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nova perspectiva
EDIÇÃO ANTROPOCENO - MARÇO 2025
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nova perspectiva
EDIÇÃO ANTROPOCENO - MARÇO 2025

Especialista aponta que a exposição de crianças à violência doméstica representa um fator de risco para o desenvolvimento emocional, psicológico e comportamental.
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Com as mudanças no comportamento de atenção da sociedade, figuras políticas usam as redes sociais como plataforma de promoção, por meio de estratégias digitais e tradicionais para alcançar e conquistar sua base eleitoral em poucos segundos.
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Arquitetura influencia a saúde da população no Brasil
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Crise climática ameaça a soberania alimentar no Brasil
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Nas últimas eleições, discursos e estratégias sedutoras contribuíram para o crescimento do número de jovens favoráveis a ideias conservadoras. O sentimento de frustração com a política tradicional colabora para a propagação do fenômeno.
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Avanço do agronegócio alimenta retrocesso ambiental no Brasil
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População de baixa renda é a mais afetada pelo calor extremo
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Com uma rigorosa apuração e preservando a ética jornalística, o jornal-laboratório NoEntanto, produzido pelo segundo período do curso de Jornalismo, da Universidade Federal do Espírito Santo, oferece sublimes informações e incentiva o pensamento crítico por parte de seus leitores. Na segunda edição do meio impresso, o veículo optou por adotar pautas ligadas ao conceito de Antropoceno, que se refere a uma dimensão temporal caracterizada pelo impacto significativo e abrangente das atividades humanas no sistema terrestre.
Tais modificações podem impulsionar inúmeras crises, sendo elas ambientais e/ ou sociais. Como exemplo, na atualidade, destacam-se as drásticas mudanças climáticas, crise hídrica, insegurança alimentar, números crescentes relacionados aos tipos de violência, entre outros.
Devido à gravidade dessas problemáticas, é essencial que um jornal como este, que considera os critérios de noticiabilidade e entende a importância do papel jornalístico para os cidadãos, dê visibilidade ao tema do Antropoceno a partir de fatos ocorridos na sociedade. O exercício de olhar
para acontecimentos dentro desse contexto contribui não só para quem consome o conteúdo investigado e produzido, mas também para os próprios estudantes que buscam percebê-los e questioná-los.
Além disso, por se tratar de um ambiente acadêmico, os discentes possuem maior liberdade em expressar suas escolhas nas definições de pautas e desenvolver a criatividade em seu momento de apuração e escrita, já que não estão limitados a interesses comerciais, como pode ocorrer em veículos do mercado afora.
Portanto, os aspectos relacionados às temáticas das pautas e o contexto em que o jornal está inserido refletem consideravelmente no desenvolvimento jornalístico e contribuem para a construção de uma sociedade, sobretudo capixaba, que detém informações verdadeiras e apuradas para, a partir delas, formar opiniões e modificar atitudes, confirmando a importância do verdadeiro Jornalismo na vida dos indivíduos. Mas, quando se trata de um produto elaborado por estudantes de uma universidade pública, sua relevância se torna ainda maior.

Editores
Beatriz Antony Roth, Nathalya Reis, Pedro Rocha, Rubi conde, Lorenna Lyra, Layna Cruz, Izabelle Sampaio, Carla Dias, Beatriz Horst
Conselho Editorial
Cristal Esteves Peixoto, Pedro Rocha Gonçalves, Raíssa Cruz Barbosa, Tales Livramento Anjos, Pollyana de Cássia dos Santos Pereira, Luisa Aires Leal Arêas, Pedro de Melo Pagotto, João Henrique Guimarães da Cruz, Izabelle Sampaio Rampinelli Ferreira, Ana Maria de Souza Vasques, Priscila Sales Borges, Layna Silva Cruz, Pablo Henrique da Silva Rocha, Thayná Bahia Barbosa Simões, Rubi Conde Ferreira, Emilleny Ferreira Caldeira, Lavínia Gallardo Pires Feregueti
Repórteres
Ana Maria de Souza Vasques
Arthur Marques Pereira Lopes
Beatriz Horst Martins
Beatriz Pereira Silva
Carla Eduarda Dias do Carmo
Carla Magiero Sacconi
Cristal Esteves Peixoto
Davi Gomes de Souza
Emilly Rodrigues Gonçalves
Felipe Pinheiro de Oliveira
Izabelle Sampaio Rampinelli Ferreira
Joao Henrique Guimaraes da Cruz
João Victor Bassini e Silva
Kezia Franca Vieira
Lavinia Gallardo Pires Feregueti
Lavinia Ramos Da Silva
Layna Silva Cruz
Leonardo Lucas Gomes de Melo Cardoso
Lorenna Soneghetti Lyra
Luisa Aires Leal Areas
Maria Eduarda Teixeira Guedes
Maria Julya Da Costa Carvalho
Monique Ferreira De Oliveira
Pedro Rocha Gonçalves
Pollyana De Cassia Dos Santos Pereira
Priscilla Sales Borges
Rafaella Porto Da Luz
Raissa Cruz Barbosa
Tales Livramento Anjos
Thalita Tirza Sampaio
Thayna Bahia Barbosa Simões
Yasmin Paraguassu Coutinho Ferreira da Silva
Professor Responsável
Rafael Bellan
Diagramação
Ana Maria de Souza Vasques
Pedro Rocha Gonçalves
Pedro de Melo Pagotto
Priscila Sales Borges
No Entanto é um jornal laboratório produzido por estudantes do segundo período do curso de jornalismo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Endereço Av. Fernando Ferrari, 514, Cemuni V, Campus Universitário de Goiabeiras, Vitória, 29075-910

