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Pelas Águas do Velho Chico

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CENÁRIO:

C PELAS ÁGUAS DO VELHO HICO

POLÊMICA:

Rio São Francisco 2

EDITORIAL

Um “novo” rio no meio do sertão nordestino. Cheio de vida, de histórias, trabalho, esperança, novas perspectivas, mas que também está carregado de contrariedades, dúvidas, polêmicas e incertezas. O gigantesco projeto de integração da bacia do rio São Francisco às bacias dos rios intermitentes do Nordeste Setentrional, de levar água para áreas que sofrem o castigo da aridez nordestina, está a um passo de sair do papel. Um desejo dos tempos do Brasil Império, encampado mais uma vez pelo atual governo. Entre embates jurídicos reavivados com o anúncio da proposta, agora basta uma nova ordem a ser dada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e as águas finalmente poderão rolar.

Se tudo sair como o governo federal quer, o rio de 2.700 km se estenderá por mais 622 km em canais que cortarão os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba. Hoje, o rio nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e chega ao mar na divisa entre Alagoas e Sergipe. Nos estados por onde o São Francisco já passa, o projeto é renegado. Aonde pode chegar, expectativa.

Enquanto a indefinição permanece, O POVO retoma o debate acalorado. É necessário mantê-lo em pauta. Voltamos ao leito do rio! Sob a letra encantada de Eleuda de Carvalho, o olhar apurado de Fco Fontenele e guiados por Deus e por Valdir Gomes, o Vale do São Francisco é revisitado. Percurso já familiar, apresentado aos leitores há seis anos em viagem semelhante feita pelos repórteres Ariadne Araújo e Evilázio Bezerra. Como os caminhos se renovam, lá fomos nós outra vez. Retornaremos quantas vezes sejam. Rio acima, rio abaixo, um mundo fantástico que corre ao lado do grande Chico: Cabrobó das cebolas; os tuxás de Ibotirama; o tamanduábandeira catando comida à beira da nascente; caras feias de madeira na proa dos gaiolas... Fascínio de um extremo a outro. De onde a água surge para onde segue, até que o novo rumo se confirme. O caderno é acrescido de informações técnicas, a briga nos tribunais superiores e os pontos de vista divergentes a respeito do projeto. Siga o rio! Viva o rio!

Rio de concreto

O SONHO DAS ÁGUAS ] O rio São Francisco será levado para o sertão do Nordeste por dois grandes canais de concreto, numa extensão de 622 km, com a vazão de 26 mil litros de água por segundo. Se o impedimento judicial for resolvido, a obra deverá ser executada em dois anos ao custo de R$ 4,5 bilhões. Um sonho acalentado desde a época do Império que poderá atender 12 milhões de nordestinos

da Redação

Grandioso e controverso, o

Projeto São Francisco de Integração de Bacias (nome oficial) mantém-se como incógnita histórica. Será que agora vai?

Desde 1847, quando nasceu o “delírio” de trazer aquele leito distante para abastecer o semi-árido nordestino, muitas águas já deixaram de rolar. Mais uma vez, 159 anos depois e com as devidas atualizações técnicas, a idéia é bancada pelo governo federal e volta à ordem do dia.

A integração das águas do Velho

Chico aos rios intermitentes do Nordeste se dará pela construção de dois grandes canais que se estenderão por 622 km rumo aos estados do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Um canal partirá em direção ao Norte, com 402km, captando água a partir de Cabrobó-PE. O outro irá ao Leste, por 220 km, saindo desde Itaparica (BA). Serão 26,4 metros cúbicos por segundo (m3/s) de água percorrendo os canais de forma contínua. Cada m3 equivale a mil litros. Tempo previsto da obra: dois anos. Preço do sonho: R$ 4,5 bilhões, arcado por verbas do Tesouro Nacional, mas que deverá ser revertido em tarifação aos consumidores. O governo jura que comunidades muito pobres nada pagarão pela água consumida. No total, 340 municípios abastecidos nos quatro Estados. Rios cearenses como Salgado e Jaguaribe serão perenizados, novos ne-

dir, populações poderão imaginar novas perspectivas. A água poderá ser enfim solidária aos que a têm tão pouca.

A risca de concreto, com estações de bombeamento, reservatórios e aquedutos no caminho, levará água para o Nordeste mais seco. Noutros tempos, não tão distantes (1985) e numa outra concepção, o projeto desviaria 300 m3/s do rio em um só canal. Novos desenhos baixaram a provável captação para 150 m3/s (no ano 1994), também num único canal, e depois a 48 m3/s (em 2000), já com dois canais.

Com a decisão política do governo atual a partir de 2003, redefinições técnicas chegaram à meta de captação de 26,4 m3/s pelos dois eixos Norte e Leste. A tomada equivale a 1,4% da vazão firme do rio, que é de 1.850 mil litros por segundo. “É um filete d´água, quando comparado com o manancial de água que é o rio São Francisco”, defende o ministro da Integração Nacional, Pedro Brito, que coordenou toda a elaboração do atual projeto. 130 editais da obra já foram adquiridos por consórcios e empresas interessadas. O governo prefere evitar a terminologia transposição e tratar o projeto como uma integração de bacias hidrográficas da região. Para não sugerir que a água do São Francisco será simplesmente transferida. “O que haverá é a integração de sua bacia com as bacias dos rios intermitentes do Nordeste Setentrional”, diz a assessoria do Ministério. Inevitavelmente, uns apoiam e outros

R$ 98 milhões O governo federal já liberou R$ 98.421.000,00 para o projeto, discriminado em ações de revitalização do rio. A informação está no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi) - que monitora online toda a movimentação orçamentária, financeira e contábil das verbas federais. Os R$ 98,4 milhões circularam via ministérios do Meio Ambiente e da Integração Nacional, conforme o orçamento liberado no ano de 2005. O valor representa 22% do que chegou a ser autorizado inicialmente no ano: R$ 446.730.000,00. Como o jogo de liberação de recursos é burocrático, parte do valor sofreu corte. Houve um remanejamento e o total empenhado foi fechado em R$ 408.903.000,00. Para 2006, a dotação orçamentária está em R$ 429.055.000,00. (CR)

A

barreira judicial

fez greve de fome contra a empreitada. Os opositores - da Bahia, Sergipe, Alagoas, Minas Gerais e grupos dos próprios Estados beneficiados - questionam viabilidades técnica, ambiental e social. Para o governo, muita mais uma guerra levantada por adversários políticos. Há o grupo dos “contras” também nos estados beneficiados pelas novas águas. No Ceará, uxado pela Frente Cearense Por uma Nova Cultura das Águas e Contra a Transposição do Rio São Francisco, que reúne entidades e organizações da sociedade civil como Movimento dos Sem-Terra, Comissão Pastoral da Terra, Cáritas, Fórum Cearense pela Vida no Semi-Árido, entre outras. E como enfrentar as ações de uma máquina governamental federal em torno de um projeto orçado em R$ 4,5 bilhões?

“Estamos trabalhando no que o governo deveria estar fazendo de forma eficiente, que é o esclarecimento. O que é de fato o projeto, quais os impactos da obra, as alternativas possíveis”, explica Magnólia Said, da ONG Esplar (Centro de Assessoria e Pesquisa) e membro da Frente contra a proposta. As obras só não estão sendo tocadas ainda por questionamentos que foram levados aos tribunais e a Justiça atendeu. No fim do ano passado, um juiz federal da Bahia concedeu uma liminar que barrou a validade do licenciamento ambiental dada pelo Ibama. A causa foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF). A incógnita se o projeto será executado permanece.

A briga política entre os Estados nordestinos é forte, mas é a guerra jurídica que bloqueia de fato o início da execução do projeto de integração das águas do rio São Francisco. O ringue está principalmente nas cortes superiores em Brasília. Há 11 ações em trâmite no Supremo Tribunal Federal (STF) que reivindicam o impedimento da proposta por vários argumentos específicos. O governo espera o julgamento delas para abrir seus canteiros de obras. A informação é da assessoria de gabinete do ministro Sepúlveda Pertence, relator do processo de 10 dessas ações. O outro relatório está com o ministro Joaquim Barbosa. Não há previsão de quando serão julgadas. Foi uma dessas ações, recurso do Ministério Público da Bahia, que obteve uma liminar concedida por um juiz federal daquele Estado e barrou a obra em novembro do ano passado. As ações deverão ser julgadas em conjunto, por tratarem de uma mesma demanda. A menor delas tem cinco volumes e mais de 5 mil páginas. Segundo a assessoria de Pertence, os pedidos partem de diversos grupos, entidades, Ministério Público e organizações não governamentais do bloco de estados do “contra”, formado por Bahia, Alagoas, Sergipe e o agregado Minas Gerais (local da nascente). Discutem as autorizações técnicas dadas para execução do projeto. A liminar concedida atendeu à contestação em relação ao licenciamento ambiental concedido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e proíbe qualquer procedimento de execução de obras. A Advocacia Geral da União (AGU) apresentou recurso que modificou a ordem da liminar e garantiu a validade da licença ambiental. No entanto, o início da obra foi mantido suspenso até o julgamento do processo no STF. As ações chegam a questionar juridicamente a competência administrativa de órgãos como Ibama e Agência Nacional das Águas (ANA), que respondem pela política ambiental e administração dos recursos hídricos no país, respectivamente. Os recursos são julgados pelo STF porque os órgãos têm suas atribuições definidas pela Constituição Federal. Uma das ações contesta a competência do Ibama em emitir o licenciamento prévio; outra, argüi sobre a competência da ANA em dar a outorga definitiva do projeto. A outorga é uma confirmação de que há água disponível no rio suficiente para a integração e é necessária para obter a licença de instalação da obra. Desde 1994, cerca de 30 ações já foram apresentadas contra o projeto, mas o governo tem derrubado todas. (CR)

AO LADO DA USINA de Paulo Afonso, onde o rio vira energia: convicções pelo sim e pelo não em torno do projeto de integração de bacias
NESTE PONTO, a travessia num pulo

Como será a integração do rio São Francisco

BACIAS HIDROGRÁFICAS] Pelo projeto São Francisco de Integração de Bacias, vários rios deverão

662

quilômetros de canais de concreto serão construídos por dois eixos (Norte e Leste) para interligar a bacia do São Francisco às bacias dos estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte.

26,4

metros cúbicos de água por segundo (m³/s)(*) serão lançados aos rios intermitentes do chamado Nordeste Setentrional. Isso equivale a 1,4% da chamada vazão firme (garantida), que é de 1.850 m³/s.

R$ 4,5 bi

é o custo da obra, que será bancada por verbas do Tesouro Nacional.

12

milhões de pessoas (estimativas até 2025) serão beneficiadas pelo projeto, segundo o governo federal.

2

anos é o tempo previsto para as obras.

EIXO NORTE

É o lado do projeto que beneficia o Ceará, o maior em extensão da obra. Terá 402 km de canais que levarão água - captada a partir da cidade de Cabrobró (PE) - para os rios Terra Nova e Brígida (PE), Salgado e Jaguaribe (CE) e Piranhas-Açu e Apodi (RN). A vazão mínima prevista é de 17,6 m³/s. A água chega ao território cearense entre os municípios de Penaforte e Jati, já na divisa com Pernambuco.

EIXO LESTE

Terá 220 km de canais, com vazão mínima de 8,8 m³/s. Chegará até os rios Moxotó (PE) e Paraíba (PB). Neste lado, o ponto de captação será próximo à usina de Itaparica (BA).

ser perenizados nos Estados do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte

ESTADOS BENEFICIADOS PELO PROJETO

CEARÁ

■ Capital: Fortaleza

■ População (hab.): 7.417.402

■ Microrregiões: 33

■ Cidades: 184

■ ÁreaTotal: 146.348,3 km²

■ Densidadedemográfica: 50,68 hab/km²

■ Hidrografia: O maior rio é o Jaguaribe. Outros importantes: Acaraú, Poti, Salgado, Banabuiú, Trussu, Pacoti e Piranji.

■ Clima: Predomina o semiárido, à exceção do trecho ao longo da costa e das chapadas e pequenas serras. As médias pluviométricas são inferiores a 600 mm, com chuvas irregulares.

Os cursos d’água são temporários, permanecendo secos ao longo de todo o verão, e a vegetação dominante é a das caatingas. As temperaturas médias oscilam entre 24º e 30º C durante quase todo o ano.

■ Outrascaracterísticas: Existem 701 açudes no Estado, com capacidade para 10 bilhões e 610 milhões de m³ de água.

■ Economia: Estruturada sobre a produção agroindustrial e o comércio. Na agropecuária, competitividade das espécies nativas, com destaque para o caju, algodão, lagosta, camarão e mandioca, entre outros.

Açude Gavião

Açude Riachão

Açude Pacoti

Quixadá

Açude Castanhão

Limoeiro do Norte

Iguatu

Açude Orós

Icó Souza

RioApodi

Catolé do Rocha

RIO GRANDE DO NORTE

■ Capital: Natal

■ População (hab.): 2.770.730

■ Microrregiões: 19

■ Cidades: 167

■ ÁreaTotal: 53.306,8 km²

■ Densidadedemográfica: 51,97 hab/km²

■ Clima: Predomina o tropical semi-árido, exceto na costa litorânea e regiões de relevo mais elevado no Interior. Médias térmicas entre 20º e 27º C, com pequenas variações ao longo do ano. As precipitações no litoral

PARAÍBA

■ Capital: João Pessoa

■ População (hab.): 3.436.718

■ Microrregiões: 23

■ Cidades: 223

■ ÁreaTotal: 56.584,6 km²

■ Densidadedemográfica: 60,73 hab/km²

■ Clima: Tropical, predominando o semi-árido no Interior, com médias térmicas elevadas (em torno de 27º C) e chuvas escassas e irregulares (menos de 800mm ao ano).

■ Hidrografia: Entre os rios

chegam a alcançar 1.000 a 1.500 mm por ano, mais intensas entre março e junho.

■ Hidrografia: Em virtude da escassez de chuvas, a maior parte da bacia hidrográfica do Estado é temporária. Há rios importantes: Mossoró, Apodi Assu, Piranhas, Potengi, Trairi, Jundiaí, Jacu, Seridó e Curimataú.

■ Economia: Agropecuária, extração mineral e produção de sal dão base à economia. Pesca, petróleo e cerâmica também incluem-se na pauta econômica.

mais importantes estão: Paraíba, Piancó, Piranhas, Taperoá, Mamanguape, Curimataú, do Peixe, Camaratuba, Espinharas, Miriri e Gramame. A bacia hidrográfica tem 56.372.6 km².

■ Economia: Baseia-se na produção agropecuária, indústria de couro e turismo. Na agricultura, destaca-se a produção de cana-de-açúcar, frutas, mandioca, milho, feijão e algodão. Destaque na indústria para o pólo coureirocalçadista.

RioPiranhas

Rio Jaguaribe

Juazeiro do Norte

Açude Chapéu

Açude Entremontes

Santa Maria da Boa Vista

Reservatório de Sobradinho

BACIA DO SÃO FRANCISCO...

Tem 639 mil km² de área.

Abrange 504 municípios (9% do total do país) e o leito corta cinco Estados (Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe) com população de 12,8 milhões de habitantes. A bacia também

Açude Atalho

Cajazeiras Salgueiro Cabrobó Floresta

Açude São Gonçalo

Açude Engenhos Ávidos

Açudes Coremas e Mãe D’Água

Açude Armando Ribeiro Gonçalves

Natal

João Pessoa

Campina Grande Açude Boqueirão

de 2000).

■ Economia: agricultura (cana, arroz, frutas), pecuária, indústria (laticínios, álcool) e pesca.

■ Altitude: de 200m até o nível do mar. Algumas serras atingem 500m.

■ Chuvas: 800mm a 1.300mm.

■ Vegetação: caatinga e mata.

B. SubmédioSãoFrancisco (de Remanso-BA a Paulo Afonso-BA)

■ Extensão: 440 km.

■ Área da Bacia: 110.446 km².

■ População: 1,94 milhão.

Açude Poço da Cruz

Nova Petrolândia

Barragem de Itaparica

Delmiro Golveia

Barragem de Paulo Afonso Barragem de Xingó

COMO SERÁ A CAPTAÇÃO DE ÁGUA

Nas estaçõesde bombeamento instaladas em reservatórios a serem construídos, a água é levada para um nível mais acima por sucção e dali segue por gravidade pelo canal até os reservatórios (24 previstos) no trajeto.

Em aquedutos, o canal seguirá suspenso de um ponto a outro do trajeto.

Reservatório

Nas galerias, a água fará o caminho subterrâneo. Para vencer serras e morros, o projeto prevê túneis para a passagem das águas.

Haverá degraus no percurso dos canais, para passar de um nível alto para um mais baixo.

Estaçãode bombeamento

ESTRUTURA DO CANAL

Estrada lateral

Revestimento de concreto

Material de 1ª categoria

Material de 2ª categoria

Material de 3ª categoria

Canal Açude

PERNAMBUCO

■ Capital: Recife

■ População (hab.): 7.910.992

■ Microrregiões: 19

■ Cidades: 185

■ ÁreaTotal: 98.937,8 km²

■ Densidadedemográfica: 79,95 hab/km²

■ Clima: Tropical e úmido no litoral, tornando-se menos quente à medida que se avança para o Interior. A temperatura média na maior parte do Estado varia de 26º a 31º C.

■ Hidrografia: O principal rio que banha Pernambuco é justamente o São Francisco, que corta a região sudoeste do Estado e recebe afluentes como o Pajeú e o Moxotó. Na parte oriental, é banhado pelos rios Capibaribe, Ipojuca e Una.

■ Economia: Agricultura, pecuária e indústria em destaque. A produção de frutas por irrigação é bastante forte nas proximidades do São Francisco.

■ Economia: agricultura (frutas), pecuária, agroindústria (vinho), geração de energia

■ Altitude: de 800 a 200m.

■ Chuvas: 350mm a 800mm.

■ Vegetação: caatinga.

C. MédioSãoFrancisco (de Pirapora-MG a Remanso-BA)

■ Extensão: 1.230 km.

■ Área da Bacia: 402.531 km².

■ População: 3,23 milhões.

■ Economia: agricultura (feijão, soja, milho, frutas), pecuária, indústria (laticínios, óleo).

■ Altitude: de 2.000 a 500m.

■ Chuvas: 600mm a 1.400mm.

■ Vegetação: cerrado e caatinga.

D. AltoSão Francisco (da nascente em São Roque de MinasMG a Pirapora-MG)

■ Extensão: 702 km.

■ Área da Bacia: 100.076 km²

■ População: 6,24 milhões.

■ Economia: indústria (laticínios, têxtil), mineração, pecuária, agricultura (frutas, sementes).

■ Altitude: de 1.600 a 600m.

■ Chuvas: de 1.000 a 1.500mm.

■ Vegetação: florestas e cerrados. (*) 1 metro cúbico (m³) equivale a mil litros.

Fonte: Ministério da Integração Nacional e Banco de Dados do O POVO

Francisco 4

PEDRO BRITO, ministro da Integração Nacional

■ Conforme o projeto, a bacia do São Francisco cederá apenas 1,4% (26 mil litros por segundo) de sua vazão firme (1,8 milhão de litros por segundo) para garantir segurança hídrica a 12 milhões de nordestinos.

■ Novos negócios poderão ser desenvolvidos na região em áreas sem perspectivas.

■ A água que iria embora por evaporação será transformada em benefício.

■ Mais de 5 mil postos de trabalho diretos com a obra.

■ O tempo de execução da obra neste projeto atual (previsão de dois anos) é bem menor do que propostas anteriores, que chegavam a apontar 25 anos para os trabalhos.

■ Editais da obra foram antecipados ao Tribunal de Contas da União (TCU), sugerindo a fiscalização prévia dos recursos.

■ O Batalhão de Engenharia do Exército será incorporado ao projeto para baratear custos.

■ O projeto está respaldado por dados técnicos e o governo decidiu comprar a briga política.

JOÃO SUASSUNA, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco

■ Várias áreas dos Estados onde haverá captação de água continuarão desabastecidas.

■ O rio ainda passa por problemas graves de poluição.

■ O projeto é caro (R$ 4,5 bilhões) e onde há tanto dinheiro público assim, nunca é demais desconfiar.

■ Grandes negócios (carcinicultura, fruticultura, áreas irrigadas de grande porte) deverão ser privilegiadas pelas novas águas.

■ Algumas áreas beneficiadas já dispõem de água farta.

■ O uso político do projeto, tanto de governistas como opositores. Além disso, há a insegurança jurídica.

■ Relatório do Banco Mundial de 2005 aponta que o projeto traz uma insegurança institucional grave. O governo federal teria esquecido de combinar com os parceiros (como Estados e iniciativa privada) quem serão os usuários finais da água e quem vai pagar por ela. É previsto que a cobrança deverá ser repassada ao metro cúbico consumido pela população.

DIFERENÇAS ] Para quem é do contra, um projeto ruim. Para os defensores, uma solução urgente e necessária. A `transposição do rio São Francisco´ envolve muita água e muitas divergências. OPOVO ouviu o ministro da Integração Nacional, Pedro Brito, e o pesquisador João Suassuna para justificarem pontos de vista de quem é, respectivamente, a favor e contra a proposta

Por que sim? Por que não? O POVO ouviu os dois lados, a favor e contra o projeto de Integração da bacia do São Francisco às bacias do Nordeste Setentrional. Como “advogado de defesa”, o cearense Pedro Brito, ministro da Integração Nacional, que está no cargo há pouco mais de três meses. Ele foi o coordenador desta nova proposta de transpor o rio São Francisco desde o início do governo Lula. Para Brito, “se esse projeto não estiver pronto nos próximos três anos, vamos ter uma situação cada vez mais crítica de abastecimento d´água para uso humano” na região. No ataque à idéia como um todo, o professor pernambucano João Suassuna. Engenheiro agrônomo ligado à Fundação Joaquim Nabuco, ele pesquisa o projeto há 11 anos, desde que a proposta chegou a ser rediscutida pelo governo Itamar Franco. Suassuna chega a ser radical: “O projeto é tecnicamente ruim, socialmente preocupante e politicamente desastroso.” Veja os argumentos de cada lado. (Cláudio Ribeiro)

A polêmica das águas

AFAVOR

PEDRO BRITO, ministro da Integração Nacional

O POVO - Que defesa o senhor faz do projeto diante das contestações levantadas pelos governos e bancadas da Bahia, Sergipe, Alagoas e Minas Gerais? PedroBrito- Temos que demonstrar do lado dos estados beneficiadosCeará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco - a absoluta necessidade de um projeto de segurança hídrica como esse. Hoje sabemos que os recursos hídricos são administrados nesses estados a partir de uma lógica de escassez de água e também de insegurança quanto a chover ou não no ano seguinte. Isso leva o gestor de recursos hídricos a armazenar a água, sem possibilidade de uso econômico porque tem que, em primeiro lugar, atender às populações. Com essa lógica, causamos um desperdício de cerca de 80% por ano. Seja pela insolação, perdemos essa água pela evaporação; seja por vertimento, quando acontece de chover e os açudes sangram. Essa lógica será radicalmente modificada com o projeto pronto. Havendo seca, a água dos açudes será reposta pelos canais que vão ser construídos. Isso significa que os gestores de recursos hídricos não vão mais precisar armazenar água por segurança, água que portanto poderá ser utilizada ao longo do ano para fins econômicos. Isso dará condições à região Nordeste de ter um novo patamar econômico a partir de novos negócios que certamente serão gerados por essa disponibilidade hídrica que não se tinha. Outro ponto: a ONU diz que para que o ser humano tenha condições de viver dignamente, tem que ter uma disponibilidade de água de 1.500 m3 por habitante/ano. No caso dos quatro Estados que estamos falando, essa disponibilidade é de cerca de 450 m3 por habitante/ano.

OP - E o aumento populacional? PedroBrito- Se esse projeto não estiver pronto nos próximos três anos, vamos ter uma situação cada vez mais crítica de abastecimento d´água para uso humano. Num exemplo do Ceará, o açude Orós tem uma capacidade de armazenar quase 2 milhões de m3. Só que a média que consegue armazenar é de apenas 20% disso. O Ceará tem uma capacidade total de armazenagem de água de 17,5 bilhões de m3. Mas a disponibilidade firme é de apenas 3,3 bilhões de

m 3, porque o restante é perdido pela evaporação ou por vertimento. Quando você divide a disponibilidade firme pela população do Estado, temos 430 m3 por habitante/ano de disponibilidade. Menos de um terço do que a ONU recomenda. Esses são argumentos para garantir a necessidade do projeto. Podemos complementar o outro lado do argumento mostrando que a bacia doadora do São Francisco tem disponibilidade de sobra para garantir o projeto sem nenhum risco para as populações da bacia, no Estado da Bahia, Minas Gerais, Alagoas e Sergipe.

OP - Esse é um dos argumentos que a oposição ao projeto levanta: a desconfiança sobre como a água será utilizada, qual a quantidade transferida e o risco de ameaça às bacias locais.

PedroBrito- O risco é rigorosamente zero de qualquer prejuízo para a bacia do São Francisco. Não estamos filosofando, mas falando objetivamente. A vazão média do rio na foz é de 2.850 m3 por segundo. A vazão firme, com garantia de 100%, é de 1.850 m3/s. É a água que passa e é liberada pela barragem de Sobradinho.

OP - Em época de seca está nessa vazão garantida?

PedroBrito- Exatamente. E isso é assim porque a barragem de Sobradinho divide o rio em dois. Existe o São Francisco que vai da foz até a barragem, que tem um regime fluvial que depende das chuvas que acontecem nas cabeceiras, nos afluentes e tudo mais; e existe o outro rio São Francisco depois da barragem. Além disso, existe uma vazão determinada pelo Ibama, a chamada vazão ecológica, de 1.300 m3/s. Até hoje, somando todos os usos ao longo do São Francisco, de todos os projetos de irrigação em funcionamento, toda a água retirada para o abastecimento das cidades, só estamos usando 91 m3/s. De 1.850 m2/s, só estamos usando 91 m3/s.

OP - E qual vazão será retirada do rio? PedroBrito- A vazão firme retirada do rio, para ser comparada com os 1.850 m3/s, é de 26,4 m3/s. Ou seja, 1,4%. É um filete d´água, quando comparado com o manancial de água que é o São Francisco.

OP - O senhor atribui toda essa polêmica a uma questão apenas política?

PedroBrito- Existem vários argumentos: o político, que é vigente hoje; o da disputa por recursos, esse é permanente; existe o argumento da reserva de água para os Estados da bacia, que você

pode dizer que também é legítimo o Estado querer água só pra ele, mas também injusto. Existem vários argumentos, e nenhum tem embasamento técnico que contrarie o projeto.

OP - Já faz seis meses que o projeto foi barrado por ordem judicial. Que alternativa o Ministério trabalha para levar adiante a necessidade de segurança hídrica?

PedroBrito- Não há nenhuma solução definitiva, estruturante, comparável com o projeto de integração de bacias. Existem soluções paliativas para atender às populações dispersas, que são as cisternas, pequenas barragens, perfuração de poços, mas são todas soluções paliativas. A solução estruturante e definitiva é o projeto de integração de bacias.

OP - Tecnicamente, o projeto garante esse abastecimento por quantos anos?

PedroBrito- Tecnicamente, o projeto garante o abastecimento de 12 milhões de pessoas até o ano de 2025. Com o crescimento populacional projetado.

OP - Que auto-crítica o senhor faz em relação ao projeto?

PedroBrito- A orientação foi que esgotassem todas as possibilidades de discussão do projeto com a sociedade. E foi isso que fizemos ao longo de três anos. Foi discutido na academia, na Igreja, com os estados, com toda a sociedade. E pudemos absorver várias e importantes reflexões do projeto. Como a vazão total concebida do projeto, que antes era de 64 m3/s de maneira permanente, foi reduzida para 26,4 m3/s. Essa é uma das grandes mudanças que foram feitas a partir dessa discussão. Hoje, o projeto do ponto de vista técnico da sua concepção não recebe nenhum tipo de crítica objetiva ou científica que possa nos levar a mudar o projeto.

O risco é rigorosamente zero de qualquer prejuízo para a bacia do São Francisco. Não estamos filosofando, mas falando objetivamente. (...) Existem vários argumentos e nenhum tem embasamento técnico que contrarie o projeto

CONTRA

JOÃO SUASSUNA, engenheiro agrônomo e pesquisador

O POVO - O que fragiliza a execução desse projeto?

João Suassuna - Acho que o Nordeste hoje tem água suficiente para abastecer toda a população do semi-árido. O que a gente não tem é uma política de distribuição dessa água. Temos hoje um potencial no Nordeste de 37 bilhões de m3 de água. Tem 70 mil açudes, mas a gente não tem essa política de distribuição da água. O Ceará tem o maior açude do Nordeste, o Castanhão, com 6,7 bilhões de m 3 de água, mas detrás da parede do açude a população já morre de sede. Se a gente pegar o projeto da transposição do São Francisco, tá lá previsto que vão bombear um volume de 26,4 m3/s. Se a gente calcular quanto vai ser bombeado por ano, levando em consideração as perdas por evaporação, por manutenção dos equipamentos, infiltração, coisas que a gente tem que levar em consideração, num ano vai se bombear 400 milhões de m3 Se a gente fizer um termo de comparação com o que existe no Nordeste, temos 37 bilhões de m 3 d´água. 400 milhões representam 1% do potencial existente. Se a gente pegar a malha de açudes que existe no Nordeste Setentrional, eles acumulam 11,48 bilhões de m 3 de água. Os 400 milhões de m 3 bombeados representam 3,5% do po-

Essas águas vão chegar nas grandes represas de uma região que está desabastecida. Só que não vão chegar para a população que realmente está necessitada. É a população difusa, que está nos grotões. É a que está sendo assistida hoje por carros-pipa e vai continuar assistida por carros-pipa

tencial existente nos açudes. Que vão ser abastecidos pelo projeto de transposição do São Francisco. No nosso modo de entender, é um custo-benefício insignificante, se considerar o custo do projeto. São R$ 4,5 bilhões numa primeira fase podendo chegar a 6 bilhões de dólares em 20 anos. O custobenefício disso, rapaz, é uma coisa maluca. A gente precisa, sim, é adotar uma política de uso das águas que já existem no Nordeste.

OP - E a água vai chegar a regiões completamente desabastecidas. Isso já não seria um argumento muito forte?

João Suassuna - Essas águas vão chegar nas grandes represas de uma região que está desabastecida. Só que essas águas não vão chegar para a população que realmente está necessitada. É a população difusa, que está nos sítios, nas propriedades, nos pésde-serra, nos grotões. É essa que está sendo assistida hoje por frotas de carros-pipa e vai continuar sendo assistida por frotas de carros-pipa. Essa água vai chegar para o grande irrigante, criador de camarão, esse pessoal vai ver a cor do São Francisco. No nosso modo de entender, esse projeto é a perpetuação da indústria da seca.

OP - Que alternativas podem ser adotadas? João Suassuna - As alternativas existem, inclusive aí no Ceará, um projeto lindo de interligação de bacias. Através de adutoras, você pode resolver problemas de regiões que estejam desabastecidas no Ceará lançando mão das águas dos açudes que já existem. A gente poderia copiar isso para outros Estados, formar uma malha, uma infra-estrutura hidráulica no Nordeste através da interligação de suas bacias para atender o abastecimento das populações. Para as populações difusas, esse projeto de 1 milhão de cisternas resolve perfeitamente. Uma cisterna de 15 mil litros abastece uma família de cinco pessoas durante oito meses do ano que não tem chuvas no Nordeste.

OP - No desenho você vê um projeto bem feito, mas com erros na política de distribuição?

João Suassuna -Não acho que seja um projeto bem feito. Se você tem alternativas para usar as águas que já existem, pra mim esse projeto é tecnicamente muito ruim. A pergunta que

Quem estiver pensando que a água vai chegar a custo zero está redondamente enganado. Vai chegar na ponta do projeto a 11 centavos de real, o metro cúbico. Isso é proibitivo para fins de agronegócio. As tarifas d´água nos grandes centros urbanos terão que ser acrescidas

você tem que fazer é a seguinte: o que é mais viável técnica e economicamente falando? Lançar mão das águas que já existem no Nordeste ou pegar as águas do São Francisco, que estão a 500km de distância do local do consumo? Claro que a primeira alternativa é mais sensata.

OP - E a água será tarifada.

João Suassuna - Vai ter um custo. Quem estiver pensando que a água vai chegar a custo zero, está redondamente enganado. Vai chegar na ponta do projeto a 11 centavos de real, o metro cúbico. Isso é proibitivo para fins de agronegócio. No Vale do São Francisco, a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco) entrega o metro cúbico da água a 2,3 centavos. Para o governo tornar isso viável, vai acontecer o que se chama de subsídio cruzado. As tarifas d´água dos grandes centros urbanos terão que ser acrescidas para possibilitar o criador de camarão lá do Rio Grande do Norte exportar, o irrigante lá do Ceará cuidar de suas frutas para exportar. Já tá saindo aqui na imprensa de Recife que a transposição vai acrescer as contas d´água em 30%.

Minha idéia é desenvolver uma política de ir atrás das águas que já existem e futuramente, uma vez instalada essa infra-estrutura hídrica, se fazer uma avaliação de necessidades e, dependendo dessa avaliação, ir ou não atrás das águas do São Francisco. Essa idéia foi lançada numa reunião que a SBPC (SociedadeBrasileira para o Progresso daCiência) fez em Recife em 2004,

onde reuniu 40 dos principais expoentes da hidrologia nacional.

OP - O senhor acha que o STF tomará uma decisão política em relação ao projeto?

João Suassuna - Vai ser tomada uma decisão política. Mas a gente tem que ter muito cuidado com essas decisões políticas, porque 2006 é um ano eleitoral. E esse projeto sendo tocado da forma como o governo está querendo fazer pode se tornar eleitoreiro. O projeto é tecnicamente muito ruim porque existem alternativas de abastecimento do povo.

OP - E mais baratas? João Suassuna - Infinitamente mais baratas. E mais eficientes. Não tem o menor sentido você ter água no Nordeste disponível e buscar as águas do São Francisco, que estão a 500km de distância.

OP - Ao ministro Pedro Brito, pedi que fizesse uma auto-crítica ao projeto. Seria possível você fazer um elogio ao projeto? João Suassuna - Eu não faço nenhum. É tecnicamente ruim, socialmente preocupante e politicamente desastroso. Você tem que alertar que de Pernambuco pra cima - ou seja, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará - todos são a favor da transposição do São Francisco porque são estados receptores dessas águas. De Pernambuco pra baixo - Alagoas, Sergipe, Bahia e agora Minas Gerais - todos são contra porque são meros estados doadores das águas.

OP - O governo diz que a retirada de água é mínima: 26,4 m³/s. João Suassuna - Deixa eu te dar um dado. Na reunião da SBPC, chegou-se à conclusão que o rio São Francisco tem uma vazão alocável de 360 m3/s. 335 m3/s já estão outorgados, já há direitos sobre essa água. O que resta do São Francisco são apenas 25 m3/s para serem utilizados pelo projeto de transposição. Se você considerar 25 m3/s com a vazão que chega na foz do rio (1.850 m3/s), vai ver que realmente é 1%. Mas esse cálculo não pode ser feito nessa vazão regularizada do rio. Tem que ser feito em cima dos volumes alocados, ou seja, dos 360 m3/s, a vazão que é possível ter acesso a ela. Se o governo está dizendo que é 1%, isso é mentira.

R$ 34,8 milhões para áreas expropriadas

Com o rio em um novo curso, o Nordeste será redesenhado num novo mapa fundiário. Serão expropriadas 1.934 famílias na região, 306 delas no Ceará, numa primeira fase da execução do projeto de integração de bacias. O Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) está responsável pelo cadastramento e indenização das terras. De R$ 34,8 milhões reservados, o órgão já pagou R$ 733 mil para 15 proprietários no Ceará - oito na cidade de Brejo Santo e sete em Mauriti, ambas no Cariri. Os únicos. As expropriações tiveram que parar no fim de 2005, com o impedimento judicial. Segundo o consultor Rubem Lopes, que está atuando nesse levantamento de imóveis junto à Coordenadoria Central de Desapropriações do Dnocs, hoje haveria R$ 10,8 milhões em plenas condições de serem pagos aos proprietários, não fosse a barreira jurídica. Para organizar os processos de expropriações, o órgão federal instalou sete escritórios regionais nos quatro Estados aonde o rio chegará. As unidades fizeram a convocação para colher dados sobre as propriedades, emissão de laudos de avaliação do terreno com o apoio técnico devido, organização de documentos e certidões cartoriais necessárias para confirmar a indenização. Uma das situações de dificuldade enfrentadas pelo Dnocs tem sido que boa parte das famílias não têm títulos de propriedade de suas terras. Sem os registros, o trabalho emperra. “Pernambuco é o Estado em situação mais crítica. Só 30% dos proprietários têm os títulos”, diz Rubem Lopes. No Ceará, mais de 68%. Outro trabalho simultâneo realizado pelo Dnocs em relação ao projeto do rio São Francisco é o que chamam de inclusão social. Segundo o consultor, foi feito um diagnóstico sócioeconômico em 445 comunidades dos quatro estados banhados pelas “novas águas” - cerca de 7.500 famílias. A idéia é prover as atividades de subsistência dessas áreas com o novo sistema de abastecimento da região. O critério foi o de populações que margeiam o canal em cinco quilômetros à direita e à esquerda. Deverão ser instaladas pequenas adutoras, ligadas a partir dos canais maiores, direcionadas a essas comunidades. Ainda não há valores estimados para essa etapa do projeto. “Queremos dar a face de engenharia social ao projeto”, explica. (CR)

Cebola cortada, uva de caminhão

IRRIGAÇÃO ] É em Pernambuco onde o São Francisco (atualmente) chega mais perto do Ceará. Em Cabrobó, projetos irrigados garantem a oferta de cebolas afamadas, vendidas para todo o País. À margem do rio, Petrolina se destaca por sua produção de vinhos, com uvas fornecidas por pequenos produtores. A facilidade de água, contudo, está longe de resolver todas as dificuldades

Eleuda de Carvalho

Enviada ao Vale do São Francisco

“Este rio São Francisco é a melhor riqueza. Se não fosse este rio, a gente nem vivia. Aqui é muito ruim de chuva, mas a gente não sente muita falta. Por quê? É o rio. O rio é a salvação da lavoura.”

DORINHA DA CEBOLA em Cabrobó-PE

Cabrobó, alto sertão pernambucano. Na BR, sacas de cebolas aguardando a freguesia. O sol, quente, mesmo peneirado pelas nuvens da manhã. A mulher limpa cebolas em uma mesa de ripas. Maria das Dores, a Dorinha da Cebola, apresentase. Compra o produto aos agricultores dos projetos de irrigação Brígida e Caraíbas. Uma saca, 20 quilos, custa R$ 8. “Comprei 85 saca, perco 20, mas só vendo bem limpinha”, sorri, ao lado de Amário, o ajudante. Dorinha estende a mão, “acabada de tanto catar cebola”. Retira as cascas, organiza por tamanho. As menores, alongadas, chamam-se birita ou chupeta, boa pra conservas. “Separando, fica num padrão, bonita. Tiro a capa d´água, ela cria outra capinha”, explica. O zelo: “É ruim lesar a consciência das pessoas. Digo pra um freguês meu, você vai pro Rio Grande do Sul, é tão longe... Vendo tam-

bém banana, manga, mamão, coco verde - é que agora tá faltando. De primeiro, eu tinha um restaurante, fiquei 20 anos. Abusei, achei melhor vender cebola. É muito trabalho, mas não existe glória sem sacrifício. Enquanto tiver coragem e força, não peço nada a ninguém”, diz. “Este rio São Francisco é a melhor riqueza. Se não fosse este rio, a gente nem vivia. Aqui é muito ruim de chuva, mas a gente não sente muita falta. Por quê? É o rio. O rio é a salvação da lavoura”. E se despede oferecendo, de graça, um cacho de ótimas bananas. Doce Dorinha da Cebola. No lugar Lagoa Grande, “capital da uva e do vinho no Nordeste”, gaba a placa da entrada. Adiante, Petrolina, uma roça de uva Bentax Brasil, quatro e meio hectares de parreiral. O dono é Augusto Barbosa de Lima: “Não somos donos, não. É área da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco). Nós peguemos um custeio pelo BNB, em 95, não tivemos condições de pagar, o banco fechou as portas pra gente. Aqui, uva dá o

De volta ao rio-mar

AriadneAraújo

Especial para OPOVO

Xô Mãe d’Água e parentada. Cruz credo para o Nego d’Água. Vade retro o Minhocão e outras caretas pintadas. Pois o estirão do São Francisco é puro causos e assombros. No passado, vasta estrada de gado e ouro. Hoje, água rasa e peixe escasso. No apelido para os íntimos, e eles são numerosos, o velho Chico é um mix que reúne muito em um só. Fonte de alimento, renda, energia, de histórias e de disputas, água de beber e de irrigar, ele encarna ao mesmo tempo o belo e o feio. Em Paulo Afonso, na Bahia, vimos verde espetáculo que corre entre 60 quilômetros de paredões de rocha na formação do cânion. Unindo e separando duas vizinhas rivais, Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), é ainda corredor frenético com o vai-e-vem de barcos turísticos. Mas, aqui e ali, em uma ou outra ribeira, é também rio banguela: margens desmatadas, poluição, degradação.

A discussão sobre a transposição do rio, mais velha do que se pensa, foi requentada e trazida à baila seis anos atrás, inaugurando o novo século. Aproveitou-se o mote, então. Hora de constatar in loco a viabilidade ou não do projeto que teve suas origens em 1847. Então, em agosto de 2000, uma equipe do O POVO se habilitou a navegar nestas águas turbulentas. Rasgando a carne do sertão semi-árido, foi enfrentar a terra poeirenta, hora em linha reta, hora em sinuosa serpente,

mas sempre os olhos na linha da margem, sob encantamento da correnteza que passou por nós em 2.700 quilômetros de viagem. Pode-se dizer, foi o caminho da piracema. Fez-se. A idéia era alcançar o rio no ponto exato em que ele se solta para o mar e depois subir com ele rumo às cabeceiras. Por terra, em bate-papo com ribeirinhos. Também por água, quando isto era possível, para vivenciar o cotidiano do rio. Sim, porque o São Francisco é pleno de surpresas. Assim, inevitável encontro com balsas ou ajoujas borboleteantes (pequenas jangadas de velas quadradas à semelhança de asas) em luta contra a força da maré na pequenina Piaçabuçu, em Alagoas. Ainda, com tímidas capivaras no Chapadão da Zagaia, no alto da serra da Canastra, em Minas Gerais, no olho da foz do rio. Seja como for, a nova oportunidade de um segundo caderno sobre as águas do rio nos convida a uma “revisita” a esta outra viagem feita pelo O POVO seis anos atrás. Na memória, este rio que é um mar. Causos de pescador contador de vantagem, foram muitos. A conversa sobre o rio sempre emenda outras, paralelas. Como a de Binga, 72, batizado Waldemar dos Santos, na época morador Pirapora, que me jurou de pé junto ter tido um cara a cara com um dos mais terríveis moradores do rio: nada menos, o Nego d’Água. Casa no fundo das águas, ele domina as correntezas e os peixes. Por azar, antipatiza tudo que é pescador e barranqueiro. Um encontro com esse mal humorado é canoa

ano inteiro, tenha chuva ou não, mas é muito dispendiosa. Tá ruim... Embamburrou, não tem preço e nem teve exportação. Mas tamos lutando”. Além de arcar com a água da irrigação, Augusto paga o salário das mulheres no “raleio”, a poda dos cachos. Augusto tem duas vaquinhas, “só pra comer leite”. Chega o irmão caçula, Adalberto, diz que tinha 70 cabeças de gado, restaram cinco. “Tive que vender o que tenho pra tocar pra frente o que sobrou”, conforma-se. O mais velho reflete: “Pra perder a safra, é do dia pra noite. É muito risco, a uva. Por isso que lá no Sul é só uma safra por ano. Temos a coragem e a força de vontade, mas já tem fazenda fechando e vai fechar mais”.

Ei-lo, o São Francisco. Ainda em Petrolina, na avenida que beira o rio, a Casa do Vinho. Com os belos produtos finais dos trabalhadores das roças pernambucanas, além de doces e geléias de frutos do semi-árido baiano, projetos de agricultura familiar de Uauá e Canudos. E miniaturas de carrancas em chaveiros de suvenir.

virada na certa. Os mitos do rio misturam-se a saudades. Nos olhos baços de Antônio Gomes dos Santos, na época com 68, o tempo se reinventa: de novo, é o vai-e-vem dos navios que transportavam arroz, milho, inhame, algodão, açúcar, café na sua antiga Penedo. “A coisa mais linda desse mundo”, dizia, e pude escutar com ele, chegando do passado, o apito dos velhos navios. Ao longo do rio, rostos, falas, mãos calejadas, lembranças, trabalho. Também boa culinária, novos amigos, aprendizado. No vale do São Francisco, a melhor goiaba verde, colhida fresquinha assim na mão. E ainda rende saliva na boca um pitu em noite de lua. Na lembrança, outras pinturas como esta de velhos vapores. Cita-se o Saldanha Marinho ou Benjamin Guimarães, só para ilustrar a história. De reis das águas do velho Chico, majestosos navegantes de motor a lenha, hoje não passam de tristes museus encalhados em

Sobre o rio, a grande ponte, do lado de lá é Juazeiro da Bahia. Uma família na beira, a mulher lava uns panos. O homem usa pulseiras de colher, que ele mesmo faz. Luiz Francisco e Maria José da Silva são alagoanos. Estão há seis anos na estrada, idade do menino mais velho, nascido em Sergipe, “nas calçadas”, diz a mãe. O mais novo é do Tocantins. Monumento na margem oleosa do São Francisco em Juazeiro. O Negro do Rio, malassombro ribeirinho. Assustava as lavadeiras e virava canoas. O pescador Murilo de Matos Souza, 25, conta a lenda. “Dizem que ele aparecia, antes de fazerem a barragem de Sobradinho. Quando não tinha carranca no barco, ele encostava e virava. Mas era só de noite. O povo mais velho fala. O rio era fundo, hoje é todo aterrado”. Murilo tem um barco a motor, o Kaeté. Está parado em frente da casa dele, neste cais natural com esgoto aberto e lixo flutuando em água podre. “Os prefeitos da cidade não olham isso, só vêm aqui atrás de voto”, queixa-se.

qualquer parte. O Saldanha Marinho, o primeiro a flutuar por aquelas águas em 1871, foi construído nos Estados Unidos e montado em Barbacena (MG), vejam só, e agora é restaurante, pizzaria ou qualquer outra coisa no gosto de quem tenha dinheiro para alugálo à prefeitura. Este rio que liga o Brasil já viveu muitas mudanças de curso. Na queda de braço pela transposição,

ARIADNE, Amaral e Evilázio; Fontenele, Valdir e Eleuda: equipes do OPOVO de 2000 e 2006
PARREIRAIS IRRIGADOS pelo São Francisco em Petrolina (PE), de uvas e vinhos deliciosos em pleno sertão nordestino

Os tuxás de Ibotirama

REASSENTAMENTO ] Uma vila com posto médico, escola, energia e água encanada, casinhas de alvenaria, igreja e praça, que só existe há 20 anos. Aqui, a 11 km de Ibotirama, veio morar parte dos índios tuxás da aldeia de Rodelas, desalojados com a construção da barragem de Itaparica. O cacique Manuel Novais conta a luta para conseguir este lugar

É marcante a presença negra na aldeia. “Tem, minha filha. Porque, é o seguinte. O Brasil foi descoberto na Bahia e os estrangeiros vieram explorar, então os índio não quiseram aceitar e houve guerra, e quando aquela guerra houve, os guerreiros que iam pra luta, iam só os homens. Os homens morreram e ficaram só as mule. Ficou só a descendência.

Todos têm o sangue do índio na veia.”

Seguindo o rio São Francisco, além do vale do Itapicuru, seu afluente. No caminho, a capelinha dedicada ao Padre Cícero. Jacobina, casas dependuradas na Chapada Diamantina. Em Morro do Chapéu, muito sisal e moitas de aveloz. Chegamos em Ibotirama. Por uma estrada de piçarra, 11 km dali, a aldeia tuxá. Na sombra da casa do cacique Manuel Novais, o barbeiro ambulante corta o cabelo de um cliente. “Tô com 59 anos, inteirei neste mês de malço”, diz Novais, filho de um ex-chefe do posto da Funai em Rodelas. “Minha mãe era uma índia que não teve marido. Antes, eu não era nada. Comecei no movimento de remoção. Nossa aldeia era Rodelas, lá na margem do rio São Francisco. Viemos praqui pelo motivo da barragem de Itaparica. A Chesf construiu esta barragem, inundou nossa área, foi obrigado nós sair”. Bem que eles tentaram mais por perto de Rodelas, “por Juazeiro da Bahia, Petrolina... Viemo até Remanso, procurando, e não foi possive, as terra toda ocupada e alguma que encontramos era pouca. Na época que viemos, há vinte anos, era 96 família, agora tá em número de 211. Encontramos esta fazenda Morrinhos, aqui em Ibotirama. E ainda se vai comprar mais, o projeto que a Chesf tem pra esta comunidade é comprar terra pra dar 15 hectares a cada família, não sei se eles vão encontrar. Esta,

como foi pra comprar com dinheiro, foi fácil. Agora, a que eles querem adquirir através de decreto de desapropriação...”, deixa no ar. “Ole, não é muito bom mudança, a gente sai com saudade do que deixou. Mas graças a Deus estamos bem aqui. Em Rodelas, eram 200 famílias e só 108 hectares pra todo mundo. Foi bom mudar, hoje temos terra bastante, o rio tá aqui pertinho, daqui lá dá um quilômetro. E estamos longe de barragem”. É marcante a presença negra na aldeia. “Tem, minha filha. Porque, é o seguinte. O Brasil foi descoberto na Bahia e os estrangeiros vieram explorar, então os índio não quiseram aceitar e houve guerra, e quando aquela guerra houve, os guerreiros que iam pra luta, iam só os homens. Quando nós viaja pra Brasília e encontra lá os índio do sangue puro, os xavante, os carajá, sempre tem aquela demanda deles dizer que não somos índio, ‘porque vocês são branco, são negro’. Eu digo, olem, nós samo e é claro que nós samo índio. Se o Brasil fosse descoberto lá na região de vocês, hoje vocês eram igual a nós. Os homens morreram e ficaram só as mulé, e os negros, os brancos, os estrangeiros que vieram. Ficou só a descendência. Por isso, minha filha, todos têm o sangue do índio na veia. A gente se pinta, se traja e apresenta o nosso toré, que é uma tradição dos antepassados. E na hora precisa a gente dança, faz os trabalhos ocultos.

Ainda hoje usamos e sabemos fazer. Tem os cachimbos, tem a jurema, que se trata de se beber pra que possa se manifestar realmente os encantados em cada um de nós”.

A aldeia tem escola até o ensino fundamental, posto de saúde, igreja. “Viemos pra cá em 1986, chegamos 18 de abril, no outro dia era o Dia do Índio. Veio 22 família comigo, não existia nada. O outro pessoal veio despois, quando a Chesf fez esta vila. Aí colocaram luz, colocaram água. Tem tudo aqui, mas foi difícil, lhe conto a verdade, lutei bastante. Era em Brasília, Recife, Salvador, pra cima e pra baixo, pra conseguir esta terra e o que a senhora está vendo aqui. Temos de tudo, mas foi luta. Os chefes disseram, vamo botar os menino, que são mais novo, e têm conhecimento na Funai. Aí me colocaram na liderança. Quando chegou o tempo de sair, a gente se dividiu, porque fizemo acordo com a comunidade de sair todo mundo mas, quando foi na hora, eles desistiram, porque o pajé e o cacique, o prefeito e os vereador fizeram a cabeça deles. Houve uma eleição, na própria comunidade, veio a Funai de Recife, nossa superintendência era lá, e eu ganhei com a maioria. Aí eles não tiveram força mais de impor, me deram toda a confiança e apoio, aí pronto”. (Eleuda de Carvalho)

A Lapa do Bom Jesus

De Ibotirama até a próxima parada, só juremal e o cipó das jitiranas. Surpresa à vista com a arquitetura colonial-sertaneja de Paratinga, nome indígena que significa rio branco. Por aqui, ouvimos notícia da enchente do São Francisco em 1979, “a maior que nós tivemos”, recorda Dalice Moreira dos Santos, secretária da prefeita. “Foi uma calamidade, uma tristeza. A cidade de Malhada acabou indo todinha pra Carinhanha”. A conversa é na Casa de Cultura, antigo e belo solar da família Tourinho. Dalice mostra aonde chegou o nível da água, metro medido na parede da alta casa. Mais estrada a fora e chegamos à “capital baiana da fé” - como informam as placas de bem vindo e volte sempre a Bom Jesus da Lapa. Então, ergue-se à frente a rocha entalhada pelas eras em pináculos, torreões e ameias, figurando um castelo desmoronado. Uma torre construída em pedra dá ao conjunto um bizarro toque medieval. Grandes esculturas em bronze de apóstolos ladeiam a praça de acesso ao Santuário do Bom Jesus da Lapa, o maior centro de peregrinação da Bahia. Em 1663, já existia no lugar um povoado, segundo velhos documentos da vila de Paratinga, o que sobrou de uma antiga missão jesuíta nesta ribeira do São Francisco. No ano de 1691, o pintor português Francisco de Mendonça Mar, dizem que fugindo de um crime de morte cometido em Salvador, veio se penitenciar numa gruta do penhasco, e deu início à devoção ao Bom

Jesus Crucificado e à Virgem da Soledade, vivendo como missionário, acolhendo doentes e peregrinos. Voltou a Salvador, ordenou-se padre e regressou à Lapa, onde morreu em 1722 e ali está enterrado. Há visitantes abismados nas grutas de São Geraldo, Santa Madalena, Santa Luzia. Olham o Nicho de Santa Verônica, o pano com o rosto tatuado. A sala de ExVotos, repleta de réplicas de torsos, braços, cabeças, seios em cera, madeira, gesso. Muletas, bilhetes, retratos, brinquedos. Numa faixa amarela, recado de um devoto de São Paulo: “Sr. Bom Jesus da Lapa, eu, Nilton Rebouças, venho de muito longe lhe visitar, pela sétima vez, com o mesmo amor e prazer. Obrigado por todas estas oportunidades e até o ano que vem”. O Santuário tem diversas capelas naturais, salões, janelas na rocha por onde se vê o rio, o sol poente, a ponte. Depois dela, a Serra do Ramalho. Adiante, filas de baldes no chafariz da Agrovila 8, mulheres atarefadas. Marizete reclama: “Devia ser encanada pra nossas casas, uma taxa pouquinha... Seria melhor. É muito cansaço!”. Aí chegamos à cidade de Carinhanha, para a travessia de balsa do São Francisco em direção de Malhada. Lá, Gildemar entoa um aboio e toca uns bois meio bravos até a porta do curral. Gado nelore, de cupim imenso. “A pecuária aqui é boa”, gaba o vaqueiro, montado no cavalo tordilho que atende pelo gentil nome de Rebeca. (EdC)

No salto de Sobradinho

A barragem de Sobradinho faz parte do complexo hidrelétrico de Paulo Afonso, a 500 km dali. A construção terminou em 1979, afogando as cidades baianas de Remanso, Casa Nova, Sento-Sé e Pilão Arcado sob quase 35 bilhões de metros cúbicos, a capacidade total do reservatório. Na eclusa de navegação, a balsa espera abrirem-se os portões que nivelam o espelho d´água. Na portaria da Chesf, o vigia Dimas conta sua história. “Nasci aqui, na ribeirinha do São Francisco, em Casa Nova. Eu tinha sete anos quando a obra começou, fui um dos desalojados”. Roda o olhar pelo mar de água doce, além o azul da Serra do Mulato. “Isto era tudo povoado... Lembro do levantamento da barragem. A gente ainda pequeno, via aquele povo perfurando, meu pai mesmo trabalhou na máquina perfuratriz. Eram reuniões e mais reuniões, aos domingos. Muitas pessoas chorando, que não queriam sair do seu lugar. O pior veio depois, o ex-proprietário vendo a água engolir suas roças. Mas é esta água que ilumina nosso país”. Na beira da barragem, atrás de uma cerca de arame farpado, a casinha de taipa de Expedito dos Santos, pescador. “Nunca trabalhei pra ninguém. Fui criado por um tio pescador, com ele aprendi, mas não quero que meus filhos tenham a mesma profissão, que não dá mais”. Ele ainda consegue uns dourados, curimatãs, tambaquis ou pescadas, que leva pra vender em Juazeiro. Estava com 11 anos quando Sobradinho começou, em 1973. “Esta obra todinha perdi, não tive a felicidade de trabalhar nela”. A mulher dele, Aparecida, diz que gosta mais dali do que da casa melhorada que eles têm no Juazeiro, sente falta só da luz elétrica. “A energia tá bem pertinho... O sonho da gente é que chegue aqui, é o que a gente mais espera. Mas, quando a lua tá clara, aqui é mesmo que um dia”. O sol descamba além da linha do açude, e acende o lilás da flor de canudo, ali ao rés. (EdC)

A princesa e as carrancas

JANUÁRIA ] Cidade colonial mais ao norte, na beira do São Francisco. Do artesanato popular das carrancas esculpidas em madeira à célebre cachaça de alambique, Januária oferece ainda a beleza do entorno, o próprio rio, o afluente Pandeiros, o manguezal, as cavernas e veredas do Peruaçu. No distrito de Brejo do Amparo, a capela mais antiga de Minas Gerais

As furnas do Peruaçu

Entre as cidades de Januária e Itacarambi correm dois rios paralelos que deságuam no São Francisco, o Pandeiros, que forma o manguezal, e o Peruaçu, em cujo vale brotam veredas de buritizais, indício de nascentes d´água, e ressaltam formações rochosas com registros arqueológicos da presença humana. O guia Rosivaldo Cardoso diz que é possível, numa manhã, conhecer ao menos um pedaço do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. A caminho conta, no parque estão cadastradas mais de 180 cavernas, inclusive uma com 3.850 metros de extensão, abrigando a maior estalactite do mundo, “com 28 metros, tá no Guiness, a Perna da Bailarina”. Quem descobriu as cavernas do Peruaçu, diz Rosivaldo, foi o pioneiro Antônio Lopo Montalvão, fundador da cidade de Montalvânia. Paramos o carro no Buraco dos Macacos, seguimos uma trilha no mato ouvindo sempre o chiado do rio Peruaçu, espremido nas pedras. Um pé de barriguda, cartão postal desta região de cerrado. Uma árvore frágil, “mesmo com todo este tamanho. Quando chove, ela absorve água pelo topo. Com o vento, ela cai. A composição do tronco é tipo um

Existem ao menos três versões para explicar o nome da cidade. Que seria em homenagem à princesa Januária, irmã de D. Pedro I. Porque naquele lugar, pouso de tropeiros e caçadores de diamantes, atendia uma dona de bordel, chamada Januária, que assim se eternizou. A versão histórica diz que deriva de seu primeiro colonizador, Januário Cardoso. O irmão dele, Matias Cardoso, batiza o município vizinho. Januária é a maior cidade mineira mais ao norte, à margem esquerda do São Francisco. Fomos entrando, era de noite, as ruas calçadas de pedra negra luziam um brilho molhado, sob a lâmpada pálida dos postes de ferro. Manhã, as casas coloniais emparelhadas nos becos vão terminar bem nas curvas do rio. Onde foi cadeia e fórum é agora a Casa da Memória do Vale do São Francisco. Na rua Visconde de Ouro Preto, o Centro de Artesanato. Na Casa do Artesão encontramos Valdeci Guimarães pintando numa gamela lavadeiras nas pedras quarando roupa: “Os turistas gostam. O mercado tá lotado de gamela, pra valorizar, a gente tem que fazer alguma coisa diferente. Mas não tem mais lavadeira no rio, o Velho Chico tá meio devagar”. Em seu ateliê, o artesão e santeiro Florisval Oliveira, o Liko, finaliza uma imagem de São Francisco. Aos 47 anos, Liko é um dos mais conhecidos carranqueiros em atividade. “Eu morava à beira de um dos grandes afluentes do São Francisco, o rio Pardo, acima do pântano de Pandeiros. Vim pequenininho para Januária e me encantei com o apito dos vapores. Tanto que faço muita embarcação e a preferida são os gaiolas. Comecei a trabalhar com a fibra do buriti, depois passei pra madeira, mas só a que caiu há muitos anos, e vou tran-

sformar numa obra de arte e eternizá-la. É uma forma de equilibrar as coisas”. E como você começou? “Aqui existia o mestre Bufunfa. Ele nunca passou informação, mas contribuiu pra que a gente aprendesse. Eu via o trabalho dele”. Ao contrário de Bufunfa, Liko está repassando sua técnica e arte a quatro escultores de carrancas, uma peça que era utilizada como amuleto na proa das canoas. “A carranca é um tipo de arte única no mundo. No começo, as carrancas das embarcações eram suaves, berrante eram as cores. O povo acreditava em caboclos d´água, negros viradores de canoa. A carranca dava três gemidos avisando de perigos. A carranca é uma cara de cavalo misturada com cara de homem, criação dos rudes barqueiros do rio São Francisco”. A paixão de Liko pelo rio, suas histórias, o levou a entalhar as barcaças a vapor na perfeição. Um gaiola que ele fez, de dois metros, “com tudo funcionando”, está no Memorial da América Latina, em São Paulo. Outro, no Sesc de Januária. Sobre a integração de bacias, que beneficiaria outros estados nordestinos não banhados pelo Velho Chico, Liko defende: “Nós, desse médio São Francisco, somos todos nordestinos, nossa fala, a culinária. Era essa gente que subia o rio, pra pegar o trem em Pirapora e ir para os grandes centros. Muitas vezes ficavam, e foram povoando a região”. Liko diz que temos de conhecer Brejo do Amparo, onde é fabricada a genuína cachaça de Januária em alambiques centenários. Também lá existe a igreja mais antiga de Minas Gerais. Pra nossa sorte, o guardião da capela é seu vizinho, Joaquim. Ele não estava, mas dona Mariazinha, sua mulher, combinou uma visita para logo mais à tarde. (Eleuda de Carvalho)

O pulo do peixe

Desde o começo da viagem, a equipe sonha com um passeio de gaiola. Em Januária a informação que em Pirapora um velho barco a vapor ainda leva turistas às bonitezas do Chico Mineiro (como eles chamam o São Francisco em Minas Gerais). Pirapora, topônimo indígena. Espiando o rio pedregoso, dá pra ver o sentido do nome, imaginando tempos de fartura. O salto do peixe, é o que é. Subindo a correnteza para a desova, cardumes pulavam acima das pedras que ainda teimam com as águas do rio. Depois da Praça Cariris, em direção ao cais. Na beira d´água, um barco com roda de madeira na lateral. Uma pilha de lenha no convés, para inaugurar a caldeira nova que um grupo de homens instala, entre chispas de um fogo azul. Pena: o gaiola Benjamin Guimarães só volta a navegar no mês que vem. Mas há a presença ilustre do comandante, o baiano (de Casa Nova) Cassiano José de Castro, que conhece como ninguém estas águas. “Fiz muitas viagens...”. Cassiano começou como auxiliar de prático, aos 17 anos, em 1946. Depois foi prático, piloto e comandante, em quatro décadas de trabalho. Aposentado, voltou ao posto na reativação do gaiola para o turismo - um passeio que dura no máximo seis horas, 30 km até a barra do rio Guaicuí, que deságua no rio das Velhas. O fim dos barcos a vapor, diz seu Cassiano, foi por causa “da evolução do tempo. O transporte é lento, e o rio está muito assoreado”. Além disso, reconhece, o

isopor, não tem aquela matéria resistente das outras árvores. Produz uma flor muito bonita, tem a amarela, a vermelha, a branca”. Parece uma árvore ao contrário, um africano baobá. Vemos umburanas, embaúbas, ipês. “De bicho tem o veado-campeiro, o tamanduá-bandeira, o macaco, a jaguatirica, a onça-preta, o lobo guará. E tem um pássaro que só aparece de madrugada”. A aranha de corpo comprido tece na trilha uma teia amarela. Chegamos à Gruta do Rezar. “Os antigos faziam rituais aqui. Acharam peças trabalhadas e ali tem um paredão com pinturas”. A boca da caverna (foto) tem 90 metros de altura por 50 de largura. Do teto, mais ao fundo, descem lentamente as estalactites, pingo a pingo de calcita diluída se acumulando a milênios. Do chão sobem estalagmites, quando se juntam formam colunas. No paredão, painéis de arte rupestre, alguns desenhos sobrepostos. São setas, pontilhados, formas geométricas em amarelo, vermelho, branco e preto. Há gravuras antropomorfas e de animais. Depois de um almoço de galinha caipira dos deuses, vamos a Pirapora, seguindo o São Francisco verde, o azul da Serra dos Tropeiros. (EdC)

vapor é antiecológico. O Benjamin Guimarães foi construído em 1913 nos EUA, e navegou pelo Mississipi até ser vendido para o Brasil, em 1920. Tem 44 metros de comprimento, oito de largura e suporta 90 toneladas. A chaminé se eleva a sete metros. De Pirapora, em Minas, a Juazeiro da Bahia, eram de oito a nove dias, passando por 28 cidades. O retorno, contra a corrente, durava até duas semanas. A capacidade é para 147 passageiros, mais 23 tripulantes. Nos bons tempos, havia mesmo festa em um dos três salões. “A população ribeirinha, quando escutava os três apitos, vinha toda nos receber, até com banda de música!”.

Espiando o movimento, na bicicleta, Orlando Soares de Sousa, 19 anos. Ele também dá notícia da grande enchente de 1979. “Eu não tinha nascido, mas diz papai que a água foi até a matriz. Diz pai que descia abóbora, galinha, os surubins era trilhando dentro das casas”. Olha o rio, comenta: “Tá muito acabado aqui, distiorado demais. Ixe, o rio dava gosto, só aquele marzão d´água zulzim. Hoje, nosso rio cabou-se”. Buritizeiro seria nosso próximo destino, do lado de lá do rio, sobre a velha ponte do trem. No meio, tábuas entre os trilhos. Numa das laterais, motos e bicicletas. Na outra, o povo a pé. Devagarzinho, Valdir Gomes segue pela ponte, o barulho da madeira contra os pneus e a estrutura metálica. Um gaiato brinca: “Cuidado com o caboco d´água, viu?” (EdC)

Os cabelinhos perfeitos

Há pichações na parede externa da igreja de Nossa Senhora do Rosário, erguida em pedra e adobe no ano de 1761. “Escrevi até uma faixazinha dizendo: os que construíram ela não deixaram os seus nomes, por que vocês deixam os seus?”, fala o guardião, Joaquim Silvestre. “Esta torre já foi modificada, não foi do tempo nosso, ela pertence a uma arquitetura diferente. Ela estava quase caindo quando fizeram a restauração. Mas o dinheiro que foi gasto aqui não correspondeu, não houve fiscalização. Sempre vinha verbas e mais verbas. Tem uns quatro anos, nunca mais voltaram. Mas o mais importante desta capela é o valor histórico da pintura que tem no teto. É original”.

Quando da restauração, Joaquim conta que viu debaixo das tábuas “gente enterrado, os cabelinho tá perfeito, fininho, louros. Enterravam só os brancos, os portugueses”.

No piso emadeirado, datas gravadas com pregos, Mariazinha tenta decifrar um “aqui jaz”: “Vinte do dois de 1793? Sabe Deus que ano...”. Quando da restauração, Joaquim conta que viu debaixo das tábuas “gente enterrado, os cabelinho tá perfeito, fininho, louros. Enterravam só os brancos, os portugueses”. Na parede, aponta: “Qualquer lugar que você cave, nestas beiradas, encontra osso de criança. Nesse teve uma coisa interessante. Na hora que cavou aqui, nós notamos que tava pingando um óleo dourado. Era do osso de uma perna. Depois de tanto tempo...”, se espanta. No altar-mor, o lambrequim em madeira, decorado em data posterior à pintura do teto, em ripas rejuntadas. É muito bela, com seus florões, querubins e, num escudo central, a imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus. “O pessoal de Januária não dá valor aqui, mas a quantidade de gente de fora que vem ver esta igreja é uma coisa impressionante. É uma igreja simples, não tem aquele toque refinado igual tem as de Ouro Preto. Mas não deixa de ser histórica e linda. Um dia ainda vou ver ela, prontinha. Pode ter certeza, a gente vai lutando. Um dia, ela vai aparecer”. (EdC)

TETO da igreja em Brejo do Amparo, a mais antiga de MG

Nas veredas de Guimarães Rosa

Cordisburgo, a cidade natal de João Guimarães Rosa. Um friozinho de machucar. A estação do trem, singela. O casario simples, janelas e portas exibindo seus batentes de madeira. A cinco quilômetros, por estrada asfaltada, uma maravilha natural: a gruta do Maquiné, “o berço da paleontologia brasileira”.

GRANDE SERTÃO ] Neste trecho do rio São Francisco, próximo já à nascente, o chão de Guimarães Rosa. O escritor, que era poliglota e diplomata, nasceu em Cordisburgo. Nos anos 50, viajou em lombo de burro junto com uma tropa de vaqueiros, margeando o rio. Desta experiência, construiu uma de suas obrasprimas, o romance Grande Sertão: Veredas

Mais energia, gerada pelo rio São Francisco. Estamos no município de Três Marias, onde fica a represa de mesmo nome. Na portaria de acesso, o funcionário da Chesf, Dázio, natural de Andrequicé, um distrito próximo daqui, pediu ao guarda José Orlando pra nos acompanhar na visita. Disse: “Leva esse pessoal do jornal aí, Zé Boquinha”. Zé Boquinha cultiva um bigode ao modo de Belchior, o cantor cearense. Ele também relata lembranças da enchente de 1979. “As comportas de Três Marias eram abertas dia e noite, meses e meses. E a água chegando...”. No meio do espelho d´água da represa fica a ilha das Marias. Zé Boquinha conta: “Diz que eram três irmãs, todas três Maria, que se afogaram no rio”. Na estrada, outra vez. Placas avisam: “Atenção! Veículos transportando madeira nos próximos 10 km”. Na margem da rodovia, grandes indústrias, a Votorantim, por exemplo. Ao invés de cerrado, o que se vê, em cada lado da pista, são estes linheiros e brancos pés de eucalipto e pinus. Em Andrequicé, terra do vaqueiro Manuelzão, que virou personagem de Guimarães Rosa, a reflorestadora Gerdau. E carvoeiras, enfumaçando a paisagem. Passam caminhões entupidos, a carga mais larga no alto, escapolindo da carroceria. Pelo asfalto, caem pedacinhos de carvão.

Cordisburgo, a cidade natal de João Guimarães Rosa. Um friozinho de machucar. A estação do trem, singela. O casario simples, janelas e portas exibindo seus batentes de madeira. A cinco quilômetros, por estrada asfaltada, uma maravilha natural: a gruta do Maquiné, “o berço da paleontologia brasileira”. A caverna foi descoberta em 1825 pelo dono do lugar, o fazendeiro Joaquim Maria do Maquiné. Em 1834, o naturalista suíço Peter Lund visitou o local, explorou os sete primeiros salões, 650 metros em linha reta, num desnível de apenas 18 metros. Achou ossadas de animais extintos há milênios. Os fósseis estão guardados no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro. O guia Raimundo Nonato Correia nos conduz, caverna adentro. Explica a beleza dos espeleotemas, que são as formações no teto, nas paredes ou no chão das cavernas, originadas do gotejamento carregado de carbonato de cálcio e outros minérios diluídos. No pri-

meiro salão, a água em pequenos canais reflete ao avesso as formações da abóbada. “Faz 14 anos que não chove suficiente pra dar infiltração, aí a gente coloca água”, explica. Entre os canais naturais, um franzido de rochas, “macarrão miojo”, brinca o guia. São microtravertinos, explica, “é a cristalização do carbonato, um pré-mármore”.

A caverna foi descoberta em 1825 pelo dono do lugar, o fazendeiro Joaquim Maria do Maquiné. Em 1834, o suíço Peter Lund visitou o local e explorou os sete primeiros salões

Estalactites translúcidas, quando Raimundo joga o facho da lanterna. A gruta não tem suspiros, aberturas no teto. Há lâmpadas colocadas em pontos estratégicos que ressaltam a maravilha do lugar. “Tem um cortinado, a senhora vai ver. E o tubo de órgão. O fêmur. E 80 metros em vão livre, no salão do trono. Tudo feito pelo volume de água que passou aqui”. Raimundo chama a atenção para os espeleotemas “em sentido horizontal, o que é difícil”. Neste salão, o terceiro, diz, foi gravado, nos anos 70, o filme DiamanteCordeRosa, de Roberto Carlos. No quarto salão, um carneiro perfeito, “com a cabeça, a orelha, olhos, focinho e pata, a lã”, se destacando, sozinho, no paredão. No alto, em curva, uma escultura feita de finos panos de calcário. Cortinas de luz que soam como sinos, quando tangidas pelos dedos do guia. O quinto salão é o das piscinas, criadas por um deslocamento de rocha que bloqueou a passagem da água. O bolo de noiva, um coral cor de enxofre, o rabo do pavão, um leque, imagens sugeridas por prolongamentos cristalizados que brotam da carne de pedra. “Aqui, você imagina muita coisa”. Imagina-se ainda mais no Salão das Fadas, o sexto. Tonalidades diferentes dos minerais dissolvidos, o ferro vermelho, o magnésio pálido, o leite da calcita. O último salão, o do trono, com 140 metros, é dedicado a Peter Lund. Raimundo mostra o sumidouro, um buraco por onde a água do riacho Cuba desaparece. Bate o pé no solo, o som reverbera, longo, feito um trovão. É tudo oco aí embaixo, uma caverna sobre a outra. Na saída, o guia mostra, acima da lapa, uma pintura rupestre datada de seis mil anos. A Gruta do Maquiné é aberta “365 dias do ano, de oito às 17 horas. Aqui não fecha não”, finaliza Raimundo. (Eleuda de Carvalho)

Cavalhadas e alambiques

SEU LIONELé fabricante de cachaça no Brejo do Amparo

Joaquim Silvestre de Oliveira e Mariazinha estão na porta de casa esperando pra nos levar ao Brejo. Pelo caminho, vai explicando: “Aqui tinha a tribo dos caiapós. Januário Cardoso se interessou por uma índia muito bonita, Catarina. Mas os índios tomaram ela de novo, aí foi o extermínio, se conta. Tem a igreja aí, da mesma época. Ele e o irmão dele, Matias, vinham procurando lugar pra plantar cana de açúcar, aqui foi fundado vários engenhos. Funcionam do mesmo jeito. Até pouco tempo, o Brejo do Amparo era a rota de tropeiro que vinha de Montalvânia, de Santa Maria da Vitória, aqui era a Estrada Real”. Mas isso faz tempo, digo. Joaquim retruca: “Ah, inda alcancei! Na guerra de 40, as tropas vinham de Goiás com 200 animais carregados com mangaba. Conheci dois homens que faziam correio daqui pra Goiás, mês depois voltavam. Foi outro dia, né? Os tempos, de repente, se tornaram tão ágeis. Que tenho 66 anos, mas vi isso. Hoje nem precisa mais de carta, tem o computador”. Antes de mostrar a igreja de Nossa Senhora do Rosário, Joaquim apresenta os alambiques locais. A primeira parada é no engenho do Suzinho, suando no meio dos tachos a ferver. “Isso era do meu bisavô, não mudamos nada”. Em outro sítio vivem seu Lionel e dona Jovina. O velho diz, um tanto enfezado: “Não vendo pra bodega, só pro consumidor. E o nome dela não é pinga, é cachaça”. Um rapaz vem vindo, dizendo alto (que seu Lionel não escuta bem): “Estou procurando aqui é cachaça de cana caiana! Ele não tá lembrando de mim...”. Lionel: “Porque é muitcha gente que vem!”. O recém-chegado: “Sou filho de Nequim, o finado Nequim de Norato. Sou o Messias”. Lionel, vaidoso: “Eu tô conhecido no Brasil todo e até no Exterior, tô saindo no jornal! Sou Lionel Lopes da Mota, nascido em 10 de abril de 1919 no Brejo do Amparo, tive 11 filhos com Jovina. Desde que nasci trabalho com a famosa cachaça de Januária”. Ele também é matinador da Cavalhada do Brejo, me diz ao pé do ouvido a Mariazinha. Matinador, explica Joaquim, é o que puxa a coreografia da Cavalhada, figuração de batalha onde se enfrentam cristãos do partido azul contra mouros do partido encarnado, além de torneios que lembram as justas dos cavaleiros medievais. Hoje em dia, seu Lionel já não brinca. “Fui ficando velho, é dureza, então passei pra meu filho Tarcísio”. Mariazinha destaca a boniteza dos cavalos, adornados de fitas e os rebrilhos nas selas enfeitadas. Joaquim também é brincante, faz parte de um Reis de Caixa, “tradicional aqui da região, tocado com sanfona, viola e uma caixa. Tem o chula, na verdade, um samba. Eles criam aquele samba pra na hora que terminar o reis eles cantar. Ficam prestando atenção em todos aqueles acontecimentos e transformam no samba. Aqui temos muitos reis famoso, o Reis das Estrelas, o Reis dos Cacetes, que são os Temerosos, tiveram até na Xuxa”. Ele vai pegar a chave da capela no sítio deles, aproveita pra dar milho às galinhas. Mostra o forno de tijolos, “pra assar pão de queijo e mané-pelado”. Mariazinha dá um pulo, “aqui nós não come mané-pelado não! É um bolo bem ruim”, explica, se rindo. Ao lado da capela, o jatobá, “do mesmo jeitim que eu via quando criança”, repara Joaquim. (EdC)

SALÃO DAS FADAS, o sexto de vários na gruta do Maquiné: local é aberto a visitação todos os dias do ano. Abaixo, o artesanato a partir da obra de Guimarães Rosa

Na tampa do baú

Sobre a chapada, após o Centro de Visitantes do Ibama e as recomendações de praxe, a trilha da nascente, entre espigas cor de uva do capim. Flores parecidas com cabiçulinhas, bilas cor de violeta, acolá. Amarelinhas na grama, outras cor de gelo. Cachos de chuveirinhos. O casal de carcarás (o topete escovinha, negro, em contraste aos olhos grandes, a cara de mau). O carcará é o rei da pedra, dos mirantes, sempre espiando tudo. Junto à nascente, cercada por pedras, uma imagem de São Francisco. Além, o regato que vai se espremendo até desaparecer na fenda do paredão, formando a Casca d´Anta. Zum de besouro. Borboletas flexionam as asas ao sol, em sua ginástica de luz. No campo raso, topo da chapada, pernaltas seriemas. Um chão sem sombras. Na volta, o tamanduábandeira atravessa o caminho. Lento, andando, negro, o focinho tão comprido, o rabo de raposa, felpudo. O guarda Itamar diz, na saída, “vocês tiveram sorte! É raro ele aparecer de dia”. No fim da tarde, vem subindo a chapada de bicicleta o dono da pousada Barcelos, em São Roque, Bruno Bitencourt Barcelos. Deixou Belo Horizonte, o emprego de engenheiro e designer numa multinacional para viver aqui, bem mais perto da natureza. A maior preocupação dele é com os incêndios e a falta de pessoal bem treinado para combatê-lo. O campo raso é pasto de fogo, o parque cercado de fazendas. Os donos ainda praticam a coivara, a técnica de preparo do plantio através da queima. “Isto compromete a mata ciliar que protege as nascentes. E os proprietários tocam fogo nas roças, apesar de todos os esforços e tentativas de educação e ações da polícia florestal”. (EdC)

Onde nasce o rio

SERRA DA CANASTRA ] Depois de quase 3 mil quilômetros, chegamos à nascente histórica do rio. A partir de São Roque de Minas, o acesso ao Parque Nacional. Trilhas, regatos, animais silvestres, as aguinhas que despencam pela Casca d´Anta: a primeira queda do São Francisco, que vai banhar a cidade de Vargem Bonita, ao lado. O clima é muito agradável, a culinária de fazer pecar

Pompéu, rio Paraopeba. Pinheiros, abetos, eucaliptos, carvoarias. Martinho Campos, Bom Despacho, Moema, Lagoa da Prata, Arcos. E o córrego Buritis, o rio Santa Luzia, o São Domingos. A paisagem variou: cana-de-açúcar ao longo da MG 170. Em Pains, indústrias de cal. Antes da ponte do rio Piumhi, já se vê o contorno da serra, em forma de um baú bandeirante que se chamava canastra. Daí o nome. Estamos perto, passamos Pimenta, a ponte do ribeirão das Araras. Pés de café sobre a terra roxa. E então chegamos a São Roque de Minas. O rio São Francisco começa por aqui. Era o ano de 1501. O navegador Américo Vespúcio chega às margens de um rio muito grande, em pleno Interior do Brasil. O dia, quatro de outubro, dedicado a São Francisco. Por isso o rio ganhou o nome do santo. Seguindo o rumo destas águas, colonizadores penetraram o País, desde os gerais de cerrado até a áspera caatinga, povoando suas margens de gados e fazendas. Assim nasceram as cidades do sertão. Em 1553, o jesuíta espanhol Juan de Azpilcueta Navarro, primeiro tradutor de sermões e orações para o tupi, seguiu, com “12 cristãos”, por ordem de seu superior, o padre Manuel da Nóbrega, a descobrir novas tribos para a catequese. “Entramos pela terra adentro 350 léguas, sempre por caminhos pouco descobertos, por serras mui fragosas que não têm conto. Fomos até um rio mui caudal , por nome Pará que, segundo os índios nos davam informação, é o rio de São Francisco e é muito largo”. Pará: o mar doce.

O Parque Nacional da Serra da Canastra é aberto à visitação das 8 às 18 horas. Além da vegetação de cerrado, uma profusão de passarinhos e aves maiores, tucanos, urubus-rei, o sempre presente carcará...

O Parque Nacional Serra da Canastra foi criado em 1972, com o objetivo principal de proteger o nascedouro do rio São Francisco. Abrange uma área de 71.525 hectares, com 173 km de perímetro, em terras dos municípios de Sacramento, Delfinópolis e São Roque de Minas. Além da nascente (ou nascentes) do Velho Chico, a unidade de conservação também protege a matriz do rio Paraná. A mata ciliar é o indício dos olhos d´água nestes campos de altitude e cerrado. Mais de 30 cachoeiras despencam do paredão, e uma delas é a primeira queda do São Francisco, a Casca d´Anta, que se pode apreciar do chapadão - fio fino se ajuntando entre as pedras, ou embaixo, em toda a sua beleza perene de cascata.

A portaria mais próxima da nascente fica a seis quilômetros de São Roque de Minas, que era distrito de Piumhi e se chamou antes Guia Lopes, em homenagem a herói local da Guerra do Paraguai que guiou os soldados brasileiros na Retirada da Laguna. O maior acontecimento de São Roque é a festa do Queijo Canastra (em julho), e do Padroeiro, em agosto. Na serra

ainda restam os currais de pedra dos antigos proprietários e a sede da fazenda dos Cândidos. Próximo à portaria de Sacramento, a casa grande da fazenda Zagaia, de triste história. Contam que tropeiros se arranchavam ali, voltando da venda de gado, e eram surpreendidos em uma armadilha. Um teto falso sustentava uma zagaia (lança de ferro), disparada quando o incauto viajante adormecia. O parque é aberto à visitação todos os dias, de oito às 18 horas. Além da vegetação de cerrado, uma profusão de passarinhos e aves maiores, tucanos, urubus-rei, o sempre presente carcará. Vivem ali lobos guará, tamanduás-bandeira, o veado-campeiro, a onça suçuarana. A portaria da Casca d´Anta fica em São José do Barreiro, de lá, contempla-se a primeira cachoeira do São Francisco, a coluna despencando de 200 metros. Ilusão dos sentidos: mire a cortina d´água em queda livre, uns minutos. Depois, desvie o olhar e o que se vê são os paredões, subindo em direção ao céu azul. Após a visita, almoço no restaurante do Rá, ao som de moda de viola. Enquanto Lourenço Nitrini prepara a comida (feita na hora), uma conversa com seu Onofre Álvares de Farias, 56. “A gente tinha uma terra no chapadão, o Ibama desapropriou. Nós aqui tem muita água, água nasce aqui em todo lugarzim que você vê nessas serras, é o que cria a fartura. Meus avô, bisavô, tudo foi criado aqui mesmo, mas a gente vai vivendo, graças a Deus, aqui é bom demais, o povo até tem saúde. O essencial é saúde”. De lá, passamos por Vargem Bonita, a primeira cidade banhada pelo São Francisco, e a primeira ponte sobre o rio. (Eleuda de Carvalho)

Piranhas é outra cidade histórica alagoana, povoada desde 1770. O prédio do Museu, que conta a história do lugar, é na antiga estação de trem, em estilo inglês. Cactos fininhos nasceram no telhado. Aqui, o São Francisco escorre em seu percurso mais estreito, entre os canyons, paredões rochosos cobertos de plantas espinhentas. Para visitar a grota onde Lampião morreu, numa madrugada de 1938, é preciso tomar um barco a motor, cruzar o rio à outra margem, Sergipe. Entre pedras e corredeiras, o barquinho voa sobre as águas, um caminho que só mesmo quem, como o Rogério, aqui nascido e criado, sabe. Meia hora depois, na prainha de Porto da Folha. Seguimos a trilha aberta pela volante que matou Virgulino Ferreira, sua Maria Bonita e mais nove cangaceiros. As cabeças cortadas foram expostas na calçada da prefeitura de Piranhas. No fim do passeio, uma cocada de coroa de frade. Boa, mas doce demais, enjoada. (EdC)

A cabeça de Lampião
LOCAL onde Lampião foi morto
O COMEÇOdo rio, a nascente histórica, em Minas Gerais, na cidade de São Roque de Minas: dos tempos dos colonizadores, por onde chegou o navegador Américo Vespúcio, em 1501, no dia 4 de outubro, dedicado a São Francisco

O rio encontra o

mar

Caminho de volta. Paisagem: a mesma. Vales e montes e cidadezinhas e indústrias e quilômetros de eucaliptos de troncos brancos, retos, iguais. Dizer de caminhão: “Fora da lei mas dentro do horário”. Teófilo Otoni, “a capital das pedras preciosas”. O rio Jequitinhonha, antes de Itaobim (“a terra da manga”). Quase na fronteira, o pendúnculo do sisal. Deixamos a BR-116 pela BA-415, rumo a Ilhéus. Chovia. Ilhotas verdes de coqueiros e casinhas. A Bahia do cacau enevoada e dendê demais na moqueca. Em Uruçuca, casas caiadas, portas e janelas azuis. Ponte sobre o rio de Contas. Em Cruz das Almas, o rio Paraguaçu. Daí à Linha Verde/Estrada do Coco (BA-099, com pedágio). Arembepe. Além, a Praia do Forte. E o Castelo de Garcia d´Ávila. Entramos em Sergipe, cruzando a ponte sobre o Vaza-Barris. Em Neópolis, a balsa para a travessia do São Francisco com destino a Alagoas, em frente. Penedo, coisa mais linda.

Penedo é o mais antigo povoado de Alagoas, fundado em 1565 na proximidade da foz do rio São Francisco. O casario colonial é de encher os olhos. A igreja de Nossa Senhora das Correntes, de 1720. Na esquina da rua, o Oratório dos Condenados, também do século 18. A capela particular da família Lemos data de 1765, e guarda em sua nave azulejos portugueses policromados, que só existem aqui. A fachada é barroca e os altares laterais em estilo neoclássico. O altar-mor é rococó. Nos nichos principais, imagens de Nossa Senhora das Dores, do Senhor do Bonfim e de São Manuel da Paciência, protetor dos professores. Flechado, como São Sebastião. Os altares são em madeira recoberta com clara de ovo, óleo de baleia e ouro em pó. O teto foi pintado em 1784 por Libório Lázaro Leal, que também ornou o templo mais antigo de Penedo, o convento e igreja de Santa Maria dos Anjos, com 346 anos. Quem recebe os visitantes é Maria Núbia de Oliveira, da Ordem Franciscana Secular. Depois de

Delmiro, o pioneiro

Quem primeiro usou a força da cachoeira de Paulo Afonso para transformála em energia elétrica foi Delmiro Augusto da Cruz Gouveia, cearense nascido na vila do Ipu, em 5 de junho de 1863. Ficou órfão de pai aos cinco anos (morto na Guerra do Paraguai). A mãe leva os filhos pequenos, Delmiro e a irmã, para Recife. Antes dos 18, Delmiro já negociava peles, couros e algodão, começo de sua fortuna. Ele fundou o Mercado do Derby, espécie de shopping center com lojas 24 horas, bares e cinema. Comprou a Usina Bulhões, entre Recife e Olinda, ampliando o capital. Chegou até a ditar moda: fez fama o tipo de colarinho que usava, alto e engomado, os “colarinhos Delmiro Gouveia”. Sem nunca se meter diretamente em política, colecionou inimigos poderosos. O pior deles, o então governador. O incêndio do Derby, nunca explicado, fez com que Delmiro fosse embora de Pernambuco, em 1903. Levou consigo sua grande paixão, a jovem filha do governador de Pernambuco. Com amigos em todo canto do Nordeste,

Luz para o Ceará

O português Paulo Afonso de Sisneiros foi dono de sesmaria que se espalhava em léguas na ribeira baiana do São Francisco, junto à foz. Deu seu nome à maior cachoeira do rio. A cidade nasceu junto com a construção da primeira usina hidrelétrica de Paulo Afonso, em 1958. A segunda, de 1966, foi responsável por trazer energia elétrica para o sertão do Ceará. O guia Erivaldo Cardoso nos leva a um passeio inesquecível, e dá sua opinião sobre a interligação de bacias: “Pela quantidade de água, sou favorável. Agora, se o povo vai ter acesso, e quem vai pagar, é outra coisa. Acho que o rio vai acabar se a gente não fizer um trabalho de recuperação das matas ciliares, e melhorias no esgotamento sanitário industrial”. Ele se empolga, ao mostrar o embate entre o homem e a natureza. “O que os engenheiros fizeram aqui foi pegar o rio na parte mais sensível, o braço principal, e desviaram. O São Francisco foi completamente dominado. A Chesf fornece

fazendeiros que lhe forneciam as peles, couros e capuchos de algodão, adquire a fazenda Buenos Aires, no lugarejo chamado Pedra, em Alagoas, na confluência entre Bahia, Sergipe e Pernambuco. Próximo dali, a cachoeira de Paulo Afonso. Pedra era um lugarejo ínfimo, mas tinha estação de trem. Com engenho e arte, Delmiro manda vir, pela maria-fumaça, o maquinismo necessário à construção da usina Angiquinho. Com a energia gerada, eletrificou a pequena cidade (que crescia, à medida que os negócios dele prosperavam). No dia do seu aniversário, em 1914, Delmiro Gouveia inaugura uma fábrica de linhas, a Fábrica da Pedra, para desespero dos ingleses que dominavam o mercado. No dia 10 de outubro de 1917, Delmiro é assassinado. A fábrica, comprada pela Cotton Machine, foi destruída em 1929, os mecanismos jogados no rio São Francisco. Mas a usina Angiquinho permaneceu, suas instalações foram recuperadas pela Chesf e a memória do pioneiro se eternizou. A antiga vila de Pedra é hoje o município de Delmiro Gouveia. (EdC)

energia para aproximadamente 45 milhões de pessoas. O Nordeste tem que ser dividido antes da Chesf e depois da Chesf. A energia de Paulo Afonso chegou ao Ceará quando o presidente era um cearense, Castelo Branco”. E o governador do Ceará era Virgílio Távora. A visão do rio, da usina pioneira de Delmiro, de dentro do bonde, suspenso por um fio, balançando-se entre Alagoas e a Bahia, dá por finda a viagem. (EdC)

FOZ ] O encontro de gigantes, onde o São Francisco bate-se com o Atlântico, é na divisa dos estados de Alagoas e Sergipe. Na alagoana Penedo, fachadas coloniais do pósDescobrimento e a hospitalidade praieira nordestina. No dia da visita, um toró de fechar a vista

mostrar os ambientes, Núbia canta, sua voz tão bonita: “Se um dia eu saísse de Penedo, levaria todo esse casario...”. Continua chovendo, o casario de Penedo se dissolve entre o rio e o céu. Vamos a Piaçabuçu, no lugar Pontal do Peba. Futebol na areia da praia. Numa jogada mais perigosa, um grita de lá, “eitxa!”. Fieira de barcos, ancorados lá no mar. Impossível ir até a foz, dizem os barqueiros. Maré baixa e a chuva que não dá trégua. O jeito é tocar pra diante. Na estrada, novinho canavial. Um avô a descoberto envolve os netos que vêm da escola numa capa azul, de fora só dois pares de canelinhas finas. O velho usa um boné, fuma um cigarro. Na velocidade do carro, passam casinhas na chapada chã, e a chuva. Lagoa Seca, Porto Real do Colégio, Arapiraca (e as rocinhas verde-musgo dos pés de fumo), Batalha, Jacaré dos Homens, Olho d´Água do Casado. Chove, chove. Pela rodovia Altemar Dutra, chegamos em Piranhas. (Eleuda de Carvalho)

ERIVALDO CARDOSO, guia e “analista”
IGREJAde Nossa Senhora das Correntes, em Penedo (AL)
FCO FONTENELE

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