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O Milagre de Natal na Serrinha de Santa Maria

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Sobre o autor

BRUNO PAULINO é educador, pesquisador e escritor quixeramobinense. Graduado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). É professor de Língua Portuguesa da rede estadual de ensino. É também narrador dos casos cotidianos, utilizando o sertão como base e substância para suas histórias. Além dos diversos cordéis que publicou, é também autor dos livros “A Menina da Chuva” (2016), “Lá nas Marinheiras” (2013) e “Pequenos Assombros” (2018). Organizou ainda antologias e eventos literários e vem realizado pesquisas sobre Antônio Conselheiro.

Sobre o ilustrador

CARLUS CAMPOS nasceu em Russas, distante 167 quilômetros de Fortaleza. Em 1987, chegou à Redação do O POVO com alguns desenhos autorais. Desde então, traduz em traços, cores e diferentes técnicas o que vê, ouve e é noticiado. Pintura, desenho, caricatura, xilogravura e litogravura são algumas das técnicas que foram aprimoradas ao longo do tempo pelo artista.

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Vida&Arte -

O Milagre de Natal

na Serrinha de Santa Maria

Diretores de Jornalismo:

Ana Naddaf e Erick Guimarães

Texto:

Bruno Paulino/Especial para O POVO

Ilustrações:

Carlus Campos

Edição:

Isabel Costa

Projeto gráfico e Design: Gil Dicelli

Tratamento de imagens: Robson Pires

O MILAGRE DE NATAL na

Serrinha de Santa Maria

NEssa sinceridade sem esforço dava à palavra dela um peso de verdade, era como se dissesse pouco para revelar muito. Mas naquele dezembro havia algo diferente no terreiro. Quem chegasse à porta encontraria, erguida triunfante, a árvore de Natal mais inesperada da Serrinha, talvez de todo o sertão de Quixeramobim. Era alta, verde de um verde de garrafa reaproveitada, moldada por mãos que entendiam de paciência — cada garrafa cortada e encaixada nas outras, cada laço feito de retalhos, cada filete de luz recolhido de sobras de enfeites antigos, tudo cuidadosamente orquestrado. A árvore brilhava à noite como se tivesse luz própria, quase tímida, mas impossível de ignorar. Era bonita de um jeito particular: não imitava nada, apenas afirmava o que era.

a Serrinha de Santa Maria, quando a tarde começava a se deitar sobre as pedras quentes, a pequena casa de Dona Lúcia surgia como um ponto firme no meio do silêncio. Era uma construção miúda, de paredes antigas, que pareciam ter guardado ecos de muitas vozes — vozes que já partiram. Ela vivia ali sozinha, com seus bichos, seus potes d’água, seu quintal de sombras hospitaleiras e um mundo que cabia inteiro dentro do peito. Lúcia tinha 70 anos e a força tranquila de quem aprendeu as lições do tempo. Quando lhe perguntavam sobre sua vida de viúva sem filhos, respondia sem hesitar: — Apesar da solidão, não sou uma pessoa infeliz. Não quero conversa com nada que não me dê atenção. E ocupo meu tempo com o que me olha de volta.

O MILAGRE DE NATAL

Serrinha de Santa Maria

Na véspera de Natal, Lúcia acordou mais cedo, colocou água para ferver, ascendeu o fogareiro, tratou da cachorrinha velha que mancava embaixo do cajueiro, jogou milho para as galinhas, e botou água pros burregos. Não esperava visitas naquela noite; desde que o marido partira, muitos Natais vinham e passavam em silêncio. Mas isso nunca a entristecia. “É só mais um tempo que a vida dá”, dizia. Sobre a mesa pequena, alinhou os presentes que passara semanas preparando. Não eram muitos, mas cada um parecia guardar dentro de si uma história. Com restos de madeira, fizera pequenos presépios; com garrafas, esculpira luminárias; com chapas de alumínio, criara estrelas de cinco pontas. Tudo reciclado, recolhido do chão quando ia a Quixeramobim fazer a feira do mês.

Quando a noite chegou, Lúcia vestiu um vestido vermelho já desbotado, mas bem passado. Acendeu a árvore. A luz verde e dourada refletiu no alpendre da casa, pelas paredes queimadas de sol, pelos olhos dela. E então começou o ritual. Desceu a ladeira devagar. Via as luzes de Quixeramobim, achava bonitos aqueles distantes pontos de luz, era como o céu cheio de estrelas, só que lá no chão. Na primeira casa deixou uma luminária feita de garrafa PET, na segunda um presépio pequeno. Bateu de porta em porta, ofereceu seus presentes sem dizer muito. Havia, para cada entrega, um sorriso que durava mais do que qualquer palavra. Algumas famílias insistiram para que ela entrasse, tomasse café, provasse bolo. Ela respondia com a mesma delicadeza de sempre: — Hoje não. Hoje, a noite é das crianças e do menino Jesus. E da minha árvore me esperando lá no alto.

Ao terminar a ronda pelas casas, Lúcia já sentia o peso nos joelhos. Ela subiu devagar a ladeira. A cada passo, a respiração ficava curta e firme, como se o corpo lembrasse que estava velha e não tinha motivo pra disfarçar. A árvore da sua casa brilhava ao longe, os pisca-piscas davam um efeito quase mágico, como um “lume verde” aceso no alto da Serrinha de Santa Maria. Vista dali, parecia maior do que de manhã, como se tivesse engordado de luz. Lúcia sorriu de lado, aquele sorriso que não chegava ao rosto inteiro, mas bastava. Chegando, quase na porta, ouviu um choramingo. Parou. O barulho veio debaixo do cajueiro. Aproximou-se devagar. A cachorrinha que mancava, a mais antiga da casa, ergueu apenas uma orelha, preguiçosa. O choro não era dela.

Lúcia afastou um galho com a ponta do pé. Era um filhote de caramelo, magro, os olhos grandes demais para o corpo pequeno. Tremia. Talvez de fome. Talvez de medo. Tinha um fio de ar preso na garganta, como se ainda pedisse licença para existir.

— Quem te largou aqui, meu filho? — murmurou Lúcia, sem esperar resposta. O cachorrinho tentou se levantar, tropeçou nas próprias pernas, caiu outra vez. Lúcia suspirou fundo — aquele suspiro curto, seco, que ela soltava quando entendia que não havia escolha, apenas caminho.

Abaixou-se com certa dificuldade, pegou-o no colo. A pele áspera, o cheiro de poeira, o coração batendo depressa contra seu braço. Levou-o para dentro. No terreiro, a árvore continuava acesa, espalhando um brilho verde pelas paredes rachadas. Dentro da casa, Lúcia arrumou um pano velho perto do fogareiro ainda quente.

— Deita aí. É o que posso te dar por enquanto — disse.

O MILAGRE DE NATAL na

Serrinha de Santa Maria

Ofilhote se enroscou no tecido e parou de tremer. Fechou os olhos como quem encontra, enfim, um lar. Lúcia acendeu a última vela da noite. A chama oscilou, iluminando os potes de barro, os retalhos, as luminárias de garrafa. Era tudo simples, irregular, sobrevivente — como ela, como o filhote.

Ficou olhando a árvore pela janela. A luz verde batia no rosto dela, acalmando a casa inteira. — Vai ver é esse o verdadeiro milagre do Natal — murmurou para si. Deitou-se na rede, puxou o filhote para o colo. O caramelo suspirou, encaixando-se como quem encontra dono e destino. Lúcia adormeceu, sentindo o peso leve daquele corpo quente.

A noite seguiu mansa. E a vida, teimosa, no dia seguinte, estaria pronta para recomeçar.

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