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Nutrição em Pauta jan2026 digital

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Ano 16
Número 90 Edição Digital São Paulo

editorial por Sibele B. Agostini

Moda, Imagem Corporal e Alimentação: Uma Revisão

Descritiva da Literatura

A construção da imagem corporal na sociedade contemporânea está profundamente vinculada a discursos de beleza, consumo e autocontrole. A moda, como linguagem cultural, participa intensamente desse processo ao definir padrões estéticos e formas de apresentação que se tornam socialmente desejáveis. Esses padrões moldam expectativas sobre o corpo e o comportamento, influenciando autoestima, identidade e práticas cotidianas, incluindo

A alimentação, que historicamente possui significados afetivos e culturais, passa a ser interpretada dentro de um modelo moralizante, no qual comer “corretamente” expressa disciplina, responsabilidade e valor pessoal. Adicionalmente, o campo da Nutrição se vê atravessado por tensões entre a promoção da saúde e a pressão estética que recai sobre profissionais e estudantes. Diante disso, compreender como moda, imagem corporal e alimentação se interrelacionam é essencial para uma prática nutricional crítica e para a promoção de relações mais saudáveis com

Aproveite as informações científicas atualizadas desta edição da revista Nutrição em Pauta.

Desejamos que 2026 seja um ano repleto de realizações para todos os nossos leitores e colaboradores.

Dra. Sibele B. Agostini CRN 1066 – 3a Região

nesta edição

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A REVISTA DOS MELHORES PROFISSIONAIS DE NUTRIÇÃO ISSN 2236-1022

Ano 16 - número 90 - janeiro 2026 - edição digital

5. Moda, Imagem Corporal e Alimentação: Uma Revisão Descritiva da Literatura

9. Cuidado Nutricional de Crianças com Transtorno do Espectro Autista: Uma Perspectiva pelo Olhar dos Pais e Responsáveis

20. Análise do Teor de Proteínas Totais em Amostras de Whey Protein Comercializadas em Recife-PE

26. Técnicas Gastronômicas Le Cordon Bleu: Rubacão

Publicação da Nutrição em Pauta Ltda ME - Atualização Científca em Nutrição R. Cristovão Pereira 1626 cj101 - Campo Belo - 04620-012 - São Paulo - SP - Brasil - Tel 55 11 5041-9321 redacao@nutricaoempauta.com.br - www.nutricaoempauta.com.br

Editora Científica Diretor Dra. Sibele B. Agostini | redacao@nutricaoempauta.com.br Cláudio G. Agostini Jr. | diretoria@nutricaoempauta.com.br

Conselho Científico Prof. Dra. Andréa Ramalho (UFRJ/RJ),Prof. Dra. Avany Fernandes Pereira (UFRJ/RJ), Prof. Dra. Claudia Cople (UERJ/RJ), Prof. Dr. Dan Waitzberg (FMUSP/SP), Prof. Dra. Eliane de Abreu – (UFRJ/RJ), Prof. Dra. Fernanda Lorenzi Lazarim (UNICAMP/SP), Prof. Dra. Flávia Meyer (UFRGS/RS), Prof. Dra. Josefna Bressan (UFV/MG), Prof. Dra. Joy Dauncey (Cambridge/UK), Prof. Dra. Lilian Cuppari (UNIFESP/SP), Prof. Dra. Marcia Regina Vitolo (UNISINOS/RS), Prof. Dra. Maria Margareth Veloso Naves (UFG/GO), Prof. Dr. Mauro Fisberg (UNIFESP/SP), Prof. Dr. Melvin Williams (Maryland/USA) , Prof. Dra. Mirtes Stancanelli (UNICAMP/ SP), Prof. Dra. Nailza Maestá (UNESP/SP), Prof. Dra. Nelzir Trindade Reis (UVA/RJ), Prof. Dr. Ricardo Coelho (UNIUBE/MG), Prof. Dr. Roberto Carlos Burini (FMUNESP/SP), Prof. Dra. Rossana Pacheco da Costa Proença (UFSC/SC), Prof. Dra. Sonia Tucunduva Phillipi (USP/SP), Prof. Tereza Helena Macedo da Costa (UnB/DF), Prof. Dra. Tais Borges Cesar (FCF-UNESP/SP).

Consultor de Gastronomia Colaboradores

Fotógrafo Assinaturas Indexação Editoração Eletrônica

Chef Patrick Martin

Chef Fabiana B. Agostini

Alexandre Agostini assinaturas@nutricaoempauta.com.br

A revista Nutrição em Pauta está indexada na Base de Dados DEDALUS da ESALQ/USP Produzida em janeiro de 2026

janeiro 2026

Fashion, Body Image, And Eating: A Descriptive Literature Review

Moda, Imagem Corporal e Alimentação: Uma Revisão Descritiva da Literatura

RESUMO: A moda, a imagem corporal e a alimentação constituem dimensões fundamentais para a compreensão dos modos contemporâneos de viver o corpo. Este estudo tem como objetivo analisar, por meio de uma revisão descritiva da literatura, como os padrões estéticos difundidos pela moda e pela mídia se relacionam com percepções corporais e práticas alimentares. Foram consultadas bases nacionais e internacionais entre março e junho de 2024. A literatura evidencia que a moda opera como dispositivo simbólico de regulação corporal ao reforçar ideais de magreza, juventude, produtividade e autocontrole. Esses discursos contribuem para a insatisfação corporal, comparação social e adoção de comportamentos alimentares restritivos, especialmente entre mulheres e jovens. As redes sociais intensificam esses fenômenos ao promover performances estéticas e rotinas alimentares normativas. No campo da Nutrição, destaca-se a necessidade de práticas críticas que valorizem diversidade corporal e promovam autonomia alimentar. Conclui-se que superar a normatividade estética exige abordagens interdisciplinares que integrem saúde, cultura e comunicação.

ABSTRACT: Fashion, body image and eating behaviors are key components in understanding contemporary experiences of the body. This descriptive literature review aimed to analyze how aesthetic standards promoted by fashion and media relate to body perceptions and food practices. Na-

tional and international databases were consulted between March and June 2024. The literature indicates that fashion acts as a symbolic device that regulates bodies by reinforcing ideals of thinness, youthfulness, productivity, and self-control. These discourses foster body dissatisfaction, social comparison and restrictive eating behaviors, especially among women and young people. Social media intensifies these dynamics by promoting aesthetic performances and normative eating routines. In the field of Nutrition, there is a growing need for critical approaches that value body diversity and encourage food autonomy. It is concluded that overcoming aesthetic normativity requires interdisciplinary strategies that integrate health, culture, and communication.

Introdução .....................

A construção da imagem corporal na sociedade contemporânea está profundamente vinculada a discursos de beleza, consumo e autocontrole. A moda, como linguagem cultural, participa intensamente desse processo ao definir padrões estéticos e formas de apresentação que se tornam socialmente desejáveis (WILSON, 1989). Esses padrões moldam expectativas sobre o corpo e o compor-

tamento, influenciando autoestima, identidade e práticas cotidianas, incluindo a alimentação (CARPINTÉRO, 2005).

A alimentação, que historicamente possui significados afetivos e culturais, passa a ser interpretada dentro de um modelo moralizante, no qual comer “corretamente” expressa disciplina, responsabilidade e valor pessoal (GARCIA, 2003). Esse fenômeno se intensifica com a disseminação de discursos midiáticos que enaltecem a magreza como forma de saúde e autocontrole (VASCONCELOS et al., 2004). Adicionalmente, o campo da Nutrição se vê atravessado por tensões entre a promoção da saúde e a pressão estética que recai sobre profissionais e estudantes. A expectativa de que nutricionistas representem corporalmente um ideal reforça práticas rigidamente normativas (MAHN; LORDLY, 2015). Diante disso, compreender como moda, imagem corporal e alimentação se interrelacionam é essencial para uma prática nutricional crítica e para a promoção de relações mais saudáveis com o corpo e o comer.

Metodologia

Trata-se de uma revisão descritiva da literatura, cujo objetivo foi identificar como moda, imagem corporal e alimentação se relacionam em estudos acadêmicos nacionais e internacionais. As buscas foram realizadas entre março e junho de 2024 nas bases SciELO, PubMed, ScienceDirect, Google Acadêmico e ResearchGate.

Foram utilizados os descritores em português: “moda” AND “nutrição” AND “imagem corporal” AND “corpo” AND “padrão estético”, e em inglês: “fashion” AND “nutrition” AND “body image” AND “body” AND “aesthetic standard”.

Foram incluídos artigos publicados a partir de 2000, disponíveis na íntegra e relacionados diretamente ao tema. Excluíram-se materiais duplicados, indisponíveis ou que abordassem exclusivamente transtornos alimentares, pois não contemplavam o foco deste estudo.

Por se tratar de revisão de literatura, não houve participação de seres humanos e o estudo está dispensado de aprovação por Comitê de Ética em Pesquisa.

Moda, Imagem Corporal e Alimentação: Uma Revisão Descritiva da Literatura

Resultados e Discussão ..........

