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LIVRO VERDEJAR FORTALEZA - DIGITAL (1) (2)

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verdejar fortaleza!

Educação, experiências e descobertas para um futuro sustentável

verdejar fortaleza!

Educação, experiências e descobertas para um futuro sustentável

Apoio
Patrocínio
Parceria
Realização

EXPEDIENTE

FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA

Presidente

Luciana Dummar

Diretor Administrativo-Financeiro

André Avelino de Azevedo

Gerente-Geral

Marcos Tardin

Gerente Educacional

Deglaucy Jorge Teixeira

Gerente de Criação de Projetos

Raymundo Netto

Gerente Pedagógica

Jôsy Cavalcante

Gerente de Audiovisual

Chico Marinho

Gerente Técnico

Ronald Almeida

Coordenadora de Projetos e Relacionamento

Fabrícia Gois

Coordenadora de Cursos

Marisa Ferreira

Coordenadora de Operações

Juliana Oliveira

Analista de Contas

Narcez Bessa

Analista de Licitação

Aurelino Freitas

EDIÇÕES DEMÓCRITO ROCHA - EDR

Gerentes Editoriais

Marcos Tardin

Deglaucy Jorge Teixeira

Juliana Oliveira

Assistente Administrativo-Financeiro

Brenna Kelly

MARKETING E DESIGN

Gerente de Marketing e Design

Andrea Araujo

Designers Gráficos

Kamilla Damasceno

Welton Travassos

Analista de Mídia Social

Beatriz Araújo

Analista de Sales Ops

Aldenir Ferreira

VERDEJAR FORTALEZA

Coordenadora Geral

Valéria Xavier

Analista de Operações

Alexandra Carvalho

Raffaela Meneses

Analista de Projetos

Valéria Freitas

Textos

Alexia Vieira

Sara Oliveira

Fotos

Aurélio Alves

Edição e organização

Sara Oliveira

Projeto Gráfico e Editora de Design

Andrea Araujo

Designer

Kamilla Damasceno

Infografistos

Luciana Pimenta

Ilustrações

Carlus Campos

Curador

Carlos Augusto Lima

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD

O48v Oliveira, Sara

Verdejar Fortaleza [recurso eletrônico] / Sara Oliveira, Alexia Vieira ; ilustrado por Carlus Campos - Fortaleza : Fundação Demócrito Rocha, 2025 120 p. : il. ; PDF.

Inclui bibliografia e índice. ISBN: 978-65-5383-206-0 (Ebook)

1. Educação ambiental 2. Meio Ambiente. 3. Preservação. 4. Sustentabilidade. 5. Natureza I Vieira, Alexia. II. Campos, Carlus III. Título

CDD 372.357

2025-5774

CDU 37:504

Elaborado por Vagner Rodolfo da Silva - CRB-8/9410

Índice para catálogo sistemático:

1. Educação ambiental 372.357

2. Educação ambiental 37:504

O projeto Verdejar Fortaleza ampliou o olhar e a esfera de ação de cidadãos em diferentes faixas etárias e contextos geográficos e sociais. É preciso agradecer aos especialistas, alunos, professores e gestores que contribuíram de forma teórica e prática para as iniciativas.

O futuro é construído com ações do passado e presente. Agir de forma consciente sobre sustentabilidade, resíduos sólidos, vegetação, animais, economia, clima, e disseminar os aprendizados e as esperanças é fundamental para a Terra continuar sendo habitada. Obrigada por acreditarem e mudarem o futuro!

SUMÁRIO

19 Por que pensar o meio ambiente

25 Educação ambiental para um presente sustentável

43 Alunos e professores planejam o futuro

87 Câmara Municipal de Fortaleza e a sustentabilidade

101 O debate necessário sobre natureza, economia e sobrevivência

Palavra do presidente

Leo Couto

Presidente da Câmara de Fortaleza

Ofuturo das novas gerações está ameaçado. Há anos, especialistas alertam para o fenômeno do aquecimento global, como convencionamos chamar o aumento anormal da temperatura do planeta Terra. Situação provocada por nós mesmos, a humanidade, cuja parcela considerável não dimensiona o tamanho do problema enfrentado, com efeitos que já se manifestam no presente. A boa notícia é que ainda há tempo para revertermos esse quadro. Depende de nós, mas essa sempre foi a maior dificuldade.

Em um cenário de tempestades avassaladoras, enchentes anormais, tornados arrasadores e secas severas, continuamos insistindo em um modelo de subsistência falido e insustentável, com o qual nos acostumamos, relativizando a emissão de gases do efeito estufa e tolerando práticas danosas ao meio ambiente. Enquanto isso, a natureza continua rogando para que mudemos de hábitos. E precisamos atendê-la. Não podemos mais esperar.

É o que temos feito na Câmara de Fortaleza, por entender que essa mudança passa por escolhas pessoais, mas, sobretudo, pela construção de políticas públicas amplas e duradouras. Porém, mais do que adotar importantes iniciativas, como a utilização de uma energia limpa e renovável na Casa ou reduzir o

“Perpetuar as ações que adotamos hoje, reforçando o nosso compromisso com o mundo que queremos deixar para as futuras gerações...”

DIVULGAÇÃO CÂMARA MUNICIPAL DE FORTALEZA

uso de papel nos processos legislativos, precisamos ir além e promover a conscientização ambiental daqueles que serão os mais beneficiados por essa mudança: nossas crianças e adolescentes.

Foi com esse objetivo que, além de elegermos a sustentabilidade como um dos pilares da nossa gestão, firmamos uma parceria com a Fundação Demócrito Rocha (FDR) e a Universidade Estadual do Ceará (Uece) para implementar o “Verdejar Fortaleza: Plantando Consciência, Colhendo Futuro”.

Ao despertar essa consciência ambiental em nossos filhos e netos, nas escolas, por meio de cursos gratuitos sobre temas essenciais ao clima, oficinas e aulas de campo com imersão na natureza, pretendemos formar agentes de transformação da mudança que almejamos. Assim, permitiremos que eles possam perpetuar as ações que adotamos hoje, reforçando o nosso compromisso com o mundo que queremos deixar para as futuras gerações e fazendo do amanhã o nosso maior legado.

Verdejar Fortaleza: quando a educomunicação floresce em consciência e experiência viva

Aexecução do projeto Verdejar Fortaleza revelou, de forma concreta e sensível, a potência da educomunicação ambiental como ferramenta de mobilização social, educativa e comunitária. Mais do que cumprir um plano técnico previamente estabelecido, o projeto consolidou-se como uma experiência viva de formação cidadã, na qual conhecimento, prática e território se entrelaçaram na construção de novos olhares sobre a relação entre sociedade e meio ambiente.

No âmbito do curso de extensão “Educação Ambiental para um Presente Sustentável”, o projeto alcançou expressivos 4.947 inscritos, número que evidencia o interesse crescente da população por práticas educativas voltadas à sustentabilidade. Paralelamente, a ação “Vamos Verdejar Fortaleza” mobilizou 17 escolas públicas, que, para participarem, precisaram elaborar projetos socioambientais voltados às suas comunidades. Esse processo estimulou desde o início o protagonismo juvenil e o pensamento crítico sobre as realidades locais.

A partir da análise desses projetos, foram selecionadas oito escolas com as propostas mais consistentes, que passaram a vivenciar, de forma mais aprofundada, as etapas práticas do programa. Essas escolas, localizadas em bairros periféricos de Fortaleza, como Mondubim e Conjunto Ceará, tornaram-se espaços privilegiados de ação pedagógica, onde a educação ambiental deixou de ser apenas conteúdo e passou a ser prática cotidiana. Durante as oficinas realizadas nessas unidades escolares, a equipe de execução observou de modo contundente o impacto do conteúdo abordado junto a alunos e professores. A apresentação de sementes e frutos de árvores nativas revelou-se um

"Valéria Xavier é coordenadora geral do Verdejar Fortaleza, com graduação em estatística e MBA em marketing pela USP, atua há mais de 10 anos na concepção e coordenação de projetos especiais no Grupo de Comunicação O POVO e Fundação Demócrito Rocha, abordando temas como enfrentamento da violência contra mulher, educação inclusiva e inclusão de mulheres e meninas através do esporte."

momento marcante de descoberta, pois muitos estudantes tiveram seu primeiro contato direto com essa flora. O plantio de mudas realizado nas próprias escolas, ao fim das oficinas, constituiu-se em gesto simbólico de cuidado e pertencimento: mãos

AURÉLIO ALVES

na terra, olhos atentos e escuta sensível às orienta ções de preservação transformaram-se em experi ência concreta de responsabilidade ambiental.

As aulas de campo na Área de Proteção Am biental (APA) da Sabiaguaba ampliaram ainda mais essa vivência. A trilha ecológica, com per curso aproximado de 3 mil e quinhentos metros realizado em quase três horas, foi marcada por aprendizagem imersiva, contemplação e ação consciente. O deslumbramento dos alunos diante da fauna e flora locais revelou o quanto o bioma urbano ainda é desconhecido por muitos: a sur presa ao constatar que a região de dunas abriga rica vegetação nativa reafirmou a complexidade e a beleza dos ecossistemas de Fortaleza. Durante o percurso, práticas como a coleta de lixo e reflexões sobre os impactos da ação humana reforçaram o caráter educativo e transformador da experiência, encerrada com um simbólico banho de mar, mo mento de integração plena com a natureza. Importante destacar ainda que o alcance do Verdejar Fortaleza extrapolou os muros da escola.

A realização de videocasts e a publicação de repor tagens em portal de notícias ampliaram o debate sobre educação ambiental, atingindo a popula ção em geral e contribuindo para a construção de uma cultura de sustentabilidade mais ampla e compartilhada. Essa dimensão comunicacional fortaleceu o papel do projeto como agente de sensibilização coletiva, integrando informação qualificada, linguagem acessível e engajamento social.

O Verdejar Fortaleza demonstrou que educar para a sustentabilidade é, sobretudo, criar expe-

sensível e que mobilizem consciências. A vivência proporcionada certamente será compartilhada com amigos, professores e familiares, perpetuando seus efeitos para além do tempo da execução do projeto. Assim, mais do que plantar árvores, o programa plantou sementes de consciência ambiental, que tendem a florescer em atitudes, escolhas e compromissos duradouros com o planeta.

Traçando um percurso para verdejar a cidade

Surgido em março de 2023, o projeto Percursos Ecológicos brotou a partir da ideia de dois amigos de Fortaleza (CE), Carlos Augusto Lima e Leonardo Jales, dispostos a colocar em prática suas pesquisas, curiosidade e visões de mundo, compartilhando com o público em geral trilhas ecológicas caracterizadas, basicamente, pelas informações sobre nossa flora nativa (historicamente desprezada) e o caminhar por áreas verdes desconhecidas, abandonadas, estrategicamente largadas pelo poder público, mas de uma exuberante riqueza natural colocada taticamente à distância da população. Nomes conhecidos, ouvidos, nos longes, de algum lugar: Mata do Miriú, Boca da Barra da Sabiaguaba, Comunidade Casa de Farinha, Cerradinho dos Correios, Serra do Juá, Parque das Águas, Sítio Fundão, Dunas do Pecém e outros. O Percursos Ecológicos possui diferenças que o distingue da maioria das trilhas esportivas ou ecológicas presentes no Estado.

O Percursos é antiperformático e antiatlético no sentido de privilegiar o desafio, o desempenho individualizado ou a cultura do corpo. Interessa muito mais traçar caminhos contemplativos de calma, conversa, observação e retomada de sensações por espaços naturais da cidade.

Atiçar uma “memória da Natureza”, construir novas memórias. Fala, conversa, silêncio. Dizer, calar e olhar. Conhecer as espécies e especificidades dos outros viventes da Terra. Reconectar a partir da percepção sutil do mundo ao redor. Reencontrar o caminho de volta para casa: a Terra.

Uma trilha calma e suave para desautomatizar o olhar e os passos. Um pouco daquilo que os japoneses chamam de “shinrin-yoku”, banho de floresta, bastante popularizado nos últimos anos

“Carlos Augusto Lima é professor e educador ambiental, doutor em Letras/Literatura, pela Universidade Federal do Ceará (UFC), e pós-graduado em Educação Ambiental pela Faculdade Metropolitana (Mogi das Cruzes/SP). É um dos realizadores do projeto Percursos Ecológicos (com Leonardo Jales). Organizou e coordenou a série de fascículos do curso de educação ambiental do Projeto Verdejar Fortaleza, além de ter ministrado as oficinas e as aulas de campo (com Leonardo Jales), também dentro do projeto”

no Ocidente pelo seu caráter terapêutico. Estar na floresta, em contato com a Natureza, para reconectar os sentidos e a alma numa busca de saúde física e mental. Mas o Percursos Ecológicos não se coloca apenas como uma prática individual. Seu

sentido, podemos dizer assim, encontra-se muito mais num plano político, na ampliação dessa palavra. Uma política do corpo, do gesto, da reapropriação das cores e nomes da nossa flora nativa, historicamente predada e colocada num plano de desprezo, política da conscientização dos territórios em permanente ameaça, risco programado, destruição como projeto. Em resumo, estar com e em contato com a Natureza é hoje, mais do que nunca, um ato político. Uma política que nos mova mais ou menos com aquilo que aponta Donna Haraway1: “sem esperança, mas, também, sem desespero”, porém que nos faça “ficar com o problema” de ter em mãos uma natureza perturbada, num planeta perturbado e inventar formas de agir. É dentro desses nortes que o Percursos Ecológicos fincou parceria com o Projeto Verdeja Fortaleza, da Fundação Demócrito Rocha (FDR), a convite de Valéria Xavier. O Verdejar Fortaleza é um programa de educomunicação em ecologia e sustentabilidade, integrando educação, comunicação e território. Um projeto de múltiplos desdobramentos que contou com a participação da equipe do Percursos Ecológicos já na elaboração do material didático e das aulas e podcasts da sua fase formativa no modelo de um curso EaD de Educação Ambiental, que contou com quase 6.000 pessoas inscritas. Depois, outra fase do Verdejar, em que o Percursos pôde efetivar suas práticas já referidas, entrando em contato direto com o público. Público este, especialíssimo, formado por estudantes do Ensino Fundamental II das escolas municipais de Fortaleza. O Verdejar lançou um concurso, divulgado entre as escolas públicas municipais, no qual os participantes, com a coordenação de um professor, deveriam elaborar um projeto (hipotético) de regeneração ou mitigação do impacto de algum problema ambiental de seu bairro. Oito foram as escolas selecionadas, situadas nas Regionais 5, 8 e 11.

Para quem reside ou circula quase que exclusivamente por áreas mais privilegiadas da cidade, o

1. HARAWAY, Donna. Ficar com o problema: fazer parentes no Chthuluceno. Trad. Ana Luiza Braga. São Paulo: n-1 edições, 2023. Pág. 14.

assombro com a grandiosidade de uma metrópole como Fortaleza é certo. Uma cidade gigante se descortina. Cidade diversa, cheia de vida, intensa, outras maneiras de fazer mundos, outras formas de mover o corpo nos espaços e territórios. Marcas de sociabilidades perdidas nos núcleos centrais, regras e códigos novos e outros para atravessar lugares. Nessa enormidade de cidade, nos deparamos com oito escolas municipais exemplares, de alunos exemplares e curiosos e, ainda mais e principalmente, de professores envolvidos com a formação dos alunos, comprometidos em proporcionar o melhor para eles, mesmo com todas as limitações e dificuldades que ainda marcam o ensino público. Os professores são o mecanismo mobilizador dos processos, a força que une e que, ainda bem, deseja mais e mais para seus alunos. E a escola, como constatamos, é o núcleo vital da comunidade. A escola é não só o local da aprendizagem, mas o local da acolhida e do alimento, fator ainda importantíssimo para a não evasão do processo escolar. A escola nutre e guarda, diante das dificuldades múltiplas e dos temores da fuga e do rapto dos jovens, reais e simbólicos, para outras instâncias, tais como a violência circundante e sedenta.

Importante lembrar que, antes das atividades, fora realizada uma visita prévia em cada escola, para observar a estrutura e as condições de plantio a se realizar em cada unidade. Iniciando as atividades, a oficina que reunia a turma selecionada no concurso, envolvendo ora alunos de 6º e 7ºs anos, ora de 8ºs e 9ºs anos. Iniciávamos sempre com uma dinâmica sobre a dificuldade de reconhecer os elementos botânicos de uma imagem, herança ancestral, de tempos imemoriais, ainda de coletores-caçadores. Depois, uma grande mostra da diversidade vegetativa que compõe as paisagens da nossa cidade. Uma tentativa de inserir uma mentalidade diversa daquela que ainda hoje prevalece nos livros didáticos, apontando o Ceará como todo ele coberto pela caatinga. Campos praianos, dunas móveis e fixas, carnaubal, cerrado, mata de tabuleiro, Fortaleza é um universo vegetativo da maior diversidade, mesmo que sempre numa condição de risco. Outra dinâmica: explorar a noção de espécies nativas e exóticas. Variedades de espécies historicamente adaptadas ao nosso gosto e cotidiano. Variedade de espécies nativas esquecidas, ignoradas. Atiçar a lembrança, a curiosidade e a vontade para recuperar o universo vegetativo que é nosso. Tomar pé, reaproximar, reapropriar, identificar-se com nossos frutos, matas, verdes, mundo natural.

Desse movimento, o segundo passo do projeto: as aulas de campo. Como local escolhido, o parque Municipal das Dunas da Sabiaguaba. Todas as escolas selecionadas transitaram por ele. Uma escolha pela segurança, disponibilidade, diversidade de atrativos, curiosidades botânicas. Recuperar a ideia de um espaço público e disponível para todos, um parque municipal. Os alunos puderam experienciar, na prática, e entender o valor da cobertura vegetal do solo, as formas de sustentação e recuperação das árvores, a resistência diante das variações climáticas. Além e mais, transitaram nas formas vegetativas expostas nas oficinas. Andar na floresta de duna fixada, nas dunas móveis, nos campos praianos, ver e sentir, de per-

to, o que a teoria só abarca superficialmente. Colocar o corpo em contato, atiçar os sentidos, como faz parte do trabalho realizado desde sempre pelo Percursos Ecológicos. Os cheiros, ruídos e silêncios da mata passam a ser curiosidade e, ao mesmo tempo, reconhecimento do que já era sempre deles, os jovens e nosso. A casa dos cupins, o corpo da árvore que descama, o amarelo da floração do pau-ferro-do-litoral (Chamaecrista ensiformis), a brancura impactante das dunas móveis, a cor oscilante do mar. Tudo agora deixa a imagem comum, padrão, o mero “mato-réi”, no dizer popular, para ser múltiplo, diverso, onde cada elemento na sua especificidade contribui para o todo. Um mundo que se descortina para a lembrança da diversidade que, em termos naturais, é a grande força e riqueza.

Na trilha, no meio das dunas, descortinados pela estação, a época dos ventos, artefatos arqueológicos, fragmentos de urnas funerárias dos antigos moradores desse lugar, nossos povos originários. Pedaços que marcam nosso passado e de onde viemos. Os alunos puderam observar a forma de como era tratado aquele lugar, numa expressão do sagrado. Lugar de depositar os mortos, lugar de respeito. O que sempre parecia coisa de cinema ou e museu estava bem ali, perto, na frente de todos. Com o calor excessivo do fim de ano, as lagoas (ou “baixas”, como chamamos) eram um respingo no suor da travessia das dunas. A alegria estava na proximidade e na possibilidade de encontrar o mar. A praia da Sabiaguaba está ali à disposição de todos. Mas, antes, os alunos também aprenderam que é preciso saber ler o mar, entender o que ele estava a dizer, prevenir, saber pisar no local antes de entrar na água. A alegria no rosto de todos foi nosso maior presente. Os relatos, as confissões de como eles estavam distantes desse prazer, por uma série de circunstâncias, e a satisfação nossa de trazê-los até ali. Esta é a maior meta deste projeto: criar momentos que irão marcar a memória de todos. Memória no corpo. Verdejar por dentro.

O MUNDO PRECISA DE UM NOVO FUTURO E A EDUCAÇÃO É FUNDAMENTAL

Sara Oliveira - jornalista, estudante de Pedagogia e editora do livro

Em meio ao aumento de temperaturas, eventos de secas e enchentes extremos, esgotamento de recursos naturais e avanço do nível do mar, a educação se torna peça -chave para encontrar respostas urgentes.

Educar-se sobre a crise climática global é também parte da adaptação e da mitigação dos efeitos danosos do contexto atual. Por meio da educação ambiental são formados cidadãos conscientes, críticos e participativos.

Ensinar sobre a preservação do meio ambien te precisa ir além da informação técnica de como plantar ou cuidar de uma árvore. É necessário ins tigar a transformação das relações entre socieda de e natureza, mostrando com clareza as causas da crise e o que podemos fazer daqui em diante.

Como define o biólogo José Maria Gusman Fer raz, a educação ambiental é “levar as pessoas a re pensar os valores que nos foram impostos por uma cultura de exploração da natureza e do homem, como se não fizéssemos parte desta natureza, e cujos resultados têm levado à degradação ambiental e milhões de seres humanos à miséria e fome”.

O próprio arcabouço legal brasileiro avançou para reconhecer a centralidade do tema. Em 2024, a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA) foi atualizada para incluir de forma explícita conteúdos relacionados às mudanças climáticas, à proteção da biodiversidade e aos riscos e vulnerabilidades socioambientais.

A alteração reforça que compreender a crise climática é parte estruturante da formação cidadã, devendo estar presente de maneira integrada nos projetos pedagógicos e nas práticas educativas.

Dessa forma, a PNEA reconhece a escola e os espaços educativos como estratégicos na construção de respostas coletivas aos desafios ambientais, de modo a

É nesse contexto que nasce o Verdejar Fortaleza. A iniciativa é uma resposta à necessidade de reconectar pessoas à natureza e estimular os cidadãos da quarta maior capital do País a pensar como o cenário urbano pode ser menos hostil e mais resiliente.

Videoaulas, videocasts, podcasts, fascículos digitais, oficinas em escolas e aulas de campo promovidas pelo projeto abraçam diversos públicos com comunicação clara e acessível para chamar à ação.

O projeto parte do entendimento de que enfrentar a crise ambiental exige informação qualificada, participação social e vínculo com a cidade, estimulando uma mudança de olhar e de atitude que começa na educação e se estende à construção coletiva de um futuro urbano mais justo, sustentável e possível.

Por que pensar o meio ambiente 1.

Um projeto que pode verdejar Fortaleza

Apossibilidade de experienciar. Uma nova forma de ver o entorno da escola, o meio ambiente, os ecossistemas de Fortaleza, a terra, os animais, os conteúdos escolares, os desafios sustentáveis de uma grande metrópole. O projeto Verdejar Fortaleza convida professores, alunos, cidadãos, políticos e especialistas a se unirem em conhecimento e ação para que a Capital tenha um futuro mais promissor.

A jornada de aprendizado começa com o concurso “Vamos Verdejar Fortaleza”, em que escolas são desafiadas a preparar projetos socioambientais voltados para seu entorno e para o bairro onde a instituição está localizada. “O projeto torna a educação ambiental acessível”, resume Heury Silva, gestor do Núcleo de Sustentabilidade da Câmara de Fortaleza.

Os problemas apontados destacam desde a existência de ponto de lixo e entulho na calçada à despoluição de uma lagoa. O concurso que selecionou oito escolas de ensino básico de Fortaleza considerou planos que deveriam conter os seguintes pontos: descrição do problema, elaboração de um plano de ação, detalhes da execução, monitoramento e resultado das ações.

“Os alunos receberam a proposta com muito entusiasmo. Desde o início, mostraram interesse em entender os problemas ambientais do bairro e propor soluções. Foi bonito ver como se tornaram protagonistas do projeto”, afirma o diretor da Escola Municipal Ari de Sá Cavalcante, no bairro José Walter, Rayne Vasconcelos.

Cada uma das oito escolas recebeu uma oficina conduzida por facilitadores do projeto. Interação, dinâmica, “mão na massa”. O momento iniciava com explicações, perguntas e respostas, jogos e muita

curiosidade. Os alunos, depois do conhecimento, seguiam para a prática, com a plantação de mudas em espaço escolhido na instituição.

Os estudantes das oito escolas participaram ainda de uma aula de campo no Parque Municipal das Dunas da Sabiaguaba. Areia, sol, vegetação, mar, descobertas. “Para nós, é mais do que especial poder compartilhar esses momentos com os estudantes. A gente queria fazer com todas as escolas. Todo mundo precisa dessas experiências”, afirmou o professor e educador ambiental Carlos Augusto Lima, que é também um dos fundadores do projeto Percursos Ecológicos.

O curso “Educação Ambiental para um Presente Sustentável”, em Ensino a Distância (EaD), contou com seis módulos, com fascículos digitais, videoaulas e podcasts. No programa, conteudistas de diferentes áreas foram responsáveis por mobilizar educadores, estudantes, líderes de comunidade e demais cidadãos no enfrentamento dos desafios ambientais. Os temas trabalhados foram mudanças climáticas, cidades verdes, agroecologia, ecopedagogia e cidadania ambiental.

“Os conteúdos do curso serão úteis para aprimorar minhas escolhas diárias, adotando práticas mais responsáveis e alinhadas com a sustentabilidade. Tenho confiança de que o conhecimento adquirido contribuirá para uma postura mais consciente e para influenciar positivamente as pessoas ao meu redor”, afirmou o aluno Iury José da Silva, que é técnico do Projeto de Monitoramento de Praias das Bacias de Campos e Espírito Santo.

LINHA DO TEMPO - PROJETO VERDEJAR

CURSO DE EXTENSÃO

“Educação Ambiental para um Presente Sustentável”, gratuito, na modalidade de Ensino a Distância (EAD) e com 72 horas/aula. Voltado para jovens e adultos com objetivo de aprofundar conhecimentos em educação ambiental e se engajar em ações concretas de preservação

Composto por

6 módulos, com fascículos digitais, videoaulas e podcasts

Conteúdo elaborado por profissionais com sólida atuação na área ambiental, que conectam teoria e prática com vivências reais e inspiradoras

CONCURSO COM ESCOLAS

Escolas públicas dos anos finais do ensino fundamental de Fortaleza apresentaram projetos socioambientais em seus bairros

escolas foram escolhidas

Escola Municipal Ari de Sá Cavalcante

Escola Municipal Creusa do Carmo Rocha

Escola Municipal Professor Edilson Brasil Soárez

Escola Municipal de Tempo Integral Hildete Brasil de Sá Cavalcante

Escola Municipal de Tempo Integral Professor Agerson Tabosa Pinto

Escola Municipal de Tempo Integral Filgueiras

Escola Municipal de Tempo Integral Dom Antônio de Almeida Lustosa

Escola Municipal Santos Dumont

8 videocasts com duração de 50 minutos com entrevistas com especialistas

Escolas têm aulas de campo em áreas verdes de Fortaleza com bioma preservado, com transporte garantido para até 40 alunos e professores por escola

Os povos do mar e a preservação dos oceanos Aprendizados para o futuro

Lixo na cidade

Para onde vão os resíduos e como eles afetam o meio ambiente

Escolas têm oficinas práticas e plantio de mudas de árvores

Educação que transforma O papel da escola na preservação ambiental

Menos árvores, mais problemas O que a redução da arborização urbana causa

Animais silvestres em Fortaleza

Convivendo em harmonia com a natureza urbana

Economia circular Como reusar, ressignificar e reciclar para mudar o mundo

Cidadãos verdes

Como cada um pode preservar o meio

Fortaleza e o Clima

Entendendo os impactos das mudanças climáticas no dia a dia

Educação ambiental para um presente sustentável 2.

A importância do plantio nas escolas, tão carentes de arborização

Darcy Ribeiro uma vez disse: “Se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”. O que talvez o nosso mais ilustre antropólogo não imaginasse é que hoje teríamos um número até razoável de escolas, mas que se parecem mais com presídios do que com escolas.

Nas escolas particulares, cada metro quadrado é cimentado para a construção do maior número possível de salas de aula com ar-condicionado. A regra é o aproveitamento máximo do espaço, e o resultado são prédios “comerciais” do ensino, onde facilmente confundimos as palavras sala e cela.

Já nas escolas públicas, temos locais muitas vezes espaçosos, mas sem vida. Faltam verba, visão e vontade política para transformá-los em espaços agradáveis, verdes e convidativos. Os muros das escolas, sejam elas públicas ou privadas, são altos e com cercas concertinas, que isolam os prédios da Cidade e nos deixam na dúvida se o “cuidado” é para evitar que alguém entre sem permissão ou para que seus alunos não possam escapar.

No Brasil, existe uma das legislações de ensino mais modernas do mundo. Por meio da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que é um documento normativo, definidor do conjunto de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver, fica claro que as escolas devem priorizar um ensino que promova o desenvolvimento do senso crítico e de competências para lidar com o mundo atual, em detrimento de um ensino meramente conteudista.

Diante disso, podemos inferir que as escolas devem estar preparadas para discutir o mais urgente e grave tema da atualidade, o aquecimento global e a possibilidade iminente da extinção da espécie humana, que se deve única e exclusivamente à nossa conduta na gestão dos recursos humanos e naturais do planeta. O nosso afastamento do mundo natural, criando ambientes cada vez mais artificiais, estéreis e desiguais, culmina agora talvez no ponto mais crítico da existência humana. Por isso, plantar árvores nas escolas deixa de ser um ato meramente simbólico, que ocorre uma vez ao ano no Dia do Meio Ambiente e passa a ser uma necessidade urgente. Com a verticalização das cidades e a substituição de quintais por construções, os alunos perderam seu contato essencial com o mundo natural. O pátio escolar surge, então, como o último refúgio possível, principalmente nas escolas públicas. O novo quintal onde ainda é possível criar raízes com a terra.

Essa iniciativa representa um profundo ato pedagógico. Cada árvore plantada se transforma em uma sala de aula ao ar livre, onde conceitos abstratos de ciências, geografia e matemática ganham vida real. Os alunos que nunca viram uma semente germinar podem acompanhar o ciclo completo da vida - das primeiras folhas aos frutos. Essa experiência sensorial direta substitui com vantagem o aprendizado puramente teórico, criando memórias educativas que permanecem para toda a vida.

Os benefícios ambientais são igualmente significativos. Em ambientes urbanos que se transformaram em ilhas de calor, as árvores escolares oferecem sombra vital, reduzem a temperatura em vários graus e filtram poluentes atmosféricos. Tornam os espaços de recreação mais saudáveis e agradáveis, protegendo os alunos da radiação solar excessiva enquanto melhoram a qualidade do ar que respiram.

Para o desenvolvimento psicológico e emocional, o valor é inestimável. O simples contato visual com o verde reduz o estresse e a ansiedade, melhora a concentração e promove o bem-estar

geral. Alunos que têm a oportunidade de interagir regularmente com árvores desenvolvem maior sensibilidade ambiental, criatividade e capacidade de observação. Aprender a cuidar de uma muda - regando, protegendo, acompanhando seu crescimento - ensina responsabilidade, paciência e a importância do cuidado continuado.

O aspecto social dessa iniciativa talvez seja o mais transformador. Em um mundo onde muitos alunos nunca tiveram a experiência de subir em uma árvore ou colher uma fruta, a escola se transforma em refúgio, lugar para pensar a possibilidade de um mundo mais seguro, justo, saudável e verde.

Curso Educação Ambiental discute como e por que preservar

Em seis módulos, cada um composto por videoaula, podcast e fascículo digital, foi possível reunir conhecimento científico, sabedoria ancestral, crítica social e prática cotidiana"

Da origem da vida na Terra às responsabilidades individuais diante da crise ambiental contemporânea, o curso

Educação Ambiental para um Presente

Sustentável aborda a relação entre a humanidade e a natureza.

Convidando a pensar, sentir e agir para integrar os cuidados com o meio ambiente ao dia a dia na cidade, o curso traz seis módulos que revelam uma dimensão essencial para compreender o que podemos fazer para alcançar um mundo mais sustentável.

Cada módulo é composto por uma videoaula e um fascículo digital produzido por um conteudista convidado com sólida atuação na área ambiental, variando entre biólogos, arquitetos, ambientalistas, antropólogos e jornalistas.

Além disso, seis episódios de podcasts foram disponibilizados para os alunos com discussões sobre os temas dos módulos. Ao todo, os inscritos tiveram acesso à uma carga horária de 72 horas oferecidas gratuitamente na modalidade Ensino a Distância (EAD).

O curso inicia com a apresentação dos fundamentos da vida no planeta, revisitando a formação da Terra, a evolução das espécies e os princípios da biodiversidade. Destaca a ideia de ancestralidade comum defendida por Darwin e explica como mutações e recombinações genéticas moldam a diversidade.

O primeiro módulo também evidencia a importância dos biomas brasileiros e o papel da educação ambiental para reconectar o ser humano à natureza da qual faz parte.

O tema da crise climática passa a ser aprofundado a partir do segundo módulo, explicando as causas e os impactos sobre a economia, a saúde e os ecossistemas. O conteúdo mostra como o agravamento da crise intensifica secas, enchentes e ondas de calor.

Ao discutir estratégias de mitigação e adaptação, as aulas enfatizam a responsabilidade compartilhada de governos, empresas e indivíduos na redução das emissões de gases, no desmatamento e na queima de combustíveis fósseis.

Saberes indígenas e quilombolas ilustram a dimensão ética e sensível da relação com o meio ambiente no terceiro módulo. Os estudantes aprendem como práticas ancestrais, desde o manejo da terra ao cuidado com sementes, oferecem caminhos para um modo de vida mais equilibrado.

Tocando no desafio de reconstruir esses vínculos com a natureza em ambientes urbanos, o quar-

to módulo foca no que pode ser adotado em grandes cidades para mitigar os problemas causados pelo desenvolvimento desenfreado desses centros.

Renaturalização de rios, conservação de parques e áreas verdes e expansão da arborização são elementos apresentados como necessários para reduzir as ilhas de calor, a desconexão com a natureza e a hostilidade das cidades com outras formas de vida.

O quinto módulo explora a alimentação como fenômeno cultural, histórico e ambiental. Recupera as raízes indígenas, africanas e portuguesas da culinária cearense e denuncia a perda de diversidade causada pela industrialização e pelos ultraprocessados.

dicional, o ativismo alimentar e iniciativas como o locavorismo, lembrando que comer é também um ato político que influencia a saúde, a cultura e o meio ambiente.

Por fim, o sexto módulo convoca o estudante à ação. Combate a ideia paralisante de que “não há mais o que fazer” e apresenta alternativas, incentivando mudanças cotidianas, como reduzir resíduos, reutilizar materiais, repensar deslocamentos e apoiar iniciativas socioambientais.

Juntos, os seis módulos compõem uma jornada que une conhecimento científico, sabedoria ancestral, crítica social e prática cotidiana. Eles mostram que preservar o planeta é uma tarefa coletiva, mas que começa com escolhas individuais, informadas, sensíveis e comprometidas com a vida em todas as suas formas.

Fundamentos das coisas vivas na terra

Compreender a natureza em sua origem, o nascimento da Terra, a evolução e a biodiversidade. Saber sobre o passado para conseguir lidar com o presente e se preparar para o passado. O primeiro fascículo do curso Educação Ambiental para um Presente Sustentável é um mergulho nas relações entre humanidade e natureza, com discussões sobre ensino das ciências no contexto atual, marcado pela crise climática e pela necessidade de conscientização ecológica.

O módulo “Fundamentos das Coisas Vivas na Terra” teve como um de seus conteudistas o professor e consultor ambiental Enio Tasson Paiva Sombra. “Todos nós temos uma única origem, de que todos nós somos um só, de que não existe homem e natureza, porque o homem faz parte da natureza", resume.

Nesse contexto, a educação ambiental surge como um caminho indispensável. Para que a humanidade possa viver, sentir e compreender o mundo para agir em favor da vida e promovendo ações sustentáveis. Sabendo que faz parte de um contexto maior, o ser humano então conseguirá se conectar mais com a natureza.

Depois da origem, a evolução da vida. Para Charles Darwin, toda vida é parente, como uma grande família que compartilha raízes invisíveis. Ou seja, cada ser, extinto ou vivo, carrega em si vestígios de um ancestral comum. As ideias de Darwin, antes sustentadas por observações e lógica natural, encontraram um novo alicerce: a genética. Mutações, recombinações, heranças invisíveis, tudo começou a se encaixar como peças de um grande mosaico.

“Ele fez um desenho onde partia de uma espécie e aí ia subindo, formando como se fosse uma árvore. E cada galho era uma espécie diferente, mas todos eles vinham de uma espécie única, uma espécie an-

verdejar fortaleza!

EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA UM PRESENTE SUSTENTÁVEL

1 MÓDULO

FUNDAMENTOS

DAS COISAS

VIVAS NA TERRA

cestral comum para todos nós”, detalhou Enio.

Genética, mutações, recombinações, heranças invisíveis. As mutações, que embaralham os genes a cada geração, são as artistas da diversidade, garantindo que nenhum ser seja exatamente igual ao outro, mesmo dentro da mesma espécie.

E essa variabilidade é também a capacidade de responder ao tempo e se adaptar, escolhendo, geração após geração, os traços que melhor convivem com o ambiente. Biodiversidade.

Dentro dela, estão as unidades biogeográficas que se caracterizam por um conjunto específico de condições climáticas, tipos de solo, relevo, vegetação e fauna. Influenciados por elementos como insolação, corrente oceânica e características de solo, cada bioma brasileiro (Floresta Amazônica, Caatinga, Cerrado, Pampa, Pantanal, Mata Atlântica) precisa ser preservado para a manutenção do equilíbrio ecológico global.

Entedendo os ecossistemas como garantia do equilíbrio da vida no planeta, a interferência humana causará efeitos importantes. Ao invés de práticas nocivas, como desmatamento, poluição e caça ilegal, esta interação entre o humano e a natureza deveria ser de cumplicidade.

1

RECONEXÃO COM

A NATUREZA NA CIDADE

VER É O PRIMEIRO PASSO

Ela está nas árvores que margeiam as ruas, nos jardins das praças, no voo das aves sobre os prédios, no ciclo das chuvas que alimentam rios e lagos urbanos. Observar esses sinais exige desacelerar, caminhar com atenção, olhar para o céu, notar as cores e formas que persistem no espaço urbano.

2

SENTIR É IR ALÉM DO OLHAR

É tocar a terra, sentir a textura das folhas, ouvir o canto dos pássaros, respirar o ar fresco de um parque. Práticas simples, como caminhar descalço na grama, ouvir o som da água em uma fonte ou fechar os olhos para sentir a brisa, despertam a conexão com o meio natural.

SABER ONDE ELA ESTÁ

É compreender que a natureza não é apenas um cenário, mas um sistema vivo que nos sustenta. Ela está nos rios que cortam as cidades, nos manguezais que protegem a costa, nas áreas verdes que regulam a temperatura e purificam o ar. Reconhecer esses espaços é fundamental para valorizálos e defendê-los.

4

CUIDAR É UM C OMPROMISSO ÉTICO

Isso inclui atitudes individuais, como não descartar lixo em locais inadequados, economizar água e energia, plantar árvores e apoiar iniciativas de preservação. Também envolve cobrar políticas públicas que protejam áreas verdes e promovam educação ambiental.

Está todo mundo falando de… mudanças climáticas. o que é? onde, quando, agora!

Já sabemos as causas, os efeitos e como atacá-los. A emissão de gases de efeito estufa na atmosfera eleva a temperatura média global e provoca resultados adversos no sistema climático. O segundo módulo do curso Educação Ambiental para um Presente Sustentável explica o que está causando as mudanças climáticas e como o mundo está reagindo.

Queima de combustíveis fósseis e desmatamento, por exemplo, são causas humanas para o aquecimento global, causando impactos interdisciplinares que afetam desde a economia, com o aumento dos preços dos alimentos, até o bem-estar e a saúde das pessoas. Os temas são profundamente discutidos na videoaula, no fascículo e no podcast “Educação Ambiental para um Presente Sustentável”.

A Terra é protegida por uma camada de gás, a atmosfera, que retém o calor e mantém o planeta em uma temperatura habitável. Isso é chamado de efeito estufa. Desde a Revolução Industrial, a maior fonte de emissão de gases de dióxido de carbono, é a queima de combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás.

“Efeito estufa é algo natural da atmosfera. Ele tem que existir. Se não existissem alguns gases que retêm o calor, a temperatura média do nosso planeta seria de -1° C. Ou seja, a vida como a gente conhece aqui não existiria”, pondera o professor e cientista climático Tércio Ambrizzy.

Com mais gases sendo emitidos, mais calor é retido e existe menos equilíbrio térmico. Gelo derrete, incêndios acontecem e o nível do mar aumenta, com mais tempestades e inundações.

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EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA

“Essas mudanças acontecem diretamente na nossa vida. Quando a gente pensa em comida, por exemplo… as secas e chuvas intensas vão afetar a agricultura e, se há menos alimento, o que chega para nós fica mais caro. A gente tem visto isso nos últimos anos. Um aumento exacerbado dos preços”, afirma a jornalista ambiental Letícia Maria Klein.

O ano de 2024 foi confirmado como o ano mais quente desde que os registros começaram a ser feitos em 1850, com uma temperatura média global superior a 1,5° C acima da média pré-industrial. Os últimos dez anos foram os mais quentes já registrados.

As mudanças que precisam acontecer para que o mundo consiga conviver com as mudanças climáticas são chamadas de adaptação: construir defesas contra inundações ao longo das costas e margens de rios, alterar as culturas agrícolas para se adaptarem às condições climáticas, aprender a tratar doenças e condições desconhecidas, transformar cidades costeiras em “cidades-esponja” como forma de prevenir inundações.

VOCÊ SABIA?

Altas temperaturas reduzem a capacidade das pessoas para o trabalho físico e causam problemas de saúde, incluindo dificuldades respiratórias e ataques cardíacos. A biodiversidade e os ecossistemas também sofrem: um aquecimento entre 2 e 3 oC significa que 30% das espécies podem ser extintas até o ano 2100.

Desmatamento (pois as árvores liberam na atmosfera o carbono que estavam armazenando ao serem queimadas ou se decomporem).

VOCÊ SABIA?

O Acordo de Paris é um tratado internacional juridicamente vinculativo sobre mudanças climáticas, assinado por mais de 195 países. A meta é manter as temperaturas globais bem abaixo de 2ºC em relação à era préindustrial e “tentar limitá-las” a 1,5ºC.

Transportes

AS PRINCIPAIS

Manufatura de bens e processos industriais

Geração de energia

(pela queima de carvão, petróleo e gás)

FONTES DE EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA

Consumismo

Criação de gado (a digestão por vacas e ovelhas emite metano)

(nossos lares, uso de energia, como nos locomovemos, o que comemos e quantos produtos compramos e descartamos)

Educação ambiental para um presente sustentável

Saberes indígenas e quilombolas preservam a memória de como habitar um território sem esgotá-lo. No terceiro módulo do curso Educação Ambiental para um Presente Sustentável, a prioridade é aprender a sentir. Sentir ser parte da natureza, saber que o mundo que habitamos é também o que nos habita.

Discutindo conceitos de ecologia, justiça socioambiental, ancestralidade e sustentabilidade, articulando teoria e prática na vida cotidiana. Despertando o senso de pertencimento e, assim, facilitando a tomada de decisões e ações de responsabilidade ambiental.

Um dos conteudistas da videoaula, do fascículo e do podcast “Eu-natureza: Natureza não é longe. O mundo natural é meu mundo e tudo ao redor”, Thieres Pinto de Brito, biólogo especialista em conservação da biodiversidade, discute a ecologia profunda e a necessidade de a sociedade se reencantar com a natureza, desafiando a visão de distanciamento e exploração capitalista.

“O que a gente precisa é de mudança profunda na nossa percepção e nos valores, para entender de novo que a natureza é aqui, é onde a gente está, é tudo à nossa volta e que a gente depende dela. Então, se estão destruindo um rio, montanha acima, se estão mexendo, mesmo a muitos quilômetros, isso nos afeta. E todos os seres têm também o seu valor intrínseco, o seu valor de vida que eles merecem um espaço junto à vida, à terra. Somos uma teia”, diz.

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Um resgate histórico mostra como os povos tinham práticas de interdependência, como cultivo, pesca e caça, que foram seguidas de um modelo dominante que visa ao extrativismo. Na resistência, a necessidade de consciência sobre saberes tradicionais e sobre devolver à terra o que ela precisa para continuar existindo.

O desenvolvimento de sistemas agrícolas que integram produção de alimentos, manejo florestal e regeneração do solo é uma das formas de cultivo que cresce junto à capacidade da vida na terra.

Para que possamos reduzir a perda da matéria orgânica do solo, das suas capacidades, entendendo como o uso intenso do solo com monoculturas de larga escala e uso de agrotóxicos pode provocar um desequilíbrio ecológico.

Manuel Inácio Nascimento é agricultor ecológico e cofundador do projeto Ciclovida, que pro-

move cicloviagens abordando a temática das sementes. Ele explica como hoje as sementes, que dão origem a tantos alimentos, são comerciáveis, distanciando-se do seu papel natural. “As sementes não têm mais poder de germinação, de reprodução. Só se planta uma vez”, define.

Ele destaca como a experiência de levar a temática das sementes em bicicletas é um convite ao reencantamento “com o que está ao nosso redor”. Como perceber mais igual, com uma relação de não agressão entre os elementos na natureza. O que cria obrigações éticas de cuidado e reciprocidade com o natural.

VOCÊ SABIA?

A CARTA DA TERRA

Criada durante o Rio-92, II Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento

1

Respeitar e cuidar da comunidade da vida Integridade ecológica

Principais eixos

2 3

Justiça social e econômica

VOCÊ SABIA?

Parentesco cosmológico

A expressão Mãe Terra não é uma metáfora poética, mas uma verdade ontológica. A vida é compreendida como uma rede de parentesco que inclui humanos, não humanos, seres visíveis e invisíveis.

Tempo cíclico e escuta da natureza

O calendário não se mede por páginas, mas por sinais sutis. A florada de uma árvore anuncia a época de plantio, o canto de um pássaro marca o início da colheita, a cor da água indica o momento seguro para pescar.

Rituais como ferramenta de manejo

Festas, cerimônias e rezas não são “apenas” expressões culturais. Funcionam como protocolos coletivos de gestão do território. Ao transformar áreas em espaços sagrados — como a floresta de morada dos encantados —, esses rituais preservam a biodiversidade e os ciclos ecológicos.

Democracia, não violência e paz

Ciência e espiritualidade em aliança

No Xingu, por exemplo, a proibição da pesca em certos meses coincide com o período reprodutivo dos peixes, garantindo a renovação dos estoques. É um exemplo de como conhecimento ancestral e ciência ecológica caminham juntos.

Cidade-orgânica: a cidade como espaço natural e morada de múltiplas espécies

Ovínculo do ser humano com a natureza tem sido cada vez mais extenuado nas grandes cidades. Sentir o cheiro da terra, ouvir pássaros e tocar as folhas não são mais tarefas tão acessíveis.

Esse distanciamento custa caro, tanto para a saúde humana quanto para o meio ambiente.

Criar um convívio mais harmônico entre as pessoas e a biodiversidade, fazendo com que as cidades sejam ambientes menos hostis, é o desafio tratado no quarto módulo do curso Educação

Ambiental para um Presente Sustentável.

A videoaula, o fascículo e o podcast com o tema “Cidade-orgânica: a cidade como espaço natural e morada de múltiplas espécies” propõe caminhos para a renaturalização de espaços urbanos, incluindo rios, parques e arborização de ruas.

Rios, riachos e lagoas, apesar de serem essenciais para a vida na cidade desde as formações dos centros urbanos, são tratados como canais de escoamento ou depósito de resíduos.

Recuperar curvas e meandros dos corpos d'água para reduzir a erosão, reflorestar as matas ciliares, restaurar áreas naturais de inundação e despoluir os mananciais são algumas das ações para renaturalizar esses ecossistemas.

O fascículo, escrito pelo advogado e ambientalista Leonardo Jales, cita também a criação e preservação de parques e áreas verdes como maneira de promover a conservação da biodiversidade, o equilíbrio climático e o bem-estar da população das cidades.

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EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA UM PRESENTE SUSTENTÁVEL

4

Uma das formas de garantir a proteção dessas áreas já escassas nos grandes centros é por meio da criação de unidades de conservação (UCs). Esse recurso legal pode ser dividido entre áreas de proteção integral e áreas de uso sustentável.

Além de proteger a natureza, muitas delas oferecem espaços de lazer, pesquisa científica e educação ambiental. Estudos comprovam ainda que morar mais próximo a áreas naturais preservadas pode reduzir os casos e índices de ansiedade e depressão.

“A gente vive com um corpo que foi projetado para viver na natureza, vivendo na cidade. Isso gera uma desconexão e uma série de problemas problemas psicológicos e sociais também”, diz Bruno Ary, paisagista entrevistado no podcast. Nesse contexto, surge o conceito de Transtorno do Déficit da Natureza, cunhado pelo educador

norte-americano Richard Louv. O termo denuncia o aumento da depressão, ansiedade e problemas de saúde física em crianças devido à privação do contato com áreas verdes e brincadeiras ao ar livre.

O planejamento urbano, muitas vezes baseado em modelos europeus inadequados para o clima tropical brasileiro, suprimiu árvores, resultando em ruas mais quentes e formação de ilhas de calor.

Para lidar com essa realidade, é preciso priorizar a arborização de passeios, ruas e avenidas. Mais verde influencia na redução da temperatura e melhoria do conforto térmico, na redução de ruídos, no conforto fotolumínico com mais sombra, na produção de frutos e abrigo para a fauna nativa.

“Essa primeira conexão com a com a sua calçada, com a calçada do seu prédio, com as plantinhas do seu quintal, é fundamental pra gente começar a pensar num futuro mais verde”, afirma Leonardo.

Esse contato pode ser comunitário, como a plantação e responsabilidade compartilhada de manutenção de mudas nas calçadas, mas também pode ser individual. As chamadas “urban jungles” são conceitos modernos de jardins residenciais adaptados para caber nos espaços cada vez mais diminutos dos lares nas grandes cidades.

É possível cultivar plantas em vasos, prateleiras ou jardins verticais. A variedade de espécies e tamanhos permite adaptar o cultivo a qualquer espaço. Com criatividade, pode-se formar paisagismos densos e vibrantes, seja dentro de uma quitinete ou em um quintal modesto.

Unida a essas ações, a educação ambiental para crianças e adultos é uma ferramenta basilar para promover uma consciência coletiva e uma mudança na visão de mundo sobre a relação entre o homem e a natureza.

“Há sim muitas possibilidades de começar a agir hoje. Mas para isso a gente tem que sair da apatia do discurso vazio e partir para a prática, para a mão na terra. Começar a plantar e a deixar a nossa cidade mais verde”, instiga Jales.

VAMOS ARBORIZAR!

1

Por que plantar?

Reduz calor e ruídos, melhora luz e conforto, gera sombra, frutos e abrigo para fauna.

3

Espécies ideais

Priorize nativas; use exóticas só se não forem invasoras.

Plantio

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Abra berços de 70×70 cm; em áreas amplas, até 1×1 m. Quanto menos cimento ao redor, melhor

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Onde plantar?

Calçadas, praças e canteiros próximos de onde você possa cuidar por 2 anos.

4

Observe a fiação!

Em áreas com cabos, escolha espécies de porte baixo.

Alimento e natureza: a manutenção da cultura, da vida e do ser

Comer é muito mais do que uma necessidade biológica; é um ato cultural, social, político e simbólico. Os alimentos refletem a sociedade de um período. Produtos considerados indispensáveis para a alimentação há algumas décadas, hoje podem não estar mais na mesa da maioria.

O quinto módulo do curso Educação Ambiental para um Presente Sustentável trata da sustentabilidade dos hábitos alimentares em um mundo industrializado e que se distancia de suas raízes em prol da padronização dos alimentos.

Com o tema “Alimento e natureza: a manutenção da cultura, da vida e do ser”, a videoaula, o fascículo e o podcast deste módulo falam sobre a alimentação como um fenômeno biopsicocultural, onde corpo, mente, ambiente e sociedade interagem.

Até mesmo a ideia de o que é “comida” pode ser diferente dependendo do viés cultural. Em alguns países da Ásia, como a Tailândia, é comum comer insetos fritos como petisco. No Brasil, esses alimentos não fazem parte das nossas práticas alimentares e muitas vezes geram estranhamento.

Os hábitos alimentares, assim como a sociedade, não são estáticos e engessados. Eles mudam com o tempo para acompanhar as transformações do cotidiano. Comer carne, por exemplo, é símbolo de status em várias sociedades. Hoje, no entanto, crescem movimentos que valorizam dietas vegetarianas ligadas a ideias de sustentabilidade e bem-estar. O fascículo, escrito pela antropóloga e especialista em cultura alimentar Vanessa Moreira dos Santos, traz um resumo das influências africanas, indígenas e portuguesas que compõem a cultura alimentar do Ceará.

Os indígenas já haviam desenvolvido técnicas sofisticadas de preparo e conservação de alimentos

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EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA UM PRESENTE SUSTENTÁVEL 5

antes da colonização. Povos da serra, sertão e litoral do Ceará aperfeiçoaram a fermentação de caju, preparos diversificados do milho, do feijão-de-corda e dos pescados.

Já com os portugueses chegaram ingredientes como o azeite de oliva, pães, massas, o açúcar da cana e os doces conventuais. Os africanos escravizados também mudaram profundamente a cultura alimentar com o dendê, o quiabo, o feijão-fradinho, o coco e os temperos fortes.

No Ceará, quilombos e comunidades tradicionais indígenas mantêm a tradição das farinhadas: momento de trabalho e celebração, onde homens e mulheres se reúnem para descascar, prensar e torrar a mandioca, produzindo farinha, goma e outros derivados.

Apesar da importância que ainda carrega, a alimentação baseada na agricultura tradicional, com diversidade e respeito aos ciclos da natureza, é ameaçada pela modernização alimentar.

Em prol da produção em larga escala, os alimentos passam por uma padronização que, segundo a autora, empobrece a dieta, ameaça a biodiversidade alimentar e a memória cultural dos territórios.

“A gente vive a homogeneização da alimentação. O mundo todo de repente tem acesso a insumos, técnicas e práticas alimentares. E isso exige do mundo um formato de produção que é incondizente com a manutenção e a sustentabilidade”, diz Vanessa.

Um dos produtos dessa industrialização são os ultraprocessados. Eles são feitos principalmente de substâncias extraídas dos alimentos, como óleos, gorduras, amidos e açúcares, e de aditivos industriais, como adoçantes e corantes. Exemplos deles são os refrigerantes, biscoitos recheados e salgadinhos de pacote.

Além de estarem associados ao aumento de doenças crônicas, principalmente obesidade, hipertensão e diabetes, o mercado de consumo desses produtos substitui comidas tradicionais e locais.

“A gente se distanciar tanto da natureza, porque não temos mais acesso a esse plantio, quanto das cozinhas, abre espaço para que vá perdendo a nossa diversidade e aceitando o que a grande indústria nos dá. Perder essa diversidade é ignorar os saberes tradicionais, as receitas de família e se desconectar do nosso território. Isso traz certamente consequências

para a saúde e para o meio ambiente”, afirma Vanessa. Nesse contexto, surge o ativismo alimentar e modelos alternativos de alimentação como contraponto ao modo de produção atual. Ações coletivas ou individuais propõem práticas mais saudáveis, justas e sustentáveis.

Uma delas é o locavorismo, iniciativa que prioriza o consumo de alimentos produzidos localmente, reduzindo o impacto ambiental do transporte e fortalecendo a economia regional.

O módulo provoca ainda uma reflexão sobre a alimentação do futuro. O ambientalista e escritor Ailton Krenak, em Ideias para adiar o fim do mundo (2019), lembra que vivemos como se os recursos naturais fossem infinitos e como se o amanhã estivesse sempre à venda.

Para ter uma alimentação justa, diversa e sustentável, é preciso lembrar do caráter finito dos recursos naturais. Valorizar alimentos locais, respeitar ciclos da natureza, reduzir impactos ambientais da produção, distribuição e consumo e garantir o acesso para todos é fundamental para garantir que as próximas gerações possam comer com saúde e dignidade.

ExEmplos dE iniciativas dE fortalEcimEnto da cultura alimEntar no cEará

Escola de Gastronomia

Social Ivens

Dias Branco

Projeto São José (Secretaria de Desenvolvimento Agrário)

Mestrado acadêmico em Gastronomia da Universidade Estadual do Ceará

(Fundação Núcleo de Tecnologia Industrial do Ceará)

Feiras agroecológicas de Fortaleza e do Interior

Mercado AlimentaCE
Nutec

Cada um de nós é um agente ambiental do planeta

Acrise ambiental é uma realidade presente no cotidiano, manifestada por eventos climáticos cada vez mais frequentes, como as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024. Apesar das consequências socioambientais serem palpáveis, ainda há o que fazer.

A chamada para a ação é a principal mensagem do sexto e último módulo do curso Educação Ambiental para um Presente Sustentável. Com o tema “Cada um de nós é um agente ambiental do planeta”, a videoaula, o fascículo e o podcast buscam formar multiplicadores da transformação, com consciência crítica, proativa e engajada.

Ser um agente ambiental do planeta, conforme o material produzido pela arquiteta urbanista Vera Saboia Barbosa, é entender que somos natureza e pertencemos a ela. Além de apenas conhecer os problemas, é preciso agir para solucioná-los.

Para o líder indígena e escritor Ailton Krenak, a ideia de que o mundo está acabando é “uma ótima desculpa para não fazer nada”. O desespero frente à crise climática leva a descrença na capacidade humana de introduzir mudanças.

O professor Carlos Augusto Lima, convidado do podcast e coordenador do curso, cita o livro de Luiz Marques “Capitalismo e colapso ambiental” para explicar o que leva as pessoas à inação diante do cenário atual.

A aversão à perda de conquistas materiais, a habituação a um modelo de vida catastrófico, a dissociação dos impactos das próprias ações e modos de consumo são alguns dos “sintomas” que levam à crença de que não há nada a se fazer.

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EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA UM PRESENTE SUSTENTÁVEL 6

Além disso, o pensamento de que a tecnologia salvará o planeta é outra crença usada para se tranquilizar, sem levar em conta os novos problemas criados justamente pelo que promete “salvação”.

“Ser um agente ambiental, começar a se mover, é uma forma também da gente tratar esses sintomas que são plantados na nossa cabeça. Está na hora da gente propor uma cura para esses elementos que nos colocam numa condição de imobilidade”, afirma.

O módulo convida o estudante a pensar sobre as consequências de viver em uma sociedade antropocêntrica: onde o ser humano é visto como o centro, mais importante que outros seres vivos e, portanto, merecedor da exploração desmedida de todos os recursos naturais em prol do desenvolvimento da espécie.

Em contraste, apresenta o conceito de biocentrismo. A ideia é valorizar todas as formas de vida, concedendo respeito independentemente da sua

utilidade para os humanos. Para isso, é preciso adotar o desenvolvimento sustentável.

Satisfazer as necessidades do presente sem comprometer as gerações futuras é um desafio que precisa de esforços em pelo menos três dimensões: ambiental, com o uso consciente dos recursos e cuidado com ecossistemas; social, acabando com a pobreza, garantindo inclusão e equidade; e econômica, buscando o crescimento duradouro e ético.

A Agenda 2030, um plano global da Organização das Nações Unidas, estipulou 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para construir um mundo mais justo, seguro e equilibrado. Os ODS orientam políticas públicas e projetos que buscam soluções urgentes.

No entanto, Carlos lembra que o modelo econômico capitalista é “moldado na insustentabili-

dade”, trazendo um paradoxo para iniciativas sustentáveis implementadas dentro dessa realidade.

Enquanto o mais tradicional é o modelo de economia linear, no qual a lógica é extrair, produzir, consumir e descartar, trazendo altos níveis de poluição e degradação de recursos para maximizar lucros, o propósito é fortalecer a economia circular.

Nesse sistema, a busca é pela redução do uso de recursos, criando produtos duráveis, reutilizando e reciclando. É nesse contexto que surge o ESG, da sigla em inglês Ambiental, Social e Governança.

Este termo surgiu nos anos 2000 quando investidores começaram a cobrar das empresas mais do que lucro: queriam responsabilidade com o meio ambiente, respeito às pessoas e ética nos negócios. Além de crescer com responsabilidade, o ESG ajuda empresas a conquistar a confiança do público e atrair talentos.

AÇÕES DE UM AGENTE AMBIENTAL DO PLANETA

Intensificar o contato com a natureza Aumenta a consciência sobre a responsabilidade ambiental.

Reaproveitar restos orgânicos em composteiras.

Adotar alternativas para deslocamentos curtos (caminhar, usar bicicleta).

Sair da Matrix

Praticar a logística reversa e se atentar aos produtos mais poluidores que exigem descarte adequado.

Levar sacola reutilizável para o supermercado e reduzir o reforçamento de sacolas plásticas.

Buscar conhecimento e entender que fazemos parte do mundo natural.

Separar o lixo (papel, vidro, plástico e metal) e entregar em pontos de coleta ou cooperativas.

Apoiar empresas e políticos comprometidos com práticas ambientais e sociais responsáveis.

Valorizar os pequenos produtores e empresas locais

Participar de mutirões de limpeza de praças, praias, rios e áreas verdes urbanas

Alunos e professores planejam o futuro 3.

Natureza e saúde mental

Osofrimento psíquico contemporâneo não pode ser compreendido apenas como fenômeno intrapsíquico, mas como expressão de um campo ampliado em que sujeito, outro, território e planeta se inter-relacionam. No século XXI, vivemos formas inéditas de adoecimento que refletem a ruptura civilizatória entre humanidade e natureza. A saúde mental, tal como definida pela OMS, envolve bem-estar, funcionalidade e participação comunitária, estando profundamente atravessada pela degradação ecológica e fragmentação das relações.

A Ecopsicoterapia recoloca o humano como parte da Terra viva e propõe uma leitura transdisciplinar que articula Ecologia Profunda, Biologia Sistêmica, Fenomenologia, Princípio Biocêntrico, Saberes Indígenas e princípios da Gestalt-Terapia. Nesse contexto, a noção gestáltica de campo organismo-meio torna-se central: a experiência humana não se dá no indivíduo isolado, mas no campo relacional coemergente em que organismo e ambiente se constituem mutuamente. Assim, o sofrimento psíquico atual não é apenas do indivíduo, mas do campo que se rompe quando o meio ambiente é devastado. A desconexão ecológica não é “um problema externo”: ela afeta diretamente o processo de contato, empobrece as possibilidades de ajustamento criativo e fragiliza as funções de suporte do self.

Jorge Ponciano Ribeiro, ao aprofundar o ciclo do contato e a compreensão gestáltica do self como

processo, oferece um aporte essencial a essa leitura ecológica: se o self emerge na fronteira de contato, qualquer empobrecimento do meio (humano, relacional ou ecológico) repercute imediatamente na qualidade da presença, da vitalidade e da autorregulação. Mostra-nos como a ruptura com a natureza diminui o fluxo das excitações, reduz a capacidade de escolha e empobrece o sentido de continuidade existencial. A Ecopsicoterapia amplia a fronteira de contato para incluir o meio ambiente vivo, compreendendo sintomas como expressões da perturbação do campo em que o self se organiza.

Marco Aurélio Bilibio, ao articular Ecologia Profunda, espiritualidade e psicoterapia, reforça que a crise psicológica contemporânea não é acidental, mas sintoma de uma crise de mundo. Sua contribuição destaca a necessidade de uma “alfabetização ecológica da clínica”, capaz de reconhecer que subjetividade e ecossistemas não são domínios separados. Ele mostra que a reconexão sensorial com a Terra e a reintegração do corpo ao território são caminhos fundamentais para restaurar o senso de pertencimento, eixo estruturante da saúde mental.

Quando o meio se torna hostil (ecossistemas destruídos, cidades desumanizadas, ritmos desconectados dos ciclos naturais), o organismo perde referências sensoriais, afetivas e simbólicas fundamentais. A Ecopsicoterapia amplia a teoria do campo para incluir o campo ecológico-planetário, mostrando que a saúde mental depende da saúde dos mundos de que fazemos parte. O processo de cura envolve res-

tituir a continuidade sensório-ambiental, reinscrever o corpo no território vivo e recuperar o pertencimento como experiência encarnada.

Ailton Krenak denuncia essa civilização que separou humanidade e Terra, lembrando que a natureza não é recurso, mas parente. Sua crítica ao antropocentrismo ecoa diretamente na clínica: a perda de vínculo territorial é perda de subjetivação. Reintegrar ancestralidade, sonho e coletividade é reconstituir o campo organismo-meio em sua profundidade originária.

A Hipótese de Gaia (James Lovelock e Lynn Margulis) reforça cientificamente essa compreensão ao conceber o planeta como sistema vivo autorregulado. A vida não apenas se adapta ao ambiente: ela o cocria. A ecoansiedade e o ecoluto tornam-se respostas coerentes do organismo a um campo planetário em colapso. Na clínica gestáltica ampliada, sintomas são comunicações inteligentes do campo, expressões de sua perturbação.

A Ecologia Integral (Leonardo Boff) mostra que crises ambientais, sociais e subjetivas derivam da fragmentação entre natureza, sociedade e espiritualidade. O cuidado surge como princípio ontológico e condição da saúde. Isso significa reconhecer a dimensão ético-planetária do sofrimento e restaurar vínculos comunitários e ecológicos.

O Princípio Biocêntrico (Rolando Toro) afirma que a vida deve ser o centro organizador da cultura e das relações, devolvendo o corpo à sua condição de encontro, celebração e pertencimento ao tecido vivo da Terra, contrapondo-se à dissociação corporal e à anestesia afetiva atuais.

Integrando essas visões na Ecopsicoterapia, emerge uma clínica do presente que reconhece a interdependência radical entre pessoa e planeta. Saúde mental não é possível em desconexão ecológica. Cuidar do sujeito implica cuidar do campo maior que o sustenta. A cura é sempre relacional, ecológica e comunitária, reintegrando a humanidade à Vida.

PLANOS DAS ESCOLAS

Dezessete escolas participaram do concurso e oito foram selecionadas para a ação

“Vamos Verdejar Fortaleza”, onde apresentaram projetos socioambientais desenvolvidos por alunos e professores da rede municipal de ensino. O plano deveria conter apresentação do problema, plano de ação e execução,

além dos benefícios gerados. As oficinas e aulas de campo da ação foram realizadas em consonância com o que alunos e professores identificaram no ambiente em que vivem. Para que eles pudessem estar munidos de informações e experiência para a execução dos planos.

ESCOLA MUNICIPAL ARI DE SÁ CAVALCANTE

Apresentação do problema socioambiental

Pais e moradores descartam resíduos sólidos no canteiro central em frente à Escola.

Acúmulo de lixo provoca mau cheiro, aspecto desagradável

Riscos à saúde da comunidade escolar e local.

Plano de ação

Realizar campanha educativa com pais, alunos e moradores sobre descarte correto de resíduos.

Execução

O plano será executado com apoio da direção, professores, alunos, pais e comunidade.

Estima-se custo de R$ 500,00 para material gráfico, lixeiras e oficinas.

Tempo de execução

2 meses, com ações semanais de sensibilização e mutirões de limpeza no entorno escolar.

Acompanhamento

O acompanhamento será feito por professores e alunos através de registros fotográficos, relatórios e reuniões quinzenais com pais. A equipe verificará se o lixo no canteiro reduziu e se os moradores estão utilizando as lixeiras corretamente.

Instalar lixeiras próximas

Promover palestras e oficinas de reciclagem

Articular parceria com a coleta municipal para intensificar a limpeza do entorno escolar.

Benefícios

O plano trará benefícios diretos à escola e ao bairro, como a melhoria da limpeza e do visual do entorno, redução do mau cheiro e da proliferação de insetos e doenças.

Também incentivará a consciência ambiental da comunidade, fortalecendo a parceria entre escola, pais e moradores. Com isso, o espaço escolar se tornará mais acolhedor e saudável para todos.

ESCOLA MUNICIPAL CREUSA DO CARMO ROCHA

Apresentação do problema socioambiental

No bairro Granja Portugal, Fortaleza, a falta de cobertura vegetal é um grave problema ambiental.

O desmatamento eleva o desconforto térmico, impactando a saúde e no caso da Escola Municipal Creusa do Carmo Rocha, afeta alunos e professores.

A degradação do ambiente exige soluções de plantio e conscientização da população sobre o meio ambiente para melhorar a qualidade de vida e o bem-estar.

Execução

O projeto será desenvolvido por 20 alunos do 8º e 9º ano do Ensino Fundamental II e contará com a parceria de instituições como a Seuma e UrbeFor.

As etapas do projeto são:

Sequência didática, episódio de podcast sobre o meio ambiente Campanha “adote uma árvore” e plantio das espécies.

O aporte financeiro necessário será utilizado para aquisição de equipamentos para o Podcast e adubos num valor total de R$ 1.200,00.

A aferição dos resultados se dará por:

Avaliação do conhecimento dos alunos com questionários; Métricas de engajamento do podcast; Participação da população no plantio; Mapeamento e monitoramento da cobertura vegetal; Medição semanal da temperatura na escola.

Plano de ação

O projeto visa ao plantio de árvores nativas, com raízes pivotantes como o ipê, para mitigar o desconforto térmico.

Usando a história da ambientalista Wangari Maathai como inspiração, a iniciativa será integrada a uma sequência didática e a uma campanha em podcast, engajando alunos e a comunidade no plantio

Distribuição e adoção de mudas para melhorar a qualidade de vida.

Benefícios

Alunos com oportunidade de aprofundar seus conhecimentos em temas ambientais; Reforço das habilidades e competências curriculares; Melhoria da comunicação com o bairro, conscientização da comunidade sobre a importância do meio ambiente; Aumento da cobertura vegetal; Melhoria da sensação térmica e qualidade de vida; Melhoria da infiltração de água no solo, redução os riscos de inundações.

ESCOLA MUNICIPAL PROFESSOR EDILSON BRASIL SOÁREZ

Apresentação do problema socioambiental

Como revitalizar e arborizar o entorno da nossa escola?

Execução

No primeiro momento as equipes se reunirão para saber como fazer um ofício, como marcar uma audiência e como apresentar a proposta tanto para os gestores da prefeitura como para os empresários que serão visitados.

Plano de ação

A equipe de 20 alunos será dividida em dois grupis de 10 alunos. O primeiro ficará responsável por procurar e convencer os gestores da prefeitura de Fortaleza para apoiar o projeto de revitalização do entorno da escola.

O apoio dos gestores consiste em abater o dinheiro investido por uma empresa da construção civil dos impostos municipais, caso ela se comprometa em apoiar esse projeto escolar. A segunda equipe ficará responsável por encontrar uma ou mais empresas que aceitem participar do projeto para receber esse benefício da Prefeitura.

Depois será montado uma caravana de transporte na escola para conduzir os alunos aos destinos que foram previamente determinados. O custo estimado é de tranporte e de alimentação. Esse custo já é oferecido pele Secretaria de Educacão.

Depois de convencer a prefeitura do retorno social que essa ação trará para a comunidade escolar, a equipe falará novamente com a empresa para assinar o contrato de execução da obra. Quando a empresa iniciar a obra de revitalização do entorno da escola a equipe se reunirá com a comunidade estudantil para relatar como se deu processo de todo o projeto conquistado.

Benefícios

Essa iniciativa pode despertar em algum parlamentar de Fortaleza o interesse em criar uma lei que possa incentivar empresários a revitalizar outros espaços da cidade mediante o abono nos impostos municipais, como no IPTU, por exemplo, até porque, como se sabe, tal prática já existe em alguns municípios brasileiros.

ESCOLA MUNICIPAL DE TEMPO INTEGRAL DOM

ANTÔNIO

DE ALMEIDA LUSTOSA

Apresentação do problema socioambiental

O projeto “Territórios produtivos: calçadas que florescem, quintais que alimentam” será realizado no entorno de nossa escola onde observa-se a escassez de áreas verdes e produtivas, com pouca vegetação, quintais ociosos e ausência de calçadas arborizadas.

Essa realidade contribui para a insegurança alimentar, o aumento das temperaturas urbanas e a redução da qualidade ambiental e de vida.

Plano de ação

Execução

Será executado por todo ecossistema escolar por meio de oficinas, mutirões e monitoramento.

Os estudantes farão o mapeamento e implantação de quintais, calçadas e canteiros urbanos propondo espaços verdes e produtivos-pilotos com espécies ornamentais, frutíferas, medicinais e nativas na escola e comunidade.

Com oficinas de cultivo e manejo ecológico que envolve todo o círculo escolar através de trocas de saberes ancestrais que fortalecerão vínculos sociais e a valorização ambiental.

A implantação será gradual, ao longo de até 7 meses e custo estimável de 5 mil reais, priorizando áreas ao entorno da escola e utilizando insumos acessíveis, promovendo a reutilização e reciclagem e fortalecendo o envolvimento coletivo na busca de um bairro mais verde, produtivo e sustentável.

Acompanhamento

O grupo adotará um processo contínuo de monitoramento e avaliação participativa:

Acompanhando o andamento das atividades; Identificando possíveis ajustes e garantindo a efetividade dos resultados esperados através de registros visuais, checklist, reuniões, relatórios e feedback da comunidade.

Benefícios

Ao final do processo, espera-se uma comunidade mais consciente e engajada na preservação ambiental, capaz de manter e expandir as ações iniciadas.

A escola será referência local em educação socioambiental, inspirando outras instituições e bairros a adotarem iniciativas semelhantes.

Em síntese, a vida na escola e no bairro será marcada por mais verde, mais saúde, mais alimento, mais sombra e mais interação social, resultando em um território verdadeiramente produtivo, sustentável e transformador.

ESCOLA MUNICIPAL DE TEMPO INTEGRAL HILDETE BRASIL DE SÁ CAVALCANTE

Apresentação do problema socioambiental

O entorno da Lagoa do Catão, localizada no bairro Mondubim, Fortaleza, apresenta desafios socioambientais relacionados à preservação dos recursos hídricos e adaptação aos efeitos adversos das mudanças climáticas.

Cenário demanda ações de educação climática e preservação hídrica, valorizando a participação cidadã e o protagonismo juvenil para estimular o processo de justiça climática baseada na mudança cultural e prática da relação da comunidade com a lagoa.

Plano de ação

Execução

Equipe de Implementação contará com a partipação de estudantes e professores, além de parcerias com moradores, ONGs e pastas da Prefeitura

Tempo de Implementação de 4 meses

Metodologia de Implementação inclui apresentação do problema, equipes temáticas e produção de material informativo

Treinamento com oficinas, coleta de dados e divulgação

Educação Inter e Transdisciplinar com integração curricular, participação ativa comunitária e realização do “Dia da Lagoa”: culminância com apresentações dos estudantes, exposições artísticas e exibição dos resultados

Acompanhamento

Levantamento de percepções da comunidade (mapa afetivo e entrevistas) sobre a lagoa e seus problemas.

Monitoramento participativo da água, com uso de kits de análise simples (pH, turbidez, temperatura) ou sensores caseiros de baixo custo. Criação de um painel digital comunitário (Google Sheets ou site/blog) para registro e divulgação dos dados coletados.

Oficinas de educação climática e biofiltros naturais, mostrando soluções para melhoria da qualidade da água.

Produção de arte ecológica (murais, esculturas ou exposições com resíduos recolhidos) como sensibilização da comunidade. Evento comunitário “Dia da Lagoa”, para compartilhar resultados, apresentar protótipos e promover reflexões sobre preservação ambiental.

Benefícios

Relatórios periódicos de monitoramento da água, comparando dados coletados ao longo do tempo. Registro digital (fotos, vídeos, site/blog ou painel online) que documente as ações e resultados. Rodas de avaliação participativa com estudantes e comunidade para refletir sobre avanços e desafios. Indicadores de sucesso: engajamento de alunos e moradores, número de dados coletados, continuidade do monitoramento após o fim do projeto.

Promoção do protagonismo juvenil, aprendizado interdisciplinar e desenvolvimento de competências digitais, científicas e socioemocionais. Fortalecimento do senso de pertencimento, valorização do Parque Urbano da Lagoa do Catão e estímulo à práticas de preservação ambiental. Contribuição para o monitoramento constante, geração de dados úteis à gestão pública e redução da poluição por meio da conscientização local. Ampliação da compreensão sobre o papel dos recursos hídricos urbanos na regulação climática, incentivando uma cultura de cuidado e sustentabilidade.

ESCOLA MUNICIPAL DE

TEMPO INTEGRAL

Apresentação do problema socioambiental

As espécies vegetais podem se fixar em novos ambientes como invasoras provocando competitividade com a vegetação nativa. Um exemplo é o Nin (Azadirachta indica), espécie classificada como invasora no Brasil.

Nessa perspectiva, a acentuada disseminação da espécie no Bairro Siqueira, ameaça a biodiversidade do local, causando o enfraquecimento da identidade cultural e desequilíbrio ecológico.

Plano de ação

Primeiramente, a etapa formativa consistirá em ações com os estudantes:

Execução

Roda de conversa, oficina e aula de campo. Nessa etapa, haverá o plantio de espécies nativas nas proximidades da escola.

Por último, as aprendizagens sobre a problemática serão compartilhadas com a comunidade escolar e moradores do entorno da escola, por meio de materiais de educomunicação.

Etapa formativa

Público envolvido: 40 alunos participantes do projeto, professor orientador e facilitadores do Verdejar Fortaleza.

Tempo previsto: 4 semanas.

Etapa Final - público: comunidade escolar e moradores do entorno da escola.

Tempo previsto: 4 semanas.

Custo: o material será impresso na escola e a aula de campo será financiada pelo Verdejar Fortaleza.

Acompanhamento

O acompanhamento será feito de forma contínua e processual, levando em consideração a participação ativa dos alunos nas atividades. As ações, serão documentadas em planilhas de acompanhamento, bem como por meio de registros fotográficos e lista de frequência das atividades.

Benefícios

Como impactos esperados, podese citar uma maior consciência socioambiental da comunidade local acerca da valorização das espécies nativas e o fortalecimento da identidade cultural. Em adição, ao verdejar a cidade com plantas nativas, a escola se tornará uma referência de práticas sustentáveis e de formação cidadã na comunidade em que ela está inserida, contribuindo para o desenvolvimento do protagonismo, da experimentação e da ludicidade, princípios educativos das Escolas de Tempo Integral.

ESCOLA MUNICIPAL DE TEMPO INTEGRAL FILGUEIRAS LIMA

Apresentação do problema socioambiental

A escola apresenta escassez de áreas verdes internas, com pouca sombra nos pátios e espaços de convivência, além da ausência de práticas que incentivem a produção sustentável de alimentos. Essa situação compromete o conforto térmico, reduz o contato dos alunos com a natureza e não estimula hábitos alimentares saudáveis. O problema escolhido é: falta de arborização e ausência de horta escolar.

Plano de ação

Execução

O projeto será desenvolvido em parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, pais e profissionais da educação que trabalham na escola.

Em dois meses (outubro a dezembro/2025), inclui identificar espaços para plantio, realizar oficina de educação ambiental, plantar mudas e definir cronograma de rega e manutenção. Custo total estimado: R$ 400,00.

Acompanhamento

Registro fotográfico do pátio antes e depois, relatórios mensais das turmas responsáveis pelas mudas e observação do uso dos espaços arborizados para lazer e estudo.

Mapear os espaços internos adequados para plantio de árvores e instalação da horta, realizar oficina de conscientização sobre a importância da arborização e da alimentação saudável, plantar mudas nativas e frutíferas em pontos estratégicos da escola, implantar uma horta escolar comunitária, com hortaliças e temperos e estabelecer programa de apadrinhamento das árvores e dos canteiros da horta pelas turmas.

Benefícios

O projeto tornará a escola mais fresca e agradável, oferecendo sombra e conforto térmico.

Melhorará a estética do ambiente escolar, Incentivará a convivência em áreas verdes

Aumentará a biodiversidade interna Fortalecerá o senso de responsabilidade ambiental dos alunos. A escola se transformará em um espaço mais saudável, acolhedor e sustentável.

ESCOLA MUNICIPAL SANTOS DUMONT

Apresentação do problema socioambiental Embaixada contra o Fogo: Juntos por um Bom Jardim Sustentável

A emergência climática exige da escola um compromisso constante com a consciência ambiental. A adesão de Fortaleza à Rede C40 fortalece esse compromisso, possibilitando a realização de ações locais robustas. Queimadas perto da EM Santos Dumont no Bom Jardim prejudicam a saúde e atrapalham as aulas. Sugere-se uma caminhada educativa para engajar toda a comunidade na prática do descarte adequado do lixo domiciliar, evitando as queimadas e cuidando do nosso bairro.

Plano de ação

A proposta inclui conscientizar estudantes, educadores e suas famílias sobre os perigos das queimadas através de reuniões, palestras de bombeiros e alto-falante ecológico. Está prevista uma caminhada educativa com a colaboração da guarda escolar, além da distribuição de materiais e convites para os pais. As atividades incluem o plantio de mudas, rodas de conversa e monitoramento constante da comunidade para minimizar e evitar focos de queimadas próximos da escola. Execução

Em dezembro de 2025, alunos envolvidos no projeto conduzirão a sensibilização com apoio de professores, núcleo gestor e da Professora-Consultora. Serão realizadas reuniões com bombeiros e enviados convites digitais à comunidade. Durante a caminhada educativa, os estudantes usarão alto-falante ecológico e doarão mudas, com suporte da guarda escolar. O custo estimado é R$ 3.500,00. A ação ocorrerá em um dia, seguida de acompanhamento mensal para reduzir queimadas.

Acompanhamento

Os alunos do 8º e 9º ano, com apoio de professores e do núcleo gestor, acompanharão mensalmente o andamento do projeto. Os do 8º orientarão os novos estudantes, analisando o engajamento de discentes com a ajuda dos docentes procurando sempre manter um canal aberto de diálogo entre a escola/comunidade para reforçar a responsabilidade ambiental coletiva.

Benefícios

O plano beneficiará a comunidade do Bom Jardim de forma direta e permanente, em especial os moradores que vivem perto da ponte do bairro, que estão mais suscetíveis às queimadas, os alunos e os educadores. A sensibilização do projeto fortalecerá práticas de descarte correto e cuidado com o meio ambiente, promovendo uma cultura de responsabilidade compartilhada. Dessa maneira, escola e comunidade progredirão em termos de segurança, bem-estar e convivência sustentável, criando um ambiente mais verde, resiliente e apto para enfrentar os desafios impostos pela crise climática.

Oficina 1 ESCOLA MUNICIPAL ARI DE SÁ CAVALCANTE

Oespaço que servia como depósito de lixo foi transformado em canteiro para mudas de espécies de plantas nativas na Escola Municipal Ari de Sá Cavalcante, no bairro José Walter, em Fortaleza. Os protagonistas dessa iniciativa são os alunos do 8º ano, que participaram da oficina da ação “Verdejar Fortaleza”.

“Foi muito legal participar da oficina! A gente fez várias atividades sobre o meio ambiente, tipo plantar mudas e aprender sobre reciclagem. Eu gostei mais da parte prática, quando a gente pôde mexer na terra e ver as plantas crescendo”, conta Menzacke Oliveira, de 14 anos, um dos participantes. Instigados a identificar um problema socioambiental do entorno da escola e elaborar um plano que o solucionasse, os alunos se tornaram prota-

gonistas na busca por uma melhor qualidade de vida e mais saúde. Entre as ações, eles sugeriram campanhas educacionais com os pais dos alunos sobre descarte correto de resíduos, instalação de lixeiras e parceria com o Município para intensificar a limpeza do entorno.

“Os alunos receberam a proposta com muito entusiasmo. Desde o início, mostraram interesse em entender os problemas ambientais do bairro e propor soluções. Foi bonito ver como se tornaram protagonistas do projeto”, afirma o diretor da escola, Rayne Vasconcelos. Para ele, foi a oportunidade de tornar o aprendizado sobre o meio ambiente mais próximo da realidade dos alunos.

A mudança no espaço em frente à escola, marcado pelo descarte irregular de resíduos e todos os seus impactos, contou ainda com a colocação

AURÉLIO ALVES

placas educativas e se tornou ação efetiva de conscientização na comunidade. O objetivo dos alunos é que a ação seja acompanhada pelos professores e alunos, com registros fotográficos e reuniões. Haverá ainda monitoramento sobre a recorrência do descarte feito de forma errada.

“Quando soubemos do concurso, vimos nele uma oportunidade de envolver os alunos em uma iniciativa prática e significativa, conectando o aprendizado em sala de aula com o cuidado com

o meio ambiente e o território onde vivemos”, complementa Rayne.

Para os estudantes, a melhoria da limpeza, do “visual” do entorno, além da eliminação do mau cheiro e da proliferação de insetos, são os benefícios diretos mais sentidos. Com enxada na mão, ouvidos atentos às orientações do facilitador do Verdejar Fortaleza, mudas de plantas e busca pelo conhecimento, os alunos deram um grande passo para a preservação do mundo.

Oficina

2

ESCOLA MUNICIPAL DE TEMPO INTEGRAL HILDETE BRASIL DE SÁ CAVALCANTE

As oficinas e as aulas de campo do projetor Verdejar Fortaleza são uma forma de incentivar crianças e adolescentes a descobrir a natureza que os cerca, da qual fazem parte, para que a valorizem e preservem. A oficina que promoveu o plantio de mudas na Escola Municipal de Tempo Integral (EMTI) Hildete Brasil de Sá Cavalcante, no bairro Mondubim, foi um dos passos para uma transformação muito maior.

A iniciativa executada na escola contou com a participação de representantes da Câmara Municipal de Fortaleza e de seu Núcleo de Sustentabilidade. “Vamos levar isso para as crianças, que são o nosso futuro e vão ajudar a preservar o meio ambiente

onde a gente vive”, afirmou Sinhá da Silva Gomes, assessora técnica do Núcleo.

O momento aliou teoria, com a troca de saberes sobre Legislativo, meio ambiente e educação, à prática, com estudantes parando um tempo para cavar, plantar, regar e aprender. “Temos o objetivo de conscientizar e promover esse conhecimento a partir da educação básica”, afirmou a professora Maya Eliz.

O projeto desenvolvido pelos alunos para participação no Verdejar, que demandava a produção de uma ação a ser implementada no entorno da escola, tem como foco a Lagoa do Catão, localizada no bairro. A iniciativa de monitorar e conscientizar a população sobre os recursos hídricos inseridos no contexto

AURÉLIO ALVES

urbano é transformadora e requer conhecimento e políticas públicas.

“O projeto torna a educação ambiental acessível”, destaca Heury Silva, gestor do Núcleo de Sustentabilidade da Câmara de Fortaleza, que conversou com os alunos. O Núcleo, criado em 2025, tem o objetivo de promover mais ações de sustentabilidade na Casa Legislativa, compartilhando orientações e iniciativas junto às comunidades.

“Ficamos muito encantados com a estrutura da escola, com os alunos brilhantes que encontramos e o empenho da professora Maya em coordenar essa

turma maravilhosa na participação no Verdejar”, exclama um dos facilitadores da oficina, conteudista do Verdejar e um dos fundadores do projeto Percursos Ecológicos, o professor e educador ambiental Carlos Augusto Lima.

“A moçada também curtiu nossa conversa sobre a importância e a riqueza da nossa natureza nativa. Recuperar o valor do que é nosso: saúde, riqueza, beleza, orgulho. Depois, a garotada botou a mão nas ferramentas em nossa prática de plantio, para deixar a escola mais verde”, descreve o professor.

Oficina 3 ESCOLA MUNICIPAL CREUSA DO CARMO ROCHA

Odia na Escola Municipal Creusa do Carmo Rocha, no bairro Granja Portugal, em Fortaleza, foi de encurtar o olhar e a sensibilidade da garotada para com o mundo natural. A oficina do “Verdejar Fortaleza” fez com que o dia de aula fosse também dia de identificar plantas nativas e exóticas e se assombrar ao saber que a manga veio da Índia!

“Dia de plantio, também. Apesar da ótima estrutura e do cuidado das escolas municipais que visitamos, estamos percebendo que é preciso plantar e ocupar os espaços com nossas nativas”, destaca Carlos Augusto Lima, um dos facilitadores das oficinas, que também é um dos fundadores do projeto Percursos Ecológicos, professor e educador ambiental. Roda de conversa, globo terrestre, dinâmicas, bate-papo e um universo de aprendizado sobre

educação ambiental. Um dos destaques do debate foi como pequenas ações podem fazer diferença na comunidade onde os alunos residem e estudam. O olhar curioso durante a oficina pode se estender para as tantas descobertas dos caminhos da sustentabilidade.

“Foi muito receptivo, os meninos gostaram muito. Foram muitos detalhes, Por exemplo, quando vai ser abordado na escola, a gente trabalha os biomas de forma muito geral. E hoje eles puderam ter contato com mais informações”, destacou a professora Maria.

Depois de conhecerem mais sobre plantas e sua importância para o contexto urbano, os alunos foram para o pátio e, utilizando o espaço existente, aprenderam também como plantar mudas. Foi exatamente esse o tema tratado no plano socioambiental que os alunos apresentaram para participar do Verdejar Fortaleza.

AURÉLIO ALVES

A descrição do problema identificado pelos estudantes é de que, no bairro Granja Portugal, a falta de cobertura vegetal é um grave problema ambiental, com destaque para o desconforto térmico e o impacto na saúde de alunos e professores. O ensino sobre as mudas durante a oficina deverá incluir o plantio de árvores nativas, como o ipê.

“Usando a história da ambientalista Wangari Maathai como inspiração, a iniciativa será integrada a uma sequência didática e a uma campanha em po-

dcast, engajando alunos e a comunidade no plantio, na distribuição e na adoção de mudas para melhorar a qualidade de vida”, detalha o texto.

Wangari Muta Maathai foi uma professora e ativista política do meio ambiente do Quênia. Foi a primeira mulher africana a receber o Prêmio Nobel da Paz. Maathai fundou o Green Belt Movement, uma organização não governamental ambiental concentrada em plantação das árvores, conservação ambiental e direitos das mulheres.

Oficina 4 ESCOLA MUNICIPAL PROFESSOR

EDILSON BRASIL SOÁREZ

Aoficina realizada na Escola Municipal

Edilson Brasil Soares, no bairro Conjunto Ceará, em Fortaleza, foi a última das oito realizadas pela ação Verdejar Fortaleza. Puxados pela professora Danielle Holanda, que ensina Português, os alunos participaram de uma dinâmica importantíssima sobre quais árvores são mais indicadas para que sejam plantadas em Fortaleza.

O quiz “É nativa ou exótica” fez com que os alunos tentassem adivinhar de onde vinham as espécies exibidas e aprenderam que nem tudo o que parece é. O jogo deixou claro como cada planta influencia o ambiente e como espécies exóticas mudam o equilíbrio de um lugar.

Os facilitadores levaram diferentes sementes para as crianças olharem, pegarem e perguntarem.

“Ei, tio, isso aqui é o caju, né?”, indaga uma das crianças. “Isso, isso é a castanha, é daí que você pode plantar e o caju nascer”, responde Leonardo Jales, ambientalista e sócio-fundador do Percursos Ecológicos. “Bora plantar caju então, mah, tem semente aqui”, reforça o menino com um colega.

Ele apresenta ainda a semente de angelim e mucunã, mostrando as diferenças de aspectos da semente antes e depois de ser comida por morcegos. “Ele comeu tudo e ficou assim, raspada”, continuou Leonardo, enquanto outra criança pegava outra semente, chamada cordão de velho.

Na sequência, o reconhecimento do coco babaçu por um menino de aproximadamente 10 anos. “Tem uma palmeira linda”, cita o facilitador, com o tom de voz mais feliz pelo reconhecimento visual do garoto.

AURÉLIO ALVES

“Serei sempre grata por tudo o que vivenciamos hoje! Estamos realizados com esses conhecimentos importantes e tão ancestrais”, afirmou a professora Danielle Holanda. Antes da aula de campo, a docente ajudou os alunos a elaborarem um plano socioambiental, com o objetivo de arborizar o entorno da escola.

A estratégia é reunir demandas e apresentá-las aos órgãos competentes da Prefeitura e para a iniciativa privada. A ação, segundo os estudantes, é despertar o interesse do Legislativo para que Fortaleza tenha uma lei que incentive empresários a investir em arborização no entorno onde suas empresas funcionam.

“Importante destacar que quem puxa a moçada é uma professora de Português - para você perceber que não importa a área. O que conta é o amor pela natureza, em companhia das palavras, da criação e da aprendizagem. De onde menos se espera (ou onde mais se faz) é de onde muitas vezes parte o querer para aprender a regenerar a Terra. Melhorar a qualidade de vida na escola, que é o epicentro da comunidade. Melhorar a escola é melhorar o mundo”, analisa Carlos Augusto Lima, um dos facilitadores das oficinas, que também é um dos fundadores do projeto Percursos Ecológicos, professor e educador ambiental.

Oficina 5 ESCOLA MUNICIPAL DE TEMPO INTEGRAL

PROFESSOR AGERSON TABOSA PINTO

Opátio da Escola Municipal de Tempo

Integral Professor Agerson Tabosa Pinto, no bairro Siqueira, em Fortaleza, se transformou em espaço para muitas mudas, baldes de água, adubo e uma jornada de aprendizado que destacam as ações de cuidado com o meio ambiente.

A oficina do Verdejar Fortaleza na instituição contou ainda com palestra, vídeo, banners, trocas e o quiz sobre as espécies exóticas e nativas. Uma oportunidade de despertar o interesse e a curiosidade dos jovens, mostrando que o cuidado com o meio ambiente começa dentro da sala de aula.

Nas redes sociais de divulgação da oficina, está o registro de frases como “Foi um momento incrível”,

“Foi uma honra receber esse projeto na nossa escola” e “Uma grande iniciativa”. Além disso, havia várias curtidas e emoji de mãos aplaudindo. “Enquanto escola em tempo integral, acreditamos no fundamento de que a Cidade é currículo, que o território conta uma história e que é necessário que tenhamos esse olhar para além dos muros”, destaca o professor de Ciências, Samuel Paz.

De acordo com o professor, o que os alunos mais gostaram da oficina foi o quiz. “Os alunos precisavam dizer se era uma espécie exótica ou se era nativa. Houve uma participação em massa, eles gostaram bastante desse momento”, acrescentou. As informações são importantes para o grupo que, no planejamento apresentado ao projeto Verdejar, afir-

AURÉLIO ALVES

mou que o problema socioambiental no entorno da escola era a disseminação da espécie nim, classificada como invasora e ameaçadora da biodiversidade. O objetivo é informar, agir, acompanhar e fortalecer a identidade cultural do bairro por meio de mais consciência ambiental. “A iniciativa de inscrever a es-

cola no Verdejar vai ao encontro do que acreditamos. Nós nos valemos muito da abordagem Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente (CTSA). Nessa perspectiva, temos de problematizar as questões ambientais e visualizar de forma mais assertiva a ação do homem sobre o território”, resume o professor Samuel.

Oficina 6 ESCOLA MUNICIPAL SANTOS DUMONT

Desde que os estudantes voltaram às aulas presenciais após a pandemia de covid-19, a professora Onete da Costa, que ensina na Escola Municipal Santos Dumont, no bairro Bom Jardim, em Fortaleza, procura formas de incentivar o interesse dos estudantes pela sustentabilidade.

Para ela, a oficina desenvolvida foi muito rica e corroborou com projetos já desenvolvidos na escola, como a horta. “É um projeto em que alunos do 9º ano trabalham em conjunto com alunos do 5º”, destaca. Onete considera que a oficina enriqueceu teoricamente, com as palestras, mas sobretudo de forma prática.

“Eles botaram a mão na massa, foram lá e fizeram o plantio. E trabalha também a questão da responsabilidade, de aguar as plantas, plantadas por eles. Isso aumentou o senso de corresponsabilidade junto à escola”, considera. E a rotina realmente mudou. De acordo com a professora, depois do plantio de mudas durante a oficina, a postura é outra em relação ao que se deve fazer.

“De realmente estar lá cumprindo a escala de cuidado com as plantas. Isso ampliou o conhecimento sobre a importância do ambiente em que vivemos e a importância da natureza para nossa sobrevivência. Fortaleceu o senso de corresponsabilidade”, detalha.

AURÉLIO ALVES

A também professora Elisabete Siqueira, de Ciências, lembra como foi importante os alunos terem a oportunidade de tirar dúvidas e participarem tanto do quiz sobre espécies nativas e exóticas como do plantio de mudas na escola e na creche que funciona no prédio. E a proposta do projeto, que foi submetido ao Verdejar Fortaleza, vem muito dessa percepção que os alunos passaram a ter com o seu entorno. Com o nome “Embaixada contra o Fogo: Juntos por um Bom Jardim Sustentável”, o projeto tenta

alcançar a comunidade. “As queimadas são uma constante no entorno da escola, que fica cheia de fumaça. Ficamos próximo à avenida Osório de Paiva, onde a comunidade tem hábito de acumular lixos, entulhos e borrachas, numa parte que fica justamente próximo à margem do Rio Maranguapinho”, detalha. O objetivo é conscientizar os alunos e a comunidade, que possa fazer diferença na vida de moradores do bairro e dos estudantes.

Oficina 7 ESCOLA DE TEMPO INTEGRAL DOM ANTÔNIO

DE ALMEIDA LUSTOSA

As mudas de oiti, coaçu, oiticica e ipê plantadas na Escola Municipal de Tempo Integral Dom Antônio de Almeida Lustosa, no bairro Granja Lisboa, são resultado vivo da experiência obtida pelos alunos com a oficina do projeto Verdejar Fortaleza.

Realizada com os alunos do 6º e do 7º anos do Ensino Fundamental, a oficina apresentou sementes de espécies de plantas nativas e a importância delas no contexto urbano. Como plantar, cuidar das mudas e preservá-las também fez parte do conteúdo repassado aos estudantes.

Segundo o professor de Geografia das turmas, Jorge Ramos, a inscrição no Verdejar veio por meio da observação da escassez de áreas verdes

e calçadas arborizadas nos arredores da escola, além dos quintais ociosos do bairro.

A partir dessa reflexão, os estudantes compreenderam como a falta do verde influencia no calor sentido no bairro, na insegurança alimentar e na redução da qualidade de vida.

Depois de projetos voltados para o mapeamento arbóreo da escola, da criação de um jardim suspenso e de uma disciplina eletiva sobre o meio ambiente, o professor viu o projeto da Fundação Demócrito Rocha (FDR) como uma oportunidade de ampliar os conhecimentos dos alunos sobre o tema.

“A gente viu um alicerce para que a gente pudesse desenvolver melhor as nossas ações, princi-

AURÉLIO ALVES

palmente trazendo outros profissionais para dentro da escola”, explica Jorge.

Para o professor, a oficina ministrada pelos educadores ambientais Leonardo Jales e Carlos Augusto Lima foi dinâmica e acessível. A dupla, também responsável pelo projeto Percursos Ecológicos, elogiou a curiosidade dos estudantes.

A prática de plantação das mudas foi “o ápice”, conforme relata Jorge. “Essa interação foi extre-

mamente importante, esse trabalho coletivo de pensar onde estaria aquela árvore, como ela estaria daqui a alguns anos. Foi muito rico, gratificante, envolvente”, diz.

Com cavador, pá, chibanga, adubo e serapilheira, as mudas foram plantadas pelas mãos dos próprios alunos. Dessa forma, a conexão entre o ambiente urbano e a natureza ganhou contornos palpáveis para os jovens.

Oficina 8 ESCOLA MUNICIPAL DE TEMPO

INTEGRAL FILGUEIRAS

Atransformação do espaço escolar começou com diálogo e terminou com as mãos na terra para os alunos do 9º ano da Escola Municipal de Tempo Integral Filgueiras Lima, do bairro Jardim América, durante a oficina do projeto Verdejar Fortaleza. O momento teve como objetivo tirar os conteúdos da sala de aula e colocá-los em prática. O plantio de mudas teve o maior envolvimento dos estudantes, que participaram de todas as etapas: conheceram as espécies, cavaram os buracos, escolheram os locais mais adequados dentro da escola e aprenderam como cuidar das plantas para garantir sua preservação.

Para o professor de Ciências da turma, Renan Aragão, a vivência fortalece o aprendizado. “Per-

mite que os alunos valorizem o aprendizado ao vivenciar na prática os conceitos de educação ambiental e sustentabilidade”, afirma. Segundo ele, o projeto foi positivo tanto na oficina quanto na aula de campo para as Dunas da Sabiaguaba.

Antes do plantio, os educadores ambientais Leonardo Jales e Carlos Augusto Lima, do projeto Percursos Ecológicos, conduziram uma conversa sobre a desconexão entre seres humanos e natureza, incentivando os alunos a refletirem sobre pertencimento e responsabilidade ambiental.

A ação dialoga com o projeto elaborado pela EMTI Filgueiras Lima e apresentado na inscrição da escola no Verdejar Fortaleza. Os alunos e o professor identificaram a falta de áreas verdes e de práticas sustentáveis como desafios do cotidiano

AURÉLIO ALVES

escolar, influenciando no conforto térmico e até nas práticas alimentares saudáveis.

Com o plantio de árvores e a futura implantação de uma horta, a expectativa é tornar a escola mais fresca, acolhedora e sustentável, fortalecendo o vínculo dos alunos com o meio ambiente desde cedo.

O momento prático da oficina teve ainda a participação inesperada das crianças do Infantil 2 da própria escola, que se juntaram aos alunos mais velhos no plantio. Os pequenos ajudaram a proteger as mudas com serrapilheira e regaram as plantas.

Aula de Campo 1 ESCOLA MUNICIPAL ARI DE SÁ CAVALCANTE

Foi no Parque Municipal das Dunas da Sabiaguaba que os alunos do 8º ano da Escola Municipal Ari de Sá Cavalcante, no bairro José Walter, em Fortaleza, conheceram, durante a aula de campo do projeto Verdejar Fortaleza, a flora da cidade, as espécies exóticas e seus impactos e o papel de cada pessoa na preservação dos ecossistemas urbanos.

O local, explica o professor e educador ambiental Carlos Augusto Lima, é Área de Preservação Ambiental do Município de Fortaleza. “Não vamos deixar nenhum tipo de lixo aqui”, alerta o facilitador, antes de começar a explicar o que é uma imburana de cambão, planta que tem desde a Caatinga até o litoral cearense.

“A gestão escolar, o diretor da escola, sempre tenta trazer novas oportunidades, sempre faz essa

busca. E por meio da Secretaria Municipal da Educação (SME) e do site da Fundação (Demócrito Rocha), descobriu o Projeto Verdejar, que tem como missão aproximar as escolas da educação ambiental”, conta Ilma Ribeiro, professora de Ciências.

Ela avalia que a aula de campo possibilitou a reconexão entre os estudantes e o meio ambiente. “A gente passa a ter um grupo que vai multiplicar essas informações e, com isso, ter a esperança de um ambiente mais saudável”, avalia a docente, que acompanhou os alunos na descoberta das Dunas da Sabiaguaba.

Para o estudante Jonathas Silva, descobrir foi uma surpresa boa. “Eu imaginei que aqui era só uma duna grande, sem nada de vegetação. Praia e só. Mas é muito mais. A aula superou as expectativas. A gente aprende que, se não preservar, po-

AURÉLIO ALVES

demos ficar doentes, ter doenças graves”, destaca. E é essa sensação de pertencimento que o ambientalista e sócio-fundador do Percursos Ecológicos Leonardo Jales, um dos facilitadores da aula, ressalta como fundamental para que Fortaleza tenha suas áreas verdes preservadas. “Para que a gente possa trazer os alunos e toda a sociedade para conhecer como é a natureza selvagem e nativa da nossa Cidade”, descreve.

Mais do que uma aula de campo, a experiência nas Dunas da Sabiaguaba mostrou que aprender sobre o meio ambiente é também vivê-lo. Levar estudantes para sentir o suor e a beleza que é subir a duna sob o sol cearense, ver mangue, rio e mar bem pertos, entender como eles conversam e se impactam é uma oportunidade importante de fazê-los entender e querer um futuro mais sustentável.

LEIA

Aula de Campo 2 ESCOLA MUNICIPAL DE TEMPO INTEGRAL

PROFESSOR AGERSON TABOSA PINTO

“O contato com a natureza é um contato com a ancestralidade, uma reconexão”, avalia o ambientalista e sócio-fundador do Percursos

Ecológicos Leonardo Jales. Ele é um dos facilitadores das aulas de campo do projeto Verdejar Fortaleza no Parque Municipal das Dunas da Sabiaguaba.

Quem o escuta falar com atenção são os alunos da Escola Municipal de Tempo Integral Professor Agerson Tabosa Pinto, no bairro Siqueira. Passado, futuro, ações, história, explicações. Descobrir o que fez a cor da areia da duna mudar, quais plantas estão naquele ambiente, o que elas oferecem ao mundo em que vivemos. E onde morremos.

“A gente acaba se esquecendo da natureza, da terra… sendo que tudo o que a gente tem e para

onde a gente vai voltar um dia, é para ela, a natureza, a terra”, acredita a estudante Marcelly Victória. Ela pondera que o uso da tecnologia faz as pessoas esquecerem o que não é criado pelo humano e que o aprendizado sobre o meio ambiente precisa ser sentido. “Aqui eu consegui muito ter esse sentimento.”

As sensações ensinam, e o conhecimento atrai os estudantes a saber mais sobre preservação. “Os arqueólogos estimam que essa área tenha em torno de 3 mil anos e aqui a gente pode ver importantes sítios arqueológicos, onde a gente encontra pedaços de cerâmicas, provavelmente de urnas funerárias da tradição tupi. Essas pessoas antigas são os nossos ancestrais. Parte da população brasileira originária do nosso país”, detalha Leonardo aos adolescentes.

AURÉLIO ALVES

O professor da escola, Samuel Paz, mestre em Ciências Naturais, afirma que a instituição tem a tradição de trabalhar com assuntos que vão ao encontro do movimento interdisciplinar CTSA, que significa Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente. “Dentro da nossa perspectiva, de educação integral, temos um fundamento, que é o reconhecimento da Cidade como território educativo. Essa proposta do Verdejar proporciona isso, abraça esse fundamento que é tão importante para a construção de uma educação de qualidade”, analisa. Entre subidas e descidas nas duas e nas árvores, os alunos mostravam interesse e dedicação. Céu

azul, sol forte e a missão de descobrir mais sobre o meio ambiente guiavam o grupo. A visita de campo tem ainda banho de mar e lagoa para refrescar e mostrar como cada ecossistema tem seu papel e fluxo próprios dentro da natureza.

“Espero que, com essas ações, a gente consiga formar uma juventude mais conectada com o mundo natural, que tenha uma consciência maior desse mundo natural, e que consiga protegê-lo diante de tantas ameaças”, desabafa o professor e educador ambiental Carlos Augusto Lima, que é também um dos fundadores do projeto Percursos Ecológicos.

Aula de Campo 3 ESCOLA MUNICIPAL CREUSA DO CARMO ROCHA

“O meio ambiente é a gente ter a consciência de que onde quer que nós estejamos, precisamos proteger, preservar, cuidar e admirar”, afirma a coordenadora da Escola Municipal Creusa do Carmo Rocha, Rafaelle Veridiana. Junto dos alunos, ela participou de uma das aulas de campo do projeto Verdejar Fortaleza no Parque Municipal das Dunas da Sabiaguaba. Para a professora, estar no meio da areia, vendo árvores e bichos até então desconhecidos, é uma experiência que a sala de aula não consegue contemplar. “Eles estão vendo aquilo que a gente passou o ano todo falando. É uma experiência também de convivência, com a natureza e com os colegas, que

eles vão levar para a vida toda”, afirma a coordenadora, com seu chapéu de proteção solar.

A aula de campo começa com uma instrução básica, mas que resume muito do que precisa ser feito: juntar todo o lixo encontrado pelo caminho. “Isso aqui é um bem público, nosso, que a gente deve zelar bem”, destaca um dos facilitadores da aula, ambientalista e um dos fundadores do Percursos Ecológicos, Leonardo Jales. Os alertas são dados enquanto o grupo, sobre a duna, descobre vegetações e se suja na terra.

“O pessoal fala que a duna é só areia, só subida, e a gente vê que não é isso. Você precisa ter a sua própria experiência de ver como é. Você vê o ecossiste-

AURÉLIO ALVES

ma, várias plantas que você não vê em casa”, resume o estudante Matias Saraiva.

A professora Antônia Araújo explica parte da demanda de Matias por conhecimento sobre diferentes tipos de espécies de vegetação. “Nossa escola fica em um bairro que é muito carente de cobertura vegetal, e às vezes as pessoas não conseguem lidar muito bem com isso. A gente precisa educar as pessoas para voltarem a entender que a natureza é essencial”, opina.

O projeto Verdejar Fortaleza contribui para uma mudança importante de comportamento, em meio a um público que pode agir no presente e mudar o futuro. “Ações assim são importantes pela questão do conhecimento, porque ajudam a estimular o senso crítico sobre as questões da natureza e do meio ambiente. Faz pensar sobre os animais, o que fazer, o que não fazer, como fazer.”

Aula de Campo 4 ESCOLA MUNICIPAL SANTOS DUMONT

Do bairro Bom Jardim direto para o Parque Municipal das Dunas da Sabiaguaba, em Fortaleza. Os alunos da Escola Municipal Santos Dumont desbravaram os caminhos que a natureza oferece, subiram e desceram, conheceram, se banharam, perguntaram. De cima da duna, a vista de uma Fortaleza natural e encantadora compensa e torna a aula de campo em aula da vida.

“Em ações como essa, eles acabam tendo uma pausa para refletir, desperta neles uma criticidade, volta a visão e se perguntam ‘espera ainda, mas e se isso acabar, o que será da gente?’”, destaca a professora Elizabete Siqueira. Ela ressalta ainda que a aula de campo leva os alunos a pensarem em sua ancestralidade, despertando o sentimento de pertencimento. “É preciso lembrar sempre.”

O resgate histórico fica por conta do ambientalista Leonardo Jales, um dos facilitadores da aula de campo. “A gente tem que perceber que, do ponto de vista histórico, quantos anos foi formado, essa vegetação, essas dunas.

O silêncio do Parque ajuda a fazer com que meninos e meninas pensem mais sobre os recursos naturais disponíveis na cidade onde vivem. Escutar o mar, o vento, os pássaros pode despertar sensações jamais vividas. Como destaca o professor Carlos Augusto, professor e educador ambiental: “No silêncio a gente aparece mais para a gente”.

“Estou com ansiedade de chegar lá em cima, porque eu quero muito conhecer, tenho essa curiosidade por planta, para explorar… Sou muito apaixonada pela natureza”, afirma a aluna Desireê do Nascimento, antes de encarar a subida na duna. O sobe e desce no

AURÉLIO ALVES

sol quente, a trilha e o banho de mar formaram um combo de aprendizado e diversão.

A professora de Ciências da escola, Elisabeth Siqueira, conta que já levou as crianças para conhecer o Parque do Cocó, o Zoológico Sargento Prata e a Seara da Ciência. “Depende do conteúdo que a gente esteja vendo, mas eu acredito que é uma prática muito válida. Eles conseguem sair daquele tradicionalismo na sala de aula, têm outra visão, novas experiências e vivências que tornam essa aprendizagem de uma forma mais significativa”, pondera.

Para a professora Onete Raulino, que desenvolve diferentes iniciativas na escola com a temática

da sustentabilidade e do meio ambiente, o Verdejar Fortaleza deveria ser um projeto para todas as escolas. “Que mais escolas tivessem essa oportunidade de discutir sobre o papel de cada um de nós na preservação do meio ambiente, na manutenção de um ambiente adequado à vida”, ressalta.

Ela considera que a disseminação de conhecimentos aconteceria por meio dos jovens, chegando à comunidade e reverberando. “Nossos alunos podem contribuir para que o planeta sobreviva de uma forma adequada, para que nós não sejamos parte da destruição, mas que sejamos parte da luta pela preservação.”

Aula de Campo 5 ESCOLA MUNICIPAL DE TEMPO INTEGRAL

HILDETE BRASIL DE SÁ CAVALCANTE

Não é somente na sala de aula que há aprendizado. A experiência dos alunos da Escola Municipal de Tempo Integral (EMTI) Hildete Brasil de Sá Cavalcante, localizada no bairro Mondubim, em visita ao Parque Municipal das Dunas da Sabiaguaba demonstrou isso.

“É outro ambiente em que eles conseguem perceber coisas que estão no entorno deles, mas que eles não veem no cotidiano, no dia a dia, muitas vezes não conhecem no próprio território. Nesse sentido, é um novo ambiente para eles conhecerem a cidade”, afirmou Maya Eliz, professora de Ciências da turma contemplada pela aula de campo do projeto Verdejar Fortaleza.

A trilha começa com um chamado do professor e educador ambiental Carlos Augusto Lima: “Atenção

ao mundo ao nosso redor. É nosso mundo também. A gente está voltando para casa”.

Seja uma casa gigante de cupim, seja uma carcaça de tartaruga, os estudantes são convidados a observar os animais, as árvores, a areia, a água da praia, e cada ponto que compõe aquele ecossistema.

Para o aluno Pablo Miguel Ferreira, o momento trouxe mais conhecimentos sobre a ciência e a cultura do Ceará. “É importante a gente cuidar do meio ambiente para ter um ar melhor, ter a convivência com os animais, com as borboletas, com as espécies de bichos que não são comuns ver no dia a dia na cidade grande”, disse.

João Pedro Freitas, também aluno da turma levada às Dunas da Sabiaguaba, se conectou com o fato de que os antepassados viviam da natureza, a

AURÉLIO ALVES

mesma que hoje é compartilhada conosco. E assim serão as gerações futuras. “É uma experiência única que, com toda certeza, se eu não tivesse vindo, ia perder algo incrível”, comentou.

Valéria Xavier, coordenadora-geral do Verdejar Fortaleza, explicou que o projeto nasceu da constatação de que os seres humanos se afastaram da natureza, o que traz inúmeras consequências para o modo de vida, para a preservação e para a visão que temos das outras espécies.

“A gente percebe que vai plantando a sementinha do cuidado com o meio ambiente [com as aulas de campo]. Esse contato é um passo inicial para que

a gente forme jovens mais preocupados com a nossa permanência neste planeta”, afirmou.

Projetos como o Verdejar, que buscam a integração com escolas públicas e proporcionam momentos de reflexão e prática aos alunos, para a professora Maya Eliz, são fundamentais para “romper os muros da escola”.

“Às vezes a gente coloca somente a escola como instrumento da educação, mas acho que toda a cidade e território precisam ser educativos e transformadores. Essas iniciativas são agentes de transformação das nossas crianças e adolescentes”, reconhece.

Aula de Campo 6 ESCOLA MUNICIPAL DE TEMPO INTEGRAL DOM ANTÔNIO DE ALMEIDA LUSTOSA

Ao chegar ao Parque Municipal das Dunas da Sabiaguaba para a aula de campo realizada por meio do projeto

Verdejar Fortaleza, a expectativa dos alunos da Escola Municipal de Tempo Integral (EMTI) Dom Antônio de Almeida Lustosa, do bairro Edson Queiroz, já revelava a curiosidade e a abertura para o novo.

“Eu acho que vou encontrar vários tipos de espécies diferentes, animais, paisagens cada vez mais incríveis”, projetou o aluno Fernando Lucas. Para ele, aulas fora da escola são importantes para ter dias menos “monótonos”. A experiência, além disso, foi vista por Lucas como uma forma de se conectar com a natureza.

Ao longo da trilha, o grupo foi convidado a desacelerar e observar. Ambientalista e sócio-fundador do Percursos Ecológicos, Leonardo Jales orientava: “Você vai ver bichos, vai escutar bichos.

Se você vir algum animal, não fala, não grita, só olha. Quando chegar ao final, você compartilha com a gente”.

A proposta era estimular o olhar atento e o respeito ao ambiente natural ao fazer parte da caminhada em silêncio. A sensação de conexão ficou evidente nesses momentos. Para a aluna Lesley Kellen, a vivência foi marcada pela experiência sensorial. “Aqui você pode sentir, se conectar com a natureza, sentir o som do mar, o movimento de tudo. É um silêncio tão bom”, descreveu.

AURÉLIO ALVES

Em outros momentos, a alegria do contato com o mar arrancou risadas, conversas e interações ricas entre alunos, professores e mediadores.

Para o professor e educador ambiental Carlos Augusto Lima, as trilhas funcionam como um momento de repensar o distanciamento entre sociedade e natureza. “Teve um momento de bifurcação: a gente foi para um lado e a natureza para o outro. O processo industrial consolidou essa separação. Desaprendemos a viver em contato com a natureza, a observar seus vários aspectos e até a perceber que somos parte dela”, destacou.

Esse contato tem um papel essencial na formação dos jovens, conforme explana o professor de Geografia da turma, Jorge Ramos. “O Verdejar pro-

porciona uma imersão na beleza que a mãe natureza nos deu. É levar isso para uma geração que hoje desconhece os sons da natureza, a riqueza da mata e dos animais, criada em meio ao concreto, na selva de pedra”, explicou.

Jorge também destacou a importância da parceria com a Fundação Demócrito Rocha, que viabilizou transporte, mediação qualificada e aproximação dos estudantes com o território natural.

Mostrar os benefícios do entrelace entre natureza e cidade, de forma harmoniosa e respeitosa, é um dos objetivos da aula nas Dunas da Sabiaguaba. “Por uma qualidade de vida não só nossa, mas de todos os indivíduos que moram nesse espaço”, completa Carlos.

Aula de Campo 7 ESCOLA MUNICIPAL EDILSON BRASIL SOARES

Oaprendizado ganhou novos contornos para os estudantes da Escola Municipal Edilson Brasil Soares, do bairro Conjunto Ceará, durante a aula de campo realizada no Parque Municipal das Dunas da Sabiaguaba, como parte das ações do projeto Verdejar Fortaleza.

A trilha coroou o percurso que começou ainda dentro da escola, com uma oficina, e se desdobrou em vivência, escuta e contato direto com a natureza.

“A gente adora trazer as pessoas para o mato, para o campo, para a natureza. Aquela natureza que a gente mostrou lá na nossa oficina, vocês lembram?”, provocou o professor e educador ambiental Carlos Augusto Lima, ao reencontrar os alunos em meio à paisagem que havia sido apresentada de forma teórica.

Segundo Valéria Xavier, coordenadora-geral do projeto Verdejar Fortaleza, cada escola vive uma experiência única nos dois momentos.

“São oito escolas, oito experiências diferentes. A ação começa com uma oficina na escola. Antes de virem para essa área de proteção ambiental, os alunos recebem uma visita do projeto, com uma etapa teórica, que termina com o plantio de mudas de árvores na própria escola”, explicou.

Heury Silva, gestor do Núcleo de Sustentabilidade da Câmara Municipal de Fortaleza, acompanhou a turma desde o momento da sala de aula e destacou a importância dessa construção em etapas.

“São dois momentos bem distintos: o primeiro traz a necessidade do aprendizado e do conhecimento, e o segundo é a vivência. Essa vivência é indescritível”, afirmou. Para ele, o pro -

AURÉLIO ALVES

jeto resgata um tempo com a natureza que vem sendo esquecido.

Para a professora de Língua Portuguesa da turma, Danielle Holanda, o dia simbolizou a consolidação de um trabalho iniciado meses antes. “Desde agosto a gente vem trabalhando esse tema com as crianças, tentando mostrar que existe muito mais do que a sala de aula”, contou.

Danielle também reforçou o impacto do projeto na vida dos estudantes. “O leque de possibilidades é enorme. Vai desde a transformação de um aluno que não participava de nada e agora está dando entrevista até plantar uma semente que vai virar uma árvore linda no futuro. Quem sabe, um dia, eles passem por ali e lembrem: ‘Aquela árvore eu plantei com a tia Dani’”.

Do ponto de vista pedagógico, a experiência reforça conteúdos trabalhados em sala. Para a pro-

fessora de Ciências Alexya Carvalho, o contato direto é insubstituível. “Na sala de aula a gente estuda os animais, as plantas. Aqui eles estão vivenciando, vendo de perto as interações. Isso é muito rico para eles. Muitos não têm essa oportunidade. Vir para cá é um momento único na vida deles”, afirmou.

O ambientalista e sócio-fundador do Percursos Ecológicos, Leonardo Jales, salientou que o projeto nasce justamente da falta de compreensão sobre esses territórios. “A maioria das pessoas ainda não entende a relevância desses locais. É por isso que a gente criou esse projeto”, pontuou.

O estudante João Guilherme Quirino saiu da experiência decidido a mudar hábitos. “Eu vou largar meu celular, vou parar de ver YouTube, vou ficar mais calmo, vou visitar a floresta. Meio ambiente, para mim, é uma forma de se acalmar”, disse.

Aula de Campo 8 ESCOLA MUNICIPAL DE TEMPO INTEGRAL

FILGUEIRAS LIMA

Osilêncio também ensina. Foi a partir dessa escuta atenta que os estudantes da Escola Municipal de Tempo Integral Filgueiras Lima, do bairro Jardim América, viveram a aula de campo no Parque Municipal das Dunas da Sabiaguaba, dentro das ações do projeto Verdejar Fortaleza.

Antes mesmo da caminhada, o ambientalista e sócio-fundador do Percursos Ecológicos, Leonardo Jales, convidou o grupo a desacelerar. “Os indígenas costumam dizer que o silêncio é a maior ferramenta de aprendizado. Você tem que escutar primeiro para aprender”, disse. Em seguida, os alunos formaram um círculo, deram as mãos e permaneceram em silêncio para ouvir a floresta. A vivência é proposta em um cenário cada vez mais comum entre os jovens, como observa Heury

Silva, gestor do Núcleo de Sustentabilidade da Câmara Municipal de Fortaleza. “A natureza tem sido esquecida pelos jovens por causa do excesso de telas e de informação. O tempo com a natureza tem sido deixado de lado, e um projeto como o Verdejar traz esse momento de pertencimento”, explicou.

Para o educador ambiental Carlos Augusto Lima, esse distanciamento tem consequências profundas. “Grande parte dos desastres e tragédias que vemos hoje é resultado dessa bifurcação entre homem e natureza”, afirmou.

Segundo Carlos, trazer os jovens de volta a esses espaços é uma forma de resgatar sentidos. “É uma maneira de preservar um modo de vida em que as pessoas se sentem parte da natureza, conectadas a ela.”

Para o professor de Ciências Renan Aragão, a

AURÉLIO ALVES

aula de campo reforça e amplia o aprendizado construído em sala de aula.

“É uma oportunidade muito significativa para que os alunos aprendam saindo do caderno, do papel, da sala de aula, desse prédio de concreto, e venham vivenciar, de forma prática, tudo o que a gente estuda nos livros”, enfatizou. Ele acredita que a experiência fortalece a consciência ambiental e se multiplica para além do passeio.

A aluna Alícia Lobo passou a ter uma nova forma de compreender o tempo e a história. “Na escola, a gente aprende história, mas aqui a gente está vivendo a história que já passou”, refletiu.

Ela defende que mais jovens tenham acesso a esse tipo de vivência. “As dunas e as florestas são espaços muito bonitos, cheios de história. Contam as histórias dos povos que estavam aqui antes da gente. É uma experiência muito transformadora.”

A quebra da rotina também foi apontada como um dos pontos mais importantes da atividade. “É muito bom sair um pouco, porque a gente está sempre fazendo a mesma coisa repetidas vezes”, comentou a aluna Lorena Ribeiro. “Isso sai da rotina. É algo novo, importante, que a gente precisa ter contato.”

Para Valéria Xavier, coordenadora-geral do projeto Verdejar Fortaleza, o impacto da ação vai além do dia da aula de campo. “É uma ação que acontece em ondas. O conhecimento não fica só no jovem. Ele acaba impactando toda a sociedade”, explicou.

A expectativa, segundo ela, é que a semente plantada gere cidadãos mais conscientes, atentos às leis de proteção ambiental e dispostos a defender um futuro mais sustentável. “A ideia é voltar a trazer a natureza para o nosso lar”, disse.

Câmara Municipal de Fortaleza e a sustentabilidade 4.

O

IDENTIFICÁ-LO

NO CONTEXTO DAS

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Em 1982, o governo dos Estados Unidos decidiu instalar um aterro de compostos altamente tóxicos em Warren County, na Carolina do Norte, em uma comunidade majoritariamente afro-americana. O episódio evidenciou a correlação entre o despejo de resíduos perigosos e bairros de população negra, originando o conceito de racismo ambiental. Desde então, o termo passou a denunciar a relação entre segregação racial, desigualdade socioeconômica e degradação ambiental.

Movimentos por justiça ambiental demonstram que a distribuição de riscos tóxicos é determinada por hierarquias de classe, raça e território. Outro caso emblemático, em Love Canal (EUA, 1978), revelou que um conjunto habitacional de classe média baixa fora construído sobre um canal aterrado com dejetos industriais e bélicos. O evento mostra que nem toda injustiça ambiental é racializada, mas todo racismo ambiental constitui injustiça ambiental1 .

Os conceitos de injustiça e racismo ambiental evidenciam a forte correspondência entre pobreza, raça e degradação ambiental. Populações empobrecidas e racializadas habitam áreas mais expostas à poluição e com menor infraestrutura. A vulnerabilidade é agravada pela ação de grandes empresas que exploram forças naturais e humanas, deixando passivos ambientais e sociais.

No Brasil, casos como Mariana (MG) e Brumadinho (MG) revelam os impactos de atividades mineradoras que concentram lucros e distribuem riscos. A exploração de sal-gema em Maceió (AL) provocou o afundamento de bairros inteiros e o deslocamento de milhares de famílias. Empreendimentos amparados por licenças frágeis e pouca fiscalização

1. SOUZA, Marcelo Lopes. Ambientes e territórios: uma introdução à ecologia política. RJ: Bertrand Brasil, 2019.

evidenciam a cumplicidade estatal e a reprodução de um modelo de desenvolvimento excludente.

No Ceará, moradores de São Gonçalo do Amarante enfrentam efeitos da instalação do Porto do Pecém e de sua zona industrial2. Comunidades foram removidas e as que permaneceram convivem com poluição atmosférica3 e disputa pela água após empresas obterem autorização para explorar o aquífero local4 .

Embora contemporâneo em suas manifestações, o racismo ambiental tem raízes na dinâmica capitalista global, que se desloca para regiões com recursos abundantes, incentivos públicos e populações vulneráveis, para expropriar e explorar, formando “zonas de sacrifício”, territórios sacrificados em nome da acumulação. No plano internacional, essa lógica impõe degradação sobretudo a populações não brancas de países periféricos5

No contexto urbano, as desigualdades aparecem na localização das periferias — majoritariamente negras — em encostas e margens de rios, mais suscetíveis a enchentes e deslizamentos. Mais de 16 milhões de pessoas vivem em favelas no Brasil, sendo 73% negras; no Norte e Nordeste, esse percentual chega a 80%6. As enchentes no Rio Grande do Sul (2024) reforçaram essa disparidade: 47% das famílias com renda até dois sa-

2. https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/ce-povo-anace-e-desrespeitado-e-expulso-de-seuterritorio-para-construcao-do-complexo-industrial-e-portuario-do-pecem/

3. https://racismoambiental.net.br/2018/07/27/poluicao-no-pecem-causa-retirada-de-familias-doentorno/

4. https://jangada.online/opiniao/termoeletrica-de-caucaia-disputa-agua-povos-cipp-cogerh/

5. FRASER, Nancy. Capitalismo canibal: como nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta e o que podemos fazer a respeito disso. SP: Autonomia literária, 2024.

6.INESC. Instituto de Estudos Socioeconômicos. Princípios e diretrizes para o enfrentamento do racismo ambiental no Brasil. Brasília, março de 2024. Disponível em: https://inesc.org.br/principios-e-diretrizespara-o-enfrentamento-do-racismo-ambiental-no-brasil/.

lários mínimos tiveram prejuízos, contra 13% das que ganham de cinco a dez. Entre pessoas pretas, 52% relataram perdas; entre pardas, 40%; e entre brancas, 26%7

Esses grupos, historicamente excluídos do acesso à terra regular, também sofrem com o saneamento precário. Segundo o Censo 2022 (IBGE), mais de 30 milhões de brasileiros vivem sem saneamento adequado — 30% da população negra, contra 16% da branca8

O racismo ambiental é expressão do racismo institucional, manifestado nas políticas públicas e na aplicação desigual das leis. Não é necessária intenção explícita de discriminar: basta que os efeitos da injustiça incidam sobre grupos racialmente estigmatizados, revelando a estrutura sistêmica do problema9

Com as mudanças climáticas, as desigualdades se acentuam. Fenômenos como elevação do mar e calor extremo afetam desproporcionalmente grupos vulneráveis. Nas cidades, o calor atinge mais trabalhadores informais, catadores e moradores de áreas densamente povoadas e pouco arborizadas. No sertão, agricultores e pescadores lidam com desertificação e maior incidência de câncer de pele10

Em Fortaleza, os bairros mais quentes (Álvaro Weyne, Vila Velha e De Lourdes) são também os mais pobres, enquanto Cocó e Edson Queiroz, mais arborizados, registram temperaturas mais amenas. Políticas de conservação não priorizam

7. ENCHENTES do RS atingiram proporção maior de pobres, negros e menos escolarizados. Jornal de Brasília, 29/06/2024 Disponível em: https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/brasil/enchentes-do-rsatingiram-proporcao-maior-de-pobres-negros-e-menos-escolarizados/#. Acesso em: 02/12/2025.

8. OXFAM BRASIL. Encruzilhada Climática — Um Retrato das Desigualdades Brasileiras. Disponível em: https://www.oxfam.org.br/ encruzilhada-climatica-um-retrato-das-desigualdades-brasileiras/

9. SOUZA, Marcelo Lopes. Ambientes e territórios: uma introdução à ecologia política. RJ: Bertrand Brasil, 2019, p.133.

10. LOPES E.F da S., MAIA A.M.L.R, COSTA A.J., VIEIRA A.L.F., SILVA, A.G.A da. Incidência do câncer de pele em marisqueiras na região estuarina do Rio Apodi-Mossoró (RN): risco ocupacional na atenção primária. Rev Bras Med Fam Comunidade [Internet]. 11º de dezembro de 2024;19(46):3576. Disponível em: https://rbmfc.org.br/rbmfc/ article/view/3576

áreas empobrecidas, perpetuando exclusões. O Pirambu é citado entre as áreas mais quentes por não possuir áreas verdes11

O racismo ambiental, assim, revela a intersecção entre raça, classe e território, mostrando que a degradação ambiental e os desastres climáticos reproduzem e aprofundam desigualdades sociais e raciais. A exposição desproporcional de populações negras, indígenas, quilombolas e periféricas a riscos ambientais reflete um histórico de violações e exclusão. Enfrentar o racismo ambiental é conciliar pauta dos direitos da natureza com direitos humanos.

11. Theyse Viana. Veja bairros de Fortaleza mais afetados por ocorrências ligadas a riscos climáticos. Diário do Nordeste, Fortaleza-CE, 24 de novembro de 2025.

NÚCLEO DE SUSTENTABILIDADE DA CÂMARA MUNICIPAL É CRIADO PARA MUDAR

AS PRÁTICAS LEGISLATIVAS

Ações executadas para fazer com que a sustentabilidade seja tema transversal dentro da Câmara e pela Cidade

Integrar práticas de responsabilidade socioambiental às atividades legislativas e administrativas, com inclusão e inovação. É com este objetivo que o Núcleo de Sustentabilidade da Câmara de Fortaleza (CMFor) atua desde que foi criado, em 2025, aliando educação ambiental, mudança de comportamento e ações efetivas, coletivas e individuais. Pioneirismo, inclusão, sustentabilidade e inovação.

O Núcleo nasceu a partir de uma resolução da Mesa Diretora, que instituiu a necessidade de uma Política de Sustentabilidade e Logística Sustentável na Casa, alinhada às leis, decretos e textos normativos, além dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS’s). Iniciativa é uma

tentativa de constituir um Legislativo mais moderno, ágil e, acima de tudo, consciente de seu papel na preservação do meio ambiente.

Conforme destaca o presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, Leo Couto, a sustentabilidade não é apenas um conceito, mas um compromisso concreto. “Entre as principais iniciativas da gestão está a criação do Núcleo, responsável por coordenar projetos que reduzam impactos ambientais e envolvam servidores e colaboradores”.

Ter a integração de pessoas e ações modifica a rotina de locais de trabalho e seus fluxos. Impactar dentro da Casa, mas também fora, junto às comunidades, multiplicando conhecimento, conscientizando e formando é prioridade. Dialogando com diferentes representações sociais, poder público e movimentos, formando um modelo que possa servir de exemplo para outras casas legislativas.

MATEUS
DANTAS

A primeira ação do Núcleo foi elaborar diagnóstico, verificar diferentes setores, processos e segmentos, analisando indicadores de sustentabilidade. As ações incluíram identificar a produção de resíduos, avaliar a eficiência energética, a economia, a eletricidade, os banheiros… tudo foi colocado em relatório e transformado em plano de ação.

A implementação de uma política de sustentabilidade conta com medidas inovadoras, como a digitalização de processos legislativos, a priorização de compras com critérios socioambientais e a integração da gestão de resíduos, energia e água. O Núcleo foi encarregado de estabelecer indicadores e acompanhar o cumprimento de metas para a Câmara Municipal de Fortaleza.

Algumas iniciativas já se destacam, como a criação da plataforma CMFor360, que digitalizou o protocolo legislativo, os processos administrativos e as sessões. A plataforma reduziu até 40 % do uso de papel no primeiro mês, ao permitir que vereadores protocolem matérias digitalmente, assinem eletronicamente e acompanhem proposições em tempo real. Outro destaque é a meta de eliminar o papel até o fim de 2025.

“Sustentabilidade não é apenas um conceito, mas um compromisso concreto”, Leo Couto - presidente da Câmara Municipal de Fortaleza.

MATEUS

BATE-PRONTO COM HEURY SILVA, GESTOR DO NÚCLEO DE SUSTENTABILIDADE

Conquistas, desafios e formação

1. Como nasceu o Núcleo de Sustentabilidade na Câmara Municipal?

Heury Silva: A criação do núcleo foi motivada pela necessidade de integrar práticas sustentáveis às rotinas legislativas. Em 2025, com o apoio da Mesa Diretora, instituímos a Política de Sustentabilidade e Logística Sustentável da CMFor. Nosso objetivo era alinhar a Casa aos princípios das Leis, decretos, normas pertinentes e aos ODS, estruturando uma governança capaz de planejar, executar e monitorar ações socioambientais.

2. Quais os principais resultados já alcançados?

Heury Silva: O resultado mais visível é a digitalização dos processos. A plataforma CMFor 360, desenvolvida pela equipe de TI da Câmara Municipal de Fortaleza, reduziu em mais de 40 % o uso de papel logo no primeiro mês, e em cinco meses conseguimos chegar a 95 % de redução, preservando árvores e economizando recursos. O processo de coleta seletiva será implantado em todas as dependências da Casa, aliado a ações de educação ambiental e gincanas educativas, modernizamos o monitoramento do consumo de água e desenvolvemos campanhas internas de sensibilização.

3. Como o Núcleo articula-se com a sociedade e outras instituições?

Heury Silva: O Núcleo teve início no mês de agosto

do corrente ano, e neste meio tempo, estamos correndo com a confecção da Política da Sustentabilidade da CMFor. Também temos participado de eventos como o Fórum de Sustentabilidade, Projeto Verdejar Fortaleza, onde apresentamos nossas iniciativas e trocamos experiências com outras instituições. O Núcleo busca articular-se com organizações da sociedade civil, futuramente com universidades e secretarias municipais para promover ações conjuntas, como projetos de educação ambiental e a integração de projetos sustentáveis, em alusão aos objetivos sustentáveis

FÁBIO LIMA

4. Quais desafios ainda precisam ser enfrentados?

Heury Silva: O maior desafio é mudar comportamentos. Sustentabilidade demanda engajamento contínuo. Precisamos aprofundar a cultura de consumo consciente, ampliar o envolvimento dos parlamentares e servidores, e assegurar recursos para investimentos em inovação, como as placas solares. A maturidade virá com o tempo, monito-

5. Que mensagem você deixa para os servidores e para a sociedade?

Heury Silva: Cada atitude conta. Ao reduzir o uso de papel, separar o lixo ou economizar água e energia, contribuímos para uma cidade melhor. Convido todos a conhecerem nossos projetos, participarem das ações de capacitação e compartilharem sugestões. A CMFor pretende ser referên-

AÇÕES JÁ MUDAM REALIDADES E

COMPORTAMENTOS

Redução de 95% do uso de papel, iniciativas junto a comunidades e formação de colaboradores destacam sustentabilidade na prática

“Aprendi como fazer a coleta seletiva separando garrafas, plástico e papel”. O que Laís Evangelista, 10, aprendeu durante o lançamento do programa “Nossa Casa é de Todos”, que levou a Câmara Municipal de Fortaleza (CMFor) ao bairro Vicente Pinzon. Itinerante, a ação descentraliza serviços e integra o Legislativo à comunidade.

Na iniciativa que Laís participou, realizada em setembro de 2025, 25 crianças receberam coordenadores de sustentabilidade da Câmara, assistiram vídeos sobre a temática e discutiram formas de melhorar o espaço onde vivem.

“Fizemos uma apresentação especial explicando como as crianças podem separar os resíduos em seus coletores. Buscamos promover a educação ambiental para que as nossas crianças e jovens se conscientizem cada vez mais e eduquem as próximas gerações”, explicou Sinhá Gomes, integrante do Núcleo de Sustentabilidade.

Ela destaca a importância de educar as crianças sobre a temática ambiental diante de questões como o desmatamento, emergência climática, aquecimento global e aumento das temperaturas. Após a programação, houve a limpeza da praia, outra ação desenvolvida junto ao Núcleo de Sustentabilidade.

Durante a ação, no Cais do Porto, a população recebeu orientações sobre o descarte correto de resíduos, a importância de separar o lixo, proteger a vida marinha e preservar o ambiente costeiro.

MATEUS DANTAS

Foram coletados diversos materiais, como plásticos, metais e outros resíduos sólidos que impactam negativamente o ecossistema da orla.

Em destaque entre os resultados de ações já em execução, destaca-se a redução de 95% de papel em cinco meses. Foram 10 toneladas a menos de papel, o que resulta na preservação de aproximadamente 250 árvores. Isso foi possível a partir do funcionamento da plataforma CMFor360, ferramenta responsável por fazer a transição dos processos administrativos e legislativos do formato impresso para o digital.

A implementação otimizou o trabalho do Legislativo, que tem sido cada vez mais dinâmico e prático, com destaque à geração de protocolos eletrônicos para organizar e proteger informações.

A plataforma CMFor360 permite protocolar matérias legislativas digitalmente, com assinatura eletrônica criptografada e inteligência artificial para resumir projetos.

O sistema também aumenta a transparência e celeridade, pois os vereadores podem acompanhar o andamento das proposições em tempo real. Mudança deverá modernizar, digitalizar, ser mais transparente e ter como meta zerar o uso de papel dentro da Casa. Servidores foram capacitados em módulos que tinham como enfoque atividades legislativas e procedimentos internos do Parlamento municipal.

A sustentabilidade ambiental envolve o uso consciente e equilibrado dos recursos naturais do planeta, de forma a atender às necessidades do pre-

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sente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de atenderem às suas próprias demandas.

Para Heury Silva, gestor do Núcleo de Sustentabilidade, sustentabilidade, inclusão e inovação formam uma tríade importante. “A sustentabilidade é a preservação do que muitos chamam de nossa casa comum, que é o meio ambiente, a natureza… a sustentabilidade deve ser pensada nesse aspecto de cuidar da nossa casa”, define.

O Projeto Hortas Sociais, executado pela Prefeitura de Fortaleza em cogestão com a Organização da Sociedade Civil Instituto de Arte e Cidadania do Ceará (IAC-CE), também está entre as ações apoiadas pelo Núcleo de Sustentabilidade da Câmara. Em 2024, o Projeto realizou 15 colheitas,

distribuindo cerca de 14 toneladas de hortaliças como alface, couve, coentro e tomate cereja.

Em 2023, foram mais de 45 toneladas de alimentos produzidas, um aumento de 50 % em relação a 2022. As hortas sociais beneficiam mais de duas mil pessoas em situação de insegurança alimentar e oferecem oficinas educativas para estimular o cultivo doméstico.

O sucesso do programa demonstra como a agricultura urbana pode ser uma ferramenta de inclusão social. O Núcleo da Sustentabilidade da CMFor organizou uma ação envolvendo jovens de escolas públicas e idosos, na horta social do bairro do Conjunto Ceará, que teve como troca de experiências o plantio de hortaliças.

SUSTENTABILIDADE EM AÇÃO

10,3 toneladas de papel deixaram de ser usadas

Preservação ambiental

Entre 175 e 250 árvores salvas anualmente

Eficiência que conta 2.068.200 folhas economizadas por ano

10 a 12 toneladas de CO₂ deixaram de ser emitidas Compromisso com o planeta

O FUTURO SENDO CONSTRUÍDO AGORA

Legislativo da Capital do Ceará

começou a mudar e seguirá sendo transformado pela transparência e avanço na sustentabilidade

Perceber como o consumo de copo plástico e papel pode mudar, o tempo que a torneira fica aberta ou a luz ligada sem necessidade… informar, conversar e capacitar para poder transformar. A perspectiva futura na Câmara Municipal de Fortaleza (CMFor) inclui a auto responsabilidade, além de ações de impacto massivo e a curto prazo.

A implementação de placas solares é uma das iniciativas, evitando a emissão de carbono nos

processos de produção de energia e na economia sobre o consumo da Casa. “A conscientização é muito importante”, reforça Heury Silva, gestor do Núcleo de Sustentabilidade. O plano é instalar um sistema fotovoltaico capaz de atender parte significativa da demanda elétrica do prédio.

Em 2025, o presidente da Câmara de Fortaleza, vereador Leo Couto, recebeu o certificado de evento neutro de carbono, emitido pelo Instituto Brasileiro de Defesa da Natureza (IBDN), pelas me-

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DANTAS

didas tomadas para compensar os gases de efeito estufa emitidos durante a realização do Fórum de Sustentabilidade e Inovação no Parlamento de Fortaleza, em agosto do mesmo ano.

“Pela primeira vez, a Câmara de Fortaleza tem uma célula de Sustentabilidade, desenvolvida para trabalhar ações internas e externas que diminuam a poluição gerada pelo nosso Parlamento. Estaremos instalando os paineis de placas solares e vagas verdes. Temos uma previsão de ações mensais de sustentabilidade, para que, em breve, nós possamos dizer que a Câmara de Fortaleza é totalmente sustentável”, destacou Leo Couto.

As ações futuras reforçam o compromisso de manter a CMFor alinhada aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), promovendo consumo e produção responsáveis e combate às mudanças climáticas. A continuidade da política de sustentabilidade será respaldada por revisões periódicas, relatórios de desempenho e transparência ativa.

O objetivo de tornar o trabalho legislativo mais sustentável passa por mais dinamismo e praticidade, com impacto direto no fluxo que um Parlamento impõe. “Agora, com a plataforma CMFor360 temos a possibilidade de anexar fotos coloridas e a localização exata via Maps, a comunicação com as secretarias ficou muito mais eficaz”, avaliou a assessora Nalanda Braga.

Ela considera que, com a otimização do trabalho que a plataforma proporcionou, a resposta às demandas da população fica mais rápida, cumprindo ainda mais o papel da Casa Legislativa. As iniciativas já colocadas em prática e aquelas que estão por vir representam um avanço significativo na modernização, sustentabilidade e transparência das atividades do Parlamento da Capital cearense.

MUNICIPAL DE FORTALEZA

PRINCIPAIS AÇÕES A SEREM EXECUTADAS PELA CÂMARA

1 PLACAS SOLARES

Implantar placas solares na sede, visando reduzir a emissão de carbono e aumentar o uso de energias renováveis. A ideia é instalar um sistema fotovoltaico capaz de atender parte significativa da demanda elétrica do prédio.

2 EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Ampliar os programas de educação ambiental para parlamentares, servidores e colaboradores, com foco na capacitação permanente e na conscientização sobre consumo consciente, reciclagem e mudanças climáticas.

3 ECONOMIA DE ÁGUA

Intensificar a economia de água, por meio da recuperação de telhados para captação de águas pluviais e do reuso para irrigação de jardins e limpeza.

Erradicação da pobreza

Fome zero e agricultura sustentável

Saúde e Bem-estar

Educação de qualidade Igualdade de Gênero

Água potável e Saneamento

Energia Acessível e Limpa

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4 Coleta seletiva

Expandir a coleta seletiva, incluindo pontos de entrega voluntária para resíduos especiais (pilhas, baterias, equipamentos eletrônicos) e consolidando parcerias com associações de catadores.

Objetivos do Desenvolvimento Sustentável

Trabalho decente e crescimento econômico

Indústria, Inovação e Infraestrutura

Redução das desigualdades

Cidades e comunidades sustentáveis

Consumo e produção responsáveis

Ação contra a mudança global do clima

Vida na água

Vida terrestre

Paz, justiça e instituições eficazes

Parcerias e meios de implementação

5. O debate necessário sobre natureza, economia e sobrevivência

A vegetação nativa de fortaleza: passado, presente e um desejo de futuro

Fortaleza é uma das maiores cidades brasileiras, sendo muito populosa e densamente povoada. Em meio à selva de concreto, as novas gerações talvez não tenham parado para pensar que Fortaleza, além das áreas urbanizadas, tem também ecossistemas naturais. São savanas, florestas, manguezais, dunas, rios e lagoas que passam muitas vezes despercebidos. É verdade que sobraram poucas áreas nativas, mas elas continuam existindo como patrimônio ambiental da cidade, abrigando espécies incríveis de nossa fauna e flora. São locais que atuam na redução das ilhas de calor, redução de enchentes, filtragem da poluição atmosférica e que tornam nossa cidade mais bonita, além de dar sustento à fauna e à flora.

Se você fizer uma trilha na ARIE Floresta do Curió, no Parque Estadual do Cocó, ou em outras áreas verdes nativas da cidade, vai se surpreender com a riqueza de plantas, fungos e animais que ainda habitam Fortaleza. A cidade tem uma rica diversidade de paisagens naturais, em grande parte perdida pela expansão urbana agressiva, que ocupou de modo inadequado muitos dos espaços naturais que poderiam ter sido incorporados à malha da cidade. O desmatamento da floresta do Aeroporto, em 2025, que eliminou uma das florestas nativas de maior porte de Fortaleza, é um exemplo de como não sabemos consorciar o desenvolvimento urbano com a gestão ambiental e conservação da biodiversidade. Infelizmente, hoje só restam 16% da superfície de Fortaleza com algum tipo de habitat natural ou seminatural (veja mapa abaixo) e apenas cerca de 10-11% da área de Fortaleza ainda tem algum tipo de cobertura florestal. Pouco sobrou de nossas florestas, campos nativos, dunas e restingas. Mas quais os tipos naturais de vegetação de Fortaleza? Vamos descrever um a um os principais

ecossistemas nativos de Fortaleza (ver figura abaixo).

Se andarmos desde a beira do mar até a parte sul de Fortaleza, passaremos pelo seguintes tipos de vegetação: campos e arbustais praianos, na beira do mar; ecossistemas de dunas, incluindo dunas móveis e fixas; vegetação dos tabuleiros costeiros e, ao sul, uma transição da mata de tabuleiros com a caatinga, próximo de Itaitinga e Maracanaú. Ao longo dos rios que cruzam Fortaleza vamos encontrar manguezais e matas ciliares, além de outros ecossistemas aquáticos e paludosos com vegetação aquática associada a lagoas, brejos e áreas alagadas. Para entender melhor, vamos descrever brevemente cada uma desses tipos de vegetação:

Campos e arbustais praianos (ou vegetação de restinga): Formam a primeira faixa de vegetação, logo após o limite das marés. São ambientes arenosos, próximos ao mar, onde o vento forte e a salinidade tornam a vida vegetal mais difícil. Por isso, nessa faixa inicial, predominam plantas rasteiras e ervas, que conseguem sobreviver próximo às praias. Conforme nos afastamos alguns metros da linha da praia, o ambiente se torna menos estressante e começam a surgir arbustos e pequenas árvores, formando os arbustais praianos. Os campos e arbustais praianos são o que chamamos de vegetação de restingas e são ecossistemas frágeis que ajudam a conter a erosão, servem de abrigo para fauna nativa e compõem parte importante do patrimônio ambiental de Fortaleza. Infelizmente, esses ambientes foram muito ocupados em Fortaleza, restando ainda áreas em bom estado de conservação na Sabiaguaba.

Vegetação de dunas móveis, semifixas e fixas: As dunas são montes de areia moldadas pelo vento. Nas dunas mais jovens (dunas móveis), praticamente não há vegetação. À medida que elas começam a se estabilizar, surgem as dunas semifixas e, depois, as dunas fixas, onde já aparecem ar-

bustos e até árvores de grande porte. Esses ecossistemas são fundamentais para abrigar fauna e flora nativas, estabilizar a areia, reduzir a erosão e proteger a linha de costa. São ecossistemas frágeis e essenciais para a conservação do litoral de Fortaleza. Infelizmente, na capital restam apenas alguns trechos bem preservados, principalmente ao longo do Parque do Cocó, na Praia do Futuro e na Sabiaguaba.

Vegetação dos tabuleiros costeiros (savanas e florestas de tabuleiro): Os tabuleiros costeiros ficam mais para dentro do continente, em áreas onde o solo é relativamente mais estável que nas dunas. Por isso, a vegetação tende a ser mais densa do que na faixa de praias e dunas, formando savanas (cerrados costeiros) e florestas de tabuleiro, com árvores de médio a grande porte. Por serem ambientes mais antigos e estáveis, os tabuleiros funcionam como importantes refúgios de fauna e flora nativos, ajudando a proteger o solo, regular o clima local e manter a biodiversidade de Fortaleza. As florestas de tabuleiro estão entre as maiores e mais densas florestas da cidade. Mesmo as últimas áreas florestadas ainda estão sob ameaça de desmatamento atualmente.

Caatinga e o Serrote do Ancuri (mata seca): Na região sul de Fortaleza, próximo de Itaitinga e Maracanaú, encontramos uma transição entre as matas costeiras de tabuleiros e a caatinga. A caatinga é uma vegetação que perde as folhas na estação seca, bem adaptada ao nosso clima cearense. É interessante que a caatinga e mata seca ocorrem ao redor do Serrote do Ancuri, que é o que sobrou de um antigo vulcão que já existiu há milhões de anos.

Manguezais: Os manguezais são florestas muito especiais, que se formam na transição entre o rio e o mar, em áreas que alagam diariamente com a oscilação das marés. São berçários naturais para a fauna marinha e local de repouso e alimentação de aves migratórias. Além disso, ajudam a proteger as margens dos rios, reduzir a erosão e filtrar parte dos poluentes que chegam à água. Eles também sustentam comunidades tradicionais que dependem da pesca artesanal. Os principais manguezais de

Fortaleza estão localizados nos estuários dos Rios Cocó, Ceará e Pacoti.

Matas ciliares: As matas ciliares são florestas que crescem às margens dos rios e das lagoas, acompanhando seus cursos e protegendo suas bordas. Essas matas ajudam a filtrar sedimentos e poluentes, reduzem a erosão, dão sombra e mantêm a qualidade da água, além de servirem como corredores naturais para a fauna. Em Fortaleza, as matas ciliares foram severamente desmatadas. Pequenas matas ciliares ainda ocorrem espalhadas por toda a cidade, mas sempre sob risco de desmatamento. São áreas que sofrem com queimadas e depósito de lixo, mas que, são fundamentais para proteger os rios, reduzir enchentes e servir como corredor ecológico para a fauna nativa da cidade.

Ecossistemas aquáticos e paludosos: Lagoas, brejos e áreas alagadas são ambientes onde a água se acumula de forma permanente ou apenas durante o período chuvoso. Neles ocorre uma vegetação formada por plantas aquáticas e espécies anfíbias adaptadas à variação do nível da água. Esses ecossistemas ajudam a armazenar água, reduzir enchentes, manter o lençol freático e abrigar grande diversidade de peixes, anfíbios, aves aquáticas, insetos e mamíferos. Em Fortaleza, lagoas e brejos foram historicamente poluídos, aterrados ou urbanizados. Precisamos trabalhar para proteger as áreas que ainda existem.

O patrimônio ambiental de Fortaleza é rico, mas pouco valorizado pelo poder público. Nossas últimas florestas estão sendo destruídas em 2025 e 2026 com muita brutalidade. Infelizmente há um abismo entre o discurso ambiental e uma real compreensão do valor da natureza. Cada área nativa remanescente, sejam dunas, restingas, florestas, savanas ou manguezais, deveria ser tratada como parte do patrimônio ambiental irreparável da cidade. Infelizmente, temos hoje apenas uma fração das lagoas e matas da cidade, e para nossa tristeza, ainda estamos destruindo áreas naturais em uma cidade que, desesperadamente, precisa de mais verde. Mas se mudarmos nossa perspectiva e trabalharmos por uma cidade melhor, há esperança de que poderemos entregar para nossos filhos uma Fortaleza melhor do que a que recebemos da geração anterior.

VIDEOCASTS

Debater, entender e conhecer o meio ambiente de Fortaleza

Saber a importância das árvores para uma cidade como Fortaleza. Conhecer as espécies que mais contribuem para a melhor qualidade de vida, principalmente considerando fatores climáticos. “As árvores liberam vapor de água resfriando a temperatura média debaixo das suas copas”, explica o professor Marcelo Freire Moro, do curso de Ciências Ambientais do Instituto de Ciências do Mar - Labomar da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Ele foi um dos participantes do videocast “Menos árvores, mais problemas: o que a redução da arborização urbana causa”, um dos oito videocasts realizados pelo projeto Verdejar Fortaleza. Foram horas de explicações, referências, citações e exemplos.

Especialistas de diferentes áreas debateram sobre a realidade do meio ambiente e as formas de fazê-lo ser cada dia mais sustentável. Educação, lixo, cidadania. Explicar, questionar, ponderar e colaborar com uma das discussões mais importantes da face da terra: a sobrevivência. Um chamamento feito por pessoas que pesquisam a temática e atuam nela, que mostram como cada um de nós pode mudar o futuro.

“A gente fala muito de mobilizar corações, mentes e pés pelo clima. Conscientizar as pessoas para que entendam o perigo que a gente está correndo, mas também para que entendam as ferramentas que tem para mudar essa realidade”, resumiu a ativista ambiental Katley Ellen, durante o videocast “Fortaleza e o clima: entendendo os impactos das mudanças climáticas no dia a dia”. Ela conta que o que a motivou a ser ativista foram a injustiça e os impactos desiguais da crise que se apresenta.

A construção do senso crítico, capaz de fazer com que cidadãos e políticos tomem atitudes concretas, é feita ainda na escola. É a sustentabilidade ambiental perpassando em meio à matemática e às ciências. “Precisamos valorizar a percepção que a gente aprende com os povos originários, que mantêm essa relação direta com a natureza, para a gente se conectar também”, pondera o professor Roberto Feitosa, pesquisador de História e Educação e doutor em Ciências Biológicas.

Ele participou do videocast “Educação que transforma: o papel da escola na preservação ambiental” e contou como conseguiu mobilizar a escola e a comunidade escolar para implementar uma horta. Hoje, faz plantação e doação de plantas medicinais, frutíferas e roseiras.

Perceber os animais que fazem morada na Cidade ainda é um desafio para muitos também moradores, humanos. O que podemos fazer e o que devemos conhecer para convivermos de forma empática com a fauna urbana são alguns dos pontos discutidos durante o videocast “Animais silvestres em Fortaleza: convivendo em harmonia com a natureza urbana”.

“Dá-se muita importância à mobilidade urbana e à moradia, mas a gente tem que preservar também as áreas verdes e as unidades de conservação que estão ao redor da cidade. Só conservando essas áreas, a gente vai ter bichos para ver, natureza e trilhas”, afirma o biólogo Bruno Araújo, destacando que “Fortaleza tem uma biodiversidade incrível”.

Ele está certo. Da floresta, da duna, dos parques, do cerrado, dos rios, dos mares e dos povos que neles habitam, deles se sustentam e sua sustentabilidade promove. Territórios costeiros que viram sua

dinâmica econômica e social ser construída com o que provém dos recursos naturais marinhos.

“Os povos do mar têm historicamente um movimento de luta muito intenso, dos pescadores, dos marisqueiros, das marisqueiras e dos jangadeiros aqui do Ceará”, destaca a socióloga Angela Assis, doutoranda em Políticas Públicas. Ela defende mais conhecimento dos temas ligados à sustentabilidade e é firme ao ressaltar que é preciso conhecer as comunidades costeiras, principalmente as mais vulneráveis.

“Alguns pescadores não querem ir para o mar, pelas condições precárias. Uma atividade milenar, mas que as condições para exercê-la continuam precárias. Isso impacta na vida dessas comunidades, mas também no contexto da zona costeira, que vai sofrer com a ausência ou a queda na qualidade do pescado”, detalha Angela.

Também um dos maiores desafios para uma metrópole como Fortaleza, o destino dos resíduos sólidos esteve entre as discussões do Verdejar Fortaleza. O videocast “Lixo na cidade: para onde vão os resíduos e como eles afetam o meio ambiente” mostrou

que a separação do que produzimos é imprescindível e básico. Infelizmente, ainda há um longo caminho.

“Geramos os resíduos e acondicionamos todo misturado, colocamos na lixeira do prédio ou da casa, o caminhão passa, coleta e transporta. Depois, vai direto para um aterro sanitário. Sorte termos um aterro sanitário na Região Metropolitana de Fortaleza; na maioria dos municípios cearenses, são lixões”, explica o mestre e doutor em Saneamento Ambiental Humberto de Carvalho Júnior.

Outros dois videocasts foram realizados: “Economia circular: como reusar, ressignificar e reciclar para mudar o mundo”, que discutiu como o modo de produção e consumo pode ser mais sustentável; e “Cidadãos verdes: como cada um pode preservar o meio”, que chama à prática cotidiana de ações que possam impactar na preservação do meio ambiente.

“A importância se dá na esperança que a gente transmite para as outras pessoas de que ainda é possível modificar essa realidade. A gente fala muito de mobilizar corações, mentes e pés pelo clima”, resume a ativista Katley Ellen.

OS POVOS DO MAR E A PRESERVAÇÃO DOS OCEANOS

Comunidades que mantêm um contexto direto com o oceano, pela cultura, pela economia ou pela sobrevivência. Há séculos, essas comunidades constroem modos de vida, tradições e saberes que dialogam com as águas. Para essas pessoas, o mar é extensão da casa, é alimento na mesa todos os dias, é saber passado de geração em geração.

Territórios costeiros são história, trazem neles anos de desenvolvimento urbano, pulsar econômico e de entretenimento. A cultura oceânica precisa ser colocada em prática de diferentes formas, ressaltando a importância de uma economia mais sustentável aos recursos naturais marinhos, visando à disponibilidade para futuras gerações.

No videocast Verdejar “Os povos do mar e a preservação dos oceanos: aprendizados para o futuro”, a socióloga e doutoranda em Políticas Públicas Angela Assis destaca que as pesquisas de campo mostram como o mar é parte da vida de muitas pessoas, o que contrasta com o distanciamento que a humanidade tem criado do meio ambiente e dos temas ligados à sustentabilidade.

“A gente não sabe de onde vem o peixe que a gente come, como ele foi pescado, onde… a cultura oceânica, dentro dessa perspectiva dos povos do mar, traz essa dimensão de proximidade com o meio. Meio ambiente não é a Floresta Amazônica somente, não são as geleiras que estão distantes de nós. É a Praia do Mucuripe, o Parque do Cocó, o rio Ceará, a rua que a gente vive, a beira da praia”, detalha.

O ambiente marinho é rico e demanda atenção à sua exploração, que exige planejamento inclusivo, com a participação dos povos do mar em decisões econômicas e de grande impacto ambiental. As políticas públicas são parte desse caminho

sustentável, com o papel de promover desenvolvimento que respeite as dimensões física, biótica e social do ambiente marinho.

Quando falamos em povos do mar, de quem estamos falando exatamente?

Rômulo Soares - Quando você fala em povos do mar, você fala de pessoas de comunidades que têm uma conexão simbiótica com o espaço marítimo. Então, estamos falando de pescadores, marisqueiros, pessoas que dependem desse ambiente. Olhando de ponto mais amplo, povos do mar seriam - ou devem ser - quem têm conexão, e a cultura oceânica conversa muito sobre isso, como conectar pessoas ao oceano, que é grande parte da Terra e onde moram as pessoas. Onde moram as pessoas, onde as grandes civilizações vão se estabelecer.

Povos do mar são todos que dependem desse recurso, seja para se alimentar, para desenvolver sua atividade econômica, para lazer… A grande questão é saber quais são os mais vulneráveis. E os que têm uma conexão mais tradicional com o oceano acabam sendo os mais vulneráveis dentro do desenvolvimento desse espaço, que todos competem.

Ângela Assis - Quando falamos em termos de políticas públicas, precisamos de uma definição, talvez mais específica, e aqui eu trago uma crítica, que é em relação a como lidamos com essas comunidades costeiras. Dificilmente temos dados consistentes que caracterizem essas populações, principalmente essas que estão em situação de maior vulnerabilidade.

Hoje a gente tem mecanismos, como registro profissional de pescador, alguns censos que vão impactar, que têm caracterizado algumas zonas. Mas

dificilmente a gente consegue de fato trazer essa realidade, se aproximar para conhecê-la, sobre as condições socioeconômicas dessa população.

Em nome da sustentabilidade, a exploração de energias renováveis acaba impactando a vida de comunidades costeiras. Como elas têm sido representadas?

Ângela Assis - Os povos do mar têm historicamente um movimento de luta muito intenso, dos pescadores, dos marisqueiros, das marisqueiras, dos jangadeiros aqui do Ceará. Estamos falando da terra do Dragão do Mar, que vem de séculos de lutas de trabalhadores em busca de melhores condições de vida.

Muito se fala em dar voz a essas comunidades, em dar voz a essas associações, mas na verdade essas vozes já existem. Elas já estão ecoando há muito tempo, só que elas não são ouvidas.

Quando a gente fala dessa disputa de poder com grandes empreendimentos - e eu destaco aqui o papel do Estado como mediador -, não se pode ignorar essas demandas, que são de um grupo muito significativo. Existem organizações, associações, as colônias de pesca, a Federação de Pesca, a Pastoral dos Pescadores. Você vê que não são só movimentos políticos.

Como a economia azul se diferencia? De que forma ela pode gerar um crescimento sustentável?

Rômulo Soares - A proposta que se dá para a economia azul é que eu não posso usar o recurso natural marinho de forma que eu consiga perceber o meio físico, socioeconômico e biótico. Que eu possa usar de uma forma que assegure esse recursos para as próximas gerações, que não seja esgotado. E quando se fala de cultura oceânica, fala-se em pertencimento.

Para conferir o videocast completo, aponte a câmera do celular para este QR Code.

LIXO NA CIDADE: PARA ONDE VÃO OS RESÍDUOS E COMO

ELES AFETAM O MEIO AMBIENTE

Agestão dos resíduos sólidos é um desafio em todas as cidades. Saber de onde vem e para onde vai o que consumimos, quem transporta, para qual local, o que é feito lá… E principalmente, como cada um lida com o lixo que produz e como o poder público atua na prestação deste serviço essencial.

Durante o videocast Verdejar “Lixo na Cidade: Para onde vão os resíduos e como eles afetam o meio ambiente”, o sócio-fundador da Investidora IN3 Capital, Haroldo Rodrigues, e o mestre e doutor em Saneamento Ambiental Humberto de Carvalho Júnior falam sobre a conscientização ambiental em Fortaleza e como poderes públicos e privados podem atuar.

Separação de resíduos e reciclagem são pontos importantes, que mostram a necessidade de mudança na forma como são feitos o descarte e a coleta de lixo em uma cidade turística e consumidora como a Capital. De acordo com Humberto, dados da concessionária que faz a coleta domiciliar em Fortaleza somam cerca de 118 mil toneladas de resíduos que chegam ao aterro sanitário, na Região Metropolitana. A estimativa é de que cada habitante produza 1,4 kg de resíduos por dia. Desses, são reciclados apenas de 4% a 5%.

Ele cita exemplos no Ceará em que mobilizações sociais e do poder público na forma de coleta, com destaque aos resíduos orgânicos e úmidos, apresentam bons resultados. “Como diminuir o consumo? Precisamos repensar esses dois moldes: modificar o meu modo de consumo e a forma como eu separo o meu lixo”, detalhou Haroldo.

Para onde vai o nosso lixo depois que ele é coletado na porta de casa?

Humberto de Carvalho - Existem duas formas: a rota convencional, que a gente chama de rota tecnológica, que é uma rota sustentável, mas infelizmente a gente faz a rota não convencional, linear. Geramos os resíduos e acondicionamos todo misturado, colocamos na lixeira do prédio ou da casa, o caminhão passa, coleta e transporta. Depois, vai direto para um aterro sanitário. Sorte termos um aterro sanitário na Região Metropolitana de Fortaleza; na maioria dos municípios cearenses, são lixões.

A outra maneira que nós teríamos que fazer era segregar, separar o resíduo pelo menos em três partes - o seco, o úmido e o rejeito. O seco é o reciclado, que é inorgânico; e o orgânico seria o úmido. Se pudéssemos fazer essa separação - porque é um ato que poderíamos fazer todo dia, mesmo não tendo a coleta seletiva na rua e catador -, ele conseguiria distinguir, pelo saco, quais produtos são reciclados. Precisamos pelo menos dessa lógica de separar em três partes.

Qual é o potencial da economia dos resíduos sólidos?

Haroldo Rodrigues - Existe uma máxima na inovação que diz que quanto maior a assimetria, a desigualdade, o problema, maior a janela de oportunidade para negócios. A questão do resíduo é uma agenda econômica, e isso precisa ser colocado na mesa de forma muito aberta, destacando a questão ambiental, da emissão dos gases

de efeito estufa. Isso precisa ser compreendido porque, senão, a gente não vai virar essa chave.

Como eu sou um inovador na essência, acredito muito no mercado disruptivo para ter um rompimento nesse modelo, porque essa conta não vai fechar. E isso é uma enorme oportunidade para a economia circular (que tem como ideia central manter o máximo de tempo possível um produto ou um material na cadeia produtiva), feita com muita ousadia e criatividade.

O que deve ser prioridade entre as ações?

Haroldo Rodrigues - O ponto principal para a

gente aprofundar é que modelo devemos introduzir na nossa sociedade, nesse ecossistema, nesse território de relação de pessoas com o ambiente, para que esse quadro seja revertido. Porque o modelo linear está esgotado, no limite. O aterro tem uma vida útil.

De que adianta a gente chegar a Marte se o aterro está como está? De que adianta pensar em inteligência artificial, vida do algoritmo se a gente usa um computador, mas está sujando os pés de resíduo, de lixo?

Para conferir o videocast completo, aponte a câmera do celular para este QR Code.

EDUCAÇÃO QUE TRANSFORMA: O PAPEL DA ESCOLA NA PRESERVAÇÃO AMBIENTAL

Oimportante papel da escola na preservação ambiental e como a educação pode ser motor de transformação. Formar cidadãos conscientes, que tenham uma maior conexão com o ambiente natural e sejam mais responsáveis com as consequências da crise climática. Multiplicar iniciativas transformadoras é um dos papéis do chão da sala de aula. O videocast 3 do Verdejar “Educação que transforma: O papel da escola na preservação ambiental” reuniu os especialistas Francisco Robson Alves, professor e pesquisador de História e Educação; e Roberto Feitosa, doutor em Ciências Biológicas. É na escola onde nascem a curiosidade, o senso crítico e a noção de pertencimento ao mundo. Por isso, a pauta da sustentabilidade ambiental precisa ser transversal, perpassando as disciplinas.

A escola, por ser um ambiente de experiência, tem a capacidade de colocar conteúdos críticos, pensar politicamente os problemas que nós estamos vivendo. “A escola tem a capacidade de criar a reconexão com o natural. Muitas vezes, os alunos estão imersos em áreas urbanizadas e não conhecem a vida no campo. Nós estudamos um livro sobre agrotóxicos e eles não pensavam nisso, em quanto de agrotóxicos consumiam. E aí pensamos nos efeitos no corpo, no planeta, ao nosso redor”, exemplificou Robson.

Como essa transversalidade do tema meio ambiente pode acontecer na escola?

Francisco Robson - Na escola em que eu atuo, no bairro Siqueira, temos um exemplo disso. Eu sou um professor de História que, junto de um professor de Geografia e Sociologia, conduzimos o projeto da horta didática. E contamos com a participação de outros professores. Só assim é possível, com a escola integrada, se mobilizando. E isso significa ajustar horários, perspectivas, disciplinas,

integrar professores. Para ter um efeito transformador, é preciso integrar a comunidade escolar.

Temos sorte porque a escola é grande e resgatamos o projeto da horta com uma estrutura mínima, com canteiros. Aí, fomos mobilizar ideias e pessoas que poderiam contribuir. Hoje fazemos plantação e doação de mudas para a comunidade, eventos de doação, temos plantas medicinais, frutíferas, roseiras, tudo produzido pelos estudantes.

Como a gente multiplica as iniciativas que envolvem escolas e universidades, tanto em relação à formação de professores como na execução de pesquisas e atividades?

Roberto Feitosa - Com a sensibilização do poder público, de dar um aporte maior para que as instituições desenvolvam projetos, mas também em formação de pessoal, e dentro temos a formação de professores. Nós temos na universidade projeto de alunos que recebem uma bolsa e desenvolvem projetos nas escolas, já entrando em contato com aquele trabalho de forma mais livre, para quando ele for para a sala de aula, já tenha mais conhecimento.

Francisco Robson - Precisamos de aporte, de investimento na área. É possível reforçarmos projetos já existentes e iniciar novos, mesmo em lugares com menos espaços. Se não tem espaço para horta, tem para a gente fazer um debate qualificado sobre o momento em que nós estamos e criar atividades extra-escola.

E como a escola pode atrair a comunidade e a família dos alunos para essas iniciativas?

Francisco Robson - É muito difícil trazer os pais para dentro da escola, mesmo sendo definidor. Vejo que, com a realização de eventos nas escolas, recebo os pais para fazer oficinas e conversas,

o que fazemos com os estudantes também pode ser feito com os pais e a comunidade. É um de safio. E precisamos de projetos que mudem isso, encarando esses ambientes como fundamentais para educação ambiental e não só projetar, mas colocar em prática e ver o que está sendo de fato.

Roberto Feitosa - Cabe também às escolas mu dar o que se faz hoje em algumas escolas de for mação de professores, que prezam pelo conteúdo. E deixa de valorizar essa percepção que a gente aprende com os povos originários, que mantêm essa relação direta com a natureza, para a gente se conectar também.

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MENOS ÁRVORES, MAIS

PROBLEMAS: O QUE A REDUÇÃO DA ARBORIZAÇÃO URBANA CAUSA

Aredução da arborização urbana impacta diretamente o bem-estar, o clima, a saúde e até a economia. Qual é a importância das árvores nas cidades? Quais são as funções das áreas verdes nativas remanescentes e implantadas? Quais são suas diferenças? E sobre as espécies exóticas invasoras, como o nim indiano? Fortaleza precisa de políticas públicas, técnicas e vontade para ser uma cidade cada vez mais sustentável.

As questões foram discutidas, durante o videocast Verdejar “Menos árvores, mais problemas: O que a redução da arborização urbana causa”, pelo ambientalista e um dos fundadores do Movimento Pró-Árvore, Leonardo Jales, e o professor Marcelo Freire Moro, do curso de Ciências Ambientais do Instituto de Ciências do Mar - Labomar da Universidade Federal do Ceará (UFC).

“As áreas verdes nativas remanescentes são fragmentos de vegetação que sobreviveram ao crescimento da cidade. Essas são as mais importantes, porque elas prestam serviços ecossistêmicos fundamentais e são os locais de sobrevivência da biodiversidade nativa em maior concentração”, explica o professor. Ele cita como exemplos o Parque do Cocó e as Áreas de Relevante Interesse Ecológico (Arie), como as Dunas do Cocó, a Arie Abreu Matos e a Arie do Cambeba.

Um patrimônio paisagístico que abriga flora e fauna diversificada, como tatu, soim, raposa, guaxinim, iguana e tejo, além de diferentes espécies de insetos e borboletas.

Nas áreas que já estão urbanizadas, onde já há estradas, casas e prédios, pode haver a arborização de modo implantado. São árvores, plantas, trepadeiras, trazidas para um local por meio de um planejamento. “Essas áreas também são importantes; elas reduzem a temperatura média da Cidade. São

as chamadas ilhas de calor. Sem o verde implantado, a nossa Cidade seria ainda mais quente. As árvores não são só sombra, como um teto de concreto”, detalha Marcelo.

Por que a arborização é importante para diminuir a temperatura?

Marcelo Freire - As árvores absorvem uma parte da radiação solar para fazer fotossíntese, refletem de volta a outra parte da radiação solar e evapotranspiram. Ou seja, as árvores liberam vapor de água resfriando a temperatura média debaixo das suas copas. Se a gente cobrisse a Cidade de tetos de concreto, a sombra seria quente, desagradável.

O que são as árvores exóticas e o que elas causam à Cidade?

Leonardo Jales - Elas foram trazidas de fora daquele ecossistema ou de fora mesmo do País. Em Fortaleza, o maior número de árvores plantadas é do nim indiano, que, apesar de ter esse nome, não é da Índia. É da Indochina. Uma árvore exótica invasora, que se propaga em meios naturais, independentemente da intervenção humana.

Não é preciso que o ser humano vá lá plantá-la. Ela nasce por meio de pássaros e morcegos e consegue se espalhar por áreas nativas, proliferar e dominar. O problema disso é que as áreas nativas vão ser dominadas por uma única espécie invasora, em detrimento de uma diversidade imensa de centenas de espécies nativas. Animais irão morrer por causa de uma única árvore. O dano ambiental é terrível.

Qual é a importância da atuação de profissionais técnicos na área de biodiversidade e arborização?

Marcelo Freire - A equipe técnica faz a gestão da arborização e das áreas verdes da Cidade. Parte do

papel é selecionar quais espécies vão ser plantadas e onde, fazer o manejo das áreas verdes, identificar as espécies invasoras que crescem nas áreas nati vas. Ter, de forma fixa, biólogo, engenheiro florestal, engenheiros agrônomos, cientista ambiental…

Que atitudes os cidadãos podem ter para dei xar a cidade mais arborizada?

Leonardo Jaleseducar, entrar no Verdejar e aprender mais. Um dos grandes empecilhos para a arborização urbana é o preconceito. As pessoas associam as áreas verdes ao aumento da violência, mesmo quando diversos estudos ao longo de todo o mundo provam o con trário; mostram que, quando você corta a árvore, a rua fica quente, hostil, as pessoas não ocupam.

Marcelo Freireque equivalem a uma cirurgia no ser humano. Se você faz com um profissional adequado, só vai haver a retirada de um órgão se for estritamente necessário. Com as árvores, a gente faz isso com desconhecimento técnico sobre como funcionam, faz com que as pessoas sempre achem que a ár vore precisa ser podada. Um engenheiro florestal ou um agrônomo saberá o que fazer exatamente, se é só um galho mais adoecido, por exemplo, ou caso de poda. E muitas vezes, as pessoas acabam matando a árvore sem saber.

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ANIMAIS SILVESTRES EM FORTALEZA:

CONVIVENDO EM HARMONIA COM A NATUREZA URBANA

Aves coloridas, pequenos répteis e outros animais silvestres dividem a cidade de Fortaleza com os humanos, mesmo em meio a um ambiente hostil para a diversidade de espécies. A convivência entre a natureza e a vida urbana desequilibrada causa consequências profundas.

No videocast “Animais silvestres em Fortaleza: Convivendo em harmonia com a natureza urbana”, o fotógrafo de natureza Lucas Dib e o biólogo Bruno Araújo discutem os impactos da desconexão entre os seres humanos e os animais.

Apesar da resistência de inúmeras espécies na Capital, é fato que a perda de diversidade é acentuada. Isso se deve a uma urbanização desordenada, segundo os especialistas, que soterrou rios e lagoas, além de desmatar áreas verdes.

Esse afastamento da natureza causa ainda o que é chamado de “cegueira natural”, quando as pessoas não conhecem outras espécies e não procuram conhecimento sobre elas. Uma das consequências é a falta de importância dada a elas, o que gera pouca empatia para lutar pela preservação.

Para combater essa indiferença e apresentar as espécies silvestres de forma respeitosa, Lucas e Bruno contam sobre a experiência de criar projetos de observação de aves na cidade. Os eventos reúnem dezenas de interessados em aprender e conhecer mais sobre os animais.

Como vocês enxergam a presença de animais silvestres na cidade de Fortaleza?

Lucas Dib - Eu vejo Fortaleza com um problema muito grande na questão de conservação de ambientes, de florestas, de matas ainda existentes. Um exemplo é o Parque das Dunas da Sabiaguaba, uma área que foi considerada uma unidade de con-

servação e que sofre vários problemas com carros de offroad que fazem rally dentro da área. Ando muito por lá, também outros amigos fotógrafos e ambientalistas, e a gente vê muito bicho morto atropelado. Acho que Fortaleza é uma cidade que tenta se preocupar, mas que ainda peca um pouco nesse cuidado com a vida silvestre.

Bruno Araújo - Dá-se muita importância à mobilidade urbana, à moradia, mas a gente tem que preservar também as áreas verdes e as unidades de conservação que estão ao redor da cidade. Só conservando essas áreas, a gente vai ter bichos para ver, natureza, trilhas. Mas a gente tem que dar, não sei se prioridade, mas respeito às áreas verdes que a gente tem. Você ter a diversidade que Fortaleza tem hoje é incrível, acho que é uma resistência ambiental absurda dos animais.

Não há um ponto de equilíbrio em que a gente conviva mais pacificamente com a natureza?

Lucas Dib - A gente herda da Europa, do colonialismo que a gente sofreu, o utilitarismo. O que é útil, a cidade quer. O que não é útil, entre aspas, a cidade meio que abole. Hoje a gente tem uma quantidade absurda de nim indiano, que é uma árvore exótica que veio para cá para fazer copa, sendo que a gente tem n árvores na caatinga, nosso bioma, que faz o mesmo papel. Porque, na teoria, o nim seria repelente de mosquitos, e a gente estava passando por um problema com mosquitos da dengue. Não aconteceu. Se a coisa não tiver uma utilidade, meio que ela deixa de existir para a gente.

Bruno Araújo - É absurdo pensar como era essa cidade séculos atrás, antes da urbanização. Fortaleza teve uma urbanização totalmente desor-

denada, assim como todas as grandes capitais do País. Fortaleza era cheia de rios, lagoas, matas frondosas e tudo isso está soterrado pelo asfalto, sobrando pequenas manchas do Cocó, por exemplo. É um assunto tão complexo que vai desde o ordenamento urbano até a cultura.

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ECONOMIA CIRCULAR: COMO REUSAR,

RESSIGNIFICAR E RECICLAR PARA MUDAR O MUNDO

Repensar a relação com o modo que utilizamos os recursos naturais é necessário para lidar com a crise climática. No videocast “Economia circular: Como reusar, ressignificar e reciclar para mudar o mundo”, os entrevistados discutem a aplicabilidade e os benefícios desse modelo econômico.

Vera Saboia, arquiteta e urbanista, e Lucas Machado, especialista em ESG (da sigla em inglês Ambiental, Social e Governança) são os convidados do episódio. Eles definem a economia circular como um modo de produzir pensando em otimizar a vida útil dos insumos na cadeia produtiva.

No contexto da economia linear, o modelo econômico vigente, o lixo e o desperdício ainda são uma realidade. Na indústria da confecção, 20% do tecido vão direto para o lixo durante o corte. Na alimentícia, 30% de todo o alimento produzido são desperdiçados.

Há desafios estruturais para a economia circular ser implementada em larga escala no Brasil. Por exemplo, as indústrias ainda têm pouco incentivo para reutilizar matéria-prima reciclada. O Plano Nacional de Economia Circular, criado em 2025, deve aliar cinco pilares para melhorar a aplicação do modelo, incluindo políticas públicas, educação e incentivos fiscais.

O que é a economia circular?

Vera Saboia - A economia circular é uma opção que surgiu em contraponto à economia linear, que é o que a gente vive hoje baseada na extração de recursos naturais sem limite. Considera-se que os recursos naturais são ilimitados, e a gente já sabe que não são. Costumo dizer que, no modelo em que a gente vive hoje, tudo vira lixo. A economia

circular é uma nova forma de produzir e consumir, repensando todo esse processo. Envolve desde pensar novos produtos que possam ser reaproveitados, que possam ser reciclados; e a ideia da economia circular é de que a gente mantenha o máximo de tempo possível um produto ou um material na cadeia produtiva.

Lucas Machado - Um material que circula muito no nosso meio e a gente sempre traz como exemplo são as garrafas PET, que, via de regra, trazem três tipos de plástico numa única embalagem: a garrafa de PET, o rótulo de PVC e a tampinha de PP. Cada um desses tipos de plástico precisa ser triado e ter uma destinação adequada. É a essência de um erro de design que foi pensado dessa forma por questões de marketing, para experiência de consumo, decisões estratégicas da época, mas que devem ser repensadas para essa nova necessidade que o mundo está apresentando de uma economia mais circular.

Vocês acreditam que o mundo já entendeu a importância de adotar o modelo circular ou ainda estamos presos a uma lógica descartável?

Lucas Machado - A gente teve avanços significativos em relação ao entendimento da importância da sustentabilidade e os avanços que pessoas físicas e jurídicas estão fazendo em relação à implementação disso. Mas, sem dúvidas, ainda há muito o que avançar e eu acredito que isso passa muito por legislação. Hoje o Brasil tem a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que as empresas têm por obrigatoriedade gerenciar os resíduos gerados, e a gente está avançando no sentido de

responsabilizar as empresas também por aquilo que elas colocam no mercado. As pessoas se mostram cada vez mais sensíveis, porque, no final das contas, estão sentindo os impactos climáticos na pele. Mas, quando a gente vai para um ambiente corporativo, passa muito por legislação, por incentivos reais, incentivos fiscais, e eu entendo que o poder público tem uma uma função muito importante para impor as regras do jogo e direcionar o mercado para onde ele deve ir no tocante a essa questão ambiental.

Por que a economia circular é tão importante para lidar com a catástrofe climática?

Vera Saboia - A gente precisa realmente diminuir a extração de recursos naturais, que muitas empresas ainda consideram ilimitados e a gente já sabe que não são, e a gente precisa reinserir todo esse material na cadeia produtiva. Além disso, há as causas sociais. A gente tem de pensar numa nova

economia em que possa introduzir mais pessoas, distribuir mais, gerar novos empregos. Empregos de conserto, de reciclabilidade, de logística reversa do próprio design.

Lucas Machado - Essa discussão vem ganhando cada vez mais força porque o custo que a gente vai ter de mitigar ou de criar estruturas de adaptação é bem menor do que o custo de reparar o que pode vir a acontecer com o meio ambiente em virtude de eventos climáticos extremos. A gente tem um caso muito recente com o que aconteceu no Rio Grande do Sul, que teve um impacto muito grande na vida das pessoas e na economia. O custo para adequar todo o reparo, tanto social quanto financeiro, que esse evento extremo trouxe é muito grande.

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CIDADÃOS VERDES: COMO CADA UM

PODE PRESERVAR O MEIO

Separar o lixo, escolher a bicicleta em vez do carro e comer menos carne são algumas das ações que um “cidadão verde” pode ter para impactar individualmente o futuro do planeta. No entanto, o papel de transformação na preservação do meio ambiente pode ir além.

No videocast Verdejar “Cidadãos verdes: Como cada um pode preservar o meio”, Fátima Limaverde, educadora e ambientalista, e Rebeca Wermont, especialista em lixo zero, discutem como a educação, o poder do voto e a consciência coletiva são necessárias para atingir os objetivos de um planeta mais sustentável.

Assumir compromissos possíveis e consistentes, entendendo que cada gesto conta (separar lixo, consumir conscientemente e repensar hábitos) e que a força dessas ações cresce quando feitas em conjunto é parte fundamental de escolher um caminho mais verde para a sociedade.

Nesse contexto, o papel das empresas e da educação é discutido pelas entrevistadas, que defendem mudanças estruturais que vão desde o chão da sala de aula até os mais altos níveis do mercado financeiro.

O que significa na prática ser um cidadão verde hoje?

Fátima Limaverde - Eu aprendi que o ser humano está totalmente ligado e é inseparável da natureza. Quando nós nos vemos como a própria natureza, pois em nós estão todos os recursos da Terra, como não olhar para a Terra com respeito? Lembro que aprendi na escola que, na minha época, existiam os reinos: o reino mineral, o reino vegetal, o reino animal. A gente fazia uma reverência a esses reinos. Isso foi perdido, e o ser humano passou a ser aquele que vê a natureza como recurso econômico, onde ele pode explorar e tirar dali sem

nenhuma responsabilidade. A natureza passou a ser vista como um espaço de exploração para o enriquecimento e parou de ser vista como a nossa mãe, que a gente precisa reverenciar e cuidar. Porque é dela que nós tiramos toda a nossa vida. E isso se perdeu até mesmo na própria educação.

Pensando hoje nas pautas que norteiam as empresas, como o ESG, o que é ser ambientalmente correto quando por trás continua a ideia do enriquecimento?

Rebeca Wermont - O ESG é como se fosse a sustentabilidade dos negócios impulsionada pelo mercado financeiro. Hoje a gente tem três principais crises em evidência que ameaçam o mercado: mudanças climáticas, perda da biodiversidade e poluição plástica. Tudo isso traz um risco recorrente para os negócios. O mercado financeiro olhou e disse: “Se a gente não colocar os negócios para pensarem sobre isso, a gente vai criar uma fragilidade no mercado financeiro”. O que felizmente ou infelizmente acontece é que se moneti za muito a importância de cuidar dessa natureza, que é mantenedora das nossas vidas. Isso é uma linha muito tênue por causa do green washing, que é aquela linguagem verde que se prega, mas que não se executa de fato. Eu entendo que é importantíssimo um letramento mais profundo, ações mais rigorosas, legislações mais claras e in centivos diversos para que essas empresas olhem para isso com seriedade.

Quais são esses pequenos hábitos do dia a dia que farão uma diferença real no que a gente está falando aqui?

Rebeca Wermont - Todo mundo quer a fórmula de como a gente pratica realmente a sustentabilidade. Muito além de dizer que você pode separar o seu

resíduo, economizar água, energia, andar de bici cleta, eu acho que, enquanto comunidade, temos um poder irrevogável. Há três que eu considero os mais importantes. Primeiro, nosso poder de esco lha. Quem a gente está consumindo? Para quem estamos dando nosso dinheiro? O que estão finan ciando com o dinheiro que eu estou empregando? Segundo, nosso poder de voto. Para quem eu estou dando o direito de me representar? Essa pessoa está representando as pautas em que eu acredito? Está lutando de verdade pela melhoria da qualida de de vida dos cidadãos? Nosso outro poder é o alcance de voz. Costumo dizer que a ignorância é a mãe do comodismo. O que a gente sabe aqui não é mais do que todo mundo pode saber, desde que esteja desperto e interessado em aprender.

FORTALEZA E O CLIMA: ENTENDENDO OS

IMPACTOS DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Ovideocast “Fortaleza e o clima: Entendendo os impactos das mudanças climáticas no dia a dia” começa com um dado alarmante: 34% dos brasileiros desconhecem o que são mudanças climáticas, de acordo com o Instituto Datafolha. Nas classes D e E, mais da metade se diz desinformada sobre o tema.

Alexandre Araújo, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e PhD em Ciências Atmosféricas, e a ativista Katley Ellen abordam a urgência de discutir a crise que aumenta temperaturas, afeta o nível do mar, causa eventos extremos frequentes, como secas e enchentes, e põe em risco comunidades tradicionais e os mais socialmente vulneráveis. Os convidados discutem como a injustiça climática faz com que as piores consequências da crise recaiam sobre as comunidades que menos contribuem para a perpetuação dela, agravando ainda mais as desigualdades sociais.

Eles também clamam pela ação, orientando que o sentimento de impotência e a ansiedade climática sejam combatidos com informação de qualidade e mobilização consciente - a adoção de medidas práticas de mitigação dos efeitos, como projetos que visam aumentar a resiliência das cidades com mais áreas verdes, mobilidade acessível e infraestrutura.

O que significa mudanças climáticas?

Alexandre Araújo - O termo mudança climática é bastante genérico. Na verdade, ele se aplica a qualquer alteração no comportamento geral do sistema climático terrestre, e isso pode ter múltiplas causas. O que acontece, no entanto, é que nenhuma causa natural explica as alterações observadas no clima hoje. E esse léxico “mudança”, que é um léxico neutro - mudança pode ser para melhor ou para pior -, tenho usado pouco.Tenho usado muito mais crise

climática, emergência climática. Hoje é muito nítido: nós temos um planeta com um clima mudando drasticamente, com uma velocidade muito elevada em comparação com transformações anteriores, com a história geológica da própria Terra. Essas alterações, não há mais sombra de dúvida, estão associadas às atividades humanas, à queima de combustíveis fósseis, ao desmatamento, às emissões de metano pela pecuária e várias outras. Eu lamento que a gente ainda tenha mais de 1/3 da sociedade brasileira sem o mínimo de base de informação sobre isso, porque nós precisamos muito da mobilização e da conscientização da sociedade para fazer as coisas mudarem.

Dentro desse contexto urgente e catastrófico, qual é a importância da mobilização social e do ativismo social?

Katley Ellen - A importância se dá na esperança que a gente transmite para as outras pessoas de que ainda é possível modificar essa realidade. A gente fala muito de mobilizar corações, mentes e pés pelo clima. Conscientizar as pessoas para que entendam o perigo que a gente está correndo, mas também para que entendam as ferramentas que tem para mudar essa realidade. O que me trouxe para o ativismo climático foi a questão do agravamento das desigualdades sociais que vem com a crise climática. Eu moro na periferia, então eu sei que a gente sente a crise climática de formas diferentes. Apesar de estar todo mundo passando por isso, as consequências são mais intensificadas para as pessoas que contribuíram menos do que para os principais causadores da crise.

Como a gente pode caminhar para a frente se quem “manda” e é o principal agente causador

não tem a mínima intenção de retroceder, sa bendo também que em diversos governos essa pauta ainda parece não ser urgente? Como a gente resolve essa equação?

Alexandre - O que você está trazendo é a questão decisiva que envolve o conceito de justiça climáti ca. Há uma completa inversão entre responsabili dades e impactos. Quando a gente fala de emis sões humanas, nós somos muito diferentes. Um habitante médio dos Estados Unidos emite nada menos do que 50 vezes mais que o habitante mé dio de um país como Moçambique. A gente precisa de mudanças societárias. Os lobbys corporativos a favor dos bilionários têm sido o principal obstá culo para a ação climática. Desde os anos 1970 as grandes corporações petroquímicas, como Exon e Shell, já sabiam dos riscos da crise climática por vir, envolvendo as perdas de safra agrícola, ondas de calor, elevação do nível dos oceanos, perda das geleiras etc. No entanto, escolheram o caminho de financiar o negacionismo.

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Conteúdo completo CURSO

O curso Educação Ambiental para um Presente Sustentável, com carga de 72 horas, gratuito e na modalidade Ensino a Distância (EAD), foi composto por seis módulos, com fascículos digitais, videoaulas e podcasts. Os debates entre especialistas de diferentes áreas de atuação contemplaram temas como mudanças climáticas, a importância de uma maior proximidade com a natureza, os diferentes modos de viver e a consciência de que somos agentes ambientais do planeta.

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