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RISK NEWSLETTER

MOZAMBIQUE

ImpactosdaInstabilidadePolítica no Mercado Moçambicano de Seguros

Moçambique vive uma crise política pós-eleitoral que está a causar impactos significativos em todas as cadeias de negócios. Após as eleições presidenciais de 9 de Outubro de 2024, o país submergiu-se numa crise política que está a afectar a vida de todos os cidadãos e os sectores chaves da economia, com destaque para o sector do turismo, nesta época do ano, que é um dos grandes pilares no crescimento económico do país; o sector de importação e exportação, devido a impossibilidade de circulação de bens e pessoas; e o sector segurador, objecto deste estudo, entre outros, incluindo toda a estrutura do governo, sendo que ainda pairam incertezas sobre o término da situação.

O mercado moçambicano de seguros apesar de ter um nível de penetração muito baixo, tendo actualmente 19 seguradoras autorizadas a exercer a actividade seguradora, tem vindo a crescer de forma acentuada nos últimos cinco anos, cooperando de sobremaneira para a robustez da economia nacional. O relatório anual sobre a actividade seguradora do ISSM de 2023, evidenciou que o mercado segurador apresentou mudanças significativas em termos de número de operadores e estrutura de mercado, mostrando alterações notáveis.

Diante da incerteza que representa esta instabilidade política, é importante que este mercado consiga dar respostas sobre os efeitos imediatos e futuros procriados pela instabilidade e o posicionamento que as seguradoras (incluindo os stakeholders) e todos os players do ramo, devem ter defronte a esta multiplicidade de situações e riscos que foram ocasionados.

Desde logo, importa referir que por causa da pouca experiência deste mercado e o diminuído envolvimento e contributo histórico do mesmo em situações adversas nacionais, os riscos advenientes das mudanças bruscas ou situações disruptivas como estas tornam-se complexos para as empresas de seguros.

Para mais, os riscos políticos: Guerra, tumultos, terrorismo, greves, vandalismo, saques, e lock-outs etc., diferente do que acontece em outras geografias, principalmente as do primeiro mundo, como algumas seguradoras de países da Europa e América do Norte, que normalmente aceitam a cobertura destes riscos, tanto as empresas moçambicanas de seguros e grande parte de seguradoras e resseguradoras ao mundo, não cobrem os danos decorrentes de riscos políticos, isto é, são tidos como exclusões.

A principal razão apontada está no facto de o seguro se basear em previsão e agregação de riscos independentes. Nos riscos políticos existe uma grande previsibilidade das perdas, o carácter extremo e sistémico que podem atingir, a impossibilidade de se estimar com um mínimo de segurança os danos, a sua provável frequência, e tudo isso coloca este tipo de incertezas e de perigos fora do quadro de probabilidade de previsão exigível na indústria dos seguros. Dito de outro modo, em Moçambique as seguradoras não cobrem os danos resultantes de actos de vandalismo, greves, tumultos e alterações de ordem pública, salvo por solicitação expressa do cliente e uma aceitação facultativa do segurador, e devido a severidade dos danos originados, as seguradoras normalmente negoceiam estas coberturas com as resseguradoras internacionais, o que geralmente afecta o preço final da cobertura.

Prof. Dr. Nuno J. H. Loforte Doutorando
RN-AMGERS |Dezembro de 2024 I n.º 6 I Português
Gestor de Riscos Senior
Gestor de Riscos Jurista e Pesquisador

E nestas alturas, essas são as coberturas que as pessoas mais pretendem, e não tendo o acesso, pode deteriorar a credibilidade das seguradoras face a confiança e fidelidade dos clientes. O conceito de fundo nas seguradoras é o de que elas apenas asseguram riscos imprevisíveis, e estas situações tumultuosas resultam sempre em danos previsíveis.

Desafios imediatos das seguradoras

O primeiro problema tem a ver com a continuidade de Negócio. Desde a eclosão das manifestações o governo moçambicano tem optado por restringir a internet, de modo a limitar as comunicações entre os vários grupos protestantes. Houve igualmente a paralisação dos serviços essenciais, facto que afectou a produtividade, gerou atrasos e incertezas e acarretou custos adicionais, além de prejudicar a confiança dos investidores.

As seguradoras trabalham directamente com a internet, os seu processo e toda a vida comercial e técnica é feita mediante o uso da internet, com o corte deste activo importante, todas as seguradoras ficam limitadas a prestar os seus serviços com a mesma eficiência, proporcionando incumprimentos de obrigações ou atrasos na realização de procedimentos e operações, sendo obrigadas a recorrer a planos de continuidade de negócio, de contingência e posteriormente a situação irá exigir planos de recuperação.

A instabilidade política levou ao encerramento de fronteiras e, devido aos elevados níveis de insegurança, houve uma consequente redução de visitantes e viajantes, isto é, houve cancelamento de viagens turística com destino a Moçambique e o fluxo migratório turístico reduziu drasticamente, o que implica menos seguros do ramo viagem a serem emitidos, e uma ausência de sinistralidade visível, embora se tenha uma percepção geral de que este ramo de seguro não tem tido um elevado número de sinistralidades, comparativamente a outros, como o seguro de saúde e o de automóvel.

Um outro efeito que está a ser registado é a redução da sinistralidade para alguns ramos de seguro como o saúde, automóvel, acidentes de trabalho, etc, devido a pouca locomoção dos cidadãos, tendo em conta que as ruas têm sido bloqueadas pelos manifestantes, através da colocação de barreiras, pneus e pedras, o que resulta numa movimentação reduzida dos veículos e pessoas, o recurso ao teletrabalho e outras formas de trabalho remoto, o que obviamente melhora os números das seguradoras para o fecho do ano.

Entretanto, há que ver atentamente, com uma boa analise de risco, até que ponto e data a situação poderá prevalecer, visto que se pode dar o caso de termos um número elevado de sinistralidade pós-manifestações.

Além de toda esta situação, tendo ainda em conta a fraca penetração dos seguros no mercado moçambicano, a necessidade de literacia de seguros no país e o perfil característico dos clientes, observa-se a atitude de deixar-se para depois as questões ligadas com os pagamentos de seguros, isto é, estes são encaradas como secundários, sendo que as pessoas preferem não pagar o seguro ou renovar as suas apólices. Ao invés disso, a segurança, alimentação e outras necessidades primárias, acabam obviamente levando a prioridade.

Oportunidades

As seguradoras que conseguem oferecer produtos flexíveis, acessíveis e adaptados às necessidades dos clientes durante esses períodos desafiadores estarão bem posicionadas para aproveitar as oportunidades de crescimento e fidelização de clientes.

Ademais, as crises econômicas e sociopolíticas podem criar oportunidades para inovação e firmação de parcerias neste sector. A invasão de dados pessoais, a restrição de internet, as redes sociais, a desinformação, fake news e exposição a vírus cibernéticos através do aumento ou recurso ao teletrabalho e outras formas de trabalho remoto e a natural dependência da tecnologia, pode ser vista como uma oportunidade para as seguradoras moçambicanas introduzirem novos produtos que fazem parte das novas tendências do mundo dos seguros, como por exemplo o seguro cibernético.

Também a indústria de seguros é convidada a tomar uma posição em relação a algumas terminologias que podem ser consideradas novas no cenário político nacional que estão a surgir e a ser usadas pelas partes do conflito, como as questões de terrorismo urbano, o terrorismo do estado, o ciberterrorismo e outras formas de vandalismo, greves que vão surgindo.

Conclusões

Ficou evidente que as seguradoras que operam no mercado nacional poderão encarar a instabilidade política como um desafio e como uma oportunidade. Isso significa que embora as seguradoras estejam a sofrer e obviamente continuarão a sofrer os efeitos desta crise, paralelamente, surge uma oportunidade para as mesmas adaptarem-se e inovarem, podendo explorar novos mercados e segmentos, aprendendo a serem mais resilientes a fenómenos idênticos e a traçar estratégias para prosperar em um ambiente em constante mudança e altamente adverso.

Conclui-se então que as actuais manifestações públicas e greves em Moçambique trazem um impacto substancial na economia e no mercado segurador em especial. A longo prazo, a frequência e a intensidade das greves pode afectar por um lado a continuidade de determinadas empresas no mercado, e por outro, a atractividade de Moçambique como um destino de investimento e turismo, colocando em risco a entrada de divisas no país, a geração de empregos, o crescimento do comércio interno, e no geral, o crescimento económico.

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