Projeto Casa Ambiente - Habitação Coletiva
U ni ve rs id ad e São F ran c is co Arq uite t u ra e Urb an is m o Tra b a lh o F in al d e G rad u aç ão
Projeto Casa Ambiente Habitação Coletiva
PA LOM A M ON TEI RO Prof.(a) Orie ntad or( a ) : B a rb a ra Pu ccin e l i Pe rron e
Campinas 2021
“A preocupação com o planeta evoca não apenas uma atenção à preservação dos recursos naturais, mas também dos próprios humanos, com seus modos de viver, de sentir e de se relacionar com os outros - sejam esses outros as pessoas, a natureza e o leque diversificado das produções sociais (arte, conhecimento, tecnologia, informações, imagens e valores).” - Estud. pesqui. psicol., Rio de Janeiro, v. 16, n. 3 MANSANO, S. & CARVALHO, P., 2016
Imagem: Alireza Karimi Moghaddam/ Alterado pela autora
AGRADECIMENTOS Aos meus afetos... Primeiramente agradeço aos meus pais, Sarah Elisabete Carvalho Monteiro e Aparecido Monteiro, por me apoiarem e incentivarem nos momentos difíceis, também me proporcionando a oportunidade de me dedicar à minha carreira, sempre dispostos a me ensinar e me tornar uma pessoa melhor. Agradeço à minha irmã, Graciela Monteiro, por todo ensinamento, incentivos, apoio, cuidado e por me inspirar a ser a pessoa que sou hoje. Aos meus amigos, que sempre estiveram ao meu lado, pela amizade incondicional e pelo apoio demonstrado ao longo de todo o período de tempo em que me dediquei a este trabalho e ao longo da minha vida. Às minhas colegas do escritório Kripamonti, Carolina Ripamonti, Luciana Cavani e Agustina Albertinazzi, por me proporcionarem o meu primeiro estágio, por estarem me ensinando tanto e, acima de tudo, por serem tão sensíveis e confiarem no meu potencial. Por fim, agradeço também aos professores, em especial minha orientadora, Bárbara Puccineli Perrone, por todos os conselhos, pela ajuda e pela paciência com a qual guiaram o meu aprendizado, me apoiando até em minhas escolhas mais incertas.
SUMÁRIO 1 . I N T R O D U Ç Ã O 12 14
1.1 Motivação pessoal 1.2 Introdução
2.OBJETIVOS
18 19
2.1 Geral 2.2 Específicos
3. TEMÁTICA
20
22 24 28 32 34 38 40 44 48
3.1 Relação Natureza x Homem 3.1.2 Relação de medo 3.2 Sustentabilidade 3.2.1 A dimensão humana da sustentabilidade 3.2.2 Sustentabilidade afetiva 3.3 Habitação social: um panorâma mundial 3.3.1 Habitação social no Brasil 3.4 O direito ao meio ambiente e o direito à moradia: direitos fundamentais 3 . 4 . 1 A i m p o r t â n c i a d a s u s t e n t a b i l i d a d e a f e t i v a p a r a a c o n c r e t i z a ç ã o d o s direitos fundamentais
4. LEITURA DO TERRITÓRIO
56 58 60 76
4.1 4.2 4.3 4.4
10 16
54
Le i t u ra d a á re a e m es c a l a m a c ro Delimitação da área de estudo Leva n t a m e n t o d a á re a e m es c a l a m a c ro Visão micro: terreno de implantação
5.1 Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado 5.2 A Casa Expansível 5.3 Casa San Salvador
92 5 . R E F E R Ê N C I A S 102 PROJETUAIS 116
6.1 Conceito e partido 6.2 Programa de necessidades 6.3 Fluxograma 6.4 Estudo Bioclimático e plano de massas 6.5 Evolução da forma 6 . 6 S e t o r i z a ç ã o e Té r r e o i m p l a n t a d o 6.7 Implantação 6.8 Pavimentos 6.9 Sistema estrutural 6.10 Tipologias residenciais 6.11 Espaços públicos 6.12 Cortes 6.13 Elevações 6.14 Espécies arbóreas e de cultivo
122 124 128 130 132 134 136 138 142 146 152 156 164 170
90
7.IDENTIDADE VISUAL
176
7. PROJETO
120
8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
178
Imagem: André Donadio (2019)
1
INTRODUÇÃO
1.1
M OT I VA Ç Ã O P E S S OA L A sustentabilidade é um conceito amplamente utilizado nos dias atuais, sendo que, na maioria dos casos, é tratado de maneira abrangente e superficial, fazendo-a perder a credibilidade ao longo dos anos. A palavra sustentabilidade, do latim sustentare, carrega em seu significado os conceitos de suportar, suster; defender, proteger; favorecer, apoiar; consolar; manter, conservar e cuidar. A partir destes significados, surgiu a inquietação de como retomar a relação de “cuidado”, “suporte” e “apoio” entre os humanos e o meio ambiente; ambos atualmente vêm sendo perdidos pelas redes de produção de riqueza e deslocamento. No aprofundando da pesquisa a respeito de como a sustentabilidade pode servir como ferramenta para o bom convívio entre as pessoas, o lar e a natureza, foi adotado o conceito de sustentabilidade afetiva. Esse termo se faz presente em estudos psicológicos relacionados ao meio ambiente e às famílias em situação de vulnerabilidade socioambiental. Estas vivem o medo e insegurança de habitar um local exposto às forças da natureza, além de estarem desamparadas pelo poder público. Ilustração: Whooli Chen (2018)
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Em filosofia, a palavra “afeto” (affectus ou adfectus em latim) é um conceito usado por Spinoza, Guattari e Deleuze (2002, p. 33) o qual designa ”um estado da alma, um sentimento. De acordo com a Ética III, de Spinoza, um afeto é uma mudança ou modificação que ocorre simultaneamente no corpo e na mente. A maneira como somos afetados pode diminuir ou aumentar nossa vontade de agir.”
“
[...] é importante destacar a importância da psicologia e da natureza nas relações do homem com a casa em que vive, o bairro onde mora, a rua que atravessa todas as manhãs e que, pela repetição e hábito, tornam-se afetivamente conhecidos e familiares. (GUATTARI, 1992 apud MANSANO, 2020, p. 17)
Assim, o conceito de sustentabilidade afetiva transpassa diversos aspectos: filosófico, com seu conceito das relações de afeto; psicológico, com como
as famílias e pessoas reagem e são afetadas pelo meio em que vivem; do meio ambiente, a partir da concepção de preservação ambiental e da consciência dos recursos naturais utilizados cotidianamente; e, por fim, cultural e social, relacionada às produções sociais, o que inclui a arte, conhecimento, tecnologia, informações, imagens e valores (MANSANO, S. & CARVALHO, P, 2020). Percebe-se, então, que a sustentabilidade vai muito além de produtos certificados e ferramentas de marketing. Apesar da importância de se considerar aspectos econômicos e técnicos, seu significado também deve ser lembrado como uma chave importante para o convívio social. Diante dos conceitos apresentados, o presente estudo abordará a sustentabilidade afetiva limitada aos aspectos ambiental e social-cultural, levando em consideração que a arquitetura, como arte, cultura e técnica, é capaz de promover um convívio entre pessoas e o meio ambiente, permitindo que relações de afeto, cuidado, apoio e vínculos sejam criados entre os seres vivos e a natureza de maneira saudável e democrática.
13
1.2 O trabalho aqui exposto se faz sobre um projeto de habitação de interesse social sustentável para famílias em situação de vulnerabilidade socioambiental, a ser implantado no bairro Jd. Fernanda, localizado na região do Campo Belo, periferia do município de Campinas. Habitação e periferia são duas problemáticas que caminham juntas na maioria dos países, estando atreladas ainda à questões de vulnerabilidade. Segundo Freitas & Ximenes (2012) quando uma população e/ ou grupo social se vêem impotentes diante das forças da natureza, pode-se dizer que estes se encontram em situação de vulnerabilidade socioambiental. Além disso, de acordo com uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (2019), o déficit habitacional brasileiro é de 5,8 milhões de famílias, o que representa um índice de 9,3% de famílias que não têm onde morar ou que vivem em condições inadequadas. Assim, muitas vezes abandonadas e excluídas do território formal, as famílias que vivem à margem da sociedade recorrem a espaços urbanos fragmentados e inseguros, revelando a fragilidade, vulnerabilidade e instabilidade destas ocupações.
INTRODUÇÃO A partir da problemática apresentada, a sustentabilidade compreende um papel fundamental na construção de habitações de interesse social, tanto em seu caráter construtivo, pela utilização de materiais e técnicas não nocivas ao meio ambiente, levando em conta a agressividade que a construção civil possui em utilização e descarte de recursos, quanto na oportunização das edificações e espaços bem elaborados com ênfase no aspecto humano e afetivo da vivência coletiva. Como apresentado pela ONU (2016), para manter o mesmo padrão de consumo atual da humanidade, até 2050 seriam necessários três planetas Terra. Portanto, pensar na sustentabilidade, manutenção e qualidade de habitações, principalmente para famílias fragilizadas na sociedade brasileira, se torna urgente nos dias atuais. Diante do exposto, o presente trabalho exibirá o projeto arquitetônico de um modelo de habitação de interesse social com foco na sustentabilidade afetiva, visando suprir as necessidades e a demanda habitacional do local estudado, assim como promover o convívio coletivo e saudável dos moradores do bairro. Imagem: André Donadio (2019)
14
15
Imagem: André Donadio (2019)
2
OBJETIVOS
GERAL Promover, através da sustentabilidade afetiva e da moradia digna, a retomada do convívio harmônico entre os seres humanos e a natureza, considerando que a moradia e o meio ambiente equilibrado são direitos fundamentais do homem. 18
E S P E C Í F I CO S 1.
Propor uma habitação de interesse social sustentável para famílias em situação de vulnerabilidade socioambiental;
2. Promover o convívio coletivo a partir de usos mistos e atividades voltadas para sustento e manutenção da habitação coletiva;
3. Propor um projeto flexível para as gerações futuras, permitindo o adensamento vertical,
a partir da proposta de unidades habitacionais modulares que podem ser acrescentadas futuramente ao conjunto em uma estrutura já existente.
4. Propor sistemas e materiais não nocivos ao meio ambiente, respeitando as características físicas e culturais do território de intervenção;
5.
Criar uma paisagem produtiva e natural, de forma que o paisagismo e o aproveitamento de terras aráveis contribuam com as relações do homem e a natureza, permitindo o cultivo de alimentos para consumo próprio, a venda e realização de oficinas. 19
Imagem: André Donadio (2019)
3
TEMÁTICA
R E L A Ç Ã O H OM E M X N AT U R E Z A A origem da noção de sustentabilidade, apesar de um conceito relativamente recente, possui raízes no princípio da humanidade, considerando que desde o início sua sobrevivência dependia do meio ambiente. Eram utilizados recursos naturais para criar abrigos, caçar e cultivar a terra. Natureza e vida social, então, aparecem como dois aspectos da existência que são politicamente indissociáveis: nossas ações afetam a natureza e a natureza nos afeta de maneira recorrente (GUATTARI, 1998). Os recursos naturais eram abundantes em relação ao tamanho e à densidade populacional, sendo fácil pressupor um equilíbrio entre os humanos e o planeta. No entanto, a destruição do meio ambiente, assim como a tradição de habitar também fazem parte da história (KEELER; VAIDYA, 2018). Durante muito tempo, as diferentes arquiteturas, de diferentes culturas, compreendiam o clima da região na qual eram projetadas, sempre buscando alternativas para tornar o ambiente habitável. Esta mentalidade do conceito “sustentável” começa a se perder com o advento da revolução Industrial, no séc. XIX. Com o enorme consumo de recursos naturais
e geração de poluentes no ar, além do crescimento exacerbado das cidades, surgem conflitos sociais intimamente relacionados a impactos ambientais. Foi durante esse período que a natureza propriamente dita foi transformada em objeto e passou a ser vista como um produto agrícola e econômico. Segundo o economista agrônomo Richard T. Ely (1994), o conceito econômico primário de “terra” se tornou desassociado à natureza e passou a ser encarado como propriedade ou posse. Seguindo essa linha de raciocínio, a sociedade conforme sua civilização, passou a interferir diretamente na paisagem e seu equilíbrio de recursos naturais, sendo inúmeros os exemplos da destruição das formas de vida: extinção de espécies, destruição de florestas, carência de plantações, a pesca predatória, exaustão do solo e práticas florestais irresponsáveis.
Imagem: imgur Alterada pela autora
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3.1 Assim, a relação homem-natureza passou a ter um viés mercantil e a intensa exploração dos recursos naturais, sem planejamento ou controle de riscos, intensificou os episódios de catástrofes ambientais que se estendem até a atualidade (HARVEY, 2013; STENGERS, 2015). Mas, se por um lado a relação passou a ter um viés mercantil, por outro, a consciência ecológica e os movimentos ambientalistas também passaram a existir entre grupos de ativistas, se iniciando juntamente com as ideias de justiça social e ambiental. Estes se consolidaram no final da década de 1960 e começo da década de 1970, com uma série de livros, congressos e encontros internacionais. Anterior a isso, o ativismo já era visto, por exemplo, em 1811 com a destruição de tecelagens por luditas na Inglaterra (movimento preocupado com a sustentabilidade econômica das comunidades ameaçadas pela Revolução Industrial), em resposta ao desemprego resultante do surgimento do tear moderno; ou na Roma e China, onde surgiram as primeiras leis anti poluição. (KEELER; VAIDYA, 2018) Outros movimentos, como o Chipko na índia (dé-
cada de 1970, conhecidos como os “abraçadores de árvores” (GUHA, R, 2000), e até mesmo o movimento ecofeminista, que tem Wangari Maathai em evidência, começaram a se tornar visíveis e impulsionadores do que hoje chamamos de sustentabilidade.
Mulheres protegendo árvores de serem cortadas, 1970. Fonte: indiatoday (2018)
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3.1.1 Conforme dito anteriormente, a evolução da sociedade e o aumento de sua complexidade, a relação do homem e a natureza foi se modificando, aumentando as demandas por espaço e recursos naturais. As consequências do rápido crescimento populacional ocorridos após a Revolução Industrial foram sentidas diretamente nas cidades, que sofreram transformações em relação à estruturação dos seus espaços. A intensidade com que o processo de urbanização ocorreu em muitas cidades foi uma das causas que fomentaram as problemáticas sociais. Além disso, a impermeabilização do solo, provocada pelo asfaltamento e edificações, associada ao desmatamento e ao aumento da quantidade de resíduos residenciais e industriais, e a falta de planejamento das construções em locais inundáveis trouxe, principalmente nos países tropicais, problemas recorrentes de enchentes e desabamentos. No Brasil, as inundações também têm ocorrido com maior frequência e magnitude nas últimas décadas, em praticamente todas as regiões do país. Essa problemática ocorre, principalmente, em razão do processo de ocupação das margens de rios e
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impermeabilização do solo de bacias urbanas (HORA & GOMES, 2009). Número de desastres nos últimos 5 anos
N O RT E S T E 9.058
N O RT E
254
CENTRO-OESTE
146
SUDESTE SUL
1.211
1.346
821 municípios respodem por 94%o das mortes e 88% dos desalojados nos últimos anos
Fonte: Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno - IDMC, na sigla em inglês
Esse cenário, a partir do processo de periferização das cidades brasileiras, está associado à famílias de baixa renda que não possuem outra opção a não ser ocupar espaços inseguros e excluídos da cidade formal. A vulnerabilidade, então, consiste no potencial de risco vivido pela população. De acordo com D’Ercole (1994), Blaikie et al. (1994) e Acserald (2006), existe uma relação de causa e efeito entre a natureza e sociedade, de forma que os fatores de risco estão associados a um certo grau de exposição a uma situação crítica, natural ou social, que gera
RELAÇÃO DE MEDO vulnerabilidade em certos grupos. Um conceito viável para analisar essas relações é o de “vulnerabilidade socioambiental”, que pode ser definido como a coexistência, cumulatividade ou sobreposição espacial de situações de pobreza/ privação social e de situações de exposição a risco e/ ou degradação ambiental (VASCONCELOS, 2019). Dessa forma, os indicadores de vulnerabilidade socioambiental revelam questões sociais de quem vive em condições de pobreza nas cidades. Este cenário, além de promover a baixa qualidade de vida e a insalubridade, também evidencia a falta de sentimento de pertencimento e inclusão na própria cidade em que as famílias vivem. A luta pela própria sobrevivência entre os homens e mulheres que perpassa a história da humanidade é vista atualmente, porém ela não é vivida de forma homogênea, já que apenas à população mais fragilizada e sem condições financeiras é afetada pelas ações da natureza. Na experiência de desterritorialização, forçada e aguda, constatam os que passaram por catástrofes que perderam seus pertences, suas casas, seus amigos
e parentes. Com isso, tanto o território geográfico como os territórios subjetivos lhes foram retirados abruptamente e sem aviso (ROLNIK, 1995).
A cada segundo, uma pessoa foi obrigada a deixar sua casa em 2017, em 143 países Em milhões de descolamentos
2016 2017
D E S A S T R E S N AT U R A I S 24,2 18,8
6,9 11,8
O Brasil é o 39º país com mais deslocamentos, foram última década, todos por desastres.
CO N F L I TO S
1,6 m i l h ã o
na
Fonte: Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno - IDMC, na sigla em inglês
Assim, o sentimento predominante entre famílias que vivem em situações de risco com a natureza é a de medo do incerto. Diante das mudanças repentinas que podem ocorrer nos modos de vida dessa população, os sobreviventes, antes vulneráveis ao espaço público seguro, agora também são vulneráveis aos encontros com a força da natureza.
