Degradação socioambiental na Amazônia
kg por hectare ao ano é baixa pararegiões tropicais, que podem alcançar entre 17 a 60 kg/ha/ano. Todavia, trata-sede uma produção importante, que chega a US$ 200 milhões anuais, mesmo sem subsídios do governo. Ela propicia que a média de consumo das camadas pobres da população seja uma das mais altas do mundo, não havendo subnutrição em proteínas
Um diálogo entre as ciências sociais e as ciências da natureza é essencial para a compreensão do processo de degradação ambiental e social na Amazônia. Com o livro "A Morte Social dos Rios" (Editora Perspectiva, !amá e FAPESP), o sociólogo Mauro Leonel contribui para que essa conjunção se realize. O pressuposto inspirador do estudo é o de que as relações dos homens com a natureza são indissociáveis das relações que os homens mantêm entre si: "Os fatos ecológicos são , assim , indissociáveis dos fatos sociais, e são, em última análise, fatos sociológicos".
Professor de Política da Unesp e pesquisador do Instituto de Antropologia e Meio Ambiente (lamá), Leonel seleciona como caso central de seu livro a organização da pesca artesanal a partir dos produtores primários - o beiradeiro, o pi abeiro e o semi-especializado- e sua relação com a intermediação, a sobrevivência das relações coloniais de produção e as influências externas no associativismo dos pescadores.
O beiradeiro - ou ribeirinhocaracteriza-se pela diversificação da produção , combinação da pesca com o extrativismo e a agricultura , cultura de sobrevivência e vida rural. Esses aspectos o diferenciam do pescador artesanal semiprofissional, que tem na pesca suaatividade principal e vive na periferia de grandes cidades. Ambos, porém, realizam pesca artesanal.
A Amazônia representa mais da metade da pesca artesanal comercial brasileira, mas a produtividade de 11
Os problemas da pesca na Amazônia são inúmeros, incluindo a falta de crédito para a renovação da frota dos pescadores artesanais profissionais ou ribeirinhos, disputa das várzeas com a agropecuária, sobrepesca seletiva pelo setor industrial, falta de fiscalização de embarcações e carência de coleta de dados para acompanhamento e análise da atividade. No caso da sobrepesca seletiva, Leonel cita que em Manaus a pesca é concentrada em cinco espécies - tambaqui, jaraqui, curimatã, matrinxã e piramutaba- , que respondem por 80% da pesca desembarcada, embora cheguem a 33 as espécies aceitas pelos consumidores "O tambaqui e o pirarucu estão seguramente sofrendo sobrepesca na região de Manaus, só se encontrando exemplares pequenos; os grandes têm de ser buscados mais longe. " Tabus reguladores do consumo, de origem indígena e cristã, são um. exemplo da importâncias das tradições locais na manutenção dos estoques de várias espécies : " O boto, por exemplo , não é consumido. O consumo de alguns peixes é culturalmente regulado para mulheres , às vezes durante a gravidez e logo após o parto". Amaioriados bagres são con siderados causadores da lepra e outra s doenças e só alguns deles são consumidos . Graças a isso, os estoques de bagres ficaram intocados até começarem a ser capturados para exportação.
Garimpo
Segundo Leonel, o garimpo é a mais grave ameaça à renovabilidade do
peixe e dos recursos hídricos em geral e está "disseminado em quase todos os rincões daAmazônia, como um sarampo". Os principais impactos do garimpo sobre a pesca artesanal são a poluição fisica, com o revolvimento do leito, margens e barrancos dos rios, e o uso inadequado do mercúrio, com diferentes modalidades de contaminaçãopara um quilo de ouro é utilizado um quilo e meio de mercúrio, número que possibilita aestimativade que entre 2 e 5 mil toneladas de mercúrio foram lançadas em milhares de pontos da Amazônia entre 1975e 1990,segundoLeonel. O ruído das máquinas, a luz, o óleo e o uso de detergentes também trazem conseqüências danosas à pesca, apesar de secundárias
O ribeirinho passa de uma condição de estabilidade num modo de vida modesto à mobilidade aventureira, ao improviso , ao nomadismo da condição garimpe ira , mas a mudança é apenas aparentemente compensadora, de acordo com Leonel. "Os garimpeiros dizem que, de cada dez, dois ganham algo no garimpo, os demais , a maioria absoluta, acumulam débitos com os donos de garimpo ." Em geral, o ribeirinho é contratado para funções de apoio , como fornecedor , carregador, barqueiro ou cozinheiro, ou para as atividades mais perigosas , como o mergulho ou o desmonte de barrancos. No capitulo final do livro, Leonel apresenta suas conclusões Contrasta o modo de vida, inclusive concepções e técnicas de uso dos recursos naturais , das sociedades tradicionais de floresta com o dos integrantes da fronteira econômica, repassa temas como origem e papel do Estado, a "acumulação primitiva" endocolonial e conceitos como o de progresso , qual idade de vida e desigualdade. Avalia também os conceitos ambientalistas , suas qualidades e deficiências diante do impacto do modo de vida do sistema global, sugerindo um conjunto de referências para o desenvolvimento sustentável da região.
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