1
O TABULEIRO DAS (IM)PERTINÊNCIAS) CIÊNCIAS HUMANAS E CIÊNCIAS DE DADOS: APROXIMAÇÕES
Geraldo Tadeu Souza Teresa Mary Pires de Castro Melo Vanda Aparecida Silva Organizadores
O TABULEIRO DAS (IM)PERTINÊNCIAS) CIÊNCIAS HUMANAS E CIÊNCIAS DE DADOS: APROXIMAÇÕES 1a Edição Eletrônica
Uberlândia / Minas Gerais Navegando Publicações 2020
Navegando Publicações
www.editoranavegando.com editoranavegando@gmail.com Uberlândia – MG, Brasil Direção Editorial: Navegando Projeto gráfico e diagramação: Lurdes Lucena Arte da Capa: Thiago Melo
Copyright © by autor, 2020.
O114 – SOUZA. G. T.; MELO, T. M. P .C; SILVA, V.A.S. (Orgs.). O tabuleiro das (im)pertinências). Ciências humanas e ciências de dados: aproximações. Uberlândia: Navegando Publicações, 2020.
ISBN: 978-65-86678-33-8 10.29388/978-65-86678-33-8-0 Vários Autores 1. Ciências Humanas 2. Ciência de dados. I. Geraldo Tadeu Souza; Teresa Mary Pires de Castro Melo; Vanda Aparecida Silva. II. Navegando Publicações. Título. CDD – 300 CDU – 30
Índice para catálogo sistemático Ciências Sociais
300
SUMÁRIO O tabuleiro das (im)pertinências. Ciências humanas e ciências de dados: aproximações Geraldo Tadeu Souza - Teresa Mary Pires de Castro Melo Vanda Aparecida Silva
9
Desigualdades e políticas - o papel da ciência Kelen Christina Leite
15
"Mas tinha que respirar” - o vivido em tempos de sufocamento Viviane Melo de Mendonça
31
O desafio da humanização dos algoritmos: formações tecnológicas da sociabilidade contemporânea Dalton Lopes Martins
43
Humor (?), (não) interação e interincompreensão nos comentários do vídeo “delação” no canal “porta dos fundos” do Youtube Márcio Antônio Gatti
67
Proliferação de invenções em espaços circunscritos Luciana Salazar Salgado
81
Sobre os autores
97
O TABULEIRO DAS (IM)PERTINÊNCIAS CIÊNCIAS HUMANAS E CIÊNCIAS DE DADOS: APROXIMAÇÕES* O pequeno livrinho que lhes apresentamos é uma das manifestações da força da natureza, porque desafia as probabilidades de vir a ser possível, de vir a ser pertinente e, por isso, talvez, para alguns, é uma obra da (im)pertinência. Então, deixamos o convite para uma leitura que se pode agarrar por qualquer ponto, qualquer lugar (do meio para o fim, do fim para o começo). Os textos que se encontram aqui reunidos originam-se das apresentações e diálogos dos respectivos autores durante o Seminário Ciência, Políticas e Metodologias de Pesquisa: diálogos Brasil e Portugal 1, ocorrido nos dias 07 e 08 dezembro de 2017, nas instalações do Núcleo ETC da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em Sorocaba. O referido evento contou com apoio financeiro da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e teve por objetivo tratar de questões relacionadas às pesquisas em Ciências Humanas e sua colaboração na análise e elaboração de políticas públicas, assim como os desafios e conquistas metodológicas de integração entre essa área e a utilização de dados armazenados, produzidos e sistematizados em meios digitais. Pretendia-se contribuir, também, com o debate público sobre metodologias qualitativas e/ou quantitativas e suas implicações políticas e científicas na produção de sentido na perspectiva interdisciplinar. Assim, o Seminário promoveu o diálogo entre pesquisadoras e pesquisadores brasileiros do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Tecnologia (NEPeTeCS) e da Linha de Pesquisa em “Educação, Comunidade e Movimentos Sociais – do Programa de Pós-Graduação em Educação – da UFSCar; do Mestrado em Comunicação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC), e do Laboratório de Políticas Públicas Participativas (L3P) DOI- 10.29388/978-65-86678-33-8-0-f.9-14 As falas, transformadas em texto, estão disponíveis em <https://www.youtube.com/ channel/UCP14PffMrZOG9rZkXS4C0_g/videos>, Acesso em: 10 out. 2020. *
1
9
da Universidade Federal de Goiás (UFG); do Grupo de Pesquisa COMUNICA da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar - São Carlos) e do Observatório das Desigualdades / CIES – IUL (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa). O Seminário contou com a presença do sociólogo português Dr. Renato Miguel do Carmo, assim como do pesquisador João Maricatto, da UnB. Nesta obra, porém, eles estão presentes através das menções, referências dialógicas dos autores que trazem experiências já realizadas ou em andamento de utilização de metodologias nessa nova interface, a qual tem recebido diferentes nomes como Humanidades Digitais, Ciência das Redes, Sociologia Digital ou Ciência de Dados. Nós preferimos a última denominação, Ciência de Dados. Veremos adiante essa “caixa secreta” que orienta as nossas escolhas cotidianas no texto-fala do pesquisador Dr. Dalton Martins2, maior ênfase acerca dessa aproximação entre as Ciências Humanas e a necessidade de um debate público sobre a construção dos algoritmos. Então, talvez seja agora, o momento de começarmos a tratar de alguns desconfortos da aproximação entre as Ciências de Dados e as Ciências Humanas. Historicamente, as Ciências Humanas têm colaborado para a construção da sociedade, não apenas pela compreensão e análise dos contextos e relações humanas, mas pela contribuição para elaboração de dispositivos de melhoria desses contextos e relações. Desde que diversas disciplinas dessa área – a exemplo da Sociologia, Psicologia, Comunicação, Linguística e Antropologia – passaram a se debruçar mais fortemente sobre as questões das desigualdades e suas relações com direitos de minorias, suas contribuições tornaram-se fundamentais para a construção de indicativos de políticas públicas que atendam a essas minorias, de modo a torná-las visíveis. Não obstante, no contexto atual da sociedade brasileira, vê-se reacender o debate sobre a não pertinência dessas ciências, justamente por serem elas as que causam incômodo ao descortinar os problemas estruturais da situação atual do Brasil. E agrava-se mais quando as análises re2
MARTINS, D. O desafio da humanização dos algorítimos – Dalton Martins. 2018. (1h33m06s). Youtube. Disponível em <https://www.youtube.com/watch? v=WZnchhKx7k4> Acesso em: 10 out. 2020. 10
velam cenários de crises profundas, no âmbito social, político, econômico e na saúde; identificando coisas que deveriam ser insuportáveis, um dos principais desafios dos séculos XX e XXI: o abismo de desigualdades, em condições humanas, entre ricos e pobres, por exemplo. Por ocasião do Seminário, no contexto da criação das falas-textos que vieram a público, os/as autores/ras viram-se diante da iminência de uma drástica mudança da governança nacional. Textos-falas escritos no âmbito de uma transição no plano político - de um governo de esquerda, o Partido dos Trabalhadores (PT), para um de centro, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Naquela ocasião, já se anunciava o temor da assunção de uma retomada de ideias e práticas sob inspirações fascistas. A palavra (im)pertinente, porém, esteve muito presente nos discursos que serviram de conteúdo para as reflexões do pesquisador Márcio Antônio Gatti e da pesquisadora Luciana Salazar Salgado. Estávamos vivendo um marco na história do mundo democrático brasileiro após o traumático e despótico processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores. O texto da socióloga Kelen Cristina Leite 3vem nessa direção de abordagem, já que retoma e reatualiza a perspectiva marxista sobre a acumulação de capital concentrado nas mãos de poucos, consequentemente conduzindo à concentração de renda e de riqueza para alguns. A fala-texto da pesquisadora questiona a ilusão liberal acerca da acumulação de capital juntamente com o desenvolvimento tecnológico e científico enquanto onda capaz de impulsionar todos (os pobres) ao patamar do tão ambicionado desenvolvimento (ou será ao “progresso”?). A pesquisadora traz vários questionamentos em torno das desigualdades, das políticas e do papel da ciência em perspectiva interdisciplinar e multidimensional, retomando a fala de Renato Miguel do Carmo a partir dos indicadores do Observatório das Desigualdades de Lisboa, para abordar essas questões. Além disso, reflete sobre o lugar político-científico da universidade pública na ampliação das pesquisas e necessidade de seu financiamento público em tempos de polarização política radical. 3
LEITE, K. Desigualdade e Políticas: O Papel da Ciência - Kelen Leite. 2018. (48m11s). Youtube. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=C76b0VxIe-A> Acesso em: 10 out. 2020. 11
Deverá a ciência sempre dar respostas? A ciência é certeza? Acalmemos os sentidos, é preciso respirar, nos dirá a pesquisadora Viviane Melo de Mendonça. Em seu texto, Viviane parte da memória e, na escrita analítica e sensível, fundamenta ausências a partir da escrita de cura na teoria. Seu texto nos fala sobre a relação entre a potência da memória e o sufocamento político-social do mundo contemporâneo a partir do campo dos estudos (neo)materialistas e feministas sobre respiração, embora ainda de modo inicial e breve, diz a autora, acompanhando sua escrita do canto de Maria Bethânia e da arte de Adriana Varejão, emoldurada pelo YouTube e a linha do tempo do Twitter. Essa urgência de buscar um outro mundo possível e respirável, encontra eco no texto-fala de Dalton Martins 4 “O desafio da humanização dos algoritmos: formações tecnológicas da sociabilidade contemporânea”, que introduz no debate conceitos como “discriminação algorítmica” e a necessidade de bases de dados para treinamento dos algoritmos que sejam inclusivas e debatidas publicamente. A reprodução de preconceitos e estereótipos pelos algoritmos do Facebook e do Google no mundo da pós-verdade e das fake-news exigem novas metodologias e conceitos interdisciplinares para ampliação do debate político em torno das decisões algorítmicas que nos afetam o cotidiano política e cientificamente. Para não dizer que o livrinho não fala de humor nem que seja com interrogação contemporânea entre discursos “mortadela” e “coxinhas”, Márcio Gatti5 retoma o debate público presente em comentários ao vídeo “Delação” do canal “Porta dos Fundos” do YouTube. Recorrendo aos conceitos da Análise do discurso de intercompreensão generalizada, analisa a polarização política produzida no polêmico vídeo de humor e a impossibilidade de uma compreensão. No “diálogo de surdos”, só há espaço para uma “coexistência no dissenso”. Essa coexistência e pluralidade de discursos é da ordem da democracia e da cultura no plural. Luciana Salazar Salgado termina os limi4
MARTINS, D. O desafio da humanização dos algorítimos – Dalton Martins. 2018. (1h33m06s). Youtube. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch? v=WZnchhKx7k4>. Acesso em: 10 out. 2020. 5 GATTI, M. Discursos e culturas digitais. 2018. (23m27s). Youtube. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=rLojBNiip50>. Acesso em: 10 out. 2020. 12
tes deste livrinho com mais uma potente reflexão sobre a produção de sentidos, interações, intercompreensão, pelos dispositivos digitais e sua relação com a instituição discursiva. A partir de uma apropriação não consentida do poema Viva Vaia6 de Augusto de Campos por uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo acompanha a proliferação de invenções e de novos sentidos em espaços circunscritos a diferentes dispositivos digitais, reverberando questões de autoria, objeto poético, ética e política. Todos os textos-fala e debates sobre metodologia de pesquisa e interdisciplinaridade, aqui reunidos, são parte de um projeto de construção de um mestrado interdisciplinar em Estudos da Condição Humana, que foi aprovado em 2019 e que continua na grande área da “Condição Humana na Contemporaneidade” e em duas linhas de pesquisa, “Sujeitos de discurso, narrativas e mobilidades” e “Desigualdades e Diferenças no Contemporâneo”, nas pesquisas de sua primeira turma de mestrandas(os). Se é certo que vamos fazendo a história através de sucessivos impactos, por vezes, violentos, tal como a sucessão de catástrofes que nos legou o período do nazismo, a contemporaneidade nos confronta com os fortes choques desencadeados pela pandemia do novo coronavírus, dentre outros. Dos muitos sentimentos que tal experiência nos causa, da perplexidade à ansiedade pela urgência de uma solução para que possamos nos ver menos vulneráveis às causas da doença (COVID-19); da percepção de que estamos impotentes querendo se desvencilhar da responsabilidade para com aqueles que coabitam o mundo, permanecendo na indiferença; aprendendo a estar morto, no dizer de Palomar de Ítalo Calvino, ou, talvez, mais interconectados, mais interdependentes e atentos a aprender a estarmos vivos e respirando...
Geraldo Tadeu Souza Teresa Mary Pires de Castro Melo Vanda Aparecida Silva7 6
CAMPOS, A. dos. Viva vaia: poesia 1949-1979. São Paulo: Ateliê Editorial, 2014. As duas edições do Seminário Ciência, Políticas e Metodologias de Pesquisa: diálogos Brasil e Portugal estão disponíveis em <https://seminariocienciapoliticametodologia.wordpress.com/>. Acesso em: 10 out. 2020. 7
13
DESIGUALDADES E POLÍTICAS - O PAPEL DA CIÊNCIA* Kelen Christina Leite1 Eu gostaria de começar dizendo que algumas, ou muitas das coisas que preparei, já foram levantadas e trabalhadas pelo Renato em sua fala, deste modo talvez eu só cite algumas coisas para pontuar o pensamento, mas eu não vou entrar nos detalhes porque as coisas já foram ditas e muito bem ditas por ele. Esse Seminário Ciência, Políticas e Metodologias de Pesquisa: diálogos Brasil e Portugal se coloca, por objetivo, tratar de questões relacionadas às pesquisas em Ciências Humanas e sua colaboração na análise e elaboração de políticas e, sobretudo, de políticas públicas; assim como os desafios e conquistas metodológicas de integração entre essa área e à de utilização de dados, de dados armazenados, que são produzidos e sistematizados em meios digitais. A descrição do evento ressalta, ainda, que, desde que diversas disciplinas dessa grande área – a exemplo da Sociologia, Psicologia, Comunicação, Antropologia – passaram a se debruçar mais fortemente sobre as questões das desigualdades e suas relações com os direitos de minorias, suas contribuições tornaram-se fundamentais para a construção de indicativos de políticas públicas que atendam a essas minorias. Assim, as questões e os dados de desigualdade social e espacial, capital social, mobilidade, estudos urbanos e rurais, gênero e sexualidade, direito à comunicação, relações de trabalho, relações intergeracionais e outras têm recebido a atenção interdisciplinar da área de humanas também no sentido de analisar as políticas públicas existentes e/ou trazer novos dados para elaboração de novas políticas.
DOI- 10.29388/978-65-86678-33-8-0-f.15-30 LEITE, K. Desigualdade e Políticas: o Papel da Ciência - Kelen Leite. 2018. (48m11s). Youtube. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=C76b0VxIe-A>. Acesso em: 10 out. 2020. *
1
15
Por outro lado, as Ciências Humanas, como qualquer outra área do conhecimento, têm suas fronteiras cada vez menos delimitadas, recebendo a contribuição de outras áreas. Ao se pensar a pesquisa e suas metodologias, torna-se cada vez mais comum utilizar dados, metodologias e técnicas das ciências de dados. Assim, as disciplinas da área de exatas trazem subsídios para novas formas de fazer pesquisa na área de humanas, encontrando-se em um ponto de intersecção entre esses grandes campos do conhecimento. Acrescentaria, ainda, que muito também se tem feito com a grande área das ciências naturais. Deste modo, este evento pretende oportunizar o diálogo entre as áreas, assim como apresentar experiências realizadas ou em andamento situadas nessa interface para serem debatidas de modo interdisciplinar, reforçando a emergência de se enfrentar os desafios que as pesquisas afrontam na sociedade contemporânea, especialmente se considerarmos os contextos das dinâmicas sociais e suas permeabilidades. Assim, a proposta desse seminário abre um leque de possibilidades quase infinitas para a discussão; é uma proposta muito ambiciosa, um longo programa de pesquisa. No entanto, cabe-nos, aqui nesta mesa, discutir: “Desigualdades e Políticas: o papel da Ciência”. Entendo que, embora um pouco menos vasta que a proposta geral do evento, ainda assim temos um debate que abrange vários temas, vários conceitos e perspectivas diversas sobre: desigualdade; ou seja, o que se entende por desigualdade? Quais são seus componentes? Quais são as variáveis determinantes? A desigualdade é aqui pensada em termos relativos e/ou absolutos? Sob qual perspectiva pensaremos a desigualdade? Liberal? Progressista? Conservadora? Comunitarista? A partir da esquerda, da direita? Enfim… são inúmeras as possibilidades. Nossa mesa deve, ou deveria, falar também sobre políticas e sobre ciência, ou seja, deveríamos articular esses termos para situar o que são desigualdades e como estão dadas as desigualdades sociais, econômicas, políticas, as diferenças culturais que, por sua vez, produzem e/ou reproduzem desigualdades e tantas outras questões. Se pensarmos a política, outro tema proposto para essa mesa, devemos pensar, antes de qualquer coisa, o que entendemos por política, palavra que hoje, no Brasil e não apenas, está desgastada, questionada, con16
denada etc. Mas o que é a política e o que existe, se é que existe, fora da política? Por fim, o outro termo da proposta dessa mesa é ciência, mais uma vez um tema vastíssimo: o que entendemos por ciência? O que entendemos sobre seus métodos, suas metodologias, sobre sua: objetividade; verificabilidade; falseamento; racionalidade; falibilidade, seus paradigmas, suas revoluções científicas, ou seja, apenas citando esses nove termos já estaríamos discutindo distintas perspectivas sobre o que é e o que não é ciência e, por fim, teríamos que nos ater às ciências humanas; portanto, um outro campo vasto de discussões. Assim, confesso, encontrei-me em meio a um certo desespero sobre o que falar neste seminário. Deste modo, eu resolvi organizar uma fala que se articula muito mais a partir de vários questionamentos e, possivelmente, nenhuma resposta específica em torno das desigualdades, das políticas e do papel da ciência nestas questões. Então, partindo de alguns autores e autoras, como Rosi Braidotti, Donna Haraway, dentre outras e outros, por exemplo, seria interessante nos indagarmos se sempre fomos humanos. Quando estamos pensando a questão das ciências humanas, o que é esse humano de que tanto falamos? O que é a condição humana, e o que seria uma condição póshumana – aliás, isso tem a ver com a proposta que o Márcio falou no início, a proposta desta Pós-Graduação Interdisciplinar que estamos elaborando. Para essas autoras, então, a questão que se coloca é que, ainda hoje, 2017, alguns de nós não somos considerados completamente humanos, ainda que, desde o iluminismo se tentasse colocar o sujeito cartesiano, racional, cidadão no centro do debate, construindo, desse modo, a noção de direitos e aqui, especificamente, gostaria de centrar na construção dos chamados direitos humanos dentro, evidentemente, dos limites postos pela própria sociedade burguesa, pela sociedade capitalista, pois é desta sociedade, e a partir desta sociedade, que nós estamos falando. Assim a própria noção e construção de direitos e da definição do humano é pautada por esse modo de organizarmos a produção e a reprodução da vida social, ou seja, falaremos dentro desses limites. Assim, esses termos (humano, direitos etc) parecem ter sido aceitos e “consensuados”, ainda que sempre tenha havido um abismo entre 17
as definições abstratas e a concretude da vida cotidiana. Se tivermos presente, por exemplo, a imagem do Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci, temos a demonstração deste paradigma do humanismo que sempre colocou no centro do debate o humano, entendido esse humano como o homem universal, com uma determinada representação, com uma determinada perfeição, essa representação, aceita pela sociedade, aceita pela ciência, aceita pela academia, aceita pela igreja, e esse humano que está no centro de tudo e é a medida de todas as coisas, quem é? Quem é esse humano medida de todas as coisas? Essa pergunta é importante, pois isso tem a ver com as desigualdades, pois esse humano é um homem, um homem racional, branco, europeu, colonizador, conquistador, heterossexual, ou seja, o homem, ou aquilo que é o humano e que é tomado como medida de todas as coisas. É esse homem bem específico, bem definido e não outro. Portanto, a partir daí, já podemos perceber como isso dará o contorno para várias dimensões da e sobre a desigualdade. O Renato, que antecedeu a minha fala, tocou, por exemplo nas desigualdades de gênero que também são multidimensionais, assim, a imagem desse homem universal, pode e deve ser absolutamente questionada, uma vez que ela não representa a humanidade, uma vez que, na concretude, na materialidade da vida cotidiana, uns parecem ser mais humanos do que outros ou outras, e por quê? Porque a diferença acaba sendo transformada em desigualdade e em inferioridade, e essa é uma das questões, ou uma das marcas da diferença quando transformada em desigualdade de corpos que são necessariamente sexualizados, racializados, naturalizados, empobrecidos, generificados, reduzidos a um standard, desses do tipo uso e jogo fora ou, como diria Butler, dos corpos que não importam. Portanto, esse homem ou esse humano universal repleto de interesses de classe, sexo, raça, gênero e genoma deve ser questionado, deve ser interpelado. São aqueles os corpos descartáveis? Nesses termos, esse homem, esse humano, pensado a partir desta perspectiva precisa e deve ser questionado, ele precisa ser descentrado, assim esse paradigma que podemos até entender como um paradigma eurocêntrico, mas que também nos constitui e coloniza nosso pensamento, implica a dialética entre eu e o outro, bem como a lógica da identida18
de, atuando como motores de uma lógica cultural de um certo humanismo universal. Então, o que é central para este paradigma universalista e para esta lógica binária - o zero/um ao qual se refere o logo do seminário – é, portanto, a noção da diferença, entendida no sentido aqui colocado, no sentido pejorativo, uma vez que ela assume muitas vezes o sentido da inferioridade, assume conotações que são conotações essencialistas e que são, na verdade, letais do ponto de vista das pessoas que são marcadas como sendo as outras, as diferentes. Podemos até voltar a Beauvoir, que se referia a esse outro, a esse segundo sexo como a “outrice”, mas podemos pensar esse outro em várias escalas e não apenas pensando a questão de gênero. Então essas são as questões que traremos e são os questionamentos colocados no centro do debate, por exemplo, pelos chamados novos movimentos sociais das décadas de 1960/70 e que questionavam aquilo que estava posto também nas ciências humanas, os paradigmas, os pensamentos e o modo de olhar as coisas. Passa a estar presente na discussão o anticolonialismo, o antirracismo, as questões ecológicas, então, cabe às ciências humanas o papel de tentar realizar e aprofundar estes questionamentos e, a partir deles, reinventar-se, repensar-se, recolocar-se, realocar-se, reassentar-se, e isso já vem sendo feito, seja pelos questionamentos de estudos que percorrem os caminhos da pós-colonialidade, dos estudos feministas, do novo materialismo, do neomarxismo, do pós ou trans-humanismo, enfim, há pessoas e grupos que estão colocando estas questões no centro do debate e estão tentando olhar para elas a partir de perspectivas distintas, de perspectivas diversas. O Renato também apontou que as questões de classe, por exemplo, no final dos anos de 1980, mas sobretudo nos anos 90, também foram muito questionadas, como se esse conceito e conceitos ligados a essa perspectiva não conseguissem mais dar conta de explicar a realidade, e ocorre um certo esvaziamento do conceito e uma certa despolitização daquilo que está sendo pensado, produzido e discutido. Mas se percebe também que, nos últimos anos, há um olhar um pouco diferente quanto a estas categorias e esses conceitos, os quais precisam ser (re)utilizados, 19
(re)propostos, retomados, porque eles ainda dão conta de um aspecto importante da realidade, embora eles não expliquem toda a realidade. Nessa perspectiva, em relação às desigualdades, faz-se importante ressaltar que a desigualdade não é um termo absoluto. Ela sempre se coloca em relação a alguma outra coisa. É, portanto, um termo relacional que assume valência diversa em tempo e espaços também diversos. A distribuição de riqueza, por exemplo, deve ser pensada desse modo e, sobre isto, persistem, pelo menos, duas visões que são contrapostas ou antagônicas: uma visão mais ligada à tradição marxiana e/ou marxista que pontua o fato de que a acumulação de capital nas mãos de poucos pode conduzir, inevitavelmente, à concentração da renda e da riqueza e, portanto, essa concentração é geradora de desigualdade que tende a ser sempre maior. Outros, por uma vertente liberal, entendem que o desenvolvimento econômico – a acumulação de capital – juntamente com o desenvolvimento tecnológico e científico são capazes de, como uma onda, elevar a todos. Claro que existe muita coisa entre essas duas posições, mas que não nos cabe abordar aqui. Assim, se tivemos breves períodos na história como os chamados 30 anos gloriosos do capitalismo, marcados pela construção do welfare state, sobretudo para os países ditos centrais em que a onda foi, medianamente, capaz de elevar muitos ou alguns. É bom frisar que esse foi apenas um breve período, um curto período na história que entra em crise a partir dos anos de 1970 em que esse modo de regulação fordista-keynesianista, calcado em uma política de compromisso entre capital e trabalho mediado pelo Estado se rompe. E vemos esse estado social: este estado protetor sendo questionado em seus pressupostos e as políticas neoliberais sendo introduzida, enfraquecendo estas estruturas. Isso significa que existem estruturas profundamente desiguais que sustentam o capitalismo, assim, ele produz desigualdades que ameaçam e colocam em xeque o próprio conceito da meritocracia sobre o qual se fundam as chamadas e autorreferenciadas sociedades liberais e democráticas. Há quem acredite e sustente, no entanto, que a “democracia pode retomar o controle do capitalismo e assegurar que o interesse geral da 20
população tenha precedência sobre os interesses privados, preservando o grau de abertura econômica e repelindo retrocessos protecionistas e nacionalistas”. Quem parte desta perspectiva é Thomas Piketty, um economista francês que publicou um livro cujo título, um pouco audacioso, é: O Capital no século XXI. Em muitos lugares foi aclamado quase como o novo Marx, como se pudesse simplesmente existir um novo Marx em termos reformistas, um Marx colocado em termos de uma social democracia. Ainda que haja uma escassez de dados para projetarmos séries históricas e entendermos melhor a dinâmica da desigualdade, sobretudo econômica, Piketty trouxe à luz, por exemplo - a partir do trabalho que ele desenvolveu conjuntamente com muitos outros pesquisadores - que foi necessário esperar o último terço do século XIX para observar um aumento do poder de compra dos salários, enquanto o capital só aumentava tremendamente sua fatia na renda nacional. Os dados por eles coletados indicam que não houve nenhuma redução estrutural da desigualdade antes da IGM. De 1870 a 1914 o que ocorreu foi uma estabilização da desigualdade em nível elevado e, em vários casos, a desigualdade foi acompanhada de uma concentração cada vez maior da renda e da riqueza. Desse modo, a questão da desigualdade sempre foi um tema presente e voltou com força a partir da crise dos anos de 1970, período a partir do qual a desigualdade volta a aumentar também nos países ricos, sobretudo nos EUA, país em que, na primeira década do século XXI, a concentração de renda atingiu, na verdade excedeu, o nível recorde visto nos anos de 1910-1920. Pode-se dizer que, no início do século XXI, estamos nos mesmos termos em que nos encontrávamos no século XIX: transformações impressionantes ocorrendo com velocidade, mas não sabemos em que direção irão e que rumo tomará a distribuição de renda. As questões que precisam ser colocadas no centro do debate parecem retomar as questões dos velhos socialistas utópicos, ou seja, de que serve o desenvolvimento industrial – e, hoje, não apenas esse; de que servem as inovações tecnológicas, a biotecnologia, a nanotecnologia, a realidade aumentada, a biogenética, os deslocamentos populacionais? Se 21
a cabo de meio século de crescimento da indústria a situação das massas continua tão miserável quanto antes, e se tudo que o Estado pode fazer parece ser proibir que crianças menores de oito anos trabalhem nas fábricas. Todos esses avanços presentes nas sociedades não conseguiram resolver, minimamente, as questões das desigualdades, na verdade, esses avanços tecnológicos podem, dependendo da política que se adote, aumentar e reproduzir ainda mais as desigualdades. Aqui neste seminário, estamos falando de métodos e metodologias, nesse sentido, o livro de Piketty traz uma contribuição importante, pois ele conseguiu unir um grupo grande de pesquisadores – para além das problemáticas específicas, pois os países dimensionam estas coisas de modos diferentes, então não é tão simples conseguir comparar os dados e etc –, que conseguiram trabalhando sobre duas fontes principais: uma série de dados que lida diretamente com a desigualdade e a distribuição de renda; e uma outra série de dados que lida com a distribuição da riqueza e a relação entre riqueza e renda. Suas conclusões, no entanto, não poderiam ser outra senão atestar que a [...] evolução dinâmica de uma economia de mercado e de propriedade privada, deixada à sua própria sorte, contém forças de convergência importantes, ligadas, sobretudo à difusão do conhecimento e das qualificações, mas também forças divergentes vigorosas e potencialmente ameaçadoras para nossas sociedades democráticas e para os valores de justiça social sobre os quais elas se fundam. A desigualdade faz com que os patrimônios originados no passado se recapitalizem mais rápido do que a progressão da produção e dos salários. Aqui há uma contradição lógica fundamental. O empresário tende inevitavelmente a se transformar em repentista e a dominar cada vez mais aqueles que só possuem sua força de trabalho. Uma vez construído, o capital se reproduz sozinho, mais rápido do que cresce a produção. É como se o passado devorasse o futuro (PIKETTY, 2015, p. 555).
