Skip to main content

De olho na luz

Page 1


Perfil de investimentos da FAPESP mostra que pesquisa de qualidade tem, mais cedo ou mais tarde, aplicação relevante

EDITORIAL •••••••••••••••••

MEMÓRIA

OPINIÃO

5

6

9

POLÍTICA CIENTÍFICA ETECNOLÓGICA 10

ESTRATÉGIAS • • 1O

PERFIL REVELADOR 14

APOSTA NA PESQUISA DE RESULTADOS 20 POR UMA AGENDA E MAIS RECURSOS PARA C&T 22

MAPEAMENTO DE PROTEÍNAS 26 ECHEGAM OS MÉDICOS 27

CIÊNCIA •••••••••••••.••••••••••••• 28 LABORATÓRIO 28

AVANÇO EM DOSE DUPLA ......•....... 30

RAINHAS EM CONVÍVIO 32

NAS PEGADAS DE UMA NOVA ESPÉCIE 38 A PROTEÍNA DA HIBERNAÇÃO 42 COMPANHIA INDESEJÁVEL 44

O CONTROLE DO CAOS .....•.. • 46

CAÇADORES DE RAIOS ......•.......... 50

TECNOLOGIA •••••••••••••••••••••• 56

LINHA DE PRODUÇÃO 56

SOLUÇÕES IMEDIATAS E FUTURAS PARA GERAÇÃO DE ELETRICIDADE 58

HORMÕNIO DE CRESCIMENTO EM TAMANHO GRANDE 66 SAÚDE EM MICROCÁPSULAS 70

HUMANIDADES •••.•••••••••••••••• 72 UM PAPEL POUCO COMPREENDIDO 72

A SUAVE MAGIA FEITA DE MADEIRA EMETAL ..............•...... 75

A RAIZ DA CULTURA DO FIM DO MUNDO 78

LIVROS •••••••••••••••••••••••••••• 80 LANÇAMENTOS ••••••••••••••••••••

Capa: Hélio de Almeida, sobre foto de Cynthia Brito/Pulsar

32

Pesquisa revela que as colônias de uma espécie de abelha típica do Brasil, a guaraipo, têm regras mais flexíveis

38

Identificado na Mata Atlântica, pelo método de diferenciação cromossômica, um cervídeo ainda desconhecido

66

Pequena empresa desenvolve hormônio do crescimento humano com técnica de DNA recombinante

58

O melhor aproveitamento das usinas hidrelétricas, o uso da palha e do bagaço da cana-de-açúcar, novos painéis solares e as células a combustível são alguns projetas de pesquisa no campo energético

72

Estudo da Unicamp mostra como os parlamentares vêem as Forças Armadas

CARTAS

Infra-Estrutura

Parabenizo toda a equipe da Pesquisa FAPESP pelo excelente Suplemento Especial "Revitalizando bibliotecas, museus e arquivos". Além da impecável apresentação gráfica, o conteúdo é de extrema importância para os profissionais da área. Peço-lhe a gentileza de enviar-me alguns exemplares da revista com o referido suplemento, para que eu possa utilizá-lo no trabalho do Projeto Resgate.

ESTHER CALDAS BERTOLETTI

Coordenadora Técnica do Projeto Resgate Ministério da Cu ltura Rio de Janeiro, R)

Recebi a revista Pesquisa FAPESP e o Suplemento Especial dedicado à revitalização de bibliotecas, museus e arquivos. Parabéns à FAPESP pelo investimento na recuperação de acervos preciosos. Pude sentir na pele as grandes dificuldades e limitações de levar a bom termo uma pesquisa quando se vive e trabalha num país que não investe na preservação de sua memória. Tive em mãos documentos e particularmente coleções de jornais, parcial ou totalmente degradados. É grande o descaso na preservação de jornais e particularmente na preservação de fotografias jornalísticas. Quero, então, parabenizá-los pelo conteúdo do suplemento, ressaltando a importância do investimento e o quanto ainda há por fazer.

FRANCISCA ELEODORA SANTOS SEVERINO

São Paulo, SP

Apoio judicial

Venho expressar minha admiração pelo conteúdo editorial da Pesquisa FAPESP, revista que consegue abordar temas científicos de maneira bastante agradável, fazendo com que questões de extrema tecnicida-

de possam ser absorvidas pelo grande público. Algumas reportagens, inclusive, podem auxiliar campos que certamente não constam da pauta da publicação. Na edição de novembro de 2000, por exemplo, veiculou-se matéria sobre reaprumo de edifício situado na orla da cidade paulista de Santos ("Prédio de Santos é colocado no prumo"- página 53), com menção aos problemas característicos do local e às técnicas utilizadas para sua correção. Como advogado, defendo os interesses de empresa de destaque no mercado nacional de moagem de trigo e que, no início deste ano, precisou recorrer ao Poder Judiciário para se ver indenizada de prejuízos da ordem de R$ 1,8 milhão contra construtora de silos em concreto armado ("concresilos"). Os "concresilos" foram construídos em Santos e apresentaram, em síntese, os mesmos problemas de desaprumo noticiados na Pesquisa FAPESP no 59. Ao contrário do alegado pela construtora causadora dos prejuízos à minha cliente, a questão é tão complexa que envolve conhecimentos científicos ímpares, tanto que objeto da atenção desta • revista. A exemplo da solução dada ao Condomínio Nuncio Malzoni (objeto da reportagem), minha cliente empregou técnica similar na recuperação dos seus silos, fato que me possibilitou o uso da matéria no processo de indenização.

FÁBIO MERCADANTE MORTARI São Paulo, SP

Revista

Quero cumprimentá-los pela excelente qualidade da revista Pesquisa FAPESP. Sou jornalista em São José do Rio Preto e tenho feito algumas reportagens sobre pesquisas desenvolvidas em departamentos da Universidade Estadual Paulista (Unesp) daqui e sobre trabalhos conjuntos entre Unesp e o Hospital

de Base da cidade. Algumas dessas pesquisas só prosperaram e deram frutos graças ao apoio da FAPESP.

)úLIO CÉZAR GARCIA São José do Rio Preto, SP

Sou estudante de agronomia e conheci a revista Pesquisa FAPESP na Universidade Federal do Ceará, onde estudo. É uma excelente publicação, que faço questão de ler, pois me interesso muito pela pesquisa científica e tecnológica. Utilizo-a muito em minhas pesquisas da faculdade. Parabéns a toda a equipe.

ARLETE SILVA DE ÜLIVEIRA Caucaia, CE

Fiz mestrado pela USP. A revista Pesquisa FAPESP é uma maneira agradável de manter-me atualizado em relação à produção científica brasileira.

)OSÉ PAULO DE ÂNGELO SANCHEZ São Paulo, SP

Correção

Com referência ao artigo "Sementes de autonomia", publicado no no 63 da revista Pesquisa FAPESP, solicito que se faça uma correção em relação ao mercado mundial de enzimas, estimado em US$ 1,5 bilhão e não em US$ 1,5 trilhão. Gostaria de parabenizar a iniciativa dessa revista de dar relevância a tema tão importante para o nosso país.

ELBA BoM Lab. de Tecnologia Enzimática Instituto de Química da UFRJ Rio de janeiro, RJ

Créditos de fotos

Na edição de no 63, à página 7 (seção Memória), a foto do computador publicada no centro da página é da agência Pulsar. Na edição de no 64, também na seção Memória, página 6, a foto da Terra é da agência Stock Photo.

PESQUISA FAP ESP PUB LICAÇÃO MENSA L DA FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQU ISA DO ESTADO DE SÃO PAU LO

PR

OF. DR. CA RLOS HE NRIQ UE DE BR ITO CRU Z PRESID ENTE

PRO F DR. PAULO EDUARDO DE ABR EU MAC HADO VICE-PRESIDENTE

CONSELHO SUPERIOR AD ILSON AVANS I DE ABR EU ALAIN FLOR ENT STE MPFER

CARLOS HENR IQU EDEBRITO CRUZ

FERNANDO VASCO LEÇA DO NASC IMENTO FL AV IO FAVA DEMORA ES JO BSO N DE AN DRADE ARR UDA MAU RICI O PRATE S DE CAM POS FILH O MO HAM ED KHE DERZEYN NI LSON DIAS VIEI RA JUNIOR PAULO EDUARDO DE ABR EU MACHADO RICA RDO REN ZO BRE NTANI VA HAN AGOPYAN

CONSELHO

PROF. DR FRANCISCO ROM EU LANDI DIRETOR PR ESIDENTE

PRO F. DR. JOAQUIM J. DE CAMARGO ENG LER DIRETOR ADMINISTRATIVO

PROF. DR. FERNANDO PEREZ

OIRETOR CI ENTiFICO

EQUIPE RESPONSÁVEL

CONSELHO EDITORIAL

PROF. DR. FRANCISCO ROM EU LANDI

PROF. DR. JOAQUIM J. DE CAMARGO ENG LE R

PRO F. DR. FER NA NDO PER EZ

EDITORA CHEFE

MAR ILUC EMO URA

EDITORES ADJUNTOS MARIA DA GRAÇA MASCARENHAS NELDSON MARCOLIN

EDITOR DE AR TE DE ALMEIDA

EDITORES CARLOS FIORAVANTIICI[NCIA) CLAUDIA IZIQUE (POLITICA C&D MARCOS DE OLIV EI RA (TECNOLOGIA) LUIZ FE RNANDO VITRAL (ENCARTES) EDITOR-ASSISTENTE ADI LSON AUGUSTO REI'ÚfiTER ESPECIAL MARCOS PIVffiA AR TE ROB ERTO MEDD A (DIAGRAMAÇÃO) TÂNI A MA RI A DO S SA NTOS (DIAGRAMAÇAO EPRODUÇÃO GRÁFICA) COLABORADORES

AMILCAR TORR ÃO FILH O ANA MARI A FlORI TADEU ARANTE S MARIA LIG IA SANC HE S MAURO BELLE SA SILVIA MENDES SUZEL TU NES TÂN IA MARQUES YUR I VASCONCELOS FOTOLITOS GRAPHBOX·CARAN IMPRESSÃO

PADILLA INDÚSTRIAS GRÁF ICAS S.A. TI RAGEM: 24.000 EXEM PLARES FAPESP

RU A PI O XI, N' 1500, CEP 05468·90 1 ALTO DA LAPA- SÃO PAU LO- SP TEL. (0- 11) 3838-4000- FAX: (O- 11) 3838·41 17 ESTE INFORMATIVO ESTA DISPONIVEL NA HOM E PAGE DA FAPE SP: httpJ/www.fapesp.br e-mai l: maril uce@fapesp.br

Os art igos assinado s não refle te m necessariamente a opinião da FAPESP t PROIBIDA A REPRODUÇAO TOTAL OU PARCIAL DE TEXTOS E FOTOS SEM PRtVIA AUTORIZAÇAO

SECRETARIA DA CltNCIA TECNOLOGIA E DE SENVOLVIMENTO ECONOMICO

GOV ER NO DO ESTADO DE SÃ

As aplicações

da ciência

Uma entre as tantas motivações da pesquisa científica e tecnológica é buscar saídas para os problemas que afligem a sociedade, e isso é o bastante para que projetos de pesquisa que abordam em termos práticos, e de diferentes ângulos , a questão da geração de energia estejam na ordem do dia . Ora, entre os projetos financiados pela FAPESP, existem alguns que parecem feitos sob medida para a atual situação de crise de energia do país e outros que acenam com soluções avançadas para a geração futura de energia limpa. Trazê-los ao conhecimento público era, portanto, o mínimo que esta edição de Pesquisa FAPESP poderia fazer para manter um senso de oportunidade obrigatório em jornalismo Assim, na reportagem de capa, a partir da página 58, estão didaticamente reunidos os resultados de sete desses projetos, desenvolvidos por pesquisadores paulistas que se dedicam há anos a esse campo. Um dos projetos, passível de uso imediato, refere-se a dois softwares capazes de melhorar em 5% o rendimento energético cional das usinas hidrelétricas -o que corresponde a 2.250 megawatts (MW) de potência, equivalente à produção média de oito hidrelétricas instaladas no Rio Paranapanema, divisa de São Paulo e Paraná.

Fora das usinas hidrelétricas também há opções A biomassa da canade-açúcar (bagaço e palha) é uma das mais promissoras -o Brasil tem potencial para 2.500 MW a mais de · energia elétrica a partir dessa alternat iva. E há, ainda, o desenvolvimento de avançadas células a combustível e de novos painéis para energia solar, entre outros projetos que ajudarão o país a se tornar menos dependente das hidrelétricas e mais confiante na própria capacidade de resolver grandes problemas.

Fazer pesquisa, básica inclusive, cujos resultados , mais cedo ou mais tarde, têm aplicação relevante, não é, na FAPESP, exceção - é a regra. A reportagem Perfil Revelador (página 14) mostra que, ao longo do ano 2000 e até abril de 2001, nada menos que 72,9 % dos recursos investidos pela Fundação em auxílios regulares à pesquisa, em temáticos e nos programas Biota e Apoio a Jovens Pesquisadores foram aplicados em projetos cujos resultados têm imediata ou potencial aplicação tecnológica, ou na implementação de políticas públicas. Con sideradas as mesmas linhas de fomento, a pesquisa básica voltada essencialmente para o avanço do conhecimento, com horizonte indefinível de aplicação, recebeu 27 , 1% dos recursos. E mais um dado importante: metade dos investimentos nas linhas consideradas foi aplicada em pesquisas que, simultaneamente, contribuem para o avanço do conhecimento e têm aplicaç ã o prática, imediata ou potencial. Confirma-se, portanto, que o conceito de qualidade supera o de aplicabilidade da pesquisa, porque toda pesquisa de qualidade, mais cedo ou mais tarde, poderá ser aplicada. Ou, dizendo como Pasteur : "não há ciência aplicada; há somente aplicações da ciência".

Dois outros destaques da Pesquisa FAPESP de junho vêm do mundo animal. O primeiro é um estudo sobre as abelhas guaraipo (Melipona bicolor), típicas de áreas tropicais, que as mostra menos hierarquizadas e com maior divisão de poder entre rainhas e operárias. A outra é a descoberta de uma nova espécie de cervídeo, que vive numa área restrita de Mata Atlântica no sul do estado e nordeste do Paraná . O achado foi batizado de veado-bororó-de-São Paulo (Mazama bororo).

Agricultura movida pela ciência

Esalq completa um século de ensino e pesquisa com importantes conquis tas

Os 100 anos de existência da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) podem ser vistos de duas maneiras A primeira pelo viés institucional, no qual professores, estudantes e funcionários demonstram o justo orgulho de pertencer a um centro no qual ensino e pesquisa se comp lementam de forma exemplar. A segunda, pela simples observação das conquistas científicas revertidas para a sociedade -não é exagero dizer que as pesquisas conduzidas na Esalq ajudam a matar a fome no Brasil.

A conquista do cerrado é o mais formidável exemplo disso. Até o início dos anos 60, p lantar nesse tipo de terreno era improdutivo. Em grande parte graças às pesq u isas fe itas em Piracicaba, no interior de São Paulo, onde está instalado o campus da Esalq, hoje o Brasil central está coberto de soja, algodão e milho . A difusão do uso dos ferti li zantes inorgânicos, a melhor utilização das ervas medicinais, o controle bio lógico dos insetos e o desenvo lvimento das máquinas agríco las são outras conquistas importantes na prod ução de alimentos

Os caminhos para a consolidação

Como fo i se desenvolvendo du rante o século 20 a escola sonhada por Luiz Vicente de Souza Queiroz (busto ao lado) no século passado

Os últimos cinco anos foram particulamente excitantes para os pesquisadores. Em 1997, a Esalq entrou na era genômica com outras dez universidades e institutos de pesquisa paulistas Foi nesse ano que se começou a mapear a bactéria Xylella fastidiosa, causadora da Clorose Variegada do Citrus, que ataca os laranjais. O campus piracicabano teve participação fundamental no seqüenciamento da Xylella, terminado em 1999. Se os pesquisadores continuarem na mesma toada, os próximos 100 anos serão ainda mais fervilhantes.

Bancada- No in ício, a f ormaçã o e ra ap e n as t éc n ica
O

Vida e obra de um pioneiro

A trajetória do idealizador da Esalq, Luiz Vicente de Souza Queiroz, foi marcada por pioneirismo de todos os lados. Sua família é conhecida por qualquer morador de São Paulo, tal a quantidade de parentes que nomeiam as ruas da cidade Seu avó era o brigadeiro Luiz Antônio, seu pai, Vicente de Souza Queiroz, o barão de Limeira, sua mãe, Francisca de Paula Souza. Ainda menino, Luiz de Queiroz foi enviado para estudar na Europa acompanhado do irmão. Mais velho, cursou a escola de agricultura e veterinária de Grignon, na França, e a de Zurique, na então Suíça alemã. Teve de voltar ao Brasil quando seu pai morreu para administrar a parte que lhe cabia na herança e acabou assumindo a Fazenda Engenho d'Água, perto do então po-

voado de Limeira. Tinha, na ocasião, apenas 24 anos.

Ao conhecer melhor a região onde havia se instalado, Luiz de Queiroz percebeu de imediato o potencial hidrelétrico do rio Piracicaba e decidiu instalar uma tecelagem movida por energia elétrica. Na época, parecia uma missão impossível, sonhos de um garoto que desconhecia o país no qual vivia. A razão para o ceticismo era óbvia: no fim do século 19 não havia maquinário, turbinas, ferrovia, serraria nem técnicos para montar a fábrica de tecidos na região. Luiz de Queiroz não se intimidou. Importou equipamentos, tecnologia e técnicos.

O que não dava para trazer de fora ele tratou de improvisar e produzir por lá mesmo. O resultado foi inacreditável: Piracica-

ba tornou-se uma das primeiras cidades a serem iluminadas por lâmpadas elétricas na América Latina. Suas lutas se davam em todos os campos. Luiz de Queiroz mandou asfaltar ruas, arborizar praças de Piracicaba e ajudou negros foragidos com orientação e dinheiro. Convencido da importância para o país de ter quadros qualificados para lidar com a lavoura e com os animais, comprou a Fazenda São João da Montanha, a três quilômetros de Piracicaba, para montar uma escola de agricultura como as melhores que havia conhecido na Europa. Não viveu o suficiente para ver sua obra completa - morreu três anos antes, em 1898, aos 49 anos-, mas foi o semeador da enorme floresta em que se transformou a Esalq.

Ícone

O vitral estampado em um dos prédios do campus tornou-se símbolo da Esalq

Laboratório- Experimentos andam junto com ensino
Campo- Escola virou referência na área agrícola
Inovação- Trabalhar com máquinas é parte do ensino

Sucesso no campo e na sala de aula

A Escola Agrícola Prática de Piracicaba acolheu 11 alunos regulares e três ouvintes no dia 3 de junho de 1901, quando começaram as primeiras aulas. Como a Escola Politécnica já tinha um curso superior de agronomia, decidiu-se que a de Piracicaba deveria formar apenas quadros técnicos. Mas, em 1925, ela se transformou na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e foi uma das unidades pioneiras que formaram a Universidade de São Paulo (USP), nove anos depois. Ao longo do século, as mudanças e inovações não cessaram: a Esalq foi a primeira faculdade da USP a implantar cursos de pós-graduação stricto sensu e a que tem maior porcentagem de docentes em regime de dedicação exclusiva.

Os poucos alunos de 1901 se multiplicaram ao longo dos anos. O primeiro curso de graduação estabelecido formou 8,7 mil engenheiros agrônomos até janeiro de 2001. Os 15 cursos de pós-graduação concederam por volta de 4,5 mil títulos de mestre e doutor. Tal ênfase na formação científica e tecnológica permite a instituição de 70 grupos de pesquisa, com mais de 600 projetos, e faz com que cerca de 70% dos doutores na área de ciências agrárias sejam egressos da Esalq. Em 1985, foi instituído o Campus Luiz de Queiroz, que engloba a Esalq e o Centro de Energia Nuclear na Agricultura, além das estações experimentais Anhembi, Anhumas e Ita tinga. Tudo em 900 hectares, com 200 edificações - ou 50% da área territórial total da USP. Para comemorar o centenário da escola, o governador Geraldo Alckmin transferiu o governo do Estado para Piracicaba nos dias 2 e 3 de junho

Alckmin distinguiu 80 personalidades ligadas à escola com a Medalha Paulista do Mérito Científico e Tecnológico e concedeu o troféu Árvore dos Enigmas para a Esalq. As honrarias foram instituídas no ano passado A primeira, para laurear brasileiros e estrangeiros que se tenham destacado na área de ciência e tecnologia em São Paulo. A segunda foi criada para homenagear instituições. Os pesquisadores que trabalharam no seqüenciamento da Xylella fastidiosa, por exemplo , foram laureados em 2000. Entre os que receberam a medalha por ocasião dos 100 anos da Esalq estava Joaquim José de Camargo Engler, professor titular do Departamento de Economia, Administração e Sociologia e diretor da instituição, entre 1982 e 1986, e prefeito do campus, entre 1985 e 1987. Desde 1994, Engler é diretor administrativo da FAPESP.

Simbolismo - Quadro de 1916 lembra o início da escola
Soja- Pesquisas tornaram o cerrado produtivo
Hoje- Cem anos depois, a Esalq demonstra pujança
Medalha- Eng ler (esq.) é cumprimentado por Alckmin

Lugar de fóssil é no museu

Plantas e animais pré-históricos não podem ficar nas mãos de amadores

Fósseis são restos ou vestígios de animais ou vegetais que se encontram preservados nas rochas, depositados antes do início da época atual, ou seja, há mais de 12 mil anos. São geralmente ossos, dentes ou conchas, mas, também, podem ser encontrados ovos, pegadas, impressões e madeira silicificada. Com esse material, os cientistas construíram um arcabouço científico com o objetivo de descrever a vida na Terra durante os tempos pretéritos. Os fósseis permitem, ainda, determinar a idade relativa das ro-

"A importância científica

ripe, especialmente no Ceará, os mesossauros da formação Irati, da região de Rio Claro, em São Paulo, e as madeiras fósseis do Rio Grande do Sul. desse material deveria vir em primeiro lugar,

Desse jeito tudo estaria bem. Os fósseis seriam coletados por pesquisadores e depositados em instituições científicas para estudo. Mas muitos deles se têm transformado em itens de coleção por parte de particulares e amadores. Parece que esse hábito vem desde os tempos pré-históricos, pois já foram encontradas conchas fósseis arrumadas perto de esqueletos humanos em túmulos do Homo neanderthalensis. No Brasil, os fósseis que mais chamam a atenção de colecionadores são peixes, répteis e insetos da Chapada do Arachas em que eles são encontrados. Assim, esses objetos, que já foram considerados como brincadeiras da natureza, permitiram o surgimento de duas disciplinas, no âmbito das Ciências da Terra, a Paleontologia e a Estratigrafia. Ainda mais, com os fósseis foi possível fornecer uma base segura para apoio à teoria da evolução. Como

Espera-se que haja o consenso, entre os colecionadores amadores, de que a importância científica do fóssil deva vir em primeiro lugar e os exemplares sejam bem conservados e protegidos. Muitos deles requerem pode ser visto, esse material é item insubstituível para que se possa contar a história da vida na Terra.

A legislação brasileira vigente diz que os depósitos fossilíferos são propriedade da nação e só podem ser explorados com a prévia autorização e a fiscalização do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). E mais, estabelece que os museus e instituições científicas congêneres não dependem dessa autorização e fiscalização. O código de mineração, que regula toda a atividade de exploração mineral no subsolo brasileiro, não contempla, portanto, a extração de fósseis. O objetivo dessa legislação é dizer que fósseis, apesar de retirados do subsolo, não podem ser tratados como substâncias minerais economicamente aproveitáveis e passam a ser considerados como de responsabilidade de museus e outras instituições científicas, ou seja, passam a ser itens de interesse científico e da competência dos pesquisadores. Em outras palavras, eles ganham valor cultural intrínseco.

'cuidados e só serão devidamente conservados em instituições organizadas para este fim. O lugar correto de um fóssil é em um museu ou em uma coleção paleontológica. Os fósseis, quer sejam atraentes ou não, fáceis de conservar ou que requeiram cuidados especiais, quer sejam grandes ou microscópicos, são estudados, recebem nomes, muitas vezes associados com a toponímia ou com vultos da ciência brasileira, são expostos em mostras de divulgação científica e servem para a educação, em vários níveis do conhecimento. Por isso, não são apenas meros itens de coleção, mas essencialmente objetos culturais e devem ser protegidos e conservados.

DIOGENES DE ALMEIDA CAMPOS é diretor do Museu de Ciências da Terra do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM)

DIOGENES DE ALMEIDA CAMPOS

• Revolta contra a astrologia

O governo da lndia está insistindo numa proposta que vem provocando uma tempestade de protestos entre os pesquisadores do país: quer criar departamentos de astrologia nas universidades. Segundo a revista Nature ( 17 de maio), a comissão encarregada do assunto oferece um fundo para pagar professores por cinco anos, biblioteca, computadores e banco de horóscopos. O departamento deve estar pronto até 2002. A idéia partiu do ministro da Ciência indiano, o físico Murli Joshi: que também ocupa a pasta da Educação. Joshi acredita que todas as respostas procuradas pelos

ESTRATÉGIAS

cientistas estão contidas nos antigos escritos em sânscrito, chamados Vedas e Upanishad. A Academia Nacional de Ciência diz que a astrologia na universidade vai legitimar a pseudociência e a superstição e ainda abalará a credibilidade que o país tem em pesquisa. Mas o governo não dá

sinais de que voltará atrás. "Se alguém pedir financiamento para uma, pesquisa em astrologia, nós veremos se faz sentido cientificamente, antes de liberar o dinheiro", adianta Valangiman Ramamurthi, secretário do Departamento de Ciência e Tecnologia.

• Japoneses unidos pela genética

•

O Japão decidiu investir pesado na genética. Suas dez maiores empresas químicas e farmacêuticas estão juntas, com o objetivo de montar um laboratório para pesquisas de ponta em engenharia genética. Ajinomoto, Sumitomo Chemical, Dainippon Pharmaceutical, Chugai Pharmaceutical, Teijin, Nippon Shinyaku, Hitachi Chemical, Hitachi, Fujisawa Pharmaceutical e Mochida Pharmaceutical investiram cada uma 30 milhões de ienes (US$ 243,7 milhões) no Reverse Proteomics Research Institute. O instit u to vai começar a trabalhar com proteínas e deverá concorrer com a Celera Genomics. •

• A Internet e as modas da ciência

A Internet sempre foi saudada como um dos principais aliados dos avanços científicos e tecnológicos por permitir troca de informações de modo rápido e barato e ao difundir os últimos avanços pesquisados. Esse apoio incondicional à web começa a ser contestado. Em junho, ocorreu na cidade de Stillwater, Minnesota (EUA), o Seven Pínes Symposíum, um encontro entre pesquisadores que debatem grandes temas da ciência, patrocinado por Lee Gohlike, empresário de Minnesota com gosto pela filosofia e física. Um dos assuntos mais discutidos neste ano foi o fato de a Internet ter trazido problemas junto com as oportunidades, informa o jornal The New York Times. Por exemplo, em vez de encorajar pesquisadores a discutir questões mais complexas, a web os leva a apresentar conclusões apressadas, sem maior reflexão. A rapidez faz com que não olhem para caminhos que poderiam ser promissores para a ciência e, não raro, tendem a trabalhar apenas de olho nas grandes tendências da indústria. Em outras palavras, tornam-se seguidores de modas científicas. Um participante do simpósio, o físico Jeffrey Harvey, da Universidade de Chicago, afirma que o sistema de contagem de alguns sítes, que mostra o número de vezes que um paper é citado, cria uma pressão sobre os pesquisadores que os desestimula a ir contra a tendência corrente. "Idéias da moda alguma vezes têm muito mais influência na ciência moderna do que antes de a comunicação ser tão fácil", diz o físico Roger Penrose, da Universidade de Oxford. •

• Como cortar o mal pela raiz

Tóquio enfrenta um grave problema de saúde, difícil de resolver com ações públicas comuns. As árvores de cedro, que cobrem 20 mil hectares

da cidade, liberam grande quantidade de pólen no ar e fazem com que um em cada cinco moradores da capital japonesa sofram com reações alérgicas, de acordo com a revista Nature (31 de maio).

Experimentos com árvores

Conseqüências de 20 anos de descaso

Desde que foi descoberta, há duas décadas, a Aids alcançou cifras formidáveis, todas elas negativas.

O Centro de Controle de Doenças de Atlanta (EUA) estima que existam 36 milhões de pessoas infectadas no mundo, além dos 22 milhões que morreram em conseqüência da epidemia ( 150 mil delas no Brasil). Hoje, a Aids é a quarta causa de morte no planeta. E a situação continua grave. Em junho, descobriu-se que aldeias inteiras estão sendo devastadas pela doença na China, onde a epidemia explodiu depois que o governo incentivou a venda de sangue nos anos 90, sem as condições necessárias de higiene. Apenas na África subsaariana há 25 milhões de infectados. Espera-se para breve outra explosão, agora nas repúblicas da extinta União Soviética, incluindo a Rússia. Até nos Estados Unidos a epidemia volta a crescer, especialmente entre a população negra. Todos os especialistas concordam que a situação só chegou a esse ponto em razão do descaso dos governantes da maioria dos países, com exceção de alguns poucos- o Brasil entre eles.e

jovens mostraram que uma injeção de um regulador de crescimento de plantas (hidrazida málica) no tronco reduz em 96o/o o número de flores que disseminam o pólen. A Estação Experimental de Agricultura Metropolitana de Tóquio planeja estender a pesquisa para outras árvores. nos próximos meses. Se bemsucedido, o programa de injeções abrangerá toda a cidade. Grupos de ambientalistas já demonstram preocupação com a iniciativa. Eles reclamam que ninguém sabe quais os efeitos a longo prazo. •

(2001) O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, pede a criação de um fundo global para a doença (2000) O Conselho de Segurança da ONU discute a epidemia pela primeira vez

(1997) O Brasil é o primeiro país em desenvolvimento a fornecer a terapia anti-retroviral pelo sistema público de saúde

(1996) Nova terapia anti-retroviral é discutida pela primeira vez. Criado o programa das Nações Unidas para a Aids (Unaids)

(1985) O ator Rock Hudson torna-se a primeira figura pública internacional a morrer com a doença

( 1983) Na África, começa a epidemia entre heterossexuais

Grão de pólen: reações alérgicas atormentam japoneses

Pesquisa, ensino e extensão contra a seca

As principais univers idades do Nordeste farão ações conjuntas com o Ministério do Desenvolvimento

Agrário para apl icar tecnologias que permitam desenvolver o semi-árido, castigado por mais u m duro período de estiagem

No começo de junho, o ministro Raul Jungman reuniu-se com reitores de cinco universidades federais de quatro Estados para discutir estratégias para a região e como aproveitar os projetas e estudos que vêm sendo desenvolvidos por elas nessa área. "Nós temos uma grande expe-

riência com recursos hídri- Fa

cos, uso de energia alternativa e biodiversidade da região", diz o reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Mozart Neves Ramos. "Mas o me-

• Prêmio para tecnologia social

O Banco do Brasil criou uma premiação para incentivar a criação de novas ferramentas tecnológicas para a sociedade. O Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social foi lançado em todos os Estados brasileiros e será reeditado a cada dois anos. A idéia principal é identificar métodos, técnicas e instrumentos que constituam soluções para questões graves como falta de saneamento básico, mortalidade infantil, carência habitacional, analfabetismo, agressão ao ambiente, entre outras. A fototerapia (imagem ao lado), criada no Instituto José Américo, de

lhor projeto é o programa de alfabetização pela televisão usando o método Paulo Freire, que ainda não foi finalizado porque faltam

Salvador, por exemplo, é um invento muito simples que ajuda a salvar bebês a um custo muito baixo. Podem concorrer ao prêmio entidades públicas e privadas sem fins lucrativos. As inscrições devem ser feitas até 27 de julho. Mais informações no site www.cidadania-e.com.br. •

recursos." Ramos afirma que esse programa deverá ter enorme impacto no semi-árido: 60% das pessoas que trabalham nas

frentes de trabalho são analfabetas. "Não dá para ter desenvolvimento com um índice tão grande de analfabetismo." •

Invento simples salva vidas

• FAPESP está no

Yearbook da Nature

A edição de 2001 de The Nature Yearbook of Science and Technology, publicação anual da revista Nature, traz quatro páginas sobre a contribuição da FAPESP para o desenvolvimento da ciência e tecnologia brasileira nos últimos anos. O livro faz um inventário das principais realizações nesse setor em todos os países do mundo. Na parte brasileira, sob o título Um trampolim para o sucesso, é relatado como o seqüenciamento da bactéria Xylella fastidiosa, patrocinado pela Fundação, incentivou uma série de outros projetas que estão mudando a ciência brasileira. •

• Reunião da SBPC discute diversidade

A Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que tem como tema central Nação e Diversidade - Patrimônio do Futuro, recebeu trabalhos de pesquisadores de 76 universidades. O encontro volta a ocorrer em Salvador, de 13 a 18 de julho, depois de 20 anos, na Universidade Federal da Bahia (UFBA). A SBPC Jovem será realizada de 14 a 18 de julho, acompanhando a reunião principal, e pretende integrar alunos e professores do ensino fundamental e médio à prática da ciência. Mais informações no site www.sbpcnet.org.br/53RA/. •

m íli a a t ra vess a solo es tu rr icado no Nordeste: u niv ersi d ade e governo agirão juntos

Envie sua sugestão de site científico para cienweb @trieste.fapesp.br

www.astro.uni-bonn.de/-pbrosche/astoria.html

Ótimo lugar para aprender mais sobre a história da astronomia e da ciência em geral. Textos em inglês e alemão

• Althenfelder é nomeado para C&T

Ruy Martins Althenfelder Silva é o novo secretário de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo. Substitui o ex-secretário José Aníbal, que voltou à Câmara dos Deputados, em Brasília, como presidente nacional do PSDB. Althenfelder deixou a vice-presidência do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo e a presidência da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial para assumir o comando da secretaria. Mas seguirá na presidência do Instituto Roberto Simonsen, o centro de estudos avançados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, e na superintendência da Fundação Bunge, que promove o

Althenfelder: novo secretário

www.restinga.net/default.asp

Boa referência para professores, pesquisadores e alunos que estudam a flora da restinga brasileira.

