SETOR SUCROALCOOLEIRO, TRABALHO E QUALIFICAÇÃO NO BRASIL E EM MINAS GERAIS
Fabiane Santana Previtali
SETOR SUCROALCOOLEIRO, TRABALHO E QUALIFICAÇÃO NO BRASIL E EM MINAS GERAIS
Fabiane Santana Previtali
SETOR SUCROALCOOLEIRO, TRABALHO E QUALIFICAÇÃO NO BRASIL E EM MINAS GERAIS 1a Edição Eletrônica
Uberlândia / Minas Gerais Navegando Publicações 2022
Navegando Publicações
www.editoranavegando.com editoranavegando@gmail.com Uberlândia – MG, Brasil Direção Editorial: Navegando Projeto gráfico e diagramação: Lurdes Lucena Arte da Capa: Alberto Ponte Preta Imagem Capa: EcoDesenvolvimento.org – http://www.ecodesenvolvimento.orgposts2011outubrooit-traca-perfil-de-vitimas-intermediadores-e#ixzz2v9FTqHLr
Copyright © by autor, 2022.
F1128 – PREVITALI, F. S. Setor sucroalcooleiro, trabalho e qualificação no Brasil e em Minas Gerais. Uberlândia: Navegando Publicações, 2022.
ISBN: 978-65-81417-61-1 10.29388/978-65-81417-61-1 Vários Autores 1. Setor sucroalcooleiro 2. Trabalho 3. Qualificação I. Fabiane Santana Previtali II. Navegando Publicações. Título. CDD – 300
Índice para catálogo sistemático Ciências Sociais
300
Navegando Publicações
Editores Carlos Lucena – UFU - Brasil José Claudinei Lombardi – Unicamp - Brasil José Carlos de Souza Araújo – Uniube/UFU - Brasil
www.editoranavegando.com editoranavegando@gmail.com Uberlândia – MG Brasil
Conselho Editorial Multidisciplinar Pesquisadores Nacionais
Pesquisadores Internacionais
Afrânio Mendes Catani – USP – Brasil Anderson Brettas – IFTM - Brasil Anselmo Alencar Colares – UFOPA – Brasil Carlos Lucena – UFU – Brasil Carlos Henrique de Carvalho – UFU, Brasil Cílson César Fagiani – Uniube – Brasil Dermeval Saviani – Unicamp – Brasil Elmiro Santos Resende – UFU – Brasil Fabiane Santana Previtali – UFU, Brasil Gilberto Luiz Alves – UFMS – Brasil Inez Stampa – PUCRJ – Brasil João dos Reis Silva Júnior – UFSCar – Brasil José Carlos de Souza Araújo – Uniube/UFU – Brasil José Claudinei Lombardi – Unicamp – Brasil Larissa Dahmer Pereira – UFF – Brasil Lívia Diana Rocha Magalhães – UESB – Brasil Mara Regina Martins Jacomeli – Unicamp, Brasil Maria J. A. Rosário – UFPA – Brasil Newton Antonio Paciulli Bryan – Unicamp, Brasil Paulino José Orso – Unioeste – Brasil Ricardo Antunes – Unicamp, Brasil Robson Luiz de França – UFU, Brasil Tatiana Dahmer Pereira – UFF - Brasil Valdemar Sguissardi – UFSCar – (Apos.) – Brasil Valeria Lucilia Forti – UERJ – Brasil Yolanda Guerra – UFRJ – Brasil
Alberto L. Bialakowsky – Universidad de Buenos Aires – Argentina. Alcina Maria de Castro Martins – (I.S.M.T.), Coimbra – Portugal Alexander Steffanell – Lee University – EUA Ángela A. Fernández – Univ. Aut. de St. Domingo – Rep. Dominicana Antonino Vidal Ortega – Pont. Un. Cat. M. y Me – Rep. Dominicana Armando Martinez Rosales - Universidad Popular de Cesar – Colômbia Artemis Torres Valenzuela – Universidad San Carlos de Guatemala – Guatemala Carolina Crisorio – Universidad de Buenos Aires – Argentina Christian Cwik – Universität Graz – Austria Christian Hausser – Universidad de Talca – Chile Daniel Schugurensky – Arizona State University – EUA Elizet Payne Iglesias – Universidad de Costa Rica – Costa Rica Elsa Capron – Université de Nimés / Univ. de la Reunión – France Elvira Aballi Morell – Vanderbilt University – EUA. Fernando Camacho Padilla – Univ. Autónoma de Madrid – Espanha Francisco Javier Maza Avila – Universidad de Cartagena – Colômbia Hernán Venegas Delgado – Univ. Autónoma de Coahuila – México Iside Gjergji – Universidade de Coimbra – Portugal Iván Sánchez – Universidad del Magdalena –Colômbia Johanna von Grafenstein, Instituto Mora – México Lionel Muñoz Paz – Universidad Central de Venezuela – Venezuela Jorge Enrique Elías-Caro – Universidad del Magdalena – Colômbia José Jesus Borjón Nieto – El Colégio de Vera Cruz – México José Luis de los Reyes – Universidad Autónoma de Madrid – Espanha Juan Marchena Fernandez – Universidad Pablo de Olavide – Espanha Juan Paz y Miño Cepeda, Pont. Univ. Católica del Ecuador – Equador Lerber Dimas Vasquez – Universidad de La Guajira – Colômbia Marvin Barahona - Universidad Nacional Autónoma de Honduras - Honduras Michael Zeuske – Universität Zu Köln – Alemanha Miguel Perez – Universidade Nova Lisboa – Portugal Pilar Cagiao Vila – Universidad de Santiago de Compostela – Espanha Raul Roman Romero – Univ. Nacional de Colombia – Colômbia Roberto Gonzáles Aranas -Universidad del Norte – Colômbia Ronny Viales Hurtado – Universidad de Costa Rica – Costa Rica Rosana de Matos Silveira Santos – Universidad de Granada – Espanha Rosario Marquez Macias, Universidad de Huelva – Espanha Sérgio Guerra Vilaboy – Universidad de la Habana – Cuba Silvia Mancini – Université de Lausanne – Suíça Teresa Medina – Universidade do Minho – Portugal Tristan MacCoaw – Universit of London – Inglaterra Victor-Jacinto Flecha – Univ. Cat. N. Señora de la Asunción – Paraguai Yoel Cordoví Núñes – Instituto de História de Cuba v Cuba
Ao Prof. José Luis Sanfelice (in memorian), Pela compreensão, amizade e ensinamentos. Ao meu companheiro Cílson, Minhas meninas Íria e Lara, Sempre.
Agradecimentos O livro Setor Sucroalcooleiro, Trabalho e Qualificação no Brasil, apresenta resultados de pesquisa desenvolvida no âmbito do Grupo de Pesquisa Trabalho, Educação e Sociedade (GPTES), da Universidade Federal de Uberlândia, sendo de natureza interdisciplinar e interinstitucional. Ele é resultante de um trabalho coletivo que envolveu a participação de pesquisadores do Brasil e do exterior, bem como estudantes de graduação e pós-graduação num ambiente colaborativo. Sous enormemente grata a todos pelos profícuos debates, sempre instigantes, pelas reflexões críticas, pelo companheirismo e solidariedade em momentos desafiadores do desenvolvimento da pesquisa cujos resultados se apresentam agora. Sou particularmente grata ao Prof. Cílson César Fagiani, coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas Trabalho, Educação e as Transformações Sociais Globais (GEPTETSG), do Programa de Pósgraduação da Universidade de Uberaba (UNIUBE), pela participação ativa e intensa em todas as etapas da pesquisa. Aos professores Carlos Lucena, Robson Luís de França, Sérgio Paulo Morais e Antônio Bosco de Lima, do Programa de Pós-graduação em Educação, no âmbito da Linha de Pesquisa Trabalho, Sociedade e Educação, pela intensa colaboração e pelas intervenções sempre muito pertinentes em nossas reuniões de trabalho. Ao Prof. Ricardo Antunes, coordenador do Grupo de Pesquisa Mundo do Trabalho, da Universidade de Campinas (UNICAMP). Tê-lo como interlocutor no campo da teoria social crítica com ênfase na centralidade do trabalho foi fundamental para a construção teórica da pesquisa cujos resultados estão sintetizados neste livro. Ao Prof. José Luís Sanfelice (in memoriam), pesquisador do Grupo de Pesquisa História da Educação no Brasil (HISTEDBR), da Universidade de Campinas (UNICAMP), pela interlocução e assídua colaboração em todas as atividades realizadas pelo GPTES.
A todos os estudantes de graduação e de pós-graduação do GPTES, pelo convívio sempre respeitoso e pelos intensos debates em nossas reuniões de trabalho e orientação que resultaram em trabalhos de monografias, iniciação científica, dissertações e teses. Agradeço especialmente a Jacqueline de Andrade, amiga querida, sempre muito atenta a todos os aspectos organizativos de suporte à pesquisa. Ao Pablo, à Florence, à Andréia, ao Fabiano Goulart, à Gabriela Peres e Lourenço Pablo da Silva, pesquisadores em nível de graduação e pós-graduação que trabalharam intensamente em todas as atividades desta pesquisa que envolveram também o ensino e a extensão. Faço um agradecimento especial ao meu orientando de doutorado, José Eduardo Fernandes, que se foi muito cedo, e nos deixou a saudade do seu companheirismo e solidariedade. Agradeço ainda o importante apoio financeiro da FAPEMIG, no âmbito do Programa Pesquisador Mineiro (PPM), Edital 002/2017 e a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), meu local de trabalho, pelo apoio institucional no sentido de proporcionar as melhores condições possíveis para o desenvolvimento desta pesquisa. Faço aqui um agradecimento especial à Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-graduação (PROPP), pelo incentivo à produção científica e à Fundação de Apoio Universitário (FAU), que gentilmente sempre me auxiliou em todas as dúvidas e procedimentos burocráticos junto à FAPEMIG.
LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Área dos Estabelecimentos Rurais, segundo o Extrato de Área Brasil (1985/2006)
35
Tabela 2 - População (5 anos ou mais de idade) com Domicílio em Área Rural por Posição na Ocupação (2004 – 2008)
36
Tabela 3 – Crescimento da Frota Flex de Automóveis e Comerciais Leves e o Aumento das Vendas de Etanol Hidratado (1999 – 2009)
42
Tabela 4 - Ranking de Exportação de Etanol por Estado (Ton.) na Safra 2014 - 2015
43
Tabela 5- Evolução da Produção de Açúcar no Brasil por estado durante as Safras de 2000/2001 até 2008/2009
58
Tabela 6 - Evolução da Produção de Etanol no Brasil durante as Safras de 1999/2000 até 2008/2009
59
Tabela 7 – Os 20 Municípios com as Maiores Áreas Plantadas de Cana-de-Açúcar nas Safras de 2005/2006 a 2008/2009
60
Tabela 8 – Ranking dos Municípios Produtores de Cana-de-Açúcar na Região do Triângulo Mineiro (Safra 2013/14)
61
Tabela 9 - Ranking de Exportação de Etanol por Estado na Safra 2014- 2015 (Ton.) (2016)
67
Tabela 10 - Cana-de-Açúcar Processada pelas Usinas Brasileiras (Ton.) (2004 – 2011)
76
Tabela 11 - Posição do Estado de Minas Gerais no Ranking da Agroindústria Sucroalcooleira e sua Evolução (Ton.) nas Safras de 2003 - 2011
83
Tabela 12 - Cogeração de Energia do Setor Sucroalcooleiro em Minas Gerais (2012)
84
Tabela 13 - Distorção Idade-Série no estado de Minas Gerais (2008 – 2012)
110
LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Áreas Favoráveis à Cultura de Cana-de-Açúcar em Minas Gerais (1996)
57
Figura 2 – Localização da Região do Triângulo Mineiro no estado de Minas Gerais (2021)
61
Figura 3 – Localização das Usinas Sucroalcooleiras em Minas Gerais (2003)
81
Figura 4 - Produção de Açúcar e Etanol por Região do estado de Minas Gerais (2011)
82
Figura 5 – Distribuição das Usinas de Açúcar e Etanol no estado de Minas Gerais (2020)
87
LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 – Países de Destino das Exportações de Açúcar (2015)
46
Gráfico 2 - Países de Destino Das Exportações de Etanol (2015)
46
Gráfico 3 - Percentual Quantitativo da População Nordestina em Ituiutaba (MG) (2018)
63
Gráficos 4 - Porcentagem da Área Ocupada pelas Principais Culturas, Carneirinho/MG (2005)
71
Gráfico 5 – Porcentagem da Área Ocupada pelas Principais Culturas, Carneirinho/MG (2007)
71
Gráficos 6 - Porcentagem da Área Ocupada pelas Principais Culturas, União de Minas/ MG (2005)
72
Gráfico 7 - Porcentagem da Área Ocupada pelas Principais Culturas, União de Minas/MG (2007)
72
Gráficos 8 - Porcentagem da Área Ocupada pelas Principais Culturas, Limeira do Oeste/MG (2005)
72
Gráfico 9 - Porcentagem da Área Ocupada pelas Principais Culturas, Limeira do Oeste/MG (2007)
72
Gráfico 10 – Casos identificados de trabalho escravo (2012 - 2013)
135
Gráfico 11 – Trabalho Escravo no Setor Sucroalcooleiro (2014)
136
LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Síntese Comparativa entre os Modelos de Desenvolvimento do Campo: o Agronegócio e a Agricultura Camponesa
38
Quadro 2 - Usinas que Mantém Trabalho Análogo ao Escravo (2015)
48
Quadro 3 – Problemas Enfrentados pelos Trabalhadores em Itaberaí/GO (2011)
68
Quadro 4 - Passado e Presente da Escravidão
131
Quadro 5 – Linha do Tempo do Reconhecimento de Trabalho Escravo no Brasil (1995 – 2016)
133
SUMÁRIO Apresentação
14
1 – A Agroindústria Sucroalcooleira e a Questão Agrária no Brasil
21
1.1 – Os Antecedentes Histórico-Sociais da Cultura da Cana-de-Açúcar no Brasil
21
1.2 – As Políticas de Modernização do Setor Sucroalcooleiro e as Mudanças no Trabalho
26
1.3 - A Reestruturação Produtiva do Setor Sucroalcooleiro e o Trabalho sob a Globalização
44
2 – A Expansão da Agroindústria Sucroalcooleira e as Implicações Socioambientais em Minas Gerais
56
2.1 – Características da Agroindústria Sucroalcooleira em Minas Gerais
56
2.2 – Expansão, Reterritorialização e o Trabalho no Setor Sucroalcooleiro
65
2.3 – Os Impactos Socioambientais das Políticas de Expansão do Setor Sucroalcooleiro
73
3 – As Políticas Educacionais e de Qualificação Profissional para o Trabalho no Setor Sucroalcooleiro
88
3.1 – A Problemática da Qualificação da Força de Trabalho
88
3.2 – A Educação do Campo: o caso do Programa Pró-Jovem Campo em Minas Gerais
104
4 – Os Desafios dos Sindicatos dos Trabalhadores do Campo e luta por Direitos do Trabalho
123
4.1 – Considerações Histórico-Sociais dos Sindicatos dos Trabalhadores e a Defesa do Trabalho
123
4.2 – A Luta contra o Trabalho Escravo no Campo
130
4.3 - Os Sindicatos dos Trabalhadores no Setor Sucroalcooleiro no Triangulo Mineiro/MG e no Interior de São Paulo
137
Considerações Finais
148
Referências
151
Sobre a autora
170
Apresentação A função econômica é apenas uma entre as muitas funções da terra. Esta dá estabilidade à vida do homem; é o local de sua habitação, é a condição de sua segurança física, é a paisagem e as estações do ano. Imaginar a vida do homem sem a terra é o mesmo que imaginá–lo sem mãos e pés. Karl Polanyi, A Grande Transformação, p. 214.
O setor responsável pela produção de açúcar, etanol e biomassa se denomina setor sucroalcooleiro. É um setor bastante importante para a economia brasileira. No ano de 2017 colheu uma safra de 242 milhões de toneladas, resultando em um superávit comercial. Em 2020, a despeito da crise econômica sob a pandemia Covid–19, o setor obteve novo recorde de crescimento. Além disso, o agronegócio responde, direta e indiretamente, por quase um quarto do PIB do país. Porém, mantiveram–se os elos com passado colonial, tais como a baixa qualificação profissional dos trabalhadores do campo, a permanência do trabalho em condições análogas ao escravo, a degradação ambiental, a concentração de terras nos latifúndios e os consequentes processos migratórios campo–cidade com a expulsão de camponeses e pequenos proprietários. Desde o descobrimento do Brasil, há um forte incentivo ao cultivo da cana-de-açúcar, introduzida inicialmente em Pernambuco. Conforme afirmam Vieira, Lima e Braga (2007, p.10) “em menos de vinte anos as plantações de cana-de-açúcar se espalharam pelo litoral brasileiro, de forma que por volta de 1550 o país já era o maior produtor mundial de açúcar”. Nos dias atuais observa–se a presença do setor em várias regiões do país, num processo de reterritorialização rumo à região centro–oeste e norte do país. Dados 14
mais recentes do levantamento feito pela CONAB (2017) a área a ser colhida está estimada em 9,05 milhões de hectares, aumento de 4,6%, se comparada com a safra 2015/16. Isso mostra a grande importância que esse setor representa para o agronegócio e mais ainda para a economia do país. O setor sucroalcooleiro tem passado por profundas alterações nos anos recentes, com a redefinição da organização setorial, estratégias empresariais e alterações no processo produtivo. Destacamos a proibição da queima da cana-de-açúcar, com a consequente adoção da mecanização do corte e plantio e suas implicações na redução da força de trabalho agrícola e a demanda por novas ocupações no setor. E ainda, as mudanças tecnológicas e organizacionais, em particular na base na cadeia produtiva, concernentes à inserção da mecanização. Com a mecanização foi possível a obtenção de ganhos significativos na produção, tendo como resultado a exclusão de trabalhadores do processo produtivo e a modificação no perfil dos novos trabalhadores demandados. Essas mudanças não ocorrem de maneira homogênea e linear, mas sim num contexto de desenvolvimento desigual e combinado em que estão presentes formas de coordenação e controle mais atrasadas e mais modernas tanto ao longo da cadeia produtiva, quanto nas relações espaço– territoriais (PREVITALI et al, 2012). A mecanização do campo, o incremento tecnológico, como maiores níveis de sacarose e menor peso da cana-de-açúcar aumentam cada vez mais a produtividade e a eficiência da colheita, mas coexistem com o trabalho precário e em condições análogas à escravidão. Como já disse Chico de Oliveira, o arcaico não é o atraso do moderno, mas a possibilidade de existência deste na configuração social do Brasil. Com isso se fez necessário analisar o setor do agronegócio sucroalcooleiro enquanto força econômica, mas também problematizando os impactos no mundo do trabalho e sua interface com a educação escolar básica e profissional, bem como 15
no que diz respeito à sustentabilidade ambiental. Assim, o objetivo geral da pesquisa foi oferecer uma intelecção crítica e aprofundada sobre a reestruturação produtiva do setor sucroalcooleiro brasileiro, em particular no estado de Minas Gerais e seus impactos no trabalho do campo quanto às demandas de maior educação escolar e da qualificação profissional. Utilizamos na pesquisa o conceito de cadeia produtiva, a fim de apreendermos não somente a difusão de inovações tecnológicas e/ou organizacionais no interior das empresas, mas também como, e em que medida, o conjunto de inovações provoca uma redefinição da divisão do trabalho no interior das respectivas cadeias, através de estratégias de focalização e integração de atividades, modificando sua estrutura e forma de organização. Essa perspectiva nos possibilita também conceber a tecnologia com resultante de um conjunto de interações assentada estruturalmente na relação sempre antagônica e contraditória, entre capital e trabalho. A hipótese central que orientou nosso estudo foi a de que a expansão da agroindústria sucroalcooleira, no âmbito da reestruturação produtiva envolvendo inovações técnicas e/ou organizacionais e novas relações interfirmas trazia consigo uma forte recomposição da força de trabalho, envolvendo trabalhadores urbanos e rurais assalariados, assim como novas demandas para o sistema educacional regional. Para tanto, buscamos analisar as mudanças nas relações laborais no setor quanto às demandas de qualificação profissional, perfil e estrutura do emprego no âmbito do processo de reestruturação produtiva, considerando–se quatro elementos fundamentais que marcam a reestruturação produtiva do setor e seus impactos no trabalho e na educação. São eles: a) a difusão de inovações técnicas e/ou organizacionais ao longo da cadeia produtiva; b) a redefinição territorial, considerando a expansão para regiões não tradicionais de cultivo; c) a internacionalização do setor e d) questão da 16
sustentabilidade ambiental. Colocou–se ainda como importante objetivo da pesquisa, compreender a visão de mundo dos sindicatos diante das mudanças para os trabalhadores e trabalhadoras envolvidos nesse processo. Com os incentivos por parte do governo e o surgimento das novas tecnologias no setor sucroalcooleiro, houve um aumento na exploração dos trabalhadores rurais, que em muitas vezes trabalham em péssimas condições de trabalho. A introdução das máquinas na colheita da cana, que antes eram feitas a partir da queimada das folhas para auxiliar no corte manual, ao mesmo tempo que expulsou os cortadores manuais, intensificou o trabalho dos que permaneceram, pois os terrenos que as máquinas não conseguem fazer a colheita são geralmente mais inclinados, ou com canas de pior qualidade tornando assim o corte mais difícil. Assim, buscou–se analisar o significado das mudanças no trabalho no setor por parte dos sindicatos e quais estavam sendo suas estratégias de lutas e reivindicações uma vez que é de responsabilidade desses órgãos proteger o trabalhador no que diz respeito às relações e condições de trabalho. A pesquisa ora apresentada neste livro teve sua análise pautada na perspectiva do materialismo histórico–dialético que submete o real a um exame minucioso sem aceitar o mundo das representações e as aparências manifestadas no pensamento de modo imediato (KOSIC, 2002). Dessa forma, almejou–se conhecer a realidade a partir do seu movimento histórico e contraditório pautado na dinâmica das relações de classes capital e trabalho, chamando a atenção para as formas de exploração do trabalho no mundo contemporâneo que articulam trabalho manual direto com trabalho qualificado dotado de maior dimensão intelectual, assim como níveis de maior escolaridade.
17
Os procedimentos metodológicos foram a revisão da literatura sobre o tema, a análise documental e, por fim, realização de uma pesquisa empírica no Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Alimentação de Uberaba. Para Fonseca (2002, p.32), A pesquisa bibliográfica foi feita a partir do levantamento de referências teóricas já analisadas, e publicadas por meios escritos e eletrônicos, como livros, artigos científicos, páginas de web sites. Qualquer trabalho científico inicia–se com uma pesquisa bibliográfica, que permite ao pesquisador conhecer o que já se estudou sobre o assunto. Existem, porém, pesquisas científicas que se baseiam unicamente na pesquisa bibliográfica, procurando referências teóricas publicadas com o objetivo de recolher informações ou conhecimentos prévios sobre o problema a respeito do qual se procura a resposta (FONSECA, 2002, p.32).
Quanto a pesquisa documental, foram observados relatórios técnicos de domínio público, como o Relatório Anual da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), empresa pública vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, da Associação das Indústrias Sucro–energéticas de Minas Gerais (SIAMIG) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), instituição de pesquisa, assessoria e educação do movimento sindical brasileiro como fontes de dados primários com o objetivo de apresentar um panorama analítico do setor sucroalcooleiro em perspectiva internacional, nacional e local. As pesquisas empíricas junto aos sindicatos dos trabalhadores foram áudio–gravadas com o consentimento do entrevistado e ocorreram entre 2017 e 2019. Quanto aos procedimentos metodológicos, optamos pela abordagem qualitativa de cunho exploratório, que segundo Sampieri, Collado e 18
Lucio (2014) utiliza a coleta de dados, sem mediação numérica, para reformular ou revelar perguntas no processo de interpretação. O objetivo foi lançar luzes sobre o discurso oficial do sindicato sobre ao processo de reestruturação produtiva do setor sucroalcooleiro, os impactos sobre o trabalho e as estratégias de luta e de defesa da categoria que representa. Foram elaborados roteiros para entrevistas, com questões abertas e semiabertas, com a diretoria do sindicato na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais das Indústrias de Alimentação de Uberaba e Microrregião. Para problematização e análise da entrevista recorreu–se à análise do discurso, tendo como referência Fairclough (2001), para quem as palavras não são neutras e carregam consigo significados que se constroem nas relações sociais que, por sua vez, estão imbuídas de relações de poder e ideologia. O Sindicato engloba as indústrias alimentícias, de produção de álcool e usinas da região situadas nas cidades de Uberaba, Veríssimo, Campo Florido, Conceição das Alagoas, Conquista e Sacramento. O livro está estruturado em quatro capítulos além desta introdução e as considerações finais. No primeiro capítulo apresentamos a agroindústria sucroalcooleira no Brasil e os seus antecedentes histórico–sociais e processos de reestruturação produtiva, exprimindo uma configuração particular de desenvolvimento econômico–social no país que traz consigo o seu contrário, o não–desenvolvimento, expresso no que chamamos de “questão agrária”. No segundo capítulo discutimos a formação de uma nova relação interfirmas e o trabalho, bem como os impactos socioambientais gerados pelo crescimento do setor, chamando a atenção particularmente para o estado de Minas Gerais, na região do Triângulo Mineiro onde estão concentradas um número significativo de usinas.
19
O capítulo terceiro traz como problemática central a relação trabalho, educação e qualificação profissional, com ênfase no Programa Pró–Jovem Campo e seu desenvolvimento no estado de Minas Gerais. O quarto e último capítulo do livro discute o movimento sindical como um fenômeno próprio do modo de produção capitalista e as suas particularidades no bojo da expansão o da agroindústria no sucroalcooleira no Brasil e, particularmente no caso do estado de Minas Gerais, tomando como perspectiva comparativa as ações do sindicalismo rural no interior do estado de São Paulo. Com esse livro, esperamos contribuir para o debate no campo científico acerca do desenvolvimento econômico e social ora em andamento da agroindústria sucroalcooleira no Brasil e no estado de Minas Gerais, problematizando os impactos no mundo do trabalho e sua interface com a educação escolar básica e profissional e o meio ambiente. Nesse sentido, a obra ora apresentava visa ainda contribuir para subsidiar políticas de governo que promovam o trabalho digno, a defesa da educação escolar com qualidade e a sustentabilidade e ambiental.
20
1 A Agroindústria Sucroalcooleira e a Questão Agrária no Brasil 1.1 – Os Antecedentes Histórico–Sociais da Cultura da cana-de-açúcar no Brasil Na história do Brasil pode–se observar a existência do cultivo da cana-de-açúcar desde os mais primórdios anos com a chegada dos portugueses. Já na primeira metade do século XVI o Rei de Portugal organizou a primeira expedição com objetivos claros de povoar o território brasileiro, expulsar os invasores e começar o plantio da cana-de-açúcar. A região nordeste apresentou clima e solo muito favoráveis ao cultivo da cana e tendo seu produto, o açúcar, excelente aceitação na Europa, este alcançava elevados valores de comercialização. Foi então que Portugal, aproveitando–se do trabalho escravo, de origem africana, incentivou o cultivo da cana-de-açúcar em grande escala. No Brasil Colonial a base da economia brasileira era o engenho de açúcar e a cana-de-açúcar era cultivada como único produto em grandes fazendas, sendo a produção de açúcar voltada para o comércio externo (FURTADO, 2007). É necessário resgatar que desde a colonização portuguesa e posteriormente a abolição da escravatura e a independência do Brasil, as formas de aquisição e apropriação de terras constituíram– se em processos excludentes, e as atividades produtivas que vigoraram eram impostas pelas antigas metrópoles (PRADO JR, 2000). Ou seja, a divisão mundial do trabalho impôs ao país – ingressante na ordem capitalista – a função de fornecedor de 21
matérias–primas e de gêneros agrícolas (FERNANDES, 1973; MARTINS, 1980; SANTOS, 2001). Considerando a expansão da agroindústria sucroalcooleira para regiões não tradicionais de cultivo, destacando–se o Triângulo Mineiro em Minas Gerais não como um fato isolado, mas como parte um contexto desigualmente combinado (MANDEL, 1985; COX, 2013; GEREFFI, 2013), cumpre resgatar historicamente os avanços da economia agrária, em especial a função da cana-de-açúcar no Brasil. Primeiramente, a forma de organizar a produção agrícola foi a da plantation, que se caracteriza por grandes fazendas de área contínua, monocultoras, de produção destinada à exportação e que se utilizavam do trabalho indígena e posteriormente escravo (SORJ, 1980; STEDILE, 2005). A colonização do território deu–se pelo regime de concessão de capitanias hereditárias, que ao se mostrar ineficaz logo foi substituída pelo regime de sesmarias , sendo revogado em 1822, com a independência. Dessa forma, tem–se que o surgimento do campesinato se deu em duas vertentes. A primeira pela imigração, como saída do problema da mão– de–obra após abolição da escravatura, que trouxe milhões de camponeses pobres da Europa, para habitar e trabalhar na agricultura nas regiões Sudeste e Sul. A segunda vertente teve origem nas populações mestiças que foram se formando ao longo da colonização, de origem miscigenada entre brancos, negros e índios. De acordo com Stedile (2005) a maioria dessa população não se submetia ao trabalho escravo, e ao mesmo tempo não era capitalista. Tratava–se de trabalhadores pobres nascidos na colônia, que ao serem impedidos pela Lei de Terras de 1850 de se tornarem pequenos proprietários iniciaram uma longa caminhada pelo interior, povoando o sertão e outras partes do território, onde se dedicavam a atividades agrícolas para subsistência; muitas vezes, sem nenhum registro da terra, novamente eram expulsos da região onde se instalavam. Na contramão das atividades de subsistência 22
que se espalharam pelo território, mantiveram–se as extensas plantações de milho, arroz, feijão, milho, algodão, café, e cana-deaçúcar dentre outras. Nesse contexto, o complexo agroindustrial do setor sucroalcooleiro conseguiu se desenvolver, indo além, se tornando referência em âmbito mundial. Porém, mantiveram–se elos com passado colonial, tais como o trabalho escravo, degradação ambiental, latifúndios e o poder político a ele associado. As primeiras medidas em busca de modernizar a economia brasileira podem ser observadas de forma mais sistemática a partir do modelo de industrialização dependente adotado em 1930, dirigido por Getúlio Vargas e pela burguesia industrial, cuja principal característica é a subordinação da agricultura a indústria. De acordo com Scopinho (1995), cuja análise detém–se sobre a modernização da agroindústria sucroalcooleira na região de Ribeirão Preto/SP, o ano de 1965 é mercado novamente pela política de intervenção desenvolvimentista do Estado na agricultura. A busca por maior produtividade deu–se através da implementação do sistema de créditos e incentivos à estrutura agrária – o Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR) – de forma a viabilizar a criação de programas regionais e estaduais que aceleraram a produção empresarial de alimentos e a de matérias– primas para a indústria. Até a década de 1960, predominava no Brasil uma agricultura de organização primitiva ou tradicional, do ponto de vista da base técnica e da divisão e organização do trabalho. Ou seja, fundamentavam–se no trabalho vivo, dependendo de uma base técnica frágil – movida principalmente pela força humana e animal – que sustentava relações sociais de cunho paternal ou até mesmo servil: o colonato. De acordo com a autora, o sistema de financiamento constitui–se então, numa das principais alavancas da acumulação do capital agroindustrial, uma vez que os excedentes
23
eram captados e distribuídos em favor da indústria e do comércio interno (SCOPINHO, 1995). Silva (1999) analisa a expulsão de colonos, parceiros, arrendatários e pequenos produtores da agricultura do Estado de São Paulo sob influência da eficácia jurídica do Estatuto da Terra 1 (1964) e do Estatuto do Trabalhador Rural 2 (1963), em tese criados para regulamentar a questão fundiária e as condições de trabalho no campo. Para a Silva (1999, p. 62), “a implantação dessas duas legislações deve ser interpretada no bojo dos conflitos sociais e do processo de modernização da agricultura brasileira sob a chancela do Estado, da modernização trágica” compreendida pelos processos de expropriação, exploração, dominação e exclusão. Estes fatos, novamente nos orientam a identificar a questão agrária diretamente vinculada às condições de exploração do trabalho no meio rural. Quanto à composição das forças políticas que se voltaram para a organização dos setores populares no final da década de 1950, Stein (2008) destaca o Partido Comunista Brasileiro, Igreja católica e alguns grupos de menor expressividade nacional. Alguns marcos fundamentais para o processo de organização foram às primeiras conferências de trabalhadores agrícolas e lavradores que culminaram na formação da União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (ULTAB) e o surgimento das Ligas Camponesas, ambos em 1954. O auge deste movimento nacional pela cidadania foi o 1º Congresso de Trabalhadores e Lavradores – realizado em Belo Horizonte, 1961 –, a fundação do Comando–Geral dos Trabalhadores – CGT, 1962 – e a realização da 1ª Conferência dos Bispos do Nordeste – Recife, 1956 (STEIN, 2008). Outro acontecimento importante foi à criação da CONTAG 3 em 1963.
1
Promulgado no Governo João Goulart. Promulgado no primeiro governo da ditadura militar. 3 Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura. 2
24
No seio das mudanças no campo a partir dos anos 1950, merece destaque para Silva (1999), o papel do Estado como interventor direto na erradicação dos cafezais e diversificação das culturas agrícolas durante os anos 1960 e 1970. Segundo a autora, a ideologia desenvolvimentista ocupava o centro do discurso das classes dominantes e condenava o atraso no campo. O discurso ideológico foi legitimado por meio de diagnósticos 4 dos cafezais, servindo como justificativa a intervenção direta do Estado na maneira de produzir e nas mudanças nas relações de trabalho. Esse contexto foi marcado por inúmeras greves, além da expulsão de mais de 2,5 milhões de pessoas do campo paulista no período que abrange 1960–1980 (SILVA, 1999). Em 1975, o censo agropecuário demonstrou que 52% dos estabelecimentos rurais do país tinham menos de 10ha, ocupando apenas 2,8% de toda a terra utilizada. Em contrapartida, 0,8% dos estabelecimentos possuíam mais de 1000 ha, ocupando 42,6%. Ou seja, a concentração fundiária resumia–se a mais da metade da terra pertencente a menos de 1% dos proprietários (MARTINS, 1980, p.45). Levando em consideração os aspectos mencionados, a influência exercida pelas antigas metrópoles coloniais, a modernização trágica, conforme Silva (1999) no meio rural e o incentivo à instalação de grandes empresas de exploração, evidenciam–se como os fatores que fundamentam a condição atual do Brasil, de exportador de commodities5. Essa condição está sendo reforçada e aprofundada, em face ao incentivo às energias renováveis, em nome da sustentabilidade ambiental. Essa problemática será abordada na seção seguinte. 4
Diagnósticos realizados em 1957 pela FAO, CEPAL e IBC (PAIVA, 1961 apud SILVA, 1999). 5 Mercadorias com pouco ou nenhum grau de processo industrial, tais como minérios e produtos de gêneros agrícolas, produzidos em larga escala e comercializados internacionalmente com preços regulados pelo mercado mundial, através de bolsas de valo res específicas.
25
1.2 – A Política de Modernização do Setor Sucroalcooleiro e as Mudanças no Trabalho O setor sucroalcooleiro permanece com técnicas tradicionais de cultivo até a década de 1960. O Brasil vivia os impactos da necessidade de acumulação capitalista internacional após a pós 2ª Guerra Mundial, passando mais efetivamente na década de 1960 pela chamada Revolução Verde. Nesta, os países de terceiro mundo passam a ocupar o papel de “celeiro do mundo”, oferecendo os alimentos necessários à reconstrução das nações destruídas pela guerra, e para tanto uma série de modernizações foram instituídas na produção agrícola. As transformações envolveram a intensiva utilização de sementes modificadas (particularmente sementes híbridas), insumos industriais (fertilizantes e agrotóxicos), mecanização e diminuição do custo de manejo. O uso extensivo de tecnologia no plantio, na irrigação e na colheita, assim como no gerenciamento de produção trouxe a necessidade de adequação da população camponesa a este novo modo de produção. Neste sentido temos os projetos educativos implementados através do modelo estadunidense de extensão rural que serão abordados na próxima sessão. No campo político o Brasil passa, a partir de 1964 pelo período de ditadura militar com ampla repressão dos movimentos sociais do campo. Através das orientações estadunidenses expressas na política “Aliança para o Progresso”, o governo militar lança o Estatuto da Terra, um instrumental jurídico e institucional que regulava a tributação, a assistência técnica, o crédito rural e a reforma agrária. Entretanto este documento serviu mais como estratégia de apaziguamento dos conflitos no campo, não sendo aplicadas principalmente suas determinações sobre a reforma agrária. (GOMES, 2004).
26
Juntamente com o aprimoramento tecnológico do campo, o Brasil vivia a fase do “milagre econômico” (1968–1973), marcada pela aceleração da industrialização e pela internacionalização. O capitalismo de desenvolvimento tardio no país vivia sob “os binômios ditadura e acumulação, arrocho e expansão”. (ANTUNES, 2006, p.17). A mecanização do campo levou às transformações na ordem da produção que teve impactos diretos no modelo social de ocupação do campo. Em sua obra “O Capital”, Marx (1980, p. 577) fez a seguinte afirmação sobre os impactos da mecanização no campo necessária à edificação da sociedade de mercado industrial, moderna: “a indústria moderna atua na agricultura mais revolucionariamente que em qualquer outro setor, ao destruir o baluarte da velha sociedade, o camponês, substituindo pelo trabalhador assalariado”. O êxodo populacional do campo para a cidade acompanhou os marcos da industrialização. À medida que as inovações tecnológicas foram sendo difundidas, o êxodo rural se intensificou. Entretanto, as formas sociais de ocupação do campo, independentemente do papel que ocupavam na economia mantiveram–se heterogêneas. A mecanização não chegou a toda a cadeia produtiva e continuaram existindo relações servis de trabalho. Fazem parte da heterogeneidade que compõe a população camponesa os que se submetem às mais diversas formas de contrato de trabalho no campo, as populações ribeirinhas, os quilombolas, os indígenas, os sem terra, os pequenos produtores de subsistência, meeiros e arrendatários. As diversas formas de exploração da força de trabalho do setor agrícola, aliado à ideologia de valorização do urbano, símbolo da modernidade e da condição de dependência dentro da dependência, conforma, segundo Fernandes (1979, p.116): [...] uma estratificação social típica no meio imediato da economia agrária, da qual as maiores vítimas são os despos27
suídos e os agentes da força de trabalho, que vivem dentro das fronteiras do capitalismo, mas fora da sua rede de compensações e de garantias sociais.
Mesmo apontando o atraso do campo em modernizar–se e se inserir completamente na lógica capitalista de produção, não podemos incorrer no equívoco de associar um possível desenvolvimento tecnológico integral e o aprimoramento de todas as relações de trabalho no campo com a resolução dos problemas estruturais da população camponesa. A revolução do mundo agrário está bloqueada pelos interesses da burguesia agrário– industrial em manter seu status quo e dos interesses mais específicos dos setores privilegiados do mundo rural, empenhados na reprodução das formas de trabalho precarizadas. A burguesia agrária age com a finalidade de se manter no controle, evitando uma transformação social que eleve a massa de trabalhadores ao reconhecimento político, social e cultural, o que seria uma ameaça ao seu poder hegemônico. Como exemplo desta ação conservadora, podemos citar as políticas de aceleração do desenvolvimento econômico rural, que estimularam o avanço da industrialização do campo nas últimas décadas e que, no entanto, não representaram a melhoria das condições de trabalho e renda da população que vive do trabalho no campo. Dentre estes projetos o PRÓALCOOL foi exemplar. Ele foi criado pelo governo brasileiro em 1975 para estimular a produção de álcool para fins carburantes e industriais diante da queda do preço do açúcar e como fonte de substituição do petróleo, em falta no mercado internacional. Através de subsídios aos usineiros para a produção do álcool, o governo estimulou a expansão da monocultura canavieira. Essa política, como parte de um projeto desenvolvimentista foi sendo retomada nos anos 1990.
28
A partir de 1980 são aspectos importantes relacionados à modernização da produção no campo: a industrialização; o avanço das multinacionais relacionadas à agricultura de mercado no Brasil; a apropriação pelas empresas agrícolas das novas relações de trabalho oriundas do processo de reestruturação produtiva do capital. Podemos afirmar que as mudanças no setor fazem parte de um processo mais amplo e histórico que denominamos de “reestruturação produtiva agroindustrial” e que traz consigo um conjunto de transformações, envolvendo agricultura e indústria, cujo avanço na esfera produtiva está calcado nas mudanças tecnológicas seletivas que, numa aparente contradição, mantém e reforçam a exploração do trabalho e a destruição do meio ambiente. Pertence, portanto, à fase destrutiva da acumulação do capital conforme Mészáros (2002; 2010) e à consolidação do ideal neoliberal de sociedade. Em meados da década de 1980, com o início da desregulamentação da economia sucroalcooleira, as empresas implementaram um processo de reestruturação produtiva em decorrência das mudanças no cenário político e econômico nacional e internacional. A partir de então, a reestruturação do setor passou a ser orientada, principalmente, pelas demandas do mercado externo e comandada pela introdução de novas tecnologias de produção e de organização inspirados no chamado modelo japonês da qualidade total que implicou em processos de desverticalização, terceirizações e subcontratações e a cadeia produtiva passou a definir atividades especializadas (TRUZZI, 1989; PREVITALI, 2008; 2011), o que levou à organização dos chamados complexos agroindustriais. No início dos anos 1970 o Brasil já dispunha de um conjunto de setores industriais e agrícolas interdependentes entre si que poderiam, em face das inúmeras definições disponíveis,
29
serem designados como complexo agroindustrial – CAI 6. Estes envolvem a produção agrícola, o beneficiamento e sua transformação, além da produção industrial para a agricultura e os serviços financeiros e comerciais ligados a ela. (MÜLLER, 1982). Na década de 1980, a exportação de produtos primários ainda representava a principal pauta de exportação da economia nacional. No entanto, os atores que estão envolvidos no processo de produção se diversificaram se comparados com os barões do café do início do Século XX, com destaque para as empresas que fornecem suplementos agrícolas e maquinário, além das cadeias produtivas com alta tecnologia empregada, como a dos agrocombustíveis que iniciam suas atividades no Brasil. Destacamos ainda os investimentos estatais diretos e indiretos, como financiamentos e abertura de mercado internacional para os produtos beneficiados no Brasil, o que pode ser ilustrado pela campanha de exportação do etanol. A tendência da modernização de um setor muito específico da produção agrícola brasileira, em parte com investimento e controle do capital estrangeiro com apoio e benefícios estatais, convive com formas arcaicas de produção e a baixíssima qualificação de uma parcela considerável de pequenos produtores. E ainda, as novas formas modernas de contratação das empresas agrícolas, com terceirizações, contratos temporários, por produção, convivem com a superexploração do trabalho, como é o caso dos trabalhadores do corte de cana. A pressão dos organismos internacionais para a modernização da economia brasileira leva o Estado a atuar oferecendo subsídios para as empresas multinacionais se instalarem no Brasil como forma de garantir o desenvolvimento industrial do país. No entanto, o subsídio tem como consequência a contração de dívidas impagáveis com os organismos internacionais, devido aos altos juros. 6
O termo complexo agroindustrial – CAI é uma tradução brasileira de 1980 para agribusiness. “No final dos anos 1990 e início dos anos 2000, no Brasil, este termo passou a ser substi tuído pelo termo agronegócio, na tentativa de dar um ar de modernidade às velhas práticas da agricultura capitalista.” (MARCOS, 2008, p.196).
30
O aumento das exportações é uma forma de tentar saldar esta dívida externa contraída. Porém, Marcos (2008) afirma que o principal problema é que os produtos de exportação dos países dependentes, como o Brasil, são em maior parte as matérias– primas, de baixo valor agregado. Sendo que estas nações são obrigadas a seguir as decisões da OMC – Organização Mundial do Comércio, concorrendo com as nações desenvolvidas – sede das empresas transnacionais– e que, portanto, tem maior poder político de decisão desta organização. Aos CAI estão relacionados ainda a outro fenômeno da globalização, que é a chamada integração vertical, que consiste na atuação em mais de um setor, das grandes empresas que controlam o mercado mundial. É o caso, por exemplo, da empresa Cargill, que não atua somente no mercado de grãos, mas também processa ferro, outros metais e produtos petrolíferos, e da Philip Morris, empresa do ramo de tabaco e cigarros, que é a corporação alimentar mais importante dos Estados Unidos (MARCOS, 2008, p.194). Na agricultura, a face do capitalismo globalizado se manifesta na tendência à internacionalização de capitais através do controle do mercado mundial de produtos agropecuários pelas empresas transnacionais. As inovações mecânicas introduzidas na lavoura canavieira tiveram quatro tipos de repercussões: a primeira foi a redução do tempo de realização de determinadas tarefas; a segunda foi a menor demanda por força de trabalho empregada para a realização dessas tarefas; a terceira foi a queda da necessidade de empregados residentes na propriedade e a quarta foi a introdução de uma mudança qualitativa na procura por trabalhadores, ao utilizar pessoas com maior grau de especialização (tratoristas, motoristas e operadores de máquinas agrícolas) em comparação com as sem especialização. Com isso as usinas conseguiram maior poder de controle sobre os trabalhadores rurais assalariados do corte da cana do que 31
possuíam antes, visto que não há mais risco de prejuízos elevados com a interrupção do processo de coleita. Se por um lado a mecanização da colheita retira os trabalhadores de um serviço penoso e estafante, por outro está desempregando de forma permanente um grande contingente de pessoas com baixa qualificação. Dessa forma, acentua–se o caráter sazonal da atividade agrícola, aumentando a necessidade de trabalho temporário e reduzindo o número de contratos permanentes. Se a cana-de-açúcar está presente no país desde a dominação colonial, colocando o Brasil na dinâmica do capitalismo mercantil mundial no século XVI de forma subordinada, como fornecedora de matérias–primas e gêneros agrícolas, desde o final dos anos 1980 e o início da década de 1990, o setor foi sendo fortemente incentivado, não para produção de açúcar, mas de etanol, um biocombustível alternativo ao petróleo. Para um melhor entendimento dessa aparente contradição torna–se fundamental a análise da dinâmica do desenvolvimento desse setor no âmbito da divisão internacional do trabalho e da acumulação capitalista. A expansão da área cultivada pode ser observada no território brasileiro tendo como objetivo atender às necessidades das usinas que vem transpondo as fronteiras das regiões e dos estados com tradição no cultivo dessa planta como são os casos da zona da mata do Nordeste distribuída pelos estados da Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Também há os novos investimentos que avançam em áreas da região Centro–Oeste, nos estados de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás. No Sul do Brasil, o Paraná é o terceiro maior produtor de cana do país. No Sudeste, a cana ganha novos espaços em Minas Gerais, Espírito Santo e no Rio de Janeiro. Cumpre ressaltar ainda que a expansão da produção sucroalcooleira foi sendo acompanhada de processo crescente de fusões e aquisições, implicando na internacionalização do setor. Um exemplo é o caso da Cosan S/A, empresa de capital nacional, detentora das marcas Açúcar União e Da Barra, possuindo ainda 32
direito de uso das marcas Esso e Mobil no Brasil que estabeleceu uma joint–venture com a Shell, criando a Raízen, voltada para a produção de etanol para o mercado interno e externo (PREVITALI, et al, 2013). A empresa possui a maioria de suas unidades produtivas em cidades do estado de São Paulo, mas expandiu–se para as regiões do Mato Grosso do Sul e Goiás, onde, em setembro de 2009 colocou em operação a usina de Jataí (PREVITALI et al, 2013). Se a exportação de produtos primários ainda representava a principal pauta de exportação da economia nacional, nesse novo contexto somente as culturas com alta tecnologia empregada consegue sobreviver em função das exigências de padronização, qualidade e preço do mercado internacional. Assim, os investimentos tecnológicos na agroindústria passaram a representar grande parte dos investimentos nacionais na produção agrícola. Diante dos altos índices de concentração fundiária brasileiros, beneficiam–se destes investimentos apenas os setores agrário–exportadores como é o caso da cana-de-açúcar. A propriedade fundiária desfrutou de um intenso processo de valorização, constituindo–se num bem com reserva de valor, o que Kageyama et ali (1987) denominaram de “territorização do capital”, acentuando ainda mais a concentração fundiária. Com o aumento do valor da terra, a pequena produção ficou fragilizada frente às pressões do capital, levando muitos pequenos agricultores a abdicar de suas terras. Estima–se que trinta milhões de brasileiros deixaram o campo pela cidade no período 1960–1980 (KAGEYAMA et ali, 1987). Nesse contexto, o processo de reestruturação produtiva agroindustrial a partir da globalização e do neoliberalismo vem envolvendo a redefinição geográfico–espacial das unidades produtivas, bem como a introdução de novas tecnologias no processo produtivo, exigindo novas qualificações dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, na base da cadeia produtiva, permanecem os trabalhadores 33
manuais e em precárias condições de trabalho (PREVITALI et al, 2012; GUANAIS, 2019). A concentração do capital pode ser verificada através de operações financeiras de fusões e aquisições nos mais diversos setores. Entre os anos de 2000 e 2008, ocorreram 3.647 fusões e aquisições, sendo 354 no setor de alimentos, bebidas e fumo. Em 2007, os principais compradores foram grandes grupos e fundos estrangeiros, responsáveis por 70% das transações realizadas. Em 2009, somente o setor de açúcar e álcool respondeu por cerca de 23% das transações na indústria de alimentos e agronegócio. Neste ano houve também o aumento da participação do capital estrangeiro no setor. A título de exemplos: a norte– americana Kidd & Company passou a deter o controle da usina Coopernavi e participa da empresa Infinity Bio–Energy, em conjunto com a corretora Merrill Lynch; a inglesa Infinity Bio–Energy tornou– se proprietária de cinco usinas no país; o grupo francês Louis Dreyfus Commodities (LDC) passou a controlar as usinas Luciânia, Cresciumal e quatro usinas do grupo pernambucano Tavares de Melo; o grupo Tereos, de origem francesa, assumiu 6,3% de participação na Cosan, 47,5% na Franco–Brasileira de Açúcar e 69,3% na Açúcar Guarani. Vale ressaltar que o forte crescimento do investimento direto estrangeiro e da mobilidade geográfica e o conseqüente aumento da atividade de empresas transnacionais não significa que a mundialização integra de forma homogênea os homens e os territórios. Pelo contrário, as corporações se utilizam das vantagens competitivas presentes em cada país e região, integrando, sempre de forma desigual, ou simplesmente excluindo países ou regiões do mercado global (COX, 1997; HARVEY, 2011). A Tabela 1 abaixo apresenta dados dos censos agropecuários brasileiros de 1985, 1995 e 2006, referindo–se à área total de estabelecimentos rurais, em alqueires, por estrato de área. A concentração fundiária brasileira se expressa quando analisamos estes 34
dados: 7.798.607 alqueires totais de estabelecimentos com menos de 10 alqueires, enquanto 146.553.218 alqueires daqueles com 1000 alqueires ou mais. E ainda, com relação ao número de estabelecimentos, a proporção se altera radicalmente uma vez que os estabelecimentos de menos de 10 ha concentram um percentual acima de 47,0%, enquanto os estabelecimentos de mais de 1000 ha concentraram, respectivamente, 0,87%, 1,02% e 0,91% do número total de estabelecimentos, segundo dados do IBGE, censo 2006 (BRASIL, 2006). A tabela ilustra ainda a redução de 44.983.028 alqueires de áreas rurais, entre o total de 1985 e 2006 de estabelecimentos rurais, o que pode estar relacionado ao constante processo de urbanização da sociedade brasileira, que temos aqui demonstrado. Tabela 1: Área dos estabelecimentos rurais, segundo o estrato de área Brasil – 1985/2006
Graziano da Silva (1999) nos auxilia a compreender as transformações ocorridas no meio rural nos períodos: 1980–1990, apontando as “novas” ocupações desenvolvidas no campo, buscando indicar estratégias de desenvolvimento nacional e redução das desigualdades sociais que passam pela valorização das potencialidades do meio rural. Ele defende políticas públicas direcionadas especificamente para a geração de renda à população que vive no meio rural, através do estímulo às atividades agrícolas e não agríco35
las, da expansão das pequenas cidades, assim como da construção de vilas rurais. Estas ações podem constituir estratégias de planejamento político para retirar da condição de pobreza grande parte da população rural e os marginalizados nos grandes centros. Tais análises foram realizadas a partir dos dados da PNAD – Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio – dos anos 1990, que demonstraram a composição de um meio rural brasileiro não mais exclusivamente agrícola e agropecuário, mas com diversas “novas” atividades relevantes. Como podemos perceber na Tabela 2 da PNAD, 2008, é uma tendência crescente a ocupação não– agrícola da população com domicílio na área rural, enquanto diminui o número de pessoas em ocupação–agrícola. No ano de 2004, 75,18% da população de 5 anos ou mais de idade, residindo na zona rural possuía ocupação agrícola, já no ano de 2008 esta porcentagem caiu para 69,20%, enquanto a ocupação não agrícola aumentou de 24,82% em 2004 para 30,80% em 2008. Tabela 2 – População (5 anos ou mais de idade) com domicílio em área rural por posição na ocupação 2004 Tipo de Ocupação Ocupação agrícola Ocupação não agrícola
2006
2008
No
%
No
%
No
%
12.685.176
75,18%
12.279.034
71,89%
11.373.152
69,20%
4.187.085.,
24,82%
4.801.278 28
1%
5.068.318
30,80%
Fonte: PNAD 2008. Elaboração: Disoc / Ipea.
Este crescimento das atividades não agrícolas no meio rural brasileiro é relacionado por Graziano da Silva (1999) à proliferação das chácaras ou sítios, pequenas áreas destinadas ao lazer ou moradia de famílias, localizadas nas periferias dos grandes centros. E à proliferação das indústrias no meio rural, especialmente as agroindústrias e as atividades relativas à sua urbanização (motoristas, me36
cânicos, secretárias, contadores, trabalhadores domésticos), assim como as atividades relacionadas à preservação do meio ambiente (parques nacionais, áreas de preservação). Paralelamente, os dados da força de trabalho no campo indicam a redução do número de assalariados, e o baixo rendimento destas atividades, fatores que combinados nos dão o quadro do aumento da pobreza no meio rural. A PNAD 2008 mostra que a renda mensal domiciliar per capita da população rural é de R$ 360,00 – inferior à metade da renda do mesmo tipo verificada nos domicílios de área urbana – total R$ 786,00. Ortega (2008), Graziano da Silva (1999), Stédile (1997), Fernandes (2001) convergem ao apontar a precarização das condições de sobrevivência da população camponesa denunciando a falta de investimento nos pequenos produtores e o fracasso do modelo de Reforma Agrária implementados até então. Relacionam tais fatores à política econômica deliberadamente assumida, governo a governo no Brasil, afirmando que estas políticas estão voltadas para a satisfação das necessidades do mercado mundial, seguindo a tradição de dependência brasileira e especialmente a dependência que existe entre o desenvolvimento do campo as necessidades da urbanização, sinônimo de modernização. Assim, o foco dos investimentos na agricultura não está voltado para o campo enquanto espaço de construção de subjetividades, mas está direcionado ao abastecimento do comércio e indústria das cidades, configurando a situação de dependência dentro da dependência, como definido por Fernandes (1987). Contudo, as estratégias apontadas por estes pesquisadores para a superação da pobreza no meio rural se distinguem. De um lado temos, alinhados à concepção marxista, que considera a necessidade de uma transformação no modo de produção da sociedade, não só no campo, e que se dá, necessariamente através da dinâmica das classes, Stédile (1997) e Fernandes (2001), que em vários de seus trabalhos organizam a história e as críticas dos 37
movimentos de luta pela terra, contribuindo diretamente para o direcionamento das ações destes movimentos. A dinâmica da luta de classes se manifesta no campo com a coexistência conflituosa entre os paradigmas de desenvolvimento empreendidos. Por um lado, temos o movimento do capital, que hegemoniza as políticas públicas, com impactos catastróficos para o trabalho e para o meio ambiente; e por outro temos o paradigma da resistência representado pela cultura tradicional camponesa. O meio rural é ocupado por diversas famílias que persistem ali, mesmo com todas as dificuldades, construindo sua forma específica de sustento e de trabalho, e fazendo deste campo um território de constituição de vida e não só um setor da economia. O Quadro 1 é uma síntese comparativa do trabalho de análise de Molina e Fernandes (2005), no qual eles apresentam os dois paradigmas em conflito no campo, o campo do agronegócio e o campo da agricultura camponesa. Quadro 1 – Síntese Comparativa entre os Modelos de Desenvolvimento do Campo: o agronegócio e a agricultura camponesa CAMPO DO AGRONEGÓCIO
CAMPO DA AGRICULTURA CAMPONESA
Monocultura – Commodities
Policultura – uso múltiplo dos recursos naturais.
Paisagem homogênea e simplificada
Paisagem heterogênea e complexa
Produção para exportação (preferencialmente)
Produção para o mercado interno e para exportação
Cultivo e criação onde predomina as espécies exóticas.
Cultivo e criação onde predomina as espécies nativas e da cultura local.
Erosão genética
Conservação e enriquecimento da diversidade biológica.
Tecnologia de exceção com elevado
Tecnologia apropriada, apoiada no saber local, com base no uso da 38
nível de insumos externos
produtividade biológica primária da natureza.
Competitividade e eliminação de empregos
Trabalho familiar e geração de emprego
Concentração de riquezas, aumento da miséria e da injustiça social
Democratização das riquezas – desenvolvimento local
Êxodo rural e periferias urbanas inchadas
Campo com muita gente, com casa, com escola...
Campo com pouca gente
Permanência, resistência na terra e migração urbano – rural
Campo do trabalho assalariado (em decréscimo)
Campo do trabalho familiar e da reciprocidade
Paradigma da Educação rural
Paradigma da Educação do Campo
Perda da diversidade cultural
Riqueza cultural diversificada – festas, danças, poesia, música – exemplo: o Mato Grosso é o maior produtor brasileiro de milho e não comemora as festas juninas. Já no Nordeste...
AGRO – NEGÓCIO
AGRI – CULTURA
Fonte: Fernandes, B. M.; Molina M. C. (2005)
Ortega (2008) sugere a classificação em territórios, como forma de superar a dicotomia entre rural e urbano, já que há uma integração técnico–produtiva e de capital entre agricultura e indústria, uma forma indiferenciada do uso do urbano e do rural para atividades industriais e de serviços, e, sobretudo, uma facilidade de comunicação entre estes ambientes. Retoma o critério da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de divisão como territórios “essencialmente rurais”, “relativamente rurais” e “essencialmente urbanos”, estes seriam referência para as políticas públicas. A concepção destes autores se alinha à social– 39
democracia, uma vez que eles propõem transformações nas políticas públicas que vão reduzir o fosso das desigualdades sociais, contudo, sem alterar a base produtiva da sociedade. Esta é uma disputa por concepções, por modelos de desenvolvimento que na maioria das vezes não estão explícitos nas elaborações dos autores. A concepção da superação da miséria através do investimento nos pequenos produtores e na compreensão de que há uma pluralidade no meio rural que deve ser levada em conta pelas políticas públicas, está presente no discurso destes autores. No entanto, a forma como se daria este processo de transformação do campo é que se distingue de uma concepção para outra. Os autores da concepção marxista dão destaque à organização dos trabalhadores, sendo que a população do campo deve ser a principal protagonista na construção de seus projetos. O Estado atuaria como apoiador, um parceiro na realização do projeto popular. É uma contraposição à ideia de desenvolvimento do meio rural através de projetos elaborados de fora para dentro, ou seja, dos intelectuais dos centros urbanos para a população do meio rural. O setor sucroalcooleiro se configura como dos mais tradicionais da economia brasileira. Entre crises periódicas, características do sistema capitalista, ora ou outra perpassou por alguma recessão, no entanto sempre tem ocupado um lugar de grande destaque econômico. Hoje tal fato é notável quando se percebe que este setor tem sido ponto de pauta de vários debates tanto nos ciclos acadêmicos bem como nos campos político e empresarial. Devido às constantes mudanças implementadas no setor sucroalcooleiro, sobretudo com a reestruturação que esse setor vem sofrendo nas últimas décadas, em que pese a introdução de tecnologias e mecanização, a cada dia vive–se diante da expectativa de constantes superávits de produção e produtividade.
40
Dessa forma, sobretudo a partir da primeira metade da década de 2000, o setor sucroalcooleiro retoma uma dinâmica de expansão propiciada pelo cenário favorável vivido tanto internamente como externamente. Internamente o país passa a viver uma significativa estabilidade. Segundo Souza e Macedo (2010), proporcionada por um maior controle fiscal por parte do governo e, acima de tudo pela adoção de um regime de metas para a inflação, o que deu uma maior credibilidade ao país interna e externamente. Assim, a partir da demonstração de uma maturidade política econômica do país, o setor produtivo atraiu maiores investimentos e passou a ter maior acesso na aquisição de créditos junto às instituições financeiras. Externamente, pode–se frisar o cenário benéfico para a commodity açúcar, tendo em vista a alta competitividade do açúcar brasileiro no cenário mundial e às expectativas de possível diminuição do protecionismo no comércio internacional. Outra questão de extrema relevância, talvez o principal ingrediente para reaquecimento deste setor, foi a renovação do interesse pelo álcool combustível, haja vista a bem–sucedida introdução no mercado automobilístico dos veículos flex e as elevações dos preços internacionais do petróleo. Mais especificamente o ano de 2003 foi um grande marco na retomada do impulso do setor sucroalcooleiro brasileiro, qual seja o nascimento da era do veículo “flex”. O crescimento da frota flex e a manutenção da competitividade do preço do álcool em relação ao da gasolina fizeram com que as vendas do etanol hidratado quintuplicassem em cinco anos desde abril de 2008, a venda mensal de etanol (somados o hidratado e o anidro) superou a de gasolina pura, como mostra a Tabela 3.
41
Tabela 3 – Crescimento da Frota Flex de Automóveis e Comerciais Leves e o Aumento das Vendas de Etanol Hidratado (1999 – 2009) AUTOMÓVEIS E COMERCIAIS LEVES
TOTAL
ANOS
GASOLINA
ÁLCOOL
FLEX–FUEL
1999
1.122.229
10.947
–
1.133.176
2000
1.310.479
10.292
–
1.320.771
2001
1.412.420
18.335
–
1.430.755
2002
1.283.963
55.961
–
1.339.924
2003
1.152.463
36.380
48.178
1.237.021
2004
1.077.945
50.949
328.379
1.457.273
2005
697.004
32.357
812.104
1.541.465
2006
316.561
1.863
1.430.334
1.748.758
2007
245.660
107
2.003.090
2.248.857
2008
217.021
84
2.329.247
2.546.352
2009
221.709
70
2.652.298
2.874.077
Fonte: UNICA, 2009
A cultura da cana vem tomando tamanho espaço que hoje sua área plantada já ocupa em média 2% de toda a área arável do país, o que representa uma área plantada de 7 milhões de hectares (UNICA, 2009) com avanços significativos na região do Triângulo Mineiro em Minas Gerais. A produção da cana-de-açúcar tem se descentralizado do estado de São Paulo e atingindo crescimento, ainda que lento para outros estados do país, com destaque para Minas Gerais que ocupa o quarto lugar na exportação do etanol (Tabela 4).
42
Tabela 4 – Ranking de Exportação de Etanol por Estado (Ton.) Safra 2014 – 2015 Ranking 1 2 3 4 5 6 Total
Estado São Paulo Alagoas Paraná Minas Gerais Goiás Outros
Quantidade (ton) 1.822.025 299.648 245.321 221.272 50.871 118.234 2.757.371
% 66,08% 10,87% 8,90% 8,02% 1,84% 4,29% 100,00%
Fonte: Elaboração própria a partir da ÚNICA (2015).
Os deslocamentos do eixo produtivo de cana-de-açúcar dos centros tradicionais produtores para outros locais se deram, sobretudo em função das políticas governamentais de incentivo à produção do etanol como alternativa ao petróleo no cenário internacional. O PAC – Programa de Aceleração do Crescimento, encampado pelo governo federal nos últimos procurou dar grande vazão a atividade sucroalcooleira, aproveitando um momento de demanda mundial por bicombustível, contando também com a tendência mundial pela busca de energias limpas que causam menos impactos ao meio ambiente. Estudos de Vieira (2009), sobre o setor sucroalcooleiro, chamam atenção para os vultosos investimentos que durante as últimas décadas o governo brasileiro tem feito neste setor. Tais ações fizeram com que a agroindústria sucroalcooleira se tornasse uma das mais poderosas indústrias brasileiras, haja vista que o PIB gerado pelas atividades produtivas deste setor no ano de 2008 equivaleu a US$28 bilhões, correspondo a 1,5% de todo o PIB nacional.
43
1.3 – A Reestruturação Produtiva do Setor Sucroalcooleiro e o Trabalho sob a Globalização A reestruturação produtiva das empresas de modo geral deve ser entendida como inserida e regulada por uma estratégia de acumulação de corporações que atuam em escala global com fortes incentivos públicos e utilizando–se de aparatos político–jurídicos de (des)regulamentação que possibilitam maiores níveis de exploração pelo capital (PREVITALI et al, 2012). A corporação se utiliza das vantagens competitivas, concernentes à exploração do meio ambiente e do trabalho, presentes em cada país e região, integrando, sempre de forma desigual, ou simplesmente excluindo países ou regiões do processo de acumulação mais geral (PREVITALI et al., 2012). O setor sucroalcooleiro passou a ganhar projeção no mundo, especialmente sob a pressão dos movimentos socioambientais para insumos sustentáveis. As questões ambientais trouxeram a necessidade de utilização de combustíveis biodegradáveis para produzir energia e o etanol se tornou um produto mundialmente requisitado. O governo brasileiro, tradicionalmente, como visto nas seções anteriores, incentivou o setor com auxílios públicos através de programas específicos a exemplo do PROÁLCOOL, isenções fiscais e baixos juros aos empréstimos, o que possibilitou a rápida e competitiva inserção do setor no mercado internacional. Como mostra a pesquisa feita pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) em abril de 2017, a área a ser colhida
44
está estimada em 9,05 milhões de hectares, aumento de 4,6%, se comparada com a safra 2015/16 e “a produção de açúcar atingiu 38,69 milhões de toneladas, 15,5% superior à safra 2015/16 devido a preços mais rentáveis” (CONAB, 2017, p.8). Além disso, GÓES; MARRA; SILVA (2008, p. 40) afirmam que: Em 2006, o etanol registrou o maior índice de crescimento entre os 50 produtos mais exportados pelo Brasil, com uma elevação de 109,6% em relação ao ano anterior. As vendas chegaram a 1,6 bilhão de dólares e o Brasil exportou 3,4 bilhões de litros de álcool, cerca de 18% da sua produção total.
Devido aos incentivos governamentais à forte expansão da cultura da cana-de-açúcar, Góes, Marra e Silva (2008) afirmam que o setor sucroalcooleiro brasileiro é considerado o mais moderno do mundo, sendo o país o líder na produção de etanol, que é uma fonte de energia limpa e bastante valorizada devido as questões ambientais de minimização dos impactos gerados por combustíveis fósseis. Para Nastari (2010), a consolidação do etanol de cana-deaçúcar como o melhor oxigenante para a gasolina e como o combustível que emite a menor quantidade de gases de efeito estufa (GEEs) relativamente a outros combustíveis, fez com que esse desenvolvimento ocorresse mais rapidamente. Os Gráficos 1 e 2 mostram os principais consumidores estrangeiros de açúcar e etanol do setor sucroalcooleiro do Brasil em 2015.
45
Gráfico 1 – Países de Destino das Exportações de Açúcar (2015)
Fonte: CONAB (2015). Gráfico 2 – Países de Destino das Exportações de Etanol – (2015)
Fonte: CONAB (2015).
46
Os ganhos do agronegócio permaneceram a despeito da profunda crise econômica e social mundial de 2008 e mais recentemente, da crise pandêmica causada pelo Covid–19 7, a qual ainda deixa suas marcas no país8. Conforme o CONAB (2020), com o término da safra 2019/20, houve novamente a confirmação do crescimento na produção da cana-de-açúcar em comparação à temporada passada, sendo mais de 642,7 milhões de toneladas colhidas, representando aumento de 3,6% em relação a 2018/19. Foi, segundo o órgão governamental, “a maior produção de etanol da história”. Destaca–se que a área colhida ficou em 8,4 milhões de hectares, tendo havido uma redução de 1,7% em relação à safra anterior. A partir desse dado pode–se inferir que houve aumento de produtividade do trabalho em função das inovações tecnológicas no setor e da intensificação do trabalho. Vale destacar que a canade-açúcar atualmente possui maior teor de sacarose, sendo ao mesmo tempo, mais leve, resultado de mutação genética através de estudos biotecnológicos. No entanto, o trabalhador rural, no corte da cana-de-açúcar manual não é beneficiado com essa alteração. Numa aparente contradição, impõe–se para ele, o aumento da sua
7
Covid–19 é o nome científico da nova doença viral, causada pelo Coronavirus, cujo nome se deve ao seu aspecto de coroa. A doença assemelha–se à gripe e seus sintomas como tosse e febre pode afetar drasticamente o sistema respiratório, principalmente o pulmão, dificultando a respiração, sobrecarregando os músculos envolvidos nesta e le vando à óbito caso a pessoa não seja rapidamente colocada sob um respirador mecânico, em uma UTI hospitalar. 8 No país, onde o primeiro caso de Covid–19 foi registado em 25 de fevereiro de 2020, o governo Bolsonaro desconsiderou as medidas de isolamento e a aquisição de vacinas, conforme apuração na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), instaurada para investigar as ações do governo federal quanto à pandemia. O presidente chegou a chamar a doença de “gripezinha” e afirmou em pronunciamento nacional que as pessoas saíssem do isolamento e fossem trabalhar e, quando questionado por jornalistas sobre o número crescente de mortes, ele respondeu: “E daí? Lamento, quer que eu faça o quê?”. O país chegou a ter o maior número de casos por Covid–19 na América Latina com 16.977.062 infecções e 472.531 mortes registradas desde o início da pandemia até 06 de junho de 2021 (REUTERS, 2021).
47
produtividade por meio da elevação da sua meta de corte em toneladas. A reestruturação produtiva do setor não incluiu a reforma agrária e melhorias no trabalho no campo, conforme observado anteriormente. À medida que as mudanças técnicas e organizacionais foram sendo difundidas, intensificaram–se os processos migratórios. Esses trabalhadores temporários, em grande medida à margem dos direitos trabalhistas, compõem ainda hoje parte da força de trabalho na colheita da cana-de-açúcar, inclusive sob condições de superexploração e sob o signo da escravidão moderna. Segundo Barbosa et al. (2015), no início de 2015, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), divulgou uma lista com empresas de diversos setores que estavam usando o trabalho análogo ao escravo, e o setor sucroalcooleiro é um dos deles, envolvendo diversas empresas localizadas em várias regiões do país, conforme Quadro 2. Quadro 2 – Usinas que Mantém Trabalho Análogo ao Escravo – (2015) Ano
UF
2012 MT
Empregador Alcopan Álcool do Pantanal ltda Usina Taquara
Estabelecimento Área de colheita de cana-de-açúcar no município de Poconé/MT.
2012
AL
Fazenda Mônica– Zona rural de colônia Leopoldina/AL.
2009
PE
2011
RJ
Tocos Agrocanavieira S.A
Fazenda Sertão– zonal rural Campos dos Goytacazes/RJ.
2009 MT
Zihuatanejo do Brasil açúcar e álcool S.A
Destilaria Araguaia– Rod. MT 413, Fazenda Gameleira, zona rural, Confresa/ MT.
Usina Salgado S.A Engenho Califórnia– zonal rural Escada/PE.
2008 MG AgrisulAgricolaltd Área de colheita de cana de açúcar no a. município de Fronteira/MG.
48
2009 MG 2008
Destilaria Alpha
Área de cultivo de cana de açúcar– Rod. MG 260, s/n, km 39, zona rural, Cláudio/MG.
AL
Laginha Agroindustrial
Fazenda Laginha– margem direita do rio mandaú– zona rural, União dos Palmares/AL.
2012 TO
Joari Bertoldi
Fazenda Santa Maria– Rod. TO 080, km 140, zona rural, Marianópolis/TO.
2008
PE
2008 MG
Manuel Ernesto Lima Alvim Soares Filho Alvorada do Bebedouro
Engenho Cocula III– zona rural, Ribeirão/PE. Destilaria Alvorada do Bebedouro– zona rural, Guaranésia/MG.
Fonte: Barbosa et al. (2015).
É preciso enfatizar que o trabalho escravo contemporâneo no campo no Brasil não é um resquício do modo de produção mercantilista. Ao contrário, ele é elemento constituinte do modelo capitalista vigente, sendo meio de acumulação e riqueza. É uma prática que tem sido empregada ao longo de diversas cadeias produtivas dos mais variados setores econômicos, quer seja no campo ou na cidade, como meio de redução de custos e maior competitividade, sendo a forma predominante pela qual o Brasil insere–se mercado mundial no contexto da globalização. Guanais (2019, p. 233) discute sobre a intensificação do trabalho atrelado ao estímulo de maior pagamento por produção, gerando a superexploração do trabalho canavial. Para a autora, a categoria superexploração do trabalho possibilita entender “por que o aumento da intensidade do trabalho e a extensão da jornada laboral trazem como consequência a elevação do valor da força de trabalho desses assalariados rurais na medida em que contribuem para o desgaste dos cortadores de cana”. Além disso, a autora destaca que o processo de intensificação do trabalho no corte manual de cana muitas vezes “resulta muito mais de mudanças 49
organizacionais no processo produtivo do que de avanços tecnológicos introduzidos no setor” (GUANAIS, 2019, p. 265). Outra autora que argumenta sobre a exploração do trabalho é Scopinho (1999), no qual alega que houve um aumento na exploração do trabalhador rural, uma vez que as condições de trabalho permanecem precárias e com a chegada das máquinas na colheita da cana, em vez de melhorar o trabalho da força produtiva, introduziu novas formas de desgaste e de intensificação do ritmo de trabalho e as condições do corte ficaram mais difíceis, uma vez que antes eram feitas a partir da queimada das folhas para auxiliar no corte manual, os trabalhadores acabam tendo que trabalhar mais, pois os terrenos em que as máquinas não conseguem fazer a colheita são geralmente mais inclinados, ou com canas de pior qualidade tornando assim o corte mais difícil, o que nos faz pensar se realmente há sustentabilidade social nesse setor. Barbosa et al. (2015, p. 9) também afirmam que: […] a mecanização não tem trazido tantos benefícios aos trabalhadores, como o discurso oficial sustenta. Os operadores de colheitadeiras são submetidos a radiação solar excessiva, má iluminação durante a noite, são sujeitos a picadas de animais peçonhentos, problemas de ordem física decorrentes do mau posicionamento no interior das máquinas, bem como o desgaste mental devido a grande concentração que deve ser exercida na operação da máquina aliada a pressão por produzir ao máximo.
Ademais, a introdução das tecnologias foi um fator gerador de desemprego, substituindo a força de trabalho pelas máquinas. Peres et al. (2017, p. 458) comentam sobre isso, argumentando que: […] diminuiu a força de trabalho empregada, não eliminou o desgaste físico e psíquico dos trabalhadores, e combina assimetricamente o trabalho especializado com o manual, 50
onde ao lado trabalhadores com maior especialização como tratoristas, motoristas e operadores de máquinas agrícolas, há outros trabalhadores sem especialização alguma.
As inovações mecânicas introduzidas na lavoura canavieira tiveram quatro tipos de repercussões: a primeira foi a redução do tempo de realização de determinadas tarefas; a segunda foi a menor demanda por força de trabalho empregada para a realização dessas tarefas; a terceira foi a queda da necessidade de empregados residentes na propriedade e a quarta foi a introdução de uma mudança qualitativa na procura por trabalhadores, ao utilizar pessoas com maior grau de especialização (tratoristas, motoristas e operadores de máquinas agrícolas) em comparação com as sem especialização (PREVITALI et al, 2012). Com isso as usinas conseguiram maior poder de controle sobre os trabalhadores rurais assalariados do corte da cana do que possuíam antes, visto que não há mais risco de prejuízos elevados com a interrupção do processo de colheita. Se por um lado a mecanização da colheita retira os trabalhadores de um serviço penoso e estafante, por outro está desempregando de forma permanente um grande contingente de pessoas com baixa qualificação e escolarização, tornando–os ainda mais vulneráveis diante das exigências da agroindústria. Araújo (2017)9 mostra que na mesorregião do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, a região já chegou a 100% de área mecanizada para terrenos de declínio até 12% e essa tecnologia afeta o emprego dado que uma máquina pode substituir cerca de 100 ou mais trabalhadores. Ainda segundo o autor, foi possível observar que as ações de proprietários das colheitas visam essencialmente o rebaixamento dos custos e a produtividade elevada, sem se dar atenção às condições degradantes de trabalho dos trabalhadores e trabalhadoras envolvidos no corte da cana-deaçúcar. Analisando o discurso do presidente do Sindicato das 9
Pesquisador da equipe, membro do GPTES.
51
Indústrias da Fabricação do Álcool no Estado de Minas Gerais (SIAMIG), Mário Campos, Araújo (2017), aponta que o setor vem enfatizando a questão da qualificação dos trabalhadores e que a geração de emprego em áreas que não o do corte da cana compensa as perdas com a introdução da mecanização e que ainda, o setor oferece treinamentos para os trabalhadores ocuparem atividades que exigem maior qualificação. Apesar desse discurso positivo sobre o trabalho no campo Araújo (2017, p.13) argumenta que: […] apesar do presidente do sindicato incluir em sua fala a dimensão do trabalhador em vista do processo de mecanização, esta não se aprofunda em questões além da qualificação restrita a capacitação técnica para executar as funções demandadas para o melhor desempenho da empresa, ignorando, assim como as demais declarações analisadas, os demais aspectos da vida do trabalhador. Ademais, percebe–se que o presidente apresenta um discurso inclusivo de que este avanço promove ao trabalhador certa qualidade social, próxima às certificações da burguesia, ao valorizar que “os cortadores de cana foram treinados e ocupam funções que exigem uma maior qualificação”, enquanto, segundo Rummert, Albebaile e Ventura (2013), na realidade estas ofertas permanecem tão desiguais quanto antes e promovem apenas conformação profissional através de uma educação endereçada ao chão de fábrica que visa prioritariamente a valorização do capital.
Ainda para Araújo (2017, p.13), os empresários do setor, na fala de seu presidente: […] se restringem aos impactos técnicos da mecanização, preocupando–se com as dimensões objetivas da inovação tecnológica, como os acréscimos de produtividade, e ignoram as consequências sociais, como o desemprego ou a realocação dos trabalhadores. Ainda que as dimensões humanas do processo sejam mencionadas nas declarações acima, 52
elas não constituem o foco do discurso, tampouco compreendem parte relevante do mesmo.
Apesar da concentração territorial, verifica–se um movimento de expansão para outras regiões brasileiras, como Goiás e Mato Grosso. Nessas regiões estão localizados os biomas do cerrado e do pantanal bem como grande número de populações indígenas e quilombolas. A reterritorialização dessas regiões está implicando na substituição das culturas locais tais como o milho e o feijão, destinadas ao consumo no mercado interno do país pelo plantio da cana-de-açúcar voltada para a exportação, impactando fortemente o meio ambiente. É nesse contexto que a produção da cana-de-açúcar adentra o mercado mundial de commodities, não mais como fornecedora de açúcar, mas fortemente vinculada à “energia limpa”, ao etanol. O crescimento do setor vem sendo justificado pela viabilidade econômica, sendo negligenciadas as questões sociais e ambientais, relativas aos impactos ambientais causados por essa atividade agroindústria, fundada na monocultura, no latifúndio e na utilização da força de trabalho itinerante. Numa aparente contradição, o crescimento econômico está estruturalmente relacionado à destruição dos recursos naturais e da vida por onde passa. A expansão da cultura de cana-de-açúcar e sua transformação em produto de exportação apoia–se no uso intensivo de produtos químicos tais como fertilizantes e agrotóxicos, que consistem num dos principais fatores de eutrofização dos rios e lagos, de acidificação dos solos e de contaminação de aquíferos (CUNHA, 2008). Segundo o autor, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informam que, no Brasil, em 1992 foram comercializados 69,44 kg/ha de fertilizantes para fins agrícolas, sendo que em 2000 este montante chegou a 128,83 kg/ha, o que equivale a um crescimento médio de 85,5% no volume de fertilizantes utilizados por hectare plantado. 53
Já no caso dos agrotóxicos, componente altamente danoso tanto ao ambiente natural quanto à saúde humana, ainda segundo Cunha (2008), a quantidade comercializada no país passou de 2,27kg/ha em 1997 para 2,76 kg/ha em 2000, correspondendo a uma elevação de 21,6% na quantidade aplicada por hectare. Atualmente, o Brasil é um dos países que mais usam agrotóxico, especialmente pesticidas, sendo ainda o principal destino de agrotóxicos barrados em países no exterior, como os da Comunidade Europeia (GRIGORI, 2020). Segundo Grigori (2020), mesmo sob a pandemia do Covid–19, o Governo Federal de Jair Bolsonaro, tendo a frente a ministra Teresa Cristina, vem aprovando um número crescente de agrotóxicos, tendo sido autorizados, desde março de 2020, 118 novos produtos, dos quais 84 destinados para agricultores e 34 para a indústria. Ainda segundo o autor, em 2020, houve um recorde histórico de aprovações de agrotóxico, com 475 novos produtos sendo liberados. Outra prática ainda comum no agronegócio sucroalcooleiro é a utilização de queimadas para realizar as colheitas, que, por força dos movimentos em defesa do meio ambiente, passaram a ser regulamentadas de acordo com a Lei Nº 11.241/2002, conhecida como “Lei da Queima da Cana”, que trata da queima controlada da cana-de-açúcar para despalha e de sua gradual eliminação até o ano 2031 (ROSETTO, 2021). Conforme Cunha e Previtali (2014), a queima gera impactos negativos sobre a biodiversidade, com prejuízos ao ecossistema, além de gerar intensa poluição atmosférica, afetando a saúde dos trabalhadores, dos moradores de áreas rurais e dos centros urbanos mais próximos, mas especialmente os cortadores de cana-de-açúcar, que trabalham em contato direto com os resíduos da queima. Destaca–se ainda a questão da sustentabilidade dos recursos hídricos, não apenas em função da grande quantidade de água utilizada pelas usinas e pelas lavouras da cana-de-açúcar, mas 54
também pelo risco sempre presente de lançamentos (ou vazamento) de efluentes não tratados nos rios, ou, ainda, o cerco às nascentes e o processo crescente de “cercamento” e privatização da água, colocando em questão o direito humano a esse recurso natural, como será discutido no próximo capítulo.
55
2 A Expansão da Agroindústria Sucroalcooleira e as Implicações Socioambientais em Minas Gerais 2.1 – Características da Agroindústria Sucroalcooleira em Minas Gerais O estado de Minas Gerais o Triângulo Mineiro destaca–se por ser uma região composta por 35 municípios e 4 microrregiões. Encontra–se localizado entre dois importantes rios do estado, o rio grande e Paranaíba, que juntos formam o rio Paraná. É uma das regiões mais ricas do estado, com a economia voltada para a agroindústria. As principais indústrias instaladas na região relacionam– se aos setores de processamento de alimentos e de madeira, de açúcar e álcool, fumo e de fertilizantes. Dentre as características favoráveis e atrativas podem–se destacar elementos como a topografia, clima favorável e o tipo de solo; considerando, ainda, sua proximidade com São Paulo, onde comporta as maiores usinas do país. Tais características podem ser melhores visualizadas observando a Figura 1 a seguir que apresenta o zoneamento agroclimático do estado de Minas Gerais, com destaca às áreas favoráveis à cultura de cana-de-açúcar.
56
Figura 1 – Áreas Favoráveis à Cultura de cana-de-açúcar no estado de Minas Gerais (1996)
Fonte: Zoneamento Agroclimático de Minas Gerais – SEA
Esse cenário tem feito com que o Triângulo Mineiro seja uma região muito atrativa para investimentos, realizados principalmente por grupos empresariais nordestinos, após a década de 1990. Tais investimentos alcançam tamanha magnitude que para cada indústria instalada na região corresponde a um investimento superior a R$100 milhões (SINDAÇÚCAR–MG, 2003). A partir da safra 2008/2009 em nível de Brasil, o estrado de Minas Gerais passou a ocupar o terceiro lugar na produção de produção açúcar, como pode ser verificado na Tabela 5, a seguir.
57
Tabela 5 – Evolução da Produção de açúcar no Brasil por estado durante as safras de 2000/2001 até 2008/2009 ESTADOS/ SAFRA
00/01
01/02
02/03
03/04
04/05
05/06
06/07
07/08
08/09
SÃO PAULO
9.675.481
12.350.253
14.347.908
15.171.854
16.494.931
16.833.595
19.503.032
19.139.062
19.662.436
PARANÁ MINAS GERAIS
996.539
1.351.249
1.468.921
1.865.409
1.814.018
1.503.421
2.178.077
2.510.547
2.459.512
619.544
747.053
1.093.233
1.346.598
1.664.693
1.741.649
1.909.516
2.117.696
2.207.621
ALAGOAS PERNAMBUCO
2.059.420
1.678.235
1.994.142
2.495.535
2.388.716
2.103.943
2.136.900
2.523.340
2.200.862
1.099.342
1.104.199
1.230.998
1.392.567
1.464.335
1.215.389
1.357.300
1.684.094
1.521.275
GOIÁS MATO GROSSO DO SUL MATO GROSSO RIO DE JANEIRO
397.440
505.843
577.067
668.185
729.760
749.836
766.125
950.602
958.419
231.635
327.865
373.715
402.878
411.912
400.857
576.130
616.170
657.078
369.530
448.354
546.153
579.401
566.728
520.989
540.200
536.234
478.424
307.698
218.592
312.423
331.747
347.084
286.203
262.104
243.472
241.005
R. G. NORTE
134.790
116.952
165.815
173.616
233.847
175.340
259.000
174.068
197.914
PARAÍBA ESPÍRITO SANTO
74.231
114.539
142.865
168.151
165.945
115.843
154.000
173.157
133.883
45.474
22.953
58.635
54.405
56.006
48.260
48.949
86.823
85.324
SERGIPE
71.818
55.662
68.651
68.882
74.491
65.060
50.400
94.061
82.099
BAHIA
145.670
143.448
161.111
172.105
170.048
117.485
115.700
102.524
81.177
PIAUI
0
0
0
0
3.431
7
0
22.255
38.796
Fonte: UNICA – União da Indústria de cana-de-açúcar e MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
Da mesma forma que os dados anteriores, a Tabela 6 que se segue aponta os números que representam a produção de etanol no Brasil na primeira década de 2000. Neste caso, Minas Gerais que no início da década tinha números pouco expressivos na produção de etanol, notavelmente passou a ocupar o segundo lugar no final desta mesma década.
58
Tabela 6 – Evolução da produção de etanol no Brasil durante as safras de 1999/2000 até 2008/2009 ESTADOS/ SAFRA
00/01
01/02
02/03
03/04
04/05
05/06
06/07
07/08
08/09
São Paulo
6.439.113
7.134.529
7.690.689
8.828.353
9.107.457
9.985.276
10.910.013
13.334.797
16.722.478
Minas Gerais
485.063
524.441
635.816
799.252
803.575
958.902
1.291.445
1.774.988
2.167.616
Paraná
799.364
960.270
980.472
1.224.010
1.209.668
1.039.832
1.318.904
1.859.346
2.048.752
Goiás Mato Grosso do Sul
318.431
379.284
455.124
646.344
716.937
728.535
821.556
1.213.628
1.726.080
314.777
396.521
418.052
480.571
533.580
495.591
640.843
876.773
1.076.161
Mato Grosso
464.357
580.127
653.919
792.169
814.667
770.572
757.251
894.381
952.171
Alagoas
712.634
562.286
567.868
725.516
687.165
546.046
604.177
852.907
845.363
Pernambuco
297.324
261.933
306.974
378.261
414.843
328.059
318.938
508.477
530.467
Paraíba
218.322
226.606
240.367
277.763
337.947
267.578
315.114
342.266
390.695
Espírito Santo
150.663
131.020
202.559
183.959
237.774
234.960
173.192
252.461
274.592
Maranhão
46.944
75.097
83.579
89.865
95.905
138.848
128.469
170.164
181.559
Bahia
48.484
54.412
57.891
49.650
63.023
103.275
93.962
140.535
141.484
92.596
64.792
109.042
107.934
162.874
135.536
87.455
120.274
127.795
Rio De Janeiro
Fonte: UNICA – União da Indústria de cana-de-açúcar e MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
De toda essa produção, conforme dados apresentados pelo sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool, a mesorregião do Triângulo Mineiro concentra 68% de toda a produção de canade-açúcar; 79% de açúcar e 61% do álcool produzido no Estado de Minas. (SINDAÇÚCAR/SIAMIG, 2009). Minas Gerais é o segundo maior produtor de açúcar do país e o terceiro na produção de etanol. A Tabela 7 demonstra quais são os municípios do estado de Minas Gerais com as maiores áreas plantadas de cana-de-açúcar.
59
Tabela 7 – Os 20 Municípios com as Maiores Áreas Plantadas de cana-de-açúcar nas Safras de 2005/2006 a 2008/2009
Fonte: CANASAT (INPE), apud COSTA, M. et al, 2009
60
A Figura 2 abaixo mostra a localização do Triângulo Mineiro no Estado de Minas Gerais. Figura 2 – Localização da Região Triângulo Mineiro no Estado de Minas Gerais (2021)
Fonte: Researchgate.net (2021).
A Tabela 8 mostra o ranking dos municípios produtores de cana – de – açúcar no Triângulo Mineiro. Tabela 8 – Ranking dos Municípios Produtores de cana-de-açúcar na Região do Triângulo Mineiro (Safra 2013/14) Posição 1° 2° 3° 4° 5° 6°
Município Uberaba Frutal Campo Florido Ituiutaba Araguari Uberlândia
Fonte: Cidades IBGE (2020). 61
Todo esse crescimento do setor sucroalcooleiro ocorrido na região do Triângulo Mineiro tem sido capitaneado por poderosos grupos empresariais originados, sobretudo, do Estado de São Paulo e Nordeste com significativas consequências para os trabalhadores rurais do campo. Atualmente, as usinas têm mecanizado a produção, com o discurso de preocupação com o meio ambiente já que a mecanização extingue as queimadas, outro discurso que a mecanização reproduz é que o trabalhador terá condições dignas para exercer a profissão, entretanto na prática o que ocorre é a elevação do desemprego, visto que nem todos os contingentes de trabalhadores, apesar de receberem treinamento serão aproveitados neste novo processo de produção. No entanto, observa–se que o processo de mecanização das usinas não tem contemplado a valorização do trabalhador nem tão pouco as questões ambientais, já que a queimada é prejudicial ao meio ambiente. A meta principal é se alinhar aos padrões ecológicos estabelecidos pela Europa para a produção sucroalcooleira, a fim de que o Brasil desfrute cada vez mais de renome internacional neste segmento. No Triângulo Mineiro, mais especificamente na cidade de Ituiutaba é comum à existência de trabalhadores migrantes, trata– se de pequenos camponeses que migram do Piauí para o triângulo mineiro em época da safra da cana de açúcar com o objetivo de oferecer uma vida melhor e mais digna aos seus familiares que continuam na terra de origem. Estabelece–se uma relação social conflituosa entre os migrantes fora da sua terra de origem que por vezes são inferiorizados pela população em que estão inseridos e muitas vezes culpados de tirarem empregos da população local, sendo chamados de “invasores”. Dentre os imigrantes nordestinos, os piauienses representam 87% da população migrante em Ituiutaba, como mostra o Gráfico 3.
62
Gráfico 3 – Percentual Quantitativo da População Nordestina em Ituiutaba – (2018)
Fonte: Elaboração própria a partir de IBGE (2018).
Com relação à reorganização territorial das culturas, podemos afirmar que o avanço da agroindústria fundada na monocultura fronteira tem ameaçado grande parte dos pequenos proprietários rurais que muitas vezes se vêem obrigados a arrendar suas terras para os grandes latifundiários. Apesar disso, hoje na construção dessa luta política e pela terra, os trabalhadores rurais vêm adquirindo pequenas parcelas do território. A luta e a resistência do trabalhador no campo têm se tornado um dos grandes trunfos dos movimentos de luta pela terra. Com o lema ocupar, resistir e produzir Sem Terras de todo o Brasil movimenta–se e prepara–se para o embate político com o governo e com as multinacionais dominantes no setor agrícola. Mais do que nunca a luta pela terra se faz alicerçada em teorias políticas, sociais e econômicas (CARVALHO; CLEPS, 2009).
63
Assim como em todo o país, no estado de Minas Gerais, particularmente em Uberlândia e região, a ocupação tem sido um importante meio de acesso à terra. Segundo dados do Projeto DATALUTA – MG foram registrados entre os anos de1986 e 2005 na região 181 ocupações de terra com o envolvimento de 18413 famílias, sendo responsável por 28% das ocupações realizadas em Minas Gerais. (CARVALHO; CLEPS JR. 2009). O campo brasileiro em geral e a região do Triângulo Mineiro em particular, apresenta duas paisagens emergentes: os acampamentos e os assentamentos rurais, símbolos da luta pela terra e do exercício de sua cidadania. De acordo com Souza; Carvalho; Cleps Jr. (2009), durante o Governo Fernando Henrique Cardoso (1995 a 2002), foi adotada uma política neoliberal que na área rural, que assim como vinha acontecendo desde o período colonial, priorizou–se produção para o mercado externo, deixando em segundo plano o abastecimento interno. Além disso, o fato de o Estado não intervir de forma direta na economia, fez com que a economia agrícola brasileira se subordinasse aos interesses dos países mais ricos e das grandes transnacionais que monopolizam o setor de produção de insumos e o comércio de produtos nesse setor. Segundo a análise dos autores, ao perceber que as medidas usadas no governo FHC dificultariam o processo de reforma agrária no país, os movimentos sociais de luta pela terra se organizaram e reivindicaram por melhores condições de vida no campo. A pressão feita pelos movimentos sociais com a ampliação das ocupações nesse período pressionou o governo FHC a ampliar as áreas de assentamento e alguns programas sociais voltados ao campo como: o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF); o Programa de Geração de Emprego e Renda Rural (PROGER RURAL) e a Previdência Rural. Foi nesse cenário que Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência da República em 2003 com o apoio de grande parte das 64
entidades populares de luta pela terra. Conforme Oliveira (2006), durante sua campanha, Lula apresentou um plano de metas para o setor agrário brasileiro, tais como: o Plano Nacional de Reforma Agrária; o Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar e dos Assentamentos de Reforma Agrária; o crédito rural; a educação para o meio rural; associativismo e cooperativismo que acabaram por não alcançar seus marcos impostos. Na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba em Minas Gerais foram registrados 181 ocupações de terra com o envolvimento de 18413 famílias, sendo responsável por 28% das ocupações realizadas em Minas Gerais entre os anos de 1986 e 2005. Já o número de assentamento no mesmo período é 66 em um total de 3705 famílias assentadas.
2.2 – Expansão, Reterritorialização e o Trabalho no Setor Sucroalcooleiro Com a intensificação da competição no capitalismo globalizado tem havido uma dispersão geográfica das empresas, havendo maior cooperação interfirmas. Essa cooperação interfirmas é uma estratégia para os inseridos na economia capitalista e implica uma conciliação de competição com cooperação. Em geral, vê–se o modelo de cooperação vertical, empresas grandes contratando os serviços de empresas menores, e a cooperação horizontal permanece em sua maioria entre empresas pequenas, dentro de aglomerações setoriais e espaciais de firmas denominadas clusters. Empresas pequenas e médias utilizam de clusters com o fim de superarem as restrições impostas pelo sistema capitalista e competirem com maior força (KELLER, 2008). Os Clusters agrupam as empresas, pois há um acúmulo de conhecimentos, fruto de um maior número de pessoas presentes no processo, gerando assim, uma força de trabalho mais qualificada 65
dentro de sua esfera de produção. Há também um maior acesso às matérias primas e ferramentas necessárias à produção. Após a expansão da cana-de-açúcar para outras regiões além do interior do estado de São Paulo, observou–se a relações interfirmas, além de utilizar de arrendamentos de terras para produtores, criando outra parte no processo de produção e o muitas vezes o suporte do Estado, desde a compra de terras para construções de usinas, passando pela produção e até no esforço para tornar a cana-de-açúcar uma commodity mundial. Há uma proteção e subsídio para a cana-de-açúcar desde o Brasil colonial, porém com a desregulamentação em decorrência de mudanças no cenário político e econômico nacional no final da década de 1980, houve uma reestruturação no setor que passou a ter como foco principal a demanda externa e a introdução de modos de produção baseados em modelos internacionais. Mesmo com o escopo mercantilizado e internacional, o governo brasileiro continuou a subsidiar a cana-de-açúcar. A modernização do campo foi possível pela política de juros e empréstimos públicos. Essa política visava o aumento da escala produtiva e para isso as usinas deveriam possuir matéria–prima própria e cultivada por terceiros. O governo, para incentivar a produção de álcool, concedeu créditos públicos direcionados aos investimentos, e adotou políticas de incentivo à produção e comercialização de carros movidos a álcool. Assim, houve estímulo para empresários investirem na produção canavieira. A expansão da área cultivada pode ser observada no território brasileiro tendo como objetivo atender às necessidades das usinas que vem transpondo as fronteiras das regiões e dos estados com tradição no cultivo dessa planta como são os casos da zona da mata do Nordeste distribuída pelos estados da Paraíba, Pernambuco e Alagoas. A produção da cana-de-açúcar tem se descentralizado do estado de São Paulo, e atingindo crescimento ainda que lento em demais estados do país, como mostra o ranking 66
de exportação do etanol por estado, o objetivo neste tópico será apresentar o setor sucroalcooleiro no estado de Goiás mais precisamente na cidade de Itaberaí, com foco nas condições de trabalho a que são submetidos os trabalhadores do setor canavieiro. O cultivo de cana-de-açúcar até a década de 1980 não era expressivo em terras do Centro–Oeste, entretanto a expansão dos lucros que produtores–usineiros financiados pelo governo com programas como o PROÁLCOOL e outros aspectos naturais têm acentuado o cultivo extrativista no Estado de Goiás. O estado ocupava o quinto lugar no ranking de exportação de etanol por estado na safra 2014/2015, atrás dos estados de Minas Gerais, Paraná, Alagoas, e São Paulo como mostra a Tabela 9 abaixo. Tabela 9 – Ranking de exportação de etanol por estado na safra 2014 – 2015 (Ton) (2016) Ranking
Estados
Quantidade
Participação %
1
São Paulo
1.822.025
66,08%
2
Alagoas
299.648
10,87%
3
Paraná
245.321
8,90%
4
Minas gerais
221.272
8,02%
5
Goiás
50.871
1,84%
6
Outros
118.234
4,29%
2.757.371
100,00%
Total
Fonte: Elaboração própria a partir da tabela da UNICA (2016).
67
A expansão do setor para outras regiões não pode ser pensada sem considerarmos o Entendemos então que o capital submete o capitalismo e o trabalhador em uma ótica de falsa liberdade, estabelecendo uma relação de submissão, o capitalismo torna–se instrumento e expressão do capital configurando–se como parte desse capital, enquanto o trabalhador é um instrumento de exploração do capital e não se integra a ele, pois a lógica do capital necessita da exploração do trabalhador. Em se tratando dos trabalhadores do setor sucroalcooleiro podemos afirmar que são mais fáceis de serem explorados pelo capitalismo, pois em sua maioria esta classe trabalhadora tem pouco estudo e com isto acabam se tornando massas de manobra do sistema exploratório em que estão inseridos. O Quadro 3 mostra alguns dos problemas enfrentados por estes trabalhadoress no seu cotidiano de trabalho na cidade de Itaberaí Goiás. Quadro 3 – Problemas Enfrentados pelos Trabalhadores em Itaberaí– GO (2011) Problemas Excesso de trabalho
Detalhamento Cargas horárias de 12 horas, para aumento de produtividade.
Irregularidade no transporte dos Não há transporte com segurança adequada. trabalhadores Falta de instalações sanitárias no As empresas não têm a preocupação em campo oferecer condições de higiene para os trabalhadores do campo. Falta de locais para os trabalhadores Os trabalhadores fazem as refeições sentados fazerem refeições em cima de galões de água ou no chão, sem qualquer acomodação. Discriminação
Os trabalhadores são vistos como mera mão– de–obra, discriminados como parte dessa sociedade.
Máquinas sem proteção
Utilização 68
de
máquinas
sem
a
devida
segurança. Acidentes de trabalho no campo
Falta de treinamento para utilização de utensílios de trabalho, além da falta de equipamentos de segurança e até mesmo sem condições de uso.
Falta de assistência médica
Não existe uma política médica que dê assistência aos trabalhadores do campo.
Fonte: Elaboração própria a partir do Relatório “Cana doce, trabalho amargo: a superexploração do trabalhador canavieiro no município de Itaberaí/GO–2011”.
O quadro acima evidencia o descaso com o qual os trabalhadores do setor sucroalcooleiro são tratados, é notório que as leis trabalhistas não são colocadas em prática para estes indivíduos que deixam a região nordeste do país e veem para o sudeste em busca de melhores oportunidades de vida e na verdade o que ocorre é que acabam se tornando vítimas da exploração do sistema capitalista e da sociedade que os estereotipa. Até o final da década de 1990, a produção canavieira brasileira concentrava–se no Nordeste e São Paulo. Devido à crise que o setor atravessou nessa época, muitas dessas empresas declararam falência. Os grupos mais consolidados direcionaram seu capital para outros estados do Centro–Sul principalmente, adquirindo novas terras e implantando novas unidades. Caracterizou–se assim a reterritorialização do setor sucroalcooleiro para muitas cidades de São Paulo e Minas Gerais, que em sua maioria concentraram no Triângulo Mineiro.
69
Com a mudança de sede das usinas, muitas terras do Centro–Sul foram vendidas para a entrada das usinas. Um dos primeiros impactos foi a substituição de terras destinadas para pastagens por terras para cultura de cana-de-açúcar, devido a maior rentabilidade financeira da primeira. Com o mercado voltado para esse investimento, auxílio do governo que dava arrendamentos e auxílio a proprietários de usinas, com parcerias, os proprietários de terra para pastagens mudaram sua área de investimento, ou venderam suas terras e mudaram para outras regiões, na maioria para o Centro–Oeste do país. Muitos proprietários rurais, sem condições para erguerem uma usina, substituíram o cultivo anterior para plantar cana, e fornecer a usina. Assim surgiu outra parte no contexto, o produtor, que ficava responsável pelo plantio e venda da matéria– prima para as usinas. Com a instalação da usina, geralmente se utiliza o sistema de arrendamento para garantir a produção de matéria–prima necessária para a usina. O proprietário da terra fica obrigado a vender a matéria–prima apenas para a usina durante um período determinado, geralmente contratos de 10 a 15 anos. A usina recolhe investimentos e repassa–os para os produtores em forma de empréstimos, e esse assume os riscos de prejuízo. A partir de 2008, com a crise no setor, a tonelada da canade-açúcar perde valor e os arrendamentos deixam de ser viáveis economicamente para os produtores, mas presos por contratos, os produtores ficam impossibilitados de voltar as pastagens. Muitos tiveram que recorrer à venda de suas propriedades, as próprias usinas adquiriram então, com facilidade as terras, já que também era previsto no contrato que estas possuíam preferência no caso de venda da propriedade. Dessa forma, os grandes investidores se tornam os principais concentradores de terra e de poder num processo de concentração da produção da cana e ocupação territorial.
70
A pecuária deixa a região, o que impacta o preço das principais atividades ligadas a pecuária, o leite e a carne. O aumento do preço desses alimentos ocorre pela falta de oferta local, sendo necessário o transporte de outros locais. Da mesma maneira aconteceu com todas as demais culturas do Triângulo Mineiro: soja, milho, sorgo, algodão, feijão, arroz, mandioca e amendoim, todas tiveram a área destinada à seu plantio reduzidas de 2005 para 2007, como mostram os Gráficos 4 e 5 na cidade de Carneirinho, interior do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Gráficos 4 e 5 – Porcentagem da Área Ocupada pelas Principais Culturas – Carneirinho/MG (2005 e 2007)
No município de Carneirinho, em 2005 o principal cultivo era o milho com 75,27% da área de plantação destinada a esse cultivo. Durante o período de dois anos a cana-de-açúcar se tornou o cultivo com maior predominância com 88,07% da área de plantação. Gráficos 6 e 7 que representam as culturas em União de Minas.
71
Gráficos 6 e 7 – Porcentagem da Área Ocupada pelas Principais Culturas – União de Minas/MG (2005 e 2007)
O município de União de Minas também presenciou um crescimento da cana-de-açúcar, que em 2005 já era responsável por 77% da área destinada a cultivo do município. Em 2007, a área da cana-de-açúcar correspondia à 88%, eliminando as plantações de arroz, amendoim e mandioca. O município mais atingido foi o de Limeira do Oeste que em 2005 tinha, das suas terras destinadas para plantio, 32,49% para a cana-de-açúcar, e em 2007 eram 92,47% de suas terras cultivando cana-de-açúcar, eliminando quase todos outros cultivos da região. (Gráficos 8 e 9). Gráficos 8 e 9 – Porcentagem da Área Ocupada pelas Principais Culturas – Limeira do Oeste/ MG (2005 e 2007)
Fonte: Elaborado pela AFES a partir de dados do IBGE – Produção Agrícola Municipal
72
Com o processo de reterritorialização da monocultura das usinas sucroalcooleiras, houve o encarecimento da produção de hortaliças e frutas, devido a larga utilização de agrotóxicos nas plantações de cana, que acabava por forçar os pequenos produtores à também aplicarem em suas plantações visando impedir pragas que migram das plantações de cana-de-açúcar. Os pequenos produtores, que tiveram suas terras arrendadas por usinas, foram atraídos pelo bom preço da cana-de-açúcar durante um período e com a crise do setor, muitos foram obrigados a se desfazerem de suas terras visando à quitação de dívidas ou percebendo a impossibilidade de obter a renda suficiente para si apenas com o plantio da cana. Os que persistiram, além de dificuldades financeiras, sobreviviam com uma dieta de produtos comprados em mercados, já que não possuíam mais espaço para cultivos de subsistência, por causa da cana. Quem não arrendou a terra, continuou sobrevivendo à base da colheita do próprio quintal, porém agora prejudicada por pragas oriundas da plantação de cana ao redor dessas pequenas propriedades.
2.3 – Os Impactos Socioambientais das Políticas de Expansão do Setor Sucroalcooleiro A expansão da agroindústria sucroalcooleira não deve ser vista como um fato isolado, mas como parte de uma política agrícola que prioriza a expansão do setor. Para se falar nos impactos ambientais gerados pela cultura sucroalcooleira no Brasil é necessário que se remeta ao modelo de desenvolvimento que o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) se propôs a realizar.
73
Em busca do apoio social o governo Lula adotou políticas populistas10 aliado com o desenvolvimentismo, tão pregados em décadas passadas; e com ousadia de quem tinha na população seu principal aliado, o então presidente procurou fazer do Brasil uma referência mundial no combate a erradicação da pobreza, e um líder mundial na produção de energia limpa, com a expansão da cultura de cana-de-açúcar, para que se fomentasse a produção do etanol como uma alternativa à utilização de combustíveis fósseis, como a gasolina. Dessa forma o país se tornava o maior incentivador de políticas públicas que tinham como carro–chefe a preocupação com o meio ambiente. Procurou dar incentivo ao Programa Nacional do Álcool (Pro Álcool) lançado em sua primeira versão no ano de 1975, “como alternativa à primeira crise do petróleo no ano de 1973, mantendo os mesmos objetivos que é a substituição dos derivados de petróleo” (CARVALHO; CARRIJO, 2007, p.02). Notam–se três fases distintas do Pro Álcool: a primeira de 1975–1979, tendo como principal característica o esforço para a criação de álcool anidro para a mistura com a gasolina. A segunda fase vai dos anos 1980–1986; é também chamada de fase áurea do Pro Álcool. “O governo resolve investir de modo mais incisivo neste projeto, criando organismos como o Conselho Nacional do Álcool – CNAL e a Comissão Executiva Nacional do Álcool – CENAL para agilizar o programa” (CARVALHO; CARRIJO, 2007, p.04). Os carros movidos a álcool começam a ser fabricados nessa década e houve um aumento das destilarias autônomas na produção de álcool. A terceira fase se inicia após a década de 1980 sendo marcado pela redução da produção de etanol, o barril de petróleo 10
O populismo surge quando há uma massificação de amplas camadas da sociedade que desvincula os indivíduos de seus quadros sociais de origem e os reúne na massa, relacionados entre si por uma sociabilidade periférica e mecânica; quando há uma perda da representatividade e da exemplaridade da classe dirigente; quando há a presença de um líder dotado de carisma de massas. Consultar Weffort (1989).
74
voltou a cair; houve incertezas de políticas setoriais bem como a elevação dos preços internacionais do açúcar “fizeram com que a atividade sucroalcooleira se voltasse novamente para um cenário agroexportador de commodities 11 (açúcar)” (GOMES, 2011, p.77). Contudo, conforme se pode verificar a partir da década de 2000 esse cenário começa a sofrer alterações, voltando a ser vantajoso para as usinas de cana a produzir etanol. A década de 2000, particularmente o ano de 2009 foi marcado por intensa movimentação no setor sucroalcooleiro do Brasil. Após a forte crise verificada no ano anterior, na qual usinas sofreram com a retração da oferta de crédito, as operações de várias delas voltaram ao azul diante de um cenário de constante aumento da demanda por etanol no mercado brasileiro. Nesse contexto, grupos internacionais capitalizados adquiriram grandes companhias nacionais. Os investimentos oriundos de financiamentos públicos nacionais, por intermédio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES e Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais – BDMG também foram significativos. O BNDES, após 2000, passou fortalecer suas linhas de crédito para o setor sucroalcooleiro. “Em maio de 2012, o banco lançou o Programa de Apoio ao Setor Sucroalcooleiro – PASS, com o objetivo de financiar a estocagem de etanol combustível no valor de quinhentos milhões de reais” (BNDES/CIRCULAR N° 36/2012). Acompanhando os investimentos em usinas, cresceu também a mobilização por negócios com terras. Em fevereiro de 2009, a casa de leilões inglesa Sotheby’s International Realty abriu um escritório em Mato Grosso do Sul para assessoria na venda de terras para a produção de grãos e cana-de-açúcar. A direção da empresa visa dois tipos principais de investidores: os que buscam 11
Commodities são produtos de origem agropecuária ou de extração mineral, em estado bruto ou pequeno grau de industrialização, produzidos em larga escala e destinados ao comércio externo. Seus preços são determinados pela oferta e procura internacional da mercadoria.
75
ativos livres de manutenção que arrendam as terras em escala industrial, e as empresas de alimentos ou de energia em busca de terras para ampliar suas lavouras ou para pastagem. “Esta mobilização tem preocupado o Ministério Público Federal – MPF, uma vez que a especulação imobiliária envolvendo empresas estrangeiras pode afetar os preços das terras e criar problemas futuros para demarcação das áreas indígenas” (REPÓRTER BRASIL, 2009). A Tabela 10 abaixo mostra a partir da safra dos anos 2004/2005 esse novo impulso que o governo brasileiro está proporcionando à nova fase do Proálcool. Verifica–se também que o cultivo da cana-de-açúcar alcançou os estados de Rondônia e do Acre, aumentando assim o desmatamento da floresta amazônica. Nota–se, também, que o estado de Minas Gerais se destaca no cenário nacional com seu expressivo aumento no crescimento da quantidade de toneladas de cana processada no período entre as safras de 2004/2005 até 2010/2011, alcançando uma elevação de 152% na quantidade de toneladas de cana processada. Tabela 10 – Cana-de-Açúcar Processada pelas Usinas Brasileiras (Ton.) (2004 – 2011) CANA-DE-AÇÚCAR PROCESSADA PELAS USINAS BRASILEIRAS(t) 2004–2011 ESTADOS /SAFRA AC RO AM PA
2004/2005
2005/2006
2006/2007
2007/2008
0
0
0
0
0
0
0
0
106.292
111.252
136.690
267.767
252.672
224.700
318.141
303.350
211.750
346.992
580.999
510.086
697.400
575.525
626.865
623.409
521.847
95.314
179.300
55.456
45.160
238.983
1.275.119
1.797.490
1.660.300
2.134.604
2.280.160
2.209.385
2.327.485
349.329
492.369
706.000
689.130
900.181
1.014.076
836.696
TO MA PI
76
2008/2009
2009/2010
2010/2011 33.834
CE RN PB PE AL SE BA REGIÃO NO–NE MG ES RJ SP PR SC RS MT MS GO REGIÃO CENTRO– SUL BRASIL
79.444
40.709
27.400
8.250
122.355
154.471
36.262
2.917.677
2.356.268
2.397.400
2.047.750
3.186.768
3.515.678
2.729.169
5.474.229
4.291.473
5.107.700
5.555.712
5.885.978
6.241.756
5.246.317
16.684.867
13.858.319
15.293.700
17.535.548
18.949.518
18.259.333
16.923.679
26.029.770
22.532.291
23.635.100
29.444.408
27.309.285
24.269.759
28.958.180
1.465.185
1.109.052
1.136.100
1.367.813
1.831.714
1.480.831
2.058.963
2.268.369
2.391.415
2.185.600
2.522.923
2.541.816
2.094.547
2.791.971
57.392.755
49.727.458
53.250.700
62.199.804
64.099.738
60.231.407
63.187.068
21.649.744
24.543.456
29.034.195
35.723.246
42.480.968
50.573.227
54.629.096
3.900.307
3.804.231
2.894.421
3.938.757
4.373.248
4.009.626
3.524.817
5.638.063
4.799.351
3.445.154
3.831.652
4.018.840
3.258.726
2.092.723
230.280.444
243.767.347
263.870.142
296.313.957
346.292.969
361.260.727
359.438.092
28.997.547
24.808.908
31.994.581
40.369.063
44.829.652
45.578.529
43.320.725
0
0
0
0
0
77.997
57.976
91.919
128.980
107.184
48.346
81.780
14.447.155
12.335.471
13.179.510
14.928.015
15.283.134
14.045.632
13.660.681
9.700.048
9.037.918
11.635.096
14.869.066
18.090.388
23.111.237
33.519.668
14.006.057
14.559.760
16.140.043
21.082.012
29.486.508
40.075.735
46.612.721
328.697.362
337.714.418
372.285.061
431.184.748
504.962.891
541.961.785
556.880.303
386.090.117
387.441.876
425.535.761
493.384.552
569.062.629
603.056.367
623.731.376
Fonte: SIAMIG (2012)
O cultivo da cana-de-açúcar se justifica pela viabilidade econômica, ficando em segundo plano o planejamento para o equacionamento dos impactos sociais e ambientais desta atividade agrícola que é uma monocultura pautada no latifúndio e na
77
utilização da força de trabalho itinerante. Há que se definir, portanto, o que são Impactos Ambientais. Segundo o CONAMA: […] qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam: a saúde, a segurança e o bem–estar da população; as atividades sociais e econômicas; a biota; as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; a qualidade dos recursos ambientais. (CONAMA/1986, Artigo 1º).
Silva e Martins (2010, p. 6–7) apontam que: O uso intensivo de fertilizantes, por exemplo, é um dos fatores fortemente associados à eutrofização dos rios e lagos, à acidificação dos solos e à contaminação de aquíferos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística dão conta de que, no Brasil, em 1992 foram comercializados 69,44 kg/ha destes compostos para fins agrícolas; em 2000, este montante chegou a 128,83 kg/ha, o que equivale a um crescimento médio de 85,5% no volume de fertilizantes utilizados por hectare plantado. Estes números ganham ainda maior expressão se observarmos que o crescimento de área plantada no país, neste mesmo período, girou em torno de 23% (FIBGE, 2002). Já no caso dos agrotóxicos – componente altamente danoso tanto ao ambiente natural quanto à saúde humana –, a quantidade comercializada no país passou de 2,27kg/ha em 1997 para 2,76 kg/ha em 2000, correspondendo a uma elevação de 21,6% na quantidade aplicada por hectare.
A prática de queimadas é a forma mais utilizada pelas usinas para que realizar as colheitas. São consequências das queimadas conforme nos aponta Silva e Martins, (2010): impactos 78
sobre a biodiversidade da região, com efeitos deletérios no desempenho dos ecossistemas e na estabilidade da paisagem, além de gerar intensa poluição atmosférica, afetando a saúde dos trabalhadores, dos moradores de áreas rurais e dos centros urbanos mais próximos. Ainda com relação às queimadas, a ONG Repórter Brasil em seu relatório anual publicado no ano de 2008 reiterou a preocupação do promotor Paulo Zeni, que destaca dentre vários problemas, lançamento na atmosfera de ozônio e outras substâncias potencialmente danosas à saúde humana (algumas delas apontadas como carcinogênicas), atingindo especialmente os cortadores de cana-de-açúcar, que trabalham em contato direto com os resíduos da queima. É sabido que a queimada se constitui em grave problema de saúde causa problemas respiratórios, reações alérgicas chegando a casos extremos até a desenvolver câncer tais problemas são agravados no trabalhador que mantém contato direto com a cana queimada, bem como a população das cidades onde há usinas. O material particulado da queima é o mais prejudicial à saúde humana 94% de sua constituição são de partículas finas que conseguem atravessar todo o sistema respiratório e chegar até os alvéolos, imaginemos, portanto, o mau que isto causa ao trabalhador que fica exposto diretamente com esta substância. O estado de São Paulo é o maior produtor de cana – de – açúcar do Brasil, a região de Ribeirão Preto, Bauru, Araraquara, Marília, Assis e São José do Rio Preto possuem extensas terras destinadas à produção da cana e colhem a cana por meio da queimada, com isto essas regiões possuem elevada temperatura. Uma vez que a cana provoca a elevação da temperatura, constatamos que a cana causa danos não só a saúde do trabalhador como de toda a população do município onde a usina está instalada, entretanto a lei nº 11.241/2002 proíbe a queimada da cana-de-açúcar no máximo até 2031.
79
De acordo com matéria publicada no sítio Canal Rural12, no estado de São Paulo desde 2007 foi criada uma lei que antecipa a proibição da queima da cana do prazo máximo que é 2031 para 2017, entretanto municípios como: Araçatuba, Jaú, Araraquara e Piracicaba já não tem mais praticado a queima da cana-de-açúcar. Para Mário Campos12, presidente da SIAMIG (Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool no estado de Minas Gerais) na atual safra de 2014/2015 o setor sucroalcooleiro conta com 97% da colheita feita de forma mecanizada e sem queimada somente 3% das áreas com declividade maior que 12% é que a colheita é feita mecanicamente e com queimada, ainda de acordo com Campos a extinção da queimada fez com que somente para este ano de 2015 fossem eliminados 1,3 milhões de toneladas por hectare de CO2, além dos animais que tem voltado a habitar nos canaviais. Ao acabar com a queimada, as usinas do Triângulo contribuem para a preservação ambiental, bem como para a saúde da população onde as usinas estão sediadas, pois como vimos anteriormente a queimada traz sérios danos ao corpo humano, os maiores prejudicados por ela são as crianças e as pessoas que sofrem com problemas respiratórios. Com relação à poluição dos recursos hídricos, a ONG Repórter Brasil (2008), publicou no mesmo relatório a respeito dos impactos socioambientais da cultura sucroalcooleira, que até nos dias de hoje, passados quatro anos a realidade não mudou. A ONG (p. 20) afirma que: O uso dos recursos hídricos é outro tema em que o avanço da monocultura da cana suscita preocupações – e aponta a necessidade de cuidados especiais, a fim de que o uso múltiplo dos recursos hídricos no país, previsto pela 12
CAMPOS, Mário. Setor cumpre “protocolo” de eliminação da queima da cana. Dispo nível em: http://www.siamig.com.br/cache/Canavial/novembro.pdf. Acesso em: 8 nov.2015
80
política nacional para o setor, não se torne letra morta. As preocupações saltam à vista: a grande quantidade de água utilizada pelas usinas e pelas lavouras da cana, o risco de lançamento (ou vazamento) de efluentes não tratados nos rios, ou, ainda, o cerco a nascentes e a morte, construída a cada dia a partir do desrespeito à legislação ambiental, de córregos e afluentes de alguns dos principais rios do país.
A partir do exposto tem–se um panorama geral sobre a forma como vem ocorrendo a expansão da cultura de cana-deaçúcar no Brasil. Conforme se verifica na Figura 3, até o ano de 2003 o estado somava vinte usinas de cana-de-açúcar, quando o número subiu para vinte e três, somando ao total no estado quarenta e três usinas de cana-de-açúcar, com a maior concentração na região do Triângulo Mineiro, contendo 23 usinas até aquela data. Figura 3 – Localização das Usinas Sucroalcooleiras em Minas Gerais (2003)
Fonte: SIAMIG (2012) 81
As principais indústrias instaladas na região relacionam–se aos setores de processamento de alimentos e de madeira; de açúcar e álcool, fumo e de fertilizantes. Nos últimos anos o Triângulo Mineiro foi a região que mais recebeu investimentos e mais gerou empregos, conforme se pode verificar na Figura 4. Figura 4 – Produção de Açúcar e Etanol por Região do Estado de Minas Gerais (2011)
Fonte: SIAMIG (2012)
O estado de Minas Gerais também subiu no ranking dos maiores produtores de cana do país até a safra de 2010/2011, conforme se verifica na Tabela 11 a seguir:
82
Tabela 11 – Posição do estado de Minas Gerais no Ranking da Agroindustria Sucroalcoleira e sua Evolução nas Safras 2003 – 2011
Fonte: SIAMIG (2012)
Por fim, os dados do SIAMIG apontam a cogeração de energia gerado por este setor no estado de Minas Gerais conforme se verifica na Tabela 12.
83
Tabela 12 – Cogeração de Energia do Setor Sucroalcooleiro em Minas Gerais
Fonte: SIAMIG/SINDIAÇÚCAR (2012)
Todos esses dados, vistos de maneira acrítica, sinalizam que o estado está se desenvolvendo e consequentemente contribuindo para o crescimento do PIB nacional. Porém, o questionamento que é feito em nível nacional também deve ser feito a nível estadual, afinal, que tipo de desenvolvimento o Estado de Minas Gerais deseja? O bioma do cerrado é o mais atingido pela monocultura de cana-de-açúcar, consequentemente a região do Triangulo Mineiro está correndo grave risco ambiental, não só os biomas como também toda a população. Ainda com base no relatório de 2008 realizado pela ONG Repórter Brasil, este cita algumas preocupações de especialistas nas questões ambientais.
84
De acordo com Repórter Brasil (2008), na região do Triângulo Mineiro, composta pelas cidades de Uberaba, Uberlândia e Araguari, outra área de forte expansão da cana no Centro–Sul do país, o crescimento da monocultura é um dos fatores que coloca em risco o futuro das águas do rio Grande, um dos principais da Bacia do Paraná. Adriana Melo, professora de geografia e meio ambiente e integrante da ONG Geração Verde, é titular do segmento da sociedade civil organizada no Comitê de Bacia Hidrográfica do Baixo rio Grande. A especialista avalia que “a expansão da cana no Triângulo Mineiro, sobretudo em Uberaba, está totalmente fora de controle” (p. 20). De acordo com a professora, os produtores de cana “desmataram onde não deviam, enterraram as árvores para não serem descobertos, drenaram e ou aterraram nascentes e veredas, além de invadirem áreas de proteção ambiental” (p. 20). Na bacia do rio Grande como um todo, diz ela, “os desmatamentos provocaram a diminuição de água em rios menores e seus afluentes. Alguns córregos não existem mais ou se tornaram intermitentes. O que no futuro refletirá no rio Grande”, alerta. Adriana aponta o ribeirão Tronqueiras, em Iturama, como um dos cursos d’água agonizantes, “cercado pela cana”. Ela explica que o comitê da bacia hidrográfica vem se estruturando e avançando nos instrumentos de gestão dos recursos hídricos locais. Hoje, “vivemos o drama”, diz, ao mesmo tempo em que o comitê carece de informações e ações para lidar com o tema. (p. 21). Segundo Gustavo Malacco presidente da Associação para Gestão Socioambiental do Triângulo Mineiro (ANGÁ), de Uberlândia, e representante da sociedade civil no Comitê da Bacia Hidrográfica dos Baixos Afluentes Mineiros do Paranaíba, a expansão do setor sucroalcooleiro, “vem sendo licenciada à toque de caixa pelo Estado de Minas, com total apoio deste, até pelo fato de a expansão do setor ser uma política de Estado” (p. 21).
85
Para ele, os problemas verificados na região do Triângulo e do Paranaíba, rio que faz a divisa de boa parte dos Estados de Minas e Goiás, decorrentes dessa política são muitos uma vez que as regras para o licenciamento do setor são pouco rígidas, e deixam de lado boa parte dos impactos causados pelos empreendimentos. O biólogo afirma, ainda, que o plantio da cana-de-açúcar não vem se dando somente em áreas degradadas, conforme advoga o governo estadual, mas também em áreas sombreadas, que contam com pequenos grupos de árvores isoladas em meio às pastagens (REPORTER BRASIL, 2008). Em 2020, segundo o CONAB (2020), a produção de etanol no Brasil continua concentrada nas regiões Sudeste e Centro–Oeste, que juntos responderam por 90% da produção, sendo que na safra 2019/20 a região Sudeste manteve a liderança na produção, com mais de 415 milhões de toneladas colhidas, indicando acréscimo de 3,7% em comparação a 2018/19 e na região Centro–Oeste houve crescimento de 1,5% na área colhida, atingindo 1,8 milhões de hectares. Na região Sudeste, o estado de Minas Gerais vem recebendo novos investimentos, o que tem levado à intensificação da degradação ambiental e dos conflitos sociais no campo. O estado, apesar de redução no número total de usinas em relação a 2003, conforme Figura 3, possui ainda 33 usinas de cana-de-açúcar e etanol, mantendo a maior concentração na região do Triângulo Mineiro que possui 20 usinas até o presente momento (Figura 5).
86
Figura 5 – Distribuição das Usinas de Açúcar e Etanol no estado de Minas Gerais (2020)
Fonte: SIAMIG (2020).
87
3 As Políticas Educacionais e de Qualificação Profissional para o Trabalho no Setor Sucroalcooleiro 3.1 – A Problemática da Qualificação da Força de Trabalho O capital em sua constante busca pelo crescimento da produtividade do trabalhador, desde a primeira Revolução Industrial no século XVIII, impõe a redefinição do trabalho e da qualificação profissional de forma a diferenciar tecnicamente o trabalho e os trabalhadores. Desta forma, tem–se que a desqualificação do trabalhador ocorre através da própria natureza desta estrutura produtiva (FELIZARDO, 2010). Diferentes dimensões e abrangências são relacionadas à categoria de qualificação Entendimentos mais gerais do termo, conforme Fleury e Fleury (2001, p. 19), são usualmente relacionados aos “requisitos associados à posição, ou ao cargo, ou pelos saberes ou estoque de conhecimentos da pessoa, os quais podem ser classificados e certificados pelo sistema educacional”. Há ainda, autores que, compreendendo as dimensões do termo, o restringem propositalmente, como Felizardo (2010) que compreende qualificação como os conhecimentos específicos que o trabalhador possui sobre os processos produtivos e as máquinas para alcançar seus objetivos. No entanto, Felizardo (2010, p. 4) também ressalva o significado mais amplo do termo: “relação social entre os agentes sociais, que envolve a propriedade, significado e
88
uso dos conhecimentos, saberes, competências, habilidades, necessários a uma profissão, ocupação ou atividade de trabalho”. Sarsur et al. (2008) acrescenta que o conceito de qualificação está sendo substituído pelo conceito de competências devido à impossibilidade de um sistema de remuneração e definição de cargos mais rígidos. Desta forma, Sarsur et al. (2008) e Kuenzer (1999) definem que o debate relativo à qualificação remetia a um processo de trabalho fragmentado, requisitando do trabalhador apenas a execução mecânica e padronizada de tarefas, dado um contexto de emprego formal e de processos geralmente previsíveis e ocupações predominantemente mecânicas e instrumentais, para as quais era suficiente baixa escolaridade, treinamento e experiência. Sarsur et al. (2008) e Kuenzer (2008) adicionam que, por outro lado, as abordagens referentes ao modelo de competências apontam a revisão e superação deste modelo baseado na divisão das tarefas, tendo em vista as relações de trabalho mais flexíveis advindas da reestruturação produtiva, sendo requisitado do trabalhador capacidades que futuramente podem ser mobilizadas em situações pouco previsíveis, importando menos os conhecimentos e as habilidades prévias do que a adaptabilidade. Le Boterf (2003, p. 21), que ressalta a perspectiva da qualificação como “um julgamento oficial e legitimado que reconhece em uma, ou em várias pessoas, capacidades requeridas para exercer uma profissão, um emprego ou uma função”, indica que não se deve opor qualificação e competência ou mesmo substituir a qualificação pela competência, uma vez que esta última deve permitir o enriquecimento da noção de qualificação. Ferretti e Silva Júnior (2000) apontam para compreensão da qualificação de forma mais complexa e ampliada, em dimensões para além de habilidades e conhecimentos específicos, em vista de que a determinação do lugar ocupado pelos trabalhadores nas organizações, assim como seu salário e as oportunidades de 89
promoção etc., é resultado da sua condição de classe, sexo, etnia, idade, do prestígio social de sua ocupação, da sua capacidade organizativa como corporação, entre outros. A discussão a respeito da qualificação não se restringe ao fato de que o trabalhador disponha de competências para o mercado, mas para que, ao lado disso, tenha a oportunidade de uma educação integral para o trabalho e para a cidadania (RIBEIRO; TEIXEIRA, 1997 apud SARSUR et al., 2008). Ressalta–se que o debate quanto à relação entre competitividade e qualificação da mão–de–obra despontou o reconhecimento da existência de uma grande lacuna entre as bases da educação tradicional e os requisitos da sociedade atual (SARSUR et al., 2008). Kuenzer (1999) também aponta esta formação restrita diante da dinâmica do processo produtivo em razão do avançado ritmo das inovações científico–tecnológicos de forma que a empregabilidade fica condicionada à adaptação, o que resulta na conformação com situações cada vez mais precárias para a maior parte dos trabalhadores, tendo em vista as características excludentes da acumulação flexível. É imprescindível perceber que a flexibilização enquanto capacidade de criar, descobrir, articular conhecimentos e desenvolver novas performances, para adequar– se às demandas do mercado implica uma educação permanente, o que deve ser considerado um ser privilégio de poucos. Ademais, a crescente diminuição dos postos de trabalho decorrente dos avanços das inovações tecnológicas releva que o cenário da educação profissional necessita de diferentes e desiguais ofertas de educação, configurando uma polarização de competências. Para os excluídos do emprego ou submetidos a trabalhos precarizados – a grande maioria – a demanda é de uma formação simplificada, de curta duração e baixo custo. Para os poucos que ocuparão os postos com tarefas de concepção,
90
manutenção e gerência, exige–se o oposto, uma formação de maior complexidade, custo e duração (KUENZER, 1999). Ainda relacionado à eliminação da força de trabalho dado o advento das tecnologias industriais, Felizardo (2010) acrescenta que a reinserção no emprego de trabalhadores excluídos desse processo produtivo é dificultada pelo fato de que, ao longo do tempo, estes trabalhadores obtiveram qualificação somente para exercer funções específicas, uma vez que sua qualificação era subordinada aos interesses das empresas para as quais trabalhava, e não para um contexto amplo mais ligado à sua classe, refletindo a precarização do sentido de qualificação no âmbito do trabalho e representando o enfraquecimento da autonomia do trabalhador. Desta forma, o autor conclui que a relação entre a qualificação e o avanço tecnológico está estritamente pautada à dinâmica do gerenciamento e controle pelo capital, lembrando que ciência e tecnologia não são neutras, mas formas de poder e dominação. Já quanto à necessidade do mercado de educações distintas para classes distintas, Rummert, Algebaile e Ventura (2013) corroboram com essa ideia ao desenvolver seu pensamento de desenvolvimento desigual e combinado. Para tanto, os autores resgatam o conceito de capital–imperialismo de Fontes (2010 apud RUMMERT, ALBEBAILE; VENTURA, 2013), uma abordagem que compreende o capitalismo como uma forma histórica de organizar a vida social. Assim sendo, o capital–imperialismo impõe à sociedade a ordem de que toda a consciência se concentre em sua expansão, estruturando–se e expressando–se, até cotidianamente, nas formas como as consciências singulares e sociais incorporam e/ou ressignificam a ideologia dominante difundida pelos múltiplos aparelhos de hegemonia, não restringindo o capitalismo à atividade econômica, mas expandindo–o à totalidade da vida, à produção da existência. A concepção acima está em consonância com a visão de Althusser (2008 apud JUNQUEIRA, BEZERRA, 2015) a respeito da função de cada um dos aparelhos ideológicos de Estado de re91
produzir as relações de produção capitalista, de reproduzir a força de trabalho para a exploração de mais valia. Fontes (2010 apud RUMMERT, ALBEBAILE; VENTURA, 2013) afirma que o capital–imperialismo atualmente está fundamentado nos mitos de que é na atividade de gestão intelectual que se constrói o lucro e de que o trabalho vivo não assume mais nenhuma função relevante na vida social. Todavia, a autora rebate que diferentes formas históricas de produção, supostamente superadas, ainda são praticadas paralelamente, como a manufatura, o taylorismo, o fordismo, além de, lamentavelmente, trabalho escravo e trabalho infantil, compondo um ilustrativo exemplo de desenvolvimento desigual e combinado. Kuenzer (2007) também atenta para essa realidade afirmando que é necessário ao capital ter disponível força de trabalho com qualificações desiguais e diferenciadas que, combinadas assegurem os níveis desejados de produtividade. Nesta conjuntura, a educação desempenha papel fundamental para o controle social exercido pelo capital– imperialismo, sendo responsável até mesmo por desorganizar os movimentos dos trabalhadores e torná–los favoráveis à sua condição de expropriação (FONTES, 2010 apud RUMMERT, ALBEBAILE; VENTURA, 2013). Althusser (2008 apud JUNQUEIRA; BEZERRA, 2015) também identifica a função da educação de determinar aos sujeitos diferentes papéis na divisão social e técnica do trabalho, configurando–se um eficiente instrumento tanto para a reprodução da qualificação da força de trabalho, assim como para submeter os trabalhadores à ideologia dominante. Junqueira e Bezerra (2015), por sua vez, concluem que a educação jamais se desvincula das relações sociais de produção e que o trabalho, como meio de valorização do capital, naturalmente busca uma diferenciação na formação dos trabalhadores a fim de que se atenda às diferentes demandas do mercado.