25
- TERESÓPOLIS, RJ (2011)
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329 ÓBITOS 1 8 0 D E S A PA R E C I D O S
“Minha casa ficou toda rachada, aí eles pediram que eu saísse. Mas eu não consigo acreditar, moro aqui há dez anos e nunca vi nada parecido” (Andrea Costa, 2011) “Saí e fiquei na casa de um amigo, quando voltei já estava tudo destruído. Perdi meus documentos, histórias de toda uma vida” (Antonio Fernandes, 2011) “A gente só fica com aquele receio e pensa, poxa, de novo? Mas é a natureza e por isso temos de colocar a cabeça no lugar e a vida tem de continuar. Tem gente em situação pior” (Maria Helena da Rocha Silva, 2011) “Foi com muita luta que conseguimos reconstruir nossas casas e a família [após o ocorrido em 2001]. Estamos conseguindo recuperar alguma coisa agora, mas foi mui to difícil. Eu e as crianças passamos por tratamento com o psicólogo. Sempre lem bro dela [filha] na hora que ela chegava do trabalho” (Maria Helena da Rocha Silva, 2011)
Imagem: Alireza Karimi Moghaddam (2019)/ Modificado pela autora
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3.2 Foi nos anos 1970, com a crise do petróleo, que o mundo inteiro passou a ter um olhar mais consciente a respeito de como utilizar os recursos naturais do planeta. Este alerta global foi responsável por trazer à tona o fato de que o desenvolvimento social não deve estar pautado em uma economia que consome os recursos naturais de forma irresponsável. Em 1972, na Conferência de Estocolmo, organizada pela ONU, o novo ambientalismo assumiu um tom político, com o objetivo de estudar estratégias para corrigir problemas ambientais. Apesar de não ter concluído nenhum acordo, a conferência trouxe ao olhar público a preocupação com o meio ambiente em escala global (KEELER; VAIDYA, 2018). A partir do Relatório Brundtland (1987), intitulado “Nosso Futuro Comum”, o conceito sustentável foi oficialmente usado pela primeira vez , junto ao contexto de desenvolvimento: “Sustentável é o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades” (BOFF, L. 2007). Com isso, diversas conferências foram realizadas no mundo inteiro, com objetivos de destacar questões da população, alimentação, segurança, saúde e desafios 28
E M I S S Ã O
D E
C 0 2
A
N Í V E L
M U N D I A L
AMERICA DO N O RT E
6.787 Milhões de toneladas País que mais emite: Estados Unidos
AMERICA CENTRAL 155 Milhões de toneladas País que mais emite: Tr i n i d a d e To b a g o
AMERICA DO SUL 756 Milhões de tonaladas País que mais emite: Brasil
Fonte: Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (UNDESA). Centro
S U S T E N TA B I L I DA D E
urbanos, além da questão ambiental. Durante a década de 90 aconteceram diversas e importantes E U R O P A conferências mundiais, como a Rio ‘ 92 (Rio de Janeiro, 1992) e a Rio +10 6.180 Milhões (Johannesburgo, 2002). Através delas, os protocolos internacionais foram de toneladas País que mais firmados no intuito de se elaborar mecanismos para o desenvolvimento emite: Rússia sustentável. ÁSIA Também em 1990, John Elkington, sociólogo britânico, apresentou 10.226 Milhões de toneladas a expressão “triple bottom line”, caracterizando as três dimensões da País que mais emite: China sustentabilidade: ambiental, econômica e social. Sua proposta tinha como foco a mudança do modelo tradicional de negócios, buscando ganhar a OCEANIA adesão e simpatia do consumidor, ao mesmo tempo mantendo o lucro. 400 Milhões de toneladas ÁFRICA Em 1997, com o protocolo de Quioto, fica exigido que os países País que mais 943 Milhões emite: Ausse comprometam com a redução dos gases do efeito estufa (CO2), ou de tonaladas trália País que mais comercializem suas emissões quando necessário (KEELER; VAIDYA, 2018). emite: África do Sul A relevância deste protocolo também se estende para a arquitetura, pois as edificações eram responsáveis por 39% das emissões de dióxido de carbono nos Estados Unidos, como um subproduto da construção, de o de Análise de Informações sobre Dióxido de Carbono (CDIAC) agentes refrigerantes e do uso dos sistemas de energia. do Deparamento de Energia dos Estados Unidos Já a arquitetura, ao longo dos anos, evoluiu seus conceitos de soluções bioclimáticas e ecológicas para as construções. Nos anos 2000, a o termo aplicado à arquitetura se solidifica, dialogando com os interesses econômicos, ambientais e sociais. Os econômicos visam a lucratividade e crescimento através do uso eficiente de recursos (mão de obra, materiais, água e energia); os ambientais Ilustração: Whooli Chen (2015)
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visam evitar efeitos prejudiciais ao ambiente através do uso cuidadoso dos recursos naturais, minimização de resíduos, proteção e melhoria do ambiente; e, por fim, os sociais, que respondem às necessidades dos “atores sociais” envolvidos no processo de construção (do planejamento à demolição). Do ponto de vista urbanístico, as discussões e propostas vêm abordando questões de estruturas morfológicas compactas, adensamento populacional, consumo de combustíveis fósseis, reciclagem de resíduos, energia, reaproveitamento da água e diversidade e pluralidade socioeconômica, cultural e ambiental. Para a eficácia dessas soluções, a comunidade europeia, assim como os EUA e o Canadá, já trabalha suas legislações quanto a materiais, consumo de energia e impacto ambiental das edificações. Os critérios de desempenho são avaliados quanto ao grau de sustentabilidade de um projeto, envolvendo desde o consumo de energia até o impacto ambiental dos materiais construtivos, gerando uma certificação. Dentre os certificados existentes hoje, há um destaque para os internacionais LEED, BREEAM e FSC e ,para o nacional, Procel Edifica. Cada um deles 30
apresenta um sistema de análise, mas de maneira geral, são recebidas através de um sistema de pontuação e pesos relacionados ao uso dos materiais e aos aspectos econômicos, sociais e ambientais dos edifícios.
LEED
FSC
(Leadership in Energy and Environmental Design) é uma certificação para construções sustentáveis concedida pela organização não governamental U.S. Green Building Council (USGBC). Esta certificação possui 7 dimensões a serem avaliadas nas edificações. Todas elas possuem pré-requisitos e créditos, assim como recomendações que, quando atendidas, garantem mais pontos à edificação. O nível de sustentabilidade da certificação é definido conforme a quantidade de pontos adquiridos, podendo variar de 40 a 110.
Esta certificação é uma garantia de origem ecologicamente adequada da madeira, orientando o comprador atacadista ou varejista a escolher um produto diferenciado com valor agregado. Ela permite o consumidor consciente optar por um produto que não degrada o meio ambiente, contribuindo para o desenvolvimento social e econômico das comunidades florestais. O processo de certificação deve assegurar a manutenção da floresta, bem como o emprego e a atividade econômica que a mesma proporciona.
Imagem: gbcbrasil
BREEAM (Leadership in Energy and Environmental Design) é uma certificação para construções sustentáveis concedida pela organização não governamental U.S. Green Building Council (USGBC). Esta certificação possui 7 dimensões a serem avaliadas nas edificações. Todas elas possuem pré-requisitos e créditos, assim como recomendações que, quando atendidas, garantem mais pontos à edificação. O nível de sustentabilidade da certificação é definido conforme a quantidade de pontos adquiridos, podendo variar de 40 a 110. Imagem: zer0cem
Imagem: /logodownload.org
PROCEL EDIFICA O selo brasileiro promove o uso racional da energia elétrica em edificações desde a sua fundação. Seu objetivo, assim, é de incentivar a conservação e o uso eficiente dos recursos naturais nas edificações, reduzindo os desperdícios e os impactos sobre o meio ambiente. Nos edifícios comerciais, de serviços e públicos são avaliados três sistemas: envoltória, iluminação e condicionamento do ar. Nas unidades habitacionais são avaliados: envoltória e o sistema de aquecimento de água.
Imagem: fec.unicamp
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3.2.1 Apesar do grande avanço ao longo dos anos, como exposto anteriormente, ainda fica evidente que os esforços sustentáveis continuaram muito mais próximos ao desempenho técnico e econômico, tratando-se de uma visão tecnicista e, portanto, ideologicamente comprometida com o próprio capitalismo causador da degradação ambiental (FOLADORI, 2002, p. 105). Como aponta Larsen (2008), a sustentabilidade deve pensar primeiro nas pessoas, como elas fazem suas escolhas e suas respectivas consequências. Sendo assim, uma cidade sustentável é muito mais do que um desejável conjunto de construções sustentáveis, ela deve incorporar parâmetros de sustentabilidade no desenvolvimento urbano e privado. (LEITE, 2012, p.132). No entanto, o favorecimento dos automóveis particulares ao invés do pedestrianismo como forma de locomoção, incentivado pelo planejamento urbano moderno, deixou sitiadas as funções culturais e sociais do espaço da cidade. Dessa forma, a população residente perdeu a oportunidade para interações sociais e de estabelecer o senso de comunidade, a partir de usos mistos e espaços de usos coletivos. Jane Jacobs, jornalista e escritora americana, já em 1961, pontuava em seu livro “Morte e Vida de Grandes Cidades” que a ideologia urbanística do modernismo separa os usos da cidade e destaca edifícios individuais autônomos, dando fim à vida na cidade. Como consequência, a tradicional função do espaço da cidade como local de encontro para os moradores foi reduzida, ameaçada ou 32
A D I M E N S Ã O H U M A N A DA S U S T E N TA B I L I DA D E progressivamente descartada. Logo, uma característica que se tornou comum em todas as cidades é que, independente da localização, economia e grau de desenvolvimento, as pessoas que ainda utilizam o espaço da cidade em grande número são cada vez mais maltratadas (GEHL, 2017, p. 30). Citando Gehl, em seu livro “Cidade para pessoas” (2010), a cidade deve ser segura, saudável e sustentável. Nesta última, o autor destaca a importância de se atender à função democrática da cidade, onde as pessoas possam encontrar diversidade social e compreender mais o outro, por meio do compartilhamento do mesmo espaço urbano. Para o autor, o conceito de sustentabilidade também implica em pensar nas gerações futuras. A dimensão humana da sustentabilidade, então, está relacionada à capacidade de induzir à diversidade socioterritorial, a partir do uso democrático e por diversos grupos de cidadãos do espaço urbano, pois a reprodução das relações sociais se realiza nas atividades mais indiferentes: na vida cotidiana, nas atividades de lazer, no habitar. Ou seja, o consumo de energia e as emissões dos edifícios são apenas uma das preocupações atreladas
ao termo sustentabilidade. Para muitos autores, existem quatro fatores que apoiam o bem estar social e consequente sustentabilidade social: 1 O bem estar humano (suprimento das necessidades básicas e seguras); 2 A igualdade (garantia de um compartilhamento igualitário dos benefícios e custos da sociedade); 3 O governo democrático (governança orientada à população); 4 A sociedade civil democrática (empoderamento da população para participar do processo democrático). A sustentabilidade será, enfim, al-
“
cançada, quando deixando de exercitar meramente a alquimia ou tecnocracia, a Arquitetura se liberar do fazer restrito abrangendo as dimensões que lhes são inerentes. (TUMA, 2017, p. 19)
Ilustração: Whooli Chen (2018)
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S U S T E N TA B I L I DA D E A F E T I VA É importante deixar claro que não existe a possibilidade de se discutir os aspectos da sustentabilidade de forma isolada, uma vez que sua efetividade só pode ser vista através de elos invisíveis e indissociáveis que as ligam de forma adequada. Assim, se faz necessário tratar também da dimensão afetiva da sustentabilidade, apesar de ela não estar presente na divisão clássica do tripple bottom line utilizado amplamente, ou pelo menos não de modo explícito.
“
A dimensão afetiva trata da natureza emocional capaz de unir organização e indivíduo, devido à realização das necessidades pessoais e expectativas gerais do ser humano enquanto um ser que vivencia a emoção, o sentimento e a prática do cuidado. (BRASIL, 2013, p. 143)
Dessa forma, tratar de dimensão afetiva da sustentabilidade é pensar como somos afetados diariamente e como podemos ser afetados de forma diferente para produzirmos novas formas de viver, de Imagem: Alireza Karimi Moghaddam (2019)/ Modificado pela autora.
34
3.2.2 pensar e agir, considerando que se formos afetados apenas de um modo específico, produziremos sempre o mesmo comportamento. Atualmente, os efeitos da depredação contínua da natureza já estão afetando diretamente o comportamento de muitas famílias que vivem em situação de vulnerabilidade social e ambiental. De acordo com Freitas e Ximenes (2012), isso pode ser causado por diversos fatores: 1. processos sociais relacionados à precariedade das condições de vida e proteção social que expõe certos grupos mais vulneráveis a desastres e; 2. Mudanças ambientais consequentes da constante degradação do meio ambiente. Então, é notável que as populações mais vulneráveis às catástrofes ambientais são aquelas mais desfavorecidas, principalmente as que habitam em periferias carentes de infraestrutura urbana. Além disso, o uso desenfreado de recursos naturais e seu desperdício, a contaminação e poluição e o descaso público com o bem estar da população mais pobre também contribuem para a vulnerabilidade dessas famílias. Segundo dados da Conferência das Nações
Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (UNCSD, 2012), nos últimos 40 anos, nos países mais pobres, foram contabilizados cerca de 3,3 milhões de óbitos por calamidades naturais, como secas e estiagens, deslizamentos de terra, ciclones, furacões, chuvas e enchentes. Nesse sentido, os aspectos sociais e ambientais possuem um papel importante nas relações do sujeito com os espaços que ele ocupa (Rolnik & Guattari, 1986). Estes ganham relevância subjetiva pelo fato de haver ali representações e investimentos afetivos que são socialmente construídos, baseados nas percepções dos habitantes daquele lugar (GUATTARIi, 1992). O território ocupado, então, passa a ser sinônimo de apropriação afetiva e implica o conjunto de projetos e representações nos quais vai desembocar uma série de práticas, ações e investimentos adjacentes. Segundo Frémont (1980, p. 25), “O espaço vivido é um espaço-movimento e um espaço-tempo vivido.” Portanto, para o autor, com o passar dos anos, a maneira como o indivíduo se vê afetado pelos espaços que compõem o seu cotidiano, bem como os sentidos que lhes atribui, acabam por torná-los partes significativas da produção desejante. 35
Assim, constatando a importância atribuída aos territórios (como a casa, o bairro e o local de trabalho), cabe ressaltar os efeitos subjetivos de sua possível perda entre aqueles que passam por situações de desastres naturais. Na situação em que o indivíduo afeta e é afetado pela natureza, é necessário um posicionamento sensível para trazer a essas famílias novas possibilidades de criação de um novo modo de vida, percepções, encontros e territórios seguros. Ilustração: Whooli Chen (2018)
36
37
De maneira geral, a Habitação de Interesse Social (HIS) se classifica como aquela voltada à população de baixa renda que não possui acesso à moradia formal ou condições para contratar os serviços de profissionais ligados à construção civil. Segundo a ONU-HABITAT (p. 54, 2016): “Habitação acessível é aquela adequada em qualidade e localização, que não custa tanto a ponto de impedir seus moradores de arcar com outros custos básicos de vida ou ameaçar seu gozo de direitos humanos básicos”.
Sua origem está relacionada à urbanização e aumento da demanda por habitações de baixo custo, proveniente da Revolução Industrial. As “colônias operárias”, então, surgem com a migração da população para os centros industriais, acarretando uma maior concentração populacional ao redor das indústrias. A grande massa da população que chegava às cidades também trouxe um novo desafio ao modelo habitacional, considerando os problemas de salubridade pública relacionados a este aumento demográfico. Segundo Alcalá (1995), a revolução industrial criou uma demanda por alojamentos que o sistema social se mostrou incapaz de resolver de forma apropriada.
38
Encontro dos CIAM Fonte: architectuul
3.3
H A B I TA Ç Ã O S O C I A L : U M PA N O R Â M A M U N D I A L No âmbito da arquitetura e do urbanismo, a partir de 1928, as discussões sobre as moradias foram temas de debates dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna - CIAMs, trazendo maior preocupação com a qualidade física-espacial das cidades em função da consolidação dos processos industriais. A realização dos congressos realizados pelos CIAM possuem destaque em sua dedicação à analisar a problemática da habitação. Como exemplo, o 2º congresso do CIAM, realizado em 1929, teve como tema Habitação Mínima e foi realizado em Frankfurt, cidade escolhida por suas realizações na área da habitação. Nesse congresso, os arquitetos dedicaram especial atenção à organização interna dos ambientes, ao desenho do mobiliário e equipamentos. Apesar do congresso ter sido inconclusivo, segundo Kopp (1990, p.53): “Mesmo assim foi uma importante medida para o conhecimento por todos os participantes das pesquisas e das soluções existentes nos diferentes países, constituindo um passo importante em direção a uma espécie de internacionalização sócio-cultural dos problemas da habitação.”
Unité d’Habitation, Le Corbusier Fonte: Archdaily
Ao longo do século XX, soluções como blocos de moradia cercados por jardins, tipicamente modernos, como os exemplos de “Unité d’Habitation” de Le Corbusier (1952), se tornaram comuns e se consolidaram como um modelo durante muitos anos para esse tipo de habitação no contexto mundial. 39
3.3.1 No Brasil, a preocupação com a construção de habitações sociais também se inicia com a industrialização do país, a partir dos anos 30. Como ocorrido em outros países, a população que vinha do campo para trabalhar tinha como opção apenas as vilas operárias ou moradias de aluguel de iniciativa privada. Essas vilas, assim como as indústrias, se encontravam distantes dos centros urbanos, fazendo com que os operários fossem obrigados a morar nas proximidades das fábricas, pois não havia transporte para essas áreas (CUNHA, ARRUDA E MEDEIROS, 2007). O sindicato dos trabalhadores, percebendo a demanda surgida com o crescimento das vilas, começou a financiar através da Caixa Econômica Federal e pelo IInstituto de Aposentadoria e Pensões- APs a construção de moradias. Na década de 1920, o discurso do poder público era que a construção de habitações higiênicas resolveria o problema habitacional, pois as epidemias originadas nos aglomerados urbanos pobres se alastravam pela cidade como um todo. Então as moradias dos trabalhadores, substituindo cortiços e casebres, passaram a ser alteradas conforme ideias de higiene e economia, visando o bem estar e saúde da população proletária 40
H A B I TA Ç Ã O S O C I A L N O B R A S I L (RUBIN & BOLFE, 2014). Nesse período, os preceitos do movimento moderno passaram a se propagar no Brasil, com a Semana de Arte Moderna de 1922. Assim, as ideias dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM) foram bastante difundidas, assim como as experiências europeias no campo habitacional. As primeiras experiências modernas no campo da habitação são casas destinadas à classe média, construídas no início da década de 1920. Os arquitetos Gregori Warchavchik e Lúcio Costa são os responsáveis por um dos primeiros exemplos de moradia moderna para trabalhadores no país, o conjunto de operários da Gamboa, Rio de Janeiro, projetado em 1932 (RUBIN, G. R, 2013). Já em 1963, o Seminário de Habitação e Reforma Urbana recomenda uma mudança na política urbana e habitacional do país, resultando na criação do Banco Nacional de Habitação - BNH, o Sistema Financeiro da Habitação - SFH e o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo -Serfhau (BONDUKI; KOURY, 2010). A intenção com isto era oferecer à massa dos trabalhadores o acesso à casa própria, se expandindo para os vazios urbanos e ocupando as periferias das cidades.
Séc. XIX: inícios da industrialização nas cidades e exôdo rural
Durante o período de 1964 a 1986, o BNH concedeu financiamentos habitacionais em grandes escalas no Brasil (SANTOS, 1999). Os conjuntos propostos eram formados de pequenas casas em lotes privatizados ou por blocos de apartamentos implantados numa área coletivizada. Um dos grandes destaques de produção financiada pelo BNH é o Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães do Prado.
1930 Lei do Inquilinato: controle dos aluguéis pelo Estado
1946 Criação da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU - Anterior CECAP, CODESPAULO e CDH)
Folheto de divulgação das unidades habitacionais do Conjunto. Espaços livres. Fonte: CECAP (1967)
Projetado pelos arquitetos Vilanova Artigas, Fábio Penteado e Paulo Mendes da Rocha em 1967 e financiado pela Companhia Estadual de Casas para o Povo (CECAP), o projeto retomou as experiências de habitação popular que foram elaboradas no Brasil entre os anos 1930 e 1950 (DIAS, 2016). O conjunto foi planejado para uma população de 55 mil habitantes em 130 hectares de área, contando com infraestrutura urbana.
1964 Fundação da Companhia de Habitação Popular (COHAB), pela lei n.º 6.738
1966 Construção do Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães do Prado.
1986
Criação dos Instituto de Aposentadoria e Pensões-IAPs
1942 Criação da Fundação Casa Popular
1949 Criação do FGTS
1965 Criação do BNH e do SFH
1967 Extinção do BNH (incorporado à Caixa Econômica Federal)
41
Em 1979, com a crise econômica mundial, o Brasil passou por um período de altas taxas de inflação, recessão e desemprego. O resultado disso foi o fim do BNH, em 1986, trazendo uma queda no poder de compra das famílias beneficiadas pelas políticas habitacionais (SANTOS, 1999). Nos últimos vinte anos, percebe-se que o problema da habitação no Brasil atingiu maiores proporções devido à irregularidade e precariedade dos assentamentos populares, gerando conflitos e tensões nas cidades brasileiras (BONDUKI, 2000). Além disso, o problema de transporte e acessibilidade, o armazenamento, abastecimento e utilização de energia e água, o controle e tratamento de resíduos e a poluição e degradação ambiental decorrentes da própria expansão urbana evidenciam a desigualdade e precariedade dos assentamentos brasileiros. Uma das soluções adotadas, desde 2005, foi a criação de uma lei que dispõe sobre o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social - SNHIS, com o objetivo de democratizar o acesso à terra urbanizada, habitação digna e sustentável através de políticas e programas de investimentos e subsídios. A partir disso, com a criação da Lei nº 11.977 de Conjunto Minha Casa Minha Vida Fonte: CBIC (2019)
42
2009 ,mesma legislação que criou o Programa Minha Casa Minha Vida - PMCMV, o processo de regularização fundiária de interesse social, incluindo as condições de aplicação das Zonas Especiais de Interesse Social - ZEIS, tornou viável a execução dos programas habitacionais. As ZEIS foram inicialmente utilizadas em RecifePE, na década de 80, e incorporadas ao Estatuto da Cidade em 2001 (ROLNIK, SANTORO, 2013). Seu papel é importante tanto para as políticas de integração urbana dos assentamentos precários, quanto para a constituição de reservas fundiárias e ampliação da oferta de solo urbano à habitação de interesse social. Segundo o Art. 47, inciso V, da Lei 11.977/09, a ZEIS se caracteriza pela:
“parcela de área urbana instituída pelo Plano Diretor ou definida por outra lei municipal, destinada predominantemente à moradia de população de baixa renda e sujeita a regras específicas de parcelamento, uso e ocupação do solo” .
para a implantação de HIS, chamada de ZEIS de indução. Já o Programa Minha Casa Minha Vida - PMCM, é um dos programas habitacionais mais conhecidos e também criticados, pelo seu foco na quantidade de habitações e não na qualidade de seus espaços, materiais e/ou técnicas construtivas. Além disso, não existe a participação popular no processo de concepção do projeto, por estar fora do Sistema/Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social, que promovia o controle e participação social. Os problemas acarretados por esta uniformização das moradias pelo país é a adaptação dessas famílias ao novo local, sem direito de escolha ou segundas alternativas, retirando-lhes sua identidade e poder de expressão. Também considerando a extensão do Brasil e a notável diferença entre costumes e culturas, além da discrepância entre os climas que se estendem do Norte ao Sul do país , é questionável a eficácia de um programa singular de habitação que se encaixe à vida e demanda de todos os moradores.
Dessa forma, um dos objetivos do estabelecimento das ZEIS é a de identificar e reservar a terra adequada
43
3.4
O DIREITO AO AMBIENTE E O DIREITO À MORADIA:
A partir do exposto, fica clara então a omissão do Poder Público no planejamento urbanístico e nas políticas destinadas a valorização dos direitos humanos à moradia. Porém, além deste, o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado também não pode ser negligenciado, considerando o cenário atual alarmante gerado pela degradação ambiental. Dessa forma, os direitos internacioais dos direitos humanos à moradia e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado devem ser conciliados, principalmente pelo fato de que, inevitavelmente, milhares de famílias se veem obrigadas a construir suas casas de maneira irregular, em áreas inapropriadas e, em muitos casos, em Áreas de Preservação Permanente, destinadas a proteger áreas ecologicamente relevantes das ações degradantes do homem. O direito à moradia é uma necessidade básica do ser humano imprenscidível para uma vida digna e, sua ausência, impossibilida o gozo de vários direitos humanos. O conteúdo deste direito vai além de um local para viver, ele engloba também vários aspectos que possibilitam o exercício pleno dos direitos humanos e o respeito à dignidade da pessoa humana. No que diz respeito ao conceito de moradia 44
adequada, como consta no parágrafo 8º do Comentário Geral nº4 do Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU (aprovado em 1966), alguns fatores devem ser considerados em qualquer contexto:
1
Segurança jurídica da posse. Independente da natureza ou origem da posse, seja através de financiamento, aluguel, copropriedade, abrigos públicos, todas as pessoas tem direito a ter sua posse protegida contra despejos forçados e outras ameaças;
2
Disponibilidades de serviços e infraestrutura. Presença de elementos indispensáveis para a saúde, segurança, conforto e nutrição, tais como: água potável, energia, iluminação e saneamento básico;
3
Custo acessível. Os custos financeiros associados à moradia não podem atingir um nível que prejudique a satisfação de outras necessidades básicas. O Estado deve farantir uma percentagem dos gastos relacionados à moradia para aqueles incapazes de obtê-la, bem como formas e níveis diferentes de financiamento habitacional que respondam adequadamente às necessidades da moradia;
4
Habitabilidade. A moradia adequada deve ser habitável, oferecendo aos seus habitantes o espaço adequado e protegendo-os do frio, da umidade, do calor, da chuva,
D I R E I TO S F U N DA M E N TA I S
vento ou de outras ameaças à saúde e riscos provenientes de problemas estruturais;
5
Acessibilidade. A moradia adequada deve ser acessível aos titulares do direito. Os grupos favorecidos devem ter acesso pleno e sustentável aos recursos adequados para conseguir uma moradia;
6
Localização. A localização da moradia deve permitir acesso a oportunidades de trabalho, escolas, serviços de saíde e outras políticas sociais. As moradias também não podem ficar em áreas poluídas que ameaçam a saúde dos habitantes;
7
Adequação cultural. A expressão da identidade e diversidade cultural da moradia deve ser apropriadamente assegurada na maneira como são construídas as moradias, os materiais de construção utilizados e as políticas em que se apoiam. Atividades voltadas para o desenvolvimento ou modernização na esfera da moradia deve garantir que as suas dimensões culturais não sejam sacrificadas e, que, além disso, assegurem modernas instalações tecnol[ogicas, entre outros.
No entanto, é importante constar que, infelizmente, a execução efetiva destes pontos é difícil, ainda mais considerando as condições precárias de moradia em diversos países. A própria Organização das Nações Unidas esclarece que o direito à moradia adequada não obriga os Estados signatários dos tratados internacionais a construir casas para toda a população, contudo, o Estado não pode ser omisso, devendo utilizar todos os meios ao seu alcance para melhorar as condições de moradia. No Brasil, a Constituição de 1988 foi a primeira a reservar um capítulo dentro do título da ordem econômica e financeria à política urbana. O artigo 23, IX, constitucional estabelece que é de competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios “promover programas de construção de moradias e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico”. E, nos anos 2000, com a Emenda Constitucional n.26/2000, foi incluida a moradia no rol de direitos fundamentais, elencados no artigo 6º da Constituição Federal, apontado que “são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção e maternidade 45
e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.” Já a preservação ambiental, abrangendo a preservação de todos os seus elementos, deve ser priorizada com vistas à garantia do meio ambiente ecologicamente equilibrado imprenscidível para a qualidade de vida da população. Este foi reconhecido na esfera do direito humano a partir de uma progressiva crise de recursos naturais, do desordenado crescimento econômico e de catástrofes ambientais. Foi em Estocolmo em 1972, citado anteriormente, que o direito internacinal surgiu na Conferência sobre o Meio Ambiente Humano. O seu princípio 1º consagrou o meio ambiente saudável como um direito fundamental do ser humano:
“ Ilustração: Whooli Chen (2018)
46
O homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade e ao desfrute de condições de vida adequada em um meio cuja qualidade lhe permite levar uma vida digna e gozar de bem-estar, tendo a solene obrigação de proteger e melhorar esse meio para as gerações presente e futura. (Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente humano, 1972)
Na segunda metade do século XX vários países incorporaram às suas constituições normas de proteção ao meio ambiente. No Brasil, o artigo 225 da Carta Magna (presente na Constituição Federal de 1988) afirma que o meio ambiente ecologicamente equilibrado é bem de uso comum do povo, isto é, pertence à coletividade e impõe a esta, juntamente com o Poder Público, o dever de defender e preservar o meio ambiente para as atuais e gerações futuras. Assim, os direitos humanos e o meio ambiente estão incontestavelmente interligados. Bosselmann (2015, p. 162), em seu livro “O princípio da Sustentabilidade – Transformando Direito e Governança” aponta que “sem os direitos humanos, a proteção ambiental não poderia ter um cumprimento eficaz. Da mesma forma, sem a inclusão do meio ambiente, os direitos humanos correriam perigo de perder sua função central, qual seja, a proteção da vida humana, de seu bem-estar e de sua integridade”. É importante destacar que o enfrentamento dos problemas ambientais e a opção por um desenvolvimento sustentável passam, necessariamente, pela correção do quadro de desigualdade social e a falta de acesso, por parte expressiva da população brasileira e mundial, aos seus direitos sociais básicos, o que também é causa de aumento, em determinado sentido, da degradação
ambiental (SARLET & FENTERSEIFER, 2013). Então, a concretização dos direitos fundamentais à moradia e ao meio ambiente não são simples, uma vez que a miséria e a pobreza, problemas praticamente onipresentes na sociedade, estão diretamente vinculadas à degradação e poluição ambiental.
47
3.4.1
A I M P O RT Â N C I A DA S U S T E N TA B I L I DA D E A F E T I VA PA R A
A partir das problemáticas expostas, tanto relacionadas à sustentabilidade, quanto à Habitação de Interesse Social no Brasil, considerando que ambos a moradia e um meio ambiente equilibrado são direitos fundamentais do homem, é necessário um olhar diferenciado para solucionar tais questões. O espaço da habitação é muito importante para a vivência humana. É considerado a fonte da identidade espacial e temporal da família e do ser humano, independente de sua tipologia como espaço construído, pois envolve caracteristicas subjetivas estabelecidas entre a pessoa e o ambiente (FLORES, 2010, p. 46). Assim, através da transdisciplinaridade de olhares, a realidade do espaço construído pode ser (re) significada através de um olhar humano e sustentável. Como aponta Palmade (1996), a habitação é um “objeto cultural” de investimentos individual, relacional e coletivo, com um alto valor de simbolicidade, onde o passado e suas casas de infância são referências para a casa do adulto, sustentando suas identidades. Dessa forma, ainda citando Flores (2010), a dimensão afetiva da sustentabilidade aplicada à arquitetura e, especificamente, à habitação, explora a elaboração de recursos técnicos para o ajuste espacial 48
e a permanência do morador no território ocupado, a partir do fortalecimento de vínculos com a casa e seu entorno imediato através de decisões de projeto arquitetônico que atendam às necessidades dos moradores. Considerando também o contexto de famílias em situação de vulnerabilidade socioambiental, é importante destacar a relação destas com o meio ambiente, permitindo-lhes que a relação de medo seja substituída por uma relação de trocas e harmonia, considerando a habitação como ambiente de abrigo e proteção, assim como de conquistas e memórias afetivas construídas ao longo da vida.
“
[...] abrigo, repouso, ninho, refúgio, ou espaços de lutas de poder, do sossego ou desassossego, dos sentimentos e sensações múltiplas, as casas são espaços onde se desenrolam as mais variadas experiências cotidianas. (GUIMARÃES, 2007, p. 37)
A CO N C R E T I Z A Ç Ã O D O S D I R E I TO S F U N DA M E N TA I S Tendo isso em mente e o objetivo do presente trabalho em unir as dimensões humanas e afetivas da habitação e do meio ambiente, é importante enfatizar aqui três pontos-chave que estão sendo considerados para se atingir a sustentabilidade afetiva, pela retomada de cuidado e apoio coletivo: • Cuidado com a terra, de forma que todos os sistemas de vida continuem e se multipliquem; • Cuidado com as pessoas, de forma que o cuidado com as pessoas começa com nós mesmos, mas se expande para incluir as nossas famílias, vizinhos e comunidades locais e mais amplas; • Cuidado com o futuro, a partir da partilha justa, estabelecendo limites para o consumo e distribuindo excedentes. Tais pontos são encontrados como a linha de pensamento da Permacultura. Esta, que significa “cultura permanente”, surgiu nos anos 1970 pelos ecologistas australianos Bill Mollison e David Holmgren. Eles se apoiaram nos ideais de vida integrada à natureza das comunidades aborígenes tradicionais da Austrália. Segundo Bill Mollison (1991), a permacultura
é um sistema para a criação de ambientes humanos sustentáveis em equilíbrio e harmonia com a natureza. Logo, de maneira interdisciplinar, a permacultura integra elementos do design, do cuidado com a natureza, das construções e infraestruturas, com as relações sociais. A intenção, com isso, é a de criar ambientes humanos em harmonia com a natureza. Para Holmgren (2007), a permacultura não se resume apenas à paisagem, ou às técnicas de agricultura orgânica, ou às formas de produção sustentáveis e construções eficientes do ponto de vista energético, mas também pode ser usada para projetar, criar, administrar e aprimorar esses e todos os esforços feitos pelas pessoas, famílias e comunidades em busca de um futuro sustentável. Portanto, num momento em que as questões ambientais são tão discutidas e se procura, de todas as maneiras, conscientizar os habitantes de nosso planeta sobre as conseqüências de um estilo de vida que degrada constantemente a natureza, a permacultura ensina os seres humanos a viver de forma sustentável, desenvolvendo e potencializando a sua criatividade, equilibrando elementos naturais com elementos produzidos pelo homem, praticando a gestão 49
participativa e distribuindo igualmente os excedentes (COLOMBO; SOUZA, 2007). Dessa forma, é possível identificar que, através da permacultura, é possível integrar espaços coletivos com a moradia, favorecendo a troca de relações entre os moradores e a possibilidade de ter um contato mais próximo com o território ocupado e o meio ambiente. Assim permite que o lar, como abrigo e proteção, se torne também um elo com as relações afetivas estabelecidas na comunidade, garantindo os direitos fundamentais a uma moradia digna e ao meio ambiente.
50
P R O D U ÇÃO LO CA L
PA R T I C I PA Ç Ã O POPULAR
E S PA Ç O PA R A C O M É R C I O DA PRODUÇÃO LO CA L
VA L O R I Z A Ç Ã O D O M E I O AMBIENTE E CONSCIENTIZAÇÃO
VA N T A G E N S D A A G R I C U LT U R A F A M I L I A R
“
Esta metodologia construtiva nas intervenções urbanas tende a criar um estado de sinergia entre todos, particularmente entre a população atingida com as instâncias de gestão, nas quais aquela população deve sempre estar inserida. Por via de conseqüência, experiências neste sentido têm demonstrado que se eleva o grau de estima da população de baixa renda, tornando-a não somente cúmplice nos acertos, e insucessos que por ventura existam - e é certo que estes existem - ,assim como, a torna mais solidária na manutenção dos equipamentos públicos e do entorno onde estes estão localizados, o que, ao final, tende a impelir, também, o crescimento da qualidade vida desta população” (MENEZES; SANTANA, 2005, p. 3).
51
A seguir serão apresentados os princípios da permacultura apresentados por David Holmgren em seu livro “Permacultura: princípios e caminhos além da sustentabilidade”.
52
R E S P O N D A C R I A T I VA M E N T E À S MUDANÇAS
OBTENHA RENDIMENTO
Por mais que o planejamento aconteça de forma mais ampla, antes da execução ou no começo, é necessário que ele seja constantemente reavaliado conforme os resultados obtidos.
É preciso ter um rendimento a curto prazo para suprir as necessidades básicas de sobrevivência. Os excedentes e os excessos podem incentivas a buscar novos modos de se obter rendimento.
OBSERVE E INTERAJA
P R AT I Q U E A A U T O R R E G U L A Ç Ã O E ACEITE RETORNOS
Propõe respostas encontradas a partir da observação de alguns eventos e objetos que possam estar conectados no desenvolvimento de um fenômeno. Entender os ciclos da natureza.
A evolução depende dos entendimentos dos erros e da compreensão de quando há a necessidade de mudanças.
CAPTE E ARMAZENE ENERGIA
U S E E VA L O R I Z E O S S E R V I Ç O S E R E C U R S O S R E N O VÁV E I S
Criação de sistemas de coleta de recursos disponíveis, como a energia renovável. Além da coleta, a permacultura também defente a redução do nível de consumo, utilizando apenas o necessário.
Segundo Holmgren (2013), o design da permacultura deve ter como objetivo o melhor uso de recursos naturais renováveis e a manutenção das produções.
NÃO PRODUZA DESPERDÍCIOS
USE SOLUÇÕES PEQUENAS E S U S T E N T ÁV E I S
Num mundo de consumos excessivos, minimizar os desperdícios tem sido uma solução proposta para a diminuição do lixo produzido. É preciso tomar atitudes como a reciclagem e o reaproveitamento.
Sistemas pequenos e lentos são mais fáceis de manter do que os grandes, fazendo melhor usos dos recursos locais e produzindo resultados mais sustentáveis.
P L A N E J A R PA R T I N D O D O S PA D R Õ E S PA R A O S D E T A L H E S
VA L O R I Z E A D I V E R S I D A D E
A permacultura defente que ao observar padrões na natureza e na sociedade, pode-se estabelecer uma “coluna vertebral” nos designs, a seguindo como base e os detalhes vão sendo preenchidos com o tempo.
A diversidade de plantas aumenta a resistência em relação a uma variedade de ameaças. Se tratando da diversidade humana, é preciso garantir que as diferentes culturas sejam aceitas e valorizadas.
INTEGRAR EM VEZ DE SEGREGAR
U S E A S B O R D A S E VA L O R I Z E ELEMENTOS MARGINAIS
Tanto a respeito das relações humanas, quanto entre elementos naturais e outros animais, as relações estabelecidas são importantes para a vida e a dinâmica desses grupos.
Na natureza, as zonas periféricas - limites e conexões entre um sistema e outro - são pontos ricos em diversidade e energia. Desta forma, é defendido o uso máximo dessas regiões.
53
Campo Belo, 07.18 Imagem: Pinterest (2016)
4
LEITURA DO TERRITÓRIO
4.1
BRASIL
E S TA D O D E S Ã O PAU LO
RMC Mapas realizados pela equipe de Projeto Integrado
56
O projeto proposto será realizado na região do Campo Belo, localizado na periferia do município de Campinas. Localizado no interior do estado de São Paulo, o município está inserido na Região Metropolitana de Campinas (RMC) e, apesar de ocupar importante posição econômica no estado, ainda enfrenta grandes problemas relacionados ao seu processo de urbanização e formação de favelas nas periferias. A RMC é composta por 19 municípios, totalizando 3.224.443 habitantes (IBGE/2018), ocupando a nona posição da mais populosa do Brasil e a décima primeira mais rica do país. Também é caracterizada pelo abandono das áreas centrais pelas camadas de renda mais elevada, gerando novas centralidades, característica comum dos anos 90 (CAIADO % PIRES, 2006). A cidade de Campinas acompanha o processo de urbanização brasileiro, transformando-se nas últimas décadas numa cidade corporativa fragmentada (SOUZA, 2008). Dessa forma, ao longo das transformações da cidade, nota-se a constituição de uma importante densidade técnica, científica e informacional (SANTOS, 1994), que colocou Campinas em 3º colocada com o maior PIB do estado de São Paulo, sengundo a Fundação SEADE (2010), representando 2,9% PIB estadual e 0,97% PIB nacional. Consequencia dessa modernização e “urbanização corporativa”, presente nas metrópoles e grandes cidades do Brasil a partir do início dos anos 1980, está a intensificação da periferização da população de baixa renda com precariedade dos assentamentos urbanos. Desse modo, o meio técnico-científico-informacional se instala, prioritariamente, nos centros de comando da globalização, apoiados pela presença de infraestrutura, rede de equipamentos, universidades e altos investimentos públicos.
