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Revista Cenarium – Ed. 58 - Abril/2025

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058 ISSN 2764 - 8206

ABRIL DE 2025 • ANO 06 • N.º 58 • R$ 24,99

MINAMATA O VENENO SILENCIOSO Causada pelo mercúrio no garimpo ilegal, a doença silenciosa está de volta e coloca em risco a vida de povos da Amazônia


www.revistacenarium.com.br | Abril de 2025

Expediente Diretora-Geral Paula Litaiff – MTb 793/AM paulalitaiff@revistacenarium.com.br www.paulalitaiff.com

REVISTA CENARIUM O MELHOR CONTEÚDO EM MULTIPLATAFORMA

Coordenadora de Redação Adrisa de Góes Gestor de Recursos Humanos Orson Oliveira Gestores de Conteúdo – On-line Adrisa de Góes (1º turno) Izaias Godinho (2º turno) Gestora de Produção Multimídia Bianca Diniz Gestora de Conteúdo Digital/Impresso Márcia Guimarães Edição de Textos Revista Digital/Impresso Eduardo Figueiredo Projeto Gráfico e Diagramação | Revista Digital/ Impresso Hugo Moura Núcleo de Reportagem – On-line/Digital/TV/Impresso Adrisa de Góes Ana Cláudia Leocádio Ana Pastana Fabyo Cruz Izaias Godinho Jadson Lima Marcela Leiros Correspondente Internacional Monica Piccinini Cinegrafista/Editor de Fotografia/Editor de Imagem Eber Borges Luiz André Ricardo Oliveira Reportagem de Capa Bianca Diniz | Cenarium Designers Gráficos Lucas Oliveira (1º turno) Luís Paulo Dutra (2º turno) Social Medias Gustô Alves (1º turno) Maria Eduarda Furtado (2° turno) Revisores Textuais Gustavo Gilona Jesua Maia (Versão impressa/digital) Conselho Editorial Inory Kanamari – Povos Indígenas Iraildes Caldas – Questões de Gênero Lucas Ferrante – Ciências Biológicas Luciana Santos – Povos Quilombolas Consultores Jurídicos Denise Coêlho – OAB/AM 10.520 Tiago Lazarini – OAB/AM 9.946 Telefone da Redação (92) 3307-4394 Tiragem 5 mil exemplares Circulação Manaus (AM), Belém (PA), Roraima (RR), Rondônia (RO), Brasília (DF) e São Paulo (SP)

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Editorial ʻA terra dá, a terra quer’

O veneno que escorre nos rios

O ser humano se desconectou da natureza, e o castigo é a autodefesa da própria natureza. Essa problemática foi levantada por um dos maiores filósofos brasileiros, Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo (1959–2023), que, na obra “A terra dá, a terra quer”, convida a sociedade à reflexão sobre a relação entre o ser humano e a terra, a necessidade de uma luta pela descolonização e pela defesa dos povos tradicionais, que são aqueles que atuam na linha de frente da defesa da floresta.

A Amazônia sangra em silêncio. Os rios, antes fontes de vida e abundância, hoje carregam um veneno invisível que ameaça culturas milenares, ecossistemas inteiros e o futuro dos povos tradicionais. O mercúrio, um elemento químico metálico utilizado em larga escala no garimpo ilegal, percorre as artérias da floresta, contaminando os rios e peixes da região, atingindo em cheio os povos originários, principalmente os Yanomami e os Munduruku.

Nêgo Bispo questionou o termo tradicional “preservação do meio ambiente” e o condenou. “Não se preserva o meio ambiente, relaciona-se com ele. O meio ambiente não precisa da nossa proteção, nós que somos os inimigos do meio ambiente. Precisamos aprender a conviver com ele”, apontou o filósofo. Um pensamento que vai ao encontro da nova edição da REVISTA CENARIUM, que mostra como estamos sendo incapazes de lidar com a terra e a Terra, tomados pela selvageria capitalista. O especial “Minamata: o veneno silencioso”, escrito pela jornalista Bianca Diniz, traz à tona a publicação de novos estudos sobre os impactos do uso ilegal de mercúrio no garimpo em regiões do Amazonas, Pará e Roraima, afetando, principalmente, os territórios dos povos Yanomami e Munduruku, gerando o risco da doença aos povos indígenas. O termo, originado em referência à cidade japonesa onde ocorreu um grave episódio de poluição por mercúrio em meados de 1950, volta a ser uma preocupação, agora, na Amazônia. Em meio às promessas do governo federal para combater o garimpo ilegal em terras indígenas e em todo o Brasil, ainda se vê a utilização do mercúrio por pessoas exploradas por empresários que “sangram” a terra na região amazônica, na busca famigerada pelo ouro, de acordo com institutos de pesquisa informados nesta edição da CENARIUM, a partir de coletas dos anos de 2023 e 2024, que estão sendo visibilizadas só agora. A advertência do filósofo Nêgo Bispo sobre a relação de humanos versus natureza é ancestral e, se não entendermos, nesta geração, que somos nós os nossos próprios vilões, as gerações posteriores poderão superar a nossa capacidade letal de autodestruição.

Paula Litaiff Diretora-Geral

Assim como aconteceu no Japão, na década de 1950, onde a Doença de Minamata devastou comunidades pesqueiras após o despejo de resíduos industriais nos rios pela empresa Chisso Corporation, hoje vemos o cenário se repetir. À época, centenas de pessoas adoeceram com sintomas neurológicos severos, causados pela contaminação por metilmercúrio, uma toxina que se acumula nos peixes e, por consequência, em quem se alimenta deles. O que foi considerado um dos maiores desastres ambientais da história agora ecoa, décadas depois, no coração da Amazônia. Nesta edição, a REVISTA CENARIUM aborda o drama dos Yanomami e dos Munduruku, que enfrentam uma tragédia semelhante, porém silenciosa. Estudos recentes confirmam altos níveis de mercúrio no sangue de adultos e crianças, com impactos que vão desde perdas cognitivas até malformações congênitas. Em algumas regiões, 100% das amostras coletadas entre indígenas apresentaram níveis de mercúrio acima do limite seguro estipulado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso não é apenas um problema de saúde pública, é um crime ambiental e humanitário. O garimpo ilegal tem transformado os rios em canais de morte. A destruição vai além da contaminação: envolve violência, invasões territoriais, tráfico de pessoas e desintegração cultural. Hoje, a Amazônia vive sua própria Minamata. Não podemos assistir passivamente à repetição de uma tragédia anunciada. É urgente reconhecer que proteger os povos indígenas é proteger a própria floresta e, portanto, proteger a todos nós. O tempo de agir é agora.

Eduardo Figueiredo Editor de textos


Leitor&Leitora

Crédito: Arquivo Pessoal

Crédito: Arquivo Pessoal

💬 FORÇA E RESISTÊNCIA

💬 ABORDAGEM INTELIGENTE

Como amazônida, ver essa realidade nas escolas do Pará dói, mas não surpreende. A gente conhece o abandono que as comunidades tradicionais enfrentam. É revoltante saber que, em vez de avançar, o governo sanciona leis que ameaçam ainda mais a educação dessas populações. A luta dos povos indígenas, ocupando por quase 40 dias a Seduc, mostra força e resistência. Que a COP30 jogue luz sobre isso. Sem educação de verdade, não há futuro — nem para a Amazônia, nem para o planeta. Joyce Dácio

Gosto da CENARIUM pela abordagem inteligente dos assuntos de total interesse da população da Amazônia. Percebe-se o comprometimento em manter informada a sociedade de nossa região e, o que é mais importante, esclarecer temas complexos que, por muitas vezes, influenciam no nosso dia a dia, mas que não são dominados por boa parte da sociedade. É um trabalho diferenciado, que desperta admiração nos amantes do verdadeiro e bom jornalismo.

Em tempos de desinformação, é muito bom abrir a REVISTA CENARIUM e encontrar jornalismo sério, crítico e comprometido. As reportagens sobre os impactos ambientais de grandes obras na Região Norte são fundamentais para que a população entenda o que está em jogo. A Amazônia não pode ser vista como um obstáculo ao progresso. Continuem firmes!

Waldir Adriano

Helena Monteiro

Manaus – AM

Boa Vista – RR

Manaus – AM

💬 COMPROMISSO COM A AMAZÔNIA

💬 COP PARA QUEM?

💬 REPARAÇÃO E JUSTIÇA

Se a COP continuar sendo dominada pelos donos do capital, como historicamente tem sido, não haverá avanço real na luta contra a crise climática. São os povos indígenas e tradicionais que protegem a floresta com sabedoria ancestral e enfrentam diariamente as ameaças do desmatamento, da violência e da omissão estatal. É hora de inverter a lógica. A COP30 deve ser construída com eles, por eles e para eles. João Marcelo Ferreira

A COP das Florestas não pode ser só um slogan bonito. Ela precisa ser uma virada de chave histórica, um marco de reparação e justiça climática. Dar voz e poder real de decisão às populações tradicionais é o único caminho para uma transição energética que seja, de fato, justa e sustentável. Como brasileira, espero que Belém não se transforme em palco de discursos vazios, mas sim em símbolo de transformação e escuta verdadeira.

Belém – PA

Marisa Oliveira Manaus – AM

💬 MANDE SUA MENSAGEM

💬 E-mail: cartadoleitor@revistacenarium.com.br | WhatsApp: (92) 98564-1573


Sumário

► MEIO AMBIENTE & SUSTENTABILIDADE Árvores artificiais na COP30............................................06

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Ranking trágico.................................................................52

► POLÍCIA & CRIMES AMBIENTAIS

Última nascente sob ameaça...........................................08

Violência contra agricultores...........................................54

Em busca do saber amazônico........................................10

Pará em chamas................................................................56

Cadê a pororoca?..............................................................12

Família resgatada..............................................................58

► CENARIUM+CIÊNCIA

► ARTIGO – Inory Kanamari

QUANDO O MERCÚRIO ENVENENA

Não há festa onde há sangue: o silêncio mortal

Doença de Minamata: quando o mercúrio envenena....14

do Dia dos Povos Indígenas............................................59

Vidas e territórios em risco..............................................20 Danos à saúde pública.....................................................26 Compromisso com a ciência na Amazônia....................30 Doçura saudável...............................................................34

► PODER & INSTITUIÇÕES Amazonas participa de fórum internacional..................36 Brasília: 65 anos de história, arquitetura e cultura.........38

► ECONOMIA & SOCIEDADE Caos Urbano.....................................................................40 Povos livres, direitos ameaçados.....................................42 ‘Abrindo espaços’..............................................................46 Justiça para (quase) todas................................................50

► MUNDO E CONFLITOS INTERNACIONAIS Legados para a Amazônia................................................60

► ENTRETENIMENTO & CULTURA Parceria amplia visibilidade da Amazônia.....................62

► DIVERSIDADE Cinco anos de jornalismo técnico, ético e responsável............................................................66 Dia dos Povos Indígenas: direitos, resistência e justiça...........................................................68

► ARTIGO – Walmir de Albuquerque Barbosa Crônicas do Cotidiano: A fúria que vem de Harvard.....70

Crédito: Divulgação

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Crédito: G.Miranda | Funai

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Crédito: Reprodução | Governo Federal

Abril de 2025 • Ano 06 • N.º 58


MEIO AMBIENTE & SUSTENTABILIDADE Crédito: Divulgação | Seop

Árvores artificiais na COP30 Especialistas em meio ambiente, lideranças políticas e populações tradicionais criticam o Governo do Pará pela implantação de árvores artificiais durante o maior evento climático do mundo Fabyo Cruz – Da Revista Cenarium

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ELÉM (PA) – Lideranças políticas, populações tradicionais e especialistas em meio ambiente criticaram o Governo do Pará após o anúncio da instalação de árvores artificiais no Parque Linear Nova Doca, em Belém, como parte das obras para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá em novembro deste ano na capital paraense. Eles apontam a falta de diálogo com comunidades locais e a ausência de soluções que priorizem a vegetação nativa. A vereadora Vivi Reis (Psol), que atua na Câmara Municipal de Belém (CMB), utilizou as redes sociais para manifestar sua insatisfação com a ação do governo. Para a parlamentar, a construção das árvores artificiais na Doca e na Avenida Tamandaré

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Árvore artificial instalada no Parque Linear Nova Doca, em Belém, como parte das obras para a COP30

revela a “artificialidade” do governador Helder Barbalho (MDB) em relação às questões ambientais. “Fora, faz belos discursos, mas aqui destrói a floresta, mostrando que seu compromisso com a Amazônia não passa de fake news”, declarou. O coletivo “COP do Povo”, composto por lideranças de comunidades tradicionais que organizam ações paralelas à COP30, também emitiu uma nota pública de repúdio. Para o grupo, a escolha de estruturas artificiais em plena Amazônia evidencia um “preocupante grau de desconexão com a realidade amazônica” e constitui uma afronta a marcos globais de proteção ambiental, como o Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).


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O coletivo questiona a falta de transparência nos gastos da obra e critica a ausência de diálogo com as comunidades locais. “O simbolismo de implantar árvores artificiais em uma das regiões mais biodiversas do planeta escancara não só o desprezo pelo conhecimento tradicional e científico sobre o bioma amazônico, mas também a falta de escuta e diálogo com as comunidades locais, ribeirinhas e os povos originários”, destaca a nota.

“

Essas estruturas não substituem as árvores nem desempenham suas funções, como as de mata ciliar, que deveria existir nas margens dos rios”

Vânia Neu, bióloga e professora da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra)

Crédito: Sérgio Moraes | Fundação Guamá

Na divulgação da implantação das árvores artificiais, a Secretaria de Obras Públicas do Pará (Seop) argumentou que as “eco-árvores” são compostas por vergalhões reaproveitados e plantas trepadeiras, promovendo sombreamento em locais onde árvores naturais não poderiam ser plantadas devido à falta de solo adequado.

Crédito: Divulgação | Agência Pará

ARGUMENTOS DO GOVERNO

Governo do Pará informou que serão instaladas 88 ‘eco-árvores’ no Parque Linear Nova Doca

“No meio da paisagem da Nova Doca, uma estrutura chama a atenção. São conjuntos de árvores com copas frondosas, repletas de folhas verdes que, assim como qualquer outro vegetal, fornecem sombra e conforto para quem passa pela área – só há uma diferença: essas árvores são artificiais”, diz o governo no site da Seop. A pasta destacou que a escolha das árvores artificiais foi inspirada em estruturas semelhantes encontradas em Cingapura, conhecidas por promover sombra e conforto térmico em áreas urbanas

densas. “O objetivo foi reduzir as ilhas de calor em Belém. O perfil viário da Doca não dispõe de espaço para o plantio de árvores de médio e grande porte”, informou a Seop. Segundo a Secretaria de Obras Públicas do Pará, serão instaladas, ao todo, 88 “eco-árvores” no Parque Linear Nova Doca e 100 no Parque Linear Nova Tamandaré. A expectativa do governo é que as estruturas ajudem a amenizar o calor durante o evento e sirvam como elemento paisagístico para a população.

Impactos ambientais À Revista Cenarium, a bióloga Vânia Neu, professora da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), comentou a escolha pelas árvores artificiais. Ela explicou que as estruturas de vergalhões não substituem as funções das árvores naturais, como a preservação das matas ciliares. A especialista também destacou que, diante do grande investimento, seria mais adequado apostar em soluções que aumentassem as áreas verdes da cidade, utilizassem pisos permeáveis e abordassem questões estruturais, como a falta de saneamento básico. “Essas estruturas, na verdade, são suportes de vergalhões onde serão penduradas plantas em vasos. Isso apresenta

diversos problemas. Primeiramente, essas estruturas não substituem as árvores nem desempenham suas funções, como as de mata ciliar, que deveriam existir nas margens dos rios. Além disso, essas plantas em vasos precisarão ser irrigadas nos períodos de seca. Existe uma estrutura para irrigação? Caso não haja, elas secarão e morrerão, pois vasos pequenos, como os propostos, não retêm água por muito tempo”, explicou. “Para a COP, deveriam ter sido pensadas soluções que trouxessem mais áreas verdes para a cidade, mais pisos permeáveis e, de modo algum, promovido o desmatamento. As obras deveriam ter como foco resolver a falta de saneamento básico e a escassez de árvores na cidade”, concluiu. 07


MEIO AMBIENTE & SUSTENTABILIDADE

A água, antes límpida, ficou barrenta pela concentração de barro despejado por obras Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

Última nascente sob ameaça Considerado o último igarapé limpo em Manaus, o Água Branca sente os impactos da construção de imóveis em seu entorno Letícia Misna – Da Revista Cenarium

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ANAUS (AM) – Localizado no bairro Tarumã, Zona Oeste de Manaus, o Água Branca é considerado o último igarapé limpo que corta a capital amazonense. Com mais de mil braços de rio, segundo dados da Associação Comercial do Amazonas (ACA), a cidade transformou esses igarapés — palavra de origem tupi que significa “caminho de canoa” — em verdadeiros caminhos de lixo. E o Água Branca pode acabar seguindo o mesmo destino. Segundo o biólogo Arley Figueiredo, a especulação imobiliária aumentou o valor dos imóveis em Manaus, atraindo a

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atenção para a região do Tarumã. “Mansões, grandes condomínios, habitações são feitas ao redor do igarapé Água Branca. E, para isso ser feito, a mata ciliar e o fragmento vegetal são retirados para construções. Hoje em dia, a briga política é muito grande, e a gente tende a perder”, explicou. Parte do Água Branca passa dentro da propriedade de Jó Farah, que há mais de 20 anos decidiu dedicar-se à preservação e proteção do igarapé. Presidente da Organização Não Governamental (ONG) Mata Viva, o ativista trabalha desde a prevenção até o combate à degradação no entorno da última nascente límpida do Rio Negro.


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Mesmo com a iniciativa, o Água Branca já sente os impactos da pressão imobiliária no seu entorno. Uma dessas consequências pode ser vista em um vídeo gravado por Jó Farah no ano passado: a água, antes límpida, ficou barrenta devido à concentração de barro despejado por obras.

NASCIDOS DO RIO NEGRO A principal ação de prevenção da Mata Viva é levar educação ambiental às novas gerações. Jó recebe regularmente em sua propriedade alunos das redes públicas de Manaus para que possam conhecer e aprender sobre o igarapé.

“É inadmissível ver as crianças dessa idade, e até de outras idades também, crescendo sem nunca ter visto um igarapé limpo”, afirmou o ativista. Ele explicou que seu trabalho é transformar os alunos em replicadores da experiência. Jó também espera que o Água Branca seja reconhecido como um corredor ecológico e patrimônio ambiental de Manaus, pedido já feito à Semmas. “Porque, quando eles chegam em casa, na sala de aula, na comunidade, vão replicar essa experiência positiva de fazer uma trilha, de passar uma manhã inteira próximo de um igarapé vivo dentro da floresta para seus amigos e colegas. Eles vão dizer: ‘Olha, não pode jogar lixo. Está feio, mas não vamos piorar. Se continuar jogando lixo, vai piorar!’”, destacou. Liah Viana, de 11 anos, aluna do 6º ano de uma escola pública, teve por meio do projeto seu primeiro contato com um braço de rio naturalmente limpo. “Os igarapés que eu vi não eram assim limpos. Eram meio sujos. Geralmente estavam com lixo”, compartilhou. Da experiência, ela tirou uma lição: “Hoje aprendi que a gente não deve desmatar a floresta, não deve jogar lixo. A gente tem que preservar os rios. Porque, sem a natureza, a gente não vive”.

“

É preciso deixar bem claro para todos: se você é um agressor, se você está planejando invadir a área de floresta do igarapé Água Branca, não venha, porque nós vamos te denunciar”

Jó Farah, ativista.

Aceno da indústria À CENARIUM, Jó Farah explicou que o Distrito Industrial de Manaus é um modelo de desenvolvimento que, de certa forma, impediu uma poluição mais grave, mas que ainda é difícil conquistar a abertura das empresas para a causa ambiental. Apenas recentemente o Mata Viva conseguiu chamar a atenção de uma delas. “A gente tem essa relação já há alguns meses. Eu falo de um local de responsabilidade porque, sendo um industriário, pertencente à Zona Franca de Manaus, a gente tem noção do quanto produzimos nessa produção de larga escala. Sabemos que esse lixo, essa produção excessiva, uma hora chega aos igarapés. No Água Branca, jamais”, enfatizou Matheus Garcia, representante de uma empresa de componentes eletrônicos do Polo Industrial que decidiu apadrinhar o Água Branca.

