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UM POUCO DE NADA (LIVROS DE POEMAS) – Volume 1
Otaviano Pereira
UM POUCO DE NADA (LIVROS DE POEMAS) – Volume 1. 1a Edição Eletrônica
Uberlândia / Minas Gerais Navegando Publicações 2020
Navegando Publicações
www.editoranavegando.com editoranavegando@gmail.com Uberlândia – MG, Brasil Direção Editorial: Navegando Projeto gráfico e diagramação: Lurdes Lucena Arte da Capa: Alberto Ponte Preta
Copyright © by autor, 2020.
Um1 – PEREIRA, O.. Um pouco de nada (Livros de Poemas). Volume 1. Uberlândia: Navegando Publicações, 2020.
ISBN: 978-65-86678-11-6 10.29388/978-65-86678-11-6
1. Poesia 2. Literatura. Otaviano Pereira. II. Navegando Publicações. Título. CDD – B869.91 CDU – 82-1/49
Índice para catálogo sistemático Literatura
82/42
Navegando Publicações
Editores Carlos Lucena – UFU, Brasil José Claudinei Lombardi – Unicamp, Brasil José Carlos de Souza Araújo – Uniube/UFU, Brasil
www.editoranavegando.com editoranavegando@gmail.com Uberlândia – MG Brasil
Conselho Editorial Multidisciplinar Pesquisadores Nacionais
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Alberto L. Bialakowsky – Universidad de Buenos Aires – Argentina. Alcina Maria de Castro Martins – (I.S.M.T.), Coimbra – Portugal Alexander Steffanell – Lee University – EUA Ángela A. Fernández – Univ. Aut. de St. Domingo – Rep. Dominicana Antonino Vidal Ortega – Pont. Un. Cat. M. y Me – Rep. Dominicana Armando Martinez Rosales - Universidad Popular de Cesar – Colômbia Artemis Torres Valenzuela – Universidad San Carlos de Guatemala – Guatemala Carolina Crisorio – Universidad de Buenos Aires – Argentina Christian Cwik – Universität Graz – Austria Christian Hausser – Universidad de Talca – Chile Daniel Schugurensky – Arizona State University – EUA Elizet Payne Iglesias – Universidad de Costa Rica – Costa Rica Elsa Capron – Université de Nimés / Univ. de la Reunión – France Elvira Aballi Morell – Vanderbilt University – EUA. Fernando Camacho Padilla – Univ. Autónoma de Madrid – Espanha Francisco Javier Maza Avila – Universidad de Cartagena – Colômbia Hernán Venegas Delgado – Univ. Autónoma de Coahuila – México Iside Gjergji – Universidade de Coimbra – Portugal Iván Sánchez – Universidad del Magdalena –Colômbia Johanna von Grafenstein, Instituto Mora – México Lionel Muñoz Paz – Universidad Central de Venezuela – Venezuela Jorge Enrique Elías-Caro – Universidad del Magdalena – Colômbia José Jesus Borjón Nieto – El Colégio de Vera Cruz – México José Luis de los Reyes – Universidad Autónoma de Madrid – Espanha Juan Marchena Fernandez – Universidad Pablo de Olavide – Espanha Juan Paz y Miño Cepeda, Pont. Univ. Católica del Ecuador – Equador Lerber Dimas Vasquez – Universidad de La Guajira – Colômbia Marvin Barahona - Universidad Nacional Autónoma de Honduras - Honduras Michael Zeuske – Universität Zu Köln – Alemanha Miguel Perez – Universidade Nova Lisboa – Portugal Pilar Cagiao Vila – Universidad de Santiago de Compostela – Espanha Raul Roman Romero – Univ. Nacional de Colombia – Colômbia Roberto Gonzáles Aranas -Universidad del Norte – Colômbia Ronny Viales Hurtado – Universidad de Costa Rica – Costa Rica Rosana de Matos Silveira Santos – Universidad de Granada – Espanha Rosario Marquez Macias, Universidad de Huelva – Espanha Sérgio Guerra Vilaboy – Universidad de la Habana – Cuba Silvia Mancini – Université de Lausanne – Suíça Teresa Medina – Universidade do Minho – Portugal Tristan MacCoaw – Universit of London – Inglaterra Victor-Jacinto Flecha – Univ. Cat. N. Señora de la Asunción – Paraguai Yoel Cordoví Núñes – Instituto de História de Cuba v Cuba
Para Maria Rita, que não precisou sequestrar estes poemas pois já lhe pertenciam, antes de brotar.
SUMÁRIO Em nome do pai, do filho e do espírito solto (de aldeias e terreiros),,,
17
Livro I - Útero da palavra
21
Proposta amorosa ao leitor
23
Hora do poema
25
Croqui para um poema sem inspiração
26
Inútil discurso acerca do ato de escrever poemas
27
Ainda o inútil discurso acerca da origem do poema
28
Tempo
30
Epitáfio
32
De profundis
33
Felino
33
Dedo de prosa (em defesa do poema)
34
Impossível flor de cacto
35
Pseudo-poema bem definido
35
O tamanho do mundo
36
Prancheta
37
Poema menos-que-perfeito
38
O poema mais feio do mundo
38
Poema das dificuldades
40
Poema da inveja
40
Poema futurista – mas inacabado
41
Iluminismo
42
Fevereiro
42
Plenitude
43
Mormaço
43
Névoa
44
Fim de tarde esplendorosa
45
Outro crepúsculo
45
Duas estrofes desinteressantes – nas vidraças de meus olhos
46
Escavação (Um pouco de nada)
46
Resto de tudo
47
Baú dos crimes
49
Ontologia da pedra
50
Grãos de palavras
51
Papéis
52
Poemeto
53
Poema opaco
53
Aviso ao leitor
54
Perguntas aos deuses do Olimpo ou aos Orixás
55
Escuressência
56
Ordem do dia
57
Fartura
57
Poema que derreteu como um sorvete
58
Poema niilista?
58
Poema das perguntas (inacabado)
60
Ampulheta
60
(O) Nada é eterno
61
Bem vindas, estrelas fugidias!
62
Arquitetos
63
Zelar pelos poemas
64
Poema travado
66
Profetas da cura
68
Com palavras não se brinca
69
poema não [concretoarmadobemamarrado]
70
Livro II - Carretéis e retalhos
71
Infância
73
Poema deserotizado
76
Planeta de anjos
78
A dor de ser, desde cedo
78
Teia
79
Vereda obscura
80
Sala de visitas
81
Farelo de pão sobre a mesa (Sobra de poema anterior)
83
Terraplenagem da memória
83
Poemão sobre a perda
84
Poema perdido
85
Ciranda de netos
86
Quintal arcano
87
Vidinha
88
(Mais um) poema de Natal
88
Céu (Não custa pedir ao destino)
89
Outro pedido ao destino
90
Livro III - Estações do corpo
93
Rito inicial
95
Estações do corpo
96
Nas águas do tempo
96
Poema só para hoje
97
A casca do corpo
98
Varal de palavras
99
Mãos
100
A flecha que atravessou o coração da tarde
102
Eus
104
O que foi feito de meu poema?
112
Passaporte
113
Propostas (às fumaças de meu cachimbo)
115
Obscena nudez
115
Espetáculo circense
116
Diálogo de corpo e alma
119
Eros & Thânatos
120
Sex shop
120
Poema por encomenda
121
Eros aprisionado
122
Deus não me livra de meu poema
123
Quero te...
124
Dissimulação
124
Paraíso artificial (Poema mal resolvido)
125
Desacerto (em rimas)
126
De mãos dadas
127
Viver e morrer a vida
128
Anjo caipira
130
Orquídea
132
Sete vidas
132
Receituário
134
Ardência
134
Poema provisório
138
Mulher-menina-mulher
140
Corpo rendido
142
Poemeto
143
Visita inesperada
143
Trajetória
144
Bar
144
Indecisão
146
Elegia ao desejo cooptado
147
Bisturi
147
Poema-pó
148
Agradecimento
149
Noturno - (Oração final)
150
Em nome do pai, do filho e do espírito solto (de aldeias e terreiros),,, ...amém. Senhor! Mande-me as agruras da vida, à sua escolha, e tentarei passar por todas, sem arranhar meus pruridos éticos, ainda que antiquados. Mande-me, de volta, os anjos que perdi na trajetória do tempo, desde que não venham como retrato mal falado de infância de rua, com caras sujas e olhos de dor e suspeita. Se me mandar - de novo - a pobreza, espelho fidelíssimo da ganância humana, enriqueça-me com a dignidade de Francisco de Assis, ou a “grande alma” de Gandhi. Pode mandar-me o Demônio, mas na forma de uma mulher ardente, faceira e mentirosa, para eu ter de domá-la e aprender com ela as virtudes do mais fundamental pecado. Mande-me a intolerância da mulher amada, a saudade dos irmãos, o amor aos filhos, a interrogação dos primeiros netos e a dificultosa sabedoria da reverência aos pais – ditos antiquados. Mande-me um concerto de cravo e flauta doce, os prelúdios para violão de Villa Lobos e o erotismo da dança espanhola, a melancolia indissimulável do fado, 17
o tremular choroso da garganta rouca do berimbau o arrulhar da oração noturna dos pombos no teto, o coaxar de sapos inquietos no lago distante e os “suspiros poéticos e saudades”, de Casemiro de Abreu. Mande-me as alegorias do carnaval, o delírio da multidão nos estádios, o silêncio desafiante dos mosteiros com seu badalar de sinos – eterno mantra do tempo, que passa rápido sobre a couraça de minha pele. Mande-me a prosa vespertina dos amigos, com suas bocas lambuzadas de chope e o embuste de falas inconsequentes - como se a felicidade se resumisse numa equação de palavras bêbadas e receituários. Para eu continuar vendo as montanhas ao fundo, mande-me tantas janelas ensolaradas – como essa, à minha frente – e a capacidade de entender a visão dos cegos de nascença. Mande-me, sob minhas sandálias gastas, muitas estradas de terra e pó, ainda a percorrer - ecopoemas para esse coração errante com cercas, bambus, mangueiras, hibiscos, goiabeiras... e a imagem bucólica de vacas de olhar morno, plantadas no pasto e ruminando as babas do que lhes bastam para ser plenas. Mande-me o espetáculo da queda das folhas ao chão do jardim, que o jardineiro nunca varre por completo. Elas não param de cair só para prenunciar o destino da mais exuberante orquídea - abraçada aos troncos, em seu narcisismo parasitário. Ah! Não me deixe faltar esse cão vira-latas, que agora me espreita na soleira da porta com seus olhos sonolentos de vigilante noturno e me jura fidelidade. (Esse cão rabugento 18
vigia minha alegria provisória, sem compreender que a vida é uma areia fina e escorregadia na ampulheta do tempo). Continue a me mandar a crença nalguma utopia, ainda que só para cevar esta fome de Justiça, que não desgarra dessa minha consciência irrequieta. Senhor de todas as coisas e lugares santuários: - matas, rios, desertos, terreiros, capelas, catedrais, muros de lamentação, mesquitas, nuvens...mande-me de tudo, qualquer coisa: o mais do menos, o menos do mais, sei-mais-o-quê. Só não me mande de volta esta solidão! Ela se instalou no fundo de meus olhos, para emudecer meu riso, sugar o mel de meus versos e me corroer a alma. E, além de tudo, condenar-me à espreita do sentido das coisas, feito um rígido guarda palaciano, em meio a transeuntes risonhos e felizes - como os leitores que irão passear pelas veredas de cascalho destas páginas.
19
Livro I - Útero da palavra Eu afirmo: meus poemas são uma espada afiada lutando para sangrar o sentido das coisas e do mundo. E o poeta Carlos Moreira me propõe: “que fique muito mal explicado não faço força para ser entendido quem faz sentido é soldado” (ave, avesso / duas palavras)
21
Proposta amorosa ao leitor Para ler estes poemas, não carece: vestir-se para uma noite de gala na Academia; fazer dos versos passatempo de férias para o repasto de corpos exauridos nas rotinas; deitar-se numa cama d’água redonda, de um quarto de espelhos e fazer amor com as palavras perfumadas, ilusionistas e românticas, extraídas dos cifrões, no gozo estéril do amor artificial; ler os filósofos e sábios que flertaram com as mais sólidas verdades sobre a grandeza dos grãos de areia das praias ou dos desertos; rezar todos os mantras de todas as religiões em busca daquela salvação que nenhum poema traz como selo de garantia; convidar, para uma mesa do improvável diálogo, os profetas da Libertação e os mais temidos grileiros araguaios numa inocente esperança pela Justiça dos tribunais dos homens; negociar, com o papel-moeda podre das palavras convenientes, o acesso aos poderes, constituídos para arrefecer as quietudes que nos instabilizam as consciências... Basta-te: permitir aos pardais usufruírem dos farelos de pão sobre a mesa do café da manhã na varanda, sem considerá-las sobras de pedintes que não conseguem habitar a seleta fauna da Arca de Noé da Humanidade; abrir bem as narinas para sentir o mau cheiro do mundo dos homens, 23
protegidos dentro de templos de vidro fumê da hipocrisia moral; permitir-se escutar a sinfonia dos ventos, navegando as matas ou dobrando as esquinas noturnas e solitárias dos edifícios; assumir a coragem poética de declarar sua inveja humana à besta felicidade de uma galinha, que interroga a vida sem necessidade de palavras, com os pés plantados ao chão do mundo; entender que a felicidade mora sempre naquele degrau ainda não alcançado pelos pés, para vê-la do alto, morando no passado da vida andarilha; perceber que não há amor dito verdadeiro, sem que este sentimento abstrato se revigore no pacto obsequioso de sobrevivência com a dor; ler a pequenez da condição humana mirando a grandeza das estrelas, tão longe e tão dentro, que vigiam nosso narcisismo; desistir de querer juntar essência e aparência das coisas, onde se esfarelam como rendição às verdades absolutas; desentender a morte, tanto no ressecar das folhas cadentes do outono como na explosão da primavera... Para ler estes poemas, cumpre, finalmente: desconsiderar este roteiro (de pseudo autoajuda) para a vida... ...caso tenha buscado sua substância nas gôndolas de algum hipermercado virtual.
24
Hora do poema No instante em que, na escuridão da noite, tudo se cala, sapos estouram suas barrigas e grilos esquentam seu refrão. - que hora é essa? No instante em que as águas cíclicas das estações congelam o lago, o universo de Einstein parece mudar de rumo e os corpos exaustos desdenham o amor, - que hora é essa? No instante em que a Bíblia, a Torá, o Alcorão ou o Livro dos Vedas não clareiam mais as veredas, e nenhuma Madre Teresa de Calcutá vem me prestar solidariedade, - que hora é essa? No instante em que os autores se calam nas estantes, sufocados pelo obscurantismo pátrio, e o pano de boca do teatro da História não abre por falta de plateia - que hora é essa? No instante em que devorar, em famintas colheradas, a filosofia de Shoppenhauer ou a pedagogia de Freire, que nada acrescentam à mais-valia de almas pragmáticas, - que hora é essa? No instante em que não sobra uma gota sequer do perfume da vida plena, sob a escandalosa nudez da razão, 25
e o silêncio dos vencidos precisa se transmutar em um oásis mínimo de sobrevivência, ainda que só para lapidar a pedra das horas, na garganta da angústia... essa é a hora do poema! Palavras servem apenas para remover as cinzas da lenha queimada do ser sob o cobertor da brasa dormida. Tão somente um pouco de nada!