Moda

e construção normativa do corpo

A literatura revisada evidencia que a moda, mais do que um setor de consumo, funciona como dispositivo cultural que regula comportamentos e organiza expectativas sociais sobre os corpos. Ao construir padrões estéticos hegemonicamente associados à magreza, juventude e simetria, a moda estabelece modelos corporais que orientam a forma como indivíduos avaliam sua própria aparência e a dos outros (WILSON, 1989). Esses padrões se tornam parâmetros de normalidade e desejabilidade, criando hierarquias simbólicas que definem quais corpos podem ser vistos e valorizados socialmente. Historicamente, representações midiáticas da moda reforçaram um ideal corporal restrito predominantemente magro, branco e jovem que passou a ser associado à beleza, disciplina e sucesso (BRAGA et al., 2007). Como analisa Carpintéro (2005), o corpo vestido funciona como superfície social onde identidades, valores e distinções são projetados. A moda, portanto, não apenas reflete tendências, mas produz normas corporais que interferem diretamente na autoestima, na percepção do corpo e na relação dos sujeitos com a própria imagem. A interiorização desses padrões contribui para experiências recorrentes de insuficiência, especialmente entre mulheres e jovens, que historicamente vivenciam maior pressão estética (BARBOSA; DA SILVA, 2016). Assim, a moda atua como tecnologia social que transforma o corpo em projeto a ser constantemente aperfeiçoado, controlado e avaliado.

Padrões estéticos, mídia e moralização da alimentação

A mídia contemporânea especialmente redes sociais intensifica a força desses padrões ao saturar diariamente os indivíduos com imagens corporais altamente idealizadas. A comparação social, processo inevitável nas dinâmicas digitais, torna-se eixo central na avaliação da autoimagem (VASCONCELOS et al., 2004). Fotografias editadas, filtros e performances corporais aspiracionais alimentam expectativas estéticas inatingíveis, ampliando insatisfação corporal e sofrimento psíquico (TAHIR; YUNUS; REHMAN, 2023). Diversos estudos mostram que essa exposição constante a ideais estéticos rígidos aumenta comportamentos alimentares restritivos, ansiedade

Fashion, Body Image, And Eating: A Descriptive Literature Review

e preocupação excessiva com forma e peso (WISEMAN et al., 2005). A mídia reforça a narrativa de que o corpo magro é sinônimo de autocontrole, disciplina e saúde ignorando determinantes sociais e culturais da alimentação (GARCIA, 2003).

Esse processo se articula à moralização do comer, na qual alimentos são classificados entre “bons” e “ruins”, e comer “corretamente” se torna demonstração de responsabilidade e virtude (GARCIA, 2003). Parker (2000) argumenta que a medicalização da vida cotidiana desloca comportamentos alimentares ao campo da moral, intensificando a vigilância e criando culpa diante de qualquer transgressão percebida. Mesmo orientações não prescritivas, como as do Guia Alimentar para a População Brasileira (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2023), são frequentemente apropriadas de forma moralizante em redes sociais, contribuindo para interpretações rígidas e reducionistas. Assim, alimentação e aparência se tornam dimensões inseparáveis de um mesmo projeto de controle corporal.

Os desafios para a Nutrição

A literatura também demonstra que estudantes e profissionais de Nutrição vivenciam intensamente pressões estéticas. Estudos mostram que há expectativa social de que nutricionistas corporifiquem um ideal de saúde um corpo magro, “exemplar” e disciplinado o que pode

matéria de capa

gerar autocobrança, insegurança e comportamentos alimentares rígidos (MAHN; LORDLY, 2015). Essa pressão estética contradiz princípios éticos fundamentais da profissão, como acolhimento, empatia e valorização da diversidade corporal (SEIXAS et al., 2020).

A própria formação profissional pode, inadvertidamente, reforçar discursos normativos quando não aborda criticamente a influência da mídia, da moda e dos padrões estéticos na alimentação. Isso cria um cenário em que nutricionistas podem se sentir inadequadas ou pressionadas a corresponder a expectativas estéticas irreais, prejudicando tanto seu bem-estar quanto sua prática clínica. Ao mesmo tempo, a literatura aponta movimentos de resistência que buscam romper com a normatividade corporal. No campo da moda, iniciativas size-positive ampliam representações e desafiam ideais hegemônicos (SCARABOTO; FISCHER, 2013). Na saúde, abordagens integrativas valorizam autonomia, diversidade corporal e o resgate do comer como prática humana complexa, conforme perspectivas antropológicas que entendem o corpo como construção cultural e simbólica (LE BRETON, 2007).

Esses movimentos abrem caminho para práticas nutricionais mais críticas, sensíveis às subjetividades e à complexidade das relações entre corpo, estética e alimentação. Reconhecer essas dinâmicas é essencial para promover saúde sem reforçar opressões estéticas.

A revisão realizada confirma que moda, imagem corporal e alimentação constituem dispositivos simbólicos de controle social, moldando identidades, comportamentos alimentares e percepções do corpo. A moda e a mídia reforçam padrões estéticos inatingíveis que privilegiam a magreza e a performance, contribuindo para a insatisfação corporal e para a adoção de práticas alimentares disfuncionais.

No campo da Nutrição, torna-se fundamental adotar uma postura crítica diante da cultura da magreza e das pressões estéticas contemporâneas. Isso inclui promover a valorização da diversidade corporal, fortalecer abordagens educativas e estimular reflexões sobre os significados socioculturais do comer.

Conclui-se que o enfrentamento da normatividade estética demanda estratégias que integrem educação, comunicação e saúde, possibilitando relações mais éticas, inclusivas e conscientes com o corpo, a moda e a alimentação. ........................................................

Sobre os autores

Dra. Marina Mercadante Góes - Nutricionista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) –Campus UFRJ-Macaé. Pós-graduanda em Nutrição Clínica e Hospitalar e Gestão de Unidades de Alimentação e Nutrição.

Profa. Ainá Innocencio da Silva Gomes - Nutricionista; Mestre em Nutrição Humana; Doutora em Ciências Nutricionais pela UFRJ. Professora adjunta do Instituto de Alimentação e Nutrição (IAN) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – Campus Macaé.

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PALAVRAS-CHAVE - Imagem corporal. Alimentação. Nutrição.

KEYWORDS: Body image. Eating behavior. Nutrition.

Moda, Imagem Corporal e Alimentação: Uma Revisão Descritiva da Literatura

RECEBIDO: - 13/11/25 - APROVADO:13/1/26

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REFERÊNCIAS

BARBOSA, M.M.D.; DA SILVA, A.M. Percepção da imagem corporal e comportamentos de controle de peso em estudantes do Ensino Médio. Rev. Bras. Ed. Fís. Esporte, v. 30, n. 4, p. 110-120, 2016.

BRAGA, M.P. et al. Padrões de Beleza e o Culto ao Corpo em Adolescentes: um estudo em Vitória (ES). Cad. Saúde Pública, v. 23, n. 10, p. 2351-2361, 2007.

CARPINTÉRO, M.L. A moda como objeto de consumo e de cultura. Estud. Pesqui. Psicol., v. 5, n. 1, p. 55-68, 2005.

FARIA, A.R.; ALMEIDA, R.V.; RAMOS, A.V. Insatisfação corporal e risco de transtornos alimentares em estudantes universitários. J. Bras. Psiquiatr., v. 40, n. 1, p. 45-52, 2021.

GARCIA, J.S. Corpo, consumo e cultura: o culto à beleza e o mercado da dieta. Physis, v. 13, n. 2, p. 37-56, 2003.

LE BRETON, D. Adeus ao corpo: antropologia e sociedade. 2. ed. Campinas: Papirus, 2007.

MAHN, S.; LORDLY, D. Health and body image pressure experienced by nutrition and dietetics students. J. Nutr. Educ. Behav., v. 47, n. 3, p. 240-247, 2015.

MINISTÉRIO DA SAÚDE (Brasil). Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.

PARKER, S. The medicalization of obesity: a critical review. J. Health Soc. Behav., v. 41, n. 1, p. 103-122, 2000.

SCARABOTO, D.; FISCHER, E. M. Market Feminism and the Consumption of Size-Positive Fashion. J. Consum. Res., v. 40, n. 1, p. 1-20, 2013.

SEIXAS, S. et al. Os desafios éticos e mercadológicos da Nutrição em tempos de redes sociais. Rev. Nutr., v. 33, e190011, 2020.

TAHIR, M.; YUNUS, A.; REHMAN, S. U. Influence of Social Media on Body Image & Fashion Trends among Youth. J. Peace, Develop. Commun., v. 7, n. 1, p. 120-135, 2023.

VASCONCELOS, A. et al. Um peso na alma: o corpo gordo e a mídia. Rev. Mal Estar Subjet., v. 4, n. 2, p. 301-320, 2004.

WILSON, E. Adorned in Dreams: Fashion and Modernity. London: Virago Press, 1989.

WISEMAN, C.V. et al. The impact of media upon body image and eating disorders. Clin. Child Fam. Psychol. Rev., v. 8, n. 1, p. 5-31, 2005

Nutritional Care of Children with Autism Spectrum Disorder: A Perspective through the Eyes of Parents and Guardians

clínica

Cuidado Nutricional de Crianças com Transtorno do Espectro Autista: Uma Perspectiva pelo Olhar dos Pais e Responsáveis

RESUMO: Conhecer a percepção dos pais e responsáveis de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) relacionadas aos aspectos alimentares e nutricionais. Estudo quali-quantitativo com responsáveis de 20 crianças com TEA, de 2 a 6 anos, de uma associação em São Paulo. Realizado por meio de entrevista online com perguntas semiestruturadas, utilizando Google Meet® e WhatsApp®, com gravação de áudio. Os áudios foram transcritos com auxílio de função do Word® e editados em revisão posterior. Dados quantitativos analisados e apresentados em valores absolutos e relativos e resultados das perguntas abertas analisados com base no Discurso do Sujeito Coletivo. Houve predominância de mães participantes e de crianças do sexo masculino. Na percepção geral das participantes, foram relatados prejuízos alimentares, momentos de refeição conturbados, preocupação de risco nutricional e doenças no futuro além de dificuldades financeiras que impactam na alimentação das crianças com TEA.

ABSTRACT: To understand the perception of parents/ caregivers of children with Autism Spectrum Disorder (ASD) regarding dietary and nutritional aspects. A qualitative-quantitative study was conducted with caregivers of 20 children with ASD, aged 2 to 6 years, from an association in São Paulo. Data was collected through online interviews using semi-structured questions via Google Meet® and

WhatsApp®, with audio recordings. The audios were transcribed using Word®’s transcription function and later edited during a review. Quantitative data were analyzed and presented in absolute and relative values, and the open-ended responses were analyzed based on the Collective Subject Discourse method. There was a predominance of participating mothers and male children. According to the general perception of the participants, food-related difficulties were reported, including mealtime disruptions, concerns about nutritional risk and future illnesses, as well as financial difficulties that impact the diet of children with ASD.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é descrito por ser um transtorno do neurodesenvolvimento com déficit persistente na capacidade de comunicação, interação e reciprocidade social; comportamentos não verbais de comunicação usados para interação social, além da presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesse ou atividades, conforme designado pela American Psychiatric Association no último Manual

Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR de 2023 (PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2023).

Segundo dados de 2020, nos Estados Unidos, a prevalência era de uma criança aos 8 anos de idade com TEA para cada 36 crianças com oito anos de idade em 2020 (MAENNER et al., 2023).

Embora não conste no conjunto de comportamentos característicos do TEA, manifestações inadequadas relacionadas direta ou indiretamente com a alimentação estão presentes em 30 a 90% dos casos, sendo as mais comuns a seletividade alimentar e as alterações gastrointestinais (CERMAK; CURTIN; BANDINI, 2010; LEADER, 2022).

Essa demanda é bastante conflitante, principalmente para pais e responsáveis de crianças dentro do espectro, pois precisam lidar com o desconhecido, alterações na dinâmica familiar, eventos e experiências familiares estressantes, maiores gastos financeiros e ainda com a tentativa de buscar conhecimento, ajuda e melhores condições de tratamentos para o desenvolvimento destas crianças o mais cedo possível (ALMEIDA; NEVES, 2020; LORD; ELSABBAGH; BAIRD, 2018).

Estudos mostraram que intervenções de baixa intensidade, que orientam os pais sobre como interagir

Cuidado Nutricional de Crianças com Transtorno do Espectro Autista: Uma Perspectiva pelo Olhar dos Pais e Responsáveis

com seus filhos pequenos com TEA, podem resultar em efeitos imediatos no comportamento social e na comunicação das crianças (LORD; ELSABBAGH; BAIRD, 2018; WEITLAUF et al., 2014).

O número crescente de diagnósticos de TEA nos últimos anos tem despertado a atenção para novas necessidades e abordagens deste público. Isso demonstra o quanto famílias, profissionais, sociedade e demais órgãos devem se aprimorar em estratégias de inclusão.

Pensando na problemática relatada e levando em conta as diversas dificuldades, possivelmente enfrentadas pelos pais ou responsáveis, no que se aplica a todos os cuidados de crianças com TEA, é necessário ouvir essas famílias para o embasamento de assistência nutricional e atendimento multiprofissional efetivo para melhor qualidade na alimentação.

Diante do exposto, o objetivo deste estudo é conhecer a percepção dos pais ou responsáveis de crianças com TEA em relação aos aspectos alimentares e nutricionais caracterizando brevemente esse grupo de familiares e investigando os possíveis desafios enfrentados relacionados à alimentação.

Nutritional Care of Children with Autism

Spectrum Disorder: A Perspective through the Eyes of Parents and Guardians

Métodologia

Foi realizado um estudo quali-quantitativo com participantes do Projeto Dino (Associação de Amparo às Mães de Crianças Autistas), grupo de apoio localizado na cidade de São Paulo, com foco principal ao acolhimento de mães de crianças neurodivergentes, atualmente abrangendo pais e outros responsáveis por crianças previamente diagnosticadas com TEA. A instituição atende até o momento cerca de 80 famílias, em sua maioria de condição socioeconômica baixa, contando com empresas parceiras e profissionais voluntários na área de neuropediatria, psicologia, direito e nutrição, com dicas, informações, acolhimento, roda de conversa, ações e eventos sociais e em alguns casos atendimentos profissionais individualizados. As rodas de conversas do projeto acontecem de forma online e o principal meio de comunicação entre eles se dá por mídias e redes sociais com encontros presenciais esporádicos.

A amostra do estudo foi caracterizada como de conveniência e seu tamanho considerou o critério de saturação de respostas. Quanto a elegibilidade, para inclusão na pesquisa, o critério foi de ser pai/mãe ou responsável de crianças de 2 até 6 anos de idade, de ambos os sexos, com diagnóstico de TEA que se alimentassem por via oral e que fossem participantes do Projeto Dino. Foram excluídas as crianças com síndromes raras ou síndrome de Down associadas ao TEA.

O estudo foi realizado por meio de entrevista online com perguntas semiestruturadas em parte fechadas, para melhor caracterização de amostra e outras perguntas abertas.

Na primeira etapa, os participantes foram convidados para a pesquisa por meio de vídeo online com explicação da autora deste trabalho sobre o objetivo da pesquisa e como seria realizado. O vídeo foi divulgado nos grupos de informações de WhatsApp® do Projeto Dino, por onde são enviados os comunicados para os pais pela fundadora do grupo, que possuía ciência prévia da pesquisa e autorizou sua execução. Ficou esclarecido que se tratava de uma pesquisa voluntária, sem fins lucrativos, gastos ou remuneração para os participantes e que o intuito era incentivar e embasar novas pesquisas na área de atendimento nutricional para TEA. Na segunda etapa, foi marcada data e hora para que as interessadas em participar da pesquisa recebessem o contato telefônico da

pesquisadora para leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido - TCLE. Devido logística para evitar deslocamento das participantes o TCLE foi lido pela pesquisadora via telefone e as responsáveis ao final da leitura responderam se aceitavam participar da pesquisa e da gravação do áudio da entrevista. O controle de aceites, assim como de dados básicos da entrevista foram descritos em uma tabela de controle de pesquisa. Uma via do TCLE foi enviada por WhatsApp® para todas que aceitaram. Após esta etapa foi realizada reunião online para entrevista da pesquisadora com o participante de acordo com disponibilidade de ambos. A forma online aconteceu pelo link do Google Meet® ou chamada de vídeo pelo WhatsApp®, conforme melhor viabilidade do participante. A entrevista foi composta por perguntas direcionadas com duração estimada de 30 minutos variando conforme desenvoltura de cada participante. As reuniões em chamada de vídeo tiveram permissão para gravação de imagem e áudio garantindo o sigilo e confidencialidade. Foi esclarecido que poderiam optar por desistir da pesquisa em qualquer momento. Caso fosse necessário, devido alguma intercorrência, as participantes foram avisadas que a entrevista poderia ser dividida em dois momentos. Se mesmo neste formato, alguma questão da entrevista ficasse incompleta e a participante não pudesse mais finalizar ou no caso de desistência, todos os dados preenchidos até então seriam excluídos da pesquisa. Após entrevista, os áudios foram transcritos pela pesquisadora com auxílio da função “Ditar” no programa Word® do pacote Microsoft 365 MSO (Office 365) Versão 2302, e editados um a um em revisão posterior para transcrição completa do que não foi redigido corretamente pelo programa. Os dados quantitativos foram analisados e apresentados em valores absolutos e relativos (%) e foi utilizada a média e desvio padrão (DP) para descrição de variáveis. Os resultados das perguntas abertas foram analisados pela pesquisadora utilizando como base a metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo – DSC, técnica de organização e tabulação dos dados que une os depoimentos em um só discurso tornando a fala individual em uma fala coletiva e social possibilitando uma ilustração mais sensível da ideia central da coletividade (LEFEVRE; LEFEVRE, 2003; LEFEVRE; LEFEVRE, 2006; LEFEVRE et al., 2010)

De cada depoimento, foram identificadas expressões-chave que viabilizaram a construção de ideias centrais que, quando apresentavam sentido equivalente ou complementar, foram agrupadas e categorizadas de forma a expressarem o DSC, redigido em primeira pessoa do ..............

Cuidado Nutricional de Crianças com Transtorno do Espectro Autista: Uma Perspectiva pelo Olhar dos Pais e Responsáveis

Quadro 1 – Ideia Central e Discurso do Sujeito Coletivo sobre o momento de refeição em família e comportamentos apresentados pelas crianças.

Ideia Central Discurso do Sujeito Coletivo

Seletividade alimentar (n=15) “Ele tem seletividade alimentar. Já vê no prato e já arruma um jeito de tirar até eu colocar o que quer. Aí teve época que só queria batata, aí tem época que quer macarronada.”

Compulsão alimentar (n=4) “Ela não para, se deixar come o dia inteiro. Tem compulsão alimentar e aí acha que não comeu e fica gritando: estou morrendo de fome. Seja o que for, gosta de comer muito.”

Comportamentos disruptivos (n=9) “Ele dá murro, dá tapa, me chuta. Chora e tem momentos de crise. Come pulando rodando, de cabeça para baixo. Não aceita e se eu ficar oferecendo muito aí fica irritado. Aí vem a ânsia ou até vômito.”

Baixa ingestão de alimentos considerados saudáveis e consumo elevado de alimentos ultraprocessados (n=11)

“Não aceita salada e não aceita legume. Toma um litro de danone® no dia quando não quer comida. Ele come linguiça só. Quer comer só o que? Batata palha, mortadela. Toma o todynho®, né?”

Hipersensibilidade sensorial (n=11) “Mas ele gosta bastante de coisa crocante. Tentou experimentar uma outra textura e vomitou. Só tomava suco amarelo. Só come com as mãos. Se tiver alguma cor vermelha, por exemplo, não come.”

Emoções e percepções dos familiares (n=15)

“Eu estou perdida na alimentação dele. Já perdi a paciência. Eu vivo num desafio diário. Eu fico muito triste.”

singular e em itálico.

Na construção do DSC as falas das participantes foram separadas por ponto e mantidas em linguagem informal conforme transcrição das entrevistas. Quando houve na fala das participantes a referência de algum alimento por sua marca comercial, foi utilizado o símbolo de marca registrada. Não há conflito de interesses com relação as marcas que foram citadas.

A investigação se deu para obter dados que posteriormente justifiquem a importância do atendimento nutricional diante das possíveis problemáticas mais enfrentadas pelos pais de crianças com TEA no que diz respeito à alimentação e nutrição.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética sob o parecer consubstanciado nº 6.259.010. A coleta de dados ocorreu no período de agosto de 2023 a novembro de 2023, realizada pela pesquisadora, após consentimento dos participantes por meio do TCLE.

......... Resultados e Discussão ..........

menor duração 13 minutos e 57 segundos. As entrevistas compostas por perguntas semiestruturadas aconteceram com 19 integrantes, sobre a alimentação de 20 crianças, pois houve a participação de irmãs gêmeas e uma única responsável respondeu sobre ambas. Todas as respondentes foram mulheres, dezoito mães e uma avó. A avó morava com a criança e neste caso era a familiar ligada ao Projeto Dino.

A caracterização da amostra mostrou que a faixa etária média das mães no nascimento da criança, excluindo da média o caso da participante avó, foi de 30,5 anos (DP±6,4). Na data da entrevista apenas nove participantes possuíam nível técnico ou superior concluídos. Onze participantes eram ativas no mercado de trabalho, não necessariamente em sua área de atuação profissional, sendo que oito destinavam cuidados exclusivos para a criança e família.

Em um estudo qualitativo realizado no Rio Grande do Sul, foram encontrados resultados semelhantes com 20 mães de crianças com TEA que frequentavam a Associação de Pais e Amigos Especiais (APAE). A faixa etária de idade média das participantes foi de 35,3 anos, apenas quatro possuíam ensino superior e oito delas também destinavam cuidados exclusivos com as crianças e realizavam trabalhos informais (BIFF, 2019)

Foram realizadas 19 entrevistas online com duração média de 27 minutos e 32 segundos, sendo que a com maior duração foi de 46 minutos e 57 segundos e a de

Na ocasião da entrevista, conforme respostas das participantes, treze famílias residiam na Zona Sul de São Paulo, cinco na Zona Oeste e uma na Zona Leste. Ainda

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Quadro 2 - Ideia Central e Discurso do Sujeito Coletivo sobre preocupações das entrevistadas relacionadas à alimentação/nutrição.

Ideia Central Discurso do Sujeito Coletivo

Ausência de nutrientes necessários para um crescimento saudável (n=9)

“Precisa de uma nutricionista. Portanto que eu comprei esse biotônico, pra trazer vitaminas pra ele. Acho que meu receio é não receberem a quantidade de nutrientes necessários.”

Problemas futuros e doenças (n=16) “A minha preocupação é que fique desnutrido. Ter uma anemia ou algum problema sério, sei lá, de sangue. Diabetes, colesterol porque não tá se alimentando de forma correta. Meu maior medo é dele enjoar dessas comidas. Se eu não comer, se você não comer a gente vive?”

Preocupação com peso (n=8) “Sempre é uma preocupação nas consultas de rotina se o peso tá adequado, né? O que me deu afago no coração dessa história de deixar de almoçar foi que não emagreceu. O corpo dele não tá bem, eu sei.”

sobre moradia, as participantes responderam sobre o número de pessoas que moravam na mesma casa e o resultado mostrou que maior parte das crianças convivia com os pais e irmãos. Em 14 casos, a composição familiar era formada por mãe, pai, criança com TEA somente ou com mais irmãos ou avós. Nas outras cinco famílias as mães eram as responsáveis pela casa e pela criança, assumindo uma atividade solo.

Segundo o Mapa da Desigualdade (2021) da Rede Nossa São Paulo (REDE NOSSA SÃO PAULO, 2021) sobre os 96 distritos da capital de São Paulo e que aborda indicadores das várias áreas de administração pública a partir de dados fornecidos pela prefeitura do município e instituições públicas e privadas, alguns bairros da Zona Sul, que inclusive foram citados como moradia por alguns participantes, se enquadram nos índices de maior proporção de domicílio em “favelas”, menor taxa de emprego formal e de acesso à internet móvel, menor idade média ao morrer, maior número de gravidez na adolescência e longa espera em tempo de atendimento para vaga em creches (REDE NOSSA SÃO PAULO, 2021).

As participantes residentes nestas regiões mais populosas e de maior vulnerabilidade da Zona Sul enfrentam também o atendimento público de longa espera na área da saúde e dificuldade no acolhimento e estratégias para tratamento de deficiências múltiplas, necessitando de políticas públicas eficazes para mudança deste cenário. Esta problemática sobre o atendimento e tratamento no TEA se prolonga há muitos anos. Leandro e Lopes (2018), já falavam em sua publicação sobre a falta de profissionais especializados na área e a escassez de instituições adaptadas para o atendimento de pessoas com TEA no país. O estudo analisou um conjunto de cartas escritas por representantes de associações, pais e mães de pessoas com TEA, para o Jornal do Brasil na década de 80. As cartas

funcionaram, na época, como um instrumento de manifesto sobre a precariedade nos cuidados necessários para essa população (LEANDRO, LOPES, 2018). Os mesmos relatos e queixas sobre a falta de apoio profissional e governamental no tratamento para crianças com TEA foram descritos no estudo qualitativo de Weissheimer (2021), realizado com 55 participantes, em sua maioria mães de crianças com o transtorno de 4 a 10 anos, em três estados do Brasil: Paraná, Ceará e Amapá (WEISSHEIMER et al., 2021)

Apesar destas queixas, as direções futuras da Rede de Monitoramento do Autismo e Deficiências de Desenvolvimento apontam para a continuidade no acompanhamento da prevalência do TEA entre crianças com oito anos de idade, no estado de saúde, das necessidades e o planejamento dos adolescentes com TEA conforme se preparam para transição para a vida adulta. Considerado como um progresso, a identificação precoce de TEA entre crianças de quatro anos também permanecerá em monitoramento, assim como os efeitos da pandemia da COVID-19, ações que auxiliam para uma visão geral e que podem criar análises adicionais para melhor compreensão dos padrões de mudanças no TEA (MAENNER et al., 2023).

Em relação às características das crianças, a média de idade da amostra foi de 4,5 anos (DP±1,1) e predominância do sexo masculino (n=14).

Uma das crianças teve o diagnóstico de TEA antes dos 12 meses de vida, relatado pela mãe como descoberta precoce devido quadro de prematuridade e dificuldade de atingir marcos de desenvolvimento desde o nascimento. Embora o TEA possa ser identificado até um ano de idade, a maioria das crianças não é diagnosticada até serem anos mais velhas (MAENNER et al., 2023). Quatro crianças obtiveram diagnóstico entre os 37 e 48 meses. Seis crianças

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Quadro 3 – Ideia Central e Discurso do Sujeito Coletivo sobre fatores socioeconômicos das famílias

Ideia Central Discurso do Sujeito Coletivo

Renda financeira baixa (n=9) “No momento não estou conseguindo comprar tudo o que precisa. Aí nós aqui, familiares, fizemos uma vaquinha e a gente passou ele no neuro particular. Aqui mamãe e papai sou eu. Sou eu e ele, sou a responsável por tudo, absolutamente tudo.”

Dificuldade de oferecer condições favoráveis de saúde para as crianças (n=12)

Problemas enfrentados na área profissional (n=6)

Demandas diárias com cuidados com as crianças com TEA (n=12)

“Ou eu trabalho para comprar fraldas, alimentos, ou eu trabalho para pagar terapia. Estou trabalhando mais para poder pagar isso [terapia] pra ele. É pelo convênio [terapia], mas está atrasando o pagamento. Estamos aguardando pelo posto de saúde.”

“Foi difícil arrumar emprego, eu passei muitas dificuldades. Eu não tô deixando ser registrada devido aos problemas do [nome da criança] né, qualquer momento precisa sair, correr atrás das coisas. Eu fiquei caída, 13 dias afastada do meu trabalho com uma depressão e ansiedade.”

“Ela tinha nascido e eu não conseguia mais administrar a minha vida em nada. Era sempre tudo vomitado o tempo todo, em todas as refeições... imagina você limpar o vômito no almoço, no café da manhã, na janta e no café da tarde? Ficou inclusive muito sobrecarregado para mim, que também tenho que trabalhar.”

tiveram o laudo próximo dos 23 meses de vida e a maioria das participantes, nesta circunstância, relataram que a fala dificultada ou ausência dela foi o que mais despertou atenção para a busca de ajuda. Em nove casos o diagnóstico de TEA foi obtido quando as crianças tinham de 24 a 36 meses de vida.

Assim sendo, a predominância de crianças do sexo masculino e idade entre 24 e 36 meses de descoberta do diagnóstico deste estudo, manteve o padrão encontrado na literatura (PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2023; MAENNER et al., 2023; ALMEIDA; NEVES, 2020; LORD et al., 2018; BOLETIM TEMÁTICO DA BIBLIOTECA DO MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2022). Uma ressalva importante se refere ao público feminino com relação ao número de casos, que pode ser “mascarado”, pois meninas sem comprometimento intelectual concomitante ou atrasos na linguagem podem não ter o transtorno identificado, talvez por conta da manifestação mais sutil das dificuldades sociais e de comunicação (PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2023).

Falando sobre a comunicação verbal, este fator se apresentou demasiadamente importante, na perspectiva das participantes, para independência e melhor desenvolvimento da criança com TEA. As dificuldades de relacionamento, comportamentos e interação do filho levam as mães a evitarem diversos ambientes e saídas com as crianças devido difícil socialização e aceitação por parte da sociedade (MOXOTÓ; MALAGRIS, 2015).

Os resultados desta pesquisa mostram alta adesão das famílias ao tratamento farmacológico (n=14) para

controle de comportamentos disruptivos e das terapias multidisciplinares (n=16), que inclusive foram apontadas pelas participantes, como componente auxiliar para comunicação verbal das crianças com TEA, observou-se que somente quatro crianças não desenvolviam a fala. Entre as famílias que participaram do estudo, 80% sinalizaram o acompanhamento terapêutico com equipe multidisciplinar para desenvolvimento de habilidades das crianças com TEA. Conforme a pesquisa, quatro crianças que não fazem acompanhamento terapêutico são pertencentes às famílias em que as mães possuem menor grau de escolaridade, situação que também coincidiu com a inexistência do atendimento nutricional, sugerindo que, neste estudo, a adesão diminuída aos tratamentos pode estar relacionada com a baixa escolaridade dos responsáveis e limitação nas finanças. É interessante observar que entre as terapias realizadas, o acompanhamento nutricional era feito somente por seis crianças, inclusive em decorrência do atendimento voluntário por nutricionista do Projeto Dino. Outras duas mães relataram que a criança havia recebido atendimento nutricional, porém as profissionais não trabalhavam com casos de TEA e por isso não foi dado continuidade no tratamento, e dois relatos demonstraram inacessibilidade de atendimento nutricional devido questões financeiras. Este fator pode sugerir que o baixo consumo de suplementos alimentares esteja associado ao desconhecimento desses produtos pelas mães, consequentemente com ausência de recomendação nutricional, em casos necessários, visto que a maioria das famílias não tinha esse atendimento. Embora o TEA seja considerado um distúr-

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Quadro 4 –

Ideia Central e Discurso do Sujeito Coletivo sobre estratégias adotadas durante as refeições, relatadas pelas participantes.

Comportamento apresentado pela criança Ação do responsável

Seletividade alimentar e baixa ingestão de alimentos considerados saudáveis

Ideia Central: Camuflar os alimentos

“Mas não pode ver né? Punha assim, a parte do brócolis, uns grãozinhos de feijão, a carne moída e cobria por cima com arroz e farinha. Só que nós boicotamos ele, a gente corta a carne bem pequenininho, as vezes come, mas se sentir a textura dá ânsia de vômito e aí não rola” (n=16)

Compulsão alimentar

Comportamentos disruptivos, consumo elevado de alimentos ultraprocessados e hipersensibilidade sensorial

Ideia Central: Não deixar o alimento disponível

“Então eu não posso deixar um cacho de banana, tem que deixar seis (bananas), eu não posso deixar seis maçãs, eu tenho que deixar três. Então eu tenho que controlar até a fruta, entendeu?” (n=8)

Ideia central: Ofertar o que a criança deseja

“Eu ando com macarrão cru na minha bolsa porque ela quer comer o macarrão cru e muitas vezes é o que ela se alimenta. É o que come de manhã, a bolacha Trakinas®, o pão com requeijão. Aí a gente acaba dando o que quer, o que aceita na verdade né?”. (n=9)

bio biológico, ele é tratado principalmente por meio de educação e terapias comportamentais, tendo a medicação como um importante facilitador (LORD et al., 2018).

No presente estudo 70% das crianças fazem uso de medicamento para controle dos sintomas relacionados ao TEA. Risperidona que é um dos medicamentos mais utilizados, foi liberado para uso no TEA devido sua atuação nos sintomas de irritabilidade e agressividade (LORD ET AL., 2018; SANCHACK, THOMAS, 2016) O tratamento medicamentoso, apesar de ser considerado benéfico, também precisa ser avaliado devido seus efeitos colaterais, neste caso como apatia, aumento de salivação, aumento de apetite, ganho de peso (DA SILVA; MOREIRA; DA SILVA, 2020), sedação e fadiga (LORD et al., 2018; SANCHACK; THOMAS, 2016). Isto coincide com as indicações de uso relatadas pelas participantes para utilização da risperidona e casos de ganho de peso excessivo (n=3) onde foi necessário realizar a troca do medicamento.

Outros medicamentos citados na pesquisa foram a melatonina e canabidiol. A recomendação da melatonina se dá para auxiliar no controle dos distúrbios de sono e melhorar o comportamento no decorrer do dia com efeitos colaterais mínimos (SANCHACK; THOMAS, 2016).

Utilizada por três crianças com TEA da amostra, a melatonina foi indicada para melhora da insônia e não apresentou efeitos adversos nestas crianças. O canabidiol, presente em espécies do gênero Cannabis, tem sido estudado como alternativa para tratamento de sintomas associados ao TEA visto sua modulação nas respostas socioemo-

cionais, cognição, melhora de convulsões e plasticidade neuronal (DA SILVA; MOREIRA; DA SILVA, 2020). Foi indicado para uso das crianças da amostra deste estudo principalmente devido agitação e baixa concentração nas atividades. No estudo de ensaio clínico randomizado duplo-cego controlado por placebo de Silva Junior et al. (2024) foi avaliada a eficácia do canabidiol em 60 crianças com TEA de 5 a 11 anos. Em casos de TEA de menor nível de suporte verificou-se melhora na concentração e de modo geral, foi observada melhora na interação social, agitação psicomotora, no número de refeições e ansiedade, com efeitos adversos, manifestados por algumas crianças, leves e transitórios, sendo necessário mais estudos para avaliar os efeitos a longo prazo.

Com relação as comorbidades relatadas neste estudo, observa-se a alergia alimentar (alergia a proteína do leite de vaca, intolerância à lactose e alergia a amendoim) e alergia de pele (dermatite) como as mais citadas nas crianças estudadas (n=7). É possível que nem todas as participantes tenham associado, no momento da entrevista, a palavra comorbidades aos prejuízos gastrointestinais e por isso não tenham sido sinalizados esses problemas na mesma proporção que a literatura refere variando cerca de 9 a 91% de problemas gastrointestinais relacionados ao TEA (BAUMANN, 2010)

Para a construção do DSC sobre o momento da refeição, as participantes responderam à seguinte pergunta: “Conte sobre um momento de refeição com a criança e quais comportamentos ela apresenta.” No Quadro 1, segue a Ideia Central (IC) e o DSC sobre esse assunto.

A partir das respostas foram destacadas a seletividade e compulsão alimentar, os comportamentos disruptivos, baixa ingestão de alimentos considerados saudáveis, consumo elevado de alimentos ultraprocessados, hipersensibilidade sensorial e emoções e percepções dos familiares como os assuntos mais respondidos pelas participantes.

A seletividade alimentar é um problema importante e muito comum nas crianças com TEA (CERMAK; CURTIN, BANDINI, 2010), pais relatam que seus filhos são extremamente exigentes (SAMPAIO et al., 2013; LEMES, 2023), com repertórios restritos de alimentos, levando a um padrão alimentar atípico na rotina de refeições das crianças (RUTHES et al., 2022).

Assim como foi perceptível no estudo, a literatura mostra que entre as circunstâncias vivenciadas constantemente pelas famílias em relação a alimentação estão a escolha limitada de alimentos, recusa de frutas, verduras e legumes com preferências por alimentos de marcas específicas, comportamentos agressivos (LEMES, 2023; LÁZARO; PONDE, 2017), horários e liturgias rígidas, dificuldade de sentar-se ao redor da mesa e pouca interação interpessoal (LEMES, 2023).

Foi encontrado em uma amostra de participantes com TEA de 2 a 18 anos, 69,1% de seletividade alimentar e 64,3% de problemas nas refeições. Na ocasião foram avaliados quatro tipos de barreiras na hora das refeições: raiva, chorar e gritar durante a refeição, pedir que a comida seja preparada da mesma forma e comportamento auto lesivo (BABINSKA, 2020).

Um desafio na rotina de crianças seletivas com TEA, que pode desencadear estes comportamentos disruptivos, além de agressão, arremesso de objetos e recusa da comida por exemplo, é a introdução de novos alimentos, que também pode se relacionar com o contexto de neofobia alimentar (LEMES, 2023; FERREIRA; CASTRO; LOPES, 2017).

A sensibilidade sensorial também tem sido sugerida como um possível mecanismo para explicar, em parte, a seletividade alimentar de crianças com TEA, associada com problemas de comportamento por incapacidade de expressar o motivo de sofrimento (CERMAK; CURTIN; BANDINI, 2010)

Situações como essas levam a experiências alimentares negativas em família, visto a importância das refeições como atividade diária. Esse ponto constou neste estudo quando citado sobre as emoções e percepções dos familiares nos momentos de alimentação com as crianças

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com TEA (Quadro 1). Os problemas de comportamento da criança com TEA durante as refeições tendem a aumentar o estresse familiar (CERMAK; CURTIN; BANDINI, 2010; MOXOTÓ; MALAGRIS, 2015), a alta prevalência de ansiedade nas mães (MOXOTÓ; MALAGRIS, 2015), perturbando o clima naquele momento e piorando qualidade de vida de todos os envolvidos (CERMAK; CURTIN; BANDINI, 2010; RUTHES, 2022; LÁZARO; PONDÉ, 2017).

Na pergunta seguinte da entrevista as participantes responderam: “Existe alguma preocupação relacionada à alimentação/nutrição de seus filhos?” e suas respostas geraram a IC e DSC descritos no Quadro 2.

Na percepção das entrevistadas, houve relato em relação a preocupações com a ausência de nutrientes necessários para um crescimento saudável, problemas e doenças futuras, assim como, preocupação com o peso e imagem da criança.

A ingestão alimentar restrita realmente pode levar à deficiência nutricional se os tipos e variedade de alimentos permanecerem exclusivos, se tornando um perigo potencial à saúde, ascendendo para um risco de desenvolver desnutrição, raquitismo, obesidade, déficit de crescimento, problemas ósseos e baixo desempenho acadêmico (LEMES et al., 2023). Da mesma forma, o excesso de nutrientes causado pela alimentação pouco variada e desordenada traz prejuízos à saúde da criança (CERMAK; CURTIN; BANDINI, 2010). Situações semelhantes foram observados na pesquisa ora nas crianças mais seletivas, ora naquelas que apresentavam um consumo mais compulsivo, por meio de restrição ou excesso de determinados alimentos e alimentação desordenada.

O peso corporal e imagem da criança com TEA também foi um assunto observado nas respostas das participantes da pesquisa. Em um estudo transversal descritivo, realizado em Maceió com 39 crianças com TEA de 3 a 10 anos, não foi verificado nenhum caso de desnutrição, porém foi possível identificar um número expressivo de mais de um terço de crianças com excesso de peso, o que já é considerado um problema de saúde pública na população infantil típica (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA PARA O ESTUDO DA OBESIDADE E DA SÍNDROME METABÓLICA, 2016). Em pessoas com TEA, além do fator de risco para outros agravos na saúde, o peso elevado pode contribuir para acentuar o isolamento social visto que é comum uma não aceitação da imagem corporal pela sociedade e as vezes por parte do próprio indivíduo (DA SILVA; MOREIRA; DA SILVA, 2020).

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Não obstante às dificuldades citadas no decorrer das perguntas semiestruturadas, e apesar das preocupações sobre alimentação relatadas pelas participantes, durante as entrevistas fatores econômicos foram fortemente reforçados como impeditivos indiretos de uma nutrição adequada para as crianças com TEA.

No Quadro 3 foram organizados esses comentários sobre fatores socioeconômicos das famílias de crianças com TEA, produzindo uma IC e o DSC como acréscimo da entrevista, além das perguntas semiestruturadas. Uma parte das mães participantes, conforme citado anteriormente, não é atuante no mercado de trabalho, o que para as famílias dificulta o acesso a melhores condições financeiras para oferecer os tratamentos necessários para os seus filhos. Muitas mães, por exemplo, não conseguiram dar continuidade nos seus estudos, diminuindo possibilidades no âmbito profissional.

Situação semelhante foi destacada no estudo de Silva, Santos, Silva (2020) com 39 crianças com TEA de 3 a 10 anos, onde a renda familiar da maioria dos participantes era inferior a um salário-mínimo (DA SILVA; MOREIRA; DA SILVA, 2020).

A amostra desta pesquisa foi formada majoritariamente por mães de crianças com TEA, que em sua totalidade se ocupam sendo as principais responsáveis pelos cuidados com medicação, atuação com todas as demandas escolares, acompanhamento nas terapias multiprofissionais das crianças e alimentação. Somente em quatro casos as mães relataram rede de apoio diária na execução de tais tarefas.

O fato de serem as mães as principais responsáveis pelos cuidados de seus filhos com TEA, tanto em casa como nos tratamentos, pode ser associado ao maior estresse materno além do sentimento de frustração. Em decorrência desse estresse excessivo das mães, podem surgir problemas de saúde física e mental, prejuízos financeiros e laborais, dificuldade de relacionamento entre cônjuge e mais filhos, aumento no número de divórcios e resultados negativos nos tratamentos da criança com TEA (MOXOTÓ; MALAGRIS, 2015).

No aspecto alimentar, quando as crianças com TEA apresentam maiores dificuldades e necessidades alimentares diferenciadas, as famílias com menor renda apresentam principalmente uma preocupação adicional devido às inquietações com a oferta, custo e desperdício de alimentos (RUTHES et al., 2022).

Em contrapartida, conforme o relato desta pesquisa, as mães que porventura trabalham e podem ofere-

cer maior suporte financeiro, enfrentam o tempo reduzido na rotina, adaptações no local de trabalho e às vezes o receio de perder sua colocação profissional, recurso que gera parte do sustento familiar, devido problemas diversos relacionados aos manejos no TEA.

Frente as demandas diárias, que ocorrem principalmente devido as características apresentadas no TEA, é de interesse da pesquisa conhecer se há e quais estratégias são utilizadas pelas famílias para lidar com o transtorno nos momentos de alimentação. O Quadro 4 descreve as atitudes mais citadas que são tomadas pelos responsáveis diante de determinados comportamentos das crianças.

Em um único caso na pesquisa a mãe relatou que a criança não apresentava nenhum problema relacionado com a alimentação. Em três casos as participantes afirmaram que apesar da dificuldade com novos alimentos e de aceitação alimentar, procuravam ofertar alimentos de boa procedência e não ceder sempre ao apelo das crianças quando se tratava de pedidos de alimentos ultraprocessados. Como reforço positivo duas mães contaram na entrevista, que em família, decidiram por se alimentar juntos ao redor da mesa, sem o uso de telas ou outros entretenimentos e com o tempo esse hábito foi fixado sendo que até a data da entrevista acontecia de forma tranquila. Uma destas mães inclusive destacou a participação da criança com o pai no preparo das refeições, o que segundo ela, melhorou a rotina e hábito alimentar da criança. Por isso é necessário informar que embora condições como sensibilidade sensorial e outros possam afetar a escolha alimentar da criança com TEA, fatores ambientais também podem ser determinantes, seja no reforço da seletividade alimentar ou a favor de uma alimentação mais saudável e diversificada (LÁZARO; PONDÉ, 2017). As narrativas desse estudo citado sugeriram que as crianças com TEA usavam comportamentos inadequados para garantir que conseguissem o que queriam comer e rejeitar tudo o que não queriam ou algum alimento novo. O receio da mãe, de acordo com seus próprios relatos, de que o filho não comesse nada, a obrigava permitir que a criança consumisse qualquer coisa. Dessa maneira, dependendo das preferências da criança e das atitudes da família, um ciclo vicioso podia ser instalado na dinâmica alimentar (LÁZARO; PONDÉ, 2017).

É interessante observar que no presente estudo, as mudanças positivas geradas dentro do próprio ambiente familiar, no decorrer do tempo tiveram respostas assertivas para alteração benéfica de comportamento das crianças com TEA, o que realmente sugere que interven-

ções realizadas com constância pelos familiares tem sua efetividade.

Isso condiz com as recomendações do Guia Alimentar da População Brasileira (2014), que enfatizam a importância da comensalidade, ou seja, realizar as refeições em horários mais regrados sem desenvolver outras atividades ao mesmo tempo, dando atenção para o momento da alimentação sem o uso de telas; propiciar local adequado e confortável sem a disponibilidade ilimitada de alimentos; comer em companhia, ao redor da mesa, priorizando alimentos in natura ao invés de ultraprocessados, participando de todos os momentos que antecedem e até mesmo sucedem a refeição compartilhando experiências em cada uma destas etapas.

Diante do exposto na pesquisa, percebe-se a necessidade de mais estudos que abordam aspectos e intervenções nutricionais no TEA mais precoces assim como é visto nas demais áreas profissionais. Um alerta é necessário para que outros fatores que possam influenciar a alimentação sejam abordados de modo que não impeçam uma nutrição adequada. Como resultado positivo a pesquisa possibilitou conhecer sobre os cuidados nutricionais reais por meio das narrativas das principais responsáveis por esse momento e inclusive saber quais são as estratégias adotadas por elas para futuras intervenções de forma mais direcionada.

Conclusão .......................

Com a fala das responsáveis foi perceptível que fazem parte do cotidiano os problemas nos momentos de refeição devido comportamentos seletivos, de compulsão, rigidez ou disruptivos e em sua maioria, alimentação pobre de nutrientes necessários para o desenvolvimento da criança com TEA. Além dos aspectos nutricionais, as famílias por vezes enfrentam dificuldades financeiras pelos altos custos com tratamento, questões sociais e emocionais relevantes que impactam indiretamente na alimentação. Fica evidente a necessidade e importância de atendimento nutricional qualificado para atuar com famílias de pessoas com TEA. Com profissionais mais preparados e acessíveis é possível maior abrangência de conhecimento alimentar e nutricional por parte dos familiares sobre como lidar diante de fatores negativos, amenizar os comportamentos

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inadequados citados nas refeições e minimizar doenças futuras. ........................................................

Sobre os autores

Patrícia da Silva Baptistucci – Nutricionista

Profa. Fernanda Ferreira Corrêa – Nutricionista. Docente do Centro Universitário São Camilo – SP.

Profa. Adriana Garcia Peloggia de Castro – Nutricionista. Docente do Centro Universitário São Camilo – SP.

PALAVRAS-CHAVE: Transtorno do espectro autista. Nutrição. Criança. Pais. Percepção.

KEYWORDS: Autism spectrum disorder. Nutrition. Child. Parents. Perception.

RECEBIDO: 21/8/25 – 13/11/25

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Analysis of Total Protein Content in Whey Protein Samples Sold in Recife-PE

Análise do Teor de Proteínas Totais em Amostras de Whey Protein Comercializadas em Recife-PE

RESUMO: Os suplementos proteicos estão sendo cada vez mais utilizados pela população para suprir as necessidades nutricionais. O whey protein apresenta um grande aporte proteico, ajudando no ganho de massa muscular e na hipertrofia. O objetivo desse trabalho foi analisar amostras de whey protein na cidade de Recife-PE. Foram avaliadas 5 amostras de whey protein pela metodologia de Kjeldahl, para determinação de proteínas totais. As amostras estão de acordo com os parâmetros determinados pela ANVISA, onde cada produto deve conter no mínimo 10g de proteína por porção. Contudo, a comparação entre teores de proteínas declarados nos rótulos e analisados nas amostras revelou diferenças significativas, com os valores declarados sendo maiores que os encontrados nas análises. Vale reforçar como é importante existir uma fiscalização de suplementos proteicos, para que esses produtos estejam de acordo com o descrito pelo fabricante.

ABSTRACT: Protein supplements are increasingly being used by the population to meet nutritional needs. Whey protein has a great protein supply, helping to gain muscle mass and hypertrophy. The objective of this work was to analyze whey ready samples in the city of Recife-PE. Five whey protein samples were evaluated using the Kjeldahl methodology to determine total proteins. The samples comply with the parameters determined by ANVISA, where each prod-

uct must contain at least 10g of protein per portion. However, the comparison between protein levels declared on the labels and those analyzed in the samples revealed significant differences, with the declared values being higher than those found in the analysis. It is worth reinforcing how important it is to monitor protein supplements, so that these products comply with what the manufacturer describes.

Introdução

Os suplementos alimentícios podem ser utilizados para suprir as necessidades nutricionais daqueles indivíduos que não ingerem quantidades suficientes de macro e/ou micronutrientes. Assim como também para permitir o aumento do desempenho físico e aprimorar a estética, podendo estes produtos serem classificados em suplementos ergogênicos (aumento do desempenho físico), termogênicos (aumento da temperatura corporal/ produção de calor no organismo) ou anabólicos (construção e crescimento de tecidos corporais). Estes últimos, utilizados principalmente para melhorar a aparência física, uma vez que são compostos principalmente por prote-

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ínas e aminoácidos. (ALVES et al., 2002; FERREIRA et al., 2016).

A utilização de componentes ergogênicos tem como principal finalidade a construção de massa magra, perda ou ganho de massa corporal total, perda de massa gorda e aumento da resistência muscular (PELLEGRINI et al., 2017). Observa-se um crescimento na comercialização de suplementos alimentares, principalmente quando se fala de proteínas do soro do leite, o whey protein (FARIAS et al., 2019; CRIVELIN et al., 2018). O Whey Protein (WP) encontrado na parte líquida do leite é removido da caseína durante o processo de fabricação de queijos, sendo um subproduto residual, equivalente a 20% do leite. Esse é comercializado de várias formas, tais como: Whey Protein concentrado (WPC), Whey Protein isolado (WPI), Whey hidrolisado parcialmente ou totalmente, e por fim, Whey Protein desmineralizado (PAL et al., 2013; PARNELL et al., 2015).

O WP concentrado é obtido através da filtração do soro do leite para concentrar a proteína, removendo parte da lactose, gordura e outros componentes. O WP isolado passa por um processo adicional de filtração para remover a maior parte da gordura e lactose, concentrando ainda mais a proteína. E o WP hidrolisado passa por um processo adicional de hidrólise, onde as cadeias de proteínas são quebradas em peptídeos menores e aminoácidos, facilitando a digestão e absorção (CORREIA et al., 2011). Proporcionando uma quantidade abundante de aminoácidos essenciais de cadeia ramificada, que auxiliam praticantes de atividade física no anabolismo e recuperação muscular (MARTINS, 2014).

Os aminoácidos mais abundantes do soro do leite são ácido glutâmico, valina, cisteína, leucina, isoleucina, lisina, que, do ponto de vista nutricional, são altamente necessários em todas as fases da vida, principalmente visando ao anabolismo (OLIVEIRA et al. 2015). A isoleucina, lisina e leucina são aminoácidos de cadeia ramificada, considerados essenciais, ou seja, precisam ser ingeridos por meio de dieta. (SHIMOMURA et al., 2006; TOM, 2006). Por apresentarem elevado valor biológico, as proteínas do soro do leite de vaca são consideradas imunomoduladoras, beneficiando o sistema autoimune do organismo humano (PEREIRA, 2014). Atletas, pessoas fisicamente ativas e até mesmo portadores de doenças, vêm procurando benefícios nessa fonte proteica (KRESSLER et al., 2014; DEVRIES et al., 2015).

Segundo Haraguchi, Abreu; De Paula (2006) e Pacheco (2005), o whey protein possui uma rápida digestão e absorção no organismo humano, o que acaba favo-

recendo um aumento da quantidade de aminoácidos de cadeia ramificada no plasma sanguíneo e, consequentemente, a realização da síntese proteica nos tecidos musculares. Na comercialização desses produtos, os rótulos são um meio de comunicação essencial para os consumidores, sendo necessárias informações claras e de fácil interpretação. Além de conter todas as informações necessárias para que o consumidor tenha ciência da qualidade do produto que está adquirindo, como por exemplo as características nutricionais. A RDC nº 18/2010 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) determina que o produto contenha, no mínimo, 10g de proteína na porção. Para o adequado benefício do consumo do WP é necessário que a quantidade ingerida seja de acordo com a dosagem recomendada para o determinado fim, assim as informações do teor de proteínas presentes na rotulagem nutricional se fazem necessárias. Desta maneira, estudos que avaliam a veracidade da alegação da quantidade dos nutrientes descritos nos rótulos se faz importante para garantir a segurança dos consumidores, segurança alimentar, confirmar os teores dos nutrientes da formulação do produto, além de contribuir para a qualidade de vida. Diante do exposto, o objetivo desse trabalho foi analisar o teor de proteínas totais em amostras de whey protein comercializadas em Recife-PE.

Metodologia

Foram selecionadas de maneira aleatória 5 amostras de Whey Protein em loja especializada em suplementos alimentares, localizada em Recife/PE. Como medida de proteção da identidade comercial das marcas dos produtos, foram ocultados os nomes das mesmas e utilizadas letras na ordem alfabética para identificação (A, B, C, D, E). As marcas selecionadas são vendidas em âmbito nacional, e apresentam em sua formulação o whey protein hidrolisada e isolada, concentrada e hidrolisada, hidrolisada e concentrada.

Para a determinação do teor de proteínas totais, foi utilizada a metodologia de Kjeldhal segundo as recomendações do Instituto Adolfo Lutz (2008). Este estudo ocorreu no período de setembro de 2023 a junho de 2024, onde de abril a maio de 2024 foram realizadas as análises de proteína pelo laboratório de bromatológica Eurofins do Brasil Análises de Alimentos Ltda Recife/PE. Os produtos

foram adquiridos em embalagens fechadas a vácuo tipo sachês de aproximadamente 30g, dentro do prazo de validade informado pelo fabricante e transportados imediatamente pelos pesquisadores em temperatura ambiente para o laboratório.

Todas as amostras foram submetidas aos testes em triplicata, no mesmo ambiente, temperatura e condições para evitar qualquer tipo de alteração, sendo recomendado pelo laboratório a identificação dos lotes de cada amostra, para um maior controle das análises.

Também será verificado se as porções das amostras de whey protein em sachê, estão em conformidade com a da RDC nº 18/2010 (BRASIL, 2010).

........ Resultados e Discussões ..........

estão em conformidade com o órgão regulador. Observa-se que nas 5 amostras analisadas, as porções recomendadas pelos fabricantes são diferentes, com variações entre 25g à 32g, o que pode dificultar a interpretação por parte dos consumidores pela ausência de padronização. Segundo a análise de Pessoa e Santana (2021) houve uma variação no teor proteico encontrado de 20g a 25g, estando todas também dentro do padrão permitido.

Os resultados encontrados quanto ao teor de proteínas totais das amostras de whey protein estão apresentados na Tabela 1 abaixo.

Os resultados encontrados quanto ao teor de proteínas por porção do produto estão de acordo com os parâmetros determinados pela ANVISA no artigo 8º da RDC nº 18/2010 (Brasil, 2010), que determina que o produto contenha, no mínimo, 10g de proteína na porção. Sendo assim, todas as amostras analisadas nesse estudo

No estudo realizado por Farias et al. (2019) que analisa a quantidade de proteína de diferentes marcas nacionais de whey protein, concentrado e isolado, bem como comparou os valores determinados com os dados apresentados nos rótulos desses suplementos a metodologia empregada foi adquirir 5 amostras de whey protein 100% concentrado e 5 amostras de whey protein 100% isolado, com o método de análise de quadriplicata semi-micro Kjeldahl. As amostras analisadas estavam de acordo com os aspectos da legislação brasileira relacionadas à quantidade de proteína na porção e na margem de tolerância de 20%.

Em relação ao teor de proteínas totais na porção do sachê conforme tabela nutricional, foram encontradas diferentes quantidades de proteína por porção, com uma variação de 20g a 25g. Contudo, ressalta-se que as amostras possuem tamanhos de porções diferentes, o que influencia na quantidade de proteínas totais.

Nesse sentido, as variações encontradas entre os valores de nutrientes apresentados nas tabelas nutricio-

Teor de proteínas totais na porção do sachê conforme tabela nutricional

Teor de proteínas totais encontrados nas análises da porção

Diferença em percentual do teor de proteínas declarado no rótulo com o analisado

Teor de proteína em 100 g do produto analisado

Sabores das amostras de whey protein Baunilha Chocolate branco Cacau Chocolate com avelã Doce de leite

Fórmulas de whey protein

TABELA 1- Teor de proteínas totais encontrados nas amostras de whey protein comercializadas em Recife-PE.

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FIGURA 1: Comparação entre o teor de proteínas declarado no rótulo e o valor encontrado nas análises.

nais de whey protein das amostras analisadas e os valores proteicos encontrados na presente pesquisa estão dentro da previsão normativa da ANVISA, porém todas as tabelas nutricionais apresentam erros, o que pode gerar problemas dietéticos para treinadores e nutricionais. Oliveira et al. (2015) verificou que a concentração de proteína atingiu um valor 82,72% em 100g da amostra de acordo com a tabela nutricional, entrando em contraposição com o resultado obtido na análise, em que 67,42% foi o valor encontrado, portanto uma diferença de 15,3%. A conclusão do seguinte estudo também mostrou divergência entre os valores apresentados nos rótulos e os encontrados na análise laboratorial.

Nos resultados de Pessoa et al. (2021), que analisou o teor de proteína das amostras de whey protein isolado comercializado sob a forma de sachês observou-se que houve variação no teor de proteína de todas as amostras, no entanto, destacaram-se as marcas C e D, com valores inferiores aos descritos no rótulo do produto comercializado.

Com relação ao teor de proteínas totais encontrados nas análises da porção por produto, foi verificado uma variação entre 19,16g e 25,16g, nas amostras C e B respectivamente. Nas amostras A e D, os resultados encontrados foram semelhantes, mesmo a porção do produto D sendo

maior do que a do produto A.

Essas informações reforça a importância da participação dos profissionais de nutrição na construção das normativas reguladoras que compõe o artigo 8º da RDC nº 18/2010 (Brasil, 2010), para a melhor padronagem da tabela nutricional e menores discrepâncias ao que tange os valores apresentados.

Observa-se na Figura 1 os resultados da comparação do teor de proteínas declarado no rótulo com o analisado.

Comparando-se o teor de proteínas declarado no rótulo com o analisado, observou-se que nas amostras A, C, D e E os valores declarados nos rótulos foram maiores do que os encontrados nas análises. Com isso, as variações em percentual dessas amostras foram negativas com destaque para as amostras D e E, que apresentou a maior variação negativa com -12,93% de diferença, e a menor variação negativa com – 0,34%, respectivamente. Ou seja, o valor declarado no rótulo é maior ao encontrado na análise.

Por outro lado, a diferença em percentual do teor de proteínas declarado no rótulo com o analisado apresentou variação positiva na amostra B, com valor de 0,64%. Ou seja, o valor declarado no rótulo é inferior ao encontrado na análise.

De acordo com a Figura 1, que compara o teor de proteínas encontrado nas amostras com o teor declarado pelo fabricante nas informações nutricionais, e os resultados demonstrados, explicada nos parágrafos anteriores, os valores declarados pelos fabricantes nos rótulos das amostras de whey protein podem apresentar diferenças proteico com relação ao teor realmente encontrado nos produtos, contudo a variação está de acordo com as normas da ANVISA, que admite uma tolerância de 20% com relação à precisão das informações nutricionais das rotulagens de produtos fabricados no Brasil (BRASIL, 2003).

Analysis of Total Protein Content in Whey Protein Samples Sold in Recife-PE

A análise comparativa entre o teor de proteínas declarado nos rótulos e o analisado nas amostras A, C, D e E revelou disparidades, com os valores declarados sendo maior do que os encontrados nas análises. As amostras D e E destacaram-se com variações percentuais negativas de -12,93% e -0,34%, respectivamente, indicando que os valores declarados nos rótulos eram superiores aos reais.

Essas diferenças ressaltam a importância da precisão das informações nos rótulos dos alimentos para os consumidores. Assim, é necessário o aprimoramento dos métodos de análises em relação à tabela nutricional e uma maior vigilância e participação dos nutricionistas na construção das RDC em relação ao que é ofertado aos consumidores pelos fabricantes, sendo difícil os cálculos de consumo diário de proteína para planejamentos nutricionais. Além disso, para as pessoas leigas pode causar confusão em relação a quantidade de gramas necessárias para atingir a oferta de proteína diária. Mesmo todas as amostras apresentando valores acima do estabelecido pelo órgão regulador. Sendo necessário mais estudos analíticos sobre o assunto.

Arnon Tertuliano Roque; Sara Andrade DinizEstudantes de Nutrição da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS), Recife-PE.

Profa. Fabiana Lima de Melo - Docente de Nutrição da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS), Recife-PE.

Sobre os autores

Profa. Cibele Maria de Araújo Rocha - Docente de Nutrição da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS), Recife-PE.

PALAVRAS-CHAVE - Proteínas do soro do leite. Suplementos nutricionais. Rotulagem alimentos.

KEYWORDS - Whey proteins. Dietary supplements. Food labeling.

RECEBIDO: 10/11/25 – APROVADO: 11/12/25 ........................................................

REFERÊNCIAS

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Técnicas Gastronômicas Le Cordon Bleu: Rubacão

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Ingredientes

Carne de Sol

120 g de sal grosso

600 g de miolo de alcatra

Manteiga clarificada

Rubacão

200 g de feijão-verde

Manteiga Clarificada

80 g de bacon

1 cebola roxa

2 dentes de alho

1 pimentão amarelo

1 pimentão vermelho

2 pimentas de cheiro

2 talos de coentro (sem folhas)

2 tomates

200 g de arroz vermelho

Água do cozimento do feijão

200 g de nata

Sal

Pimenta do reino preta

Manteiga de garrafa

Tuile

80 ml de água

10 g de farinha de trigo

20 ml de azeite de oliva

Finalização

100 g de queijo coalho

Cebolinha francesa

Brotos de coentro

1. No dia anterior ao preparo, forre o fundo de uma travessa com metade do sal grosso e acomode a peça de alcatra. Em seguida, espalhe o restante do sal grosso sobre a carne, cubra com filme de PVC e leve à geladeira por 24 horas.

2. Após esse tempo, passe rapidamente a carne em água corrente para retirar o excesso de sal. Corte em cubos de 1 cm.

3. Aqueça uma frigideira antiaderente grande em fogo alto com um fio de manteiga clarificada e frite os cubos de carne de sol até dourarem. Reserve.

4. Coloque o feijão-verde em uma caçarola média funda, cubra com água e leve ao fogo médio. Assim que levantar fervura, abaixe o fogo e cozinhe até o feijão ficar al dente (cerca de 10 minutos). Escorra e reserve a água do cozimento.

5. Na mesma caçarola, coloque um fio generoso de manteiga clarificada, adicione o bacon picado finamente e frite até dourar. Se o bacon soltar muita gordura, retire o excesso. Coloque a carne de sol preparada, a cebola e o alho picados finamente, os pimentões e a pimenta sem sementes picadas em cubos menores e o coentro picado finamente e refogue, sem deixar dourar. Adicione os tomates sem sementes cortado em cubos menores e refogue rapidamente por 2 minutos.

6. Em seguida, acrescente o arroz e o feijão já cozidos e um pouco da água do cozimento do feijão em quantidade suficiente para umedecer o preparo. Adicione a nata e mexa bem até formar um preparo cremoso e úmido. Tempere com sal e pimenta-do-reino, finalize com um fio generoso de manteiga de garrafa e reserve.

7. Em uma tigela, misture a água com a farinha e o azeite. Aqueça uma frigideira antiaderente pequena em fogo médio e, com uma concha pequena, coloque uma porção de massa para fazer uma só tuile. Deixe a massa fritar. Quando a água evaporar, a massa vai ganhar uma aparência de rede. Nesse momento, retire-a da frigideira e acomode em um recipiente forrado com papel-toalha para secar o excesso de gordura.

8. Enquanto a tuile ainda estiver quente, passe-a para um rolo de abrir e corte ao meio com uma faca bem afiada. Reserve.

9. Aqueça uma frigideira antiaderente pequena em fogo alto e, quando estiver bem quente, grelhe dois opostos dos cubinhos de queijo de coalho. Vire-os e prossiga o processo até dourar um lado por vez. Reserve.

10. Em pratos fundos, acomode uma porção de rubacão e acrescente os cubos de queijo de coalho.

11. Delicadamente, posicione a metade da tuile em um lado do prato, sem deixar tocar na comida para não derreter. Decore com a cebolinha francesa e os brotos de coentro.

Sobre o autor

Chef Patrick Martin - Executive & Technical Director Le Cordon Bleu Anima

PALAVRAS-CHAVE - Ovo. Linguiça toscana. Carne seca.

KEYWORDS – Eggs. Tuscan sausage. Jerky. ........................................................

RECEBIDO: 10/9/2025 – APROVADO: 10/10/2025 .......................................................

REFERÊNCIAS

“L’École de la Pâtisserie” - Le Cordon Bleu® institute - Larousse.

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