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Esp E cial
Os vencedores do prêmio Conrado Wessel de arte, ciência e cultura 2010
conselho curador
Presidente
Dr. Antonio Bias Bueno Guillon
Membros
Dr. José Álvaro Fioravanti
Dr. José Antonio de Seixas Pereira Neto
Dr. José Hermílio Curado
Capitão PM Kleber Danúbio Alencar Júnior
Dr. Reinaldo Antonio Nahas
Prof. Stefan Graf Von Galen
diretoria executiva
Diretor Presidente
Dr. Américo Fialdini Júnior
Diretor Vice-Presidente
Dr. Sérgio Roberto de Figueiredo Santos e Marchese
superintendente
Dr. José Moscogliatto Caricatti
Coordenador Científico
Dr. Erney Plessmann de Camargo
Coordenador Cultural
Dr. Carlos Vogt
coordenação desta edição
Dr. José Moscogliatto Caricatti
Fundação Conrado Wessel
Rua Pará, 50 - 15º andar
Higienópolis - 01243-020
São Paulo, SP - Brasil
Tel./fax: 11 3237-2590
www.fcw.org.br
diretoria@fcw.org.br





4 FCW investiu 60,5% de seu orçamento, por 10 anos, em prêmios e doações
8 Os caminhos que levaram Conrado Wessel a inventar um novo papel fotográfico
12 Fundação busca premiar personalidades cujo trabalho se volta para a sociedade
18 Jairton Dupont é um dos 100 químicos mais influentes do mundo
24 Angelita Habr-Gama alia o talento nas cirurgias às ações de prevenção contra o câncer de intestino
50 As instituições parceiras da fundação e o júri responsável pela seleção as fotos das páginas 5-7, 14, 16-19 e capa são de autoria dos fotógrafos fernando silveira, pedro vertulli e polini prizmic

30 Nelson Pereira dos Santos é diretor de alguns dos filmes fundamentais do cinema brasileiro
38 Veja os ensaios fotográficos que ganharam o Prêmio FCW de Arte
Fundação Conrado Wessel investiu 60,5% de seu orçamento, por 10 anos, para premiar arte, ciência, cultura e fazer doações
Nos últimos 10 anos a Fundação Conrado Wessel (FCW) destinou, em média, 60,5% de seu orçamento bruto para o apoio à arte, à ciência e à cultura e doações. Os restantes 39,5% foram usados em despesas de manutenção patrimonial, administração e apoio a entidades. Os números indicam como a fundação acredita na premissa exaustivamente confirmada de que não pode haver crescimento de um país sem a contribuição da ciência. Também não se deve esquecer que a necessidade preliminar do investimento em ciência é o investimento em educação. Portanto, para o desenvolvimento nacional é preciso oferecer uma educação sólida a todos os cidadãos. Será o crescimento social de uma população educada e preparada que gerará as melhores formulações para o desenvolvimento nacional. A FCW tem dirigido a maior parte de seu orçamento para ajudar nessa evolução. Desde 2001 a fundação distribui anualmente os Prêmios FCW aos melhores cientistas, artistas e escritores do país. E desde 2007 patrocina o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Também concedeu 15 bolsas de estudo complementares no exterior para os ganhadores dos Grandes Prêmios Capes de Teses e uma bolsa de graduação em música, de quatro anos, na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. Bancou a publicação de 15 edições dos Anais da Academia Brasileira de Ciências e de seis livros, três científicos e três de

Moises Bonella: bolsa no exterior e apresentação na festa dos Prêmios FCW
ficção. Com a FAPESP, publica anualmente este suplemento especial, completando agora oito anos de parceria.
Foi o fotógrafo, inventor e empresário da indústria fotográfica Ubaldo Conrado Augusto Wessel quem propôs esse apoio à arte, à ciência e à cultura e colocou seu patrimônio à disposição dessa ideia. Seus objetivos se concentraram em duas linhas de atuação. Uma delas era fazer “aporte de recursos para utilização educativa, cultural e científica”, mediante doações. Para isso, a fundação recebeu uma relação de entidades definidas por ele, por meio das quais ela destina anualmente os recursos à educação e à formação cultural e científica. São elas: Aldeias Infantis SOS do Brasil, Associação Benjamin Constant, Corpo de Bombeiros da Polícia Militar, Exército de Salvação, Fundação Antonio Prudente. As demais entidades são escolhidas pela diretoria da fundação e indicadas pelo Ministério Público do Estado de São Paulo.
Outra meta de Conrado Wessel era distribuir prêmios a cientistas e artistas como forma de incentivo. A FCW tratou então de buscar parceria com instituições nacionais ligadas à ciência e à cultura. Essas instituições determinam os nomes a premiar mediante reunião de seus representantes na Comissão Julgadora dos Prêmios FCW. São elas: FAPESP, Academia Brasileira de Letras, Academia Brasileira de Ciências, CNPq (órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes, órgão do Ministério da Educação), Conselho Nacional das Fundações de Amparo à Pes-

quisa (Confap), Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). As premiações distinguem pesquisadores, escritores e artistas brasileiros reconhecidos internacionalmente e é essa uma das razões que levaram a fundação a se tornar referência nacional no meio acadêmico.
AFCW nasceu oficialmente como instituição privada em 1994 para se cumprir o desejo de Wessel, expresso em testamento feito em 1988, cinco anos antes de sua morte. No documento está determinada a criação da fundação à qual destinava “todos os bens” para cumprir as duas incumbências exigidas por ele. Como determina a lei, a FCW funciona sob a vigilância do Ministério Público e é gerida por administradores que devem seguir o estatuto e a legislação. Para evitar o colapso do patrimônio original, crescer e impedir que a organização se torne insolvente é preciso que a administração seja eficiente e parcimoniosa na gestão.
Wessel legou um patrimônio inicial constituído de 41 imóveis na capital paulista, em grande parte alugados, nos bairros da Barra Funda, dos Campos Elísios e de Santa Cecília, que totalizavam 18.722 metros quadrados (m²) de área construída. E seis outros imóveis em Higienópolis, onde deveria ser erguido “um empreendimento imobiliário cuja renda seria destinada à concessão de prêmios”, de acordo com o testamento. A gestão de seu patrimônio demonstra um crescimento de 630% a partir de 2000, quando terminou a transição do espólio de Wessel para a fundação e, simultaneamente, tomou posse a nova administração, que imprimiu outra dinâmica para reverter o perfil de
rentabilidade patrimonial: desconcentrou, construiu novos e maiores prédios, fez aquisições e atualizou a carteira imobiliária. Hoje são 51 imóveis e mais de 22.000 m² construídos.
Um Conselho Curador e uma Diretoria Executiva formam a administração da FCW. A gestão da primeira diretoria foi iniciada em 1995 e para ela Wessel havia indicado os seus testamenteiros como diretores nos três primeiros anos da fundação. O Ministério Público nomeou os dois testamenteiros – um diretor administrativo e um diretor gerente financeiro – que ocuparam a direção por tempo de mandato superior ao especificado pelo fundador Wessel. Eles permaneceram nos cargos não por três, mas por cinco anos.
Para o Conselho Curador, Wessel não indicou ninguém, mas o Ministério Público nomeou um afilhado dele em sua homenagem. Desse conselho também fazem parte permanentemente três representantes das entidades beneficiárias, ou seja, aquelas que recebem uma doação significativa da FCW a cada ano. No caso, a Fundação Antonio Prudente, o Corpo de Bombeiros e a Associação Benjamin Constant. Após o período de transição e auditoria dos bens houve a posse da nova Diretoria Executiva em fevereiro de 2000. A partir daí, o legado de Wessel foi administrado de acordo com os objetivos definidos para o patrimônio da FCW.
Esses objetivos são dois, como já foi dito acima: doações e prêmios à arte, à ciência e à cultura. As doações vêm dos recursos obtidos com as locações dos imóveis. Os prêmios distinguem os nomes reconhecidos na ciência geral, na ciência aplicada ao campo, à água, ao meio ambiente, à tecnologia, à biologia; na medicina; e na cultura. Para esse fim, a
fundação usou os seis imóveis de Higienópolis para transformá-los no empreendimento Shopping Pátio Higienópolis.
Na época surgiram numerosas propostas para os seis terrenos. A mais atraente delas foi construir um shopping. Entretanto eram necessários no mínimo 15.000 m² de área e a fundação tinha apenas 68% do necessário. Para chegar aos 100% foi preciso se unir a mais dois proprietários vizinhos, a Obra de Santa Zita e a empresa Plaza. O conjunto então formado atingiu 15.223,22 m². A participação no empreendimento foi estabelecida em 25% das cotas para a FCW e a Obra de Santa Zita; e 75% para o investidor responsável pelo custo de implantação e construção. Co-
mo tinha 68% da área, a fundação recebeu 17% das cotas (68% x 25% = 17%); e como a Obra Santa Zita detinha 32% da área, ficou com 8% das cotas (32% x 25% = 8%). O Shopping Pátio Higienópolis foi construído e é de seu movimento comercial que vem a maior parte da renda destinada aos vencedores dos Prêmios FCW.
Para conceder os prêmios de Ciência e Cultura a personalidades ou entidades de reconhecimento nacional, a fundação tem oito instituições parceiras (ver página 50). A partir deste ano a Marinha do Brasil integrará permanentemente a Comissão Julgadora dos Prêmios FCW de Ciência e Cultura. Na concessão do prêmio de Arte, a comissão julgadora é formada