LEITURA EM ESCADA MACRO Segundo Santos, “[...] como a cidade se torna, cada vez mais, um espaço que se organiza para abrigar as grandes firmas, isso reduz os recursos públicos possíveis de serem destinados à população, agravando a crise social.” (SANTOS, 1994a: 50). Não coincidentemente, o município de Campinas está entre os quinze municípios brasileiros e o terceiro do Estado de São Paulo com maior número absoluto de população residente em favelas e ocupações (IBGE, 2011). O crescimento econômico do município também proporcionou um acelerado processo de urbanização e movimento migratório que não foi acompanhado por uma expansão equivalente dos serviços urbanos, como abastecimento de água e tratamento de esgoto. A paisagem campineira, então, é composta por um espaço urbano evidentemente segregado e dividido, onde polos tecnológicos contrastam com favelas e ocupações com elevado grau de complexidade e problemas sociais. De acordo com W. Cano & C. Brandão (2002, p.127), 54% da população favelada e 72,9% das ocupações de Campinas encontram-se nas regiões sul-sudoeste do município, também denominado pelos autores como “eixo da pobreza”. Enquanto o eixo norte-nordeste é detentor de melhores condições urbanas, com apenas
12,9% das ocupações da cidade.
MUNICÍPIO DE CAMPINAS E SUAS REGIÕES Mapa realizado pela equipe de Projeto Integrado
Além disso, o município também sofre com a ocorrência de inundações, causado pela ocupação inicial do espaço urbano nos topos aplainados de colinas e morrotes e, posteriormente, áreas de vertentes e várzeas fluviais, com parcelamento do solo antes ocupados por fazendas cafeeiras. 57
RJ
RG
RJ
RG
4.2 Localizado no considerado “eixo da pobreza” de Campinas e com problemas decorrentes da rápida urbanização do município, o Jd. Campo Belo, situado a 16 quilometros da área central do município, é uma das regiões resultantes do mecanismo de expansão da mancha urbana, que implata loteamentos distantes da região central – com a manutenção de grandes vazios urbanos que realimentam a especulação imobiliária.
1 10
9
2
5
3 4
8
DOIS
11 12
7 13
6
São Domingos
15 14
16 17
P
CAMPO BELO P
0
58
2
4
8
D E L I M I TA Ç Ã O DA Á R E A D E E S T U D O
BAIRROS: 1 - Jardim São João 2 - Jardim Campo Belo I 3 - Chácaras Descampado 4 - Vila Palmeiras 5 - Vila palmeiras 6 - Jardim Marisa 7 - Jardim Campo Belo III 8 - Jardim Campo Bello II 9 - Cidade Singer 10 - Jardim Columbia 11 - Jardim Jorge 12 - Jardim Puccamp 13 - Jardim Dom Gilberto 14 - Jardim Itaguaçu I 15 - Jardim Fernanda I 16 - Cidade Fernanda II 17 - Jardim Itaguaçu II
A maior parte dos loteamentos da região foi implantada entre os anos 1940 e 1970, período em que foram aprovados 14 dos 17 loteamentos. No entanto, apenas um dos bairros (São Domingos) foi densamente ocupado durante esse período e, hoje, é visivelmente uma área diferente em comparação com o restante dos bairros, pois possui uma infraestrutura urbana que vem sendo instalada desde o início de sua ocupação. Para o presente estudo, então, o bairro São Domingos foi retirado do recorte de análise. O entorno da região também é marcado pela presença do Aeroporto Internacional de Viracopos, inaugurado em 1960, que trouxe um novo olhar do poder público para a área do Campo Belo, já que, em 1979, foi considerado de interesse público para a realização da ampliação do aeroporto. A ocupação mais recente da região ocorreu em março de 2009, no bairro Jd. Colúmbia, indicando que o processo de ocupação do lugar ainda está em andamento, já que o déficit habitacional de Campinas e região continua se intensificando. Além disso, dos 17 bairros analisados e aprovados em seu loteamento, apenas 6 de fato foram realizados de acordo com o projeto e dois contam com infraestrutura adequada e consolidada, que são os bairros Jd. Fernanda e Jd. Marisa.
Mapas realizados pela equipe de Projeto Integrado
59
H I S T Ó R I CO
1952
Aprovação de loteamento - Jd. São João (Lei 724/52) e Jd. São Domingos (Lei 740/52), com, respectivamente 265 e 1.623 lotes de acordo com a planta aprovada.
1948
1955
Primeiro loteamento aprovado - Vila Palmeiras (Lei 116/48), com 286 lotes de acordo com a planta aprovada
1930
1940
Paulistas utilizavam a área do Aeroporto de Viracopos para atividades aéreas (MENDES, 2012)
60
Aprov. de loteamentos Jardim Campo Belo (Dec. 664/55), Vila Palmeira II (Dec. 701/55) e Jardim Itaguaçu (Dec. 711/55), com 986, 488 e 1.425 lotes de acordo
1953
Aprovação de loteamento - Jardim Campo Belo (Lei 907/53), com 446 lotes de acordo com a planta aprovada (PMC, 2009).
1956 Aprovação de loteamentos Cidade Singer (Dec. 804/56), Jd. Santa Maria (Dec. 953/56), Jd. Cidade Universitária (Dec.795/56),Jd. Itaguaçu (Dec.948/56), Jd. Marisa (Dec.970/56) e Jd. Columbia (Dec. 980/56) (PMC, 2009).
1950
1960
Primeiro período de periferização de Campinas (FONSECA, 2014)
1979 Declarado interesse público do Estado pela região do Campo Belo para ampliação do Aeroporto (Dec. 14.031/79).
1970
Política de desc Paulo Período
4.3
L E VA N TA M E N TO DA Á R E A E M E S C A L A M AC RO 1991
2003
Aprovação de loteamento - Jardim Fernanda II (Dec. 10.654/91), com 192 lotes de acordo com a planta aprovada.
Lei municipal de regularização do solo urbano (Lei 11.834/2003).
1980
1997
2006
Aprovação de loteamento - Jardim Fernanda I (Dec. 6.350/80), com 606 lotes de acordo com a planta aprovada.Jd. Marisa (Dec.970/56) e Jd. Columbia
Grande deslocamento de famílias para a área, de maneira irregular (MENDES, 2012).
Acordo governamental, municipal (Prefeito Hélio de Oliveira) e federal (Presidente Luiz Inácio Lula da Silva), junto a INFRAERO, barrando a expansão do Aeroporto para a região.
1980
1990
concentração da Região Metropolitana de São de grande crescimento urbano e industrial.
2000
2010
2020
Descaso com as periferias da Região Sul, após limite da Rod. Anhanguera. Fenômeno resultado da Cidade Corporativa (SANTOS, 2008).
61
LEGISLAÇÃO O recorte de estudo está compreendido, principalmente, na Macrozona Macrometropolitana e Área sujeita a estudo do Plano de Requalificação e Regularização do Aeroporto de Viracopos. Sendo assim, suas diretrizes e objetivos dizem respeito à promover a regularização fundiária e garantir condições adequadas de habitação, além de estruturar
o sistema viário, promovendo a qualidade urbanística, relacionadas também aos usos econômicos. É importante destacar que, a partir da forma como o Jd. Campo Belo foi ocupado, muitos bairros da região carecem de infraestrutura básica e condições adequadas de moradia. Em relação ao zoneamento, a região possui,
RJ
RG
RJ
RJ
RG
RG
RJ
RG
M A PA D E M AC RO Z O N E A M E N TO
M A PA D E Z O N E A M E N TO Legenda: Macrozona Macrometropolitana Obje�vo: Promover qualidade urbanís�ca e ambiental vinculada ao desenvolvimento econômico e integrar o Aeroporto de Viracopos no desenvolvimento do município. Incen�var o desenvolvimento econômico das rodovias, incen�var transformações dos parâmetros urbanís�cos por meio do aumento da densidade habitacional e qualificar as áreas residenciais consolidadas, promover a regularização fundiária e habitações de interesse social.
Legenda: ZM1: Zona Mista 1 Zona Residencial de baixa densidade habitacional, com mescla de usos residencial, misto e não residencial de baixa e média incomodidade. ZM2: Zona Mista 2
DOIS
DOIS
Zona Residencial de média densidade habitacional, com mescla de usos residencial, misto e não residencial de baixa e média incomodidade.
Macrozona de Dsenvolvimento Ordenado Obje�vo: Garan�r o escoamento da produção agrícola e pecuária e iden�ficar áreas para regularização fundiária de interesse social e específico, visando sempre a proteção ao meio ambiente atrelado ao desenvolvimento social e econômico.
ZAE A: Zona de Atividade Econômica A Zona de interesse estratégico para desenvolvimento de atividade econômica, destinada a usos não residenciais de baixa, média e alta incomodidade.
Área sujeita a estudo do Plano de Requalificação e Regularização do Aeroporto de Viracopos
ZAE A: Zona de Atividade Econômica B
Diretrizes: Promover a regularização fundiária, assim como estruturar um sistema viário de transporte urbano, rodoviário e ferroviário de passageiros e de carga de qualidade. Garantir condições de habitabilidade da população e diversidade de usos, contribuindo para geração de empregos e renda e indicar locais passíveis de ocupações para a transferência de famílias em áreas de risco.
P
P
Zona de interesse estratégico para desenvolvimento de atividade econômica de caráter macrometropolitano, destinada a usos não residenciais de baixa, média e alta incomodidade.
P P
Recorte de Estudo
Recorte de Estudo
0
62
2
4
8
Terreno de intervenção
0
2
4
8
MapasTerreno realizado pela equide intervenção pe de Projeto Integrado
majoritariamente, a zona de uso misto. Como percebese no mapa, a mancha predominante diz respeito à Zona Mista 1, composta por uso residencial de baixa densidade e misto de média incomodidade. É importante destacar que a a Zona Mista 2 compreende a importante rodovia Eng. Miguel Melhado Campos, importante eixo estruturador da região e com potenciais para intensificação de usos. Também estão presentes a Zona de Atividade Econômica (ZAE) A e B. Além dos parâmetros e diretrizes presentes nas normas, a região também sofre influência causada pela presença do aeroporto. Suas restrições se dão pela intenção de expansão da pista de vôo e curvas de ruído, que além de alterarem o gabarito permitido na área, também impactam nos ruídos sonoros e consequente tratamento acústico das edificações. Por esse motivo, a região de estudo se localiza em uma área desvalorizada pelo mercado imobiliário, próxima ao perímetro de Campinas e dentro do ‘cone de ruídos’, sofrido pela influência do Aeroporto Viracopos.
M A PA D E I N F LU Ê N C I A D O A E RO P O RTO
Legenda: Área Patrimonial Viracopos Área de proteção de vôo
0
2
4
8
Área de Expansão 1
DECRETO Nº 15.378 DE 06 DE FEVEREIRO DE 2006
Área de Expansão 2
DECRETO Nº 15.503 DE 08 DE JUNHO DE 2006
Área de Expansão 3 DECRETO Nº 16.302 DE 18 DE JULHO DE 2008 (área azul) Curvas de ruído existente Curvas de ruído e área de proteção de vôo futuras
Mapa realizado pela equipe de Projeto Integrado
63
VIAS LOCAIS Caracterizada por interseções em nível não semaforizada, destinada apenas ao acesso local ou a áreas restritas. V I A S CO L E TO R A S Destinada a coletar e distribuir o trânsito que tenha necessidade de entrar ou sair das vias de trânsito rápido ou arteriais, possibilitando o trânsito dentro das regiões da cidade, V I A S A RT E R I A I S Caracterizada por interseções em nível, geralmente controlaVia Local Todas as vias que não foram selecionadas foram definidas da por semáforo, com acessibcomo locais e de sentido duplo ilidade aos lotes lindeiros e às Via Coletora vias secundárias e locais, posVia Arterial sibilitando o trânsito entre as - Rodovia Miguel Melhado Campos - SP 324 regiões da cidade. - Rodovia Lix da Cunha - SP 073 VIAS EXPRESSAS Caracterizada por acessos especiais com trânsito livre, sem interseções em nível, sem acessibilidade direta aos lotes lindeiros e sem travessia de pedestres em nível.
Via Expressa - Rodovia Santos Dumont - SP 075 Mão de sentido único Mão de sentido duplo P
Recorte de Estudo
M A PA D E H I E R A RQ U I A V I Á R I A 64
0
2
4
8
Mapa realizado pela equipe de ProjeTerreno de intervenção to Integrado
Fonte: Código de Trânsito Brasileiro - CTB.
Legenda:
MOBILIDADE O recorte de estudo se encontra a 16km do centro do município de Campinas e está próximo a importantes rodovias da cidade: Rod. Santos Dumont e Rod. Lix da Cunha. Assim, o principal sistema viário da região é composto pela Rodovia Santos Dumont - SP 075, que funciona como eixo de distribuição de tráfego urbano, e a Rodovia Eng. Miguel Melhado Campos, que, como dito anteriormente, é um importante eixo da região, pussuindo grande volume de tráfego e alto índice de acidentes devido ao fluxo de cargas pesadas em direção ao aeroporto e à falta de sinalização viária. A Estrada Velha de Indaiatuba, atual Rodovia Lix da Cunha - SP, também funciona como articuladora viária da região, a qual faz a ligação entre Campinas e Indaiatuba. Em horários de pico, devido ao fluxo intenso de veículos oriundos da cidade de São Paulo pela Rodovia dos Bandeirantes, o escoamento do tráfego pela Rodovia Santos Dumont torna-se saturado. Porém em outros períodos do dia o trecho da rodovia lindeiro à área de estudo possui circulação plena e tranquila.
65
T R A N S P O RT E P Ú B L I CO LINHA
PONTO INCIAL
PONTO INCIAL
ESPERA
187
Jd. São Domingos
Aeroporto
50 min.
191
Jd. Fernanda
Terminal Central
15 min.
192
Jd. Itaguaçu
Terminal Central
20 min.
194
Jd. Itaguaçu
Terminal Central
20 min.
195
Vila Palmeiras
Terminal Central
25 min.
196
Aeroporto
Term. Ouro Verde
25 min.
197
Jd. Marisa
Terminal Central
15 min.
Rodoviária Campinas
45 min.
600/601 Term. Indaiatuba 687
Term. Vinhedo
Jd. Campo Belo
100 min.
687 EX1
Term. Vinhedo
Jd. Campo Belo
12 0 min.
Fonte: EMTU e EMDEC
A região do Campo Belo conta com um total de 13 linhas de tranporte coletivo, sendo 5 intermunicipais. Foram analisadas as linhas que passam pelo recorte de estudo e foi identificado que elas passam apenas pelos bairros Cidade Singer, Jardim Campo Belo, Jardim Fernanda, Jardim São Domingos e Vila Palmeiras. Isso ocorre devido à precariedade e descontinuidade do sistema viário, principalmente na região do Jardim Itaguaçu. Como analisado no mapa, a Rodovia Santos Dumont é o único eixo de ligação da área até o centro do município de Campinas a partir do transporte público. Já a Rodovia Eng. Miguel Melhado Campos é responsável pela ligação no sentido Vinhedo.
ITINERÁRIO DAS LINHAS DE ÔNIBUS
66
Se n de tido Ca c e mp ntr ina o s
ac
op
Se n de tido Ca ce mp ntr ina o s
os
Se
nti
do
Vi
ra
co
po
s
Pontos de ônibus 187 - Jd. São Domingos
Sentid
o Inda iatuba
191 - Jd. Fernanda
Pontos de ônibus
Sen
tido
192 - Vila Diva 187 - Jd. São Domingos
Vinh
191 - Jd. Fernanda 194 - Jd. Itaguaçu
edo
192 - Vila Diva
Sen
tido
195 - Vila Palmeiras
Vinh
194 - Jd. Itaguaçu
edo
196/198 Aeroporto
195 - Vila Palmeiras
197 - Jd. Marisa
196/198 Aeroporto
600/601 - Indaiatuba
197 - Jd. Marisa
687 - Vinhedo 600/601 - Indaiatuba - Vinhedo 687 EX1 - 687 Vinhedo 687 EX1 - Vinhedo
Recorte de Estudo
P
Recorte de Estudo
M A PA D E T R A N S P O RT E P Ú B L I CO
0
2
4
0
8
2
4
8
Terreno de intervenção
Terreno de intervenção
Mapa realizado pela autora
67
0,10%
0,52%
7,59%
40,43%
51,36%
INDÍGENA
AMARELA
P R E TA
BRANCA
PA R DA
RAZÃO POR IDADE E SEXO MULHERES HOMENS
SITUAÇÃO POR DOMICÍLIOS 82,68% DOMICÍLIOS PRÓPRIOS, CEDIDOS O U Q U I TA D O S
17,32% DOMICÍLIOS ALUGADOS RENDIMENTO MENSAL
ACIMA DE 5 S.M. 2,28%
SEM RENDA 15,2%
DE 3 A 5 S.M. 6,5% DE 2 A 3 S.M. 12,3%
68
ATÉ 1 S.M. 19,2%
DE 1 A 2 S.M. 44,5%
Fonte: Censo IBGE, 2010
Com um histórico de ocupação desordenado e pautado em lutas pelo direito à moradia, os dados censitários da região indicam que a formação populacional da área vem diminuindo significamente ao longo das décadas. Como analisado no histórico, o maior aumento do número de residentes no Campo Belo foi entre as décadas de 1970 e 1980, período que marcou o município de Campinas pelo processo de periferização e consequente precariedade dos assentamentos urbanos. As informações levantadas foram baseadas nos dados do censo do IBGE de 2010 e serviram também para a análise de vulnerabilidade social da região. Esta, juntamente aos dados do rendimento mensal da população, deixa clara a relação entre os habitantes da periferia, seu baixo poder aquisitivo e vulnerabilidade perante a sociedade. A região possui 110.000 habitantes, representando 42,3% dos moradores da região sul do município. Além disso, dados do IBGE também mostram que o maior índice da população residente está entre a faixa etária dos 10 aos 34 anos e bebê de 0 a 4 anos.
POPULAÇÃO POR RAÇA
DADOS CENSITÁRIO E VULNERABILIDADE SOCIAL
P
M A PA D E V U L N E R A B I L I DA D E E CRIMINALIDADE
0
2
4
8
O cálculo do índice de vulnerabiliade social - IVS é realizado através de uma média entre os subíndices: Legenda: IVS infraestrutura urbana, IVS capital humano e IVS renda Áreas de Vulnerabilidade Social Alta o Índice de Vulnerabilidadede trabalho. A base de dados Social (IVS) é calculado a partir de uma média entre ospara o cálculo foi do censo subíndices: IVS infraestrutura urbana, IVS capital humano erealizado pelo IBGE em 2010. IVS renda de trabalho. Tomou-se como base os dadosOs resultados indicam que dos censos 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia toda a região estudada se e Estatística) encontra em alto estado Latrocínio de vulnerabilidade social, Roubo de Celulares também apresentando Roubo de Veículos indíces de roubos, latrocínio e Furto de Veículos homicídios. Furto de Celulares Além disso, dados da Secretaria Homicídio doloso de Segurança Pública de São Concentração de Violência Paulo, indicam que a região considerado Media em relação ao municipio de central do recorte estudado Campinas Fonte: Secretaria de apresenta maiores índices Segurança Pública de São Paulo de violência em relação ao Recorte de Estudo restante da região. Terreno de intervenção
Mapa realizado pela equipe de Projeto Integrado
69
MORFOLOGIA URBANA A respeito dos aspectos físicos da região, é notável que ela é caracterizada por ocupações espontâneas, ou seja, os caminhos naturais e/ou acessos construídos determinam o local das primeiras casas e direcionam a localização de novas edificações, fazendo com que o traçado do sistema viário não seja padronizado ou converse diretamente com o parcelamento do solo. Concluiu-se que o fato da ocupação ter sido realizada de maneira espontânea, o adensamento dos edifícios públicos ocorre de forma clara. 97% do território não possui padrão de desenho das quadras, ruas e calçadas, resultado do processo histórico de formação da sociedade local. A análise da morfologia levou em consideração o traçado viário e das quadras, uso e ocupação do solo predominantes e gabarito. Quando analisados, percebese que uso predominante da região é residencial, com diversos comércios e serviços locais espalhados entre as quadras e seu gabarito raramente ultrapassa dois pavimentos. As habitações são, normalmente, unifamiliares de pavimento térreo e frutos, em sua maioria, da autoconstrução.
70
QUADRAS RETILÍNEAS 1
Uso Predom i nantem ente Mi sto P revalecem as di m ensões 25m x 8m , presente nas zonas ZM 1 e ZM 2, com gabari tos de 1 e 2 pavi m entos. Q UA D R A S C U RVA S
2
Uso Predom i nantem ente Resi denci al P revalecem as di m ensões 25m x 8m , presente nas zonas ZM 1 e ZM 2, com gabari tos de 1 e 2 pavi m entos. QUADRAS IRREGULARES
3
Predom i nânci a de vaz i os ur banos N ão foi i denti fi cada nenhum a di m ensão de quadra e os gabari tos vari am entre 1 e 2 pavi m entos.
Dessa forma, a morfologia da região do Campo Belo é marcada por muitas quadras que não seguem o projeto de loteamento aprovado. Na tentativa de identificar algum padrão de desenho das quadras, foram demarcadas quadras retilíneas, curvas e irregulares. Apesar de certo Legenda: padrão em alguns trechos Quadras retilíneas da área, também foi possível Consideradas quadras que são homogêneas e seguem um traçado identificar que a maioria das urbano regular e padronizado. quadras apresenta dimensões Quadras curvas maiores do que permitidas Consideradas quadras que são heterogênea e com traçado regular orgânico. pelo zoneamento, também não seguindo parâmetros Quadras irregulares Consideradas quadras que não adequados de recuo e seguem um traçado regular e padronizado, formando uma afastamento nos lotes. grelha aformica.
3
2 1
Glebas Grandes áreas parcelamento do solo.
sem
P
Recorte de Estudo
M A PA D E M O R F O L I G I A
0
2
4
8
Terreno de intervenção
Mapa realizado pela equipe de Projeto Integrado
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HIDROGRAFIA E ÁREAS VERDES
BREJO
BREJO
VIRACOPOS
BREJO
BREJO
BREJO BREJO
CÓRREGO
BREJO
BREJO
BREJO
BREJO
BREJO
CÓRREGO
VIRACOP
OS
BREJO
GO
CÓRRE SUJ. INUND.
BREJO
BREJO
VIRACOPOS
RIBEIRÃO
BREJO
OS
VIRACOP RIBEIRÃO
VIRACOPOS
SUJ. INUND.
BREJO
BREJO
P
M A PA D E H I D RO G R A F I A E A P P S 72
0
2
4
8
Outro fator marcante da composição da paisagem do Jd. Campo Belo é a presença de uma rede de hidrografia e áreas verdes, com alguns pontos de vegetação nativa remanescente. Segundo a Lei 12.651/2012 do Código Florestal Brasileiro, as Áreas de Preservação Legenda: Permanente - APP é “área Descampado protegida, coberta ou não Vegetação nativa por vegetação nativa, com Maciços Arbóreos: Área com a presença de grupos com a função ambiental de no mínimo 15 árvores, tendo área mínima de 500 m2 de preservar os recursos hídricos projeção contínua de copa [..]”. Dessa forma, foram Áreas verdes identificados os trechos das APP não preservada áreas em que essa proteção Área de Preservação Permanente não ocorre, muitas vezes Hidrografia por apresentar ocupações irregulares, descartes de lixo Nascente e desmatamento da própria Recorte de Estudo vegetação nativa. Terreno de intervenção
Mapa realizado pela equipe de Projeto Integrado
V U L N E R A B I L I DA D E S O C I OA M B I E N TA L N O C A M P O B E LO Como visto anteriormente, o intenso processo de periferização de Campinas provocou sérias consequências sociais e urbanas, como a deteriorização dos recursos naturais e da qualidade ambiental, descontinuidade da rede de infraestrutura urbana e problemas sociais. O estudo de vulnerabilidade socioambiental, no presente trabalho, se baseou na proposta de Saaty (1997) apresentada por Marques, Silva & Camargo (2017), que analisa os parâmetros relacionados à hipsometria, declividade, uso e cobertura da terra e tipo de solo. Juntos, estes fatores influenciam de forma direta no escoamento da água superficial, podendo interferir no acúmulo de água e consequente inundação. Os resultados analisados foram classificados em: alta, média alta, média e média baixa, considerando a frequência do fenômeno em relação à sua ocorrência espacial. A partir da análise dos índices de vulnerabilidade social, pode-se notar que as áreas classificadas como de média e alta vulnerabilidade ambiental se concentram na região sul e outros setores periféricos do município. O jardim Campo Belo, então, se encontra nessa área.
Classes de vulnerabilidade: Média-baixa Média Média-alta Alta
Mapa do Índice de Vulnerabilidade Socioambiental do Município de Campinas. Fonte: Revista Brasileira de Cartografia (2017)/ Adaptado pela autora
A partir dos dados analisados e do levantamento realizado na região, foram identificadas 94 ocupações irregulares que se encontram em Área de Proteção Permanente e, apesar de não terem sido identificados pontos críticos de alagamento, a região apresenta potencial para tal. Das 17,71% pessoas residentes em áreas de alta vulnerabilidade, 10,1% se encontram no Campo Belo e apresentam um rendimento médio de 302, 48 US$ (Marques, Silva & Camargo, 2017).
73
1965
O Código Florestal define limites para as APPS Nascentes: sem delimitação Cursos d’água até 10m: 5m 10m a 200: metade da largura do curso d´’agua
1989
1986
A Lei 7.511 aumenta os limites e define novas APPS Nascentes: raio de 50m As alterações feitas em 1986 tornaram irregulares, no que diz respeito às APPS, os imóveis rurais brasileiros que obedeciam aos antigos limites. A Lei 7.803 manda medir a APP a partir da margem dos cursos d’água na época das cheias A maior parte das propriedades rurais tem cursos d’água até 10m, em que a largura mínima das APPs deve ser de 30m a partir de cada margem.
Fonte: Senado.gov.br
74
A partir do cruzamento de informações a respeito do avanço das ocupações do Jd. Campo Belo e da evolução da legislação de limites de Áreas de Preservação Permanente- APP, pode-se analisar a legislação vigente na época das ocupações, de forma a estudar a legalidade das mesmas e entender se, de fato, as áreas foram ocupadas de maneira irregular. Concluiu-se que a maior parte das ocupações no Jd. Campo Belo avançaram entre os períodos de 2011 e 2016, posteriores à lei 7.511 (1986), que aumentou e definiu novos limites de APP e da lei 7.803 (1989), que estabeleceu a largura mínima de 30 metros para as APPs a partir de cada margem. Assim, além dessas ocupações estarem sob risco ambiental, elas também foram construídas ilegalmente em áreas de preservação ambiental, reforçando a problemática da habitação na região e a falta de habitações sociais que supram a demanda na periferia do município de Campinas. É importante frisar que a remoção de famílias de áreas de risco ambiental e a posterior recuperação ambiental deve assegurar o direito à moradia para obter êxito, evitando que as famílias acabem ocupando outras áreas irregulares. Imagens: Google Earth/ Modificado pela autora
2002
2006
2011
2013
2016
2021 75
M A PA D E LO C A L I Z A Ç Ã O D O T E R R E N O E S CO L H I D O 76
4.4
VISÃO MICRO: TERRENO DE INTERVENÇÃO
O terreno escolhido para o projeto de habitação de interesse social de uso misto se situa no bairro Jardim Fernanda. Atualmente, o terreno de 18.487m², é de uso público destinado ao lazer, contemplando mobiliários de permanência e um campo de futebol. A escolha para a implantação da habitação de interesse social neste local é formada por diversos fatores, mas principalmente pelo destaque do bairro Jd. Fernanda em sua infraestrutura consolidada em relação aos demais bairros da região, sendo um dos únicos bairros com vias pavimentadas, calçadas, rede de esgoto e iluminação pública. Além disso, é importante destacar que o terreno, assim como boa parte da região do Campo Belo, está inserida na Área sujeita a estudo do Plano de Regularização do Aeroporto de Viracopos, ou seja, deve “garantir condições de habitabilidade da população e diversidade de usos, além de indicar locais passíveis de ocupações para a transferênia de famílias em área de risco.” Dessa forma, o terreno escolhido se enquadra como adequado para a reinserção dessas famílias, assim como os usos que nele serão propostos. 77
LEGISLAÇÃO Para a implantação do projeto proposto, é necessário antes conhecer a legislação vigente no local. Dessa forma, segundo consta na lei de Zoneamento da Prefeitura Municipal de Campinas, o terreno escolhido se encontra na Zona Mista 1 e, pela sua proximidade com o Aeroporto Internacional de Viracopos, apresenta algumas restrições específicas apresentadas a seguir.
R E S T R I Ç Õ E S A E RO P O RT U Á R I A S O terreno escolhido para projeto encontra-se dentro de uma curva de ruído com alcance de 65 dB a 70 dB, a qual possui as seguintes restrições: LIMITES
CRITÉRIOS
Altitude máxima do topo da edificação/objeto na coordenada selecionada
Z O N A M I S TA 1 O C U PA Ç Õ E S P E R M I T I DA S
681.26 metros Comércios Serviços Instituições Habitações Habitações Habitações unifamiliar multifamiliar multifamiliar horizontal vertical
USOS PERMITIDOS
16.26 metros Altitude no solo
BAIXA E MÉDIA I N COM O D I DA D E
BA I X A I N COM O D I DA D E
P R E S E RVA Ç Ã O E CO N T RO L E U R BA N Í S T I CO
Comércio varejista Serviços Institucional
Comércio atacadista
Atividade Rural Referência fiscal
78
Altura máxima do topo da edificação/objeto na coordenada selecionada
665.85 metros
Solicitação ao DECEA:
• Se o objeto se elevar acima do terreno mais de 30 m de altura • Se o objeto ultrapassar a altitude de 714,9 m • Caso haja objetos de configuração pouco visível a distância, tais como torres, linhas elétricas, cabos suspensos e mastros, entre outros.
Fonte: SEPLURB, Prefeitura Municipal de Campinas.
COM PAT I B I L I D A D E D E U S O S Usos compatíveis: A1. Serviços Governamentais; A2. Transportes; A3. Estacionamentos; A4. Escritórios; A5. Coméricio Atacadista; A6. Varejista A7. Serviços Utilidade Pública; A8. Serviços de Comunicação; A9. Indústrias em geral; A10. Indústrias de precisão; A11. Mineração; A12. Exposições agropecuárias e Zoológicos; A13. Parques de diversões e acampamentos; A14. Campos de golf, hípicas, parques aquáticos
Usos compatíveis com observações:
B1. Estabelecimento de Saúde; B2. Igrejas, auditórios, salas de concerto; B3. Agricultura e floresta; B4. Criação de animais, pecuária;
Usos incompatíveis: C1. Conchas acústicas, Anfiteatros.
Usos Incompatíveis com observações: D1. Residências Uni e Multi Familiares; D2. Alojamentos Temporários: D3. Locais permanência prolongada; D4. Educacional
Usos Incompatíveis com observações: D1 a D4: Sempre que os órgãos determinarem que os usos devam ser permitidos, devem ser adotadas medidas para atingir uma RR de pelo menos 25 dB.
A partir das informações apresentadas, é possível identificar os usos e alturas permitidas de acordo com as restrições apresentadas pela presença do aeroporto. Dessa forma, o projeto Habitação de Interesse Social não deve ultrapassar, em sua edificação, uma altura de 16.26 metros, caso contrário, deverá ser solicitada uma permissão ao DECEA. Já em relação ao uso proposto, o projeto se encaixa no uso D1. Residências Uni e Multifamiliares, considerado incompatíveis com observações, ou seja, seu uso é permitido apenas com a condição de que sejam adotadas medidas para alteração do RR (Redução de Nível de Ruído), que no caso, deve ser de pelo menos 25 dB. Apesar das condicionantes apresentadas, é importante destacar que a região do Jd. Campo Belo já está em estado de consolidação e apresenta famílias residentes desde o início de seu loteamento, lembrando que muitos bairros foram formados de maneira espontânea, sem planejamento ou cumprimento da legislação. Dessa forma, é importante respeitar o território ocupado pela população, levando os equipamentos, infraestrutura e moradias de qualidade.
Fonte: SEPLURB, Prefeitura Municipal de Campinas.
79
M A PA D E U S O E O C U PA Ç Ã O D O S O LO E G A BA R I TO 80
USO DO SOLO O recorte do entorno imediato do terreno escolhido apresenta, predominantemente, uso residencial, porém apresenta diversos comércios e serviços locais, como petshops, sorveterias e salões de beleza. Os usos institucionais se fazem presente a partir de igrejas e escolas, sendo que duas estão próximas ao terreno escolhido para implantação do projeto. Além disso, é notável a expressíva quantidade de áreas verdes e pequenas praças utilizadas pelos moradores para a prática esportiva. Ainda que o terreno escolhido seja, atualmente, destinado ao abrigo de uma praça pública, o projeto proposto manterá tais usos, de forma que quadras de esportes, praças e mobiliários adequados serão pensados de maneira a requalificar o terreno, respeitando seus usos. Já em relação ao gabarito na região, ele é majoritariamente térreo, com algumas excessões de edificações com dois pavimentos, nunca ultrapassando. Dessa forma, foram destacadas apenas as edificações de dois pavimentos.
A partir desse mapeamento, fica perceptível a relação do uso do solo e o gabarito, pois a maioria das edificações que apresentam dois pavimentos são, em sua maioria, edificações comerciais ou de serviços.
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E Q U I PA M E N TO S U R BA N O S A região é bem dotada de equipamentos públicos, como o centro de Saúde Jardim Fernanda, que abrange 12 bairros do Campo Belo, o centro de lazer Dom Gilberto e instituições de ensino, sendo duas destinadas à educação infantil (CEI Nave Mãe). A partir dos dados censitários analisados, o número de crianças e adolescentes na região do Campo Belo se sobressai em relação à adultos e idosos. Os equipamentos existentes no entorno imediato se encontram a menos de 0,5km uns dos outros e do terreno de intervenção, reforçando a possibilidade de caminhada pelos moradores para realizar suas atividades cotidianas.
82
M A PA D E E Q U I PA M E N TO S U R BA N O S 83
M A PA D E I N F R A E S T RU T U R A E AC E S S I B I L I DA D E 84
INFRAESTRUTURA Se tratando de uma proposta de Habitação de Interesse Social voltada para famílias em situação de vulnerabilidade socioambiental do Campo Belo, é importante frisar a importância de proporcionar projetos de qualidade em regiões seguras e dotadas de infraestrutura suficiente para proveito das famílias. Um dos objetivos com isso é, então, proporcionar conforto e segurança às famílias, que vêm de uma situação de medo e incertezas. Dessa forma, o mapa de infraestrutura urbana do entorno do terreno demonstra a qualidade da mesma, apresentando ruas, em sua maioria, pavimentadas, iluminação pública, sinalização de pedestres e rampas de acessibilidade nas calçadas. O projeto proposto, assim, poderá ser implantado de forma a complementar a infraestrutura existênte, complementando o uso existênte do terreno e proporcionando aos moradores uma moradia digna.
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MOBILIDADE CENTRO DE CAMPINAS V I R ACO P O S
VINHEDO I N D A I AT U B A
0
2
4
8
LOCALIZAÇÃO DO TERRENO EM RELAÇÃO AO CAMPO BELO
Mapa realizado pela autora
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Cercado por ruas locais, com fluxo leve de veículos na maior parte do dia, o terreno possui grande potencial para a utilização de pedestres, favorecendo a caminhada e o convívio tranquilo de crianças, adultos e idosos. No entanto, apesar da existência da praça, foi identificado que o fluxo de pedestres e a permanência dos moradores continuam baixos na região. Já em relação ao transporte público, como identificado no mapa ao lado, percebe-se que a região apresenta pontos de ônibus e quantidades de linhas favoráveis ao projeto, mostrando que a região é acessível e apresenta boas condições de mobilidade aos moradores. Sua proximidade com a antiga e nova rodovia Santos Dumont também funciona como um ponto estratégico da região, permitindo fácil acesso de veículos e visibilidade à região. Além disso, o recorte de estudo também está próximo às divisas municipais com Indaiatuba e Vinhedo.
M A PA D E T R A N S P O RT E P Ú B L I CO, F L U X O D E P E D E S T R E S E V E Í C U LO S 87
A A
M A PA D E A R B O R I Z A Ç Ã O U R BA N A 88
V E G E TA Ç Ã O E TO P O G R A F I A Na tentativa de identificar a relação já existente entre os moradores do bairro Jd. Fernanda com a natureza, foi realizado um levantamento de arborização urbana. Foram mapeadas apenas árvores que puderam ser identificadas pelo street view, considerando o atual momento vivido no país que impede a visita técnica ao local. Pontos positivos foram encontrados ao percorrer o bairro, como: árvores de pequeno porte nas calçadas, rica arborização nas praças Jd. Fernanda e Centro de Lazer Dom Gilberto (com trabalhos de paisagismo e identificação de árvores frutíferas), proximidade com uma área de APP e, por fim, uma barreira vegetal localizada na Rod. Santos Dumont, trazendo conforto acústico às edificações próximas à via. O mapeamento das árvores existentes no terreno também foi importante, já que as mesmas devem ser mantidas, em sua maioria, no projeto proposto.
Em relação a topografia existente, a região é caracterizada por ser predominantemente plana. O espaçamento entre as curvas de nível indicam um declínio suave e relevo pouco acidentado. O terreno em questão apresenta um desnível de cinco metros. Segue abaixo o perfil do terreno escolhido para intervenção:
CORTE AA
Sem escala / Realizado pela autora
89
Fachada do Conjunto Zezinho Magalhães Prado Imagem: Nelson Kon (2009)
5
REFERÊNCIAS PROJETUAIS
5.1
5.1
92
CO N J U N TO Z E Z I N H O MAGALHÃES PRADO
Arquitetos: Vilanova Artigas, Fábio Penteado e Paulo Mendes da Rocha Localização: São Paulo, Brasil Ano: 1967 Área: 180.000m²
5.1.1 Até a Revolução de 1930, nenhuma medida fora tomada pelo governo em relação à habitação popular (BONDUKI, 1998), a não ser o “isolamento” dos habitantes dos cortiços e bairros periféricos. Assim, as manifestações do governo, a princípio, na questão da política habitacional tinham como fundamento voltar as atenções para a população de baixa renda. Em 1948 foi fundada a Caixa Estadual de Casas para o Povo CECAP, com o objetivo de auxiliar o governo estadual na produção e venda de casas populares, sendo através dele e dentro do contexto da criação do Banco Nacional da Habitação - BNH e o Sistema Financeiro de Habitação - SFH que o Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado foi realizado. Além disso, o momento nacional era marcado pelo debate sobre como
CO N T E X TO H I S T Ó R I CO poderia ocorrer o desenvolvimento do país e, particularmente, da industrialização da construção. Na arquitetura, os ideais modernistas também foram introduzidos ao projeto e no processo industrial da construção, o que já ocorria na Europa no pós Segunda Guerra Mundial para a reconstrução das cidades. Utilizando o termo “economia social”, Paulo Mendes da Rocha destaca a importância da racionalidade para viabilizar boas unidades dentro das condições de restrição financeira, promovendo melhorias sociais. Na época, as propostas apresentadas foram consideradas inovadoras, revisando os processos construtivos e o conceito de unidade de habitação, significando uma nova visão do problema habitacional.
