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Angela - ano dois

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Angela

ano dois


Angela

ano dois

Todos os desenhos e textos deste livro foram publicados no instagram e facebook do Paulo (@pghorn).


ESTOMATITE Há alguns dias percebemos que a boca da Angela tava meio inchada. Talvez fosse um efeito de algum tombo, algo comum nessa transição do engatinhar para o andar. Como ela tava de boa, não nos preocupamos muito. Mas a coisa começou a inchar mais, a gengiva principalmente e ela começou a ter febre e reclamar ao morder. Fomos à emergência e o pediatra disse que nós deveríamos procurar um dentista. Deu uma pomada é um anti-inflamatório. E aí começou uma saga. Achar um odontopediatra nos primeiros dias do ano em Joinville foi um inferno. Além de poucos, parece que todos tiraram férias ao mesmo tempo. Depois de muito tentar, conseguimos uma dentista. Diagnóstico: estomatite. Além do inchaço (que cobriu todo os dentes da frente), tá com algumas aftas, o que explica a dor para mastigar. Como é um vírus, tem que esperar o ciclo e, enquanto isso, amenizar o desconforto. Para a febre tem remédio, mas para a estomatite não. A única coisa a fazer é manter a boca limpa,


passando um enxaguante e escovando. Tem melhorado, apesar da dificuldade. Como é bastante desconfortável e deve doer, a Angela se debate na hora de passar o remédio com cotonete. Então comecei a usar uma tática de espelho. Primeiro pego um cotonete, dou pra ela e digo: passa remédio no pai. Ela enfia o cotonete na minha boca e se diverte. Dai eu digo: agora é a vez da neném. Isso facilita o começo, mas logo ela se liga e começa a se debater e dizer não, não. Apesar disso, ela é muito boazinha. Assim que terminamos já tá com um sorriso pedindo colo. Achamos ela meio abatida e conseguimos uma consulta na clínica pediatra que ela vai. Por sorte era o médico dela o plantonista. Ele reafirmou o diagnóstico, mas mandou a gente parar com o anti-inflamatório e disse que ainda levaria um tempo para melhorar. Hoje é o quarto dia desde que começou o tratamento. É o primeiro que ela não fez febre, o que é bom sinal. Mas, aparentemente, ainda tem um caminho pra sarar. Tanto o pediatra quanto a dentista disseram que leva de 7 a 10 dias o ciclo. Enquanto isso, vamos gastando o estoque de cotonetes. Toda vez é um para ela tomar remédio e um para eu convencer ela que é bom.


CARTEIRA DE IDENTIDADE No fim do ano eu levei a Angela para fazer a carteira de identidade dela. Tiramos uma foto 3x4, agendamos a data e fomos lá. A Angela ficou bem de boa até a hora de tirar as digitais, quando deu uma estranhada. Mas foi momentâneo. No instante seguinte já tava passando a mão suja na mesa do atendente só pro pai ficar com vergonha. Esta semana fomos lá buscar. Cara, é o RG mais lindo do universo. A fotinho dela, bochechuda, zolhudinha, de coqueirinho é uma graça. O dedinho polegar, tão pequenino para o espaço do documento faz a gente rir de emoção. Enquanto desenhava, tive a brilhante ideia de pintar o dedinho dela de canetinha e marcar no meu desenho a digital dela. É aquele pontinho fofo que tá no desenho. A ideia é boa. O resultado foi ótimo. Só que eu esqueci das consequências. Logo que terminei ela já começou a esfregar a mão por tudo e sujar casa, roupa, eu, ela mesma. E pior: além de ter gostado, ela já sabe abrir a caneta e pintar os dedinhos.


Passos É comum pensar na vida como uma caminho a seguir. Uma caminhada a fazer. Nesta cur ta caminhada, a Angela deu passos impor tantes. Sim, passos. Agora, aos 1 ano e 3 meses, começou a andar sem apoio. São passos rápidos e incer tos, como quase todos na vida. Passo a passo procura onde se segurar. Mas vai em frente. Não adianta chamar. Tentar forçar. Não. Ela vai quando quer. Se não quer, engatinha rindo. Ou então estende a mão à procura da minha para, se sentindo segura, dar passos que quase são uma corrida. Mas não adianta correr nesse caminho. Passo a passo, no tempo dela ela vai indo. E eu só obser vo feliz minha neném crescendo e seguindo o caminho.