por fotógrafos e publicitários vinculados à APP, Abrafoto, revista About, revista Fotografe Melhor, Biblioteca Nacional, Clube de Criação de São Paulo, PUC-Rio, Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Fotosite, Museu da Imagem e do Som, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Universidade Estadual de Campinas e Universidade de São Paulo.
Depois de 10 anos de investimento em prêmios para ciência e em bolsas de estudo, foi possível apreciar um resultado notável. Na festa da premiação dos ganhadores de 2010, realizada na Sala São Paulo em junho de 2011, na capital paulista, houve a apresentação do violinista Moises Bonella, acompanhado pelo pianista Ney Fialkow, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Bonella, de 22 anos, ganhou bolsa de quatro anos (2007-2011) da FCW para cursar música na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, estimulado pelo pianista Arnaldo Cohen. Talentoso, em abril o jovem músico recebeu da própria universidade norte-americana o Artistic Excellence Award.
Também em abril, durante a festa de aniversário de 60 anos do CNPq, a instituição federal homenageou a FCW com uma Menção Honrosa de Agradecimento aos serviços prestados no reconhecimento do valor científico no Brasil.
Apenas uma parte das atividades da FCW está exposta nesta edição. O destaque é para os perfis dos ganhadores dos prêmios de Ciência, Medicina e Cultura (a partir da página 18), as fotos dos vencedores de Arte (página 38), além da biografia de Conrado Wessel (página 8). O livro com as peças de todos os fotógrafos finalistas será lançado no segundo semestre de 2011. ✦
Os caminhos que levaram Conrado Wessel a inventar um novo papel fotográfico
Augusto Ubaldo Conrado Wessel (1891-1993) era fotógrafo, inventor, empresário e tinha grande conhecimento de química. Também gostava de escrever e deixou depoimentos datilografados contando seus tempos de fotógrafo amador, quando adolescente, e as batalhas que travou para conseguir erguer sua fábrica de papel fotográfico. Em um de seus rascunhos de memória ele anotou: “Já quando menino tinha tendência de querer saber como as coisas eram feitas, por exemplo, queria saber por que a fotografia em parte era executada no escuro, por que a chapa fotográfica, mesmo depois de exposta, não apresentava vestígios da imagem fotografada, somente com o revelador, como num passe de mágica, aparecia o objeto fotografado em seus menores detalhes”. A curiosidade aliada a suas próprias experiências o levou a ganhar, aos 15 anos, os três primeiros lugares em um concurso promovido pela Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo para as melhores fotos de animais, em 1907, mesmo competindo com profissionais.
Wessel queria mais. Não bastava ser um excelente fotógrafo. Ele desejava criar um produto capaz de concorrer com as maiores empresas internacionais da época no ramo: a Agfa, a Gevaert e a Kodak. Por isso aproveitou todas as oportunidades não só para desenvolver suas habilidades com a máquina fotográfica, mas para aprofundar-se nas técnicas de gravação e revelação e no que mais tivesse a ver com fotos. Quando o governo de São Paulo começou a promover uma política agressiva de promoção do consumo de café, carro-chefe do desenvolvimento paulista no início do século XX, o presidente do estado, Jorge Tibiriçá, baixou um decreto determinando

“exibições cinematográficas de vistas das fazendas e indústrias” para fazer propaganda no exterior. Para isso foi chamado um cinegrafista da empresa francesa Gaumont – o senhor Colliot, segundo Wessel – para filmar fazendas. O jovem fotógrafo, que falava francês, foi contratado para acompanhá-lo pelo estado, auxiliando-o nas revelações e nas filmagens. Quando o cinegrafista voltou para a França, deixou com Wessel um certificado de cinegrafista concedido pela Gaumont no qual o considerava apto a substituí-lo, se necessário.
“Insista, não desista”, dizia Wessel quando lhe pediam conselhos sobre situações difíceis, aparentemente incontornáveis. Ele investiu na própria formação, trabalhou seis anos pesquisando e levou outros cinco aperfeiçoando sua invenção de um novo papel fotográfico.
Quando decidiu estudar no K.K. Graphischen Lehr und Versuchsanstalt, em Viena, na Áustria, ele sabia que o instituto era avançado na tecnologia gráfica, especialmente em fotografia e clichês (placas de metal para impressão de imagens e textos). Sua pretensão era aprimorar-se em fotoquímica e clicheria. Quem garantiu os recursos para isso foi o pai, Guilherme, que considerava a clicheria um segmento
de muita perspectiva – em São Paulo, na época, só existiam três oficinas, todas com máquinas e processos primitivos.
Em Viena, Wessel iniciou seus estudos no instituto em julho de 1911 e terminou em dezembro de 1912. Fez o estágio profissional obrigatório em uma das mais importantes empresas especializadas na área de mídia, gráfica e fotografia, a casa Beissner & Gottlieb, finalizado em 1913. Quando voltou para São Paulo, em 1914, trazia na bagagem as máquinas e instrumentos que conseguiu adquirir na Áustria, na França e na Alemanha, uma clicheria completa que instalou para seu pai na rua Guaianases, 139. Ele, no entanto, logo percebeu que precisava estudar mais. Conseguiu inscrever-se na Escola Politécnica como aluno ouvinte e a cursou entre 1915 e 1919. Lá se tornou amigo e auxiliar de laboratório de Roberto Hottinger, titular da cadeira de bioquímica, físico-química e
eletroquímica do curso de engenharia química.
Hottinger confiava-lhe a preparação do laboratório nas aulas práticas e o incentivava a continuar sua pesquisa. Ao concluir sua “fórmula satisfatória” para o papel que desejava sentiu o impacto da descoberta: o que fazer? Não tinha recursos para instalar uma fábrica. “Havia pouco dinheiro, faltavam máquinas, papel etc.”, escreveu Wessel. Ou seja, faltava quase tudo. Por indicação de um cliente, porém, ele soube de um professor que desejava vender equipamentos de uma fábrica de papel fotográfico que não dera certo. Conrado Wessel comprou as máquinas – “regateando o máximo”, segundo ele – e as instalou na propriedade do pai, à rua Lopes de Oliveira, 198, em 1921.
Alguns anos antes, em 1916, Guilherme Wessel havia contratado o escritório Moura, Wilson & Co., do Rio de Janeiro, representante da International Patent
escritório Moura, wilson & co. comunica ao pai de wessel a provável concessão da patente


cartão-postal do viaduto do chá, centro de são Paulo, em 1930, impresso no papel da fábrica wessel
Agency, para requerer os direitos pela invenção do papel fotográfico Wessel. Em carta de 4 de maio de 1921, o escritório informava que o ministro da Agricultura despachara favoravelmente o pedido de privilégio solicitado. Guilherme e Conrado estavam liberados para divulgar a invenção ou fazer qualquer negócio que desejassem com ela. As dificuldades não pararam aí e outros obstáculos precisaram ser contornados. Foi preciso aperfeiçoar a produção até conseguir um papel confiável para o mercado e vencer a resistência inicial dos fotógrafos, seus clientes potenciais. Nos anos seguintes houve grande instabilidade política no país, como os episódios da revolta dos 18 do Forte de Copacabana, em 1922, e a revolução paulista de 1924. Nesse último ano, em particular, os fornecedores tradicionais de papel não conseguiam abastecer os
fotógrafos em razão do conflito e eles começaram a usar aquele fabricado por Wessel. Quando veio a paz, ele já estava com sua fábrica em plena atividade e um produto de primeira linha pronto, o cartão-postal Jardim. Em pouco tempo ganhou o mercado e alcançou sua meta traçada ainda adolescente, de ter um produto tão bom ou melhor que os grandes fabricantes mundiais de papel fotográfico.
A produção cresceu e com o passar dos anos o empresário começou a ser assediado por empresas do exterior. Tornou-se inicialmente fornecedor da Kodak e, em 4 de julho de 1936, garantiu para a empresa norte-americana a totalidade da produção de papel, que ficou conhecido por muito tempo com o nome Kodak-Wessel. O prazo do contrato foi de 10 anos. Em 1947 visitou a sede da companhia em Rochester, nos Estados Unidos, para negociar a renovação
da parceria por mais 10 anos com opção de compra de sua patente. Desse acordo surgiu nova fábrica, em 1949, e a partir de 1954 a patente passou definitivamente aos norte-americanos, que difundiram o papel inventado por Wessel ao redor do mundo.
O tempo demonstrou a correção da assertiva de Conrado Wessel – “insista, não desista”. E quem ganhou com isso foi o país, pela instituição da Fundação Conrado Wessel, destinatária do patrimônio por ele amealhado a partir da sua fórmula de papel fotográfico. Ele deixou a vontade de que ela fosse instituída com seus bens, pelo testamento lavrado em 11 de maio de 1988. E, com ela, devolveu à sociedade tudo o que conseguiu, porque estabeleceu para a fundação a grande finalidade de incentivo à arte, à ciência e à cultura, que se realiza mediante prêmios, bolsas, publicações e apoios. ✦
FCW busca premiar personalidades cujo trabalho se volta para a sociedade
Os critérios adotados na premiação de Ciência, Arte e Cultura pela Fundação Conrado Wessel (FCW), ao longo dos já quase 10 anos de outorga, demonstram o acerto de seu caráter fundamental: os ganhadores têm uma carreira profissional meritória reconhecida na sua especialidade, em nível internacional. Além disso, entretanto, há nos escolhidos alguns predicados que compõem um perfil voltado à eficácia claramente social: trabalho incessante, integridade pessoal, inovação em produzir alternativas de qualidade de vida, de distribuição de benefícios acessíveis a todos. As entidades parceiras da fundação endossam tais critérios. Ano após ano, os responsáveis pela decisão de laurear os melhores cientistas, artistas e fotógrafos se esmeram em aprimorar as normas que regem o Prêmio FCW. Esse esforço tem levado a algumas mudanças, em especial nas subcategorias de cada área. O Prêmio de Arte é dirigido agora para o ensaio, após um período de privilégio à fotografia publicitária, até 2009. O Ensaio Fotográfico já estava presente antes, dividido entre Ensaio Inédito e Ensaio Publicado, mas de modo secundário. Tornou-se representativo da Arte e não se distingue mais entre publicado ou inédito. O total da premiação para os três primeiros colocados atinge R$ 200 mil, incluída a tributação.
Os resultados de inscrições para o Prêmio FCW de Arte, que se realizam via internet, revelam uma intensa



