Skip to main content

Planeta Seca

Page 1


178 municípios em situação de emergência.

O mesmo drama tem novos cenários

As estratégias de convivência reduzem migrações e exigem outras práticas

Um professor que faz a diferença, no meio do sertão, e não deixa a escola fechar

EDITORIAL

SanfONinHA

CHORaDEIRA

Como revisitar um cenário tão familiar e, ao mesmo tempo, tão diferente? Diante da seca que, mais uma vez, assola o Ceará, este é o desafio a que nos propusemos. Um olhar diferente é preciso nestes tempos de 2012. Os signos são os mesmos. As estratégias que vêm sendo implantadas pedem mais complexidade na observação.

Com esta constatação, os profissionais do O POVO pegaram a estrada. Por onde quer que começassem o roteiro, se deparariam com o que a seca traz de devastação.

Logo os jornalistas Cláudio Ribeiro e De- mitri Túlio, a fotógrafa Sara Maia e o mo- torista Valdir Gomes viram o cenário que é uma construção da nossa cultura: carcaça de gado abandonada na secura da estrada, ronda dos urubus, vegetação seca, água escassa e fome rondando.

Eles percorreram mais de 2 mil quilôme- tros, durante seis dias. Passaram por 16 muni- cípios e outros tantos confins e cafundós. E, se pelas zonas rurais, lugarejos e cidades en- contraram as marcas dramáticas da falta de chuva, também viram outras realidades. Já não se migra tanto. Já não se vê as levas de retirantes saqueando. Os lugares de nas- cença do cearense já não se tornam terra de mulheres sem marido e filhos esqueléticos.

Na narrativa dos jornalistas, a busca de dar conta de todas essas questões. É fato que

EXPeDIENTE

se diminuiu o impacto social da seca e se pode notar uma convivência renovada com o fenômeno, não se pode ignorar a necessidade de políticas permanentes e criativas para reduzir a insegurança hídrica e alimentar.

Afinal, como observa o jornalista Gilmar de Carvalho, a seca não é novidade. É exceção. E, dessa forma, ele alerta: “A convivência com o semiárido implica em criatividade, em práticas que levam a uma convivência mais amistosa com a terra”. E pede a proposta de uma nova estética, de uma nova linguagem, “para um enfrentamento efetivo dos problemas crônicos.”

Enquanto isso, para a narrativa que segue nestas páginas, os repórteres Ana Mary C. Cavalcante, Cláudio Ribeiro, Demitri Túlio e Émerson Maranhão foram beber na fonte do baião e no fole da sanfona do centenário de Luiz Gonzaga, cuja cantoria se espraia como a pintura clássica do nosso drama. Boa leitura!

PROJETO GRÁFICO

VeRTiGEM BRANCA

Entre a luz cortante que cega e sangra a paisagem e os galhos da mata branca que espetam a vista, o projeto gráfico do especial Planeta Seca faz seu traçado rasgando as páginas. A tipografia, que remete aos galhos e cicatrizes, marca as fotos, atravessando de forma violenta o deserto com seus seixos, carcaças e histórias de gente que quer vida. As colunas de texto, em contrastes de tamanhos, tremem a retina feito vertigem de calor e desordenam intencionalmente a leitura. A simplicidade é complexa. O minimalismo deixa ao observador aquilo que resta. E não é pouco: é branco, é seco, é incômodo e, por que não dizer, é desesperador. Existe beleza, também. Tudo isso serviu de inspiração para essa narrativa visual que escoa através desse sertão recriado de papel jornal e tinta. (Gil Dicelli)

OLHA O CÉU MUDOU DE COR/ LUA SE ESCONDEU/ SENSITIVA FLOR MURCHOU - “ALVORADA NORDESTINA”

e edição: DEMITRI TÚLIO E CLÁUDIO RIBEIRO; Textos: CLÁUDIO RIBEIRO, DEMITRI TÚLIO, ANA MARY C. CAVALCANTE E ÉMERSON MARANHÃO; Fotos: SARA MAIA;

E AMAURÍCIO CORTEZ; Coordenação gráfica: ANTÔNIA

Diretor Geral de Jornalismo: ARLEN MEDINA NÉRI; Diretora-Executiva da Redação: FÁTIMA SUDÁRIO; Diretor Adjunto da Redação: ERICK GUIMARÃES; Coordenação
Projeto gráfico e edição de Arte: GIL DICELLI
MARIA COUTINHO; Pesquisa: BANCO DE DADOS/O POVO; Infográfico: PEDRO TURANO; Edição de Imagens: IANA SOARES; Tratamento de Imagens: ROBSON PIRES; Apoio: VALDIR GOMES. O POVO – AV. AGUANAMBI, 282

demitri@opovo.com.br MEU

CAFUNDOS

DE UM P0VO DO S0L SoL

Notícias chegaram de Ematuba (nos Inhamuns) quando fizemos pouso na desertificada Irauçuba (região Norte do Ceará). Um cafundó distante 36 km da sede do município de Independência. De Emiliano Nunes, um jovem técnico da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ematece), as informações eram de que a pindaíba de gente e gado, por lá, era extremada. E, sem exageros, os relatos feitos por Emiliano não incluíam a dificuldade para se chegar até o destino. Trinta e seis quilômetros transformados em muito mais (ida e volta) de uma estrada carroçável e solavancos. Chegase ali quem é repórter ou quem tem algum negócio certo. Ou não se aguenta de saudade do lugar onde se rebentou um dia. É longe Ematuba. E na seca parece que fica mais distante. A maioria das pessoas, conta Maria do Zé Evandro, chega uma hora que não suporta mais e vai embora do distrito que só tem como certa a água da chuva. Isso quando chove, mesmo ruim, durante o “inverno”. Falta água e todos que prometeram levar abastecimento para lá nunca cumpriram as promessas. Desde que Maria de Zé Evandro se entende por gente, hoje tem 64 anos, e o marido, 72, vê “o povo que nasceu no sol” ir embora. De cabeça, somou 50 casas que foram se esvaziando da paciência. Mudaram de praça. Foram para sede em Independência,

DEMi TRI TULIO

Claud Io Ribeiro claudioribeiro @opovo.com.br

Crateús e Fortaleza. Restam uns 500 crédulos (sede, sítios e fazendas) ou conformados com a situação que piora nos meses de estiagem.

to do Governo do Estado, datado de 2007, desfaz a esperança de implantação de um sistema de abastecimento via Projeto São José. O pequeno número de beneficiários e as distâncias dos manancias “de água salobra” foram as justificativas para emperrar a possibilidade de uma obra.

Em 2009, a Fundação Nacional da Saúde (Funasa) se recusou a analisar o “pleito” por “água federal” porque a Prefeitura de Independência não costumava prestar contas de acordos firmados com o governo em Brasília. E, no ano passado, uma tomada de preço para a construção de uma adutora ficou pelo meio do caminho dos interesses políticos.

Na seca as coisas se agravam. Dia sim, dia não, um carro-pipa estaciona em frente ao patamar da igreja e despeja oito mil litros d´água num tanque. Quem chega primeiro enche as burras, as vasilhas e os “manés-magos”. Uma vara longa sobre duas rodas e de se sustentar nos ombros. Transporte, geralmente empurrado pelas mulheres de Ematuba. Feito Cícera Tomé Mendes de Oliveira, 45, que carrega de uma vez só sete botijões ou 140 litros d´água no lombo. “Dá para beber, cozinhar e tomar banho por dois dias”. Na casa dela não tem marido e há dois filhos adolescentes.

“Meu amigo, o homem já foi à lua, está perto de ir a Marte e nenhum governador, prefeito ou político trouxe água para Ematuba. Pode?”, ironiza Zé Evandro de dona Maria. (Demitri Túlio e Cláudio Ribeiro).

nEM PaLmA

NaSCE mAIS

Maria de Zé Evandro, nascida Maria do Socorro de Almeida Gomes, decidiu entrar na política pela porta da Câmara Municipal de Independência. Pra ver se mudava o destino de Ematuba. Mas nem como vereadora conseguiu água para os canos do lugarejo. Um arraial, povoado típico dos sertões inimagináveis, surgido ao redor de uma matriz visitada aos domingos por um padre passageiro. O padroeiro, por ironia ou propósito, é São José. Na pasta de peleja de Maria de Zé Evandro há uma infinidade de documentos. Pedidos e pareceres sobre a viabilidade de se trazer água. Um documen- SETEMBRO PASSOU / OUTUBRO E NOVEMBRO... / MEU DEUS, QUE É DE NÓS, / MEU DEUS, MEU DEUS / ASSIM FALA O POBRE / DO SECO NORDESTE“A TRISTE PARTIDA”

No sol de lascar da localidade Santa Cruz, em Independência (309 Km de Fortaleza), região dos Inha- muns, a roça de palma não vin- gou. Por falta de água mínima, qual- quer umidade, sereno da noite que fosse. Triturada ou cortada em tiras, a palma espinhenta serve de comida para o gado e qualquer bicho esfome- ado das brenhas do Ceará. Francisco Gerôncio Soares, 45, mostra o plantio, justamente numa área atendida pelo projeto de suporte forrageiro. As palmas foram fincadas no chão duro em julho. Desde abril o céu já era sem nuvem. Só esperança não aduba a terra. E as palmas enver- garam murchas. Tentamo palma, leucena, sorgo, mas cadê água? Tem o que vingue, não”, diz Gerôncio. Estende o braço e mostra o cercado perdido. Um hecta- re de palma e mais dois para a leuce- na. Iria tudo para o gado esfomeado. Para ter como matar o ócio e re- forçar o ganho de casa (de mulher e dois filhos), Gerôncio vai a outras propriedades oferecer serviço. Cobra R$ 3,50 pela braça (medida equiva- lente a 2,5 metros). “Tô fazendo uma de mil braças. É o que a gente tem pra fazer aqui, viu?”. (CR/DT)

ARTiMaNHaS

SOBReVIvEr SOBReVIvEr DE

A aridez extrema do clima em Pentecoste, pegando fogo às 10 da manhã, não desfez as aulas na Escola de Ensino Infantil e Fundamental João Rodrigues Cordeiro. Sim, alterou o cotidiano de três professores e dos 47 estudantes de 3 a 16 anos que experimentam do maternal ao 7º ano. Por causa da falta d’água, na manhã em que estivemos no lugarejo de Sítio do Meio (um poeiral grande quando o automóvel passa e caatinga desmatada), a aula teve de terminar mais cedo. À tarde não funcionou.

Naquele dia (e em alguns outros) faltou água de beber e para cozinhar a merenda. Mas Lindomar Rocha de Alcântara, 39, professor polivalente, pai de aluno e coordenador do colégio, se desdobrava em sua moto nas estradas de areia e pedra para resolver o reabastecimento de uma cisterna e uma caixa d’água de 5 mil metros cúbicos. O carro-pipa viria, estava certo. “Nesse tempo é assim mesmo. Mas a escola não fecha”, garantia na palavra. Confiante. Fechar, fechar, não é a seca que põe em risco a continuidade da escola municipal. Pior do que a estiagem, confidencia Lindomar Rocha, são os “interesses imprevisíveis da politicagem”. Em 2009, a pequena João Rodri-

*O POVO entrou em contato com a Secretaria da Educação de Pentecoste por telefone e email, mas não obteve retorno. (Demitri Túlio/Cláudio Ribeiro) ESTOU NO CANSAÇO DA VIDA / ESTOU NO DESCANSO DA FÉ / ESTOU EM GUERRA COM A FOME / NA MESA, FIO E MULHER / SER SERTANEJO, SENHOR, / É FAZER DO FRACO FORTE / CARREGAR AZAR OU SORTE / COMPARAR VIDA COM MORTE“TERRA, VIDA E ESPERANÇA” NÃO NASCEU CAPIM NO CAMPO PARA O GADO SUSTENTAR O SERTÃO SE ESTORRICOU, FEZ O AÇUDE SECAR“VACA ESTRELA E BOI FUBÁ”

ALUNOS

de 3 a 16 anos estudam na Escola de Ensino Fundamental João Rodrigues Cordeiro, em Sítio do Meio (Pentecoste), dirigida pelo professor Lindomar Rocha

gues Cordeiro só não parou de funcionar porque o professor reuniu boa parte das 72 famílias da Associação de Moradores de Sítio do Meio para que evitassem um prejuízo ainda maior para meninos e meninas daquele pedaço do semiárido. A justificativa para o fechamento, explicava Lindomar Rocha, seria uma atecnia burocrática que retirava da escola o direito de receber investimentos dos governos Federal e Estadual. Porque funciona num prédio da Associação de Moradores é como se não existisse no mapa do Ministério da Educação. “Em 2008, depois de muito impasse e reuniões, a Secretaria da Educação de Pentecoste e do Estado prometeram construir um novo espaço para abrigar a escola”, pontuava. Mas a interferência de um vereador à cata de eleitores e a reclamação de que a nova escola seria construída distante das casas dos estudantes de Sítio do Meio inviabilizaram a obra. Enquanto isso, relatórios da própria Vigilância Sanitária de Pentecoste atestam, desde então, “que o teto tem de ser refeito, que as paredes estão rachadas, que as portas têm de ser trocadas e novas carteiras adquiridas...”, mostrava, papelada na mão, Lin- domar Rocha. No dia em que estivemos em Sítio do Meio seguindo o rastro da seca deste ano, numa manhã de uma terça-feira (16/10) de mormaço, o burburinho de alunos nem passava recibo sobre os problemas ali existentes. Porque o transporte escolar está quebrado há meses, boa parte da meninada ia voltar pra casa a pé. Acompanhados hora pelo que ainda resta de mata branca ou por grandes vazios de pasto e desertificação. E também pelo incentivo de um professor que não se rende aos tempos de deserto: seja político, seja da natureza.

ERA TEMPO DE PESCAR PASSARINHO

Noutras secas, fome matava gente. Se não levasse um, deixava menino de costela magra, desmastreado, e desespero na cara dos pais. Era reza e o improviso de comer qualquer coisa para matar a fome. Até dia desses, em Apuiarés, também era assim. Agora parecem só histórias. Os nascidos no arrastado das secas dos anos 1970 e 1980 trazem isso como marca de suas infâncias. Numa roda de conversa, diretores do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Apuiarés vão lembrando. Elizângela Neres nasceu no ano da seca de 1981. Aquele estio começara em 1979 e prolongou-se até 1983. “Lá em casa passamos fome, sim. A gente comia feijão com açúcar”, diz. “E feliz de quem tivesse o feijão”, completa Idavan Vieira, 40, presidente da entidade. Na precisão, o pai dele safava a família caçando preás, tejos, pebas... “Hoje, num ano desses de seca, nossos filhos escolhem qual biscoito comer.” Vicente Andrade, 39, fala de “pescar” passarinho. “Estendiam a tarrafa no meio do mato e os passarinhos ficavam presos na rede. A gente comia passarinho frito e farinha. Era milho torrado e água, pra descer”. Os avós lhes contavam que, na seca de 1958, enchia-se prato e bucho era com cuscuz de semente de mucunã. Foi a comida de seus pais . O caroço preto, lavado em nove águas para largar o amargo, depois pisado no pilão, servia de forro ao estômago vazio. Enganava. Lembra que a paga dos bolsões da seca para seus pais era em litros de farinha. “Nossos filhos hoje não acreditam que já foi assim”, diz Idavan. (CR/DT)

URubU URubUnAo da conTa

Parece mesmo seca das antigas. Nas fazendas Rancho da Mata e Castelo, em Morada Nova, “urubu não dá conta”. A frase, do próprio dono, é definitiva. Desoladora. As aves carniceiras têm se banqueteado neste tempo de estio, diz o pecuarista José Nobre Granja, 45. Suas propriedades têm bicho morto espalhado por toda parte. De fome. De 450 cabeças do rebanho bovino, perdeu 150 até o início de outubro. Ovelhas e cabras, morreram 450 das 750. As carcaças estão espalhadas. “Se a gente fosse enterrar...” O patrimônio de Aleluia, como é conhecido, feito ao longo de 20 anos justamente na compra e venda de gado, reduziu-se a menos da metade. Bastaram seis meses deste 2012. A estiagem bateu forte, o rebanho afinou, fraquejou e caiu. Chão duro, seco, sem pasto

