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Um dos temas mais polêmicos e explosivos da Ciência,no presente,é a possibilidade da clonagem de seres humanos, aberta pelas experiências concretas – algumas bem sucedidas – da criação de clones de outras espécies animais.O debate a esse respeito rapidamente extravasou os limites dos laboratórios dos cientistas e alcançou os especialistas em ética,política e direito; depois,através da mídia, na forma de um bombardeio contínuo de informações contraditórias, espraiou-se por incontáveis ambientes,até pairar de forma difusa,como uma espécie de sonho ou pesadelo,sobre o imaginário social como um todo.E foi assim que,no Brasil,o clone humano logrou tornar-se já objeto de ficção,personagem visto e discutido,criticado,amado ou odiado,do folhetim eletrônico de maior audiência no país:a novela das oito da rede Globo.
“ A discussão da clonagem envolve diferentes aspectos científicos e éticos, e ao mesmo tempo, muitos mitos ”
A questão da clonagem envolve,sem dúvida,muitos aspectos e,ao mesmo tempo, muitos mitos,que vão continuar impondo,à sociedade,um prolongado debate,antes que se alcance qualquer consenso sobre o tema. Dentro disso,este suplemento especial de Pesquisa FAPESP propõe-se a trazer uma contribuição séria para as discussões do tema, centrando-se em seus aspectos científicos,tecnológicos e éticos.Apresenta,para tanto,as visões,reflexões e inquietações de respeitados especialistas nesses campos:Mayana Zatz, por exemplo,é professora titular do Departamento de Genética do Instituto de Biociências da USP e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano,um dos dez Cepids-Centros de Pesquisa,Inovação e Difusão que constituem um dos mais impor-
tantes programas especiais da FAPESP.Em 2001,Mayana conquistou o prêmio Women in Science,concedido pela Unesco e L’Oréal a cinco cientistas em todo o mundo.Marco Antonio Zago é professor titular do Departamento de Clínica Médica na USP de Ribeirão Preto e coordenador de outro Cepid,O Centro de Terapia Celular.Esses dois geneticistas têm dado contribuições importantes para o desenvolvimento de terapias baseadas em células-tronco,nas quais a clonagem é uma entre outras tecnologias utilizadas.A geneticista britânica Anne McLaren, também ganhadora do prêmio Women in Science, no ano passado,é uma das pioneiras no estudo da biologia reprodutiva, tanto que suas pesquisas foram fundamentais para o desenvolvimento da fertilização in vitro,e hoje encontra-se a linha de frente das pesquisas com células-tronco.Finalmente,Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na USP e entre os sete livros que já publicou – além dos muitos artigos em coletâneas – está A sociedade contra o social: o alto custo da vida pública no Brasil (Companhia das Letras e Fundação Biblioteca Nacional,2000),que lhe valeu o prêmio Jabuti 2001, na área de ensaios e ciências humanas.Poucos sabem,mas Janine,que tem entre seus principais interesses de estudo a natureza teatral da representação política e as dificuldades da construção da democracia no Brasil,já foi jornalista profissional.A edição do suplemento e a reportagem de revisão do tema da clonagem é de Suzel Tunes e a entrevista com Anne MacLaren é de Marcos Pivetta.Capa e projeto gráfico são de Hélio de Almeida,com diagramação de Tânia Maria dos Santos,José Roberto Medda e Luciana Facchini.
Os cientistas começaram a fazer clones de animais no final do século 19.E o homem é o próximo da lista
Laboratório dos Estados Unidos produz primeiro clone humano.Essa era,com pequenas variações,a manchete que os jornais do mundo inteiro estampavam no dia 26 de novembro de 2001.De repente,numa prosaica manhã de segunda-feira,o futuro invadia a mesa do café.Personagens de ficção científica,saídos das mais delirantes páginas de livros e telas de cinema,começavam a tomar forma.O impacto,no entanto,seria amenizado logo nas primeiras linhas da notícia.Por meio de uma técnica de clonagem semelhante à que criara a famosa ovelha Dolly alguns anos atrás,a Advanced Cell Technology,empresa de Massachusetts, Estados Unidos, havia,de fato,obtido umembrião humano.Mas ele não passara de um aglomerado de seis microscópicascélulas,vivas apenas por algumas horas. Segundo os coordenadores da pesquisa,o objetivo da experiência era obter células-tronco embrionárias,matrizes capazes de se transformar em qualquer célula do corpo.A partir dessas células indiferenciadas,os cientistas esperam,um dia,criar tecidos e órgãos humanos para transplante.Gerado a partir de clonagem do próprio paciente,o tecido transplantado não sofreria rejeição do sistema imunológico.O vice-presidente da ACT para desenvolvimento técnico e científico, Robert Lanza,afirmou,categoricamente,que sua intenção não era “clonar seres humanos,mas criar terapias que possam salvar vidas”.Contudo,mesmo diante de tão bons propósitos,as reações foram contundentes.Do Vaticano à Casa
Branca,“imoral”foi o adjetivo mais utilizado por líderes políticos e religiosos para qualificar o experimento com embrião humano.Em comum,o medo de quem se vê invadindo um território alheio e desconhecido. É bem verdade que os clones estão entre nós há muito tempo.A natureza fabrica-os há milhares de anos.Clone é uma palavra que vem do grego klon,que significa broto vegetal. Foi criada para denominar indivíduos que se originam de outros por reprodução assexuada,bastante comum entre vegetais.É o que o jardineiro faz,por exemplo,quando planta uma muda de roseira.É,também,o que a natureza faz ao criar gêmeos univitelinos,seres que compartilham do mesmo DNA,ou seja, do mesmo código genético.Também não é de hoje que o homem tenta reproduzir esse curioso fenômeno da natureza.No longínquo ano de 1894,um zoólogo alemão chamado Hans Dreisch conseguiu fazer a primeira clonagem de animais.Ele trabalhou com ouri-

Muda de cana-de-açúcar: clone feito pela natureza

Ouriço-do-mar: ele foi o primeiro animal clonado pelo zoólogo Hans Dreisch, em 1894
ços-do-mar,que foram escolhidos por terem grandes células embrionárias.Hans pegou um embrião de duas células e o sacudiu dentro de um béquer cheio de água do mar até que as células se separaram.Cada uma cresceu independente da outra,resultando em dois ouriços adultos.
Em 1902,o embriologista Hans Spemman usou um fio de cabelo de seu filho como uma faca para separar um embrião de duas células de uma salamandra,que também deu origem a dois indivíduos.Mais tarde,ele separou uma única célula de um embrião já com 16 células.Para sua surpresa,tanto o embrião maior quanto o de apenas uma célula se transformaram em salamandras adultas.
Não houve maiores avanços em clonagem até novembro de 1951,quando uma equipe de cientistas da Filadélfia,Estados Unidos,clonou um embrião de sapo.Só que,desta vez, eles não dividiram simplesmente a célula do embrião.Eles pegaram o núcleo de uma célula embrionária de sapo e o transplantaram para um óvulo não fertilizado.Uma vez que o óvulo detectou que tinha carga completa de cromossomos (herdados de macho e fêmea), ele começou a se dividir e crescer.Essa foi a primeira vez que a transferência de núcleo, processo usado até hoje,foi empregada.
Nos anos que se seguiram,a transferência de núcleo fez nascer clones de vários outros
animais,incluindo alguns mamíferos como ovelhas e vacas.Mas sempre a partir da célula de um embrião.Ainda não se acreditava na possibilidade de se clonar células diferenciadas de um adulto.Foi o escocês Ian Wilmut,do Instituto Roslin,de Edimburgo,com a colaboração da empresa de biotecnologia PPL Therapeutics,quem rompeu mais essa fronteira.
Clonar uma célula de embrião é muito mais fácil.Todas as células-tronco,também chamadas de totipotentes,possuem,naturalmente,potencial para se transformar em um embrião completo.Em algum estágio durante o crescimento,enquanto ainda estão no útero,elas perdem essa capacidade e se especializam,transformando-se nos vários tipos de células do organismo,num processo que sempre se considerou irreversível.É por isso que,quando fazemos um corte na pele,por exemplo,teremos pele crescendo no local da ferida,e não um novo bebê. Wilmut e sua equipe conseguiram a proeza de fazer uma célula adulta se tornar totipotente de novo.Eles isolaram uma célula mamária congelada de uma ovelha da raça Finn Dorset de seis anos de idade e a colocaram numa cultura com baixa concentração de nutrientes.Ao “passar fome”,a célula entrouem um estado de latência,e parou de crescer.De-

pois,ela foi colocada junto a um óvulo infertilizado de uma ovelha da raça Scottish Blackface,de cor escura,do qual previamente havia se retirado o núcleo.As duas células foramcolocadas juntas e uma corrente elétrica fez com que elas se fundissem.Uma segunda corrente imitou a explosão de energia de uma fertilização natural e deu início à divisão celular. Depois de seis dias,o embrião resultante foi colocado no útero de outra ovelha da raça Scottish Blackface.Ao final do período de gestação,a ovelha escura deu à luz um filhote branquinho da raça Finn Dorset,praticamente idêntico ao doador original não fosse por um pequeno detalhe:embora Dolly tenha herdado da ovelha branca o DNA contido nos cromossomos do núcleo da célula mamária,ela também herdou da ovelha escura uma ínfima porcentagem de material genético mitocondrial, ou seja,o DNA contido nas mitocôndrias,organelas que ficam no citoplasma das células. O dia 5 de julho de 1996,data do nascimento de Dolly,passaria para a história da genética como um marco.Nunca uma ovelha conheceu tamanha fama antes.Dolly foi assediada por paparazzi e virou capa de revistas como Time e Newsweek.Despertou a curiosidade do mundo inteiro e também forneceu combustível para as idéias mais absurdas. Uma seita da Califórnia,a Segunda Vinda, anunciou que vai clonar Jesus Cristo,a partir
de amostra de sangue coletada do Santo Sudário.O embrião seria implantado em uma virgem voluntária,naturalmente.Outra seita americana,a dos raelianos – que acredita ser a espécie humana descendente de clones de extraterrestres –,já teria recebido US$ 500 mil para clonar a filha morta de um casal de fiéis.E até mesmo cientistas deixaram a imaginação alçar vôo.Em meados de 2001,o médico italiano Severino Antinori,que ficou conhecido por realizar uma fertilização in vitro em uma mulher de 62 anos,disse que teria um clone humano até o final do ano.Já estará pronto?