Batman montado em um unicórnio Na segunda-feira a Angela começa na escolinha. Vai ser só meio período, à tarde, mas nós já entramos na correria de primeira viagem. Saímos pra comprar o material sem entender o que uma criança de tão pouca idade vai fazer com tudo aquilo. Aliás, metade do que foi pedido eu nem sabia que existia. Mas compramos tudo, levamos na escola, conhecemos as professoras e segunda começa essa nova etapa. O bom é que ela não vai completamente sozinha. O Lucas, filho da minha irmã vai junto, o que dá uma confiança maior. Pra eles começarem, a Eve fez umas mochilinhas lindas (sério, corre lá e segue o Studio Costulovers). Então vou contar a história delas. Há algumas semanas a Eve mandou mensagem dizendo que ia costurar elas e perguntou qual estampa que nós queríamos. Eu respondi na lata: do Batman, montado em um unicórnio. Ela não acreditou. Eu então achei na internet uma imagem do


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Eu então achei na internet uma imagem do Batman, montado num unicórnio, voando per to de um arco-íris, acompanhado de dois golfinhos. Ia ser a mochila mais legal do universo

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Batman, montado num unicórnio, voando per to de um arco-íris, acompanhado de dois golfinhos. Ia ser a

mochila mais legal do universo. Dai a Eve disse pra eu deixar de ser besta e acer tou com a Karina uma mochila de gatinhos. Ficou linda. Mas o Batman, montado num unicórnio, voando per to de um arco-íris acompanhado de dois golfinhos ia ser muito mais legal. Por fim, ela disse que até dá pra fazer, mas não ficaria pronta a tempo. Então, aguardem porque minha filha ainda vai ter uma mochila do Batman montado em um unicórnio!


Primeiro semana de aula Essa última semana foi a primeira de aula da Angela. Uma semana cheia de expectativas pra gente e de descober tas para ela. Mas todos os medos que tínhamos foram superados pela tranquilidade da Angela. No primeiro dia, logo que chegamos demos de cara com um menininho chorando: cadê a minha mamãe? O coração já aper tou. Fizemos a ambientação juntos. Depois de um tempinho a Ka saiu da sala e eu fiquei. Quando ela (a Angela) se distraiu, eu saí também. E foi uma aflição ficar lá fora. Apesar de chamar papai e mamãe algumas vezes, ela ficou bem de boa. No segundo dia já não pude ir. Do trabalho eu ficava ainda mais aflito, esperando por notícias. Será que tava de boa? Chorou? Comeu? Brincou? As notícias eram sempre boas. E assim foi todos os dias dessa semana. Gradativamente aumentava o tempo dela sozinha e foi uma fácil adaptação.


Se na segunda ela entrou na sala com poucos passos e engatinhando muito, na sexta saiu andando por tudo. Passinho por passinho, vai dando tudo cer to.


Lilóia Eu sempre pensei que criança tem que ganhar brinquedo. Aniversário, Natal, dia das crianças, tanto faz. Eu só dou brinquedo. E antes de ser pai eu sempre ia nas lojas e comprava daqueles bem barulhentos. Afinal de contas, criança gosta é de bagunça. Dai eu virei pai e vi que esses brinquedos tem um pacto com o capeta. Porque essas musiquinhas não saem da tua cabeça um minuto. E a criança não para. Põe pra tocar uma vez atrás da outra, sem dó. A Angela tem uma boneca que adora. Ela canta, dança e pisca luzes. O tempo todo. Ela fica lá: larairai lai lai, lararai lai lai, lilóia, lilóia, lilóia larairai. E a Angela ri, pula e fala: lilo, lilo, apontando pra boneca. É lindo de ver. Mas não de escutar.


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Daí eu virei pai e vi que esses brinquedos tem um pacto com o capeta. Essas musiquinhas não saem da tua cabeça um minuto. E a criança não para. Põe para tocar uma vez atrás da outra, sem dó

”

Rapidamente a lilóia virou a boneca preferida dela.

Tocou tanto, mas tanto, que quase nos enlouqueceu. Pouco

antes de conseguir, acabou a pilha. Dai deu medo. Ela começou a andar devagar e cantar arrastado. Parecia possuída. Mas a Angela insistia: lilo, lilo, pai. E ligava o bicho. Não teve jeito. Pus pilhas novas e não sai mais da minha cabeça: larairai lai lai, lararai lai lai, lilóia, lilóia, lilóia larairai. P.s - perdão aos amigos a quem os filhos presenteei com brinquedos barulhentos. Agora eu entendo.


Trazer ela para perto Fiz este desenho há algum tempo, ainda quando estava de férias, em Lages. Pensei que com a volta ao trabalho teria um momento em que o tempo ficaria cur to para desenhar e poderia usar ele. De lá pra cá, uma série de novidades e descober tas da Angela me forçaram a desenhar para deixar estes momentos registrados. Escola, passos, brinquedos. Todas os momentos desenhados e relatados. Então hoje chegou a hora de usar este desenho. De novo o trabalho me põe na estrada e vou ficar um dia sem ver minha neném. Sem ver esse olhar sorrindo pra mim, puxando minha barba enquanto berra PAPAI! mesmo que este ja sentada no meu colo. Hoje eu descobri que é para estes momentos que eu desenho e escrevo. Pra que quando eu este ja longe, eu traga ela pra per to de mim.


