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Angela - mas era pra ser Ana...

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Angela

MAS ERA PRA SER ANA...


Angela

MAS ERA PRA SER ANA...


Pensei

numa declaração de amor. Pensei escrever uma declaração de amor. Lembrei viver uma declaração de amor. Ernest Hemingway

Todos os desenhos e textos deste livrinho foram feitos e publicados no instagram e facebook do Paulo durante a gravidez da Karina. Todos foram criteriosamente avaliados (julgados) e previamente aprovados pela própria Karina.


Eu sei que a superstição diz que é bom não falar. Mas não faz meu tipo e, muito menos, o da Karina. Então, senta que lá vem história. Quinta-feira de manhã eu tava em Tubarão, esperando o início de uma concentração com os trabalhadores da Celesc. Tava com sono e não tinha café preto em lugar nenhum. Olhei no whatts sem nenhuma pretensão. Quando o tempo não passa, eu fico olhando o pra ver se chega alguma mensagem interessante que acelere as coisas. Tinha uma da Karina. Uma foto. Sempre que eu tô viajando a Ka me manda fotos dos nossos gatos dormindo em posições das mais estranhas possíveis. Mas não era isso. Era a foto que ilustra esse texto. No fim do ano passado a Karina e eu decidimos que era hora de parar com as projeções e ver o que a vida nos trazia. Essa decisão foi interrompida pela vacina contra febre amarela, que fomos obrigados a tomar para ir a Colômbia. Então, no início desse ano retomamos a nossa resolução. Neste período a Karina fez uns trocentos testes de gravidez. Então, ao me deparar com aquela imagem eu (tanso) fiquei sem entender. Afinal de contas, o que quer dizer? Positivo? Negativo? O mundo parou naquele silêncio. Ela tinha visualizado a mensagem e não respondia. Sai no meio da concentração e liguei pra ela. O mundo mudou com uma única palavra. Sim. Ao mesmo tempo que contou pra mim, a Karina já contou pra meio mundo. Então, pra outra metade do mundo, vai a notícia: sim, vem um bebê por aí. A Ka (se possível) tá ainda mais linda - e paranoica. Já falou em pintar a casa, mobiliar o quartinho, trocar de carro, comprar roupas e


tá fazendo contas e mais contas para arranjar um jeito de bancar tudo isso. Não sabemos se é menino ou menina. Não há o menor consenso sobre os nomes. Pelo teste deve ter algo em torno de 5 semanas. Aos que já sabem, agradecemos as felicitações. Aos que farão nesta postagem, obrigado antecipado. Aos que não se manifestarem, não tem problema, amamos vocês também. Amamos o mundo todo. P.s - Já teve gente que me disse: “ô burro, é óbvio que era positivo”. Obviedade não passa perto das ações da Karina, por isso a dúvida. P.s 2 - baby boom nesse fim de 2016 e início de 2017, hein!


Agora que já sabemos que é menina, vamos focar no nome da spiro gira. Há algum tempo, a Karina disse que gostaria de pôr seu próprio nome como segundo nome da criança. Logo que ela disse isso, já veio na minha cabeça: Ana Karina. Nome bonito que me lembra da atriz francesa protagonista de vários filmes do Godard (dica: apesar do desenho ser do Vivre sa Vie, assistam ao Pierrot Le Fou). O problema é que a Karina quer Angela Karina. Diz que é um nome angelical, de Deus e por aí vai...

Eu, sinceramente, toda vez que falam Angela me lembro da Angela Amim e dai não dá. Mesmo. Não. Essa discussão já tá rolando por algum tempo e não tem nenhuma perspectiva de consenso. Então, tô abrindo uma consulta pública com as seguintes regras: 1- não tem regra. Deem o pitaco que quiserem. 2- não tenho obrigação nenhuma de aceitar o resultado Tá aberta a votação. É Ana ou Angela?


Sabe aquela história de que alemão é teimoso? É por que vocês não conhecem polaco. Ou melhor, polaca.

continuar tentando convencer a Ka de que Ana Karina é o melhor nome pra spiro gira: tem até aclamação popular!

A consulta pública pro nome da Spiro gira deu ampla vantagem pra Ana Karina. Foram mais de 40 votos contra 2 pra Angela.