participação nacional. Entre as regiões, em virtude da concentração populacional, o Sudeste e o Sul correspondem ao maior número. Mas as inscrições retratam o país todo. Houve 207 inscritos, assim distribuídos: 38 dos estados do Nordeste, 7 do Norte, 8 do Centro-Oeste, 8 do Distrito Federal, 28 do Sul e 109 do Sudeste.
A premiação de Cultura, a exemplo de Ciência e Arte, vem sendo modificada com o objetivo de ser mais plural. Os organizadores dos Prêmios FCW sempre tiveram em mente que o ganhador dessa área não deveria vir apenas da literatura. Os escritores Lya Luft (2003), Ferreira Gullar (2004), Fábio Lucas (2005) e Ruth Rocha (2006) foram os primeiros vencedores. A partir de Affonso Ávila (2007) algumas mudanças se fizeram sentir. A principal contribuição para a cultura brasileira do poeta mineiro não está na excelência de sua poesia, mas na divulgação para o mundo do acervo barroco mineiro. Ele edita pesquisas sobre o tema, por exemplo, na revista Barroco, conhecida no exterior.
Após Ávila, foram premiados o dramaturgo Ariano Suassuna (2008), também um homem de ampla atuação cultural, e Antonio Nóbrega (2009), versado em música clássica e dança que faz um trabalho com grande participação popular no seu Instituto Brincante, em São Paulo. Em 2010 o ganhador Nelson Pereira dos Santos – que recebe o prêmio agora, em 2011 – vem do cinema. Nos próximos anos poderá vir da televisão, das artes plásticas ou da dança.
A modificação mais significativa já definida para as próximas edições diz respeito à Comissão Julgadora, com o ingresso da representação do Comando da Marinha no grupo de jurados de












Ciência, enfatizando a opção de incentivo às pesquisas no mar. A decisão reporta ao primeiro prêmio de Ciência Aplicada ao Mar, em 2002, e à presença permanente a partir de então de um representante da Marinha entre os jurados. A presença de ora em diante vai traduzir um convênio ainda em esboço com a FCW para que novas atividades mútuas se desdobrem entre a Marinha e a fundação, assim como está em elaboração igual entendimento com o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeronáutica (DCTA). Os laureados em Ciência, Medicina e Cultura recebem, por ora, R$ 300 mil cada um.
As personalidades da ciência e da cultura que tenham contribuído para a sociedade são o alvo preferencial da FCW. De 2002 a 2010 ganharam o prêmio 76 cientistas, escritores, artistas e fotógrafos (ver os ganhadores de Ciência e Cultura nas páginas 13, 14 e 15), além de cinco Prêmios Almirante Álvaro Alberto (este em parceria com o Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq). A parceria entre a Pesquisa FAPESP e a FCW permitiu que todos tivessem seus principais trabalhos descritos em reportagens de edições como esta. No caso dos fotógrafos, as imagens foram publicadas. Duas instituições, o Instituto Agronômico de Campinas e o Museu Paraense Emílio Goeldi, além de três escolas estaduais, também foram premiados.
Ao reconhecer o talento de cada um com prêmios que chegam a R$ 300 mil e uma escultura do artista plástico Vlavianos, é possível notar a linha paralela por onde caminham a FCW e os laureados. As biografias mostram não apenas o mérito científico e cultural de cada um deles – indicam também o quanto o país vem ganhando com o trabalho de décadas realizado por eles. ✦
























Jairton Dupont, um dos 100 químicos mais influentes do mundo, diz que ainda há muito a descobrir na sua especialidade
Em fevereiro deste ano o químico gaúcho Jairton Dupont, 52 anos, recebeu mais um reconhecimento público pela importância e consistência do seu trabalho. Ele foi escolhido como um dos 100 químicos mais influentes da década pela agência internacional Thomson Reuters. Único brasileiro da lista, onde figura em 83º lugar, Dupont diz se sentir muito satisfeito, mas divide os créditos. “Qualquer um de nós quando tem o seu trabalho reconhecido se sente recompensado, mas eu gosto de pensar que é um reconhecimento do trabalho de um grupo, uma ilha de excelência de que tenho o privilégio de estar à frente”, diz o professor do Departamento de Química Orgânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde coordena um grupo de pesquisa dedicado a estudos com líquidos iônicos orgânicos para aplicação principalmente no refino de petróleo na indústria petroquímica. A distinção se soma a muitos outros prêmios já recebidos pelo pesquisador, como o Humboldt Young Research Award, concedido pelo Ministério da Educação, Ciência e Tecnologia da Alemanha em 2005, honraria que ele descreve como uma das mais importantes. Em 2007 ganhou o prêmio Scopus da Elsevier-Capes e em 2008 a medalha do Journal of the Brazilian Chemical Society, o Prêmio Finep Inventor-Inovador e o World Intellectual Property Organization Award. A história de vida de Dupont é bastante parecida com a trajetória de muitos brasileiros do interior que se mu-

daram para a capital nas décadas de 1960 e 1970. Nascido em um pequeno vilarejo de imigrantes suíços formado no final do século XIX, chamado Desvio Blauth e hoje pertencente à cidade de Farroupilha, mudou-se aos 6 anos com a família para Canoas, cidade-satélite de Porto Alegre, já que a irmã mais velha havia ingressado na universidade. “A obsessão dos meus pais era que os filhos estudassem”, relata. “E esse foi um dos maiores legados que eles me deixaram.” As difi-
culdades materiais eram muitas, mas ao relembrar a infância ele parece viajar no tempo e a descreve como maravilhosa. “As lembranças são de uma infância com a maior liberdade possível, em que jogava taco, bola de gude, tomava banho de rio.” Começou a estudar à noite aos 13 anos para poder trabalhar durante o dia. Aos 14 anos teve o seu primeiro registro em carteira como balconista de uma loja de ferragens. Decidiu que seria professor de matemática pela facilidade que
tinha em aprender a matéria e ensiná-la aos colegas. Fez vestibular na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) para licenciaturas curtas em ciências, curso de dois anos e meio de duração, que permitia aos alunos lecionar matemática, física, química e biologia.
No final do primeiro semestre foi convidado por uma das professoras de pedagogia a dar aulas em colégio particular de Porto Alegre. Pouco tempo depois, começou a lecionar também em
um colégio estadual. Enquanto cursava ciências, passou a achar a matemática muito monótona e lógica. “A química era um fascínio, porque não tinha quase nada de equacionável, era tudo empírico e havia um mundo a descobrir”, lembra. Logo depois que decidiu fazer química começou a cursar a licenciatura plena, também na PUC. Uma das outras habilidades que sempre teve, ele conta, é o aprendizado de idiomas. Como falava com certa facilidade o francês, decidiu ao término do curso de graduação em 1982 ir para a França fazer uma especialização, mesmo sem ter bolsa. “Na época, entre alguns círculos estudantis de esquerda, aprender inglês era se render ao imperialismo norte-americano”, diz, ressaltando que hoje ri quando se lembra disso. “Ao chegar à França, a primeira coisa que me fizeram aprender foi o inglês, porque é a língua da ciência.”
Fez o curso de especialização e emendou com o doutorado, ambos na Universidade Louis Pasteur de Strasbourg. Ao ter-
"Há preconceito na ciência. Tivemos muita dificuldade para publicar os primeiros artigos científicos do grupo"
minar, recebeu um convite para fazer pós-doutoramento na Universidade de Oxford, na Inglaterra, período que deveria durar um ano e foi esticado para três, porque conheceu a sua mulher, a colombiana Martha, com quem teve depois de 23 anos de convivência a filha Isabel Cristina, hoje com 2 anos e meio. “Fiquei esperando que ela terminasse o doutorado para que pudéssemos vir ao Brasil, que Martha

ainda não conhecia”, diz. A volta se deu em 1990, com uma bolsa de recém-doutor e, desde 1992, quando prestou concurso para professor adjunto, está na UFRGS. A partir dessa época foi criado na universidade o grupo de pesquisa em catálise, que hoje é referência mundial. “Em 1992, nós éramos o terceiro ou quarto grupo formado no mundo, não tinha mais ninguém trabalhando nessa área.” A descoberta do impacto das pesquisas produzidas só veio muito depois, quando os pesquisadores começaram a perceber que as citações aos trabalhos publicados havia aumentado consideravelmente e pelos convites recebidos de todas as partes do mundo para fazer conferências. Para os jovens que estão começando, Dupont alerta que a ciência tem seus preconceitos. “Sabemos muito bem disso porque tivemos muita dificuldade para publicar os primeiros artigos científicos do grupo”, relata. Eles foram publicados em periódicos científicos de terceira categoria. Agora grande parte desses artigos encontra-se entre os mais citados nas publicações na inglaterra, no dia do casamento com Martha arquivo pessoal / repro D ução liane neves
internacionais. Por isso ele faz uma recomendação: “Mesmo quando se recebe um não, é preciso persistir”.
Ointeresse pelos compostos iônicos, um assunto praticamente desconhecido naqueles idos da década de 1990, envolve um dos colegas e grande amigo pessoal de Dupont, o professor Roberto Fernando de Souza, diretor do Instituto de Química da UFRGS. O pesquisador diz que ainda se lembra do dia em que, no corredor, ele perguntou: “Jairton, tu viste o artigo do Yves Chauvin, em que a dimerização de olefinas [hidrocarboneto] é feita com sal fundido?”, relata Dupont, que respondeu: “Você está louco?”. O uso de compostos iônicos orgânicos para acelerar as reações químicas era novidade na época. O francês, autor do artigo, ganhou o Prêmio Nobel de Química em 2005, mas por outra linha de pesquisa. O espanto de Dupont deu lugar à descoberta de que o assunto estava começando a entrar na pauta. Tanto que logo depois desse episódio os pesquisadores gaúchos foram procurados pela Petrobras com a proposta de montar um grupo de trabalho para estudar o tema que interessava à empresa. Esses sais, que são naturalmente líquidos à temperatura ambiente, não evaporam e são ótimos condutores de eletricidade. Além do refino de petróleo, eles podem ser usados na produção de substâncias de interesse farmacêutico ou como lubrificantes de robôs e equipamentos enviados para o espaço. Alunos da UFRGS foram enviados para aprender com o grupo do professor Chauvin na França. “A primeira patente brasileira de uso de líquido iônico foi depositada pelo professor Roberto quando estava na França em um ano sabático”, conta Dupont.

isabel Cristina, de 2 anos e meio: sempre com o pai
"Os cientistas que ficaram no país criaram esse sistema de ciência que tem muito mais valia para mim e para a sociedade"
A aplicação dos líquidos iônicos em catálise abriu um novo leque de oportunidades para o grupo de pesquisa, que conta atualmente com 25 professores. O grupo tem três patentes concedidas e 10 depositadas, a maioria em parceria com a Petrobras. As patentes são ligadas à catálise, mas também para novas aplicações vislumbradas para líquidos iônicos, como geração de hidrogênio e energias alternativas.
“Aprendemos a duras penas que é melhor primeiro patentear e depois publicar. Existem várias patentes no mundo baseadas em desenvolvimentos feitos pelo nosso grupo”, diz o pesquisador. “Isso só foi possível porque esse grupo, ao qual pertenço, decidiu que era possível fazer ciência apesar de todas as dificuldades que se tinha na época.” Dupont elogia os cientistas que saíram do país e fizeram sucesso lá fora, mas diz que valoriza muito o cientista brasileiro que fez carreira no Brasil. “Os que permaneceram criaram esse sistema de ciência que tem muito mais valia para mim e para a sociedade do que os outros que estão fora.”
Aescolha de Dupont pela química se revela também no seu prazer em cozinhar. Para ele, a cozinha é um laboratório. “Eu não conheço nenhum bom químico que não seja um bom cozinheiro.” O segredo para se sair bem é fazer com prazer. “Eu
me sinto dono de mim mesmo quando estou fazendo um prato e me sinto muito bem se os outros gostarem do que eu fiz”, atesta o gaúcho, que não esconde a imensa alegria de ter sido pai quase aos 50 anos. Dupont diz que ser cientista é maravilhoso para quem gosta de viajar e conhecer diferentes culturas. “Nos meus cinco anos de França e três de Inglaterra, aprendi todo o ritual de como se prepara um prato, como se serve e como se come.”
Na universidade, Dupont se divide entre a sua sala de dimensões acanhadas e os laboratórios onde orienta os alunos, em sua maioria bastante jovens, com um vaivém constante. O professor gosta de estar cercado deles e não se recusa a viajar para atender pedidos de estudantes inte-
Entre 2000 e 2010, Dupont publicou 120 artigos científicos sobre química e obteve 6.964 citações

ressados em aprender mais sobre a linha de pesquisa que lidera. “É difícil em um ambiente hostil produzir algo novo, por isso ele tem que ser o mais diverso, onde o embate e as ideias fluam”, diz. Desde que foi anunciado como um dos 100 maiores químicos do mundo, em uma lista que tem 70 dos Estados Unidos, 7 da Alemanha e 4 do Reino Unido, o professor já deu muitas entrevistas para diversos veículos de comunicação. O que sobressai nelas é a sua postura extremamente politizada, em que ressalta o fato de ser o único ibero-americano – e também o único pesquisador de países emergentes como China e Rússia na lista. Para figurar na relação, os escolhidos deveriam ter publicado pelo menos 25 artigos em uma década e recebido, no mínimo, citações em 50 diferentes publicações. Todas essas exigências foram superadas com folga por Dupont. Entre 2000 e 2010, ele publicou 120 artigos sobre química e obteve 6.964 citações, o que resultou em mais de 58 citações por artigo.
Para o pesquisador, o fato de a esmagadora maioria dos figurantes da lista ser dos Estados Unidos resulta de o país ter criado uma ilha de excelência em pesquisa. “As instituições brasileiras, principalmente as universidades, foram pensadas e criadas com outro papel, ao contrário das instituições norte--americanas onde trabalham esses pesquisadores”, diz Dupont. “No Brasil, ainda se acredita que a formação possa se dar na sala de aula, com quadro-negro, giz e livro. É uma formação livresca, em que a pesquisa passa ao largo”, observa. Ele ressalta que as instituições brasileiras não estão preparadas para atender a demanda da sociedade para ciência e tecnologia. “O marco legal a que as nossas universidades es-

na cozinha da casa em porto alegre, Dupont faz suas experiências culinárias
tão submetidas é completamente inadequado, porque somos tratados como uma simples repartição pública.” Dupont diz que esse modelo brasileiro não tem como responder à ciência, que necessita de liberdade, agilidade e facilidade para adquirir dados, reagentes, equipamentos e até contratar pessoas.
“Se não houver uma mudança no marco legal onde se realiza mais de 90% da ciência, tecnologia e inovação, não vamos conseguir fazer frente aos demais países que compõem o BRIC”, diz.
A sigla BRIC refere-se ao Brasil, Rússia, Índia e China, que se destacaram no cenário mundial pelo rápido crescimento de suas economias em desenvolvimento. “Para isso também é preciso que as universidades com programas de pós-graduação de excelência assumam o seu papel.” Dupont
alega que essas universidades, em boa parte, em vez de fornecer os doutores de que o país necessita nesse momento, preferem criar mais cursos de graduação ou até cursos tecnólogos. É fundamental, na sua avaliação, que nesse momento de avanço na economia o Brasil coloque mais densidade tecnológica e de conhecimento nos produtos que exporta. “A não ser que o Brasil queira continuar a ser um eterno exportador de commodities com muito pouco valor agregado aos seus produtos”, diz. Para isso o país precisa formar mais mestres e doutores.
Atítulo de exemplo, ele cita que o sistema brasileiro federal não tem mais do que 90 mil doutores, segundo levantamento do Ministério da Ciência e Tecnologia, dos quais 6 mil são quími-
cos. “Só a cidade de Boston, nos Estados Unidos, tem esse número de químicos”, compara. Dupont diz que o país tem um problema de escala. “Para atacar esse problema temos que investir desde o ensino fundamental até o mais elevado, mas é preciso que as instituições assumam essa responsabilidade”, afirma. “Sem doutores, não vamos conseguir universalizar um ensino de qualidade.” Para o pesquisador essa é uma oportunidade única, que não pode ser desperdiçada. “O Brasil conseguiu montar algo exemplar no mundo nos últimos 50, 60 anos, que foi a criação da pós-graduação brasileira. Temos alguns programas de pós de excelência no Brasil capazes de iniciar o processo para responder a essa demanda de gente qualificada do mais alto nível.” ✦
Angelita Habr-Gama alia talento para operar às ações de prevenção de câncer
Em outubro deste ano, quando estiver na sede da Sociedade Italiana de Cirurgia, em Firenze, para receber mais um prêmio internacional, a médica
Angelita Habr-Gama fará um discurso de agradecimento cujo título será “Tailored treatment of rectal cancer. Haute couture” (Tratamento individualizado do câncer retal. Alta-costura). A brincadeira misturando inglês e francês resume de certa forma o que ela pensa sobre sua atividade como cirurgiã coloproctologista. Ao mesmo tempo que age para extirpar tumores e reparar cirurgicamente o intestino e o reto, Angelita usa a agulha e a sutura com a fineza de uma estilista. “A concentração, a manipulação precisa, a leveza e a delicadeza no operar são impressionantes”, relata Rodrigo Oliva Perez, médico que trabalha na equipe dela. “Quando a cirurgia acaba parece que foi trivial. Mas basta operar sem ela para sentir como é difícil.”
Tal segurança e tranquilidade têm algumas origens. A primeira delas está na ampla experiência de Angelita como cirurgiã e na história construída por ela na medicina brasileira. O rol de conquistas é extenso: primeira mulher residente em cirurgia geral do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em 1958; primeira cirurgiã a estagiar em coloproctologia no tradicional Saint Mark’s Hospital, de Londres, em 1961; primeira professora titular em cirurgia do Departamento de Gastroenterologia (FMUSP), em 1998; primeiro médico latino-americano e primeira mulher a

integrar o seleto grupo de 17 membros honorários da European Surgical Association, em 2006, entre numerosos outros títulos. Também foi ela a responsável por tirar a coloproctologia da subespecialização das cirurgias do aparelho digestivo para transformá-la em disciplina própria, em 1995.
O utra razão que faz seu trabalho parecer simples é atribuída ao prazer em realizá-lo. “Não saio estressada das operações. Para mim, nunca foi um peso”, diz. Além disso, ela
afirma ser privilegiada. Não tem problemas físicos que a atrapalhem no dia a dia nem necessita de óculos. “Só a vejo colocar óculos para ler cardápio com letras miúdas de restaurantes com pouca luz”, diz a arquiteta Maria Pia Barreira Marcondes, casada com um dos sobrinhos do também médico Joaquim Gama Rodrigues, marido de Angelita. “De fato, ela opera sem óculos e se gaba disso”, conta Perez. Angelita é filha de libaneses que se conheceram e casaram na Ilha do Marajó, no Pará. Foi lá
também que ela nasceu, em 1931, assim como cinco de seus seis irmãos – só a caçula é paulistana. A decisão de ir para São Paulo foi tomada depois que um dos irmãos morreu em consequência de apendicite aguda, mesmo tendo recebido atendimento hospitalar. O desapontamento do pai, Kalil Nader Habr, o levou a vender o empório que tinha para arriscar uma vida melhor na capital paulista, onde a família se instalou na Vila Mariana e abriu uma mercearia na frente da antiga estação de bondes. Angelita tinha então 7 anos.