Imagens: Nelson Kon (2009) / Fonte: http://www.nelsonkon.com.br/conjunto-habitacional-cecap/
93
5.1.2
LOCALIZAÇÃO
Localizado entre o aeroporto internacional de Guarulhos e a rodovia Presidente Dutra, o Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado foi projetado pelos arquitetos João Batista Vilanova Artigas, Fábio Penteado e Paulo Mendes da Rocha, em 1967, a fim de estabelecer um novo modelo de habitação popular em grande escala. O Conjunto Habitacional foi proposto para uma população de 50 mil habitantes em 180 hectares, contando com a área para infraestrutura urbana. Considerando a escala do empreendimento, o programa também previa serviços além das moradias, tais como: escolas, comércios, teatro, igreja, centro de saúde, hotel, cinemas, quadras de esportes e outros. A organização dos espaços foi orientada pelo conceito de freguesia e da superquadra, como retrata a arquitetura modernista e princípios corbusianos na arquitetura das edificações. É importante ressaltar que, por essa tipologia de projeto dos edifícios, é possível identificar a autonomia das unidades com conjuntos mais amplos, assim, fica clara a preocupação com a autonomia, flexibilidade e mutabilidade do sistema arquitetônico, de forma que a concepção urbanística aberta favorece as transformações sociais do conjunto. Sem escala Mapa elaborado pela autora.
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I M P L A N TA Ç Ã O
P RO P O S TA E F R E G U E S I A S
A princípio, a construção seria de 10.560 apartamentos, que abrigaria cerca de 55 mil habitantes, distribuídos em 170 blocos habitacionais. Tais blocos foram agrupados em 8 freguesias, cada uma contendo um centro comercial e uma escola dentro de um raio de 150 metros.
A partir do projeto de urbanismo do CECAP, durante suas três etapas de eprojeto foram executados apenas 78 blocos, apresentados na imagem ao lado, totalizando 4.680 apartamentos, e parte dos equipamentos públicos propostos. Como resultado, aproximadamente 45% da proposta inicial foi construída.
Maquete da implantação completa do Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado/ Modificado pela autora
Maquete da implantação completa do Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado/ Modificado pela autora
Fonte: BASTOS, ZEIN, 2010, p. 174
Fonte: BASTOS, ZEIN, 2010, p. 174
E D I F Í C I O S R E S I D E N C I A S E X E C U TA D O S 95
U S O E O C U PA Ç Ã O 96
Sem escala
GABARITO
Sem escala
PROJETO No projeto do conjunto Cecap Guarulhos foi adotada a repetição de uma unidade tipo. O agrupamento de unidades formam os edifícios habitacionais laminares com quatro pavimentos (térreo livre, mais três pavimentos) justapostos em pares numa malha ortogonal. Estes são acessados por caixas de escadas que ligam os edifícios em pares, transformando-os em um único bloco com pátios internos. Dessa forma, a implantação dos blocos no local é ortogonal, porém as lâminas paralelas umas as outras possibilitam a composição do urbano, gerando espaços de uso comum entre os blocos, equilibrando e criando novas circulações para pedestres com percurso objetivo. Já o espaço livre no térreo, somada aos pátios internos, potencializam a convivência entre os moradores e propõe uma continuidade visual entre a circulação horizontal do térreo e seu entorno imediato. Proposto em um único elemento que se repete em toda a implantação, cada um dos blocos possui três pavimentos, são lineares e organizados em dupla, tendo ao meio os acessos verticais intercalados. A repetição dos elementos também remete ao objetivo do projeto, que visava a industrialização da construção, como dito anteriormente. Assim, seria
5.1.3 executado dentro de uma técnica de concreto armado, se aproximando à pré-fabricação e pré-moldagem de elementos, favorecendo a repetição do edifício tipo. Cada apartamento possui 64m² e três dormitórios, sendo que pela dispensa dos corredores internos aos apartamentos através da disposição das caixas de escadas foi possível os apartamentos possuírem aberturas para as duas faces do edifício, favorecendo iluminação e ventilação (CUNHA, 2009; KAMITA, 2000; ZEIN, 2005).
E S T U D O B I O C L I M Á T I CO
Sem escala
Mapas elaborados pela autora.
97
5.1.4 CIRCULAÇÃO Janela em fita de acordo com conceitos corbusianos
P L A N TA BA I X A - PAV I M E N TO T I P O Janela em fita
CO RT E T R A N S V E R S A L
Laje nervurada
Banheiro com paredes hidráulicas comuns em todas as unidades Forma de racionalizar a estrutura.
P L A N TA BA I X A - U N I DA D E H A B I TAC I O N A L Imagens: Revista AU, n. 252, fev.2015 / Modificado pela autora
98
5.1.5
ESTRUTURA
Como resultado da racionalidade construtiva, o apartamento-tipo tem origem em um sistema de peças pré-fabricadas de concreto, podendo ser empilhadas e justapostas em seus eixos. Além dos pilares, apenas as paredes externas das extremidades dos blocos de apartamentos são portantes, de concreto, as demais divisórias são leves, de madeira compensada, em um sistema também pré-fabricado, semelhante ao drywall atualmente, favorecendo a flexibilidade e adequação da planta por parte dos moradores. A planta dos apartamentos é retangular - de 7m x 8m - com dois fechamentos cegos paralelos e outros dois com janelas em fita de caixilharia padronizada, que desierarquizam o espaço, reforçando o caráter flexível da planta.
Ambiente interno Imagem: Nelson Kon (2009) / Fonte: http://www.nelsonkon.com.br/conjunto-habitacional-cecap/
Perspectiva do sistema pré-fabricado Fonte: Ficher (1972)
E L E VA Ç Ã O L E S T E
Imagem: Autoral
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5.1.6
CO N S I D E R A Ç Õ E S F I N A I S
Atualmente, as freguesias tornaram-se condomínios fechados, sem a livre permeabilidade dos pedestres sob os pilotis dos blocos. Além disso, a população de baixa renda foi substituída pela “pequena burguesia urbana”, como previu Artigas. O espaço livre concedido pelos pilotis também logo foi ocupado por carros em todas as freguesias, se tornando estacionamentos, porém, é importante destacar que a ideia inicial era de que o espaço fosse livre, considerando que a demanda por carros na época era baixa. Apesar das mudanças, é inegável a importância arquitetônica e urbanística do conjunto habitacional, que apresenta características superiores quando comparados aos demais conjuntos implantados a partir de 1964. Como identificou Zandonade (2005), a implantação de áreas livres e destinadas a uso comum proporcionam uma transição mais gradual da esfera pública para a privada, apresentando uma escala mais condizente com o entorno, espaços coletivos estes que eram praticamente inexistentes em outros conjuntos; a proposição de equipamentos e comércios locais promove a conservação das características originais do conjunto, como a preservação das áreas livres cobertas e descobertas, vegetação e arborização em bom estado e áreas comuns bem conservadas. Assim, o projeto foi tomado como referência por ser um exemplo emblemático brasileiro de Habitação de Interesse Social que foi bem sucedida e se adaptou ao longo dos anos, sem perder sua função social ou ser abandonada pelos próprios moradores, pela falta de identificação dos mesmos. Além disso, a racionalização e industrialização do projeto e seus componentes também fizeram o projeto se tornar simbólico e representativo da arquitetura moderna paulista. Atualmente, a racionalização da construção também é um ponto fundamental para a sustentabilidade e redução de desperdícios na construção civil, considerando que a etapa da construção responde por uma parcela significativa dos impactos causados pela construção civil no ambiente, principalmente os consequentes às perdas de materiais e à geração de resíduos. Dessa forma, a proposta realizada no conjunto Cecap também trouxe à luz uma nova forma de se trabalhar a arquitetura de maneira racional e consciente. Imagens: Nelson Kon (2009)/ Fonte: http://www.nelsonkon.com.br/conjunto-habitacional-cecap/
100
101
5.2
A CASA E X PA N S Í V E L
Arquitetos: Urban Rural Systems Localização: Batam, Indonésia Ano: 2018 Área: 36m²
5.2.1 A casa expansível, localizada em Batam, na Indonésia, foi realizada pelo escritório Urban Rural Systems em 2018. O objetivo de seu projeto está relacionado ao rápido crescimento da cidade de Batam, que recebeu muitos jovens imigrantes em busca de novas oportunidades, incentivados também pelo acordo de livre comércio e proximidade com Cingapura. Com o propósito de promover habitações suficientes e acomodar o fluxo imigratório, o escritório de design tecnológico buscou realizar um protótipo de habitação que pudesse abrigar os imigrantes e ainda proporcionar uma infraestrutura de qualidade, apoiada por redes de lazer, esporte e ensino. O projeto se baseia na adaptação da moradia, considerando os padrões flutuantes de consumo Imagens: Dio Guna Putra (2018)
PROJETO de recursos e gastos de seus residentes, significando entender os padrões de geração e gasto de renda familiar, consumo de água, energia e alimentos, assim como a produção de resíduos. Esta flexibilidade também é vista na estrutura flexível da casa, que possui um telhado que pode ser içado e um piso e fundações que podem suportar até três andares adicionais, podendo chegar de 36m² a 108m². Dessa forma, o projeto se propõe a ser executado em 3 fases, sendo a segunda quando a casa se expande para seu limite de 3 andares e a terceira, que envolve uma leitura e testes dos elementos da vizinhança e do município, como becos, pátios, espaços públicos, regrigeração do distrito, retenção de água e sistemas de compartilhamento de energia ponto a ponto.
104
5.2.2
I M P L A N TA Ç Ã O E S Q U E M Á T I C A
Sem escala
I M P L A N TA Ç Ã O
Considerando a região de Batam como uma área de urbanização rápida às margens de cidades e vilas, é importante destacar que tais terras são relativamente mais baratas, onde novos empregos industriais estão surgindo, com infraestrutura muitas vezes inadequada para apoiar os migrantes rurais recém chegados. Sendo assim, para atender a necessidades dinâmicas e de infraestrutura básica da região, o conjunto de habitações contará com sistemas de captação de água da chuva abaixo de espaços públicos e sistema solar, princípios de projeto passivo, sistemas de esgoto no local, fossa séptica comum para a comunidade e sistemas de produção de alimentos para promover a auto-suficiência e o crescimento dos negócios em pequena escala. A presença de uma pequena floresta de bambu é um exemplo, podendo ser usada pelos moradores como material construtivo ou artesanal. Assim, a composição das unidades é semelhante à um bairro que atenda todas as necessidades cotidianas dos moradores, com a abertura de vias padronizadas que variam de acordo com sua função, espaços públicos para lazer e fachadas ativas nas edificações, permitindo o comércio local e o fluxo de pedestres na região. Além de atender às demandas cotidianas da comunidade, o projeto da casa também é flexível, tanto em uso quanto em dimensionamento, ou seja, o morador pode expandir sua residência de 36m² para até 108m² e estabelecer o uso que desejar, seja comercial, de serviços ou residencial, favorecendo o uso misto da região. Imagem: Dio Guna Putra (2018) / Modificada pela autora
105
5.2.3 O escritório Urban Rural System criou modelos de usos possíveis para a casa expansível, que variam de residencial, até de serviços, apoio e comércios. Alguns desses usos são áreas de lojas e conveniência, escritórios, quartos de aluguel ou hospedagem, áreas de alimentação, workshops e até mecânicas, além de espaços de serviços e produção de alimentos. Além dessa possibilidade, o morador também tem a liberdade de trabalhar a fachada da casa como preferir, podendo se tornar um espaço para publicidade, para permanência de clientes ou apenas uma fachada residencial comum. Assim, é possível que seja trabalhada também a composição da paisagem do conjunto, também flexível às necessidades e gostos de cada morador. Imagens: Dio Guna Putra (2018) / Modificada pela autora
106
USOS PROPOSTOS
RESIDENCIAL
RESIDENCIAL
CAFETERIA
“ BA R R AC A” D E A L I M E N TO S
ABASTECIMENTO DE VEÍCULOS
APLICAÇÕES DE USOS
Sem escala
DIFERENTES FACHADAS
LOJA Sem escala Imagens: Dio Guna Putra (2018)
107
5.2.4
1
Flexibilidade: A casa recebe uma cobertura que pode ser içada, enquanto o piso e as fundações podem suportar até três pavimentos adicionais.
CO RT E E S Q U E M Á T I CO
SOLUÇÕES SUSTENTÁVEIS
2
Densidade Doméstica: A casa encoraja o adensamento no plano vertical, a verticalização, ajudando a reduzir a expansão para terras aráveis.
3
Sistemas Descentralizados: Energia solar, uso de água pluvial e fossa séptica são integrados localmente no projeto.
4
Paisagem Produtivas: O projeto também integra produção de material e comida. A partir da integração do plantio de bambu e jardins externos .
5
Pacote de Sementes: A casa foi projetada como um pacote de sementes, contendo tecnologias, estratégias de material e um guia de planejamento adaptável a cada local.
Sem escala Imagem: Dio Guna Putra (2018) / Modificada pela autora
108
M AT E R I A L I D A D E
M AT E R I A I S LO C A I S : B A M B U E M A D E I R A
E S T RU T U R A M E T Á L I C A PA R A Á R E A S E X PA N S Í V E I S E P RO D U T I VA S
B LO CO S D E CO N C R E TO N A BA S E
O principal conceito da Casa Expansível é a sustentabilidade, que foi trabalhada a partir de cinco pontos chaves para se atingir uma comunidade auto-suficiente e que possa atender a demanda da região. O primeiro deles é a flexibilidade, vista a partir da estrutura da residência com uma fundação que pode receber até 3 pavimentos e uma cobertura que pode ser içada manualmente, permitindo a construção de novos pavimentos conforme a necessidade de cada morador. Esta composição é proporcionada pela incorporadora ou o estado, que fornecem a cobertura e o embasamento, enquanto os moradores providenciam as vedações, de acordo com suas próprias circunstâncias Dessa forma, é possível notar também o conceito de densidade doméstica, permitindo o adensamento vertical, reduzindo a expansão de construções em terras aráveis e produtivas, além de novos custos com infraestruturas caras como estradas, energia e etc. Assim, os sistemas de infraestrutura da casa são descentralizados, ou seja, são integrados localmente ao projeto evitando grandes obras de infraestrutura centralizadas. O projeto também incentiva a produção de comida e materiais, integrando jardins externos e plantações de bambu o que pode ajudar, futuramente, na diversificação de recursos. Por fim, estes conceitos se tornam um “pacote de sementes”, de forma que a composição de tecnologias, estratégias de materiais e guias de planejamento adaptável a cada local, dependendo de seu contexto social, cultural e ambiental possam servir como um manual para que cidades tropicais possam de desenvolver a partir do mesmo pacote de sementes. Imagens: Dio Guna Putra e Carlina Teteris (2018)
109
Considerando que a casa pode ser expandida para mais pavimentos, é importante destacar a planta da residência. Esta possui uma grande área de estar livre, ou seja, sem paredes ou pilares, considerando que pode receber o uso escolhido pelo morador. Já a lateral da residência abriga as áreas de serviço da residência, tais quais: cozinha, banheiro e armazenamento de água. Além disso, é possível que a escada para os futuros pavimentos seja alocada próximo à entrada, também na porção lateral da residência, evitando que áreas úteis sejam perdidas para circulação.
P L A N TA BA I X A
Seção sanduíche
CO RT E 110
Em um sistema de viga-pilar, a casa é feita de concreto e blocos de concreto como fechamento, enquanto a cobertura içável é composta por uma seção sanduíche de telha metálica que possui um sistema de macaco manual para ser elevada.
Imagem: Dio Guna Putra (2018) / Modificada pela autora
5.2.5
ESTUDO DE MODELOS
SOLUÇÕES ESTRUTURAIS
MODELOS APLICADOS Imagens: Dio Guna Putra (2018)
111
112
5.2.6
CO N S I D E R A Ç Õ E S F I N A I S
O projeto foi tomado como referência por adotar conceitos de sustentabilidade em seu programa que vão além de tecnologias avançadas. A proposta para o conjunto também trabalha a relação dos moradores com o ambiente em que vivem, proporcionando a possibilidade dos mesmos progredirem a partir de um manejo consciente e equilibrado da natureza e seus recursos. Apesar de o projeto não citar o termo “permacultura”, é possível identificar que ele se aproveita de ferramentes semelhantes aos trabalhados pela mesma, como uma solução sustentável tanto para os moradores quanto para o meio ambiente, tais como:
1. Criação de soluções criativas às mudanças e ao dinamismo de cada região, no caso, da região do Batam;
2. Entendimento dos ciclos da natureza para permitir a interação; 3. Captação de energia solar e aproveitamento de água das chuvas; 4. Obtenção de rendimento a partir do cultivo de materiais e alimentos; 5. Planejamento a partir de padrões para as especificidades de cada morador;
6. Integração do conjunto ao invés da segregação a partir de uma rede de apoio e sistemas comuns;
7. Valorização da diversidade de espécies e culturas; 8. Aproveitamento de bordas das terras para plantações e implantação de sistemas comuns ao conjunto. Imagens: Dio Guna Putra (2018)
113
A falta de exemplos e aplicações da permacultura em habitações coletivas no Brasil reforça a importância de se trabalhar novos métodos para conscientização da população a respeito da sustentabilidade e sua função social aplicada em grande escala. Apesar disso, muitos grupos, ONGs e arquitetos tâm se dedicado à permacultura como solução arquitetônica e sustentável, como por exemplo o IPEMA – Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica, com foco na sustentabilidade da Mata Atlântica através de cursos, visitações monitoradas e vivências para a conscientização e capacitação de pessoas nas áreas de permacultura, ecovilas, bioconstrução e atividades correlatas; o IPOEMA - Instituto de Permacultura, realizando projetos socioambientais nas áreas de educação, cultivo, instalações de tecnologias sociais, bioconstruções e mais; os Permacultores Urbanos, que produz conteúdos informativos sobre a permacultura e seus desdobramentos nos centros urbanos, além de realizar consultorias e realização de projetos; o grupo SemMuros, escritório colaborativo de arqutetura com base em projetos de baixo impacto ambiental, com caráter comunitário e pedagógico, defendendo a arquitetura integrada social, ambiental e
economicamente; entre outros grupos. É possível notar, então, que esses grupos possuem em comum a permacultura em foco para promover a vida de forma responsável e consciente, além de contribuir com a vida em comunidade. Na arquitetura, este conceito é refletido na utilização de materiais e recursos disponíveis no planeta, utilização de sistemas de coleta e tratamento de água consciêntes e aproveitamento de energias renováveis, etc. Outro fator importante, é a alimentação consciente, pois ela é responsável em grande parte pela degradação mineral de solos e esgotamentos de recursos naturais deviso ao paradigma de consumo de comércio mundiais. Assim, a cultura de uma comunidade está presente na alimentação e em todos os processos envolvidos em sua produção. A seguir será apresentado um projeto realizado em 2019 pela Equipe SemMuros, nomeada de Casa San Salvador, localizada em São Paulo, Brasil. COMUNIDADE ENTRE RIOS Botucatu - SP SemMuros, 2009
Imagem: SemMuros
“Trabalho desenvolvido junto aos alunos da Escola da Cidade na disciplina ‘Tecnologia para a Arquitetura de Baixo Impacto’. A proposta foi a construção de um protótipo habitacional de 15 metros quadrados, usando materiais de baixo impacto ambiental e social a partir de uma lógica construtiva da apropriação do fazer, ou seja, uma tecnologia apropriada, onde qualquer pessoa possa aprender a fazer, saber como fazer, porque fazer e o que fazer.” (Trecho retirado do site SemMuros, www.semmuros.com)
5.3
CASA SAN S A LVA D O R
Arquitetos: Sem Muros/ Parceria: Estúdio Papaya Localização: São Paulo, Brasil Ano: 2019
5.3.1
PROJETO
Com base na permacultura, o escritório buscou compreender e mapear os recursos disponíveis no território e, de maneira integrada, implementar processos que implicassem diretamente na redução de impactos ambientais. Assim, a equipe se baseou em processos que levam em consideração o contexto e suas inter-relações, compreendendo que os sistemas que fazem parte do cotidiano devem sempre estar integrados, criando assim uma casa que funcionasse como um “organismo vivo”. A edificação, pensada para o local onde está inserida e integrada ao território, contribui para a autonomia dos moradores e usuários. Sua arquitetura conta com cinco princípios bases para o funcionamento sustentável:
1. Eficiência bioclimática, ou seja, tirar proveito das melhores condições de insolação e ventilação;
2.Técnicas construtivas, pelo aproveitamento de material, da construção e da vegetação existente;
3.
Produção de alimento, a partir de uma pequena fazenda com galinheiro, compostagem, horta e pomar;
4.
Produção de água, que será utilizada e devolvida às plantas e ao solo;
5. Energias renováveis, com geração de energia fotovotaica, fazendo máximo proveito da energia mais abundante do sol. Imagens: Sem Muros/ Estúdio Papaya (2019)
5.3.2
SOLUÇÕES SUSTENTÁVEIS
Este projeto é uma boa referência projetual com aplicações diretas da permacultura em sua arquitetura, pois como seu estudo preliminar indica, muitas soluções sustentáveis foram propostas para o projeto, assim como materiais construtivos não nocivos ao meio ambiente. A cobertura em telha tipo Taubilha é feita de em madeira de pinus tratado e possui característica termo-acústica. Já os fechamentos em CLT (Madeira Laminada Cruzada) agiliza o processo construtivo e evita desperdícios de materiais. Além disso, algumas paredes ciclópicas, que por serem realizadas pelo encaixe de grandes pedras, não necessitam da utilização de argamassa ou cimento para fixação. Além desses materiais e utilização de madeiras reutilizadas, a casa também possui sistemas de tratamentos de águas cinzas e negras, telhado verde, composteira como apoio para a horta doméstica e utilização de painéis solares para captação de energia para aquecimento de águas. Dessa forma, fica clara a visualização de como uma casa sustentável pode funcionar se baseando nos conceitos permaculturais, em que natureza e comunidade podem coexistir em harmonia. Imagens: Sem Muros/ Estúdio Papaya (2019). Modificadas pela autora
118
119
Imagem: Autoral
6
PROJETO
6.1
P RO J E TO C A S A A M B I E N T E - H A B I TA Ç Ã O CO L E T I VA
Em biologia, a palavra AMBIENTE inclui “tudo o que afeta diretamente o metabolismo ou o comportamento de um ser vivo ou de uma espécie, incluindo a luz, o ar, a água, o solo ou os outros seres vivos que com ele coabitam”. Assim, tendo como objetivo dar um novo abrigo às famílias em situação de vulnerabilidade socioambiental, o conjunto habitacional proposto servirá como forma de promover a coexistência dos seres vivos, afetando positivamente sua forma de viver e se relacionar. O foco do projeto será a natureza como um elo de conexão entre o indivíduo e o coletivo, além de trazer uma nova perspectiva aos moradores que, antes, viviam uma relação de medo para com as condições ambientais e agora poderão usufruir de um convívio harmônico e de trocas. O contato com o meio ambiente e atividades coletivas propostas no programa de necessidades trarão aos moradores a oportunidade de se conectar com o território e criar raízes em um espaço adequado, seguro e confortável, tirando-lhes o sentimento de medo de perda. Imagem: Autoral
122
CO N C E I TO O conceito utilizado no projeto será o de A F E TO , que coloca em evidência as relações de cuidado e apoio entre os seres vivos existentes tanto no conjunto hacitacional, quanto no meio ambiente. Dessa forma, o convívio harmômico permitirá a apropriação afetiva do habitante com o território em que ocupa.
SIMBOLOGIA Segundo o dicionário Larousse RAÍZES tem a“(...) função de fixação, de absorção; base....principio, origem,...algo que prende, vinculo, elo.” Dessa forma, a raíz carrega no presente projeto a simbologia do lar como a base, o elo e vínculo entre os moradores, o território ocupado e a natureza.
PA RT I D O
1
Programa de necessidades que promova a interação entre indivíduos, permitindo a criação de novos vínculos afetivos;
3
Utilização de princípios da permacultura como uma solução sustentável para a manutenção do conjunto e redução dos impactos ambientais;
2
Criação de uma paisagem produtiva, gerando uma aproximação entre os moradores com a natureza a partir do cultivo de alimentos diversos;
4
Proposta de unidades habitacionais dignas e que possam se adequar às necessidades dos moradores, reduzindo o medo e insegurança e proporcionando o sentimento de pertencimento ao local.
123
6.2 Pensando em levar o conforto aos moradores das unidades, foi levado em consideração o Art. 83 LEI DE ZONEAMENTO, 2018, que permite uma densidade habitacional máxima de 50 unidades habitacionais (u.h.) por hectare - ha para Habitações Multifamiliares Horizontais (HMH), considerando que a edificação terá apenas 3 pavimentos. Esse número cobre a demanda atual do Jd. Campo Belo de famílias em situação de vulnerabilidade socioambiental e permite que o restante do terreno seja utilizado de forma produtiva, mantendo os usos já existentes no local e trazendo novos usos e oportunidades de conexão entre os usuários. Assim também, foi estipulado o número de vagas de estacionamento de acordo com a lei aplicada à HMH, de 1 vaga a cada 0,5 u.h., que estarão dispostas ao longo do terreno e camufladas pelas áreas verdes, não destoando da paisagem. Vagas públicas também foram dispostas, para o melhor aproveitamento dos usuários das áreas de lazer e comercial do conjunto, resultando num total de 58 vagas. Já os espaços de lazer foram pensados para proporcionar conforto e acolhimento aos moradores 124
PROGRAMA DE NECESSIDADES e usuários do bairro. Dessa forma, espaços de apoio aos moradores, de cultivo, lazer e permanência foram inclusos como pontos chave para o convívio coletivo. Assim, foram tidas como referências os princípios de design da permacultura, para destinação de áreas de cultivos, além do livro NEUFERT, P. Arte de Projetar em Arquitetura., pensando na metragem mais ideal possível dos ambientes internos.
Área do terreno
18.847 m²
Taxa de ocupação
16%
Coeficiente de aproveitamento
0,60
Taxa de permeabilidade
48%
Altura máxima da edificação Estacionamentos
15 metros 47 vagas
moradores
11 vagas
público
125
MACRO
MICRO
3 tipologias distintas
H A B I TA Ç Õ E S
Unidades habitacionais D e p ós i to d e l i xo Bicicletário Uso complementar
Pavimento futuro
Área de cultivo
MANUTENÇÃO E PRODRUÇÃO
U S O COM U M E S TAC I O N A M E N TO 126
Depósito de materais D e p ós i to p a ra co le ta d e l i xo coletivo Cisterna enterrada Caixa d´água
OBS.
Hortaliças, ervas, espécies frutíferas, bambu e bananeira
Vo l u m e = 1 0 . 0 0 0 L Vo l u m e = 1 0 2 . 0 0 0 L
Quadra poliesportiva Quadra de vôlei A c a d ê m i a d a Te r c e i r a I d a d e - A T I Playground Sala de palestras e oficinas Te r r a ç o c o m p a r t i l h a d o Ve s t i á r i o s Comércios e serviços Módulos criados de acordo com a demanda Va g a s p r i v a d a s Va g a s p ú b l i c a s
QUANTIDADE
ÁREA/UNIDADE (m²)
ÁREA (m²)
Á R E A TOTA L ( m ² )
94 3 3
De acordo com a tipologia 4,5 18,3
5.472 13,5 54,9
7.234,5
1.639,18 -
1.414
1.414
1
36
36
1
18
18
1
7,5
7,5
1
49,7
49.7
1 2 1 1 1 1 2 5
467,45 155,4 137,45 240,55 155,6 232 36 72
467,45 310,8 137,45 240,55 155,6 232 72 360
1.975,9
47 11
12,5 12,5
587,5 137,5
525
Á R E A TOTA L ( m ² ) :
1.525,2
11.260,6 127
FLUXOGRAMA Se tratando de um espaço com usos públicos, o acessos ao terreno foram pensados para trazer permeabilidade aos pedestres que passam pelo local. Assim, retomando a simbologia de uma raíz, os acessos se ramificam nas extremidades do terreno. Para se pensar nos fluxos e setorização dos ambientes, utilizou-se os princípios da permacultura, que utiliza “zonas” como norteador da sociendade. Dessa forma, a zona zero, central, diz respeito à comunidade ou ética, sendo o ponto principal e de partida para a setorização dos demais usos no terreno. Ao redor do centro de convivência do terreno foram dispostos as habitações, comércios e cultivo nessa ordem. No entanto, por se tratar de uma escala projetual reduzida, os princípios da permacultura foram adaptadas à proposta, trazendo apenas os aspectos principais e norteadores do projeto. Além disso, também teve-se de ser pensado em aspectos funcionais como o acesso e saída à vagas de estacionamento, que deve ocorrer pela rua Pedro Paulo Colombari e Zib Zogaeb, ruas locais de pouco fluxo de veículos, evitando congestionamentos e insegurança aos pedestres.
6.3 Os fluxos também permitem que todos os usos se conectem e sejam acessados por todo terreno com uma circulação cruzada, sendo importante destacar que as edificações serão as únicas com acessos restritos apenas aos moradores do conjunto, assim como as áreas de apoio às habitações que serão acessadas pelos funcionários.
CENTRO H A B I TA Ç Ã O COM É RC I O S E O F I C I N A S CULTIVO ACESSOS
E S Q U E M A A DA P TA D O D E Z O N A S P E R M AC U LT U R A I S 128
Imagem: Autoral
FLUXOGRAMA 129
6.4 O estudo bioclimático realizado permitiu identificar as melhores condições para as atividades propostas no terreno, com destaque para o cultivo de determinadas espécies, pois exigem insolação adequada para o sucesso do plantio. A densa arborização já existente na rua Asdrúbal Ferreira Batista colabora como agente quebra-vento, já que os ventos mais fortes são provenientes do sudeste. Além disso, árvores de pequeno porte também estão dispostas ao longo do terreno e sua maioria deve ser mantida, com a realocação de algumas árvores para a composição da alameda. Pensando também no conforto dos moradores, os blocos foram dispostos de forma a receber a melhor insolação ao longo do dia, permitindo a entrada do sol tanto no sentido leste quanto oeste, M A PA B I O C L I M Á T I CO 130
E S T U D O B I O C L I M Á T I CO E P L A N O D E M A S S A S porém elementos de fachada serão propostos para que minimizem a incidência solar do oeste e norte. Além disso, a vegetação será pensada para proporcionar maior conforto térmico, segurança e privacidade, tanto aos moradores, quanto aos ususários do conjunto. Dessa forma, novas espécies arbóreas serão propostas no projeto. O centro do conjunto, ou centro de convivência, abrigará todas as atividades de lazer e permanência, sendo acessado pelas esquinas das ruas Zib Zogaeb e Saturnino Marques Ferreira, formando uma circulação cruzada pelo terreno. Os estacionamentos foram implantados nas extremidades do terreno, em vias pouco movimentadas, evitando a perda de espaço útil para o convívio da população, sem prejudicar o trânsito do entorno. Mapas elaborados pela autora
PLANO DE MASSAS 131
6.5
Proposta 1
Proposta 2
Proposta 3
EVOLUÇÃO DA FORMA
A partir das análises bioclimática e de fluxos no terreno, foram elaborados estudos da forma da edificação. Foi tido como princípio a disposição das unidades habitacionais no eixo leste-oeste para melhor aproveitamento da incidência solar, resultando na proposta 1. No entanto, para seguir essa linha de raciocício, seria necessária a criação de blocos separados, gerando sombra nas áreas livres e que não resultavam no melhor aproveitamento do terreno e no senso de unidade. Já na proposta 2, foram dispostos quatro volumes no eixo leste-oeste, resultando em um pátio central e uma forma retangular do conjunto. Porém, os volumes dispostos no centro barrariam a vista para o pátio central dos volumes nas extremidades, gerando espaços fragmentados e que podem trazer insegurança. Dessa forma, chegou-se na proposta 3, em que a forma retangular abriga todas as unidades habitacionais, que possuem vista tanto para o centro do conjunto, quanto para fora. É importante destacar que essa forma também segue um padrão de malha estrutural, contribuindo ainda mais para a identidade e união da edificação. A partir dessa ideia, a forma foi se adequando aos usos propostos e forma do terreno, como apresentado a seguir. Imagens: Autoral
132
Pátio central Formação de um espaço para uso comum central que contribua com as relações pessoais afetivas e criação de elos/vínculos com o conjunto e a comunidade.
Adequação da forma ao terreno A forma foi moldada de acordo com os acessos desejados, assim como a delimitação do terreno, permitindo uma maior aproveit-
Divisão de volumes
Passarelas
A abertura de acordo com os acessos propostos, abrindo o conjunto tanto fisicamente quanto visualmente. Além disso, os cantos do volume puderam ser melhor aproveitados com unidades..
Criação de acessos às unidades, unindo o conjunto fisicamente e visualmente, proporcionando identidade e unidade à edificação.
Sem escala
Acessos
Áreas privativas
Vida em comunidade
Malha estrutural de 3x3m 133
6.6
T É R R E O I M P L A N TA D O V E G E TA Ç Ã O E PAG I N A Ç Ã O
SETORIZAÇÃO
A paginação e canteiros foram criados pensados para proporcionar uma caminhada intuitiva entre moradores e usuários no terreno. Assim, duas tonalidades de PISOS DRENANTES foram aplicados, ou seja, pisos que fazem com que a água da chuva que cai retorne para suas camadas subterrâneas dentro da terra, reduzindo os riscos de alagamentos na área de instalação. Sua coloração se difere entre caminhos mais restritos aos moradores, que os levam para os acessos aos apartamentos, do piso para áreas de permanência pública. Já os canteiros foram compostos com GRAMA e ESPÉCIES RASTEIRAS, de forma que seu traçado e altura impeçam acessos indevidos no terreno. Piso Drenante
Grama Esmeralda
Grama-preta
Alta aderência em rampas, feito com 60% de água reutilizável, baixa condutividade térmica e drenagem acima de 90%
Zoyzia Japônica Resistente ao pisoteamento e sol pleno
Ophiopogon japonicus
Suporta áreas sombreadas. Altura = 30cm
Tipologia A - 36 unidades
Módulos comerciais - 5 a 20 módulos
Tipologia B - 40 unidades
Acessos verticais - 3 acessos
Tipologia C - 18 unidades
Sala de palestras e oficinas+terraço coletivo
A implantação do volume edificado se baseou no estudo bioclimático realizado e apresentado anteriormente. As áreas com melhor insolação para cultivo de alimentos foram priorizadas e, para melhor conforto dos moradores, os quartos foram mantidos para norte e oeste e áreas de menor permanência faceadas para sul e leste. Imagens: Autoral
134
LEGENDA 1 - M Ó D U LO S COM E RC I A I S 2 - S A L A D E PA L E S T R A S E O F I C I N A S 3 - VESTIÁRIOS 4 - D E P Ó S I TO D E M AT E R I A I S E L I X O PA R A CO L E TA CO L E T I VA ; C I S T E R N A E N T E R R A DA 5 -TIPOLOGIA A 6 - TIPOLOGIA B 7 - TIPOLOGIA C 8 - AC E S S O V E RT I C A L E B I C I C L E T Á R I O
1
2
4
1
1 Projeção
3
da
passarela
7
8
ACESSOS AOS MORADORES ACESSO RESTRITO - MANUTENÇÃO
1 1
5
5
7
7
5
5
6
6
6
5 7
8 5
5 6
7 5 6 6 6
7 5
5
6
6
5
6
5
8
T É R R E O I M P L A N TA D O 135
LEGENDA
1
1 - E N T R A DA DA S H O RTA L I Ç A S 2 - ENTRADA DOS BAMBUS 3 - P L AYG R O U N D 4 - ACADEMIA DA TERCEIRA IDADE ( AT I ) 5 - P L A N TA Ç Ã O D E BA N A N E I R A 6 - C A N T E I RO E L E VA D O D E E RVA S 7 - ALAMEDA 8 - T E R R A Ç O CO L E T I VO 9 - CAIXA D´ÁGUA 1 0 - E S TAC I O N A M E N TO
10 8 10
4
AC E S S O P Ú B L I CO 3 7 5
6
9 2 10
I M P L A N TA Ç Ã O 136
6.7
I M P L A N TA Ç Ã O ENERGIA SOLAR
ABASTECIMENTO DE ÁGUA
A cobertura proposta de laje impermeabilizada conta também com painéis fotovoltáicos em algumas das lajes. Estes foram propostos para ser instalados “On grid”, ou seja, conectados à rede de energia já existente na região. O cálculo realizado para a composição das placas considerou que a energia captada por elas será revertida apenas para uso público, como as áreas externas, módulos comerciais e sala de palestras e oficinas, visto que não existe, em cobertura, área útil para atender à demanda de todas as unidades habitacionais. Além do caráter sustentável, a diferença de inclinação das placas (21°) também gerou uma diferenciação de alturas na fachada, conferindo movimento aos blocos. TOTAL = 414 Placas de 1X1,64
O abastecimento de água do conjunto será composto por uma caixa d’água, servindo às unidades habitacionais, e uma cisterna enterrada, proposta para utilização pública e em áreas de irrigação. Apesar da altura de 13 metros necessária para a caixa d’água, optou-se por utilizá-la como elemento arquitetônico integrado ao conjunto, permitindo também que este se torne um marco na região. Duas estruturas curvas englobam a caixa d´’água, uma como um jardim vertical e, a outra, como um canva livre para elaboração de expressões artísticas. Caixa d´’agua
(60 células) ou 677,7m²: 275W 250 kwh/dia Fonte: CRESESB
Economia de R$166.626,72 por ano. Imagens: Autoral
Irradiação solar diária média mensal [kWh/m² dia] = 5,15 Valor da tarifa comercial (CPFL Paulista) = R$ 0,86/kWh
Painel livre
Jardim vertical com
Proposta de seguir a identidade visual do projeto.
Samambaia Americana Sem escala VOLUME = N° de pessoas x Litro por pessoa x dias de reserva = 114.300L*. * Considerando uma população de aproximadamente 381, além da população prevista futuramente.
137
6.8 Pav. Complementar
2
2
2
2
2
LEGENDA 1 2 3 4 -
- TIPOLOGIA A - TIPOLOGIA B - TIPOLOGIA C AC E S S O V E RT I C A L
3 4
1
1
3
3
1
1
2
2
2
1 3
4
1
1
2
3 1 2 2
2
PAV I M E N TO T I P O 138
4
3 1
1
2
2
1
2
1
O pavimento tipo é composto ape tipologias propostas, que serão apresent O acesso aos apartamentos se dá divididas em três áreas, respeitando a serão restritas aos moradores e acessada aumentando a segurança dos mesmos. feito por passarelas de 1,20m de largura do conjunto. O pavimento complementar cons livre, apenas composto pelos pilares de Assim, é possível que, futuramente, novo na estrutura pré executada, evitando g vizinhança. O pavimento livre, ou seja, sem no pelos moradores para atividades compl meditação, pequenas festas e jogos, a mesas multiuso, para refeições, estudo composto, em grande parte, pelos mora um uso informal e compartilhado, possib Imagens: Autoral
PAV I M E N TO S Caixa de escada Pav. Tipo Térreo
enas por unidades habitacionais, das três tadas posteriormente. á, verticalmente, pelas caixas de escada distância para fuga de incêndio. Estas as por portas com abertura por biometria Já o acesso horizontal à cada unidade é a, que se estendem por todo perímetro
siste na elaboração de um pavimento e sustentação do edifício e a cobertura. os módulos residenciais sejam inseridos grandes impactos gerados por obras na
ovos apartamentos, poderá ser utilizado lementares, tais como ginástica, yoga e além da possibilidade de espaços com os ou trabalho. O mobiliário poderá ser adores e seus pertences, resultando em bilitando novas trocas e relações.
PAV I M E N TO COM P L E M E N TA R 139
Imagem: Autoral
P E R S P E C T I VA G E R A L
A escolha da estrutura da edificação foi basea- Além disso, o CLT pode ser fabricado com madeiras da levando em consideração dois fatores importantes: de pouca qualidade ou pequeno diâmetro (normalPRÉ-FABRICAÇÃO e SUSTENTABILIDADE. Como vis- mente madeiras subutilizadas) (DOVETAIL, 2016). to ateriormente, é importante para o projeto que sua Laje de cobertura implantação não seja nociva ao meio ambiente, tamimpermeabilizada em CLT bém sendo importante considerar a racionalização da construção, de forma que a obra ocorra de maneira rápida e limpa. Pilar de MLC Dessa forma, a madeira foi escolhida como matéria-prima para a estrutura. O sistema de viga-pilar em Madeira Laminada Colada (MLC) e fechamentos das paredes e lajes em Cross Laminated Timber (CLT) Laje de piso em CLT trazem uma série de vantagens, tais quais:
1. Rapidez de execução; 2. Obra seca, sem descarte de resíduos nocivos; 3. Estrutura leve; 4. Estabilidade dimensional; 5. Isolamento acústico, com um Indice de redução de Ruído de 37dB - atendendo as exigências do terreno escolhido; 6. Baixo consumo de energia (GJ / m2) para sua elaboração e produção se comparado aos demais materiais.
Viga de MLC Vedação de CLT Membrana impermeável ao vapor e à água Barrotes Acabamento em reboco liso Sem escala
142
6.9 Para o pré-dimensionamento dos elementos estruturais, foram tidas como referências os catálogos da ReWood para os cálculos de vigas e pilares, e a CrossLam para dimensionamento das placas de CLT. Os vãos foram definidos seguindo o padrão para estruturas de madeira de 3 metros, que foi alterado apenas no setor comercial do edifício (para 6 metros de vão) para um melhor aproveitamento do espaço pelos usuários e comerciantes, resultando em vigas e pilares com secções transversais maiores. O pré-dimensionamento dos elementos estruturais também foram importantes para a criação dos módulos habitacionais, dessa forma, as três tipologias propostas possuem dimensões proporcionais à malha estrutural
SISTEMA ESTRUTURAL SECÇÕES M Ó D U LO S COM E RC I A I S
Largura do Pilar
Altura da viga
MÓDULOS RESIDENCIAIS
Largura do Pilar
Altura da viga
Para o dimensionamento das placas de CLT, foram consideradas as medidas de lamelas disponíveis no mercado, optando-se por uma placa de 5 camadas* de lamelas de 3cm, resultando em uma placa de 15cm..
Largura do painel de CLT *Os paineis de CLT possuem de 3 a 7 camadas, sendo que um maior número de camadas resulta na maior resistência ao fogo.
Imagens: Autoral
Sem escala 143
Imagem: Autoral
V I S TA DA PA S S A R E L A
TIPOLOGIA A T I P O LO G I A A QNTD.
AMBIENTE
36 sendo 2 PCD*
Dormitório Sala Cozinha Banheiro
Á R E A T O TA L ( m ²)
M E T R A G E M ( m ²) 13 8,5 9 5,5
JANELAS ELEVADAS Abertura pivotante horizontal Composição dinâmica da fachada para controle da ventilação e incidência solar.
36
0.12
2.78
2.78
2.78
2.82
0.46
2.20
2.78 1.85
1.70
2.78 1.85
0.50
2.82
Elevação 2
0.62
0.62
Elevação 1
0.46
2.78
2.82
2.20
0.50
2.78
2.20
2.10
2.82
2.78
0.50
0.12
*PCD: Pessoa Com Deficiência
Elevação 3
DIMENSIONAMENTO* DAS PLACAS DE CLT
Elevação 4 *A largura máxima do painel, admitida do Brasil, é de 11,90 metros.
JARDINEIRAS SEPARADORAS Permitindo a convivência entre vizinhos de tipologias C, mantendo a privacidade dos mesmos. Imagens: Autoral
146
6.10
TIPOLOGIAS RESIDENCIAIS 1
1
BANHO
BANHO COZINHA E LAVANDERIA
4
COZINHA E LAVANDERIA
2
DORMITÓRIO
4
2
DORMITÓRIO
SALA SALA ARMÁRIO BAIXO
TIPOLOGIA A
3
TIPOLOGIA A A DA P TA DA PA R A P C D
3
147
BRISES COM ABERTURA CAMARÃO Elemento flexível de fachada, permitindo o controle da incidência solar nos ambientes.
TIPOLOGIA B T I P O LO G I A B QNTD.
AMBIENTE
M E T R A G E M ( m ²)
Dormitório 1 Dormitório 2 40 Sala sendo Cozinha 1 PCD Banheiro Te r r a ç o
9.6 9,6 15,4 12,4 5 20
Á R E A T O TA L ( m ²)
72
*PCD: Pessoa Com Deficiência
2.78
Elevação 2
0.62
1.85
2.78
2.78
2.78
0.46 2.82
2.78
2.20
1.85
2.20
2.82
0.46
0.62
Elevação 1 2.78
2.78
2.82
0.50
2.78
2.20
0.50
2.78
2.20
2.10
2.82
2.78
0.12
0.12
PAINÉIS DE CLT
Elevação 3
DIMENSIONAMENTO DAS PLACAS DE CLT
Elevação 4
GRANDES TERRAÇOS Um bom espaço para o convívio com a natureza em escala privada, proposta para a tipologia em maior número. Imagens: Autoral
148
6.10
TIPOLOGIAS RESIDENCIAIS 1
BANHO
1
COZINHA E LAVANDERIA
BANHO COZINHA E LAVANDERIA
SALA
SALA
2
4
DORMITÓRIO
TIPOLOGIA B
DORMITÓRIO
3
2
4
DORMITÓRIO
TIPOLOGIA B A DA P TA DA PA R A P C D
DORMITÓRIO
3
149
TIPOLOGIA C
JANELAS ELEVADAS Preservando a privacidade dos moradores
T I P O LO G I A C QNTD.
AMBIENTE
M E T R A G E M ( m ²)
Dormitório 1
9,6
Dormitório 2
9,6
Suíte
16,84
Sala Cozinha
18,82 13,44
Banheiro
3,7
18 sendo 1 PCD
Á R E A T O TA L ( m ²)
72
*PCD: Pessoa Com Deficiência
2.78
0.50
2.78
0.50
PAINÉIS DE CLT
2.78
2.78 1.05
2.78
0.62
2.78
2.78
2.78
2.78
2.82
1.70
2.78
Elevação 2
0.50
1.70 0.50
2.82
0.62
Elevação 1 2.78
2.78
1.45
2.82
2.20
2.20
2.10
2.82
0.28
Elevação 3
DIMENSIONAMENTO DAS PLACAS DE CLT
Elevação 4
ACESSO PARA O JARDIM COMPARTILHADO Aproveitamento do volume retraído da tipologia A para novas aberturas e partilhamento de terraços. JANELAS MAIORES Abertura pivotante horizontal favorecendo a ventilação nos ambientes Imagens: Autoral
150
6.10
TIPOLOGIAS RESIDENCIAIS 1
1
COZINHA E LAVANDERIA
COZINHA E LAVANDERIA
4
SUÍTE
2
4
SUÍTE
2
SALA
BANHO
ACESSO PAARA O JARDIM COMPARTILHADO
DORMITÓRIO
TIPOLOGIA C
DORMITÓRIO
3
SALA
BANHO
ACESSO PAARA O JARDIM COMPARTILHADO
DORMITÓRIO
TIPOLOGIA C A DA P TA DA PA R A P C D
DORMITÓRIO
3
151
6.11
E S PA Ç O S P Ú B L I CO S COM É RC I O S
PORTAS DE CORRER DE VIDRO Permeabilidade visual
DIVISÓRIAS Realizadas em ripas de madeira. De acordo com a demanda por espaços dos próprios moradores para fonte de renda primária ou secundária.
152
P RO P O S TA D E M Ó D U LO COM E RC I A L COM D I V I S Ó R I A S
PA L E S T R A S E O F I C I N A S RENQUES DE ESTRELÍTZIA Espécie herbácia que pode chegar a 1.2 m Barreira física para evitar o acesso do terraço às passarelas
PEQUENAS PLANTAÇÕES Oficinas de hortas domésticas
REALIZAÇÃO DE ESTRUTURAS AO AR LIVRE PARA USO DA COMUNIDADE
CAPTAÇÃO DE ÁGUAS PLUVIAIS PARA A CISTERNA ENTERRADA Área restrita aos moradores
PAINEL DE MADEIRA Função de camuflar janelas dos vestiários e acesso de serviços Imagens: Autoral
153
Imagem: Autoral
FAC H A DA COM E RC I A L
DET. 01
DET. 02
CONEXÃO ENTRE VIGA-PILAR EXTERNAS
BASE DE CONCRETO PARA PILARES DE MADEIRA
0.22
Viga de MLC
Pilar de MLC
0.18
0.22
Parafusos autoperfurantes
Ferragem metálica com parafusos autoperfurantes
Chapa metálica de apoio “Pescoço” de concreto
Espaçamento de 2cm
Sapata de concreto
0.25
Pilar de MLC
ENTRADA DOS BAMBUS
0.25
01
R. PEDRO PAULO COLOMBARI
CO RT E A A 156
Imagens: Autoral
6.12
CO RT E S
ALAMEDA
Árvores de grande porte
Árvores de pequeno e médio porte
R. ASDRÚBAL FERREIRA BATISTA
02
157
6.12
CO RT E S
R. ASDRÚBAL FERREIRA BATISTA 01
CO RT E B B 158
Imagens: Autoral
DET. 01
DET. 02
CONEXÃO ENTRE VIGA-PILAR INTERNAS
TELHADO VERDE COM CAPTAÇÃO DE ÁGUAS PLUVIAIS
Dreno vertical
0.18
Viga de MLC
Ferragem metálica com parafusos autoperfurantes
Grelha de pavimento natural preenchidas com substrato Camada drenante
Manta impermeabilizante
Pilar de MLC Placa de OSB 0.22
02
R. PEDRO PAULO COLOMBARI 159
DET. 01
DET. 02
BASE DE CONCRETO PARA FECHAMENTO DE CLT
LAJE DE COBERTURA Manta impermeabilizante de EVALON - TPO
0.15
Membrana barreira de vapor Isolante térmico ISOFOAM
Parafuso autoperfurante
“Unha nervurada”
Rufo pingadeira
0.15
0.02
Barreira de vapor
0.15
0.10
Fechamento de
Cross Laminated Timber
Laje
Placa metálica
0.18
Base de concreto
Parafuso HBS fixado de maneira ortogonal em relação ao painel
R. DIB ZOGAEB
02
01
CO RT E CC 160
Imagens: Autoral
6.12
CO RT E S
ENTRADA DAS HORTALIÇAS
Topografia original
R. SATURNINO MARQUES FERREIRA
161
Imagem: Autoral
V I S TA DA C A I X A D ’ Á G UA
N
Forro de bambu e alumínio
L
Brises e janelas com forro de bambu trançado e tratato com verniz.
E L E VA Ç Ã O N O RT E
Paredes brancas, evitando grandes contrastes na paisagem.
Imagem: jFreepik
Esquadrias de alumínio.
164
Estrutura exposta madeira eucalipto.
-
E L E VA Ç Ã O L E S T E
6.13
E L E VA Ç Õ E S
165
6.13
E L E VA Ç Õ E S
E L E VA Ç Ã O S U L
E L E VA Ç Ã O O E S T E 166
O
S
A proposta de escolha de materiais simples e naturais, além de representarem soluções sustentáveis, também funcionam para compor uma paisagem harmoniza diante da paisagem natural, respeitando suas cores, formas e texturas, do cêu à terra.
167
Imagem: Autoral
ENTRADA DOS BAMBUS
6.14
ESPÉCIES ARBÓREAS E DE CULTIVO Plantação de bananeira (Musa ‘híbrido de Helen’), com bananas comestíveis
02
Plantação de bambu preto (Bambusa Lako) até 6 metros.
As espécies vegetativas do conjunto foram separadas em três grandes setores, além das espécies propostas para conforto térmico e visual dos moradores: 1. Hortaliças; 2. Frutas; 3. Bambus; A proposta do cultivo de alimentos e espécies diversificadas para artesanato e construções variadas proporcionará aos moradores uma nova visão e conscientização a respeito da natureza, aproximando-os da mesma a partir de um contato direto. Este contato, além da criação de vínculos com o território, também contribuirá economicamente como uma nova fonte de renda aos moradores, que terão espaço nos módulos comerciais para a venda do que foi produzido. Árvores para a identificação de entradas e sombreamento
01
Árvores de grande e pequeno porte já existentes no terreno Árvores de médio porte para sombreamento, mantendo a proporção da edificação e entorno Árvores adequadas para estacionamentos Árvores de copa cônica entre edificações, permitindo a composição das fachadas
SETORIZAÇÃO DE ÁRVORES 170
Árvores frutíferas
ARBÓREA Ipê amarelo H. serratifolius
Altura: 15-20m Diâmetro da copa: 12m *Estacionamento. Trará legibilidade aos acessos públicos e vagas para visitas.
Imagem: zacimoveis
ARBÓREA
Cereja-do-mato
Eugenia involucrata
Altura: 12m Diâmetro da copa: m Árvore nativa, atrativa para a avifauna e muito utilizada para reflorestamento. Imagem: jabuticabeira.com.br
ARBÓREA
Alfeneiro
Ligustrum lucidum. Altura: 7-10m Diâmetro da copa: 6-8m *Estacionamento. Proporciona sombra e possui raíz pouco agressiva. Imagem: obotanicoaprendiznaterradosespantos
ARBÓREA
Pau-formiga
Myrciaria Cauliflora Altura: 15m Diâmetro da copa: 4m *Copa de formato colunar a piramidal, se enquadrando nas reentrâncias do edifício. Imagem: jabuticabeira.com.br
No coração do conjunto, o pomar servirá como possibilidade para uma alimentação saudável. A escala reduzida das espécies contribuirá com sombreamento sem afetar as áreas de lazer de crianças e idosos.
D E T. O 1 C A N T E I RO E L E VA D O D E E RVA S Alecrim Orégano Coentro Sala
ARBÓREA
Tomilho
Limoeiro siciliano Citrus Limon
Altura: 4-6m Diâmetro da copa: 3-4m *Utilizada no pomar. Imagem: meumapamundi
ARBÓREA
Sem escala
Pitangueira
D E T. 0 2 C U LT I VO D E H O RTA L I Ç A S
Eugenia Uniflora Altura: 6-9m Diâmetro da copa: 3-6m *Utilizada no pomar. Imagem: revistagloborural
ARBÓREA
Jabuticabeira
Myrciaria Cauliflora
Cenoura Rúcula
Tomate Alface
Altura: 4-15m Diâmetro da copa: 7m *Utilizada no pomar. Imagem: jabuticabeira.com.br
Sem escala 171
Imagem: Autoral
P OM A R E C E N T RO D E CO N V I V Ê N C I A
MAQUETE ELETRÔNICA E N T R A DA DA S H O RTA L I Ç A S
MAQUETE ELETRÔNICA V I S TA D A R U A A S D R Ú B A L F E R R E I R A B AT I S TA 174
MAQUETE ELETRÔNICA P E R S P E C T I VA G E R A L
MAQUETE ELETRÔNICA AC E S S O P Ú B L I CO - S A L A D E PA L E S T R A S
Imagens: Autoral
MAQUETE ELETRÔNICA C A N T E I RO E L E VA D O D E E RVA S 175
A Noite Estrelada, Van Gogh, 1889 Imagem: MoMA The Museum of Modern Art
176
Campo de trigo com ciprestes, Van Gogh, 1889 Imagem: MoMA The Museum of Modern Art
7
IDENTIDADE VISUAL A composição deste caderno de TFG, para conclusão do curso de Arquitetura e Urbanismo, teve a arte como inspiração. As cores utilizadas na composição foram escolhidas a partir das cores encontradas na natureza, com destaque para o céu e sua mudança de cores causadas pela forma que os raios solares incidem na atmosfera ao longo do dia e estações diferentes. Para isso, também teve-se como base as obras de Van Gogh, Cypresses (1889), em que o céu e os cipestres são destaque e a Noite Estrelada (1889), em que a pintura do céu se tornou característica em suas obras pelo seu traçado ondulado. Além do céu, o amarelo era a cor mais importante utilizada pelo artista, pois simbolizava a verdade emocional. Ele usava amarelo como um símbolo de luz do sol, vida e Deus, podendo representar “o espaço, a liberdade, a luminosidade do sol, da vida, um campo aberto como ele gostava de andar em sua infância, observando os detalhes da natureza”. Além disso, acompanhando a temática do trabalho aqui apresentado, o afeto é um dos pontos chaves abordados para se alcançar a sustentabilidade e o convívio humano com a natureza. Assim, as ilustrações da artista e ilustradora Whooli Chen representam essa relação de forma delicada e sensível. A artista, nascida em Taiwan, realizou seu mestrado em ilustração na University of the Arts London, na Inglaterra. Sua inspiração na literatura e arte a levam para uma paleta delicada e camadas sensíveis de pintura. Seu trabalho na Mindful magazine, para o artigo “City Life” traz imagens inspiradoras a respeito de uma cidade sustentável, saúdavel e harmoniosa, trazendo uma carga de significados para o presente trabalho.
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8
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Paloma Monteiro