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As avançadas ferramentas tecnológicas e biotecnológicas da mais bio de todas as florestas - OpCP83

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Opiniões Opiniões Opiniões

As

FLORESTAL: celulose, papel, carvão, siderurgia, painéis e madeira ano 23 • número 83 • Divisão F • mar-mai 2026

FLORESTAL: celulose, papel, carvão, siderurgia, painéis e madeira ano 23 • número 83 • Divisão F • mar-mai 2026

avançadas ferramentas tecnológicas e biotecnológicas da mais bio de todas as florestas

Adriano e Letycia ArborGen

Adriana Maugeri AMIF

Aurélio e Mateus Suzano

Benone e Rosália Aperam

Beatriz e Cristiano Suzano

Bertolucci Inovitae

Eduardo Camargo Eldorado

Bibiana CMPC

Henrique de Souza Unicamp

Edimar Cardoso Aperam

Franco Quevedo CMPC

Germano Eldorado

Júpiter CMPC

Raphael Medeiros Samarco

Ivan Tomaselli STCP

Giordano e Lara Suzano

Ucella e Iara Demuner UF-Viçosa

Reginaldo Mafia Bracell-BA

Capa: Acervo FuturaGene

Índice: Acervo Opiniões

Patrícia Abdelnur Embrapa e Helmholtz Instt

Graça FuturaGene

Ricardo Moura Grupo Plantar

Rodrigo
Teotônio
João

Índice

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Rafael Teixeira Consultor em Biotecnologia

Teotônio e Cristiane

Assistech e Embrapa

Sebastião Venâncio UF-Viçosa
Valverde e Jhonatan UF-Viçosa

A rastreabilidade da madeira

Uma ar ma contra o desmatamento no Brasil e um exemplo para o mundo

O Brasil é reconhecido globalmente pela abundância de recursos naturais e por ser um dos maiores guardiões da biodiversidade do planeta. Este é, sem dúvida, um dos mais fortes atributos da identidade nacional brasileira. Sem perceber, reforçamos essa condição em nosso discurso, mesmo quando tratamos de produtividade, industrialização, competitividade ou agronegócio. Ao mesmo tempo, somos frequentemente expostos nos noticiários internacionais em razão do desmatamento, dos incêndios, da ameaça à fauna, dos garimpos ilegais e das disputas por terras que colocam em risco nossos principais biomas, especialmente o amazônico.

Essa atenção externa, por vezes incômoda, revela uma realidade incontornável: ser reconhecido como potência ambiental implica responsabilidade permanente. Independentemente de como se interprete esse protagonismo, ele carrega consigo o dever de proteger, cuidar e manter nossas riquezas naturais. Aceitar essa responsabilidade global é passo estratégico para ajustar o posicionamento do Brasil perante parceiros comerciais, institucionais e governamentais. Alterar essa percepção internacional exigiria esforço hercúleo, de longo prazo e elevado custo político e econômico. Assim, mais racional do que resistir, é liderar.

É nesse contexto que a rastreabilidade da madeira deve ser compreendida. Não apenas como resposta a exigências internacionais, mas como instrumento estruturante de política pública nacional de combate ao desmatamento e de fortalecimento da economia verde brasileira.

A rastreabilidade produz efeitos desejáveis para estimular a transição energética, incentivando a substituição de fontes fósseis por energia de biomassa proveniente de madeira segura. "

Alta Produção, alta conservação e florestas pensadas

Ser guardião dos recursos naturais não exclui a possibilidade de sermos também reconhecidos como potência produtiva. Produção em escala e conservação podem caminhar lado a lado. A agroindústria florestal brasileira é exemplo concreto dessa compatibilização.

Ao produzir aproximadamente 10 milhões de hectares de florestas pensadas para fins produtivos, conservamos outros sete milhões de hectares de vegetação nativa associados à atividade.

Trata-se da atividade produtiva nacional com maior capacidade conservativa, sem dúvida um grande patrimônio ambiental. Esse legado resulta de décadas de investimento em ciência, tecnologia e educação continuada de qualidade, que impulsionaram a evolução da cultura agrícola de florestas pensadas — hoje o maior exemplo de produção de madeira renovável, limpa e lícita do País e um dos maiores do mundo.

As florestas cultivadas para fins produtivos são projetos estruturados para produzir muito e conservar muito ao mesmo tempo. Sua madeira é rastreável e oferece segurança ao consumidor ao longo de toda a cadeia de valor, contribuindo para um mercado livre de desmatamento.

A centralidade estratégica da madeira

A madeira é uma das principais matérias-primas e fonte energética limpa existente. Sua versatilidade permite a criação de milhares de bioprodutos que já substituem fontes fósseis no mercado global. Está presente na agricultura, na pecuária, na infraestrutura urbana, na construção civil, na indústria, nos serviços de saúde e na geração de energia.

Pode-se afirmar que a madeira é material nobre, cujo suprimento está diretamente relacionado à segurança nacional de diversos países, inclusive o Brasil, dada sua relevância para cadeias produtivas essenciais. Sem madeira, múltiplos setores estratégicos sofreriam impactos significativos. Sem madeira, o mundo pode parar.

Entretanto, sendo a madeira insumo essencial e demandado em grande escala, surge questão inevitável: como garantir que o abastecimento ocorra de forma sustentável? Onde está o estoque disponível? Como assegurar que a madeira consumida não seja fruto de desmatamento?

A equação demanda, oferta e rastreabilidade não é simples. A madeira destinada à produção de bens e serviços deve necessariamente ter origem segura, lícita e comprovadamente sustentável.

Rastreabilidade como instrumento de governança

A rastreabilidade da matéria-prima fornece dados precisos desde a origem, manejo, transporte até o consumo final. Trata-se da modernização do exercício do poder de polícia ambiental conferido aos Estados nacionais e subnacionais para proteger seus recursos naturais da pressão ilegal exercida por criminosos.

Implantar rastreabilidade não significa apenas registrar informações, mas estruturar sistema integrado, confiável e auditável, capaz de garantir segurança jurídica ao mercado e eficiência regulatória ao Estado. Quando bem modelada, a rastreabilidade reduz fraudes, fortalece a fiscalização, protege produtores regulares e organiza o consumo interno.

É o exercício do dever de fiscalização do Estado a favor da promoção da sustentabilidade. 

A rastreabilidade da madeira

Sendo o Brasil reconhecido como guardião dos recursos naturais, é coerente que seja também o país que mais preze pela rastreabilidade de produtos de origem natural.

Esse deve ser esforço prioritário da economia nacional. Garantir ao consumo a segurança da origem de suas matérias-primas representa medida de inteligência estratégica, capaz de reduzir a pressão inaceitável sobre florestas naturais.

A grande maioria dos consumidores de madeira em suas atividades sabe que atestar a origem da madeira afeta diretamente o acesso de seus produtos finais ao mercado cada vez mais exigente.

Política pública e responsabilidade nacional

A rastreabilidade da madeira deve ser objeto de esforço coordenado entre iniciativa privada, governos, academia e instituições. Juntos, podem modelar metodologia fática, prática e segura.

Mais do que atender a exigências internacionais, trata-se de consolidar política pública interna consistente. A regularidade ao mercado externo será consequência inerente ao bom sistema de rastreabilidade.

Implantar rastreabilidade é obrigação compatível com uma das melhores produções florestais do mundo, sobretudo o Brasil que ainda convive com desmatamento crescente, mesmo com vários esforços para sua eliminação.

Essa ferramenta tende a se tornar uma das mais efetivas no combate ao desmatamento, pois promove segurança ao consumo e estimula a ampliação da produção de florestas cultivadas e muito bem pensadas para manejo sustentável e rastreável.

Além disso, a rastreabilidade produz efeitos desejáveis para estimular a transição energética, incentivando a substituição de fontes fósseis por energia de biomassa proveniente de madeira segura. Cresce a área de produção florestal e cresce a área de conservação de vegetação nativa.

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Competitividade e compromissos internacionais

O recente acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia reforça a importância da rastreabilidade da origem dos produtos e do cumprimento de compromissos ambientais e climáticos.

Ao estimular a expansão da produção de florestas rastreáveis, o Brasil contribui diretamente para reduzir a pressão ilegal sobre vegetação nativa, organiza o mercado interno, fortalece sua posição no comércio internacional e expande as possibilidades de mercado para ativos ambientais e climáticos, como potenciais créditos de carbono e outros títulos financeiros verdes.

A rastreabilidade deixa de ser mera exigência externa e passa a ser instrumento de competitividade.

País que garante origem segura de seus produtos consolida confiança, reduz barreiras comerciais e fortalece sua inserção na economia verde global. É nossa responsabilidade proteger nossos ativos ambientais, não é uma exigência externa.

Conclusão

Implantar a rastreabilidade da madeira é medida que ultrapassa o atendimento às condicionantes internacionais. Trata-se de decisão estratégica para organizar o mercado interno, combater o desmatamento e impulsionar a economia verde brasileira.

Dar o exemplo global ao garantir segurança da origem das matérias-primas é responsabilidade compatível com a dimensão ambiental do Brasil.

Se assumirmos essa agenda com o planejamento, a coordenação e a visão de longo prazo, transformaremos desafio histórico em vantagem competitiva sustentável.

A rastreabilidade da madeira é, portanto, mais do que mecanismo de controle: é instrumento de soberania responsável, inteligência econômica e liderança ambiental.

CARREGAMENTO DE MADEIRA: a Reflorestar no mercado de abastecimento florestal

Operação com foco total em segurança e e ciência;

Alta performance garantindo o abastecimento contínuo ao cliente;

Equipe especializada e comprometida com cada entrega.

Acesse e conheça como transformamos desa os em produtividade:

Regulamento da união europeia para produtos livres de desmatamento: desafios e oportunidades

O regulamento UE-2023/1115, conhecido como EUDR (European Union Deforestation Regulation), tem como objetivo combater o desmatamento global e a degradação de ecossistemas florestais associados à produção e ao consumo de produtos agrícolas e florestais selecionados. Sete commodities e seus derivados são abrangidos pelo regulamento, incluindo soja, carne bovina, madeira, cacau, café, óleo de palma e borracha.

O EUDR exige que os produtos selecionados exportados e comercializados na UE – União Europeia, não sejam provenientes de áreas desmatadas ou degradadas após 31 de dezembro de 2020. Para comprovação, as empresas produtoras e exportadoras/ comercializadoras (classificadas como operadores) são obrigadas a implementar processos de Due Diligence (Diligência Devida), garantindo a conformidade com as exigências do regulamento e com as leis do país de origem. O regulamento foi adotado pela União Europeia em 2023 e, em princípio, deveria entrar em vigência em 31 de dezembro de 2024. Em função da necessidade de mais tempo para implementação técnica e

administrativa, a Comissão Europeia propôs em outubro de 2024 adiar a aplicação da EUDR para 30/12/2025, no caso de médios e grandes operadores, e 30/06/2026 para micro e pequenas empresas.

Várias discussões e novas iniciativas ocorreram ao longo de 2025. Elas envolveram, entre outras, o lançamento de novas orientações ( Guidance ), detalhamento da implementação e simplificações, que considerou, entre outros, a possibilidade de reutilização de declarações de diligência (DDS), submissão anual das declarações e a gestão por representantes autorizados. O objetivo básico foi diminuir o número de declarações e a carga no sistema da UE. No final de 2025, foi decidido por uma nova prorrogação do prazo de implementação, que passou a ser 30/12/26 (médios e grandes operadores) e 30/06/2027 (micro e pequenas empresas).

Com base na regulamentação, as operações de empresas produtoras/comercializadoras (operadores) de produtos de madeira (e das outras commodities selecionadas) destinados a países da UE deverão atender a três condições essenciais:

É essencial que as empresas florestais que exportam para países da UE estejam preparadas para atender, a partir do final deste ano, às exigências da EUDR. "

• Não estejam associados ao desmatamento;

• Sejam produzidos em conformidade com a legislação aplicável do país de origem;

• Estejam cobertos por uma Declaração de Diligência Devida (DDS) conforme o anexo II do regulamento.

Para tal, será necessária uma diligência que deverá incluir a coleta de informações, dados e documentos para atender aos requisitos do artigo 9º, uma avaliação dos riscos conforme o artigo 10º e a implementação de medidas de mitigação de risco do artigo 11º do regulamento. O processo envolve, portanto, três etapas essenciais.

A primeira etapa trata da coleta de informações, dados e documentos para cumprir os requisitos da EUDR. Nesta etapa, os operadores devem coletar e organizar informações para garantir que os produtos exportados para países da UE atendam aos requisitos do Regulamento.

Envolve a descrição do produto, quantidade, país de produção, geolocalização das parcelas de produção e dados de fornecedores e destinatários, e cumprimento da legislação local. Todas as informações devem ser comprovadas/documentadas e devem ser arquivadas e estar disponíveis às autoridades competentes por 5 (cinco) anos. A geolocalização é essencial já que o desmatamento ou degradação nas parcelas de produção impede a exportação dos produtos para países da UE.

A segunda etapa envolve a identificação e avaliação de riscos potenciais associados à origem de produtos e ao desmatamento ou degradação florestal. Os aspectos considerados incluem a presença de florestas e povos indígenas, questões legais, corrupção e violações de direitos humanos, e outros parâmetros. A complexidade da cadeia de suprimento e o risco de não cumprimento também devem ser avaliados. É essencial que todas as fontes de risco sejam identificadas na cadeia de suprimento. Com base no regulamento, somente quando o risco identificado for considerado negligível ou inexistente, os produtos poderão ser exportados para países da UE.

A última etapa são as medidas de mitigação de riscos. Ela se aplica no caso de haver riscos de não conformidade, e neste caso os operadores devem adotar medidas rígidas para mitigar esses riscos antes de colocar

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os produtos no mercado europeu. Isto pode incluir a solicitação de informações adicionais, auditorias independentes e ações para apoiar os fornecedores de matéria-prima no cumprimento do regulamento.

Completadas estas três etapas, os operadores deverão submeter a DDS (Declaração de Diligência Devida) às autoridades competentes, fornecendo informações sobre a origem dos produtos e a conformidade com as normas do EUDR e as leis do país de origem.

O regulamento prevê sanções severas por não conformidade. Os operadores que não atenderem às obrigações do EUDR estarão sujeitos a sanções que incluem multas financeiras de até 4% da receita anual da empresa na UE, confisco de produtos e da receita gerada com a venda de mercadorias não conformes, além de serem incluídos em uma lista pública de empresas não conformes, que ficam impedidas de operar na UE.

Portanto, é essencial que as empresas florestais que exportam para países da UE estejam preparadas para atender, a partir do final deste ano, às exigências da EUDR. Isto representa um custo adicional para os operadores, no entanto é também uma oportunidade de acesso preferencial ao mercado europeu.

Sem dúvidas, o atendimento ao definido pelo EUDR é um desafio, especialmente para empresas que ainda não possuem sistemas robustos de rastreabilidade e conformidade no cumprimento do regulamento. No entanto, a implementação da Due Diligence imposta pelo Regulamento melhora a transparência e rastreabilidade das cadeias de suprimento e corrobora para adoção de práticas empresariais sustentáveis e inovadoras, fortalecendo a sua reputação e imagem no mercado.

A chave para o sucesso do setor florestal/ industrial brasileiro está na sua capacidade de adaptação rápida às novas exigências, com investimento em tecnologias apropriadas e compromisso com práticas sustentáveis. Portanto, atender às exigências impostas pela EUDR não é apenas uma obrigação legal, mas também uma oportunidade estratégica para as empresas se alinharem com as expectativas globais de sustentabilidade, garantindo acesso contínuo a mercados e fortalecendo sua reputação corporativa. 

A floresta e a produção de aço

A produção de aço através de rotas sustentáveis: o diferencial brasileiro

O aço é a espinha dorsal da civilização moderna, essencial para infraestrutura, transporte e construção; é, em síntese, para a vida.

A indústria siderúrgica global é responsável por cerca de 7% a 8% das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), o que a coloca no centro do debate sobre descarbonização.

No cenário mundial, a produção de aço bruto atingiu 1,87 bilhão de toneladas em 2020, com a China liderando o setor e respondendo por 56,7% do volume total. A intensidade média global de emissões foi de 1,91 t de CO2 por tonelada de aço bruto em 2022.

Nesse contexto, o Brasil se posiciona como um player relevante. Em 2020, o País produziu 31,1 milhões de toneladas de aço

bruto, sendo o 9º maior produtor mundial. A pegada de carbono do aço brasileiro foi estimada em 1,93 t CO2/t de aço bruto em 2022, valor próximo à média global. Apesar dos desafios, a indústria nacional possui diferenciais tecnológicos e energéticos que a colocam em posição de destaque nas rotas mais limpas de produção.

As rotas de produção de aço:

A produção de aço ocorre principalmente por duas rotas tecnológicas.

• Rota Integrada (alto-forno/conversor a oxigênio – BOF/LD): utiliza minério de ferro e agentes redutores como coque ou carvão vegetal no caso brasileiro para produzir ferro-gusa, posteriormente refinado em aço.

• Rota Não Integrada (forno elétrico a arco – FEA/EAF): utiliza principalmente sucata metálica (aço reciclado).

No Brasil, a produção em 2022 foi majoritariamente pela rota integrada (75,1%), seguida pela rota de forno elétrico com sucata (23,8%).

Rotas mais sustentáveis e a realidade brasileira:

As rotas mais sustentáveis buscam reduzir o uso de combustíveis fósseis e priorizar matérias-primas de menor impacto ambiental.

O carbono emitido durante a carbonização da madeira e a emissão dos alto-fornos na indústria são neutralizados pelas florestas plantadas e nativas através da fotossíntese e produção de biomassa das mesmas, o que gera um balanço positivo entre emissões e remoções florestais. "

Nesse aspecto, o Brasil possui um diferencial importante: sua matriz energética diversificada é uma das mais limpas do mundo, com forte participação de fontes renováveis como hidrelétrica, eólica, solar e biomassa. Esse fator é decisivo, pois parte relevante da pegada de carbono da indústria está associada ao consumo energético. Quando essa energia é de baixo carbono, o produto final já carrega uma vantagem ambiental significativa.

A rota de forno elétrico a arco, baseada na reciclagem de sucata, é reconhecida globalmente por sua sustentabilidade, apresentando intensidade média de emissões de 0,68 t CO2/t de aço bruto. O Brasil, com quase 24% da produção nessa rota, já capitaliza essa alternativa de menor impacto.

O carvão vegetal de floresta plantada, um diferencial agroindustrial-florestal:

O principal diferencial brasileiro, e o ponto focal neste artigo, reside no uso do carvão vegetal de floresta plantada e pensada, que atua como agente redutor na produção de ferro-gusa.

Sustentabilidade e renovabilidade: Enquanto o carvão mineral é uma fonte fóssil e finita, o carvão vegetal, quando proveniente de florestas plantadas de eucalipto, é considerado uma fonte de energia renovável.

O carbono emitido durante a carbonização da madeira e a emissão dos alto-fornos na indústria são neutralizados pelas florestas plantadas e nativas através da fotossíntese e produção de biomassa das mesmas, o que gera um balanço positivo entre emissões e remoções florestais, tornando todo o ciclo de produção do ferro gusa neutro em emissões de CO2.

Na Aperam, isso se materializa em mais de 100 mil hectares de florestas certificadas FSC, que fornecem carvão vegetal utilizado diretamente em nossos fornos. Além disso, com esse modelo, conseguimos medir o impacto de nossa produção de aço, com uma intensidade de emissões de CO2 em 2023 de -0,048 tCO2e por tonelada de aço (balanço neutro), com base em nosso processo renovável.

Relevância nacional e oportunidades no cenário global: No Brasil, os altos-fornos a carvão vegetal são responsáveis por 25% a 30% da produção nacional de ferro-gusa. Globalmente, eles representam ape-

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nas 1% da produção mundial de ferro-gusa, destacando a singularidade da tecnologia e do sistema produtivo brasileiro.

O Setor agroindustrial-florestal: Esta rota cria um ciclo virtuoso, conectando o setor siderúrgico diretamente à agroindústria florestal. O manejo sustentável e a expansão das florestas plantadas para fins energéticos não apenas garantem a matéria-prima para o aço, mas também impulsionam o desenvolvimento econômico e tecnológico no campo, gerando coprodutos e reduzindo o custo do produto final, além de gerar valor para as comunidades e sociedade.

Oportunidades para o Brasil

Os diferenciais do Brasil como a alta participação de sucata, matriz energética limpa e a rota baseada em carvão vegetal de florestas plantadas abrem oportunidades estratégicas.

Entre elas está o desenvolvimento de certificações para aço de baixa pegada de carbono, ampliando a competitividade em mercados cada vez mais exigentes quanto à origem das emissões, como no caso do Mecanismo de Ajuste de Carbono da União Europeia.

Além disso, o modelo brasileiro pode se tornar referência para países com forte setor florestal, posicionando o Brasil como líder em tecnologias de descarbonização da siderurgia.

O País possui condições únicas para conciliar produção industrial e sustentabilidade. O avanço desse diferencial dependerá da articulação entre indústria, cadeia agroflorestal e políticas públicas capazes de incentivar a expansão sustentável das florestas plantadas e valorizar o aço de baixo carbono.

Ao enfrentar esses desafios, o Brasil poderá consolidar sua posição não apenas como um grande produtor, mas como referência global em aço sustentável, gerando valor econômico, ambiental e social para a sociedade.

A biotecnologia e a produtividade brasileira

Estamos perdendo competitividade. E agora?

Produtos de origem florestal fazem parte do dia a dia das pessoas desde o início da humanidade. Desde sua utilização como combustível para fogo, coisa que ainda fazemos hoje em dia, até suas aplicações mais recentes em produtos de alta tecnologia como curativos, cosméticos e alimentos. Há também suas utilizações mais tradicionais, como produção de celulose, para indústrias de papéis e embalagens, geração de madeira serrada e painéis de madeira, direcionados para móveis e construção civil, produção de carvão vegetal, ambos para cocção de alimentos e como biorredutor na siderurgia.

Em contrapartida, apesar da importância dos produtos de origem florestal na história da humanidade, a cada dia novas alternativas surgem para substituir a madeira em diversos mercados, desde novas tecnologias para construção civil a opções de geração de energia.

Este cenário fez com que a demanda por madeira a nível global (Quadro1) permanecesse praticamente estável nos últimos 20 anos, com um discreto incremento de apenas 0,7% ao ano, impulsionado principalmente pelo aumento da demanda por celulose química no período, que cresceu aproximadamente 1% a.a.

Esta estabilidade na demanda global acaba sendo refletida nos preços de comercialização de produtos do setor florestal, que permaneceu muito estável entre 2010 e 2020, atingindo seu máximo em 2022 durante o auge da pandemia, mas já mostrando sinais de retração em 2023 e 2024. (Quadro2)

Entretanto, a estrutura de mercado destes produtos também vem mudando ao longo do tempo. Hoje, a árvore plantada no Mato Grosso do Sul pode ser transformada em celulose em São Paulo, exportada para a China para virar papel, para então ser utilizada na embalagem de um celular que será vendida Reino Unido. Outra árvore plantada em Santa Catarina pode ser levada a uma serraria no Paraná, virar tábuas de madeira que serão usadas numa cerca nos Estados Unidos, enquanto a serragem gerada foi transformada em pellets que irão virar aquecimento residencial na Alemanha. Isso significa que o local onde a floresta será plantada não é mais determinado pelo mercado consumidor, mas sim pela localização onde é mais barato de ser produzido.

