OpiniãO 17
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Terça-feira
Fortaleza - CearÁ - 14 de abril de 2026
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Meninas não podem nascer para morrer!
Defendo prisão perpétua para feminicidas
dione silva
ana márcia diógenes
dionesilva.ce@gmail.com
O feminicídio não é um fenômeno novo no Brasil. É uma ferida exposta que insiste em sangrar diante dos nossos olhos, muitas vezes tratada como fatalidade ou crime passional. Para uma reflexão consistente, precisamos encará-lo pelo que realmente é: expressão máxima da violência de gênero, homicídio motivado por ódio, por sentimento de posse e por desprezo pela vida das mulheres. As causas dessa barbárie são profundas. Elas residem na estrutura de uma sociedade construída sobre alicerces patriarcais, onde o corpo feminino é historicamente objetificado. A cultura do machismo, que forma meninos para exercerem autoridade e meninas para a submissão, cria o ambiente propício para que a violência escale até o desfecho trágico. Por falar em estruturas, para discutir o feminicídio no Brasil, a perspectiva racial necessariamente deve ser incorporada. Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), dos crimes ocorridos entre 2021 e 2024,
62,6% das vítimas de feminicídio eram negras, enquanto 36,8% eram brancas. Esta análise comprova que o recorte racial é indispensável para compreender que as mulheres negras não enfrentam apenas o machismo, mas também a desumanização provocada pelo racismo, fator que as coloca em situação de maior vulnerabilidade e com acesso mais restrito à proteção e à justiça. Diante desse cenário, um olhar angustiado se volta para as nossas meninas. Afinal, o que estamos fazendo para protegê-las? Elas crescem aprendendo a medir cada passo. O “senta direito, garota!” chega cedo, quando a lição, na verdade, deveria ser impreterivelmente sobre homens respeitarem mulheres e os seus corpos! O futuro não é um lugar distante. Ele se escreve agora, na educação e nas oportunidades que damos (ou negamos) às nossas meninas. Romper o ciclo é urgente, para que as meninas de hoje não virem, amanhã, os nomes nas manchetes trágicas dos noticiários. E para que a dor das mulheres de hoje não seja o destino das meninas de agora.
anamarciadiogenes@gmail.com
Dados do “Retrato dos feminicídios no Brasil”, divulgados em março último pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, não deixam dúvidas: tudo o que foi feito até agora em relação à violência contra a mulher ainda não conseguiu trazer números que indiquem segurança para o maior segmento da população no nosso país. De acordo com o Censo 2022, do IBGE, somos 51,5% de mulheres e 48,5% de homens. Nem mesmo a classificação do feminicídio como crime hediondo pela Lei 13.104/2015, e a reafirmação como crime autônomo em 2024, mudaram a tragédia da série histórica de crimes contra as mulheres. E é porque o feminicídio passou a ser avaliado por crime extremamente grave, o que indica penas mais duras (20 a 40 anos), além da proibição de anistia e indulto. Vamos aos registros de mulheres assassinadas nos últimos dez anos: 2015 – 449 2016 – 929 2017 - 1.075 2018 - 1.229 2019 - 1.330 2020 - 1.354
2021 - 1.347 2022 - 1.455 2023 - 1.475 2024 - 1.492 2025 - 1.568 É isso mesmo que você leu. Uma década depois de o feminicídio ter sido incluído no Código Penal, o que representou uma conquista na luta contra a violência de gênero no Brasil, ainda temos o total de, pelo menos 13.703 mulheres assassinadas simplesmente por serem mulheres. Os números representam aquilo que é vivido no cotidiano feminino: homens se julgam donos da alma e do corpo da mulher. Se acham superiores, estão perdidos em sua própria masculinidade, sem saber o que fazer com a evolução dos tempos, com a descoberta de que a inteligência não está relacionada ao gênero, que liberdade não tem sexo. Diante dos fatos, entendo que somente o trabalho em duas frentes pode alterar esta realidade: uma educação infantil, na família e na escola, voltada para a democracia entre pessoas de todos os gêneros. E a mudança da legislação para que feminicidas tenham prisão perpétua, inclusive com restrição de aposentadoria.
O POvO EducaçãO EstE Espaço é dEstinado aos tExtos dos alunos dE Escolas públicas, particularEs E rEpórtErEs cuca participantEs do projEto corrEspondEntE o povo
Denuncie!!
Carlus CamPos
Rosas
ana andrade
wivyna Freitas
ex-Correspondente o povo
ex-Correspondente o povo
Há pouco assisti a uma série: Juntas & Separadas. A rede de apoio que mulheres proporcionam atravessa o tempo, sabe o que também é atemporal? As inúmeras violências as quais corpos femininos estão expostos. Digo isso, pois todos os dias somos lembradas de que nosso corpo é público, não é nosso, seja através de algum comentário machista e/ou misógino, um olhar ou por meio das manchetes de jornais e redes sociais, que diariamente noticiam aos montes violências de todos os tipos. A culpa feminina também perpassa o tempo, visto que em pleno século XXI a culpa ainda é da mulher. Recentemente, foi comemorado mais um Dia da Mulher (8 de março) e o sentimento é que nada mudou, não há muito o que comemorar. Se eu pudesse atualizar a data seria: Luta e não comemoração, dia da luta por ser mulher. De acordo com a Agência Brasil “O Brasil registrou cerca de 1.568 mulheres vítimas de feminicídio em 2025, o que representa um aumento de 4,7% em relação a 2024, consolidando o ano mais violento desde a tipificação da lei em 2015”. Estereótipos de gênero não devem continuar propagados com naturalidade como se fizessem parte da cultura do mundo! A uma altura dessas, falar de machismo e continuar firme em combatê-lo se faz necessário. A esperança de assistir algum tipo de arte que retrate a força e o apoio que algumas mulheres têm cai por terra ao acessar um canal informativo e ver que mais um caso de feminicídio aconteceu, repercutiu e já já dará lugar a outro e a outro... Mas o que fazer quando na era da informação a ignorância ou a conivência ainda tem força e silencia milhares de mulheres todos os dias? Lembre-se de não diminuir o pesa da violência vivida, ela não é drama, não é exagero! Ligue 180, denuncie!
Hoje você veio me ver de novo, com flores na mão e aquele olhar que um dia me fez acreditar que era amor. Eu quase consigo lembrar de quando tudo parecia leve, quando o seu abraço parecia casa e não prisão, e eu ainda não sabia que carinho também podia machucar, que cuidado também podia ferir, e que algumas promessas nascem bonitas só pra esconder o que vem depois. Eu lembro do começo, de como você chegou devagar, dizendo que ia cuidar de mim. Eu quis tanto acreditar, porque o mundo já era duro demais e você parecia abrigo, parecia futuro, parecia tudo o que eu precisava naquele momento. E foi assim que eu fiquei, me entreguei, sem perceber que aos poucos deixava de ser quem eu era pra caber no que você queria. No início eram só palavras atravessadas, um tom mais alto, um silêncio estranho depois, e eu me convencia de que era normal, de que todo amor tinha seus dias difíceis, até que vieram os pedidos de desculpa, as promessas, o jeito calmo depois da tempestade, e fui ficando, porque a versão boa de você me fazia esquecer da pior, porque achava que amor era insistir, era suportar, era tentar mais uma vez. Mas o tempo passou e o medo começou a morar comigo, escondido no som da sua chegada, no jeito que eu media minhas palavras, no cuidado de não te irritar, e ainda assim fiquei, porque você me fez acreditar que eu não era nada sem você, que ninguém mais iria me querer, e realmente acreditei, pensei em sair tantas vezes, pensei em gritar, em pedir ajuda, mas o silêncio parecia mais fácil, mais seguro do que enfrentar o desconhecido, e quando percebi o que aquilo realmente era, já não havia mais espaço pra recomeçar. E no fim, você conseguiu o que queria, não restou mais voz pra discordar, nem corpo pra fugir, nem olhos pra chorar, só essa ausência que te olha em silêncio, porque enquanto você vive com o peso do que fez, eu virei lembrança, virei aviso, virei nome em uma história que poderia ter sido interrompida, mas não foi, e é por isso que hoje você leva flores…não pra alguém que você ama, mas pra alguém que você matou.
Estereótipos de gênero não devem continuar propagados com naturalidade como se fizessem parte da cultura do mundo!
Refletir, agir, mudar rachel uchôa
Professora do iFCe (instituto Federal de educação, Ciência e tecnologia do Ceará)
Em meio às recorrentes notícias de feminicídio, convido os homens à reflexão. Quantas famílias ainda precisarão ser devastadas? Quanta dor ainda será necessária até que às mulheres seja assegurado o direito de viver? É fundamental reconhecer que vivemos em sociedade e que muitos dos valores que a estruturam são socialmente construídos — entre eles, o machismo. Assim, estamos todos implicados, sobretudo os homens, que historicamente ocupam posições de privilégio e poder. A transformação desses padrões culturais depende das nossas atitudes cotidianas. Lidamos diariamente com piadas que objetificam mulheres, deslegitimação das suas falas, interrupções constantes ou, ainda, comportamentos de controle e
possessividade travestidos de cuidado. Tais microagressões, frequentemente banalizadas, podem evoluir para formas mais explícitas de violência, como o assédio e a agressão. Diante disso, impõe-se uma pergunta: que atitudes você adota ao presenciar essas situações? O resultado da omissão é a continuidade de um cenário em que mulheres são silenciadas, têm sua liberdade cerceada e sua autonomia comprometida. O feminicídio é o desfecho extremo desta cadeia contínua de violências que foram toleradas, minimizadas ou ignoradas. É imperativo que os homens questionem seus privilégios e se tornem agentes no combate à violência de gênero. Somente por meio da conscientização e da transformação efetiva das práticas diárias será possível avançar rumo a uma sociedade mais justa e equânime para as mulheres.