Croqui para um poema sem inspiração Vou construir um poema. Um poema? Sim. Um poema assim: tijolo, cal, cimento, palavra, verso, reverso, terraplenagem, pedra, lavra, metragem, tim-tim por tim-tim. Devagarim, uai, bem mineirim. Não importa se bom ou ruim. Início, prenúncio de fim? Enfim, um poema igual a mim.
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Inútil discurso acerca do ato de escrever poemas À espreita do grito a ser abafado, cometo meus poemas como a faca da palavra, com seu aço silencioso, ronda a pera sobre a mesa. Abrir por dentro da casca e abocanhar o núcleo da fruta: o dente esmagando a semente na gula da compreensão. A nudez deserotizada da razão expõe a equação das coisas e venda os olhos do coração. É quando o poeta se perde em sua fome, o ser virando não-ser, no assassinato do sentido: erro-sobre-acerto-sobre-erro... Cumpre passar ao largo dos acontecimentos, enquanto o mundo vomita, aos quatro ventos, seus discursos de tribunas: fartura de pera fresca e podre, em estridente falta de verdade. As avenidas estão abarrotadas de uma razão silenciada pela lógica e eu andando na contramão. Se carrego um estômago faminto, é para devorar o frescor das frutas dos caminhos enquanto os olhos da alma vasculham o que há de minúsculo e singelo. Na beleza oculta das coisas é que mora a contradição do poema. É ele que morre, exangue, 27
quando não mais pulsa minhas artérias e agita minhas pálpebras. A palavra quente, que do coração derrama, - vício incurável de uma procura estranha – é que me faz abrir as asas de inútil entendimento. Resta vomitar no poema, meu medo de voar com elas. No fio de aço da palavra, faca ensanguentada do verbo, é que o poeta descansa, insaciado.
Ainda o inútil discurso acerca da origem do poema O poema brota, mesmo, é de onde nós estamos? Eu poderia estar em Hollywood, estrelando filmes e virando celebridade; fazendo cruzeiros nos mares do Norte ou do Sul, Leste ou Oeste, tomando vinho com intelectuais no Quartier Latin. Quem sabe, pousando na lua para proclamar que “a Terra é azul” - refresco para os olhos, sobre uma Humanidade vista à distância? Qual nada! Navego as ruas de uma cidade das Gerais, maltratada pela pobreza o que põe a beleza ilusória de meu poema em risco! Mulheres de pé, nas portas das casas, diante de paredes sujas escancaram o silêncio conformado de seus rostos apreensivos. A desesperança que não consegue se esconder no medo, sequer se revelar na revolta, e nenhuma Sociologia Libertária resolve. 28
Parece que os pobres entram na fotografia social só para obscurecer meus poemas. Ainda bem que há fundos de quintais feito aquarelas, exibindo mangueiras frondosas, salpicadas de amarelo e rosa dos frutos de novembro, para sujar as bocas da infância, sem destino certo; bananeiras com cachos granados e cães vira-latas, puro osso, fazendo xixi e filhotes só para perpetuar esses versos, duros de serem escritos com os olhos do coração. A felicidade existe ou não existe? Quem resiste? Nas caídas das noites, esses personagens de Victor Hugo, adentram as salas para mastigar o garfo da miséria, enquanto massageiam os cérebros. Telenovelas continuam escancarando o brilho visual e virtuoso de sonhos engravatados, capturados na cotação de bolsas febris do sentimento melodramático, para os batedores de roupas sujas das futilidades alheias. A atriz principal vai terminar com o ator galã, num frisson de olhos eletrizados. A felicidade deve fincar o pé onde nós estamos e a Humanidade toda está doida pra bombear seu coração no espetáculo masturbatório do fascinante happy end - troféu da recompensa, calculado a conta-gotas. E eu, que continuo a não saber de onde mesmo deve brotar o poema?
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Tempo Sobre a água corrente, da fonte que medra, sob a pedra, eu vejo, diariamente, essa lesma, tão lenta, tão lerda! Essa lesma? É ela mesma, lerda! E a sempre mesma, e lenta e lenta e lerda... ainda permanece a mesma, sobre a pedra. E durmo e sonho e acordo e vejo/revejo a mesma lesma... lerda! Em sol e chuva, dia e noite, eternamente mesma, essa lenta e lerda... lesma? Que merda! Enquanto houver tempo para destilar a lentidão dessa lesma, essa mesma lesma, lerda... Enquanto houver pedra e o silencioso canto 30
do lento movimento da mesma e lenta lesma, essa mesma e sempre mesma, em tempo algum compensará o tempo que a herda... De que vale essa gigantesca perda de tempo, se essa mísera lesma, ela mesma, lenta, lerda, faz e desmancha o movimento do poema, tão mudo sobre essa pedra? Seu silêncio é seu avesso grito de eterno devir, na gosma de seu ser diluído, exibindo o risco prateado de um alfabeto mudo sobre essa dura lousa de pedra. Lesma que me provoca, e eu, sem sabedoria, guardo, na bolsa a tiracolo, o fardo da impaciência, sob memória e esquecimento - e também me torno eternamente lento tal como essa lesma, lerda! Ela desenha vereda e destino, cujo saber me herda. Toda ôntica e nada ontológica, essa mesma lesma, lerda, ela mesma, sem nenhuma lógica, expõe a navalha invisível do tempo, em seu corpo em lento movimento, 31
sobre a mesma e eterna pedra!
Epitáfio Qual o problema do poema? Lapidar a pedra do corpo sem chegar ao coração? Granito, mármore, lavra, pura-palavra, paralelepípedo: essência! Flores vivas/desbotadas Murchas/ressecadas: pura existência! O poema dura quando feito de matéria nobre (ouro, aço ou cobre!). Mas... para além da rima rica ou da rima pobre, qual o seu real problema? A vida não é a vida, senão, a obra. A obra... é apenas obra, e o que, da vida, sobra! Um relógio de areia, um encontro marcado, 32
um entulho de versos, uma simples canção. Prefácio, posfácio, epígrafe? Epitáfio: A morte é o tiro certeiro no coração da razão!
De profundis Sempre quis escrever poemas, desde as abissais regiões da alma. Mas hoje não consigo enxergar o fundo do lago, onde os peixes nadam suas escuridões prazerosas.
Felino Com as nervuras sanguíneas do dorso curvado, o pelo, em antenas, arrepiado, o gato espreita o lagarto sobre o muro e escreve seu poema com os olhos. Ele me ensina para que não servem as palavras.
33
Dedo de prosa (em defesa do poema) Você me diz que meu poema é feio. E eu lhe digo – e bendigo: Tá certo! Tá certo! E saio de dentro do copo cheio dessa noite, onde sempre perco a lucidez e tento pisar de novo, feito bêbado feliz, na escadaria das perguntas. O que é feio? Viver sem dor, quando se desfaz o mosaico ilusório da paixão que lhe atira o nariz ao chão? Não poder enxergar essa barriga arredondada, grávida de beleza, da lua, - essa lanterna frágil e indecisa -, como se ela já não morasse no quarto luminoso de meus olhos, antes de embaralhar a escuridão da noite? Passar ao largo sem enxergar, por costume, a caçamba de lixo e miséria que a Humanidade produz? Não perceber o tanto-quanto de prazer extraído do seio farto de leite para o deleite do recém-nascido, 34
ou o trabalho de descascar, sem pressa, uma laranja? Ah! Deixa pra lá! A vida cuida de dar um brilho nele, com a graxa de sua própria feiura!
Impossível flor de cacto Não há flor de poema que embeleze a paisagem árida e seca. A flor que o cacto anuncia entre os espinhos é a mesma que sangra os dedos famintos de poetas embestados. A própria vida, devir perene de si mesma, se esmera no excesso de clareira do sol e só faz queimar a flor anunciada. A melancolia não é apenas uma água barrenta, do espelho do lago da alma.
Pseudo-poema bem definido Continuo perguntando: onde está o tal do poema ideal? Entre mim e o tal poema há uma distância que a vida não dá conta e eu permaneço sem a muleta da melhor palavra. Sem o estoque de verbo e vida, sem alento, 35
mas voltado a um consumo compulsório, de palavra e silêncio – que se misturam – preciso de algo para me aliviar desse mal-estar: uma bebida suave para um trago, num copo inexistente sobre a mesa. E como se fosse um criador bêbado, trêmulo e genial, escrevo este poema, mentindo para mim mesmo tão límpido e tão profundo, sentindo-me melhor que Deus no dia em que inventou criar o mundo. Ele vem, bem lapidado, rimado, latinizado, e perfeito - per factum – só para parecer sofisticado! O resto, – e que mais interessa, da imperfeição perene da palavra – deixo para as almas que galgaram ao pódio da lucidez - ou do espetáculo.
O tamanho do mundo De cócoras, enterro meu coração na areia e dele extraio alguns grãos de palavras. É a filigrana que resta do ser de meu poema, tão escasso como o espaço de sua gestação. O olhar sobre as circunstâncias dá a medida da alma; bastam-lhe alguns nacos de qualquer coisa 36
para viver, sem maiores pretensões, sua magnitude. Poemas - os que recolho ou os que perco me ensinam que nem preciso ser mais importante que uma formiga laboriosa. Mas quando ergo a cabeça e contemplo, na silhueta do horizonte, dunas, montanhas de pedras e a força dos ventos, imagens em desencontro selam o destino das palavras. Não há por que fazer poemas diante de um deserto de homens.
Prancheta Não entendo os olhos de meu coração. Carregam em suas pálpebras uma trava para o encontro do céu com o mar, e fazem de meus versos a argamassa lógica, no canteiro de obras de um engenheiro do nada. A trena da razão existe só para desentender o coração da palavra? O tormento do sentido é o óleo da pergunta que brota das artérias, na carne fresca do poema E a pedra-alicerce para a criação vira uma alma sem asas e presa ao chão, depositada sobre a escrivaninha dos dias. 37
Poema menos-que-perfeito Na juventude sem peias e fronteiras criei poemas, em arroubos, e desde então me soaram imperfeitos. Nos anos renitentes da maturidade incauto e insatisfeito, ensaiei outros, mais cândidos, equilibrados e a imperfeição se agravou para regar meu desagrado. Já no portão da idade óssea, de uma senilidade tida como sábia, refaço a arquitetura dos versos e a imperfeição de meus poemas vira notória teimosia. Sobra-me a inveja de Deus, - na palavra que se quis ausente para o arremate do trabalho. Onde moras, imagem e semelhança? No mero espelho reluzente de uma simples gota de orvalho?
O poema mais feio do mundo O morto, à minha frente, encerra toda palavra dita, bendita ou desdita, na mordaça, sem defesa, de sua boca, e espelha um silêncio de caverna, 38
cravado na pedra do corpo. Seu nariz, empinado contra o teto, livre do odor de velas e flores, parece uma parábola de uma gélida geometria Seus olhos cerrados não arregalam mais a alegria de trazer notícias aos viventes. Olhos sem brilho são o fim do sonho, de anos e anos e anos... - ou apenas o recomeço do abismo dissimulado dos enganos? Diante do calabouço do corpo, desse irmão impotente que se vai, resta-me ensaiar o mais feio dos poemas. Fim das paixões, e da aventura, muro instransponível do medo, a morte é uma ratazana noturna que devora, noite a noite, um pedaço do calendário dos dias. Mas quem ousa ignorar que a morte, desde sempre, não é outra coisa que aí se vê? Escandalosa, e corrosiva, abre seu riso de escárnio, diante de olhares úmidos, de parentes ou amigos. Na vitória sobre a vida, ou num pacto irreparável, negociado, sob o tormento de anos, meses e dias, 39
contra a coragem do suicida. É a vida! É a vida?
Poema das dificuldades No jardim envelhecido de minha casa - entre canteiros floridos de minha alegria, ou no solo ressecado de minhas dores leões rondam meu coração. Eu os mato, um por um, a cada dia, para salvar a lucidez da razão, e o cuidado para não pisar nas flores - que sempre esqueço de enxergá-las.
Poema da inveja Medrosa, suja, despenada, sem beauty parlor, nem glamour pra regar sua vaidade, a galinha cisca o ouro da terra feito um garimpeiro afortunado. Desmemoriada e sem futuro e de nada necessitando para o castelo de seu terreiro, ela planta interrogações nos dois vasos de meus olhos. Que lugar ocupa, essa criatura mínima, no concerto do universo? Poedeira-reprodutora de proles, cacarejos e pios, sua felicidade plena entorta 40
a aorta desse meu coração intenso e quase me enfarta com sua postura de enigmas. Ocupado com sóis, planetas e estrelas não devo perder meu tempo e o de meus versos nobres com essa felicidade pouca. Com uma trava nas palavras converso com esse galináceo bípede subalterno, que não necessita de sonhos para ser em plenitude. Por que, então, essa inútil criatura parece mais feliz que eu? Essa cândida inveja me faz descer da árvore da infância, aprender a ciscar o chão da vida, ler a candura de seus olhos, revolver entulhos de sentimentos e desemburrecer minha humanidade.
Poema futurista – mas inacabado Sou todo um eu digitalizado, mas com o relógio do coração em atraso. Minha cabeça refaz as mesmas perguntas dos homens das cavernas.
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Iluminismo Toda manhã, quando me levanto, as portas do dia me escancaram a luz do sol gigantesco poema a me cegar. Se viro a razão ao avesso não há deus-sol que a ilumine - mesmo se eu morasse em Paris. Enquanto houver desacerto com a razão é assim que me sentirei iluminado. - Inútil, cego, mas iluminado!
Fevereiro De repente, tive raiva do mês de fevereiro, que não me trouxe poema algum. Engano é pensar que todo mês é farto em safra de palavras. Eu que me imaginava um poeta-general postado diante da tropa obediente ao poder de meus versos. Tudo bem! Raiva justificável de perseguição de utopias. Esse vício incurável é que rega as verdades. - Verdades que o tempo se encarrega de curar.
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Plenitude Hoje eu me preparo para escrever meu melhor poema, que não poderá ser o melhor de mim por ser o pior de mim. O que fazer? Preparar-me para continuar virando as esquinas dos anos, fingindo que estou pleno.
Mormaço Observo o mormaço da tarde, que cozinha meus olhos e enferruja os ponteiros de todos os relógios. As horas parecem um funeral perene do tempo. Tudo isso, porque a vida, sem plenitude, me prepara, mais uma vez e sem tréguas, para dialogar com a solidão da noite. Observar estrelas tilintando, é o modo de compensar o jogo de palavras dos homens, no desperdício de suas dissimuladas alegrias. Nacos verdejantes de poesia implícita, brotam sobre a terra árida de meu olhar de miragens. 43
E o modo implacável de ter de ser, seca minha boca enquanto mastigo o resto de luz do dia. Feito a virada de uma esquina banal os ponteiros deverão apontar para o raiar da aurora, e minha alma, silenciosa e pasma, sobra no cosmo, como a semente mais infértil dos viventes. Resta apenas um riso de menino, recuperado dos escombros da memória. Virá, mais uma vez, derreter o óleo pegajoso do tédio. É a chance para eu, com essas estrelas nos bolsos do coração, refazer as trilhas do amanhã.
Névoa A tarde arrastou-se, lenta. Um pano de névoa, sem figuras de rosto nas nuvens. No fim do dia, nada diferente do começo e do meio, seus fantasmas deletaram meus e-mails trancaram minhas gavetas, apagaram o fogão de lenha e me prepararam para dormir dentro de uma noite infinita - uma vez que desmemoriada. Precisei buscar meu anjo da guarda 44
num esquecido álbum de fotos, virar mais uma folha do calendário empoeirado na parede e puxar o cobertor de um agridoce silêncio. Onde está a coruja, que hoje não veio me visitar na cumeeira? Deve ter voado para os monastérios longínquos, entre penhascos congelados, para ir filosofar com os teólogos medievais sobre a ressurreição dos mortos.
