

























É TEMPO de transformação e de esperança no sertão do Ceará. A chuva verdeja a plantação, os açudes sangram, os tuiuiús voam mais baixo, o gado desce a serra...



A CHUVA que traz vida também maltrata, mas o sertanejo não pestaneja, diz que ainda assim é melhor que chova. “É a páscoa da natureza se renovando”, diz o padre




















DEMITRI TÚLIO TEXTO



A“Inundações são atos divinos, mas os prejuízos quase sempre resultam de atos humanos”

O sertão nordestino pinta-se de todas as cores e exala mil frascos de cheiros. Em tempos de chuva, no semiárido cearense, não há espaço pra menos. Impressiona a retina, inquieta as narinas. Vestido de caatinga ressurgente, o sertão enchuvarado faz voltar todos: homem, bicho e flor. Retornamos a ele, rodamos e andamos perto de cinco mil quilômetros do Ceará. Depois dos Mares dos Desertos emendamos a trilogia do semiárido com as Chuvas do Sertão. Um ciclo de reportagens humanizadas e renováveis. Que nem a natureza! Demitri Túlio jornalista
bastança é palavra que povoa a espera por tempos bonitos de chuva. Inverno para os viventes do sertão e quadra chuvosa para cientistas das metrópoles. O primeiro sereno de janeiro, combinações meteorológicas de cada ano, crenças em São José e em vivências de profetas do semiárido dão o tom do ânimo para os que vivem na zona rural e de quem com ela estabelece escambos de sobrevivência. Seja no cultivo e comércio de alimentos ou na básica necessidade de ter água para fazer beber, inclusive a capital moderna. Dependente de mares d’água doce colhidos em açudes durante a estação das chuvas. Chuva sempre foi motivo de refestelo. Na liturgia dos povos cristãos, está ligada ao fundamento agrícola da Terra Santa. Para os judeus, por exemplo, quando as chuvas tardavam, a comunidade fazia um jejum público e recitava orações de penitência. A falta dela, conta o pesquisador judeu Alan Unterman no Dicionário Judaico de Lendas e Tradições, era considerada um castigo por pecados tais como o do roubo e o de não usar para caridade dinheiro que havia sido separado para esse fim. Entre os pagãos, a devoção pela água dos céus também está ligada ao sentido da perspectiva do florescer e da fertilidade. Por isso a folia depois das colheitas para comemorar a fartura de alimento, garantia de mesa posta e travessia dos períodos de estiagem. Foi assim, descreve a mitologia grega, que foi gerada e
parida a divindade do teatro. De um triângulo afetuoso entre terra, sol e chuva, fizeram-se viçosas as videiras que deram uvas apetecedoras e na refazenda, o gozo no vinho. Das chuvas dependem o sertão e a metrópole. Mas a dependência se desnuda mais explícita no bioma rural. Homens e mulheres, que, desde criança, dividem o ano e o resto de suas vidas (no campo ou nas cidades para as quais migraram) em antes e depois do inverno. E se a chuva não vem, ressimbolizam - a cada geração, rituais de mediações com o divino. Quando havia ameaça de seca, os judeus pediam a intervenção de homens santos da comunidade capazes de influenciar a vinda das águas. Os católicos recorrem a intermediação dos santos, em novenadas e procissões a José ou a Francisco da natureza. Para pedir e agradecer por tempos chuvosos. Entre o divino e o mundano, o sertão foi acendendo fogueiras em junho de Santo Antônio (13), São João (24) e São Pedro (29). Nas anotações de Câmara Cascudo, um
No ano passado, em viagem pelo Interior cearense, o repórter Demitri Túlio se deparou com a imensidão do açude Castanhão, por onde já passara tantas vezes e fizera tantas coberturas. Daquela vez, por uma dessas subjetividades da vida, foi tocado de forma diferente e o seu par de olhos não foi suficiente para dar conta de olhar. Nas Páginas Azuis publicadas no O POVO do último dia 21, o jornalista Plínio Bortolotti nos apresentou o garoto Diego, da obra Livro dos Abraços, do escritor uruguaio Eduardo Galeano. O guri pediu ao

costume português trazido pelos jesuítas e que os índios incorporaram, desde o século XVI. Mas a tradição remeteria ao século XII, na França. O dia do nascimento de São João Batista coincide com o solstício de verão na Europa - dia mais longo do ano, 22 ou 23 de junho - véspera do início das colheitas. No hemisfério sul, no mesmo período, tem-se o solstício de inverno e a noite mais longa do ano. Era quando as populações do campo festejavam a proximidade das colheitas e faziam sacrifícios para espantar as pestes. Incendiava-se madeira na frente da casa e com danças ao redor do fogo, saltos sobre as chamas e as brasas, atraíam alegria e abundância. Alan Unterman relembra que a coluna de fumaça que se elevava do altar ao fim da festa judaica de Sukot (celebração da colheita) era considerada um indicador de chuvas por chegar. Se se desenhasse inclinada para o norte, os pobres ficavam felizes, pois o ano que começava seria muito chuvoso e a produção teria de ser vendida rapidamente e barata, para evitar o apodrecer. Caso a inclinação fosse para o sul, os proprietários de terras se alegravam. A chuva seria pouca e a colheita poderia ser armazenada e vendida com lucros altos. Direcionada para o leste, seria uma estação razoável. Para o oeste, traria seca e incerteza de vida. Mas chuvas intensas (acima das médias históricas) também podem ser presságio de problemas. Por causa do homem e sua indolência em relação ao meio ambiente. Enchentes não deveriam destroçar cotidianos. Como bem disse o geógrafo norte-americano Gilbert
F. White, em 1942, para falar já naquela época da vulnerabilidade de Nova Orleans - Estado norte-americano erguido “dentro” de pântanos e colado ao rio Mississipi: “Inundações são atos divinos, mas os prejuízos quase sempre resultam de atos humanos”. O Katrina, que por pouco não riscou a cidade do mapa em 2005, não foi o primeiro nem será o último furacão a atingir a região. Ora, as chuvas de 2008 vieram temporais para o sertão e capitais nordestinas. Nada de imprevisível para quem já enfrentou secas e cheias históricas. Não é inédito o rio Poty, em Crateús e na bacia que vai até o Piauí, encher e se alargar em áreas que pertencem a ele. Um bairro como a Vila do Povo, que em 62 anos foi sendo construído na beira do rio, não poderia deixar de se afogar este ano e em 2004. Nem a calçada da matriz do Senhor do Bonfim, localizada na área central do município, passou ilesa pelas enchentes de 1974.
Ocupação com a conivência politiqueira do poder público, teimosia do povo e crescimento desordenado das cidades. Em 2008, não poderia ser desenhado cenário diferente nas inundadas Lavras da Mangabeira, Icó, Novo Oriente, Quiterianópolis... Mesmo com tantos problemas, chuva muita não é sinal de desgraça. Nas palavras do padre Crisares Sampaio, 79, dos quais 47 anos de vida no semi-árido, nem tempestade se deve desperdiçar. “O que é inverno?”, pergunta aos repórteres. Ele mesmo responde: “É a Páscoa da natureza se renovando. Ela deixa aquela vida de seca e se veste de abundância e plenitude”.

Fechamos aqui a trilogia do sertão. Havíamos percorrido os mares e as terras castigadas, os açudes e os desertos. Agora vimos o tempo de chover. O que é cinza fica verde, o que é seco se derrama. Fomos da Irauçuba ao Orós, do chão quase perdido à parede molhada que escorre fartura. A metáfora da transformação. A água demais destruiu e agora irá refazer. O homem não se lamenta e replanta. É o sertão da oferta, do acolhimento e das boas histórias. Cláudio Ribeiro jornalista A idéia era


pai que o levasse para ver o mar. Ao se deparar com a imensidão do oceano, o menino apertou a mão do pai e disse: “Pai, me ajuda a olhar”. Tal qual o garoto Diego, Demitri não só pediu ajuda para olhar os mares do nosso sertão como desejou coletivizar seu alumbramento por essa perspectiva do sertão d´água. Aqui, no O POVO, a gente cultiva as boas idéias e toca os bons projetos. Assim, os repórteres Cláudio Ribeiro, Demitri, Luiz Henrique Campos e Rafael Luis mais os fotógrafos Dário Gabriel, Evilázio Bezerra, Fco Fontenele e Sebastião Bisneto pega-
ram a estrada. Viram, encantaramse e reportaram. Em agosto de 2007, publicamos o caderno especial Mares do Sertão. É, mas o sertão é caleidoscópico, multifacetado. Não se deixa ver só por uma perspectiva. Vai se mostrando com generosidade a quem se dispõe a vê-lo. Rendemo-nos e decidimos, então, olhá-lo por outros vieses. Em novembro, publicamos o Desertos do Sertão. Agora, encerramos a trilogia com este Chuvas do Sertão, publicado hoje, Dia do Sertanejo. Mares..., Desertos... e Chuvas são apropriações, são temas, mas
também são motes para contar histórias de gentes (assim mesmo, no plural), falar de transformações, mostrar paisagens e falar de potencial de vida. Obviamente, os três cadernos não dão conta de tanta diversidade. Por isso, encerramos a trilogia, mas o sertão permanece nas páginas do jornal. Pra você uma boa leitura, porque é como canta Luiz Gonzaga: ... quando o verde dos teus olhos / se espalhar na plantação / eu te asseguro não chores não, viu / que eu voltarei, viu / meu coração Pois é, este ano, no sertão, é tempo de volta. E de ficar. (Fátima Sudário)
>> Dedicamos este caderno ao companheiro Demócrito Rocha Dummar, um encantado pela reportagem e um eterno apaixonado pelo Sertão e sua gente. Tão fértil de idéias, sempre a enchergar flores no semi-árido. Fosse tempo de aridez ou de abundância.
ROTEIRO DA VIAGEM CHUVAS DO SERTÃO
Legenda Cidades do roteiro I Cidades do roteiro II

ROTEIRO I
Dias: 24 a 27/março
Repórteres: Luiz
Henrique Campos e Rafael Luis
Fotógrafo: Fco
Fontenele
Percurso: 1.950 km
ROTEIRO II
Dias: 31/março a 6/abril
Repórteres: Cláudio
Ribeiro e Demitri Túlio
Fotógrafo: Sebastião
Bisneto
Percurso: 2.100 km
Motorista: Valdir Gomes

Crateús Santana do Acaraú Novo Oriente
Oceano Atlântico Itapipoca
Quixadá Itapajé Irauçuba
Quiterianópolis Tauá Mombaça
Quixeramobim
Catunda Acopiara Icó Orós
Pedra Branca Sen.Pompeu Quixelô
Lavras da Mangabeira Caririaçu Iguatu
Missão Velha Jaguaribara Jaguaribe Pereiro



a relação do sertanejo com as chuvas, em complemento aos Mares e Desertos do Sertão. Saí com a certeza de que iríamos encontrar o homem do campo feliz pela chegada das chuvas e esperançoso com a possibilidade de boa safra. Mas não esperava que a mesma chuva, que traz felicidade, é capaz também de produzir tragédias, como vimos em várias cidades por onde passamos. Após este terceiro caderno, firmo a certeza de que os clichês existem porque somente com eles somos capazes de definir apropriadamente determinada situação. Depois da seca, da má utilização da água armazenada nos açudes, da desertificação, e das bem vindas chuvas que também destroem, não há como ignorar que o sertanejo é acima de tudo um forte. Luiz Henrique Campos, jornalista

com chuva do que com a falta dela. Em dia chuvoso em Fortaleza, muita gente fica mais
e
vontade de não sair do aconchego da cama,
não sabe o motivo. Por resquícios dos nossos antepassados do Interior, que tanto sofriam com a seca, aprendemos a celebrar a chuva. Esse sentimento só cearense compreende. Rafael Luis jornalista






























TÁ UM SOL DE IRAUÇUBA, MAS A NUVEM CARREGADA JÁ ARRODEIA. O CHEIRO DE CHUVA
SOBE, A ÁGUA CHEGA FARTA. O AGRICULTOR JÁ PERDEU DOIS PLANTIOS COM TANTA MOLHADEIRA, MESMO ASSIM CONFIA QUE O TERCEIRO AGORA VAI VINGAR
CLÁUDIO RIBEIRO E DEMITRI TÚLIO ~ TEXTOS SEBASTIÃO BISNETO ~ FOTOS ENVIADOS À ZONA NORTE
Océu faz o prenúncio. Ao pé da Serra do Riachão, enquanto seu Raimundo Pinto Ferreira, 63, escarna o chão com mais três na mesma lavra, vem a chuva molhadeirinha. Só de aguação, das que fazem bem ao plantio. Dez minutos antes, era um sol de lascar. Sol de Irauçuba. De repente, sopra o vento forte, frio, faz o capim deitar, espalha o mato. É a chuva mais forte vindo. Ela chega, encharca por alguns instantes a areia remexida e, ainda mais repentinamente, pára. Onde se pisa agora há poças de água ou ela escorrendo entre o milho e o feijão pequenos. Os pés ficam mergulhados. Aquilo já não faz tão bem ao plantado. Volta o sol forte, por uma hora e meia. “Ô calor da molesta”. O céu continua carregado mais adiante. “Essa chuva tá já vindo, chega num instante”, garante seu Raimundo. Sem erro. Ventania, o capinzal deita outra vez. Vem o cheiro forte de chuva. Cai a tromba d´água, por três horas e meia, sem trégua. Até o fim da tarde só diminuiu para chuvisco, mas não parou. À
Onde se pisa agora há poças de água ou ela escorrendo entre o milho e o feijão pequenos. Os pés ficam mergulhados. Aquilo já não faz tão bem ao plantado
noite, voltou mais intensa. Naquele dia, foram 22 milímetros, segundo a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), a segunda maior chuva de 2008 até agora no município. No folclore, quando chove bem até em Irauçuba é porque todo o resto do Ceará está muito mais banhado. É uma das regiões mais desertificadas do Ceará. “A chuva tá sendo pesada. Tá entupindo tudo”, conta seu “Raimundo Burro”, apelido que diz ter desde os tempos de zagueiro bruto. Com o pé
esquerdo mutilado, sem o dedão perdido numa doença também braba, ele pisa a areia para mostrar o estrago da chuva demasiada. As covas entopem de tanta água, as sementes se afogam.
Plantação “Ainda assim, é melhor que chova”, confirma. O sertanejo pode perder tudo, mas a chuva ele não maldiz. No inverno, para quem conhece a árida paisagem irauçubense do resto do ano, a água é dadivosa. Quem perde o que plantou, só lamenta. Aquela já era a terceira plantação de seu Raimundo. A capinação é feita com seu Manoel “Nêgo” Alves, com Noé Mendes e com Pedro Henrique. Batem enxada das sete às duas. O almoço ao meio-dia é rapadura. “Tem vez que acendo um cigarro desse de palha, o bicho é tão forte que a fome até passa”, diz seu Nêgo. A fumaça arde no peito, deixa o bigode dele amarelado.
O roçado é de três tarefas, o equivalente a um hectare. Jogaram as sementes no chão em janeiro, nos primeiros serenos. Depois,
foram mais de 30 dias sem uma gota. “Já era pra esse milho tá embonecado”, explica seu Raimundo. A “boneca” é quando a espiga crescida solta pequenos fios avermelhados, sinal do milho amadurecendo. Entrando no abril, o milharal do Riachão não dava na altura do joelho. Se vingar, sai na metade de maio. Mesmo com tanto inverno já vivido, seu Raimundo confessa o erro. “A gente se 'avexemo' em janeiro, pensava que já era inverno 'mermo'”.
Milho
Necessidade, não passam este ano. “Quando o ano é ruim, sem chuva, a gente caça, pesca, faz carvão. Se Deus querer, esse milho aqui ninguém perde não”. Confiança na mão e na chuva. Seu Raimundo já passou muito inverno ruim e muitos bons. Começou aos 13, ajudando o pai. “Meu ramo de vida toda vez foi esse”. Também botou um monte de filho no mundo. “Ah, tem muito. Sou pai de três famílias”, responde rindo e vai e vai capinar na chuva.
ÁGUA DA FRONTEIRA

> Onde quase sempre é tudo seco, a paisagem de Irauçuba deslumbra nas chuvas. Como pouco depois da localidade São José. Casa grande, cachoeira cheia ao fundo, flores na relva abundante. A água interditou o caminho para o distrito de Missi, mas a vista garantiu a viagem.
> As chuvas de Irauçuba em 2008 foram: 34 mm em janeiro, zero em fevereiro, 157,7 mm em março, 52 mm em abril (até dia 22).
> O abastecimento no município é feito pelos açudes São Gabriel e Jerimum. Há ainda uma adutora e 135 poços.
> Irauçuba já teve um dos maiores rebanhos bovinos do Ceará. O pisoteio do gado ajudou a compactar o solo e isso é considerado por estudiosos um dos principais motivos da desertificação acentuada no município.
vira caminho de pedra.
Seu Zé Cancela é José Ferreira da Silva, 60. O apelido é porque morava perto de uma porteira e sempre abria a passagem aos de fora. Virou alcunha. Quando o encontramos, estava sentado na porta de casa, doente havia mais de 20 dias. Usa a bengala para se pôr de pé. É a fartura desta época que ajuda a família a encontrar água perto, feijão, milho, batata doce e mandioca pra colher.






EM PEREIRO, QUANDO JANEIRO CHEGA TRAZENDO A CHUVA, PRODUTORES TANGEM O GADO DA SERRA PARA JAGUARIBE, NO SERTÃO, PARA QUE OS ANIMAIS NÃO PREJUDIQUEM O CULTIVO DE PLANTAÇÕES
LUIZ HENRIQUE CAMPOS E RAFAEL LUIS ~ TEXTOS
FCO FONTENELE ~ FOTOS
ENVIADOS AO VALE DO JAGUARIBE
Aquadra chuvosa demarca um trânsito diferenciado nos cerca de 20 quilômetros da rodovia CE-138 entre Pereiro e Jaguaribe, no Vale Jaguaribano. A primeira cidade está no alto da serra que divide o Ceará do Rio Grande do Norte; a segunda, no sertão. Todos os anos, quando surgem as primeiras chuvas na região, geralmente em janeiro, pecuaristas descem a serra com o gado, para soltá-lo em pastagens. A partir de junho, quando cessam as chuvas, os animais são levados de volta. O transporte, porém, não é realizado com auxílio de veículos, mas sim em caminhadas que duram cinco horas e contam com boiadas de até 50 animais. A chamada pecuária itinerante, tradicional em Pereiro, a 333 quilômetros de Fortaleza, nasceu da necessidade de se criar cabeças de gado sem prejudicar o cultivo de milho, feijão e arroz, no primeiro semestre. Como a maior parte dos sítios e fazendas da cidade são pequenas propriedades, tornou-se inviável conciliar uma cultura com a outra. Dessa forma, agropecuaristas passaram a comprar ou alugar terras em Jaguaribe. “Em Pereiro, o gado fica preso na segunda metade do ano. Quando começa o ano, levamos os animais para o sertão para plantarmos nossos legumes”, explica o fazendeiro José Diógenes Júnior, 52. Por volta das cinco da manhã, os vaqueiros iniciam a jornada até Jaguaribe, com término previsto quase sempre para as 10 horas. Para facilitar a migração do rebanho, produtores se unem para levar juntos suas criações, em grupos de três a
cinco homens, divididos na frente, no meio e atrás da boiada - a cavalo, de moto ou a pé. No entanto, também é comum encontrar pequenos criadores tangendo sozinhos meia dúzia de bois e vacas. Segundo produtores, não há dificuldade no transporte do rebanho, pois os animais já conhecem o caminho entre as duas cidades. “Uma vez, esqueci a cancela aberta e, no dia seguinte, o gado estava todo de volta a Pereiro”, conta José Diógenes, com 40 anos de experiência na pecuária itinerante. Este ano, a migração de suas 350 cabeças de gado foi feita em grupos de 50 animais. “Foi fácil. Já faço isso desde criança”.
Acidentes
Apesar da experiência da maioria dos criadores, não são raros os acidentes entre veículos e animais na estrada, que em alguns trechos é bastante sinuosa. Para alertar os veículos que trafegam no sentido contrário, o vaqueiro que conduz o rebanho é obrigado a carregar uma bandeira vermelha - uma espécie de código de trânsito na região. A Prefeitura de Pereiro deve realizar em junho um recenseamento do rebanho. A estimativa é que existam cerca de seis mil cabeças de gado e que duas mil sejam levadas todos os anos para Jaguaribe. “Esse êxodo nasceu porque há pouco espaço em Pereiro, que fica numa região serrana. Todos que têm poucas terras são obrigados a soltar o gado no sertão para que possam plantar”, explica o técnico agrícola da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce), Vicente Ferreira.







PERFIL
PEREIRO
Localização:
Vale do Jaguaribe Distância de Fortaleza: 328 km
População: 15.545 hab (2006)
IDH: 0,626 (104º no Ceará e 4.189º no Brasil)
Precipitação pluviométrica: 1.097 mm (média histórica)
JAGUARIBE Localização: Vale do Jaguaribe Distância de Fortaleza: 291 km
População: 37.032 hab (2006)
IDH: 0,672 (25° no Ceará e 3.433° no Brasil)
Precipitação pluviométrica: 676 mm (média histórica)
Fonte: Anuário do Ceará 2007-2008
Tudo se transforma
A chuva transforma mesmo a paisagem do Sertão. Um gado aqui, um verde acolá, uma água por cima da parede lá do outro lado, e o encanto que sempre toma conta do sertanejo (e do não-sertanejo). Seu Pedro Barbosa hoje tem 61 anos. Nasceu e se criou no Orós quando o Orós ainda nem era de água. Era só de pedra e toco. Seu Pedro trabalhou cinco anos na construção do açude, arrancando tocos e catando raiz. Também como servente, para que jogassem o concreto onde hoje está a parede molhada pela sangria. Tinha 15 anos, na época. Era o primeiro trabalho fora de casa, dinheiro pra ajudar. Oito horas por dia. Antes, só colaborava na roça. A gigantez de uma obra daquelas também mexia com seu imaginário. A barragem guardaria a água que o lugar não tinha. A redenção, relembra. O sertão sumiria ali perto e apareceria um mar. Era muito para a cabeça do menino. O presidente Juscelino Kubitschek foi inaugurar, seu Pedro estava lá. Viu todas as sangrias. Encontramos seu Pedro ao lado do sangradouro no domingo 6 de abril, dia em que o Orós acabara de se derramar de novo e dava espetáculo. Tangia cabras, quando parou para conversar. Seu quintal de casa agora é o açude. Ele mora a poucos metros da parede. Vê todo dia o aguaceiro trazido pelas últimas chuvas. E festeja. “É uma sensação muito boa. Pelo menos tá cheio. essa sangria vai limpar o rio, né? O Jaguaribe tá seboso cheio de pasto. Agora vai limpar mais”. Depois da prosa ligeira, seu Pedro seguiu o rumo. “Pois tá, vou indo. Boa sorte procês”. (Cláudio Ribeiro)