92
Para Rummert, Albebaile e Ventura (2013) a dualidade educacional é parte estrutural fundante do modo de produção capitalista, assumindo diferentes formas históricas. Inicialmente esta oposição se configurava como a ausência efetiva de acesso à escola para a maioria da classe trabalhadora e atualmente se metamorfoseia nas ofertas educativas que propiciam possibilidades de acesso a diferentes níveis de certificação, cujo caráter classista é encoberto pelo discurso inclusivo de que estas possuem qualidade social igual a das certificações às quais as burguesias têm acesso. Na realidade, tem–se apenas a manutenção da desigualdade no próprio processo de democratização da escola, com a burguesia promovendo a conformação profissional através de uma educação endereçada ao chão de fábrica. A esse novo formato de destituição de direitos no âmbito educativo, Rummert, Albebaile e Ventura (2013) denominam dualidade educacional de novo tipo. Kuenzer (1999) corrobora com esta linha de raciocínio, afirmando que, apesar de uma tendência mundial à elevação da escolaridade básica – necessária ao próprio desenvolvimento do modelo de acumulação flexível – e a criação de um novo padrão de divisão social e técnica no processo de trabalho – no qual não existem nítidas divisões entre tarefas instrumentais e manuais –, não se alteram, contudo, as diferenças de classe. Isto é, os requisitos mínimos aumentaram, todavia, continuam sendo os mínimos. Kuenzer (1999) ressalta que, embora o discurso oficial reproduza o compromisso com a generalização da educação básica, a exemplo dos países desenvolvidos, que já atingem patamares elevados de educação superior, no Brasil a luta ainda se restringe a universalizar o ensino básico para os que estão na faixa de 7 a 14 anos e a política oficial para os trabalhadores adultos (considerando que o número de anos de escolaridade da população economicamente ativa gira em torno de 4 anos) se reduz ao supletivo, que, segundo a autora, expressa o abandono da luta em 93
vista da dimensão do esforço necessário para vencer uma dívida social de 500 anos. Assim sendo, deste nível escolar em diante o Estado se descompromete com a universalização e passa a trabalhar com o conceito de equidade, uma vez que dá a cada um segundo sua diferença, para que ela assim permaneça. Kuenzer (1999) salienta ainda que esta diretriz política é respaldada pela recomendação do Banco Mundial de que se priorize o ensino fundamental, em função do elevado investimento necessário para universalizar pelo menos o ensino médio e dado seu maior retorno econômico, deixando de se investir na formação profissional especializada, custosa e prolongada, compactuando com a manutenção de uma grande massa de excluídos do sistema de educação regular e profissional. Para a autora, a burguesia se proporciona o privilégio de desenvolver habilidades cognitivas superiores, dadas suas relações sociais desde a primeira socialização, e que estas habilidades, ao serem fomentadas pela escolarização, culminarão em autonomia intelectual, raciocínio lógico, comunicação, criatividade, além da crucial capacidade de se educar continuadamente. Desta forma, a necessidade de adquirir estas habilidades exclusivamente na escola se restringe àqueles que, por viverem do trabalho, são empobrecidos economicamente e, por conseguinte, também o são culturalmente. Em vista das necessidades dos jovens trabalhadores no Brasil, ponderando–se que seu ingresso no mundo do trabalho é motivado pela sobrevivência e continuidade de estudos, a oferta de única modalidade educacional, idêntica à oportunidade dos filhos das elites, significa condená–los precocemente à exclusão. Apesar do discurso ideológico acerca da necessidade de qualificação da força de trabalho para atender às necessidades do mercado, tem–se que o setor sucroalcooleiro é altamente seletivo quanto ao uso da força de trabalho, em sua maioria, trabalhadores com baixa qualificação profissional (PREVITALI et al, 2013; 94
PREVITALI, MORAIS, FAGIANI, 2013). Verificou–se que os trabalhadores da cana provêm fundamentalmente da região Nordeste do Brasil, principalmente dos estados de Alagoas, Maranhão, Piauí, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia. Eles vêm de regiões com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) baixo, muitos deles já eram camponeses e o trabalho em canaviais são a única alternativa para o sustento da família, que permanece no campo. A contratação desses trabalhadores é realizada pelo intermédio de “gatos”. “Gatos” aliciam trabalhadores no nordeste do Brasil e norte do estado de Minas Gerais com ofertas de benefícios que geralmente não correspondem à realidade do trabalho nas plantações. De forma mal planejada, esses trabalhadores ocupam os municípios ao redor das plantações, o que dificulta a contabilização precisa da quantidade de trabalhadores imigrantes. Dentre as tarefas realizadas pelos trabalhadores na cana está o plantio, o corte, a bituca, a limpa de capina, a limpa de sulco, a aplicação de agrotóxicos, irrigação com vinhaça, catação de pedra e serviços gerais, e dentro destas, é o corte da cana o responsável pela captação da maior parte do contingente dos trabalhadores. No caso de Uberlândia, uma das maiores cidades do Triangulo Mineiro, com cerca de 600 mil habitantes, a pobreza atinge aproximadamente a 43,30% da população, sendo 10,70% considerados indigentes, isto é, vivem com uma renda média de R$ 40,48/mês. Imperam no município e seu entorno baixos salários, ampla difusão do trabalho informal, baixa presença dos jovens no mercado de trabalho, assim como predominância do gênero masculino, principalmente na Indústria de Transformação e Comércio. As mulheres, maioria da população (51,2%), ganham, em média, 51,2% menos do que os homens (IBGE, 2010). Outro aspecto significativo é que a cidade, segundo censo do IBGE de 2010 tem aproximadamente 17,9 mil pessoas 95
analfabetas. Dos 478.424 habitantes com mais de 15 anos, 3,8% (17.924) não sabem ler e escrever. Vale destacar que a educação nas escolas municipais tem um nível inferior ao das escolas estaduais, sendo a prefeitura a responsável pela alfabetização de adultos na rede pública de ensino 13. Segundo entrevista realizada junto à Secretaria de Educação da cidade, uma das dificuldades em erradicar o analfabetismo na cidade diz respeito ao grande fluxo migratório. Cumpre ressaltar que o trabalho migrante vem impactando de forma significativa na infraestrutura local, particularmente no sistema educacional e de saúde públicos sem que as prefeituras locais tenham algum tipo de planejamento efetivo. No Brasil, o Ministério do Trabalho 14 afirma que, embora a taxa de crescimento da população brasileira venha caindo sistematicamente, existe um contingente expressivo de oferta de força de trabalho que está reprimida a espera de oportunidade para ingresso no mercado de trabalho. Há uma mudança no perfil etário dos trabalhadores inseridos no mercado de trabalho, que, segundo este órgão, se deu em decorrência do nível de qualificação da força de trabalho exigida por este, sendo que só os trabalhadores na faixa etária entre 25 e 39 anos têm conseguido atender a exigência das empresas por serem mais experientes e qualificados. Essa situação ocorre, provavelmente, porque esses mais jovens preferem ficar mais tempo na escola, seja formal, seja em cursos de qualificação profissional, antes de ir ao mercado. E por quê? Porque as empresas demandam maior qualificação e os jovens valorizam a educação. (BRASIL,
13
Informação obtida em entrevista junto a secretaria de educação da Prefeitura de Uberlândia em 10/09/2010. Os nomes não são divulgados para preservação das fontes. 14
Dados obtidos no documento "Tendências do Mercado de Trabalho Brasileiro”, na Homepage do Ministério do Trabalho: www.mtb.gov.br. Acesso em 20/03/2012.
96
Tendências do Mercado de Trabalho www.mtb.gov.br, acesso em 20 mar. 2011).
Brasileiro,
O que se deve indagar é se estes trabalhadores estão tendo acesso ao mercado de trabalho por serem mais bem qualificados e experientes em relação aos com menor idade, entre 15 a 24 anos como afirma o ministério; ou se o acesso destes com menor idade está sendo prejudicado por haver uma grande demanda, melhor qualificada, que diante da falta de empregos melhores, coloca–se à disposição do mercado, aceitando realizar atividades mais desprovidas de conteúdo em relação a sua qualificação profissional. É ilustrativo considerar que, em concurso público realizado na Universidade Federal de Uberlândia, em Minas Gerais/Brasil em dezembro de 2011 para provimento de cargos de assistente administrativo com exigência mínima de ensino médio profissionalizante ou ensino médio completo, os ingressantes foram, em número expressivo, aqueles que possuíam qualificação profissional superior. O que ocorre com aqueles com nível médio de qualificação? São levados pelo discurso neoliberal a se considerarem autorresponsáveis pelo seu não ingresso no mercado de trabalho em função de sua qualificação e são empurrados para os cursos de qualificação profissional em nível superior, majoritariamente sob controle do capital privado, para o qual a educação torna–se o novo e mais lucrativo “nicho de mercado”. Assim, na medida em que o número de trabalhadores se eleva e a oferta de empregos diminui, intensifica–se a concorrência entre os eles, tornando tanto maior, mais inatural e mais violenta. Por outro lado, o capitalista beneficia–se dessa concorrência intra– trabalho empregando os mais qualificados por menores salários e benefícios, contribuindo para o achatamento generalizado da renda dos trabalhadores.
97
Diante da realidade social em que vive o Brasil e grande parte dos países da América Latina e mais recentemente a própria Europa, com o desmantelamento dos direitos trabalhistas em nome do ajuste fiscal15, é contraditória a afirmativa de que os jovens estão deixando de ingressar no mercado de trabalho por preferir ficar mais tempo na escola. O processo de desemprego, na lógica destrutiva do capitalismo atual, sob a ideologia excludente do projeto político neoliberal, faz a sua retórica culpando o próprio trabalhador pela sua não–qualificação profissional e por consequência culpando–os pelo desemprego. Por isso são priorizadas às opções de reformas educacionais com ênfase na difusão das novas tecnologias de informação para universalizar o acesso ao ensino e às novas competências do trabalho. Ao longo da história da educação brasileira o ensino técnico de nível médio tem sido alvo das mais diferentes políticas e tem se caracterizado muito mais por um modelo de treinamento do que por uma educação técnica de caráter mais abrangente. A Reforma da Educação Profissional (REP) implementada durante a década de 1990 esteve assentada em um discurso que vincula a necessidade urgente de adequação dos diferentes países às transformações ocorridas nos setores produtivos e de serviços, tendo em vista o desenvolvimento de novas formas de organização do trabalho e a introdução de tecnologias modernas que se baseiam principalmente no desenvolvimento da microeletrônica. A grande inspiração para sua elaboração foram os documentos do Banco Mundial (BM), da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e dos setores produtivos mundiais (LIMA FILHO, 2003).
15
A atual crise na Europa afeta principalmente os mais jovens. O desemprego médio de 8,5% na Itália chega a 29% entre os que têm entre 15 e 24 anos. Na Espanha essa relação passa de 22% a 45% (Folha de São Paulo, 19/12/2011, A14).
98
Nessa perspectiva, a educação profissional é considerada de modo utilitarista, sendo que os conhecimentos, as habilidades e as atitudes a serem desenvolvidos devem ser definidos pela sua utilidade ao desenvolvimento de capacidades de trabalho requeridas pelo mercado. Sampaio e França (2009, s/p) avaliam que nas reformas educacionais nos anos 1990 fica evidente a ênfase para preparo de força de trabalho adequada para atender as necessidades do mercado, acompanhando o momento e desenvolvimento econômico do país. Para o autor, nesse contexto a educação se apresenta como mecanismo de exclusão, considerando sua origem e trajetória marcada no Brasil por duas características, quais sejam: a) sempre foi uma educação destinada aos subalternos da sociedade, ou seja, à classe trabalhadora, e, b) ter–se constituído, historicamente, em paralelo ao sistema regular de ensino. Para os autores: Esse quadro torna–se ainda mais perverso quando consideramos que uma imensa maioria foi e está excluída até mesmo desta estrutura dual, ou seja, grande parcela da população que nem a esta “educação de classe” teve acesso, faz com que nos certifiquemos do caráter classista e discriminatório da sociedade brasileira.
Os autores argumentam que em função do processo de mundialização, as elites nacionais assumiram a defesa de um modelo de formação profissional mais moderno e adequado ao novo momento econômico do Brasil. Neste, a questão da qualidade passou a ocupar lugar de destaque na defesa pública do valor da educação. Dessa maneira vários projetos foram implementados apresentando–se como reformas educacionais que por sua vez tiveram como ponto de partida a questão da empregabilidade. Assim, o Estado pôs em prática, por um lado, a 99
qualificação, o treinamento e a formação profissional, financiados com recursos públicos e, por outro lado, pretendeu combater o analfabetismo e a exclusão. Ainda para os autores, as políticas públicas para a educação profissional na década de 2000 têm–se caracterizado pelo aspecto irregular, fragmentário e compensatório. As políticas e diretrizes do MEC para a área praticamente se restringem à sugestão e à oferta de materiais didáticos a quem se interessar por desenvolvê– la. Evidencia–se que essas ações são “ineficientes e inadequadas, tendo em vista a amplitude da carência educacional da população jovem e adulta do país, sinalizando, pois, a inexistência de uma política eficaz para o enfrentamento da questão” (SAMAPIO; FRANÇA, 2009: s/p). Sampaio e França (2009, s/p) ressaltam que a nova educação profissional se orienta pelo conceito de empregabilidade. Como consequência, tem havido um processo de individualização da formação do trabalhador, pelo qual se indica que cada um é responsável por buscar suas competências, a serem alcançadas, segundo o discurso governamental, com o desenvolvimento das habilidades básicas, específicas e de gestão. Para o autor, observa– se atualmente a configuração de uma proposta de formação para o trabalho que se propõe a estar totalmente separada da educação formal e escolarizada. Nas palavras dos autores: Se, ao longo dos anos 1960 e 1970, a Teoria do Capital Humano dominou fortemente a educação, a partir da década de 1990, o que se pode perceber é que conceitos como competências e empregabilidade podem estar configurando um ressurgimento ou uma neo–Teoria do Capital Humano.
A criação do PANFLOR (Plano Nacional de Qualificação do Trabalhador) e do PROEP (Programa de Expansão da 100
Educação Profissional) exemplifica um processo que se vem consolidando no País, desde o início dos anos 1990. Isto é, de atrelamento às proposições econômicas e políticas dos organismos internacionais, para os quais o problema da educação é tratado de forma minimalista, numa perspectiva pragmática e de alívio à pobreza. O PLANFOR foi publicado em 1995 lançando algumas bases para atingir a estabilidade econômica do Brasil, de forma que retomasse o desenvolvimento, a democracia e a eqüidade social. Essa sigla surgiu em 1996, como desafio de incluir a educação profissional no âmbito da política social, incluindo financiamento do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), sob responsabilidade administrativa dos sindicatos. França (2011) destaca que o PLANFOR representa uma nova forma do Estado atuar no campo da qualificação e treinamento buscando elevar a produtividade do trabalho, incluindo a educação profissional na política publica de trabalho. O plano tem o objetivo oferecer a educação profissional, enfatizando a demanda do mercado de trabalho, de forma que qualifique ou requalifique a capacidade e competência existentes nesta área, garantindo a formação de profissionais preparados para atuar de acordo com as mudanças e inovações tecnológicas. Frigotto (1999), afirma que as iniciativas de cursos do PLANFOR são tão diversas que intervenções focalizadas se materializam por uma dispersão sem limites. Os cursos abarcam uma ampla gama de atividades, desde emissão de passagens, “fazer velas ou treinar os desempregados para oferecer serviços de catar piolho, cuidar de cachorros, catar minhocas” (FRIGOTTO,1999: s/p). Segundo o autor, o Decreto nº 2.208/97 que regulamenta as diretrizes nacionais para a educação profissional representa uma regressão ao dualismo e exacerbação da fragmentação. Esta rede de formação técnico–profissional se estrutura em três níveis, a saber: 101
a) O nível básico para a massa de trabalhadores, jovens e adultos, independentemente da escolarização anterior, mas certamente igual ou inferior ao ensino fundamental, que tem o objetivo de "qualificar, requalificar ou re– profissionalizar". Além disso, é um terreno aberto para quem queira disputar os recursos públicos do FAT (Fundo de Assistência do Trabalhador). Trata–se de cursos que não estão sujeitos à regulamentação curricular; b) O nível técnico, com uma organização curricular independente destinado a matriculados ou egressos do ensino médio. Aqui se situa a pressão e a direção para onde quer se encurralar o Sistema de Escolas Técnicas Federais. Trata–se de "flexibilizar seus currículos" adaptando–os às "competências" demandadas pelo mercado. Implementar um currículo modular, fundado na perspectiva das habilidades básicas e específicas de conhecimentos, atitudes e de gestão da qualidade, construtoras de competências polivalentes e, supostamente, geradoras da empregabilidade; c) O nível tecnológico, destinado aos egressos do ensino médio e técnico, para a formação de tecnólogos em nível superior em diferentes especialidades. Envolvidos com esta modalidade educacional estão as Redes Públicas (Federal, Estaduais, Municipais e do Distrito Federal) e Rede Privada, quais sejam: I – A Rede Pública Federal: a) os centros federais de educação tecnológica e suas unidades de ensino descentralizadas; b) as escolas técnicas federais; c) as escolas agro–técnicas federais; d) as escolas e colégios técnicos vinculados a instituições federais. 102
II – As Redes Públicas dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: a) suas unidades de formação profissional; b) os centros de educação tecnológica e suas unidades descentralizadas; c) as escolas técnicas vinculadas às instituições estaduais de ensino superior; III – A Rede Privada: a) o Sistema S, que inclui: SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial; SESI – Serviço Social da Indústria; SENAC – Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial; SESC – Serviço Social do Comércio; SENAR – Serviço Nacional de Aprendizagem Agrícola; SENAT – Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte; SEST – Serviço Social do Transporte; SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequenas Empresas; SESCOOP – Serviço Social das Cooperativas de Prestação de Serviços. b) as escolas técnicas e faculdades de tecnologia; c) as escolas e centros de formação profissional, mantidos por sindicatos de trabalhadores; d) as escolas e fundações mantidas por grupos empresariais; e) as escolas vinculadas às organizações não–governamentais de cunho religioso, comunitário e educacional. Sob o governo de Michel Temer (2016–2018), foi apresentada a MP 746/2016 que trouxe novas mudanças estruturais no formato e conteúdo pedagógico na educação escolar básica, reformulando fundamentalmente o ensino médio e o ensino profissional, assim como alterou artigos da LDB 9.394/96 e da Lei 11.494/2007, do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da 103
Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB). Também instituiu a Política de Fomento à Implementação de Escola de Ensino Médio em Tempo Integral.
3.2 – Educação do Campo: o caso Programa Pró–Jovem Campo em Minas Gerais Ao introduzir o tema em questão cumpre ressaltar que não se pretende problematizar as origens da crise econômica mundial e ou mesmo aprofundar em conceitos e categorias – ainda que fundamentais – que perpassam a temática, como educação do campo, politecnia e/ou pedagogia da alternância, dentre outros, como na referida tese. Entretanto, o texto parte da observação de Mauriel (2010) que, ao discutir precarização do trabalho e pobreza como “efeitos e sintomas da financeirização excludente”, afirma que é recorrente neste campo de estudo a compreensão de que “o desemprego e a pobreza contemporâneos resultam do processo de globalização das economias mundiais, sustentadas na volatilidade do capital financeiro”, fenômeno este que se verifica na maioria dos países desenvolvidos ou em desenvolvimento (MAURIEL, 2010, p. 207). Necessário também se faz caracterizar a concepção de “desenvolvimento” aqui empregada. Esta se distingue daquela que surge associada à estratégia adotada pelas forças dominantes que, ao emprestar ao capitalismo uma face humana e generosa, constrói e difunde concepções de desenvolvimento social atraentes e mesmo sedutoras. Atreladas às possibilidades e direitos – que de fato não se concretizam na vida prática – tais concepções povoam documentos oficiais tal como expresso no Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), aqui analisado, no qual se lê que, ao se alinharem as ações do Estado sob a forma de políticas públicas ao binômio educação e desenvolvimento, no final, tem–se, nesta ordem, 104
o “desenvolvimento econômico e social”. Segundo Haddad (2008, p. 7): O enlace entre educação e desenvolvimento é essencial na medida em que é por meio dele que se visualizam e se constituem as interfaces entre a educação como um todo e as outras áreas de atuação do Estado. Não importa a abrangência do território considerado, o bairro ou o país. A relação recíproca entre educação e desenvolvimento só se fixa quando as ações do Estado são alinhadas e os nexos entre elas são fortalecidos, potencializando seus efeitos mútuos. Desse movimento de busca de sintonia das políticas públicas entre si depende a potencialidade dos planos setoriais, inclusive o educacional, que passam, nesses termos, à condição de exigência do desenvolvimento econômico e social, garantindo–se que o todo seja maior que a soma das partes.
Por desenvolvimento, entende–se um processo integrado de ações complementares entre si que resultam em um conjunto de melhorias nos aspectos econômico–financeiro, social, cultural, político, filosófico e de autonomia no pensar e agir – em detrimento à heteronômica – que permita o crescimento e o desenvolvimento efetivo do ser humano, em seu espaço e contexto e vá além do aspecto puramente econômico. Neste cenário, em que a educação, sob a forma de política pública, surge como “porta de entrada para processo emancipatório” ao propor–se a possibilitar o acesso à informação e, pretende–se, ao conhecimento – pois, como também se lê no PDE, para Haddad (2008, p. 5): […] a escola pública e, em um nível mais geral, a política nacional de educação exigem formas de organização que favoreçam a individuação e a socialização voltadas para a 105
autonomia. O PDE é mais um passo em direção à construção de uma resposta institucional amparada nessa concepção de educação. Os programas que compõem o Plano expressam essa orientação.
Considera–se que o campo, ou o meio rural, no contexto de uma sociedade capitalista, não pode ser analisado isoladamente, em sua territorialidade, desarticulado dos movimentos e das formas de desenvolvimento que também se processam no meio urbano. Entretanto, por outro lado, devemos considerar suas particularidades, dadas as distorções verificadas nos índices socioeconômicos que, duramente, o caracterizam, para que nossa análise, pelo menos, aproxime–se da realidade vivida pelos sujeitos desta proposta de educação que ora discutimos. Diante disto, pergunta–se até que ponto o Projovem Campo constitui–se em uma política reparadora de desigualdades entre campo e cidade evidenciadas pelos indicadores econômicos e educacionais no país, surgido como ação “humanizadora” no contexto do PDE? O ProJovem Campo – Saberes da Terra é um programa do Governo Federal, de responsabilidade da Diretoria de Políticas de Educação do Campo, Indígena e para as Relações Étnico–raciais, vinculada à Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI), do Ministério da Educação (MEC), realizado em conjunto com o governo do estado de Minas Gerais, por intermédio da Secretaria Estadual de Educação (SEE) e municípios conveniados. No estado, o programa passa a se chamar “Programa Educacional ProJovem Campo – Saberes da Terra – Saberes de Minas”, implantado pela SEE em julho de 2008 por meio das Subsecretarias de Desenvolvimento da Educação Básica e de Gestão de Recursos Humanos e é direcionado à educação de jovens e adultos, na faixa etária de 18 a 29 anos, que saibam ler e 106
escrever, e que cumpram os requisitos do Art. 3º da Lei 11.326/2006, que estabelece as diretrizes para a formulação da Política Nacional da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais. O artigo em questão determina as seguintes condições para ingresso dos alunos no ProJovem Campo: Art. 3º Para os efeitos desta Lei considera–se agricultor familiar e empreendedor familiar rural aquele que pratica atividades no meio rural, atendendo, simultaneamente, aos seguintes requisitos: I – não detenha, a qualquer título, área maior do que 4 (quatro) módulos fiscais16; II – utilize predominantemente mão–de–obra da própria família nas atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento; III – tenha renda familiar predominantemente originada de atividades econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento ou empreendimento; III – tenha percentual mínimo da renda familiar originada de atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento, na forma definida pelo Poder Executivo; (Redação dada pela Lei nº 12.512, de 2011); IV – dirija seu estabelecimento ou empreendimento com sua família. (BRASIL, 2006, grifo do autor).
Cumpre ressaltar que a, aparentemente, simples alteração na redação da alínea III do Art. 3º, como se vê no texto oficial acima transcrito, pode revelar, de fato, a falta de consensos e mesmo o desconhecimento, propriamente dito, sobre as condições de vida e de trabalho do até pouco tempo chamado “homem do 16
Módulo fiscal é uma unidade de medida agrária usada no Brasil, instituída pela Lei nº 6.746, de 10 de dezembro de 1979. É expressa em hectares e corresponde à área mínima necessária a uma propriedade rural para que sua exploração seja economicamente viável. O módulo fiscal varia de 5 a 110 hectares sendo, geralmente menor, nas regiões metropolitanas, comparativamente ao módulo fiscal considerado nas regiões afastadas dos gran des centros urbanos (nota nossa).
107
campo” e mostra a importância e atualidade do tema, bem como revela a necessidade urgente de buscarmos alternativas concretas para a superação desta realidade. De acordo com documento “Orientação Conjunta Sb–Sg nº 01/2009” que normatiza sua implantação no Estado, o programa tem o objetivo de “fortalecer e ampliar o acesso e a permanência desses jovens e adultos agricultores familiares ao sistema formal de ensino possibilitando a conclusão do Ensino Fundamental com qualificação social e profissional” (MINAS GERAIS, 2009), como anunciado no PDE pelo então Ministro Haddad. Ao analisar o Plano de desenvolvimento da Educação (PDE) lançado pelo Ministério da Educação em 24 de abril de 2007, Saviani (2009) ressalta que o principal responsável pela repercussão positiva do lançamento do plano junto à opinião pública diz respeito à qualidade do ensino ao afirmar que “o PDE foi saudado como um plano que, finalmente, estaria disposto a enfrentar esse problema, focando prioritariamente os níveis de qualidade do ensino ministrado em todas as escolas de educação básica do país” (SAVIANI, 2009, p. 1). O livro de lançamento do plano, já em seu primeiro capítulo – “Razões e princípios do Plano de Desenvolvimento da Educação”, – expressa claramente esta intencionalidade. Segundo Haddad (2008, p. 6): Só é possível garantir o desenvolvimento nacional se a educação for alçada à condição de eixo estruturante da ação do Estado de forma a potencializar seus efeitos. Reduzir desigualdades sociais e regionais se traduz na equalização das oportunidades de acesso à educação de qualidade.
Dentre as ações de apoio ao desenvolvimento da educação básica contidas no PDE, apontadas por Saviani (2009), destacam– se os programas “Transporte escolar” e “Luz para todos” que se 108
relacionam diretamente à educação do campo, ora em análise. O primeiro deles, “Transporte escolar”, como sugere o nome, visa garantir aos alunos do meio rural o acesso às escolas. Por sua vez, o “Luz para todos” propõe–se a dotar todas as escolas rurais de energia elétrica e sobre o qual passamos a algumas considerações. Tais medidas, previstas no PDE para prover as condições necessárias à sua execução, por sua simples necessidade, indicam a natureza desfavorável e a precariedade, tanto das condições de vida, quanto da estrutura necessária ao processo de ensino– aprendizagem no meio rural, o que pode ser verificado a partir dos indicadores do MEC, constantes do relatório “A infraestrutura das escolas brasileiras de ensino fundamental: um estudo com base nos censos escolares de 1997 a 2005”. Os indicadores de infraestrutura do referido documento revelam que em 2005, 28,90% das escolas rurais do país não possuíam à época, sequer, energia elétrica, enquanto o percentual verificado nas escolas do perímetro urbano, no mesmo ano, foi de 0,17% de escolas sem energia elétrica (SÁTYRO; SOARES, 2007). Inequivocamente houve progresso em relação ao acesso à rede elétrica pelas escolas rurais nos últimos anos, não obstante existam enormes desafios como falta de água potável, inexistência de laboratórios, falta de acesso à internet, ausência de serviços de coleta de lixo e esgoto, dentre outros (QEDU, [2012]). De acordo com os dados do Censo Escolar de 2011, oficializados pelo Ministério da Educação, 99% das 17.384 escolas recenseadas no estado de Minas Gerais em 2011, ou seja, 17.210 escolas, são dotadas de energia elétrica, via rede pública (QEDU, [2012]). Deste universo, constatamos que a totalidade das escolas das redes federal, estadual e privada – 100%, ressalte–se – recebe energia elétrica via rede pública, enquanto 189 escolas da rede municipal em Minas Gerais, não têm acesso ao serviço. E é exatamente neste grupo – nas escolas do município localizadas nas regiões rurais –,
109
que têm lugar 25 das 62 turmas vinculas ao programa Projovem Campo no Estado de Minas. Outro aspecto que deve ser considerado para a compreensão desta realidade é a análise dos dados relativos à distorção idade–série17. Tomando como referência o período de 2008 a 2012, correspondente ao ano de implantação do Projovem Campo em Minas Gerais e à disponibilidade de dados atualizados pelo INEP, responsável pelas pesquisas, a proporção de alunos com atraso escolar de dois anos ou mais, para todo o Ensino Básico, no Estado de Minas Gerais, verificado nas escolas das áreas rurais é perceptivelmente maior que aquela verificada, para o mesmo período, nas escolas localizadas nos centros urbanos, como se vê na Tabela 13. Tabela 13 – Distorção Idade–Série no estado de Minas Gerais (2008 – 2012) DISTORÇÃO IDADE– SÉRIE Minas Gerais (2008–2012) ANOS INICIAIS (1º ao 5º ano) ANOS FINAIS (6º ao 9º ano) ENSINO MÉDIO (1º ao 3º ano)
2008 RURAL
2012 URBANA
2008 RURAL
22
14
15
2012 URBAN A 10
38 36
30 34
34 30
27 31
Fonte: Elaboração própria a partir de QEDU ([2013]).
O PDE, além das duas ações acima citadas, volta a fazer referência à educação do campo, indiretamente, quando – dentro da “Educação Especial” – trata da modalidade “Educação Tecno17
No Brasil, toda criança deve ingressar no 1º ano do Ensino Fundamental aos 6 anos de idade, encerrando esta etapa aos 14 anos. Após esse período, ela permanece por mais três anos no Ensino Médio, concluindo a educação básica aos 17 anos de idade. Quando o aluno (re)ingressa na escola tardiamente – ou sofre reprovação – ele estará em atraso escolar, ou seja, com idade superior à esperada para aquela etapa escolar. A distorção ida de–série, portanto, é a proporção de alunos com mais de dois anos de atraso escolar.
110
lógica e Formação Profissional” contemplada com três iniciativas propostas para esta modalidade de educação. a) a ação “Educação Profissional” propõe–se a reorganizar a rede federal de escolas técnicas, integrando–as nos IFETs, triplicar o número de vagas pela via da educação a distância nas escolas públicas estaduais e municipais e articular o ensino profissional com o ensino médio regular; b) a ação “Novos Concursos Públicos” foi autorizada pelo Ministério do Planejamento, prevendo, além de um concurso para admitir 191 especialistas no Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, um outro concurso destinado a preencher 2.100 vagas nas instituições federais de educação profissional e tecnológica; c) a ação “Cidades Polo” prevê a abertura de 150 escolas federais, elevando para 350 o número de unidades da rede federal de educação tecnológica, com 200 mil novas matrículas até 2010 (SAVIANI, 2009, p. 12).
Embora o texto do ex–ministro Haddad, expresso no documento de apresentação do PDE, evidencie a intenção do MEC em investir nesta forma de educação ao afirmar que “talvez seja na educação profissional e tecnológica que os vínculos entre educação, território e desenvolvimento se tornem mais evidentes e os efeitos de sua articulação, mais notáveis” (HADDAD, 2008, p. 31), as ações relativas à educação do campo se restringem às iniciativas acima apontadas18. Ao analisar o PDE à luz dos planos de anteriormente implementados pelo MEC – de modo particular ao Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em nove de janeiro de 2001, com 18
Saviani (2009) observa ainda que não há ação dirigida especificamente à modalidade de ensino “educação indígena”, nem ao financiamento e gestão, diferentemente do FUNDEB – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação – que, além de dizer respeito ao financiamento e gestão, contempla, explicitamente a educação indígena e quilombola.
111
duração prevista para dez anos e que antecedeu ao PDE, Saviani (2009, p. 30) aponta que, em um sentido negativo, […] constata–se que, na verdade, o PDE não se configura como um plano de educação propriamente dito. É, antes um programa de ação. Assim sendo, o nome “plano” evoca, aí, mais alguma coisa como o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek do que a ideia dos planos educacionais como instrumentos de introdução da racionalidade na ação educativa, entendida como um processo global que articula a multiplicidade dos seus aspectos constitutivos num todo orgânico.
Assim, retomando o conceito de desenvolvimento – associado à educação – é possível seguir com a análise das condições socioeconômicas das populações residentes nas áreas rurais do país, para as quais, em tese, destinam–se ações do “plano de educação” ou “programa de ação”, objeto do estudo, com o objetivo de conhecer e caracterizar os sujeitos destas ações propostas. Os conceitos educação do campo e educação no campo refletem concepções divergentes sobre o campo e sobre as necessidades da população camponesa. No caso da educação no campo, também comumente conhecida como educação rural, há referência a um projeto genérico de educação que é imposto ao campo, sem relação com suas reais necessidades e sem a problematização do campo enquanto território de vida, isto é, locus de relações socioculturais que caracterizam uma identidade (MIRANDA, 2012). Este modelo de educação se insere na lógica de urbanização e industrialização da sociedade, sendo a educação o referencial prático e ideológico de adequação e subordinação ao modo urbano de vida. Em oposição a este modelo, tem–se a educação do campo, conceito que nasce das lutas dos movimentos 112
sociais populares contestatórios à ordem do capital, designando um tipo de projeto educacional construído por seus sujeitos e voltado especificamente à formação integral do camponês, valorizando seus saberes e práticas (RIBEIRO, 2006; VENDRAMINI, 2007). Portanto, a educação do campo traduz o reconhecimento do campo como território de disputa política de projetos de vida e sociabilidade. Embora a educação do campo ganhe destaque nos últimos anos nos debates e nas políticas de governo (RIBEIRO, 2006; VENDRAMINI, 2007), as condições materiais para que se desenvolva e se efetive ainda são precárias. O campo consiste em espaço de trabalho e de vida, de relações sociais e de cultura de pequenos agricultores; de grande exploração de trabalhadores, especialmente o trabalho temporário, sem relações contratuais, em condições análogas ao escravo; do trabalho sazonal associado à agroindústria ou agronegócio; espaço de terras para reserva de valor; espaço de difusão de tecnologias e de modificação genética amplamente questionada por ambientalistas, pesquisadores e agricultores e espaço para o descanso, a vida tranquila, o lazer e o contato com a natureza (VENDRAMINI, 2007). Cumpre ressaltar que a propriedade fundiária enquanto reserva de valor, o que Kageyama et al. (1987) denominou de “territorização do capital”, acentuou ainda mais a concentração fundiária. Com o aumento do valor da terra, a pequena produção ficou fragilizada diante das pressões do capital, levando muitos pequenos agricultores a abdicar de suas terras. Os autores estimam que trinta milhões de brasileiros trocaram o campo pela cidade no período 1960–1980. A noção de território deve ser entendida no âmbito das relações de poder, de controle e formas de resistências dos grupos sociais envolvidos. Nesse sentido, o que se observa a partir do final dos anos 1990 e especialmente nos anos 2000 é o aumento dos 113
conflitos sociais no campo, bem como a expulsão da população camponesa e intensificação da migração campo–cidade. Entre 2009 e 2010 os conflitos por terra, envolvendo expulsões, pistolagem, despejos e ameaças de despejo, tiveram um incremento significativo de 21%, passando de 528 em 2009 para 638 em 2010 (PREVITALI et al., 2013). Ao analisar as categorias sociais que foram vítimas das ações violentas, (estão identificadas em 604 ocorrências) 347 delas, 57%, envolveram populações indígenas ou quilombolas, 43% atingiram os movimentos sociais de luta pela reforma agrária, como os sem–terra (182 conflitos), os assentados (61 conflitos), pequenos proprietários (9 conflitos) e outros (PREVITALI et al., 2013). O avanço da fronteira agrícola ameaça grande parte dos pequenos proprietários rurais que se veem obrigados a arrendar suas terras para os grandes latifundiários. Vale dizer ainda que, como em todo o país, no estado de Minas Gerais, particularmente na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba a ocupação de terra tem sido um importante meio de acesso à terra. Foram registrados entre os anos de 1986 a 2005 na região 181 ocupações de terra com o envolvimento de 18.413 famílias, sendo responsável por 28% das ocupações realizadas em Minas Gerais. Já o número de assentamento no mesmo período é 66 em um total de 3.705 famílias assentadas, também um dos maiores do Estado (ANDRÊZA; CLEPS JR., 2009). No estado de Minas Gerais havia cerca de 494 comunidades quilombolas em 2007 mas apenas uma havia conseguido reconhecimento oficial de suas terras (PREVITALI et al., 2013). Os investimentos oriundos de financiamentos públicos nacionais ao grande capital agroindustrial têm contribuído para o agravamento desse processo. O Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), após 2000, passou a fortalecer suas linhas de crédito para a agroindústria sucroalcooleira. Em maio de 2012, o banco lançou o Programa de Apoio ao Setor Sucroalcooleiro 114
(PASS), com o objetivo de financiar a estocagem de etanol combustível no valor de quinhentos milhões de reais. O capital internacional também está presente. Em 2009, a casa de leilões inglesa Sotheby’s International Realty abriu um escritório em Mato Grosso do Sul para administrar a venda de terras para a produção de grãos e cana-de-açúcar para estrangeiros. De acordo com o Ministério Público Federal, a especulação imobiliária envolvendo empresas estrangeiras pode afetar os preços das terras e criar problemas futuros para demarcação das áreas indígena (COMISSÃO PASTORAL DE TERRA – CPT, 2012). O trabalho no campo desenvolve–se num amplo e diversificado espaço e abrange um conjunto de atividades, entre elas, a agricultura, a pecuária, a pesca e o extrativismo. Além disso, diz respeito a diversas formas de ocupação do espaço, desde a produção para a subsistência até a agroindústria, explicitando a grande – e histórica – desigualdade social do país. Estas diferentes e opostas formas de ocupação do espaço rural indicam a presença de diversos sujeitos sociais no campo e a forte oposição de classes entre eles (VENDRAMINI, 2007). As políticas de modernização subsidiadas pelo Estado promovem a capitalização dos processos de trabalho rurais e a mercantilização crescente da agricultura de pequena escala. O objetivo da modernização é transformar o latifúndio, símbolo da agricultura “primitiva”, “colonial”, numa grande empresa capitalista. A modernização da agricultura no país acentua ainda mais a concentração da propriedade da terra e a desigualdade social no campo, com o alto preço de destruição da agricultura familiar, devastação e degradação dos empregos rurais, miséria da população rural e deterioração do meio ambiente. No cotidiano, as práticas educacionais, sejam as formais, por parte do Estado, ou as alternativas, que estão no seio dos movimentos, convivem com o acirramento das políticas neoliberais de modernização do campo e a consequente 115
precarização das condições de trabalho no meio rural. Dados da força de trabalho no campo indicam a redução do número de assalariados, e o baixo rendimento destas atividades, fatores que combinados dão o quadro do aumento da pobreza no meio rural. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2008 mostra que a renda mensal domiciliar per capita da população rural é de R$ 360,00 – inferior à metade da renda do mesmo tipo verificada nos domicílios de área urbana – total R$ 786,00 (SILVA; PREVITALI, 2011). Ao buscar elementos que permitam analisar a extensão e a diversidade das origens, bases históricas conceituais e legais que fundamentem e expliquem as resultantes das políticas públicas no campo educacional para o setor rural no país, é importante recorrer aos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) relativos ao censo agropecuário de 2006, divulgados em 2009, os quais revelaram que 30% dos trabalhadores rurais brasileiros eram analfabetos e 80% não chegaram a concluir o ensino fundamental (IBGE, 2009). A renda, que define, em grande parte, as condições de vida do trabalhador, é diretamente proporcional ao grau de instrução/capacitação do trabalhador assalariado e, assim, reduzida ao mínimo possível, reduz, também, por conseguinte, as possibilidades e expectativas de superação destes desafios historicamente postos. Para Frigotto (2010, p. 29): Ao afirmar a luta por políticas públicas que garantam o direito à educação, especialmente à escola, e a uma educação que seja no e do campo, os movimentos sociais interrogam a sociedade brasileira: por que em nossa formação social os camponeses não precisam ter acesso à escola e a propalada universalização da educação básica não inclui os trabalhadores do campo? Uma interrogação que remete à outra: por que em nosso país foi possível, afinal, constituir diferentes mecanismos para impedir a universalização da educação escolar básica, mesmo pensada 116
dentro dos parâmetros das relações sociais capitalistas.
Dados da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, do Ministério da Educação (Secad/MEC), revelam que os registros oficiais disponibilizados pelas instituições federais de pesquisa tais como IBGE, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP) e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), dentre outras, “demonstram uma diferença acentuada entre os indicadores educacionais relativos às populações que vivem no campo e as que vivem nas cidades, com clara desvantagem para as primeiras” (BRASIL, 2007, p. 5). De imediato, surge o questionamento sobre se, de fato, as políticas públicas para as populações residentes nestas áreas – sob a luz da Constituição Federal e dos demais dispositivos legais que compõem a legislação educacional em vigor –, além do aspecto socioeconômico, garantiram, historicamente, a equidade educacional entre campo e cidade, no país. Em sua 20ª edição, o relatório “Políticas Sociais: acompanhamento e análise” produzido pela Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do IPEA19 – que registra e analisa, criticamente, a evolução de diversos aspectos da atuação do governo federal no campo das políticas sociais no país –, aponta, dentre outros aspectos, para a necessidade do estabelecimento de políticas públicas para enfrentar e superar a defasagem da educação escolar de populações rurais, tanto no aspecto quantitativo quanto qualitativo (IPEA, 2012). Corroborando esta análise, Veiga adverte para “a necessidade de uma renovação do pensamento brasileiro sobre as tendências da urbanização e de suas implicações sobre as políticas de desenvolvimento que o Brasil deve adotar.” (VEIGA, 2003, p. 31). 19
A 20ª edição do relatório, divulgada em 2012, completa o acompanhamento de políticas e programas sociais federais no último ano do governo Lula e destaca as principais iniciativas tomadas em 2011, pelo governo Dilma Rousseff, para os setores analisados.
117
Ainda – e especificamente no tocante ao desenvolvimento rural – além de revelar retrocessos quanto às políticas de reforma agrária e de apoio à agricultura familiar, os dados do relatório registram a continuidade dos conflitos sociais e da violência contra populações rurais, o que desvela – e comprova – as condições degradantes em que vivem milhares de trabalhadores e trabalhadoras rurais, em diversos estados da nação, bem como o aprofundamento do grau de superexploração ou de expropriação da força de trabalho no meio rural, impulsionada, sobretudo, pela natureza da política econômica externa brasileira, notadamente do setor primário, no cenário internacional. Em decorrência, a deteriorada relação entre trabalhadores rurais e operadores do capital transnacional empregado no setor, mostra–se ainda mais degradante com características do período escravagista, supostamente superado. “Nos últimos oito anos foram resgatados mais de 30 mil trabalhadores em situação análoga à de escravo no Brasil e mais de 900 mil foram registrados durante ação fiscal” (IPEA, 2012, p. 255). As formas contemporâneas de escravidão no país, denunciadas desde a década de 1970 do século passado por organismos de defesa dos direitos humanos (IPEA, 2012), reconhecidas oficialmente pelo governo brasileiro a partir do conhecimento e divulgação dos resultados das pesquisas das instituições oficiais, acima citadas – desnudam a realidade torpe e a situação de grande vulnerabilidade e miséria que ainda afetam importantes contingentes de trabalhadores e trabalhadoras no Brasil, como nos mostram os relatórios da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre o perfil dos principais atores envolvidos no trabalho escravo rural no Brasil: Invariavelmente sua aparência nas diferentes fazendas era semelhante: roupas e calçados rotos, mãos calejadas, pele queimada do sol, dentes não cuidados, alguns aparentando 118
idade bem superior à que tinham em decorrência do trabalho duro e extenuante no campo (OIT, 2011, p. 255).
Embora os dados sistematizados pela CPT, divulgados em janeiro de 2014, apontem para uma diminuição do número de trabalhadores em situação de escravidão no Brasil no ano de 2013, em relação a 2012, reduzindo de 3.680 para 2.874 o número absoluto – registrado –, o número de ocorrências aumentou no período analisado. Em outras palavras, mais pessoas ou empresas praticaram o crime em diferentes estados e municípios em 2013, em relação ao ano anterior, ainda que o número de indivíduos diretamente afetados tenha sofrido discreta redução. Em 2013 cresceu o número de casos identificados como de trabalho escravo. Em 2012 foram registrados 189 casos, este número se elevou para 197 casos em 2013. Já em relação ao número de trabalhadores envolvidos houve decréscimo: 3.680 trabalhadores envolvidos, com resgate de 2.730, em 2012; 2.874 trabalhadores envolvidos e 2.208 libertados, em 2013. (CPT, 2014).
Outro aspecto alarmante é o fato de que a região com maiores índices de desenvolvimento socioeconômico do país, a região sudeste, tenha sido a que registrou o maior número de pessoas diretamente envolvidas, superando as regiões nordeste, centro–oeste e sul, ficando atrás apenas da região norte do país. Conforme a CPT, 2012, s/p): Diferentemente de anos anteriores, quando a região Norte se destacava tanto pelo número de casos identificados quanto pelo de pessoas envolvidas, em 2013, a região Sudeste foi a que apresentou o maior número de trabalhadores envolvidos, 1.186, bem como o maior número de trabalhadores libertados, 1.147, equiparando–se 119
quase à região Norte pelo número de casos: 53 no Sudeste contra 55 no Norte. Em seguida vem à região Nordeste, com 42 casos, Centro–Oeste com 31 e Sul com 16. Pelo número de trabalhadores envolvidos em trabalho escravo, o Nordeste vem sem segundo lugar, com 603, seguido da região Norte, com 505, Centro–Oeste com 430 e Sul com 150. Já em relação a trabalhadores libertados, o Nordeste vem em segundo lugar com 330 libertados, seguido do Centro–Oeste com 309. Só então vem a região Norte com 274 e a região Sul com 148.
No início dos anos de 1990, mesmo respondendo por somente 18% da população brasileira – que totalizava 145 milhões de pessoas à época –, o campo abrigava 28% das pessoas consideradas pobres do país, o que equivale dizer que seis trabalhadores rurais, em cada dez, encontravam–se abaixo da linha de pobreza (NERI; MELO; SACRAMENTO, 2012). Embora estes indicadores tenham sofrido alterações ao longo dos anos, a população rural abriga maior número de pobres, proporcionalmente, quando comparada à população brasileira, em seu conjunto. Por outro lado, a melhoria das condições de vida conquistada a partir dos mandatos do ex–presidente Lula, sobretudo na segunda metade da década de 2000, trouxe ao campo – bem como às cidades – uma nova realidade socioeconômica, decorrente das políticas de redução da miséria e de geração de emprego e renda implantadas no país. Para Neri, Melo e Sacramento, 2012, p. 5: A nova classe média que atingia 20,6% da população rural em 2003 concentra 35,4% em 2009, com 9,1 milhões de pessoas. Este crescimento acumulado de 71,8% desde 2003 equivale a 3,7 milhões de brasileiros residentes em áreas rurais passando a integrar a classe C nos últimos seis anos.
120
Entretanto, estas conquistas sociais, novamente – e paradoxalmente –, aumentaram a diferença dos indicadores econômico–sociais, comparativamente, entre as áreas rural e urbana, em favor desta, o que se comprova quando, por exemplo, confrontam–se os valores dos rendimentos individuais – obtidos pela divisão do valor do salário–hora pelo número de anos de estudo completos, ainda que no nível mais básico, que é o de qualificação profissional –, percebe–se uma queda de 0,67% ao ano no setor rural, em contraposição a um crescimento de 1,48 ao ano, na população como um todo (NERI; MELO; SACRAMENTO, 2012). Na área rural, o crescimento acumulado entre 2003 e 2009, equivalente a uma taxa de 8,27% ao ano, foi significativamente menor que o observado nas populações residentes nas áreas urbanas. Este padrão contrasta com o verificado no país como um todo, onde os mais pobres obtiveram em geral maiores ganhos de renda que os demais (NERI; MELO; SACRAMENTO, 2012, p. 4).
Assim, a Educação do Campo, neste novo cenário rural brasileiro, somente poderá ser analisada – e mesmo compreendida – a partir do conhecimento da realidade concreta, considerando seu tempo e contexto histórico de origem, pois “sua essência não pode ser apreendida senão no seu movimento real, que implica um conjunto articulado de relações (fundamentalmente contradições) que a constituem como prática/projeto/política de educação e cujo sujeito é a classe trabalhadora do campo” (CALDART et al., 2012, p. 13). Pensar em educação e desenvolvimento, de forma aglutinadora, é considerar, ao mesmo tempo, a diversidade de indivíduos e de grupos sociais e suas relações com o meio de modo a evitar que se configure em uma (des)educação, e passe a 121
agir como fator de desagregação e exclusão social. Neste sentido, em um contexto de “educação para todos”, em tempos de globalização – e consideradas as enormes diferenças sociais no país, como um todo –, conceber um programa de educação que contemple toda a diversidade de indivíduos e grupos nela envolvidos, suas relações sociais e suas interações com os modos e meios de produção, é um desafio histórico ainda posto.
122
4 Os Desafios dos Sindicatos dos Trabalhadores do Campo e Luta por Direitos do Trabalho 4.1 – Considerações Histórico–Sociais dos Sindicatos dos Trabalhadores e a Defesa do Trabalho. Os sindicatos surgem “como resultado do esforço espontâneo dos operários para impedir ou atenuar a exploração” (PEREIRA; FARIA, 2012, p. 183). Antunes (1981, p. 13), também afirma que a formação a princípio dos sindicatos teve como finalidade: [...] impedir que os níveis salariais se coloquem abaixo do mínimo necessário para a manutenção e sobrevivência do trabalhador e sua família. Os sindicatos também são “associações criadas pelos operários para sua própria segurança, para a defesa contra a usurpação incessante do capitalista” permitindo, então, uma melhor condição de trabalho.
Importa enfatizar a crise do movimento sindical, especialmente aquele que se desenvolve no âmbito da via de acumulação taylorista–fordista bojo do processo de reestruturação produtiva do capital a partir dos anos 1970, do neoliberalismo e da globalização (ANTUNES, 2000). No Brasil, a crise do sindicalismo se instaura mais tardiamente, a partir dos anos 1990, precisamente como resposta às conquistas de direitos trabalhistas pelos sindicatos na cidade e no campo, no âmbito do processo de redemocratização e da promulgação da Constituição de 1988 123
(ANTUNES, 2000 e 2018). Nesse movimento, se configura a substituição de um sindicalismo de classe por outro que assume tendencialmente estratégias cada vez mais defensivas e voltadas à manutenção da lógica do capital, sendo, portanto, “não apenas uma crise socioinstitucional, mas também político–ideológica” (SANTOS, 2011, p. 150). Segundo Thomaz Júnior (1998), o sindicalismo rural somente é regulamentado em 1962, no contexto das tentativas de reelaboração do pacto populista, liderado por João Goulart, que não se pautou por acordos com a oligarquia rural. Ainda segundo o autor, dada a sua constituição, as características presentes no sindicalismo rural são o corporativismo, o aparelhismo e a referência de "ação" limitada à base territorial de abrangência municipal. A história brasileira registra movimentos marcantes da luta e resistência camponesa contra os latifúndios e as formas de violência e poder que dele emanam. Foi assim com as revoltas indígenas e os Quilombos, ainda no período colonial, com os movimentos de Canudos, do Contestado e do Cangaço, na fase da República Velha, com as Ligas Camponesas, nas décadas de 1950 e 1960, com a organização e resistência de diversas organizações contra a ditadura militar, destacando–se a guerrilha do Araguaia na década de 1970 e mais recentemente com as lutas no campo e na cidade organizados em uma variedade de movimentos sociais. Tais movimentos mostram, acima de tudo, quão antiga é a aspiração dos trabalhadores do campo pela conquista da terra bem como são antigas as modalidades de resistência ao jugo do latifúndio que são criadas em cada contexto histórico (OLIVEIRA, 2005). Com o desenvolvimento do setor agrícola, a valorização das terras foi ponto chave para os problemas agrários no país, iniciando um processo de massacre que foi o das expropriações dessas terras, forçando o trabalhador rural a vender sua própria mão–de–obra, surgindo a proletarização do trabalho no campo 124
(IANNI, 1985; DUARTE, 2009). Para Pereira e Faria (2012, p.192), com base em suas pesquisas que envolveram os trabalhadores de usinas e representantes do sindicato, o sindicato dos trabalhadores rurais na região do Triângulo Mineiro, no âmbito do GPTES, o estado de Minas Gerais mostrou–se adotar uma postura de “mero intermediador entre a usina e os trabalhadores”, portanto, mais de colaborador do que de opositor classista ao empresariado rural local. Para os autores, o papel do sindicato está intricadamente relacionado à “lutar e defender os direitos e interesses dos seus filiados, dos trabalhadores” (PEREIRA; FARIA, 2012, p. 193). Além disso, eles argumentam que esse modelo sindical brasileiro não é capaz de “compreender e assumir uma crítica que aponte para a necessidade de construir um projeto para uma nova sociedade e que extrapole, portanto, os limites do economicismo e do legalismo” (PEREIRA; FARIA, 2012, p.195). No final da década de 1940, surgiram as primeiras organizações de trabalhadores no campo, constituindo–se por local de conflito. Do ponto de vista da regulamentação sindical, amparou–se na "possibilidade de organização em quatro categorias distintas: trabalhadores na lavoura, trabalhadores na pecuária e similares, trabalhadores na produção extrativa e produtores autônomos" (MEDEIROS, 1989:2). Há uma importante distinção feita por Ribeiro (2006), em que revela que grande parte da historiografia negligenciou a importância dos trabalhadores rurais ao modelo de desenvolvimento capitalista que a burocracia estatal procurara desenvolver entre 1930 e 1954. Entretanto, emerge uma nova perspectiva que sublinha o quão essencial era incorporar as massas rurais, fossem como produtores para a cidade em expansão ou na condição de consumidores dos produtos gerados pela cidade, para os propósitos industrializantes da referida burocracia estatal. Essa incorporação era possível por meio de uma luta, ora declarada, ora 125
surda, entre as burocracias emergentes e os setores oligárquicos agrários, muitas vezes incrustados no aparelho estatal, esforçando– se com êxito para evitar mudanças, tais como a implantação de uma legislação trabalhista no campo. Esta nova perspectiva parece ter maior capacidade explicativa da realidade à época na medida em que se verifica que apesar das contradições entre burocratas e oligarcas tanto o Estado continuava necessitando dos recursos gerados pelas exportações primárias, como os setores proprietários continuavam dependendo de recursos estatais (crédito estradas, facilidades bancárias e principalmente a conservação da ordem fundiária vigente). Ao final do Estado Novo Vargas instituiu o decreto–lei 7038/44, em respostas às pressões das lutas presentes nas cidades e no campo e objetivando recriar uma relação de forças ao seu favor, que apesar das dificuldades permitia a organização sindical rural, estabelecendo que cinco sindicatos formassem uma Federação e três Federações poderiam criar uma Confederação (THOMAZ JR, 1998; RIBEIRO, 2006) A partir de meados dos anos 1950, sob influência de greves que abrangeu diversas categorias de operários urbanos em São Paulo, emergiram na cena política, diferentes categorias de trabalhadores em luta (meeiros, foreiros, colonos, camaradas, posseiros etc.). Eles questionavam as desigualdades sociais, tendo como referência a estrutura fundiária, que tinha nas alianças sustentadas dentro do Estado, ardorosos defensores do latifúndio. Notabilizando–se as Ligas Camponesas, com a conotação de "um movimento radical de contestação ao sistema de monocultura, à mecanização e à estrutura fundiária nordestina", que tomava o nome de latifúndio, sinônimo não só de grande propriedade, mas também das formas de dominação e opressão nela existente (RICCI, 1990:4). Neste período João Goulart, ministro do trabalho, estimulava a sindicalização rural, e enfrentando forte resistência tanto da Sociedade Rural Brasileira, como da mais “moderada” 126
Sociedade Nacional de Agricultura, que culminou com a rejeição do sindicalismo rural no anteprojeto da lei enviado ao parlamento em inícios de 1954. Mesmo com a ilegalidade do Partido Comunista do Brasil, este apoiou e ajudou a organizar uma Revolta de Posseiros, ocorrida em Porecatu (Paraná), como foco inicial de uma insurreição armada. Fracassado o levante, o Partido voltou suas atenções para o trabalho legal nos sindicatos, criando em 1953 a União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil. Mesmo após a paralisia da atuação do PCB no meio agrário, causada pelas após o XX Congresso do Partido Comunista Soviético, os camponeses organizavam–se nas novas Ligas Camponesas do Nordeste, ou na resistência a expulsão de posseiros no Paraná, o que significava já estarem se organizando, mesmo sem a presença do Partido ou do Ministério do Trabalho (LIMA, 2005; RIBEIRO, 2006). É nesse quadro de enfrentamento que o Estado "resolve por bem", institucionalizar a sindicalização rural. Só em junho de 1962 "fora regulamentado, pela portaria 209–A do Ministério do Trabalho, e estabelecia dezenas de categorias para efeito de enquadramento". Contudo, em novembro do mesmo ano, a sindicalização rural é institucionalizada, através das portarias 209– A/25 e 355–A do Ministério do Trabalho, reduzindo para quatro o número de categorias profissionais para enquadramento: assalariados (trabalhadores na lavoura); pequenos produtores autônomos (arrendatários, meeiros, parceiros, foreiros); pequenos proprietários e posseiros. Instituindo–se de forma plena, em 1963, com a aprovação do Estatuto do trabalhador Rural (ETR) (RICCI, 1990). Com o golpe militar em 1964 o governo promulga o Estatuto da Terra, em 30 de novembro de 1964, ainda que em seu discurso versasse sobre a melhor distribuição da terra na prática tinha por objetivo a capitalização das terras, transformá–las em bem de negócio estimulando o desenvolvimento de empresas agrícolas, de 127
grande, pequeno e médio porte. A partir de 1965 o regime militar unifica todas as categorias sob uma única entidade, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) em nível nacional e estadual criava–se a Federação dos Trabalhadores Rurais na Agricultura (FETAG's). Chegando até em algumas localidades a ter nos seus quadros, pescadores e, em muitos casos, patrões (pequenos proprietários e/ou produtores) e empregados (assalariados e semi–assalariados rurais) (MARTINS, 1981; THOMAZ JR, 1998). A repressão perpetrada aos trabalhadores rurais e suas lideranças, que na grande maioria foram presos e muitos dos sindicatos fechados ou transformando–os em órgãos de assistências médicas e odontológicas aos seus associados promoveu uma evasão de suas bases. Ao mesmo tempo em que se verifica que elementos do COC (Círculos Operários Cristãos), corrente ultraconservadora da Igreja, que atuava em sindicatos recém–fundados em São Paulo e Rio de Janeiro, são nomeados, a mando do governo militar, a dirigir a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG). Sobre essa lógica interna, os assalariados far–se–ão ausentes das direções políticas das entidades (STR's, FETAG's e da própria CONTAG), refletindo nacionalmente a hegemonia, em ordem decrescente, dos pequenos produtores, arrendatários, parceiros e assalariados no comando diretivo do movimento sindical (THOMAZ JR, 1998). É na década de 1970 que principia a retomada do movimento sindical por campanhas reivindicatórias por melhoria salarial e melhores condições de vida para o trabalhador. Um dos elementos constitutivos desse processo são os impactos sofridos pelos trabalhadores fruto do processo de "modernização" da agricultura brasileira, com o avanço das monoculturas rumo à agro–industrialização, principalmente a cana-de-açúcar, com o Proálcool. Que só foi possível devido à atuação direta do Estado, através dos projetos de intervenção e das políticas governamentais específicas, 128
tais como, o Proterra, o Polo nordeste, SUDAM, SUDENE e, ainda, os incentivos para as cooperativas no sul do país e para a construção de hidroelétricas. Tudo isso, incrementou a especulação imobiliária e fez com que cerca de 16 milhões de pessoas fossem expulsas da terra. (ANDRADE, 1986; THOMAZ JR, 1998). A intervenção do Estado nos sindicatos durante a ditadura militar trouxe como conseqüência o abandono das referências das lutas dos anos 1960 e uma re–significação da compreensão de Reforma Agrária que, em meados dos anos 1980, ficou expresso no PNRA (Plano Nacional de Reforma Agrária): "Nos anos 1960, a luta pela reforma agrária visava modificar e potencializar as forças produtivas no Brasil. Atualmente não passa por aí. Passa a ser uma questão social de incorporar os excluídos dentro do próprio processo de desenvolvimento" (STIAA/FETAPE/FASE apud THOMAZ JR, 1998). Nesse sentido, o sindicalismo rural, que somente é regulamentado em 1962, no contexto das tentativas de reelaboração do pacto populista, liderado por João Goulart, que não se pautou por acordos com a oligarquia rural, que o rejeitava frontalmente, porém elevou ao extremo, o que se tornou a marca registrada do movimento sindical brasileiro, o corporativismo, o aparelhismo e a referência de "ação" limitada à base territorial de abrangência municipal. De uma maneira ampla, o aparato supra– estrutural configurou a vida sindical brasileira, rigidamente assentada na unicidade sindical, só podendo haver um sindicato de cada categoria por município; imposição de uma estrutura vertical, impedindo a constituição de organizações horizontais de trabalhadores; subordinação ao Ministério do Trabalho, que poderia intervir nos sindicatos em diferentes momentos (eleições, prestação de contas, ou qualquer atividade desenvolvida pelas entidades que não permitidas.
129
Cabe destacar ainda a caracterização que Guerra (1999) realiza sobre as entidades de classe patronais e dos trabalhadores rurais. No campo simbólico ambas reivindicam para si o atributo de proprietários. E que após as disputas expressas na constituinte de 1988, em que a função social da terra se fortalecia e se tornava referência no debate, a imagem de produtores assume importância nos discursos, indicando outro elemento importante na estratégia das classes patronais rurais. Com a criação de Sindicatos de Produtores Rurais já nos anos 1990 e 2000, substituindo os Sindicatos Rurais, denominação vaga e usual das entidades patronais, indica uma nova estratégia de recrutamento e de fortalecimento do quadro social: disputar os pequenos e médios proprietários rurais em crise de consciência de classe, associando–os sob a designação de Produtores Rurais e passando a sedimentar uma cultura de fazendeiros–empresários modernos, ativos organizados e legitimados por um quadro social definido e mobilizável.
4.2 – A Luta contra o Trabalho Escravo no Campo Mesmo proibido por lei, o trabalho escravo continua sendo utilizado por grandes latifundiários no Brasil (ANTUNES, 2000, ANTUNES, 2018). Há, inclusive, diversos benefícios e facilidades que anteriormente não existiam. Dentre esses se destacam os baixos custos necessários para conseguir esses trabalhadores, a característica descartável desses trabalhadores – uma vez que a sazonalidade é o que dita o ritmo da produção – e as brechas na fiscalização. Mas, o trabalho análogo à escravidão existente hoje se difere daquele que era realizado no passado, sobretudo no que tange 7 características principais de acordo com uma matéria feita pelo Repórter Brasil em 2017: propriedade legal; custo de aquisição de mão–de–obra; lucros; mão–de–obra; relacionamento; diferenças étnicas e manutenção da ordem. No Quadro 4 apresenta–se o 130
comparativo entre o trabalho escravo colonial e o trabalho escravo reinventado, praticado atualmente. Quadro 4 – Passado e Presente da Escravidão Brasil Propriedade Legal Custo de Aquisição de Força de Trabalho Lucros
Antiga Escravidão Permitida
Nova Escravidão Proibida
Alto. A riqueza de uma pessoa podia ser medida pela quantidade de escravos.
Muito baixo. Não há compra e, muitas vezes, gasta– se apenas o transporte.
Baixos. Havia custos com a manutenção dos escravos.
Força de Trabalho
Escassa. Dependia de tráfico negreiro, prisão de índios ou reprodução. Bales afirma que, em 1850, um escravo era vendido por uma quantia equivalente a R$ 120 mil. Longo período. A vida inteira do escravo e até de seus descendentes Relevantes para a escravização.
Altos. Se alguém fica doente pode ser mandado embora, sem nenhum direito. Descartável. Um grande contingente de trabalhadores desempregados.
Relacionamento Diferenças Étnicas
Manutenção da Ordem
Ameaças, violência psicológica, coerção física, punições exemplares e até assassinatos.
Curto período. Terminado o serviço, não é mais necessário prover o sustento. Pouco relevantes. Qualquer pessoa pobre e miserável pode se tornar escrava, independentemente da cor da pele. Ameaças, violência psicológica, coerção física, punições exemplares e até assassinatos.
Fonte: Repórter Brasil, 2017.