Carnaval Nós nunca fomos muito empolgados com o carnaval. Neste longo tempo juntos, dá pra contar na mão às vezes que saímos para festar. E ainda sobra dedo. Como o carnaval é o único feriado que o trabalho da Karina emenda, geralmente é um momento de ficar de boa, relaxando em casa. Mas agora existe a Angela e a gente se força a fazer coisas diferentes. Neste carnaval minha irmã comentou do bailinho da Liga. Quando nós éramos pequenos a mãe e o pai levavam a gente lá. Então, decidimos levar a Angela e o Lucas lá. Aquela coisa de velho nostálgico que quer que o filho tenha as mesmas experiências que a gente. A Angela, que tava elétrica o dia todo, dormiu na última cur va antes da liga. Entrei com ela apagada, no colo. Só depois de uns vinte minutos ela acordou, no meio da muvuca.


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Daí eu virei pai e vi que esses brinquedos tem um pacto com o capeta. Essas musiquinhas não saem da tua cabeça um minuto. E a criança não para. Põe para tocar uma vez atrás da outra, sem dó

”

Demorou um pouco pra se soltar.

Só depois de o Lucas chegar e de fazer a limpa em pipoca e

algodão doce que começou a correr e brincar. As musicas eram todas de criança, mas da minha época. Não tinha nada de galinha pintadinha, era só balão mágico. Dava pra ver os pais se diver tindo até mais do que as crianças. Juntava o confete e a serpentina do chão, colocava dentro do pote de pipoca vazio e virava na própria cabeça. Terminou deitada no chão da festa, se mechendo como se nadasse em um mar de papel picado.


Tatu Com o calor e o ar condicionado, estes últimos meses tem sido um festival de nariz escorrendo. A Angela faz uma reina gigantesca pra deixar a gente limpar o nariz dela, então o jeito é ficar fazendo palhaçada pra distrair ela. Numa das muitas vezes que ela chacoalhava a cabeça pra não deixar eu limpar o nariz dela eu comecei a falar: “filha, deixa o pai tirar o tatu”. Dai em diante era sempre tirar o tatu da toca. Nunca mais falei em limpar o nariz. Ela ria e até começou a falar tatu, tatu. Mas o tiro saiu pela culatra. Numa dessas vezes eu, sem pensar, falei: filha, cadê o tatu? E prontamente ela meteu o dedo no nariz. Agora, toda vez que eu tenho que limpar o nariz dela e falo tatu, o dedo vai pra toca. Começou. Ensinei a primeira coisa errada pra ela. Agora, é só ladeira abaixo.


Vinil Mesmo sem querer, às vezes eu também acer to na criação da Angela. Esses dias eu tava desenhando e decidi colocar um disco pra tocar. Nessa era de Spotify, fazia um tempo que eu não escutava um bom e velho vinil. Fui colocando uns Beatles pra tocar e ia rabiscando mais uma historinha da Angela. De repente ela e a Karina entram no escritório e ela fica interessada naquele bolachão girando na vitrola. A Karina pôs ela do lado do toca discos e começou a tocar “when i’m sixty four”. A Angela adorou. Batia palmas, mexia no volume, batia as mãozinhas na perna, toda empolgada. Me encheu de orgulho, ouvindo Beatles assim neném. A única sacanagem é que a música começa com a frase: When I get older losing my hair, Many years from now... E eu pensando: muitos anos nada. To ficando careca é agora mesmo.


Comida A Karina sempre roubou comida do meu prato. É daquelas que mete a mão e rouba a batatinha, mas pior. Porque rouba até a comida que ela não gosta. Diz que do meu prato é mais gostoso. Vendo a mãe fazer isso, é óbvio que a Angela também aprendeu a pegar a comida do prato com a mão. E como sou eu que, geralmente, ponho ela no colo e dou comida, o meu prato é atacado sem dó. Depois que começou na escola, a Angela aprendeu a se defender. Criança geralmente quer o mesmo brinquedo que a outra. E dai ou ela deixa que tomem dela o brinquedo, ou ela aprende a dizer não. A Angela já dominou o não. O “sai” e o “meu” também. Só que, quando o assunto é comida, o que é meu é dela e o que é dela é só dela mesmo. O melhor exemplo disso é o suco. Quando saímos para almoçar, jantar ou fazer um lanche, logo que eu peço um suco ela se apodera dele. Cata o copo, se atraca no canudinho e detona até o fim. Eu até peço um golinho. Mas só escuto: não, sai, meu.


Colo A Angela tá pesada. Na última consulta bateu os 10 kg. Ou se ja, tá cada vez mais difícil carregar ela no colo. Por ser canhoto, eu geralmente apoio ela no braço esquerdo. Só que tá ficando cada vez mais difícil e o braço direito não a juda. Sabe aquela história do pé que não ser ve nem pra subir no ônibus? Bem, esse é o meu braço direito. Então, vez ou outra eu jogo ela pra canguta. Alivia o braço, mas tem seus inconvenientes. Primeiro que ela se segura no cabelo. E, como já tem pouco, tem o risco de arrancar o que sobrou, além de doer os puxões. Segundo que ela fica empolgada de estar no alto e vai chacoalhando os pés, me dando chutes o tempo todo. Além disso, lá em cima não consigo ver ela. Apesar disso, adoro escutar as risadas dela, se diver tindo por estar “voando”.


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Então, vez ou outra eu jogo ela pra canguta. Alivia o braço, mas tem seus inconvenientes. Primeiro porque ela se segura no cabelo. E, como já tem pouco, tem o risco dela arrancar o que sobrou

”

Mas, como o bixinho é pesado, logo a canguta cansa e forma-se um ciclo vicioso: braço esquerdo, canguta, chão, choro, tentativa

de braço direito, falha, braço esquerdo, canguta, e por aí vai. Quando esse carrossel perde as energias, só tem uma saída. Vai pro colo da mãe. Porque colo de mãe resolve tudo.


Xbox Eu tinha um Xbox 360. Ganhei depois que entraram na casa dos meus pais e roubaram meu PlayStation 2. Comprei aquele vídeo-game no exato dia em que entreguei minha monografia na faculdade, há mais de 10 anos. O Xbox veio lá por 2010, acho. E durou até a Angela aparecer. No início, durante a licença paternidade e férias ainda passamos bons momentos juntos, os três. Colocava a Angela deitada no meu colo, ligava o vídeo-game e saíamos a matar zumbis no Dead Island (o melhor jogo de zumbi que já joguei). A Karina odiava que eu jogasse com a Angela vendo. E pra deixar a Karina ainda mais brava eu dizia: “mas Ka, ela fica tão empolgada quando o sangue jorra na tela”. Ou então: “eu to preparando ela pra sobreviver no apocalipse zumbi”. Tempos bons. Mas dai a Angela começou a andar. E o video-game foi ficando de lado. Era só mais um bagulho em cima da estante.


De vez em quando a Angela pegava o controle e jogava ele, então escondi. Coloquei dentro da gaveta sem ela ver e esqueci ele lá. Pensei: pelo menos ela não quebra e um dia eu volto a jogar. Pois um dia ela conseguiu quebrar o vídeo-game! Pegou o console com as duas mãozinhas e tacou no chão. Até hoje não sei como, porque aquilo é pesado de mais pra ela. Mas eu vi. Vi ela arremessar o Xbox e ele Espatifar em varias par tes. Nunca mais ligou. Cada dia mais esper ta, a Angela aprendeu a abrir a gaveta onde estava escondido o controle. Agora corre por aí com ele na mão, vem até mim, mostra e aper ta os botões, como se dissesse: “vamos matar uns zumbis juntos, papai”! É a coisa mais linda. Mas não tem mais vídeo-game. E mesmo a beleza dessa cena não comove a Karina, que me proibiu de comprar outro. Nem precisava. Com fralda, escola e todas as despesas que aparecem no dia a dia, não ia ter grana mesmo. Então eu só fico olhando ela correndo com o controle na mão, lembrando que um dia nós matamos zumbis juntos.


Café Na sexta-feira eu fui em uma nova médica, pra ver meu problema de estômago. Resumindo, pra tratar e fazer a dor parar, tudo que é bom eu não posso comer nem beber por um tempo. Carne vermelha, carne de porco, cer ve ja, pão e por aí vai. De tudo que me foi tirado, o pior é o café. Eu adoro café. Café deveria ser venerado como uma divindade. E eu era um devoto fiel, tomando quase duas garrafas térmicas em um dia normal de trabalho. Fora dele, ainda passava os fins de semana procurando cafeterias novas pela cidade. No fim de semana antes da minha consulta, fomos em uma cafeteria que, além de cafés orgânicos, ser ve uma enormidade de comidas e bebidas veganas. O sonho da Karina. Eu pedi um café duplo. Duas vezes. Deus, como era bom. A Karina pediu um chá com leite de amêndoas, batido como se fosse um capuccino. Pedimos também um omelete e um ratatouille. A Angela corria de um lado para o outro no espaço das crianças, vindo à mesa para beliscar um pou-


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A Angela corria de um lado para o outro no espaço das crianças, vindo à mesa par abeliscar um couco de tudo. Hora pedia colo pra mim, hora pra Karina, comia um pedaço e voltava para o chão

co de tudo.

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Hora pedia colo pra mim, hora pra Karina, comia um pedaço e voltava pro chão sara-

coteando. Em uma hora de descuido, ela meteu a carinha no chá da Karina. Quando levantou, tinha a exata marca da xícara na cara. O chá tinha feito um sorriso de orelha a orelha nela, como o do coringa. E um risco na testa. Começamos a rir e ela também caiu na gargalhada. Então tá aí, minha última história feliz com café. Estou há dois dias sem beber uma xícara sequer. Nesse momento, eu odeio vocês todos que podem beber café.


Nebulização Desde que a Angela nasceu nós nunca tivemos uma situação de emergência, de correr pro médico ou hospital. Obviamente, ela já teve doenças, resfriados, febres, cólicas e tudo que dá em uma criança pequena. Mas foi tudo muito tranquilo. A gente controlava febre e dor, dava remédio e logo passava. Nunca um problema se prolongou mais do que um dia. Até essa quinta-feira. A Angela tava gripadinha, tossindo e com o nariz escorrendo. Fez uma febrinha, mas nada anormal.Acordou cedo e correu para o guarda-roupa, pegou o uniforme da escola e queria vestir a todo custo. Foi pra aula, brincou, comeu bem, se divertiu e ainda estava elétrica a hora que fomos buscá-la. A noite a coisa começou a mudar. Ela começou a tossir muito, nariz trancou e tava com uma baita dificuldade de respirar. A febre foi subindo e mesmo com remédio não baixava. Era dez pras duas da manhã quando fomos para o hospital. O Pronto Atendimento estava tranquilo e ela foi chamada bem rápido. Passado um tempo a Karina apareceu na porta com ela, dizendo que ela iria ser medicada e fazer nebulização, além de tirar um raio x.


Da sala de espera eu ouvia os berros da Angela pra não fazer a nebulização. Foram 3 sessões com intervalo de 20 Minutos entra cada uma delas. Tomou uma injeção para baixar a febre e fez o raio x. Saímos de lá 5 horas da manhã, com receita para antibióticos, paracetamol pra febre, remédio para limpar coriza e remédio para fazer nebulização em casa. Cedo já demos o antibiótico. Demos também o paracetamol porque ela tava quentinha. E ficamos limpando a coriza. Apesar da tosse e das feições de quem está doente, a Angela tava bem ativa. Correu, brincou, fez bagunça, comeu bolacha. Só não quis almoçar direito. A tarde veio a hora da nebulização. Essa é a parte mais difícil. Pra convencer ela de colocar a máscara a gente precisa ficar fazendo palhaçada, pulando, colocando outra máscara na cara dos gatos e por aí vai. Assim ela põe. Por dois minutos. É uma guerra. Já da pra ver que ela tá melhorando. Até segunda-feira já não é mais pra ter febre. Ate lá, vamos nos virando em macaquices pra fazer a nebulização.


JEC Ontem começou a série D. E lá tava eu, na frente da tv - graças à internet, sim, passa na tv - pra assistir ao primeiro jogo do Jec no brasileiro. Primeiro o Jec perdeu um gol quase na pequena área. O jogador deu uma furada medonha e perdeu o gol com o goleiro já caído. Depois nosso atacante sai cara a cara com o goleiro e chuta pra fora. Dai vem o pênalti. Mala, muita mala pra chegar na bola e tocar fraco, à meia altura. Manual de como não bater um pênalti. Nessa hora eu já tinha usado todo o meu vocabulário de palavrões. Xinguei tanto que tiraram a Angela, que brincava do meu lado. Mas o pior tava por vir. Em uma pane, nossa zaga que já é ruim foi pior. Ficou assistindo a Ferroviária de Araraquara entrar na área e mandar pro gol. Um a zero. Primeiro jogo, primeira derrota. Essa série D promete. Nunca vi um time pra dar tanta raiva. Mas torcedor não abandona e semana que vem tem mais sofrimento.


Dia das mães Agora que deu tempo de desenhar, deixa eu contar como foi o nosso dia das mães. Começou cedo. MUITO. CEDO. Três horas da manhã a Angela acordou a toda. Bateria completa. Gás total. Acordou e ficou pulando na cama. Pedindo pra ver desenho no celular. Chamando pra brincar. Eu falava: vamos dormir mais um pouquinho, filha. E ela ficava repetindo pua, pua, pua, saltitando na cama. E foi direto até as 7 horas da manhã. Dai dormiu. E acordou as 10 horas. A toda. Bateria completa. Gás total. Esse foi o presente de dia das mães da Angela pra Karina. E quem conhece a Karina sabe da relação de amor que ela tem com o sono.


Saudades Essa semana foi a pior experiência de viagem desde que a Angela nasceu. Foi a primeira vez que fiquei tanto tempo longe.

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Sai segunda e voltei só quinta à noite. Todo dia de manhã conversava com ela no telefone. A noite fazíamos chamada de vídeo, o que era bom e ruim. Bom porque dava pra ver ela, mas ruim porque aumentava a sensação de ausência. Tudo, no entanto, desaparece no abraço de reencontro.

Nessa época do ano, as viagens a trabalho ficam mais frequentes, o que seginifica noites maldormidas, abuso de café, dor de estômago e saudade

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Cara de polaca braba Tem sido difícil registrar tudo que a Angela faz de engraçado, de fofo, de diferente. A evolução dela é muito mais rápida que minha capacidade de desenhar. E são nas pequenas coisas que a gente vê. Agora, ela já tem suas manias, suas brincadeiras próprias. E tem a cara de polaca braba. Não sei de onde veio isso, mas ela começou a me olhar de canto de olho, fazendo beiço. Como se estivesse me recriminando a cada orientação. “Filha, não faz bagunça com a comida”. Cara de polaca braba. “Filha, não bate no gato”. Cara de polaca braba. “Filha, não destrói o vídeo game do pai” CARA DE POLACA BRABA


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Agora, ela já tem suas manias, suas brincadeiras próprias. E tem cara de polaca braba. Não sei de onde veio isso, as ela começou a me olhar de canto de olho, fazendo beiço.

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Mas, no fim das contas é só pra me sacanear mesmo. Porque toda vez que ela me olha assim, eu já falo:

“Não me olha com essa cara de polaca braba”! E ela cai na gargalhada. Agora, faz isso só pra eu falar. Faz o tempo todo e sai rindo de mim. Preve jo um futuro sendo avacalhado pela minha filha.


Carne! O tratamento pro estômago não me privou só de café. Tem uma enormidade de coisas que não posso mais beber e comer. Carne vermelha, glúten, lactose e por aí vai. A Karina tá na mesma dieta e há mais tempo que eu. Então, para seguir certinho o tratamento, tivemos que fazer uma reeducação alimentar. E é difícil, principalmente em eventos sociais. Um churrrasquinho, um trago no boteco, tudo ficou mais difícil. Em compensação, fomos achando opções de restaurante na cidade que atendem essa necessidade. E é aí que entra a Angela. Dia desses fomos a um restaurante vegano. Almoçamos muito bem, a Angela comeu bastante e tava tudo certo. Até que a Karina decidiu perguntar se as sobremesas eram feitas sem leite. Voltou dizendo que eram e completou: “eles não usam nem leite, nem ovos, nem carne em nenhum dos pratos”.


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Todo mundo olhando e a Angela lá, berrando a única coisa que não se come de jeito nenhum num restaurante vegano. Não sabia onde enfiar a cara

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Quando a Angela escutou a palavra carne, deu um berro e ficou, NO MEIO DO RESTAURANTE VEGANO, repetindo milhares de vezes: car-

ne, carne, carne, carne, carne, carne, carne, carne... Todo mundo olhando. E a Angela lá, berrando a única coisa que não se come de jeito nenhum num restaurante vegano. Não sabia onde enfiar a cara. Baixei a cabeça, peguei ela no colo, paguei a conta e me mandei. Agora espero ansiosamente pro momento onde ela, já maiorzinha, comece a ter vergonha do pai. Porque eu vou cobrar.


Do amor Eu comecei a entender a profundidade dos sentimentos depois que a Angela nasceu. Foi ali que o amor se fez sentido. Isso não quer dizer que antes eu não havia amado. Quer dizer que o amor que nasceu com a Angela fez todos os outros perderem o sentido. Amor, agora, é sinônimo da minha filha. Falo isso pra dizer que essa última semana eu descobri o sentido da saudade. Desde o nascimento da Angela, eu nunca tinha ficado tanto tempo longe dela. Em geral, fico fora no máximo dois dias. Essa semana fiquei seis. Todos os dias que estou fora eu converso com a Angela no celular. A maioria deles fazemos uma chamada de vídeo para nos vermos. E todo o dia eu recebo uma foto ou vídeo dela. Isso me fez descobrir que a saudade é um sentimento de pele, de toque. É a sensação de vazio de um abraço que não foi dado. Foram seis dias onde eu só queria ter minha filha no colo. Inúmeras vezes fiquei no quarto do hotel olhando as milhares de fotos dela no meu celular. Ou


dos vídeos dela ainda neném, descendo a linha do tempo até o vídeo dela mais recente, no balanço de parquinho do prédio, rindo e dando oi. Apesar da alegria de ver essas imagens, a verdade é que eu tinha que lutar é pra não cair no choro. No sábado, quando cheguei, a Angela estava lá na casa da minha mãe. Fui direto pra lá e logo que desci do carro ela veio, com um sorriso largo. Pulou pro meu colo e, de novo, eu tive certeza que a saudade é um sentimento de pele, de toque. Nada no mundo foi tão gostoso quanto aquele abraço. A Angela, no meu colo, se afastava pra me olhar o rosto. Ficava olhando, passando a mão na minha cara e rindo, como se não acreditasse que, enfim, eu tinha voltado. Daquele abraço nós quase não saímos. Ela se aninhou em mim e ficamos assim quase que a noite inteira. Dormimos na cama, juntos até a metade da manhã. Passamos o domingo grudados. O real significado do sentimento só se descobre sentindo. Eu senti saudade como nunca nesses dias. Hoje, com ela aqui junto de mim, eu sinto o amor ainda maior do já senti na vida.


Dia dos pais


Pai coruja Desde pequeno eu desenhava. Meus cadernos de colégio eram cheios de rabiscos, personagens, caricaturas. Desenhei por um bom tempo até que um dia parei. Foi somente quando soube que a Karina estava grávida que o desenho voltou. Quando fomos descobrir se era menina ou menino, fiz um desenhinho e de lá pra cá, não parei mais. Desenhar a Angela me trouxe de volta a um mundo que, na leitura, nunca abandonei. Voltei aos quadrinhos e à tentativa de tirar da cabeça para o papel histórias. Me vendo desenhar tanto, a Angela tomou gosto também. Sempre que eu a jeito minhas coisas, tenho que por uma folha pra ela rabiscar também. Agora, ela vem do nada e me pede pra dese-


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Sempre que eu ajeito minhas coisas, tenho que por uma folha pra ela rabiscar também. Agora, ela vem do nada e me pede pra desenhar. Com uma caneta na mão, corre gritando: pepel papai

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nhar. Com uma caneta na mão, corre gritando: “pepel papai”! Se joga no chão e fica rabiscando, me

trazendo de vez em quando para ver a ar te. Comprei umas folhas A3 pra ela e fico obser vando ela se diver tir. Nunca tinha notado o quanto isso me deixa feliz, até que meu primo, @fe.horn, tirou uma foto, em uma festa da família, onde eu olho com a maior cara de bobo, a Angela desenhando. É legal demais ver tua filha tendo interesse por algo que tu gosta.


Máquina de bichinhos Dia desses estávamos no shopping e a Angela saiu correndo rumo à área de brinquedos para crianças. Parou na frente da máquina de bichinhos e ficou pulando e dizendo: “queio ete, queio ete”! Dei uma olhada e, como em toda máquina, me pareceu que eu tinha chance de pegar um tudinho pra ela. Coloquei dois reais e mirei no bichinho. A garra desceu, pegou e logo soltou, mas trouxe ele mais pra per to. Coloquei mais dois reais e fui de novo nele. A garra desceu, prendeu no pescoço e quase no ponto cer to escapou. Deu raiva e então pus mais dois reais. Tava hipnotizado, focado em pegar aquele maldito urso pra Angela. A garra desceu, pegou o bixo e levou até o ponto cer to. Eu derrotei a máquina. Peguei o ursinho que minha filha tanto queria. Tava cheio de orgulho, como se aquilo fosse a coisa mais impor tante do mundo.


Conquistei a duras penas o objeto de dese jo da Angela. Peguei ele da maquina, me a joelhei e com todo o carinho do mundo entreguei pra ela. Em um minuto ela acabou comigo. Disse “não queio”, jogou o bicho longe e saiu correndo pra outro brinquedo. Arrasado, tentei mais algumas vezes dar o bixinho pra ela. Em todas ela respondeu “não” jogando ele longe. Dia seguinte fui via jar, ainda me sentindo derrotado. Diz a Karina que, nos dias que fiquei fora ela andava com ele no colo pra cima e pra baixo, dizendo que era o urso do papai. Acho que a Karina inventou essa história só pra me consolar. Desde que voltei não vi ela com ele uma só vez. Só vi ele largado no chão do quar to, com a certeza que ela tinha jogado ele lá.


