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Pesquisa FAPESP 203

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burocracia

Escritórios de apoio liberam cientista para produzir conhecimento

medicamento

Proteína sintética pode tratar hipertensão na gravidez

a çaí

Impasses da cadeia produtiva revelam os limites do extrativismo

entrevista joão steiner

A astronomia brasileira já merece respeito

Estudo contesta associações entre medidas do rosto e comportamentos antiéticos

janeiro de 2013 www.revistapesquisa.fapesp.br

F otol A b

Diferenciação celular

As duas fotos acima mostram a transformação in vitro de “células-tronco” de eucalipto (à esquerda) em traqueídes, células que controlam o processo de formação da madeira (à direita). O pesquisador Pedro Barrueto, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), conseguiu fazer a diferenciação tratando o material com hormônio. Com eucalipto, é a primeira vez que se faz esse processo em laboratório. A pesquisa tem interesse por estar relacionada com os genes envolvidos na síntese de lignina, um polímero importante para as plantas e para a indústria do papel e celulose.

Foto enviada por Pedro Barrueto Cid, do Laboratório Max Feffer de Melhoramento de Plantas da Esalq/USP, coordenado por Carlos Labate

Se você tiver uma imagem relacionada a pesquisa, envie para imagempesquisa@fapesp.br com resolução de 300 dpi (15 cm de largura) ou com no mínimo 5 MB. Seu trabalho poderá ser selecionado pela revista.

18 c APA

Estudo de pesquisadores ibero-americanos contesta trabalhos que associam a largura da face do homem a comportamentos antiéticos e agressivos

E ntr E v IS tA

24 João Steiner

Astrofísico da Universidade de São Paulo fala sobre as mudanças na astronomia brasileira nos últimos 30 anos

SEçÕES

3 Fotolab

6 Cartas

7 Carta da editora

8 Dados e projetos

9 Boas práticas

10 On-line

11 Wiki

12 Estratégias

14 Tecnociência

90 Memória

92 Conto

94 Resenhas

Polít I c A c IE ntíFI c A

E t Ecnológ I c A

32 Educação

Mostra premia projetos do ensino básico de São Paulo e atrai alunos de escolas públicas à pesquisa

36 Difusão

Conferências levarão conhecimento sobre biodiversidade a alunos e professores do ensino médio

38 Pesquisa oceanográfica

Navio Alpha-Crucis sai em missão para coletar informações sobre a variação de calor no Atlântico Sul

42 Fomento

Um número crescente de universidades e instituições cria escritórios de apoio ao pesquisador

46 Geociências

Nova microssonda eletrônica começa a funcionar na USP

c IÊnc IA

50 Geologia

No último 1,3 milhão de anos, a bacia do rio São Francisco perdeu espaço para a do rio Doce, que cedeu área à do Paraíba do Sul

54 Astronomia

Gás soprado por explosões estelares interrompeu crescimento de galáxias anãs

58 Ecologia

Proliferação de espécies nativas resistentes a perturbação no ambiente reduz biodiversidade de mata atlântica

62 Zoologia

Estudo identifica patologias

ósseas comuns em baleias jubartes da costa brasileira

t Ecnolog IA

64 Recursos naturais

Aumento do consumo de açaí acirra concorrência, promove uma crise de preços e expõe a dificuldade em passar do extrativismo para o agronegócio

69 Pesquisadores pretendem ampliar produtividade do guaraná com novas variedades e ajustes nas técnicas de plantio

72 Bioquímica

Cientistas brasileiros desenvolvem droga pioneira para tratar hipertensão que atinge até 7% das mulheres gestantes do país

76 Pesquisa empresarial

Inovações nas áreas de saúde da mulher e proteção solar da Johnson & Johnson são exportadas para o resto do mundo

h

U m A n I dA d ES

80 Ocupação territorial

Livro mapeia o papel dos engenheiros militares no Brasil Colônia

86 Personalidade

Obras de Oscar Niemeyer foram analisadas em estudos

FUnDAçãO DE AMPARO à PESQUiSA DO ESTADO DE SãO PAULO

CELSO LAFER

PresiD ente

EDUARDO MOAC yR KRiEgER

vice-PresiD ente

conSElho SUPErIor

ALEJAnDRO Sz AnTO DE TOLEDO, CELSO LAFER,

EDUARDO MOAC yR KRiEgER FERnAnDO FERREiRA

COSTA , HOR áCiO L AFER PivA , HERMAn JACOBUS

CORnELiS vOORWALD JOãO gRAnDinO RODAS

MARiA JOSé SOARES MEnDES giAnnini, JOSé DE SOUz A MARTinS, LUiz gOnz AgA BELLUzzO, SUELy viLELA

SAMPAiO yOSHiAKi nAKAnO

conSElho técnIco-AdmInIStr AtIvo

JOSé ARAnA vARELA

Diretor PresiD ente

C ARLOS HEnRiQUE DE BRiTO CRUz

Diretor científico

JOAQUiM J. DE C AMARgO EngLER

Diretor aD ministrativo

iSSn 1519-8774

conSElho EdItorIAl

Carlos Henrique de Brito Cruz (Presidente), Caio Túlio Costa, Eugênio Bucci, Fernando Reinach, José Eduardo Krieger, Luiz Davidovich, Marcelo Knobel, Marcelo Leite, Maria Hermínia Tavares de Almeida, Marisa Lajolo, Maurício Tuffani, Mônica Teixeira

comItÊ cIEntíFIco

Luiz Henrique Lopes dos Santos (Presidente), Adolpho José Melfi, Carlos Eduardo negrão, Douglas Eduardo zampieri, Eduardo Cesar Leão Marques, Francisco Antônio Bezerra Coutinho, João Furtado, Joaquim J. de Camargo Engler, José Arana varela, José Roberto de França Arruda, José Roberto Postali Parra, Luis Augusto Barbosa Cortez, Marcelo Knobel, Marie-Anne van Sluys, Mário José Abdalla Saad, Paula Montero, Roberto Marcondes Cesar Júnior, Sérgio Luiz Monteiro Salles Filho, Sérgio Robles Reis Queiroz, Wagner do Amaral, Walter Colli

coordEnAdor cIEntíFIco

Luiz Henrique Lopes dos Santos

dIrE tor A dE rEdAção Mariluce Moura

EdItor chEFE neldson Marcolin

EdItorES Carlos Haag (Humanidades), Fabrício Marques (Política), Marcos de Oliveira (Tecnologia), Ricardo zorzetto (Ciência); Carlos Fioravanti e Marcos Pivetta (Editores especiais); Bruno de Pierro e Dinorah Ereno (Editores assistentes)

rE vISão Márcio guimarães de Araújo, Margô negro

ArtE Laura Daviña (Editora) ana Paula Campos, Maria Cecilia Felli

Fotógr AFoS Eduardo Cesar, Léo Ramos mídIAS ElE trônIc AS Fabrício Marques (Coordenador)

IntErnE t Pesquisa FAPESP online

Maria guimarães (Editora executiva - licenciada) Júlio Cesar Barros (Editor em exercício) Rodrigo de Oliveira Andrade

rádIo Pesquisa Brasil Biancamaria Binazzi (Produtora)

colAbor AdorES Ana Lima, Artionka Capiberibe, Chico Lopes, Claudia izique, Claudio Angelo, Daniel Bueno, Daniel da neves, Fabio Otubo, igor zolnerkevic, Mariana zanetti, Mateus Acioli, Otávio zani, Rafael Biar Marquese, Salvador nogueira, valter Rodrigues (Banco de Imagens), veridiana Scarpelli, vinicius Abate e yuri vasconcelos

é ProIbIdA A rEProdUção totAl oU PArcIAl dE tE xtoS E FotoS SEm PrévIA AUtorIz Ação

PAr A FAlAr com A rEdAção (11) 3087-4210 cartas@fapesp.br

PAr A AnUncIAr (11) 3087-4212 mpiliadis@fapesp.br

PAr A ASSInAr (11) 3038-1434 fapesp@veganet.com.br

tIr AgEm 49.300 exemplares

ImPrESSão Plural indústria gráfica dIStrIbUIção DinAP

gEStão AdmInIStr AtIvA inSTiTUTO UniEMP

PESQUISA FAPESP Rua Joaquim Antunes, no 727, 10o andar, CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP

FAPESP Rua Pio Xi, no 1.500, CEP 05468-901, Alto da Lapa, São Paulo-SP

SECRETARiA DE DESEnvOLviMEnTO ECOnôMiCO CiênCiA E TECnOLOgiA govErno do EStAdo dE São PAUlo

c A rtAS cartas@fapesp.br

revista

A edição 201 de Pesquisa FAPESP está simplesmente sensacional. Portugal, baía de Todos os Santos, flamingos, mergulhões, câncer, proteína antitumoral são artigos, entre outros, de importância fundamental para mim, professor de biologia em São Paulo e autor de livros didáticos. Sou também assinante da Nature, Science, Scientific American e New Scientist por necessidade de autor e professor, além da Ciência Hoje. O número 201 se equipara a esses outros periódicos pela relevância e importância dos artigos. Sem dúvida, utilizarei as informações das reportagens na elaboração de textos de atualização de minhas obras. Fiquem sossegados que citarei, com todos os detalhes necessários e com prazer, as fontes dos textos que elaborarei. Meus parabéns.

Armênio Uzunian

São Paulo, SP

Acesso livre

“Conhecimento livre” (edição 201) é uma importante reportagem sobre o acesso livre ao conhecimento científico que me fez refletir sob a ótica de quem faz pesquisa. Vamos supor que um pesquisador produziu um manuscrito e precisou pagar por um artigo ou outro citado em sua pesquisa que não estava disponível em base de dados de acesso livre ou, infelizmente, não estava incluído na base paga de certa instituição a que tinha acesso. O manuscrito esbarrará em diversas cobranças de revisores, que implicitamente estarão avaliando o pesquisador por sua capacidade de boa escrita, seu conhecimento científico, sua criatividade etc. Se ultrapassar essas avaliações plausíveis, em alguns casos, ainda precisa pagar pela publicação de seu trabalho. Não é para se sentir expropriado?

São Paulo, SP

cerveja congelada

Na edição 199 está uma explicação do congelamento da cerveja (seção Wiki).

Luiz Menezes deu uma boa explicação

Empresa que apoia a ciência brasileira

microscópica, mas notei que faltou um aspecto macroscópico importante. Talvez meu colega não seja bebedor inveterado de cerveja... Os processos termodinâmicos podem ser reversíveis ou irreversíveis. Assim, se uma garrafa de cerveja está bem fechada, tem-se um sistema isolado, e o processo é reversível. Não há como evitar o congelamento, pois só é detectado depois que ocorre. O ideal para revertê-lo é deixar a garrafa num balde e encher de água fria. A transferência de calor será adiabática, e depois de algumas dezenas de minutos poderá ser aberta sem prejuízo. Por outro lado, se a lata ou garrafa forem abertas, aí o sistema não é mais isolado, a entropia aumenta, o gás escapa e a água da cerveja cristaliza, dissociando o conjunto anteriormente harmônico. Este é um processo irreversível.

Felipe rudge

Faculdade de Engenharia Elétrica/Unicamp Campinas, SP

genética

Devo informá-los de que a reportagem “Herança americana” (edição 182), de Ricardo Zorzetto, nos deu subsídios concretos para prosseguir com o estudo de doenças étnicas e genéticas. Foi o primeiro trabalho publicado de uma pesquisa deste gênero que me pareceu relevante e consistente.

Francisco J.b. Sá Salvador, BA

Cartas para esta revista devem ser enviadas para o e-mail cartas@fapesp.br ou para a rua Joaquim Antunes, 727, 10º andar – CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP. As cartas poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.

c ArtA dA E dItor A

o s sinuosos caminhos do conhecimento

ovaivém de determinadas ideias na cena da produção do conhecimento leva por vezes a revivals francamente desconfortáveis. É este o caso de alguns estudos que nos últimos cinco anos procuraram restabelecer vínculos entre traços fisionômicos e inclinações de caráter, numa anacrônica tentativa de exumação das proposições lombrosianas. Mas, como o método científico sabiamente carrega antídotos contra seus próprios equívocos, estudos mais recentes elaborados por um grupo de geneticistas e antropólogos físicos do Brasil, Argentina, México e Espanha, trabalhando sobre uma larga base de dados de cerca de 5 mil indivíduos pertencentes a 94 diferentes grupos populacionais modernos, reuniram evidências suficientes para afirmar que, diferentemente do que pretendiam seus colegas, más disposições de caráter não estão impressas nos ossos da face dos homens.

O artigo resultante dessa pesquisa, com publicação acertada para a primeira quinzena de janeiro na PLoS One, é o objeto da capa da primeira edição de 2013 de Pesquisa FAPESP (página 18). Elaborada por nosso editor especial Marcos Pivetta, a reportagem apresenta os caminhos que permitiram ao grupo refutar com vigor a ideia canhestra de que indivíduos de sexo masculino com rostos mais largos teriam comportamento mais agressivo. Ou, ainda, que eles teriam experimentado uma suposta vantagem reprodutiva no processo evolutivo. Vale a pena conferir e refletir neste começo de um novo ano sobre a permanente sinuosidade do processo de construção do conhecimento.

Na seção de política científica e tecnológica, gostaria de chamar a atenção para um texto que mostra como está se tornando realidade em São Paulo algo que tem sabor de sonho para – eu ousaria dizer – 10 entre 10 pesquisadores brasileiros. Refiro-me aos escritórios de apoio em fase de multiplicação nas universidades paulistas (a partir de uma iniciativa da FAPESP) que simples-

mente livram os pesquisadores da administração burocrática de projetos e os liberam para seu trabalho primordial: produzir conhecimento. A reportagem de nosso editor de política, Fabrício Marques, explica como isso se dá (página 42).

Em tecnologia, destaco duas reportagens: primeiro, a partir da página 72, elaborada pelo jornalista Yuri Vasconcelos, aquela que trata de um medicamento pioneiro que está sendo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da empresa União Química para tratar a hipertensão em grávidas, condição que atinge entre 5% e 7% das gestantes no Brasil. Como se sabe, elas não podem nem devem tomar medicamentos que ponham em risco o desenvolvimento do feto, caso dos anti-hipertensivos hoje existentes. E a hipertensão assusta porque está associada à pré-eclampsia, que pode evoluir para a eclampsia, doença responsável por estimados 40% dos 1.719 casos anuais de morte (2010) associados à gravidez e ao parto no país. Se esse medicamento, que já passou da primeira fase dos testes clínicos, comprovar sua eficácia e atoxicidade nas demais fases, estaremos diante de uma bela notícia. Em segundo lugar, chamo a atenção para a reportagem de nosso editor especial Carlos Fioravanti (página 64), sobre os esforços e as dores da transição de uma economia extrativista para a agroindústria que hoje envolve o açaí na região Norte do país. Fioravanti e nosso fotógrafo Eduardo Cesar viajaram a Belém, Manaus e Maués para ver de perto esse processo e, além do foco no açaí, terminaram por tratar também do guaraná, cuja produtividade pode aumentar em breve naquela região, graças ao desenvolvimento de novas variedades da planta e ajustes nas técnicas de plantio (página 69). Concluo recomendando a leitura da bela entrevista do astrofísico João Steiner, feita por Pivetta e por nosso editor-chefe, Neldson Marcolin, antes de desejar a todos um 2013 de prazerosas realizações.

Dados e projetos

tE mát I co S E Jov

E m PESQUISA dor r E c E nt ES

Projetos contratados entre novembro e dezembro de 2012

tE mátI coS

 b ehavioural and neuroendocrine mechanisms regulating hydromineral metabolism – a lifelong perspectives (FAPESP- rc UK)

Pesquisador responsável: José

Antunes Rodrigues

Instituição: Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP

Processo: 2011/52108-4 v igência: 01/11/2012 a 31/10/2015

 Suplementação de bovinos em pastagem tropical Pesquisador responsável: Flavio Augusto Portela Santos

Instituição: Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/USP

Processo: 2012/09535-1 v igência: 01/12/2012 a 30/11/2015

 o xigênio singlete e peróxidos em química biológica

Pesquisador responsável: Paolo Di Mascio

Instituição: instituto de Química/USP

Processo: 2012/12663-1 v igência: 01/12/2012 a 30/11/2016

 c ontaminação ambiental pelos protozoários Giardia spp. e Cryptosporidium spp. e por Ascaris suum : desafios de detecção, remoção e inativação das formas infectantes Pesquisadora responsável: Regina Maura Bueno Franco

Instituição: instituto de Biologia/ Unicamp

Processo: 2012/50522-0 v igência: 01/01/2013 a 31/12/2017

 Patogênese e terapêutica da doença renal crônica: papel da imunidade inata na lesão de glomérulos, túbulos e interstício Pesquisador responsável: Roberto z atz

Instituição: Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP

Processo: 2012/10926-5

v igência: 01/12/2012 a 30/11/2017

 c élulas-tronco: dos papéis de receptores de cininas e purinas às aplicações terapêuticas

Pesquisador responsável: Alexander Henning Ulrich

Instituição: instituto de Quimica/USP

Processo: 2012/50880-4 v igência: 01/12/2012 a 30/11/2017

 Síntese, estudo cinético e aplicações de substratos e inibidores de enzimas proteolíticas Pesquisadora responsável: Maria Aparecida Juliano

Instituição: Escola Paulista de Medicina/Unifesp

Processo: 2012/50191-4 v igência: 01/12/2012 a 01/12/2012

São PAUlo Exc E llE nc E c hAI r S (SPE c)

c aracterização da proteína fosfatase UIS2 de Plasmodium como alvo para desenvolvimento de drogas contra malária Pesquisador responsável: v ictor nussenzweig

Instituição: Escola Paulista de Medicina/Unifesp

Processo: 2012/50399-4 v igência: 01/10/2012 a 30/09/2015

Jov E m PESQUISA dor

 m etagenômica e metatranscriptômica do microbioma de rúmen para a descoberta de genes degradadores de biomassa Pesquisador responsável: Rodrigo Mendes

Instituição: Embrapa Meio Ambiente

Estudos compartilhados

Processo: 2012/03848-8 v igência: 01/11/2012 a 31/10/2016

 n ovos métodos híbridos para resolução de problemas de otimização combinatória

Pesquisador responsável: Antonio Augusto Chaves

Instituição: instituto de Ciência e Tecnologia/Unifesp

Processo: 2012/17523-3 v igência: 01/01/2013 a 31/12/2015

 Papel dos receptores nlr s nos mecanismos de imunorregulação do diabetes dos tipos 1 e 2: identificação de novos alvos terapêuticos Pesquisadora responsável: Daniela Carlos

Instituição: Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP

Processo: 2012/10395-0 v igência: 01/12/2012 a 30/11/2016

Efeito magnetocalórico e efeito barocalórico: novas técnicas experimentais, materiais

e modelos teóricos

Pesquisador responsável: Alexandre Magnus gomes Carvalho Instituição: instituto de Ciência e Tecnologia/Unifesp Processo: 2012/03480-0 v igência: 01/12/2012 a 30/11/2016

 c aracterização molecular das proteínas S6Ks na obesidade e em suas doenças associadas

Pesquisador responsável: Fernando Moreira Simabuco

Instituição: Faculdade de Ciências

Aplicadas/Unicamp

Processo: 2012/13558-7 v igência: 01/03/2013 a 28/02/2017

 Estudo das vias de transdução de sinal em Schistosoma mansoni e sua relevância na interação parasita-hospedeiro (Schisto-SI g) Pesquisadora responsável: Katia Cristina Pereira Oliveira Santos

Instituição: instituto Adolfo Lutz/SSSP Processo: 2012/50115-6 v igência: 01/01/2013 a 31/12/2016

Status do pesquisador e incidência de colaboração internacional em artigos publicados – em % todos os campos b iologia Química c iências da terra

o bs.: Dados de 14.471 cientistas de Alemanha, Austrália, Bélgica, Brasil, Canadá, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Índia, i tália, Japão, Reino Unido, Suécia e Suíça

Fonte: n BER Working Paper 18613 (http://www.nber.org/papers/w18613)

Boas Práticas

v ícios de origem em projetos de pesquisa

Agências de fomento e instituições de pesquisa começam a se preocupar com um tipo ainda pouco discutido de má conduta científica: a cópia ou fabricação de dados em pedidos de bolsas e de recursos para projetos de pesquisa. Segundo a National Science Foundation, o número de casos de plágio e fraude encontrados em propostas de financiamento de pesquisa enviadas a agências dos Estados Unidos triplicou na última década. Em artigo publicado na revista eletrônica The Chronicle of Higher Education, a diretora do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da University of Rhode Island, Karen Markin, afirma que essas fraudes não são praticadas somente por estudantes, mas também por pesquisadores experientes. No caso de plágio, Karen lembra que há softwares capazes de identificar trechos copiados e enumera alguns cuidados que o pesquisador sempre deve ter: não esquecer o uso de aspas; saber parafrasear corretamente, ou seja, reescrever um conceito com outras palavras, não apenas substituindo uma por outra; revisar cuidadosamente o texto final e receber treinamento especial sobre boas práticas e ética na pesquisa.

Já quando há fabricação de dados, a descoberta pode demorar algum tempo. Em novembro, o US Office of Research Integrity (ORI) – órgão norte-americano responsável pelo desenvolvimento de políticas regulatórias e monitoramento de casos de má conduta em pesquisas científicas –anunciou o resultado de uma operação que investigou, ao longo de dois anos, uma série de falsificações em artigos e relatórios de pesquisa de um experiente professor da University of

Kentucky. O biomédico Eric Smart, especializado em doenças cardiovasculares e diabetes, foi acusado de adulterar dados em pesquisas durante os últimos 10 anos.

Em nota oficial, o Departamento de Saúde dos Estados Unidos (HHS, na sigla em inglês) afirmou que Smart publicou dados experimentais que jamais existiram e fabricou 45 imagens em cinco pedidos de subvenção, três relatórios de pesquisa e uma dezena de papers, alguns deles com mais de 100 citações. De acordo com reportagem publicada no site da revista The Scientist, muitas das imagens fraudadas eram de western blots, método usado na biologia molecular para identificar proteínas. Especialistas ouvidos pela revista disseram que os artigos de Smart foram altamente citados e que é difícil avaliar os impactos do caso. Smart recebeu US$ 8 milhões em financiamentos de agências e Uma análise publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences sugere que más condutas científicas, como fraudes e plágios, são causas mais frequentes da retratação de artigos por periódicos científicos do que erros não intencionais. Arturo Casadevall, professor de microbiologia e imunologia do Albert Einstein College of Medicine analisou 2.047 artigos desqualificados por revistas médicas que os publicaram. Concluiu que 67% dos casos foram causados por má conduta, sendo 43,4% atribuídos a fraudes, 14,2% a publicações duplicadas e 9,8% a

órgãos federais. Desde que as investigações começaram, em maio de 2011, o biomédico deixou a universidade e passou a dar aulas de química em uma escola local. Nos próximos sete anos, Smart está proibido de concorrer a qualquer subvenção federal, prazo que supera os tradicionais três ou cinco anos de punição.

Mais fraudes do que erros

plágio. Apenas 21% do total estavam relacionados a erros não intencionais. Os 12% restantes não puderam ser qualificados, uma vez que boa parte das publicações não costuma informar a razão da retratação. A maioria dos casos de má conduta envolvia grandes revistas, como Science, Nature e Cell, o que, segundo Casadevall, sugere uma correlação entre a ocorrência de fraudes e o alto fator de impacto das publicações. A conclusão do artigo contradiz a de dois estudos publicados em 2006 e em 2011, que apontaram os erros como causa mais frequente de retratação de artigos.

on-line

WWW RE vi STAPESQU i SA FAPESP BR

Concepção artística de um buraco negro

e xclusivo no site

 Pesquisadores do goddard Space Flight Center da nasa deram um passo importante para a compreensão do complexo comportamento dos buracos negros, corpos celestes com massa que chega à de bilhões de sóis que arrastam para seu interior toda matéria e energia que se aproxima deles. O estudo, coordenado pelo astrofísico brasileiro Rodrigo nemmen e publicado em dezembro na Science, verificou que os buracos negros de diferentes espécies convertem parte da matéria prestes a ser engolida em jatos de altíssima velocidade nos quais a mesma fração de energia é usada para gerar luz em raios gama.

rádio

Newton da Costa conta quais as aplicações da lógica paraconsistente em situações reais

 A estratégia bem-sucedida de descentralizar suas pesquisas, fomentar equipes menores de cientistas e promover parcerias adotada pela glaxoSmithKline (gSK) é tema da entrevista de Moncef Slaoui, vice-presidente da área de pesquisa e desenvolvimento (P&D) do laboratório britânico. “Tentamos encontrar ótimas pesquisas em qualquer parte do mundo e estabelecer parcerias, não para controlá-las ou ser o dono delas. valorizamos o fato de essa ciência ser diferente da nossa. Queremos identificar áreas em que os cientistas brasileiros são os melhores”, afirma.

vídeo do mês

Em visita ao Brasil, Roberto Salmeron fala sobre sua vida e física de partículas elementares

nas redes

Alana tenório_ Achei muito interessante. gostei e vou comentar na próxima aula de genética. (Rastros da miscigenação)

leonardo Sokolnik_ Parabéns pela seção Boas Práticas com informações sobre transparência nos ensaios clínicos.

marina maciel_ Parabéns pela entrevista com José Marques de Melo! interessantíssima, e o tema muito pertinente! (Entrevista)

Jaqueline v ieira de Souza_ Sensacional, espero que nos próximos 15, 10 anos isto já ocorra em território brasileiro. (Cidades do futuro)

Antonio costa_ Aprendemos a publicar. A questão agora é: como fazê-lo em revistas de alto impacto? (O novo mapa da ciência)

Katia obermuller_ isso precisa ser divulgado aos jovens. (Uso de crack mata mais neurônios que cocaína)

nay Farias_ A última do ano de 2012. E ainda nem terminei de ler a de novembro. Huhu quentinha do forno (Edição de dezembro)

Assista ao vídeo:

Pergunte aos pesquisadores
Qual a relação entre a falta de equilíbrio e o enjoo?

Eduardo garcia, via e-mail

O enjoo que surge em viagens de carro ou navio decorre da relação entre o sistema vestibular – que inclui os órgãos do ouvido interno (labirinto), um dos responsáveis pelo equilíbrio – e o sistema nervoso autônomo, dividido em sistema nervoso simpático e parassimpático. Toda vez que há um conflito sensorial entre o labirinto, que é responsável pela orientação espacial e a detecção da posição e da movimentação da cabeça, e o sistema visual, a harmonia entre ambos é afetada, e a pessoa passa a sentir tontura, ou seja, ilusão de movimento. O conflito é repassado para o sistema nervoso

Especialista consultado

autônomo, por meio do núcleo do nervo vago, localizado no sistema nervoso central. isso pode provocar manifestações neurovegetativas, as conhecidas náuseas, vômito, sudorese, palidez, taquicardia ou, em alguns casos, diarreia. O mal-estar pode também ser causado em outras situações de conflito entre visão e sistema vestibular, como em sessões de filmes 3D no cinema. Contudo, o fenômeno não tem ligação com a evolução humana. Embora o sistema nervoso autônomo tenha função de defesa, neste caso o enjoo é apenas uma manifestação de um distúrbio vestibular.

Fernando ganança, Departamento de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Universidade Federal de São Paulo

o QUE é, o QUE é?

Biomimética

O objetivo da biomimética é descobrir princípios que regem a organização da estrutura de materiais biológicos e implementá-los na construção de materiais sintéticos de alto desempenho. Os avanços deste ramo científico, que tenta “imitar a vida”, são alcançados tanto em nível acadêmico quanto em aplicações práticas na indústria, envolvendo diversos campos do conhecimento, como engenharia de materiais, robótica, mecânica de fluidos, arquitetura e química.

Um exemplo de solução encontrada a partir da biomimética é o efeito lótus, flor cujas folhas conseguem manter sua superfície lisa graças a microestruturas que impedem que a água seja absorvida. Ao entrar em contato com a folha, a água escorre pelas estruturas, levando a sujeira embora. O mecanismo foi copiado por indústrias de vidros, tecidos, forros e telhados, para facilitar a remoção de resíduos. Outro caso é o estudo da microestrutura de conchas e dentes, para a fabricação de materiais extremamente resistentes.

Em laboratórios, a biomimética vinculada à nanotecnologia tem contribuído para o desenvolvimento de catalizadores sintéticos, capazes de realizar transporte de nutrientes e reações biológicas, funções naturalmente realizadas por enzimas. A vantagem do processo é que, diferentemente das enzimas, a versão sintética pode ser fabricada em laboratório em grande quantidade, permitindo, por exemplo, a fabricação de medicamentos e as promissoras células a combustível.

Mande sua pergunta para o e-mail wikirevistapesquisa@fapesp.br pelo facebook ou pelo twitter @PesquisaFapesp

Especialistas consultados h enrique Eisi toma, Universidade de São Paulo

André Studart, Departamento de Materiais do ETHZ

Antônio c . guastaldi, Universidade Estadual Paulista

e stratégias

Simpósio em Madri e Salamanca

O simpósio Fronteras de la Ciencia – Brasil y Espanha en los 50 años de la FAPESP reuniu nas cidades de Salamanca e Madri, entre 10 e 14 de dezembro passado, pesquisadores do estado de São Paulo e de diferentes instituições de ensino e pesquisa do país ibérico, numa programação intensa, diversificada e aberta ao público em comemoração ao cinquentenário da FAPESP. A série de conferências foi aberta pelo sociólogo e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, que discorreu sobre o panorama da ciência política no Brasil e suas perspectivas. Foi anunciada no primeiro dia do evento a abertura da primeira chamada de propostas no âmbito do acordo de cooperação

científica da FAPESP com a Universidade de Salamanca (Usal). A programação do simpósio reuniu pesquisadores dos dois países para discutir os avanços obtidos nos últimos anos em ciências da saúde, ciências políticas e humanas, nanotecnologia, ciência dos materiais e fotônica.

“O Brasil é um sócio estratégico da Espanha, mas ainda há necessidade de aumentar a colaboração em ciência e tecnologia e há espaço para fazer isso”, disse Román Arjona, secretário-geral de Ciência, Tecnologia e inovação do Ministério da Economia e Competitividade da Espanha, que participou da abertura da etapa em Madri, no dia 13. “A FAPESP pode ser um instrumento para viabilizar esse aumento”, afirmou.

cientistas

Fernando Henrique abriu a série de conferências em Salamanca

A presidente Dilma Roussef agraciou no dia 18 de dezembro os vencedores da 26ª edição do Prêmio Jovem Cientista, cujo tema foi “inovação tecnológica nos esportes”. na categoria graduado o primeiro lugar ficou com Rodrigo gonçalves Dias, que atualmente é aluno de pós-doutorado no instituto do Coração (inCor) do Hospital das Clínicas da USP e está vinculado a um projeto temático coordenado por Eduardo Moacyr Krieger, vice-presidente da FAPESP. Parte do trabalho que Dias inscreveu no prêmio, no qual identificou uma mutação genética capaz de comprometer a vasodilatação muscular durante a prática esportiva, foi feita durante o doutorado, entre 2005 e 2008, com bolsa da FAPESP. Ele esteve matriculado no instituto de Biologia da Unicamp,

sob orientação de Marta Krieger, mas desenvolveu toda a parte experimental no inCor, sob orientação de Carlos Eduardo negrão. O ganhador na categoria Estudante do Ensino Médio foi João Pedro Wieland, do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. na categoria Estudante do Ensino Superior, o primeiro lugar ficou com Priscila Ariane Loschi, da Universidade do Estado de Minas gerais. O prêmio de Mérito institucional Ensino Superior foi para a USP, por conta da “vanguarda da ciência esportiva e o investimento em projetos olímpicos”. O prêmio é concedido pelo Conselho nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CnPq), Fundação Roberto Marinho, gerdau e gE.

gonçalves Dias (dir.), bolsista da FAPESP, discursa ao receber o prêmio

interesse no Brasil

A revista britânica

Times Higher Education, especializada em ensino superior e pesquisa e conhecida pela edição de rankings de universidades no mundo, divulgou no dia 13 de dezembro uma reportagem sobre o interesse político e acadêmico internacional nas instituições de pesquisa do Brasil. A reportagem mostra que duplicou o número de artigos de autores brasileiros entre 1997 e 2007 no Science Citation index, da empresa Thomson Reuters, colocando o país na 13ª posição entre os maiores produtores de ciência no mundo. A revista também destaca a posição 158 da Universidade de São Paulo na edição 2012-13 de seu ranking de universidades, relacionando-a a seu orçamento e ao apoio da FAPESP. As três universidades estaduais públicas paulistas com foco em pesquisa somam receita equivalente a 9,57% da arrecadação

fiscal do estado. Elas também se beneficiam, assim como as demais instituições de pesquisa paulistas, dos recursos da FAPESP, que opera com repasse de 1% da mesma fonte. Trabalhando com rigor, a própria FAPESP, segundo a Times Higher Education, obteve a reputação de um parceiro internacional confiável para colaboração. A Fundação mantém acordos com agências de fomento da Holanda, França, Estados Unidos, Canadá, Alemanha e Reino Unido, e com universidades de todo o mundo.

Estudantes de medicina da Universidade de Basra: novas instituições

A Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp) realizou no dia 27 de novembro cerimônia de posse de 97 novos membros, entre os quais José Arana varela, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP e professor do instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e Hernan Chaimovich, coordenador dos Centros de Pesquisa, inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP e professor do instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP). vanderlan Bolzani, membro da coordenação do programa Biota-FAPESP e diretora da Agência de inovação da Unesp, e Dora Fix

ventura, vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), foram empossadas. glaucius Oliva, presidente do Conselho nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CnPq) e coordenador do Centro de Biotecnologia Molecular Estrutural, um Cepid da FAPESP, Elson Longo, diretor do Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos, também um Cepid, e Paulo Artaxo, membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas globais e professor do instituto de Física da USP, também se incorporaram aos quadros da Aciesp.