Prêmio Moinho Santista. A sua estratégia será, como ele diz, "aprimorar cada vez mais a participação da ciência e tecnologia com o desenvolvimento econômico", promovendo a aproximação entre as universidades e instituições de pesquisa com o setor privado. •

• Dinheiro para pesquisa limpa

Foram aprovados os primeiros 18 projetas do módulo Tratamento de Resíduos Químicos, do Programa de Infra-Estrutura da FAPESP, que visa a liberar recursos aos laboratórios de pesquisa com projetas financiados pela Fundação, para o gerenciamento do uso e descarte de seus resíduos. O objetivo é impedir que os resíduos de produtos e substâncias químicas utilizados nas pesquisas tenham impacto sobre o ambiente e, ainda, conscientizar pesquisadores e estudantes. Este é o primeiro grupo de laboratórios com projetas aprovados para esse módulo. Para a seleção, foram inscritos 53 projetas, sendo 14 de laboratórios da área de engenharia, 12 de química, 9 da saúde, 11 deve-

www.infobiogen.fr/services/chromcancer/

Site cheio de detalhes com descrições específicas dos diversos tipos de células cancerosas e suas mutações.

terinária, 5 de biologia e 1 de física. O módulo para tratamento de resíduos químicos, assim como o de centros depositários de informações e documentos (que engloba os antigos módulos bibliotecas, arquivos e museus), foi instituído pela FAPESP em outubro passado. "O programa vai

Preocupação com os resíduos

dar solução para poluentes armazenados há mais de 20 anos, em condições precárias", diz Jailson Bittencourt de Andrade, pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da Universidade Federal da Ba-

hia e que acompanha o Programa de Infra-Estrutura da FAPESP desde o seu início, acrescentando que o módulo surgiu da própria avaliação dos projetas do Infra. "A FAPESP passou a se ocupar com o tratamento e recuperação dos resíduos químicos, observando a dimensão que o problema estava tomando." Segundo ele, esse é um programa modelo: "Resolve parte dos problemas causados no passado, dá soluções e melhora as condições do presente e se antecipa a danos futuros." Da mesma forma como, quando se trata de pesquisa clínica, epidemiológica ou que envolva experiências com seres humanos as propostas de pesquisa encaminhadas à FAPESP devem conter uma seção onde se explicite como estão contemplados os seus aspectos éticos, os projetas de pesquisa que produzem resíduos químicos deverão, agora, conter uma seção explicitando como será feito o tratamento e descarte desses resíduos. •

Dados sobre investimento da FAPESP revelam articulação entre geração do conhecimento esua aplicação

AESP investiu, no ano 2000, R$ 550,7 milhões o fomento à atividade científica e tecnológica no Estado de São Paulo, por meio de bolsas, auxílios e programas especiais. Às bolsas e aos auxílios, que compõem a linha regular de fomento à pesquisa- aquela que atende à demanda espontânea do pesquisador -, foram destinados R$ 363,5 milhões, ou 66% dos recursos Aos programas especiais - que recebem projetas com características especiais e requerem um

tratamento específico - foram destinados R$ 187,2 milhões, ou 34% Isoladamente, bolsas e auxílios receberam, respectivamente, R$ 178,5 milhões e R$ 185,1 milhões ou 32,4% e 33,6% do total investido (ver Quadro resumido da evolução dos investimentos da FAPESP) . Por trás dos números há constatações obrigatórias e algumas revelações. A primeira constatação é que os projetas de livre demanda continuam a receber o maior volume de investimentos da FAPESP. E a revelação mais importante é que investir em pesquisa de qualidade, qualquer que seja sua classificação- básica, inclusive, ou em áreas fundamentais do conhecimento-, resulta sempre em alto grau de aplicação de seus resultados, mais cedo ou mais tarde, como aliás a Fundação antevia. Se poderia repetir com Louis Pasteur: "não há ciência aplicada; há somente aplicações da ciência': Assim é que, dos investimentos feitos

pela FAPESP ao longo do ano 2000 e até abril de 2001, nada menos que 72,9% dos recursos destinaram-se a projetas cujos resultados têm imediata ou potencial relevância tecnológica ou imediata/potencial relevância para a implementação de políticas públicas À pesquisa básica com objetivo fundamental de avanço do conhecimento, sem aplicação predeterminada de resultados, coube 27,1% dos recursos Isso tornou-se visível a partir da nova metodologia de classificação dos projetas de pesquisa aprovados, que examina o perfil dos investimentos nos auxílios à pesquisa regulares, projetas temáticos e auxílios à pesquisa ligados aos programas Apoio a Jovens Pesquisadores e Biota-FAPESP.

Os percentuais relativos aos valores investidos têm correspondência, como seria de esperar, com os percentuais de número de projetas aprovados. Assim, projetas básicos centrados principalmente no avanço do conhecimento representaram 22,7% do número total aprovado no ano 2000 e até abril de 2001. Os projetas com aplicabilidade - tecnológica ou de políticas públicas -, muitos dos quais são simultaneamente básicos, representaram 77,3%. É interessante observar que esse perfil de inves-

timento já se registra há algum tempo, conforme o levantamento feito pela Fundação . Em 1999, 74,5% dos projetas concedidos nas modalidades consideradas tinham componente de imediata ou potencial aplicação tecnoló- <

gica ou de políticas públicas e para eles foram destinados 75% dos recursos. No ano anterior, os percentuais foram, respectivamente, de 79,2% e de 75,7%.

Há mais uma revelação significativa dos números que demonstra como a FAPESP vem se mantendo num cami- 9 nho certo . Seguindo a proposta introduzida por Donald

Stokes no seu livro Pasteur's Quadrant, Basic Science and

Technological Innovation, que cria três categorias para 8 classificação de uma pesquisa -o Quadrante de Bohr, o e, Quadrante de Edison e o Quadrante de Pasteur-, metade dos investimentos destinados pela Fundação no ano g 2000 e até abril de 2001 para as linhas de fomento auxílio à pesquisa regular, projeto temático e auxílio

à pesquisa no âmbito dos programas Apoio a Jovens Pesquisadores e Biota

classifica - se na última categoria. Isto § é, aquela na qual os resultados da pesquisa contribuem para o avan- ! ço do conhecimento, e, simul- 5

Perfil do investimento da FAPESP

Classificação dos Processos Concedidos- Números absolutos

Pesquisa Básica

Ano B/ A( (BÁSICA/AVANÇO DO CONHECIMENTO) BfT (BÁSICA/APLICAÇÃO TECNOLÓGICA) B/PP (BÁSICA/POLITICAS PÚBLICAS) BfT/PP

Classificação dos Processos Concedidos- Porcentagem

Ano B/ AC (BÁSICA/AVANÇO DO CONHECIMENTO) B!T (BÁSICA/APLICAÇÃO

Pesquisa Básica

Obs: Os dados referem-se a auxílios a pesquisa regulares, projetes temáticos, auxílios associados aos programas Apoio a Jovens Pesquisadores e Biota-FAPESP

taneamente, têm grandes perspectivas de aplicação prática (ver quadro Os Quadrantes da FAPESP).

Nova classificação - Todos esses são dados importantes que, entretanto, ficavam escondidos pela maneira como tradicionalmente a FAPESP classificava os projetas que lhe são submetidos, isto é, apenas por área de conhecimento. Esse modo de classificação não fornece as informações necessárias para uma medida mais precisa do grau em que a agência vem cumprindo sua missão de fo-

Os quadrantes da FAPESP

Em 1997, logo após a morte de seu autor, Donald Stokes, foi publicado o livro Pasteurs Quadrant, Basic Science and Technological lnnovation. Nesse livro, o autor propõe uma nova taxonomia das atividades de pesquisa e de desenvolvimento, cujo mérito principal é o de superar a falsa dicotomia entre pesquisa básica e pesquisa aplicada. Essa dicotomia havia sido introduzida na literatura pelo famoso documento Science, The Endless Frontier, preparado por Vannevar Bush, em 1945, no qual o próprio termo pesquisa básica foi objeto de definição: pesquisa cuja característica é a de contribuir para "o conhecimento e compreensão da natureza e suas leis': Tanto a definição como a decorrente dicotomia conhecimento x aplicação se constituíram, durante décadas, com diversas variantes, em referencial para a teoria geral da taxonomia da pesquisa e desenvolvimento.

A proposta de Stokes é simples. Trata-se de atribuir às pesquisas duas coordenadas. Uma dimensiona o avanço do conhecimento que a pesquisa propicia. A segunda dimensiona a aplicação que dela decorre. Vê-se, assim, que uma pesquisa pode, ao mesmo tempo, contribuir significativamente para o avanço do conhecimento e ter grandes perspectivas de aplicações práticas. O exemplo mais notório desse tipo de pesquisa é a desenvolvida por Pasteur, que gerou muitos avanços na microbiologia com importantes aplicações práticas. Esse exemplo é o que justifica o título do livro.

mentar o desenvolvimento científico e tecnológico do Estado, nem permite visualizar a contribuição ao desenvolvimento de projetas de pesquisa relevantes para a implementação de políticas públicas.

Para identificar esse perfil de investimento, os projetas aprovados de 1996 a abril de 2001, naquelas modalidades consideradas de fomento, foram classificados pelas coordenações de áreas da diretoria científica da Fundação em quatro categorias (a primeira, com quatro subcategorias), conforme a tabela Perfil dos Investimentos:

A atribuição dessas duas coordenadas permite agrupar a pesquisa em três categorias razoavelmente bem definidas, conforme mostra o primeiro gráfico: Quadrante de Bohr: pesquisa básica sem nenhuma identificação de aplicação imediata; Quadrante de Edison: pesquisa aplicada visando ao desenvolvimento tecnológico; ou Quadrante de Pasteur: pesquisa básica com perspectivas definidas de aplicação.

A taxonomia proposta por Stokes pode ser aplicada à interpretação da nova classificação dos investimentos da FAPESP. A categoria B pode ser associada ao quadrante da pesquisa básica. As categorias T, PP e T/PP, ao quadrante de Edison. E as categorias B!T, B/PP, B!T/PP, ao quadrante de Pasteur. Com essa associação, obtemos os quadrantes que representam o perfil de investimento da FAPESP no ano 2000.

c

Pesquisa c o o N Pesquisa Básica ligada N $27,11% $50,02%

H Básica a Aplicação H # 41,22% # 41,22% E (Bohr) (Pasteur) E (Bohr) (Pasteur) c c I I

M

Pesquisa M $22,87%

E Aplicada E # 36,07% N (Edison) N (Edison)

T T o o

por reajuste, anulações e transferências desde a data de concessão até 30/04/2001

• pesquisa básica (B)

- pesquisa básica cujo objetivo principal é fazer avançar o conhecimento fundamental (B/ AC) sobre o tema em estudo;

- pesquisa básica/tecnológica (B/T), cujo objetivo principal é fazer avançar o conhecimento fundamental e cujos resultados têm potencial definido de aplicação tecnológica;

- pesquisa básica/políticas públicas (B/PP), cujo objetivo principal é fazer avançar o conhecimento funda-

Adivers idade visível

Uma olhada ainda que rápida pelos exemplos numerosos de projetes de pesquisa básica financiados pela FAPESP mostra facilmente de que se está falando quando se chega a uma classificação mais refinada para eles, capaz de revelar se seu potencial de aplicacão está próximo ou longínquo- sim, na verdade é isso, porque mais cedo ou mais tarde toda pesquisa de qualidade terá alguma aplicação relevante. Assim, um típico exemplo de pesquisa básica comprometido com o avanço do conhecimento (B/AC) e cujo potencial de aplicação parece muito distante é o projeto temático Física Nuclear Teórica (ver Pesquisa FAPESP 64}, desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Física da Universidade de São Paulo em colaboração com especialistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Instituto Tecnológico da Aeronáutica e que estuda os movimentos das partículas do núcleo do átomo, chegando a formular uma teoria para explicar a dinâmica desses fenômenos.

Já o desenvolvimento de uma vacina gênica contra tuberculose (Notícias FAPESP 43) , por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, é um bom exemplo de pesquisa básica cujos resultados têm alto potencial de aplicação tecnológica (BIT). Mais adiante se poderá concluir sobre sua aplicacão também em saúde pública, portanto, em politicas públicas, o que mudaria sua classificação para BIT/ PP. Para chegar à vacina, os pesquisadores tiveram que encontrar uma maneira de estimular os linfócitos T CDS, capazes de destruir as células

mental e com potencial definido de contribuição para a formulação de políticas públicas;

- básica/ tecnológica/políticas públicas (BIT/PP), cujo objetivo principal é fazer avançar o conhecimento fundamental e com potencial definido de ap licaç ão tanto no setor público quanto no se tor privado.

• pesquisa tecnológica (T), a pesquisa aplicada que tem como principal objetivo a obtenção de resultados de naturez a tecnol ógica;

• pe squisa em políti cas públicas (PP), pesquisa aplicada

infectadas pelo Mycobacterium tuberculosis, sabendo que esses linfócitos são estimulados somente quando os antígenos são produzidos dentro de células, como acontece nas infecções virais. Para chegar a isso, um trecho do DNA do agente causador da doença foi inserido em um retrovírus fabricado em laboratório pelas técnicas de engenharia genética. As células infectadas com o retrovírus recombinante sintetizaram os antigenos, estimularam os linfócitos e induziram proteção contra a infecção por M. tuberculosis. Nos experimentos em animais, a vacina, além de prevenir a infecção, demonstrou ter atividade terapêutica em indivíduos infectados, atuando di reta mente contra a infecção. Já um projeto temático sobre métodos de avaliação do impacto de estratégias de imunização contra doenças de transmissão direta (Notícias FAPESP 8) é um bom exemplo de pesquisa básica com aplicação em políticas públicas A pesquisa desenvolveu equações e um modelo matemático dinâmico aplicado à epidemiologia e concluiu que, no caso específico de São Paulo, seria possível obter uma imunidade ótima contra sarampo, cachumba e rubéola, na época , vacinando a população na faixa etária entre um e 1O anos, e não a população até 15 anos. Isso foi feito e a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo conseguiu, a par dos bons resultados imunológicos, economizar cerca de US$ 15 milhões na campanha de vacinação contra essas viroses, em 1992 Projetas tecnológicos e de Politicas Públicas dispensam explicações mais detalhadas. Todos os enquadrados nos programas de Inovação Tecnológica da FAPESP (PIPE e PITE) encaixam-se nos primeiros, e aqueles do Programa de Pesquisa em Politicas Públicas, entre os segundos

Quadro resumido da evolução dos investimentos da FAPESP

' 1 I O total de pedidos aprovados inclui somente concessões iniciais.

<21O total de recursos investidos inclui concessões, suplementações, suplementações por reajuste, anulações e transferências do exercício corrente.

<31Inclui Auxílios à Pesquisa Regulares, Projetos Temáticos, Interdisciplinares, Cooperação FAPESP-CNPq e Programas Especiais.

<41Inclui auxílios e bolsas

com o objetivo principal de obter resultados relevantes para a definição ou implementação de políticas públicas; • pesquisa tecnológica/políticas públicas (T/PP), pesquisa aplicada cujos resultados têm potencial de aplicação tecnológica e, também, de contribuição para a formulação de políticas públicas;

Os números trazidos à tona por essa nova classificação dos projetas levaram o Conselho Superior da FAPESP a determinar que ela passe a ser utilizada de forma sistemática, em paralelo à classificação por área do conhecimento. A finalidade é medir a contribuição do sistema estadual de pesquisa, por meio das pesquisas financiadas, para o desenvolvimento científico, social e econômico do Estado de São Paulo. A nova classificação dos projetas não terá influência na decisão da FAPESP de apoiá-los ou não, pois será feita somente depois da conclusão do processo de avaliação. Ela apenas refletirá a demanda qualificada, não sendo fator de priorização por parte da instituição ou da assessoria.

Outra significativa constatação trazida pelas estatísticas relativas às atividades da FAPESP no ano 2000 foi o crescimento do número de bolsas concedidas e dos valores a elas destinados . Conforme mostra o Quadro resumido da evolução dos investimentos da FAPESP, de 1999 para 2000, o número de pedidos de bolsas aprovados passou de 4.868 para 5.213, com uma variação positiva de 7,1 %. Em termos de investimentos, eles passaram de R$ 168 milhões para R$ 178,4 milhões, num incremento de 5,3%. Foram as bolsas a modalidade de fomento que teve maior incremento, de 1999 para 2000, tanto em número de pedidos aprovados quanto de recursos liberados. A título comparativo, os auxílios regulares tiveram aumento de 2,4% no número de projetas aprovados e de 5,3% no volume de recursos recebidos, enquanto os programas especiais tiveram redução nos dois itens: de 14% no número de projetas aprovados e de 5,8% nos investimentos.

em bolsas no país e no exterior por área de conhecimento- 2000

Investimentos
Em milhões de reais

A demanda por bolsas na FAPESP e o número de concessões vêm crescen d o há alguns anos a taxas elevadas. Em 1996, a FAPESP concedeu 47,9% de bolsas a mais em relação ao a n o anterior; em 1997, o crescimento nas concessões foi de 2 1,7%; em 1998, de 20,7%, e, em 1999, de 6%, conforme da d os publicados nos relatórios de atividades da FAPESP dos anos de 1999 e de 2000. Um destaque nas concessões de bolsas em 2000 foi a parti cipação d a ár ea d e Engenharia (ver gráfico Investimentos em bo lsas no país e no exterior). Pela primeira vez, ela rece b eu o ma ior volume de recursos destinados a bolsas: R$ 31,8 milhões ou 17,8% do total investido nessa linha regular de fo m ento. O aumento nas concessões de bolsas dessa área evi d encia um crescente interesse na qualificação profissio n al e na p esq u isa tecno lógica, provavelmente motivad o p ela maior compreensão da importância da inovação co m o base do d esenvo lvimento econômico e industrial. Em r el ação ao an o anterior, a expansão nos investiment os d es ti na d os a b olsas n a á r ea de Engenharia foi de 7,8%

rog r am as es p ec iais, a FAPESP destinou, no o 200 0, R$ 187,2 milhões (ver Quadro de rogra mas especiais). A visibilidade do assunt o gen oma n a m ídia pode levar a crer que a m aior par te dos investimentos da FAPESP va i p ar a o Pro gra m a Genoma. O quadro mostra que isso n ão é ver d a d e. Esse programa recebeu, no ano 2000, R$ 36,2 m ilh ões, q u antia significativa, é verdade, porque n ão é p ossível instit ui r uma nova competência sem invest ime nt os ex p ressivos . De qual quer sorte, esse valor corres p o nd e a 6,5% d o t otal investido pela FAPESP em todas as s u as linh as d e fo m en to, isto é, R$ 550,7 milhões.

No ano passado, a FAPESP deu início ao programa Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids), que deve ter grande impacto sobre as dimensões, a dinâmica e a organização da pesquisa científica e tecnológica paulista . Foram aprovados 10 projetas de centros, nas mais diversas áreas do conhecimento: de materiais cerâmicos à utilização farmacêutica de toxinas animais, de óptica e fotônica aos estudos metropolitanos, da terapia celular ao estudo da violência.

Cada um dos dez centros deverá desenvolver um programa multidisciplinar de pesquisa básica ou aplicada na fronteira do conhecimento Além disso, suas pesquisas devem fazer inovação associada à transferência de conhecimentos, para os diversos níveis de governo, subsidiando o desenho e a implementação de políticas públicas, ou para a iniciativa privada, com o desenvolvimento de novas tecnologias de valor comercial e criação de empresas Os centros terão, ainda, a responsabilidade de interagir com o sistema educacional, por meio de atividades envolvendo estudantes do ensino médio ao pós-doutoramento e de educação continuada de professores.

Por fim, merece registro uma outra importante iniciativa da Fundação no ano 2000, que foi a implantação do Programa de Apoio à Propriedade Intelectual (Papi/Nuplitec), com a missão de assessorar os pesquisadores paulistas no processo de registro e licenciamento de patentes resultantes de pesquisas apoiadas pela FAPESP. Com essa iniciativa, ela demonstrou sua preocupação e determinação de atuar numa área vital para o desenvolvimento científico e tecnológico nacional e para o aproveitamento econômico do investimento do país em pesquisa. Os resultados já alcançados (ver reportagem à página 20) mostram que a FAPESP está na rota certa. •

PATENTES

Aposta na pesquisa de resultados

Nuplitec apóia registro elicenciamento de 73

novos produtos no mercado

ONúcleo de Patenteamento e Licenciamento de Tecnologias (Nuplitec), criado pela FAPESP, está apresentando bons resultados. No período de um ano, com o apoio do Nuplitec, foram depositadas 13 patentes no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Uma delas, relativa a um produto desenvolvido na área de Biologia, também foi depositada nos Estados Unidos . Os inventores agora, com o apoio da Fundação, negociam com parceiros privados o licenciamento de seus produtos. "Metade dos inventos está muito próxima de ser licenciada", adianta Edgar Dutra Zanotto, coordenador-adjunto da diretoria científica da Fundação Foram depositadas patentes de inventos nas áreas de Biologia, Medicina, Química, Ciências Agrárias, Engenharia Civil, Física e Materiais. Outros 11 produtos candidatos a patenteamento estão sendo analisados por assessores da FAPESP.

O Nuplitec é um programa piloto, por meio do qual a FAPESP pretende prestar um serviço à comunidade científica. Mas o seu principal objetivo é procurar disseminar entre os pesquisadores a cultura de proteção da propriedade intelectual. De acordo com dados do INPI, na década de 90, as universidades solicitaram 355 pedidos de patentes, 0,24% do total depositado no período. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) lidera o ranking com 125 pedidos de patenteamento, seguida pela Universidade de São Paulo

(USP), com 76; Universidade Federal de Minas Gerais, com 39; e Uni versidade Federal do Rio de Janeiro, com 31 solicitações É pouco, principalmente se comparado à participação de 5% das instituições acadêmicas norte-americanas no total de pedidos de patentes depositadas nos Estados Unidos. E esse percentual tende a crescer ainda mais : entre 1986 e 1997, o número de pedidos de patentes apresentados por universidades nos EUA cresceu 280%, enquanto os pedidos de empresas americanas aumentaram 73%, no mesmo período.

Potencial de mercado - O Nuplitec será acionado sempre que um pesquisador e o assessor da FAPESP responsável pelo projeto considerarem que um invento resultante de um projeto patrocinado pela Fundação é original e tem potencial de mercado . A solicitação para depósito de patente é feita por meio de um formulário, disponível no site da Fundação, acompanhado das respostas a questionário com uma série de perguntas relativas à viabilidade técnica, maturidade do projeto, necessidade de protótipos, custos, entre outras, e de um relatório descritivo do invento Esse relatório deve estar

suficientemente detalhado para ser analisado pelos assessores da FAPESP. As propostas são analisadas levando-se em conta os quesitos originalidade e potencial de mercado "Aprovado o pedido, o relatório será utilizado como base para a própria patente", explica Zanotto O texto final a ser encaminhado ao INPI, em perfeito "patentês", será redigido por especialistas de um escritório contratado para esse fim.

A FAPESP financia o depósito da patente no INPI e disponibiliza recursos para viagens, garantindo a mobilidade dos inventores na fase em que eles negociam o licenciamento do produto, tanto no Brasil como no exterior, por um período de 12 meses. Encerrado esse prazo, se o produto estiver licenciado, a FAPESP

Em defesa da propriedade intelectual

O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) lançou um programa de estímulo à criação de núcleos de propriedade intelectual nas principais instituições acadêmicas do país. O objetivo do programa é garantir apoio aos pesquisadores que queiram registrar inventos, formular pedidos de patente ou negociar o seu licenciamento. Depois de identificar as universidades com potencial para a instalação dessas estruturas, o INPI realizará seminários, com o

apoio de especialistas, para consolidar o programa, que se estenderá por um período de dois anos. "O INPI foi muito tímido nas suas relações com as universidades no passado. Estamos nos esforçando em fazer convênios e implementar núcleos de propriedade intelectual e de transferência de tecnologia nas instituições acadêmicas que ainda não contam com esta estrutura", ressalta José Graça Aranha, presidente do INPI.

financia o depósito da patente no exterior. Caso contrário, o Nuplitec retira seu apoio e os inventores devem continuar negociando o licenciamento por conta própria. Quando um produto é patenteado, a titularidade é da FAPESP, já que ela é responsável e patrocinadora do pedido de depósito. No caso

de licenciamento, a expectativa é de que um percentual entre 1o/o e 5o/o do faturamento das vendas do novo produto desenvolvido por parceiros privados fique com o titular da patente. Desse percentual serão descontados os gastos dispendidos no processo de registro da patente, e o lucro líquido será dividido entre os

:t inventores, universidades ou institutos aos quais estejam vinculados A Fundação reservará para si uma terça parte desses recursos, que será utilizada no financiamento de novos projetos.

Quando o invento for patenteado com co-financiamento da iniciativa privada, a FAPESP dividirá com a empresa a titularidade Nesta hipótese, a sua participação no faturamento líquido das vendas do produto será de um quarto, sendo o restante compartilhado entre inventores,

Na avaliação de Maria Beatriz Amorim, coordenadora do programa, a criação desse núcleo é fundamental para o estreitamento das relações entre as universidades e o setor produtivo. "Os núcleos das universidades americanas negociam acordos de licenças, fazem os depósitos de patentes e geram milhões em negócios para as universidades e seus pesquisadores", ela diz. Cita como exemplo a Carnegie Mellon University e seus inventores, que, em 1998, obtiveram mais de US$ 30 milhões em royalties e ganhos de capital.

universidade ou instituto de pesquisa e o parceiro privado. Esse foi o modelo utilizado na patente do Evasins, depositada no INPI com o apoio do Nuplitec. O produto, desenvolvido pelo Centro de Toxinologia Aplicada (CAT), do Instituto Butantan, é princípio ativo de um protótipo molecular que será utilizado na produção de um fármaco com propriedades anti-hipertensivas. O Evasins será desenvolvido em parceria com o Consórcio Farmacêutico Nacional (Coinfar), formado pelos laboratórios Biolab-Sanus, Biosintética e União Química, com os quais a FAPESP compartilha a titularidade e, futuramente, também os resultados das vendas. O novo fármaco concorrerá com o Captropil, anti-hipertensivo produzido pela Squibb, que garante à empresa faturamento anual de US$ 5 bilhões.

O Nuplitec ainda não tem uma dotação orçamentária específica, já que o programa tem caráter experimental e deverá se expandir junto com a demanda por patenteamento de inventos. "É mais um serviço à comunidade", sublinha Zanotto. A estimativa é que exista, nas universidades e institutos de pesquisa paulistas, uma demanda reprimida de pelo menos uma centena de patentes a cada ano. •

FUNDAÇÕES

Por uma agenda e mais recursos para C&T

Governos descumprem

lei e não repassam

verbas devidas às FAPs

As maiores fundações estaduais de amparo à pesquisa do país, com exceção da FAPESP, não recebem as verbas previstas na Constituição Federal de 1988, posteriormente regulamentadas nas constituições estaduais. O descumprimento da lei inibe a ação de fomento das FAPs para o desenvolvimento de pesquisa estratégica, e a irregularidade nos repasses dificulta o planejamento de ações a médio prazo.

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), por exemplo, que completou 15 anos neste mês de junho, espera contar, neste ano, com um

orçamento de R$ 36 milhões. Esse valor corresponde a menos da metade de 1% do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do Estado a que teria direito, segundo a Constituição mineira. Sua situação agora, no entanto, é melhor que a do ano passado, quando a instituição recebeu apenas 33,01% do total previsto. "Em seus 15 anos de existência, a Fapemig nunca recebeu o repasse total", afirma o professor Daison Olzany Silva, presidente da entidade.

A situação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (Fapergs) não é diferente. Sérgio Bampi, presidente, prevê que o orçamento da entidade, neste ano, chegue aos R$ 18 milhões, algo em torno de 26% do valor do repasse previsto na Constituição gaúcha. A mesma situação se repete no Nordeste. José Carlos Silva Cavalcanti,

presidente da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe), conta com R$ 10 milhões, até o final do ano, valor que corresponde à metade dos repasses previstos pela Constituição estadual, mas que é o dobro do que foi transferido no ano passado. No Rio de Janeiro, apesar de a lei também não ser cumprida, as perspectivas são otimistas: as verbas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj) devem saltar dos R$ 62 milhões, repassados em 2000, para a casa dos R$ 100 milhões, neste ano. Luis Fernandes, diretor científico da Fundação, afirma que o governador Anthony Garotinho vem aumentando substancialmente a dotação, desde o início de seu governo.

A relação das FAPS com os governos estaduais e, conseqüentemente, sua situação financeira, colo-

cam a seguinte questão : por que o modelo desenhado a partir da Constituição de 1988 não avançou nos Estados, com exceção de São Paulo? "Porque em São Paulo a ciência e a tecnologia tinham expressão política e uma base social sólida. O modelo de São Paulo tem história, e a FAPESP, anos de êxito em suas políticas, e isso consolidou sua imagem institucional", responde Carlos Américo Pacheco, secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia "O transplante desse mesmo modelo para outros Estados não deu certo."