Mas não se espantem se num futuro próximo cês ficarem sabendo que não vai ser Ana, nem Angela. Tem até a possibilidade de uma nova consulta pública.

E cês sabem pra que serviu? Pra emburrar a Karina, que neste momento tá com raiva de mim e de todos vocês que votaram na Ana. Então o impasse continua. Eu, que sou (muito) chato, vou

Também não se espantem se for Angela. Ou se for realmente Ana. Não se espantem com nada. Veremos


É golpe! Não, não tô falando de política. Tô falando da #batalhadosnomes. De saber que nome vai ter a spiro gira. Depois da consulta pública (e da revolta da Karina) achei melhor conduzir a negociação em sigilo. As negociações avançavam a passos lentos, mas avançavam. Muitas conversas, nenhuma definição, mas com pequenos avanços, sim. E dai o que acontece? Golpe! A Jesana Mattos Nunes da Silva (que tinha votado na Ana Karina) manda pra Karina uma foto de uma toalha bordada com o nome Angela. Ninguém mais respeita voto mesmo. O golpe demoliu os avanços e trouxe a negociação à estaca zero. Mas eu não desisti ainda. Então, se vocês conhecem alguma Angela, mandem o endereço que eu tenho uma toalha bordada para mandar de presente para ela. A batalha continua.


O golpe atingiu em cheio a #batalhadosnomes. Eu precisava de uma reação forte. Mas como fazer se fiquei uma semana fora, trabalhando? Nem precisei começar. Num desse dias a Karina me ligou revoltada, por que um pessoal lá do trabalho dela ficou fazendo coro na saída dela: Ana, Ana, Ana \o/ (valeu pessoal!). Mas o contragolpe mesmo veio direto da família da Karina. A Bruna, prima dela me mandou uma

mensagem, dizendo que tava costurando a bonequinha que tá na porta do desenho. A bonequinha da Ana. O contragolpe perfeito, que nos põe de volta à estaca zero. Agora em igualdade, as negociações recomeçarão equilibradas. Tô sentindo que a Spiro Gira vai ser sim Ana Karina. P.s - por que ninguém me disse que aquarela é tão divertido?


Era um sábado de manhã. Estávamos saindo há algumas semanas e, conversando, chegamos no consenso: “Tá tudo indo bem, então vamos namorar”. Isso foi em 2005. De lá pra cá já são doze anos. Apesar desse tempo todo, nunca fomos de dar bola pro dia dos namorados. Sinceramente não me lembro de alguma vez ter comemorado o dia, ter feito planos, jantar e essas coisas. Muito menos a Karina, que nunca se ligou nessas datas. Nem data nenhuma, pra falar a verdade. Pra falar mais a verdade ainda, acho que faz uns 4 anos que ela decorou meu aniversário, por que ela sempre esquecia. Então, hoje, pra desespero de quem tá lendo, não teve nada diferente. Acordei, dei um beijo na Karina, pus a mão na barriga pra dar tchau pra spiro gira e vim trabalhar. Por que, basicamente, é isso: é no dia a dia que aquele sentimento que nos levou ao namoro vai se renovando. Sem alarde, sem estripulias. Agora, só falta chegar naquele consenso que fez de nós um casal, pra decidir o nome da spiro gira (é isso mesmo, ainda não sabemos). Tem tempo, tem vontade e tem amor. Não precisa se preocupar. Com tudo isso, logo nós contamos pra vocês. Acho.


As pessoas que dividem o cotidiano comigo já sabem que eu sou estragado do estômago. Muito. Qualquer coisa já me dá uma dor demoníaca. Principalmente as coisas boas: café e cerveja. E quem me conhece sabe, também, que eu sou um cara bastante determinado (os mais desavisados podem confundir com teimosia, mas teimosa é a Karina que teima comigo). Não parei nem com o café, nem com a cerveja. Então, eu decidi encarar a dor da melhor forma possível: eu sei

que vai doer e não faço nada pra melhorar. Da mesma forma procedo com a possível pressão alta e com problemas dentários. Acontece que hoje a Karina fez uma proposta: se eu me tratar, eu posso escolher o nome da nossa filha! Então pessoal, só quero dizer a vocês que quinta-feira, 8horas, eu tenho dentista. Quinta-feira, 18 horas, tenho cardiologista. E ainda estou tentando uma vaga no gastro, mas vai ser pra logo, prometo.


Diálogo à porta do dentista. Karina: que foi? Eu: odeio dentista Karina: tu precisa Eu: odeio dentista Karina (já irritada): tu gosta de ter teus dentes? Eu (sinceridade absoluta): eu gosto é de escolher o nome da minha filha! Desce o pano. Então fui à minha primeira consulta. E eu odeio dentista. Sério. Coisa mais desagradável. Agonizante. A coisa nem precisa doer (se bem que quando dói também é foda). Mas é o psicológico. E eles tão ligado nisso. Ficam trocando de instrumento, fazendo barulho e tu ali, com medo, não sabe o que eles tão pegando por que tu tá deitado naquela cadeira de tortura, tão tenso que parece que tá amarrado. Tenho certeza que eles fazem só de sacanagem. E aquela broca maldita? O barulho é pior que tudo. Na consulta de hoje nem usei, mas ouvi o barulho na sala de espera e já desgraçou tudo. Lembrei do dia que fui fazer a tatuagem. 90% da dor foi por que a maquininha fazia um barulho parecido com o da broca do dentista. Certeza. Mas eu fui. Fiz a consulta. Tirei uns moldes malditos que me faziam querer vomitar estilo o exorcista. Mas eu fui. Odiei muito, mas fui. Pior é que já percebi que a Karina tá me dando migué, por que esse fim de semana ela voltou com a história de Angela. Mesmo assim, vamos adiante. Essa semana tem cardiologista.


Aparentemente eu tenho pressão alta. Fui no cardiologista semana passada e a medição bateu lá em cima, de novo. Agora vou ter que pôr um mapa, que vai ficar medindo minha pressão de 15 em 15 minutos o dia todo. Até aí beleza. Começou a dar tudo errado quando eu vi a maldita guia verde da unimed. Lá vou eu pra agulha de novo. E eu não sei se eu já disse isso, mas eu odeio agulha. Muito. Mais do que dentista. Tirar sangue é uma das piores coisas que podem me pedir pra fazer. Agora, tirar sangue com a Karina do meu lado é pior ainda, por que eu já tô lá fudido, branco que nem fantasma, suando e aterrorizado e ainda tenho que aturar ela tirando sarro da minha cara. Muito. Falando coisas do tipo: “não se preocupa que mamãe tá segurando tua mão”, com voz de idiota que adulto faz pra falar com criança.


Geralmente nessas horas eu olho pra enfermeira e ela tá ou tentando segurar o riso ou me olhando com aquela cara de incrédula, como se tivesse dizendo com os olhos pra eu parar de ser fresco. Dai eu desvio o olhar, derrotado e envergonhado e vejo o que? A agulha. Eu odeio tirar sangue. Pior que não tá dando certo. Cheguei de viagem ontem e ouvi a Karina falando que “a Angela tá se mexendo bastante”. Dai eu disse que era porque a Ana tava com saudades minhas, que fiquei dois dias fora a trabalho. Ou seja, estamos em fase de negação mútua. Ou, como a Karina disse pro medico quando ele perguntou se nós ainda estávamos em dúvida sobre o nome:”: - duvida? Não. Nós dois temos certeza do nome. Só não é a mesma certeza. E ainda tem gastro pra marcar...


Hoje de manhã fui de novo no cardiologista. Tive que pôr o mapa, um aparelhinho que fica medindo a pressão de 20 em 20 minutos. A menina me explicou tudo que eu podia e não podia fazer e ligou o troço pra primeira medição. Já deu merda. 14 por 10 na primeira. Pior é que essa porcaria tá no meu braço esquerdo. E eu sou canhoto. Eu juro que pedi, implorei pra por no direito. Não pode. E esse é o motivo pra esse desenho toscão. Cada vez que eu pegava o lápis com a mão esquerda o troço ligava. E cês sabem como é medir pressão. Vai apertando o braço e soltando aos poucos. Uma vez só tá beleza. Agora imagina isso zilhões de vezes só de manhã. Era meio dia e meu braço já tava dormindo mais do que a Karina grávida. Dai desenhei com a mão direita. E percebi como eu sou descoordenado com ela. Mas não foi só isso. A tarde fiz café no trabalho (tô tomando sim. O gastro é só amanhã e enquanto isso vou me entupir de café). Tava enchendo a garrafa térmica quando o troço começou a apertar. Derramei café em tudo, menos na garrafa. Agora tô aqui, tentando bolar um plano pra tomar banho amanhã, o que a guria disse que também não pode. E, apesar de ter orientação médica para ficar fedido, eu vou tomar banho. Nem que a Karina tenha que me dar banho de canequinha. Amanhã cedo tiro essa coisa e vejo o resultado, que baseado no 14 por 10 deve ser ruim. Pra manter a sequência de desgraça, à tarde tenho o gastro o mais temido dos médicos (e que deve me mandar pra agulha de novo). E, para avacalhar ainda mais, a Karina mudou de ideia. Posso ir em todos os médicos do mundo que não vou poder escolher o nome da minha filha. A ideia dela agora é fazer um sorteio pra decidir se vai ser Ana ou Angela. Pega a família, diz para escrever num papelzinho o nome que prefere entre os dois, junta tudo num saco e tira o nome definitivo da spiro gira. “Só aceito perder pra sorte”, foi o que ela me disse. Sorteio. E cês viram como tá minha sorte.


Comecei o dia de ontem temendo a consulta da tarde, com o gastro, e a desgraça foi de manhã já. Fui ao cardiologista tirar o Mapa e ver o resultado: pressão alta. Que dúvida né? De 65 marcações, 42 deram alteração. E aquilo que eu não queria escutar do gastro, escutei do cardiologista. Além de ter que iniciar com remédio, preciso diminuir sal, café e álcool. Café descafeinado? Não. Substituir por chá? Ok, desde que não seja chá mate ou chá preto. Ou seja, não. A Karina disse que tá fácil. É só eu nascer de novo. Ela tava junto e fez uns exames da gravidez. Minha consulta demorou e ela estava de jejum, alucinada por comida, mas aguentou até eu ser chamado só pra ouvir o médico dar a sentença. Saímos dali e, logo na esquina, fomos comer algo. Tomei um expresso duplo de raiva e meu estômago berrou na hora, pra lembrar que ainda tinha o gastro. Então fui na consulta no início da tarde. E vou pra agulha de novo. E pro ultrasom. E pra endoscopia. Mas o diagnóstico preliminar não é tão terrível. Pode ser refluxo (ele falou com uma certeza que tô acreditando) e pode ser uma síndrome de irritação, pra qual vou ter que tomar remédio também.


Então, só pra lembrar de como isso tudo começou: depois dessa odisseia médica eu escolheria o nome da minha filha. Tipo hoje. Fui no dentista, cardiologista e gastro. Era hoje. Mas dai a Karina mudou de ideia. Eu pensei: vou continuar indo por que aos poucos convenço ela. Se alguém já convenceu polaco de alguma coisa nessa vida me avisa. É um herói. Então eu escutei tudo que não queria de todos os médicos. Tô com uma tonelada de exames pra fazer. Vou ter que tirar sangue pela terceira vez. Tomar remédio todo dia. Fazer mais um monte de restrições. E no fim das contas, nada. Vai ter que ser na sorte. Então, se existe algum tipo de compensação cósmica, carma, seja lá o que for: tem que dar Ana nesse sorteio. Se não, a Karina entra pro Guiness por ter dado o golpe mais bem dado da história. E eu, tanso, cai.


Que semana. Depois de passar por todos os inimagináveis exames médicos e escutar tudo que eu não queria ouvir, eu deveria ter a compensação que faria tudo valer a pena: eu escolheria o nome da minha filha, conforme promessa da Karina. No meio do caminho ela mudou de ideia e disse que o único jeito de ser o nome que eu queria era na sorte. Então armamos um sorteio. Pegamos as pessoas mais próximas do dia a dia familiar e pedimos para que escrevessem em um papelzinho o nome que preferem entre Ana e Angela.