Iraque quer reconstruir sua infraestrutura científica

O governo do iraque anunciou investimentos de US$ 9 bilhões nos próximos cinco anos na reconstrução da infraestrutura científica do país. O ministro da Pesquisa e da Educação Superior, Ali Al-Adeeb, disse à agência SciDev.Net que o plano envolve a criação de 12 novas universidades e 28 centros de pesquisa e a reforma das instalações das 28 universidades existentes de forma a reforçar a capacidade científica do país. “A abertura de novas instalações e a renovação das antigas buscam ampliar o número de pesquisadores e engenheiros a um nível próximo do de países desenvolvidos”, disse. As novas universidades serão distribuídas por várias províncias e algumas se especializarão em campos como medicina, engenharia ou agricultura. A primeira etapa deve ser concluída em 2013, com a criação da universidade ibn Sina, em Bagdá, e as reformas das universidades de Karbala e Mosul. Estão previstos investimentos de US$ 70 milhões em formação e treinamento de pesquisadores. “A principal fraqueza das universidades públicas iraquianas é a falta de docentes com experiência internacional”, disse Mohamed Al-Rubeai, pesquisador iraquiano radicado na irlanda.

t ecnociência

Preparadas para o calor

Algumas espécies de árvores da Amazônia podem sobreviver à elevação da temperatura atmosférica prevista para ocorrer até o fim deste século. é que várias delas já enfrentaram climas até mais quentes no passado. Com pesquisadores do Panamá e da inglaterra, o biólogo Christopher Dick, da Universidade de Michigan, analisou o material genético de 12 espécies de árvores de ampla distribuição na Amazônia para estimar quando teriam ocupado esse ecossistema. Eles verificaram que 9 das 12 espécies existem na região há pelo menos 2,6 milhões de anos. Das 9, 3 surgiram há mais de 8 milhões de anos –a mais antiga delas, a gigante africana Symphonia globulifera, de até 60 metros de altura, chegou à Amazônia há cerca de 15 milhões de anos. Entre 11,5 milhões e 3,6 milhões de anos atrás, essas espécies

enfrentaram períodos bastante quentes, com temperatura semelhante à que os modelos climáticos projetam para 2100 (Ecology and Evolution, 14 de dezembro). “nossos resultados indicam que espécies de árvores neotropicais bem comuns viveram em climas mais quentes que o atual, sugerindo que poderiam tolerar o aquecimento associado às mudanças climáticas”, conta Dick. Ele e os colegas acreditam ser pouco provável que o aumento da temperatura, por si só, induza à extinção em massa das espécies amazônicas. Mas afirmam que o futuro da floresta é incerto. é que a região passa por um nível de transformação jamais visto no passado, com aumento da temperatura e das concentrações de gás carbônico e a derrubada da vegetação.

A Lua em detalhes

de anos

Mapas obtidos pelas sondas

Ebb e Flow: formas do relevo e campo gravitacional

Duas sondas irmãs lançadas pela Agência Espacial norte-americana (nasa) trouxeram uma nova visão da Lua com dados mais detalhados da crosta, da gravidade e da superfície do satélite. Entre as informações disponibilizadas pela missão gravity Recovery and interior Laboratory (grail) está o fato de a crosta da Lua ser menor do que a indicada em estudos anteriores. A espessura média da crosta é de 34 a 43 quilômetros (km), cerca de 10 a 20 km menos do que previsto inicialmente. Essa espessura da crosta indica que a Lua é muito similar à Terra nesse quesito. Assim, esses novos dados reforçam o modelo teórico que sugere ser o satélite formado com material ejetado do planeta durante um impacto gigante nos primórdios da história do sistema solar. As duas sondas,

que ganharam o nome de Ebb e Flow, colheram dados que mostram anomalias no campo gravitacional provocadas pelo relevo lunar formado por elevações vulcânicas, crateras e outros tipos de relevos pontuados por intenso registro de impactos de meteoros e outros corpos celestes sobre a superfície. Essas anomalias da gravidade indicam a presença de estruturas verticais de magma solidificado no subsolo lunar, uma característica que também vai contribuir para o entendimento da formação da Lua. Para captar todos os dados que agora os pesquisadores estão estudando, as sondas sobrevoaram a Lua a uma altitude média de 55 km durante quatro meses. Elas obtiveram os dados por meio de sinais de rádio sincronizados que definiram precisamente a órbita, a distância entre elas e as nuances da superfície lunar.

Flor de Symphonia globulifera: na Amazônia há 15 milhões

resistência das cerâmicas

Produzir motores a jato com materiais cerâmicos traria vantagens em relação à capacidade de o equipamento suportar altas temperaturas, além de economizar combustível e diminuir a poluição. Mas, embora resista a um calor que faria derreter alguns metais, as cerâmicas são extremamente sensíveis a rachaduras. Para tentar contornar esse problema, um grupo do Departamento de Energia e do Laboratório nacional Lawrence Berkeley,

A vingança dos ácaros

Um dia da caça, outro do caçador. Esse ditado parece se aplicar à inversão de papel que ocorre às vezes na natureza. ácaros juvenis da espécie Iphiseius degenerans que sobreviveram a ataques de adultos de outra espécie desse tipo de artrópode, Neoseiulus cucumeris, vão à forra quando se tornam grandes. Da condição de presas no passado, eles se tornam predadores por excelência de exemplares juvenis da espécie que um dia foi sua perseguidora (Nature Scientific Reports, 11 de outubro).

Aparentemente, os ácaros sobreviventes da espécie I. degenerans guardam na memória a identidade de seus antigos rivais, com quem dividem o hábitat, e, mesmo quando há comida disponível, optam por preferencialmente perseguir pequenos exemplares da espécie concorrente. A conclusão é de um estudo feito por

dos Estados Unidos, criou um equipamento de teste para análise de compósitos de cerâmica em ultra-alta temperatura, acima de 1.750°C. A ideia é fazer experimentos em que possam ser testados materiais para uso em jatos hipersônicos e na próxima geração de motores de turbinas a gás. Assim os compósitos poderão ser testados em condições reais de operação. O equipamento utiliza recursos de raios X, fonte de luz ultravioleta e micro-

Microrrachaduras em blocos de cerâmica sob temperatura de 1.750°C

pesquisadores holandeses da Universidade de Amsterdã e por Maira ignacio, da Universidade Federal do Tocantins (UFT). “A presa reconhece a espécie do predador ao qual foi exposta durante seu estágio juvenil. nossos resultados sugerem que a experiência vivida na juventude afeta o comportamento adulto depois que há uma troca de papel (entre as espécies)”, afirmam os cientistas.

tomografia que revelam o crescimento de danos em microrrachaduras sob uma temperatura ultra-alta. Um sistema computacional mostra as imagens em três dimensões. O estudo foi liderado pelo pesquisador Robert Ritchie, do Berkeley, é capa da edição de janeiro da revista Nature Materials. Ele teve a colaboração da empresa Teledyne Scientific e financiamento da n asa e da Força Aérea norte-americana.

á rvore de nanofios

O mais novo dispositivo destinado a aumentar a capacidade de processamento de circuitos integrados, os chips, foi apresentado por pesquisadores das universidades de Purdue e Harvard, dos Estados Unidos, na international Electron Devices Meeting, realizada em São Francisco, no início de dezembro. São transistores formados por três nanofios empilhados na forma de um pinheiro de natal. Esse novo transistor –que controla o fluxo da corrente elétrica –ganhou o nome de 4-D (dimensões) porque possui os três nanofios empilhados na vertical, ao contrário do anterior criado pelo grupo, de

3-D, que possuía apenas um nanofio e tecnologia convencional baseada no silício. O novo é feito com índio e arseneto de gálio, materiais semicondutores que apresentam vantagens em relação à mobilidade dos elétrons no chip. A novidade vai permitir que circuitos eletrônicos possam ser construídos em tamanho menor, ofereçam mais rapidez no processamento e gerem menos calor que os atuais chips As pesquisas lideradas pelo professor Peter ye tiveram também a participação da norte-americana Semiconductor Research Corporation (SRC), um consórcio de empresas e instituições de pesquisa.

Os vencedores da inovação

A empresa Amazon Dreams foi a vencedora na categoria Micro e Pequenas Empresas no Prêmio Finep de inovação 2012. Ela produz compostos bioativos e óleos naturais com espécies nativas da Amazônia. A empresa, situada em Belém (PA), foi criada por pesquisadores da Universidade Federal do Pará. A média empresa escolhida foi a iacit, de São José dos Campos (SP), desenvolvedora de equipamentos e softwares para as áreas de controle de tráfego aéreo e marítimo, defesa e meteorologia. A categoria grande Empresa foi vencida pela Embraer, produtora de aviões, também de São José dos Campos. na categoria instituto de Ciência e Tecnologia o escolhido foi o inatel Competence Center, de Santa Rita do Sapucaí (Mg), um centro facilitador entre o instituto nacional de Telecomunicações (inatel) e empresas que absorvem a tecnologia desenvolvida na

instituição. na categoria

inovação Sustentável, a ganhadora foi a Braskem, de São Paulo (SP), pela criação de plásticos produzidos com etanol de cana-de-açúcar. na Tecnologia Social, o vencedor foi o instituto de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá, com sede em Tefé (AM), que utilizou energia solar para captar e distribuir água limpa para as populações ribeirinhas da região. na categoria Tecnologia Assistiva ganhou a empresa Pentop, de Manaus (AM), com uma caneta dotada de um sensor na ponta e um processador capaz de identificar textos e objetos e reproduzir para pessoas com deficiência visual os sons previamente gravados. Marco Aurélio Corrêa Machado, de Campinas (SP), ganhou na categoria inventor inovador, com um digestor que solubiliza materiais como aço, cerâmica e papel para identificar os seus elementos químicos.

A nova caverna digital

Um sistema de realidade virtual em grande escala chamado Cave 2 (Cave automatic virtual environment, ou caverna digital) foi finalizado pela Universidade de illinois em Chicago, nos Estados Unidos. Ele poderá, entre outros benefícios, revolucionar a prevenção e o tratamento de acidente vascular cerebral (AvC). nesse ambiente virtual é possível ver nos mínimos detalhes o cérebro e o seu fluxo sanguíneo, com artérias, veias e microvasos. O modelo do cérebro, criado como uma representação tridimensional, é fruto de um trabalho feito ao longo de anos pelos pesquisadores a partir de imagens obtidas de pacientes em tratamento e interpretadas por algoritmos de computadores. Um modelo de um paciente em estudo foi colocado no Cave 2 e em poucos minutos a equipe médica descobriu que tinha ligado artérias de forma que não correspondia à anatomia, o que permitiu a sua correção imediata. Quem entra na caverna com paredes de 7,5 metros de diâmetro e 2,5 metros de altura tem uma visão panorâmica das imagens em 320 graus. O sistema – constituído por 72 telas LCD, 20 alto-falantes e 36 computadores – foi projetado para permitir aos pesquisadores estudar em detalhes fenômenos muito grandes ou pequenos, perigosos, complexos, ou mesmo muito distantes. Dentro da caverna eles podem adotar diversas escalas em relação ao modelo visual, para que se sintam maiores em relação a um edifício de seis andares ou menores em comparação a uma molécula, por exemplo. O Cave 2, que poderá ser usado para estudar fenômenos climáticos e outras aplicações, foi desenvolvido com financiamento da national Science Foundation (nSF).

Cave 2: pesquisadores analisam a vascularização de um cérebro humano

Os vazios da próstata

Espaços vazios nas estruturas arredondadas da próstata conhecidas como ácinos representam um indício da gravidade de tumores nessa glândula dos homens – e não um fenômeno indesejado e irrelevante que apareceu durante a realização da biópsia. Quanto maior esse espaço, maior o perigo oferecido pelo tumor, segundo estudo de Wagner Fávaro, Athanase Billis e outros pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Eles examinaram dois grupos de amostras: 25 de homens que haviam morrido sem doença no aparelho urogenital e 25 de homens submetidos à extração total da próstata. O estudo

indicou alterações moleculares e celulares associadas à formação do espaço nessas estruturas da próstata (Pathology & Oncology Research, abril de 2012). na mesma edição da revista, pesquisadores da Universidade de z agreb, Croácia, chegaram à mesma conclusão: a formação de espaços vazios nos ácinos pode ser vista como um fenômeno útil para avaliar a gravidade de tumores. O câncer de próstata é diagnosticado por meio do exame de toque e das variações dos níveis do antígeno prostático específico (PSA) e da forma, organização e quantidade dos ácinos, que produzem secreções que ajudam a formar o sêmen.

Casca de soja antes e depois da purificação: nanocristais para polímeros

Reforço invisível

Rolhas saltando de garrafa de champanhe: a 4°C (alto) a tampa sai a uma velocidade 30% menor do que a 18°C (abaixo)

Resíduo da produção de óleo vegetal, a casca de soja pode ser utilizada também para reforçar plásticos, além de servir à alimentação bovina. na forma de nanocristais de celulose, ela pode ser incorporada a polímeros para dar maior resistência a esses materiais, conforme estudo liderado pelo professor Daniel Pasquini, do instituto de Química da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Minas gerais. “Os nanocristais podem substituir as fibras vegetais adicionadas atualmente aos compósitos convencionais”, diz Pasquini. A vantagem é que, mesmo usando menos material, o compósito ganhará um

Alta temperatura acelera rolha a 55 km/h

imagens de infravermelho feitas por uma câmera ultraveloz ajudaram a entender a dinâmica de uma cena comum nas festas de final de ano: o espocar de um champanhe. A equipe do físico gérard Liger-Belair, da Universidade de Reims Champagne-Ardenne, situada no coração da zona produtora do famoso espumante francês, filmou a saída de rolhas e o consequente escape de dióxido de carbono (CO2) em garrafas que haviam sido

mantidas por 24 horas a três diferentes temperaturas, 4, 12 e 18 graus Celsius (°C). Os dados do experimento confirmaram que, quanto maior a temperatura do líquido, maior a pressão dentro da garrafa e, por tabela, maior também a rapidez e a quantidade de gás que deixa o recipiente ao ser aberto. A 18°C, a rolha salta da garrafa a uma velocidade de 55 quilômetros por hora e o volume de CO2 disperso numa nuvem gasosa – não de-

reforço igual ou até superior. “no caso de polímeros que necessitam de transparência, como filmes para embalagem, a adição dos nanocristais permite que o material também possa ser transparente.” nos compósitos convencionais, o resultado é um material opaco. Para obter os nanocristais, os pesquisadores utilizam um processo de hidrólise em que a fibra de celulose é mergulhada em uma solução ácida para ser em seguida purificada. no final sobram os nanocristais. O estudo estará na edição de março da revista Industrial Crops and Product.

tectável na faixa da luz visível, mas sim no infravermelho – é enorme. A 4°C, a tampa de cortiça viaja a cerca de 40 quilômetros por hora e a nuvem é nitidamente menor. “Também vimos que, de toda a energia produzida pela retirada da tampa, apenas 5% saem na forma de energia cinética”, diz Liger-Belair. “A maior parte da energia do sistema parece ser liberada como uma onda de choque, como o bang do estouro da rolha.”

o crânio subvertido

Estudo de pesquisadores ibero-americanos contesta trabalhos que associam a largura da face do homem a comportamentos antiéticos e agressivos | marcos Pivetta

Depois de analisar dados de aproximadamente 5 mil indivíduos pertencentes a 94 grupos populacionais modernos distintos, um grupo de geneticistas e antropólogos físicos ibero-americanos colheu evidências suficientes para contestar uma das teorias mais estranhas e controversas que ganharam as páginas de importantes revistas científicas nos últimos cinco anos: a de que, ao medir um traço físico permanente do crânio de pessoas do sexo masculino, é possível obter um indicador confiável de seu grau de honestidade e de agressividade. Segundo essa polêmica tese, que flerta com as ideias lombrosianas defendidas no século XIX e há tempos totalmente desacreditadas, a relação entre a largura e a altura do rosto de um homem está associada ao tipo de comportamento exibido pelo indivíduo (o mesmo raciocínio não valeria para as mulheres). Homens com rostos proporcionalmente mais largos seriam menos éticos e mais violentos.

E a culpa disso seria da seleção natural. Em termos evolutivos, sempre segundo os defensores dessa teoria, as fêmeas de Homo sapiens teriam preferido se reproduzir com os machos de cara menos estreita, que, por se sentirem líderes poderosos e temidos, teriam maior predisposição a recorrer a artimanhas e à força para fazer valer

seus interesses. Logo, por essa linha de raciocínio, com o passar do tempo, os crânios mais largos teriam se tornado uma marca registrada dos homens mais desejados, potentes e com maior sucesso reprodutivo, que seriam também os mais desonestos e truculentos. Dá para acreditar nessa ideia de que o tamanho da maldade está impresso nos ossos da face dos homens, exclusivamente dos homens? Não dá. É o que diz, em tom educado, mas firme, o estudo feito por cientistas do Brasil, da Argentina, do México e da Espanha que está previsto para ser publicado na primeira quinzena deste mês na revista científica PLoS One. “Não encontramos nenhum dado significativo de que populações ou indivíduos com maior grau de belicosidade, comportamento agressivo ou mediado pela sensação de poder tenham um rosto mais largo”, diz a geneticista Maria Cátira Bortolini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), uma das coordenadoras do trabalho. “Também não achamos nenhuma ligação entre esse traço físico e uma suposta vantagem reprodutiva no processo evolutivo.” Se os machos de cara mais larga tivessem sido, ao longo do processo evolutivo, os prediletos das fêmeas, era de esperar que esses indivíduos tivessem produzido mais descendentes do que seus rivais mais fracos (ou com imagem de mais fracos), de rosto mais

Estudo dos cientistas

ibero-americanos analisou medidas de 5 mil pessoas de 94 populações e não encontrou nenhuma ligação entre o formato do rosto e o comportamento

alongado. Na amostra analisada, no entanto, o tamanho da prole de homens de traços faciais mais largos não diferiu significativamente dos demais.

A afirmação de que rostos mais largos nos homens representam um traço adaptativo selecionado pelo processo de evolução natural, um argumento usado para embasar a tese dos neolombrosianos, também não foi confirmada pelo novo estudo. Essa questão ainda não está totalmente fechada, embora a maior parte dos trabalhos afirme que o dimorfismo sexual em nossa espécie é menos pronunciado do que em outros primatas. Em outras palavras, machos e fêmeas não apresentam diferenças físicas marcantes que foram moldadas pelo processo evolutivo. Em alguns animais e plantas o dimorfismo sexual é evidente. O leão, por exemplo, tem uma vistosa e amedrontadora juba, adereço de que a leoa não dispõe. Independentemente de a largura da face masculina ter sido moldada pelo processo evolutivo ou não, concluir que esse parâmetro anatômico é, por si só, uma espécie de régua biológica do caráter e da agressividade dos homens carece de fundamentos sólidos, de acordo com a equipe internacional de pesquisadores. “Correlacionar um único atributo físico a um comportamento humano complexo, como a questão da ética e da agressividade, não tem validade científica e é uma ideia perigosa”, afirma o antropólogo físi-

teorias sem pé nem cabeça

Franz Joseph Gall

e discípulos

no início do século XiX, o médico alemão publicou as ideias que originaram a frenologia, que dividia o crânio em 27 regiões, cada uma associada a supostos traços da personalidade

co argentino Rolando González-José, do Centro Nacional Patagônico, de Puerto Madryn, outro autor do trabalho na PLoS One . “Além de não se sustentar do ponto de vista científico, como mostramos em nosso trabalho, esse tipo de raciocínio, que não leva em conta o contexto social e cultural das pessoas, abre uma porta para políticas discricionárias e eugênicas.”

Os cientistas usaram bases de dados próprias e disponibilizadas por outros trabalhos científicos para obter informações sobre a largura da cabeça de uma amostra tão grande e diversificada de crânios humanos. Entre as populações analisadas, havia grupos de contextos sociais e culturais muito variados, de sociedades com fama de serem mais ou menos violentas, como moradores de países desenvolvidos e em desenvolvimento e habitantes de tribos indígenas. Dados antropométricos de prisioneiros que estiveram retidos no início do século passado na Penitenciária Federal da Cidade do México, um estabelecimento onde, por definição, a concentração de homens desonestos e belicosos deve ter sido alta, também foram usados no estudo. “Não estamos dizendo que a genética ou a biologia não influenciam o comportamento das pessoas”, explica Claiton Bau, especialista em genética psiquiátrica da UFRGS, que também assina o trabalho ao lado de González-José e Maria Cátira. “Claro que elas influenciam, mas não têm um efeito determinista sobre comportamentos complexos, como a ética individual. Seu efeito é probabilístico. O ambiente também influencia os indivíduos ao longo de toda a vida. No caso do cérebro, o importante não é o formato, é a função (cognitiva) desempenhada em uma região.”

1810

Um calombo na região da benevolência seria um sinal de que essa característica era abundante no dono do crânio. A frenologia foi bem acolhida na sociedade vitoriana inglesa

O polêmico traço físico que estaria associado à maldade masculina é calculado a partir de um índice denominado tecnicamente relação da largura e da altura da face, em inglês facial width-to-height ratio (fWHR). A largura do rosto é obtida por meio do registro da distância entre dois pontos do crânio conhecidos como zígio esquerdo e direito. Eles se encontram nas extremidades laterais da cabeça, perto das orelhas. A altura da face é dada pela distância entre dois outros pontos, o násio e o próstio. O násio fica no centro do rosto, entre as sobrancelhas, pouco acima da depressão nasal. Também central, o próstio se situa logo acima do lábio superior. Nos homens, quanto maior for a largura do rosto em relação à altura, maior é o índice fWHR – e, segundo os neolombrosianos, maior a falta de ética e pendor à agressividade do sujeito em questão.

O trabalho recente que explorou de forma mais explícita essa veia quase racista de ligar a desonestidade a um traço físico do crânio foi um artigo científico publicado em 6 de julho do ano passado na revista científica Proceedings of the Royal Society B, editada pela famosa e respeitada Royal Society da Inglaterra. O título do estudo é um bom indicador do seu conteúdo: “Bad to the bone: facial structure predicts unethical behavior” (“Mau até o osso: estrutura facial prediz comportamento antiético”, numa tradução livre). No artigo, Michael P. Haselhuhn e Elaine M. Wong, da Universidade de Wisconsin em Milwaukee, reportam os resultados de dois experimentos comportamentais, típicos das escolas de administração, que servem de suporte para sua tese.

No primeiro teste, 192 alunos de MBA (115 homens e 77 mulheres), com idade média de 28

s ARE lO m BRO s O

anos, participaram de uma versão do conhecido exercício de negociação Bullard Houses. No teste os estudantes desempenharam aleatoriamente o papel de vendedor ou de comprador de uma propriedade. Trata-se de uma simulação destinada a medir a ética dos negociantes. Na variação do exercício proposta por Haselhuhn e Wong, toda a transação entre as partes foi feita por e-mail, sem que ninguém tivesse noção da aparência do seu interlocutor.

Havia um conflito em potencial que devia ser contornado para que o negócio se efetuasse. O vendedor só estava disposto a abrir mão do imóvel se houvesse uma garantia de que a construção não seria usada para fins comerciais, exigência que o comprador não estava disposto a assumir (ele não podia dizer que iria erigir um hotel no local). No final do experimento, 13 compradores do sexo masculino e 5 do feminino enganaram o vendedor do imóvel. No caso dos homens, os que trapacearam tinham caras mais largas do que os que não incorreram em comportamento antiético. Nas mulheres, essa correlação não foi encontrada. As medidas faciais foram obtidas a partir de fotos digitais dos participantes da simulação.

“Correlacionar um atributo físico a um comportamento humano complexo não tem validade científica”, afirma Rolando
González-José

O segundo experimento tinha como objetivo averiguar a ocorrência de outra forma de trapaça: mentir sobre os resultados de um jogo virtual de dados para aumentar suas chances de obter uma eventual recompensa financeira numa lo -

O médico difundiu a ideia do criminoso nato, que teria feições selvagens, parecidas com as de macacos. O fora da lei seria prognata, com testa inclinada, orelhas grandes e braços alongados

no meio do século XiX, as ideias de gall já estavam desacreditadas pela ciéncia e eram alvo de piadas. isso não impediu que, pouco depois, teorias derivadas surgissem e se tornassem populares. na itália, Lombroso publicou em 1876 O homem delinquente

Há tempos desacreditadas, as estranhas teses da frenologia associavam as diferentes regiões do crânio a traços distintos da personalidade humana

teria. Nesse caso foram recrutados 103 universitários com idade média de 22 anos, dos quais 49% eram homens. Também foram aplicados questionários entre os participantes do estudo para medir quão poderosos eles se sentiam. Mais uma vez apareceu, segundo os autores do trabalho, uma correlação entre homens com faces largas e comportamentos antiéticos. Os indivíduos que reportaram os maiores resultados no jogo foram os que se definiram como mais poderosos –justamente os homens de cara larga. Novamente essa correlação não apareceu entre as mulheres.

O parágrafo final do artigo da dupla de Wisconsin resume suas teses formuladas a partir dos dois experimentos: “Em conclusão, nossa pesquisa fornece uma nova perspectiva do estudo das bases evolucionistas da moralidade ao identificar um traço físico determinado geneticamente que prediz o comportamente antiético. Demonstramos que homens com faces mais largas (em relação à altura facial) se sentem mais poderosos e esses sentimentos de poder levam diretamente para um comportamento menos ético, incluindo mentir e trapacear. Talvez alguns homens sejam verdadeiramente maus até o osso.”

Contactado por Pesquisa FAPESP em meados de dezembro, Haselhuhn disse não se sentir numa posição confortável de comentar o trabalho de seus colegas ibero-americanos antes de ter acesso à versão final publicada do artigo. “Neste momen-

O psiquiatra inglês Bernard Hollander foi outro difusor dessas teorias, usadas às vezes para justificar políticas discricionárias (à direita e à esquerda)

no século passado, ideias inspiradas ou derivadas das teses de gall ou Lombroso continuaram encontrando seguidores, como o pedagogo belga Paul Bouts (ao lado)

Século xx

to, o que posso dizer é que esse futuro paper tem pouco a ver com o nosso artigo ‘Bad to the bone’, com exceção de que ele faz a óbvia distinção de que comportamento antiético e comportamento criminal não são a mesma coisa”, disse, por e-mail, Haselhuhn. “Esse paper discorda mais diretamente de estudos anteriores que dizem que a relação fWHR vem do dimorfismo sexual. Apesar de citarmos esses estudos, explorar o dimorfismo sexual não é o foco do nosso artigo.”

O artigo de Haselhuhn e Wong é o trabalho recente com afirmações mais contundentes relacionando ética à largura de ossos do crânio em homens. Mas não é o único. Num artigo publicado em 19 de agosto de 2008 na mesma Proceeding of the Royal Society B, Justin M. Carré e Chery McCormick, do Departamento de Psicologia da Universidade Brock, do Canadá, afirmam que esse traço do rosto pode funcionar como um marcador de agressividade. Sua evidência científica: jogadores de times profissionais e universitários de hóquei com cara mais alargada sofreram mais punições por terem cometido faltas ou ações violentas no jogo. “Esses achados sugerem que a relação entre a largura e a altura da face determinada por dimorfismo sexual pode ser um ‘sinal honesto’ da propensão à agressividade”, escreveu a dupla. Em 2009, os mesmos pesquisadores emplacaram um artigo na revista Psychological Science de caráter bastante parecido. Relatam experimentos em que pessoas associam comportamentos agressivos a imagens de homens com rostos de traços alargados. “Não consigo ver o que pode sair de bom desse tipo de estudo”, comenta Maria Cátira.

É antigo o desejo de tentar associar certos traços da anatomia do crânio humano à personalida-

Alguns experimentos e procedimentos dos médicos nazistas tinham raízes que remetiam à frenologia, como realizar medições no crânio

de de indivíduos de nossa espécie, estabelecendo supostas relações entre alguns parâmetros físicos e a propensão à desonestidade ou à prática de atos criminosos. Entre o final do século XVIII e início do XIX, os controversos trabalhos do médico alemão Franz Josef Gall (1758-1828) e de seu discípulo Johann Gaspar Spurzheim (1776-1832) são uma referência obrigatória sobre o tema. Para Gall, a superfície do crânio funcionava como um índex das características psicológicas do indivíduo. Ele dividiu o cérebro em 27 regiões (outros depois fatiaram o órgão em mais ou menos setores). Havia uma área ligada à compaixão, outra ao desejo de se reproduzir e assim por diante. O tamanho de uma região era proporcional à faculdade psicológica por ela representada. Um calombo um pouco acima da testa era sinal de benevolência exagerada. Uma protuberância no entorno das orelhas era um indício de agressividade exacerbada. Assim nascia a cranioscopia, popularizada por Spurzheim com o nome de frenologia. Medir o crânio era medir a psiquê humana. Embora já em meados do século XIX a frenologia tenha caído em descrédito científico e se tornado alvo inclusive de charges e pinturas bem-humoradas, em que médicos esquadrinhavam o cérebro deformado de pacientes, esse tipo de abordagem nunca deixou de encontrar adeptos de tempos em tempos, sobretudo em certas sociedades. Esse tipo de estudo foi bastante difundido nos Estados Unidos e na Inglaterra. Ao publicar a obra O homem delinquente em 1876, o médico italiano Cesare Lombroso (1835-1909) produziu uma versão própria dessa abordagem, com foco em supostas características típicas do crânio de hipotéticos malfeitores natos. Segundo

Lombroso, o criminoso tinha feições selvagens, semelhantes às dos macacos. Era prognata, tinha testa inclinada, orelhas grandes, braços alongados, entre outros atributos. Mesmo no século XX ideias racistas como as de Gall e Lombroso encontraram seguidores e difusores, como o psiquiatra inglês Bernard Hollander (1864-1934) e o pedagogo belga Paul Bouts (1900-1999). “Os médicos nazistas praticavam eutanásia para manter a suposta pureza da raça ariana”, afirma Bau, numa referência a um regime que lançou mão de ideias eugênicas em parte influenciadas pela frenologia.

Políticas discricionárias usaram estudos derivados da frenologia para justificar seus atos contra indivíduos que tinham certos traços físicos

Para González-José, os estudos recentes que estabelecem uma suposta correlação do tal índice fWHR e comportamentos antiéticos e/ou agressivos incorrem numa simplificação extrema e perigosa. “Quando a ciência tenta explicar mecanismos escondidos em fenômenos complexos, é sempre necessária uma avaliação cuidadosa”, diz o argentino. “Não se pode aceitar uma simples associação estatística como prova de uma relação de causa e efeito entre largura da face do homem e comportamentos antiéticos.” n

Artigo científico

GÓMES-VALDÉS, J. et al. Lack of support for the association between facial shape and aggression: a reappraisal based on a worldwide population genetics perspective. PLoS One. No prelo.

Polêmicos estudos recentes publicados em revistas científicas, como a Proceedings of the Royal Society B, dizem que uma medida do crânio dos homens (mas não das mulheres) pode ser interpretada como um indicador de comportamentos antiéticos e agressivos

Os trabalhos, que parecem uma versão atual da frenologia, afirmam que, quanto maior foi a largura da face dos indivíduos (a distância entre os zígios) em relação à sua altura (do násio ao próstio), maior a sua propensão à desonestidade e belicosidade

Zígio
násio
Zígio
Próstio

Saltos astronômicos

O astrofísico João Evangelista Steiner achava que era feliz quando estudava astronomia de raios X e buracos negros no início de sua carreira no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP). Quando fez seu pós-doutorado na Universidade Harvard, nos

Estados Unidos, e foi contratado pelo Instituto Smithsonian como funcionário público norte-americano, sua visão de como fazer ciência em nível competitivo mudou radicalmente. De volta ao Brasil em 1982, Steiner tornou-se um ativo organizador e gestor de ciência e um obsessivo batalhador pela melhora das condições de infraestrutura dos estudos astronômicos.

A lista de seus trabalhos em prol da astronomia brasileira é robusta. A modernização do Observatório Pico dos Dias, a criação do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA) e a participação nacional decisiva no consórcio dos observatórios Gemini e Soar, ambos no Chile, são os mais conhecidos. Steiner também foi secretário-geral da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ocupou a Secretaria de Coordenação das Unidades de Pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e dirigiu o Instituto de Estudos Avançados (IES/USP). Hoje é um severo crítico da entrada do Brasil no European Southern Observatory (ESO).

Tais empreitadas não arrefeceram seu lado pesquisador. Os anos dedicados à gestão, desde 1982, conviveram com observações astronômicas frequentes, publicação de artigos científicos, supervisão de instrumentos de precisão para observatórios e um interesse nunca abandonado pelo que ocorre no Universo, o “maior e melhor laboratório que existe”, segundo costuma dizer. Agora, em 2013, Steiner está ansioso para começar um estudo sobre o centro da Via Láctea utilizando uma nova tec-

IdAdE 62 anos

ESPEcIAlIdAdE Astrofísica

FormAção USP (graduação, mestrado e doutorado)

Universidade Harvard (pós-doutorado)

InStItUIção instituto de Astronomia, geofísica e Ciências Atmosféricas (iAg/USP)

João steiner

nologia recém-instalada no Gemini. Casado, com três filhos, o astrofísico natural de São Martinho, em Santa Catarina, deu a entrevista abaixo à Pesquisa FAPESP.

O senhor vem de uma cidade muito pequena em Santa Catarina, colonizada por alemães. É fato que aprendeu português apenas com 10 anos?

Sou bisneto de alemães. Essa imigração aconteceu em 1860, durante a Guerra do Paraguai e dizem que até por conta do conflito. Dom Pedro II, que tinha conexões fortes com a Áustria – a mãe dele era austríaca –, queria povoar o litoral de Santa Catarina por questões geopolíticas. Meus bisavós vieram do vale do Reno, da Alemanha, e foram para o vale do Capivari, em Santa Catarina. A família do meu pai veio de Koblenz, onde o rio Mosela entra no Reno. A minha mãe é da família Boeing e veio de Bocholt. Ela descendia de dois irmãos que fugiram do serviço militar alemão. O William foi para Seattle e fundou uma companhia que depois passou a fabricar aviões, a Boeing. O Werner foi para Santa Catarina. O ruim dessa história é que nasci no lado pobre da família. Em São Martinho eu falava alemão porque era só o que se falava. Até a Segunda Guerra Mundial as aulas eram em alemão. Aprendi português aos 10 anos, na marra, porque na escola chega uma hora que não tem jeito. Mas nunca tive muitas relações científicas com a Alemanha. Mais recentemente tenho ido mais para lá porque tenho um filho que é cantor de ópera e mora em Hamburgo.

Como seguiu sua educação?

eram agricultores e me lembro que quando tinha uns 7 anos estava limpando o pasto com minha mãe e quis saber dela onde era o fim do mundo. E ela disse que o fim do mundo era muito longe dali, depois da Alemanha. Vinte anos depois, veio um parente da Alemanha nos visitar. Era uma viagem duríssima, quando Santa Catarina não tinha nem estrada asfaltada. Era poeira, curvas e serra. Ele chegou lá, entrou na cozinha, sentou na primeira cadeira e disse, “Agora eu sei onde é o fim do mundo!”. Me senti vingado. Eu já tinha uns 27. Isso dá a ideia de como as coisas são relativas.

Não tinha fixação por telescópios?

Eu tinha curiosidade em saber as coisas. A física me atraía, porque respondia às

energia escura. Descobrimos de repente que sabíamos pouco do Universo, porque ele tem essas duas entidades que dominam sua dinâmica. Não que eu tivesse previsto essas coisas. Absolutamente não, mas também não estava errado em achar que laboratório bom é o Universo.

Seu interesse pelos buracos negros começou no mestrado?

As duas questões fundamentais da física contemporânea são matéria escura

e energia escura

Lá tínhamos escolas de padre e de freira. Quem ia estudar, o que era raro, ia para uma ou para outra. Fui para a de padre e minha irmã para a de freira. Depois vim fazer vestibular aqui na USP.

Já tinha ideia de fazer astronomia? Era daquelas crianças que construía coisas? Não. Mas cheguei a construir um telescópio, por curiosidade. Também construí um rádio, tentei fazer um computador que nunca funcionou. Mas eu tinha curiosidade sobre o Universo. Meus pais

perguntas mais fundamentais da ciência. Eu queria fazer o melhor curso de física do Brasil e todos diziam que era o da USP. Vim para cá e entrei em 1970. Quando cheguei ao começo do terceiro ano, concluí que o melhor laboratório de física era o Universo. Muitas das questões de interesse científico seriam respondidas pela astrofísica, porque qualquer coisa que envolva grandes dimensões, grandes massas, grandes campos de gravidade, temperatura, campos magnéticos, tudo no extremo só se encontra no contexto cósmico. O problema é conseguir fazer a transformação disso em laboratório. Para isso temos de extrair muita informação. As duas questões fundamentais da física contemporânea são matéria escura e

Exato. A astronomia de raios X estava nascendo naqueles anos. A Cygnus X-1 foi a primeira fonte de raios X da constelação do Cisne descoberta. Quando mediram a massa da Cygnus X-1 viram que ela seria muito maior que uma estrela de nêutrons, ou uma anã branca, então só poderia ser um buraco negro. E isso foi em 1973. A minha iniciação científica foi sobre a identificação de fontes de raios X. Em 1974 comecei o mestrado e criei um modelo teórico para a Cygnus X-1. Fiz com o professor José Antonio de Freitas Pacheco, que atualmente vive na França. O mestrado foi interessante porque estava associado com as descobertas recentes. Cygnus X-1 foi a primeira candidata a ter um buraco negro. O mestrado consistiu em construir o modelo teórico de disco de acreção [estrutura formada por material difuso ao redor de uma estrela ou buraco negro] e calcular o espectro de raios X que ele tinha que emitir. Mostrei que as duas coisas batiam.

E o doutorado?

No doutorado peguei esse modelo de disco e apliquei às estrelas anãs brancas, estrelas de nêutrons e buracos negros estelares e supermassivos, que são as quatro modalidades em que a acreção produz a energia liberada. Essa energia não vem de uma estrela normal, como o Sol, cuja origem é a fusão nuclear que transforma hidrogênio em hélio e depois em outros elementos mais pesados. E o diferencial da massa é transformado em energia. Esses objetos são extremamente compactos e têm um poço gravitacional muito profundo, na forma, na capacidade de acelerar matéria no campo gravitacional. Qualquer gás que seja capturado começa a espiralar para dentro e a energia

gravitacional é transformada em energia cinética, em acordo com a lei de conservação de energia. A energia cinética nas órbitas mais internas é muito maior do que nas órbitas externas, porque a velocidade é muito maior. Órbitas consecutivas têm velocidades diferentes e isso gera fricção, que transforma a energia cinética em energia térmica. Fica uma temperatura tão alta – estamos falando em 100 milhões de graus – que emite fótons que escapam, sob forma de energia radiante antes que a matéria entre no buraco negro ou na estrela de nêutrons ou na anã branca.

É uma maneira de saber se há um buraco negro na região observada?

No início era muito difícil distinguir se era um buraco negro ou uma estrela de nêutrons, por exemplo, ou até uma anã branca, porque todas elas emitem raios X. Estão em um sistema binário de estrelas e, sendo assim, é possível medir a massa das duas componentes. Na anã branca há um limite superior que é o de Chandrasekhar, que é 1,4 massa solar. Na estrela de nêutrons, o limite é 3,5 massas solares, que é chamado de limite Volkoff-Oppenheimer. Se for mais de 3,5, a solução é o buraco negro.

Mas sabia-se isso na época?

Até se sabia, mas a medida da massa era difícil de ser obtida. O que aconteceu naquele período é que, em muitas das estrelas binárias de raios X que foram sendo descobertas, a fonte de raios X pulsava. São os pulsares de raios X. Isso é produzido pelos polos magnéticos que vão girando e jogam o feixe de raios X, como se fosse um farol. Buraco negro não tem campo magnético. Então nenhuma dessas fontes pulsantes poderia ser um buraco negro. Tinham de ser estrelas de nêutrons, como se comprovou com a grande maioria delas. Foi uma ducha de água fria, porque achávamos que haveria uma série de buracos negros e que seria fácil estudá-los quando, na verdade, a grande maioria era estrela de nêutrons. Tanto assim que nós só conhecemos 20 buracos negros estelares na bibliografia, 40 anos depois.

Esse tema foi estudado no seu doutorado também? Existia dificuldade para encontrar gente para orientar? O meu foi o terceiro doutorado em astrofísica no Brasil. O professor Abrahão de Moraes, aqui da USP, era muito reconhecido e mandou estudantes fazerem doutorado na França. Em 1972, logo depois de sua morte, o Pacheco terminou o doutorado e voltou. Ele foi meu orientador. Depois voltaram outras pessoas do exterior e a comunidade cresceu.

Quando foi para o exterior?

Logo depois do doutorado, em 1979. Me interessei muito pela astronomia de raios X. O primeiro satélite capaz de detectar raios X foi lançado em 20 de dezembro de 1970, na costa do Quênia. Foi chamado

Quem é cientista graças à educação pública que recebeu tem um compromisso com a sociedade

de Uhuru, que é a palavra queniana para liberdade. Muitas das estrelas binárias foram descobertas por esse satélite, que era americano. Em Harvard trabalhei com o primeiro telescópio de raios X, denominado Observatório Einstein. A base científica ficava em Harvard embora o telescópio fosse da Nasa. Naquela época não existia telescópio espacial. O Uhuru era um equipamento pequenino para detectar fóton de raios X, muito primitivo. O Einstein era um telescópio e tinha grande capacidade de fotografar. Foi lançado em 1979.

E por que voltou para o Brasil? Certamente o senhor conseguiria uma posição nos Estados Unidos. Eu consegui uma posição. Fui contratado

em Harvard pelo Instituto Smithsonian como funcionário público federal norte-americano. Foi uma história curiosa. Quando o Einstein foi lançado, as imagens vinham todas desfocadas. Aconteceu algo semelhante com o telescópio Hubble, anos depois. Os pesquisadores ficaram desesperados, porque tinham gastado uma fortuna para fazer o primeiro grande telescópio espacial. A Nasa colocou todo seu pessoal para achar o problema – e não conseguiu. Harvard também tentou, sem sucesso. Eu estava lá e fiz meu primeiro trabalho científico como professor de Harvard, sobre quasares. Aí um professor de lá me propôs estudar o problema do telescópio. Eu disse que nunca tinha visto um satélite na vida e ele falou que era exatamente por isso: quem já tinha visto não estava conseguindo resolver o problema. Quem sabe eu conseguiria? Colocaram à minha disposição todos os computadores que eu quisesse e mais dois programadores. Comecei a trabalhar nisso, dia e noite, com o direito de chamar os programadores a qualquer hora para fazer cálculos para mim. Demorei duas ou três semanas e achei a solução. Mostrei para eles e garanti que podiam fotografar tudo de novo porque iriam conseguir o foco. Eles tinham os dados brutos arquivados e decidiram fazer um teste. Pegaram uma imagem bem desfocada e usaram a programação com um sistema de 14 equações que fiz para ver o que dava. Saiu perfeito. Na verdade, era até algo simples. Eles tinham dois telescópios ópticos no satélite, que se fixavam em duas estrelas. Ocorre que esse telescópio se mexe em torno da Terra e o campo magnético do planeta varia. Eles criaram uma blindagem para evitar a interferência do campo magnético. O que fiz foi mostrar que essa blindagem era 50 vezes pior do que havia sido encomendado e a interferência do campo provocava o desfocamento.

Foi esse trabalho que levou a sua contratação?

Americano tem isso: quando você mostra competência está garantido. Eles são

muito objetivos e organizados. Em qualquer outro lugar do mundo eu continuaria sendo só um brasileiro. Mas lá eu fui o cara que resolveu o problema. Isso muda o tratamento. Já era professor no IAG da USP quando pedi afastamento e fui fazer o pós-doc lá, com bolsa da FAPESP, por dois anos. A bolsa acabou, pedi afastamento sem vencimentos e eles me contrataram. Fiquei um ano e tive de optar entre ficar e voltar. Voltei por duas razões: a primeira é que a família queria. Àquela altura eu era casado e tinha dois filhos. Depois nasceu mais um. A segunda razão é que nunca me passou pela cabeça não retornar. Eu fui educado aqui, com recursos públicos, em instituições públicas, tive bolsas da FAPESP em todos os níveis. Uma pessoa que recebe educação pública, como recebi, se torna um cientista que não teria sido sem isso, tem um compromisso com a sociedade que o sustentou. Para mim essa questão foi fundamental. O que eu queria era ficar um pouco mais de tempo lá, porque sabia que quando voltasse ao Brasil, em 1982, iria encontrar uma situação difícil.

E o que era a astrofísica brasileira naquela época?

Em Harvard havia montes de computadores, podíamos calcular qualquer coisa. Quando voltei para o Departamento de Astronomia, tinha cinco calculadoras de mão HP 25. Se alguém precisasse usar entrava na fila de usuários. Tínhamos também o CCE [Centro de Computação Eletrônica], órgão da Reitoria, mas localizado na Escola Politécnica. Foi lá que fiz mestrado e doutorado usando um Borroughs 6900 para os cálculos. Era preciso levar caixas cheias de cartões perfurados e entregar no guichê. Eles avisavam quanto tempo ia demorar e depois de dois dias, por exemplo, voltávamos para buscar o print out. A gente achava o máximo. Isso antes de ir para os Estados Unidos. Lá percebi que não dava mais para fazer aquilo e, na minha volta, comecei a mobilizar a comunidade para mudar o jogo. Foi difícil, porque muita gente não queria. Achavam bom porque não se percebia o quanto estávamos atrasados de um modo ge-

ral. Em 1985 fui para o Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] e criei lá a Divisão de Astrofísica. Começamos a adquirir equipamentos, compramos computadores para processar imagens. Meu primeiro aluno, Ivo Busko, fez uma tese que incluía processamento de imagens astronômicas. Quando terminou, foi trabalhar no Space Telescope Science Institute e viveu uma pequena confusão, porque ele estava lá e tinha desenhado o software para melhorar as imagens. Quando o equipamento foi lançado, descobriram que as imagens também eram ruins e o único cara que sabia processar as imagens era ele. O Ivo foi para lá com bolsa de pós-doc. Quando surgiu o problema, a primeira coisa que a Nasa fez foi contratá-lo.

primeiro telescópio infravermelho foi o Iras, lançado 30 anos atrás. As imagens eram borrões, ainda rudimentares. Todo equipamento espacial no infravermelho tem de ser refrigerado com hélio líquido. O Iras foi um grande sucesso porque ele conseguiu operar por nove meses. O que está ótimo, já que conseguir refrigerar hélio líquido no espaço é dificílimo. O James Webb, o próximo telescópio espacial que vai substituir o Hubble, será colocado fora da órbita da Terra para não ser afetado. Vai ter um anteparo que o protegerá do Sol. Como estará protegido da Terra e do Sol, a temperatura natural dele vai ser muito baixa.

Quando será lançado?

Talvez em 2015. Para nós será muito interessante, porque nós trabalhamos com cubos de dados, que são conseguidos com um aparelho chamado IFU [integral field unit spectroscopy]. Tudo o que o nosso grupo faz aqui agora está em forma de cubo de dados, porque é muito rico em informações. Desenvolvemos uma série de métodos e estamos nos tornando uma referência nessa área.

d ecifrar informações contidas no cubo de dados foi uma

contribuição minha

e de meus alunos

Com o avanço da tecnologia, tudo ficou menor e com melhor resolução. Isso vale para a engenharia de telescópios? Sim, mas há outra questão fundamental que é a tecnologia do infravermelho, a faixa do espectro eletromagnético mais difícil de fazer ciência. Todos nós emitimos infravermelho. O telescópio também. Imagine construir um telescópio na luz visível e encher de lâmpadas. No momento de observar a estrela o background é muito brilhante. A maneira mais inteligente de resolver isso no infravermelho é construir um telescópio, colocar no espaço e refrigerar de tal modo que a emissão térmica se torne zero, desprezível. Só que fazer isso é a fronteira da tecnologia, algo muito difícil. O

O tratamento do cubo de dados é know-how desenvolvido no IAG?

É nosso, meu e de meus alunos. E já roda em diversos outros grupos. Há alguns grupos brasileiros que nós treinamos, porque é muito difícil. O material está publicado e o software disponível, mas é preciso treinar. Se temos uma galáxia, no modo tradicional você põe uma fenda em cima e tira o espectro. É do espectro que sai a informação científica. No IFU é diferente. Fazemos uma matriz de lentes e, debaixo de cada uma delas, colamos uma fibra óptica. Pegamos todas as fibras ópticas, alinhamos numa fenda e produzimos um espectro para cada fibra. Pelo computador dá para reconstruir. Então temos X, Y e λ [lambda], comprimento de onda. E aí temos um cubo em três dimensões. O Gemini tem dois IFUs. Um no óptico e um no infravermelho. São ambos muito bons instrumentos. O Webb vai ter cinco.

Para trabalhar com esse método o dado já tem de ser captado em três dimensões? Tem. Os americanos estão preocupados, porque ainda têm muita dificuldade em tratar cubos de dados. Os europeus têm mais tradição e, melhor, estão dizendo que até os brasileiros têm mais tradição. É algo que se aprende, mas o sujeito, depois de certa idade, tem dificuldade para se reprogramar em termos de novas ferramentas. Eu comecei isso porque fui forçado. Ajudei a construir os telescópios Gemini e o Soar. Fui do board do Gemini por 5 anos e do Soar por 12 anos. Um dos diferenciais do Gemini é que ele teria esses instrumentos de campo integral. Fui me programando para fazer esse tipo de ciência. Quando tive a oportunidade de realizar um projeto usando o Gemini e os instrumentos, não hesitei. Agora vou estudar galáxias, núcleos de galáxias, que podem ser muito bem examinados com esses equipamentos. Recebi o primeiro cubo de dados e comecei a trabalhar. Começou a aparecer um monte de problemas com os dados. Pedi socorro: quem sabe tratar esse negócio? Ninguém sabia, em nenhum lugar do mundo. Então não tive alternativa a não ser resolver os problemas. Bolei os métodos, mas ainda havia um baita trabalho de programação. Eu tinha dois alunos ótimos nisso e fomos desenvolvendo.

Podemos dizer que decifrar as informações do cubo de dados foi uma contribuição sua?

quem trouxe para o Brasil fui eu. Fiz um projeto para importar um chip CCD, que foi aprovado, receberia dinheiro para a importação. Mas o Pentágono vetou por considerar “tecnologia sensível”. E olha que não era nem dos Estados Unidos que ele viria, mas da Inglaterra. Fiz outro projeto para importar uma câmera astronômica com o CCD embutido. Combinei com o vendedor para não especificar, mandei um pesquisador nosso para ajudar a montar e esconder o CCD e deu certo. Foi o primeiro chip desse tipo que entrou no Brasil, em 1986. Foi instalado no OPD e, a partir daí, a astronomia brasileira começou a fazer ciência moderna, com CCDs, computadores e processamento de imagens. Antes se fazia com placa pantográfica, que era o

ratório Nacional de Luz Síncrotron. E foi uma luta muito grande, porque envolveu nova cultura e novas mentalidades. E interesses, claro. Quando o interesse entra em jogo, as coisas nem sempre ficam no campo da racionalidade.

Em astronomia, ninguém mais fala em estrutura nacional.
Agora é preciso de união internacional

Conceitualmente e intelectualmente sim. Isso tudo é relativamente recente e essas coisas demoram certo tempo para serem assimiladas. Começamos em 2009.

O senhor participou dos projetos de grandes telescópios. Como foi esse processo?

Quando voltei ao Brasil tínhamos um telescópio recém-inaugurado, em Itajubá, no OPD, Observatório Pico dos Dias. Percebi que o telescópio era usado de forma absolutamente precária, com placas fotográficas para fazer espectroscopia. Comecei a luta para ter instrumentos modernos em 1982. Tanto assim que o primeiro CCD [charge-coupled device, um sensor usado para imagens digitais]

que já se usava em 1890. Na década de 1980 já não se usava mais essa tecnologia nos Estados Unidos, mas processos modernos, digitais. Teve outra sutileza importante. Esse telescópio era gerido pelo Observatório Nacional, mas havia muita disputa em torno do controle dele, muitos conflitos. No Brasil havia a tradição de cada grupo ter seu instrumento, cada chefe ter sua “igrejinha”. E não dá, astronomia não pode ser assim. Então propus ao CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] a criação do Laboratório Nacional de Astrofísica, o LNA. O CNPq entendeu a proposta e topou. Foi o primeiro laboratório nacional que se fez no Brasil, em 1985, 15 anos antes do segundo, o Labo -

O objetivo era um maior compartilhamento dos equipamentos astronômicos? Era ter uma estrutura compartilhada do ponto de vista nacional. Hoje ninguém fala mais em estrutura nacional – agora é internacional, porque país nenhum consegue bancar grandes projetos sozinho. Para fazer o LNA construímos os equipamentos, os CCDs, as câmeras, e tudo isso ajudou a modernizar a astronomia brasileira. Publicamos uma série de papers com esse telescópio e com as tecnologias que introduzimos. E o Brasil inteiro teve acesso, porque o uso era livre. Dependia de competitividade interna, mas por critérios unicamente científicos. Esse era o princípio. Fizemos o LNA não como um ato de esperteza, mas de sobrevivência. Ao fazer de maneira compartilhada temos mais recursos para investir. Basta fazer um único investimento, que é alto, mas é apenas um – e essa é uma linguagem que o governo começa a entender. O nível da pesquisa aumenta porque somos todos obrigados a competir e a gerenciar os projetos dentro das melhores práticas internacionais. A gente aprendeu a fazer e isso qualificou a astronomia brasileira. Quando entramos como sócios no Gemini foi uma espécie de reconhecimento pelo sucesso que obtivemos no LNA, apesar de o desnível ser inacreditavelmente grande. Foi aí que tive a ideia de fazer algo no nível intermediário, o Soar.

O senhor começou a defender a construção do Soar em 1993. Vinte anos depois, valeu a pena tê-lo construído?

Sem dúvida. Mas as coisas acontecem lentamente nessa área. Todo projeto de telescópio leva, no mínimo, 12 anos para ficar pronto. Da ideia inicial, passando pelo projeto, pelo desenho, por numerosas comissões e comitês... Também é preciso conseguir recursos. Até come -

çar a construir são vários anos. Depois, até o telescópio ver a primeira luz, mais 12 anos. Aí ele precisa passar por um ano de comissionamento, de ajustes finos para funcionar bem. Em outras palavras, não basta ligar na tomada e usar. Bem, quando o telescópio está funcionando, o problema ainda não está de todo resolvido. Ele tem seus instrumentos e cada um deles é uma etapa separada. São caros, sofisticados, queremos sempre a última palavra em tecnologia e até um pouco mais para ser competitivo. Esses instrumentos levam tempo para serem construídos e o Brasil não tinha tradição nessa área. Para o Soar, no entanto, fizemos três espectrógrafos, o Sifs, o Steles e o BTFI – este último da Cláudia Mendes de Oliveira, aqui do IAG. O BTFI [brazilian tunable filter imager] é um equipamento de alta tecnologia que permitirá avaliar tanto a composição química como os movimentos relativos internos de galáxias. Está pronto, agora já dá para começar a fazer ciência. O Sifs é instrumento de campo integral de fibra óptica. Quer dizer, são 20 anos do surgimento da ideia do Soar e não de funcionamento, é preciso entender isso. E no Gemini não foi diferente, ele ficou pronto cinco anos antes do que o Soar. Para comparar o Gemini de agora com o Soar tem de ser com o Soar de daqui a cinco anos. Ele ainda está longe de chegar ao ritmo de cruzeiro. Mesmo o Gemini ainda não chegou lá. Já trouxe e vai continuar trazendo muitos resultados, mas há críticas de que ele poderia produzir mais, ter mais impacto. Ainda assim, o Gemini produz ciência que sai na Nature e na Science, a cada dois meses pelo menos.

para o Gemini, pelos ingleses, mas não funcionou e começaram a projetar outro. É uma lacuna no Gemini e vai ser sanada no Soar antes. Era para ter sido enviado em novembro, mas, como sempre costuma acontecer, uma das peças deu problema. O Steles tem, só de peças mecânicas, 1.500. Resolver isso no Soar antes de resolver no Gemini vai ser um salto muito grande para a astronomia brasileira. Em 2013 o do Soar estará pronto. Já o do Gemini, acho que nem começaram a construir. Os problemas que ocorreram são reais, mas acontecem em qualquer telescópio do mundo. O fundamental, no caso do Soar, é que agora iremos começar a usar os instrumentos construídos no Brasil e aí o impacto e a produtividade irão, de fato, crescer. No Gemini temos um novo equi-

Um telescópio leva 12 anos para ficar pronto. Isso só depois de tudo aprovado e se houver recursos

precisa de pouco tempo de observação diz para os astrônomos residentes do observatório os dados que deseja obter, eles fazem a observação e repassam as informações para o pesquisador, que não precisa estar lá fisicamente. Outros observatórios, como o ESO, não usam isso. Nesses casos, quando o pesquisador ganha a noite, ele vai lá e observa. No caso do Gemini, como nós tínhamos pouco tempo, a maioria dos projetos não tinha nem uma noite. Para otimizar, decidimos que os projetos brasileiros iam ser feitos no modo fila. Foi uma decisão inteligente porque conseguimos produzir três vezes mais papers por hora de observação do que outros parceiros, como os americanos. Temos competitividade científica alta. No Gemini, deliberamos o modo fila e não distribuímos tempo do modo clássico. No Soar fazemos as duas coisas, o pesquisador pode optar pelo modo fila ou pelo modo clássico. Depende do projeto. Por exemplo, quero tirar espectro de alguns objetos celestes no Soar. Para isso, bastam duas horas de observação. É bobagem ir para o Chile para observar duas horas. O modo fila resolve isso. Se eu tiver duas noites, prefiro fazer daqui e não do Chile, porque aqui posso chamar a equipe inteira para participar na sala de observação que temos no IAG. Lá no Chile temos um técnico que faz as operações necessárias. Abre cúpula, fecha cúpula, aponta o telescópio.

Quando o Soar chegará nesse patamar?

Ele ainda recebe muitas críticas. Elas fazem sentido. Todos queremos fazer melhor. Estamos evoluindo, mas o ritmo foi menor, até agora, do que gostaríamos. E isso tem fundamentalmente a ver com instrumentação, e não com os telescópios, que são ótimos. Um dos instrumentos que será muito útil para a ciência brasileira é o espectrógrafo óptico de alta resolução, o Steles, feito para o Soar. Foi feito um semelhante, em termos de funcionalidade,

pamento que se chama óptica adaptativa conjugada, que permite corrigir as distorções das imagens produzidas. Ela faz a tomografia de toda a atmosfera usando quatro lasers. A primeira distribuição de tempo para os astrônomos para uso desse instrumento foi feita em novembro. O Gemini é o primeiro telescópio a ter isso. Tenho um projeto para estudar o centro da Via Láctea, que foi aprovado. O Augusto Daminelli, aqui do IAG, também teve um projeto aprovado. Seremos os primeiros usuários. É uma tecnologia de fronteira avançada e temos grande expectativa.

Por que hoje existe a observação por fila? O modo fila foi inventado no Gemini e no Soar. Funciona assim: o pesquisador que

As pessoas ainda têm aquela imagem romântica do astrofísico olhando pelo telescópio, como se fazia no passado? Quando eu digo, no primeiro ano do curso, que telescópio não tem mais lugar para botar o olho, os alunos ficam muito decepcionados. É um choque. Hoje em dia o astrofísico trabalha atrás do computador ligado a câmeras altamente sensíveis. Se o telescópio está no andar de cima ou no outro lado do hemisfério, não faz a menor diferença. Claro que o telescópio é um fetiche. Sair da cúpula, ver aquele céu maravilhoso nos Andes, cheio de estrelas, é encantador. Mas para produzir boa ciência e formar bons cientistas a lógica é um pouco diferente e tem de ser otimizada.

Como o senhor vê a participação do Brasil no ESO, o consórcio europeu de telescópios situados no Chile?

Para mim, o que ocorre hoje era totalmente previsível. O Brasil aceitou entrar no consórcio a um custo de € 255 milhões, o que dá quase R$ 700 milhões em 10 anos; depois disso pagaríamos cerca de € 25 milhões por ano de manutenção, para o resto da vida. Escrevi uma carta indignada de seis páginas sobre isso há três anos e mandei para o Sérgio Rezende, que era o titular do MCTI e decidiu o assunto sem discussão nem avaliação prévias. Ele respondeu verbalmente dizendo que eu estava equivocado. Eu previa que iríamos gastar muita energia, um longo tempo, perderíamos janelas de oportunidade e, no final, descobriríamos que não temos esse dinheiro para gastar.

E o que aconteceu?

Está acontecendo exatamente isso. Quando parecíamos que éramos ricos, há pouco tempo, não tínhamos esse dinheiro para pagar. Neste momento nosso PIB cresce pouco e a derivada é negativa. Não será agora que o governo vai gastar com o ESO. Não está nem no orçamento. Para ser aprovado, a presidente Dilma teria de mandar para o Congresso e lá ser aprovado por cinco comissões e duas plenárias. E nós sabemos como nossos políticos adoram astronomia... Além disso, não se trata só de uma questão de dinheiro. Nos observatórios Gemini e Soar entramos com X% do dinheiro e usamos X% do tempo. No ESO essa proporcionalidade não existe. Pagam-se € 255 milhões para ter o direito de disputar com eles em condições de desigualdade – com raras exceções. Eles são espertos e acho que estão certos, do ponto de vista deles. Cabe a nós decidirmos qual é a nossa melhor estratégia de desenvolvimento. Existem alternativas excelentes que nos custariam pelo menos 10 vezes menos.

estavam convencidos de que tinham colocado o Brasil no céu. E a maior prova disso é que fomos convidados a fazer parte do maior observatório do mundo, o ESO. Isso foi dito por eles. Minha análise não é política, ideológica, nada disso. Estou dizendo que naquele ano houve essa construção. Acho que é a melhor explicação. O problema é que o ministro assinou um compromisso para o resto da vida dois dias antes de sair do governo. E sem combinar com o ministro que o sucedeu depois, o Aloizio Mercadante. Esse acordo subsidiará a ciência e tecnologia europeias com dinheiro do contribuinte brasileiro.

Os físicos, principalmente os que não são astrofísicos, criticaram o gasto enor-

h oje trabalhamos com o computador ligado a câmeras. não importa onde está o observatório

me de dinheiro com astrofísica enquanto o novo Síncrotron seria um investimento que certamente daria mais retorno. O novo Síncrotron seria usado por diversas áreas científicas e por uma comunidade 20 vezes maior. Com o dinheiro do acordo com o ESO, poderíamos construir um novo anel a cada cinco anos.

Além das questões científicas da astronomia, o senhor dirigiu o IEA. O que o levou a essa experiência?

E por que o governo brasileiro concordou com essas condições? É difícil entender. O ano de 2010 foi eleitoral. O presidente Lula e seus ministros

Tive algumas atividades ligadas à política científica e tecnológica, fui presidente da Sociedade de Astronomia Brasileira e secretário-geral da SBPC. Liderei a entrada do Brasil no Gemini e fui responsável por boa parte da construção do

Soar. No segundo governo de Fernando Henrique Cardoso ocupei uma das secretarias do MCT, na gestão do ministro Ronaldo Sardenberg. Em 2003 voltei para a USP e meses depois houve sucessão no IEA, fui convidado para entrar na lista tríplice e, meio que desavisadamente, aceitei. Os quatro anos que passei lá não foram ruins, mas não acho que eu tenha sido bem-sucedido em termos de construir um novo IEA. O IEA sofre de alguns problemas estruturais e na minha opinião deveria ser uma instituição que tivesse um forte caráter estratégico para a USP. Mas jamais o será se a USP não quiser. Uma parceria estreita com a Reitoria é imprescindível. De qualquer modo, fizemos algumas coisas interessantes. A revista Estudos Avançados era quase secreta. Até conseguir colocá-la na SciELO, apesar dos protestos dos meus colegas. Hoje é a terceira mais acessada do Brasil, com mais de 3 milhões de acessos por ano. A primeira e a segunda são da área de saúde pública. Também fizemos vários ciclos de estudos e debates, mas acho que falta um caráter mais estratégico em termos de universidade. Antes disso tudo fui diretor de ciências espaciais do Inpe. A maior parte do meu envolvimento com política científica e administrativa aconteceu por necessidade de ter condições de lutar por melhores possibilidades para fazer pesquisa, de maneira mais ampla que um pesquisador ou um grupo. O Síncrotron é o melhor exemplo para ilustrar essa ideia. É uma infraestrutura aberta, pública, que precisa de grandes investimentos, mas apenas em um equipamento, que deve ser modernizado. Depois que ele virar obsoleto, vamos precisar de outro. É o que estamos vivendo agora. Mas esse tipo de investimento não fazia parte da cultura científica brasileira. E na astronomia isso é muito visível. Foi essa necessidade que me levou a outros campos de batalha, digamos. Tanto assim que hoje já sinto que cumpri minhas obrigações. Estou muito feliz de escrever paper e dar aula. Minhas missões eu já cumpri. Agora quero ser usuário dos telescópios. n

P olít I c A c&t EDUCA çãO y

o s novos cientistas

Mostra premia projetos do ensino básico de São Paulo e atrai alunos de escolas públicas à pesquisa

b runo de Pierro e Fabrício marques

Asegunda edição da Mostra Paulista de Ciências e Engenharia (MOP), que aconteceu entre os dias 6 e 8 de dezembro no Espaço Catavento, em São Paulo, reuniu, além de relatos fascinantes de amor pela ciência, 124 projetos finalistas de alunos de escolas públicas e privadas de 27 cidades do estado de São Paulo – três vezes mais do que a seleção obtida na primeira edição do evento, que precisou convocar projetos apresentados em outras feiras de ciências para alcançar um quórum razoável. Talvez um dos maiores feitos da mostra, voltada para alunos de ensino fundamental e médio, tenha sido atrair mais estudantes e professores orientadores de escolas públicas estaduais de São Paulo para o circuito das feiras de ciências, um público tradicionalmente refratário a essas iniciativas. “Sentíamos a necessidade de fazer um trabalho mais focalizado nos estudantes e professores de escolas paulistas, em especial das escolas públicas, que formam um universo muito vasto, mas frequentemente nem sequer cogitam participar de feiras científicas”, diz Roseli de Deus Lopes, professora da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e uma das organizadoras da MOP.

Ex-diretora do museu Estação Ciência, Roseli é a coordenadora-geral da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), que está na 13ª edição, acontece todos os anos na USP e já reuniu, ao longo das 12 edições anteriores, projetos de estudantes de mais de 900 municípios brasileiros. “Ampliar a participação de alunos de escolas públicas e privadas nas feiras de ciências é fundamental”, diz Roseli. “Assim, eles percebem que é possível exercitar sua curiosidade científica, rompem com as limitações do ambiente e ampliam seus horizontes”, afirma. Um contingente de 278 estudantes acompanhados por 103 professores apresentou seus projetos em estandes no Espaço Catavento e concorreu a prêmios nas categorias de Engenharia, Ciências Exatas e da Terra, Humanas, Sociais Aplicadas, Biológicas, da Saúde e Agrárias, além de bolsas de Iniciação Científica Júnior do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e vagas para a Febrace de 2013. A MOP foi promovida pela Escola Politécnica, por meio do Laboratório de Sistemas Integráveis, em parceria com os ministérios da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovação, com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), com CNPq e com as secretarias da Cultura e Educação do Estado de São Paulo.

Estudantes apresentam projeto sobre monitoramento de áreas de risco, primeiro lugar na categoria Relevância Social

Embora troféus, medalhas e bolsas de estudo sejam um tempero importante da competição, um dos grandes benefícios de feiras desse tipo é a oportunidade de colocar num mesmo ambiente alunos de escolas diferentes. “É uma interação importante, pois os alunos vão à feira defender projetos que conceberam e lá vislumbram jovens da mesma idade, vindos de outros lugares e estratos, que conseguiram vencer desafios às vezes maiores do que o dele”, diz Roseli, que ressalta ainda a importância de as ideias de projeto partirem dos próprios alunos, não dos professores.

“Participar da mostra é uma forma de incentivar a criatividade, conhecer pessoas da sua idade que se envolvem com a pesquisa e que têm o interesse de descobrir e compartilhar ideias”, afirma Nayrob Pereira, 16 anos, aluna do segundo ano do ensino médio da Escola Estadual Alberto Torres, na capital paulista, que obteve o primeiro lugar na categoria Ciências Agrárias, Biológicas e da Saúde, com pesquisa sobre a capacidade antimicrobiana de peptídeos encontrados no veneno do escorpião da espécie Tityus serrulatus. O projeto de Nayrob teve motivações pessoais. Em 2011, durante uma atividade da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia no Instituto Butantan, em São Paulo, a estudante sofreu uma crise de pâni-

co ao deparar com aranhas e outros animais. “O professor mostrou os bichos e comecei a chorar de medo”, conta. O professor era Pedro Ismael da Silva Junior, pesquisador do Laboratório Especial de Toxinologia Aplicada do Instituto Butantan, que acompanhava o grupo de estudantes. O susto constrangeu Nayrob e acendeu seu interesse pelo assunto. Selecionada pela escola para concorrer a uma bolsa de estudo do CNPq para o ensino médio, a garota voltou às temidas aranhas do Butantan, dessa vez para encará-las sem temor. “Foi uma surpresa para o Pedro me ver novamente”, disse Nayrob, ao explicar que decidiu realizar o projeto no laboratório do pesquisador como uma forma de enfrentar o próprio medo. A opção foi logo pelo escorpião Tytius serrulatus e seu poderoso veneno. Junto com o orientador, a aluna observou que nos últimos anos muitos peptídeos antimicrobianos foram encontrados em venenos de escorpiões, sendo que alguns chegaram a apresentar propriedade antitumoral. Após procedimentos em laboratório, foram identificadas duas frações com atividade antimicrobiana. Para a estudante, a pesquisa está sendo decisiva na definição de seu futuro profissional e as afinidades com disciplinas das ciências humanas vão cedendo espaço para a biologia.

“Nas feiras de ciência, você cria uma rede de pessoas que podem ajudá-lo”, explica Walter von Söhsten Xavier Lins, de 17 anos, aluno do segundo ano do ensino médio do Colégio Dante Alighieri, de São Paulo, agraciado, junto com sua colega Renata Colla Thosi, como segundo melhor trabalho na área vencida por Nayrob, com uma pesquisa sobre a utilização de uma planta para a aceleração da cicatrização em diabéticos. Walter cultiva o gosto pela ciência desde cedo. Em 2010, quando cursava o nono ano do ensino fundamental, foi convidado pela professora e orientadora do Programa de Pré-Iniciação Científica do colégio, Sandra Tonidandel, a realizar um projeto de pesquisa. À época, desejava estudar medicina e trabalhar com alguma doença de difícil tratamento. “Comecei a pesquisar e cheguei ao diabetes, doença que dificulta a cicatrização e que gera vários problemas de saúde pública”, diz ele. Além de haver poucos medicamentos específicos para a cicatrização de lesões cutâneas em diabéticos, a maioria é cara e não serve para todo tipo de paciente. O objetivo do trabalho foi estudar a planta Bauhinia forficata, conhecida popularmente como pata-de-vaca, largamente usada no Brasil como remédio natural antidiabético. “Estudos fitoquímicos identificaram um marcador químico, denominado kampferol, encontrado apenas nas folhas da planta”, explica Walter no projeto.

ACiências Exatas e da Terra, ao propor a fusão entre dois métodos de produção de energia limpa, o eólico e o solar. O projeto defende a construção de uma turbina eólica, em cujas pás são instaladas células fotovoltaicas de alta produtividade energética, aumentando a eficiência do mecanismo. “O projeto ainda não tem parceria com a universidade. É conceitual. Mas estou trabalhando na construção de um protótipo de dois metros, com pás de 50 centímetros de placa solar”, explica Vitor, completando que a empreitada tem os custos cobertos por ele e pelo Dante. Apesar da pouca idade, 14 anos, Vitor é um velho conhecido das feiras de ciência. Na primeira edição da MOP, em 2011, recebeu o primeiro lugar em Ciências Exatas com um projeto de mapeamento robótico com arduíno, plataforma de hardware utilizada na fabricação de computadores. O sistema, também exposto na Febrace de 2012, consiste num robô autônomo, equipado com um

Um dos grandes benefícios das feiras é colocar num mesmo ambiente alunos de colégios diferentes

proposta de Walter e Renata foi investigar a possibilidade de desenvolvimento de um tópico à base de extrato da planta e avaliar a eficácia na cicatrização de ratos diabéticos. A pesquisa contou com a colaboração de universidades paulistas. Na USP, a ajuda veio da professora Maria Luiza Salatino, do Instituto de Biociências, no processo de extração de componentes da planta e produção do extrato metanólico. A professora Maria Valéria Robles, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, auxiliou os jovens na elaboração dos tópicos, cujos testes em animais serão realizados na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para Walter, o contato com a universidade foi necessário para completar o projeto do ponto de vista técnico. Agraciado pelo CNPq com a bolsa de Iniciação Científica Júnior, destinada a estudantes do ensino médio, ele pretende levar a pesquisa adiante e revela que o interesse inicial pela medicina voltou-se para outra área, a engenharia química.

Também aluno do Dante Alighieri, mas do nono ano do ensino fundamental, Vitor Martes Sternlicht ficou em segundo lugar na categoria

Projetos vão de despoluição de córregos (esq.) à mistura entre música e matemática (dir.)

FPereira, o professor Marcelo zuffo; Katie Riciluca, coorientadora de nayrob; e a professora Roseli Lopes

software localizador, capaz de identificar vítimas em catástrofes, como desmoronamentos. Graças a esse projeto, Vitor foi convidado para participar de uma feira de jovens cientistas em Houston, nos Estados Unidos. “Só de discutir com alguém, durante a feira, você acaba recebendo uma sugestão sobre a qual não havia pensado antes”, avalia Vitor.

A influência que a pesquisa no ensino médio pode ter sobre as escolhas na graduação está presente no exemplo de muitos finalistas da MOP, como o projeto Prazer em conhecer ciência, segundo lugar em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. Para investigar o interesse de jovens pela iniciação científica, as alunas da Escola Técnica (Etec) Monte Mor, do Centro Paula Souza, Gabriela Nayane de Queiroz e Souza, Raquel Resende e Ingrid Bugdanovis Miranda verificaram que há um grande déficit no ensino de metodologia, devido principalmente ao estereótipo equivocado que considera ciência assunto apenas de pesquisadores conceituados.

"A iniciação científica permite a passagem da postura passiva para a autoeducação", diz gabriela Queiroz

“A iniciação científica no ensino médio permite ao aluno a passagem da postura passiva para a autoeducação contínua, tornando o ato de aprender prazeroso, simples e produtivo”, explica Gabriela, de 16 anos. Foi durante a Febrace de 2012 que as estudantes começaram a conceber o projeto, ao observarem o interesse de outros alunos pela ciência e constatarem que os novatos, assim como elas, encontram na pesquisa a oportunidade de adquirir experiência para desenvolver estudos na profissão pretendida.

oram aplicados dois questionários em escolas públicas de nível médio de Monte Mor, cidade localizada a 122 quilômetros da capital paulista. O primeiro teve como objetivo identificar dificuldades dos professores para lidar com a metodologia científica. Entre os problemas apontados, destacam-se a falta de interesse dos alunos, os poucos recursos técnicos e financeiros das escolas, a falta de tempo dos docentes e o fato de a disciplina de metodologia não estar inserida no currículo pedagógico. O segundo questionário, direcionado aos estudantes, avaliou o nível de conhecimento sobre pesquisa científica e ciência, por meio do qual se verificou grande deficiência sobre o assunto. Gabriela conta que os estudantes entrevistados demonstraram pouca familiaridade com a iniciação científica, revelando dúvidas básicas sobre como dar os primeiros passos para a realização do projeto. Integrante do grupo de jovens cientistas que desponta no país, Gabriela afirma que será pesquisadora “para o resto da minha vida”. “Aprendi a amar ciência, independentemente da área”, declara a estudante, para quem a pesquisa é o principal caminho para adquirir senso crítico. A estudante Flávia Araújo de Amorim, de 16 anos, que atualmente cursa o último ano do ensino médio no Colégio Giordano Bruno, mostrou a colegas com dificuldade para iniciar um projeto que muitas vezes a inspiração pode brotar de experiências do próprio cotidiano. Flávia juntou a afinidade com a pesquisa que esboça desde o ensino fundamental com o interesse em ajudar pessoas como a avó paterna, que cuida da própria mãe, já bastante idosa, vítima do mal de Alzheimer. A garota então pensou por que não desenvolver um projeto que traga novas reflexões sobre a qualidade de vida do cuidador. Flávia aproveitou a bolsa que recebera do CNPq para mapear os componentes de habilidades sociais necessários a cuidadores de pacientes com Alzheimer, que se caracteriza pela deterioração da atividade cognitiva e alterações comportamentais, demandando cuidados especiais.

A estudante constatou que na maioria dos casos a função de cuidador é desempenhada por apenas um familiar, tornando-se vulnerável a problemas de saúde e conflitos familiares. “O bem-estar do cuidador e do paciente é correlacionado e assim é notável a necessidade de intervenções para a capacitação do cuidador, para que ele possa lidar de forma mais positiva com as situações do cuidado”, explica o projeto. As habilidades sociais, portanto, são vistas como mecanismos importantes aos cuidadores na área da saúde. Flávia pretende continuar a pesquisa e graduar-se em psicologia – outro exemplo de profissão escolhida decorrente de experiências com a pesquisa precoce. n

Da esquerda para a direita: Osvaldo guimarães, diretor educativo do Espaço Catavento; a aluna nayrob

o b iota vai à escola

Conferências levarão conhecimento sobre biodiversidade a alunos e professores do ensino médio

aeducação será o principal foco, no ano de 2013, do Biota-FAPESP, programa de pesquisa sobre a biodiversidade do estado de São Paulo iniciado em 1999. Um encontro que reuniu as lideranças do programa na sede da FAPESP, no final de novembro passado, anunciou um conjunto de ações de pesquisa e de difusão do conhecimento a serem executadas ao longo deste ano, entre as quais um ciclo de conferências gratuitas voltadas a professores e estudantes do ensino médio. Estão programados ainda o relançamento de uma exposição sobre biomas brasileiros e a produção de material didático e de apoio sobre a biodiversidade. “Desde que foi renovado o apoio da FAPESP ao programa, em 2009, a questão da educação se tornou prioridade em nosso plano estratégico”, disse Carlos Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Biota-FAPESP.

O Biota-FAPESP (Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Recuperação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo) envolve cerca de 1.200 profissionais de

várias áreas, todos dedicados ao estudo da taxonomia, fisiologia de paisagens, mapeamento de biomas, conhecimento químico-biológico e uso sustentável da biodiversidade paulista. Em sua primeira década de existência, obteve R$ 82 milhões em investimentos da FAPESP, promoveu mais de uma centena de projetos de pesquisa e gerou avanços no conhecimento, como a identificação de 1.766 espécies (1.109 microrganismos, 564 invertebrados e 93 vertebrados), 640 produtos naturais registrados numa base de dados, além da publicação de mais de 1.145 artigos científicos, 20 livros, 2 atlas e diversos mapas que passaram a orientar políticas públicas. Também formou 190 mestres, 120 doutores e 86 pós-doutores. Atualmente o estado de São Paulo possui seis decretos governamentais e 13 resoluções que citam as orientações do programa. As 10 patentes depositadas por pesquisadores do BIOprospecTA, a rede Biota de Bioprospecção e Bioensaios, mostram que o programa também buscou a parceria com o setor produtivo.

Ficou faltando, contudo, um trabalho mais intenso na difusão do conhecimento

gerado para os cidadãos e especialmente para os jovens estudantes, que agora será alvo do programa. “A precariedade do ensino de ciências no Brasil é preocupante e o Biota-FAPESP, sendo um programa de pesquisa consolidado, tem uma vocação natural para ajudar na formação dos nossos estudantes de ensino médio”, disse a professora Vanderlan Bolzani, do Instituto de Química da Unesp em Araraquara e membro da coordenação do Biota-FAPESP. “Como cientistas, temos uma grande responsabilidade com a sociedade e o país e acredito que é nossa missão criar ações que motivem as crianças e os adolescentes a ver o conhecimento científico não como uma obrigação curricular, mas como instrumento fascinante de descoberta do mundo em que vivem”, afirmou. A experiência de Vanderlan com a série de conferências sobre o Ano Internacional da Química, em 2011, em parceria com Pesquisa FAPESP, serviu de estímulo à ideia (ver Especial Ano Internacional da Química – fevereiro de 2012).

Serão nove as conferências gratuitas voltadas a professores e estudantes programadas para 2013. Elas vão apresentar conceitos e valores relativos à área de biodiversidade com o objetivo de apresentar o estado da arte sobre biodiversidade em linguagem compreensível a um público heterogêneo. As palestras serão gravadas e o conteúdo ficará disponível no portal do Biota e no portal da FAPESP. Outra ideia é adaptar uma exposição sobre os biomas do Brasil, que fez parte da Conferência Rio+20. A mostra deverá percorrer a capital paulista e cidades do interior.

E d I tA IS PA r A PESQUISAS

No encontro que anunciou as estratégias do Biota-FAPESP para 2013, uma proposta de edital para a chamada de pesquisas sobre educação e biodiversidade foi apresentada pela professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) Martha Marandino e por Érica Speglich, professora da Unesp Rio Claro. A chamada deverá ser anunciada neste início de ano. O objetivo é estimular o desenvolvimento de projetos em educação e comunicação que dialoguem com a base de dados do Biota-FAPESP.

Outras duas chamadas de propostas devem ser anunciadas, segundo informou Joly. Uma delas será em parceria com a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo e deve traba -

Exposição

Biomas do Brasil, apresentada na Conferência Rio+20, em junho de 2012: a ideia é levar a mostra sobre biodiversidade a vários municípios

lhar com cenários de conservação da biodiversidade em áreas prioritárias para as próximas décadas. “Foi uma demanda da secretaria para planejar o desenvolvimento do estado levando em conta os impactos da expansão das cidades, da rede de infraestruturas – especialmente estradas, dutos e linhas de transmissão – e do agrobusiness sobre áreas consideradas prioritárias para conservação”, disse Joly. A outra chamada ocorrerá em parceria com um projeto financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês) para restaurar a biodiversidade e os estoques de carbono na bacia do rio Paraíba do Sul. “Idealmente, gostaríamos de reconectar a serra do Mar com a serra da Mantiqueira, restabelecendo importantes corredores biológicos. Isto será feito de forma a também aumentar a estabilidade de encostas, reduzindo o risco de deslizamentos, e proteger nascentes e cursos d’água, aumentando a disponibilidade e melhorando a qualidade dos recursos hídricos”, afirmou Joly. n Fabrício marques, com Agência FAPESP

Equipe que trabalhou na primeira missão do Alpha-Crucis, começando da esquerda: Osmar Moller (Furg), Carlos França (iO-USP), Francisco vicentini (iO), Chris Meinen (noaa), Silvia garzoli (noaa), Alberto Piola (SHn/ UBA, Argentina), Ulises Rivero (noaa), Filipe Silva (iO), Edmo Campos (iO), Luis nonnato (iO), glaucia Berbel (iO), Priscila Farias (inpe), Alvaro Cubiella (UBA, Argentina), Cristina Schultz (inpe), Alyne Affonso (iO), Sarah Sarubo (iO) e Pablo Oliveira (inpe)

v iagem pioneira

Alpha-Crucis reúne pesquisadores de três países para coletar informações sobre a variação de calor no Atlântico Sul

c arlos Fioravanti, de Santos

Quando quiser, podemos ir”, disse Edmo Campos, pesquisador do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), ao capitão José Helvécio Moraes de Rezende, às 14h10 de sábado, 1º de dezembro, na cabine de comando do navio de pesquisa oceanográfica Alpha-Crucis , atracado no porto de Santos. Enquanto Rezende, com um uniforme azul-marinho e seu nome estampado na gola, fazia as últimas checagens nos mapas e nos equipamentos, Campos, de boné e bermudas, a chave do camarote e um pen drive presos ao peito por uma fita azul, teve tempo para examinar a torre com equipamentos que Cristina Schultz e Pablo Oliveira (ela na terceira expedição marítima de 2012, ele na primeira vez a bordo de um navio) haviam instalado na ponta da proa para medir o fluxo de dióxido de carbono e a umidade, em um dos experimentos a serem feitos ao longo das duas semanas de viagem.

O Alpha-Crucis , comprado recentemente para uso das universidades paulistas com financiamento da FAPESP, partiu às três da tarde para seu primeiro cruzeiro internacional, rumo sudoeste, com retorno previsto para 17 de dezembro ( ver mapa ). A bordo estavam 20 pesquisadores (oito do Brasil, além

de seis estudantes de graduação ou de pós, três da Argentina e três dos Estados Unidos), liderados por Campos, e 19 tripulantes. A viagem integra um projeto temático coordenado por Campos e um programa internacional chamado Samoc (South Atlantic Meridional Overturning Circulation), cujo propósito principal é desenvolver e implantar um sistema de monitoramento das variações do transporte meridional de massa e calor – e do clima em geral – no Atlântico Sul.

“Queremos entender os processos atuais e monitorar o que vai acontecer nas próximas décadas no Atlântico Sul”, disse Campos. “Qualquer variação na quantidade de calor no oceano, ainda que ínfima, tem uma grande influência sobre o clima do planeta.” Segundo ele, as correntes marinhas do Atlântico Sul transportam calor para o hemisfério Norte com uma potência da ordem de 1,5 petawatt, ou seja, 1,5 × 1015 joules por segundo. Isso é equivalente à energia de 100 mil Itaipu, que, com suas 20 unidades geradoras, tem 14 gigawatts de potência instalada (1 petawatt = 1 × 1015 watts; 1 gigawatt = 109 watts).

“O Atlântico Sul é o único oceano que transporta calor em direção ao equador. Isso resulta em um transporte líquido de calor para o Atlântico Norte. Essa trans-

ferência de calor para o Atlântico Norte constitui-se em um dos mecanismos reguladores do clima global”, comentou a pesquisadora argentina Silvia Garzoli, ex-diretora da divisão de oceanografia física e atualmente cientista-chefe do laboratório oceânico e meteorológico do Atlântico (AOML) da agência de pesquisas oceânicas e atmosféricas (Noaa), dos Estados Unidos. Vivendo nos Estados Unidos desde 1980, primeiramente na Universidade de Colúmbia em Nova York e desde 1996 no Noaa-AOML, Silvia Garzoli é uma das principais articuladoras das pesquisas sobre as correntes marinhas no Atlântico Sul.

“Finalmente vamos medir a variabilidade da corrente, em um projeto financiado por três países (Brasil, Argentina e Estados Unidos) e um navio adequado”, ela comemorou. Na posição de pesquisadora mais experiente do grupo, Silvia Garzoli observou que esta é também a primeira viagem do Alpha-Crucis para coleta de amostras de água e de medições de temperatura em águas profundas, com até seis quilômetros abaixo da superfície.

O Samoc inclui grupos de pesquisa da França, Brasil, Estados Unidos, África do Sul, Argentina, Rússia e Alemanha. De acordo com o planejamento, o Brasil vai fornecer uma parte dos instrumentos

de observação, participar das viagens de instalação, manutenção e recuperação dos equipamentos e, ao lado da França, desenvolver uma estratégia comum de modelos climáticos regionais, capazes de avaliar a influência da circulação do oceano no clima e seus impactos na América do Sul e África.

Grupos do Brasil, da Argentina e dos Estados Unidos vão trabalhar nas regiões próximas à América do Sul e os da França, da Alemanha e da África do Sul, nas proximidades do sul da África. “Sem tirar o mérito das iniciativas anteriores, este é um dos poucos projetos brasileiros com uma real inserção internacional, que vai tratar de fenômenos no Atlântico Sul que não são apenas locais, mas de alcance e interesse global”, disse Campos.

c h U rr AS co

Na tarde do dia 4, na véspera da chegada ao ponto onde seria realizada a primeira estação – ou ponto de coleta de informações –, dois pesquisadores com dotes culinários, Osmar Moller, da Universidade Federal de Rio Grande (Furg), e Alberto Piola, da Universidade de Buenos Aires, Argentina, fizeram um churrasco no convés superior, com o navio em movimento e sob um tempo bom, preparando todos para o trabalho árduo à frente. Depois de chegar à primeira estação, os pesquisadores trabalharam em turnos de 12 horas seguidas por outras 12 de descanso.

Além da preparação dos instrumentos e das sessões de treinamento das equipes, uma das tarefas previstas para os primeiros quatro dias de viagem era fazer lançamentos simultâneos de batitermógrafos descartáveis (XBTs) e de balões com radiossondas para obter informações sobre a variação de temperatura da atmosfera e dos primeiros 700 metros da coluna de água, enquanto o navio seguia para o ponto mais distante, a cerca de 1.400 quilômetros da costa. As amostragens com XBTs e radiosssondas continuaram após o início do trabalho nas estações.

Depois de alcançarem o ponto mais a leste, com a proa direcionada para a costa, os pesquisadores começaram a trabalhar com o chamado sistema de perfilagem CTD (conductivity-temperature-depth) Seabird 911-Plus, que registra condutividade, temperatura e profundidade do mar (a condutividade é utilizada para o cálculo da salinidade). O CTD estava montado em uma rosete ou carrossel com 24 garrafas de Niskin de 5 litros, que coletam amostras de água para análises químicas e biológicas, em regiões com até 6 mil metros de profundidade. De acordo com os relatos que Campos enviou durante a viagem, o primeiro lançamento do CTD-Rosete foi feito no dia 5 de dezembro e os pesquisadores trabalharam durante quatro horas e meia nessa operação, colhendo amostras a até 10 metros do fundo; nesse ponto, a profundidade era de 4.750 metros.

r aio x do Atlântico Sul

Nessa estação foi também recuperada e relançada ao mar a primeira das quatro ecossondas invertidas com sensor de pressão (ou Pies, pressure inverted echo-sounders ) que haviam sido fundeadas pela Noaa em 2009. Segundo Campos, as ecossondas têm autonomia para ficar no fundo do mar por até cinco anos, amostrando e registrando internamente informações com frequência horária. “As informações podem ser recuperadas, downloaded, o melhor seria dizer uploaded , por meio de telemetria acústica”, ele explicou. “Neste cruzeiro, além das quatro Pies da Noaa, foram fundeados também três novos sensores adquiridos com o apoio da FAPESP.”

Equipamentos registram condutividade, pressão, temperatura e variações nas correntes

Pies (pressure inverted echo-sounders – Ecossondas invertidas com sensor de pressão)

c-Pies (current-pressure inverted echo-sounders – Pies com correntômetro Doppler)

ctd (conductivity, temperature and depth –Sensor para condutividade, temperatura e pressão) + xbt (expendable bathi-termograph – Bati-termógrafo descartável)

bPr (bottom pressure gauge

– Sensor de pressão de fundo)

AdcP (acoustic Doppler current profiler – Perfilador de corrente a efeito Doppler)

Roteiro previsto Roteiro percorrido

EcoSSondAS Armazenam informação por até cinco anos antes de serem resgatadas

cArroSSEl Com sensor CTD para perfilagem contínua e garrafas para coleta de amostras de água

t E m PES tA d E

Esses novos sensores são equipados com um correntômetro, e por essa razão chamados C-Pies. Os pesquisadores pretendem realizar um cruzeiro por ano, para recuperar as informação armazenadas nesse tempo. Ao final de quatro anos, as Pies/C-Pies são recuperadas e substituídas por outras.

“A operação consistiu em recuperar o equipamento e lançar outro, com baterias suficientes para um novo período de até cinco anos”, disse Campos. A tarefa tomou cinco horas e meia e, nesse tempo, “o navio deve ficar completamente à deriva, com as máquinas paradas para evitar que ruídos dos motores interfiram na comunicação acústica com a ecossonda”.

Em uma coluna de água

Perfis verticais de temperatura (°C), salinidade (unidades práticas de salinidade), pressão (decibares) e teor de oxigênio (ml/l) na estação mais profunda (34,5S; 44,5W)

Pesquisadores preparam o carrossel com as garrafas (na página à esquerda) e o lançam (ao lado) para colher amostras de água

Na tarde de sábado, dia 8, o tempo mudou, anunciando uma forte tempestade. “Por volta das 15 horas já tínhamos condições de mar com ondas de amplitude até três metros, o que impediu a realização da estação de CTD prevista para o ponto 46.75W, 34.5S”, relatou Campos. “Com as condições de mar adversas, decidiu-se navegar até a próxima estação, onde com um pouco de dificuldade, na madrugada do dia 9, foi realizado o lançamento da segunda C-Pies [current-pressure inverted echo-sounders – Pies com correntômetro Doppler]. Como, novamente, não foi possível o lançamento do CTD, a opção foi continuar lançando XBTs e balões meteorológicos. Nesta estação, aliás, o vento já estava tão forte que três tentativas de lançamento de radiossondas falharam.”

Equipes do b rasil, Argentina e EUA trabalham no mar próximo à América do Sul e as da França, Alemanha e áfrica do Sul, perto do sul da áfrica

No final da tarde, com ondas de cinco metros e rajadas fortes de vento, Campos e o capitão Rezende decidiram alterar a rota do cruzeiro, dirigindo-se para o que seria a última estação, próxima ao farol do Albardão, na costa do Rio Grande do Sul. “A decisão de navegar para oeste foi acertada, já que a tempestade se movia de oeste para leste. Após uma noite das mais severas, no final da tarde do dia 9 alcançamos a estação ao largo do Albardão. Nessa região o mar estava bem mais calmo e foi dado início imediatamente à sequência de estações costeiras, navegando em sentido oposto (de oeste para leste). Por volta das 9 horas do dia 11 chegamos ao local de fundeio da terceira e última C-Pies, em 50.31W, 30.5S. Lançamento realizado com o maior sucesso, apesar das condições de mar serem ainda um tanto adversas.” O Alpha-Crucis continuou navegando para leste e algumas das atividades que haviam sido canceladas por causa da tempestade foram completadas. No final do dia 12 o navio iniciou a volta ao porto de Santos, onde chegou na manhã do dia 16. n

ver o Diário de bordo e mais fotos da viagem no site da revista, www.revistapesquisa.fapesp.br.

Projetos

1. Impacto do Atlântico Sul na célula de circulação meridional e no clima – n° 11/50552-4; 2. (PFPMCG/Pronex FAPESP) Impact of the Southwestern Atlantic Ocean on South American climate for the 20th and 21st centuries –n° 2008/58101-9. Modalidades: 1 e 2. Projeto Temático. Coordenadores: 1. Edmo José Dias Campos – IO/USP; 2. Tercio Ambrizzi- IAG/USP. Investimento: 1. R$ 1.406.307,62 (FAPESP); 2. R$ 3.061.048,47 (FAPESP).

Protegendo a ciência da burocracia g

Um número crescente de universidades e instituições

cria escritórios de apoio ao pesquisador

anhou velocidade em 2012 uma iniciativa da FAPESP que estimula universidades e instituições de pesquisa a reduzir o tempo gasto pelos pesquisadores na administração burocrática de projetos, liberando-os para fazer seu trabalho primordial, que é produzir conhecimento. Trata-se de um programa que oferece treinamento a funcionários de universidades do estado de São Paulo responsáveis por cuidar das prestações de contas e de outras necessidades de projetos de pesquisa, desobrigando os pesquisadores desse encargo. Ao longo do ano passado, 38 turmas com seis servidores cada uma passaram temporadas de quatro dias na sede da FAPESP, na capital paulista, para conhecer em profundidade as modalidades de financiamento oferecidas pela Fundação e as exigências relacionadas a prestações de contas.

“É uma experiência gratificante, pois ao longo do treinamento os técnicos vão compreendendo o sentido das exigências nas prestações de contas e percebem como podem ajudar os pesquisadores”, diz Marcia Regina Napoli, responsável pela Gerência de Apoio, Informação e Comunicação (GAIC) da Diretoria Administrativa da FAPESP, que coordena o programa desde 2010. “Os exemplos que mais avançaram são aqueles em que os diretores de

unidades se comprometeram com a ideia de manter um corpo de técnicos realmente dedicado a apoiar os pesquisadores”, afirma. Das cerca de 60 turmas que já receberam treinamento na FAPESP desde outubro de 2010, pelo menos 80% instituíram alguma modalidade de serviço de apoio ao pesquisador na sua instituição. A constatação foi feita pela própria equipe da GAIC, que vem visitando todas as unidades com funcionários treinados na FAPESP. “Cada instituição organiza o apoio de acordo com suas necessidades. Mas o retorno tem sido muito positivo”, diz Ricardo Vieira Simplício, da GAIC.

A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo é um exemplo de serviço bem estruturado que recebeu treinamento da FAPESP. Desde a criação da Secretaria de Apoio à Pesquisa (SAP), hoje com cinco funcionários, a instituição conseguiu ampliar a quantidade de projetos submetidos à FAPESP e aprovados. “Temos grande tradição em ensino e em assistência à população, com mais de 8 mil pacientes atendidos por dia. Queremos que nossos clínicos desenvolvam também uma tradição em pesquisa”, afirma a professora Lia Mara Rossi, coordenadora da SAP. “Começamos nosso trabalho visitando todos os departamentos para mostrar que o serviço existe e para

oferecê-lo. Sempre dizemos para os pesquisadores: fiquem tranquilos, porque a parte chata é toda por nossa conta”, diz Lia. O escritório atua em várias frentes. Dá orientação sobre documentos e trâmites para pesquisadores interessados em apresentar projetos, alerta-os sobre o lançamento de editais e chamadas, faz a ponte entre estudantes interessados em bolsas de iniciação científica e de mestrado com líderes de grupos de pesquisa. Com base na experiência dos projetos aceitos, os funcionários do escritório sugerem ações preventivas. “Se vamos pedir uma bolsa para um aluno que precisa melhorar seu desempenho, já sugiro ao pesquisador tomar ciência das limitações do histórico escolar, mas salientar por que acredita no potencial do aluno. Assim, evita-se que o projeto volte com um questionamento a esse respeito. Se o pesquisador está sem publicar há algum tempo, também deve se antecipar e dar explicações sobre isso”, afirma Lia. O serviço providencia, ainda, o perfil dos pesquisadores no ResearcherID e no Google Citations, que fornecem dados sobre a produção científica individual –exigência feita por agências de fomento. “Consideramos nosso trabalho bem-feito quando o projeto é aceito pelo sistema da FAPESP e seu mérito começa a ser

avaliado”, diz Lia. Cerca da metade dos projetos é aprovada, mas o escritório invariavelmente pede reconsideração dos projetos denegados e consegue que muitos deles sejam reavaliados. Desde 2008, o serviço já ajudou a administrar 226 projetos de pesquisa, acompanhando diretamente 160 deles. Desses, 89% são da FAPESP, 7% do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e 4% da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). A tomada de preços, a emissão de cheques e o arquivamento de notas fiscais de cada projeto são feitos pela equipe, que armazena todas as informações em meio eletrônico. Com isso, na hora de prestar contas, está tudo organizado. O pesquisador é alertado com antecedência sobre aquelas tarefas que não pode delegar, como escrever relatórios científicos. Também há um serviço que provê tradução para o inglês de artigos científicos e de submissão desses manuscritos a periódicos. “Nada mais natural que o conhecimento gerado se transforme num artigo científico”, afirma a professora Lia.

A lív I o E E nt USIAS mo

de contas de pesquisadores do instituto desde meados dos anos 1980 –, foi convidada a disseminar a ideia em outras faculdades da instituição e participar de uma iniciativa de treinamento criada pela Unesp em 2010. Marli ingressou na Unesp em 1986 como funcionária do setor de comunicações e dois anos mais tarde começou a cuidar da prestação de contas de professores com vários projetos de pesquisa, como José Arana Varela, atual diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP, e Vanderlan Bolzani, membro da coordenação do programa Biota-FAPESP. “Trabalhei prati-

o s escritórios são vistos com reserva por pesquisadores mais antigos, mas aos poucos a resistência é quebrada

camente sozinha durante muito tempo e era dureza quando eu tirava férias, mas fiquei muito satisfeita ao ver como esse trabalho começou a ser valorizado nos últimos tempos”, afirma.

Existe uma experiência comum à maioria dos escritórios de apoio ao pesquisador: a princípio, eles são vistos com reservas por alguns pesquisadores, principalmente os mais antigos. Mas aos poucos, quando veem os bons resultados em projetos dos colegas, aderem com alívio e entusiasmo. “Alguns permitem que atuemos apenas em algumas tarefas. Sabemos que ganhamos a confiança quando deixam o talão de cheques conosco”, diz Marli Mendonça da Silva, supervisora do Escritório Regional de Apoio à Pesquisa e à Internacionalização (Erapi) do Instituto de Química de Araraquara da Universidade Estadual Paulista (Unesp). O Erapi (www.iq.unesp. br/#!/pesquisa/escritorio-de-pesquisa/) foi um dos primeiros a receber treinamento na FAPESP e funciona hoje numa sala de 50 metros quadrados, com quatro funcionários. Atualmente administra uma centena de projetos.

Como Marli era experiente nesse assunto – começou a cuidar das prestações

Grandes universidades de pesquisa dispõem de serviços bem estruturados – os chamados Grant Management Offices – para ajudar os pesquisadores na administração de seus projetos, missão que é vista como um elo fundamental para garantir o fluxo de financiamento externo à pesquisa. Na Universidade Harvard, por exemplo, o gerenciamento dos projetos é coordenado pelo Escritório para Programas Patrocinados (OSP, na sigla em inglês; site osp.fad.harvard. edu). Com 60 técnicos que trabalham em conjunto com as unidades da universidade, o OSP atua em todos os momentos do ciclo de vida de um projeto, da busca de financiamento à sua preparação, da administração burocrática à prestação de contas. Desde 2007, mantém um programa de treinamento para técnicos de toda a universidade, com cursos presenciais e on-line. Um guia de boas práticas está sendo desenvolvido para ajudar todo o staff da universidade a administrar recursos para pesquisa. A ideia, observou Ashley Rodger, coordenadora de operações e treinamento do OSP, é agilizar processos e fornecer respostas para ques-

tões universais, permitindo que todos os funcionários possam ajudar na solução de problemas frequentes.

No Brasil, a complexidade da administração de projetos de pesquisa, que frequentemente envolvem equipes de várias instituições e disciplinas e trabalham com cifras vultosas, fez com que várias universidades decidissem ampliar seus serviços. A Unicamp foi pioneira ao criar em 2003 a UAP, sigla para Unidade de Apoio ao Pesquisador (www. prp.rei.unicamp.br/uap). Hoje há cinco funcionários trabalhando localmente e outros dois em unidades com demanda alta por esse serviço e que, por terem captado recursos por projetos temáticos da FAPESP, se credenciaram a contar com um funcionário para a gestão desses projetos. A Universidade de São Paulo (USP) dispunha de serviços em várias unidades, mas nos últimos dois anos a Pró-Reitoria de Pesquisa decidiu disseminar as experiências por toda a instituição e requisitou treinamento especializado à FAPESP. Da mesma forma, a Unesp, a partir de 2009, decidiu criar escritórios desse tipo em todas as suas unidades. Para a FAPESP, a existência de apoio institucional ao pesquisador vai se tornando um critério importante na avaliação de projetos de pesquisa.

o Centro de Gerenciamento de Projetos (CGP), e enviou servidores para treinamento já na primeira turma do programa da FAPESP. Após o treinamento, a equipe visitou todos os 14 departamentos da FMRP para divulgar o serviço. “No estudo de viabilidade, percebeu-se a grande representatividade dos recursos de agências de fomento ante o orçamento da unidade”, diz Benedito Maciel, o diretor da FMRP. No rol dos serviços prestados incluem-se a realização de compras, a verificação da documentação e a prestação de contas. Os pesquisadores são avisados quando surgem editais que possam interessá-los. Em 2012, a FMRP submeteu 22 projetos ao edital do Programa de Pesquisa para o Sistema Único de Saúde (PPSUS). No edital de 2010, apenas seis projetos foram apresentados.

na Faculdade de m edicina de r ibeirão
Preto os professores monitoram pela web a gestão de recursos de seus projetos

A existência desse tipo de serviço foi uma das condições exigidas por ela das instituições sede dos novos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid), que poderão receber até R$ 4 milhões por ano da Fundação. Um canal direto por e-mail com a FAPESP foi estabelecido com todas as equipes treinadas. “É uma forma de estimulá-los a manter um diálogo permanente com a FAPESP para que tirem rapidamente dúvidas ou peçam novas orientações”, diz Marcia Regina Napoli, da GAIC.

A Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP criou em 2010 uma estrutura para apoiar os pesquisadores,

A resistência inicial de alguns pesquisadores começou a ser vencida graças à adoção do Sistema de Informação Gerencial Extraorçamentário, o Sigeo, que permite ao pesquisador acompanhar pela internet a administração dos recursos de seu projeto. O Sigeo controla o saldo dos recursos, arquiva cheques e notas fiscais, alerta os pesquisadores sobre prazos e a necessidade de apresentar relatórios e ainda informa quanto foi economizado, uma vez que, depois de pedir cotações para fornecedores, o centro ainda tenta negociar descontos. Dos 100 professores da FMRP, apenas 43 são atendidos pelo centro. “Priorizamos os projetos novos, porque quando tentamos ajudar na administração de projetos antigos descobrimos que teríamos de gastar muito tempo para corrigir problemas”, diz o professor Maciel. A intenção agora é dobrar de dois para quatro o número de funcionários, porque a demanda deve aumentar. Esses funcionários trabalham articulados com outros serviços da faculdade. Uma pesquisa com professores mostrou que 79% tinham projetos financiados por agências, mas só 28% obtiveram a ajuda do CGP. Segundo a mesma pesquisa, 92% disseram ter interesse em usar os serviços do CGP. A FAPESP é responsável por 78% dos recursos arrecadados em projetos administrados pelo centro. n Fabrício marques

O equipamento, comprado de um dos dois fabricantes mundiais, a japonesa Jeol – o outro é a francesa Cameca –, custou US$ 1,6 milhão e foi integralmente financiado pela FAPESP. Ele vem substituir com mais recursos uma microssonda comprada em 1992, dentro de um programa de financiamento da USP e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com complementações da FAPESP. Esse, por sua vez, substituiu um modelo norte-americano de 1971, o primeiro instalado no país, inteiramente comprado com recursos do BID. Ele tinha um processo de obtenção de dados complicado e magEOC iên C

a essência das pedras

nova microssonda eletrônica começa a funcionar na USP para analisar elementos químicos presentes em minerais

marcos de oliveira

amais nova versão de um equipamento que ficou famoso entre os geólogos quando os astronautas da missão Apollo trouxeram rochas da Lua entre 1969 e 1972 está funcionando num prédio especialmente construído para ele no Instituto de Geociências (IGc) da Universidade de São Paulo (USP). A microssonda eletrônica é um instrumento de pesquisa capaz de identificar e quantificar de forma rápida os elementos químicos presentes em um mineral, o que se tornou importante logo após as missões lunares, quando a agência espacial norte-americana (Nasa) cedeu amostras para instituições de vários países. Saber se um mineral de rocha tem cálcio, ferro ou algum tipo de terra-rara é importante tanto para conhecer melhor a natureza geológica de determinado lugar como para saber a existência de material de valor para a mineração ou outros fins industriais. Também pode ser utilizado em metalurgia na análise de constituintes de ligas metálicas ou, ainda, para descobrir os meandros químicos da formação de dentes.

imagens obtidas na microssonda com a técnica de dispersão de comprimento de onda e raios X. Acima, a presença de alumínio na amostra de mineral silicático, em azul, e abaixo cálcio, em verde

nual, além de registrar informações em cartões perfurados no computador acoplado à máquina que ainda está no IGc. A mais antiga tinha três espectrômetros de raios X, enquanto a mais recente possui cinco desses aparelhos acoplados à microssonda. Esse tipo de espectrômetro faz a análise dos elementos químicos presentes no mineral por meio da leitura do comprimento de onda gerado pelo canhão de feixes de elétrons no momento em que ele atinge a amostra. O resultado é uma radiação em raios X, com o comprimento de onda específico irradiado pela matéria analisada que é captada por um cristal dentro da microssonda. Ele faz o reconhecimento do comprimento de onda do elemento químico e sua intensidade de um ponto específico do material.

“No primeiro, a operação era muito difícil e exigia uma preparação e análise da amostra mais complicado e demorado; o segundo já possuía cinco espectrômetros e o mais recente nos traz maior automação do processo de análise, com melhor resolução da interface gráfica e aumento do brilho das imagens. Será possível obter fotos de melhor qualidade, por exemplo, como minerais que possuem manganês e cádmio, capazes de emitir luz quando recebem a incidência de elétrons sobre eles. Outra coisa importante é a maior sofisticação das condições de vácuo por onde o feixe de elétrons corre, sem serem absorvidos pelas moléculas de ar, até chegar a amostra”, diz Celso de Barros Gomes, professor emérito do IGc, que implantou e dirigiu o Laboratório de Microssonda Eletrônica do instituto, além de ser responsável pela compra dos três equipamentos, em 1971, 1992 e 2012. “É um ciclo histórico”, diz ele.

colchão d E A r EIA

Para receber a nova microssonda, foi preciso construir um novo laboratório de 90 metros quadrados no andar térreo do IGc. Mais sensível, o novo equipamento necessitou de um local onde não receba interferências do campo magnético de outros equipamentos do instituto. A microssonda possui 1,80 metro de altura e está conjugada a uma mesa com equipamentos e três telas para verificação dos resultados. O equipamento está assentado em uma espécie de colchão, formado por um buraco com um metro de profundidade e preenchido por areia que tem a

A microssonda é utilizada por alunos de mestrado e doutorado, mas também serve a estudos de empresas como vale e Petrobras

função de absorver as vibrações resultantes do tráfego de veículos no entorno do prédio. A microssonda também está envolta por uma gaiola de Faraday, uma espécie de armação metálica, que faz uma blindagem eletrostática do equipamento. Inaugurado em 14 de dezembro, o novo laboratório já está pronto para receber, de forma mais eficiente, parceiros e consultas que as antigas microssondas estavam acostumadas a receber. “Prestamos serviços a empresas de mineração

como a CPRM e principalmente a Vale, que demanda uma diversidade grande de produtos minerais”, conta Gomes. “Também fazemos estudos para Petrobras.” Os valores desses serviços servem para a manutenção do laboratório. Mas a maior procura pela microssonda, ao longo desses anos, segundo o professor Celso Gomes, é de alunos principalmente de mestrado e doutorado tanto da USP como da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e federais do Paraná (UFPR), Pernambuco (UFPE) e da Bahia (UFBA), que agendam horários para uso do equipamento. “Também recebemos pesquisadores de vários países da América Latina e de Moçambique e de Angola, na África”, diz Gomes. “Com o novo equipamento gostaria de estreitar os estudos com a área de odontologia para analisar a distribuição dos elementos químicos nos dentes, estudar como a natureza se comporta na dentição”, afirma. “É ótimo ter uma nova microssonda”, diz o professor Marcos Aurélio Farias de Oliveira, do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da cidade de Rio Claro. “Ela tem mais recursos e traz a possibilidade de realização de experimentos em menos tempo. A antecessora já era muito boa, mas precisava parar

c omposição de elementos

imagens da microssonda mostram o zoneamento químico em um mineral

Ao lado, grão de britolita, um mineral que tem concentração de fosfato de cálcio.

As imagens coloridas feitas com raios X quantificam a maior presença de determinados elementos químicos.

Em preto e branco, a variação de tonalidade mostra a presença de cálcio nas áreas mais escuras

MEnOR

5µm (micrômetros)

MAiOR

Silício

1 Microssonda, ao fundo, telas e aparelhos que compõem o equipamento

2 Lâmina de vidro com substrato de rocha preparado para a análise 2

mais vezes para manutenção e a fila de espera chegava a seis meses”, diz Oliveira. “Durante cerca de três anos foi a única em funcionamento no país para estudos acadêmicos porque as outras estavam avariadas, como a da Universidade de Brasília [UnB]”, explica. Ele lembra que recentemente a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) comprou uma microssonda e a UnB também, além de a própria Unesp já ter a aprovação de compra de um desses equipamentos com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério de Ciência e Tecnologia.

I n F orm A ç ÕES g E nét I c AS

A formação de novos geólogos está por trás dos trabalhos das microssondas acadêmicas – existem indústrias metalúrgicas que também possuem este tipo de instrumento, por exemplo – principalmente em um momento de expansão de empresas como Petrobras e Vale. “Quantificar os elementos é a motivação na geologia. Porque com base nessa quantificação é possível determinar as condições de pressão e temperatura em que esses minerais se formaram a quilômetros de profundidade. São como informações genéticas da composição química do material analisado”, diz Gomes. Es-

“hoje a microssonda faz parte da cultura científica da geologia”, diz c elso de b arros gomes, da USP

terial – no caso da USP com a assessoria de um técnico – até deixá-lo bem fino, da ordem de micrômetros (1 micrômetro equivale a 1 milímetro dividido por mil). Essa camada fina de rocha é fixada com uma cola transparente na lâmina de vidro que será inserida na microssonda. Aí ela é desgastada até ficar quase incorporada ao vidro. A amostra é levada antes para a microscopia óptica para saber a espessura, que deve ficar entre 30 e 40 micrômetros. Depois a amostra é colocada num aparelho chamado de metalizador para receber uma camada de carbono que tem a função de tornar o material condutor.

“Quando temos uma amostra desconhecida, que não sabemos que minerais ela contém, aí usamos a técnica de dispersão de energia (EDS, na sigla em inglês), quando é possível fazer uma varredura entre todos os elementos químicos da tabela periódica e indicar, por exemplo, se aquele material é um feldspato ou um outro mineral qualquer”, diz o professor Celso Gomes. Pela composição química do mineral é possível identificá-lo. Para fazer a quantificação dos elementos, ou a determinação da porcentagem, por exemplo, de silício, ferro, alumínio ou magnésio, presente em cada mineral de rocha, os geólogos usam na microssonda a técnica de dispersão de comprimento de onda (WDS na sigla em inglês) que, além desse objetivo principal, pode indicar, por exemplo, as condições de formação do material.

sas informações e outras obtidas com a microssonda, em casos de ocorrência de minérios, são muito importantes para o melhor conhecimento da potencialidade de uma mina e para colaborar na sua instalação e na indicação da infraestrutura necessária para a exploração.

Para começar a elaborar a análise de amostras de rochas coletadas em trabalhos de campo, os pesquisadores que utilizam a microssonda preparam o ma-

“Atualmente essas técnicas são bem conhecidas e difundidas, mas no passado, no início do período de comercialização das microssondas entre os anos 1960 e 1970, era difícil convencer a comunidade acadêmica de sua importância. E o papel fundamental desse convencimento foi a difusão da técnica com dados apresentados em congressos e conferências, além de cursos e estágios e publicação de trabalhos científicos”, diz Gomes. “Iniciamos há 40 anos um processo de convencimento e hoje a microssonda faz parte da cultura científica da geologia brasileira”, afirma. n

Projeto

EMU: Aquisição de nova microssonda eletrônica para o Instituto de Geociências da USP –nº 2009/53835-7. Modalidade: Programa Equipamentos Multiusuários. Coordenador: Celso de Barros Gomes – USP. Investimento: R$ 473.729,58 e US$ 1.662.330,00 (FAPESP).

Desgaste lento e contínuo

Estudo analisou a composição de sedimentos fluviais coletados no alto e no sopé de escarpas que separam a bacia do rio São Francisco da bacia do rio Doce e esta do rio Paraíba do Sul, distantes 140 quilômetros uma da outra (linha tracejada), a fim de estimar o ritmo de encolhimento dos planaltos do Sudeste brasileiro

bA c IA do rI o São F r A nc IS co

bA c IA do rI o PA r A ná

Degrau de Cristiano Otoni

Pontos de coleta

bA c IA do rI o d oc E

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Serra de São Geraldo

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A bacia do São Francisco (marrom) perdeu espaço para a do rio Doce (amarelo) devido ao recuo do...

O RECUO DAS BORDAS

Desgaste das escarpas que separam as bacias hidrográficas leva os terrenos mais elevados a perderem espaço para os situados a altitudes menores

bacia do rio

S. Francisco

bacia do rio doce

Degrau de Cristiano Otoni Extensão (em quilômetros)

A EROS ãO E SEUS R i TMOS

bacia do rio

Paraíba do Sul

Serra de São Geraldo

Por causa do declive, a taxa de erosão (medida em metros por milhão de anos ou m.Ma-1) é maior no sopé das escarpas do que nos pontos mais elevados

direção de recuo

... degrau de Cristiano Otoni, escarpa de 30 quilômetros de extensão, vista a partir do alto na foto acima

a dança das bacias

no último 1,3 milhão de anos, a bacia do rio São Francisco perdeu espaço para a do rio Doce, que cedeu área à do Paraíba do Sul | Salvador nogueira

S ERRA DE S ãO g ERALDO

otempo vem desgatando lentamente a paisagem das terras planas no interior de Minas Gerais e São Paulo. O planalto que abriga a bacia do São Francisco, rio que nasce no sudoeste de Minas Gerais e corre em direção ao nordeste até Pernambuco, está paulatinamente encolhendo pelo recuo das escarpas que formam sua borda. No último 1,3 milhão de anos, esse planalto perdeu área para uma região vizinha situada a altitudes menores onde se assenta a bacia do rio Doce. Esta, por sua vez, cedeu espaço para a do Paraíba do Sul, na divisa de São Paulo, Minas e Rio de Janeiro. Esse desgaste paulatino da paisagem, responsável por empurrar as bordas dos planaltos cada vez mais para o interior do país, acaba de ser revelado por pesquisadores de Goiás e Minas Gerais em um estudo publicado no periódico Geomorphology

À primeira vista, o resultado poderia preocupar quem teme pelo futuro de bacias como a do São Francisco. Mas não é o caso. Primeiro porque esse processo de desgaste ou denudação da paisagem é muito lento. Segundo porque os estudos geológicos são, em certo sentido, bem parecidos com aplicações na bolsa de valores: resultados do passado geológico não permitem fazer projeções acuradas.

“Os dados indicam como foi o processo no último 1,3 milhão de anos e não permitem fazer especulação preditiva, pois, em ciências da Terra, existem processos de baixa frequência e alta intensidade [como os grandes terremotos] que invalidariam qualquer previsão”, afirma Luis Felipe Cherem, pesquisador

A bacia do rio Paraíba do Sul (verde) avança sobre a do rio Doce (amarelo) ao desgastar as encostas...
... da serra de São gerado (foto acima), escarpa que se estende por 65 quilômetros no sudeste de Minas gerais

da Universidade Federal de Goiás (UFG) e primeiro autor do estudo, feito em colaboração com pesquisadores das universidades federais de Ouro Preto (Ufop) e de Minas Gerais (UFMG) e do Centro Europeu de Pesquisa e Ensino do Meio Ambiente, na França.

As feições mais superficiais da região, desde o litoral até a chegada à bacia do São Francisco, já bem dentro do continente, são resultado em grande parte de processos geológicos violentos, causados pela tectônica de placas, o mesmo fenômeno que leva à eterna dança dos continentes pelo globo. O primeiro desses grandes movimentos ocorreu cerca de 130 milhões de anos atrás. Ele rompeu o supercontinente chamado Gondwana originando a Antártida, a América do Sul, a África, a Austrália, a península Arábica, a Índia e o oceano Atlântico.

Após esse estágio inicial de formação da costa sul-americana, dois eventos tectônicos adicionais afetaram a região nos últimos 65 milhões de anos, criando três degraus, segundo os pesquisadores da UFMG e da Ufop. O mais baixo é o da bacia do rio Paraíba do Sul, um planalto situado a cerca de 400 metros acima do nível do mar. Mais para o interior encontra-se a bacia do rio Doce, com altitude média de 800 metros e, mais adiante, as bacias dos rios São Francisco e Paraná, a 1.100 metros acima da superfície do oceano.

No trabalho que demonstrou o avanço progressivo dos planaltos mais baixos em direção ao interior do continente, os pesquisadores coletaram amostras de sedimento fluvial do chamado degrau de Cristiano Otoni, uma escarpa com 30 quilômetros de extensão e altura variando de 250 a 350 metros que separa a bacia do São Francisco da do rio Doce. Eles também analisaram material obtido ao longo dos 65 quilômetros da serra de São Geraldo, que divide a bacia do rio Doce e a do Paraíba do Sul. Em ambos os casos, eles buscaram amostrar material tanto na borda como no reverso das escarpas, os declives acentuados que separam um degrau do outro. O objetivo era quantificar, ao longo do último milhão de anos, o fenômeno conhecido como denudação.

Trata-se de um processo causado por erosão constante ao longo do tempo. Chuva e vento decompõem e removem as rochas mais superficiais, descobrindo o terreno que está embaixo. É como se a superfície da região fosse paulatinamente perdida, deixando exposta a rocha do subsolo.

Para calcular o ritmo da denudação, os pesquisadores analisaram os sedimentos fluviais no alto e no sopé dos degraus. Contrastando o material dessas áreas, é possível estimar quantos milímetros são desgastados a cada mil anos (ou quantos metros a cada milhão de anos).

Como era de esperar em processos erosivos, com a ajuda do declive, as escarpas naturalmente sofrem mais denudação que os planaltos em si.

Para o caso do planalto da bacia do São Francisco notou-se que ele perde, em média, 8,77 metros a cada milhão de anos. Já na bacia do rio Doce, a perda é de 15,68 metros no mesmo período. Nas escarpas, esse número é compreensivelmente maior: 17,5 metros a cada milhão de anos para o degrau de Cristiano Otoni e 21,22 metros para a serra de São Geraldo. Esses resultados indicam que o processo de denudação, fenômeno de causas múltiplas que pode ocorrer em ritmos que variam de uma região para outra, ainda se encontra em curso. Segundo Cherem, esses valores são consistentes com o que se esperaria observar na comparação entre os planaltos: os que se encontram mais próximos do interior dos crátons, a parte mais estável das placas tectônicas, em geral são mais maduros e sofrem menos denudação com o passar do tempo.

A

bacia do rio São Francisco perdeu, em 1 milhão de anos, 8,77 metros para a do rio d oce, que, por sua vez, perdeu 15,68 metros para a do rio Paraíba do Sul

contr AS t E d E r ESU ltA do S Cherem, Varajão e seus colegas chegaram a essas taxas de denudação ao analisar a presença de certa variedade do elemento químico berílio nas rochas. O berílio é o quarto elemento químico da tabela periódica, com quatro prótons em seu núcleo. Para medir a idade das rochas, os pesquisadores avaliam a presença de berílio-10, versão do elemento com seis nêutrons que tende a decair com o tempo, perdendo um de seus nêutrons. No caso do berílio-10, a meia-vida, tempo em que metade dos átomos da amostra leva para se desintegrar, é estimada em 1,38 milhão de anos. Assim, comparando a quantidade dele num solo, é possível ter uma ideia da idade da amostra. “Os resultados obtidos em Minas são semelhantes aos observados em outras margens divergentes [onde ocorre a separação entre dois continentes] ao redor do mundo”, afirma Cherem.

Estudos anteriores feitos em uma região próxima dali, mas com técnicas diferentes, havia chegado a taxas de denudação distintas. Em 2010, os pesquisadores Silvio Hiruma, do Instituto Geológico de São Paulo, Claudio Riccomini, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo, e colaboradores publicaram um estudo na Gondwana Research indicando que a velocidade de denudação poderia ser bem maior.

“Nossos dados sugerem que algumas partes da serra da Bocaina apresentaram denudação superior a 3 mil metros nos últimos 60 milhões de anos, o que daria algo em torno de 50 metros por milhão de anos”, diz Riccomini, que, com

Planaltos escalonados

Algumas das principais bacias hidrográficas brasileiras (mapa abaixo) se assentam sobre terrenos planos situados a altitudes que variam de 400 a 1.100 metros

pesquisadores da França, acaba de publicar um novo estudo sobre o assunto no Journal of Geophysical Research.

A divergência nos ritmos de denudação pode ser decorrente de dois fatores. O primeiro é que a técnica usada pela equipe da USP permite analisar o que ocorreu num período maior de tempo – e a denudação pode arrefecer à medida que os planaltos amadurecem. O segundo é que o estudo de Riccomini e colegas se concentra na serra do Mar, que, apesar de próxima à área estudada por Cherem e colaboradores, tem uma história geológica diferente da vista nas regiões mais interiores do continente. “Não há contraposição ou negação mútua, mas complementaridade na busca do melhor entendimento da dinâmica do relevo do Sudeste do Brasil”, diz o pesquisador da UFG.

cA dA A mo S tr A , U m A h IS tór IA

Segundo Cherem, o número de amostras analisadas confere segurança sobre os resultados. Ainda assim é possível que as taxas de denudação variem um pouco à medida que se aumente o número de amostras. “Eu poderia indicar vários locais onde os ganhos ou perdas de espaços das citadas bacias variam muito de uma para outra”, afirma Allaoua Saad, da Universidade Federal de Minas Gerais, estudioso da geomorfologia do Sudeste brasileiro.

Saadi reconhece, porém, a qualidade do estudo conduzido por Cherem e Varajão. “Os resultados

apresentados em termos de taxas de denudação são fruto de medições em pontos escolhidos com base em critérios de homogeneidade nas diversas bacias”, diz. “O que essas medidas expressam é uma crença de que aquilo representa uma medida real de denudação de longo termo e generalizável a ponto de conduzir às conclusões apresentadas”, comenta o geomorfólogo da UFMG.

Além das medições do berílio usadas no estudo da Geomorphology, Cherem afirma que outros dados, apresentados em sua tese de doutoramento, corroboram a ideia de que, no Sudeste brasileiro, as escarpas estão recuando aproximadamente 0,01 milímetro por ano, fazendo as bacias mais altas perderem área para as mais baixas. De toda forma, ele admite que os mistérios geológicos do Sudeste brasileiro ainda estão longe de ter sido todos desvendados. “As escarpas continuam lá”, diz, “e devem continuar a ser estudadas”. n

Artigo científico

CHEREM, L.F.S. et al. Long-term evolution of denudational escarpments in southeastern Brazil. Geomorphology. v. 173-4. p. 118-27. 2012.

COGNE, N. et al. Post-breakup tectonics in southeast Brazil from thermochronological data and combined inverseforward thermal history modeling. Journal of Geophysical Research. v. 117. 2012.

HIRUMA, S.T. Denudation history of the Bocaina Plateau, Serra do Mar, shoutheastern Brazil: relationships to Gondwana breakup and passive margin development. Gondwana Research. v. 18. p. 674-87. 2010

Brasil
Rio São Francisco
Rio Paranaíba
Rio Paraíba do Sul Rio Doce
Rio Jequitinhonha
Rio grande
Altitude (em metros)

e strelas que o vento apagou

gás soprado por explosões estelares interrompeu crescimento de galáxias anãs

Fornax, no alto da página: uma das 26 galáxias anãs que orbitam a via Láctea

há algo misterioso sobre a evolução das galáxias anãs. Os astrônomos observam um número muito menor desses pequenos aglomerados de estrelas do que prevê a teoria atual de como o Universo se formou a partir de uma explosão ocorrida há 13,7 bilhões de anos, o Big Bang. Por essa razão, acredita-se que ou há algo de errado com essa teoria – opção cada vez menos aceita pelos especialistas –, ou algo aconteceu durante a formação dessas galáxias que as deixou tão vazias de estrelas que nem os mais poderosos telescópios conseguem observá-las.

Em um trabalho recém-aceito para publicação na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, um grupo de astrônomos brasileiros apresenta resultados que fortalecem a segunda hipótese e detalham um possível mecanismo que teria impedido algumas galáxias anãs de produzirem estrelas em abundância. Por meio de simulações de computador, Diego Falceta-Gonçalves, da Universidade de São Paulo (USP), e Luciana Ruiz, Gustavo Lanfranchi e Anderson Caproni, da Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul), propõem que uma série de explosões es-

telares ocorridas no início da formação das galáxias anãs teria expulsado delas quase todo o gás que serviria para gerar novas estrelas. Como consequência, elas se tornariam quase despovoadas.

Embora tenham ocorrido há mais de 13 bilhões de anos, pouco após a criação do Universo, essas explosões estelares podem ter deixado traços – diferenças na concentração de elementos químicos dentro e fora das galáxias – que podem ser verificados por meio de observações astronômicas e contribuir para confirmar ou refutar o modelo. “Nosso trabalho explica o que pode ter ocorrido tanto no interior da galáxia anã como entre os aglomerados de galáxias”, diz Lanfranchi.

As galáxias anãs existem em todo o Universo, orbitando galáxias maiores, como a nossa, a Via Láctea. Em geral, elas possuem centenas de milhões de estrelas – cerca de 0,1% do total encontrado na Via Láctea. Algumas ainda contêm gás e se mantêm capazes de gerar novas estrelas. Mas a maioria abriga apenas um grupo de estrelas velhas. Na Ursa Menor, uma das galáxias anãs que orbita a Via Láctea, por exemplo, a última estrela nasceu 9 bilhões de anos atrás.

De acordo com a teoria cosmológica corrente, segundo a qual o Universo nasceu há 13,7 bilhões de anos a partir de uma explosão inicial e vem expandindo desde então, as galáxias anãs foram os primeiros aglomerados de estrelas a se formar, em torno de 300 milhões de anos após o Big Bang. Galáxias maiores, do porte da Via Láctea, só começariam a surgir 1 bilhão de anos depois. Os astrônomos ainda debatem se as galáxias maiores surgiram da aglutinação de anãs ou se cresceram independentemente delas. Mas todos acreditam que as galáxias, grandes ou pequenas, nasceram do gás acumulado em regiões do espaço onde a matéria escura se concentrou.

A matéria escura é uma substância invisível e de identidade ainda desconhecida. Ela permeia todo o espaço e só é percebida pela influência gravitacional que exerce no movimento de estrelas e galáxias. Pelas observações cosmológicas, deve existir de cinco a nove vezes mais matéria escura do que matéria normal no Universo. E as simulações computacionais baseadas na teoria do Big Bang sugerem que as galáxias maiores se formaram justamente nas regiões em

que uma quantidade maior de matéria escura se aglomerou, os chamados halos. Essas simulações também mostram que cada um desses grandes halos de matéria escura é cercado de uma constelação de centenas de halos menores, que, em princípio, deveriam originar galáxias anãs. Mas em vez de centenas, foram observadas apenas 26 delas orbitando a Via Láctea. “De acordo com as observações e as simulações, deve haver centenas de halos de matéria escura que não formaram quase nenhuma estrela”, comenta Lanfranchi. Outro mistério a respeito das galáxias anãs é que a proporção entre a matéria normal e a escura é muito diferente daquela observada nas galáxias maiores. A massa do halo de matéria escura que envolve a Via Láctea é 10 vezes maior que a massa total de suas estrelas. Já as galáxias anãs estudadas têm de 20 até 3,4 mil vezes mais matéria escura que massa estelar. “Por alguma razão, foram formadas proporcionalmente muito menos estrelas nas galáxias anãs do que na Via Láctea”, diz Gonçalves.

Para esclarecer o passado das galáxias anãs, vários grupos de astrofísicos vêm desenvolvendo simulações de como teria evoluído a concentração inicial de gás e matéria escura que as originou. Todos os trabalhos sugerem que os protagonistas dessa história são as supernovas – as explosões que marcam o fim da vida de estrelas com massa muito elevada, dezenas de vezes maior que a do Sol. Segundo os modelos teóricos, as primeiras supernovas formadas nessas galáxias teriam transferido tanta energia para o gás no interior desses aglomerados de estrelas que terminaram por expulsá-lo para o meio intergaláctico. E, sem gás, a formação estelar teria sido interrompida. Nenhuma simulação até agora, porém, havia chegado a um nível de detalhe suficiente para explicar exatamente como esse gás escaparia nem em que quantidade e em qual estágio da evolução galáctica. Os astrônomos brasileiros aceitaram então o desafio de simular o primeiro bilhão de anos das galáxias anãs da maneira mais realista possível, usando um

A estrutura do Universo

código computacional desenvolvido pelo astrofísico polonês Grzegorz Kowal, da USP. Nas simulações os pesquisadores avaliaram 11 cenários possíveis para a evolução dessas galáxias, variando parâmetros como a distribuição de matéria escura e a taxa de formação de supernovas. Eles também levaram em conta detalhes como o surgimento aleatório das supernovas em várias regiões da galáxia e a quantidade de energia das explosões convertida em calor ou luz.

vE nto S U bí QU o S

Apesar de controlarem os parâmetros de suas simulações, os pesquisadores não tinham como saber o resultado de antemão. “Conseguimos determinar quão rápido as galáxias perdem gás, dependendo de sua massa, da distribuição de matéria escura e da taxa de formação de supernovas”, explica Gonçalves. Em todos os cenários, as simulações mostraram que as supernovas criam ventos que começam a expelir o gás da galáxia 100 milhões de anos após seu

Uma explosão de alta energia ocorrida há 13,7 bilhões de anos, o Big Bang, originou o Universo, que, à medida que se expandiu e resfriou, organizou a matéria visível em átomos, estrelas, galáxias e aglomerados de galáxias

13,7 bilhões de anos

núcleos atômicos se formam Surgem os átomos neutros nascem as primeiras estrelas e as galáxias anãs

galáxias grandes, como a via Láctea, começam a se estruturar

galáxias estão organizadas em aglomerados

A simulação abaixo mostra como a matéria escura (pontos brilhantes), uma forma de matéria invisível que permeia o Universo e interage com matéria comum por meio da gravidade, teria evoluído após o Big Bang em uma região ao redor da via Láctea

c omo as galáxias anãs perdem gás

Bolhas de gás aquecido e menos denso flutuam sobre o gás mais frio e denso rumo ao meio intergaláctico

momento inicial 46 milhões de anos depois

A matéria escura faz o gás se concentrar na porção mais interna da galáxia anã...

2 milhões de anos depois

gás mais frio e denso

bolhas de gás aquecido e menos denso

... até que explosões de supernovas criam bolhas de gás quente...

... que se expandem e se fundem, formando canais pelos quais o gás escapa

Nas simulações, até 40% do gás aquecido pelas explosões de supernovas escapou da

galáxia em menos de 200 milhões

velhas companheiras

As galáxias se formam nas regiões com maior concentração de matéria escura. Em cada ponto ao redor do aglomerado principal, que originou a via Láctea, deveria haver uma galáxia anã, mas só se observam 26 (ver as principais acima)

nascimento. No caso mais extremo, 88% do gás foi eliminado em 1 bilhão de anos. “A maioria dos halos acaba com poucas estrelas e se tornam invisíveis”, conta o pesquisador. “As galáxias que observamos hoje se formaram nos cenários em que o vento foi mais brando.”

Os pesquisadores imaginavam que o gás aquecido pelas supernovas superasse a atração gravitacional e escapasse da galáxia por ser impulsionado com muita energia, como um foguete lançado rumo ao espaço. Mas descobriram que não era sempre assim. De 5% a 40% do gás aquecido pelas explosões escapava em menos de 200 milhões de anos, mesmo sem energia para vencer a gravidade, ao flutuar no gás mais frio e mais denso a sua volta. “É mais como uma bexiga cheia de hélio, que sobe sozinha, sem ser lançada”, explica Gonçalves.

Esse fenômeno, conhecido como instabilidade de Rayleigh-Taylor, é o mesmo responsável pela elevação de gás quente em forma de cogumelo de uma explosão de bomba atômica. Na simulação dos brasileiros, as supernovas criam bolhas de gás quente ao seu redor, que migram para as camadas mais externas e frias da galáxia, se expandindo e se fundindo, formando canais por onde o gás escapa. Uma consequência importante desse fe-

nômeno é que a composição do gás que sai das galáxias anãs não é a mesma do gás primordial, composto por elementos químicos leves (hidrogênio e hélio), os primeiros a surgirem no Universo. O gás que escapa é enriquecido com elementos químicos mais pesados, criados nas explosões das supernovas.

“Esses resultados são interessantes e devem ser confrontados com observações para verificar se a teoria está correta”, afirma o astrofísico Reinaldo de Carvalho, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, estudioso da evolução das galáxias. Os pesquisadores esperam encontrar evidências do que ocorreu com as galáxias anãs ao investigar a composição química de suas estrelas. Para isso, estão analisando uma galáxia anã, a Ursa Menor. Eles planejam comparar as conclusões com a composição do meio intergaláctico, para onde teriam sido expelidos os elementos químicos mais pesados. n

Os projetos

1. Campos magnéticos, turbulência e efeitos de plasma no meio intergaláctico – nº 2011/12909-8; 2. Estudo numérico de plasmas magnetizados colisionais e não colisionais em astrofísica –nº 2009/10102-0; 3. Aplicação de modelos teóricocomputacionais em astrofísica – nº 2006/57824-1. Modalidade: 1. e 2. Linha Regular de Auxílio a Projeto de Pesquisa; 3. Jovem Pesquisador. Coordenador: 1. e 2. Diego Falceta Gonçalves –USP; 3. Gustavo Amaral Lanfranchi – Unicsul. Investimento: 1. R$ 151.676,28 (FAPESP); 2. R$ 108.750,89 (FAPESP); 3. R$ 171.39 5,05 (FAPESP)

Artigo científico

RUIZ, L. O. et al. The mass loss process in dwarf galaxies from 3D hydrodynamical simulations: the role of dark matter and starbursts. Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. No prelo.

Florestas mais iguais

Proliferação de espécies nativas resistentes a perturbações no ambiente reduz a biodiversidade da mata atlântica

tratada a ferro e fogo pelos seres humanos durante cinco séculos, a mata atlântica reage como pode na tentativa de sobreviver. Um estudo feito por cientistas do Brasil e do Reino Unido, que analisou fragmentos remanescentes da floresta tropical no Nordeste, sugere que a degradação induzida por atividades humanas provoca a disseminação exagerada de umas poucas espécies de árvore mais resistentes em prejuízo de muitas. O resultado é uma mata cada vez mais homogênea – e pobre – em toda a sua extensão, onde extinções locais passam a ocorrer em cascata.

O efeito é semelhante ao que se observa quando uma espécie exótica invasora coloniza um novo ambiente: sem inimigos naturais, ela aumenta rapidamente sua população, eliminando as espécies nativas que competem com ela pelos mesmos recursos no ambiente. “Os especialistas sempre temem o espalhamento de espécies exóticas, mas não é preciso esperar uma invasão. Uma nativa pode desempenhar o mesmo papel ecológico que as exóticas”, diz o botânico Marcelo Tabarelli, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ele, Felipe Melo, também da UFPE, e o ecólogo paraense Carlos Peres, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, assinam um artigo na edição de outubro do periódico Biological Conservation no qual descrevem o fenômeno da homogeneização de biomas causada por espécies nativas, que chamaram de vencedoras.

A relação entre vencedores e perdedores em ecologia foi descrita pela primeira vez em 1999 pelos pesquisadores norte-americanos Michael McKinney, da Universidade do Tennessee, e Julie Lockwood, então na Universidade da Califórnia em Santa Cruz. O trabalho da dupla descrevia um cenário de

catástrofe para a biodiversidade, no qual algumas espécies com um conjunto de características especiais – crescimento rápido, tolerância a perturbações no ambiente e facilidade de transporte – colonizavam novos ecossistemas e causavam homogeneização. “McKinney estava explorando os impactos da urbanização na diversidade de espécies e eu estava trabalhando com espécies invasoras”, lembra Julie, hoje professora da Universidade Rutgers, em Nova Jersey. “Quando começamos a conversar, percebemos que havia um tema unificador, o dos ganhadores e perdedores.” O mais importante, segundo a pesquisadora, é que o sucesso de algumas espécies sob as novas condições não parecia ocorrer ao acaso. “Eu vejo isso como a humanidade podando a árvore da vida”, diz Julie. “Alguns ramos são cortados, outros são deixados crescer, talvez sem controle.” O estudo da dupla, porém, só considerava o fenômeno aplicado à invasão de espécies exóticas. Essas ganhadoras globalizadas de fato podem causar, e causam, problemas sérios em ecossistemas insulares e em latitudes elevadas. Ecossistemas tropicais continentais, no entanto, são praticamente imunes a esse tipo de invasão. “É claro que temos problema com espécies exóticas no Brasil, mas temos espécies nativas que são muito mais bem-sucedidas e na literatura ninguém fala sobre isso”, afirmou Peres, de passagem por Belém, sua cidade natal. Pode parecer óbvio a qualquer observador atento que a mata atlântica – e outras florestas altamente impactadas por atividades humanas – perca diversidade por conta da fragmentação. Afinal, esta favorece, a partir da borda da mata degradada, a proliferação de espécies de árvore conhecidas como pioneiras. Elas são as primeiras a nascer numa área perturba-

claudio Angelo

Perdas e ganhos

Degradação induzida por atividades humanas provoca a disseminação exagerada de umas pouca espécies

Favorecidas

Embaúba (Cecropia pachystachya): espécie pioneira, que, como o pau-pombo e o caboatã-de-leite, se dissemina rapidamente em áreas perturbadas

› Porte diminuto

› necessitam de sol

› Sementes pequenas, dispersadas por vento ou pequenos animais

› Crescimento rápido

› Reprodução anual

Prejudicadas

Sapucaia (Lecythis pisonis): uma das espécies de crescimento lento que, como os jatobás e as ucuúbas, perdem espaço na floresta degradada

› árvores de madeira de lei

› Tolerantes à sombra

› Sementes grandes, disseminadas por mamíferos

› Crescimento lento

› Reprodução plurianial

da, por gostarem de sol, terem sementes pequenas, dispersadas por vento ou por pequenos animais, crescimento rápido, muitas vezes terem porte diminuto e reprodução anual. Algumas dessas características, não por acaso, são compartilhadas com as exóticas vencedoras. Entre as espécies nativas que se saem bem nessas condições estão o pau-pombo ou cupiúba (Tapirira guianensis), que se tornou uma das espécies mais comuns da mata atlântica, além do caboatã-de-leite (Thyrsodium spruceanum) e do leiteiro (Hymatanthus phagedaenicus), espécie cuja densidade aumentou mais de 750% no Nordeste. Já madeiras de lei e árvores tolerantes à sombra, de crescimento lento, com sementes dispersadas por mamíferos grandes e reprodução plurianual, como virolas, sapucaias, jatobás e ucuúbas, sucumbem ao chamado efeito de borda. São as perdedoras do processo.

ES c A l A r E g I on A l

Acontece que as evidências de homogeneização em escala regional, para além de pequenos fragmentos, ainda são escassas. Um dos primeiros trabalhos a mostrar o tamanho do problema foi publicado pelo grupo de Tabarelli no ano passado na revista Diversity and Distributions. Os pesquisadores de Pernambuco estudaram uma região de 56 mil quilômetros quadrados que vai de Alagoas ao Rio Grande do Norte, comparando

A perda de diversidade da mata atlântica pode minar a imunidade natural desse ecossistema à invasão de espécies exóticas

milhares de registros de flora em 12 áreas dessa macrorregião em dois momentos: de 1902 a 1980, quando a expansão da cana-de-açúcar arrasou praticamente toda a floresta contínua que existia por ali, e entre 1981 e 2006, após o fim do ciclo de expansão do Proálcool.

O grupo descobriu que, na média, as floras ao longo da mata atlântica nordestina ficaram 28% mais parecidas após 1980. “Foi uma homogeneização muito rápida, num período relativamente curto, de décadas”, conta Melo. “Hoje eu vou a Pernambuco e vejo uma coisa e 300 quilômetros para cima, no Rio Grande do Norte, observo algo muito semelhante”, relata Taba-

relli, um gaúcho radicado em Recife desde o fim dos anos 1990. “Isso é impensável em florestas tropicais não perturbadas.”

Segundo Julie, parte da resistência desses biomas a espécies invasoras pode decorrer justamente do fato de que a diversidade é alta e de cada região ser diferente da outra. “Quanto mais espécies nativas, menos provável que haja nichos ecológicos abertos que possam ser ocupados por uma espécie exótica”, afirma a ecóloga. A homogeneização pode minar essa imunidade natural do ecossistema e criar problemas para as florestas brasileiras no futuro: à medida que a América do Sul cresce em importância econômica e se incorpora cada vez mais às rotas do comércio internacional, afirma a pesquisadora, cresce também sua exposição a espécies invasoras trazidas a bordo de navios e aviões. “Eu não espero que o padrão de resistência a espécies invasoras se mantenha por muito tempo em lugares como o Brasil e a Índia”, diz.

O risco futuro de invasões, porém, é o menor dos problemas trazidos pela proliferação de vencedoras nativas. Ao substituir florestas antigas e de crescimento lento por matas mais ralas e menos diversas – o que Tabarelli chama de capoeirização –, ela compromete várias funções ecológicas, como a capacidade de abrigar animais de grande porte, de armazenar carbono e de controlar as cheias dos rios. Interações cruciais entre espécies, como a de grandes animais dispersores de sementes e as árvores que lhes dão alimento, são perdidas, resultando em extinção, local ou total. Uma das vítimas mais conhecidas desse processo é o mutum-do-nordeste (Mitu mitu), o caso mais bem documentado de extinção de ave de grande porte na mata atlântica, hoje encontrada só em cativeiro.

Prata da casa: embaúba, espécie de crescimento rápido e grande disseminação em áreas perturbadas da mata atlântica 1

A esse ciclo perverso se soma outro fator de pressão: a caça, que elimina principalmente animais de grande porte em fragmentos já atingidos pelo efeito de borda, a alteração na estrutura da floresta que ocorre em suas margens, mais expostas ao vento e ao sol. Em estudo publicado no ano passado na PLoS One, Peres e colegas descobriram que a maior parte da mata atlântica no Nordeste está “desabitada”, praticamente desprovida de mamíferos com mais de cinco

homogeneização regional

Estudo comparou a ocorrência de espécies em 12 trechos de mata atlântica do nordeste em dois períodos (1902-1980 e 1981-2006)

Tipos de vegetação

Ecótono

Floresta semidecidual

Floresta aberta

Floresta tropical úmida vegetação em regeneracão

Aumento no nº de exemplares das espécies

Esenbeckia grandiflora 848,8%

Himatanthus phagedaenicus 753,9%

Eriotheca crenulaticalyx 706,5%

Sorocea hilarii 706,5%

Cecropia pachystachya 611,6%

Mabea occidentalis 611,6%

Xylopia laevigata 564,2%

A substituição de vegetação antiga por matas ralas compromete as funções

ecológicas da floresta

quilos. O grupo percorreu 196 fragmentos de floresta em busca de 18 espécies que ali já ocorreram (antas, muriquis, queixadas e onças) e não encontrou mais que quatro ao mesmo tempo em nenhum fragmento. Na maioria dos locais visitados os moradores não tinham memória da existência desses bichos na região.

tr A n SF orm A ção glob A l “O trabalho deles ilumina um processo de mudança global que está acontecendo numa escala muito grande e sugere que isso que vemos hoje nos nossos quintais possa ser o ‘novo normal’”, diz Julie, que, como McKinney, elogiou o trabalho dos brasileiros.

A pesquisa, afirma Peres, tem implicações diretas nas políticas de conservação da mata atlântica. “Uma das mensagens é que é importante preservar as áreas grandes e contínuas, porque nelas o efeito de borda consegue adentrar menos”, diz o cientista. “Tamanho, nesse caso, é documento.”

Os resultados do estudo reforçam a necessidade de aplicar rigorosamente as determinações do novo Código Florestal, que contribui para aumentar o risco de homogeneização à medida que reduz a dimensão das faixas de vegetação a serem permanentemente preservadas ao longo dos rios. A nova lei altera a forma de medir essas faixas por contar sua largura a partir do ponto médio, e não do limite da cheia, como mandava a lei antiga. E exige a restauração de pelo menos 15 metros (m) em propriedades que desmataram até a beira d’água – a maior parte delas. A princípio, pode-se imaginar que a exigência de restauração de pouco serve para reabilitar a biodiversidade em uma floresta já tão afetada pela fragmentação e pelo efeito de borda. “Essa é uma interpretação perigosa”, afirma Peres. “É como dizer, ‘meu tio está com hepatite, então vamos logo matá-lo”, compara. Mesmo fragmentos atrofiados da mata atlântica ainda fornecem serviços que um pasto ou uma lavoura não fornecem.

“O Código Florestal não permite que as florestas escapem à homogeneização”, pondera Tabarelli. Ele afirma que a faixa de 15 m a 20 m de largura que a lei obrigará os fazendeiros a reflorestar “é uma grande borda florestal”. No Nordeste, porém, mesmo essas bordas fazem falta. “Independentemente do grau de homogeneização, quando chove um pouquinho aqui alaga as cidades, quando para de chover falta água.” Embora não solucionem o problema, as matas ciliares a serem recompostas podem ajudar a conectar fragmentos de floresta hoje condenados a perecer devido ao efeito de borda.

“Mesmo um fragmento homogêneo é extremamente rico”, diz Tabarelli. Segundo ele, a melhor forma de lidar com o problema da homogeneização é adequar tecnologias de reposição florestal às políticas de proteção. Tabarelli lembra que no estado de São Paulo, por exemplo, o reflorestamento da mata atlântica exige o plantio de pelo menos 80 espécies. “Não tem que abandonar a recomposição, tem que torná-la mais eficiente.”

Agora o grupo começa a olhar para outras regiões em busca de sinais de homogeneização induzida por espécies nativas. Dados de Peres e seus colegas sugerem que o fenômeno também ocorra na Amazônia, no Arco do Desmatamento, embora numa escala menos destrutiva. A equipe da UFPE também está fazendo parcerias com pesquisadores da Paraíba e do México para realizar comparações de maior escala. “Ainda é um fenômeno que precisa de confirmação em outros sítios para ser mais robusto”, diz Melo, “mas é algo esperado, porque tem base teórica e empírica”. n

Artigos científicos

TABARELLI, M. et al. The ‘few winners and many losers’ paradigm revisited: Emerging prospects for tropical forest biodiversity. Biological Conservation. Out. 2012.

CANALE, G.R. et al. Pervasive Defaunation of Forest Remnants in a Tropical Biodiversity Hotspot. PLoS One. 14 ago. 2012.

LOBO, D. et al. Forest fragmentation drives Atlantic forest of northeastern Brazil to biotic homogenization. Diversity and Distributions. v. 17. p. 287-96. 2011.

CARDOSO DA SILVA, J. M. e TABARELLI, M. Tree species impoverishment and the future flora of the Atlantic Forest of northeast Brazil. Nature. v. 404 (6.773), p. 72-4. 2000.

MCKINNEY, M.L. e LOCKWOOD, J.L. Biotic homogenization: a few winners replacing many losers in the next mass extinction. Trends in Ecology and Evolution. v. 14 (11), p. 450-53. 1999.

d e que morrem as baleias

Estudo

identifica anormalidades ósseas comuns em jubartes da costa brasileira

Pesquisadores de São Paulo e da Bahia estão desenvolvendo um esforço conjunto para conhecer melhor como vivem e de que morrem as baleias jubartes (Megaptera novaeangliae) que frequentam a costa brasileira. Todos os anos entre julho e novembro centenas desses grandes cetáceos se deslocam das águas geladas da Antártida para regiões quentes do litoral brasileiro para procriar. Embora essa rota de migração seja bem conhecida, ainda se sabe pouco das condições de saúde das baleias e das razões que as levam a adoecer. O motivo é simples: não é fácil obter amostras de tecidos em condições adequadas para estimar o estado de saúde desses mamíferos marinhos que podem alcançar 16 metros de comprimento e pesar 40 toneladas e que vivem em constante movimento. Um grupo de médicos veterinários da Universidade de São Paulo (USP) e do Projeto Baleia Jubarte (PBJ), que é financiado pela Petrobras, trabalha atualmente para mudar esse cenário. Sob a coordenação de José Luiz Catão Dias, da USP, eles iniciaram um programa sistemático de coleta de amostras de pele e de material biológico ejetado com o borrifo (ar expirado) das baleias. Com base na análise dos tecidos obtidos de animais vivos e também do material extraído da ossada de baleias que encalharam na costa do país, os pesquisadores planejam produzir um inventário da saúde das jubartes brasileiras.

“A partir do material biológico coletado dos animais vivos, estamos investigando diversos patógenos”, conta Catão.

“A análise das alterações ósseas pode fornecer dados valiosos sobre a vida das baleias”, diz Kátia groch

Ele e seu grupo estão analisando o acervo de fotos do projeto tiradas durante as expedições para verificar se os animais acompanhados ganharam ou perderam peso, desenvolveram lesões cutâneas ou pariram. “Queremos entender a dinâmica da saúde das baleias e como as atividades humanas podem influenciá-las, contribuindo para o encalhe e a morte dos animais”, afirma Catão.

lESÕES E m A lF orm A ç ÕES

No início de novembro, Catão e Kátia Groch, sua orientanda no doutorado na USP, e os médicos veterinários Milton Marcondes e Adriana Colosio, do PBJ,

apresentaram os primeiros resultados desse projeto em um artigo publicado na revista Diseases of Aquatic Organisms Trata-se de um dos maiores levantamentos do mundo, segundo os pesquisadores, das enfermidades ósseas das baleias jubartes. No trabalho, eles analisaram os ossos de 49 animais que encalharam entre 2002 e 2011 na região de Abrolhos, no sul da Bahia.

Das 49 baleias, 12 apresentaram pelo menos um tipo de problema ósseo. Havia cinco casos de malformações congênitas; quatro de lesões inflamatórias; cinco de alterações degenerativas; e quatro de trauma (alguns possivelmente as-

sociados a choque com embarcações).

“A análise de alterações ósseas dos animais pode fornecer dados valiosos sobre a história de vida das baleias e suas condições patológicas”, conta Kátia.

“Algumas dessas alterações podem ter contribuído para o encalhe das baleias, principalmente em decorrência de lesões na região da cauda, que encontramos em dois animais”, explica.

Na opinião dos pesquisadores, é necessário um monitoramento constante para entender o quanto esses animais

1 Análise de espécime em praia de Abrolhos

2 Jubarte flagrada em salto característico

3 Equipe durante expedição de campo

4 Dardo coleta amostra de pele

5 Costela com calo ósseo (retângulo)

são afetados pela exploração e modificação do ambiente marinho, que pode aumentar com as atividades de exploração de petróleo na camada do pré-sal. “As baleias e os golfinhos são indicadores da saúde do ecossistema marinho”, diz Kátia. “O resultado desses estudos é essencial para entender as ameaças às populações de baleias e subsidiar políticas públicas para sua proteção.”

No Brasil, a caça à baleia foi permitida até três décadas atrás, quando foi aprovada a lei federal n° 7.643, que proibiu a caça dos cetáceos. Mais tarde, em 2008, o decreto n° 6.698 declarou as águas jurisdicionais marinhas brasileiras “santuário de baleias e golfinhos”. Hoje a legislação nacional de proteção às baleias é considerada muito boa. “As baleias já estão sujeitas a grandes desa-

fios naturais para se manterem vivas”, afirma Kátia. “A efetividade das políticas de proteção depende da eficiência da fiscalização e da conciliação entre o crescimento econômico, a exploração dos recursos marinhos e a preservação do ambiente.” n

Projeto

Análise de aspectos sanitários de baleias jubartes (Megaptera novaeangliae) na costa sudeste e nordeste do Brasil, com ênfase em interações antropogênicas – n° 2011/08357-0. Modalidade: Linha Regular de Auxílio a Projeto de Pesquisa. Coordenador: José Luiz Catão Dias/FMVZ-USP. Investimento: R$ 67.661,40 (FAPESP).

Artigo científico

GROCH, K. R. et al. Skeletal abnormalities in humpback whales Megaptera novaeangliae stranded in the Brazilian breeding ground. Diseases of Aquatic Organisms. 8 de nov. 2012.

t E cnolog IA R ECURSOS n ATURA i S y

Aumento do consumo acirra concorrência, promove uma crise de preços e expõe a dificuldade em passar do extrativismo para o agronegócio

Açaí Do pé para o lanche

t EXtO c arlos Fioravanti

FOtOs Eduardo cesar, de Belém, Pará

Em 15 segundos, usando uma argola de folha de palmeira para prender os pés, Antonio da Silva sobe em um açaizeiro de 15 metros de altura, tira o facão preso às costas, corta um cacho com frutos maduros e desce. Com as mãos, puxa os pequenos frutos arredondados dos cachos, deixa-os cair sobre um cesto de palha e recomeça. De setembro a fevereiro, Silva, de 28 anos, baixo, forte, cabelos à Neymar, repete essa operação de 20 a 30 vezes por dia para colher os frutos dos 10 mil açaizeiros, “nem sei direito quantos são”, espalhados em meio à mata próxima a Belém.

A produção de açaí, a principal indústria extrativa vegetal do Pará, é predominantemente artesanal e informal. Em uma feira que se forma todos os dias das quatro às seis da manhã ao lado do mercado público, os produtores expõem em milhares de cestos a produção do dia anterior, colhida das ilhas próximas e trazida por pequenos barcos em viagens de até 12 horas. Vendedores, compradores e carregadores se misturam, mal iluminados pelas tênues lâmpadas dos postes, a luz mais intensa vem de um bar em frente à feira. Cada produtor se põe à frente dos cestos empilhados e murmura o preço aos interessados. Com rapidez, os compradores pagam em dinheiro e viram os cestos em sacos. A todo momento passam estivadores apressados puxando ou empurrando carrinhos de mão com a carga empilhada, gritando para os pedestres saírem da frente. Em uma conta rápida, a feira movimenta R$ 2 milhões em duas horas. Não há nem sombra de fiscais ou de notas fiscais.

Máquinas antigas e uma ideia nova: motor a vapor (detalhe ao lado) move os equipamentos que extraem óleo da folha de pau-rosa (acima)

Feira do açaí, ao lado do mercado: informalidade

As estruturas sedimentadas de produção e comercialização de açaí em Belém refletem o desafio de aprimorar a exploração de recursos naturais da região; com o guaraná, outro fruto de valor econômico nativo da Amazônia, também se nota a dificuldade para passar do extrativismo para a agricultura (ver reportagem na página 69). Equipes distintas da Embrapa selecionaram variedades mais produtivas de açaí e de guaraná e, ao mesmo tempo, lutam para convencer os produtores a dar mais atenção ao plantio, à adubação e ao cultivo, tendo em vista a possibilidade de ampliar a produtividade e a qualidade.

Em novembro de 2004 a Embrapa Amazônia Oriental, de Belém, começou a distribuição de uma variedade de açaizeiro selecionada de alta produtividade, a BRS-Pará, com início de produção aos 3 anos de idade, dois anos a menos que os açaizeiros das populações nativas, e a primeira frutificação a uma altura média de 1,12 metro do solo.

“A BRS-Pará já está sendo plantada em mais de 70 dos 140 municípios do Pará, e os frutos no início da produção são colhidos com facilidade, apenas com o auxílio de uma faca, e com o passar do tempo por meio de escadas ou varas de alumínio”, diz Maria do Socorro Padilha de Oliveira, pesquisadora e curadora do banco de germoplasma em palmeiras da Embrapa Amazônia Oriental. “Oferecemos sementes de qualidade e métodos de plantios para os produtores, que aos poucos estão entendendo que precisam cuidar mais e melhor do cultivo para que tenham retorno econômico.” Duas novas variedades devem ser lançadas nos próximos anos, de modo a ampliar a área plantada de açaí, hoje de cerca de 50 mil hectares, ainda restrita se comparada com o estimado 1 milhão de hectares ocupados com as populações nativas de açaizeiros.

Un I v E r S o S PA r A lE lo S

Em um estudo recém-concluído, um grupo de pesquisadores do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea) da Universidade Federal do Pará (UFPA) identificou movimentos e tensões que estão redefinindo o equilíbrio da economia do açaí. A área plantada está em expansão e aos poucos tende a se impor, por causa da maior produtividade, sobre a produção das áreas em que as palmeiras crescem em meio à mata. O consumo, também em expansão, acirrou a concorrência entre as empresas e fez o custo da matéria-prima subir. As políticas públicas capazes de promover a inovação, reduzir perdas e resolver problemas antigos ainda são escassas. Ninguém sabe o que fazer com a quantidade imensa de caroços, já que se retira apenas uma fina camada superficial do fruto para fazer o líquido espesso consumido no café da manhã ou nas refeições. A possível utili-

zação dos caroços como combustível para fornos ou em adubos orgânicos parece não acompanhar a velocidade com que se acumulam em terrenos vazios ou em sacos espalhados pela cidade. Dois universos paralelos emergiram da pesquisa da UFPA. Um é o dos batedores de açaí, um grupo difuso com estimados 4 mil pequenos comerciantes, identificados por placas vermelhas – Açaí do Edil, do Jesus, do Gordinho – em frente às casas. Eles se abastecem diariamente das feiras de produtores e vendem açaí batido na hora por R$ 5 ou R$ 6 o litro para consumo imediato de um público que mora a poucas quadras de distância do ponto de venda. O outro universo é o das empresas processadoras de polpa de açaí, geralmente pequenas, que consomem a produção dos plantios e abastecem os distribuidores do Rio de Janeiro e de São Paulo. Enquanto os batedores avançam sem grandes problemas, os representantes das empresas relataram dificuldades para financiar a produção, investir em novas tecnologias e se manter. De acordo com esse estudo, sete empresas permaneceram, sete entraram e 14 faliram desde 2002. Os pesquisadores acreditam que outras podem fechar nos próximos anos por causa do aumento do custo da matéria-prima, agora mais disputada pelos batedores.

Como as sandálias Havaianas, o açaí era coisa de pobre, mas caiu no gosto da classe média

14 empresas faliram de 2002 a 2010 e outras podem fechar nos próximos anos

depois que começou a ser exportado e foi adotado como parte da dieta dos esportistas. Suas qualidades nutritivas também ganharam valor: a polpa dessa fruta é rica em gorduras monoinsaturadas, que previnem doenças cardíacas e obesidade, e em antocianina, o pigmento arroxeado que ajuda a reduzir os resíduos conhecidos como radicais livres.

“O açaí ganhou legitimidade social”, diz o economista Francisco de Assis Costa, coordenador do estudo, apresentado em janeiro de 2012 a empresários e representantes do governo e de centros de pesquisa. Refletindo o crescente interesse dos consumidores, de 2002 a 2010 a produção saltou de 300 mil para 800 mil toneladas, o número de empregados de 679 para 1.052 e o valor da produção de R$ 23 milhões para R$ 83 milhões, mas a margem de lucratividade caiu de 50% para 12%.

“O preço de venda caiu em razão da concorrência

e o preço da matéria-prima subiu porque há mais demanda”, diz Costa (ver gráfico abaixo).

“Conseguimos entender os fundamentos da crise estrutural por que passa esse negócio. Se não for reconhecida, essa crise pode levar a uma concentração de empresas no Pará, com o fechamento das mais frágeis, e ao fortalecimento das empresas em estados vizinhos. Já estão surgindo outros centros de produção de açaí”, afirma Costa. Segundo ele, a ausência do poder público implicará o avanço do latifúndio em detrimento de sistemas agroflorestais como o do açaí e da concentração, em vez da distribuição de renda. “Esses efeitos se colocariam na contramão do discurso que apregoa a floresta como um insumo e um desenvolvimento sustentável e inclusivo para a região.”

Costa começou a analisar as conexões entre a economia rural e a urbana em 1977. Depois de um estudo pioneiro sobre a produção de borracha natural no Pará pela Ford, ele mostrou que as comunidades camponesas têm capacidade própria de inovar, renovando cultivos e técnicas de trabalho, e não são passivas e destinadas ao desaparecimento, conforme o senso comum. Ele ajudou a desfazer conceitos equivocados sobre a região ao demonstrar que os ciclos econômicos, como o da borracha, complementaram – e não substituíram, como se costuma dizer – estruturas econômicas já estabelecidas, fundamentadas na agropecuária. Com apoio da Fundação Ford, Costa lançou em outubro os primeiros seis livros da coleção Economia Política da Amazônia, com os principais estudos, revistos e atualizados, sobre desenvolvimento regional da Amazônia realizados nos últimos 35 anos.

bAI x A gov E rn A nç A

DOS CUSTOS

gastos com matéria-prima sobem, reduzindo a lucratividade

Para ele, os impasses do chamado arranjo produtivo local (APL) do açaí expõem as dificuldades em aproveitar os recursos naturais da Amazônia de modo organizado e sustentável, que pressupõem uma maior atuação do poder público como força organizadora: “Governança e políticas públicas, que praticamente inexistem, poderiam evitar a elevação de custos e estimular a produtividade”. Em 2003, ao examinarem a economia do açaí pela primeira vez, Costa e sua equipe observaram uma fraca articulação institucional. Havia, porém, uma mobilização crescente entre os produtores, representantes de centros de pesquisa e organizações do governo estadual e federal que pareciam interessadas na valorização de organizações coletivas como as do açaí. “Todos pareciam crer que estava se formando uma política de efetiva valorização dos APLs, mas aos poucos a mobilização se desfez, à medida que o poder decisório se concentrou, e hoje cada um está resolvendo seus próprios problemas, sem a visão do coletivo”, observou Costa. Ele foi coordenador-geral de planejamento da Agência de Desenvolvimen-

Equilíbrio e rapidez: Antonio da Silva colhe um ramo com grãos maduros de açaí (esquerda) e os separa sobre um cesto (acima)

to da Amazônia (ADA) de 2003 a 2005 e desde 2011 coordena a diretoria de estudos e políticas regionais do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), de Brasília.

Em 2011, ao reexaminar a cadeia produtiva do açaí na Região Metropolitana de Belém, a equipe da UFPA detectou um cenário de desolação, marcado pelo distanciamento entre produtores e processadores de açaí, ausência de políticas de apoio, dificuldades de acesso a empréstimos bancários e escassez de governança. “Faltam políticas públicas também para estimular a inovação e definir a qualidade do açaí. Ninguém sabe hoje dizer o que é um bom açaí”, diz o economista Danilo Araújo Fernandes, professor da UFPA que participou do estudo. “Se houvesse um controle de qualidade mais forte, haveria mais proteção contra a competição desonesta. Uma maior regulação do governo ajudaria a criar marcas locais, definindo lugares de origem, como se faz com o vinho.”

Aç A í n A c AI x I nh A

Os pesquisadores verificaram que o interesse das empresas e produtores por inovações cresceu de 2002 a 2007, refletindo a expansão do mercado, mas caiu de 2007 a 2010, em consequência do aumento do custo da matéria-prima e da crise de liquidez (ver gráfico abaixo). As empresas enfatizaram o desenvolvimento de novos produtos, como o açaí liofilizado, o mix de açaí – um sorvete com polpa dessa fruta, pasteurizado e misturado com outras frutas e às vezes com granola – e de energéticos e de suco em embalagens tetrapack

“Entrei nesse negócio em 2002 e logo vi que agregar valor e criar produtos era a saída”, diz o empresário paraense Bony Monteiro. Empreendedor arrojado, ele está implantando novas estratégias para transformar um comércio centenário.

Em 10 anos a cadeia produtiva passou da mobilização coletiva para o salve-se quem puder

Monteiro conta que comprou uma empresa processadora de polpa, contratou engenheiros para desenvolver máquinas de extração da polpa sem contato manual, depois vendeu a empresa e em 2012 comprou outra, em Igarapé-Miri, um centro produtor de açaí, a 300 quilômetros de Belém. Durante a safra, saem de lá três caminhões-pipa por semana com o açaí que será envasado em embalagens tetrapack em duas fábricas no Rio de Janeiro. “Tivemos muitas dificuldades no início”, ele relembra. “Ao ser envasado, o açaí entupia, azedava, mudava de cor.” Criativo e crítico das atuais formas de produção e comercialização, Monteiro lançou sua marca própria, Bony Açaí, promovida por meio de atletas que ele patrocina, e pretende lançar em breve combinações com outras frutas ou alimentos à base de açaí para serem consumidos entre as refeições.

Na Estação das Docas, ao lado do mercado municipal, uma sorveteria vende sorvetes de açaí e outras frutas regionais como uxi, bacuri e cupuaçu. Um quiosque expõe biojoias – pulseiras, colares, anéis – feitas de jarina, a semente de uma palmeira dura a ponto de ser chamada marfim da Amazônia. Os sorvetes e as bijuterias indicam que a exploração da biodiversidade amazônica ainda depende predominantemente de iniciativas individuais, intuição, sorte e capital privado. n

é a atual taxa de lucratividade. em 2002 era de 50%

luzeia o superguaraná

Pesquisadores pretendem ampliar produtividade com novas variedades e ajustes nas técnicas de plantio

t EXtO c arlos Fioravanti

FOtOs Eduardo cesar, de Maués, Amazonas

quase sem suar sob o forte sol do meio-dia do início de novembro, o maranhense José de Ribamar Cavalcante Ribeiro apresenta as novas variedades de guaranazeiro ( Paullinia cupana) que crescem no campo experimental da Embrapa Amazônia Ocidental em Maués, principal município produtor de guaraná no estado do Amazonas. A Luzeia, um dos cultivares, impressiona pela alta produtividade, elevada resistência genética às doenças mais comuns a essa cultura e – uma característica que interessará diretamente aos consumidores – pelo teor de cafeína, de 4,6%, considerado alto para o guaranazeiro. O teor médio de cafeína das variedades de guaranazeiro consumidas atualmente é 3% mais alto que o do café (de 1% a 2%). Além disso, o efeito estimulante da cafeína do guaraná pode ser mais prolongado, por causa das ligações com

os taninos. Por sua vez, os taninos respondem por 7% do peso seco e ajudam a reduzir os resíduos do metabolismo celular conhecidos como radicais livres, cujo excesso prejudica o organismo.

Nos testes em campo, algumas plantas mais produtivas desse novo cultivar, provavelmente por causa do microclima da estação experimental, produziram até 35 quilogramas (kg) de frutos por planta, o que rende até 5 kg de sementes torradas. A BRS Maués, até agora a variedade mais produtiva, lançada em 2000 e bastante cultivada, produz acima de 1,5 kg, podendo atingir até 3 kg de sementes torradas por planta, segundo Firmino José do Nascimento Filho, engenheiro agrônomo paulista que trabalha no melhoramento genético dessa espécie desde 1983 e integra a equipe da Embrapa dedicada ao guaranazeiro.

José Clério Rezende Pereira, fitopatologista da Embrapa, depois de seis anos de testes intensivos em campo, verificou que a Luzeia apresenta uma resistência elevada a duas doenças causadas por fungos que são comuns no guaranazeiro – a antracnose, que ataca as folhas e reduz a produção de frutos, e o superbrotamento, que deforma os brotos e as flores. Uma característica adicional é uma provável resistência à seca. “Estamos há 20 dias sem chuva”, diz Ribeiro, o supervisor do campo experimental da Embrapa em Maués, alongando o olhar sobre a terra seca, “e parece que essa variedade nem sentiu a estiagem”.

Em c A m P o E m 2014

Esse e outros três novos cultivares de guaranazeiro, alguns com resistência ainda maior a doenças, foram lançados em 2011 para uso no estado do Amazonas. A partir de janeiro de 2013, viveiristas devem começar a produzir as mudas, a serem vendidas a partir de outubro para os produtores e plantadas até maio, na estação chuvosa de 2014. Se tudo correr bem, os frutos pretos que lembram olhos podem começar a ser colhidos três anos depois do plantio, com uma boa produtividade a partir do quarto ou quinto ano. Desde 1976, quando começaram a avaliar e selecionar os guaranazeiros mais produtivos e resistentes a doenças – em resposta à queda de produtividade na região, causada pelo avanço de pragas –, os pesquisadores da Embrapa formaram um banco de germoplasma com cerca de 300 acessos (geralmente um aces -

A estrela do momento

novo cultivar se destaca entre os já plantados luzeia outros cultivares

tEOR DE c AFEínA (% sobre o peso seco) 4,6% 3%

PRODuçãO (Kg/planta/ano) 3,62 1,5

PRODutiviDADE (Kg/hectare) 1.200 a 1.500 600 a 750

Pesquisadores também promovem cursos regulares para mostrar aos produtores como aprimorar o cultivo

so corresponde a mais de uma planta). Desse material, selecionaram os 32 que mais se destacavam e até agora elegeram 19 novos cultivares, avaliados por pelo menos 10 anos em campo e repassados aos produtores a partir de 2000. Os especialistas da Embrapa propuseram uma nova forma de propagação, não mais por sementes, como antes, mas por estacas, retiradas dos galhos das plantas mais saudáveis e produtivas, como forma de reduzir a variabilidade genética, que pode ser prejudicial quando excessiva. Segundo ele, as variedades que seguirão para as mãos dos produtores em 2013 devem manter as características apresentadas nos testes em campo, já que foram acompanhadas e se mantiveram estáveis durante 35 anos. Os novos cul-

tivares, se os produtores e consumidores os aceitarem, poderão ajudar a recuperar a produção da região, hoje de cerca de 250 toneladas por ano. “Era para ser de mil toneladas por ano”, diz Ribeiro. Ele acredita que esse patamar pode ser atingido em três anos, desde que os produtores adotem variedades mais produtivas e mais resistentes a pragas e aprimorem as técnicas de cultivo, de modo que as plantas possam produzir mais.

Com esse propósito, a equipe do campo experimental da Embrapa em Maués promove cursos regulares para mostrar técnicas mais aprimoradas de plantio, adubação e poda aos 2 mil produtores da região, a maioria pequenos, cuja produção não passa de 600 a 800 kg por ano. Em 2011, segundo o IBGE, a produtivi-

dade média dos produtores de Maués, Presidente Figueiredo, Itacoatiara e Urucará, no Amazonas, foi de 206 kg por hectare (ha) de semente seca, abaixo da produtividade da Bahia, de 408 kg/ha. A Bahia é hoje o maior produtor brasileiro de guaraná (60% da produção nacional, de cerca de 2.500 toneladas por ano), seguida pelo Amazonas (24%) e Mato Grosso (12%). Segundo o IBGE, os frutos colhidos são usados na produção de refrigerantes (44%), extratos, xaropes e pó (24,5%), em laboratórios em geral (21%) ou exportados in natura (10,5%).

Firmino conta que ele e sua equipe procuram oferecer alternativas aos produtores, com base nas informações dos

Os segredos de um bom guaraná: mudas bem tratadas desde o viveiro (acima) produzem cachos carregados de frutos (ao lado) que são torrados lentamente em fogão a lenha (abaixo)

estudos em campo. “Para atingir as cifras mais altas de produtividade”, diz ele, “os produtores teriam de dar mais atenção às nossas recomendações”. Outra possibilidade, em fase de avaliação, é o adensamento de plantas, que poderiam ser plantadas a uma distância de 4 metros entre elas e de 4 metros entre as fileiras, resultando em 625 plantas por hectare, em vez de 5 por 5 metros com 400 plantas por hectare.

JESU ítAS , índ I o S E méd I co S Desfazer hábitos estabelecidos, porém, não é fácil. Ribeiro conta que muitos produtores veem a planta viçosa e hesitam em fazer a chamada poda de frutifica -

ção, que formará ramos novos. “O ramo novo é que produz, os ramos velhos não produzem mais”, ele insiste. No campo experimental de Maués, apenas com os cuidados básicos e sem irrigação, que os produtores não podem usar, a equipe de Ribeiro colhe pelo menos 9 kg de frutos ou 1,5 kg de sementes torradas por planta, “cinco vezes mais que a média dos produtores!” Ribeiro e sua equipe cuidam de 5 mil guaranazeiros adultos em plena produção e 1.036 em início de produção, selecionando as variedades mais promissoras e testando novas técnicas de adubação e cultivo. “Já fomos 30 trabalhando em campo, nos anos 1980, mas as vagas não foram repostas.”

Falta consenso também em como secar e torrar os grãos colhidos. Alguns produtores secam ao sol e torram em fornos, outros adotam o método tradicional: em fogões a lenha, em que os grãos são mexidos continuamente, cerca de seis horas por dia, enquanto tostam lentamente. O cultivo do guaraná começou em Maués, chamada inicialmente de Luzeia, com os índios Sateré-Maué, que vivem ao longo do rio Maués e seus afluentes. No século XVII, o jesuíta João Felipe Betendorf observou que esses índios, depois de tomarem guaraná, caçavam durante dias e sentiam menos fome. Em uma retrospectiva histórica do guaraná, Nigel Smith, da Universidade da Flórida, Estados Unidos, e André Luiz Atroch, pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental, registraram que o guaraná era usado como fortificante, estimulante ou para tratar febres, dores de cabeça e diarreias durante o período colonial. Em 1872, um médico inglês relatou no British Medical Journal que o guaraná do Brasil servia para neuralgia e problemas urinários como blenorreia e já era usado com mais frequência na França e na Alemanha.

O guaraná da Amazônia começou a entrar em refrigerantes industrializados e bebidas caseiras no início do século XX e hoje é sinônimo de energético, puro ou batido com leite, frutas ou ovos. Os usos mais recentes indicam que o guaraná ajuda a matar a fome e a perder peso. Uma das poucas fábricas de extrato de guaraná, usado em vários tipos de bebidas, funciona em Maués e importa matéria-prima de outros estados para complementar a produção local, que já foi a maior do país. n

a lívio na gravidez

Cientistas brasileiros desenvolvem droga pioneira para tratar hipertensão que atinge

até 7% das mulheres gestantes do país

apré-eclampsia, doença específica da gravidez, se caracteriza pelo aumento da pressão arterial, inchaço nas pernas e nos pés e presença de proteína na urina, sintomas que aparecem na segunda metade da gestação. Ela pode evoluir para uma forma grave, a eclampsia, em que a paciente apresenta convulsões. Essa doença é responsável por cerca de 40% das mortes (687 mulheres) decorrentes da gestação e do parto no país que resultaram num total de 1.719 casos em 2010. Estima-se que entre 5% e 7% das grávidas brasileiras desenvolvem a pré-eclampsia e que a eclampsia se manifesta em 1,3 caso para cada mil partos, variando de 0,6 nos países desenvolvidos a 4,5 nas nações em desenvolvimento. Apesar da alta incidência na população, as causas dessas enfermidades ainda não foram bem estabelecidas e não existem medicamentos no mercado direcionados especificamente para seu tratamento porque os remédios tradicionais podem colocar em risco o desenvolvimento do feto. A dificuldade no tratamento pode ser superada em breve porque um inédito medicamento anti-hipertensivo para o período da gravidez desenvolvido por um grupo de pesquisadores brasileiros da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da empresa União Química já passou na primeira fase dos testes clínicos.

“Entre 2009 e 2011, aplicamos a formulação em um grupo de 14 gestantes com pré-eclampsia grave, no qual a interrupção da gravidez era recomendada, e vimos que ela melhorou a função dos vasos sanguíneos, sem ter sido tóxica nem para as mães nem para os fetos”, afirma o médico Robson Augusto Souza dos Santos, professor do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG. A droga é baseada em um peptídeo (fragmento de proteína) produzido pelo próprio organismo humano, a angiotensina 1-7, que atua no controle cardiovascular, ajudando a dilatar as paredes das artérias. Em grávidas que sofrem de pré-eclampsia há uma redução dos níveis dessa substância no plasma sanguíneo. O próximo passo da pesquisa, previsto para o primeiro semestre de 2013, é ampliar os ensaios para uma amostragem maior, de 100 mulheres, e, depois, envolver outros centros de pesquisa do país e, possivelmente, do exterior – o chamado estudo multicêntrico.

“Imaginamos a conclusão de todos os testes clínicos em dois anos e, numa previsão conservadora, o medicamento poderá ser lançado dentro de cinco anos. Esse prazo irá depender da parte regulatória dos órgãos competentes”, diz Santos, que também coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanobiofarmacêutica (INCT-Nanobiofar), com sede na UFMG. Santos é também sócio-fundador da Labfar, empresa spin-off, originada do mesmo INCT, voltada à

Yuri vasconcelos *

inovação farmacêutica, química, veterinária, cosmética e de equipamentos médicos.

Tanto o Nanobiofar quanto a Labfar participam do desenvolvimento da droga, da mesma forma que a União Química, de capital nacional, que licenciou da UFMG patentes relacionadas ao medicamento.

A angiotensina 1-7, ou, simplesmente, ang-(1-7), é uma substância composta por sete aminoácidos que faz parte de um sistema denominado renina-angiotensina (SRA), formado por um conjunto de peptídeos, enzimas e receptores envolvidos no controle do volume de líquido extracelular e na pressão arterial. Em linhas gerais, o controle da pressão arterial em pacientes hipertensos centra-se na angiotensina I, hormônio produzido na circulação sanguínea. Quando o sangue entra pelos pulmões, a enzima conversora de angiotensina (ECA) transforma a angiotensina I em angiotensina II, enzima apontada como a maior responsável pela

Em 2005, a UFmg licenciou as patentes das formulações endovenosa e oral da nova droga para a União Química

hipertensão ao fazer as artérias se estreitarem, além de estimular a liberação de outros hormônios que elevam a pressão sanguínea. As drogas hipertensivas convencionais visam impedir que a ECA quebre a angiotensina I e tentam bloquear os efeitos da angiotensina II. Assim, agem para inibir o aumento da pressão. A ação do medicamento desenvolvido em Minas Gerais é outra. Ele atua no mecanismo fisiológico da mulher normalizando a concentração no plasma sanguíneo da angiotensina 1-7, substância que tem propriedades vasodilatadoras (ver a ação da nova droga no infográfico abaixo).

c omo funciona a nova droga

Medicamento vai atuar no mecanismo fisiológico das pacientes, normalizando níveis de uma proteína com função vasodilatadora

PrESSão normAl hIPErtEnSão

Sangue

Angiotensina 1-7 em pouca concentração

Angiotensina 1-7 vaso comprimido

Mulheres grávidas com pré-eclampsia apresentam redução nos níveis de angiotensina 1-7 no sangue. Esse peptídeo, um fragmento de proteína, possui propriedades vasodilatadoras

A queda nos níveis desse peptídeo, que é produzido pelo próprio organismo humano, provoca o estreitamento dos vasos sanguíneos e o consequente aumento da pressão arterial

Angiotensina 1-7 sintética

tr AtAmEnto

A nova droga desenvolvida pela Labfar, UFMg e União Química nada mais é do que uma versão sintética da angiotensina 1-7. normaliza as concentrações desse peptídeo no sangue, reduzindo a pressão arterial das pacientes

“Os medicamentos atuais para controle da pressão atuam no mecanismo vasoconstritor do sistema renina-angiotensina e não são endógenos, ou seja, produzidos pelo próprio organismo, mas moléculas feitas em laboratório. Por esse motivo, apresentam efeitos colaterais”, explica o coordenador do INCT-Nanobiofar. “A droga que estamos desenvolvendo não proporciona esse problema por ser o próprio peptídeo sintetizado por meios bioquímicos, mas com a mesma composição do existente no corpo humano.” De acordo com Santos, o medicamento, quando finalizado, também poderá ser usado para tratar hipertensão arterial geral. “Estudos prévios mostraram que a droga reduziu a pressão arterial de ratos hipertensos. O próximo passo será testar em humanos”, diz.

ASSIS t Ê nc IA P ré-n AtA l

“A proposta parece boa. A angiotensina 1-7 se constitui em parte ativa do sistema renina-angiotensina, tendo sido demonstrado ser um agente vasodilatador, portanto atuando como anti-hipertensivo”, diz o médico José Carlos Peraçoli, professor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu. “Não existe tratamento que determine a cura da pré-eclampsia, com exceção do fim da gestação. A prevenção da doença é uma das principais metas da assistência pré-natal.”

normalização da pressão

Até a década de 1980, a existência da angiotensina 1-7 era desconhecida e acreditava-se que o sistema renina-angiotensina era apenas vasoconstritor, ou seja, produzia somente efeitos maléficos – como a hipertensão – quando ativado de forma inadequada. Em 1980, no entanto, Santos descobriu, durante

seu pós-doutorado na Cleveland Clinic Foundation, nos Estados Unidos, que a ang-(1-7) era o principal produto da angiotensina I. “A primeira demonstração do efeito biológico dessa angiotensina foi feito em um estudo realizado em hipotálamo e hipófise de ratos, publicado na revista Proceedings of National Academy of Science (PNAS), em 1988”, lembra Santos. No ano seguinte, a pesquisadora brasileira Maria José Campagnole-Santos demonstrou os efeitos cardiovasculares dessa angiotensina em um rato vivo. Desde então, centenas de artigos já foram publicados sobre o tema.

De volta ao Brasil, o médico vislumbrou a possibilidade de desenvolver um medicamento anti-hipertensivo baseado na ang-(1-7). A pesquisa começou na UFMG, inicialmente no ICB, e as primeiras formulações ficaram prontas em 2003. Dois anos depois, a UFMG transferiu as formulações da nova droga, uma endovenosa e outra via oral, para a União Química. A empresa licenciou a patente das formulações e passou a integrar a equipe responsável por seu desenvolvimento. O INCT-Nanobiofar já entrou com o pedido de cerca de 15 patentes relacionadas à exploração do potencial terapêutico da ang-(1-7), sendo oito já concedidas.

Os recursos financeiros para realização dos testes clínicos no grupo de 14 grávidas foram aportados pela União Química e pelo Nanobiofar, que é financiado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). “Recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fapemig, além de verba da própria UFMG, foram importantes para desenvolver o conceito e as formulações da angiotensina 1-7. Essa etapa teve a participação do professor Ruben Sinisterra Millán, do Departamento de Química da UFMG”, diz Santos. “Apenas em 2012 investimos R$ 1 milhão no projeto, utilizados na montagem de laboratórios e compra de equipamentos”, diz Miguel Giudicissi Filho, diretor médico da União Química.

A Labfar entrou no projeto em 2010 para coordenar os ensaios clínicos e fazer a parte analítica da pesquisa. A empresa tem a divisão Ang-Tec que oferece ao mercado o trabalho de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos baseados na plataforma tecnológica da

c omo inexiste fora do país, o medicamento para a pré-eclampsia deverá ocupar um importante espaço no mercado externo

angiotensina 1-7. A Labfar também está envolvida em uma parceria internacional, com a empresa austríaca Attoquant, que poderá participar da nova fase de testes da angiotensina 1-7.

A formulação endovenosa foi utilizada nos testes clínicos realizados até agora na fase 2A (com um grupo reduzido de grávidas) e será empregada nos ensaios programados para o início de 2013, com 100 gestantes que sofrem da doença. Para esses testes, a União Química já aprovou investimento de R$ 400 mil a R$ 500 mil. A formulação oral já foi testada em camundongos e, a partir de 2013, será administrada em humanos saudáveis e pacientes hipertensos. “O grupo de P&D [Pesquisa e Desenvolvimento] da empresa, em Brasília, desenvolveu recentemente cápsulas de angiotensina 1-7 com três dosagens, de 0,35, 1,75 e 7 miligramas, com assessoria do professor Robson, indicadas para mulheres na pré-eclampsia, quando o quadro é reversível. As pacientes com eclampsia, na fase aguda, precisam tomar a injetável”, diz Giudicissi Filho.

“Essas etapas são necessárias para garantir a segurança no uso do medica-

mento. Se tudo der certo, essa rota poderá ser utilizada em mulheres com risco de desenvolver pré-eclampsia”, destaca Santos. Ele informa, também, que para alcançar com mais facilidade o mercado mundial será importante fechar parcerias internacionais. “Conversas iniciais com investidores de fora do país estão em andamento com essa finalidade”, diz o pesquisador, sem revelar o nome dos envolvidos. “A ideia é lançar o anti-hipertensivo no Brasil e fazer parcerias internacionais para ocupar um importante espaço no mercado externo”, diz Fernando de Castro Marques, presidente da União Química. n

*Com colaboração de Dinorah Ereno

Artigos científicos

FERREIRA, A.J.; R.A. SANTOS et al. Angiotensin(1-7)/angiotensin-converting enzyme 2/mas receptor axis and related mechanisms. International Journal of Hypertension. Publicado on-line em 9 abr. 2012.

M. T. SCHIAVONE; R. A. SANTOS et al. Release of vasopressin from the rat hypothalamoneurohypophysial system by angiotensin-(1-7) heptapeptide. Proceedings of the National Academy of Sciences. v. 85, n. 11, p. 4.095-98. jun. 1988.

referência mundial

inovações nas áreas de saúde da mulher e proteção solar da Johnson & Johnson são exportadas para o resto do mundo

considerada uma das maiores subsidiárias da companhia fora dos Estados Unidos em produção e vendas, a Johnson & Johnson do Brasil tornou-se também referência em pesquisa e desenvolvimento (P&D). “Hoje o centro de pesquisa mundial na linha da saúde da mulher, composta principalmente por absorventes higiênicos, é aqui no Brasil, uma decisão tomada pela matriz no ano passado”, diz Samuel Abel Moody Santos, 53 anos, vice-presidente de P&D para a América Latina. O Centro de Pesquisas e Tecnologia (CPT) da Johnson brasileira está instalado dentro de um complexo industrial que ocupa uma área de 910 mil metros quadrados (m²), dos quais 700 mil m² são áreas verdes, em São José dos Campos, a 72 quilômetros de São Paulo. É também no CPT que se concentra o desenvolvimento de produtos de proteção solar para a América Latina, Europa e Ásia – um papel de protagonismo que foi conquistado ao longo de décadas. Em 1975, por exemplo, quando Santos começou a trabalhar na Johnson após terminar o se-

gundo grau (atual ensino médio) em técnico mecânico, sua função era projetar máquinas. “Na época, os equipamentos para manufaturar os nossos produtos eram desenhados e fabricados aqui, porque a importação de máquinas tinha um custo altíssimo.” O centro de P&D, que em 2012 completou 40 anos em São José dos Campos, após ser transferido do bairro da Mooca, em São Paulo, não foi no início criado para desenvolver produtos para o mercado brasileiro. Sua função era pesquisar matérias-primas para os produtos conhecidos lá fora que seriam lançados aqui. A empresa chegou ao país em 1933 para suprir o mercado brasileiro com produtos de uso hospitalar e doméstico, como algodão, gaze, esparadrapo e compressas cirúrgicas.

O absorvente feminino Carefree, por exemplo, tinha como núcleo de absorção uma matéria-prima que até hoje não é fabricada no mercado brasileiro. Os pesquisadores daqui desenvolveram um produto com igual desempenho e alguns benefícios adicionais usando matérias-primas totalmente nacionais. O produto hoje é vendido

na América do Norte, Europa e em toda a Ásia. “Esse desenvolvimento, de certa forma, passou a dar a esse centro credenciais globais que até então não tínhamos”, diz Santos, que, no final do curso de engenharia na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), desenhou uma máquina para testar amostras em planta-piloto, o que lhe rendeu um convite para trabalhar no centro de P&D em outubro de 1980.

Em 1994, quando já era gerente de pesquisa da Johnson no Brasil, foi a Xangai, na China, para liderar o desenvolvimento e lançamento de absorventes higiênicos no mercado chinês. Ficou por lá durante um ano e meio, período em que se dedicou ao desenvolvimento do produto, identificação das matérias-primas que seriam utilizadas na sua composição e montagem da fábrica. De Xangai, foi transferido para a sede mundial da companhia em New Brunswick, no estado de Nova Jersey, Estados Unidos. Após mais de 15 anos na matriz, voltou ao Brasil em maio de 2011 para assumir a vice-presidência de P&D para a América Latina. “Nossa pesquisa é

segmentada em áreas”, relata. “São mais de 20 áreas com focos diversos, porque nosso objetivo é ter peritos em cada área.”

Um dos grupos de pesquisa, por exemplo, chamado de Ciência do Consumidor, tem como foco identificar necessidades e desejos dos consumidores. À frente desse grupo está Rosana Rainho das Neves, 53 anos, gerente sênior de P&D, graduada e pós-graduada em engenharia química pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e há 30 anos na empresa. “Eu inaugurei essa área no Brasil em 1992, quando ainda estava iniciando na Ásia”, diz Rosana. Seu trabalho tem foco em dois momentos bem distintos do processo de desenvolvimento. Um deles é quando ainda não existe um produto. “Buscamos entender o consumidor e captar os seus insights para que, junto com os pesquisadores, possamos gerar ideias de novos produtos.” O segundo momento é na fase de desenvolvimento, em que são feitos testes dos protótipos com o consumidor até chegar a um produto pronto para ser lançado no mercado.

equipe de pesquisadores em São José dos Campos

Samuel Santos (à direita), vice-presidente de P&D para a América Latina da Johnson, com

Depois de estabelecer a área de Ciência do Consumidor, onde ficou por nove anos, Rosana assumiu a gerência de produtos para cuidados com a pele (skin care) e há oito anos retornou para o grupo que ela criou. “Toda vez que temos um novo produto, precisamos saber a impressão do consumidor sobre ele e para isso fazemos testes qualitativos e quantitativos”, diz Rosana, que fez um curso de Master of Business Administration (MBA) de 900 horas em gestão de negócios na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em parceria com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Os testes internos são feitos a partir de uma base de dados com 1.500 funcionários cadastrados, que participam voluntariamente. Quando a equipe de pesquisa chega a um protótipo de produto que considera ótimo, os testes são feitos com uma base maior de consumidores externos, recrutados por agências.

A divisão de consumo da Johnson no Brasil, que inclui produtos para cuidados com a pele, proteção solar, higiene oral, cuidados com bebês e crianças, cuidados femininos e medicamentos isentos de

1 Hélices de um agitador mecânico

2 Avaliação de corantes em laboratório

3 Mechas usadas para testar produtos

4 Condicionador infantil em fase de testes

prescrição médica, é o segundo maior mercado da empresa no mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, onde se localiza a sede da companhia. “A linha de cuidados com a pele, por exemplo, é a que mais vende globalmente”, diz Santos. Em 2011, o faturamento global da Johnson & Johnson Consumo foi de US$ 14,9 bilhões. A companhia é formada por mais de 250 empresas que ope -

ram em 60 países e empregam cerca de 118 mil pessoas. No Brasil são mais de 5 mil funcionários, dos quais 280 trabalham na área de P&D em toda a América Latina – no caso estão incluídos Argentina, Chile, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Panamá, República Dominicana, Paraguai, Uruguai, Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, México e Brasil. “Desse total, 200 têm formação superior e 80 são técnicos, dos quais 80% atuam no Brasil”, diz Santos. Farmacêuticos e engenheiros químicos são as duas principais formações acadêmicas, mas biólogos, químicos, físicos, médicos e dentistas também estão entre os pesquisadores. Cerca de 30% deles têm mestrado e 10% doutorado.

O grupo de Rosana tem um canal direto com o grupo de desenvolvimento de produtos, do qual faz parte Paula Scarcelli D’Oliveira Dantas, de 37 anos, gerente sênior de P&D da área de cuidados com

Samuel Abel moody Santos, vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento para a América Latina

rosana rainho das neves, gerente sênior de P&D

Paula Scarcelli d’oliveira dantas, gerente sênior de P&D da área de cuidados com a pele

Sérgio luiz de oliveira, gerente sênior de assuntos científicos, pesquisa analítica e pesquisa microbiológica

José Eduardo Pelino, gerente de relacionamento científico e profissional da área de cuidado oral

Universidade da c alifórnia – doutorado e pós-doutorado inSTiTUiçõES QUE FORMARAM PESQUiSADORES DA EMPRESA

Umc – graduação

USP – graduação e pós-graduação

ESPm/ItA – MBA

USP – graduação Fgv – MBA

Univap e Faculdade oswaldo cruz – graduação

Univap/Unicamp – mestrado

Fgv – MBA

Unesp – graduação e mestrado

USP – doutorado

a pele e graduada em farmácia bioquímica na USP. “Trabalhamos desde o ponto zero do projeto até o desenvolvimento do produto”, diz Paula, que passou por duas grandes empresas farmacêuticas e por uma fornecedora de matérias-primas para medicamentos e cosméticos antes de entrar na Johnson em 2005. “Desde que estou aqui tive muitas oportunidades de aprendizado.” Durante dois meses, ela trabalhou em um projeto de cosmetologia em um grande centro de pesquisa da empresa perto de Princeton, em Nova Jersey, nos Estados Unidos. “Depois disso fiquei mais um mês no mesmo local como shadow [sombra] de uma pessoa com um alto cargo gerencial para me inspirar nos meus projetos”, diz Paula. Como ela queria se aprofundar na área de consumo, fez um MBA em marketing na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Além disso, fez uma especialização em cosmetologia, na área de cabelo, no Conselho Regional de Farmácia, e um curso de avaliação em toxicologia de cosméticos na Bélgica.

g r UP o m U lt I d IS c IP lI n A r

A avaliação de segurança e eficácia dos produtos desenvolvidos pelo CPT é feita pela equipe de Sérgio Luiz de Oliveira, de 45 anos e há 27 anos na companhia, que ocupa o cargo de gerente sênior de assuntos científicos, pesquisa analítica e

“hoje uso como suporte para os produtos as várias linhas de pesquisa que conduzi na academia”, diz o dentista José Eduardo Pelino

pesquisa microbiológica de P&D. “Como as análises feitas envolvem a parte química, microbiológica e biofísica, o nosso grupo de pesquisa é multidisciplinar”, diz Oliveira, que começou na empresa como estagiário na área de P&D, após terminar o curso técnico em química. Na equipe formada por 30 pessoas encontram-se biólogos, químicos, farmacêuticos, matemáticos e biofísicos. “Temos de garantir que a fórmula que vai para o mercado consiga suportar todas as variações climáticas após o lançamento”, diz. Oliveira cursou matemática na Universidade Vale do Paraíba (Univap), que tinha um consórcio com o ITA, e química na Faculdade Oswaldo Cruz de São Paulo, além de mestrado na Univap, também uma parceria com a Unicamp, na área de bioengenharia, e MBA na FGV em gestão empresarial.

Além da equipe interna de P&D, a Johnson tem parcerias com USP, Unicamp, ITA, Univap, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na área de P&D também se encontram pesquisadores com extenso currículo acadêmico que fazem a ponte com professores de odontologia e profissionais da área, como é o caso do dentista José Eduardo Pelino, de 42 anos, formado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de São José dos Campos, onde também fez mestrado na área de microbiologia com fontes luminosas, como laser e LEDs, para prevenção de cáries, doutorado na Universidade da Califórnia em San Francisco, nos Estados Unidos, com foco nas propriedades ópticas de tecidos dentários, pós-doutorado na mesma universidade em clareamento dental, além de um doutorado na USP com bolsa da FAPESP. Além de ter consultório, Pelino deu aulas de mestrado na USP sobre laser em odontologia e nas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e foi diretor e coordenador do curso de pós-graduação em odontologia na Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul). Na Johnson desde 2009, Pelino ocupa o cargo de gerente de relacionamento científico e profissional. “Todos os produtos de cuidado oral que são distribuídos pela América Latina passam pelo meu crivo científico”, diz Pelino, que ressalta: “Várias linhas de pesquisa que conduzi ao longo da carreira acadêmica hoje consigo usar na indústria como suporte para produtos”. Os estudos na área de cuidado oral contam com a colaboração de especialistas em óptica da Univap e do Instituto de Química da USP de São Carlos. n

h U m A n I dA d ES

OCUPA çãO TERR i TOR i AL y

Desenho explica como levantar uma fortaleza. Exercício de José nunes da Costa, 1761, suposto discípulo da Academia da Fortificação de Lisboa

engenho e arte no b rasil colonial

Livro mapeia o papel dos engenheiros militares portugueses

no processo de ocupação do território

Durante a expansão colonial portuguesa nos séculos XV e XVI a figura de proa foi o cosmógrafo, responsável pelas cartas náuticas que conduziram a esquadra lusa por mares nunca dantes navegados. Na ocupação do território, o papel de destaque coube ao engenheiro militar que projetou fortificações, planejou cidades e mapeou as novas fronteiras da metrópole que, no caso do Brasil, garantiram também a posse de uma área além daquela convencionada pelo Tratado de Tordesilhas.

A idealização desses projetos – o desenho – foi objeto de pesquisa de doutorado de Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da Universidade de São Paulo (USP). O estudo exigiu uma década de investigação em arquivos portugueses e brasileiros, análise detalhada de cerca de mil documentos e uma ampla pesquisa sobre a formação dos engenheiros. Os resultados, reunidos no livro Desenho e desígnio: o Brasil dos engenheiros militares (1500-1822), editado pela Edusp com o apoio da FAPESP, é um belíssimo retrato do engenho e arte portugueses no processo de ocupação da colônia. “Os 247 engenheiros militares que atuaram no Brasil colonial não se limitaram à construção de sistemas de fortificações. Eram homens polivalentes: claudia Izique

fizeram igrejas, palácios de governadores, casas de câmara e cadeia, além de projetar estradas, pontes, cais, portos, aquedutos e hortos botânicos”, conta Beatriz.

Os engenheiros militares eram treinados para manipular com grande habilidade sua ferramenta de trabalho. “A cartilha básica do arquiteto e do engenheiro, desde os tempos de Vitrúvio [arquiteto e engenheiro romano do século I a.C.], ensinava que o desenho era um instrumento eficiente para demonstração da obra a realizar-se, bem como para a visualização prévia do conjunto, permitindo antever e corrigir os erros antecipadamente”, ela diz. A concepção prévia do projeto também permitia acomodar conveniências, orçamentos e materiais disponíveis no local. “Todos os projetos eram feitos em duas vias: uma para orientar o trabalho de empreiteiros e oficiais nos canteiros de obras, outra para a avaliação dos conselhos de Guerra e Ultramarino, criados a partir da Restauração, em 1640”, ela registra. Parte dos documentos destinados aos conselhos foi preservada na Torre do Tombo, no Arquivo Histórico Ultramarino e em outras instituições oficiais. Muitos deles compõem o acervo iconográfico do livro.

Os desenhos eram artefatos pragmáticos, submetidos à razão de Estado. “Eles revelam e ao mesmo tempo ocultam, na medida dos interesses em jogo”, sublinha Beatriz. Deixam claro, em sua avaliação, o papel de “mediador” das ações oficiais da Coroa que engenheiros militares desempenharam no processo de colonização do Brasil.

247 engenheiros militares construíram fortificações, igrejas, palácios, portos, entre outros

aciência do desenho orientou a prática oficial. A partir de 1573 a Coroa passou a investir na formação de fidalgos e técnicos, preparando-os para liderar “seus desígnios de conquista”. Criou, inicialmente, a Escola Particular de Moços Fidalgos do Paço da Ribeira, restrita à elite. Após a Restauração, os engenheiros passaram a ser recrutados entre os mais talentosos membros da Infantaria do Exército português, com a missão adicional de substituir profissionais estrangeiros então contratados a preço de ouro. “Eram homens eruditos e diferenciados, homens de campo e de gramática”, descreve Beatriz. Aritmética, geometria, trigonometria, óptica e astronomia eram conhecimentos indispensáveis. “A arquitetura militar era uma ciência e os engenheiros militares versados na sciencia e pratica da profissão, que serviam como braço direito da Coroa em tempos de paz e de guerra.”

No final do século XVII foram criadas aulas de arquitetura militar também nos principais centros urbanos brasileiros – Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Belém –, que acabaram por se tornar um dos

1 A cidade de Salvador, concebida por Miguel de Arruda e construída por Luis Dias (1549)

2 Planta e perfil do Forte Príncipe da Beira. Original: Mapoteca do itamaraty-RJ

principais vetores de irradiação da cultura arquitetônica e urbanística erudita do Brasil Colônia, antes mesmo da criação da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios (1816) ou da Academia Real de Belas Artes (1826). As aulas eram ministradas pelo engenheiro-mor do reino ou pelo engenheiro-diretor de uma província, acompanhado de um professor assistente, para um número nunca maior do que 12 jovens da estrutura do Exército, com especial talento para a profissão.

A autorização para a construção de uma obra pública obedecia a um longo ritual. O governador das armas da província ou o capitão-general das capitanias do Brasil convocava engenheiros para fazer a planta e orçamento que eram submetidos ao rei por intermédio do Conselho de Guerra e Ultramarino que ouvia o parecer do engenheiro-mor do reino. Aprovado o projeto, o governador convocava engenheiros e o vedor-geral – representante da Fazenda Real – para que a contratação de empreiteiros e mestres de ofícios e o exame da capacidade dos fiadores indicados pelos empreiteiros.

Apesar dos trâmites do processo de aprovação de uma empreitada pública, o número de engenheiros disponíveis era inferior à demanda, sobretudo porque, na ausência de arquitetos, eles acumulavam também tarefas civis, como a de erigir pontes, estradas, igrejas etc. “Além disso, eram autores de projetos de boa parte das novas vilas e cidades fundadas oficialmente pela Coroa, principalmente na metade do século XVIII e em áreas de fronteiras, e responsáveis pelo mapeamento do território. Não há dúvida de que tais profissionais foram os verdadeiros braços direitos do rei no ultramar”, comenta Beatriz.

mapear o território, ela enfatiza, significava conhecer, domesticar, conquistar e controlar, dentro dos limites convencionados pela Linha de Tordesilhas. “Os resultados favoráveis para os portugueses não foram fruto da divina providência, mas da previdência da Coroa, que, desde 1792, se munira dos dados necessários para formular uma estratégia de negociação com Castela, objetivando legitimar território invadido para além da fronteira convencionada de Tordesilhas. Os portugueses saíram na frente e desenharam mentalmente e materialmente o território, cuja posse queriam oficializar.”

Decifrando desenhos, aquarela e maquetes, o livro Desenho e desígnio expõe um lado até então ensombreado da relação entre a Coroa portuguesa e a colônia brasileira. “O livro mostra o modo como as grandes linhas estratégicas da política colonial portuguesa eram definidas para o Brasil e aplica-

das com o uso de recursos técnicos como a cartografia, os planos gerais de urbanização, projetos urbanísticos e de fortificações”, diz Nestor Goulart Reis Filho, da FAU, orientador da tese de doutorado de Beatriz. “Políticas com esses objetivos não poderiam ter sido aplicadas sem a presença dos engenheiros militares portugueses e dos oficiais europeus a serviço de Portugal”, afirma Reis Filho.

ele próprio contesta, desde 1964, por ocasião de sua livre-docência, a tese da “desordem” portuguesa no planejamento das cidades. “As normas disciplinadoras de construção e ampliação de cidades e vilas começaram a ser aplicadas no século XVI. Salvador foi fundada em 1549, com um traçado de alguma regularidade geométrica. Paraíba, hoje João Pessoa, foi fundada em 1580, com traçado regular. São Luís do Maranhão (1615), Taubaté (1645) e Itu (1657) também atendiam a norma desse tipo”, diz. “Graças à atuação dos engenheiros militares, na segunda metade do século XVIII já se registra esforço para impor normas urbanísticas a um número grande de povoações no Brasil, inclusive esquemas referentes às fachadas das edificações.”

mapear o território significava conhecer, domesticar, conquistar e controlar nos limites de tordesilhas

A “desordem” na ocupação do território refletiria outra ideia: a da desordem no processo de colonização, realizado por indivíduos degradados. No Império Português – “o mais antigo da Idade Moderna, o primeiro bem organizado segundo critérios de organização e administração”, sublinha Rafael Moreira, da Universidade de Coimbra, principal referência de pesquisa da autora em Portugal – a circulação não era livre.

“Imperava a mais estrita vigilância e um rígido controle de pessoas e bens”, ele afirma em seu texto de apresentação do livro. Os não portugueses, por exemplo, tinham de aportuguesar-se antes de se aventurarem no Novo Mundo.

“Aportuguesar-se era, muito simplesmente, jurar obediência ao rei de Portugal, falar português, ser católico, seguir os costumes básicos portugueses e, de preferência, integrar-se bem na sociedade casando com uma portuguesa e fazendo parte de alguma instituição de solidariedade social, como a Santa Casa da Misericórdia ou uma irmandade religiosa.”

No Oriente, nas ilhas Atlânticas, na costa africana ou no Brasil, esperava-se deles um compor-

1 Exercício de geometria prática (bico de pena) da aula militar da Bahia, 1779

2 igreja n. Sra. da Candelária

3 Projeto do Quartel da Tropa da Fortaleza de Santa Cruz de Anhato-mirim, de José da Silva Paes, datável de c. 1747

tamento digno à altura de seu juramento. Essa coesão, segundo afirma o pesquisador português, era garantida por uma instituição de má fama, o Santo Ofício da Inquisição. “Longe de ser o órgão de tortura que se pensa ou o famigerado e macabro instrumento de perseguição aos judeus, hereges e desviantes sexuais, a Inquisição era, em princípio, um complexo mecanismo que zelava pelo correto comportamento, a homogeneidade dos costumes e a uniformidade ideológica da população: pela unidade do povo, em suma”, escreveu Moreira no capítulo de abertura do livro.

oresultado dessa “onda antilusitana”, na avaliação de Moreira, compromete também a pesquisa da história da arte do Brasil colonial. Ele lamenta que estudiosos brasileiros prefiram, muitas vezes, buscar a origem da arte brasileira na Itália, por exemplo, rejeitando a influência lusa. “Penso que é um claro problema de rejeição. Portugal é hoje um pequeno país em profunda crise – quando no século XVI dominava o mundo! – diante de vizinhos muito mais ricos e poderosos, mas que nem sequer existiam como Estado. É claro que satisfaz muito mais o próprio ego ir buscar as raízes nestes do que naquele, mesmo incorrendo no mais total anacronismo. Mas essa é uma questão típica do Novo Mundo (encontrei a mesma atitude nos EUA): uma completa ausência

de sentido da história.” A autora, segundo Moreira, teria sido perspicaz o bastante para “escapar da onda antilusitana e italocêntrica”.

Na avaliação de Iris Kantor, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP), o livro é a sistematização “exemplar” do conhecimento que andava disperso em arquivos nacionais e estrangeiros, nos livros raros e nas monografias defendidas nas últimas três décadas, tanto no Brasil como em Portugal, ela sublinha. Desenho e desígnio transcreve quase toda legislação sobre a profissionalização dos engenheiros militares portugueses, documenta a composição das bibliotecas militares e inventaria minuciosamente a produção de manuais de arquitetura militar, a maior parte deles ainda inéditos e à espera de novos pesquisadores. “Com sensibilidade, Beatriz aquilata o peso dos modelos teóricos inspirados nos regimes estéticos europeus; chamando a atenção, porém, aos processos de transmissão dos saberes apreendidos a partir da experiência direta vivida no terreno”, diz Iris. “De seu estudo depreendem-se as transformações e adaptações da paisagem urbanística portuguesa ao universo americano: os paralelismos, as homologias e as hibridações que resultaram dos desafios de ocupar, apropriar e defender um território de vastíssimas dimensões”, conclui. n

niemeyer

no foco dos acadêmicos

Obras do criador de Brasília foram analisadas em estudos

asimplicidade aparente das obras de Oscar Niemeyer (1907-2012) esconde o trabalho árduo do arquiteto e suas muitas reflexões sobre o fazer arquitetônico. A compreensão desse percurso exige o olhar experiente e a análise aprofundada. Para dar conta dessa complexidade, que o mestre gostava de minimizar em suas declarações, muitos pesquisadores se debruçaram para entender como funcionava o universo personalíssimo de Niemeyer. O resultado desses esforços deu origem a uma série de estudos feitos por acadêmicos que se dedicaram a contextualizar as curvas e abóbadas na história da arquitetura, concluindo que poucos criadores mudaram tanto a sintaxe da profissão quanto Oscar Niemeyer. Pesquisa FAPESP reúne alguns dos trabalhos mais representativos sobre o mestre.

Tarefa que o próprio arquiteto deixou para os colegas. “Quando dou uma aula, declaro logo que não quero influenciar ninguém. Conto meus trabalhos, as dificuldades que encontrei, minha maneria de agir na arquitetura e comigo mesmo. O resto é com eles”, afirmava. O recado foi compreendido nas universidades. Um dos mais prolíficos estudiosos do mestre é Roberto Segre, professor da Universidade Federal do Rio

de Janeiro (UFRJ) e autor de, entre outros estudos, Paradojas estéticas de um Niemeyer definitivo (2008). “Ele reúne em si os princípios da lógica estrutural de Le Corbusier, a importância da natureza e da paisagem, junto com a significação da história e da tradição que se complementa com a necessária racionalidade para resolver os problemas da obra de arquitetura. Após estudar o terreno, o custo, os materiais e a relação com o entorno urbano ou natural surge a ideia, a proposta inovadora final que soma intuição à racionalidade”, escreveu Segre. “Ele reinventou a arquitetura moderna.”

oprofessor Julio Katinsky, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e autor de Caminhos do desejo: desenhos de Oscar Niemeyer na FAU-USP (2007), concorda que a trajetória do arquiteto brasileiro transcende as limitações internas e externas do fazer arquitetônico. “Não faltam nos ensaios de Niemeyer observações sobre aquilo que entende por beleza e as tarefas que se impõem aos arquitetos contemporâneos. Mas, como já acentuamos, não acharemos nunca uma definição válida para todo o sempre no seu conceito de beleza”, observou no estudo Técnica e arte na obra de Niemeyer (2007). “Por outro lado, sua obra de arquiteto, a par de revelar uma notável coerência desde as obras anteriores a Pampulha, mas que depois desta nos mostram que nelas já estava em germe o arquiteto futuro, nos revela

1 Colunas do Palácio do Planalto em Brasília

2 Centro Cultural Oscar niemeyer, em Astúrias, Espanha

3 Edifício Copan, centro de São Paulo

também um arquiteto que, ao longo de toda sua vida, soube sempre incorporar criativamente as inovações de seu tempo, num processo de autocriação e renovação permanente, desde suas primeiras obras publicadas até aquelas que estão saindo hoje de seu escritório.”

O tema da recorrência também chamou a atenção de Edson Mahfuz, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), autor de O clássico, o poético e o erótico: método, contexto e programa na obra de Oscar Niemeyer (2011). No artigo “Cinco razões para olhar com atenção as obras de Oscar Niemeyer”, o pesquisador analisa os principais traços da arquitetura do criador de Brasília. “Uma das características mais marcantes da obra de Niemeyer, que o diferencia do que fazem 99% dos demais arquitetos, é possuir forte identidade formal. Essa qualidade deriva da presença de estruturas formais claras como base da organização dos seus projetos, da utilização de formas elementares na configuração dos seus elementos constituintes e do fato de que o número de elementos em seus projetos é sempre limitado”, escreve Mahfuz. “Essas características definem uma obra altamente sintética, fácil de entender e de memorizar – por isso de alto poder simbólico – que nunca cedeu à tentação de fazer projetos excessivos em uma época classificada por alguns como neobarroca”, avalia.

Revisitar suas obras seria uma das virtudes de Niemeyer, segundo o professor. “Embora muito se fale sobre a originalidade das

concepções de Oscar Niemeyer, um exame detalhado da sua obra é suficiente para demonstrar que seu traço característico é a recorrência, a reutilização de soluções próprias ou de outros arquitetos, como foi o caso com a obra de Le Corbusier no início de sua carreira. Como todo artista que se preze, Niemeyer foi lentamente desenvolvendo um modo próprio de resolver programas arquitetônicos, ampliando seu repertório, adaptando e reciclando soluções já utilizadas”, analisa. “A obsessão pela originalidade implica que se espera da arquitetura de Niemeyer inovação constante, e em todos os níveis. Mas em função do caráter evolutivo, sua obra é previsível e facilmente reconhecível. Longe de ser um defeito, isso me parece ser uma das suas virtudes. Embora tenha dito que seu objetivo é causar espanto, o encontro com a maioria dos seus conjuntos nos transmite a sensação reconfortante de reencontro com algo já conhecido”, observou Mahfuz. Esse sentimento nascido de formas arquitetônicas foi examinado, em outro registro, pelo antropólogo Lauro Cavalcanti, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), que inovou ao analisar os projetos de Niemeyer por um prisma que reúne arquitetura, estética e sociedade, como em A doce revolução de Oscar Niemeyer (2007). “Todo arquiteto em fase madura revisita alguns de seus temas principais. Niemeyer o faz em temas como abóbadas, passeios arquitetônicos e leveza estrutural. Mas ele sempre surpreende com soluções novas, capaz de recriar linguagens, no que é único e raro. Há nele uma coerência na diversidade das várias fases, aliando estrutura e arquitetura em favor da forma”, analisou.

coerência que levou Carlos Dias Comas, professor da UFRGS, a analisar em O direito à diferença (2007) como bases, coberturas, curvas, clareiras foram utilizadas pelo arquiteto, exemplos de que Niemeyer ampliou o vocabulário e a sintaxe da arquitetura moderna. “A curva para Niemeyer não é episódica ou esporádica, não se une à efemeridade ou casualidade da compartimentação em debate com a permanência da estrutura ortogonal. A curva pode dispensar a reta, sobrepujá-la, equilibrá-la, mas sequer aparecer. Além de valorização igual de extremos opostos, a ambivalência é também ambiguidade. Os interstícios entre o projeto completamente curvo e o totalmente reto comandam a atenção”, afirmou. A genialidade das apropriações e soluções, porém, nem sempre o deixa livre das críticas. “Por volta de 1970, Brasília vira

Uma das características

que marcam a obra de niemeyer, que o diferencia de 99% dos arquitetos, é possuir forte identidade formal

o símbolo de tudo o que parecia ser errado com a arquitetura moderna, condenada por elitista, frívola, superficial, formalista e desumana como o autor de seus palácios”, escreveu. “A recuperação de seu prestígio começa em 1990, acompanhando, de algum modo, a recuperação da própria arquitetura moderna e o seu entendimento como polifonia, em que há lugares para o ascetismo e a diversificação formal”, pondera Comas.

Para Cêça Guimaraens, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, a polifonia é notável, mas passou a se repetir nos seus gestos arquitetônicos nas últimas décadas de sua vida, mais do que o desejável. “É preciso reconhecer que, desde os desconcertantes volumes dos Centros Integrados de Educação Popular (Cieps), o arquiteto prossegue a redesenhar as próprias e insólitas formas”, afirma em Sobre o novo em Niemeyer (2007).

Autora do Guia de obras de Oscar Niemeyer: Brasília 50 anos (2010), Sylvia Ficher, professora da Universidade de Brasília (UnB) , também questionou os projetos finais, muitos dos quais vê como “programas inúteis ou superdimensionados”. Tampouco aceita a liberdade dada a Niemeyer para intervir na área tombada de Brasília “com resultados questionáveis”. “Em geral, um arquiteto intervém na obra de outro. Niemeyer está intervindo negativamente em sua obra. Mas como afirmar que, no futuro, Brasília vai se ressentir de ter tantas obras suas?”, pergunta-se, de certo modo, antecipando a resposta. n c arlos haag

c ientistas e diletantes

Há 110 anos profissionais da ciência e amadores criavam a Sociedade

Scientifica de São Paulo

neldson marcolin

Durante os primeiros anos do século XX surgiu em São Paulo uma associação entre cientistas profissionais e amadores com a intenção de discutir e difundir temas científicos. Foi em uma reunião na casa de Edmundo Krug, botânico e professor do Colégio Mackenzie, que se decidiu criar a Sociedade Scientifica de São Paulo em 10 de junho de 1903. “Foi um dos primeiros movimentos de cientistas do país que não era exclusivo da medicina e da engenharia, com características de juntar todas as ciências em uma única instituição”, diz o físico e historiador da ciência Thomás Haddad, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP Leste).

Na época, São Paulo tinha o Instituto Histórico e Geográfico, a Sociedade de Medicina e Cirurgia e a Sociedade de Agricultura, Comércio e Indústria. A Sociedade Scientifica surgiu num momento em que as fronteiras entre as comunidades ainda não estavam completamente estabelecidas. Isso se refletiu na composição da nova instituição, fruto da iniciativa de cientistas e “alguns diletantes”, como Krug chamava os interessados em ciência que não eram cientistas profissionais.

Entre os primeiros a formar a sociedade, além de Krug, estavam os botânicos Alberto Loefgren e Gustavo Edwall, da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo, Vital Brazil, diretor do Instituto Soroterápico do Butantan, Job Lane, professor de biologia, Antonio Barros Barreto, engenheiro e professor da Escola Politécnica, Paulo Florence, professor particular, e Erasmo de Carvalho, professor de literatura do Mackenzie. Mais tarde uniram-se a eles Adolfo Lutz, médico, bacteriologista e entomólogo, Victor Dubugras, engenheiro e professor da Poli, e Belfort Mattos, futuro chefe do Serviço Meteorológico de São Paulo. Outras personalidades tornaram-se membros efetivos ou correspondentes, como Oswaldo Cruz, Emílio Goeldi,

1 Artigo de Lutz em alemão sobre insetos hematófagos, de 1905, e homenagem da sociedade a ele

2 nota de Splentore em italiano sobre toxoplasma, de 1908. na época ele ainda não havia nomeado o microrganismo 2

Euclides da Cunha e até políticos do Partido Republicano Paulista.

A missão da Sociedade Scientifica era melhorar o conhecimento da sociedade sobre descobertas científicas, lutar pelo ensino de ciências nas escolas, constituir uma boa biblioteca e até montar um museu. Apenas a biblioteca chegou a ser formada. Nos primeiros anos da sociedade havia conferências públicas em salas alugadas ou emprestadas. Em 1904 Vital Brazil, por exemplo, deu uma palestra sobre soro antiofídico, Belfort Mattos fez um relato sobre a influência das manchas

Primeira edição da revista, que durou até 1913. à direita, desenho retratando Hercule Florence, homenageado com a republicação de textos sobre sua viagem do rio Tietê ao rio Amazonas

solares no clima e Leopoldo de Freitas falou sobre a alma russa. “As conferências tinham um caráter assumidamente enciclopédico e eram acompanhadas por um pequeno e eclético público”, conta Haddad, que pesquisou o tema.

Em 1905 foi criada a Revista da Sociedade Scientifica de São Paulo, com circulação intermitente, que durou até 1913, e abordava assuntos muito variados. Alguns artigos publicados se tornaram referência. Para o primeiro número, Lutz escreveu, em alemão, um estudo sobre insetos dípteros hematófagos que até hoje é

Foto que compõe estudo do botânico Alfredo Usteri sobre coníferas, de 1905. é um dos raros textos ilustrados da revista

citado na literatura científica. O médico italiano Alfonso Splentore, então trabalhando em São Paulo, publicou em 1908 uma nota com a primeira descrição do microrganismo toxoplasma, ainda sem esse nome. Também foi republicada uma série escrita pelo artista e inventor Hercule Florence sobre sua viagem exploratória do rio Tietê ao rio Amazonas, que já havia saído pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro anos antes.

Na década de 1910 a instituição minguou. “O último registro que encontrei foi uma nota de convocação no jornal O Estado de S. Paulo, em 1917”, diz Haddad. As razões, segundo ele, podem estar exatamente no enciclopedismo e no diletantismo da maioria de seus membros, que se tornaram inaceitáveis com a crescente especialização do campo científico. Em 1916 foi criada a Sociedade (e, partir de 1921, Academia) Brasileira de Ciências, no Rio de Janeiro, seguindo os modelos das centenárias academias de Paris e de Lisboa, com seções específicas e feitas por e para cientistas.

o lugar

chico lopes

aCorporação se erguia, vista do canto de rua onde ele se encontrava agora, como o maior edifício da cidade ilimitada, todas as suas luzes acesas, partículas luminosas de alaranjado contra um fundo cinzento. Na verdade, chamar de cinzento aquele céu era condescender em usar uma cor conhecida para qualificá-lo: sua indefinição cromática era muito mais híbrida. Ao olhar para o edifício, na verdade, ele já se sentia fatigado e oprimido, com o esforço de manter a cabeça esticada para dar conta de sua altura, a imponência como uma espécie de intimidação maciça que, pelas dimensões espetaculares e as luzes, deixava o espectador, qualquer bicho humano minúsculo, indeciso entre o deslumbramento e a hostilidade. Ele se esgueirou para um canto mais escuro da rua, como se precisasse do conforto de alguma coisa furtiva, escura, para não se sentir tão pequeno.

Desde a demissão, estava assim, sempre propenso a andar por ruas de pouco trânsito ao sair de casa, quando saía, quando os ruídos lá fora não eram tão assustadores, sugerindo lutas titânicas entre entidades maquinais que produziam guinchos de acabar com qualquer tímpano e um fragor de aviões em queda. A demissão se dera por causa da idade, supôs, depois de uns risinhos e sinais de cabeças incrédulos, sempre silenciosos, de outros funcionários, quando ele arriscou uma queixa. Todos inteiramente submetidos, ficavam satisfeitos em serem cúmplices com essas decisões de cúpula e se divertiam sempre com a infelicidade dos demitidos, mantendo um mutismo cheio de superioridade. Sem mulher, sem filhos, os dez anos que lhe restavam em hipótese otimista seriam passados ao lado de um gato, que seria trocado por outro e por mais outro, numa rua de onde as últimas árvores já teriam sido arrancadas.

Havia tempos tudo lhe doía: a região lombar, os calcanhares, o pescoço, os braços, e seus movimentos haviam começado a ser mais lentos,

minuciosamente pensados, como se o chão contivesse hieróglifos que precisassem ser lidos com cuidado para que não caísse. Esse olhar cabisbaixo lhe dava uma forma de conhecimento nova, muitas pernas e pés, sapatos e vozes com caras correspondentes apenas supostas, e os quadrados do calçamento entremeados de capim, alguma barata morta, restos de comida, latas de cerveja, sombras de esguelha, subiam até seus olhos junto com mensagens inscritas numa língua que acreditava estar começando a decifrar. Erguer a cabeça e encarar o que restara da cidade às vezes parecia requerer um esforço sem tamanho, e ele não queria ver o que sabia que veria. Alguma coisa sucedera lá, no edifício, que o decretara inexistente. No trabalho, tinha uns impulsos erráticos de sociabilidade que deixavam alguns de seus colegas constrangidos, sentia-se sempre menos limpo do que era exigido, mais pesado, visceral, sem aquele ajustamento níveo e fácil dos outros. Não medira palavras, mesmo assim, não controlara adequadamente seus impulsos? Onde teria errado? Qual fora a infração, exatamente? A idade não explicava tudo, outros sexagenários eram mantidos em funções especiais, mas ele, sempre ele, tinha reservas à filosofia da Corporação, isso era sentido com toda certeza. Mesmo que não as expressasse, mesmo que fosse agradável e submisso o quanto lhe era possível, o agrado e a submissão não eram inteiros, não representavam a sujeição ideal desejada. Sempre assim: alguns quarteirões percorridos e era voltar para casa. Voltava, os calcanhares latejando, pressa de abrir o portão, de se deparar com a varanda familiar. As luzes da Corporação não saíam de sua vista, nem mesmo ao fechar a janela de seu quarto – umas frestas que nunca pudera tapar deixavam entrar aquele alaranjado-ouro intenso onipresente lá fora, perturbavam o seu sono povoado de espectros que desfilavam incessantes, mutáveis, na tela de seus olhos fechados. Eram luzes que o queriam, que o exigiam insone.

Certa manhã encontrou a geladeira desprovida de uns restos de comida que o vinham sustentando, e, achando num canto uma lata de sardinha com óleo para o terceiro gato daquele ano lamber, achou que era preciso tomar uma decisão. De algum modo, isso fora sentido por alguém, uma pessoa de andar curvo, pois ele encontrara, na sua perscrutação do calçamento, algumas mensagens nem tão crípticas, não percebidas pelas viaturas sempre vigilantes da Corporação. Os cabisbaixos da cidade, todos velhos, não ofereciam a essas viaturas uma preocupação maior. E ele seguira lendo calçamento afora, sem despertar suspeita alguma. Havia um lugar. O Lugar, porque não restava dúvida que a coisa ficava subentendida em maiúsculas.

As mensagens o levaram a uma casa em ruínas num quarteirão desprovido de qualquer transeunte às onze de uma certa noite. Pichações e cartazes nos muros de que só restavam trechos intactos indicavam que numa das praças do centro haveria execuções de indesejáveis para a Corporação com entrada gratuita, sob patrocínio de um novo refrigerante. Ele penetrou pelos escombros e foi acolhido por um gato, quase gêmeo em cores e malhas do seu. No topo de uma escada, ele miou e o secundou na entrada num cômodo escuro, de onde vinha uma única luz baça. Havia ali um vulto, encostado a um piano. Ele levantou-se, afastou-se devagar do instrumento e foi para uma área junto a uma janela, revelando-se: uma mulher. Envelhecera mais do que ele. Seu relato compreendia muito mais anos de entrega à Corporação. Ela parecia querer esconder o

rosto o tempo todo, e um escrúpulo fazia com que ele não a olhasse diretamente. Precisava de véus, ainda que não os tivesse, precisava evitar qualquer violação do mundo. Perguntou se ele gostava de música e sentou-se ao piano para arranhar algo que talvez fosse um dos improvisos de Schubert.

A decisão, disse ela depois, era a única possível para quem, como eles, só podiam infringir, e ele compreendeu. Ela pegaria em sua mão, se ele tremesse. O lugar de que ela lhe falou estava repleto de pessoas que ele nunca vira, mas que haviam morado ali, muitos anos, na vizinhança ou pouco mais além, sempre invisíveis, emparedadas, ou sem se olharem pelas poucas ruas que lhes restavam para percorrer, e lá estariam todos juntos, protegidos por uma invisibilidade ainda maior, numa floresta com exemplares sobreviventes de animais extintos e de arvoredo inteiramente fechado. Ele beijou a mão longa, ossuda.

Sentaram-se num canto escuro entre escuridões, como se ela soubesse o ponto exato onde as luzes do edifício não chegariam pelos restos da janela, com os farrapos de uma persiana estalando ao vento noturno. O gato subiu no parapeito, miou, e a mulher fez um “xiu”, a que o bicho obedeceu. Ficou olhando-os longamente. Depois, despedindo-se, saltou sobre um telhado próximo e foi tragado pela noite que se incumbiria de conduzi-lo naturalmente a algum corpo de gata ou a alguma cozinha devassada.

chico lopes é autor de três livros de contos e seu romance de estreia, O estranho no corredor, foi um dos vencedores do Prêmio Jabuti 2012.

a outra travessia

dJosé Flávio Motta Alameda Editorial

387 páginas, R$ 67,00 (preço estimado)

urante 300 anos o tráfico negreiro transatlântico foi o motor da economia brasileira. As estimativas mais recentes calculam que, entre meados do século XVI e meados do século XIX, mais de 4.860.000 africanos desembarcaram em nossos portos, o que representa cerca de 40% de todos os seres humanos que foram embarcados como escravos na África com destino ao Novo Mundo. Essa terrível engrenagem econômica, que produziu, em um mesmo movimento, sofrimento e riqueza inauditos, continuou a funcionar no Brasil após 1850, não mais pela via oceânica, mas agora por caminhos terrestres e pela navegação costeira. O tráfico interno de escravos – isto é, a compra e venda de cativos dentro do Brasil, fossem nascidos na África, fossem nascidos aqui – coexistiu desde sempre com o tráfico transatlântico. Na segunda metade do século XIX, porém, ele adquiriu novo volume e sentido. Em que pesem as dificuldades para uma quantificação precisa, os especialistas calculam que entre 220 mil e 300 mil escravos tenham sido transacionados no mercado interno brasileiro nos 38 anos compreendidos entre a abolição do tráfico (1850) e a abolição da escravidão (1888). O destino deles também se tornou mais concentrado. Em sua grande maioria, os trabalhadores escravizados vendidos no mercado interno foram direcionados para as províncias cafeeiras do Centro-Sul do Brasil, isto é, Minas Gerais, Rio de Janeiro e, sobretudo, São Paulo. José Flávio Motta, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, acaba de lançar um livro que traz novas luzes para a compreensão dessa outra travessia. Escravos daqui, dali e de mais além. O tráfico interno de cativos na expansão cafeeira paulista resultou de uma vasta pesquisa, originalmente defendida como tese de livre-docência. Motta examina 1.656 escrituras de compra, venda, permuta e doação, lavradas entre 1861 e 1887, e que envolveram 3.677 escravos nos municípios paulistas de Areias, Guaratinguetá, Piracicaba e Casa Branca. Tal recorte é bastante significativo. Essas cidades se localizavam no coração do Vale do Paraíba (as duas primeiras) e nos chamados “Oeste Velho” (Piracicaba) e “Oeste Novo” (Casa Branca) de São Paulo, regiões que estiveram, em distintos momentos do século XIX, dentre as maiores produtoras mundiais de café.

O livro ilumina de forma admirável a dinâmica de funcionamento demográfico e econômico dos negócios negreiros. Enquanto os capítulos 1 e 2 resumem muito bem o movimento territorial da cafeicultura no espaço paulista e os principais achados da historiografia relativa ao tema do tráfico interno no Brasil, os outros três são divididos conforme a periodização adotada para se compreender os fluxos do comércio de escravos.

Na década de 1860 (capítulo 3), em sua maioria os cativos foram transacionados dentro da própria província de São Paulo, as compras prevalecendo sobre as vendas nos municípios examinados, expressão da prosperidade concomitante da cafeicultura no Vale do Paraíba e no Oeste Velho. Na década de 1870 (capítulo 4), notadamente após 1873, o tráfico interno para a cafeicultura paulista viveu seu momento mais intenso, com o predomínio de compras interprovinciais que privilegiavam jovens do sexo masculino, em uma retomada do modelo demográfico nefasto do tráfico transatlântico. Na década de 1880 (capítulo 5), já sob os efeitos da pressão abolicionista e da interdição do tráfico interprovincial, os municípios nos quais a atividade cafeeira perdera competitividade – caso de Areias – tornaram-se vendedores de escravos; Casa Branca, na fronteira cafeeira do Oeste Novo, continuou adquirindo a mercadoria humana até o ano anterior à Abolição. Em cada um desses capítulos, variáveis como idade, sexo e preços dos escravos são examinadas prestando-se atenção às distintas posições ocupadas pelos quatro municípios no tempo e no espaço, isto é, ao seu caráter cambiante como zonas pioneiras, maduras ou decadentes da cafeicultura. O cruzamento cuidadoso entre as conjunturas do café, a política da escravidão e a dinâmica do tráfico interno oferece contribuições decisivas para outros campos da historiografia sobre a escravidão brasileira. Para ficarmos em apenas um exemplo: a demografia produzida pelo tráfico interno ajuda a entender por que a associação do movimento abolicionista com a revolta das senzalas teve um de seus epicentros justamente no oeste de São Paulo, e não no Vale do Paraíba.

rafael bivar marquese é professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo.
Escravos daqui, dali e de mais além. o tráfico interno de cativos na expansão cafeeira paulista

Dois retornos e uma linha de fuga

Artionka c apiberibe

SEdusp / FAPESP

576 páginas

R$ 85,00

e os antigos Tupi do começo da conquista fazem parte do imaginário brasileiro, a antropologia política de Pierre Clastres e a obra de Hélène Clastres sobre os profetismos Tupi-guarani são também parte daquilo que institui ao menos uma área dos estudos antropológicos. O Profeta e o principal, de Renato Sztutman, vale-se desses dois repertórios (“dois retornos”) para refletir a respeito dos limites da antropologia política, iluminando aspectos como: a gênese do poder entre os ameríndios; os sentidos da chefia indígena; o surgimento (ou não) do Estado; e a dimensão política dentro do domínio da religião.

O livro tem seu mote em uma interrogação de Pierre Clastres que parece contradizer uma de suas teses centrais, aquela que propõe ser “a sociedade primitiva” guiada por uma filosofia política que carrega horror à centralização, agenciada pela coerção e promotora de um apagamento das diferenças. A questão que se põe Clastres, a partir das fontes dos séculos XVI e XVII, é a da possibilidade de um poder político coercivo surgir em uma “sociedade primitiva”, o que configuraria um paradoxo.

Hélène Clastres, por sua vez, transforma o paradoxo em contradição, por entender o sistema dos Tupi e Guarani antigos clivado pela distinção entre o político e o religioso, instâncias de natureza diversa e incompatível. O surgimento de um poder político a partir do profetismo só poderia redundar em um enviesamento, uma vez que este deveria se constituir como movimento de pura negação política (do coletivo, da territorialização, do colonizador). Assim, este movimento só poderia se dar como resposta ao sistema colonial opressor.

Para reposicionar estes questionamentos, Sztutman irá se valer de diferentes materiais de pesquisa – fontes históricas, historiografias, etnografias das sociedades ameríndias atuais e antigas e trabalhos arqueológicos –, produzindo um diálogo entre tempos e espaços também distintos, que abarcam povos indígenas de diferentes filiações linguísticas, localizações geográficas e presença na história. O livro atentará para os processos de subjetivação implicados nas

transformações das máquinas sociais indígenas, demarcando-se de uma concepção da dimensão política entendida como consequência da relação com o colonizador, cujos efeitos devastadores seriam resultado de um “mau encontro”, na acepção de Pierre Clastres apropriada de La Boétie. O desafio posto é o de trazer as ideologias nativas para o plano dos conceitos, de uma reflexão que possa ser apreendida enquanto filosofia, recuperando a agência indígena no processo histórico.

A conceptualização nativa encontra-se no livro articulada a teorias e conceitos da antropologia e da filosofia. O autor incorpora as noções de Deleuze e Guattari de “segmentaridade flexível” e “linhas de fuga”, ambas meios que quebram as tendências centrípetas pelas quais se subjugam (sob um centro único, o Estado) as diferenças presentes nas distintas linhas de força da política. O Estado é, por esse meio, definido como um agregado de tendências maleáveis, passíveis de composição e recomposição. A concepção de “ação política” é portanto entendida pelo seu caráter processual. O que conta é o embate de forças e o olhar tanto para aquilo que organiza e constitui coletivos humanos e centros de decisão como para o que os desconstrói.

O autor alia a estas duas noções “o devir” trabalhado por Eduardo Viveiros de Castro em sua tupinologia, indicando que o caminho explicativo para o sentido da ação política e do poder será mesmo seguido pelas “linhas de fuga”. O acento está na abertura à alteridade. Seu corolário é um movimento constante de extensão e contração de coletivos e pessoas, que pode ou não produzir momentos de cristalização de unidades, aos moldes do Estado, abrindo espaço para uma possível política de representação. Não se deve perder de vista que tais momentos também carregam o sentido da impermanência e transição. E o autor nos demonstra que foi por congelar este instante pausado no tempo e no espaço que Pierre e Hélène Clastres encontraram um paradoxo e uma contradição.

o profeta e o principal: a ação política ameríndia e seus personagens
Renato Sztutman

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