Alunos de escolas públicas visitam regularmente o igarapé e aprendem como preservá-lo

Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

“Esse igarapé sofre várias ameaças. Quando chega algum desmatamento, alguma nova agressão ao igarapé, nós vamos lá, filmamos e identificamos. É preciso deixar bem claro para todos: se você é um agressor, se você está planejando invadir a área de floresta do igarapé Água Branca, não venha, porque nós vamos te denunciar. Vamos levar ao Ministério Público, vamos levar à Semmas [Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade], ao Ipaam [Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas]. Não vamos aceitar desmatamento nas margens do igarapé, muito menos ocupações irregulares”, alertou Jó.

A parceria entre o industriário e a Mata Viva é focada, sobretudo, no trabalho de conscientização e sensibilização das crianças que moram no entorno dos igarapés de Manaus. “Igarapés esses que são lixeiras viciadas, para que elas [as crianças] comecem a criar bons hábitos dentro de casa. Porque, veja bem, a gente não tem como cobrar de uma pessoa aquilo que ela desconhece, aquilo que ela não sabe que existe”, disse Matheus. 09


MEIO AMBIENTE & SUSTENTABILIDADE Crédito: Luiz André Nascimento | Revista Cenarium

Oito alunos de Master in Business Administration (MBA) Executivo, que estudam na França, participaram do intercâmbio cultural

Em busca do saber amazônico Pesquisadores de quatro nacionalidades participaram de imersão voltada à troca de saberes e à vivência de práticas sustentáveis das comunidades tradicionais amazônicas Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

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ANAUS (AM) – Na Comunidade Tumbira, dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, distante 64 quilômetros de Manaus, estudantes e professores de universidades estrangeiras embarcaram em uma jornada de conhecimento sobre as comunidades tradicionais do Amazonas durante o programa Learning Journeys (“Jornadas de Conhecimento na Amazônia”, em português), um intercâmbio sociocultural com foco em desenvolvimento sustentável e nos desafios impostos pelas mudanças climáticas na região.

Ao todo, oito alunos de Master in Business Administration (MBA) Executivo, que estudam na França, participaram da imersão voltada à troca de saberes e à vivência de práticas sustentáveis das comunidades tradicionais amazônicas. O grupo era composto por franceses (3), libaneses (2), sauditas (2) e um bareinita. Organizado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e pela Fundação Dom Cabral, o roteiro incluiu, no dia 17 de abril, entrevistas com moradores da comunidade ribeirinha e visita à infraestrutura física e tecnológica da localidade, que se tornou


REVISTA CENARIUM Crédito: Luiz André Nascimento | Revista Cenarium

A visita encerrou com a soltura de 20 filhotes de quelônios no Rio Negro

Geração de renda O turismo é fundamental para a sobrevivência, sendo o principal meio de geração de renda em Tumbira. Com essa atividade, é possível melhorar a qualidade de vida das famílias e fortalecer a comunidade. “É o oposto da minha vida normal. E o que eu acho impressionante nesta comunidade é que são apenas 40 famílias, mas a quantidade de trabalho, como os painéis solares, o uso da natureza para criação, acolhendo tantos turistas

e sendo tão amigáveis... É bom ver que é possível, e todo mundo parece feliz, o que é o mais importante”, compartilhou Paprika Le Bourgeois, aluna de MBA de Doha, no Catar. Às 17h do dia 17 de abril, o dia de visita encerrou com uma surpresa única, que só a Amazônia pode proporcionar: a soltura de 20 filhotes de quelônios no Rio Negro. Ali, admirados pelos visitantes que já se preparavam para partir, todos se despediram com um simbólico “até logo”.

Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

Imersão aconteceu na Comunidade Tumbira, dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, a 64 quilômetros de Manaus

referência na execução de projetos que geram bons resultados, beneficiando seus moradores e proporcionando geração de renda com a conservação da floresta em pé. Os alunos de MBA Executivo e professores puderam experienciar alguns dos desafios enfrentados na região, assim como testemunhar a possibilidade de crescimento econômico respeitando a natureza, como observou o professor e diretor do Núcleo de Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral, Heiko Spitzeck. “Nós viemos aqui para entender como fazer negócios com a floresta em pé e aproveitar a riqueza que a floresta oferece para fazer negócios que sustentem a comunidade, mas, ao mesmo tempo, preservem a floresta. Então, para nós, é um super prazer, uma aprendizagem, de também entender como a Fundação Amazônia Sustentável trabalha com as comunidades para favorecer esse tipo de negócio”, declarou. Tumbira está localizada às margens do Rio Negro, na região do Arquipélago de Anavilhanas. No local, a FAS é responsável por implementar ações que visam ao crescimento econômico, educacional, cultural e turístico, beneficiando diretamente mais de 140 ribeirinhos. 11


MEIO AMBIENTE & SUSTENTABILIDADE

Fenômeno natural da pororoca

Cadê a pororoca? Crédito: Allan Londres | Arquivo Pessoal

Comunidades da Amazônia alertam para o ‘sumiço’ do fenômeno nos rios Fabyo Cruz – Da Cenarium

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ELÉM (PA) – As pororocas, fenômenos que ocorrem no encontro das águas dos rios com as marés oceânicas e formam ondas de grande impacto nos Estados do Pará, Amapá e Maranhão, estão ameaçadas pelas mudanças climáticas. É o que afirmam ribeirinhos, surfistas e pesquisadores, que presenciam no fenômeno um novo cenário, marcado por incertezas. O surfista Allan Londres, de 24 anos, que reside em São Domingos do Capim, no nordeste do Pará, cidade conhecida como a “Capital da Pororoca”, vive o evento há mais de uma década. Para ele, surfar nas ondas geradas pela força das águas é uma experiência que mistura adrenalina e respeito pela natureza. “O fenômeno da pororoca é uma coisa inexplicável”, conta Allan, com a emoção de quem já conhece as ondas como poucas pessoas. “Tem tudo a ver com o alinhamento da Lua, com a Nova, a Cheia… é uma coisa incrível!”, declarou. 12

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Ele lembra com saudade dos anos em que as ondas eram intensas e constantes. “Ficamos de 2019 até 2024 sem ver pororoca aqui”, explica. “Agora ela voltou, mas com menos força. Em 2019, por exemplo, estava muito alta, muito grande. Agora, a gente vê que ela aparece, mas não é mais a mesma”, afirma. A rotina dos surfistas e ribeirinhos que dependem da pororoca mudou, forçando adaptações e impondo limites. A intensidade da onda varia conforme o alinhamento dos astros e a altura das marés, mas o fenômeno cada vez menos impressiona pela força. “A gente surfa à noite também, esperando a Lua refletir na água, um espetáculo lindo”, diz o surfista. No entanto, ele pondera: “Mas tudo isso está ameaçado!”

POROROCA MARAJOARA Para a ativista Izabel Cristina Miranda, de 44 anos, uma das fundadoras da Comunidade Ribeirinha Rio Mandubé, no município de Chaves, no Arquipélago do Marajó, no Pará, a pororoca é um símbolo de identidade cultural e uma força incontrolável da natureza. Ela recorda a experiência de viver com a força das águas, que já presenciou desde pequena. “Eu só fico esperando ela passar para seguir viagem, mas tenho parentes que gostam de ir junto com ela.

Literalmente, é a força das águas”, diz. “Tenho orgulho de pertencer aos Povos da Pororoca Marajoara”, ressalta. Izabel lembra que, antigamente, a pororoca era tão presente que se tornou parte da identidade dos marajoaras. “Tínhamos até pessoas com o apelido de pororoca”, comenta, destacando como o fenômeno sempre foi respeitado por sua intensidade e beleza. No entanto, Izabel também percebe a mudança nos padrões da pororoca, que agora já não invade o rio com a mesma força de antes. “Ela aparece com mais força no inverno, e ainda tem até surf na Ilha das Pacas, mas o Rio Mandubé está secando, e isso preocupa muito”, desabafou.

PRESERVAÇÃO Tanto Allan quanto Izabel atribuem a fragilidade da pororoca ao impacto das mudanças climáticas, que afetam diretamente o equilíbrio dos rios da Amazônia. Allan observa como o aquecimento global e o desmatamento estão ameaçando a existência do fenômeno. “Esse ano ela voltou, mas bem mais fraca. O aquecimento global quebrou muito a nossa pororoca”, lamenta o surfista. Izabel também observa as consequências do clima sobre a natureza que sustenta sua comunidade e suas tradições.


REVISTA CENARIUM Crédito: Reprodução | Arquivo Pessoal

“A pororoca sempre foi a nossa força. Ver que ela está desaparecendo nos preocupa muito. O que será da nossa cultura e do nosso território sem ela?”, questiona, mostrando a relação profunda que o povo marajoara tem com as águas do rio e com a própria pororoca. Apesar das dificuldades, os moradores de São Domingos do Capim e de Chaves não desistem de lutar pela preservação do fenômeno. Allan e outros surfistas locais organizam eventos e competições para atrair atenção ao fenômeno e sua importância cultural e turística. “A gente faz surf noturno aqui também. À noite, a Lua reflete na água, e a beleza é única! Mas não sabemos até quando isso será possível”, diz ele. Izabel, por sua vez, se engaja em coletivos que buscam preservar os rios e a cultura ribeirinha. Como parte das “Filhas da Pororoca Marajoara”, ela participa de rodas de conversa e eventos de conscientização sobre o impacto ambiental. “Eu vejo meu trabalho como uma luta pela continuidade da nossa cultura. Nossa pororoca não pode desaparecer!”, declara Izabel.

Árvore caída, rastro deixado pela pororoca

Mudanças climáticas e sedimentação À CENARIUM, o pesquisador Adriel Guimarães Carneiro, doutorando em Geofísica pela Universidade Federal do Pará (UFPA), compartilhou detalhes sobre as características e os desafios enfrentados pelas ondas da pororoca na Amazônia e sobre como o fenômeno tem sofrido alterações com o tempo. No Pará, a pororoca é bem conhecida no município de São Domingos do Capim, onde, segundo Adriel, o fenômeno ocorre em proporções menores e não de forma constante, dependendo de condições ideais de maré para acontecer. No Amapá, as pororocas são mais intensas, devido à grande influência das marés na costa norte do Estado, com ondas que chegam a impressionantes 11 metros de altura em locais como o Rio Araguari, o Sucuriju e o Igarapé do Inferno. O pesquisador afirma que a pororoca depende de um “checklist” de fatores para ocorrer: uma geometria de rio adequada, condições ideais de maré e a inclinação do leito, entre outros. “Mudanças naturais e induzidas por atividades humanas podem

modificar a extensão e a intensidade do fenômeno, fazendo com que ele se forme em locais diferentes de onde era registrado anteriormente ou ocorra com menos frequência”, explicou Adriel. Embora o fenômeno da pororoca continue presente na região, o pesquisador alerta que há riscos de que as pororocas diminuam em intensidade e frequência em certos locais. Adriel explica que a sedimentação — a acumulação de sedimentos nas fozes dos rios — pode barrar o avanço das ondas para regiões mais internas, fenômeno já observado no Rio Araguari, localizado na região central do Amapá. Nos últimos anos, o rio desenvolveu uma barreira arenosa, restringindo seu curso e dificultando a ocorrência da pororoca. Além disso, o aumento do nível do mar, impulsionado pelas mudanças climáticas, contribui para essa dinâmica. Com o avanço das águas oceânicas, o transporte de sedimentos pelos rios para o oceano torna-se mais complicado. Isso resulta em um acúmulo de material sedimentar no fundo dos rios, criando camadas com-

pactas e difíceis de remover, o que pode alterar as características da pororoca ao longo do tempo. A ação humana, especialmente por meio da construção de hidrelétricas, é outro fator que pode influenciar o fenômeno. Hidrelétricas localizadas na cabeceira dos rios, embora não afetem diretamente a área costeira, podem alterar o fluxo natural dos rios, impactando indiretamente a pororoca. Contudo, Adriel ressalta que o efeito dessas barragens é secundário e que não há uma certeza clara de que a diminuição do fluxo dos rios comprometa necessariamente a formação das ondas. “A pororoca, que já foi mais comum em décadas passadas, atualmente é um fenômeno que ocorre principalmente nas maiores marés do mês, e sua continuidade é uma incerteza”, disse o pesquisador. Contudo, Adriel acredita que, com o avanço das pesquisas e simulações matemáticas sobre marés e sedimentação, será possível entender melhor o comportamento desse fenômeno amazônico e, quem sabe, prever seu futuro na região.

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Doença de Minamata: quando o mercúrio envenena Após mais de 70 anos de um dos maiores desastres ambientais, o mundo ainda sente os efeitos da contaminação por mercúrio

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ANAUS (AM) - Quase imperceptível ao olfato e invisível à vista, o mercúrio é uma ameaça silenciosa que se espalha pelas margens dos rios da Amazônia. Esse elemento químico altamente tóxico infiltra-se nas águas e sedimentos, integrando um ciclo insidioso que se inicia com partículas microscópicas e culmina na cadeia alimentar dos peixes — fonte de subsistência de comunidades ribeirinhas e indígenas da região. À medida que se acumula no organismo humano, os efeitos se revelam de forma tardia e, muitas vezes, irreversível. 14

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Em crianças, a exposição ao mercúrio não se manifesta como uma intoxicação aguda, mas por meio de sintomas neurológicos progressivos: atraso no desenvolvimento cognitivo, distúrbios na coordenação motora e alterações na linguagem. O que poderia ser confundido com um atraso comum no crescimento, na verdade, reflete uma contaminação crônica que atinge populações inteiras. A Convenção de Minamata, estabelecida em 2013 e em vigor desde 2017, surgiu como uma resposta internacional ao

Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

Bianca Diniz – Da Revista Cenarium


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Na Amazônia, os danos afetam populações tradicionais que dependem diretamente dos recursos naturais contaminados

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Os efeitos da exposição ao mercúrio são particularmente severos entre gestantes e crianças, com comprometimento neurológico irreversível 16

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Crédito: Reprodução | Sesai

desastre ambiental ocorrido na Baía de Minamata, no Japão, na década de 1950. À época, a indústria química Chisso Corporation despejou grandes quantidades de metilmercúrio no ambiente — composto altamente tóxico formado quando o mercúrio se mistura com matéria orgânica —, levando à intoxicação de milhares de pessoas e animais, com consequências devastadoras para a saúde humana e destruição da fauna local. A tragédia de Minamata permanece como um marco indiscutível na história da poluição e seus efeitos devastadores. No Japão, as autoridades reconheceram cerca de 4 mil vítimas de envenenamento por mercúrio, mas a estimativa chega a aproximadamente 70 mil pessoas, considerando os danos indiretos, segundo o Ministério do Meio Ambiente japonês.

O PASSADO SE REPETE O alerta emitido por Minamata ecoa hoje na Amazônia, onde a mineração ilegal de ouro promove o uso descontrolado de mercúrio. Como no Japão, os efeitos da exposição ao elemento são particularmente severos entre gestantes e crianças, com comprometimento neurológico irreversível. A diferença é que, na Amazônia, os danos atingem populações que dependem diretamente dos recursos naturais contaminados, como povos indígenas e comunidades extrativistas, cuja dieta é baseada no pescado local. Estudos recentes aprofundam a compreensão dos efeitos cumulativos da exposição ao mercúrio, que vão além dos distúrbios neurológicos e incluem impactos sistêmicos de longo prazo. Conforme o Conselho

Contaminação em território brasileiro Um relatório do Projeto de Avaliação Inicial da Convenção de Minamata, publicado pelo governo federal, por meio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), em 2024, apresenta uma síntese sobre a contaminação por mercúrio no território brasileiro, com ênfase nos impactos provocados pela mineração aurífera (legal e ilegal) na Amazônia. Segundo os dados, o Brasil registra uma entrada anual estimada de mercúrio variando entre 67.024 e 940.108 kg. O inventário nacional revela que a extração de ouro industrial — mesmo sem o uso de amalgamação (método tradicional associado ao garimpo) — é a maior fonte de emissões e liberações de mercúrio no País. Em média, 64% do total despejado é proveniente do garimpo. Em seguida, aparecem o descarte informal de resíduos sólidos, a produção de cimento e o uso de dispositivos elétricos e eletrônicos contendo mercúrio. O solo é o meio físico mais impactado, recebendo entre 28% e 59% da carga anual de mercúrio lançada, seguido por resíduos sólidos, emissões atmosféricas e cursos d’água. A metodologia utilizada para a construção desse inventário

baseou-se no Toolkit para Identificação e Quantificação de Liberações de Mercúrio, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), com aplicação do Nível 2, que exige grande volume de dados operacionais e estatísticos. O inventário específico sobre a Mineração Artesanal e em Pequena Escala de Ouro (Mapeo) descreve o setor como heterogêneo e informal. Foram analisadas 26 áreas de extração em cinco Estados (Pará, Mato Grosso, Amapá, Bahia e Rondônia), com medições técnicas de balanço metalúrgico de mercúrio realizadas em 14 localidades. Em 2016, entre 11 e 161 toneladas de mercúrio foram lançadas na atmosfera ou liberadas no solo e nos corpos hídricos do Brasil, considerando tanto a produção legalizada quanto a clandestina. Segundo o MMA, o mercúrio utilizado pelos garimpeiros é adquirido sem nota fiscal, com preços que variam entre R$ 600,00 e R$ 1.200,00 por quilo. Não há mercado formal ativo, e a compra pela internet é descrita como acessível. A ausência de regulação eficaz torna o setor um vetor persistente de contaminação ambiental.

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Indigenista Missionário (Cimi), em relatório de 2020, a presença do metal pesado compromete não apenas a saúde das populações locais, mas também a integridade dos ecossistemas, reforçando um ciclo de degradação socioambiental. Com o aumento das pesquisas sobre os efeitos prolongados da exposição ao mercúrio, observa-se que as vítimas, muitas vezes sem consciência dos perigos iminentes, sofrem também com danos sistêmicos, como distúrbios cardiovasculares e imunológicos. Na Amazônia, a mineração ilegal de ouro, associada ao uso indiscriminado de mercúrio, intensifica esse quadro. Segundo o Cimi, os impactos sobre as populações indígenas e ribeirinhas incluem, além dos danos à saúde, a contaminação dos rios e a destruição ambiental, resultando em um ciclo de deterioração ecológica e social. Esses efeitos, no entanto, não se limitam às fronteiras locais. Como destacou o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), em 2019, partículas

de mercúrio podem ser transportadas por correntes atmosféricas, alcançando regiões distantes. Isso torna a poluição por mercúrio um problema global e transnacional. Países como Brasil, Indonésia, Venezuela e Filipinas, que enfrentam impactos do garimpo ilegal e da poluição industrial, compartilham desafios semelhantes no combate ao envenenamento mercurial. A falta de fiscalização e a fragilidade das políticas públicas no Brasil tornam a luta contra a contaminação ainda mais urgente. O mercúrio, utilizado de maneira ilegal e destrutiva na extração do ouro, continua a contaminar rios e a prejudicar as populações mais vulneráveis, perpetuando os danos causados por atividades extrativistas irresponsáveis. A lição que emerge de Minamata e sua relevância para a Amazônia é clara: sem ações globais firmes para controlar e erradicar o uso do mercúrio, as consequências para a saúde humana e para o meio ambiente serão irreversíveis.

Crise humanitária Crédito: Fernando Frazão | Agência Brasil

O relatório dedica uma seção à crise humanitária e ambiental instalada na Terra Indígena Yanomami (TI Yanomami), reconhecendo a região como uma das mais afetadas pela contaminação por mercúrio no mundo. Entre 2016 e 2020, o garimpo ilegal na TI Yanomami teve uma expansão de 3.350%, segundo dados do projeto MapBiomas, coincidindo com o aumento da presença de mercúrio nos ecossistemas locais e na cadeia alimentar das comunidades indígenas.

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As áreas mais atingidas são Palimiu, Waikás, Auaris, Parima, Homoxi, Rio Mucajaí, Catrimani e Ericó. Em resposta, foi iniciado um programa interinstitucional de monitoramento ambiental, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).