O uso do Tik Tok e Instagram se torna ferramenta importante nos mandatos e candidaturas no Brasil
Com as mudanças no comportamento de atenção da sociedade, figuras políticas usam as redes sociais como plataforma de promoção, por meio de estratégias digitais e tradicionais para alcançar e conquistar sua base eleitoral em poucos segundos.
Segundo relatório anual de 2024 do Instituto Reuters, vídeos curtos veiculados nas redes sociais são a principal fonte de informação dos jovens, à frente da mídia tradicional. Esse consumo massivo criou a necessidade de adaptação nas mais diversas áreas do marketing, incluindo o político. O especialista em marketing e inteligência artificial Rafael Leão indica que campanhas eleitorais passaram a investir cada vez mais em estratégias digitais.
“Os jovens não assistem mais TV aberta com a mesma frequência e preferem conteúdos curtos e impactantes no Tik Tok, Instagram e YouTube”, aponta Leão. Os políticos como o governador do estado, Renato Casagrande, e o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, têm usado seus perfis no Instagram para ter uma comunicação direta com o público. O governador possui 331 mil seguidores no Instagram, cerca de 8% da população capixaba, segundo o número de habitantes divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística no último censo. Os posts em seu perfil mostram vídeos de receitas culinárias, visitação de restaurantes e prática de esportes, mas também apresenta conteúdos já esperados pela política tradicional, como estar

acumulam milhões de seguidores no TikTok.
ao lado da família e sua agenda política habitual.
Entretanto, o cenário no Espírito Santo não se iguala ao de outros estados, como a recente ascensão do prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga, que viralizou a partir de seus vídeos no Tik Tok. Seus conteúdos se apresentam de forma exagerada e tendenciosa, com propostas que não condizem com a realidade, como o caso de estudantes não pagarem mais a passagem de ônibus, o vídeo foi feito com uma encenação chamativa já nos primeiros segundos. Ele possui aproximadamente três vezes mais seguidores que a quantidade

da população de Sorocaba, segundo o último censo do IBGE, dada a tamanha viralização, com seguidores de vários estados do Brasil. De acordo com o cientista político Charle Nunes, muitos governantes criam campanhas descontraídas a fim de chamar a atenção e, por muitas vezes, apresentam propostas que não necessariamente são fundadas na realidade. Essas têm como objetivo transformar os poucos segundos de atenção que recebem dos eleitores em engajamento, sendo o maior desafio transformar esses números em votos, construindo uma base sólida de apoiadores, o que não ocorre com tanta facilidade, como explica Rafael Leão.
A eleitora Laysa Serra diz que a presença diária do candidato na rede social dela por meio de vídeos foi o motivo de ter votado nele. “Em nossa atual sociedade, a atenção que antes era de 5 minutos, 4 minutos, hoje reduziu para apenas 30 segundos”, aponta o bacharel em Comunicação Igor Oliveira. Dessa forma, estratégias de retenção de engajamento são utilizadas, visto que o capital da atenção é um dos mais importantes na sociedade atual, pontua Oliveira.

O projeto estuda estratégias de redução dos riscos ambientais para a população capixaba.

Pesquisador da UFES alerta que as regiões litorâneas serão as mais atingidas pelas mudanças climáticas.
O plano de adaptação às mudanças climáticas do Espírito Santo, em desenvolvimento pelo governo do Estado, tem sua segunda versão prevista para ser anunciada no primeiro trimestre de 2025. A proposta analisa os possíveis problemas ambientais, agravados pela crise climática global, e seus impactos na população. Ao todo, são indicados 19 projetos estratégicos a serem abordados e estipula-se um investimento de 620 milhões de reais.
O desenvolvimento do plano é capitaneado pelo governo do Estado em parceria com o Instituto de Estudos Climáticos da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). A proposta procura integrar projetos políticos já existentes e identificar as lacunas e necessidades da região capixaba frente aos impactos ambientais. O órgão também ampliou o Fundo CidadES, uma ferramenta de apoio financeiro prestado aos municípios, para assegurar os recursos aos programas de mitigação e adaptação das cidades.
O plano busca entender e solucionar os problemas enfrentados pela crise climática no Espírito Santo. As estratégias destacam os impactos ambientais, como alagamentos, deslizamentos e elevação
do nível do mar, que podem se intensificar devido ao crescimento urbano desordenado e à ocupação populacional dentro de áreas que vão de baixo a alto risco.
A professora e pesquisadora do departamento de geografia da UFES Amanda Christina Gimenes explica a existência do Plano Diretor Municipal (PDM), responsável por todas as diretrizes de crescimento da cidade, e do Plano Diretor Municipal Sustentável (PDMS), que se encarrega da criação de áreas de proteção ambiental e unidades de conservação. Esses planos criam uma divisão entre os locais de perímetro rural e urbano e monitoram a ocupação deles, que dependem do legislativo para decidir se os habitantes precisam ser remanejados ou não.
“Tirando Serra, Vitória, Vila Velha e agora Cariacica, que já está fazendo também o seu geobases - ferramenta de transparência ativa das entidades que atuam no Espírito Santo - outros municípios você não encontra informação espacial com facilidade”, afirma Gimenes.
Para o pesquisador do Laboratório de Geomorfologia e Gestão de Redução de Riscos de Desastres da UFES, Pablo de Azevedo Rocha, os PDMs existentes não
levam em consideração o aumento do nível do mar em regiões costeiras. “Se você não faz um planejamento, o quanto está a maré subindo, em média, no estado? A um milímetro? Dois milímetros por ano? Você pega um momento de maré muito alta e precipitação muito alta. Não escoa a água em Vila Velha”, exemplifica.
Segundo Rocha, a falta de planejamento adequado pode agravar desastres, especialmente em municípios com pouca infraestrutura. A erosão do solo, impulsionada por fatores como desmatamento e expansão urbana, também é apontada como um problema. O pesquisador destaca a necessidade de fortalecimento da comunicação de risco, já que a ausência de informações claras e objetivas pode comprometer a segurança e integridade das populações que vivem nesses locais. A influência da atividade humana na natureza tem se intensificado na parte climática. Gráficos comprovam que os níveis de CO2 na atmosfera passaram por uma subida acentuada e acelerada a partir de 1950, ao contrário dos índices de biodiversidade, que vivenciaram uma queda a partir desse mesmo ano.
Para Rocha, futuramente, as dificuldades geradas pelo aquecimento global afetará a população vulnerável e até pontuais áreas de produção de alimentos. As estratégias de adaptação e redução de riscos são consideradas recursos tomados pelos humanos a fim de frear algumas consequências.
Apesar de todas as problemáticas citadas, um dos grandes desafios enfrentados é convencer a Prefeitura que existe a necessidade de um quadro de profissionais qualificados, independente de eleições futuras. “Se você não conhece as informações especializadas, você não consegue desenvolver os estudos”, acrescenta a pesquisadora Gimenes.

O crescimento do agronegócio brasileiro intensifica desafios ambientais, como desmatamento, uso de agrotóxicos e escassez hídrica.
O agronegócio brasileiro é frequentemente mencionado como um setor de grande participação na economia nacional. Por trás dos recordes de produção e exportação, o impacto ambiental e social das práticas agrícolas em larga escala constroem uma realidade preocupante. O desmatamento, o uso intensivo de agrotóxicos e a exploração descontrolada dos recursos naturais aceleram a crise climática, contribuindo para a perda de biodiversidade, a escassez hídrica e o aumento das emissões de carbono.
O Brasil se destaca negativamente no cenário global quando o assunto é desmatamento. Dados do MapBiomas revelam que, em 2021, 97% da destruição da vegetação nativa no país teve origem em atividades do agronegócio. Esse avanço libera grandes quantidades de CO2 na atmosfera, agravando o efeito estufa e acelerando as mudanças climáticas.
A professora de Ecologia da Universidade Federal do Espírito Santo Luciana Thomaz reforça que os impactos ambientais dessas atividades são devastadores. Alguns estudos demonstram que os pesticidas, fertilizantes químicos e agrotóxicos de modo geral estão levando muitas espécies à extinção. O gerente de Dados e Análises da Secretaria de Estado da Agricultura do Espírito Santo, Danieltom Barbosa explica que os impactos já são visíveis na cafeicultura capixaba. “A gente percebe uma redução da produtividade porque as chuvas estão mais irregulares, e as temperaturas mais altas comprometem a florada e a frutificação do café”, conta. Isso mostra como o próprio setor agrícola pode ser prejudicado pelas mudanças climáticas que ele mesmo ajuda a impulsionar. devido aos seus riscos ambientais e à saúde humana. Os pesticidas não apenas contaminam o solo e os lençóis freáticos, mas também afetam a biodiver-

O cultivo do café em larga escala reflete a força do agronegócio no Brasil, mas também levanta questões sobre o uso
sidade. “O agronegócio é o principal responsável pela crescente escassez hídrica, pelo avanço da fronteira agropecuária e pelo uso cada vez mais intensivo do solo, resultando na perda de sua riqueza biológica.”, alerta Thomaz.
A expansão das fronteiras agrícolas também tem gerado conflitos territoriais com comunidades indígenas e quilombolas. Muitas dessas populações vivem há séculos em harmonia com a natureza, praticando formas sustentáveis de agricultura e extrativismo. Contudo, o avanço da monocultura e da pecuária intensiva tem resultado em expulsões forçadas, degradação ambiental e ameaças à segurança alimentar desses grupos.
O desmatamento e a destruição de nascentes impactam diretamente essas comunidades. “O aumento da temperatura exige maior uso de irrigação, elevando os custos de produção”, explica Danieltom Barbosa Se o agronegócio enfrenta dificuldades com a falta de água, pequenos agricultores que dependem diretamente
dos rios e das chuvas para sobreviver podem sofrer impactos ainda maiores. Diante desse cenário alarmante, algumas iniciativas tentam minimizar os danos. O Incaper, por exemplo, desenvolve cultivos mais resistentes ao estresse hídrico e ao calor, enquanto treinamentos são oferecidos para incentivar práticas agrícolas mais sustentáveis, como o manejo conservacionista do solo. Ainda assim, especialistas alertam que essas medidas não são suficientes se o desmatamento continuar no ritmo atual e se políticas públicas não forem reforçadas para proteger comunidades vulneráveis. Para Luciana Thomaz, é fundamental que o país adote medidas mais rígidas para conter os impactos ambientais do agronegócio. É importante ressaltar que é de extrema importância, cobrar mais responsabilidade por parte dos órgãos responsáveis. Devido a falta de fiscalização e punição mais rigorosa para os infratores, a impunidade encobre os rastros de destruição do meio ambiente.


Desidratação pode provocar sérios problemas de saúde a quem se expõe ao calor intenso.
Altas temperaturas ameaçam a saúde da pele e o bom funcionamento do corpo
Um estudo produzido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), juntamente com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Universidade de Lisboa revelou que no período de 2000 a 2018 houve quase 50 mil mortes no Brasil causadas pelas ondas de calor intenso. Dentre os mais afetados, estão as pessoas abaladas pelas desigualdades demográficas e econômicas. Elas são as mais sujeitas a sofrerem com as consequências na saúde, visto que carecem de recursos para amenizar os impactos das altas temperaturas
Sabe-se que após o período estudado, a situação piora gradativamente. No início de 2025, a Organização Meteorológica Mundial (em inglês, WMO) divulgou que 2024 foi
o ano mais quente da história desde 1850, e as médias sobem a cada mês. Os números apontam temperaturas além do que os seres humanos já tiveram experiência, e o modo de lidar com o calor excessivo é diferente para as diversas camadas da sociedade. Enquanto alguns possuem condições de amenizar a situação com ar-condicionado em casa, ou em trabalho com ambiente climatizado, outras pessoas não podem sequer pagar a conta de energia depois de horas com o ventilador ligado. Em uma enquete online produzida pela equipe do No Entanto, buscou-se entender a realidade da população diante dos períodos de calor extremo. Diante das 88 respostas recebidas, mais de 50% das pessoas possuem apenas ventilador em
casa, dificultando o enfrentamento do calor, já que elas não possuem um aparelho de ar-condicionado. Na enquete, observa-se que o uso do protetor é feito pela maioria, porém, 10% não o utilizam por conta do alto valor, colocando em risco a sua saúde. Além disso, quando questionados quais eram as principais consequências que o calor provoca, os mais destacados foram dor de cabeça, tontura, desmaios frequentes e fraqueza, além de uma forte oscilação da pressão arterial. O uso de protetor solar é uma questão de saúde básica, algo essencial em situações de exposição ao sol. A saúde humana, diante dessas condições, é um fator que necessita de atenção redobrada, principalmente a de quem fica exposto aos

raios solares durante o dia. A entregadora de cartas Mariana Santana comenta que, na empresa em que ela trabalha, são oferecidos aos funcionários alguns equipamentos de proteção como óculos de sol, chapéus e até mesmo o protetor solar. Além disso, ela sempre carrega água. Um fator que Mariana ressalta é que seus uniformes não são muito confortáveis nos dias de calor pois não são leves.
Em seu trajeto para o trabalho, a entregadora utiliza o transporte público e relata experiências insatisfatórias. “Os ônibus com ar são poucos, além de sempre estarem cheios”, reforçando que a logística e a qualidade dos ônibus deveria ser melhorada para atender bem a todos.
Luciana Caitano trabalha em um hospital e também disse que tem uma péssima experiência sempre que utiliza o transporte coletivo. “Pagamos uma passagem tão cara e sofremos com a superlotação
e o ar condicionado que não funciona”. Já em casa, ela conta que para enfrentar o calor está sempre vestindo roupas leves e confortáveis, bebendo muita água e utilizando por muito tempo o ventilador. “A ganância do homem em querer ficar rico acabou com tudo”, desabafa.
A dermatologista Thainá Grassi alerta sobre os riscos que a exposição ao calor extremo e à radiação UV (ultravioleta) sem a devida proteção pode causar danos cumulativos à pele, chamados fotodanos. “A longo prazo, os principais riscos incluem o envelhecimento precoce, aparecimento de manchas e aumento da incidência de câncer de pele. Além disso, condições como melasma e rosácea tendem a se agravar, exigindo cuidados contínuos”, comenta a profissional.
Ela aponta que nos últimos anos houve um aumento significativo de pacientes com doenças dermatológicas devido ao calor extremo e poluição, que agravam con -
dições como dermatite atópica, melasma e acne. Em contrapartida, a busca por conscientização sobre os cuidados também foi impulsionada, principalmente pelo fácil acesso das informações nas redes sociais. Em relação ao perfil dos pacientes que procuram tratamento ou cuidados, a maioria são mulheres na faixa etária dos 20 aos 40 anos de idade.
Quando questionada sobre as formas de se proteger do calor, Grassi elege o uso diário de protetor solar, hidratação adequada e acompanhamento dermatológico regular como as melhores maneiras de minimizar esses impactos. “É importante realizar campanhas de conscientização sobre fotoproteção, incentivo ao uso de protetor sendo acessível em locais públicos e ampliação do acesso a atendimentos dermatológicos no SUS”, ela complementa, sobre a participação do poder público para a promoção da saúde da pele.

Cresce o uso de leques e guarda-chuvas como alternativa para amenizar o calor.

EDIÇÃO ANTROPOCENO, MARÇO 2025
Especialista aponta que a exposição de crianças à violência doméstica é um fator de risco para o desenvolvimento emocional, psicológico e comportamental.
A violência contra a mulher é de fato um dos problemas sociais e públicos que cresce cada vez mais agressivamente em todo o país. De acordo com um levantamento apontado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) junto com o Instituto Datafolha, nos últimos 12 meses mais de um terço das brasileiras sofreram algum tipo de violência, é o maior volume de casos medidos pela pesquisa desde seu lançamento no ano de 2017.
No Espírito Santo o número de casos torna-se cada vez mais alarmante, fechando o ano de 2024 com mais de 23 mil casos notificados de violência doméstica, de acordo com dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (SESP), o Estado carrega uma média de 60 agressões diárias.
No entanto, não são necessárias muitas pesquisas para constatar um problema que faz parte do dia a dia de muitas mulheres, problema este, enraizado na sociedade patriarcal e suas relações de poder desiguais constituídas dentro e fora de suas casas. Na rotina, as mulheres não são as únicas afetadas, no meio de toda a confusão estão as crianças, filhas e filhos dessas vítimas que convivem de perto com tamanhas agressões.
Para Evelane Costa Santos, psicóloga formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), com experiência na política de assistência social, os índices de feminicídio no Espírito Santo, com 38 vítimas do ano de 2024, conforme informações da SESP, refletem uma crise estrutural no ambiente familiar e social, ele reforça também, que a violência de gênero demanda uma análise profunda dos fatores que a causam.
É o caso do metalúrgico Wagner da Vitória, ele relata que durante a infância as agressões contra a mãe eram rotineiras, mas mesmo sofrendo, a mãe fazia de tudo para proteger as crianças. Ele conta também, que sempre que presenciava um ataque, sentia muita raiva, desenvolvendo consequentemente problemas neurológicos devido ao estresse, necessitando de acompanhamento durante anos.

“Na maioria das vezes, meu pai chegava embriagado e agredia minha mãe. Caso retornasse do trabalho e não encontrasse os filhos em casa, ele nos punia fisicamente sem qualquer justificativa.”
Wagner
A psicóloga também destaca que, a exposição de crianças à violência doméstica e ao feminicídio representa um fator de risco significativo para o desenvolvimento emocional, psicológico e comportamental. Quando inseridas nesses ambientes, essas crianças podem desenvolver moldes de apegos
inseguros, impactando diretamente em sua capacidade de estabelecer vínculos saudáveis ao longo da vida.
“Comportamentalmente, essas crianças podem manifestar hipervigilância, reações de sobressalto exacerbadas e um comportamento inibido no que diz respeito à exploraçãoe ao brincar, elementos fundamentais para o desenvolvimento socioemocional”, afirma Evelane. Além disso, a especialista expõe que padrões de desenvolvimento de crenças distorcidas sobre responsabilidade e culpa podem internalizar sentimentos prejudiciais às vítimas, perpetuando ações de violência.


A diminuição do metro quadrado das casas pode aumentar o sentimento de solidão dos moradores.

Apartamentos compactos se tornaram tendência entre os jovens, mas a vivência é mais difícil do que parece.
De acordo com dados da Organização Meteorológica Mundial, a temperatura global em 2024 ficou 1,6°C acima da temperatura na era pré-industrial, o que ultrapassa os 1,5°C previstos para ser alcançado somente em 2030. Além do aumento do calor, a sociedade vive uma era marcada pelo crescimento do consumo, que se intensificou com a pandemia. Informações da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo mostram que, em 2020, 61% dos clientes de compras online passaram a comprar mais devido à quarentena.
Junto a essa série de fatores, a arquitetura dos domicílios também é afetada. Um estudo sobre as cozinhas de São Paulo entre 2000 a 2010, da arquiteta Sandra Regina Escridelli, relaciona a diminuição do projeto arquitetônico das cozinhas com o aumento do consumismo e, consequentemente, dos problemas de saúde. Nos anos 2020, essas cozinhas compactas também influenciaram no crescimento dos pedidos de comida por aplicativo. “Cozinhas compactas podem te limitar a fazer refeições diferentes, como usar o forno ou algo mais elaborado, e o delivery surge como solução”, afirma o estudante de arquitetura e urbanismo, Samuel Gomes.
No entanto, a questão não se limita apenas às cozinhas. O design de muitos imóveis contemporâneos com metragens reduzidas têm impactos significativos na saúde mental dos moradores. Segundo o psicanalista Lucas Fraga, a diminuição do espaço físico em condomínios fechados, por exemplo, contribui para o isolamento social, criando um ambiente onde as relações externas ficam limitadas, o que prejudica a sociabilidade e aumenta a sensação de insegurança.
Fraga faz uma conexão com a teoria do psicanalista brasileiro Christian Dunker, discutindo a lógica do condomínio e como a segregação imposta por esses espaços fechados afeta diretamente as relações sociais. “Quem tá dentro do muro é quem é seguro, são aqueles que a gente conhece. Essa lógica faz que, de alguma maneira, a pessoa entenda que só essas pessoas vão dar segurança para eles. Todo mundo fora do muro é perigoso”, cita Fraga.
Além dos condomínios fechados, outro modelo de moradia que também contribui para o isolamento social e o consumismo exacerbado é a ‘kitnet’, também conhecida como flat. Pessoas que vivem neste tipo de
moradia acabam sendo condicionadas pela falta de espaço em sua residência. “Esse sentimento de isolamento é comum quando se passa muito tempo dentro de uma casa pouco espaçosa”, conta o estudante Keniu Barcelos, que mora em um espaço nesse formato. Além disso, ele também afirma que esse sentimento de isolamento é acompanhado pela necessidade do consumo, especialmente de itens para casa, na tentativa de preencher o espaço de sua residência. O isolamento social e o consumismo exacerbado agravados pela arquitetura na dinâmica atual de moradias torna a relação da humanidade com o mundo ao seu redor cada vez mais complexa, desde o sentimento de medo dos que estão “fora dos muros” como citado por Lucas Fraga até a falta de conforto no próprio domicílio, no cWaso de Keniu.

A proporção de pessoas que moram em apartamentos cresceu de 7,6% em 2000 para 12,5% em 2022 um aumento de quase 5 pontos percentuais em 22 anos

Estima-se que 40% dos brasileiros tem o hábito de pedir comida via delivery

Os alimentos estão cada vez mais inacessíveis, de acordo com o economista André Braz, esse setor consome cerca de 22% do orçamento das famílias de renda entre 1 e 1,5 salário mínimo.
A alta no preço dos alimentos e o avanço do consumo de ultraprocessados refletem um cenário alarmante para a soberania alimentar. No contexto do Antropoceno, a crise climática e o modelo agrícola voltado à exportação agravam a insegurança alimentar entre as classes mais vulneráveis. No Espírito Santo, a agricultura familiar enfrenta a falta de incentivos e os impactos das mudanças climáticas, enquanto os alimentos se tornam cada vez mais inacessíveis.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) divulgado no início de 2025 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) atestou a alta noreço dos alimentos naturais, como a alface que teve aumento de 1,15%, a cebola com 4,78% e o tomate com 17,12%., O avanço do consumode ultraprocessados reflete um problema alarmante e estrutural na alimentação dos brasileiros sob impacto da economia e da crise climática
No Espírito Santo, esse cenário se repete e é agravado pelo modelo econômico que privilegia o agronegócio voltado para exportação. Já a agricultura familiar enfrenta dificuldades de acesso ao mercado e políticas de incentivo. A produção em pequenas propriedades é a principal responsável pela produção dos alimentos que chegam à mesa dos capixabas. Além desses desafios, a agricultura familiar sofre com os impactos da crise climática, que reduz a produção e, consequentemente, eleva os preços. Segundo o agricultor Milcon Gentil, as alterações climáticas têm impactado diretamente a colheita. “O clima está mudado. Você prevê algo e não é como você imaginou, então não fazemos uma colheita boa como fazíamos”. Para ten -

Agricultura familiar é um caminho para combater a crise climática e garantir alimentos saudáveis à população.
tar conter essa alta, o governo federal anunciou, em 5 de março de 2025, a prorrogação da isenção de impostos da Lista de Exceções à Tarifa Externa Comum do Mercosul (LETEC) para nove produtos essenciais, como carnes, café, milho e azeite.
Mesmo com essas medidas, em muitos dos casos os preços de alimentos mais saudáveis e nutritivos acabam acima do orçamento de muitas famílias. De acordo com o estudo do economista André Braz, coordenador de Índices de Preços da FGV, os alimentos já consomem mais de 22% do orçamento das famílias de renda mais baixa (com renda de 1 a 1,5 salário mínimo).
Dessa forma, alimentos industrializados e mais baratos se tornam
a primeira opção de compra. A nutricionista Vitoria Falk destacou que esse fenômeno ocorre, por exemplo, na compra de sucos naturais e frutas para fazer polpas para suco. Segundo Vitoria, sucos artificiais e outras bebidas adoçadas são as primeiras escolhas entre famílias de baixa renda “Sucos de pozinho não chegam nem a um real e rendem litros. Para essas pessoas, acaba sendo muito mais versátil. O mesmo se aplica para outros alimentos adoçados. O refrigerante ainda é um pouco mais caro, mas, tanto pela praticidade quanto pelo rendimento, os sucos industrializados acabam sendo um grande fator na alimentação dessas pessoas”, explica Vitoria.
Produtores rurais capixabas sentem de perto os impactos da crise climática na agricultura familiar. A seca prolongada e a irregularidade das chuvas têm dificultado a produção, especialmente em regiões montanhosas do estado. “Cada seca, a falta de chuva por muito tempo, impacta muito. Quando a chuva vem, às vezes demora demais e prejudica a lavoura”, relata o produtor de café, Ailton César.
Além da agricultura familiar, o agronegócio também sente o impacto e perde lucros devido à crise climática. E o café conilon, uma das principais culturas agrícolas do Espírito Santo, tem sido diretamente afetado.
Segundo o produtor agrícola Edson Costalonga, a safra de 2024 sofreu com temperaturas acima da média histórica, comprometendo a formação dos grãos. “As altas temperaturas prejudicaram tanto o enchimento dos grãos
quanto provocaram o abortamento daqueles que estavam em formação.”, relata o produtor, que ainda ressaltou estratégias para minimizar os impactos ambientais e econômicos, principalmente com o calor aliado às pragas nas plantações.
“O manejo integrado de pragas (MIP) é uma das soluções empregadas, mas a prioridade são os defensivos agrícolas mais seguros. Há ainda um aumento no custo de mão de obra, combustíveis e maquinários e para reduzir a gente busca automatizar esse processo”, completou Edson.
Em 2024, a safra brasileira foi estimada em 3,8% menor que a de 2023, devido a efeitos climáticos como o El Niño, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além disso, no ano de 2025, os impactos na colheita de café se intensificaram. A Companhia Nacional de Abastecimento

(Conab) estima que a produção de café no Brasil em 2025 será de 51,8 milhões de sacas de 60 kg, o que representa uma redução de 4,4% em relação à safra anterior. Essa queda é atribuída às condições climáticas adversas, que têm impactado a produtividade nas principais regiões produtoras, e à alternância na produtividade do café, fenômeno comum após um ano de alta produção, pois a planta necessita de um período de recuperação.
Os efeitos do impacto na colheita já se refletem nos preços dos produtos nas prateleiras dos supermercados. “Eu continuo comprando, como eu sempre comprei, mas na hora de pagar, que passa lá no caixa, eu percebo que a cada mês tem um aumento bem elevado, né? [...] um produto que você comprou por um X valor, no mês seguinte já tá valendo bem mais”, aponta a dona de casa Elza Cruz.

O café tem sido um dos principais cultivos impactados pelas mudanças climáticas, afetando a produtividade e a qualidade dos grãos.


Insatisfação da juventude com a crise econômica é capitalizada pela direita
No Brasil, nas últimas eleições, discursos e estratégias sedutoras contribuíram para o crescimento do número de jovens favoráveis a ideias conservadoras. Mesmo entre uma geração marcada por transformações, o sentimento de frustração com a política tradicional colabora para a propagação do fenômeno.
A ascensão da extrema direita no cenário mundial tem remodelado o discurso governamental e social no Brasil. A intensificação dessa corrente ideológica, impulsionada pela insatisfação com a política tradicional, fez com que a juventude, anteriormente marcada pelo progressismo e ativismo, passasse por grandes mudanças e gerasse uma forte onda migratória para outro espectro político. Após o período do governo do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, eleito em 2018, o grupo de jovens conservadores brasileiros tornou-se crescente.
O doutor em Ciências Políticas Paulo Afonso Monteiro explica que o cres -
cimento da extrema direita no país surgiu com a insatisfação, ou seja, cidadãos não se sentiram bem representados pela classe eleita e acabaram migrando para a oposição, desejando algo inovador. “Muitas vezes vem como uma afronta e como um rechaço contra essa radicalização das pautas identitárias. Então, o avanço desse identitarismo acaba criando um antagonismo a isso”, ressalta.
No país, o ativismo é diretamente associado às ideias de esquerda, e com a degradação da imagem do polo político, muitos eleitores enxergam só um caminho: o do conservadorismo. “A extrema direita acaba tendo um êxito em termos de avanço em vários lugares do mundo, é um fenômeno que veio para ficar”, disse Monteiro.
A política contraditória trouxe para a população a possibilidade de expressar novas opiniões. No entanto, para o também doutor em Ciências Políticas Márcio Malta, o aumento de movimentos migratórios no mundo fez com que a extrema direita capitalizasse, a partir
de um discurso xenofóbico, a insatisfação de setores médios com a crise econômica, como a inflação e o desemprego. “Apesar de em alguns locais do globo a extrema direita ter sofrido derrotas, o sentimento contra governo e política tradicional continua a impulsionar esse lado”, afirma Malta.
O discurso estrategicamente populista e potencializado pelas redes sociais se torna cada vez mais presente, atingindo jovens e fomentando o aumento do conservadorismo. “A fusão da política com interesses de grupos específicos detentores do capital mundial caminha cada vez mais para a construção de uma sociedade conservadora, alienada e alienante”, ressalta o professor de história Lúcio Brandão. Para ele, o ressentimento das elites e camadas médias com a possível perda de seus privilégios legitimam a crise do Estado. Enquanto isso, a parcela jovial que se identifica como progressista se vê fragmentada em pautas específicas, o que dificulta uma resistência unificada.