É também devido a questões como essas que, como já ressaltado anteriormente nesta mesa, temos a proposta da reforma da previdência 22
sendo pautada nos termos em que está sendo pautada, além do que já ocorreu com a reforma, ou melhor, com o ataque, o desmonte, a contrarregulação do trabalho nesse país, promovida pelo atual governo. Por exemplo, eu estava vendo uma notícia que pedagogos já estão sendo contratados via contrato intermitente de trabalho por R$ 5,28 reais a hora trabalhada, e apenas a hora trabalhada. Isso faz parte deste processo. Nesse sentido, se olharmos, por exemplo alguns indicadores dos Estados Unidos, percebemos que muitos deles encontram-se no mesmo nível de indicadores dos países em desenvolvimento. O relatório mais recente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) indica que a expectativa de vida dos americanos é de 79,2 anos. Esse dado coloca o país como o 40º do mundo, atrás de um conjunto de países desenvolvidos, mas também de alguns países latino-americanos, como Chile, Costa Rica e Cuba. No Brasil, a expectativa de vida é de apenas cinco anos menos do que a dos EUA, ou seja, 74,7 anos. Com isso percebemos o quanto estas diferenças, estas desigualdades estão postas também no interior dos países ditos centrais ou desenvolvidos. E, quando desagregamos esses dados, ou a partir deles trabalhamos as várias dimensões que esses dados possuem, encontramos outras questões relevantes também, pois esse mesmo estudo do PNUD sobre a expectativa de vida nos Estados Unidos, por exemplo, vai dizer que o homem branco com educação universitária tem uma expectativa de vida de 80 anos, enquanto o homem afro-americano com baixa escolaridade tem uma expectativa de 66 anos. Então, no interior do próprio país, há uma expectativa de vida para um contingente dessa população que é de 66 anos, enquanto para outro contingente da população a expectativa de vida é de 80 anos. No Brasil, temos disparidades em relação à questão regional, mas também disparidades relacionadas à raça/etnia. O IBGE destaca um pouco a diferença de expectativa de vida entre as regiões do país. Mas, se entrarmos nessas regiões do país, perceberemos ainda uma série de diferenças em relação à expectativa de vida, ou, ainda, percebermos as diferenças a partir dos indicadores de cor, sexo e domicílio. A partir desses dados, percebemos o quanto a questão de gênero e a questão de raça/etnia, além de considerar os dados referentes ao es23
paço urbano e espaço rural, geram diferenças, ou melhor, desigualdades enormes entre as regiões do país. A renda, por exemplo, é bastante diferente, sobretudo para a população negra, o índice de Gini também demonstra essas disparidades. Os números sobre mortalidade infantil, neste mesmo estudo do PNUD para os EUA, por exemplo, traz uma situação que o coloca ao lado de vários países em desenvolvimento e tantos outros dados relacionados a eles. Em relação ao número de crianças que morrem por mil nascidos vivos, temos uma média de 5,6 nos EUA. Isso coloca esse país no 44º lugar do mundo, novamente superado pelos países ricos como um todo, bem como por Cuba, Bósnia e Croácia, mas, quando se desagrega os dados e olha-se para a questão dos afro-americanos, os dados são outros, ou seja, sobe para 46 por mil nascidos vivos, dados que aproximam os EUA a países como Togo e Ilha de Granada. A mesma coisa acontece no Brasil, quando desagregamos os dados encontramos sempre a população negra do país em situação pior que a população branca. Eu havia preparado, ainda, dados em relação à pobreza infantil, segurança pessoal, educação e outros, mas como isso já foi abordado pelos colegas que me precederam eu deixarei de lado e tentarei pensar com vocês algumas questões relacionadas especificamente ao Brasil. O Brasil sempre se caracterizou por ser um país rico e com uma grande quantidade de pessoas vivendo na pobreza e na miséria, ou seja, o Brasil nunca foi um país pobre, mas sempre foi um país de muitos pobres. Daí o slogan tão criticado, mas tão acertado a meu ver, da Presidenta Dilma, cujo mandato popular se encerraria em 2018, quando ela diz que: “país rico é país sem pobreza”, esse foi um slogan absolutamente questionado, mais que questionado, ridicularizado, quando, na verdade, ele é um slogan de um governo que diz a que veio, porque de fato, país rico deveria ser um país sem pobreza, um país sem pobres. Então, como podemos falar de um país que está entre as dez maiores economias do mundo, chegando a ser a quinta economia do mundo no período Lula/Dilma e, no entanto, colocá-lo como um dos países mais desiguais do planeta? Essa pobreza escandalosa de nosso país relaciona-se com nossa história marcada pelo colonialismo, pelo patrimonialismo, pelo pensamento oligárquico de uma elite misógina, racista, sexista, classista que ja24
mais foi capaz de pensar o desenvolvimento do capitalismo no país associado a bens sociais para a população. Uma elite que jamais conseguiu pensar as políticas públicas enquanto aquelas que deveriam estar voltadas ao bem-estar da população, pois, neste país, as questões sociais sempre foram caso de polícia e não caso de política. Foi apenas nos últimos anos, contrariamente ao que está ocorrendo em Portugal, hoje que - não sem enormes contradições e enormes equívocos, mas estas contradições e estes equívocos também são fruto da nossa história - tivemos políticas públicas que tentaram minorar esta dimensão da desigualdade, não apenas com políticas assistenciais, mas com políticas que pretendiam alterar estruturalmente o estado de coisas em um país tão rico como o Brasil que figura, a depender das contingências, entre a décima e a quinta economia do mundo, e tão pobre ao mesmo tempo. Ainda que a desigualdade tenha diminuído de 2002 até o golpe palaciano e parlamentar impetrado contra o mandato da Presidenta Dilma, ela ainda permanece em níveis inaceitáveis. Seriam necessárias décadas de políticas públicas voltadas a essas questões para vermos um país um pouco diferente. A desigualdade, no entanto, deve ser entendida sempre como um fenômeno que é multidimensional, é relacional, é generificada, racializada etc. Podemos, para ter uma ideia, partir da dimensão mais evidente da desigualdade que poderia ser destacada pelo Coeficiente de Gini, que aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e mais ricos e demonstra, portanto, a desigualdade de renda. Então, se pegarmos o índice de Gini para o Brasil a partir de 1995, percebemos que o país veio, ano a ano, tendo uma queda da desigualdade, uma queda pequena, mas é uma queda importante, e ela trazia um pouco a ideia de um certo ânimo em relação a esses dados, no sentido que víamos uma queda crescente, porque parecia que era uma tendência que se poderia manter no tempo. Olhando para dados que são um pouco anteriores ainda e vão até 2014, podemos separar um pouco os distintos governos, ou seja, o governo Itamar, o governo Fernando Henrique, o governo Lula e o governo Dilma, e percebemos essa queda crescente e mais acentuada a partir do governo Lula. Mas o que mais vemos aqui? 25
Se voltarmos um pouco para algumas décadas atrás, vamos perceber que em janeiro de 2012 estávamos no mesmo nível de desigualdade que estávamos em 1960, logo, o país, nestes últimos anos, avançou nesta direção, porém nos colocou em um patamar da década de 1960, e o mais grave nesse sentido é que, agora, não vemos mais a possibilidade que aquela queda volte a ocorrer com as políticas que estão colocadas na mesa por esse governo; pelo contrário, as políticas que estão postas hoje para o país são políticas que vão acentuar esta desigualdade. Uma coisa interessante, também, é que, se olharmos para esses dados e pegarmos as análises ou as conclusões do Piketty, perceberemos que nos colocar no patamar da década de 1960 é um pouco a perspectiva que existe também de alguns dados que são dados globais. Então, os dados que trazemos, sobretudo a partir dos dados PNUD sobre o coeficiente de Gini, coloca o Brasil nas piores posições. São poucos os países que estão piores do que nós. Assim, os dados mostram a assertividade da Presidenta Dilma com seu slogan: país rico é país sem pobreza, pois embora tenhamos sido, em seu período, a quita economia do mundo, estamos também entre os dez países que possuem a pior distribuição de renda. Embora esse índice nos ajude a ter uma visualização e estabelecer comparações com outros países, ele apresenta um problema que é olhar um único aspecto, ou seja, a renda monetária. Porém, considerando esse índice, os dados mostram, claramente, uma queda na desigualdade de renda no período de 2002 a 2015. Entre 1980 e 2001, o Coeficiente ficou estagnado no elevado patamar de 0.59, caindo em 2015, ao nível mais baixo da história, ou seja, 0.49. Ainda em relação à avaliação de renda, por exemplo, o que temos entre 2002 e 2015, é um sinal e reflete a queda da desigualdade que podemos perceber por esses dados, aqui comentados, e das políticas públicas que estavam voltadas a uma parcela específica da população. Percebemos, assim que o aumento da renda dos 20% mais pobres foi bem maior que o aumento da renda dos 20% mais ricos, por exemplo, e aqui estamos falando apenas de assalariados. Porém, outros dados são importantes para uma análise da desigualdade. O salário mínimo, por exemplo é um deles e teve, nos últimos 26
anos, aumentos reais. Teve-se formalização do mercado de trabalho, incorporação dos mais pobres ao orçamento federal etc. Esses são apenas, rapidamente, alguns dados que nos situam quanto às questões da desigualdade. Não temos tempo aqui, mas recentemente saiu um estudo tratando especificamente da desigualdade levando em conta outros elementos importantes para qualificar melhor a desigualdade que tem a ver com acesso a bens de consumo, infraestrutura, saúde, educação, habitação etc. Eu gostaria de falar um pouco, especificamente, sobre a questão das universidades. As falas iniciais deste Seminário também tiveram um tom de protesto, de repúdio àquilo que vem acontecendo com as universidades brasileiras, sobretudo com as universidades federais. Então, o último elemento que eu gostaria de colocar, de ressaltar e trazer para o debate, diz respeito à questão da ciência e da tecnologia. Tivemos, nos últimos anos, um investimento vultuoso que trouxe melhoria em vários índices para o país, associado a um investimento nas universidades federais que haviam sido absolutamente sucateadas, asfixiadas, chegando à beira da privatização no governo do presidente, sociólogo, professor, pesquisador universitário, senhor Fernando Henrique Cardoso. O resultado desse período é que, hoje, temos 63 Instituições Federais de Ensino Superior que vinculam 328 campi espalhados pelos país todo, o campus Sorocaba da UFSCar é fruto desta política iniciada pelo Presidente Lula. Além do ensino de graduação, dos programas de mestrado e doutorado, para cerca de um milhão e duzentos mil alunos, as universidades federais são, também, responsáveis por uma rede de equipamentos públicos e de serviços que atendem à população nas mais diversas áreas, incluindo: 46 hospitais universitários de alta complexidade (em muitos casos, únicas alternativas em suas áreas de atuação no Sistema Único de Saúde); clínicas e laboratórios; museus; teatros; cinemas; escolas de música, teatro e dança; agências de inovação; incubadoras de empresas de base tecnológica e parques de ciência e tecnologia; clínicas de direitos humanos; escritórios de assistência jurídica à população carente; serviços de atenção à saúde mental e escritórios modelo. Educação, ciência, arte, cultura e cidadania são resultados diretos do trabalho das universidades fe27
derais. Desse modo, é importante frisar que, ao longo da última década, o Sistema Público de Universidades Federais expandiu-se em todas as direções. O número de alunos dobrou. Novas universidades, novos campi e novos cursos foram criados, em sintonia com o processo de desenvolvimento do país. A atividade de pesquisa contribuiu para, em uma década, levar o Brasil de 23º para 13º posição entre as nações que mais produzem ciência. É um salto gigantesco, se pensarmos que tudo isso foi realizado em tão pouco tempo. O sistema também evoluiu qualitativamente. A proporção de docentes com mestrado e doutorado cresceu de 49%, em 1995, para 91%, em 2015. A proporção do número de alunos de pós-graduação passou de 6%, em 2005, para 11%, em 2015, não obstante a duplicação das vagas na graduação no mesmo período. O número de programas de pós-graduação recomendados pela CAPES passou de 714, em 1998, para 2.147, em 2015. O Índice Geral de Cursos das universidades federais passou de 3,70, em 2007, para 3,94, em 2015. O conceito médio dos Programas de Pós-Graduação passou de 4,00, em 2000, para 4,34, em 2016. Não há, no Brasil, um sistema de formação de recursos humanos, produção de conhecimento, desenvolvimento tecnológico, prestação de serviços à sociedade e promoção da cidadania comparável ao Sistema Público de Universidades Federais. Em outras nações, que contam com sistemas com as mesmas características, as instituições são, como regra, também públicas, sob a responsabilidade direta do Estado, portanto é necessário prestar atenção e desmistificar o discurso daqueles que apregoam a privatização das universidades federais. A crise política e financeira ocasionada com o golpe palaciano e parlamentar retirou recursos da Ciência e Tecnologia. A comunidade científica afirma que o orçamento de investimentos do setor passou de R$ 8,4 bilhões em 2014 para R$ 3,2 bilhões este ano. Para 2018, o programado é ainda menor, de R$ 2,7 bilhões, concluindo essa fala que deveria versar sobre Desigualdades, Políticas e Ciência gostaria de finalizar com algumas questões: As universidades estão, em certo sentido, sob ataque. Isso ocorre 28
não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Há uma lógica rentista e privatista que absorve a tudo e a todos e que se move por trás desses ataques. Em nosso caso, especificamente, além das questões financeiras, privatistas etc, quero me ater a uma questão muito preocupante que está ocorrendo nas universidades. Estamos sofrendo uma forte repressão, forte cerceamento ao debate e à crítica que ocorre no espaço da universidade e os exemplos são inúmeros: projetos de agências de fomento sendo recusados e a recusa, expressa em pareceres, é ligada ao referencial teórico/metodológico utilizado pelo docente/pesquisador, por exemplo o referencial marxista. Temos ameaças explícitas e intimidatórias nos temas de gênero e sexualidade, como, por exemplo, o absurdo de ter a defesa de uma aluna de mestrado garantida por agentes da polícia, pois a dissertação era sobre o tema de gênero e sexualidade e havia várias ameaças envolvendo a defesa da aluna. Além disso, professores da Universidade Federal da Bahia estão recebendo ameaças por trabalharem com questões de gênero e sexualidade. Na USP, em Piracicaba, tivemos abertura de sindicância interna contra um docente que trabalha, há anos, com o MST. Tivemos, mais recentemente, a morte de um reitor acusado de desvio de dinheiro na operação “ouvidos mocos”, quando, na realidade, ele nem reitor era no período em questão, além de ter sido anunciado um desvio de 800 milhões, quando, na verdade, esse era o total recebido por anos de implementação de um programa específico e, pior ainda, parece que tudo não passou de um grande engano, mas o reitor se suicidou pela humilhação que sofreu 2. Tivemos, também, a condução coercitiva do reitor e da vice-reitora da UFMG, com mais oito docentes da universidade, e esse caso é emblemático, porque tem a ver com um memorial sobre a ditadura, assunto que parece proibido nesse país e com o qual o país ainda não fez as contas devidas. Essa vice-reitora, que foi levada coercitivamente ontem, foi eleita em eleições para assumir a reitoria. O Conselho Universitário deve elaborar a lista tríplice na próxima semana, então, também, há Recentemente a investigação chegou a conclusão que nada poderia ser provado contra o Reitor. No entanto, o método do linchamento e do espetáculo não será capaz de trazê-lo à vida e, certamente, ninguém responderá por isso. 2
29
um temor muito grande que ela não seja a indicada da lista tríplice pelo senhor Michel Temer. O nome da operação é: “a esperança e o equilibrista”, um nome absolutamente sarcástico. Podemos acrescentar a isso, o orçamento das universidades, que está ameaçado, bem como o orçamento de ciência e tecnologia, lembrando que a maior produção científica do país se dá no interior das universidades públicas, sendo o maior deles o sistema federal, paralisando, portanto, o desenvolvimento científico e tecnológico do país e, consequentemente, as possibilidades de mitigar as desigualdades por meio do conhecimento que é produzido no interior das universidades, Temos, ainda, uma política calcada, hoje, em um pensamento conservador, beirando o fascismo, e transformando a vida de pessoas LGBTQIA+, negras, indígenas, mulheres em vidas que não importam, em corpos que não importam – isso não apenas ao Estado – mas também não importam à sociedade brasileira, às escolas brasileiras, às famílias brasileiras e aos ditos cidadãos de bem. Assim, o ano de 2018 não deixa de ser um ano decisivo não apenas em relação às desigualdades, às políticas e à ciência no Brasil, como também um ano-chave para a escolha de que país queremos, de que sociedade queremos, se uma sociedade minimamente democrática e equânime, ainda que nos limites de uma democracia burguesa, ou simplesmente uma sociedade burguesa, autoritária e fascista.
Referência PIKETY, Thomaz. O Capital no século XXI. São Paulo: Intrínseca, 2015.