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A mineração ilegal de ouro, frequentemente associada ao uso indiscriminado de mercúrio, agrava ainda mais esse cenário na Amazônia 19


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Vidas e territórios em risco

Os povos Yanomami e Munduruku estão entre os mais afetados pela contaminação por mercúrio na Amazônia, resultado direto do garimpo ilegal. A presença do metal tóxico compromete a saúde, a segurança alimentar e os modos de vida tradicionais dessas populações indígenas Bianca Diniz – Da Revista Cenarium

O estudo Impacto do Mercúrio em Áreas Protegidas e Povos da Floresta na Amazônia: Uma Abordagem Integrada Saúde-Ambiente, realizado em outubro de 2022, avaliou o impacto do garimpo ilegal na saúde e no meio ambiente da região. Cerca de 300 indígenas foram analisados, e os resultados revelaram que os níveis mais 20

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Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

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ANAUS (AM) - Uma pesquisa realizada pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), em parceria com a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/ Fiocruz), em abril de 2024, revelou dados alarmantes sobre a contaminação por mercúrio em nove aldeias do povo Yanomami, no Estado de Roraima. O estudo identificou que todos os participantes, incluindo crianças e idosos, apresentaram níveis detectáveis do metal pesado, sendo as aldeias mais afetadas aquelas localizadas próximo a garimpos ilegais.


REVISTA CENARIUM Crédito: Divulgação

A contaminação foi verificada por meio da análise de amostras de cabelo, evidenciando um panorama sombrio para a saúde do povo Yanomami

elevados de mercúrio estavam concentrados nas aldeias próximas às atividades garimpeiras. A contaminação foi verificada por meio da análise de amostras de cabelo, revelando um panorama sombrio para a saúde do povo Yanomami. O coordenador do estudo, Paulo Basta, médico e pesquisador da Ensp/Fiocruz, destacou o risco crescente para as crianças da região, especialmente as com menos de 5 anos, que estão mais vulneráveis às consequências da exposição crônica ao mercúrio. “Esse cenário de vulnerabilidade aumenta exponencialmente o risco de ado-

ecimento das crianças e pode favorecer o surgimento de manifestações clínicas mais severas”, afirmou. O Alto Rio Mucajaí, onde foram realizadas as coletas, é uma área marcada pela presença de garimpeiros ilegais há décadas. A destruição ambiental causada por essas atividades não afeta somente o ecossistema local, mas também a saúde da população Yanomami. Dário Vitório Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami (HAY), sublinhou a urgência da situação: “O garimpo é o maior mal que temos hoje na Terra Yanomami.

84% Estudo analisou 287 amostras de cabelo em território Yanomami. Destas, 84% apresentaram níveis de mercúrio superiores a 2,0 µg/g, e 10,8% mostraram índices acima de 6,0 µg/g, considerado um nível alarmante de contaminação.

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Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami.

Estudo sobre a contaminação por mercúrio nas comunidades Munduruku, no Pará, revela que os impactos devastadores do mercúrio não cessaram 22

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Entre as 287 amostras de cabelo analisadas, 84% apresentaram níveis de mercúrio superiores a 2,0 µg/g, e 10,8% mostraram índices acima de 6,0 µg/g, considerado um nível alarmante de contaminação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que não existe limite seguro para a exposição ao mercúrio, especialmente em populações vulneráveis como crianças e idosos. Esses níveis de mercúrio têm provocado efeitos neurológicos, como

déficits cognitivos e danos nos nervos das extremidades, como mãos e pés. Além da contaminação por mercúrio, o estudo também apontou a prevalência de doenças crônicas não transmissíveis entre os Yanomami, como hipertensão, anemia, diabete e problemas nutricionais. Indígenas com pressão alta apresentaram níveis elevados de mercúrio com maior frequência do que aqueles com pressão normal. O estudo analisou ainda a contaminação de peixes da região, uma das principais fontes de alimento para os Yanomami. As 47 amostras de peixes avaliadas mostraram que todos os exemplares estavam

Crédito: Reprodução | MPF Pará

“

O garimpo é o maior mal que temos, hoje, na Terra Yanomami. Se o garimpo permanece, permanece também a contaminação e a devastação”

A desintrusão, a retirada desses invasores, é urgente. Se o garimpo permanece, permanece também a contaminação e a devastação”.


Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

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Devastação de rios e florestas Korap também denunciou a invasão das terras indígenas por grandes empresas e a mineração ilegal, que continuam devastando as florestas e os rios da região. A liderança apontou a relação direta entre a exploração desses recursos e os graves problemas de saúde que afligem as comunidades Munduruku. “Um estudo da Fiocruz constatou que 56% das mulheres e crianças de Maturuka [região Yanomami], na Amazônia, estavam contaminadas. Não é um problema exclusivo do povo Munduruku. Indígenas, pescadores e até mesmo aqueles que vivem nas cidades também estão adoecendo. Esses minerais saem para enriquecer ainda mais os homens ricos”, destacou Alessandra. Além da contaminação por mercúrio, Alessandra alertou para outro problema crescente: a seca. A escassez de água nos rios, vital para a sobrevivência das comunidades, reflete o avanço das atividades agrícolas, especialmente o cultivo de soja voltado ao mercado internacional. “Agora enfrentamos outro problema: a seca. Os rios estão secando, os peixes

estão morrendo, os animais não têm água para beber, há incêndios por toda parte, respiramos fumaça. Mas tudo isso tem um nome: o desenvolvimento do agronegócio para plantar soja que alimenta porcos e galinhas, e que muitas vezes não deixa espaço para nossas crianças, nossas mulheres, nossas florestas e nossos rios”, denunciou. Alessandra também fez um apelo por mais reconhecimento do protagonismo das mulheres indígenas na luta pela preservação de suas terras e pela proteção de seus direitos. Destacou a importância das mulheres na resistência contra o avanço do garimpo ilegal, a destruição ambiental e a violação dos direitos territoriais. “Nós, os povos indígenas, estamos implorando por ajuda aqui diante de vocês, que apenas nos ouvem, mas não fazem nada para resolver nossos problemas. Onde estão as soluções? Há países ricos e bancos entrando em nossos territórios e financiando nossas mortes, destruindo nossos direitos”, afirmou Alessandra, responsabilizando as grandes potências e

suas corporações pelo agravamento da crise ambiental e humanitária. A ativista também foi enfática em sua crítica ao Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro, acusando a Corte de desrespeitar a Constituição ao discutir a tese do Marco Temporal, que limita os direitos territoriais indígenas. “Até o Supremo Tribunal Federal é contra os povos indígenas quando desrespeita a Constituição e quer que a gente se sente à mesa para discutir o Marco Temporal, colocando invasores dentro das nossas terras”, concluiu. Para as organizações indígenas, como o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a intervenção de Korap na ONU foi mais uma tentativa de levar a discussão sobre os impactos do mercúrio e outras ameaças ambientais para o cenário internacional. Alessandra também solicitou mais pesquisas sobre os impactos do mercúrio no povo Munduruku — uma demanda urgente diante da gravidade da contaminação e das dificuldades enfrentadas pelas comunidades afetadas. 23


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Crédito: Arquivo Pessoal

contaminados por mercúrio. Os maiores índices foram encontrados nas espécies carnívoras, como o mandubé e a piranha. A ingestão de mercúrio proveniente do consumo diário de peixe excedeu em três vezes a dose de referência estabelecida pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (U.S. EPA).

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As nossas mulheres na Amazônia têm o útero doente, o leite materno está contaminado com ouro e mercúrio”

Desde 2019, quando a Fiocruz realizou um estudo sobre a contaminação por mercúrio nas comunidades Munduruku da Terra Indígena Sawré Muybu, no Pará, os alertas sobre os impactos devastadores do metal não cessaram. À época, a pesquisa revelou que mais da metade dos 200 habitantes das três aldeias analisadas apresentavam níveis de mercúrio superiores ao limite de segurança recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Entre as crianças, especialmente as menores de 5 anos, os danos ao neurodesenvolvimento foram mais expressivos, com 15,8% apresentando sinais de comprometimento. Os peixes consumidos pelas comunidades também estavam contamina-

Seis anos depois, em abril de 2025, os riscos persistem, e a luta dos Munduruku, liderada por ativistas como Alessandra Korap Munduruku, se intensifica, tanto nos territórios quanto nos fóruns internacionais. No dia 21 de abril, Korap participou da “24ª Sessão do Fórum Permanente da ONU sobre Questões Indígenas”, realizada na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, onde discursou sobre a realidade de seu povo e as dificuldades enfrentadas pelas mulheres indígenas da Amazônia, vítimas diretas da contaminação por mercúrio. “Eu venho da minha aldeia para dizer aqui que as nossas mulheres na Amazônia têm o útero doente, o leite materno está contaminado com ouro e mercúrio”, declarou.

Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

Alessandra Munduruku, ativista.

AMEAÇA AOS MUNDURUKU

dos, com níveis de mercúrio ultrapassando os limites seguros e resultando em doses diárias de ingestão até 18 vezes superiores ao recomendado para a saúde humana. Esses resultados colocaram a poluição por mercúrio no centro das discussões sobre os impactos do garimpo ilegal nas comunidades indígenas da Amazônia.

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Além dos impactos diretos na saúde humana, a poluição por mercúrio também devastou a biodiversidade local das comunidades Crédito: Fernando Frazão | Agência Brasil

Vilão antigo da Amazônia A mineração de ouro na Amazônia, historicamente realizada artesanalmente, tem raízes em práticas extrativistas ilegais que remontam há séculos. No entanto, nos últimos 50 anos, a atividade ganhou proporções imensuráveis, impulsionada pela utilização indiscriminada de mercúrio. O metal pesado continua sendo amplamente utilizado na amalgamação do ouro, resultando em graves consequências ambientais e em crises de saúde pública entre povos indígenas e comunidades ribeirinhas. Inicialmente, os garimpos amazônicos eram caracterizados por métodos simples e manuais de extração, como o uso de bateias e calhas para separar o ouro do cascalho. A partir dos anos 1980, com o aumento do interesse pelo ouro e a mecanização da atividade, a escala da mineração cresceu exponencialmente. Equipamentos como escavadeiras hidráulicas e dragas transformaram as paisagens da Amazônia, permitindo a remoção de volumes cada

vez maiores de terra para a extração do metal precioso. O uso de escavadeiras e dragas implica na remoção maciça de vegetação, alteração dos leitos dos rios e, em muitos casos, na destruição de ecossistemas fluviais. Embora tenha ampliado a produção de ouro, a mecanização também intensificou o uso de mercúrio, que se consolidou como o principal agente de extração nas atividades garimpeiras. A amalgamação — técnica que utiliza o mercúrio para separar o ouro da terra — permanece como o método predominante entre os garimpeiros. O processo se baseia na capacidade do mercúrio de formar uma liga com o ouro, separando-o dos minerais. Para cada grama de ouro extraído, utiliza-se várias vezes mais mercúrio, o que resulta na liberação excessiva do metal nos rios e solos da região. Vale destacar que o uso do mercúrio no garimpo não se restringe apenas à

amalgamação. Durante o processo de remoção do cascalho, lavagem do ouro e destilação da amálgama, o mercúrio é disperso no ambiente. A destilação, realizada inadequadamente e sem o uso de retortas ou sistemas de contenção de vapores, é feita em fogueiras ou com tochas improvisadas, liberando vapores tóxicos no ar — que afetam tanto os trabalhadores quanto as populações nas proximidades. Além dos impactos diretos na saúde humana, a poluição por mercúrio também devastou a biodiversidade local. A fauna aquática, principalmente peixes como o tambaqui, o pirarucu e o dourado, sofre com a contaminação, e algumas espécies correm o risco de extinção local devido à destruição dos ecossistemas. A morte de peixes e a degradação dos habitats aquáticos impactam diretamente as comunidades que dependem desses recursos para sua alimentação. 25


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Danos à saúde pública A contaminação por mercúrio na Amazônia, embora não seja um fenômeno novo, se agravou nas últimas décadas devido à intensificação da mineração ilegal Bianca Diniz – Da Revista Cenarium

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ANAUS (AM) - Estudos realizados pela Universidade de British Columbia (UBC) mostram que a contaminação por mercúrio nos ecossistemas da Amazônia, resultante da atividade garimpeira, está causando sérios danos à saúde pública e ao equilíbrio ambiental da região. As pesquisas apontam que os impactos observados na Amazônia são semelhantes aos registrados em Minamata, no Japão, onde a intoxicação por mercúrio afetou uma comunidade inteira.

A ingestão do mercúrio causa sérios danos neurológicos, afetando principalmente crianças nascidas de mães expostas ao metal, que podem apresentar deficiências congênitas, como cegueira e dificuldades cognitivas 26

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A contaminação por mercúrio na Amazônia, embora não seja um fenômeno novo, tornou-se cada vez mais grave nas últimas décadas, impulsionada pela intensificação da mineração. A principal fonte de mercúrio na região vem da técnica de amalgamação utilizada na extração de ouro. O mercúrio, ao ser liberado no ambiente, transforma-se em metilmercúrio — a forma mais tóxica do metal —, sendo absorvido por organismos aquáticos e, posteriormente, afetando diretamente os povos indígenas e ribeirinhos. Especialistas explicam que, além do uso na extração de ouro, outras fontes, como a erosão de solos e a queima de florestas, também contribuem para a dispersão do mercúrio. A queima da vegetação, realizada para abrir áreas para mineração, libera o metal na atmosfera, que é transportado por longas distâncias e afeta áreas distantes dos garimpos.

O metilmercúrio, uma vez presente na cadeia alimentar, é transferido para as populações que dependem do pescado como principal fonte de proteína. Consequentemente, os níveis de mercúrio no sangue dessas populações são alarmantemente altos, chegando a ser até 300 vezes superiores ao considerado normal, conforme apontam estudos realizados desde a década de 1990. A ingestão do metilmercúrio causa sérios danos neurológicos, afetando especialmente crianças nascidas de mães expostas ao metal, que podem apresentar deficiências congênitas, como cegueira e dificuldades cognitivas. A comparação com o caso de Minamata é inevitável, pois a exposição prolongada ao mercúrio pode ter consequências devastadoras. Assim como no Japão, onde a liberação de mercúrio pela empresa Chisso causou uma calamidade de grandes proporções, a Amazônia enfrenta uma tragé-

dia silenciosa que ameaça seu equilíbrio ambiental e suas populações tradicionais. Na região, a exploração ilegal do ouro e o uso indiscriminado do mercúrio destroem grandes áreas de floresta, assoreiam rios e degradam ecossistemas inteiros. A erosão dos solos e a destruição de habitats naturais comprometem a biodiversidade da Amazônia. As populações indígenas e ribeirinhas, que habitam essas áreas há séculos, sofrem com a perda de suas fontes de subsistência e com a degradação de seu modo de vida. A migração de trabalhadores para as áreas de garimpo, frequentemente em condições precárias, também traz uma série de problemas sociais. O aumento da incidência de doenças como malária, hepatite e tifo, associado às condições de vida insalubres, agrava ainda mais a vulnerabilidade dessas comunidades.

Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

Cooperação internacional para minimizar impactos A Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp) firmará, em agosto de 2025, uma parceria estratégica com o Centro de Pesquisa em Saúde Global da Universidade de Estudos Estrangeiros de Guangdong, da China, visando enfrentar os efeitos da contaminação por mercúrio — especificamente a Doença de Minamata — em populações indígenas da Amazônia Legal. A informação foi confirmada pela Ensp após a visita, em março de 2025, do advogado e especialista em saúde ambiental, professor Kunihiko Yoshida, que esteve na instituição para discutir os detalhes do projeto conjunto. De acordo com Yoshida, a cooperação internacional — principalmente entre Brasil, Japão e China — deve reduzir a disseminação do elemento tóxico nas terras indígenas brasileiras, onde os povos estão expostos ao mercúrio utilizado na extração mineral. “Ainda temos muitos obstáculos e poucos problemas foram resolvidos. Por isso, precisamos de uma colaboração internacional voltada a esses assuntos, para que a sociedade ocidental

entenda a importância de se estabelecer uma espécie de ‘crescimento consciente’. A China também enfrenta problemas ligados à devastação ambiental e à contaminação. Construir um novo Memorando de Entendimento entre Brasil, Japão e China pode ser muito significativo”, explicou.

A pesquisa preliminar coordenada pelo professor Paulo Basta, da Ensp, já indicou níveis de mercúrio dez vezes superiores ao limite seguro em gestantes do povo Munduruku, no Estado do Pará, apontando riscos elevados para a saúde das futuras gerações.

A parceria será formalizada por meio de um Memorando de Entendimento, que prevê ações de pesquisa científica, capacitação técnica, formulação de políticas públicas de saúde e gestão de recursos naturais. Segundo a Ensp, o projeto contemplará a realização de encontros internacionais híbridos, campanhas de conscientização sobre os riscos do mercúrio e o desenvolvimento de redes acadêmicas para fortalecer a troca de conhecimentos em saúde ambiental.

A parceria com a China também fomentará a produção e a distribuição de materiais educativos bilíngues sobre os riscos da exposição ao mercúrio. O livro Mercúrio Amazônia EIPI BE, escrito com a colaboração de professores indígenas, será entregue nas escolas da Terra Indígena Munduruku (TI Munduruku), visando disseminar informações sobre a Doença de Minamata e conscientizar as comunidades locais.

Entre as iniciativas previstas, destaca-se a implementação de um programa de monitoramento da saúde das populações afetadas, com especial atenção para pesquisas longitudinais sobre gestantes e recém-nascidos indígenas expostos ao mercúrio.

Pesquisadores da Ensp, como Paulo Basta e Sandra Hacon, destacam que a cooperação internacional será fundamental para ampliar a visibilidade do problema e fortalecer as linhas de pesquisa em saúde ambiental, além de possibilitar o desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes.

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QUANDO O MERCÚRIO ENVENENA

Crédito: Reprodução | Governo Federal

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O mercúrio, uma vez presente na cadeia alimentar, é transferido para as populações indígenas e ribeirinhas que têm no peixe a como principal fonte de proteína

Diagnóstico: danos profundos e irreversíveis Durante a 363ª Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Saúde (CNS), realizada em 12 de fevereiro, o pesquisador titular da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), Paulo Cesar Basta, apresentou um diagnóstico sobre os impactos da mineração ilegal na Amazônia, ressaltando a estreita relação entre saúde, meio ambiente e a saúde indígena. O pesquisador afirmou que a crescente contaminação dos rios e ecossistemas amazônicos, impulsionada pela atividade garimpeira ilegal, afeta de maneira devastadora as populações tradicionais. Segundo Basta, o uso indiscriminado de mercúrio na extração ilegal de ouro agrava ainda mais os desafios socioambientais já 28

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enfrentados por esses grupos, cuja subsistência depende diretamente dos recursos naturais da floresta e dos rios. Basta enfatizou que, mesmo com a implementação de iniciativas de controle do mercúrio, a ineficácia da fiscalização e a fragilidade das políticas públicas fortalecem o problema. “Os danos causados pelo mercúrio são profundos e frequentemente irreversíveis”, alertou. Ele também destacou a urgência de um comprometimento mais firme por parte do governo brasileiro, das organizações internacionais e da sociedade civil para que o enfrentamento do uso ilegal de mercúrio seja eficaz e coordenado. Caso contrário,

as consequências para a saúde pública e o meio ambiente serão irreversíveis. Em sua fala no encontro, Basta explicou detalhadamente o processo de contaminação: “O excedente de mercúrio despejado no rio não se mistura à água, pois sua densidade é 13 vezes maior. Em vez disso, ele se deposita no fundo do leito, onde bactérias o transformam em metilmercúrio — uma forma orgânica que entra na cadeia alimentar, contaminando peixes, algas, crustáceos e outros animais aquáticos. Quando os humanos consomem esses peixes, acabam ingerindo o mercúrio, tornando o pescado o principal veículo de contaminação”.


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COP do Mercúrio A 6ª Conferência das Partes (COP-6) da Convenção de Minamata sobre Mercúrio, agendada para novembro de 2025 em Genebra, Suíça, pretende discutir soluções para enfrentar as ameaças globais provocadas pela poluição por mercúrio. De acordo com informações da organização do evento, a COP visa promover ações coletivas para proteger a saúde humana e o meio ambiente, em um contexto de crescente preocupação com a contaminação de ecossistemas vitais, como a Amazônia, e com os povos indígenas que habitam essas regiões.

A COP-6, em 2025, terá como foco principal a pauta da eliminação do mercúrio na mineração artesanal e o fortalecimento de políticas públicas voltadas para a proteção das comunidades indígenas e locais afetadas por essa contaminação. A situação de povos indígenas como os Munduruku e Yanomami, que sofrem com os impactos da poluição por mercúrio, será um dos

pontos centrais das discussões, gerando preocupações a nível mundial. O Brasil desempenha um papel de protagonismo nas discussões da COP-6, não apenas por ser um dos países mais afetados pela mineração ilegal, mas também por figurar entre os maiores exportadores de ouro do mundo. A conferência pode representar um momento decisivo para o futuro da luta contra a poluição por mercúrio, oferecendo uma oportunidade para os países revisarem seus compromissos, adotarem medidas mais eficazes para eliminar as fontes de contaminação, garantir a recuperação das áreas degradadas e proteger as populações vulneráveis.