Fim de tarde esplendorosa Essas maritacas aflitas, do fim de tarde, estouram a bolha de silêncio de meu peito. Sob o diapasão de sinos invisíveis da memória, ditam o mantra de ave-marias que desaprendi a rezar.
Outro crepúsculo Aos que mendigam o sentido das coisas visíveis, abundam nuvens de fogo do fim de tarde. E eu convido os cegos para comer, com nossos olhos, o lado oculto da fruta saborosa do mundo que só eles enxergam mais a fundo. Resta dormir, empurrado para dentro de um vazio de poço, e ordenado ao silêncio pelos pássaros aquietados.
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A noite derramará o caldo suculento de seu mistério e o céu parecerá um enorme berço de seres noturnos à espreita. Quanto a mim, entre esses habitantes noturnos, sem um rosto definido: anjo recaído ou demônio falido.
Duas estrofes desinteressantes – nas vidraças de meus olhos A ferro em brasa o ferreiro, em marteladas, dá forma ao metal sobre a bigorna, estalando a corrente das horas: Vida vira trabalho que vira vida. O ferreiro é um poeta embrutecido, que um dia brigou com a razão e foi condenado ao forçado trabalho - de encontrar uma saída.
Escavação (Um pouco de nada) Hoje senti desejo - ou necessidade de desengavetar meus poemas. A química invisível do pó do tempo os amarelou. Alimento de insetos furtivos, escondidos nas dobras da madeira. 46
Muito papel, mais papel... mais um pouco de nada. Um nada que teima em não acabar. E se um dia vierem a público, vou sentir prazer e dor em ocupar o tempo do leitor.
Resto de tudo Feito um alambique antiquíssimo, o relógio da parede distila o líquido do tempo. O cuco, pássaro impertinente e acusatório, rasga a malha transparente, falsa e gritante, de meu silêncio. Mais uma hora aberta pelas torneiras dos ponteiros. Meu corpo, de um bêbado acostumado, permanece encharcado pelas doses de cachaça das horas - a transpirar e esmorecer sem dor. Viver, de fato pode nem doer mais. Mas a quem já plantou a semente da indolência, resta o fruto sempre indeciso da dúvida. A tarde está quente como a caverna dessa sala. Pra que perguntar sobre a magnitude do tempo, se nem consigo ir à janela, para beber, com os olhos, 47
a beleza das nuvens? Esses meus lábios úmidos e de sorriso opaco, e esses meus ouvidos atentos às brincadeiras de roda da infância, - rarefeitos na névoa do esquecimento é o que me resta de mais caro. A felicidade – fugidia? – parece uma mulher nua, meio deusa, meio prostituta, que provoca meus desejos e vive a brincar de esconde-esconde num bosque perfumado e espesso. O mundo à minha volta oscila entre a contraordem do pêndulo nervoso desse relógio e a sístole-diástole desse coração enfraquecido pelas paixões. Se eu convivesse com os grandes poetas, nossa amizade seria uma burocrática reunião de invejosos, coordenada por mim. Daqui a pouco o relógio reivindicará outra lembrança da matemática implacável do tempo, que roubou o argumento moral das coisas ditas eternas. O que importa, se, para ser feliz, posso deixar de sê-lo, agora, como prenúncio para também não ser depois? O copo, meu servidor de plantão sobre a mesa, em pequenas doses continua a me chamar para esse vício de viver o ócio das palavras. A felicidade – perene? – sem passado nem futuro, bem que poderia remover este estado suspenso da agonia das perguntas. 48
Não sei se sou feliz, mas sou o resto de tudo o que me sobrou. E me basta, hoje, o que ontem já me bastou.
Baú dos crimes Alguns homens, in extremis, cometem crimes. Não seria mais razoável, escrever poemas? Ledo engano! Entre esses dois atos há uma parede que apenas separa dois quartos de um mesmo hotel. Não há real versus imaginário, destino ou tragédia. Amar é erro maior do que falar em demasia do amor? Expor corações partidos não silencia o sentido oculto dessas máquinas produtoras de paixões. Mas se não há razão para o crime, tampouco para o poema. Ainda bem que alguns homens tão somente cometem poemas, sob o falso véu da inocência - já que a nada eles serviriam. Tudo bem. Sobre a água corrente das palavras cumpre cometer poemas, sem compromisso ou cumplicidade 49
com a vida plena.
Ontologia da pedra O rumor melodioso, saltando sobre espumas dessa correnteza, abre todas as janelas de meus versos. Dura, duradoura. Esta pedra, despida do poder da palavra – salvação e perdição do mundo – regurgita seu silêncio, eterno e inquietante. Sugando o néctar do que escrevo, feito um beija-flor estático. Ela eterniza sua compreensão de mundo sem se iludir com o resultado da poesia e me instiga a ser mais pleno e inacabado, só por não ter acerto algum com a vida. Nunca me deparei com uma pedra política, uma pedra literária, uma pedra acadêmica. e aí reside sua aristotélica condição, amaciada pela água e o musgo. Eu vou. Ela permanece um enorme ouvido, muda, imperecível e bela. E as palavras inauditas de sua dura e refrescante natureza é que expressam minha finitude, como espécie de complacência. Meus pés a sentem feito a espuma de um travesseiro 50
e essas águas, nuas e límpidas, deitam e rolam o gozo da vida, num batismo inacabado, profano e natural. Transito sobre ela, consumindo a sola dos pés e a pedra os acaricia, tão transitórios, no rigor dos anos e na lama de meus caminhos. Toda a humanidade que carrego nos ombros, não passa de um ponto, minúsculo e cego, entre nuvens de palavras. E a pedra permanece aí, vitoriosa, no sopé da montanha, exibindo a contrapartida de ser eterna. Não invejo a pedra. Não porque não morre, mas pela sua capacidade de olhar o que não posso ver. Escorregadia, a pedra me segura. E absorve a substância perecível de minhas palavras, como o assobio do pássaro que ora nos observa. Se a Humanidade não puder (ou não quiser) ler os meus poemas, essa pedra, na poética avessa de sua condição, os devora como a fome de meu silêncio compreensivo. Minha gratidão, de contraditório sentido, vira o moinho que move e esmaga minha palavra, nesse rio do tempo que me lava.
Grãos de palavras 51
Esses poemas não chegarão às lojas de vidro dos Shopping Centers. Eles brotam do chão de pedras e do escuro dos becos. Ou do frio noturno para os caminhos, sem um norte, dos ventos. Grãos de palavras, atirados ao chão para amadurecer, sobre os paralelepípedos das cidades, ou ser pisoteados pelos calcanhares dos homens.
Papéis Meus poemas não param de chegar. Vêm dos quatro pontos cardeais para chacoalhar esses olhos sonolentos. Querem apenas reentrar em sua própria casa, trazendo a leitura do mundo. Visitantes de mim mesmo, os recolho e nem mais os estranho. Meus poemas me reconhecem mais do que eu, a mim mesmo, me reconheço. Famintos de sentido, não trazem uma cesta de ilusão sobre o mundo em inspirações poéticas consentidas. 52
Só quireras de mendicância, das sobras de vida deixadas nas estradas. Quero crer, entretanto, que nem são obras de um humanismo edificante, ofertadas aos mendigos, nas manhãs de domingo. Sequer tenho como culpar a minha alma cativa, quando as recebe como lenitivo de consciências culpadas. Às vezes me deparo com versos e verbos imperativos, vindos do ar, de várias procedências, tal e qual recebo qual uma hipoteca, um ofício ou uma dívida, a bater na porta da rua. E não deixo de tudo recolher com a mesma atenção a um carteiro educado. Palavras que me chegam, estrelas que não me escutam ou pedras que me rodeiam têm o igual valor: mesma coisa em coisa alguma, da beleza, sem cor, do teto de minha morada. Bem vindos, poemas! Mas que não sejam apenas sobras da pesada bagagem de uma alma cansada.
Poemeto Se eu fosse Jean-Paul Sartre, escreveria um leve poeminha, só pra me livrar da incumbência de ter de desentender a existência.
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Poema opaco Meus poemas agora dormem nas gavetas ou nos arquivos da Web Cloud. Um todo-silêncio de nada ser - em nuvens. Puro éter, eles só não dormem como o meu cão. Ali, ao rés do chão, olhos fechados, amassa o sonho em grunhidos abafados por enigmas e dores - em diálogo cósmico com outras criaturas, seus amigos ou detratores. Se o cão não sabe o seu sonho tampouco sabe o quanto o compreendo. Só não compreendo por que o tempo vai transformando a fala dos homens numa tábula rasa de palavras opacas. Só o meu coração é que entende o quanto esse meu cão faz falta à Humanidade.
Aviso ao leitor Quem passou pela vida em brancas nuvens E em plácido repouso adormeceu 54
Foi espectro de homem e não foi homem Passou pela vida e não viveu. Roubei esses versos de meu meio-xará, o poeta romântico Francisco Otaviano, para dizer ao leitor que sou um mentiroso plagiador, pequenininho e ordinário, desjuramentado em cartório literário. E os deuses, pagãos, sem qualquer piedade cristã, sempre entregaram em minha porta uma caixa vazia como presente - palavras vãs que a roda dos dias opera. Às vezes choro, reclamo, imploro; às vezes rio desse vazio. Se avexe, não! Minha dificuldade de ser é que emperra o poema - que tanto o leitor espera.
Perguntas aos deuses do Olimpo ou aos Orixás A que me valeria a graça de me tornar moderno, neomoderno, ultramoderno, transmoderno, até mesmo pós-moderno, se não posso ser eterno? Se tal privilégio divino me contemplasse o destino, 55
como alimentar a proeza do glorioso prazer e da inevitável dor de ser ao menos vagamente lúcido, desde que teimosamente utópico? E nos finitos dias da vida, supostamente eterna, como me manter poeticamente lírico, radicalmente telúrico, saudosamente pueril e deliciosamente terno?
Escuressência O Criador quis brincar comigo ao colocar todo o tempo de uma eternidade no finito espaço-tempo de um cair da tarde. Galinhas e pássaros depositam ovos no aconchego dos ninhos, e vacas preguiçosas comem os ramos da indolência sem dar bola para o fundo dourado do sol que morre mais uma vez dentro de seus olhos. Sonhos ou pesadelos vêm da consciência do tempo. E uma hora chegou em que não posso mais rogar a Deus que me salve! Do útero da noite vindoura preciso renascer pela milésima vez, para continuar iludido com as estrelas ou a vaga ideia do paraíso. Ainda que só para me dar conta 56
de que os bichos - ditos “sem alma” no mosaico do amanhecer serão mais felizes – sem o saber.
Ordem do dia No frescor das manhãs, derramo, em papéis em branco, o caldo de poemas noturnos, como quem deita água numa bacia. Lavar o rosto, é a primeira ordem do dia. A alma encardida do fundo dos olhos mancha o instrumento asséptico da toalha e me afasta do espelho. É onde meus poemas, tão sonhados, se evaporam.
Fartura Despejo poemas no monitor como num silo de colheita farta. Ajo como quem dá milho às galinhas no terreiro da cozinha, ao pé da porta; despojo de beleza de um quadro de natureza morta. Meus versos não são as sobras de mim mesmo. São minha substância, dizendo, a todo momento, que não há poema sem sofrimento; 57
mesmo sob a aparência de quireras que pombas e galinhas recolhem, na alegria e na sorte de serem desprovidos da palavra. E nessa doação de mim mesmo, o que mais importa, e me alivia e me conforta, é que não tenho de negociar com eles o tamanho de minha dor. Até quando minha dedicação à beleza será o termômetro febril de minha perda?
Poema que derreteu como um sorvete Essa cama de cedro um dia foi uma árvore frondosa. Esse cerrado ardendo em chamas um dia deu abrigo aos gaviões, lobos e veados, tatus e tamanduás, cupins e formigas. Esse pedinte peregrino, um dia teve sonhos de infância. Essa lua escondida, entre chaminés e fumaça, um dia banhava-se no espelho d’água do lago para se embelezar, de corpo e alma, - no cio convidativo da noite. Esse poema é sem sentido, pois um dia teve alma, tinha versos, rimas e nome.
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Poema niilista? Não sei se faz sentido perguntar se viver não faz sentido. Ainda que me mudasse para New York, e falasse o Inglês mais fluente era ver se o problema da vida reside no idioma. Faz sentido esperar pelo Natal, com seus panetones e castanhas ou saborear um tutu à mineira? E se eu andasse à toa, numa estrada de terra, emparelhada de mangueiras fartas, esbanjando pó e vertigem? Faz sentido ir para a guerra e virar herói condecorado, combatente cooptado de utopias alheias? E se eu pusesse piercings nas sobrancelhas e estudasse religiões orientais? Só imploro a todos os deuses e a meus cúmplices, que esse poema, grávido de sentido, não faça um salto suicida, da reluzente torre de dúvidas que teimamos em chamar de vida.
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Poema das perguntas (inacabado) O que há de mais sublime? Andar a cavalo, com chapéu e pito de palha nas orelhas seguido por um cão fiel? Galgar os degraus de um templo? Adentrar nos portões da escola para dialogar os saberes das ruas? Trepar no cajueiro da infância? Despir, com volúpia, uma mulher enlouquecida? O que há de mais sublime? Preparar uma noiva aflita para a hora derradeira do casamento? Dar beijos de despedida - em aeroportos nos filhos que irão buscar futuro? A pá da razão atira a felicidade nos bueiros das esquinas, e minha alma, de pés descalços e nua, no meio da rua, me impossibilita terminar este poema.
Ampulheta - Em que espelho ficou perdida a minha face? (Cecília Meireles. “Retrato”)
Quanto mais me preocupo em ser, não sou. 60
Quanto mais avanço nas sendas do não-ser, parece que sou. Observo os homens sendo, à minha volta, e minha alma balançando numa gangorra. Oscilar entre ser e não-ser este devir, é viver? A vida é sonho, entusiasmo, dor, pecado, salvação, espasmo. Se muito me questiono, adormeço sobre o que resta de mim e me abandono. Escorregar no funil da ampulheta o tempo inteiro, a todo instante? Que pena! Não há areia fina, o bastante.
(O) Nada é eterno A arquitetura romana passa, como passa o teatro grego, o túmulo do Faraó - ou qualquer governante. A mitologia maia passa como o folclore marajoara. Passa a água da cascata como a montanha de Minas ou o canto da juriti. A caravana passa como o trem das onze dos Demônios da garoa paulistana. 61
A infância passa como a velhice e o esquecimento. A modernidade passa como o apito da fábrica do bairro Bangu o telégrafo e o carteiro o hardware e o software. O planeta passa... e como passa! Tudo vira pó, mesmo o instrumento da palavra, que um dia virou poema! E minha dor é perguntar: o que serão desses versos sem a alma do leitor, que passou por eles sem o poder de eternizá-los?
Bem vindas, estrelas fugidias! A noite me pinga uma estrela no olho e passa. (Paulo Leminski. “Alguma poesia”)
Quando o raiar do dia arrebenta a bolha escura do horizonte, as estrelas despencam, uma a uma, com um provisório aceno de adeus. E nem a luz do meio dia derrete plenamente o brilho tímido desses pingos de luzes indecisas que ficaram dormindo dentro de meus olhos, cegados pelo excesso de sol.
