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Páginas Azuis com Espedito Seleiro

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PÁGINAS AZUIS PÁGINA 16 FORTALEZA-CE, SEGUNDA-FEIRA, 13 DE JUNHO DE 2011

Espedito Seleiro ]

A simplicidade do mestre

Estão copiando a arte de Espedito Seleiro. Sinal de que seu nome agrega valor e conceito ao couro cortado das sandálias coloridas, bolsas para executivos, chapéus, botas de artistas e top models, gibões e tralhas do vaqueiro conterrâneo... Cláudio Ribeiro claudioribeiro@opovo.com.br

Demitri Túlio demitri@opovo.com.br

Igor de Melo igordemelo@opovo.com.br

S

eu Espedito Seleiro não se empabula do sucesso que chegou à sua porta na acanhada Nova Olinda, no Cariri cearense. De uma hora pra outra os apetrechos de couro expostos na oficina ganharam o Brasil e o mundo nos pés e no manequim de famosos. Apreciar o assédio? Aprecia. Tanto que não há um cantinho para um novo retrato nas paredes sertanejas da fama. Ele e Guel Arraes, ele e Regina Casé, ele e Gonzagão... Ele e centenas que se fizeram clientes assíduos de ligar ou passar por lá para levar e encomendar desejos que tragam sua marca. A amizade com cineastas, atrizes, doutores e gente da moda agregou novo valor e conceito às sandálias, às bolsas, aos porta-moedas e às botas, mas não lhe tiraram os pés nem a cabeça da realidade onde se criou. Leitor de seu tempo, Espedito sabe demandar para um grupo que trabalha a seu lado – esposa, filhos e aprendizes – qual cavalo está passando à sua

frente e o que realizar para satisfazê-lo. E ele diz que nunca para, pois não há tempo ruim. Quando é época de vender sela, faz sela enfeitada para patrão e tralha acessível pra vaqueiro simples. Na invernada, quem lida com o gado compra gibão. Nos setembros e outubros das vaquejadas, o couro é sinônimo de fartura na venda de seu Espedito. E na safra boa, colheita abundante, não há vencimento para os pedidos de cangalhas, cordas e outras tecnologias milenares e brejeiras. Simples ele é. Empreendedor também. Por ele teria uma linha de produção mais robusta, além do que lhe pedem. Para não ter de rejeitar pedidos de fora com medo de não honrar compromissos e perder a palavra. Enquanto isso, vez em quando, lhe chega aos ouvidos que estão copiando suas peças. Pirateando a fama do mestre. Leia a seguir, a boa prosa que Espedito Seleiro teve com os repórteres do O POVO, na sala cercada de couro.

OPOVO - O senhor ainda está vendendo para as grifes de moda (Cavalera e Cantão)? Espedito Seleiro - Nesses dias não vendi mais, não. Por enquanto tô trabalhando com uma loja da Espanha. OP - Qual é a loja? Espedito - Não sei o nome nem o endereço. Quem sabe é meu menino.

A primeira peça que fiz pra gente famosa foi de Luiz Gonzaga. Fiz uma sandália branquinha que ele gostava de usar

Eu me considero um homem trabalhador, mas artista, não. O pessoal diz que a gente é, mas não sei se sou

OP - Quanto tempo o senhor trabalhou para as outras marcas? Espedito - Desde... 2006, parece, que faço peça pra lá (Cavalera). Depois fiz pra Cantão. OP - E as peças foram para a São Paulo Fashion Week? Espedito - As peça que eu fiz foram direto pra São Paulo Fashion Week. Pro desfile. OP - E o senhor foi assistir lá? Espedito - Fui. Parece que foi em 2006. OP - O que o senhor achou daquele mundo lá? Espedito - Achei legal. Nunca tinha assistido e achei bonito e achei bom. Fui convidado, me receberam bem, as minhas peça foram aprovadas. Gostei demais. Passei quatro dias lá. OP - Vendeu bastante? Espedito - Pra eles, da Cavalera, vendi bem. Todas as peças. OP - Foi lá que o senhor teve noção que também era uma grife internacional? Foi a primeira vez que participou de um desfile? Espedito - Pra Cavalera foi a primeira vez. Mas fiquei na minha, porque fiz as peças todas e não sabia pra que era, né. Vieram aqui e perguntaram se eu tinha condição de entregar essas peça. Como eu tinha uma parte de peça que já estava pronta, aí disse que ia fazer em 40 dias. Eu fiz. Não sabia que era prum desfile famoso daquele. Depois que vi a festa

PERFIL Em outubro do ano passado, a Câmara de Vereadores de Nova Olinda resolveu adotar oficialmente Espedito Veloso Carvalho. O seleiro de avô e pai, batizado há 70 anos em Arneiroz dos Inhamuns, no sertão do Ceará, passou a ser também cidadão do Cariri. Terra que deu vazão há um ofício que já tem quatro décadas de lida. Criado na cultura do couro e pouco alfabeto, ele conta que a habilidade em transformar a pele curtida do boi em peças de arte (”disseram que faço arte”) tem a ver até com as vaidades do cangaceiro Lampião. Espedito diz que o capitão do mato, em certa ocasião, pediu a seu pai que desse um jeito nas sandálias estropiadas de andanças pelos sertões. De pronto e amedrontado, retocou o calçado e aproveitou para copiar o modelo usado por Virgulino. Molde que teria guardado e repassado para o filho Espedito. As sandálias “Lampião” fazem parte da história de mais de uma geração de seleiros do Ceará.

foi que tive entendimento. Eu fui com a minha esposa e o meu filho. Eu gostei deles porque eles anunciaram, botaram em retratista, em DVD. Aí depois pra cá ampliou mais meu trabalho, aumentou mais. OP - Dos famosos, quem compra ao senhor? Espedito - O que gosto de falar é toda pessoa que compra são famosa. Mas vendo pra Dominguinhos, Alceu Valença, um monte de artista... OP - Seu primeiro famoso foi Luiz Gonzaga? Espedito - Foi. A primeira peça que eu fiz pra gente famosa foi de Luiz Gonzaga. OP - Como o senhor o conheceu? Espedito - Porque ele veio pra inaugurar um salão (de festas) que tem bem aqui, de Demar, o Recanto Clube. Ele que veio inaugurar. Aí Demar levou ele na minha oficina, que não era aqui. Era lá perto da igreja. E de lá pra cá fiquei conhecido. OP - O senhor lembra do ano? Espedito - Lembro não. Mas sei que ele já não estava assim muito sadio, que na festa ele já tocou sentadinho. E ele não gostava de tocar sentado. E de lá pra cá a gente ficou se encontrando. OP - Fez muitas peças pra ele? Espedito - Não fiz muitas, não. Fiz umas bolsa pra ele, sandália e chapéu. Fiz uma sandália branquinha que ele gostava de


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