Skip to main content

LV 1429

Page 1

30 anos LV

DESDE 1988 AO LADO DOS TRABALHADORES

INTERCEL | INTERSUL | JORNAL LINHA VIVA No 1429 - 01 DE NOVEMBRO DE 2018

V


EDITORIAL

NÓS VAMOS CONTINUAR A LUTAR! Agora, mais do que nunca, os trabalhadores urbanitários estarão à frente na resistência No dia 28 de outubro o povo brasileiro retornou às urnas para definir as eleições majoritárias em segundo turno. Além de um novo presidente, diversos estados elegeram um novo governador. O conservadorismo foi o grande vencedor neste pleito, trazendo de volta um cenário de incertezas para os trabalhadores, movimentos sociais e ameaças à empresas públicas. Com 55% dos votos válidos, Jair Bolsonaro (PSL) foi eleito presidente da República. Defensor da ditadura e autodeclarado favorável à tortura, apoiador da reforma trabalhista e com uma equipe que tende à desnacionalização de todos os patrimônios públicos, o Deputado Federal pelo Rio de Janeiro já trabalha para por em prática suas promessas de campanha. Indicado para tocar a área econômica do novo governo e braço direito de Bolsonaro, o economista Paulo Guedes já deixou claro que irá promover uma ampla privatização de empresas públicas.

A equipe de transição já prepara o anúncio das empresas e participações controladas pela união que serão postas à venda. Nas últimas edições do Linha Viva foram publicadas as propostas e declarações dadas durante a campanha, onde um mar de incertezas e contradições dava o tom do discurso. Enquanto Bolsonaro, após criticas sobre os perigos de privatizar o setor elétrico, gravou vídeo dizendo que a geração de energia da Eletrobras permaneceria pública, Paulo Guedes não esconde que a intenção é "privatizar tudo". O mar de incertezas atinge também a situação da maior estatal catarinense. Eleito com mais de 71% dos votos para o Governo do Estado de Santa Catarina, Comandante Moisés (PSL) passou a campanha sem se posicionar definitivamente sobre a privatização ou a manutenção da Celesc como empresa pública. O cenário para o próximo ano é de luta e resistência. Mais do que nunca, os eletricitários, assim como todos os trabalhadores, terão que

estar unidos e preparados para continuar defendendo as empresas públicas e os direitos da classe trabalhadora. As empresas públicas de energia são fundamentais para o desenvolvimento social e econômico do Brasil e devem permanecer sob controle do Estado. É preciso iniciar e estruturar a re-

sistência o quanto antes. Não podemos esperar os ataques e só então reagir. Os eletricitários e todos os trabalhadores devem pautar as demandas sociais e econômicas na luta contra a desigualdade e a exploração. Não é hora de medo. É hora de dizer: nós vamos continuar a lutar!

PRIVATIZAÇÕES

SETOR ELÉTRICO

GOVERNO CHINES AFIRMA ESPERAR PRIVATIZAÇÕES NO BRASIL

ATINGIDOS POR REPRESAS FAZ MANIFESTO EM DEFESA DA DEMOCRACIA

Em comunicado oficial, Ministério de Relações Exteriores espera venda de estatais brasileiras

Carta do Movimento de Afetados por Represas da América Latina reforça manutenção da luta popular

O Ministério de Relações Exteriores da cia de políticas estratégicas do governo China aproveitou o pronunciamento diá- para a economia e soberania nacional. rio na imprensa estatal para parabenizar Neste sentido, a continuidade das prio presidente eleito do Brasil, Jair Bolso- vatizações iniciadas pelo Governo Tenaro e afirmar que enxerga mer no Governo Bolsonaro "O texto, publicado ampliará as ameaças à souma ótima oportunidade horas depois que berania ao dar cabo de emde negócios para o país, com a privatização das espresas fundamentais em o resultado das tatais brasileiras. O texto, eleições brasileiras setores estratégicos, como publicado horas depois que água e energia. Além de foi anunciado, o resultado das eleições por em risco o país, a prifala da agenda do brasileiras foi anunciado, vatização de empresas púfala da agenda do novo gonovo governo de blicas não tem o apoio da verno de “privatizar tudo” e população que reconhece privatizar tudo” das possíveis reformas da o processo como danoso. O Previdência e tributária. controle privado de áreas estratégicas As empresas chinesas têm crescido e essenciais à vida não se converte em no setor elétrico brasileiro, aumentando melhora no atendimento à sociedade e participações e comprando várias em- transforma em mercadoria aquilo que presas, o que evidencia a total ausên- deveria ser um direito de todos.

