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Bússola Travel Leaders Hub

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A BÚSSOLA

Uma reflexão quinzenal do think thank dos líderes do Turismo

QUEM PAGA A CONTA?

Existe um tipo de proposta que chega ao debate público com um laço de presente. Vem embrulhada na palavra justiça, às vezes na palavra simplicidade, e qualquer um que ouse questionar parece estar do lado errado da história. Uma dessas propostas está sobre a mesa neste momento, e tem muito mais camadas do que o laço deixa ver: o fim da escala 6x1, aprovado em dois turnos pela Câmara e a agora no Senado.

A proposta, à sua maneira, redesenha a rotina e o bolso do brasileiro, portanto vale a desembrulhar. O tema da escala é polêmico, porque mexe com algo difícil de discordar. A proposta aprovada institui jornada de até 40 horas semanais e dois dias de descanso, sem redução de salário. Quem trabalha de verdade no Brasil sabe o que isso significa.

O cotidiano de quem está no balcão, limpando apartamentos, servindo mesas, gerindo estoque não é simples coisa nenhuma. É madrugar, encarar duas horas de ônibus, cumprir a jornada de pé, voltar para uma segunda jornada de cuidado em casa e fazer tudo de novo no dia seguinte, seis vezes por semana. Diante disso, dizer que mais descanso é merecido, não é generosidade. É reconhecer o óbvio.

O incômodo não está no descanso. Está no pressuposto embutido na forma como ele é entregue. Quando se transforma um único modelo de jornada em regra constitucional, abre-se mão de algo precioso: a possibilidade de negociar. premissa, nunca dita em voz alta, é que o Estado sabe melhor do que o próprio trabalhador o que é bom para ele. Isaiah Berlin descreveu o risco: há uma forma de liberdade que se disfarça de cuidado, a ideia de que, se a pessoa fosse mais esclarecida, escolheria exatamente o que decidimos por ela. Mas ambições são individuais. Há quem prefira concentrar a jornada para ter dias inteiros livres; há quem dependa de um turno específico por causa do segundo emprego, do estudo à noite, do filho na creche. Tratar todos como se quisessem a mesma coisa é uma forma educada de não escutar ninguém.

Até Rawls, o filósofo liberal mais preocupado com os que ficam para trás, vive essa tensão. Sua teoria pede que desenhemos as regras imaginando que poderíamos ser o último da fila e um rawlsiano honesto poderia, sim, defender a lei como proteção do elo mais fraco. Reconheço a força disso. Mas Rawls assenta tudo sobre a prioridade das liberdades básicas e o direito de cada um perseguir a própria ideia de vida boa.

Do outro lado, está o cliente. E não é especulação dizer que o brasileiro quer gastar o tempo livre consumindo experiência, isso é comportamento medido. Os estudos do TRVL Lab mostram um país que virou consumidor de experiência. Na pesquisa Scroll & Go, 80,82% dos viajantes seguem marcas de viagem nas redes, e o gatilho que mais converte é promoção e desconto, ou seja, preço. Já a Insights para o Turismo, mostra a fronteira entre trabalho e lazer dissolvida: quase oito em cada dez estendem viagens de trabalho para aproveitar o destino. É gente que valoriza tempo e experiência na mesma moeda e vai pagar mais caro pelos dois. E repare na ironia: dê ao trabalhador um sábado livre e, no mesmo movimento, encareça tudo o que ele faria com esse sábado.

Por isso defendo uma união multissetorial de verdade. Serviços, turismo, varejo, alimentação fora do lar, hotelaria, saúde: setores que empregam justamente esse trabalhador e que têm interesse comum e voz fragmentada. Juntos, poderiam fazer o que ninguém faz sozinho: um lobby legítimo, no melhor sentido, para que a jornada venha com flexibilidade negociada e que a proposta não trate serviço como luxo a ser desestimulado. E se nem isso for possível no curto prazo, que sirva ao menos para conscientizar: o sábado livre e a conta mais alta vêm no mesmo pacote, e o trabalhadorconsumidor tem o direito de opinar sobre o desenho dos dois.

Uma posição liberal com alma social não é contra o trabalhador. É a que confia nele o bastante para deixá-lo escolher. O gesto mais humano do Estado não é estreitar o caminho até uma única porta. É alargar o número de portas e ser honesto sobre quem paga para mantêlas abertas.

Ainda dá tempo, mas é preciso ser ágil.

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Seja na troca de ideias, na construção de estratégias ou na tomada de decisões que definirão os rumos do Turismo, aqui está o epicentro da transformação.

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As opiniões, análises e comentários expressos neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e refletem sua visão pessoal sobre os temas abordados. Tais posicionamentos não representam, necessariamente, o entendimento, a opinião ou o posicionamento institucional das empresas às quais o autor esteja vinculado, nem do Travel Leaders Hub ou do Panrotas.

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