia uma avaliação complexa e uma sintonia fina com o paciente”, diz ela.

FA pesquisadora e seu compêndio de práticas médicas, recém­atualizado

oi na Johns Hopkins University que Maria Inês conheceu o marido, Bruce Duncan, seu parceiro nas pesquisas e hoje professor da Faculdade de Medicina da UFRGS. Casaram­se em 1979, mudaram­se para Chapel Hill e combinaram que, encerrado o doutorado na Universidade da Carolina do Norte, passariam juntos uma temporada no Brasil para depois definir o rumo que dariam às respectivas carreiras. Os dois acabaram se fixando em Porto Alegre. Têm dois filhos, Michael, de 23 anos, estudante de medicina, e Laura, de 17, estudante do ensino médio. Na volta ao Brasil, a pesquisadora passou a se distanciar do tratamento clínico do diabetes para se dedicar à epidemiologia da doença.

A parceria de Maria Inês e Duncan se estende a outro projeto acadêmico que dura mais de duas décadas e resultou num respeitado compên dio de prá ti cas mé di cas. O li vro Medicina

am bu la to ri al: condutas de atenção primária baseadas em evidências, de 1.600 páginas, reúne um

conjunto de situações que o médico de ambula tó rio pode en con trar, no tra ta men to de pacientes e doenças de todo tipo, e as decisões que deve tomar – com a descrição da evidência científica que ampara cada conduta. Maria Inês coordena equipes de médicos especialistas, responsáveis pelos textos básicos dos 31 ca pí tulos, depois os submete a médicos generalistas, que avaliam a praticidade dos conselhos. Estudantes de pós ­ gra du a ção são res pon sá veis pelo embasamento teórico das condutas. Cada texto chega a passar por 12 revisões, até alcançar a ver são final. Como a expansão dos conhecimentos no campo da medicina, o livro se desatualiza rapidamente. A idéia é fazer edições novas a cada dois anos.A primeira versão do livro foi publicada no início dos anos 1980. A segunda, em 1996. E a terceira, em 2004. O trabalho exige da pesquisadora Maria Inês um talento que ela tem de sobra: a capacidade de coordenar grandes equipes. “Tenho enorme prazer em coordenar grupos com espírito de luta, curiosidade em buscar infor mações novas e alegria em vencer desafios”, ela afir ma. •

EDUARDO TAVARES

Semeador tropical

Jairo Vidal Vieira, da Embrapa, desenvolveu variedades de cenoura para todo o país

Se o Brasil, e quem sabe o mundo, fossem dominados pelos coelhos, certamente o engenheiro agrônomo Jairo

Vidal Vieira seria aclamado rei ou no mínimo o principal mentor de ciência e tecnologia entre a população desse pequeno mamífero que tem na cenoura seu prato predileto. É que esse pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveu, ao longo dos últimos 18 anos, variedades de cenouras que propiciaram a expansão e a adaptação dessa hortaliça para o clima tropical brasileiro com mais oferta do produto e preços mais baixos. Um trabalho que foi reconhecido com o Prêmio FCW na categoria Ciência Aplicada ao Campo de 2004. Aos 52 anos, esse mineiro da pequena cidade de Rio Pomba, perto de Juiz de Fora, ganhou notoriedade em uma área que tem garantido a expansão da agricultura no país nos últimos anos, a de melhoramento genético convencional por meio de seleção de variedades e de espécimes.

A fase de maior presença de cenouras nos pratos brasileiros foi iniciada em 1975, quando Jairo, recém­for mado em engenharia agronômica na Univer sidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, foi contratado pela Embrapa como pesquisador. “A empresa me deu uma bolsa de mestrado”, lembra Jairo. Nesse curso, também feito na UFV, ele desenvolveu uma dissertação na área de fitotecnia, com a cultura de repolho.

Jairo em uma plantação de cenoura: 18 anos aclimatando a hortaliça ao clima tropical

Antes de entrar na Embrapa, ele havia recebido vários convites para tra balhar. “Naquele tempo tinha muito emprego, recebi oito propostas, entre univer sidades, unidades da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) em Minas Gerais, Bahia e Goiás, e até de um banco.” Na Embrapa, logo após o tér mino do mestrado, foi indicado para trabalhar no Centro Nacional de Pesquisa com Algodão, em Campina Grande, na Paraíba. “Foi o chefe da área do Centro de Hortaliças da Embrapa em Brasília, Flávio Augusto de Araújo Couto, que me segu­

rou em Brasília e me direcionou para o trabalho com cenouras porque eu tinha feito mestrado na área de hortaliças.”Até então o conhecimento de Jairo sobre a Daucus carota, nome científico da planta, era quase zero. “Eu só tinha visto pé de cenoura na univer sidade”, conta Jairo, filho de produtor rural. “Meu pai tinha um sítio com cerca de 30 alqueires, uma propriedade pequena em que o principal produto era o leite.”

Foi no doutorado, quando voltou nova men te a Vi ço sa no fi nal de 1981, que ele se especializou na área de melhoramento genético, defendendo a tese intitulada “Herdabilidades, cor relações e índice de seleção em cenoura”. “Na verdade, antes eu havia estudado sozinho e, quando cheguei em Viçosa para fazer o doutorado, já possuía uma boa base porque já trabalhava com melhoramento.” Esse estudo e a experiência que adquiriu na Embrapa se somaram para que Jairo, em plena efervescência tecnológica do final de século 20, levasse o cultivo da cenoura mais adiante e para outras paragens seguindo uma linha de continuação do melhoramento dessa planta que, de forma empírica, começou há milhares de anos na região onde hoje é o Afeganistão, na Ásia, berço originário da D. carota. “A cenoura espalhou­se para a China, Índia e Europa, havendo registros de cultivo europeu no século 11. No Brasil, ela chegou com imigrantes portugueses que trouxeram sementes européias para a Região Sul. Essas sementes, em decor rência das condições de clima de Rio Grande do Sul, foram multiplicadas por várias gerações, apenas no âmbito dessas famílias, propiciando uma melhor adaptação às condições brasileiras.

No início da década de 1970, quase toda a semente de cenoura utilizada no Brasil era importada. “Em 1978 recebi a incumbência de desenvolver variedades para todo o país”, lembra Jairo. Naquela época, os problemas a serem resolvidos eram o desenvolvimento de cultivares com adaptação às condições de cultivo do verão brasileiro, resistentes ao calor, a doenças e com boa produtividade. O objetivo era ter cenoura o ano todo, porque a safra era restrita: de maio a julho ou, no máximo, até outubro.

O trabalho de melhoramento começou com a coleta de sementes no Rio Grande do Sul, por pesquisadores da Embrapa, de mais de 60 populações de cenoura. Mas, como em muitos outros experimentos científicos, a sorte também estava presente nas atividades de Jairo na

Embrapa. Dentre as sementes coletadas em solo gaúcho, ele identificou três populações com as características de interesse que ser viram para a for mação, após um trabalho de seleção, de um novo cultivar. “Foi um achado.” A nova variedade foi liberada para cultivo em 1981 e recebeu o nome de Brasília. Ela fez subir em 50% a produtividade de cenoura no país no período do ano em que foi lançada até 1984. Daí para a frente, a produção dessa hortaliça rica em vitamina A cresce a uma taxa de 4 a 5% ao ano no Brasil.“A produtividade aumentou de 1984 até hoje, de 12 toneladas por hectare (t/ ha) para 28 a 30 t/ha. É a mesma da Austrália, da Europa e dos Estados Unidos.” Atualmente, a Brasília é plantada em Minas Gerais, São Paulo, Per nambuco, na Bahia e no Ceará, além dos três estados da Região Sul e de todo o Cer rado. “Hoje pode­se plantar e colher cenoura em qualquer época do ano e local deste país. Isso é um orgulho para qualquer brasileiro.”

Em 1999, uma nova variedade foi lançada pela Embrapa chamada de Alvorada. O objetivo era fornecer ao mercado uma cenoura com raiz de excelente qualidade e com maior porcentagem de caroteno, substância que se transforma em vitamina A.“Mas os agricultores continuam plantando a Brasília, que responde por quase 80% da cenoura brasileira. Acredito que eles não querem deixar essa variedade usada há 15 anos.” Na Brasília o miolo é mais claro, quase branco, enquanto na Alvorada o miolo é quase da mesma cor da parte externa, rica em caroteno. O próximo produto de cenoura da Embrapa Hortaliças que está sendo desenvolvido sob a coordenação de Jairo é uma nova variedade, que provavelmente seguirá o nome ligado ao Distrito Federal e deverá se chamar Esplanada. As primeiras sementes comerciais estarão disponíveis em março de 2005. “É uma variedade mais atrativa para as necessidades da indústria de processamento, que produz cenouras pequenas (as minicenouras) de forma arredondada, para saladas e petisco.”

Outro orgulho de Jairo é a capacidade de as variedades Brasília e Alvorada necessitarem de pouca pulverização contra doenças ou, como ele próprio diz, de veneno. “Antes da Brasília faziam­se duas pulverizações por semana, hoje são feitas duas por ciclo de três meses, mais como um preventivo.” Com isso, o país economiza 280 toneladas por ano (t/ano) de veneno para as doenças de folhas e mais 550 t/ano para as doenças do solo. “Acredito que estamos comendo cenoura com o menor teor de agrotóxico do mundo”, diz.

Jairo na estufa da Embrapa em Brasília, onde nasceu a variedade presente em 80% das plantações

Para desenvolver as novas sementes, Jairo percor re várias regiões do país, visitando principalmente produtores conhecidos dele e da Embrapa. Leva consigo sementes experimentais e pede para os agricultores plantarem num canteiro ao lado do local onde já produzem cenoura. “Plantamos as sementes em sete ou oito lugares. Depois fazemos a colheita de raízes e analisamos os resultados.” Jairo não deixa de elogiar os agricultores que colaboram com esse trabalho. “Tem produtor que nos recebe há 14 anos e trabalha de for ma anônima para o melhoramento da agricultura.”

As contribuições de Jairo para a produção agrícola brasileira vão além da cenoura. A mais recente está no cultivo da melancia. “A Embrapa me solicitou há quatro anos que eu de sen vol ves se uma me lan cia resistente a uma virose chamada de vírus­domosaico­da­melancia. Essa doença ataca tanto essa fruta como o mamão e o maracujá.” Para chegar a uma melancia resistente, Jairo está cruzando espécimes com polpa vermelha e com polpa branca (espécie silvestre resistente ao vírus). “É um trabalho de paciência.”

O trabalho de um melhorista, segundo Jairo, está sempre vinculado ao apelo de mercado.“Hoje valorizamos os chamados alimentos funcionais possuidores de substâncias que exercem um papel favorável em algum ponto do organismo.” Exemplos são a vitamina A, essencial para o bom funcio­

namento da visão, e o licopeno, uma substância abundante no tomate que pode prevenir o câncer de próstata. “Teve uma época, que já passou, em que a ênfase eram os produtos para congelamento como as ervilhas. Existem também produtos cuja época ainda não chegou ao Brasil, como os transgênicos, possuidores de barreiras para a aceitação no mercado.“Eu acredito que daqui a 20, 30 anos os alimentos serão indicados até por médicos, para determinados tipos de problema ou para revigorar certas funções orgânicas.”

O futuro do pesquisador ainda tem muito chão.“Em cinco ou seis anos poderei me aposentar, mas não sei se agüento ficar longe do trabalho.”A única vez em que ele parou na Embrapa foi durante o pós­doutorado na Universidade Texas A&M, nos Estados Unidos, que durou dois anos, entre 1995 e 1996. “Fui a convite do professor Leonard Pike, que esteve no Brasil em 1987 e conheceu a variedade Brasília. Ele levou algumas amostras e o cruzamento com outras variedades resultou em uma cenoura roxa por fora e vermelha por dentro, que só tem mercado como enfeite ou em culinária sofisticada.”

Para o Texas, Jairo foi com a mulher, Rita de Cássia, e os três filhos, dois rapazes e uma menina. Rita, economista que trabalha na sede da Embrapa em Brasília, também fez pós­doutorado na mesma univer sidade e os três filhos se aprimoraram no inglês. Marido e esposa continuaram, no Texas, uma seqüência em comum desde a época que se conheceram, ainda estudantes de graduação na UFV. Jairo, que possui mais de 30 tra balhos publicados em re vistas científicas nacionais e internacionais, pensa ainda em trabalhar como professor quando se desligar da Embrapa. Hoje atua como co­orientador de alunos da Universidade de Brasília e participa de bancas de tese em outras univer sidades. Ele acredita que ainda tem muito a ensinar e a aprender. E cita o ensinamento do professor Vicente Wagner Dias Casali, orientador de seu doutorado:“Se a pessoa precisa de ajuda, eu ajudo. E eu me sinto bem em ajudar os outros”. •

O cientista que adOra a praia

Estudos de Dieter Muehe são essenciais para conciliar o uso com a preser vação do litoral

Com a habitual discrição, o geógrafo Dieter Muehe acompanhou durante 15 anos, como representante da comunidade científica, os estudos para definição dos limites da platafor ma continental brasileira, apresentados a uma comissão da Organização das Nações Unidas (ONU) reunida em Nova York durante duas se ma nas, de 30 de agos to a 17 de se tem bro. Liderado pelo almirante Lúcio Franco de Sá Fer nandes, o grupo brasileiro – o segundo do mundo, depois dos russos, a apresentar o levantamento hidrográfico e geológico confor me as regras estipuladas pela ONU –está reivindicando uma platafor ma continental a uma distância de até 350 milhas (650 quilômetros) da linha da costa. É uma superfície equivalente à dos três estados do Sul do Brasil somada à do Estado de São Paulo, com áreas novas para exploração de petróleo, gás e minérios que o Brasil poderá explorar com exclusividade – e na qual qualquer atividade de exploração mineral por outro país só poderá ser feita com autorização do gover no brasileiro.

“Se há algo realmente admirável em Dieter é sua plena consciência do papel que ele representa para a sociedade”, comenta o geólogo marinho Moysés Tessler, do Instituto de Oceanografia da Univer sidade de São Paulo (USP), que viajou com Muehe em expedições pelo litoral brasileiro. “E ele não se gaba desse senso

de cidadania.” Mas esse geógrafo baiano – de Maragogipe, cidade do Recôncavo Baiano em frente a Salvador – não olha só para o mar. Professor do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências da Univer sidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desde 1968, Muehe iniciou há 40 anos suas pesquisas sobre as transfor mações do litoral brasileiro, hoje fundamentais quando se pensa em conciliar o uso e a preser vação das praias – como ele demonstrou, a linha de costa oscila feito uma sanfona, à medida que os bancos de areia se deslocam.

Para que esse ciclo natural seja respeitado e os desabamentos de casas e mutilações das paisa gens se tor nem menos freqüentes, Muehe propôs uma faixa de proteção de 50 metros a partir da linha do mar nas áreas urbanas e de 200 metros nos trechos não urbanizados do litoral, em um trabalho feito a pedido do Ministério do Meio Ambiente e publicado em 2001 na Revista Brasileira de Geomorfologia. Seria uma for ma de evitar o cenário desolador que tomou conta de uma praia em Bar ra de Maricá, no litoral do Rio, há três anos, depois de uma for te tempestade ter der rubado um conjunto de casas erguidas à beira­mar. Seus proprietários refizeram as construções e ergueram muros de defesa numa tentativa provavelmente vã de lutar contra o mar.

“A largura exata da faixa de proteção precisaria ser sintonizada com as tendências locais

O geógrafo do mar: atlas de erosão indica os pontos mais frágeis do litoral brasileiro

de modificação da linha de costa”, diz Muehe, que fez o trabalho completo: um levantamento nacional que ele coordenou indica justamente os trechos mais vulneráveis à erosão ou à progradação – como é chamado o processo inverso, de deposição de areia – ao longo dos 8 mil quilômetros de costa brasileira. O Diagnóstico de erosão e progradação costeira, que contou com quase R$ 50 mil da Secretaria da Comissão Inter ministerial para os Recur sos do Mar (Secirm) e deve ser publicado nos próximos meses, revela que 40% das praias brasileiras estão encolhendo, enquanto outros 10% ganham areia e se alargam.

Proposto pelo Programa de Geologia e Geofísica Marinha (PGGM), uma associação de grupos de pesquisa das univer sidades costeiras do país, esse levantamento das áreas de risco do litoral resulta do trabalho de 16 grupos de pesquisa, do Amapá ao Rio Grande do Sul, que Muehe conseguiu reunir com um raro poder de mobilização e um respeito ao trabalho alheio que lhe rendeu a aparentemente unânime admiração dos colegas e dos alunos. “Esse atlas

será a base para o monitoramento contínuo de praias, para sabermos se a erosão ou a progradação refletem um desequilíbrio momentâneo ou uma tendência de longo prazo”, comenta Muehe, que tem 67 anos, mas ninguém de boa­fé lhe daria mais de 50. Gentil e atencioso, adora pôr a velha sandália de couro e boné, acomodar­se a bordo de barcos infláveis ou de pesca e observar as sutis variações da linha da costa.

É um trabalho que exige paciência, mas que pode ser extremamente proveitoso. Com sua equipe da UFRJ, Muehe examinou por três anos as mudanças em uma das praias de Macaé, no litoral fluminense, até chegar à conclusão de que a erosão que preocupava tanto era apenas a face mais visível de um processo de reequilíbrio espontâneo – a areia que sumia voltava depois. Como resultado, a prefeitura economizou cerca de US$ 1,5 milhão que pretendia gastar em obras para conter um fenômeno que por si só se resolveria. Durante mais tempo ainda – oito anos, “sem falhar um mês”, orgulha­se –, ele tem acompanhado os corpos de areia crescendo ou encolhendo em um campo de dunas próximo a Cabo Frio, também no litoral fluminense, a duas horas de viagem da cidade

do Rio. Já fez o levantamento número 102, que representa até agora cerca de 31 mil quilômetros rodados entre o Rio e a área de estudo. Os dados apurados indicam prováveis efeitos do aquecimento ou esfriamento das águas do Pacífico – o El Niño e a La Niña – e que o litoral por lá está recuando. “Nada grave”, diz, “se o nível do mar não subir.” O problema é que muitos estudos no mundo inteiro alertam para a elevação do nível do mar.

Amaioria das pessoas atribui pouca impor tância às diferenças de cor, textura ou tamanho dos grãos de areia das praias – o que impor ta mesmo é o sol, cer to? Ele, não. Com um punhado de areia nas mãos, esse ge ógra fo do mar ima gi na o pas sa do e o fu tu ro de uma praia, do mesmo modo que um paleontólogo reconstitui um animal extinto a par tir de um osso fossilizado. Há cerca de 20 anos, Dieter Muehe propôs uma metodologia de estudos costeiros, mostrando onde e como colher amostras e que tipo de infor mação tirar de um punhado de areia amarelada ou aver melhada, fina ou grossa. Com mente aber ta, mostrou também que às vezes é melhor esquecer a areia, como aconteceu ao aplicar uma fór mula criada por oceanógrafos australianos para deter minar como uma praia ficará em alguns anos. A receita original se apoiava em três variáveis: a altura e o período da onda e a granulometria da areia. “Muitas vezes”, ele conta, “essa fór mula não cor respondia ao que era obser vado”. Muehe desenvolveu então outra fór mula, trocando a granulometria da areia pela declividade da praia, para definir o estado da praia no próprio momento da obser vação. Publicada há cinco anos na Revista Brasileira de Oceanografia, essa fór mula tem ajudado a identificar o perfil de uma praia e avaliar sua sensibilidade a vazamentos de óleo e risco potencial para os banhistas.

“Dieter é um grande profissional, extremamente sério e disciplinado, com quem é muito tranqüilo tra balhar”, comenta o geógrafo da USP Jurandyr Ross, que fez com seu colega do Rio outro estudo impor tante sobre o litoral –o atlas do macrodiagnóstico costeiro do Brasil. Editado há cerca de seis anos pelo Ministério do Meio Ambiente, esse levantamento é consi­

Baiano, filho de alemães, apaixonado pelo mar desde a adolescência: olhar apurado para as mudanças da costa

derado uma obra fundamental para usar em conjunto com o atlas de erosão quando na hora de pla ne jar a ocu pa ção do li to ral sem sentir mais tarde a revanche da natureza. “Depois de todos esses estudos”, afir ma Ross, “se as casas ainda desa bam no litoral não é por falta de infor mação, mas por falta de uso da infor mação”.

Não é exagero dizer que ele trabalhou nesses projetos com dedicação ger mânica. Dieter Carl Ernst Heino Muehe – eis seu nome completo – é o filho único de um casal de alemães, Victor Carl Muehe e Gerda Minna Emma Muehe. Os dois chegaram ao Brasil em 1936 fugindo da recessão econômica que tomou conta da Alemanha após a Primeira Guer ra Mundial. Victor, que havia ser vido como oficial no Exército durante a guer ra, seguiu o mesmo destino de

outros alemães que imigravam para o Brasil: foi tra balhar como contador em uma fábrica de charutos, a Suerdick, em Maragogipe, no Recôncavo Baiano. Foi ali que Dieter Muehe nasceu, em abril de 1937.

Seu pai mor reu em 1939, provavelmente de infecção hospitalar. Sua mãe decidiu voltar para a Alemanha, ima ginan do que lá con se gui ria dar uma educação melhor ao filho então com 1 ano e meio. Mas logo veio outra guerra, deixaram Berlim, onde pretendiam viver, e tiveram de se mudar às pressas muitas vezes, fugindo das bombas que destruíam as cidades e os planos. Voltaram ao Brasil em 1947, dois anos depois de ter minada a guer ra, e se instalaram em Nova Friburgo, na região ser rana do

Rio. Para o garoto de 10 anos, que mal falava português, foram tempos difíceis. Mas foi quando aflorou a curiosidade científica e ele começou a colecionar borboletas, besouros e rochas recolhidas nas longas caminhadas pelas montanhas. Só em Vila Velha, no Espírito Santo, para onde se foram quase dois anos depois, o então adolescente construiu um forte círculo de amigos, ser viu no Exército durante um ano e começou a mergulhar, com máscaras que machucavam o nariz e faziam os ouvidos doerem com freqüência. Apaixonou­se pelo mar. “Enquanto mergulhava e pescava lagosta”, recorda ele,“eu tinha vontade de fazer ciência e estudar melhor tudo aquilo.” Em 1960, na hora do vestibular, optou por geografia na Univer sidade Federal do Espírito Santo (Ufes) como for ma de conciliar seu interesse por oceanografia e geologia. Nessa época, já estava trabalhando na Companhia Vale do Rio Doce – primeiramente na equipe de topografia na estrada de ferro, depois como técnico em mecânica dos solos.

Dieter Muehe mudou­se para o Rio de Janeiro em 1964 para trabalhar na Docenave, a recém­criada empresa de navegação da Vale do Rio Doce, mas acabou ficando mesmo na empresa matriz. Foi tam bém quan do se trans fe riu para o depar tamento de geografia da então Univer sidade do Brasil, rebatizada de Univer sidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em seu mestrado, que durou quatro anos, propôs uma classificação das praias entre o Rio de Janeiro e Cabo Frio de acordo com seu per fil to po grá fi co e da zona submarina adjacente, o tipo de sedimento e a energia das ondas do mar que chegam à praia. Era o início da pós­graduação no departamento de geografia. “Foi uma época difícil”, conta ele. “Tinha dois ou três trabalhos para apresentar por semana e ficava muitas noites sem dor mir.” O doutorado ele fez na Alemanha, já se aprofundando em oceanografia e geologia marinha. Nessa época já havia deixado a Vale do Rio Doce para trabalhar apenas na univer sidade, procurando equilibrar a dedicação à ciência e à família. Parece ter conseguido. É sua única filha, a médica radiologista Ingrid Engelke Muehe De Simone Alonso, mãe de Mateus, de 8 anos, e de Ni cole, de 2, quem diz: “Ele é admirável”. •

O amigO da flOresta

O biólogo Philip Fearnside defende o desenvolvimento

sustentável da Amazônia

ssim que concluiu a graduação em biologia no Colorado College, uma univer sidade privada do Estado do Colorado, o califor niano Philip Martin Fearnside par tiu para a Índia.

Entre 1969 e 1971 foi voluntário da Peace Corps, uma agência federal dos Estados Unidos que promove ajuda humanitária e tecnológica para países pobres. No Estado do Rajastão, noroeste da Índia, não muito longe da fronteira com o Paquistão, aconselhou o governo local no manejo de peixes em reser vatórios. Ter minada a temporada asiática, retor nou a seu país para começar o doutorado na Univer sidade de Michigan. Não que pretendesse ficar muito tempo por ali. Sua idéia era voltar em 1973 para a nação de Gandhi e adquirir o título acadêmico por meio de um tra balho sobre o número de pessoas que podem ser sustentadas indefinidamente em uma área com o emprego da tecnologia agrícola existente. Foi quando os reflexos de uma guerra mudaram o destino do ex­voluntário da paz. Em 1971, os Estados Unidos haviam apoiado o Paquistão no conflito que le vou à criação do Estado de Bangladesh e os indianos, inimigos dos paquistaneses, num ato de retaliação, fecharam as fronteiras para os pesquisadores norte­americanos. Então Fearnside recor reu ao plano B: Amazônia.

Não há como saber se o biólogo, vencedor do Prêmio FCW na categoria Ciência Aplicada

ao Meio Ambiente, teria sido tão bem­sucedido na Índia como acabou sendo no Norte do Brasil. Hoje, três décadas após desembarcar na região, Fearnside acumula experiência de campo – morou até em agrovilas à beira da Transamazônica para fazer seu doutorado – e saber científico sobre a Amazônia raramente encontrados em brasileiros.

Seu nome é referência internacional em muitos dos temas que tor nam a grande mata tropical um assunto importante e polêmico, como a possível relação do desmatamento da floresta com as mudanças climáticas no planeta e o impacto da implantação de estradas, bar ragens e projetos agropecuários na região. Por seus trabalhos em prol do desenvolvimento sustentável, contra projetos ofensivos ao meio ambiente, como a construção da usina hidrelétrica de Balbina nos anos 1980, costuma ser atacado pelos defensores do progresso a todo custo, às vezes com tintas xenófobas. Desde 1978 cientista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), de Manaus, Fearnside, aos 57 anos, já se acostumou com as críticas e refuta a imagem simplista de defensor da tese de que a Amazônia deve ser tratada como santuário. “Ao contrário do que afir mam alguns políticos, não existe mais gente dizendo que a Amazônia é intocável, que deveria ser um museu”, afir ma.

Há qua se duas dé ca das, o pes qui sa dor defen de a idéia de que a re gião deve se tor­

O pesquisador norte­americano, do Inpa: a favor de que a região se especialize em vender ser viços ambientais

nar uma vendedora de ser viços para o planeta. De ser viços ambientais, bem entendido. Um tipo de visão em que a floresta é mais valiosa para os ha bitantes da Região Nor te em pé do que queimada ou desmatada, tanto do ponto de vista da ecologia como da economia. Não se trata apenas de preser var a mata por que esse complexo ecossistema é morada de uma rica biodiver sidade de espécies vegetais, que, em tese, poderia ser explorada sem grande agressão ao meio ambiente por (agro)indústrias limpas ou laboratórios farmacêuticos. Para Fearnside, a floresta preser vada, além de deixar de emitir poluentes decor rentes da queimada de suas ár vores, retira da atmosfera grandes quantidades de carbono. O gás dióxido de carbono (CO2) é o principal poluente acusado de aumentar o efeito estufa, anomalia que já está alterando o clima em várias partes do globo. Mais dia, menos dia, prevê o biólogo, os países ricos, que despejam o grosso dos poluentes atmosféricos, terão de pagar para os brasileiros manterem a mata preser va da. Essa se ria uma das for mas de as na çõ es desenvolvidas evitarem mais agressões ao clima da Ter ra. “Vender ser viços ambientais é como vender soja”, com­

para.“É um comércio.” No jargão do meio ambiental, essas hipotéticas tran sa çõ es cos tu mam ser cha ma das como o mercado inter nacional de carbono.

Como quase toda idéia referente à Amazônia, vender ser viços ambientais é uma proposta controver sa. Algumas questões precisam ser debatidas e equacionadas antes de a Amazônia se tor nar uma vendedora de ser viços ambientais. Quanto custarão esses ser viços? Qual será o mecanismo comercial que vai regular esse comércio? Receber dinheiro do exterior para não queimar e cortar a Amazônia não fere a soberania nacional? Os países ricos concordarão em pagar um imposto ambiental em prol da Amazônia e outras áreas verdes do planeta? As perguntas não intimidam o biólogo do Inpa. “Ninguém sabe quanto poderia ser cobrado de um hipotético imposto ambiental, mas é verdade também que ninguém diz que a taxa deveria ser de 0%”, pondera. Para Fearnside, o mercado inter nacional de carbono só tende a se valorizar com o tempo. Por quê? Porque as outras for mas de retirar CO2 da atmosfera seriam ainda mais caras, e porque o efeito estufa tende cada vez mais a se agravar. E o Brasil, se

Fearnside numa madeireira do Pará: a floresta é mais valiosa em pé do que queimada ou desmatada

viesse a aderir a esse mecanismo, não estaria abrindo mão do controle sobre um pedaço de seu ter ritório. “Os contratos seriam por tempo deter minado e o país poderia não renová­los depois de 10 ou 20 anos”, diz.

Talvez não seja prudente adiar por mais tempo esse debate na sociedade brasileira, o que não quer dizer, necessariamente, tomar partido a favor da venda de ser viços ambientais.“Fearnside é um dos pesquisadores líderes na questão estratégica dos fluxos de carbono na Amazônia, com grande contribuição científica na quantificação de gases de efeito estufa provenientes de queimadas”, afir ma Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Univer sidade de São Paulo (USP). “Mas ainda é um pouco cedo para uma ava li a ção eco nô mi ca e po lí ti ca so bre a adequação para o Brasil desse polêmico mercado inter nacional de carbono. Os vários agentes nacionais ainda têm que discutir melhor essa importante e delicada questão.” Como Fearnside, Artaxo participa do Experimento de Grande Escala da Biosfera­Atmosfera na Amazônia (LBA), megaprojeto inter nacional de US$ 80 milhões que, desde 1999, reúne mais de 300 pesquisadores da América Latina, Estados Unidos e Europa, sob a liderança do Brasil.

Cerca de 16% da cober tura vegetal original da Amazônia já foi cor tada. Segundo o biólogo do Inpa, as áreas desmatadas são mais do que suficientes para se manter uma agropecuária voltada à produção de alimentos para os 20 milhões de ha bitantes do Nor te do país – e não para o mercado exter no. “Não podemos estimular a produção de soja e gado para expor tação. Isso leva à construção de obras de infra­estrutura que agridem o meio ambiente”, opina Fearnside. Apesar das resistências às suas idéias e das dificuldades de ser cientista no Brasil, ainda mais na Amazônia, fora do rico eixo Sul­Sudeste, o pesquisador nor te­americano nem pensa em voltar em definitivo para sua ter ra natal. “Quando vou aos Estados Unidos, me sinto por fora das coisas”, diz. “Na questão das mudanças climáticas, eles são muito atrasados. Uma impor tante parte da população não acredita no efeito estufa.” Laços familiares também o prendem à ter ra que o acolheu há 30 anos. Sua mulher, a entomologista Neusa Hamada, também pesquisadora do Inpa, é brasileira, a exemplo das duas filhas. “Não é um sacrifício morar no Brasil”, avalia. •

Cronograma da Premiação 2004

Na edição 2004 os Prêmios FCW de Arte, Ciência e Cultura serão concedidos a per sonalidades residentes ou a entidades sediadas no Brasil que se tenham destacado nas seguintes áreas: Fotografia Publicitária*, Literatura, Medicina, Ciência Geral, Ciência Aplicada ao Campo, Ciência Aplicada à Água e Ciência Aplicada ao Meio Ambiente. As indicações deverão ser feitas conforme orientação contida no site da fundação: www.fcw.org.br.

Abaixo, as datas da premiação

Divulgação para a imprensa

Segunda semana de outubro e convite oficial para que de 2004 durante a Semana Nacional as instituições e entidades de Ciência e Tecnologia encaminhem à FCW suas indicações

Prazo para recebimento

Final da primeira quinzena das indicações pela FCW de março de 2005 e convite aos jurados

Preparação dos dossiês

Segunda quinzena de março de 2005 dos indicados

Julgamento e escolha dos premiados

Divulgação dos trabalhos

Premiação

Primeira semana de abril de 2005

Segunda semana de abril de 2005

Dia 20 de maio de 2005

* Para o Prêmio FCW de Fotografia Publicitária o cronograma e o regulamento constam no site.

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP

Ligada à Secretaria de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo, é uma das principais agências de fomento à pesquisa científica e tecnológica do país. Desde 1962 a FAPESP concede auxílio à pesquisa e bolsas em todas as áreas do conhecimento, financiando outras atividades de apoio à investigação, ao intercâmbio e à divulgação da ciência e tecnologia em São Paulo.

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES

Fundação vinculada ao Ministério da Educação, tem como missão promover o desenvolvimento da pós­graduação nacional e a formação de pessoal de alto nível, no Brasil e no exterior. Subsidia a formação de recur sos humanos altamente qualificados para a docência de grau superior, a pesquisa e o atendimento da demanda dos setores público e privado.

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq

Fundação vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), para apoio à pesquisa brasileira, que contribui diretamente para a formação de pesquisadores (mestres, doutores e especialistas em várias áreas do conhecimento). Desde sua criação, é uma das mais sólidas estruturas públicas de apoio à ciência, tecnologia e inovação dos países em desenvolvimento.

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC

Fundada há mais de 50 anos, é uma entidade civil, sem fins lucrativos, voltada principalmente para a defesa do avanço científico e tecnológico e do desenvolvimento educacional e cultural do Brasil.

Academia Brasileira de Ciências – ABC

Sociedade civil sem fins lucrativos, fundada em 3 de maio de 1916, tem por objetivo contribuir para o desenvolvimento da ciência e tecnologia, da educação e do bem­estar social do país.Atualmente reúne seus membros em dez áreas: Ciências Matemáticas, Ciências Físicas, Ciências Químicas, Ciências da Terra, Ciências Biológicas, Ciências Biomédicas, Ciências da Saúde, Ciências Agrárias, Ciências da Engenharia e Ciências Humanas.

Academia Brasileira de Letras – ABL

Fundada em 20 de julho de 1897 por Machado de Assis, com sede no Rio de Janeiro, tem por fim a cultura da língua nacional. É composta por 40 membros efetivos e perpétuos e 20 membros correspondentes estrangeiros.

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