Crédito: Paulo Basta | Fiocruz

As COPs sobre o mercúrio são realizadas periodicamente e contam com a

participação dos países signatários da Convenção de Minamata, que revisam os progressos alcançados e discutem novos desafios. Durante a COP-5, realizada em 2023, um dos temas centrais foi a necessidade urgente de reduzir a comercialização e o uso do mercúrio.

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CENARIUM+CIÊNCIA Crédito: Ricardo Oliveir | Revista Cenarium

Crianças junto à árvore Tanimbuca, no Bosque da Ciência

Compromisso com a ciência na Amazônia Fundado em abril de 1995, o Bosque da Ciência completa 30 anos Letícia Misna – Da Revista Cenarium

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ANAUS (AM) – No dia 1º de abril de 1995, foi inaugurado o Bosque da Ciência, uma área que o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) abriu para o público poder ter acesso ao que a organização produz: ciência. Em 2025, o lugar completa 30 anos de sua abertura, e seu atual coordenador, Jorge Lobato, contou à REVISTA CENARIUM a história da criação do espaço. Segundo Lobato, no início dos anos 1990, o Inpa recebeu da Marinha a doação de uma área de 13 hectares no bairro Petrópolis, Zona Sul de Manaus. No passado,

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o terreno era utilizado para a extração de madeira destinada à produção de carvão. “Dali começa o ponto de partida para manter consolidada uma área que estava sendo desgastada, principalmente pelo processo de favelização da região. A invasão era constante por parte dos atuais moradores adjacentes”, explicou o coordenador. Lobato relatou que, inicialmente, a ideia do pesquisador Juan Revilla era criar um Jardim Botânico no local. O então presidente do Inpa à época, José Seixas Lourenço, gostou da iniciativa, mas queria algo diferente.


Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

REVISTA CENARIUM

Estudantes em visita ao Bosque da Ciência

Filhotes de peixes-boi são alimentados com composto desenvolvido por alunos do Inpa

Antony Rodrigues Filho, médico veterinário do Inpa.

Crédito: Luiz André Nascimento | Cenarium

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A maioria dos visitantes vem para ver o peixe-boi. Fica muita gente ali, próximo ao vidro dos tanques. Esses visitantes fazem muitas perguntas e se mostram muito interessados neles”

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CENARIUM+CIÊNCIA

2 MILHÕES Ao longo dessas três décadas, pelo menos 2 milhões de pessoas já visitaram os peixes-boi (Trichechus inunguis)

“A ideia era criar um grande museu a céu aberto. Nada de zoológico ou algo muito parecido com o que já existia em Manaus. Então veio a ideia de estabelecer um grande projeto de difusão científica para o instituto”, disse.

Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

Na mesma época, o Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil, conhecido como “PPG7” (criado em uma reunião do G7), exigia que os centros de excelência criassem políticas de disseminação da divulgação científica, dando ainda mais força ao nascimento do Bosque da Ciência. “Passaram-se quase três anos estruturando um projeto de difusão científica para o Inpa. Então o Bosque nasce dessa forma, de cabeças, de contribuições de várias pessoas”, destacou Jorge Lobato.

CIÊNCIA E SOCIEDADE Para o coordenador, que está presente no processo desde o princípio, a iniciativa foi algo nobre, uma vez que, naquela época, a socialização do conhecimento e a divulgação da ciência ainda eram vistas pela comunidade científica como “uma coisa muito estranha”. “Era difícil convencer um doutor, um PhD, a entender que ele poderia contribuir, que ele poderia se comunicar, principalmente com o leigo, com as crianças. A partir desse momento, o Inpa quebra esses muros, faz uma abertura para as pessoas poderem ser internalizadas no dia a dia. O Inpa passa a prestar contas à sociedade do que se faz de ciência e tecnologia na Amazônia”, ressaltou. Jorge Lobato destacou ainda que a maior ferramenta que a instituição utiliza é a “popularização da ciência”, e que o local não é mais apenas o “Bosque do Inpa”, mas o “Bosque de Manaus, do Amazonas, da Amazônia”. 32

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Atrações e roteiros Atualmente, o roteiro de atrações do Bosque da Ciência conta com a Casa da Ciência, o Paiol da Ciência, a Ilha da Tanimbuca, a Casa de Madeira, o Lago Amazônico, tanques de peixe-boi, viveiro de ariranhas, trilha suspensa, viveiro de jacarés, trilha de agroflorestas, condomínio de abelhas, fauna livre e outras atividades. Ao longo dessas três décadas, a visitação aos peixes-boi (Trichechus inunguis) se tornou uma das principais marcas do espaço, que já recebeu pelo menos 2 milhões de pessoas. “A maioria dos visitantes vem para ver o peixe-boi. Fica muita gente ali,

próximo ao vidro dos tanques. Esses visitantes fazem muitas perguntas e se mostram muito interessados neles”, comentou Antony Rodrigues Filho, médico veterinário do Departamento de Biologia Aquática do Inpa, responsável pelos peixes-bois do Bosque da Ciência há 11 anos. Antony também integra a Associação dos Amigos do Peixe-Boi (Ampa), criada em 2000 em parceria com o Inpa. O projeto luta pela proteção e conservação dos mamíferos aquáticos da Amazônia. Apesar de carregar o “peixe-boi” no nome, a Ampa também atua na preservação de botos, ariranhas e lontras.


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Resgate e soltura Para que o retorno ocorra de forma segura, Antony explicou que, além de estar saudável, o animal precisa apresentar instintos defensivos. Ter uma personalidade mais mansa pode dificultar sua sobrevivência em meio à vida selvagem. Ao longo desses anos, mais de 40 animais da espécie foram reintroduzidos à natureza. Atualmente, 68 peixes-boi estão sob os cuidados do Inpa. “É gratificante quando nós acompanhamos um animal desde filhotinho. Chegam animais muitas vezes recém-nascidos aqui e nós conseguimos reintroduzi-los à natureza. A gente se sente com o dever cumprido”, relatou o veterinário.

Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

“Quando chegam, eles são submetidos a exames clínicos e físicos e, se identificada qualquer anormalidade, ela é tratada. Essa é a fase de reabilitação, tanto nutricional quanto para eventuais doenças. Os animais são acompanhados aqui dentro até o dia da soltura”, explicou

Antony Rodrigues Filho, médico veterinário do Inpa.

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A ideia era criar um grande museu a céu aberto. Nada de zoológico ou algo muito parecido com o que já existia em Manaus”

Jorge Lobato, coordenador

Jardineiro da Amazônia

Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

Trabalhando com a espécie desde 1974, o Inpa criou as primeiras instalações para a reabilitação de peixes-boi da Amazônia dois anos depois, em 1976, no Laboratório de Mamíferos Aquáticos (LMA). Desde então, o setor se dedica a localizar animais da espécie feridos ou vulneráveis no habitat natural — principalmente devido à ação de caçadores ilegais — para tratá-los e devolvê-los ao meio ambiente.

Antony explica que o principal objetivo do LMA e da Associação dos Amigos do Peixe-Boi (Ampa) é a preservação da espécie. Considerado o “jardineiro da Amazônia”, o peixe-boi desempenha um papel fundamental na manutenção dos ecossistemas aquáticos da região. “O peixe-boi é uma espécie de grande importância ecológica. Ele funciona como difusor de sementes, controla a vegetação nos rios e é um indicador de locais propícios para pesca. Onde tem peixe-boi, tem alimento”, comentou. 33


CENARIUM+CIÊNCIA

Abelhas sobre a flor de açaí

Doçura saudável Entenda a importância do ‘mel de açaí’ para a saúde humana Letícia Misna – Da Cenarium 34

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ANAUS (AM) – Um estudo revelou que o mel produzido a partir das flores dos açaizeiros apresenta um elevado nível de antioxidantes, substâncias essenciais para a manutenção da saúde humana. A produção é realizada pela espécie de abelha Apis mellifera L., conhecida popularmente como “abelha africanizada”, amplamente encontrada no Brasil, especialmente em áreas urbanas. A pesquisa, intitulada “Evaluation of the Bioactive Compounds of Apis mellifera Honey Obtained from the Açai (Euterpe oleracea) Floral Nectar”, foi conduzida com material coletado nos municípios de Breu Branco e Santa Maria, no interior do Pará, Estado responsável por 59% da produção de mel na Região Norte. O estudo foi divulgado pela Associação Brasileira de Estudos das Abelhas (Abelha).


Crédito: Acervo Pessoal

Crédito: Divulgação

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Além disso, os pesquisadores identificaram que o mel apresenta propriedades anti-inflamatórias, antibacterianas, antimicrobianas e antitumorais, o que motivou o início de um novo estudo, ainda em andamento. Segundo os pesquisadores, a elevada concentração de polifenóis e outros compostos bioativos nos açaizeiros é o principal fator responsável pelas propriedades do mel. “Os polifenóis atuam como antioxidantes, neutralizando os radicais livres, além de possuírem propriedades anti-inflamatórias, anticancerígenas e cardioprotetoras”, explicou Nilton Muto, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Essa concentração de compostos bioativos também está diretamente relacionada à coloração do mel, que apresenta tons mais escuros quando os níveis dessas substâncias são elevados. Especialistas apontam que outros fatores, como os processos de desumidificação e a maturação do produto, também podem influenciar sua tonalidade.

O grupo de pesquisa também conta com cientistas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Segundo Muto, embora não sejam tão essenciais quanto as vitaminas, os compostos bioativos, presentes naturalmente em pequenas quantidades em plantas e animais, podem influenciar funções biológicas e processos metabólicos no organismo humano.

“No caso do mel de açaí, ele adquire uma coloração escura, quase totalmente negra, o que o torna um atrativo único no mercado. É um mel diferenciado. Acredito que será muito bem aceito pelo público e facilmente incorporado na gastronomia”, afirmou Nilton Muto. O pesquisador destacou ainda que o produto possui um sabor menos doce que os demais, com notas marcantes de café.

COLORAÇÃO ESCURA

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Os polifenóis atuam como antioxidantes, neutralizando os radicais livres, e podem ter propriedades anti-inflamatórias, anticancerígenas e cardioprotetoras”

Nilton Muto, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA).

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PODER & INSTITUIÇÕES Crédito: Composição Paulo Dutra | Cenarium

Secretário-chefe da Casa Civil do Amazonas, Flávio Antony Cordeiro Filho, representou o Estado no Fórum Internacional IAMazonia

Amazonas participa de fórum internacional Fórum Internacional IAMazonia debate soluções para justiça socioambiental Izaías Godinho – Da Revista Cenarium*

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ANAUS (AM) – O secretário-chefe da Casa Civil do Amazonas, Flávio Antony Cordeiro Filho, representou o governador do Estado, Wilson Lima (União Brasil), no Fórum Internacional IAMazonia, realizado em Roma, na Itália, visando debater soluções para justiça socioambiental, regeneração ecológica e mitigação das mudanças climáticas. O evento começou no dia 22 de abril, data escolhida pela Organização das Nações Unidas (ONU) como Dia Internacional da Mãe Terra — uma ocasião que reforça a interdependência entre a humanidade e o planeta, promovendo a existência sustentável entre povos e florestas.

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Em publicação nas redes sociais, Flávio Antony destacou a importância da presença do Amazonas no congresso e detalhou sua participação no evento: “Terei a oportunidade de palestrar sobre parcerias público-privadas e instrumentos jurídicos voltados ao desenvolvimento sustentável do Amazonas, uma missão que levo com muita responsabilidade e orgulho”, escreveu no Instagram. Em seu manifesto público, o IAMazonia informa que busca promover o diálogo entre representantes de governos, empresas, povos tradicionais, organizações da sociedade civil e especialistas em ecossistemas ambientais.


Crédito: Pexels

REVISTA CENARIUM

Foco na realidade regional

Foto: Divulgação | Idam

O desmatamento e as queimadas, aliados às mudanças climáticas, estão entre as principais causas da alteração do regime hidrológico dos rios da Amazônia. Esse fenômeno tem se tornado mais intenso nos últimos anos, levando à ocorrência de cheias e secas mais severas, com intervalos de tempo cada vez menores.

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Terei a oportunidade de palestrar sobre parcerias público-privadas e instrumentos jurídicos voltados ao desenvolvimento sustentável do Amazonas, uma missão que levo com muita responsabilidade e orgulho”

Flávio Antony Cordeiro Filho, secretário-chefe da Casa Civil do Amazonas Com sede em Roma, o IAMazonia propõe uma abordagem global para enfrentar questões locais, como o desmatamento, a perda da biodiversidade e os desafios vividos pelas comunidades tradicionais. A troca de experiências e práticas inovadoras entre países e regiões é uma das principais marcas do fórum, que defende

um novo modelo de economia sustentável baseado na floresta em pé. Considerando o histórico da organização, a presença de representantes do Amazonas é estratégica, já que o Estado concentra uma das maiores extensões de floresta tropical do mundo e desempenha um papel-chave na conservação ambiental global.

Um exemplo foi a seca histórica de 2023, que causou a maior queda nos níveis dos rios já registrada na região. No Rio Negro, o nível da água no porto de Manaus atingiu 14,75 metros — o menor nível desde o início da série histórica, em 1902. Segundo o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Jochen Schöngart, somente nas duas primeiras décadas do século XXI foram registrados nove eventos de cheias severas, o mesmo número observado durante todo o século passado. Schöngart destacou ainda que o aumento da amplitude entre cheia e vazante na Amazônia apresentou uma variação de 1,6 metro. Essa mudança faz com que os rios tanto sequem antes do esperado quanto encham de forma mais intensa, trazendo grandes impactos para as áreas de florestas alagadas, para as atividades econômicas e, especialmente, para as populações ribeirinhas que dependem diretamente dos recursos naturais para sua sobrevivência. (*) Com informações da Agência Brasil. 37


PODER & INSTITUIÇÕES Crédito: Ana Cláudia Leocádio | Revista Cenarium

Brasília: 65 anos de história, arquitetura e cultura Com o tema “O Melhor Tempo é Agora”, Brasília busca valorizar a diversidade cultural da cidade e fortalecer o sentimento de pertencimento dos brasilienses

A capital do Brasil celebrou 65 anos, no dia 21 de abril, com programação cultural gratuita na Esplanada dos Ministérios Ana Cláudia Leocádio – Da Revista Cenarium

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RASÍLIA (DF) – Com o tema “O Melhor Tempo é Agora”, Brasília celebrou, no dia 21 de abril, o aniversário de 65 anos de sua fundação. Idealizada pelo então presidente Juscelino Kubitschek, a capital do Brasil foi inaugurada em 1960, no Planalto Central, visando transferir a sede administrativa do poder do Rio de Janeiro para o interior do País. Em 2025, o Governo do Distrito Federal (GDF) organizou uma programação 38

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gratuita de três dias, com shows musicais e atrações culturais na Esplanada dos Ministérios — via que concentra os prédios administrativos dos três poderes e que serve como palco de manifestações populares. O tema escolhido para os 65 anos, segundo o GDF, busca valorizar a diversidade cultural da cidade, fortalecer o sentimento de pertencimento dos brasilienses e oferecer atrações para todos os públicos. A programação contou com shows de artistas

da Música Popular Brasileira e do Distrito Federal, além de cantores do segmento gospel. Uma exposição fotográfica intitulada Brasília, Ontem e Hoje também foi inaugurada no Museu de Arte de Brasília (MAB), narrando a história da capital desde a sua construção até os dias atuais, com destaque para sua arquitetura modernista — marcada pelas linhas retas e curvas, cobogós e edifícios de concreto aparente.


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2,8

MILHÕES

Plano Piloto em forma de cruz foi projetado pelo arquiteto Lúcio Costa

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse é o total de habitantes da capital federal, que figura no ranking das cidades brasileiras com melhor qualidade de vida

O arquiteto Oscar Niemeyer foi o responsável pelos prédios icônicos da cidade, como o Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente; o Palácio do Planalto, sede do Poder Executivo; o Palácio da Justiça; e o Congresso Nacional, sede do Poder Legislativo.

Crédito: Divulgação

Coube a Lúcio Costa, vencedor do concurso de projetos urbanísticos, planejar o traçado urbano da cidade, concebido em forma de cruz — que lembra a imagem de um avião —, onde as asas Norte e Sul concentram a maior parte das moradias do Plano Piloto, enquanto o “bico” da aeronave abriga a sede dos Três Poderes.

A ideia de mudar a capital De acordo com publicação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a ideia de criação de Brasília nasceu ainda no século XIX, quando José Bonifácio de Andrada e Silva, conhecido como o Patriarca da Independência, propôs, em 1823, a criação de uma capital no interior do País, e sugeriu o nome Brasília. A ideia era ficar longe dos portos em nome da segurança nacional. “A vocação mística de Brasília se inicia quando é incorporada à sua história o sonho de Dom Bosco. O santo italiano sonhou com uma depressão bastante larga e comprida, partindo de um ponto onde se formava um grande lago, entre os paralelos 15º e 20º, e que repetidamente uma voz lhe dizia que ‘...quando vierem escavar as minas ocultas, no meio destas montanhas, surgirá aqui a terra prometida, vertendo leite e mel. Será uma riqueza inconcebível...’”, diz o IBGE.

Foi criada a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, liderada por Luiz Cruls, que deu início aos estudos a partir de 1892. O resultado do levantamento ficou pronto em 1894 e foi entregue já ao governo republicano, uma vez que a monarquia caiu em 1889. Apenas em 1955 foi delimitado um quadrilátero de 50 mil quilômetros quadrados, que formam o Distrito Federal, conhecido carinhosamente como o “quadradinho”, e que tem Brasília como capital. As obras tiveram início em 1956, sob o comando do então presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, e a força de trabalho dos candangos, primeiros moradores da capital, que se mudaram para trabalhar na construção da nova sede do poder. Após quatro anos, foi inaugurada a estrutura básica da cidade, que atualmente abriga 2,8 milhões de habitantes,

segundo o Censo 2022 do IBGE, e figura no ranking das cidades brasileiras com melhor qualidade de vida do País. Apesar disso, a cidade enfrenta desafios como desigualdade salarial entre gêneros e raças, além de disparidades na renda entre diferentes regiões administrativas, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2024. O conjunto arquitetônico e urbanístico de Brasília foi tombado pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) como Patrimônio Cultural da Humanidade, no dia 7 de dezembro de 1987. Em 14 de março de 1990, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou o conjunto urbanístico da capital federal. O tombamento é importante para assegurar a preservação das características artísticas, culturais e arquitetônicas da cidade. 39


ECONOMIA & SOCIEDADE Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

Segundo o Detran-AM, somente na capital, há 591.939 automóveis, 335.123 motocicletas, 44.042 caminhões e 23.129 ônibus

Caos Urbano Com quase 1 milhão de veículos nas ruas, Manaus está prestes a viver um colapso no trânsito; especialistas apontam soluções Ana Pastana – Da Revista Cenarium

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ANAUS (AM) – Dados do Departamento Estadual de Trânsito do Amazonas (Detran-AM) apontam que a frota de veículos, só em Manaus, se aproxima da marca de 1 milhão. Até março deste ano, a capital do Amazonas registrou mais de 990 mil veículos nas ruas. Especialistas ouvidos pela REVISTA CENARIUM alertam sobre soluções para minimizar o impacto de um possível “caos urbano”. Com uma circulação diária de cerca de 52 mil veículos, segundo o órgão, a frota aumentou mais de 5,56% em compara40

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ção com o ano de 2024. Para o diretor de Engenharia do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (Immu), engenheiro Uarodi Pereira Guedes, especialista em gestão da mobilidade urbana, os órgãos responsáveis devem priorizar o transporte público como uma das soluções para desafogar o trânsito da cidade. “As cidades devem adotar um conjunto de ações para mitigar os problemas decorrentes do crescimento da frota como: priorizar o transporte público; incentivar o transporte não motorizado; melhorar

a infraestrutura viária com alargamento de vias, construção de pontes e viadutos, novas vias de ligação Norte-Sul, Leste-Oeste; investir em novas tecnologias para fiscalização de trânsito; investir em programas, projetos e campanhas de educação para o trânsito”, afirma. Entre os principais veículos, segundo o Detran-AM, somente na capital, há 591.939 automóveis, 335.123 motocicletas, 44.042 caminhões e 23.129 ônibus. Guedes descarta soluções como o rodízio de veículos, como acontece em cidades como São Paulo,


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“

Não temos dúvida nenhuma de que a solução para esse grave problema, que convivemos a cada ano, vai piorar caso os gestores não se proponham a rever o confuso sistema atual de mobilidade”

Crédito: Arquivo Pessoal

Manoel Paiva, especialista em Mobilidade Urbana.