REBANHO

José Nobre Granja,de Morada Nova, perdeu 150 cabeças de gado de um total de 450. No período de seis meses também per- deu mais da metade do rebanho de ove- lhas e cabras. Diz que há carcaça em toda propriedade com uma mangueira e botijão de gás de cozinha. Para queimar os espinhos de xique-xique crescidos em suas terras. A planta acumula água e era o que gado estava mascando. Só os que ainda tinham força para caminhar. “Os novilhos tão tudo fraquinho”. Aleluia tem este ano como o mais severo dos seus dias de criador. Produzia 1.200 litros de leite por dia, baixou para 400. “Havia comprado várias vacas leiteiras de R$ 2.500. Perdi quase todas. Perdi dois reprodutores holandeses puros. Um de R$ 9 mil e outro de R$ 5 mil”. Tenta um empréstimo bancário, para frear a bancarrota, mas não tem mais o que dar de garantia e o crédito é negado. Aleluia é dos criadores mais ricos. É um exemplo dos grandes. E dos muitos, os que tinham poucos bichos e ainda perderam? Feito seu Gerardo Joaquim Rodrigues, de 66 anos? No distrito São José, em Irauçuba, onde mora, dele derrearam duas das 13 vacas. Outro, seu Maurício de Araújo Chaves, 90, re-

algum, e a falha na distribuição de milho do Governo Federal ajudaram a piorar. No balcão da Conab, Aleluia teria direito a comprar até 288 sacas do grão por mês. “Pois tava recebendo uns 10 e olhe lá. Mas faz mais de mês que não vem”, afirmou. Isso na segunda quinzena de outubro. No início deste novembro, começou a normalização do estoque regulador com a chegada do milho que estava atrasado. Para alimentar os bichos, teve que se arranjar. O pecuarista comprou fardos de palha de arroz, pagou resíduo e farelo caro e aplicou vitamina nos bezerros que bambeavam. Até improvisou. Fez uma gambiarra e armou um maçarico,

cuperando-se de uma cirurgia, perdeu “umas 15” das 50 cabeças. “Tem mais duas fraquinhas ali...”. Irauçuba tem passado por alta mortandade do gado, diz Emiliano Nunes, técnico da Ematerce. Impossível contar as perdas animais. Nas 16 cidades percorridas pelo O POVO histórias dessa mortandade animal. E carcaças no caminho. Em Banabuiú, teve mais problema, afora a falha na distribuição de milho. Apesar do grande açude ao lado da cidade, falta água para os rebanhos de grandes criadores. Desde maio, segundo a assistente técnica da Defesa Civil do Estado, Ioneide Araújo, o órgão recebeu o pedido de criadores para que os carros-pipa também levem água para dar aos animais. Em Irauçuba, segundo Emiliano Nunes, esse quadro piorou também. Pelo critério do Exército, que coordena a Operação Pipa, a água dos caminhões é somente para consumo humano. Sem ter o que beber, as reses obviamente berram para morrer. Mesmo no meio de tanta lamentação, é o próprio seu Maurício, de Irauçuba, que lembra: “No tempo de meu nem água tinha. Hoje até tem ali no Boqueirão. Seca sempre foi seca. Hoje tá é melhor. Antes nem tinha nada”. Ioneide Araújo, entende que “a seca de hoje é pior, mas tem mais suporte”. Imagine se pior estivesse... (Cláudio Ribeiro/Demitri Túlio)

GADO VAI, VOLTA METADE

De há muito, sempre nos tempos de seca, o caboclo tangeu para os pés-deserra suas bezerras e vacas de corte e leite. Para que escapassem da fome no terreiro sem pasto. Ficavam em propriedades de amigos, com a paga pelo local. Isso passa hoje por adaptações de mercado, para usar o tom dos negócios.

Agora, para transferir seu rebanho castigado pela estiagem, o pecuarista (pequeno, médio ou de grandes criações) manda seu rebanho para alguém e recebe só a metade dele de volta. No sufoco, sem ter como bancar o alimento do bicho, negócio fechado!

Muitas vezes, o interessado que oferece a transação ao criador é até desconhecido. No termo técnico, o acordo é chamado de subpastejo - agora, nessas condições. Quando inverna, a chuva chega, as reses são devolvidas. Devidamente recontadas para menos.

“Tem criador aqui que deu 400, 500 cabeças, e pegou só a metade de volta. Agora é assim. É o jeito”, conta seu Maurício Rodrigues. Se tentar vender, a perda é pior. Experiência própria, ele teve gado que já valeu R$ 2.500 e “hoje não tem quem dê R$ 700”. (CR/DT)

UNS AGUA AGUA DE

Para muitos encontrados no rastro desta sequidão, a água de beber só entra no copo e na panela de cozinhar se for a dinheiro vivo. Não há fiado. Se não pagar, não tem. Mesmo com os quase 700 carros-pipa gerenciados pelo Exército Brasileiro, a água é pouca. Porque a demanda é demais. E aí parte-se para o negócio da seca. Matar a sede na cédula. Em Irauçuba, o tanque que é de carregar tilápia em tempos de fartura vira carro-pipa improvisado e dá lucro. A caixa plástica semitransparente vai para cima de carrocerias e circula para venda do líquido. Surge um, os meninos largam o campo de futebol, param até a bola. Gritam avisando aos pais que lá vem o caminhão. É R$ 2,00 que o caminhoneiro paga para coletar água na beira do açude de água suja, esverdeada. Mas ele a revende por R$ 25,00, R$ 28,00, até R$ 35,00, a carga de um tanque de mil litros. No distrito São José, o veículo para em frente às casas e logo dá correria. A mangueira vai para a boca dos baldes plásticos, tonéis e qualquer vasilhame maior.

“Dizem que se lucra até R$ 1 mil por dia. É mesmo muita gente procurando”, diz Emiliano Nunes, técnico da Ematerce no município. Dá fila, mesmo que pela manhã o pipa oficial do Exército já tenha passado derramando água nas cisternas e recolhendo o tíquete comprovando a entrega.

No critério do Exército, a água distribuída é medida em 20 litros/pessoa, a medida de um balde caseiro que mal dá para um banho decente. Mas é esse o jeito. Outra regra do carro-pipa oficial: a água só é entregue em cisternas distantes 500 metros umas das outras. Por isso a população se vê obrigada a comprar dos demais pipeiros.

Em Itapajé, cidade vizinha que ainda não tem um açude para abastecer a própria sede municipal - terá somente com a inauguração

em breve do açude Ipu -, a rotina urbana de se comprar água não é diferente. “Moro aqui na sede e se não comprar água, ora, não tenho o que beber em casa”, diz o gerente da Ematerce para Itapajé e Irauçuba, Fernando Mesquita Araújo. Segundo ele, 65% da população de Itapajé vive na sede do município e é abastecida por cacimbões do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) instalados no alto da serra, mas o atendimento é insuficiente. E na seca piora. “Pago R$ 12,00 por mil litros d´água. É o jeito”, admite Mesquita. No distrito de Ematuba, a 36 km de estrada carroçável da sede de Independência, sem nem canos para trazerem água em tempo de inverno, paga-se inevitavelmente. Dona Maria do Socorro Almeida Gomes desembolsa R$ 35,00 para cada 3 mil litros. Que só darão para os próximos 15 dias. De beber, ela ainda tem recursos para pagar por garrafões de água mineral - a R$ 5,00, cada. E quem não tem essa condição financeira?

Em Pentecoste, dá até intriga de vizinhos. Vamos poupar nomes nessa história para não piorar discórdia - até entre os que são parentes. “Ela é minha afilhada, mas cismou de dizer que não passo água”, diz a dona da casa que recebe água a cada três dias. Pela regra, a água deveria ser também para os moradores próximos. “Pois tenho essa cisterna há quatro anos e nunca botei água se não fosse compran- do. Veio até um candidato a vereador aqui na eleição passada e me deu dois pipas. Mas dela aí - a madrinha vizinha - nunca pedi”, conta a afilhada. Pente- coste tem cinco rotas da Operação Pipa do Exército. Abastecem cisternas de 5.495 pessoas de 132 localidades. E a água ainda não dá. Mais tivesse, mais pre- cisaria. (Cláudio Ribeiro/Demitri Túlio)

CASAR E FENECER NO ESTIO

”Macambira morre, xique-xique seca, juriti se muda...”. O trecho da cantiga, de autor não identificado, está na memória e no discurso de João Cordeiro de Souza, 80. É dele a necessidade de falar sobre a seca deste anos e compará-la com outros tempos de retirada e precisão extrema.

A experiência de 2012 para o agricultor, e dono de alguns hectares de muita areia na comunidade de Macambira (Pentecoste), foi pior do que a vivida em 1958.

Naquela seca, recorda, “as grotas e os açudes ainda resistiam mesmo em outubro. Hoje, os quatro barreiros que tenho estão todos secos”.

O medo de seu João Cordeiro, de aparência largada e metido num calção frouxo, é morrer meio ao tempo ruim. “Casei na seca, em 1958, e talvez morra também no tempo dela”, diz do agouro. (DT/CR)

O que técnicos da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) classificam como a sexta pior seca, ocorrida no Estado desde 1958, pode ser medido em pessoas e lugares. Os últimos dados da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil do Ceará, atualizados em fins de setembro, revelam: 1.884.338 pessoas, moradoras dos 178 municípios que declararam estado de emergência, foram afetadas pela estiagem de 2012. Apenas seis cidades cearenses não compõem este mapa.

Perdas agrícolas e dificuldade de acesso à agua traçam o retrato dos atingidos. A quantidade de chuva, entre janeiro e maio (período demarcado como a “quadra chuvosa”), ficou abaixo da média – entre 33% e 54% negativos - em todas as macrorregiões do Ceará, observou a Funceme.

Foram 352,1 milímetros registrados, colocando 2012 no ranking das piores estiagens desde quando a Funceme iniciou o monitoramento, relata o meteorologista Paulo José dos Santos: 1958 – 230 milímetros, 1998 – 270 milímetros, 1993 – 290 milímetros, 1983 – 315 milímetros e 2010 – 320,7 milímetros.

Somando relatórios da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce) e da Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA), calcula-se em 69,37% as perdas na safra total. A SDA avaliou a produção de grãos em sequeiro (oleaginosas, cereais e leguminosas), típica do semiárido, e mandioca, entre janeiro e julho – o tempo da safra de 2012.

“Dos 182 municípios avaliados - considerando a safra de grãos e mandioca - 166 sofreram perdas maiores que 50%. Destes, 87 sofreram perdas acima de 80%”, sublinha o 13º relatório “Situação da Safra Agrícola de Sequeiro” (SDA). Colheu-se menos 85,85% do que se esperava. Em síntese, deu-se a “pior safra dos últimos 17 anos”.

Os sertões de Inhamuns/Crateús e de Canindé, o Vale do Jaguaribe e Sobral estão entre as regiões mais afetadas pela seca de 2012. E quando a plantação morre de sede, o homem padece com a fome: Crateús (74.249 atingidos), Crato (65 mil atingidos), Tauá e Cascavel (37.667 atingidos, cada) espelham os cidadãos da estiagem. “Temos uma inse-

Ana Mar Y C. Cavalcante

anamary@opovo.com.br

gurança alimentar e hídrica maior. O Estado não produz o que é necessário para seu consumo”, avalia Marcus Vinícius de Oliveira, diretor técnico do Esplar – Centro de Pesquisa e Assessoria (ONG atuante no semiárido cearense desde 1974). Ele explica que a insegurança hídrica está na baixa dos reservatórios – açudes ou cisternas. Já a insegurança alimentar vem anexa à alta nos preços dos alimentos. E o agricultor passa a comprar o que não conseguiu produzir, como o milho e o feijão. “E há uma descapitalização grande, quando ele vende os animais que serviam de ‘poupança’”. Entre perdas e danos, de algum modo salvaram-se todos por uma convivência renovada com a seca. “Políticas assistencialistas”, relaciona o especialista, “diminuí-

ram o impacto social” da estiagem no Ceará. Não se veem mais as levas de retirantes ou os múltiplos saques dos famintos, literariamente retratados por jornalistas e escritores.

“A previdência social chega ao campo, no fim da década de 90. Fernando Henrique começa o programa de transferência de renda e o Lula prosseguiu. Isso mudou o perfil no campo e diminuiu a vulnerabilidade dessas pessoas”, aponta Marcus Vinícius. Ao passo em que avançam projetos de boa convivência com o semiárido – como Um milhão e cisternas e P1 +2, uma terra e duas águas. “Outra questão é a ambiental, os agricultores já têm como preocupante. O cuidado com seu espaço aumentou. E a água é vista como um bem”, completa.

Hoje a desesperança do sertanejo não é, necessariamente, anunciada pelo mau tempo. “Os programas (pautados por editais) não têm continuidade. É necessário que se tornem mais permanentes, de longo prazo, para saber onde queremos chegar”, considera o diretor técnico do Esplar. O problema ainda é resolvido com paliativos. Até setembro deste ano, a Defesa Civil do Estado recebeu R$ 10 milhões do Governo Federal para realizar a distribuição de água por carrospipa. Outros R$ 13 milhões foram para a limpeza de poços profundos, soma Ioneide Araújo, assistente técnica da Defesa Civil.

O Ceará tem 94 municípios inscritos no Programa de Distribuição de Água – Operação Pipa, de acordo com informações da Seção de Comunicação Social da 10ª Região Militar. O programa é desenvolvido com 679 carros-pipa e atende a 720.412 pessoas. MAS DOUTÔ

Os meses de fevereiro a maio compreenderam a estação chuvosa de 2012 no Ceará, demarca a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). O déficit de chuva que caracterizou a sexta pior seca dos últimos 54 anos tem influência da temperatura dos oceanos Atlântico (Sul e Norte) e Pacífico. O aquecimento e o resfriamento dos oceanos, combinados a outros fatores naturais (como a geografia local), resultam em menos, ou mais chuvas para a região, sintetiza Paulo José dos Santos, meteorologista da Funceme.

“Anos de El Niño são mais secos (ao contrário do fenômeno La Niña, quando há um

resfriamento da temperatura do Pacífico)”, traça o meteorologista, em linhas gerais. Este ano, observa, o Atlântico Sul estava neutro, o Norte foi aquecido e o Pacífico apresentou La Niña fraca. “São eles (oceanos) que determinam se a estação vai ser chuvosa ou seca. Não tem uma periodicidade certa, há indícios. O período é irregular, não tem uma causa certa”, explica Paulo José. Os meteorologistas esperam, então, uma resposta do Pacífico sobre a previsão para 2013. “Em dezembro (quando é possível perceber resfriamento ou aquecimento da sua temperatura), já pode ser determinado. Ainda é muito cedo”, conclui Paulo.

LIXAO LIXAO EXODo PARA O

No itinerário da seca, fomos bater em Russas. Um dos municípios da região do Jaguaribe leiteiro e fruticultor. Optamos pela sede em vez do Interior. É que estávamos atrás de confrontar uma dúvida que nos ocorreu no camnho da reportagem. Estariam os agricultores migrando para a zona urbana de suas cidades e ali se transformando em catadores de lixo? A seca, a falta de comida, a batida escassez de oportunidades e a falta de tecnologia para o pequeno produtor estariam desenhando um novo cidadão?

O assunto renderia uma investigação científica. Mas algumas pistas estavam ali. No lixão de Russas, a catadora Maria Odete dos Santos, 60, aos gritos, pedia ao padre Marcos Brito, pároco de Russas, que se aproximasse para conhecer o pedaço onde ela trabalhava numa manhã quente de semiárido. Enquanto não apresentamos a personagem, padre Marcos Brito faz algumas observações de quem comanda um rebanho 69.892 habitantes entre a zona urbana e a rural. Principalmente os jovens, anota o sacerdote, estão migrando atrás de se empregar nas indústrias que se instalaram nas sedes dos municípios e vizinhança. Além de também procurarem os campi das universidades. Russas não foge a regra. No último censo, o de 2010, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou um crescimento populacional e um inchamento da sede: são 45.007 mil pessoas para 24.885 moradores nos “sítios”.

45.007

O,35 PESSOAS

CENTAVOS

vivem na sede do municípios de Russas e 24.885, na zona rural, segundo o IBGE É quanto ganha o garoto Edilson, que foi para o lixão, em busca de sobrevivência

Ponto dois. Dificilmente, o velho agricultor de enxada e queimada, esse da lida de inverno a estiagem, faz sucessores num semiárido tão desprovido de inovações para a convivência com fenômenos ambientais previsíveis a exemplo da seca. O padre grifa: quem efetivamente ainda tem essa preocupação e estimula a organização popular é a igreja Católica, mas são iniciativas para a subexistência. E ainda bem que hoje se tem cisterna de placa. “Olhe, tem muita água irrigada para o agronegócio. Canais e eixões da integração que passam dentro de grandes propriedades. Mas para a agricultura familiar a experiência é outra”, critica Marcos Brito.

A luta mais recente nos faz reencontrar dona Maria Odete dos Santos, agricultora aposentada que se transformou em catadora de lixo, em Russas. A igreja de padre Marcos Brito, a que fez opção preferencial pelos pobres, está organizando

os “recicladores de resíduos sólidos” para que não percam mais um bonde da história. É que em 2014, os 5.500 municípios brasileiros que possuem lixões têm de se adequar a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Isso significa que o lixo terá outra valoração capital e o catador terá status de “agente ambiental”. “A Associação dos Catadores de Material Reciclável de Russas tem de estar preparada para ser protagonista nessa nova realidade, caso contrário ficará nas mãos dos empresários”, alerta padre Marcos Brito. Em tese, o lixão de Russas será extinto e a vizinha, e mais organizada, Limoeiro do Norte ficará com o controle de um moderno aterro sanitário para reciclagem e compostagem do lixo produzido por municípios num raio de 60 quilômetros. “Estamos no lixão porque a agricultura faliu”, teoriza na prática Maria Odete dos Santos. Uma negra esguia, cheia de disposição aos 60 anos e quatro filhos adultos em Fortaleza. Ela, filha de uma família de agricultores de Barbalha (Cariri), que pediu para não ser fotografada. “É que cozinho para um empresário e pode não pegar bem ele me ver aqui no lixão”, sorri na despedida. (Demitri Túlio/Cláuido Ribeiro)

Menino, nos 12 ainda, Edilson Silvestre de Castro ajudava os pais na roça em Palhano, na localidade Cedro Santana. Aprendia as primeiras lidas da enxada, feito muitos de idade pouca - é assim que é no Interior. Aos 25, “Pequeno” agora cata lixo em Russas. Começou a ganhar dinheiro com as sobras alheias logo que ficou maior de idade. Migrou da roça para o monturo por achar que ali havia “mais chance” (termo dele) do que na sequidão. Já foi catador de caju “e não era melhor”. Diz que outros têm aparecido, também vindos de áreas rurais.

O “melhor”, de que fala Pequeno, é ganhar R$ 0,35 por quilo de plástico catado. Ou R$ 0,15, se for ferro ou outro metal. Enche bolsões de 25 kg e repassa ao intermediário. ganha perto de R$ 800/mês. Chega às 7h30, sai às 17h. “Lá na minha cidade tá seco é demais. Aqui me acostumei, já”, admite. Agora, é assim que é. (CR/DT)

VeRDE VeRDE

NO CiNZA

Percorre-se léguas tiranas no asfalto ou no poeiral. A floresta está sem folha. Tudo acinzentado. De repente, o verde que nem o “dos óio” da moça versada por Humberto Teixeira e entoada por Luiz Gonzaga em Asa Branca “se espaia na prantação”. A água dos pivôs de irrigação borrifa e pinta o verde até longe. No distrito Realejo, na fazenda Curralinho, em Crateús, plena seca, e 50 toneladas de amendoim prontas para a colheita. Seriam apanhadas no dia seguinte à visita do O POVO. Arranca-se na mão, de baixo da terra, a vagem com o fruto. Atente: safra perdida de tudo no Estado e lá o chão, com a aguação garantida, milagrando fartura.

A fazenda também produz feijão, milho, mamona e sorgo. Os governos Federal e Estadual são os principais compradores dos grãos, informa o empresário João Beckman Filho, 25, proprietário do local.

Por conta da irrigação, a Curralinho garante por ano pelo menos duas safras de qualquer uma das cinco culturas. São dali as sementes de milho e feijão que serão distribuídas ao pequeno agricultor entre o fim deste ano e começo de 2013. Serão justamente as primeiras a brotarem nas chuvas da próxima invernada. Há de chover, se Deus quiser, como reza a fé.

de Geografia e Estatística (IBGE), o Ceará tem 117.060 hectares de área irrigada - entre projetos federais, estaduais e de particulares. Os segmentos de fruticultura, floricultura e de milho e feijão são os principais. Deixar o chão produtivo mesmo quando tudo ao redor está na secura não é barato. No caso da fazenda Curralinho, de 125 hectares, o proprietá- rio investiu R$ 300 mil só para adquirir o pivô central, de 75 metros (o local tem dois). Para manter a propriedade, segundo Beckman Filho, são R$ 15 mil/mês. Mas há vantagem. Quando tudo esturrica e só resta o produzido da irrigação, aí o apurado melhora. Os preços saltam. “Numa safra a gente arrecada R$ 400 mil, em média”, diz o empresário.

Segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA), da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ematerce) mais os números do censo do Instituto Brasileiro

diaristas chegam a trabalhar na Fazenda Curralinho em época de colheita.

A fazenda Chapadão, do Tabuleiro de Russas, de 110 hectares, também está produzindo sementes - de milho, soja e feijãopara chegar no roçado dos pequenos agricultores de todo o Ceará. Os grãos também serão silados para dar comida ao gado. Todas as etapas de produção são mecanizadas e o pivô não para de circular sobre o milharal. “Pra nós, quanto mais seco melhor, porque posso controlar a água no plantio como quiser”, explica seu Juarez Ferreira, 62, gerente da fazenda. No sol a pino, ruim pra uns, vantagem de outros. (Cláudio Ribeiro/ Demitri Túlio)

Feliz do pequeno agricultor que um dia consiga um lote como irrigante, em perímetros assistidos pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs). Tá o povo se lamuriando por toda banda de Ceará e seu Francisco de Assis Silva, 41, nos seus quatro hectares, em Pentecoste, colhendo coco, banana e manga. Vende por mês seis milheiros de coco e até 25 de banana prata da boa. Enche carradas, que vão para a revenda em feiras e mercados. A manga é “só para casa mesmo”, consumo dele, mulher e três filhos ou dos passarinhos. Assis era aguador de outro irrigante quando conseguiu seu lote. Hoje trabalha das seis da manhã às seis da noite. “Quem quer pode fazer, mesmo se for aqui”, diz o gerente executivo do Perímetro Curu-Pentecoste, Sérgio Medeiros. Lá estão 650 famílias em 1.200 hectares. Cada lote tem de quatro a cinco hectares, mas trabalham associados. Juntos, mensalmente, produzem 2 milhões de cocos, 400 toneladas de banana, uma tonelada de graviola, 2 mil toneladas de cana de açúcar e mais uma tonelada de maracujá. Os irrigantes, segundo Medeiros, pagam despesa mensal de R$ 22 mil. A seca até afeta a distribuição de água, admite, mas controlam para que não caia a produtividade. “Um perímetro desse é um presente de Deus. Não vejo o Ceará viável se não for por irrigação”, diz o gerente. (CR/DT)

O OASIS DE

RaChEL

Coube no nosso roteiro a ida ao Não Me Deixes, em Quixadá, o sítio que per- tenceu à escritora Rachel de Queiroz. O lugar já batizou obra da cearense e ins- pirou, das memórias da autora, o cená- rio descrito no livro O Quinze. O amor de Conceição pelo cabra Vi- cente, ele encoberto nas vestes sujas de poeira avermelhada e ela sonhado- ra, teve a grande estiagem de 1915 como pano de fundo. Naquele ano, apodreceu muito bicho morto pela caatinga próxi- ma, muito olho de menino magro esbu- galhou, e reza não faltou. A paisagem seca está ao lado, mas o Não Me Deixes é oásis. Tem açude cheio, latido gasguito de seis vira-latas, a boa sombra de fruteiras. Não tá fácil, mas não é o pior lugar dali. “Tá sendo muito ruim mais para os bichos. Nou- tros tempos, nessa hora não tinha pai de família em casa. Ia embora todo mundo. Agora, todo mundo em casa, co- mendo, forte. Ninguém se preparava pra seca. Agora tem o que guardar pra outra seca”, diz seu Manoel Chagas, 66, o ca- seiro do bom lugar. (CR/DT)

QUECeU nos PRovENha PRovENha

OA seca ainda surpreende quem habita o semiárido nordestino. Não havia de ser. A mesma história tantas vezes amanhecida... De Itapajé, município rochoso e com sinais de desertificação, na região Norte do Ceará, vem o exemplo simbólico deste espanto datado. Só agora, a cidade terá um “grande” açude para aprender a conviver com o tempo da exceção.

Diferente de outros lugares, a situação pior está no dia a dia da zona urbana. O testemunho é de Fernando Antonio Mesquita, gerente da regional da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematece).

tem 48.350 habitantes, segundo IBGE/2010/Anuáriodo Ceará. Os principais recursos hídricos são os açudes São Miguel, São Francisco e A Maia, bacia do Curu. Há 78 poços profundos.

O abastecimento d´água na sede do município sempre foi um gargalo. Segundo Fernando Mesquita, “65% da população de Itapajé está na área urbana e tem acesso precário à água para o consumo”. Ele mesmo, pessoa de situação financeira acima da média do lugar, compra água para beber, cozinhar e tomar banho. “Pago R$ 12,00 por mil litros. A zona rural se vale dos carros-pipas, dos cacimbões e da água da serra”, informa o engenheiro. O problema da falta de um reservatório eficiente para Itapajé, tão antigo quanto a primeira anunciação sobre a descoberta da seca (bem antes da ocupação lusitana), só virou pauta entre burocratas e políticos há 50 anos. E, finalmente, quis o destino que fosse nesta seca do 2012, a conclusão do açude Ipu. Previsão de entrega para este mês. Um leito avermelhado, com fundura de 20 metros, capaz de receber 4,85 milhões de metros cúbicos

4,8

milhões de metros cúbicos de água é a capacidade de armazenamento do açude Ipu, a ser inaugurado em Itapajé de água doce e que custou R$ 7.018.976,24. Dinheiro de contribuintes, revertido pelos governos Federal e Estadual. O açude Ipu, considerado de pequeno porte se comparado ao mar do Castanhão (6.700.000.000 m³, em Jaguaribara), dará para o gasto diário em Itapajé. Agora, é torcer por chuva abundante feito a de 2009 e festejar o nascimento da barragem cavada no leito (seco) do riacho Ipu. No pé de uma serra, na localidade de Sítio Lagoa. Quando tiver nascido, o açude Ipu se integrará à bacia do Curu-Aracatiaçu. Forma que o QUANDO O SOL TOSTOU

Ceará encontrou, há pouco mais de dez anos (governo Tasso Jereissati), para ir aprendendo a guardar e distribuir água em tempos de vacas gordas ou magras. Uma lição da cartilha de José do Egito que merece elogios. Porém, a democratização das águas ainda é pensa. Vezes, os canais só correm entre as grandes propriedades. Não fosse assim, os governos teriam riscado ou tornado menos usual a rubrica “emergencial” de suas pastas (ler páginas 7, 8 e 9). Porque em 2012 choveu muito abaixo do esperado (em maio foram - 81,5%), a impressão que fica quando se vai para os longes do sertão cearense é que ainda se vive da mão pra boca. Faltam permanências sustentáveis para o conviver no bioma caatinga (já bem depauperado). Bilhões públicos para minimizar os prejuízos e os desesperos de 2012 aparecem como favores oficiais (em crédito, bolsa estiagem, garantia safra, bolsa família, etc). Mas o efeito não é perene nem transforma o homem o campo. Vitimiza. Tantas águas já correram, tantos rios já secaram e a Operação Carro-Pipa ainda é uma realidade. “São 20 litros d´água por dia para cada pessoa ou 100 litros por família de cinco”, avisa o Exército. Um vai e vem de 679 pipas. (Demitri Túlio e Cláudio Ribeiro)

PEiXe PEiXe O onde E QUe

Fazer matéria pelo meio dos sertões tam- bém exige saber receber. No Boqueirão, um povoado de 20 famílias de pescadores do Ba- nabuiú (sertão Central), dona Francisca Lili, 55, nos oferece copos d´água para matar a sede. Um gosto de açude e a pergunta dela sobre nosso suposto incômodo por causa da bebida não tratada, abre as portas da casa para uma conversa sobre a seca.

O marido de Lili, o pescador profissional Raimundo Caetano da Silva, 62, um negro es- guio de cabelos já embranquecendo, se apro- xima. Desde os 7 anos de idade “vive pela beira d´água” do Banabuiú. Sua felicidade, re- pete em palavras acanhadas, é ter pelo menos o de beber. Água sobrando por esses meses de estiagem é bênção. “O peixe sumiu dos anzóis. Antes de ontem, voltei pra casa sem nenhum. Mas temos a sorte de chegar outubro e não ter pe- rigo de morrer de sede”, reconhece Raimun- do Caetano. Com a seca, as águas do terceiro maior reservatório do Ceará (1.601.000.000 de metros cúbicos) baixaram de 87% para 60%. de sua capacidade. Por semana, Raimundo Caetano conta que pescava de 80 a 100 quilos. Com o sumiço das chuvas há sorrisos quando se traz a mis- tura do almoço e janta. Mas o casal e os cinco adultos não passam necessidades. Não as mesmas experimentadas por habitante do semiárido que viram as pequenas e médias barragens secarem. A aposentadoria de Rai- mundo e a plantação de milho, feijão e bata- ta na beira do Banabuiú vão dando para o sus- tento enquanto o tempo não se refaz. No município, que leva o mesmo nome do açude, 20% da população vive da pesca. Tanto assim que, em períodos de abundância, é comum comercializar três toneladas de pes- cado por dia. Quando o ano é de inverno bom há fartura de tucunarés, sardinhas, curimatãs, piaus, pescadas, tilápias...

Mas há contradições inexplicáveis. Apesar do município beirar o açude, há desabastecimentos e situação de calamidade para a maior parte dos habitantes da bacia do Banabuiú que lidam, principalmente, com a agricultura ou pecuária. Há emergência em Morada Nova, Ibicuitinga, Quixeramobim, Quixadá, Boa Viagem, Monsenhor Tabosa, Madalena, Pedra Branca, Senador Pompeu, Mombaça e Piquet Carneiro.

“Tem gente daqui (Banabuiú) que não tem água para beber”, informa Antônio Edvane, o Didi, coordenador dos Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Secretaria da Agricultura. A prefeitura de Banabuiú, segundo Didi, foi uma das primeiras do Ceará a pedir ao Governo do Estado cargas d´água para dar de beber ao gado. Foi depois que produtores das comunidades de Caraúba-Rinaré, Tanquinhos, Lagoa de Cima, Ferrolândia, Caatinga e Quiniporó fizeram apelo temendo a mortalidade dos rebanhos de bovinos, ovinos e caprinos. Pelas contas da Prefeitura, Banabuiú tem pelo menos 19 mil cabeças de gado ameaçadas pela estiagem. “O pasto se foi e a dificuldade com a falta de milho continua. Foram pou-

cos os criadores escritos para comprar o milho da Conab (Companhia Naci- onal de Abastecimento). Pelo governo, a saca fica m torno de R$ 22,00. No comércio, chega a custar R$ 45,00 ou R$ 50,00. Nem mesmo o grande fazen- deiro aguenta o preço”, reclama Didi. Banabuiú, distante 214,3 quilômetros de Fortaleza, é considerado um municí- pio essencialmente rural. Com a quebra de 100% da safra, tem 2.090 pequenos produtores incluídos no Garantia Safra e 800 recebendo o Bolsa Estiagem (ler páginas 8 e 9). E ,infelizmente, “o povo das águas” ainda se submete aos carros- pipas. “O Exército (Governo Federal) dá meia pipa d´água (4 mil litros) e a Pre- feitura a outra metade”. (Demitri Túlio e Cláudio Ribeiro)

Esta é uma história de quando o acaso jornalístico mata uma grande saudade. Pois dona Francisca Lili Gomes, 55, tinha uns 13 anos ou menos, ainda morava em Quixadá, quando viu pela última vez um braço de parentes - tios e primos - que moram em Fortaleza. Hoje ela vive com o marido em Banabuiú, na beira do açude, na comunidade de pescadores do Boqueirão. Dá 12km até o asfalto. É longe, mas não para as coincidências. A equipe do O POVO estava lá, no roteiro desta seca, para saber dos pescadores sobre a pouca fartura de peixes nesse céu de estiagem. Na conversa já amena, nem mais entrevista era, e dona Lili disse do amargor de uma saudade - como a de Qui Nem Jiló (“Porém se a gente vive a sonhar/ Com alguém que se deseja rever/ Saudade, entonce aí é ruim...” - Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira/1950). - “Vocês, que são lá da Fortaleza, será que conhece uns parente meu?”. Dona Lili,

Fortaleza é grande demais. Como é o nome deles? Vai que conheço... - “É Everardo, irmão de Ednardo”. Bem, conheço dois com esses nomes. São filhos de quem? De seu Geraldo, já falecido, e dona Salete? - “Era meu tio. Ai, meu Deus. O senhor conhece mesmo? E como ela está?” E lembrou de todos... Chorou. A pedido do repórter, gravou um vídeo, que chegou a dona Salete, onde fala de suas saudades. (Cláudio Ribeiro)

ORACaO

a seca

GILMAR DE CARVALHO

gildecar@uol.com.br

A seca não nos comove mais. É a regra (destino). A chuva é a exceção (utopia). A novidade é que deve ser noticiada. Isso, talvez, explique o silêncio da mídia e dos governantes diante do acontecido neste cáustico 2012. Foi-se o tempo da Triste Partida, das levas dos migrantes que buscavam refúgio na exuberância amazônica, no desenvolvimento paulista ou na construção de Brasília.

A seca notabilizou o que hoje chamamos de Nordeste (e que foi Norte, durante muito tempo). O registro destas catástrofes se perde no tempo. Vem muito antes dos desmatamentos, da especulação imobiliária, e do triunfo da barbárie. Tornou-se um “estereótipo”, figura maior da ideologia. Assumimos a mão estendida, a subalternidade, e a carência, como estratégia das elites e, algumas vezes, do povo. Veio o romance social, a pintura engajada, o cinema novo, a canção de protesto. Tivemos o cordel (A secca no Ceará foi publicado em 1920), a cantoria e Asa Branca. A partir da aridez, desenvolvemos uma estética.

As políticas falavam em combate às secas, e para isso criaram o Dnocs (1909). O problema não foi resolvido com esse recurso ao jargão da guerra.

Um salto de qualidade foi o conceito de convivência com o semiárido. Da mesma forma que o “politicamente correto”, não se tratava de querer resolver os problemas pela linguística. Pode-se falar em nova atitude (palavra gasta pelo discurso publicitário).

Depois de tantas manchetes impactantes, algumas melodramáticas (o menino brincando com ossinhos de animais, o calango como

Ao TemPo TemPo

alimento, na seca 1979/1983), e denúncias de genocídio (saudoso e digno Dom Lorscheider), a seca se exauriu. Uma operação ideológica, nada inocente, mascara o desamparo do pequeno agricultor, e a rejeição à agricultura familiar, em favor do agronegócio.

Isso provoca uma corrosão da imagem do Nordeste da seca, e um esvaziamento da Reforma Agrária. Difícil conviver com a aridez. Temos as flores da Ibiapaba, as frutas do perímetro irrigado de Paraipaba, e o abandono dos melões, com um rastro de agrotóxicos na Chapada do Apodi. Não choveu. As aposentadorias do regime militar, e as bolsas de hoje, resolvem parte da situação. Não se tem mais o grande êxodo, mas uma espécie de “gotejamento”, a partir dos ônibus clandestinos, dos parentes que migraram antes e se fixaram nas favelas cariocas e na periferia paulistana. O inchaço se dá mesmo nas cidades nordestinas. Fortaleza que o diga.

A convivência com o semiárido implica em criatividade, na adoção de práticas que levam a uma convivência mais amistosa com a terra, como o abandono das queimadas; a adoção das cisternas de placas; as mandalas; as cooperativas; os fungicidas naturais e a utilização das redes sociais. Mídias e cultura a serviço dos interesses coletivos. Tudo isso levaria à proposta de uma nova estética (de uma nova linguagem) para um enfrentamento efetivo dos problemas crônicos.

Gilmar de Carvalho é jornalista.

A secca E as esTRadas

Um matutino de hoje (O Ceará) vem advertindo os poderes competentes sobre o espantalho da secca que, depois, oito annos, cai de novo, como uma fatalidade, sobre o território do Estado.

O anno de 1928 começou prenunciando resgistrar o terrivel flagello.

Com a passagem do equinocio, entretanto, positivaram-se algumas chuvas que, abrangendo todas as regiões do Ceará, fizeram correr alguns rios.

Estava desfeita a sombria ameaça.

Os agricultores esperançados com as promessas do inverno, semearam plantações.

As gramíneas e outras pastagens abrolharam do solo irrigado pelas primeiras chuvas e a creação poude renutrir-se tranquilizando os creadores.

No decorrer de Maio, entretanto, essas precipitações atmosphericas foram rareando, escasseando até não mais se registrarem, nas zonas em que a terra mais as reclamava para garantia das colheitas.

Nestas condições, os lavradores tiveram apenas o ônus de roçar e de plantar, ficando privados da compensadora alegria de colher.

A vegetação, se ainda não rareou com a soalheira, pouco durará.

E, em julho, se muito, com as precipitações de chuvas extemporâneas, ficarão reduzidas a humus as ramas conservadas pelo sol.

Destarte, não teremos este anno producção agrícola e os rebanhos serão dizimados pela fome e pela sede.

Não há, portanto, recursos internos capazes de remediarem o mal que se aproxima inevitável.

Urge que a União assegure medidas previdentes e úteis que nos permittam affrontar esses oito mezes de verão.

E porque não é humano que se avilte com esmolas o homem rústico affeito ao trabalho, nem é patriótico que se testemunhe, indifferentemente, o exodo dessas energias, compete ao governo da União auxiliar o do Estado, proporcionando trabalho aos braços que desertaram dos roçados comburidos pelo sol.

E o trabalho que se impõe é o das estradas de rodagem, desde que o governo considera por demais oneroso o serviço de açudagem. As rodovias do Ceará existem quase por natureza, pois mesmo sem esses recursos, o Estado, durante os estios, pode ser percorrido em automoveis em todas as suas direcções. Ao governo do Estado, cumpre, todavia, a iniciativa. Aqui mesmo, às portas da capital, o governo anterior deixou criminosamente que desaparecesse a rodovia de Soure, que nos veiu da monarchia. Entre Fortaleza e Sobral, com moderados dispêndios, seria possível aos cofres do Estado, reconquistar a estrada que liga as duas grandes cidades, que por si representam zonas differentes.

Se “governar é abrir estradas” como declara o sr. Washington Luís, ahi tem o governo cearense uma excellente arena para exercitar a sua capacidade administrativa de realizações.

Editorial do O POVO publicado em 30 de maio de 1928. Com alguns ajustes, é tudo ainda muito semelhante.

A VIaGEMbiChOS biChOS dos

O rebento mais novo de Arnoldo Alves de Aquino, 33, e Antônia Eliziane Nogueira, 22, nasceu num setembro de seca. Há pouco mais de dois meses, Álvaro veio ao mundo por Paramoti para formar par com a falante Elaine Cristine, de 4 anos. Diferente do homem, alguns animais não se reproduzem quando pressentem que uma estiagem vigorosa se anuncia. A lição dos matos vem de João de Deus, 60. Um agricultor que presidiu duas vezes o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Apuiarés e é considerado um anotador das mudanças da natureza. Não por adivinhação, rejeita logo. Mais pelo que maturou com os anos de lida no semiárido. Paramoti e Apuaiarés são municípios vizinhos, indo pela região norte do Ceará. Foi João de Deus quem analisou as fotografias colhidas na fazenda Extremas, em Paramoti. Morada da família do encarregado Arnoldo Alves. Na volta do açude Cachoeirinha, onde o espelho d´água está se resumindo dia a dia, descobrimos um rasto curioso de sementes de angicos. Um caminho esticado feito por formigas vermelhas, mais de 500 metros de linha e curvas até os armazéns do formigueiro. Boa anunciação para quem espera inverno bom para 2013? Não. João de Deus torce os lábios. As formigas, diz ele, “estão guardando comida porque não terá chuva”. Mas ainda há uma esperança, pontua. A prova virá em dezembro se o movimento das trabalhadeiras for inverso. “Se a formiga não colocar pra fora do buraco o bascuio (galhos) e as sementes do angico é porque a seca continua”, projeta sem graça nos olhos. Esperemos pelo mês que vem. É dele também a teoria cabocla do acasalamento dos louros ou periquitos. Se eles

se aninham nos ocos dos cupinzais, em outubro, é porque terá chuva para abundância. A fêmea só se deixa cobrir pelo macho, conta João de Deus, se houver o de comer para os filhotes. Em Boqueirão, que fica nas margens do açude Banabuiú (no Sertão Central, bem distante de Paramoti e Apuiarés), avistamos casais ariscos de periquitos nas redomas marrons de cupim na mata branca e cinza. Bom sinal. Os periquitos, ensina João Deus, só se reproduzirão em quantidade se houver roça boa de milho. Estando tudo verde, a divisão da produção – entre bicho e homem – fica mais equilibrada e sobra pra todo mundo. Caso contrário, as levas de pássaros, mamíferos e outros animais se deslocam para onde ainda existe alimento em meio à seca. Pequenos oásis em meio ao esturricado. E aí, o estrago na plantação é maior. Em Sítio do Meio, povoado distante 19 km do município de Pentecoste, encontramos uma prova do que João de Deus contou. Lá, o roceiro e pequeno sitiante João Gualberto de Moreira, 77, acabou perdendo a audição perfeita porque tentou

NA TERRA SECA/ QUANDO A SAFRA NÃO É BOA/ SABIÁ NÃO ENTOA/ NÃO DÁ MILHO E FEIJÃO/ NA PARAÍBA, CEARÁ NAS ALAGOA/ RETIRANTES QUE PASSAM/ VÃO CANTANDO SEU ROJÃO“BAIÃO DA GAROA”

se desfazer de uma nuvem de periquitos que comia seu milho na vazante do açude Raposão. Foi em 1993, quando houve uma seca tão avassaladora quando a deste ano. O agricultor foi ao comércio e comprou fogos de artifício para afugentar a passarada. A falta de experiência com “as bombas” se desenhou em tragédia. Um “papoco” inesperado faz zunir, até hoje, “os ouvidos” e dilacerou um dos dedos da mão direita. A fome e a sede são guias para o movimento de bichos do semiárido quando a estiagem é senhora. Na fazenda Curralinho, em Crateús, região dos tórridos Inhamuns, nos deram notícias surpreendentes. Ali, 125 hectares de agronegócio irrigado pelas águas do resistente açude do Realejo, estão aparecendo veados campei- ros, capivaras e até onça.Teria uma explicação: os viventes da reserva ecológica da Serra das Almas, vizinha da área de plantação, descem à planície para comer amendoim, milho, feijão, sorgo e outros verdes dali. (Demitri Túlio/Cláudio Ribeiro)

OUTRa FoTOGRaFIA

Os cenários da seca se repetem pelo caminho. Percorremos 16 municípios (fora os lugarejos) em seis dias de andanças por quatro regiões do sertão cearense e sol. Um pouco mais de 2 mil quilômetros de seca. Uma imagem chamou atenção. Já havia visto em outros tempos de estiagem uma velha cena (clichê, mas factível): os urubus descarnando um boi ou uma vaca derrotada. Pois em Independência, nos Inhamuns, distante 309 km de Fortaleza, também havia garça em cima do gado morto. A da espécie miúda (garcinha-branca, Egretta thula). Não sei se catando vermes ou

disputando a carne com três urubus que lá estavam e se espantaram com nossa aproximação. A garça-branca-pequena é costumeira dos rios, alagados rasos, de mangues e ribeiras de açudes. É predadora de anfíbios, crustáceos, peixes e répteis medianos. Também avistamos um bando de pelo menos trinta garcinhas-brancas no lixão do município de Russas (região do Jaguaribe), habitat natural dos urubus da cabeça vermelha ou preta. (DT/CR)

De

SE vaLER doSaGRADO SaGRADO

O Dia de Finados ainda não tinha alcançado sua terceira hora, este ano, quando um ônibus com 38 romeiros deixou a Fazenda Planalto, no município de Pio IX (PI), rumo a Canindé (CE). Os 354 quilômetros que separam as duas cidades foram vencidos em quase seis horas, com rezas e hinos religiosos, resignação e fé. Para estes romeiros, a visita ao santuário de São Francisco das Chagas teria missão dupla. A um tempo, serviria para agradecer milagres obtidos. A outro, seria a oportunidade de rogar novas graças. Uma, em especial.

“Num tem como a gente num pedir pra ter um bom inverno”, conta a técnica de enfermagem Devani Pinheiro, responsável pela organização da caravana. “Por mais que a gente tenha o que agradecer, pela saúde em primeiro lugar, nós num pode esquecer a seca. Faz mais de dois anos que num chove. Quando o inverno é bom, tem safra de caju, são num sei quantas milhões de toneladas de castanha que a fábrica que tem lá, em Pio IX, produz. Quando tem safra, dá trabalho a muita gente. Mas faz muito tempo que não chove. O povo tá muito aperreado, passando necessidade... Aí a gente vem se valer com São Francisco, né? Porque até com a chuva ele pode. E não vai se esquecer de nós não”, garante. Pedidos por chuva no sertão não são exclusividade da caravana piauiense em Canindé. De acordo com frei Manoel, que é frade visitante do santuário há dois meses, durante os fins de semana, aumenta muito o número de romeiros que acorrem com solicitações do gênero. “Vem gente do Pernambuco, da Paraíba, do Rio Grande do Norte, aqui do Ceará mesmo... De todos esses lugares você encontra pessoas no Canindé pedindo para chover. É coisa de 20, 30 romeiros, a cada dia, clamando por chuva. A seca é um problema geral no Nordeste, não é só aqui não”, diz o frade. Morador de Canindé há 30 anos, o padre aposentado Neri Feitosa já passou

Emerson Ma RA nhao

Em ERson@opovo.com.br

água. Nem a gente, nem as cidades, os campos, os animais, nada”. É por conta de tamanho padecimento que o padre Neri acha natural recor- rer à intervenção divina para que a seca se finde. Segundo ele, esta é uma prá- tica antiga, mas que continua constante e atual. Padre Neri conta que além de promessas, romarias e missas, os fiéis também recorrem a outro tipo de expe- diente para ver seus pedidos atendidos. “O povo é muito concreto, pensa em termos de concretude”, pontua. “Por isso, tem gente que inventa de roubar as imagens de santos e esconder, para ver se dessa maneira consegue convencer o santo ‘sequestrado’ a tomar uma atitude, a interferir para a chuva cair”, ri-se. “Mas a natureza humana é a mesma. São só maneiras diferentes de se valer do sagrado para aliviar o sofri- mento terrestre”.

por muitas secas. Era me- nino ainda quando, viven- do nos Inhamuns, sofreu a grande seca de 1932 e lem- bra-se do pai, com dinhei- ro no bolso, sem ter o que comprar para colocar no prato dos filhos famintos. “A seca é uma aflição tão grande, é uma coisa tão difícil, que por mais que o Governo faça, não tem pe- rigo de fazer tanto quan- to um bom inverno. Não tem Bolsa-Família, não tem pipa d’água que resolva”, afirma padre Neri, na sa- bedoria dos seus 87 anos. “É uma aflição de loucura! É tão terrível que se apela para tudo que possa. In- clusive por milagres, pelos santos, por Deus... Geral- mente, a gente diz que tendo saúde corre atrás do pão. Mas faltando água, não tem para onde correr. Sem água é castigo grande demais, não dá para sobre- viver. Nada tem saúde sem

PERSPECTIVA DE VIDA

Mudaram as romarias e os romeiros. E até a seca mudou. Quem diz é o frei Johannes Sannig (conhecido como Frei Joãozinho), alemão há muito radicado no Brasil, e que pela terceira vez está prestando serviços à paróquia de São Francisco das Chagas, em Canindé.

“Apesar de sempre ter seca, o sertão está mais preparado para enfrentar o problema. Não é mais tão devastador como já foi um dia. O povo está se atualizando”, defende Frei Joãozinho.

Para o vigário paroquial, o romeiro que busca chuva

em sua peregrinação ao Santuário o faz em segundo plano - quando o faz. A vontade primeira é curar os males do corpo. “Canindé é um santuário de cura, está ligado ao Arquétipo do Médico Ferido. Os romeiros que aqui vêm abrem o coração para que o médico interno que trazem em si seja ativado e o ajude no processo da cura. O pensamento positivo tem muito poder, meu filho. Ele traz alívio, ajuda a sair da depressão, trabalha com a esperança. E se vive muito melhor quando se tem perspectiva de vida, mesmo com qualquer tipo de doença. E tem o poder de Deus na alma, é claro!”, atesta Frei Joãozinho. Sem desdizer o religioso alemão, e de antemão concordando com ele, experimente substituir em sua fala “doença física” pelo “tormento causado pela seca” na alma do sertanejo. Assim, é possível compreender a fé daqueles que suplicam pela cura de um mal que castiga a terra, corações e mentes de um povo. (EM)

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook