Skip to main content

Fortaleza 300 anos - especial de aniversártio

Page 1


Três séculos de história oficial, desde que o povoado em torno do forte foi reconhecido como vila. Hoje é a maior metrópole do Norte e Nordeste. Linda, desigual, acolhedora, violenta, amada. O momento é de comemorar e refletir. A cidade sentida, a percebida e a biografada. Sentida com um mapa afetivo a partir de 300 depoimentos. Sentimentos transformados em crônicas de Laura Rios, Lira Neto, Marília Lovatel e Paulo Linhares. Percebida em pesquisa Datafolha. E biografada na série de 16 fascículos assinados por Lira Neto e Paulo Linhares, lançados desde o sábado passado e pelas próximas 15 semanas

FAROL, PÁGINA 2; PÁGINAS AZUIS, PÁGINAS 6 E 7; HENRIQUE ARAÚJO, PÁGINA 10; CIDADES, PÁGINAS 30 E 31; OPINIÃO, PÁGINAS 38 E 39; VIDA&ARTE, PÁGINAS 1, 2 E 6.

Em muitos relatos, ela surge como ponto de virada. Há quem tenha chegado sem rumo e, anos depois, reconheça nela o lugar onde a vida encontrou sentido, onde se construiu lar, profissão, família e laços fortes que não se desfazem.

Em outros, o sentimento é mais intrínseco. Com um acolhimento de mãe que atravessa diferentes histórias, ela aparece na lembrança de quem foi recebido “como filho”. Faz alguém se sentir em casa e cabe inteira no gesto aparentemente simples de permanecer.

Antes de qualquer paisagem, Fortaleza é vínculo.

A Cidade não se entrega inteira a quem tenta explicá-la. Há dados, datas, mapas, versões organizadas e, mesmo assim, nada disso dá conta. Ela escapa das definições prontas e não se deixa conter em uma frase inteira.

Talvez por isso se revele melhor quando alguém responde sem preparo, quase no impulso, por que ama esta cidade, estando aqui ou além.

A pergunta parece simples: qual sua razão para amar Fortaleza? Mas a resposta quase nunca é. Ainda assim, mais de 300 pessoas, gentilmente, tomaram um tanto do seu tempo e aceitaram o desafio de dizer, em poucas palavras, o que sustenta esse vínculo.

Reunidas, essas respostas formam um mapa afetivo onde a Cidade aparece pelo que provoca.

Em Aparecida Miranda, ela causa um “sentimento de alegria”: “Fazemos aniversário no mesmo dia 13”.

Para Sofia Vitorino, ela dá “vontade forte de viver”. “E sempre surpreende aqueles que a percebem, aqueles que deixam o coração abraçar a beleza nas imperfeições.”

a Cidade que mora

“Fortaleza é a força da raiz que segura a cabeça no mundo”, diz Anna Valéria.

“É moderna, mas carrega profundamente em si a memória do interior. É moça, gaiata. Cabe um infinito entre a Barra do Ceará e a Sabiaguaba”, continua Mateus Saldanha.

“Das cidades onde morei, é a que me tece e me costura. A brisa e o caos de Fortaleza vão me perfurando e bordando mim memórias de menino nascido nu no sertão seco e paramentado pra vida urbana na frente do mar. É costura de um tecido de cidade que me desafia com uma renda de cultura que me prende. Fortaleza é artesã de gente”, crava Thalles Vital. Sônia Lage vê na Capital “uma cidade que consegue ser grande e pequena, pulsante e tranquila”. “Podemos vê-la e vivê-la a cada dia no ritmo que dela precisamos.”

“Fortaleza é meu quintal, minha memória mais bonita, minha maior saudade. É na beira desse mar que meus amores moram, e minhas palavras se escondem”, narra Adriana de Freitas.

Mona Machado resume: “Me acolheu menina, me viu mulher, mãe. 300 anos da minha casa”. “É onde moram as minhas memórias”, confidencia Euvaldo Lima.

Fortaleza é o lugar para onde se volta, menos como local físico e mais como relação. Se em alguns depoimentos ela se personifica, em outros, transpõe a matéria: “Fortaleza tem alma”, “Fortaleza tem sua mística”.

E ainda assim a paisagem insiste. Os elementos naturais, atrativos para turistas quem vêm passar as férias, são experiências diárias para quem mora aqui: praia, mar, sol, vento, brisa, calor, céu.

Há quem fale da luz que ilumina tudo e quem sinta o vento como um toque que leva para longe e traz de volta.

“O vento forte do fim da tarde trazendo o cheiro do mar”, “a alegria do amanhecer”, “uma cidade solar”, “calor humano”, “cidade que aproxima”.