Rio de Janeiro e Brasília, cujo objetivo é reduzir o número de automóveis nas ruas. “Quanto ao rodízio, não sou muito favorável, uma vez que, implantada a restrição, isso pode incentivar a aquisição de outro veículo para trafegar nos dias de rodízio”, disse. O especialista em Mobilidade Urbana Manoel Paiva reforça que a solução para minimizar o impacto do fluxo intenso em ruas e avenidas de Manaus é priorizar a qualidade do transporte coletivo da cidade,

Aumento de mortes por acidentes de trânsito Em 2024, o Immu emitiu 400 mil autuações. O órgão também registrou um aumento de 21% no número de mortes por acidentes de trânsito, o equivalente a 309 pessoas que perderam a vida, sendo 158 motociclistas. O número é o maior registrado em 24 anos. Para o especialista, o aumento de acidentes é um reflexo da qualidade dos transportes disponíveis para a população da cidade. “Vale a pena investigar a origem da demanda que leva uma pessoa a preferir ocupar a garupa da moto junto a um estranho, pagar mais que uma tarifa de ônibus, e ainda enfrentar o trânsito pesado num veículo relativamente inseguro”, afirma Paiva.

52 mil Essa é a quantidade total de veículos que circulam diariamente nas ruas de Manaus. Segundo o Detran-AM, a frota diária teve aumento de 5,56% em comparação ao ano de 2024.

além de investir em infraestrutura adequada para que a população tenha outras opções de locomoção e segurança no trânsito. “Estamos vivendo o princípio do caos urbano. Não temos dúvida nenhuma de que a solução para esse grave problema, que convivemos a cada ano, vai piorar caso os gestores não se proponham a rever o confuso sistema atual de mobilidade e priorizar o transporte coletivo das pessoas que moram na periferia; melhorar as condições de caminhabilidade dos pedestres; implantar melhorias aos ciclistas; e intensificar a operação do sistema viário, fiscalizando as vias para evitar que tanta gente morra no trânsito todo dia”, ressalta o especialista. De acordo com Paiva, pouco mais da metade da população de Manaus conta com menos de 5% da frota de transporte coletivo disponível em horário de pico. “Hoje, em Manaus, 55% da população tem, ao seu dispor, apenas 2% da frota de transporte coletivo para utilizar nos horários de pico. Enquanto isso, 93% da frota individual de passageiros registrada em Manaus [automóveis e motocicletas] atende 40% da população da cidade”, destaca.

Engarrafamento toda hora Anteriormente, a capital amazonense, assim como as grandes cidades, registrava um tráfego intenso em horários de pico, normalmente às 7h e às 17h. Segundo o motorista por aplicativo Gustavo César, que lida diariamente com o trânsito da cidade, o engarrafamento não é mais específico somente nesses horários. “Agora, em qualquer horário que você saia, você se depara com alguma avenida ou rua parada [engarrafada]. Até as ruas paralelas, que a gente utiliza para fugir do trânsito, também já não ajudam mais, porque as outras pessoas também querem cortar caminho e acabam sobrecarregando as [ruas] paralelas”, afirma à CENARIUM. A jornalista Maria Eduarda Furtado, que mora na Zona Norte da cidade e trabalha na Zona Centro-Sul, é usuária do transporte coletivo municipal. Ela conta que precisa sair de casa por volta das 12h para conseguir chegar ao destino às 14h. “Eu saio às 12h para chegar às 14h. Pego um ônibus até o terminal, que fica a seis minutos da minha casa, mas o trajeto acaba demorando 20 minutos por conta da quantidade de automóveis. No terminal, eu pego um ônibus que me deixa a cerca de um quilômetro do trabalho. Se eu quiser ficar mais perto [do trabalho], em dias de chuva, por exemplo, tenho que sair às 11h de casa, para poder chegar às 14h”, informou. A reportagem entrou em contato com o Immu para solicitar informações sobre ações de fiscalização e medidas para melhorar a fluidez do trânsito na capital, mas até o fechamento desta edição, não houve retorno. 41


ECONOMIA & SOCIEDADE Crédito: G.Miranda | Funai

Vista aérea de indígenas isolados no Vale do Javari, no Amazonas

Povos livres, direitos ameaçados Publicação mostra que o Amazonas lidera registros de indígenas em isolamento voluntário e aponta ameaças aos direitos dos povos originários Ana Cláudia Leocádio - Da Cenarium

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RASÍLIA (DF) – O Estado do Amazonas lidera a concentração de povos indígenas isolados, principalmente no Vale do Javari, na fronteira com o Peru, com 48 referências. É o que consta no livro “Povos Indígenas Livres/Isolados na Amazônia e Grande Chaco”, lançado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em Brasília (DF). Conforme a publicação, o Cimi registrou a presença de 119 desses grupos que vivem em isolamento, sendo apenas um localizado fora da Amazônia brasileira. 42

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“Povos Livres” é como a Equipe de Apoio aos Povos Livres do Cimi (Eapil/Cimi) conceitua os Povos Indígenas em Isolamento Voluntário (PIA). É uma “forma de enfatizar a determinação por autonomia e autodeterminação expressa por estes povos por meio do distanciamento do mundo não indígena”, conforme a entidade. Dos 119, o Amazonas concentra 48 registros, sendo um compartilhado com o Pará, que, segundo o Cimi, tem 17 povos em situação de isolamento catalogados. O

Estado de Rondônia apresenta 16 grupos, seguido de Roraima, com nove. O Maranhão tem oito apontamentos, enquanto o Acre registrou seis e o Amapá, dois. O Tocantins tem apenas um registro. A lista da Eapil/Cimi é diferente da produzida pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), isso porque a organização católica mantém um trabalho independente e considera levantamentos de campo e informações colhidas da autarquia federal e de outras entidades indigenistas.


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Respeitar o direito deles (povos livres) de continuarem existindo como grupos organizados”

Crédito: Divulgação

REVISTA CENARIUM

Lino João de Oliveira Neve, organizador da obra

119 É o número de povos indígenas isolados. Desse total, o Amazonas concentra o maior número de grupos, com 48 registros, sendo um compartilhado com o Pará.

Capa do livro “Povos Indígenas Livres/Isolados”, lançado pelo Conselho Indigenista Missionário

Visão dos organizadores A publicação foi organizada pelos membros da Eapil/Cimi, Guenter Francisco Loebens e Lino João de Oliveira Neves, com apoio da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam). A obra, com 532 páginas, é estruturada em cinco partes, com enfoque na realidade da América do Sul. No total, são 29 artigos produzidos por 45 autores, que apontam o contexto de ocupação e ataques aos povos isolados ao longo da história, a situação atual de ameaças àqueles grupos, que voluntariamente preferem se manter fora de contato com os não indígenas — um direito que, segundo os autores, deve ser respeitado. Para Guenter Francisco Loebens, um dos organizadores do livro, a obra traz uma perspectiva de mostrar a realidade de onde estão os povos livres, quais seus direitos e as ameaças que sofrem.

teiriços, vivendo em regiões de fronteira, o que demanda esforços de cooperação entre os países para a proteção desses indivíduos. Conforme o missionário, todos os avistamentos reportados ao Cimi são comunicados à Funai para providências. “Porque são sempre regiões onde há mineração ilegal ou garimpo, caça ou pesca ilegal, ou narcotráfico. Então, são todas situações urgentes. E a gente fica extremamente preocupado”, afirmou Loebens. O membro do Cimi explica a escolha da capa do livro, que traz a foto do “Índio do Buraco”, último sobrevivente do povo Tanaru, em Rondônia, que morreu em 2022, dando como extinta sua etnia.

Segundo o levantamento publicado, na América do Sul, há 185 referências de povos indígenas isolados, dos quais apenas 66 são reconhecidos pelos Estados nacionais. “Os demais vivem na invisibilidade, sem nenhuma garantia de proteção”, afirmou Loebens.

Para o outro organizador da publicação, Lino João de Oliveira Neves, a mensagem central do livro, além de dar visibilidade aos indígenas que vivem em isolamento, quer também reafirmar o direito que eles têm de não serem contatados, mas nem por isso perderem o direito de serem reconhecidos e protegidos pela política estatal. “Respeitar o direito deles de continuarem existindo como grupos organizados”, afirmou.

Ainda segundo Loebens, o trabalho mostra que mais de 30 povos são transfron-

Neves lembra a tragédia que foi a política do Estado brasileiro de contato

forçado, com a premissa de tornar os indígenas brasileiros “de fato” durante o processo de expansão e ocupação dos espaços do País — situação que foi revertida com a promulgação da Constituição Federal, em outubro de 1988. Antes, em 1987, começou a ser implementada uma nova política indigenista de proibição do contato forçado. Para o secretário-geral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Ricardo Hoepers, o livro derruba o ditado popular que diz: “quem não é visto, não é lembrado”, porque agora a sociedade terá acesso às informações, inclusive com a localização de cada grupo referenciado. O Cimi faz parte da estrutura da CNBB. O evento de lançamento do livro também contou com a presença de indígenas das etnias Pataxó e Tupinambá, da Bahia, que estão em Brasília para cobrar a emissão das portarias declaratórias das TIs Barra Velha do Monte Pascoal, Tupinambá de Olivença e Tupinambá de Belmonte, e o avanço na demarcação da TI Comexatibá, localizadas nas regiões sul e extremo sul da Bahia. Eles também querem a declaração de inconstitucionalidade da Lei do Marco Temporal, 14.701/2023. 43


ECONOMIA & SOCIEDADE Crédito:Ana Cláudia Leocádio | Cenarium

Evento de lançamento do livro do Cimi, em Brasília (DF)

A Funai registrou 114 povos isolados, com apenas 28 reconhecidos. Conforme o Cimi, quase um terço desses grupos, 37 no total, está localizado em áreas sem nenhuma providência de proteção, como restrição de acesso, demarcação territorial e proteção efetiva da Funai.

SITUAÇÃO NO AMAZONAS No Amazonas, segundo os autores, existe o maior número de registros de povos indígenas isolados, concentrados principalmente na Terra Indígena (TI) Vale do Javari, região fronteiriça com o Peru, 44

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com mais de 15 referências de presença. Destacam-se os indígenas Matis, de recente contato, e os Korubo, conhecidos como “caceteiros”. Ambos foram alvos de contato forçado na década de 1970, segundo a publicação. Para os autores, as Bases de Proteção Etnoambiental da Funai (Bapes) na TI Vale do Javari têm se mostrado insuficientes para inibir a invasão de garimpeiros, madeireiros, pescadores e caçadores ilegais. Foi naquela região que o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips foram assassinados, em junho de 2022.

A publicação também destaca diversos registros de presença de indígenas isolados na região sul do Estado e a preocupação com o crescimento do desmatamento em torno das rodovias Transamazônica (BR230) e BR-319. “Entre os mais ameaçados estão os indígenas isolados da TI Tenharim, na área de influência do projeto de construção da hidrelétrica do Machadinho, os isolados Katawixi, cujo território vem sofrendo violento processo de desmatamento ilegal, e um grupo indígena isolado, presumivelmente Juma, será impactado pelo asfaltamento da BR-319”, afirma o livro.


Crédito: Pexels

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Panorama na Amazônia RORAIMA No Estado de Roraima, o Cimi catalogou vários grupos isolados no interior da TI Yanomami, ameaçados pela invasão de garimpeiros ilegais desde a década de 1980, onde foram registrados assassinatos de indivíduos sem contato. Outro povo indígena isolado localizado no Estado é o conhecido por Pirititi, na divisa com o Amazonas, onde operações de agentes ambientais e de segurança do governo federal já apreenderam madeira ilegal e constataram grandes áreas de desmatamento. O local chegou a ter portaria da Funai de restrição de uso, mas, desde 2022, não houve renovação do instrumento legal, segundo os autores.

ACRE No Acre, a presença de diversos povos isolados é registrada na fronteira do Brasil com o Peru, onde ambos os países dividem território com etnias como os Manchineri, Yaminawa, Ashaninka, Huni Kuin (Kaxinawá), Arara do Acre e Nukini. Considerados transfronteiriços, estão os Mashco Piro, localizados na região dos altos rios Purus, Acre, Iaco e Chandless, e nas cabeceiras do alto Rio Piedras e Tahuamanu.

RONDÔNIA Os autores de “Povos Livres” consideram que Rondônia “é

um dos Estados amazônicos em que a violência atingiu os povos indígenas isolados de forma mais intensa e brutal nos últimos 60 anos, com a construção de muitas estradas e o avanço dos projetos de colonização promovidos pelas políticas desenvolvimentistas governamentais”. “Grupos de extermínio agiam impunemente a serviço de grileiros de terras públicas, madeireiros e fazendeiros para fazer a ‘limpeza do território’ e sumir com todos os vestígios de presença indígena que pudessem ensejar alguma medida de proteção territorial pelo Estado”, diz um trecho da publicação. Citam como sobreviventes dessas violências os oito remanescentes dos povos Akuntsu e Kanoê, na TI Omerê, e o “índio do Buraco”, o último remanescente de seu grupo, que faleceu recentemente e, agora, discute-se o que fazer com sua terra. Cinco referências de presença de indígenas isolados foram registradas na região norte de Rondônia e sul do Amazonas, na área de influência das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, inauguradas, respectivamente, em 2012 e 2016. Três povos encontram-se em risco na região central do Estado, segundo o livro, localizados no interior da TI Uru-Eu-Wau-Wau, onde se estima

haver mais de mil invasores no território.

MATO GROSSO As particularidades que envolvem o Estado do Mato Grosso, com intensa presença do agronegócio, altos índices de desmatamento e conflitos fundiários, também ameaçam os povos isolados registrados ali. O povo Piripkura sofreu o derradeiro massacre na década de 1980 e, atualmente, conta com apenas três sobreviventes, dois vivendo em isolamento. Mesmo com a portaria da Funai de restrição de uso, a TI Piripkura continua sendo invadida. Outro povo indígena isolado, os Tupi-Kawahiva, nessa mesma região, vivem na TI Rio Pardo sob ameaça de madeireiros e grileiros, que não respeitam as restrições impostas pela Funai.

PARÁ Segundo Estado da Amazônia brasileira com maior número de registros de povos isolados, a maior ameaça a esses grupos no Pará ocorre na bacia dos rios Tapajós e Xingu, segundo o Cimi. “São várias as informações sobre a presença de indígenas isolados no médio e alto Rio Tapajós, na TI Munduruku, na TI Sawre Muybu, no Parque Nacional da Amazônia e nas proximidades da BR-230, no município

de Itaituba. Existem relatos testemunhais consistentes de indígenas Munduruku, Sateré-Mawé e ribeirinhos sobre vestígios da presença de isolados e até mesmo de avistamentos”, afirmam os autores no livro. Uma das preocupações é a ausência da Funai nas investigações comprobatórias sobre a presença desses povos na região e na adoção das necessárias medidas de proteção territorial.

MARANHÃO E TOCANTINS No Maranhão, existem registros de vários grupos Awá isolados, que já ocupam terras demarcadas (TI Arariboia e TI Krikati), mas ainda enfrentam as ameaças de exploração ilegal de madeira. “Dos 415 mil hectares, cerca de 35% (185 mil hectares) já foram completamente arrasados pela exploração madeireira”, afirmam. Os indígenas Tentehara/ Guajajara da TI Arariboia criaram até um projeto chamado “Guardiões da Floresta” para combater a invasão dos madeireiros, mas as invasões e ameaças seguem ocorrendo. Último território a se tornar Estado, no Tocantins há referência a somente um povo indígena isolado, localizado na Ilha do Bananal, na TI Inãwébohona, que ainda não conta com as medidas de proteção da Funai. 45


ECONOMIA & SOCIEDADE Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

‘Abrindo espaços’ Davi Kopenawa participou da defesa de mestrado de três indígenas da etnia Yanomami Ana Pastana – Da Revista Cenarium

O xamã Davi Kopenawa é uma liderança Yanomami do Estado de Roraima

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ANAUS (AM) – O xamã e líder indígena Yanomami Davi Kopenawa participou de um evento promovido pelo Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia (PPGSCA), na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), no qual celebrou a defesa de mestrado de três indígenas da etnia Yanomami, de São Gabriel da Cachoeira, no interior do Amazonas. Essa é a primeira vez que indígenas desse povo defendem dissertações de mestrado na universidade.

Yarimina Xamatari e Modesto Yanomami Xamatari Amaroko chegaram: locais de ensino e pesquisa.

Na ocasião, a liderança indígena destacou, durante o encontro “Davi Kopenawa: palavras de um xamã Yanomami”, que os povos originários nunca pensaram em chegar onde os indígenas Odorico Xamatari Hayata Yanomami, Edinho Yanomami

Kopenawa também afirmou que os indígenas devem aprender mais, mas sem esquecer suas origens. “[Os indígenas] precisam aprender mais, mas não podemos esquecer nossa própria língua Yanomami. Vocês podem aprender mais e voltar para

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“Nós, Yanomami, nunca sonhamos, nunca pensamos, quando éramos pequenos, em ir à escola e aqui, de Santo Isabel do Rio Negro, de São Gabriel da Cachoeira, os três [...], eles sonharam a grande alma da floresta, sonharam a grande alma da nossa terra-mãe para seguir abrindo espaços para outros Yanomami entrarem. Eu estou muito contente com os meus primos que tiveram coragem”, disse a liderança indígena.

a aldeia, só não podem nos abandonar. O branco já está muito longe, agora é a nossa vez. Vamos correr junto com as nossas lideranças, com os ancestrais, xamãs, e o vento vai nos levar para mostrar a nossa força, a nossa sabedoria, a nossa inteligência”, afirmou. Davi Kopenawa é uma das principais vozes indígenas do País. Xamã, liderança política e presidente da Hutukara Associação Yanomami (HAY), ele é reconhecido internacionalmente pela defesa dos direitos indígenas e pela proteção da floresta amazônica. Coautor das obras “A Queda do Céu” e “O Espírito da Floresta”, também detém o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) e pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).


Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

REVISTA CENARIUM

Entre o saber tradicional e a formação escolar

Da esquerda para a direita: o indígena Odorico Xamatari Hayata, o indígena Modesto Yanomami Xamatari Amaroko, a professora doutora Iraildes Caldas e o indígena Edinho Xamatari

DEFESAS

Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

Segundo a professora doutora Iraildes Caldas, diretora do Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais (IFCHS), a defesa dos indígenas Yanomami fugiu da dissertação tradicional. “A defesa não foi uma dissertação escrita, um texto in loco, denso, escrito. Houve um roteiro, mas a defesa foi com o produto Yanomami. Por exemplo, o corpo de um deles, que tratou da pintura Yanomami, apresentou, dentro

do próprio corpo, todas as ênfases da arte Yanomami. Ele explicou para a banca o significado, a simbologia dessas nuances que estavam no corpo”, explicou. O coordenador do programa, Caio Augusto Teixeira Souto, informou à CENARIUM que os indígenas foram afetados pela estiagem de 2023 e ficaram isolados por conta da seca. Foi quando ele e outro professor do curso se deslocaram até a comunidade onde o trio residia, para que eles não perdessem aulas.

Os três educadores que defenderam suas dissertações foram Odorico Xamatari Hayata Yanomami, Edinho Yanomami Yarimina Xamatari e Modesto Yanomami Xamatari Amaroko. Oriundos do município de Santa Isabel do Rio Negro (a 631 quilômetros de Manaus), no Alto Rio Negro, eles tinham graduação pela Ufam em Licenciatura Indígena – Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável – Yanomami, além de atuarem como professores do Ensino Básico em dois dos Xaponos (casas coletivas Yanomami), localizados no Rio Marauiá. Em suas comunidades, exercem uma forma de liderança, construindo pontes entre o saber tradicional e a formação escolar. O ingresso no PPGSCA ocorreu em 2023, por meio de uma turma ofertada fora da sede, em São Gabriel da Cachoeira (a 852 quilômetros da capital). Com o apoio da Ufam, articulado à concessão de bolsas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), os mestrandos desenvolveram pesquisas focadas na ancestralidade de seu povo, abordando temas como música, cantorias, rituais xamânicos e o ensino da língua materna Yanomami às crianças.

O coordenador do PPGSCA, Caio Augusto Teixeira Souto

“Na seca de 2023, eles perderam o contato com o polo de São Gabriel [da Cachoeira] e lá, onde eles moram, a internet é ruim. Não tem muito contato, e a gente conseguiu se comunicar e fomos até lá, eu e o professor Agenor, formado em Antropologia. Nos deslocamos até lá por um mês para implementar essas bolsas, para complementar disciplinas que eles tinham perdido, e foi um aprendizado para a gente também”, disse. A defesa das dissertações de mestrado aconteceu no dia 23 de abril, às 10h, 14h e 16h, no auditório Rio Solimões, no IFCHS, no Setor Norte da Ufam, onde os estudantes Odorico, Edinho e Modesto defenderam seus estudos, com a presença de Davi Kopenawa. 47


ECONOMIA & SOCIEDADE Crédito: Fernando Frazão | Agência Brasil

Justiça para (quase) todas Pesquisa mostra dificuldades de indígenas no acesso à Lei Maria da Penha Ian Vitor Freitas – Da Cenarium

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OA VISTA (RR) – Distância geográfica, barreiras étnicas e insensibilidade no trato são algumas das barreiras que impedem indígenas de terem acesso à Justiça. É o que aponta a pesquisadora Mávera Teixeira, da etnia Macuxi, autora do estudo “Mulheres Indígenas em Roraima: entre o alcance e o avanço das perspectivas de gênero sobre a Lei Maria da Penha (LMP)”. A pesquisa tem o objetivo de investigar os obstáculos enfrentados por essas pessoas para acessar, de forma efetiva, as medidas da Lei n.º 11.340, a LMP.

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Mulher indígena caminha com criança no colo


Crédito: Reprodução | Arquivo Pessoal

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Um dos principais obstáculos que a mulher enfrenta é o acesso à Justiça mesmo. Existe a distância geográfica, as barreiras étnicas que nós temos na nossa sociedade, questões linguísticas e, até mesmo, a insensibilidade de alguns órgãos”

Mávera Teixeira, pesquisadora da etnia Macuxi, autora do estudo “Mulheres Indígenas em Roraima: entre o alcance e o avanço das perspectivas de gênero sobre a Lei Maria da Penha (LMP)”. A pesquisadora Mávera Teixeira, da etnia Macuxi

O trabalho é desenvolvido desde 2020, com a intenção de entender o mecanismo de como a lei funciona e como ela pode ser abordada também para grupos mais vulneráveis, que, neste caso, são as mulheres indígenas. Com base em vivências próprias, a pesquisadora procura ampliar o debate sobre o tema e destaca a prevenção, proteção e o enfrentamento à violência doméstica. “O tema precisa ser colocado como um foco principal, porque muitos casos acontecem e precisam ser debatidos tanto por parte educacional, parte legislativa e

também pelo Judiciário. Um dos principais obstáculos que a mulher enfrenta é o acesso à Justiça mesmo. Existe a distância geográfica, as barreiras étnicas que nós temos na nossa sociedade, questões linguísticas e, até mesmo, a insensibilidade de alguns órgãos”, afirma a autora do estudo. A pesquisadora pontua que os Estados devem agir com a devida diligência, aplicando uma perspectiva integral, voltada à questão da particularidade das mulheres indígenas. Dentre essas particularidades, ela menciona as condições econômicas,

a situação de vulnerabilidade da cultura, além do oferecimento de uma equipe de profissionais multidisciplinares, respeitando a cultura e a cosmovisão. “Incorporar um enfoque no gênero, capacitar os operadores de Justiça nos assuntos interculturais e de gênero, que é importante. Acho que os Estados deveriam avaliar os aspectos culturais de caracterização da vítima, romper também os preconceitos e os estereótipos que existem. Com esses cuidados, a Lei Maria da Penha ia alcançar o que ela se propõe”, destacou.

Congresso Internacional Mávera teve a oportunidade de apresentar o projeto na quinta edição do Congresso Internacional Mundos Indígenas, América (V COIMI, Abya Yala). O evento foi realizado no Campus Paricarana da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e também na Comunidade Indígena Tabalascada, localizada no município do Cantá (RR), no período de 20 a 23 de agosto de 2024. Segundo a autora, após participar do evento, ela passou a olhar com

mais carinho para a causa estudada. Ou seja, a intenção, agora, não é só colocar as mulheres como vítimas, mas também como protagonistas da própria história, sendo heroínas dos seus territórios. “A participação no seminário foi bem interessante. Acabei conversando com outras mulheres de outras terras indígenas, pesquisadoras, que fazem um movimento de conversar sobre como a lei ainda não

alcançou as mulheres do território, embora seja feita para todas as mulheres do Brasil”, pontuou. O evento reuniu também diversos pesquisadores, professores, lideranças indígenas, ativistas, artistas e escritores. Eles debateram sobre assuntos que envolvem a educação escolar, saúde, arte e literatura indígena, história dos povos ancestrais, linguagem e artefatos verbais indígenas, entre outros. 51


ECONOMIA & SOCIEDADE Crédito: Composição Paulo Dutra | Cenarium

Mulher em meio ao mapa do Estado do Pará

Ranking trágico Pará liderou casos de estupro na Amazônia Legal, em 2024

Amapá (658) e Roraima (607) registram índices menores, mas igualmente preocupantes.

Thais Matos – Da Cenarium

O Brasil, como um todo, contabilizou 78.395 casos de estupro ao longo de 2024, o que equivale a 214 vítimas por dia, ou aproximadamente nove vítimas por hora. São Paulo lidera o ranking nacional, com 14.827 ocorrências, uma média de 44 vítimas por dia. O número deve ser ainda maior, já que São Paulo, Rio de Janeiro, Alagoas e Roraima não apresentaram os dados de dezembro de 2024.

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ANAUS (AM) – Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) mostram que o Pará liderou o ranking dos Estados da Amazônia Legal com o maior número de casos de estupro em 2024, registrando 4.727 ocorrências. Mato Grosso aparece em segundo lugar, com 2.715 casos, seguido pelo Maranhão, com 1.805. Amazonas e Rondônia também apresentam números alarmantes, com 1.552 e 1.414 casos, respectivamente. Enquanto Tocantins (979), Acre (678), 52

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A presidente do Instituto As Manas, advogada Amanda Pinheiro, ressalta que os números registrados, principalmente na Região Norte do País, refletem a base cultural de naturalização de crimes sexuais.

“O combate a esse tipo de violência deve ser realizado desde a base da educação doméstica/familiar aos ambientes escolares, visto que a atuação policial apenas notifica o crime já ocorrido e cabe ao Estado a pretensão punitiva do agente”, explica. O levantamento mostra, ainda, que em 2024 foi registrada uma redução de 4,54% em relação a 2023, quando foram contabilizados 82.191 casos. As mulheres ainda são as principais vítimas, com 67.883 registros, enquanto 9.682 vítimas são do sexo masculino. O ano de 2024 também teve um número significativo de feminicídios, com 1.399 casos registrados. Quatro mulheres foram mortas por dia. São Paulo, Minas Gerais e Bahia lideram o ranking dos Estados que


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Estados da Amazônia Legal com mais casos de estupro em 2024 ESTADOS

NÚMEROS DE CASOS

PARÁ (PA)

4727

MATO GROSSO (MT)

2715

MARANHÃO (MA)

1805

AMAZONAS (AM)

1552

RONDÔNIA (RO)

1414

TOCANTINS (TO)

979

ACRE (AC)

678

AMAPÁ (AP)

658

RORAIMA (RR)

607

Fonte: Ministério da Justiça e Segurança Pública

mais matam mulheres, com 229, 133 e 107 casos, respectivamente. Os dados devem ser ainda maiores, já que muitos desses crimes são reconhecidos apenas quando ocorrem em contexto doméstico, com características de violência praticada por companheiros ou ex-companheiros. No entanto, a lei é mais ampla do que essa definição. O mesmo ocorre para os crimes relacionados à violência sexual. “A subnotificação de crimes cometidos contra mulheres é alarmante, com os números registrados refletindo apenas uma parte dos crimes sexuais cometidos. Essas informações são registradas em sistemas unificados utilizados por delegacias de polícia e hospitais, por exemplo, que nem todos os municípios têm acesso”, afirma Pinheiro. Também em 2024, o Congresso aprovou a lei que transforma o feminicídio em um tipo penal autônomo, em vez de mantê-lo

como qualificador do homicídio. Além disso, a pena foi aumentada para até 40 anos, e o texto impede que autores de crimes contra mulheres ocupem cargos públicos. Para a advogada, a informação ainda é a principal ferramenta no combate a crimes contra a dignidade sexual, e ela apoia a ideia de que a educação sexual não deve ser vista como sexualização. “É sobre tratar o corpo como algo pessoal e inviolável, por exemplo, alertando crianças e adolescentes à prática que viola essa intimidade e as punições cabíveis a quem a pratica. Como consequência da prática criminosa, a punibilidade do agressor com a privação de liberdade e inscrição no cadastro de violadores sexuais ajuda a prevenir e coibir tal conduta. O debate social sobre a inviolabilidade do corpo feminino, por exemplo, deve ser uma constante para reflexão, conscientização, prevenção e combate”, conclui.

“

O combate a esse tipo de violência deve ser realizado desde a base da educação doméstica/familiar aos ambientes escolares, visto que a atuação policial apenas notifica o crime já ocorrido e cabe ao Estado a pretensão punitiva do agente”

Amanda Pinheiro, advogada, presidente do Instituto As Manas.

Cadastro Nacional de Pedófilos e Predadores Sexuais Em novembro de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou, com um veto, a Lei n.º 15.035/24, que cria o Cadastro Nacional de Pedófilos e Predadores Sexuais. O sistema será desenvolvido a partir dos dados constantes do Cadastro Nacional de Pessoas Condenadas por Crime de Estupro. O único veto foi em relação a um dispositivo que previa a manutenção dos dados por dez anos após o cumprimento integral da pena. Na mensagem enviada ao Congresso Nacional, Lula afirmou que a medida é inconstitucional, pois violaria princípios como intimidade, vida privada, honra e imagem do condenado. A proposta que deu origem à lei (PL n.º 6212/23) foi apresentada pela senadora Margareth Buzetti (PSD-MT). O texto foi aprovado pelo Senado em maio daquele ano. Em outubro, a Câmara dos Deputados aprovou um substitutivo ao projeto. 53


POLÍCIA & CRIMES AMBIENTAIS Crédito: Divulgação

Lideranças da região relatam que os criminosos agiram com extrema brutalidade

Violência contra agricultores Famílias agricultoras do Pará sofreram ataque violento de homens armados. Jagunços invadiram o local, amarraram moradores, incluindo crianças e uma mulher grávida Da Revista Cenarium

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ELÉM (PA) – Famílias agricultoras acampadas na Fazenda Campo do Boi, no município de Ipixuna do Pará, localizado a 255 quilômetros da capital Belém, foram vítimas de um ataque violento realizado por homens armados. Segundo denúncias recebidas por lideranças da região, jagunços invadiram o acampamento, amarraram moradores — entre eles crianças e uma mulher grávida — e atearam fogo em ao menos três casas. O episódio ocorreu no Dia Internacional da Luta Camponesa, data em que se rememora o Massacre de Eldorado do Carajás, ocorrido há 29 anos no sul do Pará. Dessa vez, a violência se repetiu na região nordeste do Estado, espalhando

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terror em uma comunidade que vive há mais de dez anos na área pública estadual e que sobrevive da agricultura familiar. Relatos colhidos por organizações locais apontam que os criminosos agiram com extrema brutalidade. “Amarraram o pessoal perto da casa queimando. O pessoal quase morre queimado também lá. Foi muito complicada a situação”, diz um dos relatos recebidos pela Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Brasil (Contraf Brasil/CUT). Desde o ataque, há dificuldade de contato com diversas famílias, o que tem gerado forte angústia entre os moradores da região. A presença de crianças e de uma


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gestante agrava ainda mais o cenário de preocupação. “Tem muitas crianças envolvidas. A mulher estava gestante. Está complicada a situação. Ninguém sabe o que fazer”, relatou uma liderança local. A denúncia foi formalizada pela Contraf Brasil e pela Federação Estadual dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Pará (Fetraf-PA). Em nota, as entidades condenaram com veemência o episódio, que classificaram como “ato de barbárie” contra famílias agricultoras, que lutam por terra para viver e produzir. Ambas exigem uma resposta imediata das autoridades públicas. A Fetraf-PA denuncia que há tempos tenta obter uma audiência com o governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), para tratar da situação das famílias que ocupam a área — pertencente ao Estado —, mas não tem conseguido retorno. Segundo informações da Contraf Brasil, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) também tem buscado diálogo com o governo estadual, sem sucesso.

“O que está em jogo é a vida e a dignidade das famílias agricultoras, que querem apenas um pedaço de chão para viver e produzir. É fundamental que as autoridades estaduais e federais se articulem e atuem para proteger quem vive e trabalha no campo”, afirma o coordenador da pasta de acesso à terra da Contraf Brasil, Auri Júnior. A Fetraf-PA também manifestou publicamente: “Essa é uma terra pública ocupada de forma legítima por mais de 800 famílias, que transformaram o abandono em produção de vida. São trabalhadores e trabalhadoras que hoje abastecem mercados de Ipixuna do Pará, Paragominas, Aurora, Mãe do Rio e feiras na capital Belém”. As organizações informaram que comunicaram o ataque à Ouvidoria Agrária Nacional e à Secretaria de Segurança Pública do Estado do Pará (Segup). Agora, cobram medidas urgentes e concretas para garantir a integridade das famílias e evitar novos episódios de violência no campo.

“

O que está em jogo é a vida e a dignidade das famílias agricultoras, que querem apenas um pedaço de chão para viver e produzir”

Auri Júnior, coordenador de acesso à terra da Contraf Brasil.

“Não podemos permitir que a violência substitua o diálogo, e que a impunidade silencie o campo”, finaliza a nota.

Trabalho para identificar responsáveis “A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Segup) informa que está acompanhando todas as ações na localidade, e ainda que a Polícia Militar atendeu, de forma imediata, a ocorrência durante a madrugada, na Fazenda Campo do Boi. Inclusive, conduziu as vítimas à delegacia para o registro da

ocorrência. A Polícia Civil já ouviu o depoimento de todos, solicitou as perícias e instaurou um inquérito policial para apurar o caso com celeridade. Foi enviado reforço policial para a região e equipes das Polícias Militar e Civil trabalham para identificar e responsabilizar os autores”.

EM NOTA PÚBLICA, A CONTRAF BRASIL COBRA: ► Que o governador do Pará receba urgentemente as representações dos movimentos

► Que o Ministério da Justiça, o MDA e a Secretaria de Direitos Humanos atuem de forma imediata para garantir a segurança das famílias

► Que os autores da ação criminosa sejam investigados e responsabilizados ► Que o Estado do Pará assuma sua responsabilidade sobre a área e contribua com uma solução pacífica e definitiva.

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Crédito: Augusto Miranda | Agência Pará

POLÍCIA & CRIMES AMBIENTAIS

Imagem aérea da cidade de Santarém encoberta pela fumaça das queimadas em novembro de 2024

Pará em chamas Estado teve maior número de queimadas do País em 2024 Fabyo Cruz – Da Cenarium

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ELÉM (PA) – O Pará registrou o maior número de focos de incêndio no Brasil em 2024, segundo o sistema TerraBrasilis, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Entre 1º de janeiro e 22 de dezembro, o Estado contabilizou 55.513 queimadas, o que equivale a 20,1% do total nacional. Em seguida, aparecem Mato Grosso (50.515), Amazonas (25.497) e Maranhão (22.374). O impacto das queimadas é alarmante. De janeiro a outubro do ano passado, municípios como São Félix do Xingu, Novo Progresso e Altamira registraram um aumento de 172% nos focos de incêndio em relação ao mesmo período de 2023, segundo a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas). Em novembro, Santarém, no oeste do Pará, declarou estado de emergência ambiental por 180 dias. O Decreto n.º 698/2024, assinado pelo prefeito Nélio Aguiar, busca conter os impactos das quei56

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madas, que agravaram a qualidade do ar e impulsionaram doenças respiratórias na população. A situação também é crítica na Reserva Extrativista (Resex) Verde Para Sempre, em Porto de Moz. Durante dois meses, a reserva enfrentou densas nuvens de fumaça, afetando as 2.235 famílias que dependem da área para sua subsistência. A reserva, uma das maiores do Brasil, abriga diversas espécies de fauna e flora, mas tem sido devastada pelas chamas. “Melhorou porque choveu, apagou o fogo. Mas depois parou de chover e o fogo voltou”, relatou o pescador Silvan Souto Sá, 34 anos, à CENARIUM. Ele descreveu a destruição das áreas de buritizais e os impactos na biodiversidade local, como guaribas e papagaios, que estão perdendo seus habitats. Especialistas alertam para a necessidade de ações contundentes para proteger as

áreas mais vulneráveis e mitigar os danos já causados. Operações de combate a invasores em territórios indígenas, fortalecimento da fiscalização e políticas de apoio às populações tradicionais são vistas como passos fundamentais para conter a crise ambiental que ameaça a floresta amazônica e seus habitantes. A CENARIUM solicitou um posicionamento à Semas sobre as ações do Estado para o combate às queimadas no Pará. Leia abaixo a nota enviada pela pasta na íntegra: “A Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) informa que o Pará tem intensificado os esforços para reduzir o desmatamento e, consequentemente, o aumento de incêndios florestais e queimadas, fenômenos agravados pelas mudanças climáticas globais. Os anos de 2023 e 2024 estão entre os mais quentes desde o período da pré-revolução industrial, com temperaturas elevadas e chuvas reduzidas, condições


REVISTA CENARIUM

Crédito: Reprodução | TerraBrasilis

Crédito: Marizilda Cruppe | Greenpeace

20.1%

18.3%

8.1%

9.2%

PA MT AM MA TO MS MG RO

PI BA SP AC CE GO RR PR

55.513

Entre 1º de janeiro e 22 de dezembro de 2024, o Pará registrou 55.513 queimadas, representando 20,1% do total nacional, segundo o Inpe.

Gráfico de focos de incêndio em 2024

que ampliam a vulnerabilidade ambiental e favorecem a ocorrência de queimadas. É importante destacar que apenas 30% do território paraense está sob jurisdição estadual, enquanto 70% pertence à esfera federal, o que exige uma ação coordenada com a União. Em setembro deste ano, o Estado solicitou apoio ao governo federal para reforçar os recursos destinados ao combate às queimadas. Além disso, o Pará integra o Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional Nacional (Ciman), coordenado pelo governo federal, que reúne órgãos como Ministério do Meio Ambiente, Ibama, ICMBio, Funai, Censipam e Incra, além de representantes estaduais, para alinhar estratégias e ações conjuntas para o combate às queimadas.

Queimada na Amazônia

No âmbito estadual, a Operação Fênix ganhou o reforço de 40 novos bombeiros, somando 120 profissionais distribuídos em cinco frentes de trabalho. Foram também incorporadas oito novas viaturas e abafadores de incêndio às três já em operação, além do suporte de dois helicópteros para o combate aéreo às queimadas.

Neste período, a floresta está mais inflamável, o que explica o aumento de focos de calor, mesmo com a redução histórica do desmatamento no Pará, que em 2024 reduziu em 28,4% a taxa de desmatamento, superando os 21% de queda registrados nos dois anos anteriores (2023 e 2022), conforme dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)”.

Amazônia lidera queimadas em 2024; Brasil soma 278 mil focos Da Cenarium

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ANAUS (AM) – O Brasil registrou 278.229 focos de incêndio durante 2024, o pior número desde 2010, quando houve 319.383 ocorrências desse tipo. Os focos aumentaram 46% em relação aos 189.891 registrados em 2023, segundo dados do programa BD Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A temporada de fogo no Brasil começou mais cedo do que o normal em 2024. Em fevereiro e março, grandes incêndios atingiram Roraima, e no Pantanal as chamas começaram a se alastrar ainda em junho. O maior volume (140.328) de focos de incêndio foi detectado na Amazônia, um aumento de 42% em relação ao ano anterior no bioma. Este foi o maior patamar desde 2007, quando foram registrados 186.463 focos.

No Cerrado, foram 81.432 focos, um incremento de 60% em relação a 2023. A quantidade é a maior desde 2012, quando foram computados 90.579. O Pantanal teve um aumento de 120% nos registros, com 14.498 focos, o pior número desde 2020, quando houve 22.116 pontos detectados. De janeiro a novembro, o fogo atingiu uma área de 297.680 km² no Brasil, equivalente ao território do Rio Grande do Sul (281.707 km²), segundo dados do Monitor do Fogo, da plataforma MapBiomas. O índice representa um aumento de 90% em relação ao mesmo período de 2023, quando a extensão queimada foi de 156.448 km². O número acumulado nos primeiros 11 meses de 2024 é o maior desde 2019, quando começa a série histórica da ferramenta, que segue metodologia diferente da do Inpe.

A plataforma ainda não atualizou os dados de 2024 com o mês de dezembro. Considerando os primeiros 11 meses de 2024, a maior parte (57%) do território afetado pelo fogo fica na Amazônia, segundo o MapBiomas. Dos 169 mil km² impactados na região, 76 mil km² eram áreas de floresta — incluindo florestas alagáveis —, onde o fogo não ocorre naturalmente e a vegetação é sensível às chamas. O segundo bioma mais afetado pelo fogo de janeiro a novembro foi o Cerrado, com 96 mil km² queimados — 85% deles em áreas de vegetação nativa. Em seguida, vêm Pantanal (19 mil km²), Mata Atlântica (10 mil km²), Caatinga (2.975 km²) e Pampa (33 km²). (*) Com informações da Folhapress. 57


POLÍCIA & CRIMES AMBIENTAIS Crédito: Composição Lucas Oliveira | Cenarium

Segundo a polícia, o suspeito não pagava as diárias e inventava dívidas para manter a família no local

Família resgatada Família era mantida em condições análogas à escravidão; eles foram levados para receber diárias de aproximadamente R$ 50 Da Revista Cenarium*

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ANACAPURU (AM) – A Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), por meio da Delegacia Interativa de Polícia (DIP) de Manacapuru, a 68 quilômetros de Manaus, prendeu em flagrante Matheus Santos da Silva, 37, por manter um casal, de 17 e 18 anos, em condições análogas à escravidão. As vítimas estavam no local com a filha, um bebê de 11 meses. Segundo o delegado John Castilho, do Departamento de Polícia do Interior (DPI) de Manacapuru, as investigações apontaram que o casal foi levado ao sítio do autor para trabalhar e receber uma diária de aproximadamente R$ 50. O homem ajudaria com o trabalho braçal do sítio e a adolescente trabalharia com os afazeres domésticos. 58

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“Ao chegar lá, eles iniciaram os trabalhos e, após alguns dias, o autor não pagou o salário que lhes foi prometido. Quando as vítimas foram indagá-lo, ele começou a inventar dívidas. Qualquer suposto erro que o casal cometia, ele inventava uma dívida para eles pagarem”, relatou. Por exemplo, de acordo com o delegado, o jovem, em certo dia, chegou a arranhar a motocicleta do autor e ele passou a cobrar uma dívida de R$ 3 mil. A adolescente, por sua vez, quebrou um copo, e o investigado somou uma dívida de R$ 100. “A dívida se tornou impagável e o autor afirmou que, enquanto eles não a quitassem, eles não poderiam sair do sítio. A adolescente conseguiu falar com a mãe, que

imediatamente foi à delegacia denunciar o caso”, contou o delegado. Ainda segundo o delegado, de imediato, a equipe policial foi ao local, onde se deparou com uma situação completamente insalubre e encontrou o casal e a filha deles em situação de extrema vulnerabilidade. “Nós resgatamos essa família, que já está sendo assistida pelo serviço psicossocial, e autuamos o autor em flagrante pela situação à qual ele expôs o casal e a filha deles”, enfatizou o delegado. Matheus Santos da Silva foi autuado em flagrante por redução à condição análoga à escravidão. (*) Com informações da Polícia Civil.


ARTIGO – INORY KANAMARI

Crédito: Arquivo Pessoal

Não há festa onde há sangue: o silêncio mortal do Dia dos Povos Indígenas Inory Kanamari

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a tücüna naina. Frase escrita na gramática Kanamari e traduzida para o português significa: Olá, leitor(a).

Falo como advogada indígena, com anos de luta nos tribunais, nas aldeias e nas ruas. Falo como mulher originária, herdeira de um povo que resiste desde o primeiro dia da invasão deste território que hoje chamam de Brasil. Hoje, mais uma vez, nos pedem para celebrar o Dia Nacional dos Povos Indígenas, como se houvesse algo a ser comemorado enquanto nossos corpos continuam tombando, enquanto nosso território segue sendo violado, enquanto nosso espírito coletivo é alvo de um projeto contínuo e silencioso de extermínio. Não há comemoração possível em meio ao sangue derramado dos nossos líderes, das nossas crianças, dos nossos anciãos. Seguimos sendo assassinados, física e simbolicamente, por políticas de Estado que se sustentam no racismo, na omissão e na mentira. O Marco Temporal, a omissão diante do genocídio Yanomami, o desmonte das políticas de proteção territorial, a criminalização de nossas lideranças: tudo isso faz parte de uma engrenagem de morte que o Brasil insiste em manter. E isso não é negligência. Isso é projeto. Dói profundamente ver que quando uma liderança indígena é assassinada, o País se cala. A mídia tradicional silencia. A sociedade desvia o olhar. Fomos esquecidos antes mesmo de sermos ouvidos. A história de Galdino Jesus dos Santos, queimado vivo em Brasília, foi tratada como um “erro de julgamento” por seus assassinos. Paulo Paulino Guajajara tombou protegendo sua floresta, e sua morte caiu no esquecimento em questão de dias. Quantos nomes mais

precisaremos listar antes que sejamos vistos como humanos? Enquanto isso, mortes de aliados não indígenas – como Bruno Pereira, Dom Phillips e Dorothy Stang – recebem holofotes internacionais. Não por acaso. Suas histórias, embora importantes, só são amplificadas porque falam a linguagem que o sistema entende. A dor do branco dói mais que a nossa. Isso é racismo estrutural, é colonialismo em pleno século XXI. E é preciso ter coragem para dizer isso em alto e bom som. A pergunta que nos atravessa é simples e brutal: por que a morte de um indígena não comove o Brasil? Por que não há indignação nacional quando nossos parentes são mortos defendendo a terra que sustenta a vida de todos? Por que nossos gritos seguem ecoando no vazio? Hoje, neste 19 de abril, quero lembrar que território, para nós, é corpo e é espírito. Não se trata apenas de terra — é vida, é continuidade, é existência. Quando arrancam nossa terra, matam nosso corpo. Quando destroem nossa cultura, silenciam nosso espírito. Essa é a trindade sagrada que nos constitui. Mas o Estado brasileiro insiste em violá-la, todos os dias. O Brasil adora posar para o mundo como defensor da diversidade, como guardião da Amazônia, como parceiro dos povos indígenas. Mas sabemos que isso não passa de uma maquiagem mal feita. A verdadeira política praticada é a da invisibilidade, do silenciamento, do apagamento sistemático. O que quero hoje não é parabéns, nem homenagens vazias. Quero verdade. Quero justiça. Quero memória viva para cada

parente tombado. Quero que parem de fingir que respeitam nossos direitos enquanto nos matam lentamente com burocracia, violência e omissão. Convido a sociedade brasileira a refletir com honestidade sobre sua própria cumplicidade nesse sistema. Enquanto vocês escolhem o que sentir, nós seguimos enterrando os nossos. A luta pela vida indígena não pode ser lembrada apenas em discursos prontos. Ela precisa estar no centro das decisões políticas, dos investimentos públicos, das ações de justiça. O respeito real não se faz com hashtags nem com datas comemorativas. Se faz com demarcação de terras, com proteção efetiva, com escuta verdadeira. Nós seguimos de pé. Seguimos existindo, resistindo. Mas a cada dia, o Estado brasileiro nos mostra que preferia que fôssemos apenas passado. E é exatamente por isso que resistiremos sempre. Porque viver, para nós, é o maior ato político. Bapo ikoni. Até o próximo artigo. (*)Inory Kanamari, primeira advogada indígena do povo Kanamari. Atuou como presidente da Comissão de Amparo e Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas da OAB/AM de 2022 a 2024, vice-presidente da Comissão Especial de Amparo e Defesa dos Povos Indígenas no Conselho Federal da OAB de 2023 a 2024. Também atuou como consultora no projeto de tradução da Constituição Federal para a língua indígena Nheengatu no Conselho Nacional de Justiça. É articulista da REVISTA CENARIUM, ativista, poetisa e membra da Academia de Letras, Ciências e Cultura da Amazônia (Alcama). Escreve como colaboradora toda terça-feira para o Portal Info.Revolução. 59


MUNDO E CONFLITOS INTERNACIONAIS Crédito: Matheus Moura | Revista Cenarium

O Pontífice foi o líder da Igreja Católica que mais atuou em defesa dos Povos Originários e da Amazônia

Legados para a Amazônia Papa Francisco atuou em defesa dos povos indígenas e da preservação da Amazônia Jadson Lima e Izaías Godinho – Da Revista Cenarium

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ANAUS (AM) – “Provavelmente os povos amazônicos originários nunca estiveram tão ameaçados em seus territórios como estão agora”. Essa declaração é do Papa Francisco, feita em 19 de janeiro de 2018 durante um encontro com indígenas do Brasil, Peru e Bolívia. O evento foi realizado na cidade de Puerto Maldonado, no Peru. O Pontífice, que morreu no dia 21 de abril, foi o líder da Igreja Católica que mais atuou em defesa dos Povos Originários e da Amazônia. O encontro contou com a presença de mais de 30 povos indígenas, dos quais o Papa ouviu relatos sobre denúncias de violações em seus territórios e destacou a riqueza, os saberes e a diversidade indígena. Na ocasião, ele também afirmou que era 60

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preciso escutar a população tradicional que mora na Amazônia. “Que agora sejam vocês mesmos que se autodefinam e nos mostrem sua identidade. Precisamos escutá-los”, declarou. No evento, o Pontífice alertou para o impulsionamento do extrativismo na região e a forte pressão dos grandes interesses econômicos que apontam a “ganância sobre petróleo, gás, madeira, ouro, monoculturas agroindustriais”. O líder da Igreja Católica também mencionou a “perversão de certas políticas que promovem a conservação da natureza sem levar em conta o ser humano”, o que gera “situações de opressão aos povos originários”. Em outubro de 2020, o Papa Francisco falou sobre os incêndios florestais regis-

trados na Amazônia durante o Sínodo da Amazônia, encontro de bispos da Igreja Católica realizado no Vaticano que discutiu a floresta. Em uma declaração, o Pontífice afirmou que a região precisa de “fogo do amor”, que não destrói, mas “aquece e dá vida”. “Deus nos preserve da ganância do novo colonialismo. O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazônia, não é do Evangelho. O fogo de Deus é calor que atrai e congrega em unidade. Alimenta-se com a partilha, não com os lucros […] O fogo devorador alastra quando se quer fazer triunfar apenas as próprias ideias”, declarou na época. Em outra declaração do Papa, ele manifestou preocupação com os incêndios flo-


Crédito: Divulgação

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Francisco foi o Papa que mais se dedicou à pauta ambiental. Em 2020, a exortação apostólica “Querida Amazônia” foi publicada, na qual o Pontífice expressou o desejo de que os povos da região lutassem pelos “direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que suas vozes sejam ouvidas e sua dignidade promovida”.

Cada vez que eu encontrava com ele [Papa Francisco], ele sempre perguntava: ‘E a nossa Amazônia, como vai?’. Sempre nos incentivou, como igreja, a ajudar na transformação social”

Crédito: Divulgação

Papa Francisco participou de encontro com indígenas do Brasil, Peru e Bolívia

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restais na região amazônica, que classificou como “pulmão de floresta”. Na ocasião, ele pediu aos fiéis que rezassem pela região para que os incêndios fossem controlados. “Estamos preocupados com os incêndios que se desenvolveram na Amazônia”, disse.

Dom Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus.

Dom Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, disse que o Papa teve olhar atento para as questões ambientais e sempre respeitou os povos originários

Respeito aos povos originários O arcebispo de Manaus, no Amazonas, Dom Leonardo Steiner, de 74 anos, afirmou que nenhum outro Pontífice teve tanta preocupação com a Amazônia quanto o Papa Francisco. A declaração do primeiro cardeal da Amazônia foi dada durante coletiva de imprensa, realizada na capital amazonense após o anúncio do falecimento do líder da Igreja Católica, em Roma. Segundo o arcebispo de Manaus, o Papa teve olhar atento para as questões ambientais e sempre respeitou os povos originários. Além disso, a orientação do Pontífice era de que a Igreja deveria ser um instrumento de transformação social.

“O Papa Francisco tinha um carinho tão grande pela Amazônia, pelo pulmão da terra e principalmente pelos povos originários. Cada vez que eu encontrava com ele, ele sempre perguntava: ‘E a nossa Amazônia, como vai?’. Sempre nos incentivou, como Igreja, a ajudar na transformação social”, disse Steiner. Ao ser questionado sobre a possibilidade de ser convocado para disputar o Conclave, época em que haverá eleição para a escolha do novo Papa, Steiner afirmou que não acredita na possibilidade de se tornar o novo Pontífice, mas que a Igreja vai avançar e não retroceder. “Eu devo ser convocado para a eleição, uma vez que sou cardeal eletivo, assim

como todos os cardeais com menos de oitenta anos, e receberemos certamente o convite para participar das cerimônias do sepultamento”, disse no momento da entrevista. A morte do Papa Francisco foi determinada por registro eletrocardiotanatográfico. O atestado de óbito afirma que Francisco entrou em coma antes de sua morte. O quadro de saúde foi agravado pelo episódio de pneumonia, hipertensão e diabetes tipo 2. O Papa havia recebido alta hospitalar no fim de março, após 37 dias internado, e foi orientado por médicos a ficar dois meses de repouso e se encontrar com poucas pessoas. 61


ENTRETENIMENTO & CULTURA Crédito: Lucas Oliveira | Revista Cenarium

A Sommos se dedica à distribuição digital de conteúdos e à difusão de informação e conhecimento sobre a região amazônica

Parceria amplia visibilidade da Amazônia Diretora de Relações Institucionais da Sommos Amazônia, Yeda Oliveira, explica como será a parceria com a REDE CENARIUM Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

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ANAUS (AM) – Imagine uma plataforma na qual é possível ter acesso à produção cultural e regional da Amazônia, como filmes, músicas, livros, artes visuais, alimentação e notícias. Esta é a proposta da Sommos Amazônia, lançada na primeira semana deste mês, que se dedica à distribuição digital desses conteúdos e à difusão de informação e conhecimento sobre a região. E entre os parceiros dessa iniciativa está a REDE CENARIUM. Os serviços estarão disponíveis em um único aplicativo, por meio de uma única assinatura no valor de R$ 9,90 por mês. O catálogo inicial apresenta 300 filmes,

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30 mil músicas, 2,5 mil livros e mais de 750 obras artísticas, além de um glossário de alimentos e ingredientes composto por 330 verbetes. A plataforma também terá um e-commerce de produtos físicos. A diretora de Relações Institucionais da Sommos Amazônia, Yeda Oliveira, explica como se dará a curadoria, organização e difusão do acervo da plataforma, que terá a contribuição da CENARIUM para fazer da Sommos Amazônia a principal referência para pesquisa, informação e conhecimento sobre a região, por meio de conteúdos pautados nos cenários local, nacional e internacional.


LEIA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA ABAIXO: CENARIUM: O que motivou a criação da plataforma Sommos Amazônia e quais são os principais objetivos que busca alcançar em relação à região amazônica? Yeda Oliveira: Historicamente, ao longo dos séculos, por diversas razões, a Amazônia foi mantida apartada do Brasil e mesmo do mundo. A constatação da escassez de espaços na mídia nacional e internacional para a devida difusão e monetização da produção cultural e científica da Amazônia, e a consciência de que não se pode valorizar, preservar e proteger o que não se conhece, somadas à avassaladora devastação ambiental e cultural que estava em curso no ano de 2022, motivaram a criação da Sommos Amazônia. É a primeira plataforma de alcance global dedicada à distribuição digital dos produtos culturais da Amazônia e à difusão de informação e conhecimento sobre a região. Nossa missão é colaborar para o reposicionamento da Amazônia e do Brasil no mercado global da Economia Criativa, gerando receitas e visibilidade para os artistas, produtores e empresas das diferentes cadeias produtivas da região, num modelo financeiramente sustentável. Entendemos que, dessa maneira, contribuímos para o fortalecimento de nosso soft power e de nossa soberania digital. Além disso, a difusão de conhecimento sobre a região tem importância estratégica para o Brasil nestes tempos de desinformação e guerras de narrativas. C: Hoje, quantas pessoas fazem parte da equipe da Sommos Amazônia? E como são feitas as escolhas dos conteúdos que serão disponibilizados na plataforma? Y.O: A equipe de 25 pessoas, formada tanto pelos cinco sócios da Sommos como pelos executivos e colaboradores, reúne um time único que soma competências complementares e um histórico de sucesso e realizações nas áreas de Internet, Tecnologia, Comunicação e Marketing, Produção Cultural e Gestão de Direitos Autorais e Propriedade Intelectual. A missão da Sommos Amazônia é formar o mais amplo, abrangente e ecumênico catálogo da produção cultural da Amazônia e, para tanto, conta com uma

Crédito: Divulgação

REVISTA CENARIUM

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A CENARIUM vem inovando ao trazer conteúdos sobre a Amazônia pautados nos cenários local, nacional e internacional, e a parceria com a Sommos Amazônia irá somar esforços para fazer da plataforma a principal referência para pesquisa, informação e conhecimento sobre a Amazônia”

Yeda Oliveira, diretora da Sommos Amazônia

rede de parceiros, licenciantes e colaboradores regionais e nacionais que trabalham em um processo dinâmico e constante de mapeamento e licenciamento de conteúdos das diferentes áreas de expressão objeto da plataforma. Na estreia, a plataforma já apresentará o maior acervo audiovisual sobre a Amazônia, ao proporcionar uma navegação transversal através de oito verticais: filmes, músicas, livros, artes visuais, alimentação, notícias e parceiros, além de embarcar um e-commerce de produtos físicos. São 40 mil músicas, 3 mil livros, 750 obras artísticas, além de um glossário com mais de mil verbetes sobre os alimentos, ingredientes e receitas que compõem as culturas alimentares da região, suas festas populares e seus agentes culturais. O acervo da Sommos Amazônia é o resultado de um profundo trabalho de pesquisa, curadoria e de um processo constante e dinâmico de licenciamento de conteúdos produzidos por uma ampla rede de parceiros locais, nacionais e internacionais, formada por artistas e produtores independentes, pequenas, médias

e grandes empresas, instituições culturais e socioambientais, veículos de comunicação e agências de notícias. C: De que forma a parceria com a CENARIUM contribuirá para os objetivos da Sommos Amazônia? Y.O: A Amazônia representa mais da metade do território brasileiro, no entanto, ela ainda é estrangeira e ainda não faz parte do repertório cultural do Brasil. É fundamental apresentar o olhar de quem vive no território para o Brasil e para o resto do mundo, e sabemos que o acesso à informação de qualidade é uma ferramenta essencial para o combate às emergências climáticas. A CENARIUM vem inovando ao trazer conteúdos sobre a Amazônia pautados nos cenários local, nacional e internacional, e a parceria com a Sommos Amazônia irá somar esforços para fazer da plataforma a principal referência para pesquisa, informação e conhecimento sobre a Amazônia. Ao mesmo tempo, a soma desses esforços irá multiplicar o alcance das matérias produzidas pela CENARIUM para 63


Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

ENTRETENIMENTO & CULTURA

além das fronteiras regionais e nacionais. Trata-se de uma construção coletiva com benefícios mútuos. C: Quais serão as principais frentes de colaboração entre a CENARIUM e a Sommos Amazônia na prática? Y.O: Considerando que a Sommos Amazônia é uma plataforma dedicada à difusão de informação e conhecimento sobre a região, e que ela será um canal qualificado para a difusão da REDE CENARIUM, entendemos que a soma desses esforços irá multiplicar o alcance das matérias produzidas pela CENARIUM para além das fronteiras regionais e nacionais, além de promover uma inédita possibilidade de relacionar as matérias jornalísticas aos conteúdos culturais embarcados na plataforma, possibilitando o cruzamento de informações de todas as diferentes verticais presentes na plataforma. Para nós, que trabalhamos com a difusão dos conteúdos culturais da Amazônia, é essencial apresentar esse panorama com 64

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uma constante atualização da realidade da região, que só o jornalismo pode prover. Além disso, a CENARIUM prioriza a cobertura jornalística nos nove Estados da Amazônia e um novo conceito de debate sobre pautas relacionadas à sustentabilidade, à equidade e à diversidade, que vem ao encontro dos objetivos da Sommos Amazônia. C: Em um cenário onde muitas iniciativas de comunicação sobre a Amazônia vêm de fora da região, como a Sommos Amazônia vai lidar com o desafio de dar visibilidade à Amazônia sem cair em uma abordagem colonizadora ou externa à realidade local? Y.O: O acervo da Sommos Amazônia é o resultado de um profundo trabalho de pesquisa, curadoria e de um processo constante e dinâmico de licenciamento de conteúdos produzidos por uma ampla rede de parceiros locais, nacionais e inter-

nacionais, formada por artistas e produtores independentes, pequenas, médias e grandes empresas, instituições culturais e socioambientais, veículos e agências de notícias, sempre visando ao protagonismo dos povos da região. C: Como a Sommos Amazônia pretende garantir que a narrativa seja construída a partir da perspectiva de quem é da região? Y.O: Nosso objetivo primordial é criar uma plataforma que reflita a imensa diversidade das culturas da região e que seus diferentes integrantes se sintam e se vejam representados por meio do amplo catálogo que estamos reunindo. Estamos falando dos diferentes grupos étnicos e sociais: urbanos, periféricos, indígenas, ribeirinhos, caboclos e quilombolas. Todos encontrarão seus conteúdos prediletos e se sentirão representados. Todos se conhecerão e se reconhecerão na Sommos Amazônia.


