








ABUNDÂNCIA. O Ceará tem água, sim, e o nosso maior desafio é fazer brotar a vida e a prosperidade que ela pode assegurar.


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ABUNDÂNCIA. O Ceará tem água, sim, e o nosso maior desafio é fazer brotar a vida e a prosperidade que ela pode assegurar.



RASTRO. Em busca do nosso ‘ouro’ líquido, O POVO pegou a estrada, percorreu veredas e margens atrás dos nossos mares em pleno sertão.

SUSTENTABILIDADE. Pelos 7 mares (maiores açudes em volume), a degradação é o alerta: chegou a hora de pensar nas gerações futuras.



CENÁRIO. Investir no gerenciamento da água que temos versus a perenização de nossos açudes. É o debate da transposição.


A idéia deste especial Mares do Sertão surgiu há um ano, da cabeça inquieta e do olhar aguçado do repórter Demitri Túlio. Estávamos contornando o Castanhão, numa outra pauta pelo Interior cearense, quando vimos o mar no meio do sertão. A água descendo a linha do horizonte, a mesma imagem que os pescadores têm quando viajam em suas jangadas. Então, acertado o projeto, fomos navegar. Estivemos em sete mares do Ceará e mais alguns. Voltamos cheios de boas histórias. A conferir nas páginas seguintes e no Portal O POVO.com
Cláudio Ribeiro

Viagem para o sertão nordestino pra mim significa prazer. Para o sertão cearense, pode multiplicar por mil. Gosto de seus cenários (verde, cinza, azul, amarelo ou vermelho), de seus personagens (que estou ligado por parentesco) e de suas percussões (pássaros, chocalhos, vacas, grilos, falas). Muito me admira, também, fazer tantas matérias sobre secas e descobrir, no meio da estrada, que temos mares no sertão. Temos mesmo. Imagine o azul do céu do semi-árido (e é azul mesmo, às vezes flocados de capuchos de nuvens) se emendar com o azul do Castanhão no horizonte? Deslumbrante! Demitri Túlio







OCEANO ATLÂNTICO

Açude Pentecoste
Açude General Sampaio Açude Araras
Açude Pedras Brancas
Açude Banabuiú
Açude Trussu
Açude Orós
Açude Pacoti
Açude Castanhão



T

ROTA I
> Repórteres: Luiz Henrique Campos e Sebastião Bisneto

> Quilômetros percorridos:
700 quilômetros de carro
e 5 horas de barco
1. Pentecoste (município de Pentecoste)
2. General Sampaio (General Sampaio)
3. Araras (Varjota)
ROTA II
> Repórteres: Demitri Túlio, Rafael Luis e Fco Fontenele
> Quilômetros percorridos: 1.400 quilômetros de carro e 11 horas de barco
4. Pedras Brancas (Banabuiú)
5. Banabuiú (Banabuiú)
6. Trussu (Iguatu)
7. Orós (Orós)
8. Castanhão (Alto Santo)
ROTA III
> Repórteres: Cláudio Ribeiro, Fco Fontenele e Sebastião Bisneto
> Quilômetros percorridos: 90 quilômetros de carro e 7 horas de barco
9. Pacoti (Horizonte)
17.787.269.600 m³
> Capacidade Total dos Reservatórios do Ceará
13.232.670.000 m³
> Capacidade dos sete maiores açudes (em volume) > o equivalente a 74,3% da reserva hídrica do Ceará


emos mares no semi-árido. O Sertão não é só chão talhado, carcaça de boi e retirados de seus afetos. É possível acreditar, como profetizou Ezequiel (Ez 47, 9-12), que em “qualquer parte aonde chegar o ‘açude’, qualquer ser que por lá se movimente conservará a vida. Haverá grande quantidade de peixes, pois aonde o ‘açude’ chega traz saúde, e tudo que entra em contato com ele conservará a vida”. Essa idéia da água como sinal de vida é ancestral. É presente e futurista também. Nas aventura por outros planetas, a busca pela vida começa pela busca de sinal da água. Temos mares no sertão do Ceará e ainda titubeamos com a estiagem. Castanhão, Orós, Banabuiú, Araras, Pedras Brancas, Pentecoste e Pacoti. Os sete maiores que, juntos, somam 13.232.670.000 m³ de capacidade - o equivalente a 74,3% da reserva hídrica do Estado. Ainda não aprendemos a conviver no semi-árido e seguimos a política da emergência e dos carros-pipas em 102 municípios. E porque sobre suas margens e extensões não crescem, mais ou ainda, árvores frutíferas das mais variadas espécies, cujas folhas não murcharão e cujos frutos nunca acabarão? Pé na estrada, os repórteres Cláudio Ribeiro, Demitri Túlio, Luiz Henrique e Rafael Luis, os repórteres-fotográficos Fco. Fontenele e Sebastião Bisneto e mais o motorista Valdir Gomes percorreram o semi-árido cearense para procurar caminhos e descaminhos. Mais de cinco mil quilômetros de carro, de barco e a pé.
Existe um mar entre Jaguaribara e Alto Santo que se chama Castanhão. O maior de todos, de fundura de até 50 metros e de haver ondas de até 1,10m. Vida pura e viço azul em pleno semi-árido. Mas floresce pouco em seus arredores. Não era pra menos. Durante quatro anos, constatação do administrador recém-chegado Ulisses de Sousa, o açude passou abandonado e sem gestão. Dos projetos de irrigação, piscicultura e pecuária, apenas quatro (com três anos e meio de atraso) começaram a produzir. Muito pouco em meio a 6,7 bilhões de m³ d´água e milhares de necessitados.










AÇUDEMUNICÍPIOCAPACIDADE (m³) BACIA







CastanhãoAlto Santo6.700.000.000Médio Jaguaribe
OrósOrós1.940.000.000Alto Jaguaribe
BanabuiúBanabuiú1.601.000.000Banabuiú
ArarasVarjota891.000.000Acaraú
Pedras Brancas Quixadá434. .040.000Banabuiú


PentecostePentecoste395.630.000Curu
PacotiHorizonte 380.000.000Metropolitana


FONTE: Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh)

DICIONÁRIO
Eutrofização - Processo pelo qual a água se torna mais rica em nutrientes necessários para o crescimento de plantas aquáticas, como algas, podendo ter origem de forma natural ou artificial (por exemplo, por poluição ou efeito de fertilizantes).
Hectare (ha) - Medida equivalente a 10 mil metros quadrados (terreno de 100x100 metros).
Jusante - Dado um ponto num curso d´água, a região para onde a água está






indo. No caso de açudes, a região do rio perenizado com água liberada pela válvula dispersora.
Metro cúbico (m³) - Medida que equivale a 1.000 litros.
Montante - Dado um ponto num curso d´água, a região de onde a água está vindo. No caso de açudes, a região no entorno do reservatório, localizada acima do nível da água.
Parede - Barramento artificial que represa a água, construído
com areia, pedra e/ou concreto.
Perímetro irrigado - Região de cultivo de agricultura beneficiada com água captada do açude ou do rio perenizado pelo reservatório.
Piscicultura - Cultivo de peixes, pode ser realizado em reservatórios (naturais ou artificiais) e tanques, com os exemplares soltos ou presos em gaiolas.
Rendeiro - Arrendatário que recebeu do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs) a concessão

Caos administrativo é cantilena por onde passamos. Estado, governo Federal e municípios. O governo do Ceará que emperrou R$ 30 milhões do Castanhão, o Ibama que não fiscaliza, o ribeirinho que desmata, faz coivara (queimadas), constrói fornalhas para fazer carvão e pesca na piracema... Os municípios que mandam lixo e fezes para o Orós (das ilhas dos “doutores”) que salvou até Fortaleza de colapso... O Ceará tem cerca de 8 mil açudes, entre públicos e privados, distribuídos em 11 bacias hidrográficas. Do total, 126 grandes são administrados pela Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) e pelo Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs). E um alerta: a ONU classifica de ‘catastroficamente reduzida’ nossa disponibilidade hídrica por habitante/ano, que atualmente é de 450m³/hab/ano. E temos mares no sertão e miudíssima prosperidade. Constatamos. Seca, parafraseando Hypérides Macedo, é falta de jardins em algumas cabeças. Água, como bem disse Senhorinha da Silva, da Pastoral da Terra, temos muita. Falta abundância de “arvores frutíferas das mais variadas espécies, cujas folhas não murcharão e cujos frutos nunca acabarão; amadurecerão de mês em mês, pois aquelas águas vêm do santuário. Os frutos servirão de alimento e as folhas de remédio”.
para utilização de terras no e ntorno do açude. Pelo uso do terreno, de no máximo 30 hectares, o rendeiro paga taxa de R$ 2,69 o hectare por ano.
Sangradouro - Passagem por onde a água transborda para o rio perenizado quando o açude ultrapassa sua capacidade máxima.
Tanque-rede - Espécie de gaiola utilizada na piscicultura, com a criação de peixes (geralmente tilápia) alimentados com ração.

num gole só. Naquela quinta-feira, a família de Chico Aprígio se sentiu importante. Rafael Luis



Válvula dispersora - Cano pelo qual é liberada água para o rio perenizado pelo açude.
Vazante - Terra localizada nas margens do açude, é geralmente utilizada para cultivo de capim usado na engorda de gado.
Vazão - Volume de água liberado continuamente pela válvula dispersora do açude para perenização do rio barrado.
FORTALEZA-CE, QUINTA-FEIRA

O Ceará pode enfrentar em menos de 20 anos um quadro de escassez hídrica atingindo cerca de 81% de seu território. Os dados são do estudo Atlas Nordeste, concluído em 2005 pela Agência Nacional das Águas (ANA) com base em documentos dos órgãos responsáveis pela política de recursos hídricos do Estado. O levantamento envolveu aspectos como estimativa de demandas, análise de recursos hídricos superficiais e subterrâneos, avaliação de sistemas de produção de água e arranjo institucional. Os principais motivos que poderiam levar ao problema no Estado seriam o regime de chuvas irregular e a questão da qualidade da água que pode vir a se tornar imprópria ao consumo devido a diversos fatores poluentes. O Atlas compreendeu os nove estados da Região e as bacias dos rios São Francisco, Pardo, Mucuri e Jequitinhonha, situadas em Minas Gerais. A intenção inicial seria contemplar as sedes municipais com população urbana superior a 5 mil habitantes, mas os resultados acabaram englobando também as localizadas na área de influência de sistemas de abastecimento integrados com população inferior ao limite inicialmente estabelecido. Ao todo, o levantamento envolveu 1.300 sedes municipais, sendo que no Ceará o número atingiu 139 cidades. No Ceará, o trabalhou apontou como em situação crítica as sedes municipais que apresentam balanço hídrico negativo ou com capacidade do sistema de abastecimento insuficiente para atender à demanda estimada para os horizontes de planejamento - 2015 e 2025. Em relação a 2025, por exemplo, 19% das cidades do Ceará foram prognosticadas com abastecimento satisfatório e 81% se mostraram em situação crítica.
Para definir como maior risco de escassez hídrica, o Atlas se baseou em variáveis como precipitação média anual inferior a 700 mm; ín-




LUIZ HENRIQUE CAMPOS ~ TEXTOS
DEMITRI TÚLIO FOTOS


“Água existe, muita. O que faltam são políticas públicas de distribuição e condições para que o homem do campo tenha água para beber e produzir. Para que tenha uma vida digna”. A afirmação é de uma das coordenadoras da diretoria colegiada da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Ceará, Senhorinha Soares da Silva, 59. De acordo com Senhorinha, é por isso que a CPT, instituição que integra o Fórum Cearense de Convivência com o Semi-Árido, é contra a transposição das águas do rio São Francisco. Ela, que trabalhou no perímetro irrigado do Icó-Lima Campos, afirma que a democratização das águas deve vir acompanhada de assistência técnica continuada. “Hoje, para muitas famílias, o perímetro é decadente. A estrutura vem sendo degradada. Nos anos 90, a produção tinha um nível muito melhor do que se tem hoje”. Senhorinha da Silva recorre ao
Castanhão para criticar, também, a falta de compromisso do governo federal e estadual com o que foi acordado. “No reassentamento Mandacaru ficou acertado que 170 famílias receberiam a condição financeira e técnica para iniciar um projeto de irrigação. Até agora, nada. Eles não têm acesso à água do próprio Castanhão”, observa. Depois da campanha pela construção de um milhão de cisternas de placas, que virou política pública no Brasil, a ONG Articulação do Semi-Árido (juntamente com as CPTs e outras entidades) estão encampando outra luta. “Agora, trabalhamos também a construção de mandalas. São tanques que garantirão a criação de peixes e a irrigação de pequenas plantações. É um instrumento familiar”, diz Senhorinhaa. Segundo o empresário Euvaldo Bringel, do setor fruticultor, o Ceará tem 35 mil hectares de terras agricultáveis desperdiçadas.


> Pólo Ceará Costa do Sol (Acaraú, Amontada, Barroquinha, Camocim, Caucaia, Chaval, Cruz, Fortaleza, Itapipoca, Itarema, Jijoca de Jericoacoara, Paracuru, Paraipaba, Parnaíba, São Gonçalo do Amarante
e Trairi: Poluição dos corpos d’água devido diretamente à ação do turismo e às atividades de apoio ao turismo
> Complexo Industrial e Portuário do Pecém: Poluição dos corpos d’água por produtos químicos e metais
> Distrito Industrial de Maracanaú e Horizonte: Poluição dos corpos d’água por produtos químicos e metais
> Pólo de Desenvolvimento Integrado Fruticultura e Irrigação (Baixo Jaguaribe Aracati, Fortim, Ibicuitinga, Jaguaribara, Jaguaruana, Limoeiro do Norte, Jaguaribe, Baixo Jaguaribe, Banabuiú): Poluição dos corpos
d’água por produtos químicos, assoreamento dos corpos d’água por utilização predatória das margens
> Pólo de Desenvolvimento Integrado de Fruticultura no Cariri: Poluição dos corpos d’água por produtos químicos, assoreamento dos corpos d’água por utilização predatória das margens
> Pólo de Irrigação Baixo Acaraú: Poluição dos corpos d’água por produtos químicos, assoreamento dos corpos d’água por utilização predatória das margens
> Pólo de Desenvolvimento
Integrado de Floricultura (Aratuba, Baturité, Crato, Guaraciaba do Norte, Guaramiranga, Ibiapina, Mulungu, Pacoti, Palmácia e Redenção): assoreamento dos corpos d’água por utilização predatória das margens
> Pólo de Desenvolvimento Integrado
- Coureiro/Calçadista (Juazeiro do



ESTUDO DA AGÊNCIA NACIONAL DAS ÁGUAS APONTA PERSPECTIVAS DE GRAVES PROBLEMAS HÍDRICOS PARA O CEARÁ EM DUAS DÉCADAS
dice de aridez inferior a 0,35 (valor central da faixa de classificação da região semi-árida, ou seja, a metade do ideal); e a ausência de rios perenes com elevado porte ou com grande capilaridade, que também significariam fator de segurança hídrica. O Ceará possui 184 municípios, dos quais 139 com mais de 5.000 habitantes na área urbana.
Com exceção do trecho ao longo da costa e das chapadas e pequenas serras, o clima em aproximadamente 95% do território do Estado é semiárido, com médias pluviométricas inferiores a 750mm e irregularidade nas precipitações, o que ocasionam secas periódicas. O estudo identificou, porém, que embora apresente grande parte do seu território localizado no semi-árido, o Estado dispõe de excelentes áreas para o cultivo de produtos agrícolas pelo sistema de irrigação. Isso se deve ao grande número de reservatórios de regularização com capacidade de armazenamento maior que 100.000 m³, localizados nas bacias do Alto e Médio Jaguaribe e na Bacia do Banabuiú. Além desses, existem 18 reservatórios com capacidade de armazenamento maior que 10.000 m³ distribuídos nas principais bacias do Estado. Há ainda 92 açudes com volume hídrico de acumulação maior que 1.000 m³ Esses açudes e lagos artificiais são os grandes responsáveis pelas ofertas hídricas superficiais no Estado, atendendo às demandas industriais, de irrigação e humana urbana. Como a população rural encontra-se dispersa, o atendimento da demanda rural é realizado por poços ou por açudes com capacidade menor do que 1.000 m³ Como propostas de solução para os déficits de abastecimento, o estudo aponta a necessidade de ampliação do sistema existente. Com base em dados de maio de 2005, as sugestões apresentadas no Atlas, estariam orçadas em R$ 436 milhões.

Norte, Sobral, Salgado e Litoral): poluição dos corpos d’água por produtos químicos > Pólo de Desenvolvimento Integrado (Confecções do Acarape): poluição dos corpos d’água por produtos químicos.
DEMANDA PREVISTA PARA USO DA ÁGUA
Tipo de demanda 2005 (*) 20152025
Humana Urbana 19,423,1 26
Humana Rural 2,21,7 1,6
Animal 2,22,3 2,4
Industrial 3,33,7 4,1
Irrigação 37,442,949,2
(*) Último levantamento
Acaraú14.4239,82
Coreaú10.6577,26
Parnaíba16.90111,51
Curu8.5285,81
Litorâneas8.6195,86




COMUNIDADES NO CASTANHÃO VIVEM REALIDADES DÍSPARES. EXISTEM CENÁRIOS DE PROSPERIDADE E MISÉRIA
DEMITRI TÚLIO E RAFAEL LUIS ~ TEXTOS
FCO FONTENELE FOTOS



M aturino Alves Nogueira, 44, não se desfaz do sorriso um só minuto. Bom e ruim para o fotógrafo que, no meio da carregada plantação de mamoeiros, tenta colher também uma foto séria do presidente da Entidade Gestora Curupati-II. Estamos em uma das penínsulas do Castanhão, a 63 quilômetros, ou a meia hora de barco, da nova Jaguaribara. Lá, 69 das 144 famílias assentadas no Curupati-Irrigação plantaram e já estão vendendo a primeira safra de mamão formosa. Duzentas toneladas para o Brasil, Portugal, Inglaterra e Alemanha. Plantaram também goiaba há cinco meses e esperam, daqui a mais ou menos um ano, negociar a primeira safra. “O mamão, a primeira carga, a gente colhe com oito meses”, explica Maturino Alves que antes de plantar mamoeiros e goiabeiras, só havia cultivado arroz, feijão, milho e lidado com gado em um sítio que pertencia ao pai na localidade de Aroeira. Lugarejo que foi inundado pelas águas do Castanhão. As primeiras colheitas de mamão dão sinais que a história no Curupati-Irrigação pode estar começando a mudar. Segundo Maturino Alves, depois de três anos de espera e promessa não cumprida pelo Dnocs e governo do Estado, chegou verba e finalmente trabalho. “Mesmo assim, a coisa começou esquisita. Ano passado, no mês setembro, faltando poucos dias para a eleição a governador, mandaram gente pra filmar a irrigação. Mas não tinha nem planta, nem fruta. Fizeram umas filmagens, fazendo de conta que já estávamos plantando e passaram na propaganda”, ri. Quem não tem muitos motivos para sorrir é o vaqueiro Francisco Pinheiro Fernandes, 57. Assentado do Mandacaru I, ele é um dos 170 chefes de famílias que há três anos e meio espera pela implantação de um projeto de irrigação na área construída pelo governo federal. Seu Chico Pinheiro, que era morador do fazendeiro Renato Diógenes, foi transferido da localidade de Mucambo (hoje debaixo do

No Curupari Irrigação, 69 das 144 famílias assentadas plantaram e já estão vendendo a primeira safra de mamão formosa
Castanhão) para o “bairro” do Mandacaru em Jaguaribara. Com a mulher, dois filhos e uma parenta. Na mudança, feita na madeira de um barco, um susto e mal presságio para o futuro. No meio do Orós, onde a profundidade pode chegar a 50 metros e se tem ondas de 1,10 m (segundo Ulisses Sousa, do Dnocs), a embarcação afundou e quase se afogam ele, um filho e o barqueiro. “A sorte foi os coletes e Deus. Mas perdi porco e garrotas, 16 bichos ao todo. O Dnocs fez um cálculo, me deu um papel, e disse que ia me pagar R$ 3.300,00. Nunca recebi um tostão. Sorte que tinha um dinheiro e comprei 10 vacas. Se não, estava passando necessidade e fome”, denuncia.
PIRARUCU
> A estação de piscicultura do Dnocs no Castanhão começou este ano criação de pirarucu, que virará alternativa à tilápia. Serão produzidos alevinos (filhotes) para a venda para criatórios de todo o estado.
POTENCIAL
> O pirarucu é um dos peixes mais promissores da aqüicultura, pois rende 57% de carne pura, contra 32% da tilápia. Além disso, a taxa de aproveitamento do pirarucu é de quase 100%.

PREÇO
> Outra vantagem na migração da cultura da tilápia para o pirarucu é o preço. Enquanto o quilo do primeiro é vendido entre R$ 3 e R$ 4, o preço do pirarucu fica entre R$ 6 e R$ 8. As matrizes de pirarucu da estação de piscicultura do Dnocs no Castanhão pesam cerca de 40 quilos. O maior pirarucu já pescado tinha 305 quilos e foi encontrado em Belém.

Da sede de Jaguaribara, dá para ver um monte de pontinhos no açude Castanhão. São dezenas, ou melhor, centenas. Em volta deles, algumas casas, aparentemente flutuando sobre as águas. A aridez do semi-árido costuma pregar peças em que vê, portanto, é melhor conferir de perto antes de dizer do que se trata. Chegando à barragem, situada a três quilômetros da zona urbana da cidade, a cena impressiona: são 550 gaiolas da Associação de Pescadores da Barra do Castanhão, um dos 18 grupos que receberam incentivo público para explorar o açude. Para dar conta de alimentar os exemplares de tilápia das gaiolas, que ocupam de uma margem à outra de um trecho do açude, já próximo à parede da barragem, os associados montaram oito casas flutuantes em cima de galões vazios. “Sem as casas, a gente perderia muito tempo no deslocamento”, expli-
ca José Moura Silva, 40, um dos 68 integrantes da associação. A maioria trabalhava na agricultura, na zona rural da antiga Jaguaribara, alagada com a construção do açude. Há três anos, cada um conseguiu financiamento de R$ 13,5 mil do Banco do Nordeste, com dois anos de carência e prazo de oito anos para o pagamento. E, com isso, eles tiveram oportunidade de mudar de vida. “Estamos produzindo 25 toneladas de peixe por mês, com faturamento de R$ 75 mil”, diz Francisco das Chagas da Silva, 31, também associado. Para atingir metas, os associados foram divididos em oito grupos. O grupo de Francisco comprou em Tabuleiro do Norte uma pequena hélice, que, ao girar com a força do vento, produz eletricidade que alimenta uma bateria de carro e liga lâmpada, lanterna e televisão. “Assim, trabalhamos dia e noite”, diz Francisco.
R$ 30 milhões emperrados

CURUPATI E MANDACARU > No Curupati I e II, na península do Castanhão, não foi construído cemitério. Maturino Alves diz que quando morre alguém é um problema. “Temos que ir de barco ou carro para Jaguaribara. Fica a 63 quilômetros daqui”. Não existe em Curupati aterro. Um lixão está nascendo às margens do açude. Falta rede de esgoto e calçamento. Igreja no Curupati, só a católica, que recebe uma vez por mês um padre. Não existe templo evangélico.

Pecuária: forte no Mandacaru
Dos 18 projetos prometidos aos assentados no entorno do Castanhão, poucos são os que funcionam. Segundo Carloto Pinheiro Maia, 60, secretário de Planejamento de Jaguaribara e coordenador da Defesa Civil, apenas parte do Curupati Irrigação, o Curupati Peixe e Associação de Pescadores da Barra do Castanhão estão produzindo. “Muita coisa ainda não saiu do papel. O ancoradouro para transporte e esporte náuticos, o parque industrial... Quase quatro anos depois, tudo ainda é promessa”, afirma. De acordo com Ulisses de Sousa, supervisor administrativo do Castanhão, os projetos poderiam estar em pleno funcionamento não fosse, por exemplo, a burocracia da Secretaria dos Recursos Hídricos do Estado. “O Governo Federal destinou R$ 30 milhões para o Estado aplicar no Castanhão, mas há um entrave que impede a chegada da verba”, informa. O POVO enviou cinco perguntas, por e-mail, ao governador do Ceará - Cid Gomes (PSB) e não teve retorno até o fechamento da edição. Entre os questionamentos, está o caso dos R$ 30 milhões. A assessoria do governo foi informada, que as respostas deveriam ser remetidas até a última sexta-feira, 24.
RENDA > Segundo o tecnólogo Francisco Ronaldo Rodrigues, cada um dos 144 irrigantes do Curupati recebeu uma casa e um lote de 3 hectares. 1,5 é para a plantação de mamão. A outra metade, goiaba. A previsão de lucro para cada família vai variar de R$ 1.000,00 a R$ 1.800,00/mês.
PECUÁRIA > No Mandacaru I e II o projeto, que está atrasado há 3 anos e meio, inicialmente era de irrigação. Por decisão da Associação dos Moradores mudou para pecuária. A maior parte dos assentados trabalhava com o gado antes de ser transferido pra lá.





O DNOCS ESTÁ NOTIFICANDO POSSEIROS NO ENTORNO DO CASTANHÃO QUE JÁ RECEBERAM INDENIZAÇÕES
co e isso leva muito tempo”, afirma Ulisses, que assumiu a gerência do açude há quatro meses. O administrador denuncia o abandono que o Castanhão passou nos últimos quatro anos. “Quando o Dnocs não era um órgão político, funcionava. Quando virou político, ficou bagunçado. Essa situação que a gente encontra hoje no Castanhão existe porque o Dnocs permitiu”, avalia.
DEMITRI TÚLIO E RAFAEL LUIS TEXTOS FCO FONTENELE ~ FOTOS
Administrador descarta risco de arrombamento
A honestidade do cearense Hairon Jackson Nobre foi tão exemplar que chamou a atenção da administração do Castanhão, maior açude do Nordeste em aproveitamento de recursos (utilização de água). Quando o rio Jaguaribe foi represado, em 2003, o lago formou cerca de 70 ilhas e várias penínsulas. Quem teve terras alagadas recebeu indenização do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs). Quem ficou com terras na área de preservação ambiental também recebeu compensação para deixar o local. Muitos não saíram. Outros ocuparam as áreas. Hairon foi um deles. Segundo relato do supervisor administrativo do Castanhão, Ulisses de Sousa, o homem ocupou uma casa abandonada e cercou o espaço, em Jaguaribara, passando a se dizer dono das terras. Após notificação do Dnocs, no entanto, ele se retirou sem precisar de ordem judicial. “Diferentemente de muitos, o Hairon não criou dificuldade e saiu do local. Ele argumentou que apenas seguiu o exemplo de outras pessoas que ocuparam as terras ou não quiseram sair”, conta Ulisses. Sobre Hairon, pouco se sabe. O homem moraria hoje no Curupati, um dos assentamentos que receberam autorização do Dnocs para colonizar a região. Construído para assegurar o abastecimento de água de Fortaleza, desenvolver a agricultura irrigada e possibilitar o crescimento industrial do Estado, o Castanhão tem modelo diferente das outras represas públicas. Para evitar degradação ambiental, não foram concedidas terras para arrendatários. Como a maioria dos donos de terras recebeu dinheiro e não deixou o local, a administração passou este ano a notificar os antigos proprietários, com prazo de 30 dias para a retirada. Quem não sai é acionado judicialmente pelo Dnocs. A principal dificuldade é que o Castanhão possui perímetro de 300 quilômetros. “Já notificamos as ilhas e começamos agora o entorno do açude. Como a área é muito grande e na maioria da vezes o acesso de carro é difícil, estamos indo de bar-
Ulisses de Sousa, Administrador do Complexo Castanhão
Apesar do temor da população de Jaguaribara e das cidades da jusante do Castanhão, o administrador do açude, Ulisses de Sousa (foto), garante que o medo de arrombamento da barragem não se justifica. Ele admite que, antes da construção, já se sabia que o complexo ficaria numa área de falha geológica e de constantes abalos sísmicos. Mas Ulisses ressalta que, por precaução, o Castanhão possui parede de concreto de 70 metros de largura - quando a maioria conta com barragens de 10 metros. “Arrombar essa parede é humanamente impossível”.
O POVO - Quais os riscos de arrombamento do Castanhão após os tremores na região do açude?
Ulisses de Sousa - Desde a construção do açude já se sabia que essa é uma área de falha geológica. Sempre houve tremores por aqui. Não é por causa da parede que os tremores estão acontecendo.
OP - Mas foi feito algo para que estes tremores não ameaçassem o Castanhão?
Ulisses - Na construção, foram feitas perfurações de 40 metros abaixo da base do açude e injetaram cimento nas fissuras, até que elas fossem fechadas. A questão é que os sismólogos dizem que a falha geológica está entre 2 e 3 quilômetros abaixo da base. Pensando nisso, a parede do açude foi feita de forma reforçada, com 70 metros de largura na base e sete metros
AÇUDE
CASTANHÃO
Inauguração: 23/12/2003
Localização: Alto

Para acompanhar o que acontece no espelho de água do açude, que na carga máxima se espalha por 48 quilômetros e cobre 60 mil hectares, o Dnocs conta com dez funcionários, além dos 40 vigilantes terceirizados e sete pessoas para serviços gerais. O órgão fiscaliza, mas não tem poder de coibir irregularidades. Para o administrador do Castanhão, quem deveria não o faz. “Temos salas reservadas para Semace (Superintendência Estadual de Meio Ambiente) e Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), mas até hoje ninguém veio”, revela Ulisses. O chefe do escritório regional do Ibama em Iguatu, Fábio Bandeira, admite que é difícil acompanhar o que acontece nos 18 açudes da área de abrangência, mas explica que na maioria das vezes os administradores nem ficam sabendo das visitas das equipes aos reservatórios. Já o coordenador de controle ambiental da Semace, Arilo Veras, aponta que a fiscalização no entorno do Castanhão, por ser terra de propriedade federal, é responsabilidade do Ibama. "Temos salas reservadas no escritório do Castanhão para Semace e Ibama, mas até hoje ninguém veio (...) Essa situação hoje existe porque o Dnocs permitiu"

Maior açude do Nordeste em aproveitamento de recursos (utilização de água), o Castanhão não pode ter arrendatários
“É verdade que vai arrombar?”
Todo dia a professora Maria Dalvani de Brito, 45, que ensina na escola Maria do Socorro Xavier, na localidade Mandacaru, em Jaguaribara, ouve as mesmas perguntas dos alunos de sete anos: “Tia, é verdade que o Castanhão vai arrombar e destruir a cidade?”. Dalvani conta que procura tirar o pânico das crianças, mas admite que também tem medo. “Se várias casas ficaram rachadas após os terremotos, quem garante que a barragem é segura?”, questiona. Em Jaguaribara, cidade planejada para receber os moradores da antiga sede de Jaguaribara, que foi inundada pelo lago do Castanhão, já surgiram várias explicações para o que estaria acontecendo na região. A mais curiosa e que já virou verdadeiro mito no município dá conta de que um fazendeiro teria feito uma caverna usando dinamite na região em que está
hoje o fundo do açude: a tal fissura é popularmente chamada de “Buraco do Doutor”. O clima de preocupação é grande principalmente em Alto Santo, primeira cidade à jusante do açude. “Na cheia do rio Jaguaribe, em 1960, assisti tudo daqui de casa. Se o Castanhão arrombar, minhas terras deverão ser inundadas”, arrisca o fazendeiro Wilton Holanda, 60, dono de 200 hectares. Porém, o pânico às vezes propaga exageros. “Fiquei sabendo que a loja Maria Macedo, na sede de Jaguaribara, ficou toda rachada após os tremores”, diz a pecuarista Elzileide Alves de Arruda Lima, 44, de Jaguaribara. O POVO foi conferir os estragos, desmentidos pela própria Maria Macedo. “Meu filho, eu canso de dizer que essas rachaduras já existiam antes dos tremores”, diz a senhora, apontando para uma das paredes.
Santo (a 243km de Fortaleza), no Vale do Jaguaribe
Bacia: Médio
Jaguaribe
Capacidade total: 6,7 bilhões de m³ (4,45 bilhões de m³ é a capacidade operacional)
Capacidade atual (*): 3,8 bilhões de m³ (57%)
Última vez que sangrou: 2004
Vazão: 9,5 ³/s pela válvula dispersora e 3,15 m³/s pelo
Canal da Integração (que, por enquanto, leva água até Morada Nova)
Rio barrado: Jaguaribe
Atende a quê: Abastecimento da Região
Metropolitana de Fortaleza, desenvolvimento da agricultura irrigada, controle de inundações no Baixo Jaguaribe e visa possibilitar o crescimento industrial do Estado (*) Agosto FONTE: Cogerh
no topo, com 70 metros de altura. Ela suporta movimentação de bloco de até cinco centímetros, mas o movimento causado pela dilatação gerada pelo frio e calor tem sido de 1,5 a 2 centímetros.
OP - Como vocês estão acompanhando estes tremores?
Ulisses - Os sismólogos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que possui convênio com o Dnocs, estão fazendo o controle 24 horas. Antes dos abalos, tínhamos três sismógrafos para registrar as movimentações de terra. Depois, compramos mais dez aparelhos de maior precisão. O maior abalo foi de 2,3 graus na escala Richter, mas hoje tem dado 0,8, 0,6...
OP - Isso quer dizer que não é preciso ter medo de arrombamento?
Ulisses - Nenhuma autoridade do mundo pode garantir que uma obra é 100% segura. Mas a parede do Castanhão foi feita para suportar os abalos da região. Arrombar uma parede encravada na rocha como essa é humanamente impossível. Não existe motivo para ter medo.




TRANSPOSIÇÃO > Segundo Ulisses de Sousa, a transposição das águas do rio São Francisco para o Nordeste Setentrional será vital para fazer o Jaguaribe, rio intermitente perenizado por meio de açudes, viver fase de eterna cheia. O Eixo Norte, que captará água em Cabrobó (PE), terá 400 quilômetros. CANAL > O Eixo Norte operará com vazão contínua de 16,4 m³/s, com capacidade máxima de 99 m³/s. Como o São Francisco é perene naturalmente, será garantia de água entrando no Castanhão o ano inteiro. Outro grande canal de interligação de bacias está em construção e ligará o Castanhão a Fortaleza. O Canal da Integração



PERFIL
AÇUDE ORÓS
Nome: Juscelino Kubitschek
Inauguração: 11/1/1961
Localização: Orós (a 416km de Fortaleza), no Centro-Sul do Estado Bacia: Alto Jaguaribe Capacidade total: 1,94 bilhão de m³ Capacidade atual (*): 1,42 bilhão de m³ (73%)
Última vez que sangrou: 2004 Vazão: 3,5 m³/s liberado pela válvula dispersora, 3,5 m³/s para irrigação e abastecimento de Orós e 0,5 m³/s utilizado pelas comunidades à montante Rio barrado: Jaguaribe
Atende a quê: Perenização do rio Jaguaribe, irrigação das subbacias do Médio e Baixo Jaguaribe, piscicultura, culturas agrícolas na área de montante e turismo
(*) Em agosto/2007
FONTE: Cogerh
D ifícil imaginar, mas em pleno semi-árido cearense existem ilhas em meio a mares. De dentro da embarcação, Pedro Vieira da Silva, 52, barqueiro há 16 anos nas “estradas” do açude do Orós, vai esquadrinhando no mapa alguns dos “donos” das 131 porções de terra rodeadas pela imensidão de água doce. Onde a vista alcança: torrões arborizados, casas de luxo, pousada e hotel. Histórias de como esse ou aquele “doutor” conseguiu transportar material para a construção do casarão e do dia em que desceu até helicóptero em uma das ilhas particulares. É o Orós em uma de suas facetas. No segundo maior açude público do Ceará, tanta água (atualmente 73,63% de sua capacidade, cerca de 1,42 bilhões de m³) não é garantia da divisão de prosperidade. Em seu entorno, nas margens, ilhas e penínsulas encontramos situações diversas. Gente que faz das águas lugar de veraneio ou meio de vida. Que vive da pesca, da agricultura, pecuária, do comércio, da prestação de serviços ribeirinhos ou que, apesar de estar nas biqueiras do Orós, sobrevive de maneira modesta.
“Tem mais pobre aqui do que rico. Quarenta por cento das ilhas é dos homens que têm dinheiro. Médicos, advogados, exprefeito e do Fagner que é uma pessoa sensacional.
A falta de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) no Orós favorece a ação predatória dos mananciais do açude. Daí o registro, por exemplo, da queda progressiva na produção de pescado. “Em junho de 2006 foram 76 mil toneladas contra 56 mil desse ano. De seis meses pra cá a pesca só piorou”, revela Raimundo Nonato de Sousa, responsável pelo Setor de Pesca do Dnocs.
A explicação para “inoperância” do Ibama está na “recorrente” falta de pessoal e condições de trabalho. “Eles só possuem três fiscais para todo o Orós, outros açudes e outros problemas ambientais que envolvem



O Dnocs concedeu terras no entorno do açude Orós para cerca de 1.500 pequenos agricultores e pecuaristas da região
Tem ilha também de morar famílias pobres. Mas se não fosse o Orós do presidente Juscelino (Kubitschek) não existia rico, nem pobre. Não tinha nada, nem cidade”, avalia e profetiza o barqueiro Pedro da Silva. Ele, a exemplo habitantes do semi-árido, é um dos que usam o açude para sustentar a mulher e dois filhos adultos. Cada viagem de barco, dependendo da distância, número de pessoas e do tempo de duração varia de R$ 10,00 a R$ 20,00. “Tem dia ou semana que não ganho nada e sábado e domingo que apuro R$ 35,00 ou R$ 40,00”.
O Orós, que em 1993 salvou Fortaleza de um colapso no abastecimento d´água pontável, é explorado oficialmente por 1.580 rendeiros. São famílias que receberam a concessão do Governo Federal para morar e trabalhar em extensões de terra (até 30 hectares) beneficiadas pelas águas do açude, inaugurado em 1960.
a Regional que fica no Iguatu”, observa Raimundo Nonato. Enquanto isso, o Orós contabiliza problemas. A pesca e beneficiamento do camarão têm preocupado o Dnocs. “Após a pescaria, eles cozinham o crustáceo na beira do próprio reservatório e derramam água salgada. A salinização do açude é preocupante”, comenta.
O chefe do escritório regional do Ibama em Iguatu, Fábio Bandeira, confirma as dificuldades de infra-estrutura com as quais tem que lidar, mas discorda que o órgão esteja desatento ao que acontece na região do Orós. “Estamos sempre visitando os 18 açudes da nossa abrangência, mas dependemos também de
Anualmente, por cada hectare, o concessionário paga R$ 2,69 à União. “Mesmo assim, existem inadimplentes. Dos 1.580 rendeiros, 140 deixaram de pagar pelo uso”, contabiliza Raimundo Nonato de Sousa, 45, funcionário do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs) há 23 anos. Ele, que é encarregado pelo Setor de Pesca no Orós, revela que o sucateamento administrativo do órgão favorece o calote. Francisco Germano Moreira, 51, responsável pela unidade do Dnocs no Orós, reforça a denúncia e relaciona alguns entraves. No órgão, que tem 13 funcionários, existe apenas uma moto, ano 2004, para resolver problemas burocráticos da instituição e também servir de veículo para fiscalização dos lotes. As distâncias, garante Germano, não são pequenas e existem lugares onde a motocicleta não consegue chegar. “Por mês recebemos uma cota de 20 litros de gasolina. Na prática, necessitamos de 100 litros”.
Os percursos poderiam ser feitos no próprio açude através de embarcação. O Dnocs, no Orós, possui uma lancha. No entanto, conta Germano Moreira, o “barco” motorizado ficou sem motor durante três anos. “Em 2006 ganhamos uma nova lancha, mas falta combustível”.
denúncias da população e dos administradores, pois a área é muito grande”, argumenta. Para Francisco Germano Moreira, administrador do Orós, a fiscalização no açude só funcionaria se acontecesse de forma consorciada. Dnocs, Ibama, Cogerh e prefeituras que usam das águas do açude e, ao mesmo tempo, o poluem. “As pessoas que usam o reservatório herdaram a cultura do desmatamento e por isso destroem a vegetação ciliar, tocam fogo. Sugeri a prefeita Maria de Fátima Maciel (de Orós) para alfabetizá-los através do método Paulo Freire, a partir da realidade deles. Até agora não recebi resposta”, reclama.

ORÓS (CIDADE)
Localização: Centro-Sul do Ceará (microrregião do Iguatu) Tempo de viagem a partir de Fortaleza: 5h10min Vias de acesso: BR-116 e CE282/153 Municípios limítrofes: Icó, Iguatu, Jaguaribe, Quixelô e Solonópole
Fonte: Anuário do Ceará/2007
PRAGAS
Um problema curioso está na lista de entraves do dia-a-dia do Dnocs no Orós. Os 13 funcionários do órgão foram expulsos de suas salas de trabalho por “cerca de mil morcegos”. Eles fizeram do forro do prédio antigo (de 10 cômodos), lugar de morada e reprodução. Os servidores se apertam (entre máquinas, computadores, estantes e birôs velhos) em um compartimento nos fundos da edificação. O odor é insuportável e as paredes acumulam fezes e urina dos bichos.
Baião de dois molhado e quente, derretendo o queijo. Um tucunaré frito na farinha pra cada um, pirão fervente e suor que deu na fraqueza. Enxuga a testa, raspa a panela de barro, lambe os beiços, separa as poucas espinhas e um gato roça entre as canelas sem calças compridas. Do alto da arejada varanda do hotel Encanto das Águas, na ilha que leva o mesmo nome, tem-se a impressão que felicidade não é coisa abstrata. É algo que, de repente, no meio do Orós, se pode saborear, sentir no rosto e que não dá vontade de voltar. Cafezinho, talvez dormir, e esperar pelo fim de tarde sem muriçoca. Felicidade, descrevo ainda, é o nome da ilha vizinha onde existe uma pousada com o nome igual. Encostada a do Encanto das Águas. Ilhas das posses da “abençoada” (ela se enxerga assim) Maria de Lourdes Cândido Pinheiro, 60 anos. “Sou a única
que acredita e investe, de verdade, no turismo no Orós. Isso aqui é uma maravilha e você tem ainda, de graça, esse vento na cara”, sente e rasga uma gargalhada atrás da outra.
O hotel, com 26 suítes rústicas (“o Orós é o ar condicionado”), e a pousada - que tem seis cômodos uma varanda alta e um alpendre - foram construídos com o dinheiro de outros negócios que Maria de Lourdes possui. “Nunca fui de esperar por governo algum. Se fosse, morreria de fome. Na construção do Orós, quando eu era moça (no fim da década de 1950), pegava uns trocados e ia pra Fortaleza. Comprava camisas volta ao mundo e vendia tudo para os trabalhadores que estavam cavando o açude. Você pensa que eu brinco!”, gargalha Maria Cândido que antes de ser empresária, vendeu farinha “fiado” e foi professora do Estado.

O açude Orós corre risco de ficar sem água com qualidade para consumo humano num prazo de 15 a 20 anos. O alerta é da tecnóloga em gestão de recursos hídricos da gerência regional da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), Adriana Débora Araújo. Para ela, somente uma força-tarefa dos 23 municípios à montante evitará desastre ambiental no açude, que abastece as cidades à jusante. De acordo com os especialistas, a qualidade da água do Orós vem caindo por causa do crescimento do volume de esgoto jogado pelos municípios do Alto Jaguaribe nos afluentes do açude. Além disso, também contribuem a existência de lixões e cemitérios próximos de rios.
“Nenhuma das cidades possui saneamento básico ou aterros sanitários. Principalmente em épocas de chuva, o esgoto e o chorume (líquido formado pela decomposição do lixo) escorrem para os rios que alimentam o Orós”, revela o geólogo Joaquim Feitosa, presidente do Comitê da Sub-Bacia do Alto Jaguaribe e gerente de recursos hídricos da Secretaria de Agricultura e Pecuária de Iguatu, uma das cidades poluidoras. Por enquanto, a qualidade da água do açude é avaliada como “boa”, segundo a Cogerh. “O grande volume de água no Orós favorece a decantação das substâncias poluidoras, que vão parar no fundo do açude”, explica Adriana Débora.

Á gua era um bem distante para Edileusa em São José do Belmonte, no sertão pernambucano. Quando se pega admirando o mundão azul do açude Orós, ela custa a acreditar o quanto sua vida mudou em tão pouco tempo. Há dois anos, a mulher partiu para Orós, a 416 quilômetros de Fortaleza, na região Centro-Sul do Estado, seguindo a mãe, que havia se divorciado do pai e migrado para o Ceará, na década passada. Nos telefonemas, sempre ouvia histórias sobre um mar em pleno semiárido. Cansada da eterna estiagem, Edileusa Oliveira, 34, largou tudo em busca do oásis e, assim, escreveu novo destino para uma vida que parecia fadada ao sofrimento.
“Em São José do Belmonte a gente tinha seca todo ano e quase o ano inteiro. A água era tão pouca que, às vezes, não dava nem para cozinhar feijão. Quando vejo toda essa riqueza, agradeço a Deus”, diz a pernambucana, que em Orós casou com o agricultor Manuel Rodrigues Filho, 40. Nem todas as preces de Edileusa, porém, teriam o mesmo resultado do empurrão terreno que recebeu. Graças a um vizinho que ficou sabendo do Programa Nacional de Geração de Emprego e Renda (Pronager), do Governo Federal, o casal se juntou a 13 moradores do bairro São Geraldo e fundou a Associação de Aqüicultores do Sítio Cedro, ao lado do Orós. O grupo de agricultores que plantavam para subsistência recebeu financiamento de R$ 45 mil do Banco do Brasil para abertura de empresa de criação de peixes em tanques-rede, uma das dez que conseguiram autorização do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs), órgão que administra o açude, para atuar com piscicultura. O dinheiro serviu para compra de alevinos (filhotes) de tilápia, de 90 gaiolas e construção de casa para armazenagem de ração e peixes. “Para quem não tinha nada, foi uma fortuna”, relata Manuel. Como a maioria nunca tinha pescado, o grupo recebeu aulas do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Um ano e meio depois, o negócio engrenou e a associação já possui 150 gaiolas e produz 5,5 toneladas de tilápia por mês. Vendida por R$ 3,50 o quilo, a produção abastece Orós, Icó e Iguatu. Com faturamento mensal de R$ 20 mil, eles já quitaram o financiamento e planejam a construção de casas para suas famílias ao lado do açude. Por enquanto, o grupo continua morando no São Geraldo, a 2 quilômetros do Orós, e se reveza em duplas na alimentação dos peixes e vigilância das gaiolas. “Precisamos de R$ 30 mil para construir as casas. Dentro de um ano teremos esse dinheiro”, estima Manuel. Infra-estrutura, pelo menos, a associação já possui. A água consumida é puxada do açude, por meio de bombas. Já a energia foi garantida pelo programa Luz para Todos, do Governo Federal.
“Duvido que a gente chegasse onde chegou se não tivesse recebido ajuda financeira e orientações técnicas. Quando lembro dos tempos difíceis em Pernambuco, às vezes nem acredito que minha vida esteja tão boa”, reflete Edileusa. No imaginário dos 15 integrantes da associação Sítio Cedro, o açude Orós é mais do que a garantia de água para beber durante a fase de estiagem. É a origem do pão de cada dia e, principalmente, fonte de recursos que os transformou, de pequenos agricultores, em empresários de um negócio com potencial.




UM GRUPO DE PEQUENOS AGRICULTORES DE ORÓS CONSEGUIU FINANCIAMENTO PARA ABERTURA DE ASSOCIAÇÃO DE PISCICULTURA
DEMITRI TÚLIO E RAFAEL LUIS TEXTOS FCO FONTENELE ~ FOTOS
PISCICULTURA > Na primeira fase da piscicultura, cinco mil peixes ficam em cada tanque-rede e são alimentados oito vezes por dia. Na segunda fase, os peixes são alimentados seis vezes por dia. No fim, são reunidos 600 a 800 peixes numa gaiola, com quatro refeições ao dia.
TANQUES > Os tanquesrede possuem, quase sempre, dimensão de 2x2 metros, com 1,2m de profundidade. Eles são revestidos com rede que impede a fuga dos peixes, mas permite passagem da água.
RAÇÃO > A Associação de Aqüicultores do Sítio Cedro utiliza 450kg de ração por dia para alimentação dos peixes nos 150 tanques-rede.
PROJETOS DE PISCICULTURA NO ORÓS

> Sítio Jurema - Três projetos beneficiam 30 famílias.
> Sítio Pereiro das Pedras (Pereiro II) - Dois projetos com benefício de 20 famílias.
> Pão de Açúcar - Dois projetos e benefício de 20 famílias.
> Comunidade Sede do Orós - Dois projetos que beneficiam 20 famílias
> Sítio Cedro - Projeto beneficia 12 famílias
Os projetos com cativeiros de tilápias foram iniciados em 2003. Durante seis meses as “gaiolas” servem para engorda dos alevinos de carás. No açude, segundo o Dnocs, pesca-se apaiari, beiru, camarão, curimatã, pescada, piaba, piau, pirambeba, sardinha, tilápia, traíra e tucunaré.
Segundo a prefeita Maria de Fátima Maciel (PP) são mais de mil “gaiolas” assistidas pelo projeto Produzir. Parceria da Prefeitura e Ministério da Integração. O peixe, além de ser comercializado, é alternativa de merenda escolar na rede pública de Orós.
> Recursos hídricos do município de Orós: açude Orós (bacia do Alto Jaguaribe), rio Jaguaribe e 28 poços.
Fonte: Dnocs e Prefeitura do Orós
HISTÓRIAS





Dnocs pede mais pessoal e infra-estrutura
O diretor-geral do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs), Elias Fernandes Neto, teve uma audiência há três semanas com o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo Silva, para expor as dificuldades de infra-estrutura do órgão. Acompanhado do deputado federal José Pimentel (PT-CE) e de uma comissão de servidores, Elias Fernandes solicitou a realização de concurso para contratação de funcionários e elaboração de plano
de cargos e carreiras. “Concordo com as críticas dos servidores dos açudes administrados pelo Dnocs. A fiscalização é deficiente porque há falta de pessoal, o último concurso aconteceu há 40 anos, e os salários estão defasados”, aponta Elias Fernandes. O diretor-geral ressalta que o órgão está “sucateado” e que procedem as reclamações de falta de equipamento. “Governos passados chegaram a cogitar a extinção do Dnocs, o que foi
impedido pelos parlamentares do Nordeste. O órgão foi salvo, mas é preciso resgatálo”, diz. Fernandes assumiu o cargo em maio último.
O diretor discorda, no entanto, da crítica do administrador do Castanhão, Ulisses de Sousa, de que o Dnocs teria se tornado “desorganizado” após virar “órgão político”. “Todo órgão público é uma instituição política, precisa de indicações políticas. Não se deve relacionar uma coisa a outra”.

TILÁPIA
> As perdas no cultivo de tilápia são de cerca de 40%, com morte de peixes ou crescimento abaixo do esperado. Os alevinos são comprados com peso entre 0,5g e 1g e, após seis meses, os peixes pesam entre 600g e 800g.
POLUIDORES > 23 municípios poluem o açude
Orós e prejudicam a qualidade da água: Acopiara, Aiuaba, Altaneira, Antonina do Norte, Araripe, Arneiroz, Assaré, Campos Sales, Cariús, Catarina, Farias Brito, Iguatu, Jucás, Nova Olinda, Orós, Parambu, Potengi, Quixelô, Saboeiro, Salitre, Santana do Cariri, Tarrafas e Tauá.
Fonte: Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh)
A cearense Maria de Lourdes de Sousa Silva (foto), 49, é um dos 1.580 rendeiros do Orós, pequenos agricultores e/ou pecuaristas que receberam concessão de terras do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs) na região do açude. Moradora da sede do município de Orós, ela adquiriu o direito de uso de 27 hectares no distrito de Santarém, que pertenciam a outro rendeiro. Pagou R$ 8,5 mil e, agora, ao lado do marido, Raimundo Pereira da Silva, 54, cultiva um roçado e cria oito cabeças de gado. “A produção é toda para subsistência, planto feijão, milho e batata. Assim que eu me aposentar, vou embora para meu sítio, já que não tenho mais muitas obrigações em casa”, afirma Lourdes, cujos três filhos já se casaram. A taxa anual pela concessão custou R$ 70 em 2006. “Valeu a pena este investimento”.
DICIONÁRIO

> Piscicultura extensiva Quando um açude, reservatório ou lagoa recebe determinada quantidade de peixes para a atividade da pesca das populações de seu entorno.
> Piscicultura semi-intensiva Consiste em maximizar a produção de alimentos naturais num pequeno viveiro (reservatório) para servir como principal fonte de alimentação de peixes.
> Piscicultura intensiva Quando um pequeno viveiro (reservatório) é utilizado com alta densidade populacional de peixes e a alimentação é feita à base de ração.
> Piscicultura superintensiva Quando uma grande quantidade de peixes é cultivada em tanques-rede colocados em açudes, com alta densidade populacional e alimentação à base de ração.























DEMITRI TÚLIO E RAFAEL LUIS TEXTOS FCO FONTENELE ~ FOTOS

PERFIL
AÇUDE BANABUIÚ
Nome: Arrojado Lisboa
Inauguração: 1966
Localização: Banabuiú (a 214 km de Fortaleza), no Sertão Central
Bacia: Banabuiú
Capacidade total: 1,601 bilhão de m³ Capacidade atual
(*): 691 milhões de m³ (43%) Última vez que sangrou: 2004

Vazão: 9 m³/s pela válvula dispersora (sendo 5 m³/s para o perímetro irrigado de Morada Nova), além de 140 litros/s captados para abastecimento de Banabuiú e Ibicuitinga e 500 litros/s para uso da população na montante do açude Rio barrado: Banabuiú Atende a quê: Tem importância fundamental no estabelecimento do perímetro irrigado de Morada Nova, que se desenvolveu na cultura do arroz, mas também é usado para abastecimento humano de Banabuiú e de cidades à jusante e contribui para pecuária e pequenas estações de piscicultura
(*) Agosto/2007 FONTE: Cogerh
Às 8h15min, finalmente, o barco ganha o “mar” do Banabuiú. Há 15 minutos, os braços franzinos de Francisco Antônio da Silva insistiam sopapeando a manivela do motor a diesel. O esforço e o vento frio da manhã desmascararam a gripe mal curada do barqueiro. Ele tosse e escarra, seguidamente, nas águas verdes do terceiro maior reservatório do Ceará. No ofício há dois anos, Antônio se acostumou a comandar a embarcação todas as vezes que o patrão Zé Domingos não está. Nosso destino é a ilha do Governo II, a uma hora e pouco de viagem do município de Banabuiú.
Quando não está no leme, Francisco Antônio corre para o meio do barco e retira, na lata, a água que mina dos vãos da madeira encharcada. De rabo de olho, o navegador orienta Valdir Gomes - motorista do O POVO, nos atalhos do açude sem fiscalização e salva-vidas. Cuidado.

O Banabuiú tem pedras traiçoeiras e uma marola, aparentemente inofensiva, pode mudar o rumo da embarcação. Depois de uma hora e 15 minutos surge o torrão, árido, quente e desmatado do Governo II. Não existem sombras de árvores e os pés-de-plantas que resistem estão cinzas de tanto sol, mesmo com tanta água ao redor. O Banabuiú, a exemplo do Castanhão e do Orós, tem um cotidiano de contradições. Quem também pensa assim é José Ariston Queiroz, 58, funcionário do Dnocs e administrador do açude. Ele é cicerone na ilha onde mora o povo acolhedor e conformado do comerciante Francisco Pereira Aprígio Filho, 57, e mais 55 famílias que vivem da pesca ou agricultura de subsistência. “A vida aqui é boa”, diz sem titubear. No entanto falta luz elétrica, geladeira, televisão (tem uma à bateria na ilha do Ivan), posto de saúde, água tratada, aterro sani-
Na ilha do Governo II, não existe telefone, energia elétrica, saneamento básico e água tratada. Mas sobra tranqüilidade
tário, saneamento básico, fossa, escola, computador, praça, novela, automóveis e caminhos de pedra... “Mas não tem violência, tem sossego. Querendo dormir, a qualquer hora, pode deixar a porta aberta. Aqui é perigoso pra ladrão. Todo mundo se conhece”, contraataca o homem franzino (e engelhado de sol) que veio de Quixadá, com o pai pescador, e sentou praça ali em 1970. Hoje, depois que os velhos (86 e 74 anos) arribaram pra Banabuiú, ele e



mais quatro irmãos dividem dez hectares de terra que não pertencem ao Dnocs.
A Copa do Mundo do México foi na base do ouvido no rádio. Desse tempo até a Copa da Alemanha, no ano passado, nasceram e viraram adultos sete filhos. “Gritamos quando o goleiro faz uma linda defesa. Mesmo sem ver, comentamos a jogada bonita!”, ri Antônio Marcos, 27, terceiro rebento da família Oliveira Pereira. “Só ganhei dois filhos no Banabuiú. Cinco deles descansei com uma parteira aqui na ilha”, conta Maria de Fátima Oliveira Pereira, esposa de seu Chico e gasta para 50 anos de idade. Antônio Marcos reforça que a vida na ilha é pra se “morrer com 95 ou 100 anos”. Mesmo que lá seja comum a mocidade não ter a maior parte dos dentes na boca e que, para levar a esposa pra fazer o pré-natal na sede de Banabuiú, precise percorrer seis léguas ou 36 quilômetros.

A população ribeirinha do açude Banabuiú que consome água sem passar por tratamento do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) da cidade de Banabuiú corre sério risco de saúde, com problemas que podem ir até a tumor de fígado e distúrbios neurológicos. O alerta é da bióloga e mestre em engenharia de pesca Sarah de Paiva Sales. Entre março de 2005 e fevereiro de 2006, a pesquisadora realizou análises química, física e biológica da água e encontrou cianobactérias (microalga) do gênero os-
cillatoria em níveis bem acima do tolerável.
O estudo serviu de tese de mestrado, apresentada em abril na Universidade Federal do Ceará (UFC). Segundo Sarah, o açude apresenta cerca de 300 mil células da cianobactéria por mililitro de água, quando o Ministério da Saúde recomenda o máximo de 20 mil. “A cianotoxina liberada pela microalga é extremamente perigosa”, avisa a bióloga. A presença da cianobactéria é conseqüência da poluição despejada pelas nove cidades à montante do açude.
“Nenhuma possui saneamento básico. O esgoto é jogado direto nos rios”, confirma o vereador Daniel Lima, presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara Municipal de Banabuiú. Preocupado com a situação, o secretário de Agricultura e Meio Ambiente de Banabuiú, Veridiano Sales, cobra apoio do Governo do Estado para formação de consórcio entre as nove cidades para implantação de saneamento básico. “As cidades são muito pobres. Se nada for feito, a água do açude ficará inviável
para consumo humano em 20 anos”, estipula. Para assegurar que a água tratada não contém a cianotoxina, o Saae de Banabuiú enviou amostras no início de agosto para o Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen), em Fortaleza, mas a análise ainda não tinha sido concluída até o fechamento do caderno. “De forma emergencial, acredito que a Cagece (Companhia de Água e Esgoto do Ceará) deveria assumir o tratamento da água do Banabuiú, pois não considero o Saae capacitado para isso”, avalia Sarah Sales.

EXCEÇÕES NUM MUNDO DE HOMENS Rita e Joana são exceções num meio dominado por homens. As circunstâncias as tornaram pescadoras. E é do açude Banabuiú que elas tiram o pão de cada dia, todas as tardes. “Meu marido trabalhava na Prefeitura, mas perdeu o emprego e agora faz bicos. Então, quando meus dois filhos vão pra aula, venho pescar”, explica Rita Maria Bezerra de Melo (foto), 31. No momento, a parceira de pesca Joana Darc Pereira Costa, 33, necessita ainda mais dos cada vez mais raros peixes do Banabuiú. Divorciada, ela tem que se virar para alimentar os cinco filhos, de 17 a quatro anos. “A vida de pescador é muito difícil, ainda mais para uma mulher, que não tem tanta força como os homens. Depois de um dia de sol, a gente fica acabada”.
Na parede de taipa e barro, pintada de branco, seu Chico Aprígio avisa em letras pretas que não faz fiado. O alerta, três vezes desenhado em uma das poucas vendas da ilha, é sintoma de que os negócios não são bons na Governo II. “A lida tá ruim e sei que os pescadores estão sem dinheiro. Não quero, mas acabo vendendo pra receber depois. Não tem outro jeito”, amolece. No Banabuiú pesca-se tilápia, curimatã, pescada e sardinha. Dependentes primitivamente do que o açude produz, pescadores das seis ilhas mantém com o Banabuiú uma relação desequilibrada. Segundo José Ariston Queiroz, administrador do Dnocs, a pesca sem fiscalização, o desmatamento e o beneficiamento errado do pescado ajudam aumentar as carências no lugar. “Fora a condição climática e os usos equivocados do reservatório, o açude sofre com a poluição. A salga do peixe em suas margens é preocupante. Como não há energia elétrica, o jeito é recorrer a grandes quantidades de sal”, diz. Ariston Queiroz explica que das seis ilhas, apenas na Governo I fez-se luz. “E isso foi agora, há um ano e pouco com o programa Luz Pra Todos do governo federal. A realidade todas elas é semelhante a do Governo II. Sem infra-estrutura pra nada” e educação ambiental, denuncia o responsável pelo açude.







cenário é tão inóspito que é difícil imaginar que um europeu decida deixar sua terra para arriscar uma nova vida no lugar. No distrito de Pedras Brancas, a 20 quilômetros da sede de Banabuiú, no Sertão Central do Ceará, um empresário português está fazendo dinheiro com piscicultura, no açude Pedras Brancas. Assim como seus antepassados, que zarpavam para a colônia em busca de oportunidades, Afonso de Sousa, 56, descobriu um nicho de mercado considerado subaproveitado na região.
Sua relação com o Brasil começou há quatro anos, quando viu num jornal de Portugal um anúncio de uma fazenda à venda em Quixadá. Divorciado e com três filhos, ele partiu para a cidade, mas quando chegou viu que não era bem aquilo que imaginava e desistiu do negócio. Pouco tempo depois, já em Fortaleza, o português ficou sabendo do potencial dos açudes do Ceará para a pesca e, com isso, voltou para o sertão. No açude Pedras Brancas, no limite entre os municípios de Banabuiú e Quixadá, ele encontrou o local perfeito.
“Sou o único que trabalha com piscicultura no açude”, aponta Afonso, antigo paisagista. Favorecido pela queda do pescado nos açudes Pedras Brancas e Banabuiú a partir de 2005, seus peixes criados em tanquesrede viraram solução para o mercado. “Meu faturamento é de R$ 20 mil por mês. Dentro de dois anos, pretendo tirar o investimento de R$ 100 mil que fiz”, conta Afonso, que iniciou a empreitada há dois anos. O português cria tilápias em 50 gaiolas e produz até 150 quilos de tilápia por dia, com quatro funcionários.
A empresa recebeu um nome curioso: Súbita Invest. Mais curioso ainda foi a explicação para a origem do nome. “Foi uma homenagem a um jogador que teve morte súbita em campo”, explica o português, referindo a Miklos Feher, do Benfica, que sofreu uma parada cardíaca em 2004. “Na época, várias empresas foram abertas em
Portugal com o nome súbita”, ri Afonso, vangloriandose da criatividade. Separado da sede de Banabuiú por uma estrada de piçarra, o distrito de Pedra Branca, com população de cerca de mil pessoas, é um fim de mundo. Para ir a Banabuiú, só mesmo em caminhões pau-de-arara, de saídas e chegadas incertas. “Garantido mesmo só os carros que levam alunos para a escola”, diz Eudes Ferreira, que transporta estudantes para a sede. Embora a comunidade more a 30 metros do açude, a água não tem qualidade para consumo humano. Na estação de tratamento, a água custa 15 centavos o litro. Numa região de poucas possibilidades, Afonso despertou inveja. Ele não tem muitos amigos e “estranho” é um dos adjetivos pelo qual
Embora o distrito de Pedras Brancas esteja ao lado do açude, a população paga 15 centavos por litro pela água tratada
é lembrado por vizinhos, como indica o administrador do açude, José Roberto Rodrigues. “O povo é acomodado. É mais fácil receber dinheiro do Governo e viver a mesma vidinha de sempre”, critica Afonso. Presidente da colônia de pescadores Z-14, Genival Barreiros diz que a categoria precisa se unir para superar a entressafra. “Dos 1.600 pescadores filiados, apenas 30 estão podendo pagar a taxa mensal de R$ 8,00, que garante o seguro desemprego (durante os dois meses da piracema, a fase de reprodução em que a pesca é proibida)”, revela. A saída, segundo Genival, seria criar uma cooperativa de piscicultura. “Mas é difícil juntar o dinheiro necessário”.

PERFIL
AÇUDE TRUSSU
Nome: Roberto Costa
Inauguração: 1996
Localização:
Iguatu (a 384 km de Fortaleza), no CentroSul do Estado
Bacia: Alto Jaguaribe Capacidade total:
301 milhões de m³
Capacidade atual
(*): 160 milhões de m³ (53%)
Última vez que sangrou: 2004
Vazão: 700 litros/s pela válvula dispersora e 50 litros/s para abastecimento de Iguatu
Rio barrado: Trussu Atende a quê:
Abastecimento de Iguatu e projetos de irrigação
(*) Agosto/2007 FONTE: Cogerh
Do pai, ele herdou uma “mina de ouro”, capaz de gerar 2 mil m³ de água por dia. É de um poço de dez metros de profundidade, alimentado pelo lençol freático do Trussu, rio perenizado pelo açude de mesmo nome, que o fazendeiro José Wilton Alves, 55, o Zé Dantas, retira água para os 19 hectares do Rancho Livramento, no sítio Várzea de Fora, localidade de Iguatu, Centro-Sul do estado. Em 1,2 hectare, ele produz uva, cultura tradicional do extremo-sul do País.
A primeira safra, das variedades Benitaca e Itália Melhorada, sairá em junho de 2008. “Antes eu produzia milho verde, mas mudei de cultura porque queria maior retorno financeiro”, explica Zé Dantas, que há 14 anos deixou sua empresa de confecção para assumir a fazenda da família. No início, eram apenas dois hectares; hoje, além da plantação, o fazendeiro possui 36 cabeças de gado e 80 ovelhas, que produzem 100 litros de leite por dia. O investimento na videira foi de R$ 45 mil. Da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce), Zé Dantas recebeu as orientações técnicas necessárias. “O cultivo da uva não permite amadorismo, basta ver que o investimento foi alto”, aponta o fazendeiro, que quer aproveitar a localização do Ceará para conquistar o mercado europeu.

Em Iguatu, a agricultura irrigada com água do açude Trussu desenvolveu outras culturas, mas é a produção de uva chama a atenção. “Existem mais três produtores de uva na cidade. É claro que existe con-
Sustentabilidade sacrificada
Em Pedras Brancas, que dá de beber aos habitantes do município de Quixadá depois que o Cedro entrou em colapso, a relação dos pescadores e rendeiros com o açude assusta. Segundo José Roberto Rodrigues, 54, administrador do reservatório, “se for pesar e medir” o quinto maior açude do Ceará, localizado a 180 km de Fortaleza, está sempre no prejuízo. Pra ele, é difícil fazer parte da comunidade e, ao mesmo tempo, cobrar que não degradem esse “mar”. O açude, que está com apenas 34% de sua capacidade (tem 148 milhões de m³), é ex-
plorado também por 738 rendeiros cadastrados no Dnocs e 149 pescadores legalizados. “Pelo menos 15 fazendeiros desmataram a mata do Pedras Brancas pra construir fornalhas de fazer carvão. Estão acabando com a faixa de preservação na bacia do açude”, afirma. A denúncia foi encaminhada, através de ofício, por Zé Rodrigues no dia 12 de dezembro do ano passado a José Audísio Girão Barreto, do escritório do Dnocs em Morada Nova, que responde também pelo Pedras Brancas. Até hoje, segundo a Regional do Ibama (sediada em Iguatu), não chegou o documento. Mas, se-


corrência, mas todo mundo se ajuda”, garante Zé Dantas. A preocupação se justifica: cidades como Mauriti, Brejo Santo e Crato também estão se tornando referência na produção de uva.
gundo Zé Rodrigues, não precisa de denúncia. “Eles sabem”, diz. O problema não está restrito às fornalhas. De acordo com Zé Rodrigues na piracema, época em que os cardumes se reproduzem, “só é proibido pescar no papel”. Na prática, O Ibama não fiscaliza. “Há dois anos que não tem mais camarão”, diz. Como ocorre em Banabuiú, a salga da furiba nas margens do açude é outro fator de degradação ambiental. “Isso tudo só prejudica o Pedras Brancas. Quando a pesca era boa se pegava 80 mil kg por mês. Hoje, o bom é 20 mil, mas tem mês de só pescar 9 mil kg”, constata.
Inauguração: 1978 Localização: Banabuiú (a 214 km de Fortaleza), no Sertão Central Bacia: Banabuiú Capacidade total: 434 milhões de m³ Capacidade atual
(*): 144 milhões de m³ (33%) Última vez que sangrou: 1989 Vazão: 235 litros/s pela válvula dispersora, 95 litros/s para abastecimento de Quixadá e 50 litros/s para uso na montante
Rio barrado: Sitiá Atende a quê: Abastecimento de Quixadá, oferta de água para a população à montante e perenização do rio Sitiá
(*) Agosto/2007 FONTE: Cogerh

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O
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o garoto estava sem poder ir às aulas, em Banabuiú, havia um mês. “Vou me dar mal”, choramingava. Os carros paude-arara que transportam os alunos de ensino médio dos distritos de Banabuiú suspenderam o serviço por causa do atraso de três meses no pagamento. A justificativa da Prefeitura foi de que o Governo do Estado não destinou a verba. O impasse acabou na semana passada, com a chegada do dinheiro.



LUIZ HENRIQUE CAMPOS TEXTOS SEBASTIÃO BISNETO ~ FOTOS


OAÇUDE ARARAS
Nome: Paulo Sarasate Inauguração: 1958 Localização: Varjota (250 km de Fortaleza), no Norte do Estado
Bacia: Acaraú Capacidade total: 891.000.000 milhões m³ Capacidade atual (*): 525.180.000 milhões de m³ (61,%) Última vez que sangrou: 2004 Vazão: 3.850 litros/s a partir da comporta para o vale perenizado do Acaraú; cerca de 700 l/s para o Perímtro Araras Norte; aproximadamente 150 l/s à montante para abastecimento humano em vários municípios e 100 l/s para áreas irrigadas Rio barrado: Acaraú Atende a quê: Perenização e controle das cheias no Acaraú; abastecimento d´água de Varjota, Ipú, Hidrolândia e Pires Ferreira; irrigação de 14 mil hectares nas várzeas do Acaraú; geração de 6 mil wats de energia, piscicultura e aproveitamento de culturas à montante.
(*) Agosto/2007 FONTE: Cogerh
s mais antigos na região contam que ao ser questionado sobre se teria valido a pena a perda de tantas vidas para a construção da Barragem Paulo Sarasate, a 250 km de Fortaleza, o presidente Juscelino Kubitschek teria respondido: “E quantas vidas as águas desse açude irão salvar?”. Se a história é verdadeira ou faz parte do folclore, não há como confirmar. A ser verdadeira, o presidente sabia o que dizia.
O Paulo Sarasate, ou Araras, que nasce na cidade de Monsenhor Tabosa, é responsável pelo abastecimento de água das cidades de Hidrolândia, Pires Ferreira, Ipu e Varjota, perenizando o rio Acaraú em 168 km até o mar, beneficiando no total 14 municípios e aproximadamente 500 mil pessoas. Com a bacia hidrográfica cobrindo uma área de 3.520 km², irriga aproximadamente 14 mil hectares nas várzeas do Acaraú, é capaz de gerar 6 mil watts de energia elétrica. Mas o possível questionamento a Juscelino não teria sido em vão. Durante a construção da barragem, iniciada em 1951 e concluída em 1958, muitos pereceram. José Gerardo Gomes, 77, morador de Varjota, acompanhou a história. Como carpinteiro do Dnocs, ele conta ter tido dias



em que chegou a fazer de 4 a 5 “envelopes” para colocar os corpos de trabalhadores mortos nas obras. Ele sente orgulho de ter participado da construção do açude, mas não esconde os detalhes difíceis que marcaram o período, como os desastres causados pelas máquinas. “A carrada de areia tirada pelo trator, quando vinha, derramava cobra, raposa, muito bicho vivo. Também pedaço de gente. Eu era doido pra comer cabeça de carneiro, mas quando vi as cabeças de gente esmagadas chegando para eu colocar nos envelopes, nunca mais
Mardônio Furtado planta três hectares de goiaba e três de coco no Perímetro Irrigado Araras Norte. Localizado em Varjota, a cerca de 5 quilômetros da válvula de dispersão do Araras, o projeto está situado à jusante do açude e é pólo exportador de mamão, uva, goiaba, banana, manga e coco para várias cidades do Nordeste. Mas o que poderia ser a salvação da lavoura na região, enfrenta dificuldades. Com a falta de financiamento para a produção, o perímetro tinha seis setores para o plantio, no total de 3.225 hectares. Agora está ocupado por apenas dois. Mardônio é um dos que ainda está conseguindo “agüentar”, enviando a produção para Sobral, Varjota e Ipu. “A situação não está bem, não”, diz “Mas na agricultura é o que gente tem, né”. Ele ex-

plica que há lotes que não estão mais produzindo. A área ocupada por Mardônio emprega quatro pessoas, número que aumenta em época de colheita. O projeto ainda teve que enfrentar em outubro de 2005 o corte de energia da Coelce, em virtude de dívida acumulada desde 2002, no valor de R$ 2,3 milhões. No começo do ano, o Dnocs quitou a dívida e pôs fim a briga judicia. Agora, os irrigantes estão utilizando a água à noite, por ser a tarifa mais barata.
quis comer aquilo”.
Na carpintaria trabalhavam 60 pessoas. Vizinho, ficava a casa de força, primeiro equipamento instalado no acampamento da construção do Araras. Por ironia do destino, o imóvel pertence hoje ao antigo carpinteiro, morando ao lado. Ao revisitar o local, ele parece ainda visualizar as máquinas e as ferramentas da época. “Ali (aponta com precisão) ficavam os três motores Caterpillar última geração que vieram para cá”. Foram esses motores que, ao término do Araras, foram transferidos para o acampamento do Orós.
> Vi o Juscelino no dia da inauguração do açude. Fiquei perto dele, mas como eu não o conhecia nem de vista, fiquei perguntado quem era. Era muito simples. Estava vestido com uma calça cáqui e uma camisa de listra. Depois que me disseram quem era é que fui descobrir que passei foi tempo perto dele e não sabia. Quando eu dei conta, apareceram os doutô e me tiraram.
> Da minha turma de 52 só restam agora seis cassacos. O pagamento naquele tempo era 16 mil réis por dia. Não era ruim, não, mas chegava a atrasar até três meses. Era um tempo bom...
> O engraçado é que ninguém conhecia trator. Achavam que era

Na atual casa onde reside, funcionava a cadeia pública. Fato que faz questão de contar, mostrando o imóvel e como era sua distribuição à época. “Aqui, de um lado era a cela dos homens, e do outro, em frente, a das mulheres. Todo mundo antes de entrar levava uma palmatória”, diz rindo. No pequeno espaço ficavam até 15 pessoas em cada cela. Como a caixa d´água era localizada sobre as celas, quando o clima esquentava abriam a caixa e molhavam todos os presos, relata em tom de galhofa. Reformada, a antiga cela é agora o banheiro do seu José.


a besta fera. Muita gente corria com medo. Uma vez eu vinha caminhando, e aí uma mulher disse: ‘seu Zé, volte, que a besta fera vem comendo tudo ali na frente. Ela tem as pernas redondas, a boca grande e destrói tudo’. Mas pra quem não conhecia, dava medo mesmo. Um bicho desse, levando 20m³ de areia, para quem não conhecia, era um desespero.
> Não acreditava que fossem fazer uma barragem dessa. Não dava para a gente entender aquilo, não. Mas fizeram. O Juscelino disse em 58 que levaria 10 anos para sangrar. Mas em 64 sangrou. Deu 2,40m de sangria e chegou até em Sobral, na Igreja do Rosário, perto hoje do Banco do Brasil. Tu imagina isso, Luiz Henrique?
DEGRADAÇÃO
> Não é difícil constatar o crescente processo de degradação ambiental a que está sendo submetido o açude Araras. Já às suas margens, nas proximidades de Varjota, a poucos metros do escritório de campo do Dnocs, queimadas e muito lixo acumulado dão uma mostra do quadro.
MATA CILIAR
> À montante a situação se complica com a perda de mata ciliar, ocupações ilegais de Áreas de Proteção Permanente (APPs), plantações desordenadas nas vazantes, criatórios de animais à beira do reservatório, lavagem de roupa e uso indiscriminado de agrotóxicos.
COMBATE > A realidade se agrava à jusante com a perenização de 168 Km proporcionada ao rio Acaraú. As causas podem ser facilmente identificadas, mas de difícil combate.
EDUCAÇÃO > Para o presidente do Comitê de Bacia do Acaraú, Alexandre Bessa, o problema da bacia, e não especificamente do Araras, é a falta de educação ambiental das populações ribeirinhas. Doze açudes perenizam a bacia do Acaraú e em todos o problema da falta de educação ambiental existe em menor ou maior grau.



Irrigado com águas do Araras e do açude Edson Queiroz, o perímetro Baixo Acaraú, no trecho final da bacia do rio Acaraú, está instalado em 8.030 hectares abrangendo áreas das cidades de Acaraú, Bela Cruz e Marco. O acesso se dá por vias pavimentadas e bem cuidadas. Possui também estrutura de distribuição de água toda informatizada, podendo liberar a vazão por lote. Tudo isso é possível graças a uma barragem própria com adutora de 1.640 metros que leva a água por gravidade até os lotes.
O Baixo Acaraú, porém, enfrenta o mesmo problema do Araras Norte. A falta de recursos para produção. Segundo o gerente executivo do projeto, Rogério Paganelli Junqueira, o perímetro foi construído pelo Dnocs com 586 lotes, entre pequenos, médios e grandes (8ha., 16 ha. e de 40ha. a 80 ha.). Hoje, no entanto, estão ocupados 291 de pequenos e médios, apenas três de grandes. No total são 2.096 hectares ocupados de um total de 8.030. Cerca de 1.283 hectares não estão vendidos. No local produz-se banana, melão, maracujá, abacaxi e melancia. A comercialização é individual ou em grupo de produtores. Mas já houve exportação de mamão e melão para a Europa e Mercosul. “O problema é recurso para começar a produzir, porque infra-estrutura tem. É chegar e começar a operar”, afirma Paganelli.

Do camelo, do açude e do homem que calculava
HYPÉRIDES MACEDO
A çude, palavra de origem árabe, significa reservatório de água para irrigação. A invasão dos povos arábicos que ocuparam principalmente o sul da península Ibérica, incluindo as zonas de Algarve e Alentejo em Portugal, marcadamente difundiu a técnica da açudagem e da construção de cacimba. A colonização do Nordeste por portugueses dessa região sedimentou a cultura do açude na zona do semi-árido.
Pioneiros na utilização do conhecimento grego a partir da Alexandria, inventores que foram do alfabeto, do algarismo e do algorítimo, os árabes criaram a primeira síntese hidrológica da água. O açude é um copo fundo, que guarda a água que chove numa bacia rasa. Pois eles já sabiam, na época, que a evaporação é proporcional à superfície da boca do copo e não ao volume reservado. Somente assim, uma região como a nossa, onde a evaporação anual mede três vezes a chuva média do ano, seria possível dispor de uma reserva de água. Deve-se atentar, ainda, para o fato de que apesar de o espelho d’água do açude, ou bacia hidráulica, ser muito menor do que a área contribuinte para a formação do lago, isto é, a bacia hidrográfica, não se deve fazer açude indiscriminadamente, pois neste caso está-se derramando a água do copo na bacia novamente. Seguramente, dois açudes na mesma bacia rendem menos água do que apenas um de volume equivalente.
Em nossa cultura sobrevivem muitos preconceitos. A seca também é falta de um jardim na cabeça das pessoas
Mesmo os espelhos d’água das nossas barragens estratégicas representando, em média, menos de dois por cento da área da bacia hidrográfica, o açude, pela sua geometria em forma de funil, pode perder cerca de 20 a 30 por cento por evaporação. O Canal de Integração perde apenas cerca de um a dois por cento, enquanto a adutora, acondicionando a água em tubo, apresenta perda zero. Assim, é de fundamental importância quando da retirada da água dos açudes, transferi-la por canais e adutoras. Açude que sangra é mal gerenciado. O açude deve, de forma permanente, vazar ou liberar água pela galeria ou comporta de fundo, e nunca pelo sangradouro. A galeria expele a urina do açude. Se os rins retiram o veneno, os sais e as toxinas do corpo humano, a galeria lança fora os sais, os sedimentos e a matéria orgânica que turvam e apodrecem o corpo d’água. Muita coisa há ainda que se aprender sobre açude, para evitar-se que por ano cerca de dois bilhões do volume das barragens sejam bebidos pela energia do sol. Em nossa cultura sobrevivem muitos preconceitos sobre recursos hídricos. A seca também é falta de um jardim na cabeça das pessoas.
Hypérides Macêdo é consultor em hidráulica, ex-secretário de Recursos Hídricos do Estado e ex-secretário de Política de Recursos Hídricos do Ministério da Integração Nacional



São
ELIAS FERNANDES NETO

Escassez hídrica ou falta de gestão?
LÚCIA DE FÁTIMA ARAÚJO
U ma afirmação feita recentemente por defensores do projeto de que só com a transposição não haverá mais perigo de faltar água, quando se desencadear uma seca, me remeteu a estudos e experiências de campo que me permitiram conhecer de perto mazelas hídricas do Estado e assim embasar uma visão de que nosso problema não é só de escassez hídrica, mas de gestão. Basta refletir sobre como é ou está a Política de Gestão Ambiental e de Recursos Hídricos no Ceará, observando alguns itens como o desperdício na irrigação e nos sistemas de abastecimento. Só no Jaguaribe, o desperdício de água na irrigação chega a mais de 50%, por métodos inadequados e falta de acompanhamento técnico. 82% de pequenos e médios irrigantes não têm qualquer acompanhamento técnico. Já o desperdício em adutoras e sistemas de abastecimento urbano chega a 40%. Não à toa, o ex-diretor de obras hídricas do Ministério da Integração, em entrevista negan-
E o controle da poluição das águas? Sem qualidade, a disponibilidade diminui e aumentam os problemas, principalmente de saúde
do envolvimento no caso Gautama, colocou. ...’’O negócio das reduções de perdas que falo na gravação nada mais é de um esforço que tenho feito no sentido de que, ao invés de gastarmos dinheiro construindo mais barragens e sistemas adutores invistamos na redução das perdas do sistema de abastecimento. Tenho estimulado isso em todos os estados que atuamos....” .
E a política de reuso? Com tantas pesquisas e experiências exitosas, qual a política de reuso de águas no Ceará? Só lembrando, em Israel, 80% de todo o esgoto é reutilizado na irrigação.
Que ações têm sido implementadas para reduzir o assoreamento dos nossos açudes, causado, principalmente, pelo desmatamento descontrolado das margens dos corpos hídricos? Pesquisas da Universidade Federal do Ceará mostraram que os açudes, nossa principal fonte de abastecimento, sofrem grave perda de capacidade hídrica anual (30 milhões m³/ano). Ou seja, em termos de reserva de água, perdemos o equivalente a um Acarape do Meio por ano.
E o controle da poluição das águas? Sem qualidade, a disponibilidade diminui e aumentam os problemas, principalmente de saúde. O rio Salgado, entrada das águas do São Francisco, hoje, principal tributário do Castanhão, é um rio de esgotos. O cenário dos açudes, em geral, é de incentivo à piscicultura intensiva sem estudos de capacidade de suporte, criação de gado solto nas margens dos reservatórios e vazanteiros usando fertilizantes e agrotóxicos, além de ocupação irregular por balneários e restaurantes sem nenhuma infra-estrutura sanitária. Técnicos do Dnocs (Bacia


do Curu) queixam-se das precárias condições para gerenciar os reservatórios. Cagece e Saae enfrentam sérios problemas nas estações de tratamento de água, com a eutrofização dos mananciais. E a captação de água de chuva? Não falo só das cisternas para a população dispersa da área rural. Falo de modelos urbanos que o Paraná e São Paulo já estão adotando. E os Dessalinizadores? É triste pensar. No município de Ocara ‘’De 90 instalados, só 04 funcionam”. Infelizmente falta espaço para comentar também todas as experiências exitosas de alternativas para o semi-árido que não têm tido o devido apoio ou continuidade por parte dos decisores políticos, a exemplo das Barragens Subterrâneas; do Prodham; Barraginhas (Vale do Jequitinhonha ) e Projeto Pingo d´Água (bacia do Banabuiu). E assim, defensores do projeto, não esqueçam de que a garantia de água para o sertanejo vai muito além dos modelos matemáticos de vazão realizados com as águas do Velho Chico. Lúcia de Fátima Araújo é professora de Tecnologia em Gestão Ambiental do Cefet-CE
N os últimos cinco anos, muito se tem dito sobre o Projeto de Integração do São Francisco. Há pontos esclarecidos e muita desinformação. Ser contra ou a favor, simplesmente, é patentear o desconhecimento da questão substantiva - a escassez da água na região que será beneficiada pelo projeto. A população do semi-árido, sobretudo a do Nordeste Setentrional, os estudiosos e especialistas do tema sabem que a convivência com o meio-ambiente da região passa, sem dúvida, pela segurança hídrica continuada. Há dependência comprovada da regular oferta d’água que garanta o abastecimento humano, a dessedentação dos animais e a produção de alimentos e impeça o avanço da desertificação. Em todos os debates, valorizam-se somente pontos de vistas antagônicos. Os debatedores não se dão conta dos ruídos de comunicação e da desinformação que lançam no seio da população, sobretudo aquela diretamente beneficiada. Por exemplo, pouco se divulga que menos de 2% da vazão do São Francisco será aduzida para os canais. E mais, hoje esse volume de água vem sendo lançado ao mar. Não irá representar nenhuma diminuição de oferta d’água para os moradores da população das bacias doadoras. Outro aspecto pouco divulgado refere-se ao sistema de bombeamento de água para os canais da interligação de bacias, que só irá ocorrer nos períodos de carência hídrica. Não haverá bombeamento contínuo ao longo do ano. Pouco se fala sobre a situação atual do rio Jaguaribe considerado o maior rio seco do mundo. Com mais de 600 km de extensão, o rio cearense está renascendo com a perenização decorrente da construção de barragens, como Castanhão, Orós e Banabuiú, e com a adoção de medidas de revitalização e preservação ambiental ao longo do seu curso. O grande objetivo do Projeto de Integração do São Francisco será, além da garantia da segurança hídrica para a região, a perenização do curso dos seus rios, a promoção da integração das diversas regiões do Brasil, para diminuir as desigualdades regionais, criar oportunidades de ocupação e renda e recuperar as condições de equilíbrio do ecossistema. A importância deste projeto para o Ceará está na oferta regular dos recursos hídricos, capaz de garantir o abastecimento d’água de toda a Região Metropolitana de Fortaleza, beneficiando 3,5 milhões de habitantes, bem como assegurar o suporte hídrico necessário para viabilizar a sustentabilidade das atividades econômicas e atrair novos investimentos para atividades hidropiscico-agrícola. Incentivar, democrática e responsavelmente, os debates junto aos diversos segmentos da sociedade, para uma ampla compreensão dos objetivos da sua concepção, do ponto de vista da segurança hídrica, alimentar, de sustentabilidade econômica e social e como instrumento estratégico de desenvolvimento regional, além do manejo sustentável dos recursos naturais em padrões de segurança eficientes, no balanceamento equilibrado das disponibilidades e necessidades entre bacias superavitárias e deficitárias dos recursos hídricos na região do semiárido, constituem-se hoje num dos maiores desafios. Por uma questão de justiça social e de solidariedade, é impossível imaginar qualquer cenário atual ou futuro para a população do semiárido, sobretudo para o Nordeste Setentrional, sem o Projeto de Integração do Rio São Francisco. Elias Fernandes Neto é engenheiro civil e diretor geral do Dnocs



LUIZ HENRIQUE CAMPOS ~ TEXTOS
SEBASTIÃO BISNETO ~ FOTOS

O sol começa a surgir em mais uma manhã de sábado, dia de feira em Pentecoste, a 85 km de Fortaleza. Sob a ainda frágil luminosidade, aparecem os primeiros barcos riscando as águas do açude Pereira de Miranda, mais conhecido pelo nome do município que o abriga, trazendo os moradores das ilhas situadas dentro daquele manancial. Até o início da tarde aproximadamente 50 embarcações farão os trajetos de ida e volta entre as ilhas e a área urbana. Todos os sábados a movimentação dos moradores das ilhas do Pentecoste se repete em busca da feira. É lá, em meio a conversa jogada fora e o escambo de mercadorias, que se dimensiona a importância do açude para aquela gente que mora à sua montante. Na vinda, as embarcações trazem bodes, galinhas, peixes, verduras. Na volta, levam engradados de cerveja, roupas, panelas, redes e notícias dos parentes e amigos.
Sexto maior açude do Ceará com sua bacia hidrográfica cobrindo área de 2.840 km e capacidade de acumulação de 395.630.000 m², a conclusão em 1957 da barragem Pereira de Miranda mudou a feição da região. Hoje, o Pereirão é responsável pelo controle das cheias do rio Canindé e do riacho
Capitão-Mor, a perenização do rio Curu, a irrigação das terras de jusante, juntamente com as águas armazenadas no açude General Sampaio, a exploração da piscicultura e o aproveitamento para culturas nas áreas de montante.

> Falta de saneamento básico nos municípios que compõem a Bacia do Curu, lançando dejetos no leito dos rios e riachos que abastecem os grandes reservatórios.
Digno de contemplação por quem lança a vista sobre aquele mar, o Pereirão exige muito mais de quem pretende entender a dinâmica de sua relação com a população local. Dinâmica refletida nas histórias dos pescadores, nas fotos de seu Raimundo Lopes Neto marcando etapas da existência do açude, ou na frase solta ao acaso pelo técnico da Cogerh, Henrique Gomes, quando diz: ‘’Daqui até Paraipaba tudo respira dessa aguazinha que sai do Pentecoste´´. A aguazinha a que se refere Henrique Gomes alimenta o rio Curu à jusante do Pentecoste em uma extensão de 68 km. Estrada de água realimentada pelos açudes General Sampaio, Caxitoré e Frios, até Paraipaba. No trajeto, atende aos perímetros irrigados Curu-Pentecoste e Curu-Paraibapa, no total de 4.425 hectares plantados com coco, cana-de-açúcar, citros, acerola, banana, mamão e feijão vigna. Mas se à jusante a água do Pereira de Miranda gera renda através dos perímetros irrigados, é na montante que surge a maior preocupação. A falta de conscientização das populações ribeirinhas tem provocado a degradação ambiental nos afluentes do açude com prognósticos nada animadores. Segundo Antônio Alzemar, técnico da Ematerce e presidente do Comitê da Bacia do Curu, ‘’hoje a água do Pereira de Miranda ainda é própria para consumo. Mas do jeito que a situação está, a tendência é em alguns poucos anos não servir nem para beber".
PERFIL
AÇUDE PENTECOSTE
Nome: Pereira de Miranda
Inauguração: 1957
Localização: Pentecoste (a 85km de Fortaleza), no Norte do Estado
Bacia: Curu
Capacidade total: 395.630.000 milhões m³
Capacidade atual
(*): 204.950.000 milhões de m³ (51,8%) Última vez que sangrou: 2004 Vazão: 2.500 litros/s pela válvula dispersora a jusante Rio barrado: Canindé
Atende a quê: A perenização do rio Curu; a irrigação das terras de jusante, juntamente com as águas armazenadas nos açudes General Sampaio, Caxitoré e Frios, até Paraipaba, para abastecer os perímetros
Curu-Pentecoste e Curu-Paraipaba; a exploração da piscicultura e o aproveitamento para culturas nas áreas de montante.
(*) Em agosto/2007 FONTE: Cogerh

Sábado é dia de deixar as ilhas do Pentecoste para ir à feira vender animais e comprar mantimentos
NAS ÁGUAS DO PENTECOSTE > Mais de 50 barcos fazem o trajeto em dia de feira no açude Pentecoste, dando até cinco viagens. No dia normal, 200 canoas passeiam pelo açude em busca da pesca. O passeio é tranqüilo e em 40 minutos se chega a ilha da Malhada, a primeira do açude.



> Utilização desordenada do solo às margens dos rios, riachos e açudes. Aliado a isso, há o uso excessivo de produtos químicos. A comercialização desse produto é muito comum na região e o uso é indiscriminado.
> Através de um levantamento dos lixões em Pentecoste, observou-se que os mesmos estão próximos aos mananciais hídricos, podendo vir a comprometer o ambiente e o lençol freático, os aqüíferos e até mesmo o leito do rio Curu, próximo da zona urbana.
> Outro aspecto que merece uma atenção especial é o lixo hospitalar (Hospital Fundação de Saúde do Município de Pentecoste), que é jogado diretamente no lixão sem tratamento e que, às vezes, serve de brinquedo para as crianças.
> O sangradouro do Pentecoste está próximo a uma canal de aproximação com vegetação semi-arbustiva e construções irregulares.
- Construções particulares dentro da área de preservação permanente. A permissão para casas é de 800 metros da margem, mas isso não é obedecido.

O barqueiro desliga o motor e deixa a embarcação deslizar em direção à margem da Malhada de Cima, uma das ilhas do Pentecoste. Logo se avista seu Correia Lima (de chapéu de palha, foto abaixo), 67, cuidando do gado. A apresentação dos jornalistas é feita por técnicos da Cogerh que acompanham a equipe. ‘’Trouxemos essas pessoas aqui para comprar boi fiado", dizem eles, ao que seu Correia, sorrindo, responde: ‘’Aqui não mora besta, não". Não demora e a conversa flui naturalmente, enquanto caminhamos conhecendo um pouco da ilha. As casas bastante afastadas umas das outras são características que marcam o lugar. No centro da comunidade, a igreja, a escolinha de 1º grau para 120 alunos e uma quadra de basquete improvisada servem para unir as pessoas ali residentes. A sombra proporcionada pela entrada da escola convida à parada para alguns minutos de conversa. Tempo suficiente para histórias de mistério e lembranças sobre o Pereirão.
Seu Correia tinha 12 anos quando começou a construção do açude. ‘’Queria trabalhar lá, mas não podia porque era criança´´. Era um tempo difícil. ‘’Passei muita fome. Com o açude, melhorou muito, não sei nem ovaloá (avaliar). Se antes passava fome, hoje, aqui, só passa fome quem quer. Tem uma besteirinha aqui, outra acolá, e é só querer trabalhar que consegue". Na Malhada moram 60 famílias aproximadamente. A história de bonança apresentada por seu Correia, porém, não é unanimidade na Malhada de Cima. Água tratada e luz, é verdade, não faltam. O que é incerto são os recursos para custear o pagamento das taxas por esses serviços. A pesca, reclamam os pescadores, tem funcionando apenas para a subsistência. Não é para menos. Por dia, cerca de 200 canoas se distribuem pelo açude em busca do pescado. Quase sempre conseguem apenas o suficiente para aquele dia. Não tão velhos, os pescadores lembram de épocas mais fartas. Nos últimos cinco anos chegaram


DIVERSÃO. Tenho 8 filhos (5 homens e 3 mulheres). Naquele tempo não tinha TV. Mas até hoje, sabe que eu não gosto muito de televisão.
MEDROSO. Eu sou muito medroso para andar por aí à noite. Mas eu mesmo já vi coisas sem explicação nesse açude. Um dia, de noite, eu estava ajeitando uma canoa, quando de repente cai uma pedra nela. Aquilo não foi gente, a força era muito grande e não tinha ninguém por perto.
O FOGO. Eu estava perto do pontal quando apareceu um fogo grande lá mais a frente. Eu pensei: fulano de tal está assando
os peixes que pescou de dia. Fui chegando perto e o fogo apagouse. Eu fui lá no local e não tinha nem brasa, nem fumaça. Eu passei o pé e estava frio, frio. Não tinha nem cinzas.
UAHH! Outro dia, bem cedinho, ainda no escuro, estava indo a pé para pegar as linhas para pescar. Ouvi um grito bem atrás de mim: Uahh! Tomei um susto que caí. Levantei, me virei, mas não vi nada. Saí correndo. Isso aconteceu perto de onde morreu a Maria Guajiru. Primeiro pensei que fosse uma raposa, mas não era. Não sei o que pode ter sido. Mas às vezes é mais o medo que cria a assombração. Como eu sou muito medroso....
a pescar peixes de 25 a 30 quilos. As contradições cercam os moradores da Malhada de Cima. Mesmo à beira dágua, enfrentam dificuldades para obter o pescado. Ao mesmo tempo também reclamam do custo pago pela taxa de água e luz. Dona Maria Jussara, por exemplo, diz ter pago, no último mês, R$ 24,00 de água e luz, mas considera normal pagar R$ 30,00 pelo uso do telefone celular.




MAROLA > Com o vento, aumenta a marola no leito e essas pequenas ondas crescem no encontro das águas que formam os rios Canindé e CapitãoMor. Ao longo do passeio não é difícl encontrar retratos da degradação ambiental. Quase nenhum dos barcos viaja com coletes. Quando se vê pessoas com colete nos barcos, os
na beira do açúde, não se furta a conversar sobre o maior símbolo da cidade. “Aqui o açude é um grande desenvolvimento para o município”. Ele mantém no estabelecimento várias fotos de etapas do Pentecoste e se anima quando as expõe ou conta as histórias do local para os visitantes. VIDA DEPOIS DO CEMITÉRIO




LUIZ HENRIQUE CAMPOS TEXTOS

SEBASTIÃO BISNETO ~ FOTOS 1

932. Ano de seca. Na comunidade de Itaperoaba, em Sobral, faltava comida e meios de consegui-la. Nada para fazer. Nada de comer. A saída era aceitar qualquer trabalho que garantisse o sustento. Foi em busca deste objetivo que 470 homens deixaram a cidade para começar a construção do açude General Sampaio. Não sabiam que o destino lhes reservaria parte da história da região.

José Alves escapou da seca, da fome, do bando de Lampião. O destino lhe deu oportunidade de fazer história
Entre esses homens estava José Alves Duarte, na época com 18 anos. A primeira viagem, entre veredas e estradas de difícil acesso, foram quase três dias a pé. Na dura lida, coube a ele a função de utilizar a picareta para escavações. Ao final de três anos a barragem virava realidade. Muitos dos trabalhadores, porém, não tiveram o prazer de vê-la pronta. No período, várias mortes ocasionadas pela febre tifóide. Os homens que fizeram a história do General Sampaio, no entanto, foram muitos mais do que os 470 de Itaperoaba. Para a construção chegou gente de todo o canto do Estado, relatam os antigos. Acidentes acon-
teceram poucos, apesar de ter sido a primeira obra em que a então Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (Ifocs), hoje Dnocs, utilizou a técnica de compactação mecanizada. Cangaceiros de lampião ainda encostaram por lá, se infiltraram entre os operários e levaram alguns para o bando. Uns 20 ainda foram. Arrependidos, voltaram. Os que conseguiram chegar ao final da construção admitiram não acreditar, de início, que a obra fosse concluída, que fosse dar no que deu. Entre eles, José Alves Duarte, dos poucos ainda vivos a relatar aquela saga.
Depois da construção do General Sampaio, José Alves não conseguiu mais sair de perto da sua obra, da sua história. A primeira morada foi a quatro léguas (24 km) do açude. Depois foi se mudando e chegando mais para a cidade. Atualmente mora na área urbana. Trabalhou na agricultura, foi vazanteiro do açude, de onde conhece casos engraçados. Como o dos pirarucus de 100 quilos e outro de 40 quilos, que ele mesmo diz ter pescado. “Como é predador, já tentou virar canoas para tirar os peixes pequenos já pescados”, afirma convicto. Quem vai desconfiar?
No dia 1º de março deste ano José Alves foi homenageado pela Prefeitura de General Sampaio com a comenda Prefeito José Feliciano de Carvalho, o primeiro administrador do município. Muito justo. Na cidade, ao sinal de qualquer necessidade de informação sobre a obra, é sempre o indicado a falar. O destino fez José Alves escapar da seca, da fome, da febre tifóide, do bando de Lampião e lhe deu oportunidade de fazer história. Hoje, aos 93 anos, lúcido, José Alves vive recluso em casa na companhia de uma filha e do genro, não se furtando a receber bem e a contar a história do açude. É obrigado, porém, a conviver com outra peça do destino. Diabético, descobriu a doença já tarde, e as mesmas pernas que lhe trouxeram de Itaperoaba foram amputadas recentemente.



A imensidão do General Sampaio não é garantia de bom aproveitamento econômico da pesca. O manancial caracteriza-se pela baixa produtividade, sendo recolhidos cerca de 30 toneladas de peixe por ano, insuficiente para atender até mesmo a população do município de 1.500 habitantes. Estudos do Dnocs, porém, apontam que a prática da piscicultura poderia gerar uma produção adicional da ordem de R$ 10 milhões no médio prazo, criando empregos para 400 famílias com renda média familiar em torno de R$ 650,00.
No ano passado o Dnocs

chegou a coordenar uma discussão envolvendo representantes de vários órgãos da região para promover o desenvolvimento do município através da utilização do açude. Atualmente há projetos em andamento, como um piloto para instalação de 50 tanquesrede, além de dois projetos encaminhados ao Programa Fome Zero da Petrobras, e um originário de Convênio de Cooperação entre a Prefeitura de General Sampaio, Banco do Nordeste do Brasil (BNB), Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Ceará (Prex) e o próprio Dnocs.

Navegar pelo açude General Sampaio desperta a dupla sensação: medo e deslumbramento. Com a parede construída em meio a rochas, o trecho próximo à barragem nos remete a verdadeiras muralhas, causando certo desconforto por não se conseguir desviar os olhos. Ao nos desvencilharmos daquele incômodo acidente geográfico, a tensão diminui, apesar dos trechos seguintes mais lembrarem labirintos. Só depois fomos saber que de tantas entradas e saídas desse labirinto, não é aconselhável se aventurar pelo General Sampaio com quem não o conhece bem. Sorte que o seu Antônio da Ana, nosso barqueiro condutor, é dos maiores conhecedores das “veredas” daquele mar. O passeio segue tranqüilo, mas um barulho es-
"Não podemos ir adiante", diz o barqueiro. Só duas alternativas: encostar em uma das ilhas ou arriscar a volta. Vence a segunda opção
tranho indica mudança na rotação do motor do barco. Seu Antônio demonstra preocupação. Estamos a 40 minutos da parede e a duas horas do anoitecer. Ele desliga o motor. Liga novamente. Mas
o barulho esquisito permanece. “Não podemos ir adiante”, afirma o barqueiro. Só há duas alternativas: encostar em uma das ilhas ou arriscar a volta. Vence a segunda opção entre as cinco pessoas que estavam na embarcação. O retorno é tenso, reforçado pela informação repassada por um dos ocupantes, dando conta de estarmos no trecho mais profundo do açude, a cerca de 30 metros. Ninguém fala nada. Com o frio na barriga as atenções se voltam para o barulho do motor e a aproximação da margem. Já a poucos metros da chegada, a vontade é de saltar logo do barco e ir a nado. Em terra firme, pausa para olhar por mais alguns minutos em direção àquelas assustadoras e maravilhosas muralhas do General Sampaio.

Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec) na semana passada, é conseqüência da irregularidade das chuvas, que ficaram abaixo da média histórica em 2007, e da falta de água em localidades.
CARRO-PIPA > Dos 102 municípios, 26 já estão recebendo água por meio da Operação CarroPipa, coordenada pelo Comando da 10ª Região Militar. Desde abril, o Ministério da Integração Nacional já liberou R$ 18 milhões para a operação no Nordeste.























O rio nasce no Maciço de Baturité, a 750 metros de altitude. Até alcançar o Atlântico na praia da Cofeco, em Fortaleza, são 150 quilômetros. Longa estrada de água. Pacoti, para os índios, é o que segue para o mar. Enquanto desce a serra, o leito se encontra com cidades sem esgotamento, lixões, lavoura com agrotóxicos, indústrias. Sujeira e descuido. No meio do caminho, barrado, um imenso açude que ganhou o mesmo nome, Pacoti, capaz de juntar até 380 milhões de m3. De água e do que despejam nela desde longe. A água do Pacoti é estratégica. A reserva d´água inaugurada em 1981 integra um sistema de açudes que abastece Fortaleza e Região Metropolitana. Três milhões e meio de habitantes. Também fazem parte o Riachão, o Gavião e, desde 1993, o Pacajus e o Canal do Trabalhador, que transpõe para a Capital a água do rio Jaguaribe armazenada nos gigantes Orós e Castanhão. O que é sujo e jogado no Pacoti rio desde sua nascente já é considerado grave, mobiliza ambientalistas, mas tem se diluído (ainda é assim) até chegar ao Pacoti açude. Por enquanto, o principal foco de poluição na barragem vem dela mesmo. É o que os especialistas chamam de eutrofização, o excesso de nutrientes na água, principalmente nitrogênio e fósforo, desequilibrando o ecossistema aquático e produzindo algas tóxicas em grande quantidade. Ocorre pela falta de chuvas e de renovação da água. Segundo o gerente de desenvolvimento operacional da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), Walt Disney Paulino, o Pacoti hoje encontra-se no estado mesotrófico. A água ainda tem níveis toleráveis de uso. Mas a agressão humana agrava esse quadro. O perímetro do açude tem 100 km de extensão. É cercado por mata ciliar, que atua como filtro ambiental. Não existem habitações ao redor. Porém, há um agente poluidor praticamente ao lado do espelho d´água. O lixão do município de Horizonte, que funciona desde 1989, está a cerca de mil metros do reservatório. Por
dia, recebe 13 toneladas de resíduos de todo tipo. Toda concentração de lixo após um certo tempo passa a produzir o chorume, líquido altamente nocivo. Pela proximidade, é certo que escorre para a barragem, principalmente infiltrado no solo. A presidente do Comitê das Bacias Hidrográficas da Região Metropolitana, Zita Timbó, concorda que a poluição desde a nascente do rio Pacoti é o maior problema, mas ressalta que “esse lixão preocupa, sim. É muito em cima do açude”.
A água do Pacoti é estratégica. Integra um sistema de açudes que abastece Fortaleza e Região Metropolitana
“Essa distância é superior ao que pede a legislação, de estar a 500 metros da bacia hidráulica. Pode escorrer algum chorume, mas é um percentual mínimo”, admite o secretário de Agricultura, Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Horizonte, Franzé Sousa. A administração garante que faz o manejo dos resíduos e que o solo da cidade é denso. "80% do lixo é varrição e poda”, reforça o secretário da Infra-estrutura, Antônio Pires. Na semana passada, a prefeitura inaugurou um aterro sanitário a seis quilômetros do açude e iniciou a desativação do lixão. Promete recuperar a área degradada. Sousa aponta o percurso das águas pela região jaguaribana, antes da chegada ao Pacoti, como contaminação maior. O trajeto é por cidades sem saneamento. “É a água que vem desde o Jaguaribe. Passa por Russas, Limoeiro, Tabuleiro. No fundo, termina poluindo”. Culpa dos que cruzam o caminho do rio. Em tempo: a água distribuída em Fortaleza é tratada quimicamente pela Cagece numa estação no açude Gavião. Chega límpida, fluoretada e potável ao usuário.
FAUNA
No espelho d´água, às margens, ao pé das 11 ilhas. Por todos os lados, bichos desconhecidos da urbanidade. No tronco, o pato porco. A galinha d´água anda sobre folhas que bóiam. O carão preto parece muito com a garça branca. Vacas desgarradas nadam de uma ilha a outra atrás de pasto. Segundo os fiscais, é possível encontrar gato do mato, cobras com até quatro metros, guaxinins, tetéus. É proibido caçar na área.

CAPIVARAS
Na primeira ida ao Pacoti, a notícia de que havia capivaras. Muitas e sempre em bando. Saem da mata só no fim da tarde. Fogem de gente. Fizemos três tentativas de registrar alguma imagem delas. Na primeira, a chuva atrapalhou. Na segunda, cinco animais apareceram a menos de 20 metros. Mas já eram 18h30min e esquecemos a lanterna. Na terceira vez, nenhuma. Levamos o drible da capivara.
A dama e o cão:
Maria Camarão hoje não vive sem Burundanga. Nem ele sem ela. Todo dia ela vai do distrito Coluna (Horizonte), onde mora, para sua ilha. Ele junto. Enquanto ela rema, ele, sentinela, rosna do bico da canoa, faz cara feia para estranhos. Assim fez para a equipe do O POVO Na beira da ilhota, que é dela porque ficou conhecida entre os pescadores com o nome dela, dona Maria chega de manhã cedo e só sai no entardecer. Esca-
va a terra, planta feijão ou mandioca ou pesca. Faz isso todo dia, chuvoso ou de sol, já por 26 anos. Desde a inauguração do Pacoti. Ela tem 57. Assim cuidou dos quatro filhos, sozinha. Burundanga está com ela há cinco. Vira-lata fiel, como todo bom da raça.
O que deu o apelido a Maria Pereira Lima hoje nem aparece mais na rede. Ela diz que antes pegava de 30 quilos de sossego, o camarãozinho bem pequeno, numa única jornada. Agora só
cará miúdo, tucunaré, pescada, piau, o que der. O vigilante do açude havia advertido, “ela é braba, índia”. Mas dona Maria só nos foi simpática o tempo todo. Encabulada, ela sorriu sem dentes, feliz pelas fotos, enquanto contava da vida. Nada mais simples. Casa, açude, casa. “Nunca quis viver com ninguém. Só é melhor”. Os filhos estão criados, três netos já chegaram. Hoje é praticamente ela e Burundanga. Fiéis um ao outro.
O gerente de desenvolvimento operacional da Cogerh, Walt Disney Paulino, informa que boletins de monitoramento da qualidade da água dos açudes cearenses passaram a ser divulgados rotineiramente pelo órgão, a partir de setembro, pela Internet. No Pacoti, há coletas para exames laboratoriais a cada dois meses. Ele confirma que o principal fator poluidor hoje é a eutrofização. Nesta entrevista, entenda como ocorre o fenômeno.
O POVO - Como a água do Pacoti é monitorada?
Walt Disney Paulino - De acordo com a importância estratégica de cada açude, temos uma freqüência de visita. O trabalho da Cogerh é descentralizado. Existem as gerências regionais que fazem esse trabalho de campo. O Pacoti, a gente visita a cada dois meses. O Pacajus, Pacoti e Riachão são examinados nesse tempo. No caso do Acarape do Meio e do Gavião, a coleta é semanal (por serem mais próximos do tratamento e da distribuição). Nos açudes maiores que 100 milhões de m³, a coleta é a cada três meses. Os demais, de seis em seis meses.
OP - Onde são examinadas as coletas?
Disney - Temos convênios com o Nutec (Núcleo de Tecnologia Industrial do Ceará), Centec (Instituto Centro de Ensino Tecnológico) e com a Cagece.
OP - Qual o índice vocês têm de qualidade da água bruta?
Disney - Nesse momento estamos trabalhando na consolidação desses dados. Queremos passar a divulgar pela Internet a partir de setembro. Temos alguns dados, mas são antigos. Vínhamos com um trabalho rotineiro desde

As chuvas são poucas. Cada tempo que o açude passa sem renovar a água contribui para deteriorar a qualidade dessa água
2004, mas tivemos dificuldade de pessoal especialista. É uma área que faltam pessoas com formação e vivência.
OP - Como é o controle de lixões e esgotos?
Disney - Tem um trabalho importante sendo iniciado, o Inventário Ambiental dos Açudes. É o levantamento das fontes poluidoras. Estamos num trabalho piloto, desenvolvendo a metodologia. Começamos este ano. Outro fator importante é que estamos inseridos numa região semi-árida. As chuvas são poucas, há pouca renovação da água. Então, muitas vezes têm açudes que demoram

em média cinco, dez anos, para renovar toda a água. Cada tempo que o açude passa sem renovar essa água contribui para deteriorar a qualidade dessa água.
OP - Quais as principais fontes poluidoras do açude Pacoti? Disney - A questão mais importante é a eutrofização. Para entender, você imagine colocar água dentro de um aquário e deixar lá. A água fica suja, o aquário vai esverdear. É mais ou menos isso. Como o Pacoti é parte de um sistema integrado de açudes, você tem a poluição difusa, que é o tipo de uso e ocupação do solo que é feito na bacia hidrográfica. Nos primeiros dados que temos trabalhado, tem sido uma grande fonte poluidora. No caso do Pacoti, extrapola porque tem a ver com o Pacajus, que vem água dele. A eutrofização é uma conseqüência. As causas são o tipo de uso na bacia toda. Com esse Inventário a gente quer identificar para envolver outros setores. A questão ambiental, industrial, onde vai ser preciso melhorar o saneamento. O inventário vai dar uma indicação da área de influência de algo que esteja prejudicando a qualidade da água.