Repasses mensais - De fato, a Constituição paulista de 1947 já previa que o Estado de São Paulo deveria destinar um mínimo de 0,5% de sua receita tributária a uma Fundação de Amparo à Pesquisa. Em 1960, uma Lei Orgânica criou a FAPESP, que só passou a atuar em 1962, quando os seus estatutos foram aprovados. Desde então, os repasses eram anuais e, em determinados períodos, irregulares ou sem a devida correção monetária. Em 1983, uma emenda à Constituição paulista garantiu que as transferências fossem mensais e, em 1989, o artigo 271 da nova Constituição do Estado ampliou o percentual para 1% da receita do ICMS. Em Minas, Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, ao contrário, até a reforma constitucional, não havia qualquer exigência constitucional que garantisse a transferência de recursos . Apesar dos percalços financeiros, muitas fundações de amparo à pesquisa, ressalva Pacheco, têm inovado e diversificado seu leque de atuação, abrindo programas novos, estimulando a demanda por tecnologia empresarial e articulando universidades e empresas. Mas não estão prontas para enfrentar o desafio de responder a uma agenda ampla de ciência e tecnologia, tarefa que é realizada no âmbito da secretaria. "Em São Paulo, a FAPESP tem uma autonomia muito maior frente ao

sistema como um todo. Nos outros Estados isso não acontece. Ali, são as secretarias que alavancam o desenvolvimento da ciência e tecnologia. E essa estratégia, no meu entender, tem uma agenda mais promissora do que aquelas que se organizam exclusivamente a partir das fundações de amparo à pesquisa", completa. Alguns Estados têm adotado propostas "interessantes" para alavancar o desenvolvimento da ciência e tecnologia, fora do desenho institucional, afirma . "Mas é fundamenta l que o Estado crie uma base política local que dê sustentação ao seu modelo " Cita os exemplos dos Estados do Ceará, Paraná e San t a Catarina, que

Outra estratégia que vem sendo debatida por lideranças vinculadas às fundações de pesquisa nos diversos estados é o fortalecimento do Fórum das Faps em defesa de seus interesses . No dia 12 de julho, véspera do início da 53a Reunião Anual da SBPC, estava agendado um encontro de representantes das diversas Faps, em Salvador, na Bahia, para avaliar o quadro financeiro e institucional das instituições.

Mobilização por recursos - O descumprimento da lei já está mobilizando pesquisadores e reitores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e de outras institui-

Recursos repassados a Fundações - % sobre exigência legal

1) Não incluídos os recursos do governo federal e rendas próprias

2) NO- Não disponível

SP: FAPESP. Demais Estados:

têm adotado políticas de desenvolvimento promissoras, ainda que distintas, "sem obrigatoriamente passar pelas fundações de amparo" No que se refere ao descumprimento da lei que obriga o repasse de recursos para as fundações, ele acredita que, "se a União conseguir sinalizar que tem recursos para os Estados que se dispuserem a fazer programas importantes, será possível induzir mudanças de conduta dos governos estaduais "

Carlos Henrique Brito Cruz, presidente da FAPESP, reforça as observações de Pacheco. ''A União pode ter um papel fundamental para estimular o investimento dos governos nas Faps. Em vez de substituir recursos, por exemplo, o Governo Federal deveria estimular e viabilizar os investimentos estaduais", diz.

ções mineiras que, em meados de junho, se preparavam para entrar com uma representação contra o governo estadual. Até o início de junho, dos R$ 36 milhões prometidos, só R$ 7,1 milhões tinham sido efetivamente repassados à Fapemig. Ação semelhante foi impetrada pela Comissão de Educação, Cultura, Ciência e Tecno logia da Assembléia Legislativa de Minas, junto à Procuradoria Geral do Ministério Público O presidente da Fapemig conta que, em novembro de 2000, foi intimado pela Promotoria Pública a dar explicações sobre a diferença na transferência de recursos para a fundação. Ele afirma que o Tribunal de Contas do Estado há anos observa que o cumprimento da Constituição só se dá no plano do lançamento contábil, com a in-

Fontes:
Levantamento realizado pelo professor Alberto Carvalho da Silva, do Instituto de Estudos Avançados, USP

tegralização do repasse legal nos últimos dias do ano, quando já não há tempo hábil para o aproveitamento efetivo dos recursos. A falta de recursos compromete, por exemplo, o programa de bolsas mantido pela Fapemig. Atualmente, são financiadas 1.996 bol-

sas de mestrado e 744

Percentual destinado à Ciência e Tecnologia previsto nas Constituições estaduais em

lsP

11 1% da Receita Tributária

MG( * ) 3% d a Receita Or çament ária

RJ 2% da Receita Tributária

RS 1,5% da Receita Tributária

PE 1,0% da Rece ita Tributária f (•) Em 1994,0 repasse foi reduzido para 1%

Repasse constitucional ( milhões de R$)

São Francisco e ao Pólo Gesseiro, no norte de Pernambuco. Em 1999, a Facepe firmou parcena com a FAPESP para o seqüenciamento do genoma da cana-deaçúcar, para assumi-lo

I integralmente, depois de um ano.

A Facepe não oferece bolsas de mestrado e doutorado. A Fun- de doutorado, todas no Brasil. Desse total, 270 foram concedidas em 2001.

No Rio Grande do Sul, as tentativas de responsabilizar governos estaduais pelo descumprimento da lei acabaram emperradas, afirma o presidente da

Fapergs. ''Agora, estamos apostando na negociação política fundamentada na apresentação de resultados;' afirma. Bampi se fia na promessa do governador Olívio Dutra de que o governo fará desembolsos mensais para a instituição, conforme previsto na Constituição estadual. "O compromisso está sendo mantido, com repasses regulares", diz. O orçamento previsto para este ano, de R$ 18 milhões, ele comemora, já representa um crescimento de 33% em relação ao volume de recursos financeiros de 2000, de R$ 13,5 milhões.

O fato de o dispositivo constitucional gaúcho prever que a transferência de verbas seja feita mensalmente, em duodécimos, deixa a Fapergs em posição um pouco mais confortável que a de sua congênere mineira, já que evita a complementação formal de recursos no fechamento dos exercícios fiscais. A regularidade da entrada de verbas não significa, porém, que a lei esteja sendo obedecida ao pé da letra. Se o orçamento da Fapergs atingir o valor projetado por Bampi, em 2001, corresponderá a 26,86% dos R$ 67 milhões devidos à Fundação. "Em 11

/ 10,5

anos de vigência da lei complementar que regulamenta o repasse, nenhum governo a cumpriu", comenta Bampi. Nos últimos 10 anos, o Estado do Rio Grande do Sul acumulou uma dívida de R$ 251 milhões com a Fapergs. No mesmo período, os recursos efetivamente repassados somaram R$ 80,7 milhões.

Dívida pública- "Em Pernambuco.e em outros Estados, o problema não é a falta de vontade política, mas dificuldades decorrentes do volume da dívida pública", pondera o presidente da Facepe. O biênio 1998/1999 foi particularmente problemático. "Os repasses foram praticamente sustados e o orçamento total foi de apenas R$ 3,69 milhões", lembra Cavalcanti.

Desde a regularização dos repasses, no ano passado, a Facepe tem consolidado programas de fomento. Entre os novos projetas ele destaca os das áreas de tecnologia da informação, biotecnologia, saúde e meio ambiente. Cita também os projetas relacionados ao Pólo Médico da Região Metropolitana de Recife, à agricultura irrigada do

2000

PrevJrep.

/62,0

56,5/11 ,7

75,7/25,0

dação já conseguiu que a Federação das Indústrias de Pernambuco (Fiepe) patrocine algumas bolsas . Na área de iniciação científica, a Facepe mantém convênio com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que, atualmente, provê 59 das 150 bolsas oferecidas no Estado.

No Rio de Janeiro, o orçamento da Fundação saltou de R$ 27,4 milhões em 1998, para R$ 62 milhões em 2000. "Estamos vivendo um momento sem precedentes': diz Fernandes. O aumento das verbas possibilitou, por exemplo, a implementação do Programa de Apoio Emergencial à Infra-Estrutura de Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, com recursos de R$ 3,5 milhões. " Também assumimos uma série de projetas do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PADCT)': conta Fernandes.

Saídas estratégicas - A Fapergs tem tem firmado parcerias com a iniciativa privada. "Em todos os projetas temáticos ou setoriais, prevemos uma contraparte entre 20% e 30% de empresas públicas ou privadas", diz Bampi. A Fapemig começa a desenvolver parceria com o setor privado como o Programa de Apoio às Micro e Pequenas Empresas e o de indução para os setores de minérios, gemas e jóias e medicamentos genéricos. •

Instituição
Valor previsto/valor repassado

EDITAL PARA APRESENTAÇÃO DE PROJETOS DE PESQUISA tff

Inovação Tecn oló gic a

PEQUENAS EMPRESAS

AFundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo- FAPESP, por meio do Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas -PIPE, financia projeta s de pesquisa destinados à inovação tecnológica de produtos , processos ou serviços com potencial de retorno econômico ou socia l. As propostas podem ser inscritas até 31 de março, 31 de julho e 30 de novembro. Desde 1998, o PIPE apóia mais de 140 projetas.

As condições para apresentação de propostas são as seguintes:

Empresa - Qualifica-se para apresentar proposta empresa sediada no Estado de São Paulo, com até 100 empregados A empresa poderá ser constituída após a aprovação do projeto. Neste caso, a FAPESP somente fará a contratação do projeto após a constituição formal da empresa.

Pesquisador - Opesquisador responsável pela elaboração e desenvolvimento do projeto deverá evidenciar experiência e competência na respectiva área de conhecimento, não sendo exigida nenhuma titulação de pós-graduação . Deverá também dedicar um mínimo de 20 horas semanais à execução do projeto. Se o pesquisador não pertencer ao quadro de funcionários da empresa, poderá ser solicitada uma bolsa da FAPES P para dedicar-se ao projeto.

Solicitação de apoio : As propostas devem ser encaminhadas à FAPESP, pelo pesquisador com o endosso da empresa, em formulário específico acompanhado da documentação descrita na página www fapesp.br/ pipe.htm. Peça central para avaliação da proposta é o Projeto de Pesquisa , que deve descrever claramente a inovação pretendida , seu potencial comercial e a metodologia a ser utilizada Os projetas devem ser organizados abrangendo três fases.

Fase 1: com duração de seis meses e financiamento de até RS 75 mil, destina-se à pesquisa de viabilidade técnica da inovação proposta

Fase 11: com duração máxima de dois anos e financiamento de até RS 300 mil, destina-se ao desenvolvimento propriamente dito do projeto de pesquisa. Nesta fase, somente serão financiados os projetas considerados bem sucedidos na Fase I e que apresentem um bem estru turado Plano de Negócios para a comercia lização da inovação resultante . Para a elaboração desse plano, as empresas poderão contar com a orientação do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - SEBR AE-SP.

Fase III: destina-se ao desenvolvimento de produtos com base nos resultados obtidos na fase anterior. Nessa fase , os custos caberão exclusivamente à empresa, podendo a FAPESP apoiá-la na busca de financiamento de outras fontes . Para esse fim, a FAPESP firmou convênios com o SEBRA E e com a Financiadora de Estudos e Projetas - FINEP e tem buscado estabelecer contatos com empresas de capital de risco que possam efetivamente apoiar a produção de inovações para o mercado

Próximo prazo para apresentação de propostas: 31 de julho de 2001.

Seleção dos projetas : A análise das propostas segue a sistemática de avaliação pelos pares, sendo cada proposta encaminhada a assessores ad hoc, especia listas na área em que se enquadra o proje to de pesquisa Nenhum setor da atividade económica é priorizado.

• Informações detalhadas, formulários e a lista dos pro jetas já financiados pe lo PIPE , podem ser ob tidos na pág ina www.fapesp.br/ pipe htm ou à rua Pio XI, 1500, Alto da Lapa, São Pau lo- SP.

• Informações adicionais podem ser solicitadas por correio eletrônico no endereço intec-pipe@fapesp.br

IA E

BIOLOGIA MOLECULAR

Mapeamento de proteínas

Rede de 761aboratórios

vai analisar estrutura e função de 200 moléculas

AFAPESP aprovou o financiamento a 16 grupos de pesquisa que formarão a Rede de Biologia

Molecular Estrutural - SMOLBnet, para o estudo das estruturas tridimensionais e funções de cerca de

200 proteínas. Cada um dos grupos receberá US$ 78 mil, ao longo de quatro anos de trabalho, para analisar entre quatro e oito proteínas. No caso de alguns laboratórios, esse valor poderá atingir a cifra de US$ lOS mil, se forem somados os recursos para a aquisição de equipamentos. A expectativa é que as pesquisas forneçam pistas para o desenvolvimento de medicamentos de combate a diversos tipos de doenças.

a sua expressão em proteína. Alguns estão equipados para chegar à fase de purificação e apenas três grupos têm experiência em cristalização. Todos poderão utilizar a infra-estrutura do Centro de Biologia

Molecular Estrutural (CBME), instalado no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas. "Podemos apoiá-los em todas as etapas da pesquisa, desde a clonagem do gene, na sua expressão em proteína, na purificação e cristalização das proteínas, até a determinação de sua estrutura por difração de raios X", diz Rogério Meneghini, diretor do CBME. O centro também dispõe de dois aparelhos, adquiridos com recursos da FAPESP, que permitem a análise da estrutu-

As proteínas são compostos orgânicos com estruturas muito versáteis. São responsáveis por quase todos os processos biológicos de um organismo e participam dos processos orgânicos de grande complexidade. O conhecimento de sua estrutura e funções em células normais pemitirá comparar a manifestação em células doentes. Essas informações poderão fornecer pistas importantes para que os cientistas decifrem o processo da doença e ra de proteína por resso.;:: nância nuclear magnética. É ;;; com o auxílio de equipao "' mentos como esse que o " CBME está analisando a esg trutura de duas dezenas de õ' proteínas, algumas delas com potencial para combater diversos tipos de doeng ças como hepatite B, malá3 ria e câncer.

Estrutura

Os grupos selecionados vão analisar os genes mapeados nos projetos Genoma Humano do Câncer, Genoma Cana e nos genomas das bactérias Xylella fastidiosa e Xanthomonas citrii. Também estão sendo propostos estudos da estrutura de proteínas ligadas a outros problemas de saúde pública que já vinham sendo estudados pelos diversos laboratórios.

A SMOLBnet deve ampliar a competência brasileira no campo da biologia molecular estrutural, contribuindo para a capacitação de pesquisadores e para o aumento da quantidade de proteínas estudadas. O Brasil participa, atualmente, com cerca de 0,25% da produção mundial de proteínas analisadas.

cheguem a diagnósticos mais eficazes e novos tratamentos. A partir da análise da estrutura da proteína associada ao HIV, por exemplo, foi possível desenvolver inibidores de

Laboratórios selecionados

A expectativa é que, ainda nesta década, seja possível chegar ao primeiro grupo de produtos do genoma

estrutural, como, por exemplo, o aperfeiçoamento de formas de diagnósticos de tumores e o desenvolvimento de tratamentos e inibidores de moléculas protéicas ativas em doenças graves. • protease,presentes no coquetel de medicamentos utilizado, desde 1996, por portadores da Aids.

Apoio do CBME -

A grande maioria dos laboratórios que integrarão a rede já realiza a clonagem do gene até

Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética· Unicamp

Depto. de Flsica Aplicada do Instituto de Física de São Carlos- USP

Depto. de Histologia e Embriologia do Instituto de Ciências Biomédicas- USP

Depto. de Bioquímica do Instituto de Química - USP

Depto. de Ginecologia - Unifesp

Depto. de Microbiologia do ICB- USP

Depto. de Biologia, do Instituto de Biociências- USP

Depto de Biofísica da Unifesp e Universidade de Mogi das Cruzes (UMC)

Depto. de Biologia Celular e Molecular e Bioagentes Patogénicos da FMRP- USP

Instituto de Química da Unesp de Araraquara

Depto. de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia - Unifesp

Depto. de Bioquímica do Instituto de Química - USP

Depto. de Microbiologia e Imunologia do Instituto de Biologia- Unicamp

Depto. de Física - Unesp

Depto. Bioquímica do Instituto de Química- USP

tridimensional de uma proteína de

MEDICINA

Echegam os médicos

FAPESP divulga relação de grupos afiliados ao Programa Genoma Clínico

Dezoito grupos de trabalho, coordenados por oncologistas e cirurgiões paulistas, afiliaram-se ao Programa Genoma Clínico do Cân-

cer, implementado pela FAPESP e Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, para analisar o desenvolvimento dos genes expressos em quatro tipos de manifestação do câncer: as doenças linfoproliferativas, tumores gastrointestinais, tumores neurológicos e de cabeça e pescoço. A Fundação e o Instituto colocarão à disposição dos grupos, por um período de dois anos, US$ 1 milhão para o financiamento de equipamentos e pessoal diretamente envolvido na coleta de material e dados clínicos dos pacientes.

Cada tipo de tumor será analisado por, no mínimo, seis grupos de clínicos e cirurgiões. Nas pesquisas, eles contarão com o apoio de outros quatro grupos, for-

mados por patologistas, responsáveis pela homogeneização dos critérios diagnósticos, classificação de tumores, entre outros, e por epidemiologistas que auxiliarão no planejamento dos projetas, como, por exemplo, na definição do número de pacientes da amostra e de estatísticas vitais. "Cada um dos coordenadores está ligado a grandes clínicas ou hospitais com seus próprios critérios diagnós-

Relação de coordenadores

Coordenadores

Alberto Alain Gabbai

Angelita Habr-Gama

Antonio Sergio Petrilli

Carlos Eduardo Bacchi

Carlos Gilberto Carlotti Jr.

Delcio Matos

Francisco Gorgonio da Nóbrega

Gisele Wally Braga Colleoni

Ivan Cecconello

Joaquim José Gama-Rodrigues

José Eluf Neto

Luiz Gonzaga Tone

Marcello Fabiano de Franco

Marcos Brasilino de Carvalho

Maria Lucia de Martino Lee

Nora Manoukian Forones

Patricia Maluf Cury

Paulo Andrade Lotufo

Pedro Michaluart Junior

Raul Cutait

Sergio Rosemberg

Silvia Regina Brandalise

Suely Kazue Nagahashi Marie

Venâncio Avancini Ferreira Alves

Vera Luiza Capelozzi

Vicente Odone Filho

Victor Wünsch Filho

ticos, classificação da doença, etc. No programa, é preciso unificar tudo isso de forma a se chegar a resultados comuns': justifica Marco Antonio Zago, coordenador do programa.

Instituições

Unifesp

USP

Unifesp

Unesp

USP-RP

Unifesp

Univap

Unifesp

USP

USP

USP

USP-RP

USP

Heliópolis Hospital

Unifesp

Unifesp

FMSJRP USP

USP

Hospital Sírio Libanês USP

Centro Infantil Boldrini

USP

USP

USP

USP

USP

No último dia 11, os grupos se reuniram pela primeira vez, para definir os tipos de tumores cujo desenvolvimento irão acompanhar. O segundo passo será iniciar a coleta de material biológico e as observações clínicas. A expectativa é de que, a partir do sexto mês do programa, os grupos já tenham material suficiente para iniciar as análises. "O material coletado será examinado por laboratórios a serem definidos", afirma Zago. Os laboratórios vão analisar a expressão genômica de cada tumor e comparar com o desenvolvimento de células normais. "Numa primeira abordagem, serão utilizados os clones do Genoma Câncer." A estratégia de pesquisa é associar o material biológico com o histórico do paciente, tipo de tumor, resposta a tratamento e evolução da doença. "E isso é crítico para que se tenha algum tipo de informação organizada': diz Zago. Antes do início da coleta de material, os coordenadores deverão pedir autorização para os comitês de ética de seus respectivos hospitais, e fazer termos de consentimento associados a uma explicação que será apresentada ao paciente, sob supervisão do comitê de ética.

Uma das principais metas do Programa Genoma

Clínico é transferir o sucesso dos projetas básicos do Genoma Câncer para a parte aplicada, de acordo com Zago. Outro ponto relevante é que o programa pretende criar um modelo de organização de pesquisa a partir de grupos colaborativos, com metas específicas. "Se der certo, esse modelo pode valer para outros temas médicos relacionados, como por exemplo, a diabetes." •

Genes de leucemia mielóide crônica
José Francisco de Gois Filho Kiyoshi lriya
IC Arnaldo Vieira de Carvalho USP

• Novas pesquisas contra a mentira

A CIA e o FBI estão financiando pesquisas para tentar driblar a mentira Os dois organismos de investigação norte-americanos estão escandalizados com os traidores que enganam facilmente o polígrafo - aparelho que detecta mudança em processos fisiológicos como batimentos cardíacos, pressão arterial e respiração. "A chegada de detectores de mentira de alta qualidade é só uma questão de tempo", afirmou ao jornal Boston Globe Stephen Kosslyn, professor de psicologia da Universidade de Harvard. A chave da questão é ter acesso direto ao cérebro, isto é, medir ondas cerebrais e o fluxo de sangue na caixa craniana, atividades que não podem ser controladas pelas pessoas. Kosslyn utiliza um scanner cerebral para verificar quais

áreas têm maior fluxo sanguíneo durante um interrogatório Embora seu trabalho ainda não esteja concluído, os resultados preliminares indicam que diferentes regiões do cérebro ficam ativadas conforme a pessoa mente ou diz a verdade. Outra experiência vem sendo feita por Lawrence Farwell, ex-aluno de Harvard que coordena o projeto Ciência das Ondas do Cére-

bro e trabalha num aparelho de impressões cerebrais. O equipamento capta a onda P300, ativada cada vez que um a pessoa vê um objeto familiar. O suspeito tem eletrodos ligados à cabeça diante de um computador,.que o fotografa. A técnica dá acesso a experiência visual passada. Por exemplo: se a pessoa olhar para uma série aleatória de fotos de armas, sem ativar

Chineses descobrem micromamífero

O que se pensava ser apenas um fragmento de osso descoberto em 1985, na China, reve lo u -se uma descoberta e tanto. Um fóssil de crânio de 12 milímetros é o menor mamífero encontrado até hoje. Semelhante a um rato (ilustração ao lado), pesando apenas 2 gramas e do tamanho de um clipe de papel, o pequeno fóssil só começou a ser estudado a partir de 1993. "De todos os animais dos períodos Triássico e Jurássico, esse é o que mais se assemelha aos mamíferos modernos", diz Zhe- Xi Lou, do Museu de História Natural Carnegie, em Pittsburgh (EUA), que o batizou de Hadrocodium wui. •

a onda P300, esses objetos presumivelmente são desconhecidos para ela. Mas se aparecer a arma do crime e a onda for ativada, então fica claro que o suspeito conhece a arma. Mesmo com esses avanços, há quem coloque em dúvida os novos métodos. " Jamais teremos 100 % de certeza", diz Paul Ekman, professor de psicologia da Universidade da Califórnia •

• Técnica mais barata para tratar vitiligo

O vitiligo, despigmentação progressiva da pele que a deixa esbranquiçada, ainda não foi totalmente desvendado. Não se conhecem todas as suas causas nem tratamentos absolutamente eficazes. Agora, um trabalho apresentado como tese de doutorado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) pelo professor Carlos Santos Machado, da Faculdade de Medicina do ABC, mostrou que há possibilidade de se obterem melhores resultados estéticos. Em vez de recortar fragmentos de pele do tamanho de confetes e implantar na pele, Machado raspa pedaços da epiderme normal (pigmentada) e aplica na região despigmentada. "A parte ralada se reconstitui normalmente", diz o médico. No tratamento anterior, a pele ficava com uma pequena elevação no local da aplicação, como se fosse uma verruga, e o aspecto não era bom. Há, ainda, outro tratamento, que consiste em retirar parte da pele normal e reproduzi-la em laboratório, procedimento extremamente caro, além de ser experimental Uma das principais vantagens da técnica desenvolvida por Machado é o preço, até dez vezes menor que o realizado em laboratório. "Um tratamento em uma área de 20 centímetros quadrados de pele custa por volta de R$ 350,00': diz. A limitação é que ele só pode ser realizado em pequenas áreas a cada sessão e nos casos em que a doença não esteja progredindo. Machado afirma que ainda não existe um método ideal contra a doença, mas uma série de procedimentos que se completam. "Os métodos que utilizam

transplante agem apenas nos efeitos e não nas causas", explica. "Mesmo assim, em alguns casos a cor não volta." •

• Nas bactérias,

a proteção das batatas

Os brasileiros estão seqüenciado o genoma da Chromobacterium violaceum, mas os norte-americanos é que descobriram: essa bactéria, encontrada no mundo inteiro, mostrou-se eficiente no controle de pragas agrícolas. De acordo com os estudos realizados pela equipe do entomologista Glenn Holbrook, da Universidade do Estado da Pensilvânia, Estados Unidos, a C. violaceum mata, em apenas três dias, 90% das larvas do besouro Leptinotarsa decemlineata, que ataca as plantações de batatas e adquiriu

•

resistência aos atuais pesticidas. Contra esse inseto também funcionaram a Serratia marcescens (eficência de 45%) e a Photorhabdus luminescens (100%). Em laboratório, Holbrook usou grande quantidade dessas bactérias, mas em uma plantação, por segurança, seriam aplicadas apenas as toxinas - ainda não identificadas - responsáveis por esse efeito.

• Palmeiras resistem a desmatamento

Um estudo sobre palmeiras deve ajudar a divulgar formas de aproveitamento racional dessa árvore e a desmatamento. A Coordenação de Pesquisas em Botânica do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) trabalhou com 29 espécies exis-

A difícil reprodução da águia

Depois do gorila-da-montanha, do tigre-de-bengala e do panda, chegou a vez da ave de rapina. Pesquisadores escoceses conseguiram reproduzir uma águia européia a partir de sêmen congelado, guardado em um banco genético. Thor, o filhote (foto à dir.), nasceu no final de maio no centro de reprodução do biólogo Graham Wishart e do especialista em falcoaria Andrew Knowles-Bronw. A reprodução de animais raros em laboratório é difícil porque não se conhece exatamente como funciona o sistema reprodutivo das fêmeas, como ovulação e gestação. Hoje, existem cerca de 800 exemplares da águia nas Ilhas Britânicas. •

tentes no Bosque da Ciência , no campus Aleixo 1, do instituto, para identificar as plantas com maior potencial econômico e alimentar, além de observar a adaptação nos seus diversos hábitats, como florestas de terra (onde se encontra a maioria das espécies), de capinarana e as periodicamente inundadas. Uma das principais conclusões é que as palmeiras resistem bem ao desmatamento e às queimadas, o que justifica sua ocorrência em grande número nas áreas degradadas "Isto não vale para todas as espécies, mas algumas são muito fortes, como o inajá (Maximiliana maripa) e o babaçu ( Orbignya phalerata)", afirma a pesquisadora Ires Paula Miranda, da Coordenação de Pesquisas. Só na Amazônia, há cerca de 180 espécies. Em razão do valor econômico, ecológico e ornamental, as palmeiras devem ser consideradas prioritárias em qualquer avaliação envolvendo produtos florestais. Segundo Ires, todas as partes das plantas são aproveitadas de alguma maneira: frutos e sementes servem como alimento e fornecem matériaprima para a indústria de cosmético, o caule é utilizado em móveis e assoalhas e as raízes têm uso medicinal. •

Batatas: bactéria C. vio/aceum mata 90% das larvas de besouro

Avanço em dose dupla

Seqüenciamento da Xylella da uva ajuda a entender o amarelinho

Em meados de junho, quando terminaram o seqüenciamento do código genético da bactéria Xyl ella fastidiosa que provoca a doença de Pierce, um mal devastador para as videiras da Califórnia, os pesquisadores do projeto Genomas Agronômicos e Ambientais, um dos braços do Programa Genoma FAPESP, sabiam que tinham em mãos uma boa notícia não só para os produtores de vinho da costa oeste norteamericana. As novidades interessavam também aos plantadores de laranja do estado de São Paulo, que, de forma indireta, podem vir a ser beneficiados com o final do trabalho. Como assim?

É que o mapa genético da Xylella da uva forneceu pistas importantes para o melhor entendimento do genoma do primeiro fitopatógeno seqüenciado no Brasil (e no mundo): o da linhagem da Xy lella fastidiosa que causa a Clorose Variegada dos Citros (CVC), a popular praga do amarelinho, nociva aos laranjais.

Comparando o material genético das duas cepas, os pesquisadores identificaram trechos que podem estar associados ao processo de infecção da Xyl ella nos citros. "Essas regiões merecem ser objeto de estudo no futuro para determinarmos se realmente estão ligadas à doença causada pela bactéria nos laranjais", diz

Marie-Anne Van Sluys, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB/USP), uma das coordenadoras do projeto que mapeou o DNA da Xylella da uva.

Um desses trechos é uma seqüência de 70 mil pares de base (unidades químicas que compõem o DNA de um organismo) só encontrada em bactérias especializadas em atacar laranjas. A seqüência está presente no genoma da Xylella da CVC e uma

A Xylella da uva entupindo os vasos condutores de seiva e uma videira atacada: avanços na compreensão da infecção

parte dela se encontra no da Xanthomonas citri, bactéria causadora do cancro cítrico, cujo código genético foi desvendado pelo Programa Genoma FAPESP. Essa seqüência, porém, não foi identificada na Xylella da uva nem em outra variedade da Xanthomonas, a campestris, que não infecta os laranjais.

Outra constatação dos pesquisadores paulistas: o genoma da Xylella da uva tem várias cópias de genes possivelmente associados ao processo de adesão da bactéria ao vetar ou ao hospedeiro. Os cientistas suspei-

tam de que, sem esses genes, a bactéria não consiga se manter presa ao inseto que a transmite ou à planta contaminada.

Parecidos, mas não iguais - Os genomas das duas Xylellas são muito parecidos, mas não iguais. O da bactéria especializada em atacar a uva é menor e não apresenta alguns trechos identificados no patógeno da laranja. Tem cerca de 2,5 milhões de pares de bases, 200 mil a menos que o da causadora do amarelinho. Os genes codificados pelos dois genomas são os mesmos em mais de 90% dos casos. "Constatamos, porém, muitos rearranjos internos", diz Mariana Cabral de Oliveira, também do IB/USP, outra coordenadora do projeto. " Cada Xylella apresenta uma ordem própria de aparecimento de alguns genes ou regiões genéticas ."

Por ora, a Xylella da uva apresenta 3.400 regiões candidatas a serem reconhecidas como genes (a Xylella da CVC tem cerca de 2.800 genes). Os

pesquisadores evitam chamar essas regiões de gene porque sabem que o número ainda não é definitivo. "A quantidade de genes deve cair para cerca de 2.600 à medida que refinarmos o processo de anotação do genoma", diz João Paulo Kitajima, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador de bioinformática da Xy lella da uva.

Anotar um genoma é identificar as regiões que são genes e dizer, sempre que possível, que proteínas esses genes geram. Os dados iniciais do seqüenciamento da bactéria da uva são

resultado de um processo de anotação automatizado, feito com auxílio de programas de computador. O próximo passo será efetuar a anotação à mão, mais detalhada.

Acordos - O seqüenciamento da Xylella da uva faz parte de um acordo de cooperação assinado em agosto do ano passado entre a FAPESP e o United States Department of Agriculture (USDA), órgão equivalente ao Ministério da Agricultura americano A FAPESP e o USDA dividiram, meio a meio, o custo total da empreitada, de US$ SOO mil. Dos US$ 250 mil investidos pelo USDA no projeto, uma parte da quantia veio de verbas do próprio departamento e outra de repasses que lhe foram feitos pela American Vineyard Foundation (AVF), associação dos produtores de vinho da Califórnia, e pelo California Department of Food and Agriculture (CDFA). Preocupado com o avanço da doença de Pierce sobre as parreiras da Califórnia, principal região vinícola do país, o Serviço de Pesquisa Agrícola do USDA resolveu convidar os cientistas paulistas para realizar o seqüenciamento da bactéria que causa essa praga. Afinal, eles já tinham feito o mesmo trabalho na Xylella que provoca a CVC.

