REFILADO - CADERNO JUVENTUDE É TRAVESSIA_01_05022025
05 DE FEVEREIRO DE 2026
EDITORIAL
Juventude não é espera. É travessia em curso. É corpo em movimento, voz que ocupa, ideia que insiste mesmo quando o cenário tenta empurrar para a margem. Este caderno nasce desse entendimento. Olhar a juventude de Fortaleza não como promessa distante, mas como força presente que reinventa a cidade todos os dias, especialmente nos territórios onde a desigualdade costuma ser regra e não exceção. Da Barra do Ceará ao Pirambu, do som que ecoa nas caixas de grave às barras improvisadas na praça, das salas de aula do Cuca aos palcos da dança e às rodas de capoeira, o que se vê aqui são experiências que conectam política pública, cultura, esporte, cuidado e pertencimento. São iniciativas que não romantizam a periferia, mas revelam sua potência criadora. Projetos feitos por quem vive o território, para quem vive o território, e que transformam acesso em permanência, e permanência em futuro possível.
Este primeiro caderno do Juventude é Travessia é um convite ao olhar atento. Um recorte que mostra que investir em juventude é investir em cidade, em democracia e em justiça social. Aqui, a juventude não pede passagem. Ela constrói o caminho, ocupa o espaço e segue em frente, atravessando.
EXPEDIENTE
EMPRESA JORNALISTICA O POVO
PRESIDENTE INSTITUCIONAL & PUBLISHER: Luciana Dummar
PRESIDENTE-EXECUTIVO: João Dummar Neto
DIRETORES DE JORNALISMO: Ana Naddaf e Erich Guimarães
DIRETOR DE JORNALISMO RÁDIOS: Jocélio Leal
DIRETOR DE ESTRATÉGIA DIGITAL E NOVOS NEGÓCIOS: Felipe Dummar
DIRETOR DE NEGÓCIOS: Alexandre Medina Néri
DIRETORA DE GENTE E GESTÃO: Cecília Eurides
DIRETOR CORPORATIVO: Cliff Villar
DIRETOR DE OPINIÃO: Guálter George
DITORIALISTA-CHEFE: Plínio Bortolotti
PROJETO JUVENTUDE É TRAVESSIA
CONCEPÇÃO E COORDENAÇÃO GERAL: Valéria Xavier | ESTRATÉGIA E RELACIONAMENTO: Adryana Joca e Dayvison Álvares | GERENTE EXECUTIVA DE PROJETOS: Lela Pinheiro | ASSISTENTE DE PROJETOS: Renata Paiva | ANALISTA DE OPERAÇÕES: Alexandra Carvalho e Raffaela Meneses | ANALISTA DE PROJETOS: Beth Lopes
Este produto é customizado pelo Estúdio O POVO.
COORDENADORA DE CONTEÚDO: Camilla Lima COORDENADOR DE CRIAÇÃO: Jansen Lucas | LÍDER DE PLANEJAMENTO: Luana Saraiva | ANALISTA DE MARKETING: Daniele de Andrade | REDAÇÃO PUBLICITARIA: Sofia Constance | TEXTOS: Amanda Sobreira
PERIFA SOUND SYSTEM
A CAPOEIRA DE MESTRE TEC TOY
POLAR CALISTENIA
CUCA BARRA DO CEARÁ
BALÉ JOVEM DO PIRAMBU
PRÁTICA ESPORTIVA
Movimento de calistenia e streeat workout leva movimento esportivo para a população do Vila Velha
CUCA BARRA D0 CEARÁ
Pioneiro na política pública voltada para à juventude, o Cuca Barra leva atividades de cultura, arte, ciências e práticas esportivas para jovens entre 15 e 29 anos
DANÇA
No grande Pirambu a dança tem sido instrumento de formação e afirmação para crianças e jovens
REGIONAL I: ONDE A JUVENTUDE CRIA CAMINHOS
A Regional I de Fortaleza abrange um território que reúne dez bairros da capital: Álvaro Weyne, Barra do Ceará, Carlito Pamplona, Cristo Redentor, Floresta, Jacarecanga, Jardim Guanabara, Jardim Iracema, Pirambu e Vila Velha. A região concentra uma população estimada em 344.510 habitantes. Para muito além das desigualdades, a Regional pulsa com iniciativas que tem como objetivo fortalecer sua juventude e se reafirmar enquanto espaço de convivência e pertencimento.