A Tecnologia da Árvore representa a evolução natural da silvicultura brasileira. Se no passado a revolução foi silvicultural, o futuro será genômico, metabólico e microbiológico. "

Coautoria: Alexandre Basso Tokarski, Especialista em informações Florestais

Neste mesmo período, vemos uma mudança significativa na origem da madeira consumida no mundo. Nos anos 2000, a América do Norte era disparadamente o maior produtor de toras de madeira no mundo, representando 38% do share global. (Quadro 3) Entretanto, desde 2007 eles perderam esta posição e vêm caindo ano após ano. Esta fatia de mercado vem sendo absorvida pela Ásia e América do Sul ao longo dos anos, principalmente em função da alta competitividade de custos nestas regiões.

Uma das principais vantagens que estes continentes possuem para conseguir capturar esta fatia de mercado é a sua maior produtividade florestal, que, aliada a menores custos de produção, proporciona um ambiente extremamente competitivo. (Quadro 4)

Entretanto, para o Brasil, este cenário vem sofrendo alterações ao longo dos anos. Como exemplo, o preço dos fertilizantes aumentou quase 300% neste mesmo período. (Quadro 5)

Fertilizantes são apenas um dos muitos custos envolvidos na produção florestal. Anualmente, a IBA divulga seu indicador de custos florestais, que compreende a evolução de todos os fatores que afetam o setor, desde salários, preço de fertilizantes, mudas, herbicidas, arrendamento de terras, combustível etc.

Este indicador mostra que entre 2016 e 2020, o País possuía um aumento discreto de custos, entretanto, após a pandemia, os custos relacionados à atividade florestal dispararam. Contudo, no sentido contrário, as produtividades florestais neste mesmo período apresentaram uma queda significativa. (Quadro 6)

A combinação destes fatores representa uma potencial perda de competitividade brasileira frente ao mercado mundial de produtos de madeira, ocasionando uma pressão nos produtores florestais brasileiros.

A madeira é o insumo mais relevante no nosso principal produto florestal de exportação, a celulose de mercado, e esse custo representa valores acima de 50% em todos os produtores do mundo e, por isso, é o grande item a ser melhorado se queremos nos manter competitivos, como sempre fomos.

2. ÍNDICE DE PREÇOS DE EXPORTAÇÃO DOS PRINCIPAIS PRODUTOS (2016=100)
3. SHARE MUNDIAL (Europa - América do Norte - Ásia - América do Sul

A biotecnologia e a produtividade brasileira

Veja os detalhes da composição do Custo Caixa no Quadro 7.

Em cima de tudo isto, temos mais um desafio crescente à frente, o clima. Quando olhamos o histórico climatológico no vale da celulose, Mato Grosso do Sul, que é um dos maiores produtores de floresta do Brasil, é possível identificar uma redução na pluviosidade média anual da região, sendo que nos últimos 8 anos, apenas um deles atingiu a média histórica da região, que é de 1220 mm de chuva anual. (Quadro 8)

O Brasil ainda é líder mundial em produtividade de florestas plantadas de eucalipto, com médias de 30–45 m³/ ha/ano em muitas regiões. Mas os custos da terra, logísticos e operacionais têm reduzido essa vantagem quando somos comparados com outros países produtores, principalmente em alguns países da Ásia.

Para compensar essa distorção, temos de rever nossos esforços para aumentar rapidamente a produtividade de nossas florestas, e minha melhor aposta seria na biologia molecular, genética, fisiologia e ciência de dados. Com aplicação desse conhecimento, poderíamos conseguir um novo salto de produtividade e sustentabilidade.

Vamos explorar caminhos como a metabolômica (seleção precoce e redução de risco), a metagenômica (menor uso de fertilizantes), a poliploidia (maior biomassa), o melhoramento genético rigoroso (ganho genético a médio e longo prazo) e o OGM (ganho genético acelerado, salto de produtividade, resistência a pragas) e transformar as florestas de eucalipto.

A Tecnologia da Árvore representa a evolução natural da silvicultura brasileira. Se no passado a revolução foi silvicultural, o futuro será genômico, metabólico e microbiológico.

O eucalipto deixa de ser apenas uma cultura florestal de alta produtividade e passa a ser um organismo modelado com precisão científica, capaz de responder aos desafios climáticos, industriais e ambientais do século XXI.

A floresta do futuro já começou — e ela nasce no DNA da árvore. 

7. COMPOSIÇÃO DO CUSTO CAIXA - BHKP -
Hawkins Wright Dezembro 2025
Madeira Químicos
Energia Custos Fixos

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Arvores geneticamente modificadas precisam fazer parte da silvicultura moderna

Estudos recentes têm mostrado previsões preocupantes sobre o que poderá acontecer com o setor de árvores plantadas, especialmente na América do Sul, em função das mudanças climáticas. Um dos principais efeitos negativos é a possível redução das áreas de cultivo de eucalipto na América do Sul, tornando economicamente inviáveis muitas áreas atualmente plantadas, em razão do aumento das temperaturas e da redução significativa da precipitação. Diante desse cenário novo e desafiador, compreender as mudanças climáticas e seus impactos é fundamental para agricultores, silvicultores e melhoristas de plantas, bem como para governantes, formuladores de políticas, ONGs e Organismos de Certificação, pois a rápida implementação e adoção de estratégias de mitigação e adaptação é essencial para garantir a segurança alimentar e a produção de biomassa em escala global. Uma revisão científica do Secretariado da Convenção Internacional de Proteção Fitossanitária (CIPV/IPPC/FAO) prevê que as alterações climáticas tendem a aumentar a pressão de pragas e doenças nos ecossistemas agrícolas e florestais. Essa publicação identifica métodos avançados de melhoramento genético, incluindo a engenharia genética para resistência a pragas, como soluções propostas para reduzir a dependência de pesticidas químicos.

Ao comprar um cereal matinal, muito provavelmente levaremos para casa um alimento produzido a partir de milho ou trigo transgênico, — cuja embalagem, no entanto, não pode conter papel produzido por árvores geneticamente modificadas. "

As ameaças biológicas, intensificadas pelas alterações do clima, agravam os estresses biológicos diretos (seca e calor), exigindo novas estratégias de melhoramento de árvores, capazes de abordar múltiplas pressões simultaneamente.

Nesse sentido, um objetivo estratégico precisa se tornar uma obsessão para nortear as nossas decisões: temos de ser capazes de “produzir mais com menos”, isto é, precisamos aumentar a produtividade dos plantios e, ao mesmo tempo, preservar ou reduzir a utilização dos recursos naturais. É aí que tecnologias de ponta, como a transgenia aplicada às árvores plantadas, surgem como potenciais pontos de inflexão, capazes de mudar o modelo de produção vigente. No caso das árvores plantadas, não há necessidade de inventar a roda: basta ver como e quanto as plantas transgênicas impactaram positivamente a agricultura desde a sua adoção, há algumas décadas. Uma pesquisa realizada pela PG Economics Limited, empresa de consultoria e assessoria do Reino Unido, constatou que as culturas geneticamente modificadas aumentaram a produção global de alimentos, ração e fibras em quase 1 bilhão de toneladas (1996-2020). Ao mesmo tempo, a tecnologia ajudou os agricultores a reduzir o impacto ambiental associado às suas práticas de proteção de cultivos em mais de 17%.

Os resultados da pesquisa foram apresentados em três artigos revisados por pares na revista GM Crops and Food Universidades e empresas florestais, em várias partes do mundo, têm conduzido pesquisas sobre o uso da transgenia como ferramenta biotecnológica complementar aos programas de melhoramento genético convencionais. Na maioria dos casos, a ideia é usar a engenharia genética para inserir características que possam adicionar desempenho e/ou resiliência às árvores melhoradas pelas técnicas clássicas. No Brasil, já existem árvores de eucalipto geneticamente modificadas, que foram aprovadas pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que atesta a sua segurança para a saúde humana, animal e para o meio ambiente. A CTNBio tem seu funcionamento ordenado pela Lei de Biossegurança (Lei nº 11.105/2005), que harmonizou o ambiente institucional e hoje é reconhecida internacionalmente como uma das mais rigorosas e completas do mundo. As aprovações obtidas até o momento endereçam questões-chave para que possamos produzir mais com menos, impactando positivamente os seguintes aspectos da produção:

• Produtividade: mais madeira por área plantada, sem aumento do uso de recursos;

• Tolerância a herbicidas: controle mais eficiente e mecanizado da mato-competição, com maior segurança e temporalidade nas aplicações, resultando em menor uso de herbicidas;

• Resistência a insetos (lagartas desfolhadoras): protege os plantios, sem o uso de inseticidas.

Além dos produtos já aprovados, pesquisas em andamento desenvolvem árvores com maior eficiência fotossintética e melhor qualidade da madeira, agregando benefícios ambientais e sociais aos plantios e às fábricas de celulose.

Diante desse imenso potencial positivo, uma pergunta precisa ser endereçada com urgência: por que as árvores geneticamente modificadas ainda não fazem parte da silvicultura moderna em escala capaz de melhorar os modelos de produção? Uma das grandes barreiras continua sendo a proibição, por parte dos sistemas de certificação florestais, do uso comercial de árvores geneticamente modificadas, mesmo quando estas já contam com a aprovação legal quanto à biossegurança. Diante dessas barreiras, nos deparamos com algo inusitado: ao comprar um cereal matinal, muito provavelmente levaremos para casa um alimento produzido a partir de milho ou trigo transgênico, cuja embalagem, no entanto, não pode conter

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papel produzido por árvores geneticamente modificadas. Convenhamos, isso parece contraditório, pelo menos na opinião de muitos cientistas que trabalham com biotecnologia.

O caso do Forest Stewardship Council (FSC) é, talvez, o mais emblemático. Sua Política de Organismos Geneticamente Modificados entrou em vigor em maio de 2000 (ou seja, está prestes a completar 26 anos) e nunca foi atualizada. Ela determina que árvores geneticamente modificadas não podem ser plantadas comercialmente em florestas certificadas pelo FSC, baseando-se no Princípio da Precaução e considerando nove riscos potenciais. É compreensível que, à época, alguns desses riscos realmente demandassem pesquisas adicionais, mas passadas mais de duas décadas não há motivo para que não sejam revisitados. A ciência evoluiu muito nos últimos anos, e a literatura científica demonstra que nenhum dos riscos levantados se confirmou. No mínimo, o que se espera de um órgão como o FSC é a abertura ao diálogo e ao aprendizado, algo que está em linha com sua própria missão.

Em 2023, o FSC deu sinais de que poderia avançar nesse tema ao debater o Genetic Engineering Learning Process (GELP) – Processo de Aprendizagem sobre Engenharia Genética –, iniciativa idealizada para investigar os riscos e benefícios do uso da engenharia genética na silvicultura. O objetivo daquele projeto não era, a princípio, mudar as regras atuais, mas ampliar o conhecimento científico sobre o assunto, com apoio da academia. Infelizmente essa iniciativa foi encerrada antes mesmo de começar e, por isso, o FSC continua no mesmo lugar em que estava há 26 anos, o que é inconcebível diante dos desafios atuais e das novas contribuições da ciência.

Finalizo este artigo com uma reflexão: o planeta clama por ajuda, e a produção sustentável de biomassa, por meio das árvores plantadas, é uma das principais alternativas para substituição de produtos de origem fóssil, um dos responsáveis pelo aumento das emissões de CO2. O setor de árvores plantadas continuará dando a sua contribuição, mas poderá entregar ainda mais, utilizando menos recursos naturais, desde que possa adotar inovação de ponta, como as árvores transgênicas, de forma complementar às técnicas tradicionais. Academia, empresas e certificadoras têm a responsabilidade de se unir em busca de uma solução para o impasse atual, pois, enquanto nada é feito, a pressão sobre o planeta continuará aumentando. 

Metabolômica

e as ciências ômicas

Como a metabolômica e as ciências ômicas estão redesenhando a bioeconomia

Durante muito tempo, entender plantas e microrganismos em profundidade significava observar partes isoladas de um sistema que, na prática, funciona de forma integrada.

Hoje, essa lógica mudou. O avanço da capacidade computacional, das plataformas analíticas e dos modelos de aprendizado de máquina transformou as ciências ômicas em ferramentas cada vez mais aplicáveis ao mundo real. Nesse contexto, a metabolômica ocupa um lugar singular: ela revela o fenótipo bioquímico em tempo quase real.

Essa é a razão pela qual a metabolômica deixou de ser apenas uma camada complementar de investigação e passou a funcionar como elo entre o potencial biológico e a manifestação de fato expressa. Genômica e transcriptômica mostram o que pode acontecer. Proteômica ajuda a entender o que está sendo executado. Mas é a metabolômica que expõe o que efetivamente está acontecendo no organismo ou no sistema produtivo, traduzindo respostas fisiológicas, interações biológicas e rotas bioquímicas em sinais mensuráveis e comparáveis. Quando integrada a outras ômicas, essa abordagem abre uma fronteira sem precedentes.

Na saúde humana e animal, permite compreender com mais precisão a relação entre dieta, microbiota, metabolismo e desenvolvimento de doenças.

Na agricultura e na área florestal, amplia a capacidade de selecionar genótipos, antecipar estresses, entender respostas a patógenos, decifrar interações planta-microrganismo e identificar compostos de interesse industrial. Em outras palavras, sai de cena a biologia observacional e entra a biologia preditiva.

Esse movimento tem implicações diretas para a biotecnologia e, por consequência, a todos os setores que usam desta ferramenta como motor de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Passamos a identificar com muito mais assertividade quais vias metabólicas estão associadas a produtividade, adaptação, resistência e geração de valor.

Isso muda a lógica de desenvolvimento de bioinsumos, enzimas, moléculas bioativas, plataformas fermentativas e programas de melhoramento. O ganho não está apenas em descobrir mais, mas em errar menos, reduzir ciclos de desenvolvimento, falsas descobertas e aumentar a previsibilidade das decisões.

A metabolômica amplia a capacidade de selecionar genótipos, antecipar estresses, entender respostas a patógenos, decifrar interações planta-microrganismo e identificar compostos de interesse industrial. Em outras palavras, entra em cena a biologia preditiva. "

Engenheiro de Biotecnología e

em Estratégias Multiômicas

Há exemplos práticos muito claros dessa transição. Estudos recentes mostram que análises multiômicas têm permitido entender, com resolução inédita, como consórcios microbianos degradam biomassa vegetal, quais genes e metabólitos sustentam esse processo e como esse conhecimento pode ser usado no desenho de rotas mais eficientes de bioconversão. Em outra frente, a integração entre metagenômica, proteômica e metabolômica vem revelando como diferentes fontes de fibra modulam microbiotas e seus produtos metabólicos, abrindo caminhos para intervenções nutricionais e biotecnológicas mais precisas.

No setor florestal, isso conversa diretamente com a pauta desta edição. Para aproveitarmos de forma consciente todo o potencial que “a mais bio de todas as florestas” tem a oferecer, precisamos enxergá-la como uma arquitetura de fluxos metabólicos. Biomassa, rizosfera, microbiota do solo e resíduos lignocelulósicos não são apenas recursos; são sistemas biológicos ricos em informação. A metabolômica ajuda a revelar quais compostos estão sendo produzidos, consumidos ou modulados em cada condição. E, ao fazer isso, permite transformar resíduos em matérias-primas, identificar marcadores de vigor, monitorar qualidade de biomassa e desenvolver produtos biológicos mais robustos e sofisticados.

Na prática, isso pode significar selecionar microrganismos com maior eficiência na solubilização de nutrientes ou na degradação de frações recalcitrantes da biomassa; distinguir perfis metabólicos associados à tolerância hídrica, ao uso mais

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eficiente de nitrogênio ou à resistência a doenças; e mapear compostos secundários com valor para defensivos naturais, químicos renováveis, ingredientes funcionais e biológicos de nova geração. Em programas de melhoramento, a incorporação de marcadores metabólicos tende a tornar a seleção mais rápida e mais conectada ao desempenho real em campo.

Esse ponto é especialmente relevante porque o futuro da bioeconomia não será decidido apenas pela disponibilidade de recursos naturais, mas pela capacidade de interpretar biologicamente esses recursos em alta resolução. O país que souber integrar genótipo, ambiente, microbioma e metabolismo em modelos palpáveis de tomada de decisão terá vantagem competitiva real. Não apenas publicará mais artigos: lançará mais tecnologias, escalará mais processos e, consequentemente, captará mais valor.

É aqui que o Brasil entra com enorme protagonismo potencial. O País reúne a maior biodiversidade do planeta. Essa vantagem, porém, só se transforma em liderança quando biodiversidade vira conhecimento estruturado, e conhecimento estruturado vira inovação.

A nova fronteira não é apenas acessar ativos biológicos, mas conectá-los por meio de dados multiômicos confiáveis, interoperáveis e úteis para aplicação industrial.

A metabolômica, portanto, não deve ser vista como uma tecnologia de nicho restrita a laboratórios de alta complexidade. Trata-se de uma linguagem estratégica capaz de conectar descobertas biológicas a aplicações que resolvem problemas reais. Quando integrada às demais abordagens ômicas e a sistemas de inteligência artificial, ela amplia nossa capacidade de compreender processos biológicos no presente e de projetar, com maior segurança, soluções para o futuro.

Para plantas e microrganismos isso significa novas rotas tecnológicas. Para o Brasil, significa a oportunidade concreta de deixar de ser apenas um celeiro biológico e se tornar líder da bioeconomia baseada em conhecimento. 

Metabolômica de plantas e microrganismos para aplicação biotecnológica

As mudanças climáticas têm sido um tema amplamente discutido em todo o mundo e têm levado líderes globais a implementar diferentes políticas públicas para reduzir os seus impactos. O aquecimento global é uma realidade preocupante e vem causando diversos danos ao meio ambiente e à população, sendo possível observar frequentemente nos noticiários desastres naturais. O mundo busca por sustentabilidade, e um dos pilares é direcionar a economia de base fóssil para uma economia baseada em produtos oriundos de biomassa ou bioprodutos, também denominada como bioeconomia.

Nesse cenário, a biotecnologia vem se mostrando como uma das principais ferramentas utilizadas para produção de bioprodutos, que podem ser definidos como materiais, produtos químicos e energia derivados de material biológico. Esta ferramenta utiliza sistemas e organismos biológicos para promover a sustentabilidade, dentre os quais se incluem microrganismos, como fungos, bactérias e algas. Existem várias aplicações da biotecnologia nos campos médico, industrial, agrícola, dentre outros.

Na indústria do pão ou da cerveja, por exemplo, a levedura Saccharomyces cerevisiae tem sido usada comercialmente com sucesso durante várias décadas. Outra aplicação é o uso de Penicillium chrysogenum na produção de antibióticos para o tratamento de infecções bacterianas. Na agricultura, o uso de bioinsumos, como biopesticidas à base de Bacillus thuringienses, resulta em um aumento significativo da produção de biomassa, incluindo soja, cana-de-açúcar e outras culturas. As biorefinarias de cana-de-açúcar e as plantas de biodiesel emergem como ambientes propícios para a aplicação da biotecnologia, visando a produção de etanol, bioeletricidade e novos químicos renováveis a partir da biomassa.

A importância da biotecnologia transcende diferentes áreas do conhecimento e vem sendo cada vez mais utilizada em prol da sustentabilidade. Pode-se destacar que alguns processos químicos estão sendo substituídos por processos biotecnológicos em diversos setores industriais, mas ainda são necessárias pesquisas para que esses processos sejam cada vez mais economicamente viáveis.

A Metabolômica é descrita como uma abordagem que estuda pequenas moléculas (<1500 daltons), os metabólitos, demonstrando como a diversidade genotípica afeta a variação fenotípica. "

Patrícia Verardi Abdelnur

Pesquisadora na Embrapa e Cientista visitante na Helmholtz Institute for Environmental Research (UFZ) – Leipzig, Alemanha

Nos últimos anos, as ciências ômicas têm se destacado como uma estratégia poderosa para o desenvolvimento da biotecnologia e vêm sendo aplicadas para compreender e aprimorar microrganismos e plantas, bem como para otimizar bioprocessos. As principais estratégias baseiam-se em genômica, transcriptômica, proteômica, lipidômica, metabolômica e fluxômica.

A Metabolômica é uma das mais recentes estratégias desenvolvidas e utilizadas no campo das ômicas. É descrita como uma abordagem que estuda pequenas moléculas (<1500 daltons), os metabólitos, demonstrando como a diversidade genotípica afeta a variação fenotípica.

Tem sido aplicada em diferentes sistemas biológicos, como plantas e microrganismos, com o objetivo de descobrir biomarcadores de doenças em plantas, identificar alvos metabólicos para o melhoramento genético de espécies vegetais e microbianas, além de direcionar para a otimização e melhoria de processos biotecnológicos. Existem duas estratégias de metabolômica: direcionada (targeted) e não direcionada (untargeted).

A metabolômica direcionada quantifica um conjunto de metabólitos previamente definidos. Uma das aplicações é o estudo de alterações genéticas ou vias metabólicas. Já a metabolômica não direcionada visa identificar os metabólitos presentes em amostras mesmo que não sejam previamente descritos e é, portanto, aplicada para detectar todos, ou quase todos, os metabólitos num sistema biológico.

As principais plataformas analíticas usadas em estudos de metabolômica são RMN (ressonância magnética nuclear) e MS (espectrometria de massas). A MS possui algumas vantagens, dentre elas, seletividade, sensibilidade e rapidez nas análises, sendo, portanto, bastante usada em estudos metabolômicos.

A metabolômica vem sendo aplicada por diversos grupos de pesquisa brasileiros e do exterior e, também, no setor industrial. Estudos relatam o uso da metabolômica na identificação de biomarcadores para doenças e anomalias vegetais, como o amarelecimento fatal em palma de óleo. Além disso, há relatos de estudos de interação planta-microrganismo ou planta-bioinsumos com resultados promissores.

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A utilização dos bioinsumos em plantas, como tomate, tem sido estudada recentemente, e os resultados publicados mostram que há uma alteração metabólica nas mudas após o tratamento com bioinsumos.

Os estudos mostram ainda que mesmo os bioinsumos utilizados sejam provenientes do extrato inativo, ou seja, o formulado após a extração do microrganismo, apresentam resultados bons e promissores. Esse resultado é de extrema importância para o setor agrícola, pois facilita a logística de distribuição e venda.

Em relação aos microrganismos, a otimização de estirpes microbianas robustas para conversão de açúcares em produtos desejados ainda é um desafio. Compreender as limitações metabólicas do microrganismo é essencial para a melhoria genética da estirpe e para a otimização das condições de processo.

Estratégias de metabolômica vêm sendo desenvolvidas e aplicadas com sucesso em diferentes microrganismos que produzem compostos químicos renováveis. Uma aplicação microbiana é utilizar a metabolômica para prospectar uma coleção de microrganismos visando a produção de químicos de alto valor industrial a partir de coprodutos e resíduos, como o uso da glicerina de dendê ou soja para produção de ácidos e outros químicos.

No desenvolvimento de novos bioprodutos, pesquisadores utilizaram essa ferramenta para identificar quais fitormônios estão presentes em algas, de modo a selecionar as melhores para um aumento na produção de biofertilizantes. Outros exemplos referem-se à aplicação da metabolômica para a melhoria de cultivo, na biorremediação, no desenvolvimento de biopesticidas e fármacos naturais e na produção sustentável.

Empresas do setor agro estão apostando e contratando especialistas em metabolômica para o desenvolvimento e lançamento de novos bioprodutos, visando assim um diferencial tecnológico e a obtenção de produtos exclusivos e com alta qualidade. Com o passar dos anos, a expectativa é que a metabolômica seja cada vez mais utilizada pelas empresas que buscam inovação e sustentabilidade, o que irá favorecer o meio ambiente e a sociedade. Pode-se dizer também que o futuro da metabolômica está na integração com as demais ômicas, uma vez que fornece uma visão global de um sistema biológico, seja planta, seja microrganismo, sendo a base para diversas aplicações biotecnológicas. 

RNAi: a inteligência tecnológica e seus avanços em solo brasileiro

A agricultura moderna atravessa uma transição de paradigmas sem precedentes. Se, nas últimas décadas, o foco esteve na escala e na eficiência química de amplo espectro, o cenário contemporâneo tem sido marcado pela sofisticação que o conhecimento em microbiologia e biologia molecular de precisão pode oferecer. Nesse contexto, a tecnologia de silenciamento gênico via RNA de interferência (RNAi) apresenta-se como uma importante força nessa nova geração de defensivos agrícolas. Baseada na informação genética do alvo, moléculas de RNA dupla fita (dsRNA) são desenhadas para interceptar mensagens genéticas específicas. Ao serem ingeridas ou absorvidas pelo alvo, essas moléculas acionam a maquinaria celular do organismo, levando à degradação do RNA mensageiro correspondente. Sem ele, a proteína essencial deixa de ser produzida, resultando no "desligamento" de funções biológicas vitais, o que leva à morte ou à inviabilização da praga com precisão cirúrgica.

O que torna essa tecnologia tão promissora para a agricultura é a sua estratégia de desenvolvimento dentro dos conceitos de Sustainable-by-Nature e Safe-by-Design. A tecnologia possibilita desenhar uma molécula capaz de atingir especificamente o percevejo-marrom (Euschistus heros) ou o barriga-verde (Diceraeus melacanthus), sem que ela interfira em

A tecnologia de RNAi subverte a lógica ao introduzir o "Design Racional Reverso". Nela, o ponto de partida é o conhecimento profundo do modo de ação e o ponto final é o efeito causado ao organismo-alvo. "

polinizadores, inimigos naturais ou na saúde do solo. Esta abordagem contrasta com a lógica da evolução tecnológica na agricultura. Historicamente, o desenvolvimento de soluções para a agricultura segue um fluxo linear de descoberta fenotípica.

Dos produtos químicos tradicionais aos modernos biológicos, o ponto de partida sempre foi a triagem de bibliotecas de ativos em busca de um efeito. Quando o ponto de partida é o efeito, há sempre o risco de este não ser específico para o alvo validado. É por esse motivo que a trilha regulatória tradicional precisa considerar o “incerto”: sabemos o efeito no contexto analisado, mas resta a dúvida sobre quais outros impactos ele pode gerar.

A tecnologia de RNAi subverte essa lógica ao introduzir o "Design Racional Reverso". Nela, o ponto de partida é o conhecimento profundo do modo de ação e o ponto final é o efeito causado ao organismo-alvo. Nesse processo de desenho inteligente, a primeira fase é justamente definir um alvo molecular que permita a inativação de proteína essencial apenas no alvo. Por se tratar de uma molécula biodegradável, quando o RNA é combinado

com tecnologias de entrega que preservam essa característica, o produto final mantém a especificidade e o perfil de sustentabilidade. Uma importante vantagem que a característica Specific-by-Design confere ao RNAi é a habilidade de alterar a sequência da molécula assim que os primeiros sinais de resistência surgirem. Diferentemente de outros produtos, que perdem eficácia e precisam ser substituídos, o RNAi permite que, apenas alterando a sequência — algo que um centro de pesquisa pode fazer enviando o novo código por e-mail para a empresa —, em questão de semanas a informação seja alterada e a produção em escala iniciada. Além disso, sua alta especificidade permite sua integração com outras ferramentas de Manejo Integrado de Pragas (MIP) para criar um sistema de defesa multicamadas, reduzindo a pressão de seleção e prolongando a vida útil das tecnologias disponíveis. Mas, se o RNAi vem sendo estudado há tantos anos, por que demora a se tornar realidade no mercado? Acredito que seja justamente por esse desenho inteligente que a tecnologia depende de profundo conhecimento científico para se tornar realidade no campo. Sua chegada como uma “solução envasada” para a rotina do agricultor depende da superação de desafios tecnológicos e logísticos fundamentais. O primeiro é a estabilidade ambiental. Trabalhos mostram que o RNA pode ser preservado no ambiente por dias, mas está sujeito à degradação por enzimas (nucleases) no ambiente e no sistema digestivo dos insetos. Nesse aspecto, a união da biologia molecular com a nanotecnologia tem gerado importantes avanços. O uso de nanocarreadores, como quitosana ou argilas nanoestruturadas, funciona como um "escudo protetor", viabilizando o controle eficiente de diferentes insetos e fungos. Outro desafio, em um país de dimensões continentais como o Brasil, é a produção em escala. Além dos grandes volumes necessários, para que o RNAi seja competitivo, o custo do grama do dsRNA precisa ser uma opção acessível ao agricultor. Regulatoriamente, o Brasil deu passos gigantescos. O reconhecimento pela CTNBio de que biopesticidas baseados em dsRNA aplicados topicamente não se enquadram necessariamente como Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) abre uma via rápida para a inovação. Isso coloca nossas agtechs e universidades em liderança global, permitindo

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que o País deixe de ser apenas um consumidor para se tornar um exportador de soluções moleculares. Esse ambiente favorável influenciou movimentos como o da GreenLight Biosciences, que definiu o Brasil como centro de sua expansão global, submetendo pedidos de registro para um biofungicida contra o oídio em videira e um acaricida de amplo espectro. No Brasil, a maturidade tecnológica é evidenciada pelo avanço de plataformas em empresas nacionais, como a Agrivalle. A estruturação de uma das maiores plataformas de produção de RNA em larga escala, desenvolvida com apoio da Finep, demonstra que somos desenvolvedores de biotecnologia. A Sempre AgTech vem investindo há anos para conectar projetos de RNAi com instituições nacionais e está em fase de viabilização de produção. A startup BSafe Biotech também surge no ecossistema para dominar mercados de bioinseticidas.

Esses avanços de empresas brasileiras começam a colocar o Brasil no status de gerador de tecnologias. A capacidade de desenvolver uma tecnologia de ponta a ponta traz vantagens cruciais: o recurso humano capacitado é nacional, criando-se uma fonte constante de atualizações e criação de novas soluções e tecnologias; os royalties e ganhos econômicos permanecem no País, fomentando novos ciclos de inovação; e quem melhor que cientistas brasileiros talentosos para projetar soluções específicas para nossos solos, pragas e condições climáticas.

Para aproveitar plenamente essa janela de oportunidade nos próximos anos, decisões estratégicas precisam ser tomadas hoje. É necessária uma articulação robusta entre universidades, startups e empresas, apoiada por instrumentos como os programas da Finep/ MCTI. São necessários programas de capacitação para equipes comerciais e de marketing, pois a inteligência científica e tecnológica por trás do RNAi precisa ser traduzida em valor para o produtor rural. Entidades reguladoras devem participar como agentes transformadores, trazendo agilidade analítica baseada em evidências. Por fim, investidores devem olhar para a biotecnologia de base informacional como o futuro da segurança fitossanitária. Se bem conduzida, a chegada do RNAi no campo consolidará o Brasil como protagonista global na biotecnologia agrícola de última geração, exportando ciência e sustentabilidade para o mundo. 

Florestas plantadas e certificadas como motor da siderurgia de baixo carbono

No Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, a Aperam BioEnergia desenvolveu um modelo que coloca as florestas plantadas no centro da transição para uma indústria de baixo carbono. Em uma base territorial de aproximadamente 150 mil hectares, a empresa integra silvicultura responsável e tecnologia agroindustrial renovável para sustentar uma das cadeias produtivas mais avançadas e sustentáveis da siderurgia mundial.

As florestas são manejadas sob rigorosos critérios de sustentabilidade e certificação internacional, que garante que todo o processo produtivo respeite padrões ambientais, sociais e econômicos reconhecidos globalmente. Atualmente, são produzidas cerca de 440 mil toneladas de carvão vegetal por ano.

Mais do que um selo, a certificação florestal representa um compromisso com a gestão responsável dos recursos naturais. Ela assegura práticas como proteção da biodiversidade, uso racional do solo e da água e respeito às comunidades locais. Em um mercado cada vez mais orientado por critérios ESG, esse padrão de gestão fortalece a transparência, amplia a credibilidade das cadeias produtivas e contribui para a competitividade internacional do negócio.

Ambiental:

inovação climática

A base florestal da Aperam BioEnergia é também uma plataforma de inovação ambiental. A empresa investe continuamente no desenvolvimento de tecnologias que ampliam o aproveitamento da biomassa e reduzem emissões em toda a cadeia produtiva. Um dos exemplos é o aproveitamento dos gases gerados durante a carbonização da madeira. Em vez de serem liberados na atmosfera, eles são captados e condensados, dando origem ao bio-óleo, um combustível 100% renovável que pode substituir derivados fósseis em processos industriais.

Social: desenvolvimento regional

A presença da Aperam BioEnergia também desempenha um papel importante no desenvolvimento socioeconômico do Vale do Jequitinhonha (MG). A empresa gera mais de 2 mil empregos diretos e promove iniciativas nas comunidades do entorno, como o Programa Raízes do Vale, que incentiva a agricultura familiar por meio do uso compartilhado de áreas da empresa para produção de alimentos. Hoje, mais de 260 famílias cultivam alimentos, como milho, feijão, melancia e batata-doce biofortificada, em cerca de 120 hectares, contribuindo para a segurança alimentar e o fortalecimento da economia local.

Governança: integridade e gestão responsável

A estratégia de sustentabilidade da Aperam BioEnergia é sustentada por uma estrutura sólida de governança, orientada por transparência, inovação e responsabilidade na condução das operações e na gestão dos recursos naturais. A companhia adota padrões rigorosos de compliance, auditorias independentes e certificações internacionais que asseguram a integridade dos processos e a rastreabilidade da produção. A combinação entre gestão responsável, inovação tecnológica e eficiência operacional fortalece a credibilidade da empresa e sustenta uma cadeia produtiva cada vez mais transparente, competitiva e alinhada aos desafios da transição para uma economia de baixo carbono.

Futuro: economia circular como estratégia industrial

A base florestal da Aperam BioEnergia se conecta diretamente à operação industrial da companhia no Vale do Aço (MG). O carvão vegetal renovável produzido no Vale do Jequitinhonha abastece os altos-fornos da usina de Timóteo, permitindo à Aperam produzir aço com uma das menores pegadas de carbono da siderurgia mundial.

Essa integração expressa a visão que orienta a estratégia da empresa: liderar a criação de valor na economia circular de materiais infinitos, com impacto global. Ao articular florestas renováveis, bioenergia e siderurgia de baixo carbono, a companhia estrutura uma cadeia produtiva capaz de gerar valor econômico enquanto reduz emissões e amplia o uso responsável dos recursos naturais.

Florestas certificadas, investimentos em inovação, desenvolvimento regional e aço de baixa emissão mostram que competitividade industrial e responsabilidade ambiental podem avançar juntas. Para a Aperam BioEnergia, o futuro da siderurgia já começou. E ele nasce da convergência entre as florestas plantadas, a geração de energia renovável e o avanço da economia circular.

Edição gênica - CRISPR

Adotar biotecnologia moderna em larga escala é fundamental

O sucesso da indústria de árvores plantadas na América do Sul é resultado de décadas de programas intensivos de melhoramento genético, práticas silviculturais avançadas e condições de crescimento para o cultivo do eucalipto dentre as mais favoráveis do mundo. Essa combinação consolidou o Brasil e países vizinhos como líderes globais em produtividade e competitividade no setor.

Entretanto, esse sucesso vem sendo desafiado por uma realidade cada vez mais complexa. A combinação de mudanças climáticas aceleradas e a expansão dos plantios para regiões mais adversas e imprevisíveis está pressionando o setor. Em importantes áreas produtoras do Hemisfério Sul, as alterações nos padrões climáticos já afetam diretamente o desenvolvimento das árvores e o desempenho dos plantios ao longo do tempo. Em partes do Chile e do Brasil, períodos de seca prolongada ocorrem com maior frequência, assim como a irregularidade das chuvas, o aumento da incidência de pragas e uma variabilidade climática anual que dificulta o planejamento e compromete a estabilidade produtiva.

A indústria já sente os efeitos dessas mudanças. A partir de 2007, regiões tradicionais de eucalipto na Bahia e no Espírito Santo passaram a enfrentar alterações de temperatura e de regime de chuvas que provocaram

distúrbios fisiológicos em extensas áreas de plantio. Áreas que antes eram consideradas referência em produtividade evidenciaram forte sensibilidade ao novo estresse ambiental, de clones amplamente utilizados, levando à retirada desses materiais do uso operacional. Para manter o abastecimento das fábricas nos períodos mais críticos, empresas tiveram de transportar madeira de estados distantes, como Rio Grande do Sul e Minas Gerais, elevando custos logísticos e riscos na cadeia de suprimentos. Embora os programas de melhoramento tenham rapidamente identificado clones mais tolerantes e, mais recentemente, marcadores moleculares tenham acelerado essa seleção na Suzano, a região ainda não recuperou totalmente os níveis de produtividade anteriores a 2007.

Esse descompasso crescente entre capacidade biológica e demanda ambiental não representa apenas um desafio científico. Ele cria uma ameaça direta à produtividade e à estabilidade da cadeia de suprimentos. Durante décadas, as práticas de manejo aprimoradas e os ganhos genéticos consistentes sustentaram a indústria de árvores plantadas. Esses dois pilares, contudo, dependem de ciclos de desenvolvimento que podem levar uma década ou mais. Agora, enfrentam dificuldade para acompanhar a velocidade e a intensidade

Para manter o abastecimento das fábricas nos períodos mais críticos, empresas tiveram de transportar madeira de estados distantes, como RS e MG, elevando custos logísticos e riscos na cadeia de suprimentos. "

Rodrigo Neves Graça

Gerente de Desenvolvimento de Produtos e Negócios da FuturaGene Tecnologia

das mudanças climáticas, além das novas exigências operacionais, como a necessidade de mecanização das atividades de campo.

No fim dos anos 1990, a agricultura passou por um período de pressão crescente causada por plantas daninhas e insetos, exigindo soluções adicionais às que vinham sendo oferecidas pelo melhoramento convencional e pelo manejo. A adição da biotecnologia, como a tolerância a herbicidas em soja e a resistência a insetos em milho, ampliou o conjunto de ferramentas disponíveis e permitiu respostas mais eficientes aos novos desafios, fortalecendo a integração entre genética, manejo e inovação tecnológica. A silvicultura comercial vive hoje um ponto de inflexão semelhante, agravado pelas mudanças climáticas. O melhoramento genético e as práticas silviculturais continuam sendo fundamentais, mas a sua eficácia depende cada vez mais de ferramentas biotecnológicas complementares e adaptativas.

Entender essa transição ajuda a explicar por que tecnologias genéticas modernas se tornam indispensáveis para garantir a resiliência e a competitividade de longo prazo do setor de florestas plantadas.

A incorporação de ferramentas biotecnológicas também gera benefícios sociais relevantes, ao reduzir o risco de desabastecimento, evitar perdas produtivas significativas e contribuir para a estabilidade econômica das regiões que dependem do setor.

Quando a oferta de madeira é local, previsível e sustentável, a economia regional ganha força. Novos empregos são gerados, a competitividade aumenta e o ambiente econômico evolui para um cenário mais equilibrado e sustentável.

A FuturaGene/Suzano utiliza a biotecnologia para aumentar a produtividade e fortalecer a resiliência do eucalipto, com a utilização de modificação genética e edição gênica (com a utilização de CRISPR-Cas).

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A empresa possui 11 aprovações para eucaliptos geneticamente modificados (GM), além da primeira isenção regulatória do mundo para um eucalipto geneticamente editado. No Brasil, a CTNBio avalia produtos geneticamente editados conforme a Resolução Normativa 16, que determina se um organismo deve ser classificado como GM. Quando não há a inserção de DNA exógeno, o produto pode, em alguns casos, ser tratado como equivalente às plantas convencionais.

A isenção pioneira obtida pela FuturaGene/Suzano segue esse marco regulatório, além de demonstrar a robustez do sistema de biossegurança brasileiro. A transformação genética permite introduzir características benéficas que não existem naturalmente no eucalipto, ampliando o alcance fenotípico da espécie além dos limites do melhoramento convencional. Essas ferramentas são consolidadas e já amplamente utilizadas em culturas agrícolas.

Com processos regulatórios estabelecidos, a transformação genética continua sendo o único método operacionalmente viável para introduzir funções biológicas totalmente novas. A edição gênica via CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats) permite intervenções altamente precisas dentro do próprio genoma do eucalipto, ajustando vias metabólicas, removendo genes de suscetibilidade ou otimizando mecanismos de resposta ao estresse.

Apesar desse potencial, a edição de genomas apresenta limitações importantes, como a dependência de variação genética já existente e o fato de ainda não permitir a introdução de características provenientes de outros organismos. Por isso, transformação genética e edição gênica são abordagens complementares. As duas ampliam o alcance do melhoramento ao incorporar novas funções em materiais genéticos de elite, já mais adaptados às condições climáticas atuais.

Apesar dos avanços, ainda existe ceticismo em partes dentro do setor, sustentado por políticas de certificação formuladas no fim dos anos 1990, que foram estabelecidas em um contexto científico diferente do atual. É importante lembrar que o setor de árvores plantadas opera alguns dos modelos de uso da terra mais sustentáveis do mundo, com grandes áreas de vegetação nativa preservadas ao lado dos plantios operacionais. Esse cenário de plantios em mosaico cria uma base sólida para que a biotecnologia contribua de forma ainda mais efetiva para resultados ambientais positivos.

O avanço responsável da biotecnologia no setor depende de colaboração. Instituições públicas de pesquisa oferecem a base científica, o rigor metodológico e as descobertas de longo prazo. Empresas privadas contribuem com validação em escala operacional e com a capacidade de transformar inovação em aplicação comercial. Reguladores garantem segurança, transparência e confiança pública.

Entidades certificadoras ajudam a moldar a aceitação do mercado e o alinhamento do progresso tecnológico aos compromissos de sustentabilidade. Quando esses atores convergem, a biotecnologia deixa de atuar apenas como uma ferramenta de produtividade e passa a impulsionar sustentabilidade, competitividade, gestão ambiental e crescimento econômico inclusivo. Esse avanço se apoia em práticas robustas de governança, monitoramento transparente e protocolos de responsabilidade técnica que fortalecem a confiança da sociedade.

Manter o Brasil entre os líderes globais dependerá diretamente da capacidade de incorporar novas ferramentas tecnológicas no ritmo exigido pelos desafios climáticos.

A próxima onda de ganhos de produtividade dependerá cada vez mais da biotecnologia, das ferramentas genéticas modernas, do manejo de precisão integrado, de ciclos de melhoramento mais rápidos, da seleção rápida e eficiente para tolerância a estresses e, futuramente, de abordagens de edição gênica de alta precisão. Essas tecnologias não substituirão as práticas tradicionais, mas serão fundamentais para ajudar o setor a se adaptar a ambientes mais complexos e garantir a viabilidade de longo prazo das cadeias produtivas baseadas em árvores plantadas. Adotar a biotecnologia de forma ampla, responsável e colaborativa será essencial para assegurar a resiliência e a relevância global da indústria de árvores plantadas no Brasil. 

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Melhoramento florestal na era dos dados: produtividade, estabilidade e adaptação

O sucesso de um programa de melhoramento genético depende da capacidade de selecionar materiais produtivos não apenas nas condições atuais, mas também em ambientes futuros. Em um cenário de mudanças climáticas e crescente variabilidade ambiental, esse desafio torna-se ainda mais complexo.

Nos anos 1980, no US Army War College (Carlisle, Pensilvânia), surgiu o termo VUCA ( Volatility, Uncertainty, Complexity and Ambiguity - volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade ) para descrever o ambiente geopolítico marcado pelas incertezas da Guerra Fria. Após a crise financeira de 2008, o conceito passou a ser amplamente utilizado também no mundo corporativo.

No melhoramento genético florestal, esse ambiente VUCA também é uma realidade, especialmente quando buscamos produtividade, adaptação e estabilidade clonal. As mudanças climáticas têm de

safiado a seleção de clones e impactado a longevidade dos materiais operacionais, aumentando a volatilidade e a incerteza da produtividade futura.

Um exemplo dessas mudanças pode ser observado na região de Três Lagoas-MS. Dados climáticos indicam um aumento de aproximadamente 19 dias acima de 35 °C por década, o que representa maior frequência de eventos de estresse térmico e potenciais impactos na produtividade florestal.

Ao mesmo tempo, dispomos hoje de um número crescente de ferramentas e fontes de dados que podem auxiliar na mitigação desses riscos. Entretanto, a rápida expansão do conhecimento científico impulsionada pelo avanço da inteligência artificial e das tecnologias digitais também gera novas ambiguidades, principalmente na definição de quais tecnologias podem ser aplicadas de forma eficaz e economicamente viável.

Apesar dessa grande evolução em genômica, a fenotipagem - o verdadeiro ouro do melhoramento - permaneceu por muito tempo limitada a variáveis clássicas, como diâmetro à altura do peito (DAP) e altura total das árvores. "

Aurélio Mendes Aguiar e Mateus Chagas Andrade

Especialista em Melhoramento Florestal e Pesquisador Sênior em Melhoramento Florestal, respectivamente, na Suzano

No setor de celulose e papel, o objetivo central do melhoramento genético é aumentar a produtividade de polpa por unidade de área. Isso implica elevar o volume de madeira produzido e reduzir o CEM (Consumo Específico de Madeira — m³ de madeira por tonelada de celulose seca ao ar). Além disso, é necessário considerar resistência a doenças, pragas e estresses abióticos que podem limitar a produção em determinados ambientes, bem como garantir que a qualidade da madeira atenda às demandas industriais.

Outro objetivo fundamental é reduzir o ciclo de melhoramento, aumentando o ganho genético por unidade de tempo. De forma geral, os programas de melhoramento florestal envolvem duas etapas principais: melhoramento de populações, que inclui recombinação e seleção inicial de materiais, e desenvolvimento clonal, voltado à validação dos clones mais produtivos e adaptados aos ambientes-alvo. Enquanto a fase de melhoramento envolve milhares de indivíduos em avaliação, o desenvolvimento clonal normalmente reduz esse número para centenas ou dezenas de clones candidatos.

Nas últimas décadas, diversas ferramentas têm sido desenvolvidas para apoiar esses objetivos, principalmente com capacidade de lidar com grande volume de dados e múltiplas variáveis. Nesse contexto, o conceito do triângulo moderno do melhoramento, proposto por Crossa et al. (2021), destaca a integração entre genômica, fenômica e ambientômica como base para acelerar os ganhos genéticos.

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Na fase de melhoramento de populações, uma ferramenta que tem auxiliado significativamente é o uso de marcadores moleculares. Com o desenvolvimento de marcadores microssatélites e chips de genotipagem em larga escala, tornou-se possível implementar rotinas de controle de qualidade em pomares de recombinação, viveiros de pesquisa e viveiros operacionais, garantindo que os materiais selecionados em campo sejam corretamente operacionalizados para plantio.

Além disso, a genotipagem em larga escala tem possibilitado o desenvolvimento de modelos de seleção genômica, que permitem predizer o desempenho potencial de uma planta ou muda a partir de sua genotipagem. É importante destacar que a construção desses modelos depende de bases fenotípicas robustas e com qualidade, além de experimentos conduzidos com elevado rigor experimental.

Apesar dessa grande evolução em genômica, a fenotipagem — o verdadeiro ouro do melhoramento — permaneceu por muito tempo limitada a variáveis clássicas, como diâmetro à altura do peito (DAP) e altura total das árvores.

Nos últimos anos, entretanto, esse cenário começou a mudar. Drones equipados com sensores RGB, LiDAR e multiespectrais têm aberto novas oportunidades para a fenotipagem em larga escala em experimentos de campo.

Nas regiões de atuação da Suzano, a resiliência florestal é uma característica fundamental e, no contexto do melhoramento, refere-se à capacidade do material genético de responder ou se recuperar rapidamente após eventos de estresse.

Nesse contexto, desenvolvemos uma plataforma de fenotipagem baseada em drones que permite monitorar experimentos ao longo do ciclo de crescimento. Dessa forma, em vez de avaliarmos apenas uma “fotografia” em um único momento, passamos a

Dias > 35ºC – Anomalias (TLS)
ANOMALIA (dias em relação à média) DE DIAS ACIMA DE 35°C NA REGIÃO DE TRÊS LAGOAS-MS

acompanhar a dinâmica de desenvolvimento dos materiais genéticos ao longo do tempo, criando um verdadeiro “filme” da vida dos clones no experimento.

Essas avaliações têm permitido identificar padrões espaciais que antes não estavam ao nosso alcance, como a ocorrência de mato-competição, falhas de adubação ou variações na execução dos tratos culturais. Essas informações contribuem diretamente para a melhoria da qualidade experimental e para a interpretação mais precisa dos resultados. Outro aspecto relevante é o ganho em segurança e eficiência operacional, uma vez que a análise baseada em imagens reduz a necessidade de deslocamentos dentro dos experimentos e diminui o tempo de avaliação em campo.

Além das imagens RGB, também estamos desenvolvendo metodologias para aplicação de sensores LiDAR em experimentos de melhoramento. Trabalhos conduzidos em parceria com a UF-PR (Universidade Federal do Paraná) e a Camcore (Central America and Mexico Coniferous Resources Cooperative) têm demonstrado resultados promissores no uso dessa tecnologia para fenotipagem florestal. Resultados iniciais indicam boas correlações com variáveis biométricas tradicionais como DAP e altura, além da possibilidade de estimar mais de 70 variáveis biométricas adicionais (Mezacasa et al. 2025). A integração dessas informações com séries temporais de crescimento e dados climáticos abre novas oportunidades para a identificação de clones produtivos e resilientes.

Em trabalhos mais recentes, também têm surgido novas abordagens metodológicas, como a seleção fenômica, que utiliza matrizes construídas a partir de informações fenotípicas — como assinaturas espectrais ou dados de NIR — para predizer o desempenho genético dos materiais. Resultados iniciais em culturas agrícolas têm demonstrado o potencial dessa abordagem, e pesquisas nessa área já estão sendo conduzidas também no setor florestal.

A resiliência e estabilidade clonal dependem de uma compreensão mais profunda da interação Genótipo × Ambiente (G×A), tanto no momento da seleção quanto na

recomendação operacional de novos clones. Tradicionalmente, testes clonais são conduzidos em um número limitado de ambientes, o que pode não capturar toda a variabilidade ambiental presente nas áreas operacionais.

Nesse contexto, surge o conceito de ambientômica, que busca integrar múltiplas covariáveis ambientais para melhorar a caracterização dos ambientes e principalmente aumentar a acurácia das predições de desempenho dos materiais genéticos. Essa abordagem permite reduzir riscos associados à recomendação clonal e explorar de forma mais eficiente a variabilidade ambiental existente.

Ferramentas avançadas de modelagem, incluindo modelos de machine learning e integração de bases climáticas e fenotípicas, têm ampliado o potencial dessas análises. Entretanto, o principal desafio permanece na qualidade e consistência das bases de dados utilizadas.

Outra questão relevante, em um cenário de mudanças climáticas, é avaliar se as espécies atualmente utilizadas continuarão sendo adequadas no futuro.

Para explorar essa questão, conduzimos um estudo de similaridade ambiental entre regiões de ocorrência natural de espécies de Eucalyptus na Austrália e as áreas de produção da Suzano no Brasil, considerando cenários climáticos passados, presentes e futuros.

Os resultados indicam que as principais espécies atualmente utilizadas tendem a continuar relevantes no futuro, ao mesmo tempo em que outras espécies foram identificadas como promissoras para ambientes futuros.

Em um ambiente cada vez mais complexo e dinâmico, o desafio do melhoramento genético deixa de ser apenas identificar clones superiores em condições específicas e passa a envolver a construção de sistemas de decisão capazes de integrar grandes volumes de dados genéticos, fenotípicos e ambientais.

Essa integração será fundamental para reduzir riscos, aumentar a previsibilidade da produção florestal e sustentar os ganhos de produtividade em um cenário de mudanças climáticas.

Melhoramento genético do eucalipto no Brasil

O melhoramento genético clássico tem dado inegável contribuição no aumento da produtividade do eucalipto nas últimas décadas no Brasil. Como exemplo, a produção brasileira de madeira em tora de eucalipto para produção de celulose foi de 97.841.136 m³ em 2023 (IBGE, 2023). Caso a produtividade de madeira de 15 m³ ha-1 ano-1 da década de 1970 tivesse se mantido até os dias atuais, seriam necessários 931.820,34 ha de área colhida para abastecer a produção de madeira para celulose do ano de 2023, considerando uma rotação de 7 anos para corte da madeira de eucalipto. Como a produtividade média foi de 33,7 m³ ha-1 ano-1 em 2023, foram necessários, em média, apenas 414.756,83 ha, ou seja, uma economia de área colhida de aproximadamente 517.063,51 ha (45%) unicamente nos plantios voltados para obtenção de madeira para celulose.

Apesar disto, na atualidade, tem sido cada vez mais difícil desenvolver novos clones superiores de eucalipto, pois os clones operacionais são mais difíceis de serem suplantados em termos de crescimento volumétrico de madeira. Uma das dificuldades encontradas é que o melhoramento acaba reduzindo a variabilidade genética, ao longo das gerações, e a variabilidade genética é a matéria-prima do melhoramento.

Por isso, é fundamental que os programas de melhoramento sejam cada vez mais bem estruturados em termos de introdução de germoplasma de diferentes espécies, recombinação de genótipos superiores, bem como em manter um adequado tamanho efetivo populacional. Esses aspectos são fundamentais para geração e manutenção de variabilidade genética nas populações segregantes, alvos do melhoramento genético.

Vale também lembrar a existência de novas pressões de seleção na atualidade, sobretudo novas doenças e insetos-pragas de importância econômica, além de fatores abióticos (déficit hídrico, distúrbio fisiológico, elevadas temperaturas, geadas, solos pobres e ventos), os quais têm contribuído para reduzir a eficiência dos programas de melhoramento e trazido impactos diretos na eucaliptocultura nacional. Assim, mesmo com o uso da clonagem operacional, como forma eficiente de capturar a variância genética total, os ganhos do melhoramento vão ficando menores ao longo do tempo.

Uma dificuldade adicional diz respeito ao tempo relativamente longo para se desenvolver uma nova cultivar clonal de eucalipto no Brasil. Tendo-se os genitores já identificados e selecionados, mesmo com seleção precoce realizada aos três anos de idade, são

O gênero Eucalyptus apresenta enorme variabilidade genética, contida nas suas mais de 960 denominações, entre espécies, subespécies, variedades e híbridos naturais. "

Teotônio Francisco de Assis e Cristiane Aparecida Fioravante Reis

Diretor da Assistech - Tecnologia em Melhoramento e Pesquisadora da Embrapa Florestas, respectivamente

necessários 14 anos para o desenvolvimento, o registro e o lançamento de uma nova cultivar. Neste sentido, várias tecnologias (enxertia, hormônio indutor de florescimento, top grafting, manejo e conservação de pólen de diferentes genitores, protoginia artificialmente induzida e pomares de cruzamento em vaso) são de grande utilidade, sobretudo para auxiliar no aumento da variabilidade genética, e, com a utilização de tecnologias genômicas, pode-se reduzir o tempo para novas recomendações clonais.

Os principais caracteres de interesse florestal são governados por muitos genes, dificultando a utilização de algumas tecnologias, como a engenharia genética para obtenção de transgênicos, por exemplo. Alguns desses caracteres poligênicos possuem herdabilidades de moderadas a altas. É o caso, por exemplo, das propriedades tecnológicas da madeira, cujo melhoramento genético pode ser obtido de forma significativa utilizando metodologias clássicas. Esses caracteres apresentam herança aditiva, sendo mais facilmente melhoradas via cruzamentos interespecíficos. Outros caracteres, que também apresentam herança predominante do tipo aditiva, como a tolerância a fatores abióticos, são eficientemente melhorados pelo cruzamento entre espécies com caracteres complementares, notadamente a tolerância ao déficit hídrico, tolerância às geadas e tolerância ao distúrbio fisiológico do eucalipto.

Como exemplo, os híbridos C. torelliana x C. citriodora possuem uma série de caracteres positivos, além da produtividade e densidade da madeira. Eles são resistentes à maioria dos insetos que causam danos às florestas de eucalipto atualmente, tais como psilídeo de concha, percevejo bronzeado e vespa da galha. Isto porque, apesar de a espécie C. citriodora ser suscetível, a C. torelliana é totalmente resistente. São também resistentes à maioria das doenças de importância econômica dos eucaliptos, como ferrugem, cancro do eucalipto e Teratosphaeria, além de tolerantes ao distúrbio fisiológico.

É também digno de nota que tem havido certo desequilíbrio nos investimentos feitos no melhoramento tradicional, em relação ao uso de ferramentas biotecnológicas. Em várias situações, tem sido muito mais fácil justificar investimentos de milhões de reais em biotecnologia do que na contratação de alguns colaboradores a mais para a condução dos programas de melhoramento genético.

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Como essas novas tecnologias são predominantemente ferramentas do melhoramento, a condução adequada dos programas de melhoramento genético deve ser igualmente valorizada em termos dos recursos expendidos na sua execução.

Outra preocupação atualmente é quanto à redução da procura de pós-graduandos pela formação em melhoramento genético florestal clássico. Grande parte tem optado pelo melhoramento apoiado em tecnologias moleculares. Em um primeiro momento, novas tecnologias soam como mais glamourosas, além do que a quantidade de professores formadores de melhoristas também está de certa forma desequilibrada.

Não se quer dizer com isto que os professores com maior viés molecular não tenham a formação clássica do melhoramento tradicional, mas é perfeitamente compreensível que sua formação mais aprofundada em tecnologias moleculares possa influenciar na sua forma de ação.

É sempre oportuno enfatizar que as novas tecnologias não irão eliminar a necessidade de se desenvolverem programas de melhoramento genético pelos métodos tradicionais. As tecnologias mais modernas, em geral, atuam sobre plataformas (materiais genéticos) desenvolvidas pelo melhoramento clássico. Em outras palavras, o melhoramento produz o “substrato genético” para a utilização dessas tecnologias.

O gênero Eucalyptus apresenta, ainda, enorme variabilidade genética, contida nas suas mais de 960 denominações, entre espécies, subespécies, variedades e híbridos naturais. Toda essa variabilidade sequer foi “arranhada” e representa um potencial gigante para uso via melhoramento genético clássico, sobretudo pelo alto nível de compatibilidade genética existente entre muitas delas. Apesar de o acesso aos germoplasmas australianos não ser tão simples como foi no passado, essa reserva genética é uma segurança para o enfrentamento de situações adversas que podem ocorrer no futuro.

Vale mencionar que o melhoramento genético, tendo como primazia a acumulação contínua de vantagens (alelos favoráveis), continua e continuará sendo fundamental na obtenção de novas cultivares de eucalipto adaptadas às diversas condições ambientais contidas na imensidão territorial brasileira. Pensemos nisto! 

Como o melhoramento clássico contribui para florestas “bioeficientes”

A expansão da base florestal para novas fronteiras e a pressão exercida pelas mudanças climáticas têm exigido que as árvores tenham maior eficiência no uso dos recursos disponíveis. Além do aumento da produtividade, características como resiliência, adaptabilidade e qualidade da madeira para aumento da eficiência industrial são essenciais para a sustentabilidade das cadeias produtivas de base florestal. Nesse contexto, o melhoramento genético é um dos principais pilares que sustenta a silvicultura do futuro, a partir do desenvolvimento de novos cultivares de alto potencial genético e da compreensão dos efeitos ambientais na expressão das características de interesse.

O melhoramento genético clássico transita entre a arte e ciência para o desenvolvimento de cultivares com características desejadas. A arte é definida pela habilidade do melhorista em identificar materiais genéticos de alto potencial em uma população e a sua visão estratégica para aumentar o ganho genético utilizando os recursos disponíveis. A porção científica consiste na aplicação sistematizada do método científico para realizar as melhores combinações entre genitores, mensurar a proporção herdável da característica de interesse e predizer os ganhos nas novas gerações desenvolvidas a partir da seleção natural ou artificial em uma população.

O melhoramento genético clássico transita entre a arte e ciência para o desenvolvimento de cultivares com características desejadas. "

Objetivos claros, recursos genéticos disponíveis, populações base, variabilidade genética, matriz de recombinação e acesso a ferramentas e tecnologias de suporte direcionam o sucesso dos programas de melhoramento genético. O principal objetivo do melhoramento é aumentar o ganho genético para características de interesse através das gerações, ou seja, que as populações avançadas sejam superiores à população atual.

Parâmetros de seleção para recomendação de material genético

Para definir tanto os objetivos quanto as características de interesse a serem desenvolvidas dentro do programa, que tecnicamente definimos como parâmetros de seleção, deve-se considerar as demandas do usuário final do material genético. Tais parâmetros podem ser obrigatórios ou desejáveis e, em geral, estão relacionados à produtividade da floresta, como o volume, a densidade básica e tolerância a fatores bióticos e abióticos.

Os principais parâmetros considerados como obrigatórios pela maioria dos programas de melhoramento no Brasil são o incremento médio anual e a densidade básica da madeira.

Essas duas características são bons indicativos iniciais do desempenho do material genético no campo. Tolerância a estresses ambientais também vem se tornando decisiva em algumas regiões, principalmente a

tolerância ao déficit hídrico, devido à ocorrência de longos períodos de estiagem, especialmente na região Centro-Oeste, ou eventos de geada no Sul. Para setores específicos, características da madeira são fatores bastante decisivos, como o rendimento depurado na indústria de celulose e poder calorífico na indústria de carvão, por exemplo. A susceptibilidade a doenças também pode ser fator eliminatório para a recomendação de um material genético.

A eficiência da produção de mudas, o desenvolvimento inicial do material em campo, a demanda hídrica e nutricional e atributos específicos ligados à qualidade da madeira são fatores muitas vezes ignorados que podem aumentar a eficiência das florestas e reduzir custos e impactos ambientais. Outros fatores, como boa formação de copa, contribuem para reduzir os custos de formação das florestas e podem ser eficientes no controle da mato-competição, enquanto a maior eficiência no uso da água e o bom desenvolvimento do sistema radicular, especialmente nas fases iniciais, podem reduzir o desperdício causado pela mortalidade de mudas no campo e diminuir o impacto ambiental do cultivo. Diante disso, surge a reflexão: e se, além da produtividade, passássemos a considerar também a “bioeficiência” de um material genético como parâmetro desejável de seleção?

O melhoramento clássico e o apoio de outras áreas das ciências

Para além da realização de cruzamentos de forma sistematizada, seja com a realização de polinização controlada ou não, para se testar o efeito genético e fenotípico das combinações realizadas, os novos materiais genéticos devem ser metodologicamente avaliados em condições de campo. Com os resultados em mãos e suas habilidades, o melhorista seleciona criteriosamente os melhores materiais de acordo com os objetivos do seu programa de melhoramento.

A maioria das características de interesse econômico são definidas por vários genes e mecanismos biológicos que ativam ou desativam vias metabólicas em que esses genes atuam. Devido a isso, o apoio de ferramentas estatísticas e o conhecimento profundo da genética e evolução das populações são fundamentais para predizer combinações que aumentem a probabilidade de essas características serem herdadas pelas próximas gerações.

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As ômicas, por exemplo, auxiliam na identificação de marcadores moleculares chave e na compreensão de interações biológicas (genômica, transcriptômica, proteômica, ambientômica, dentre outras). Marcadores moleculares podem ser utilizados para facilitar a seleção de características governadas por poucos genes (seleção assistida), como a resistência a algumas doenças. Além disso, a fenotipagem de alto rendimento é um exemplo que aprimora e enriquece as avaliações em campo. Já a seleção genômica pode ser desenvolvida e aplicada para otimizar a escolha e combinação de genitores e ainda reduzir os ciclos de seleção de um programa de melhoramento, possivelmente aumentando o ganho genético. Sendo assim, o desenvolvimento de novas metodologias de melhoramento, modelos estatísticos robustos, softwares e hardwares com capacidade de lidar com grande volume de dados e cálculos complexos e tecnologias que permitem mapear, identificar e compreender relações biológicas complexas são ferramentas valiosas e ainda pouco exploradas dentro dos programas de melhoramento genético florestal, em comparação a programas de melhoramento de espécies agrícolas e animais.

A demanda por novos materiais genéticos surge não só pela abertura de novas fronteiras silviculturais, mas também pelas alterações dos ciclos climáticos, ocorrência de novas pragas e doenças e a necessidade pela ampliação da variabilidade genética para enfrentar todos estes desafios.

Nesse contexto, o melhoramento clássico é peça fundamental para a formação de sistemas florestais mais produtivos, com alta eficiência no uso de recursos, maior resiliência a eventos extremos e menor impacto ambiental.

Para selecionar e desenvolver materiais genéticos tolerantes a doenças, pragas e estresses climáticos, com melhor eficiência no uso da água e nutrientes e alinhados às demandas industriais, o investimento em melhoramento genético é estratégico para garantir a sustentabilidade de toda a cadeia do setor florestal.

A maior disponibilidade de materiais genéticos, quando aliada a alocação clonal adequada, maximiza o potencial do material genético, resultando em maior eficiência e ganhos de produtividade. 

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A floresta como ativo estratégico

O atual cenário global de demanda por fibras madeireiras atravessa uma transformação estrutural. As florestas plantadas de Eucalyptus e Pinus estão deixando de ser somente fontes de fibra para se tornaram em ativos estratégicos de descarbonização. As projeções, baseadas na evolução dos últimos anos, consideram que a demanda deva dobrar até 2075.

A competitividade é a alavanca para a sobrevivência do setor, e, obviamente, com maior pressão por terra e competição com a produção de alimentos, o que exige maior eficiência biológica por metro quadrado.

O histórico das florestas comerciais nos mostra que o melhoramento genético deverá ser um dos protagonistas no desafio de atender a essa demanda futura. O melhoramento permitiu superar barreiras edafoclimáticas que antes eram consideradas intransponíveis, como o cultivo de eucalipto em solos de baixa fertilidade no cerrado ou pinus em zonas de frio extremo no sul do Chile.

Cada vez mais os desafios tornaram-se globais. A rapidez com que pragas como o percevejo-bronzeado ou a vespa-da-galha se espalham exigiram programas de melhoramento dinâmicos, capazes de identificar fontes de resistência em tempo recorde, aliados a ações coordenadas de fitossanidade para determinar protocolos de monitoramento e controles biológicos. Uma ação conjunta de inovação, trabalho de campo árduo com foco no resultado, evitando colapsos de produtividade nos plantios.

Como veterano em empresas globais, eu vi modas tecnológicas virem e irem, mas os programas que prosperaram foram aqueles que nunca abandonaram o rigor dos fundamentos. "

Júpiter Israel Muro Abad

A seleção dos melhores materiais genéticos não é apenas biológica, mas econômica para maximizar o retorno financeiro de cada hectare plantado.

A ciência por trás da "espécie certa no lugar certo"

O conceito de "espécie certa no lugar certo" é o alicerce que sustenta a estabilidade da produção de florestas industriais. Através de décadas de testes de espécies e procedências, o melhorista clássico mapeou a adaptação de Eucalyptus e Pinus em gradientes latitudinais e altitudinais. Essa correspondência bioclimática evitou falhas catastróficas e permitiu que a variabilidade genética fosse explorada de forma estruturada e o potencial produtivo fosse expresso plenamente.

Nesse sentido, a genética quantitativa foi crucial para entender os componentes da variação entre e dentro de famílias, direcionar os esforços de seleção para características importantes de crescimento, resistência a doenças e qualidade de madeira. A seleção fenotípica foi refinada pela seleção genotípica usando preditores como BLUP (Best Linear Unbiased Prediction ) associados a métodos de Máxima Verossimilhança Restrita (RMEL), que permitiram dissecar as variâncias e herdabilidade.

No mesmo sentido, a hibridação entre espécies diferentes desempenhou um papel fundamental no melhoramento tanto de Pinus quanto de Eucalyptus. Atualmente, os cruzamentos interespecíficos permitem combinar características distintas nos materiais segregantes, e dentre muitos exemplos podemos citar o híbrido E. grandis x E. urophylla (comumente chamado de urograndis), E. urophylla x E. camaldulensis, E. grandis x E. pellita; híbridos P. elliottii x P. caribaea, P. taeda x P. rígida, P. patula x P. tecunumanii.

O Equilíbrio entre a Produtividade e a Segurança:

O melhorista florestal não trabalha para produzir árvores bonitas, mas sim para entregar a fibra ou o fuste que o industrial precisa e, consequentemente, o melhor produto. A seleção do material genético é uma decisão tanto biológica quanto econômica, maximizando o retorno por hectare. Nesse pipeline, a disciplina do melhorista é testada: ele deve evitar o atalho dos ganhos efêmeros que sacrificam a variabilidade de longo prazo.

No Brasil, mais de 40 anos de clonagem massiva provaram que o medo de vulnerabilidade a patógenos ou eventos climáticos é injustificado quando se tem um programa dinâmico. A facilidade em substituir materiais que falharam por novos clones permite manter o equilíbrio entre produtividade máxima e segurança biológica. Hoje, o desafio é refinado pela interação GxA e pela ambientômica, onde simulações eco-fisiológicas permitem "enxergar" através das variações de terreno e clima, garantindo que o desempenho em escala comercial seja uma predição precisa, e não uma aposta. Gerenciar essas compensações, selecionando materiais equilibrados que garantam a entrega da madeira na fábrica, é o foco.

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O futuro sobre o alicerce clássico: integração tecnológica:

O que chamamos de “melhoramento florestal Clássico” não é algo a ser superado, mas o fundamento sobre o qual as novas abordagens e ferramentas em biotecnologia são estabelecidas de maneira a agregar valor ao desenvolvimento da inovação genética.

Diferentes ferramentas têm potenciais de adicionar valor em mais ou menos tempo.

A seleção genômica já começou a ser efetivamente utilizada em programas de melhoramentos, mas dependem inteiramente de populações de treinamento que foram fenotipadas com rigor clássico. Isso permite acelerar os programas, no entanto, os dados de campo e a qualidade da genotipagem são a base para que os modelos sejam eficientes. Por outro lado, as tecnologias baseadas em DNA recombinante, como Árvores Geneticamente Modificadas e CRISPr, enfrentam gargalos tanto de protocolos – clones específicos, estabilidade de expressão gênica e característica alvo – como entraves sociais que respingam pela certificação. Apesar de todos os avanços tanto na área agronômica como florestal, ainda esbarramos em entraves ideológicos, o que pode tornar o ganho de produtividade biotecnológica em um prejuízo econômico estratégico.

Enfim, como veterano em empresas globais, vi modas tecnológicas virem e irem, mas os programas que prosperaram foram aqueles que nunca abandonaram o rigor dos fundamentos. A disciplina do pipeline, o monitoramento da diversidade e a atenção aos detalhes no campo são os verdadeiros guardiões do valor florestal. O compromisso com a sustentabilidade será o norteador dos próximos ciclos.

A visão clássica, com sua ênfase na adaptação ambiental, está perfeitamente posicionada para liderar essa transição para uma silvicultura de baixo impacto e alta resiliência.

O alicerce está sólido; o futuro das florestas plantadas nunca foi tão promissor.

Melhoramento

genético

e controle de pragas

Inovações da biotecnologia para o melhoramento genético e controle de pragas

A produtividade agrícola ou florestal é resultado de uma série de ações técnicas, desde a escolha do material genético e o melhor manejo, submetidas as variações ambientais e suas consequências. Quando comparada a sistemas de produção anuais, os plantios florestais com ciclos rotacionais longos necessitam cada vez mais de inovações que auxiliem não só a escolha de materiais genéticos mais adaptados e resilientes, como também em novos agentes biológicos que possam ser utilizados no manejo e em resposta ao cenário de mudanças climáticas.

Assim como ocorreu na agricultura, a biotecnologia florestal vem assumindo um papel central para a evolução da silvicultura moderna, desenvolvendo e incorporando ferramentas capazes de acelerar programas de melhoramento genético, aumentar a produtividade e aprimorar estratégias de controle de pragas. A integração de abordagens moleculares, genômicas e microbiológicas tem permitido avanços significativos na identificação de genes de interesse, no desenvolvimento de clones mais resistentes e na implantação de métodos de controle biológico mais eficientes.

Assim como ocorreu na agricultura, a biotecnologia florestal vem assumindo um papel central para a evolução da silvicultura moderna, desenvolvendo ferramentas capazes de acelerar programas, aumentar a produtividade e aprimorar estratégias.

Uso de ferramentas genômicas e marcadores moleculares no melhoramento

Uma das maiores contribuições recentes da biotecnologia para o setor florestal é a incorporação das informações genômicas nos programas de melhoramento.

Conhecer o DNA de cada árvore ficou mais fácil devido à evolução das técnicas de sequenciamento e, com isso, selecionar novos clones utilizando modelos que relacionam essas informações com o desempenho no campo e em respostas a diversas condições ambientais garantindo uma maior eficiência e redução no tempo de seleção, capacidade estratégica para empresas do setor e sustentabilidade da produção florestal.

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Desenvolvimento de árvores resistentes a pragas

A informação genômica permite ainda associar determinadas características como a resistência a pragas e patógenos a regiões do DNA, possibilitando a identificação de genes de interesse para modificações genéticas ou por edições via Técnicas Inovadoras de Melhoramento de Precisão (TIMPs).

Embora ainda existam desafios regulatórios e de certificação, resultados já obtidos na agricultura e avanços recentes na área florestal comprovam os ganhos dessas novas tecnologias.

Em eucalipto, clones geneticamente modificados para resistência a lagartas já são uma realidade. Os genes Cry de Bacillus thuringiensis (Bt) vêm sendo amplamente utilizados na agricultura, e a combinação de dois ou mais genes com mecanismos de ação diferentes tende a mitigar a possibilidade de quebra de resistência e aumentar os mecanismos de ação para outras pragas.

Abordagem molecular para ampliar a proteção das florestas

Os genes Cry e Vip , dentre muitos outros de Bacillus thuringiensis , também são resultados do sequenciamento de DNA. Hoje cada vez mais é compreendida a importância dos microrganismos, suas interações e associações com as plantas.

O conceito de microbioma e os estudos de metagenômica (sequenciamento do DNA da comunidade de microrganismos

de uma amostra) vêm possibilitando a identificação de novos microrganismos associados a rizosfera, novos genes, novas interações e o desenvolvimento de inoculantes biotecnológicos, o que possibilita a potencialização da produtividade e a promoção da proteção das culturas agrícolas e florestais.

Essa será uma nova fronteira para o melhoramento genético e proteção de plantas, em qual a capacidade de estabelecer interações com microrganismos será mais uma nova característica incorporada aos programas de seleção de novos materiais.

Particularmente no setor florestal em que a globalização e aumento da mobilidade de organismos invasores torna o aparecimento de novas pragas e doenças recorrente, as informações genéticas podem ainda ser utilizadas no monitoramento molecular e diagnóstico precoce de doenças e pragas específicas, possibilitando respostas mais rápidas e direcionadas em programas de manejo integrado de pragas.

No mercado de bioinsumos, muitos microrganismos entomopatogênicos (Bacillus, Beauveria, Trichoderma dentre outros) já são amplamente utilizados no controle biológico de pragas.

Com avanços dos estudos de metagenômica será possível ainda modificar via engenharia genética microrganismos com potencial biotecnológico para adaptá-los a determinada condição ambiental, espécie, clone, patógeno ou praga específica. 

Melhoramento genético e controle de pragas

RNA interferente: precisão molecular no controle integrado de pragas Dentre novas tecnologias inovadoras desenvolvidas por engenharia genética, o RNA interferente (RNAi) vem ganhando destaque com uma abordagem altamente específica para o controle de insetos-praga, já com os primeiros produtos comerciais chegando ao mercado de bioinsumos. Essa tecnologia baseia-se em um mecanismo natural de silenciamento de genes presente em diversos organismos e consiste na aplicação de um RNA dupla fita, produzido em escala industrial e utilizado da mesma forma que molécula química de produtos tradicionais. Quando ingeridas pelos insetos-pragas, essas biomoléculas ativam o mecanismo de RNAi, levando à redução da expressão do gene-alvo relacionado à sobrevivência e, consequentemente, ao controle da praga.

Uma das vantagens dessa abordagem é a alta especificidade dos alvos, eliminando os riscos para insetos benéficos. Essa TIMP é considerada um insumo biológico, de uso tópico e não acarreta nenhuma modificação genética para a praga e outros agentes do ambiente.

Cada vez mais o futuro da inovação biotecnológica no setor florestal vem do aprimoramento de estratégias visando entender as respostas das nossas florestas às mudanças climáticas e desenvolver bioinsumos que promovam uma maior produtividade e que auxiliem no controle de pragas impulsionadas por condições ambientais desfavoráveis. Essas inovações não apenas ampliam a eficiência do controle de pragas, mas também contribuem para sistemas produtivos mais sustentáveis, reduzindo a dependência de insumos químicos e fortalecendo a resiliência dos plantios.

Desenvolvimento e seleção de novos clones

O desafio crescente para o desenvolvimento e a seleção de novos clones de eucalipto

A silvicultura brasileira é majoritariamente clonal. Como sabemos, o desenvolvimento da clonagem do eucalipto em larga escala, a partir da década de 1970, foi o principal propulsor tecnológico para a indústria de madeira do País.

Embora nem todos saibam, o desenvolvimento da clonagem foi motivado pela ocorrência de uma doença: o cancro do eucalipto, causada pelo fungo Cryphonectria cubensis (Chrysoporthe cubensis ).

A seleção de indivíduos resistentes a esta doença, com alto potencial de crescimento e sua multiplicação por propagação vegetativa, permitiu estabelecer plantios uniformes com clones adaptados e de alta produtividade.

Em função disso, em 1984, Edgard Campinhos Jr. e Yara Ikemori, juntamente com Leopoldo G. Brandão e Ney M. dos Santos, da antiga empresa Aracruz Florestal, foram os primeiros brasileiros a receber o Prêmio Marcus Wallenberg ( Marcus Wallenberg Prize ).

O prêmio foi concedido pelo trabalho pioneiro na propagação vegetativa de clones de eucalipto em larga escala.

Alguns pesquisadores acreditam que o máximo de produtividade da cultura foi atingido. Outros, entretanto, grupo do qual faço parte, defendem que ainda podemos aumentar a produtividade. "

Reginaldo Gonçalves Mafia

Mais tarde, com o desenvolvimento das técnicas de cruzamentos controlados, foi possível desenvolver clones ainda mais produtivos e resistentes, por meio da hibridação entre espécies de características complementares, incluindo, por exemplo, as espécies E. grandis (alto potencial de crescimento) e E. urophylla (resistência à doença e maior densidade da madeira).

A partir desse marco inicial, vários programas de melhoramento genético foram estabelecidos.

Com o desenvolvimento de clones mais produtivos e de melhores técnicas de manejo, além da maior atenção para a qualidade florestal, o incremento em produtividade ocorreu naturalmente.

Gerente de P&D em Manejo Florestal da

Porém, mais recentemente, o desenvolvimento e a estabilidade dos novos clones têm sido cada vez mais difíceis, o que tem refletido na estagnação da produtividade dos plantios de eucalipto.

Diante desse cenário, surgiram vários questionamentos ao longo do tempo. Alguns pesquisadores acreditam que o máximo de produtividade da cultura foi atingido. Outros, entretanto, grupo do qual faço parte, defendem que ainda podemos aumentar a produtividade. Em virtude disso, será necessário quebrar alguns paradigmas técnicos e repensar o que fazer frente às mudanças importantes ocorridas nas últimas décadas.

Para embasar esta defesa, é importante considerar que no início dos programas de melhoramento genético era necessário selecionar clones resistentes a uma doença principal (cancro do eucalipto) e de alta produtividade (IMA).

Com o passar do tempo, ocorreu um aumento expressivo das características desejáveis durante a seleção. Logicamente, quanto mais características de interesse, menor é a probabilidade de sucesso na seleção.

Além do mais, muitas dessas características são controladas por genes que estão em sentidos opostos, ou seja, a seleção e priorização de uma determinada característica

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reduzem a variabilidade genética na população de melhoramento e, consequentemente, a chance de seleção da outra característica de interesse.

Por exemplo, é muito comum, em melhoramento de plantas, selecionar com foco em produtividade e reduzir a variabilidade e a frequência de indivíduos resistentes às pragas e doenças.

Nesse caso, é importante mencionar que o aumento das características alvo, ou seja, de interesse durante a seleção, ocorreu por motivos inerentes da expansão florestal, por mudanças dos ambientes de produção, pela ocorrência de novas pragas, doenças e distúrbio fisiológico, além da necessidade de melhor qualidade da madeira.

Com a expansão das áreas florestais, tornou-se necessário selecionar clones de eucalipto adaptados às mais diferentes condições de solo e clima, incluindo recentemente o bioma Cerrado, com solos arenosos e baixa disponibilidade hídrica.

De forma geral, ainda não há populações de melhoramento desenvolvidas para as novas fronteiras florestais, sendo que clones selecionados em outras regiões, normalmente, apresentam pouca adaptabilidade a estas novas condições. Além do mais, é importante lembrar que as variações do clima estão cada vez mais frequentes.

EVOLUÇÃO DA ÁREA PLANTADA E A PRODUTIVIDADE DO EUCALIPTO NO BRASIL DE 1990 A 2023

2,8 MM hectares 26 m3/ha.ano

Eucalipto:

3,1 MM hectares 32 m3/ha.ano

5,6 MM hectares 35,7 m3/ha.ano

2020/2023

Aumento da área (2,8 x) e estabilização da produtividade (aproximadamente 35 m3/ ha/ano) no período.

Principais motivos: avanço em regiões com menor potencial produtivo, mudanças climáticas, bem como o surgimento de novas pragas, doenças e distúrbio fisiológico, além de limitações de produção (clone, mudas, mão de obra, etc.), entre outros fatores. 

7,8 MM hectares 35,5 m3/ha.ano

Desenvolvimento e seleção de novos clones

Sendo assim, os novos clones precisam ser selecionados para uma amplitude muito grande de variações de espaço temporal, de solo e de clima.

Estes novos materiais genéticos precisam ainda, prioritariamente, apresentar resistência a uma série de pragas e doenças, de difícil controle e que podem causar sérios danos, além do distúrbio fisiológico, doença abiótica que praticamente inviabilizou o plantio de vários clones de mercado.

Com o aumento dos fatores restritivos (pragas, doenças e distúrbio fisiológico) e das variações de clima, quase diretamente ocorreu uma redução da estabilidade, tornando os novos clones inadequados em curto espaço de tempo.

E por último e não menos importante, com o aumento da capacidade industrial e o desenvolvimento de novos produtos a partir da celulose, naturalmente ocorreu um incremento das exigências de qualidade da madeira.

Assim, além da exigência quanto a determinados valores de densidade da madeira, outras características passaram a ser utilizadas como critérios de seleção clonal. Ao considerar todos estes fatores, não é difícil entender que o desafio de selecionar novos clones aumentou, significativamente, ao longo do tempo.

Mesmo com o desenvolvimento de novas técnicas e estratégias de melhoramento, o lento desenvolvimento e a baixa disponibilidade no mercado de novos clones têm sido fatores limitantes para expansão e aumento significativo da produtividade. Mas diante desse cenário, o que poderá ser realizado de diferente?

Considerando que os desafios aumentaram e são complexos, talvez tenha chegado o momento de repensar alguns aspectos do melhoramento. Para isso, algumas hipóteses podem ser testadas, considerando temas interessantes, como:

1) intensidade (número de cruzamentos por geração; quantidade de testes de progênie e clonal);

2) enriquecimento do número de espécies e procedências;

3) formação de novos híbridos;

4) intercâmbio (troca de clones e genitores entre empresas e regiões);

5) seleção massal pelo menos para algumas características;

6) otimização das características de interesse;

7) testes seriados no tempo;

8) alocação clonal;

9) avaliação de plasticidade clonal;

10) mini populações de melhoramento e compostos clonais; entre outros.

As empresas investem, de forma consistente, recursos significativos em melhoramento genético. No entanto, além dos recursos humanos e financeiros, talvez tenha chegado o momento de intensificar as inovações nesta área tradicional da ciência florestal.

Acredito que é importante trazer o inconformismo e a inquietação, além de maior abertura para novas ideias.

Vale lembrar que o desenvolvimento de novos clones de eucalipto, por mais demorado e dispendioso que possa parecer, ainda é a principal e mais importante estratégia para alavancar a produtividade florestal. 

Bioprodutos e resíduos

Resíduos florestais na substituição de derivados de fontes fósseis

O setor florestal petrificou-se na visão de que parte da biomassa é elemento intocável da paisagem produtiva. Entretanto, aquilo que hoje permanece no campo como resíduo pode representar o elo perdido entre a produção florestal e a consolidação das biorrefinarias, capazes de converter biomassa em energia, insumos industriais e fertilidade regenerativa. Assim, essa questão já não é só ecológica ou operacional, é totalmente estratégica.

A discussão sobre manter ou remover resíduos florestais raramente é analisada sob a ótica da eficiência sistêmica da cadeia produtiva. Por décadas, cascas, galhos e ponteiros são associados quase exclusivamente à proteção do solo e à reposição de nutrientes. Todavia, o avanço tecnológico da colheita mecanizada e a transição para a bioeconomia exigem revisitar esse paradigma.

Nos sistemas de colheita e transporte de toras curtas voltados à produção de celulose, a mecanização intensiva promove o descascamento no campo e gera frações lenhosas que não seguem para o processo industrial. Limitações operacionais e faixas de diâmetro fazem com que parte da biomassa permaneça

A biomassa deixada no campo representa valor energético expressivo.

Pode gerar cerca de US$ 50 milhões/ano para uma planta de 2 milhões de ton de celulose. "

Professor de Engenharia Florestal da UF-Viçosa e Doutorando pela UF-Uberlândia, respectivamente

dispersa na área colhida, muitas vezes levando anos para se decompor, dificultando a movimentação das máquinas e pessoas e reduzindo a eficiência do manejo e das operações florestais subsequentes à colheita.

Já os sistemas de colheita de fustes são adotados para segmentos industriais que consomem a madeira, predominantemente, como fonte energética. A diferença não é apenas conceitual, mas econômica: o sistema de toras curtas apresenta custos próximos de US$ 8,34/m³, enquanto, sistemas de fuste, de US$ 4,45/m³, diferença de quase US$ 3,90/m³ associada ao destino dado aos resíduos.

A biomassa deixada no campo representa valor energético expressivo. Considerando que a casca corresponde a cerca de 12% da massa da madeira, seu aproveitamento pode gerar economias superiores a R$ 23 mil/ha quando substitui combustíveis fósseis. Em escala industrial, estimativas apontam ganhos da ordem de US$ 50 milhões anuais para uma planta de 2 milhões de toneladas de celulose, enquanto o custo adicional de transporte dessa fração permanece reduzido, próximo de R$ 5,66 por tonelada.

O que antes era tratado como resíduo revela-se um ativo energético subutilizado. Em termos industriais, trata-se de uma diferença que redefine decisões operacionais.

A remoção seletiva da biomassa lenhosa, preservando a serapilheira e as frações finas responsáveis pela proteção do solo, permite conciliar sustentabilidade ambiental, eficiência operacional e geração de energia renovável. Essa mudança se alinha com transformações nas fábricas mais recentes do segmento de polpa celulósica, nas quais a energia deixa de ser insumo externo e passa a integrar a cadeia produtiva.

Essa integração energética não ocorre por acaso. Ela é resultado direto do avanço tecnológico que permite converter resíduos florestais em diferentes vetores energéticos dentro da própria planta industrial. Nesse contexto, a consolidação das biorrefinarias passa, necessariamente, pelo domínio das rotas de conversão termoquímica da biomassa, direcionando os avanços para processos como pirólise e gaseificação.

A considerar as condições de operação, é possível direcionar a proporção dos produtos obtidos nesses processos. Em temperaturas moderadas e ausência de oxigênio, a pirólise favorece a produção de bio-óleo e biocarbono. À medida que a temperatura se eleva e o processo evolui para condições de gaseificação, intensifica-se a formação de gases combustíveis ricos em monóxido de carbono e hidrogênio, conhecidos como syngas. Na prática industrial, essas rotas não são processos isolados, mas regimes de um mesmo processo, ajustáveis por parâmetros como temperatura, tempo de residência e razão equivalente. Essa flexibilidade permite adaptar a conversão da biomassa às necessidades energéticas ou materiais da fábrica.

Nesse contexto, a catálise assume papel decisivo. Catalisadores aplicados à pirólise promovem o craqueamento de compostos pesados e aumentam a estabilidade do bio-óleo e poder calorífico.

Na gaseificação, reduzem a formação de alcatrões e melhoram a qualidade do gás produzido, elevando sua eficiência energética. A conversão da biomassa aproxima-se, assim, de um verdadeiro refino químico renovável, no qual diferentes produtos podem ser priorizados conforme a estratégia industrial, avanço já impulsionado por

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centros de pesquisa brasileiros na área de catálise, na transição para uma bioeconomia de base florestal. Dessa forma, os resíduos florestais podem ser convertidos em combustíveis capazes de suprir demandas térmicas do processo, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e ampliando a autonomia energética das fábricas.

Apesar de o poder calorífico do gás natural (35 a 38 MJ/m³) ser maior do que do syngas (4 a 7 MJ/m³), este pode competir diretamente com aquele, haja visto ser produzido a partir de resíduos florestais que configura estratégia de autonomia energética, previsibilidade de custos e redução estrutural de emissões. Quando produzido in situ, diminui a dependência de infraestrutura externa e transforma biomassa, antes subutilizada, em ativo estratégico.

Entre os produtos obtidos, o biocarbon estabelece a conexão final entre indústria e floresta. Com elevada estabilidade e alta capacidade de troca catiônica, contribui para a retenção de nutrientes no solo e pode reduzir a necessidade de fertilizantes minerais. Além dos benefícios agronômicos, representa forma estável de sequestro de carbono, permitindo sua inserção em mercados voluntários de crédito. Ao imobilizar carbono por longos períodos no solo, pode gerar ativos ambientais comercializáveis e agregar nova fonte de receita à cadeia florestal.

O debate sobre resíduos florestais deixa, assim, de opor conservação e produção. A biorrefinaria demonstra que é possível integrar ambas, transformando sobras operacionais em elemento estratégico para a descarbonização industrial e para a construção de uma bioeconomia baseada no aproveitamento integral da biomassa.

Talvez o desafio do setor florestal já não seja produzir mais madeira, mas compreender que cada fração da árvore carrega energia, carbono e valor tecnológico ainda subutilizados.

Quando a biomassa deixa de ser resíduo, passa a ser recurso, a floresta amplia seu papel. Não apenas sustenta a indústria, mas também a alimenta energeticamente e regenera o próprio solo. É nesse movimento do campo à fábrica e de volta ao campo que se estabelece a nova fronteira do setor, situada exatamente entre o chão da floresta e a chama da indústria. 

Diversificação e a formatação do futuro dos materiais renováveis

O setor de base florestal global parece viver um cenário de bifurcação estratégica, onde a competitividade geográfica dita o ritmo da inovação. Ao contrário do que se possa imaginar, na América Latina a febre da biorrefinaria parece ter esmaecido enquanto investimento em inovação para ganho de escala e eficiência operacional aumenta.

Isso porque a capacidade de produzir celulose com produtividade florestal inigualável e ativos industriais de escala mundial levaram a América do Sul à vanguarda e liderança no setor em custos operacionais e eficiência em escala. Aqui ser cada vez mais eficiente no core business , mais que uma meta operacional, é a condição de existência em um mercado global cada vez mais acirrado.

No hemisfério norte, a indústria de celulose enfrenta desafios estruturais que diminuem sua capacidade de competir no custo da fibra.

Dados da FAOSTAT (Food and Agriculture Organization of the United Nations) e do Fastmarkets RISI demonstram que os preços globais da madeira subiram entre 30% e 35% desde 2021, um fenômeno impulsionado por impactos climáticos.

Na América do Norte, o impacto tem sido particularmente dramático. No Canadá, a combinação de incêndios florestais recordes, infestações de pragas e restrições de colheita em terras públicas provocou o fechamento de dezenas de fábricas de celulose e papel nos últimos três anos. No sudeste dos Estados Unidos, embora a produtividade seja maior que na Europa, a competição acirrada pela biomassa para bioenergia e a falta de investimento nos ativos industriais centenários têm pressionado as margens.

Na Europa, os fechamentos de fábrica foram acelerados não apenas por custos de energia, mas pela escassez de fibra local de qualidade, forçando a importação de madeira e elevando os custos operacionais acima do nível de competitividade global. Em contrapartida, marcos regulatórios e incentivos robustos, como o European Green Deal (2019) e o programa Horizon Europe (2021-2027),

Na América do Sul, ser cada vez mais eficiente no core business , mais que uma meta operacional, é a condição de existência em um mercado global cada vez mais acirrado. "

direcionaram o capital e a inovação europeia para a busca de novos fluxos de receita (biomateriais e bioquímicos), justamente porque a produção tradicional de celulose de mercado perdeu competitividade frente ao potencial sul-americano.

E se trouxermos para esse tabuleiro a Ásia – especificamente a China – surge um competidor agressivo que combina escala industrial com uma busca por autonomia de fibra. A China apresenta um cenário de "teto teórico" produtivo doméstico de florestas. Embora o país tenha expandido seus plantios de rápido crescimento (eucalipto), ainda existem barreiras para sua autossuficiência, então a China opera em duas frentes: a importação massiva de celulose da América Latina e a verticalização regional no Sudeste Asiático. Se consolidarmos todas essas informações, por um lado temos a América Latina fortalecida por sua potência florestal e com alta demanda de celulose do mercado chinês e, por outro, o hemisfério norte desafiado na competitividade e com incentivos para diversificar.

Diante desse cenário, como devemos encarar o desenvolvimento de bioprodutos e biomateriais por aqui? Minha visão é que a inovação em biorrefinaria deve ser tratada como uma via lateral de diversificação que serve como um seguro contra as incertezas de longo prazo. Se não é vital o investimento em bioeconomia no curto prazo, no longo prazo não sabemos o que poderá, eventualmente, nos tirar do mercado ou causar uma disrupção no consumo de fibras tradicionais. Portanto, ter um portfólio de produtos renováveis em desenvolvimento é uma forma de mitigar riscos de mercado, antecipar transições além de capturar oportunidades em cadeias de valor totalmente novas.

No entanto, é fundamental manter a hierarquia estratégica: a bioeconomia não é a prioridade imediata frente ao cenário econômico. A última década de P&D em biorrefinaria nos ensinou que podemos desenvolver e substituir inúmeros químicos e materiais a partir da floresta plantada, mas de maneira geral:

1) não são soluções plug and play, muitas demandam alterações em cadeias de valor estabelecidas e otimizadas; e

2) não basta ser uma solução bio-basada/ sustentável, a performance e o custo são fatores decisórios prioritários.

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Ao entrarmos no mundo de bioprodutos ou bioquímicos, mergulhamos em cadeias de valor cujos desafios técnicos, normativos e comerciais não dominamos plenamente. Não temos o full picture dos portfólios e variedades de produtos, e o risco de subestimar essas barreiras é alto. Por isso, o aprendizado acelerado deveria vir da associação estratégica entre o nosso setor, fornecedores de tecnologia e clientes. Esse modelo de parcerias e inovação surge como o caminho para explorar essas vias laterais, permitindo que as empresas florestais forneçam a matéria-prima e o conhecimento industrial para validar novas aplicações e tecnologias junto a esses parceiros e criar os canais operativos e comerciais que hoje não estão completamente prontos. Esse modelo reduz a exposição ao risco tecnológico, acelera o aprendizado além evitar o desenvolvimento de produtos tecnicamente perfeitos, mas comercialmente inviáveis.

A essência da estratégia para os próximos anos reside em maximizar o valor de cada hectare de floresta na produção de celulose sem perder de vista o desenvolvimento dos potenciais novos mercados. O desafio executivo é estar preparado para garantir que essa diversificação possa ser implementada em escala e ocorra de forma integrada e com sinergia com as operações industriais, funcionando como uma fonte receita que aumenta a resiliência, principalmente de ativos depreciados.

Perpetuar a sustentabilidade é um compromisso com a perenidade do negócio. Se a Europa foi estimulada a desenvolver bioprodutos pela perda de produtividade, nós temos o privilégio de avançar por escolha. Mas não será a qualquer custo. Entre as lições aprendidas, sabemos que qualquer investimento em novos bioprodutos será medido, testado e constantemente comparado à rentabilidade e ao impacto da produção de celulose. E atualmente o sucesso da inovação corporativa não é medido pela quantidade de ideias interessantes geradas ou projetos-piloto inovadores lançados, mas sim pela forma como a inovação se traduz em resultados comerciais tangíveis e vantagens competitivas para o negócio.

O futuro dos materiais renováveis está sendo escrito agora, e nossa liderança depende da capacidade de sermos, simultaneamente, os melhores produtores de celulose do mundo e os arquitetos de um plano de diversificação que garanta nossa relevância por muitas décadas.

Bioprodutos da madeira e biomassa

A espécie humana evoluiu utilizando os recursos da natureza como forma de sobrevivência. O domínio do fogo, que foi essencial e base para praticamente todos os processos industriais que temos hoje, se deu inicialmente pelo uso de pequenos galhos e gravetos que, através de fricção entre eles e outros objetos como rochas, geraram calor. Isso possibilitou ao homem cozinhar alimentos para melhor absorção de nutrientes, aquecer-se do frio, afugentar predadores e forjar ferramentas. Portanto, é inegável que a biomassa está presente desde milhares de anos.

Mais recentemente, principalmente após a Revolução Industrial, temos usado fontes de calor com maior poder energético, mas que não se renovam na natureza. São os combustíveis não-renováveis de origem fóssil, principalmente o carvão mineral e o petróleo.

Os recursos da natureza vêm sendo utilizados como fonte inesgotável, especialmente pela praticidade de exploração, com redução de custos operacionais para maximização dos lucros.

A motivação mais proeminente foi a busca insaciável pela hegemonia, principalmente no século XX, em que duas grandes guerras mundiais ocorreram e impulsionaram a indústria do aço, liga de relevante importância que mede o indicador de desenvolvimento econômico de um país.

A Samarco, buscando aprimorar o desenvolvimento de seus processos através do uso de fontes renováveis na pelotização, vem desenvolvendo estudos para uso de combustíveis renováveis focados nos bioprodutos da madeira, como o bio-óleo e o carvão vegetal. "

Edson da UNESP Um países. " Desenvolvimento

Historicamente, os processos metalúrgicos usam o carvão mineral como principal ator para, por exemplo, a transformação bem-sucedida do minério de ferro em aço.

Já o petróleo foi, durante mais de um século, o grande transformador e potencializador do desenvolvimento tecnológico, sendo usado como principal fonte de energia no mundo durante a Revolução Industrial.

Paralelamente, novas formas de concentrar a energia da madeira e de outras biomassas foram sendo desenvolvidas, por meio de processos termoquímicos como a pirólise, que tem como produto principal o carvão vegetal. São processos mais sustentáveis, considerando-se que o ciclo do carbono é muito menor que os combustíveis fósseis. A captura de carbono ocorre durante o crescimento da planta.

Nesse contexto, o Brasil ganha destaque, liderando a maior produção de carvão vegetal do mundo.

O carvão vegetal, principal bioproduto com alta densidade energética, passa a ser visto como alternativa mais sustentável de processos metalúrgicos. Esse cenário ganha mais importância devido ao grande desafio de neutralização do carbono emitido na atmosfera do planeta. Surgem então novas necessidades, que tornam este bioproduto da madeira um grande aliado para substituição, mesmo que parcial, dos tradicionais combustíveis fósseis usados nos processos industriais.

É o caso, por exemplo, da pelotização de minério de ferro, um processo de aglomeração que tem como produto a pelota de minério de ferro, utilizada em fornos de redução direta e altos-fornos. Historicamente, esse processo utiliza carvão mineral, coque de petróleo, gás natural e óleos pesados para produção das pelotas nos fornos, sendo todos considerados combustíveis não-renováveis.

A Samarco, buscando aprimorar o desenvolvimento de seus processos através do uso de fontes renováveis na pelotização, vem desenvolvendo estudos para uso de combustíveis renováveis focados nos bioprodutos da madeira, como o bio-óleo e o carvão vegetal.

Por meio de parcerias com empresas como a Aperam Bioenergia, foi possível o desenvolvimento de testes em laboratório e industriais para consumo desses bioprodutos da madeira.

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Os testes de bancada e industriais do bio-óleo, por exemplo, foram iniciados em 2024 em menor escala e consumiram cerca de 220 toneladas do bioproduto, substituindo o gás natural parcialmente nos fornos de pelotização. Em 2025, houve evolução para um consumo em maior escala, com mais de 2,4 mil toneladas sendo consumidas. O objetivo é a substituição parcial, até 2032, do gás natural consumido nas pelotizações da Samarco.

Várias barreiras técnicas foram vencidas para que os bioprodutos estejam em condições ideais de consumo. A parceria com outras empresas foi essencial nesse aprimoramento, a exemplo da WXO Engenharia de Processos Customizados, fabricante de biorefinarias de Paulínia-SP, que trabalhou em 2025 com a Samarco para assegurar mais estabilidade e segurança no uso do bio-óleo. Na parte de combustíveis sólidos consumidos na pelotização, também houve mudanças significativas. Em 2022 e 2023, estudos de laboratório e testes industriais começaram a ser conduzidos com objetivo de usar o carvão vegetal nas pelotizações. Desde então, a Samarco vem buscando substituir sua matriz energética de forma gradativa, e não apenas com a utilização do bio-óleo. Em 2025, a companhia substituiu industrialmente 15% da matriz de combustíveis sólidos dos fornos de pelotização (onde predomina o coque de petróleo) por finos de carvão vegetal, um coproduto de outro processo industrial. 

Desenvolvimento de bioprodutos Opiniões

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Essa iniciativa está alinhada ao compromisso da Samarco de aplicar na prática o conceito de “economia circular” e possibilitar uma mineração cada dia mais sustentável. O projeto vem contribuindo para emissões neutras de cerca de 4,5 kgCO2 eq- por tonelada de pelota produzida. Isso representou, no ano de 2025, cerca de 49 mil toneladas de dióxido de carbono que deixaram de ser emitidas por fontes fósseis.

O Brasil tem uma extensão territorial invejosa, que permite destacá-lo em relação à produção de biomassa, além de uma grande geração de resíduos agrícolas, que hoje já são vistos como coprodutos de alto poder energético, podendo ser convertidos em bioprodutos.

O País possui também um clima favorável ao plantio de culturas como eucalipto em áreas degradadas, com a possibilidade de construção de florestas que permitam grande absorção de dióxido de carbono da atmosfera, podendo ser utilizadas posteriormente como fonte energética. Há um grande potencial no agronegócio, que gera toneladas de biomassa agrícola, que podem ser utilizadas em diversos processos. De fato, trata-se de um cenário muito favorável para a construção de uma rede de produção de bioprodutos e o fortalecimento da cadeia de fornecimento e de logística, visando atender aos processos industriais dos maiores players do mercado.

Por outro lado, há um grande “dever de casa” a ser feito, que envolve não apenas nós, consumidores de bioprodutos, mas também mudanças de cultura e perspectiva a respeito da biomassa e a criação de políticas públicas que viabilizem infraestrutura logística e subsídios financeiros para esse cenário cada dia mais promissor.

Para uma transição para matriz energética mais limpa e circular bem-sucedida, as soluções aplicadas precisam de investimentos não só em pesquisa, desenvolvimento, inovação e tecnologia, como também de parcerias entre governos, órgãos reguladores e toda cadeia de valor, a fim de que atuem de forma coordenada, compartilhando responsabilidades para transformar inovação em impacto real. É a jornada colaborativa que vai assegurar maturidade e viabilidade para as soluções, atingindo assim a superação dos desafios socioambientais atuais. 

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Benefícios e desafios do monitoramento periódico e contínuo da vibração

Desenvolvimento

Biochar: quando o carbono volta ao solo e transforma produtividade, clima e bioeconomia

Resíduos de biomassa convertidos em biochar passam a integrar estratégias de manejo capazes de melhorar a fertilidade do solo, fortalecer a resiliência dos plantios e contribuir para sistemas florestais de baixo carbono.

A fertilidade do solo sempre esteve no centro da produtividade florestal. No entanto, diante de desafios cada vez mais evidentes como as mudanças climáticas, a necessidade de maior eficiência no uso de fertilizantes e a busca por sistemas produtivos mais sustentáveis , novas soluções passam a ganhar espaço no manejo das florestas plantadas.

Nesse cenário, o biochar surge como uma alternativa capaz de transformar resíduos de biomassa em um insumo estratégico para a construção de solos mais vivos, produtivos e resilientes. Mais do que um conceito amplamente discutido na literatura científica, o biochar começa a se consolidar como uma prática aplicada em sistemas produtivos. Quando utilizado em escala operacional, demonstra potencial para melhorar a estrutura do solo, aumentar a retenção de água e nutrientes e estimular processos biológicos essenciais ao desenvolvimento das plantas.

Produzido a partir da transformação térmica de biomassa, o biochar representa também uma forma eficiente de capturar carbono e devolvê-lo ao solo, ao mesmo tempo em que

O biochar surge como uma alternativa capaz de transformar resíduos de biomassa em um insumo estratégico para a construção de solos mais vivos, produtivos e resilientes. "

Benone Magalhães Braga e Rosália Nazareth Rosa Trindade

Gerente Executivo e Gerente de Experimentação, respectivamente, da Aperam BioEnergia

melhora suas propriedades físicas, químicas e biológicas. O resultado é um material capaz de fortalecer a fertilidade do solo, aumentar a resiliência dos sistemas produtivos e contribuir para estratégias globais de mitigação das mudanças climáticas.

Mais do que um insumo agrícola, o biochar vem sendo reconhecido como uma tecnologia estratégica capaz de integrar manejo do solo, economia circular e estratégias de carbono.

Da biomassa ao carbono estável: o processo de pirólise

A base da produção de biochar está no processo de pirólise, uma tecnologia que permite transformar resíduos de biomassa em um material rico em carbono altamente estável.

Durante a pirólise, biomassa como madeira, cascas ou resíduos florestais é aquecida em um ambiente com baixa disponibilidade de oxigênio. Diferentemente da combustão tradicional em que o carbono é rapidamente liberado na atmosfera na forma de dióxido de carbono —, a pirólise promove uma transformação controlada da matéria orgânica.

Nesse processo, parte da biomassa é convertida em gases e bio-óleo, enquanto uma fração sólida permanece na forma de biochar. Esse material apresenta uma estrutura altamente porosa, com elevada área superficial e grande capacidade de retenção de água e nutrientes.

Essa estrutura faz com que o biochar funcione como uma espécie de infraestrutura biológica do solo, melhorando o ambiente radicular das plantas e aumentando a eficiência no uso de nutrientes. Além disso, o carbono presente no biochar é altamente estável, podendo permanecer armazenado no solo por longos períodos.

Carbono no solo: fertilidade e clima na mesma equação

Quando incorporado ao solo, o biochar atua como um condicionador capaz de melhorar diferentes atributos do ambiente produtivo.

Entre os principais efeitos observados estão o aumento da retenção de água, a melhoria da estrutura física do solo e a maior eficiência no aproveitamento de nutrientes. A elevada porosidade do material também cria microambientes favoráveis à atividade de microrganismos benéficos, contribuindo para processos naturais de ciclagem de nutrientes.

Em sistemas florestais, essas melhorias favorecem o crescimento radicular e ampliam a capacidade das árvores de explorar o perfil do solo. Em ambientes sujeitos a períodos de déficit hídrico, a maior retenção de água pode contribuir para reduzir o estresse das plantas e aumentar a estabilidade produtiva dos plantios. Ao mesmo tempo, a incorporação de biochar promove o aumento do estoque de carbono no solo, posicionando a silvicultura como uma aliada importante na mitigação das mudanças climáticas.

Do viveiro ao campo: aplicações que fortalecem o desenvolvimento das plantas

O uso do biochar pode começar ainda nas etapas iniciais da produção florestal. Em viveiros, o material vem sendo avaliado como componente de substratos utilizados na produção de mudas.

Sua estrutura porosa contribui para manter água e nutrientes disponíveis por mais tempo, criando um ambiente mais equilibrado para o desenvolvimento das raízes. Mudas com sistemas radiculares mais estruturados tendem a apresentar maior vigor e melhor adaptação após o plantio, especialmente em ambientes sujeitos a estresses hídricos ou limitações nutricionais. No campo, o biochar pode ser aplicado durante o preparo do solo, em área total ou direcionado para linhas e entrelinhas de plantio antes das operações de subsolagem e incorporação.

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As doses utilizadas variam conforme as características de cada área, considerando fatores como tipo de solo, histórico de manejo e objetivos de fertilidade. Em diferentes sistemas agrícolas e florestais, aplicações entre 40 e 100 toneladas por hectare têm sido adotadas, buscando promover melhorias graduais na qualidade dos solos e na eficiência do uso de nutrientes ao longo do ciclo produtivo.

Inovação aplicada: a experiência da Aperam BioEnergia

Na Aperam BioEnergia, o biochar vem sendo incorporado como parte de uma estratégia de inovação voltada à construção de sistemas produtivos mais eficientes e alinhados aos princípios da bioeconomia e da economia circular.

A empresa produz biochar a partir de sua própria biomassa florestal e utiliza o material prioritariamente em suas operações, transformando resíduos do processo produtivo em um insumo capaz de melhorar a fertilidade dos solos e fortalecer a sustentabilidade dos plantios.

Até o momento, mais de 5.000 hectares de áreas florestais já receberam aplicação de biochar em operações conduzidas em escala operacional.

Além do uso interno, a estabilidade do carbono presente no biochar também abre oportunidades dentro do mercado ambiental.

A incorporação desse material ao solo pode contribuir para a geração de créditos de remoção de carbono, que passam a integrar mercados voluntários voltados à compensação de emissões.

Bioeconomia em ação

A produção e utilização de biochar exemplificam de forma clara os princípios da bioeconomia moderna: transformar resíduos de biomassa em soluções capazes de gerar valor agronômico, ambiental e econômico.

Ao devolver carbono ao solo e melhorar suas propriedades produtivas, o biochar cria uma ponte entre manejo florestal sustentável, regeneração do solo e mitigação climática.

Mais do que um novo insumo, ele representa uma mudança de perspectiva no manejo florestal. O carbono deixa de ser apenas uma emissão a ser reduzida e passa a ser um recurso capaz de regenerar solos, fortalecer a fertilidade natural dos sistemas produtivos e contribuir para a construção de florestas mais resilientes e produtivas. 

Desenvolvimento de bioprodutos

Diversificação e formatação do futuro dos materiais renováveis

O desenvolvimento de bioprodutos é necessário para reduzir a dependência de recursos fósseis e mitigar impactos ambientais.

A diversificação e uso de matérias-primas renováveis, como a biomassa lignocelulósica e resíduos agroindustriais, ampliam as possibilidades de inovação tecnológica, promovendo a geração de novos produtos de alto valor agregado.

No setor florestal, entre os produtos obtidos a partir da conversão de madeira e/ou biomassa florestal, destacam-se a celulose, o papel, o carvão vegetal e os painéis de madeira. No entanto, coprodutos desses processos de conversão também podem ser utilizados na geração de produtos.

O processo kraft é destaque e amplamente utilizado para produção de celulose. Nesse processo temos como coproduto a lignina kraft, a qual apresenta grande potencial em aplicações de alto valor agregado. Com base no conceito de biorrefinaria, diversos estudos estão sendo realizados para desenvolver usos mais amplos para a lignina kraft. Em muitos casos, é necessário ajustar o processo de extração ou adicionar uma etapa ao processo para atender a um requisito específico. Quando o objetivo é melhorar a reatividade e a homogeneidade da lignina kraft para competir com derivados de petróleo, técnicas

A diversificação e uso de matérias-primas renováveis, como a biomassa lignocelulósica e resíduos agroindustriais, ampliam as possibilidades de inovação tecnológica, promovendo a geração de novos produtos de alto valor agregado. "

Professores de Tecnologia da Madeira da UF-Viçosa

de despolimerização e modificação química devem ser adotadas.

Entre os estudos que desenvolvemos com a lignina kraft, temos com destaque a sua modificação química para aumento da sua reatividade e homogeneidade, proporcionando excelentes resultados na sua aplicação em adesivos para colagem de madeira.

Além disso, aplicações recentes de aditivação de biocompósitos têm gerado resultados promissores para sua aplicação em embalagens, com características de excelente proteção aos raios ultravioleta e antioxidantes. Através da lignina kraft também desenvolvemos lignossufonatos para aplicação no setor de construção civil e baterias sustentáveis.

Além da lignina kraft, outros coprodutos gerados no processo kraft também apresentam potencial para diferentes aplicações. Entre eles destacam-se os lodos primários e biológicos provenientes do tratamento de efluentes da indústria, que são materiais predominantemente orgânicos, além dos resíduos inorgânicos como dregs e grits.

O lodo primário caracteriza-se por possuir elevado teor de fibras, o que possibilita seu reaproveitamento na produção de papéis de menor exigência técnica, como papelão e materiais para embalagem. Esse material também pode ser incorporado em matrizes

poliméricas para a produção de compósitos e biocompósitos. Outra alternativa consiste na sua conversão por processos termoquímicos para a produção de biochar, o qual, quando submetido à ativação química, pode atuar como material adsorvente aplicado no tratamento de água e efluentes, como observado em nossos estudos.

Quando o lodo primário é misturado ao lodo biológico e a outros resíduos orgânicos gerados no processo kraft, como cascas, nós e palitos de madeira, esses materiais podem ser direcionados para processos de compostagem, gerando insumos orgânicos com potencial de aplicação no setor silvicultural. De forma complementar, os resíduos inorgânicos, como dregs e grits, também podem ser aproveitados, especialmente como materiais corretivos ou condicionadores de solo. De maneira semelhante ao que ocorre na indústria de celulose, os processos de conversão termoquímica da biomassa florestal também geram diferentes coprodutos com potencial de utilização. No processo de carbonização, destinado à produção de carvão vegetal, temos como coprodutos os gases não condensáveis e os gases condensáveis. Na pirólise lenta, são gerados aproximadamente 40% de gases condensáveis, sendo cerca de 15–35% de licor pirolenhoso e 5–12% de alcatrão, os quais podem ser convertidos, por diferentes rotas químicas, em combustíveis e produtos químicos de alta demanda industrial.

Atualmente, o uso mais comum do alcatrão é como óleo combustível em caldeiras para geração de calor, servindo como alternativa renovável aos combustíveis fósseis.

No entanto, apresenta potencial para aplicação nas indústrias alimentícia, farmacêutica, de biocombustíveis e na geração de derivados químicos, devido à presença de diversos compostos, incluindo fenóis, alcoois, cetonas, aldeídos, ácidos, entre outros.

Dentre os nossos estudos em desenvolvimento, destacamos os métodos de separação e purificação do alcatrão, estudos de estabilidade e caracterizações através de técnicas analíticas avançadas para direcionamento desse coproduto para diferentes aplicações de alto valor agregado.

O líquido pirolenhoso, por sua vez, é um coproduto de caráter ácido, composto por

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aproximadamente 80% de água e por uma ampla diversidade de compostos químicos, entre os quais se destacam o ácido acético, o furfural e diferentes compostos fenólicos, como o guaiacol.

Atualmente, o líquido pirolenhoso é comercializado principalmente para uso no setor agrícola, onde é empregado como bioinsumo, contribuindo para o desenvolvimento das plantas, melhoria das propriedades do solo e auxílio no controle de pragas e doenças.

No entanto, sua composição química também indica potencial de aplicação em áreas como a cosmética e a farmacêutica.

Em pesquisas desenvolvidas pelo nosso grupo, tem sido observado que esse material, independentemente da biomassa de origem, apresenta atividade antioxidante, anticancerígena e antimicrobiana.

Além disso, o material demonstra capacidade de inibir a formação e promover a desarticulação de biofilmes formados por bactérias e fungos, estruturas frequentemente associadas a infecções persistentes devido à sua elevada resistência aos antimicrobianos convencionais.

É importante destacar também que a taxa de aquecimento, a temperatura de pirólise, bem como o tempo e a temperatura de armazenamento são fatores que influenciam as características físicas, químicas e bioativas do líquido pirolenhoso, representando um dos principais desafios para sua utilização, em razão de sua elevada instabilidade composicional. Para além dos coprodutos gerados nos processos industriais, a própria cadeia de produção florestal também gera resíduos com potencial de valorização.

Entre eles destaca-se a casca das árvores, material que atualmente é frequentemente deixado no campo durante a colheita ou direcionado para queima em caldeiras para geração de energia. No entanto, a casca pode servir de fonte de compostos químicos, especialmente compostos fenólicos, com destaque para os taninos. Em particular, os taninos condensáveis apresentam elevada reatividade química, o que favorece diferentes interações e amplia suas possibilidades de uso. Entre as aplicações já estabelecidas estão o curtimento de peles na indústria do couro e a produção de adesivos naturais para produtos de madeira. 

Desenvolvimento de bioprodutos

Opiniões

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Além disso, quando cationizados, os taninos podem atuar como coagulantes no tratamento de água e efluentes, como destacado em nossas pesquisas. Esses compostos também apresentam propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antimicrobianas, como constatado em estudos desenvolvidos pelo nosso grupo, o que reforça seu potencial para o desenvolvimento de produtos bioativos destinados ao tratamento de doenças. Vale destacar que, além de buscarmos novos usos para esses compostos, também investigamos a identificação de espécies vegetais que possam servir como fontes de taninos, bem como o desenvolvimento de métodos de extração mais eficientes e menos nocivos ao meio ambiente.

Nesse cenário de valorização de compostos naturais e desenvolvimento de novos materiais, a nanotecnologia também gera oportunidades no desenvolvimento de bioprodutos. Materiais em escala nanométrica possuem propriedades diferentes do seu material de origem, potencializando sua atuação em materiais renováveis. Nossos estudos já evidenciaram o uso de nanoceluloses nas indústrias farmacêutica e de papel, de nanoligninas em sensores, compósitos e adesivos, e de nanotaninos, que vêm sendo investigados principalmente por suas propriedades antioxidantes, antimicrobianas e pela possibilidade de aplicação em sistemas funcionais e materiais bioativos. Esses avanços representam perspectivas promissoras para o futuro dos materiais renováveis.

Entretanto, apesar do grande potencial de aplicação desses materiais, entendemos que ainda existem desafios para sua utilização em larga escala, especialmente relacionados ao nível tecnológico necessário para viabilizar processos mais eficientes de conversão e aproveitamento. Outro desafio refere-se à variabilidade de composição desses materiais, uma vez que, por se tratar majoritariamente de coprodutos ou resíduos, suas características podem variar conforme a matéria-prima e as condições de processamento. Ainda assim, pesquisas desenvolvidas por nós têm buscado compreender essas variações e identificar formas mais adequadas de utilização desses materiais, visando agregar valor, ampliar suas aplicações e contribuir para o desenvolvimento de novos produtos alinhados aos princípios da química verde, da economia circular e de sistemas produtivos mais sustentáveis. 

Floresta plantada e a descarbonização: do pioneirismo até a era da gestão digital ESG

O momento que o Brasil esperava

Poucas vezes na história recente, o Brasil esteve tão bem-posicionado para liderar uma agenda global. Com a COP30 ocorrida em Belém, em novembro de 2026, o mundo volta os olhos para a Amazônia — mas a verdadeira oportunidade brasileira vai muito além da floresta nativa. O Brasil é hoje o maior produtor mundial de florestas plantadas tropicais e exóticas de alta produtividade, e esse ativo subestimado pode ser o alicerce da descarbonização de setores inteiros da economia global.

Florestas plantadas não são frequentemente o centro das atenções quando se fala em soluções climáticas. O debate costuma girar em torno da preservação de florestas nativas, do desmatamento evitado e das grandes reservas de biodiversidade. Mas há um capítulo igualmente essencial nessa história: o da biomassa renovável cultivada com rigor técnico, capaz de sequestrar carbono em larga escala, substituir combustíveis fósseis e gerar renda em regiões que precisam de desenvolvimento.

O pioneirismo que o Brasil já tem

Antes de falar do futuro, vale revisitar o passado — e o Grupo Plantar tem muito a contar. No início dos anos 2000, quando o Protocolo de Quioto começava a ganhar forma e o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo

Plataformas digitais de gestão de inventários de GEE tornaram-se infraestrutura essencial. O que antes era tarefa de consultoria anual torna-se processo contínuo, rastreável e integrável aos sistemas corporativos. "

(MDL) era ainda uma novidade institucional, o Grupo Plantar foi pioneiro ao desenvolver um dos primeiros projetos de crédito de carbono registrados no mundo.

O projeto não nasceu de uma tendência de mercado, mas de uma convicção técnica: o carvão vegetal produzido a partir de eucalipto plantado é um substituto eficiente e renovável para o carvão mineral na produção de ferro-gusa. Ao longo de décadas, essa substituição evitou a emissão de milhões de toneladas de CO₂ que, de outra forma, teriam sido lançadas na atmosfera pelas chaminés das siderúrgicas.

Esse pioneirismo trouxe um aprendizado que vai muito além dos créditos gerados: ele revelou a enorme complexidade de quantificar, monitorar, reportar e verificar — o que hoje chamamos de MRV — as emissões e remoções associadas a projetos climáticos de base florestal. Aprendemos, na prática, que não basta plantar. É preciso medir, e medir bem.

A floresta que sequestra e transforma Uma floresta plantada de eucalipto pode sequestrar entre 15 e 25 toneladas de CO₂eq por hectare ao ano, dependendo das condições edafoclimáticas (tais como o clima, o relevo, a litologia, a temperatura, a umidade do ar, a radiação, o tipo de solo, o vento, a composição atmosférica e a precipitação pluvial) e do manejo adotado. Esse número é expressivo: um único hectare bem manejado pode neutralizar as emissões anuais de mais de dez brasileiros.

Mas o papel das florestas plantadas vai além do sequestro imediato. A madeira que cresce nessas florestas é matéria-prima para carvão vegetal, celulose, papel, bioenergia e biocombustíveis. Cada produto derivado representa uma forma diferente de armazenar carbono biogênico retirado da atmosfera pelas árvores e transformado em algo útil à sociedade. Quando incorporado em produtos duráveis, o efeito climático se prolonga muito além do ciclo florestal.

É fundamental sublinhar que florestas plantadas e florestas nativas não são concorrentes: são complementares. As primeiras abastecem a demanda por madeira e biomassa com alta produtividade em áreas já antropizadas, aliviando a pressão sobre os ecossistemas nativos. As segundas preservam biodiversidade, serviços ecossistêmicos e o imenso estoque de carbono da vegetação original.

A crise do REDD+ e a importância da restauração florestal

O mercado de carbono florestal atravessou, nos últimos anos, uma crise profunda de credibilidade. O mecanismo REDD+ — voltado à redução de emissões por desmatamento e degradação — foi alvo de escrutínio científico e investigativo crescente. O problema é, em grande parte, metodológico: a construção de linhas de base prospectivas, elaboradas pelo próprio desenvolvedor do projeto, criou incentivos estruturais para a superestimação do desmatamento que seria evitado. A adicionalidade — a garantia de que o carbono contabilizado não teria sido preservado sem a intervenção — revelou-se difícil de comprovar em contextos de governança fundiária frágil. Casos de fraude e geração de créditos sem lastro real abalaram a confiança de compradores corporativos em todo o mundo.

A resposta a essa crise não passa pelo abandono dos projetos florestais, mas pela sua qualificação.

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Os projetos de restauração e recuperação florestal — com espécies nativas ou plantadas em áreas degradadas oferecem uma vantagem estrutural fundamental: o carbono sequestrado é mensurável, incremental e verificável desde o primeiro dia. Não há linha de base especulativa há uma área degradada, um plano de recuperação e uma trajetória de biomassa monitorada continuamente. A adicionalidade é inerente à intervenção.

Do ponto de vista técnico, a restauração florestal em escala exige metodologias sofisticadas: seleção de espécies compatíveis com o bioma e a função ecológica desejada, análise de capacidade de suporte do solo, planejamento de conectividade de fragmentos, controle de espécies invasoras e protocolos de monitoramento da sucessão ecológica ao longo do tempo. Em áreas de preservação permanente e reservas legais, a restauração com espécies nativas é obrigatória pela legislação brasileira — o que coloca o País em posição única para gerar créditos de remoção de alta integridade dentro do novo marco regulatório do carbono.

O SBCE e o novo imperativo do MRV Em dezembro de 2024, o Brasil deu um passo histórico com a sanção da Lei nº 15.042, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE). Inspirado no modelo cap-and-trade, o sistema estabelece tetos obrigatórios de emissão para setores de alta intensidade de carbono e cria Certificados de Redução ou Remoção Verificada de Emissões (CRVEs), gerados por projetos com MRV (Measurement, Reporting and Verification) adequado — o que abre uma ponte direta entre projetos florestais de restauração e a demanda de compliance das indústrias reguladas. A regulamentação infralegal está em construção, com prazo para conclusão até o final de 2026. O que já está claro na lei é que sem MRV não há participação no mercado: mensurar, relatar e verificar emissões com dados rastreáveis é requisito legal, não diferencial competitivo.

MRV além da floresta: da mineração à siderurgia

A exigência de MRV para o SBCE vai muito além do setor florestal. Operadores regulados precisarão elaborar planos de monitoramento e relatórios periódicos de emissões ao órgão gestor do sistema. Para a mineração — setor que enfrenta uma das transições mais complexas da agenda climática, dado que suas 

operações envolvem emissões distribuídas ao longo de toda a cadeia, do desmonte de rocha ao processamento e ao transporte , o MRV representa um desafio operacional de primeira ordem. Quantificar emissões de processos industriais heterogêneos, com múltiplos vetores energéticos e cadeias de custódia complexas, exige ferramentas capazes de integrar dados de fontes muito distintas em um único inventário auditável.

O mesmo nível de complexidade se aplica à siderurgia, o maior cliente do carvão vegetal de origem florestal, e aos setores químico e de fertilizantes. Para todos eles, o Escopo 3 — as emissões indiretas geradas ao longo da cadeia de valor — representa a maior parcela do inventário total e, também, a mais difícil de mensurar. O mecanismo CBAM europeu, que prevê a taxação de carbono embutido nas importações para o bloco, torna essa demanda ainda mais urgente: exportadores brasileiros precisarão demonstrar com dados verificáveis o perfil de emissões de seus produtos desde a extração da matéria-prima até o produto final.

Nesse contexto, plataformas digitais de gestão de inventários de GEE tornaram-se infraestrutura essencial. Sistemas que consolidam dados operacionais, fatores de emissão e cadeias de custódia em trilhas de auditoria estruturadas — compatíveis com o GHG Protocol, a ISO 14064 e os padrões de análise de ciclo de vida (ACV/LCA) — permitem que empresas de setores intensivos em carbono gerenciem suas emissões com o mesmo rigor com que gerenciam seus custos de produção. O que antes era tarefa de consultoria anual torna-se processo contínuo, rastreável e integrável aos sistemas corporativos.

Do conhecimento florestal à plataforma: tecnologia com raízes no campo

Toda essa trajetória — do pioneirismo em projetos de MDL nos anos 2000 até o novo marco regulatório do SBCE — levou o Grupo Plantar a investir na sistematização do conhecimento acumulado em décadas de atuação em projetos de ação climática e gestão de carbono. Nesse contexto nasce a Onearth ESG, iniciativa que organiza essa experiência em uma abordagem integrada de gestão ESG, com especialização na dimensão ambiental e, em particular, na gestão do carbono, florestas e agronegócio, atendendo hoje empresas de setores como logística, siderurgia, mineração, papel e celulose e energia.

A atuação da Onearth ESG se estrutura em quatro dimensões complementares. A primeira é o MRV, voltado à mensuração e gestão das emissões de gases de efeito estufa em âmbito corporativo e setorial, incluindo inventários de emissões nos Escopos 1, 2 e 3, sistemas de monitoramento e reporte alinhados aos principais frameworks internacionais e às novas regulamentações climáticas. A segunda é a Análise de Ciclo de Vida (ACV), hoje muito associada à pegada de carbono, mas que vai além das emissões e permite compreender impactos ambientais, sociais e econômicos, ao longo de toda a cadeia produtiva — dimensão cada vez mais relevante para empresas que precisam demonstrar o perfil ambiental de seus produtos em mercados internacionais.

A terceira dimensão é a Onearth ESG, que reúne serviços de consultoria voltados à integração da agenda ESG nas organizações, incluindo desenvolvimento de estratégias climáticas, posicionamento institucional, interpretação regulatória e elaboração de reportes ESG. Nessa frente também são realizados diagnósticos de viabilidade técnica, ambiental e financeira de projetos de descarbonização e geração de créditos de carbono, além de processos de revisão técnica para validação e adequação dessas iniciativas às principais metodologias e diretrizes do mercado. A quarta dimensão envolve o desenvolvimento de projetos de geração de créditos de carbono, especialmente quando há potencial técnico e econômico identificado nas operações ou ativos dos clientes, conectando a experiência do Grupo Plantar com projetos florestais à nova agenda de descarbonização corporativa.

O Brasil como protagonista

O Brasil tem tudo para liderar essa transição: o maior parque florestal plantado tropical do mundo, décadas de experiência em projetos de carbono, legislação florestal avançada, um vasto passivo de restauração a ser convertido em ativo climático — e, agora, um mercado regulado de carbono cujas regras estão sendo desenhadas sob os olhos do mundo, via COP30 em Belém.

A mensagem que o Brasil deve enviar vai além da Amazônia: é a de um país que planta florestas, restaura o que foi degradado, descarboniza indústrias pesadas e faz tudo isso com ciência, transparência e dados verificáveis. A floresta plantada não é apenas um negócio, é a infraestrutura climática do século XXI. 

A biodiversidade por trás das florestas plantadas: evidências que desafiam mitos

Chamar plantios de eucalipto de “desertos verdes” virou um atalho retórico. Funciona em manchetes, mas falha conceitualmente ao ignorar a configuração da paisagem na qual o eucalipto está inserido.

Partindo do princípio, quem maneja florestas plantadas no Brasil cumpre exigências legais que determinam a manutenção de parte da vegetação nativa da propriedade, com as chamadas APPs (Áreas de Preservação Permanente) e RL (Reservas Legais). Desta forma, ao atender à legislação, cria-se na paisagem um manejo produtivo em mosaico que alterna talhões de plantio e fragmentos nativos. Esse arranjo amplia a conectividade e torna a paisagem mais permeável à fauna, onde muitas empresas do setor florestal vão ainda além do mínimo legal. A Suzano, por exemplo, mantém protegida 40% da área total sob sua responsabilidade – dez pontos percentuais acima do recomendado pelo Marco Global da Biodiversidade, estabelecido em 2022 na COP da Biodiversidade.

Um mecanismo voluntário do setor privado no Brasil em prol da conservação é a criação de RPPNs (Reservas Particulares do Patrimônio Natural), que asseguram proteção da biodiversidade de forma perpétua, mesmo que a propriedade seja, eventualmente, vendida. Para além disso, o setor dispõe de instrumentos que garantem o uso responsável dos recursos naturais.

Um dos principais é o padrão FSC (Forest Stewardship Council), que certifica o manejo florestal e a cadeia de custódia. Entre seus requisitos está a identificação de áreas relevantes para conservação, que devem ser manejadas e monitoradas para conectar ecossistemas frágeis, proteger espécies ameaçadas e manter serviços ecossistêmicos essenciais.

Empresas certificadas pelo FSC mantêm monitoramentos de biodiversidade em larga escala. Em áreas da Suzano, por exemplo, levantamentos registraram o equivalente a 40%, 68% e 70% da riqueza de aves identificadas nos biomas Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica, respectivamente, demonstrando a relevância da contribuição da conservação dessas áreas. Mas isso não é suficiente. Para proteger a biodiversidade de forma efetiva, a conectividade de habitats precisa orientar a próxima década. Não basta apenas cercar áreas naturais, é preciso atuar em rede para conectá-las e mantê-las. Nesse contexto, a Suzano assumiu o compromisso de conectar 500 mil hectares na Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica até 2030, por meio de corredores ecológicos que combinam restauração e modelos produtivos mais biodiversos. Em 2024, mais de 100 mil hectares já estavam integrados. Reduzir a fragmentação, uma das maiores pressões sobre a biodiversidade, significa enfrentar diretamente a raiz da perda de espécies. 

A Suzano mantém protegida 40% da área total sob sua responsabilidade – dez porcento acima do recomendado pelo Marco Global da Biodiversidade, estabelecido em 2022 na COP da Biodiversidade. "

Gerente de Sustentabilidade e Pesquisador em Sustentabilidade, respectivamente, da Suzano

1. Macaco-prego, 2. Gavião Tesoura • 3. Ca'rcara plancus 4. Rapaizinho dos velhos

O impacto dessa estratégia se amplia com a criação de novas RPPNs. Constituída em 2025, a RPPN Nova Descoberta reúne 5.800 hectares em uma zona estratégica de transição Cerrado–Amazônia, no Maranhão, integrando o Mosaico do Gurupi e fortalecendo a proteção de ecossistemas pressionados, onde a conexão entre fragmentos é decisiva para espécies sensíveis. Trata-se da maior RPPN do estado e da Suzano, a ser monitorada pelo Instituto Ecofuturo, organização sem fins lucrativos criada e mantida pela Suzano. O Ecofuturo administra, monitora e gera recomendações de manejo específicas para as áreas naturais protegidas da Suzano, além de realizar o monitoramento da biodiversidade e a avaliação da efetividade de sua conservação. Entre elas, o Parque das Neblinas, uma área de 7 mil hectares localizada entre os municípios de Mogi das Cruzes e Bertioga, em São Paulo.

E são nesses ambientes em que monitorar biodiversidade em larga escala se torna um grande desafio, como na transição Cerrado Amazônia onde foi criada a RPPN Nova Descoberta, que a tecnologia vem abrindo caminhos e nivelando o jogo. Gravações acústicas com inteligência artificial, drones com sensores termais, análises de eDNA (DNA ambiental) e armadilhas fotográficas ampliam a detecção de espécies e produzem séries históricas robustas. A gestão deixa o campo da intuição e subjetividade e passa a operar cada vez mais com base em evidências e recomendações com base em dados.

Naturalmente, existem dilemas legítimos. A intensificação produtiva exige vigilância constante; corredores ecológicos demandam governança local; e projetos de restauração precisam ser funcionais, não apenas estéticos. Por isso, o setor fortalece parcerias com universidades, ONGs e organismos internacionais para validar práticas e ajustar rotas e, principalmente, para que o manejo do eucalipto acompanhe essa evolução. Avanços como controle biológico ampliado, seleção de clones mais resistentes e intervenções silviculturais mais precisas reduzem o uso de químicos, preservam a teia trófica e fortalecem polinizadores — fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas e para a agricultura.

A experiência acumulada pela Suzano em mais de 35 anos de monitoramento de biodiversidade gera uma base robusta de dados que contribui para calibrar e aprimorar ferramentas internacionais de avaliação. Em parceria com a IUCN (International Union for Conservation of Nature), a Suzano utiliza métodos baseados na

Minutus, pererequinha do brejo

Opiniões

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Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas para avaliar o estado de conservação das espécies e aplicar métricas que estimam como ações de manejo podem reduzir o risco de extinção em seu próprio habitat.

A agenda de transparência também vem acelerando mudanças. A Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD) orienta empresas a avaliar e divulgar suas dependências, impactos, riscos e oportunidades sobre a natureza. Nesse cenário, a combinação entre dados históricos de monitoramento e ferramentas globais de avaliação fortalece a capacidade de demonstrar, com maior transparência e credibilidade, a efetividade das ações de conservação, contribuindo para posicionar os empreendimentos em ambientes globais que, cada vez mais, comparam desempenho ESG e direcionam investimentos para resultados nature-positive.

O que emerge dessa agenda é um paradoxo fértil: a “floresta mais bio” pode ser justamente aquela planejada com práticas científicas, com conectividade, monitoramento e visão de paisagem. Seu sucesso depende de ecossistemas saudáveis, e, por isso, o setor investe para restaurá-los, conectá-los e monitorá-los. Quando corredores ecológicos ligam parques e terras indígenas, quando uma RPPN fecha uma brecha no Arco do Desmatamento, quando sensores confirmam fauna ativa em áreas produtivas e quando métricas globais indicam onde um real investido reduz mais o risco de extinção, entramos no campo da evidência, que é terreno fértil para gerar recomendações claras para a sustentabilidade da vida.

Se queremos metas de biodiversidade que realmente saiam do papel, precisamos nos apoiar em três pilares: 1) monitoramento robusto para geração de métricas, transparência e recomendações claras aplicadas à conservação; 2) manejo na escala da paisagem que priorize conectividade; e 3) permanência de áreas naturais protegidas funcionais do ponto de vista da conservação da biodiversidade. Talvez seja hora de aposentar a caricatura da “monocultura” ou de “desertos verdes”, ignorando a realidade da composição das paisagens no Brasil, e reconhecer um fato simples: as florestas plantadas, quando bem planejadas e manejadas, têm um papel fundamental na conservação da biodiversidade — e a vida dentro delas é algo intrínseco e evidente. 

Avanços e desafios na recuperação ambiental da bacia do rio Doce

A minha relação com a bacia do rio Doce caminha por mais de três décadas, como professor e pesquisador na Universidade Federal de Viçosa e como cidadão residente em Viçosa, município inserido nesta grande e importante bacia hidrográfica.

Muitos anos antes do rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em 2015 em Mariana, MG, já desenvolvíamos pesquisas sobre ecologia, botânica e recuperação ambiental na bacia do rio Doce. Nossos projetos de pesquisas, visitas técnicas, treinamentos e orientações de estudantes, pré-rompimento da barragem, foram conduzidos em diversos municípios inseridos nesta bacia, em Minas Gerais e no Espírito Santo.

Sempre adotei nas minhas pesquisas, a necessidade de ir a campo conhecer a realidade das áreas de estudo, nestas “andanças” pela bacia do rio Doce, embrenhando no que restou das suas matas ciliares, nas barrancas erodidas de seus rios e riachos e nas suas pastagens degradadas. Assim, posso afirmar que a bacia do Doce, infelizmente, já sofria de um processo de intensa degradação ambiental muito antes de ser atingida pelos rejeitos de Fundão.

Historicamente, a bacia do rio Doce passou por um processo de degradação pelos garimpos de ouro, que, além de terem removido boa parte das matas ciliares, também causaram

erosão nas margens e assoreamentos em determinados pontos dos rios Doce, Piranga, Gualaxo do Norte, entre outros. Outras atividades no passado, como desmatamentos para conversão de florestas em pastagens, agricultura e expansão urbana, também contribuíram para este cenário de degradação da bacia.

A partir do rompimento da barragem de Fundão em 2015, que resultou em um grande impacto ambiental nesta já tão sofrida bacia, um audacioso processo de recuperação ambiental ganhou força e aos poucos vem modificando as paisagens deste enorme território.

Um dos primeiros desafios para a recuperação das áreas atingidas foi criar condições para a estabilização do rejeito depositado às margens dos rios. Assim, as primeiras iniciativas de recuperação das Áreas de Preservação Permanente (APPs) tiveram como foco a revegetação emergencial realizada pela Fundação Renova, na qual foram realizadas obras de sistematização de terreno, com aplicação de técnicas de bioengenharia e plantios de plantas herbáceas de adubos verdes.

Estas ações emergenciais foram extremamente importantes para a readequação e estabilização de margens de cursos d’água, para que o rejeito depositado não voltasse para o leito dos rios e seus tributários.

Três anos após a deposição, o rejeito já não era mais o mesmo, por ter recebido plantio de adubos verdes e outras. Aos poucos as condições químicas, físicas e biológicas estão progressivamente melhorando. "

Sebastião Venâncio Martins

Professor do Departamento de Engenharia Florestal da UF-Viçosa

Após esta primeira fase de reabilitação das áreas atingidas, tomou curso a restauração florestal das APPs, visando a recuperação das matas ciliares. Neste cenário, em março de 2018 iniciei uma parceria com a extinta Fundação Renova. O desafio foi grande, pois, embora já tivesse coordenado vários projetos de restauração de matas ciliares, a situação de implantar floresta sobre depósitos de rejeito de mineração era inédita no Brasil. E havia um desafio maior a ser enfrentado: superar o paradigma que existia desde 2015, de que o rejeito depositado não permitia a regeneração natural e nem o crescimento de mudas.

Nossas primeiras pesquisas revelaram que o rejeito não impedia o crescimento das mudas, uma vez plantadas em berços com dimensões adequadas e recebido adubação química e orgânica precisas, e que em alguns locais, mais próximos de fragmentos florestais, havia formação de banco de sementes e forte regeneração natural.

Cabe destacar que três anos após a deposição, o rejeito já não era mais o mesmo, por ter recebido as ações emergenciais, como plantio de adubos verdes e outras. Aos poucos o rejeito foi se transformando em um tecnosolo, onde as condições químicas, físicas e biológicas estão progressivamente melhorando, o que facilita a sobrevivência e crescimento da vegetação.

Neste cenário, este primeiro projeto que coordenei em Mariana, MG, e região teve duração de quatro anos e possibilitou a implantação de experimentos de restauração florestal, orientações técnicas e treinamentos das equipes da Fundação Renova e empresas parceiras, emissão de laudos técnicos e muitas visitas de campo. Entre as orientações técnicas, cabe destacar a revisão periódica de listas de espécies para os plantios de restauração, o que permitiu uma filtragem para que apenas espécies nativas com ocorrência na região fossem utilizadas, e também a indicação de espécies de diferentes grupos ecológicos, de atratividade à fauna e de adaptação a níveis de umidade do solo.

Além de toda a contribuição com a prática da restauração, o projeto também viabilizou o treinamento de estudantes da UFV em nível de Iniciação Científica, Mestrado e Pós-doutorado, resultando em dissertações, artigos publicados em revistas nacionais e internacionais e capítulos de livro. Essas publicações e as palestras que ministrei em importantes eventos

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de ecologia e de restauração ecológica contribuíram em muito para dar mais visibilidade às ações que vinham sendo realizadas para a recuperação ambiental da bacia do rio Doce.

Atualmente, coordeno um segundo projeto, agora em parceria com a mineradora Samarco, no qual novos experimentos de restauração ecológica de APPs têm sido implantados em Mariana e Barra Longa, MG, além da continuidade dos estudos realizados no primeiro projeto, contando novamente com uma excelente equipe vinculada ao LARF –Laboratório de Restauração Florestal da UFV.

Nesta nova fase da nossa contribuição com a recuperação da bacia do rio Doce, estamos desenvolvendo, através de experimentos, novas tecnologias para superação de um dos maiores desafios da restauração florestal das APPs não apenas da região de Mariana, mas também de outras regiões do Brasil, que é a entrada de gado bovino e de equinos de terceiros nas áreas com plantios de mudas. Em outra frente, também estamos testando e implantando técnicas para enriquecimento de áreas em processo de restauração florestal. Em 2024 foi estabelecida a Repactuação, através do Novo Acordo do Rio Doce, no qual as ações passam a ser realizadas pela Samarco, para na área ambiental promover o reflorestamento de 50 mil hectares de florestas nativas, a conclusão da recuperação de 5 mil nascentes, a restauração de margens e do ambiente aquático e da qualidade da água, entre outras.

Embora a restauração das APPs da bacia do rio Doce se configure como um dos maiores projetos de restauração em larga escala do Brasil, as ações e investimentos não param por aí, outras frentes têm sido conduzidas pela empresa, como a recuperação da qualidade da água, através do monitoramento em diferentes pontos dos rios, e o monitoramento de fauna e da flora.

Este conjunto de ações e tecnologias implantadas ao longo destes 10 anos, desde o rompimento da barragem, sem dúvida tem mudado as paisagens do território, possibilitando o retorno das matas ciliares, tanto em áreas diretamente atingidas como naquelas em que as florestas já não existiam devido a um histórico antigo de uso das APPs. E, neste contexto, tem sido uma grande satisfação poder contribuir com todo este processo de recuperação ambiental de uma das mais importantes bacias hidrográficas do Brasil. 

A inovação na restauração ecológica: gerando serviços ecossistêmicos

Há um ponto que a restauração ecológica tem deixado cada vez mais claro para as empresas do setor florestal: conservar a biodiversidade não depende apenas de áreas de proteção e sim de gerar valor a partir dos serviços ecossistêmicos fornecidos pela atividade florestal nos territórios de atuação da empresa. Em paisagens fragmentadas, a recuperação de áreas degradadas passa a ser parte do próprio modelo de gestão, porque é ela que recompõe, restabelece processos ecológicos e devolve ao território a capacidade de se manter e se renovar ao longo do tempo. Por isso, restaurar não é simplesmente plantar árvores, é iniciar e estimular a recuperação ecológica de um ecossistema, com estrutura, diversidade e organização funcional suficientes para que ele volte a se sustentar e, idealmente, se autoperpetuar.

Nas últimas décadas, consolidou-se a compreensão de que restaurar é “assistir à recuperação” com metas claras, indicadores definidos e monitoramento contínuo, reconhecendo que diferentes níveis de intervenção

podem ser combinados ao longo do tempo, desde a regeneração natural assistida até o uso de plantios de enriquecimento. Essa visão transforma intenção em projeto técnico, comparável, auditável e alinhado a padrões internacionais de qualidade e rastreabilidade.

No Rio Grande do Sul, a CMPC tem-se envolvido nesse desafio com uma premissa objetiva: a produção florestal só é completa quando caminha junto e impulsionando a conservação dos serviços ecossistêmicos.

Dessa forma, a restauração deixa de ser um “braço de trabalho” e passa a ser estratégia. Ter estratégia, no setor florestal, exige método, eficiência e resultados mensuráveis, e é nesse ponto que entram as parcerias científicas e a adoção de práticas inovadoras em campo, capazes de conciliar ganhos ambientais, técnicos e econômicos.

Um dos avanços mais relevantes nesse contexto é a busca por modelos que reduzam necessidade de investimento e ampliem escala sem comprometer a qualidade ecológica e ambiental. Experiências recentes mostram que abordagens baseadas em regeneração natural e regeneração assistida podem ser significativamente mais eficientes em determinadas condições do que o plantio intensivo em área total, buscando o que é feito com florestas plantadas.

Restaurar não é simplesmente plantar árvores, é iniciar e estimular a recuperação ecológica de um ecossistema, com estrutura, diversidade e organização funcional para que ele volte a se sustentar e se autoperpetuar. "

Coautor: Elias Frank, Pesquisador de Solos e Manejo da CMPC

Franco Freitas Quevedo
Gerente de Pesquisa Florestal da CMPC

O desafio não é apenas técnico, mas de planejamento e execução: identificar corretamente as barreiras ecológicas existentes e atuar de forma direcionada para removê-las.

A geração de serviços ecossistêmicos que é acompanhada

Apesar de muito importante, um projeto de restauração não pode depender apenas da resiliência e intocabilidade da área. Na maioria dos casos, existem barreiras geradas pela degradação local e pelo entorno atual, e superá-las exige saber como, quando e onde intervir. A competição com gramíneas invasoras, por exemplo, é reconhecida como um dos principais gargalos na fase inicial do estabelecimento das mudas, podendo comprometer completamente o sucesso da restauração se não for manejada adequadamente.

Dentro dessa lógica, o projeto BioRestaura se destaca ao estabelecer modelos de restauração e avaliar a biodiversidade de aves silvestres no Pampa e em áreas arenizadas do Rio Grande do Sul, reforçando que produtividade e preservação podem e devem andar lado a lado.

A parceria entre a CMPC e as Universidades avançam exatamente na direção de consolidar um modelo baseado em evidências e em monitoramento técnico rigoroso. Em áreas anteriormente degradadas por mineração, no município de Eldorado do Sul-RS, foram testadas técnicas de nucleação combinadas

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com intervenções que aceleram o retorno dos processos ecológicos, como:

• plantio de mudas em núcleos;

• transposição do banco de sementes do solo;

• implantação de poleiros artificiais, e

• condução da regeneração natural.

Os resultados iniciais mostram o valor de combinar ferramentas e medir a resposta do ecossistema. Nos primeiros seis meses de monitoramento, os poleiros artificiais registraram a chegada de 2.043 sementes, de 32 espécies vegetais, dispersas por aves nativas da região. Foram identificadas nove espécies de avifauna utilizando a área restaurada, um indicativo direto de reativação dos processos ecossistêmicos. O plantio em núcleos apresentou 98% de sobrevivência, com destaque para espécies como maricá e aroeira, além da antecipação da fase reprodutiva em espécies de maior porte, acelerando a dinâmica sucessional. Já a transposição do banco de sementes praticamente dobrou a diversidade: parcelas-controle apresentaram 21 espécies, enquanto as áreas com transposição alcançaram 43 espécies recrutadas.

Em restauração, eficiência ecológica e viabilidade operacional andam juntas. Quando tecnicamente planejada, a restauração pode reduzir necessidade de investimento em comparação ao plantio em área total e aumentar a eficiência do processo no campo. 

Além das técnicas já consolidadas, novas frentes têm ampliado o repertório de soluções. A semeadura direta em campo surge como alternativa promissora para determinadas condições, com potencial de redução de investimentos quando associada a preparo adequado do solo e manejo inicial eficiente. O uso de drones para mapeamento e, em alguns casos, para dispersão de sementes também tem sido explorado como ferramenta complementar, especialmente em áreas extensas ou de difícil acesso.

O sub-bosque como solução: inovação que já estava pronta na paisagem

Entre as estratégias adotadas, uma se destaca por ser altamente eficiente e ainda pouco explorada no setor: o resgate de plântulas nativas no sub-bosque de florestas plantadas, especialmente em talhões de Eucalyptus. Em vez de enxergar o sub-bosque como componente secundário, a abordagem o reconhece como um banco genético e de serviços ecossistêmicos disponíveis, capaz de fortalecer a base da restauração com menor investimento e maior diversidade.

Em estudo realizado nos hortos florestais da CMPC nas Bacias do Baixo Jacuí e Lago Guaíba, foram resgatadas 2.309 mudas nativas, representando 63 espécies, 52 gêneros e 31 famílias botânicas, com 95,93% de taxa geral de sobrevivência. Além da eficiência, os dados revelam diversidade biológica expressiva.

Entre as espécies mais resgatadas destacam-se Podocarpus lambertii, Araucaria angustifolia e Zanthoxylum rhoifolium, espécies que, muitas vezes, são difíceis de obter mudas via viveiros convencionais, seja pela escassez de sementes, pela dificuldade de germinação ou pela falta de material genético regional disponível.

Do ponto de vista prático, o resgate em campo elimina etapas onerosas como coleta de sementes, beneficiamento, armazenamento e quebra de dormência. O resultado é redução de investimentos operacionais e ampliação da diversidade efetiva utilizada nos projetos.

Outro avanço relevante está na incorporação de critérios genéticos mais refinados na escolha do material propagativo, considerando não apenas a espécie, mas também sua origem, diversidade e capacidade adaptativa frente às mudanças climáticas. Essa abordagem amplia a resiliência futura das áreas restauradas e fortalece a estabilidade ecológica ao longo do tempo.

Conservação genética e sucessão: restaurar é reativar processos

Um dos maiores ganhos dessa estratégia está na conservação genética associada ao aproveitamento de regeneração natural já adaptada às condições locais. A composição ecológica das espécies resgatadas mostrou um conjunto equilibrado de grupos sucessionais: 48,8% de espécies pioneiras, 32,8%

de secundárias iniciais e 11% de secundárias tardias. Além disso, 92,7% das espécies apresentam síndrome de dispersão zoocórica, evidenciando a forte ligação com a fauna local e, portanto, alto potencial de reativação de serviços ecossistêmicos como dispersão de sementes e polinização.

A sobrevivência média de 95,93% demonstra que o protocolo técnico é consistente, mantendo coleta criteriosa, manejo cuidadoso do sistema radicular, rustificação e fertirrigação controlada. Mesmo espécies reconhecidamente mais sensíveis tiveram desempenho satisfatório, reforçando maturidade técnica e qualidade de execução.

Paralelamente, cresce o interesse por estratégias baseadas no fortalecimento da biota do solo, como o uso de microrganismos benéficos e transferência de solo ou serapilheira de áreas conservadas, buscando melhorar o estabelecimento inicial das plantas e acelerar processos ecológicos subterrâneos essenciais à sucessão.

Produzir e restaurar: uma mesma lógica de gestão

A restauração ecológica, quando tratada como processo e não como evento isolado, aproxima-se do que o setor florestal já domina: inovação, controle, planejamento e melhoria contínua.

O uso de ferramentas de monitoramento por sensoriamento remoto, imagens de alta

resolução e análises comparativas ao longo do tempo amplia ainda mais a capacidade de acompanhar a evolução estrutural e funcional das áreas restauradas, fortalecendo a governança e a transparência dos resultados.

Somadas, as estratégias de nucleação, transposição de banco de sementes, poleiros artificiais, condução da regeneração natural e resgate de plântulas posicionam a CMPC como referência em restauração ecológica aplicada ao setor florestal no sul do Brasil.

O resultado é uma restauração que regenera ciclos ecossistêmicos, recupera solos e paisagens, integra fauna e flora, otimiza recursos e gera valor institucional.

Restaurar é investir no futuro

Quando produzir também significa regenerar, a restauração deixa de ser custo inevitável e passa a ser ativo estratégico. A experiência mostra que áreas degradadas podem ser transformadas em paisagens funcionais, com retorno ambiental mensurável e viabilidade operacional, desde que o processo seja bem formulado, bem executado e bem acompanhado.

Ao unir inovação, ciência, técnica e visão de longo prazo, a CMPC demonstra que é possível produzir com alta performance e, ao mesmo tempo, restaurar biodiversidade e conservar patrimônio genético. No setor florestal atual, restaurar já não é apenas reparar, é diferenciar, fortalecer resiliência e construir futuro. 

Paisagem e água no centro da estratégia: a próxima fronteira do setor florestal

O setor florestal tem um papel intrínseco na conservação dos recursos hídricos no Brasil. Não há dúvidas de que a relação entre árvores, solo e água está no centro do debate sobre sustentabilidade.

Hoje, torna-se cada vez mais evidente que a produtividade e a resiliência das florestas só poderão ser mantidas se tratarmos a água como um ativo estratégico, especialmente em contextos de expansão de fronteiras produtivas e de intensificação de mudanças climáticas.

Nesse cenário, a pergunta que precisa orientar as discussões e tomadas de decisão é clara: como podemos, enquanto setor, manejar nossas florestas, plantadas e nativas, para termos bacias hidrográficas com maior resiliência hídrica?

Para responder a essa pergunta, é necessário compreender a paisagem sob a perspectiva da água: ir além da visão tradicional e enxergar as fazendas e áreas produtivas como partes de uma bacia hidrográfica.

Como os fluxos hídricos não se limitam por cercas ou divisas entre propriedades, a água deve ser tratada como um recurso compartilhado entre todos os usuários da bacia, um princípio básico de gestão responsável do território, que conecta diferentes interesses no uso da paisagem em torno de um objetivo comum: a manutenção da vida.

Diante da importância de compreender as relações e dinâmicas nas bacias hidrográficas, acompanhamos e celebramos o avanço de pesquisas de monitoramento hidrológico voltadas à gestão dos recursos hídricos. "

Gerente de Sustentabilidade e Pesquisadora em Sustentabilidade, respectivamente, da Suzano

Para facilitar a compreensão, a bacia hidrográfica é a área que recebe a água da chuva e a conduz para um ponto de saída do rio. Ao funcionar como um sistema com entradas (chuva) e saídas (vazão e usos), permite calcular o balanço hídrico e entender como o uso do solo e as práticas de manejo afetam a quantidade e a qualidade da água. Por ser uma unidade natural da paisagem, é a escala mais adequada para o planejamento e a gestão dos recursos hídricos no setor florestal.

Realizar essa mudança de mindset, ou seja, planejar florestas compreendendo o talhão como parte de uma bacia hidrográfica, é, na nossa visão, uma condição fundamental para avançarmos rumo à sustentabilidade ambiental e hídrica. E, dessa forma, fortalecermos a resiliência da produtividade florestal em ambientes cada vez mais restritivos. Ignorar essa perspectiva pode comprometer, no médio e longo prazo, a sustentabilidade e a segurança das florestas.

Além de influenciar o desempenho das próprias florestas, o planejamento da paisagem também afeta diretamente os usuários que vivem a jusante das bacias, podendo inclusive impactar a licença social para operar especialmente em áreas sensíveis ou em anos climáticos atípicos. Esse risco tende a se tornar mais frequente diante da intensificação dos eventos associados às mudanças climáticas. 

Em 2021, a Suzano assumiu metas de longo prazo alinhadas aos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU, entre elas, o compromisso de aumentar a disponibilidade hídrica em 44 bacias hidrográficas críticas por meio da implantação de técnicas de manejo florestal diferenciadas nesses locais.

Sabemos que os desafios hídricos estão cada vez mais presentes no País, por isso, mapeamos, nas áreas de florestas, os locais mais críticos do ponto de vista climático e hídrico, com o objetivo de ampliar a oferta de água em áreas sensíveis por meio de práticas sustentáveis de manejo florestal.

O atingimento dessa meta exigiu uma mudança cultural dentro da própria empresa e contou com o apoio de diversas diretorias e gerências. Como resultado desse processo, a bacia hidrográfica crítica passou a ser incorporada ao planejamento estratégico da Suzano, e os talhões de floresta plantada passaram a ser desenhados considerando a sua inserção nas bacias hidrográficas. Esse avanço posiciona a Suzano como uma referência na gestão integrada da água na paisagem florestal.

A indústria de celulose no Brasil, ciente da importância de considerar a bacia hidrográfica como uma unidade natural de planejamento, adota amplamente o sistema de mosaico no uso do solo – no qual áreas de conservação se mantêm intercaladas às áreas de produção. A proporção entre floresta nativa e plantada nas bacias, somada à preservação das áreas ao redor dos cursos d’água, é fundamental para promover a qualidade da água, a resiliência das bacias e a manutenção dos solos. Além disso, a conservação das áreas nativas contribui para a manutenção da biodiversidade nas paisagens florestais, protegendo espécies endêmicas e ameaçadas de extinção.

Diante da importância de compreender as relações e dinâmicas nas bacias hidrográficas, acompanhamos e celebramos o avanço de pesquisas de monitoramento hidrológico voltadas à gestão dos recursos hídricos. Esses estudos têm servido de insumo para o debate técnico e suporte às decisões relacionadas ao manejo florestal e seus efeitos sobre a água.

O Projeto Microbacias, conduzido pela Suzano há mais de três décadas, demonstra um compromisso consistente com a ciência e transparência.

Suzano, Aracruz-ES

Opiniões

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Iniciado com uma microbacia experimental na unidade de Aracruz-ES, o projeto hoje abrange 15 microbacias com monitoramento frequente da vazão em todas as unidades e biomas onde a empresa atua. O acompanhamento do lençol freático e da umidade do solo complementa esse esforço para compreender como o manejo florestal influencia a dinâmica da água e fornece informações essenciais para o aprimoramento das práticas ao longo do tempo.

Além disso, a Suzano participa do monitoramento corporativo do setor realizado pelo PROMAB (Programa de Monitoramento de Microbacias/IPEF), no qual temos avançado nas pesquisas sobre o efeito do manejo florestal na resiliência hídrica das bacias em diferentes regiões do País.

Em outra iniciativa, ainda recente, a Suzano desenvolveu, junto à startup Marvin Blue, uma plataforma para o monitoramento do uso da água por sensoriamento remoto. A solução é inédita no setor florestal brasileiro e amplia a capacidade de tomada de decisão, baseada em dados, para promover o uso sustentável da água na floresta.

Por meio de imagens de satélite e de indicadores claros, a plataforma permite monitorar tanto as bacias críticas quanto as demais bacias com atuação pela Suzano ao longo do tempo e do espaço, ampliando significativamente o poder do monitoramento hídrico, além de consolidar uma ferramenta de gestão da água inédita da floresta no Brasil.

Incorporar a bacia hidrográfica ao planejamento da empresa representa, em nossa visão, um ponto de inflexão necessário para que o setor avance de forma consistente nas discussões sobre água. É, também, um passo decisivo para compreender como a própria configuração da paisagem pode fortalecer a resiliência dos plantios diante de eventos climáticos cada vez mais adversos.

Por isso, na Suzano, estamos avançando de maneira consistente para que nossos compromissos, metas e direcionadores de sustentabilidade tenham a bacia hidrográfica como unidade base de planejamento. Acreditamos que esse movimento deva ser ampliado pelo setor florestal de modo a qualificar decisões e integrar, na mesma escala, biodiversidade, aspectos sociais e questões ambientais, uma condição essencial para qualquer empresa que pretenda ser protagonista na agenda de sustentabilidade no Brasil e no mundo. 

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Educação Continuada

Imagine se você descobrisse que o médico com o qual você vai fazer uma cirurgia cardíaca na manhã seguinte se formou há 20 anos como o melhor aluno da sua classe, na melhor faculdade de medicina do País. Muito bom, não?

Entretanto, nos últimos 20 anos, ele não leu nenhum livro, nem participou de nenhum congresso, nem teve por costume ler regularmente revistas especializadas da sua área médica. Você faria a cirurgia em paz?

Gratuíta

No que se refere a nossa área, quantas tecnologias foram desenvolvidas e implantadas nessas duas décadas como o estado da arte e, depois de algum tempo, substituídas por uma nova opção, muito mais eficaz e eficiente, que tomaria o lugar da anterior, até ser igualmente substituída por uma mais nova ainda.

Quantas pragas e doenças apareceram, desapareceram, e algumas até voltaram? Quantas técnicas foram substituídas nesses últimos 20 anos?

Nenhum conhecimento é definitivamente eterno. A faculdade está sempre atualizada, mas tão somente até o dia da sua formatura. Os livros, igualmente, até o dia da sua publicação. As opções que são continuadamente atualizadas são os congressos e as publicações regulares das áreas.

Conhecendo esse cenário e o que passou a representar nesses 23 anos de operação para as universidades, centros de pesquisa e empresas do sistema agrícola e florestal, a Revista Opiniões decidiu abrir inscrições gratuitas para que todos os estudantes, professores e cientistas de todos os cursos de agroconhecimento de qualquer parte do mundo, passem a receber todas as nossas publicações.

Todos os artigos da Revista Opiniões têm textos publicados em 7 idiomas, quais sejam: português, espanhol, inglês, francês, chinês, árabe e hindi, cobrindo a língua falada pelo incrível numero de mais de 4 Bilhões de pessoas.

O objetivo é fazer com que o estudante, desde o primeiro dia de aula, passe a participar da vida empresarial na qual se integrará, em alguns anos, já com atualizado conhecimento do que está sendo discutido, avaliado e implantado nas empresas.

Muitos dos executivos e cientistas que hoje escrevem na Revista Opiniões declararam que liam nossas edições desde quando ainda eram estudantes nas universidades.

Ampliando o projeto de Educação Continuada, decidimos também abrir as inscrições gratuitas para todos os funcionários das áreas técnicas, agrícolas, industriais e administrativas das empresas produtoras e fornecedoras dos sistemas florestal e bioenergético de qualquer parte do Brasil e do mundo.

O acesso à informação dirigida é a mais eficiente forma de unificar e atualizar o conhecimento entre todos os funcionários em cargos de comando, bem como preparar os funcionários em ascensão para assumir estes cargos. Esta é a mais natural forma de gerar a Educação Continuada.

Para passar a receber regular e gratuitamente as edições de nossas revistas, basta enviar um e-mail com os dados abaixo:

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William Domingues de Souza Editor-chefe das Revistas Opiniões WDS@RevistaOpinioes.com.br Celular e WhatsApp: +55 16 99777-7799

Free Continuing Education

Imagine if you found out that the doctor you're going to have heart surgery with the next morning graduated 20 years ago as the top student in his class at the best medical school in the country. Pretty good, right?

However, in the last 20 years, he hasn't read any books, attended any conferences, or regularly read specialized magazines in his medical field. Would you have the surgery done in peace?

Education

In our field, how many technologies have been developed and implemented in these two decades as state-of-the-art, only to be replaced after some time by a new, much more effective and efficient option, which would take the place of the previous one, until it too was replaced by an even newer one?

How many pests and diseases have appeared, disappeared, and some have even returned? How many techniques have been replaced in the last 20 years?

No knowledge is truly eternal. University is always up-to-date, but only until the day you graduate. Books, likewise, are up-to-date until the day they are published. The options that are continuously updated are conferences and regular publications in the fields.

Knowing this scenario and what it has come to represent in these 23 years of operation for universities, research centers, and companies in the agricultural and forestry sectors, Opinions Magazine decided to open free registration so that all students, professors, and scientists from all agricultural knowledge courses from anywhere in the world can receive all of our publications.

All articles in Opinions Magazine are published in 7 languages: Portuguese, Spanish, English, French, Chinese, Arabic, and Hindi, covering the languages spoken by an incredible number of over 4 billion people.

The goal is for the student, from the very first day of class, to participate in the business world into which they will integrate in a few years, already possessing up-to-date knowledge of what is being discussed, evaluated, and implemented in companies.

Many of the executives and scientists who write for Opinions Magazine today have stated that they have been reading our editions since they were still students at universities.

Expanding the Continuing Education project, we have also decided to open free registration to all employees in the technical, agricultural, industrial, and administrative areas of companies that produce and supply forestry and bioenergy systems from anywhere in Brazil and the world.

Access to targeted information is the most efficient way to unify and update knowledge among all employees in management positions, as well as to prepare employees on the rise to assume these positions. This is the most natural way to generate Continuing Education.

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