Tal qual em Esrci (1994), alguns aspectos sociais têm contribuído muito para a perpetuação do trabalho análogo à escravidão. Sendo eles as condições as quais esses trabalhadores 131
estão acometidos antes de serem colocados na situação de trabalho escravo, em sua totalidade são pessoas originárias de regiões onde a desigualdade social é extremamente acentuada e os empregos são escassos. No geral, essas pessoas têm origem nas regiões norte e nordeste do país. Essas pessoas são ludibriadas com falsas promessas de condições de vida melhores e salários maiores, e assim acabam aceitando migrar de uma região para a outra, na esperança de que conseguiriam encontrar melhores oportunidades. Todavia, quando chegam às regiões de cultivo de cana, o que encontram é completamente diferente do esperado. Observa–se que o trabalho escravo remonta a centenas de anos atrás, e que ele sofreu diversas modificações com o passar do tempo, sendo caracterizado de diferentes formas em cada uma das regiões e épocas em que esteve presente. Agora iremos observá–lo sob a perspectiva atual e sua presença em um dos setores mais relevantes da socioeconômica brasileira. Para tanto, precisamos compreender como se constitui a agroindústria da cana-de-açúcar. O combate ao trabalho escravo no Brasil teve início há mais de 130 anos, sendo o marco legal de fim a assinatura da Lei Áurea em maio de 1888. Deste momento histórico até hoje, nosso país conseguiu grandes avanços em sua legislação, ressaltando–se a Consolidação das Leis do Trabalho de 1943 e a Constituição da República Federativa do Brasil, importantes conquistas dos trabalhadores brasileiros. Nos últimos anos, muito tem se falado sobre o trabalho análogo à escravidão, seja por movimentos que buscam o combate dessas práticas ou então por modificações legislativas que questionam a tipificação acerca desse tema, tendo ambas as abordagens ganhado amplo destaque em meios de comunicação (TRABALHO... 2010; SENADO, 2014; COSTA, 2016; FREITAS, 2016; PROJETO... 2017). Ao mesmo tempo, de acordo com um levantamento feito pela CTP, nos últimos três anos o Brasil tem tomado atitudes que podem estar nos levando a uma regressão para com as 132
práticas de combate ao trabalho escravo (XAVIER PLASSAT, 2017). No ano de 2014, houve a suspensão da publicação da Lista Suja, que traz os empregadores que são flagrados usando de trabalho escravo. Tal feito se deu pelas fortes pressões que grandes empresários fizeram no governo, o ano seguinte foi marcado por disputas dentro do congresso para a aprovação de uma modificação na legislação que visa retirar os termos “jornada exaustiva” e “condições degradantes” como características de trabalho escravo (XAVIER PLASSAT, 2017). No ano de 2016, o Brasil recebe uma condenação inédita na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Essa condenação trata de negligência no combate ao trabalho escravo, referindo–se ao caso Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde contra o Estado Brasileiro protocolada em 1998, envolvendo 12 ocorrências de trabalho escravo num período de 10 anos onde 300 trabalhadores foram aliciados (XAVIER PLASSAT, 2017). No Quadro 2, pode–se ver uma série de acontecimentos os quais o Brasil vem passando que dão notoriedade às questões relacionadas ao trabalho escravo, sejam situações em que caminhamos para a erradicação desse crime ou então situações em que retrocedemos. Quadro 5 – Linha do Tempo do Reconhecimento de Trabalho Escravo no Brasil (1995 – 2016) Ano Acontecimento 1995
O Brasil reconhece diante da Organização das Nações Unidas a existência de trabalho escravo.
1997
O Grupo Especial de Fiscalização Móvel foi criado, sendo responsável por visitar locais denunciados e libertar trabalhadores.
2002
Medida provisória que garante seguro–desemprego aos trabalhadores libertos de situação análoga à escravidão é apro133
vada. 2003
A chamada Lista Suja, cadastro com nomes de empregadores flagrados usando trabalho escravo, é criada. Artigo 149 do Código Penal passa a incluir uma nova definição para trabalho análogo à escravidão, tendo como definição: trabalho forçado, servidão por dívidas, jornada exaustiva e condições degradantes.
2010
Conselho Monetário Nacional proíbe empresas que fizeram uso de trabalho escravo de contratar crédito rural.
2012
Assembleia Legislativa no estado de São Paulo aprova lei que caça o registro das empresas que utilizem de trabalho escravo e proíbe sócios de abrirem novas empresas do mesmo setor num período de 10 anos.
2014
PEC 81 é aprovada, propriedades rurais e urbanas onde houver flagrante de trabalho escravo passam a ser confiscadas. Lista Suja é suspensa pelo Supremo Tribunal Federal.
2015
Lista Suja volta a ser publicada seguindo por amparo da Lei de Acesso à Informação. A Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural aprovou projeto de lei que solicita mudança na definição de trabalho escravo.
2016
A Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados analisa outro projeto de lei que visa à mudança na definição de trabalho escravo.
Fonte: Elaboração própria a partir de (ENTENDA... 2016).
O trabalho análogo à escravidão se faz presente ainda nos dias de hoje, são os recorrentes casos que são identificados como podemos ver nos dados apresentados pela CPT (2014) referente aos anos de 2012 e 2013 como pode ser visto no Gráfico 10.
134
Gráfico 10 – Casos identificados de trabalho escravo (2012 – 2013)
Fonte: CPT, 2014.
Como pode–se observar, a região sudeste é a que apresenta o maior número de casos identificados de trabalho análogo à escravidão. Outro fator alarmante é que a região sudeste e a região nordeste tiveram um aumento de 4,06% e 26,19% respectivamente na identificação de casos de trabalho análogo à escravidão. Além do crescente fator econômico relacionado ao setor sucroalcooleiro, as questões sociais relacionadas ao mesmo têm ganhado destaque, sobretudo pela divulgação da chamada “Lista Suja” publicada pelo Ministério do Trabalho, na qual são apresentadas as usinas e fazendas onde o trabalho análogo à escravidão é encontrado (SPECIAN E FIGUEIREDO, 2010). Por servir de base para introdução e intensificação do cultivo da cana no Brasil, o trabalho escravo tem papel central nessa indústria. Mesmo após a abolição da escravatura e com a consolidação das leis trabalhistas em 1943, o trabalho análogo escravo na agroindústria canavieira continuou a ainda hoje é utilizado (NASCIMENTO, 2012). A CPT (2014) fornece um dado bastante relevante para a comprovação de que o trabalho análogo à escravidão é largamente 135
utilizado dentro do setor canavieiro, como é mostrado no Gráfico 6, abaixo, onde podemos ver o número total de trabalhadores envolvidos com o trabalho escravo e o número de trabalhadores libertos do ano de 2003 até 2013 (Gráfico 11). Gráfico 11 – Trabalho Escravo no Setor Sucroalcooleiro (2014)
Fonte: CPT, 2014.
Cabe ressaltar que nos últimos anos quatro anos, sobretudo após o início das discussões concernentes ao projeto Lei do Senado 432 de 2013, as discussões acerca da modificação do que se caracteriza como trabalho análogo à escravidão tem se intensificado. São muitos os posicionamentos no que diz respeito a essa proposta, tanto favoráveis que buscam a revisão da legislação para determinar–se e reduzir–se quais são especificamente as condições que caracterizam trabalho análogo à escravidão em nosso país, bem como posições opositoras ao projeto que veem nele um meio para propagação da impunidade daqueles que se utilizam de trabalho escravo e uma forma de retroceder as conquistas para a erradicação desse tipo de prática (FREITAS, 2016). É nesse contexto que se faz importante analisar o sindicalismo rural de defesa dos trabalhadores envolvidos na agroindústria, conforme se segue.
136
4.3 – Os Sindicatos dos Trabalhadores no Setor Sucroalcooleiro no Triangulo Mineiro/MG e no Interior de São Paulo No caso particular dos trabalhadores rurais cortadores de cana-de-açúcar na região de Ribeirão Preto/SP, Silva e Wensko (2003) caracterizam os anos 1990 como a “Década Perdida” em relação aos direitos dos trabalhadores rurais em razão do processo de precarização das relações de trabalho, decorrente da reestruturação produtiva das empresas agrícolas. Esta situação desencadeou, por um lado, a exclusão, desemprego, refluxo dos movimentos sindicais, das greves, e, por outro lado, o processo de resistência por meio das relações jurídicas (SILVA; WENSKO, 2003, p. 2). Embora tenha havido, segundo os autores, uma diminuição das greves verifica–se um deslocamento das lutas para o campo jurídico. Adverte–nos, entretanto, que “a lei, que se pressupõe acima das classes sociais, nada mais é do que o instrumento utilizado, em muitos casos, para a defesa dos interesses dos patrões” (SILVA; WENSKO, 2003, p. 5). Não obstante, os autores revelam que há possibilidades de atuação dos trabalhadores neste sentido, bem como o apoio de agentes do meio jurídico em seu favor. E figura como “justificativa para precarizar as relações de trabalho, de acordo ou não com a lei, insere–se no contexto de competição e necessidade de inserção nos mercados globais” (SILVA; WENSKO, 2003, p. 4). Além da super–exploração caracterizada pelos salários baixos, pela sobre–jornada, pela precarização, o medo se constitui na estratégia dos detentores destes capitais para impor os métodos de dominação, gerados, principalmente pela grande oferta de trabalhadores existentes, sem contar as dezenas de milhares de migrantes do Vale do Jequitinhonha/MG, Bahia, Maranhão, Piauí, 137
Ceará, Paraíba, Pernambuco e outros estados do nordeste do país, os quais, todos os anos, num vaivém incessante, se dirigem para as plantações de cana, café e laranja desta região. Portanto, o medo impede, muitas vezes, que o desfecho destas ações seja favorável aos reclamantes dos processos judiciais. Por medo, o trabalhador desiste da ação, aceita acordos prejudiciais aos seus interesses, muda de cidade ou mantém o silêncio. A ameaça que recai sobre eles não é simplesmente da demissão, mas da impossibilidade de encontrar trabalho alhures, tendo em vista a circulação das listas negras, acima mencionada. Trata–se do medo da queda no fosso da exclusão social. Na pesquisa realizada com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Piracicaba e Saltinho, interior do estado de São Paulo, assim como o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Campo Florido, região do Triângulo Mineiro em Minas Gerais foi possível perceber certa indiferença com a construção de uma entidade representativa mais classista acerca da defesa dos trabalhadores rurais, prevalecendo a estratégia da negociação com os proprietários das usinas. Embora possamos encontrar falas de membros da direção desse sindicato que considere o “sindicato uma ferramenta de luta” dos trabalhadores e a formulação de uma crítica, por parte da direção do sindicato à atuação da CUT hoje, numa tentativa de diferenciar a CUT de “ontem”, mais “atuante” e de “hoje” governista, entretanto, é possível percebermos a reverberação do discurso do sindicalismo responsável e propositivo (GALVÃO, 2006), inclusive utilizado largamente pela CUT, ao justificar o aumento de 3% sobre o acordo coletivo do ano anterior: A baixa escolarização é uma característica da direção deste sindicato, em que o diretor tem a quinta série do ensino fundamental, o que implica limites e adversidades de atuação no próprio campo da legalidade, como por exemplo, a incompreensão entre contrato coletivo, acordo e dissídio: “Eu não sei o que é dissídio. 138
O nosso advogado fala, qualquer coisa vai pro dissídio...mas eu não sei o que é”. Todavia, acaba por reconhecer as limitações da atuação do sindicato ao falar das vantagens de ser um filiado e da importância do sindicato na atualidade: É neste sentido que podemos verificar que este modelo de sindicalismo hegemônico é incapaz de compreender e assumir uma crítica que aponta para a necessidade de construir um projeto para uma nova sociedade e que extrapole, portanto, os limites do economicismo e do legalismo. Primeiramente esta crítica figura nas experiências do I Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), I Internacional, realizada em Genebra (1866): Os sindicatos trabalham bem como centro de resistência contra as usurpações do capital. Falham em alguns casos, por usar pouco inteligentemente a sua força. Mas, são deficientes, de modo geral, por se limitarem a uma luta de guerrilhas contra os efeitos do sistema existente, em lugar de no mesmo tempo se esforçarem para mudá–lo, em lugar de empregarem suas forças organizadas como alavanca para a emancipação final da classe operária, isto é, para a abolição definitiva do sistema de trabalho assalariado (MARX, 1898). Esta mesma crítica reaparece, posteriormente, nas preocupações de outro grande revolucionário, Lênin, que considerava que a luta revolucionária era inseparável da luta contra o oportunismo. Para ele o economicismo surge como consequência de uma prática espontaneísta de organização sindical. Em sua obra “Que fazer?”, caracteriza essa prática que “(...) reduz o movimento operário e a luta de classes a um sindicalismo estreito e à luta ‘realista’ por reformas pequenas e graduais” (LÊNIN, 1979:17). E ainda, que a pura simples reivindicação salarial não passa de uma busca por “vender esta ‘mercadoria’ (força de trabalho) de forma mais vantajosa, e a lutar contra o comprador no terreno de uma transação puramente comercial” (LÊNIN, 1979:41).
139
Portanto, há dois fundamentos para a crise sindical atual, sendo o primeiro proveniente do processo de reestruturação produtiva (responsável pela eliminação de postos de trabalho e corte de milhares de empregos). E o segundo, referente à dimensão subjetiva, político–ideológica, expressa na busca de alguns sindicatos por integrar a lógica do mercado para valorizar e garantir o melhor preço da força de trabalho. A pesquisa com o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Alimentação de Uberaba/MG buscou coletar informações sobre o sindicato e dos/as trabalhadores/as que ele representa, tendo como foco a reestruturação produtiva no campo, em especial a mecanização da colheita da cana-de-açúcar e como esse processo tem impactado o trabalho no campo e o próprio sindicato no que concerne as políticas salariais das empresas, a intensificação do trabalho e, por fim, as ações sindicais mediante as mudanças pautadas nesse setor. A questão do trabalho feminino foi especialmente considerada na perspectiva da divisão sexual do trabalho embora o entrevistado tenha afirmado haver poucas mulheres trabalhando no campo. Destaca–se ainda que foram solicitados dados quantitativos e documentos do presidente do sindicato, mas esse afirmou não ter as informações solicitadas documentadas. O sindicato possui atuação nas indústrias alimentícias, produção de álcool, produção de cana-de-açúcar e usinas da microrregião do Triangulo Mineiro, situadas nas cidades de Uberaba, Canápolis, Veríssimo, Campo Florido, Conceição das Alagoas, Conquista e Sacramento. É filiado à Central Única dos Trabalhadores (CUT), tendo sido formado em 1957. Conforme o entrevistado, foi dirigido durante a ditadura civil–militar (1964– 1985) por um presidente “pelego20”. 20
Denominação dada a membros de sindicatos que agiam sob inspiração do Ministério do Trabalho ou de políticos ditos trabalhistas. [Figurado] Pessoa servil, dominada por outra; capacho (JUSBRASIL, 2016).
140
De acordo com o entrevistado, o número de trabalhadores na base do sindicato era de aproximadamente 15 mil em 2019, mas esse valor flutuava bastante devido ao setor de padarias que é mais instável, pois “abre e fecha novas padarias todo dia” (ENTREVISTA: 26/09/2019). Já o número de trabalhadores filiados ao sindicato é de cerca de 10% desse total, portanto de aproximadamente 1500 trabalhadores. O entrevistado considera que o número de filiados sofreu uma variação entre os anos de 2010 e 2019 de 1200 para 1500 filiados e não possui dados separados por gênero. No setor sucroalcooleiro, que abrange de Volta Grande até Vale do Tijuco e Canápolis, aproximadamente 35% dos trabalhadores/as são nordestinos e a maioria possui segundo grau completo. A idade média não passa de 35 anos, sendo o trabalhador já considerado “velho” para o trabalho a partir dessa idade e com poucas chances de ser contratado pelas usinas. Quanto ao perfil do/a trabalhador/a, o entrevistado acredita que houve uma grande mudança quanto a qualificação profissional, “hoje em dia a empresa exige conhecimento, se não, está fora” e que “dificilmente consegue empregar alguém que não tenha segundo grau completo” (ENTREVISTA; 26/09/2019). Dessa forma enquanto representante do sindicato, ele incentiva a qualificação dos trabalhadores/as do setor, especialmente após 1997, quando o setor sucroalcooleiro presente na região passa a não mais contratar os trabalhadores diretamente, utilizando–se para tanto, empresas terceirizadas a cada safra. Conforme Previtali et al (2012), o fenômeno da terceirização e subcontratação passa a ser uma prática comum das empresas a partir dos anos 1990, contribuindo para maior precarização do trabalho, com redução dos salários pagos e dos benefícios, em especial no campo.
141
Diante a terceirização, o representante do sindicado propôs aos gerentes das usinas a realização de uma lay–off 21, que consistia em, após a safra, ao invés da rescisão contratual, realizar a qualificação profissional dos trabalhadores. No entanto, não todos, pois o pessoal do corte manual ainda seria dispensado. Foi realizada uma parceria com o SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) das cidades de Araxá e de Uberlândia. Os trabalhadores recebiam o salário por meio do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que é parte da arrecadação de impostos do governo federal. Essa estratégia é ainda adotada, sendo o caso mais recente no setor de carnes que passou por uma crise devido às denúncias e irregularidades na produção de uma empresa da região e utilizaram a lay–off para restaurar a empresa. Dado isso, é possível corroborar com Pereira e Faria que dizem ser o sindicato um “mero intermediador” 22 entre as usinas e os trabalhadores para13 beneficiar a empresa que, nos períodos sem produção, ficam isentas de pagar os trabalhadores, pois eles são pagos pelo governo federal, através do FAT. Além disso as usinas não precisam arcar com custos de demissões e ainda “ganham” a qualificação dos trabalhadores. Logo, pode–se inferir, de acordo com a pesquisa de Santos (2011) que o sindicalismo está cedendo ao capital, adotando estratégias em benefícios do capital. No caso do sindicato de Uberaba, observou–se que o sindicato não assumia uma visão crítica classista, voltada ao trabalhador e crítica às estratégias do agronegócio.
21
O termo lay–off, derivado da língua inglesa, nos remete a uma situação de suspensão temporária do contrato de trabalho, seja por falta de recursos financeiros (pagamento de salários), seja por falta de trabalho/atividade que ocupe toda a mão de obra da empresa. Diante de um cenário desfavorável economicamente, as empresas buscam adotar medidas que não comprometam a operacionalização da companhia, mas que possam mantê– las "respirando" financeiramente, evitando impactos de maiores proporções em suas atividades, seja com a elevação no custo com indenizações por demissões, seja pela perda de investimentos em mão de obra qualificada PANTALEÃO (2018). 22 Aspas dos autores.
142
No que se refere a participação do trabalho feminino no trabalho no setor, o dirigente sindical considera que há a presença de “igual para igual” em relação aos homens e que não há distinção de trabalhos por gênero. Para ele, ambos desenvolvem as mesmas atividades e recebem o mesmo salário e “as mulheres estão satisfeitas”. No entanto, quando perguntado da participação das mulheres no conselho diretor do sindicato, o dirigente responde que elas ocupam 3 cargos, dos 10 cargos de diretoria. Ainda, disse não haver contabilizar números exatos da quantidade de mulheres trabalhando na colheita e desconhece suas reivindicações. Assim, pode–se dizer que sua fala se contradiz, representando então uma falsa visão de igualdade entre os gêneros. Conforme Barbosa (1999), é uma falácia falar que as oportunidades sociais para os dois gêneros são iguais, pois na trajetória profissional da mulher são construídas barreiras, ligadas à divisão sexual do trabalho e ao patriarcalismo que impõem às mulheres a dupla jornada de trabalho, sobrecarregando–as com as atividades na esfera doméstica e, no mercado de trabalho, impõe sobre elas menores salários por mesmas funções e barreiras culturais que dificultam que assumam cargos de liderança. O entrevistado dá um exemplo do quanto a presença da mulher é importante, que ocorreu nos anos 1990, quando estava tendo um gargalo em uma etapa da produção de queijo em que a solução foi inserir oito mulheres por serem “mais minuciosas e delicadas” ao desenvolver tal atividade, tendo como consequência disso aumentou a produtividade. Essa retórica entra em consonância com o ponto de vista da Saffioti (1976), conforme citado por Castro (2019), em que há sim separação por gênero nas atividades do trabalho. Além disso, a divisão sexual do trabalho é organizada partindo de uma característica que seja nata do indivíduo, como o do exemplo citado de colocar mulher pela característica eleita socialmente de mais minuciosa, flexível e delicada para fazer tal atividade. Dessa forma, a visão de que a 143
mulher é valorosa e importante nos diversos campos de trabalho contradiz a objetificação que faz ao contratar mulher pela condição física que o capital precisa no sistema produtivo e não pela condição humana que possui. Quanto à reestruturação produtiva, especialmente a mecanização do campo, o entrevistado não a vê com bons olhos. Ele afirma que a mecanização é uma das principais mudanças que geraram um impacto significativo na região. Nas usinas de Volta Grande e Delta há 10 anos utilizava–se cerca de 6.000 trabalhadores para moer 1.800.000 toneladas de cana e em 2019 esse número passou para cerca de 2.300 e 2.200 trabalhadores, respectivamente em Delta e Volta Grande, para moer 10 milhões de toneladas. Ele não consegue “enxergar pontos positivos para a mecanização, pois gerou alto nível de desemprego”. A sua fala pode ser corroborada pelas análises de Castro (2013), em que a inserção das máquinas nesse setor foi a inovação mais marcante, pois substituiu força de trabalho humana por máquinas. Por outro lado, ao ser questionado quanto à intensificação do trabalho, o presidente do sindicato diz que atualmente é bem melhor para trabalhar, devido às melhores condições e conforto que a máquina traz para o trabalhador e que os trabalhadores estão satisfeitos com essa condição, então ele acredita que não houve intensificação. Entretanto essa fala contradiz os números apresentados acima pois, com um número bem menor de trabalhadores houve um aumento de cerca de 356% na produtividade das usinas em relação há 10 anos e, ao mesmo, que as empresas se utilizaram de estratégias como as contratações terceirizadas ao mesmo do play–off para ter redução dos custos da força de trabalho, o que implica intensificação e precarização do trabalho. Segundo a Gazeta Digital (2010), uma colheitadeira substitui cerca de 120 trabalhadores manuais, logo há intensificação do trabalho, pois são menos trabalhadores manuseando as máquinas, recebendo o salário referente à 1 trabalhador, mas produzindo a 144
mesma quantidade que 120 trabalhadores. Quando questionado sobre as principais reivindicações dos trabalhadores nos últimos cinco anos (2014 – 2019), o entrevistado apontou preocupação central com a manutenção dos postos de trabalho e a correção salarial adequada. Logo, é pode–se perceber uma contradição entre o discurso do entrevistado e a realidade das condições de trabalho e relações laborais no setor em questão na região, uma vez que não é possível haver satisfação com o salário atual e ser responsável pelo alarmante crescimento da produtividade. Para o presidente do sindicato entrevistado, houve uma brusca mudança na quantidade de trabalhadores, porém o sindicato não perdeu em número de filiados, “pois existem outros setores de alimentos que repõem essa quantidade constantemente” (ENTREVISTA EM 26/09/2019). No entanto, o entrevistado afirma que é difícil conseguir mobilizar os trabalhadores para a filiação e mesmo para as ações sindicais, ainda mais com o governo atual (Bolsonaro23) que não é atuante ao pregar multas nas empresas por irregularidades e não atende às reivindicações dos sindicalistas. Para manter os filiados e conscientizá–los, o entrevistado afirma que o sindicato busca os trabalhadores para conversar e demonstrar a importância de fazer parte do coletivo sindical, pois é através dele que mantém os direitos trabalhistas, a participação no lucro dos resultados da empresa, vale-alimentação, planos de saúde, entre outros benefícios. De acordo com o presidente do sindicato entrevistado, o sindicato busca construir a politização, dos trabalhadores através de assembleias e cursos de formação sindical, entre outros cursos ofertados pela Central Única dos Trabalhadores (CUT). De acordo com o entrevistado, o sindicato estabelece parcerias com empresas privadas para a oferta de serviços ofertados aos trabalhadores. Os principais serviços oferecidos são 23
Jair Bolsonaro, presidente eleito no Brasil em 2018.
145
de saúde, educação em nível superior e academias de esporte e ginástica. O sindicato oferece também assistência jurídica aos seus filiados quando solicitada. Quanto as negociações com as usinas sobre questões referentes à jornada de trabalho, inserção de máquinas, salários e demais temáticas voltadas ao trabalhador, segundo o entrevistado, as empresas costumam contatar o sindicato antes da implantação de algo para estabelecer uma negociação, portanto, as ações sindicais ocorrem através de diálogos com as empresas. Em relação à visão de longo prazo para atuação e as estratégias a serem feitas pelo sindicato, o presidente se mostrou desesperançoso e diz não haver planos de longo prazo, sendo o foco atual a manutenção das conquistas anteriores de direitos do trabalho e não permitir perdas com a reforma trabalhista. Diz ele que “manter o que está hoje já está de bom tamanho, o que conquistou nos últimos dez anos” (ENTREVISTA EM 26/09/2019). Ele também acredita que o movimento sindical caminha para o […] desfacelamento das estruturas sindicais que se sustentam na arrecadação de impostos sindicais. Eu acredito que no Brasil vai ficar poucos sindicatos daqui para frente. A reorganização se dá nas bases sindicais políticas, o trabalhador tem que criar consciência política, votar correto, se não daqui 20 anos não vai ter mais nada (ENTREVISTA EM: 26/09/2019).
Assim, posicionamento do sindicato, pode–se perceber pela entrevista com o seu presidente, um discurso dúbio, ora afirmando que a reestruturação produtiva do setor não tem impacto negativamente o trabalho e ora apontando para as perdas salariais. Parece haver um engajamento político, especialmente quando argumenta acerca da política nacional sob o presidente 146
Bolsonaro. No entanto, esse discurso apresenta–se como retórico pois, não se coloca na prática no cotidiano do local de trabalho, uma vez que não fica evidente o desenvolvido, pelo sindicato, de mecanismos que possibilitem reduzir a exploração do trabalho e as perdas salariais. No que tange especificamente ao trabalho feminino no setor, a fala do presidente do sindicato indica uma percepção superficial da questão, que não atenta para as formas de opressão da mulher no âmbito da divisão sexual do trabalho que se traduz, no local de trabalho, em novas formas desigualdade e de submissão. O presidente do sindicato parece desconhecer essa realidade o que indica uma imobilidade do sindicato enquanto estratégias de ação para modificar essa realidade local. De maneira mais geral, a presença no poder político federal de governos neoliberais, amplamente favoráveis ao agronegócio e a retirada dos direitos dos trabalhadores, como foi o caso do governo Temer (2016–2017) que implementou a Reforma Trabalhista e do atual governo Bolsonaro (2018–), que implementou a Reforma da Previdência têm contribuído fortemente para o enfraquecido as forças sindicais de defesa do trabalho e, em contrapartida, conferido maior liberdade às grandes empresas para adoção de trabalho precário, inclusive que infringirem regras trabalhistas, como no caso do trabalho em condições análogas ao escravo. A atuação sindicato nos limites da negociação com as empresas do setor, fortalece ainda mais a estrutura social em que o trabalhador rural se torna apenas uma ferramenta para a extração da mais–valia para o capital. Sendo assim, algumas sugestões de mudanças possíveis a serem feitas são aumentar as estratégias de politização dos trabalhadores rurais para haver maior adesão ao movimento sindical, exigindo e fortalecendo ações combativas do sindicato na defesa dos direitos trabalhistas.
147
Considerações Finais O livro procurou mostrar a reestruturação produtiva do setor sucroalcooleiro e seus ambientais e sociais, especialmente no caso da região do Triângulo Mineiro e cerrado no estado de Minas Gerais. Assim, foi objeto de investigação a partir dos anos 2000. A pesquisa possibilitou um diagnóstico do processo de reestruturação no setor, envolvendo novas relações interfirmas e deslocamento geográfico–espacial com impactos significativos nas populações locais. Discutiu–se ainda o emprego migrante sazonal e a necessidade de políticas públicas direcionadas a esse contingente populacional que constitui, em sua grande maioria, uma força de trabalho desqualificada e mal remunerada, contribuindo para a formação de bolsões de pobreza nas cidades do Triângulo Mineiro. Destaca–se que, independente das oscilações das safras desde a década de 1990 até a década de 2020, o plantio da cana-deaçúcar e a produção de seus derivados ainda se matem em um patamar de extrema relevância, mesmo sob os impactos da Pandemia do Covid–19 em 2020, para os produtores e para o governo tanto federal, quanto estadual e, à custa desta demanda está a não preocupação com as questões socioambientais e com os direitos e condições do trabalho. O avanço da agroindústria fundada na monocultura fronteira ameaça grande parte dos pequenos proprietários rurais que muitas vezes se veem obrigados a arrendar suas terras para os grandes latifundiários. Ao mesmo tempo observa–se o avanço para o bioma do cerrado. O crescimento do setor sucroalcooleiro ocorrido na região do Triângulo Mineiro tem sido capitaneado por grupos empresariais originados, sobretudo, do estado de São Paulo e Nordeste, bem como por um processo crescente de fusões e aquisições que estão implicando na internacionalização do setor. 148
Apesar das inovações e de criação de empregos, esse meio é altamente seletivo a cerca da força de trabalho a ser utilizada, que são trabalhadores com baixa qualificação profissional. Verificou–se que os trabalhadores da cana provêm fundamentalmente da região Nordeste do Brasil, principalmente dos estados de Alagoas, Maranhão, Piauí, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia. Eles vêm de regiões com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) baixo, muitos deles já eram camponeses e o trabalho em canaviais são a única alternativa para o sustento da família, que permanece no campo. Pode–se afirmar que os investimentos econômicos no setor sucroalcooleiro não têm se traduzido em melhorias das condições de trabalho e de vida da grande maioria dos trabalhadores envolvidos no processo produtivo, especialmente na base da cadeia produtiva, considerando–se àqueles envolvidos no plantio da cana-de-açúcar. Prevalece no setor sucroalcooleiro empenho empresarial no setor a busca por baixos custos e aumento da produtividade do trabalho. Porém, trabalho e capital não são parceiros e para os trabalhadores as mudanças significam intensificação do trabalho e redução do valor da força de trabalho e, portanto, aumento da precarização das condições de vida com a intensificação da utilização de força de trabalho migrante e a presença do trabalho em condições análogas à escravidão. Assim, o mais moderno em termos econômicos e tecnológicos coexiste com a destruição ambiental e com o trabalho precarizado e em condições análogas à escravidão. Estas condições têm refletido na capacidade representativa, de mobilização e de intervenção do sindicato dos trabalhadores rurais na busca por garantir, minimamente, a aplicação da legislação que resguarde a saúde do trabalhador e a valorização do trabalho. No caso particular estudado do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ituiutaba/ MG e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Piracicaba e Saltinho no interior de São Paulo, os objetivos cir149
cunscrevem–se no âmbito dos caminhos da legalidade, apesar, de haver um reconhecimento dos limites desses caminhos em sua atuação local e na apreciação do movimento sindical nacional. Este caráter ambíguo do sindicalismo local tem correspondência, segundo a literatura pesquisada, com sindicalismo nacional. Foi possível concluir com esse estudo que estão acontecendo mudanças significativas no meio ambiente e no trabalho do campo no setor sucroalcooleiro na região e que necessitam de atenção. Não é suficiente atentar–se para os ganhos econômico– tecnológicos do setor. O foco nessa abordagem desconsidera as dimensões da degradação ambiental e das condições de vida da classe trabalhadora no campo. No que tange os impactos ambientais, as empresas do agronegócio sucroalcooleiro têm agido recorrentemente de forma destrutiva sobre o meio ambiente concernente à região do estado de Minas Gerais, causando efeitos desastrosos e irrecuperáveis à biodiversidade e ao ecossistema. Ademais, especialmente durante o governo Bolsonaro, o sistema jurídico–legal de proteção ambiental que vem se mostrando cada vez mais frágil e permissivo à destruição da natureza na busca pela exploração e acumulação. Por fim, sugere–se que novos estudos que acerca da problemática do agronegócio sucroalcooleiro e seus impactos ambientais e sobre a classe trabalhadora, tendo por base fundamental a realidade empírica, mas também e, fundamentalmente, buscando desvelar o que está por trás das aparências com o intuito de ampliar–se o debate acerca do tema e, ao mesmo tempo, informar uma práxis transformadora do real possibilite a defesa da vida humana na sua relação com a natureza.
150
Referências ABREU, A. et al. Projeto II Reestruturação Produtiva e Qualificação. Subprojeto IV Reestruturação produtiva, trabalho e educação: os efeitos sociais da terceirização Industrial em três regiões do país. Relatório Final. CEDES/FINEP/CNPq–PCDT. 1998. ABREU, et al. A produção da cana – de – açúcar no Brasil e a saúde do trabalhador rural. In: Revista Brasileira Medicina e Trabalho [on–line]. ANO 2 – Nº 9. 2011. Disponível em: http://www.anamt.org.br/site/upload_arquivos/revista_brasileira _volume_9_n%C2%BA_2_1212201310177055475.pdf. (p.7). Acesso em: 06 Nov.2015. ALVES, F. Por que morrem os cortadores de cana? Saúde e Sociedade v.15, n.3, p.90–98, set. – dez. 2006. ALVES, G. O Novo (e Precário) Mundo do Trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo. São Paulo: Boitempo. 2000. ALVES, G. Reestruturação produtiva e crise do sindicalismo no Brasil. Tese de Doutorado IFHC/Unicamp, 1998. ALVES, M. P. & TAVARES, M. A. “A Dupla Face da Informalidade do Trabalho: autonomia ou precarização”, In: ANTURES, R. (Org). Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil. São Paulo: Boitempo. pp. 425–446. ANDRADE, E. T. et al. Programa do Proálcool e o etanol no Brasil. ENGEVISTA, V. 11, n. 2. pp. 127–136, dezembro 2009. Disponível em: http://www.uff.br/engevista/seer/index.php/engevista/article/vi ewArticle/236. Acesso em: 06 out. 2010. 151
ANDRÊZA, A. G.; CLEPS JR., J. O desenvolvimento da agroindústria canavieira no Triângulo Mineiro e seus impactos sobre mão–de–obra e a produção de alimentos. In: ENCONTRO NACIONAL DE GEOGRAFIA AGRÁRIA, 29., 2009, São Paulo. Anais... São Paulo: [s.n.], 2009. p. 1–16. ANTUNES, R. O Privilégio da Servidão. São Paulo: Boitempo. 2018. ANTUNES, R. O que é o sindicalismo. São Paulo: Brasiliense, 1981. ANTUNES, R. Os caminhos da liofilização organizacional: as formas diferenciadas da reestruturação produtiva no Brasil. In: O Avesso do trabalho. Revista Idéias. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Universidade Estadual de Campinas, Ano 9. São Paulo: Unicamp, 2003, pp. 13–24. ANTUNES, R. Os Sentidos do Trabalho. São Paulo: Boitempo, 2000. ARAUJO, M. Qualificação Profissional e Empregabilidade: o caso do setor sucroalcooleiro. 2017. Orientadora: Fabiane Santana Previtali. 26 f. TCC (Graduação) – Curso de Administração, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2017. BARBOSA, J. V. S. et al. A Reestruturação Produtiva do Setor Sucroalcooleiro: as implicações para o trabalho e a qualificação profissional. In: III SEMINÁRIO INTERNACIONAL RURALIDADES, TRABALHO E MEIO AMBIENTE, 2015, São Carlos. Anais…, São Carlos p.1–15. 2015. BARBOSA, L. Igualdade e meritocracia. Rio de Janeiro: FGV, 1999. BARBOSA, Z. M. Reestruração Produtiva e Movimento Sindical – reflexões para uma prática de esquerda. Lutas Sociais (PUCSP), São Paulo, v. 1, p. 41–54, 2001. 152
BORGES, A. Origem e Papel dos Sindicatos. I Modulo do Curso Centralizado de Formação Política – Escola Nacional de Formação da CONTAG – ENFOC. Brasília, 14 a 25 de agosto de 2006. Disponível em: http://www.teiadigital.com.br/Central2.0/images/Site_6/origems ind.pdf. Acesso em: 17 out. 2010. BRASIL. Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006. Estabelece as diretrizes para a formulação da Política Nacional da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 25 jul. 2006. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004–2006/2006/lei/l1 1326.htm . Acesso em: 20 jan. 2013. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. Educação do campo: diferenças mudando paradigmas. Brasília, mar. 2007. (Cadernos SECAD, 2). BRITTO, M. J. et al. Processo de negociação coletiva no espaço rural mineiro: uma análise retrospectiva da década de 1990. Organizações & Sociedade, Salvador, vol. 11, n. 30, mai./ago. 2004. pp. 49–65. CALDART, R. S. et al. (Org.). Dicionário da educação do campo. Rio de Janeiro: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio; São Paulo: Expressão Popular, 2012. CARCERELLI, L. C. O desvio de direita no Partido Comunista do Brasil. A nova democracia, março de 2004. Disponível em: http://www.anovademocracia.com.br /no– 17/878–o–desvio–de–direita–no–partido–comunista–do–brasil. Acesso em: 06 out. 2010. CASTRO, B. Quando gênero revela classe: mulheres e flexibilidade no setor da tecnologia da informação. In:
153
ANTUNES, R. (Org.). Riqueza e miséria do trabalho no Brasil IV. São Paulo: Boitempo, 2019. CEPES. Uberlândia: Painel de informações municipais – 2009. IE: UFU, 2009. CHESNAIS, F. & SERFATI, C. “Ecologia” e condições físicas de reprodução social: alguns fios condutores marxistas. Crítica Marxista. n° 16. São Paulo: Editora Boitempo, 2003. CLARKE. S. What in F´ Name in Fordims. In: GILBERT, et al (Ed). Fordism and flexibility: divisions and changes. London: Macmillan Press, 1994. CONAB. Companhia Nacional de Abastecimento. Acompanhamento Da Safra Brasileira: cana-de-açúcar. Brasília: Observatório Agrícola, 2015. 2o vol. Disponível em: file:///Users/fabianesantanaprevitali/Downloads/Boletim_Cana_ 3_Levantamento_15–16.pdf. Acesso em: 12 abr. 2019. CONAB. Companhia Nacional de Abastecimento. Acompanhamento Da Safra Brasileira: cana-de-açúcar. Brasília: Observatório Agrícola, 2017. 3o vol. disponível em: file:///Users/fabianesantanaprevitali/Downloads/BoletimZGrao sZdezembroZ2017.pdf. Acesso em: 20 maio 2020. CONAB. Companhia Nacional de Abastecimento. Brasil alcança a maior produção de etanol da história. 2020. Disponível em: https://www.gov.br/pt–br/noticias/agricultura–e–pecuaria/2020 /04/brasil–alcanca–a–maior–producao–de–etanol–da–historia. Acesso em: 10 mar. 2021. CONAMA. Conselho Nacional do Meio Ambiente. Disponível em: http://conama.mma.gov.br/ Acesso em: 26 mar. 2019.
154
COSTA, M. A. et al. Bioenergia: cadeias produtivas e co– produtos em Minas Gerais. Belo Horizonte: Instituto de Estudos Pró–cidadania – PRÓ–CITTÀ/SECTES, 2009. CPT. COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Síntese estatística (provisória 1, em 30/12/2013): Campanha da CPT contra o trabalho escravo. Goiânia, 28 jan. 2014. Disponível em:<http://www.cptnacional.org.br/attachments/article/1900/S %C3%ADntese%20estat%C3%ADstica%20do%20TE %202013%20%20ATUALIZADA%20em %2031.01.2014%20Copy.pdf>. Acesso em: 26 mar. 2014. CUNHA, T. R; PREVITALI, F. S. Expansão Do Etanol E Impactos Socioambientais No Brasil Do Século XXI. Horizonte Científico, Uberlândia, v. 8, n.1, jul. p.1–20, 2014. Disponível em: http://www.seer.ufu.br/index.php/horizontecientifico/article/vie w/18161. Acesso em: 10 jan. 2019. DELGADO, G. Expansão e modernização do setor agropecuário no pós–guerra: um estudo da reflexão agrária. Dossiê Desenvolvimento Rural. Estudos Avançados. São Paulo, v. 15, n.43, p. 157 – 172. 2001. DUARTE, E. L. As mulheres trabalhadoras rurais: uma interlocução entre gênero e movimento sindical na Paraíba. XIX Encontro Nacional de Geografia Agrária, São Paulo, 2008, pp. 1–17. Disponível em: http://www.geografia.fflch.usp.br/inferior/laboratorios/agraria/ Anais%20XIXENGA/artigos/Duarte_EL.pdf . Acesso em: 17 maio 2014. FAIRCLOUGT, N. Discurso e Mudança Social. Brasília: Editora UNB. 2001. FERNANDES, F. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. 3ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. 155
FOLHA DE SÃO PAULO. Presidente Lula chama usineiros de heróis. Folha On line. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u90477.shtml. Acesso em: 15 maio 2019. FONSECA, J. J. S. Metodologia da pesquisa científica. Fortaleza: UEC, 2002. FORMAN, S. Camponeses: sua participação no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. FRIGOTTO, G. Projeto societário contra–hegemônico e educação do campo: desafios de conteúdo, método e forma. In: MUNARIM, A. et al. (Org.). Educação do campo: reflexões e perspectivas. Florianópolis: Insular, 2010. p. 19–46. FURTADO, C. Formação Econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional. 2005. GALVÃO A. “O Movimento Sindical frente ao Governo Lula: dilemas, desafios e paradoxos”, In: Outubro. N. 14. 2006. GAZETA DIGITAL. Máquinas substituem homens. Disponível em: https://www.gazetadigital.com.br/editorias/economia/maquinas– substituem–homens/254915 . Acesso em: 20 dez. 2019. GITAHY, L et al. Relações interfirmas e gestão de recursos humanos na cadeia produtiva de autopeças. Relatório de Pesquisa: Projeto “Reestruturação Produtiva, Trabalho e Educação. Campinas. FINEP/CEDES/CNPq. 1997. GOES, T.; MARRA, R.; SILVA, G. S. e. Setor sucroalcooleiro no Brasil: Situação atual e perspectivas. Revista de Política Agrícola, Brasília, n. 2, p.39–51, 2008. GOMES, R. M. Terra, exclusão e resistência: uma reflexão sobre a realidade agrária brasileira. Monografia (Ciências Sociais). Uberlândia: FAFICS/UFU. 2002. 156
GRAMSCI, A. Americanismo e fordismo. In: Maquiavel, a política e o estado moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984. GRAZIANO DA SILVA, J. A nova dinâmica da agricultura brasileira. Campinas/SP: UNICAMP: IE. 1998. GRAZIANO DA SILVA, J. O novo rural brasileiro. Campinas, SP: Unicamp, 1999. GUANAIS, J. B. Intensificação do trabalho e superexploração na agroindústria canavieira. In: ANTUNES, Ricardo (Org). Riqueza e miséria do trabalho no Brasil IV: trabalho digital, autogestão e exploração da vida. São Paulo: Boitempo, 2019. GUERRA, G. A. D. Sindicatos patronais rurais x sindicatos de trabalhadores rurais do Pará: novas estratégias de representação política. Fragmentos de Cultura: Goiânia, v. 9, n. 6, pp. 1409– 1427, 1999. GUIA TRABALHISTA. Lay–Off – Uma Alternativa para enfrentar a Crise e Evitar Demissões. Disponível em: http://www.guiatrabalhista.com.br/tematicas/layoff–alternativa– para–crises.htm. Acesso em: 30 out. 2019. HADDAD, F. O plano de desenvolvimento da educação: razões, princípios e programas. Brasília, DF: INEP, 2008. IBGE. Censo agropecuário 2006. Rio de Janeiro, 2009. INPE. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. http://www.dsr.inpe.br/laf/canasat/. Acesso em 01 nov. 2012. JUSBRASIL. Sindicalismo ou Peleguismo? Disponível em: https://rgadine.jusbrasil.com.br/noticias/452857102/sindicalismo –ou–peleguismo. Acesso em: 30 out. 2019.
157
KAGEYAMA, A. et al. O novo padrão agrícola brasileiro: do complexo rural aos complexos agro–industriais. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1987. KOSIK, K. Dialética do Concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. LEITE, S. & ÁVILA, R. El sentido de la reforma agrária em los processos de desarrollo: por uma crítica a los limites de la vision econômico–reduccionista y al modelo de modernización agrícola. In: Campesinato e agronegócio na América Latina: a questão agrária atual. Expressão Popular. São Paulo. 2008. pp. 303–323. LESSA, S. S. N. O Movimento Sindical Rural em Pernambuco: 1958–1968. Dissertação (Mestrado em Sociologia) UFPE, Recife, 1985. LIMA, M. S. A. O sindicalismo rural em Pernambuco e o golpe de 1964. 2005. Disponível em: http://www.fundaj.gov.br/licitacao/observa_pernambuco_01.pdf. Acessado em 06 out. 2010. MARQUES, F. O alvo é o bagaço. In: Ciência e tecnologia no Brasil: Pesquisa FAPESP, setembro de 2009, número 163, pp. 16– 20. MARTINS, J. S. Campesinato e Política no Brasil. Petrópolis, Vozes, 1981. MARTINS, R. R. Panorama do cultivo da cana-de-açúcar e suas consequências na região do triângulo mineiro. 2012. Orientadora: Fabiane Santana Previtali. Monografia de Final de Curso – Curso de Ciências Sociais, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2012.
158
MARX, K. & ENGELS, F. “A produção da consciência”. IN: MARX, K. O Capital. Coleção grandes cientistas sociais. São Paulo: Ática, 1996. MARX, K. O Capital. Livro 1. São Paulo: Boitempo. 2013. MAURIEL, A. P. O. Capitalismo, políticas sociais e combate à pobreza. Ijuí: Ed. Unijuí, 2010. (Coleção Relações internacionais e globalização). MAZOYER, M. Defendendo al campesinado en un context de globalización. In: Crise agrícola, crise alimentar e crise geral contemporânea. Disponível: www.cpe.org . Acesso em: 07 jun. 2010. MEDEIROS, L. S. História dos movimentos sociais no campo. Rio de Janeiro: FASE, 1989. MÉZÁROS, I. Para além do capital. São Paulo: Contexto, 1991. MINAS GERAIS. NET: disponível em: http://www.minas– gerais.net/diretorio/index.php?cat_id=751&cat_id_thm=7. Acesso em: 28 maio 2012. MINAS GERAIS. Secretaria de Estado de Educação. Orientação conjunta SB–SG nº 01/2009. Divulga orientações referentes à implantação do Programa Educacional ProJovem Campo – Saberes da Terra – Saberes de Minas. Belo Horizonte, 2009. Disponível em: https://www.educacao.mg.gov.br/component/content/article/42 /1476–projovem–campo . Acesso em: 15 Jan. 2013. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Zoneamento Ecológico Econômico. http://www.mma.gov.br/gestao–territorial/zoneamento– territorial/zoneamento–ecologico–economico. Acesso em 21 Jun. 2012.
159
MIRANDA, S. A. de. Educação quilombola em Minas Gerais: entre ausências e emergências. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 17, n. 50, p. 369–383, maio/ago. 2012. MONTENEGRO, A. T. As ligas camponesas e o golpe de 64. Disponível em: www.fundaj.gov.br/licitacao/observa_pernambuco_02.pdf . Acessado em 17 Out. 2010. NAVARRO, V & PADILHA, V. (org.). Retratos do trabalho no Brasil. Uberlândia: Edufu, 2009, pp. 279–327. NERI, M. C.; MELO, L. C. C. de; SACRAMENTO, S. dos R. Superação da pobreza e a nova classe média no campo. Rio de Janeiro: FGV, 2012. NOTA TÉCNICA/DIEESE. A importância da organização sindical dos trabalhadores disponível em: http://www.dieese.org.br/notatecnica/2015/notatec151importanc iasindicatos.pdf . Acesso em: 02 maio 2017. OIT. ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Perfil dos principais atores envolvidos no trabalho escravo rural no Brasil. Brasília, DF, 2011. OLIVEIRA, U. J. A questão agrária, as Ligas Camponesas e o Golpe de 64 (1955–1964). 2005. Disponível em: www.rida.com.br . Acesso em 17 Out. 2010. ONG REPÓRTER BRASIL, O Brasil dos Agrocombustíveis; Cana 2008: Impactos das lavouras sobre a terra, o meio e a sociedade. Disponível em: http://www.reporterbrasil.org.br/agrocombustiveis/relatorio.php. Acesso em 25/05/12. Acesso em: 10 de jun. 2020.
160
ONG REPÓRTER BRASIL, O Brasil dos Agrocombustíveis Cana 2009: Impactos das lavouras sobre a terra, o meio e a sociedade. Disponível em: http://www.reporterbrasil.org.br/agrocombustiveis/relatorio.php. Acesso em: 10 de jan. 2020. ONG REPÓRTER BRASIL, O etanol brasileiro no mundo: os impactos socioambientais causados por usinas exportadoras. Disponível em: http://www.reporterbrasil.org.br/agrocombustiveis/relatorio.php. Acesso em: 12 de abr. 2020. ONG REPÓRTER BRASIL, O zoneamento agro ecológico da cana-de-açúcar: análise dos avanços e das lacunas do projeto oficial. Disponível em: http://www.reporterbrasil.org.br/agrocombustiveis/relatorio.php. Acesso em: 30 maio 2020 ORTEGA, A. C. Territórios deprimidos: desafios para as políticas de desenvolvimento rural. Campinas, SP: Alínea; Uberlândia: Edufu, 2008. PAULILO, M. I. S. O Peso do Trabalho Leve. Revista Ciência Hoje – n° 28, 1987. PEREIRA, P. G.; FARIA, A. F. de. Reestruturação produtiva e agroindústria sucroalcooleira: sindicalismo rural em questão, In: PREVITALI, Fabiane Santana. (Org.) Trabalho, Educação e Reestruturação Produtiva, Uberlândia: Xamã. p.183–198, 2012. PERES, G. et al. Setor sucroalcooleiro no Brasil: um estudo sobre sustentabilidade social, sindicalismo e relações de gênero/etnia. In: PREVITALI, Fabiane Santana et al. III SEMINÁRIO INTERNACIONAL DESAFIOS DO TRABALHO E EDUCAÇÃO NO SÉCULO XXI: OS 100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA. Uberlândia, Anais…, Uberlândia. p.453– 922. 2017. Disponível em: https://96300eb8–c005–4bc2–ab97– 161
befeef3e1f68.filesusr.com/ugd/0d873b_9bf256db2b594a9988bc73 64231c6ddf.pdf. Acesso em: 15 de abr. 2019. POCHMANN, M. Nova Classe Média? São Paulo: Boitempo, 2012. 128 p. POCHMANN, M. Pró Álcool – Programa Brasileiro de Álcool. http://www.biodieselbr.com/proalcool/pro–alcool/programa– etanol.htm . Acesso em 20 Jun. 2007. PRADO JR, C. A questão agrária no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1979. PREVITALI, F. “Aspectos teóricos e estudos empíricos setoriais”. In: O controle do trabalho no contexto da reestruturação produtiva do capital. Curitiba: CRV. 2011, pp. 35–84. PREVITALI, F. Dinámica del progreso técnico y relaciones de clase en el capitalismo: el caso de una empresa de montaje em el Brasil de los años noventas. In: Estudios Latinoamericanos. Nueva Época, núm. 21, enero–junio, 2008. pág. 61–84. PREVITALI, F. S Controle e Resistência do Trabalho na Reestruturação Produtiva do Capital no Setor Automotivo, In: Mediações. Vol.1. N.1. Londrina: MC Gráfica. 2006b. PREVITALI, F. S. "Reestruturação Produtiva e Novas Relações Interfirmas na Cadeia Automobilística nos Anos 90", In: Produto & Produção. Vol 4. N. 3. Outubro. 2000. PREVITALI, F. S. “O Caso Mercedes–Benz: ABC e Campinas”, In: ANTUNES, R. (Org). Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil. São Paulo: Boitempo. 2006a. PREVITALI, F. S. As relações de subcontratação no setor de autopeças: um estudo de caso. Dissertação (Mestrado em Sociologia). Campinas: IFCH/UNICAMP. 1996.
162
PREVITALI, F. S. Controle e Resistência na Organização do Trabalho: o caso de uma empresa montadora nos anos 90. Tese (Doutorado em Sociologia). Campinas: UNICAMP/IFCH. 2002. PREVITALI, F. S. e FARIA, A. F. Reestruturação Produtiva, Trabalho e Qualificação: um estudo sobre o setor de tabaco em Uberlândia/MG. In: LUCENA, C. (Org). Trabalho, Precarização e Emancipação Humana. Campinas: Alínea. 2008. pp. 85–110. PREVITALI, F. S. et al. Educação e cinema: formação política e prática pedagógica junto aos movimentos sociais populares do Campo. Revista HISTEDBR On–line, Campinas, SP, n. 50 (especial), p. 161–178, maio 2013. Disponível em: http://www.fae.unicamp.br/revista/index.php/histedbr/article/vi ew/5480 Acesso em: 1 abr. 2013. PREVITALI, F. S. et al. Trabalho e Educação na Agroindústria Sucroalcooleira na Região do Triângulo Mineiro/Brasil a partir da década de 1990. In: PREVITALI, Fabiane Santana. Trabalho, Educação e Reestruturação Produtiva. São Paulo: Xamã, p. 123– 142. 2012. PREVITALI, F. S.; FAGIANI, C. C.; Lucena, C. ; França, R. L. . Reestruturação produtiva, trabalho e educação: o caso da agroindústria sucroalcooleira na região do triângulo mineiro/MG, Brasil a partir da década de 1990. In: XXVII CONGRESSO ALAS, 2009, Buenos Aires. Anais…, Buenos Aires, XXVII Congresso ALAS, 2009. PREVITALI, F. S.; MORAIS, S. P.; FAGIANI, C. C. Ethanol workers in Brazil: the other side of wealth. Workers of the World, v.1, n. 3, 2013. p. 227 – 245. Disponível: http://workersoftheworldjournal.net/images/WW %203%20final.pdf. Acesso em 10 Set. 2014.
163
PREVITALI, F. S.; MORAIS, S. P.; FAGIANI, C. C. Trabalho e Migração: o caso da agroindústria sucroalcooleira no Triângulo Mineiro a partir da década de 2000. REED – Espaço de Diálogo e Desconexão. Araraquara, v. 7, n. 1, 2013. PUNCH, K. Introduction to Social Research: quantitative & qualitative approaches. London: SAGE Publications. 1998. QEDU. Resultados do Censo 2011. Infraestrutura. Serviço. [2012]. Disponível em: http://www.qedu.org.br/estado/113– minas–gerais/censo–escolar. Acesso em: 26 mar. 2014. RAJÃO, R.; RITTL, C. O agronegócio brasileiro é uma potência, mas se tornou uma ameaça. Disponível em: http://envolverde.cartacapital.com.br/o–agronegocio–brasileiro– e–uma–potencia–mas–se–tornou–uma–ameaca–diz–artigo /. Acesso em: 09 jul. 2021. RAMALHO, J. R. “Precarização do Trabalho e Impasses da Organização Coletiva no Brasil”, In: ANTUNES, R. (Org.). Neoliberalismo, trabalho e sindicatos: reestruturação produtiva no Brasil e na Inglaterra. São Paulo: Boitempo. 1998. REPORTER BRASIL. 118 agrotóxicos são aprovados durante a pandemia, liberação é ‘serviço essencial’. Disponível em: https://reporterbrasil.org.br/2020/05/96–agrotoxicos–sao– aprovados–durante–a–pandemia–liberacao–e–servico–essencial/. Acesso em: 15 out. 2021. RIBEIRO, M. Políticas públicas em trabalho, educação e tecnologia: uma história em movimento. Trabalho, Educação e Saúde, Manguinhos, v. 4, n. 2, p. 259–290, 2006. RIBEIRO, V. V. A voz camponesa: os trabalhadores rurais face ao Varguismo e ao Peronismo. 2006. Disponível em: http://www.alasru.org/cdalasru2006/17%20GT%20Vanderlei %20Vazelesk%20Ribeiro.pdf. Acesso em: 17 out. 2019. 164
RICCI, R. A CONTAG no governo de transição: um ator a procura de um texto. Caderno CEDEC, São Paulo, n.15, 1990. RODRIGUES, N. “Adeus Meninos: um discurso contra o esquecimento”, In: TEIXEIRA, I. A. C e LOPES, J. S. (Orgs). A Escola vai ao Cinema. Belo Horizonte: Autêntica. 2003. SALES, T. “Raízes da desigualdade social na cultura política brasileira”. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais. 25. 1994. pp. 26–37. SALSA, C. Árvore ‘genealógica’ dos biocombustíveis: várias gerações do etanol e tecnologias associadas”. Portal EcoDebate.. Disponível em: http://www.ecodebate.com.br/2009/09/25/arvore–genealogica– dos–biocombustiveis–varias–geracoes–do–etanol–e–tecnologias– associadas–artigo–carol–salsa/). Aceso em 15 out. 2019. SANTOS, J. C. dos. A Relação Capital X Trabalho e os Limites do Sindicalismo na Agroindústria Canavieira da Microrregião Geográfica de Presidente Prudente – SP. Revista Pegada, São Paulo, v. 12, n. 2, p. 148–157, dez. 2011. SÁTYRO, N.; SOARES, S. A infra–estrutura das escolas brasileiras de ensino fundamental: um estudo com base nos censos escolares de 1997 a 2005. Brasília, DF: IPEA, abr. 2007. (Texto para discussão, n. 1267). SAVIANI, D. PDE: Plano de Desenvolvimento da Educação: análise crítica da política do MEC. Campinas, SP. Autores Associados, 2009. (Coleção Polêmicas do nosso tempo, 99). SCOPINHO, R. A. e VALARELLI, L. Modernização e Impactos Sociais. Rio de Janeiro: FASE. 1995. SCOPINHO, R. A.; EID F.; VIAN, C. E. F. Novas tecnologias e saúde do trabalhador: a mecanização da cana-de-açúcar. Cadernos de Saúde Pública, v. 15, n. 1, p. 147–161, 1999. 165
SIAMIG. Bioenergia–Etanol–Açúcar: Associação das Indústrias Sucroenergética de Minas Gerais. Disponível em: http://www.siamig.org.br/index.php? option=com_content&task=blogcategory&id=51&Itemid=129. Acesso em 10 Dez. 2019. SIAMIG. Bioenergia –Etanol– Açúcar: Associação das Indústrias Sucroenergética de Minas Gerais. http://www.siamig.org.br/index.php? option=com_content&task=blogcategory&id=41&Itemid=125. Acesso em 10 maio. 2019. SIAMIG. Perfil da Produção. Abril de 2021. Disponível em:http://www.siamig.com.br/uploads/bbaa2b042f2fd9d8bb51ae 544661087d.pdf. Acesso em: 03 abr. 2019. SIAMIG. Safra Sucroenergética 2012/13 De Minas Gerais. 1ª Estimativa – Abril 2012. Disponível em: http://www.siamig.org.br/dmdocuments/Relatorios_Economicos .pdf. Acesso em: 13 dez. 2018. SILVA, C. M. Assentamento Rio das Pedras: O desafio para permanecer na terra de trabalho. Dissertação de conclusão de curso de graduação. Uberlândia: IG/UFU. 2002. SILVA, G. Cadeias Produtivas do Setor Sucroalcooleiro: etapas e mudanças tecnológicas em produtos e processos. 2009. Disponível em: http://prope.unesp.br/xxi_cic/27_36833900850.pdf . Acesso em: 01 jun. 2018. SILVA, L. M. O. “A Apropriação Territorial Na Primeira República”. In: História & Perspectivas. Vol. 1. N. 10. Uberlândia: EDUFU, 1994.
166
SILVA, M. & MARTINS, R. C. A modernidade da economia Junker à moda contemporânea do rural paulista: a degradação social do trabalho e da natureza. In: SILVA, M. A. de M.; Errantes do fim do século. São Paulo: Editora da UNESP, 1999. SILVA, M. A. M. e WENSKO, A. A. Trabalhadores rurais em luta pelos direitos. In: Anais do XXVI ENCONTRO ANUAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS–GRADUAÇÃO E PESQUISA EM CIÊNCIAS SOCIAIS: TRABALHO, SINDICATOS E A NOVA QUESTÃO SOCIAL. Caxambu, MG, Anais…, Caxambú, MG: ANPOCS. 2003, pp. 286–306. SILVA, M. C.; PREVITALI, F. S. Educação no campo e trabalho: um estudo das escolas municipais rurais de Uberlândia–MG. Revista HISTEDBR On–line, Campinas, SP, n. 44, p. 76–91, dez. 2011. SILVA, M. Se eu pudesse quebraria todas as máquinas. In: O Avesso do trabalho. Revista Idéias. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Universidade Estadual de Campinas, Ano 9. São Paulo: Unicamp, 2003, pp. 25–64. SILVA, M.A.M.de; MARTINS, C.R. A degradação social do trabalho e da natureza no contexto da monocultura canavieira paulista. Sociologias, Porto Alegre, ano 12, nº 24, mai./ago. 2010, p. 196–240. SIQUEIRA, P. H. L. & REIS, B. S. Determinantes de competitividade da agroindústria processadora de cana-de-açúcar no Triângulo Mineiro e no Alto Paranaíba, Minas Gerais. In: Organizações rurais & agroindustriais, ano/volume 8, número 002. Universidade Federal de Lavras: Lavras, 2006, pp. 202–215.
167
SOARES, L. T. “Desigualdade Social e Pobreza no Brasil no Contexto Latino–Americano: transição ou retrocesso”. Trabalho apresentado no Seminário A Questão Social em 500 anos promovido pela Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nov/dez. 2000. mimeo. SOUZA, L.C.; CARVALHO, E.R.; CLEPS JR, J. Impactos regionais dos assentamentos rurais: banco de dados da luta pela terra – DATALUTA XIX ENGA, São Paulo, 2009. STÉDILE, J. P. (Org.). A questão agrária no Brasil: o debate tradicional –1500– 1960. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2005. STÉDILE, J. P. (Org.). A questão agrária no Brasil. São Paulo: Atual, 1997. SZMRECSÁNYI, T. O planejamento da agroindústria canavieira do Brasil. São Paulo: HUCITEC, 1979. SZMRECSÁNYI, T.; QUEDA, O. (Org.). Vida rural e mudança social. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1979. p. 105–120. TEIXEIRA, Francisco José S. O capital e suas formas de produção de mercadorias: rumo ao fim da economia política. Revista Marxista, 10: 67–93. São Paulo, 2000. THOMAS, K. O homem e o Mundo Natural: mudanças de atitude em relação às plantas e aos animais (1500 – 1800). São Paulo: Companhia das Letras, 1988. THOMAZ JR, A. A classe trabalhadora no Brasil e os limites da teoria – qual o lugar do campesinato e do proletariado? In: Campesinato e agronegócio na América Latina: a questão agrária atual. Expressão Popular. São Paulo. 2008. Pág. 275–302. THOMAZ JÚNIOR, A. O sindicalismo rural no Brasil, no rastro dos antecedentes. Scripta Nova. Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales, Barcelona, n. 15, p.1–8, 1998. 168
TRUZZI, O. M. S. “Automação e Trabalho na Indústria Sucro– alcoólica”. In: Cadernos da Engenharia de Produção. Ano V. N. 14. 1989. pp: 262 – 286. VASAPOLLO, L. O Trabalho Atípico e a Precariedade. São Paulo: Expressão Popular. 2005. VEIGA, J. E. da. Cidades imaginárias: o Brasil é menos urbanos do que se calcula. 2. ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2003. VENDRAMINI, C. R. Educação e trabalho: reflexões em torno dos movimentos sociais do campo. Cadernos Cedes, Campinas, SP, v. 27, n. 72, p. 121–135, maio/ago. 2007. Disponível em: http://www.cedes.unicamp.br. Acesso em: 10 Abr. 2020. VIAN, C. E. F. e GONÇALVES, D. B. “Modernização empresarial e tecnológica e seus impactos na organização do trabalho e nas questões ambientais na agroindústria canavieira”. In: Economia Ensaios. Vol. 22. N. 1. Uberlândia: EDUFU, 2007. VILADESAU, T. P. El agronegocio de La soja em Paraguay – Antecedentes e impactos sociales y econômicos. In: Campesinato e agronegócio na América Latina: a questão agrária atual. São Paulo: Expressão Popular, 2008, pp. 17–44. VILELA, S. L. de O. ed. Globalização e sustentabilidade da agricultura. Jaguariúna: Embrapa–CNPMA, 1998. pp. 29–42. WANDERLEI, M. Raízes históricas do campesinato brasileiro. XX ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS. Gt 17. Processos Sociais Agrários. Caxambu, MG. Anais…, Caxambu, MG, Outubro 1996.
169
Sobre a Autora
Fabiane Santana Previtali Professora Titular na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), atuando junto ao Programa de Pós-graduação, mestrado e doutorado em Educação (PPGED) e ao Programa de Pós-graduação, mestrado em Ciências Sociais (PPGCS). Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Mestre em Sociologia e Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) com doutorado sanduíche na Universidade de Manchester com apoio Capes. Pós-doutorado em História Social pelo Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa (IHC/INL), Lisboa, Portugal, com apoio Capes. Pós-doutorado em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, São Paulo (FEUSP). Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Metamorfoses do Mundo do Trabalho, sob coordenação do Prof. Ricardo Antunes (IFCH/UNICAMP). Membro do HISTEDBR (FE/UNICAMP), sob a coordenação Prof. Demerval Saviani e Prof. José C. Lombardi pelo GT 170
História, Educação e Formação Humana (PPGED/UFU). Investigadora convidada no IHC/ UNL, junto ao e ao Grupo de Pesquisa História Global do Trabalho e dos Conflitos Sociais, coordenação de Profa. Raquel Varela. Membro da CLACSO (PPGCS/ INCIS/UFU). Coordenadora, pelo lado brasileiro, do Acordo de Cooperação Científica e Tecnológica entre o PPGCS/PPGED/ UFU e o IHC/UNL em vigência desde 2014. Consultora ad-hoc de periódicos especializados no Brasil e no exterior, de editoras e agências de fomento. Membro do corpo editorial da Navegando Editores. Membro da ANPED. Foi membro do Colegiado do PPGED/UFU e do PPGCS/UFU. Foi diretora do Instituto de Ciências Sociais (INCIS/UFU). Foi coordenadora do Laboratório de Ensino de Sociologia (LESOC). Possui livros, capítulos de livros e artigos publicados em periódicos nacionais e estrangeiros. Atua no campo da Sociologia da Educação e da Sociologia do Trabalho, pesquisando os temas: Trabalho e Educação, Trabalho Docente, Reestruturação Produtiva e Educação Básica. É pesquisadora CNPq e Fapemig/PPM.
171
A hipótese central que orientou nosso estudo foi a de que a expansão da agroindústria sucroalcooleira, no âmbito da reestruturação produtiva envolvendo inovações técnicas e/ou organizacionais e novas relações interfirmas trazia consigo uma forte recomposição da força de trabalho, envolvendo trabalhadores urbanos e rurais assalariados, assim como novas demandas para o sistema educacional regional. [...] Com os incentivos por parte do governo e o surgimento das novas tecnologias no setor sucroalcooleiro, houve um aumento na exploração dos trabalhadores rurais, que em muitas vezes trabalham em péssimas condições de trabalho. A introdução das máquinas na colheita da cana, que antes eram feitas a partir da queimada das folhas para auxiliar no corte manual, ao mesmo tempo que expulsou os cortadores manuais, intensificou o trabalho dos que permaneceram, pois os terrenos que as máquinas não conseguem fazer a colheita são geralmente mais inclinados, ou com canas de pior qualidade tornando assim o corte mais difícil. Assim, buscou–se analisar o significado das mudanças no trabalho no setor por parte dos sindicatos e quais estavam sendo suas estratégias de lutas e reivindicações uma vez que é de responsabilidade desses órgãos proteger o trabalhador no que diz respeito às relações e condições de trabalho.
Fabiane Santana Previtali