“Amo Fortaleza por receber dela, desde o meu nascimento, o frescor do seu beijo em forma de vento e o seu céu azul, que se me apresenta como a promessa de outros céus”, responde Tadeu Feitosa.

“Eu amo Fortaleza porque aqui o sol não é apenas paisagem. Ele é presença. Ele nasce lembrando que sempre existe um novo começo”, completa Tatiana Fortes.

Para muitas pessoas, o mar deixa de ser cenário e assume presença: ele aparece como horizonte, conforto, rotina que ensina, todos os dias, sobre beleza e coragem.

“Entre o sal do mar e a dureza da vida, Fortaleza me ensinou que até o vento pode ser abraço. Porque nesta cidade aprendi a resistir sem perder a ternura”, acrescenta João Saraiva Neto.

Carlos Holanda se declara: “O caminho que me conduz a uma ideia amorosa de mim mesmo passa por pessoas e lugares, avenidas da memória, todas situadas em Fortaleza. É como se amar Fortaleza fosse uma condição para me amar”.

No imaginário popular, a Cidade também se revela nos pequenos detalhes. Ela está no pratinho de rua, no café ao entardecer, nos trajetos que se repetem e até na esquina dobrada ao fim do dia, antes de finalmente chegar em casa.

Nesses momentos quase anônimos, que acontecem sem anúncio ou registro, Fortaleza cresce e vira sentimento nas pessoas.

É na expressão de cada uma delas que a metrópole encontra sua forma mais reconhecível. No jeito de falar cantando, no humor que atravessa qualquer dureza, na disposição de acolher como se o outro já fosse conhecido.

O que faz Luís Eduardo Nunes amar Fortaleza é a “hospitalidade e resiliência de um povo trabalhador e bem humorado”.

Já para o trio Bruno Xavier, Roger Pires e Yago Gurjão, da Nigéria Filmes, é “um território cinematográfico com cenários, personagens e histórias reais pulsantes”.

Dizem que é isso que sustenta tudo. Que não há no mundo povo igual. Que é essa alegria insistente, esse modo de existir, que dá sentido ao resto.

Nem todas as respostas evitam as fissuras e algumas encostam nelas com força. Há quem ame e se irrite, quem reconheça as desigualdades, quem atravesse o cansaço cotidiano e ainda assim escolha amar.

“Porque o amor é cego. Quando a gente ama, a gente não escolhe amar só as qualidades, a gente ama os defeitos, as qualidades, ama tudo. É igual amor de mãe.”

Fortaleza aparece, então, em sua condição mais humana. Imperfeita, intensa, contraditória. Uma cidade que exige e, ao mesmo tempo, devolve.

Talvez por isso o sentimento que mais se repete não seja simples. Ele mistura permanência e deslocamento, raiz e movimento. Fortaleza é, para muitos, o lugar onde a vida começa. Para outros, o lugar onde ela recomeça. Há quem a carregue como origem, quem a descubra como destino, quem a reconheça como parte de si mesmo.

Reconhecer nas ruas a própria história. No vento, um tipo de pertencimento. No outro, uma extensão daquilo que se é. Fortaleza é uma cidade construída por dentro.

Ouvir para mapear

Em termos de metodologia, a cena no terminal foi apenas uma das frentes de uma escuta mais ampla. O questionário também circulou por mensagens de WhatsApp, emails, redes sociais, newsletter e matérias online. Mais de 300 pessoas participaram, autorizando o uso da resposta, nome e foto nesta reportagem especial. Algumas preferiram não enviar fotos. O conjunto revelou um perfil diverso, com leve maioria masculina e média de idade em torno de 45 anos. Os bairros mais presentes estão entre áreas centrais como Meireles, Aldeota e Fátima. Ainda assim, o que mais chama atenção não está nos recortes demográficos, e sim no que se repete. Quando reunidas, as respostas apontam para dois pilares principais. De um lado, as belezas naturais. Do outro, as relações humanas. Termos

como pessoas, praia, mar, amor, acolhimento e sol aparecem com frequência e ajudam a organizar o sentido coletivo.

Depois da coleta, o material foi sistematizado. As respostas foram organizadas em planilha, tratadas e agrupadas pela Central de Dados do O POVO+. A partir daí, uma nuvem de palavras passou a indicar os termos mais recorrentes.

Com esses dois pontos de partida, as respostas na íntegra e a síntese visual, os textos foram construídos. No terminal da Parangaba, no entanto, aparece um município que os dados não conseguem mapear: é Fortaleza em estado puro. Esse mapa aparece como foi dito. Um campo de palavras onde cada pessoa sustenta um pedaço — e onde Fortaleza, aos poucos, se deixa ler.

Uma tarde no terminal da Parangaba

Em meio ao fluxo apressado de uma tarde comum, a metrópole tricentenária se deixa ver de outro jeito. No bairro histórico da Parangaba, num dos terminais de ônibus mais movimentados da Cidade, onde milhares de fortalezenses chegam e partem diariamente, são os rostos que a expressam. Fortaleza é um caleidoscópio de faces.

Gente que espera, corre, dá sinal, atravessa. Gente que sustenta o lugar onde mora sem necessariamente parar para pensar nisso. Ali, em um dos pontos de maior circulação da Capital, a pesquisa “qual sua razão para amar Fortaleza?” ganhou corpo fora das telas. Numa exposição ao calor intenso — o humano e o natural —, a pergunta foi repetida “no quente” para trabalhadores, estudantes, vendedores e passageiros em trânsito.

As respostas vinham no ritmo das chegadas e partidas: algumas curtas, outras atravessadas por histórias inteiras. Leonardo Ribeiro, 45, respondeu com a sinceridade de quem aparenta já ter pensado muito sobre isso.

“Tem horas que eu amo, tem horas que eu odeio. Cidade grande, desenvolvida, geralmente é tudo assim. Porque as pessoas tão sempre na correria para resolver suas coisas, então elas quase não param pra escutar o que você tem a dizer. Ou então elas estão mais preocupadas com a própria vida, os problemas, elas quase não conseguem escutar ninguém”, disparou. E seguiu, quase em tom de desabafo: “Aqui e acolá alguém te escuta. Aí renova as esperanças. Porque, veja bem, eu sou a cidade. Eu, você, todo mundo que está aqui é que é a cidade. Se tirar as pessoas, não tem cidade. Então, eu preciso olhar pras pessoas. Não existe terminal se não tiver gente para andar nos ônibus”. Sua fala só foi interrompida pela chegada do coletivo: “É por isso que a prefeitura tem que cuidar das pessoas. Cuidar das pessoas também é cuidar da cidade. Tirar lixo das ruas, fazer saneamento, colocar mais ônibus para o trabalhador poder chegar em casa e descansar. Eu posso passar o dia todinho lhe falando, mas meu ônibus tá chegando”. Mais adiante, a resposta veio com leveza e molecagem. O estudante Bebeto, 17, confessou rindo que ama Fortaleza “porque só aqui dá para gazear aula e ir pra praia”. “Só é ruim pra voltar, né, que tem que andar uma légua…” Lucicleide dos Santos, 37, não hesitou. “É muito simples: não tem como não amar. Eu tiro por mim que, mesmo com as batalhas, não consigo me ver morando em outro canto de jeito nenhum. Eu acho que pegava uma depressão! (Risos) O bar do Eurides depende de mim.”

“Quando a gente fala que é daqui, as pessoas acham que a gente vive na praia. Mas o mais perto que eu chego da praia é quando tô no ônibus voltando do trabalho. Difícil eu ir pra praia”, disparou Tamara Castro, 37. “Mas quando eu vou, eu entendo por que as pessoas acham que a gente vive na praia. É lindo. Mas no meu dia a dia quase não vejo essas coisas. É como se fossem várias cidades diferentes. Cada lugar tem uma coisa. O que eu vejo mais bonito no meu dia a dia é a esquina quando dobro pra chegar em casa.”

Josué Pentecoste, 37, foi literal e até lembrou de um conselho materno. “Fortaleza, o nome já tá dizendo: tem que ser forte pra viver aqui. Quem nasce aqui não pode ser fraco. A minha mãe já dizia que a vida é dura pra quem é mole.” Mesma figura que inspirou a resposta de Mara Luciene, 38. “Porque o amor é cego. Quando a gente ama, a gente não escolhe amar só as qualidades, a gente ama os defeitos, as qualidades, ama tudo. É igual amor de mãe.”

O cotidiano pesou sobre os ombros de Yvoneide dos Santos, 52, que justificou: “Porque só amando muito pra aguentar cada coisa que acontece aqui. É cada presepada, cada uma que parece até duas. Difícil o nosso dia a dia. E esses políticos dificultam ainda mais”. Há contradição, humor, cansaço, pertencimento, vínculo.

Está na hora dE contar (toda) nossa história

e aldeia indígena a forte holandês, de vila portuguesa a centro de exportação do algodão da América. De cidade de serviços à maior capital do Nordeste: Fortaleza se transforma na velocidade da luz. A sua luz.