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C: Qual o impacto esperado da plataforma tanto para o público da Amazônia quanto para quem está fora da região e quer conhecer melhor sua cultura e desafios?

C: Em quais plataformas a Sommos Amazônia estará disponível? Y.O: Inicialmente, a Sommos Amazônia estará disponível nas versões desktop e mobile responsivo. Na sequência, lançaremos a versão do aplicativo para as smart TVs e, a partir daí, poderemos embarcar o aplicativo nas assinaturas de operadoras do Brasil e do mundo. C: A plataforma disponibilizará os conteúdos em outros idiomas? Se sim, quais (além do português)? Y.O: A Sommos Amazônia foi idealizada para ter alcance global e, para tanto, será disponibilizada inicialmente em português, inglês e espanhol. A inclusão de outras línguas está prevista na evolução da plataforma.

C: Quais são os próximos passos da plataforma e o que podemos esperar de novidades para os próximos meses? Y.O: Além da constante expansão do acervo e do aprimoramento das tecnologias de proteção, gestão, comercialização, promoção e remuneração dos respectivos conteúdos e seus direitos autorais, a Sommos Amazônia irá desdobrar sua atuação para a dimensão B2B, onde, agindo como Integradora, irá publicar parte de seu catálogo em outras plataformas do Brasil e do mundo, multiplicando exponencialmente as possibilidades de monetização desses produtos. A expansão do catálogo de produtos físicos a serem disponibilizados através de nosso marketplace é uma prioridade em nosso planejamento. Estão previstos também desdobramentos em ações presenciais, de formação e capacitação para os novos entrantes, os novos artistas que, enquanto estamos falando aqui, agora, estão compondo, escrevendo, pintando, filmando e que precisam de uma plataforma dedicada à divulgação e comercialização de seus trabalhos.

Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

Y.O: Queremos promover a cultura amazônica no Brasil e no mundo. A Sommos Amazônia parte do princípio de que a cultura é um pilar estruturante para o desenvolvimento sustentável e para a geração de renda para a população da região e que, ao viabilizar a permanência das populações em seus territórios originais, contribui para o enfrentamento da emergência climática. Existe uma demanda global por maior conhecimento sobre a região que, no ano da COP30, só irá se acentuar. Esperamos atender essas expectativas de maneira eficiente e inclusiva. A Sommos Amazônia, desde já, se posiciona como uma iniciativa ECG (Environment, Culture & Governance) que reconhece a cultura e os setores criativos como motores para a implementação de modelos de desenvolvimento mais justos, mais inclusivos e mais verdes. Com o compromisso de colaborar

para a criação e expansão de um modelo econômico sustentável para as diferentes cadeias produtivas da Economia Criativa da Amazônia, a Sommos Amazônia visa transformar nossa riqueza cultural em riqueza socioeconômica.

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A CENARIUM conta com uma equipe de mais de 30 profissionais espalhados pelo mundo

Crédito: Composição Lucas Oliveira | Cenarium

DIVERSIDADE

Cinco anos de jornalismo técnico, ético e responsável A REDE CENARIUM completa cinco anos com expansão do jornalismo da Amazônia Ana Pastana – Da Revista Cenarium

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ANAUS (AM) – A REDE CENARIUM completou cinco anos de história no mês de abril celebrando a expansão do alcance de seus conteúdos com o compromisso de fazer jornalismo técnico, levando à população informações sobre o que acontece na Amazônia Legal, com os povos originários, sobre diversidade, política local, nacional e internacional, economia, meio ambiente e a visibilidade dos territórios. A CENARIUM está na internet por meio das redes sociais, do site revistacenarium. com.br e da agência agenciacenarium.com. br, nas versões em português e em inglês, na revista impressa, na TV Web, no canal do YouTube — canais nos quais trabalham, diariamente, mais de 30 colaboradores espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Entre os profissionais, a CENARIUM conta com advogados, jornalistas, social medias, revisores textuais, editores de vídeo, cinegra66

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fista, fotojornalista, equipe de marketing e setor administrativo. Com matriz em Manaus, capital do Amazonas, a CENARIUM, em cinco anos, está presente com uma rede de comunicadores no Pará, Acre, Roraima, Rondônia, Amapá, Maranhão, Tocantins, no Distrito Federal, e expandiu seu alcance até a capital

do Reino Unido, Londres. A REDE CENARIUM também conta com um Conselho Editorial formado por especialistas nas áreas de Direitos Humanos, Povos Tradicionais, Pesquisas, Ciências Sociais, Política e Economia. Além do ambiente virtual, a REVISTA CENARIUM, na versão impressa, está na

Parcerias para difusão de conteúdo SOMMOS AMAZÔNIA Em uma plataforma que distribui conteúdos da Amazônia e permite o acesso à produção cultural e regional — como filmes, músicas, livros, artes visuais, alimentação e notícias — está a Sommos Amazônia, lançada na primeira semana do mês de abril, que se dedica à difusão de informação e conhecimento sobre a região. E, entre os parceiros dessa iniciativa, está a CENARIUM. Os serviços estarão disponíveis em um único aplicativo, mediante uma assinatura no valor de R$ 9,90 por mês. O catálogo inicial apresenta 300 filmes, 30 mil músi-

cas, 2,5 mil livros e mais de 750 obras artísticas, além de um glossário de alimentos e ingredientes composto por 330 verbetes. A plataforma também contará com um e-commerce de produtos físicos.

GRACCO VIAGENS E TURISMO Outra parceria firmada é a da CENARIUM com a Gracco Viagens e Turismo, com o objetivo de produzir conteúdos on-line sobre turismo na região amazônica, inicialmente nas capitais Manaus (AM) e Belém (PA), por meio de um podcast quinzenal, que deve ser exibido no segundo semestre deste ano, cumprindo o propósito de estabelecer conexões com o Brasil e o mundo.


REVISTA CENARIUM

58ª edição e possui uma tiragem de, aproximadamente, 5 mil exemplares distribuídos a assinantes e parceiros pelo Brasil a cada 30 dias, apresentando um conteúdo exclusivo, com textos e imagens autorais, fruto do trabalho da equipe de jornalistas e comunicadores da empresa. A TV CENARIUM, que faz parte da REDE CENARIUM e está disponível no YouTube, se destaca pela produção contínua de reportagens exclusivas, entrevistas, minidocumentários e documentários. Entre os anos de 2020 e 2025, a plataforma mantém uma média de 18 horas de conteúdo publicado. Nas redes sociais, a CENARIUM, no Facebook, entre os anos de 2020 e 2025, alcançou mais de 11 milhões de pessoas. No Instagram, em três anos, o alcance foi de 13 milhões. No X (antigo Twitter), de 2024 a 2025, foi registrado um alcance de mais de 2 milhões. Já no TikTok, de 2023 a 2025, o alcance foi de mais de 4 milhões.

CENARIUM presente Além dos colaboradores da capital amazonense, a CENARIUM conta com profissionais nos Estados do Pará, com o jornalista Fabyo Cruz; em Brasília, com a jornalista Ana Cláudia Leocádio; e em Londres, com a jornalista Monica Piccinini. Para a coordenadora de redação, Adrisa de Góes, fazer parte da CENARIUM é um aprendizado diário. “Todo dia a gente aprende algo novo, essa é a vantagem de ter contato direto com especialistas, de fazer um trabalho a partir da fala de pessoas que vivenciam e lutam por uma causa, ou uma especialidade. Esse é o diferencial da CENARIUM”, disse. A diretora-geral da CENARIUM, Paula Litaiff, afirma que a revista nasceu com o propósito de deixar um legado sobre a importância da ética, o respeito à floresta e do profissionalismo no exercício de noticiar. Ela reforça o compromisso de fazer jornalismo técnico, com boa apuração. “Eu costumo dizer que ela [CENARIUM] é nossa. É de quem faz a Amazônia, é de quem colabora com os jornalistas diariamente, é do professor, é dos povos quilombolas, é dos povos originários. Esse é o objetivo, ampliar a voz de quem precisa ser ouvido”, declarou.

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Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

Ela [CENARIUM] é nossa. É de quem faz a Amazônia, é de quem colabora com os jornalistas diariamente, é do professor, é dos povos quilombolas, é dos povos originários. Esse é o objetivo, ampliar a voz de quem precisa ser ouvido”

Paula Litaiff, diretora-geral da REDE CENARIUM.

RECONHECIMENTOS E PREMIAÇÕES Por meio de um jornalismo de responsabilidade, a REDE CENARIUM soma premiações, tais como: ► 1º e 2º Prêmio Nacional MOL de Jornalismo para Solidariedade, na categoria Fotojornalismo, pelo trabalho nas reportagens “Manejar é preciso” e “Lutheria Social” ► 11º Prêmio Nacional Anamatra de Direitos Humanos 2024, com uma série de reportagens sobre denúncias relacionadas ao trabalho análogo à escravidão em carvoarias no Estado de Roraima. ► 1º lugar no Prêmio Ampla de Jornalismo, na categoria estadual, promovido pela Ampla, organização apartidária, representativa de lideranças da Amazônia, com a reportagem “Narcogarimpo: entenda como facções praticam crimes ambientais em áreas de garimpo no Pará”, escrita pelo repórter do veículo de imprensa no Pará, Fabyo Cruz. ► 9º Prêmio Sebrae de Jornalismo, na categoria Foto, com a imagem “Manejar é Preciso”, do fotojornalista Ricardo Oliveira. ► 3º lugar na categoria “Jornalismo em Vídeo”, na 11ª edição estadual do Prêmio Sebrae de Jornalismo, com a reportagem “Empreendedorismo Ancestral Impulsiona Renda de Mulheres Indígenas em Manaus”. ► Vencedora da categoria “Fotojornalismo”, no eixo do Tribunal Superior do Trabalho (TST), do 1º Prêmio Nacional de Jornalismo do Poder Judiciário, com a produção “Reféns do carvão: exploração de trabalhadores em carvoarias na Amazônia”. ► 1º Prêmio Estadual Águas de Manaus de Jornalismo Ambiental, com o fotojornalista Ricardo Oliveira, pela fotorreportagem “Desafio entre preservação e desenvolvimento econômico no Rio Tarumã-Açu em Manaus”. ► Finalista do 44º Prêmio Nacional Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos 2022 categoria fotografia. 67


DIVERSIDADE Crédito: Composição Belle Pena | Revista Cenarium

A advogada indígena Inory Kanamari e a liderança e ativista do povo Botocudos do Uaiumi, Bárbara Nascimento, participaram do evento

Dia dos Povos Indígenas: direitos, resistência e justiça Em alusão à data, lideranças indígenas discutem exclusão e barreiras no acesso à Justiça Carol Veras – Da Revista Cenarium

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ANAUS (AM) – Os povos originários e a inclusão social foram temas em destaque em um encontro em alusão ao Dia dos Povos Indígenas, realizado na Universidade Paulista (Unip), em Manaus, capital do Amazonas. Personagens importantes para a representatividade indígena presidiram o debate, intitulado “Povos Indígenas: Direitos, Resistência e a Construção de uma Sociedade Justa e Inclusiva”.

Durante o evento, os participantes abordaram os desafios enfrentados por comunidades indígenas na formulação e no acesso a políticas públicas. Inory Kanamari destacou a ausência de perspectivas indígenas nos planejamentos institucionais e a desigualdade no acesso à Justiça. “As políticas públicas foram criadas por pessoas brancas, ricas e classistas. Saúde, educação e outros direitos básicos não chegam até os povos indígenas”, afirmou.

Compondo a discussão, esteve presente a primeira advogada indígena do povo Kanamari, Inory Kanamari, e a jornalista e diretora-geral da REDE CENARIUM, Paula Litaiff. De forma remota, participaram a liderança e ativista do povo Botocudos do Uaiumi, Bárbara Nascimento, e o articulista de questões indígenas Roger Chambi.

A advogada também relatou obstáculos estruturais enfrentados por indígenas em processos judiciais, sobretudo em áreas remotas. “O serviço jurídico não é planejado para nós. O juiz não pensa que um indígena precisa de R$ 3 mil ou 200 litros de gasolina para se locomover. É difícil cumprir prazos nessas condições. Às vezes, nem as audiências on-line são viáveis,

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pois as placas solares não funcionam bem durante o período chuvoso”, disse. Visando ampliar o acesso de povos indígenas ao Judiciário, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) editou as Resoluções nº 453 e nº 454, ambas de 2022. A primeira criou o Fórum Nacional do Poder Judiciário para Monitoramento e Efetividade das Demandas Relacionadas aos Povos Indígenas e Tribais (Fonit). Já a segunda estabelece diretrizes para assegurar o direito de indígenas à Justiça, alinhando-se a princípios do Direito Internacional dos Direitos Humanos. Entre os principais pontos da Resolução nº 454 está a obrigação de que o Ministério Público e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) sejam intimados em ações que envolvam comunidades indígenas. O texto ainda determina que


REVISTA CENARIUM

os tribunais garantam, por exemplo, a autoidentificação étnica dos envolvidos, o uso de intérpretes indígenas, perícias antropológicas e a comunicação processual em linguagem acessível e intercultural.

Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

A norma também prevê o direito de ingresso em juízo sem necessidade de formalização como pessoa jurídica e a extensão de prerrogativas da Fazenda Pública a povos e comunidades indígenas. As citações devem ser feitas, preferencialmente, de forma presencial, e as manifestações orais podem ser prestadas na língua nativa, com garantia de tradutor. Em processos que envolvam disputas territoriais, é obrigatória a notificação de órgãos como a Funai, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e o povo indígena afetado, com estímulo ao diálogo intercultural. A decisão também prevê a possibilidade de audiências públicas ou inspeções judiciais para ouvir as comunidades.

Palestra foi direcionada a estudantes da Universidade Paulista (Unip), em Manaus

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Dia dos Povos Indígenas

As políticas públicas foram criadas por pessoas brancas, ricas e classistas. Saúde, educação e outros direitos básicos não chegam até os povos indígenas”

A data passou a ser chamada oficialmente de Dia dos Povos Indígenas desde a propositura da Lei 14.402, promulgada em 2022. A mudança do nome da celebração tem o objetivo de explicitar a diversidade das culturas dos povos originários. A lei é oriunda do Projeto de Lei 5466/19, da deputada Joenia Wapichana (Rede-RR). Crédito: Ricardo Oliveira | Revista Cenarium

Inory Kanamari, advogada indígena.

Para Wapichana, a intenção ao renomear a data é ressaltar o valor dos povos indígenas para a sociedade brasileira. “O propósito é reconhecer o direito desses povos de, mantendo e fortalecendo suas identidades, línguas e religiões, assumir tanto o controle de suas próprias instituições e formas de vida quanto de seu desenvolvimento econômico”, afirmou a deputada quando o texto foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. O governo, no entanto, acabou vetando integralmente a proposta. Para o Ministério da Justiça e Segurança Pública, não haveria interesse público na alteração, uma vez que a Constituição adota a expressão “Dos Índios”. Em sessão conjunta do Congresso Nacional, os parlamentares derrubaram o veto. 69


Crônicas do Cotidiano: A fúria que vem de Harvard Walmir de Albuquerque Barbosa

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Universidade de Harvard, localizada na cidade de Cambridge, estado de Massachusetts, EUA, fundada em 1632, quando o país ainda era colônia britânica, é considerada uma das mais prestigiadas do mundo; exemplo de instituição privada sem fins lucrativos e responsável pelos mais importantes resultados de pesquisa e inovação tecnológica. É reconhecida também pelos seus mais de 150 prêmios Nobel inscritos no portfólio de suas honrarias. Não é a mais antiga das Américas, mas tornou-se a sua referência, daí o respeito e até mesmo a veneração que todos têm pela instituição, dentro e fora do país. Por ela passaram os mais notáveis cérebros do mundo moderno, quer como docentes, quer como alunos, dentre eles, nove ex-presidentes da República dos EUA. A única pessoa que faz questão de desconhecer esses atributos e não tem respeito pela instituição é o atual presidente da República do país, que decidiu de forma imperial, antidemocrática e contrária à Constituição, interferir diretamente na autonomia das universidades, sejam elas públicas ou privadas, impondo-lhes restrições acadêmicas, invadindo seus campi, prendendo e deportando ilegalmente seus alunos estrangeiros e determinando modos de conduta e procedimentos na organização acadêmica e pedagógica das instituições. Coisa que nem os ditadores mais afoitos se atreveram a fazer pelo mundo afora. O presidente Donald Trump só não esperava a resposta dessa instituição secular à sua “ordem imperial”, em carta assinada pelos seus dirigentes: “É lamentável, portanto, que sua carta desconsidere os esforços de 70

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Harvard, em vez disso, apresente exigências que, em contrariedade à Primeira Emenda, invadem as liberdades universitárias amplamente reconhecidas pela Suprema Corte. Os termos do governo também contornam direitos estatutários de Harvard ao exigir remédios não comprovados e disruptivos para supostos danos que o governo não provou por processos obrigatórios estabelecidos pelo Congresso e exigidos por lei… Assim, Harvard não aceitará os termos do governo como um acordo em princípio”. Resposta que, certamente, encorajará as demais universidades a responderem veementemente às investidas dessa figura estranha que deseja submeter tudo aos seus caprichos. A situação não é boa para as universidades. Até bem pouco tempo eram vistas como espaço do livre pensar, da competência para ousar e descortinar novos horizontes na compreensão do comportamento humano, da discussão das questões sociais universais e do desenvolvimento de todas as potencialidades dirigidas para o bem. A autonomia que lhes é garantida em todos os países democráticos, em nome da tradição medieval que resultou na sua criação protegida por muralhas, existe exatamente para poder defender-se de intrusos sempre prontos a questionar suas liberdades em nome de princípios autoritários, religiosos, políticos ou morais. É inadmissível querer uma universidade utilitarista e conservadora se ela nasceu, exatamente, para se colocar sempre à frente de seu tempo, ser farol de inovação e contestação do status quo. Isso não elimina a responsabilidade

Crédito: Acervo Pessoal

ARTIGO – WALMIR DE ALBUQUERQUE BARBOSA

que uma universidade livre tem para com a sociedade que a mantém e a reconhece: ela se fecha para pensar, refletir, produzir a crítica, propor caminhos e soluções possíveis e imprimir nos que por ela passam a sua Alma Mater, abrindo-se à sociedade, em seguida, para entregar, generosamente, o saber que produziu. Poucos entendem isso. No caso brasileiro, as forças políticas e econômicas pensam a universidade como objeto de seus desejos e, agora, essa extrema-direita obtusa vem querendo transformá-la em madraça, haja vista o que foi feito no governo passado, quando o MEC foi entregue a delinquentes e às forças do mercado, deixando sequelas de interferência nas universidades via Conselho Nacional de Educação, de domínios da Capes e do CNPq e interferências descabidas de corporações de ofício como conselhos, ordens e outras associações sobre assuntos que não lhes dizem respeito e interferem na formação dos que vão pensar o futuro. Recentemente (dias 10 e 12 de março), a Universidade de Brasília (UnB) foi assaltada por um grupo neofascista de alunos que prometia “ações de limpeza” e erradicação do “comunismo” na instituição. Episódios dessa natureza se multiplicam dentro de universidades públicas com o apoio de instituições externas. Lembrem-se: “A universidade é o nosso maior patrimônio”! (*) Jornalista profissional, graduado pela Universidade do Amazonas; Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo; Professor Emérito da Universidade Federal do Amazonas.


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Revista Cenarium – Ed. 58 - Abril/2025 by Paula Litaiff - Issuu