O Movimento de Afetados por Represas da América Latina divulgou uma carta ao povo brasileiro reiterando o apoio à luta pela construção e defesa da democracia. A entidade é composta por movimentos do setor elétrico e atingidos por barragens de toda a América, tendo como participante o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), companheiros de luta dos eletricitários brasileiros. Segundo o documento, os povos e movimentos sociais latino-americanos viram estupefatos a queda de um sistema popular que diminuiu a desigualdade e melhorou as condições de vida de um povo historicamente abandonado. O Movimento saúda, também, os avanços da uni-

dade brasileira e da permanente mobilização pela conscientização política e cultural da população. "A persevarença do povo brasileiro, expressa em suas organizações e movimentos sociais, seguem marcando uma rota de dignidade, fortaleza e luz para o resto da américa Latina e nos inspira a seguir lutando pela unidade de todas as forças democráticas do continente e do mundo pela construção de sociedades alternativas e justas", diz a nota que ainda replica o grito histórico dos atingidos: água para a vida, não para a morte! "Que se levantem os punhos, que se levantem as mãos, que se levante o povo latino-americano", termina o documento.


CELESC

CONTRATO ENTRE CELESC E BID É ASSINADO EM BRASÍLIA Documento encaminhado à FNU reafirma compromisso de manutenção da Eletrobras Pública Foi assinado nesta quarta-feira, dia 31, o contrato de financiamento da Celesc com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O financiamento prevê o montante de no valor de US$ 276 milhões (o equivalente a cerca de R$ 1 bilhão) para investimentos na área de distribuição de energia. A assinatura do contrato é fruto da luta dos trabalhadores em conjunto com a Intercel e com o Representante dos Empregados no Conselho de Administração da Celesc, que por meio de pressão viabilizaram a aprovação na Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina em 2017. Em um processo que contou com amplas manifestações e ocupação dos corredores da ALESC, os trabalhadores conseguiram derrubar os interesses de alguns deputados que viam no projeto uma forma de barganha para vantagens individuais. O financiamento do BID é uma grande conquista, que auxilia na luta pela manutenção da concessão e pela continuidade da Celesc como empresa pública, prestando um serviço de qualidade à população catarinense.

FASCISMO

DEPUTADA ELEITA INCITA ASSEDIO À UM NEOLIBERAL COTADO PARA O PROFESSORES MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA Ana Caroline Campagnolo incentiva perseguição ideológica

e o

s a s o a o o

e e o

SETOR ELÉTRICO

Mal acabou a eleição e as garras do fascismo já apontam para a perseguição ideológica e repressão dos trabalhadores. Em Santa Catarina, a Deputada Eleita Ana Caroline Campagnolo (PSL) incentivou a gravação de vídeos para denunciar professores por "doutrinação ideológica". O Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC) já entrou com ação por danos morais coletivos. Entidades representativas dos professores e movimentos sociais já manifestaram repúdio à manifestação da deputada eleita, dando apoio aos educadores. Para a Intercel e a Intersul, a perseguição de professores é mais uma demonstração do fascismo crescente na sociedade, estimulado por uma direita raivosa e manipuladora que busca eliminar o contraditório. É preciso união de todos os trabalhadores para resistir aos ataques.

Ex-assessor da ANP prega o estado mínimo Um dos cotados para ser ministro de Minas e Energia no governo de Jair Bolsonaro é o economista e ex-assessor da direção da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Adriano Pires, que prega o estado mínimo para os pobres e máximo para os ricos. Ele se reuniu com Bolsonaro na semana passada, mas negou nesta segunda-feira, dia 29, que tenha recebido o convite para assumir o MME. Segundo o economista, Bolsonaro reafirmou que pretende vender refinarias de petróleo da Petrobras. Pires, que é neoliberal e fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura, disse que

LV

foi chamado para a conversa com Bolsonaro pelo deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), possível ministro da Casa Civil.

EXPEDIENTE

Linha Viva é uma publicação da INTERCEL e da INTERSUL Jornalista responsável: Paulo G. Horn (MTE 3489/SC) Conselho Editorial: Amilca Colombo Rua Max Colin, 2368, Joinville, SC CEP 89216-000 | E-mail: sindsc@terra.com.br As matérias assinadas não correspondem, necessariamente, à opinião do jornal.


HOJE, AMANHÃ E

SEMPRE por Eduardo Mourão Vasconcelos

Hoje, eles ganharam, e estão comemorando. Teremos que nos silenciar, por enquanto. Mas sobretudo, temos o papel de porta vozes da esperança e persistência Ontem tivemos uma derrota que marcará a história de nosso país, com a vitória de Bolsonaro. Durante a campanha, já vínhamos alertando para os riscos para a nossa democracia e direitos sociais, em caso de concretização de sua vitória. No entanto, precisamos reconhecer que lutamos o bom combate. Resistimos nas redes sociais, fomos pra rua, tentando reverter na última hora o amplo favoritismo que ele já tinha. A vitória de Bolsonaro não deve nos desanimar. Quem viveu mais tempo, que passou pela ditadura, tem essa experiência de olhar a história com maior distância, e reconhecer que ela tem mesmo suas ondas. Em uma analogia com a Bíblia, temos os anos de vacas gordas, mas também anos de vacas magras. Todos eles passam, e nós aprendemos a resistir em todos esses momentos. As lutas e as contradições internas aos sistemas de dominação, várias delas invisíveis para o cidadão comum, continuam a varrer a história. E os analistas políticos já estão prevendo que o governo Bolsonaro tem inúmeros fatores de instabilidade. Podemos citar alguns: 1) Foram produzidas muitas expectativas na população, de resolução dos complexos problemas nacionais, algo difícil de se oferecer respostas no curto e médio prazo. Um exemplo é a política de segurança. Sabemos que armar a população não resolve, apenas aumenta a insegurança e a violência. 2) Estamos enfrentando uma crise fiscal profunda nos governos federal, estaduais e municipais. Essa crise dificulta enormemente a retomada do crescimento econômico e a resposta às expectativas geradas na população. 3) O apoio a Bolsonaro mobilizou uma idealização muito intensa, como nos mitos heróicos e messiânicos. Temos precedentes na história política brasileira, com Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello. A experiência deles e de outras, em vários países, mostram que, ao não serem capazes de produzir respostas satisfatórias no curto ou médio prazo, um processo de desidealização tende a ocorrer rapidamente, erodindo rapidamente o apoio a este tipo de liderança. Foi o que ocorreu com Jânio Quadros e Collor, levando-os à saída do poder. 4) Bolsonaro se elegeu tendo que controlar e evitar sua exposição pública em debates e ambientes em que teria que enfrentar o contraditório. Na presidência da república, esse controle é mais difícil, e ele tenderá a mostrar mais facilmente seu viés autoritário e antidemocrático, e sua visão simplista dos difíceis problemas nacionais. 5) Bolsonaro não tem maioria absoluta no Congresso, pelo menos para realizar mudanças constitucionais profundas. Se elegeu dizendo que não governará fazendo alianças com as forças convencionais no Congresso, e que não escolherá ministros com base no “toma lá, dá cá” que tem vigorado até agora. Para ter apoio no Congresso, ele precisará voltar à política tradicional. As medidas de reajuste fiscal colocadas na agenda econômica e política, como a reforma da previdência, são profundamente impopulares, e os parlamentares cobrarão muito caro o apoio a elas. 6) A visão e as medidas autoritárias de Bolsonaro certamente provocarão muitos conflitos com as instituições que têm como dever assegurar a democracia no país, como o Legislativo e o Sistema de Justiça, como as entidades civis que historicamente defendem as liberdades democráticas, e como os muitos movimentos sociais populares do país. Esses embates e conflitos tendem a crescer muito no seu governo. 7) A imagem internacional de Bolsonaro é péssima, e assim, começará um governo com um profundo desprestígio junto aos demais governos e agências internacionais, com poucas possíveis exceções, como o de Trump. Poderíamos listar outros fatores que apontam para um governo de forte instabilidade, mas estes já são suficientes. É por tudo isso que não podemos desanimar. A partir de agora, temos que avaliar sim o que passou, identificando os equívocos, mas com calma e solidariedade com nossos aliados. Precisamos estar atentos aos “sinais dos tempos”, em constantes análises de conjuntura, para identificar as brechas para resistência. E principalmente, para as inúmeras denúncias que certamente surgirão, e para as melhores estratégias de luta. Assim, a história não acaba neste momento mais dramático, apenas começa uma nova etapa. E a nossa experiência mostra que nesses momentos temos que mobilizar, por um lado, a nossa paciência histórica de médio e longo prazo, e por outro, a nossa coragem e rebeldia, para as lutas micropolíticas no cotidiano, e para as grandes mobilizações que certamente virão. Hoje, eles ganharam, e estão comemorando. Teremos que nos silenciar, por enquanto. Mas sobretudo, temos o papel de porta vozes da esperança e persistência. Muita coragem para todos nós, nesta nova caminhada. Vamos à luta de resistência! Texto: Eduardo Mourão Vasconcelos Publicado originalmente no site: www.cartamaior.com.br

Arte: Rafael Corrêa


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
LV 1429 by Paulo Guilherme Horn - Issuu