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Parecem pássaros de luz expulsos do cobertor da noite numa migração continental. É por isso que as guardo como moedas reluzentes, em minha mente. E meu coração, tão cuidadoso, também as guarda, uma a uma, todas elas, em sua gaveta de segredos no país longínquo de meus degredos. Ainda bem que os dias, tão claros, não passam de uma nostalgia das noites. E na volta dos dias, à procura da escuridão, elas vêm germinar no chão árido de minha alma. Daí, solto um riso de prazer que espanta o silêncio medroso da noite. Que fazer, se só consigo renascer, pra valer, de dentro de minha escuridão?
Arquitetos Hic et nunc, - só para parecer culto! parado nessa cadeira, entoo uma reza sem palavras de um tempo suspenso, - ou um terço invisível de mil ave-marias. E meus olhos nem piscam como quem entra numa galeria de arte.
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Arte em céu aberto - que os críticos não observam para seus cadernos de ensaios. Sob o abrigo do telhado e o conforto da coluna e madeira, duas rolinhas insignificantes negociam o prazer do trabalho e me inquietam por eu ser apenas humano; recuperam a grandeza de Marx e Chaplin, e escancaram o coração da natureza pulsando em seus grãos de olhos medrosos. Ora et labora, o pão sem palavra. O trabalho e a oração dos pássaros escancaram uma linguagem que imagino vir do ninho de amor, - palavrório de sonetos, inacessível aos poetas mais atentos. Felicidade a ser logo esquecida, no arrebentar dos ovos, pelos bicos esfomeados. Como é difícil ser, tão limitado na forma e forno da compreensão! Ainda bem que estou indo para a cama desengraxar as nódoas da mente e me embebedar de sonhos. Essa gigantesca pauta musical, feita do silêncio medroso desses arquitetos, vira um Bolero, que Ravel jamais conseguiu compor.
Zelar pelos poemas Não cuido dos poemas como quem gasta 64
uma tarde inteira de sábado lustrando carro e ideologia para a garota esmaltada da noite. Já tentei cuidar dos poemas como quem recebe recomendações dos antepassados, sobre as baixelas das cristaleiras, mas não tive nobreza para tanto. Cuido dos poemas como quem afina a voz - para uma ária de Bach ou as cordas de um violão - para o dedilhar de Francisco Tárrega. Cuido dos poemas como quem banha, nas águas de uma cuia, os frutos frescos das palavras recém-colhidos dos arbustos - mesmo quando minhas mãos voltam vazias. Não cuido dos poemas como o olhar de um lince na espreita, ou um cão de guarda, em seu ranger de dentes, vigia um patrimônio. Tampouco como um burocrata diplomado, letrado ou iletrado, enverniza a palavra, num mero apuro ritmétrico sob o peso dos carimbos dos poderes. Já tentei cuidar dos poemas como quem perfuma a roupa e escova os sapatos para ganhar o mundo numa noite de glória. Sem nenhum convite para festas acabei perambulando 65
pelo mapa vazio das ruas sem destino certo e nenhuma mulher bêbada de paixão nos braços, com tanto frescor das noites. Sem nenhum fim revolucionário, cuido dos poemas apenas com quem tão somente zela pelo brilho de estrelas, fugidias ou cadentes, ou escondidas sob nuvens, no céu opaco da vida. A aventura da vida é nada, - pura miragem? O colorido, que meus olhos até merecem, mora no cuidar do sentido, sem sentido, da própria miragem.
Poema travado O abismo do céu, nesse início de noite, assustadora e bela, já floresceu a sementeira de estrelas. E algumas despencaram, embaçadas, no espelho d’água do lago. O silêncio cala qualquer grito de minha garganta, como uma mordaça, e me impossibilita pedir socorro. como um viajante em pane no deserto. Se eu sofresse um infarto - ou morresse de amor – os grilos falantes, tão próximos e tão distantes, nem dariam pela minha falta, 66
ocupados que estão em suas festas - nas páginas de Literatura Infantil. Livros, ferramentas, talheres e alma, tudo em desordem. A cama, desarrumada, está vazia e ainda continuo fazendo amor com a mulher ausente. Permaneço sem ação, preso a esse chão, como o peso de um piano, mudo, numa sala de espetáculos, vazia. E todos os deuses rindo, em seus tronos gloriosos! Meus pés andam perdidos, e os arrasto rumo ao fogão de lenha. Esquentar um chá de ervas e lubrificar a boca seca - elixir para a solidão, ou refrigério. Pudera eu, destravar todos os cadeados da noite, baús de memória e esconderijos, para encontrar a bala perdida do poema. E até a última gota, sangrar todo o mistério das coisas que me incomodam, só quando compreendo por que não me alucinam.
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Profetas da cura (Para o teólogo Leonardo Boff)
Apóstolos, benzedeiras, curandeiros... me instigam a escrever um dos mais completos poemas eco-teológico-político... e eu o começo pelo vício da pergunta: Que mãos são essas, tão frágeis e tão potentes? Ímãs da energia do universo, estas, sim, ecopoemas erguendo a espada da paz, gerando átomos divisíveis e quânticos, sob dúvidas, despejando rezas sobre rezas e certezas; partículas do Bem Divino: afro, cristão, pajé, johrei... Procura da cura! Quero todas essas mãos sobre minha cabeça para tornar leve esse meu ser. Quero vê-lo multipartido em fractais de um caleidoscópio de margaridas, corais, borboletas e estrelas, até virar poeira cósmica de suas origens mais remotas. Que venha toda Luz Divina dessas mãos humanas, trêmulas e seguras. Mãos que recosturam o tecido roto da Humanidade, trazem de volta a ternura de Guevara e depositam suas armas de guerrilha na força invencível do diálogo duro. 68
Com essas mãos estendidas, sábias e leves, quem sabe eu também me transforme num poema incompleto da criação? Mas quero, com elas, o socialismo utópico que há em toda forma de fome ou no orvalho da manhã - e que Lênin e Trotsky não tiveram tempo para comtemplar. Aí, revolucionário curado e em fim de jornada, tomarei um chá perfumado de alfavaca na varanda e declamarei meus versos inúteis para todos os pássaros. Quem sabe eles possam retornar aos meus pesados ombros, a imagem de São Francisco, como fazem os artesãos nordestinos no aprendizado de paraíso de suas oficinas?
Com palavras não se brinca Chuva. Vento. Granizo. Neve. Névoa. Gelo. Montanha. Iceberg. Frio. Frio. Frio. Caçador. Foca. Foco. Enfoque. Ecologia. 69
Sangue. Exangue. Não se brinca derramando palavras em papel em branco feito tinta em paleta limpa, recém-comprada. A poesia nada tem de concreto O mundo em volta é uma clara de ovo. Branco, branco, branco, - que não é ausência de cor. Cor – que é branco imperativo - ou sou eu que não consigo colorir meu coração?
poema não [concretoarmadobemamarrado] Não pise na gramática não brinque com as palavras não faça guerra no amor não leia a Bíblia não corte as vírgulas não escreva poemas sem amor não aspire entrar para a Academia não pare na pista não ame o próximo como a si mesmo não mande flores não goze dentro não desça engrenado não estude literatura não se entregue à polícia não faça poemas ideogramáticos não malhe na academia não perca a esperança não chupe jabuticabas não entre para a carreira policial não declame o Navio negreiro não escute o silêncio das estrelas não dê esmolas não escreva poema algum não cuspa no prato que comeu não vote em branco não creia em Deus não acredite em Papai Noel não confie em sua memória não entregue o ouro ao bandido não creia nas palavras não seja cover de ninguém não vá sozinho não fique afeminado não viva do passado de 1968 não se envolva com essa mulher não seja revolucionário não vá a New York não se apaixone mais não esconda seus crimes numa mala não jogue suas fichas todas no desejo não fume não dê bola pra razão não seja sócio dos alcoólicos anônimos não ouça Frank Sinatra não pule do 20º andar não assista aos filmes de Akira Kurosawa não pose de jurado nos camarotes de carnaval não estude na Sorbonne não pare... ...pisar na grama acaricia a planta dos pés!
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Livro II Carretéis e retalhos Que vai ser quando crescer? (...) Não vou ser. Não quero ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer. (Carlos Drummond de Andrade. ”Menino antigo”)
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Infância
I Dorso azul de montanha recortada cabendo inteira dentro dos olhos. No fundo do quintal, uma árvore para eu buscar os tamarindos nos galhos mais altos e pés descalços, presos ao chão: limites do roteiro de minha leitura do mundo. Meu pai vinha, folgava noite com prosa, e sumia na cabina de um velho Ford F 600. Minha mãe costurava chitas, brins, sedas e desentendimentos, e punha ordem no mundo. Eu, olhos cravados no horizonte, sem lápis nem papel, sem alfabeto, sem saber, escrevia os primeiros poemas com carretéis e retalhos.
II Nos retornos das viagens, as jornadas de trabalho de meu pai, passadas a limpo diante de olhos que nunca piscavam de tanto prazer. Ao redor do fogão a lenha, nossos sonhos visitavam, com ele, a Ilha Misteriosa de Júlio Verne ou da Utopia, de Thomas Morus. 73
Absorta na conversa interminável com os filósofos gregos, minha mãe mexia e remexia afazeres fingindo não prestar atenção na prole e no caminhoneiro falador. Só quando a prosa, amiúde, beirava o abismo dos sentidos, ela voltava da sala dos Diálogos de Platão e se punha a nos dar lições sobre os caminhos do Bem e da Virtude. E eu, menino, mãos nos bolsos vazios, guardava bolinhas de gude e recomendações como quem negocia a felicidade com o destino. A Quinta-feira Santa teria a missa do lava-pés, e para estar preparado, cumpria comprar botinas novas. Eu não sabia, - pudera, quem diria? – que os objetos dos sonhos eram ferramentas para pisotear a terra batida da vida e tecer os dias vindouros.
III Meninos com pipas ao vento reabrem as asas de minha infância adormecida numa memória preguiçosa, e trazem colorido ao meu poema árido, riscado no areal das palavras.
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No terreno baldio, oficina da infância, negociam-se linhas, papéis e cola, enquanto o trem, a distância, apita sua passagem morosa, feito um quadro de Volpi Tarsila ou Portinari. O tempo da vida anda mais rápido que o das imagens? Nesse quarto de estudos, estico os olhos no horizonte limitado, e saio, passo a pássaro, pelas janelas a convite da alma. E meu coração, pulsando sua incompreensão, precisou seguir a teimosia dessas minhas pernas, que preferiram correr atrás do comboio e tomar lugar nos vagões, repletos de viajantes sisudos.
IV Nas estações das chuvas as árvores surreais de infância viravam pesadelo, temporário, mas repentino - sem aviso prévio do destino. Lagartos asquerosos desfilavam suas baterias, como um exército que acaba de tomar uma cidade. Imponentes, subiam e desciam troncos, 75
com espinhos e listras coloridas no dorso e milhares de pés gordos e barrigas gosmentas, feito tanques de guerra. Folhas densas, verdes e vistosas, que nos garantiam o frescor das sombras, iam sendo devoradas com apetite de piranhas. À noite vinham devorar meu cérebro e me acordavam como se estivessem escalando os pés da cama. Lições de moral de compêndios diziam que devemos suportar os lagartos para apreciar as borboletas. É certo que a vida é feita de crisálidas, metamorfoses e ressurreições. Mas não é menos certo que continuo relutando em me sentar no divã do analista.
Poema deserotizado A lanterna dos olhos e a epiderme bastam como vitrine do poema, ou só o estado de alma é o húmus para vingar a semente boa da palavra? Se ao poeta cumpre perseguir a essencial beleza, das coisas miúdas, ou de toda natureza, como posso receber a visita de um lagarto asqueroso, regurgitar uma sartreana náusea, deixar minha mente ilesa? Tento reparar 76
em seu andar cartesiano, o idêntico erotismo das manhãs de sol, dos bonecos imaginários de nuvens lentas ou do milharal com seus loiros cabelos. A bosta do gado, que fertiliza o pasto, não me ofende como uma taturana, com o ácido mortífero de seus pelos. Ouço dizer - ou leio e vejo na net-mídia que outros povos degustam animais peçonhentos. Em qual planeta resido? - brota a pergunta resistente. Nenhuma obra de Antropologia, para entender toda essa gente, me abre porta alguma para o concerto verbal da poesia. Lagartos não me convencem e eu saio do poema derrotado - em conflito e deserotizado! só me restando baixar um decreto: Na sala de visitas da alma de minha infância lagartos não têm mais licença para entrar.
Planeta de anjos (Para Ana Rita, neste parque de diversões - e o restante de netos, em parques distantes).
No parque de diversões me esbarro em olhares da infância, 77
alinhados ao gancho do horizonte. Parecem a fala de pedintes, sem palavras, e gritante. A infância é o diálogo inicial com a finitude.
A dor de ser, desde cedo A educação para a felicidade abre, na pele lisa do menino, uma cirurgia sem anestésico; e pede que ele caminhe de mãos dadas com os adultos, que não o querem criança. O barro do mundo vira seu emplasto, mas a dor de ser, desde cedo, se alimenta é do tempo vivido, não das frutas que a estrada oferece. Os animais são alegres porque não têm lágrimas para negociar com o destino. A infância é uma felicidade em cicatriz.
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Teia I Desde minha tenra idade - eu, ainda apalpando, às cegas, as paredes nuas da vida – a aranha, engenheira, tateia o teto. Os arames nervosos de suas pernas sábias exercitam uma dança silenciosa, mortal, sobre um tablado invisível, cerebral, numa matemática sem fórmulas prescritas, croquis ou pranchetas. Gerando fios em abundância, a gosma de seu corpo em luz, desenha um poema concreto: vômito de um útero farto sem palavras, pura plástica. Crianças, de mãos ainda frágeis, precisam manter distância da peçonha, e apenas guardar, em seus olhos, a aranha, sem precisar da poesia oficial das Escolas de Letras, Ciências e Artes. Pena que hoje, quando reencontro no canteiro de obras do teto a sempre e mesma aranha, Jorge Luis Borges, com a grandeza metafísica de sua cegueira, não está aqui, para contemplar comigo, esses primeiros dias da criação do mundo.
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II As teias neurais de meu cérebro imitam a máquina de costura Long Life da laboriosa oração prática de minha mãe, noutra paragem que se perdeu a distância. E eu tentando remendar o pano usado da memória, onde a razão entrou em briga sem trégua com a felicidade. O máximo que extraio do bordado dos anos é a consciência de que a vida é provisória - e nenhum gênio da Humanidade me consola.
Vereda obscura Faça-me o favor de arredar as dúvidas para debaixo dos tapetes e não me pergunte por que escrevo poemas. O menino que adormeceu na máquina de meu corpo não consigo acordá-lo adulto - como propôs o poeta das Gerais. Silenciado sob o cobertor do tempo, a ele evoco, diante do espelho embaçado da barrenta poça dos questionamentos. Ele me sabe e me ensina, e me desaparece, no vértice da memória - mas não pretendo blasfemar contra a ineficácia das palavras. Nada há de mais frágil que a ideia de paraíso original. Ah que saudades tenho, 80
da aurora de minha vida! O tempo pretérito, distante e tão visível, torna-se sua melhor medida. Enquanto isso, os homens ao meu redor escancaram risos, e parece que aplicaram um enganoso emplasto nas cicatrizes de suas dores mais secretas. A vida que vale reduz-se a uma perda de virgindade como negociação com o destino? Em qual gaveta de escritório colocamos as manhãs ensolaradas da alma infantil? Não há mais luz na janela. E na vereda obscura, das noites de ventania, minha alma teima em não envelhecer - para não ter de seguir os caminhos inarredáveis de meu corpo. Resta-me escrever poemas, e poder saudá-la, a distância, num perene aceno de adeus.
Sala de visitas Na sala de visitas de minha alma meus antepassados não estão mortos e nem discutem dogmas religiosos. Não há incensos, nem velas, 81
mas o odor adocicado da dama da noite que a brisa traz pela janela. Não há pratarias nem porcelanas importadas na cristaleira, mas algumas chávenas com bordas danificadas, compradas num box do velho mercado municipal, e marcadas pelo perfume do chá de erva cidreira ou pela morosidade de lábios em prosa perene. Na sala de visitas de minha alma não há cão adestrado na porta de entrada, com ranger de dentes; apenas um gato, de corpo em plumas, dorme sua preguiça, sob a sucata de um relógio de mesa já sem ponteiros. Não há manchetes sobre epidemias e culpas, dejetos de Thanathos sobre a casca do corpo; mas a ardência do sexo, flambado em fogo voraz e negociado nos olhares. Na sala de visitas de minha alma não faltam a fé no destino da Humanidade e nem a tigela de figo em calda e queijo fresco - que a parte feliz da Humanidade não pode desconhecer. Da cozinha vem o cheiro, mineiro, de comida, e só porque aumento a água no feijão, a visita se sente acolhida. Uma sala atualizada nas linguagens servis não pode ser minha sala. Síncrona e assíncrona, telenergética, telemática, telepática: teletudo! Verborrágica, sem o desperdício de gargalhadas fúteis, - com o capital da serenidade nos semblantes é uma sala burocrática, alugada pela alegria comedida, dissimulando um rosário de pecados mortais cometidos pelo trabalho envernizado. Na sala de visitas de minha alma, não! 82
Nada necessita reparos. Nem mesmo as nódoas do tempo sobre as paredes, o descuido do pó na madeira rústica ou na caixinha de música, ou a timidez de um menino. Por que, então, - virado homem de juízo, da noite para o dia a sala de visitas de minha alma anda tão inóspita, anda tão vazia?
Farelo de pão sobre a mesa (Sobra de poema anterior) Descobri, quem sabe, tardiamente, já no toque dos interruptores, a penumbra abraçando paredes e corredores, que, na sala de visitas de minha alma, a anfitriã dos visitantes sempre se mostrou ausente.
Terraplenagem da memória Na boca da noite preguiçosa a lua executava sua música, no banho de luz e silêncio sobre a mata e nutria a espiritualidade de índios e pássaros. No outdoor, um empreendimento imobiliário anunciou a chegada de máquinas para esmagar minhas goiabeiras 83
e plantar prédios sobre o pântano. O futuro anti-pretérito chegou, imponente e irreversível, embrulhado no papel-alumínio, dolarizado, do pacote do progresso. Um dia aqui voltarei, entre os ruídos de motores, na companhia de meus fantasmas como numa data de finados. Virei buscar a luz artificial de prédios e postes. E levarei, nas conchas de meus dedos descarnados, o que restar da Humanidade rasgada, solitária e encastelada, dessa lua companheira. Da travessia sobre a infância notarei que todas as noites se assemelham, sem lagoas de banhos proibidos, sem magia. De uma lua que não pude levar no bolso, resta uma luminosidade opaca nos ossos de sua face. Do bolo partido da infância resta o prato vazio... da melancolia.
Poemão sobre a perda Esses olhos cegos, de minha impaciência, 84
não apreciam mais os pastos de abelhas felizes, no florir das árvores do quintal. E me impedem de ver explodindo os ovários das sementes, prometendo os frutos da estação. Trajado com jaqueta e tênis pós-modernorizados, corro ao reluzente supermercado com a boca seca de um pedinte no deserto. Os sucos, enfileirados, desfilam a abundância do fetiche para eu namorar os rótulos. O que fazem hoje, minhas mãos, com aquelas mãos de terra, minhoca e água fresca?
Poema perdido Vou fazer o que não sei. Versos que a vida me roubou - um poema infantil: Vaca amarela pulou a janela, cagou na tigela. Quem ler isto primeiro, come a bosta dela!
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Ciranda de netos (Para o Bento, que fez uma passagem breve na malha do destino).
Cá estou, na Praia do Futuro. Sob o rumor benfazejo do vento, que beija o horizonte e a vidraça, e promete estourar a barriga do dia, a madrugada avermelha meus olhos, perdidos no quadrante do tempo. Minha alma transborda uma felicidade maior que essa bacia oceânica, e o oráculo do silêncio traduz a espera em aflição. Outro neto chegará, daqui a pouco. Virá negociar as bolinhas de gude da infância junto à ciranda dos companheirinhos: Lorena, Manuela, Olavo, Samuel, Ana Rita, João e Maria. E o orgulho do avô extrapola nomes e sobrenomes ou brasões de famílias. Venha, Benício, abrir as trancas de um mundo caduco, tão carente de recomeço. E depositar, desde sempre, nos ombros dos homens cansados, o soldo de nossa alegria. 86
Junte-se a esse quixotesco cavaleiro, em seu deserto de sentido, sua infância de espada e poesia. (Fortaleza, 21 de junho de 2018).
Quintal arcano Bananeiras abanam a tarde quente com o verde-bandeira das folhas. Frutos granados, amarelos, no pano do céu azul, salpicado de mechas brancas completam o nacionalismo de meu quintal - feito a cabeça de Carmen Miranda. Com o equilíbrio de um sábio em seu assobio poético, pseudo-meteorológico, o vento brinca com as folhas e zomba da quântica física das asas dos insetos. Meu vizinho sugere que eu vire comerciante das sobras para o apetite voraz do mercado. Ocupado em varrer da cabeça as manchetes de Bolsas de Valores eu, velho menino de cabelos brancos, miro as rolinhas em seus ninhos, sobre os cachos; e filhotes proseiam a grandeza da felicidade sob o miúdo território de asas protetoras. Excluído dos mapas de planejamento, apenas bebo essa cerveja, elixir para uma lucidez tamanha, 87
que até me embaralha a vista. O que restou do quintal de minha infância foi levado comigo, em delírios falsos, - de tão verdadeiros no comboio de um trem fantasma.
Vidinha No terreiro lá de casa, não havia asas de águia ou condor, com seus voos especulativos sobre as presas. E a infância nunca foi uma aposta para dominar o mundo, tão belo e indominável. Apenas galinhas, presas ao chão raso de suas vidas sem brilho, ciscavam o grão rasteiro de suas verdades, onde o nascer ou o morrer mais pareciam mudanças de estação. E era tão fácil entender a vida só com os olhos do coração! Sorte é que jamais envenenei meus olhos com a biografia de Adolf Hitler.
(Mais um) poema de Natal O Natal, que um dia rimou com infância, hoje des-rima com Shopping Center e cintila nas vitrines e nos olhos sem inocência dos gigantes. Aquele menino de sempre, 88
exposto na manjedoura, perdeu a força para expulsar os vendilhões do templo. Nós, cristãos com braços presos - no madeiro do mercado – expomos grifes e jeans e corpos arredondados na sedução do fitness. Cristo, do alto da cruz e vendido, os lábios ainda amargados pelo fel, nos espia, vencido. Nunca-jamais o Natal fora tão exposto aos quatro ventos da instrumental razão, para dar pleno sentido oposto à via-crucis da paixão.
Céu (Não custa pedir ao destino) Quando partir não quero permanecer para todo o tempo restante à direita de Deus-Pai-Todo-Poderoso, afagado pelos olhares sonolentos de anjos cor de louça e obsoletos - parecidos com pinguins sobre antigas geladeiras. Num museu celestial tão perfeito sequer quero ser o Super-Homem, que voa sobre flocos de nuvens cumprindo a pressa inútil de uma eternidade sem tempo.
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Se lá eu não esperar pelas mangas da estação, e das sombras que essas mangueiras me afagam no meu chão - com meu carrinho de carretel – por favor, padres e rezadeiras, podem me livrar desse céu.
Outro pedido ao destino Se morrer for um modo de tão somente cumprir a vigília dos dias, nem quero paraíso algum que não possa ser inventado pelos sonhos. - Desde que meus olhos permaneçam abertos na ilusão dos horizontes. Como um condor estarei sobrevoando cordilheiras sobre as areias dos ventos, zelando pelo destino de Gaia, em perigo - ou então eu nem sequer terei partido. Como um velho sábio, serei apenas um menino num vilarejo entrecortado por um rio, sem ensinamento de alforje trazido da escola. Como um matuto engraçado, - meio bicho, meio homem! que dialoga mudo com corujas e seriemas, se espanta com o lobisomem, e lambe os horizontes das tardes com seus olhos miúdos.
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Quero findar meus dias como um velho menino que traçou o mapa do amanhecer sem as letras do alfabeto - de seu destino.
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Livro III Estações do corpo Um café e um amor… Quentes por favor! Pra ter calma nos dias frios. Pra dar colo Quando as coisas estiverem por um fio (Caio Fernando Abreu. “O segredo”)
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Rito inicial Que tens nestas mãos, poeta, tão plenas e tão vazias? Grãos de palavras que espalho, como um lavrador agraciado, na terra úmida e perfumada de teu corpo. Como um arado silencioso sobre as cicatrizes da terra acaricio, com estas mãos, a pluma ou o espinho que a vida nos oferece. Mal o sol se levanta, a batalha de verdade e erro deste meu ser exposto em meus próprios limites gera o saber sob canções e murmúrios, mentirosos e sublimes, estornando o caldo abafado do suor das horas. Mal o sol se deita, teu corpo é que trabalha minhas mãos, empurradas pelo ponteiro das horas perdidas. E as reinventam para além do tempo necessário - e gerando ainda mais saber desde este teu ser cada vez mais abstrato. Sementeira em colheita farta, só teu corpo é que me dá conta da morte em gozo para eu ser reinventado como delirante sobra. Pudera estas mãos trêmulas, tão plenas e tão vazias e que passeiam meu medo de vir a ser pleno pelo teu corpo colher todos os frutos da árvore frondosa de teu poder. 95
Estações do corpo A montanha, ao fundo, redesenha meus olhos. O rio é largo e requer braçadas, fôlego de eu-menino. Mas o meu corpo atingiu o estágio de recusa da aventura, e só consegue ranger os ossos - e eu que nem tive chances para me tornar um sábio oriental! Não são as leis da Biofísica que cumpre recordar. É uma antiga lição de gramática: pretérito-mais-que-perfeito, imperativo do tempo que corre sem piedade do futuro incerto.
Nas águas do tempo A mulher mais amada pede um poema, chora por ele no riacho das lágrimas. E o fio cristalino delas desmancha-se, ainda mais, em meandros de sedução. O núcleo do sentido oculto, metafísica do amor, desaparece nos redemoinhos. O cotidiano devora as essências, sob aparências, 96
para as replantá-las nas profundezas, visivelmente próximas, dos vasos de nossos olhos aflitos. A mulher mais amada, contudo, afoga-se no menor movimento das cascatas. Em cada pedra, entre ramagens, parece haver sereias e cantos: inquietações. O ciúme é a lucidez avessa do amor vivido. A mulher mais amada, insaciada, porque ama, ama e mais nada. Insiste em invocar os demônios, enquanto o caldo do amor, sob a forma de poema, corre nas águas do tempo - e ela não pode ver. O que fazer? Não há culpados no amor. Os demônios em festa, de dentro dos mitos, navegam sobre as águas. E ela tem sede da palavra amorosa, quanto menor é o poeta.
Poema só para hoje Ontem eu era árido; amanhã não deverei mais ser mórbido já que hoje ela me torna lírico, mesmo que eu nunca mais esteja lúcido!
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Qual Ulisses, embriagado, vê surgir do mergulho das águas a sereia, no cantar das horas vou manejando - mãos trêmulas, ainda incrédulo -, o gume das palavras, como quem troca punhaladas com os fantasmas invisíveis do destino. Mas ela me atrai na serenidade de seus olhos enxaguados de mergulhos passados. Então sigo os descaminhos da paixão, num hoje perenizado, como quem decreta o fim de seu próprio esquecimento, escrevendo, nas águas correntes do tempo este refrão: Bendita a mulher amada, mensageira – ainda que ligeira – que me veio mostrar, tão adverbialmente simples, que meu cantar pode fazer sentido.
A casca do corpo Na cama sem limites de minha juventude eterna minha alma canta, aos cântaros, versos, reversos, oceânicos. Mas a vida não é um jogo de dados - ou um verso de Mallarmé.
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Perdida a profundidade de fundos refletidos, as salas de espelhos d’água de Narciso refletem a névoa embaraçada da alma vindo pousar posteriormente na catarata dos olhos. O cálcio da ossatura das palavras, que sustenta a poesia, finda como estoque de dispensa. A boca não pronuncia mais poemas, quando a própria vida - bem ou mal vivida os atira numa vala da memória, que incomoda feito uma artrite nas juntas. A casca do corpo é o embrulho do tempo.
Varal de palavras Hoje estou devorando a noite como um urso recém saído da hibernação. Com minha boca, úmida de cerveja, estou pronto para o gozo da alegria, que confunde verdades e mentiras e as pendura num varal de versos inauditos, que nem eu mesmo sei de onde vieram. E meu estoque de palavras, esperança e amor fica maior que a Enciclopédia de Diderot ou uma wikipedia virtual. Diante de uma plateia atônita, estou no centro de um mundo, que nenhuma Geografia Quântica descreveu. Os baldes de poemas que meu coração derrama, na volta da noite ela irá reescrevê-los, com o batom, no espelho: reverência a Eros, na clausura de um hoje cintilante, 99
como espetáculo, empurrado pela fome de ser. Para proclamar o prazer - a despeito da dor de me fazer ou me desfazer – minha alma me diz: “De tanto ser e de me exaurir, para todos os efeitos estou feliz!” Do calabouço da garganta é que poemas abundantes se reduzem a ecos, E paixões remanescentes expõem minhas próprias sobras e transformam o jogo da vida em verdade. Restam versos como este: Varal sem roupas para o próximo inverno.
Mãos Essas minhas mãos são uma carne exposta ao sol escaldante, no varal do tempo. Um dia já socaram o ar, em êxtase, na chegada dos filhos. Um dia já colheram as melhores jabuticabas, tão doces quanto o egoísmo infantil. Um dia já pensaram estar fazendo o mais pleno amor, só por ser apenas epidérmico. Um dia já se prepararam para o crime, e deles restaram apenas medos, alívios e poemas.
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Um dia já suspenderam crianças nos ombros, como quem finge compreender a felicidade de um parque infantil já desmontado pela idade da razão. Um dia já se postaram, aflitas, em oração, para todos os deuses ausentes. Um dia já manusearam moedas como quem negocia sonhos, na bacia das almas. Um dia já plantaram todas as árvores, hoje abatidas nas madeireiras. Um dia já acenaram, em adeus, sem poder acreditar no que faziam. Um dia já construíram catedrais góticas imaginárias, e nenhum quadro que conseguisse imitar Picasso ou Portinari. Não venho dizer que essas mãos, benditas ou amaldiçoadas, tenham alguma beleza ou feiura. Na pele e osso de sua condição, elas falam por si, como instrumentos de um velho alfaiate, escravizado pelos donos dos uniformes de gala, no manuseio dos tecidos. A linha e agulha desse desenho imperfeito, que é a vida, é que teimam em lhe escapar pelos dedos.
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A flecha que atravessou o coração da tarde A angústia diante da morte é angústia ‘diante’ do poder-ser mais próprio, incondicionado e insuperável. (Martin Heidegger. “Ser e tempo”)
O balde cheio do FaceBook derrama a notícia: Morreu aquele pedinte de nossa porta. Fulano, ciclano, beltrano... De um cão farejador, que nome importa? Roupas, cobertores, chinelos, copos d’água, nacos de pão ou qualquer sobra de qualquer coisa, a qualquer hora, de qualquer jeito.. - dito e feito e o Deus-te-pague-em-dobro. Ser enterrado, por destinado, na vala do esquecimento, cumpre resgatar o nome legítimo. - Nem que seja um nome meteórico só para constar nos autos. Ah, sim! É Fulano de tal, que dizia cuidar das ruas e da praça contra os ladrões e puxava conversas, amiúde, só para vomitar a bílis de uma solidão de andarilho, que lhe embaçava os olhos, ao procurar um teto no telhado aberto das noites. Parou de vez, de pedir e receber o troco viciado da contra moeda da palavra 102
ou escutar o contra discurso sem efeito moral: Dinheiro pra cachaça e droga! O velório exala o fedor bizarro da morte, ornada com quatro castiçais e uma coroa de flores, doada pelo establishment do poder público, sem homenagem de parente algum. Apenas alguns irmãos, de uma confraria de mendigos, vieram para o adeus a esse pássaro a mais, maltratado pelas navalhas dos ventos das madrugadas. Uma vida feita das sobras e acumulada nas contingências do abandono não mais precisará dessas mãos, cruzadas sobre o peito, para recolher, por costume, o dejeto da esmola, como despejo humanitário da moral. E o corpo, inerte como uma pedra viva, aos avessos, vai traduzindo o barulho ensurdecedor da ausência do choro, filtrado por um velório ainda mais impiedoso, pelas fatias desconexas da memória. Troco algumas palavras obsequiosas, só para recauchutar as paredes de meu próprio abismo. E as poucas caras pareciam um quadro de natureza morta, silenciando a complacência nos olhos e vomitando conformidade nas bocas - o pior dos deuses é o “Deus-assim-o-quis”. Não há tantas lágrimas nos olhos - talvez nenhuma. Tudo parecido a uma tábula rasa da Economia - de sentimentos e sonhos destilando essas poucas horas de obrigação, que demoram milênios. É pior morrer ou não ter a quem chorar?
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A pergunta que dirigi a esse meu coração apertado, a passagem deste pedinte não me garante responder. O que há de assustador na morte é que ela não dá bola para a dignidade humana. A flecha que matou Rodrigo, atravessou também o coração desta tarde ensolarada. Bela, mansa e imorredoura!
Eus I (Eu, desnorteado) Quando Deus disse a Moisés (na sarça ardente de um deserto): Eu sou Aquele que sou, foi o primeiro filósofo kantiano, então revelado. Como não imaginava que Deus fosse apenas pura inteligência, estou indignado! Pudera Deus vir a mim de outras formas. Eu descalçaria as sandálias para levar em frente um poema, mínimo que fosse - no lugar das Tábuas da Lei.
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II (Eu, sem bússola) Drummond, José, Raimundo, o que acontece com o mundo? Os paradigmas sólidos se tornaram líquidos; a MPB perdeu o M;. o teatro ficou sem texto; e os artistas sem o motor da angústia. Crianças amanhecem precoces para uma vida sobreposta. Até os arco-íris, minhas últimas reservas coloridas de delírio cósmico, desceram dos céus de chuva e sol e migraram para as vitrines de lojas ou monitores. Pudera ao menos ter nas mãos um copo vazio, para cuspir babas de palavras sem nexo, daquelas de bocas de poetas bêbados de tanta lucidez e de almas estragadas nos espelhos dos olhos cansados. Enquanto profetas de um tempo morto flertam com o silêncio, no vozerio imposto, me vejo aqui, nessa mesa de bar sem corda de esperança para me agarrar. E me livrar do enorme abismo desse chão, sem conseguir puxar o cobertor e armar a cama para o sono do berço esplêndido. Eu, deslocado, desolado, desconectado, empurrado para o canto dos salões das oficialidades miméticas – ou mascaradas – vou regando as veias com o veneno dessa apátrida solidão. Mas o país – nada abstrato – nem me dá bola, 105
a não ser que eu também promova espetáculos: um tiro no peito, uma batida policial e o enquadramento, numa foto, ora virtual, para uma posteridade fugidia. Tudo bem! Daqui a pouco vou ao toalete urinar tudo o que me resta - por dentro num tempo de metamorfoses estéticas – por fora. O que farei, por ora? Mascarar o estoque de humanidade que me resta empurrando as utopias arcaicas (ou arcanas) para debaixo dos tapetes da memória? Ou entrar nos radares dos que me vigiam e me seduzem, para viver em outros novos/velhos tempos de fascínio, poder e glória?
III (Eu, todo retorcido) A razão estraga o poema, como o fungo na fruta o ácaro no tapete o mofo na parede... Meu vício maior é pôr o cobertor da lógica sobre a beleza nua das coisas e querer que elas continuem erotizadas. Se a poesia não consegue falar em mim, como nos animais, nas plantas, nos minerais... onde está o manual de sobrevivência? Se me despojo do que penso, por destinado, a música intermitente de uma simples cascata 106
me provoca o afogamento de tanta grandeza, como uma formiga num copo d’água. Ainda bem que poemas só servem para mostrar que a procura da palavra mágica, placebo da cura, não passa pelo entendimento. Talvez não tenha me preparado para perceber o óbvio - como não foi solicitado aos bichos. A vida é uma floresta densa, sob um cipoal de desejos. E não adianta me dar a escrever ensaios, pura rendição dos sentidos, para provar que os poetas são tolos, como as crianças, sob o sol do futuro, ou os velhos, sob a névoa da memória. Um modo teimoso e fértil de estar lúcido - mesmo atolado na movediça areia da lógica – é enxergar o lado erótico da poesia do mundo. Seja despida da roupagem do sentido, mas límpida, tanto quanto bela, seja lapidada, às pressas, para os embrulhos dourados da cultura massificada. Definitivamente, nem a razão pode dar as mãos ao poema, num grito convergente e solidário, nem a Humanidade está dando bola ao que não é epidérmico. E quando eu entender do que a Humanidade mais precisa, aí já terei morrido de tédio, e o sabonete asséptico da razão não poderá mais lavar minha alma. E eu, todo retorcido, vencido e envelhecido, tombarei nas portas das lojas, para que os urubus virtuais devorem meu coração. Só me restará, nesse tão pouco de nada, continuar sonhando em ser, no limite, o que sou: 107
sempre o resto de mim mesmo. Por que buscar raízes, se, enquanto isso, sob o espetáculo do abandono, estômagos nauseantes de carros vomitam uma letra freudiana e enlatada do funk ou do sertanejo universitário?
IV (Eu – ainda - ausente) (Para o fotógrafo Sebastião Salgado)
Às vezes sinto... que meu corpo ainda anda à procura de uma alma. Crianças correm nas calçadas e ainda estou sem olhos - para ler a esperança em seus cabelos esvoaçados e reaprender com eles a tomar banhos de chuva. Fotógrafos-profetas estampam a estupidez humana na cara da fome e ainda estou sem olhos - para abrir com eles o berro da indignação. Adolescentes exibem trejeitos erótico-estéticos e estou sem olhos - para investir minhas mãos no cuidado do que é belo e frágil. Lagartos asquerosos viram borboletas radiantes e ainda estou sem olhos - para perceber a metamorfose holística do universo em movimento. A mulher amada faz juras de paixão e ainda estou sem olhos 108
- para ver seus delírios, pelo seu corpo: Eros, em oração Engenheiros projetam arranha-céus suntuosos e ainda estou sem olhos - para absorver a argúcia de suas inteligências como arquitetura da beleza de alma do animal-homem. A chuva de verão risca um arco-íris sobre o lago e ainda estou sem olhos - para brincar de separar suas sete cores como aposta infantil jamais resolvida. Às vezes pergunto se meu problema não é sério - do tipo metafísico ou psicológico. Nada disso – penso – é apenas oftalmológico! Mas eis que surge o receio de o médico descobrir, no fundo de minhas córneas, um livro de páginas em branco, como se os anos opacos, de rotina descolorida, fossem o falso desenho da vida.
V (Eu, Heráclito) (Tudo flui como um rio. Aforisma de Heráclito de Éfeso – também atribuído ao discípulo Crátilo. “Fragmentos pré-socráticos”.)
I O véu dessa cachoeira, com sua aragem fria, banha a carcaça de minha alma cansada. 109
Sobre a eterna montanha do tempo, o rumor dessas águas, calculado em milênios pelo Engenheiro da criação, me afoga numa cartesiana dúvida: Se penso e logo existo, se penso que existo, por que não apreendo a linguagem mais transparente desses musgos e rochas encharcados? A saúde do ser, de pedras sobre pedras, sobre abismos, emerge de um incessante batismo, sem cerimônias, nem credos. Estar disposto a nada ser é o que me bastaria como essas águas heracliteanas: ecos de uma oração perene, fora dos templos, e uma natureza em moto perpétuo. Espumas de palavras fervilham uma fartura de bolhas. Gramática visual analógica, sem substância própria, nem verbos ou interrogações: pura água! Sobre o guarda-chuva cerebral de minhas filosofices, a cachoeira lava o sebo metafísico das plantas de meus cabelos. E sinto derramar sobre mim, límpido e leve, o volume espesso do poema-em-si: água, água, água, tudo água... translúcida e pura 110
- metáfora de sua própria linguagem que nada pede para ser - um para-si. E eu, também contraditório, não sei se me desfaço se me desconheço, ou me reconheço - ou me recomeço. Parte de um tempo-síntese puro pretérito-presente, sem necessitar de memória. Qual essas corredeiras, eu me despeço de mim - e me permito ir embora.
II Essas águas borbulhantes - de hoje que não são as mesas de ontem acariciam o casco duro desses pés errantes. Aqui, parado, ainda sou o prenúncio do que gostaria de ser e essa condição teima em ser perene. Essas águas não podem levar o que me resta. Então, que levem apenas o que, de mim, não presta.
III Volto à cachoeira como um velho pensa em voltar à infância perdida. É ou não é a vida?
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Pote inesgotável em batismo perene de luz divina - tanto quando me enxagua a alma e me ilumina é o outro tanto que te imploro: me lava (de novo) nessa água que me leva e me eleva (pra valer) nessa água que me lava.
O que foi feito de meu poema? Meu poema, coitadinho, brota como hera inútil em praças e muros verdejantes de bromélias e orquídeas - mas tão miúdo e pequenininho! Aos transeuntes serenos que buscam bancos de leitura às sombras das árvores, sob pássaros, cantares e ninhos, o que faz esse entulho de palavras que só atrapalha os caminhos? O jardineiro o pisoteia quando não o arranca num todo para a limpeza do gramado, com enxada, pá e ancinho! Tadim dele! Desclorofilado, seco, mal nascido, mirrado, vai para o aterro urbano. Mas meu poema a toda hora (manhã, tarde ou madrugada) traz algo de original: um pós-tudo, por ter sido nada!
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Passaporte Quando a morte bater à minha porta, deverá vir em traje de oficial de Justiça, vestida numa toga, trazendo-me ordem de despejo, num processo de falência da própria vida. Tentarei fazer as honras e convidá-la à sala de visitas ao som de uma cantata de Bach e ao sabor de rosquinhas e chá. Mostrarei a ela, na biblioteca, textos grifados de Pessoa, Drummond, Bandeira, Cruz e Sousa, G. Ramos, G. Rosa, Barreto, Machado... como se cultivar palavras, na seara do destino, fosse um modo de estar preparado. Tentarei convencê-la de que não me recuso à despedida e não me reduzo à despedida. Pedirei apenas que não convide meus amigos. A sós, minha agonia dissimularemos, destilada nos minutos mais extremos, até quando exaurir, por acabado, essa cristalina ilusão a que usamos chamar de vida. Quero relembrar com ela, em flashback, do tanto que tentei viver e dizer, com Pessoa, que vale a pena pensar que a vida é boa. Direi que brilhava as botinas surradas para ir à escola; abrir o caderno novo – de João Cabral - e desaprender o B-A-BÁ, 113
só pra entrar na fila da cantina e tomar sopa de fubá. Que trabalhava de engraxate e me banhava na lagoa; brincava na enxurrada e pisava em cacos de vidro pra receber as surras corretivas do amor materno. Se a velha senhora vier fazer meu espólio, tem de constar minha felicidade ao esperar, nas filas, as matinês de domingo para assistir aos filmes de Tarzan, no majestoso cine Capitólio. Satisfeito, lembrarei que trepava em cajueiros goiabeiras, mangueiras e tamarineiros e me fartava do fruto da infância. Ah! Não esquecerei de mencionar o dia em que entrei nas Casas Pernambucanas, orgulho no peito e dinheiro na algibeira, e negociei com um homem sisudo, - atrás de um bigode, gravata, avental e olhar em riste um retalho de fazenda estampada, tirado com tesoura afiada e fita métrica de madeira, para colorir o coração de minha mãe, que andava triste. Direi que adolesci, e, envergonhado, contarei que beijava a caipirinha de face rosada e respiração ofegante. E terei de relatar que entrei para a idade da razão e dei em nada, se ela conhece, mais que a mim mesmo, meu prontuário e o estoque restante de minha alegoria? Então, na conversa final com essa senhora, madrasta de toda sabedoria, assinarei meu passaporte 114
sem ter de chamá-la de morte.
Propostas (às fumaças de meu cachimbo) I Quando eu partir desta vida quero permanecer sob uma árvore frondosa, - do tamanho de meu ego entre pássaros, todos maiores que eu, só para ter a consciência de não ter partido em vão.
II A morte não pode resultar numa negociação forçada com o destino. Só peço que esta senhora me garanta que eu continue escutando sobre o travesseiro de pedras, e preguiça eterna, essas imortais cantatas de Bach.
Obscena nudez Na geladeira mortuária do Instituto pedem, ao parente, para reconhecer o corpo. Corpo de mulher, nua em pelo, sob lençóis, puxado de uma gaveta burocrática. Sem brilho, nem lágrimas, as lanternas apagadas dos olhos, 115
miram sua última paisagem: um teto sem estrelas. - Parecem estar lendo as obras de Shoppenhauer, Pär Lagerkwist ou Heminguay. Sobre o ventre, e a flor murcha do sexo a tatuagem de um nome – uma paixão. O que resultou de aventuras eróticas, sonhos acordados e rompantes de palavras? Um tiro certeiro, que expôs a carne fria do destino. Suicídio? O que importa? - o isso é tudo ou o isso é nada? A agonia do parente transforma em grito inútil o silêncio cortante da madrugada.
Espetáculo circense Na casa do Senhor não existe satanás Xô satanás xô satanás… (Banda musical Asa de Águia – Álbum “A lenda”)
I (Demônio no corpo?) O pastor, na praça, brandindo nas mãos o Livro Sagrado, - espada de fogo do anjo que expulsou Eva do Paraíso discursa sobre as recomendações morais de Paulo, o apóstolo. A menina de lábios carnudos, 116
mamilos rosados, sob a blusa de renda, - cerejas do diabo aparece, no de repente, muda na boca e falante nos olhos - o que Eros, de melhor, nos entrega. Interrogada, em sua alma, desde cedo, rendida, e desnuda desde dentro dos bares da vida, o pecado lhe sai pelos poros, de tão nua, embora vestida. Eu, que deveria ser um todo inteiro sob a fratura cartesiana de minha mente - res cogitans, res extensa – trafego sobre a casca do mundo com meus olhos encharcados de interrogações. Meus passos apontam que não quero a salvação. E minhas veias me contam que Evangelho algum me salvaria. Meu corpo responde às minhas perguntas, e eu não respondo às perguntas de meu corpo. E minha alma, pura como a de um anjo contraditório , só enlouquece - ou engrandece? com a possibilidade do pecado. Pior que o pastor, que distribui a graça do esplendoroso raio de Luz - e que jamais me entenderia -, é o Salvador, pendurado a uma pesada cruz - que jamais me salvaria!
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II (Almas e cifrões) Nas igrejas teletrônicas do Reino de Deus pastores hipertensos, na forca de suas gravatas babam o óleo do ódio, enquanto arrancam demônios de corpos e mentes mal nutridos. A terapia bruta da salvação pela palavra escamoteia esperanças inacessíveis, enquanto a desencarnação do mal eletriza os olhos como uma revoada de morcegos numa caverna noturna. E se eu adentrasse no salão e declamasse um poema, quem sabe roubaria a cena do espetáculo estético das linguagens? Mas com o Satanás não se brinca! O anjo da guarda do templo bilionário que já me expulsou do paraíso de Eva e Adão com sua espada de fogo aprendeu a ser objetivo e prático nos assuntos de religião! E meus versos não serviriam para libertar almas cativas que acumulam medo-sobre-medo no tilintar de moedas das doações. Pudera, pelo menos, depositar na bateia de coletas um poema mínimo que apontasse para uma gota de lucidez daquelas mentes sedentas: mais um refugo de ilusão, sob a inutilidade dos discursos? 118
Bendita, tão somente, a poesia que não promete salvação.
Diálogo de corpo e alma Sou trezentos. Sou trezentos e cinquenta (Mário de Andrade. “Poesia completa”)
Queria tanto que este meu corpo e o corpo da Mãe Terra fossem uma coisa só, no mais ancestral de meus desejos. Quando cresço ou adoeço, me despedaço e me refaço, me esmoreço ou me espreguiço, me abandono, fujo de me mim e me regresso... A folha seca dançando ao léu do vento tal qual o broto da roseira são minhas irmãs gêmeas - siamesas companheiras. Astrólogos, cosmólogos, sismólogos... e outros sabichões do Logos grego afirmam estar o universo em expansão - o que as benzedeiras já sabiam nas práticas contra o mal-estar dos quebrantos infantis. Às vezes me encontro meio do avesso. O único pedido a essa minha alma, 119
grandiosa e frágil, é cuidar do destino desse sexagenário corpo, que não a deixa em paz teimoso, feito menino travesso.
Eros & Thânatos Ave, Maria! ando pensando, em demasia, que coisa é esse corpo que me possui. A brasa do desejo, sob a coberta da pele, carrega uma bateria invisível que embriaga os olhos e paralisa a mente. Não dou conta de um mínimo passo em direção ao entendimento, enquanto Freud espia, de dentro das capas brilhantes dos livros das estantes. Quando babo o gozo da vida, respondo: pensar demais sobre os descaminhos do corpo é pegar a estrada, sem volta, de Thânatos. A vida é feita para ser bem morrida.
Sex shop A orquídea de teu sexo, em primavera perene, dispensa o rosa-choque de plumas e rendas. 120
A orquídea de teu sexo dispensa banhos romanos, lençóis de seda fina, aromas artificiais, kit de leite e mel, morangos e tatuagens. Dispensa silicones, chicotes, algemas, correntes sexo do oriente, sexo do ocidente, sexo sadio, sexo doente. Trans-histórica, trans-lúcida... – puro sentido do sem-sentido! a orquídea de teu sexo exibe, tão somente, a beleza, simplicíssima, de teu ser endoidecido. E não importa a hora: - tempo ou eternidade, anoitecer ou aurora a orquídea de teu sexo não floriu sobre o vazio de qualquer incubadora dessa pós-modernosidade.
Poema por encomenda O editor pergunta sobre poemas eróticos e eu entro em parafuso. Publicar versos sobre as viagens do corpo é abrir a caixa preta da aeronave, 121
após a queda livre do voo sem rumo.
Eros aprisionado O olho gordo de minha boca faminta estoura minhas pupilas, sob o olhar invejoso de Eros, para devorar este teu corpo: pera macia, perfumada e úmida. Os olhos de meus lábios vasculham as curvas de teus morangos maduros do frio de julho. O olfato de minhas mãos exala o perfume de teus cabelos: espigas de um farto milharal. Eu aqui, no nó da gravata da rua morrendo de inveja de seus donos, seus amantes, seus pupilos - convidados a mordiscar estes mamilos e compartilhar sussurros, gritos e silêncios das palavras. E você aí, inteiramente nua, explodindo, de dentro desta lingerie... Embebidos no vinagre do cifrão minha mente torta interroga o coração. Ah se você pudesse 122
descer deste outdoor pra me vender de corpo e alma!
Deus não me livra de meu poema Meu poema está envelhecendo. Daqui a pouco precisará de óculos mais graduados, parapeitos altos, corrimãos reforçados, - e uma bengala rígida e emborrachada. Seu sangue fervente viaja nas correntezas do corpo mas não rega o cérebro para eu entender por completo a árida lucidez desta amanhã. Poema-arbusto, Sem o DNA de um carvalho, me manda recados, por um calendário invisível, que só minhas mãos apalpam sem necessidade alguma de sabedoria. Não é de hoje que me vigia por dentro. E as palavras que o nutrem, alimento para o rigor do nada, fazem o diálogo mudo com as nuvens diante de meus olhos cativos. Se o Criador me dispensasse de me iludir com a razão, o enigma da felicidade estaria revolvido? Pelo menos não mais precisaria buscar saídas: trafegar a praça para desencontrar os homens, 123
empurrar as gangorras da infância, fumar cachimbo e cuspir no chão, remover fumaça e memória, como modos de tropeçar no tempo. Até onde Deus irá me permitir, no prato-feito da vida, só comer pelas beiradas, as migalhas do sentimento?
Quero te... Quero te levar um presente mínimo, que seja da prateleira de um bazar dos pobres. Qualquer coisa: um anel de casca de coco, um sachê, um embrulhinho qualquer em papel machê. Ainda que seja maior que eu mesmo, será menor que meu desejo e meu gesto.
Dissimulação Pés com esmalte encarnado, em chinelos de artesãos e lenço combinando com adereços. Na mística oriental, deste vestido indiano, você vem da feira hippie. Não venha dissimular a beleza, desse corpo de praia, de ocidente 124
de Bahias, Áfricas, sertões, Axés, carnavais... Você rica, esplêndida e pobre, com a dignidade de um casebre não será outra mulher, mais mulher e mais nobre travestida de oriente.
Paraíso artificial (Poema mal resolvido) Ao morder a maçã envenenada desse corpo reinventei o paraíso e o medo. Suspeitava que uma legião de anjos viesse me expulsar com suas espadas de fogo e os preceitos da moral, kantiana e universal. Mas previ você me expulsando primeiro - num corpo e alma embrulhados no dinheiro: rímel pesado nos olhos doces, salto agulha e esmalte extravagante, lingerie de marca estrangeira e o brilhante batom da Avon. Na poética globalidade da mulher “brasileira” você, toda Boticário, toda Natura, toda Água de cheiro. À sua imagem e semelhança o capital fabrica a sedução, no tilintar de ouro dos braceletes, colares e brincos e nada mais revela que a inveja de Deus. O que não pode, em sua esquizofrenia, é sugar o valor real do cheiro de amor feminino, febril e natural, 125
como o que exala da terra bíblica do Cânticos dos cânticos, de Adão, Freud e Reich Eva, Beth Milan, Ângela Davis e Simone de Beauvoir... Aquele Mal de aquém do Bem Aquele Bem de além do Mal. Nessa gaiola de desejos fartos Miss (universal) de tua própria esquina, o paraíso artificial de teu corpo soa como uma fruta maravilhosa - e maravilhada -, crescida no agrotóxico e envernizada, disponível para o próximo comercial.
Desacerto (em rimas) não é minha morte que me preocupa, é minha mulher deixada sozinha com este monte de coisa nenhuma. (Charles Bukowski. “Pensador”).
Usei meus pés para experimentar estradas e minhas asas todas, as soltei no ar. Estiquei os braços na multiplicação de abraços e meu par de olhos para o esplendor da lua. Lambuzei a boca com as mangas da infância mas plantei meus sonhos nas areias de um deserto - que resultaram num coração em desacerto. Por fim, achei meu corpo no corpo da mulher nua mas perdi minha alma, jogada no olho da rua.
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De mãos dadas Feito dedos que se tocam - Criador e criatura numa Capela Sistina o menino estica o braço direito para o alto. Alcançar a mão esquerda do pai é proteger-se das correntezas das ruas. Não há High Tec (filmofotoelétrica) que eternize tal momento. No bairro de lama e descaso, sem asfalto, cidade e futuro, os pés da infância, tateando o dorso do chão, teimam em continuar (ainda) os primeiros passos da Humanidade. Na ordem do dia da vida - estradas e horizontes, necessidade e liberdade o tamanho do mundo, medido em pés andarilhos, fica menor que a curiosidade dos olhos. Observo os dois, mascando o chiclete adocicado do tempo e ruminando choro e palavras. O passado do pai, pedindo licença para aprender o futuro do filho. No esplendor ritual das mãos, cumpre uma pedagogia avessa: segurar as asas do pássaro para não voar tão afoito 127
por sobre abismos vindouros. É que os olhos gulosos de menino iniciante borboleteiam o horizonte, e nem calculam o tamanho dos sonhos que o chão dos caminhos não dispõe. O grito libertário que não se ouve, entre resmungos e falas indecifráveis, vira um único caldo sonoro da solidão dos vencidos. Então, para que servem as manhãs, senão para abotoar as camisas dos sonhos?
Viver e morrer a vida Inverno É tudo o que sinto Viver É sucinto. (Paulo Leminski. “Toda poesia”)
I No primeiro dia de meu nascimento comecei a ir morrendo a vida - em redundâncias de linguagens mesmo comendo o miolo da fruta dos sonhos. O que esse menino vai ser quando crescer - nunca o que o menino é. A boca faminta da morte 128
suga o sangue fresco do tempo. Mas nunca é hora de se dar conta disso, quando o sol das manhãs da vida esquenta o bronze do corpo ávido de energias. O caminho montanhoso dos dias vira uma flecha invisível no coração - em polegadas crescentes e bem medidas, como uma balança refinada a pesar o ouro do que vale ou não a pena contabilizar estrada afora. Nas madrugadas dos anos corridos, atrás dos muros dos quintais – qual predador frente a presa – arma seu silêncio de espreita ao corpo e faz doer seu riso de escárnio sobre a alma dita imortal. O pior esforço da vida é tornar essa dor costume e complacência. Nem adianta ao coração endoidecer-se de paixões, afundar em lençóis de noites desdormidas, derreter o mel da alegria nos dias de sol e chuva de verão. Pudera eu viver a simplicidade de uma flor mínima - sem tanto esplendor metafísico, nem cabeça para perguntas abstratas. A vida se torna plena mesmo é sob o véu da incompreensão.
II Cabeças brancas, de cabelos amassados 129
pelos travesseiros de noites mornas, fazem fila nos caixas bancários. Mãos trêmulas, que já morreram para a mais-valia absoluta, teclam as senhas sob a demora do esquecimento e a aflição dos olhares. Vieram buscar o soldo de suas vidas para a regalia dos bisnetos. Medicamentos de tarja preta estouram os salários. E o saldo não sobra para o milho aos pombos nas Praças dos Sem Poderes.
III Flamboyants frondosos ao sol, cobrem os bancos dos encontros e colorem as cinzas do esquecimento, como se a vida verdejasse numa primavera perene. Cigarras, no contraponto da surdez, executam o violino da tarde mansa. Já é inverno nas estações do corpo.
Anjo caipira (Para João Baptista Nascimento, (In memoriam).
As sobrancelhas pesadas eram as cangas de olhos doces e cansados, 130
ombro arqueado, sobre um esquelético corpo, dançando invisível no ar, anunciava o andar de um anjo pela casa. Não se ouviam passadas, nem falas, nem reclamos. Ouviam-se os acordes rasgando seu silêncio de fim de tarde, quando se refugiava no som da eletrola. O diálogo com os cantantes da viola, é que tornavam saboroso o café fumegante da vida. João Baptista incomodava o Narciso grego, pela sua beleza opaca. E continua presente, dando água e alpiste, aos pássaros invisíveis, nas gaiolas da varanda, que só lhe voavam do céu da alma. O que farei para interceder sua ajuda, toda vez que eu descer aos infernos da razão? O anjo caipira, no rosário dos dias, prenúncio da educação para a ausência, foi sequestrando de nosso juízo o direito ao lamento pelo lamento. Às vezes, nem sempre, a saudade faz sentido - nessa minha alma ausente, nesse meu coração ferido!
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Orquídea No tronco da mangueira ela se abre, exuberante. Flor púrpura, magistral ofertada ao silêncio dos olhos, em sua forma vaginal cicatriz de inessencial beleza. Eu, jardineiro, ofereço as mãos ao cuidado ritual no altar da natureza, e convido toda a Humanidade - do fundo de meu quintal a conferir sua realeza. Eu, biocientista, no rigor de meu trabalho, frente a pétalas que se enrugam, desde meu cérebro calculista prevejo não haver remédio. Mais dia, menos dia, no asilo de seu destino, essa orquídea morrerá de tédio.
Sete vidas No entrecruzar de luzes ofuscantes, noite fresca anunciada sábado adentro, sábado ardente, sábado romântico, o automóvel passa, veloz...velocíssimo... e atropela o gato. 132
A gata, do outro lado da rua, sobre o muro, não entende o desencontro amoroso. De dentro da estátua colossal de minha juventude assisto a agonia. Tombado, esticando o pescoço e buscando o ar impossível. Sem a graça de seus movimentos os olhos dormem dentro do nada, despidos de brilho sobre o asfalto ensanguentado. Trêmulo, despede-se da vida e eu o recolho, a sangue quente. Penso em parar o trânsito e exibir aos homens outra vítima da tecnologia... A que adiantaria? Penso em publicar o necrológico nos jornais... A que adiantaria? Penso em orar pela salvação de sua alma noutra vida... A que adiantaria? Então invento uma saída: Recobrar, da infância, a crença na narrativa das sete vidas. E assim me livrar do sofrimento de ver um gato atirado, em pronto endurecimento, virando carniça, carcaça e húmus para continuar adubando nossa cômoda indiferença. Sete vidas eu tivesse, uma delas eu daria a ele!
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Receituário ...os meus versos estão completamente cheios do teu veneno forte, invencível e fluente. (Gilka Machado. “volúpia”)
De tantas-vezes-tantas que nos desentendemos é o mesmo tanto-quanto nos completamos. Você e o mundo me aviam as receitas do planejamento, no sal dos dias da razão. Se não consigo ter um coração pensante, na mistura dos ingredientes nada mais posso que assumir o risco de quebrar o pote de mel da paixão. Origem, meio e fim de uma desordem, ela vira meu perfume, meu elixir de tudo, meu refrigério, meu remédio: para eu renascer, após desenganado. A incurável dor de ter de ser pulsa, em contraditória vida, pedindo para eu renascer de dentro do embrulho dos lençóis.
Ardência I Em teu útero plantei minha semente, que devemos regar, doravante, com lágrimas de suor e alegria. 134
Depois, só permanecer calada, vigiando minha agonia. Observo, com a mão direita, trêmula e macia, bem de perto, dia a dia, o fruto crescente do rebento dormindo na bolha do mundo uterino, e você, ainda emudecida. Virá de algum céu inexistente. (Vai ser menina? Vai ser menino?) Como um anjo previdente me cancelarão o direito de bater nos muros sem janelas do destino. Devo repetir (ad nauseam) vara noite, vara dia, que a vida parece virar nada na porta escancarada da utopia.
II Se avexe não, minha Flô! Tua impaciência no amor é a fita métrica de meu desmerecimento. Todo o desamor de meu amor eu o derramo na bacia das almas de meus retalhos de palavras. Poemas, os tenho feito não como coisa ofertada em pacotes encomendados 135
e enlaçados como presentes. Mas como causa primeira - mesmo os não endereçados na postagem correta dos caixeiros-viajantes das surpresas. Se nem todos lhe servem na exata medida de suas carências concluo que devo abandonar meu antiquado ofício de letreiro.
III
Demora-te sobre a minha hora. Antes de me tomar, demora. (Hilda Hilst.”Odes mínimas”)
Ao viajar sobre teu corpo não me preocupo com as horas do relógio de pulso. Elas não me trazem as imposições das trilhas das ruas, lugar do tempo, das matemáticas e das frias verdades do cifrão. Teu corpo é o mostrador indissimulável da mentira do amor - ainda que sobre a simplicidade desses lençóis usados. É quando a vida, de fato, passa tão depressa.
IV Na fogueira desse corpo incandescente, a única verdade que a paixão me ensina é me deixar pronto para morrer. E deslizo meus dedos trêmulos sobre teu corpo como uma harpa de Nero 136
sob as chamas de uma Roma incendiada, imaginando ser todo-poderoso nas armadilhas do desejo. “Lira do delírio” – diz o poeta De sua boca, sem palavras e na exaustão do gozo, ecoa a derradeira música como se dissesse: a vida está completa. Por isso mesmo, recomeçamos - como quem vem do nada.
V Das vitrines iluminadas, translúcidas e alucinantes, vem a ordem para um poema globalizado. E os dentes de meu cérebro abocanham lingeries achocolatados, enquanto me perco na procura de mim mesmo. Moçoilas tesudas, vestidas em trajes árabes, carregam as pilhas de seus corpos enquanto ensaiam uma dança do ventre. E seus umbigos bem nutridos parecem iscas magnéticas para os mercadores dos Sex Shoppings. Me afundo nos corredores de lojas, numa excitação solitária, enquanto os lábios úmidos do paraíso artificial me acariciam o pescoço e me fazem arrepiar. A gente anônima com seus pacotes 137
contabiliza ilusões sob seus óculos escuros. E aquecem o sorriso pré-fabricado de uma juventude de almas barganhadas e carentes de utopias. As lojas querem comprar meu coração e devolvê-lo na forma de boletos mensais - e eu aqui, sem conseguir fechar a gaiola dos erotismos fetichizados. O anjo mau, que Eros nunca revela, aplica seus cifrões instantâneos – aqui, no Ocidente e nos pregões do Oriente.
Poema provisório 1 (Entendimento) Meu coração me diz que devo amar todas a mulheres - só porque nasci para o desentendimento. Se me lançasse ao deserto da procura - nesse não-sei-o-quê de cada uma me disporia à aventura, nesse lago lírico de afogamento. Ao escolher amar a todas em amando uma - e há cada uma em todas as esquinas do amor – me entrego a que não parecia estar à minha espera. Seu rosto iluminado as chaves desse coração o guardava em segredo; além do Bem ou do Mal, - a desventura ou do medo. 138
E vejo, em minha escolha - em meu intento todas as outras me sorrindo, como se revelassem a natureza feminina feita de um mosaico curioso que o amor a uma só alma compreende: paixão, mistério, entendimento.
II (Desentendimento) Tento entrar neste poema com as mãos limpas e a boca enxaguada, de palavras mal chegadas do espanto da garganta feito pedras sob a língua. Sento-me à mesa - em desatino frente à fogueira de um corpo cuspindo faíscas nos olhos medrosos do destino. Sinto a fome absoluta, incontrolável da paixão que não mede riscos - apenas derrete, no termômetro das horas, a vida, sob a forma de tormento. Ouço ao telefone pedidos de conciliação e penso em interromper esse ensaio de poema. Mas ele já vai derramado no embrulho das horas qual um entulho de palavras, carnes do espírito, sob um corpo indefeso. Mesmo assim, tento inutilmente proferir como quem pode inventar, do nada, a pergunta: Qual vida não é isso mesmo, um desacerto, menina? E vejo que o acerto 139
sobre o que somos e o que desejamos, diluídos do que nos restou da boca faminta da noite, não pode deveras pousar num corpo extenuado de outras festas, e atravessado pelo sentimento estranho. Não há como mentir sobre a mentira já anunciada, no arco do tempo, contra a flecha do desejo, simulacro das verdades mais duras. Ah! Doce menina, quanto mais adentro o âmago desse segredo que me possui menos entendo o dilema: você dizendo não com sua boca medrosa e o meu corpo, por inteiro, dizendo sim na presença muda e embriagada de dois corpos que transmutam em versos invisíveis cada qual a seu modo. Aí tento concluir o poema inconcluso, torná-lo provisório, pelo menos... Se a vida não passa de uma perene espera do tempo prometido, o que dela esperar de quem não inventou o que ousam chamar de amor? Ah! Pudera eu ter apenas reinventado os caminhos traçados para nossa história!
Mulher-menina-mulher Não quero beijar-te como o príncipe retira da boca pura de uma fada 140
o odor da maçã envenenada pela inocência. Não quero a mulher que sonho uma só menina – perene. Quero a menina feito mulher – despida do pano branco dos pudores. Assim, poderei viajar na geografia de teu corpo como um poeta maldito - daqueles que Platão expulsou da República condenado a navegar nas regiões abissais do Hades sob a presença vigilante do barqueiro. Quero que teu corpo, menina – então mulher – me venha exalando o vinho das tavernas e o aroma fresco de manhãs mal dormidas. Desde que eu esteja em chamas, e me perco nele, consumindo-me e me condenando, contra toda sorte de juízos: dos espantos de famílias em suas poltronas assépticas, dos libelos de tabeliões estabelecidos nos cartórios, das rezas de igrejas, das virgens cem por cento de Manuel Bandeira. Aí, quando a claridade da manhã dourar teu corpo e de tua boca ouvir um adeus sem jamais ir embora, terei saciado essa minha alma faustiana - sedento do sábio conhecimento, mesmo sob o risco da culpa de ter ferido de morte a razão. O que poderei fazer, diante do teu (nosso) pavor? Olharei para teu corpo em repouso, feito pássaro abatido em voo livre, e direi:
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Eis, sob a mulher (ainda) a menina, tão humana - posto que demasiadamente divina. E eis, sob a menina, a mulher profana, tão divina, - posto que demasiadamente humana.
Corpo rendido A paixão me faz abrir o peito para expor o sangue quente das palavras, babadas nos lábios da insanidade e sensatez. Ela me faz deitar em estado febril num colchão de nuvens; solta meus anjos decaídos e estanca o que me resta de inocência Que fazer? Expurgá-la, como um pastor expulsa demônios num templo superlotado? Cérebros bem regados, viram uma verdejante plantação de repolhos para apodrecer nas casas e nas ruas e na hora mais cara da rendição do desejo, pelo entendimento moral. O mesmo rompante que me arrebata, que me arrebenta, me arrefece a alma e me desorienta, é o placebo enganador da vida 142
- que me cura e me reorienta!
Poemeto Seu olhar é o radar do coração aflito. E me procura na sala, nos corredores, na multidão. Se meus olhos não encontram os seus é quando fujo, ou finjo, que também não tenho os meus.
Visita inesperada Terminamos de fazer amor - o amor que jamais termina – e abro a janela da manhã. Bem próximo a nossos olhos, numa forquilha do pé de romã o pássaro engenheiro edificou a sabedoria prática do ninho. E eu, sem sabedoria, só me resta compreendê-lo na teia cerebral de meus sentidos. As gotículas reluzentes dos olhos da rolinha me espreitam, armados para o voo do medo e o juízo de nosso saber faz o outro parceiro partir. Os pássaros voam e sobram ninho, ovos e penas. Ainda bem que não há guerra nos ares 143
que dê conta de destruir a beleza essencial. Pena que os passarinhos, enclausurados em seus desesperos, não conseguem compreender a fragilidade de meus desejos.
Trajetória O homem nasce. apalpa o mundo com os olhos dos dedos; atravessa a infância de bicicleta; descontrola hormônios e pensa em se matar pela amada; devora contradições sociais de manifestos e vira o revolucionário das esquinas; amadurece no calabouço dos anos e passa a escrever poemas, pensando que ficou pronto para morrer.
Bar I Hoje, não posso, já que não me encontro lúcido. Amanhã, quem sabe, mesmo que para continuar vigiando minha liberdade, sem asas, de pássaro. O bar me convida a escrever mais poemas 144
e pendurá-los, de vez, nessa parede farta de garrafas silenciosas - cadeados líquidos que abrem a lucidez avessa e pura.
II Ela entra, sorrateira, roubando cena e exalando sexo nos poros da própria alma. Lábios carnudos, seios desnudos: Eva dispensando paraíso. A noite, pecaminosa, envenena os olhares e os corpos viram torres de alta tensão. Todos os olhos de meu corpo trabalham em dobro - e em vão – para sustentar a overdose de letal paixão. Ato consumado, entrega, abandono. Eu, exaurido. Ela, sorrindo. Restou, sob suspeita, - de petit mort – uma simples conclusão: Juro que esse poema ficou lindo!
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Indecisão Pelas janelas escancaradas dos olhos minha alma conversa com meu corpo. E ele me diz que prefere o raiar do dia ao entardecer. Pé na estrada, na brasa nascente do sol desenhando a silhueta das árvores: fêmeas no cio da terra, agraciadas pelo esplendor do dia e abrigando a loucura dos pássaros em tempestuosa alegoria. Exalando o suor das jornadas, meu corpo conversa com minha alma. E ela me diz que prefere o entardecer. Pé na estrada, de volta ao eterno retorno. Maritacas disputando espaços de seus leitos numa fritura de linguagens incompreensível. Sol, todo poderoso, derramando o que resta de seu balde de luz nos dorsos das montanhas. Não venham com fotografias, que esses olhos tecnológicos, não tem cheiro nem sabor. Ao encontro dos vagalumes da escuridão vindoura, vagabundeio a noite para exorcismar fantasmas. O corpo, exaurido pela labuta, vai ser entregue de volta, à mesma escuridão do trabalho do amor.
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Elegia ao desejo cooptado Ela apareceu em minha esquina, qual um felino numa savana, à espreita da presa. Eletrizei o corpo, acelerei os passos de lebre em fuga, e entrei numa igreja repleta de fiéis. Mentes e corações explodiam e todos os pecados estavam sendo expurgados - incluindo os meus. Voltei sem alma para a masmorra escura dos guetos dos pecadores. Precisei orar para ter meus demônios de volta.
Bisturi I Nunca escrevo um poema sem, antes, abrir os pulsos. Se não há coragem nem paixão pelo suicídio os braços logo cicatrizam, à espera do próximo corte. Dizer que a vida é pura dissimulação, desgosta a alma, repositório da dor maior. Por que o poema só estará completo quando o bisturi estanca a dor de ser? Se não há cura para um corpo que não se cansa de renascer, revivendo, que verdade da carne que o poema expõe?
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II No ritual de assepsia das mãos entro na sala cirúrgica do poema para fazer a biopsia da palavra. Cicatrizo o corpo, exaurido e mudo, enquanto o coração desacelera em aviso. Na ponta do bisturi, que dança sobre a carne sua música silenciosa de poder, desenho o diagnóstico de versos em desacertos. Nos mostradores de gráficos, dos monitores da Tecnociência, as vísceras do corpo se revelaram impregnadas de bactérias da paixão. Volto da sala de poemas como quem antecipou a autópsia do ser e abro o fatídico relatório: O poema nasce quando o corpo é tomado pela suspeita de uma felicidade plena e indolor. E ela aparece sempre, na porta escancarada do peito, sob anestesias ilusórias, para dizer que não há mais cura.
Poema-pó Apoiado nessa bengala imaginária dos anos, rememoro vivências e me vejo remanescente de mim mesmo. Ombros curvados pesam na medida das alegrias soterradas da alma. No rescaldo da vida a mea culpa pelo não vivido: saldo devedor de um armazém falido.
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No boteco da esquina violeiros arriscam acordes aprendendo a ignorar a dor - e não minimizam o ranger de meus ossos. Uns tocam, outros cantam e precisam dizer que a música, tão de dentro, vem de longe. O homem não tem inspiração suficiente para compor todas as músicas da vida. Nos passos pesados de minhas pernas uma alma calculista planeja um dia abandonar o corpo e eu não encontro o refrão de violas e cantares alheios. A ampulheta do tempo vindouro não perdoa a poeira que vem grudada no embrulho do destino. O saldo de areia, feito solidão, não refaz o que derrete na memória.
Agradecimento Quando olho pra esse mar revolto, ou sinto o cheiro inodoro do vento - ou o odor dos frutos do mar só tenho a agradecer a esse meu coração - que me traz pra dentro do peito os problemas do mundo. Trabalhador incansável, sob uma ordem invisível para um viver pleno, nem sei como me caibo nesse corpo magro, 149
Suas bombas de sangue, correia de transmissão de um jogo de dados do destino me fazem ver, no retrovisor do tempo, corpos e mentes tombados em combate - suicídios, homicídios, naufrágios. Dentre tantas flores pisoteadas, sobre pedras geladas e sem luz, esse meu coração batendo só para me permitir olhar a arrebentação das ondas ou pisar, descuidado, sobre conchas. Relógio da vida, diuturno e discreto, que suporta meus medos e alavanca meus sonhos e o pavor de não mais vê-lo, um dia, vindo ao meu auxílio e me faltar o ar dos pulmões - ainda que pra dizer, pela última vez: sagrado coração resistente!
Noturno (Oração final) Desde o primeiro dia do tempo o rio serpenteia margens e educa as pedras, só para me permitir algum minuto de êxtase. 150
Sob o rumor das cascatas, sapos enamorados conversam sem preocupação com a contabilidade das horas; vagalumes riscam o céu cortando a carne da escuridão; estrelas, sementes de olhos plantadas sobre nossas cabeças, tilintam, como guardas, para a vigília e o zelo - antes que os homens as ocupem, com seu furor evolutivo com tamanha beleza oculta no breu do céu - como se anjos, santos, Neruda e Éxupèry nos observassem. Trago para a beira do rio minha própria escuridão para continuar dialogando com a escuridão da noite: esse cobertor que recolhe sonhos acordados - como uma camareira dedicada recolhe lençóis usados para um reconforto de existencial abismo das camas. Mas não me aconchego como quem vem diariamente a um vale de lágrimas ou ranger de dentes. Aprendi a me entender, por vias de uma lucidez avessa, nessa caverna a céu aberto, seja à noite, seja à luz do dia, em que rios, vaga-lumes, batráquios e estrelas compõem o tecido translúcido da necessária fantasia. Para todo o tempo restante - da vida plena que ainda não vivi – o dia feito noite e a noite feito dia me salvam, pela obra sem verso, sem verbo, nem alegoria, - da poesia que não escrevi.
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Formato
15,5 x 23,0 cm
1a Edição
Dezembro de 2020
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Uberlândia – MG Brasil
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