Para o pesquisador Harry Griffin, do Instituto Roslin,esses projetos são baseados mais em ficção científica do que no bom senso.O processo que resultou no nascimento de Dolly é muito mais difícil do que parece. Os pesquisadores formaram 277 ovos com um núcleo de um animal adulto.Vinte e nove foram implantados em 13 ovelhas e apenas uma gerou uma cria que se manteve viva até hoje.Segundo Griffin,em artigo publicado no site do instituto,os 277 “ovos reconstruídos” usados para produzir Dolly exigiram 400 óvulos infertilizados de doadoras.“Clínicas de fertilização humana recolhem uma média de 5 a 10 óvulos de cada doadora.Assim,qual-
quer clínica que tentasse fazer uma clonagem humana teria de recrutar pelo menos 40 voluntárias para cada tentativa de gravidez”,diz Griffin.E esse não é o único problema.Até a chegada de Dolly,vários fetos morreram durante a gestação ou logo após o nascimento,e alguns desses tinham sérias anomalias. Clones que sobrevivem até o nascimento tendem a ser maiores do que o normal,por exemplo.Isso acontece tão freqüentemente que, em quatro anos desde o nascimento de Dolly, os cientistas já cunharam um novo termo: large offspring syndrome,LOS,ou síndrome do filhote grande.Defeitos no pulmão,coração e fígado geralmente acompanham a LOS. “Nós não sabemos a razão dessas falhas,mas a explicação mais simples é que a reprogramação das células transferidas não é 100% completa”,explica Harry Griffin.
Num simpósio patrocinado pela Associação Médica Americana em agosto de 2001,Ian Wilmut contou que uma ovelha clonada que parecia bem depois de nascer – “comia e se movimentava normalmente”– começou a ofegar muito.Suahistória não durou mais do que 12 dias,quando ela teve de ser sacrificada.Uma autópsia revelou um tecido muscular denso e rígido contraindo os vasos sangüíneos nos pulmões e cortando o fluxo de oxigênio.
Dolly sofra de envelhecimento precoce,uma vez que ela foi criada a partir de uma célula adulta de seis anos,e não de um embrião.
Diante desses problemas,a chamada clonagem reprodutiva ainda parece um cenário distante.Possibilidades eticamente condenáveis ou não,como ter um filho gêmeo de si mesmo,recriar um parente falecido ou salvar espécies animais da extinção,ainda são hipóteses barradas mais pela técnica do que pela consciência.Assim,enquanto monitoram a saúde de seus clones,os laboratórios vão enveredando no campo da clonagem terapêutica,ou seja, o uso das técnicas de transferência nuclear como objetivo de criar alternativas de tratamento a várias doenças.Pouco depois do nascimento de Dolly,em julho de 1997,a PPL Therapeutics anunciou o nascimento de Polly, um clone transgênico cujo leite poderia ser usado para tratar hemofilia.É uma ovelha obtida pela técnica da transferência de núcleo,ao qual se adicionou um gene humano responsável pela produção de uma proteína chamada de Fator IX,o agente de coagulação sangüínea que falta nos hemofílicos.
“ Uma das ovelhas clonadas teve de ser sacrificada com 12 dias de vida. E se fosse um bebê?
Como ele seria tratado? ”
“Mas e se fosse um bebê? Como ele seria tratado?”,alerta Wilmut.Nesse mesmo simpósio, o geneticista RudolfJaenisch,do Instituto Whitehead doMassachusetts Institute ofTechnology (MIT),lançou a questão:“Um animal clonado que parece normal é realmente normal? O desenvolvimento doembrião pode continuar a despeito de problemas genéticos que aparecerão mais tarde”.
As suspeitas do pesquisador do MIT podem estar se concretizando no caso de Dolly. O Instituto Roslin já relatou que ela está sofrendo de artrite no quadril e joelho da pata traseira esquerda,o que não é muito comum em uma ovelha com poucos anos de vida.A despeito de ser aparentemente saudável e já ter gerado seis filhotes de maneira natural,teme-se que
Outra importante vertente da pesquisa é a que lançou os olhares do mundo inteiro sobre a empresa americana Advanced Cell Technology:o uso de células-tronco de embriões clonados visando à produção de tecidos e órgãos para transplante.E ela já anuncia mais resultados concretos nesse campo. No final de janeiro de 2002,a empresa notificou a produção de rins criados a partir de células-tronco extraídas de uma vaca.Os dois minirrins (com cerca de cinco centímetros cada) teriam sido implantados no animal e estariam funcionando normalmente,filtrando o sangue.Segundo Robert Lanza,que se recusou a dar maisdetalhes sobre o experimento até que ele seja publicado em revista científica, essa seria apenas uma demonstração de que se pode,realmente,usar a clonagem terapêutica para criarum órgão humano.
Só que essa técnica esbarra numa delicadíssima questão:após a coleta das células,o em-

brião seria descartado.Seria lícito matar uma vida para salvar outra? Mas,afinal,quando começa mesmo a vida? Os líderes religiosos em geral,e a Igreja Católica Romana,em particular,acham que a vida começa já na fertilização do óvulo.A Pontifícia Academia para a Vida,criada pelo Vaticano em 1994 e formada por 70 cientistas nomeados pelo papa,“não considera moralmente lícita a utilização de embriões humanos vivos para a preparação de células estaminais (células-tronco) embrionárias”,aceitando apenas o uso dessas células adultas para fins de pesquisa,conforme o documento Declaração sobre a produção e o uso científico e terapêutico das células estaminaisembrionárias humanas.Os 14 mil membros da Associação Médica Cristã dos Estados Unidos,de orientação protestante,compartilham a mesma opinião:“É errado criar vida humana com o propósito de destruí-la.Esses clones não são apenas humanos em potencial,como a indústria de biotecnologia quer nos fazer acreditar.Eles já são seres humanos”,declara a associação.
Em meio às discussões éticas e religiosas, surgem as primeiras batalhas jurídicas.Embora Dolly tenha sido o primeiro animal clonado,foi a Advanced Cell quem obteve a
primeira patente de clonagem para seus touros George e Charlie.Atualmente,ela disputa com duas empresas – a Geron Bio-Med, que comprou a tecnologia de Dolly do Instituto Roslin,e a Infigen,proprietária da vaca clonada Gene – os direitos sobre uma técnica que pode render milhões de dólares.Governos e a sociedade civil,ainda aturdidos, também tentam se organizar.No dia 31 de julho de 2001,a Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou um projeto de lei para a proibiçãogeral de clonagem humana que impediria não apenaso uso de clonagem para reprodução,como também para fins de pesquisa,como os estudos com células-tronco.O projeto,que conta com apoio declarado da Casa Branca,institui,ainda,a pena de até dez anos de prisão e multas de até U$ 1 milhão para qualquer umque gere embriões humanos clonados.O texto já foi encaminhado ao Senado,onde está sendo lido e avaliado. Em 9 de agosto do mesmo ano,o presidente George W.Bush anunciou a permissão do uso de recursos federais para a pesquisa com células-tronco humanas,mas com várias restrições.Os embriões utilizados devem ter sido criados para propósitos reprodutivos (os cientistas podem usar embriões que “sobram”
dos tratamentos de fertilidade),uma autorização deve ser assinada pelo doador do embrião – que não deve receber nada por isso – e os pesquisadores precisam registrar seu trabalho no recém-criado Human Embryonic Stem Cell Registry,vinculado ao Instituto Nacional de Saúde.
AInglaterra foi o primeiro país a liberar pesquisa com célula-tronco,em 2000.O Human Fertilisation and Embryology Authority,HFEA, órgão que regulamenta e monitora tratamentos de fertilidade e pesquisas com embriões humanos no Reino Unido,permite a pesquisa com embriões humanos com até o 14°dia de desenvolvimento.Ruth Deech, diretora do HFEA,já se pronunciou favorável até mesmo ao uso da clonagem reprodutiva, desde que ela fosse usada apenas para o tratamento de vítimas de algumas doenças genéticas mitocondriais que afetam severamente o sistema nervoso,causando danos como cegueira e epilepsia.Um casal que tivesse esse problema genético poderia gerar filhos saudáveis a partir de um embrião criado por fertilização in vitro convencional.Bastaria retirar o núcleo desse embrião e implantá-loem um óvulo doado esvaziado de seu próprio núcleo.Assim,o bebê clonado teria 99% da carga genética de seus pais, mas sem a desordem,pois receberia DNA mitocondrial saudável.
ta o bem do paciente),de acordo com aprovação prévia da CTNBio”.
“ A Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou um projeto de lei para a proibição geral de clonagem humana ”
No Brasil,aceita-se a clonagem humana terapêutica como procedimento de suporte a terapias médicas,de acordo com os princípios éticos e a supervisão da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).Com basena lei 8974/95 de Biossegurança,a CTNBio proíbe “a manipulação genética de células germinais humanas”e “a intervenção em materialgenético humano in vivo,exceto para o tratamento de defeitos genéticos,respeitando-se princípios éticos tais como o da autonomia (respeito à vontade e aos valores do paciente) e o de beneficência (tendo em vis-
Segundo o ministro da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg,em artigo publicado no jornal O Globo (28 de novembro de 2001),a Comissão Jurídica da Assembléia Geral das Nações Unidas decidiu apoiar a proposta de elaboração de um tratado internacional que proíba a clonagem por ser “contrária à dignidade humana”.“A proposta,apresentada por Alemanha e França,propõe que um grupo defina o alcance desse tratado.Tendo em vista sua experiência na elaboração da Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos da Pessoa Humana,aprovada pela ONU em 1998,bem como a reunião de ministros da Ciência realizada em Paris em outubro último,da qual participei,a Unesco será responsável pela condução dessa importante missão”, acredita Sardenberg. Recentemente,foi divulgada uma nova pesquisa que pode trazer mais lenha para a já bem aquecida fogueira da clonagem:a obtenção de células-tronco geradas a partir de óvulos infertilizados.Em fevereiro de 2002,o pesquisador americano Michael West,da Advanced Cell Technology,relatou ter conseguido fazer o óvulo de uma macaca se dividir por meio de um tratamento químico,ou seja,sem fertilizá-lo por espermatozóide.A técnica, chamada de partenogênese,é feita rotineiramente com camundongos no laboratório, mas é a primeira vez que se realiza com primatas.O sucesso dessa experiência leva o pesquisador a acreditar que poderá empregá-la em óvulos humanos,obtendo um tecido embrionário que forneceria células-tronco,mas nunca se transformaria num ser humano.Assim,o americano Michael West acha que a partenogênese resolveria o dilema ético do descarte de embriões.Pode até ser.O mais provável,porém,é que ela gere novas batalhas filosóficas e jurídicas.Afinal, nos últimos anos,a ciência está caminhando mais depressa do que nossa capacidade de discerni-la.
Fazer cópias ou salvar vidas?
É preciso entender bem a diferença entre a tecnologia reprodutiva e a terapêutica
Desde o anúncio do nascimento da ovelha Dolly,em 1997,o assunto de clonagem não sai da mídia.Entretanto,ele realmente pegou fogo no ano passado,com dois anúncios bombásticos.O primeiro,feito pelo médico italiano Severino Antinori e pela bioquímica francesa Brigitte Boisselier,recrutando casais para clonar seres humanos.O segundo,do laboratório americano Advanced Cell Technology,revelando a produção do primeiro clone humano para fins terapêuticos.A tecnologia de clonagem para gerar cópias deseres humanos,a clonagem reprodutiva,difere pouco daquela para fabricar tecidos ou órgãos,a clonagem terapêutica.Contudo, enquanto a primeira é condenada pelos cientistas e pela sociedade em geral,a clonagem parafins terapêuticos é apoiada pela maioria dos pesquisadores.Por que isto? Qualé a diferença entre clonagem reprodutiva e clonagem terapêutica? Quais são os riscos e os possíveis benefícios nos dois procedimentos? É o que vamos explicar a seguir:

ou bactérias.Em humanos,os clones naturais são os gêmeos idênticos que se originam da divisão de um óvulo fertilizado.A grande novidade da Dolly,que abriu caminho para a possibilidade de clonagem humana,foi a demonstração,pela primeira vez,de que era possível clonar um mamífero,isto é,produzir uma cópia geneticamente idêntica,a partir de uma célula somática diferenciada.Para entendermos por que essa experiência foi surpreendente,precisamos recordar um pouco de embriologia.
■ O que é um clone e qual foi a grande revolução trazida pela Dolly?
De acordo com Webber (1903),um clone é definido como uma população de moléculas,células ou organismos que se originaram de uma única célula e que são idênticas à matriz original.A clonagem é um mecanismo comum de propagação daespécie em plantas
Todos nós já fomos uma célula única,resultante da fusão de um óvulo e um espermatozóide.Essa primeira célula já tem no seu núcleo o DNA com toda a informação genética para gerar um novo ser.O DNA nas células fica extremamente condensado e organizado em cromossomos.Com exceção das nossas células sexuais,o óvulo e o espermatozóide,que têm 23 cromossomos,todas as outras células do nosso corpo têm 46 cromossomos.Em cada célula,temos 22 pares que são iguais nos dois sexos,chamados autossomos,e um par de cromossomos sexuais:XX no sexo feminino e XYno sexo masculino. Essas células com 46 cromossomos são chamadas células somáticas.Voltemos agora à nossa primeira célula,resultante da fusão do
óvulo e do espermatozóide.Logo após a fecundação,ela começa a se dividir:uma célula em duas,duas em quatro,quatro em oito e assim por diante.Na fase de oito a 16 células,as células do embrião se diferenciam em dois grupos:um grupo de células externas que vai originar a placenta e anexos embrionários e uma massa de células internas quevai originar o embrião propriamente dito.Após 72 horas,esse embrião,agora com cerca de 100 células,é chamado deblastocisto.É nessa fase que ocorre a implantação do embrião na cavidade uterina. As células internas do blastocisto vão originar as centenas de tecidos que compõemo corpo humano.São chamadas de células-tronco totipotentes.A partir de um determinado momento,essas células somáticas,que ainda são todas iguais,começam a se diferenciar nos vários tecidos que vão compor o organismo:sangue,fígado, músculos,cérebro,ossos, etc.Os genes que controlam essa diferenciação e o processo pelo qual ela ocorre ainda são um mistério.O que sabemos é que,a partir daí,as células somáticas diferenciadas perdem a capacidade de originar qualquer tecido.As células descendentes de uma célula diferenciada vão manter as mesmas características daquela que as originou, isto é,células de fígado vão originar células de fígado,células musculares vão originar células musculares,e assim por diante.Apesar de o número de genes e o DNA serem iguais em todas as células do nosso corpo,os genes nas células somáticas diferenciadas se expressam de maneiras diferentes em cada tecido,isto é, a expressão gênica é específica para cada tecido.Com exceção dos genes responsáveis pela manutenção do metabolismo celular (housekeeping genes) que se mantêm ativos em todas as células do organismo,só irão funcionar em cada tecido ou órgão os genes importantes para a manutenção deste.Os outros se mantêm “silenciados”ou inativos.A grande notícia da Dolly foi justamente a descoberta de que uma célula somática de mamífero,já diferenciada,poderia ser reprogramada ao es-
tágio inicial e voltar a ser totipotente.Isso foi conseguido através da transferência do núcleo de uma célula somática da glândula mamária da ovelha que originou a Dolly para um óvulo sem núcleo.Surpreendentemente,este começou a se compor tar como um óvulo recém-fecundado por um espermatozóide.Isso provavelmente ocorreu porque o óvulo,quando fecundado,tem mecanismos,ainda desconhecidos para nós, de reprogramação de seu DNA,de modo a tornar todos os seus genes novamente ativos,o que ocorre no processo normal de fertilização.
A diferença entre clonagem para fins reprodutivos e clonagem para fins terapêuticos começa agora.
■ A - O que é clonagem reprodutiva?
“ Dolly só nasceu depois de 276 fracassos. Dentre as 277 células inseridas em um óvulo sem núcleo, 90% não chegaram nem ao estágio de blastocisto ”
Na clonagem reprodutiva,este óvulo,agora com o núcleo dacélula somática,tem de ser inserido em um útero, como aconteceu com a Dolly.No caso daclonagem humana,a proposta seria retirar o núcleo de uma célula somática, que teoricamente poderia ser de qualquer tecido de uma criança ou adulto,inserir esse núcleo em um óvulo e implantá-lo emum útero (que funcionaria como uma barriga de aluguel).Se esse óvulo se desenvolver,teremos um novo ser comas mesmascaracterísticas físicas da criança ou adulto de quem foi retirada a célula somática.Seria como um gêmeo idêntico nascido posteriormente.
Já sabemos que não é um processo fácil. Dolly só nasceu depois de 276 tentativas que fracassaram.Além disso,dentre as 277 células da mãe de Dolly que foram inseridas em um óvulo sem núcleo,90% não alcançaram nem o estágio de blastocisto.A tentativa posterior de clonar outros mamíferos,tais como camundongos,porcos, bezerros e,mais recentemente,uma gata chamada Cc,ou CopyCat,também tem mostrado uma eficiência muito baixa e uma




proporção muito grande de abortos e embriões malformados.No caso de Cc,de 188 óvulos clonados foram obtidos 87 embriões, mas somente um animal vivo.Outro fato intrigante é que ainda não se tem notícias de macaco ou cachorro que tenha sido clonado.Mesmo assim,o italiano Antinori e a francesa Brigitte defendem a clonagem humana para gerar herdeiros para quem não pode ter filhos pelo método natural,um procedimento que tem sido proibido em todos os países.Além disso,a simples possibilidade de clonar humanos tem suscitado discussões éticas em todos os segmentos da sociedade.Mas,antes de se pensar nos aspectos éticos,vale a pena discutir quais são as dificuldades técnicas,quais são os grandes riscos,quantas questões ainda não são conhecidas,tais como:
■ 1- Qual vai ser a idade do clone quando nascer? Terá a mesma idade de um recém-nascido? Essa preocupação surgiu ao verificar-se que o tamanho dos telômeros (as extremidades dos cromossomos que diminuemde tamanho com o envelhecimento celular) estava encurtado na ovelha Dolly.Recentemente,
descobriu-se que Dolly está com artrite,uma doença que só aparece em animais mais velhos,confirmando,portanto,que ela está realmente com um envelhecimento precoce.Além disso,pesquisadores do Japão acabam de relatar que camundongos clonados também têm vida mais curta e apresentam problemas como lesões hepáticas,pneumonia grave,tumores e baixa imunidade (O Estado de S.Paulo,12 de fevereiro de 2002). Outros pesquisadores não observaram uma redução no tamanho dos telômeros em bezerros clonados (Tian et al.,2000; Nature Genetics),embora estes animais ainda não tenham vivido o suficiente para se verificar possíveis conseqüências da clonagem a longo prazo.De qualquer modo,isso mostra que esta questão,que é extremamente importante,continua em aberto.Sugere que existem diferenças de acordo com a espécie animal e que,portanto,não podemos extrapolar achados em modelos animais para os humanos.Imagine-se agora uma criança com aspecto e doenças de um velho! Quem já viu uma criança afetada por progeria,uma doença genética rara que causa um envelhecimento precoce e morte em




média aos 13 anos de idade,sabe como isto representa uma tragédia.
■ 2- Como irão comportar-se os genes de imprinting, ou seja, genes que sofrem uma expressão diferente de acordo com a origem parental?
Sabemos que existem alguns genes ou regiões cromossômicas que ficam normalmente silenciados (inativas) e que esse processo de “silenciamento”,que é muito bem controlado,depende da origem parental (às vezes materna e às vezes paterna).Isto é,em relação a esses genes,o normal é ter somente uma cópia funcional e a outra “silenciada”(não funcional).Se,por um erro genético,uma criança receber duas cópias de um só genitor e nenhuma do outro,terá duas cópias não funcionais para essa região e isso poderá causar uma malformação ou doença genética.Podemos citar como exemplos a síndrome de Prader-Willi,caracterizada por distúrbios de comportamento e uma obesidade mórbida,ou a síndrome de Angelman,que causa um retardo mental profundo e ausência de linguagem.Ambas podem ser causadas se uma criança receber duas cópias do
cromossomo 15 de um só progenitor (dissomia uniparental) – o que seria de se esperar no caso de uma clonagem.Estima-se que temos cerca de 30 genes que sofrem esse processo de imprinting,apesar do número exato ainda não ser conhecido.
■ 3- Será que o processo de formação de gametas e fertilização natural não nos protege contra mutações deletérias?
Nossos genes sofrem mutações espontâneas o tempo todo,que ocorrem durante a replicação do DNA,antes da divisão celular. Entretanto,como a maioria das nossas células somáticas se divide continuamente,essa mutação,se for prejudicial à célula,provavelmente será logo eliminada.Além disso, se a mutação ocorrer em um gene que não se expressa naquele tecido,ela permanecerá neutra.Por exemplo:se ocorrer uma mutação em um gene que está em uma célula muscular,mas cuja função é fabricar uma enzima hepática,ela será inócua,pois não irá interferir no funcionamento do músculo.Entretanto,se essa mesma mutação estiver presente agora em um óvulo fecundado ou “clonado”,ela será deletéria porque se es-
palhará por todos os tecidos,inclusive o fígado.
Ao contrário das células somáticas,que se dividem constantemente,os óvulos já têm uma quantidade predeterminada.Asmulheres já nascem com o número total de óvulos,embora normalmente só um amadureça por mês,durante o período reprodutivo. Outra diferença existente é que as células somáticas do resto do corpo,aquelas que vão originar os gametas (masculino e feminino),sofrem um processo chamado meiose, no qual,após duasdivisões celulares,o número de cromossomos fica reduzido à metade.Entre o terceiro e quinto mês da vida fetal as oogonias (células que vão originar os óvulos) começam a primeira divisão meiótica.Entretanto,após esse período,entram emum estado de dormência que persiste até a puberdade.Os óvulos só vão completar o processo de meiose (transformando-se, portanto,em um óvulo maduro) após a fertilização pelo espermatozóide.
Por outro lado,os espermatozóides,que são produzidos continuamente durante a vida reprodutiva do homem,sofrem uma tremenda seleção no momento da fertilização.Por isso a pergunta:será que todo esse processo não nos protege contra mutações deletérias?
■ 4- O diagnóstico pré-natal permitirá que sejam identificados fetos malformados ou portadores de mutações deletérias?
Segundo os defensores da clonagem humana,será possível identificar fetos defei-

tuosos ou com mutações patológicas logo no início da gestação e evitar,assim,o seu nascimento.De fato,a ultra-sonografia e a análise dos cromossomos permitem hoje identificar a maioria das malformações fetais.Entretanto,sabemos que existem mais de 7 mil.doenças genéticas.As malformações congênitas ou as aberrações cromossômicas (no número ou estrutura dos cromossomos) representam uma proporção pequena dentre elas.A grande maioria das doenças genéticas é causada por mutações em um ou mais genes,e é essa a grande dificuldade.Como detectar mutações deletérias nos 30 mil ou mais genes humanos? Algumas doenças,como a fibrose cística,podem ser causadas por cerca de mil mutaçõesdiferentes em um único gene! Além disso,existem centenas de doenças graves,como as distrofias musculares progressivas,causadas por mutações gênicas e que só aparecem após o nascimento.Dizer,portanto,que será possível evitar o nascimento de crianças com doenças genéticas é uma uto pia,porque hoje é tecnicamente impossível detectar todas essas mutações em um feto.
■ 5 - E a fertilização in vitronão é a mesma coisa?
De acordo com Brigitte Boisselier,a técnica de fabricar cópias humanas seria um método alternativo à reprodução,assim como a fertilização assistida adotada por casais inférteis ou homossexuais.Os defensores da clonagem humana argumentam que a ferti-


lização in vitro,quando iniciada há 20 anos, também gerou protestos mundiais e hoje temos milhares de crianças que nasceram graças a essa tecnologia.Entretanto,a grande diferença entre as duas tecnologias é que na reprodução assistida utilizam-se as células sexuais,o óvulo e oespermatozóide,que foram programadas para essa função e passaram pelo processo da gametogênese (formação de gametas) e da meiose.A fertilização assistida simplesmente facilitao encontro do óvulo e do espermatozóide quando isso não ocorre naturalmente e não pressupõe o uso de outras células,como as células somáticas,que não foram programadas para gerar um novo ser humano.
Depois de todos esses argumentoscontra a clonagem humana,quais são osaspectos positivos? O lado bom é que experiências com animais clonados têm nos ensinado muito acerca do funcionamento celular e abre novas perspectivas terapêuticas.
■ B - O que é clonagem terapêutica?
Se pegarmos este mesmo óvulo cujo núcleo foi substituídopor um de uma célula somática e,em vez de inseri-lo em um útero, deixarmos que ele se divida no laboratório,
teremos a possibilidade de usar estas células,que são totipotentes,para fabricar diferentes tecidos.Isso abriria perspectivas fantásticas para futuros tratamentos,porque hoje só se consegue cultivar em laboratório células com as mesmas características do tecido em que foram retiradas.Por isso,o grande alarde da empresa americana Advanced Cell Technology quando noticiou, no fim de 2001,que havia conseguido em laboratório o primeiro clone humano.Infelizmente,a experiência divulgada por esses pesquisadores não foi nenhum sucesso,porque o embrião parou de se dividir com seis células.É importante que as pessoas entendam que naclonagem para fins terapêuticos serão gerados só tecidos em laboratório, sem implantação no útero.Não se trata de clonar um feto até alguns meses dentro do útero para depois retirar-lhe os órgãos, como alguns acreditam.
A clonagem terapêutica teria a vantagem de evitar rejeição se o doador fosse a própria pessoa.Seria o caso,por exemplo, dereconstituir a medula em alguém que se tornou paraplégico após um acidente,ou substituir o tecido cardíaco em uma pessoa que sofreu um infarto.Entretanto,essa téc-
nica tem suas limitações.Ela não serviria para portadores de doenças genéticas como, por exemplo,um afetado por distrofia muscular progressivaque necessita substituir seu tecido muscular.Além disso,se houver redução no tamanho dos telômeros,as células clonadas teriam a idade dodoador e não seriam necessariamente células jovens. Uma outra questão em abertoseria o comportamento dos genes de imprinting,que poderiaminviabilizar o processo dependendo do tecido ou do órgão a ser substituído. Em resumo,por mais que sejamos favoráveis à clonagem terapêutica,trata-se de uma tecnologia muito cara e com limitações importantes.Por esse motivo,a grande esperança vem não da clonagem,mas da utilização de células-tronco de outras fontes, como veremos a seguir.
■ Aspectos éticos - Mas imaginemos que apesar de todas essas questões e do risco enorme de que sejam geradas crianças com doenças genéticas, ocorra realmente a clonagem reprodutiva humana.Surge,então,uma infinidade de questões éticas:Por que clonar? Quem deveria ser clonado? Que características escolher? Quem decide? O que será feito com os clones que nascerem defeituosos? Pessoas dispostas a se clonar,atentar clonar um filho ou um ente querido falecido ou casais sem filhos estão conscientes acerca do risco enorme de doenças genéticas que podem aparecer no clone? E se ocorrerem problemas mais tarde (na segunda ou terceira década),quem se responsabiliza?
pessoas que poderão se beneficiar por essa técnica.Em relação aabrir caminho para clonagem reprodutiva,devemos lembrar que existe uma diferença intransponível entre os dois procedimentos:a implantação ou não em um útero humano.A cultura de tecidos é uma prática comum em laboratório,apoiada por todos.A única diferença no caso seria o uso de óvulos(que quando não fecundados são apenas uma célula) que permitiriam a produção de qualquer tecido no laboratório.
Quanto ao comércio de óvulos,não seria a mesma coisa que ocorre hoje com transplante de órgãos? Não é mais fácil doar um óvulo do que um rim? Cada umade nós pode se perguntar:você doaria umóvulo para ajudar alguém? Para salvar uma vida?
“ Se pensarmos que qualquer célula pode gerar um novo ser, ao tirarmos um fio de cabelo estaríamos
destruindo uma vida humana em potencial ”
Em relação à destruição de “embriões humanos”,novamente devemos lembrar que estamos falando de cultivar tecidos ou futuramente órgãos, que nunca serão inseridos em um útero.Se pensarmos que qualquer célula humana pode ser teoricamente clonada e gerar um novo ser,poderemos chegar ao exagero de achar que toda vez que tiramos a cutícula ou arrancamos um fio de cabelo estamos destruindo uma vida humana em potencial.
E em relação à clonagem terapêutica, quais seriam os argumentos contra? Pode-se dizer,por exemplo,que ela abriria caminho para a clonagem reprodutiva humana.Ou que geraria um comércio de óvulos ou, ainda,que haveria destruição de “embriões humanos”e não é ético destruir uma vida para salvar outra.
Apesar desses argumentos,a clonagem para fins terapêuticosé apoiada pela maioria dos cientistas e principalmente pelas
Em resumo,é extremamente importante que as pessoas entendam a diferença entre clonagem humana e clonagem terapêutica antes de se posicionarem contraas duas tecnologias.A comunidade européia acaba de aprovar pesquisas com células embrionárias de embriões até 14 dias.É fundamental que nossa legislação apóie também essas pesquisas porque elaspoderão salvar milhares de vidas.
*MAYANA ZATZ é professora titular de Genética do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano
A técnica de transferência de núcleo é só uma das fontes possíveis de células para reparar tecidos e órgãos
...células primitivas da medula óssea regeneram o miocárdio in vivo, substituindo o tecido morto. Orlic D,et al. Nature 410:710 - 705,2001.
Aconclusão acima refere-sea um experimento em camundongos,mas seus resultados estão começando aser transferidos para o homem,realizando um sonho da medicina que parecia distante há poucos anos:dispor de uma fonte abundante de células para reparar tecidos e órgãos lesados. O princípio da terapia celular é simples:restaurar a função de um órgão ou tecido,transplantando novas células para substituir as células perdidas pela doença,ou substituir células que não funcionam adequadamente devido a um defeito genético.Esse princípio não é novo em medicina.Por exemplo,a sua forma mais simples,a transfusão de células do sangue (hemácias,granulócitos,plaquetas),é uma das abordagens terapêuticas mais amplamente utilizadas no mundo,assim como numerosas formas de transplantes de órgãos e tecidos,como os transplantes de medula óssea,de rim,de fígado,de coração ou de pulmão.No entanto, esses transplantes de órgão inteiro são limitados porque somente se aplicam a algumas situações clínicas.Há uma escassez de doadores e os custos podem ser muito elevados,superiores a US$ 100 mil no caso de transplante defígado e,além disso,são procedimentos invasivos,associados com mortalidade elevada.

Uma alternativa seria utilizar células indiferenciadas (células-tronco),injetadas na circulação ou no local da lesão,na expectativa de que elas se diferenciem em células especializadas daquele tecido ou órgão,substituindo as células defeituosas ou destruídas.Para isso, é necessário dispor de um suprimento de células-tronco e conhecer os procedimentos para dirigir sua diferenciação no sentido desejado para aquele paciente.
O conhecimento de que uma única célula é capaz de dar origem a mais de 200 tipos diversos de células diferenciadas de tecidos adultos não é novo,pois constitui a premissa básica da embriologia:o óvulo fecundado divide-se,dando origem a um pequeno número de células idênticas no início do desenvolvimento embrionário.Com o crescimento do embrião,elas vão se diferenciando,cada uma capaz de dar origem a um número limitado de tecidos.No entanto,a identificação de células com esse potencial em tecidos dos adultos e a sua aplicação terapêutica são muito mais recentes.
As células-tronco podem ser classificadas em dois grupos:células-tronco embrionárias e células-tronco do adulto,específicas para cada órgão ou tecido.As embrionárias caracterizam-se pela sua capacidade ampla de originar as demais células do organismo e po-




Três abordagens para obtenção de células-tronco embrionárias: cultivo de células da massa interna do blastocisto ou de células germinativas primordiais da prega gonadal (parte superior), ou transferência de núcleo somático ou “clonagem” (parte inferior)
dem ser obtidas de três formas distintas.A maioria daslinhagens de células embrionárias disponíveis é derivada de embriões em fase muito inicial de desenvolvimento,uma técnica desenvolvida por J.Thomson,da Universidade de Wisconsin.No 5º dia apósa fecundação,o embrião é composto por cerca de 200 a 250 células,formando um cisto denominado blastocisto,cujas células são separadas em dois grupos:uma camada externa (o trofoectoderma),que vai constituir a placenta e o saco amniótico,e uma massa compacta de 30 a 34 células,localizada internamente em umdos pólos do cisto,que dará origem aos tecidos do feto.Essas células da massa interna podem ser cultivadas in vitro e originar linhagens de células embrionárias capazes de diferenciar-se em tecidos de adultos.Um outro tipo de células embrionárias foi obtido inicialmente por J.Gearhart,da Universidade Johns Hopkins,a partir de 38culturas de células germinativas embrionárias de fetos entre a 5ª e a 9ª semana de desenvolvimento.Essas células são retiradas de uma estrutura denominada prega gonadal e,posteriormente no adulto,vão originar os espermatozóides e os óvulos.
Uma terceira abordagem pode originar células-tronco embrionárias.Embora não tenha sido utilizada como fonte das linhagens de células registradas (veja acima),essa técnica ganhou muito destaque na imprensa recente-
mente,quando pesquisadores da empresa Advanced Cell Techonology a utilizaram para produzir “embriões”humanos de quatro a seis células.A técnica,denominada transferência de núcleo somático,baseia-se na remoção do núcleo de um óvulo,que,em condiçõesadequadas,funde-se com uma célula somática (naquele caso,fibroblastos da derme).Se esse “ovo”começar a dividir-se,poderáoriginar um embrião cujo patrimônio genético é o mesmo do doador da célula somática.Por esse motivo,a técnica é popularmente conhecida como clonagem,poispodeteoricamente produzir numerosos adultos,todos com o mesmo patrimônio genético do doador.De fato,essa técnica foi utilizada por Ian Wilmut,do Instituto Roslin,paraproduzir a ovelha Dolly. A interrupção do desenvolvimento do “embrião”na fase de blastocisto pode originar uma linhagem de células embrionárias com o mesmo patrimônio genético do doador.
Aprodução de células embrionárias para pesquisa e terapêutica está cercada deintensa controvérsia ética. Assim,em agosto de 2001,o presidente dos Estados Unidos autorizou pesquisas com verba federalnorteamericana envolvendo células embrionárias somente para linhagens estabelecidas previamente àquele anúncio,que atendessem a
quatro critérios:as células derivaram de um embrião criado para fins reprodutivos,o embrião não era maisnecessário para aquela finalidade,a doação do embrião foi feita após informação do responsável,e não houve incentivo financeiro para a doação.Para essa finalidade foi criado um Registro de Linhagens de Células-Tronco Embrionárias,que conta hoje com 64 linhagens em laboratórios de diversos países (http://escr.nih.gov/).Muitos governos estão discutindo ou implantando legislação para disciplinar (em geral sem coibir) a pesquisa com células embrionárias.
As células-tronco de adultos foram identificadas em numerosos tecidos,entreos quais o tecido nervoso,sistema hematopoético, muscular e epitélios (pele,tubo digestivo).A mais bemconhecida é a célula-tronco hematopoética,capaz de diferenciar-se em glóbulos vermelhos,nos diferentes tipos de glóbulosbrancos e nas plaquetas.A sua presença garante o sucesso dos diferentes tipos de transplantes de células hematopoéticas (chamados genericamente de transplantes de medula óssea). Quando a medula óssea do receptor é destruída por quimioterápicos ou irradiação,ela pode ser regenerada com células do doador.Essa forma de tratamento,que no Brasil já beneficiou mais de 4 mil pacientes,é empregada paraum amplo espectro de doenças, como anemia aplástica,leucemias e linfomas. Além da medula óssea,essas células-tronco são encontradas no sangue do adulto e em grande quantidade no sangue fetal que fica retido na placenta após o parto (sangue de cordão umbilical).Essas células do cordão umbilical constituem uma excelente fonte para substituir a medula óssea no tratamento de numerosas doenças,e vários países criaram bancos de células de cordão umbilical para essa finalidade. No entanto,essa estratégia não pode ser amplamente utilizada para outros órgãos ou tecidos,porque não dispomos de métodos práticos para isolar as células-tronco desses tecidos,como músculo e coração.Em alguns casos as células para transplante têm sido ob-
“ Cerca de 300 pacientes de Parkinson estão sendo tratados com células obtidas de fetos abortados entre seis e nove semanas ”
tidas diretamente de fetos.Por exemplo,a doença de Parkinson é causada pela destruição progressiva de neurônios que usam dopamina como transmissor de sinais.Cerca de 300 pacientes foram até o presente tratados com implantação de tecido mesencefálico obtido de fetos abortados entre seis e nove semanas. Os neurônios implantados sobrevivem no cérebro do receptor por mais de dez anos,liberam dopamina e produzem uma melhora parcial da sintomatologia.Apesar disso,esse tratamento não se converterá em tratamento de escolhadessa doença porque não há fonte suficiente de tecidos para transplante (cada tratamento usa seis a oito doadores),há dificuldades dese obter células viáveis e puras,a recuperação dos pacientes é apenas parcial e há problemas éticos.Quais as alternativas? O xenotransplante,em que se usa tecido cerebral obtido de animais,foi testado e não deu resultados clínicos satisfatórios.Resta a esperança de que se possam isolar células-tronco embrionárias ou nervosas, cultivá-las para ampliar seu número e dirigir sua diferenciação para que formem neurônios dopaminérgicos,para em seguida implantá-los.Um estudo recente demonstra que essa estratégia é viável:células embrionárias formam neurônios dopaminérgicos funcionais quando transplantadas em cérebro de camundongos adultos.
Até pouco tempo atrás,acreditava-se que cada tecido adulto tem um tipo próprio de célula precursora,com capacidade limitada de diferenciação.Mais recentemente,acumularam-se evidências,em animais e nos humanos,de que células-tronco dos adultos podem romper essas barreiras.Assim,células obtidas de medula óssea poderiam ser utilizadas para reconstituir fígado,cérebro,músculo ou coração,característica que tem sido chamada de plasticidade.Por exemplo,células de medula óssea,injetadas próximas às bordas de infarto experimental em camundongos,diferenciam-se em células musculares e vasculares,substituindo o miocárdio lesado.Da mesma forma,células-tronco da
medula óssea poderiam ser utilizadas para reparar o defeito da distrofia muscular,pois diferenciam-se em células musculares em camundongos com uma forma experimental da doença.Há ainda muito debate se esses resultados são devidos a células embrionárias totipotenciais que sobrevivem nos adultos ou células-tronco tecido-específicas que se transdiferenciam segundo uma nova linhagem quando estimuladas.
Existe hoje um grande entusiasmo quanto às possibilidades de empregar células-tronco para tratar numerosas doenças humanas.Os maioresdesafios imediatos são a identificação de fontes abundantes de células purificadas e a padronização de métodos adequados para condicionar suadiferenciação no sentido do tecido necessário.No momento,as fontes mais promissoras para terapia são as células-tronco de adultos obtidasde medula óssea ou de sangue periférico,além daquelas que poderiam ser obtidas do sangue de cordão umbilical.O uso de linhagens de células embrionárias é mais problemático:apesarda vantagem de serem células purificadas com amplo potencial de diferenciação, suamanipulação ainda exige mais aperfeiçoamento até que possam ser amplificadas in vitro e dirigidas quando à sua diferenciação in vivo.As linhagens obtidaspor transferência de núcleo somático (“clonagem”) teriam a vantagem teórica de não determinar a rejeição,pois o tecido formado teria as características genéticas do doador do núcleo (o mesmo receptor do tecido).No entanto,o conhecimento sobre a imunologia desses tipos de transplantes de células embrionárias é ainda incipiente.Por exemplo,no caso de transplante de célulashematopoéticas,o uso de células do cordãoumbilical mostrou-se muito mais tolerante quanto à discrepância entre antígenos HLA do doador e do receptor do que os transplantes que utilizam células de medula de adulto. Com células muito mais“primitivas”,como as células embrionárias, essa tolerância poderia ser maior ainda.
Em resumo,a clonagem é apenas uma das fontes possíveis de células para terapia celular, que ofereceria a vantagem de produzir células imunologicamente idênticas às do paciente. Há numerosos problemas práticos que precisam ser resolvidos com relação ao isolamento, purificação,manipulação,diferenciação e aplicação de células para viabilizar o sucesso da terapia celular.Os recursos e a atenção da ciência e dos cientistas devem estarvoltados para obter resposta para essas questões,antes que a clonagem ocupe uma posição prioritária nesse contexto.Mesmo assim,énecessário distinguir claramente a clonagem terapêutica da clonagem reprodutiva,tanto do ponto de vista prático quanto conceituale ético.Se o desenvolvimento do blastocisto obtido por transferência nuclear somática nãofor interrompido,há umapossibilidade muito baixa que complete seu desenvolvimento e origine um adulto;além disso,sua ontogênese o diferencia de embriões formados por fecundação natural ou in vitro.Por isso,seria talvez mais apropriado comparar aquela massa celular a um “tumor”benigno do que a um verdadeiro embrião,o que modificaria radicalmente sua posição no plano ético.
“ A massa celular obtida por clonagem e não implantada em útero pode ser melhor comparada a um tumor benigno do que a um embrião ”
De qualquer forma,é necessário que a rejeição muito generalizada da sociedade à clonagem reprodutiva em humanos não comprometa o apoionecessário dessa mesma sociedade,dos cientistas e do governo às outras formas de pesquisas com células embrionárias para fins terapêuticos.Em particular,é essencial que empresas de biotecnologia,médicos e cient istas brasileiros não sejam impedidos departicipar desse progresso,para não sermos condenados à posição exclusiva de usuários pagantes dessas novas tecnologias no futuro próximo.
*MARCO ANTÔNIO ZAGO é professor titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto e coordenador do Centro de Terapia Celular
ENTREVISTA: ANNE McLAREN

Falhas de reprogramação do núcleo somático podem ser barreira intransponível para a clonagem humana
Ageneticista britânica Anne McLaren, 74 anos,nunca teve medo de novidade.Ela é uma das pioneiras no estudo da biologia reprodutiva e suas pesquisas foram fundamentais para o desenvolvimento da fertilização in vitro.Hoje,trabalhando no Wellcome/CRC Institute,em Cambridge,está na linha de frente das pesquisas sobre célulastronco.Anneé,também,membro do Human FertilisationEmbryology Authority, órgão que regulamenta as pesquisas com embriões na Inglaterra.No ano passado,ao lado da brasileira Mayana Zatz,da USP,recebeu o prêmio Women in Science,umaparceria entre a Organização das Nações Unidas para a Educação,Ciência e Cultura (Unesco) e a L’Oréal, fabricante francesa de cosméticos.Nessa entrevista exclusiva ao repórter Marcos Pivetta, a pesquisadora fala das dificuldades técnicas,desafios éticos e legais da clonagem.
■ Animais clonados freqüentemente morrem durante o seu nascimento,a ocorrênciade defeitos genéticos émuito alta e,recentemente,descobriu-se quea ovelha Dolly tem artrite,que costuma ocorrer em animais mais velhos.O que ainda háde errado com as técnicas de clonagem?
– A resposta é que nós não sabemos realmente.Sabemos que há alguma coisa de errado
com os genes do imprinting (genes que se expressam de uma forma quando herdados do pai e de outra quando herdados da mãe).O animal clonado recebe sua carga genética de um só indivíduo e alguns desses genes do imprinting parecem se expressar de forma errada após a clonagem.Presumivelmente,a reprogramação do núcleo da célula somática,que dá suporte ao desenvolvimento do embrião,não ocorre de forma adequada.Num certo sentido,chega a ser surpreendente que haja algum animal clonado vivo e saudável – e um número considerável deles está bem.Apesar de Dolly ter artrite,não sabemos se esse problema deriva da clonagem ou não.
■ É por isso que dezenas,às vezes centenas,de embriões têm de ser implantados para que nasça um clone?
– Sim.A reprogramação do núcleo somático é um procedimento muito difícile,freqüentemente,algo dá errado.Alguns desses defeitos têm a ver com os genes do imprinting.Mas não todos.Há outros tipos de defeitos que nós ainda não entendemos.
■ Então,o que os cientistas conseguem basicamente entender são os defeitos da clonagem relacionados aos genes do imprinting?
– Bem,nem esses nós entendemos direito.
■ A senhora acha que animais podem ser clonados com qualquer objetivo,reprodutivo ou terapêutico?
– Para animais,os benefícios da clonagem são enormes.Podemos usá-los para produzir proteínas e drogas de uma maneira mais barata.É lógico que sou a favor de que sejasacrificado,por razõeshumanitárias,qualquer animal clonado com defeitos que o fazem sofrer.
■ Qual a sua opinião sobre a clonagem de animais domésticos?
– No caso de cachorros,a produção de novas raças,por meio dos cruzamentostradicionais, pode ter resultados extremamente agressivos . Produziu-se,por exemplo,uma raça com nariz tão chato que mal permite ao cão respirar. As pessoas fazem coisas terríveis com animais domésticos – e isso é permitido.Desde que não haja sofrimento para o animal clonado,não vejo nada de errado do ponto devista ético.Se as pessoas podem pagar por isso,tudo bem.
■ E a clonagem de humanos?
– No momento,ninguém deveria pensar em clonar para ter um bebê.Isso é criminalmente irresponsável.Haveria muitos defeitos,muitas anormalidades,muitascrianças mortas. Para mim,está fora de cogitação.
■ Isso valeria para sempre ou é uma questão de tempo,de se dominar melhor a técnica?
– Não sabemos.Talvez nem seja possível clonar o ser humano.Houve tentativas de se clonar macacos,mas ninguém conseguiu.É possível que nunca venhamosa clonar o homem. De qualquer forma,nofuturo,se a clonagem for um método seguro e eficiente para produzir bebês,será bom que a sociedade esteja pronta para discutir esse tema.
■ E a clonagem humana para fins terapêuticos?
– Não gosto do termo clonagem terapêutica, pois algumas pessoas dizem que clonar para ter bebês também é terapêutico.Afinal,se um homem é estéril e usa a clonagem para ter um filho,pode-se argumentar que se realizou um procedimento terapêutico.Prefiro o termo clonagem para se obter célulastronco.Isso deve ser permitido e pode ser útil para o estudo de doenças genéticas, como mal de Parkinson ou Alzheimer.O estudo de uma linhagem de células-tronco obtida de alguns tipos de doentes poderia revelar a causa da doença e acelerar a des-
coberta de drogas específicas.Acho que esse é o principal e mais imediato objetivo do estudo com células-tronco,e não a substituiçãode órgãos e tecidos danificados,processo mais abrangente e que levará mais tempo.
■ A senhora é a favor de algum tipo de restrição à pesquisa com células-tronco,como as adotadas nos Estados Unidos?
– Não.Parece-me uma estupidez permitir apenas pesquisas em linhagens de célulastronco que já foram obtidas e não autorizar pesquisas em novas linhas de células.
■ Existem restrições legais na Europa a esse tipo de pesquisa?
– Isso depende de cada país.Na Alemanha,é como nos Estados Unidos.Eles vão permitir pesquisas com linhagens de células-tronco que foram obtidas antes do fim do ano passado,mas não em novas células.Na França,estão sendo implementadas novas leis que vão permitir a produção de novas células-tronco. No Reino Unido,já é permitido.Acho que essa é a forma com que as coisas devem ser feitas: extremamente reguladas,mas não proibidas.
■ Proibir esse tipo de pesquisa efetivamente funciona? Não vai haver sempre alguém fazendo algo proibido em algum lugar do mundo?
– Bem,esse tipo de pesquisa não é algo que as pessoas possam fazer em sua própria cozinha.É um tipo de procedimento complexo. No Reino Unido,onde os centros têm de obter licenças anuais para continuar suas pesquisas,acho que isso não é possível.
■ E em outros países? O médico italiano Severino Antinori volta e meia diz que vai produzir o primeiro clone humano em algum lugar.
– Isso também pode acontecer nos Estados Unidos,onde não há nenhuma lei restringindo as pesquisas financiadas por empresas privadas.As restrições valem para os estudos financiados pelo poder público.Na Alemanha, as restrições valem tanto para as pesquisas feitas com dinheiro público quanto privado.
■ Toda a publicidade em torno das pesquisas com células-tronco e clonagem é boa ou ruim para a sociedade?
– Acho que é uma coisa boa.As pessoas têm de saber que tipo de pesquisa está sendo feito em seu país,discutir o assunto e decidir o que vai ser permitido ou proibido fazer em seu país.
Assim como a ciência,a ética pode mudar,desde que se respeite o direito do outro à igualdade – e à diferença
Desde que nasce a ciência –com a experimentação,em inícios da modernidade –,ela mantém uma relação difícil com a ética.No século 16,os bons costumes vêem com horror a prática da anatomia,que,no entanto,será a condição básica para se desenvolver a medicina (e também a pintura:Da Vinci não seria o mesmo se não tivesse examinado cadáveres,para desenhar o corpo humano).Nos princípios do século 20,Freud causa escândalo quando afirma a sexualidade infantil.Aliás,se a opinião pública identifica a psicanálise com uma vaga obsessão pelo sexo (“Freud explica”),é porque veria com péssimos olhos a tese da sexualidade perversa que há em todos nós, até em nossos filhinhos,a quem adoramos imaginar como pequenos anjos rousseauistas.Por isso,das raras vezes que a psicanálise sai do consultório para falar da sociedade, ela gera desconforto.Nos Estados Unidos, muitos a acusam de encobrir a realidade do abuso sexual contra as crianças.No Brasil, há dez anos,quando os donos de uma escola infantil tiveram suas vidas devastadas porque meninos de 2 anos disseram ter sido abusados sexualmente,os psicanalistas não vieram a público lembrar que,segundo Freud,até anjinhos rousseauistas fantasiam sobre a sexualidade,e portanto o que essas crianças diziam podia ser não a expressão lídima da verdade, mas a manifestação mais clara do id.

Esses exemplos bastam:a medicina do corpo e a da psique surgem causando um horror moral.Daí,a pergunta:quando criticamos um avanço científico em nome da ética,não corremos o risco de ser tão preconceituosos,em face do novo,quanto foram os que condenaram Da Vinci pela anatomia, Freud pela sexualidade infantil? E,para falar da clonagem:sua discussão ética está à altura de seu avanço científico? Porque uma das crenças básicas de nossa sociedade é que a ciência progrida sem cessar.Essa fé aparece no nome da SBPC e no da AAAC,e está implícita na denominação da FAPESP(amparo),do CNPq (desenvolvimento) e da Capes (aperfeiçoamento).Só que,quando pensamos em ética,acreditamos no contrário:que ela não mude com o tempo.Cremos no progresso da ciência,mas na permanência da ética.Ora,nada justifica que a ética não mude.Se não ousamos dizer que a ciência chegou a seu estágio final,não devemos dizer isso da ética.
Uma solução fácil seria separar ética (ou política,ou religião) e ciência.A ciência lida com a verdade (ou algo parecido com ela),e a ética com a vida prática.A ciência seria aética.Então,a ética não teria a ver com a própria ciência,mas com suas aplicações,em
especial a tecnologia.A ciência diria o que é; já a ética,o que devemos,ou podemos,fazer. Só que nossos dois exemplos desmentem essa separação.Da Vinci e Freud mostram que a ciência interfere na ética.Poucos,hoje, condenam a anatomia.Sabemos que o conhecimento gerado por ela salvou milhões de vidas.Somos mais tolerantes com a sexualidade alheia.A expressão efusiva de sentimentos em público,mesmo de teor sexual,incomoda cada vez menos gente.E isso nos ajudou a ter uma ética que lida menos com a superfície e mais com o fundo das coisas.Saímos do conjunto de regras prontas e passamosa questionar o seu sentido.Tal mudança deve muito à ciência.
Não que isso signifique que chegaremos a uma ética científica.A ética trata de valores.
A ciência não tem como prová-los,até porque faz parte do cerne deles que sejam plurais e frágeis. São plurais,porque valores diferentes e mesmo opostos são igualmente legítimos.São frágeis pela mesma razão:não há como afirmar seu caráter absoluto.É claro que ninguém dirá que é correto matar ou roubar.No entanto,aceitamos que, para preservar a vida,se infrinja o direito à propriedade e até que se mate em legítima defesa ou em proteção a um ser indefeso.Vemos assim que não há absoluto em valores,afora alguns princípios gerais,como o do respeito à pessoa do outro.
problemas autênticos quando se trata da clonagem reprodutiva humana.E há também uma zona cinza,de reações contra certos avanços científicos que permitem ou exprimem mudanças significativas de valores em nossas vidas.Vamos lá.
A“ A chave de uma ética atual só pode ser um respeito intenso ao outro. É retomar a idéia kantiana de que o homem é fim em si mesmo, e não meio ”
chave de uma ética atual só pode ser um respeito intenso ao outro. É retomar a idéia kantiana de que o homem é fim em si mesmo,e não meio.Significa,em outras palavras,que devemos reconhecer o direito à igualdade e – curiosamente – o direito à diferença.O direito à igualdade quer dizer que todos devemos ser aceitos como iguais,ao menos em direitos e em oportunidades.Já o direito à diferença significa que cada um pode usar sua liberdade como quiser,desde que não prejudique a outrem.Definir esses direitos,na prática,não é fácil.O que é “igualdade de oportunidades”? Certamente ela não existe no Brasil;mas existe nos Estados Unidos? Talvez não. E o que é “prejudicar o outro”? Há pessoas que sentem sua liberdade agredida pela exibição sexual do outro.Os limites não são fáceis de desenhar. Mas,ainda que seja difícil dar conteúdos precisos à ética,os princípios dela devem ser esses.
Então,como fica a clonagem humana? Se ela for terapêutica,colocará cada vez menos problemas éticos.Uns anos atrás,uma família européia gerou um filho para que doasse parte da medula à irmã,que de outro modo morreria (história que inspirou parte da novela Laços de Família,2001).Houve críticas.Mas só haveria problema ético se essa criança tivesse sido meramente usada,sem amor,para o bem do outro.Se foi criada com carinho,qual o problema? E,se tivermos o uso de células-tronco para curar doenças,será muito bom.
Os problemas éticos postos pela clonagem me parecem,na verdade,de duas ordens.Há
Passando à clonagem reprodutiva,só é correto limitá-la para que não prejudique outros seres humanos.O possível prejudicado é,obviamente,o possível clone,o ser por se gerar.Ora,ele pode ser muito prejudicado. O menor problema é que ele não chegue a nascer (as 276 Dollies que deram errado).O pior é que a 277ª Dolly humana,aquela que dê certo,nasça – porém,sujeita a uma vida desgraçada,de doenças e degenerações.Mas a questão é:se esses problemas técnicos forem superados,a clonagem reprodutiva será aceitável eticamente?
Há o que não depende dos avanços na técnica.O filho é gerado por duas pessoas. Ninguém ainda gerou um filho sozinho – exceto em certas religiões e mitologias.É por
isso que a idéia do clone fascina e choca.Ela é um passo enorme no sentido de tornar o indivíduo – no caso,o pai (ou mãe) – mais poderoso,quase onipotente,quase auto-suficiente:mesmo a grande limitação natural, que até hoje fez a geração copiar só pela metade cada um dos genitores,cairia por terra. É um gesto prometéico,uma afronta aos limites naturais.
Porém,esses limites já estão saltando,por toda a parte.Não é só a ciência.Há poucos dias o Superior Tribunal de Justiça entendeu que uma proteção legal – que impede o credor de tomar a residência de família de quem lhe deve – se aplica também a solteiros.Traduzindo em miúdos,o entendimento anterior era que não há família de uma pessoa só –mas a sentença definitiva é que pode haver, sim.É outra maneira de tratar de nosso assunto. A família,antes,começava com o casal.Hoje,há famílias de um só indivíduo.Se desde a novela Vale Tudo (1988) se aceita a “produção independente”de filhos,qual a diferença significativa entre isso e a clonagem reprodutiva? Nessa última, geneticamente há apenas um genitor,mas na produção independente também ocorre a criação –cultural – do filho por uma pessoa só.E alguém ainda acredita que é melhor ter dois pais brigando do que um único,e amoroso?
“ Como toda descoberta científica exige que o pesquisador suspenda seus preconceitos, ela comporta riscos éticos ”
A produção independente talvez tenha antecipado,na nossa cultura,o que a clonagem reprodutiva agora insinua,na biologia. A cultura,aqui,precedeu a natureza.Talvez esse seja um passo a mais no rumo da individuação que nossa sociedade trilha desde bastante tempo.Quem gosta de nossa sociedade dirá que ela emancipa a pessoa dos controles externos.Quem a critica acusa-a de individualismo egoísta.Até a escolha das palavras é significativa:pessoa é termo simpático,de carga ética,enquanto indivíduo causa certo incômodo.Mas aqui temos dois aspectos do mesmo processo.Entre a emancipação e o egoísmo, cada um de nós – e cada grupo social – vacila,oscila,negocia.
As coisas começaram antes mesmo do capitalismo,com Prometeu.Na mitologia, Zeus o castiga porque ele furtou o fogo dos deuses para dá-lo aos homens.“Prometeu”, em grego,é “o que enxerga ou vê antes”.Prometeu poderia ser patrono da pesquisa científica:ele fornece ao homem o primeiro grande equipamento tecnológico – o fogo –, enxerga longe,e sofre por isso,tendo todo dia o fígado perfurado por um abutre,até que Hércules finalmente o liberta dessa punição.Temos aqui tudo o que compõe o difícil ethos científico:primeiro,a inovação; segundo,a ambição de ser como Deus (ambição que está na agenda da ciência moderna desde seus primórdios);terceiro,a aplicação prática,tecnológica,do conhecimento;e, finalmente,a dor,a culpa de romper a fronteira entre o humano e o divino,entre a ignorância e o conhecimento,entre a submissão e o poder. Como toda descoberta científica exige que o pesquisador suspenda seus preconceitos,ela comporta riscos éticos.Mas a ciência não produz automaticamente efeitos nocivos no plano ético.A aplicação da ciência ao mundo prático nunca é mecânica ou automática. Ela depende das escolhas humanas.Os chineses conheciam a pólvora havia séculos – mas só a usavam para fogos de artifício – quando os ocidentais passaram a empregá-la nas armas.Quantas outras invenções não dormitam,assim,simplesmente porque alguns de seus potenciais ainda não foram desenvolvidos? Só uma sociedade ansiosa por se expandir – que mais tarde se chamará capitalista – conseguirá extrair o máximo de cada invento,e puxando-o para o lado predatório.Em suma:a ciência,sozinha,não substitui as escolhas éticas – nem políticas.
Há assim algo prometéico,ou baconiano,no cerne da pesquisa científica moderna.Talvez ela retome questões que estão nasduas grandes tradições da cultura ocidental,a pagã ou grega,e a bíblica ou judaico-cristã.Prometeu é o irmão helênico da árvore da ciência do bem e do mal,que está no Gênesis.A dife-
rença entre nós e nossos ancestrais Prometeu e Adão-Eva é a seguinte:o heroísmo transgressor dos humanos que tentaram usurpar o conhecimento divino era um comportamento excepcional – enquanto,hoje,define o perfil mesmo de nossa sociedade.A exceção tornou-se regra.Clonar um filho evoca a idéia de Deus criando o primeiro homem à sua imagem e semelhança.Mas até Deus onipotente deparou com a rebelião do primeiro casal.O homem é o que é por causa do pecado original – a limitação que impôs ao Criador.Não será essa uma advertência para quem sonha com a clonagem reprodutiva? Sonhando ser microdeuses,desejando privatizar a criação divina,não imaginam que a criatura depois cresça,se desenvolva,se rebele.
Daí,algumas conclusões.Primeira:não sei se deve ou não ser proibida a clonagem reprodutiva de humanos, se e quando os problemas técnicosforem superados.Mesmo que a proíbam,sempre haverá um,dos quase 200 países do mundo,que poderá tolerá-la,até por dinheiro.Parece-me que, antes de proibir por completo a clonagem reprodutiva humana, proibição esta que parece ser a tendência dominante entre cientistas, religiosos e pensadores éticos,deveríamos entender melhor o que está em jogo nesse sonho.Isso exige muita pesquisa,ainda.Conhecemos melhor o corpo do que os sonhos humanos.Tentei mostrar que nossa sociedade é a que levou mais longe o anseio de tomar,para o ser humano, atributos que antes eram de Deus.Javé tinha a ciência,Zeus detinha a tecnologia.Kipling intitulou um conto seu O homem que queria ser rei.A história da humanidade é a história de homens que querem ser deuses. Mas,quando o homem tenta ampliar seu poder sobre o mundo clonando um filho, como fica o respeito devido a este? A segunda conclusão é:todo ser humano deve ter respeitado seu direito a ser ele próprio.Quem clona um filho não está tentando bloquear
todas as coordenadas de uma vida que deveria ser livre? E o que será quando der errado isso? Porque,afinal,um ser não é só a sua genética,é também sua educação.
O importante,porém,é que essas perguntas só têm valor ético se percebermos que não se referem apenas a um eventual clone,mas a toda criatura – ou a toda criança.Não há diferença essencial entre controlar geneticamente o perfil de meu filho,e controlá-lo educacionalmente:entre determinar quais serão os traços naturais da criança,e quais serão os seus traços culturais.A questão ética é a mesma:como fazer que o narcisismo não prevaleça sobre o respeito ao outro.
“ Clonar um filho evoca a idéia de Deus criando o homem à sua imagem. Mas até Deus onipotente deparou com a rebelião do primeiro casal ”
Concluo com isso,talvez em anticlímax. Seria mais agradável advertir contra os riscos de sinistros doutores Silvana despontando no horizonte – um horizonte externo a nós, uma ameaça do mal contra a inocência.Penso, porém,que as questões ligadas à clonagem reprodutiva só podem ser abordadas contra o pano de fundo de uma sociedade prometéica e narcisista.Ela só atualiza potencialidades que já vivenciamos.Pois Prometeu vive em nossos cientistas,figurando entre o que temos de melhor. Narciso está em quase todos nós,e é o nome da ameaça que representamos aos direitos dos outros.Mas falar da ameaça narcisista exige que conheçamos melhor a sociedade e o ser humano,que os pesquisemos mais e,finalmente,que procuremos converter essas pesquisas em aplicação prática – reduzindo o anseio,dos ricos e poderosos,de controlar tudo.Quem sabe usando Prometeu,ou seja, a indagação sem medo,agora sobre os sonhos e os desejos humanos,não consigamos refrear o poder negativo de Narciso.
*RENATO JANINE RIBEIRO é professor titular de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo e autor,entre outros livros,de A Sociedade contra o Social - o Alto Custo da Vida Pública no Brasil.