Gaita do vô Quando eu era moleque eu queria ter uma banda. Como qualquer guri cabeludo, aprendi a tocar violão, comprei uma guitarra e achei que ia virar um rockstar. Nunca passou pela minha cabeça que uma simples coisa ia arruinar meus planos: a falta de talento. Com a decepção superada, fiquei com alguns instrumentos que de vez em quando dou uma arranhada para relaxar. Sobraram outros, como um trompete e uma gaita de boca que nunca aprendi a tocar. O que eu mais gosto é o violão. Pego ele e fico passeando por um repertório de bandas que a Karina odeia. Mas a Angela sempre pareceu gostar. Fica fascinada com o som, quer por a mão nas cordas e sempre fica ao meu lado enquanto toco. Esses dias, numa das bagunças da Angela pela casa, ela abriu uma gaveta e achou a gaita de boca. Uma gaita que era do meu avô. Veio correndo me mostrar e eu tentei ensinar ela a, pelo menos, fazer um barulho. Disse que era pra soprar a gaita e de vez em quando sai um som. Esse fim de semana eu peguei o violão e fiquei brincando no sofá. De repente a Angela apareceu com a gaita do Vô Horn e sentou do meu lado, so-


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De repente a Angela apareceu com a gaita do Vô Horn e sentou do meu lado, soprando e se balançando com a música. Quase não saia nenhum som, mas a imagem era linda demais

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prando e se balançando com a música. Quase não saia som nenhum, mas a imagem era linda demais.

A gaita do Vô está guardada comigo há muito tempo. Nunca aprendi a tocar (a falta de talento não permite), mas sempre deixei ela guardada como uma lembrança dele. A Angela ter pego ela trouxe varias lembranças e uma baita conversa com meu primo @fe.horn (que tem de sobra o talento que me falta). Agora, vamos ver se consigo influenciar o gosto musical da Angela. Bob Dylan eu já sei que ela gosta, porque quando eu vou por um disco ela sempre pede um dele (só porque a capa é rosa, mas tá valendo). Espero muito que sim. A Karina vai odiar, mas vai ser legal.


Dois anos Hoje a Angela faz dois anos. E tudo que eu consigo pensar é como o tempo passa rápido. A gente só corre atrás e, pra lembrar o sedentarismo refletido na falta de fôlego, não alcança. Eu tento. Eu desenho, escrevo, tiro foto e obser vo. Mas as coisas acontecem num ritmo muito mais frenético do que minha capacidade de por no papel. Tinha muita coisa que eu queria contar e não deu tempo. Esses meus rabiscos são uma tentativa de prender o tempo. Com a vinda da Angela eu consegui entender que o tempo nunca é suficiente. Eu queria muito mais da Angela bebê. De dormir com ela no meu colo, aninhada, pequenina. Queria mais da Angela que ria e dava gritinhos quando queria me dizer algo e eu ficava tentando desvendar essa nova linguagem. Queria muito mais da neném que se segurava para dar passos, lentamente aprendendo a caminhar. Hoje ela corre como o tempo. E eu corro atrás.


Corro pra aproveitar o presente. Mas eu queria mais tempo pra aproveitar os abraços aper tados que ela me dá. Pra rir com cada vez que ela põe as mãozinhas esfregando minha barba. Pra obser var ela cantando musiquinhas e imitando a coreografia. Mas o tempo nunca é suficiente. E, ao mesmo tempo que eu queria que ele voltasses aos primeiros passos, eu projeto o futuro na minha cabeça, ansioso pra conhecer quem a minha filha vai se tornar. Será que ela vai continuar gostando de desenho? Será que ela vai ficar cada vez mais a cara da Karina? Será que vai ter meu gosto musical? Será que eu to fazendo as coisas cer tas para ela? Ter um filho te faz pensar sobre o tempo em que você era a criança. Porque na minha cabeça, meus pais sempre sabiam tudo. Quanto tu vira pai tu começa a perceber que eles não tinham todas as respostas. Talvez tivessem todas as dúvidas.


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De repente a Angela apareceu com a gaita do Vô Horn e sentou do meu lado, soprando e se balançando com a música. Quase não saia nenhum som, mas a imagem era linda demais

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Mas grande par te dessa viagem temporal que é a paternidade é reagir.

As coisas acontecem, tu toma uma decisão e espera que ela se ja a melhor. Hoje a Angela faz dois anos. Vivemos muito todos os minutos. E ao mesmo tempo parece que muita coisa passou sem que tivéssemos tempo para viver como deveria. Agora, já perdi muito tempo com isso. Vou aproveitar esse dia porque, como tudo, tá passando rápido demais.


ano dois 2019


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Angela - ano dois by Paulo Guilherme Horn - Issuu