SOBRE O JUVENTUDE É TRAVESSIA
O projeto Juventude é Travessia: protagonismo que reinventa e move Fortaleza propõe uma ampla ação de comunicação e valorização das juventudes da capital cearense, com foco no protagonismo, na inovação e na participação cidadã. Por meio de conteúdos multiplataforma - jornal, portal, redes sociais, rádio e audiovisual - o projeto dará visibilidade a iniciativas de jovens que transformam seus territórios nas áreas de educação, esporte, cultura, tecnologia, empreendedorismo e cidadania.
A iniciativa é uma realização do Grupo O POVO, e dialoga diretamente com políticas públicas da Prefeitura de Fortaleza voltadas à juventude, como os Centros Urbanos de Cultura, Arte, Ciência e Esporte (Cucas), o projeto Jovens Monitores e o programa Academia Enem.
Jardim Guanabara
Jardim Iracema
Floresta
Cristo Redentor
Alvaro Weyne Carlito Pamplona
Jacarecanga Pirambu
Barra do Ceará
CUCA BARRA DO CEARÁ
O PONTO DE PARTIDA DE UMA
POLÍTICA QUE VIROU REDE
O impacto da iniciativa no território mostrou que investir em cultura, esporte e formação é também investir em pertencimento, protagonismo e futuro
Cuca Barra leva atividades de cultura, arte, ciência e 19 práticas esportivas para jovens
As políticas públicas voltadas para a juventude desempenham papel central na ampliação de oportunidades em territórios historicamente marcados pela desigualdade social. Fortaleza tem uma das principais referências nacionais no tema: a Rede Cuca, um verdadeiro hub de atividades de cultura, arte, ciências e práticas esportivas para jovens entre 15 e 29 anos, instalados em bairros com maior vulnerabilidade socioeconômica da capital cearense.
O primeiro Cuca foi inaugurado em 2009, na Barra do Ceará, no espaço onde funcionava o antigo Clube de Regatas da Barra. A implantação do equipamento marcou o início de uma política pública voltada à juventude em um território historicamente atravessado por desigualdades sociais. A experiência da Barra do Ceará deu origem, anos depois, à consolidação da Rede Cuca, formalizada em 2014 e expandida para outros quatro bairros da cidade: Jangurussu, Mondubim, José Walter e Planalto Pici.
“Essa grande rede se destacou como um espaço seguro para os jovens das comunidades, para as famílias e para toda a comunidade do entorno, oferecendo esporte, cultura, qualificação profissional, inserção no mercado de trabalho, bibliotecas, estúdios de áudio, música, fotografia e vídeo, com uma estrutura de muita qualidade. É um espaço dele, onde eles se sentem ativos e donos também do espaço. Isso por si só facilita qualquer adesão”, destaca o secretário da juventude de Fortaleza, Júlio Brizzi.
“A qualificação profissional e a área da empregabilidade dentro da Rede Cuca permitem que os jovens tenham acesso a cursos e vagas de emprego na própria comunidade, com acompanhamento e mediação, o que é algo transformador na vida desses jovens e das suas famílias”, afirma o secretário.
Segundo dados da Secretaria da Juventude de Fortaleza, desde a criação da Rede Cuca já foram realizados mais de 4,5 milhões de atendimentos, o que demonstra a alta demanda pelos serviços ofertados. Mas além da oferta de atividades esportivas e cursos diversos, os Cucas se tornaram espaços de convivência, formação e fortalecimento comunitário e, muitas vezes, as iniciativas extrapolam os limites do equipamento e se espalham pelos bairros levando serviços de saúde, orientação de empregabilidade, atividades culturais e ações educativas.
A política de juventude desenvolvida nos Cucas também aposta no protagonismo juvenil como parte do processo formativo. Por meio do edital de jovens monitores, estudantes que participam das atividades podem auxiliar nas próprias turmas, recebendo bolsa e formação complementar. “É um programa que fortalece a liderança, a responsabilidade e a participação ativa dos jovens na política pública. Eles deixam de ser apenas usuários e passam a contribuir diretamente para a construção das ações”, destaca Brizzi.
ESSA GRANDE REDE SE DESTACOU
COMO UM ESPAÇO SEGURO PARA OS JOVENS DAS COMUNIDADES, PARA AS FAMÍLIAS E
TODO O ENTORNO
Voleibol é apenas uma das modalidades esportivas oferecidas na Rede Cuca
Renda média mensal das pessoas na regional 1: R$ 1.865,79
Educação formal
O valor é inferior à média de Fortaleza, que é de R$ 3.084,07, evidenciando a persistência de desigualdades territoriais e a importância de políticas públicas com foco social e territorial
Outro eixo central da atuação da Rede Cuca é o estímulo ao acesso à educação formal, especialmente ao ensino superior, por meio de programas como o Academia Enem. A iniciativa oferece preparação gratuita para o Exame Nacional do Ensino Médio, com aulas presenciais, material didático e suporte aos estudantes, ampliando as chances de ingresso na universidade para jovens que, em muitos casos, seriam os primeiros de suas famílias a alcançar esse nível de formação.
> CUCA Barra: Av. Pres. Castelo Branco, 6417 - Barra do Ceará
> CUCA Jangurussu: Av. Castelo de Castro esq Av. Contorno Leste, s/n
> CUCA Mondubim: Rua Santa Marlúcia, s/n – Mondubim
Vagas na rede Cuca abrangem esportes, cursos, cursos de formação e atividades culturais
MESTRE TEC TOY
A Fundação Cultural Capoeira Sem Limite reúne ainda outras manifestações de matriz afro-brasileira como maculelê, samba de roda, samba duro, dança do coco e puxada de rede
Há mais de duas décadas, Mestre Tec Toy transforma a capoeira em ferramenta de educação, cultura e fortalecimento da juventude
A capoeira é uma das expressões culturais mais presentes nos territórios populares de Fortaleza e segue sendo ferramenta de formação, pertencimento e permanência de jovens na escola e na comunidade. No Grande Pirambu, uma das áreas mais populosas da Regional I, esse papel é exercido há mais de duas décadas pelo trabalho do mestre de capoeira Francisco Wellington Modesto Silva, 44, mais conhecido como mestre Tec Toy, criador da Fundação Cultural Capoeira Sem Limite. A iniciativa atua em diferentes bairros da cidade, mas mantém sua base no Pirambu, onde atende atualmente cerca de 140 crianças, adolescentes e adultos, integrando esporte, cultura e ações de incentivo à juventude. No total, o projeto alcança aproximadamente 420 jovens em Fortaleza.
A trajetória do mestre Tec Toy com a capoeira começou ainda na infância, no bairro Carlito Pamplona, quando, aos 9 anos, foi apresentado à prática por um amigo. “Eu sempre fui muito observador. Gostava de ver meus professores dando aula e ali eu decidi que queria ser educador social”, relembra. Nos anos 2000, esse desejo se transformou em ação concreta, com aulas gratuitas na escola Flávio Marcílio, no Pirambu, onde permaneceu por cerca de dez anos, antes de expandir o trabalho para outros territórios da cidade. Em 2021 criou a Fundação Cultural Capoeira Sem Limite.
As atividades da escola buscam ampliar o repertório cultural dos jovens e fortalecer vínculos comunitários. “Meu trabalho no Pirambu sempre foi uma forma de tirar os jovens das ruas e colocar dentro do esporte e da cultura. Isso gera respeito dentro da comunidade e muda trajetórias”, afirma o mestre.
Reconhecida como patrimônio cultural brasileiro, a capoeira segue, nesse contexto, cumprindo um papel que vai além da prática corporal, funcionando como espaço de educação, proteção social e afirmação identitária para a juventude da Regional I de Fortaleza.
Treino em família
A família da Talícia sabe bem da imporância do projeto. Depois do marido e do filho, ela e a filha menor também se renderam à capoeira e agora a família toda treina no projeto. “Meu filho tem 12 anos e já pratica há seis, meu marido já virou professor e eu, de tanto acompanhar o grupo, me rendi há 8 meses e vi minha ansiedade melhorar muito. Agora, até nossa filha de 4 anos já dança”, conta Talícia Nascimento.
Mestre tec toy atua há duas décadas como mestre de capoeira no Pirambu
Para além da capoeira O projeto também atua na orientação dos participantes para acesso a programas de incentivo, como Bolsa Atleta, ceará Atleta e Bolsa Jovem, que contribuem para a permanência dos jovens no esporte e na formação cultural
BALÉ JOVEM
DO PIRAMBU
Criado a partir da vivência da bailarina Ray Xavier, o Balé Jovem do Pirambu articula arte, memória e território por meio da dança na maior favela do Brasil
Quem faz
Ray Xavier Nunes, 33, é arte-educadora em dança há 18 anos e uma das principais referências da formação cultural de crianças e jovens no Pirambu. Mãe atípica, formada pelo curso técnico da Escola Porto Iracema das Artes e pela Escola de Ballet Lucymeire Aires, ela dirige o Balé Jovem do Pirambu, iniciativa criada a partir de uma vivência longa e contínua com a dança dentro da própria comunidade.
Onde essa história começa
O que começou com a vivência de uma bailarina criada no Pirambu, território marcado por profundas desigualdades sociais e reconhecido como a maior favela do Brasil, se transformou em um projeto que faz da dança um instrumento de formação, memória e afirmação para crianças e jovens de um dos bairros com menor renda e IDH de Fortaleza.
O retorno que virou ponto de virada
Em 2012, Ray retorna ao Pirambu como arte-educadora, depois de ter sido aluna de dança desde a infância na Sociedade da redenção, uma das intituições mais tradicionais do bairro. O reencontro com antigas alunas, que já não se encaixavam mais nas regras do projeto por causa da idade, do trabalho ou da universidade, acendeu uma faísca de algo novo.
Realizado às sextas-feiras, o projeto é gratuito e aberto à comunidade, reunindo moradores e profissionais convidados de diferentes linguagens de dança.
Quando dança vira encontro e propósito
Sem espaço formal, nasce um grupo de estudos que passa a se reunir aos sábados para dançar, conversar e pensar o corpo para além da técnica. Dessas trocas nasce o Balé Jovem do Pirambu, que há mais de dez anos ocupa palcos da cidade levando temas que atravessam a periferia: o extermínio da juventude negra, a vida na favela e as disputas por existir.
Quem faz o balé hoje
Atualmente, o Balé tem um elenco fixo de 22 jovens, entre 15 e 29 anos, além de turmas de formação que atendem crianças, adolescentes, adultos e idosos. Os alunos têm entre sete e 63 anos, num espaço onde ballet clássico, contemporâneo e jazz convivem sem hierarquia.
DA PARTICIPAÇÃO SOCIAL AO SOUND SYSTEM
Música, dança e empreendedorismo para fortalecer a comunidade e afirmar identidades periféricas
Existe um poder real nas mãos de quem acredita na participação social como caminho para melhorar a vida na comunidade. Quando as pessoas se reconhecem como parte ativa do território onde vivem e decidem se organizar e construir coletivamente, elas passam a transformar não só os espaços físicos, mas também as relações, as oportunidades e as formas de existir na cidade.
Foi a partir desse engajamento e do desejo de promover acesso à cultura como potencializador das identidades periféricas, nasceu, em 2017, na Barra do Ceará, o projeto Perifa Sound System. Muito além de um coletivo de música e dança, o projeto se consolidou como uma ferramenta de produção de eventos culturais, ações sociais e oficinas formativas para a comunidade.
“A gente promove ações de limpeza de praia, de redução de danos, arrecadação e distribuição de alimentos para os mais vulneráveis e temos uma feira mensal que gera renda para os empreendedores locais. A gente usa a cultura sound system como ferramenta de potencialização para a nossa comunidade”, explica a idealizadora do projeto, DJ Maresia
Perifa Sound System para muito além de música e dança, o projeto se transformou num movimento de inclusão cultural para todas as pessoas
A QUEBRADA PULSA MAIS FORTE QUANDO É OCUPADA
PELA NOSSA CULTURA
Na pegada da construção coletiva, Maresia foi encontrando e formando parceria com outras moradoras para fortalecer o projeto. Foi quando conheceu a pesquisadora e afro-empreendedora da estética preta, Denise Fonseca. Ela já movimentava as mulheres comerciantes do Conjunto Ceará em uma praça do bairro, quando se mudou para a Barra e ajudou a fortalecer a feira do bairro, que já conta com 22 empreendedores fixos impulsionando a renda local.
“Quando eu conheci a Dj Maresia, ela já fazia produção de eventos na comunidade, mas era muita demanda e eu me prontifiquei a ajudar, promover a feira dos empreendedores e também levar o meu trabalho de estética preta para o bairro”, explica Denise que trabalha trançando cabelos.
“Não é só trançar o cabelo, é um desejo de ajudar as mulheres negras a se verem bonitas como são”, completa a empreendedora que também é mãe.
Os projetos são desenvolvidos dentro do Cuca da Barra do Ceará e na quadrinha do Vila do Mar, pontos de encontro de jovens no território da Regional I, mas as ações estão se espalhando por toda a cidade difundindo a cultura como um movimento de resistência e ainda amplificando o protagonismo da juventude preta e LGBTQIA+ da periferia.
“Um dos pilares do nosso projeto é entender a inclusão cultural como um direito de todas as pessoas, especialmente aquelas historicamente marginalizadas, através de ações que valorizam as expressões artísticas locais narrativas de empoderamento periférico”, reforça Maresia.
QUEM FAZ?
Flavia Alves Sant Ana, 26, mais conhecida como DJ Maresia, é educadora social, produtora cultural e idealizadora do Perifa Sound System. Atua como articuladora do elo entre a informação e a comunidade, levando acesso à arte, cultura, esporte e lazer para espaços públicos periféricos, fazendo giro cultural e social através de eventos de música, dança, formações, exposições e feiras de empreendedorismo periférico.
Denise Fonseca, 28, cria da Barra do Ceará. Pesquisadora e afro-empreendedora no ramo da beleza de mulheres negras. Trabalha com tranças e ajuda na produção da feira de empreendedors da Barra, articulando participantes visando a ampliação de renda da comunidade local.
A Feira de Empreendedorismo conta atualmente com 22 empreendedores. O projeto impulsiona a geração de renda para os moradores do bairro, criando um espaço de escoamento para vendas de produtos artesanais, exposições e serviços da própria periferia.
O Perifa Sound System atua como um catalisador de transformação social e cultural na Barra do Ceará. É um movimento que pulsa arte, cultura, dança, empoderamento criativo, sustentabilidade e artivismo nas periferias cearenses.
Denise começou a trançar na pandemia para sustentar o filho
Dj Maresia
produz o Perifa Sound System desde 2017
PROJETO JOÃO KAIQUE: FAMÍLIA TRANSFORMA
LUTO EM AMOR PARA CRIANÇAS NO CARLITO PAMPLONA
Ao longo do ano, toda a comunidade se reúne para garantir momentos de cuidado, alegria e direito à infância às crianças do bairro
Gabriel Lima virou voluntário para proporcionar alegria e brincadeira para crianças da comunidade
Débora e Paulo Ricardo são moradores do bairro Carlito Pamplona e idealizadores do Projeto João Kaique. O casal transformou a dor da perda do filho, João Kaique, vítima de um trágico acidente ainda na infância, em uma ação coletiva de cuidado e memória. A partir do luto, decidiram criar um projeto que homenageia o filho não pelo sofrimento, mas pelo sorriso, fazendo da solidariedade um caminho para alcançar outras crianças da comunidade.
Tudo começou no Dia das Crianças de 2014, com um pequeno torneio de futebol para cerca de 30 crianças da rua onde o casal morava. Mas aos poucos, o projeto ganhou proporção para atender todo o bairro e adjacências. Hoje, além da grande festa do Dia das Crianças, o projeto João Kaique também realiza ações na Páscoa, no Dia das Mães e no Natal, com o objetivo de garantir momentos de alegria, atenção e dignidade para crianças que crescem em uma realidade marcada pela escassez.
O crescimento do projeto se deu a partir da força da própria comunidade, sustentado por doações, bingos, bazares e uma rede de amigos que acreditou na proposta desde o início. “A gente vinha de um momento de muita dor, mas todo mundo embarcou nessa ideia maluca e cheia de amor, para fazer com que, algumas vezes ao ano, as crianças da comunidade possam simplesmente ser crianças de verdade”, explica Débora.
Com 12 anos de sucesso no bairro, muita gente, que começou brincando no projeto, cresceu e hoje atua como voluntário, ajudando a festa acontecer.
Nos dias de festa, a programação inclui campeonatos esportivos, oficinas, pintura de rosto, brincadeiras, entrega de medalhas, troféus, brinquedos e pelo menos dois lanches ao dia para cerca de 500 crianças. “A realidade das crianças da periferia é outra e é gratificante você proporcionar um momento desse de vez em quando para ver o sorriso no rosto delas”, garante Débora.
O cuidado que volta
O consultor técnico, Gabriel Lima da Silva Alves, trabalha como voluntário do projeto. Quando criança, ele foi uma das pessoas beneficiadas na comunidade. Hoje, com 24 anos de idade, ele quer mudar a realidade das crianças, assim como a dele foi modificada. "No dia em que participei do projeto pela primeira vez, senti que aquele dia era totalmente para eu ser criança. Aquilo abriu meus olhos para o quanto a realidade que eu vivia era pesada e como era importante ter, pelo menos uma vez, um Dia das Crianças de verdade. Foi isso que mudou minha visão e me fez querer me voluntariar no projeto, para mostrar a outras crianças da comunidade que a infância delas não precisa ser só sofrimento”, compartilha.
POLAR CALISTENIA: OCUPANDO O TERRITÓRIO E
TRANSFORMANDO O CORPO
Quando a cidade vira
academia e a juventude movimento
Você já ouviu falar em calistenia?
Talvez o nome não seja tão popular, mas a cena é conhecida. Barras na praça, na praia ou no meio do bairro, gente treinando força, equilíbrio e fazendo movimentos que parecem desafiar a gravidade.
Quando esse treino sai do papel e ocupa as ruas, as praças e os equipamentos urbanos, ele ganha outro nome: street workout. É a calistenia em diálogo direto com a cidade. Barras fixas, paralelas e estruturas públicas viram uma academia a céu aberto, especialmente em bairros onde o acesso a espaços privados de treino é mais limitado.
Esse tipo de prática surgiu na França, no século 19, e, inicialmente, foi muito utilizada para o treinamento militar, por ser uma metodologia simples, possível de ser realizada em qualquer lugar. Em Fortaleza, esse movimento cresceu de forma orgânica, puxado principalmente pela juventude periférica, que passou a ocupar praças e espaços públicos para treinar. Foi assim que, em 2019, nasceu o Polar Calistenia, na praça do Polar, no bairro Vila Velha, na Regional I.
A iniciativa partiu do designer gráfico Vinícius Souza, de 22 anos, morador do bairro. O que começou como uma forma de movimentar o corpo e ocupar a mente, rapidamente virou ponto de encontro. Amigos, vizinhos e outros praticantes passaram a se reunir na praça, formando um grupo que, no início,
tinha como foco disputar campeonatos locais e regionais.
“Eu nasci e moro no bairro Vila Velha e, em 2019, querendo treinar e me movimentar, tive a ideia de colocar uma barra na praça do Polar. A partir disso fui conhecendo outros praticantes e a gente montou uma equipe para disputar campeonatos. Hoje, além de competir, a gente também organiza eventos, como o campeonato que realizamos em setembro aqui em Fortaleza” Vinícius Souza
Com o crescimento do número de atletas e a chegada de praticantes de outros grupos e cidades, o Polar deixou de atuar apenas como equipe competitiva e passou a se afirmar como um movimento de calistenia e street workout. A partir dessa virada, surgiram iniciativas como os mega treinos de natal e o projeto Tour Calistenia, que promove treinos e eventos em pontos turísticos de Fortaleza, ampliando a visibilidade do esporte e aproximando novos públicos da modalidade.
A calistenia é o método. O street workout é a prática nas ruas. Ambos usam apenas o peso do corpo, mas no street workout os treinos acontecem em barras e estruturas urbanas e incluem movimentos mais técnicos e acrobáticos, como bandeira humana e parada de mão.
Nascido no bairro Vila Velha, o Polar é um movimento de calistenia e street workout com o propósito de expandir o alcance e a cultura da modalidade
PRA CONHECER MELHOR INICIATIVAS PARA JOVENS
CONTEÚDOS DISPONÍVEIS EM ESPECIAL.OPOVO.COM.BR/JUVENTUDEETRAVESSIA
Balé Jovem do Pirambu
Modalidade: Dança (balé)
Localidade: Pirambu
Instagram: @balejovemdopirambu
CUCA Barra
Modalidades: Esportes, dança, música
Localidade: Av. Pres. Castelo Branco, 6417 - Barra do Ceará
Instagram: @redecucaoficial
Perifa Sound System
Modalidade: Música, feira de empreendedorismo e ações sociais