angelita ainda menina na Ilha do Marajó, onde nasceu, e com o professor alípio correa Netto, que a conduziu ao altar
Os estudos foram todos completados em escolas públicas estaduais: Marechal Floriano, Caetano de Campos e Presidente Roosevelt. Neste último ela fez o científico – um dos cursos do período, em paralelo ao clássico, atual ensino médio – e fundou com sua turma um clube de voleibol, o Adamus, que existe até hoje. “No momento de escolher a profissão decidi que não queria fazer o magistério e tentaria a medicina, ao contrário do que desejavam meus pais”, recorda--se Angelita, que fez um ano de cursinho preparatório antes de ser aprovada em 7º lugar e começar o curso em 1952.
Uma vez na faculdade, a jovem começou a observar as clínicas que poderiam interessá-la em uma futura especialidade.
“Quando passei pelo setor de cardiologia, com o professor Luiz Décourt, participei de minha primeira pesquisa científica, no 3º ano”, conta. Angelita passou também períodos em outros setores, como no de nefrologia, com Tito Ribeiro de Almeida –pioneiro do rim artificial –, e no de gastroenterologia, com José Fernando Pontes.

No 6º e último ano do curso ela entrou em uma cirurgia como acadêmica auxiliar. Um dos residentes que havia participado da operação mandou que Angelita fizesse a sutura da parede abdominal do doente. Ela disse que nunca havia feito, mas ele insistiu. “Quando comecei a costurar percebi imediatamente: é disso que eu gosto”, contou, mais de 50 anos depois dessa primeira cirurgia. “Eu havia aprendido corte e costura quando menina e tinha habilidade manual para aquilo.” O problema é que só havia oito vagas na residência de cirurgia para cerca de 30 candidatos. Quando foi se inscrever para fazer o concurso, o professor responsável a censurou: ela não deveria tentar tomar a vaga de outro cirurgião. A experiência
do médico mais velho indicava que ela logo se casaria, teria filhos e acabaria abandonando a cirurgia. “Disse a ele que quem decidiria a minha vida seria eu. Fiz o concurso e passei em primeiro lugar.”
Era, então, o momento de escolher a especialidade. Ela optou por trabalhar com Alípio Correa Netto, ex-reitor da USP, um médico que se tornou lendário no HC pela competência como cirurgião, professor humanista e no trato com alunos e pacientes. Foi ele quem dividiu a cirurgia geral em especialidades médicas no hospital, como gastroenterológica, cardíaca, plástica, pediátrica etc. “Ele entendeu que o cirurgião-geral não podia fazer tudo. E colocou as pessoas mais
habilidosas nessas áreas”, diz Joaquim Gama Rodrigues, que fez carreira junto com Angelita na universidade, onde se conheceram. A jovem médica tinha simpatia especial pela cirurgia plástica. Alípio Correa, porém, a estimulou a ir para a gastroenterologia. “Ele dizia que a gente sente mais que está atuando como médico na área de gastro, as doenças são mais graves e ajudamos mais as pessoas”, conta ela. Depois da residência, Angelita e o futuro marido foram trabalhar na clínica do eminente cirurgião Arrigo Raia, no Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Em 1960 ocorreu em São Paulo um congresso internacional de coloproctologia, sob a presidência de Daher Cutait. Um dos convidados presentes era Basil Morson, então diretor do Saint Mark’s Hospital, o principal centro hospitalar do mundo especializado em coloproctologia da época. “Aquele encontro médico me entusiasmou e sugeri ao professor Alípio passar um período no Saint Mark. Ele concordou.”
Começou então uma longa correspondência com Morson. No início o médico britânico respondeu dizendo que aquele era um hospital de médicos homens, não de mulheres. Alípio e Angelita insistiram e o pesquisador inglês acabou cedendo. Quando chegou lá, com jeito, trabalho e talento, ela conquistou a todos, incluindo as enfermeiras. Era no vestiário delas que Angelita trocava de roupa porque na época não existia vestiário feminino para médicas no hospital. No Saint Mark ela aprendeu sobre as doenças inflamatórias do intestino, muito mais comuns na Europa e nos Estados Unidos do que no Brasil, onde ainda se conhecia pouco sobre essas patologias. Também trabalhou com os melhores médicos pesquisadores do setor, co-

vida familiar intensa: 28 sobrinhos e sobrinhos-netos no total
mo Lockhart-Mummery, Alan Parks e com o próprio Morson, renomado patologista. “Voltei com a cabeça aberta e comecei a aplicar aqui o que aprendi lá”, diz. Em 1964 casou-se com Joaquim e, na ausência do pai, já morto, foi levada ao altar por Alípio Correa Netto.
Embora sempre tenha feito pesquisas, seus trabalhos científicos ganharam maior relevância a partir da década de 1990. Angelita dedicou boa parte de seus esforços ao combate ao câncer de reto, tanto na prevenção como no tratamento. Em relação ao câncer de reto, desde 1991 acreditava – como acredita até hoje – que muitos doentes que tinham esse tipo de câncer não precisavam fazer a colostomia definitiva após a retirada de todo o reto, ânus e esfincteres. Em 1974 o cirurgião norte-americano Norman D. Nigro criou o conceito de que câncer de ânus pode ser tratado, de início, com uma terapia combinada
de rádio e quimioterapia. Essa é uma grande vantagem porque em boa parte dos casos o tumor desaparece sem operação. “Ora, se é possível curar o câncer de ânus, por que não o de reto baixo?”, indagava ela, na época. Começou então a tratar doentes com radioquimioterapia antes da cirurgia e não operava de imediato quando o tumor desaparecia. Outros médicos do Brasil e do exterior indicam sempre a cirurgia após o tratamento mesmo quando há regressão total do tumor.
Ela explica: “Quando o câncer é no reto alto, não é preciso, em geral, fazer radioquimioterapia e operamos de imediato. Agora, quando o câncer é bem perto dos esfincteres, para curar o doente, se não fizer radioquimioterapia, tem de se amputar o reto e fazer a colostomia definitiva. Quando se faz radioquimioterapia, de início, neoadjuvante [sem cirurgia] em cerca de 25% a


o marido
Joaquim Gama e angelita durante cirurgia
30% das vezes o tumor desaparece sem, a meu ver, a necessidade de operar”. No caso de câncer de ânus, 70% desaparece; de reto baixo, 30%. Ela operou alguns desses doentes com regressão clínica considerada completa e viu que na peça cirúrgica não havia tumor. “Decidi não mais operar doentes se houver regressão clínica do tumor.” Para confirmar o desaparecimento do tumor, ela segue os pacientes de perto. Sempre avisa que o tumor pode voltar e, se isso ocorrer, não há solução fora da cirurgia. A aceitação desse novo procedimento foi difícil. Os médicos resistiam e diziam que não operar de imediato não era ético porque havia a possibilidade de recidiva. “Mas o que é ético para o doente?”, argumenta Angelita. “Seria operar quem clinicamente não tinha mais tumor, fazer uma colostomia definitiva e na peça cirúrgica que foi removida não encontrar tumor?” Hoje a radioquimioterapia para câncer de reto baixo é consenso. A conduta de não operar é que não é aceita em consenso, sendo reservada apenas para centros de pesquisa.
Os numerosos trabalhos científicos de Angelita têm hoje uma repercussão maior do que no passado graças, em parte, à sistematização dos dados científicos. “Ela sempre publicou muito, mas o impacto das publicações mudou, para melhor, nos últimos 15 anos”, explica Rodrigo Perez. “Antes ela era reconhecida como uma grande cirurgiã, de técnica refinada, e pelo conhecimento. De vários anos para cá Angelita passou a ser muito conhecida também pela pesquisa científica que realiza.” Os convites para conferências e aulas internacionais tiveram então um crescimento brutal. Hoje há um grupo de médicos e pesquisadores jovens que trabalham diretamente com Angelita e Joaquim Gama na clínica de ambos, atuam na cirurgia, colaboram na organização de cursos nacionais e internacionais, e na publicação de trabalhos científicos e resultados das pesquisas.
Em 1978, Angelita e Joaquim Gama organizaram um congresso de prevenção de câncer de estômago e intestino, este último com incidência crescente no Brasil, provavelmente em razão
do consumo de muitos alimentos conservados, corados artificialmente e processados. “No ano passado foram registrados 26 mil casos, mas até há pouco tempo eram 10 mil. Nos Estados Unidos chegam a 100 mil por ano”, avisa. A Associação Brasileira de Prevenção ao Câncer de Intestino (Abrapreci) foi fundada por ela e um grupo de colegas e demais profissionais da saúde em 2004 com a preocupação de conscientizar médicos e alertar a população para a doença. A entidade criou um intestino gigante, com mais de 20 metros, e o expôs em parques e shopping centers. O "intestinão", como Angelita o chama, é uma réplica ampliada do cólon para exposição pública. As pessoas andam por ele e, em uma visita monitorada, ficam conhecendo doenças como hemorroidas, divertículos, pólipos, câncer etc. As informações são transmitidas por meio de um vídeo de três minutos que informa sobre prevenção do câncer colorretal e as doenças relacionadas. “O intestinão já rodou por muitas cidades brasileiras do Amazonas, Bahia, Pernambuco, Minas Gerais, Brasília etc. Foi também exposto no Canadá.”
No ano passado, com a assessoria da equipe de Angelita, o Hospital Oswaldo Cruz inaugurou um centro de saúde no bairro paulistano da Mooca com o objetivo de detectar e prevenir câncer no intestino. Visitadores vão às casas das pessoas e levam um envelope com o teste para pesquisa de sangue oculto nas fezes. Os moradores colhem amostras de fezes e o pessoal do centro retira o material para análise. Os testes positivos indicam necessidade de se fazer colonoscopia. Se for constatado pólipo, ele é removido, e, se for câncer, o paciente é operado gratuitamente no Oswaldo Cruz. O projeto tem o patrocínio do Ministério da Saúde e apoio da prefeitura de São Paulo. Com esse número de atividades e projetos pode-se imaginar o pouco de tempo que resta para a vida social de Angelita e Joaquim. “Eles são grandes parceiros, embora diferentes. Ele é calmo; ela é agitada, quer fazer e experimentar tudo, enquanto ele chama a atenção para os riscos”, diz a sobrinha Maria Pia. Prevendo a intensidade da vida profissional, o casal deci-
Seus esforços foram dedicados a combater o câncer de reto, tanto na prevenção como no tratamento
diu que não teria filhos antes mesmo do casamento. “Foi uma decisão consciente”, conta Angelita. Nenhum dos dois se arrepende. Os 28 sobrinhos e sobrinhos-netos garantem uma vida familiar calorosa. Uma característica que chama a atenção dos colaboradores de Angelita é seu interesse pela informática, segundo a médica Luciana Camacho Lobato, gas-

troenterologista da clínica de Joaquim e Angelita Gama e chefe do setor de motilidade digestiva da Universidade Federal de São Paulo. “Lê os artigos no iPad, usa iPhone e prepara aulas caprichadíssimas no Mac. E quando viaja sempre traz o que há de mais moderno em conhecimentos científicos e em informática para aplicar aqui”, diz Luciana.
Angelita é assumidamente vaidosa, com cabelos, roupas e unhas sempre impecáveis, estas pintadas de vermelho. Houve época em que ela só usava esmalte de cores claras, o que era ruim porque o povedine, substância presente no desinfetante usado para lavar as mãos antes da cirurgia, manchava as unhas. Até descobrir que a cor vermelha, sua preferida, não é afetada pelo povedine. “Agora só uso vermelho. É importante cultivar os pequenos prazeres, pois quando passam os anos alguns dos grandes prazeres se reduzem”, diz Angelita, enquanto mira sua pequena e adorada coleção de objetos de cristal sobre a mesa do consultório. ✦
estudantes dentro do intestino gigante: foco na conscientização
Diretor de alguns dos filmes fundamentais do cinema brasileiro, é mestre na articulação de grupos e expressões culturais
Nelson Pereira dos Santos iniciou, nos anos 1950, “o cinema moderno no Brasil a partir do diálogo com o neorrealismo italiano e com escritores brasileiros”. Ou não? Na verdade, ele teria dado à luz o “proto-Cinema Novo” em Rio 40 graus (1955) e Rio Zona Norte (1957), lado a lado com Roberto Santos em O grande momento (1958), a partir de “um diálogo maior com o neorrealismo e a comédia popular brasileira”. Faz sentido? A uma conveniente distância do veredicto de seu colega Glauber Rocha em Revisão crítica do cinema, de 1963, e da avaliação do crítico Ismail Xavier, em Cinema brasileiro moderno, de 2001, ainda que sejam ambos respeitáveis comentários, Nelson Pereira dos Santos, 82 anos, finaliza neste primeiro semestre de 2011 dois filmes sobre Tom Jobim, A luz do Tom e A música do Tom, enquanto esboça um novo projeto em torno de uma grande personagem da história do Brasil – por enquanto um segredo. É um homem em pleno domínio da sua capacidade de realizar.
Tomado por impressionante vitalidade, o diretor dos dois Rios mais famosos do cinema brasileiro, e também de Vidas secas (1964), Como era gostoso o meu francês (1971), O amuleto de Ogum (1974), Tenda dos milagres (1977) e Memórias do cárcere (1984), para ficar apenas nos títulos mais memoráveis de quase três dezenas de filmes que fez em 60 anos de carreira, é capaz de alimentar por horas uma conversa fascinante sobre o cinema brasileiro, sua história, seus desafios, mazelas político-culturais, suas arti-

Nelson Pereira dos santos, em pleno domínio da sua capacidade de realizar
culações com outras expressões e dimensões da cultura e suas possibilidades futuras. Com otimismo, mesmo quando desfia queixas, com humor, mesmo quando parece não haver muitas razões para risos, Nelson Pereira dos Santos alterna, a visões críticas gerais, deliciosas micro-histórias de suas filmagens Brasil adentro e de suas conquistas mundo afora. Sua invejável fluência abre-se à recuperação de antigas memórias que ajudam a elucidar que personagem ele mesmo é. E vale aqui um retorno a meados do ano 1975. Três produções cinematográficas simultâneas,
baseadas em obras de Jorge Amado, agitam o ambiente cultural de Salvador: Dona Flor e seus dois maridos, de Bruno Barreto, Os pastores da noite, de Marcel Camus, e Tenda dos milagres, dirigido por Nelson Pereira dos Santos. Mais que as outras, esta nova filmagem do já celebrado diretor de três extraordinários clássicos do cinema brasileiro, Rio 40 graus, Rio Zona Norte e Vidas secas, espalha um indisfarçável frisson entre os intelectuais e a pequena classe média intelectualizada da capital baiana.
Em parte, esse clima buliçoso explica-se pelas oportunidades
de trabalho que o filme de Nelson Pereira dos Santos abria aos talentos locais. Os consagrados atores do teatro baiano Nilda Spencer e Arildo Deda, por exemplo, iriam contracenar com Hugo Carvana e Nildo Parente, entre colegas levados do Rio. O cineasta baiano Agnaldo Siri Azevedo iria dividir a assistência de direção do filme com o ator Emmanuel Cavalcanti e trabalhar lado a lado com o diretor de fotografia Hélio Silva, seus assistentes e a jovem cenógrafa Tizuka Iamasaki, entre tantos outros técnicos transplantados do Rio para Salvador. Mas a abertura de postos tempo-

rários de trabalho em área tão difícil, embora animadora, não basta para compreender o clima fervilhante que se instaura em torno da Tenda. Afinal, também convocavam alguma mão de obra local as produções de Dona Flor e de Os pastores da noite. Certamente contribui para a alegre agitação a experiência inusitada que Tenda dos milagres prometia a conhecidas figuras da terra sem nenhuma intimidade com o palco, caso do artista plástico Juarez Paraíso, escalado para viver ninguém menos que o protagonista Pedro Archanjo, em sua fase madura. Insólito? Não para Nelson Pereira dos Santos, que já trouxera do Rio o compositor Jards Macalé, destinando-lhe também o mesmíssimo papel de Pedro Archanjo, o sábio bedel da Faculdade de Medicina, na fase jovem. E que muito tempo antes, no começo dos anos 1960, ajudara a desentranhar de um oficial aposentado da Marinha, 43 anos, àquela altura às voltas com o teatro amador e
palhaço de circo na pequena Palmeira dos Índios, o notável ator brasileiro Jofre Soares. Foi do convite de Nelson Pereira para que Jofre vivesse um fazendeiro em Vidas secas, baseado na obra-prima homônima de Graciliano Ramos, que o ator surgiu para a cinematografia nacional. Trabalhar com amadores era, portanto, coisa normal para ele.
Pode-se certamente apostar que o ambiente eufórico também reflete o poder de atração do cineasta de talento várias vezes comprovado. Mas, talvez, o grande agente da oxigenação do ambiente soteropolitano naqueles dias seja uma marca personalíssima de Nelson Pereira dos Santos, ou seja, sua capacidade de articular com leveza, graça e um sedutor sorriso nos lábios, os grupos culturalmente mais distintos, sem se distanciar jamais de seu objetivo original, nem sempre claro para os interlocutores. Ou, dito de outro modo, sua imensa
energia para transitar, fluir por entre esses grupos, absorvendo a particular atmosfera de cada um, fazendo-as convergir por vezes, para, no final, apresentar-se íntegro naquilo que criava por meio dessa convivência, guiado por seu foco original.
De certa forma é essa mesma dinâmica que ele traz hoje à cena, quando escapa a rótulos, reduz a dimensão de seu vínculo ao neorrealismo italiano e diz que é sempre preciso “sair fora dos estreitos caminhos da história do cinema”. O neorrealismo, ensina ele, o professor de cinema de algumas universidades em diferentes oportunidades, “era uma lição de produção, não de conteúdo”. Era um movimento fundado “na ideia de que qualquer um, sem grandes estrelas e sem tecnologia sofisticada, podia fazer filmes e assim se espalhou pelo mundo, incluindo os Estados Unidos”. Munido dessa indicação do caminho, a cada um cabia “procurar sua rea-
lidade, buscar conteúdos em seu próprio contexto”. Nelson Pereira observa um tanto impaciente a vacuidade que haveria em um cineasta brasileiro prender-se, por exemplo, ao conteúdo moralista de um Vittorio de Sica, “à escassez da grana, à família que foi destruída na guerra”. Ora, no primeiro romance brasileiro, argumenta, referindo-se a Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, “o cara é simplesmente um tremendo bandido e vai ser polícia!”
Tudo é muito diverso. E não seria possível fazer nada culturalmente relevante sem essa busca de um conteúdo próprio, original de uma sociedade, sem descartar, ao mesmo tempo, as lições de uma outra sociedade.
Na verdade, já em fevereiro de 1975, em entrevista ao crítico Jean-Claude Bernardet motivada por O amuleto de Ogum, Nelson Pereira dizia não existir mais “aquela idealização” que houve em sua geração: “Partir para um modelo de fora e depois voltar à nossa realidade”. Ele procurava naquele momento tornar seus os valores populares, fazer um filme, inclusive no tratamento dado aos ritos umbandistas, que trouxesse uma visão popular da realidade, fora da antiga posição autoral que levava os cineastas brasileiros a não se preocuparem com o público. “A tradição que sempre pinta para um intelectual brasileiro, para uma pessoa das classes médias, é de ser diferente do povo, de se desligar do que acha negativo no povo. Isso vai mesmo desde a posição racial até usos e costumes,
Nelson Pereira buscava uma visão popular da realidade, fora da antiga posição autoral despreocupada com o público
e todo um desejo de reproduzir um modelo de sociedade ora europeu, ora americano. E o que acho que está acontecendo agora é que nenhum modelo mais está nos engraçando.”
Nessa mesma entrevista a Bernardet, que está publicada com revisões na segunda edição de Cinema brasileiro: propostas para uma história (Companhia das Letras, 2009), ele diz que os cineas-
tas, ele próprio incluído, tinham “uma visão muito distanciada da realidade, uma espécie de condensação dessa realidade em termos quase científicos”. Matiza um pouco: “Não muito, mas se pretendia científica. Assumimos em primeiro lugar a posição de cientista e, em segundo lugar, a posição de autores de filmes ligados ao povo, com o qual queremos ter uma posição íntima e generosa”. A primeira posição, falsa, porque os cineastas não tinham a condição de adquirir o instrumental científico, àquela altura lhe parecia eliminada. “E nos entregamos diretamente à chamada cultura popular.” Ele apela à divisão vislumbrada na sociedade brasileira pelo crítico Paulo Emílio Sales Gomes entre ocupados e ocupantes, cultura e cultura popular, para falar de sua opção: “Saber um pouco mais a respeito do nosso ser cultural, se ligar mais a ele, praticar uma observação mais aberta, menos facciosa”.
Um jeito novo de olhar o morro, o samba, o povo brasileiro

É munido, portanto, dessa base reflexiva em permanente revisão que Nelson Pereira dos Santos seguirá para seus próximos filmes, Tenda dos milagres logo ali à frente. E, claro, tomado por sua intensidade de artista, por sua visível energia criativa, traços completamente fascinantes de sua personalidade no olhar de sua mulher, Ivelise Ferreira. “É essa intensidade que vejo no processo de criação de Nelson, quando ele fica muito consigo mesmo, conhecendo, desenvolvendo, aprimorando um projeto”, ela diz. Mas é também essa intensidade que se apresenta na capacidade que ele tem “de juntar grupos com muita simplicidade”. Ivelise, que forma com Nelson Pereira um casal desde 1991, embora só tenham passado a viver juntos no eterno apartamento dele, no Humaitá, bairro tradicional da

Para o cineasta, é preciso "sair fora dos estreitos caminhos da história do cinema"
Zona Sul do Rio de Janeiro, em 2000, vocaliza com tranquilidade o que tantos amigos têm repetido dele ao longo dos anos: “Nelson é carinhoso, generoso, brincalhão, e em tamanho grau que viver com ele é uma coisa muito boa”. Mais que otimista, ainda que mantendo a língua sempre afiada em sua diatribe contra a cegueira do Estado brasileiro no trato das questões do cinema e da cultura em geral, Nelson Pereira dos Santos é, segundo Ivelise, “uma pessoa muito feliz”. E ele de fato transmite essa sensação de felicidade, um tanto rara entre seus pares. Talvez a felicidade, ela arrisca uma explicação, seja alimentada em parte pelo reconhecimento ao seu trabalho, que ao mesmo tempo lhe dá imensa energia para criar sempre, para seguir criando.
O cinema existe na vida de Nelson Pereira dos Santos, ele diz,






desde sempre. Irmão mais novo de Saturnino, Maria Antonieta e José, ele é Nelson simplesmente porque seu pai gostara muito da personagem Lord Nelson, num filme sobre o famoso almirante inglês. Helena Salem precisa a história, em sua indispensável biografia do cineasta, Nelson Pereira dos Santos: o sonho possível do cinema brasileiro (Record, 1996). O filme era o mudo The divine lady (1927), “muito bonito”, e seu Antonio Pereira dos Santos, pai de Nelson, gostara dele demais, segundo a mãe, dona Angelina Binari dos Santos, que preferia para o filho o nome de Marco Antonio. “Só que o Santos numa balança tinha a educação, ele era muito educado, e noutra a teimosia. Só fazia o que ele queria. O Nelson ficou idêntico, educadíssimo, não desdiz ninguém, mas só faz o que quer”, dona Angelina contou a Helena. Ficou Nelson, portanto, o nome do menino nascido em 22 de outubro de 1928, filho de um alfaiate, caipira paulista, e de uma dona de casa, filha de italianos do Veneto ancorados no Brás, na capital paulista. “O cinema estava praticamente dentro da minha casa, meus pais iam ao cinema três vezes por semana”, Nelson conta.
O futuro cineasta também frequentava assiduamente o cinema e, militante comunista desde adolescente na Escola Estadual Presidente Roosevelt, lhe pareceu simplesmente natural, estudante de direito na famosa faculdade do largo São Francisco, vinculada à Universidade de São Paulo, preparar em 1950 (em 1949, insiste Nelson, contrariando os dados de sua biógrafa) um documentário sobre os trabalhadores de São Paulo para o Festival da Juventude de Berlim, valendose de um laboratório improvisado no porão da casa de um amigo. “Tinha uma boa sequência, uma relação fluente entre os planos”, ele diz.
Antes, em 1949 (de novo, segundo Helena Salem. Para o cineasta, a viagem foi posterior ao documentário), Nelson chegara à Europa e, com o apoio do pintor Carlos Scliar e de outros intelectuais brasileiros ligados ao Partido Comunista que se encontravam em Paris, conheceu Henri Langlois, o responsável pela Cinemateca Francesa, e uma espécie de grande pai da cinefilia francesa do meio do século, que iria gerar a nouvelle vague. Ali pôde
participar dos intensos debates de revisão do realismo francês. Tinha decidido estudar cinema no Instituto Superior de Estudos Cinematográficos (Idhec) e lá conheceu Rodolfo Nanni, para quem faria, dois anos mais tarde, a primeira assistência de direção em O saci. Mas passados alguns meses, ele, que queria ficar alguns anos em Paris, voltou a São Paulo. Compromissos inadiáveis o chamavam. Aos 21 anos, precisava terminar o curso de direito e reencontrar Laurita Sant’Anna, sua namorada desde os 16 anos e que seria sua mulher por mais de 40 anos. Ela estava grávida do primeiro dos três filhos do casal (Nelson, Ney e Márcia).
Confusões de data à parte, a rigor, a primeira incursão cinematográfica de Nelson Pereira dos Santos foi mesmo Juventude, o documentário de 45 minutos preparado para o Festival de Berlim em 1950 – uma tarefa partidária. O parceiro da empreitada foi Mendel Charatz, um estudante de engenharia apaixonado por cinema, que tinha uma distribuidora de filmes estrangeiros de 16 milímetros e um laboratório completo num porão da avenida Angélica. Depois veio o trabalho em O saci,
quando conheceu Ruy Santos e Alex Viany que, em seguida, o convidaria para ser assistente de direção em Agulha no palheiro.
Começava assim a mudança do paulista para o Rio de Janeiro. Veio em seguida a assistência de direção em Balança mas não cai, de Paulo Vanderlei, que lhe trouxe algum dinheiro e a possibilidade de conhecer de perto o subúrbio carioca – a família foi morar em Jacarezinho, perto das filmagens. “Em Jacarezinho vi pela primeira vez uma roda de samba nas feijoadas para as quais era convidado. E depois disso preparar o roteiro e a produção de Rio 40 graus não foi uma aventura de uma garotada, mas alguma coisa feita com seriedade e método”, Nelson Pereira diz.
Rio 40 graus, com Hélio Silva como diretor de fotografia e o histórico organizador das jornadas de cinema na Bahia, Guido
Rio 40 graus é a fundação do cinema de Nelson Pereira e um grande marco do cinema
Araújo, como continuísta, é a fundação do cinema de Nelson Pereira dos Santos e um grande marco do cinema brasileiro. Tudo que Nelson estudara, discutira, aprofundara, deglutira, nos anos anteriores, sobre os processos de
Nelson e equipe na filmagem de A música do Tom
produção do neorrealismo italiano, sobre a filmagem com amadores etc., se apresenta ali para olhar de um jeito novo o morro, o samba, os pequenos vendedores de amendoim, o povo brasileiro, em oposição a Copacabana, à exploração capitalista, à corrupção dos coronéis, distribuídos em vários episódios que se interpenetram. Dificuldades intransponíveis de produção foram vencidas, as críticas e a oposição do Partido Comunista foram ignoradas, tudo para que o filme fosse feito. E se tornasse uma vitória impressionante, inclusive com reconhecimento internacional.
“Foi Rio 40 graus que mais movimentou a área de cinema”, diz Nelson falando sobre seus filmes preferidos. “Segundo Glauber Rocha, Rio 40 graus foi a revolução que antecedeu a Revolução Cubana”, ele completa, sorriso nos lábios. Mas a crítica aplaudiria muito os seguintes Rio zona norte e Vidas secas, que foi filmado no sertão


dirigindo o programa de tv A música segundo Tom Jobim, de 1984, entre dorival Caymmi e Jobim
alagoano porque em Juazeiro da Bahia, primeira locação escolhida, as chuvas haviam feito o sertão florir – circunstância aproveitada por Nelson Pereira para fazer Mandacaru vermelho (1961).
O cineasta inclui entre seus preferidos o notável Memórias do cárcere (1984), outro filme baseado na obra de Graciliano Ramos, que fala de uma ditadura anterior, a do Estado Novo, quando o país está saindo da ditadura dos militares. No ano de sua estreia, Memórias do cárcere arrastou ao cinema 1,5 milhão de espectadores, um estrondoso sucesso em termos brasileiros. Mas também inclui Tenda dos milagres e Jubiabá que lhe permitiram devolver ao público todo o prazer que a leitura de Jorge Amado lhe propiciava desde seus tempos de adolescente. E Como era gostoso o meu francês, cujo roteiro ele começou a imaginar em conversas com a antropóloga Laurita, numa época que atravessava com frequência a Baía de Guanabara
Para o diretor, "o cinema brasileiro está condenado a ser marginal por razões mercadológicas"
para dar aulas na Universidade Federal Fluminense.
A conversa com Nelson Pereira dos Santos, motivada pelo Prêmio Conrado Wessel, que se soma a muitos outros prêmios nacionais e internacionais – como o Prêmio de Crítica do Festival de Cannes por Memórias do cárcere –, aos títulos de doutor
honoris causa e à cadeira número 7 da Academia Brasileira de Letras, conquistados ao longo de uma vida extraordinária, não termina sem que ele elogie a qualidade do atual cinema brasileiro. Ou reclame dos imensos obstáculos que continuam se levantando contra a exibição dos filmes nacionais e declare que “o cinema brasileiro é vitorioso do ponto de vista do conteúdo e da forma, mas está condenado a ser marginal por razões mercadológicas”. Tudo com muita razão e paixão. Até porque, como diz Ivelise, que o conheceu na época de formação do Polo de Cinema de Brasília, que pretendia se contrapor ao fechamento da Embrafilme e à desastrosa política de Fernando Collor de Mello, e ali mesmo, jovem mulher de 28 anos, se apaixonou para sempre pelo homem de 61 anos, Nelson Pereira dos Santos é um homem irremediavelmente apaixonado e apaixonante. ✦
Orepórter fotográfico gaúcho Tadeu Vilani ficou com o primeiro lugar do Prêmio FCW de Arte. Ele ganhou com o ensaio fotográfico intitulado
TV P&B, que retrata a retirada de moradores de uma favela próxima ao aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, onde eles eram fotografados com molduras de aparelhos velhos de TV. “Captei o momento daquelas pessoas como uma manifestação inconsciente de serem vistos, na esperança de uma vida melhor para a comunidade”, disse Vilani. O ensaio Drom, o caminho cigano deu o segundo lugar para o mineiro Gui Mohallem, radicado em São Paulo. Kenji Arimura, também residente na capital paulista, levou o terceiro lugar com Índios contemporâneos. Vilani receberá R$ 114 mil e os outros dois R$ 42,8 mil. Eles foram escolhidos entre 15 finalistas de 207 inscritos. O tema foi “O Brasil e os brasileiros”. A seleção foi feita por sete jurados coordenados pelo professor Rubens Fernandes Junior, crítico de fotografia e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).
F otógrafos finalistas
Adriana Medeiros
André Vieira
Araquém Alcântara
Breno Rotatori
João Roberto Ripper
Lalo de Almeida
Márcio Vasconcelos
Marco Mendes
Paulo Pereira
Ricardo Teles
Rodrigo Zeferino
Yêda Bezerra de Mello

ensaio fotográfico
1º lugar
TV P&B, de Tadeu Vilani










ensaio fotográfico
2º lugar
Drom, o caminho cigano, de Gui Mohallem










ensaio fotográfico
3º lugar Índios contemporâneos, de Kenji Arimura








Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP
Ligada à Secretaria do Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, é uma das principais agências de fomento à pesquisa científica e tecnológica. Desde 1962 concede auxílio à pesquisa e bolsas em todas as áreas do conhecimento, financiando atividades de apoio à investigação, ao intercâmbio e à divulgação da ciência e tecnologia em São Paulo.
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes
Vinculada ao Ministério da Educação, promove o desenvolvimento da pósgraduação nacional e a formação de pessoal de alto nível, no Brasil e no exterior. Subsidia a formação de recursos humanos altamente qualificados para a docência de grau superior, a pesquisa e o atendimento da demanda dos setores públicos e privados.
Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico – CNPq Fundação vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia para apoio à pesquisa brasileira, que contribui diretamente para a formação de pesquisadores (mestres, doutores e especialistas em várias áreas do conhecimento). É uma das mais sólidas estruturas públicas de apoio à ciência, tecnologia e inovação dos países em desenvolvimento.
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC
Fundada há mais de 50 anos, é uma entidade civil, sem fins lucrativos, voltada principalmente para a defesa do avanço científico e tecnológico e do desenvolvimento educacional e cultural do Brasil.
Academia Brasileira de Ciências – ABC
Sociedade civil sem fins lucrativos, tem por objetivo contribuir para o desenvolvimento da ciência e tecnologia, da educação e do bemestar social do país. Reúne seus membros em 10 áreas das Ciências: Matemáticas, Físicas, Químicas, da Terra, Biológicas, Biomédicas, da Saúde, Agrárias, da Engenharia e Humanas.
Academia Brasileira de Letras – ABL
Fundada em 20 de julho de 1897 por Machado de Assis, com sede no Rio de Janeiro, tem por fim a cultura da língua nacional. É composta por 40 membros efetivos e perpétuos e 20 membros correspondentes estrangeiros.
Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial
Criado na década de 1950, é uma organização do Comando da Aeronáutica que tem como missão o ensino, a pesquisa e o desenvolvimento de atividades aeronáuticas, espaciais e de defesa, nos setores da ciência e da tecnologia.
Conselho Nacional das Fundações
Estaduais de Amparo à Pesquisa
Organização sem fins lucrativos que tem por objetivo maior articular os interesses das agências estaduais de fomento à pesquisa em todo o país. Criado oficialmente em 2007, o conselho já agrega fundações de 22 estados mais o Distrito Federal.
ciência parceira que indicou
Jacob Palis Jr. | Presidente
ABC
Adalberto Ramon Vieyra Capes
Carlos Alberto Aragão de Carvalho Filho CNPq
Carlos Alberto Pereira Tavares Confap
Carlos Vogt FCW
Eduardo Moacyr Krieger FAPEsP
Erney Plessmann de Camargo FCW
Glaucius Oliva CNPq
Jorge Almeida Guimarães Capes
José Galízia Tundisi FCW
José Oswaldo siqueira CNPq
José Roberto Drugowich de Felício FCW
Marco Antonio Raupp sBPC
Marco Antonio sala Minucci DCTA Wanderley de souza FCW
medicina
Renata Caruso Fialdini | Presidente FCW
Eliete Bouskela Confap
Erney Plessmann de Camargo FCW
Guilherme suarez Kurtz Capes
Helena Bonciani Nader sBPC
Marco Antonio Zago CNPq
Mario José Abdalla saad FAPEsP
Protásio Lemos da Luz FCW Wanderley de souza FCW
cultura
Celita Procopio de Carvalho | Presidente FCW
Ana Mae Tavares Bastos Barbosa FCW
Carlos Vogt FCW
Celso Lafer ABC
Domício Proença ABL
João Grandino Rodas FCW
José Murilo de Carvalho ABC
Maria Manuela Carneiro da Cunha sBPC
Martha Tupinambá de Ulhôa Capes
Wrana Panizzi CNPq
arte / ensaio fotográfico
Rubens Fernandes Junior | Presidente FCW
Joaquim Marçal Ferreira de Andrade Biblioteca Nacional/Iconografia
Luiz Braga Fotógrafo/Belém
Márcio Rodrigues
Ricardo de Leone Chaves
Premiado em Ensaio Fotográfico 2009
Editor de Fotografia do Zero Hora
Ronaldo Entler Unicamp e FAAP
Tiago sobreira de santana
Premiado de Ensaio Fotográfico 2006
Prazo para recebimento das indicações (Ciência e Cultura)
Preparação dos dossiês dos indicados (Ciência e Cultura)
Julgamento e escolha dos premiados (Ciência e Cultura)
Prazo para recebimento das inscrições (Arte)
Escolha dos premiados (Arte)
Cerimônia de premiação
15 de novembro de 2011
15 a 20 de novembro de 2011
24 e 25 de novembro de 2011
10 de março de 2012
19 a 23 de março de 2012
25 de junho de 2012
Conrado Wessel | www.fcw.org.br