Colocamos tudo em um saco plástico e pedimos para a Verônica, sobrinha da Karina que tá de aniversário hoje sortear. Eu expliquei direitinho pra ela. Pega um papelzinho só, abre e mostra pra gente. A Karina tava filmando e todo mundo na expectativa (pode assistir aí). A Vevê foi lá e pegou dois papeizinhos. Eu disse: só um. Ela devolveu um deles e abriu o escolhido. Angela. A Karina foi a loucura. E o golpe foi consolidado. O pior é que o papel que a Vevê devolveu tava escrito Ana. Até a sorte resolveu tirar sarro da minha cara. Recapitulando, eu fui a todos os médicos combinados, fiz todos os exames e tenho mais alguns pra fazer. E me fodi. A Karina ficou com remorso, disse que a gente podia conversar ainda sobre o nome, que tava preocupada com minha pressão. Mas deu, né? Por que conversando não vamos chegar a lugar nenhum mesmo. Essa saga atras de um nome pra spiro gira é prova da teimosia mútua que reina nesse relacionamento. Então deu. Foi golpe, mas tá feito. Não gostei, mas acostumo. Cês podem até me ajudar com boas referências do nome Angela. Fim desse capítulo. Quase completando 6 meses, chegou a hora de dizer: prazer, eu sou o pai da Angela Karina Horn.


Hoje a Karina completa 6 meses de gravidez. Isso quer dizer que logo, logo a (AAARGH) Angela tá aí. A gravidez que tá passando tranquila e bastante rápida. E eu não faço ideia de quantas semanas dá isso. E também não sei por que automaticamente fica todo mundo falando em semanas. Parece que a partir do momento que tu vira pai tu tens que saber fazer contas. Não nós (principalmente eu).

Afinal de contas, os dois fizeram jornalismo pra fugir da matemática (eu literalmente fiz isso). Então vamos contando em meses mesmo. E por ultimo, tá chegando o dia dos pais. Sabe o que isso significa? Que é mais uma data comemorativa pra Karina se esquecer de me dar presente. Só espero que a spiro gira puxe a minha memória e não a da Karina.


Depois do último texto, a Karina me armou uma surpresa. Apesar de não ter facebook (por opção própria) ela acompanha todas as postagens (sim, ela julga todos os comentários de vocês. Abram o olho...). Por que, no fim das contas, quem diz se eu posso ou não publicar é ela. A regra é simples: eu desenho, escrevo e passo pra ela. Se fez bico, não publica. Não fez bico, tá liberado. Então sábado, quando voltei pra casa de um evento do trabalho, a Karina prontamente me entregou não um, mas dois presentes! Por que


isso também é característica dela: não sabe esperar. Não importa que faltasse uma semana inteira pra comemoração. Mas quem sou eu pra reclamar? Meu primeiro presente de dia dos pais veio em dobro e adiantado! E, vou dizer, ela acertou. Além de uma pomada pro cabelo (absolutamente necessária pra esconder a proeminente careca), ganhei um baita livro do Will Eisner (leiam tudo. Sério. Qualquer coisa do Eisner. É uma aula de contar histórias em quadrinhos). A lição que fica? Se eu soubesse que dizer pra todo mundo que a Karina esquece tudo que é data comemorativa (e, consequentemente, meus presentes) daria certo, eu teria feito lá na época do Orkut!


Faz duas semanas nós fomos dar uma olhada em carrinho de bebê, bebê conforto e todas essas coisas que eu não sabia que existiam e que agora temos que gastar uma pequena fortuna pra comprar. Fomos em uma loja especializada e eu descobri algumas coisas. 1- existem vários tipos de carrinho de bebê. 2- todos são absurdamente caros. 3- a atendente faz parecer fá-

cil para dobrar o carrinho, mas é golpe. Na verdade é um inferno. 4- sob hipótese nenhuma eu vou conseguir por a cadeirinha no cinto de segurança. O pior de tudo é que tu deixa a loja endividado e, mesmo assim, feliz. Essa coisa de gravidez é um baita golpe. Ainda falta boa parte do quarto da Angela para terminar. E esse fim de semana a Karina quer “só dar uma olhadinha” em berço. Sei. Só uma olhadinha.


“Tá mexendo”, berrava a Karina e lá ia eu correndo que nem doido pra por a mão na barriga dela sentir o balé da Angela. E nada. Toda vez que a Karina falava eu punha a mão e não sentia nada. Nem um chute, cutuque, nem uma tremedinha qualquer. Pior é que quando eu falava que não tava sentindo nada levava bronca da Karina. Se era quando estávamos vendo alguma série, era porque eu não tinha me concentrado. Ou então porque eu era um insensível mesmo. E por aí vai.


Cada vez que eu ouvia a Ka dizendo que a Angela tava mexendo muito me dava uma pontada forte de inveja. Eu também queria sentir. E nada. Até que esses dias, um fim de semana de preguiça, na cama de manhã (quase meio-dia) pus a mão na barriga da Ka sem pensar. E senti um chutinho. Aquele pequeno cutuque de bom dia ainda tá aqui comigo, guardado na memória da mão esquerda. Até agora, foi a única vez que senti. Mas não importa: minha filha deu bom dia pra mim.


Esta semana a Ka completou 7 meses de uma gravidez bastante tranquila. Tirando um pouco de enjôo nos primeiros meses, não teve nenhum desconforto. Até hoje. Ontem à noite a Ka reclamou que não conseguia se ajeitar pra dormir. Dor nas costelas e azia incomodavam e ela se revirava na cama. Acordei cedo e saí pro trabalho. O combinado era eu voltar pra buscar ela na hora dela ir pro trabalho. Só que eu cheguei em casa para encontrar uma Karina aos prantos, cansada e com dificuldade de respirar.

Óbvio que fomos ao hospital e o diagnóstico é daqueles bão: daqui pra frente, vai piorar. Na verdade, não tem nada de errado com a gravidez. A Angela tá saudável até demais. Grande até demais. E talvez por isso a pressão tenha gerado a dor nas costelas e a falta de fôlego. Pra azia tem remédio. Pro resto, só o tempo. Agora a Ka tá amontoada em uma pilha de travesseiros, tentando achar a melhor posição para dormir Olhando em mil paginas na internet dicas de como aliviar a dor, postura e por aí vai. No fim das contas, tá tudo bem com a Angela e vai ficar tudo bem com a Karina.


A Karina descobriu a melhor posição para dormir na cama: sozinha. Sendo assim, estou dividindo o sofá com os gatos. Não por opção, óbvio. Por que é só deitar que tu vira cama de gato. Mas tá melhor assim. Depois da minha mudança pro sofá e da compra de (mais) um travesseiro, a Ka tem dormido bem, não tá sentindo tantas dores nas costelas e diminuiu bastante a azia. Pra mim tá beleza também. Único problema é que agora tô dormindo (mais) tarde, porque o Netflix não me deixa dormir.


O cansaço fez com que a Karina antecipasse a consulta que estava marcada para esta sexta-feira para esta terça. E levou bronca do médico. Basicamente, o Dr. disse que o problema é que a Ka não faz nada. E não faz nada muito bem. Lá no início da gravidez ele orientou: vai fazer 50 minutos de caminhada, vai fazer exercício. Não sei como, mas a Karina escutou: dorme e come o quanto quiser. E agora tá reclamando que tá estufada, cansada e que tá cada vez mais difícil de mexer.


Caminhar então tá sendo bem peculiar. Porque caminhar mesmo ela caminha só da porta de casa até o carro e em ritmo de pinguim. Sabe aqueles passinhos engraçados que eles dão? A Karina tá andando assim, bem devagar. Eu geralmente caminho rápido. Dai ela me puxa, eu paro e olho ela vindo que nem um pinguinzinho e fico esperando pra ver se o resto do bando aparece. Enquanto eu escrevia este texto a Karina apareceu na sala e fez uns 3 minutos e meio de bicicleta. Sim, bicicleta, o cabide mais caro que eu já comprei na vida. E saiu andando que nem pinguim pro banheiro.


Sábado de manhã. Acordei cedo e decidido: vou montar sozinho o berço da minha filha! Só pra situar, eu não sei montar nem Lego de tão descoordenado. Mas lá fui eu, com o maior amor do mundo pra montar o berço da Angela. Tirei tudo da caixa, expulsei os gatos do quarto e fui ler as instruções. O martírio começou quando eu vi o tipo de parafuso. Além da chave Phillips, precisava de uma chave tellep (eu pesquisei o nome depois...) e é óbvio que eu não tinha em casa. Na verdade, as ferramentas que tem aqui em casa são da minha sogra. Então eu fiz o que qualquer macho faria na hora: fui lá no pai pegar uma chave emprestada.


A Karina ainda dormia, mas já não era tão cedo quando eu comecei a montar. Montei as laterais, a grade fixa, o pé e os suportes do estrado com surpreendente facilidade. Tava me sentindo o MacGyver (ou o Rodrigo Hilbert, sei lá). E dai veio a hora da grade móvel. Peguei as instruções e li: fixar o trilho por dentro das laterais. Olhei as laterais. Nenhuma furação. Olhei a parte de fora das laterais. Todas as furações. Fiquei revoltado. Olhei tudo de novo e li umas vinte vezes as instruções pra ter certeza da burrada que eu fiz. Não teve jeito. Tive que desmontar tudo. Eu comecei as 8 horas e já era quase meio-dia. O trabalho da manhã todo perdido. Mas eu não desisiti! Desmontei a porcaria toda e remontei, agora certo. A Karina tinha acordado mais ou menos no meu momento de raiva (que ela ajudou a aumentar me pedindo pra ficar calmo e pedindo pra ler as instruções pra ter certeza que eu tava errado). Depois de ter montado e desmontado, eu tava pronto pra encarar a grade móvel. Só que a Karina apareceu na porta pedindo pra eu fazer o almoço que ela tava com fome. E lá fui eu pra cozinha. Só voltei pro berço no início da tarde. E só sai do berço no meio da noite. A pessoa que projetou essa grade móvel tem um pacto com o demo. Ela deve se divertir sabendo que uns tanso que nem eu vão se ferrar pra montar essa grade. Vão ler e reler as instruções que não ajudam em nada. Vão olhar no YouTube. Vão montar e desmontar umas trinta vezes. Até acertar (acho). O consolo é que hoje de manhã um companheiro de trabalho me disse que também quase se matou pra montar essa grade maldita. Mas a verdade é que depois de montado, aquela sensação de MacGyver/Hilbert retorna e tu fica se achando o machão da porra (mesmo sabendo que nunca mais vai montar mais nada na vida - nem Lego).


Hoje a Karina entrou no último mês de gravidez. E cansou. Nos últimos dias o cansaço e dor de carregar uma pessoinha de 2,5 kg bateram forte. Na quarta-feira fomos fazer um ultrassom que nos disse o peso da Angela. Disse também que ela tá com 43cm, é cabeluda, tá sentada e com pouca probabilidade de mudar de posição até a hora de nascer. E é essa posição que tá judiando as costelas da Karina. Braços e pés cutucando, batucando o tempo todo. E o que ela disse faz todo sentido do mundo: não é uma dor forte, mas é o tempo todo. Dai cansa. No fim do dia, cansa tanto que dá até vontade de chorar.

Nessas horas é que a gente percebe o quão inútil o homem é durante a gravidez. Por que a gente quer fazer algo pra ajudar, mas não sabe o que. Dai fica perguntando toda hora: tá bem? Quer um travesseiro? Quer alguma coisa? O que além de não ajudar em nada, deve encher o saco. Mas, apesar da Ka dizer que já pode, não, ainda não pode nascer. Vai judiar um pouco mais da mãe pra vir sem nenhum risco. E enquanto isso eu vou perguntando: quer alguma coisa? Quer mais travesseiro? Tá com dor? Quer que eu pare de falar?


Eu juro que eu queria começar este texto com um palavrão. Um daqueles que limpa a alma depois de dito. Mas como a ideia é juntar todos estes textos para um dia mostrar pra minha filha, acho melhor não dar ao futuro eu o problema de explicar pra ela onde é que eu tava mandando alguém tomar. Vou explicar pra vocês a raiva que eu tô sentindo. É a raiva da constatação de que eu sou muito mais tanso que eu imaginava.

Hoje a Karina e eu fomos comprar o colchão e o kit-berço (sim, existe isso). Fomos na mesma loja em que compramos a poltrona de amamentação (sim, existe isso) e o berço. Enquanto esperávamos a vendedora, percebi que na vitrine tinha um berço igual ao que compramos. Aquele berço que me tomou um dia inteiro pra montar e que ao final da odisseia eu me senti


o cara mais macho da história do universo. Aquele berço que eu fiz questão de montar sozinho, para um dia poder dizer isso pra minha filha e ela ter orgulho do pai. Aquele berço que eu montei errado. Sabe quando o erro salta na tua frente? Pois esse veio me dando voadora já. Só de chegar perto percebi que inverti os trilhos da grade móvel. Daí pensei: tá funcionando, deixa assim. Daí pensei de novo: será que a grade vai travar assim? E agora to com raiva de mim mesmo porque sei que enquanto não arrumar essa droga não vou relaxar. Eu juro que eu queria terminar esse texto com um palavrão.


Acordar cedo no fim de semana é algo que não existe na nossa casa. Nem os gatos cometem esse sacrilégio. Mas no sábado acordamos cedo por que a Karina tinha exames para fazer, o que na atual situação traz dois desafios para ela: ficar sem comer e ficar sem ir ao banheiro. Por isso fomos cedinho ao laboratório. Trâmites normais e aquelas malditas guias verdes de exames. A Karina tava de boa, mas eu, que nem ia fazer nada, não tava nem um pouco confortável. Foi aí que uma revelação aconteceu: descobrimos que a Angela puxou ao pai! A Karina foi chamada para fazer as coletas, ou seja, levar agulhadas. E a Angela não gostou nada da ideia. A hora que a enfermeira pegou a agulha a Angela deu um bicão na Karina. E só parou de chutar quando a agulha saiu.


O que mostra a inteligência da minha filhota, porque qualquer pessoa em sã consciência sabe que tirar sangue ou qualquer tipo de injeção é tortura. Com isso, aperta a curiosidade. Como será que ela é? O último ultrassom deu algumas dicas do rostinho dela. Aparentemente, tem carinha de polaca, o que é bom. Melhor puxar a mãe que o pai. Mas tem muita coisa ainda pra descobrir. Parece que o quanto mais perto chega, mais a ansiedade aumenta. E isso sou só eu, porque se dependesse da Karina, já tinha nascido. O que mais tenho ouvido nestes últimos dias é a conversa da Karina com a barriga: “pode nascer. Mamãe cansou, pode nascer”. E a qualquer momento, pode mesmo.


Na terça-feira acompanhei a Karina em uma nova consulta. Agora, reta final da gravidez, a ansiedade aumenta em níveis estratosféricos. A única vez que eu me vi absurdamente ansioso na vida foi no ultrasom que nos disse que vinha uma menina por aí. Agora tá pior. E seu eu tô assim, imaginem a Karina que é a descrição de ansiedade. Na consulta, a Karina fez o diagnóstico habitual: “não aguento mais, desconforto, dor e azia. Não dá pra dormir direito, nem achar uma posição confortável em momento nenhum”. Ainda faltam algumas semanas para o prazo normal, o que, para ela, era desesperador - para mim só aumentava a sensação


de inutilidade em não poder fazer nada para ajudar. O médico perguntou se ela tá mexendo e, com a afirmativa, disse que isso era muito bom. E dai veio o fato que mudou tudo, de uma hora pra outra. O ultrasom só confirmou que a Angela tá lá, sentadinha, sem perspectiva nenhuma de mudar de posição, já que tá assim há meses. Tudo aquilo que a Ka imaginou desmoronou em minutos: nada de parto natural. Vamos pra cesaria. E nem deu tempo de achar ruim. Na verdade, tanto ela quanto eu estamos radiantes de saber que agora vai! Então na próxima quarta-feira, dia 25, a Angela chega pra mudar o meu mundo. As malas estão todas prontas. Milhares delas. Agora, estamos contando as horas, ainda mais ansiosos. Pode vir, filha!


A Angela nasceu. Final de tarde deste dia tipicamente joinvilense. É muito mais linda do que qualquer desenho ou texto. É muito mais linda do que eu posso falar. Tô absolutamente sem palavras - e tô amando isso. Beijo pra vocês.


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Angela - mas era pra ser Ana... by Paulo Guilherme Horn - Issuu