É uma cidade aberta, porosa e boa de prosa, que absorve tudo e não se prende a nada. Veloz por natureza, por latitude (9 graus), por temperamento.

Insubmissa por história. Foi aqui que os escravos se libertaram antes de qualquer outra capital do Brasil. Foi aqui que nasceu a Terra da Luz, nomeação precisa de José do Patrocínio. Não só como metáfora, mas como ato de rebeldia. A subversão no porto liderada pelos próprios negros. E que para comemorar o fim da ditadura escolheu a primeira mulher prefeita de uma capital.

A vaia. O bode. Bárbara presa no passeio. A igreja do Rosário dos pretos. Ramos Cotoco. A Escola Popular de Capistrano. A padaria, o padeiro Rodolfo Teófilo e O pão. A praça, o boticário e os intelectuais. A fome e a vacina de Rodolfo. Jáder de Carvalho e a Aldeota dos arrivistas farsantes. Histórias que aprendemos juntos e nunca contamos bem para o Brasil, com todo o seu sabor. O Haiti é aqui.O Haiti não é aqui. Uma cidade que a partir de 1877 passou de 25 mil habitantes e 125 com a seca, uma desigualdade que nasce aí, seguiu persistente e se tornou estrutural. E Insuportável. Mais de 1,5 milhão de pessoas vivem em situação de pobreza ou extrema pobreza na Região Metropolitana de Fortaleza. “Só o meu grito nega aos quatro ventos. A verdade que eu não quero ver” (Ednardo). Trezentos anos de luz, vento e mar. Uma das cidades mais claras e translúcidas do mundo. Raimundo Cela ganhou o prêmio que o tornaria a seguir um clássico escrevendo um ensaio sobre a luz de Fortaleza. Com essa luz quem não tem colírio usa óculos escuros. Equidistante 5.500 km de Luanda, Lisboa e Miami (África, Europa e América do Norte). Esquina do Brasil, todas as mudanças tecnológicas e ambientais passam por aqui.

Uma cidade que o Brasil oficial nunca soube classificar e que, por isso mesmo, sempre se classificou sozinha: digamos assim, a mais inteligente, afinal é a capital da melhor educação do Brasil e a mais bonita, o país inteiro quer aparecer nas suas fotos.

E por que não contamos muito bem a história de Fortaleza, costumo perguntar? Talvez porque quem não cabe no roteiro de cidade colonial/Imperial fique como uma cidade sem passado. Então vamos começar o aniversário dos 300 assim: é a cidade mais inteligente e mais bonita do Brasil, dia de lembrar só de coisas boas. Mas também uma das mais desiguais, pra lembrar todos os outros dias.

Minha nossa Fortaleza

O que faz alguém chamar uma cidade de casa? Um lar entre bananeiras, mulheres entre laranjeiras, pomar, amor, cantar. O homem, o cachorro e o burro, que vão devagar, como devagar olham as janelas de Drummond, na vidinha besta e tão nossa, para onde a poesia nos traga. Como nasce esse pertencimento e se estabelecem os vínculos com a terra que primeiro pisamos? O nome preenchido no campo destinado à naturalidade é parte de nós, liga, ata, conecta cada um ao seu chão. Contudo, pertencer também é a escolha de ficar, de fincar raízes, de fazer do coração semente plantada para brotar. É escolha, pois da decisão de partir nasce a chegada. E chegar é reconhecer. Não é a mesa posta, são as pessoas ao redor da mesa. Não é a refeição, mas a tigela com a coalhada, a louça herdada da infância. E da decisão de chegar vem a hora de partir e encontrar o nosso lugar longe do primeiro chão pisado.

Eleger uma cidade para si é abraçar uma nova identidade. Enxergar a correspondência entre a estrutura óssea que nos sustenta e estrutura urbana, exoesqueleto coletivo. Dali para frente se tornam inseparáveis cidadão e cidade. As avenidas, as pontes, os viadutos, as esquinas, as lojas, os bares, os restaurantes, os hospitais, as clínicas, as oficinas, as borracharias, os postos de gasolina, as padarias, as farmácias, as escolas, as praças, as estátuas e os monumentos, os parques, as livrarias — e o vazio deixado por elas — os semáforos, as boates, os estádios, os hotéis e as pousadas, as antenas de transmissão, o trânsito e a rota dos ônibus, os pontos de ônibus, as placas das ruas. Sabemos quando um lugar é nosso no que vemos (até de olhos fechados). As cidades têm seus sons, seus cheiros, suas memórias peculiares. Fortaleza, por exemplo, é única. De uma singularidade que se reinventa há três séculos. Fortaleza completa, em 2026, 300 anos. Desde que em 13 de abril de 1726 foi elevada à categoria de Vila, não parou de se transformar. Fortaleza faz história em seu torrão e ocupa um não lugar, que é sentimento, geografia afetiva. Há três séculos, Fortaleza quer ser de todos. De quem comeu o alimento ancestral, trazido na jangada, e tomou a banana split na sorveteria da Kibon da Beira-Mar. Fortaleza, de quem vai ao Mercado Central remodelado e de quem esteve no Iguatemi para fazer compras na Mesbla. Viver Fortaleza é caminhar no presente e pisar no passado, é transitar na cidade que foi, é e será. É viajar no tempo. Fortaleza é como, quando e onde. É Centro, Jacarecanga, Carlito Pamplona, Álvaro Weyne, Cristo Redentor. É pequena aldeia, aldeiazinha, Aldeota. É movimento constante crescendo e sumindo, o letreiro do Cine São Luiz apagando e reacendendo, os prédios antigos descaracterizados, demolidos, decadentes, testemunhas das putas atravessando a noite, dos bêbados cambaleantes. Fortaleza que se desenvolve ordenada, elegante, chique. E também se espalha em contágio de larva migrans, transmitida da areia branca na praia branca no meio da temporada turística. Fortaleza xique-xique. Fortaleza Debussy, Belle Époque, de sotaque francês, que consome champanhe e foie gras. Fortaleza da fome. Fortaleza pobre. Fortaleza nobre. Realeza no maracatu. Cidade que na luz se esconde. Fortaleza, China importada. Fortaleza americana do Estoril, das lagostas servidas no happy hour do Mercado dos Peixes. Fortaleza da Ponte dos Ingleses, Metálica na Praia de Iracema. Fortaleza vista do mar, do vigésimo andar, da varanda, da janela, de perto ou a distância. Da Igreja do Carmo, das ruas velhas, da Dom Manuel, com seus oitizeiros milenares, da Barão do Rio Branco. Fortaleza do Mucuripe e do Campus do Pici. Fortaleza dos BRICS e da bricolagem. Das lendas e da realidade. Fortaleza das reminiscências. Cidade que, enquanto escrevo, não é mais. Do mormaço e do ar-condicionado. Fortaleza delirante. Dos camelôs, dos poetas e dos estudantes. Fortaleza que se descola, se desloca dentro e fora de nós. Fortaleza tricentenária, que permanece aqui entre o mar e o sertão. Minha nossa Fortaleza.

aurÉlio alVeS

PARABÉNS, FORTALEZA?

Urbe camaleoa, já tentou ser Paris dos Trópicos, depois Miami cabocla, agora busca ser Dubai mambembe. Prédios espelhados de cinquenta andares, arquitetura tão colossal quanto duvidosa, enfeiam a paisagem, disputando o título de monumento supremo à cafonice, totens absolutos do novo-riquismo: grandes falos de vidro, neon e aço escovado, geradores de tráfego, inimigos do vento e da luz natural. Cidade banhada de brilho em demasia, que produz pores do sol magníficos e mormaços cada vez mais insuportáveis. Ano após ano, década após década, destruímos verdes, aterramos rios, riachos, lagoas, mangues, mananciais. Aniquilamos microclimas. Conseguimos a proeza de matar até mesmo o Pajeú, marco inicial de nossa história, cenário sinuoso do primeiro núcleo de povoamento nascido à beira do forte.

Celebramos agora supostos 300 anos, contados a partir de 13 de abril de 1726, data de elevação do povoado à vila. Mas mitos de origem são sempre arbitrários, convenções que tentam eleger e instituir um marco zero. Por isso, durante muito tempo, historiadores discutiram entre si quem teria sido o “herói fundador da cidade”.

Há muitas fortalezas — e não menos fraquezas — nesta Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Há a cidade solar, luminosa e irreverente, que desarma espíritos carrancudos e institui o riso como traço indelével de cultura. Há, contudo, a cidade sombria e injusta, sitiada por abissais contradições.

Há o povo de humor iconoclasta, que paradoxalmente zomba de si, alvo das próprias piadas — só os sábios sabem rir deles mesmos. Há, porém, nas imensidões periféricas, o povo enxovalhado por tanta miséria, com motivos para não achar graça de nada e de ninguém. Voltei a morar em Fortaleza após 25 anos de relativa distância. Entre idas e vindas, chegadas e partidas, testemunhei as muitas metamorfoses da provincianópole — o achado do termo é de meu querido amigo Ricardo Guilherme. Uma cidade que não para de crescer, sempre em processo de violenta autofagia. Aqui tudo é construção e já parece que é ruína, diria o poeta.

Houve quem atribuísse tal feito ao açoriano Pero Coelho, comandante da primeira expedição enviada à capitania do Siará Grande, em 1603, com a missão de escravizar indígenas e fundar o primeiro forte, nas areias da Barra do Ceará. Outros preferiram sagrar Martim Soares Moreno, o “guerreiro branco” mitificado por José de Alencar no romance Iracema e autoproclamado “primeiro povoador e fundador do Siará” — conforme escreveu ao El-Rei em 1618. Outros, ainda, julgaram que o título deveria caber ao comandante holandês Mathias Beck, que em 1649 mandou erigir em madeira o forte Schoonenborch, baluarte depois tomado pelos portugueses, reconstruído em pedra e rebatizado como fortaleza de Nossa Senhora da Assunção.

Bobagem. As cidades não são fundadas pela ação de um único homem. São obras coletivas, elaboração em permanente processo, contínuo vir a ser. A construção social do espaço urbano reflete, necessariamente, a tensão permanente entre os movimentos espontâneos da população, as forças do mercado e a intervenção reguladora do estado. Evoé, Liberal de Castro. Sejam 300 ou 400 anos, pouco importa. Amo Fortaleza na mesma proporção em que não consigo deixar de enxergar os descaminhos de suas escolhas históricas. Não foi a cidade que cresceu de forma desordenada. A desordem se fez com cálculo e propósito. A desigualdade, aqui, foi projeto político. A exclusão é planejada. Vivemos, desde sempre, a institucionalização do precário. Em tempo: somos uma cidade que convive nos bares e restaurantes com níveis insanos de decibéis. Fala-se alto demais por aqui. Ouve-se música alta demais. Buzina-se demais. Tudo é excessivo. Menos a nossa falta de modos, vendida como nota pitoresca de identidade. Por um lado, confundimos deseducação com espontaneidade. Por outro, hospitalidade com subserviência, vocação turística com licença absoluta aos predadores. Amo Fortaleza e por isso estou de volta, para admirá-la criticamente, para desfrutar de suas belezas, mas também para apontar seus defeitos. Denunciar seus desarranjos. Entender suas mazelas.

SAMUEL SETUBAL

Os barcos coloridos encostam na lama igual sapato social em chão de feira. A maré baixa, e os pescadores reclamam: “A água está turva, meu amigo!” Pois é. O tal do dragão do progresso — sim, a draga que dá nome ao lugar — já mexeu no fundo do mar mais que sogra em casamento de filha única. Mas ó: de vez em quando, o antigo píer ainda faz uma molecagem e a água aparece verde intensa, bonita de doer. Enquanto remendava a rede, um pescador soltou a braba: “Hoje a gente pesca por amor. Sustentar a família? Só se for à base de muito peixe espiritual.” Ô vida.

O pescador soltou a corda que prendia o barco no concreto. Tudo escuro na frente. Atrás, os arranha-céus da Beira Mar já piscando suas leds. Entre um breu e um brilho, uma vida inteira de pescaria. Vamos começar a fuzarca lá no Poço da Draga. O nome já diz tudo: parece saída de novela das oito com final triste, mas é só um bairro que nasceu do suor dos estivadores. Hoje, as ruas ainda cheiram a sal e a batalha, mas os netos tão pouco se lixando pra herança. Querem saber de TikTok, não de tarrafa.

Os últimOs guerreirOs

Agora tensiona a vela que vamos pro Serviluz. Lá o problema não é draga, é esgoto. E olha que esgoto não é brinquedo, não. Os pescadores de lá são uns heróis de chinelo de dedo. Saem de madrugada em jangadas turbinadas com motor de popa (nada de vela, isso é coisa do passado, amigo), desviam de cano clandestino igual motorista desvia de buraco em fevereiro, e vão pescar longe, onde a água ainda abraça, não envenena. Voltam com pouco peixe. Às vezes, com nenhum. Vendem na comunidade, ou em feira vizinha. E quando o peixe some — cadê o peixe? — pegam a colher de pedreiro ou ligam o app. Pescador por hobby, pedreiro por necessidade. Mas o orgulho? O orgulho tá inteirinho, viu. Ainda mais quando botam os olhos na orla mais linda da cidade. “Pode tirar o peixe, mas não tira minha pose”, deve pensar o cabra. Chegamos à Beira Mar. A contradição tá lá, toda enfeitada com calçadão iluminado e quiosque vendendo lagosta a preço de filé mignon. Os pescadores daqui viraram figurantes de novela global. Posam pra foto com turista, vendem o trabalho como espetáculo. Os barcos descansam na areia ao lado de prédios que custam mais que a conta de luz do bairro inteiro. E às 5 da manhã, enquanto uns puxam rede, outros puxam ferro na academia do lado. Quem será que tá mais cansado?

O que junta esses três lugares, separados por meia dúzia de quilômetros e por um abismo de realidade, é o mesmo sentimento: “Tô sobrando aqui, viu?” O pescador de Fortaleza não é mais aquele ser místico do cordel, solitário e livre que nem passarinho. É trabalhador de aplicativo que usa chapéu de palha. É guerreiro urbano pressionado por prédio, por poluição e por um mar que anda sovina.

Quando a maré tá baixa e os barcos tão na areia igual sardinha enlatada, dá pra ver, num piscar de olhos, o passado que teima em ficar e o futuro que teima em chegar. O Poço da Draga resiste no osso. O Serviluz se vira nos trinta. E a Beira Mar encena, pra quem tá passando, o que já foi verdade de verdade. O peixe ainda existe? Existe. Mas tá cada vez mais raro. Igual paciência de quem acorda antes do sol pra ganhar o pão — e volta com o pão, mas sem o peixe.

Ao anoitecer, o pescador guarda os remos. Tira a camisa suada. Toma uma cachaça que arde na boa. O vento sopra quentinho da cidade, e o mar parece ter encolhido de desgosto. Pega o caminho de volta, já pensando no outro dia.

O progresso pisa no calcanhar dele. Mas ele continua ali, acordando antes do sol, sustentando com as mãos calejadas o passado e o presente de uma atividade que a cidade pouco cuida — mas que sem ela, convenhamos, a cidade não teria a menor graça.

Saudade do que a gente nem viveu, mas sente assim mesmo.

aurÉlio

karyne.lane@opovo.com.br

Pesquisa Datafolha satisfação em viver na CaPital

Fortaleza, aos 300 anos, pode ser contada a partir de um rosto familiar. Mulher, na casa dos 40 anos, ensino médio completo, vida atravessada pelo ritmo da classe média urbana.

Esse é o olhar mais presente entre os 501 fortalezenses que participaram da pesquisa Top of Mind Fortaleza, realizada em 2026 pelo O POVO em parceria com o instituto de pesquisas Datafolha.

A escuta percorreu Fortaleza entre os dias 5 e 13 de fevereiro e reuniu moradores com 16 anos ou mais, abordados em diferentes pontos de grande circulação da Capital, para conhecer suas percepções sobre esse espaço urbano.

O perfil desenha uma cidade de maioria feminina, com 55% das entrevistas, e idade média de 44 anos. As faixas acima dos 45 concentram a maior parte dos participantes.

Desse conjunto, emerge uma Fortaleza que reconhece em si mesma razões para permanecer. Para 85% dos entrevistados, morar aqui é motivo de satisfação, com destaque para os que se dizem muito satisfeitos.

Há um sentimento que se sustenta no cotidiano, feito de rotinas, deslocamentos e permanências que resistem ao desgaste do tempo citadino.

A paisagem costeira aparece como eixo dessa relação. O mar, o vento e os encontros ao ar livre atravessam a experiência de viver aqui e ajudam a explicar por que Fortaleza segue sendo, para muitos, um lugar de pertencimento.

Quando convidados a apontar o que mais gostam, 67% voltam o olhar para as praias e os espaços de lazer. Além do litoral, que segue como marca central da experiência urbana, outros aspectos da metrópole também são lembrados.

A presença de amigos e familiares é o segundo vínculo mais forte, como se Fortaleza também representasse casa ou família.

A gastronomia entra nesse cotidiano como vivência compartilhada nos almoços de fim de semana, pratinhos, mercados e pequenos estabelecimentos espalhados pelos bairros.

Há ainda quem valorize o comércio e a facilidade para compras, o roteiro cultural, a vida noturna e a infraestrutura da aniversariante.

A avaliação geral confirma esse vínculo. Em uma escala de zero a dez, a cidade alcança nota média 8,0. Entre os entrevistados, 42% atribuem notas entre 9 e 10.

O conjunto dos dados revela uma Fortaleza que, aos 300 anos, mantém uma imagem majoritariamente positiva entre seus habitantes, ancorada na experiência cotidiana, nos espaços de convivência e em um sentimento de satisfação que sobrevive ao tempo e às transformações.

sAtisFAção Ao morAr em FortAlezA

estão sAtisFeitos em morar na cidade de Fortaleza; é alto o índice daqueles que estão muito satisfeitos

Cidade em três dimensões

4% 1% não sabe insatisfeito Muito insatisfeito indiferente Pouco insatisfeito

AtrAtivos de FortAlezA

fonte: o PoVo/instituto datafolha | Pergunta: Você diria que está satisfeito ou insatisfeito em morar na cidade de fortaleza? (Se satisfeito ou insatisfeito): Muito ou pouco? | base: total da amostra = 501 entrevistas 85%

as praias e espaços de lazer são o principal atrativo da Cidade

Amigos e parentes

Comércio e facilidade de compras

infraestrutura da Cidade (transportes, hospitais, escolas, etc)

O POVO

Presidente institucional & Publisher: luciana dummar / Presidente-executivo: João dummar neto / Vice-Presidente de tecnologia e negócios: andré filipe dummar / diretores de Jornalismo: ana naddaf e erick guimarães / diretor de Jornalismo das rádios: Jocélio leal / diretor de negócios: alexandre Medina néri / diretora de gente e gestão: Cecília Eurides / Diretor de Relações Institucionais: Cliff Villar / Diretor de Opinião: Guálter George Fortaleza 300 anos

Coordenação editorial: ana naddaf e erick guimarães / edição: Érico firmo e fátima Sudário / textos: Karyne l ane, l aura r ios, l ira n eto, Marília l ovatel e Paulo Linhares / Projeto gráfico e edição de design: Gil Dicelli / Foto de capa: Fco Fontenele /

Na cidade turística que um dia viveu de costas para o mar, o firme ancoradouro do porto que recebia gente e escoava couro foi onde atracou o baiano Demócrito Rocha, fundador deste jornal que caminha para um século. Desde 1928, as páginas que hoje registram o tricentenário de forma impressa e digital documentam, dia após dia, a realidade da vila que virou uma metrópole com mais de 2,4 milhões de habitantes, com o maior PIB do Nordeste, consolidada a quarta maior capital do Brasil e um dos principais destinos turísticos do País.

Em um aniversário tão simbólico, um projeto de três dimensões foi preparado: a cidade sentida, a percebida e a biografada.

Sentida como a formar um mapa afetivo de sentimentos, memórias e sentidos ditos por mais de 300 pessoas. Percebida quando se vale do recurso da pesquisa, fruto de uma parceria com o Instituto Datafolha, para entender as experiências do espaço coletivo. Biografada a partir de suas rupturas históricas pelos renomados jornalistas Lira Neto e Paulo Linhares, que partem de uma premissa crítica: comemorar não é suficiente, é preciso compreender essa cidade veloz e insubmissa. Na primeira dimensão, 300 pessoas respondem à pergunta: por que amar Fortaleza? Parece simples, mas a resposta quase nunca é. Quatro cronistas exploram cada espaço onde Fortaleza faz morada. Lira Neto, Marília Lovatel, Laura Rios e Paulo Linhares trazem diferentes formas de contar o meio urbano.

A segunda dimensão — a da pesquisa —, ajuda a entender o que atrai tanta gente para uma das capitais mais populosas do País. No último plano, dois ilustres jornalistas se inspiram no conceito do filósofo francês Alain Badiou, que pensa o acontecimento como uma ruptura que interrompe a ordem, abre possibilidades e produz consequências. A cada sábado, desde 11 de abril a 25 de julho, O POVO impresso terá um fascículo da Cidade biografada.

fonte: o PoVo/instituto datafolha | Pergunta: Pensando na cidade de fortaleza, quais destes atrativos você mais gosta? | base: total da amostra = 501 entrevistas

Infográfico: Luciana Pimenta / Mídias Sociais: Alan Magno e Sarah Costa

Concepção do projeto: lira neto e Paulo linhares / Coordenação geral: Paula lima / Área de negócios: adryana Joca, adriano Matos, dayvison Álvares, lela Pinheiro, Marcos lopes e ranilce barbosa / gestão de Projetos: Valéria freitas, adriana bernardi e bell dantas / Marketing: Juliane Pereira, Patrícia alencar e renata Viana o P oVo+

Concepção: ana naddaf e fátima Sudário / edição: fátima Sudário /

Setubal e Bárbara

OP+: Ayuri

e Wanderson

identidade visual:
Cristiane frota / textos: Karyne lane / recursos digitais: Karyne lane e Wanderson Trindade / Fotografia: Fernanda Barros, Fabio Lima, Fco Fontenele, Júlio Caesar, Samuel
Moira / Pesquisa: Roberto Araújo/OPOVO.doc / Central de Dados
Reis
Trindade.

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook