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Caderno Dois WWW.ODEBATEON.COM.BR • MACAÉ (RJ), QUINTA-FEIRA, 11 DE JULHO DE 2013 • ANO XXXVIII • Nº 8134 • FUNDADOR/DIRETOR: OSCAR PIRES

Patrimônio histórico recebe garantia de preservação A Sociedade Musical Lyra dos Conspiradores é contemplada com certificado de tombamento Isis Maria Borges Gomes isismaria@odebateon.com.br

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hega enfim a garantia de preservação e manutenção de um dos mais expressivos patrimônios históricos macaenses, perpetuando sua existência às futuras gerações. Acontece nesta quinta-feira (11) o tombamento da Sociedade Musical Lyra dos Conspiradores, em solenidade às 19h em sua sede, fazendo parte das comemorações dos 200 de criação da Vila de Macaé. O ato de tombomento é instituído, através da lei municipal 2445/2003, como reconhecimento do valor cultural do prédio, integrando-se assim ao patrimônio histórico do município. A iniciativa foi da Prefeitura Municipal de Macaé, através da Fundação Macaé de Cultura. Para tanto, a equipe de gestão da Fundação Macaé de Cultura realizou várias visitas a sociedade musical para conhecer sua realidade e mapear as necessidades e elaborar um plano de ação, que tem como primeiro ponto esse tombamento. A cerimônia de tombamento será abrilhantada pela apresentação da Banda Lyra dos Conspiradores, que preparou um espetáculo especial para marcar a data. O Presidente da Fundação Macaé de Cultura, Juliano Tannus Fonseca, ressaltou que o tombamento da sociedade musical macaense significa uma responsabilidade assumida com a intenção de proteger o valor histórico, artístico e cultural da banda centenária. “Temos o compromisso de zelar e cuidar do nosso patrimônio cultural e da nossa história. Com o tombamento garantimos a continuidade da memória e a transferência de uma herança histórica”, declarou o presidente convidando todos os macaenses para, junto ao poder público, escrever a história dos próximos anos, protagonizando as ações para que ela seja autêntica. Também a Sociedade Musical Nova Aurora recebe idêntica atenção, sendo contemplada com o certificado de tombamento durante solenidade a ser realizada, nesta sexta-feira (12), em sua sede.

BELA PÁGINA DA HISTÓRIA A HISTÓRIA da Lyra dos Conspirado-

res começou quando um grupo de músicos, totalmente avessos à escravidão, decidiu se unir para fundar uma nova sociedade musical. Neste sentido, um grupo de abolicionistas não se conformava em apoiar a escravidão através de sua participação na Sociedade Particular Nova Aurora, na época um poderoso veículo de comunicação de massas, que insistia em não utilizar estas qualidades em defesa do escravo. Foi quando Luiz Francisco Quaresma, Cândido de Freitas Coutinho, Alfredo Amaral, Antônio José de Carvalho Torres, José Cyriaco e Joaquim Roza decidiram fundar a Sociedade Musical Beneficente da Lyra dos Conspiradores. No dia 25 de dezembro de 1882 nascia a Lyra, com o objetivo principal de conspirar contra a escravidão que envergonhava o Brasil. Seu estatuto foi o primeiro a desafiar a ordem social da época, estabelecendo que

em seu quadro social e na banda de música fossem admitidos todos que o desejassem, sem distinção de sexo, religião, política ou cor. Na época, Dom Pedro, através do escrivão da casa Imperial, mandou uma interpelação sobre suas atividades, acreditando que a entidade macaense estava conspirando contra a monarquia. Em resposta, os diretores da Lyra disseram que um grupo conspirou em segredo a criação de uma nova sociedade musical, diferente da Nova Aurora, e como o objetivo principal seria a música. No entanto, entre 1883 e 1888 a Lyra não fez outra coisa senão conspirar ativamente contra a escravidão, quer utilizando sua banda de música como força arregimentadora de massas, quer cedendo suas dependências para reuniões conspiradoras dos abolicionistas. Há, inclusive, quem afirme, mas não existe registro, que o sótão do prédio foi muitas vezes utilizado para esconder escravos fugitivos até

seu encaminhamento posterior ao quilombo que existia nas proximidades de Quissamã. Em 1887, a Lyra finalmente adquiriu o terreno da sede, o que acabou enriquecendo o movimento de resistência à escravatura. Nessa mesma época, o movimento abolicionista ganhou grande expressão e a sede da Lyra passou a ser alvo de várias tentativas de invasão, inclusive com lutas brutais. A mais séria delas aconteceu no dia 31 de julho, quando a Lyra recebeu o grande abolicionista Carlos Lacerda, que faria uma conferência na sede sobre liberdade. Como mostram os registros, os componentes da Lyra descobriram que um grupo estaria organizando um ataque ao abolicionista na estação ferroviária. Antes disso, eles conseguiram resgatar Lacerda do trem e o levaram para a sede da Lyra, onde houve o conflito. Conta-se também que os primeiros fundadores da entidade compravam

os escravos mais velhos e depois davam a carta de alforria a eles. As lutas deste grupo não foram em vão, pois no dia 13 de maio de 1888 foi abolida a escravidão no Brasil. A centenária Sociedade Musical Lyra dos Conspiradores faz parte integrante da história de Macaé, sendo berço do abolicionismo, numa luta contra a discriminação racial e em defesa da música. A Lyra entrou para a história de Macaé como um dos principais centros culturais e políticos do município, sendo berço de discussões que contribuíram com o desenvolvimento de um dos municípios mais importantes do país. E até os dias atuais, a Lyra dos Conspiradores mantém vivo este pedaço fundamental da história de Macaé. Por outro lado, a Lyra é responsável pela formação de ilustres artistas macaenses, que mostraram e mostram seus talentos pelos palcos de Macaé, todo o Brasil e pelo mundo afora.


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