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Edição Especial - Agosto 2004

Page 1


ESPECIAL ESPECIAL

www.revistapesquisa.fapesp.br

6 HISTÓRIA

Nas antigas Olimpíadas,os gregos não competiam apenas por uma coroa de oliveira, havia muito mais em jogo

14

LIMITES DO HOMEM

O fim da era dos recordes ainda está longe,mas muitas marcas do atletismo resistem

18

TECNOLOGIA

Artefatos e roupas especiais, como a pele de tubarão, impulsionam os atletas e o comércio esportivo

24 CORPO

Para vencer,os esportistas de elite fazem um pacto com a dor e seguem em frente apesar do sofrimento

30 MENTE

Moldar o cérebro, com exercícios psicológicos, faz parte da rotina dos treinamentos

34 DOPING

Drogas desenhadas em laboratório e a engenharia genética reforçam a química ilegal no esporte

42

PERFORMANCE

Desenvolvida no Brasil,a estratégia Z é uma fórmula que auxilia a encontrar talentos das pistas e quadras

46

RADIOGRAFIA

Atlas do esporte no Brasil mostra a importância econômica e social das atividades físicas no país

50 ATLETAS

Imagens de 7 dos 245 esportistas brasileiros que representam o Brasil na Olimpíada de Atenas

FAPESP

CARLOS VOGT PRESIDENTE

CONSELHO SUPERIOR

ADILSON AVANSI DE ABREU,CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ,CARLOS VOGT,CELSO LAFER, HERMANN WEVER,HORÁCIO LAFER PIVA,MARCOS MACARI, NILSON DIAS VIEIRA JUNIOR, JOSÉ ARANA VARELA,RICARDO RENZO BRENTANI,VAHAN AGOPYAN,YOSHIAKI NAKANO

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EDITOR EXECUTIVO DA EDIÇÃO ESPECIAL ESPORTE E CIÊNCIA MARCOS PIVETTA

DIRETORA DE REDAÇÃO MARILUCE MOURA

EDITOR CHEFE NELDSON MARCOLIN

EDITORA SÊNIOR MARIA DA GRAÇA MASCARENHAS

DIRETOR DE ARTE HÉLIO DE ALMEIDA

EDITORES

CARLOS FIORAVANTI (CIÊNCIA),CARLOS HAAG(HUMANIDADES), CLAUDIA IZIQUE (POLÍTICA C&T),HEITOR SHIMIZU(VERSÃO ON-LINE), MARCOS DE OLIVEIRA(TECNOLOGIA)

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É PROIBIDA A REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL DE TEXTOS E FOTOS SEM PRÉVIA AUTORIZAÇÃO

CARTA DO E DITOR

Bastidores de um espetáculo

Oesporte vive mais uma vez seu zênite nestas Olimpíadas de 2004.Superação,recordes,alegrias e tristezas imensas misturadas a dores quase insuportáveis estarão presentes em Atenas,Grécia,em um espetáculo visto com especial carinho pelos adoradores do esporte e apaixonados pela história.O fato de os gregos terem criado os jogos na Antiguidade e lá ter ocorrido a primeira edição da competição da era moderna,em 1896,evoca tempos em que os homens pareciam mais saudáveis e em constante harmonia entre si.Isso,claro,está longe de ser verdade.Para os jogos ocorrerem era preciso decretar uma trégua nas constantes guerras entre as cidades-estado, mulheres não podiam competir ou assistir às provas na maioria das vezes e os trapaceiros (sim,também naquela época havia quem tentasse ganhar roubando) eram humilhados publicamente e obrigados a pagar multas.Pensando bem, o espírito olímpico nunca foi tão nobre ou puro como se pensava.Mas através dos séculos permanece o desejo e o fascínio de ser o mais rápido,o mais alto, o mais forte (citius,altius,fortius, no original em latim) e empurrar para mais longe o limite humano no esporte – nos tempos de hoje algo que não se faz sem ciência e tecnologia.

A presente edição tem por objetivo explicar como a ciência ajuda homens e mulheres a turbinar seu desempenho para alcançar marcas inéditas.Esta revista é um fruto de PesquisaFAPESP, publicação mensal de divulgação científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP),que traz reportagens sobre projetos brasileiros de pesquisas científicas e tecnológicas e,claro,seus resultados.Publicada desde 1999 até fevereiro de 2002 sua circulação estava restrita à comunidadecientífica,especialmente de São Paulo.Em março daquele ano Pesquisa FAPESP passou a ser distribuída nas bancas das principais cidades brasileiras

justamente para que qualquer leitor interessado pudesse conhecer os avanços da produção da ciência no Brasil. Esporte e Ciência foi criada,escrita (em parte) e editada pelo editor especial Marcos Pivetta,que viu no projeto uma forma de falar de Olimpíadas,de ciência e de dizer aos leitores de fora da comunidade de pesquisadores e professores que existe uma revista capaz de noticiar e explicar os projetos científicos realizados no Brasil com rigor e clareza jornalística. Acreditamos que Esporte e Ciência cumpriu bem a missão proposta – e realizada – por Pivetta.Dos tempos em que os jogos foram criados,em 776 a.C., como parte de um ritual religioso,até o momento atual,em que mostramos o peso econômico e social das atividades físicas no Brasil,esta edição especial dá uma visão panorâmica sobre as Olimpíadas e,em especial,sobre até onde é possível avançar com o auxílio científico.Tecidos inteligentes,sapatilhas desenhadas sob medida no computador,varas de fibra de carbono permitem ao atleta um ganho excepcional no desempenho individual.Em alguns casos a tecnologia avançou tanto que foi banida,como a raquete de tênis criada em 1977,que usava duplas de cordas cobertas com um plástico.A novidade funcionou tão bem que tenistas medíocres começaram a ter resultados excepcionais contra os mais talentosos jogadores da época,que usavam equipamento normal.A Federação Internacional de Tênis proibiu a super-raquete. Esses e outros exemplos igualmente saborosos acompanham os textos de Marcos Pivetta,Rogério Schlegel e Renée Castelo Branco,junto com o extraordinário trabalho gráfico do diretor de arte Hélio de Almeida.Vale a pena atravessar estas páginas. Às vezes, é mais divertido acompanhar o espetáculo quando se sabe o que se passa nos bastidores do palco.

Divinas e imperfeitas

Prêmios em dinheiro,trapaças e mulheres faziam parte do cenário das antigas Olimpíadas

No dia 13 de agosto as Olimpíadas serão encenadas pela segunda vez na era moderna em seu palco original,a Grécia.Como em 1896,quando serviu de sede para a primeira reedição contemporânea de uma das maiores manifestações culturais de seus antepassados,a cidade-monumento de Atenas se converterá de novo em morada – temporária,é verdade – dos maiores esportistas conhecidos.Gente de todos os continentes afluirá à capital grega para ver in loco as disputas (e milhões,talvez bilhões,acompanharão as contendas pela televisão). Por 17 dias,período em que durarem as competições,Atenas será o centro do mundo.Como nos velhos tempos.Ou melhor,como um dia o fora o sagrado solo de Olímpia,distante cerca de 320 quilômetros de Atenas e berço primordial das célebres disputas. Ali,em plena península do Peloponeso,na verdejante confluência dos rios Alfeu e Cládeos,ao pé do monte Cronos,os jogos nasceram como um festival em honra a Zeus,o pai de todos os deuses,em 776 a.C,talvez até antes.E de quatro em quatro anos,no verão do hemisfério Norte,eles se repetiam – não sem antes promover uma trégua entre as cidades-estado da Grécia,dadas a um belicismo crônico,a fim de que espectadores e participantes das competições, vindos de todo o mundo helênico,pudessem chegar sãos e salvos ao santuário do deus supremo em Olímpia.Foi assim,durante quase 12 séculos,até 393 d.C., quando o imperador romano Teodósio I,um cristão, aboliu por decreto os festivais religiosos.

M ARCOS P IVETTA

Competidores de prova de longa distância:até a 17ª edição dos jogos,os eventos esportivos se resumiam às corridas

A cada edição das redivivas Olimpíadas,as comparações são inevitáveis:até que ponto os jogos modernos se assemelham às milenares competições que lhes serviram de inspiração? O exame sem fim de antigos textos gregos,os trabalhos de escavação em sítios arqueológicos do mundo helênico e o engenho analítico de pesquisadores de múltiplas áreas trazem à luz novos aspectos e artefatos ligados às míticas competições patrocinadas pela civilização normalmente rotulada como o berço do Ocidente.Seria ingenuidade esperar que os jogos do passado e os do presente,separados por pelo menos 1.500 anos de história – as últimas Olimpíadas antigas foram no final do século 4 d.C.e as primeiras modernas em 1896 –,fossem como pai e filho.Um a cara do outro.Os tempos são literalmente outros.

Mas,mesmo dando esse desconto cronológico,mitos e incompreensões ainda povoam o imaginário popular a respeito dos antigos gregos e seus confrontos atléticos.

“Muitas pessoas não entendem que os antigos jogos eram parte de um festival religioso,ao passo que os nossos são um evento secular (laico)”,afirma o norteamericano David Gilman Romano,da Universidade da Pensilvânia,especialista em arqueologia clássica. Em outras palavras,enquanto os jogos atuais são uma criação do homem para o homem de cunho exclusivamente atlético (e comercial,diriam seus críticos),as competições originais eram feitas pelo homem para os deuses do Olimpo e incluíam,além das provas esportivas,uma série de concursos artísticos,nas áreas de teatro,música,poesia e escultura.Sacrifícios de animais,orações e oferendas de bebidas aos deuses,cânticos,melodias de flauta,nada disso era estranho aocontexto em que ocorriam as primeiras Olimpíadas. Apesar de o caráter sagrado das antigas Olimpíadas ter se diluído na mente de boa parte das pessoas do século 21,um traço dos deuses costuma ser erroneamente associado aos velhos jogos:a perfeição. “Para muita gente,as Olimpíadas modernas estão cheias de problemas e os antigos jogos eram ideais em todos os sentidos dessa palavra.Não havia corrupção, trapaças,nacionalismo,comercialismo nem envolvimento político ou militar nas disputas”,comenta Romano. É lógico que essa visão de Poliana sobre os antigos jogos nem sempre encontra amparo em escritos deixados pelos próprios gregos a respeito de seus festivais.Zelosos de que suas competições fossem levadas a cabo da forma mais justa possível,dentro de preceitos éticos e em pé de igualdade,os gregos não hesitavam em punir os espertinhos de então.Atletas que eram pegos trapaceando nas competições recebiam uma multa e eram humilhados em público.Com o dinheiro da punição,uma estátua de bronze em honra a Zeus era erigida num ponto estratégico, à vista de

Arremesso de disco:uma das provas do pentatlo antigo

todos:o caminho que dava para o stádion,o local onde aconteciam as provas de atletismo,em cujas arquibancadas cabiam mais de 40 mil pessoas (as lutas eram na palestra,as provas eqüestres no hipódromo e os treinamentos no ginásio).

O termo stádion também designava uma corrida de velocidade com quase 200 metros de extensão, mais precisamente 192,27 metros – ou um stádion (ou estádio).Nas 13 primeiras edições das antigas Olimpíadas,entre 776 a.C.e 728 a.C.,a única prova esportiva disputada foi o stádion.Seu primeiro vencedor foi Corebo,de Élis,cidade-estado vizinha a Olímpia.Foi um êxito caseiro.Do território de Élis fazia parte o santuário de Olímpia.Corebo estava praticamente em casa.Inventivos,os promotores dos jogos introduziram um segundo desafio a partir de sua 14ª edição,em 724 a.C.:o díaulos,uma corrida equivalente a dois estádios.A partir da 18ª Olimpíada,formas de disputa que não fossem as corridas foram sendo introduzidas aos jogos,como a luta,o pentatlo e as corridas de carro puxado por cavalos (veja texto sobre as provas das antigas Olimpíadas na página 12). “Com

o aumento do número de modalidades esportivas – no período clássico haviam atingido o total de 18 –,a duração da Olimpíada foi crescendo gradativamente de um para cinco dias de competições”,escreve Nicolaos Yalouris,ex-inspetor- geral de Antiguidades da Grécia e organizador do livro Os Jogos Olímpicos na Grécia Antiga,recém-lançado no Brasil pela editora Odysseus.

Para espanto de alguns fãs do atletismo,a maratona,prova de aproximadamente 42 quilômetros que funciona como um fecho apoteótico das disputas esportivas nas modernas Olimpíadas,nunca fez parte do calendário de eventos dos antigos jogos. É uma invenção dos tempos de Coubertin,dos primeiros jogos da era moderna,em 1896.Seus idealizadores sempre disseram que a longa corrida se inspira num evento da Antiguidade:em 490 a.C.,os gregos bateram os persas na Batalha de Maratona e o soldado Fidípides correu cerca de 40 quilômetros para levar a notícia da vitória até Atenas e,exausto,morreu assim que cumpriu a sua missão.Por essa versão,de longe a mais difundida,a maratona moderna é uma homenagem ao heróico mensageiro.Mas,de acordo com o grande historiador Heródoto (484 a 425 a.C),a fonte escrita cronologicamente mais próxima dos eventos em questão,o arauto nunca realizou tal percurso para levar a boa nova do triunfo ateniense.Em 490 a.C.,assim que os persas invadiram a Grécia,antes,portanto,da Batalha de Maratona,Fidípides foi,em vão,de Atenas a Esparta pedir a ajuda dos rivais para combater o novo invasor.Corredor “profissional”,o mensageiro percorreu duas vezes os 230 quilômetros que separavam as duas mais poderosas cidades-estado da Grécia Antiga. “E ele não morreu em razão de sua corrida”, diz Romano.

Como a democracia ateniense,que só concedia direitos de cidadão aos homens adultos e livres do mundo helênico (estrangeiros e escravos não tinham voz política),os participantes das antigas disputas em Olímpia tinham de ser do sexo masculino.Só que nem todos precisavam ser adultos.Com o tempo, algumas provas para garotos,com idades entre 12 e 17 anos,foram criadas.Em 632 a.C.,durante a 37 ª Olimpíada,o menino Polinice,de Élis,tornou-se o primeiro campeão infantil da corrida do stádion.Independentemente da idade,os participantes dos jogos competiam sem roupa,com o corpo besuntado em óleo. “Ainda hoje não sabemos por que eles competiam nus e qual era a finalidade do óleo espalhado pelo corpo”,afirma Stephen G.Miller,da Universidade da Califórnia,em Berkeley,que há 30 anos realiza escavações nos sítios arqueológicos de Neméia,onde

também havia uma versão local de festival religioso,com provas atléticas e artísticas.

Miller,aliás,tem uma teoria,controversa,de que a famosa democracia grega é derivada de noções de igualdade presentes nas competições esportivas do mundo helênico. “Encontramos em Neméia as bases de um mecanismo de partida para as provas de corrida que reforça a eqüidade objetiva da disputa”,diz o arqueólogo. “Isso me fez propor que a ascensão da democracia é um filhote dos esportes.Mas nem todos os meus colegas concordam com isso.”

Alguns especialistas tendem a descrever as provas atléticas das Olimpíadas como um simples treinamento para as competições que realmente importavam:as guerras entre as cidades-estado.Mas outros estudiosos contestam essa visão apenas utilitarista e militarista dos jogos. “Os esportistas eram uma parte especializada da sociedade que pertencia ao campo do entretenimento como os atuais atletas de elite”,pondera Miller,que lançou em abril nos Estados Unidos o livro Ancient Greek Athletics.

E as mulheres? Costuma-se dizer,categoricamente,que sua presença nas antigas Olimpíadas era proi-

Efígie de Zeus e estátua de pugilista:disputas em Olímpia eram parte de festival religioso

bida.Não podiam participar das provas,nem mesmo vê-las.Como resposta rápida e simplista,a afirmação é correta.Quem transgredisse essa regra pagava a ousadia com a vida:era lançada monte Tipéon abaixo pelos organizadores dos jogos.Mas havia exceções e brechas que permitiam a visão de rostos femininos nos jogos.Mulheres casadas realmente não podiam assistir às competições,mas as solteiras,provavelmente virgens,podiam – a despeito da visão dos corpos nus dos atletas,ou talvez por causa disso.Ninguém sabe ao certo.Se rica e proprietária de um carro de corrida e cavalos,uma grega de boa estirpe podia até mesmo se tornar uma campeã olímpica.Nas corridas de carro,a coroa de oliveira e as glórias ficavam para o dono do veículo – e não para seu condutor.Graças em grande medida aos escritos do viajante grego Pausânias (século 2 d.C.),os estudiosos sabem que,além das Olimpíadas,havia também um festival religioso em honra de Hera,a mulher de Zeus,em Olímpia.Nos jogos de Hera,meninas solteiras disputavam corridas,só que vestidas com suas túnicas,com no máximo um seio à mostra.

Festivais religiosos,marcados por disputas esportivas e artísticas,eram relativamente comuns em várias cidades-estado,as póleis,da Grécia Antiga.Havia importantes eventos com essas características em Delfos (Jogos Píticos),no Istmo (Jogos Ístmicos),perto do importante centro comercial de Corinto,e em Neméia (Jogos Nemeanos) – todos iniciados no século 6 a.C.,cerca de 200 anos após o estabelecimento das competições em Olímpia.Em Delfos,as provas aconteciam a intervalos de quatro anos e eram uma honraria a Apolo,deus das artes e da harmonia.Nas outras duas póleis as disputas ocorriam a cada dois anos [no Istmo homenageavam Posídon (Netuno),o deus dos mares,e em Neméia,Zeus].A partir de 565/6 a.C., Atenas também passou a promover a sua versão dos jogos,as Panatenéias,organizadas a cada quatro anos como um tributo a Atena,filha de Zeus,protetora da cidade e deusa da sabedoria.Enfim,não faltavam festivais para enlevar os gregos.

Mas os de Olímpia eram os mais antigos,os maiores e os mais populares.Entre a horda de gregos que se dirigiam a essa cidade do Peloponeso para assistir (ou participar) às provas olímpicas havia espectadores de todo o mundo helênico – um vasto pedaço de terra que bordejava o Mediterrâneo e se iniciava em áreas hoje ocupadas pela Turquia,passava pelo norte da África,pela Sicília,pelo sul da França e se estendia até a Espanha. “No período clássico (entre os séculos 6 e 4 a.C.),a Grécia era muito fragmentada,composta por aproximadamente 1.500 cidades-estado”, diz Maria Beatriz Borba Florenzano,do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP). “As Olimpíadas eram um momento de encontro dos gregos,de formação de seu caráter. Competir fazia parte da educação de seus jovens.” Se, na mitologia,não faltam alusões a combates entre divindades,heróis,os gregos de carne e osso também deveriam pelejar entre si. “De acordo com a tradição antiga,os deuses e os heróis foram os primeiros a competir em Olímpia e,desde então,permaneceram como modelo para os mortais”,escreve Nicolaos Yalouris. “Foi em Olímpia que Zeus venceu Cronos na luta (pále),e que Apolo derrotou Hermes na corrida e Ares no pugilismo.”

Ser sempre o melhor e sobrepujar os outros.Dita por Peleu a seu filho Aquiles no momento em que este partia para a Guerra de Tróia (séculos 12 ou 13

Treino de atletas ao som de flauta:concursos artísticos também ocorriam durante os jogos de Olímpia

Corrida feminina em Olímpia:mulheres disputavam outros jogos,em homenagem a Hera

a.C.),onde morreria jovem e glorificado, a frase sintetiza o espírito que embalava os mais variados tipos de concurso que compunham os festivais religiosos no mundo helênico.Os vencedores de disputas olímpicas eram vistos como heróis, semideuses,aumentando o prestígio de suas cidades.Afinal haviam ganho um passaporte para o mundo divino em razão de seu feito. “Morre agora,Diágoras. Nada mais te resta a não ser ascenderes ao Olimpo”,grita em 448 a.C.,durante a 83ª Olimpíada,um espartano para o nobre de Rodes. Ex-boxeador e antigo campeão olímpico,Diágoras é ovacionado pela platéia,em meio a uma chuva de pétalas de flores,e carregado pelos dois filhos em seus ombros.Motivo do júbilo:o atleta aposentado acaba de ver seus Damageto e Acusilaos receberem a coroa de oliveira por vitórias em provas de luta nos jogos. Duas gerações de campeões olímpicos numa mesma família.Alegria maior,impossível.E Diágoras se esvai nos braços filiais,com sua fronte adornada pelas grinaldas de Damageto e Acusilaos.

Quer dizer que,como o nobre de Rodes,os atletas só competiam na antiga Olímpia,e em jogos promovidos por outras cidades,pelo privilégio de se tornar um deus em vida (e também na morte,a exemplo de Diágoras) e por uma coroa de folhas de oliveira? Eles

eram totalmente amadores e seus prêmios absolutamente simbólicos? Sim e não.Dos organizadores das Olimpíadas,os esportistas vitoriosos recebiam basicamente a grinalda,símbolo de sua conquista,honraria cobiçada por todos,inclusive nobres e governantes. É curioso notar que a coroa do vencedor era feita com folhas de diferentes plantas em cada um dos grandes festivais religiosos do mundo helênico:oliveira em Olímpia,louro em Delfos, pinheiro no Istmo e salsa emNeméia.Se,do ponto de vista material,os campeões olímpicos deixavam o santuário de Zeus com fama, mas ainda sem fortuna alguma decorrente de seus feitos atléticos,uma série de prêmios,alguns de alto valor pecuniário,remediariam em breve essa situação assim que os atletas vitoriosos retornassem a sua pólis natal:medalhas e estátuas com sua efígie podiam ser cunhadas,poetas podiam compor odes em sua homenagem,até mesmo gratificações em dinheiro não eram raras. Segundo o biógrafo grego Plutarco (46 a 125 d.C.),um ateniense dos anos 550-600 a.C.que se sagrasse campeão nos esportes receberia um punhado moedas de prata,as dracmas,assim que pusesse os pés de volta em sua terra natal. “O vencedor nos jogos do Istmo devia ter como recompensa 100 dracmas:o vitorioso nas Olimpíadas,500”,escreveu Plutarco,em sua obra sobre Sólon, estadista e reformador de Atenas.Para a época,500 dracmas era uma fortuna.Assim como hoje é uma fortuna oferecer um prêmio de US$ 1 milhão para um atleta igualar o recorde de medalhas de ouro conquistadas numa única edição das Olimpíadas,feito hoje em poder do ex-nadador norte-americano Mark Spitz,que nos jogos de Munique,em 1972,terminou sete provas em primeiro lugar.Um patrocinador promete depositar essa quantia na conta bancária do nadador norte-americano Michael Phelps,de 19 anos, caso ele suba pelo menos sete vezes no lugar mais alto do pódio em Atenas 2004.Como se vê,apesar de todas as diferenças,os antigos e os modernos jogos ainda têm muito em comum.

Os desafios de Olímpia

Durante o período em que foram disputados, de 776 a.C.a 393 d.C., os jogos originais chegaram a durar cinco diase a incluir duas dezenas de modalidades

Stádion

A primeira e única prova nas treze edições iniciais das Olimpíadas,entre 776 a.C,e 728 a.C.É uma corridade velocidade na qual seus competidores têm de percorrer 192,27 metros,1 stádion (estádio).

Díaulos

Corrida equivalente a dois estádios,quase 400 metros. É a segunda modalidade introduzida nos jogos de Olímpia,a partir de 724 a.C., na 14ª Olimpíada.

Dólikhos

Evento para fundistas do atletismo.A corrida do dólikhos varia de 7 a 24 estádios,entre 1.345 e 4.614 metros.Passa a ser disputada a partir da 15ª Olimpíada (720 a.C).

Luta

Combate físico travado entre dois oponentes dentro de uma áreadelimitada por uma cova de areia em que ambos não podem trocar socos,aplicar golpes nos órgãos genitais ou dar mordidas.Quase tudo

o mais vale:safanões,chaves de pescoço e até quebrar os dedos do oponente.Modalidade da pesada adotada a partir da 18ª Olimpíada, em 708 a.C.

Pentatlo

Inclui cinco modalidades:salto em distância,prova do stádion,lançamento de dardo,arremesso de disco e luta.Como a luta,vira esporte olímpico em 708 a.C.

Pugilismo

Forma de combate mais próxima do boxe atual.Os participantes têm as mãos revestidas de faixas de couro em torno do punho e desferem socos.Adotado a partir de 688 a.C. nos jogos de número 23.

Téthrippon

Na 25ª Olimpíada,em 680 a.C.,homens e animais formam um time num hipódromo.De inspiração militar,o téthrippon é uma corrida de carros puxados por quatro cavalos.Nas guerras,dois homens ocupam o veículo de madeira,o auriga e o guerreiro.Mas,quando

usado para fins esportivos,o carro abriga apenas o seu condutor.A prova goza de grande prestígio.Detalhe:a glória e a coroa de vencedor ficam com o (rico) proprietário do carro,que pode até ser uma mulher ou criança.

Kéles

Cavaleiros montando cavalos adultos disputam a honraria de ser os primeiros a dar seis voltas na pista do hipódromo.Cada volta equivale a pouco mais de 1.500 metros.A modalidade surge em 648 a.C.,no 23º jogo.

Pancrácio

Uma versão helênica das lutas modernas do vale-tudo.Ou,na definição de um dos antigos exegetas de Platão, “uma competição que combinava a luta imperfeita com o pugilismo imperfeito”.Com as mãos nuas,sem as faixas de couro que revestem o punho dos pugilistas,seus atletas podem aplicar qualquer golpe nos adversários,desde que não usem os dentes ou as unhas.Como a modalidade anterior,torna-se esporte olímpico em 648 a.C.

Stádion e luta infantil

Essas duas modalidades,que entraram na 37ª edição das Olimpíadas,em 632 a.C.,foram as primeiras a ser disputadas por meninos, em geral de 12 a 17 anos.

Pentatlo infantil

Adotado apenas durante os jogos de 628 a.C.,durante a 38ª Olimpíada. A prova,em sua versão para garotos,nunca mais é disputada.

Pugilismo infantil

Novidade para garotos surgida no 41º jogo,em 616 a.C.

Drómos hoplítes

Corrida curta,de no máximo 4 estádios,introduzida em 520 a.C. (65ª Olimpíada),na qual seus competidores têm de vencer a distância da prova carregando armas.Inicialmente,seus participantes têm de vestir uma armadura e segurar um escudo de madeira revestido de bronze.Com o tempo,sobra só o escudo e os competidores passam a correr nus.

Apéne

Mais uma prova eqüestre:uma corrida de carros puxados por duas mulas.Adotada em 500 a.C., no 70º jogo,e abandonada na 84ª Olimpíada,em 444 a.C.

Kálpe

Disputada pela primeira vez em 496 a.C.,na 71ª Olimpíada,a prova é uma corrida na qual o cavaleiro montava uma égua.Não se sabe de quantas voltas pelo hipódromo consistia o concurso,descontinuado,como a apéne,em 444 a.C.

Synorís

Corrida em que dois cavalos puxam um carro guiado por um condutor.Outra novidade eqüestre incorporada aos jogos em 408 a.C. na 93ª Olimpíada.

Concursos de trompetistas e arautos

Uma prova bastante diferente das demais,em que,como os atletas, músicos e mensageiros têm a sua chance de ascender ao Olimpo.

Competição introduzida em 396 a.C.,no 96º jogo.

Téthrippon de potros

Versão dessa modalidade que entra para o programa em 384 a.C., no 99º jogo.

Synorís de potros

Semelhante à synorís,só que,nesse caso,o carro é puxado por dois jovens.O concurso começa a ser disputado na 128ª Olimpíada,em 268 a.C.

Pólou kéletos

A corrida de potros.Prova de hipismo em que a montaria são cavalos jovens.Novidade adotada a partir do 131º jogo,em 256 a.C.

Pancrácio infantil

Combate vale-tudo para garotos introduzido em 200 a.C.,na 145ª Olimpíada. É a última modalidade a entrar para o rol de provas olímpicas na Antiguidade.Como se vê, a maratona nunca fez parte dos jogos originais.

Corrida,disputas eqüestres e pancrácio:as antigas Olimpíadas eram compostas por competições de atletismo,provas com animais e lutas

LIMITES DO HOMEM

A era da superação

Vinte e duas marcas do atletismo têm mais de dez anos,mas o fim da época dos recordes não está próximo

Citius,altius,fortius.Há exatos 110 anos,o mote olímpico se resume a essas três palavras latinas,que significam mais rápido, mais alto,mais forte.Originalmente,o lema deveria ser entendido como um estímulo para que cada atleta desse o melhor de si em sua prova,sem se preocupar com a colocação final e o desempenho dos oponentes.Lutar para superar os próprios limites já era uma vitória.Afinal,o importante era competir,não vencer.Mas os campeões parecem fazer uma leitura diferente do velho slogan:querem ser mais rápidos,mais altos e mais fortes do que todos – e se possível escrever seu nome na história com um recorde mundial ou olímpico,que lhes trará fama e,às vezes, fortuna.Até que ponto o ser humano conseguirá estender as fronteiras de seu desempenho atlético? Ninguém sabe responder com certeza.

As provas de atletismo são a principal estrela das Olimpíadas e costumam ser usadas como um termômetro dos limites do ser humano.Uma olhada na lista de recordes mundiais indica que não está fácil superar algumas marcas relativamente antigas.Entre os homens,9 dos 24 recordes referentes a provas olímpicas, quase 38% do total,têm mais de dez anos.O mais antigo é o do arremesso de disco,estabelecido em 6 de junho de 1986 pelo alemão oriental Jürgen Schult,que,na ocasião,lançou o objeto a uma distância de 74,08 metros.Como a história ensina,a Alemanha Oriental era

Daiane dos Santos na prova solo:a única a executar dois tipos de movimento

uma potência esportiva – e do doping estatal.Mas,ao que se sabe,nenhuma substância ilegal foi detectada em Schult em exames de controle.Embora haja um bom número de marcas longevas,as duas provas mais nobres do atletismo ostentam recordes recentes.O dos 100 metros rasos,com o tempo de 9s78, é de setembro de 2002 e pertence ao norte-americano Tim Montgomery (veja quadro com a evolução dos tempos nessa prova nas páginas 16 e 17).O da maratona é de setembro de 2003 e está em poder do queniano Paul Tergat,que percorreu os cerca de 42 quilômetros da prova em 2h04min55s. Entre as mulheres,parece haver uma dificuldade ainda de quebrar uma marca.Treze dos 22 recordes mundiais em modalidades olímpicas,quase 60% das marcas,foram estabelecidos há mais de dez anos,sendo que 11 remontam aos anos 1980.O mais longevo recorde é o da tcheca Jarmila Kratochvílová,que ganhou a prova dos 800 metros rasos em 26 de julho de 1983 com o tempo de 1min53s28.Cravadas há 16 anos,as melhores marcas nos 100 e 200 metros – 10s49 e 21s34,respectivamente – ainda são da norte-americana Florence Griffith Joyner.A mulher mais veloz da história,a musculosa Flo-Jo,foi um prodígio e um mistério das pistas:morreu prematuramente aos 38 anos,em 1998.Há quem especule que seus (por ora) inigualáveis resultados e seu óbito tenham ligação com o uso de esteróides anabólicos, uma forma de doping,embora essa suspeita nunca tenha sido comprovada.

O que concluir diante desses números? O ser humano já atingiu seu limite atlético em algumas modalidades? Para Victor Matsudo,do Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (Celafiscs),isso nunca vai acontecer – e a razão é simples. “Mudam-se as regras do esporte ou a forma de medir os recordes”,afirma Matsudo,especialista em medicina esportiva. “Assim novas marcas vão surgir.” Na verdade,isso já é feito há muito tempo.Talvez o objetivo central de algumas alterações do passado, em geral de ordem tecnológica,não tenha sido o de facilitar a quebra de recordes,mas,de qualquer forma, esse também foi um dos efeitos dessas mudanças.

A partir da Olimpíada na Cidade do México,em 1968,por exemplo,o tempo oficial das provas de atletismo,ciclismo,canoagem,remo,natação e esportes eqüestres deixou de ser medido de forma manual e passou a ser registrado de maneira eletrônica.Para os recordes,a medida foi salutar.Antes de 1968,um atleta tinha de ser pelo menos um décimo de segundo (0,1) mais rápido do que o detentor do melhor tempo para quebrar um recorde (o registro manual só media uma casa depois da vírgula).Desde então,com a cronometragem eletrônica,basta ser um centésimo de segundo (0,01) mais veloz para lograr tal feito. Nada impede que no futuro,diante da escassez de no-

vos recordes,as autoridades do atletismo ou da natação passem a medir o tempo em milésimos de segundo (0,001),como fazem na Fórmula 1.

Na natação,no entanto,a hipotética era dos tempos marcados em milésimo de segundo parece estar mais distante do que no atletismo.Nas provas femininas disputadas em Olimpíadas,apenas cinco dos atuais 17 recordes mundiais – menos de 30% dos melhores tempos – foram registrados há mais de uma década.O recorde mais longevo é o do revezamento 4 por 200 metros nado livre,em posse da equipe da Alemanha Oriental (um país que não existe mais) desde 18 agosto de 1987.As alemães cravaram 7min55s47. No caso dos homens,a maioria absoluta dos melhores tempos já registrados foi estabelecida do ano 2000 para cá.De 16 provas individuais ou coletivas,apenas um recorde é da década passada:o dos 100 metros nado costas,que pertence desde 24 de agosto de 1999 ao norte–americano Lenny Krayzelburg,com o tempo de 53s60.Quer dizer,no meio líquido,fora de seu hábitat,o homem ainda está distante de ter atingido o seu ápice em termos de desempenho. Em certos esportes,com provas coletivas ou individuais em que não há recordes numéricos a serem

Menos dois segundos em cem anos

Em 1896,quando ocorreram as primeiras Olimpíadas da era moderna,o então homem mais veloz do mundo,o norte-americano Tom Burke,venceu a corrida dos 100 metros rasos com o tempo de 11s8. Em 14 de setembro de 2002, no exato instante em que o também norte-americano Tim Montgomery cravou o atual recorde de 9s78 para a prova,um velocista que repetisse a antiga marca de Burke estaria cerca de 17 metros atrás do vencedor da disputa.Em pouco mais de um século,o homem aprendeu a correr os 100 metros em dois segundos a menos.Entre Burke e Montgomery houve outros recordistas memoráveis.Quase todos vieram dos Estados Unidos,como Jesse Owens,cuja marca de 1936 demorou vinte anos para ser batida,e Jim Hines,o primeiro homem a correr os 100 metros em menos de 10s.

Jesse Owens

10s2

1936

Com a marca estabelecida em Chicago,o atleta se tornou o homem a permanecer por mais tempo como recordista da prova.Foram mais de 20 anos.

Seu tempo foi batido apenas em agosto de 1956, por Willie Williams.

batidos,fica mais difícil traçar uma linha e estabelecer limites a serem superados.Ainda assim,volta e meia aparecem atletas com um caráter revolucionário que levam uma modalidade para um novo patamar.Esse é o caso da gaúcha Daiane dos Santos,21 anos,o nome hoje a ser derrotado na ginástica de solo. “Competi contra a Daiane algumas vezes e fiquei bastante impressionada.Ela é muito,muito forte.Impressionante...Todas aqui estão trabalhando forte com uma só meta:batê-la em Atenas”,disse Courtney Kupets,17, a principal ginasta americana da atualidade,ao jornal Folha de S.Paulo em junho.Força nas pernas é o maior atributo da brasileira,rainha de ébano numa modalidade mais acostumada a princesinhas de marfim.Graças à potência de seus membros inferiores,Daiane,em pouco mais de um segundo,consegue projetar seu corpo a cerca de 2,70 metros do solo.Como mede 1,45 metro,salta,portanto,1,25 metro – quase a sua altura. “Se não saltasse tanto,Daiane não teria tempo de realizar os saltos que a diferenciam das demais atletas”,afirma Marcos Duarte,especialista em análise do movimento da Escola de Educação Física e Esportes da Universidade de São Paulo (EEFE-USP),que filmou e analisou a performance da atleta.

Daiane é a única mulher no mundo capaz de executar dois movimentos inteiramente novos,bolados

Jim Hines

9s95 1968

Foi o primeiro homem a correr a prova em menos de 10s.Em junho de 1968 cravou 9s9 numa competição nos Estados Unidos.Em outubro desse mesmo ano, durante a Olimpíada na Cidade do México, reduziu o tempo para 9s95.

pelo seu técnico,o ucraniano Oleg Ostapenko:o duplo twist carpado e o duplo twist estendido.Em ambos,suas pernas não ficam encolhidas,nem grudadas em seu corpo,durante os dois saltos mortais (outras atletas fazem movimentos semelhantes,só que com as pernas encolhidas,coladas ao corpo).Por voar semi-esticada (duplo twist carpado) ou esticada (duplo twist estendido),aumentando sua área de atrito com o ar,Daiane perde velocidade no meio de seus movimentos alados.Não fossem suas pernas um dínamo,que a levam a se projetar verticalmente tanto quanto um jogador de vôlei,a gaúcha não conseguiria compensar sua calculada redução de velocidade em pleno ar,realizar seus movimentos e cair em pé. Ginastas sem a força de perna da brasileira saltam menos e não têm tempo de fazer o duplo twist carpado ou estendido.Se a artroscopia que fez recentemente no joelho direito não prejudicar seu desempenho,Daiane será o limite humano na ginástica de solo em Atenas. •

Tim Montgomery

9s78 2002

Estabeleceu o atual recorde em 14 de setembro de 2002,em Paris.Apesar de o feito ser recente,Montgomery não conseguiu se qualificar como membro da equipe norte-americana que vai a Atenas.E ainda é suspeito de usar doping.

Nadador australiano Ian Thorpe: teste em túnel de vento para a roupa de competição que reduz atrito na água

TECNOLOGIA

Jogo de laboratório

Novos materiais alteram roupas e artefatos dos atletas e,às vezes, até melhoram seu desempenho

Olhando de longe,pouca coisa aproxima o antigo atleta grego do atual competidor dos Jogos Olímpicos.Os gregos disputavam nus;os esportistas contemporâneos,com uniformes feitos de tecido inteligente,que compensa a temperatura do corpo.No lugar dos pés descalços,hoje estão sapatilhas desenhadas com auxílio do computador.Equipamentos toscos como o velho dardo de madeira deram lugar a materiais como a fibra de carbono,muito mais leve e resistente.Mas,olhando de perto,bem de perto, o atleta grego e o esportista do século 21 têm um ponto fundamental em comum:ambos querem vencer.É justamente essa vontade tão humana de bater o rival que explica o uso intensivo de tecnologia no esporte. Além disso,há pouca coisa que possa ser considerada mais humana do que a tecnologia,prova definitiva da acumulação cultural característica da humanidade.Na tentativa de ampliar cada vez mais seus limites,o homem lançou mão dos recursos técnicos de que dispunha para melhorar sua performance.“O desenvolvimento tecnológico sempre foi um aliado importante na quebra de recordes”,afirma Turíbio Leite de Barros Neto,especialista em fisiologia do

R OGERIO S CHLEGEL

exercício da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Não se pode separar a inovação tecnológica das conquistas dos esportes de elite”,acredita o especialista em bioética Andy Miah,da Universidade de Paisley,Escócia.Na verdade,os resultados da tecnologia foram tão bons que o mundo esportivo se viu obrigado a limitar seu uso,temendo desumanizar as competições.Vira e mexe as autoridades esportivas alteram regras para manter o equilíbrio da disputa. No hemisf é Norte, é bem conhecido o exemplo do clap skate (algo como patins-palmas,numa tradução livre),um cl sico na discussão da relação entre tecnologia e esporte.A patinação de velocidade no gelo praticamente não sofreu alteraçõ durante séculos.H bonsindícios de que Leonardo da Vinci, no século 16,chegou a se debru ç ar sobre o assunto,mas nada conseguiu imaginar de muito diferente dos patins feitos com umalâmina fixa,historicamente usados no dia-a-dia e nas competições. No início da década de 1980,entretanto,pesquisadores holandeses da Universidade Vrije de Amsterdã tiverem a idéia de liberar a parte da lâmina que se ligava ao calcanhar,colocando uma dobradiça na parte frontal dos patins.Assim,a lâmina ficaria mais tempo em contato com o gelo,aumentando o impulso que o corredor poderia dar em cada passada.A revolução foi tamanha que os competidores de ponta se recusaram a experimentar a novidade holandesa por quase uma década.A desconfiança também se devia à pouca confiabilidade dos novos patins,que costumavam se partir com facilidade.Só na temporada 1994/1995 uma dezena de atletas juniores holandeses concorreu com o clap skate.Sucesso:seu desempenho melhorou em média 6,2% em comparação com a temporada anterior e três usuários da novidade passaram ao primeiro posto do ranking de sua faixa etária,vindos da 8ª,11ª e 36ª colocações.A consagração da invenção entre os patinadores de elite veio na Olimpíada de Inverno de Nagano (1998).Nos 500 metros,houve

Tênis com processador:promessa de adaptar o solado à atividade praticada

quatro quebras sucessivas de recordes.Nos 5.000 metros,o recorde caiu três vezes em menos de meia hora. Astros da época,como o alemão GundaNeiman,pediram que o clap skate fosse declarado ilegal,mas a Federação Internacional de Patinação o liberou para todas as categorias,aplaudindo a inovação.O nome clap skate,por sinal,vem do barulho semelhante a uma palma que a l â mina faz quando volta à posição em que se aproxima do calcanhar.A invenção mudou a técnica e o som do esporte. No tênis,polêmica semelhante,mas com final diverso,envolveu uma inovação com as raquetes.Em 1977 começou a ser usado no circuito profissional um modelo que,no centro da área de rebatida,usava duplas de cordas cobertas com um plástico –cuja aparência gerou o apelido de “ encordoamento espaguete” A novidade fazia com que,em cada golpe,o contato com a bola fosse prolongado,aumentando o efeito de rotação (spin) com que ela era devolvida ao adversário.Funcionou tão bem que,no Torneio Aberto dos Estados Unidos daquele ano,Michael Fishbach (200º do ranking) bateu com ela Stan Smith (16º);em uma disputa em Paris, o quase desconhecido francês Georges Goven venceu o romeno Ilie Nastase,líder do campeonato;Nastase rapidamente se adaptou ao novo modelo de raquete e,com ele,quebrou uma invencibilidade de 50 jogos do argentino Guillermo Vilas.Logo depois disso,a Federação Internacional de Tênis baniu o modelo “espaguete”.

Homem x tecnologia - Há no esporte,portanto,uma tensão permanente entre desempenho estritamente humano e inovação tecnológica.Para se posicionar no assunto,o engenheiro Steve Haake,do Grupo de Pesquisa em Engenharia Esportiva da Universidade de Sheffield,na Inglaterra,analisou a evolução da tecnologia em algumas modalidades esportivas olímpicas,como o salto com vara e o arremesso de dardo. Sua conclusão:há relativo equilíbrio das autoridades

DIVULGA

Salto com vara:fino e leve,bastão de fibra de carbono impulsiona atletas

desportivas ao lidar com a disputa do homem com a tecnologia.

No caso do salto com vara,a técnica mudou bastante nos últimos cem anos.Antes os atletas tentavam superar a barra com os pés virados para baixo;hoje fazem uma manobra complexa,em que arremessam o próprio corpo usando o impulso da vara.Isso é resultado direto da tecnologia empregada no equipamento.As regras da modalidade,fixadas pela Federação Atlética Amadora Internacional,são bastante liberais. Não há restrição sobre o material da vara,por exemplo.Inicialmente,ela era feita de madeira maciça,mas já no começo do século 20 passou a ser de bambu flexível – bem mais leve,o que permitia aos atletas correr melhor para ganhar impulso.

As marcas subiram seguidamente durante a primeira metade do século,mas começaram a se estabilizar nos anos 1950.Entra em cena,então,a vara de fibra de vidro.Nesse tipo de salto,usa-se a energia cinética do atleta correndo para armazenar energia na vara,por meio da deformação elástica.Essa ener-

gia depois é devolvida ao atleta e o impulsiona para cima.A vantagem do novo material era clara:a vara de bambu podia armazenar 100 joules de energia,enquanto a de fibra de vidro 2.500 joules. Na década de 1990,a introdução de fibra de carbono representou novo degrau de evolução,fazendo a vara ainda mais forte e mais leve.Houve ainda um ganho adicional:em 1996,o pesquisador Stuart Burgess,então no Departamento de Engenharia da Universidade de Cambridge,mostrou que o estresse sofrido pela vara se concentrava em seu meio e que suas pontas poderiam ser mais finas,sem que isso comprometesse seu desempenho.A prática consagrou seu achado,que gerou uma vara ainda mais leve. Na avaliação de Haake,tudo isso fez do salto com vara uma modalidade em que foi claro o ganho que a tecnologia trouxe para os atletas,hoje capazes de superar facilmente a marca dos 6 metros de altura.

Centro de gravidade - Experiência diferente viveu o arremesso de dardo.Com a evolução dos materiais e do desenho,as autoridades se viram obrigadas a alterar as regras.Nessa modalidade há várias restrições:o comprimento do dardo deve estar entre 2,6 e 2,7 metros e o peso mínimo não pode ser inferior a 800 gramas.Há regras também para seu desenho geométrico e onde deve estar seu centro de gravidade.A razão para isso é justamente a evolução das marcas.Em 1908,o vencedor lançou o dardo a pouco mais de 50 metros;em 1976,essa distância foi aumentada para quase 95 metros;e,em 1984,o atleta Uwe Hohn,da então Alemanha Oriental,conseguiu um lançamento de 104,8 metros em um evento nãoolímpico.A essa altura havia risco de lançar dardos fora do estádio ou ferir alguém nas arquibancadas.A solução foi tão simples quanto científica:o ponto que representa o centro de gravidade foi alterado em apenas 4 centímetros,mudando a trajetória dos dardos e encurtando seus vôos em cerca de 15 metros.

“Há um equilíbrio entre tecnologia e tradição”, conclui Haake,com base nos casos que analisou.Ele acredita que a introdução de novas tecnologias nos equipamentos não represente vantagem indevida para ninguém,desde que ela seja compartilhada pe-

los atletas. “Os problemas aparecem quando a tecnologia está disponível exclusivamente para um grupo”, afirma.Ocorre que a exclusividade,que dá vantagem a um atleta em relação aos demais, é justamente o motor da introdução de novos equipamentos no mundo esportivo.A idéia é justamente dar um “algo mais” a um competidor,em um ambiente em que todos têm desempenho muito próximo. “Uma vantagem tecnológica de um segundo pode ser decisiva”,afirma Edward Tenner,pesquisador da Universidade da Pensilvânia e autor de When things bite back (Quando as coisas contra-atacam,numa tradução livre),um bestseller sobre o papel das inovações tecnológicas na vida moderna.Essa desigualdade hoje é potencializada por uma das lógicas que guiam a introdução de inovações no mundo do esporte – o interesse comercial.Para se tornarem bons garotos-propaganda de artigos novidadeiros,atletas de ponta são escolhidos pelas empresas de material esportivo para desenvolver e utilizar os equipamentos de última geração.

Bom exemplo desse espírito são as roupas especialmente criadas para a natação,cuja idéia básica é diminuir a resistência (atrito) da água ao avanço do nadador.Líder mundial nesse tipo de vestimenta,a Speedo já disponibilizava uma versão rudimentar dos trajes de competição na Olimpíada de Barcelona (1992),chamada S-2000.Mas foi nos jogos de Sydney (2000) que a terceira geração da roupa,batizada de FastSkin (pele rápida),deu o que falar.A novidade foi usada por um grupo seleto de nadadores e,segundo a empresa,estava no corpo de 80% dos ganhadores de medalha.Agora que o antigo modelo está mais popularizado,a Speedo desenvolveu uma nova geração da roupa,a FastSkin FSII.A fabricante sustenta que a versão do traje para Atenas é 4% mais eficiente em reduzir o atrito que a anterior.O princípio da nova geração é o mesmo:fazer com que o fluxo de água em torno da roupa trabalhe a favor do movimento.As roupas contam com a sutileza de usar desenhos e tecidos diferentes conforme a região do corpo,tentando imitar a variedade de texturas presentes na pele de um grande nadador,o tubarão.A Speedo patrocina a equipe norte-americana e espera que 90% de seus 48 nadadores usem a sua pele rápida.

Há pesos-pesados das piscinas,como o australiano Ian Thorpe,que ganhou três ouros em Sydney, que preferem a pele de tubarão confeccionada por empresas concorrentes,como o JetConcept,da Adidas.A Tyr,principal concorrente da Speedo nos Estados Unidos,licenciou tecnologia desenvolvida pela Universidade de Buffalo e colocou no mercado seu Acqua Shift,com princípio semelhante ao da FastSkin.Também Arena,Diana e Nike têm seus investimentos na área,numa disputa que tem como objetivo influenciar o consumidor comum.Segundo a associação

norte-americana de fabricantes de material esportivo, o mercado potencial para trajes de natação é estimado em US$ 1,2 bilhão anual só nos Estados Unidos.

Indústria aeroespacial - A disputa pelas estrelas do esporte – e mais tarde pelo consumidor – também ocorre em outras modalidades.A bicicleta mais cobiçada do momento pertence a ninguém menos do que o norte-americano Lance Armstrong,cinco vezes vencedor da Volta da França,uma das mais prestigiosas provas de rua.A fabricante Trek desenvolveu para ele um modelo que usa no quadro uma fibra de carbono especial,chamada OCLV (sigla de Optmized Compactation,Low Void),que é mais forte e mais leve que as demais.Jim Colegrove,que desenvolveu o material,sustenta que sua compactação é maior do que a de fibras da indústria aeroespacial,na qual ele trabalhava.E ainda teria a vantagem de ser direcionável,isto é,no interior do material é possível dispor as fibras de forma a absorver as vibrações e transformá-las em energia de movimento.

No caso de tênis e sapatilhas esportivas,há um complicador para a difusão de novas tecnologias para o grande público.Quanto mais a pesquisa avança,mais claro fica que a forma de correr é algo tão pessoal quanto um registro de voz.Cada um tem sua passada própria,com pontos e momentos de pressão totalmente diferentes uns dos outros.Assim,enquanto a Speedo analisou o físico de 450 nadadores para chegar ao modelo ideal para sua pele rápida,os fabricantes de calçados esportivos apostam em desenvolver modelos exclusivos para atletas de ponta.Para a elite, as empresas trabalham como uma butique,com produtos sob medida.Para o grande público,uma opção talvez sejam os tênis inteligentes,como o protótipo Adidas 1,apresentado neste ano com a promessa de “ler” as condições do exercício e,com ajuda de um processador de 20 megahertz movido a bateria,adaptar o solado ao usuário e à atividade praticada. É usar para crer (ou não).

Casos em que a tecnologia esportiva é barata e está ao alcance de todos são mais raros.Aconteceu com os tecidos esportivos.Após muitas pesquisas,os fabricantes chegaram a materiais capazes de absorver o suor da pele,expô-lo à superfície externa e assim contribuir para manter constante a temperatura corporal durante o exercício prolongado.O benefício é fundamental para a melhora do desempenho,pois com os novos uniformes o organismo “economiza” energia e água.Esse avanço está ao alcance de praticamente todos os atletas por algumas dezenas de dólares,o que já não ocorre,por exemplo,com as sapatilhas de US$ 450 fabricadas pela Nike para os corredores dos 100 metros rasos.

Edward Tenner relativiza o poder da tecnologia. “Nunca ouvi falar de um atleta claramente mais fraco vencer um mais forte por conta da tecnologia de seu

Patinador de velocidade com o clap skate:lâmina móvel do calcanhar fica mais em contato com o gelo e aumenta impulso

equipamento”,afirma.Claro,ele admite que haja casos em que o desenho e o engenho do equipamento acabam contando tanto ou mais do que a destreza dos atletas,como acontece nas competições náuticas. Também não esquece o clap skate “Ele deu uma vantagem crucial a quem o usava e mudou o esporte”,diz Tenner. “Quem se negou a aceitá-lo foi derrotado.” Ele afirma,no entanto,que em quase todos os esportes há limites para a tecnologia dos equipamentos.

Aliga norte-americana de beisebol,por exemplo,mantém os tacos de madeira,apesar das dificuldades de ajuste dos jogadores que saem das faculdades e do curso médio,acostumados a bastões de alumínio.Em alguns casos, é verdade,a tecnologia pode significar menos segurança para os atletas.No livro When things bite back,o pesquisador norte-americano descreve como a introdução de luvas para boxeadores levou a uma maior incidência de lesões.As luvas pretendiam tornar o combate mais seguro,protegendo as mãos dos lutadores.No final,o resultado obtido foi o aumento de lesões cerebrais,inclusive mortes, pois se tornou possível socar a cabeça do adversário sem quebrar as próprias mãos.

O especialista chama a atenção para o progresso que representou para o esporte a evolução no recru-

tamento de atletas,outro item incluído em sua lista de avanços tecnológicos.Há cem anos,afirma Tenner, a maioria dos atletas olímpicos norte-americanos vinha de universidades como Harvard e Yale ou eram membros de clubes de elite.O código de amadores deixava de fora da prática competitiva os filhos da classe operária,que só poderiam desenvolver suas habilidades esportivas se fossem remunerados.Desde a Segunda Guerra Mundial,os programas de recrutamento de atletas se expandiram por todo o mundo, influenciados pelo pioneirismo dos então países comunistas do Leste. “Com tanta gente desde pequena praticando hoje esportes,as diferenças de performance se tornaram insignificantes”,diz Tenner.Seguindo esse mesmo princípio de eqüidade,o ideal é permitir que as inovações nos equipamentos se democratizem. “O esporte e seus praticantes têm a ganhar com isso.” Não tem sido essa a regra.Larry Katz,do Laboratório de Tecnologia do Esporte da Universidade de Calgary,Canadá,sustenta em seus artigos que muitos esportes se tornam excludentes por conta das inovações introduzidas. “A necessidade constante de desenvolver equipamentos e técnicas de treinamento,que podem suavizar lesões e melhorar a performance,aumenta os custos de preparação dos atletas”,afirma Katz. “Isso exclui da prática ou do pódio aqueles sem acesso a recursos substanciais.” •

A dor da vitória ou a vitória da dor

Para se manter no topo, competidores de elite convivem com o sofrimento físico

Em abril de 2002,durante uma etapa da Copa do Mundo de Triatlo,no Japão, Carla Moreno sentiu uma dor intensa.Ela tinha de nadar 1,5 quilômetro,pedalar outros 40 quilômetros e,para finalizar, correr mais 10 quilômetros.Ocorre que,acostumada a terminar as provas com todo o corpo latejando,especialmente as pernas e os braços,a triatleta pouco ligou para os sinais que seu organismo emitiu de que havia alguma coisa errada.“Fiz o de sempre:eu simplesmente deletei a dor”,relembra Carla,que chegou em 5º lugar.Três semanas depois disputou outra prova.Quando foi investigar a razão do desconforto anormal,descobriu que tinha participado das duas provas com uma fratura de estresse:fissuras em três pontos da tíbia,principal osso que liga o tornozelo ao joelho e que,numa corrida,sustenta a maior parte do peso do corpo e absorve o impacto contra o solo. Essa espécie de microfratura foi provocada por movimentos que o ser humano faz corriqueiramente todos os dias,mas que,repetidos milhares de vezes na vida esportiva,fazem o osso do atleta reagir como um pilar de concreto que se esfarela sob o peso excessivo de uma construção.É um sinal claro de que o corpo foi além de seus limites.Nesses casos,a dor serve de sinal de alerta – ou,pelo menos,deveria servir.“Nem liguei”,relembra Carla,de 27 anos.“Sou capaz de agüentar a dor até desmaiar.”

O relato de Carla,que disputa as Olimpíadas de Atenas pelo Brasil,está longe de ser um caso isolado. A vida do atleta de alto rendimento é marcada pela

carga excessiva de esforço físico e pela exposição a lesões em articulações,ligamentos,músculos e ossos. Fruto de treinos diários com milhares de repetições de um mesmo movimento.De saltos e aterrissagens cujo impacto pode se aproximar de 1 tonelada.Do exercício forçado com pesos,para aumentar a massa muscular.Dos jogos em que é comum levar pancadas do adversário ou sofrer contusões provocadas pelos próprios movimentos,bruscos e vigorosos.Das atividades que moem as articulações,submetidas a pressão além do normal.Por conta disso tudo,inchaços, desconforto e dor são companheiros freqüentes do esportista.“Infelizmente,faz parte da realidade dos esportes de competição a máxima ‘No pain,no gain’ (sem dor,não há vitória)”,avalia Moisés Cohen,chefe do Centro de Traumatologia do Esporte,da Universidade Federal de São Paulo (Cete-Unifesp). “O atleta de elite convive tanto com a dor que acaba achando normal senti-la. É justamente essa tolerância que favorece lesões mais graves e permanentes.”

Procurando a melhoria contínua do desempenho, o esportista de competição ignora os limites de seu organismo,com claros prejuízos para a saúde. “O esporte de alto rendimento não é saudável nem provoca bem-estar”,afirma Antônio Carlos da Silva,do Centro de Estudos de Fisiologia do Exercício (Cefe), também da Unifesp.Pesquisas já mostraram que o esporte praticado com moderação faz o organismo produzir endorfina,substância natural que tem estrutura e efeito semelhantes aos de opiáceos,dando ao esportista sensação de bem-estar.Há evidências de

Em abril de 2000,Ronaldo rompe o tendão da rótula do joelho direito:um ano e meio afastado do futebol

que,praticado em excesso,como fazem com freqüência atletas de competição,o esporte faça o corpo produzir cortisol,o hormônio do estresse,que provoca desconforto e é capaz até de diminuir as barreiras imunológicas do organismo.

Aos 21 anos,a ginasta Daiane dos Santos já sofreu três cirurgias nos joelhos:no direito,passou por uma artroscopia em 2003 e,no último mês de junho,por uma artroscopia para retirada de um fragmento de cartilagem;no esquerdo,operou o tendão patelar em 2002. “Faz parte da vida do atleta”,costuma repetir Daiane,quando indagada sobre as dores que sente nos treinamentos e fora deles.Pesquisas de V.P.Panzer e colaboradores,da Universidade de Oregon,Estados Unidos,mostraram que na ginástica a força do solo sobre o corpo na aterrissagem é de 8 a 14 vezes o peso do atleta.No caso de Daiane,isso significaria algo como meia tonelada atuando por uma fração de segundo sobre seus ossos e articulações. “Daiane pode até superar essa marca,pois salta muito alto e isso aumenta o impacto na volta ao solo”,avalia o físico Marcos Duarte,da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFE-USP), especialista na análise dos movimentos humanos (biomecânica).Daiane tem 42 quilos.Imagine o que se passa com os gigantescos jogadores de vôlei.No auge de sua forma,o jogador Marcelo Negrão tinha 90 quilos,distribuídos em 1,98 metro de altura,e dava saltos em que seus pés chegavam a 1,10 metro do solo. O impacto de sua aterrissagem chegou a ser calculado em 900 quilos,e ele repetia esse movimento cerca de cem vezes em um jogo.Isso é parte da explicação para a lesão no joelho direito que o afastou das quadras por um ano e oito meses.

Forçar além do normal - Nos treinamentos,ir além do limite físico do atleta é um princípio básico,visto como a alavanca que gera a evolução. “A idéia é forçar um pouco além do normal para provocar uma adaptação que trará ganho para o indivíduo”,explica Silva. O trabalho é feito em ciclos:primeiro vêm os exercícios,que são levados até a sobrecarga e mantidos até exaurir as reservas do atleta;em seguida,vem a recuperação.Nessa fase,espera-se do organismo uma supercompensação,capaz de repor as reservas e ainda elevar a um novo patamar os recursos do esportista. Há dois riscos nesse método.Um é negar o devido tempo para a recuperação. “É preciso dar boas pausas.Manter um ritmo além do normal,temporada após temporada,gera um efeito cumulativo de sobrecarga”,diz Silva.Outra atitude de risco é ignorar quando o físico do atleta já atingiu o limite máximo de desenvolvimento. “Com freqüência,o treinador se vê diante de um dilema:será que meu atleta já desenvolveu todo o seu potencial?”,conta o pesquisador. Como uma pequena diferença pode significar uma medalha,há muitos que preferem arriscar e forçar

um pouco mais.Também aparece a tentação de aplacar dores e inchaço com analgésicos e corticóides,que podem configurar doping.No esporte de elite,alguns de fato acabam cometendo esses pecados. “Para alguns esportistas e treinadores,vale tudo na busca por resultados”,afirma Silva.

Abusos no esforço de preparação geram quadros conhecidos como de overtraining –ou treinamento excessivo.O atleta passa a ter alterações no humor,problemas para dormir,mudança de apetite e,nas mulheres,início de osteoporose e alterações no ciclo menstrual.Mais:o rendimento começa a cair de maneira aparentemente inexplicável.Diagnosticado no início,o overtraining tem um tratamento prosaico –férias.Mas,quando esses sintomas se tornam crônicos,podem ameaçar a carreira do esportista e o descanso tem de ser prolongado por muitos meses.Infelizmente, é comum o atleta e sua equipe ignorarem os sinais do excesso de treinamento.E,na tentativa de recuperar a performance,fazerem treinamento ainda mais puxado,que acaba agravando o quadro.O pesquisador John Raglin,da Universidade de Indiana, Estados Unidos,estima que a maioria dos corredores de elite de longa distância dá sinais de overtraining pelo menos uma vez em suas carreiras.A cada ano, entre 5% e 15% dos atletas de competição estudados por Raglin apresentaram quadro de overtraining,e de 25% a 30% tiveram pelo menos parte dos sintomas. Mais comuns na carreira esportiva são as pequenas lesões. É raro encontrar um atleta que não tenha muitas histórias para contar.O joelho é a principal vítima na maioria dos esportes.No futebol,por exemplo,o desgaste parece inevitável.Quem duvidar disso que converse com o atacante Ronaldo,o fenômeno. Sua imagem de dor ao romper o tendão da rótula do joelho direito,em abril de 2000,quando atuava pela Inter de Milão,não deixa dúvidas.O jogador vinha de cinco meses sem jogar,após uma cirurgia exatamente naquele local,e ficou quase um ano e meio afastado das partidas após a segunda contusão. “As lesões podem fazer um jogador de 30 anos ter o joelho igual ao de alguém anos mais velho”,afirma Cohen,em tese,sem se referir ao caso Ronaldo.

Nas modalidades em que é exigida maior explosão,como vôlei,o atletismo de provas rápidas e o próprio futebol,lesões musculares são freqüentes.Nos esportes de muito contato,como é o caso de basquete e handebol,predominam as lesões nas articulações.Mas poucos esportes se comparam ao judô em matéria de moer atletas. “Várias pesquisas já mostraram isso”,sustenta Wagner Castropil,ortopedista especializado em medicina do esporte e ex-judoca.Em 1996,Castropil fez um estudo com cem judocas que competiam e apurou que 70% dos atletas tinham problemas no ombro,60% no joelho e 55% nas mãos.Essas contusões

e lesões levavam alguns desses atletas a se afastar dos treinos por 15 dias ou mais. “O judô é altamente agressivo ao aparelho locomotor e ao sistema esquelético”, afirma Castropil. “Enquanto no vôlei,por exemplo,o choque com a bola dura no máximo um segundo,no judô há esforço brutal nas articulações durante 40,60 segundos ininterruptos.” Em muitos sentidos os praticantes da natação levam vantagem.Trata-se de esporte que exige muito do sistema cardiorrespiratório, em que não há contato com adversários e o corpo interage com um meio que funciona como amortecedor – a água.De forma geral,os nadadores estão menos expostos a lesões que seus colegas de outros esportes.Em compensação,como nenhuma modalidade é completa,sua postura corporal fora da água nem sempre é das melhores.

Além das dores em si,treinamentos extenuantes e lesões constantes trazem um efeito colateral – o estresse psicológico.Nessa área,o ex-corredor Joaquim Cruz dá um depoimento com tons dramáticos.Em suacarreira de mais de 20 anos,o atleta conseguiu mais cirurgias do que medalhas olímpicas,embora esteja entre os corredores brasileiros de maior sucesso em todos os tempos.Foram duas medalhas – ouro em Los Angeles (1984) e prata em Seul (1988),ambas nos 800 metros rasos – contra oito operações – uma no pé direito,uma no joelho esquerdo e três em cada tendãode-aquiles.Nem todas as intervenções eram necess á rias,afirma hoje o corredor. “Poderia ter evitado algumas cirurgias,mas não agüentava o desgaste emocionalde me afastar dos treinos”,relata. “Queria ‘ consertar’ o mais rápido possível e voltar a treinar forte.”

Cruz diz que houve momentos em sua carreira em que chegava à pista de treinamento e “tinha vontade de correr para trás”.O cansaço físico e emocional era tamanho,relembra,que qualquer coisa seria melhor do que repetir a rotina de correr para a frente.Ele descreve essa forma de estafa como dor –“ uma dor psicológica’’–,embora fosse bem diferente do desconforto físico que o acompanhava no início da carreira.Quando começou,Cruz costumava ter desarranjos intestinais e falta de apetite antes da competição, que davam lugar a vômito e ardor nas pernas até meia hora após a corrida.Sem falar nas inúmeras vezes em que,durante toda a carreira,teve a impressão de que iria desmaiar durante a corrida. “Eu sentia que iria travar,mas insistia e achava energia além do limite”,relembra.Nada disso abalou sua convicção de que o esporte de competição compensa. “Parece que a gente já nasce para competir,pensando em vencer”,afirma. Para ele,quem vira atleta tem maior tolerância à dor. O tenista Gustavo Kuerten,de 27 anos, é outro atleta que convive com a dúvida sobre ter feito a coisa certa ao se submeter a uma cirurgia.Dois anos após ter operado o quadril,que apresentava desgaste em uma articulação,o tenista admite que ainda vive em função da recuperação.Ele revela que está com 70% de sua capacidade,mas diz que para jogar em nível competitivo é preciso estar 120%.Em jogos,começa a sentir dores após meia hora ou pouco mais.Isso “ suga sua energia”,como definiu em entrevista à revista Veja em julho.Guga tentou mudar a maneira de bater na bola após a cirurgia,mas não se adaptou.Por sinal,a forma como os tenistas passaram a golpear a bola é um dos motivos para as contusões mais freqüentes no quadril e na virilha em atletas ligados ao esporte.Até os anos 1980,o mais comum era que, num golpe de direita,projetassem a perna esquerda à frente.Agora os tenistas mantêm as pernas paralelas, como faz Guga,o que permite maior amplitude ao movimento e maior potência ao golpe.Um estudo

Carla Moreno:triatleta disputou provas com fissuras na tíbia
DIVULGA ÇÃ O COB

do médico Rogério Teixeira,da Unifesp, mostrou que o efeito colateral dessa nova forma de bater foi aumentar o desgaste de músculos e articulações do quadril, devido à brusca rotação do tronco.

Mas,afinal,se a vida do atleta é t ã o sofrida, por que tantas pessoas se submetem a isso? A questão é que esporte de competição não é atividade física para aumentar o bem-estar e a saúde.Esporte de alto rendimento é profissão. É um caminho para ter dinheiro,fama,influência e – sim,também isto – desafiar os limites do homem.Assim,a pressão para conseguir bons resultados envolve valores que ultrapassam a ética exclusivamente esportiva. “Vivemos numa era em que o que importa é vencer”,afirma a psicóloga Katia Rubio,da EEFE-USP. “Na publicidade,na escola,no trabalho,valoriza-se a competição e o vencedor.O mundo do esporte e a cabeça do atleta são um espelho disso.” A pesquisadora desenvolveu,com apoio da FAPESP,um projeto em que entrevistou todos os atletas brasileiros vivos que ganharam medalhas olímpicas de 1920 a 2000,cujo resultado foi o livro Heróis olímpicos brasileiros,lançado neste ano. Para Katia,os princípios éticos que pautavam o esporte amador ficaram no passado e hoje predomina a competição extrema. “O atleta que quer a vitória a todo custo está mais suscetível a ignorar seus limites”,diz. Já vai longe o tempo em que Adhemar Ferreira da Silva preferiu continuar pagando aluguel a aceitar uma casa para morar com os pais,após ter conquistado a medalha de ouro nos jogos de Helsinque (1952).Na ocasião,isso poderia parecer remuneração,e Adhemar pretendia concorrer nos jogos seguintes – nos quais,por sinal,voltou a ganhar o ouro no salto triplo.Quando o nadador Mark Sptiz ganhou sete medalhas de ouro,em Munique (1972),houve suspeitas de que já tinha um contrato de patrocínio disfarçado com um fabricante de material esportivo. “Ele foi para o pódio com um par de tênis amarrado no pescoço”, relembra Katia.Nos jogos de Moscou (1980),o amadorismo foi definitivamente deixado de lado pelas regras olímpicas.Hoje há desafios como o feito pela Speedo ao nadador norte-americano Michael Phelps, de 19 anos,que ganhará US$ 1 milhão se igualar o recorde de medalhas de Spitz. Apesar disso,a psicóloga não acredita que os interesses comerciais tenham enterrado de vez o espírito olímpico e instalado um vale-tudo no esporte mun-

Oscar:menisco em forma de “V” impede o ex-jogador de dobrar a perna direita totalmente

dial.Para a psicóloga,o espírito esportivo ainda prevalece em países com menos estrutura no mundo do esporte,como é o caso do Brasil. “Aqui,ainda vivemos um misto de persistência,determinação e teimosia”,afirma Katia,lembrando que atletas brasileiros ficam sem patrocínio mesmo após ganhar medalhas. Uma agravante no sofrimento e nas lesões dos atletas é o fato de começarem a treinar cedo,quando ainda são muito jovens.Acontece que “criança não é adulto pequeno”,como relembra Antônio Carlos da Silva. Seus sistemas muscular,cardiovascular e nervoso não estão preparados para sobrecarga de exercícios. “Há o risco de hipertrofiar um sistema e ignorar os outros”, exemplifica. “Resultado possível:um atleta com coração que não acompanha o desenvolvimento dos outros sistemas do organismo coloca sua vida em perigo. ” Moisés Cohen diz que não é raro atender crianças e adolescentes que chegam ao centro de traumatologia da Unifesp com lesões provocadas por sobrecarga de exercícios.Para ele,a busca por espaço tem parte da culpa por terem ultrapassado os limites. “Eles se lesionam tentando se afirmar em um meioex-

Guga:com 70% da capacidade dois anos após cirurgia no quadril

tremamente competitivo”, afirma.Sem d úvida é possível,sim,começar a treinar cedo para o esporte competitivo.Mas o correto,segundo os especialistas, é o jovem atleta ter acompanhamento multidisciplinar e se exercitar respeitando o nível de maturidade de seu conjunto físico.

Quando o esportista ficar mais velho,seu corpo vai agradecer.Poderá ter uma vida mais confortável e uma carreira possivelmente mais longa – as lesões são fator importante no abandono das competições.Acima de tudo,terá menos problemas quando ganhar mais idade –hora em que o organismo apresenta a conta por todos os abusos atléticos cometidos ao longo da vida.Não é raro que artroses, tendinites crônicas e lesões por esforço repetitivo transformem a vida do esportista aposentado em um martírio. “Vemos até gente com dificuldade de andar”,conta o médico Wagner Castropil.Em 1989,já no final de sua carreira,a ex-jogadora de basquete Hortência teve de acolchoar o genuflexório da igreja em que casou,caso contrário não suportaria uma dor no joelho que já a acompanhava havia décadas.Ela também tem uma dor histórica no tornozelo e tendinite persistente no ombro,devido a anos e anos fazendo mais de mil arremessos diários.O ex-jogador de basquete Oscar Schmidt não pode ficar com o joelho esquerdo dobrado mais de uma hora e meia.No cinema,precisa dar uma levantadinha no meio da projeção para se esticar.Seu menisco tem a forma de um “V”,o que o impede de dobrar a perna direita totalmente.Também tem vários dentes quebrados.

Ironicamente,os exercícios físicos moderados são a melhor receita de saúde para atletas aposentados. Castropil cita um estudo finlandês que,analisando atletas que participaram de Olimpíadas no início do século 20,verificou que aqueles que continuaram se exercitando após deixarem as competições tinham estado geral de saúde melhor do que um sedentário. Para os que pararam de se exercitar,no entanto,o tempo foi implacável. “Esses ex-atletas sem exercício tinham saúde geral pior do que uma pessoa sedentária”,conta Castropil.A verdade é que muitos atletas gostam de se consolar com uma máxima já consagrada:a dor é passageira,a glória é para sempre.Ciência e experiência deixam cada vez mais claro que a frase é tão impactante quanto questionável. •

Abatalhadosneurônios

Treinamento dos atletas inclui técnicas psicológicas para melhorar o desempenho

– Não posso sentir minha perna – diz a atleta.

– Esqueça – rebate o técnico.Faça o melhor que puder.Você tem de saltar mais uma vez!

– Não,você não está entendendo.Meu pé está machucado de verdade.

– Esqueça.

– Vou ter de fazer isso de novo?

– Você pode? Pode? – pergunta o treinador.

– Não sei ainda – responde a atleta,à beira das lágrimas,pouco antes de se decidir.Vou saltar... Vou saltar...

Odiálogo dramático aconteceu na Olimpíada de Atlanta (1996) entre a ginasta Kerry Strug e o técnico Bela Karolyi,romeno que treinava a equipe norte-americana.No quarto dia da competição Kerry foi vítima de uma torção grave no tornozelo esquerdo,em seu primeiro salto sobre o cavalo.Não era permitido atendimento médico antes de um novo salto,e a atleta se aconselhou com o treinador,cujas frases e gestos enfáticos não deixaram dúvida:ela deveria tentar, mesmo machucada.Estava em jogo não apenas seu desempenho pessoal,mas a medalha de ouro por equipes,então inédita para as norte-americanas.No segundo salto,Kerry correu,voou com eficiência e aterrissou com os dois pés.Um segundo depois,não resistiu à dor no tornozelo e desabou no chão.O técnico Karolyi – o mesmo que em 1976 revelou a ginasta Nadia Comaneci – recolheu Kerry do solo e a carregou nos braços.O salto recebeu nota 9,712.As meninas dos EUA ficaram com o ouro,mas teriam conseguido a medalha mesmo sem o segundo salto de Kerry Strug.“Eu me senti obrigada a saltar”,contou depois a atleta, na época com 18 anos.

O episódio,marcante na história olímpica,revela o papel decisivo que o fator psicológico pode

ter no esporte de alto rendimento.Em vários sentidos:mostra a importância da motivação para superar obstáculos,indica a ascendência do treinador sobre o atleta e é um exemplo dos efeitos das discutíveis técnicas autoritárias,empregadas especialmente contra mulheres.Acima de tudo o caso mostra como a mente pode levar o atleta ao seu limite – e até além dele.“A preparação psicológica é a diferença entre o ouro e a prata”,acredita Benno Becker Júnior,presidente de honra da Sociedade Brasileira de Psicologia do Esporte.

Na verdade,esporte e psicologia andam juntos desde os jogos da Grécia Antiga,quando os competidores se isolavam antes das competições e ficavam imaginando resultados positivos – técnica conhecida como visualização.Quando o barão de Pierre Coubertin ressuscitou os jogos,foi a mente dos atletas o tema do primeiro encontro internacional pré-olímpico.De forma geral os objetivos continuam os mesmos.A idéia é trabalhar o lado emocional do esportista,usando técnicas que o levem a atingir o máximo de seu desempenho.Isso é importante no esporte de competição,em que milésimos de segundo fazem a diferença entre fracasso e sucesso.John Kremer,da Queen’s University, da Irlanda,autor de livros sobre psicologia esportiva,define o objetivo de sua profissão como modular os três “cês”:em inglês, confidence (confiança), commitment (compromisso) e control (controle).

Ioga e meditação - Não há uma receita geral.Para cada modalidade esportiva e tipo de atleta,os ingredientes entram em proporção diferente.Num esporte como o tiro,por exemplo,o preparo psicológico deve enfatizar o controle e a concentração; nos esportes coletivos ganha importância o engajamento,tentando tornar ótimos a comunicação e o espírito de equipe;na ginástica vale mais a confiança.As técnicas variam com o objetivo a ser alcançado.O atirador irá praticar ioga,meditação e

Final da Copa de 1998: abalo psicológico e derrota para a França

relaxamento,a ponto de fazer seu coração bater mais lentamente durante uma prova;um time de basquete desenvolve dinâmicas de grupo para estimular a interdependência;e a ginasta faz exercícios mentais em que reproduz em sua cabeça a imagem do movimento perfeito – uma,duas,centenas de vezes.

“É fundamental ter uma preparação sob encomenda e jamais depender apenas de uma técnica”, afirma John Kremer. “Numa competição,o atleta deve contar com estratégias variadas para atingir seu estado mental ótimo”,diz o psicólogo Dietmar Samulski, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e escolhido pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) para acompanhar a delegação brasileira em Atenas.

Lição de casa - Em geral,as receitas de preparação são escolhidas conforme o perfil do atleta.Um exemplo foi a prescrita por Benno Becker Jr.para um nadador da equipe brasileira dos 200 metros que tinha dificuldades emocionais em encarar os últimos 50 metros. “Percebi que uma boa técnica seria a da visualização,com diálogo interno”,relembra o psicólogo.O nadador ganhou uma “lição de casa”:várias vezes ao dia deveria visualizar o momento em que faria a virada na piscina e encararia os últimos metros;no exercício,deveria se imaginar voando como um pássaro sobre a água. “Deu certo”,avalia Becker Jr.,que não revela o nome do atleta por sigilo profissional. Os objetivos da preparação psicológica são antigos,mas as técnicas têm acompanhado o desenvolvimento da ciência.Becker Jr.cita um exemplo:hoje os atletas trabalham com a mentalização de no máximo cinco metas,pois as pesquisas sobre retenção cognitiva mostraram que essa é a quantidade ótima para um ser humano.O conhecimento do cérebro mudou rotinas.O atleta hoje acorda pelo menos três horas antes de uma disputa,pois se sabe que o sistema nervoso central leva esse período para despertar completamente após o sono.Também a tecnologia do vídeo, popularizada no mundo inteiro,tem ajudado atletas que trabalham com visualização de movimentos.Na ginástica é usual o treinador gravar seqüências e exibir repetidamente o movimento ideal para o atleta,de forma a ajudá-lo na visualização.

Um dos campos mais promissores em termos de avanço científico relacionado à preparação psicológica é o biofeedback.Trata-se mais de um instrumento para avaliação do estado psicofisiológico do atleta do que de uma técnica psicológica.Tradicionalmente o biofeedback é usado em terapias de cura,como em pacientes que perderam o controle dos movimentos.No esporte,exames para monitorar ondas cerebrais,freqüência cardíaca,pressão arterial,profundidade da respiração e temperatura,por exemplo,avaliam o estado mental do atleta.Com base nesses parâmetros, o especialista ganha em duas frentes:avalia o sucesso da técnica psicológica que está aplicando e dá ao es-

portista consciência clara de qual o estado mental em que tem seu melhor desempenho.Assim o atleta pode reproduzir essa espécie de nirvana esportivo com maior facilidade ou avaliar quais técnicas o levam mais próximo desse ponto ótimo.

O biofeedback colabora para ampliar a confiabilidade da psicologia esportiva,ainda vista com alguma reserva.Para muitos,o trabalho psicológico funciona para quem o faz funcionar – it works when you work it,na expressão inglesa. “Conduzir uma avaliação científica da efetividade da ajuda psicológica para a performance atlética é um negócio complicado”, afirma o psicólogo norte-americano Michael Shermer,em artigo publicado na revista Scientific American,em janeiro de 2000,no qual se assume um cético declarado.O psicólogo participou de uma edição da Race Across América – prova ciclística que atravessa 3 mil milhas nos Estados Unidos – depois de meditar,participar de seminários sobre controle de estados internos,ouvir fitas motivacionais e aprender auto-hipnose contra a dor. “Não sei dizer se funcionou,nem como cientista nem como ciclista”,avaliou. Ele explica as dificuldades de tirar a prova nessa área: seria preciso considerar todas as variáveis que influenciaram um atleta,ver se o trabalho psicológico traria resultados semelhantes em outros competidores, ter um grupo de controle submetido a condições quase idênticas...Em resumo,ele acredita que os psicólogos do esporte são “como a maioria dos cientistas sociais”:saem-se melhor explicando um comportamento do que tentando controlá-lo.

Aquestão da efetividade da psicologia esportiva e da validade de seus modelos é tão controversa que há estudos destinados unicamente a revisar as dezenas,centenas de pesquisas anteriores.Mas também a revisão está sujeita a novas polêmicas. “O rendimento de um atleta de competição depende de vários fatores,e cientificamente é muito difícil isolar o fator psicológico”,admite Samulski. “Pessoalmente, penso que medidas e mesmo testes psicológicos raramente oferecem compreensão tão profunda quanto a das abordagens qualitativas”,acredita John Kremer. Também é preciso ter em mente a consistência dos resultados.Pesquisas já mostraram o chamado efeito Hawthorne,que faz a performance melhorar no curto prazo apenas por conta do início do trabalho psicológico e do engajamento dos envolvidos. “Só de saber que há alguém se preocupando,o atleta já melhora suas reações”,relata o psicólogo Eduardo Aguiar,das Faculdades Metropolitanas Unidas (UniFMU),de São Paulo,que atua na área esportiva e trabalhou na preparação da triatleta Carla Moreno para a Olimpíada de Atenas.O bom impacto inicial não quer dizer que a melhora da performance veio para ficar,advertem os especialistas.

Os psicólogos costumam lembrar a final da Copa do Mundo de futebol de 1998 como uma boa prova da necessidade de trabalho emocional no esporte competitivo.Na decisão da França,o atacante Ronaldo teve um crise de convulsão – talvez um sinal de sobrecarga emocional – na véspera do jogo decisivo.O incidente abalou o lado psicológico de toda a Seleção Brasileira. Resultados:uma equipe apática,uma atuação apagada e uma derrota inesquecível.Isso não significa que chamar um psicólogo às pressas diante de uma crise terá algum resultado benéfico. “Isso raramente funciona”,avalia John Kremer. “Os melhores resultados aparecem com trabalhos de longo prazo.”

Fibrilação - Há procedimentos indicados para situações de crise.Repare nos gritos,nos gestos e na cara de transtornado que o técnico Bernardinho faz ao orientar a Seleção Brasileira masculina de vôlei.Existe uma explicação,digamos,científica para isso. “Há momentos em que o time reage com apatia,como um coração que sofreu fibrilação;nessa altura,só um choque pode fazê-lo voltar ao normal gritos são esse tratamento de choque. Bernardinho estuda psicologia esportiva por conta própria e sabe o que faz. diz o psicólogo do COB. Para os especialistas, Bernardinho est de ser compar nadores como Bela Karolyi,que protagonizou a cena marcante da Olimp

Atlanta. “Ele é exigente,mas escuta a opinião de seus jogadores”,avalia Samulski. “Isso não é ser autoritário.” Claro que esse termo tem caráter negativo,mas é preciso observar que autoritarismo não é sinônimo de insucesso no esporte.Há treinadores bem-sucedidos tanto na linha dura como na democrática.Karolyi, por exemplo,dirigiu a equipe feminina norte-americana em várias Olimpíadas,com poder inclusive para indicar as integrantes da equipe. “Mas é preciso relativizar o sentido de sucesso,no caso da orientação autoritária”,acredita Eduardo Aguiar. “Pode ser que essa abordagem consiga uma boa performance imediata do atleta,mas um péssimo resultado no longo prazo e quando se olha o ser humano como um todo.”

Em grande medida,os comportamentos individuais refletem escolas nacionais.Rússia,Japão e Coréia,por exemplo,são lembrados por sua cultura esportiva autoritária. “Russos e japoneses chegam a bater,especialmente em mulheres atletas”,afirma Benno Becker Jr.O presidente de honra da Sociedade Brasileira de Psicologia do Esporte cita uma pescada de 1990,que mostra ter cultural do procedimento:83% disseram que apanhar fazia bem para a disciplina e 86% revelaram que,se fossem

cione para obter resultados,mas essa escola ria cria gera-

DOPING

Auxílio ilegal esobmedida

Droga

desenhada em laboratório, o THG,inaugura nova fase da química proibida nos esportes

Em meados do ano passado,um treinador cujo nome se mantém em sigilo,contatou a Agência Anti-Doping dos Estados Unidos (Usada) e contou uma história que deve ter feito rolar em sua tumba (mais uma vez) o barão Pierre de Coubertin,o francês que, no final do século 19,resgatou as Olimpíadas para a era moderna.Uma empresa de suplementos nutricionais do Estado da Califórnia,a Bay Area Laboratory Cooperative (Balco),havia desenvolvido,uns anos antes,uma droga cuja primeira e única finalidade seria turbinar o desempenho de esportistas de alto nível.E mais:uma parte da elite do atletismo norteamericano (e mundial) estava usando,impunemente, o fármaco clandestino,disse o técnico.A tetrahidrogestrinona,ou simplesmente THG,era um novo tipo de esteróide anabolizante,classe de fármacos que aumenta a massa muscular de seus usuários,conferindo-lhes mais força e potência e diminuindo o tempo necessário para se recuperar de grandes esforços físicos.A droga prometia fazer tudo isso e ainda oferecia uma vantagem extra,muito atraente para esportistas que podem ser chamados a fazer testes anti-doping a qualquer momento:risco zero de ser detectada num exame de urina ou sangue.Era uma barbada.

Como assim? Usar o THG era o doping perfeito? Praticamente isso.Até o momento em que o misterioso treinador – alguns jornais norte-americanos dizem se tratar de Trevor Graham – resolveu abrir a boca,ninguém,fora do seleto círculo de amigos e clientes da Balco,sabia da existência da droga.Portanto,não havia a preocupação de incluí-la numa lista de substâncias proibidas,tampouco meios de detectá-la.Mas o técnico conseguiu acabar com essa farra da química ilegal ao revelar a existência do THG e,sobretudo,ao fornecer uma seringa com amostras do composto.A pedido das autoridades anti-doping, o frasco foi analisado num laboratório da Universidade da Califórnia (Ucla),que confirmou se tratar de um esteróide sintético de estrutura molecular similar,mas não idêntica,a uma droga usada normalmente para combater problemas no aparelho reprodutor feminino,a gestrinona,da qual parece ser um derivado. “O THG foi criado por meio da alteração de um radical da molécula original”,afirma o gaúcho Eduardo Henrique De Rose,membro do Comitê de Saúde,Medicina e Pesquisa da Agência Mundial Anti-doping (AMA),cuja lista de substâncias e métodos proibidos está em vigor na Olimpíada de Atenas (veja quadro na página 40).

Ben Johnson nos jogos de Seul,em 1988:ouro nos 100 metros cassado por causa de esteróide

Semanas após a identificação do esteróide desenhado nas dependências da Balco,um teste anti-doping capaz de flagrá-lo foi desenvolvido.E não deu outra:em 16 de outubro,a Usada anunciou publicamente a descoberta do THG e disse que alguns atletas não haviam passado nos testes para essa substância ou eram suspeitos de a terem usado.Pronto.A “poção mágica” ou o “limpo”,como a droga era chamada à boca pequena por seus criadores e usuários,tinha finalmente vindo à tona.Desde então esportistas foram punidos,medalhas conquistadas no passado recente mudaram de mãos,marcas excepcionais foram anuladas (ou estão sob suspeita).O atual recordista mundial dos 100 metros livres,o norte-americano Tim Montgomery,acusado de ter usado THG (e outras substâncias proibidas) made in Balco e sua mulher,a velocista Marion Jones,enfrenta a mesma suspeita.A corredora dos 1.500 metros,Regina Jacobs, testou positivo para THG e foi suspensa por quatro anos.Em julho,um dia antes do anúncio da punição, Jacobs,40 anos,anunciou a sua aposentadoria das pistas.Enfim,reputações foram destruídas ou,no mínimo,arranhadas e alguns passaportes ilustres perderam o carimbo para Atenas.

Esse filme parece ser velho e conhecido,ainda mais quando ainda estão frescas na memória as cenas do maior escândalo de doping ocorrido em Olimpíadas:a final dos 100 metros rasos em Seul,em 1988,quando o canadense Ben Johnson,um feixe de músculos na forma de velocista,ganhou a prova com a marca de 9,79 segundos,bateu o recorde mundial – e testou positivo para outro esteróide,o estanolozol,delito que invalidou sua performance e o baniu das pistas por dois anos.Mas o THG não é simplesmente mais uma substância a entrar na lista dos compostos proibidos pelas autoridades esportivas.Não é um composto qualquer. “O THG é a primeira droga desenhada para ser usada especialmente como doping por atletas”,afirma Francisco Radler de Aquino Neto,coordenador do Laboratório de Controle de Dopagem do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), único centro nacional credenciado junto à AMA. “Ela não foi testada em seres humanos e ninguém conhece a sua toxicidade.Pode ser um veneno.” Sua forma de criação foi,portanto,inusitada,sofisticada,talvez um sinal dos novos tempos.

Pelo que se sabe,o THG saiu dos laboratórios da Balco,que está sendo processada e pode pagar uma multa de mais de US$ 700 mil,e foi direto para os corpos dos atletas.Não só o seu uso por corredores e esportistas configura doping como a sua própria fabricação em si é ilegal. É uma droga totalmente clandestina.Ela existe para ser empregada na trapaça esportiva.O mesmo não acontece com a maioria dos fármacos cujo uso é vedado aos atletas que tomam

parte de uma Olimpíada ou de outras competições oficiais,mas que são úteis para a medicina no tratamento de problemas de saúde.Imprescindível para os diabéticos,a insulina é um exemplo de substância importante para o tratamento de uma condição clínica.Nos esportes,no entanto,se utilizada por atletas não-diabéticos,seu efeito pode ser semelhante ao de um anabolizante:aumenta a massa muscular.Outro caso é o do Hormônio de Crescimento Humano (hGH).Empregado no tratamento de problemas de nanismo ou perda de massa muscular,o hGH reduz o acúmulo de gordura,estimula a síntese de proteínas e eleva a porcentagem de massa corporal magra em atletas.

Pouca gente se dá conta de que o conceito de doping muda com o tempo e não é universal.Cada país, esporte ou época legisla (ou não) sobre as substâncias ou métodos que podem ser usados para melhorar a performance dos atletas.O que era definido como um auxílio ilegal ontem pode hoje ser encarado como lícito,desde que o uso controlado de uma substância não ofereça riscos à saúde ou ganhos de desempenho a seus usuários.Estimulante presente nos grãos de café e em folhas de chá,a cafeína,por exemplo,acaba de ser retirada da lista de substâncias

A ex-nadadora Kristin Otto e o ciclista Lance Armstrong: muitas suspeitas de doping, mas nenhuma prova conclusiva

proibidas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), que segue as recomendações da AMA.O COI só vai investigar atletas nos quais for detectada uma quantidade muito elevada dessa substância.Algumas substâncias,como o álcool e os beta-bloqueadores (que diminuem os batimentos cardíacos e aumentam a concentração),só são proibidas em alguns esportes. Em outros não configuram um delito.Um jogador de basquete ou de vôlei pode jogar de porre e encharcado de beta-bloqueadores (o que só prejudicará o seu desempenho);um atirador ou um jogador de futebol, não.Para esses últimos,o emprego dessas substâncias é vedado em competição.

Apartir dos anos 1970,os casos de doping parecem ter se tornado parte do esporte de alto nível.Além do escândalo Ben Johnson e do affair Balco/THG,Diego Maradona protagonizou outro caso rumoroso há alguns anos.Na Copa do Mundo de 1994,nos Estados Unidos,o ex-jogador argentino testou positivo para efedrina,estimulante muito usado como descongestionante nasal (e para perder peso).Foi banido da competição.Anos depois,jogando no time italiano do Nápoli,traços de cocaína foram encontrados

em sua urina.Mas é falsa a impressão de que o emprego de ajuda ilegal para melhorar a performance atlética remonta a meros 30 anos.Na verdade,o que começou há pouco mais de três décadas foi a adoção sistemática de controles antidoping.Mas recorrer a formas nada esportivas de auxílio para deixar seus oponentes para trás é uma prática tão antiga quanto o homem.

Na China,há quase 5 mil anos,chás de machuang,folha com elevadas concentrações de efedrina,eram usadas para estimular os trabalhadores em suas tarefas. Quer dizer,Maradona apenas seguiu um discutível hábito antigo para melhorar a performance.Chás de cogumelos e preparados à base de sementes de plantas também eram consumidos na Gr é cia durante as primeiras Olimpíadas,séculos antes de Cristo.Por volta do final do século 19, época em que o esporte começava a se organizar em nível internacional,a Europa produziu uma bebida muito especial,o Vin Mariani.Além de suco de uva fermentado,o tônico estimulante tinha traços de cocaína e fazia sucesso entre alguns esportistas,em especial os ciclistas.Aliás,a primeira morte atribuída a doping é a de um corredor de bicicleta,o inglês Arthur Linton,em 1886.Ele tomou uma overdose de speed ball,uma mistura de cocaína com heroína.

O termo doping é derivado da palavra holandesa dop,que originalmente designava uma bebida alcoólica feita com cascas de uva por guerreiros da tribo zulu em busca de mais força e coragem para suas batalhas.No início do século 20,seu uso era bem específico:designar drogas dadas para turbinar a performance de cavalos de corrida.Com o tempo, doping virou sinônino de métodos ilegais ou atalhos químicos utilizados para melhorar a performance em qualquer esporte.Até a década de 1930,a maioria dos atletas que trilhavam esse perigoso caminho usava compostos à base de álcool,estricnina,heroína ou cafeína.Mais tarde surgiu outro estimulante muito usado por atletas interessados em melhorar seu desem-

penho a qualquer custo,a anfetamina.Após a Segunda Guerra Mundial,em cujos campos de batalha a anfetamina foi utilizada por soldados e pilotos de avião, entraram em cena dois grupos de compostos usados por atletas para aumentar a massa muscular:os hormônios masculinos,semelhantes à testosterona,e os esteróides anabólicos androgênicos.

Essas substâncias,como a maioria dos compostos que se tornam doping,deveriam ser usadas apenas para tratar problemas de saúde,mas logo foram parar nas mãos – e no corpo – de musculosos competidores. “Cada avanço da medicina traz coisas boas para as pessoas e algumas ruins para os esportes, como novas formas de doping”,comenta De Rose. “É um problema sem solução.Nem 1% dos atletas usa esses meios ilícitos,mas os casos de doping chamam muito a atenção na mídia.” Em 1960,o mundo esportivo ficou chocado com o óbito de um ciclista dinamarquês em plena Olimpíada de Roma.De novo, a culpa foi do excesso de anfetamina.Em 1964,a última Olimp í ada sem nenhum controle anti- doping ,os atletas estavam t ão musculosos em algumas modalidades que a saída foi elaborar,a partir dos jogos seguintes,na Cidade do México (1968), pela primeira vez uma lista de substâncias proibidas, então restritas a estimulantes e narcóticos,e a fazer testes de urina.

Formas de doping sangüíneo,por meio de transfusões ou da administração de substâncias que elevam o número de hemácias no organismo,como a eritropoietina (EPO),ganharam usu á rios nos ú ltimos anos. “Sempre há atletas dispostos a tentar qualquer forma de doping” , diz Radler.Recorrer à EPO,um jeito ilegal de aumentar a resistência em provas longas,pode levar uma pessoa à morte:o sangue se torna tão viscoso que o risco de haver um derrame ou ataque cardíaco aumenta consideravelmente.

Mais uma vez os corredores de bicicletas (sempre eles) figuram entre os grandes usuários de EPO.O norte-americano Lance Armstrong, um dos maiores ciclistas

da atualidade, é suspeito de usar essa forma de doping,embora ele não tenha sido pego em nenhum teste até agora.A saída foi,além do teste de urina, adotar exames de sangue.Essa medida entrou em vigor a partir do ano 2000,nos jogos de Sydney.

Nas décadas de 1970 e 1980,alguns países como a extinta Alemanha Oriental produziam atletas do sexo feminino tão fantásticas,como a nadadora Kristin Otto,ganhadora de seis medalhas de ouro nos jogos de Seul (1988),que as suspeitas de doping se tornaram uma constante.Em alguns casos, os infratores foram flagrados nos testes,mas isso nunca aconteceu com Otto.Ou ela realmente competia sem auxílio ilegal,ou seu doping era sofisticado demais para os exames de então.Nos Estados Unidos, onde muita gente gostava de dizer (com razão) que o recurso da química ilegal no esporte era uma política de Estado dos países comunistas,o escândalo THG trouxe um série de questões à tona.Uma delas foi a de que as autoridades esportivas locais simplesmente se calavam diante de testes positivos de muitos de seus atletas.Evitavam divulgar o caso e permitiam que seus esportistas disputassem Olimpíadas e campeo-

Maradona (abaixo à direita) na Copa de 94 e Regina Jacobs neste ano:efedrina na urina do jogador e THG no teste da corredora

natos mundiais,onde,na maioria das vezes,passavam incólumes nos testes.

Passar num exame anti-doping não quer dizer necessariamente que o atleta esteja limpo,que compita sem aditivos ilegais.Talvez o mais correto seja dizer que ele não usa nenhum produto ilegal cuja presença pode ser determinada com exatidão num laboratório. Alguns compostos,como o hGH,embora proibidos, não são flagrados nos testes. “Ainda não existe um exame para detectá-lo”,admite De Rose.E pegar a eritropoietina,apesar de possível,não é fácil.Seu peso molecular é muito elevado e a maior parte dos espectômetros de massa não consegue separá-la em meio aos compostos da urina.Um timing perfeito também pode limpar a barra de um atleta que usa drogas proibidas.Ele pára de usar o composto ilegal dias ou semanas antes de uma competição importante,onde vai haver testes de urina ou sangue.Dessa forma,tem grandes chances de não ser apanhado nos exames. Para minorar esses problemas,os esportistas de elite podem hoje ser obrigados a fazer testes fora de competições,a qualquer hora,sem aviso prévio,até mesmo em casa. “Avise os atletas que eles vão ter de fazer um teste com mais de 24 horas de antecedência e eles vão providenciar uma amostra,mas na qual você não

consegue detectar nada (de ilegal)”,afirma Casey Wade,diretor da AMA.Portanto,algumas portas do doping estão semi-abertas para competidores dispostos a correr os riscos.

Na era da clonagem e dos transgênicos,as autoridades médico-esportivas tentam ser pró-ativas e se antecipar a futuras tendências em sua área de atuação.Ninguém dúvida de que,em poucos anos, apareçam os primeiros atletas geneticamente modificados,os X-Men dos esportes,parafraseando o título de um filme de sucesso.No início do ano,pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos,aumentaram em 30% a quantidade de músculos em rato por meio de uma alteração em um gene. É o tipo de notícia que causa comichão e abre, digamos,perspectivas para certos atletas e laboratórios como a Balco.Apesar de ser um problema para o futuro próximo (ninguém deve estar manipulando genes com essa finalidade),o doping genético já está proibido.Mas,mais uma vez,ainda não há forma de detectá-lo nos testes de urina e sangue hoje aplicados nos atletas olímpicos.

Numa posição com certeza polêmica,alguns pesquisadores não consideram a manipulação genética uma forma de doping “Não se trata de defender simplesmente o seu uso nos meios esportivos”,explica Andy Miah,da Universidade de Paisley, na Escócia,autor do livro Genetically modified athletes. “Minha posição se baseia em uma noção mais ampla do que é o ser humano,mais abrangente do que a admitida hoje no esporte.” O combate ao doping,por exemplo, é baseado na idéia do atleta natural,do esportista que atinge a excelência por meio de esforços estritamente caracterizados como humanos. Miah acredita que a relação homem-tecnologia é mais complexa do que essa noção. “Aceitar a modificação genética é reconhecer que pode haver maneiras mais amplas de ser humano.Criminalizar possíveis alterações em genes,assemelhando-as ao doping,implica aceitar que todos concordamos sobre o papel da genética.E isso não é verdade.A grande controvérsia sobre a validade da clonagem humana mostra que isso não é exatamente verdade.” Para o pesquisador, acolher os X-Men nos esportes poderia inclusive ajudar a combater o doping por meio da administração de substâncias proibidas.Seria ainda uma maneira de levar os atletas a novos patamares de excelência e de manter o interesse pelo jogo.Será? •

Oarsenal proibido em Atenas

Durante a Olimpíada, o uso de algumas substâncias e de métodos considerados como doping é proibido ou limitado

ESTIMULANTES

Atuam no sistema nervoso e deixam corpo e mente alertas e acelerados.Os estimulantes (anfetamina, cocaína,ecstasy) despistam o cansaço,aumentam a agressividade e podem melhorar o rendimento.

NARCÓTICOS

Tiram a sensação de dor dos atletas. Podem também provocar sensação de euforia,dando um empurrão para os competidores.Exemplos clássicos são morfina e heroína.

CANABINÓIDES

Não há ganhos claros de performance associados a essas drogas (haxixe e maconha).Ao contrário. Provocam perda de concentração e coordenação motora.

AGENTES ANABÓLICOS

Promovem ganho de peso e músculos.Quando usados em mulheres,deixam-nas mais “masculinas”. São divididos em subcategorias.

� Esteróidesanabólicos androgênicos exógenos

Não são produzidos naturalmente no corpo humano.Sua presença

num teste de controle,independentemente da quantidade encontrada,configura doping.Algumas substâncias incluídas nesse grupo:nandrolona,estalonozol e THG (tetrahidrogestrinona).

� Esteróides anabólicos androgênicos endógenos

São substâncias,como testosterona,androstenodiol e androstenodiona,que são fabricadas pelo organismo humano.O doping se caracteriza quando os testes flagram essas substâncias em níveis acima dos naturalmente sintetizados pelo homem.

� Esteróidesnão-androgênicos

Duas drogas,clembuterol e zeranol,são proibidas.

HORMÔNIOS PEPTÍDICOS

Englobam seis tipos de substância,que,de acordo com o composto,podem resultar em diferentes tipos de ganho.

� Eritropoietina (EPO)

Estimula a produção de glóbulos vermelhos na medula óssea,aumentando a quantidade de oxigê-

nio transportado aos tecidos musculares.Os rins fabricam naturalmente a EPO,mas a administração de doses extras de eritropoietina recombinante aumenta a resistência de esportistas emprovas longas que exigem grande esforço aeróbico (alto consumo de oxigênio).

� Hormônio do crescimento humano (hGH) e Fator de crescimento semelhante à insulina (IGF-1)

Reduz o acúmulo de gordura,estimula a síntese de proteínas e eleva a porcentagem de massa corporal magra.O IGF-1,cuja produção é induzida pelo hGH,tem efeitos semelhantes.

� Gonadotrofina coriônica humana (hCG)

Uso proibido em atletas homens. Eleva a produção natural de esteróides androgênicos,como a testosterona,aumentando a massa muscular dos atletas.

� Gonadotrofinas sintéticas ou da pituitária,como o hormônio luteinizante (LH)

Proibidas apenas em atletas de sexo

masculino.Têm ação semelhante à da gonadotrofina coriônica humana.

� Insulina

Tem efeito anabolizante,especialmente se usada com esteróides.Apenas atletas diabéticos,quando solicitarem a devida autorização,podem tomá-la.

� Corticotrofinas

Antiinflamatórios com efeito semelhante ao de corticóides usados por via oral,intramuscular ou injetável. Acima de determinados níveis,sua presença vira doping

BETA-2 AGONISTAS

Substâncias,como salbutamol e terbutalina,que funcionam como estimulantes e,em doses muito altas, como anabolizantes.

AGENTES COM ATIVIDADE ANTIESTROGÊNICA

Inibem o metabolismo da testosterona na tentativa de elevar sua concentração no organismo.Proibidos apenas em atletas do sexo masculino.Exemplos dessas substâncias:clomifeno,tamoxifeno e inibidores de aromatase.

AGENTES MASCARANTES

Algumas substâncias,como os diuréticos (acetazolamida,amilorida, furosemida),são proibidas porque aceleram a eliminação da urina. Também é interditado o uso de bloqueadores de excreção (probenecida) e expansores de plasma (dextrana,albumina).

GLICOCORTICOSTERÓIDES

A administração via oral,retal,intramuscular ou endovenosa desses antiinflamatórios (cortisona,dexametasona) é vedada.O doping só não se configura se os glicocorticosteróides forem administrados por outras vias.

ÁLCOOL

Alguns esportes – futebol,boliche, bilhar,automobilismo,esqui,luta e motociclismo – exigem que seus esportistas compitam 100% sóbrios. Nesse caso,qualquer quantidade de álcool configura doping.Outras modalidades toleram diferentes concentrações da substância. É o caso do triatlo,caratê,esportes aeronáuticos, pentatlo moderno,arco-e-flecha,ginástica e patinacão.Os demais esportes proíbem o uso de álcool.

BETA-BLOQUEADORES

Ao diminuir o ritmo dos batimentos cardíacos de um atleta,aumentam a sua concentração e reduzem a tremedeira.Apenas as seguintes modalidades vedam sua utilização:esportes aeronáuticos,arco-e-flecha, automobilismo,bilhar,bobsleigh, boliche,boliche de 9 pinos,bridge, curling,esqui,futebol,ginástica, luta,motociclismo,saltos ornamentais e nado sincronizado,pentatlo moderno,tiro,vela (para os timoneiros) e xadrez.

DIURÉTICOS

São proibidos em todos os esportes. Mas algumas modalidades em que há disputas por categoria de peso ou em que a perda de peso turbina a performance não aceitam nem mesmo que seus atletas requeiram isenção de uso terapêutico para diuréticos.Tal restrição se aplica para o fisiculturismo,boxe,salto com esqui, judô,caratê,levantamento de peso, luta,powerlifting,remo (peso ligeiro),tae-kwon-do e wushu.

AUMENTO DE CARREADORES DE OXIGÊNIO

É vedado tomar transfusões de sangue,exceto em caso de tratamento médico justificável,e usar produtos que aumentam a captação,o transporte ou o aporte de oxigênio,como as eritropoietinas.

MANIPULAÇÃO DA URINA

Não podem ser usados métodos ou substâncias que tenham como objetivo alterar ou invalidar as características originais do xixi de um atleta,matéria-prima para o exame anti-doping,e assim encobrir alguma ajuda ilícita.

DOPING GENÉTICO

Definido como o uso sem fins terapêuticos de genes,elementos genéticos ou células,como as célulastronco,que tenham a capacidade de aumentar o rendimento físico do atleta.

PERFORMANCE

Fórmula de campeão

Inventada no Brasil, a estratégia Z ajuda a garimpar talentos do esporte

Nas ciências não faltam fórmulas.Na física,química ou biologia,para ficar em três áreas tradicionais do conhecimento,há uma série de equações e cálculos que fornecem respostas às mais variadas questões.Nada mais lógico pensar que também haja um método,ou vários,para detectar precocemente jovens atletas com altíssimo potencial em meio à anônima população de esportistas.Algo como um conjunto de regras,procedimentos e medições de desempenho que,diante de dois garotos de 14 anos com desempenho semelhante numa modalidade atlética,permita prever qual deles tem mais chances de ser um talento de porte internacional em sua vida adulta.Sim,as fórmulas para encontrar candidatos a futuros campeões existem (seria um exagero positivista dizer futuros campeões) e uma delas,a estratégia Z,reconhecida internacionalmente,foi concebida aqui mesmo,no Brasil.O modelo é uma criação relativamente antiga,e ainda pouco conhecida,de pesquisadores brasileiros do Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (Celafiscs),no ABC paulista,e em especial de seu idealizador,o médico Victor Matsudo.

Em 1992,em Barcelona,a estratégia Z ganhou o prêmio de melhor trabalho científico apresentado na Olimpíada Cultural,tradicional evento que sempre se realiza a cada quatro anos às vésperas dos jogos,na

mesma cidade-sede das competições esportivas.Foi, digamos,o primeiro ouro do Brasil em solo catalão. Desde então a equipe de Matsudo tem usado – menos do que gostaria,é verdade – e aperfeiçoado a estratégia Z.“Procurar talentos para o esporte de alto nível não é e não pode ser prioridade para nenhum país. Isso é algo muito pequeno perto de questões mais importantes como incentivar a prática da atividade física moderada para melhorar a saúde de uma população”,afirma o especialista em medicina desportiva. “Mas as pessoas,os técnicos e os esportistas precisam saber que há normas para encontrar talentos.”E para Matsudo a estratégia Z,embora imperfeita e com limitações,é um bom modelo para perseguir esse objetivo.Tanto que Cuba,uma potência olímpica,usa sistematicamente métodos semelhantes para encontrar talentos esportivos.

A lógica da estratégia é simples:medir com objetividade o quão melhor ou pior um esportista desempenha uma tarefa,como correr ou saltar,do que o cidadão comum.Primeiro os pesquisadores realizam uma bateria de testes e exames no candidato a futuro fenômeno esportivo,geralmente um menino ou menina entre 8 e 18 anos.Medem uma série de variáveis, como peso,altura,quantidade de gordura,potências aeróbia (parâmetro de resistência) e anaeróbia (indicador de explosão,força),velocidade,agilidade,impulsões vertical e horizontal.Em seguida,confrontam

A ex-jogadora de basquete Hortência:força de perna incomparável os resultados do possível talento com o desempenho médio apresentado por uma população de mesmo sexo eidade. Dessa comparação,nasce o perfil Z do jovem em questão,composto por um conjunto de índices,cada um deles referente a uma variável analisada.

Agarota ou garoto ganha um í ndice Z para sua impulsão vertical (indicador de quanto ele salta a mais ou a menos do que o padrão dos meninos de sua faixa etária),outro para sua velocidade e assim por diante. “É preciso saber o que é normal para se ter uma idéia do que é fora de série”, afirma Matsudo.Após anos de trabalho,a equipe do Celafiscs acumulou informações sobre o desempenho de 5.200 jovens em idade escolar de São Caetano,que servem como grupo de controle,e de 3 mil esportistas de várias modalidades.Se os números do possíveltalento forem muito melhores do que os do grupo usado como controle, sobretudo em itens de fundamental importância para a prática em alto nível de um esporte,pode-se estar diante de um garoto com potencial para se tornar um futuro campeão se devidamente trabalhado para tal.

Para cada variável,um índice Z é expresso em números,em geral de 0 a 6.Os números podem ser positivos,se a performance do candidato for acima da média num quesito,ou negativos,se ficar abaixo.Como são calculados os índices? A fórmula é sempre a mesma. Para chegar ao Z de um esportista numa variável,como impulsão vertical, são necessárias duas operações matemáticas.Primeiro os pesquisadores pegam o quanto uma pessoa salta e desse valor subtraem o quanto pula a média da população de mesma faixa etária e sexo.Em seguida o resultado dessa subtração é dividido pelo desvio padrão relativo a essa variável apresentado por essa população.Um exemplo ajuda a

visualizar a fórmula.Se um menino salta 30 centímetros e a média dos garotos dessa idade pula 27 centímetros,sendo o desvio padrão para essa variável igual a 3 centímetros,o seu Z para impulsão vertical será 1. Esse é o resultado de 30 - 27 dividido por 3.Se,em vez de 30 centímetros,o garoto saltar apenas 24,o seu Z para esse quesito é negativo,de menos 1.Nesse caso,a conta é 2427 dividido por 3.

Talvez o maior desafio de quem usa a estratégia Z não seja obter índices confiáveis,mas interpretá-los de forma correta.Para ter chances de se tornar um campeão um garoto precisa de índices Z de que magnitude? Um menino com Z1 para a variável velocidade e Z2 para o quesito força de pernas apresenta,respectivamente, um desvio padrão acima da média para o primeiro parâmetro e dois para o segundo.Em termos estatísticos,o Z1 significa que a criança corre mais rápido do que 84,13% dos colegas de sua idade.O Z2 quer dizer que suas pernas são mais fortes do que 99% dos colegas da mesma faixa etária (mas 1% dos garotos são ainda mais potentes).Em outras palavras,ele é um pouco rápido e bem forte de pernas,sem ser excepcional.Se o sonho do menino é ser corredor dos 100 metros,prova em que essas duas variáveis são decisivas,suas chances de sucesso são quase nulas.Ele vai deixar muita gente para trás na corrida, é verdade,mas dificilmente será o vencedor.Os talentos regionais ou nacionais têm ao menos índices Z de ordem 3.Os campeões internacionais chegam a índices bem mais elevados em certas variáveis. “Quem tem um Z6 não é da nossa espécie”,diz,em tom de brincadeira,Matsudo.Mas nunca se deve olhar apenas para um índice. É preciso encarar o conjunto de números,com ênfase nos mais importantes para cada modalidade.

te ainda devem se recordar de que a brasileira,qual um Michael Jordan,era a única jogadora que quase parava no ar ao dar um arremesso.Sua força de perna era impressionante.Ela tinha,no entanto,um ponto fraco.Cansava relativamente fácil.Sua potência aeróbia – capacidade de produzir energia a partir do oxigênio respirado – não era excepcional.Nesse quesito,seu índice Z era 2.Na Seleção Brasileira,essa deficiência era compensada pela presença de Paula, jogadora quase tão excepcional quanto Hortência,só que com características diferentes.Paula era o motor do time. “Sua potência aeróbia absoluta era superior a 7”,afirma Matsudo.

Um dos primeiros atletas em que foram usados os conceitos,ainda incipientes,da estratégia Z foi a exjogadora de basquete Hortência.Fenômeno das quadras,ela começou sua carreira,ainda menina,em São Caetano na década de 1970.Em três itens fundamentais para a prática desse esporte (agilidade,velocidade e impulsão vertical) Hortência apresentava,aos 21 anos, índices Z de,respectivamente,3,5,4,3 e 8,3. “Aos 13,ela já tinha números semelhantes”,lembra Matsudo,que acompanhou de perto os primeiros anos da carreira da jovem Hortência.Os fãs do espor-

Maturidade sexual - Prever se um campeão mirim ou infantil repetirá seus feitos na fase adulta é uma das questões mais angustiantes para um programa de caça-talentos esportivos.Obviamente não há como prognosticar isso com 100% de certeza.Mas a ciência fornece algumas pistas.Uma delas é observar a maturidade sexual do atleta em formação,que se caracteriza pela maior presença de pêlos em seus órgãos genitais. Às vezes,dois jovens,de mesma idade,têm desempenhos esportivos semelhantes (com índices Z idênticos) e,pressionado para selecionar apenas um deles,o treinador escolhe o que apresenta resultados ligeiramente melhores.A opção pode ser um erro se o escolhido já estiver maduro sexualmente.Motivo:

Cubano Javier Sottomayor:a ilha procura campeões de forma sistemática

Jovens em jogo aquático:Brasil não busca talentos infantis com rigor científico

jovens maduros sexualmente estão mais próximos de ter atingido o ápice de seu desempenho esportivo. Não têm muito espaço para melhorar,ao contrário dos menos desenvolvidos sexualmente. “É preciso corrigir a idade biológica por meio da observação da maturidade sexual dos jovens esportistas”,afirma o pesquisador Timóteo Araújo,do Celafiscs.

Professores de educação física e técnicos cometem, às vezes,um clássico engano na hora de garimpar futuros campeões.Eles ignoram ou se esquecem de que nem todas as características ou habilidades de um atleta surgem de uma só vez,num único instante, como num passe de mágica.Algumas variáveis são de amadurecimento precoce,como agilidade e velocidade.Aos 14 anos,um menino ou uma menina corre com uma rapidez equivalente a cerca de 90% de seu desempenho na fase adulta.Sua agilidade também é apenas 10% menor do que será quando atingir os 18 anos.Portanto,salvo algum imprevisto,quem é muito veloz e hábil na infância também será quando virar gente grande – se for devidamente treinado.Talentos baseados na velocidade e agilidade,como um leve e lépido atacante driblador do futebol,um Robinho,do Santos,ganham os holofotes logo cedo.Já quem depende de muita força física pode despontar só mais tarde.A potência muscular é uma variável de

amadurecimento tardio. “Essas peculiaridades de cada variável têm de ser levadas em conta no momento de analisar a performance de um garoto”,afirma Matsudo.

E isso não é tudo.Sabe-se hoje que,devido a particularidades genéticas,algumas pessoas respondem menos ou mais tardiamente ao treinamento físico (e a determinadas dietas alimentares) do que outras. É um processo semelhante ao que faz alguns remédios funcionarem adequadamente em alguns indivíduos e serem totalmente inócuos em outros.Determinadas alterações em genes ligados ao sistema sangüíneo HLA podem determinar entre 15% e 25% da precocidade ou não da resposta às influências do ambiente,que,no caso,se trata da atividade física.Trabalhos do pesquisador canadense Claude Bouchard com pares de gêmeos univitelinos (monozigóticos) fornecem outro tipo de dado sobre o efeito da genética na performance atlética.Estudos com gêmeos univitelinos (homozigóticos) sugerem que,nos homens,a porção de DNA presente na mitocôndria – organela cuja principal função é gerar energia – também é determinante em sua maior ou menor sensibilidade ao treinamento.Como o DNA mitocondrial é herdado apenas da mãe,o peso do material genético vindo do pai seria pequeno nesse quesito. “Por isso costumo brincar que filho de ‘peixa’,peixinho é”,afirma Matsudo. “E não que filho peixe,peixinho é.” •

DIVULGA ÇÃ O COB

Aindústria domovimento

Atlas mostra o peso econômico e social das atividades físicas e recupera a memória do esporte no Brasil

R EN É E C ASTELO B RANCO

Se devidamente praticado,esporte não é só saúde e lazer.Produz também história e ciência,gera riquezas e empregos,com repercussões em diversos campos da vida nacional.De 1996 a 2000,as atividades econômicas ligadas a essa área cresceram cinco vezes e meia a mais do que Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil – 12,34% ante 2,25%.Em 1999,uma projeção da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro indicava que o esporte respondia por 1,7% do PIB nacional,algo como US$ 12 bilhões.Estima-se que aqui as atividades físicas,com ou sem fins competitivos, gerem um milhão e meio de postos de trabalho diretos e indiretos,mais do que a indústria têxtil.Em 2003, ainda segundo dados da FGV,só de empregos diretos eram 963 mil,sobretudo em campos e instalações para a prática de futebol,academias,centros hípicos e náuticos,clubes esportivos,autódromos.Isso sem contar os pesquisadores e professores que tocam 43 laboratórios cujo tema central ou auxiliar é a atividade física.São centros que estudam a fisiologia ou a biomecânica (movimentos) do exercício,benefícios e contusões do esporte,entre outros aspectos.

Essas informações e muitas outras – de caráter histórico,econômico,científico ou social – constam do Atlas do esporte no Brasil,projeto que,com o auxílio de quase quatrocentos voluntários,garimpou dados de diversas fontes para traçar um panorama das atividades físicas em território nacional. “Estamos lançando o atlas em CD-ROM e em setembro na forma de um livro”,diz o professor de educação física Lamartine Pereira da Costa,da Universidade Gama Filho (UGF),do Rio de Janeiro,coordenador da iniciativa, que montou um consórcio de onze entidades para via-

bilizar a empreitada. “O atlas é um trabalho hercúleo que mostra de onde viemos e para onde devemos ir”, afirma o velejador e secretário da Juventude,Esporte e Lazer do Estado de São Paulo,Lars Grael,que escreveu um dos capítulos do projeto. “Servirá de base para o desenvolvimento da indústria do esporte e a formulação de políticas para o setor.”

Para Costa,que tem doutorado em filosofia,a indústria do movimento pode crescer mais ainda no Brasil. “No mundo desenvolvido,as atividades físicas respondem por 2% a 2,5% do PIB e empregam em média 2% da mão-de-obra.Na Alemanha,por exemplo,a indústria do esporte é maior que a petroquímica”,afirma o pesquisador da UGF.Costa diz que o Brasil é o quarto ou quinto do mundo nesta indústria, mesmo sem ter uma política para o desenvolvimento do setor: “Foi o mercado e a própria sociedade que a criaram.No esporte,os indivíduos financiam,as pessoas pagam para fazer atividades físicas.O governo só tem que desobstruir caminhos.Pode ajustar o que já existe e funciona”.

Segundo o atlas,quase todo mundo que pratica alguma atividade física ou esporte,ou seja,mais da

Esportistas na USP: atividades físicas respondem por 1,7% do PIB

metade da população brasileira,o faz ocasionalmente.Isso inclui pessoas que vão a pé ou de bicicleta para o trabalho ou se dedicam regularmente a tarefas domésticas.A atividade física com mais praticantes ocasionais é a pesca,com 25 milh õ es de indiv í duos que,vez ou outra,jogam o anzol para pegar um peixe (o futebol vem em segundo lugar,com 23 milhões de praticantes).Já as pessoas que,pelo menos uma vez por semana,praticam regularmente um esporte, fazem ginástica ou caminhadas com o propósito de se exercitar não chegam a 11 milhões.E apenas 749 mil podem ser consideradas muito ativas:freqüentam academias de ginástica ou praticam algum esporte de competição duas ou mais vezes por semana.A classificação da atividade física adotada pelo atlas seguiu parâmetros internacionais.

Há 20 mil academias de ginástica no Brasil,apenas os Estados Unidos têm mais estabelecimentos desse tipo,embora 13,2% dos norte-americanos freqüentem ginásios e aqui só 2%.Segundo Costa,existem boas perspectivas para os negócios do esporte ligados ao turismo,uma tendência mundial.Há um pólo de turismo no Pantanal,ligado à pesca,muitas

oportunidades no setor de esportes de praia,sobretudo no Nordeste,mas faltam dados sobre esse ramo de atividade física.Essa é uma das lacunas registradas pelo atlas,que,entre outros objetivos,tem o de apontar o que falta no setor.Há ainda pólos importantes de esportes considerados de elite,mas que geram muitos empregos,como hipismo e golfe,muito procurado pelo capital estrangeiro.

Alguns dos dados do atlas foram levantados pela equipe de voluntários (professores,dirigentes),outros são reproduzidos de fontes secundárias,como FGV,Instituto Nacional do Câncer (Inca) e entidades de classe. “Por isso,muitas vezes as informações não são comparáveis entre si”,explica Costa.Elas,no entanto,servem para dar uma boa idéia das atividades do setor.O projeto é um mapeamento,não um censo. Buscou a memória do esporte,e não a história,algo muito mais sistemático.Cada voluntário (ou equipe) escreveu um capítulo,seguindo os padrões do mapeamento.Em suas quase 900 páginas,o atlas privilegia as informações sobre esportes olímpicos.Mas trata também dos não-olímpicos,dos esportes radicais (que crescem muito),dos tradicionais de algumas re-

EDUARDO CESAR

giões (como rodeio,peteca e capoeira).E de esportes de raízes,como os jogos indígenas,e até de brincadeiras infantis.Ao todo,o atlas cobre 21 itens,enfocando ainda os Sistemas Esportivos Nacionais,como os do Sesi, da Associação Cristã de Moços e outros,e o tema ciências do esporte.

ó para e ter uma idéia da atual pujan ç a do setor,no come ç o do s é culo passado nem sequer havia uma faculdade de educação física no país.A primeira foi criada na década de 1930.Era uma escola de educação física,que depois foi incorporada pela Universidade de São Paulo,fundada em 1934.Hoje são 397 cursos em 279 faculdades, quantidade só superada nos Estados Unidos.Os primeiros professores dos cursos de educação física foram formados na Alemanha.Eram filhos de imigrantes,que iam estudar no país de origem de seus pais e em geral viviam em cidades brasileiras portuárias.Tais regiões formaram pólos (clusters) esportivos.Muitos sobrevivem até hoje.Os mais importantes brotaram na regiões Norte e Nordeste (em Belém,Manaus e São Luís) – e no Sudeste (no Rio de Janeiro e Santos). Um deles,o mais antigo,o Turnen,no Rio Grande do Sul,que deu origem ao atual Sogipa,tem uma história singular.Formou-se ao longo de um rio,aliás como aconteceu anos depois com o pólo do rio Tietê,em São Paulo.Os alemães ocuparam o território gaúcho com clubes na beira de rios e os italianos nas montanhas e nas cidades.A primeira piscina do Brasil foi construída em 1885 nas margens do rio Guaíba, em Porto Alegre.Os clubes alemães em geral estavam associados a centros culturais,a escolas e a igrejas freqüentadas pela comunidade,católica e protestante. Isso gerou uma atividade econômica dinâmica,com fábricas de material para ginástica.Até o começo do século 20,o Rio Grande do Sul era muito forte no esporte.Esses clubes apoiaram-se inicialmente no Movimento Turnen,que preservava a identidade étnica dos alemães.Por isso,no começo da Segunda Guerra Mundial,quando Getúlio Vargas optou por apoiar os Aliados,os clubes gaúchos foram fechados.

Beira do rio Guaíba,em Porto Alegre,em 1885: clube alemão monta a primeira piscina do Brasil

As guerras mundiais também afetaram o pólo de Niterói,onde a difusão de clubes esportivos foi influenciada pela rivalidade entre ingleses e alemães nos anos dos conflitos bélicos.A cidade fluminense,um grande centro de esportes,acabou gerando um pólo dentro do pólo:a vela,modalidade esportiva que,ao lado do atletismo,garante muitas medalhas olímpicas ao Brasil.De acordo com o atlas,quase todas as medalhas dessa modalidade foram conquistadas por descendentes de alemães:seis do Rio Iate Clube de Niterói,uma do Iate Club do Rio de Janeiro e cinco do Iate Club Santo Amaro,na represa Guarapiranga, em São Paulo.O velejador paulista Robert Scheidt, que tem um ouro e uma prata em Olimpíadas, é um desses campeões de origem germânica.A história do iatismo no Brasil começou em Niterói,perto do Natal de 1895,quando o Clube de Regatas Gragoatá promoveu regatas de remo e vela.Anos depois foi criado o que talvez tenha sido o clube de vela mais antigo do país:o Iate Clube Brasileiro,formado por sócios brasileiros,ingleses e alemães.Quando começou a Primeira Guerra Mundial,em 1914,os ingleses se retiraram e criaram outro clube nas redondezas, o Rio Iate Clube.O Iate Clube Brasileiro foi um pioneiro.Editou uma revista de vela,criou o protótipo

Robert Scheidt e laboratório da USP: presença germânica na vela nacional e 43 centros de pesquisa do esporte em universidades brasileiras

do veleiro Guanabara e ainda inventou um modelo de mastro que,segundo apurou o atlas,acabou sendo adotado em outras partes do mundo.

Um dos clusters esportivos mais importantes criados a partir da imigração européia no século 19 – o do rio Tietê,na cidade de São Paulo – não foi derrotado pelas guerras nem por uma revolução,mas perdeu a sua pujança devido à deterioração do meio ambiente depois dos anos 1940.A saga do pólo começa em 1889,ano da proclamação da República, quando o Clube Espéria,fundado por italianos,se instala às margens do Tietê,numa região então arborizada,conhecida como Ch á cara da Floresta.Em poucos anos,11 clubes se instalaram nas redondezas e desenvolveram um dinâmico centro de natação e remo.Com a crescente poluição do rio,muitos clubes migraram para outras áreas da cidade.O Germânia,atual Pinheiros,foi,por exemplo,para perto de outro rio,o Pinheiros,numa zona mais nobre.A natação também se expandiu para clubes do interior de São Paulo,onde até hoje é forte.A Federação Paulista de Natação,criada no auge do pólo do Tietê,tem atualmente 150 clubes filiados e abriga 75% dos nadadores que defendem o Brasil em competições internacionais. •

A TLETAS

Fernando Scherer Natação
André Domingos Atletismo
Daniele Hipolito Ginástica
Hugo Hoyama Tênis de mesa
Carolina e Isabela de Moraes Nado sincronizado
Vania Ishi Judô
Jadel Gregório Atletismo
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Edição Especial - Agosto 2004 by Pesquisa Fapesp - Issuu