É tempo bom. Dá outra animação
Aos 71 anos, o fazendeiro Ermano Martins, proprietário da Fazenda Ramalhete, a quatro quilômetros da sede do município de Quixeramobim, contempla sem pressa o final de tarde da varanda de sua propriedade com 360 hectares. Na conversa mansa com a equipe de reportagem, dispersa apenas por alguns pingos de chuva que escurecem a paisagem, ele filosofa sobre as mudanças que o tempo tem perpetrado nos últimos anos.
“Parece que as secas estão mais intensas agora”, puxa o mote. “Não tenho muito conhecimento técnico, mas antes dava para notar que chovia mais tempo e de forma contínua”, deixa
transparecer uma pitada de desesperança com a possibilidade de boas chuvas este ano. “Quando chove muda a esperança do sertanejo. Mesmo que seja pouquinho. Mas só o tempo chuvoso dá outra animação ao homem do campo. Tem sempre alguma coisa para o sertanejo comer”, sentencia.
A desesperança de seu Ermano tem justificativa no gado, apesar de cultivar na fazenda, milho, soja e feijão. Quando chove e dá para encher os dois açudes, há pasto para os animais até o próximo ano e sustento do meio de vida do fazendeiro, que com 150 cabeças de gado chega a produzir 1.200 litros de leite/dia.
No dia da conversa, em meados de março, o lugar até que estava verdinho. Mas esse cenário é, na maioria das vezes, transitório. Em Quixeramobim, a vegetação presente é a caatinga arbustiva densa, caracterizada pela presença de cactos, e, se não chover, logo o verde desaparece.
Para seu Ermano, felizmente, pouco mais de um mês depois daquela conversa, o verde continua predominando. Os açudes pegaram carga, o gado terá pasto e o sertanejo vai ter o que comer por alguns meses. Deus atendeu às preces do fazendeiro: “Peço sempre tempo bom nas minhas orações. Para nós, chuva é tempo bom”.
Azulzinho de chuva: memória de infância

Dos invernos da infância, também guardo as lembranças no paladar. Do gosto do feijão verde com nata servido na Semana S anta
Lá em casa era proibido falar em céu escuro quando as nuvens se formavam no nascente ou se tornavam carregadas lá pelas bandas da serra da Ibiapaba. Aprendi a dizer, nessas ocasiões, que o céu estava azulzinho de chuva ou então que está bonito para chover. Falo disso para mostrar como o inverno (gosto de chamar assim e não quadra chuvosa, como recomendam os técnicos) mudava as nossas vidas no Interior, deixava nossas brincadeiras mais alegres, nossas mesas mais fartas, nosso lazer mais excitante. No dia de chuva, uma récua de meninos e meninos ia para as ruas tomar banho, coisa que o cearense sabe apreciar muito bem. Corria-se de um lado para outro, gritava-se para tentar amenizar o frio, percorria-se quase a cidade inteira em busca da bica mais forte. Aquelas em forma de boca de jacaré, localizadas nas casas dos mais ricos, eram as preferidas. A água caía em jorro forte, batia na cabeça, respingava quem se atrevesse a passar por perto. Dos invernos da infância, também guardo as lembranças no paladar. Do gosto do feijão verde com nata, maxixe, jerimum e macaxeira servido na Semana Santa. Do milho verdinho quebrado no quintal de casa, assado no fogão à lenha que levava o cheiro até a sala de visita. Das melancias na


sobremesa, que papai tão habilmente cortava deixando o miolo intacto. Os filhos ficavam ao redor para cada um receber o seu pedaço. Aos domingos, tinha o banho nos rios e riachos que “morriam” no verão, mas renasciam após as primeiras chuvas. Era fascinante olhá-los de cima da ponte, fortes, viçosos, carregando o que encontravam pela frente, trazendo piabas e peixes para amenizar a fome de muitos. Viravam lazer. No inverno, era bom acordar de madrugada. Ficar enrolada dentro da rede ouvindo o som dos pingos no telhado. Meu fi de seis anos aprendeu a gostar de chuva. Fica animado ao olhar as nuvens surgindo carregadas lá na Praia do Futuro. Gosta de deitar na rede em dias chuvosos. Mas, para ele, tomar banho de chuva só deve ser em Reriutaba. E isto eu acho lindo.
Tânia Alves é editora executiva do Núcleo de Cotidiano do O POVO nasceu em Reriutaba

QUEM CONTA DIZ QUE É VERDADE. E QUEM HÁ DE DUVIDAR? VISAGENS NO ROTA DA PECUÁRIA ITINERANTE, QUE MUDA DE ARES EM PERÍODO DE CHUVA. ATÉ A FORÇA ESPIRITUAL DE FREI DAMIÃO FOI CONVOCADA
LUIZ HENRIQUE CAMPOS E RAFAEL LUIS ~ TEXTOS FCO FONTENELE FOTOS ENVIADOS AO VALE DO JAGUARIBE
Àprimeira vista o imponente casarão já desgastado pelo tempo instiga a sensação de mistério e convida os mais corajosos a explorar seu interior. O imóvel bicentenário - 216 anos -, na fazenda Trigueiro, à margem da estrada ligando a cidade de Pereiro ao município de São Miguel, no Rio Grande do Norte, faz parte do roteiro da pecuária itinerante há várias gerações da família Diógenes. Mas não é por isso que a propriedade ganha notoriedade. Construída pelo agropecuarista e senhor de escravos Manoel Diógenes Maia, a casa, com suas 45 portas e janelas, sobrados habitados por bandos de morcegos - onde ainda podem ser vistas forcas e porões úmidos -, seria um convite a alimentar histórias fantásticas, isso se muitas delas já não ti-








EMAIS

> Das visagens propagadas por dona Delcides, consta que cachorros pretos com os olhos vermelhos apareciam dentro da casa próximo à meia-noite, sem que ninguém soubesse como. Os animais pareciam violentos, mas não agrediam os moradores;
> Os familiares também eram acordados com feixes luminosos surgidos de frestas nas portas e no teto. Ao se acostumarem com a luz, ao fundo surgiam imagens de rostos transfigurados; > No tempo das visagens um dos espaços era motivo de tabu. Ali teria morrido de forma inexplicável uma pessoa ao entrar. Desde então o local permanece fechado.



vessem sido vivenciadas pelos atuais moradores, como dona Delcides Vieira Diógenes. Segunda mulher do falecido José Diógenes Maia, bisneto do fundador da fazenda, Delcides Vieira dispensa salamaleques para abrir o baú de situações do outro mundo que marcam o casarão. Para começar, admite que o próprio marido matou, na casa, um soldado que quis se engraçar com uma das filhas do primeiro casamento durante festa na fazenda. Sem a rigidez cronológica que a liberdade dos contos fantásticos permite, Delcides é capaz de desfiar fatos e mais fatos sobre as assombrosas situações que tiveram a casa como cenário. “Antigamente apareciam muitas visagens. Gemidos, choros, barulhos nos objetos, sem qualquer motivo”, diz ela. “Nunca segurava uma vela acesa”, reforça os mistérios. Na conversa que se estende na tarde chuvosa na fazenda, a nonagenária vai adiante. Certo dia, conta dona Delcides, “era meia-noite, quando eu e meu marido começamos a ouvir sons de violinos, bandolins e harpa. A música ganhou os ambientes da casa”. Ela e o marido não tinham explicações para o fato que só se encerrou às duas da manhã. “Na casa dormiam trabalhadores da fazenda, todos grandes e fortes, armados, mas se tremendo de medo”, afirma. De tanto sofrer com as assombrações, Delcides decidiu procurar frei Damião em São Miguel. Pediu ajuda. Ele a ouviu e apenas disse: “Vá!” Dias depois Delcides estava fora do casarão quando viu saindo de um dos compartimentos o religioso, que teria aparecido sem avisar. Ele então recomendou simpatias e perguntou se tinha fé. “Tenho!”, respondeu. “Então mande rezar 20 missas pelas almas penadas que estão aqui. Mas antes de concluídas as missas, nenhuma palavra com sentido negativo poderá ser pronunciada na casa”, sentenciou o frade. Delcides mandou rezar as missas por uma prima que ia ao Vaticano. As visagens desapareceram. Hoje, diz, o máximo que se ouve são alguns gemidos, especialmente em tempos chuvosos.
> Uma das simpatias de frei Damião para afastar as almas penadas era derramar água benta em três cantos que ele indicasse na casa.
> Como a entrevista foi realizada no final de tarde, início da noite, surgiu o convite para a equipe dormir ali naquele dia, já que teríamos que descer a serra chovendo. É claro que o convite não foi aceito. Antes, a dona do casarão pediu para que visitássemos o sobrado e o sótão. Como já era tarde, ficou para outra vez.









PERFIL
QUIXADÁ
Localização: Sertão Central Distância de Fortaleza:
158 km
População:
75.717 hab (2006)
IDH: 0,673 (21° no Ceará e 3.406° no Brasil)
Precipitação
pluviométrica: 838 mm (média histórica)
QUIXERAMOBIM
Localização: Sertão Central Distância de Fortaleza: 206 km População: 59.244 hab (2006)
IDH: 0,640 (71° no Ceará e 3.928° no Brasil)
Precipitação pluviométrica: 707 mm (média histórica)
Fonte: Anuário do Ceará 2007-2008

PROFETAS DA CHUVA FUNCIONAM COMO SALVAGUARDA DO SERTANEJO MISTURANDO O SAGRADO E O PROFANO NA ESPERANÇA POR UM PERÍODO QUE TRAGA BOAS CHUVAS
LUIZ HENRIQUE CAMPOS E RAFAEL LUIS TEXTOS
FCO FONTENELE FOTOS
ENVIADOS AO SERTÃO CENTRAL
Achuva para o sertanejo funciona como uma espécie de metáfora da vida. Com ela, surge o pasto, trazendo alimento para os brutos; a água, que sustentará o homem até o próximo inverno; e o verde, descortinando cenários de rara beleza remetendo ao sonho da prosperidade. É assim que o homem humilde do sertão estabelece seu modo de viver: em busca da chuva, mesmo que por ela, se apegue ao sagrado e ao profano sem distinções. Na região Centro Sul do Ceará, os profetas da chuva representam bem essa mística baseada na esperança de uma boa estação chuvosa. Respeitados entre os agricultores da região e até exaltados em reportagens pelo Brasil afora, os profetas funcionam para os sertanejos bem mais que os prognósticos científicos. Com base em movimentos da natureza, eles fazem suas previsões a partir do comportamento dos animais, ciclo dos ventos e das plantas, sendo capazes de garantir a possibilidade de chuva antes mesmo dos órgãos oficiais. Respeitados em seu ofício, são os profetas, no final de dezembro e nos meses de janeiro e fevereiro, os cultores da sabedoria popular mais escutados no sertão durante este período. Quixadá tornou-se o centro dos profetas, sendo hoje a cidade responsável por um encontro anual que dura três dias, coincidindo com o segundo sábado de janeiro, dia consagrado ao profeta popular. A reunião ganhou fama e atualmente é patrocinada pela Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) do município, recebendo também representantes de órgãos ligados a questão climática e estudiosos.
Com base em movimentos da natureza, eles fazem suas previsões a partir do comportamento dos animais, ciclo dos ventos e das plantas
A tradição de prever as chuvas, porém, não seria uma coisa exclusiva do Ceará. Apesar de os próprios profetas creditarem as previsões a um dom especial, o geógrafo Caio Lóssio Botelho afirma que essa tradição teve origem na Península Ibérica por meio dos mouros, árabes muçulmanos que dominaram a região no século VIII, chegando depois ao Brasil. Estudioso do tema, o geógrafo ressalta que a tradição dos mouros chegou ao Brasil após as influências das culturas espanhola e portuguesa durante o processo de colonização. Ele lembra, também, que os indígenas faziam muitas previsões climáticas. Já o motivo da cidade de Quixadá ter se notabilizado pela profusão de profetas - 30 participantes no encontro de 2008 - ninguém sabe ao certo a origem. O fato é que todo ano as atenções do sertanejo se voltam para eles, que fazem questão de registrar em documento, ao final do encontro, as previsões apresentadas. Para este, de forma unânime, os 30 participantes deixaram escrito: “Inverno favorável este ano, com chuvas maiores entre os meses de março e abril”. Acredite se quiser!










De profeta e curandeiro...
É chegar em Quixadá e perguntar pelos profetas da chuva que o nome de Antônio Lima, 68, é logo lembrado. Morando no distrito de Custódio, a cerca de 12 quilômetros da sede do município, ele parece saber disso, e recebe a equipe do O POVO com a sensação de estar exercendo um ofício. O ofício de explicar porque suas previsões irão dar certo este ano. Apesar da idade e do sol forte de início da tarde, após uma rápida chuva pela manhã, Antônio Lima não se furta a se dirigir ao seu sítio, localizado a três quilômetros da casa. Ainda no carro, desfia os primeiros passos que lhe indicaram o dom da adivinhação. Desde os 8 anos, diz ele, ainda com a mãe, Celestina Alves de Sousa, a quem aponta como grande profeta da região.
Ela também era curandeira e tirava azar, afirma. Da mãe, Antônio Lima relata também ter herdado o poder de fazer curas.
E hoje, vai mais adiante, diz que tira azar, expulsa demônio, cura menino, dor-de-dente. "Basta chegar perto de mim que eu sei se a pessoa está atentada (pelo demônio). Já curei até por telefone a pessoa que estava com o demônio”.
No roçado onde brota o milho e o feijão, Antônio Lima caminha e fala sobre a vida, do milho bonecando e dos fenômenos que indicam chuva. Por um momento ele pára, e canta músicas de Luiz Gonzaga sob a temática da chuva. Parece querer ganhar fôlego para responder ao questionamentos sobre os que não acreditam nas profecias. Duas músicas depois, está lá ele, sendo duro com os que não acreditam nas profecias. “Até Deus foi alvo de desconfiança. Eu não digo nada. Nem discuto. Quando eu disse que ia chover todo mundo ficava me cobrando. Agora, não vejo ninguém falar mais em chuva. Só fica esperando”.


FEITO FÁBULA
No semi-árido, o agricultor que não dispõe de irrigação e depende das chuvas para plantar trabalha duro durante três meses para ter o que comer nos outros nove de estiagem.
Como na fábula da formiga, que recolhe para sua morada alimentos para sobreviver no inverno, o agricultor de subsistência, maioria no Nordeste, cultiva milho e feijão para se manter até o início das chuvas do ano seguinte, quando plantará novamente.
Na comunidade Córrego das Pedras, em Jaguaribe, o agricultor José Vandir Vieira, 48, batalha durante o período de chuvas, geralmente entre fevereiro e maio, para se manter no restante do ano.
Durante a fase de plantio, ele acorda às 6 horas, dá uma pausa ao meio-dia para o almoço, retoma o trabalho às duas da tarde e só pára quando o sol se põe. “Vocês da Capital não têm idéia do quanto é cansativa a vida de um agricultor de verdade”, desafia.

O deus do ateu Manoel
Da estrada se avista o senhor octogenário em sua varanda contemplando a paisagem verdinha postada à frente da casa. O primeiro contato com o agricultor Manoel Alves de Castro, 82, morador do Córrego das Pedras, a 25 quilômetros da sede de Jaguaribe, é sem formalidades e aconchegante. Um bom dia e o convite para sentar, antes mesmo das apresentações. “O inverno aqui tá o melhor do mundo. Tá com uns poucos de anos que não via chuva tão boa”, se anima, quando perguntado sobre as últimas chuvas. Seu Manoel já viu muitos invernos bons, mas também secas terríveis. Nasceu e se criou no Córrego das Pedras. Mas já deixou o local várias vezes para trabalhar fora. Na seca de 1932, diz ele, apesar de contar seis anos, lembra bem. “Eu ia para Feiticeiro (localidade há cerca de 5 km de onde mora) pegar comida com os parentes. Foi feio o negócio. A maior tristeza era o gado caindo e morrendo de sede e de fome. Ninguém podia fazer nada. Era sol o dia todo”. Em 1970 a situação também não foi boa, relata. “Eu me empreguei em Solonópio (Solonópole) para plantar batata nas vazantes para fugir da seca”. Seu Manoel tem hoje 14 filhos e todos moram ao seu redor labutando na lavoura e no gado. Já tem netos e bisnetos, mas não sabe dizer quantos. O tempo passa rápido na conversa com seu Manoel naquele tempo de chuva boa. Sem saber, ele filosofa, fala de política, de família, de religião: “Meus filhos são quase tudo crente. Outra parte é católica. Eu sou quase ateu. Eu gosto dos crentes porque eles não deixam os filhos ir para forró, essas arrumação toda. Mas o católico é bom porque é mais livre. Então, o católico é bom por um jeito, e o crente é de outro. Por isso eu prefiro ser ateu, sem deixar de gostar dos dois”. Ele, porém, não deixa de crer em Deus a sua maneira. “Mas peço mais para os brutos. Porque eles é que precisam de chuva. O homem, mesmo, nesses tempos, não morre mais de fome. Tem aposentadoria do governo, tem o bolsa-família... Mas os brutos, não”.




“Tragédia menos dolorosa”








Tudo que Evanildo Alves do Nascimento, 31, construiu na vida de agricultor foi embora num piscar de olhos. Morador da localidade Genipabeiro, na zona rural de Caririaçu, ele teve a casa destruída por uma enxurrada do riacho de mesmo nome, em março. Em questão de segundos, a correnteza desmanchou sua residência e arrastou todos os móveis e eletrodomésticos. Evanildo, a mulher, Damiana Farias, 29, e a filha de quatro anos se salvaram porque saíram da casa pouco antes, assustados com a enchente repentina do riacho, cujo leito normal fica a 30 metros. “Só sobraram alguns tijolos e telhas, além de parte dos ferros da minha cama. Nem documentos temos mais, ficamos apenas com a roupa do corpo”, lamenta o agricultor, que também teve destruída a lavoura de milho e feijão e perdeu suas galinhas e porcos. No dia seguinte à enchente, O POVO esteve na comunidade. Evanildo recolhia tijolos e telhas. “A tragédia com chuva é menos dolorosa do que com seca, pois existe a esperança de que a água traga vida para o agricultor”, opina Evanildo.

No alpendre de terra batida da casa de Francisco Alves de Sousa, 49, os agricultores vão chegando aos poucos naquela manhã chuvosa de março. A curiosidade é despertada pela presença do técnico agrícola da secretaria da Agricultura que acompanha a equipe de reportagem. As perguntas iniciais são dirigidas ao profissional da Prefeitura, que parece, a cada resposta, oferecer alento aos homens do assentamento Massapé, a cerca de 12 quilômetros da sede do município de Quixadá.
Não é a toa a expectativa com a possibilidade de boa safra este ano para as famílias assentadas no Massapé. No local, além das tradicionais culturas de milho e feijão, que garantirão a alimentação até as próximas chuvas, os agricultores estão apostando na mamona e no girassol como gerador de renda. Este é o segundo ano que se planta a mamona e o girassol em consórcio com as culturas de subsistência (milho e feijão). No primeiro ano, decepção. Como não choveu, tudo foi perdido. Este ano, não. Eles esperam colher boa safra e receber um dinheiro razoável pela produção. A expectativa se sustenta porque a colheita já está vendida para a Petrobras, graças a usina de beneficiamento instalada na região para a fabricação de biodiesel. O acerto entre a Petrobras e a prefeitura de Quixadá permitiu ao município ter hoje 568 hectares plantados com mamona e girassol, beneficiando 521 famílias de pequenos agricultores. Segundo o técnico da secretária de Agricultura, Paulo Pinto, as sementes começaram a ser distribuídas em fevereiro. Como não choveu no período algumas foram perdidas. Até agosto, porém, em vista das chuvas de março e abril, o resultado deve ser bem melhor. É essa perspectiva que faz brilhar os olhos dos sofridos
A maioria dos assentados está lá no Massapê desde 1999. Mas inverno, inverno mesmo, só em 2004. Antes da mamona, era somente feijão e milho para comer
agricultores acomodados de modo peculiar no terreiro da casa de seu Francisco, quando escutam as respostas em clima otimista do técnico agrícola. A maioria dos assentados está lá no Massapê desde 1999. Mas inverno, inverno mesmo, só em 2004. Antes da mamona, era somente feijão e milho para comer. “A gente tem mais ou menos a experiência dos profetas e acha que esse ano vai chover. Pedi muito a Deus para o bom tempo (chuva). Pedi chuva para ter bonança para a gente”, arrisca um comentário o dono da casa. “É preciso que Deus olhe para os brutos”, diz dona Maria da Graça Lopes de Sousa, esposa de Francisco, que com a aparência de ter mais de 60 anos, surpreende a todos quando diz que irá completar 45. “Já acreditei mais em santo. Hoje não creio muito, porque ele vai pedir mesmo a Deus. Então, eu prefiro logo é pedir direto a Deus, porque ele tem que atender tanta gente e é melhor não ficar esperando que o santo peça”, resume Maria das Graças, à sua maneira, a estratégia para garantir a chuva. Mais cauteloso, Leonardo da Silva, o Naldo, diz que “a Funceme não sabe de nada. Nem os profetas, só Deus”. Mas até ele é capaz de se render as possibilidades que se apresentam: “A nossa esperança é que com a mamona a gente ganhe um pouquinho de dinheiro".




Entre o plantio e a colheita

Na fazenda Estreito, de dois hectares, distrito de Mineirolândia, no município de Pedra Branca, a limpa do terreno (roça) começou nos primeiros dias de março. Bastaram as primeiras chuvinhas para animar o roçeiro. Cerca de sete pessoas se revezam na plantação de milho e feijão. Os primeiros resultados já começaram e “é tão bom quando a gente vê o resultado da planta”, diz Manoel Rodrigues dos Santos, 33. “Para a gente, que não tem emprego, esse milho e esse feijão vão garantir a comida até a próxima quadra chuvosa, ou no início de janeiro do próximo ano”, complementa. A roça é o procedimento natural dos agricultores no intervalo entre o plantio e a colheita. Choveu, tem que ir para o roçado para tirar o mato que cresce e pode prejudicar o plantio. É nesse dilema que o sertanejo convive com a chuva. Quando não chove, a plantação não floresce. Mas a chuva, somente, não é garantia de colheita. Tem que ser uma chuva na medida, precisa Manoel dos Santos. “Se chover forte toda a plantação se perde. Já com a chuva, cresce a vegetação que atrapalha o crescimento normal dos legumes”, ressalta. Essa relação aparentemente conflituosa, no entanto, é vista pelos agricultores como uma benção. “Se tiver chuva a gente dá um jeito”, diz o agricultor. O pior mesmo, para os agricultores de Mineirolândia, é quando não chove. A saída, então, é buscar refúgio na colheita da cana em São Paulo. O período começa em abril e dura 10 meses. O ganho é superior ao obtido no Ceará. Como recebem por produção, chegam a receber até R$ 400,00/semana. Mas o








PERFIL
ACOPIARA Localização: região
Centro-Sul
Toponímia: Palavra do Tupi, significa “o que cultiva” ou “agricultor”
Distância de Fortaleza: 345,1 km
População: 45.569 (2006)
IDH: 0,597 (148º no Ceará e 4.707° no Brasil)
Precipitação pluviométrica: 748,5 mm (média histórica)
Fonte: Anuário do Ceará 2007-2008
> O Oitis não foi o primeiro açude que o padre Crisares “construiu” com o povo no semi-árido cearense. Em 2003, a comunidade da Extrema, depois de percorrer um caminho semelhante ao dos habitantes do Ebron, inaugurou o açude da Extrema. Lá a capacidade é de 3 milhões e 500 mil m3 d´água e, hoje, já produz dignidade.
NO SEMI-ÁRIDO CEARENSE, UM PADRE CAVA AÇUDES PARA NÃO
DESPERDIÇAR OS INVERNOS BONS E GARANTIR A CONVIVÊNCIA NOS TEMPOS DE VACAS MAGRAS
DEMITRI TÚLIO E CLÁUDIO RIBEIRO ~ TEXTOS SEBASTIÃO BISNETO ~ FOTOS ENVIADOS AO CENTRO-SUL
Acopiara, município da região CentroSul do Ceará, quase sai do mapa de viagem. A passagem por lá estava na rota das caçadas de chuvas, mas por causa das enchentes em Crateús, Novo Oriente e em Quiterianópolis tivemos de desviar o caminho e faltou pouco para riscá-la do roteiro. Ainda bem que não o fizemos. Lá, depois de chegarmos por volta das três da tarde de uma sexta-feira, descobrimos a saga do padre Crisares Sampaio Couto, 79, e seu povo no semi-árido cearense. Ahistória é essa:
“Deu tempo aproveitar as águas dos temporais de 2008” e quase encher o açude recém-nascido. Rebento robusto, com capacidade para 4 milhões de m3 d´água. Nos três primeiros meses deste ano, o povo da região do Ebron testemunhou a conclusão da parede e sangradouro do açude dos Oitis. Nada de milagre ou retribuição a sacrifícios. Em pleno semi-árido cearense, num distrito esquecido - situado a 44 quilômetros da sede de Acopiara -, um padre e 130 famílias subverteram a escrita da vida como ela é no sertão. Cansadas de 50 anos de promessas politiqueiras, famílias do desterrado Ebron propuseram ao padre Crisares mais uma caminhada em seus 47 anos como pároco de Acopiara. O vigário é um senhor longilíneo, de aparência incansável (a exemplo de um Moisés), determinado e de uma doçura de avô. Mas tem uma coisa e prega: não lida “com gente desorganizada e não sou paternalista ou assistencialista. O trabalho social da paróquia é promocionalista e libertador. Promovemos a vida em abundância pra quem a deseja e tem coragem”.
Firmou isso para contar um pouco das quase cinco décadas de convivência numa das dioceses mais pobres do semi-árido cearense. Voltemos ao ano de 2003 para caminhar até 2008. Há cinco anos, famílias do povoado da região do Ebron foram ter com padre Crisares. Esquadrinharam o povoado e ratificaram a “existência” de uma terra que tinha tudo para ser próspera. Desde que o sertão é sertão e o primeiro morador sentou praça por lá, o Ebron é cortado pelo riacho dos Oitis. Abundante em períodos de chuva. “Uma riqueza desperdiçada, principalmente em tempos de inverno bom. Muita água e gente morrendo de fome”. Desejavam, conta o padre, a construção de um açude e em seus arredores cultivar favorecidos por um projeto de irrigação. Forjado em Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), braço ainda forte na paróquia de Acopiara, padre Crisares orientou a criação de uma associação comunitária no Ebron e a formulação de um projeto. “Ensino a pescar, não dou o peixe”. E assim o fez. Estudo na mão, bateram à porta de uma velha parceira: a ONG Manos Unidas. Uma organização da Igreja Católica na Espanha que destina, a fundo perdido, recursos para geração de emprego e renda a povos organizados do 3º Mundo. Da Espanha vieram euros, que convertidos em moeda brasileira somaram R$ 1 milhão. O dinheiro, que não caiu do céu nem passou pelas mãos de políticos, operou a transfiguração no Ebron. O que era necessidade virou realidade e, nos três primeiros meses deste ano, a comunidade viu se fazer verdade o nascimento do açude dos Oitis.


















> O padre Crisares Sampaio nasceu Aracati e é filho de uma família de 18 irmãos homens. Com as CEBs, a paróquia de Acopiara desenvolve projetos egurança alimentar e geração de renda. No ano passado, de acordo com o padre, 42 toneladas de mel de abelha foram colhidos.
> Inverno, define padre Crisares, é "a Páscoa da natureza que se renova e deixa a vida de “seca” e se transfigura em abundância". Conviver com o semi-árido é saber atravessar a seca. “Foram construídas 250 cisternas e em boa parte das comunidades implantamos cilos de zinco para armazenar sementes”.

carroçável, de passar um carro só. Com altos e baixos, buracos e passagens molhadas
Oco do mundo e estrada de terra
Quem, no meio da noite, adoecer gravemente, no povoado do Ebron, deve rezar para não acontecer o pior, principalmente os que dependem de dois paus-de-arara, meios de transporte do lugarejo. Distante 44 quilômetros do centro de Acopiara (24 km de estrada carroçável), a família do doente terá de desembolsar R$ 150,00 pelo “aluguel de favor” de um raro carro particular existente na comunidade. A outra opção, conta Francisco Teixeira, o Chiquinho, presidente da Associação Comunitária do Ebron, é se aventurar na garupa de um mototáxi a R$ 30,00 a viagem de ida. “E tá é barato!”. Em último caso, terá de se valer de uma carroça ou do
lombo de um burro. E tenha certeza, em época de temporal, é uma prova de sobrevivência. Caso o carro não seja 4x4 não é fácil prever o que pode acontecer nos 24 quilômetros de estrada carroçável desenhada em altos e baixos, passagens molhadas (inclusive a do açude Trussu que havia sangrado), buracos, lama, falta de sinalização, caminho de só passar um carro, rochas e breu. Padre Crisares Sampaio, após confundir as distâncias, nos apresentou Chiquinho como guia e nativo do Ebron. Tinha nos informado, às 16h30min de uma sexta-feira, que da igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Centro de Acopiara, para o
açude dos Oitis eram apenas 6 km. Precisávamos fotografar o reservatório e conversar com moradores. Graças a “marra” de um Doblô (quase que se parte), e a experiência do piloto Valdir Gomes, havia um restinho de luz num cenário nublado. Como o tempo se fechava e cada vez mais se “abonitava” para um temporal, tentamos ser rápido, mas tivemos de enfrentar a escuridão de um começo de noite no sertão sem estrelas do Ebron. >> (No dicionário, Ebron é grafado com “h” e “m”. Em árabe:





O MILAGRE DAS ÁGUAS PODE SER RUIM PARA A LAVOURA NOVA DE MILHO E FEIJÃO. MAS, NO AÇUDE LIMA CAMPOS, FESTEJA-SE A FARTURA DE PEIXES
DEMITRI TÚLIO E CLÁUDIO RIBEIRO ~ TEXTOS
SEBASTIÃO BISNETO ~ FOTOS
ENVIADOS AO CENTRO-SUL
Opirão escaldado do tucunaré cozido ‘dá na fraqueza’. Suadeira e testa escorrendo de se enxugar com a mão que segura a faca. O garfo não pára e o calor segue junto. Abafadiço, mesmo que lá fora o pau d´água de chuva só falte desmanchar a cidade alta de casarões antigos e o circo rabo-decabra aterrissado na praça. Os olhos são maiores que a boca e o comer se enlarguece. Tem frito também. Prova-se tudo e bate uma vontade traiçoeira de pedir mais, antes de terminar a primeira comezaina. Para quatro pessoas, o garçon encheu a mesa com três peixes medianos, arroz, baião, tomate, cebola e pimentão no vinagrete. E, ainda, um filezinho do pescado coberto por molho inventado pela mulher de seu Xixico. Ex-pescador do Lima Campos, o senhorzinho de cabelos brancos e pouca fala, hoje, é famoso por servir um dos tucunarés mais apetitosos do Ceará.
Não há quem venha das bandas do Icó, com destino a Fortaleza ou Orós, que passe sem provar do tucunaré do Lima Campos. Distrito pequeno, mas de um açude medonho e perímetro irrigado. A peixaria de Xixico, católico batizado há 65 anos com o nome de Francisco Clemente, é parada certa de forasteiros e de quem apetecer. No último dia 30 de março, o Lima Campos sangrou. E abril não parou de chover. Bom para os pescadores que encheram as burras. Melhor para os restaurantes que aproveitaram a queda do quilo do tucunaré que despencou para R$ 3,00. No tempo de sol, é comprado a R$ 5,00 pela peixaria de Xixico e do Zeca, vizinhos de parede na rua Coronel Ilídio Sampaio. A mesma que vai dar na parede do açude. Mas pra quem senta à mesa, a conta não muda.
Embora injusta, a aritmética não esbugalha os olhos e nem espinha a garganta. Para quatro bons de boca, três peixes, refrigerantes e rapadura ficou bem pago por R$ 35,00. Nas "cheias do inverno" (quadra chuvosa pra quem não nasceu no sertão e é doutor), seu Xixico vende 100 kg de peixe frito ou cozido. Tucunarés, tilápias, curimatãs... Na estiagem, quando o açude rareia e a régua no Lima Campos volta a aparecer, não passa dos 60 kg. Mesmo assim, ainda é bom. “Melhor é água sobrando. Bom pra todo mundo”. Ele tem razão. A vida, nos povoados, muda de cor. Lá vem Teodoro Henrique, 19 anos, e Francisco Nilson,15. Uma vara no lombo dos dois sustenta as cordas de tucunarés. Sustenta, mas entorta o andar dos dois amigos. Trinta ou quarenta quilos do peixe amarelo mirra, preto e de patacas arredondadas na cauda. Reluzentes no sol quente, quando estiou. Começaram na canoa às 4 da madrugada e, no anzol, foram arrastando. “Foi fácil”, riem e uma dorzinha no ombro. “Quando chove muito, o peixe dobra”. Seu Xixico da peixaria começou que nem Teodoro e Nilson. Aos 12 anos, já era pescador. “Pergunte se eu peguei algum peixe!? Num foi pouco não”, ri. Pescou que cansou e o sol engelhou a pele alva. Só em 1970, nem sabe bem o que diabo foi ditadura militar - “hein!”, sentou praça e abriu a venda de peixe. O tucunaré entaludou filhos e vai garantindo o sustento dos Clemente, que entrança na cozinha de cumeeira alta e telhado escuro de tempo. Enquanto um deita o peixe enfarinhado no tacho quente, outro escala o pescado, a nora prova a peixada, o garçon entra e sai, a mãe se esconde da foto, um fulano lava a louça, um passarinho de gaiola canta...
Açude Lima Campos
Localização: No distrito de Lima Campos de Icó, na bacia do rio Jaguaribe Distância de Fortaleza: 400 km Sangrou: 30/3/2008
Peixes: tucunaré, tilápia, piau, curimatã, piaba
Precipitação pluviométrica: 733,9 mm (média histórica em Icó)
Curiosidade: Icó em Tupi significa “água” ou “rio da roça”
Fonte: Anuário do Ceará 2007-2008


Mosca em tempo de chuva
Chico Antonio me avisa que a “peste” de moscas não é imundice no restaurante. É o tempo de chuva que atrai. “Se você descer na mata, as mutucas... conhece mutucas? As mutucas não te deixam em paz”, alerta. Paramos na margem esquerda do Km 295, na CE-060 ou estrada do Algodão, em Mombaça. Passa da hora do almoço e dali seguiremos, assim que matarmos a fome, pra Tauá. O restaurante Proturca, que também é pousada, lojinha de
artesanato, churrascaria e, algumas vezes no ano, parque de exposição de animais fica numa fazenda e é administrado por Chico Antonio e os filhos. De sujeira, não se tem do que reclamar. Até os copos vêm à mesa lacrados com um tampinha. A comida? A galinha caipira, cozida, se desmancha. O torresmo e o porco, acompanhados, baião de dois e batata doce, estão a gosto. Depois de um doce de leite com coco ou ambrosia seguimos viagem.



Infância
de pescar
Vida de menino parido em beira de açude é desse jeito, nasce quase nadando e engrossa o pescoço na lida com a pesca de água doce e saltos do tamanho da coragem. Inventam asas imaginárias e se precipitam de rochedos, da parede ou do mirante do Lima Campos. Voam em tempo de quebrar a espinha e fazem arte. De bico ou em piruetas pra foto ou porque gostam, mesmo, de desafiar. O falante Carlos Alberto Santana da Silva, 14 anos, pescador desde os 7, rasga o vento. Saiu às 5 da madrugada de um sábado, com o companheiro Lucas da Silva Teixeira, 12, para pescar. É o peixe, explica Carlos Alberto, “que paga a energia e a água” da casa de taipa (sem banheiro) onde moram a mãe, o padrasto e dois irmãos. A mãe, conta, tem elefantíase e, “parece”, ganha R$ 50,00 da bolsafamília do Lula. O jeito então é ajudar como pode. Na canoa, botando e tirando galão, no anzol ou na roça de esperar de chuva. Esse ano choveu demais, afogou o plantio de feijão e arruinou o milho. Mas em compensação está dando peixe no meio da canela. “De se istruir. Pescamos sete quilos e o tucunaré não deu tempo chegar em casa. Vendemos tudo, o pessoal compra no caminho por quatro real o quilo”. Carlos Alberto diz fazer a 4ª série, no colégio Monsenhor Camurça. Lucas, que fala pouco, faz o mesmo ano. Vandson Teixeira de Oliveira, 12 anos, também pescador, se mete na conversa e reclama da merenda escolar que não tem há um mês. Já reclamou da diretora, mas até aquele primeiro sábado de abril: nada. “Tanto peixe ali!”.


FONTES
Litoral e Sertão - natureza e sociedade no nordeste brasileiro. Mestrado em Geografia da UFC. Organizada por: José Borzacchiello da Silva, Eustógio Wanderley, Elisa Zanella e Jeovah Meireles. posgeog@ufc.br
O SERTÃO
Dicionário Judaico de Lendas e Tradições, de Alan Unterman.Editora Jorge Zahar (RJ). jze@zahar.com.br. Outra fonte do O POVO: O sertão e a cidade - o sertão de Guimarães Rosa 50 anos depois, de Álvaro Andrade Garcia. Peirópolis (SP) e Ciclope (MG). www. editorapeiropolis. com.br e www. ciclope.com.br
CASCUDO Luis da Câmara Cascudo em Tradição, Ciência do Povo. Editora Perspectiva, 1971. Outro: Bonito pra chover, organizado pelo professor Gilmar Carvalho. Editora Demócrito ROcha. www.fdr. com.br. Por último, O Ceará, de Antônio Martins Filho e Raimundo Girão, do Instituto do Ceará. Edição de 1966
























































































