Num desdobramento da parceria, a FAPESP acaba de firmar um novo acordo com os americanos. Os pesquisadores paulistas vão fazer a montagem e anotação dos genomas de duas variedades da Xylella fastidiosa que foram quase totalmente seqüenciados nos Estados Unidos, a que ataca a amendoeira e a que infecta a planta espirradeira. O convite para executar o trabalho foi feito no ano passado, mas só agora formalizado. No projeto, serão investidos US$ 100 mil. A FAPESP entrará com 50% do valor, e o USDA, com US$ 25 mil, mesma soma a ser aplicada pela AVF. Para os pesquisadores paulistas, a montagem de mais dois genomas de Xylella vai enriquecer ainda mais seus conhecimentos sobre a bactéria. •

ConSITec

Você só ganha • o JOgo com uma equipe entrosada

No esporte ou na atividade empresarial, time vencedor é o que combina esforços. Por isso a FAPESP criou o ConSITec- Consórcios Setoriais para Inovação Tecnológica. Eles devem reunir no mínimo três empresas de um mesmo setor industrial e um ou mais pesquisadores paulistas para a realização de pesquisa tecnológica destinada ao desenvolvimento de produtos ou processos ou à solução de problemas do setor. A FAPESP entra com uma parte significativa dos recursos, cobrindo até 50% dos investimentos necessários por até seis anos, dentro de um limite anual de R$ 200 mil por consórcio. Será financiado apenas um consórcio por setor e, quando formado por pequenas empresas, não há necessidade imediata de contrapartida. Os projetas podem ser apresentados em qualquer época do ano.

Monte o seu consórcio, o seu time. E ganhe o jogo.

Acesse www.fapesp.br e obtenha mais informações.

Apenas mil das 30 mil espécies de abelhas conhecidas no mundo formam colônias e sociedades organizadas - as demais vivem solitariamente ou em colônias de organização menos complexa. O modelo clássico de estruturação colonial é o da A. mellifera, com uma rainha à frente das operárias e os zangões - os machosvivendo fora do ninho.

De acordo com as bases da ecologia comportamental, a forma mais eficiente de perpetuar a espécie- ou seja, conservar os genes - requer que as operárias abram mão de sua função reprodutiva. As operárias aceitam trabalhar para a rainha - que é fecundada por

Dia-a-dia das guaraipo: operárias voltam ao ninho, uma delas trazendo pólen (nas patas)

mais de uma dezena de machosapenas porque esta é que vai gerar os indivíduos geneticamente mais próximos delas: outras operárias, todas irmãs, com as quais compartilham genes. Se tivessem filhas, as operárias completas (filhas do mesmo pai e da mesma mãe) passariam apenas 50% de seus genes. Para elas, do ponto de vista genético, é mais vantajoso ter irmãs do que filhas.

Na guaraipo, como há mais de

uma rainha na colônia, nem todas as operárias são irmãs . Algumas são primas ou exibem outro grau de parentesco, visto que as múltiplas rainhas tendem a ser mãe e filha ou irmãs. Em compensação, para reforçar os laços familiares, cada rainha da guara1po parece cruzar com apenas um macho, diferentemente do que acontece com a abelha líder da A. mellifera. Mas, no final, o resultado é semelhante ao da abelha de mel: há

Genes iguais em ordem diferente

O seqüenciamento do DNA mitocondrial da Melipona bicolor, realizado no IB/USP, produziu um dado interessante : a abelha nativa apresenta exatamente a mesma quantidade e tipos de genes que a Apis mellifera, até então a única espécie de abelha a ter essa área genética mapeada. Além de exibirem uma seqüência comum dedicada à replicação de seus respectivos DNAs mitocondr i ais, as duas espécies têm 37 genes. Todos com funções idênticas: 13 são responsáveis pela produção de proteínas, 22 pela síntese de RNA transportador e 2 pela de RNA ribossômico.

As semelhanças param por aí. O DNA mitocondrial da M. bicolor tem cerca de 18.500 pares de bases, 2.000 a mais que o da A. mellifera. Mas não é essa diferença de tamanho que intriga Maria Cristina Arias, coordenadora do Laboratório de Genética e Evolução de Abelhas do IB/USP, cuja equipe executou o seqüenciamento. Para sua surpresa, embora sejam iguais, os genes das duas espécies estão espalhados distintamente no DNA mitocondrial de cada inseto. Se na guaraipo um gene está em determinado trecho da seqüência, na abelha do mel ele aparece em outro lugar. "Isso é um

diferenças genéticas entre as abelhas, apontadas como fontes dos conflitos nas colônias.

Tendência à divisão- Nas colônias de guaraipo, como nas de qualquer espécie de abelha, rainhas não são rebaixadas de status , nem uma operária pode ganhar o controle do ninho ou dominar colegas. Ainda assim, ali acontecem coisas intrigantes. Embora tenha observado ninhos liderados

achado em termos evolutivos': diz a bióloga. "Sempre acreditamos que espécies de uma mesma família taxonômica tinham não só genes mitocondriais iguais, mas também uma igual ordenação desses genes." A tendência à manutenção praticamente intacta do DNA mitocondrial se deve a uma peculiaridade desse tipo de material genético, segundo Maria Cristina. Na maioria dos seres vivos, o DNA mitocondrial é passado entre as gerações apenas pela linhagem materna da espécie, sem qualquer contribuição paterna. Isso diminui a possibilidade de recombinação genética, perpetuando um número limitado de variações na composição do DNA

por uma só rainha, Vera Lúcia notou que a organização social típica da guaraipo são colméias com duas ou três rainhas e às vezes até quatro ou cinco. Já se viu essa característica esporadicamente em outras espécies, mas não como padrão da espécie, "Ninhos comandados por mais de uma rainha são um traço mais comum em colônias de vespas e de formigas", diz ela.

Masporque é existem colônias de guarai- iii po com muitas rainhas quando o padrão entre as abelhas sociais parece ser o da A. mellifera? Ninguém sabe ainda. Cogita-se que elas seriam descendentes de espécies mais primitivas ou fruto de ambientes com pouco espaço, o que teria favorecido a coexistência de várias líderes num só ninho.

Há quatro anos e meio no Brasil, o biólogo holandês Dick Koedam, que deixou a Universidade de Utrecht para ser colaborador no Laboratório de Abelhas da USP, observou um comportamento absolutamente fora do normal em rainhas da guaraipo.

mitocondrial entre os orgamsmos com um ancestral comum do sexo feminino. Como todas as 30 mil espécies de abelha do mundo, a M. bicolor e a A. mellifera pertencem a uma mesma grande família de insetos, Apoidea. Logo, as duas espécies devem ter um ascendente comum em algum momento do passado. O fato de suas mitocôndrias conterem material genético com um grau de diferença maior que o esperado configura um novo enigma. "Vamos ter de seqüenciar o DNA mitocondrial de outras abelhas para entender o que acontece com a Melipona bicolor e a Apis mellifera."

Artistas da polinização

As abelhas indígenas sem ferrão, os chamados meliponíneos, são aliadas da agricultura nacional. Polinizadoras espontâneas das matas nativas do país e mais mansas do que a Apis mellifera, podem ser utilizadas em estufas

A jataí: aliada da agricultura brasileira para aumentar a produtividade e a qualidade do que se planta. Já há estudos mostrando que os frutos polinizados exclusivamente por abelhas são . . maiores e mms saborosos. "Nos países do hemisfério norte, onde há um declínio na quantidade de polinizadores naturais, esse tipo de pesquisa já é algo corriqueiro", diz Vera Lúcia Imperatriz Fonseca, da USP.

No Brasil, ainda não se adotam abelhas como polinizadoras das plantações - nem mesmo a A. mellifera, vista apenas

como fornecedora de mel. Mas a situação começa a mudar. Em Atibaia, a bióloga Kátia Malagodi Braga testa o emprego de abelhas nativas para polinizar estufas de morangos, cultura típica da região. Das cinco espécies de meliponíneos analisadas, uma se mostrou ótima candidata para desempenhar essa função, a jataí ( Tetragonisca angustula).

Exemplares de jataí visitavam regularmente as flores da cultura, levando o pólen necessário para a fertilização da planta. E quando nasciam os morangos propriamente ditos, as jataís, ao contrário de outras abelhas, não danificavam a parte comestível do fruto. "Os frutos que as jataí polinizaram me parecem maiores e melhores", diz Osvaldo Maziero, produtor de morangos e dono da propriedade onde é feito o experimento. Kátia também está satisfeita com os resultados da pesquisa. "Para avançar, precisamos agora dominar o manejo da jataí em estufas de morango", afirma.

Morangos polinizados por abelhas: frutos maiores e mais saborosos

Como nobres modernos, elas até trabalham. Esporadicamente, produzem cera, como se provou por análises químicas. "A Melipona bicolor é fascinante", diz Koedam, que já estudou na Costa Rica os hábitos de outra espécie sem ferrão abundante no Brasil, a jataí ( Tetragonisca angustula). Outro dado surpreendente da guaraipo: as rainhas convivem em tranqüilidade, sem grandes disputas, num mundo onde a partilha de liderança não parece ser empecilho ao desenvolvimento do grupo. Experi-· mentos no IB mostram que a retirada de uma das rainhas de colônias com duplo comando não altera sua organização. Na maioria dos casos, após alguns meses, uma segunda líder é criada e aceita por todo o grupo, até pela primeira rainha. Isso mostra

Organização Colonial e Padrões

Vera Lúcia e as guaraipo: rainhas que trabalham e operárias rebeldes de Reprodução em Abelhas Indígenas

MODALIDADE Projeto temático

COORDENADORA

VERA LúCIA IMPERATRIZ FONSECAInstituto de Biociências da USP

ovo reprodutivo. Muitas vezes uma deze-

INVESTIMENTO na de operárias

R$ 161.883,17 e US$ 106.471,00 age dessa forma, sucessivamente.

que para essa abelha sem ferrão é mais interessante contar com múltipla chefia do que com comando único.

Rainhas enganadas - A base da escala social da guaraipo também fornece dados igualmente extraordinários.

Vera Lúcia colheu evidências de que algumas operárias podem demonstrar comportamento individualista e enganar as rainhas. Sua equipe filmou ninhos em que uma operáriamembro, portanto, da casta responsável por fornecer alimento e construir as células onde as rainhas depositam o óvulo fecundado que vai gerar um descendente- articula uma artimanha. Ela espera uma das rainhas botar um ovo e, depois que a líder deixa o local, coloca um ovo reprodutivo seu e, finalmente, fecha a célula. Às vezes, outra operária percebe a artimanha da colega contra a rainha e resolve intervir: numa atitude igualmente individualista, devora o ovo da companheira de casta e o da rainha e bota- ela também! - um

Em ninhos de A. mellifera, é comum uma operária policiar o comportamento das demais. Não é um evento banal, mas também não é raro. Se nessa espécie o policiamento pretende garantir a integridade dos ovos da rainha e punir as operárias infratoras, na guaraipo a vigilância pode levar a uma nova transgressão: Apesar da rebeldia, as operárias de guaraipo parecem não manifestar nenhuma preferência em termos de chefia. Atendem a todas as rainhas da colônia com igual dedicação.

Vera Lúcia e seus colaboradores estão convencidos de que algumas operárias de guaraipo são, na verdade, especializadas em botar ovos reprodutivos, um indicativo de que a divisão interna das tarefas nessa espécie pode apresentar diferenças significativas em relação ao que ocorre nos ninhos de A. mellifera. A partilha de funções entre as operárias da abelha de mel é feita em função basicamente da idade dos membros da colméia . Ao longo de sua breve vida (40 dias no verão ou 140 no inverno),

uma operária de A. mellifera desempenha todas ou a maioria das funções reservadas a essa casta. Na guaraipo, esse padrão é parcialmente mantido, mas algumas operárias parecem se dedicar quase exclusivamente a botar ovos reprodutivos.

Sexo das abelhas- O comportamento reprodutivo das rainhas ainda intriga. Com quantos machos elas cruzam? Ainda não se consegue provar se com apenas um ou vários. A hipótese mais aceita vem de um trabalho feito nos EUA com 70 colônias de várias espécies de abelhas sem ferrão. A conclusão é que a rainha deve ser fecundada por apenas um macho. Para Vera Lúcia, esse também deve ser o padrão de comportamento da guaraipo

Os estudos sobre o sistema de comunicação entre rainhas e operárias da guaraipo - conduzidos pela bióloga Carminda da Cruz-Landim, do Instituto de Biociências da Unesp de Rio Claro - estão em fase inicial. Mas já há resultados. Constatou-se que a linguagem dessas abelhas sem ferrão é fundamentalmente de ordem química, à base de feromônios, substâncias produzidas por glândulas, como as de Dufour, as mandibulares e as tegumentárias, que sinalizam determinados comportamentos, em muitos casos de sentido sexual ou reprodutivo.

"Queremos descobrir como as rainhas e as operárias se portam diante de cada substância produzida por essas glândulas", diz Carminda . "Se entendermos como essas espécies nativas se comportam e estruturam uma colônia, poderemos aprender a manejar melhor os ninhos de guaraipo e de outros meliponíneos. Esse conhecimento pode ser também de grande interesse comercial ." •

Bolsas de pós-doutoramento da FAPESP.

O sistema brasileiro de pesquisa se expande.

A FAPESP está revolucionando sua política de pós-<:loutoramento, ampliando o prazo de duração das bolsas e possibilitando estágios no exterior dentro de uma concepção que torne o intercâmbio com centros de pesquisa de outros países produtivo para a ciência brasileira. Os bolsistas devem vincular-se aos mais importantes programas de pesquisa financiados pela Fundação. São centenas de projetas, em todas as áreas do conhecimento, que permitem uma sólida formação aos jovens doutores integrados a grupos de excelência. Para mais informações, acesse www.fapesp.br ou ligue (11) 3838 4000.

Projetos Temáticos (150 projetos de pesquisa)

Grandes equipes formadas por pesquisadores de diferentes instituições em busca de resultados científicos, tecnológicos e socioeconômicos de grande impacto

Programa Genoma (60 laboratórios)

Projetas com o objetivo de pesquisar genomas, identificar e analisar genes com impacto sobre o conhecimento genômico, a saúde humana e a produção agropecuária.

GOVU.NO DO ISTADODt: SÃO PAULO

Sec re ta r ia da Ciência, Tecno logia e Desenvo l vimento Econômico

Programa CEPID (10 centros de pesquisa)

Centros para desenvolver pesquisas inovadoras na fronteira do conhecimento, transferir seus resultados para os setores público e privado e contribuir para a criação de novas tecnologias e empresas.

Programas Jovens Pesquisadores (270 projetos)

Programa que fomenta a formação de novos grupos de pesquisa em centros emergentes do Estado de São Paulo

Programa Blota (25 projetos)

Projetas que visam ao levantamento e novos conhecimentos sobre a biodiversidade do Estado de São Paulo e outras regiões do país

Rua Pio XI, 1500 - Alto da Lapa 05468 -901 - São Paulo - SP Tel.: (11) 3838 4000 - www fapesp.br

Opessoal do zoológico de Sorocaba não costuma ter problemas

mals, mas, no m1c10 dos anos 90, chegou um cervídeo que pegou todos de surpresa: para uns, era sem dúvida um veado-mateiro (Mazama americana); para outros, levava todo o jeito de um veado-bororó-do-sul (Mazama nana).

Para resolver o impasse, chamaram o veterinário José Maurício Barbanti Duarte, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Jaboticabal, que já nessa época percorria o Brasil pesquisando cervídeos. Ele notou que o animal tinha as mesmas manchas que o veado-mateiro embaixo da cauda, do pescoço e entre as pernas. Mas o peso era intermediário entre essa espécie e outra, o bororó-do-sul. Duarte não soube o que dizer.

Somente anos depois é que o pesquisador da Unesp sedirnentou a conclusão: o animal de Sorocaba era nada menos que uma nova espécie de veado, que vive numa área restrita de Mata Atlântica no sul do Estado e nordeste do Paraná e foi batizada como veado-bororó-de-São-Paulo (Mazama bororo).

O bororó-de-

São-Paulo: .. ,. - 6 manchas no pêlo D iguais às do mateiro, mas

apenas 36 13 14 15

cromossomas

Duarte, com esse trabalho, reforça a importância de se estudar o con-· junto de cromossomas (cariótipo) para diferenciar espécies antes consideradas uma só. Ao mesmo tempo, propõe o estudo mais acurado dos mecanismos de evolução dos animais. No caso desses veados, segundo ele, parece haver um rearranjo ou empacotamento de cromossomas, que leva à compactação do cariótipo e favorece a conservação da espécie.

As dife ren ça s - Duarte só pôde alimentar a suspeita de que teria encontrado em Sorocaba uma espécie ainda não descrita quando comparou seu cariótipo com o dos veados mateiro e bororó-do-sul. O número e a organização dos cromossomas - as estruturas celulares que abrigam o

DNA (ácido desoxirribonucléico, portador do código genético) - eram muito distintos, bem mais do que ele poderia imaginar. O mateiro tem 54 cromossomas, a maioria acrocêntricos -o centrômero, o nozinho que une as duas partes dos cromossomas, fica em uma das extremidades. O bororó-do-Sul tem 38 cromossomas, dos quais 20 metacêntricos- com o centrômero bem no meio.

Aquele do zoológico, objeto da dúvida inicial, tem 36 cromossomas, próximo do bororó-do-sul, sim, mas com estrutura bem diversa: só dois são metacêntricos e oito submetacêntricos, com o centrômero mais perto das extremidades, uma característica que reflete uma história evolutiva própria (ver acima). ''As diferenças são gritantes, não poderiam

Nas pegadas de uma

I e nova espec1e

Método de diferenciação cromossômica permite identificar, na Mata Atlântica do sul de São Paulo, um tipo brasileiro de cervídeo ainda desconhecido- mas já ameaçado de extinção

Bororó-do-sul: confundido

Veado-mateiro: o maior dos com o de São Paulo, mas sem manchas, o menor dos três tem 38 cromossomas

resultar do cruzamento de espécies diferentes", constata o pesquisador. Para ele, também não poderia ser uma aberração cromossômica ou uma variação dentro da mesma espécie, como acontece no veado-mateiro -em que o número de cromossomas varia de 44 a 54, mas o padrão geral do cariótipo não varia. Por isso, assegura: caso consegmssem cruzar, esses animais produziriam filhotes estéreis - híbridos, como o burro, produto do cruzamento de jumento e égua, que têm somente um par cromossômico diferente.

três tem também o cariótipo com mais cromossomas: 54, a maioria pequenos

Mas como explicar que os três animais estudados sejam tão parecidos por fora? "Essa semelhança é uma decorrência casual do processo evolutivo", diz o pesquisador.

Novas provas- Mas um animal sozinho não faz uma espécie. Duarte trabalhou em silêncio e acabou por encontrar mais três exemplares - um casal com seu filhote-, soltos no quintal da casa de uma criadora em Barra do Turvo, na divisa com o Paraná, todos com o mesmo padrão cromossômico do animal do zôo de Sorocaba.

Depois, examinou mais três exemplares- dois em Maringá, Paraná, e outro em Passo Fundo, Rio Grande do Sul -, mas concluiu que eram híbridos, frutos estéreis do cruzamento do mateiro com o bororódo-sul. Pelo tamanho, a cor do pêlo e as manchas, foram inicialmente confundidos com a suposta nova espécie. A diferença é que os híbridos tinham mais cromossomas: 46, a média dos cromossomas dos pais. Ainda não era o bastante. Duarte conseguiu uma prova mais forte a 15 de junho do ano passado: ele e sua

equipe de três biólogos e veterinários capturaram, após anos de busca, um exemplar da nova espécie que vivia livremente no Parque Estadual de Intervales, reserva da Mata Atlântica no sudoeste do estado (ver quadro).

É notável que se descubra agora uma nova espécie de mamífero de porte- especialmente por ser no Estado brasileiro mais populoso e com a paisagem natural já bem modificada por cidades, agricultura e pastagens. Recentemente, uma expedição encontrou novas espécies de roedores, só que no leste do Tocantins, uma área pouca estudada. Mesmo assim, a equipe de Duarte sabia em que mato estava entrando: ainda teria de juntar mais provas.

Lineu em questão - O primeiro complicador : os cervídeos do gênero Mazama, ao qual mateiros e bororós pertencem, vivem em matas fechadas e são extremamente ariscas. Por isso, ainda não existe estimativa das respectivas populações, como há para cervídeos mais conhecidos. O Brasil tem, por exemplo, cerca de 130 mil exemplares do veadocampeiro ( Ozotocerus bezoarticus) e 40 mil do cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus). Ambos vivem em áreas abertas - do Cerrado ou em várzeas- e podem ser contados e estudados por meio de vôos rasantes. Além disso, a comparação cariotípica ainda não é um método aceito unanimemente. Espécie de provados-nove, é muito usado para diferenciar animais muito semelhantes morfologicamente, sobretudo répteis, roedores e, mais recentemente, primatas como os macacos-da-noite Proposto pelo naturalista sueco Lineu - Carl Von Linné ( 1707-1778) -, o método de classificação (ou taxonomia) mais adotado considera as características externas (morfologia).

Atocaia do bicho

Para encontrar um ou mais animais e caracterizar a existência de nova espécie de cervídeo, os pesquisadores da Unesp fizeram cevas (iscas) com frutas e pasta de amendoim e as espalharam pelo Parque Estadual de Intervales, onde havia os maiores indícios de ocorrência da espécie. Apareceu anta ( Tapirus terrestris), paca (Agouti paca) e irara (Eyra barbara)- animal de cor-

Duarte vê limitações nesse método, que diferencia as espécies por carac-. teres físicos como forma e tamanho de patas, tipo de pêlo, entre outros. "No gênero Mazama, as diferenças morfológicas são sutis diante das cariotípicas': diz. Um veado-mateiro adulto pesa cerca de 30 quilogramas (kg) e um bororó-de-São-Paulo ao redor de 25 kg, embora ambos tenham as mesmas manchas e a mesma cor de pêlo, enquanto o bororódo-sul pesa de 13 a 15 kg e não tem manchas.

Fusão cromossômica - A hipótese de Duarte para as diferenças cariotípicas no gênero Mazama é a fusão de cromossomas. Assim, o veado-catingueiro (Mazama gouazoubira) manteve o cariótipo ancestral, de 70 cromossomas, todos pequenos e

po alongado que lembra a ariranha ou a lontra. Veado, nenhum.

Outra tentativa: atrair com urina e fezes de animais de cativeiro Também não funcionou. Tentaram ainda pedaços de madeira com secreção de glândulas da base do chifre ou da secreção vaginal. Nada .

Com o tempo, os pesquisadores encontraram trilhas - ou carreiras - de veado . Então, por meio de armadilhas fotográficas, descobriram que ele se alimenta dos frutos do araçá-do-campo (Eugenia sp.). Voltaram meses depois e se instalaram no alto de árvores por

A nova espécie com o radiocolar no Parque de lntervales : estudo interrompido dois meses depois por uma onça

com o nó do X na ponta. Já o bororó-de-São- Paulo seria a versão mais compacta, com a maior redução do número de cromossomas. Para Duarte, cariótipos com cromossomas maiores e menos numerosos são mais estáveis e reduzem a possibilidade de combinações que levem a doenças e perda de indivíduos.

O caso mais surpreendente de fusão cromossômica ocorre num gênero de cervídeo da Ásia, o muntíaco , que vive nas regiões de vegetação rasteira desde a Malásia até o Himalaia. Uma espécie de 46 cromossomas, o Muntjacus reevesi, é absolutamente igual exteriormente a outra de apenas seis cromossomas (na fêmea), o Muntjacus muntiac. Já se conhecem os mecanismos pelos quais os cromossomas da primeira espécie se fundiram para chegar à segunda sem perder informação genética. Cada fusão, estima-se, pode levar cerca de 300 anos para se fixar permanentemente numa população.

Uma espécie pode também surgir por diferenciação gênica- mutações -,enquanto o cariótipo se mantém estável. Veja-se o caso do cervo-do-

cinco noites seguidas, com uma arma chamada netgun, que dispara uma rede "Não é fácil passar a noite no alto de uma árvore, sem conversar, beber ou comer nada, com um frio de dois graus': reconhece Duarte Mesmo ass im, sem sucesso.

Depois, imaginaram que o cheiro huma n o estaria afugentando animais já arredios. Veio o recurso extremo : impregnar a roupa com fezes e urina dos animais de cativeiro. Foi inútil.

Tempos depois, passaram a fechar com cercas de bambu o carreiro por onde o animal passava, formando um curral onde ele pudesse ser aprisionado durante seus passeios na mata. Então, ale luia!

pantanal e do veado-campeiro, t o t almente distintos, mas cujo cariótipo difere só num par cromossômico : o cervo-do-pantanal tem 66 cromossomos e pesa de 100 a 150 kg, enquanto o veado-campeiro, de o u tro gênero, tem os mesmos cromossomas mais dois e raramente passa de 40 kg

Em julho , Duarte pretende voltar a Intervales para estudar melhor os hábitos do bororó-de-São Paulo Seu sonho é obter exemplares por doação de pessoas que os criem em cativeiro, já que é proibido retirar animais de reservas, e iniciar um programa de conservação em cat iveiro . Poderá então enriquecer as evidências do potencial reprodutivo e chegar à comprovação definitiva : obter filhotes férteis de exemplares da espécie e inférteis do cruzamento com outras

Material congelado - Atento ao futuro, Duarte mantém em nitrogênio líquido 150 amostras de sêmen de dois machos, que podem viabilizar a reprodução assistida : "As características desse material, avaliadas pela morfologia e a motilidade dos espermatozóides, são excelentes': diz. No laboratório, ele guarda também amostras de sangue e de pele dos 850 cervídeos - um material que poderá

Conseguiram capturar u m macho de 24 kg, já carac t erizado como da nova espécie .

Puseram -l he um ra d ioco l ar e o monitoraram por semanas . Constataram como é arisco: só sa i dos esconderijos à noite e em s u as camin h a d as i n cl u i t rec h os de riachos - forma de não deixar pistas de cheiro, que atraem predadores. "É um espec i alis t a em fugir", reconhece Duar t e.

O final foi deso l a d or : d ois meses depois, encon t raram m o r to o animal que haviam ca p t ur ado Estava parcialmen t e devorado por uma onça-parda (Puma concolor), identificada pelas pegadas q u e d eixou

OS PROJETOS

Estudo Biológico da Espécie Mazama bororo no Estado de São Paulo e Monitoramento da Atividade Reprodutivo Anual dos Machos de Veado-Campeiro (Ozotoceros bezoart i cus) em Vida Livre

MODALIDADE

Linha regular de au x ílio à pesquisa

COORDENADOR

J OS É M AURICIO 8 ARBAN TI D UARTEUn esp de Jaboticabal

INVESTIMENTO

R$ 14.306,00 mais

U S$ 18.730,00 e R$ 22.764,4 6 ma is U S$ 3.749,50

Du ar te : ca çador d e e s p é c ies tem o utras e m vista

ser valioso em pesquisas de clonagem, já que são cé l u l as diplóides (com o material genético do pai e da mãe)

Depois de apan h ar tanto para localizar e capturar a n imais, a equipe da Unesp trabalh a também com um material ainda pouco valorizado, as fezes, mas que tem se mostrado uma rica fonte de informações biológ icas. "Com as fezes", salie n ta D u arte, "po -

demos avaliar os animais genética, endocrinológica , sanitária e nutricionalmente, sem tocar neles': Estudando o material fecal dos cervídeos, o grupo da Unesp constatou como os níveis de testosterona (hormônio masculino) determinam o desenvolvimento sexual. "Quando o nível de testosterona está baixo, o chifre do veado - campeiro cai " , diz o pesquisador. "Quando está alto, o chifre desencapa e o macho está pronto para brigar e disputar as fêmeas." Células vegetais excretadas nas fezes podem indicar a composição da dieta, do mesmo modo que a presença de microrganismos permite avaliar o estado de saúde . Mas há algo a lamentar : todos os exemplares da nova espécie que estudou já morreram. "Pelo que sei, nenhum zoológico de São Paulo recebeu animais dessa espécie desde 1992': comenta A dificuldade de encontrar exemplares é acrescida pela constat ação de que o novo bororó deve ser tratado como muito raro e está ameaçado de desaparecimentoaté porque vive numa área restrita de Ma t a Atlântica

Sete mateiros?- O estudo de cariótipos, ele aposta, pode res ultar em novas descobertas, eliminadas as possibilidades de variação na mesma espécie Duarte sustenta que do veado-mateiro podem existir sete espécies. "Já temos algumas diferenças cariotípicas estabelecidas entre populações da Bacia do Paraná, Rondônia, Acre, centro do Amazonas, norte do Amazonas e Pará", informa E aí o perigo aumenta também para espécies como essa, cujas populações pareciam suficientes para assegurar sua preservação . Segundo ele, uma provável espécie nova de veado-mateiro vive exclusivamente no Parq u e Nacional do Iguaçu, na divisa entre Brasil, Argentina e Paraguai. •

Frutas: perspectivas de

Plantas e animais têm mecanismos semelhantes de resistência ao frio

SUZEL TUNES

Questionando conceitos preestabelecidos, o médico Aníbal Vercesi, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp ), aprofundou-se na bioquímica e descobriu em plantas um tipo de proteína que se acredi t ava pertencer só a animais. Seu trabalho pode abrir caminho para o cu ltivo de p lantas tropicais transgênicas resistentes ao frio, pois, nos animais, a proteína desacopladora ou UcP (uncoupling protein) está ligada à hibernação -o sono letárgico em que sobrevivem sob temperaturas muito baixas. É por causa da UcP que o urso polar consegue manter a temperatura corporal perto de 37 graus Celsius (°C) enquanto hiberna. Ratos mantidos de uma a duas semanas sob temperaturas de 5°C a 10°C também aumentam a produção dessa proteína. A UcP é produzida no tecido adiposo marrom, gordura que os mamíferos têm no dorso do pescoço ao

nascer e que, na maioria, inclusive o ser humano, desaparece aos poucos. Na década de 70, descobriu-se que a função da UcP é produzir calor (termogênese) e concluiu-se que seria uma aquisição evolutiva dos mamíferos como adaptação ao frio. No início dos anos 90, ao estudar a respiração e a conversão de energia em células vegetais, Vercesi encontrou seme lhanças nas respirações celulares da batata e do tecido adiposo marrom dos mamíferos. "Como abatata é originária dos Andes, portanto· adaptada ao frio, imaginei que fosse uma espécie de urso dos vegetais", conta o pesquisador. Seu achado contrariava conhecimentos sedimentados, mas Vercesi confirmou que o vegetal continha uma proteína igual à UcP. Depois, o grupo da Unicamp identificou a proteína em tomate, milho, banana, manga, abacaxi, pêssego, laranja, mamão, maçã, abacate e morango.

Ceticismo - Com a colaboração de Hernan Chaimovich e Iolanda Cuccovia, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQUSP), a proteína vegetal foi testada in vitro e funcionou de modo semelhante à UcP. A equipe decidiu enviar um trabalho para a revista Nature

que lhe dedicou uma página em 1995, mas o ceticismo era grande. "Nos congressos de fisiologia de plantas, eu era convidado a participar principalmente para receber críticas", lembra Vercesi.

Finalmente, o isolamento, em plantas, de genes que codificam a proteína desacopladora - realizado pelo Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética (CBMEG) da Unicampconfirmou a teoria. De uns anos para cá, pesquisadores japoneses identificaram a proteína no arroz, alemães a encontraram na flor da batata e os australianos em frutas. Hoje, genomas seqüenciados de vegetais reforçam a existência da proteína, chamada de Pump, sigla de plant uncoupling mitochondrial protein - proteína desacopladora mitocondrial de plantas.

É desacopladora por sua capacidade de dissociar dois processos celulares: respiração e fosforilação oxidativa- que é a formação de moléculas de ATP (adenina trifosfato), forma de energia química da célula A ATP provém da oxidação, processo que ocorre dentro da mitocôndria, organela celular que funciona como estação conversara de energia.

Uma aplicação potencial da Pump é o controle do amadurecimento de

amadurecimento controlado e perdas reduzidas à medida que avançam os estudos com as Pumps

frutos, que reduziria perdas. Outra é a produção de plantas alteradas geneticamente para resistir a baixas temperaturas. A equipe do CBMEG já conseguiu produzir variedades transgênicas de tabaco (Nicotiana tabacum) que superexpressam a Pump e crescem mais rapidamente que as plantas normais.

Vercesi estuda o papel da Pump em frutos como o tomate, que pode ilustrar facilmente, pela cor, os passos do amadurecimento. Em cada passo, isolou-se a Pump e comprovou-se que sua atividade aumenta à medida que o tomate amadurece. "Parece que a explosão no consumo de oxigênio que ocorre numa fase do amadurecimento coincide com o aumento da expressão da proteína': diz ele.

Esse estudo mostrou que, como a UcP nos animais, a Pump precisa de ácidos graxos livres para ser ativada. Enquanto o animal hiberna, além de fornecer substratos para a respiração, os ácidos graxos ativam a UcP.

"Por isso é que o urso engorda na primavera e no verão", diz Vercesi. "Ele precisa de uma reserva de gordura, que será consumida para gerar calor no inverno." Com o tomate não foi diferente: quando se adicionou albumina de soro bovino (BSA) para reduzir o estoque de ácidos graxos livres, a albumina funcionou como inibidora da Pump.

O PROJETO

Metabolismo de Oxigênio e Cólcio e suas Relações com Vida e Morte Celular

MODALIDADE

Projeto temático

COORDENADOR

ANIBAL VERCESI- Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp

INVESTIMENTOS

RS 217.377,05 mais US$ 366.158,88

O grupo descobriu formas diferentes da Pump, assim como já se identificaram cinco variantes da UcP animal- a UcPl, a UcP2 constatada em tecido adiposo branco, a UcP3 em tecido muscular e as UcPs 4 e 5 no cérebro. Em vez de desencadear a termogênese, as variantes teriam papéis reguladores.

Gordos e magros - "A UcP2 do tecido adiposo branco explicaria por que

Vercesi e folhas de tabaco : as maiores, transgênicas, superexpressam a Pump

duas pessoas com a mesma ingestão calórica engordam em proporçõés bem diferentes", comenta Vercesi. "A pessoa que engorda menos expressa mais a proteína."

Por meio de comparações, facilitadas pelo seqüenciamento de genomas vegetais, agora se sabe que podem existir pelo menos quatro tipos de Pump. A equipe da Unicamp descobriu três delas na cana-de-açúcar, uma delas similar à UcP4 do cérebro. E aparecem em quantidades diferentes nos órgãos da cana e em idades distintas de cada órgão - sinal de que exercem papéis importantes no desenvolvimento. "Os estudos indicam que a Pump não é funcionalmente semelhante à UcPl, responsável pela termogênese': conta Vercesi. "A Pump teria mais semelhanças com

as variantes 2 e 4 e sua função primordial seria promover uma regulação do metabolismo energético."

Nos animais, a UcPl ativada pelo frio torna a respiração celular até 50 vezes mais rápida e promove queima acelerada de gordura. Já as Pumps podem não ter atividade tão grande. "Batatas mantidas em câmaras frias apresentaram aumento de respiração celular, sem aumento significativo de temperatura " , relata o pesquisador. Uma das hipóteses é que a Pump estimularia a respiração, diminuindo a concentração de oxigênio e, portanto, promovendo uma defesa contra o estresse oxidativo.

A equipe da Unicamp testa a resistência ao estresse oxidativo em plantas de tabaco alteradas geneticamente, que superexpressam a Pump. Folhas normais e transgênicas foram expostas a diferentes concentrações de peróxido de hidrogênio (H 20 2 ) - água oxigenada As transgênicas mostramse mais resistentes a essa agressão, pois têm taxas menores de degradação da clorofila e mantêm a cor por mais tempo. Os organismos só sobrevivem quando vencem a luta contra o estresse oxidativo Uma das principais funções do fruto é permitir a transmissão do genoma para a geração subseqüente, mas o DNAácido desoxirribonucléico, portador do código genético -é sensível ao estresse oxidativo . "Durante o amadurecimento e a senescência, a proteína desacopladora deve ser importante para impedir a formação de radicais livres e preservar a informação genética intacta", diz Vercesi Esse seria um dos mecanismos celulares de defesa contra as substâncias, como o cálcio, que estimulam a geração de espécies reativas de oxigênio. Tal poder antioxidante poderia ser manipulado para transformar as proteínas desacopladoras em conservantes naturais de alimentos ou futuros agentes para o combate de doenças degenerativas. •

Companhia indesejável

Estudo com crianças, adultos e idosos revela altos índices de dor crônica

Uma pesquisa entre brasileiros não envolvidos em tratamentos clínicos revelou um alto índice de dor crônica, semelhante ao de países altamente industrializados. "Os resultados demonstram a magnitude da dor crônica entre nós e confirmam que se trata de um problema de saúde pública", diz a professora Cibele de Mattos Pimenta, coordenadora do estudo. Entre adultos, a dor de cabeça é mais freqüente nas mulheres, a dor pélvica nos mais jovens e a lombar nas pessoas de estratos socioeconômicos inferiores. A pesquisadora define como dor crônica, segundo o padrão de estudos internacionais, a que persiste por mais de seis meses em um ou mais locais do corpo e pode ser contínua ou recorrente (vai e volta). É diferente da dor aguda, que decorre de lesão traumática ou processo patológico agudo e persiste até a cura. "Crianças, adultos ou idosos portadores da dor crônica", afirma Cibele, "têm suas atividades e a vida profissional comprometidas e geralmente sofrem perdas significativas de qualidade de vida, bem-estar e felicidade pessoal".

Mal da época- E quais seriam as causas dos níveis altos da dor crônica? Embora a pesquisa não chegue a essa questão, Cibele diz: "Há hipóteses de que esteja relacionada ao próprio estilo moderno de vida, com sedentarismo, estresse e maior intolerância à dor. Porém, é um problema que pode e deve ser prevenido

com medidas que melhorem a qualidade dos ambientes de trabalho, um bom planejamento dos serviços de saúde, destinados à sua prevenção e atendimento terapêutico, e a definição de políticas básicas de saúde pública".

Nos Estados Unidos, o relatório Nuprin Pain Report, publicado em 1986 no The Clinical fournal of Pain, estimou a perda de 500 milhões de dias de trabalho devido à dor crônica por ano, a um custo anual de US$ 40 bilhões. Na Europa, é a causa mais freqüente de limitados para o trabalho com menos de 45 anos e a segunda razão de consultas médicas. Segundo outro estudo, divulgado em 1992 no British fournal of General Practice, de 25% a 30% da população dos países industrializados apresenta dor crônica, classificada atualmente como o maior problema de saúde pública.

Professora da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EE-USP), Cibele trabalhou com pesquisadoras da Universidade Esta-. dual de Londrina (UEL) e da pósgraduação da EE- USP. Para evitar distorções, só foram incluídas pessoas não submetidas na ocasião a tratamento para a dor nem vinculadas a serviços da rede pública de saúde.

A pesquisa abrangeu 1.871 moradores de Londrina (PR), cidade considerada adequada à obtenção de amostras representativas. A dor crônica foi encontrada em 28,75% das 915 crianças de 7 a 14 anos, das quais 55,51 o/o disseram que prejudicava a freqüência escolar e 63,12%, a concentração. Entre os 505 adultos entrevistados, com idade variando de 18 a 60 anos, 61,38% tinham o

Detalhe de Schmerz (Dor), litografia de Lasar Segall (1909)

problema e a maioria não faltava ao trabalho por isso, mas perdia em desempenho. No grupo dos idosos (451 entrevistados, com idade entre 60 e 85 anos), 51,4% tinham dor crônica e 11,5% em mais de um local (ver quadro).

Dor aprendida- A pesquisa apurou: é raro a criança receber tratamento preventivo para dor de cabeça, a mais freqüente. Crianças de famílias onde alguém tem dor crônica foram mais atingidas, inclusive com coincidência do local da dor. Segundo Cibele, essa constatação leva à hipótese de que "aprendem a ter dor" e repetem comportamentos. Sugere-se ainda a influência do modo de tratar a criança queixosa, com medicação, maior atenção e permissão de faltar à escola. Também se considera a eXIstência de fatores genéticos.

As crianças pesquisadas cursavam escolas públicas e particulares de Londrina, onde há alto índice de inserção escolar: 95%. Associaram dor de cabeça a nervosismo e agitação, dor abdominal a alimentação e dor nas pernas a atividades físicas. Acreditaram, também, que dores nas pernas são desencadeadas pelo sono - poderia ser a chamada dor de crescimento, que costuma ocorrer à noite.

• A dor crónica se man ifesta em 28 ,75 % das 915 entrevistadas, mais na s meninas (31 ,5%) que no s meninos (25,9 %).

• É mai s freqüente na cabeça ( 15 ,96 %), abdômen (6 ,78 %), membros inferiores (6,99 %), costas (1 ,97%) e tórax (0,76% ).

• É quase tão comum na faixa de 1O a 12 ano s (30,67 %) quanto na de 7 a 9 (30,42 %) e menos freqüente na fai xa de 13 a 14 anos (24,44 %).

• Aparece toda semana em 70 % das crian ças e, em 60 % da s veze s, pode durar mais de uma hora

• Prejudica ba stante a prática de esportes (74,9 %) , as brincadeira s (63 %) e o s pa sseio s (58 %) e muito pouco o sono e o videogam e

O PROJETO

Dor Crónica em Crianças, Adultos e Idosos : Prevalência, Caracterização e Impacto na Vida Diária

MODALIDADE

Linha r egular de auxílio à pesquisa

COORDENADORA

Ci BEL E A NDRUCIOLI DE M ATIOS

PI MENTA - Escola de Enferm agem da USP

INVESTIMENTOS

R$ 55 100 ,00

Cibele: pr o b lema pode e de ve se r preveni do com políti cas básicas de saúde púb l ica

Dia s de trabalho perdidos - Os adultos foram escolhidos entre funcionários da UEL, com contrato permanente de trabalho. A maioria continua a trabalhar mesmo com dor, um dado que, segundo Cibele, acentua a importância de medidas preventivas que melhorem a qualidade de vida no trabalho . Pode também haver afastamento do trabalho, onerando o empregador e os serviços de saúde. Nesse grupo, os sentimentos mais associados ao problema fora!ll

Sofrimento incessante

A dor de todo dia, da infância à ve lhice

s

• A maioria (61,38% ) dos SOS entrevistados re l ata a convivência com a dor crónica , mais freqüente entre os que traba l ham nos serviços

bá sicos (76,08% ) e menos nos que exercem ca rgos de chefia e coordenação (37 %)

• Nesse grupo, atinge face e boca (26,73%), reg i ão lombar, sacro e cóccix ( 19,40% ), membros inferiores (13 ,26 %), ombros e membros su periores (8 , 11 %), abdôme n (7 ,52 % ), região pé lv ica (3 ,76 %), região cervical (3 ,56 %), região torácica (2, 17%) e generalizada (0,79 %).

• Para contro l ar a dor, 60,74% dos pe squi sados se aut ome d ica m e ape n as 11,8 % vão ao m éd ico.

irritação, desânimo e vontade de se isolar. No dia-a-dia, a dor prejudica mais o humor e o sono .

Idosos lúcidos - Também no grupo dos mais velhos - selecionados por meio de um pré-estudo que avaliou suas condições mentais -, a dor crônica aparece mais entre as mulheres. Cibele levanta uma hipótese: mulheres sofrem mais desrespeito às suas queixas de dor e tendem a enfatizá-las. E o sistema hormonal pode influir. A pesquisa indicou que familiares e pessoal de saúde costumam desvalorizar a dor dos idosos, considerada "normal na idade avançada", o que, para Cibele, parece ser um dado cultural. O próprio idoso, em geral, sente-se "um peso" e tem menos acesso aos serviços de saúde que as outras pessoas Nos três grupos, quase não houve relações entre dor recorrente e sexo, faixa etária, classe social e escolaridade do chefe de família. Contudo, a dor abdominal incidiu menos na faixa de 13 a 14 anos e a dor recorrente nos membros surgiu menos nas faixas socioeconômicas D e E e onde os chefes de família tinham pouca ou nenhuma escolaridade . Crianças, adultos e

• A d o r nas p e rn as é d iá r ia e m 42,7 % dos id osos e 3 1,63 % d e les se qu ei xa m d e dor t amb ém di á ri a n a reg i ão do r sa l.

• Po u co mais d a m et ad e (51,44% ) te m dor cró n ica e m pe l o menos um loca l. É m ais fr eqü e nt e em m ulh eres (57,23 %) d o q u e em h ome n s (48 ,28 %) idosos criam suas próprias idéias sobre as causas da dor -um em cada quatro idosos, por exemplo, associou a dor nas costas a movimen t os de abaixar, elevar ou rodar o tronco . Mas ainda não havia

• Os en t rev i st ados assoc iam à d or crónica sen t i m en t os de tr i st eza e dep ressão (28 ,33 %) o u an si eda d e e nervosis m o (28,87 % )

• Os aspec t os da v id a mais afetados são so n o (40 %), h u m or (39,07 % ), laze r (36,74 %), apet it e (20 ,93 % ), ativ id ad e sex u al ( 18, 14% ), vida fam ili ar (16,28 %) e v id a profi ss i o n a l (1 0,23%).

um quadro completo sobre a abrangência e o impacto desse problema, que faz as pessoas cancelarem viagens e viverem dias seguidos de agonia. •

Crianças Adulto
Idosos

Projeto cria até um modelo de previsão para bolsas de valores

TADEU ARANTES

á algo de comum entre as flutuações dos valores das ações negociadas em bolsas e a distribuição dos nucleotídeos numa molécula de DNA, entre as órbitas dos planetas do sistema solar e a arritmia cardíaca, entre o funcionamento de ferramentas industriais e a transmissão de sinais de comunicação: o que aproxima esses fenômenos tão diversos é sua natureza caótica. Hoje se sabe que os fenômenos caóticos

Hsão não apenas previsíveis até certo ponto - ao contrário dos aleatórios, totalmente imprevisíveis -, como potencialmente controláveis. Assim, o caos pode ser um aliado que permita ao ser humano exercer mais livremente sua criatividade: as aplicações potenciais do controle do caos se espalham por áreas como o mercado financeiro, a telecomunicação, a engenharia mecânica e a genética. Na vanguarda atual das aplicações da teoria do caos está o físico brasileiro Celso Grebogi, que passou duas décadas em instituições americanas de pesquisa e publicou cerca de 250 artigos sobre o tema, em revistas como Nature, Science e Physical Review Letters. Em março de 1990, Grebogi e seus colegas Edward Ott e James Yorke, na Universidade de Maryland, revelaram a possibilidade de se controlar o caos. O impacto da idéia, publicada pela

Physical Review Letters, foi expressivo. Em poucos meses, grupos experimentais de outras instituições passaram da idéia à prática em vários campos.

Versatilidade - Agora, no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (Ifusp ), o paranaense Grebogi integra uma equipe - com os veteranos Iberê Luiz Caldas e José Carlos Sartorelli, mais o jovem pós-doutorando Murilo da Silva Baptista- que desenvolve um projeto temático sobre o caos. As contribuições do grupo incluem um modelo da dinâmica do mercado financeiro, os fundamentos teóricos de um sistema de comunicação, um estudo experimental da formação de bolhas destinado a aperfeiçoar processos industriais e um modelo da dinâmica das misturas, cujas possibilidades vão da criação de plâncton à produção de tintas.

..... im_,.,,.,.v... prever o comportamento do da bolsa de valores. A confiabilidade do programa feito pela equipe da USP se estende por um período de até dois meses (ver gráfico na página seguinte).

"As oscilações da bolsa estão quase na borda da aleatoriedade. Elas são, como se costuma dizer, totalmente caóticas ou supercaóticas", afirma Baptista. "É um sistema turbulento, com muitas variáveis. É impossível conhecer todas, mas no conjunto sua recorrência é típica de um sistema com poucas variáveis." Por essa razão, os físicos não pretendem determinar qual será o valor de cada ação individual, mas conseguem prever quanto tempo o sistema como um todo precisa para voltar ao seu estado atual.

Caldas completa: "O tempo médio para que as ações voltem a apresentar determinado ganho ou perda relaciona-se com a amplitude das oscilações por meio do mesmo tipo de estatística que permite estimar onde determinado nucleotídeo de-

cadeia do DNA. distribuição de de probabilia freqüência de um evento, algo bem conhecido pelos matemáticos".

Comunicação caótica - A área das telecomunicações é outra em que o uso do caos é altamente promissor e I]O qual o time do Ifusp tem um trabalho experimental e teórico bastante avançado. "Com um oscilador de potência, produz-se uma onda caótica': descreve Baptista. "Por meio de pequenas perturbações, é possível fazer com que essa onda fique acima ou abaixo de um certo patamar. Convenciona-se que, se ela ficar acima, isso significa '1' e, se ficar abaixo, '0'. Dessa forma, temos tudo o que é necessário para estabelecer uma comunicação binária."

Qual a vantagem disso? Baptista responde: "Na comunicação linear tradicional, a perda de uma parte da onda é irrecuperável, pois é impossível saber se perdemos um 'O' ou um '1 '. Num sistema caótico, isso não acontece . Cada estado do sistema de-

menos pre possível perdido."

Com a onda caótica, diz ele, todas as exigências dos protocolos (etapas) de comunicação são realizadas simultaneamente, enquanto para o mesmo resultado com ondas lineares o processo se realiza seqüencialmente. Além disso, a produção da onda caótica demanda um mínimo de energia, enquanto seu uso aumenta significativamente a capacidade do canal, porque permite transmitir numa linha cheia de ruídos como se eles não existissem. E essa é uma forma de comunicação natural, que caracteriza, por exemplo, a troca de íons entre as células.

Gotas e bolhas - Em outra frente de pesquisa, Sartorelli refez com requintes um experimento com gotas criado nos anos 80 por Robert Shaw, da Universidade Santa Cruz, Estados Unidos. Shaw estudou o gotejar de uma torneira de água e, ao anotar o intervalo de tempo em que a gota cai, constatou que era um fenômeno

caótico. Sartorelli montou um aparato refinado - caixas d'água , cilindros com uma mistura de água e glicerina e um monitor - que lhe mostrou como gotas e bolhas se formam e comprovou a existência e o comportamento de sistemas caóticos.

A partir daí, estudou a formação de bolhas de ar numa coluna líquida e deduziu um modelo matemático de aplicações bem amplas. Pode ajudar no controle e na qualidade da produção de derivados de petróleo, com ganhos na eficiência da destilação de nafta. No processo de fermentação de bebidas e alimentos, permite acentuar o sabor de bebidas gasosas ou obter maior rendimento na preparação de pães. Ao ajudar a prevenir a formação de bolhas na circulação sanguínea, permite aos mergulhadores ir mais fundo e por mais tempo.

Bendito caos - Nem sempre interessa controlar o caos Às vezes, é mais vantagem provocá-lo. Para controlar a epilepsia, por exemplo . O estado epiléptico é um fenômeno periódico pelo qual, recrutados por um foco, cada vez mais neurônios passam a atuar sincronizadamente, o que é anormal. Numa situação dessas, que pode danificar o sistema nervoso, o

cérebro lança mão de mecanismos que possam romper essa smcroma e recuperar o funcionamento caótico normal. Essa é também a função dos medicamentos anticonvulsivos. Para a equipe da USP, é possível obter um efeito análogo se, em vez de apostar na inibição dos neurônios, comunicar a eles um pequeno estímulo suplementar, capaz de desorganizar sua atividade uníssona e reinstalar o caos no sistema . O uso neurológico do caos induzido ainda é especulação, mas nos Estados Unidos o trabalho da equipe de Grebogi inspirou um experimento valioso. Pesquisadores da Universidade da Califórnia demonstraram que se pode usar o controle do caos para direcionar a atividade cardíaca. Por meio de uma droga, induziram batimentos caóticos em corações de coelhos e, com pequenos impulsos elétricos, levaram os corações de volta a estados periódicos normais, manipulando essa condição: ao seu comando, os corações batiam mais depressa ou mais devagar.

Elefante guiado com uma varinha

Com sua audácia em enveredar por territórios antes evitados pela ciência e seu inerente apelo à interdisciplinaridade, a teoria do caos tem sabor de coisa nova, de última geração . É verdade que as pesquisas na área só deslancharam na década de 1980, mas pouca gente sabe que essa teoria começou a tomar corpo há mais de 100 anos.

O precursor da dinâmica caótica foi o matemático francês Henri Poincaré (1854-1912), um homem míope, canhoto e desajeitado, que, entre outras faça-

nhas, formulou antes de Einstein uma teoria especial da relatividade . "Ele estava envolvido com o estudo da trajetória da Terra, com o famoso problema dos três corpos (Sol, Terra e Lua) em atração gravitacional, que desafiava os cientistas desde a época de Newton. Ao investigar esse tema a fundo, Poincaré acabou por descobrir os principais conceitos da teoria do caos", lembra Caldas.

Poincaré viveu na Paris da Belle Époque. Depois, as pesquisas do caos foram praticamente abandonadas, devido às enor-

De mãos dadas

A previsão (em vermelho) acompanha por quase dois meses a oscilação real (em azul) do valor de ações da Petrobras 31 mar 22 ago 18 jan

Uma das possibilidades abertas pelo experimento é a de implantar um dispositivo junto ao coração para detectar alguma anomalia e levá-lo outra vez ao batimento periódico. " Teríamos, dessa forma, um marcapas so inteligente " , imagina Grebogi O extraordinário potencial de um sistema caótico decorre de sua ver sa-

mes dificuldades de cálculo que envolvia. Com os computadores, o assunto voltou.

"A tendência inicial dos cientistas era eliminar de suas equações os termos não-lineares", sintetiza Grebogi. "Queríamos que um sistema físico ou uma máquina se comportassem de maneira periódica, previsível. Mas depois percebemos as vantagens do caos. Ele dá flexibilidade aos sistemas. Graças ao caos, é possível controlar sistemas muito grandes por meio de perturbações muito pequenas. É como guiar um elefante com uma varinha, dando uma pancada no lugar certo."

tilidade. A partir de uma dada configuração, pode evoluir de muitos modos. Um exemplo é a molécula de DNA: combinando apenas quatro nucleotídeos, formam-se milhares de proteínas distintas.

Ordem oculta - Grebogi e seus colegas norte-americanos mostraram que se pode direcionar o andamento de sistemas caóticos por meio de pequenas intervenções- em vez de brigar com o caos, tirar partido dele. "Escolhemos um dos desenvolvimentos possíveis do sistema e o induzimos com estímulos adequados", resume. Isso só acontece porque há sempre uma ordem escondida no caos. É importante sublinhar isso, pois o senso comum costuma confundir fenômenos caóticos com fenômenos aleatórios.

Há três tipos de sistemas: os periódicos, os aleatórios e

Grebogi (esq.). Baptista, Caldas e Sartorelli: formas de tirar partido do caos

O aparelho de gotas: fonte de idéias para produzir mais pão e gaso lina

os caóticos. Os periódicos são aqueles cuja evolução é totalmente previsível. É o caso do pêndulo simples: conhecendo alguns parâmetros, pode-se saber qual será sua posição, a cada instante. Já os sistemas aleatórios evoluem de modo totalmente imprevisível. De pouco vale conhecer o seu estado inicial: é impossível saber qual será o estado subseqüente, como acontece com o lance de dados, que pode resultar, com igual probabilidade, em seis números distintos.

Os sistemas caóticos situam-se entre esses extremos do vasto território que separa a periodicidade da aleatoriedade. Sua evolução só é previsível num restrito intervalo de tempo. A partir daí, a alta sensibilidade a pe-

quenas perturbações inviabiliza as previsões. É o caso da órbita de Hipérion, uma das luas de Saturno "Se viajássemos para lá, ja-

O PROJETO

Dinâmica Nâo-Linear

MODALIDADE

Projeto temático

COORDENADOR •

mais chegaríamos", diz Grebogi. "Ao longo do tempo, a discrepância entre a posição prevista e a posição real cresce exponencialmente".

Pequenas perturbações - Por suas respostas não serem proporcionais aos estímulos, os sistemas caóticos também são chamados não-lineares -a não-proporcionalidade impede que a relação "resposta versus estímulo" seja representada graficamente por uma linha reta.

Esses sistemas se subdividem em dois grupos: um é o dos naturalmente caóticos (ondas cerebrais, as trajetórias dos planetas e as flutuações do mercado financeiro), o outro é o dos sistemas que só se tornam caóticos quando estimulados. "Um mesmo sistema, como o gotejamento de água, pode ter comportamento periódico ou caótico", diz Sartorelli.

A não-linearidade entre estímulo e resposta explica por que, nas fábricas de automóveis, os robôs funcionam lentamente. Qualquer tentativa de aumentar a velocidade introduz em seu movimento um termo não-linear que o faz afastarse da trajetória estabelecida e errar a tarefa.

É justamente essa sensibilidade

INVESTIMENTO a pequenas per-

R$ 99.120,00

turbações que permite controlar os sistemas caóticos. Basta usar as perturbações inteligentemente para fazer o sistema responder do jeito que se quer, como já se faz nos Estados Unidos há algum tempo. "A ferramenta que corta folhas de alumínio para fazer latas de refrigerante possui um movimento caótico que tende a produzir cortes errados", diz Grebogi. "Mas, com estímulos mínimos, pode-se eliminar a vibração indesejável do sistema." Estima-se que o ajuste proporcione uma economia anual de milhões de dólares. •

LUIS CALDAS - Instituto de Física da USP

trá-los e correr deles para escapar das descargas. " Uma vez, cheguei a ficar a 8 metros de onde caiu um raio, mas nunca me machuquei", conta o coordenador.

Documentado o raio com a câmara, o caçador pega um aparelho de GPS (Sistema de Posicionamento Global) e anota as coordenadas geográficas do local, para saber com precisão onde caiu. "Dessa forma", explica, "podemos verificar como os sistemas de detecção de descarga registraram o evento filmado, pois pretendemos contribuir também para um novo entendimento dos importantes sistemas já em atuação".

Em alguns casos, uma incursão atrás de raios pode se resumir a menos de 2 segundos de filmagem útil. Mas, tratado em computador e desmontado quadro a quadro, o filme pode render uma rica seqüência de imagens.

Numa obtida em São José, às 19h18 de 4 de janeiro, vê-se que o relâmpago produziu dez descargas distintas, algo pouco comum (ver fotos).

As duas primeiras foram extremamente rápidas (menos de 17 milissegundos ) e fizeram o mesmo caminho quase vertical da nuvem ao solo. Já a terceira foi bem diferente, a começar pela duração: 238 milissegundos, 14 vezes mais que as anteriores . E seu canal de ionizaçãoo percurso do raio- foi mais inclinado e tortuoso, diferente das anteriores e com uma peculiaridade: antes de atingir o solo, ficou visivelmente perpendicular. Isso indica que o lugar atingido deve ser bom condutor de eletricidade. As outras descargas repetiram o traçado dessa terceira, embora durassem menos.

Mas que tipo de informação sobre esse filete tortuoso de luz que se viu apagar e acender duas ou três vezes ficou arquivado nos sensores que monitoram os céus do país?

Deve haver um registro desse raio , já que é justamente o Sudeste a única região inteiramente coberta por um

sistema regular de sensores. Esse registro deve conter algumas características: intensidade e polaridade da carga elétrica - se positiva, negativa ou bipolar -, número de descargas produzidas (no caso, dez) e local aproximado onde caiu. Mas a reconstituição exata do caminho, da nuvem ao solo, bem como o flagrante de situações inusitadas só podem ser feitos por meio de imagens como as obtidas no projeto .

O PROJETO

Análise Ob se rvacional e Modelag em Numérica de Relâmpago s do Sudeste do Bra sil (Proj eto Via -Lux)

MODALIDADE

Linh a regul a r d e au x íl io à p es qui sa

COORDENADOR

0 DIM M ENDES J úN IOR- Instituto Nacional de Pesqui sas Espaciai s ( lnpe )

INVESTIMENTOS

Bases de dados - Além de produzir e obter de terceiros imagens de raios , a equipe desenvolve um software, o ThoR-SLA, para organizar grandes bases de dados de relâmpagos, classificados por vários parâmetros. Isso permitirá, entre outras coisas, a automatização dos relatórios. Embora ainda não concluído, o ThoR já fornece resultados: verificou-se que, em relâmpagos com várias descargas, o valor da segunda pode ser maior que o da primeira " É um dado importante para o projeto de sistemas de segurança . A partir dessa informação, podemos esperar mais freqüentemente que uma segunda descarga mais forte incida sobre um equipamento ou instalação, cuja proteção deve estar preparada para recebê-la", diz o pesquisador Outro módulo do programa permite simular o caminho e o comportamento das descargas elétricas. O resultado da simulação e os caminhos de uma descarga filmada podem ser vistos nas imagens obtidas.

Mistério brasileiro - Contudo, os raio s ainda estão envoltos em mistério. No Brasil, as incertezas são maiores, mas há razões de sobra para o intere sse pelo tema. O tamanho e a posição do país favorecem os fenômenos geradores de tempestade e há uma grande atividade elétrica atmosférica - só coberta regularmente por sensores no Sudeste e em partes do Sul e mais do Centro-Oeste. Outro complicador: os satélites que poderiam rastrear relâmpagos ficam "cegos " ao passar sobre o Sudeste e circunvizinhanças devido à interferência da chamada Anomalia Magnética do Atlântico Sul.

"Os satélites têm ainda outro problema: registram a quantidade total de raios produzida, sem fazer distinção entre os que ficam no ar e os que chegam à superfície do planeta " , acrescenta o pesquisador Osmar Pinto Júnior, colega de Mendes no Inpe e autor de um estudo sobre os raios que caíram no Estado no último verão (ver em seguida).

Relâ m pag o surge co m um a f orma

desaparece por frações de segundo

reapare ce com out ro s co nto rn os

Este campeonato é nosso

Triplicouo número de raios, que se concentraram nas regiões me trop olitanas

País que se vangloria de não ter vulcões ativos, não estar na rota de furacões nem ser alvo de grandes terremotos, o Brasil tem, contudo, um problema que despenca com uma freqüência devastadora: raios, sobretudo entre dezembro e março, quando chove intensamente no Sul e no Sudeste. Espanta a alta incidência de descargas elétricas no país: estimada em 100 milhões por ano, é a maior do mundo. A estimativa, precária e in-

direta, usa índices baseados no número de dias de tempestade numa região- o índice ceráunico. A partir dele, um cálculo fornece a provável incidência de raios na zona .

No Estado de São Paulo, o verão passado forneceu bom material. Um estudo do Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Inpe revelou que, nas três regiões pesquisadas no projeto Sidres, o número médio de descargas foi três vezes maior (105 mil) no verão 2000/2001 do que no anterior (34 mil) . "Interessante é que esse aumento não se deu de maneira uniforme no Estado, mas concentrado nas regiões metropolitanas", revela Osmar Pinto Júnior, coordenador do Elat, que trabalha com apoio da FAPESP e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecno ló-

e perde intens i dade at é morrer

gico (CNPq). Motivado por notícias praticamente semanais de mortes por raios em cidades no início do ano, o trabalho usou dados do sistema de detecção que cobre o Sudeste. Pinto Júnior acredita que a amostragem reflita a realidade do Estado, mesmo sem abranger todo o território paulista Afinal, são registras de três grandes regiões metropolitanas -Vale do Paraíba, São Paulo e Campinas -, que correspondem a cerca de 50% do território.

Nas três regiões, o número de raios aumentou, sobretudo no Vale do Paraíba, com cinco vezes mais no verão 2000/2001 que no anterior (50 mil raios contra 10 mil) e na Grande São Paulo, onde a incidência quase triplicou (40 mil contra 15 mil). Na área metropolitana de Campinas, o aumento foi bem menor:15 mil descargas no último verão contra 9 mil no anterior

Por que o número de raios aumentou no Estado? Não há resposta

Linha regular de auxílio à pesquisa

COORDENADOR

OSMAR PINTO JúNIOR- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (lnpe)

INVESTIMENTOS

R$ 35.530,00 e U5$ 51 .529,00

Sistema de Detecção de Raios do Estado de São Paulo (Sidres)

LINHA DE PRODUÇÃO

Mais proteínas no bagaço de maçã

A bióloga Elisa Spósito, do Núcleo Integrado de Biotecnologia da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), comprovou que algumas espécies de fungos conseguem dobrar ou até quadruplicar a quantidade de proteína existente em resíduos de maçã e de outras culturas agrícolas. Depois de submeter amostras de bagaço de maçã a duas fermentações (a primeira em presença da levedura Candida utilis e a segunda diante do fungo Pleurotus ostreatus), a pesquisadora aumentou o teor protéico dos resíduos de 4% para 16%. "Podemos usar essas proteínas a mais para enriquecer alguns alimentos", diz Elisa. Pode estar aí uma alternativa para o reforço alimentar, a baixo custo. Por que não pensar em rapaduras que, além de açúcar, contenham proteínas ou ainda, de modo mais amplo, em alimentos de maior valor nutritivo? Outra possibilidade. "Pequenos produtores de frutas, sozinhos ou em conjunto, poderiam aproveitar os resíduos do pomar e gerar receitas extras", imagina a pesquisadora. Para atingir o setor produtivo, o processo ainda

• Queijos testados com infravermelho

Os famosos queijos franceses ganharam uma n ovidade no seu processo de fabricação É um kit para teste de amostras de leite com feixe lu mi n oso

tem um inconveniente: é muito demorado. As duas fermentações consumiram 36 dias. Os experimentos iniciais com restos de maçã foram feitos em 1998, quando a bióloga trabalhava na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis. Elisa pesquisou o bagaço de maçã processada pela indústrias de suco, polpa e aromas. Atualmente, em Mogi das Cruzes, a pesquisadora tenta reduzir o tempo de fer-

em infr avermelho. Com o apoio de um software, o aparelho detecta em tubos de vidro a capacidade de transformação da amostra de leite em queijo . São analisados o momento de coagulação, a firmeza do coalho em função do

• Novos cursos para ensino a distância

Candida u tilis, ao lado, aumenta em 16% o teor de proteínas dos resíduos da maçã

mentação, ampliando os tipos de fungos usados no processo, e testa o procedimento em novas culturas, como nêsperas e . caqui . "Esse campo de pesquisa é muito amplo, com boas perspectivas. Afinal, o Brasil é um grande produtor de resíduos agrícolas que ainda são muito pouco aproveitados", afirma. Calcula-se em 250 mil toneladas o total de bagaço de maçã que é "desperdiçado", todos os anos, pela indústria de sucos. •

tempo, o desempenho das enzimas coagulantes e de eventuais manipulações do leite O aparelho chama-se Optigrap h , é todo automatizado e foi desenvolvido no Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (Inra) da França. •

A MSD Software, que atua no desenvolvimento de soluções para treinamento e educação a distância, lançou três novos cursos sobre tecnologia da informação. A empresa, que surgiu da incubadora de empresas da Universidade de Brasília (UnB), agora tem 30 cursos de nível técnico, todos ligados à informática. Embora satisfeito com o negócio, Deusimar Damásio, um dos sócios da MSD, alerta para o fato de o mercado não estar preparado para o uso dessa tecnologia. "A infra-estrutura para telecomunicações no Brasil ainda é muito precária", diz. "Tanto que quando conseguimos oferecer o curso dentro de companhias, ele vai sempre muito bem, porque elas têm micros, trabalham em rede e as conexões são muito melhores." Hoje, a MSD tem cerca de 1.200 alunos matriculados em seus cursos e não tem prejuízo, ao contrário da maioria das empreitadas semelhantes "Na verdade, estamos criando mercado porque meu público não tem computador e, obviamente, não freqüenta a ln ternet." •

• Aparelho combate incontinência urinária

As mães que têm dificuldades em ensinar os filhos a não fazer xixi na cama devem ganhar um aliado em breve: pesquisadores do Instituto de Psicologia (IP) e da Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram a versão nacional de um aparelho que

dispara um alarme quando a criança começa a urinar durante o sono. Dessa forma, ela acorda e pode ir ao banheiro. "O aparelho bloqueia o xixi e, depois de alguns meses de uso, a criança aprende a não urinar na cama': afirma Edwiges Ferreira de Mattos Silvares, professora do IP e idealizadora da maquininha. Segundo Edwiges, o aparelho, que ainda está na fase de

Fiocruz: menos importações e seringas

protótipo, é indicado para crianças com mais de 5 anos e também por adultos com incontinência urinária. •

• Vacinas e testes na Bio-Manguinhos

Até o final do ano, o Centro de Processamento deVacinas- o Bio-Manguinhos-

da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, estará produzindo duas novas vacinas: a dupla virai, contra sarampo e rubéola, e a tetravalente, contra difteria, tétano, coqueluche e meningite provocada pela bactéria Haemophillus injluenzae do tipo B, que também provoca pneumonia e é uma das principais causas de doença e morte em bebês de até l ano. Esses imunizantes vão proporcionar a economia de cer-

ca de US$ 5 milhões em importações. As vacinas combinadas também economizam seringas e tornam as campanhas de vacinação menos onerosas e mais cômodas para os aplicadores. Em localidades distantes dos grandes centros, o transporte das vacinas fica facilitado com menos geladeiras ou caixas de isopor. O Bio-Manguinhos também vai produzir seis novos testes de diagnósticos de doenças. Serão um para detectar a dengue, num período mais rápido, em quatro horas, um teste para Aids, atualmente importado, e novos kits para hepatite, leptospirose e leishmanioses (humana e canina). Com esses testes, a Fiocruz estima uma economia de US$ lO milhões em importações. Há 25 anos, o Bio-Manguinhos fabrica vacinas. Atualmente, são 100 milhões de doses por ano, representando 60o/o da produção nacional. •

Tratamento de superfície para pequenas empresas

A boa experiência do Projeto de Unidades Móveis (Prumo) de atendimento tecnológico em domicílio a micro e pequenas empresas na área de plásticos levou o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) a implementar um novo serviço, agora no setor de tratamento de superfície. ''Atenderemos empresas com problemas nas áreas de eletrodeposição, fosfatização, corrosão e pintura em setores de metalurgia, joalheria e bijuteria", informa a pesquisadora Zehbour Panossian, chefe do Agrupamento de Corrosão e Proteção do IPT e também professora da Escola Politécnica da

Universidade de São Paulo. Ela vai coordenar os trabalhos que se baseiam em um furgão, onde são realizadas análises e ensaios no ambiente da própria empresa. "Nosso objetivo é dar apoio tecnológico na resolução de problemas e capacitar, ao mercado interno e internacional, as micro e pequenas .,

Prumo: furgão leva pesquisadores, técnicos e equipamentos ,_para análise e ensaios na empresa

empresas atendidas", explica Panossian. O projeto Prumo conta com o apoio financeiro da FAPESP, R$ 107 mil e US$ 104 mil, utilizados na compra do furgão, da carroceria e dos equipamentos que serão instalados no seu interior. O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas

Empresas (Sebrae) vai financiar o pagamento de combustível, manutenção do veículo e diárias dos técnicos e pesquisadores, num valor de R$ 972 mil até abril de 2003. O PrumoPlásticos atendeu, em dois anos e três meses, 220 empresas em vários municípios de São Paulo. •

MARCOS DE OLIVEIRA

E YURI VASCONCELOS

Vários projetas de pesquisa financiados pela FAPESP trazem novas perspectivas para os meios tradicionais ealternativos de produção de energia elétrica

Em meio à crise energética brasileira, cresce a busca por soluções rápidas que revigorem os atuais meios de geração de eletricidade e eliminem a possibilidade de apagões. Soluções rápidas e mágicas, porém, não existem. Existem, sim, soluções elaboradas depois de anos de estudo, como um trabalho do professor Secundino Soares Filho, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Junto com sua equipe, ele desenvolveu dois softwares que podem melhorar em 5% o rendimento energético das usinas hidrelétricas, fonte de 92% da eletricidade do país.

Outra possibilidade de aumentar os tão necessários megawatts está em auferir melhor aproveitamento da extração de energia elétrica do bagaço e da palha da cana-de-açúcar. Também fora dos tradicionais sistemas de geração de energia elétrica, uma nova

tecnologia deve, nos próximos anos, ganhar espaço em residências, hospitais e pequenas indústrias. São as células a combustível, equipamentos que funcionam com hidrogênio puro ou extraído do gás natural. Outra boa notícia são dois novos produtos desenvolvidos na Unicamp e na Universidade de São Paulo (USP) que devem baratear a produção de equipamentos de sistemas de energia solar.

As soluções têm por base um olhar estratégico, ainda que algumas possam ser usadas a curto prazo. Elas envolvem pesquisadores de instituições de pesquisa e de empresas, muito estudo, planejamento e inovação tecnológica.

Aumento já - Há mais de dez anos, o aproveitamento das hidrelétricas é tema de estudo no Laboratório de Sistemas Hidrotérmicos de Potência da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação. Lá o professor Se-

cundino Soares Filho já gerou dois programas de computador capazes de proporcionar- sem novas obras e grandes investimentos - um aumento de 5% na produção nacional de energia elétrica, o que corresponde a 2.250 megawatts (MW) de potência. Esse número equivale à produção média de oito hidrelétricas instaladas no Rio Paranapanema, divisa dos Estados de São Paulo e Paraná, e corresponde à quantidade de energia que o plano de racionamento almeja ser economizada pelos consumidores residenciais.

"Se essas novas tecnologias, que melhoram o rendimento das turbinas das usinas e otimizam o gerenciamento da água estocada nos reservatórios, fossem implantadas pelo conjunto das hidrelétricas brasileiras, o racionamento seria bem mais suave': afirma o professor da Unicamp. Ele constata de houve insuficiência de investimentos na capacidade de

geração do sistema nos últimos anos. Tanto assim que, enquanto a demanda de energia do país cresceu 5 mil MW por ano, a oferta de geração au-· mentou apenas 3 mil MW.

Gerenciamento cuidadoso - Há algum tempo o professor Soares Filho alerta para o risco de racionamento. Em matéria publicada na edição no 41 de Notícias FAPESP, de abril de 1999, ele foi categórico: "O gerenciamento mais cuidadoso dos reservatórios contribuiria para reduzir os riscos de racionamento de energia, previsto para os próximos anos, se os investimentos no setor continuarem a ser postergados". Dois anos depois de seu vaticínio, o Brasil enfrenta o apagão.

Para ajudar a reverter esse quadro, os softwares desenvolvidos pelos especialistas da Unicamp representam papel importante para aumentar

a produção de energia elétrica no país. Eles foram elaborados no âmbito do projeto temático Planejamento e Programação da Operação de Sistemas de Energia Elétrica. O primeiro dos softwares é o de despacho de máquinas. Com ele, é possível aumentar em 3% a produtividade das usinas hidrelétricas.

Para entender esse benefício é preciso saber que toda turbina tem uma curva de rendimento chamada "curva Colina". Ela depende de dois parâmetros: vazão e queda d'água. Quanto maior a queda d'água, maior a potência. O modelo matemático formulado pela equipe da Unicamp avalia o rendimento de cada turbina em função da vazão disponível e da altura da queda d'água e determina o funcionamento global do conjunto.

Falhas nessa complicada equação representam a perda de preciosos megawatts. "Já comprovamos a eficá-

Ganho de energia com alteração de volume nos reservatórios

Software desenvolvido na U ni camp simu la, com números reais, a tra n sferênc ia de vo l ume de ág u a ex iste n te nas u sin as localizadas perto das cabeceiras dos ri os (Fu rnas e Em b orcação) pa ra uma loca l izada mais próxima da foz (Il h a So lteira)

GERAÇÃO DE ENERGIA

2.778 MW 2.667 MW O vo l ume e a queda d'água na última usina proporcionariam um au mento de energia elétrica em 4, 14%, sem

a lterações n a vazão de água

cia do nosso modelo nas centrais do Rio Paranapanema e simulamos um teste na Usina de Itaipu. Nos dois casos, o ganho de ren d imento foi de 3%", afirma o pesq ui sador. Os resultados em Paranapanema foram tão express ivos que a em p resa concesswnária, a Duke Energy, assino u um contrato com a Unicamp no valor de R$ 345 mil para aplicar o modelo em suas oito hidrelétricas: Jurumirim, Rosana, Chavantes, Capivara, Canoas I e II, Salto Grande e Taquaruçu

Rio abaixo - O outro aplicativo desenvolvido pela equipe da Unicamp coordena o volume de água dos reservatórios O cerne desse modelo é a transferência do vo lume de água das usinas a montante, perto da cabeceira dos rios, para as hidrelétricas a jusante, mais próximas da foz . O deslocamento causaria uma elevação de 4% na geração das usinas que operam com reservatório. Essas hidrelétricas respondem por 45% da potência energética instalada no país - os outros 55 % ficam com as usinas a fio d ' água, cujos reservatórios não podem ser controlados Se esse sistema de controle proposto pelo professor Soares fosse implementado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o ganho seria de 2% a mais no re n dimento energético das hidrelétricas com reserva t órios

Água no lugar errado - Para provar que o modelo funciona, o pesquisador da Unicamp fez uma simulação, tomando por base a situação de três usinas do sistema Sudeste, no dia 15 de fevereiro deste ano (veja ilustração) : Emborcação, no Rio Paranaíba, Fumas, no Rio Grande, e Ilha Solteira no Rio Paraná. Naquela data, as três usinas operavam, em média, com 27% do estoque de água e estavam gerando 2.667 MW. "Se o ONS mantivesse a mesma vazão nas três unidades, mas concentrando o vo lume de água na última usina da cascata, no caso Ilha Solteira, a geração de energia para 2.778 MW, um acréscimo de 4, 13%. Isso demonstra que a água está guardada no lugar errado. Eles estocam na cabeceira, quando deveriam armazená-la nas represas a jusante "

Soares Filho sabe q u e a aplicação do modelo de despacho de máquinas é muito mais exeqüível do que o de gerenciamento dos estoques, porque esse último tem um complicador: para o sistema funcionar melhor, a usina a montante teria que abrir mão de gerar mais energia em prol das centrais a jusante. "Do jeito que está hoje, todo mundo perde", frisa o pesquisador. Tanto o modelo d e despacho de turbinas quanto o de gerenciamento de reservatórios integram um software mais complexo, batizado de HydroLab, que, na prá t ica, é um so-

fisticado laboratório para análise do sistema hidrelétrico brasileiro. O HydroLab inclui também um extenso banco de dados e um previsor de vazões, que tenta "adivinhar " quanto vai chover, no prazo de um ano, nas bacias das usinas. Esse dado é fundamental para o melhor gerenciamento das hidrelétricas e poderia evitar situações como a que estamos vivendo hoje " Ü nosso software faz previsões bem mais acertadas e possui um índice de erros que equivale à metade do aplicativo da Eletrobrás, que usa um modelo dos anos 80 " , explica o pesquisador.

Redução de rendimento - Por meio do HydroLab, já é possível saber que, com o reservatório cheio, a usina de Fumas tem uma potência de 405 MW, mas com 20% de sua capacidade, que correspondia à situação no fim de maio, a geração de energia cai para 345 MW Isso demonstra que a queda de volume de água nos reservatórios implica uma redução do rendimento da usina, porque sua potência é proporcional ao produto da vazão pela queda da água . "Estamos gastando mais água para gerar a mesma quantidade de energia", explica o pesquisador.

O professor Soares Filho está no terceiro projeto temático consecutivo, todos com o mesmo objetivo: oti-

ILHA SOLTEIRA

mizar a produção nacional de energia elétrica. Para desenvolvêlo, além da equipe da Unicamp, colaboram pesquisadores da Engenharia e da Matemática e Computação de São Carlos, ambas da Universidade de São Paulo (USP), e da Engenharia de Bauru, da Universidade Estadual Paulista (Unesp)

Bi omassa do bagaço de canaAlém de melhorar o rendimento das usinas hidrelétricas, o Brasil tem potencial para instalar 2 500 MW a mais de ener-

gia elétrica a partir da biomassa da cana-de-açúcar. Esse valor representa cerca de 20% da capacidade de produção da hidrelétrica deItaipu, a maior do país. "O bagaço e a palha da cana podem transformar-se, em médio prazo, em importantes componentes da matriz energética do Brasil': acredita o professor Isaías Carvalho Macedo, assessor para a área de energia da Reitoria da Unicamp e que, por sete anos, foi gerente de tecnologia da Cooperativa dos Produtores de Cana, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Copersucar). "Mas para esse cenário tornar-se realidade serão necessários investimentos e uma política de energia que permita ao setor desenvolver seu potencial."

Hoje, quase toda a produção de energia elétrica das usinas canavieiras corresponde a cerca de 1.100 MW, destinados ao consumo interno. Menos de 100 MW são vendidos para a rede. A razão é simples: o preço pago pelos distribuidores aos usineiros ainda é muito baixo e não compensa os custos de geração.

O domínio da tecnologia de produção de energia a partir da biomassa de cana existe há mais de 20 anos no Brasil. Em 1980, as usinas produziam 60% da eletricidade que consumiam com a queima do bagaço. Agora, elas são auto-sustentáveis, geram 100% da energia que precisam.

Processo simples- O sistema de geração de energia com bagaço é relativa-

O PROJETO

Planejamento e Programação da Operação de Sistemas de Energia Elétrica

MODALIDADE

Projeto temático

COORDENADOR

SECUNDINO SOARES FILHO- Unicamp

INVESTIMENTO

R$ 80.300,00 e US$ 84.848,56

persucar em conjunto com a empresa sueca TPS ( Termiska Processar Sweden) . O fluxo produtivo desse processo é diferente: o bagaço é aquecido num sistema fechado sem ar, gerando uma mistura de gases. Esses gases são tratados e fazem funcionar uma turbina a gás especial, produzindo energia elétrica . "Bem ajustado, esse sistema pode transformar 40% da energia do bagaço em eletricidade", diz Macedo.

Atualmente, a produção de cana-de-açúcar no Brasil está próxima dos 300 milhões de toneladas por ano, sendo que aproximadamente 70% desse volume- 200 milhões de toneladas - é produzido nas 130 usinas de São Paulo. Para que o setor forneça 2.500 MW de potência, será necessário modernizar as usinas, que deverão equipar-se com novos sistemas geradores . Com mais algumas alterações no ciclo produtivo, as usinas podem chegar a um excedente de 3.000 MW de potência. Esse valor corresponde à energia gerada em seis meses, já que as usinas só trabalham de maio a setembro Nesse caso, a potência efetiva anual seria de 1.500 MW. E os 1.000 MW restantes para se atingir os 2.500 MW poderiam vir da queima da palha da cana, que hoje não integra o

mente simples. No início do processo, ele é queimado numa caldeira convencional, produzindo vapor, em média a 20 atmosferas de pressão Ao sair da caldeira, o vapor faz funcionar uma turbi· na que, por sua vez, aciona um gerador elétrico. O vapor deixa a turbina e sua energia térmica é utilizada para vários processos como aquecimento e evaporação do caldo da cana para produzir açúcar, além da concentração para a produção de álcool. Esse processo todo é chamado de co-geração, pois resulta ao mesmo tempo na produção de energia elétrica e térmica Segundo Macedo, o rendimento energético do bagaço gira ao redor de 20% com a tecnologia atual . Mas um novo processo que está em desenvolvimento será capaz de dobrar essa produtividade. É o Biomass Integrated Gaseification/Gas Turbine (BIG/GT), ou gaseificação de biomassa e uso de turbinas a gás. Ele tem sido investigado para a indústria da cana pela Coprocesso.

Colheita da palha -É nesse ponto que entram as pesquisas do professor Oscar Antônio Braunbeck, coordenador do Laboratório de Projetos e de Máquinas Agrícolas da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp. Com um projeto de auxílio à pesquisa da FAPESP, ele desenvolve tecnologia para mecanizar a colheita de cana, que, historicamente, é manual. "O setor açucareiro demanda a retirada anual de 80 toneladas de cana por hectare, 20 vezes mais do que qualquer outra cultura agrícola "

A mecanização do processo é a única alternativa para o aproveitamento da palha, pois evitaria a quei-

mada dos canaviais, uma prática que atinge 80% das plantações. "A colheita mecanizada não existe porque a tecnologia disponível, de origem australiana, é ineficiente", diz. "Essas máquinas têm uma série de limitações que acabaram por torná-las inviáveis nas plantações." A pesquisa do professor Braunbeck visa construir uma nova máquina com o aperfeiçoamento de quatro funções básicas: corte de ponteiros, corte de base, picagem e ventilação. "Já temos uma unidade piloto que faz o corte de base e o despalhamento . A tecnologia que estamos criando vai provocar uma perda menor de matéria-prima e, ao mesmo tempo, vai colher menos terra", afirma o pesquisador Com a tecnologia hoje disponível, as perdas na colheita mecanizada chegam a 10%.

Segundo estimativas feitas pelos técnicos do setor, metade dos canaviais do país- aqueles com até 12% de declividade de solo- poderia ser mecanizada. Dessas plantações, acredita -se que seria possível recuperar 50% da palha sem causar prejuízos ao meio ambiente - os agrônomos defendem que é benéfico deixar um pouco de palha na plantação, porque ela age como herbicida e conserva a umidade do solo. No cálculo geral, 25% da palha - ou cerca de 12 milhões de toneladas - seria recuperável e poderia ser usada como biomassa para geração de energia, com um potencial extra de 1.000 MW.

A expectativa do professor Braunbeck é que os testes com o primeiro protótipo tenham início no final da safra de 2003 "Pretendemos entregar o projeto para uma indústria (ainda não escolhida) em 2005 e, acredito, em 2006 teremos as primeiras unidades comerciais."

Avanços em painel solar - Novos ganhos de energia elétrica poderão ser obtidos também com o aperfeiçoamento de sistemas para o aproveitamento da energia solar. Embora ainda um modo caro de geração de

veu uma célula solar fotoeletroquímica que poderá custar 50 % a menos que as células existentes no mercado. No IQ-USP foram desenvolvidos todos os processos envolvidos na confecção de uma nova célula também chamada de célula solar sensibilizada por corantes ou dye-cell. É uma alternativa estudada em diversos países, embora ainda não esteja no mercado. Uma das características atraentes dessa célula é a transparência que permite sua instalação no lugar das janelas Assim, grandes superfícies com dye-cells captam os raios solares e os transformam em energia elétrica para uso no próprio edifício onde estão instaladas.

Sandu íc he ener gét ic o -A pesquisa coordenada pela professora Neyde desenvolve corantes específicos e eletricidade, o desenvolvimento de células solares que utilizam materiais novas tecnologias indica que, dentro semicondutores baratos e de fácil prode pouco tempo, a energia solar po- cessamento, como o dióxido de titânio derá ter o seu uso ampliado com o (Ti02). Esse material é utilizado largaemprego de células fotovoltaicas fa- mente por diversos setores da indúsbricadas com materiais mais baratos. tria em tintas brancas, pastas de dente No Laboratório de Fotoquímica e cosméticos. "Desenvolvemos um filInorgânica e Conversão de Energia do me de dióxido de titânio que recebe Instituto de Química (IQ) da USP, a corantes de diversas cores, de acordo professora Neyde Yukie Murakami lha com a aplicação': explica a professora coordena uma equipe que desenvol- Neyde. "Esses componentes são dis1"7l"!l.llllt',...-.• z postos em camadas formando uma espécie de sanduíche com ál mecanização é a única alternativa para o aproveitamento da palha

Mode l agem, Simu l ação, Otim ização e Construção de um Cortador Basa l Seguidor do Perfil do Solo em Processo de Colheita de Gramíneas

MODALIDADE

Linha regu lar de auxí l io à pesquisa

COORDENADOR

O SCA R A NTÓ NI O BR AUN BECK- USP

INVESTIMENTO

R$ 8.483,75 " o mediador (ou eletrólito), que fecha o circuito e resulta numa célula solar regenerativa que pode gerar energia por muitos anos " , explica o químico Christian Graziani Garcia, aluno de doutorado e um dos participantes da pesquisa.

As dye-cells podem atingir um índice de 11 o/o de eficiência na conversão da energia solar em energia elétrica com eletrólitos líquidos. As tradicionais células de silício de alta pureza rendem de 14% a 16%. Uma diferença que deve diminuir com o desenvolvimento das pesquisas nos próximos anos. "As células de silício existem desde os anos 50 e os dados da literatura indicam que elas es-

Unidade piloto: corte de base e despalhamento

tão atingindo um patamar máximo enquanto as novas células têm grande potencial para aumentar a sua eficiência", afirma Neyde. Segundo a professora, existem estudos indicando a eficiência teórica máxima para as dye-cells em 27% .

Com o potencial existente e o fato de a pesquisa abranger todas as etapas envolvidas na sua confecção, a célula desenvolvida no IQ-USP já recebeu consultas de interessados em produzila. "Foram dezenas de consultas e algumas propostas formais (empresas e fundos de capital de risco)", conta Garcia. Em razão disso, o grupo já possui uma patente registrada no Instituto Nacional de Propriedade Inte-

lectual (INPI) e uma outra encontrase em processo de finalização .

Outra célula solar com características semelhantes, a da professora Neyde, está em desenvolvimento no Laboratório de Polímeros Condutores e Reciclagem do Instituto de Química da Unicamp. Um estudo coordenado pelo professor Marco Aurélio De Paoli, desde 1996, resultou em uma célula eletroquímica com eletrólito sólido e seco . "Utilizamos um polímero cedido pela empresa japonesa Daiso que produz esse tipo de produto para a indústria automobilística", conta De Paoli "Conseguimos o índice de eficiência energética de 6%, o maior entre os protótipos de células eletrofotoquímicas com eletrólitos sólidos e substrato de vidro."

Segundo De Paoli, a vantagem do \ eletrólito seco é a melhor estabilidade energética e a eliminação de possíveis vazamentos. Ele registrou essa célula no INPI e prepara uma célula usando um substrato de plástico flexível, que apresenta rendimento de 2% de eficiência e custo baixíssimo se comparado com as células de mercado. Os estudos dos pesquisadores da USP e da Unicamp são avanços tec-

O PROJETO

Polímeros Condutores e Reciclagem

MODALIDADE

Linha regular de auxílio à pesquisa

COORDENADOR

MARCO AURÉLIO DE PAOLI- Unicamp

INVESTIMENTO

R$ 99.226,48 e US$ 136.948,02

De Paoli: avanço na produção de células solares com polímeros e flexíveis

nológicos Importantes e inéditos que credenciam as novas células a ganhar um lugar de destaque no setor de energia solar.

Novidade: célula a combustível - As tradicionais formas de geração de energia elétrica vão ganhar uma companhia forte e segura. As perspectivas energéticas para o século 21 apontam o hidrogênio como o combustível mais promissor para uso em veículos ou em estações para gerar eletricidade . Elemento presente na composição da água e em quase todos os compostos orgânicos, o hidrogênio faz funcionar as células a combustível, um equipamento silencioso que transforma energia química em energia elétrica. A célula pode ser explicada como um sanduíche de eletrodos, catalisadores e um eletrólito (veja esquema na página 65). Ela pode receber hidro-

gênio puro ou obtido do gás natural, da gasolina, do metanol (álcool de madeira ou cereais) ou do etanol (álcool usado nos carros brasileiros) Por enquanto, retirar hidrogênio da água ainda é uma opção cara, porque o processo de eletrólise que separa os átomos de hidrogênio e oxigênio necessita de energia elétrica

Mais baratas e eficazes - A célula a combustível é um equipamento que não causa danos ao ambiente. Ela gera, como resíduos, apenas água ou vapor d'água, se usado o hidrogênio puro, ou baixíssimas emissões de gases poluentes com outros combustíveis . Com todas essas características não é de estranhar que em todo o mundo exista uma corrida tecnológica para o aprimoramento desse gerador de eletricidade . Centros de pesquisa de instituições acadêmicas e de empresas avançam no desenvolvimento de materiais e processos que as tornem mais eficazes e baratas. Há pelo menos três anos, nos Estados Unidos, Canadá, Alemanha e Japão, as primeiras células começaram a ser vendidas, ainda com produção restrita e sob encomenda . Existem, hoje, vários protótipos com capacidade de fornecer eletricidade entre 10 watts (W) e 11 megawatts (MW), para servir desde equipamentos portáteis à geração de energia em pequenas cidades . O Brasil, felizmente, não ficará de fora dessa inovação. No próximo ano, a empresa UniTech deve colocar no mercado as primeiras unidades de célula a combustível capazes de gerar eletricidade para residências e pequenas indústrias. O combustível previsto é o gás natural. "Com adaptações podemos utilizar também o etanol", afirma o químico Antonio César Ferreira, 44 anos, coordenador de projetos da empresa. A célula da UniTech vai funcionar como se fosse um fogão que capta o gás de tubulação da rua ou de botijões. "Todo o equipamento é do tamanho de um frigobar. Com ele, será possível, por exemplo, gerar energia elétrica den-

Neyde: nova cé l ula solar é transparente e poderá custar SOo/o menos que as atua i s

O PROJETO

Fotorreatividade de Compostos de Coordenação e Conversão de Energia

MODALIDADE

Linha regular de auxílio à pesquisa

COORDENADORA

NEYDE YUKIE MURAKAMI lHA- USP

INVESTIMENTO

R$ 97.837,56 e US$ 106.610,71

tro de casa e até vender o excedente para o vizinho."

Ferreira trouxe para o Brasil a sua experiência de nove anos de trabalho nos Estados Unidos . Primeiro na Universidade do Texas Agricultura e Mecânica (A&M) e depois na empresa MER, no Arizona, ele coordenou projetos para órgãos governamentais como a Nasa, a agência espacial norte-americana, o exército e o departamento de energia, além de empresas como Asahi e Mazda, sempre com o tema célula a combustível.

"Voltei porque obtive financiamento da FAPESP': conta Ferreira, que teve um projeto aprovado dentro do Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE) . "Enviei minha proposta de projeto, em 1997, ainda dos Estados Unidos", lembra. No ano seguinte, ele montou a empresa em sua cidade natal, Cajobi, próxima a São José do Rio Preto, em um imóvel da família.

Para montar os primeiros protótipos de células a combustível, Ferreira precisou desenvolver as placas sepa-

radoras bipolares (catalisadores), peças essenciais para montagem de protótipos de células a combustível. É nos catalisadores onde ocorre a quebra das moléculas de hidrogênio (H 2 ) Os prótons originários dessa reação alcançam, através da membrana, o lado ânodo (negativo) da célula para formar a água . Enquanto os elétrons originários da reação de quebra do H 2 circulam pela placa separadora gerando eletricidade

Desde os anos 80 - No Brasil, um dos primeiros grupos de estudo sobre célula a combustível surgiu no Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da Universidade de São Paulo (USP) . Sob a coordenação do professor Ernesto Rafael Gonzalez, foi construído, na década de 80, o primeiro pro· tótipo laboratorial desse tipo de equipamento no país. "Entre 1981 e 1982, estive por dois anos no laboratório nacional de Los Alamos, nos Estados Unidos, estudando células a combustível e outras aplicações do hidrogênio': lembra Gonzalez.

Durante todos esses anos, ele destaca vários trabalhos no aperfeiçoamento de materiais e processos ligados à tecnologia de células a combustível e baterias, inclusive com urna patente sobre um método de fabricação de catalisadores para células, ainda não utilizado comercialmente . Outro destaque é uma curiosidade e, ao mesmo tempo, demonstra o grau de desenvolvimento da equipe da USP. "Os eletrodos utilizados na primeira célula a combus-

tível da Coréia do Sul, há dez anos, foram desenvolvidos em São Carlos ': revela Gonzalez, que hoje coordena um projeto temático voltado para a eletrocatálise e as células a combustível. Foi ele também quem orientou, nos anos 80, as teses de mestrado e doutorado de Ferreira, da UniTech. Outro grupo de pesquisa brasileiro envolvido com as células a combustível está no Instituto de Pesquisas Nucleares e Energéticas (Ipen ) Os estudos iniciaram-se em 1997 e concentram-se na produção de materiais que compõem os eletrodo s e os catalisadores. O grupo teve início com a vinda, em 1998, do professor Hartmut Wendt, da Universidade de Darmstadt, Alemanha . Wendt veio ao Brasil a convite do professor Marcelo Linardi, que faz parte desse grupo, e com auxílio-visitante da FAPESP. Atualmente, Linardi finaliza um projeto financiado pela Fundação de desenvolvimento de eletrodos e outros processos ligados às células. Na pauta dos estudos do Ipen estão dois tipos de células que também podem ser usadas em automóveis. São as células PEMFC, do inglês Célula a Combustível com Membrana Polimérica de Troca de Prótons, o tipo de tecnologia também desenvolvido por Ferreira, da UniTech, e a SOFC, Célula a Combustível com Eletrolito de Oxidos Sólidos. "Nossa idéia é desenvolver uma linha de pesquisa que leve à construção de um protótipo de alguns quilowatts " , explica Linardi. A transferência da tecnologia de células a combustível poderá se con-

O PROJETO

Eletrocatálise Parte III. Cinética e Mecanismo de Processos

Eletroquímicos de Conversão e Armazenamento de Energia

MODALIDADE

Projeto temático

COORDENADOR

ERNE STO RAFAEL GONZALEZ- USP

O PROJETO

Fisiologia da célula a combustível

Calorrecu,oeraóo

.::::::::::: Corrente _ altemaóa

O PROJETO

Materiais Avançados para Fabricação de Separadores Bipolares para Células a Combustível de Polímero Condutor lônico

MODALIDADE

Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE)

COORDENADOR

ANTONIO CÉSAR FERREIRA- UniTech

INVESTIMENTO

R$ 192.024,00

cre tizar com um possível acordo entre a instituição e a empresa Electroce ll, incubada no Centro Inc ubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), no prédio do Ipen na Cidade Universitária, em São Paulo . No momento, a Electrocell, além de desenvolver tecno logia para as células, busca investidores de capital de risco para imp lementar uma linha de produção Ela tem, entre seus quatro sócios, dois pro-

prietários de empresas também incubadas no Cietec que possuem financiamento dentro do PIPE. Gilberto Janólio, com a empresa DCSystem, desenvo lve baterias especiais de lítio e de titânio para suprir equipamentos de telecomunicações, e o também engen heiro Gerhard Ett, da Anod -Arc, que elabora uma técnica de tratamento de superfície de alumínio supenor ao processo convenciona l.

Tema mundial "Existe, hoje, um movimento internacional em favor de energias eficientes e limpas como as células a combustível, e o Brasil tem a

Desenvolvimento de Eletrodos e de Processos de Dopagem de Eletrodos de Células a Combustível a Membrana Polimérica Trocadora de Pró tons

MODALIDADE

Linha regular de auxílio à pesquisa

COORDENADOR

MARCELO LINARDI - I pen

INVESTIMENTO

R$ 53.291,55 e US$ 29.684,63

grande oportunidade de ser um líder entre os países ibero-americanos", afirma o professor Gonzalez Ele é o representante da USP no recém -criado Centro Nacional de Referência em Energia de Hidrogênio (Ceneh), instalado na Unicamp e composto por várias entidades, coordenado pelo professor Ennio Peres da Silva "Nossa intenção é começar pela integração dos vários grupos que possuem pesquisas com hidrogênio e estabelecer um amplo banco de dados", explica Gonzalez Um trabalho que, espera-se, traga boas notícias para o campo energético brasileiro, como os softwares do professor Secundino, os ganhos de MW com a otimização do uso do bagaço de cana, além do desenvolvimento de cé lulas a combustíve l e novos painéis solares. Notícias mais que bemvindas, notícias necessárias . •

Ferreira: ex periência na construção de cél ula a co mbustível (a baixo)

Conversor

Hormôniode cresci menta em tamanho grande

Empresa do PIPE desenvolve medicamento com técnica de DNA recombinante e fecha acordo para fabricação de produto mais barato que vai substituir o importado no tratamento do nanismo

Hospitais, postos de saúde edistribuidoras farmacêuticas deverão receber, no primeiro trimestre de 2002, os primeiros frascos de hormônio de crescimento humano produzido no Brasil. Atualmente, o produto é importado e acarreta o gasto de dezenas de milhões de dólares anuais ao país Melhor, o hormônio produzido aqui terá um custo menor em cerca de 30% que o similar importado . Medicamento utilizado sobretudo para o tratamento de crianças com nanismo por deficiência hormonal, o hormônio de crescimento humano ou hGH, do inglês Human Growth Hormone, é o resultado das pesquisas da empresa Genosys Biotecnológica que recebe, desde 1997, financiamento do Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP. Em outubro de 2000, a Genosys encontrou o parceiro adequado para a produção e comercialização do hGH, a empresa farmacêutica Braskap, também de capital nacional.

A deficiência de hormônio de crescimento atinge uma em cada 15

mil crianças e o único tratamento é a reposição hormonal. O diagnóstico da deficiência de produção de hGH deve ser feito de preferência entre os 3 e 5 anos de idade. O tratamento prossegue até que as cartilagens parem de crescer, o que acontece após os 16 anos . A criança usa O, 1 U.I. (unidade internacional) por kg de peso todo dia. Serão em torno de 12 anos de tratamento com um custo total de R$ 360 mil A parceria da Genosys e da Braskap permitirá a redução desse valor para cerca de R$ 250 mil.

Num indivíduo normal, a liberação do hormônio na circulação sanguínea atinge seu pico durante o sono e no período da adolescência . Entre 20 e 25 anos, a produção do organismo começa a diminuir, ficando quase nula aos 60 anos Esse hormônio de crescimento em si não tem atividade Ele· é liberado pela glândula pituitária (hipófise), localizada na base do cérebro. Pela corrente sanguínea chega ao fígado e nele induz à produção do IGF3 e do IGF1 (Insulin-like Growth Factor), substâncias que realmente promovem o crescimento

O uso do hormônio de crescimento no tratamento de crianças teve início em meados dos anos 60, quando era retirado de glândulas pituitárias de cadáveres. Os Estados Unidos criaram até a Agência Nacional da Pituitária, para a coleta das glândulas. Na década de 70, surgiu a técnica do DNA recombinante que possibilitou a clonagem do gene codificador do hormônio em bactérias geneticamente modificadas. Ao mesmo tempo, descobriu-se que o uso do hormônio obtido de pituitárias de cadáveres estava associado ao mal de CreutzfeldtJacob. Essa doença corresponde à versão humana da doença da " vaca louca", caracterizada por degeneração física e mental, o que levou à proibição mundial do uso do hormônio obtido diretamente da pituitária.

Prod uto acadêm ico - A produção do hormônio pela Genosys baseia-se na técnica de DNA recombinante. A clonagem do gene codificador do hormônio foi realizada, em 1996, pelo professor Hamza Fahmi Ali El Dorry, do Departamento de Bioquímica do Ins-

Produção do hormônio (hGH) com técnica de DNA recombinante

mensageiro obtido da pituitária

Plasmídeo (fragmento) deDNA bacteriano

Solução aquosa do hormônio purificado

Hormônio purificado e em pó Liofilização (retirada de água a vácuo)

Processos cromatográficos (filtragens em diferentes resinas)

tituto de Química da Universidade de São Paulo (USP). Naquele ano, ele fez um convite ao bioquímico Jaime Francisco Leyton, que havia sido seu doutorando e contava com pós-doutorado na Chicago Medical School, nos Estados Unidos. "Ele me convidou para empreendermos a produção do hormônio': conta Leyton. ''A Genosys foi criada diante do estímulo que o PIPE oferecia, pois queríamos continuar a desenvolver as pesquisas enquanto procurávamos parceiros e financiamento:'

Procuram-se parceiros- Com o projeto aprovado logo no primeiro edital do PIPE, a Genosys recebeu R$ 66 mil mais US$ 101 mil, para o desenvolvimento do produto final, incluindo aí a compra de equipamentos. A procura por parceiros comerc1a1s não foi fácil. "Foi uma romaria. Consultamos diversas empresas, tivemos várias reuniões, mas as indústrias farmacêuticas ou não estavam dispostas a investir em pesquisa e desenvolvimento ou queriam uma enorme vantagem financeira na associação", comenta Leyton. A Genosys chegou a

Extrato de hGH

consultar o BNDESPar- empresa do BNDES especializada na capitalização de empresas brasileiras pela aquisição de ações ou debêntures conversíveis -e o projeto foi aprovado no mérito, mas os recursos só seriam liberados se houvesse um parceiro para a comercialização do hormônio. "Chegamos a sentar com representantes de uma indústria farmacêutica e do BNDESPar, que alocaria os recursos, mas o acordo não saiu. Estávamos trazendo a tecnologia, obtendo capital e mesmo assim a indústria farmacêutica não fechou o negócio." Em meados de 2000, Genosys e Braskap iniciaram entendimentos, descobriram vários pontos em comum e o acordo foi assinado no final do ano. O contrato com a Braskap é basicamente um consórcio: "O objetivo é a produção e comercialização do hGH. A maior contribuição da Genosys é o know-how de produção, enquanto o aporte mais valioso da Braskap é a sua experiência de distribuição e de vendas", explica Leyton. Hoje, depois de participar da edição do Venture Forum (veja Pes-

Bactérias modificadas

Iquisa FAPESP no 64), Leyton negocia a participação de investidores de capital de risco na empresa, garantindo, assim, uma melhor saúde financeira da Genosys e mais investimentos no desenvolvimento de novos produtos.

Testes finais - Antes de chegar ao mercado, o hormônio da Genosys ainda passará por testes clínicos. Até agora, todo o processo de produção foi desenvolvido e validado, mas o hormônio não foi ministrado a nenhum ser humano, apenas foi testado -e aprovado em animais, com auxílio do Laboratório de Diagnósticos Toxicológicos (Ladtox) do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, sob a coordenação do professor Luiz Carlos de Sá Rocha. Mesmo esses testes de toxicidade aguda e crônica utilizando 1,5 e 1Ovezes a dose terapêutica em três espécies diferentes de animais terão de ser refeitos com o hormônio produzido nas instalações da Braskap, por exigência da legislação. Os testes em humanos serão rápidos,

Moléculas com material genético misto
Moinho de quebra celular
Filtro
Clone da bactéria com a seqüência de DNA que codifica a hGH
Fermentação das bactérias que fabricam o hormônio

basta aplicar o hormônio e verificar sua resposta na circulação sanguínea. Outro fator que facilita a liberação do hormônio para o mercado brasileiro é sua similaridade com produtos fabricados no exterior.

A maior dificuldade da Genosys no desenvolvimento do hormônio foi o domínio do processo de downstream (purificação), sobre o qual nenhuma empresa que o domine fornece pistas seguras. Até há alguns anos, a clonagem do gene era a fase mais complexa. Hoje, ela está mais disseminada.

Os pesquisadores, a partir de uma pituitária, obtêm o gene que codifica a produção do hormônio e fazem nele modificações para atender às necessidades da bactéria Escherichia coZi onde o hGH será produzido. Essa seqüência de DNA é inserida numa molécula de DNA bacteriano (plasmídeo) Uma vez colocado esse plasmídeo dentro de uma bactéria, ela pas-

sará a produzir o hormônio A síntese é ativada pela presença, no meio de cultura, de um indutor químico.

Capacidade de produção- A etapa seguinte é promover a fermentação das bactérias em um fermentador com capacidade de 200 litros "Temos hoje uma capacidade de produção, com

Usos aprovados e abusos negados

O hormônio de crescimento humano produzido em laboratório tem até agora, segundo a prestigiada entidade norte-americana Food and Drug Administration (FDA), os seguintes usos: nanismo por deficiência do hormônio e síndrome de Turner, uma anomalia cromossômica que afeta meninas e, entre outras conseqüências, provoca baixa estatura em 95% das portadoras e esterilidade. Também é indicado no tratamento de pacientes com Aids em estágio avançado, quando a pessoa começa a perder musculatura Outros usos, inclusive no Brasil, acontecem no caso de transplantados renais e adultos com deficiência do hormônio. Nos Estados Unidos, existe atualmente uma corrente médica que está req u erendo a aprovação, por parte do FDA, do uso geriátrico do hGH Também existem pesquisas em andamento no Brasil sobre o uso geriátrico, no trata-

mento de pessoas com queimaduras graves e na redução da gordura abdominal.

No caso do uso geriátrico, os estudos dos últimos anos indicam benefícios no combate à osteoporose, na redução da massa museu-· lar e na diminuição d a gordura localizada. Os resultados ainda não são conclusivos. Segundo José Antonio Miguel Marcondes, presidente da Sociedade Paulista de Endocrinologia e Metabolia, há quatro anos foi publicado um artigo no New England fournal of Medicine sobre o uso geriátrico do hGH. "Os benefícios para os idosos parecem ser inco n testes, entretanto, a pesquisa pub licada ainda foi restrita em termos de amostra", diz Marcondes. Em relação à prática de pessoas saudáve is e freqüentadores de academia de ginástica que querem utilizar o hGH para aquisição de massa muscular ou aparentar jovialida-

folga, de 12 mil frascos-ampola de 4 U.I. por mês", afirma Leyton. Uma criança acometida de nanismo utiliza cerca de 250 frascos-ampola por ano. Assim, a produção do consórcio Genosys/Braskap tem capacidade para atender até 576 crianças. "Mas há possibilidade de no futuro chegarmos até 40 mil frascos-ampola mês."

de, o assunto muda de tom. "Esse tipo de utilização é no mínimo inconveniente, por falta de estudos detalhados e diante dos riscos, que vão do diabetes ao câncer:'

Existem outros sérios riscos para as pessoas que se utilizam do hGH sem acompanhamento médico adequado e que não têm deficiência do hormônio: crescimento dos pés, mãos, queixo e crista orbital (sob as sobrancelhas) e de extremidades cartilaginosas (orelhas, nariz), crescimento de tumores já existentes, cirrose, dores nas juntas, inchaço e hipertensão por retenção de líquido, além do aparecimento de doenças cardíacas.

Classificado como anabolizante pelo Comitê Olímpico Internacional, o hGH está sujeito a controle especial (venda com receita médica em duas vias a ser retida pela farmácia) por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, de acordo com resolução emitida em 15 de fevereiro de 2001.

Primeiras ampolas de hormônio produzidas de forma experimental na Genosys

Gordas e eficazes - As bactérias são excelentes produtoras de hormônio. Produzem tanto que precisam armazenar o produto nos chamados corpúsculos de inclusão, fáceis de serem vistos em microscópios. Com as bactérias gordinhas, inicia-se então o processo de downstream.

A primeira ação é a "quebra" das bactérias para a liberação dos corpúsculos e sua lavagem. Depois, o hormônio contido nos corpúsculos é solubilizado e disposto na sua conformação original. Em seguida, é a vez dos processos cromatográficos de purificação, nos quais a solução aquosa que contém o hGH passa por uma série de processos como troca iônica, peneira molecular, entre outros, que retiram as impurezas do hormônio. Nesse processo restam apenas de 20% a 28% do hGH produzido pelas bactérias, o resto se perde. Leyton explica que esse rendimento é economicamente viável, sendo preferível essa perda para que se obtenha um produto ultrapurificado.

Nas fases seguintes, é adicionado um conservante e estabelecida a concentração de hormônio desejada. Finalmente, a solução será liofilizada (retirada da água a vácuo). Com esse processo, o hGH em pó ficará estável por até dois anos.

O grau de pureza necessário à produção do hormônio de crescimento é infinitamente superior a outros produtos também obtidos por engenharia genética, como por exemplo, uma vacina, explica Leyton. " Quando se toma uma vacina e

Leyton : a fase mais difícil do desenvolvimento do hormônio foi a purificação

Produção do Hormônio de Crescimento Humano pela Tecnologia do DNA Recombinante

MODALIDADE

Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE)

COORDENADOR

JAIME FRANCISCO LEYTON- Genosys

INVESTIMENTO

R$ 232.1 34,21

ocorre uma reação, uma pequena febre, as pessoas consideram isso normal. Mas a vacina não deveria provocar nenhuma reação. O que acontece quando se faz a purificação da vacina é que os produtores, por questão puramente financeira, se satisfazem com um grau de pureza de 95% ou 96%." Isso se deve ao fato de que a pessoa tomará uma dose e quando muito uma dose de reforç{> tempos depois, e, se houver uma febrinha, ela passará. Mas no caso do hormônio, a criança vai tomar praticamente todo dia e não pode haver aquele grau de impureza tolerável na vacina. "O segredo da produção do hGH é a sua purificação."

Fornecimento gratuito - O principal comprador de hormônio será o sistema público de saúde que fornece gratuitamente o medicamento às crianças e também aos adultos porque , mesmo depois da adolescência, o paciente usa o hormônio em doses decrescentes pelo resto da vida. O Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP atende 320 pessoas com necessidade de hGH, a maioria delas

crianças. Segundo Berenice de Mendonça, chefe da Unidade de Endocrinologia do Desenvolvimento do hospital, o atendimento às crianças com nanismo por deficiência de hormônio no Estado de São Paulo pode ser considerado bom. O hGH utilizado nos vários hospitais do Estado que tratam desse problema é fornecido pela Secretaria de Saúde e pelo Ministério da Saúde. Somados aos 320 atendidos no Instituto Central, há mais 100 crianças que recebem o hGH no Instituto da Criança, também vinculado ao hospital.

Crescer e diversificar - A Braskap, para fazer a distribuição do medicamento, contará com sua experiência de 20 anos no mercado. Localizada em Sorocaba, a empresa tem como atividade principal a fabricação de cápsulas gelatinosas para medicamentos ( 1 bilhão delas por ano) para várias indústrias farmacêuticas. Existem 15 fabricantes dessas cápsulas no mundo, sendo três deles no Brasil: duas empresas estrangeiras e a Braskap, de capital totalmente nacional. Em 1995, a empresa também iniciou sua divisão farmacêutica, contando até agora com dez medicamentos em produção.

Segundo o presidente da empresa, Augusto Mattos, os investimentos da Braskap na parceria serão direcionados para a construção de área específica para a produção do hormônio, equipamentos, estudos clínicos e formação de uma equipe de promoção e vendas. ·"Estimamos os investimentos iniciais em US$ 2 milhões. A previsão é que nos primeiros anos o hormônio responderá por 5% da capacidade produtiva da empresa." Para Mattos, o pioneirismo das duas empresas é razão de otimismo. "O Brasil dispõe de excelente comunidade de pesquisadores, que, com o apoio do empresariado, trará para o país grande desenvolvimento nas mais diversas áreas." O contrato assinado entre a Braskap e a Genosys já prevê o desenvolvimento de novos produtos. •

Saúde em microcápsulas

Adicionado ao leite, o ferro é melhor absorvido quando envolto em celulose

Uma equipe do Laboratório de Tecnologia de Partículas (LTP) do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) desenvolveu microcápsulas de sulfato de ferro (PeSO 4 ) que viabilizam o uso desse composto na fortificação de alimentos . Adicionadas ao

leite em pó reconstituído, aumentaram em mais de quatro vezes a absorção do ferro pelo organismo em re lação ao leite enriquecido com FeS0 4 não encapsulado: a quantidade saltou de 2% a 3% para 13%

A d eficiência de ferro afeta um terço d a popu lação m u ndial e, embora o PeSO 4 seja um dos compostos mais u sados para enriq u ecer alimentos, faltava u m a encapsulação eficie nte. A técnica desenvolvida no IPT já d esperta o interesse de empresas .

A microencapsulação evita prob lemas comuns nesses processos,

como alta reatividade dos compostos minerais com outros ingredientes, facilidade de oxidação, além da variação de cor e alteração do gosto do alimento . No caso, diz a engenheira química Maria Inês Ré, chefe do LTP e coordenadora do projeto, "a microencapsulação pode mascarar o sabor dos minerais nos produtos enriquecidos, reduzir a reatividade com outros ingredientes e controlar sua liberação na parte específica de melhor absorção no trato gastroin testinal ".

ponentes da alimentação Depois da reação com outros minerais, proteínas ou lipídios, no trânsito até o intestino , o ferro chega ao destino já oxidado ou precipitado e em condições de baixo aproveitamento (biodisponibilidade) ".

Maria Inês teve a colaboração da aluna de mestrado da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP) Tatiana de Oliveira Santos, que fez estudos completos de digestão in vitro- que procuram reproduzir a complexidade do

Além de alimentos, as aplicações incluem herbicidas, adição de enzimas a sabão em pó e anúncios de perfume impressos em q u e, a um toque no papel, sente-se o aroma.

Portas abertas - Maria Inês decidiu trabalhar com sup lementação de ferro, pois detectou aí um gargalo: "Os especialistas sabem das deficiências de ferro na população e da necessidade de suplementar dietas, mas não têm muitas alternativas tecno lógicas. É que não adianta incorporar ferro na dieta se ele reage com outros com-

organismo humano . Os testes foram com microcápsu las adicionadas à água e, depois, a um meio complexo -o leite em pó reconstituído.

Maria Inês, que se pós-doutorou em Tecno logia de Partículas em Toulouse, França, diz que o projeto abre portas até para a exportação, enquanto hoje a microencapsulação é pouco conhecida no país e os produtos são em geral importados. Por isso, sua grande motivação foi desenvolver tecnologia : "As técnicas existentes são de domínio do setor privado, que não tem interesse em cruzar

M i croc áp sula s d e sul fa to d e f e r ro aume nta d as SOO v ezes
Aum en t o d e 5.000 veze s: p roteçã o ex t e rn a ga rant e ef icácia

e absorver informação entre grupos distintos, como as indústrias de fragrâncias, de alimentos e farmacêutica, por se tratar de área de domínio de patente':

Estável e protegida - A microcápsula é esférica, o melhor formato para escoamento e fluidez. Num meio sólido, como o leite em pó, mistura - se ao produto e flui com ele O material encapsulante, natural ou sintético, protege o conteúdo. Na indústria farmacêutica, a u menta a estabilidade das drogas e lhes dá propriedades "inteligentes", como a liberação contro lada no organismo humano (ver quadro)

O sulfato ferroso foi escolhido também pela alta biodisponibilidade se levado corretamente ao local de absorção. Além disso,

é um composto barato e feito no Brasil. Essas vantagens facilitam M

o uso de microcápsulas em programas de suplementação alimentar

Em artigo sobre biodisponibilidade de minerais publicado na Revista de Nutrição da Pontífícia Universidade Católica de Campinas (Puccamp ), em dezembro de 1997, Silvia Franciscato Cozzolino, do Departamento de Alimentos e Nutrição Experimental da Farmácia da USP, mostrou um estudo sobre ingestão média diária de alguns minerais em dietas brasileiras, conforme região, faixa etária e condição social. Os menores valores de ingestão de ferro estavam nas dietas de idosos de casas de repouso de São Paulo, com 5,4 miligramas por dia (mg/dia), e na dieta de uma população de baixa renda de Santa Catarina, com 6,4 mg/dia. O ideal é o consumo diário por adulto de 15 mg/dia .

Gotas envolventes - O melhor produto desenvolvido por Maria Inês, com biodisponibilidade de 13%, foi a microcápsula formulada com FeS04 e uma solução aquosa de NACMC (carboximetilcelulose sódica, um derivado da celulose) . Esse líquido é colocado num secador es-

pecial onde, atomizado, forma gotinhas que evaporam e se transformam nas microcápsulas, ao aprisionar o sulfato ferroso numa membrana de carboximetilcelulose. No intestino, em cantata com o meio aquoso alcalino, lentamente a membrana se transforma num ge l. Como o aquoso continua a penetrar, isso solubiliza o sulfato ferroso. "É uma liberação com velocidade controlada."

No início, cerca de dez encapsulantes foram selecionados, mas a maioria foi descartada por reagir negativamente com o sulfato ferroso . Para a microencapsulação passaram

O PROJETO

Estudo da Microencapsulação de Mineral (ferro) por Spray Drying

MODALIDADE

Linha regular de auxílio à pesquisa

COORDENADORA

MARIA INfS Instituto de Pesquisas Tecnológicas

INVESTIMENTO

RS 31.163,79 e USS 45 .925,16

a aprovada carboximetilcelulose sódica e uma associação dela com um derivado de ácido poliacrílico usado na indústria farmacêutica, o Eudragit RS 100que não deu certo.

Também se testaram dispersões poliméricas aquosas. Elas envolvem uma técnica que evita solventes orgânicos quando o encapsulante não é hidrossolúvel e, assim, garante que não haja resíduos tóxicos no produto Essas dispersões são usadas em superfícies macroscópicas, como comprimidos e pastilhas . Maria Inês verificou que, embora os resultados para micropartículas ainda não sejam os esperados, é possível melhorar o processo e otimizar esse tipo de revestimento

Duas patentes- O projeto permitiu desenvolver paralelamente outros estudos e produtos encapsulados com características inovadoras que podem ser objeto de patente. Outra possibilidade de patente, que ainda demanda tempo de pesquisa, é a a própria microcápsula de sulfato ferroso . A pesquisadora acredita que, após a otimização de um produto que já é bom, pela introdução de um aditivo ao agente encapsulante, se conseguirá uma modulação mais fina da ve locidade com que o ferro é liberado no organismo . Ela quer aumentar o valor de absorção do ferro até 15%, o que significa passar de uma faixa média-alta para a faixa alta de aproveitamento

Num novo projeto recém-aprovado pela FAPESP, Maria Inês pretende aperfeiçoar a microcápsula de sulfato ferroso, analisar melhor as dispersões poliméricas aquosas e ainda investigar todos os mecanismos envolvidos na formação da microcápsula , que ocorrem no secador (spray dry er) "O ganho que se tem é muito grande . Com o domínio da técnica e o conhecimento maior de tudo que pode interferir no processo de geração das microcápsulas, será possível chegar ao design ideal do produto." •

IPT

Projeto da Unicamp faz radiografia da fraca participação do Congresso no destino das Forças Armadas

Um papel pouco compreendido

MARCOS PIVETTA

ais de 15 anos de democracia ainda não foram suficientes para o Congresso Nacional se interessar e influir num tema decisivo para os destinos do país: o papel das Forças Armadas . Há poucos senadores e deputados federais informados sobre as questões militares e muitos congressistas, ao tratar do tema, confundem os conceitos de defesa nacional (proteger o território e os cidadãos contra ameaças externas) e de segurança pública

(combater a violência, o crime e o narcotráfico).

Para piorar esse quadro de apatia do Legislativo Federal pelos assuntos de caserna, o poder Executivo concentra hoje em si todas as decisões importantes sobre as diretrizes e atividades que devem ser empenhadas pelo Exército, Marinha e Aeronáutica . "A política nacional na área militar é um ato isolado do presidente. O Poder Legislativo não é chamado a opinar durante sua confecção. Na prática, só homologa as propostas do Executivo", afirma o cientista políti-

M i lit ares em desfi le do Se t e de Se t embro: parlamentares têm pequena percepção da função de defesa das Forças Armadas

co Eliézer Rizzo de Oliveira, coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp ), autor das conclusões acima "Não sou a favor do duplo comando das tropas, mas o Executivo deveria se esforçar para tornar o Congresso co-responsável pela política de Defesa Nacional."

Estudioso da quest ão militar há mais de duas décadas, Oliveira acaba de encerrar um projeto temático financiado pela FAPESP que radiografou a participação do Congresso nos destinos das Forças Armadas desde a restauração do regime democrático no país (presidência de José Sarney, em 1985) até o segundo mandato do governo de Fernando Henrique Cardoso Pelas suas contas, entre os 513 deputados federais e 81 senadores, há dez - no máximo 20- parlamentares com bom conhecimento da vida militar

Matizes ideológicos - Na seleta lista de membros do Congresso com uma visão mais aprofundada das Forças Armadas, Oliveira inclui deputados de todos os matizes ideológicos À direita, com uma atuação de cunho sobretudo corporativista, sobressaise Jair Bolsonaro (PPB-RJ), oficial da reserva do Exército. No campo ideológico de centro-direita, outro congressista lembrado é o empresário Luciano Pizzatto (PFL-PR). À esquerda, as figuras destacadas são José Genoíno (PT-SP), que participou da guerrilha do Araguaia, um movimento que foi combatido e derrotado pela ditadura militar na década de 70, e Aldo Rebelo (PC do B), comunista de longa data. Entre os políticos de centro-esquerda, o pesquisador menciona Yeda Crusius (PSDB-RS), Antonio Carlos Pannunzio (PSDB-SP) e José Anibal (deputado federal por São Paulo e hoje presidente nacional do PSDB).

Para Oliveira, boa parte dos deputados e senadores mistura dois conceitos básicos quando opina sobre o papel dos militares. "Eles têm uma percepção pequena do que é

defesa nacional e uma percepção grande do que é segurança pública", afirma o pesquisador Em outras palavras, acham que as Forças Armadas devem se preocupar mais em combater o crime (organizado ou não), o tráfico de drogas e zelar pela "lei e a ordem" do que em defender o país de um inimigo externo.

Não é de estranhar, portanto, que a convocação das Forças Armadas para policiar cidades em determinadas situações- como durante a Eco92, a megaconferência ecológica que reuniu dezenas de chefes de Estado no Rio de Janeiro - seja raramente alvo de críticas mais agudas no Congresso "Essa visão dos parlamentares é equivocada . Não se deve militarizar a segurança pública . As Forças Armadas podem dar, no máximo, uma contribuição nesse sentido", afirma Oliveira. Contribuição esporádica, como no caso da convocação das tropas do Exército, no fim de maio, para conter uma greve-motim de soldados da Polícia Militar do Estado de Tocantins A pedido do governador local, Fernando Henrique autorizou o env io de so ldados para controlar o movimento.

Atualmente, a opção constitucional de chamar as tropas militares para cuidar de assuntos internos é uma decisão exclusiva do presidente da República, comandante supremo das Forças Armadas. O Congresso não precisa ser consultado sobre o tema ''A meu ver, a Constituição deveria envolver o Legislativo nesse processo. O presidente deveria remeter um pedido de autorização ao

O PROJETO

Fo rças Arm ada s e Dem ocracia: O Pape l do Po der Leg isl a tivo

MODALIDADE

Pr oj eto t em át i co

COORDENADOR

ELIÉZER RI ZZO DE O LIVE IRA - Uni camp

INVESTIMENTOS

RS 2 5 .920,40

Congresso, como faria se quises se decretar Estado de Sítio ou Estado de Defesa", opina Oliveira "E, terminada a intervenção, ele deveria prestar contas aos deputados e senadores ."

Brecha jurídica - Se a situação hoje ainda não lhe parece a ideal, o pesquisador lembra que, durante os primeiros anos de vigência da atual Constituição, chegou a ser perigosamente fácil e banal recorrer aos militares para cuidar da segurança pública. Entre outubro de 1988 e julho de 1991, intervalo entre a promulgação da Carta Magna e a edição da primeira lei complementar regulamentando questões militares, uma brecha jurídica dava autonomia total para que qualquer membro de um dos Três Poderes, em nível municipal, estadual ou federal, convocasse as tropas militares para cuidar da "lei e da ordem':

Sem ter de pedir autorização para o presidente da República ou prestar contas para alguém, qualquer prefeito, vereador, deputado ou juiz podia chamar as tropas federais para controlar conflitos. Isso era possível porque a redação original do artigo 142 da Constituição, que trata dos militares, era omissa e não havia regulamentação. Tudo o que estava escrito era que qualquer um dos poderes constitucionais podia recorrer às tropas federais para garantir "a lei e a ordem" Mais nada. Trabalhando nas brechas da lei, um juiz requisitou, em novembro de 1988, o envio de soldados do Exército para controlar uma greve na Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda (RJ) . O resultado virou uma triste página da história nacional : três mortos durante a intervenção. Essa brecha jurídica foi fechada em julho de 1991 com a edição de uma lei complementar. Por essa norma, apenas o presidente da República tem o poder de decidir sobre o emprego das Forças Armadas, por iniciativa própria ou em atendimento a pedido encaminhado pelos presidentes do Supremo Tribunal Federal, do

Senado ou da Câmara dos Deputados. O desinteresse e o desconhecimento dos membros do Legislativo pela questão militar não seria uma reação natural de um poder que, durante a ditadura, foi silenciado pelas Forças Armadas? Oliveira não se dá por satisfeito com esse tipo de explicação. "No Brasil, falta cultura estraté-

Soldados vigiam o Rio de Janeiro durante a megaconferência Eco-92

pesquisador saiu com a impressão de que as Forças Armadas brasileiras exibem uma atuação tímida em assuntos de política exterior. "Nossos vizinhos acham que os militares brasileiros poderiam exercer maior influência no contexto internacional", afirma . A participação discreta de sol-

fesa, com um civil à sua frente. Com a nova pasta, os comandantes das Forças Armadas (Marinha, Exército e Aeronáutica) perderam o status de ministro e passaram a se reportar ao titular da Defesa -e não mais diretamente ao presidente da República. Algo mais condizente com uma democracia. •

dados nacwna1s em missões de paz patrocinadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) no estrangeiro é um sintoma dessa política acanhada. Em meio às críticas à atuação do Executivo na condução das Forças Armadas, o pesquisador cita uma medida positiva: a criação, há dois anos, do Ministério da Degica aos dirigentes civis': diz. O alvo da crítica não é só o Congresso, mas também o Executivo. Os presidentes do regime democrático não têm dado muita importância à elaboração de uma política militar mais detalhada. Em contatos com oficiais e dirigentes de países do Cone Sul, o

Sem pudores de ser a polícia do mundo

Se o Brasil ainda não sabe muito bem qual é o papel de suas Forças Armadas, os Estados Unidos sabem e dizem, com todas as letras, o que esperam de seus soldados e oficiais, concebendo seu aparato militar como uma espécie de polícia do mundo. Pronta a zelar, é certo, pela integridade do território naciona l e segurança de seus cidadãos, mas sobretudo em posição de alerta para defender a enorme gama de interesses de Washington. A Casa Branca, por exemplo, se concede o direito de fazer ou patrocinar guerras só com o objetivo de garantir mercado consumidor para seus produtos ou o acesso a fontes de riqueza e recursos naturais "A liberdade de comércio faz parte da política de defesa dos Estados Unidos", diz o pesquisador Eliézer Rizzo de Oliveira . Tudo isso está acessível no site do Departamento de Defesa

dos Estados Unidos. Os relatórios sobre o funcionamento das Forças Armadas do país explicitam o papel do braço bélico da maior potência terrestre. Sua versão de 2000 contém o seguin- · te trecho:

"Quando os interesses em jogo são vitais - isto é, são de grande e predominante importância para a sobrevivência, segurança e vita lidade da nação -, os Estados Unidos farão o que for preciso para defendê-los, incluindo, quando necessário, o uso unil atera l de força militar" Os interesses nacionais vitais incluem : proteger a soberania, o território e a população dos Estados Unidos; evitar o aparecimento de coa l izões hostis regionais ou hegemônicas; assegurar acesso ilimitado a mercadoschave, suprimentos de energia e recursos estratégicos; deter e, se

possível, derrotar agressões contra aliados dos norte-americanos e amigos; e garantir a liberdade dos mares, céus e espaço, bem como a segurança de linhas vitais de comunicação.

No relatório de 2001, a possibilidade de fazer guerra por interesses econômicos foi suavizada. O tom ameaçador do quarto interesse vital - acesso a mercados e recursos estratégicos - foi alterado e cedeu lugar a uma construção mais politicamente correta: "Proteger o bem-estar econô- mico da sociedade dos Estados Unidos". Ainda assim, o novo texto não altera a essência do enunciado anterior: os norteamericanos colocam suas Forças Armadas a serviço de guerras comerciais. Com a palavra, o novo presidente da única potência planetária, o republicano conservador George W. Bush.

Asuave magia feita de madeira e metal

Tese descreve a evolução do piano e seus intérpretes desde o século 79

Ocompositor húngaro Franz Liszt (1811-1886), que reivindicou para si a autoria do recital-solo de piano no século 19, imitando Luís XIV, dizia: "Le concert c' est moi" ("O concerto sou eu"). A análise das transformações ocorridas com o intérprete-pianista desde a sua criação no século 19 até a pós-modernidade é o tema da tese de doutorado O Intérprete- Pianista no Fim do Milênio,

defendida na Universidade de São Paulo (USP) por Sílvio Baroni- hoje professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) -,que contou com o apoio da FAPESP.

"Numa primeira parte, abordei a gênese desse intérprete, em um retrospecto histórico do Barroco ao Romantismo, enfatizando a influência de Liszt. Depois, há uma análise que evidencia o intérprete face às inovações tecnológicas ocorridas desde a invenção do fonógrafo até o computador", diz. Baroni discute também a inserção do intérprete na indústria cultural e os paradigmas das diversas possibilidades da performance pianística contemporânea. A motivação para mergulhar em seu próprio mundo profissional veio da observação do meio.

"Não há muitas oportunidades nas salas de concertos e eu investiguei o que ocorria, bem como a razão dos fenômenos da música erudita, como

Pavarotti. Estrelas como ele mostram que, em música, ou se ganham salários enormes ou não há espaço e retorno financeiro", observa Para tanto, entrevistou vários profissionais, entre os quais a célebre pianista Martha Argerich. Baroni inicia seu trabalho com um retrospecto do período da efervescência do teclado, no Barroco, até o compositor desvinculado do intérprete, no Romantismo. Esse foi o período da explosão pianística. "Os compositores estavam todos na França- como Chopin e Liszt- e eles não se relacionavam só com músicos, mas com todos os tipos de artistas. A obra de Liszt, por exemplo, liga-se à literatura "

Segundo Baroni, também começa com esse compositor o conceito moderno de grande estrela da música "Liszt tocava na Europa como rei Ao contrário de Chopin, que preferia platéias pequenas, gostava de tocar para multidões. Entre outras coisas, criou um molde artístico que foi elaborado e chegou até os dias de hoje': afirma. Em seguida, Baroni analisa como o instrumentista, ao entrar no novo século, deparou com o advento do registro- a gravação e o fonógrafo alteraram substancialmente a vida dos músicos, compositores e do pú-

bl ico, já que os aparelhos entram nas casas, substituindo o som que se pod eria ter ao vivo "De repente podia se ter aquela bolachona pesada que trazia um grande pianista para a sua casa tocando lindamente a Sonata Apassionata de Beethoven ." Daí, foi preciso passar à análise da indústria cultural. O ponto central é a questão da cultura de massas versus cultura elitista, que existe também na música erudita Por exemplo, o Bolero, de Ravel, cuja gravação é adquirida por milhares de pessoas, ou Carmina Burana, de Carl Orff. "São músicas que muitos compram, mas nem sabem direito o que tem ali. As gravadoras vão jogando no mercado e tudo acaba massificado. As obras se tornaram clich ês." Um público mai s informado vai escolher a música qu e quer ouvir e o intérprete que est á tocando essa música: '" Quero Chopin com Rubinstein ou com Guiomar

O PROJETO

O Intérprete-Pianista no Fim do Mi/ênio

MODALIDADE

Tese de doutorado

ORIENTADOR

AMILCAR ZANI Nmo - USP

PESQUISADOR

SILVIO BARONI - USP

Mecanismo de tecla : para cada uma funcionar são necessários 55 componentes

Novaes ' , por exemplo. É uma outra postura diante da cultura", explica. Outro exemplo é a marca estabelecida pelo maestro Herbert von Karajan na Deustche Grammophon. "O Karajan gravava com quem e quando queria. Se não, o músico não gravava com a Filarmônica de Berlim. Então, há uma marca pessoal aliada à gravadora", afirma. N ão se pode esquecer, também, a questão do valor cultural da tecnologi a " Se ante s o a parelho de CD e o próprio CD eram caros , hoje tudo está mai s barato, o que signifit:a a po ssibilid ad e d e popularizar a mú-

Com quantas teclas se faz um piano?

Apesar de se dedicar há 42 anos à arte de fazer pianos, Luiz Barão nunca ouviu falar de Chopin, Schubert, Liszt, Brahms, Mendelssohn ou Schumann. O paulista de 65 anos sabe, porém, que para se tocar uma boa música um pianista precisa que os 8 mil componentes do instrumento funcionem com a precisão de uma orquestra. "Um piano não pode falhar. Damos duro para que tudo dê certo': afirma o marceneiro, que integra a equipe da única fabricante de piano no país: a Fritz Dobbert

O pouco entrosamento do operário com a história da música não é impedimento para que ele conduza com a habilidade de um maestro as etapas de fabricação do instrumento: corte da madeira, marcenaria do móvel, confecção das ferragens, teclado, mecanismo, martelaria, pintura, composição da parte mecânica, revisão, afinação e expedição. Na Fritz Dobbert, a montagem demora 90 dias. O primeiro passo para a fabricação é dado com a aquisição da madeira, o componente mais impor-

sica", diz. Questões como a do intérprete que não consegue gravar nem tem acesso a grandes salas de exibição são outros temas do seu estudo " Há grandes pianistas que nunca gravaram sequer um CD " , lembra. Uma opção de vida? Para alguns, sim, porque não desejam estar inseridos na indústria cultural. Para outros , é falta de oportunidade. Dentro de ss e process o , exi stem os grande s concursos internacionais, que projetam intérpretes da noite para o dia. "São projeções rápidas que nem sempre duram e, às vezes, um pianista

tante do piano A araucária chega à fábrica em toras, que ficam expostas ao sol e são secas em estufas . "A qualidade da madeira é o segredo para um bom instrumento, pois é o material responsável por 80% da peça", revela o diretor da Fritz Dobbert, José Ribeiro de Souza Filho

Para ele, o procedimento para tratar a madeira é fundamental para que o piano funcione adequadamente e tenha maior durabilidade. "Um piano é confeccionado para durar a vida toda. Não é como um carro que pode ser trocado a cada novo modelo", diz Souza Filho. "Nosso ins-

que nunca participou de um concurso tem uma carreira mais sólida." O crítico de música é outro elemento a ser analisado. "Ele se faz presente na história cultural, é um agente que promove artistas e, às vezes, vem atrelado aos objetivos do mercado."

Todas essas questões foram levadas aos artistas entrevistados. "Martha Argerich se disse impressionada porque sempre são teóricos escrevendo e não um pianista Ela tem uma célebre frase: certa vez disse que amava tocar piano, mas não gostava de trumento é tradicional. Temos como prática mudar o acabamento, mas a estrutura é sempre a mesma."

Após o tratamento da madeira, a parte estrutural é unida a uma chapa metálica e a uma tábua harmônica. A partir da junção das três, são instaladas cordas com fio de aço revestidas com cobre em espessuras diferentes. Ao todo, um piano tem entre 216 e 227 cordas, variando de acordo com cada modelo. Para o mecanismo de cada tecla funcionar e produzir som são necessários 55 componentes. Como cada piano tem 88 teclas, ape-

cordas do piano; acima, modelo vertical da Fritz Dobbert, a partir de R$ 5 mil

ser pianista, o que resume bem a vida desses artistas, porque eles têm concertos, gravação, viajam para uma cidade num dia e no outro alguém pergunta o que vão tocar em 2003."

Na quarta e última parte, Baroni trata da sedução do intérprete, decorrente de tudo o que ele herdouo recital, as gravações, o mercado e, finalmente, a concorrência. "O recital moderno consagrou isso. Quando você vai ao recital e ouve Horowitz ou Martha Argerich tocandó, este pianismo , a técnica impecável, o

nas a mecânica tem, sem o suporte, 4.840 componentes.

As últimas fases de fabricação são de acabamento e ajustes. Um simulador acusa os reparos necessários no instrumento e, em cabines acústicas, os pianos recebem a entonação e a afinação necessárias. O ajuste final de tons segue o padrão internacional com base na nota lá na freqüência de 440 ciclos. Após essa etapa está pronta a composição do piano, um instrumento de cordas percutíveis por martelos de madeira revestidos de feltro, com teclado, pedais e uma caixa de ressonância com cordas.

estilo, está em contato com elementos que elevaram muito o padrão do profissional e, ao mesmo tempo, a concorrência " Mas concorrência nunca foi problema para o intérprete-pianista brasileiro, cuja tradição remonta ao passado. Toda moça educada tinha de saber falar francês e tocar piano . Para reforçar isso, vieram para cá grandes mestres europeus, que ensinaram os jovens. "Guiomar Novaes, por exemplo, estudou com o maestro Luigi Chiafarelli, que não se limitava a fazer os alunos tocar piano , eles precisavam saber sobre artes plásticas, escultura, pintura", conta. Não sem razão, quando Guiomar tocava, Mário de Andrade via elfos saindo em nuvens de seu teclado. •

O processo de fabricação do piano diverge pouco entre os sete modelos verticais produzidos pela Fritz Dobbert. Para os dois de cauda, porém, a empresa importa o mecanismo, o abafador e o teclado, materiais que representam 45o/o do custo do produto. O preço do modelo de cauda varia de R$ 25 mil a R$ 35 mil. O vertical custa entre R$ 5 mil e R$ 8 mil.

Hoje em dia, a produção mensal da empresa é de 100 pianos por mês. Em 51 anos de existência, a Fritz Dobbert já vendeu 85 mil unidades.

Osertão vai virar mar ou o mar vai virar sertão? A professora Maria Cristina Pompa resolveu investigar o mistério em sua tese Religião como tradução: missionários, tupi e "tapuia" no Brasil Colonial, que contou com o apoio da FAPESP No estudo, ela analisou como, no período colonial, se deu a construção da cultura do fim do mundo do sertão, a partir da dialética entre cosmologia indígena e pregação missionária . A pesquisadora observou um para lelismo impressionante entre a pregação dos "beatos" e "conselheiros", ai nda ativos até pouco tempo atrás, e a dos missionários "itinerantes " , jesuítas e capuchinhos, que pregaram no sertão do médio

São Francisco nos sécu los 17 e 18 . "Os conteúdos dessas pregações estavam marcados por uma religiosidade moralizante e pen itencial, que se utilizava de uma espetacu laridade barroca, a mesma de um padre Vieira," exp lica Maria Cristina.

HISTÓRIA

Araiz da cultura do fim do mundo

Estudo da Unicamp encontra paralelo inesperado entre a prega çã o dos "beatos " eos ''conselheiros ; até pouco tempo atrás presentes no sertão brasileiro, eos missionários que pregavam no médio

São Francisco nos séculos 17 e 18

Para a maioria dos autores que trataram desse tema, a relig ião camponesa está atrelada ao "atraso" do sertanejo. "Falar em sertão é falar no seu 'misticismo' : em Pedra Boni ta, Can udos ou Juazeiro, nas de penitentes e no fim de mundo:' diz . "No entanto, as manifestações 'messiânicas' do Nordeste são incompreensíveis fora do sistema simbólico sertanejo- o que defino como a cultura do fim do mundo, em que areligiosidade apocalíptica e penitencial

O PROJETO

Religião como tradução: missionários, tu pi e " tapuia" no Brasil Colonial

MODALIDADE

Tese de doutorado

ORIENTADOR

JOHN MANUEL MONTEIRO- Unicamp

PESQUISADORA

MARIA CRISTINA POMPA- Unicamp

é uma das formas de leitura do mundo É por meio desse imaginário que passa a possibilidade de transformar a história e inaugurar um mundo novo, de justiça e irmandade." E muitas vezes esses movimentos apresentam-se na forma de uma "g u erra santa" do bem contra a maldade . Os encontros sincréticos entre as religiosidades missionárias dos católicos e indígenas estão presentes desde o início de nossa co lonização. Maria Cristina Pompa parti u da análise do chamado "profetismo tupi-guarani". Para ela o profe tismo indígena não é intrínseco à cultura tupi-guarani, mas é o produto do encontro entre as culturas na Amér ica, uma "construção negociada': "E essa negociação começa pela própria categoria de 'profeta', ut ilizada nas fontes quinhentistas para indicar os grandes xamãs tupinambá : os caraíbas, como os brancos eram chamados pelos indígenas Isso já mostra o esforço, de um lado e de outro, do encontro co-

lonial, de ' traduzir' a alteridade em termos compreensíveis no interior de um universo semântico conhecido: a linguagem religiosa é terreno de mediação onde cada cultura pode encontrar o sentido da 'diversidade' da outra", analisa a pesquisadora.

Em sua investigação, Maria Cristina abordou a documentação missionária sobre a evangelização dos tapuias (como no Brasil colonial eram chamados todos os índios não tupis do interior). Nesses registras, há relações de aproximação e afastamento entre missionários e índios nas aldeias. "Quando aparece o

rituais são escolhidos por fazerem sentido: as penitências públicas, as rezas para a seca e a varíola, os rituais da Semana Santa", conta a professora. Sua análise termina, cronologicamente, com a expulsão dos jesuítas e a transformação das aldeias em vilas, com a política pombalina que ordena a integração dos índios à população da colônia, estimulando até mesmo os casamentos entre brancos e indígenas. Certamente houve a imposição da religião católica, freqüentemente com violência, segundo Maria Cristina, como quando os kracuí se

local onde as provações e sofrimentos se fazem necessários para alcançar-se a salvação das almas. Essa formação histórica formou " a raiz cultural daquela história sem resgate, permanentemente ameaçada pelo Apocalipse, que permeia hoje a religiosidade popular sertaneja, em que a salvação não é dado a priori pelo sacrifício de Jesus Cristo, mas algo a construir, mediante a pregação dos conselheiros. Por isso, o título da tese parafraseia o historiador Sérgio Buarque, mostrando o outro lado do " paraíso" colonial.

Para seu pósesforço de absorção da alteridade dos brancos e sua tradução em termos nativos: personagens míticos considerados ancestrais dos brancos, mitos cosmogônicos 'reinventando ' o Gênese bíblico; a flagelação praticada com entusiasmo pelos índios, que tinham esta prática nos rituais de puberdade, e assim por diante." A documentação des-

creve a atividade catequética nas aldeias, mostrando às vezes com crueldade o verdadeiro "fim do mundo" que foi para os índios o encontro com o Ocidente, católico e colonial. O mundo até então mantido em ordem pelos mitos e ritos dos tapuias desmorona nesse encontro; as cerimônias tradicionais são proibidas, o casamento monógamo é imposto e o castigo divino é invocado, sob a forma de morte e doença, como castigo contra os costumes tradicionais, agora definidos como "infames superstições " e "operadores do mal". "Entre recusa e aceitação, entre fuga para conservar as tradições e escolha de submeter suas existências a um poder extra-humano sentido como maior (o do Deus cristão e de seus agentes), se dá a construção do catolicismo tapuia, no qual apenas alguns

converteram em massa sob a ameaça de escravização de Domingos Jorge Velho. Mas essa religião foi, também, "uma recriação original indígena, a partir de seus sistemas simbólicos e de suas práticas':

Os missionários pregavam em suas prédicas um penitencialismo exacerbado, numa visão apocalíptica, de herança medieval e milenarista, no qual "a chegada do evangelho aos últimos povos da Terra era, conforme a profecia de Mateus, o sinal do fim dos tempos e a realização do Reino de Deus na Terra': A partir dessa visão os indígenas releram seus mitos e seus rituais, incorporando essa nova realidade, "a do fim de seu mundo e de sua história e o começo de uma nova história".

O Novo Mundo vai sendo transformado de Paraíso em Purgatório,

doutorado a pesquisadora pretende voltar à catequese no sertão do século 19, "àquela religiosidade popular em cujo cerne nasceram os movimentos sócio- religiosos como o de Canudos': A professora explica que desde o escritor Euclides da Cunha, em sua descrição da guerra de Canudos, a cultura letrada brasileira

vm os chamados movimentos messiânicos de uma forma ambígua,"entre a atitude de estranheza piedosa frente ao incompreensível 'fanatismo religioso ' e o esforço de definição 'científica', da antropologia física de Nina Rodrigues até a abordagem sociológica revelando desigualdades econômicas e .. ))

SOCiaiS

Maria Cristina Pompa lembra ainda que a religião e a simbologia não têm o mesmo estatuto explicativo de categorias como a política, a sociologia ou a economia. "A terminologia utilizada e a explicação elaborada não fazem senão definir um outro bárbaro e incompreensível , sertanejo e atrasado, incapaz de utilizar a linguagem da razão e condenado a se expressar em formas 'alienadas "' , analisa. Aguardemos, então, a continuação desse estudo notável. •

O Último Tamoio, de Rodolfo Amoedo: Ocidente trouxe "fim do mundo"

Castro Alves volta à cena

Livro reconduz o poeta baiano ao centro da trama cultural brasileira

No eterno duelo entre Eras-santoguerreiro e Tanatos-dragão-da- maldade, este último vence sempre. Pelo menos teoricamente - afinal todos nós, inexoravelmente, morreremos, logo capitularemos. Mas acontece: morre o homem, fica a fama. Ou seja, Eros, mesmo tombado por Tanatos, ecoa pelos sete ma-

CASTRO ALVES de: um

res, se reproduz, seduz com a força de palavras, de gestos e de sons que se perenizam, promove desvarios poéticos, move idéias e moinhos, derruba muros, constrói castelos: enfim, permanece.

Antonio Frederico de Castro Alves, misto de dândi e poeta que em meados do século 19 escreveu e declamou versos tanto para derrubar tiranias, quanto para seduzir mulheres, com idêntico furor ideológico e pulsão sexual, morreu aos 24 anos, fulminado por romântica, mas letal tuberculose. O duelo vida-morte, Eros -Tanatos, acabaria aí. Teoricamente. A posteridade provou: Eros enganou Tanatos e, ao alçá-lo à condição de mito, perpetuou-o como gênio e homem capaz de demonstrar que vida e liberdade devem correr paralelamente - como o rio e a margem.

Edilene Matos, em Castro Alves - Imagens Fragmentadas de um Mito, tese de doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade de São Paulo, em 1999, agora transformada em livro, mexe e remexe nesse caldeirão mítico que faz do baiano o mais popular poeta brasileiro em 501 anos de história. Quem duvidar, ouça os repentes castroalvinos de nossos cordelistas - de Rodolfo Coelho Cavalcanti a Cuíca de Santo Amaro. Ou mergulhe no imaginário popular. No apaixonado texto de Edilene revelam-se todos os Castros-Alves possívei s: o bne mi o, o rebelde, o dândi, o deslumbrado, o falas trão, o diabólico-sedutor, o defensor-dos-pobres-e-dosoprimidos, o amante da liberdade, o Glauber

Castro AlvesImagens Fragmentadas de um Mito

Edilene Matos

Editora EDUC 219 páginas RS 30,00

(nada mais glauberiano que "sinto em mim o borbulhar do gênio"), o Pushkin, o Baudelaire, o Maiakovski e, também, o autor de alguns dos mais fundamentais versos da poesia brasileira. O resultado do trabalho da autora é quase glauberiano, no sentido de, a partir de uma estrutura multifacetada, não-cartesiana, revelar o que está por trás daquele que entrou para a posteridade como o "poeta dos escravos". Ao mexer e remexer no mito, quase destruí-lo, Edilene remitifica-o Ele era isso tudo -e muito mais. Era necessário esse redimensionamento da obra de Castro Alves, equivocadamente associado nos últimos tempos ao oficialismo histórico e ao status quo. Versos que recitamos desde criança (tipo: "Oh Deus. Oh, Deus! Onde estás? Onde estás que não respondes ?") parecem reconquistar, a partir do texto de Edilene, a dimensão épica que, .de fato, os inspirou.

Para escrever seu livro, a autora recorre, espertamente, às sabedorias mais diversas. Cita sumidades da intelligentsia cósmica - Theodor Adorno, Gaston Bachelard, Mikhail Bakhtin, Georges Batailles, Jean Baudrillard. Mas também busca informações em Dona Dadu da Fazenda Cabaceiras, mulher simples do interior da Bahia que idolatra o escritor, e Donana, poeta popular autor de Prece a Castro Alves. Faz bem: na (re)construção de um mito, todas as vozes importam.

Edilene traz de volta ao centro da trama cultural brasileira um dos seus mais importantes poetas, desembolora-o, retira-o da embalagem pomposa em que o haviam enfiado. E nos faz crer que o poeta morto era gente como a gente. Daí a sua grandeza- que Tanatos nenhum poderá destruir.

R OGÉRI O M ENEZES é jornalista e cronista do jornal Correio Braziliense, de Brasília

LANÇAMENTOS

A Duração das Cidades

DP&A Editora

Henri Acselrad (org.)

237 páginas I R$ 28,00

Um estudo que reúne globalização e urbanismo, uma leitura inovadora digna de atenção. No livro, organizado por Henri Acselrad, os vários artigos discutem os perigos da "inserção competitiva" sem críticas, a pressão para que as cidades se transformem em espaços de disputa, em busca dos investimentos dos mercados internacionais. Dessa forma, afirmam os pesquisadores, com o predomínio de um "ambiente de negócios" e com a luta das cidades numa guerra fiscal, resta pouco para as grandes parcelas pobres da população, alijadas das conquistas tecnológicas.

Homens de Ciência

Conrad Livros

Alessandro Greco

192 páginas I R$ 24,90

O jornalista Alessandro Greco reuniu 26 entrevistas feitas com profissionais da ciência para apresentar e divulgar o complexo trabalho desses profissionais. Boa parte dessas conversas foi publicada no jornal Gazeta Mercantil e traz, de forma acessível, uma boa discussão sobre temas como Aids, câncer, realidade virtual, a busca por novos remédios, etc. Entre os entrevistados: Francis Crick, Steven Weinberg, Charles Townes, Hans Bethe e Gerald Edelman.

.J:IQMENStr E ® Cf NCIA

Comunicação e Trabalho

Editora Anita Garibaldi

Roseli Fígaro Paulino

330 páginas I R$ 27,00

O livro de Roseli Paulino procura entender o processo de comunicação em uma estreita inter-relação com o mundo fabril do trabalho. O estudo analisa como se dá, então, a comunicação mediada pelo trabalho e de que forma as mudanças experimentadas nas últimas décadas sobre o processo de trabalho (incluindo-se a flexibilização da jornada nas fábricas) interferem no cotidiano do trabalhador, um processo complexo que sofre ainda a mediação dos meios de comunicação, sejam os da própria empresa e dos sindicatos, sejam os de divulgação externa, como televisão, rádio e jornais. A autora é professora da Universidade de São Paulo (USP).

REVISTAS

Estudos Avançados

2001 -número 41

Na nova edição da revista quadrimestral publicada pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, mais um dossiê sobre o progresso das ciências, bem como artigos que analisam o pensamento econômico no Brasil contemporâneo. Entre os vários estudos: A Criação Científica segundo Poincaré e Einstein, de Michael Paty; Gleb Wataghin, de R. A. Salmeron; As Razões do Coração, de Erasmo Garcia Mendes; A Ortodoxia Neoclássica, de Eleutério Prado; e Incursões Marxistas, de Mauricio Chalfin Coutinho.

Revista Brasileira de Biomecânica

2001- número2

Em seu segundo ano, a publicação, que é o órgão oficial de divulgação e de promoção científica da Sociedade Brasileira de Biomecânica (SBB), é editada pela Editora Estação Liberdade e conta com o apoio financeiro da FAPESP. No número de maio, há os seguintes textos: Análise Cinemática do Andar de Crianças Ob esas, de Carlos Bolli Mota e Denise Maria Link; Plantar Pressure Distribution in Children, de Deyse Borges Machado e Ha.rtmut Riehle; Cinética da Locomoção Infantil: Movimentos Articulares durante o Andar, de Ana Cristina de David e Aluisio Vargas Ávila.

Revista Histórica

2001 - número 3

A revista é uma publicação trimestral do Arquivo do Estado de São Paulo. No artigo de destaque deste número, um notável álbum de 1908 da Escola Normal de São Paulo. Ainda na mesma edição: As Mazelas do Tráfico Negreiro no Brasil, de Silvia Cristina Lambert Siriani; A Revolução de 32: Revolução ou Devaneio, de Carolina Tonioli de Vasconcellos; A Vigilância Policial aos Italianos no Brasil, de Viviane Teresinha dos Santos ; Estilos e Narrações de Historiadores, de Marcos Silva; Expulsão dos Indesejáveis na Era Vargas, de Mariana dos Santos Ribeiro; Medicina e Exclusão Social em São Paulo, de Mariza Romero; e Confessionário Feminino, de Vera Fontes.

fsTUOOS A VANÇADOS 41

www.scielo. br

As publicações ci en tíficas brasileiras estão ao alcance de suas mãos . Não importa em que parte do mundo você esteja

SciELO - Scientific Electronic Library Online é uma biblioteca de revistas científicas disponível na Internet. Uma biblioteca virtual que reúne 57 publicações científicas brasileiras. Sua interface permite o acesso fácil aos te xtos completos de artigos científicos, por meio das tabelas de conteúdos dos números individuais das revistas ou da recuperação de textos por nome de autor, palavras-chaves, palavras do título ou do resumo.

A SciELO publica também relatórios atualizados do uso e do impacto da coleção e dos títulos individuais das revistas. Os artigos são enriquecidos com enlaces dinâmicos a bases de dados bibliográficas nacionais e internacionais e à Plataforma Lattes no CNPq .

SciELO é produto do projeto cooperativo entre a FAPESP, a BIREME!OPAS/ OMS e editores científicos brasileiros , iniciado em 1997, com o objetivo de tornar mais visível, mais acessível e incentivar a consulta das mais conceituadas revistas científicas brasileiras. Em 1998 , a coleção SciELO Brasil passa a operar normalmente na Internet e projeta-se rapidamente como modelo de publica ção eletrônica de revistas científicas para países em desenvolvimento , em particular da América Latina e Caribe. Ainda em 1998 , o modelo é adotado pelo Chile e em 1999 começa a operar a coleção SciELO Saúde Pública , com as melhores revistas científicas de saúde pública ibero-americanas. Outros países estão em processo de incorporar-se à rede de coleções SciELO.

O modelo SciELO destaca e valoriza a comunicação científica brasileira. Ao mesmo tempo, proporciona mecanismos inéditos de avaliação de uso e de impacto das nossas revistas científicas , em consonância com os principais índices internacionais de produção científica.

Adote a SciELO como sua biblioteca científica.

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook