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JUVENTUDE É TRAVESSIA 10

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RIMAS PERIFÉRICAS

NO CONJUNTO ESPERANÇA, JOVENS OCUPAM O ESPAÇO PÚBLICO COM BATALHAS QUE MISTURAM ARTE, DENÚNCIA E PERTENCIMENTO

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DANCYS

NO MONDUBIM, PROJETO AMPLIA ACESSO E TRANSFORMA TALENTO EM OPORTUNIDADE

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CIA DE DANÇA MAINARA ALBUQUERQUE NA MARAPONGA, COMPANHIA FORMA TALENTOS E LEVA JOVENS BAILARINOS DO CEARÁ PARA O MUNDO

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RESPEITÁVEL PÚBLICO ESPETÁCULO CONVIDA CRIANÇAS E FAMÍLIAS A IMAGINAR, CRIAR E VIVER HISTÓRIAS LONGE DAS TELAS

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EDITORIAL

No décimo caderno do projeto Juventude é Travessia , a juventude não pede licença — ela ocupa. Ocupa a praça, o palco, o corpo, a palavra. No Conjunto Esperança, o microfone vira ferramenta de existência. No Mondubim, a dança desenha futuros onde antes havia dúvida. Na Maraponga, passos ensaiados atravessam fronteiras. No Canindezinho, o brincar reaprende a ser revolução.

Aqui, arte não é ornamento. É rota de fuga e, ao mesmo tempo, ponto de chegada.

Entre rimas que denunciam, giros que libertam, saltos que projetam e histórias que reacendem a imaginação, o que se revela é um traço comum: jovens transformando território em linguagem. Não como promessa distante, mas como ação no presente. Como quem entende que criar também é reivindicar espaço no mundo.

Este caderno é sobre isso: quando a juventude deixa de ser espectadora e assume o papel principal. Quando a periferia deixa de ser margem e vira centro criativo. Quando a arte não só expressa — mas organiza, acolhe e abre caminho.

Se existe travessia, ela está acontecendo agora. E tem ritmo, tem corpo, tem voz.

EXPEDIENTE

EMPRESA JORNALISTICA O POVO

PRESIDENTE INSTITUCIONAL & PUBLISHER: Luciana Dummar

PRESIDENTE-EXECUTIVO: João Dummar Neto

DIRETORES DE JORNALISMO: Ana Naddaf e Erich Guimarães

DIRETOR DE JORNALISMO RÁDIOS: Jocélio Leal

DIRETOR DE ESTRATÉGIA DIGITAL E NOVOS NEGÓCIOS: Felipe Dummar

DIRETOR DE NEGÓCIOS: Alexandre Medina Néri

DIRETORA DE GENTE E GESTÃO: Cecília Eurides

DIRETOR CORPORATIVO: Cliff Villar

DIRETOR DE OPINIÃO: Guálter George

DITORIALISTA-CHEFE: Plínio Bortolotti

PROJETO JUVENTUDE É TRAVESSIA

CONCEPÇÃO E COORDENAÇÃO GERAL: Valéria Xavier | ESTRATÉGIA E RELACIONAMENTO: Adryana Joca e Dayvison Álvares | GERENTE EXECUTIVA DE PROJETOS: Lela Pinheiro ASSISTENTE DE PROJETOS: Renata Paiva ANALISTA DE OPERAÇÕES: Alexandra Carvalho e Raffaela Meneses ANALISTA DE PROJETOS: Beth Lopes

Este produto é customizado pelo Estúdio O POVO. COORDENADORA DE CONTEÚDO: Camilla Lima COORDENADOR DE CRIAÇÃO: Jansen Lucas LÍDER DE PLANEJAMENTO: Luana Saraiva DIAGRAMAÇÃO: Reni Pinheiro ANALISTA DE MARKETING: Daniele de Andrade

REDAÇÃO PUBLICITÁRIA: Sofia Constance ANALISTA DE MÍDIAS: Juliane Marinho | TEXTOS: Lucas Casemiro

RESPEITÁVEL PÚBLICO 10 DANCYS

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COMPANHIA DE DANÇA MAINARA ALBUQUERQUE

ESPERANÇA HIP HOP 12

RESPEITÁVEL PÚBLICO

Respeitável Público é um espetáculo teatral em processo de montagem e que transforma experiências de vida em arte para reconectar crianças e famílias com o brincar, a imaginação e as histórias compartilhadas. Ao mesmo tempo, forma jovens artistas e amplia o acesso à cultura na comunidade do Canindezinho.

Vila Manoel Sátiro

COMPANHIA DE DANÇA MAINARA ALBUQUERQUE

A Companhia de Dança Mainara Albuquerque forma jovens bailarinos desde 2008, ampliando oportunidades na dança. Já impactou mais de 200 jovens e levou talentos cearenses a festivais e carreiras no Brasil e no exterior.

DANCYS

O DANCYS é um projeto da Companhia Yaline Sabóia que oferece formação gratuita em dança para jovens talentos, ampliando o acesso à arte e criando oportunidades por meio da dança. Já impactou mais de 300 crianças e jovens.

ESPERANÇA HIP HOP

Nascido das batalhas de rima no Conjunto Esperança, o projeto transforma a praça em um espaço aberto de cultura, onde jovens da periferia encontram na arte do hip-hop um meio de expressão, pertencimento e oportunidade, fortalecendo o protagonismo juvenil.

REGIONAL 10:

A Regional 10 de Fortaleza abrange 11 bairros da Capital: Aracapé, Canindezinho, Conjunto Esperança, Jardim Cearense, Maraponga, Mondubim, Novo Mondubim, Parque Presidente Vargas, Parque Santa Rosa, Parque São José, Vila Manoel Sátiro. A região concentra uma população estimada em 219.558 mil habitantes.

SOBRE O JUVENTUDE É TRAVESSIA

O projeto Juventude é Travessia protagonismo que reinventa e move Fortaleza propõe uma ampla ação de comunicação e valorização das juventudes da capital cearense, com foco no protagonismo, na inovação e na participação cidadã. Por meio de conteúdos multiplataforma — jornal, portal, redes sociais, rádio e audiovisual — o projeto dará visibilidade a iniciativas de jovens que transformam seus territórios nas áreas de educação, esporte, cultura, tecnologia, empreendedorismo e cidadania.

A iniciativa é uma realização do Grupo de Comunicação O POVO, e dialoga diretamente com políticas públicas da Prefeitura de Fortaleza voltadas à juventude, como os Centros Urbanos de Cultura, Arte, Ciência e Esporte (Cucas), o projeto Jovens Monitores e o programa Academia Enem.

RIMAS PERIFÉRICAS

Esperança Hip Hop ocupa praça pública e faz do protagonismo juvenil palco de expressão artística

Microfone em mãos, palavra pronta na ponta da língua. As noites de terça-feira têm métrica e ritmo próprios no Conjunto Esperança, um dos menores bairros de Fortaleza, tanto em extensão territorial como no índice de desenvolvimento humano (IDH de 0,287, considerado “muito baixo”). No “palco”, na verdade formado pelas arquibancadas da praça mais conhecida do bairro, o Polo de Lazer do Conjunto Esperança, jovens se revezam no improviso enquanto o público forma roda ao redor, atento a cada verso.

Mondubim
Aracapé
Jardim Cearense

EU TENHO UM SONHO E SE LUTA FOR ARMADA EU ME ARMO DE LIVROS

O conteúdo? Reivindicações de toda natureza, sobretudo sociais. A forma? Expressões oralizadas e corporais. Foi nesse espaço que o Esperança Hip Hop foi nascendo como um dos principais movimentos culturais da comunidade. Orgânico, como um espaço onde a arte da rima se transforma em encontro, identidade, em oportunidade. E demonstra, enfim, a força do protagonismo juvenil.

Já são quase cinco anos desde que as batalhas de rima, antes um encontro espontâneo de artistas locais, surgiram e foram se transformando em um movimento cultural. Elas reúnem, a cada edição, dezenas de participantes e espectadores. Se o hip-hop está hoje posicionado como ferramenta de expressão e fortalecimento da juventude periférica, é graças à garra dessa galera.

As atividades acontecem regularmente com batalhas de rima, encontros de freestyle, poesia e música. O formato é simplificado e aberto: qualquer pessoa pode participar. Basta chegar, se inscrever para rimar ou acompanhar as apresentações. A proposta é garantir que a praça se torne um espaço democrático de cultura, sem barreiras ou custos para quem deseja fazer parte.

“O principal destaque do projeto é o impacto na formação e no desenvolvimento pessoal dos jovens participantes, muitos dos quais encontram no projeto um primeiro espaço de fala e expressão artística”, afirma o jovem Rômulo Pahaliah, idealizador do projeto. Ele afirma que o trabalho é importante “por contribuir diretamente para a criação de oportunidades em territórios marcados pela ausência de políticas públicas culturais”.

circuitos artísticos ampliados

A cada encontro, cerca de cem jovens passam pela praça, seja para competir, assistir ou simplesmente compartilhar o momento coletivo. Ao longo desses anos, mais de duas mil pessoas já participaram das ações do projeto, segundo os organizadores.

Além de promover encontros semanais, o coletivo também conecta artistas locais a circuitos maiores da cultura

hip-hop. Em 2024, por exemplo, o campeão das batalhas realizadas pelo projeto, Davi Cena, conquistou uma vaga no Duelo Nacional de MCs, um dos eventos mais importantes do gênero no Brasil. O movimento também já levou sua energia para espaços como a Bienal Internacional do Livro do Ceará e a Expo Favela Ceará. Na prática, a ocupação desses espaços representa uma ampliação na visibilidade de produção cultural periférica.

Para quem vive de perto o projeto, o impacto borra as fronteiras da rima. O DJ Cesae, de 29 anos, relembra o início do movimento e a influência que ele teve em sua própria trajetória artística, enquanto o sentimento de pertencimento toma conta de Trod, de 20 anos. O jovem acompanha o projeto desde as primeiras edições e vê na iniciativa um ponto de virada. “O Esperança Hip-Hop veio como um escape. A praça virou ponto de encontro da vida. Esse movimento salva vidas e norteia quem procura saída na arte”, diz.

rômulo pahaliah

À frente do Esperança Hip-Hop está o produtor cultural Rômulo Pahaliah, de 28 anos. Nascido e criado em território periférico, ele construiu sua trajetória dentro da própria comunidade e acredita na cultura como ferramenta de transformação social. Rômulo desenvolve projetos voltados à juventude, com foco na cultura hip-hop, poesia e ações sociais, utilizando a arte como ferramenta de fortalecimento, expressão e transformação social.

ranking 2026 esperança hip hop

Nas competições do grupo, os MCs acumulam pontos ao longo das disputas por meio de vitórias e outros critérios definidos pela organização. Normalmente, os quatro primeiros colocados garantem vagas em eventos e competições importantes. Cada batalha possui regras próprias. Confira

Os encontros acontecem às terças-feiras, no Polo de Lazer do Conjunto Esperança

encontros

» Toda terça-feira

» Polo de Lazer do Conjunto Esperança

» Evento gratuito e aberto ao público

critérios

Qualquer pessoa pode comparecer, acompanhar as atividades ou até mesmo se inscrever para as batalhas. Não há pré-requisitos.

estilos explorados nas batalhas de mcs

» ideologia

» temática

» ataque

LILITH, 26 ANOS

Pra mim, o Esperança Hip Hop é de extrema importância, por que além de ser uma movimentação cultural na periferia, que quase não tem atividades assim, ainda tira os jovens de casa por um bem maior: se reunir e trocar ideias e vivências em forma de rimas.

DJ CESAE, 29 ANOS

O Esperança Hip Hop é uma das minhas maiores referências e inspirações de produção cultural de rua ‘da minha zaria’. Pois me lembro, ainda em 2021, quando eu era apenas artista, que aquele ‘corre’ me impactou para que eu pudesse fazer mais pela minha zaria, pelo meu bairro e pela minha vida no território. Grato demais por hoje, participar de algumas edições sendo DJ, é uma representatividade do nosso território que sempre esteve afastado dos centros de cultura da cidade. Estamos vivos! Representando todos aqueles que já se foram e que ainda respiram arte no Conjunto Esperança e região.

TROD, 20 ANOS

O Esperança Hip Hop veio como um escape, e junto com o escape trouxe os sonhos. Desde da primeira edição me faço presente no evento semanal, e quem não tem noção do quanto esse projeto é importante é porque não se viu desesperado para encontrar a arte, e a praça onde acontece esse é evento é o ponto de encontro da vida. Hoje, se mantendo de pé, esse movimento salva vidas. Não só salva como norteia quem procura saída na arte. Se um dia nos vencermos, o Esperança também vencerá.

Trecho de poema de Rômulo Pahaliah
DJ

A DANÇA COMO CAMINHO POSSÍVEL

Projeto da Companhia Yaline Sabóia amplia acesso à formação artística para jovens bailarinos no Mondubim

Aproximar crianças e jovens da cultura, estimular a disciplina e oferecer à dança um papel de expressão, pertencimento e construção de oportunidades. Esses objetivos orientam o projeto DANCYS iniciativa voltada à formação de bailarinos bolsistas no Conjunto Esperança.

Inspirado na trajetória da Escola de Dança Yaline Sabóia (EDYS) que há treze anos se dedica à formação artística de jovens da comunidade, o projeto surge com o propósito de ampliar, de forma sensível e inclusiva, o acesso à dança. Busca, assim, acolher e desenvolver talentos que, por circunstâncias financeiras, muitas vezes não teriam a oportunidade de investir em uma formação nessa área.

“Sem esse tipo de apoio, muitas vezes o acesso à formação artística se torna muito mais difícil”, pontua a fundadora da escola que leva seu nome. Assim, a companhia se consolidou como um ambiente onde a dança também funciona como ferramenta de inclusão e desenvolvimento humano.

“Acredito que a arte precisa ser acessível e que a dança pode abrir portas, fortalecer sonhos e construir novas perspectivas. Poder contribuir para que outros bailarinos encontrem esse mesmo espaço de crescimento é, para mim, uma das maiores motivações para manter esse trabalho vivo”, compartilha a bailarina Yaline Sabóia, com seus mais de 20 anos de trajetória.

Embora o projeto tenha sido oficialmente estruturado apenas em 2020, sua essência já vinha sendo construída ao longo de anos dentro da própria escola. Nesse período, mais de 300 crianças e jovens passaram pela iniciativa, vivenciando experiências artísticas que marcaram suas trajetórias pessoais e profissionais.

ingresso

Atualmente, o projeto reúne jovens selecionados por meio de um processo de avaliação. Aqueles que ingressam passam a integrar o grupo de bolsistas e recebem acompanhamento em diferentes modalidades, como balé clássico, jazz, dança contemporânea e ginástica rítmica.

CRIANÇAS

E JOVENS FORAM BOLSISTAS DO PROJETO

inclusão comunitária

Além da formação técnica, os participantes também integram apresentações e espetáculos, muitos deles com caráter beneficente, voltados à realização de ações sociais na comunidade.

Entre os exemplos de destaque está Deanira Sabóia bailarina que vem conquistando reconhecimento na dança acrobática e acumulando pódios em diversas competições. Sua trajetória começou justamente dentro do ambiente formativo da escola, onde encontrou incentivo para desenvolver sua expressão artística.

Outro nome que evidencia o impacto do projeto é o da jovem Naylica Xavier, que participou de seleção para ingressar na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil uma das instituições mais prestigiadas da formação de bailarinos no País. A bailarina também teve a oportunidade de conhecer a consagrada artista Ana Botafogo, durante a gravação de um documentário sobre sua trajetória.

Para a diretora, o DANCYS nasce justamente do desejo de multiplicar as oportunidades que um dia mudaram sua própria história. “A dança pode abrir portas, fortalecer sonhos e transformar vidas”, resume.

CARLA FRANKLIN MARQUES 19 ANOS

Participar deste projeto tem, para mim, um peso muito íntimo. Desde criança, muitas vezes ouvi, direta ou indiretamente, que a arte, mais especificamente a dança, não era exatamente um caminho possível. Em vários momentos, a dificuldade financeira transforma o que deveria ser simples em algo distante, quase como se o palco, os figurinos e as aulas fossem lugares permitidos apenas para quem pode pagar por eles. Quando se ama a arte, mas o acesso parece depender do dinheiro, nasce um tipo de silêncio e frustração difícil de explicar. É um sentimento de querer continuar e, ao mesmo tempo, sentir que talvez não haja espaço para você. Por isso, estar no “DANCYS” é mais do que participar de um ambiente que cultiva a dança. É poder permanecer. É descobrir que o corpo ainda pode dançar, mesmo depois de tantas vezes ouvir que talvez aquele não fosse o seu lugar.

DEANIRA MARQUES SABÓIA 21 ANOS

O projeto “DANCYS” transformou a minha vida. Entrei em 2014 e, desde então, a dança tornou-se parte de quem eu sou. Foi na Escola de Dança Yaline Sabóia que me descobri como bailarina e comecei a construir meus sonhos. Ao longo dessa trajetória, tive acesso a bolsas por meio do instituto vinculado à escola, o que foi essencial para que eu pudesse continuar e crescer. Nesse ambiente, fui incentivada a evoluir, participar de competições e buscar sempre o meu melhor. Em 2021, me tornei professora do projeto, e em 2024 me formei após dez anos de história. Vivi experiências marcantes, como o intercâmbio na Suíça, em 2023, que ampliou minha visão artística e profissional. Hoje, levo comigo tudo o que aprendi. O “DANCYS” formou não só uma bailarina, mas a profissional e a pessoa que eu sou. Sou profundamente grata por essa trajetória.

NAYLICA GOES XAVIER 17 ANOS

A arte é e sempre foi um escape para mim - especialmente no período atual, de pré-vestibular - e uma forma essencial de expressão. Dessa maneira, consigo lidar com o turbilhão de atividades e de pressão, já que a dança me permite ter esse momento de introspecção, de realização e de socialização. Entendo, então, que as bolsas ofertadas possuem um grande impacto na vida de muitos bailarinos e na minha porque por meio delas pude e posso ter o contato frequente com uma atividade e com pessoas que me fazem tão bem, ajudando-me a superar adversidades e, para além disso, permitindo que eu me expresse de uma

Atualmente, o projeto reúne jovens selecionados por meio de um processo de avaliação. Após aprovados, passam a integrar o grupo e recebem acompanhamento em diferentes modalidades

Bailarina, professora, coreógrafa e diretora da escola. Com mais de duas décadas de atuação na dança, ela conhece de perto os desafios de quem busca formação artística em contextos de poucos recursos. Sua própria trajetória foi marcada por bolsas de estudo e por longas viagens de ônibus para ensinar dança em cidades da região metropolitana de Fortaleza.

Hoje, além de dirigir a escola, Yaline também atua na gestão cultural e na formação de novos talentos, com projetos que dialogam com instituições como a Rede Cuca. Atualmente, ela ocupa ainda o cargo de vice-presidente da Associação das Academias de Dança do Ceará.

PASSOS QUE ABREM CAMINHOS

Companhia de dança na Maraponga forma talentos e leva bailarinos cearenses a palcos internacionais

O sonho de construir uma carreira artística fica a um passo de virar realidade para muitos jovens do bairro Maraponga, em Fortaleza, ao ingressar na Companhia de Dança Mainara Albuquerque. Dedicada à dança clássica e criada em 2008, a escola vem formando gerações de bailarinos e ampliando horizontes para que possam ganhar o mundo por meio da dança.

Criada pela bailarina e professora Mainara Albuquerque, a Companhia foi um dia um sonho pessoal. Mas nasceu para se transformar em oportunidade. A história da companhia começa quando Mainara decidiu abrir uma escola de balé clássico com o objetivo de ajudar jovens talentos a trilhar um caminho profissional na dança.

A iniciativa surgiu a partir da própria experiência da bailarina, que enfrentou dificuldades financeiras e falta de incentivo durante sua formação. Percebendo que criar para outros aquilo que muitas vezes lhe faltou era um caminho possível, ela passou a dedicar sua trajetória à formação de novos artistas.

Desde então, cada ensaio, aula e apresentação transformam-se em passos em direção a autodescobertas, a objetivos profissionais, a, enfim, realização de sonhos. “Quando percebi a oportunidade de poder fazer pelos outros o que eu tanto queria que tivessem feito comigo, eu abracei com todas as minhas forças”, compartilha a professora.

Hoje, a companhia mantém uma rotina intensa de treinamento. Os bailarinos participam de aulas e ensaios diários de balé clássico, com jornadas de quatro horas por dia, sempre com foco em preparação técnica e artística para competições e festivais dos mais importantes na dança do Brasil e também do exterior.

Atualmente, a companhia reúne 20 bailarinos, mas ao longo de seus 18 anos de atuação cerca de 200 jovens já passaram pelo projeto, muitos deles levando a experiência adquirida para outras companhias e instituições.

A trajetória do grupo também é marcada por conquistas importantes. Entre elas, a participação e premiação no Festival de Dança de Joinville, considerado o maior festival de dança do mundo. Na ocasião, em 2021, a companhia conquistou reconhecimento nas categorias de conjunto de balé clássico de repertório e livre — um feito que a tornou a única companhia do Ceará a alcançar esse resultado na competição.

uma história de sucessos coletivos

Os resultados também aparecem na trajetória de ex-integrantes. Atualmente, o bailarino Luan Brito atua profissionalmente na Flórida, nos Estados Unidos. Já Érica Martins segue carreira acadêmica, realizando mestrado em dança na Espanha. Outro exemplo é Israel Mendes, que recentemente concluiu uma turnê pela Alemanha e permanece no país em busca de novas audições.

Para quem participa da companhia, a experiência vai além da técnica, como pontua a bailarina Hanna Catarina, de 26 anos. "Além de termos aula todos os dias para melhorarmos nossa técnica, trabalhar a mente e dançar em grupo, estar na companhia é saber que ter disciplina e responsabilidade são elementos primordiais”, explica.

“Participar dessa jornada me faz perceber que dançar é viver, e que a dedicação ao ballet é a maneira que encontrei de transformar meus sentimentos, minha disciplina e minha perseverança em algo que pode tocar e inspirar outras pessoas”, contribui o bailarino João Guilherme.

como participar

Para ingressar no grupo, os interessados passam por uma aula avaliativa, seguida de uma entrevista. A partir dessa análise, a companhia define a concessão de bolsas integrais ou parciais, permitindo que jovens talentos tenham acesso à formação mesmo sem condições financeiras de custear os estudos.

MAINARA ALBUQUERQUE

É diretora, professora e ensaiadora do Studio de Dança Mainara Albuquerque e da Companhia. Sua história com o balé começou ainda na infância, quando uma professora percebeu seu talento e a incentivou a seguir na dança. A partir daí, a professora aprofundou seus estudos no Centro de Ballet Clássico Mônica Luiza, tendo integrado também o Colégio de Dança do Ceará, experiência que consolidou sua decisão de dedicar a vida à arte. Hoje, aos 45 anos, acredita que o crescimento na dança exige dedicação absoluta. “Não tem segredo: é aula, ensaio e mais aula. É preciso disciplina e paixão pelo que se faz”, resume.

cearenses em competição internacional (de novo!)

Na mais nova competição do circuito internacional de dança, três bailarinos da Companhia de Dança Mainara Albuquerque foram selecionados para a etapa presencial do Prix Osipova, criada em homenagem à bailarina russa Natalia Osipova, uma das maiores referências do balé clássico, que também estará presente avaliando os bailarinos e se apresentando em um momento histórico no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

A seletiva reuniu 420 inscrições de toda a América Latina, das quais apenas 56 foram aprovadas. Entre eles estão João Guilherme, Giovanna Santos e Maria Júlia, que disputarão a próxima fase nos dias 27 e 28 de abril, no Rio de Janeiro. Na etapa, os participantes concorrem a bolsas de estudo, contratos profissionais e uma vaga na final em Londres, no Royal Ballet.

pra ajudar

JOÃO GUILHERME

18 ANOS

Fazer parte da Companhia é essencial para mim, eu encontrei na dança o que realmente alimenta minha alma e me permite ser feliz. Cada aula me dá a oportunidade de melhorar minha técnica e meu lado artístico, fortalecendo meu foco e persistência. Mais do que um sonho, o balé e a experiência na Cia de Dança Mainara Albuquerque representam uma possibilidade concreta de construir e seguir uma carreira profissional.

A Companhia se mantém, principalmente, com recursos da própria Escola e com o esforço direto da direção. A maioria dos bailarinos recebe bolsas, sendo quase a totalidade integrais. Como não há patrocínio ou financiamento fixo, despesas com viagens e competições muitas vezes são viabilizadas por meio de rifas, eventos e mobilização da comunidade, além do apoio pessoal da própria Mainara para garantir a participação dos jovens nas apresentações.

Quem quiser apoiar o projeto e contribuir com doações para a formação dos jovens pode entrar em contato com Mainara pelo WhatsApp: (85) 98783-5467.

GIOVANNA SANTOS

24 ANOS

Participar da Companhia é fazer parte de uma trajetória que forma artistas, transforma vidas e fortalece a dança na nossa cidade. Foi dentro desse espaço que iniciei meus estudos, onde aprendi não só a técnica do balé, mas também valores que carrego comigo até hoje: disciplina, sensibilidade, entrega e paixão pela arte. Foi ali que vivi algumas das experiências mais marcantes da minha vida, inclusive a oportunidade de expandir meus horizontes e vivenciar a dança fora do País.

MARIA JÚLIA

15 ANOS

A dança faz parte da minha vida desde os meus dois anos de idade, e o meu maior sonho sempre foi ser uma grande bailarina. Ela já me ajudou em vários momentos e sem ela eu realmente não sei o que faria, pois minha maior felicidade é ter aula e ensaiar todos os dias! Fazer parte da Companhia mudou completamente minha visão de futuro. A dança me transformou, e eu quero seguir a carreira de bailarina! Tenho certeza que esse é o meu caminho, e o meu grande amor!

REDESCOBRIR O BRINCAR

Em construção, espetáculo “Respeitável Público” integra jovens por meio da arte e convida crianças e famílias a valorizar a brincadeira

Quando a infância é cada dia mais mediada por telas e aparelhos tecnológicos de última geração, um projeto concebido por lembranças pessoais vem se construindo no bairro Canindezinho. Guiado por jovens que apostam na imaginação como vetor para a transformação dos desafios que persistem no tempo presente, o espetáculo infantil “Respeitável Público” vai oportunizar que crianças e famílias redescubram o valor do brincar, da criação e das histórias compartilhadas.

A estreia está prevista para junho de 2026, mas o projeto começou a ganhar forma três anos antes, inspirado nas memórias de infância de seu idealizador, o artista Natan Oliver, de 26 anos. Guiado pela ideia de que “existe um mundo além das telas”, o espetáculo reúne teatro, narrativa oral e o universo lúdico dos bonecos. Por trás da leveza e da imaginação, no entanto, há uma trajetória de resistência: Natan transforma em arte fragmentos de uma infância marcada por desafios que nenhuma criança deveria enfrentar.

O espetáculo resgata a superação que Natan forjou como única alternativa, além de trazer ao palco tanto afeto que recebeu, especialmente na relação com a mãe e a avó, figuras centrais em sua trajetória.

“Minha mãe é a minha maior referência de ser humano. Ela lutou, batalhou muito para me criar. Ela se tornou forte para enfrentar os desafios. Às vezes, não tínhamos o que comer ou geladeira onde morávamos, pois deixávamos tudo para trás em mudanças de endereço forçadas. Mas seguimos e, com a ajuda da minha avó, a gente venceu”, relembra.

Agora, ele quer levar a outras crianças, através do espetáculo, o esperançar: ampliando o acesso do público e compartilhando com a comunidade o resultado do processo construído. “Respeitável Público é isso, é levar cultura para quem não pode, que são as crianças de comunidades em vulnerabilidade”, relata.

por trás da cena

Tão importante quanto o produto final (o espetáculo), está o processo de montá-lo. Porque a relevância do projeto inicia já em seu próprio fazer, como uma experiência afetiva que busca resgatar um tempo em que a imaginação era protagonista, impulsionando jovens a enxergar um novo mundo por meio do teatro.

O processo formativo que acontece nos bastidores incentiva e integra jovens artistas em diferentes etapas da criação. Atualmente, o grupo está em fase de ensaios e desenvol-

vimento dos personagens, reunindo majoritariamente atores iniciantes. A escolha é intencional: além de valorizar novos talentos, o projeto se consolida como um espaço de formação e oportunidade dentro das artes cênicas.

Parte desses participantes foi descoberta em oficinas de contação de histórias promovidas pelo próprio projeto, além de audições realizadas no Centro Cultural Canindezinho, em Fortaleza. O Centro Cultural, aliás, tem sido um dos principais pontos de encontro das atividades abertas ao público. Oficinas gratuitas de contação de histórias, criação e manipulação de bonecos vêm mobilizando crianças e moradores da comunidade, ampliando o alcance da iniciativa.

Nicole Marinho, de 21 anos, é um dos talentos descobertos nesses momentos. Pela primeira vez, ela participa de um espetáculo teatral como atriz. Junto aos outros quatro atores e atrizes que compõem o elenco, a juventude do bairro faz histórias ganharem vida, transformando o brincar em linguagem. “Para dar vida à personagem Lulu, eu preciso viajar no tempo e voltar a ter sete anos, o que pode ser tão prazeroso quanto desafiador. Ela é uma menina travessa e encantadora que não mede esforços para ajudar os outros”, adianta.

Em meio aos vastos aprendizados que a oportunidade artística lhe proporciona, Nicole dá um passo mais largo, adiantando outros trabalhos: “espero que futuramente possamos montar mais peças para divertir tanto as crianças quanto os adultos, pois todos merecem um pouco de glitter em suas vidas”, afirma.

estreia

» Prevista para junho de 2026

apresentações

» Centro Cultural Canindezinho

» Equipamentos da Rede Cuca ensaios

» Realizados no Centro Cultural Canindezinho

JULIA BANDEIRA

28 ANOS

Recebi o convite do Natanael para participar pois já havíamos trabalhado juntos em outros projetos voltados para infância e fizemos amizade desde então. Me senti muito feliz e grata por ter sido chamada, pois o espetáculo está lindo, cheio de significado e afetividade. Acredito que a arte tem um poder imenso de transformar e encantar o mundo tanto de crianças como de adultos.

SAMUEL RODRIGUES

21 ANOS

Inicialmente estava um pouco nervoso pois seria a primeira vez que eu estaria trabalhando uma produção desse tipo, mas felizmente todo mundo foi muito acolhedor comigo. Se eu fosse falar um momento que mais me tocou fazendo essa produção, foi quando a gente foi fazer um treino em público e a criançada toda se reuniu para ver. De verdade, todos foram uns anjinhos!

28 ANOS

Ter a oportunidade de participar desse projeto me abriu muitas portas. Hoje consigo me expressar melhor. Crio meus próprios adereços e pantufas. E vi na arte uma forma de mostrar minhas criações. E reacendeu meu amor pelo teatro, que estava adormecido há anos. Me ver de volta aos palcos está sendo desafiador, porém estou muito feliz de poder participar desse projeto que tem uma história tão linda e maravilhosa por trás e poder fazer isso se tornar realidade.

ANOS

Esse é o primeiro projeto que participo como atriz e está sendo muito bom para o meu desenvolvimento, tanto pessoal quanto artístico. Conheci pessoas maravilhosas que vou carregar no coração para toda a vida. O projeto tem como finalidade divertir as crianças e incentivá-las a usar a imaginação, brincar e até mesmo aprontar, enquanto faz uma crítica sobre o uso excessivo de telas. Por mais que o público-alvo sejam crianças, eu mesma estou aprendendo muito, pois o projeto fala sobre companheirismo, coragem e nos ensina uma linda lição de moral.

ator, produtor, diretor e escritor. Desenvolve trabalhos ligados às artes cênicas e à produção cultural, com experiência na criação de cenários e adereços para espetáculos infantis. É o idealizador do espetáculo “Respeitável Público”, projeto inspirado em memórias de sua infância e em referências familiares que marcaram sua trajetória. A partir de experiências em projetos culturais, especialmente na Rede Cuca, construiu formação em diferentes linguagens artísticas e hoje também realiza atividades formativas e ações voltadas ao público infantil.

Tão importante quanto a estréia do espetáculo, prevista para junho, o processo formativo que acontece nos bastidores incentiva e integra jovens artistas em diferentes etapas da criação

NICOLE MARINHO 21
IVANDIR SENA
Natanael Ferreira Saraiva de Oliveira atua como
NATAN OLIVER

CONFIRA OS DEMAIS CADERNOS DO PROJETO

PRA CONHECER MELHOR INICIATIVAS PARA JOVENS NA

PUBLICAÇÃO ANTERIOR

REGIONAL 10

Esperança Hip Hop

Modalidade: Batalha de rima

Localidade: Conjunto Esperança

Instagram: @esperancahiphop

Companhia de Dança Mainara Albuquerque

Modalidade: Dança, ballet clássico e contemporâneo

Localidade: Maraponga

Instagram: @sdmainaraalbuquerque / @ciadedancama

CONTEÚDOS DISPONÍVEIS EM

DANCYS

Modalidade: balé clássico, jazz, dança contemporânea, ginástica rítmica e teatro

Localidade: Conjunto Esperança

Instagram: @escdancayalinesaboia | Tiktok: @escoladedancays

Respeitável Público

Modalidade: Teatro

Localidade: Canindezinho

Instagram: @natanaeloliveira14_

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