




























































































Conhecer a formação histórica da cidade de Sobral (Ce) ajuda a compreender a formação e desenvolvimento da família Ferreira gomes, que detém hoje grande parte da liderança política do Ceará

























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Conhecer a formação histórica da cidade de Sobral (Ce) ajuda a compreender a formação e desenvolvimento da família Ferreira gomes, que detém hoje grande parte da liderança política do Ceará




























































ériCO firMO






















De Fortaleza

quem percorre a rua Barbosa de Freitas, em Fortaleza, rumo à avenida Pontes Vieira, atravessa o Poder Legislativo do Ceará. Do lado direito, o prédio Adauto Bezerra, sede da Assembleia Legislativa do Ceará, e o edifício anexo 1, Cesar Cals. À esquerda, o mais novo e imponente de todos, o anexo 2, inaugurado em março deste ano, e batizado com o nome de José Euclides Ferreira Gomes.
Com vistosa fachada espelhada, este último espaço foi construído para abrigar serviços e atividades voltados ao público: ouvidoria, biblioteca, centro cultural e vários outros. Lá, fica localizado ainda o cine-teatro, batizado com o nome do ex-deputado João Frederico Ferreira Gomes. Durante a inauguração, dia 15 de março, o governador Cid Gomes brincou com as homenagens aos familiares. “É muito Ferreira Gomes!”.
José Euclides é o avô de Cid e de seus irmãos, o deputado estadual Ivo Gomes e o ex-governador Ciro Gomes. E também do primo deles, o deputado estadual e ex-vice-prefeito de Fortaleza, Tin Gomes. Este último, filho de João Frederico – tio do governador e de seus irmãos.










Mas essa teia de relações políticas e familiares é maior e mais intrincada. E tem um locus geográfico a partir do qual é tecida: Sobral, a 240 quilômetros de Fortaleza. Nunca antes na história do Ceará, uma cidade do Interior foi tão determinante para o jogo do poder no nível estadual. Essa força fica demonstrada no fato de que Cid é o primeiro ex-prefeito de qualquer dos 183 municípios, fora a Capital, a alcançar o Governo. Antes dele, apenas ex-gestores de Fortaleza haviam chegado à chefia do Executivo estadual. É o caso de seu próprio irmão, Ciro.






Conhecer as raízes históricas das estruturas políticas sobralenses contribui para compreender como se constituiu e funciona o atual aparato hegemônico no Estado. O principal núcleo decisório e de aconselhamento do governador é composto por seus irmãos, Ciro e Ivo. Este último, seu chefe de gabinete até o último mês de junho.
A secretária da Educação é a sobralense Izolda Cela, atual primeira-dama daquele município e titular da mesma pasta em Sobral na gestão do sucessor de Cid, Leônidas Cristino. Na segurança pública, depois da frustração com nome trazi-
O presidente da Casa, rOBertO CláudiO, eleitO prefeitO na Capital, Com o APoio Do GoVErNADor NAS ELEiçõES DESTE ANo, É NETo Do Ex-VErEADor DE SoBrAL GErArDo roDriGuES DE ALBuquErquE
a origem portugueSa
A influência no âmbito estadual do núcleo sobralense é inédita. Mas a força política dos Ferreira Gomes remonta aos primeiros anos de colonização do maior município da Zona Norte. As raízes são lusitanas. Livro organizado por Maria Clarisse Ferreira Gomes atribui a fundação do clã, no Ceará, aos capitães portugueses Domingos Ferreira Gomes e Bernardino Ferreira Gomes. Eles teriam desembarcado no Porto de Acaraú por volta de 1790, oriundos de Leiria, cidade portuguesa. Tornaram-se grandes proprietários de terras e criadores de gado. E foram iniciadores de uma tradição familiar que permaneceria profundamente atrelada à agropecuária por quase dois séculos.
do de fora, o governador recorreu ao seu ex-secretário municipal da área, Francisco Bezerra.
O superintendente do Departamento de Arquitetura e Engenharia (DAE) do Estado era Quintino Vieira, que foi secretário da Infraestrutura de Cid em Sobral. E a superintendência do Detran ficava a cargo do sobralense João Pupo, que foi procurador-geral daquele município na época em que o governador era prefeito. Quintino e Pupo se afastaram das funções estaduais em julho, para se engajar na campanha de Roberto Cláudio (PSB) a prefeito de Fortaleza. Saindo do primeiro turno em segundo lugar, virou a disputa e sagrou-se o 69º prefeito da Capital do Ceará.
A presença da Zona Norte na política cearense vai além. Titular da Infraestrutura, Adail Fontenele, é natural de Viçosa do Ceará. O presidente do Conselho de Educação, Edgar Linhares, nasceu em Santa Quitéria e teve a primeira experiência como professor em Sobral, ainda na década de 1940. No mandato anterior de Cid, João Ananias – na-
tural de Santana do Acaraú, onde foi prefeito – ocupou a Secretaria da Saúde. Saiu para se eleger deputado federal.
Além disso, o principal cargo federal da cota dos Ferreira Gomes é a Secretaria Nacional dos Portos, ocupada pelo ministro Leônidas Cristino. Ele é natural de Coreaú, também na Zona Norte, foi secretário de Cid em Sobral e, em seguida, ele próprio foi prefeito do Município.
Na Assembleia Legislativa, as raízes do Norte do Estado também são traço em comum no principal eixo decisório. O presidente da Casa, Roberto Cláudio, eleito prefeito na Capital com o apoio do governador nas eleições deste ano, é neto do ex-vereador de Sobral Gerardo Rodrigues de Albuquerque. O 2º vice-presidente é Tin Gomes, primo de Cid. Já a 1ª secretaria – mais importante cargo administrativo da Casa – é ocupada por Zezinho Albuquerque, natural de Massapê, onde descende de influente família política. E é ainda o mais importante articulador político do Palácio da Abolição no Interior.
Nas décadas que se sucederam, a linhagem original se entrecortou com outros ramos importantes. Em particular, os Gomes Parente – “a família de maior importância dentro do desenvolvimento de Sobral, pela participação econômica e política”, explica o memorialista Francisco de Assis Arruda, pesquisador e estudioso das genealogias sobralenses, com diversos livros publicados sobre o assunto. Os Ferreira Gomes, como tantos outros sobrenomes, constituíram espécie de “afluente” desse rio original. “Tem gente que acha que é até a mesma família. Não dá para separar 100%”, explica Arruda.
A origem dos Gomes Parente também é portuguesa. O sobrenome chegou ao Brasil quando, segundo a tradição, o português Inácio Gomes Parente abandonou o navio no qual viajava e se refugiou nas proximidades da serra da Meruoca. Desse tronco em comum, descende não apenas o atual governador e seus irmãos, mas também personagens como o ex-senador e ex-governador Virgílio Távora; o ex-prefeito de Granja, Esmerino Arruda; o deputado federal José Linhares. E mesmo os Prado, adversários políticos dos Ferreira Gomes.
O pesquisador Assis Arruda relata que, do ramo original dos
Foi o aNo No qual
Ciro CoNCorrEu A PrESiDENTE PELA
SEGuNDA VEZ
Gomes Parente saíram prefeitos que administraram Sobral por 13 mandatos, chegando até o atual gestor, Clodoveu Arruda. E outros quatro prefeitos foram casados com membros da família. Entre eles, o tenente coronel José Ferreira Gomes, bisavô de Ciro, Cid e Ivo, chefe político do Partido Conservador e prefeito de Sobral em 1892, nos primeiros anos da República. Seu matrimônio, em 1872, com Maria Vitalina Parente foi responsável por fazer dos Gomes Parente um dos ramos ascendentes dos Ferreira Gomes que hoje governam o Ceará.
Homenageado no novo prédio da Assembleia, José Euclides foi o sexto filho de José Ferreira Gomes. Nasceu em Sobral e, durante o primeiro ciclo da borracha, seguiu a trilha de outros tantos nordestinos e viveu por 10 anos na Amazônia, onde foi proprietário de seringais. Ao retornar, dedicou-se à pecuária. Foi vereador em diversas legislaturas, presidente do Poder Legislativo sobralense e, interinamente, chegou a assumir a Prefeitura. O vínculo que justificou a homenagem na Assembleia foi o breve mandato que exerceu como deputado classista. Essa categoria parlamentar foi criada em 1932, pela Lei Eleitoral instituída no início do governo Getúlio Vargas. Eles não eram eleitos pelo voto direto, mas indicados por entidades de classe. Havia os repre-












prefeitOs de sOBral ligadOs aOs gOMes parente na repúBliCa
o núcleo familiar dos Gomes Parente é considerado o mais importante política e economicamente da história de Sobral. o atual ramo dos Ferreira Gomes que governa o Ceará descende deles. Foram 13 gestões de prefeitos sobralenses saídos da família
1. Cel. José inácio Gomes Parente
2. Cel. Frederico Gomes Parente
3. Cel. José Cândido Gomes Parente
4. Cel. Frederico Gomes Parente
5. mons. Fortunado Alves Linhares
6. Vicente Antenor Ferreira Gomes
7. José Gerardo Frota Parente
8. José Parente Prado (1973-1977)
9. José Euclides Ferreira Gomes Jr.
10. José Parente Prado
11. Cid Ferreira Gomes
12. Cid Ferreira Gomes
13. José Clodoveu de Arruda Coelho Neto






sentantes dos empregadores e os dos empregados.
José Euclides tomou posse em 1º de julho de 1936, como representantes dos interesses dos proprietários rurais. Ele não havia sido originalmente indicado, mas ganhou a cadeira com a desistência de Paulo Sanford, que renunciou antes mesmo de assumir. O mandato seria de quatro anos, mas foi encerrado em novembro de 1937, com o golpe do Estado Novo e o fechamento do Legislativo.
A família retornou à Assembleia em 1955, com o filho de Euclides, João Frederico – que dá nome ao cine-teatro. Seguindo os passos do pai, chegou a morar na região Norte do País – no Acre – na década de 1940. Mais tarde, deu continuidade, também, ao trabalho como defensor dos interesses dos proprietários de terras. Fundou a Associação Rural dos Criadores, posteriormente denominado Sindicato Patronal Rural de Sobral.
Exerceu seis mandatos na Assembleia – primeiro como suplente em exercício, e eleito nas cinco vezes










posteriores. Nos três primeiros, pela antiga União Democrática Nacional (UDN), principal partido da direita brasileira na época, frontal opositora dos governos trabalhistas de Getúlio Vargas e João Goulart e, também, ao desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek. Nos três seguintes, pela Aliança Renovadora Nacional (Arena) – partido da ditadura militar.
Foi líder do governo Virgílio Távora e vice-líder nas gestões César Cals e Adauto Bezerra. Ocupou a segunda e primeira vice-presidência na Assembleia, função na qual chegou a assumir o Governo do Estado, durante ausência de Cals. Renunciou ao mandato parlamentar em 1978, após ser indicado conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM).
Na época em que Frederico conquistava espaços no Legislativo, seu irmão, José Euclides Ferreira Gomes Júnior, vivia na região Sudeste. Estudou no Rio de Janeiro e, em Pindamonhangaba (SP), casou-se com a paulista Maria José Santos Ferreira Gomes, a dona Mazé. Em terras paulistas, ti-




Cid Gomes comanda reunião na época de presidente da Assembleia Legislativa, pelo PSDB, de onde saiu para se tornar prefeito de Sobral
veram os dois primeiros dos cinco filhos: Ciro e Lúcio.
Seu Euclides era homem simples, rude até, porém bastante culto. Formou-se em Geografia, História e Direito. Foi professor universitário, defensor público, além de dar continuidade à tradição agropecuarista da família. E, também, à política. Tornou-se difundido o relato de que ele praticamente teria ingressado na política ao se tornar prefeito de Sobral, em 1977. Mas a verdade é que a militância remonta a antes mesmo de seu retorno ao Ceará. Quando vivia em Adamantina (SP), foi o chefe local da UDN.
No começo dos anos de 1960, Euclides retorna ao Ceará com a família. Em Sobral, nasceram os filhos Cid, Lia e Ivo. Na sua cidade natal, a atuação política tornou-se, efetivamente, mais discreta. O irmão deputado, João Frederico, era a estrela do clã. Já Euclides se dedicava prioritariamente à atuação como defensor público e professor na Universidade do Vale do Acaraú (UVA). Apesar da tradição familiar e da militância política, foi de cer-
homenageado no nOvO
prédiO
José Euclides foi o sexto filho de José Ferreira Gomes.
ta forma surpreendente quando o prefeito José Prado decidiu lançá-lo candidato a prefeito. Aquela decisão foi crucial para os rumos do Estado hoje. O mote da campanha foi “de Zé para Zé”. E Zé Euclides foi eleito para administrar a cidade pela Arena 2 – subdivisão do partido da ditadura para abrigar os aliados do regime que eram adversários em disputas locais.
A gestão de Euclides coincidiu com a ida do irmão, João Frederico, para o TCM. Nesse meio tempo, o filho Ciro também deu os primeiros passos na política, no movimento estudantil. Em 1979, concorreu a vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), pela chapa Maioria – considerada tentativa do então decadente regime militar de se inserir em um dos principais focos de resistência.
A família integrava o chamado “grupo cesista” – vinculado ao ex-ministro, ex-governador e ex-senador Cesar Cals, um dos três coronéis que comandavam o Ceará. Hoje, o anexo II da Assembleia, em homenagem ao pai do ex-prefeito, fica defronte ao anexo I, batizado com o nome do ex-líder político. No fim de seu mandato na Prefeitura, Euclides decidiu apostar definitivamente no filho como herdeiro eleitoral. Ciro concorreu, então, a deputado estadual, em 1982, pelo Partido Democrático Social (PDS), que substituiu a extinta Arena como legenda oficial da ditadura. Naquela primeira disputa, Ciro ficou na suplência, mas acabou exercendo boa parte do mandato. Na eleição de 1986, já no PMDB, conseguiu ser efetivado. Foi a mesma eleição em que Tasso Jereissati – então também peemedebista – foi
eleito governador. A dupla mudaria a história do Estado.
A montagem política do primeiro governo Tasso foi complicada. Eleito contra os velhos coronéis, era considerado arredio aos partidos e caciques tradicionais. Ao analisar a Assembleia que fora eleita, jornais da época chegaram a elencar Ciro como potencial opositor, embora fosse do mesmo partido do novo governador. Isso em função das relações familiares com Cals. Por isso, foi enorme a surpresa quando, aos 29 anos, foi nomeado líder do governo que se estabelecia no Cambeba.
Foi a relação com Tasso Jereissati que projetou os Ferreira Gomes, de grupo familiar com influência local para força estadual e mesmo nacional. Em 1988, com Ciro com pouco mais de um ano como líder governista, o governador o escolheu para concorrer a prefeito de Fortaleza. A operação não foi simples: o título de eleitor do à época deputado era de Sobral. Em meio às acomodações do novo sistema constitucional e eleitoral que se estabelecia, foi eleito sem ter direito a votar em si próprio.
Naquela mesma eleição, Cid concorreu a vice-prefeito sobralense na chapa do padre José Linhares, hoje deputado federal. Os dois acabaram derrotados por Zé Prado – o mesmo que foi responsável pela chegada do pai, José Euclides, à Prefeitura, na década anterior. O hoje governador do Ceará, em entrevista ao O POVO, em 2010, relatou momento particularmente traumático naquele pleito. A apuração das cédulas de papel se desenrolava por alguns dias. E a derrota só veio no último. Ao final do processo, quando deixava o local da contagem dos votos, na AABB de Sobral, a Belina branca que o pai lhe emprestara foi cercada pelos militantes adversários. “E, olha, sabe esses pesadelos que você tem? Eu vivi um pesadelo ali. Dentro do carro, sozinho, e a
Houve ainda quatro prefeitos que casaram com a família Gomes Parente. inclusive o bisavô de Cid, Ciro e ivo, José Ferreira Gomes
14. Vicente Cesário Ferreira Gomes (1890)
15. Cel. José Ferreira Gomes (1891-1892)
16. Alfredo marinho de Andrade (1902-1904)
17. Jerônimo Medeiros Prado (1967-1971)
Fonte: arquivo de Francisco de Assis Vasconcelos Arruda





turma invadindo, batendo no carro e eu sem poder sair”, narrou.
Nos anos seguintes, a rivalidade entre os Prado e os Ferreira Gomes, que têm origens familiares em comum, aprofundou-se. Apesar da hegemonia que estes últimos conseguiram estabelecer desde meados da década de 1990, os tradicionais adversários mantêm oposição sistemática, eleição após outra.
De volta a 1988. Depois da campanha em que Ciro teve a primeira grande vitória e Cid sofreu sua única derrota eleitoral até hoje, os dois continuaram a galgar espaços. Em 1989, a família acompanhou o líder Tasso e desembarcou no PSDB. Cid assumiu sua primeira função no âmbito estadual, como articulador político da Secretaria de Governo, a todo-poderosa Segov.
Secretário de Governo e braço direito do governador, Sérgio Machado era o favorito para concorrer à sucessão. Mas acabou preterido. Em nova surpresa em sua trajetória, Ciro renunciou à tão arduamente


Ciro participa de inauguração ao lado de Tasso Jereissati, responsável por projetá-lo na política no âmbito estadual. Parceria política se estendeu por mais de 20 anos, até 2010. Abaixo, os dois juntos participam de missa. No centro, Ciro participa de solenidade na época de governador








































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Foi a iDaDe Com
A quAL Ciro Foi NomEADo LíDEr Do GoVErNo quE SE ESTABELECiA No CAmBEBA








conquistada Prefeitura para concorrer ao Governo do Estado, em 1990.
A decisão foi de Tasso e teve desdobramentos em diversas frentes. O primeiro foi acelerar a projeção estadual dos Ferreira Gomes. O segundo, a entrega do comando da Capital ao então obscuro vice-prefeito Juraci Magalhães, que permaneceu no PMDB e estabeleceu hegemonia em Fortaleza até a metade da década passada, sem jamais permitir o avanço do PSDB. O terceiro, o estremecimento da relação entre Tasso e Sérgio Machado. De melhores amigos, logo se tornariam inimigos.
Em paralelo, naquele mesmo ano, Cid fora eleito para seu primeiro mandato, como deputado estadual. Como governador, Ciro começou a constituir grupo relativamente autônomo, que o levaria a trilhar caminho independente em relação a Tasso. Também não demorou a ficar explícita a diferença de estilo entre os irmãos do clã sobralense.
Ciro confirmou o temperamento enérgico. À frente do Cambeba, enfrentou protestos, comprou brigas com os servidores e se desentendeu com seu vice, Lúcio Alcântara. Mas os maiores atritos foram com o homem a quem entregou a Prefei-




tura de Fortaleza, Juraci Magalhães. Cid, por outro lado, mostrou-se conciliador por excelência. Com o irmão já fora do governo, foi eleito presidente da Assembleia, em 1995, por unanimidade. Antes disso, outro dos irmãos até ensaiou passos na política. Como governador, Ciro nomeou Lúcio Ferreira Gomes para seu secretariado. Mas logo o segundo dos cinco filhos de seu Euclides percebeu não ter a mesma vocação. É o único dos homens a hoje não estar envolvido na administração pública ou na vida partidária.
Em 1996, contrariando todas as diretrizes estaduais e nacionais, Cid conseguiu reunir PT e PSDB no mesmo palanque para se eleger prefeito de Sobral. A terra natal do clã foi o laboratório político da experiência que, dali a 10 anos, reproduziria no Estado. Nesse período, sem mandato, Ciro virou consultor do parque aquático Beach Park. O convite partiu do amigo e empresário Arialdo Pinho. Anos mais tarde, seria o coordenador das campanhas estaduais e chefe da Casa Civil de Cid. Natural de Lima Duarte, em Minas Gerais,
tem estilo nem um pouco mineiro. É conhecido pela forma enérgica com que trata subordinados e interlocutores. A relação com Ciro abriu-lhe as portas de acesso ao núcleo decisório sobralense.
A família trocou o PSDB pelo PPS em 1997, em função das divergências com o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Desencontros que começaram na montagem da equipe de FHC. Após ter sido ministro da Fazenda de Itamar Franco, em 1994, Ciro não teve o espaço que esperava na nova gestão. Em 1998, concorreu à presidência da República pela primeira vez. Tasso não o apoiou, mas ele se posicionou pela reeleição do tucano no governo do Ceará. A relação dos dois líderes máximos do chamado “Governo das Mudanças” – ou “mudancismo” – manteve-se intocada mesmo em partidos diferentes. Nas bases, todavia, cresciam as animosidades entre os dois grupos.
Em 2002, Ciro concorreu a presidente pela segunda vez. Neste ano, ao ver o sonho de ser candidato pelo PSDB frustrado pelas movimentações de José Serra, Tasso se rebelou contra a orientação nacional e, dessa vez, apoiou a postulação do amigo ao Palácio do Planalto. Já naquela ocasião, Cid pretendia concorrer ao Governo do Estado. Mas os tucanos tinham candidato e ele seria Lúcio Alcântara. Em nome do acordo em torno da candidatura presidencial, Ciro interveio para impedir o irmão de entrar na disputa, apesar de pesquisas indicar que tinha boas chances.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi eleito presidente e Lúcio venceu no Ceará. Este último apoiado pelos Ferreira Gomes desde o primeiro turno. Aquele, com a adesão da família no segundo turno – para constrangimento dos petistas locais, com quem viviam às turras. Com Lula no Palácio do Planalto, Ciro virou ministro da Integração Nacional.
A partir daí, Cid gradualmente assumiu o comando das articulações do grupo familiar no Ceará, enquanto o irmão se voltou cada vez mais
José Ferreira gomes (bisavô de Ciro, Cid e Ivo) – Partido Conservador
José euclides Ferreira gomes
Júnior (pai) e João Frederico
Ferreira gomes (tio) – UDN e Arena
Ciro – PDS, PmDB, PSDB, PPS e PSB
Cid – PmDB, PSDB, PPS e PSB

O psdB pelO pps em 1997, em função das divergências com o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB)
para as movimentações nacionais. Neste período, o caçula Ivo Gomes surgiu no contexto estadual. A partir de 2004, começou a sinalizar a aproximação com PT e PMDB e a gradual ida para a oposição a Lúcio Alcântara. Tudo com aval de Cid, embora Ciro desaprovasse a movimentação, pelo menos nas manifestações públicas feitas à época.
O clã rompeu com o PPS e se filiou ao PSB em 2005. Em 2006, quando já encaminhada a aparentemente improvável aliança estadual entre o PT e os Ferreira Gomes, Tasso faz uma última manobra para manter o aliado ao seu lado. Junto com Ciro, pressionou Lúcio a desistir da reeleição, em histórico encontro em Brasília. Não deu certo. Cid concorreu ao governo tendo os petistas ao seu lado. O então governador se lançou na disputa, mas Tasso lavou as mãos. A vitória do segundo Ferreira Gomes a administrar o Ceará em menos de duas décadas foi folgada. Na mesma
ocasião, Ciro se elegeu o deputado federal proporcionalmente mais votado do Brasil. Ivo se reelegeu deputado estadual, mas não exerceu o segundo mandato. Foi ser chefe de gabinete e articulador político do irmão no governo.
Uma vez eleito, Cid atraiu também o PSDB para sua administração, replicando e ampliando a experiência sobralense. Nunca um mesmo governo reuniu tantos e tão diversos grupos políticos no Ceará. Além de tucanos e petistas, estavam lá PMDB, PCdoB, PP, DEM, PDT, PHS e outros menos cotados. Era a ascensão ao Governo do Estado de um método novo de fazer política, pautado no estilo agregador e radicalmente conciliador.
A gigantesca e eclética base de apoio garantiu a tranquilidade política ao governador durante seu primeiro mandato, mas não resistiu à eleição seguinte. Em 2010, o PSDB cansou das tentativas de Cid de se equilibrar entre petistas e tucanos e tomou a iniciativa de romper. Embora os grupos já tivessem difícil convivência havia mais de uma década, foi o primeiro distanciamento real entre os líderes Tasso e Ciro. O preço se mostrou alto: Tasso perdeu sua única eleição em mais de duas décadas de vida pública e não conseguiu a reeleição como senador.
Em 2012, foi o PSB que tomou a iniciativa de romper com o PT da Capital, embora tenha mantido os indicados do partido no Governo do Estado. Passada a eleição, Cid enfrenta um de seus maiores desafios para continuar a fazer política como gosta – sem oposição fortalecida. Precisará superar as fraturas expostas de uma campanha que rachou sua base de sustentação e deixou feridas abertas. Sobretudo na Capital, mas, também, em diversos municípios do Interior. Ele já se mostrou um dos mais hábeis negociadores da história cearense. E terá esse talento colocado à prova como nunca. Não mais para montar uma grande aliança, mas para reconstruir uma coalizão despedaçada e dar continuidade ao jeito de fazer política que Sobral ensinou ao Ceará. Op
faMOsO, CirO,
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Gualter George é editor-executivo do núcleo de conjuntura do Jornal o PoVo gualter@opovo.com.br















trajetória dos Ferreira Gomes é uma boa síntese da política cearense. Na perspectiva do passado, ao permitir que se vislumbre a maneira como os líderes surgiam e cresciam, as decisões eram tomadas e os caminhos traçados. Quanto ao presente, pela possibilidade de nos fazer perceber com clareza as melhorias que aconteceram. Do velho Zé Euclides ao contemporâneo Cid, neto dele, deu-se uma caminhada importante da democracia brasileira. O voto ainda não é completamente livre, a população vai às urnas submetida a condições gerais que, muitas vezes, ainda inibem uma liberdade real de escolha, mas é inegável que houve avanços e que ampliou-se a legitimidade do processo eleitoral.
A hegemonia de agora é reflexo do momento da política estadual. Assim tem sido ao longo dos tempos e, com certeza, assim continuará no ambiente da disputa permanente pelo poder no Ceará. Cid, que comanda a oligarquia da hora, acerta o tom ao utilizar-se de bom humor, quando cabível, para reagir ao excesso de Ferreira Gomes como sobrenome que dá peso à ação política que envolve o cotidiano cearense. Como fez no dia da inauguração do prédio da Assembleia que homenageava seu avô, procurando tirar um aspecto da política, de antes e de hoje, que certamente incomoda a ele próprio quando se vê na perspectiva de um oligarca. Moderno, mas oligarca.
Do lado de cá, onde está o cidadão, quase não há motivo para sorriso ou bom humor, porque sobre ele recai o lado ruim de uma prática política que é feita por poucos e em favor de outros poucos, como regra natural. O vínculo à estrutura que tiver o con-
vOtO ainda nãO é COMpletaMente livre, a população vai Às urnas suBMetida a CoNDiçõES GErAiS quE, muiTAS VEZES, AiNDA iNiBEm umA LiBErDADE rEAL DE ESCoLHA
trole do momento acaba determinando ganhos e perdas, o que configura a maior distorção de uma articulação construída em cima de critérios que estabelecem valor central a um sobrenome ou a uma família.
Cid supera o irmão mais famoso, Ciro, apesar deste ter uma imagem nacional muito mais forte, ex-ministro e ex-candidato à presidência da República que foi, pela capacidade que demonstrou de entender as exigências modernas na construção de uma hegemonia, especialmente quando ela se forma em torno de um sobrenome, como voltou a ser no Ceará. O atual governador utilizou de maneira eficiente o município de origem como laboratório na construção de um projeto de controle da política estadual.
Será interessante, diante do contexto, assistir 2015 chegar. É quando o projeto atual de poder deve enfrentar seu teste mais desafiador, com o governador cruzando a porta de saída do Palácio da Abolição para entregar a caneta ao sucessor, que terá sido eleito no ano anterior. A questão é: o capítulo Ferreira Gomes na história cearense das oligarquias fecha-se ao final da passagem de Cid ou haverá fôlego para que o sobrenome continue dando as cartas?