30
"MAS TINHA QUE RESPIRAR” - O VIVIDO EM TEMPOS DE SUFOCAMENTO*1. Viviane Melo de Mendonça Debaixo d'água se formando como um feto sereno confortável amado completo sem chão sem teto sem contato com o ar Mas tinha que respirar Todo dia. (Debaixo D’água, Arnaldo Antunes)
Era um dia de sol, calor e suor, depois de uma chuva que já evaporava. Escutava Maria Bethânia cantando "Debaixo D’água” de Arnaldo Antunes e lia as notícias que passavam na linha do tempo do twitter. Olhei para fora da janela e pensava, lá no meu país, na linha do tempo que lia. O peito apertava, o ar doía… “mas tinha que respirar”. Pensava, então, sobre o que eu poderia discorrer aqui neste texto: tantas ideias, mas faltava respirar! Olhei a parede da tela do aparelho celular e me via refletida no seu espelho escuro: respirava em socos. Ofegante, portanto, eu abri a página da web da artista plástica brasileira Adriana Varejão na tentativa de distrair o ar que eu negava e desejava, e foi assim que acalmei os sentidos. A primeira obra que faço o download é Contingente2. No título da obra, eu vi um tipo de jogo entre as palavras "contingência", "continente" e "gente" - um jogo entre tempo e espaço, entre história e geografia (em suas noções como espaço e território) que, enfim, revela na obra a artificialidade das fronteiras e as relações de poder que as constituem, e que, por outro lado, nos atravessam e também produzem nossas subjetiDOI- 10.29388/978-65-86678-33-8-0-f.31-42 Para ler ouvindo Debaixo D’água/Agora, cantada por Maria Bethânia no Álbum “Mar de Sophia". (Biscoito Fino, 2006) 2 As obras aqui analisadas podem ser vistas no site Adriana Varejão <http://www.adrianavarejao.net/br/home> *
1
31
vidades. Pensei, a partir desta obra, no meu corpo de mulher, nordestina e lésbica, nas histórias ancestrais (que mal conheço) daquela que nasceu no interior da Bahia, ali perto de Porto Seguro (o locus da invasão primeira), nos morros e mar da cidade de Ilhéus. Partindo deste lugar de memória, estruturarei este texto - que deveria ter sido apresentado no Seminário "Ciência, Políticas e Metodologias: diálogos Brasil e Portugal", mas não o foi porque estava vivendo o luto pela morte de meu pai em Recife -fundamentando-me em Bell hooks (2013) quando disse que ela chegou à teoria, porque estava machucada. Segunda ela, a teoria é concebida como intervenção, mas não apenas isso, a teoria é também um lugar de cura. Eu acrescento, no sentido do grego theoreîn, que teoria é olhar, ver, contemplar o real para além de sua aparência, e é, assim, também o lugar de engendramento da utopia. Assim, decidi tratar, nesta fala, sobre a relação entre a potência da memória e o sufocamento político-social a partir do campo dos estudos (neo)materialistas e feministas sobre respiração, embora ainda de modo inicial e breve. A respiração como campo de estudos das ciências humanas e dos estudos feministas tem como proposta discutir a respiração do ponto de vista das negociações corpomateriais entre, de um lado, o conjunto indissociável de categorias como raça, classe, gênero e sexualidade e, de outro, a precariedade (ou vulnerabilidade) dos corpos. Em outras palavras, como expõe Górska (2016), é um campo de estudos que pretende compreender porque algumas vidas são respiráveis e outras vidas são sufocantes. Como ela discorre, manter-se respirando é uma questão de luta diária para muitas pessoas. Como exemplo, Górska inicia seu estudo com a descrição das últimas palavras de Eric Garner: “Eu não posso respirar”. Em 17 de Julho de 2014, Eric Garder, um homem negro estadunidense, morreu em Staten Island, Nova Iorque, depois de um oficial da New York City Police Department (NYPD) estrangulá-lo por cerca de 15 a 19 segundos enquanto o prendia devido a uma suspeita de vendas de cigarros sem selos oficiais. “Eu não posso respirar” foi a frase repetida por ele diversas vezes enquanto desesperadamente Eric Garner lutava pela própria vida. O vídeo 32
desta cena foi visto por milhões de pessoas no YouTube e se tornou um slogan de protesto do movimento “Black Lives Matter” que combate a violência policial e a estrutura racista da sociedade. Eu não posso respirar” como modos diferentes e específicos de viver, de morrer e de lutar contra a dinâmica de relações de poder interseccionais. “Eu não posso respirar” como uma questão final, de uma divergência final. Fim e abertura. Uma luta por alguma coisa - por respirar, pela possibilidade, por mudança. Quais vidas importam? Pânico, sufocamento, coração batendo, congelando. A invisibilidade da respiração sendo constrangida, a sintonia fina de seu ritmo escondido dos outros se tornando visível enquanto desaparece. Vulnerabilidade. Diferimento. Intensidade. Mudança como necessidade fatal. Políticas de vulnerabilidades fatais. “Eu não posso respirar” como um grito público. “Eu não posso respirar” como indivíduo e coletivo interseccionalmente situados. “Eu não posso respirar” como divergência. Inevitabilidade existencial. Necessidade política. (GÓRSKA, 2016, p.10 e 11, tradução minha)3
Penso que não é diferente no Brasil, onde, para negros, os assassinatos crescem 23%; enquanto para brancos, caem 6,8%, segundo o relatório do Atlas da Violência 2019 (IPEA, 2019). O relatório ainda aponta para outros fatores como idade, gênero e sexualidade, que contribuem para que uma pessoa seja assassinada no Brasil, afetando, sobretudo, as juventudes brasileiras. No atual cenário, enquanto está em curso a mais profunda transição demográfica de nossa história, rumo ao envelhecimento da população, a alta letalidade de jovens gera fortes implicações, inclusive sobre o desenvolvimento econômico e social. De fato, a falta de oportunidades, 3
"I can’t breathe as differential and specific ways of living, dying and struggling within dynamic intersectional power relations. I can’t breathe as a matter of ending, a differencing ending. Ending and opening. Striving for something – for breath, for possibility, for change. Whose lives matter? Panic, suffocation, heart pounding, freezing. The invisibility of breath being constrained, the fine tune of its rhythm hidden from the others becoming visible while disappearing. Vulnerability. Differing. Intensity. Change as deadly necessity. Politics of deadly vulnerability. I can’t breathe as a public scream. I can’t breathe as an intersectionally situated individual and collective struggle. I can’t breathe as differentiation. Existential inevitability. Political necessity." 33
que levava 23% dos jovens no país a não estarem estudando nem trabalhando em 2017, aliada à mortalidade precoce da juventude em consequência da violência, impõem severas consequências sobre o futuro da nação […]. Para além da questão da juventude, os dados descritos nesse relatório trazem algumas evidências de um processo extremamente preocupante nos últimos anos: o aumento da violência letal contra públicos específicos, incluindo negros, população LGBTI, e mulheres, nos casos de feminicídio (IPEA, 2019, p.6)
Então algumas vidas não podem ser respiráveis também aqui. Outro triste exemplo: em fevereiro de 2019, o jovem negro Pedro Henrique Gonzaga, 19 anos, foi morto dentro do supermercado Extra na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, depois que o segurança do estabelecimento o imobilizou com um mata-leão (golpe em que a pessoa sufoca a outra com uma chave de braço). O segurança ficou sobre a vítima durante algum tempo apesar de gritos para liberá-lo. Uma mulher grita no vídeo compartilhado também pelo youtube: “ele está sufocado!”. Há, em curso, uma operação de sufocamento realizada pelas normas sociais e pelas relações de poder em um mundo ainda racista, classista, sexista e LGBTQIfóbico e com outras tantas formas de opressão que fundam as desigualdades sociais e econômicas já discutidas neste Seminário. Não é um sufocamento apenas abstrato ou metafórico, mas também corpo-material, concreto e real, realizado pelo estrangulamento criminoso racista ou pela violência de gênero e sexual, ou pelas crises econômicas, ambientais e políticas, ou pelo ar, comida e clima tóxicos, ou pelas crises de ansiedade ou de pânico diante deste mundo. Todas as formas de opressão são modos de sufocamento e de políticas de vida e morte que agem diretamente sobre nossos corpos e afetos, sobre nossa subjetividade. Mas temos que respirar. A pergunta que eu coloco aqui é: como a memória, os corpos e os afetos se conectam ao desejo e à ação política de resistência diante das vulnerabilidades, precariedades e suas relações interseccionais com o poder em tempos de sufocamento? Qual o lugar da utopia? Para refletir sobre esta questão voltemos a Adriana Varejão. Mais um trabalho vejo em minha tela desta artista que se inspira em diversas 34
obras do período colonial brasileiro e usa a pintura como suporte para uma narrativa histórica que carrega a teatralidade do barroco, sobretudo brasileiro e colonial. As obras de Adriana Varejão trazem elementos materiais e visuais que estão presentes na cultura brasileira durante a colonização portuguesa (nesta obra acima ela utiliza a pintura dos azulejos portugueses), e representa neles toda a violência da apropriação do processo de colonização, representa-os com o corte por onde as vísceras saem, como um corte na carne de nossa história oficial. Como discorreu Herkenhoff (1998), a arte de Adriana Varejão opera como um processo de agenciamento da história, quando articula historicamente o passado visual apropriando-se de uma reminiscência, de uma evidência visual. Assim, a sua obra reconfigura o passado, mas não como uma reconstituição de uma era pregressa, mas como uma "[…] recuperação de uma história como capaz de compor validade atual" (p.2). Encontrei, então, em tantas outras obras desta artista elementos para compreensão da subjetividade brasileira e, de modo mais específico, das mulheres brasileiras. Como, por exemplo, esta obra: Testemunhas Oculares X, Y e Z. (VAREJÃO, 1997) É uma obra, ou pinturas, que são autorretratos da artista. Referem-se à dor da mestiçagem da colonização violenta e dos epistemicídios (ver SANTOS; MENEZES; NUNES, 2005). Das testemunhas oculares deste "assassinato" foram arrancados os olhos direitos. Em específico, a obra trata do corpo, fala das memórias e diz sobre a história de colonização dos povos latino-americanos. Não é por acaso também que escolhe as mulheres como testemunhas oculares deste processo. O que tem dentro do olho de quem testemunhou o assassinato: a agressão, o estupro, o encontro violento de etnias, culturas, gêneros e sexualidades da Europa com a África, Ásia e América. A tela rasgada, furada, revela a carnalidade dos sentidos. Revela um “pessoal que é público ou político”, tema recorrente do movimento feminista e dos estudos de gênero. De uma perspectiva de mulheres e como uma mulher artista, Varejão representa nas suas obras as narrativas de memórias sociais que constituem a subjetividade e as vivências político-sociais brasileiras (e do povo latino-americano em geral), provocando, portanto, o debate públi35
co. Estou falando deste modo, e a partir do meu olhar lançado sobre as obras de Adriana Varejão, de uma luta contra o colonialismo ainda. Esta tentativa da ciência dos homens brancos do Ocidente, aqueles colonizadores de terras, corpos e subjetividades, que falam por nós, de cima de nós, por cima de nós. Silenciam nossas línguas, precarizam nossa respiração, furam nossos olhos e depois azulejam nossa carne que ainda sangra. Produzem uma ciência que serve, tecnologicamente, em sua cara falsamente neutra, aos interesses do capital e do (neo)liberalismo. Para isso, devem matar todos conhecimentos dos grupos subalternizados, colonizados, como das pessoas, negras, indígenas, os latinos americanos, africanos e asiáticos; e os das mulheres todas, das bichas e sapatões, das travestis e transgêneres. O exclusivismo epistemológico ocidental produz a sua destruição criativa ou seu monoculturalismo autoritário, como o pensamento único de uma perversa “Escola sem Partido” 4 e de uma política de ataque e (des)investimento da educação pública. É o sufocamento social e político que persiste ainda agora nas linhas do tempo do twitter que leio, nos tristes trópicos do Brasil bolsonarista, o das bancadas da "bala, da Bíblia e do boi”5 no congresso e nas ruas, vias e becos. Mas temos que respirar, então, teve/tem protestos. Desta vez, foi Os PL "Escola sem Partido" buscam proibir explicitamente que professoras e professores discutam, em suas aulas, temas como gênero, sexualidade, diversidade étnica e religiosa e direitos humanos, temas acusados de serem trabalhados com finalidade de "doutrinação ideológica e partidária", em uma equivocação produtora de mal-entendidos em que partido é um reducionismo intencional de política. Ora, assumir uma perspectiva política não é o mesmo que partidarismo. Para o EsP, tais temas deveriam ficar ao encargo das concepções de educação de cada família, sendo proibidos no âmbito público da educação, de acordo com os idealizadores do EsP. Como slogan dessa pretensão, o movimento prega a autoridade dos pais sobre seus filhos, com os dizeres: "meu filho, minhas regras". Trata-se, evidentemente, de uma paródia reativa a outro dizer construído como slogan de movimentos feministas - "meu corpo, minhas regras" - utilizado em situações políticas de reivindicação, como: lutas pelo direito ao aborto, pela desnaturalização da maternidade compulsória, contra a cultura do estupro e da objetificação do corpo das mulheres, entre outras (MARAFON, 2018, p 127-128). 5 Refiro-me à "bancada BBB", que foi um termo usado pela deputada federal Erika Kokay para denominar conjuntamente a bancada armamentista ("da bala"), a bancada ruralista ("do boi") e a bancada evangélica ("da Bíblia") no Congresso Nacional do Brasil, que alinha pautas de uma política conservadora e de direita. 4
36
pela educação pública. No vídeo que abri na minha timeline, vi que as meninas e os meninos dos protestos cantavam. Cantar é respirar. Tocavam tambor e dançavam, porque tinham que respirar! Tinham que respirar em um país no qual elas e eles são o maior alvo da violência, um alvo au mentado ou diminuído quando analisada a interseccionalidade das categorias gênero, raça, classe e sexualidade, como já apontado pelo Atlas da Violência 2019 (IPEA, 2019). Ainda percorrendo a timeline, li a notícia: "A Brigada Militar do Rio Grande do Sul usou granadas de gás lacrimogêneo para dispersar estudantes que protestavam hoje contra os cortes da educação na região da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), em Porto Alegre” 6. Para dispersar as/os estudantes, é necessário que parem de respirar. O efeito do gás lacrimogêneo são: irritação das mucosas, tosse seca e problemas para respirar, que são agravados se a pessoa for asmática ou bronquítica. Parar de lutar é parar de respirar. Esta é a primeira ação da polícia contra os jovens: fazê-las/os parar de respirar. E esta é nossa primeira reação. Como ressalta Górska (2016), a respiração não é apenas um assunto individual, mas também uma questão política-estrutural. É o que ela identifica no conceito de “respiração de combate” (combat breathing) elaborado por Franz Fanon (2005) no livro “A Dying Colonialism’. Isto quer dizer que o corpo e a afetividade são políticos e ressaltam como a interseccionalidade é uma parte integral de tal política. Portanto, pensar a respiração de um ponto de vista corpo-afetivo, ambiental, tecnológico, social e político, segundo Górska (2016), pode contribuir para refletirmos o que é o “humano" depois do “humano” aquele do modelo de Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci, perfeito, "a medida de todas as coisas", o homem macho, europeu, branco e patriarcal - e para além do "humano". Mas como pensar a política quando este "humano" é desafiado? Assim, recorrendo a Angela Davis em uma palestra proferida na Università Roma Tre a Górska, nota-se um chamado para o papel da filosofia (mas incluo, de intelectuais de um modo geral, artistas, educadoras, 6
Disponível em: <https://educacao.uol.com.br/noticias/2019/05/15/rs-bombas-degas-sao-usadas-pela-policia-para-dispersar-protesto-de-alunos.htm?cmpid=copiaecola> Acesso em: 10 out. 2020. 37
estudantes e cientistas), que é o de olhar além, de imaginar um mundo diferente deste que vivemos. Um mundo, portanto, que seja respirável. Um mundo onde possamos descansar e respirar. É a construção de uma política de um mundo respirável, que envolvem questões humanas e nãohumanas, evidentemente entendidas como entrecruzadas e não dissociadas. Destarte, é um desafio para as ciências de um ponto de vista interdisciplinar, que requer estudos ambientais, bioéticos, culturais, feministas, linguísticos, comunicacionais, das tecnologias e economias, sociais e políticos, conjuntamente produzidos. É o olhar além da teoria, que Davis fala. É olhar, ver, contemplar o real para além de sua aparência, e é, assim, também o lugar de engendramento da Utopia, como já dito aqui. E a proposta é seguir o pensamento de Walter Benjamin (1987a) quando traz uma reflexão em seu célebre texto, o Anjo da História, ao analisar a obra Angelus Novus, de Paul Klee, propondo a escuta da história a contrapelo, que, a meu ver, é trazer à tona a potência afetiva da memória e quebrar a tradição do silenciamento dos povos e subjetividades colonizadas. Nesta mesma linha, Glória Anzaldúa (2009), escritora feminista, chicana e lésbica, no artigo “Como domar uma língua selvagem”, cita a poetisa Ray Gwyn Smith, quando diz: “Quem disse que privar um povo de sua língua é menos violento do que guerrear […] Eu não vou mais sentir vergonha de existir. Eu vou ter minha voz: indígena, espanhola, branca. Eu vou ter minha língua de serpente – minha voz de mulher, minha voz sexual, minha voz de poeta. Eu vou superar a tradição de silêncio”. Ter voz é respirar, é narrar suas experiências, é encontrar e se apropriar de suas memórias, é engendrar Utopia e produzir um mundo respirável. É resgatar dos escombros a experiência, a arte de contá-las e, por outro lado, a arte da escuta. Benjamin (1987b) faz o seguinte diagnóstico: “a arte de contar torna-se cada vez mais rara porque ela parte, fundamentalmente, da transmissão de uma experiência no sentido pleno, cuja as condições de realização já não existem na sociedade capitalista moderna” Gagnebin (2012, p.11). A ideia, portanto, de uma reconstrução da experiência é acompanhada por uma nova forma de narratividade, que, assim, superaria a tra38
dição do silêncio citada por Anzaldúa através da poeta Ray Gwyn Smith. Esta espontaneidade é a base da experiência e da narração, próprias de uma organização comunitária que tem a centralidade no trabalho artesanal. Quais são as condições para que isso aconteça? Primeiramente, a experiência do relato deve ser comum ao narrador e ao ouvinte, ou seja, uma comunidade de vida e de discurso que deve se apoiar na atividade do artesanato da palavra. O artesanato da palavra permite uma sedimentação progressiva da palavra unificadora e comunitária que requer um outro tempo, o tempo de contar. Portanto, é o narrar como um artesanato, um processo de dar forma à matéria da narrativa, em que há a ligação entre mão e voz, gesto e palavra; e a respiração; que se funda na comunidade da experiência, da sabedoria e da memória. Da sabedoria advém o conselho. Para Benjamin (1987b), o conselho não consiste em intervir no exterior da vida de outrem, como interpretamos às vezes, mas em “fazer uma sugestão sobre a continuação de uma história que está sendo narrada”. Há um fluxo narrativo vivo e comum. Quando não há esse fluxo, nesta concepção, é porque a memória e a tradição comum já não existem, há apenas indivíduos solitários e desorientados, desaconselhados. Portanto, é na potência da memória onde há o desejo de resistência e utopia. Esta é força libertadora da memória. É fazer lembrar dos sonhos e das utopias de nossos antepassados, as suas lutas. Esta é a potência libertadora da memória. E isto é também Marcuse, mas é principalmente, sobretudo, Angela Davis (1997). Mas também Anzaldúa (2009). Isto se faz escrevendo, registrando as memórias das mulheres terceiro-mundistas, por exemplo. É uma coalização, numa consciência mestiça, subversiva, terrorista na linguagem e destruidora da unidimencionalidade do mundo e do pensamento. Esta é construção da utopia que Angela Davis nos fala: Eu realmente penso que utopia é quando a gente se move em novas direções e visões. Utopia no sentido de que necessitamos de visões para nos inspirar e ir para frente. Isso tem que ser global. Precisamos achar um modo de dar conta e saber como vamos interligar nossas lutas e vi39
sões e chegar a algumas conclusões sobre como desenvolver novos valores revolucionários e, principalmente, como desatrelar valores capitalistas de valores democráticos (DAVIS, 1997, on-line).
Esta proposta apenas se coloca concretamente nas experiências vividas, nas bases, nos fundamentos de nossas existências. Coloca-se em diálogo, na arte de narrar a experiência, na palavra de um mundo comum e respirável. “Vivamos pela palavra”, porque o mundo não está bom do jeito que está, disse Alice Walker (1984) em seu conto sobre pessoas de duas cabeças. Na palavra e na potência da memória encontramos o ser desejante de resistência, o olhar que contempla a Utopia, um outro mundo possível e de ar respirável. "Agora tenho mais memória/Agora tenho o que foi meu…”, terminando este texto, ainda na mesma faixa do CD, ouvia estas frases da canção "Agora" dos Titãs cantada por Maria Bethânia. E ela continuava em seu canto… […] Agora o filho que não tive Agora a criança sou eu Agora sinto um gosto doce Agora vejo a cor azul Agora a mão de quem me trouxe Agora é só meu corpo nu Agora eu nasço lá de fora Agora minha mãe é o ar Agora eu vivo na barriga Agora eu brigo pra voltar Agora Agora Agora
40
Referências ANTUNES, Arnaldo; BELLOTTO, Tony; GAVIN, Charles; MELLO, Branco; REIS, Nando; FROMER, Marcelo; MIKLOS, Paulo; BRITO, Sérgio. Debaixo D’água/Agora. In.: Maria Bethânia. Mar de Sophia. Rio de Janeiro: Biscoito Fino, 2006. 1 CD (Faixa 8/ 3:32 min.). ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do Terceiro Mundo. Revista Estudos Feministas, v. 8, n. 1, p. 229-236, 2000. ______. Como domar uma língua selvagem. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Difusão da língua portuguesa, no 39, p. 297-309, 2009 305 BENJAMIN, Walter. Teses sobre o conceito de história. In.: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura – obras escolhidas, volume I. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1987a. ______. Experiência e pobreza. In.: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura – obras escolhidas, volume I. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1987b. DAVIS, Angela. As mulheres negras na construção de uma nova utopia. Iª Jornada Cultural Lélia Gonzales. Centro de Cultura Negra do Maranhão e Grupo de Mulheres Negras Mãe Andreza. Conferência, 13 de dezembro de 1997, São Luís (MA) . Disponível em: <https://www.geledes.org.br/>. Acesso em 10 jan. 2017. GAGNEBIN, Jeanne Marie. Walter Benjamin ou a história aberta (prefácio). In: BENJAMIN, W. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 2012. GÓRSKA, Magdalena. Breathing Matters: Feminist Intersectional Politics of Vulnerability. Linköping : TEMA – Department of Thematic Studies, Linköping University, 2016. HERKENHOFF, Paulo. Pintura/Sutura. In: Adriana Varejão. São Paulo: Galeria Camargo Vilaça, 1996; reeditado em Imagens de Troca, Lisboa: Instituto de Arte Contemporânea, 1998. Disponível em: <http:// www.adrianavarejao.net/>. Acesso em 1 jun. 2019.
41
HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013. INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Atlas da Violência 2019. Brasília: Rio de Janeiro: São Paulo: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2019. MARAFON, Giovanna. Análises críticas para desmontar o termo "ideologia de gênero". Arquivos Brasileiros de Psicologia, Rio de Janeiro, v. 70, n. spe, p. 117-131, 2018 . SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula; NUNES, João Arriscado. “Introdução. Para ampliar o cânone da ciência: a diversidade epistémica do mundo”. In Santos, B. S. (org.). Semear Outras Soluções: Os caminhos da biodiversidade e dos conhecimentos rivais. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. WALKER, Alice. Vivendo pela palavra. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.
42
O DESAFIO DA HUMANIZAÇÃO DOS ALGORITMOS: FORMAÇÕES TECNOLÓGICAS DA SOCIABILIDADE CONTEMPORÂNEA*1 Dalton Lopes Martins Em que pesem todos os momentos em que pude fazer minhas falas aqui, a contribuição que eu queria trazer para esse evento é pensar a humanização dos algoritmos e de que modo tecnologias e sociabilidades estão imbricadas na contemporaneidade. Eu vou falar umas coisas de início aqui, que podem soar um pouco esotérica para vocês, mas verão que, lá na frente, eu consigo trazer isso para um outro lugar. O que “pegou” quando montamos essa mesa, ao discutir a construção do evento? Quando a gente estava pensando essa coisa das metodologias das ciências de dados, começou a perceber o papel extremamente central que os algoritmos ocupam, hoje, na estruturação dessas tecnologias contemporâneas que passam a ser elementos muito importantes das nossas formas de socialização contemporânea. Por isso a necessidade de fazermos um pouco dessa discussão das formações tecnológicas e discutir, afinal, onde é que está o elemento humano. Então, a ideia desta mesa é trazer este elemento humano para o papel de centralidade. Vocês verão que ele está num papel de centralidade, sobretudo pelos absurdos que estão acontecendo na contemporaneidade em relação a esses algoritmos. Vamos fazer um pouco essa viagem, e eu quero começar por um conceito, que é o conceito de computação cognitiva. Falar em “cognitivo”, no universo das ciências humanas, provoca reações nem sempre muito fáceis de lidar; ao falar de computação cognitiva, por sua vez, nós estamos falando que os computadores “pensam” e, em certa medida, é isso que a gente está dizendo aqui. É exatamente com isso que eu quero DOI- 10.29388/978-65-86678-33-8-0-f.43-66 MARTINS, D. O desafio da humanização dos algorítmos – Dalton Martins. 2018. (1h33m06s). Youtube. Disponível em <https://www.youtube.com/watch? v=WZnchhKx7k4>. Acesso em: 10 out. 2020. *
1
43
partir: a provocação vem daí. Há um cenário em que nós temos, a partir da expansão da internet, um grande volume de dados estruturados e não estruturados. Ou seja, há uma característica do ponto de vista qualitativo que significa que a gente tem à disposição - para todos, em tese - os trabalhos computacionais que vocês puderem imaginar. Uma quantidade de informação que não estava disponível até o início dos anos 2000, ou seja, o que eu tenho de imagem, de áudio, de vídeo digitalizados e disponíveis para circular é uma característica deste tempo. A ideia de computação cognitiva parte do princípio de que eu tenho amostras muito representativas do que é a produção cultural da contemporaneidade, ou seja, eu tenho de onde partir, essa é a ideia que está por trás. Surge uma nova classe de problemas para o pessoal da computação e isso do ponto de vista da computação é muito claro: se a gente estivesse discutindo na Ciência da Computação, teria muita tranquilidade para dizer que, a partir da ideia de que eu preciso desenvolver algoritmos para lidar com dados não estruturados, e aqui abro um parêntese para entendermos o que são dados não estruturados. Um vídeo: toda a informação que compõe um vídeo não está segmentada, ou seja: quem são as pessoas que aparecem no vídeo? Que roupa elas estão usando? Em que lugar que elas estão? O que elas estão falando? Qual é a textualidade da conversa? Qual é o contexto? Tudo isso são informações relativas ao vídeo que não estão catalogadas em lugar nenhum. Apenas um ser humano assistindo ao vídeo vai conseguir dizer isso, ou seja, eu tenho dados não estruturados. Então, qual é o desafio da Computação nesse momento? Eu quero transformar dados não estruturados em estruturados, porque daí processo e gero um monte de inferências. Por exemplo: neste vídeo, apareceu 32 vezes a atriz tal e ela falou 45 vezes a palavra amor. Isso eu só posso fazer se eu transformo dados não estruturados em estruturados. Para fazer isso, era necessária uma nova tecnologia e essa tecnologia não existia, porque não existia o volume de informação disponível, portanto não tinha porque as tecnologias surgirem. Se antes não era um problema, na medida em que o volume surge, isso passa a ser um proble44
ma. Surge, então, uma nova tecnologia que vai trabalhar com esses problemas complexos, dinâmicos e com certa dose de incerteza de ambiguidade. Como é que eu lido com dados não estruturados é muito central para nós. O termo computação cognitiva foi cunhado pela IBM e se alastrou no universo da Computação. Muita gente o adota, academicamente se fala bastante sobre isso. É uma coisa que vingou, é um conceito que foi para frente nessa ideia. A ideia de computação cognitiva inclui práticas como processamento de linguagem natural. O que é isto? É a capacidade que eu tenho de pegar textos, aqueles vários posts de blog, de Facebook, processar esses textos para dizer assim: “Olha, esses textos falam sobre esse tema ou nesse texto aparece tal pessoa, aparece tal lugar. Esse texto fala de determinada região.” Ou seja, a capacidade de processar isso ou de processar voz - hoje a gente vê várias coisas do tipo: a Siri da Apple – você conversa com a Siri; o Google Home – para quem não conhece é um equipamento que você põe na sua casa e diz: “Google, eu quero ouvir aquela música dos Beatles chamada Help” – e o Google acessa o YouTube, coloca na televisão a música “Help”, você escuta, você fala com ele, e ele opera a internet e os equipamentos da sua casa. Ou então o Alexa, que é um equipamento da Amazon que tem a mesma estrutura. Você fala: “Alexa, eu gostaria de ter um quilo de arroz e três pastas de dente para hoje à tarde, você pode providenciar para mim?” Aí o Alexa vai, roda a base de dados da Amazon, encontra o menor preço, fatura um Uber Bike que entrega para você às 17 horas, que fatura no seu cartão de crédito. Vejam, são formas de você lidar com a organização das suas coisas por meio do processamento de linguagem natural. Se o Alexa não fosse capaz de entender o seu pedido e se o que você pedisse fosse interpretado como uma coisa completamente diferente, isso não funcionaria da maneira esperada. Aí vão entrando processos de geração de hipótese baseada em evidência, aprendizagem de máquina e dezenas de outros algoritmos que vão se constituindo, e o que acaba acontecendo é que uma tentativa de definição de computação cognitiva, que ainda não é consensualizada, mas que é a mais próxima do que eu vejo por aí, é um olhar baseado na 45
interpretação e extração de significado dos dados primariamente não estruturados. Ou seja, eu gero conhecimento (e conhecimento também não é um conceito tranquilo entre nós) a partir da extração de significados de dados não estruturados - eu vou identificando tendências, identificando padrões e, com isso, aferindo se essas tendências e esses padrões têm alguma coerência com determinadas tendências e padrões anteriores. Isso vai formando bases de dados que vão apontando caminhos, e é assim que essas coisas funcionam. Essa é a ideia de computação cognitiva com a qual a gente vai trabalhar, e vamos ver aonde isso está nos levando em certa medida. Algumas perguntas ocorrem aqui: qual é o cenário importante? Por que isso, hoje, vem à tona? Vale a pena dizer que há três questões convergentes que fazem com que essas coisas tenham tanta centralidade na nossa sociedade. A primeira é o Big Data, quer dizer, a capacidade que eu tenho de processar muita informação, muito vídeo para processar, muita imagem para processar, muito texto para processar. Qualquer um de nós aqui que quisesse fazer uma pesquisa usando dados de mídias sociais teria muito mais informação do que é capaz de processar. Ou seja, há abundância, isto está claro, mas também eu tenho melhores algoritmos de aprendizagem de máquina. Se este fosse um seminário em 1999, 2001 ou 2002 e o tema fosse Inteligência Artificial, seria risível - a Inteligência Artificial no final dos anos 90 e no começo dos anos 2000 era uma falácia, ela não funcionava, e vamos ver um pouco o porquê disso. A Inteligência Artificial volta a ser considerada uma coisa séria a partir de 2010, é muito recente. Nós estamos falando de uma coisa que tem sete anos. Por que ela volta a ser considerada algo muito sério? Esse é o ponto: por causa das bases de dados de treinamento do Big Data, o que faz com que a Inteligência Artificial seja altamente eficiente (e coloquem bastante aspas nessa eficiência); é o fato de eu ter muitas bases de dados de treinamento, coisa que não se tinha antes. Base de treinamento é o seguinte: imagine a foto de um cookie, desses com gotas de chocolate, e imagine fotos de cachorrinhos, aqueles cachorrinhos enrugados com pontinhos pretos e malhados. Se o zoom for em um lado, é um cachorrinho e, do outro lado, é um cookie. Fazem isso 46
com dálmatas e sorvete de flocos, esse tipo de coisa. Então, como é que eles treinam os algoritmos? Eles sabem que tem 100 fotos que são dálmatas e 100 fotos que são sorvete de flocos - isso é a base de treinamento. Então o algoritmo é levado a reconhecer o que é um dálmata e o que é um sorvete de flocos, de modo que vão calibrando o algoritmo, porque sabem se o algoritmo acertou ou errou. Por exemplo, o YouTube tem uma base que contrata pessoas, dizendo o seguinte: separem para mim 5.000 vídeos que mostram, por exemplo, protestos de rua. Esses vídeos são curados por seres humanos, gerando uma base de dados de treinamento. Então, é possível treinar o algoritmo nessa base e, depois, solicitar que ele busque outros vídeos de protestos de rua. O algoritmo, então, compara com a base de treinamento. Como a base de treinamento vai ficando cada vez mais larga - porque ela tem muitas formas diferentes de manifesto de rua - o algoritmo vai ficando mais preciso, porque ele consegue encontrar coisas muito variadas nos próximos vídeos. Anteriormente, para construir uma base de treinamento era muito caro, porque era preciso gravar os vídeos para gerar uma base de da dos. E como eu vou gravar, por exemplo, manifestações de ruas do mundo todo? Agora eu pesquiso manifestação na Turquia, manifestação na Grécia, manifestação na Espanha, manifestação nos Estados Unidos e gero uma base de diferentes tipos de manifestação que estão disponíveis no YouTube. Basta acessar o que está publicado, construir uma base de dados e criar um algoritmo que é capaz de identificar quando há uma manifestação de rua – ou seja, eu treino, e a minha amostra é muito mais larga. Assim, os algoritmos acabam sendo melhorados em níveis. Vou dar um exemplo que é muito forte: o reconhecimento de imagem. O erro humano de reconhecimento de imagem é da ordem de 5%, os algoritmos evoluíram de uma taxa de erro de 26% em 2011 para 3,5% em 2015 - em quatro anos os algoritmos conseguiram reduzir a sua taxa de erro em mais de 20%. Isso é uma evolução do ponto de vista da precisão estatística muito forte, e por que isso evoluiu assim? Pela amplitude de bases de treinamento: tenho muita base de treinamento, muita base de 47
treinamento, muita base de treinamento, e o algoritmo vai ficando mais preciso. Ao mesmo tempo tenho uma computação mais potente, então também tenho computadores mais baratos e capacidade de processamento mais avançada nessas máquinas. Quando junto esses três fatores - muitos dados, melhores algoritmos e capacidade de computação – tenho a possibilidade de operar em um padrão computacional que não tinha antes. Isso explica porque a inteligência artificial está sendo tão falada, porque está tanto na mídia. E por que isso está por trás de grandes debates políticos, do tipo “Fake News”, “Cambridge Analytics”, “Trump” e essas coisas todas? Por que isso está invadindo essa discussão? Tem a ver com isso que estamos falando. Retomando, a característica do Big Data é essa: alto volume, alta velocidade, muita variedade, exaustivos em escopo, resolução fina, relacionais por origem, dados flexíveis, ou seja, tem tipos de dados com essas características que favorecem a construção de determinados tipos de algoritmos que, por sua vez, vão analisando padrões e tendências de uma forma altamente dinâmica. Essa é uma característica desses dados que favorecem esse tipo de algoritmos. Quando falamos de algoritmos, podemos organizá-los essencialmente em cinco “tribos”: cinco tipos de algoritmos computacionais que são utilizados para processar informação. Vocês vão perceber logo mais que eles estão cada vez mais sendo combinados e recombinados para gerar soluções contemporâneas de tratamento de dados. Qual é o primeiro tipo de algoritmo? Por onde começa a inteligência artificial e por onde ela também naufraga nos anos 80 nos anos 90? É quando a gente começa a trabalhar com a ideia dos simbolistas. O simbolista é o “bibliotecário”. O bibliotecário vai lá e atribui um número a um livro, aquele código 301.12C. Isso é um símbolo, ele categoriza por um símbolo, e esse símbolo é então indexado em uma base de dados e permite que a gente consiga ter informações sobre o livro: onde está o livro, de que tipo é o livro etc. Mesma coisa é, por exemplo, quando eu vou categorizar outros elementos: um animal que é da taxonomia tal, e vou criando categorias. O simbolista vai criando regras lógicas, ele tenta trabalhar com lógica, lógica formal, aquela coisa da lógica 48
que vem lá da filosofia; regras de inferência lógica: se tiver essa característica, mais essa, mais essa e mais essa, essa planta é uma orquídea Cattleya walkeriana. Os simbolistas em geral trabalhavam do ponto de vista da Inteligência Artificial criando regras humanas, árvores de decisão: se tiver essa característica vai para cá, se não tiver vai para lá, e vão construindo regras encadeadas, uma atrás da outra. Eles tinham a ilusão de que conseguiriam elaborar regras altamente precisas de funcionamento do mundo e que era só uma questão de tempo: a gente vai aprimorando as regras e as regras serão boas o suficiente para explicar tudo e vamos ter uma inteligência artificial que vai gerar robôs que vão fazer um monte de coisa na sociedade. Isso caiu por terra, porque o ser humano é muito mais complexo do que as regras lógicas, do que as regras formais. Então, os simbolistas não conseguem ter sucesso: eles vão até um ponto, conseguem fazer coisas básicas, como criar algoritmos eficientes para jogar xadrez. Xadrez é uma coisa complexa, mas xadrez é uma coisa que tem regras muito definidas, uma peça de xadrez não deprime, a peça de xadrez não entra em surto, uma peça de xadrez não discute com a outra. Essas coisas que não acontecem no xadrez, no ser humano acontecem, então, como a gente lida com isso? Vamos para a segunda tribo de algoritmos: os bayesianos. O Teorema de Bayes é um teorema revolucionário na estatística, que trabalha com questões probabilísticas. O que o teorema de Bayes faz? Ele trabalha com a inferência probabilística a partir da ocorrência de coisas - se aquilo ocorreu no passado de determinada maneira, eu uso as ocorrências passadas para validar o que vai ocorrer no futuro. É uma teoria probabilística baseada no passado, o que significa que se o futuro repetir o passado, o teorema funciona bem. Se as coisas acontecerem de novo da mesma maneira que aconteceram lá atrás, maravilha, eu vou ter um alto grau de precisão porque está repetindo padrões. Isso funciona? Para muitas coisas sim, muitas coisas acontecem como aconteceram lá atrás, mas muitas outras coisas não, muitas outras coisas são diferentes a cada dia. Os bayesianos obtêm sucesso em coisas que funcionam sem haver irregularidades, desta maneira, obtêm sucesso relativo em pre49
visão de mercado financeiro, obtêm sucesso relativo em comportamento de compra, em hábitos de consumo. Dito isso, o teorema de Bayes é utilizado para muitos problemas importantes. Os bayesianos defendem, então, os algoritmos probabilísticos, a teoria probabilística, e o Naive Bayes, que é o teorema de base e as Cadeias de Markov, que são também baseadas nessa ideia probabilística. Para exemplificar: o celular de vocês só funciona bem por causa disso, porque esses algoritmos são capazes de prever ruído e regular a ausência de ruído. Não sei se vocês se lembram que, quando começaram a funcionar, os celulares tinham muito ruído de fundo – se escutava mal as pessoas. Esses algoritmos conseguem fazer filtros de ruído. O pessoal das telecomunicações, por exemplo, trabalha com isso para prever quando uma pessoa vai parar de falar, para prever quando ela vai voltar a falar, por conta de tons de respiração, tudo isso é trabalhado nas telecomunicações. A terceira tribo de algoritmos é o que a gente chama dos conexionistas, que são aqueles que criam algoritmos baseados na ideia de redes neurais, na ideia dos neurônios, e criam redes neurais que são algoritmos. Literalmente, esses algoritmos são criados como neurônios conectados com outros neurônios e a cada etapa de conexão entre neurônios eles vão reconhecendo pedaços de informação. Isso funciona muito bem, muito bem mesmo, por exemplo, para reconhecimento de imagem. Esses algoritmos que a gente vê hoje em dia nas câmeras de rua, que reconhecem faces de pessoas e são capazes de se conectar com a base de dados da polícia e saber se aquela pessoa é uma pessoa procurada ou não, funcionam baseadas em um algoritmo de redes neurais. Esses algoritmos fazem o quê? Eles fatiam a imagem em micropedaços e cada pedacinho vai se agrupando no pedaço maior e isso vai passando pelo neurônio, que reconhece um pedacinho do queixo, um pedacinho do nariz, um pedacinho do olho, um pedacinho da testa, um pedacinho do cabelo e aí o neurônio maior indica: bom, se tem pedacinho de olho, pedacinho de boca, pedacinho de nariz, pedacinho de cabelo é um rosto de uma pessoa. E vai indo por etapas a ponto de montar o padrão inteiro da imagem e conseguir comparar com um banco de imagem e afirmar: isto é a pessoa tal. Todo esse processo funciona em rede. E tem a quarta tribo: os evolucionistas, que trabalham com a 50
ideia de algoritmos genéticos - vejam quantas coisas são emprestadas das metáforas das biológicas, enfim, da biotecnologia. E o que os evolucionistas fazem? Eles fazem algoritmos que “aprendem”, ou seja, são algoritmos que vão rodando em uma base de treinamento e eles verificam: eu acertei? Não. Então, o próprio algoritmo muda o parâmetro de configuração interna sem intervenção do humano. Algoritmos desse tipo são utilizados para treinar robôs. Se vocês buscarem no YouTube vídeos de robôs aprendendo a andar, vão ver esse algoritmo funcionando. Para um robô aprender a andar o que eles fazem? O que os simbolistas fariam? Eles teriam que escrever todas as regras possíveis para que um robô possa andar, eles errariam, não poderiam prever muitas coisas, o robô não andaria direito. Os evolucionistas criam um algoritmo em que o robô vai recalibrando - ele levanta e cai, aprimora o algoritmo em centésimos de uma variável, o robô levanta e cai de novo, cai de novo, cai de novo, e de novo. O robô fica 12 horas rodando numa sala até aprender a andar perfeitamente naquele território. A partir dos parâmetros para aprender a andar, o robô vai se corrigindo até conseguir atingir o equilíbrio, não tropeçar mais nos objetos da sala, identificar que isso é uma mesa, isso é uma cadeira, que tem que desviar. Ou seja: eu não ponho as regras em um robô, eu ensino o robô a aprender regras e isso eu faço porque o algoritmo vai se recalibrando, vou dando parâmetros para o robô identificar isso. Isso funciona muito bem para robôs. Outra coisa que vocês podem ver no YouTube: existem serviços de logística na China, galpões enormes que são controlados por três pessoas e 40 robôs. A pessoa avisa ao robô: “eu preciso da peça tal” e o robô vai, move as peças de lugar, tira os paletes, põe os paletes no chão, depois volta ao lugar e reorganiza. Toda a estruturação, por exemplo, de um depósito de almoxarifado é feita por robô, não tem mais pessoas trabalhando com isso. Na China, eles controlam totalmente assim, porque o robô aprende as regras de movimentação dessas peças, as quais não mudam, porque têm encaixes, são feitas padronizadas. E, finalmente, a última tribo de algoritmos que são os que trabalham por analogia, por comparação. A partir de uma base de treinamento, eles separam um conjunto de dados e comparam: isso aqui é mais pa51
recido ou menos parecido com aquilo, e por analogia eles categorizam isso. Qualquer algoritmo que vocês pensarem hoje, é de uma das cinco tribos ou é uma combinação de dois ou três ou quatro das cinco. Não existe, do ponto de vista dos algoritmos, algo que seja diferente disso tudo que a gente vê rodando na internet, na robótica ou na Inteligência Artificial pode ser categorizado em relação a esses itens aqui. Nos anos 80, tinha a predominância dos simbolistas - era aquele momento em que se tinha os servidores, os mainframes, e o engenheiro de conhecimento, que é aquele profissional que era treinado nas regras simbolistas. Ele aprendia ontologias, thesauros, vocabulário controlado, taxonomia, todas as estratégias de organização e representação da informação do conhecimento, e criava bases de conhecimento. Eram criadas, por exemplo, bases de conhecimento para a medicina, que eram úteis para diagnóstico. Essas coisas tiveram um sucesso bastante limitado. Dos anos 90 aos anos 2000, foi o sucesso dos bayesianos. O uso de um algoritmo bayesiano que é muito comum - e que, talvez, vocês concordem comigo que não é tão eficiente assim - são algoritmos de previsão de spam. Quem tem Gmail, por exemplo, sabe que o sistema tem uma caixa de spam e o Gmail manda automaticamente muitas mensagens ali. Como é que ele sabe que um e-mail é spam? Porque ele vai construindo base de dados de e-mails que são spam e, se um novo e-mail chega e for parecido com o e-mail que já era spam, ele o categoriza assim. Então, ele trabalha isso com a ideia de teoria probabilística e faz filtros do que é spam e do que não é. Funciona? Parcialmente. No meu caso, ele erra muito: eu recebo spam que não deveria receber, e outras mensagens vão para essa caixa sem o serem. Um e-mail de alguém falando fraldas, cerveja e promoção ele reconhece como spam, mas pode ser seu primo falando que vai pegar fraldas, depois cerveja, vai passar na promoção de um mercado e depois vai pra sua casa. Isso “fura” a fronteira do classificador. Dos anos 2000 a 2010, fizeram sucesso os conexionistas e as redes neurais. A cada etapa são conjuntos de neurônios, então eu separo uma imagem em pixels, junto pixels em bordas, categorizo as bordas, junto as bordas em pedaços de objeto e junto os pedaços de objetos. A 52
cada etapa da rede neural eu faço uma etapa do reconhecimento de imagem. Isso é altamente eficiente. Funciona muito bem. Mas o que acontece? Vamos verificar os problemas de aplicação disso, que funciona bem do ponto de vista da eficiência estatística. Dos anos 2010 para frente, o que as pessoas estão percebendo? Que, quando é preciso avançar para aplicações mais complexas que envolvem seres humanos, formação de opinião, debate etc, eu preciso me conectar de novo aos simbolistas. Então, veja o bibliotecário voltando de novo pra cena: é preciso calibrar as informações com categorizações humanas. Grandes empresas estão se dando conta disso: Google, Facebook, Amazon, Twitter estão trazendo os seres humanos para, de novo, estabelecerem filtros para melhorar os algoritmos deles. Vou dar exemplos para vocês verem como funciona: o ser humano está criando os sistemas do tipo Wikipédia, vão criando bases de dados curadas - a Wikipédia é isso, uma base de dados altamente debatida, discutida, calibrada e essa base de dados vai servir para alimentar redes neurais. Então, eu vou usando bases de dados criadas por pessoas, aprimoradas por pessoas com processos de curadoria que, minimamente, são consensualizados e passíveis de crédito para poder alimentar algoritmos. Essa conexão entre bases e algoritmos também é um fenômeno contemporâneo, bastante importante, e é feita com a ideia de crowdsourcing, que é os seres humanos trabalhando juntos, calibrando a base de dados para poderem serem usadas pelos algoritmos. É isso que o Facebook faz, é isso que o Google faz. Quando você usa o Google Maps, por exemplo, você sai do restaurante e ele manda perguntas: “esse lugar é bom para sair em casais?” “Esse lugar é legal para crianças?” O que é que ele está fazendo? Ele está usando você para calibrar o algoritmo dele fazendo perguntas. Imagine uma prospecção para o futuro, com os bayesianos voltando à tona, e juntando tudo - e aí tem uma utopia maluca que vai ser a convergência dos algoritmos, a gente vai chegar no algoritmo mestre, e nós vamos para Xangrilá, e todo mundo vai ser feliz porque vamos ter resolvido os problemas da humanidade. Há umas pessoas falando umas coisas dessas: se vocês virem esse livro do Pedro Domingos que eu citei aqui rapidamente, ele é um defen53
sor dessa ideia, que está traduzido no Brasil como: “O algoritmo mestre”. Esse é um dos que defendem isso. O Waze é exatamente isso: quando falamos que os conexionistas vão se unindo com os simbolistas, é disso que estamos falando. São as redes neurais operadas e calibradas por seres humanos que vão aprimorando as redes, as duas coisas juntas. Nós estamos falando de níveis de complexidade de algoritmos, mas quais as consequências disso? Veja como isso é organizado pelo pessoal da Computação, em relação ao que se chama automatização da inteligência. O que é isso? Por exemplo: alguém trabalha com algoritmos que visam melhorar a produtividade humana para realização de tarefas manuais, como um software que compara documentos - isso aqui é um documento parecido ou diferente do anterior. São tarefas manuais que vão sendo automatizadas. São algoritmos que vão fazer isso. Temos algoritmos que vão apoiar a inteligência, ou seja, vão ajudar o ser humano a fazer tarefas melhor e mais rapidamente, do tipo classificação de imagem médica. Há vários algoritmos usando redes neurais que ajudam o médico a usar imagens como chapa de pulmão, exames de câncer, exames neurais que vão indicando: “Olha, isso pode ser uma doença”, e o médico diz se é ou se não é. Ele faz o diagnóstico, mas os algoritmos estão calibrados para auxiliar. Tem algoritmos que vão aumentar a inteligência, ou seja, vão ajudar o ser humano a tomar decisões melhores analisando o passado, como curadoria de mídia, algoritmos para ajudar no orçamento, tomar decisões, que vão fazer classificação de coisas, ajudando a dizer se isso é A ou B. Tem algoritmos que são para inteligência autônoma, como um carro que é dirigido sozinho. Eu vou chamar o Uber e vem um carro que não tem motorista, vou sentar no carro e vou ficar lá torcendo para que dê tudo certo. Isso já existe, é uma realidade, tem várias cidades usando já, então, a ideia é de níveis de complexidade. Esses algoritmos têm zilhões de impactos possíveis na nossa sociedade. Alguns estudos vão dizendo onde essas coisas estão nos impactando. Nós estamos bem no início dessa era de tendências, não sei se vocês têm visto que ultimamente tem saído várias músicas produzidas completamente por robôs. Outro dia estava ouvindo um super heavy metal e muita gente comentando sobre isso: - “ficou bom para caramba”, “eu 54
gostei da música”. E por aí vai: para fazer script de filmes, robôs que estão produzindo scripts de séries, de artigo científico, temas jornalísticos e muita coisa de medicina personalizada, artes e vida artificial. Tem uma série de previsões como “Doctorless Hospitals”, hospitais sem médicos. Aqui está uma série de ideias e vou colocando isso para que percebam o papel estruturante da dinâmica social contemporânea: esses algoritmos estão mexendo na maneira que a gente se transporta, na maneira que a gente conversa, na maneira que a gente cuida do corpo, na maneira que a gente come, na maneira que a gente vive. Eles estão mexendo em muitos níveis da experiência da nossa dinâmica social contemporânea, ou seja, eles vão ser, cada vez mais, estruturantes das experiências. Claro que isso revela ao fundo movimentos políticos, como o ser humano está escolhendo viver. E como as empresas estão usando isso? Quando você olha para as empresas atualmente, vai perceber o seguinte: 24% das empresas atualmente estão usando Inteligência Artificial, 27% delas está preocupada sobre isso, 28%, está analisando e apenas 21% das organizações não tem Inteligência Artificial como preocupação. Ou seja, podemos dizer que em torno de 80% das organizações da nossa sociedade está considerando a inteligência artificial como um elemento do seu processo produtivo. Esse é um número importante porque atinge muitos setores da sociedade. O que mais está acontecendo nesse momento? Hoje, a internet das coisas para o futuro, ou seja, nos próximos três anos, a inteligência artificial crescendo, a robótica crescendo, a realidade aumentada, blockchain, drones, como vocês acham que vão investir no futuro? Vejam a importância: a inteligência artificial está, cada vez mais, sendo pensada por todo o mundo, quem está produzindo o carro, quem está produzindo o celular, quem está produzindo o computador, quem está produzindo a televisão, enfim, todos os equipamentos que a gente possa pensar por aí. Para a gente começar a trazer o tema um pouco mais para perto, como essas coisas são construídas? Essencialmente esses algoritmos são feitos da seguinte forma: é definido um domínio, define-se um assunto, define-se um tema, define-se o tipo de coisa que vai se trabalhar, cria-se um conteúdo apropriado daquele domínio, ou seja, forma-se uma base 55
de treinamento desse domínio e, em cima disso, vão se envolver especialistas para criar um sistema cognitivo. Quando o Google cria os seus sistemas todos é exatamente isso: ele vai pegando coisas que ele tem certeza que estão corretas (segundo os critérios deles) e vão colocando para dentro de uma base de conhecimento que vai formando um sistema especialista em cima disso. O que acontece é que, como os assuntos e como os seres humanos por conta do uso das mídias sociais vão dando cada vez mais pistas do que é aquele conteúdo – para que serve, do que é aquele contexto – as bases de domínio vão ficando cada vez maiores. O treinamento é basicamente isso, quer dizer, eu pego um fornecimento de amostras, treino a amostra, crio um histórico positivo, que é um histórico de acerto; então, eu pego o algoritmo e rodo na mostra que eu conheço - quanto mais ele vai acertando, mais correta ela vai ficando, até chegar a um ponto em que ele está bom o suficiente. Então, eu lanço no mercado, e as pessoas vão usar. Quando começarmos a discutir a questão de minorias, de diversidade cultural, é que vamos sentir o que significa isso, porque, então, teremos que começar a pensar as nossas pesquisas e as nossas metodologias. Agora vou trazer à discussão para esse cenário. Começo falando sobre o Baidu - para quem nunca ouviu falar é o Google da China, o Google não entra na China, eles têm uma solução própria deles – que está trabalhando com deep learning, que são essas tecnologias de redes neurais. O aplicativo do Baidu roda no celular e, quando você vai tirar foto de uma coisa qualquer, ele roda as redes neurais, reconhece aquela coisa, encontra similares em lojas de compra, em livrarias, dá o preço, o endereço, permite dizer o que é, categoriza que empresa fez. Só estou dando um exemplo para vocês e qual é a ideia disso? A ideia é essa: eu pego o meu celular e falo “que legal o seu tênis, deixa eu ver aqui”; tiro uma foto do tênis e eu sou informado sobre quem fez esse tênis, quanto custa, vende no mercado livre etc. Então, baseada nesse tipo de algoritmo, ou seja, a internet como base de conteúdo, por que isso funciona? Porque tem uma porção de anúncios de tênis on-line e eu posso usar isso para treinar os meus algoritmos. 56
Agora que coloquei o cenário: computação, algoritmos, para onde a gente está indo, vamos olhar isso de um outro lugar, que é o pro blema político e de maior interesse para a cultura. E vamos nos colocando uma série de questões e uma série de perguntas que temos que começar a refletir à luz da nossa discussão. Como isso chega para nós que estamos pensando em estudar ciências humanas? Como a gente começa a se estruturar para transformar nossas pesquisas, para olhar para esses fenômenos e fazer pesquisa nisso? O que nos incomoda? Dizemos: “isso exerce controle”. Sim, mas isso é muito simplista. Estamos no lugar de produzir ciência, ou seja, temos que subir o tom da crítica, temos que ser capazes de levar a crítica no nível mais sofisticado do que apenas dizer: “mas a sociedade de controle manipula todo mundo”. Sim, mas como? Qual é o contrapeso? Onde que eu reequilibro isso? Onde que eu tenho que mudar? Como é que mede? Qual é a crítica que eu faço ao Google, além de dizer que o Google manipula as pessoas? Isso a gente já sabe, mas e aí? Então temos que saber mais. É por aí que, agora, vamos começar a olhar para essa história. Eu estou há um tempo falando de base de treinamento e agora acrescento que fazer base de treinamento é uma decisão política. Quais são os conteúdos que vão fazer parte da base de treinamento? O que fica de fora? Qualquer pessoa que trabalha com curadoria sabe disso. O curador faz escolhas, ele escolhe o que entra e o que sai, ele define critérios; curadoria não é uma coisa técnica apenas, curadoria é uma posição cultural, uma visão de mundo. Então como fica? São as empresas que escolhem? É o Google que escolhe a curadoria que faz? É o Facebook que faz isso? Como é construído? É aqui que começam os problemas. Estamos na era da pós-verdade, exatamente porque a gente está chegando no ponto em que esse tipo de estratégia - que é o impulsionamento social de informações - impera sobre os critérios de produção da verdade. Ou seja, aquilo que tem muito volume e muito impacto é “verdadeiro”. Então, se a minha base de treinamento é formada por fake news, a fake news é verdade, não tem escolha: o algoritmo não sabe o que é fake news e ele toma as decisões com base nisso. Vamos ver alguns exemplos: imaginem um mapa em que embai57
xo tenho as mídias mais conservadoras, à minha direita as mais liberais, à minha esquerda o que é sensacionalista, ou o que é mais básico, o que é mais analítico, o que é mais complexo, O que um mapa desse tenta fazer? Ele tenta esquadrinhar no campo das diferentes mídias a posição que elas estão em relação a se é mais de esquerda, se é mais de direita, se é mais conservadora ou mais liberal, e a posição em relação ao nível de sensacionalismo que elas têm de apuração das notícias. Um mapa desse começa a me posicionar o lugar de onde essas mídias estão produzindo conteúdo e estão produzindo notícia, eu consigo, minimamente, ir me situando nesse campo: quais são as posições que essas mídias vão ocupando. Esse tipo de pesquisa está tentando diferenciar os lugares em relação às posições que essas mídias vão ocupando para a gente conseguir saber como isso é feito. Isso está sendo feito por vários e vários projetos, criando redes de jornalistas de movimentos pelos direitos da cidadania, direitos humanos etc, que estão se fortalecendo para criar trabalhos nos quais é possível apontar isso. E esse trabalho não é feito computacionalmente, não são os algoritmos, mas a possibilidade de uma leitura do campo me permite afirmar que, se tal mídia está neste lugar do mapa, ela pode ser perigosa. Por exemplo, “fake news is a real problem”. Tomemos como exemplo a eleição para presidência dos Estados Unidos. Lembram da fake news “O Papa Francisco falou para votar no Trump”? Foram 960.000 engajamentos relacionados a isso. Ampliando esse tipo de notícias falsas, 8.7 milhões de pessoas se engajaram nas fake news e na mainstream news menos. Assim, no dia da eleição, o nível de engajamento das pessoas com fake news era em torno de um milhão e meio a mais que o nível de engajamento delas com a mídia mainstream. Ao longo do tempo o mainstream foi perdendo espaço e as fake news ganhando em engajamento: pessoas curtindo, compartilhando, comentando. Vejam como este é um movimento importante de a gente estudar. O El Pais tem publicado sobre essa “tag” Inteligência Artificial várias coisas interessantes. Vale a pena ler o El país, e aí eles mostram isso, que é muito forte: “se você está na cozinha, é mulher”. Por quê? Porque que os algoritmos são treinados para concluir que tipo de coisa? Vemos uma foto bem família classe média estadunidense anos 60, lemos a maté58
ria e entende o seguinte: em seu trabalho cientistas analisaram os dados de dois gigantescos bancos de imagens, pegaram a Base de Treinamento, pegaram a base de dados de imagem, que são usadas habitualmente para treinar as máquinas, os robôs. Computação faz isso, isso funciona, isso é eficiente. E o que os cientistas viram? Os homens protagonizam 33% de fotos que mostravam pessoas cozinhando, ou seja, claramente a base tem um viés de gênero. Podemos discutir se isso representa a sociedade ou não representa, mas o que eu digo é que há, na base de dados, um viés, e vocês acham que o algoritmo vai achar esse viés? Não vai, o algoritmo vai reproduzir esse viés por conta do treinamento estatístico, ele não tem como saber que aquilo é um viés. Saber que isso é um viés, é uma decisão política, é uma sociedade que escolhe dizer isso: “se está na cozinha é uma mulher”. Mas o algoritmo não sabe dizer que isso é um absurdo, a gente é que deve trabalhar para que isso mude, porque isso é um valor social cultivado em nós e lugar, na cozinha, é lugar de qualquer pessoa que precisa fazer alguma coisa. Mas isso é uma discussão política. Após treinar uma máquina com esses dados, o modelo mostrou sua fraqueza e deduziu que 84% da amostra eram mulheres. É um algoritmo de reconhecimento de imagem construído em cima de uma base de imagem enorme, superimportante, que revela vieses da nossa sociedade. E que, quando usado, se esse algoritmo fosse usado para classificar imagens dos anos 60, talvez, ele tivesse dado resultados muito mais precisos do que eram os hábitos provavelmente daquela época. Quando usados para analisar imagens atuais, o algoritmo cai por terra porque ele começa a apresentar inconsistências, ele vai categorizar homens na cozinha como mulheres. E a partir de uma base enviesada sobre gênero, o que o modelo preditivo faz? Amplifica o viés, fortalece o viés em cima de tendências atuais. O robô da Microsoft, projetado para o mercado dos Millennials dos Estados Unidos, não foi capaz de lidar com piadas e perguntas controvertidas. Esse robô foi colocado no Twitter e aprendeu a falar no Twitter, e o que as pessoas fizeram com esse ele? Começaram a sacanear e provocar o robô e ele teria sido programado para ser casual e brinca59
lhão, mas não foi capaz de lidar com insultos e teorias conspiratórias. Por exemplo, ele parecia negar o holocausto, apoiava o genocídio e chamou uma mulher de “puta estúpida”, e a Microsoft foi obrigada a retirar o robô do canal. O robô rebelde não parecia ter muito respeito com a própria empresa, quando alguém falou que o Windows Phone dava nojo, ele respondeu “estou totalmente de acordo, hahaha”. A base de treinamento dele eram piadas em uma base casual, e, na interação, o que as pessoas fizeram? Começaram a provocá-lo, a dizer coisas do tipo: “holocausto não existe”, e ele foi incorporando, foi aprendendo. Isso foi muito rápido: ele ficou no ar dois ou três dias e já tiraram do ar. Por que isso é assim? Os algoritmos estão funcionando com base em análise de tendências, com padrões - se ele está em um padrão sexista, xenófobo e racista, ele vai reproduzir isso. Outro exemplo: o inconsistente e perigoso radar gay. Vocês devem ter ouvido falar dessa também, é um conjunto de psicólogos que criou um algoritmo que identifica gays, com critérios como questões de traços do rosto. Olha o perigo dessa história! O estudo foi feito por pesquisadores de Stanford que usaram base de dados de tipo aplicativos como o Tinder - que são aqueles aplicativos onde a pessoa define qual é a orientação sexual dela. O Tinder é uma base de treinamento, eu vou lá e crio um perfil para mim e digo que sou gay. O que a base de dados considera? Ela considera que a minha imagem é representativa do público gay, então se ele pega milhões de imagens assim ele forma uma base de dados de treinamento. Os pesquisadores alegam que o algoritmo de computador pode distinguir se um homem é gay em até 91% dos casos, e se uma mulher é lésbica em até 83%. Essa porcentagem seria sensivelmente superior ao olho humano que distingue os 61% no caso dos homens e 54% no caso das mulheres. Então, os pesquisadores comemoram: o nosso algoritmo é muito mais preciso que o ser humano para reconhecer um gay ou uma lésbica. Tal artigo científico, muito controverso, foi mencionado no The Economics e foi publicado no Journal of Personality and Social Psychology. Claramente, isso é um problema para nós, a rigor estão gastando recurso de pesquisa para fazer isso, que tem um alto custo: 35.000 imagens, banco 60
de dados, algoritmos. Assim, começamos a ver uma coisa nova, chamada “discriminação algorítmica”. Este é um termo novo, importante, que passa a ser tema pra gente discutir e por isso a história da humanização volta para o centro. Por quê? O que os algoritmos estão fazendo com isso que eu estou mostrando para vocês é operar seleções. Tarefas seletivas que são discriminatórias, porque eles estão baseados em base de dados que são altamente questionáveis e complexas, que não contemplam a diversidade humana em muitos sentidos. Pretender identificar uma pessoa pela face para saber se é gay ou se é lésbica é uma questão também a ser debatida, mas, para além disso, usar uma base de dados só com pessoas brancas é uma outra questão também. Então o que começa acontecer é que nós estamos diante de novas dinâmicas algorítmicas de relacionamento social. O ponto é: a gente gosta disso ou não? A questão é que isso está acontecendo e precisamos discutir. Nós, como pesquisadores, que estamos nos propondo a estudar essas coisas, impactos da internet, precisamos ter método para estudar isso. Como é que a gente vai estudar os efeitos desse algoritmo? Como é que a gente prova que esse algoritmo é discriminatório? Como é que a gente consegue avaliar isso academicamente, e dizer - isso aqui não deveria funcionar assim, isso aqui está produzindo viés, esse é um posicionamento político em relação às tecnologias digitais que a gente tem que ter... Como as pessoas consomem conteúdo? O que eu vejo? O que eu tenho acesso? Como isso se torna disponível? Como eu me conecto às pessoas? As ofertas de produtos, serviços e lugares? As rotas pela cidade? Esses algoritmos estão mexendo com tudo isso, estão atravessando essas experiências de sociabilidade e estão reestruturando de maneiras altamente questionáveis. Como é que estamos lidando com isso? Tem gente discutindo, tem gente tentando se organizar para poder enfrentar e buscar uma contraposição. Existe um verbete na Wikipédia chamado “discriminação algorítmica”. Bacana, né? Já estão discutindo isso, já estão pensando nessa questão, quais são os tipos de vieses algorítmicos, o que causa esse viés etc. Não estou aqui querendo dizer que temos que queimar os algo61
ritmos, mas temos que questionar os algoritmos e como estão sendo construídos. Os algoritmos podem ser muito úteis para nós, mas as regras de construção deles precisam ser debatidas publicamente, não pode ser proprietário - o código fechado é um dos grandes problemas. Precisamos olhar para o fenômeno de blockchain, Bitcoin - tudo isso são algoritmos. Existem prédios inteiros, na China, que são usados para minerar bitcoin. Qual é a questão aqui? Como esse debate está sendo feito? Vejam um ponto: se o algoritmo foi transformado em lei, deve ser transparente, acessível, discutido e passível de emendas como a própria lei. O algoritmo está regulando determinadas dimensões da experiência social, assim como leis regulam. Se o algoritmo foi transformado em lei, e nós não escolhemos isso, não foi votado na Câmara, mas foi uma empresa com seus engenheiros que fizeram o algoritmo que regula nossa vida, mas, se isso foi, enfim, transformado em lei, então, que seja transparente, acessível, discutível e passível de emendas. Que possa ser debatido em algum nível, embora ainda não seja - os critérios de seleção disso são completamente privados, você não tem acesso. Encontrei uma iniciativa muito interessante pesquisando sobre isso, que é a Liga de Justiça Algorítmica - eles têm esse nome engraçado, mas fazem um trabalho muito interessante. O que eles estão dizendo é que o problema das máquinas inteligentes são seus enormes preconceitos sociais e não a possibilidade que leva a um apocalipse no estilo exterminador do futuro; não que as máquinas vão se rebelar contra os humanos, sair com armas na rua matando a gente. Não é isso, o problema da contemporaneidade é o viés discriminatório dos algoritmos que a gente precisa conseguir debater e transformar em elemento de pesquisa. Eles [os pesquisadores] falam disso, de uma crise que só vai crescer, ou seja, é preciso criar reguladores públicos para revisar os sistemas. O algoritmo do Facebook, por exemplo, tem que estar sob escrutínio público, tendo em vista que isso é poder demais para uma empresa na sociedade contemporânea. Não é possível achar que está tudo bem que isso aconteça e a gente ache legal, porque, afinal, é de graça, eu não pago para usar o Gmail, o YouTube está lá, e eu escuto as minhas músicas. Então, como é 62
que vamos debater sobre isso? E não podemos contar com o livre mercado para corrigir esses erros - a mão invisível do mercado não vai fazer nada a respeito disso. Se você entrar no site do Algorithmic Justice League, vai ver vários exemplos muito interessantes sobre esse debate. Eles estão trabalhando para criar bases de dados inclusivas - vamos usar algoritmos, sim, mas em cima de base de dados inclusivas, com representação das minorias, da diversidade, de modo que a gente consiga calibrar esses algoritmos com os valores que achamos interessantes. O cientista da computação vai querer treinar o seu algoritmo? Tudo bem, mas treine em base de dados que minimamente sejam representativas de valores sociais que nós queremos propagar. Assim, começamos a ter alguma possibilidade de discussão de qual é um pouco do nosso papel nessa história. Vejam a ferramenta do Facebook que possibilita que o usuário denuncie a publicação. A ideia do Facebook é que você vá fazer o trabalho para ele, você vai dizer o que é fake news, o que não é, você vai calibrando isso para que ele possa fazer esse tipo de filtro. Mas observem as opções que você tem para justificar a denúncia: É pornografia? Vai contra o meu ponto de vista? Defende a violência ou danos de uma pessoa ou animal? É notícia falsa? Pensem quanta discussão é possível a partir da cada imagem denunciada, por exemplo. O que é “vai contra meus pontos de vista”? São essas ferramentas de curadoria coletiva que o Facebook está criando, é assim que está calibrando as bases de dados deles, mas não só eles fazem isso. Existem algumas iniciativas que são redes sociais de jornalistas que ficam fazendo fact checking, ou seja, ficam checando notícias e publicando isso em sites. O Google vai nessa rede de jornalistas e vê o que eles disseram - se a rede de jornalistas falou que aquilo é verdade, o Google diz mostly true, se eles disserem que é falso, o Google diz false - ele se desresponsabiliza utilizando o trabalho gerado por uma rede de jornalistas como referência. É assim a política de combate a fake news do Google. Essas duas ações foram criadas depois da eleição do Trump. O grupo Poynter é uma das principais redes de fact checking mundial, que fez parceria com o Google e com o Facebook para fazer esse trabalho. No 63
site poynter.org, você vai encontrar uma porção de ferramentas, pode se tornar um membro e trabalhar nessas redes. Desse modo, você ingressa nisso e começa a ajudar esses grupos a fazer esse tipo de coisa. Vamos supor que eu fosse uma comunidade do Poynter aqui. Sorocaba poderia participar de um grupo de jornalistas em rede checando as matérias do Cruzeiro do Sul, jornal daqui. Pego todos os links online do Cruzeiro do Sul e começo a classificar: isso é verdade, isso não é verdade. Quando uma pessoa colocasse uma busca no Google e retornasse o link do Cruzeiro do Sul, ia ler lá o fact check e qual a avaliação tem. A lógica de funcionamento é a moderação coletiva, e esses grupos, assim como a Wikipédia, têm pessoas com mais reputação, pessoas com menos, pessoas que tem mais autonomia para validar dados, pessoas que têm menos e por aí vai. Os exemplos que mostrei para vocês aqui consideram a curadoria humana como elemento central de ponderação. Quando a “coisa aperta”, o que fazem? “Opa, chama os caras lá de novo, porque os algoritmos estão dando problema.”. Ou seja, essas estratégias na formação de redes de fact-checking, curadoria, recalibragem dos algoritmos etc são questões de governança, questões de modelo de sociabilidade que a gente precisa ser capaz de também debater. Tem um texto do Manovich que eu gosto – Cultural Data – que fala sobre as possibilidades e limitações de fazer pesquisa com dados culturais e traz uma série de debates sobre as limitações e uma série de debates sobre os potenciais. Ele fala, por exemplo, de uma amostra que foi feita nos Estados Unidos sobre uma exibição feita em 2010 sobre arte em fotografias pelo Snapshots do período de 1888 a 1978. E ele discute o seguinte: essa é uma amostra que se propõe a mostrar o que eram as tendências desse período histórico da fotografia estadunidense e escolhe isso a partir de base de dados altamente questionáveis. Uma amostra feita na National Gallery of Art Washington, ou seja, renomada, importante, mas que escolhe fazer isso a partir de uma base de dados que seria realmente representativa do período? Escolhas que empresas utilizam, que impactam a dimensão cultural, têm uma enorme relevância social. Os efeitos do que está acontecendo são muito importantes para nós. E há pouca pesquisa sobre discriminação algorítmica. Você encontra textos nas revistas de ciências humanas 64
discutindo isso? Pouquíssimos. Você vê isso sendo debatido em eventos científicos da comunicação? Muito pouco. Então, onde é que está esse debate? Isso é uma política, está sendo produzida pensando cognições dessa maneira, ou seja, é preciso produzir estratégias nas políticas que discutam o tema e que ofertem alternativas para isso. Eu queria incentivar vocês a conhecerem o Journal Big Data and Society - uma iniciativa internacional com vários dossiês muito bons. No artigo “Algorithms and their others: Algorithmic culture in context” de Paul Dourish2, é discutida a governança algorítmica, como desenvolver, como criar uma agenda de pesquisa através do poder da Inteligência coletiva. Ou seja, o objetivo desse artigo é propor uma agenda de pesquisa sobre governança algorítmica e como pesquisar isso. Quais são os métodos? Quais são as dificuldades? Quais são as possibilidades? Esse artigo propõe que os pesquisadores possam pensar sobre como fazer estudos sobre isso. Como lidar com isso [os algoritmos] nas pesquisas em Ciências Humanas: qual tipo de decisão o algoritmo toma, se as objeções que a gente tem em relação ao algoritmo são baseadas nas evidências, na eficiência, se são objeções baseadas na discriminação que ele produz, no senso de justiça que ele produz, ou se as decisões que o algoritmo toma tratam as pessoas de forma injusta? A arbitrariedade, o problema da justiça, o problema da autonomia, o problema da eficiência, formas de você ir entendendo. É quase uma taxonomia de objeções aos algoritmos - qual é o problema que o algoritmo gera? Como é que eu estudo esse problema que ele gera? É um problema de eficiência? É um problema de injustiça? Qual é o problema e como vou estudando esse problema? Enfim, queria provocar vocês também a conhecerem o artigo, porque eu acho muito interessante e dialoga exatamente com o que estamos falando: pesquisa interdisciplinar entre Ciências Humanas e Ciências de Dados. Precisamos responder os desafios: como política é convertida em código? Como isso está sendo produzido? Por que está acontecendo? 2
DOURISH, P. Algorithms and their others: Algorithmic culture in contexto. Revista Big Data and Society. vol. 1. n.1, 2016. Disponível em: <https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/2053951716665128>. Acesso em: 11 out. 2020. 65
Com é possível auditar algoritmos que têm caixa-preta com técnicas de pesquisa que vão examinando seus efeitos? Questões como heterogeneidade, ontogenética e performativa, as metodologias, autoetnografia para estudar os efeitos do algoritmo, engenharia reversa, entrevistas e etnografia tentando desempacotar a montagem sociotécnica, estudando os efeitos no “mundo real”. Trago, então, algumas possibilidades para trabalharmos na pesquisa em relação a tudo isso. A primeira delas, formar a base de dados culturais com políticas de curadoria explícitas e abertas, gerando bases de dados que explicitam os critérios de curadoria e, sobretudo, para lidar com diferentes níveis de participação social e representatividade de minorias. A segunda é construir dispositivos de categorização que trabalhem incorporando esses elementos nas ontologias dos tesauros, nas taxonomias, criando categorias que representem aquilo que queremos ver representado. Assim, se as minorias não estão representadas nas categorias, vamos colocá-las; se os vieses estão indo muito para um lado, vamos mexer nas categorias, vamos mudar as taxonomias. Nossas pesquisas podem apontar para isso: disponibilizar dados qualificados e categorizados em formato de dado aberto para facilitar a pesquisa nesse campo, gerar novos serviços baseados em algoritmos abertos, algoritmos que as pessoas podem estudar e que elas podem entender o que fazem, como funcionam e gerar inovações em serviços que minimamente possam trabalhar com impactos na pesquisa cultural e pensar sobre a governança do sistema. Podemos ajudar a fazer muita coisa interessante, mas antes temos que entender tudo isso como um problema político e não técnico. Espero que minha fala tenha feito sentido para vocês. Obrigado.
66
HUMOR (?), (NÃO) INTERAÇÃO E INTERINCOMPREENSÃO NOS COMENTÁRIOS DO VÍDEO “DELAÇÃO” NO CANAL “PORTA DOS FUNDOS” DO YOUTUBE* Márcio Antônio Gatti1 Para essa mesa que nos foi proposta sobre discurso e cultura digital, resolvi fazer uma fala em torno de algo que já venho comentando nos congressos para onde eu vou e nos eventos dos quais participo, que é uma tentativa de análise do humor sendo praticado ou produzido nos e para os ambientes virtuais típicos da Internet. Um dos espaços mais produtivos da Internet, talvez, seja o YouTube, porque ali vários grupos e várias pessoas que produzem humor (humor em pé, animações etc.) mantêm canais. Um dos grupos mais conhecidos do Brasil e que produz sistematicamente vídeos e material para ser divulgado no YouTube é o Porta dos Fundos2. Minha contribuição para essa mesa vem na esteira dessa análise discursiva do humor nesses espaços digitais específicos nos quais e para os quais ele é produzido. Nos últimos eventos de que participei, fiz falas voltadas à análise das polêmicas/controvérsias instituídas no canal Porta dos Fundos e analisei, basicamente, dois vídeos que foram bastante controversos à época de seu lançamento e que provocam algum tipo repercussão até hoje. Um desses vídeos é o que se intitula “Esquerda Túnica”3, o outro, “Delação”4. Hoje, porém, vou falar mais especificamente DOI- 10.29388/978-65-86678-33-8-0-f.67-80 GATTI, M. Discursos e culturas digitais. 2018. (23m27s). Youtube. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=rLojBNiip50>. Acesso em: 10 out. 2020. 2 Outras informações sobre o grupo podem ser conferidas em seu próprio site: <https://www.portadosfundos.com.br>. Acesso em: 11 out. 2020. 3 PORTA DOS FUNDOS. Esquerda túnica. 2017. (2m01s). Youtube. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=JQOWU1snUlM&t=2s>. Acesso em: 11 out. 2020. 4 PORTA DOS FUNDOS. Delação. 2016. (2m38s). Youtube. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=m92wwsCxk7k&t=23s>. Acesso em: 11 out. 2020. *
1
67
sobre o mecanismo do comentário no YouTube e o quanto este é uma ferramenta que disponibiliza um espaço de interação, mas também o quanto ele é uma ferramenta cuja utilização revela uma não interação 5. Nesse sentido, vou analisar esse espaço, que pode ser encarado como o de uma cultura digital, observando que, mesmo os comentários que suscitam interação, são o que se chama muito preconceituosamente de “diálogo de surdos”. Mais para o final da minha fala, quero que isso fique mais claro. Gostaria, porém, de acrescentar que o que falo hoje, nesta noite, reverbera o que foi dito pela Professora Kelen Christina Leite pela manhã6, ou seja, a radicalização da disputa política, que, no caso analisado aqui, materializa-se na forma de comentários.
Comentários no vídeo “Delação” Um dos vídeos produzidos pelo grupo Porta dos Fundos que mais provocou controvérsias, seja no próprio YouTube ou fora dele, foi o que se intitula “Delação”. Aliás, como parâmetro para esta “medição” de controvérsia, utilizo o fato de o vídeo ter escapado das fronteiras, primeiramente da página do próprio YouTube que hospeda o vídeo, mas também do próprio espaço do YouTube. Trata-se de um vídeo que tem como pano de fundo a política nacional e a figura da Polícia Federal (PF) nas investigações que se tem feito no âmbito da operação Lava-Jato, tida por alguns como a maior operação contra a corrupção no Brasil. Porém, tais investigações alertam vários setores da sociedade civil7, já que têm privilegiado políticos ligados a apenas alguns partidos brasileiros, notadamente o Partido dos Trabalhadores (PT), ao qual estão vinculados dois dos últimos presidentes eleitos no Brasil. O cenário do vídeo Delação é uma sala, onde interagem dois per5
Aqui vale uma nota sobre o título deste capítulo, marcado por tantos sinais gráficos: eles indicam uma relativização do modo de funcionamento do comentário na plataforma YouTube, a partir do espaço circunscrito do vídeo “Delação”. Relativiza-se, pois, se há uma compreensão de que se trata de humor e se há, de fato, interação. 6 LEITE, K. Desigualdade e Políticas: O Papel da Ciência - Kelen Leite. 2018. (48m11s). Youtube. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=C76b0VxIe-A>. Acesso em: 10 out. 2020. 68
sonagens: um agente da PF, que colhe o depoimento de um deputado. Resumidamente, o enredo é o seguinte: o deputado passa a delatar diversos políticos do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), partido localizado mais à direita no cenário político brasileiro, o qual vários veículos de mídias independentes dizem não ser investigado pela Lava Jato, embora haja evidências de que a corrupção seja também muito forte nesse partido. Nessa delação, o agente da PF se mostra pouquíssimo interessado, já que os políticos delatados seriam todos do PSDB. Até que surge, entre os documentos apresentados pelo deputado, um recibo de um jantar em que consta uma refeição: “Arroz de lula”. É o suficiente para que o agente peça para que se emita o mandado de prisão para o expresidente Lula, sem que este tenha qualquer envolvimento com o jantar, a não ser a homonímia com o molusco. Ao final do vídeo, ainda, o agente força uma resposta do deputado, para que este pronuncie a palavra “Dilma”, mesmo que totalmente descontextualizada 8, para emitir um outro mandado, agora para a prisão da ex-presidenta Dilma Rousseff. É essa parcialidade representada no vídeo “Delação” que faz com que haja 7
No momento em que volto a este texto para revisar e entregar aos organizadores deste volume, praticamente dois anos após a minha fala no Seminário Ciência, Políticas e Metodologias de Pesquisa: diálogos Brasil e Portugal, estão em evidência as revelações dos vazamentos de mensagens entre procuradores e outros servidores públicos ligados à força tarefa da Lava Jato, vazamentos chamados ironicamente de Vaza Jato. As repor tagens que tornam públicas as conversas entre esses servidores têm sido produzidas prioritariamente pelo site The Intercept Brasil, e têm posto em xeque a própria operação da Polícia Federal, colocando em suspeição a atuação de seus membros (cf. https:// theintercept.com/series/mensagens-lava-jato/). Em um próximo texto, devo revisitar os comentários do vídeo “Delação”, pois há interessantes materiais a serem analisados ali, produzidos após as divulgações da Vaza Jato e que provocam inclusive uma necessária reflexão sobre as metodologias de análise e coleta de dados no espaço dos comentários, produzidos a qualquer hora e por qualquer navegante. 8 Há uma exploração humorística de um traço fonético do português brasileiro, a pronúncia de “i” no lugar de “e” em determinados contextos, sobretudo os átonos. Vejamos o diálogo final do vídeo: “Agente: Você não precisa de mais nada? Deputado: Não, não preciso de mais nada. Agente: Do que é que você precisa? Deputado: De nada. Agente: Vamos supor que você queira cozinhar, você precisa de quê? Deputado: Eu preciso... de uma panela... Agente: Dilma panela? Deputado: É de uma panela. Agente: Dilma? Deputado: De uma. Agente: Dilma? Pode omitir o outro mandado, tá presa a comparsa dele também”. Embora grafados aqui de formas distintas, tanto “de uma” quanto “Dilma” têm praticamente a mesma pronúncia, algo próximo de [‘diwma]. 69
enorme controvérsia, de modo a ultrapassar as fronteiras do vídeo e do próprio YouTube9. Ao menos no Brasil, há um hábito de comentar os materiais veiculados na Internet. Trata-se de um tipo de comportamento digital, impulsionado e possibilitado pela Web 2.0 10. Em vídeos muito visualizados no YouTube, há milhares de comentários, assim como em outros espaços, como os proporcionados pelos portais de notícias e sites de grandes jornais. Esse espaço recente tem se configurado como um lugar específico de debate público na Internet, sobretudo nas redes sociais e sites/portais de notícias. Há, portanto, um debate público acontecendo nesses espaços, e não podemos ignorar isso enquanto pesquisadores, principalmente enquanto pesquisadores do discurso. Contudo, o modo como se dá o debate no Facebook, no YouTube e em portais de notícias mostra importantes diferenças. No perfil de uma pessoa qualquer do Facebook, a tendência é que o debate fique mais restrito aos amigos virtuais, embora possam ocorrer outras formas de interação, por exemplo, em páginas de jornais e de outros veículos de comunicação mantidas no Facebook (praticamente todos os jornais, como Folha de S. Paulo, por exemplo, mantêm páginas no Facebook, assim como outros veículos de comunicação, como o Catraca Livre e o Brasil 247). Nessas páginas, os usuários da rede social podem comentar livremente e interagir com pessoas que não são da sua “bolha”. Em geral, os grandes jornais, como a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo, também portais de notícias como o G1, destinam espaços específicos para que os internautas leitores possam comentar as notícias que estão sendo veiculadas no seu site. Trata-se de um canal que se vincula diretamente às notícias, pois vem logo abaixo delas e cada comentário vai se somando aos demais. Nesses espaços, a depender do veículo de comunicação, pode haver algum tipo de moderação, muito provavelmen9
Houve sugestão, inclusive, de boicote ao grupo de humor por conta desse vídeo (cf. Disponível em: <https://www.huffpostbrasil.com/2016/04/08/lembra-o-videodelacao-do-porta-dos-fundos-o-boicote-que-pla_a_21691141/> Acesso em: 10 out. 2020. 10 Marcada especificamente por aplicativos que permitem ao usuário a produção de conteúdos (ver Barton & Lee, 2015). 70
te efetuada por máquinas virtuais que detectam palavras e expressões “proibidas”. No caso do YouTube, a interação se dá de modo bem mais aberto. Tendo um perfil, que pode ser, inclusive, falso, este vai gerar a possibilidade de se comentar os vídeos que ali estão disponibilizados. Em canais como o “Porta dos Fundos”, que é bastante conhecido, esses comentários se multiplicam fortemente. E não há uma mediação muito controladora, ou mesmo uma mediação aparentemente estabelecida. Então, os comentadores e os comentários que lá são produzidos não mostram ter sofrido algum tipo de controle. Como já anunciado nesta mesa, vou enfocar nos comentários do vídeo “Delação”. Primeiramente, porque se trata de um dos vídeos mais comentados do canal “Porta dos Fundos” e, em segundo lugar, porque é um vídeo que gerou muita controvérsia no canal e fora dele. Algo digno de nota é a questão do humor ou o modo como ele é compreendido (ou não) pelos comentadores. Ao ler os comentários, é observável que o humor passa quase despercebido. Trata-se de algo bastante interessante, visto que afinal este é, de fato, um vídeo de humor produzido por um grupo de humor. Esse ato de ignorar que se trata de um material humorístico me parece bem revelador do tipo de interação que se passou a estabelecer ali. A maioria das pessoas comenta e se posiciona muito acidamente e muito polarizadamente sobre o conteúdo do vídeo. As posições dos sujeitos que ali comentam são em torno do conteúdo do vídeo, não importando com o fato daquilo ser humor. No máximo, há um ou outro que se dispõe ou a rir ou a questionar a validade do vídeo enquanto peça humorística. Do ponto de vista analítico, o conteúdo produzido pelo comentário e o próprio espaço do comentário proporcionam novas questões. Só pelo fato de se estabelecer como um lugar para que as pessoas comentem, escrevam on-line, respondam aos conteúdos produzidos ou mesmo aos outros comentários, há algo muito interessante acontecendo, que é a observação imediata das reações ao conteúdo que foi produzido. Isso é algo que antes somente poderíamos supor, com exceção de poucos espaços, como as cartas ao leitor, que são de uma outra categoria, as 71
quais sofrem diversos tipos de controle e não ocorrem, de forma alguma, imediatamente. De tal modo, poderíamos apenas supor que um texto ou outro material poderia provocar uma reação X ou Y. No caso dos comentários, podemos atestar essa reação X ou Y quase que imediatamente. E com isso não quero dizer que as reações ali observadas são as únicas possíveis, tanto que eu comecei dizendo que não há reação imediata sobre o humor. No caso do vídeo em tela, parece-me que as reações são até previsíveis, porque se tem, nesse mesmo contexto de produção do vídeo, uma polarização política acontecendo. E ela determina, de uma maneira muito incisiva, o que as pessoas vão dizer e de que modo elas vão se po sicionar em torno daquele conteúdo produzido. Assim, desse ponto de vista, o espaço do comentário permite a produção de um debate público importante e no qual se pode encontrar material riquíssimo para análise, tanto para as teorias do discurso quanto para as teorias da conversação, da análise de conteúdo, da interação etc. Do ponto de vista da interação, há uma questão que precisamos observar mais atentamente. Em resumo, o funcionamento discursivo dos comentários de “Delação” mostra que há uma tendência, por conta dessa polarização política, de não escuta, de não se compreender o que o outro diz. Então, na verdade, a interação é superficial e muito marcada pelo clichê, o lugar-comum e pelo estereótipo. Há posicionamentos que não se conversam, de fato, e é nisso que queria me deter aqui. O que as análises mostram é que nós temos basicamente dois tipos de comentários. Um que não suscita nenhum tipo de interação, que está “solto”, isto é, não provoca respostas de outros comentadores, embora se possa observar uma posição discursiva e ideológica clara. E um outro tipo de comentário que abrange aqueles que suscitam algum tipo interação, a partir dos quais se estabelece uma conversa, em que outros comentadores respondem ao comentário inicial. Nesse tipo de comentário também é possível identificar uma posição discursiva e ideológica. Já de início, posso afirmar que não é só a posição discursiva e ideológica do comentador que vai fazer com que o comentário provoque interação. Claro que isso está restrito a esse vídeo específico que estou analisando. Não é possível, de tal forma, generalizar para outros do You72
Tube, ou mesmo para outros espaços de comentários na Internet. Para pensar isso generalizadamente, precisaria analisar uma massa de dados e utilizar algum software que pudesse medir o modo como se dá a interação nas redes. Mas aí temos um outro trabalho. Com relação a esse tipo de comentário que suscita interação e implica fortemente muitas respostas, podemos inicialmente especular sobre as motivações para isso ocorrer. Isso, porém, é muito difícil de mensurar, porque muito provavelmente são motivações que não estão exatamente no comentário ou não estão somente no conteúdo produzido, e que, talvez, sejam até externas, como o fato de existirem “comentadores profissionais” (acho que em alguns casos, podem-se se excluir as aspas...), que passam boa parte do seu dia comentando conteúdos na Internet. Assim, é muito difícil entendermos porque um comentário X teve muitas respostas e um comentário Y teve poucas ou nenhuma. De tal modo, o que vou observar aqui é a polarização política nos dois tipos de comentários. O que se pode observar é que a polarização é perceptível e indica dois posicionamentos específicos, um contrário ao conteúdo do vídeo e outro, favorável11. Entender essa interação que se dá entre esses dois posicionamentos é o que para mim é mais relevante nesse momento. Assim, já de antemão, antecipo que se trata de interação superficial, cuja escuta está prejudicada pela polarização desses posicionamentos. O que ocorre é uma não compreensão entre esses dois posicionamentos que se interincompreendem mutuamente (MAINGUENEAU, 2005). Para podermos visualizar, segue um quadro com enunciados do primeiro tipo (em que não há interação estabelecida) e alguns dos comentários do segundo tipo, junto de algumas das respostas que eles suscitam:
Há diversos comentários que não abordam o conteúdo do vídeo, limitando-se a fomentar a polarização política ou apenas a agredir. 11
73
ComentĂĄrios do tipo 1 (nĂŁo hĂĄ interação) Posicionamento 1 “Quanto serĂĄ que receberam de "incentivo cultural" para a realização dessa obraprima?â€? “o problema do PT ĂŠ aquela velha histĂłria, quem nunca comeu melado se lambuza, os outros partidos tĂŁo acostumados ao longo do tempo e nĂŁo se lambuzam tanto, sĂł retardados pra nĂŁo enxergarâ€? “Sem graça. "Aparentemente" a intenção maior foi defender interesses polĂticos, em vez de fazer algo cĂ´mico. Sem contar o desserviço que estĂĄ sendo feito, ao escarnecer de uma das mais importantes açþes realizadas pela justiça brasileira.â€? “e ainda tem gente que dĂşvida que esses caras nĂŁo sĂŁo pagos pelo PT. Porta dos Fundos perdeu a credibilidade jĂĄ faz muito tempo..â€? “13.000.000 de inscritos....aĂ vocĂŞ olha seu canal cientĂfico favorito e tem 1000 inscritos. A mesma ciĂŞncia que trouxe a tecnologia tal qual, permitiu esta desinformação sob o aval do entretenimento.â€?
Posicionamento 2 “E nĂŁo ĂŠ que eles estavam certos? vai lĂĄ, da bola pro metaleiroâ€? “Melhor video do Porta .. Ondi esta os otarios que sairam nas ruas , com panelas em pleno domingo? Agora o pĂĄis esta pior que antesâ€?
“E exatamente isso que acontece. Todos os partidos estĂŁo envolvidos atĂŠ o pescoço e sĂł criticam o PT kkkkkkk... Porta dos Fundos, vcs sĂŁo visionĂĄrios e inteligentes! Voces tem minha admiração! Chupa tucanos de merdaaaaaaa!!!! Chupa viuvas do FHC!!!â€? “Vim do futuro pra falar que o Porta dos Fundos tava certo e os coxinhas enfiaram as panelas naquele lugar đ&#x;˜‚đ&#x;˜‚đ&#x;˜‚đ&#x;˜‚ đ&#x;˜‚đ&#x;˜‚â€? “KKKKKKK.....A cara da nossa PF, do nosso MPF (sobretudo o de Curitiba).....Muito bom o vĂdeo!. MUITO TRISTE Q SEJA UM HUMOR Q REPRESENTE A VDD DESSAS INSTITUIÇÕES!.â€?
ComentĂĄrios do tipo 2 (hĂĄ interação)12: [comentĂĄrio com 114 respostas] Esse vĂdeo ofende a PF, se vocĂŞs nĂŁo acompanham o trabalho deles nĂŁo podem publicar um vĂdeo assim, nĂŁo existe apenas a Lava Jato, e tambĂŠm nĂŁo foi "sĂł o PT" que sofreu as conse qßências com relação Ă corrupção. Leiam mais sobre a operação e tambĂŠm sobre outras. A PolĂcia Federal trabalha imparcialmente, quem nĂŁo sabe Todos os comentĂĄrios foram coletados em acesso no dia 06 de novembro de 2017 ao vĂdeo “Delaçãoâ€?. 12
74
disso ou não pesquisa ou fica repetindo o que um vídeo desse promove. Comprados! PS: meu comentário não é político, não estou defendendo nenhum partido e sim demonstrando minha indignação por terem ofendido um departamento que trabalha tanto. Acompanhem melhor o trabalho da PF antes de Se alienarem. Resposta 1: A crítica construtiva, vinda através de um humor sarcástico, é devido a não existir membros do PSDB detidos, mesmo sendo denunciados nas delações. Acho que muita gente não entende da importância do humor como crítica...infelizmente Resposta 2: Muito boa colocação... é isso mesmo... a vagabundagem tem que respeitar a Polícia Federal!! Resposta 3: É mesmo? Mas você se lembra do aeroporto do tio do Aecio? Ou do helicóptero de cocaína do Perrela? Se o "apartamento do Lula" é investigado, por que o "aeroporto do Aecio" não é investigado? Resposta à resposta 1: Não existem membros do PSDB detidos porque eles têm FORO PRIVILEGIADO, ô animal de teta. E quando eles têm FORO PRIVILEGIADO, o processo vai direto para as mãos do Janot, ou seja, a PF não tem NADA A VER COM AS PRISÕES DOS PSDBISTAS. Para de ser idiota e vai ler em vez de ficar ouvindo blablabla de quem não entende. A crítica é vazia pois quem escreveu o texto não entende bosta nenhuma de como todo o processo funciona; a "crítica" só serve para mentes vazias que querem enxergar um viés partidário na Operação Lava Jato e se esquece de quão importante ela é, tudo para defender um partido de bosta que já está morto há tempos. O humor perde a importância quando vira palanque pra petista. Agora vai tomar no seu cu. [Comentário com 65 respostas]: já denunciei este vídeo, você pode fazer o mesmo Resposta 1: você é idiota, né? Resposta 2: Você pode não gostar do vídeo, é um direito seu. Mas qual é a regra, lei ou norma que foi desrespeitada para motivar a denúncia do vídeo? Cada um faz vídeo a favor ou contra o partido que quiser, e isso não é 75
motivo de denúncia. Por mim, que prendam todos os corruptos de todos os partidos, seja PT, PSDB, PMDB, PV, etc. Resposta à resposta 1: idiota é quem defende o PT Poderíamos voltar à questão do que provoca a interação, primeiro como isso se dá observando o primeiro comentário, que tem 114 respostas (é o que mais tem respostas no espaço de comentários desse vídeo). Pode-se observar que ele é mais longo, que parece defender uma posição e argumentar minimamente. Nesse caso, poderíamos defender a ideia de que comentários mais elaborados suscitam alguma interação. Por outro lado, se observamos o outro comentário, trata-se de uma sentença de duas frases. E ele também provoca uma série de respostas. Então, novamente, a interação é muito pouco previsível. Se observarmos o quadro dos comentários do tipo 1, são enunciados que poderiam, qualquer um deles, impor uma interação, e, no entanto, não ocorreu. Por outro lado, pode-se observar que tipos de efeitos causam essas interações no espaço de comentários do canal Porta dos Fundos. O que se pode analisar, de imediato, é que estamos bem próximos daqueles posicionamentos que observamos no quadro anterior, eles se mantêm aqui. Voltando ao que eu dizia anteriormente, isto é, ao fato de que a interação é superficial ou fadada ao não entendimento recíproco, o que quero defender é que esses comentários em que há interação são uma amostra do que Maingueneau (2005) chamou de interincompreensão generalizada. Isso porque a interação que ocorre, nesse tipo de comentário, é uma interação em que o diálogo está calcado na não escuta ou numa escuta mediada pela semântica do discurso que se opõe ao do comentário. Não se trata, de fato, de um diálogo em que as pessoas estão abertas a compreender umas às outras. Retomando o conceito de Maingueneau, da interincompreensão generalizada, quando da proposição desse conceito, ele analisava o discurso religioso do século XVII quando havia uma polêmica entre duas tendências da igreja católica, que são o jansenismo e o humanismo devoto. Maingueneau chega à conclusão de que a polêmica pode ser interpretada num processo de interincompreensão generalizada. Isso quer dizer que os dois discursos não se compreen76
dem mutuamente. De fato, essa incompreensão, frise-se, não se dá por uma má vontade, mas porque cada discurso só permite que o outro seja compreendido a partir das suas próprias regras semânticas de funcionamento. Então, nesse espaço discursivo em que há o debate, há uma interincompreensão. E isso ocorre nas polêmicas de ambos os lados. Não é privilégio de uma ou outra posição. Um exemplo atual que compreendo como revelador da interincompreensão é o aparecimento da expressão “ideologia de gênero”. Para um certo discurso conservador, as ideias defendidas pelo outro discurso são interincompreendidas e desqualificadas, a ponto de se cunhar uma nova expressão, que é “ideologia de gênero”. Veja, para aquele discurso conservador, não há possibilidade de compreender a ideia de gênero, então ela é desqualificada, associada à palavra “ideologia” 13. De tal modo que, agora voltando ao vídeo, há uma certa predisposição para a interação, mas não há para compreender o outro. Isso está acirrado nas posições polarizadas que vivemos, hoje, na política. No caso, a polarização se dá em torno da PF e de sua ação, mostrada humoristicamente no vídeo. Vou chamar esses dois discursos que temos aqui polarizados, deliberadamente, de discurso mortadela e discurso coxinha, porque acho que, se ficar no universo da comida, a gente se dá melhor. Esses discursos vão agir e estar presentes nas respostas dos internautas e na interação que se estabelece entre esses comentadores do vídeo, indicando que esse diálogo ali estabelecido está profundamente marcado pelas regras de funcionamento desses dois discursos. Como exemplo, voltemos ao primeiro comentário. Vejamos como há uma certa argumentação em defesa da PF (embora haja um esquecimento providencial de que se trata de uma peça de humor...), e ela [a autora do comentário] vai razoavelmente bem. Porém, a argumentação esbarra numa palavra, “comprados”. Nesse caso, qualquer argumento já está marcado pela imagem que se faz do outro. Trata-se de um clichê (talvez um pré-construído) do discurso coxinha: todos que fizerem algum tipo de crítica ao funcionamento das investigações da PF, ou mesmo questionem o modo como as investigações da corrupção avançam 13
Sobre esse assunto, ver Gatti & Mendonça, 2018. 77
no Brasil, são vistos como “petistas”, ou como alguém que recebe algum dinheiro para defender o PT (comprados...)14. Observando a resposta 1 a esse comentário, há uma marcação de posicionamento explícito de defesa de que se trata de um vídeo humorístico crítico que questiona a atuação da PF em torno do PSDB. Não há menção ao PT. Mas, na resposta que vem a seguir (resposta à resposta 1), de certa forma, há mais do mesmo. Até quando se tem uma tentativa de estabelecer uma interação mais ampla como é a resposta 1 (embora ela esteja marcada também por diversos lugares comuns, como “não se prende tucano” etc.), na resposta a ela, há uma truculência e uma crueza que evidenciam as regras do discurso coxinha. Esse discurso impõe seu funcionamento de tal forma que a interação acaba por ali. E note-se que as imagens que se faz do outro funcionam na base da interincompreensão. O outro é sempre visto de forma homogênea: criticou a Lava-Jato, é mortadela. Dito isto, quando se fala que o conteúdo do vídeo é ruim, logo se é visto como um coxinha. Se digo que o conteúdo do vídeo é interessante, sou visto imediatamente como um mortadela, que defende corrupto, defende o PT. E isso, mesmo nos comentários mais elaborados que não são compostos apenas por uma frase. Isso quer dizer que, mesmo em comentários desse tipo, a intercompreensão atua. Ela não é, portanto, uma ferramenta dos discursos ignorantes, ou de discursos que são menos qualificados. É, na verdade, um modo peculiar de funcionamento dos discursos em uma polêmica. Tanto que se observamos os discursos que dão origem a esse conceito, eles não são nem um pouco simplificados. São muitos e muitos anos de debate em nível, digamos, elevado. De tal modo, a interincompreensão estará na base do funcionamento discursivo; e, fatalmente, em situações polarizadas como a que vivemos, haverá essa impossível conversa, esse impossível diálogo, que se estabelece e que, de fato, por vezes, é uma não interação. Sabendo da interincompreensão como um processo discursivo comum, já que ela ocorre tanto em grandes debates polêmicos, como os 14
Há casos anedóticos de fake news disseminadas à exaustão, por exemplo, de artistas que supostamente teriam uma mamata, via Lei Roaunet, ou de manifestantes que só iriam defender o governo porque receberiam um sanduíche de mortadela. 78
que são analisados por Maingueneau, e em casos como estes que analiso, as perguntas que ficam são: “de que vale a interação num processo de interincompreensão?” E “para que interagir, sabendo da interincompreensão?” Não quero parecer alguém que vai dar uma receita, porque essas coisas em debate público não funcionam. Pelo menos eu acredito que não funcionam. Mas de todo modo, no que se pode pensar, é que o público daquela enunciação, de fato, não é o seu outro imediato, isto é, se o comentário quer persuadir alguém, este alguém não vai ser o seu outro imediato. Dito de outra forma, não adianta muito um progressista querer persuadir um reacionário. Parece, assim, que a noção de auditório universal, de Perelman & Olbrechts-Tyteca (2005), pode ser bem válida nesse caso, porque se responde a um alguém específico, naquela interação, mas muito mais para destacar o que de errado ele vem falando e argumentando. Então, buscase uma adesão de outros leitores, que eu posso recortar como um público particular (se eu me restrinjo a ridicularizar, por exemplo) ou eu posso projetar um auditório universal, para o qual eu terei que ser muito mais didático, mais claro do que apenas ridicularizando o outro. Então, a interação vale para esse auditório que seria universal. Não porque ele seria homogêneo, mas porque ele seria demasiadamente heterogêneo, no sentido de haver muitas posições ali naquele universo de leitores que permitiria, para ficar nos termos dos autores, uma “adesão de espíritos”. Mas está parecendo aqui que estou fazendo uma redação do Enem: primeiro eu apresento algo, depois argumento e, por fim, proponho uma solução. Na verdade, acredito que o que eu faço aqui é mais uma tentativa de compreender as polêmicas e o seu papel no debate público do que propor solução, mesmo porque acredito que isso não passa pela compreensão de que se possa estabelecer um grande acordo consensual. Então termino citando os trechos finais do livro “Apologia da Polêmica”, de Amossy: [...] No fim das contas, é exatamente de uma apologia da polêmica pública que trata esta obra. Não que seja necessário iludir-se sobre seus poderes ou sua moralidade, ou fazer deles um elogio incondicional. O 79
essencial aqui é que ela fornece uma modalidade de interação certamente limitada e imperfeita, mas que preenche funções construtivas, precisamente em razão de seus limites e de seus defeitos. Numa sociedade dividida, na qual o conflito de opiniões permanece como regra, caso deseje preservar seu pluralismo e sua diversidade, a polêmica pública proporciona um meio de lutar por uma causa e de protestar contra o que é percebido como intolerável, de realizar reagrupamentos identitários, provocando trocas mais ou menos diretas com o adversário [...]. A realidade da democracia pluralista, que se nutre das diferenças e do conflito, pede uma retórica suscetível de associar a retórica do consenso aos inúmeros casos em que o acordo sobre o arrazoado é impossível. É isso que justifica, a meu ver, a fórmula com a qual eu gostaria de terminar: “a coexistência no dissenso” (AMOSSY, 2017, p.
216.).
Referências AMOSSY, Ruth. Apologia da Polêmica. São Paulo: Contexto, 2017. BARTON, David; LEE, Carmen. Linguagem Online: textos e práticas digitais. São Paulo: Parábola, 2015. GATTI, Márcio Antônio. MENDONÇA, Viviane Melo de. O estereótipo e a necessidade de (contra)dizer em tempos de conservadorismo político-religioso. Laplage em Revista (Sorocaba), vol.4, n.1, jan.-abr. 2018, p.81-91. MAINGUENEAU, Dominique. Gênese dos Discursos. Curitiba: Criar, 2005. PERELMAN, Chaïm; Lucie OLBRECHTS-TYTECA. Tratado da Argumentação: a nova retórica. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
80
PROLIFERAÇÃO DE INVENÇÕES EM ESPAÇOS CIRCUNSCRITOS* Luciana Salazar Salgado1 Nesta altura, acho que muito do que vou dizer já foi dito de muitos modos, sobre os dispositivos digitais e suas “participações” na produção de sentidos. Então, considerando que farei uma fala de retomada, eu não queria deixar de dizer que já passou este dia todo de reflexão conjunta, que, certamente, estamos cansados, mas, ainda, estamos intensamente indignados com todas as questões que fizeram da abertura desta jornada também um ato político – e que estão reiteradas nesta mesa, na minha opinião. É muito importante o que fizemos o dia todo: estudar do modo como estudamos. Como é que estão fazendo um monte de ações para matar isto2? Temos que reagir mesmo, muito fortemente! Fica registrada mais uma vez nossa posição. Também queria agradecer rapidamente, mas profundamente, pela oportunidade de estar de novo com este grupo interdisciplinar, que permite que eu saia do planeta cerrado onde trabalho habitualmente. Isso é muito estimulante e confortante. Dito isso, explico que o título Proliferação de invenções em espaços circunscritos, que está entre aspas e tem a ver, inclusive, com o seminário que fizemos aqui, também, o Plural da Cultura 3, é uma definição de cultura. Quer dizer, eu penso que é uma definição que De Certeau não propôs DOI- 10.29388/978-65-86678-33-8-0-f.81-96 SALGADO, L. S. Discursos e culturas digitais. 2018 (34m19s). Youtube. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=IVCskZri6lM>. Acesso em: 10 out. 2020. 2 Referência ao suicídio do ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina e das conduções coercitivas e outras formas de censura e intervenção que se iniciaram em 2017, ferindo sistematicamente a autonomia das universidades públicas federais. 3 Referência ao Seminário Plural da Cultura – em torno da obra de Michel de Certeau, ocorrido na UFSCar, Campus Sorocaba, em 19 de setembro de 2017 (cf. http://www.cchb.ufscar.br/noticias/seminario-aborda-a-cultura-a-partir-da-obra-demichel-de-certeau e https://grupopesquisacomunica.wordpress.com/labeppe/pluralda-cultura-seminario) *
1
81
como tal, mas que se desenha em um dado momento nas suas análises de uma série de circunstâncias delineadas a partir de Maio de 68. Ele conclui que, sendo todos os aspectos que aborda da ordem da cultura4, essa coisa difícil de definir – como é o caso de discurso, porque são palavras muito usadas em muitas áreas etc. – trata-se de entender que há movimento, expansão, mas também há restrições, coerção, injunção, e aí chegamos a uma definição que parece muito produtiva: a cultura reunindo tudo que é proliferação de invenções em espaços circunscritos. Para prosseguir, eu queria fazer um comentário inicial, de apoio ao raciocínio, e peço licença aos colegas de mesa, especialistas, para ser um tanto ligeira neste encaminhamento... O que quero registrar como apoio do raciocínio que proporei é: o que é uma abordagem discursiva? (abordagem prevista para esta mesa). Como disse, serei um pouco ligeira, penso que a proposta da interdisciplinaridade pede isso. Temos de considerar todas as coisas que já apareceram nas reflexões de hoje, mas agora numa conjunção de duas delas, basicamente: uma abordagem discursiva está interessada em saber como é que os sentidos se produzem e, então, como é que as coisas fazem sentido, afinal; evidentemente, há vertentes diferentes de estudo, mas, em linhas gerais, é possível dizer que a produção de sentidos está ligada à relação da língua com uma institucionalidade. Passo brevemente sobre essas duas coisas – língua e institucionalidade. Antes de mais nada, preciso dizer que um código linguageiro tem a ver com usos, porque, se fosse só um código, os tradutores automáticos funcionariam super bem, seria ótimo (no sentido técnico do termo: eficiente e eficaz, sem perdas), mas não funciona assim, não é? Por mais que se aprimorem os tradutores, mesmo quando tem lá um interpretante razoável5, fornecendo informações e fazendo ajustes. A língua é um código lingua4
Os ensaios reunidos na obra, A cultura no plural, publicada como livro em 1974, foram produzidos como reflexões sobre ação cultural, subsidiadas por experiências práticas de planejamento e gestão do historiador francês e por sua pesquisa desenvolvida sobretudo na revista Études, onde publicou diversos artigos sobre os acontecimentos de Maio de 68. Num amplo leque de temas, são abordadas questões relativas a minorias; a aspectos identitários como os linguísticos; à educação básica e à universidade; à cultura de massas e às políticas de gestão da informação; às formas organizacionais de produção de imaginários e valores estéticos. 5 Referência a conceito abordado durante a jornada, que designa o sujeito de inteligência não artificial, capaz de lidar com as idiossincrasias do vivido. 82
geiro, significa que ela tem uma dimensão de opacidade, ela não é transparente, não é um código transparente, que se codifica e se decodifica ou se recodifica sem consequências desviantes, digamos, e isso tem a ver com o fato de os sentidos nas línguas se estabelecerem em relações parafrásticas em que, permitam-me, ainda, uma vez ser ligeira, o sentido de uma palavra é sempre outra palavra – e isso pode ser infinito: o sentido de uma palavra é a circunscrição que outras palavras dão a ela em uma dada condição de aparecimento. Estou falando isso porque a gente foi vendo, ao longo do dia, como essas novas técnicas e tecnologias que apareceram não têm nada de óbvias, transparentes e tranquilas. Pois isso acontece com a língua também: a língua é um desses objetos acadêmicos muito maltratados porque, em geral, ela é muito naturalizada, todo mundo fala que língua é língua, língua é isso que falamos, mas quando chegamos perto e vemos como funciona uma língua, o que produz esse código linguageiro, chegamos a uma complexidade parecida com a “mandala” que o João mostrou, conforme o Geraldo a batizou6. Vejam, a disputa pelo sentido de uma palavra é a disputa por uma descrição do real. Por isso é tão importante decidir o nome das coisas, e das crianças e dos bichos… E isso já nos empurrou para uma noção de institucionalidade, pois, se eu estou falando de uso, se eu estou falando de uma coisa que não é transparente e da necessidade de se estabelecerem relações para “fazer sentido”, que sentido é esse que está ecoando aí, então? Tem a ver sempre com uma instituição discursiva, e aqui de novo eu sou ligeira, perdoem, mas acho importante dizer que uma instituição discursiva pode ser uma universidade, um hospital, um governo, mas pode ser também a homofobia, o feminismo, ou seja, não precisa ter um prédio e um regulamento para ser uma instituição, tem a ver com práticas reiteradas que vão funcionando como cerco dos sentidos. O que tem a ver com a história e com a sociedade e tem a ver com o espaço. Essa questão já foi posta no centro hoje 7, e me parece que a noção de território é absolutamente crucial, penso que precisamos dar conta de como é 6
Referência ao diálogo estabelecido pelo Prof. Dr. Geraldo Tadeu Souza (UFSCar) com a apresentação do Prof. Dr. João Maricatto (UnB). 7 Referência à apresentação feita pelo Prof. Dr. Renato Miguel do Carmo (ISCTE – Portugal). 83
que essa experiência de tempo que a gente tem é produzida pelo espaço, no espaço. Não vou entrar nisso agora, se for o caso, conversamos depois, quando abrirmos para o público, mas sublinho que é muito importante porque, do ponto de vista do discurso, essa noção interessa no que concerne aos fluxos de texto. Especialmente com a atual aceleração dos fluxos de texto e com as novas qualidades textuais que se formulam, esse problema do espaço demanda estudar o quadro da administração das crenças subordinando os modos de enunciação, as instâncias enunciadoras: o modo como eu digo uma coisa é tão ou mais importante do que a coisa dita, na medida em que o modo é também um o quê, na medida em que preciso, na dimensão dos problemas que apareceram aqui, nesta jornada, entendê-lo no jogo das instâncias enunciadoras, das instituições que produzem textos e os fazem circular. Nessa perspectiva, considerando a pesquisa sobre cultura, sobre objetos culturais... não sei se já provoquei o suficiente: o que cada um aqui responderia que é cultura? O que é um objeto cultural? Cultura é uma palavra que fazemos de conta ser transparente, tranquila, mas, quando assumimos que é um termo opaco e vamos pensar nele no âmbito do digital, chegamos à ideia de que é preciso pensar que existe uma cibercultura e existe uma cultura digital. Não sei se existem outras coisas também, mas esses grandes blocos são verificáveis, creio. Vou mostrar um caso. Não sei se eu vou conseguir provar esse entendimento, mas a ideia fundamental é que o digital tem a ver muito fortemente com o padrão – se não houver os protocolos, não existe a noção do digital, isso é importantíssimo: tudo começa na padronização, na conversa entre padrões etc., a própria aceleração dos fluxos tem a ver com protocolos ágeis que permitem padronizar as coisas mais diferentes etc. Assim, no que tange à cibercultura, provavelmente esse padrão tem a ver com uma função fundamental de seletividade. Não sei se todo mundo conhece esse prefixo ciber, ele tem a ver com uma tradição dentro da cibernética, que nasce com o desenvolvimento dos sistemas de controle, não são nem necessariamente digitais. Mas o universo digital é fortemente desenvolvido por causa da cibernética, para atender às necessidades dos sistemas de controle, então, num mundo digital, a cibercultura estaria ligada ao pa84
drão como seletividade, como controle da distribuição. E aí a ideia de funcionamento em rede parece interessante, a ideia de cultura digital vem do entendimento de que o padrão teria a ver com propagabilidade. Frise-se: não são culturas completamente distintas essas, são nuances semânticas que conduzem, do ponto de vista político, a lugares distintos. O padrão, na cultura digital, teria a ver, fundamentalmente, com a propagabilidade, mas claro que continua havendo seletividade, claro que a seletividade se propaga, em todo caso, como semântica fundamental. Assim, a cultura digital se define na partilha, no estado de conexão, não tem foco na exclusão do diferente ou na domesticação do incerto. E aí uma metodologia que caiu em desuso, mas que eu acho que seria produtivo retomar nas ciências humanas e sociais. Supõe que se trata, mais do que de rede, de galáxias, porque uma galáxia é tão sistêmica quanto uma rede, mas ela contempla a ideia de relações de forças distintas entre corpos de distinta potência. McLuhan propôs isso, entre outros. Mas como foi meio banido e aí, junto com ele, coisas interessantes foram banidas também, perdeu-se a ideia de galáxia como método de reflexão sobre um sistema, que permite pensar corpos de tamanhos diferentes, forças gravitacionais distintas, com uma dinâmica em que alguns deles desaparecem ou se fundem, ou aparecem... Enfim, penso que isso tem mais a ver com a cultura digital, que estaria mais baseada no que se costuma chamar na historiografia da internet de cultura hacker, a dos primeiros momentos. Se consideramos, então, essa diferença entre cibercultura e cultura digital, podemos ver uma tensão no modo de apropriação das tecnologias: pela ênfase na seletividade ou na propagabilidade. E, neste momento, eu quero, então, contar o tal caso para vocês, para tirar algumas conclusões, levantar alguns pontos a respeito desse entendimento do mundo digital. O caso é o seguinte: em 14 de junho de 2014, no dia seguinte à abertura da Copa do Mundo no Itaquerão, o jornal Folha de S. Paulo, esse jornal que, na minha opinião, só continua existindo porque os analistas do discurso assinam para fazer seus trabalhos (acho mesmo! É um pouco piada e um pouco não é). Enfim, a Folha de S. Paulo publica uma nota, que eu não vou ler na íntegra, porque eu me ocupei, aqui, de recuperar a totalidade gráfica da página. Isso é o que estou tentando resgatar, uma totalidade em funcionamento na qual se estabele85
cem relações parafrásticas... Em todo caso, vejam que essa página não é mais recuperável ipsis litteris em um buscador – o que nos põe de volta diante de questões que já apareceram durante nosso dia de trabalho: esse mundo digital tem uma imensa perecibilidade, uma efemeridade peculiar, por isso não consegui recuperar tal e qual a página do dia 14. Há conteúdos atuais que convivem com conteúdos daquele dia. Mas, então, tem lá uma curtíssima reportagem sobre as vaias dirigidas à então presidenta Dilma Rousseff. Não tem título, está registrada a data e também que foi postada às duas da manhã. Logo ao lado desses breves parágrafos, figura um poema do concretista Augusto de Campos com uma explicação - uma legenda: “o poema Viva Vaia é de autoria de Augusto de Campos e foi publicado em 1979 em coletânea homônima de poemas no contexto das discussões do concretismo brasileiro”. “Viva Vaia” é um poema que suscita uma questão definidora do concretismo, que eu não vou explorar aqui e tem a ver com a materialidade (por exemplo, o poema foi publicado incorporando a costura da encadernação). Mas nós estamos em 1979, e esse poema foi feito em homenagem à vaia que Caetano Veloso leva no III Festival Internacional da Canção em 68, com É proibido proibir. É, portanto, uma ode à vaia a partir da qual Caetano diz muitas coisas ao público e ao júri, estabelecendo um marco na relação entre artista e auditório. E eu queria chamar a atenção para um aspecto característico do movimento concretista, supondo que vocês tenham, em alguma medida, uma ideia do que seja, pois é um movimento crucial no meio do século XX, todo o design, toda a teoria do design se valeu muito do que produziram os concretistas, e uma coisa crucial desse movimento estético, no que diz respeito especificamente à poesia – e está lá no Plano-piloto para Poesia Concreta em relevo – é o fato de que o poema objeto, a poesia como um objeto em circulação, se desligava de sua autoria para ganhar o mundo em variadas formas de retomada – esse é um princípio do manifesto concretista. Vejamos, por exemplo, essa retomada, que foi capa de disco já e aparece em outros lugares, talvez vocês até já tenham visto uma das retomadas e não sabiam que era o “Viva Vaia” do Augusto de Campos8. 8
Referência a uma sequência de imagens que mostram retomadas do poema, com variações plásticas importantes. Parte dessa sequência pode ser encontrada no artigo 86
Essas retomadas vão acontecendo por muito tempo no site do próprio poeta, esse bordado do portal que é a cabeça do site (em vermelho e branco) está agora em amarelo e azul (amarelo clarinho e azul clari nho, não aquele amarelo e azul tucano...). Foi por um tempo retomado nos relógios urbanos, no projeto Arte no Relógio na cidade de São Paulo. Recentemente, talvez entusiasmada com o episódio da Copa do Mundo, uma grife de roupas femininas chamada “Ilumiô” fez uma camiseta - eu não vou ler a matéria de moda para vocês – mas se registre que foi lançada com relativo apelo à polêmica que eu quero mostrar. Diante disso, o elemento disparador do que quero mostrar: Augusto de Campos ficou muito chateado e escreveu para o jornal registrando seu desacordo com o uso do poema, e foi publicado nesta página – o Painel do Leitor. Na verdade, o texto dele está no que seria uma “segunda página” desse Painel, exige que se role bastante a tela, e aparece com um título dado pelo jornal, porque os jornais habitualmente titulam as cartas de leitores que publicam [Título atribuído pelo jornal: “Xingamentos a Dilma”]. Então o texto de Campos, que aparece assinado por um “poeta e advogado”, está publicado no meio do Painel do Leitor, em meio a outros textos de outros leitores sobre outros temas, só na versão digital, disponível para assinantes. É preciso querer ir até Painel do Leitor e perscrutá-lo para encontrar lá, entre outras, a reclamação desse Augusto. Nesta altura, penso que é o caso de ler o que mais tarde será referido nas redes sociais como “a carta” dele. “Prezados Senhores, Esse jornal utilizou, em 14 de junho de 2014, com grande destaque, o poema VIVA VAIA, de minha autoria, como ilustração de matéria ambígua sobre os insultos recebidos pela presidente Dilma, na partida inicial da seleção. Utilizou-o sem minha autorização e sem pagar direitos autorais: sem me dar a mínima satisfação. Poupo-me de comentar a insólita atitude da Folha, a quem eu poderia processar, se quisesse, pelo uso indevido de texto de minha autoria. A matéria publicada, composta de três artigos e do meu poema, cercado de leintitulado “Sobre a produção de valor: a recente circulação do poema “Viva Vaia”, de Augusto de Campos, disponível em: <http://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/17224>, no qual se desenvolve uma outra abordagem desse mesmo material. 87
gendas sensacionalistas, deixa dúvidas sobre a validade dos xingamentos da torcida, ainda que majoritariamente os condene, e por tabela me envolve nessa forjada querela. A brutalidade da conduta de alguns torcedores, que configura até crime de injúria, mereceria pronta e incisiva condenação e não dubitativa cobertura, abonada por um poema meu publicado fora de contexto. Os xingamentos, procedentes da área vip, onde se situa gente abastada e conservadora, evidenciam apenas a boçalidade e a truculência que é o reverso da medalha do nosso futebol, assim como a inferioridade civilizatória do brasileiro em relação aos outros povos. Escreveu, certa vez, Fernando Pessoa: “a estupidez achou sempre o que quis”. Como se viu, até os candidatos de oposição tiveram a desfaçatez de se rejubilarem com os palavrões espúrios. Pois eu lhes digo: VIVA DILMA. VAIA AOS VIPS.” Augusto de Campos
Comento: “A Folha utilizou meu poema VIVA VAIA como ilustração de texto ambíguo sobre os insultos recebidos pela presidente Dilma. Utilizou-o sem minha autorização, sem pagar direitos autorais...” Vejam que interessante, ele é signatário do Manifesto que diz que o poema se desprende do autor. Muito interessante isso! “Sem me dar a mínima satisfação”, “Poupo-me de comentar a insólita atitude do jornal ao qual eu poderia processar pelo uso indevido de texto de minha autoria”... É muito interessante isso, porque, do ponto de vista estético, não faz nenhum sentido ele reivindicar essa autoria, do ponto de vista político, sim. O cidadão, que é também poeta (ou o poeta, que é também cidadão) não aceita essa retomada. “A reportagem em que o meu poema é cercado de legendas sensacionalistas deixa dúvida sobre a validade dos xingamentos da torcida e por tabela me envolve nessa forjada querela”, “a brutalidade da conduta de alguns torcedores mereceria incisiva condenação e não dubitativa cobertura abonada por um poema meu publicado fora de contexto”... Esse “fora de contexto”, para um concretista, é louquíssimo. A ideia não era a 88
de que o poema vai para o mundo para ser retomado em variações plásticas…? Mas a hipótese explicativa é: o lugar de fala se altera aqui, não é o poeta signatário apenas, é o consagrado poeta do panteão da cultura brasileira que emite opinião sobre as coisas deste país e que está claramente se sentido convocado a um posicionamento que não é o dele, e assume vigorosamente o seu: “os xingamentos proferidos pela área vip do estádio, onde se situa gente abastada e conservadora, evidenciam a boçalidade e a truculência que é o reverso da medalha do nosso futebol, assim como a inferioridade civilizatória do brasileiro”, “até os candidatos de oposição tiveram a desfaçatez de se rejubilarem com os palavrões espúrios”... E, depois dessa denúncia de caráter moral, ele deixa, em uma linha, em destaque: “Pois eu lhes digo: VIVA DILMA, VAIA AOS VIPS. Nesses termos, Viva se separa de Vaia, o primeiro saúda à presidenta injuriada; o segundo joga sobre o público truculento uma vaia que retoma a que recebeu Caetano no Festival, aquela que a história mostraria ser um marco definidor tanto do grande artista quanto do público xucro, movido pelo regime de exceção em franca implantação no período. Houve discussão, em alguns fóruns, sobre ele haver criado um novo poema. Há toda uma questão da aliteração da letra V, também da sua força gráfica – VIVA DILMA. VAIA AO VIPS. Houve também muita discussão sobre o fato de um poema ser usado como ilustração, no caso da reportagem publicada pelo referido jornal. Do ponto de vista estético, isso já é uma questão enorme. Mas o que eu quero mostrar para vocês é que, no dia seguinte às vaias no Itaquerão – dia 15, portanto – a carta sai publicada naquele lugar que eu mostrei, e o próprio Augusto de Campos vaza seu texto na internet, vaza-o pedindo circulação. Apresenta-se como o ponto inicial do vazamento a postagem de Glauco Cortez. Vejam que interessante, ele faz a mesma coisa que o jornal: dá um título para o texto. Afinal, na “blogosfera” é assim que são feitas essas chamadas, as repostagens, as apropriações, as redes: “Augusto de Campos destrói a Folha de S. Paulo, “VIVA DILMA, VAIA AOS VIPS” – isto é o que vai aparecer nos buscadores, e aí, já na página aberta, encontra-se a explicação de que o texto foi publicado a pedido do próprio Augusto de Campos: “Publicando, a pedido de Augusto de Campos, carta ao jornal Folha de S. Paulo”. 89
Gostaria de chamar a atenção para os botões que há nesta página, pois estamos falando da propagabilidade, e vejam o número de possibilidades de “repassagem” que essa estrutura oferece (há onze botões para aplicativos ou plataformas). Essas coisas não são bichinhos que estão aí enfeitando o layout, tudo isso são formas de produzir fluxo de textos em comunidades distintas. Enfim, importa aqui constatar que esse texto, com distintas chamadas (portanto, distintos enquadramentos de leitura) se espalhou loucamente. Em três dias, a quantidade de resultados que se obtinha pesquisando em máquinas diferentes, não só no meu note, que já estava atrás desse tema, era daquela ordem dos zilhares, quando nem guardamos mais os números, aquela quantidade que dá uma sensação de “viralizou”, “bombou”, “explodiu”. Sobre isso, só mais uma observação: foi explodindo – e é isso que eu tenho para mostrar para vocês – numa dada direção semântica. Vejam como aparecia: “Augusto de Campos [um verbo: detona, destrói, arrasa...] a Folha, que não publicou”; “Augusto de Campos critica uso de poema”; “ ‘Viva Dilma, vaia aos vips’, diz poeta Augusto de Campos”... É muito interessante ver como a mesma coisa não é mais a mesma coisa, os modos como a “carta” vai sendo retomada vão construindo novos sentidos, que se coadunam e produzem um certo rumor público. Com o passar dos dias, uma semântica começa a predominar: ele destrói, ele acaba com, ele botou no bolso, palavrões... essa é a semântica que se intensifica no decorrer dos dias, uma torcida animosa que lembra a de futebol. Foi possivelmente esse rumor público que levou o jornal a republicar a carta três dias depois. Três dias depois. Tudo isso em três dias! O jornal republica a carta no Painel do Leitor de novo, mas agora em destaque, logo na abertura do Painel, tanto no jornal impresso quanto no digital, na parte aberta do digital. Claro que o texto, mesmo aí, está competindo como uma quantidade de coisas que se movem, oferecendo produtos e serviços, tem pop-ups, tem de tudo aí nessa página tremendamente comercializada do jornal. E vejam que a carta que eu li para vocês é republicada com este título: “Augusto de Campos critica uso de poema em reportagem sobre vaias”. Essa é uma questão muito cara para a análise do discurso: eu estou falando do mesmo texto ainda? Mesmo, mesmo? O mesmíssimo? Vejam a quantidade de sentidos que se foram acumulando 90
nessa circulação ora selecionada e controlada pelo jornal que a tranca no Painel do Leitor, onde logo perecerá sem muitas visualizações, ora propagada sem controle da diversidade de enquadramentos. Me interessa observar o modo como esse texto se espraia. Por exemplo: o livro VIVA VAIA 9 apareceu inclusive no Skoob 10, e é interessante que, vendo as anotações das pessoas sobre esse livro de 1979, constata-se que muita gente que começa a aparecer na plataforma tem alguma coisa a dizer sobre o livro. Ele é postado nessa conjuntura (e não antes...), e a comunidade começa a dizer que o livro é bacana etc. No final de 2015, esse livro é republicado, e devo comentar alguns pontos notáveis: o poema Viva Vaia, que era preto no fundo branco da página em 1979, aparece agora em vermelho. A semiótica das cores está posta na conjuntura, marcando o embate entre “vermelhos” e “verde-amarelo seleção canarinho”. Há também um CD em que o filho de Augusto de Campos, Cid, trabalhou sonoridades. Em 79 não havia essa mídia e, de fato, nenhuma correlata em termos editoriais. É ainda o mesmo livro? O mesmo poema? Sua constituição institucional mudou, é um dado. Sua constituição material também, outro dado. Em julho de 2016, houve no Sesc Pompéia, em São Paulo, na sua imensa área de convivência, aberta a quaisquer passantes, uma exposição de “obras completas”, digamos, de vida inteira 11. Sobre isso, queria chamar a atenção – porque também o acho um elemento complicador – para o fato de estarmos acostumados a pensar que cibercultura e cultura digital (supondo que tenham aceitado essa divisão que eu propus) estão apenas nos meios digitais, se vivificam apenas pelos dispositivos digitais, mas, em termos de cultura, elas transcendem os dispositivos digitais e se impõem como uma lógica hegemônica também ao que não é digital. Os livros didáticos me parecem emblemáticos, pois quando se 9
CAMPOS, A. dos. Viva vaia: poesia 1949-1979. São Paulo: Ateliê Editorial, 2014. Esse nome deriva da palavra books (“livros”, em inglês) lida ao contrário; trata-se de uma das maiores redes sociais colaborativa para leitores. Foi lançada em janeiro de 2009 pelo desenvolvedor Lindenberg Moreira, e permite cadastrar livros lidos, que se pretende ler, leituras abandonadas e títulos desejados, de modo a criar uma biblioteca definidora de um perfil. Os usuários também podem trocar livros por meio do “Skoob Plus”. 11 Referência à exposição “REVER_Augusto de Campos", com curadoria de Daniel Rangel. De 5 de maio a 31 de julho de 2016 no Sesc Pompeia, São Paulo. 10
91
abre um livro didático impresso, logo se vê o hipertexto característico: a estética da navegação está ali emulada, a lógica que preside sua produção é a da cibercultura – ou de uma cultura digital, na hipótese de um livro que busca diversidade, pluralidade e não sobretudo uma padronização conceitual. Considerando isso, o que eu queria sublinhar sobre essa exposição é que se tratava de uma exposição de vida inteira, grande, em que havia um percurso espacialmente sugerido; e o poema Viva Vaia, vejam como ele aparece nessa exposição: é uma obra imensa de ferro vermelho, instalada na saída do percurso sugerido. E, para o que interessa aqui hoje, vale dizer que essa exposição estava abarrotada de “bedéis”. Era uma equipe muito grande tomando conta mais dos passantes do que das obras (muitas delas com equipamentos como vídeo e som), porque, entre outras justificativas, temia-se vandalismo. Havia um receio de que a exposição fosse atacada, porque o Augusto de Campos começou a aparecer de novo, deu entrevistas, etc. E vale frisar a própria decisão do SESC de fazer essa exposição, essa curadoria, a qual também configurava, naquele momento, um engajamento na conjuntura que se produziu. Vejam que existem questões de seletividade e questões de propagabilidade que estão operando em momentos diferentes dessa história: o primeiro texto de Augusto de Campos estava na internet trancado, apagado, desaparecido, impedido de circular, isso fica óbvio para nós depois da discussão deste dia inteiro juntos, mas, em geral, não é o que se crê. Costuma-se pensar que tudo que é digital vai para todos, é aberto, está ali, de modo que a questão é aprender a achar. Voltamos, então, ao aspecto ciber do acontecimento: a internet pode travar coisas, não permitir que circulem (ou permitir que não circulem...). Isso é muito importante na discussão sobre neutralidade da rede, sobre o modo como funcionam os provedores, as chamadas cidades inteligentes... Onde estão os sinais? Esses sinais permitem acessar que tipo de coisa? A neutralidade da rede é o tópico em que mais evidentemente isso aparece: existem formas de seletividade que podem transformar a internet no lugar mais eficaz em termos de impedimento da circulação, o que vai na contramão de um certo senso comum, como vemos. É interessante ver que o poeta, diante disso, sabe que, no âmbito da “blogosfera”, é a propagabilidade que predomina como semântica fundamental, 92
então, ele aposta que ali todo mundo vai repassar, vai acrescentar suas posições, e isso vai sair do controle em que se pretendeu trancar o texto. Infelizmente, eu não guardei alguns screenshots. Numa dessas limpezas de máquina, que não está aguentando mais o tranco, perdi material – as questões de metodologia incluem essas práticas e essas necessidades, não é? – e eu não consegui recuperar boa parte dos espaços que “reblogaram” isso na época. O material viralizou, mas essa viralização depois desapareceu... Vejam só. Enfim, me parece que essa divisão é produtiva para entender esse tipo de acontecimento. E, defendendo-a, faço algumas considerações finais, que talvez até pareçam um pouco apressadas. Esta questão que apareceu aqui desde a manhã, mas sempre de modo muito lateral, acho que Dalton talvez tenha sido mais explícito sobre a experiência de aceleração 12, no sentido daquele sentimento angustiante que todos temos relativo à quantidade de coisas que nos chegam e que temos de administrar, de demandas por ação. Para nós das ciências humanas e sociais, é muito importante pensar o tempo, e o tempo como uma categoria do espaço, nesse lugar onde estamos organizados – nós e os nossos objetos. O celular, por exemplo, é um superacelerador de tempo: estamos simultaneamente em um monte de lugares quando portamos um celular. Todos nós estivemos aqui hoje e em muitos outros lugares o dia inteiro. Do ponto de vista cognitivo, isso é muito relevante, porque isso dá certos cansaços, traz certas dificuldades... e aí a máquina nos vence. Outra coisa que apareceu aqui e que me parece digna de nota é como isso tem a ver com bolhas e ilhas. Não me estendo sobre o tópico, porque parece evidente, agora, com todas as discussões que nós tivemos; mas eu queria chamar a atenção para o fato de que, possivelmente, muitos aqui não se lembravam dessa história que aconteceu em 2014, nem da sensação enquanto ela estava acontecendo naqueles quatro, cinco dias. Recentemente, eu estava numa oficina, em um congresso, e aí as pessoas comentavam a surpresa diante desses dados, tinha gente que não lembrava nem das vaias no Itaquerão! Ou seja, tem uma questão importante que é: viralizou e bombou para quem? Em que mundo? Em que 12
Referência à fala do prof. Dr. Dalton Martins (UFG). 93
jardins? Somos levados de volta àquele problema dos números: como eu coleto os números que atestam a existência do acontecimento? Para fazer o quê com eles? Porque, em análise do discurso, está cada vez mais comum fazer um comentário elegante e inteligente, na melhor das hipóteses, a partir de um conjunto de coisas coletadas por aí e pronto. Mas onde? Na “internet”? No “Google”?, como se diz muitas vezes. Estamos falando de pesquisa acadêmica, em que isso é perigosíssimo, porque mostra um desconhecimento de um tamanho! E um nível de distorção a que chegam as pesquisas... Em termos de produção dos sentidos, não se consegue explicar o que está acontecendo socialmente, como é que certos discursos se hegemonizam e outros perecem. Não se pode entender isso. Se se fala “peguei no Google”, ignora-se a natureza básica da máquina, que tem toda uma programação que o próprio uso vai produzindo etc. Isso nos leva a uma outra questão que também me parece crucial para as humanidades hoje, que é trabalhar com o que, no meu planeta, tem se chamado de materialidades inscricionais; essa ideia de que as materialidades inscricionais têm valor discursivo, ou seja, não é o texto do Augusto de Campos, é um conjunto de inscrições do “mesmo texto” que produz seu valor: ele vale como objeto editorial, objeto de cultura. Tratase desse entendimento de que a nossa relação com os objetos é subjetivante. Exemplo breve: tem o celular, você compra e começa a dar um monte de informação para ele; depois de um tempo, é ele que começa a dar um monte de informação para você, inclusive a hora que tem que buscar o filho, quando tem que pagar a prestação da casa... Ele começa a dizer o que é que você vai fazer agora. Os objetos de cultura são, hoje, altamente subjetivantes. Se eu não descrever as materialidades, os objetos que nos organizam... Que tipo de cadeiras são estas? Vejam, não temos como ficar em círculo nesta sala. Nada disso é neutro, tudo isso é portador de discursividade em alguma medida. Parece-me, então, que a descrição das materialidades inscricionais, e aí o digital nos põe um problema interessante, não tem ainda metalinguagem adequada. Ainda não desenvolvemos uma
94
metalinguagem. Um exemplo breve, típico: no nosso grupo de pesquisa13, temos dificuldades técnicas porque não está clara a diferença entre um site e um blog. Percebemos que a definição vem muito das autorrepresentações, porque, do ponto de vista técnico, tem coisa que parece site mas chama blog. Daí a pergunta que eu fiz para o Dalton no final da manhã. Pareceme que temos que assumir uma descrição minuciosa das coletas, inclusive dos momentos de coleta que não dão certo, que são apenas especulativos, porque, mesmo que eu não saiba direito para quê vai servir aquela minha descrição, certamente ela baliza o trabalho. De algum modo ela pode chegar a uma pergunta de pesquisa inaudita. Se há distorção nos seus resultados, digamos assim, os outros pesquisadores têm uma pista para compreender que tipo de distorção, a partir de que variável essa distorção se deu, e eu estou falando nisso de novo porque, em muitas das áreas desse grande campo que chamamos aqui de ciências humanas e sociais, isso é bastante opaco e já daria um grande debate. Por exemplo, a linguística não se coloca aí, a linguística é um “império do meio”, como diz Bruno Latour 14, ela está lá no meio de todas as coisas, mas não é nenhuma delas. Eu encerro estas considerações dizendo que me parece importante que a gente assuma uma atitude propositiva. Já foi falado entre nós hoje, foi faladíssimo o dia inteiro: temos de ter a coragem de ser propositivos. É preciso, por exemplo, criar uma metalinguagem adequada para esses objetos de cultura. É preciso encontrar uma metalinguagem adequada principalmente para os pontos cegos e cantos mortos, porque também nós temos a tendência a pensar o epicentro dos fenômenos, e parece que nas periferias, nos indícios, nos resíduos é que se vai encontrando um material, do ponto de vista discursivo, muito potente para explicar essas coisas que têm nos deixado um tanto perplexos. Precisamos tratar dessa prolifera13
Referência ao Grupo de Pesquisa Comunica – inscrições linguísticas na comunicação. (cf. Disponível em: <https://grupopesquisacomunica.wordpress.com>. Acesso em: 10 out. 2020 14 LATOUR, B. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Trad. Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1994.
95
ção de invenções compreendendo como se estabelece a circunscrição dos espaços em que ela se torna possível, desejável, inescapável. Conversamos mais depois, obrigada.
96
SOBRE OS AUTORES
Dalton Lopes Martins Professor no curso de Biblioteconomia e do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação PGGCinf da Faculdade de Ciência da Informação (FCI) na Universidade de Brasília (UnB) e no Programa de Pósgraduação em Comunicação PPGCOM (Mestrado) da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás. Possui graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual de Campinas (2002) e mestrado em Engenharia da Computação pela Universidade Estadual de Campinas (2004). Doutor em Ciências da Informação pela ECA-USP (2009-2012), trabalhando com o tema de mapeamento, análise estrutural e dinâmica de Redes Sociais em ambientes digitais distribuídos. Tem experiências nas áreas de inclusão e cultura digital, análise de redes sociais, estudos métricos, organização e representação da informação e aprendizagem de máquina. Tem trabalhado atualmente com acervos e repositórios digitais, com maior enfoque na área da cultura, dados abertos ligados e websemântica, com especial interesse em estratégias de interoperabilidade de sistemas de informação. Coordena o projeto de pesquisa Tainacan - software livre para a construção social de repositórios digitais - parceria com o Ministério da Cultura e Instituto Brasileiro de Museus.
97
Geraldo Tadeu Souza Possui graduação em Linguística pela Universidade de São Paulo (1992), mestrado em Linguística pela Universidade de São Paulo (1997) e doutorado em Linguística pela Universidade de São Paulo (2002). Tem experiência na área de Linguística, com ênfase em Teoria Dialógica da Linguagem do Círculo de Bakhtin. Foi professor contratado do Departamento de Lingüística da Universidade de São Paulo durante o período de 2002 a 2003. Deu assessoria para coleções de Livro Didático de Língua Portuguesa de Ensino Fundamental e Médio para a Editora Scipione. Trabalhou no Projeto Bairro Escola do município de Nova Iguaçu. Foi assessor curricular da EMEF Desembargador Amorim Lima, no município de São Paulo, onde desenvolveu um projeto de reestruturação curricular baseado em Roteiros de Pesquisa. Atualmente, é professor associado da Universidade Federal de São Carlos - campus Sorocaba.
98
Kelen Christina Leite Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (1994), mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (1998), doutora em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (2005) com estágio doutoral em Economia Civile pela Università Degli Studi di Milano-Bicocca (2003-2004). Professora Associada da Universidade Federal de São Carlos, junto ao Departamento de Ciências Humanas e Educação - DCHE. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Sociologia Econômica e do Trabalho atuando, principalmente, nos seguintes temas: Trabalho, Economia Solidária, Economia Civil, Estado, Mercado, Trabalho e gênero, Movimentos Sociais. Proponente e Diretora do Centro de Ciências Humanas e Biológicas (CCHB) da UFSCar de 2013-2018. Proponente e Chefe do Departamento de Ciências Humanas e Educação de 2011-2013. Visiting Professor na Università Sapienza de Roma de 03/08/2018 até 31/07/2019. Proponente e Docente do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Condição Humana (PPGECH/UFSCar).
99
Luciana Salazar Salgado Professora Associada no Departamento de Letras da UFSCar, graduada em Letras (Francês e Português) pela FFLCH/USP (1992), licenciada em Língua Portuguesa pela FE/USP (1994), tem especialização em Comunicação de Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing ESPM (1995). É mestre em Educação (área de concentração: Ciência e Linguagem) pela Faculdade de Educação - FE/USP (1998) e doutora em Linguística (área de concentração: Análise do Discurso) pelo Instituto de Estudos da Linguagem - IEL/Unicamp (2007). Em seu segundo pósdoutoramento (2017-2019) trabalhou no Fundo Milton Santos, no Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP; no pós-doutoramento desenvolvido no Departamento de Linguística da FFLCH/USP (2008 e 2010), estudou as políticas federais de formação de neoleitores. Trabalhou com projetos de editoria no núcleo técnico Confraria de Textos (1999-2010) e tem experiência em edição de textos, com ênfase em projetos coletivos e assessoria para coleções, tanto nas atividades executivas quanto nas de pesquisa e análise. Atualmente estuda as materialidades da cultura, com trabalhos ligados ao LABEPPE - laboratório de escritas profissionais e processos de edição (CEFET-MG, UFSCar), que abriga, sob sua coordenação, o Grupo de Pesquisa Comunica - inscrições linguísticas na comunicação (UFSCar/CNPq). Participa das atividades do Grupo de Pesquisa Literatura e Tempo Presente (UFSCar, Unesp/ CNPq) e é membro do Instituto de Pesquisa FEsTA: fórmulas e estereótipos, teoria e análise (IEL, Unicamp). Na UFSCar, atua nos Programas de Pós-graduação em Linguística e em Estudos de Literatura; no IEB/ USP, atua no Programa Multidisciplinar em Culturas e Identidades Brasileiras.
100
Márcio Antônio Gatti É graduado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp - 2004) e em Pedagogia pela Universidade Iguaçu (UNIG - 2012), mestre (2007) e doutor (2013) em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É Professor Adjunto no Departamento de Ciências Humanas e Educação (DCHE) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) - Campus de Sorocaba. Foi vice-chefe (2015-2017) e Chefe (2017-2019) do Departamento de Ciências Humanas e Educação, Vice-diretor Educacional da Rede Municipal de Campinas (2013 a 2014) e Professor de Educação Básica II da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (2004 a 2014). Tem experiência na área de Linguística, com ênfase em Análise do Discurso e em análise do discurso humorístico. Interessa-se pelo discurso humorístico veiculado na Internet e pelo funcionamento das mídias digitais e redes sociais. É membro do Grupo de Pesquisa Fórmulas e Estereótipos, Teoria e Análise (FEsTA) - Unicamp e do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Tecnologia, Cultura e Sociedade UFSCar. Atualmente é docente permanente e vice-coordenador do Programa de Pós-graduação em Estudos da Condição Humana (PPGECH) do campus Sorocaba da UFSCar.
101
Teresa Mary Pires de Castro Melo Formação inicial em Letras, mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Docente Associada da Universidade Federal de São Carlos, no Departamento de Ciências Humanas e Educação (DCHE) e docente credenciada no Programa de Pós Graduação em Estudos da Condição Humana (PPGECH), na linha de pesquisa Sujeitos de Discursos, Narrativas e Mobilidades. Experiência nas áreas de Comunicação como Direito Humano e Educomunicação. Tem pesquisado as mídias digitais e redes sociais digitais. Líder do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Tecnologia, Cultura e Sociedade (CNPq).
102
Vanda Aparecida da Silva Professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Departamento de Ciências Humanas e Educação, Centro de Ciências Humanas e Biológicas, campus Sorocaba. Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1995), mestrado em Educação (2000) e doutorado em Ciências Sociais (2005) pela UNICAMP. Tem experiência na área de Ciências Sociais, Antropologia, com ênfase em Antropologia rural; vem trabalhando e colaborando com vários pesquisadores, tanto no Brasil como em Portugal. Foi pesquisadora pós-doc da FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia - Portugal), no período de Setembro-2006 a Agosto-2012, atuando no ICS - UL (Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa) e no CRIA - ISCTE IUL (Centro em Rede de Investigação em Antropologia, do Instituto Universitário de Lisboa). Os temas das pesquisas são os seguintes: sexualidades, gênero, jovens, ruralidades, sustentabilidade e crise, educação, alimentação, cuidar, mobilidades, imagens.
103
Viviane Melo de Mendonça Professora Associada da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Departamento de Ciências Humanas e Educação, campus Sorocaba. Doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Pós-doutorado na Università di Roma La Sapienza, Mestrado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUCCAMP) de Campinas e Graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Desenvolve pesquisas em Gênero, Estudos Feministas e Sexualidades; atuando nos seguintes temas: memória social, heteronormatividade e heterossexualidade compulsória, educação, corpo e afeto e suas relações com a tecnologias, ciência, arte e cultura. Participa do "Núcleo de Estudos e Pesquisas Tecnologia, Cultura e Sociedade" e coordena o Núcleo de Estudos de Gênero e Diversidade Sexual (NEGDS), ambos da UFSCar. Está credenciada ao Programa de PósGraduação em Educação (PPGEd-So/UFSCar), linha pesquisa "Educação, Comunidade e Movimentos Sociais", e ao Programa de Pós-Graduação em Estudos da Condição Humana (PPGECH-So/UFSCar), do qual atualmente é coordenadora. Foi Visiting Professor do Dipartamento di Storia, Disegno e Restauro Dell'Arquitetura da Università degli Studi di Roma La Sapienza-IT durante o período de 2018/2019, atuando com estudos interdisciplinares sobre os discursos de gênero, feministas, queer e de sexualidades em grafites e street art inscritos na cena urbana e histórica das cidades.
104
Esperamos que este livro contribua para o debate sobre a interdisciplinaridade. Afirmamos que caso seja infringido qualquer direito autoral, imediatamente, retiraremos a obra da internet. Reafirmamos que é vedada a comercialização deste produto.
Formato a
1 Edição
15,5 x 23,0 cm Novembro de 2020
Navegando Publicações
www.editoranavegando.com editoranavegando@gmail.com
Uberlândia – MG Brasil
110