Uma historia dos trabalhadores nos frigorificos: regimes fabris e vilas operarias nos seculos XVIII-XX
Autor: Antonio Bosi
UMA HISTÓRIA DOS TRABALHADORES NOS FRIGORÍFICOS: REGIMES FABRIS E VILAS OPERÁRIAS (SÉCULOS XVIII AO XX)
Antonio Bosi
UMA HISTÓRIA DOS TRABALHADORES NOS FRIGORÍFICOS: REGIMES FABRIS E VILAS OPERÁRIAS (SÉCULOS XVIII AO XX) 1a Edição Eletrônica
Uberlândia / Minas Gerais Navegando Publicações 2021
Navegando Publicações
www.editoranavegando.com editoranavegando@gmail.com Uberlândia – MG, Brasil Direção Editorial: Navegando Projeto gráfico e diagramação: Lurdes Lucena Imagens Capa: Vendedores de Aves, 1895, Rio de Janeiro – Fonte: Foto de Marc Ferrez. Frigorífico Pioneiro, 1959, Toledo-PR – Fonte: Museu de Toledo Arte da Capa: Alberto Ponte Preta
Copyright © by autor, 2021.
A6354 – BOSI, A. Uma história dos trabalhadores nos frigoríficos: regimes fabris e vilas operárias (séculos XVIII ao XX). Uberlândia: Navegando Publicações, 2021.
ISBN: 978-65-86678-99-4 10.29388/978-65-86678-99-4 1. Trabalho 2. Frigoríficos 3. Regime Fabril I. Antonio Bosi II. Navegando Publicações. Título. CDD – 338.09 CDU – 93
Índice para catálogo sistemático História
338.09
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Editores Carlos Lucena – UFU, Brasil José Claudinei Lombardi – Unicamp, Brasil José Carlos de Souza Araújo – Uniube/UFU, Brasil
www.editoranavegando.com editoranavegando@gmail.com Uberlândia – MG Brasil
Conselho Editorial Multidisciplinar Pesquisadores Nacionais
Pesquisadores Internacionais
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Alberto L. Bialakowsky – Universidad de Buenos Aires – Argentina. Alcina Maria de Castro Martins – (I.S.M.T.), Coimbra – Portugal Alexander Steffanell – Lee University – EUA Ángela A. Fernández – Univ. Aut. de St. Domingo – Rep. Dominicana Antonino Vidal Ortega – Pont. Un. Cat. M. y Me – Rep. Dominicana Armando Martinez Rosales - Universidad Popular de Cesar – Colômbia Artemis Torres Valenzuela – Universidad San Carlos de Guatemala – Guatemala Carolina Crisorio – Universidad de Buenos Aires – Argentina Christian Cwik – Universität Graz – Austria Christian Hausser – Universidad de Talca – Chile Daniel Schugurensky – Arizona State University – EUA Elizet Payne Iglesias – Universidad de Costa Rica – Costa Rica Elsa Capron – Université de Nimés / Univ. de la Reunión – France Elvira Aballi Morell – Vanderbilt University – EUA. Fernando Camacho Padilla – Univ. Autónoma de Madrid – Espanha Francisco Javier Maza Avila – Universidad de Cartagena – Colômbia Hernán Venegas Delgado – Univ. Autónoma de Coahuila – México Iside Gjergji – Universidade de Coimbra – Portugal Iván Sánchez – Universidad del Magdalena –Colômbia Johanna von Grafenstein, Instituto Mora – México Lionel Muñoz Paz – Universidad Central de Venezuela – Venezuela Jorge Enrique Elías-Caro – Universidad del Magdalena – Colômbia José Jesus Borjón Nieto – El Colégio de Vera Cruz – México José Luis de los Reyes – Universidad Autónoma de Madrid – Espanha Juan Marchena Fernandez – Universidad Pablo de Olavide – Espanha Juan Paz y Miño Cepeda, Pont. Univ. Católica del Ecuador – Equador Lerber Dimas Vasquez – Universidad de La Guajira – Colômbia Marvin Barahona - Universidad Nacional Autónoma de Honduras - Honduras Michael Zeuske – Universität Zu Köln – Alemanha Miguel Perez – Universidade Nova Lisboa – Portugal Pilar Cagiao Vila – Universidad de Santiago de Compostela – Espanha Raul Roman Romero – Univ. Nacional de Colombia – Colômbia Roberto Gonzáles Aranas -Universidad del Norte – Colômbia Ronny Viales Hurtado – Universidad de Costa Rica – Costa Rica Rosana de Matos Silveira Santos – Universidad de Granada – Espanha Rosario Marquez Macias, Universidad de Huelva – Espanha Sérgio Guerra Vilaboy – Universidad de la Habana – Cuba Silvia Mancini – Université de Lausanne – Suíça Teresa Medina – Universidade do Minho – Portugal Tristan MacCoaw – Universit of London – Inglaterra Victor-Jacinto Flecha – Univ. Cat. N. Señora de la Asunción – Paraguai Yoel Cordoví Núñes – Instituto de História de Cuba v Cuba
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
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PRIMEIRA PARTE - TRABALHO, TRABALHADORES, CONSUMO E SIGNIFICADOS DA CARNE NO OCIDENTE (XIII-XVIII)
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1. A carne como artefato cultural
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2. Apropriação da Carne e Desigualdade Social
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3. A mentalidade cristã e os significados da carne
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4. O açougueiro e o mercado medieval
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5. Dos açougues medievais aos matadouros públicos
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SEGUNDA PARTE - O TRABALHO EM FRIGORÍFICOS: REGIMES FABRIS E VILAS OPERÁRIAS (1850-1970)
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1. Inovação, logística e mercado de consumo no surgimento dos frigoríficos
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2. Antecedentes históricos da industrialização da carne no Brasil
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3. Os primeiros Frigoríficos no Brasil
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4. O caráter alienado do trabalho e a mercantilização da carne
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5. Trabalhadores e regimes fabris em frigoríficos (1880-1960)
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5.1. Trabalhadores e Organização Sindical: a experiência americana (1880-1960)
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5.2. Trabalhadores em frigorífico: a experiência brasileira (1900-1970)
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5.2.1. As Vilas Operárias
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5.2.2. A Vila Operária do Frigorífico Rondon (1963-1979)
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5.3. Recrutamento de trabalhadores no Frigorífico da SADIA em Toledo-PR (1959-1979)
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5.3.1. A Vila Operária do Frigorífico Pioneiro/SADIA (1959-1979)
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5.4. Quando o trabalho mata
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TERCEIRA PARTE - TRABALHO E TRABALHADORES EM FRIGORÍFICOS DE AVES (1970-2010)
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1. O protagonismo brasileiro na produção de carne de frango
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2. Criar e vender galinhas caipiras
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2.1. De graxains e integrados se faz a agroindústria
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2.2. No final dessa cadeia produtiva
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3. Os domínios da cadeia avícola no trabalho e na moradia dos trabalhadores
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REFERÊNCIAS
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SOBRE O AUTOR
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INTRODUÇÃO Nesses últimos nove anos tenho estudado trabalhadores empregados em frigoríficos. Eles têm chamado atenção pela forte e continuada presença no cenário econômico e social do país, particularmente na região Oeste do Paraná. Aqui é difícil encontrar uma família de trabalhadores que não tenha algum parente ou amigo que trabalha ou que trabalhou na cadeia de produção avícola estruturada em torno dos frigoríficos. Ao meu lado, colegas de profissão e alunos também investiram tempo para compreender esse universo. Embora longa, esta não foi uma investigação solitária. Quando senti segurança para publicar resultados da pesquisa, o ponto que ganhou mais espaço foi a degradação da saúde dos trabalhadores causada pelas condições e relações de trabalho existentes na linha de produção nos frigoríficos. Enquanto o setor do agronegócio olhava para os sucessivos recordes do processamento da carne de frango, gente como eu via milhares de trabalhadores pressionados no mercado de trabalho a aceitarem intensa jornada de trabalho em ocupações precárias e insalubres nos frigoríficos. Tentei explicar a lógica deste quadro em detalhes nesse livro. O material de pesquisa se tornou mais complexo à medida que o interesse de investigar também se voltou para dimensões mais difíceis de sondar do no trabalho e da na vida dos empregados nos frigoríficos. Incorporei estatísticas do mercado de capital e do consumo de carne, informações pormenorizadas da constituição da cadeia avícola em monopólios e oligopólios, conhecimento da frágil resistência coletiva e difusa dos trabalhadores nos frigoríficos e, principalmente, o modo com que homens e mulheres ocupados na linha de produção lidam com suas experiências na dimensão do trabalho e da vida. Procurei discutir a realidade nos frigoríficos a partir de três chaves analíticas: quem são os trabalhadores (principalmente nos aspectos social e econômico), quem eles pensam que são e quem eles gostariam de ser. Hoje não sei dizer exatamente quais foram todas as referências que compuseram esse conjunto de perguntas, mas certamente Marx é a principal delas emprestando vigor ao distinguir duas lentes na realidade, aparência e essência. É uma antiga discussão geralmente estigmatizada porque consumida por uma interpretação que atribui a aparência apanhada imediatamente na experiência dos trabalhadores pura e exclusivamente como alienação. Apesar disso, pensei em utilizá-las metodologicamente como duas categorias da realidade com diferentes características cuja interação ofereceria quadros provisórios da consciência de classe desses trabalhadores. Um exemplo nos deixa mais próximos do que foi feito. Tais dimensões da realidade na experiência dos trabalhadores, durante e a partir das entrevistas, nas demais fontes judiciais e de imprensa, o entendimento de cada um deles sobre o seu trabalho e a cadeia avícola internacionalizada (melhoramentos genéticos, insumos, maquinário, dinâmica do mercado interno e de exportação, doenças causadas pelo trabalho, direitos sociais trabalhistas etc.), tudo isso foi confrontado de modo a compreender o mundo desses trabalhadores e a construção dos domínios do capital. Abordei a questão das vilas operárias na região, assunto com relativo lastro na historiografia, embora pouco explorado nos domínios dos frigoríficos. Antecipo o resultado
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desse estudo, a última área de interesse a ser tocada nesse tempo de pesquisa. As vilas foram ambivalentes para capitalistas e trabalhadores, objeto de disputa posto numa equação difícil de finalizar. Para os primeiros, as casas funcionam como fonte adicional e renda e elemento relevante na relação de forças renovada cotidianamente em favor do capital. Para os segundos, as casas são acolhimento para a família, lugar de afeto e de memória, expressão maior de segurança, propriedade com duplo valor que se evidencia no mercado e na certeza de que seu trabalho está sendo recompensado – nem sempre na medida esperada ou considerada justa, mas está. No tempo presente, encontrei uma modalidade de vila diferente daquelas que podemos denominar de clássicas. Em apertada síntese, trata-se de casas agrupadas na zona rural de determinado município (portanto, uma unidade administrativa e geográfica) cujos moradores, proprietários das casas, se ocupam, em sua maioria, de trabalho em frigorífico, aviários, incubadoras etc., pertencentes a cooperativa agroindustrial. De fato, vi nisso uma atualização das relações capitalistas de trabalho. Organizei a escrita do texto em treze capítulos reunidos em três eixos ou partes: (i) a sensibilidade histórica do homem no Ocidente em relação à carne, (ii) a formação de frigoríficos no Brasil e (iii) os trabalhadores ocupados nas plantas produtivas de processamento de carne, especificamente na cadeia avícola. Não pude e não quis evitar o uso de artigos publicados, principalmente Uma História Social comparada do trabalho em frigoríficos: Estados Unidos e Brasil (1880-1970), na revista História & Perspectivas n. 51; Paternalismo e Racismo: História dos Trabalhadores da Vila Operária da Frirondon (19631979), na revista Tempos históricos v. 20; Juventude e Trabalho Industrial no Oeste Paranaense: O futuro que não se realiza, na revista Temas & Matizes v. 8. Devido a esta característica, os capítulos podem ser lidos separadamente. Por isso também evitei somar-lhes uma conclusão. Em todos eles eu me pergunto sobre as mudanças no mundo do trabalho e o que elas significaram para os trabalhadores. Não pude encontrar respostas confortáveis, mesmo quando a organização de classe estabilizou e fez retroceder o grau de exploração do trabalho. Esta não foi e não tem sido a regra neste setor da produção. Se o surgimento de grandes indústrias da carne recrutou e concentrou milhares homens e mulheres para o mesmo espaço, esses trabalhadores encontraram formas de se verem e de se organizarem politicamente nas mesmas condições, apesar de separados por diferentes etnias, línguas, costumes e religiões. Mas nem sempre foi possível a construção de um ator coletivo interessado e mobilizado em torno de seus direitos, assim como hoje também não tem sido. Refleti sobre o capitalismo na região Oeste segurado na noção de Trotsky a respeito do movimento “desigual e combinado”. Nesse caso, o processo de acumulação de capital pode se valer de técnicas e tecnologias consideradas defasadas de trabalho para sustentar setores da economia julgados tecnologicamente mais desenvolvidos. Combina-se, por exemplo, a cultura local de manuseio de aves e de porcos com o processamento de carne em grande escala nos frigoríficos. Também nesse caso, a presença humana apareceu como componente nesse cálculo do capital, tanto pela formação cultural camponesa (advinda de uma região agrícola e de industrialização recente) quanto pelo curto repertório de empregos no mercado local de trabalho. Embora Trotsky tenha percebido e nomeado esse tipo de desenvolvimento do capitalismo se referindo à realidade dos Estados Nacionais, comparando economias ditas desenvolvidas com economias ditas atrasadas, (TROTSKY, 1977) seu raciocínio histórico ajuda a pensar como e em que condições indústrias de ponta podem (e
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são) introduzidas em países de capitalismo não desenvolvido, e que também como o emprego de novas tecnologias são inteiramente compatíveis com relações e legislações de trabalho extremamente rebaixadas. Esse quadro contribuiu para esclarecer o alinhamento tecnológico de Estados Unidos, Brasil e China, os três maiores produtores de carne de frango no mercado mundial. Aliás, todo desenvolvimento de pesquisa incorporado em modificação genética, insumos, equipamentos de complexidade, estão sob domínio de empresas multinacionais oligopolizadas que detêm as principais chaves podem aumentar ou diminuir os custos dos meios de produção para as empresas agroindustriais e que subordinam as cadeias produtivas nesses três países. As relações e de trabalho e os direitos sociais dos trabalhadores em cada país possuem especificidades ligadas à intensidade e às condições da luta de classe. Nesse ponto, o esforço das classes dominantes é impor suas ideias e suas expectativas de riqueza e conforto aos trabalhadores de modo a conseguir neutralizar e apagar focos de resistência e vestígios, sinais de lucidez e esclarecimento sobre a miséria que os cerca. Este recurso ideológico funciona pela persuasão, mas requer também despotismo que se manifesta no mercado de trabalho e na organização do processo de produção e do trabalho, definindo pressões que deixam pouca margem de manobra aos trabalhadores para construírem soluções de resistência melhor estruturadas e mais duradouras. No plano da cultura, o conceito de Trotsky permite visualizar um retrato sobre como o movimento desigual e combinado do capitalismo na região Oeste atualiza constantemente seus meios de produção (modernizando propriedades agrícolas, maquinário, a dependência das multinacionais, logística etc.) tendo ao seu lado um modo de vida definido por hábitos extravagantes e exibicionistas da burguesia. Trata-se de uma ordem social sustentada numa exploração do trabalho historicamente degradante, como tento mostrar nos capítulos à frente, e que também é repassada com sucesso aos estratos inferiores das classes dominantes, médios e pequenos empresários. Quase sempre a narrativa da burguesia sobre si mesma é bem organizada e convincente. Isso acontece porque ela precisa ser assim. Suas ideias precisam ser dominantes e, como tais, validadas e aceitas pelos trabalhadores. Em grande medida se trata de uma ideologia convencional. As plantas produtivas dos frigoríficos, as enormes plantações de soja e milho, as numerosas varas de porcos, as centenas de aviários, as unidades incubadoras, os cursos de ensino superior orientados para os cuidados com lavoura, pequenos e grandes animais, as máquinas colossais de pulverização e colheita, tudo isso deve pesar como elementos estéticos de convencimento dos trabalhadores. Precisam ser vistos como modernização, como melhoramento, como símbolo de riqueza. Pode-se considera-la uma ideologia convencional cuja estrutura é relativamente simples. Tomasi di Lampedusa definiu processos políticos semelhantes a este dizendo que às vezes “se queremos que tudo continue como está é preciso que tudo mude”. (LAMPEDUSA, 2000, p.57) Isto é feito pela burguesia que está no controle social, político, econômico e cultural da região. No fundo não há divisão de riquezas por menor que seja, só projeção de valores e crenças. Quase em regra, as classes dominantes recolhem parte das expectativas culturais dos trabalhadores (as financeiras em menor grau) e as devolve bastante reduzidas e mitigadas na forma de concessão. Este componente confere funcionalidade à ideologia de tipo convencional e tende a conseguir cimentar a relação de subalternidade dos trabalhadores às ideias lançadas pela burguesia.
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Desse ponto de vista, alguma coisa mudou na posição do antigo criador e vendedor ambulante de galinhas e os trabalhadores ocupados em frigoríficos. O primeiro guardava certa autonomia e controle sobre seu tempo e trabalho. Comparativamente poderia ter menos conforto do que alguém como ele hoje tem, em termos de eletricidade, água encanada, TV, casa de alvenaria etc., embora não seja o caso de fazer aqui tal comparação. A modelagem da ideologia que alcançou o antigo vendedor de leite e de frangos também era convencional. Esteticamente a diferença entre o fazendeiro e ele tinha proporções imediatamente reconhecíveis, mas, por outro lado, a presença de ambos no mesmo espaço de trabalho criava uma ilusão de igualdade. A ideia dominante com maior força à época disseminava esta imagem, e nos casos de sucesso conseguia-se produzir um sentimento de comunidade, ricos e pobres, juntos. Vi essas duas perspectivas históricas de perto em distintos momentos e posições. A destruição dos modos de vida e de trabalho pelo capitalismo nos últimos sessenta anos abriu espaço para relações e formas de produção mecanizadas, mais produtivas, com menos força de trabalho. Vi trabalhadores espremidos por mudanças nas práticas de consumo, nas noções de higiene, pelo barateamento de determinados artigos alimentícios, o que desvalorizava o resultado de seu trabalho. Vi esse tipo de trabalhador se tornar mais pobre do que era. Não compreendi à época que se tratava de uma dinâmica de expansão das relações de produção capitalistas, sem retorno para a posição anterior. E vi de perto a formação de um setor da classe trabalhadora nos frigoríficos (e na cadeia avícola), a maioria composta por jovens, não menos empobrecida do que os trabalhadores (camponeses) que foram expropriados ao longo desse período que antecedeu a industrialização do campo. Digo isso para esclarecer que a história que escrevi aqui, de pequena escala, se relaciona com as dinâmicas gerais do capitalismo no tempo presente e com meus argumentos que têm contrastado as ideias dominantes de minha época. Por fim, agradeço ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico pelas bolsas Produtividade em Pesquisa concedidas durante este período, à Fundação Araucária pelo financiamento de projeto de pesquisa e por disponibilizar bolsas de Iniciação Científica. Agradeço a Universidade Estadual do Oeste do Paraná pelo tempo investido em pesquisa e pelo afastamento para pós-doutorado, importante para problematizar e finalizar alguns pontos da pesquisa. Também sou grato a diversas pessoas que ajudaram solidariamente esta pesquisa. Aos companheiros do Laboratório de Pesquisa Trabalho e Movimentos Sociais, aos alunos da graduação e da pós-graduação que participaram em diferentes etapas da pesquisa. A amiga e companheira Janete Luzia Leite que me recebeu e acolheu na Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro durante a fase final do estudo. Agradeço a Michael Merrill, professor no Department of Labor Studies and Employment Relations of Rutgers, The State University of New Jersey, que me recebeu tão gentilmente e discutiu algumas ideias presentes neste livro. Sou grato ainda aos alunos que ajudaram em diversos momentos da investigação na condição de bolsistas de IC e de mestrado. Em especial, registro minha dívida e enorme carinho aos que pude contar recolhendo material, preparando entrevistas, apresentando ou rebatendo argumentos, abrindo espaço para que o mais caro dos afetos pudesse nos unir. Obrigado a Eloisa Decker, Fagner Guglielmi, Guilherme Dotti Grando, Gustavo Schneider, Joselene Carvalho, Lucas Gaspar e Lucas Fano.
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Infelizmente neste período perdi duas pessoas queridas. Maria José Leles de Oliveira, Dona Zezé, professora que tentou me ensinar Geografia na 6a série do 1o grau, militante do PT e uma referência ética para toda a vida. Frederico José Falcão, o Fred, companheiro de luta, energia sempre positiva, historiador de fina reflexão, também se foi. Não pude me despedir deles. Expresso meu pesar e minha homenagem.
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PRIMEIRA PARTE TRABALHO, TRABALHADORES, CONSUMO E SIGNIFICADOS DA CARNE NO OCIDENTE (XIII-XVIII)
1. A carne como artefato cultural O objetivo deste capítulo é tão difícil quanto ocioso. Pretendo rastrear sensibilidades que marcaram a história da relação do homem com a carne. Ocorre que o material de pesquisa encontrado e utilizado se mostrou escasso. Ele foi apenas satisfatório para mapear e construir um limitado estado da arte a respeito do tema, o que geralmente é desejável na produção do conhecimento histórico. Por outro lado, a busca por percepções históricas de longa duração sobre os usos da carne no Ocidente possibilitou tornar as fontes consultadas suficientemente úteis para esclarecer os sentidos sociais e imaginários que os homens atribuíram à carne. E isso é importante para compará-los aos tempos atuais, quando a carne se tornou uma mercadoria. Para ajudar no expediente de escrever as páginas a seguir pode-se argumentar que conhecemos de antemão a configuração mercantil da carne. Sabemos que sua disseminação quase industrial data do século XIX, e que sua comercialização sistemática no Ocidente, em mercados locais e urbanos, remonta aos tempos de Elizabeth. Não vejo erro nesta formulação. Mas a mercantilização da carne à qual me refiro, capturou toda produção doméstica e a subordinou ao processamento industrial voltado ao mercado. E a partir deste ponto que tentei reafirmar a importância de alinhar outros modos de apropriação e de uso da carne antes da formação do capitalismo (e com ele a economia de mercado) para contrastar realidades históricas distintas. A utilidade disso poderá ser julgada neste e nos capítulos seguintes. Sabemos que o consumo de carne é antiguíssimo. Os registros arqueológicos da presença humana no planeta dão essa ideia. Na teoria darwiniana, quando nossos ancestrais desceram das árvores, sua dieta exclusivamente vegetariana tendeu a incorporar a carne. Essa história é tão curiosa quanto importante. Nômades, os homens do período anterior a 200 mil anos a.C. passaram a se alimentar de carne. Seu método consistia em aproveitar-se da carcaça de animais mortos que eventualmente encontravam pelo caminho. Eles agiam como abutres. Mas foi esse tipo de coleta que predominou no seu escasso cardápio. Comparativamente aos homens sedentários, os recursos e o planejamento dos nômades eram rudimentares. A evolução para o abate de animais, documentado por arqueólogos e antropólogos, deu-se no período até 40 mil anos a.C.. Esta mudança tornou-se possível com a formação de grupos sociais, ainda nômades. Já a criação de rebanhos foi algo mais recente. Ela pode ser datada do período da "pedra polida", a partir do décimo milênio. O sedentarismo também data dessa época, marcado pela criação da agricultura. (LOPES, 2012) A fauna, a qual o homem foi confrontado a 40 mil anos a.C., tornou-se sua presa. As técnicas e a tecnologia para a caça, toscas aos olhos modernos, permitiram a supremacia humana dentre os outros animais. Por óbvio não era tarefa fácil abater animais com 10 vezes o peso de seu caçador, como cavalos, bisões e mamutes. Mas os instrumentos que prolongaram a perícia dos homens, como as lanças, deram-lhes, cada vez mais, vantagens que compensaram
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sua inferioridade física. De maneira pouco romântica, o homem transformou toda a natureza em seu matadouro. O nascimento da agricultura e o domínio sobre as sementes foram realizações extraordinárias. Todavia, não retiraram a carne de cena. Ao contrário, o tempo empregado na agricultura transformou a carne num artigo de luxo, mesmo depois de muitos animais serem domesticados e convertidos na principal fonte e reserva de proteínas. Esta é uma equação difícil de ser mapeada no tempo. Mas ela não impede afirmar que desde então o homem conseguira introduzir a carne em seu mundo. Embora haja maior densidade e detalhamento nessa história, seus traços gerais são suficientes para compreender a interação inicial do homem com a carne e os desdobramentos que nos levaria até a Antiguidade Clássica. Por isso, o que também interessa nesse arranque da civilização são os costumes em relação à carne, e isso nos conduz de volta ao "homem das cavernas" Os registros pictórios, encontrados em diversos lugares do planeta com idade aproximada de 40 mil anos a.C., retratam, principalmente, animais. As principais explicações da arqueologia indicam duas razões para isso. A primeira, expressa a superioridade do homem frente aos animais caçados e mortos para servir de alimento. A complexidade dessa representação reside em narrativas curtas, desenhadas em superfícies lisas no interior de cavernas ou em pedras expostas. Em geral, essas narrativas apresentavam um enredo comum, assentado ou referido ao próprio homem. Significa que, embora as histórias gravadas em pedras espelhassem majoritariamente animais, a intenção manifestada naquela linguagem projetava uma visão do homem sobre si mesmo, expressão de uma concepção mágica sobre o mundo – que pode ser interpretada como religiosa. Nesse caso, a grandiosidade impressa em telas incontestavelmente duráveis pretendia comunicar seu poder naquele contexto, representado na força de bizontes e mamutes, por exemplo. O animal desenhado podia significar uma força apreciada ou temida culturalmente pelo homem (por exemplo, a coincidência do formato do animal com determinada constelação que tivesse alguma finalidade, como um calendário). Mas, ao elogiar a ferocidade, a força, o tamanho e a eventual funcionalidade dos animais, tais homens projetavam seu próprio poder. Não à toa, grande parte dessas pinturas exibia um cenário para o abate. Por isso, a caça deve ser tomada como evento histórico importante no contexto da relação do homem com a natureza e de um maior domínio sobre o fornecimento de carne. Do mesmo modo, a intervenção planejada do homem para conseguir carne, urdindo estratégias de observação e de captura de animais, deve ser interpretado como uma prática cultural sofisticada. Esse é um retrato do matadouro "pré-histórico". A segunda razão repousa na sacralização de animais, algo que dominaria a maioria das culturas do Ocidente até, pelo menos, os tempos de Ovídio. No antigo testamento há relatos inteiros sobre a adoração de animais. Tais narrativas situam essa prática religiosa em torno do século VI a.C.. Ainda na Grécia e Roma antigas, cultos domésticos envolviam sacrifícios, geralmente banquetes, onde a carne era o prato principal. Depois de preparados, os alimentos eram dispostos num altar e devorados como parte de um ritual para conectar-se com as divindades. Em qualquer situação, com pequenas variações, o principal efeito da ingestão de carne, além de satisfazer a fome, residia nalgum tipo de transferência de características dos
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animais para o homem (COULANGES, 2002) Enfim, nesse caso as evidências são numerosas. Interpretá-las em favor do tema desse livro é tarefa diferente. O culto ao fogo, tão comum em lares de gregos e de romanos, ligava problemas terrenos a soluções sobrenaturais. Sobre isso, Fustel de Coulanges afirmou que, no tempo de Tulcídides, mantinha-se o fogo constantemente aceso nas casas, sob a crença de que havia nele proteção para a família. Extinto, ele traria grande desgraça para todos. (COULANGES, 2002, p.23-36) Freud acrescentou que a conexão do fogo com o sagrado remonta a épocas antiguíssimas. A interpretação psicanalítica traduziu o fogo, ou melhor, o domínio humano sobre ele - como a primeira grande conquista da civilização a partir do ato masculino de tirarlhe a força com um jato de urina, um dos princípios do prazer não reprimido. Uma linguagem materialista diria, com convicção, que a graça do fogo estaria em seu uso, um dos meios de produção mais antigos que conhecemos. Nesse caso, pode-se pensar o consumo de carne processada no calor do fogo. De fato, todas as interpretações anteriores estão corretas, se olhadas à luz desse pragmatismo material. Ao mesmo tempo, o aprisionamento e domesticação de animais se disseminaram rapidamente. Isso não aconteceu com o objetivo primordial de abastecer seus criadores. A vaca, por exemplo, poderia valer mais pelo leite que produzia. O abate precoce liquidava o processamento artesanal do leite em queijos, manteiga, soro e nata. Nas civilizações baseadas no trigo, os derivados do leite empatavam em importância na composição da dieta. Coisa semelhante acontecia com a lã das ovelhas e os ovos das galinhas. Já os porcos, estes sim, eram criados para o abate. Embora a carne fosse crescentemente incorporada à dieta a partir da criação de rebanhos, a caça não foi abandonada nem se tornou uma prática incomum. Até o século XIX, os direitos à caça eram transversais e confusos na sua relação com as diferentes ordens, castas e classes sociais. Em que pese ser um exemplo tardio - sobre o século XVIII - Edward Thompson ofereceu um rico quadro das práticas de caça na Inglaterra e da criminalização de práticas e costumes fundamentais à sobrevivência dos mais pobres. Como ele mesmo avaliou, os ventos que sopravam eram ruins para os trabalhadores e não traziam nada de bom. (THOMPSON, 1987) Grosso modo, entre o ano 1000 e o período histórico coberto por Thompson, não deve escapar à atenção a distância que separava os interesses da aristocracia e dos plebeus quando caçavam em terras comunais. Os primeiros buscavam diversão e prazer, mais do que alimento. Os segundos se viam obrigados, devido a sua pobreza e escassez de mantimentos, a procurar se abastecerem de carne por meio daquela prática social. Se havia entre eles o gosto pelo entretenimento, não era isso que, basicamente, os movia. Tal distinção se explica pela desigualdade econômica que os separava, a qual possibilitava a privatização de recursos naturais como a terra.
2. Apropriação da Carne e Desigualdade Social A característica da política que separa trabalhadores e nobreza é estrutural. A condição da maioria dos trabalhadores, do campo e da cidade, nunca esteve próxima da condição vivida pela nobreza. E um tipo de estabilidade que atravessou séculos sem riscos mais sérios. A partir
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dessa referência, pode-se pensar o acesso à carne naquele mundo socialmente dividido entre trabalhadores e nobres. De modo geral, a carne não se tornou um artigo de consumo popular, nem frequente nas economias antiga e medieval. Ou assim pensou Georges Düby sobre a Alta Idade Média, até os séculos VIII e IX. Sua visão se concentrou na força de trabalho e nos meios de produção que faziam a economia feudal funcionar. (DÜBY, 2001, p. 85-95) Normalmente, as precárias técnicas agrícolas disponíveis à época, a baixa fertilidade dos solos, a insuficiente quantidade de terras aráveis dentre outros fatores, exerciam pressão sobre os camponeses de modo que sua dedicação ao trabalho se concentrava na agricultura. As plantações não deixavam pasto para grandes rebanhos ou para animais de grande porte. O confinamento era uma técnica desconhecida. Essa interpretação é bastante pacífica. Por tudo isso, a criação de animais, principalmente para o abate, era uma atividade secundária e modesta. Uma família camponesa na França ou na Inglaterra, durante a Alta Idade Média, possuía um ou dois bois, geralmente utilizados na agricultura, puxando arados. Contava com duas ou três ovelhas das quais obtinha leite. Mantinha algumas galinhas e patos, de onde se conseguia ovos e carne para dias muitos especiais. O mais popular dos animais que fornecia carne era o porco. Eles eram abatidos pouco antes dos meses de novembro e dezembro. Sua carne era artesanalmente salgada, defumada, embutida, e assim os camponeses se preparavam para o inverno. (FRANCO JR., 2006, p. 43) Esta descrição é controversa. Há muitas evidências de que o consumo de carne na Europa durante o período medieval nunca foi ordinário. Na Inglaterra, durante a Baixa Idade Média, especificamente no intervalo dos séculos IX e XV, mesmo entre as famílias aristocráticas e o alto clero, carne e peixe foram a principal despesa com alimentos. (MÜLDNER e RICHARDS, 2005, p.40) Naquele contexto histórico, a carne não era um item costumeiro nas mesas dos senhores de terras. Menos ainda nos pratos de camponeses e de artesãos pobres. A nobreza tratava a alimentação com requinte. Camponeses e trabalhadores das cidades sequer tinham uma ideia que se aproximasse dos pratos e banquetes consumidos com certa ostentação entre os pares. O poder da nobreza também se media e se expressava em representações importantes que hierarquizavam os senhores de terras. Nesse ponto, sem ser historicamente específico, Veblen explica que o consumo da nobreza se voltava para um tipo de exibição. Entre nobres, a fartura e a ordenação da comida e de festas muitas vezes funcionavam como uma competição onde condes e barões se vangloriavam de um comportamento perdulário. A isso Vebler chamou de "consumo conspícuo". (VEBLEN, 1987, p.21-34) Hoje veríamos isso como uma prática ociosa. Naquele contexto nada era. Ainda sobre esse assunto, contavam-se muitos manuais de culinária à disposição da nobreza, principalmente os que ensinavam formas bastante criativas de preparo da carne. Esse aspecto, especialmente revelador, permite conhecer quais carnes eram servidas aso senhores de terras, e em que medida a sua preparação confirmava a relação de poder entre a nobreza e os trabalhadores. Significava que a carne formalizava e enrijecia as fronteiras que delimitavam os lugares de cada sujeito naquela sociedade. O porco era a principal fonte de carne e banha para a aristocracia. Exceto os judeus e os mulçumanos, que recusavam esses animais devido a razões religiosas, os porcos domésticos e selvagens predominavam na Europa. Eles eram servidos a partir de grande número de receitas. Os miúdos eram considerados partes muito saborosas, se bem temperados, cozidos
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ou assados. Fígado e tripas, por exemplo, ganhavam sofisticadas receitas. Fazia-se dele o presunto, bacon e linguiça bem temperada. Galinhas e gansos eram preparados e servidos com requinte. Geralmente, ambos eram apresentados à mesa em pedaços, desfiados, inteiros recheados de temperos -, especialmente o fígado e as tripas. A carne de ganso não era uma iguaria, embora fosse considerada acima das demais. (ADAMSON, 2004, p.30) Até mesmo animais selvagens, nativos da Europa e acessórios aos camponeses, tinham seu preparo incrementado por rituais de opulência e por mudanças no paladar. A lebre, por exemplo, fez parte da dieta humana na Europa aproximadamente 20 mil anos a.C. Sem ser domesticada, geralmente o seu tempero, desde Grécia e Roma, compunha-se de molho de ervas engrossado com pão e misturado à pimenta e ao próprio sangue do animal. Coelhos, criados em cativeiro, normalmente estavam fora do alcance dos camponeses. A condimentação dessa carne se assemelhava à preparação da lebre. Eles exibiam uma característica peculiar, de terem propriedades terapêuticas contra obesidade, um "mal" que certamente não afligia os trabalhadores naqueles tempos. (ADAMSON, 2004, p.30-36; MÜLDNER, e RICHARDS, 2005). Do outro lado, havia alimentos reservados aos camponeses e artesãos menos pobres. E o caso de cerveja, fermentada de grãos e consumida diariamente, como parte inalienável de sua dieta. Essa característica geralmente levava a nobreza a rejeitar essa bebida. O vinho era mais seletivo porque a produção de uvas se restringia a determinadas regiões. Poucos lugares, como o Languedoc, possibilitavam aos camponeses incluir o vinho em sua ração. (LANDURIE, 1997) No caso da nobreza, fossem adocicados ou temperados, os vinhos acompanhavam pratos requintados, em pequenas quantidades para fins medicinais. Acreditava-se que o vinho ajudava na digestão. Além disso, e de modo geral, especiarias como pimenta, gengibre, cravo, açúcar, raízes e óleos de aroma e de sabor existiam antes dos tempos das grandes navegações. Novamente, endereçavam às famílias nobres. Nada disso integrava o universo dos camponeses. (DEMBISKA, 1999) Pode-se encerrar esse raciocínio examinando uma possível interpretação da obra de Giuseppe Arcimboldo, pintor do século XVI. Imagem 1 – Outono. (1573) Giuseppe Arcimboldo
Fonte: http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=1683 Domínio Público. Acesso em abr de 2017
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Sob os comandos da aristocracia, Arcimboldo copiava bustos costurando-os com vegetais e carne. Suas telas representavam generosas baguetes. Ao mesmo tempo não eram meras retratações da natureza. Rosalie Nardelli afirma que seus retratos refletiam imagens montadas, como um quebra-cabeças. (NARDELLI, 2014, p.65) Mas se tratava de uma construção complexa de bustos a partir de alimentos, principalmente, cuja função os aristocratas determinavam. Tal protagonismo foi também uma forma de expressar a subalternidade dos camponeses. A chave analítica dessa desigualdade residia na apropriação desproporcional dos alimentos entre a nobreza e os camponeses. Arcimboldo sabia representar essa distância. Embora cada imagem composta guardasse significados específicos, o conjunto dos retratos confirmava à nobreza e ao campesinato qual era a ordem social naquela sociedade.
3. A mentalidade cristã e os significados da carne Fechamos parte do primeiro argumento. Até a Baixa Idade Média, a carne (e os demais alimentos em segundo plano) definia parte importante da fronteira entre ricos e pobres. Ao lado dessa leitura, existiu outro tipo de consumo de carne cuja historicidade e justificativa assentavam-se numa representação que se tornou tabu. O canibalismo não foi um costume estranho a muitas culturas. (WELLS, 1969) Existem sinais arqueológicos dessa prática em quase todas as partes do globo. Desse ponto em diante, a formação do imaginário cristão, contrário a muitas práticas consideradas pagãs, toma uma forma vigorosa. Sabe-se que parte volumosa da Bíblia e da liturgia cristã se constituiu da cultura de religiões politeístas e de povos pagãos aos olhos da Igreja Católica. Nesse sentido, é curiosa a estratégia cristã para se diferenciar de outras crenças religiosas, por meio das armas ou da ideologia. O evangelho de João é o mais claro locutor dessa operação e o primeiro a formalizar o mais popular dos ritos cristãos, a transubstanciação. Inicialmente, a oficialização dessa prática dependeu da chancela do Concílio de Trento, em 1215, sendo disseminada para os fieis a partir do ano de 1264, através da festa de Corpus Christ. A rigor, escapando de leituras canônicas e de exegetas, a prática inaugurada na Santa Ceia instituiu características de um canibalismo simbólico, cuja função foi, junto ao batismo, iniciar pessoas no cristianismo e reforçar suas convicções — sua fé — no carisma de Jesus, rotinizado e institucionalizado na Igreja. Cabe lembrar que essa foi uma equação de difícil solução. O patrimônio político de Jesus (qualquer que fosse ele) não foi automaticamente transferido e institucionalizado. Inicialmente, tornou-se necessário construir rituais e uma instituição para reivindicar a autoridade de Jesus e sua natureza mágica. Parte central da doutrina e dos rituais que constituiu a Igreja foi assentada na crença da transubstanciação. Assim, surgiu a convicção de que Jesus nasceu e renasceu, e depois de sua morte terrena transformou-se em alimento para os cristãos. E uma história conhecida e banal, embora sutilmente recuse o canibalismo como parte de sua estrutura e enredo histórico. Talvez João tenha se apropriado de uma prática pagã para incorporá-la ao universo mental dos recém convertidos ao cristianismo. É uma hipótese razoável e bastante explorada, uma vez que a institucionalização do carisma de Jesus necessitava histórias com verdades palpáveis,
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cujas experiências dos convertidos pudessem ser fortemente dotadas de sentido e validadas moralmente como pecados e virtudes. Há que se pensar também noutras dimensões simbólicas da presença da carne e do corpo nesse rito. A leitura oficial expressa uma aliança dos homens com Deus. Alimentar-se permanentemente do sangue e do corpo de Jesus deveria funcionar como uma poderosa lembrança do sacrifício em nome de todos os homens e mulheres. Por isso, tal alimentação é um ato espiritual, uma reconciliação. Noutra direção, essa simbolização liberou a carne para a dieta dos cristãos. Nesse caso, não havia tabu como noutras crenças. Vacas e porcos não sofriam restrição, o oposto às crenças de indianos e de judeus. A discriminação daquele mundo cristão, contrária a determinados animais, foi reduzida a números irrelevantes. Mas não foi um caminho fácil. Muitos textos do Velho Testamento e imagens antigas e renascentistas condenaram o apego à carne do corpo. Imagem 2 – O Éden. (1526) Lucas Cranach
Fonte:https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Adam_and _Eve_(UK_CIA_P-1947 LF-77).jpg Domínio Público. Acesso em abr. 2017
No imaginário cristão, em tempos longínquos, o Paraíso do qual Adão e Eva foram expulsos, inaugurando o pecado, só oferecia uma perspectiva para a dieta alimentar. O Paraíso era um mundo vegetariano e o destino dos animais pertencia a Deus. A mudança aconteceu
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com a tentativa de Noé enfrentar o dilúvio transportando pares de diversos animais. Cessada a tormenta, o sacrifício de bichos para saciar a fome abriu novo capítulo na trajetória cristã que duraria até Moisés. Houve ali uma distinção que classificou a fauna em "pura" e "impura", uma separação fundada na tipificação do sangue. Animais que se alimentavam de carne foram descartados da dieta. Nesse caso os hebreus se sentiram pressionados pela conversão do filho de Deus em homem de carne e osso, que se alimentava de carne, de acordo com as leis de Moisés, mas simbolizava, depois da ressureição, uma espécie de carne "impura". A equação, mesmo que metafórica, dizia que a carne de Jesus - dada aos homens em sacrifício - tornara-se impura porque sua dieta incluía proteína animal. Era um cerco difícil de escapar. O resultado foi a abolição das barreiras erguidas contra a carne de animais considerados impuros nos tempos de Moisés. A ideia de que todo prazer deveria ser derramado na fé, como externalização do júbilo, consciência do poder divino, rejeição e autocondenação da carne, tornou-se regra de conduta durante séculos. Cabia construir uma noção de amor que fosse abstinência de sexo. Toda energia humana, incluída a libido, tornou-se, na prática religiosa, sinal de devoção espiritual, evidência de contenção dos desejos carnais. Freud racionalizou esse processo ao descrevê-lo como o principal fundamento da ideia e do sentimento de culpa. (FREUD, 2014) Pode-se pensar também que a paixão pelo sangue e pela carne de Cristo se juntou à paixão – sentida e vivida como desejo - pela carne. Do contrário, nos 10 mandamentos o 5o “Não matarás” não seria seguido do 6o “Não cometerás adultério”. Mais interessante, contudo, foi a contradição relativamente ao pecado da carne, estabelecida no evangelho de João, desde seus primeiros versículos. Dos quatro evangelhos, o de João é o mais complexo. Sem apresentar uma narrativa factual, sua argumentação é cronológica e centrada numa luta abstrata entre o bem e o mal. João foi discípulo de Jesus, o que lhe permitiu escrever sua história a partir de experiências diretas. E também um texto bem elaborado, certamente alterado e influenciado pelas traduções. O clímax está em seu início, e mesmo assim, após explicar as origens das coisas, não desfaz o interesse pelo restante da história. "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus". (...) "Os homens não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória". (JOÃO, l: 1-6) Esta não é uma linguagem cênica, didática, que se esforce para tornar clara a história da humanidade e das coisas para o leitor do século I. Permanece árida para o tempo presente. Precisa constantemente ser interpretada e explicada. Mas a ideia que João tentou organizar nos versículos que abrem seu livro é majoritariamente aceita e defendida no âmbito do catolicismo. Diz mais ou menos assim: Houve uma força sobrenatural que acompanhava Deus. Era o Verbo, era Jesus, filho de Deus, que se fez carne e viveu entre os homens. Em sua trajetória, o filho ofereceu sua carne e seu sangue para os homens, para que estes pudessem experimentar o renascimento de Jesus, para que renascessem para si mesmos, para o cristianismo e para o mundo. Tratava-se de uma transição baseada num tipo simbólico de canibalismo, que foi fundamental na estruturação do cristianismo. Olhando à distância, embora fosse uma imagem pouco civilizada, João a elaborou para explicar como Deus e seu filho eram um só, e como o homem, feito de carne e de sangue, era uma substância criada por Deus.
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O canibalismo mencionado por João em meados do ano I, não é uma peça única na Bíblia. Nos livros do Velho Testamento há menções explícitas sobre a antropofagia, embora espiritualizadas e metafóricas. Deuteronômio, Ezequiel, Jeremias, defendiam seus pressupostos morais disparando acusações de canibalismo contra populares, erguendo sobre eles as mais bizarras punições. Desse modo, fez-se, naqueles tempos antigos, o medo que iria assombrar os cristãos. Aliás, medo aterrorizante, acomodado e protegido na consciência de cada um, devidamente internalizado. Contudo, comparado à época de Cristo, o canibalismo vinha, quase sempre, embaraçado à ideia de sacrifício como componente de quitação de dívida contraída em pecado, especialmente, o pecado da carne. Este foi um dos principais argumentos, senão o mais emblemático, que compôs a preocupação evangelizadora presente no Velho Testamento. Na parte inicial da teoria criacionista, Adão e Eva se perdem em meio às primeiras normas prescritas e pecam. A perdição, igualmente ao pecado, foi severamente condenada, com especial atenção ao desfrute da carne. Afinal, o homem, pouco antes de ser expulso no Paraíso, tornara-se imperfeito, impuro. E essa imperfeição se relacionava, principalmente, com a carne, uma vez que o próprio homem, criatura, descobrira que o corpo havia sido feito para o pecado. Esta continua sendo uma curiosa construção litúrgica e ascética que instaurou a relação entre o fiel e Deus por meio de um rito antropofágico, decretado como forma simbólica que viabilizou a apropriação do carisma de Cristo para ser institucionalizado na Igreja. Ocorre que a dimensão do carisma é sempre individual e tende a desaparecer com a morte do sujeito, seu portador. (WEBER, 1982, p. 193-204) Separado de seu contexto original, a questão histórica mais interessante é saber como o carisma se transforma num conjunto de práticas e de crenças instituídas, suficientemente fortes, transferidas ou constitutivas de uma instituição nesse caso, a Igreja. Quando isso acontece, seu desdobramento geralmente faz com que a nova doutrina de crenças e valores se torne uma rotina. Então, a espetacular atração da liderança carismática é rotinizada e se enraíza no cotidiano daqueles que acreditam. Por que tudo isso é importante? A medida da fé e de sua confirmação em cada cristão implicou devorar o corpo de Jesus e beber seu sangue. E não necessitava caça para o desfrute e prazer dessa carne, desse corpo. O sacrifício era voluntário. "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele". (JOÃO, 6:56) Essa comunhão exigia abdicação de todo prazer originário do corpo e de sua manipulação. Obviamente há objeções a essa leitura, pois no sentido original se trata de uma metáfora. Mas por que escolher um espelho do canibalismo? Esse enredo, bastante conhecido, se revela a partir de um teste submetido a Abraão. Trata-se de uma passagem de Gênesis, em que Deus exigiu de Abraão que matasse seu filho, Isaac, como uma prova de fé. O filicídio deveria ser visto como um sacrifício, uma prática que marcaria a sociabilidade cristã de modo a definir o universo daqueles que seriam salvos. Preparado o fogo por Abraão, Isaac foi conduzido ao altar, amarrado, ignorante sobre o que iria lhe acontecer. Como um animal, Isaac estava pronto para ser abatido à faca por seu pai. Naquele momento, sem dúvidas à respeito da fidelidade de Abraão, um anjo foi enviado para interceptar o ímpeto de Abraão e substituir Isaac por um cordeiro.
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A narrativa que organizou o livro de "Gênesis" é vigorosa na definição do compromisso investido na fé. O caso típico (ou um dos principais) é o dilema de Abraão, resgatado no último suspiro que o separou da eminente morte de seu filho. Para análise, não interessa muito que a solução do impasse veio de quem o criou. Mais importante é identificar a alegoria central nesse arranjo literário e histórico. O sacrifício do qual escaparam Isaac e seu pai foi mantido, representado na morte de um animal cuja carne alimentaria o homem. Nesse caso, o anjo não fora enviado somente para poupar Isaac, mas para dissipar qualquer temor ou dúvida sobre o abate - na forma de sacrifício - de animais para alimentação. A fusão desse rito religioso com uma necessidade fisiológica confirmou a carne uma componente da dieta, removendo, por um instante, qualquer estigma de natureza sagrada que a envolvesse. Por pouco tempo abriu-se uma janela por onde aquela possibilidade pudesse ser aventada. Em paralelo, o sacrifício do cordeiro semeou, na cultura judaico-cristã, algo semelhante a determinado sentimento de solidariedade funcional exclusivamente à comunidade ou ao povo cuja expectativa era a salvação. (WEBER, 1992) Os preceitos de Deus, principalmente nesse caso, se voltam para a comunidade, nunca para o indivíduo. O destino de um povo seria o destino de um só homem. Portanto, o binômio sacrifício e libertação tornou-se fundamental no pensar e na prática cristã. A metáfora está quase completa. Falta, evidentemente, avaliar o objeto do sacrifício, a carne e a fé. A Igreja cristã instituiu outros tipos de sacrifícios menos materiais e violentos, mas o corte fatal da carne evoluiu como uma liturgia importante na sustentação dos dogmas religiosos e no equilíbrio mental e moral dos fieis. A noção de que sacrifícios auto-prescritos redimiriam pecados tornou-se uma crença de uso e de utilidade doméstica. Sobre esse tema, o ritual litúrgico é mais formal e mantém a narrativa do Gênesis com poucas adaptações didáticas e cênicas. O fato é que, em ambos os casos, o sacrifício original protagonizado por Abraão deslizou o sentido sacrifício-carne-fé para sacrifício-carne-libertação. Em tese, os dois significados podem ser tomados como complementares, mas é o último que estabelece a identidade do "povo de Deus", a relação entre "salvação" e carne, entre carne e libertação, elementos culturais específicos ao universo religioso judaico-cristão. O drama que antecede a Moisés endossa tal leitura. E um dos acontecimentos mais emblemáticos do Velho Testamento. Nessa dimensão histórica, Johan Huizinga teve alguma razão em afirmar que, durante a Idade Média, "a escolha residia, em princípio, apenas entre Deus e o mundo, entre o desprezo e a aceitação veemente, com perigo para a alma de cada um". (HUIZINGA, 1996, p.40) Naquele tempo, a vida e os medos eram mais complexos e variados, mas, em resumo, os agentes que elaboravam e divulgavam a ideologia religiosa se esforçavam para que houvesse espaço apenas para essa escolha. Existe verdade nisso, mas também são autênticas as numerosas transgressões desse compromisso. Vincular-se ao cristianismo significava abdicar perpetuamente dos prazeres da carne ou de sentimentos malditos e proibidos pela Igreja, paixões iguais à vaidade, à luxúria e à inveja, por exemplo. Mas não representou isso, necessariamente. Se a referência for o século I a.C. e o primeiro da era Cristã, os apelos de Jesus à devoção dos seguidores foram menos escatológicos do que os registros do Velho Testamento. Do mesmo modo, se pensarmos em Jesus a partir de sua inserção social e econômica na
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região da Judeia, um camponês expropriado desde a geração de José, que dominava a carpintaria como uma atividade acessória ao trabalho no campo, pode-se ver alguém que rejeitou acomodar-se na faixa da miséria e da indigência produzidas pela presença do Império Romano naquele local. A preferência por integrar o grupo de João Batista também pode ser explicada nesse contexto. Jesus seguiria depois como herdeiro político daquele profeta. Em pouco tempo, seus recrutados seriam majoritariamente pobres, camponeses espoliados e todo tipo de gente estragada pelo Império Romano. Tanta gente marginalizada comporia o povo de Deus. Por tudo isso, a dominação romana na Galileia foi recebida pela maioria dos camponeses "como uma força opressora e demoníaca", à qual se opôs Jesus. (LIMA, 2010, p.3) Essa opressão se constituía um recurso razoavelmente complexo, pois não se resumia à coerção física. Muitos pequenos proprietários se viram expropriados devido aos empréstimos contraídos junto a funcionários do Império. De modo geral, os camponeses desconheciam as regras de operação de crédito, fato que produzia enormes e impagáveis dívidas. Isso, aliado à exploração dos excedentes agrícolas e do preço exorbitante cobrado pela comercialização dos produtos, formou as condições nas quais o camponês foi expropriado de suas terras e se viu frente a alternativas degradantes: vender-se como escravo, tornar-se marginal, recorrer a mendicância ou juntar-se a movimentos sociais para restaurar a autoestima, a dignidade e sentir-se menos solitário. Aqui podemos entender a semelhança dos quatro evangelhos em relacionar o foco das intervenções de Jesus: cegos, velhos, aleijados, doentes, um verdadeiro exército de pessoas comuns. Multiplicando os camponeses recrutados, Jesus aumentou a propaganda acerca do Reino de Deus (deixando sinais dos seus discursos por onde passava), fato que atraiu definitivamente a atenção da administração do Império Romano. E nesse contexto que se deve pensar seu assassinato. A partir dessa interpretação alternativa, podemos nos aproximar da versão oficial sobre a conexão entre a morte de Jesus e a noção de sacrifício. Aqui, é preciso retomar a elaboração feita por João a respeito da unidade entre Deus Pai e Filho. Tal formulação decorreu de um dilema recorrente entre aqueles que integraram o movimento iniciado por Jesus. Como poderia o pai e o filho serem a mesma coisa? João foi o único dentre os quatro evangelistas a responder tal questão. Ele estabeleceu uma conexão entre o sagrado e o profano com a finalidade de ressaltar o tráfego que ligou essas dimensões do universo cristão. Se o verbo (o poder, o comando, a transformação) era e estava com Deus, ao descer ao mundo dos homens, ele o fez como Verbo e como Deus. Ao mesmo tempo, Deus foi ao encontro dos homens e também permaneceu acima deles, no controle de seus destinos. E o mais importante, para estar entre os homens foi necessário comparecer em carne e sangue. De modo análogo, depois de sacrificado, ressuscitou, também na forma de carne e sangue. Por esse caminho chega-se igualmente à importância simbólica da carne no universo cristão. Finalmente, estando o Filho sentado ao lado de Deus Pai não é a imagem mais mobilizadora na doutrina cristã, senão a humanização do filho de Deus, o retrato de seu sofrimento em carne e sangue, mais mundano do que espiritual. Esta leitura não é consensual no campo teológico nem no campo histórico. Carece de ajustes, de reparos. Pode ser rejeitada por inteiro, considerada inservível. Por outro lado, ela se redime ao propor uma explicação sobre as conexões que ligam as sensibilidades constitutivas do universo cristão à carne. É uma vantagem que nos auxilia a compreender as práticas sociais
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de ricos e pobres em relação à carne, no período que vai da Baixa Idade Média até o século XVIII. Desconheço estudos que tenham conseguido mapear, em extensão e profundidade, essa dimensão do cotidiano de pobres e ricos no período medieval. No campo da história, o que vemos sobre isso são retratos com focos curtos e borrados, pedaços do passado que, depois de analisados e interpretados, resultam temporalmente pontuais e pouco adequados para comparações. Mas são úteis para levar adiante as hipóteses que testo aqui. E o caso da surpreendente narrativa de Umberto Eco em "O Nome da Rosa", publicado em 1980, e historicamente bem informado conforme a crítica especializada. A linguagem cênica do autor permite assistir à batalha campal travada entre Guilherme de Baskerville, monge franciscano e renascentista, e outros monges representantes de ideias religiosas fundamentalistas. O que interessa, entretanto, são os episódios que cercam a carne e que inspiram duas interpretações harmonizadas sobre seu uso. Na rotina do mosteiro italiano no século XIV, precisamente em 1327, a carne e seus derivados integravam, com certa frequência, as duas refeições diárias comuns àquele tempo. A primeira delas era servida à hora Sexta, correspondente às 12:00 horas. A segunda e última acontecia às 18:00 horas, chamadas de Completas. A carne e demais alimentos, nas horas restantes, permaneciam trancadas na despensa e cozinha, sob a proteção de um monge encarregado dessa função. Fora do mosteiro, os aldeões vizinhos contavam com bem menos que os recursos ao alcance dos monges. Sua dieta era pobre em nutrientes, e rala em quantidade. Umberto Eco realça esta desigualdade entre clero e servos referindo-se à distribuição de restos de alimentos aos camponeses, que se acotovelavam, bem abaixo das muralhas do mosteiro, para catar pedaços daquela caridade. Esses dois usos da carne expressam as distâncias entre as ordens feudais e os sentimentos simulados de compaixão pelos pobres. Não há mistério nessa descrição de Umberto Eco. O que requer atenção diz respeito à carne como valor de troca. E verdade que se tratou de uma troca peculiar. Remígio da Varagine, o provedor da Abadia, certas noites deixava livre uma entrada para o mosteiro, por onde passava uma jovem camponesa. Em troca de um bom pedaço de carne ela se vendia ao monge. Dois tipos de carne se confrontavam para serem trocados como mercadorias, como valores iguais, embora desiguais diante da moral cristã. Remígio cometia pecado em duplo sentido. Ser um monge da ordem beneditina exigia celibato, como de resto todas as ordens cristãs não heréticas. A transgressão dessa regra poderia levar à inquisição. Remígio não ignorava isso, mas o prazer da carne lhe pesava fortemente. No mesmo recinto onde os porcos eram mortos, retalhados e preparados em morcelas e embutidos, o monge posicionava, em paralelo, dois prazeres. A carne que alimenta as necessidades do corpo e a carne que alimenta os desejos libidinais do corpo. Umberto Eco fez, nos personagens de Remígio e da garota, uma síntese de práticas e de valores pouquíssimo visível naquele contexto histórico. No plano econômico e social Umberto Eco esclareceu, indiretamente, como a desigualdade na distribuição da carne podia ser invariavelmente mensurada pela escala que demarcava a distância entre pobres e ricos. Mas ele não avançou além disso porque seu objetivo terminava nesse ponto. Levar adiante a questão do enlace da carne com o mercado implica uma abordagem mais panorâmica do que o microcosmo encerrado na Abadia de "O Nome da Rosa". A pergunta que prepara uma investida sobre o par carne/mercado é: Por
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que, quando e como o processamento da carne passou a ser visto como uma especialidade e a ser regulamentado pelo Estado? Nalgum momento próximo da narrativa de Umberto Eco, critérios seletivos para separar a carne boa da ruim foram elaborados e convertidos em normas. No plano econômico, essa operação seguiu interesses das primeiras guildas formadas por açougueiros. Contudo, as tentativas de regulamentar a vida nas cidades medievais cabiam e partiam dos alcaides, cujas preocupações buscavam interferir no desenho cinzento e sujo das cidades medievais e mudá-los para os padrões de beleza imaginados pelos nobres. Não eram paradigmas de um encanto e graça, apoiados em concepções científicas como as que hoje regulam nossas vidas. Na maioria das vezes refletia o pensamento religioso ou as representações propriamente produzidas no âmbito da Igreja. Quais evidências se têm disso? Por volta de 1260, na França, atribuiu-se a Alberto, teólogo dominicano, o juízo de que as cidades deveriam corresponder à imagem de paz, de justiça e de segurança, exatamente aquilo que não fosse igual às ruelas sombrias, estreitas e sujas, bastante comuns à experiência humana nos núcleos urbanos. Ruelas que, nas palavras de Alberto, comparadas ao inferno, levavam às praças imponentes, verdadeiros espelhos do Paraíso, (LE GOFF, 1998, p.90) Na vizinha Inglaterra, em 1338, escreveu-se a primeira Lei Sanitária daquele país contra imundícies habituais de longa data. A alta nobreza deu sinais de que passaram a se incomodar com determinadas práticas sociais que sujavam e enfeavam as cidades. Em Cambridge, por exemplo, as costumeiras pilhas de esterco acumuladas nas ruas só eram removidas uma vez por semana. (MUMFORD, 1982, p.314) Essas leituras recebem o endosso de outras reflexões importantes. Le Goff registrou que, no ano de 1243, a higiene (ou a falta dela) inspirou regulamentações sobre o uso da cidade. Isso aconteceu em Avignon, França. Le Goff avalia que, naquele tempo, o embelezamento foi uma intervenção das classes dominantes para tornar a cidade limpa. Analisando o código de posturas daquela cidade, ele sublinhou a intenção em mudar os costumes e punir as infrações. Ninguém deve ter canos ou goteiras que desemboquem numa rua pública pelos quais a água poderia escorrer para a rua, com exceção da água de chuva ou de fonte... Do mesmo modo, ninguém deve jogar líquido fervente na rua, nem argueiros de palha, nem detritos de uva, nem excrementos humanos, nem água de lavagem, nem lixo algum. Não se deve tampouco jogar nada na frente da casa. (LE GOFF, 1992, p. 137-138)
Mas tais preocupações, muitas vezes registradas em legislações, não provocaram desdobramentos capazes de modificar a realidade antes do século XVIII. Até esse ponto, os esforços voltados à limpeza não superavam o disfarce. Luís XIV exemplifica isso. Os redobrados cuidados com sua aparência eram um artifício para encobrir sua imundície e seus odores, colocando-o numa escala acima da nobreza e tornando-o um padrão de beleza para a França daquela época. Comparado à régua histórica do presente, o Rei Sol tinha mais piolhos do que tem hoje um pobretão. Essa é uma imagem da nobreza sobre o período moderno bastante realista cuja dissimulação pode ser evidenciada e acentuada pela presença dos pobres nas cidades. Ao menos é assim que se referiu Michel Foucault sobre a tolerância que os ricos tinham dos
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pobres. Homens e mulheres nessa condição eram úteis ao funcionamento das cidades e ao atendimento das necessidades da nobreza e dos novos ricos. Suas incumbências envolviam lidar com o lixo, eliminar os dejetos, recolher trapos e panos jogados nas ruas, enfim, limpar as sujeiras das classes dominantes. Junto aos esgotos, eles faziam parte da tecnologia do conforto no século XVIII, e por isso eram aturados. (FOUCAULT, 1990, p.94) Por óbvio, a presença de pobres estava restrita aos espaços de segregação onde poderiam trabalhar em favor dos nobres e só. Olhando esse quadro de longe, pode-se dizer que as inquietações com a higiene e a salubridade das cidades não tinham ultrapassado inteiramente os parâmetros do século XIII. Não era esse o caso da carne e seu consumo, ao menos em parte. No campo não havia controle sobre o abate de porcos e de bois, por exemplo. As famílias camponesas os criavam e quando atingiam um peso considerado ideal esses animais eram abatidos. Parte deles se transformava em embutidos e carne condimentada para durar alguns meses. Mas, é bom que se diga, na dieta camponesa a carne não era um alimento frequente. Funcionava mais como uma iguaria. O resto, aliás, a maior parte dos animais abatidos, era vendida no mercado local, na aldeia mais próxima, ou em mercados consolidados e ligados a alguma cidade. Chegava-se lá nessa condição, sem qualquer indicador de qualidade e procedência que não fossem as conferências empíricas, realizadas com o olfato, os olhos e o tato. O mau-cheiro, a cor esverdeada e a textura frouxa ou desfigurada geralmente desfaziam a intenção de comprá-la. Outro modo não havia. Quando a desconfiança aumentou em relação à carne vendida e a distância entre o campo e a cidade diminuiu, mecanismos de fiscalização - mesmo que precários - foram exigidos. O açougueiro entrou em cena. Seria ele o sujeito a assegurar a integridade da carne. Já nas cidades, o abate e o processamento da carne cabiam ao domínio desse ofício. Seu trabalho, praticamente realizado aos olhos de todos, era requisitado e servia como garantia e origem da carne. Outro aspecto também intrigante necessita esclarecimentos. Diz respeito a conexão entre a reforma urbana tentada por volta da baixa Idade Média e o ritmo mais acelerado da disciplinarização do consumo de carne, inclusive os significados de sua transformação em mercadoria.
4. O açougueiro e o mercado medieval1 A Corporação dos Açougueiros edificada em 1527 na cidade de Hildesheim, norte da Alemanha, é uma das mais emblemáticas evidências do esplendor vivido por este ofício. Este prédio tinha sete andares cuja altura chegava aos 26 metros. Sua porta media aproximadamente 2,5 metros, uma largura mais do que suficiente para transportar porcos e gado em direção ao abate. Suas paredes tinham uma espessura de 1,5 metros, fator que garantia uma ótima refrigeração para a carne. Guildas bem estruturadas como a de Hildesheim serviam como mercado de venda de carne. Para aquela época tratava-se de um matadouro sofisticado, com tecnologia de ponta. Lá 1
Parte desse capítulo foi desenvolvido a partir de artigo publicado. (BOSI, 2014)
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dentro bois, porcos, ovelhas e cavalos eram abatidos, eviscerados, cortados e preparados para a venda no local ou em outros mercados distantes. Os açougueiros associados na corporação exerciam o controle sobre a produção. A definição das regras sobre a qualidade e os preços da carne também estava sob o domínio das corporações, o que gerava muitos conflitos entre os mestres de ofício e os representantes da municipalidade ou do próprio Rei. Aqui é preciso esclarecer um ponto. Na maioria das vezes, as divergências que opunham as guildas e o Estado não diziam respeito à qualidade da carne. Quem aferia isso eram os açougueiros. Na época em que a guilda de Hildesheim foi erguida os questionamentos acerca dos privilégios - ou da autoridade - dos açougueiros não eram mais do que uma pálida reclamação. Por outro lado, quando as discordâncias aconteciam em torno dos preços de impostos e de taxas o atrito era barulhento e, não raras vezes, estraçalhava as possibilidades de composição dos interesses em jogo. Este tipo de tensão parece ter sido mais presente do que geralmente tendemos a acreditar quando pesquisamos os registros deixados pelas guildas, mesmo porque os privilégios detidos por açougueiros dependiam de algum tipo de confirmação feudal. Os confrontos gerados nesta fronteira política podiam, inclusive, transbordar e atingir níveis incontornáveis, como foi o caso da rebelião de 1413, em Paris (acontecida no contexto da Guerra dos Cem Anos), que tentou evitar a elevação da carga fiscal pelo reinado de Carlos VI. Ela foi liderada por açougueiros, peleiros e curtidores, cujo resultado implicou a expropriação dos pertences dos açougueiros, a revogação de seus privilégios e a demolição dos abatedouros que ficavam localizados próximos à catedral de Notre Dame (ROSS, 1997). Naquele tempo, negociar carne não era uma prática de livre mercado. Para a historiadora Sydney Watts, açougueiros como aqueles que patrocinaram a revolta de 1413 representavam uma força social e econômica que foi arrasada com a destruição de suas lojas, mas que retornaria à tona porque seu trabalho não podia ser substituído e nem completamente controlado pelo Estado (WATTS, 2008). Mas esse tipo de manifestação não era frequente. Ao contrário, registros históricos sobre eles que indicam que podem ser considerados constantes não passavam de desavenças pontuais contra a intromissão do governo local na rotina comercial dos açougueiros. Os magarefes tendiam a concentrar seus abatedouros em locais comuns, como a corporação de Hildesheim, e a empregar o trabalho de aprendizes e jornaleiros para tarefas constituídas numa rudimentar divisão do trabalho. Encerrados no abatedouro, esses trabalhadores se revezavam nas atividades de matar os animais, eviscerá-los, esfolá-los, executar os cortes, preparar a carne para a venda, e por vezes fervê-la para produzir salsichas. Semelhante a outros ofícios e oficinas o trabalho com a carne era organizado e planejado pelo mestre, que manejava o conhecimento acerca do abate, dos tipos de cortes, das ferramentas, enfim, de todo o processo de trabalho (ROSSER, 1997). Havia uma distância social e econômica entre os mestres, de um lado, e os aprendizes e jornaleiros, de outro. Sem o trabalho destes últimos não seria possível aos açougueiros acumular alguma riqueza. De forma convincente, Max Weber argumenta que as corporações de ofício ocidentais, incluída a dos açougueiros, não poderiam se desenvolver senão fora do controle dos senhores de terras. Camponeses com habilidades de carpinteiros e de ferreiro, por exemplo, subalternos ao domínio senhorial viam-se impedidos de praticar o ofício livremente. (WEBER, 2006, p. 141-163) Não se pode datar o começo com precisão, mas é razoável
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apontar para o período carolíngio, quando as cidades e os mercados se tornaram mais numerosos e populosos. Portanto, não havia direito público preparado para as corporações. Este fato facilitou às corporações o controle sobre o trabalho e, principalmente, a autoridade relativamente à qualidade do produto antes de ser entregue ao mercado. Sabe-se que tal controle foi menos efetivo do que normalmente se pensa. Em geral, havia concorrência entre oficinas abrigadas ou não numa mesma corporação. E o que sugere Gervase Rosser, ao argumentar que os pequenos melhoramentos na tecnologia referente à produção desenvolvidos numa oficina não eram facilmente apropriadas pelos demais mestres. A principal forma de transferir esse tipo de conhecimento se dava quando um jornaleiro trocava uma oficina por outra, carregando consigo alguma técnica ou informação sobre novos desenhos de ferramentas ou processos de trabalho. (ROSSER, 1997) Aquele não era um mundo conciliado com muitas de suas próprias leis. De volta às relações de trabalho nos açougues medievais, encontramos um quadro mais detalhado a respeito da execução do trabalho. Os aprendizes e jornaleiros realizavam tarefas difíceis e pesadas, como o abate e a limpeza das carcaças, e isto não era simples de se aprender. O método de abate, por exemplo, era tão mais complicado quanto maior fosse o tamanho e a ferocidade do animal. Geralmente um boi deveria ser morto com um machado, mas isso nem sempre acontecia sem transtornos. (MACLACHLAN, 2008) Um golpe mal executado deixava o boi em agonia, o que exigia outros golpes para terminar o sofrimento do animal e finalizar o trabalho. Não era incomum o aprendiz ou o jornaleiro golpeava seguidamente o animal sem qualquer sucesso. Deixado à sorte de muitos golpes acreditava-se que a agonia do boi interferia na textura e no sabor da carne, depreciando seu preço. Tal técnica foi lentamente substituída desde o final do século XVIII, cedendo espaço para o "ritual judeu"- o boi tinha uma das patas traseiras presas e suspensas por correntes, era amarrado e imobilizado pela cabeça para que fosse sangrado no pescoço. (BRANTZ, 2002) Eviscerar e esfolar o animal também eram tarefas ingratas que exigiam força e destreza. Já o corte da carne ficava reservado ao açougueiro, mas também podia ser executado por jornaleiros e aprendizes habilidosos. A jornada de trabalho era longa, principalmente quando o trabalho envolvia a produção de salsichas, e a paga não tornava este ofício imediatamente sedutor. Os aprendizes, como era o costume, trocavam seu trabalho pelo conhecimento, pela expectativa de se tornarem mestres, e por comida e abrigo (não necessariamente nesta ordem). Os jornaleiros recebiam algum dinheiro que podia vir acrescido da alimentação e do pouso, além da possibilidade de tornarem-se açougueiros. Por fim, um mesmo açougueiro com capacidade de empregar trabalhadores não o fazia em grande número, dificilmente ultrapassando três ou quatro. De qualquer modo, fosse um ofício realizado pelos mestres, aprendizes ou jornaleiros, a habilidade era uma requisição imprescindível. Uma faca manuseada com desleixo, desatenção, desgoverno ou com pouco domínio resultava, não raras vezes, em violentos talhos no próprio corpo. Certamente a escolha por São Bartolomeu para assumir o papel de Santo padroeiro do ofício relacionava-se ao fato de ter este apóstolo sido supliciado com o esfolamento da pele de todo o corpo, antes de ser decapitado. Ninguém melhor do que São Bartolomeu para se identificar com as condições de trabalho dos açougueiros. Sua proteção era sempre bem vinda.
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A situação dos aprendizes e jornaleiros entrosados com este ofício não diferia do contexto vivido em outros ofícios. Não jantavam a mesa do mestre e de sua família. Não eram tratados com gentileza. Dormiam nas dependências dos abatedouros. Comiam sobras, embora o trabalho com carne lhes permitisse alguma regalia proteica. Enfim, tudo servia para fixar a distância social de seu "patrão": o saber referente ao oficio, a obediência aos comandos do mestre, a dependência do aprendizado, o impedimento de participar das guildas. Mas as portas para escapar dessas condições não eram impossíveis de se destrancar. Novamente é Gervasse Rosser quem afirma que jornaleiros ou aprendizes já "titulados" podiam abrir pequenos abatedouros em nome de seus mestres, uma espécie de filial. Além disso, dois ou mais jornaleiros podiam constituir um tipo de confederação para reunir capital e abrir eles mesmos um abatedouro ou, "onde isto fosse proibido para não mestres, conseguir autorização para um deles comprar o ingresso na corporação de modo que os outros pudessem dividir seus privilégios por procuração". (ROSSER, 1997) Jornaleiros e aprendizes não raramente se organizavam em confrarias ou irmandades religiosas para evitar uma exploração desmedida dos mestres e também para contar com alguma proteção em situações de dificuldade. Tais confrarias recolhiam e administravam recursos financeiros que geralmente tinham emprego certo para socorrer seus associados, mas não é o caso de vermos tais organizações como proto-sindicais, embora elas fossem gestadas em meio à experiência de desigualdade econômica, social e política relativamente aos mestres. Não obstante esta imagem histórica bastante verdadeira, o que predominava na realidade deste ofício não eram mestres ajudados por aprendizes e jornaleiros. Pesavam majoritariamente no panorama histórico pré-industrial deste ofício milhares de açougueiros que trabalhavam sozinhos em suas bancas ou pequenas lojas (localizadas nas grandes cidades) e ocupando, quando muito, um aprendiz. A produção em escala industrial, baseada na divisão do trabalho, não foi um produto deste ofício e nem do seu tempo. Se pudéssemos nos referir a um retrato que mostrasse os principais traços constitutivos da produção e do comércio da carne no período pré-industrial europeu veríamos açougueiros avulsos, trabalhando em pequenas bancas, ora concentradas num mesmo local, ora dispersas pela cidade. Mas, reunidos ou espalhados, estes pequenos abatedouros necessitavam estar próximos do centro urbano, contar com água corrente e dispor de espaço para negociar e manter os rebanhos a serem abatidos. E bastante representativo desta realidade mercados de carne estabelecidos desde a baixa idade média e povoados de pequenas bancas e lojas de açougueiros. (MACLACHLAN, 2007) Mais do que em outros ofícios o conhecimento necessário à lida com a carne permanecia sob o domínio do mestre, com alguma divisão de trabalho e escassa transferência de saberes para jornaleiros e aprendizes. Além disso, as tecnologias e as técnicas relacionadas ao abate, ao esquartejamento e ao preparo da carne para a venda pouco mudaram durante os dez séculos que antecederam o XIX. Ao longo desse tempo os açougueiros sedimentaram seu ofício e seu lugar nas principais cidades da Europa, movimentando grandes quantidades de gado, porcos, ovelhas, e abastecendo de carne a população em condições de comprá-la. Como em qualquer outro ofício havia mestres melhor posicionados economicamente do que seus pares, mas sua importância social se revelava a partir de sua identidade expressa pelo trabalho, e tal identidade era basicamente cultivada e reproduzida nas guildas. (BLACK, 1984)
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A rigor, as corporações de ofício não eram associações de natureza estritamente profissional, cujos objetivos se resumiam em regulamentar e fiscalizar o trabalho de modo a controlar o mercado a ele relacionado. Tais finalidades são bastante conhecidas, mas não traduzem completamente a função social e política que muitas corporações se viam investidas. Mais especificamente, pode-se dizer a este respeito que a identidade pela qual os açougueiros se projetavam era cunhada e nutrida na e a partir das corporações. As guildas funcionavam principalmente para chancelar determinadas relações de poder entre os açougueiros e seus subalternos, e entre os primeiros e o restante da sociedade estamental. De um ponto de vista geral, este tipo de relação encontrava respaldo porque estava internalizada profundamente nos próprios açougueiros e naqueles com os quais mantinham contato no cotidiano; e o reconhecimento desta simbologia particular era consensual. Assim, as corporações dos açougueiros cumpriram tanto a função de resguardar a autonomia do ofício aos mestres quanto de disseminar e sancionar (a priori) o respeito social pretendido pelos açougueiros. (BLACK, 1984) Pelo menos um fato importante decorre desta conjuntura histórica. O trabalho exercido pelos açougueiros era autônomo, controlado e organizado pelo próprio executante, o que em larga medida lhe garantia uma posição de independência frente ao complexo, intrincado e emaranhado mundo feudal. Isto repercutia no valor que os mestres atribuíam ao trabalho. Na maioria dos ofícios pode-se dizer que a satisfação advinha do trabalho (do domínio sobre o processo técnico e do prestígio derivado deste), e não da renda ou de alguma crença religiosa assentada no mérito econômico como garantia para a salvação eterna, mesmo que, do ponto de vista social e político, os mestres tivessem que negociar sua presença e seus privilégios com as autoridades situadas acima deles, quaisquer que fossem elas. Mas do ponto de vista econômico parte de seu trabalho não era devido por obrigação aos senhores feudais ou a Coroa do mesmo modo que as famílias camponesas se viam obrigadas a entregar parcela de sua produção aos seus suseranos. Esta zona de autonomia era bem mais ampla do que se costuma pensar. A imagem que Marx consagrou à base técnica da manufatura assentava-se neste monopólio do saber mantido sob a tutela e o controle dos mestres. Vez ou outra os limites de um ofício eram sentidos como ameaças pelas autoridades e testados, sem, contudo, serem corroídos ou cancelados, o que ratifica esta imagem: sua autonomia era um obstáculo também ao capitalismo, uma defesa "contra qualquer intrusão do capital mercantil, a única forma livre de capital" naquele tempo. (MARX, 1988) Enfim, ter efetivo domínio sobre seu trabalho constituía parte fundamental da existência dos mestres e, em menor grau, dos jornaleiros. Este movimento recorrente em toda a idade média europeia demonstra como as "artes" cruzaram séculos com nítida independência numa sociedade em que as relações de produção prevalecentes eram tipicamente feudais e fundavam-se na coerção e na dependência pessoal. Contudo, a partir do XVIII esta estabilidade ficaria cada vez mais comprometida porque a realização desse trabalho, antes absolutamente visível e exposta, passou a ser interpretada como ultrajante e repulsiva. Até então sua existência esteve enraizada e sintonizada com determinada estética e com costumes e padrões de higiene que tornavam sua presença não só tolerada como também normal. A pressão sobre esses costumes e padrões afetaria diretamente os açougueiros e seu trabalho. Junto com as cidades e os costumes, suas práticas seriam duramente atacadas e modificadas.
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5. Dos açougues medievais aos matadouros públicos2 Faz parte desse processo de depreciação dos açougueiros, ou de seu oficio, a sensibilidade social e histórica que começa a mudar por volta dos séculos XVII e XVIII. Primeiramente, as queixas contra a "imundície" dos açougues se avolumaram e ficaram mais sérias. O afamado escritor britânico Thomas Carlyle, cuja percepção política era bastante conservadora, tomou como importante de nota a cadeia de produção da carne instalada em Smithfield, avistada por ele em 1824. Aquela visão o incomodou tanto que ocupou espaço na carta que escreveu ao irmão naquele mesmo ano. Foi assim que Carlyle definiu o mercado de carne de Smithfield, região de Londres. Outro dia passei, por acaso, no mercado de Smithfield (...). Eu subi os degraus de uma porta e olhei em volta, um espaço irregular de aproximadamente trinta hectares de extensão, cercado de velhas casas de tijolo e cruzado de currais de madeira para gado. Que cena! Inumeráveis cabeças de bois gordos, amarrados em longas fileiras ou trotando para diversos dos matadouros que ali havia; e milhares de criadores de gado, vaqueiros, açougueiros, corretores de gado empurrando aqueles infelizes animais; correndo pra lá e pra cá, numa grande confusão, gritando, brigando e xingando em meio à chuva, como a imaginação não pode retratar. (CARLYLE, 2001)
A imagem retratada por Carlyle não deixa de ser impressionante. No fundo de sua observação estava um questionamento sobre a grande confusão estabelecida pela concentração de açougueiros cuja atividade mobilizava um intenso trânsito de gado através do centro de Londres. Entretanto, a forma escolhida por ele para organizar o que chamou de "grande confusão" isentava o capitalismo. E esta opinião não poderia ser diferente no caso de um conservador. A intensa e rápida movimentação daquela matéria-prima acontecia sob o comando dos "criadores de gado, vaqueiros, açougueiros, corretores de gado", enfim, agentes articulados e integrados à indústria da produção da carne. Interessante notar que Carlyle dificilmente enxergaria com detalhes aquela cadeia produtiva. Ele encurtou a distância de onde estava e passeou por entre o mercado de Smithfield com a finalidade de evidenciar o que acreditava ser uma patologia da sociedade moderna. Pode-se contestar sua visão e argumentar que as cenas vistas por ele eram, no máximo, uma variação da normalidade, uma variação da produção capitalista do século XIX. Por outro lado, o registro feito por Carlyle possibilita uma comparação com o que se poderia considerar o mercado nos séculos XV e XVI. Smithfield, fundada no século XIII, acomodava o Hospital São Bartolomeu, santo protetor dos magarefes. Ato contínuo, lá se reuniam diferentes corporações, especialmente as guildas dos açougueiros. Mapas e desenhos do mercado nos séculos XV e XVI sublinhavam positivamente Smithfield. Claro. O contexto era outro. Tratava-se de um lugar especializado em abastecer Londres. Smithfield do período Elisabetano, embora de menor dimensão do que na Inglaterra Vitoriana de Carlyle, Este capítulo incorporou parte do artigo “Dos Açougues aos Frigoríficos: Uma História Social do Trabalho na Produção de Carne, 1750 a 1950”. (BOSI, 2014) 2
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dificilmente seria malquista ou detestada devido a sua agitação e desalinho. No mínimo, essa divergência pode ser interpretada como expressão de sensibilidades distintas. Outros relatos menos literários acerca da presença de abatedouros no espaço urbano também destacaram este tipo de confusão, acrescentando-lhe a sujeira causada pelo sangue, o mau cheiro, a fumaça das caldeiras (que ferviam ossos, vísceras etc.) e o barulho infernal do trotar dos rebanhos. (MACLACHLAN, 2007) Esta visão tem sido muito realçada por muitos pesquisadores e geralmente é recuperada como parte importante da explicação sobre as pressões sofridas pelos açougueiros a partir do final do século XVIII. A este respeito, o geógrafo Ian MacLachlan evoca um panfleto datado de 1784 que reclamava contra os transtornos provocados por pequenos abatedouros privados instalados na cidade de Edimburg, na Escócia, e como sua presença causava uma má impressão nos visitantes: "Os abatedouros, em sua situação atual, são considerados correta e justamente como os mais repugnantes estorvos que sempre desgraçaram a capital do reino; podem ser avistados da New Bridge e da Prince's Street". Estes argumentos ganharam fortes aliados à medida que os açougueiros, suas práticas e seus abatedouros, foram responsabilizados por diversas doenças transmitidas pela carne. A este respeito, a historiadora Dorothee Brantz mencionou o crescente medo de se contrair doença através de carne contaminada. (BRANTZ, 2008, p. 78) As autoridades sanitárias começaram a desconfiar que algumas epidemias no final do século XVIII poderiam estar relacionadas ao consumo de carne deteriorada ou contaminada, mas tal conexão não ultrapassava o nível da especulação devido ao restrito conhecimento acerca de bactérias, de vermes e de outros tipos de parasitas que se passaram por invisíveis até a invenção e uso do microscópio. Foi o caso da triquinose (ou Trichina Spiralis), um verme presente na carne de porco que podia ser transmitido caso a carne não fosse bem cozida ou frita. De qualquer modo, como sintetizou Dorothee Brantz, Desde que a carne se originava de um organismo vivo ela era um alimento volátil. Ela era muito nutritiva, mas também potencialmente perigosa; não somente podia apodrecer, mas ela poderia transmitir doenças insuspeitas para os consumidores humanos. Para minimizar tais danos, a produção de carne tinha que ser supervisionada na sua fonte: o abatedouro. (BRANTZ, 2008, p. 71)
A infecção provocada pelo consumo de carne contaminada ou deteriorada não era incomum antes do século XVIIL Porém, os meios para detectar a razão de tais moléstias, principalmente as gastrointestinais, não tinham ainda sido desenvolvidos. Além disso, tais doenças não atingiam grandes contingentes de pessoas devido a um moderado consumo de carne. Os pequenos abatedouros passaram a ser vistos como um problema à medida que sua atividade se tornou mais intensa e volumosa, gerando transtornos como o trânsito dos rebanhos pelas ruas das cidades, o barulho, o mau cheiro, a sujeira e também a ameaça de contaminação. Contudo, os rebanhos não diminuíam. Se pudesse notar regiões especializadas na criação de gado para corte desde os séculos XIV e XV na Europa, vinculadas ao maior consumo de carne nas cidades, o tamanho dos rebanhos não se comparava ao que se viu no final do século XVIII e ao longo do século XIX. (HEERS, 1981) Em Paris, uma das maiores e mais populosas cidades europeias desde o século XVI, o número de açougueiros evoluiu
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mirrados 21% (de 195 para 237) entre 1650 e 1701, enquanto cresceu 55% (de 237 para 368) entre 1701 e 1782. (WATTS, 2008, p.21). A Londres de 1850 também teve o consumo per capita de carne dobrado em relação a 1750, saltando de 31 quilos para 69 quilos. Tal variação praticamente acompanhou o incremento populacional que foi de 1,1 milhões de habitantes em 1801 para 2,3 milhões em 1850. (MACLACHLAN, 2007, p.228) Esta tendência também foi encontrada no novo mundo, em cidades do centro-oeste americano como Chicago e Cincinnati. Em 1866 Chicago já assustava com seu rebanho de 1,5 milhões de animais encurralados para o abate. (PAC YGA, 2008, p. 154) Este crescimento certamente amplificou o impacto sobre o trabalho dos açougueiros nas cidades. Tal situação foi utilizada para justificar ações fiscalizadoras e punitivas do Estado sobre as práticas dos açougueiros, e neste contexto aumentou a presença e a força de diversos reformadores que advogavam cidades mais limpas, arejadas e modernas, adequadas a novas exigências de higiene e saúde. E para os reformadores (principalmente médicos e engenheiros que repercutiam ideias críticas ao Antigo Regime) deveria instituir-se o controle público sobre a produção e distribuição da carne. Mais do que isso, o abate deveria ser removido do convívio e do olhar humano. A resposta para isso seria encontrada nos matadouros públicos. Embora Paris já contasse com matadouros públicos desde 1818 esta instituição é um produto histórico do século XIX. Sua imposição contra as práticas dos açougueiros não foi fácil e nem automática. De modo geral, recaiu sobre os açougueiros uma fiscalização que passou a inibir seu trabalho sob a insígnia de "abatedouros clandestinos". Um pouco menos no mundo anglo-saxão, os abatedouros privados foram bastante fustigados e pressionados pela fiscalização e por uma política de remoção da matança de animais para longe do centro urbano, dentro de matadouros públicos. Friedrich Engels, um observador atento do mundo do trabalho da Inglaterra do XIX, deixou registros sobre esta "limpeza" ressaltando a punição sobre os açougueiros: A 6 de janeiro de 1844 (se não me engano), houve uma sessão do tribunal de comércio de Manchester no decurso da qual foram condenados onze açougueiros por terem vendido carne imprópria para consumo. Cada um deles possuía ainda um boi ou um porco inteiro, ou vários carneiros ou ainda 20 ou 30 quilos de carne que foram apreendidos, tudo no mesmo estado. [...] Dois açougueiros de Wigon, dos quais um já tinha sido acusado pelo mesmo delito anteriormente, foram condenados a duas e quatro libras esterlinas de multa por terem posto à venda carne imprópria para consumo. [...] Numa mercearia de Bolton foram apreendidos vinte e seis presuntos estragados que foram queimados publicamente; o comerciante foi condenado a uma multa de 20 shillings. (ENGELS, 1988, p.82-83)
A carne vendida sempre foi alvo de fiscalização. Na Roma antiga, por exemplo, a carne era inspecionada e caso mostrasse sinais de cortes suspeitos ou de apodrecimento era confiscada e descartada, sem, contudo, haver punição ao vendedor. O que tornou a fiscalização do XIX representativa foi a exposição pública do acontecimento, tanto no jornal quanto na punição. Porém, não se tratava apenas de deslocar a atividade dos pequenos abatedouros privados para um mesmo lugar. Na mesma Manchester observada por Engels, Sir James Philips Kay-Shuttleworth (médico inglês e reformador renomado) argumentou em 1832 que o problema não residia somente em remover o abate para um único matadouro ou obrigar
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os açougueiros a abater seus animais lá. O novo espaço deveria conter um tipo de planta produtiva que reconfigurasse o abate de maneira a eliminar a contaminação e possíveis focos de infecção para promover a saúde pública. (KAY-SHUTTEWORTH, 2001, p.8) A proposta de matadouros públicos também foi encampada por reformistas humanitários que opunham severas críticas às formas de abate dos animais tidas todas como cruéis. Ao se pautar um debate sobre a dor e o sofrimento causados pelos açougueiros - e seus velhos métodos - buscava-se encaminhar uma solução em que a morte de animais com a finalidade de produzir alimentos, embora necessária, deveria ser um ato suave. Diversas entidades surgiram no século XIX defendendo tal ideia, como a Sociedade Real para a Prevenção da Crueldade dos Animais (RSPCA), criada em 1824, na Inglaterra, e sob o patronato da Rainha Vitória desde 1840. Isto significava também que àquela altura o abate passava a ser abordado como um ato cruel e violento, tornando-se uma questão moral, vitoriana, situada e alinhada com a era vitoriana. Este debate também repercutiu no Brasil, nos últimos anos da capital do Império. Segundo artigo publicado na Gazeta de Notícias, no dia 2 de janeiro de 1882, o método de abate de bois no recém inaugurado Matadouro Santa Cruz, no Rio de Janeiro, era bárbaro: A prova d'isso tivemola ainda agora na desagradavel impressão que deixou nos circunstantes a experiencia da matança executada por ocasião da inauguração do novo matadouro de Santa Cruz. "Vibrar com o machado golpes sobre golpes sem chegar a abater completamente a victima, prolongando-lhe assim muitas vezes o doloroso supplicio, como a principio se praticava aqui; ou então enterrar na nuca com mão incerta um estylete, o qual nem sempre vai ferir com precisão o nó vital, como se faz hoje, são processos que não podem senão causar a mais horrível impressão áquelles que, por curiosidade ou por dever, assistem a taes espectaculos. (DIAS, 2009, p.7)
O açougueiro fora transformado numa espécie de inimigo dos animais. Seu trabalho e a finalidade da carne que vendia foram completamente abstraídos. Esta abordagem ganhou muito terreno ao ponto de extrair reclames de açougueiros sobre a sistemática campanha realizada contra eles, a exemplo do que foi publicado no número 297 da Revista do Comércio de Carne, de janeiro de 1894: Eu sei que o povo não me trata como uma criatura imunda; e para falar sobre a "profunda degradação da natureza de toda a classe de homens", eu posso dizer que o povo não deturpa a mim e aos outros açougueiros, e que eu cumpro o meu dever e sou tão honesto quanto esses vegetarianos que fingem que só querem abolir os abatedouros privados, embora tudo o que eles desejam é que todos nós paremos de comer carne. Nós não somos uma escória e nunca fomos. (MACLACHLAN, 2008, p.111)
Um dos resultados desse debate materializou-se em inúmeras técnicas que propuseram uma morte menos traumática e dolorosa. A carga contra os açougueiros era pesada. O apelo contra a crueldade do abate vinha também de reflexões filosóficas, como a do famoso reformador Jeremy Bentham que, ao afirmar a incapacidade de os animais processarem a
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experiência da morte "nos termos de uma agonia metafísica" - como os humanos -, transferia para os homens a responsabilidade da dor causada pela morte por abate. (BENTHAM, 2011) Tudo isso pautava uma nova sensibilidade frente à morte dos animais, ou como tirar a vida deles. Cedo ou tarde os açougueiros seriam postos no centro do debate. Foi contra eles que se dirigiram os reformadores e o Estado. No caso do abate avulso, ocorrido no campo, nada disso apertou a consciência dos camponeses para que mudasse suas práticas. A morte de porcos, por exemplo, continuava a ser feita sem misericórdia, fingida ou não. Como antes, permanecia a preocupação de que o sangue não contaminasse a carne, objetivo que exigia golpes precisos. A reforma que exigia uma sensibilidade piedosa face os animais estava concentrada nas cidades, particularmente em lugares como o mercado de Smithfield. O matadouro público foi a solução histórica que prevaleceu naquela conjuntura, mas não se apresentou como uma resposta a todos os problemas que vinham sendo discutidos. A questão da morte dolorosa permaneceu sem resolução, ao menos a altura do que pensavam os militantes em defesa dos animais. Diferentemente disso, os matadouros públicos, uma vez edificados, nasceram como o lugar autorizado da morte de bois, porcos, cavalos e ovelhas. Os abatedouros significaram também uma forma de esconder a morte em massa de animais dentro de uma realidade histórica em que o consumo de carne, principalmente nas grandes cidades, aumentava ano a ano. Sobre isso, a partir de um olhar mais panorâmico acerca desta conjuntura, a historiadora Paula Young Lee concluiu, com razão, que "os matadouros foram uma invenção para eliminar o horror mundano encontrado na matança feita nas ruas deslocando-o para a periferia urbana, onde a geometria do sistema da matança poderia se expandir sem restrições". (LEE, 2008, p.6) A geometria a que se referiu Paula Y. Lee se fazia a partir de uma determinada divisão e especialização do milenar trabalho do açougueiro. Os matadouros públicos eram grandes plantas produtivas se comparadas aos maiores açougues da época, e foram pensados com o objetivo de separar as etapas do trabalho em instalações específicas e articuladas entre si. A rigor os matadouros contavam com currais de madeira em sua parte externa, com a função de receber e abrigar os rebanhos que seriam abatidos. Desses currais os animais eram levados para outro cercado menor que se ligava a um corredor, também feito de cercas de madeira, que conduzia às salas de abate onde bois eram imobilizados e sangrados. Depois disto, a carcaça era suspensa e presa a ganchos e correntes, seguindo para outra sala para ser esfolada e cortada. Uma vez "depurado" o produto, a fiscalização inspecionava a carne. Sua característica principal: eles deveriam ficar distantes do centro urbano. Para a historiadora Chris Otter, "o matadouro era uma tecnologia de vitalidade social, uma máquina de extermínio higiênica, garantindo que apenas carne saudável e saborosa atingisse o público" (OTTER, 2006, p.528), um aparato técnico que compelia a sociedade a esquecer seus aspectos barulhentos e sangrentos, tornando-os praticamente invisíveis. E uma boa síntese. Pensado como máquina, o matadouro limpou as cidades de parte do trabalho dos açougueiros, aquela que entupia as ruas com o trânsito de animais, o mau cheiro, o sangue e o barulho, avançando na conversão dos açougues em lojas asseadas de venda de carne. Esta batalha contra as práticas consideradas imundas e insalubres cruzaria grande parte do século XX até que a presença do açougueiro se tornasse recessiva e cedesse lugar aos matadouros modernos, os frigoríficos. Até lá, o matadouro funcionou como uma instituição que deveria
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abrigar o abate em escala dos animais e mantê-lo distante do olhar público. Ao fazer isto preservou-se também o estigma atribuído aos açougueiros por diversos reformadores que atuaram durante o século XIX e XX, julgando o trabalho do abate como sujo e marginal. Cabe ressaltar que a pressão exercida pelo Estado sobre os açougueiros, a despeito de não ter se desenrolado numa mesma velocidade e intensidade em todos os lugares, produziu efeitos diferentes, chegando a favorecer os açougueiros em determinados casos. No Brasil, por exemplo, a instituição dos matadouros municipais veio acompanhada de uma fiscalização que se fez também contra a venda clandestina de carne verde, inviabilizando as atividades de pequenos criadores que complementavam sua renda com a venda de carne. Neste contexto de mudanças, estabelecer como obrigação o abate no matadouro municipal fazia com que pequenos criadores tivessem suas rendas diminuídas ou, numa hipótese um pouco pior para eles, tivessem seus animais vetados pela inspeção municipal. Mesmo quando se burlava o rigor da lei com modestas propinas, os ganhos daqueles pequenos criadores diminuíam. Impor que os abates fossem todos feitos no matadouro equivalia a identificar com maior precisão o plantel bovino dos municípios de modo a reduzir a sonegação fiscal. Além disso, tal regulamentação bombardeava práticas populares de acesso às carnes verdes, instituindo novo costume que, a depender dessas circunstâncias, poderia beneficiar os donos de açougue, mesmo quando estes se viam cobrados pela fiscalização e também precisavam pagar propina. O certo é que este tipo de ação do Estado alterou as práticas dos açougueiros, removeu o abate feito a céu aberto nas ruas da cidade, mas não fez desaparecer esta atividade. Na Londres do final do século XIX a legislação de caráter higienista fixou limites à matança dos rebanhos, interceptando animais doentes ou suspeitos, e dificultou ao máximo a compra de gado estrangeiro. Porém, estas medidas, embora duríssimas para os açougueiros, não foram responsáveis pelo declínio que se viu entre 1870 e 1905, quando os pequenos abatedouros licenciados diminuíram de 1500 para menos de 400, ainda que o consumo de carne tivesse aumentado naquele período. (MACLACHLAN, 2007, p.246248) Uma observação aparentemente secundária, registrada por Ian MacLachlan a respeito da redução dos açougueiros que atuavam em Londres, torna-se reveladora sobre a principal razão que levou ao quase completo desaparecimento dos pequenos abatedouros e à desativação da maioria dos matadouros públicos na segunda metade do século XX: "as importações de carne resfriada e congelada cresceu rapidamente de 1875 a 1895, que substituiu o abate de gado importado". (MACLACHLAN, 2007, p.247) A sobrevivência dos açougueiros (e seu modo de trabalhar) foi definitivamente ameaçada pela industrialização da carne, convertida em mercadoria fabril e massificada. Ainda que tardia, se comparada a outros ofícios, a industrialização da carne, iniciada no final do século XIX, minou a existência de açougueiros. Os matadouros, e depois os frigoríficos, monopolizariam o processamento da carne. Houve nisso uma reformulação da divisão do trabalho. Cada vez mais os conhecimentos do ofício foram apropriados pelos frigoríficos. Cada vez mais o açougueiro ver-se-ia transformado em trabalhador assalariado e restringido a pouquíssimas etapas de seu trabalho. À medida que ele se especializava numa única tarefa da produção industrial da carne, sua competência de açougueiro que dominava inteiramente o processo de seu trabalho perdia força e desaparecia.
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SEGUNDA PARTE O TRABALHO EM FRIGORÍFICOS: REGIMES FABRIS E VILAS OPERÁRIAS (1850-1970)
1. Inovação, logística e mercado de consumo no surgimento dos frigoríficos Neste capítulo pretendo documentar e argumentar que os grandes abatedouros surgiram no final do século XIX nos Estados Unidos e se expandiram a partir de uma extensa rede de transportes, do congelamento da carne para longos deslocamentos e de um hábito de consumo de carne relativamente consolidado no país. Excetuando a mobilização de trabalhadores e o acesso ao trabalho barato, formação de um mercado de consumo, o congelamento da carne, a constituição de numeroso estoque de bois e o transporte de carne para longas distâncias constituíram o arranjo inicial que permitiu a estruturação dos grandes frigoríficos nos Estados Unidos desde o final do século XIX. Estes fatores, reunidos sob o controle dos frigoríficos estadunidenses, possibilitaram que pequenos matadouros se transformassem em plantas produtivas capazes de mobilizarem perto de mil trabalhadores. Eles contavam com uma reserva abundante de força de trabalho que os ajudava a espremer os salários e a criar condições ímpares para extração de altos índices de mais-valia. E quando os recursos humanos pareceram escassear ou opor resistência política, os grandes frigoríficos exportavam capital para fora dos Estados Unidos, onde encontrassem, apoio estatal (na forma de isenções fiscais, doação de terras, linhas de financiamento especiais etc.) e matéria prima e trabalho baratos. Ao mesmo tempo, frigoríficos como o de Philip Armour e de Gustavus Swift se beneficiaram de uma inovação que resolveria, em parte, a logística da distribuição da carne até lugares distantes: vagões e caminhões refrigerados capazes de transportar carne para lugares distantes. Este arranjo também ajuda a compreender a produção e o consumo de carne industrializada no tempo presente, de um ponto de vista histórico e sociológico. Outro campo de reflexão sobre este assunto está na forma com que os consumidores de carne se relacionam com ela. Diria Marx que o sujeito se relaciona com a mercadoria na condição de mercadoria, de objeto. E nessa condição ele teria poucas possibilidades de pensar a mercadoria como objeto, e de fazer de si mesmo um sujeito. Este processo, inscrito em três linhas, do qual me benefício de Marx, encontra nas tiras cômicas do jornalista Joe Sacco uma tradução empírica sobre determinado sentimento de homens e de mulheres envolvidos nessa situação. A crítica foi feita nos primeiros anos do século XXI. Certamente a sociedade desencoraja assuntos do tipo entender como a carne chega do abatedouro dentro dessas embalagens de isopor, seladas com etiquetas de peso, preço e informação sobre o produto, picadinha, impossível de reconhecer ... principalmente enquanto se come carne. (SACCO, 2006, p.56)
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Geralmente, este é um tipo de alienação que integra a conexão entre o consumidor e o objeto consumido. Do ponto de vista de quem compra um produto não se vê as relações sociais e de trabalho necessárias à produção da mercadoria. A história desse processo universalizou a experiência da produção de mercadorias fazendo-a chegar a todos os cantos do planeta por meio de diversos tipos praticados de violência. Marx tentou explicar isso argumentando que na relação com a mercadoria o sujeito se torna objeto da ação devido a, pelo menos, duas razões. Por um lado, ele dificilmente consegue enxergar as mercadorias como produtos sociais, econômicos e políticos, resultado da exploração de trabalho. Por outro lado, ele passa a ser comandado por necessidades exteriores a ele, construídas e expressas na esfera da produção de mercadorias. Estímulos sociais, estéticos, morais etc. interferem, aguçam e calibram gostos, vontades e desejos de consumo. Ilustra esta experiência universal situações em que se quer comprar dois casacos quando apenas um é necessário, que se anseia trocar carro, celular etc. em perfeito funcionamento, em que a satisfação de qualquer necessidade material é absolutamente efêmera. Disso decorre parte considerável das frustrações enfrentadas ao longo da vida ou o que é característico do capitalismo, uma relação social entre coisas e não entre pessoas. [...] a impressão luminosa de uma coisa sobre o nervo ótico não se apresenta como uma excitação subjetiva do próprio nervo, mas como forma objetiva de uma coisa fora do olho. Mas, no ato de ver, a luz se projeta realmente a partir de uma coisa, o objeto externo, para outra, o olho. É uma relação física entre coisas físicas. Porém, a forma mercadoria e a relação de valor dos produtos de trabalho, na qual ele se representa, não têm que ver absolutamente nada com sua natureza física e com as relações materiais que daí se originam. Não é mais nada que determinada relação social entre os próprios homens que para eles aqui assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas. (MARX, 1988, p.198)
Mas, como se pode ver, essa não é uma condição específica da mercantilização da carne. O que há de particular no caso da carne é sua saída da esfera doméstica para um formato industrial de produção e de distribuição, e esse processo foi exemplar nos Estados Unidos. Lá se tem como certo que a carne congelada circulou por grande parte do país por volta dos anos 10, 20 e 30 do século passado. Nas grandes e médias cidades era comum os açougues receberem peças inteiras de carne congelada, principalmente de bois e de suíno, e venderem pequenas quantidades no varejo. Esses lugares não diferiam de outras lojas, com vitrines que expunham suas mercadorias, exibindo preços e variedade das carnes. Esta informação é difícil de ser imaginada, mesmo quando a comparamos com as seções de carne e derivados localizadas em supermercados. Geralmente este material de pesquisa está disponível para consulta, com legendas curtas e pouco esclarecedoras, ou para venda, no formato de uma tela feita para representar o passado dos Estados Unidos. Também nesse caso as legendas são pouco esclarecedoras, se concentrando na data, no tipo de comércio e nos donos do estabelecimento. A maioria das fotografias cobre um período de 1900 a 1940.
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Este material de pesquisa é importante porque oferece uma dimensão da venda no varejo da carne congelada dos frigoríficos. Para que os matadouros do final do século XIX pudessem se transformar em grandes plantas produtivas, empregando aproximadamente mil trabalhadores, os açougues preenchiam um papel fundamental na vazão da carne. Contudo, a dinâmica da relação entre frigoríficos e açougues se mostraria cada vez mais tensa à medida que os primeiros construíam um oligopólio capaz de falir os pequenos matadouros e açougues que abatiam sua própria carne e subordinar os que atuavam no varejo. É nesse quadro que se deve interpretar as imagens de açougues, como documentos gerados objetivamente para realçar a estatura comercial positiva dos açougues e de seus proprietários. É também por esse motivo que tais fotografias deixaram de lado açougues de caráter popular, improvisados nos bairros pobres e voltados para uma clientela de trabalhadores empobrecidos. Imagem 3 – Açougue estadunidense – 1937 (sem localização)
Fonte: General Photographic Agency/Getty Images. Domínio Público. Disponível em https://flashbak.com/meat-is-beautiful-art-of-the-butchers-shop-window-19241970-56323/
Nas cidades maiores havia número de açougues suficiente para caracterizar um mercado competitivo. Não só por isso, estratégias de marketing ganharam lugar nas vitrines junto às carnes. Placas mostrando preços tomados como vantajosos se equivaliam ao produto, e eram o primeiro contato do comprador com a mercadoria. Nesse caso, a oferta da carne se fazia como outra mercadoria qualquer e, não raras vezes, seu status superava o de muitos produtos da indústria alimentícia.
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Imagem 4 - Açougue Estadunidense “Jacob Heymann Shop”. New York (1938)
Fonte: Jacob Heymann Butcher Shop, New York City. Domínio Público. Gift of Ronald A. Kurtz. Disponível em https://www.moma.org/collection/works/45046
Muitos açougues preparavam e ofereciam cortes prontos para o consumo. Encontrava-se costelas devidamente fatiadas e de pronta entrega. Aliás, o mobiliário do açougue era organizado de modo a apresentar uma visão ampla das carnes para os clientes. Noutras situações o balcão geralmente era largo o bastante para sustentar peças inteiras de carne e permitir o manuseio de facas ali mesmo. Essa forma de expor a carne servia também para que o cliente pudesse atestar a cor, textura e salubridade do que se pretendia comprar, embora os padrões de higiene dos anos 20 possam nos deixar ressabiados hoje. Em alguma medida, parte da Europa também vivia experiência parecida. Como se pode ler na placa de advertência de um açougue britânico, “Por favor, use os garfos disponíveis e evite pegar a carne com as mãos.” No que se refere à venda de carne como a conhecemos hoje, preparada e disponível em gôndolas, no sistema self-service, não se tornou comum antes dos anos 50. Imagem 5 – Um açougueiro do mercado de Smithfield, Londres/Reino Unido (1924)
Fonte: Photo by MacGregor/Topical Press Agency/Getty Images. Domínio Público. Disponível em: https://flashbak.com/meat-is-beautiful-art-of-the-butchers-shop-window-19241970-56323/
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A existência de lojas iguais as das três imagens anteriores não era pontual. Prova isso o fato de que os frigoríficos precisavam quem comprasse e repassasse sua produção. Então os açougues não eram poucos. Isso impõe certa dificuldade ao argumento desenvolvido há pouco. Como os açougueiros estariam desaparecendo se os açougues permaneciam funcionando, e é provável que estivessem crescendo em número? Aqui vale igualmente o que sustentei a respeito da mudança que se fez presente entre os açougues medievais e os matadouros públicos na Europa. Os açougueiros não desapareceram inteiramente, mas seu ofício foi pressionado constantemente até se tornar uma ocupação com poucos segredos, de fácil aprendizado e praticamente livre de controles corporativos ou similares. Desse modo, durante a primeira metade do século passado os açougueiros não desapareceram. Seu ofício sim. Ele foi simplificado, modificado, até ser restringido para lidar somente com a carne congelada. Aqueles que conseguiram se manter independentes dos frigoríficos o fizeram na condição de sujeitos recessivos. Sua participação no mercado se tornou progressivamente residual. Outra característica desses açougues os apresenta como negócios de família, entre irmãos ou de pai e filho. Os empregados eram poucos, e as imagens disponíveis ajudam a esclarecer esta questão. Em síntese, a expansão da indústria da carne encontraria um grande problema pela frente se não contasse com um sem número de açougues para escoar seus produtos. A trajetória de Gustavus Swift ajuda a visualizar a evolução da indústria da carne. Ele começou abatendo, retalhando e vendendo carne bovina fresca numa carroça, abordando moradores da zona rural e urbana do Oeste de Massachusetts. Era um vendedor ambulante que dominava a produção de sua mercadoria. Este know how lhe deu alguma vantagem para lidar com a ampliação de seus negócios. Nesse contexto ele se mudou para Chicago em 1875, lugar que reunia enorme estoque de bois. Frigoríficos àquela época era uma construção rudimentar, cuja composição orgânica de capital era majoritariamente dominada pela força de trabalho. A divisão de trabalho e uma linha de desmontagem dos bois tornava o trabalho mais produtivo. Parecia evidente que as primeiras inovações tecnológicas dariam enorme vantagem a quem as desenvolvesse e as aplicasse. Swift investiu sobre este ponto. Ele começou por investigar o transporte e a distribuição de gado estabelecidos através das companhias ferroviárias. Encontrou nessa distribuição em cadeia um meio de enviar sua carne para diferentes e distantes lugares do país. A carne era produzida em toneladas, empacotada, congelada, transportada e vendida para pequenos açougues. Isto se tornou viável na segunda metade do século XIX, mas não se converteu imediatamente em uma prática generalizada. Não há consenso sobre quem inovou o transporte de carne, mas ninguém discorda que tal inovação foi incorporada pelos grandes frigoríficos nos anos 70 e 80 do século XIX. A invenção dos vagões refrigerados aconteceu por volta de 1870 e utilizava um sistema relativamente simples. As carcaças ficavam suspensas sobre gaiolas de metal, fora do contato com gelo e sal, situados logo abaixo. Oito anos depois, um engenheiro a serviço de Gustavus Swift aprimorou os vagões refrigerados instalando ventiladores para distribuir o frio em direção da carne congelada. Resumidamente foi assim que a carne produzida em Chicago viajou enormes distâncias e abastecer açougues em praticamente todo país. O transporte refrigerado possibilitou a criação de um mercado interno para a carne e derivados que, ao longo da segunda metade do século XX, nocauteou os pequenos
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abatedouros espalhados no país. Chicago, Cincinnati, St. Louis e Kansas City formaram um verdadeiro cinturão da carne no final do século XIX. As mercadorias eram distribuídas a partir de uma rede ferroviária já bastante capilar no século XIX e através de rodovias, em caminhões refrigerados, iguais ao que está retratado na imagem seguinte. Imagem 6 – Caminhão Refrigerado de entrega de carne (1924)
Fonte: A History of the Meat Industry. Domínio Público. Disponível em http://www.depts.ttu.edu/meatscience/history_of_the_meat_industry.pdf
Contudo, nada disso encontraria sucesso se não houvesse um mercado de consumo de carne processada e congelada em estruturação. Nos vinte anos que vão de 1880 a 1900 a população residente nos Estados Unidos saltou de 50,2 milhões para 76,2 milhões de habitantes, um crescimento equivalente a 51,8%. Nesse período a população urbana passou de 28% para 40% do total. Em 1910 os moradores das cidades atingiram 42% da população nacional. E em 1920 o censo registrou a superioridade numérica da população urbana, com 54 milhões de habitantes frente a 51 milhões de residentes nas áreas rurais. A formação de uma população urbana crescentemente empregada no setor industrial e, principalmente, no setor de serviços, evidencia a constituição de um mercado de consumo robusto.3 Além disso, em alguma medida a chegada de migrantes do campo para cidades norte-americanas representou a proletarização de milhares de famílias e, ao mesmo tempo, a perda progressiva de práticas culturais manifestadas em costumes e hábitos relacionados, por exemplo, a vida doméstica. (MILLS, 1976) O modo com que se adquiria e preparava a carne foi um deles. O abate em escala familiar perdeu espaço para o consumo de carne processada. A formação desse mercado de consumo está documentada em estatísticas preparadas pelo Estado norte-americano relativamente ao período de 1899 a 1957. Os números abrangem habitantes do campo e da cidade. Isso requer um tratamento mais estratificado do consumo per capita. À medida que as informações se aproximarem do ano de 1957 o consumo per capita de carne de gado estará mais ligado à população urbana (superior a população rural Os números foram produzidos e divulgados pelo https://www.census.gov/population/censusdata/table-4.pdf 3
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“Bureau
Census
United
States”.
Disponível
em
entre 1910 e 1920). Este fato indica o progressivo aumento da produção de carne pelos frigoríficos uma vez que a população urbana crescia relativamente a rural e crescia também em termos absolutos. Reforça isso o aumento não somente relativo da população urbana, mas em termos absolutos. A tabela seguinte mostra tal evolução no período de 1899 a 1957. Tabela 1 - Evolução Demográfica EUA (1890-1960) – em milhões ANO URBANO % RURAL % TOTAL 1890 22.106 38 36.026 62 58.132 1900 30.159 39.7 45.834 61.3 75.993 1910 41.998 45.7 49.973 54.3 91.971 1920 54.157 51.2 51.552 48.8 105.709 1930 68.954 56.2 53.820 43.8 122.774 1940 74.423 56.5 57.245 43.5 131.668 1950 96.467 64 54.229 36 150.696 1960 125.268 69.8 54.054 30.2 179.323 Fonte: Census USA. (1957) Organização do autor. Disponível em https://www.census.gov/population/censusdata/urpop0090.txt
Para exemplificar esta tendência comparei e analisei o intervalo entre os anos de 1920 e 1930. Para 1920, o censo norte-americano registrou 54 milhões de pessoas em áreas urbanas e 51 milhões em áreas rurais. Para 1930, a contagem indicou 68 milhões de pessoas em áreas urbanas e 53 em áreas rurais. Nesses 10 anos a população urbana saltou de 51,4% para 56,2%, enquanto a população rural diminuiu de 48,6% para 51,4%. Nos seus termos absolutos o número de habitantes nas áreas urbanas cresceu de 54 milhões para 68 milhões. Uma vez enquadrada a dinâmica geral do consumo de carne dos EUA é possível avaliar agora o consumo per capita no mesmo período, conforme a tabela organizada a seguir. Tabela 2 - Consumo per capita anual de carne nos EUA (1890-1957) – quilos* ANO Gado Porco** Carneiro Frango/Peru Total 1899 32.91 32.68 2.95 68.54 1910 35.27 28.55 2.95 6.68 70.45 1920 30.5 31.14 2.5 6.23 70.68 1930 25.36 30.45 3.05 7.82 66.68 1940 28.55 35.68 3 7.73 72.26 1950 32.45 31.45 1.82 11.14 76.86 1955 41.55 30.36 2.09 12.5 86.50 1957 44.73 27.95 1.91 37 78.29 Fonte: Census USA. (1957) Organização do autor. Estas informações são ligeiramente diferentes das que estão apresentadas pelo “U.S. Departamento of Commerce, Historical Statistics of United States”, 1975. Optei pelo Census USA, de 1957. Disponível em https://www.census.gov/population/censusdata/urpop0090.txt * O peso, originalmente descrito em libra, foi convertido para quilo. ** Carne do porco sem a banha.
As informações dispostas nessa tabela devem ser lidas e interpretadas de acordo com a mesma preocupação que orientou o entendimento acerca da relação entre o aumento da população norte-americana e a formação do mercado de consumo de carne. Nesses cálculos
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não estão incluídos os produtos enlatados de carne. Nas primeiras quatro décadas de história e de constituição dos frigoríficos, de 1890 a 1930, o crescimento demográfico registrado nas áreas urbanas foi de 212%, uma adição aproximada de 46 milhões de pessoas. Devemos pensar este acréscimo como um estímulo na demanda por carne, embora seja necessário articular tal progresso no mercado de consumo com a evolução da renda per capita referida ao mesmo período. Nesse caso, sem necessidade de uma exposição detalhada, as estatísticas oficiais norte-americanas informam que a trajetória da renda é ascendente, com poucos e pequenos encolhimentos de natureza esporádica, e com uma forte involução ocasionada pela crise de 1929. Nesse caso, a indústria da carne foi afetada como o restante da economia nacional. Entre 1929 e 1933 o desemprego chegou a 12 milhões de trabalhadores numa população total de 126 milhões. Relativamente à população economicamente ativa o percentual chegou a 30%, número que fez com que o índice de ocupação da indústria caísse para pouco mais de 50%. (FRIEDMAN, M. & SCHWARTZ, 1993) No período da consolidação dos grandes frigoríficos a renda per capita anual nos Estados Unidos majorou continuamente. Nos intervalos de 1897 a 1901, de 1902 a 1906 e de 1907 a 1911, os números referidos aos preços correntes de 1957 foram 231, 294 e 349 dólares. Nos intervalos de 1912 a 1916 e 1917 a 1920, os números foram 408 e 719 dólares. Em 1920, 1925 e 1930, os números foram de 835, 788 e 740 dólares, respectivamente. A partir de 1940 a renda per capita anual retomou algum crescimento de modo que a renda familiar quadruplicou entre 1939 e 1957. Neste mesmo período, o consumo aumentou de maneira destacada em torno de três itens. Os gastos com gasolina quintuplicaram, com eletricidade sextuplicaram, com vestuários duplicaram, e com alimentos a carne figurou entre os mais comprados. O argumento é simples. Os frigoríficos acompanharam a expansão interna da economia estadunidense e cresceram com ela. (USA, 1957) É de se considerar que historicamente a dieta norte-americana se constituiu baseada na carne, e os frigoríficos se valeram disso. Evidencia isso o fato de o consumo per capita anual de carne (no geral) ao longo do século XIX ter sido de 68 quilos. (HOROWITZ, 2006) Isso significou que os frigoríficos encontraram um hábito de consumo de carne estruturado e generalizado na sociedade estadunidense. A carne não estava entre os primeiros produtos a serem suprimidos no contexto de uma crise econômica ou evento parecido. Ao mesmo tempo, o paladar americano decidiu pela carne também em função da facilidade de cozinha-la. Foi também desse período o desenvolvimento e adoção em escala de fogões a gás. As famílias norte-americanas passaram a contar com tal possibilidade, estimuladas por forte propaganda dos fabricantes. As vantagens dos fogões alimentados a gás sobre os fogões alimentados a lenha foram determinantes na substituição dos segundos pelos primeiros. O fornecimento de gás acontecia através de canos, sem interrupções (exceto acidentes ou inadimplência com os pagamentos), sem ocupar espaço como ocorria com os montes de lenha. Um fogão a gás controlava o tamanho e a intensidade das chamas, e isso tornou mais preciso o cozimento da carne e de outros alimentos. Livros de receita ajudaram a construir a popularidade e boa reputação dos fogões. Eles eram publicados pelas fábricas e, além dos ingredientes para todo tipo de prato, especificavam a intensidade das chamas e o tempo exatos para o cozimento exigido por cada receita. Diversas comidas regionais, nacionais e estrangeiras tiveram suas formas de fazer ofertadas naqueles livros. De fato, contar com uma coleção de receitas reunidas em publicações gratuitas
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ou de baixo custo tornava antigas e lentas as formas de transmissão de conhecimentos culinários, geralmente transferidos de mãe para filha ou disponíveis numa memória gastronômica popular e democrática. Talvez o churrasco com molho barbecue seja a melhor ilustração de receita difundida, acessível e praticada antes das publicações sobre o preparo de alimentos. Imagem 7 - Propaganda de fogão a gás fabricado pela Detroit Jewel - 1901
Fonte: https://www.gettyimages.com/event/women-in-19th-centuryamerican-advertisements-540789873#advertisement-for-detroit-jewelgas-range-made-by-detroit-stove-works-picture-id143223177 Domínio Público. March 02, 2015. Acesso 2 jun 2016.
A propaganda da superioridade do fogão sobre outros alimentados a lenha de fato ganhou reforço com os livros de receitas. A publicidade deixava claro que as novas receitas só seriam possíveis com as temperaturas estáveis, algo improvável no caso do fogo a lenha. Em tom jocoso, argumenta-se na imagem anterior que o fogão a gás seria uma excelente alternativa aos desconfortos causados por fogões que queimam madeira. “Não fique parada sobre um fogão escaldante”. “Neste verão não permita que um fogão que irradia calor deixe você e sua casa desconfortáveis.” De qualquer forma, cabe considerar cuidadosamente a participação dos novos fogões no aumento do consumo de carne, particularmente carne bovina. Tal consumo, conforme já registrei, mensurado de forma per capita, se não teve grande elevação ao longo do século XIX também não regrediu. Com isso, embora importante, há de se relativizar o papel do fogão a gás na tendência de crescimento do consumo de carne. Uma vez constituído um grande e extenso mercado de consumo no país, os principais frigoríficos conhecidos por “Big five”, Armour, Swift, Wilson, Cudahy e Morris chegaram a dominar em alguns estados cerca de 80% da carne bovina abatida. Mas ainda havia espaço para avançar, dentro e fora dos Estados Unidos. A escolha foi exportar suas instalações para a região do Prata, no extremo da América do Sul.
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2. Antecedentes históricos da industrialização da carne no Brasil Embora os frigoríficos norte-americanos prosperassem rapidamente, empresas britânicas foram as primeiras a exportar capital constante (capital financeiro, meios de produção etc.) e, desse modo, desenvolver práticas imperialistas, abrindo plantas produtivas na Argentina e no Uruguai devido ao baixo preço da matéria prima e à facilidade de introduzir seu capital. Além dos mercados locais, os frigoríficos recém implantados na região do Prata exportavam carne para países europeus e para o próprio Reino Unido. Nesse caso, cabe ressaltar que o mercado de consumo britânico foi estimulado pela expropriação de trabalhadores do campo e pelo aumento de trabalhadores urbanos empregados durante a revolução industrial. Esse processo produziu uma população cuja tendência foi a de comprar carne ao invés de criar animais para o abate ou negociá-la de pequenos açougueiros. Os números relativamente ao período de 1831 a 1914 (que dizem respeito ao amadurecimento da revolução industrial e início da primeira guerra respectivamente) apontam para um crescimento sólido da quantidade de carne consumida no Reino Unido. Em 1831 consumiu-se 900 mil toneladas. Dez anos depois este número aumentou para 1 milhão de toneladas. Em 1870 os britânicos consumiram 1,3 milhões de toneladas. Em 1890 o consumo subiu para 2,1 milhões de toneladas, e em 1914 o consumido atingiu 2,6 milhões de toneladas. Acrescente-se a isso que, a partir de 1890, metade dessa carne consumida veio de outros países, principalmente da Argentina. (GEBHARDT, 2000, p.105-107) Os frigoríficos norte-americanos se favoreceram do mercado britânico, sobretudo durante a primeira grande guerra. Eles exportaram 5 mil toneladas de carne bovina em 1914 e alcançaram 129 mil toneladas em 1918. Ficaram atrás dos frigoríficos Argentinos e Australianos, controlados por capital inglês. (PERREN, 2005) Ao mesmo tempo, frigoríficos norte-americanos buscaram dividir espaço na Argentina, Uruguai e Brasil, instalando plantas produtivas em matadouros, charqueadas e frigoríficos falidos ou em vias de falir. Tratou-se de uma disputa inteiramente imperialista. Cada máquina importada e cada empresa aberta em terreno estrangeiro representaram o enraizamento e a expansão do domínio político norteamericano sobre a América do Sul. A relação inversa também é verdadeira. A posição das empresas norte-americanas melhorou bastante ao longo da primeira grande guerra. A Swift chegou na Argentina pouco tempo depois dos frigoríficos britânicos. A principal preocupação dos norte-americanos residiu em contornar ou quebrar a organização oligopólica dos criadores de bois na Argentina. Esta foi uma questão tanto econômica quanto política. A Swift enfrentou, com pouco ou nenhum sucesso, os preços dos bois cobrados pelos estancieiros, que subiram ininterruptamente durante a grande guerra. Mesmo assim, seu crescimento frente aos frigoríficos britânicos e argentinos foi destacado. Em 1911 os norteamericanos já totalizavam 41% das exportações de carne congelada, contra 40% e 19% do Reino Unido e da Argentina, respectivamente. Em 1914 os frigoríficos estadunidenses registraram 58%, contra 30% dos britânicos e 12% dos argentinos. (GEBHARDT, 2000, p.155) De qualquer modo, qualquer que fosse a nacionalidade dos frigoríficos na Argentina, Uruguai, Brasil, África do Sul, Austrália etc., geralmente descendiam de matrizes britânicas e norte-americanas e sua natureza era imperialista. Como observou Lenin em 1916, desde os últimos trinta anos do século XIX as principais economias capitalistas exportavam indústrias
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de bens de consumo alavancadas pelo capital financeiro emprestado nas praças de Nova Iorque e Londres, por exemplo. Os frigoríficos estavam entre elas. É possível recuar até o final do século XVI para compreender o início da pecuária e a função dos vaqueiros na produção da carne e da riqueza na pecuária no Brasil, bem antes da industrialização da carne no país. Isto pode ser feito com a análise de duas fontes secundárias, a historiografia e a literatura. Trata-se de um recorte que prioriza uma visão estruturada da pecuária e a descrição do sujeito que protagonizou esse processo do ponto de vista do trabalho realizado para movimentar este segmento da economia colonial até o início do século XX. Não há muito o que esclarecer ou ressaltar sobre a constituição da estrutura fundiária no Brasil que já não esteja razoavelmente discutido e pacificado na literatura especializada. Por outro lado, mesmo que rapidamente, é útil refazer determinado percurso histórico a respeito da pecuária na formação da economia colonial (e depois dela) que ajude a compreender a produção e distribuição da carne e o trabalho relacionado a isso. Ao mesmo tempo, não se trata de pensar aqui uma conexão direta entre passado e presente, mas de conhecer esse segmento da economia pela chave analítica do trabalho e da mercadoria, neste caso da pecuária e do vaqueiro. Em termos resumidos o sistema das capitanias hereditárias e das sesmarias foi um engenho de Portugal visando a ocupação e exploração econômica das terras recém “descobertas” e, ao mesmo tempo, um recurso para manter as posses entre a fidalguia lusitana. Não era um contrato a fundo perdido. Teoricamente, a Coroa portuguesa reivindicava e conseguia as terras de volta se os cessionários não garantissem seu cultivo. Além disso, Portugal servia como um banco de empréstimos aos donatários e demais sesmeiros e cobrava a conta com elevados juros. Em larga medida tal formato fundamentou uma distribuição de terras seletiva e baseada em grandes propriedades organizadas como plantations. Tudo isso esteve alicerçado num tipo de comércio monopólico cuja compra das mercadorias era exclusividade da Coroa. Este modelo comercial representou uma mudança dentro da dinâmica mercantil europeia que estabeleceu, progressivamente, uma relação econômica típica de acumulação de capital descrita por Marx pela equação C – M – C, onde C representa capital (investimento em força de trabalho e meios de produção) e M representa mercadoria (produzida nas terras colonizadas geralmente produzida pela iniciativa privada). Naquela conjuntura política e econômica predominava a ideia de comprar artigos escassos e vende-los a bons preços, como se fez no comércio de especiarias em regiões do Oriente. Na historiografia clássica que marcou profundamente a percepção sobre histórica econômica no Brasil, houve formulações conceituais diferentes para definir a economia colonial como um componente do capitalismo. Caio Prado explicou tudo nos termos da relação desigual entre metrópole e colônia, concordando com Marx em ver a expansão ultramarina e a exploração nas novas terras como uma alavanca para a acumulação de capital. Seria este, em suas palavras, o “sentido da colonização”. (PRADO JR., 1965) Celso Furtado partiu de uma compreensão similar. Ele entendeu que a expansão comercial orientada a partir da Europa financiou, no caso de Portugal, manufaturas e força de trabalho para a fabricação de açúcar.
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Viu nisso uma transição para a “empresa agrícola”. De simples “empresa espoliativa e extrativista – idêntica à que na mesma época estava sendo empreendida na Costa da África e nas Índias Orientais – a América passa a constituir parte integrante da economia reprodutiva europeia”, continua ele, “cuja técnica e capitais nela se aplicam para criar de forma permanente um fluxo de bens destinados ao mercado europeu”. (FURTADO, 1979, p.8) Filiado a outra vertente teórica, Raymundo Faoro afirma esta tese argumentando que seriam interesses comerciais (comuns a quase toda Europa) que ditariam através do Estado a exploração social e econômica do Brasil. “A empresa colonizadora, da qual as capitanias foram a primeira expressão de grande envergadura, tem nítido, claro, inconfundível caráter capitalista.” (FAORO, 2000, p.126) Nesse contexto, entende-se a primazia da produção do açúcar e sua adoção como a principal atividade econômica no Brasil. Houve, por certo, uma agricultura auxiliar, de subsistência, com pouco superávit para algum negócio em arredores mais povoados, e mesmo assim mediante escambo. Pior colocada esteve a pecuária que, no seu início, surgiu inteiramente dependente e à sombra das plantations e dessa agricultura coadjuvante. E como a população vinda de Portugal ainda era pouca, nada que se assemelhasse a uma economia de mercado se desenvolveu antes do século XVIII. E ainda assim o comércio interno não prosperou por todos os lados e igualmente. Mesmo antes, e diferentemente da produção do açúcar e da mineração que mirava a Europa, a criação de gado visava o mercado interno, excetuado o couro que era exportado. Meio século antes, esse quadro desfavorável ganhou melhor posicionamento a partir da técnica de cultivo empregada nas plantations realizado continuamente, sem descansos. Sem utilizar recursos de plantio, a vitalidade dos solos se esvaiu, principalmente nas zonas mais antigas. Nesse contexto, a pecuária, ou sua expansão, se mostrou uma alternativa diante do esgotamento da fertilidade natural do solo. Numa fazenda com medida padrão (6,6 quilômetros na frente e nos fundos por 19,8 quilômetros de comprimento) o gado era criado solto e aprisionado nos currais apenas em situações específicas como ordenha, abate e partejo. O tamanho do rebanho era variável, tanto no Nordeste quanto no Sul. Nas boas fazendas esse número oscilava entre 1000 e 2000 cabeças, embora a regra fosse bem abaixo disso. (PRADO JR., 2000, p.194) O oposto das plantations, a pecuária precisava de número menor de trabalhadores, algo em torno de 10 a 12 pessoas. No Nordeste, o vaqueiro geralmente recebia por jornada (jornaleiros) e era branco, negro forro, mestiço ou índio adaptado a esse tipo de trabalho. (PETRONE, 2004, p.222) Paralelo a isso, conforme o modelo agrário entrava em declínio nalgumas áreas, a criação de gado se mostrou uma boa solução para redimir terras desgastadas pelo plantio contínuo, sem descanso, e compensar a queda dos rendimentos agrícolas. (PRADO JR., 1965) Deste ponto em diante, a ideia é mostrar e discutir a presença do vaqueiro na estruturação da pecuária pensada como um importante segmento da economia brasileira até o começo do século XX. Seu peso nessa história fez com que ele ocupasse o interesse de historiadores e escritores que olharam para o passado, desde meados do século XIX. Este é quase um roteiro obrigatório para compreender (i) a formação (provisória) de um mercado de consumo de carne, (ii) o trabalho que envolvia criar e abater o gado, (iii) a distribuição de carne excedente, elementos que preparam o terreno econômico e técnico para o desenvolvimento dos primeiros matadouros e frigoríficos no Brasil.
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O processamento industrial da carne no Brasil foi um evento do começo do século XX. Antes disso, como explicou Caio Prado, a carne (especialmente a bovina) teve um papel importante na alimentação da colônia, mas não se tornou uma mercadoria produzida em escala. Os números de bois que abasteciam os centros urbanos na primeira metade do XIX eram avultosos, todavia bem menos vigorosos que nos Estados Unidos. Mais de 20 mil bois consumidos anualmente só na cidade da Bahia, 6 mil abatidos por ano em São Luis do Maranhão e, em Belém do Pará, com apenas 13 mil habitantes em 1828, o consumo foi de 11 mil cabeças. (PRADO JR., 2000, p.189) Sua avaliação sobre a pecuária é bastante desanimadora. A forragem geralmente era miserável e “não evitava bois magros e musculosos que vão fornecer a pouco apetitosa carne que se consume na colônia.” Continua ele: “Nos pastos (a designação até soa mal), não se faz mais que queimá-los anualmente antes das chuvas, para que ao brotar de fresco a vegetação forneça uma forragem mais tenra e viçosa.” (PRADO JR., 2000, p.195) Excetuando nas Minas Gerais, onde se produzia queijo para consumo externo, noutros lugares o leite servia apenas para consumo próprio. O lucro basicamente vinha da produção de couros. Em alguns lugares, como Santa Catarina, no abate dos bois a carne era desprezada. O mesmo não acontecia em regiões do Nordeste, onde se produzia a carne seca, pronta para transportes à longas distâncias. A técnica dessa produção transferiu-se para o Rio Grande, levada por um Português que a conheceu no Ceará. Foi a partir dali que se começou a aproveitar a carne descartada em função do comércio do couro. Lá se desenvolveram charqueadas, indústrias que da carne produziam o charque. Grandes quantidades de carnes temperadas com sal eram preparadas para sobreviver ao tempo e, desse modo, preservadas, duravam o suficiente para serem consumidas em lugares distantes. Mesmo sobre isso, Caio Prado desacredita o vulto dessa economia. Ele assinala que a pecuária no Rio Grande não apresenta nível técnico muito superior ao dos sertões do Nordeste. Observa ele que “o que às vezes obscurece a comparação [entre Rio Grande e o Nordeste] é a superioridade flagrante das condições naturais dela [pecuária], a sua fartura vista em confronto da miséria do Nordeste.” (PRADO JR., 2000, p.205-206) Do vaqueiro, dos capazes e dos peões (alguns deles vaqueiros) Caio Prado fala pouco. Diz primeiro que são os responsáveis pela manutenção dos rebanhos. Em seguida, quase que para desqualificar o trabalho exigido pela pecuária, ele resume as atividades do vaqueiro a algo bastante rústico, com pouquíssima complexidade e técnicas bastante simples e, em alguma medida, ineficientes. “Os cuidados com o rebanho são mínimos: cura das feridas que produz a mosca varejeira, proteção contra as onças e morcegos”. Além disso, cabia aos peões e vaqueiros cuidarem dos bezerros, mantendo-os presos nos currais para que não crescessem soltos sob o risco de se formarem selvagens. Também era preciso atenção com as vacas prenhas, para que elas não dessem a cria longe da sede e do curral. Tal providência diminuía os riscos de perderem os bezerros para as moscas varejeiras. Mesmo com o trabalho de peões e vaqueiros centrado nesses cuidados a estimativa encontrada por Caio Prado até meados do século XIX foi de um decréscimo de aproximadamente 50% dos rebanhos. Ao final, seu juízo critica uma certa insuficiência da pecuária, que não conseguiu superar seus problemas em tempo considerado curto e adequado. Com tal leitura ele avalia também a presença e as funções típicas de vaqueiros e peões como parte desse atraso.
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Anteriormente a Caio Prado, Capistrano de Abreu reservou bom espaço para discutir a pecuária e o vaqueiro no interior de uma história sobre o Brasil colônia. Ali ele escolheu narrar o desempenho da pecuária na economia sublinhando o lugar e a importância do vaqueiro nela. Foi nesta perspectiva que ele registrou que o gado valia mais pelo couro. Servia para a fabricação das portas das cabanas, camas, alforjes, cordas, correias, bainhas, bornais [mochilas], mocós [sandálias], a roupa de entrar no mato, etc. Para os açudes, o material de aterro era levado em couros puxados por juntas de bois. Também em couro pisava-se o tabaco para o nariz. (ABREU, 2000, p.153) Depois de o gado se acostumar ao novo pasto, cabia ao vaqueiro amansar e ferrar os bezerros, curar as bicheiras, queimar os campos, extinguir onças, cobras e morcegos, abrir cacimbas e bebedouros, cuidar dos partos, marcar as vacas, enfim, um trabalho que lhe tomava o dia e muitas vezes as noites. Mais tarde o vaqueiro se responsabilizaria também pelo transporte da boiada para novos proprietários ou até os matadouros. Fez notar ainda que “depois de quatro ou cinco anos de serviço, começava o vaqueiro a ser pago; de quatro crias cabia-lhe uma; podia assim fundar fazenda por sua conta.” (ABREU, 2000, p.154) Acrescento a este ponto que a tarefa de abater e preparar a carne podia figurar nos afazeres do vaqueiro. Quanto mais antigo for o período maior era a sua presença no processamento da carne. Seria descabido (mas não é) toma-lo por multifuncional. Sua leitura sublinha igualmente a existência de uma identidade feita de orgulho e honradez relativamente à atividade de vaqueiro. Ele enfatiza que “desde começos do século XVIII, as sesmarias tinham sido limitadas ao máximo ao máximo de três léguas separadas por uma devoluta”, e que, amparado noutra obra, que a gente dos sertões da Bahia, Pernambuco, Ceará, “tem pelo exercício nas fazendas de gado tal inclinação que procura com empenhos ser nela ocupada, consistindo toda a sua felicidade em merecer algum dia o nome de vaqueiro. Vaqueiro, criador ou homem de fazenda, são títulos honoríficos entre eles”. (ABREU, 2000, p.154) Embora haja uma dose de exagero ou de admiração de Capistrano pela ocupação do vaqueiro, quase elevada ao grau de arte (de artífice), de fato tal trabalho era importante para a economia colonial, para o século XIX, até perder sua relevância conforme ganhavam lugar outros setores dinâmicos da economia. Mas deve-se reconhecer igualmente que o universo psicológico do vaqueiro traçado por Abreu fez-se bastante verdadeiro, tanto quanto sua presença na economia dos séculos XVIII aos inícios do XX. Roberto Simonsen se alinha a Capistrano no que diz respeito a confirmar o vulto da pecuária na economia e a importância do vaqueiro em fazer com que funcionasse. Além disso, certifica a boa reputação com a qual contavam os vaqueiros num cenário mais econômico do que psicológico, destacando ao lado disso como havia uma cultura do couro devido tanto à exiguidade de outras matérias quanto à disponibilidade do couro cuja logística dependia fundamentalmente dos vaqueiros. Sobre isso, ele lembra que até inícios do século XX no Brasil, animais como cavalos, bois e jumentos foram o veículo de transporte sobre o qual se apoiou a economia brasileira. Roberto Simonsen ressaltou isso. Em contexto onde a vida urbana e as manufaturas eram acanhadas, a última mais do que a primeira, o arrojo da produção dependia em larga medida da população rural, cujas necessidades de toda ordem requeriam o uso criativo do couro. Simonsen observou que a pecuária guardava a característica de ocupar grandes áreas empregando pequena população.
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Diminuído o interesse pela caça aos indígenas e o declínio da mineração foi a pecuária que consolidou, do ponto de vista econômico, vastas regiões do país que, sem ela, argumenta Simonsen, teriam sido, talvez, condenadas ao abandono. Outra evidência da dinamicidade da pecuária no âmbito de toda a economia foram as diversas feiras de gado que se abriram desde o século XVIII e que serviram para que Simonsen estruturasse seu raciocínio acerca da magnitude do gado numa economia em crescimento. O comércio de gado, escorado obviamente na atividade dos vaqueiros, possibilitou o surgimento de várias feiras, de Norte a Sul: “Santana, Curralinho e Candeúba na Bahia; Itabaiana e Brejo d’água na Paraíba; Campos de Santana e São Cristóvão no Rio de Janeiro; Itamemirim no Maranhão; Três Corações, Benfica e Sítio em Minas Gerais; Sorocaba em São Paulo.” E outras em Santa Catarina e Rio Grande. (SIMONSEN, 1967, p.167-187) Juntados os esforços de documentar e de argumentar acerca do papel ímpar da pecuária e dos vaqueiros – na condição de trabalhadores livres – na história econômica do Brasil, ambos pautam o protagonismo desse sujeito, cujo trabalho difícil ganhou contornos de heroísmos nessa historiografia. Capistrano depositou unicamente no vaqueiro o sucesso da pecuária. Simonsen fez isso com parcimônia, seguinte as pistas de uma bibliografia sem relutâncias em celebrar a história do Brasil. Da história para a literatura chega-se a três grandes obras em alguma medida organizadas em torno do modo de vida dos vaqueiros. “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, “O Sertanejo” (1875), de José de Alencar e “Vidas Secas” (1938), de Graciliano Ramos, são clássicos da literatura que imortalizaram a presença do vaqueiro na economia e na cultura brasileira, tendendo a converter seu trabalho em façanha e apresentá-lo com uma personalidade tão complexa quanto o sertão onde vivia. Alencar imaginou o Sertanejo um homem de brio e caráter fortes, situado num mundo com claras distinções sociais. Subalterno ao dono da fazenda onde trabalhava, o vaqueiro Arnaldo se apaixona pela meia-irmã de seu patrão, dona Flor. É um amor difícil de prosperar. No Ceará do último quarto do século XIX, como no restante do país, a diferença entre a condição de ambos deixa pouco ou nenhum espaço para um romance aberto e que pudesse ser formalizado. Ao mesmo tempo, quando se abre enorme brecha para que isso aconteça, Arnaldo prefere um amor presumido, sem desenlace prático, à distância, e, ao mesmo tempo, deseja que dona Flor o contemple pelos feitos heroicos que a preservaram. Arnaldo não é um personagem de fácil leitura. Antonio Cândido argumentou a respeito dessa obra que Arnaldo seria uma resposta ao desejo ideal de heroísmo e de pureza ao qual Alencar se apegava desde sua juventude como contraponto ao que avaliava ser “uma sociedade mal ajustada e presa a lutas recentes de crescimento político.” (CANDIDO, 1975, p.223) Ao longo do enredo, não há qualquer recurso ou mediação que pudesse aproximar em definitivo Flor de Arnaldo. Concorriam contra ele dois outros pretendentes de melhor posição social, Marcos Fragoso e Leandro Barbilho, a quem o pai prometera Flor. É um enredo por meio do qual Alencar descreve um caráter impoluto e o incorpora num vaqueiro. É também uma narrativa que se estrutura em metáforas como forma de explicar o que estava em jogo e quem era Arnaldo. Três delas são funcionais para as intenções iniciais de Alencar. Na tentativa de cortejar Flor e conseguir alguma simpatia do pai, que não tinha o propósito de entregar-lhe a filha, Marcos Fragoso se joga numa aventura incerta para impressionar ambos. Flor, seu pai e Fragoso, numa pequena
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roda de conversa, apreciam um boi de nome Dourado, conhecido por perigoso. O pai, aliás, na mesma passagem, declara seu voto – único – na possibilidade de domar Dourado, e ia para Arnaldo. Parece que sem racionar com tempo, Fragoso anuncia que irá domar Dourado e oferece-lo no almoço. É o próprio Alencar que o ridiculariza. “Pois afianço-lhes eu, senhores, que o Dourado vai dar a sua última carreira, exclamou Marcos Fragoso, brandindo a vara de ferrão com galhardia. Terei a honra de oferecer-lhes ao almoço uma costela de herói.” (ALENCAR, 1982, p.102) A promessa não se revela. O caso é que o fracasso de Fragoso ficou realçado diante do desempenho triunfante de Arnaldo, que submete o boi. Destrói-se assim o plano do rival de gabaritar-se junto ao pai de dona Flor. Já o vaqueiro, atesta o valor de suas habilidades e derrota alguém de posição social acima da sua. Resta claro que naquele terreno ele era imbatível. Para Alencar tratava-se igualmente de registrar pela narrativa como o enfrentamento ao boi se estabelecia em parâmetro para mensurar a coragem, a destreza, o heroísmo. Nesse caso, o vaqueiro era superior aos outros sem deixar de ser vaqueiro. O desfecho também reforça essa imagem. Um ato de heroísmo de Arnaldo ao enfrentar uma agressão armada e coordenada de muitos homens armados contra o pai de Flor dá-lhe o direito, reconhecido pelo patriarca da família, de escolher “qualquer”, o que poderia ter sido o enlace que tanto desejara. Para grande surpresa ele declina e transfere o direito ao capataz, que da mesma forma participou da resistência. Disso tudo, um possível resumo sobre o que Alencar pensava ser o vaqueiro o mostra herói, generoso, uma psique ambivalente e uma expectativa de manter seu desejo irrealizado, um amor próximo, mas sempre intocado. Na qualidade de um escritor oitocentista pensa-se que Alencar seguiu a tendência do romantismo e buscou harmonizar a linguagem literária e a realidade de onde extraiu o material usado para “O Sertanejo”, ou o que Antonio Candido chamou de “O lastro do real”, um “ajustamento ideal entre a forma literária e o problema humano que ela exprime”. (CANDIDO, 1975, p.111) Foi essa leitura da realidade, romantizada, fez de Arnaldo um personagem de rara positividade, mesmo naqueles pontos controversos sobre sua personalidade. Euclides da Cunha, em “Os Sertões”, publicado em 1902, não conferiu igual complexidade literária ao vaqueiro de “O Sertanejo”. O livro, embora usualmente tomado como literatura, tem na parte onde se atém ao homem do sertão uma abordagem fortemente sociológica, tanto na argumentação (que formaliza conceitos) quanto no emprego regular de fontes secundárias e decorrentes da observação direta. Esta foi a característica predominante entre os primeiros críticos da obra, cujos textos foram reunidos em publicação de 1903. No “Jornal do Commercio “de 24 de dezembro de 1902, o destaque principal, além da existência singular da obra, se deu para sua natureza científica. “A parte histórica e descriptiva revela aprofundadas investigações, conhecimentos exactos de tudo que se tem vulgarisado sobre o povoamento do Brazil.” Continua: “desde os chronistas do século XVI envereda com segurança pelo caminho da sociologia e dos conhecimentos ethnographicos, procurando a explicação lógica e racional de cada facto decorrido, estudando toda a vida dos nossos sertões”. (LAEMMERT & C., 1904, p.2) Desse modo, o vaqueiro mostrado por Euclides da Cunha também é um sujeito de relativa complexidade, arrevesado, todavia sem receber o detalhamento psicológico descrito em Alencar. Seus dilemas, laços e nós figuram descritivamente, derivados de pesquisa
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interessada. Afora tais diferenças no modo com que ambos se apropriaram da realidade do vaqueiro, eles fizeram imagens positivas acerca dele. Encontra-se nas primeiras páginas do segundo capítulo de “Os Sertões”, intitulado “O Homem”, síntese emblemática acerca do vaqueiro adicionando-lhe características do bandeirante e do jesuíta, dois sujeitos importantes no reconhecimento da terra e tentativa de um projeto civilizatório – embora, lamentavelmente, o jagunço tenha sido o martelo e a talhadeira que cooperou com a formatação da sociedade colonial e depois dela. Apostou Euclides da Cunha que “quando, mais tarde, maior cópia de documentos permitir a reconstrução da vida colonial, do século XVII ao fim do XVIII, é possível que o último, de todo olvidado ainda, avulte com destaque que merece na formação da nossa gente”. Continua ele: “Bravo e destemeroso como o primeiro [bandeirante], resignado e tenaz como o segundo [jesuíta], tinha a vantagem de um atributo supletivo que faltou a ambos – a fixação ao solo.” (CUNHA, 2000, p.84) O vaqueiro seria o responsável por abastecer de carne as áreas escassamente povoadas e de garantir a manutenção do leite e de seus derivados. Não deixa dúvidas a respeito da relevância do vaqueiro na economia colonial e depois dela. Mas há outros traços na definição sociológica e histórica desse sujeito. Ele se apronta para multifunções, alternando tarefas diferentes que requerem dele papeis diferentes. José Veríssimo, escreveu no “Correio da Manhã” em 1903, que o vaqueiro descrito por Euclides da Cunha era “meio bandido, capanga assalariado, capaz de todos os crimes, é também capaz das virtudes que em todos os tempos e paizes foram compatíveis com tal regimen social qual o seu: a abnegação sem limites, a probidade nos tratos, e salvo os casos previstos nos usos tradicionaes, que são á sua lei, o respeito da propriedade.” (LAEMMERT & C., 1904, p.27) Aqui Veríssimo imprimiu uma dimensão da realidade vivida por Euclides da Cunha. De fato, a escrita de “Os Sertões” dependeu bastante da própria experiência do autor nas explorações que fez pelo interior do país em busca, diríamos hoje, de material de pesquisa para o livro que pretendia escrever. Veio disso a tipificação ambivalente do vaqueiro, “capaz de todos os crimes” e ao mesmo tempo disposto à defesa da propriedade. Mas esta não era uma condição psicológica, senão um forte traço de característica sociológica. O meio, mais do que o homem, desenhava os destinos daquela sociedade. A essa altura está suficientemente documentada a importância do vaqueiro em assegurar a manutenção e a expansão dos rebanhos bovinos financiados por razoável capital, geralmente trazido da metrópole e multiplicado por uma acumulação que se constitui na colônia. É um fato histórico. Outra coisa diz respeito à visão que os autores acimas têm sobre isso. Subtraindo a leitura mais severa de Caio Prado Jr., os demais tenderam a enxergar o vaqueiro com certa condescendência numa escala que vai de um sujeito relevante para a economia, inseparável da boa performance da pecuária, até um juízo que o reconhece como herói romântico. De qualquer modo, é um desenho bastante positivo. “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, publicado em 1938, habilita esse assunto num degrau acima do que se viu nas obras anteriores. Aqui a ideia é delimitar o personagem que representa um vaqueiro sem ter que retomar apreciações bastante recorrentes e debatidas pela crítica literária. Interessa aqui a dramatização da história na vida de um vaqueiro e de sua família no sertão do Nordeste em período aproximado da década de 1930. O quadro de características e de sentimentos que alicerçam Fabiano, o vaqueiro que protagoniza o enredo de “Vidas Secas”, pode ser descrito nos termos históricos que definiram
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as relações sociais entre os camponeses todos que haviam acima deles. Sua vida traduzia o destino de milhares de trabalhadores nordestinos que decidiam buscar lugares que acreditavam ser melhores. São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná. A seca e a experiência de sempre estar na fronteira entre a sobrevivência e a indigência os faziam se movimentar, mesmo que fosse contra suas memórias, seu apego à terra, seu afeto à comunidade e à família que ficava. Mas havia uma diferença entre Fabiano e os demais, e vale ressaltar, que residia na ausência de imagens e de notícias esperançosas que chegavam até eles. Fabiano levou tudo com ele, a família e a raiva da condição que o expulsou dali. Da realidade, Graciliano criou um tipo ideal sublinhando as características mais dramáticas do vaqueiro e do camponês explorado. Portinari, em 1944, exibiu sua tela “Os retirantes” endossando uma imagem cruel e didática da realidade que ele pretendia pautar na organização dos sentimentos de quem se dispunha a lê-la. Brecht, noutra escala e linha de intervenção, também fazia da obra de arte um recurso para interagir politicamente com o público, tentando retirar a complexidade dos personagens, das relações sociais e do diálogo proposto. Havia, é claro, um ponto compartilhado na medida que os três eram comunistas. Uma lente como esta não deixaria escapar aos seus olhos e imaginação a miséria social dos trabalhadores e a luta de classes. Assim são as comparações entre Fabiano e o estado da natureza, sua imersão na caatinga, se assemelhando ou se confundindo com os bichos. Parece não existir uma divisa legível que deixe o homem se distinguir dos animais. Estaria aprisionado no sertão com parco ou nenhum recurso para lhe garantir a sobrevivência. Por isso também Fabiano se agarra a pretensão de ser vaqueiro. Graciliano deixa isso claro quando esclarece a intenção de Fabiano, dizendo que ele “era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado”. Continua ele: “Olhou as quipás, os mandacarus e os xiquexiques. Era mais forte que tudo isso, era como as catingueiras e as baraúnas. Ele, Sinha Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia estavam agarrados à terra.” (RAMOS,1995, p.19) Não é difícil concluir que uma das figuras que Graciliano decalcou em Fabiano foi esse sentimento de negação. Baleia, a cadela que acompanha a família, antagoniza o vaqueiro. A narrativa em terceira pessoa permite conferir ideias e emoções a ela. Seus pensamentos são criativos e às vezes retratam um cotidiano mais dinâmico e interessante do que o de Fabiano. Baleia tem seu próprio capítulo na obra. Além disso ela guarda presença nos demais. Ela é uma alegoria cuja função é realçar a miséria humana de Fabiano (da mulher e dos dois filhos) e a inexistência de rotas de fuga disponíveis a uma vida tão pobre de contatos sociais, de alianças afetivas e políticas. Este isolamento praticamente zera as chances de Fabiano. Ao mesmo tempo, ele partilha as mesmas experiências vividas por camponeses e vaqueiros do sertão nordestino do início do século XX. Ele era explorado economicamente, subjugado culturalmente, aprisionado em sua própria experiência, sem perspectiva de ascensão social embora aspirasse a posição de vaqueiro. O problema nessa equação pensada por Fabiano é que ser vaqueiro o colocaria acima de onde estava, mas não eliminaria o risco de se ver novamente vulnerável à fome e à miséria. Afora a rotina da família de Fabiano, Graciliano investe nalgumas relações que bem poderiam ser consideradas típicas de um vaqueiro sem qualquer habilidade social para sobreviver afastado de seu universo, do trato diário de bois e vacas, da intimidade com a
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caatinga, do vocabulário minguado para poucos diálogos. No chão onde ele trabalhava o som predominante era o da natureza, fato que indicava o quanto as conversas entabuladas pela família de Fabiano eram escassas e supérfluas. Desse quadro decorre a admiração do vaqueiro pelo domínio das palavras demonstrado pelo vizinho, seu Tomás da Bolandeira. A desenvoltura com que ele maneja as frases deixa Fabiano deslumbrado. É seu objeto de desejo. Sinhá Vitória, a esposa, tem uma ambição diferente. Ela sonha com uma cama de couro, igual a que seu Tomás tem. Nesse caso, o desejo se projeta no conforto. Vez ou outra Fabiano exercitava o pouco que assimilou ouvindo seu Tomás conversar. As palavras lhe eram desconhecidas, mas sonoras, e assim ele tentava imitá-lo. O resultado não era bom. O vaqueiro “dizia palavras difíceis, truncando tudo, e convencia-se de que melhorava. Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo.” (RAMOS, 1995, p.21) Numa das idas à cidade para comprar mantimentos, Fabiano se mostra inseguro e inferior frente a todas as pessoas que, por uma razão ou outra, é levado a conversar. No armazém de seu Inácio ele sabe que o querosene comprado contém água, mas aceita a situação. Em seguida bebe uma cachaça e percebe que também foi misturada com água. Com a coragem dada pela bebida ele arrisca uma reclamação. “Por que é que vossemecê bota água em tudo?”. Seu Inácio finge não ouvir. Fabiano seguiu para fora, disposto a conversar. Haveria oportunidade para mostrar as palavras e expressões decoradas de seu Tomás. E foi pensando nele que um soldado amarelo o cumprimentou e o chamou para um jogo de cartas. “Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto, etc. É conforme.”, foi o que Fabiano respondeu. (RAMOS, 1995, p.23) Na mesa de carteado ele perde o dinheiro que ainda tinha e se retira do jogo sem se despedir. A cena seguinte retrata a investida do soldado amarelo sobre Fabiano, julgado fraco, mas que é fisicamente mais forte. Apesar disso, a autoridade policial se impõe. Cercado por outros policiais Fabiano é preso e encarcerado. E é na cadeia que ele pensa a respeito de si mesmo. Quer entender a razão de sua condição subalterna, de sua tolerância, de sua incapacidade de revidar. Pensa na família, no sentimento que o liga a ela. Pronto. Conclui que sairá prejudicado sempre que enfrentar alguém que esteja acima de sua posição de vaqueiro. Foi assim com o soldado amarelo e será assim com seu patrão. Nesse caso, a desvantagem era nítida. Todas as vezes que se reunia para o acerto com o dono das terras onde morava e trabalhava perdia o pequeno excedente que produzira. Por costume cabia a ele a quarta parte dos bezerros e a terça parte dos cabritos, mas pouco ou nada lhe sobrava. Na apuração das contas o vaqueiro reclamou com o patrão. Escutou dele que a diferença provinha de juros. A queixa de Fabiano se tornou mais ruidosa e então ouviu do patrão que buscasse outro emprego. Recuou imediatamente. Aceitou o pagamento e a situação. Parecia não haver boa solução para o vaqueiro. Das obras enumeradas, “Vidas Secas” expõe a pior tipificação do vaqueiro. Certamente a crítica social impressa no livro pautou sua narrativa. Fosse na terra, trabalhando mediante um contrato temporário, fosse em meio a caatinga, fugindo da seca, buscando saída para a desocupação, o vaqueiro vivia uma experiência comum a todos os camponeses, “a vida esmagada da pobre família de retirantes-agregados-retirantes”. (CÂNDIDO, 2012, p.149) É um movimento circular e inacabado que encarcera os camponeses num mundo governado por coronéis. Graciliano compreendeu a realidade de seu tempo, no lugar que melhor conhecia.
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Numa síntese final, pode-se visualizar o quadro acima sobre o vaqueiro nos termos expostos da história e da literatura. Para José Alencar o sertão é um lugar acolhedor. “Ele” e o vaqueiro se complementam. Formam uma simbiose explicitada em diversas passagens no livro, como a seguinte: “Para Arnaldo todas essas meigas virgens do céu [estrelas] lhe eram irmãs; conhecia-as pela cintilação, como se conhece pelos olhos a menina faceira que se embuçou na sua mantilha azul.” Continua ele: “A cada uma saudava pelo nome, não o que inventaram os sábios, e sim o que lhe dera sua fantasia de filho do deserto.” (ALENCAR, 1982, p.131) Descontada a visão romântica que tipifica Arnaldo ao longo de todo o livro, a ideia de que o deserto foi preenchido pelo vaqueiro não destoa da avaliação historiográfica acima. Parte da riqueza produzida no passado deveu-se ao vaqueiro. Isto também é sustentado por Graciliano, mas sem qualquer concessão poética que relativizasse ou suavizasse a vida de Fabiano. Ele era um trabalhador explorado e oprimido. Na escala formada pela história e literatura abordadas aqui Arnaldo e Fabiano estão em lados opostos. De todo modo, é certo afirmar que o vaqueiro desempenhou um papel importante da história econômica e social da formação do Brasil. Nisso concordam todos, de Caio Prado Jr. A Graciliano Ramos. É certo também que o vaqueiro expressa as principais características sublinhadas pelos escritores e autores já relacionados, embora esteja mais distante do personagem de José de Alencar. O que evidencia isso? O fato de os peões e vaqueiros terem sido explorados pelas classes dominantes no processo de constituição da pecuária e da riqueza nesse segmento da economia.
3. Os primeiros Frigoríficos no Brasil4 As charqueadas foram indústrias rudimentares de carne em escala surgidas no Rio Grande do Sul a partir da década de 1870, concentradas na região de Pelotas. Elas antecederam os primeiros frigoríficos. Alguns deles se instalaram em antigas e decadentes plantas produtivas das charqueadas. Os lucros vinham basicamente da produção de carne seca e salgada, além de couro para exportação. A mão-de-obra escrava ocupada nas charqueadas movimentava essa economia que Sandra Pesavento considerou anterior às “origens da indústria” no Rio Grande. (PESAVENTO, 1985, p.20-23). Embora houvesse trabalhadores livres - nacionais e estrangeiros - ocupados nas charqueadas do Sul, os escravos predominavam. A esse respeito, Mário Maestri pondera que havia diversas opções face o trabalho considerado pesado nas charqueadas: “o contrabando, a economia de subsistência, ou até mesmo a vida de vagabundo parecer-lhes-iam [livres] muito mais promissores.” (MAESTRI, 1984, p.75) Nessa situação, o trabalho escravo foi a solução possível para que as charqueadas funcionassem. Esta parece ser uma resposta simples e convincente. Como era a planta produtiva de uma charqueada? Tomando como exemplo uma charqueada em funcionamento por volta de 1810, período em que a atividade já permitia alguma acumulação de capital para os charqueadores, iremos encontrar o seguinte. Em geral a senzala compunha o conjunto das casas e galpões destinados à produção do charque. Junto Neste item reproduzo alguns argumentos e informações do artigo “Uma História Social comparada do trabalho em frigoríficos: Estados Unidos e Brasil (1880-1970).” (BOSI, 2014) 4
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havia um armazém, uma tafona (para moer sal), guindaste e caldeiras. Para escoar a produção os charqueadores contavam com seus próprios atracadouros às margens do arroio Pelotas e com embarcações. Em função disso, a maioria das charqueadas estavam próximas dessa área, fato que facilitava a logística. (OGNIBENI, 2005, p.56) As relações de trabalho eram bastante específicas. Os trabalhadores livres ocupavam as funções de capataz, feitor e dos peões. Por óbvio, capatazes e feitores controlavam os escravos para garantir a extração da mais-valia e impedir fugas e rebeliões. Para isso, quando necessário esses trabalhadores eram punidos. Capatazes tinham alguma proximidade com os patrões, e isso lhes conferia um status distinto dos demais. Não significava qualquer tipo de nivelamento social, ou de dissolução da hierarquia. Eles não deixavam se ser subalternos. Ao contrário, a condição decorrente dessa proximidade podia servir para reforçar a sujeição aos patrões, uma troca de favores que colocava frente a frente o prestígio oferecido pelo patrão ao capataz e em contrapartida uma resoluta obediência do capataz. Abaixo dele estavam os outros. E embora existam formulações historiográficas que apresentam uma escravidão branda materializada em muitos acordos entre os escravos e seus superiores que resultavam na pacificação da luta de classe para viabilizar a produção, a história das charqueadas se assenta na exploração de escravos como condição para a acumulação de capital das famílias dos charqueadores. O feitor fiscalizava mais de perto os peões e os escravos. Os peões cuidavam do gado até o abate. Alimentavam os bois nos currais, zelavam pela saúde dos animais, realizavam a parição, pela manhã conduziam os rebanhos para a pastagem e no final da tarde os recolhia para os currais. Por fim, os escravos. Seu emprego basicamente cruzava todos os segmentos da economia. Nas charqueadas preenchiam todas as funções produtivas. Havia conjunturas de recessão em que os charqueadores se desfaziam de escravos. Noutros períodos mais dinâmicos o número de cativos aumentava. Um cálculo para visualizar essas curvas de gráfico aponta que 1870 foi a década com menor número de escravos por charqueada, 29,5, enquanto na década de 1840 registrou-se a maior média, de 82,25 escravos por charqueada. (OGNIBENI, 2005, p.72) A expressão dessas médias tem relação com o auge das charqueadas e seu declínio. No primeiro caso, embora cara, a força de trabalho escrava era uma opção viável porque havia em disponibilidade no mercado regional e o preço podia ser pago sem complicações para os charqueadores. No segundo caso, a aproximação prevista da abolição legal da escravatura secava os interesses das charqueadas pelos escravos uma vez que o retorno ao investimento se tornava incerto ou difícil de calcular. A divisão do trabalho nas charqueadas estava ligada às atividades de prender e mobilizar os animais, abatê-los, retalhá-los e produzir a carne salgada. Esta última tarefa residia em salgar as peças de carne e estendê-las para secagem. Assim, a carne se tornava resistente durante muito tempo para ser transportada por longas distâncias e aguentar alguma espera até ser comprada e consumida. Os escravos estavam ligados a tais ocupações, mas não integravam a produção do charque como acontece numa indústria. A divisão do trabalho não se ajustava a uma sequência similar a linha de produção. Se tratava de algo menos especializado, onde os escravos costumavam realizar todas as tarefas ou então revezarem-se nelas. De qualquer modo, a principal função na charqueada era salgar a carne. Faziam isso os saladeiros. Os
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escravos que salgavam a carne (quase todos) podiam ser caracterizados pelas mãos cortadas devido ao contato permanente com o sal e pelas costas machucadas por chicotadas. O funcionamento das charqueadas começava pela compra da boiada. Esta matéria prima era formada no próprio estado do Rio Grande, principalmente na região dos pampas. As condições de trabalho eram ruins, a despeito de leituras clássicas terem apresentado uma visão branda da relação entre escravos e seus proprietários. A jornada de trabalho era longa. Iniciava ao nascer do sol e terminava com o escurecer, totalizando aproximadamente 12 a 13 horas. Nos meses de maior produção a jornada podia chegar a 16 horas. Terminado o dia de trabalho os escravos se recolhiam para dormir e acordar com o som da sineta nas primeiras horas do dia. Nesse quadro é difícil imaginar algum tempo em que os trabalhadores conseguissem interagir fora do espaço da produção. (GIL et al.; 2012) Nesse caso, pode-se lidar com a hipótese de que os poros existentes no tempo do trabalho eram ocupados por breves conversas entre os escravos que podiam resultar na formação e a manutenção de uma cultura própria e no planejamento de atos de resistência, rebeliões e fugas. Em regra, quando o preço do escravo subia além do que os charqueadores avaliavam como razoável, as despesas com roupas de frio e com comida aumentavam de modo a prolongar a vida útil daqueles trabalhadores. Do contrário, a razão para tal tratamento se encontrava em ideias e posturas condescendentes e piedosas. Por volta de 1850 as charqueadas passaram a incorporar tecnologias mais complexas – máquinas a vapor - e a aumentar o tamanho das plantas produtivas. Se desenvolveram indústrias derivadas fábricas de velas, sabão e glicerina, extrato de carne, conserva, adubos, curtumes e couro, aumentando o faturamento e incrementando a economia provincial. O prestígio dessa indústria para o estado do Rio Grande também cresceu. A participação das charqueadas no âmbito das exportações realizadas chegou a 74,9% no ano de 1861. Externamente, as charqueadas exportaram, principalmente, charque, couro e unha. Em 1852, os produtos foram mandados para os Estados Unidos, Inglaterra, França, Espanha, Holanda, Itália, Rússia, Portugal, Noruega, Suécia, Turquia, Alemanha, Bélgica e Dinamarca. (ASSUMPÇÃO, 2013, p.71-71) Mas isso não tornou menos pior a vida dos escravos. No inverno continuava-se a trabalhar sob temperaturas baixíssimas, próximo a água e, às vezes, sob cortante e gelado vento. Os escravos que retalhavam os animais no chão, agachados e encharcados de água e de sangue, sofriam ainda mais com o frio, além das dores nos joelhos e demais articulações forçadas por constantes genuflexões. Ano a ano isso corroía a saúde dos trabalhadores. E longe de os charqueadores buscarem alguma solução ergométrica que preservasse aqueles trabalhadores de doenças ortomusculares, a opção geralmente foi a de calcular o desgaste de cada escravo até a incapacidade para aquele tipo de trabalho relativamente ao investimento realizado no ato da compra. Relativamente aos frigoríficos organizados no país desde o início do século XX, algumas de suas principais características foram antecipadas pelas charqueadas tais como o abate frequente de grande número de animais, a longa e intensa jornada, a exposição dos trabalhadores a condições insalubres e perigosas enfrentadas cotidianamente no trabalho. É possível pensar numa transição das charqueadas e de outras formas mais rudimentares de processamento da carne para o frigorífico. Mas se trata de uma dinâmica desigual no tempo e no espaço. O que aconteceu no Rio Grande, particularmente na região de
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Pelotas, não aconteceu no Sudeste e no Nordeste pois nesses lugares não haviam charqueadas a serem desmontadas ou reconfiguradas. Também é preciso considerar nesse ponto que os primeiros frigoríficos instalados no extremo sul do país foram peças deslocadas pelo grande capital que acumulava há tempo experiência e domínio sobre a industrialização da carne. Ao mesmo tempo, o frigorífico não foi um desdobramento das técnicas e tecnologias praticadas anteriormente no país. Dali aproveitou-se os trabalhadores e sua experiência com o manejo da carne. Portanto, antes dos primeiros frigoríficos inaugurados no início do século XX no Brasil o abate de animais em escala se concentrava nos matadouros. Aqui, como em boa parte da Europa, os matadouros foram obra do Estado e surgiram em função de preocupações sanitaristas e higienistas. A maioria das cidades com suas economias e sociedade estruturadas criou seu matadouro municipal para eliminar o trânsito de animais, o mau cheiro, o sangue e o barulho, além de tornar clandestino todo abate fora de seus domínios. A inauguração de um dos primeiros matadouros no Brasil, no Rio de Janeiro do ano de 1881, contou com a presença de D. Pedro II, que assistiu ao trabalho dos açougueiros, assim descrito pelo Jornal do Commercio: Os magarefes [açougueiros] armados de um estilete com cabo á proporção que ião sendo introduzidas as rezes pela mangueira1 que se bifurca para um e outro lado, collocados de cima da muralha vão ferindo no nó vital as rezes alli encurraladas, mas nem sempre estes golpes são certeiros a ponto de ser preciso repetir duas e mais vezes semelhante operação. Cahem então uma por uma as rezes sobre uma carreta que rolando sobre um trilho é puchada para o grande saguão com rampas lateraes de pedra em declive. Alli estendidas as rezes neste declive são sangradas, immediatamente suspensas aos guindastes, onde os magarefes as esfollão e esquartejão, conduzindo-as em quartos para o tendal. (DIAS, 2009, p.6).
Assim, pretendia-se que a carne fosse abatida nesses matadouros e distribuída pelos açougues. O abate e o esquartejamento no matadouro não evitavam o trabalho dos açougueiros nas tarefas de preparo da carne para a venda. Nos açougues trabalhavam o dono e uns poucos auxiliares, na condição de jornaleiros ou de aprendizes. Desossavam, realizavam os cortes que definiam a qualidade da carne e vendiam de acordo com o pedido e o peso. Do animal se aproveitava tudo: toucinho, banha, as partes menos nobres preenchiam os embutidos, e com os sebos e restos se fazia sabão. O açougueiro era dono do próprio negócio e quase sempre levava uma vida confortável, com prestígio na comunidade e recursos financeiros para adquirir uma pequena fazenda ou chácara, onde providenciava seu próprio rebanho. Em alguma medida esta equação funcionava para os consumidores que moravam nas cidades. Entretanto, como 80% da população do país residia no campo, o acesso à carne era uma tarefa doméstica. Carnear um porco ou um boi integrava o modo de viver rural e envolvia o trabalho de toda a família e demais agregados. Homens abatiam e retalhavam o boi ou o porco, as mulheres condimentavam e preparavam os embutidos, e até as crianças ajudavam em tarefas menos pesadas (como encher linguiças). Enfim, não havia no país um mercado interno de consumo de carne semelhante ao norte-americano. De fato, em relação aos Estados Unidos, a indústria da carne no Brasil demorou a aprumar-se, e quando o fez tornou-se uma extensão do oligopólio estadunidense ou dos
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britânicos. A Armour, o primeiro matadouro a construir a câmara frigorífica no final da década de 1870, expandiu seus domínios para o sul do continente a partir da compra de charqueadas e de matadouros na região do Prata. Sandra Pesavento registrou o avanço e o interesse das Big Five naquela região que incorporava o cone sul aos seus negócios: Quando se abasteceu o mercado americano e começaram a escassear as reservas de gado yankee, surgiu a oportunidade de suprir o mercado europeu. Para tanto, partiu a Armour em busca de expansão para as zonas criadoras de gado onde melhor pudesse aplicar seus capitais. Na região do Prata, a Armour estabeleceu subsidiárias na Argentina e no Uruguai. Em 1917, penetrava no Rio Grande do Sul [com a compra da Charqueada Santana]. [...] Durante os anos de 1918 e 1919, fabricou carne conservada, passando, em janeiro de 1920, a exportar carne congelada. (PESAVENTO, 1980, p.131)
A escolha pelo Brasil considerou os estados de Santa Catarina e Paraná, que ofereciam 14 anos de isenção de impostos sobre os produtos exportados, mas a decisão pelo Rio Grande do Sul deu-se devido ao decreto estadual que estabeleceu a mesma isenção por um prazo de 30 anos. (ALBORNOZ, 2000, p.97) As charqueadas serviram como plataforma para a instalação de frigoríficos. Em menos de uma década, os frigoríficos já controlavam a aquisição da matéria-prima, pagando preço maior pelo gado e reanimando o setor pecuarista do estado que dobrou seu rebanho entre 1909 e 1918, de 10 milhões de cabeças para 19 milhões. A participação do Rio Grande do Sul na exportação nacional de carne congelada saltou de 13,6% (7 mil toneladas) para 52,5% (32 mil toneladas), de 1919 a 1921. Foi durante a primeira metade do século XX, que o extremo sul do Brasil viu crescerem os investimentos dos frigoríficos da Armour e da Swift. Houve ainda a presença do frigorífico Anglo, empresa de capital inglês, que “passaria a dividir o controle da indústria de carnes no país com os três gigantes do oligopólio norte-americano do ramo: Armour, Swift e Wilson”. (SUZIGAN e SZMRECSÁNYI, 2002, p.267-269). A decisão dessas empresas compõe a dinâmica histórica da expansão do domínio norte-americano na América do Sul. No caso do Brasil, os Estados Unidos empurraram o Reino Unido quase que inteiramente para fora da economia brasileira desde os anos 10 do século passado, fato que criou espaço para que seus bancos substituíssem a função inglesa de fornecer crédito para os negócios do estado e da iniciativa privada. Este ponto é marcado pelo primeiro empréstimo em dólares no Brasil, tomado em 1916, na praça de Nova Iorque, no valor de 5,5 milhões de dólares. Cinco anos depois o governo federal do paraibano Epitácio Pessoa tomou emprestados na praça de Nova Iorque 50 milhões de dólares. (GARCIA, 2002, p.53) O aumento do número de empresas estrangeiras no país na primeira quinzena do século passado evidencia o crescimento da presença imperialista no Brasil. Em 1907, dentre as 23 firmas estrangeiras autorizadas a funcionar no país, sete empresas sociedades anônimas eram norte-americanas. Em seguida vinham as inglesas e as francesas com seis cada uma e as belgas com duas. Relativamente ao capital mobilizado, a liderança das norte-americanas era maior, com 16 milhões de libras contra 3,4 milhões das demais. A vantagem mudava de lado quando se tratava das exportações para o Brasil. Na primeira década do século passado, 50% das exportações que chegaram ao país eram de bens manufaturados. O Reino Unido exportou
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algo em torno de 27,5%, a Alemanha chegou a 16%, os Estados Unidos com 13,5% e a França com 9%. (VALLA, 1971, p.160-166) As empresas estrangeiras aqui instaladas enviavam charque, enlatados e carne congelada do Rio Grande Sul para a Europa e os Estados Unidos, principalmente enquanto durou a 2ª Guerra. Apenas a Swift no Brasil exportou mais de 9 toneladas de carne processada no ano de 1939. (BEZZI e RODRIGUES, 2005) Nesta rápida escalada, demonstrando superioridade tecnológica e financeira, os frigoríficos vindos dos Estados Unidos suplantaram as charqueadas oferecendo melhor pagamento pelos rebanhos e arregimentando trabalhadores com o apelo de melhor remuneração e emprego durante todo o ano. (PESAVENTO, 1980, p.149) Exemplificando com o caso da cidade de Pelotas/RS, escolhida pelo Anglo que lá se instalou nos anos 1920, Neuza Janke da Silva ressalta que “o que atraía a companhia [naquela] cidade era o enorme suprimento de carne disponível e a mão-de-obra oriunda das charqueadas”. (SILVA, 1999, p.54). Cabe destacar ainda o aumento do consumo de carne durante as duas guerras mundiais, que serviu de alavanca para os frigoríficos, uma vez que a necessidade de alimentar as tropas em combate elevou as exportações saídas dos frigoríficos norte-americanos instalados no cone sul. (ALBORNOZ, 2000) Em resumo, diferentemente dos EUA, no Brasil (e no restante do cone sul) os frigoríficos surgiram interiorizados e próximos aos rebanhos, investidos de capital, de técnicas e de tecnologias formadas na experiência norte-americana da segunda metade do século XIX. O desenho imperialista que explica o surgimento dos frigoríficos na região do Rio da Prata tem evidência forte com o registro da primeira planta produtiva, chamada de “River Plate Fresh Meat Company”, propriedade do inglês George W. Drabble, instalada em 1882, na Argentina. Além do frigorífico, Drabble era diretor de ferrovias organizadas em seis empresas na Argentina e no Uruguai. Para tudo isso, ele presidia um banco, o “London and River Plate Bank”, a partir do qual o capital desse estruturado universo era movimentado. (CASSIS, 1994, p.169) Em seguida, também vieram do capital britânico investimentos para outros frigoríficos da região do Rio da Prata nos na primeira década do século XX, como o de “Las Palmas Produce Company”, “La Plata Cold Storage Company”, “Smithfield and Argentine Meat Company” e “La Blanca”. (GEBHARDT, 2000, p.101) Tal esforço esperava ser recompensado pela existência de rebanhos próximos das plantas produtivas e por numerosa força de trabalho educada no trabalho fabril devido às experiências de trabalho nas charqueadas e dos matadouros. Esta logística barateou os custos de produção, em especial no que se refere à força de trabalho. Nesse ponto, abriu-se um novo capítulo da história do trabalho e dos trabalhadores nos frigoríficos.
4. O caráter alienado do trabalho e a mercantilização da carne Guardei este lugar para discutir o caráter alienado do trabalho. Assim como os demais trabalhadores, homens e mulheres que se ocupam nos frigoríficos vivem uma relação cotidiana com seu próprio trabalho produzindo, repetidamente, a mesma mercadoria o tempo todo. O que isto pode significar para eles? Uma forma de abordar este problema é começar esclarecendo o lugar da carne no processo de constituição do capitalismo, ou a incidência da dinâmica do capitalismo nas
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práticas costumeiras do abate de animais e as formas de apropriação da carne. Sua história esteve articulada ao surgimento da economia de mercado, cujo início pode ser localizado na expropriação em massa dos recursos e do trabalho dos camponeses, a partir do século XVI, na Inglaterra. O argumento é simples, embora permaneça polêmico. A partir do século XIV uma grande e continuada expropriação de terras ocupadas por camponeses tornou-os inteiramente despossuídos. Sua sobrevivência passou a depender da contratação de seu trabalho em lavouras e pastos pertencentes a arrendatários e nobres. Nessa nova condição grande parte da comida e da vestimenta passou a ser comprada nos mercados, produzida por seu trabalho. Tratou-se, a partir dali, da mercantilização daquilo que antes era plantado e fabricado pelos camponeses para seu próprio sustento. Direitos consuetudinários, que lhes permitiam o acesso e a permanência na terra, perderam validade. Esse raciocínio é de Marx, e ajuda a entender os traços gerais do começo da economia de mercado. (MARX, 1988) Podemos visualizar a carne como mercadoria enquadrando os detalhes dessa abordagem. É verdade que ela fora negociada como um artigo em tempos antigos. Mas a forma generalizada – ou que tendia à generalização – de aquisição e de consumo não se conformou antes desse processo histórico descrito por Marx. Ao menos na Inglaterra, berço do capitalismo moderno. Karl Polanyi, igualmente polêmico sobre esse assunto, registrou, no formato de síntese, que “A terra cercada [na Inglaterra] valia duas ou três vezes a não-cercada. Nos lugares onde se continuou a cultivar a terra, não diminuiu o emprego e o suprimento de alimentos aumentou de forma marcante.” O resultado foi que “O rendimento da terra elevou-se consideravelmente, em especial onde a terra era alugada.” Sua conclusão sustentou, por óbvio, que, “Entretanto - e este é o ponto - é somente numa economia de mercado que tais efeitos compensadores podem ser tomados como certos.” (POLANYI, 2000, p.52) Há muito mais nesses dois estudos do que eu preciso para afirmar a mercantilização da carne como fato, ou o processo histórico do qual fez parte. Até pelo menos o século XIX a criação e o abate de animais de pequeno porte para consumo próprio constituíam-se práticas comuns. Tratava-se de elemento cultural dominante, principalmente em contextos de nítida superioridade populacional do campo relativamente à cidade – característica de quase toda Europa à época. Confirma isso o recenseamento realizado em 1851, na França, sustenta esta característica à medida que evidenciou um país ainda bastante ruralizado, com 74,5% de seus cidadãos fixados no campo. (DITTGEN, 2005, p.12) Marx e Polanyi, cada qual a sua maneira, explicaram colateralmente a mercantilização da carne. Mas não ofereceram mais do que isso. Por esforço também colateral é que se pode estender à produção da carne o raciocínio de Marx sobre a divisão de trabalho organizada sob o formato da fábrica. Lá, o sapato, o tecido ou a carne se tornaram produtos finais de uma série ordenada de tarefas, e se voltaram completamente para o mercado. Eles se transformaram em artigos necessários à reprodução das famílias dos trabalhadores tanto quanto condição para a valorização do capital uma vez que a sua produção e sua venda funcionavam (e ainda funcionam) como componente fundamental na acumulação de riquezas. Nessa dinâmica progressiva do capitalismo a tendência foi o agigantamento da fabricação de mercadorias e sua articulação em cadeias. No exemplo de Marx, a fiação artesanal conduz à fiação mecânica, que conduz à fiação na indústria algodoeira, que conduz à industrialização da lã, do linho, da seda etc. (MARX, 2004, p.106) Relativamente à carne, pode-se dizer que o trabalho artesanal levou
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ao trabalho cooperado, que levou ao trabalho no frigorífico. Em síntese, o trabalho do açougueiro e a arquitetura dos Matadouros forneceram a base técnica para os modernos abatedouros surgidos na segunda metade do século XIX. Em tese pode-se explicar a mercantilização da carne por meio de sua industrialização. O mercado de consumo fez-se como parte desse processo à medida que, crescentemente, os consumidores, ora produtores, se tornaram compradores. Neste caso os frigoríficos estadunidenses foram exemplares dessa dinâmica. Lá encontraremos o material histórico que ajuda explicar a mudança de marcha na produção da carne. Nesse mesmo sentido, devemos pensar a mercantilização da carne dentro de um contexto que tornou invisíveis os trabalhadores que a processaram para aqueles que irão consumi-la. Em grande parte, Marx resumiu este evento ao afirmar que “Se abstraímos o seu valor de uso [do produto do trabalho], abstraímos também os componentes e formas corpóreas que fazem dele valor de uso.” (MARX, 1996, p.167) Esse argumento é genérico, cultivado e formulado em linguagem teórica, mas não decorre de especulação. Sua força advém da validação empírica e ter sido validado empiricamente pelas pesquisas de Marx desenvolvidas em O Capital. É algo importante de se fazer para sondar as características e eventuais questões contidas nas atuais relações sociais capitalistas, especialmente o trabalho em frigoríficos. A partir do material de pesquisa utilizado em O Capital, Marx destaca o linho e o casaco para exemplificar a existência de, além da matéria contida num e noutro, valores de uso e de troca. Linho e casado são objetos distintos. Acontece que o primeiro, modificado pelo trabalho do tecelão, pode ser transformado no segundo pelo trabalho do alfaiate. Desse modo, o que torna linho e casado em mercadorias negociáveis no mercado é o trabalho do tecelão e do alfaiate. O ato de converter linho e casado em valores de uso resulta de um denominador comum, o trabalho. Esse raciocínio de Marx pretendeu demonstrar que o trabalho é a mais importante chave analítica para a compreensão do capitalismo e da razão da exploração e opressão sobre os trabalhadores. Sua ênfase ao encarar a mercadoria se dirigiu para as características propriamente sociais e econômicas. Ao mesmo tempo, argumentou que a força de tais mudanças residia, crescentemente, na formação de relações sociais cujos valores éticos, morais e religiosos podiam ser (e geralmente eram) submetidos a autoridade e orientação dos novos valores da economia de mercado. Assim, o que Marx denominou de homem alienado nasceu como um novo homem, síntese das contradições e da complexidade de uma nova sociedade pautada centralmente por valores mercantis e interesses da burguesia. Esta é uma elaboração clássica e com enorme validade heurística no tempo presente. Devido a tais razões ela é um importante para a finalidade de problematizar o lugar, as opções e as escolhas (determinadas historicamente) dos trabalhadores empregados em frigoríficos. Edward Thompson se referiu a esta discussão sugerindo que caberia ver o novo enquadramento econômico e social como componente vital dos modos de viver, de trabalhar, de lutar dos trabalhadores. (THOMPSON, 1987) É uma via alternativa à metáfora do “prédio social” – uma representação tentada por Marx com propósitos pedagógicos para explicar a distinção e articulação entre “estrutura e superestrutura”. (MARX, 1982) Se trata, é preciso dizer, de uma crítica de Edward Thompson a Marx no campo do marxismo. Para o primeiro, a leitura de Marx relativamente aos trabalhadores tendeu a ser mais orientada pelas categorias
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como valor de uso, valor de troca, mercantilização e mais-valia do que pelos valores morais, éticos, religiosos, que também estruturam aprendizados, visões de mundo e ações da classe (THOMPSON, 2009). Este é um bom caminho, principalmente porque reconhece a ambivalência da relação do trabalhador com a mercadoria. Duas perspectivas podem ampliar a percepção a respeito dessa ambivalência. Theodor Adorno foi (e seus textos ainda são) o mais consequente e esclarecedor intérprete do processo de racionalização do mundo (Max Weber) e de mercantilização dos homens (Marx). Sua acentuada atenção e prospecção a respeito da prostração do homem diante do capitalismo conta com inúmeras sínteses emblemáticas. Cito uma delas. A atrofia da imaginação e da espontaneidade do consumidor cultural de hoje não tem necessidade de ser explicada em termos psicológicos. Os próprios produtos, desde o mais típico, o filme sonoro, paralisam aquelas capacidades pela sua própria constituição objetiva. Eles são feitos de modo que a sua apreensão adequada exige, por um lado, rapidez de percepção, capacidade de observação e competência específica, e por outro é feita de modo a vetar, de fato, a atividade mental do espectador, se ele não quiser perder os fatos que rapidamente se desenrolam à sua frente. (ADORNO, 2009, p.10)
Talvez o ponto de maior importância em Adorno seja avaliar os impactos do capitalismo em termos coletivos e não individuais. A “atrofia da imaginação” é um sintoma geral do sucesso alcançado pelos interesses burgueses de converter tudo e todos em mercadoria. Nesse mundo que ele descreve e oferece uma análise não há fissuras ou brechas forçadas por onde possam se formar dissidentes e encontrar uma rota de fuga com potencial revolucionário. Nem partidos, nem sindicatos. É um marxismo melancólico. Em entrevista concedida nos anos 60 durante a ascensão do Rock e os protestos contra a guerra do Vietnã, Adorno novamente se mostrou convicto de que as expressões culturais populares não seriam capazes de formularem uma crítica com conteúdo e força para suplantar o capitalismo. Em defesa de sua tese Adorno argumentava que quaisquer tentativas de juntar protesto político e música popular (classificada por ele de entretenimento) fracassariam em função de dois motivos. Toda música popular seria inseparável de seu caráter mercantil, “da míope fixação com o divertimento, do consumo”, e isso interditava as iniciativas para torna-la crítica. O limite alcançado pelos esforços com propósitos de contestar o capitalismo “permaneceriam inteiramente superficiais”. (ADORNO, 1967) Adorno guardava pessimismo declarado relativamente às tradições, valores morais e políticos do movimento operário, do movimento camponês, do movimento estudantil (o baluarte dos anos 60 cuja agitação chegou a esbarrar em Adorno) e de outros sujeitos em cena. O olhar de Adorno parecia avistar apenas rendição, mesmo que barulhenta. Há desdobramentos não marxistas decorrentes desse tipo de reflexão, embora sigam de perto a teoria do valor formulada por Marx. Zygmunt Bauman vem reascendendo na atualidade a incredulidade de que haja uma solução positiva ao capitalismo. Uma de suas mais recentes sínteses acerca do dilema vivido pela humanidade afirma que “o capitalismo é um sistema parasitário. E como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento.” Continua
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Bauman, advertindo (ou reconhecendo) que há, no desenvolvimento do capitalismo, uma contradição interior que o obriga a deteriorar e destruir as condições de sua própria existência e, obviamente, de nossas vidas também. O capitalismo “não pode fazer isso sem prejudicar o hospedeiro, destruindo assim, cedo ou tarde, as condições de sua prosperidade ou mesmo de sua sobrevivência.” (BAUMAN, 2010, p.8-9) Sendo explícito, Bauman esclarece que a ideia de uma acumulação de capital ininterrupta, que avança e inventa constantemente novas fontes de riqueza mercantil, foi retirada de Rosa Luxemburgo. Contudo, nesse caso ele separou e negligenciou a solução que Rosa apresentou à natureza devastadora do capitalismo, uma barbárie sem precedentes cuja interrupção só poderia acontecer pela ação consciente da classe trabalhadora. Edward Thompson defendeu a ideia de que havia maior complexidade no mundo dos trabalhadores do que a teoria do valor concebia. Como citei acima, mesmo em situação de submissão, o trabalhador fazia escolhas sob condições históricas determinadas, e este fato mantinha abertas as possibilidades de resistência e luta coletiva contra o capitalismo. Os últimos 200 anos de enfrentamento entre classe trabalhadora e burguesia têm registrado isso, com realce para a Revolução Russa. Em resumo, se trata de ver as perspectivas e esperanças dos trabalhadores obstruídas porque o controle burguês penetrou e progressivamente moldou seus sentimentos às necessidades do capital. O aspecto mais visível desse processo é a dependência que o trabalhador se vê submetido ao capitalismo por meio da venda do trabalho como valor. O outro aspecto é menos claro e abrange a sociedade por inteiro. À medida que os homens se sentem seduzidos pelas características que as mercadorias portam, tal relação os coloca na situação de objetos, inteiramente pressionados pela necessidade do consumo, de emprestar das mercadorias as propriedades que se espera delas, qualidades prometidas em todo tipo de propagandas e no ato de vende-las. Em qualquer sentido, as visões acima se posicionam como alternativas (umas mais outras menos) à concepção liberal da mercantilização da sociedade. E neste caso, trata-se do componente principal das ideias e dos valores hegemônicos na atualidade. Por isso mesmo é que se faz importante apontar e mostrar qual tem sido o tipo de homem pretendido pelo capitalismo e esboçado no contexto da mercantilização de todas as relações sociais desde a estruturação da moderna economia de mercado. Desde Adam Smith, ou pouco antes dele, a economia de mercado foi interpretada como resultado natural da evolução da humanidade, e este era um conceito novo no que dizia respeito a ideia de progresso material. Isto consta de “A Riqueza das Nações”, cujo enredo (senão central, paralelo) se concentrou em identificar e explicar a partir do tempo presente (o Reino Unido da segunda metade do século XVIII) os sentimentos do homem, fosse este pobre ou rico. As paixões (na linguagem da filosofia moderna) mais proeminentes residiriam na busca necessária pela felicidade, empreendimento coligado com uma visão histórica sobre o desenvolvimento econômico da sociedade. Smith definiu uma escala evolutiva e positiva cujo ponto inicial seria as formas mais arcaicas de produção e o ponto final seria organização do trabalho pelas manufaturas. Ele denominou essa interpretação de “O Progresso Natural da Riqueza”, título de capítulo de “A Riqueza das Nações”, que deixa ainda mais clara sua intenção intelectual ao explicar a história da humanidade. (SMITH, 1983, p.321) Smith escorou suas análises e crenças no processo de formação da economia de mercado na Inglaterra do século do século XVIII, particularmente no desenvolvimento das manufaturas.
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Dessa experiência histórica ele utilizou a fabricação de alfinetes como seu famoso exemplo sobre a virtude da divisão do trabalho. Para ele a fragmentação do trabalho levaria ao aumento da produtividade e do emprego uma vez que a especialização das tarefas exigiria acréscimos na contratação de trabalhadores de modo a diminuir o desperdício de tempo e tornar mais eficiente cada empregado. Numa passagem bastante otimista, Smith afirma que “cada indivíduo se torna mais hábil em seu setor específico, o volume de trabalho produzido é maior, aumentando também consideravelmente o cabedal científico”. (SMITH, 1983, p.45) Contudo, tal visão positiva nunca teve o trabalhador como elemento universal da sociedade estruturada na economia de mercado imaginada por Smith. Sua elaboração mais conhecida pregava que o vigor da economia seria tão maior à medida que guardasse larga independência e autonomia das influências e intervenções do Estado. Nesse mundo caracterizado pela livre iniciativa e disposição ao trabalho e ao enriquecimento, o protagonismo seria assumido pelos homens de posses, do pequeno ao grande proprietário. Uma de suas ideias mais populares defendia que o aumento da riqueza beneficiaria a todos por meio de uma distribuição possibilitada pelas relações sociais baseadas numa economia de mercado. Havendo bom giro de capital na economia o trabalho realizado garantiria o acesso a uma parte dessa riqueza. Quanto à distinção entre as condições de trabalhadores e proprietários para conseguir uma fração desses recursos Smith se manteve em silêncio, talvez por deixar tal questão subentendida. De qualquer modo, seus exemplos históricos voltados para sustentar a tese de que a livre iniciativa seria a forma mais adequada e economicamente produtiva para o sucesso de uma sociedade geralmente aparecem combinados com a realidade de pequenos e grandes proprietários, raramente de trabalhadores. Estes são mostrados como elementos imprescindíveis ao funcionamento e progresso da economia organizados conforme a divisão do trabalho estabelecia. Um dos pontos altos da convicção sobre a produção da riqueza opôs uma tradição de sete ou oito séculos anteriores ao tempo de Smith contra as regulamentações sobre o comércio e das manufaturas características e ordinárias das práticas mercantilistas. Acredito não haver em toda a Europa, exceto na Inglaterra, exemplo algum em que o ocupante constrói sobre a terra da qual não teve arrendamento confiando em que a honra do seu senhorio não lhe permitirá tirar vantagem de tão grande benfeitoria. Possivelmente, essas leis e costumes, tão favoráveis aos pequenos proprietários rurais, tenham contribuído mais talvez para a grandeza atual da Inglaterra do que o conjunto tão elogiado de todas as leis e regulamentações sobre o comércio. (SMITH, 1983, 331)
Erros de avaliação histórica à parte (como julgar o sucesso dos arrendatários pela consistência e validação de contratos consuetudinários e desprezar as ondas inflacionárias que tornaram mais valiosos os produtos num contexto em que os valores a serem pagos pelos arrendamentos não eram corrigidos), esta é uma ideia criativa que desqualifica indireta e retoricamente a intervenção estatal própria do período mercantilista. De tudo isso, pode-se dizer que a concepção de Smith sobre o homem moderno o definia exclusivamente por interesses e desejos econômicos manifestados na economia das relações sociais vividas. Em resumo, a alienação criticada por Marx é uma virtude para Smith.
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Esse quadro de referências teóricas a respeito da relação do homem com seu trabalho permite pensar a realidade do trabalhador na indústria. Tomado de forma específica nesse estudo, ele ajuda a identificar e compreender uma parte importante do universo do trabalhador empregado em frigoríficos, particularmente as implicações de este trabalhador ser também um valor determinado na economia de mercado, uma pessoa que se relaciona com o mundo prioritariamente como força de trabalho, como sujeito expropriado de seus meios de produção, como uma mercadoria. Mas o que fazer com isso para que não seja exclusivamente um balanço historiográfico sobre um número selecionado de estudos? Podemos organizar as posições inventariadas aqui em três grupos. O primeiro, exemplificado com a visão de Theodor Adorno, afirma que a alienação do homem é um fato, embora histórico, sem solução. O segundo, representado por Adam Smith, naturaliza esse processo e toma o capitalismo como ponto final da história de modo a interpretar positivamente o homem tipicamente produzido pelo mercado e fragmentado pela divisão do trabalho. O terceiro grupo, embora tenha uma unidade, é mais eclético. Defende que há uma margem de autonomia do trabalhador que possibilita refletir criticamente sobre sua própria situação de trabalhador e ultrapassar sua condição de alienado. Resulta disso expressões políticas individuais e coletivas que vão do ressentimento à rebelião. Os formatos e vetores dessas manifestações são ponto de antigas divergências. Partidos de quadros, partidos de massa, sindicatos, coletivos e movimentos sociais autônomos, grupos identitários etc.. Há bons estudos que delimitaram e aprofundaram essa questão e não é isso que interessa aqui. Uma vez localizada e caracterizada a mercantilização e produção industrial da carne, nossa tentativa será a de manejar as experiências dos trabalhadores vistas por eles e a teoria sumariada acima. Este procedimento nos vincula ao terceiro grupo de estudos. Por último, registro o que é uma abordagem arriscada. Muitas vezes as recordações necessitam de objetos que servem como suportes do tempo passado e de certas lembranças afetivas, familiares e políticas. Os mais comuns são as cartas e as fotografias. Mas há também objetos colecionados que contém uma história neles depositada. Um relógio, um livro, um quadro, quando transformados em peças que contam parte da vida de pessoas, passa a expressar valores de uso e de troca pouco ou nada mercantis. Peter Stallybrass chamou a atenção para essa questão recorrendo ao próprio casaco de Marx. Ele argumentou que Marx, quando instalado na Inglaterra, se viu obrigado a penhorar seu casaco para conseguir despesas como alimentação diversas vezes. Ao mesmo tempo, o casaco lhe garantia a sobriedade exigida pelas convenções sociais da época para que ele pudesse frequentar as dependências da Biblioteca de Londres, onde desenvolveu sua pesquisa para a escrita de O Capital. E seu casaco foi penhorado muitas vezes, e resgatado muitas vezes. Talvez num raro momento de desaperto financeiro, a exemplo da herança deixada pelo amigo Wilhelm Wolff, Marx empregasse uma parte da quantia para comprar roupas a família, incluído um novo casaco. Stallybrass arrisca uma explicação. O dono da loja de penhores não iria pagar por memórias pessoais ou de família. Na linguagem das pessoas que trabalhavam com confecção e conserto de roupas, no século XIX, os puídos nos cotovelos de uma jaqueta ou numa manga eram chamados de “memórias”. Esses puídos lembravam o corpo que tinha habitado a vestimenta. Eles memorizavam a interação, a constituição mútua, entre pessoa e
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coisa. Mas da perspectiva da troca comercial, cada puído ou “memória” constituía uma desvalorização da mercadoria”. (STALLYBRASS, 2008, p.65-66)
Uma caneta tinteiro, por exemplo, pode ser encarada como expressão prática desse raciocínio. Se a pensarmos apenas como uma caneta, em sua função elementar de escrever, ou ainda como emblema de status e de riqueza (nesse caso uma Montblanc), sem entendimento e interesse pelas relações sociais que a produziram, por desdobramento ela será tomada pelo que geralmente se espera, se projeta e se deseja de uma caneta, e não pelo que ela é – um objeto de uso determinado, socialmente constituído. Por essa razão a mercadoria tende a encobrir as relações de trabalho que a produziram. Se um homem ou mulher não conseguem ver na mercadoria nada além dela mesma (somente seu valor de uso), conclui-se que estão alienados como sujeitos relativamente ao processo social de produção do seu próprio mundo. Significa dizer que ele ou ela não percebem (ou enfrentam enormes dificuldades para perceberem) componentes fundamentais das relações sociais tipicamente capitalistas nas se encontram visceralmente articulados e dependentes. Mas, além disso, uma caneta tinteiro usada possui a memória de seu dono ou de seus donos anteriores. Quando é vendida, resultado, por exemplo, de um espólio deixado por alguém ou por exclusiva penúria financeira, o dono da caneta se desfaz de um importante objeto cuja serventia é para troca – venda – e para seu uso pessoal. Carrega ainda um apreço decorrente de um uso prazeroso, de um presente especial recebido, de uma herança deixada por um parente querido, de diferentes caminhos e origens que a convertem em alicerce sobre o qual uma experiência afetiva é assentada e guardada. Quando vendida, o novo dono adquire uma caneta e a experiência de escrita de quem a usou por último. Uma caneta dos anos 20 ou 30 certamente traz a empunhadura de seu primeiro dono, fixada no corpo da caneta, feito em ebonite, com pena de ouro 14 ou 18 quilates, firmes o suficiente para não ceder a uma força excessiva. A alavanca lateral de carregamento de tinta também funciona melhor conforme o movimento segue a mesma trajetória repetida centenas de vezes pelo primeiro dono. Quando a caneta é forçada a escrever seus riscos geralmente saem incompletos, falhados, em tons irregulares, até que se encontre a inclinação correta, a posição da pena, o peso adequado que se põe sobre a caneta. Nesse caso uma caneta possui impressões digitais delineadas ao longo dos anos. Ela tem a memória de seu dono. Não se diz aqui que o trabalho sob o capitalismo não seja alienador. Ele é. Também não se diz aqui que o apego à mercadoria – mesmo quando esta esteja conectada a uma importante recordação – não resulte da experiência capitalista que estabeleceu a mercadoria como mediadora das relações sociais de modo a condicionar as vontades, os desejos e os sentimentos humanos. E que, igualmente por isso, as vontades, os desejos e os sentimentos são fetiches, são um desvio de suas aspirações para uma mercadoria e suas características, um objeto que parece ter uma existência própria cuja função – material e simbólica – é prometer ao homem a realização e satisfação daquilo que ele ambiciona. O que se pondera, no entanto, diz respeito à capacidade política que os homens e mulheres possuem (e podem desenvolve-la) para lidar com o mundo do capital e com os interesses da burguesia. É certo que as ideias dominantes exercem enorme e permanente pressão sobre os trabalhadores para faze-los acreditarem nos mesmos valores morais e éticos de seus superiores. Se esta operação consegue pleno sucesso é outra coisa.
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Sobre isso, Christopher Hill registrou que durante a revolução de 1640 muitos camponeses se dividiram entre os dois blocos em luta, sob uma experiência comum de exploração e sob promessas de melhores dias. Disse ele que o mesmo vento que sacudiu aqueles trabalhadores podia ganhar o rumo da direita ou da esquerda. Ele fez referência aos monarquistas e aos parlamentaristas, respectivamente. E havia ainda os camponeses e artesãos organizados em partidos independentes face essas duas grandes forças políticas e sociais dominantes. Significa que o terreno religioso era um cativeiro para os trabalhadores, mas que servia também de espaço para a formação de uma cultura democrática. Não à toa muitas seitas e congregações de origem protestante se desfizeram das hierarquias de modo a permitir que qualquer trabalhador de baixa extração pudesse ministrar um culto. Pensava-se assim que a hierarquia episcopal era o principal obstáculo a uma reforma religiosa radical (o que representava também uma reforma social). Em suma, as instituições religiosas foram tomadas e usadas como máquinas de guerra (HILL, 1987, p.45) É uma reflexão dos anos 40 do século passado, amadurecida décadas depois noutros livros. Edward Thompson foi mais incisivo do que Hill nesse ponto quando examinou o engajamento político de artesãos e camponeses no contexto do século XVIII na Inglaterra. Ele mostrou que a divisão política de muitos trabalhadores entre a aceitação e a recusa da nova ordem se processou a partir de experiências sociais comuns e partilhadas, mas interpretadas de diferentes maneiras. Disso ele seguiu argumentando que a compreensão acerca da classe trabalhadora e de suas distintas e muitas vezes contraditórias e divergentes práticas deveria decorrer de uma leitura sobre as experiências que os trabalhadores vivem durante suas vidas e os modos com os quais eles lidam com elas. É uma proposta relativamente simples e empiricamente sólida, distante de reflexões áridas e desprovidas de pesquisa histórica. Em linguagem teórica, pode-se dizer que a heterodoxia política da classe trabalhadora tem caráter temporário e é formada em meio a combates de ideias, de práticas, de valores religiosos (ou da ausência deles), de crenças morais, enfim, de posições que se opõem num sem número de assuntos, mas que pode chegar, por seu próprio esforço (e aqui estão inclusos seus partidos, sindicatos e as tradições e cultura elaborados ao longo do tempo), a um ponto comum. É uma classe em permanente formação, e é nesses termos que ela precisa e deve ser olhada. Em específico, interessa a seguir abordar o surgimento dos frigoríficos no contexto do mundo do trabalho, as mudanças na tecnologia e nas formas de organização da produção e, fundamentalmente, a presença e a situação dos trabalhadores nesse processo.
5. Trabalhadores e regimes fabris em frigoríficos (1880-1960) No interior dos Estados Unidos, no ano de 1890, um açougueiro e seu ajudante levavam aproximadamente oito a dez horas para abater e destrinchar um boi em uma fazenda. Em Chicago, dentro de um frigorífico, um boi era abatido e processado em torno de 35 minutos. Grandes frigoríficos matavam cerca de 1.500 a 2.500 cabeças por dia. Eles abatiam em torno de 6.000 porcos diariamente. Ovelhas também eram mortas em número similar para abastecer o mercado de consumo de carne. Pode-se dizer que os frigoríficos, além de viabilizarem a produção e distribuição de carne em proporções inimagináveis, criaram um espetáculo acima da imaginação. No caso dos Estados Unidos, em muitas partes do país, a
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escala e o modo de trabalhar e de produzir faliram quase que imediatamente diante da capacidade produtiva dos frigoríficos. Historicamente é um fato que pode ser generalizado. A experiência de abater em pequena escala (e de atestar a procedência do boi, do porco ou da ovelha fatiada e posta a venda) tornou-se obsoleta e foi quase que inteiramente apagada. O que veio depois disso desenvolveu-se engrenado na lógica capitalista. O processamento da carne evoluiu baseado na divisão do trabalho. Ele se beneficiou do conhecimento organizado desde, pelo menos, a revolução industrial na Inglaterra. Contudo, os frigoríficos precisaram formar (ao mesmo tempo encontrar) trabalhadores que se adequassem às demandas do trabalho com a carne: tarefas repetitivas e difíceis em meio ao frio, ao gelo e a graxa, jornadas longas e salários insuficientes para a simples reprodução biológica, o que fazia da vida em família uma exigência. É certo que o trabalho nos frigoríficos se desenrolava igualmente às demais ocupações capitalistas, organizado para a extração da mais-valia, pressionado e subordinado pelo gerenciamento da empresa, remunerado a valores apenas negociáveis no contexto de greves e de movimentos insurgentes, abusado em diversos sentidos (incluído o assédio sexual) e destituído de qualquer direito ao emprego, fato que tornava os trabalhadores ainda mais reféns dos frigoríficos. Ao mesmo tempo, essas características têm especificidades no universo dos frigoríficos. Nesse caso, precisamos examinar a dinâmica de interação com o processo de produção e tudo que se desdobra dela, o que será feito aqui e nos capítulos seguintes. Nesse mesmo sentido, penso que a trajetória histórica da indústria da carne – e suas seguidas inovações tecnológicas e reorganização do trabalho -, há outros três grandes aspectos que pretendo discutir ao longo do restante desse livro: (i) as condições de trabalho, (ii) a relação do trabalhador com seu trabalho e com a empresa e (iii) a resistência política possível. Em grande medida, manufaturar carne significa também produzir seus próprios trabalhadores, retirar deles – ou impor-lhes – características que determinam suas vidas basicamente como objetos explorados pelo capital. Jurgis, o lituano recém empregado num frigorífico dos Estados Unidos, editou essa experiência. Durante boa parte do enredo criado por Upton Sinclair, discutido na primeira parte desse livro, Jurgis não conseguiu enxergar solução para sua pobreza e desvantagem na vida que não fosse o trabalho e a submissão. Somente quando chegou às raias do desespero recorreu e incorporou a ideologia e a prática socialistas. Este pode não ser um caso representativo de trabalhadores com trajetórias semelhantes às de Jurgis - nem mesmo na literatura -, mas expõe as pressões exercidas pelo capital sobre o trabalho que se traduzem nas relações sociais de extrema desigualdade entre os feitores e os trabalhadores do frigorífico. O assédio feito pelo chefete da esposa de Jurgis para conseguir favores sexuais mostra o quanto a exploração naquele frigorífico podia exceder limites morais que ainda mantemos de pé no tempo presente e que foram – e são – continuamente violados. O contexto em que homens e mulheres, como Jurgis e a esposa, se veem pressionados face a diferentes assédios de seus superiores tem relação como algum tipo de despotismo do mercado. Um grande número de trabalhadores demandando emprego é um elemento que certamente funciona em favor das empresas. Nessas condições os trabalhadores ficam bastante vulneráveis e indefesos aos comandos dos chefes, expostos a condições ilegais ou abusivas de trabalho. Em tal circunstância, a coerção é exercida apoiada na dinâmica do
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mercado de trabalho onde, geralmente, o desemprego funciona como desarticulador de iniciativas e ações voltadas para estruturar direitos sociais. Mas a repressão visa também idealizar e fabricar tipos específicos e funcionais de trabalhadores. Este é um processo mais complicado do que reprimir e esperar a submissão do trabalhador. Espera-se engajamento. Antônio Gramsci tratou desse ponto. Ele formulou uma abordagem esclarecedora a respeito de como o capital requer constantemente mudanças no perfil dos trabalhadores de modo a adequá-los às condições de trabalho e às ideias dominantes do momento. Ele desenvolveu tal raciocínio comparando distinções do capitalismo desenvolvido na Europa e nos Estados Unidos, argumentando que a racionalidade presente no segundo não havia prosperado no primeiro porque enfrentou uma resistência conservadora, marcada por forte legado feudal. Deduziu disso que o Fordismo, sistema de organização do trabalho criado por Henry Ford cujo objetivo é a produção em massa, seria a característica predominante do capitalismo no início do século passado. Sua análise acerca do fordismo o levou a afirmar que nos Estados Unidos “a racionalização (fordismo) determinou a necessidade de elaborar um novo tipo humano, em conformidade com o tipo de trabalho e de processo produtivo.” (GRAMSCI, 1978, p.317.) Num plano mais político de investigação, Gramsci propôs perceber a organização do trabalho como o principal elemento de estruturação da relação de dominação de classe, do estabelecimento de valores éticos e morais facilitadores da persuasão do capital sobre o trabalhador. Desse modo, a extração da mais-valia resultaria do trabalho propriamente dito e do convencimento – da persuasão – do trabalhador. Em grande medida, muitos estudos marxistas e não marxistas sobre o trabalho têm identificado que coerção e persuasão são práticas utilizadas articuladamente, e é melhor vê-las assim. De fato, é difícil encontrar o uso da persuasão por meio de recompensas financeiras fora do limitado esquadro capitalista que manteve segmentos minoritários de trabalhadores relativamente bem pagos desde o final do século XIX. O objetivo era pacificar as relações entre capital e trabalho, neutralizando conflitos que pudessem retardar e prejudicar a produção. Isso não alcançou e não alcança toda a classe. A maior fração corre por fora desse circuito, e mesmo a fração menor, que se vê selecionada no mercado de trabalho, partilha condições de trabalho dos estratos mais empobrecidos. Intensificação do trabalho, cansaço excessivo, tédio, adoecimento e temor do desemprego são alguns dos principais aspectos partilhados. Por difícil que seja pensar tais práticas conectadas, o raciocínio para a pesquisa se beneficia à medida que se considere as relações e o regime de trabalho como resultados da luta de classes. E no caso dos frigoríficos, numa escala histórica que corta o século XX, coerção e persuasão devem ser coordenadas vistas e utilizadas articuladamente. Até o começo do século XX esta próspera indústria foi mostrada como motivo de orgulho nacional, uma filha de seu tempo, estruturada em moldes imperialistas. Sua internacionalização fez-se rapidamente na direção da América do Sul, onde estabeleceu suas principais filiais. De lá enviava charque e enlatados para países europeus e os Estados Unidos, principalmente no contexto da 2ª Grande Guerra (Somente a Swift, instalada no sul do Brasil, exportou mais de 9 toneladas de carne processada em 1939). Some-se a isto a formação de um fortíssimo truste cujo paradigma foi contemporâneo a famosa Standart Oil. Nesta linha de desmontagem a simplificação do trabalho (baseada em sua divisão) possibilitou a contratação de trabalhadores sem qualificação, o que viabilizou uma política salarial barata. Este foi, desde o começo dessa indústria, o pilar central que sustentou a
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trajetória bilionária da indústria da carne. Pressionados a aceitar péssimas condições de trabalho os imigrantes, recém-chegados da Europa, povoaram os frigoríficos estadunidenses. Poloneses e lituanos eram maioria, e o pouco ou nenhum domínio da língua inglesa os tornava presas fáceis para os matadouros. Juntos a trabalhadores alemães, irlandeses, italianos e de outras nacionalidades em menor número eles formaram um volumoso exército industrial de reserva que fazia fila às portas dos grandes matadouros em Chicago. Em meio a essa multidão os representantes dos frigoríficos saíam a recrutar os mais fortes e aparentemente qualificados, sem qualquer negociação acerca de salários ou jornada de trabalho. Apenas diziam: “Venham!”. A produtividade também estava calcada na fartura de mão-de-obra. Em 1904, num dos grandes frigoríficos de Chicago, 230 trabalhadores abatiam e processavam 105 bois por hora. Com tantos homens e mulheres aguardando trabalho naqueles frigoríficos a produção per capita era definida dia-a-dia. O pagamento seguia a mesma lógica e oscilava dentro de uma escala de vinte taxas diferentes, variando de 16,5 a 50 centavos de dólares por hora (PACYGA, 2008, p.156). As diferenças entre tantas nacionalidades, muitas vezes transformadas em rixas pessoais, dificultavam a organização sindical e repetiam um recurso já velho conhecido do capital naquele país, que fora fundamental para alavancar o capitalismo. Estimular a imigração de trabalhadores pobres era um método, e contava com a forte intervenção do Estado para viabilizar o transporte dessa mercadoria. Durante a crise dos anos 30, John Steinbeck percebeu que este método esteve ativo desde, pelo menos, o século XIX, quando chineses e hindus realizaram a construção das ferrovias estadunidenses, e quando mexicanos povoaram os campos californianos para trabalhar até oporem algum tipo de resistência organizada e serem substituídos por uma nova leva de importados, os filipinos (STEINBECK, 2003, 71-77). Este método se reforçava ainda com o trabalho de toda a família nos frigoríficos que, não raras vezes, era recrutada em bloco. A despeito de a lei, em certos estados, proibir o emprego de menores de quatorze anos, muitos pais induziam seus filhos a mentir sobre sua idade. Por fim, a compressão salarial fazia com que a sobrevivência de uma família dependesse do assalariamento de todos. Tais condições históricas fertilizaram o crescimento de grandes companhias que iriam monopolizar o mercado da carne, particularmente durante o contexto da segunda Grande Guerra, quando a Europa aumentou substancialmente suas importações. Foi também a partir daquele momento que se definiu um novo modelo de produção e de consumo da carne, estruturado numa nova divisão internacional do trabalho onde tal produção se concentraria principalmente nos Estados Unidos, Canadá e parte da América Latina. A formação das gigantes Swift, Armour, Wilson e Cudahy nos Estados Unidos esteve completamente articulada a tais condições históricas, permitindo-lhes uma participação superior a 80% no mercado interno até a década de 1950. O padrão de consumo de carne naquele país tornou-se uma medida para grande parte do mundo e foi adotado à proporção que o preço da carne diminuía. Raciocinando em relação aos Estados Unidos, o consumo per capita de carne dobrou em cem anos, chegando a aproximadamente 100 quilos em 2002. Cabe ainda ressaltar que a taxa de lucro nesta indústria é das mais baixas, característica de uma produção em massa que opera escorada na intensificação do trabalho. Durante a década de 1990, de cada 100 dólares faturados na produção de carne de boi, 93 dólares eram gastos com custos da produção. (Fitzgerald, 2010, p.62). Sinteticamente, as alterações nos padrões de
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consumo da carne podem ser definidas pelo (i) o barateamento do preço da carne de boi, de suíno e de frango; (ii) novas necessidades e noções de higiene que modificaram a compreensão popular sobre o preconceito contra o consumo de carne abatida por outros; (iii) o desenvolvimento de uma logística que permitiu uma distribuição mais adequada (isto é, lucrativa); (iv) e o emprego de tecnologias que possibilitaram o congelamento da carne sem efeitos colaterais visíveis. A este processo de industrialização correspondeu o desenvolvimento de uma cadeia produtiva, monopolizada por poucas empresas e basicamente dividida em etapas justapostas, especializadas (i) no melhoramento genético dos animais, (ii) na produção dos insumos, (iii) na produção da carne viva e (iv) no seu processamento. Com isso combinou-se o emprego de trabalhadores baratos com investimentos em ciência e tecnologia, algo que permitiu a redução do prazo de engorda dos animais e o melhor aproveitamento das rações. Para exemplificar, o caso do frango é representativo desta evolução tecnológica. Atualmente o peso do frango para abate é de 2,44 Kgs, mas já foi de 2,25 Kgs em 2000, 1,9 em 1990, 1,8 em 1980, 1,7 em 1970, 1,6 em 1960 e 1,5 em 1930. Na década de 1940 um frango ou uma galinha viviam 3,5 meses até a degola. Vinte anos depois este tempo foi reduzido para dois meses até encolher à casa dos 41 dias em 2009. Finalmente, no que se refere à etapa de processamento da carne realizada nos frigoríficos, pode-se dizer que a tecnologia não modificou o trabalho desde a inauguração da indústria da carne. Em síntese, esfolar e retalhar bois, porcos e aves ainda requerem um tipo de trabalho considerado difícil e intensificado. De um lado estão os animais a serem desmontados. De outro estão os trabalhadores, manejando serras e facas. Sobre isso, têm razão o antropólogo Michael Broadway e o geógrafo Donald Stull quando argumentam que a mudança no trabalho executado nos frigoríficos deu-se por sua crescente intensificação, a despeito de todo incremento tecnológico existente (STULL & BROADWAY, 1995). Em qualquer caso que se busque observar, o que se vê desde os tempos de Upton Sinclair são trabalhadores tão completamente expropriados que se sentem pressionados a aceitar condições de trabalho cada vez mais precárias. Certamente este é um importante problema para a pesquisa histórica que aqui tentei sublinhar. Além disso, o que se pode dizer sobre a resistência dos trabalhadores nesse período?
5.1. Trabalhadores e Organização Sindical: a experiência americana (18801960)5 No plano da organização política dos trabalhadores o sindicato não foi o recurso imediato para lidar com uma indústria que já se mostrava oligopolizada e cujos regimes de trabalho eram despóticos. Novamente a leitura desse tempo feita por Upton Sinclair, embora bastante estetizada, dramatizada, é o retrato mais inteiro que se tem acerca da realidade vivida nos frigoríficos em Chicago. A historiografia confirma isso, mesmo que apresente nuances diferentes.6 Os contratos de trabalho, muitas vezes informais, geralmente eram negociados pelos próprios trabalhadores Neste capítulo reproduzo e amplio argumentação expostos no artigo “Uma História Social comparada do trabalho em frigoríficos: Estados Unidos e Brasil (1880-1970).” (BOSI, 2014) 5
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mobilizados por local de trabalho. De modo geral, as negociações entabuladas entre empregados e empregadores definiam as relações de trabalho mais do que as regras gerais na forma da lei. (GUÉRIN, 1974). Questões como o salário, a jornada, horas extras, ritmo de produção, pensão, férias, estabilidade no emprego e demais direitos ligados ao trabalho eram (e continuam sendo) estabelecidas em acordos coletivos cuja efetivação deveria ser fiscalizada pelo Estado. Foi em 1935, na trilha do colapso de 1929, que o Congresso Nacional aprovou o National Labour Relations Act (NLRA), cujo objetivo buscava garantir negociações coletivas, arbítrio legal sobre conflitos trabalhistas e a existência de sindicatos independentes. (USA, 2009; DANNIN, 2006). Este último pilar do NLRA mostrou-se útil para o fortalecimento das lutas nos frigoríficos que haviam pontuado os anos 1910 e 1920 e ajudou na criação e atuação de sindicatos específicos da categoria com alguma projeção nacional, como a United Packinghouse Workers (UPWA) e a Amalgamated Meat Cutters (AMC), os dois principais sindicatos do ramo. Conforme recordou Herbert March, um trabalhador comunista, o NLRA não eliminou as práticas anti-sindicais do patronato, mas teve “o efeito de estimular a organização dos trabalhadores”. (BALANOFF, 2011, p.36). A principal dificuldade enfrentada pelos sindicatos foi a organização de trabalhadores com tantas diferenças culturais e temor de perderem o emprego. Isto mudou nos anos 1930. Primeiramente, pode-se inferir que o crescimento da indústria da carne (salientado anteriormente) se fez apoiado em numerosa força de trabalho com pouca ou nenhuma qualificação, unida ao longo do tempo por uma experiência comum de exploração e de subalternização nos matadouros. Pensada como uma pirâmide, a base desta força de trabalho (especialmente estrangeiros e negros) forjou laços de identificação e de solidariedade suficientemente sólidos para nutrir ações políticas em torno da valorização de seu trabalho. Numa passagem emblemática foi o que esclareceu um dos entrevistados do “United Packinghouse Workers of America Oral History Project” que trabalhou numa planta da Swift até 1926: Íamos para processar a carne de manhã e abater no período da tarde, cortando a carne, transformando-a em lombos e costeletas de porco, e tudo assim, na parte da manhã. E na parte da tarde era o abate. Havia muitos trabalhadores poloneses e trabalhadores negros. Tivemos uma estreita relação de trabalho - por mais estranho que possa parecer - uma união. Negros e brancos eram explorados na indústria de processamento por muitos, muitos anos, mas havia uma sensação inata de que um era o suporte do outro. Trabalhadores poloneses naquele tempo não tinham ressentimentos dos negros. (HALPERN & HOROWITZ, 1999, p.33)
O trecho gravado na década de 1980 certamente carrega a intencionalidade de um trabalhador negro militante que apostou parte considerável de sua vida na estruturação de um sindicato interracial. Por este motivo, sua visão pode ter minimizado a discriminação racial presente também nos frigoríficos. (TUTTLE, 1996). Além disso, é de se esperar que a
A argumentação aqui apresentada sobre este assunto se restringe às experiências dos trabalhadores nos frigoríficos e, portanto, à organização política e sindical neste segmento. Não se tem a pretensão de avaliar o estado da arte da historiografia do trabalho e das relações sindicais nos Estados Unidos. 6
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memória de um sindicalista destacasse o protagonismo do sindicato na mobilização dos trabalhadores (o que ele fez no restante da entrevista). Contudo, feitas essas ressalvas, o que sobressai em seu discurso é o peso conferido às condições de exploração do trabalho partilhadas entre brancos estrangeiros e negros, e que parecem ter fermentado uma atmosfera favorável ao enfrentamento das políticas dos frigoríficos e à recepção dos sindicatos. A política das empresas voltada para conseguir a lealdade de seus empregados pode ser interpretada como um sinal consistente de que os trabalhadores estavam se juntando e se ligando aos sindicatos ao longo dos anos 1930 e 1940. Tal política envolvia férias, proteção parcial contra o desemprego, um plano de pensão no caso da Swift, programas sociais, recreação e outras medidas dirigidas para reduzir a rotatividade e reforçar a confiança dos trabalhadores nos frigoríficos. (HOROWITZ, 1997, p.26) Desde cedo, a numerosa força de trabalho ocupada nos frigoríficos chamou a atenção de grupos militantes de esquerda. A Trotskyst Communist League, dissidência do Partido Comunista, cuja atuação foi intensa nos anos 30, esteve presente na organização de greves, na criação de sindicatos e nas tentativas de superar as divisões entre os trabalhadores dos frigoríficos, particularmente na planta da Hormel, em Austin, onde havia uma intervenção mais sistemática. O mesmo aconteceu com os demais comunistas. O repertório político contrário ao imperialismo era hábil em relacionar e esclarecer a responsabilidade do capitalismo sobre a exploração do trabalho e a condição operária miserável, elaborando explicações coerentes e bastante fundamentadas política e economicamente. De algum modo, esta militância internacionalista ajudou a mitigar as distâncias forjadas pelas diferenças étnicas, mas não era suficientemente efetiva numa via sindical menos revolucionária que pusesse dinheiro nos bolsos dos operários e arrancasse direitos ligados ao trabalho (mesmo que em caráter provisório). Em grande medida isto esclarece porque tais organizações de esquerda não chegaram a ser uma força dominante. A solidariedade entre os trabalhadores formou-se também, em grande medida, fora dos matadouros, nos bairros onde conviviam as comunidades estrangeiras, a negra e a branca, ao fundo dos currais que abasteciam os frigoríficos de Chicago. Como avalia James Barret, tais divisões étnicas eram reais, mas os trabalhadores encontraram um “chão comum” (em duplo sentido) onde desenvolveram laços de sociabilidade e processaram as experiências (geralmente ruins) do trabalho nos frigoríficos. (BARRETT, 1990, p.65) Juntar-se também passou a ser visto como o derradeiro recurso para lidar com as condições de trabalho insalubres e o ritmo veloz da produção. Não encontrei registros suficientemente sistemáticos a respeito da organização sindical referente aos trabalhadores dos frigoríficos. A literatura clássica do início do século XX geralmente escolhe os mineiros, os trabalhadores têxteis e os ferroviários para falar sobre esse assunto. Do ponto de vista da formação da consciência de classe é comum encontrar visões que ligam a organização sindical americana, na virada do XIX para o XX, em experiências e tradições políticas europeias como o Cartismo, o Anarquismo e o Socialismo. Em alguma medida, os Industrial Workers of the World (IWW), entidade de ideologia revolucionária originada nos Estados Unidos, também ajudou na construção do ideário político dos trabalhadores estadunidenses até ter sido duramente reprimido pelo Departamento de Justiça Norte-
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americano. Em especial, os estudos acerca desse tema examinam detidamente que impacto as etnias e nacionalidades causaram nesse processo. A principal e mais importante conclusão encontrada parece óbvia. A luta dos trabalhadores por melhores condições de vida e para construir seus sindicatos constituiu uma consciência de classe razoavelmente forte. Mesmo considerando trabalhadores que antipatizavam ou tinham aversão a sindicatos e a políticas de enfretamento, nas primeiras décadas do século XX os trabalhadores começaram a ter muitas de suas exigências aceitas pelos patrões e pelo Estado. Mas antes disso já havia, durante a segunda metade do XIX, ideias em alguma medida radicais de organização dos trabalhadores urbanos. Os Knights of Labor, entidade criada em 1869, foi recebida com entusiasmo pelos trabalhadores se levarmos em conta o crescimento do número de filiados. Em 1880 ela reunia 28 mil filiados. Quatro anos depois saltou para 100 mil, e em 1887 atingiu 1 milhão de trabalhadores. Durante sua existência ajudou greves, piquetes e defendeu e estimulou a criação de cooperativas. (BRISSENDEN, 1920, p.30-33) Sua pauta tinha relação direta com as condições de trabalho vividas nos diversos ramos da produção, como a jornada de 8 horas semanais num contexto em que havia categorias que se ocupavam os sete dias da semana durante 10 horas diárias. Era o caso de famílias inteiras que fabricavam roupas em ambiente doméstico, habitando “apartamentos” de três ou dois cômodos nas conhecidas tenements, cortiços planejados para famílias pobres, principalmente imigrantes. Geralmente havia um quarto de 92 metros onde o trabalho era realizado, muitas vezes sob a luz de velas. O outro cômodo era a cozinha. O banheiro era coletivo, localizado no corredor. Não havia água, nem gás. Nessas condições toda a família se envolvia na confecção de roupas, integrando o put-out-system. Não faziam parte da fábrica. Dela recebiam a matéria prima e os moldes. Entregavam a encomenda pronta e o pagamento era feito. (BIAL, 2002; RIIS, 2017) Além disso, seu caráter podia ser resumido por um slogan: “o prejuízo de um é a preocupação de todos”. Enfatizava o princípio da cooperação, admitia negros e mulheres como filiados. O funcionamento da entidade definiu a assembleia geral como lugar onde a pauta era construída e votada e onde se escolhia os filiados que representariam todos os demais. Além disso, os Knights of Labor defendiam a inclusão de todos os trabalhadores produtivos, assalariados ou não. (BRISSENDEN, 1919, p.30-37) Quando os Knights of Labor começaram a perder força para a I.W.W. significou uma mudança na concepção de representação sindical. Progressivamente a estrutura sindical, e suas diretorias, teriam autonomia para negociar com o capital e com o Estado. Noutra direção, parte da historiografia americana concluiu que os trabalhadores não eram radicais, ou que não teriam se convencido de que a revolução proletária terminaria com a pobreza e o trabalho precário. A certeza disso decorria da preferência por solucionar a luta de classes por meio de negociação, inclusive para evitar greves e expedientes dos trabalhadores que interrompessem a produção de mercadorias. Essa leitura toma como referência a greve realizada em Pittsburg, em agosto de 1890, quando e onde patrões e o sindicato dos trabalhadores assinaram um acordo. A partir dali lançou-se a ideia de que capital e trabalho poderiam elaborar e selar um acordo coletivo nacional a respeito de questões geralmente tratadas em greves. Se constituía progressivamente a ideia de que seria possível afastar-se da luta de classe: “Sem os acordos o movimento trabalhista dificilmente poderia evitar ‘panaceias’
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e reconstituir-se com base no oportunismo [as correntes de esquerda]”. (PERLMAN, 1922, p.145) A presença de ideias e de práticas caracteristicamente revolucionárias entre os trabalhadores da cidade perdeu espeço e peso a partir dos anos 20. Em grande medida, isso aconteceu porque a política policial do Estado pressionou os trabalhadores e criminalizou condutas, valores e manifestações ligadas ou identificadas ao ideário revolucionário. O caso emblemático foi o julgamento e a execução, sem provas definitivas, dos anarquistas Sacco e Vanzetti. (SHACHTMAN, 1927) É importante pensar que nesse período Frederick Taylor já tinha publicado artigos e monografias que anteciparam os argumentos expostos em seu livro Princípios da Administração Científica, de 1911. Sua ideia de mensurar o tempo das tarefas que compunham a produção e de reorganizá-las de modo a torna-las mais rápidas e eficientes ganhava terreno nas grandes indústrias. Reprogramar processos de trabalho significava encurtar o tempo de cada tarefa realizada para produzir as mercadorias. Ao mesmo tempo mudanças tecnológicas realizadas na produção pressionou os postos de trabalho dos artífices cujas habilidades lhes garantiam estabilidade no emprego e melhores salários. Nesse contexto, “Os trabalhadores especializados, que frequentemente empregavam crianças como ajudantes, foram substituídos por uma massa de imigrantes adultos recém chegados aos portos das cidades.” (FORNER, 1973, 11-31) A nova maquinaria permitiu que os imigrantes pudessem executar atividades que antes requeriam habilidades específicas. Muitas empresas se beneficiaram disso e de uma dinâmica internacional que favorecia os capitais que se acumulavam nas grandes companhias. No período de 1898 a 1903, surgiram mais de 250 grandes empresas resultantes de fusões ou de acordos entre elas. Em 1901, a maior delas, a U.S. Steel, reuniu 1 bilhão de dólar, uma cifra quase impossível de se imaginar naquela época. Formaram-se trustes do açúcar, do fumo, do petróleo, do aço e de outras mercadorias. Três dos principais trustes estavam sob o domínio da Standard Oil (de propriedade dos Rockefellers), dois deles pertenciam a J.P. Morgan & Co. (de John Pierpont Morgan), a família Vanderbilts dominava o truste do transporte e da ferrovia, e o truste do aço era comandado por Andrew Carnegie. De 1890 a 1910, grande parte da riqueza produzida nos Estados Unidos foi capitalizada pelos Rockfellers, Morgans, Vanderbilts, Carnegies e outros magnatas dos trustes. (FORNER, 1973, 11-31) Tal prosperidade econômica não chegou aos trabalhadores. Em 1914, o custo de vida era 39% mais alto do que tinha sido em 1890. Ao mesmo tempo o valor real dos salários não havia aumentado em relação aos valores praticados na década de 1890. A utilização de trabalho feminino e infantil aumentou e barateou o custo da produção uma vez que se pagava menos por ele. Em 1900 havia 284 mil crianças entre 10 e 15 anos trabalhando em fábricas, fiações, minas e lojas. Três anos depois, as crianças da Fiação Têxtil Philadelphia fizeram greve para diminuição das 60 horas de trabalho semanais e para que pudessem frequentar escola. Exibiam consigo tabuletas com os dizeres: “Nós queremos ir a escola! Mais escolas e menos hospitais! Prosperidade! Onde está nossa parte? 55 horas ou nada!” (FORNER, 1973, p.15-16) Um registro importante sobre s situação da classe trabalhadora nos Estados Unidos naquele período diz respeito ao trabalho infantil em frigoríficos. Upton Sinclair traduziu as precárias condições de vida e de trabalho de quem se empregava nos matadouros. Em Chicago, onde se concentrava a indústria da carne, muitas crianças substituíam adultos no
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trabalho. Inspetores de fábricas relataram que alguns dos garotos “atuavam como açougueiros, sangrando ovelhas, carneiros e porcos; outros cortavam a carne do boi recém abatido separando o couro da carne fresca; outros classificavam miúdos, empacotavam ou preparavam as latas onde as mercadorias eram transportadas.” Em diversos lugares “se podia encontrar um garoto no trabalho em máquinas perigosas. Nesse caso, seu pai estava incapacitado para trabalhar na máquina, e manter seu lugar no frigorífico dependia do trabalho feito pelo filho durante sua ausência.” (FORNER, 1973, p.16) Sob jornadas de 10 horas dentro dos abatedouros os acidentes eram constantes. À medida que elas perdiam o vigor ao longo do dia, o cansaço provocava desatenção no manuseio das facas e de máquinas. É um quadro que, em muitos aspectos, repete as descrições dos fiscais de fábrica sumariadas por Marx na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, e por Engels na década de 1840. A repressão às greves e demais movimentos dos trabalhadores era tão violenta quanto bizarra, e esta última característica a tornou intolerável naquele momento. Em 1912, na cidade industrial de Lawrence, Massachusetts, a polícia foi chamada imediatamente a intervir durante uma greve de trabalhadores têxteis contra a demissão e redução de salários provocadas por uma mecanização que intensificou o trabalho. Diversas entidades políticas organizadas em torno de grupos étnicos e nacionais como italianos, espanhóis, russos etc., participaram da construção e sustentação da greve. Mas o fato que condenou a repressão a greve deveu-se à prisão de crianças filhos dos grevistas. Por costume vivido na Europa, os trabalhadores enviavam seus filhos menores para casas de parentes tão logo começassem uma greve. Era uma medida de proteção às crianças para evitar, por exemplo, a fome decorrente da interrupção dos salários. Isso foi feito em Lawrence. As crianças eram levadas em grupos para New York e outras cidades. Com aproximadamente 30 dias em greve sete crianças foram presas na estação de trem, na companhia de seus pais que as conduziam para tomar o vagão até New York. Outras 200 crianças foram detidas na estação, juntos com seus pais, e impedidas de embarcarem rumo a Filadélfia. Trinta policiais espancaram, sufocaram e agrediram de muitas formas todos ali. Uma mãe grávida perdeu o filho. Quinze crianças e oito adultos foram presos e arrastados para o carro da polícia até a delegacia. Seguiu-se a isso uma onda de solidariedade que forçou a polícia a libertar os presos. Os trabalhadores que, antes recusavam a arbitragem da greve porque avaliavam que os patrões seriam favorecidos, concordaram em função do apoio popular alcançado pelo movimento. Nesse contexto, a Mesa de Arbitragem de Massachusetts foi constituída. Historiadores informam que a nação inteira pesava em favor dos grevistas e exigia que as fábricas negociassem. O governador de Massachusetts interveio. O governo federal interveio por meio da Secretaria do Trabalho. A greve de 1912 chegou ao fim com o atendimento da pauta, uma vitória conseguida principalmente devido à repulsão dos métodos da polícia. (FONER, 1965, p.306-328) Não tenho como decidir sobre qual visão historiográfica está apoiada em evidências históricas mais sólidas e numerosas. Por vezes ambas tendem a interpretações positivistas, que reproduzem a lógica da documentação selecionada para pesquisa. De qualquer modo, elas são unânimes em afirmarem a força e a determinação do movimento sindical americano na virada do século XIX para o XX. De tudo isso, como disse, não houve igual interesse de pesquisa entre os trabalhadores de frigoríficos e os demais. Mesmo as categorias ligadas aos serviços,
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tais como garçons, cozinheiros e ajudantes, tiveram suas participações em greves sumariadas. (KIMELDORF, 1999) No contexto dos anos 1930, em plena depressão econômica, a ação coletiva mostrouse uma forma eficiente para enfrentar e sobreviver àqueles problemas, embora as empresas avançassem contra todos os limites dos trabalhadores. Entre 1928 e 1933, por exemplo, os salários semanais pagos às mulheres caíram de 33 para 20 dólares de modo geral. O ritmo do trabalho e a má ventilação nos abatedouros causaram a morte de muitos trabalhadores, e quando alguém reclamava era ameaçado de demissão. Herbert March lembrou que durante a depressão o domínio dos encarregados pela produção incluía abusos e maus tratos de todo tipo que tendiam a ser tolerados mediante o medo de perder o emprego. Ele contou que às vezes, quando as pessoas se feriam, tinham medo de denunciar a lesão se fosse algo que não impedisse completamente o trabalho. Tinham medo de que o encarregado as demitisse e fizesse algum registro em sua ficha. Então permaneciam trabalhando, mesmo com pequenos cortes e lesões. (BALANOFF, 2011, p.53) Esta conjuntura motivou Bertolt Brecht a escrever uma peça entre 1929 e 1931 sobre os magarefes de Chicago e a crise do capitalismo vista por uma ótica marxista. Informado sobre o oligopólio da carne nos Estados Unidos, Brecht dramatizou a vida dos trabalhadores em meio à exploração do trabalho e à superprodução que causara a desmobilização de braços. Em passagem ambientada entre um grupo de desempregados a servirem-se de sopa caritativa, um trabalhador chega esbaforido e anuncia: “Vagou um emprego! Um emprego com salário. Na fábrica número cinco! É um emprego de merda. Corram!”. (BRECHT, 1996, p.32) A consciência expressada pela personagem exprime a tragédia da crise: emprego ruim, escasso, indiferente quanto à empresa, e mesmo assim uma opção considerada imperdível (e única) para quem não compreendia a natureza daquela crise. Premidos pelo desespero, ainda tinham que lidar com explicações conformistas e espetaculares: “Eu vou explicar [disse Joana, a líder dos ‘Boinas Pretas’]. A sua pobreza não reside na falta de bens terrenos – estes não dão mesmo para todos -, mas na sua falta de espiritualidade. É por isto que vocês são pobres”. (BRECHT, 1996, p.31) Embora a solução de Brecht para este drama previsse que os trabalhadores se organizassem contra o capitalismo, a resposta real parecia menos ousada, mensurando a pressão que a própria crise exercia sobre eles. Um emprego, mesmo ruim, era precioso para cruzar uma tormenta que não se sabia ser definitiva ou passageira. No contexto dos 40 anos seguintes o mercado para carne expandiu-se dentro e fora dos Estados Unidos. O faturamento dos frigoríficos permitiu ao patronato aplicar uma política de empregos e de salários considerada razoável pelos sindicatos, o que contribuiu para estabilizar o mercado de trabalho. Foi um período em que proliferaram acordos de envergadura progressivamente nacional, com cláusulas sociais inéditas que estabeleciam aposentadoria, estabilidade no emprego e algum controle sobre o processo de produção especialmente sobre a velocidade do trabalho. Quanto à força dos trabalhadores, pode-se medi-la especialmente pelas taxas de sindicalização que cresceram no período de 1930 a 1960, atingindo seu auge no início dos anos 1960, quando cerca de 90% dos trabalhadores do ramo eram sindicalizados, situação que lhes possibilitava negociações razoáveis em relação aos salários e às condições de trabalho. (FITZGERALD, 2010, p.60-61) Sobre a mudança na condição operária norte-americana em geral, Michael Burawoy observou que
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[...] as legislações trabalhistas e sociais ofereciam [no pós-guerra], ainda que limitadamente, aquilo que os operários mais queriam: segurança. A legislação social, especialmente a indenização por dispensa – embora reduzida, se comparada com o que ofereciam outros países -, significava que os trabalhadores não tinham mais que suportar as práticas arbitrárias de emprego. (BURAWOY, 1990, p.43)
Ao longo do período de 1940 a 1970 a média salarial de trabalhadores empregados em frigoríficos nos Estados Unidos manteve-se 20% superior à média salarial do setor industrial (HALL, 1995) e o regime de trabalho raras vezes recuou aos parâmetros verificados por Upton Sinclair em 1906. Localizar-se acima da média salarial registrada nas indústrias não representava o maior salário (que geralmente era pago no setor automobilístico e de produção de bens duráveis), mas significava uma boa posição relativamente a uma série de outros empregos cujas exigências de qualificação frequentemente eram maiores. A expansão desta indústria constituiu uma das categorias mais numerosas do operariado norte-americano e isto se traduziu em força sindical. Além do salário, os trabalhadores conseguiram impor limites à velocidade da produção, restringindo o controle e a pressão dos gerentes de linha. O processamento da carne tornou-se, cada vez mais, um trabalho basicamente manual, intenso e realizado com facas. As inovações tecnológicas introduzidas incidiram sobre as tarefas que exigiam trabalho qualificado, como o abate e o processamento inicial (onde trabalhavam açougueiros com os maiores salários). Apesar de tais mudanças, nos anos 1960, a percepção dos trabalhadores da Armour era de que “se podia realizar o trabalho sem que ele o matasse”. (HOROWITZ, 1997, p.245) Em síntese, muitos estudiosos reconheceram que o welfare state americano alcançara igualmente aqueles trabalhadores, embora o trabalho em frigoríficos permanecera sendo visto como um serviço pesado e sujo e, portanto, estigmatizado, fato que levou as entidades representativas a pautarem a valorização da profissão. Ao mesmo tempo, com sindicatos mais consolidados, tornou-se corriqueiro que homens e mulheres trabalhassem 20 a 30 anos em frigoríficos e lá se aposentassem, amealhando uma casa própria, respeito na comunidade onde moravam, além de ajudarem (muitas vezes financiando inteiramente) os filhos a concluírem a universidade. Enfim, quem trabalhava nos frigoríficos partilhava um sentimento de que sua vida havia melhorado.
5.2. Trabalhadores em frigorífico: a experiência brasileira (1900-1970) 5.2.1. As Vilas Operárias Regime de Trabalho é uma chave importante para acessar de modo organizado o mundo do trabalho nos frigoríficos. Devemos pensa-lo como uma síntese conceitual que agrega modalidade de contrato, jornada e condições de trabalho. Por si só este último ponto implica muitos aspectos da produção tais como os sentimentos dos trabalhadores na linha de produção tais como satisfação, identificação, realização, monotonia, repetição, tédio, fadiga, alienação. Todos eles têm sido relevantes na investigação social acerca do trabalho e aqui serão
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utilizados, pelo menos, como um roteiro para sondar comparativamente a realidade dos trabalhadores empregados nos frigoríficos no Brasil e nos Estados Unidos. A moradia também é um ponto importante de ser abordado para examinar a situação desses trabalhadores porque, no contexto dos frigoríficos no Brasil do século XX, geralmente compôs o contrato (formal ou informal) de trabalho. No capitalismo industrial, e na perspectiva burguesa, a habitação popular sempre foi vista como parte do lucro do capital. Estruturar moradias próximas às fábricas revelou-se, desde cedo, uma opção vantajosa para patrões ou especuladores. As descrições dessas casas ajudam bastante a conhecer parte do modo de vida das famílias de trabalhadores. Na literatura prevalece o entendimento de que as habitações operárias eram precárias, insalubres e favoreciam a promiscuidade. Em “Germinal”, publicado em 1885, Emile Zola ofereceu uma descrição a respeito do que seria uma moradia habitada pelas famílias de trabalhadores empregadas nas minas de carvão na França de 1870. Zola realizou pesquisa de campo introduzido e acompanhado por uma liderança sindical. Além de sua memória, ele se beneficiou de aproximadamente 700 páginas de anotações sobre o que viu e ouviu. Naquele contexto, as casas pertenciam aos donos das minas e eram pagas pelos trabalhadores. Geralmente tinham dois cômodos divididos entre cozinha e quarto. Tentava-se obter alguma privacidade ao dormir separando o espaço onde ficava a cama do casal com uma cortina dependurada. Os banhos aconteciam na mesma bacia e água, e todos expunham sua própria nudez, mesmo que por poucos instantes. As casas quase não recebiam ventilação e a higiene era praticamente descuidada. (ZOLA, 1981) Antes de Zola, Friedrich Engels elaborou uma das interpretações mais clássicas sobre a habitação operária a partir de observação direta em bairros pobres de Manchester. Sua abordagem, divulgada desde meados da década de 1840, orientou uma percepção unilateral a respeito de habitações consideradas operárias. Engels as tratou como um fenômeno do capitalismo nas grandes cidades industriais e denominou tais habitações operárias de “bairros de má fama” ou de “bairros operários”, muitas vezes de propriedade dos donos das fábricas, caracterizando-as principalmente pela insalubridade e por aluguéis voltados a salários baixos. (ENGELS, 1988, p. 35-92) À época essa equação elucidou grande parte da dominação burguesa sobre os trabalhadores. Também foi ela que desencadeou o interesse e a crítica para as condições das moradias operárias. Mas havia um ponto pendente nessa abordagem. O julgamento de Friedrich Engels era tanto político quanto moral. Em sua visão os trabalhadores apareciam literalmente emporcalhados e sem escapatória àquela situação, senão por meio da derrubada do capitalismo. Além disso, apesar de identificadas como elementos da luta de classes, as habitações operárias permaneciam sendo apenas um mecanismo da dominação burguesa. Engels voltou a este tema na década de 1880 e reafirmou seu ponto de vista. (ENGELS, 1976) As críticas sobre a interpretação de Engels, que rapidamente se tornou representativa do marxismo, incidiram sobre seu ponto fraco, a dominação implacável da burguesia. Por um lado, ganhou espaço uma abordagem que considerou os trabalhadores sujeitos no processo de constituição social e cultural das vilas operárias. De outro lado, expandiu-se o interesse em estudos sobre reformas de bairros pobres ou habitações operárias centrados na relação entre design e disciplina fabril.
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Para o primeiro tipo de crítica é representativa a pesquisa de José Sergio Leite Lopes sobre as relações de trabalho na Companhia de Tecidos Paulista (indústria irmã da Casas Pernambucanas). O autor investigou o caso limite desse par fábrica-moradia e defendeu a compreensão de que a vila operária tem a função de mobilizar a força de trabalho. Ao lado disso, identificou e denominou em seu estudo sobre a Companhia de Tecidos Paulista um sistema de controle sobre os trabalhadores cuja extensão pretendia cobrir todas as dimensões da vida operária ligada à fábrica. Para o autor, o “sistema paulista” exercia um controle centralizado sobre quase todo o mundo operário. Pode-se relacionar a produção fabril, o domínio da moradia e da cidade, a produção agrícola da retaguarda territorial da fábrica (pequenas plantações) e a circulação mercantil dos bens de consumo dos operários sob a forma de uma feira administrativa. (LOPES, 1988, p.21) Compunha essa política uma milícia particular sob o comando do proprietário da fábrica e a promoção de atividades médicas, religiosas e recreativas para os trabalhadores. Teoricamente nenhum suspiro dos trabalhadores escapava ao sistema fábricavila operária, o que de fato não acontecia. Uma rápida alusão a isso identifica a criação, em 1941, da “Associação Profissional” dos operários têxteis da cidade de Paulista-PE, e de greves subsequentes até os anos 60. Mas este é um caso limite. A escala média da relação fábrica-vila operária fica bem abaixo disso. Quanto à resistência de trabalhadores no contexto da relação fábrica-vila operária (na realidade fábrica-cidade), um dos casos mais esclarecedores é Fordlandia, uma cidade operária edificada na floresta amazônica. (GRANDIN, 2010) Nos anos 20 Henry Ford decidiu apostar na produção de borracha a partir de látex. A solução para a matéria-prima e a mão de obra deu-se pela plantação de seringueiras e a mobilização dos trabalhadores locais que já conheciam o extrativismo, embora não detivessem experiência no beneficiamento industrial do látex. Na cidade foram construídas casas, um hospital, refeitório, escola, salão de bailes e até cinema. O salário era superior aos valores dos demais salários da região e era pago quinzenalmente, algo incomum naquele lugar. Apesar desse aparato, a falta de trabalhadores persistiu de tal modo que os critérios para a contratação cederam pouco a pouco. Tanto na extração do látex quanto na sua industrialização a administração não conseguiu enquadrar os trabalhadores de acordo com suas regras. Os horários rígidos, o trabalho em turnos, os horários inflexíveis para alimentação e descanso, a proibição de bebida alcoólica e uma vigilância sobre os trabalhadores constituíram um regime de produção percebido como tirânico. Tudo isso esbarrou fortemente na cultura dos trabalhadores. Eles não estavam acostumados àquela disciplina fabril. Sua noção de tempo colidia com os ritmos fabris. Na condição de ribeirinhos eles não trabalhavam quando chovia. Também não lhes agradava a alimentação servida na fábrica. Isso criou uma relação explosiva entre administradores e trabalhadores, e se desdobrou em muitos enfrentamentos. O mais grave deles resultou numa rebelião que destruiu muitas casas na cidade. (GRANDIN, 2010, p.230231) Por fim, a respeito dos estudos que buscaram ressaltar a habitação em termos de conforto e disciplina conseguidos por meio de design e reforma arquitetônicas, Margareth Crawford oferece ótimo levantamento das obras que estruturaram esta vertente. Mas, para o objetivo desse projeto pouco se pode aproveitar desta leitura, o que encurta os comentários acerca dela. (CRAWFORD, 1995)
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Com o devido cuidado, é possível avaliar que a maioria dos estudos sobre a relação fábrica-vila operária não sustenta um problema ou hipótese para pesquisa que esteja centrado nos trabalhadores e nas respostas que constroem face à exploração do trabalho. Propõem uma tipificação das casas e das vilas operárias, contam histórias sobre a sua constituição e tentam explicar a longa duração do par fábrica-vila operária. Mas isso não é um defeito. É uma característica que os torna úteis. Divulgam o tema e ensinam sua visão sobre as relações entre trabalhadores e patrões. Em suma, suas ancoragens são legítimas. Noutra direção, também interessa discutir qual foi a importância que os trabalhadores atribuíam à vila operária em frigoríficos. Esse exame histórico pode e deve ser feito numa escala específica, a partir de um contexto singular de dois casos regionalmente delimitados. Este é um procedimento que permite conhecer em profundidade as experiências vividas por trabalhadores relativamente à vida e ao trabalho em plantas produtivas que planejaram a habitação como componente de uma política voltada para a racionalização da produção e, ao mesmo tempo, compreender e generalizar alguns traços característicos do funcionamento dessa política e das respostas dos trabalhadores. Registrei em capítulos anteriores como os frigoríficos na região do Rio da Prata foram estruturados com capital estrangeiros, particularmente britânico e americano. A oferta de empregos pelo capital estrangeiro mobilizou o interesse de muitos trabalhadores em alguma medida, e os números das plantas recém instaladas indicam isto. A Armour, montada na antiga charqueada de Santana do Livramento/RS a partir de 1918, empregava 1.380 trabalhadores no abate de 5 mil bois por mês. A Swift, organizada na cidade do Rio Grande/RS, começou a funcionar em 1917 com capacidade de abate de 1.000 bois por mês, empregando 1,8 mil trabalhadores. Em Rosário do Sul/RS outra planta da Swift começou a funcionar em 1918, ocupando cerca de 1,5 mil trabalhadores e abatendo 600 cabeças por mês. Embora o trabalho em matadouros na maioria das cidades brasileiras ainda fosse identificado como um tipo de serviço ruim e precário, nos lugares onde os frigoríficos estrangeiros se instalaram a visão sobre o trabalho não se mostrava inteiramente negativa, principalmente devido ao grande número de empregos criados. Em Rosário do Sul, economia e sociedade vincularam-se fortemente à existência da multinacional que chegou a mobilizar diretamente cerca de 20% da população da cidade por volta das décadas de 1940 e 1950. Um ex-funcionário entrevistado por Tainá Valenzuela disse que trabalhou em diversas funções naquele frigorífico desde 1948, e que a cidade viveu tempos de prosperidade até a desativação da Swift-Armour nos anos 1980: Tinha cinema aquela época, tinha teatro, hoje não tem mais nada disso. [silêncio] Os clubes funcionavam todos com toda a perfeição, com todos os quadros sociais, hoje está praticamente extinto, quase, né?. [Contudo, entre um lampejo e outro, o entrevistado faz referência indireta às difíceis condições vividas pelos trabalhadores:] Acontecia muito dos funcionários roubarem carne só… É como está o Brasil hoje, só que eles roubavam era pra matar a fome “né”… [risos]. (VALENZUELA, 2011)
Uma análise do trecho acima identifica alguma ambivalência na memória desse trabalhador que se desdobra no reconhecimento de uma sociabilidade perdida. Ao tempo da Swift-Armour a sobrevivência era palpável e vinculada à empresa, de tal modo que a decadência
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do frigorífico representou igualmente a decadência da cidade. Este vínculo possuía lastro material. Quando instalados no Brasil no início do XX, os frigoríficos vindos de Chicago (e Anglo que tinha sede no Reino Unido) tentaram fixar os trabalhadores em suas plantas oferecendo-lhes salários maiores que a média na região, pagos sem atraso, e impondo-se como principal atividade econômica e fonte de empregos nas cidades onde se alojavam. A presença do frigorífico geralmente se tornava hegemônica na cidade e se convertia numa poderosa imagem para os trabalhadores de tal modo que, não raras vezes, a sua simples existência suplantava o que havia de negativo nas relações de trabalho. Em Santana do Livramento, a planta industrial da Armour chegou a empregar 85% do operariado local em 1937. (ALBORNOZ, 2000, p.148) Avaliando a desativação do Anglo em Pelotas nos anos 1980, um ex-trabalhador corroborou a dependência da cidade em relação ao frigorífico: “O que eu tenho a dizer é o seguinte: a gente lamenta muito ter fechado o Frigorífico. Empobreceu muito o bairro. Não só o bairro, como a cidade toda. Se fosse possível pedir que os ingleses voltassem a trabalhar novamente. Uma coisa impossível, mas... [risos]”. (SILVA, 1999, p.49) Ter emprego com alguma estabilidade modificava a percepção de trabalhadores acostumados à sazonalidade dos serviços. A prática da rotatividade tendia a perder força, e a perspectiva de se manter ligado à mesma empresa por 20 ou 30 anos se configurava em valor da classe. Somada ao recebimento dos salários sem atrasos, a condição operária nesses frigoríficos tornava-se uma posição a ser defendida pelos trabalhadores. Além da regularidade dos salários, nos lugares onde não havia uma tradição de trabalho fabril (e menos ainda com o processamento de carne) os frigoríficos tentavam recrutar e mobilizar trabalhadores a partir de um repertório incomum de atrativos que previa cinema, campos de futebol e tênis, farmácia, posto de assistência médica (com sala de curativos e médico) e uma vila com casas para os trabalhadores. Na década de 1920, anos iniciais de sua operação na cidade de Barretos/SP, segundo Célia Aiélo Araújo, o Anglo caracterizava tais condições como vantagens e as divulgava em propaganda no jornal local. (ARAÚJO, 2002, p.61) Em Santana do Livramento, a Armour oferecia moradia com aluguel menor que o praticado no mercado, além de parte da alimentação, como recordou uma entrevistada que foi filha, nora e esposa de trabalhadores daquela empresa: “O leite era da companhia. Lá em cima tinha a leitaria, e eles distribuíam o leite. Mas eu acho que era descontado em folha: leite e horta. Atrás do frigorífico sempre teve horta [...] A água a gente não pagava, era tudo da companhia. E o aluguel era muito baixo”. (ALBORNOZ, 2000, p.105) Neste sentido, a constituição de vilas operárias tornou-se um elemento importante na trama das relações de trabalho. Não somente porque indicava uma prática paternalista (e despótica) sobre os trabalhadores (também tentada noutros ramos industriais) para lhes fixar aos frigoríficos de modo a evitar o absenteísmo, estabelecer laços de dívida e lealdade, enfim, para facilitar, aperfeiçoar e potencializar as relações de exploração do trabalho, o que já foi bastante discutido pela historiografia. Sua importância histórica pode ser mensurada também como o lugar onde os trabalhadores formavam vínculos de solidariedade baseados na vivência de uma condição comum e passavam a articular interesses coletivos apoiados em condições de trabalho e de vida encaradas como direitos. Assim, as casas pertencentes aos frigoríficos tornaram-se, ao longo do tempo, alvo da reivindicação dos trabalhadores. Inicialmente disponibilizada como ingrediente do
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paternalismo patronal, a casa da empresa tendeu a ser incorporada ao universo dos trabalhadores como um direito, uma espécie de compensação ao trabalho duro realizado nos frigoríficos. Ao acreditarem na ideia da posse e defenderem o direito a casa, os trabalhadores invertiam o paternalismo patronal, principalmente quando os frigoríficos encerravam suas atividades, vendiam suas instalações ou desativavam as casas de sua propriedade. Além disso, as vilas certamente permitiram um tipo de entrosamento útil à construção de greves como a que aconteceu em 1931, no Anglo de Barretos, inicialmente contrária à substituição de brasileiros por imigrantes que aceitavam salários menores (particularmente lituanos). Recordando aquele ano de 1931, o militante comunista Irineu Moraes disse que a greve foi organizada sem preparação anterior, no calor dos contatos feitos de casa em casa, seguramente facilitada pela vila operária. (ARAÚJO, 2002, p.98-99) Todavia, o fato de serem vizinhos não forjava automaticamente uma identidade de classe. Muitas vezes a origem diversa dos trabalhadores bloqueava contatos e relações densas de longo prazo, a exemplo do que aconteceu nos EUA durante as primeiras décadas do século XX. Tais fronteiras existiam principalmente entre brancos e negros, entre brancos nacionais e brancos estrangeiros, entre trabalhadores de religiões e igrejas rivais, e entre trabalhadores de filiação ou orientação política conflitantes. Uma radiografia desta classe durante uma greve revela as arestas que delimitavam tais distâncias, como foi o caso de 1931, cujo resultado visível nos quatro anos seguintes mostrou nítido declínio na contratação de estrangeiros para o frigorífico. Entre 1927 e 1931 foram contratados 650 brasileiros e 228 estrangeiros, sendo 82 lituanos, 54 alemães, 41 sírios, 40 iugoslavos, 26 poloneses, 23 austríacos e 22 russos, totalizando 288 estrangeiros. Terminada a greve, entre 1932 e 1935 ingressaram 229 brasileiros e minguados 62 estrangeiros. (ARAÚJO, 2002, p.88) Além disso, a atuação da polícia política do governo Vargas no período indica que sua rede de informantes alcançava também os trabalhadores do Anglo e da vila operária, sinal de que a anatomia política daquela classe comportava tanto comunistas quanto alcaguetes. (ZEN, 2006, p.191) Ainda sobre a greve de 1931, ressalte-se que a organização por local de trabalho serviu como uma estrutura eficiente na mobilização dos trabalhadores e na negociação de sua pauta. Junto ao motivo que detonou a greve, a comissão negociadora reivindicou “aumento de salários, oito horas de trabalho diário e remuneração extra pelo serviço noturno”. (ARAÚJO, 2002, p.100) Não obstante a demissão das lideranças da greve, a organização sindical naquele frigorífico daria mostras de amadurecimento três anos depois, com uma greve de seis dias em solidariedade aos ferroviários, tipificada pelo DEOPS como manietada e insuflada pelos remanescentes do Partido Socialista. (ZAMBELLO, 2005, p.129) Na pauta exigiam também liberdade sindical para criar e manter entidades sem a intervenção do Estado. Em sentido mais geral, as greves dos magarefes são pontos históricos importantes para avaliar as distâncias políticas entre a autoimagem que projetavam os frigoríficos, a penetração da agitação ideológica nacional dos comunistas e os passos que os trabalhadores se dispunham a dar sob os diversos riscos que ameaçavam seus empregos. Engrenados com as expectativas de outras categorias, caminharam para a limitação da jornada trabalhada e a regulamentação do serviço noturno, incluído o aumento de salários. A rotina de trabalho não obedecia a limites legais, como lembrou uma filha de lituanos que trabalharam no Anglo de Barretos: “o dia começava às duas da madrugada e só terminava depois de anoitecer... meu pai vinha em casa
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no meio da noite dar uma olhadinha nos filhos e logo voltava para o trabalho”. (ARAÚJO, 2001, p.72) Ritmos acelerados, longas jornadas e o manuseio sempre perigoso de facas, facões e serras tornavam os acidentes parte do cotidiano. O trabalho era bastante insalubre também em tarefas aparentemente menos difíceis e ruinosas como no setor de graxaria, onde tudo fedia, grudava, sujava e machucava. Saíam daquele setor, por exemplo, sebo e gordura, retirados e processados a partir de manipulação química corrosiva e tóxica, o que comprometia a saúde dos trabalhadores. Analisados em sua trajetória, esses trabalhadores mantiveram um sentimento ambivalente face aos frigoríficos. Por um lado, afirmavam positivamente o que se interpretava como vantagem, uma vez lá empregado. Sobre isto, Neuza Janke da Silva assinalou depoimentos de ex-trabalhadores que avaliaram suas experiências entre os anos 1940 e 1970: “Era muito bom trabalhar no Frigorífico. Eles eram muito justos. Um minuto trabalhado a mais, era um minuto pago a mais. Todos os nossos direitos eram respeitados. E, em dia. Sempre o pagamento em dia”. (SILVA, 1999, p.113) Por outro lado, se queixavam do que faziam, realçando as dificuldades e contratempos no trabalho de modo a justificar e legitimar suas reivindicações, inclusive a própria greve. Em 1958, já sob o abrigo de um sindicato e na atmosfera do regime democrático após o final do Estado Novo, os trabalhadores do Anglo de Pelotas realizaram uma greve para reclamar aumento de salários. O movimento foi precedido de tentativas de negociação (sem êxito) e ajuizamento legal do litígio em tempo, conforme previsto na CLT. Resistiram à pressão do DEOPS, respondendo publicamente em jornal que havia arcabouço legal para conduzir e dirimir o reclame dos trabalhadores que, ademais, permaneciam parados e pacíficos, sem conjunções políticas que requeressem ou justificassem a presença da polícia política. Com oito dias de paralisação, trabalhadores e frigorífico celebraram termo sobre acordo de dissídio coletivo em 25% de aumento salarial e garantias adicionais que impediam demissões e corte dos dias parados, embora o frigorífico (provavelmente como retaliação) tenha aumentado o preço da carne um mês depois. (SILVA, 1999, p.118-120) Enfim, este sentimento ambivalente de muitos trabalhadores pode ser lido como o reconhecimento de um mercado de trabalho hostil, caracterizado pelo despotismo patronal, pelo esforço disciplinador do Estado e por uma parca gama de direitos – nem sempre respeitados. A mudança na estrutura sindical e trabalhista efetuada durante os anos 1930 (que redundou na Consolidação das Leis Trabalhistas em 1943) não apontou para a mesma direção do National Labour Relations Act norte-americano de 1935, cuja diretriz facultava aos trabalhadores a escolha e a criação de sindicatos e estabelecia os acordos coletivos negociados como determinantes da relação de trabalho. Diferente disso, a CLT tentou subordinar a existência dos sindicatos aos critérios do Estado, limitar os conflitos ao crivo da Justiça do Trabalho e definir direitos mínimos ligados ao trabalho. Comparando os dois sistemas, John French assinalou que nos Estados Unidos prevalecia a tendência de a lei prometer 20% de melhoria e satisfazer 80% do pleiteado pelos trabalhadores, enquanto no Brasil a CLT prometia 80% de melhoria mas só entregava 20%. (FRENCH, 2001, p.26-27) De fato, nenhum dos sistemas cancelou a necessidade de os trabalhadores lutarem para afirmar direitos, fosse em acordos coletivos ou na letra de lei maior. Mas na experiência de quem trabalhava nos frigoríficos no Brasil, os direitos validados em âmbito nacional fizeram alguma
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diferença à medida que em grande parte do país e dos ramos produtivos a sonegação patronal era prática corrente. No caso brasileiro, o significado atribuído pelos trabalhadores ao emprego nos frigoríficos tendia a ser formado em relação direta ao mercado de trabalho local ao invés de terem as condições de trabalho e os salários cotejados nacionalmente. Um mesmo frigorífico podia desenvolver políticas diferentes para lugares onde as condições de recrutagem e de manutenção da força de trabalho fossem distintas. Assim, o Anglo de Pelotas não dispunha de habitação para os trabalhadores, enquanto em Barretos havia moradia (embora não fosse para todos) e os salários eram ligeiramente melhores. Neste contexto, os trabalhadores geralmente codificavam as supostas vantagens e desvantagens de sua ocupação referindo-se aos empregos disponíveis na cidade e na região, ou ainda analisando negativamente o que deixaram para trás (eles próprios ou seus pais) quando migraram do Nordeste ou emigraram de países europeus. Enfim, quando os trabalhadores faziam tantas comparações, a posição conseguida nos frigoríficos não se mostrava o pior dos mundos para quem não possuía melhor qualificação para se ocupar como operário qualificado ou contramestre em indústrias mais afamadas.
5.2.2. A Vila Operária do Frigorífico Rondon (1963-1979)7 A relação entre o trabalhador e a habitação numa vila operária deve ser inicialmente pensada como ambivalente. Um conceito que tome a dominação sobre os trabalhadores como algo infalível, apaga a presença desses trabalhadores no processo histórico da luta de classes. Nesse caso, a pesquisa perderia sua função e os trabalhadores desapareceriam como sujeitos. Preciso lembrar que esse tipo de proposição não é original. Ele foi melhor organizado e disseminado em diversas publicações pelos historiadores marxistas britânicos, que ressaltaram em Marx, dentre outras noções, a de luta de classes e o protagonismo dos trabalhadores na história. Portanto, registro que me favoreço dessa tradição acadêmica para pensar a pesquisa histórica centrada nos trabalhadores, assumindo-a como uma chave analítica desse projeto. Uma perspectiva ambivalente a partir trabalhadores, patrões e vila operária permite examinar os modos de viver, de trabalhar e de lutar dos trabalhadores em frigoríficos no contexto dos pequenos e grandes enfretamentos aos patrões (gerentes e donos), aferindo sua força, seu repertório de luta e sua consciência acerca de seu mundo. Pensar este problema em pequena escala pode ajudar a esclarecer esta proposição e sondar dimensões da vida dos trabalhadores pouco ou nada percebidas noutros estudos sobre o assunto. A sugestão vem da literatura, da obra “A Cidadela”, de 1937, do reformador e escritor escocês Archibald Cronin. Na pequena aldeia no país de Gales, onde o personagem central iniciara sua carreira de médico, seus pacientes eram mineiros que habitavam casas numa vila operária. Archibald viu um mundo escuro, sem cores, sujo, de pequenas e atarracadas casas, onde a vida parecia triste e desprezível. (CRONIN, 2012) Esta visão inicial cedeu à medida que a vila foi mostrada cheia de gente, de relações de vizinhança, de pequenos eventos que enfraqueciam a importância da feiura das casas e da Parte dos argumentos apresentados nesse capítulo foram apresentados no artigo “Paternalismo e Racismo: História dos Trabalhadores da Vila Operária da Frirondon (1963-1979)”. (BOSI, 2016) 7
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sujeira das ruas. Olhando essas casas por dentro, a narrativa de Cronin indicou detalhes significantes na limpeza dos poucos móveis, do chão, das janelas, de pequenos quadros e réplicas pendurados nas paredes. Essas características tingem e modificam o retrato inicial da casa. É uma lista de objetos aparentemente sem valor, mas que ressalta a presença e a memória de cada morador. Nesta chave analítica o importante não é a casa, mas quem mora nela. Além disso, os interesses de patrões e empregados sobre as habitações da vila operária são diametralmente opostos. Para o primeiro, a casa é um valor de troca, e para o segundo o lugar onde mora tem outros valores: ele representa proteção, acolhimento, o lugar da família onde crescem os filhos, onde tristezas e conquistas são vividas e revividas. É também o lugar para onde as recordações sempre retornam. Enfim, a virtuosidade da casa está igualmente em ser contada em termos culturais e afetivos. A vila operária do Frigorífico Rondon nos ajuda a pensar essa questão. Ela se formou ao longo dos anos 60 e 70 do século passado. Começou com quatro casas, em 1963, e se expandiu nos anos 70 até atingir cinquenta e quatro casas, abrigando aproximadamente duas centenas de pessoas. Por sua vez, o frigorífico, localizado na cidade de Marechal Cândido Rondon-PR, de acordo com os registros encontrados, data de 1963, sob a gestão da Frirondon. Nos anos seguintes ele foi vendido para a Frimesa/Ruaro (1969-1979), SwiftArmour (1979-1989) e Ceval (1989-1996), quando encerrou suas atividades. A tentativa de compreender essa história de aproximadamente 20 anos (1963-1979) se apoia numa hipótese que trata a vila como um objeto de disputa entre os proprietários do frigorífico e as famílias dos operários residentes: para os primeiros a vila e suas casas foram objeto de lucro e de dominação, enquanto para os segundos as casas representavam um lugar de morar, espaço de proteção, de afetividade e de memória. Este conflito historicamente enraizado na experiência dos moradores da vila operária pode ser compreendido e explicado em termos teóricos a partir da noção de paternalismo, desde que saibamos as imperfeições e limitações deste conceito. Sua principal desvantagem é ser amplo demais, o que lhe faz acolher distintos eventos históricos. Mas ele se torna útil se vencermos esta falta de especificidade, conferindo-lhe historicidade suficiente para que possa ajudar na descrição e análise de relações de trabalho carregadas de pessoalidade. Desse modo, e talvez só desse modo, o paternalismo deixe de ser, por um momento, como pensou Edward Thompson, “um termo descritivo frouxo” (THOMPSON, 1998, p.32), e seja encarado como uma noção ambivalente, que caracteriza relações que podem ser de compromisso, conflito e de disputa entre trabalhador e patrão dentro de uma relação social em que predomina a autoridade pessoal deste último. Assim compreendida, a relação pessoal articulada pelo paternalismo é desigual, mas pode ser manejada tanto pelo trabalhador quanto pelo patrão. Em termos sociológicos o oposto disso seria a relação mediada pela burocracia, pela impessoalidade. Outra chave analítica se viabilizou a partir de material de pesquisa que indicou e realçou práticas de racismo. Nesse caso, racismo tem bem menos oposição ao seu significado. Ligado à singularidade histórica da vila operária da Frirondon, o racismo caracteriza relações de discriminação, exclusão e ressentimento, três de seus componentes principais. Geralmente a diferença fundamental é estabelecida em torno da etnia (confundida com nacionalidade), e se desdobra para a língua falada, para práticas e costumes culturais, e também para a cor da pele, embora a discriminação possa nivelar tanto negros quanto brancos situados no polo
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marginalizado. A força do racismo presente nos anos 70, na cidade de Marechal Cândido Rondon, se destaca como elemento para reflexão à medida que provocou um quase confinamento dos moradores da vila. O frigorífico Rondon foi obra da fase inicial de mudanças nas relações capitalistas de produção no Oeste do Paraná dos anos 60 do século passado. Grande parte da região havia sido reocupada num processo que expropriou indígenas e caboclos. A natureza bruta, de mata fechada e inóspita, foi rápida e violentamente domesticada para adaptar-se a criação de porcos e a produção de milho e trigo (mais tarde soja) visando o mercado. Na perspectiva do capital tratava-se de beneficiar a matéria-prima e agregar-lhe valor. O porco, ou melhor, o trabalho de pequenos criadores de porcos, tornou-se alvo de ação de um grupo local que passou a reunir capital para a construção de um frigorífico. Até então, o excedente da produção, cerca de 80% dos porcos, era negociado com um frigorífico de Ponta Grossa, distante 400 Km de Marechal Cândido Rondon, e São Paulo, distante 1.000 Km. Ainda nos anos 60 os porcos começaram a ser vendidos e transportados para o frigorífico da SADIA, sediado em Toledo, cidade vizinha. A paisagem urbana de Marechal naquela década era bastante característica. Por tudo isso, apesar de ser um núcleo modesto de habitantes, existiam muitos corretores de porcos que os compravam e os revendiam para São Paulo e Ponta Grossa. Eis o contexto econômico que recepcionou o Frirondon e sua Vila Operária, sem muitos segredos. Na literatura acadêmica, as Vilas Operárias no Brasil contam com quantidade razoável de registros históricos (BLAY, 1985). Este interesse sugere que as vilas operárias são um evento significativo na vida dos trabalhadores. Do mesmo modo, sugere que grandes empresas industriais, principalmente em contextos de difícil mobilização de força de trabalho, as têm como uma componente central na estratégia de recrutar e de manter trabalhadores por longas datas. Pode-se dizer que essa é uma percepção generalizada, embora existam outras abordagens relevantes que conferem maior peso à constituição e tipificação de vilas operárias do que propriamente aos trabalhadores. Esses estudos priorizam os planos arquitetônicos que organizaram as vilas operárias no Brasil e sublinham aspectos no campo do urbanismo. Muitas vezes os examinam relativamente aos domínios de engenheiros e arquitetos. Escrutinam as vilas operárias como núcleo fabril, cidade-empresa, cidade-companhia, bairro proletário etc., conformando outro eixo de preocupações. Discutem e problematizam a intervenção do Estado nas moradias ditas populares e, dentro delas, a habitação operária ligada à fábrica. Ressalto que esses estudos podem ajudar a pensar as vilas operárias, mas são pouco eficientes para lidar com a presença dos trabalhadores nesses processos (CORREIA, 2014; BONDUKI, 1994; CARVALHO, 2011; BENCLOWICZ, 1989; CORREIA, 2001). A ideia inicial de construção da vila foi pensada como solução para a falta de trabalhadores especializados e contra os sistemáticos atrasos dos trabalhadores, principalmente em dias chuvosos, quando transitar até o frigorífico se tornava quase impossível devido ao barro e a lama que se formavam no caminho. Alguns entrevistados disseram que na principal rota que cortava a cidade, a Avenida Rio Grande do Sul, havia uma grande depressão, de aproximadamente 5 a 6 metros, por onde corria um pequeno riacho em seu vértice. Atravessálo a pé, a cavalo, a carroça ou de carro era um desafio arriscado e ingrato. E não havia ponte, pinguela ou qualquer ponto sólido de passagem.
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Este fato foi ressaltado por entrevistados que trabalharam àquela época. Eles asseguraram haver tanta dificuldade naquele deslocamento que um dos donos providenciara pessoalmente o transporte dos trabalhadores numa Kombi. Não raro, a perua atolava e requeria que os passageiros apeassem para resgatá-la em meio ao barro. Esta imagem, aliás, poderia ser considerada emblemática das condições do capitalismo na região. Não houvesse tanta água a retardar o passo dos trabalhadores, assim mesmo a Kombi se faria necessária para recrutá-los em tempo para o começo do trabalho. Isto porque as distâncias entre o frigorífico e os bairros mais modestos da cidade, ou ainda, das moradias na zona rural, justificavam o transporte coletivo improvisado pelo dono do Frigorífico. É certo ainda que a escassa população do núcleo urbano, algo inferior a 4.000 almas bem contadas e bastante ligadas ao campo, não se apresentava inteira e pronta para o tipo de trabalho no frigorífico desde 1963. Nos anos 60 o Frirondon não foi mais do que um grande açougue. As máquinas que lhe deram status de frigorífico não chegaram antes de 1969. É preciso dizer, as dificuldades locais para concretizarem o empreendimento prometido, e algum desgoverno na administração e na chamada de capital, postergaram o funcionamento do frigorífico para o final da década, precisamente o ano de 1969. Aquela perua Kombi se encaixava como uma engrenagem importante do frigorífico, ao lado do maquinário comprado em São Paulo e instalado em 1968. Mas esta não era a visão da imprensa da época, nem da memória dominante. De qualquer modo, para finalizar esta primeira aproximação do contexto que marcaria o surgimento da Vila, descobre-se nas entrevistas e nas notícias da imprensa local, a exemplo da Frente Ampla de Notícias, que a aparente coragem para fincar ali um frigorífico foi inflada também pelo Estado, por meio da extinta CODEPAR (Companhia de Desenvolvimento do Paraná) que financiou boa parte do empreendimento. Os entrevistados informaram que se, logo no início a raridade de braços assombrou a existência do frigorífico, não foi por falta de propaganda. A intenção de criar o frigorífico, revelada em 1963, contou com entusiasmada cobertura da imprensa local que disseminou a notícia nos anos seguintes pelas ondas do rádio. De tempos em tempos ia-se atualizando os ouvintes sobre os progressos dos sócios na empresa. A abertura do escritório ao lado da rodoviária, as tentativas fracassadas de reunir capital, a escolha do terreno, a compra das máquinas e a repetição sistemática de um repertório de elogios compuseram as inserções da Frente Ampla de Notícias que legitimaram de antemão a virtuosidade do frigorífico para o município. Paralelo a isso, em 1964, Toledo recebeu uma planta produtiva da SADIA. Seu proprietário, Atíllio Fontana, comprara o frigorífico Pioneiro e botara tudo abaixo, instalando lá a linha de produção mais avançada do país. Interessava-lhe, principalmente, as criações de porcos existentes em grande número na região. Naquela época Marechal Cândido Rondon e Toledo se equiparavam em quesitos como população, arrecadação e produção agrícola. Bem próximo da inauguração do frigorífico, o município registrou aproximadamente 450 mil e 490 mil porcos em 1968 e 1969 respectivamente, o que rendeu à cidade o título de maior produtor do Paraná. Mas, a despeito daquele robusto plantel, o recém inaugurado frigorífico enfrentou dificuldades para assegurar o fornecimento de suínos. Isto porque grande parte da vara de porcos rondonense era comprada pela SADIA de Toledo e pelo frigorífico da multinacional Wilson, instalado em Ponta Grossa. Esta concorrência foi acirrada com a diminuição
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crescente dos porcos criados no município. Ao longo dos anos 70, o número de porcos encolheu a medida que o cultivo da soja tornou-se mais atrativo, ao ponto de contar-se pouco mais de que 180 mil porcos em 1976, menos da metade dos porcos havidos em 1968. O que aconteceu em Toledo ajudou a atiçar a preocupação com a mudança de marcha da economia regional. Marechal havia chegado aos anos 60 como típica fornecedora de matéria-prima. Alguns dos primeiros proprietários do frigorífico eram corretores de porcos. Tratavam de reuni-los e vendê-los aos matadouros de São Paulo e Paraná. Naquele contexto, a decisão de criar um frigorífico foi um ato reativo de experimentação. Os cálculos iniciais foram bastante imperfeitos e falhos se considerarmos que a “marcha modernizante” de Marechal demorou sete anos, de 1963 a 1969 (conforme divulgava a FAN). Além disso, sabiam criar porcos, mas não dominavam o seu processamento industrial, fato que os obrigou logo no início a buscar braços especializados de fora da região. A empiria que caracterizou este esforço estendeu-se para a formação do grupo que movimentaria a linha de produção. Carecia de trabalhadores com experiência e traquejo, e isso não havia na região. Além do frigorífico Pioneiro, de Toledo, comprado pela SADIA, havia o frigorífico de Medianeira, de onde saíram trabalhadores para o frigorífico de Marechal. Nesse contexto, precisaram recrutar trabalhadores de longas distâncias. A vila serviria como atração para as famílias que se dispusessem a migrar. O trabalho de esquartejar o porco não era difícil, mas a produção de embutidos requeria saber específico e destreza. O que se pensou à época foi que um pequeno núcleo de trabalhadores seria suficiente para ensinar o trabalho aos demais. E por esta e outras razões menos relevantes a vila foi edificada inicialmente com seis casas. A partir daquele momento se colocou a contradição entre lucrar e morar, entre o significado da vila para patrões e empregados. A Frente Ampla de Notícias divulgou a inauguração do frigorífico na pauta de 6 de janeiro de 1969. Mas foi uma celebração alegórica. O apito da fábrica soou no último dia do ano anterior, anunciando a derradeira instalação das máquinas. No final da matéria, o ímpeto dos anos anteriores pareceu pálido e desconfiado. Não era para menos. Passaram-se sete anos de esquálidas promessas sistematicamente renovadas. Nem a Rádio Difusora, sediada no município, conseguiu afinar-se com os desacertos (pouco conhecidos) que retardaram por tanto tempo a instalação do maquinário do frigorífico. A rádio concluiu a matéria preferindo condicionar o sucesso da empresa, diferentemente de lhe assegurar isso conforme fizera nos anos anteriores: “O ecoar deste apito de uma indústria para nosso município foi mais um grito de alerta saudando a todos, por certo de felicitações ao ano de 1969, que pode marcar o ano de um avanço a esta importante indústria” (FAN, v.5, ed.602, 6/1/1969. Grifo nosso). Nem o pequeno núcleo de seis casas, nem os trabalhadores reunidos para o funcionamento do frigorífico, apareceram nas páginas da FAN. Entrevistei um antigo guardalivros do frigorífico. Ele trabalhou lá no período de 1963 à 1969 e contou, com pouco interesse, a função da vila. Ele argumentou que a mão-de-obra se mostrou um gargalo desde o início. Trabalhadores especializados eram raridade, embora não estivessem inteiramente fora do alcance. Ele disse também que aquela conjuntura motivou a construção da vila. As primeiras seis casas foram pensadas como um componente para ajudar no recrutamento e na fixação do trabalhador. A força de trabalho restante seria extraída do excedente do município. O salto para 54 casas nos anos 70 foi uma solução de continuidade que o guarda-livros confirmou, embora tenha saído da empresa por volta de 1970, um ano antes de ser vendida
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para o grupo Frimesa/Ruaro, que tinha atuação bastante enraizada na região. Foi durante a gestão deste grupo que se tomou a decisão de ampliar o número de casas pertencentes ao frigorífico. Nas quatro casas de alvenaria residiriam trabalhadores com cargos de gerência. Os demais trabalhadores concorreriam para ocupar as cinquenta casas restantes, que eram de madeira. Tais construções raramente excediam 50 metros quadrados distribuídos entre dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Houve casos em que duas famílias dividiam a mesma casa. Os moradores não pagavam pelo aluguel, energia elétrica e água consumidas (abaixo informa que também não pagavam aluguel). Distante 1 km do frigorífico, a vila parecia ser uma extensão daquela empresa, um desdobramento das funções produtivas. Reforçava esta impressão o fato de a vila ficar dentro do terreno do frigorífico. Mas tal funcionalidade se desorganizava quando pequenos arranjos da economia doméstica dos trabalhadores surgiam naquele retrato. Viam-se pequenas plantações de mandioca, milho, feijão e algumas pocilgas improvisadas contendo dois ou três leitões. Não acho difícil ver nisso vantagens para a empresa à medida que os recursos assessórios de sobrevivência para os trabalhadores barateavam custos com a força de trabalho. Marx indicou formatos de exploração sobre o trabalho, semelhantes a este, e os sublinhou historicamente como recessivos (ENGELS, 1988). De lá para cá tal leitura informou um olhar que ressaltou mais a relação de dominação (cujas evidências são numerosas) e menos as perspectivas dos trabalhadores. E acredito que conhecer as relações de dominação (como relações de exploração) é tão importante que o olhar dos trabalhadores não pode ficar de fora. Examinar este último ponto não implica desconsiderar a relação de dominação do capital sobre o trabalho (e sobre os trabalhadores), senão investigar a participação dos trabalhadores nesse processo histórico organizado e dominado pelo capital. Com essa intenção podemos interpretar essas pequenas intromissões na imagem preparada pelo frigorífico como um traço importante da consolidação dos trabalhadores naquele lugar. Entre 1969 e 1979, quando o modesto núcleo de casas se avolumou para uma vila operária, a permanência das famílias de trabalhadores foi modulada pelas condições de trabalho, pelos salários e pelo cotidiano na vila. A rotatividade não foi incomum, mas o fato de a vila ter se tornado um lar para muitas famílias pode ser interpretado também como uma evidência da fixação dos trabalhadores e um sinal da resistência operária, num contexto específico de clara dominação patronal, contra condições de trabalho consideradas ruins ou difíceis de tolerar. Vejamos a procedência histórica desses pontos. A reunião de trabalhadores migrantes de diferentes localidades numa cidade, cuja ascendência étnica predominante era germânica, tornou-se alvo de discriminação. Este fato trouxe desconfortos e desacertos para a consolidação do frigorífico à medida que os trabalhadores traduziam tal discriminação como um forte motivo para debandar dali. Quem primeiramente registrou isso foi uma memorialista da cidade, citando genericamente todos os migrantes que falavam “outras línguas” diferentes do “alemão” como protagonistas do desassossego da cidade: “[...] porque não existem mais amizades por causa da chegada das pessoas de outras línguas” (SAATKAMP, 1984: 53). O sentimento da memorialista era partilhado por muitos de seus pares. Não à toa trabalhadores do frigorífico, quando entrevistados no tempo presente, ressaltaram as distâncias geográfica e cultural entre a vila o núcleo urbano, geralmente articulando tal
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sentimento com frases emblemáticas e ainda situado em perspectiva temporalmente recente: “os alemão não aceitava nós”; “... eles falava outra língua”; eles não conversava com nós”. Projetada a partir dessas características, a vila desenvolveu-se desgarrada da cidade. As idas dos trabalhadores à cidade eram esporádicas e visavam o abastecimento das despensas domésticas, a prática religiosa e o lazer masculino dos solteiros. Fora a fé e o comércio, havia pouquíssimas interações dos moradores da vila com os moradores da cidade, ao menos nos primeiros anos de funcionamento do frigorífico. Aqueles considerados estrangeiros que moravam na cidade não tinham melhor sorte no tratamento recebido, embora estivessem reclusos numa vila. Esta é uma questão importante que teve impacto na organização social da vila. A identidade étnica germânica, demasiadamente aguçada como motivo de orgulho, era expressão de discriminação e ressentimento relativamente àqueles que não pertenciam à sua comunidade. A explicação para isso é simples, mas convincente. Aqueles que formaram Marechal Cândido Rondon vieram do extremo sul do país. Antes disso, deixaram regiões da Alemanha, principalmente, porque os desarranjos econômicos internos dificultaram sua presença na condição de pequenos proprietários e artesãos independentes. A maior parte desse deslocamento se concentrou entre 1871 (mudança nas relações de trabalho e formação do Estado Alemão) e 1930 (crise econômica e ascensão do Nazismo). A partir dos anos 40, uma parcela relevante dos descendentes radicados no país migrou novamente. Muitos deles foram para o Oeste paranaense. A razão disso foi um processo de empobrecimento vivido por eles, materializado, de modo específico, na impossibilidade de manter os filhos como pequenos proprietários. Não tinham economias suficientes para adquirir novas terras nem dividir as que tinham entre os filhos. Em suma, tudo isso foi temperado gradualmente por uma estranha sensação de ressentimento relativamente a Alemanha e ao Brasil. A primeira foi, de alguma forma, responsável por desalojar aproximadamente 200 mil alemães que se destinaram ao Brasil no período de 1872 a 1930 (MAUCH; VASCONCELOS, 1994, p.165). Quanto ao Brasil, os alemães tentaram reconstruir culturalmente seu lar. Para os camponeses isto significou encerrar todos em pequenas comunidades estruturadas em fortes convicções herdadas e reforçadas de geração para geração. Abandono e ressentimento. A experiência dos descendentes germânicos sediados em Marechal Cândido Rondon decorreu dessa relação com o passado. A discriminação e o racismo também (FERRO, 2009). Nesse ambiente hostil a vila tornou-se uma reserva de segurança social e cultural para os trabalhadores. Ali, seus valores não eram colocados sob suspeição ou desqualificados. Isto nos leva a pensar a vila noutras dimensões distintas da econômica. Ainda que fosse verdadeiro, que as vilas operárias tivessem sido construídas para baratear o custo de força de trabalho e possibilitar ao capital o controle sobre seu espaço de reprodução (ENGELS, 1976; BLAY, 1985; DECCA, 1987), elas devem ser pensadas também como lugares marcados pela memória, pela experiência, pela afetividade, pois são expressões da condição operária e da luta de classe. As casas edificadas pelo frigorífico eram habitações planejadas para acomodar trabalhadores com o objetivo de vinculá-los à empresa e aos interesses de uma exploração elástica do trabalho. Isto apareceu tangencialmente em muitas entrevistas de trabalhadores quando falavam sobre a exiguidade de braços para o trabalho com porcos.
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Mas não há segredos nisto, conforme já indicaram outros estudos aqui citados que se debruçaram sobre o tema. Para o capital uma casa é uma mercadoria. O que lhe interessa é seu valor de troca e seu valor de uso. O primeiro deve existir para fazer da casa um objeto intercambiável no mercado. O segundo funciona à medida que alicia trabalhadores, efetivando o uso pretendido pelos proprietários da vila. Ao mesmo tempo obtém-se lucro com o aluguel e com a mobilização da força de trabalho pretendida. Em resumo, para o capital as casas da vila operária nunca foram cogitadas como abrigo das noites frias ou tampouco como parte importante da vida dos trabalhadores. Diferentemente desta perspectiva, para os trabalhadores, a casa onde se morava, mesmo que alugada ou cedida, representava proteção, acolhimento, o lugar da família onde cresceram os filhos, onde as tristezas e as conquistas foram vividas e revividas, o lugar para onde as recordações sempre retornava. Para os trabalhadores, a virtuosidade da casa também é contada em termos culturais e afetivos (STALLYBRASS, 2012). Este foi o caso daquela vila de meia centena de casas. Cabe explorar agora como a autoridade (incluída a fabril) pode se basear em relações pessoais de dependência. No caso da vila operária da Frirondon, a autoridade de quem geria o frigorífico tentou organizar a vida e o trabalho naquele lugar. Isto tem paralelo com outros experimentos de entrosar lar e ofício a bem da produtividade, mas não encontra completo reflexo nos casos clássicos em que a vila está separada da cidade, política, social e culturalmente. Assim, podemos tomar o paternalismo como ponto de partida para reconhecer e avaliar a relação entre os trabalhadores e a chefia do frigorífico. Primeiramente é preciso considerar que nem sempre a autoridade fabril fazia-se visível e nítida. Os donos e os contratados para lidar com os trabalhadores, não raras vezes, entrosavam-se no trabalho de modo que a distinção entre assalariados e proprietários se tornava embaçada. Era o caso, por exemplo, de um dos donos, que se improvisava de motorista (qual dono? Quando? Como o próprio autor informa antes, o frigorífico teve diferentes proprietários ao longo de sua existência). Desse modo, não era difícil que os trabalhadores enxergassem nesta relação algum tipo de identidade com os gerentes, tratando-se com reciprocidade dentro de uma faixa de sociabilidade marcada por atividades de lazer, como baralho e futebol. Trafegar nesta faixa implicava afrouxar algumas das distâncias entre as classes e identificar vantagens – desiguais – aos donos e aos trabalhadores. Aos primeiros tornava-se possível aumentar a exploração sobre o trabalho sem a devida compensação salarial, apenas invocando a confiança conseguida no batente e nas horas partilhadas de descontração. Aos segundos era conveniente pedir e conseguir adiantamentos e socorros urgentes, como levar alguém da família ao hospital conduzido por algum carro do frigorífico. Mas as trocas terminavam neste nível de intimidade. Do lado dos trabalhadores, quando a intersecção demandada era negada devido ao seu porte, a confiança se traduzia em desilusão. Nesse caso, o patrão era visto como despótico pela maioria, mas nem por isso os trabalhadores deixavam de requentar o paternalismo para coisas menores. De qualquer modo, num plano mais genérico que extrapolava a vila, a essência do paternalismo era feita de um pacto em torno de uma relação desigual entre trabalhadores e patrões, embora nem sempre se percebesse isso. Nada podia ser dito inteiramente. Este tipo de franqueza fraturava o paternalismo. Expor visceralmente o antagonismo econômico e
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social dos sujeitos embaraçados no paternalismo tornava impraticáveis seus pequenos ritos cotidianos que sugeriam a ideia de harmonia. Outro aspecto igualmente importante diz respeito a quem requisitava ou propunha a relação paternalista. Na vila não encontrei evidências de que os trabalhadores tenham feito isso. A iniciativa foi de donos e gerentes do frigorífico que buscavam desenvolver este tipo de regime de produção. A primeira gestão, de 1963 a 1970, orientou-se assim. A segunda gestão, de 1970 a 1979, a Frimesa/Ruaro preservou o mesmo regime, lembrando que somente depois de 1969 o Frirondon pode ser considerado frigorífico a partir da chegada das máquinas. Antes disso, Frirondon se assemelhava mais a um grande açougue. A partir da gerência da SwiftArmour, o sistema tornou-se mais burocrático do que pessoal. Embora as gestões anteriores à Swift-Armour tenham estruturado as relações de trabalho no paternalismo, os primeiros trabalhadores não desconheciam esse regime de produção. Muitos já haviam experimentado o paternalismo em frigoríficos do extremo sul no país, noutros tipos de indústria, ou ainda no trabalho no campo, sob a autoridade do pai, onde os filhos geralmente eram vistos menos como herdeiros e mais como mão-de-obra. O recrutamento de trabalhadores para ocupar as casas obedecia à lógica que tentava identificar aqueles trabalhadores mais diligentes, disciplinados e dedicados ao trabalho. O fato de não haver casas em número suficiente para todos funcionava como um mecanismo eficiente na mobilização dos demais trabalhadores que os levava a ingressarem numa longa fila à espera de alguma vacância. Como o frigorífico não cobrava alugueis pelas casas, comportarse com retidão para manter ou conseguir uma casa parecia bom negócio. Há ainda outros elementos relevantes, considerados clássicos na historiografia, tais como a proximidade entre a vila e o frigorífico, que permitia alcançar os trabalhadores a qualquer hora, e a gratuidade do aluguel que geralmente era compensada com a prática de salários mais baixos. Ocupar uma casa na vila conferia algum status em relação aos próprios trabalhadores. Representava ser reconhecido pelo patrão nos marcos do paternalismo. Numa perspectiva mais pragmática, envolvia alguma economia do salário. Por essas razões, quem habitava uma casa do frigorífico lutava para não ser ejetado do sistema. Do lado de fora, aqueles que queriam participar desse grupo pressionavam para entrar. Pensada na ótica dos patrões, era desse modo que a vila podia aumentar a produtividade dos trabalhadores. Mas é importante ressaltar que o paternalismo, encarado como regime de trabalho, precedeu em muitas décadas o caso do Frirondon. Os primeiros frigoríficos do final do século XIX empreenderam uma política voltada para a produção que alternava o despotismo fabril e o paternalismo. Além disso, o paternalismo no processo produtivo não foi uma criação dos frigoríficos, mas uma imitação de experiências realizadas em fábricas têxteis desde o início do século XIX (CRAWFORD, 1995). Esperamos ter esclarecido a importância econômica das casas para patrões e empregados, ou pelo menos os aspectos relativamente visíveis dessa relação ambivalente. Numa linguagem mais conceitual, pode-se dizer que os donos do frigorífico usavam as casas para garantir e aumentar (se possível) a extração de mais-valia, enquanto os trabalhadores se desdobravam para sobreviver. A medição das vantagens nesse contexto é praticamente inútil porque os patrões, mesmo quando perdiam alguma coisa, não deixavam a dianteira nesta relação. Mas a conta se torna outro caso nossa aferição considere valores afetivos mais do que valores econômicos.
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O reformador e escritor escocês Archibald Cronin descobriu isso e expôs em “A Cidadela”, de 1937 (CRONIN, 2012). Na pequena aldeia no País de Gales, onde o protagonista iniciara sua carreira de médico, seus pacientes eram mineiros que habitavam casas numa vila operária. Archibald viu um mundo escuro, sem cores, sujo, de pequenas e atarracadas casas, onde a vida parecia triste e desprezível. Esta visão inicial cede à medida que a vila é mostrada cheia de gente, de relações de vizinhança, de pequenos eventos que enfraquecem a importância da feiúra das casas e da sujeira das ruas. Olhando essas casas por dentro, a narrativa de Cronin indica detalhes significantes na limpeza dos poucos móveis, do chão, das janelas, de pequenos quadros e réplicas pendurados nas paredes. Essas características tingem e modificam a casa. É uma lista de objetos aparentemente sem valor, mas que ressalta a presença e a memória de cada morador. Nesta chave analítica o importante não é a casa, mas quem mora nela. Vale dizer que esta inversão torna a compreensão da vila mais interessante. De volta à vila do frigorífico, muitas conversas iniciadas com ex-moradores se mostraram frustrantes. As respostas desanimavam uma exploração mais profunda sobre o tema: “Tinha uma vila com umas sessenta casas. Hoje não tem mais nada, só mato.” Seguir adiante neste assunto custou alguma teimosia, na maioria das vezes sem sucesso. Sondava e sondava a respeito da vida na vila. Falavam sobre o que faziam como diversão. Eu tentava contornar esse tipo de recordação e voltava à carga. Suas narrativas resistiam em parar nalgum ponto durante muito tempo e explorá-lo demoradamente. Poucos se dispuseram voluntariamente a fazer isso. No geral, preferiam articular suas falas cronologicamente e de forma contínua, sem escalas para aprofundamentos. Finalmente começaram a falar mais engajadamente a respeito de suas vidas, fato que não se devia necessariamente à insistência das perguntas. Isso aconteceu quando a casa se tornou o centro das reflexões. Mas a casa que ainda aparecia nas narrativas era a do valor de troca: “Lá na vila, não pagava água, luz, nada! No tempo da Swift [e Frimesa/Ruara] né? Depois a CEVAL veio, e falou: ‘nós vamos vender as casas baratinho, o preço de uma porta. Mas vocês têm que se virar. Quem tem terreno vai se virando que nós vamos ajudar’”. Esta negociação foi aceita e muitos trabalhadores se transferiram para fora da vila. “Aí a minha casa foi a segunda ou a terceira casa a se mudar. Porque nós tinha o terreno aqui [ao lado da vila] e daí botemo ela [a casa de madeira].” No sul do país não é incomum casas de madeira serem inteiramente transportadas de uma cidade para outra. São escolhidas porque são mais baratas. Por isso, também, estampam o estigma da pobreza. Mas João, que foi o segundo ou terceiro a se mudar, não pareceu se preocupar com isso. Afinal, considerava uma vitória a compra de um lote e a aquisição da casa, depois de morar quase dez anos na Vila. Não vamos contrariá-lo. Trabalhadores como ele, cuja renda não excedia dois salários mínimos, moravam “de favor” ou pagavam aluguel em casebres e cortiços. A nova situação era percebida como melhora. Esse entrevistado, João, expressou um sentimento comum entre muitos trabalhadores que lá moravam. Embora ele se sentisse dividido entre o tempo em que não se pagava água, luz e aluguel, e o tempo em que comprou “sua” casa pelo “preço de uma porta”, a solução de continuidade dada à sua narrativa começou por enfatizar a casa como lugar de morar, uma referência que sustenta parte importante da trajetória de sua vida. Ficava evidente que a partir daquele ponto ele falaria sobre a vila de uma perspectiva mais pessoal.
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Os outros trabalhadores endossavam a perspectiva de João. Isaías, igualmente a João, veio para o Paraná no início dos anos 70. Ingressou no frigorífico em 1974 e conseguiu uma casa, um ano depois, ajudado pela experiência anterior no trabalho com carne. Duas entrevistas com ele, realizadas em datas diferentes e espaçadas, possibilitaram conhecer a mesma história sobre a compra das casas do frigorífico: “(...) cada um comprou um lote [dentro de um terreno que o frigorífico negociou com a prefeitura]. Eles revenderam as casa lá barato, só que daí nós tinha que se virar”, explicou. “Tirar de lá [a casa], ponhar luz, tudo aqui era por nossa conta! E... eles [frigorífico] tem uma grande parte por nós tá aqui, porque o povo tem medo de perder o emprego né? Quem não se mudava ou não saía da vila, ia ganhar as contas né?”
A pressão feita pelo frigorífico para que os trabalhadores esvaziassem a vila aparenta ter sido esquecida por Isaías. Olhada do tempo presente é também um evento importante da história que liga esses trabalhadores ao frigorífico que se desenrola a partir dos anos 80 e por isso não terá lugar aqui (SEIBERT, 2008). Por outro lado, a expulsão dos empregados marcou o fim do paternalismo. A compreensão de muitos trabalhadores foi exatamente esta, mas não porque o frigorífico impusesse tal solução. João e Isaías falaram disso mostrando que as obrigações pertencentes ao frigorífico, chamado de “eles”, foram repassadas aos trabalhadores, denominados de “nós”. Desmontado o paternalismo, “(...) nós tinha que se virar, (...) tudo era por nossa conta.” Deste ponto podemos, retrospectivamente, examinar outros, inclusive para entender a medida dessa relação paternalista. A vila seria o melhor e mais poderoso argumento para envolver os trabalhadores num compromisso pessoal com o frigorífico. E isso foi exercitado sistematicamente pelos superiores, sem a necessidade de verbalizar a relação de dependência. O favor prestado que conseguia a deferência dos moradores estava fortemente simbolizado nas casas e na vila, fato que alimentou uma memória da dominação. Ao mesmo tempo, os trabalhadores construíam outro canal por onde trafegavam experiências estruturantes de uma zona com alguma autonomia para si mesmos. E a vila era esse espaço. O paternalismo também expressava sua organização de atividades do lazer dos moradores, principalmente truco e futebol. Francisco, morador da vila desde o início dos anos 70, disse que a gerência do frigorífico realizava torneios de truco e de futebol nos finais de semana e incentivava a participação de todos. Esta iniciativa mesclava os trabalhadores da direção com aqueles do chão da fábrica. A mesma coisa acontecia na formação dos primeiros times de futebol. É claro que no universo de 250 funcionários havia poucos chefes, mas a relevância dos torneios de truco e de futebol, organizados pela gerência, estava em embaralhar comandantes e comandados. Como resultado esperava-se que durante os finais de semana as hierarquias vividas cotidianamente no frigorífico fossem temporariamente suspensas ou relaxadas, o que podia, na visão de Francisco, distensionar conflitos na linha de produção. Havia ainda, por parte da gerência, a expectativa de que o lazer controlado pudesse renovar os ânimos para o trabalho. O fato é que os trabalhadores não rejeitaram esta intromissão da gerência, o que não significa que eles a recepcionaram sem críticas. Francisco, igualmente a outros trabalhadores,
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desconfiava das intenções da empresa quando organizava esses torneios e, principalmente, quando planejava e realizava pequenas festas para comemorar os aniversários dos trabalhadores. Os entrevistados indicaram que todos sabiam que aquele tipo de recreação modelada pela gerência implicava pequenos compromissos com o funcionamento da linha de produção. Em linguagem vigorosa, a diversão nos finais de semana devia ser compensada com o aumento da mais-valia. Eram metas miúdas, referidas à linha de produção, estabelecidas à revelia dos trabalhadores, impostas como pedidos informais dos chefes e geralmente cumpridas. Neste regime de produção de tipo paternalista a empresa tentava negociar a produtividade do trabalho a partir da cessão das casas, de pequenos favores e de um repertório de entretenimento nos finais de semana. Dito numa linguagem teórica uma parte nanica da mais-valia era (e continua sendo) formada de pequenos favores arrancados na linha de produção. Tal mais-valia era extraída de um cantinho do enorme campo de forças onde lutam as classes. Consultei material suficiente para acreditar que a vila representou segurança para as famílias e para as crianças que lá cresceram. Se nos primeiros anos a vila recebeu o nome de República, porque era habitada somente por homens solteiros, o aumento de casas e a chegada de famílias dissolveram esta característica. A presença das chefias forçava algum controle sobre comportamentos destemperados. Mas pode-se considerar que os moradores da vila, via de regra, também buscaram regular o convívio social pressionando práticas de má fama. Havia duas razões para isto. Quando o número de famílias predominou na vila a ordem social entre os moradores se tornou pouco tolerante. A maioria dos moradores se organizava socialmente de modo frugal, com pouco ou nenhuma tolerância com excessos. Faziam e participavam de festas, bailes e outras atividades, mas, segundo eles próprios, nada daquilo interferia no trabalho ou se tornava “um carnaval”. O segundo motivo mirava o núcleo urbano de Marechal Cândido Rondon, compreendido como “o centro” ou “a cidade”. De lá se erguia, conforme já dissemos, um estigma que se prolongaria sobre todos os bairros que reunissem “pessoas de outras línguas” diferentes do alemão (SAATKAMP, 1984, p.53). Os moradores da vila não queriam passar a mensagem errada. De fato, o caso é que a vila não fazia parte da cidade. Como já mencionamos, ia-se a cidade para atividades esporádicas. Ia-se à Igreja, ao bordel, às casas de secos e molhados. Mas nenhuma dessas atividades criou laços de comunidade ou conexões com alguma profundidade entre os moradores da vila e da cidade. Fátima chegou ao frigorífico ainda criança. Veio com a família, no começo dos anos 70. Ela contou que se ia à cidade não mais que uma vez por ano, para comprar roupas e outras coisas que não se conseguia no frigorífico. Na verdade, as idas a cidade eram mais numerosas do que supõe a memória de Fátima sobre sua própria infância. Ia-se lá não menos que duas vezes por mês, principalmente a fim de comprar comida. Mesmo assim as pequenas viagens eram poucas. O aparente erro da memória de Fátima deve-se a importância que deu à visita que a família fazia na época do natal para comprar roupas e alguns brinquedos. Obviamente isso acontecia quando o orçamento permitia. Aquela visita anual podia ser considerada um evento para uma criança.
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Mensurada em quilômetros a distância entre a vila e o núcleo urbano não era longa. Três mil metros, talvez um pouco mais, os separavam. Mas a percepção dos trabalhadores discordava do significado dessa medição. Havia uma pequena barreira natural entre a vila e a cidade. Embora modesta, ela dificultava o trajeto a pé ou de bicicleta. Um riacho e um brejo que cruzavam a Avenida Rio Grande do Sul ganhavam extensão e profundidade quando chovia, tornando a travessia uma aventura ainda mais inglória. A depressão por onde o riacho escorria (atualmente aterrada) formava um acidente geográfico de difícil ultrapassagem. Quando a estiagem ganhava da chuva o problema era a poeira que tornava tudo insuportável. Mas somado à distância, este obstáculo perdia importância se comparado ao tratamento discricionário que os trabalhadores recebiam. Mesmo a memória que Fátima construiu sobre sua infância elegeu este ponto como inesquecível. Ela disse que sua “(...) mãe, naquela época [1970], dizia que tinha rejeição. Aqui o povo é bastante alemão né? Agora já não tem mais essa diferença, mas aquela época, os alemão era racista.” O riacho e o brejo, virados em atoleiro a maior parte do tempo, foram aterrados, e a nascente foi aproveitada para a formação de um lago tempos depois. A engenharia domesticou aquela “imperfeição” da natureza. A outra barreira era cultural, mais difícil de ser desmontada. Nos anos 70 um bairro popular, ainda mais afastado do núcleo urbano, fora apelidado de “planeta dos macacos”, uma referência preconceituosa contra a cor da pele dos habitantes. Este tipo de experiência marcou os moradores da vila profundamente (exceto, talvez, os trabalhadores de sobrenome germânico e de cor considerada adequada). Mas não conseguimos chegar até este ponto e conhecer suas fissuras e divergências internas. Pertencer à vila na década de 1970 certamente mudava a perspectiva para os trabalhadores. Nunca foram sinceramente aceitos na cidade. Como consumidores eram atendidos, recebiam alguma atenção dos comerciantes, mas a quase polidez cessava com a compra. Este era o limite máximo da tolerância, uma prática de exclusão por racismo. Era essa a sombra lançada pela cidade sobre a vila. Esta relação fazia prosperar um sentimento de comunidade entre os que encontravam condições para permanecer ali, arquitetando sociabilidades dentro da vila, uma forma de se defenderem contra a cidade e o paternalismo do frigorífico. Ressalto novamente. O racismo que atirava na direção dos trabalhadores era um componente da cultura nacional herdada dos primeiros germânicos desembarcados no Brasil, mas integrava também a experiência vivida no país como migrantes. Eles foram despachados da Alemanha, na condição de força de trabalho excedente, e novamente saídos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, como retirantes de um processo de empobrecimento vivido em minifúndios. Esta dupla rejeição nos ajuda a entender o racismo também como decorrente de uma pesada carga de ressentimento (FERRO, 2012). A superioridade imaginada por este grupo étnico era um sentimento pouquíssimo escorado em domínios reais como a ciência, a literatura, a arte etc. Estava mais assentada em crenças e valores (preservados devido ao relativo isolamento) do que em evidências objetivas. Isso os tornava progressivamente encerrados em si mesmos e receosos de qualquer contaminação que ameaçasse a sua permanência como grupo e sua suposta superioridade. Os moradores da vila viveram esse racismo, embora desconhecessem ou não entendessem inteiramente suas razões. Para eles tanto fazia o motivo do racismo. Mais
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importante era como eles o percebiam. E foi dessa relação tensa que se ergueu contra eles um estigma coletivo. Não dizia respeito a uma imperfeição individual, incrustada no corpo e imediatamente legível. A falha nos traços do rosto (um nariz grande ou a falta dele) ou na anatomia humana, geralmente é tratada com segregação. Uma escola para surdos e mudos, um grupo de terapia para pessoas desfiguradas, uma associação para alcoólicos anônimos, tudo isso expressa experiências comuns de desgraças pessoais (GOFFMAN, 1998). Mas tais marcas, visíveis ou ocultas, não operam solitariamente. Precisam ser manejadas culturalmente, assim como uma pessoa estigmatizada é ritualmente poluída. Ser comparado a um macaco exemplifica este processo. Em seu conjunto, os entrevistados revelaram carregar uma cicatriz coletiva. Alguns deram pouca importância ao racismo para, em seguida, avaliarem que no passado era pior. Outros o destacaram sem rodeios, e houve quem tentou disfarçar sua existência. Mas de modo geral todos os entrevistados falaram sobre o assunto como se fosse uma experiência vivida coletivamente, até mesmo aqueles que tiveram sua memória filtrada e organizada pela dos pais. O fato a ser ressaltado é que esta narrativa indicou a importância da vila (e não apenas das casas) na vida das pessoas. Pressionados e estigmatizados, os moradores tenderam a voltar-se cada vez mais para a vila, produzindo lá quase que completamente toda sua sociabilidade. E à medida que formatavam aquele lugar o faziam para se defenderem do racismo e da autoridade paternalista da gerência do frigorífico. Este é o último ponto a ser discutido em detalhes. Relativamente ao frigorífico, a sociabilidade dos trabalhadores não confrontou direta e frontalmente o paternalismo, mas assumiu-se crescentemente como alternativa a ele. O que os trabalhadores fizeram, mesmo sem ter verbalizado claramente a intenção, correspondeu a discretas medições topográficas para o alicerce de uma zona de autonomia. Esperava-se que lá poderiam se expressar com segurança razoável. Para parte dos moradores a imagem mais forte, complexa e consensual da vila, buscava traduzi-la como uma família. Tal retrato não era exatamente uma alegoria, senão um sentimento que muitos lhe conferiam com grande materialidade. Vejamos o que uma entrevistada disse sobre isso: “Nós não tinha vizinho, nós tinha uma família. Era cinquenta e uma casa. A d. Rosa, uma senhora que morava aqui, ela era a mãe dos filhos [de todos]. Todo mundo ia trabalhar, ela que coordenava. Se ela resolvesse, pegava uma cinta ou uma vara e passava em alguém”. Uma pequena pausa e continua: “Porque desrespeitou, apanhava da d. Rosa. Porque ela andava na vila. Ela tava sempre ali. Ela é quem dominava a meninada. Era uma união tão bonita”. Esta composição da memória de Madalena é tão lírica quanto complexa. Além da menção à família, o que mais interessa é a autoridade atribuída coletivamente à d. Rosa para disciplinar a meninada, todos eles filhos de trabalhadores. Era uma autoridade funcional, que auditava o comportamento infanto-juvenil e punia se necessário. Era também uma autoridade simbólica, associada à ideia de um parentesco extenso, ordenado pela imagem materna. Enquanto todos trabalhavam d. Rosa mantinha o lar em ordem. Naquele espaço o patrão não deveria entrar ou interferir. A conclusão do raciocínio de Madalena conduz a uma idealização que nos é útil para pensar como eram tênues os limites e as barreiras que separavam o cotidiano e a privacidade de cada família. Como num cortiço, onde se vive colado um no outro, poucos são os
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segredos. Tornam-se públicos e alvo de futricas, rápida e costumeiramente. Embora sejam dimensões sensíveis das vidas daquelas famílias, o mundo contado por Madalena chama a atenção para uma zona de autonomia definida pelos trabalhadores onde poderiam se proteger socialmente. Naquele mundo, acessado por meio das memórias de Madalena e de seus pares, encontramos sinais legíveis de uma cultura de classe construída sob as pressões do paternalismo e do racismo. Não se tratou de uma cultura radical, alinhada ideologicamente ao amplo espectro da esquerda. Foi bem menos do que isso, mas o suficiente para que os trabalhadores suportassem – rejeitando ou neutralizando – os estigmas e o controle impingidos sobre eles. Uma das dimensões mais importantes das memórias dos entrevistados sobre a vila e o frigorífico é essa tentativa de prolongar conflitos não resolvidos como uma solução de continuidade em suas narrativas. No plano político parece ser muito pouco. Não se equipara as greves, manifestações, criação de sindicatos, participação em partidos operários etc., mas não deve ser descartado como um recalque coletivo ou uma alucinação. Digo isso porque esta articulação que alinhavou trabalho e moradia possibilitou – não solitariamente – a sobrevivência desse grupo social durante duas décadas. E depois de seu desmantelamento ainda abasteceu os remanescentes da vila na luta pela moradia, fato que se estendeu até o presente (SEIBERT, 2008). Nos últimos vinte anos, parte de suas vidas girou em torno da afirmação da vila como seu lugar, e esse é um fato histórico importante que atesta alguma disposição de resistir organizadamente contra a expulsão de um lugar que reivindicavam como seu. Nenhum outro grupo tem tantas memórias ligadas àquele lugar, e há nisso um valor irreparável. Por fim, embora este evento histórico tenha nítidas especificidades, deve-se vê-lo como parte de uma constante estrutural e funcional do processo de valorização do capital, da extração de mais-valia, pois este é um dos aspectos mais importantes da experiência dos trabalhadores na formação da vila operária da Frirondon sob o fogo cruzado do paternalismo e do racismo.
5.3. Recrutamento de trabalhadores no Frigorífico da SADIA em ToledoPR (1959-1979) A constituição do Frigorífico SADIA no município de Toledo-PR, no período de 1959 a 1979, dependeu fundamentalmente de força de trabalho disponível, de matéria prima e de acolhimento por parte da população uma vez que um setor das classes dominantes se mostrou resistente e agiu contra sua instalação. Os dois primeiros pontos interessam mais de perto, especialmente o recrutamento de trabalhadores. A SADIA escolheu Toledo para construir uma planta produtiva porque lá havia matéria prima suficiente para iniciar o abate de porcos, criadores com potencial para aumentar sua produção e um matadouro em operação. Tais fatores encontram explicação em conjuntura econômica e social específica, estruturada desde a década de 1940, quando na região Oeste do Paraná teve início uma economia organizada pelo capital. Uma empresa privada, a Colonizadora Rio Paraná, realizou o loteamento das terras para a constituição de minifúndios.
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Fazer isso implicou desconhecer os direitos da população nativa àquele lugar. Por óbvio os grupos sociais nativos foram expropriados. Os compradores das terras chegaram, principalmente, dos estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Em média os minifúndios mediam 25 hectares, e este tamanho determinou um tipo de agricultura de pequenas lavouras diversificadas. As relações capitalistas na região se desenvolveram assentadas nessa estrutura fundiária, num ritmo razoavelmente acelerado. A dinâmica dessa economia dividiu-se entre a produção para o mercado e o abastecimento interno. Nos minifúndios se produzia arroz, feijão, trigo e, principalmente, milho (grande parte consumida por porcos.) Os relatos de muitos “colonos” da região de Toledo (pequenos proprietários assim chamados), com 70 ou mais anos de idade, afirmaram categoricamente que era raro uma propriedade sem chiqueiros. O que as distinguia era a capacidade de cada pocilga. Nos anos 50 e 60, famílias de migrantes, donas de pequenas propriedades, alavancaram um processo de acumulação de capital apoiado na criação e no comércio de porco vivo. Na década de 1950 aproximadamente 70% daquelas famílias direcionavam sua vara de porcos para o comércio. E até os anos 60 a quase totalidade desses animais ia para frigoríficos em São Paulo e em Ponta Grossa. (MULLER, 1986) O aumento da produção de milho na região, base da alimentação dos porcos, foi progressivo, saltando das dezenas de milhares para as toneladas. A produção saltou de 57 mil toneladas em 1956 para 124 mil toneladas em 1959. Quatro anos depois a produção atingiu 336 mil toneladas, alcançando 482 mil em 1965. Nesses nove anos a quantidade de milho colhida cresceu aproximadamente 700%. (IPARDES, 1985) Também é verdadeiro que a agricultura, de modo geral, avolumou-se ancorada na mecanização da produção e na inovação tecnológica. No final dos anos 60 havia aproximadamente 200 tratores para aproximadamente 52 mil propriedades na região. Apenas metade das propriedades contava com debulhadeiras. A carroça era o principal meio de transporte, a maioria dos arados era de tração animal e se fazia a colheita manualmente. Em 1975, cerca de 10 anos depois, a região contava com 10.126 tratores, 13.684 arados de tração mecânica e 5.368 colheitadeiras. O quadro havia mudado. A utilidade desses números aqui está em mostrar a formação de uma região caracteristicamente agrícola, cujo dinamismo da economia preparou as condições para a introdução – ou criação – de empresas e cooperativas agroindustriais que beneficiavam (e beneficiam) os produtos primários, soja, milho, porco etc. Foi essa característica que motivou a criação do Frigorífico Pioneiro, erguido com capital local no início da década de 1960. Attílio Fontana, fundador da SADIA, registrou em sua autobiografia que escolheu Toledo para a instalação do frigorífico em função, principalmente, da “grande produção de suínos” na região. O fato de haver lá outro frigorífico instalado e em funcionamento, o Frigorífico Pioneiro pesou nessa decisão. Fontana esclareceu que se tratava de um pequeno frigorífico, “em franca decadência”, Frigorífico Pioneiro, “muito mal instalado”, comprado “para não precipitar [seu] fechamento” devido à edificação de um novo8. Consciente ou inconscientemente muitos estudos acadêmicos legitimaram esta narrativa à medida que ressaltaram os progressos da agricultura, da suinocultura, da avicultura etc., como elemento incontestável na dinâmica social da região. 8
Informações do trabalho de campo.
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A respeito desse ponto é preciso mencionar indícios de que o processo de aquisição do antigo Frigorífico Pioneiro moveu-se de maneira tensa e turbulenta, com a resistência de parte dos acionistas em venderem suas cotas. Mas cabe investigação mais específica sobre isso. Cito isso porque é um elemento importante na avaliação sobre a reformulação do frigorífico sem a presença majoritária dos sócios que fundaram a empresa, todos radicados em Toledo. Certo é que o dinamismo da SADIA contribuiu para sedimentar o mercado de suínos na região. Uma vez resolvido o problema de matéria prima restava ainda equacionar a falta de força de trabalho com baixa qualificação. Para os postos de trabalho considerados complexos seriam deslocados trabalhadores de outros frigoríficos. (FONTANA, 1980, p.235) Por conclusão, pressionava o frigorífico um abastecimento (e uma reserva) de trabalhadores cujos números não havia no município em suficiência. A recrutamento de trabalhadores de longa distância era uma opção. A constituição inicial de condições anexas ao salário – como moradia, refeitório, plano de saúde – compôs o repertório de atrações de trabalhadores para a empresa. Desse modo, o frigorífico necessitava mostrar-se um grande empreendimento, algo que merecesse a confiança dos moradores da cidade e região. Pode-se aferir esta questão a partir da documentação produzida pela imprensa à época. Uma matéria publicitária sobre a SADIA, referida à década de 1970, é representativa do esforço dessa empresa se projetar positivamente no município de Toledo. Publicada no extinto jornal “A Voz do Oeste”, sediado em Toledo a matéria data de 15 de novembro de 1970, número 49. Ela está estruturada em quatro tópicos. Os dois primeiros abordam vantagens que a SADIA carreou até a cidade de Toledo. Os outros dois destacam o padrão de higiene praticado no processamento da carne no frigorífico e convidam pequenos proprietários a criarem frangos (atividade que a empresa investiria fortemente nos anos 80 até se tornar prioridade nos anos 90). Fecha a matéria uma imagem legendada sobre o abate de porcos por meio de “atordoamento por choque elétrico”, ressaltado como um método moderno. De modo geral, a matéria foi construída para formar uma imagem positiva da SADIA sediada em Toledo. São três os argumentos mais importantes que sedimentam tal imagem: (i) a desqualificação de certo discurso nativo contrário à SADIA, (ii) a SADIA teria iniciado novo tempo de prosperidade econômica em Toledo, (iii) sua intervenção na organização da suinocultura conseguira modernizar os métodos de criação dos porcos. A censura às práticas de pecuaristas e suinocultores anteriormente à compra do Frigorífico Pioneiro pela SADIA é uma formulação curiosa porque desqualifica os criadores de porcos como forma de legitimar a SADIA. O “antes” e o “depois” demarcariam uma mudança de marcha na economia local e, a superação das condições adversas de manejo dos animais. Seus “métodos racionais”, opostos a “maneira empírica” de lidar com os porcos, agregara maior valor ao produto entregue a SADIA pelo produtor. A SADIA teria ainda promovido a “circulação constante” de dinheiro para os três setores da economia local, abastecido generosamente os “cofres públicos” e melhorado o poder aquisitivo da população ali residente. A SADIA por ela mesma é um retrato vigoroso. Por óbvio a projeção das virtudes auto atribuídas visava algum tipo de resistência que lhe era feita. Uma hipótese razoável a respeito de supostos questionamentos à SADIA é que as queixas seriam de autoria dos antigos acionistas, ou de parte deles. Alguns entrevistados citaram o descontentamento de acionistas
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do frigorífico devido à venda de suas cotas para a empresa de Attilio Fontana. Não mencionaram nomes, o que impossibilitou conhecer mais sobre este assunto. Por outro lado, a informação que deram ajuda a entender ao menos uma fração das reclamações que a SADIA imputou a “detratores” e “caluniadores” na matéria do jornal. A argumentação da SADIA em defesa de si mesma indica que havia na cidade, em alguma medida, uma resistência a sua presença. Certamente havia dificuldade de enraizamento ou de estabilização da empresa na cidade. Isso requereu da SADIA uma resposta agressiva. Na matéria do jornal, a memória oficial acerca da reocupação do Oeste pelos autodenominados pioneiros é propositalmente coligada à compra do Frigorífico Pioneiro pela SADIA. Historicamente os dois eventos vinculados têm temporalidades distintas, separadas por quatro décadas. A reocupação do Oeste do Paraná, em 1940, e a aquisição do Frigorifíco Pioneiro, em 1970. Mas no plano simbólico, e subliminarmente, os dois acontecimentos são igualmente nivelados em sua importância histórica. Nesse caso, a SADIA se nutre da imagem do evento “fundador” de Toledo – ou o reivindica para si. Ao mesmo tempo essa operação subordina o passado de Toledo à presença da SADIA, especialmente as famílias envolvidas com a suinocultura. Para a SADIA a referência aos melhoramentos técnicos e tecnológicos na criação de porcos assinalaria o evidente atraso do “colono suinocultor” antes da compra do Frigorífico Pioneiro. A adoção de “métodos racionais” em oposição à “maneira empírica” do trabalho dos suinocultores arrastaria consigo a ideia de superação de uma realidade arcaica. Assim, a SADIA se qualifica como protagonista relativamente aos suinocultores. Tal lógica foi estendida à economia local à medida que a presença modernizada do frigorífico teria adicionado mais dinheiro no comércio, nas indústrias e na arrecadação pública. De fato, a participação da SADIA na arrecadação de impostos é um elemento mensurável. Em 1970 sua produção havia superado em três ou quatro centenas percentuais o desempenho do antigo Frigorífico Pioneiro. Foi um fato que passou a habitar, crescentemente, o imaginário da população. Seu impacto na indústria também pode ser aferido. Nesse caso, empresas conectadas indiretamente à SADIA, na condição de prestadoras de serviço ou de fabricantes de derivados do frigorífico (como couro, por exemplo), só impulsionaram a economia no início da década de 1980. (BORGES, 2007) De qualquer modo, todos entrevistados foram unânimes em reafirmar a importância da SADIA para a cidade, embora a maioria deles tenham apresentado sinceras dificuldades em conjugar a imagem positiva da SADIA com alto grau de exploração praticado na linha de produção. Conta ainda a favor dessa ideia de progresso de Toledo promovido pela SADIA, a ramificação de uma cadeia produtiva ligada ao frigorífico, estruturada, fundamentalmente, na criação de suínos e na instalação de uma fábrica de ração – que por sua vez demandavam safras de milho. Ainda a critério da SADIA os argumentos sublinhavam números relevantes acerca da quantidade de animais abatidos, de empregos, de salários pagos e de recolhimento de impostos. A narrativa autorizada pela SADIA se articula às imagens da página do jornal reproduzida anteriormente. Legendadas, elas foram publicadas para expressar dimensões de grandiosidade, modernidade e avanço. De um ponto de vista teórico seria ocioso explicar longamente que as imagens são parte integrante da elaboração de um discurso. (VOLVELLE, 1997) Mais importante é analisa-las. A foto da planta produtiva do frigorífico, realizada do alto, é ressaltada na matéria publicitária. A legenda, “Vista aérea das modernas instalações do Frigorífico Pioneiro S.A.,
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unidade SADIA em Toledo”, aparentemente neutra, orienta a interpretação da foto a partir de três informações: “modernas”, “Frigorífico Pioneiro S.A.” e “unidade SADIA”. Decorre disso um sentido histórico que conecta subalternamente o Frigorífico Pioneiro à SADIA. Uma vez adquirido pela SADIA, o frigorífico – antes denominado Pioneiro – se torna moderno, não somente porque tem sua planta reformada, mas também porque é convertido numa unidade produtiva da SADIA. Desse modo, todo esforço representado na matéria vincula-se à nova temporalidade histórica que explica aquele tempo presente, “antes da SADIA” e “depois da SADIA”. É difícil pensar uma perspectiva diferente dessa. Alguém que tenha vivido uma experiência de algum modo marcante com o frigorífico poderá produzir uma leitura alternativa a da matéria. Seguem-se prováveis casos. Algum criador de suínos ou um fornecedor que se sinta prejudicado no comércio com a SADIA, trabalhadores descontentes com as condições de trabalho, com o ritmo das tarefas ou com o autoritarismo dos chefes. São pessoas que, por diversas razões, guardam uma memória afetiva desfavorável ao antigo Frigorífico Pioneiro. Mas é improvável (mesmo para os que tinham uma visão negativa da SADIA na cidade) que a imagem da planta produtiva registrada na matéria não tenha retido a atenção dos leitores, exatamente por suas robustas dimensões. Igualmente, entrevistados indicaram que a presença física do frigorífico, a oferta de empregos e uma ideia geral de que a economia local havia mudado de marcha, confirmavam a leitura que a SADIA fazia de si mesma. Num estrato mais profundo e menos óbvio de análise, encontraremos uma força que é exercida sobre – ou em relação – a cognição dos leitores. Diz respeito a que tipo de atitude os moradores de Toledo deveriam ter a partir da presença inconteste do frigorífico e de seus impactos na cidade. Neste caso se trata menos do conteúdo e mais da projeção de valores e de sentimentos que podiam se conectar com os leitores, com seu universo cultural e com suas expectativas pessoais (quem eu penso ser, quem eu gostaria de ser, por exemplo). Não são ligações fáceis de fazer e de perceber. Por meio da publicidade o frigorífico buscou estabelecer um contato sutil com a cidade e desse contato ele esperava que os moradores se identificassem consigo. Uma das ideias referidas a modernidade e ao avanço tecnológico se encontra exibida na imagem do abate de suínos “com aplicação de atordoamento por choque elétrico”. A demonstração dessa prática contrastava com o conhecimento tradicionalmente empregado no abate de porcos. Grande parte da população estava familiarizada com o abate do animal, fosse devido à cultura do trabalho na economia dos minifúndios, ou pelo contato indireto com esse método considerado único há séculos. É preciso ressaltar que o conteúdo dessa matéria publicitária não foi construído sobre temas de interesse geral. Eles dependiam de um universo cultural específico, particular, cujo contexto estava alicerçado em Toledo. Muitas vezes o abate, o retalhamento, a desossa e a produção de embutidos da carne de porco conformavam uma atividade que envolvia toda a família sob a denominação de “carnear”. Não por acaso o envolvimento nessa atividade mantinha regularidade e gravava, em quem participava, uma sociabilidade que conseguia importante lugar na memória. Por tudo isso, a publicidade feita pela SADIA manejava elementos do universo cultural da maioria da população e, ao mesmo tempo, surpreendia os leitores com a inovação tecnológica estampada
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no jornal. Por óbvio, esperava-se uma reação positiva relativamente à imagem que se pretendia da SADIA. Chegamos até aqui e devemos parar. A história desse frigorífico também pode ser contada estatisticamente. Interessa aqui o período que vai da compra do frigorífico Pioneiro ao ano de 1975, quando essa planta produtiva se consolidou como a maior e mais importante da SADIA. Sob o controle da SADIA desde 1964 o frigorífico passou por mudanças estruturais relevantes como a reparação de telhados e paredes, a substituição de maquinário obsoleto utilizado para abater e preparar as carcaças, a instalação de câmaras frias e a recuperação de equipamentos mais simples. No ano seguinte, a produção havia praticamente duplicado relativamente aos anos anteriores, registrando um abate médio de 100 suínos por dia. No ano de 1969, a Frigobrás (nova denominação do frigorífico) abateu 173.199 cabeças, aproximadamente 474 por dia, 374 a mais da produção registrada quatro anos atrás. (CARAVALHO, 2016) Ajuda a avaliar o desempenho do frigorífico em 1969 o fato de ter sido responsável sozinho por 43% de toda a produção do Paraná, num contexto em que a região Sul do país tinha metade do rebanho nacional. Seis anos depois, em 1975, inteiramente controlado pela SADIA, o frigorífico abatia 369 mil cabeças, o equivalente a 38,6% dos abates no Estado, que já era o 1o no ranking nacional desde 1970. Essa evolução dos números oferece um retrato do dinamismo do Frigorífico Pioneiro sob o domínio da SADIA. Conforme se estende esse exame para as décadas seguintes se vê um crescimento estável, com pequenas curvas negativas coincidentes com crises do mercado internacional de forte impacto no país, a exemplo de 1982. No âmbito do Paraná, mesmo considerando a abertura de novos frigoríficos e o aumento da produção das antigas plantas produtivas, a SADIA alcançou 47,14% de todos os abates realizados no ano de 1984. Quanto aos trabalhadores, seu recrutamento e a visão que formaram da SADIA, necessita outro percurso de análise. Foi possível localizar e entrevistar sete homens que trabalharam na SADIA no período que vai da década de 1970 a 1990. Todos eles, de um modo ou de outro, reafirmaram a boa reputação do frigorífico. Vieram de diferentes lugares. Rio Grande do Sul, interior do Paraná, estados do Nordeste. Diferente do que costumeiramente pensamos, gaúchos e catarinenses não eram maioria. Solteiros ou casados, eles buscaram Toledo na expectativa de encontrarem trabalho. Não vieram necessariamente atraídos pela SADIA. A motivação geral foi a busca por emprego. E também, de maneira geral, esperavam conseguir isso em Toledo porque ouviram de parentes, amigos ou conhecidos, boas notícias de lá. Se é possível falar nua rede de informantes é mais adequado imaginar uma comunicação casual, precária e muitas vezes desinteressada. Pelos relatos não era incomum um trabalhador chegar com a família e não contar com nenhum tipo de apoio, ninguém a lhe esperar. Esse tipo de situação desenha uma parte importante do retrato dos trabalhadores que ingressaram na SADIA nos anos 70, permanecendo lá por longo tempo. Um dos entrevistados saiu do norte de Minas em direção ao interior de São Paulo, apostando na colheita do café. Um ano depois, em 1970, ele e a esposa foram para Toledo. Ouviram que lá havia boa oportunidade de emprego. Sem se aprofundar, ele disse que ambos viveram de bicos durante meses, até ele ser contratado pela SADIA como servente de pedreiro. Sobre isso, dois pontos merecem destaque em sua fala.
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O primeiro salário o deixou entusiasmado. Ocorreu-lhe que daquele pagamento em diante haveria estabilidade na renda, mesmo que fosse pequena a remuneração. Dois meses depois ele foi “fichado” na empresa como pedreiro, ato que confirmou seu desejo. Para quem perambulou sobre um cabo de enxada a vida quase que inteira, ele interpretou o frigorífico como uma saída daquele circuito. Havia ainda, em todo país, o sentimento de que as grandes empresas gozavam de maior fôlego do que as médias e pequenas, e isso podia ser visto como uma vantagem, principalmente com a perda do direito a estabilidade no emprego em 1966, reforma realizada pela ditadura militar que a substituiu por um pequeno depósito de indenização realizado mês a mês, denominado à época de Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. À distância conhecemos este episódio como um capítulo importante da história dos trabalhadores. No Brasil, numa visão mais próxima e sintonizada no tempo, o juízo que os trabalhadores faziam das poucas possibilidades ainda abertas para eles tornava o frigorífico uma boa solução. Em pouco tempo, um ano ou mais, o entrevistado disse ter sido promovido à função de auxiliar de produção, onde aprendeu a lidar com a carne suína e, mais tarde, com frango. Ao longo de sua trajetória tornou-se chefe de produção, cargo em que se aposentou no final dos anos 90. Resumido em seus grandes pontos, o fluxo desse trajeto é positivo. Sua vida se confunde com a da empresa. Ele reafirma a SADIA como um lugar de oportunidades e com solidez capaz de atravessar quatro décadas. A estruturação de sua vida e da família dependeu disso. Ele e a esposa financiaram a formação de dois filhos, uma contadora e um programador de computação “que tem sua própria empresa”. O entrevistado, com 68 anos de idade em 2015 (ano em que realizamos dois encontros), ofereceu poucas brechas para uma leitura a contrapelo. As características do trabalho lá executado, adjetivado por ele como “duras”, indicam uma divergência, relativamente a trabalhadores que saíram ou foram demitidos, e outros que permaneceram embora se queixando das condições e do ritmo das tarefas. Os demais entrevistados expressaram percurso semelhante, mas com uma zona maior de contradições, todas elas ligadas as relações de trabalho. Temas clássicos da Sociologia do Trabalho como a monotonia, a repetição das tarefas e as relações com a chefia foram citados, apesar de numa escala tímida. O trabalho caracterizado como difícil e pesado apareceu em primeiro plano no raciocínio de cada um. As carcaças eram corpulentas e os cortes exigiam força. Atividades repetidas e enfadonhas e potencialmente agressivas à saúde apareceram com a linha de corte de frangos em meados dos anos 80. O frio das câmaras e as escadas, dispostas numa planta produtiva pouca ou nada desenhada em função do conforto de quem trabalhava, esgarçavam a resistência dos trabalhadores. A questão da autoridade fabril também foi mencionada, oscilando entre boas lembranças que afirmavam haver amizade entre subalternos e as chefias, e episódios que recordavam a distância que separava os trabalhadores dos chefes. Nesse último caso, as lembranças eram narradas em pequenos intervalos de tempo, parecidas com espasmos, verdadeiros atos falhos. Na síntese possível, chefias são chefias. Elas necessitavam controlar seus subalternos e extrair deles o máximo de trabalho, evitando todo desperdício de tempo. Ditavam o ritmo da produção e também, por necessidade, negociavam seus limites todas as vezes que trabalhadores atingissem as fronteiras do insuportável. Desse ponto de vista, na maioria dos
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casos as relações de força implicavam uma aproximação social entre esses lados, fato que mantinha tráfego mais ou menos livre para diálogo entre eles utilizado visando a composição de interesses. No limite disso, a aceitação dos chefes nos círculos de trabalhadores não era sincera. Em resumo, naquilo que interessa, as experiências analisadas indicam certo desconforto dos entrevistados em enquadra-las na memória positiva exigida pela SADIA. O segundo ponto examinado diz respeito às políticas de compensação aos trabalhadores devido a tais características do trabalho. Constituíram-se também um recurso para evitar ou diminuir o absenteísmo e a rotatividade. Em 14 de dezembro de 1979, no jornal Tribuna d’Oeste, a SADIA financiou uma página inteira de publicidade, data da comemoração do aniversário de Toledo. Uma fração da página oferecia empregos para homens na função de auxiliar de frigorífico, auxiliar de fábrica de ração e servente de pedreiro. Pedia-se idade entre 18 e 35 anos, ótima constituição física e altura mínima de 1,60 metros. Para mulheres havia vagas de auxiliar de frigorífico, com idade entre 18 e 35 anos, solteira e altura mínima de 1,50 metros. A função de pintor exigia experiência e idade igual ou superior a 18 anos. Por fim, os auxiliares de granja deviam ser solteiros, com idade entre 18 e 35 anos e altura acima de 1,60 metros. A ergonomia da planta produtiva e das granjas determinava a altura especificada e a constituição física. Nas granjas, o estado civil decorria da necessidade de morar próximo às granjas em função da dedicação exclusiva de 24 horas com a manutenção das aves. Já as mulheres, o critério que excluía as casadas costumeiramente tentava se livrar do risco de lidar com grávidas e os direitos trabalhistas que as colocavam fora do trabalho por algum tempo. Compunha o conjunto dessas exigências o “atestado de boa conduta”, documento afiliado a ditadura militar. O informe da SADIA terminava listando os benefícios oferecidos aos trabalhadores na intenção de recruta-los. Assistência médica, assistência odontológica, refeitório a Cr$ 10,00 por refeição (aproximadamente 8 reais em valores de 2017), seguro de vida, convênio com farmácia, associação esportiva e recreativa, complementação de aposentadoria, convênio com a Transtol (transporte coletivo). Antes de 1979, a SADIA incluía nesta lista facilidades para a compra da casa própria por meio do programa de financiamento de habitação da Caixa Econômica Federal. No contexto econômico de aumento da informalidade no mundo do trabalho, a SADIA não oferecia pouca coisa, mesmo se considerarmos a existência de conflitos trabalhistas envolvendo pagamento de horas extras, por exemplo. É possível e necessário avaliar a hierarquia das ocupações na SADIA comparando-as no interior da estratificação do mercado de trabalho local (referido conceitualmente numa linguagem weberiana). Nesse enquadramento seriam duas as formas de estratificação. A classe, definida no âmbito das relações de produção, vistas de acordo com a posição ocupada no mercado de trabalho, e o status correspondente à profissão ou a função desempenhada, equivalente à posição da pessoa no processo de trabalho. (WEBER, 1992, p.682-694) Considerando que no frigorífico existia uma diversidade de funções, uma malha salarial com algumas variações (embora todas elas muito próximas do salário mínimo), o estrato recortado para análise engloba as ocupações manuais, particularmente aquelas localizadas na linha de produção. Elas correspondiam a 90% de toda força de trabalho. Ainda sobre isso, cabe avaliar que a população residente nas cidades da região Oeste do Paraná, no ano de 1970, não excedia 20%, fato que dificultava o recrutamento de trabalhadores para o trabalho urbano. Toledo registrou naquele mesmo ano uma população
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rural de 78,24%, o que significava 15 mil moradores na cidade frente um total de 50 mil habitantes. A população do campo representava mais de três vezes o número de habitantes da cidade. (BRASIL, 2010) Do ponto de vista dos empregadores a disponibilidade de mão de obra não era animadora. No período de 1975 a 1980, relativamente aos deslocamentos internos ao Paraná, as saídas empataram com as entradas, representadas por 4.235 pessoas emigradas contra 4.989 pessoas imigradas. Porém, no mesmo período, as estatísticas referentes aos deslocamentos interestaduais registraram a chegada 2.347 pessoas em Toledo, contra a saída de 12.544 pessoas de Toledo para outros estados, restando uma diferença líquida negativa de 10.197. Foi este número que pressionou a SADIA a rapidamente formar um “estoque” de trabalhadores na cidade. (ALVES, 2011, p.210) A produção acadêmica sobre a demografia da região informa que tais saídas tiveram como destino a “expansão da nova fronteira agrícola, constituída principalmente pelos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia”. Existe muita verdade nessa afirmação desde que se considere a diversidade social das pessoas que migraram. Não foram para lá somente os que tinham capital para investir na compra de terras e no cultivo de monoculturas. Uma grande parte, ainda que seja impossível estimar um número exato, imigrou na condição de pessoas proletarizadas e pressionadas pelos baixos salários praticados em Toledo. As classes dominantes praticavam, de forma cartelizada, o mesmo teto salarial, operação que formatava um mercado de trabalho bastante controlado. Esta situação não se modificava noutros municípios do Oeste do estado. Isso formava um tipo de mercado de trabalho cuja dinâmica era “inercial”. Não importa se os postos de trabalho aumentaram ou diminuíram, a média salarial permanecia a mesma. Tal equação funcionava como uma alavanca de acumulação de capital progressiva, com poucas e pequenas interrupções em seus índices. Esta política do patronato exerceu alguma pressão sobre os trabalhadores. As informações extraídas em entrevistas formais e informais apontaram para uma média salarial, na indústria e no comércio, de pouco mais de um salário mínimo, num quadro crescente de aumento da massa da mais-valia e da acumulação de capital. Dificilmente a remuneração ultrapassava dois salários, o que acontecia em funções burocráticas e intelectuais, como professores, bancários, contadores, gerentes e grande parte dos servidores públicos. Os menores salários ficavam com os trabalhadores do campo, muitos deles continuamente substituídos pela intensa mecanização. Para evitar a rotatividade e o absenteísmo, a SADIA ofereceu serviços que se somavam aos salários. Tal expediente tornava os postos de trabalho atrativos, embora, na prática, deixasse os trabalhadores ligeiramente à frente dos demais para não se apertarem muito com as contas. Os entrevistados que ajudaram a informar formar esse quadro devem ser vistos e entendidos como trabalhadores aposentados e remanescentes dos anos 70 e 80. É um pequeno grupo cuja memória alinha contradições decorrentes de distintas sensibilidades ligadas ao trabalho, ora boas, ora ruins, as quais eles escolheram não renunciar. Nesse ponto suas histórias de vida iluminam áreas que explicam sua permanência no frigorífico, mas que não ajudam a pensar as decisões de muitos trabalhadores que seguiram por diferentes caminhos, desistindo da SADIA ou escolhendo outra empresa. Não há como abordar e analisar esse tipo de experiência aqui.
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Um elemento comum aos que ficaram é a certeza de que as ocupações pregressas se mostraram piores do que o trabalho na SADIA. A privação frequentemente constitutiva dos lugares de onde saíram (regiões pobres do interior do Paraná, Minas Gerais e estados do Nordeste) espantava dúvidas sobre se a decisão tomada era correta ou não, funcional ou não face ao abandono da sociabilidade estruturada há tempos. Nesse contexto é que devemos posicionar os esforços de recrutamento da SADIA. Os entrevistados, todos eles migrantes, contaram que trabalharam como serventes de pedreiro, na limpeza de fossa, “chapas”, enfim, diversas ocupações temporárias. Para eles não pareceu possível – ou desejável – resistir a necessidade de migrar. Até mesmo as ocupações intermitentes que conseguiram em Toledo se mostraram piores do que o lugar de onde vieram. Do ponto de vista da SADIA esse tipo de combinação lhe favoreceu nos anos 70. Certamente esta é uma leitura positiva que os entrevistados fazem de suas vidas. É um tipo de retrospectiva que reflete a ideia de sucesso. É verdadeiro que ela comporta contradições importantes como a sistemática exaustão no trabalho na SADIA. Ainda que seus relatos indiquem que, depois da década de 1990, que se tornaram piores os ritmos e a organização do trabalho e a relação com os superiores, a experiência vivida nos anos anteriores se estruturou em constantes pressões para aumentar a produtividade. Ao lado disso, parte das condições de trabalho – como a insalubridade causada pelas baixas temperaturas – ainda se equiparava a realidade dos frigoríficos do início do século passado. Mas, como argumentei, sob a perspectiva dos trabalhadores, suas vidas na fábrica não foram interpretadas – e traduzidas nas entrevistas – como negativas. Sobre isso, cabe analisar que no contexto do capitalismo uma trajetória exitosa necessita evidência material legível para que os pares possam conferi-la e legitima-la, mesmo que seja interpretada com ressentimento. No caso dos entrevistados casa e carro figuravam como prova de um percurso exitoso. Filhos escolarizados e posicionados no mercado de trabalho, com “carteira assinada” são uma evidência que reforça o sucesso dos pais. Ao lado desses predicados, um dos elementos mais importantes na construção de tal status é o trabalhador se ver ligado ao curso triunfante de uma empresa. Nesse caso, a especificidade histórica dos trabalhadores da SADIA diz respeito às experiências comuns vividas por eles, constituídas, principalmente, por uma visão positiva das relações de trabalho e de serviços prestados pelo frigorífico, listados. E nesse contexto, a amarração dos trabalhadores ao frigorífico é aceita de tal forma que se torna difícil de deslindar. Inicialmente criada pelo frigorífico, tal política foi em parte elaborada e organizada a partir de experiências historicamente precedentes, sacadas de repertórios de outros frigoríficos ligados a SADIA já estruturados e com a força de trabalho razoavelmente estabilizada. Para a empresa tratava-se de diminuir o absenteísmo e a rotatividade. Para o trabalhador contavam condições de trabalho e salários aceitáveis, considerados bons na comparação com outras empresas da cidade. Além disso, havia um bom fluxo de comunicação com os gerentes que possibilitava que pequenos pedidos e reclamações tivesse vazão e, às vezes, fossem atendidos. Paralelo a isso, queixavam-se contra a sobrecarga de trabalho e o ritmo das tarefas. Tais reclamações aparecem vez ou outra nas entrevistas, rompendo ou interditando brevemente o curso positivo das narrativas. Este é um tipo de contestação que os entrevistados tentam contornar retomando ou iniciando outro assunto após risos constrangidos, silêncios desconcertantes, gaguices, recursos que denunciam atos falhos. São
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sinais tímidos nas entrevistas – embora frequentes – que desorganizaram precisamente os pontos de vista dos entrevistados. A constância desses reclamos – externados de forma breve e intermitente – avaliza pensar que a memória desses trabalhadores não suprimiu lembranças negativas conectadas às experiências de trabalho no frigorífico da SADIA. E, devo ser claro, essa não é uma característica específica desses trabalhadores, senão um traço estruturante de narrativas que articulam uma determinada consciência da exploração do trabalho e da posição subalterna no contexto de relações sociais vividas à quente. O fato de essas lembranças aflorarem sem planejamento, com pouco ou nenhum cuidado, sem premeditação, as torna importantes para compreender o mundo do trabalho naquele frigorífico. Na verdade, no ato da entrevista, tais recordações não são sequer autorizadas. Seu aparecimento desestabiliza o sentido positivo da narrativa pretendido pelo entrevistado, exceto nos casos em que o cansaço resultante de tarefas duras e difíceis é apresentado como prova de uma ética e de uma moral ascéticas. Mas nesse caso não foi possível conferir as raízes desse comportamento que liga certos trabalhadores a algum tipo de recompensa devido ao trabalho realizado com diligência. Nesse ponto, para eles o cansaço ou os pequenos acidentes no trabalho são encarados como naturais, pois nesse ideário a dor e sofrimento atestam um vínculo positivo com o trabalho. Mas este não é um aspecto específico da cultura daqueles trabalhadores.
5.3.1. A Vila Operária do Frigorífico Pioneiro/SADIA (1959-1979) As primeiras casas que constituíram a Vila Operária do extinto Frigorífico Pioneiro em Toledo estão identificadas na imagem 5. Imagem 8 – Frigorífico Pioneiro, 1959, Toledo-PR
Fonte: Museu de Toledo. Frigorífico Pioneiro de Toledo. 1959. 1. Planta produtiva do frigorífico; 2. Casas de madeira; 3. Estrada de acesso; 4. Propriedade rural.
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Elas estavam separadas do frigorífico por uma via de acesso a planta produtiva. É possível visualizar nove casas enfileiras, mas certamente havia outras. Entrevistados falaram em mais de dez. Duas razões principais levaram os donos do frigorífico a construírem estas casas. Eles enfrentavam dificuldades para atrair e fixar trabalhadores com razoável conhecimento sobre a ocupação. Não encontraram pessoas bem treinadas e entrosadas com a totalidade do processo produtivo, e isso fez com que buscassem trabalhadores especializados no extremo Sul do país, onde o trabalho industrial com carne datava do início do século XX. Ao mesmo tempo, precisavam superar obstáculos à logística do deslocamento da força de trabalho sediada na cidade ou lugares relativamente distantes do frigorífico. Sob chuva, o trânsito de trabalhadores se tornava praticamente inviável. O absenteísmo também comprometia a produção. Colocar os trabalhadores e suas famílias dentro do domínio do frigorífico foi visto como uma solução eficiente. Cinco anos depois, a SADIA adquiriu o Frigorífico Pioneiro. Como disse, contaram a favor de Atílio Fontana, principalmente, a escassez de recursos financeiros dos acionistas para ampliar a planta produtiva, aumentar a produção e escoar os produtos beneficiados. As divergências internas dos acionistas salientaram posições de vender o frigorífico (o que talvez tenha sido feito sem prejuízo do capital investido) e de continuar o empreendimento com objetivo de expandi-lo. Ao que parece, o desfecho foi intermediário, pois a SADIA adquiriu parte das ações de modo que uma fração dos antigos proprietários permaneceram donos e no comando operacional do frigorífico. O que interessa neste ponto é a constituição de uma vila operária cuja dinâmica é alterada depois que a SADIA compra inteiramente o frigorífico Pioneiro. As casas construídas conjuntamente a planta produtiva desde 1959 foram progressivamente desativadas ou transferidas para área onde a Vila Operária se constituiria. A casa representada na imagem 6, construída em madeira, compôs o grupo inicial de casas de propriedade do frigorífico. Ela sobrevive há 70 anos. Ao seu lado havia outras três quando o registro fotográfico foi realizado em 2017. Imagem 9 – Casa do Frigorífico Pioneiro, comprado pela SADIA
Fonte: Acervo de Gustavo Schneider. (SCHNEIDER, 2018) Casa de Madeira. Antiga Vila Operária. Atualmente Vila Pioneiro. 2017.
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Imagens do frigorífico feitas em torno de 1969 evidenciam isso. De outro lado, a SADIA iniciou processo de assentamento de funcionários interessados em casas localizadas em terreno próximo ao frigorífico, conforme pode-se ver na imagem 7, na disposta na figura retangular ao fundo. Tratou-se de conjunto de casas construído com financiamento do BNH (Banco Nacional de Habitação) e apoio informal do frigorífico. Denominada de Vila Operária, era “um aglomerado de 300 casas em filas verticais e horizontais. No meio, um quadrado onde posteriormente foram construídas uma escola e uma praça. A vila era cercada por um matagal, por terras destinadas ao cultivo e também por outras habitações”. (FANO, 2018, p.77) Imagem 10 – Vila Operária, 1979, Toledo-PR
Fonte: Museu de Toledo-PR
Em 1979 o conjunto contava com aproximadamente 300 casas, não somente de funcionários da SADIA. A primeira planta baixa elaborada para edificação dessas casas ficou sob responsabilidade da Imobiliária HABITASUL, grupo privado fundado em 1967, sediado no Rio Grande do Sul e especializado no planejamento de conjuntos habitacionais. A imagem 8 representa a planta baixa desenhada por esta empresa para acomodar trabalhadores, principalmente, funcionários da SADIA.
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Imagem 11 – Planta Baixa da Vila Operária – Toledo-PR (1977)
Fonte: Acervo de Lucas Fano. (FANO, 2018)
Há dois pontos distintos, embora inseparáveis, que ajudam a entender a importância da Vila Operária para a SADIA em Toledo desde a aquisição do frigorífico Pioneiro: (i) a fixação de força de trabalho e de reserva de trabalhadores nas proximidades da planta produtiva e (ii) especulação imobiliária com a Vila Operária. Oferecer moradia aos trabalhadores é algo bastante funcional para a empresa. Como aspecto geral da política da SADIA, a exemplo do que ficou claro no caso da vila operária do Frirondon, o estabelecimento de vínculos duradouros, de compromissos diversos dos trabalhadores com o frigorífico, à época se mostrava como algo prioritário. A estabilização da força de trabalho não parecia coisa fácil. A habitação se alinhava no horizonte dos trabalhadores com grande peso de modo a contribuir na definição da lealdade, dedicação e identidade com a SADIA. Este foi o traço mais saliente das vilas operárias na história das empresas ao longo do século XX, onde houvesse escassez de trabalhadores, particularmente trabalhadores acostumados à disciplina do trabalho e os especialistas. O segundo ponto diz respeito à função da moradia, para trabalhadores e empresa. As entrevistas realizadas com funcionários aposentados que ingressaram na SADIA de Toledo na década de 1970 se assemelham ao que foi dito por trabalhadores que habitaram no mesmo período a vila operária ligada a Frirondon (vendida depois para Frimesa/Ruaro, 1969-1979, e Swift-Armour, 1979-1989) e Ceval (1989-1996), exposto no capítulo “A Vila Operária do Frigorífico Rondon (1963-1979)”. Olhando panoramicamente experiências inventariadas na historiografia de trabalhadores empregados em empresas com vila operárias, chega-se à conclusão que o ato de morar muito bastante tempo fundamentou entre eles e suas famílias um direito de posse sobre a casa. A aquisição das casas geralmente acontecia por litígio ou acordos de compra e venda ou ainda em desfechos específicos. Tão importante quanto isso
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tornou-se a problematização da moradia como direito daqueles trabalhadores ao mesmo tempo em que era formatada pela empresa para ser uma mercadoria. Nesse caso, ela funcionava como elemento que fixava os trabalhadores à empresa. Como componente do capital ela barateava o preço da força de trabalho porque reduzia o absenteísmo, a rotatividade e permitia praticar um salário menor uma vez que a empresa mostrava a casa como uma compensação para os trabalhadores. Além disso, embora a SADIA não fosse proprietária das casas construídas com financiamento do BNH (operado pela Caixa Econômica Federal), a negociação para assentar trabalhadores nas proximidades da planta produtiva (a maior da região à época) poderia resultar em valores líquidos para a empresa. Tudo começou com a promessa feita na gestão municipal de 1962-64 de doação de terreno para o frigorífico Frigobrás (SADIA), ratificada na Lei n° 333, de 7 março de 1964. No dia 27 de outubro de 1976, o imóvel prometido, com área de 580.000m², foi registrado em nome da Frigobrás. No dia 29 de julho de 1977, por meio de Instrumento Particular de Aditamento, expedido pelo Banco de Desenvolvimento do Paraná, o terreno original é desmembrado em duas partes, 434.000m² e 146.800m². Ato contínuo, em 31 de janeiro de 1978, a Frigobrás vendeu a área de 146.800m² para Cooperativa Habitacional de Toledo, onde as casas que compuseram a vila operária foram construídas. (FANO, 2018, p.72-74) Ainda é possível encontrar casas originárias da época, com aproximadamente 40 anos e sem alterações. As imagens 9 e 10 referem-se a duas delas em condições visivelmente diferentes. Imagem 12 – Casa Vila Operária 1979
Imagem 13 – Casa Vila Operária 1979
Fonte: Acervo Particular Gustavo Schneider (1918)
Fonte: Acervo Particular Gustavo Schneider (1918)
A Vila Operária construída a partir de 1979 foi redesenhada ao longo dos últimos 20 anos pelos moradores. Atualmente, há poucas famílias que remanescem da SADIA e do loteamento inicial. As 300 casas edificadas à época compõem hoje a Vila Pioneira, o maior e mais populoso bairro da cidade. Não raro, residentes sem histórico relacionado a SADIA compraram casas desvalorizadas, as botaram abaixo e ergueram outras, maiores, mais confortáveis e alinhadas com os padrões estéticos atuais, ou então reformaram-nas de modo a apagar os antigos traços que homogeneizava a vila. Por sua vez, os trabalhadores ligados a SADIA que ainda moram no bairro (aposentados em número maior do que ativos) explicam que alteraram as plantas de suas casas
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com pequenas mudanças para ampliar a área construída acrescentando ou modificando banheiros, quartos, salas, cozinhas e garagens, principalmente garagens. Relatam isso com orgulho. É uma expressão de acerto na vida. A garagem é mostrada como signo de conquista, pois nela se guarda um ou dois carros conseguidos com uma expectativa quase inexistente na década de 1970. É um sinal de vitória, igualmente a casa. Mas há trabalhadores que se mantiveram nas condições vividas nos anos 70, com a casa em seu tamanho costumeiro, sem garagem e sem carro. Não se trata de percursos erráticos. O sucesso narrado em algumas entrevistas parece ter sido interditado por fatores como família numerosa e renda baixa, doenças de familiares, nenhuma ética extremamente positiva do trabalho, nenhuma racionalidade que estimulasse alguma poupança mesmo que possível. Nesse caso, o entusiasmo com sua própria trajetória vinha em cores cansadas e tinha lugar no passado, quando a casa era nova, o corpo era jovem e poucos sinais antecipavam um envelhecimento desinquieto, desenganado, pobre e desgostoso. Esta descrição reflete a situação de Tostão e é oposta ao que foi apresentado por Chico. Por isso mesmo, alinhadas, ambas formam uma escala que não estimula padronizar um perfil de quem trabalhou na Sadia nos anos 70 e 80, principalmente. Os dois falaram de experiências comuns, experiências de classe porque enraizadas no processo de produção como força de trabalho, homens expropriados, criados de mais valia, dentro de um universo conceitual marxista bastante válido para identificar realidades definidas pela exploração e dominação sobre o trabalho. Francisco, na condição de supervisor, assumiu uma posição vista por ele de mediador, vista pelos trabalhadores de chefete. Uma dimensão dessa ambiguidade pode ser decifrada lidando com o lugar ocupado por ele na produção, como trabalhador, e sua posição de pertencimento ao cargo de supervisor e às relações de poder institucionalmente estabelecidas na empresa, particularmente no setor onde trabalhadores estavam sob seu comando. Nesse caso, pode não interessar a veracidade do que um e outro contaram acerca de suas vivências na Sadia e da constituição da vila operária, ou interessar menos do que as perspectivas históricas que cada um imprime as suas narrativas. As virtudes da empresa que ambos destacam são diferentes porque a experiência de trabalho foi vivida distintamente. De modo semelhante, as virtudes da vila operária assumem sentidos diferentes – e também antagônicos – porque um tem na casa uma evidência de seu próprio progresso financeiro e familiar. A ampliação de quartos, cozinha e garagem feita ao longo dos anos equivale simbolicamente a si mesmo. É o que Chico apontou em sua narrativa. Se a vila operária é parte importante da história dos trabalhadores, também o é da empresa. A estabilidade da força de trabalho foi, na leitura da Sadia de Toledo, fator operado por políticas de assistência (planos médico e odontológico, clube recreativo etc.) e pela vila operária durante os anos 80 e meados dos 90, como parte de uma intervenção de tipo paternalista. Não raras vezes, o principal diretor da Sadia foi mencionado pelos entrevistados como alguém interessado no bem-estar dos funcionários e de suas famílias, atendendo pequenos pedidos cotidianos como folgas para resolver casos pessoais. A presença e o diálogo do diretor com todos na linha de produção soldou elos de confianças entre eles. Novamente, do ponto de vista desta análise, não é relevante a veracidade de tal fato, mas a perspectiva que os entrevistados conferem a ele endossando a eficiência daquele tipo de gerência. Esta dinâmica deu lugar a abordagem impessoal, baseada em regras rígidas e administradas pelos setores de gerência (tipicamente panificada) e de recursos humanos, sem espaço para 114
pequenos arranjos e ajustes. Onde houve oportunidade para pautar esta mudança, os entrevistados a avaliaram negativamente, incluindo aqueles mais afetos a empresa. Os fios que os amarravam a Sadia foram tecidos antes da introdução e desenvolvimento da cultura das novas relações capitalistas de trabalho flexibilizadas, cuja funcionalidade, do ponto de vista dos entrevistados, se fundou num tipo extremo de impessoalidade que lhes causou grande mal-estar. Chegamos ao ponto de afirmar que a memória desses trabalhadores guarda um saudosismo do tempo trabalhado na Sadia. Ele foi marcado por práticas paternalistas viabilizada e encarnada pelo diretor da empresa que atuava cotidianamente na linha de produção, conversando pessoalmente com os funcionários, ouvindo-os a respeito do trabalho, tratando-os por nomes próprios e, nalguns casos, entrosado com problemas familiares que pode ajudar a resolver com pequenas concessões na jornada de trabalho. Pequenas oficinas e fabriquetas na cidade eram e são acostumadas com essas práticas. Empresas pequenas tendem a operar com grandes níveis de impessoalidade este é um dos elementos importantes que vinculam trabalhadores à ocupação por longa duração e também constitui vigorosos e recíprocos compromissos. Visto bem de perto, tudo isso pode não resistir a análise paciente e criteriosa porque, seja na casa construída na vila operária, comprada conforme regras do mercado financeiro, seja no exercício da ocupação no frigorífico, ambas integram a lógica histórica de acumulação do capital que exige dominação e exploração do trabalho, com comedida ou desmedida coerção. Esta é uma verdade histórica que, quando discutida abertamente com os trabalhadores, não foi negada. Mas, deixados livres às próprias iniciativas de fala, as narrativas se concentraram noutros pontos conectados a experiência partilhada e considerada virtuosa de trabalhar na Sadia e receber o interesse, sincero ou não, do patrão. A casa e a vila compõem esta memória. Cada uma delas guarda uma dimensão importante da história desses trabalhadores
5.4. Quando o trabalho mata Durante pesquisa nos autos criminais da Comarca de Toledo relacionada a projeto sobre suicídios ocorridos na região havia lá um inquérito policial de 1971 aberto para apurar morte de um trabalhador no frigorífico da Sadia. A documentação judicial acerca do trabalho nos frigoríficos, particularmente os de abate de frango, é de natureza trabalhista e tem sido investigada por criteriosos pesquisadores e razoavelmente divulgada. O inquérito de 1971 trouxe informações diferentes porque sua prioridade não foi descrever diretamente o universo dos direitos do trabalho e seus litígios. Mesmo assim, sua forma indisfarçada de tratar uma morte no local de trabalho revelou pontos de vista e práticas do capital sobre os trabalhadores àquela época. Revelou também qual seria o terreno e os limites para os trabalhadores manobrarem seus interesses e compreensão da realidade. Metodologicamente, considerei este documento no contexto dos diferentes relatos que o compuseram e o informaram9. Assim, pude examinar a história propriamente dita do documento e das narrativas nele presentes, particularmente com o interesse e foco na dimensão das relações e das condições de trabalho no frigorífico. A natureza forense do 9
As datas e os nomes dos envolvidos no Inquérito foram alterados com o objetivo de resguardar as respectivas identidades.
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inquérito foi explorada e trabalhada apenas à medida que pudesse esclarecer aspectos históricos e a função política e social que informassem a judicialização da morte acontecida no frigorífico. Delegados, escrivães e juízes não agem imparcialmente na condução de tais documentos, e isso é inequívoco para os historiadores. Nesta direção antecipo meu argumento. A hipótese formulada após a leitura do documento vê alguma conjugação de interesses entre os representantes da lei e a direção do frigorífico. Em se tratando dos três trabalhadores que testemunharam devemos considera-los de dois pontos de vista. Eles aparecem como testemunhas oculares do acidente e também como subalternos da direção do frigorífico. O processo é constituído de vinte e seis páginas e oito peças individuais. São elas: (i) a determinação para a abertura do inquérito, (ii) a convocação de dois médicos para o “exame cadavérico” e o termo de promessa legal dos médicos, (iii) o laudo médico, (iv) o auto de descrição do local do acidente, (v) os três testemunhos, (vi) o relatório do delegado e (vii) o parecer da promotoria pública e (viii) o arquivamento. Todo inquérito policial começa com a deliberação de abri-lo e com um enunciado que circunstancia o objeto do inquérito. Nessa parte inicial do inquérito o enunciado do acidente de trabalho ocorrido no frigorífico se apresenta como uma descrição elaborada pelo delegado de polícia a partir de informação “chegada ao conhecimento desta autoridade”. A síntese feita pelo Delegado Regional de Polícia tem poucas linhas e esclarece que Raimundo Pereira se acidentou “por volta das 14:20 horas” carregando um traseiro bovino congelado e que faleceu no hospital, minutos depois de ter sido socorrido. Em seguida, são intimados dois médicos para a peritagem, o diretor do frigorífico e nominalmente três trabalhadores que teriam testemunhado o acontecido. Ainda no dia do acidente o delegado e o escrivão foram até o frigorífico para examinarem o local do acidente. Naquela ocasião eles registraram que “existe um pequeno declive na passagem para o corredor por onde os traseiros de bovinos são transportados” e que ali, normalmente “caem sangue, graxas e gelo”. Definido o cenário do acidente eles afirmaram que o trabalhador escorregou e a peça de carne congelada lhe esmagou o crânio. Na construção do fato o delegado considerou o cenário visitado, a informação inicial no inquérito e o laudo médico que declarou ter havido esmagamento do crânio “com perda de substância encefálica e protrusão do olho esquerdo devido a enorme derrame de intracraniano.” Destaca-se no laudo a frase “o acidente deu-se acidentalmente”, ou seja, sutilmente isentada a empresa, o escorregão do trabalhador não passou de um acaso. O inquérito nos conta pouquíssima coisa de Raimundo, esse era o seu nome. Sabe-se que tinha esposa e que trabalhava há pouco tempo no frigorífico. As declarações e os depoimentos realizados no inquérito citam as condições movediças do piso no frigorífico e a consideram como uma característica permanente do corredor que liga a câmara fria até os caminhões que transportavam a carne congelada que ia para o exterior. Soma-se a este ponto a afirmação de um dos depoentes sobre ter escorregado anteriormente ao acidente que sofreu Raimundo, soltando a carne congelada que trazia num dos ombros e se salvando, fato que motivou o chefe da seção a avisar a todos “que se cuidassem, pois aquele local estava escorregadio”. Interligados esses argumentos, o inquérito sugere que Raimundo ainda não estava inteiramente apto àquele trabalho uma vez que tinha pouco tempo na firma. Ao mesmo 116
tempo, ele e os demais trabalhadores haviam sido avisados a respeito da zona de perigo naquela travessia. Essa lógica comandou o processo e, de acordo com ela, Raimundo seria o responsável por seu acidente. A insalubridade e periculosidade que caracterizavam claramente aquelas condições de trabalho foram naturalizadas, desobrigando o frigorífico pela morte de Raimundo. Interpretadas assim pelo delegado e pelo Juiz, o erro foi de Raimundo. De modo geral, pode-se dizer que o inquérito isenta a empresa em relação ao acidente e, por consequência, a protege de uma ação judicial que reclamasse uma indenização pela morte de Raimundo. O ponto central dessa ideia é a circunstância do acidente. O escorregão acontecera em local movediço, repleto de graxa, sangue e gelo. Este mesmo argumento serviria como prova de periculosidade e insalubridade contra o frigorífico. Qualquer brecha no inquérito deveria ser tapada de tal modo que os testemunhos precisariam expressar uma compreensão comum acerca do acidente. Isto foi feito, mas restaram pequenas contradições e registros que podem ser interpretados como indícios que rejeitam a ideia de que Raimundo fora culpado por sua própria morte. Há detalhes na declaração do diretor do frigorífico sobre as circunstâncias do acidente e das providências tomadas. No termo de declaração prestada dois dias depois da morte de Raimundo o diretor se mostrou meticuloso ao dizer que “determinou que a vítima fosse transportada ao hospital a fim de ser medicado” e que fizera “as comunicações às autoridades policiais e ao INPS”. É possível que tais esclarecimentos visassem afastar eventuais desconfianças acerca de um comportamento negligente da empresa. A presença do capital e do aparato policial e jurídico nesse caso determinou fortemente a culpa de Raimundo no acidente. As transcrições dos depoimentos dos três trabalhadores que viram tudo concordam com a descrição apresentada pelo diretor do frigorífico no dia do ocorrido, inclusive o horário. Não há contradições legíveis nas peças que compõem o inquérito. Até mesmo a única discordância relevante no inquérito – sobre quem socorreu Raimundo – não prospera sob o olhar investigativo. Certo é que o delegado e as testemunhas se fiaram na ordem dos fatos apresentada inicialmente pelo diretor do frigorífico, e terminaram por reafirmá-la. “O acidente deu-se acidentalmente”.
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TERCEIRA PARTE TRABALHO E TRABALHADORES EM FRIGORÍFICOS DE AVES (1970-2010)
1. O protagonismo brasileiro na produção de carne de frango Como o Brasil se tornou um dos principais produtores de carne de frango do mundo? O objetivo deste capítulo é responder esta questão analisando evidências dentro de uma escala histórica que vai do final do século XIX ao XXI. O exame realizado sobre o material de pesquisa deixou para os capítulos seguintes abordagens específicas e mais profundas sobre o trabalho e os trabalhadores, pontos considerados mais importantes nesse estudo. A intenção aqui foi formar um quadro geral e panorâmico acerca da dinâmica que constituiu uma cadeia de produção avícola, particularmente no Brasil. Definido este quadro, outras dimensões dessa história serão retomadas e aprofundadas, principalmente a mais relevante delas, a experiência dos trabalhadores. O Brasil encerrou o ano de 2016 como o segundo maior produtor de frangos do planeta, atrás dos Estados Unidos. Desde a década de 1980 começou a figurar entre os maiores produtores. Nos últimos 20 anos, ele se consolidou na terceira posição, atrás da China e dos Estados Unidos. Em 2015 passou à frente da China e ocupou a segunda posição. E no caso das exportações de carne de frango, também em 2015, o Brasil tem a liderança com 31% a mais do que as exportações realizadas pelos Estados Unidos. O restante é consumido pelo mercado interno brasileiro, aproximadamente 2/3 de toda a produção dos frigoríficos. Outro importante indicador da importância da carne de frango na economia nacional é o seu consumo per capita no país, exibido da tabela 1. Nos últimos 55 anos o consumo médio tem crescido sistematicamente. Em 1970 ele foi de 2,3 kg, subiu para 9,5 kg em 1980 e se manteve neste patamar até meados daquela década com pequenas variações. Voltou a aumentar no final dos anos 80, atingindo 14,2 kg em 1990. A partir dali seu crescimento foi constante e acelerado. Saltou para 23,3 kg em 1995, 29,9 kg em 2000, e 35,4 em 2005. Em 2010 alcançou 44,5 kg, ultrapassando, pela primeira vez, o consumo per capita de 44 kg nos Estados Unidos. Em 2011 alcançou 47 kg, seu ponto mais alto na escala. Nos anos seguintes o consumo começou a declinar lentamente. De 47 kg em 2011 para 45 em 2012 e 41 kg em 2013. Os números seguintes indicam estabilização no consumo, variando entre 41 kg e 43 kg. E, conforme registrado noutro lugar, uma comparação desses números mostra que atualmente um jovem de 20 anos consome 42 kg de carne de frango a mais do que seu avô consumia quando tinha a mesma idade que o neto, há 50 anos
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Tabela 3: Evolução do Consumo per capita de carne de Frango no Brasil (1970-2016) Ano Consumo per capita % 10 1970 2,3 kg 100 1975 6 kg 160,8 1980 9,5 kg 58,3 1985 10 kg 5,2 1990 14,2 41,2 1995 23,3 kg 64,1 2000 29,9 kg 28,3 2005 35,4 kg 18,4 2010 44,5 kg 25,7 2011 47,3 kg 6,3 2013 41,8 kg -11,6 2015 43,2 kg 3,2 2016 41,1 kg - 4,86 Fonte: UBA; Ministério da Agricultura11. Organização do autor.
É preciso considerar que expressões per capita indicam evoluções de fatores socialmente desiguais, como renda e consumo alimentar. Certamente existem desigualdades na quantidade consumida de carne de frango, ou de combustível, ou de viagens aéreas entre pessoas de classes sociais diferentes. Tal deformação é mais evidente quando se formata uma renda média da população do país. É verdade que, geralmente, as medidas per capitas produzem uma visão distorcida do consumo individual. Desse modo, a expressão do consumo de carne na tabela 1 precisa ser lida com alguma reticência, embora o crescimento do consumo em geral ali indicado serve para dimensionar sua dinâmica na economia nacional. Numa escala de longa duração esses números apontam uma ascensão sem interrupções, acelerada a partir da década de 1980. Em meado dos anos 50 estimou-se que foram abatidas 7,2 mil toneladas de carne de frango. (ARASHIRO, 1989, p.156-157) Este número saltou para 224 mil toneladas em 1971, 484 mil toneladas em 1975 e ultrapassou a casa dos milhões ao atingir 1,2 milhões de toneladas em 1980. (DALLA COSTA, 1997, p.259) A evolução da tecnologia empregada na criação de frangos também aumentou a produtividade à medida que encurtou o tempo de vida dessa ave até ser abatida. Atualmente o peso do frango para o abate é de 2,44 quilos, mas ele já foi de 2,25 quilos em 2000, 1,9 em 1990, 1,8 em 1980, 1,7 em 1970, 1,6 em 1960 e de 1,5 em 1930. Na década de 1940 um frango ou uma galinha viviam 3,5 meses até a degola. Vinte anos depois este tempo foi reduzido para dois meses até encolher à casa dos 41 dias em 2009. O índice de conversão alimentar (medido pelo consumo de ração do animal durante o período de engorda dividido pelo ganho de peso) igualmente refletiu a intensa inovação tecnológica havida no setor. Resultou disso a diminuição da quantidade de ração necessária ao tempo ideal para engorda dos frangos, numa relação que já foi de 3,5 em 1930, de 2,5 em 1950, de 2,15 em 1970, de 2,05 em 1990, Estimativa baseada em informações de SORJ (1982, p.26). O cálculo cruzou informações da União Brasileira de Avicultura (UBA) com dados demográficos do IBGE. Em números absolutos a produção de carne de frango no Brasil (em toneladas) dobrou entre 1975 e 1980 (de 480 mil para 1.1 milhões) e voltou a dobrar nas duas décadas seguintes (1.1 milhões em 1980 para 2.2 milhões em 1991, e para 5.4 milhões em 2001, alcançando 9 milhões em 2010). 10 11
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chegando a 1,78 em 2009. Na base tecnológica dessas mudanças estão volumosos esforços de melhoramento genético e desenvolvimento de insumos, ambos controlados por empresas multinacionais oligopolizadas. Tudo isso, ou quase tudo isso, foi herdado da experiência dos frigoríficos que abatem bois e porcos. Trata-se de um espólio tecnológico que influenciou a organização da cadeia avícola. O processamento da carne é organizado de modo taylorista/fordista, e a estruturação dos frigoríficos de frango se beneficiou do know-how da linha de desmontagem dos matadouros de bois e porcos. Baseado nessa herança, a cadeia avícola evoluiu e avançou mais rapidamente do que a bovina e a suína, devido, principalmente, ao melhoramento genético (responsável pelo encolhimento do tempo necessário à maturação da ave). Comparativamente, em 1930 um frango podia ser abatido depois de 4 meses de engorda, pesando em média 1,5 kg. Em 2016, depois de 45 dias o frango era abatido com 1,8 kg. O fornecimento de matéria-prima numerosa e barata completou a virtuosidade desta cadeia produtiva. No final da década de 1950 iniciou-se o sistema de contrato entre as companhias (que controlavam o abate e a venda das aves) e pequenos fazendeiros estadunidenses. Este contrato, denominado de integrado, repassava aos fazendeiros a responsabilidade pelo trabalho de engorda das aves e pela construção de aviários (tecnicamente prescritos pelas empresas). Às empresas cabia o fornecimento dos pintainhos, dos medicamentos, da ração e da assistência técnica. Ao final de cada lote de aves engordadas os fazendeiros recebiam um pagamento referente ao número de frangos entregues e à taxa de conversão alimentar. As companhias divulgavam a promessa de que este contrato diminuiria os riscos dos fazendeiros, mas o que se viu foi outra coisa. Este processo de subordinação de pequenos fazendeiros aumentou rapidamente a capacidade de alojamento de aves, criando um farto abastecimento de matéria-prima. Ao longo das décadas seguintes este esquema dizimou com a produção independente de tal modo que, em 1980, aproximadamente 95% dos frangos para corte vendidos nos Estados Unidos originavam-se deste tipo de contrato (STULL & BROADWAY, 2004). Em suma, a trajetória bilionária da indústria da carne tem se sustentado nesta equação: produção em cadeia e trabalho barato. O Brasil seguiu de perto esse tipo de organização da produção de carne de frango. Visto numa perspectiva mais ampla, este tipo de subordinação do trabalho de pequenos agricultores alinhou-se dentro de uma escalada do capital sob formas não-capitalistas de produção. A ideia de “integrar” pequenos proprietários veio importada dos Estados Unidos, alinhavada pela intenção de sitiar novos mercados para uma prática oligopólica de extensão rural. Em relato biográfico, Attilio Fontana, fundador da SADIA, mencionou (como vantagem) a conexão dependente entre a avicultura brasileira e a americana. A experiência da integração de camponeses no interior de Concórdia/SC, onde a SADIA foi criada, nascera de uma viagem aos Estados Unidos, patrocinada pelo Ministério da Agricultura do Brasil, a convite do governo estadunidense: um funcionário da SADIA que compôs a comitiva de fazendeiros brasileiros “trouxe de lá uma imagem do que de melhor se praticava na técnica da suinocultura e da avicultura” (FONTANA, 1980, p.138). Não obstante Attilio Fontana rememore a implantação do sistema de integração primeiramente na produção de suínos, sua recordação enfatiza a estruturação dos aviários:
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[...] forneceríamos o pinto de um dia, a ração balanceada e a assistência técnica; esta gratuita, a ração e os pintos a crédito, sem nenhum desembolso, pois da parte deles [camponeses]. E quando, no prazo aproximado de 55 dias, as aves prontas para o abate fossem retiradas pelos nossos caminhões, eles pagariam o custo dos pintos e da ração e receberiam o lucro. (Fontana, 1980, p.170)
Embora a experiência da avicultura integrada no Brasil tenha sido iniciada pela SADIA na década de 1960, a expansão deste modelo só aconteceu em meados da década seguinte. Antes disso, a avicultura no Brasil permaneceu voltada prioritariamente para a produção de ovos porque estes apresentavam preços mais acessíveis ao consumo de massa que os valores cobrados pela carne do frango ou pela ave in natura, comprada e abatida pelas próprias donas de casa conforme prática que predominou até meados dos anos 70. De modo geral, a evolução da tecnologia empregada na criação de frangos elevou a produtividade porque encurtou o tempo de vida dessa ave até ser abatida. Ao mesmo tempo o capital combinou esta tecnologia com trabalho abundante e barato, forjando as condições para diminuir progressivamente os custos em toda a cadeia avícola. Isto empurrou os preços de varejo do frango para baixo de modo a aumentar a demanda por esta carne e, numa escala crescente, ampliar a sua produção. Foi assim que ao longo dessas décadas o preço do kg de carne de frango baixou notadamente. Ele retraiu de 4,05 dólares o quilo, em 1974, para 1,2 dólares, em 2009. À medida que a carne de frango se tornou mais barata, seu consumo emparelhou com a carne bovina e ultrapassou a carne suína. Em 1970 o consumo per capita anual de frango no Brasil era de 2,3 quilos contra 22,8 de carne bovina e 8,1 de suína. Em 1995 ele alcançou 23,2 quilos de carne de frango contra 25,4 de carne bovina e 7,9 de suína12. É de se perguntar o que aconteceu com o capital inserido neste contexto de expansão. Suas características foram oligopólicas desde o início. Quando o frango constituía um artigo de luxo no Brasil (até meados do século XX), poucas granjas concentradas em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro abasteciam os principais restaurantes e as grandes cidades do Sudeste (ARASHIRO, 1989). Habitualmente as aves eram negociadas ainda vivas. Quando abatidas, sua venda realizava-se por inteiro, sem cortes. Isto se modificou à medida que o processamento industrial transformou o frango em diversas mercadorias: peito, coxa, sobrecoxa, asa, coração etc. Cada uma dessas partes passou a ser vendida como um produto independente e isso só se viabilizou porque a produção, no caso do Brasil, ora atendeu demandas de mercados estrangeiros que exigia cortes específicos da carne do frango, ora pressionou os consumidores nacionais a adotarem novos hábitos alimentares, como o consumo seletivo de coração, asa e coxa de frango, por exemplo. Por sua vez essa mudança se tornou possível a medida que os frigoríficos equiparam e expandiram suas plantas produtivas, aumentando a área de suas indústrias e o contingente da força de trabalho com destreza suficiente para manufaturar artigos diversificados da carne de frango. Ao mesmo tempo, os frigoríficos se capitalizaram no mercado financeiro de modo a desenvolver um processo de oligopolização do mercado. Nos anos 70, no início da industrialização da carne de frango, o mercado já se apresentava oligopolizado, com Estes números foram cotejados e extraídos de diversos documentos da União Brasileira de Avicultura e de literatura especializada sobre o assunto. 12
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aproximadamente metade da produção sob o domínio de três empresas: Sadia, Perdigão e Seara (Ceval). Quatro décadas depois, em 2010, estas mesmas empresas tornaram-se responsáveis por 64,7% de toda a carne de frango exportada do Brasil. Somadas à quarta maior exportadora no país, a Doux (principal empresa europeia do ramo), o percentual sobiu para 75%. Relativamente à produção nacional estas empresas dominam hoje algo em torno de 1/3, fato que realça seu desempenho como exportadoras de carne uma vez que os compradores estrangeiros pagam mais que o mercado interno13. A geografia do capital envolvendo os frigoríficos e a cadeia de produção também tem acompanhado esse processo de oligopolização. Ao menos do Brasil, a produção avícola encontra-se concentrada em poucos estados, e nos estados ela está reunida em determinadas regiões. Por ordem decrescente, os maiores abatedores e processadores de carne de frango no país no ano de 2016 foram o estado do Paraná, responsável por 33,46% da produção, Santa Catarina com 16,06% e Rio Grande do Sul com 14,11%. À distância, com 9,3% está São Paulo. A região Sul, detentora de 63,63% do abate e processamento no país, tem grande parte de sua produção aglomerada na região Oeste, onde se encontram insumos para ração, criadores de frangos, logística para transporte do frango vivo e processado e força de trabalho relativamente numerosa. (ABPA, 2017) Em grande medida tal concentração tem acontecido com o objetivo de acentuar o domínio dos frigoríficos sobre a região onde empregam trabalhadores para as diversas tarefas que fazem funcionar a cadeia avícola. Trata-se de ocupar pessoas nas incubadoras onde os ovos são chocados, nos aviários que recebem pintainhos e entregam lotes de frangos, no recolhimento das aves para o transporte realizado até o frigorífico e na linha de produção, lugar em que o frango é abatido, eviscerado, cortado e empacotado. Quando isso ocorre os frigoríficos estendem seu controle sobre pequenos povoados e cidades que passam a depender fundamentalmente da presença dessas empresas. Se por um lado os frigoríficos expropriam pessoas e lugares para garantir seu funcionamento e lucros, por outro lado eles remuneram multinacionais que controlam segmentos da genética animal, medicamentos, nutrição e maquinários de processamento das aves. O monopólio das chaves genéticas das aves que abastecem os aviários é paradigmático do sentido oligopólico que necessariamente adquire toda a cadeia da carne industrializada. Grupos multinacionais como Tyson e Rhodia comandam o desenvolvimento genético de linhagens puras que dão origem aos frangos de corte. Eles detêm, quase que sozinhos, a propriedade das aves utilizadas na procriação de outras aves que geram os pintainhos enviados para os aviários. É um processo que oligopoliza o mercado. Se na década de 1990 cerca de quinze empresas atuavam no melhoramento genético de aves de corte, atualmente apenas três empresas dominam este negócio: Aviagen (Alemanha), Cobb-Vantress (EUA) e Hubbard (França). Dentre estas três, as duas primeiras detêm aproximadamente 80% deste mercado (MARTINELLI, 2010). Para qualquer lugar que se olhe, a cadeia avícola é resultado direto da interferência e da organização do capital monopolista. É neste contexto que a mais-valia gerada na esfera da produção da carne é repartida. Grande parte dela é drenada sempre para os segmentos mais dinâmicos e de maior composição orgânica que dominam a ciência e sua aplicação prática, isto Os cálculos se basearam nos relatórios anuais da União Brasileira de Avicultura, edições de 2006/2007 e 2009/2010. Disponível em http://www.abef.com.br/ubabefnovo/publicacoes_relatoriosanuais.php. 13
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é, genética, medicamentos, nutrição e maquinaria. Não à toa são estes setores os mais monopolizados e os que constituem e manejam a hegemonia acerca da cadeia avícola. Significa dizer que a exportação de capital referida por Lenin no início do século XX, numa quadra histórica constituída de um enorme capital excedente, realiza-se na cadeia avícola na forma de transferência de processos técnicos e de pacotes tecnológicos aplicados e consumidos no âmbito da produção. Esta lógica econômica pode e deve ser interpretada historicamente considerando, inicialmente, o peso do capitalismo na organização e divisão da produção e as experiências sociais de trabalhadores nela envolvidos. Lenin oferece uma chave analítica útil para compreender tal processo à medida que permite comparar a expansão do capitalismo na cadeia avícola no Brasil e o desenvolvimento clássico do capitalismo verificado no final do XIX e começo do XX, denominado de imperialismo. Lenin afirmou que a expansão do capitalismo há 100 anos constituíra monopólios sobre ramos produtivos. Ele destacou que aquele movimento integrava etapas anteriores e intermediárias da produção sob uma mesma articulação. Lenin se referia aos trustes, e utilizou a indústria do tabaco para ilustrar seu argumento. O que ele testemunhou foi uma indústria que se apossava de todas as patentes existentes, reformulava-as de modo a aplicá-las em todo o processo de produção do cigarro (desenvolvendo plantas produtivas que produziam suas próprias máquinas), e se encarregava diretamente das vendas no atacado (LENIN, 1979, p.592-593). Ele argumentou também que a tendência do capitalismo seria a de expandir suas fronteiras apoiado no capital financeiro para explorar trabalho barato no exterior e invadir mercados estrangeiros de países menos desenvolvidos: “Nos países atrasados o lucro é em geral elevado, pois os capitais são escassos, o preço da terra e os salários relativamente baixos, e as matérias-primas baratas” (LENIN, 1979, p.622). São estes aspectos que ajudam a compreender a organização do capital na cadeia avícola nos últimos 50 anos. Sabemos desde Lenin que o capital monopolista tende a apropriar diretamente os ramos produtivos mais dinâmicos da economia e, a partir deles, subordinar todas as etapas de produção de determinada mercadoria. No caso da cadeia produtiva avícola são empresas que atuam no desenvolvimento de sementes (base das rações para aves), agroquímicos (biológicos, antimicrobianos, endectocidas etc.) e matrizes animais (melhoramento genético), por exemplo. Elas têm amplo espectro e uma capilaridade mundial, como a Cargill (cuja sede está em Minneapolis, Minnesota), que tem elevada participação no mercado mundial de nutrição animal e opera a partir de mais de 800 escritórios em 49 países, empregando diretamente cerca de 55.000 trabalhadores (HEFFERNAN & CONSTANCE, 1994). Tecnologias em posse de empresas da Cargill possibilitaram engordar mais rapidamente o frango com uma quantidade menor de ração. Já empresas como as alemãs Basf e Bayer, e a estadunidense Pfizer, dominam o mercado de produtos veterinários e diminuem a taxa de mortalidade de frangos criados aos milhares em compactos aviários. De maneira semelhante, a estadunidense Cobb-Vantress controla o melhoramento genético e a produção das matrizes vendidas para empresas que atuam na criação de frangos para abate (SANTINNI, 2006). O aumento da produtividade do trabalho verificado tanto no manejo dos aviários como nos frigoríficos completa este quadro. Percebe-se aqui que houve uma reorganização do processo de trabalho articulada a inovações tecnológicas que tem pressionado os trabalhadores a reduzirem o “desperdício” de tempo e de meios de produção. Os fabricantes 123
de equipamentos, por exemplo, ressaltam em propagandas que não cessam de aperfeiçoar e oferecer máquinas que comprimem, cada vez mais, postos de trabalho. A esse respeito, a Marel Food System, uma multinacional de origem dinamarquesa que produz máquinas para frigoríficos, recentemente anunciou uma tecnologia que automatiza o corte da carne de frango em tiras e cubos (exigência do mercado japonês), o que diminuirá a presença humana às funções especializadas de operação e manutenção do maquinário. (SAVAGLIA, 2009) A remuneração de toda a cadeia está, assim, aprisionada por uma necessidade crescente de aumento da oferta da mercadoria que realiza os lucros no mercado (a carne de frango) e que também requer um consumo em permanente expansão. Cabe lembrar ainda que no contexto do capitalismo monopolista os frigoríficos não eliminam a queda tendencial da taxa de lucro. Longe disso, a elevação do lucro total se faz, como antes da formação do monopólio, por meio da diminuição do lucro contido em cada quilo de carne produzida e vendida, uma intensificação da produção e da produtividade. Esta é a regra que também determina o funcionamento dos frigoríficos no Brasil. E além dos fatores que fazem o crescimento oligopolizado e monopolizado desse segmento, apontados anteriormente, os trabalhadores aparecem como a parte mais sensível no processo da produção da carne. Eles obviamente permanecem como fonte única da extração de mais valia. Contudo, as características da exploração do trabalho vêm mudando nos últimos 60 anos, por volta de 1970 em diante, e elas precisam ser examinadas em pontos importantes tais como o recrutamento de trabalhadores (facilidades e dificuldades), os conflitos na definição dos ritmos da produção (no tempo de trabalho realizado) e o adoecimento. Ao mesmo tempo em que esses números informam a dimensão desse setor produtivo, geralmente eles são repetidos para ilustrar a dinâmica da acumulação de capital ocorrida no setor agroindustrial no país durante os últimos 40 anos. Eles têm servido também para alimentar um repertório político que ovaciona a importância do setor avícola na pujante economia brasileira. Cabe problematizar a força desses números à luz da história de milhões de trabalhadores que, durante as últimas oito décadas, fizeram a riqueza de granjas, frigoríficos e multinacionais ligadas a agroindústria. Estima-se que 5 milhões de trabalhadores estão atualmente ligados direta ou indiretamente à cadeia produtiva avícola. De modo mais específico interessa-me identificar e discutir as relações de trabalho existentes ao longo da estruturação da cadeia produtiva avícola (numa escala que vai do trabalho nos criatórios aos frigoríficos), enfatizando a presença dos trabalhadores neste processo. A razão dualista que postulava a existência de um Brasil rural e atrasado e outro urbano-industrial moderno perdeu força à medida que muitos críticos insistiram no caráter desigual e combinado do capitalismo no Brasil, mostrando como formas consideradas arcaicas de produção no campo estavam articuladas ao processo de acumulação de capital de modo a apoiar, de diversas formas, os setores da economia tidos como mais dinâmicos e desenvolvidos. Entretanto, pouco se discutiu que esta articulação integrou modos de vida e de trabalho tradicionais destruindo-os como tais.
2. Criar e vender galinhas caipiras A venda ambulante de aves vivas, particularmente de frangos e galinhas caipiras, perdurou até recentemente. Era uma prática relativamente antiga que encontrava respaldo em 124
hábitos e costumes igualmente antigos. Havia uma forte desconfiança contra a venda da ave morta, motivada pelo medo de que alguma peste tivesse tirado sua vida. A venda da ave já depenada e eviscerada era incomum. Além disso, contar com uma galinha na panela podia ser considerado um importante evento doméstico. Um almoço de domingo, uma visita ilustre, a comemoração de datas importantes como um batizado, enfim, este não era um prato trivial. Até o final da década de 1970 ainda era possível topar com vendedores de frangos e galinhas caipiras nas ruas de pequenas cidades. Essas aves eram criadas por trabalhadores pobres, donos de pequenos pedaços de chão ou roceiros e meeiros vinculados a grandes fazendeiros. As aves cresciam soltas no terreiro que se estendia ao fundo da casa. Passavam o dia ciscando e recebiam milho no crepúsculo, embaladas por um som que tentava imitar seu cacarejo. Aos finais de semana aqueles trabalhadores socorriam-se na cidade levando seus frangos e galinhas pendurados pelos pés, num varal de madeira, ou fechados num balaio. Frangos caipiras vivos também eram revendidos em armazéns e mercearias, principalmente nas médias e grandes cidades. Aliás, esses estabelecimentos eram abastecidos por pequenos criadores. As poucas granjas de aves para corte, instaladas no país desde os anos 20, forneciam preferencialmente para restaurantes e hotéis. (ARASHIRO, 1989) Imagem 14 - Vendedores de Aves (Rio de Janeiro, 1895)
Fonte: Foto de Marc Ferrez.
Assim acontecia na região onde nasci, o Alto Paranaíba mineiro. Havia o Divino, um senhor que oferecia frango caipira à porta de casa todos os sábados. Certo dia eu o escutei reclamar, humilde e respeitoso, contra aquelas máquinas inoxidáveis que assam frango. Divino pareceu irritado diante da concorrência dos frangos assados. Mal sabia ele que até lá em casa estávamos nos habituando a comprar o frango assado da lanchonete do Lazinho, todo
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domingo. A renda conseguida daquele trabalho parecia ser cada vez mais fundamental para a sobrevivência de trabalhadores como Divino. Sua situação de camponês estava sob pressão há algum tempo à medida que se via forçado a se alternar entre os afazeres em sua chácara (principalmente a hortaliça que plantava e a criação de galinhas), o trabalho de boia-fria nas lavouras de café que se expandiam naquela região e a venda da produção familiar na condição de ambulante. A pouca independência e autonomia que marcara a vida de alguns estava sendo corroída pelo avanço dos latifúndios e da monocultura mecanizada. O mercado de alimentos industrializados vagarosamente tirava o lugar de Divino. Em 1995 gravei uma conversa com alguém bastante representativo dessa experiência histórica de expropriação. Zé da Mata tinha 53 anos à época, pai de três filhos, fundador do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Monte Carmelo/MG e animador do núcleo da CEB da comunidade rural da Tijuca. Ele me disse que quando se casou, em 1970, muitos iguais a ele tinham vendido as pequenas terras com alguma esperança de melhorar de vida comprando uma casa na cidade e trabalhando como assalariado. Não foi o caso dele e nem o da maioria dos moradores da Tijuca. Resistiram como puderam às ofertas de agricultores de café vindos do Paraná no final dos anos 70. Seu modo de vida era modesto se comparado aos padrões de consumo urbanos daquela época. Em seu sítio Zé da Mata, ajudado pela esposa, plantava o suficiente para o consumo e ainda fabricava a própria roupa de algodão cru. O excedente produzido era negociado na cidade, inclusive frangos e ovos caipiras, mas nunca se tornou objeto de acumulação. Tentou sair daquela posição uma única vez sem sucesso. Foi em 1970. Eu mudei pra essa casinha aqui donde tá até hoje. E, nessa luta!, mexendo com roça, pro gasto. Uma vez eu fiz um financiamento pra tocar uma roça no cerrado aqui. Naquela ocasião que roça tinha muita influência por causa do cerrado, deu foi prejuízo. Tive que vender criação pra poder pagar as coisa do banco. Aí eu trabalho só pra despesa, que eu dou conta de tocar [a roça] sozinho. Num ganha nada, mas também num fica devendo ninguém, né?
Nesse universo ainda havia pequenos matadouros e frigoríficos de frangos voltados para mercados locais. Sua existência data dos anos 40, estimulada pelo encarecimento das carnes de boi e de porco no contexto da segunda grande guerra. Normalmente podem ser descritos como unidades de produção familiar, demandando parco capital para funcionar. Sua engenharia foi definida por Osny Arashiro como “muito simples e precária”, formada de “a) depósito ou curral; b) sala de matança; c) sistema de refrigeração; d) sistema de distribuição”. (ASHIRO, 1989, p.154) Conheci um desses pequenos frigoríficos que funcionou até o final dos anos 80. Pertenceu a Afrânio, companheiro nos idos tempos do Partido dos Trabalhadores. A sala de abate tinha funis que recebiam os frangos para a degola. Ao lado ficava um caldeirão onde os frangos eram escaldados. Na mesma sala, em balcões diferentes, eles eram depenados e eviscerados. Finalmente iam para um tanque onde eram limpos e acondicionados para o congelamento (feito em refrigerador comum). Noutra sala que dava para a rua eles eram comercializados. Numa rudimentar divisão do trabalho ficavam Afrânio e o filho mais velho encarregados da produção, e Afrânio, novamente, ajudado pela esposa (que cuidava dos
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afazeres da casa), atendendo os clientes. Os três outros filhos, entre 7 e 12 anos, faziam serviços menores além de estudar. Contudo, nos anos 80, a existência de vendedores de galinhas e frangos caipiras como Divino, ou de pequenos frigoríficos como o de Afrânio, era recessiva e não dominante. Ambos sucumbiram à gigantesca cadeia de produção de carne de frango estruturada no Brasil a partir dos anos 70. Naquela década a produção de carne de frango teve um arranque, organizada que foi em escala industrial. De 1970 em diante iniciou-se o deslocamento da maior presença agroindustrial avícola em Minas Gerais e São Paulo para Santa Catarina e Paraná, e com ele aconteceu a instalação de grandes frigoríficos a exemplo da Sadia e Perdigão. Mas o costume que conectava milhões de moradores nas cidades a pequenos armazéns, mercearias e trabalhadores como Divino, não foi fácil e prontamente desativado pela progressiva produção industrial de carne de frango14. Ele foi duramente atacado. Quatro fatores contribuíram sobremaneira para viabilizar tal mudança. O barateamento do preço da carne de frango, novas necessidades e noções de higiene que alteraram a compreensão popular sobre o preconceito contra o consumo do frango abatido, o desenvolvimento de uma logística que permitiu uma distribuição nacional mais adequada (isto é, lucrativa) e o emprego de tecnologias que possibilitaram o congelamento sem efeitos colaterais visíveis. A primeira dessas mudanças decorreu de forte e rápido incremento tecnológico que permitiu a manipulação genética das matrizes de frangos de maneira a aumentar seu peso, abreviar o tempo de engorda e alterar sua constituição física hipertrofiando seu flanco (o “peito do frango”). Como já salientado, entre 1930 e 2009 o peso médio do frango aumentou 67% (de 1,5 quilo para 2,5 quilos). Se analisada em intervalos menores esta evolução fez-se mais nitidamente a partir da década de 1990, quando o peso registrado saltou de 1,9 quilo para 2,25 quilos em 2000, algo em torno de 20%. O aumento alcançado nesses 10 anos equiparouse ao que havia sido conseguido entre 1930 e 1990. O mesmo investimento aconteceu na nutrição e imunização dos frangos. A composição da ração, cada vez mais, privilegiou componentes que aceleraram o crescimento das aves. À ração são misturados diversos antibióticos que travam uma luta incessante contra minúsculos parasitas que não cessam de transmutar-se para resistir e anular os medicamentos. Vacinadas desde o ovo e alimentadas durante 41 dias (ou 45 a depender do tipo de frango) essas novas aves agigantaram-se tão rapidamente que, não raras vezes, sua frágil estrutura óssea e os flancos hipertrofiados tornaram inviável seu deslocamento. Mas se caminhassem normalmente seria um esforço inútil dada a superlotação dos aviários. Completa este quadro uma produção industrial em escala de tipo taylorista / fordista a partir da qual o trabalho nos frigoríficos ficou reduzido a padrões de cortes repetitivos e de fácil apreensão. Tal modelo industrial que sustentou esta mudança a partir dos anos 70 espelhou-se no desenvolvimento monopolista do capital, concentrando, em poucas e grandes empresas, as patentes das inovações tecnológicas, a pesquisa em geral e a própria produção de frangos (no que diz respeito aos frigoríficos). Tudo isso espremeu para baixo o preço da carne de frango relativamente às carnes bovina e suína. Como já foi dito, o preço nacional do quilo
Sobre a mudança na sensibilidade do homem frente ao abate em massa consultar Amy Fitzgerald (FITZGERALD, 2010, pp.58-69) 14
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dessa carne no varejo caiu de US$4,05, em 1974, para US$1,2 em 2009, contribuindo para ultrapassar o consumo de outras carnes. A segunda mudança que favoreceu o aumento do consumo de carne de frango abatido deveu-se à generalização e intensificação de novas noções de higiene sobre a carne. A presença do Estado no abate e comércio de frangos fez-se por meio, principalmente, de fiscalização exercida pelo Sistema de Inspeção Federal (SIF), cuja ação pressionou fortemente os pequenos e médios estabelecimentos ajudando os grandes matadouros a empurrá-los para fora do mercado. A isso se associou a necessidade, rapidamente disseminada a partir dos anos 80, de aligeirar o tempo das refeições. Nas médias e grandes cidades o hábito de “comer fora”, imposto pela intensificação das jornadas de trabalho15, fomentou o surgimento de restaurantes populares self-service que se tornaram grandes compradores de carne e passaram a exibir, em suas cubas, filés de frangos ao lado de tipos pouco nobres e mais baratos de carne bovina. Quanto ao consumo doméstico, o frango preparado ou congelado (limpo e pronto para o preparo) mostrou-se mais adequado aos novos hábitos alimentares. A vantagem do frango sobre seu concorrente direto, o boi, foi ajudada ainda por uma sistemática propaganda que divulgava e adulava suas características nutritivas, ressaltando a menor presença de gorduras saturadas como emblema de alimento saudável. Nesse universo protéico a carne de frango foi promovida ao primeiro lugar, apresentada e amplamente reconhecida como a opção mais salutar e barata. Exemplifica bem esse processo o frango defumado (fabricado pela Sadia), que vinha temperado e podia ir direto para o forno, o que reduzia seu tempo de preparo. A mascote da Sadia surgiu inspirada neste produto (imagem 12). Mas não foi o frango a primeira ave que se afirmou em tais condições. Lançado em 1974, o “Peru Sadia”, pré-temperado, tornou-se símbolo desta mudança. Imagem 15 – Mascote da Sadia
Fonte: Mascote da empresa. Primeira versão de 1971 e imagem atualizada.
A propaganda de carne congelada, semipreparada para o consumo, ajudou a generalizar um costume que parecia melhor adaptado às grandes cidades do Brasil nos anos 60 e 70. Para viabilizar o contexto pretendido a Sadia promoveu duas fortes imagens Esta conjuntura tem sido caracterizada, principalmente, pelo crescente distanciamento entre a residência e o local de trabalho, o aumento do trabalho feminino, jornadas cada vez mais intensificadas e com curtos intervalos para o almoço. 15
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fundamentais para tornar seus produtos tão íntimos do consumidor quanto o frango caipira. O slogan "Pelo ar, para seu lar" prometia uma rápida, moderna e segura distribuição para o Rio de Janeiro e São Paulo, dois dos principais mercados consumidores do país. O arrendamento de uma aeronave da Panair fez a ponte entre o frigorífico de Santa Catarina e o sudeste do Brasil, numa época em que os caminhões frigoríficos ainda não estavam disponíveis. O franguinho com capacete e óculos de motociclista ajudava a popularizar esta imagem. Ele deveria inspirar rapidez e economia de tempo na compra e no preparo da carne, dois dísticos que expressavam os novos ritmos da vida nas grandes cidades. A estruturação dessa cadeia de produção de carne de frango implicou uma equação aparentemente simples, que combinou a importação de tecnologia industrial com a externalização de funções produtivas para um imenso número de colonos (assim os camponeses são denominados em grande parte do sul do país) que se capitalizaram por empréstimos e aparelharam suas terras como avicultores ou suinocultores, recorrendo ao trabalho familiar. Este modelo implantado no Brasil reorganizou todos seus componentes e engrenagens (novas e velhas) numa articulação internacional com o capital. Grandes multinacionais mantiveram o domínio sobre os itens com alto nível de inovação tecnológica, tais como a pesquisa genética, a química das rações e os medicamentos e vacinas. A movimentação e o consumo dessas mercadorias foram garantidos por uma cadeia de produção que hoje agrega matrizeiros, criação de pintos, engorda de frangos, produção de ração, gigantescos frigoríficos e uma logística para a distribuição da carne 16. Não há segredo nisso. O processo que minou a sobrevivência de Divino é o mesmo que impôs um novo costume alimentar ao brasileiro (costume alimentar que viabiliza novo costume de consumo) e que subordinou dezenas de milhares de famílias camponesas à agroindústria, isto é, ao novo padrão de acumulação de capital. O que mais há para falar sobre isso?
2.1. De graxains e integrados se faz a agroindústria Uma história comparada que coloque lado a lado a vida de pessoas como Divino e a de trabalhadores diretamente envolvidos no carregamento de frangos para os frigoríficos mostra os sentidos da continuidade desse tipo de trabalho e da condição de quem lida com essa mercadoria. Num exemplar do jornal “O Presente”, da cidade de Marechal Cândido Rondon, de 16 de agosto de 2014, uma pequena nota em meio às notícias policiais informava que que um graxaim havia sido morto a tiros. A polícia conseguiu prender o assassino, mas estranhamente o graxaim foi tomado como criminoso. Sua mãe e seu sogro dolorosamente argumentaram que a “ficha na polícia”, usada para identificá-lo como bandido, dizia respeito a uma infração de trânsito. Meses antes de ser morto, o rapaz havia sido pego dirigindo sem habilitação. Graxaim é um canídeo comum na região sul. Mede cerca de 60 centímetros e pesa entre 4 e 6 quilos. Já foi o terror das galinhas, um popular predador, e é por esse motivo que seu nome tornou-se o apelido dos trabalhadores pagos para pegar frangos nos aviários e As primeiras pesquisas que discutiram este modelo datam do final dos anos 70, com destaque para o estudo de Bernardo Sorj. (SORJ, 1982) 16
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carregá-los até os caminhões que transportam as aves para os frigoríficos. Tive a oportunidade de conversar com dois “graxains”, num aviário instalado no interior de Pato Bragado/PR, por volta das 5 horas (a jornada de trabalho geralmente começa às 19 horas, quando os frangos ficam menos agitados). Fui até lá para observar o que já registrara em entrevistas. Bastante sonolentos e encharcados de suor eles tinham terminado de carregar o caminhão. Descansavam uns poucos minutos antes de esvaziarem o último galpão naquela longa noite, noutro aviário ali perto. O trabalho deles não é bonito de se ver. Agacham, pegam os frangos e os carregam até as gaiolas que são levadas e empilhadas dentro do caminhão. É um movimento sincopado, mas sem qualquer traço de graça ou de criatividade. Depois de algumas horas de trabalho o corpo começa a se rebelar contra tais gestos, desaprovando a repetição insistente daqueles movimentos. De fato, fica visível que o tempo cobra algum preço por aquele esforço. No final da jornada estão abobados devido ao sono e sem qualquer vestígio da esperteza que geralmente acompanha a juventude. Assim caminha a humanidade naquele lugar. Eles ficaram um tanto desconcertados quando eu quis saber sobre a importância daquela atividade. Seus olhares pareceram estranhar minha pergunta. Do jeito deles me disseram que não há nobreza naqueles gestos e que os únicos a ganhar com aquilo são os avicultores e o frigorífico. Mas disseram também que era um trabalho honesto, e preferiam levar a vida assim, honestamente. Gostariam de voltar a estudar e ter uma profissão. Este é um plano adiado diversas vezes que ainda povoa suas expectativas. Aquele rapaz morto a tiros provavelmente partilhava este universo. Ele era um jovem pobre como os outros dois com quem conversei naquele alvorecer do dia. Era um rapaz pressionado a aceitar aquelas condições de trabalho. Ele era casado e trabalhava pegando frangos havia três anos. No dia de sua morte coube ao seu sogro esclarecer sua condição de trabalhador. Ele não era criminoso. Ele trabalhava pegando frangos. O repertório para rapazes como esse não é animador. Quando crianças eles acumulam deficiências escolares que provavelmente nunca serão superadas. Já na tenra adolescência começam a trabalhar educados que são para tornarem-se exemplos de honestidade e sacrifício. É quando são caçados por traficantes. O que fazer se a vida for uma sequência de dores intermináveis? Sentir-se anestesiado talvez renove temporariamente sua humanidade. Marx diria que nascer pobre e naquele lugar constitui uma forte determinação sobre a experiência humana; imagino que Edward Thompson não discordaria desta avaliação. De outro lado, vir ao mundo com uma pesada herança de expropriados parece ser uma das principais e mais importantes engrenagens para a reprodução do capital no setor avícola. Numa escala ocupacional comparativa que foi construída por um desses jovens os graxains estão localizados entre os catadores de materiais recicláveis e os serventes da construção civil. Este juízo considera, além dos rendimentos, o desprestígio reconhecido em cada um desses trabalhos. Se forçarmos a comparação numa perspectiva internacional veremos que os graxains ocupam, na agroindústria brasileira, lugar semelhante ao que ocupa a população de trabalhadores de origem latina nos frigoríficos estadunidenses (imigrantes ou descendentes nascidos nos EUA). Entre 1972 e 2001 os empregos em frigoríficos nos Estados Unidos saltaram de 106 mil para 258 mil, a despeito de uma mecanização extensiva das plantas produtivas e do uso de tecnologias intensificadoras de trabalho. (KANDEL, 2006) Até então este tipo de ocupação 130
oferecia relativa estabilidade e salários tidos como razoáveis, mesmo para trabalhadores com escolaridade abaixo da média. Tal crescimento tem sido fortemente marcado pelo aumento da presença de trabalhadores latinos (ou descendentes de latinos), que em 2000 já preenchiam quase 30% desses postos de trabalho, geralmente os serviços considerados mais pesados e difíceis. (KANDEL & PARRADA, 2010, p.13) Grosso modo, o valor de US$18, pagos a trabalhadores sindicalizados para cada hora de trabalho em 1981, declinou para US$ 6, pagos para trabalhadores mexicanos e guatemaltecos em 2000. (BARBOZA, 2001; STULL, 1995) Detalhe de conhecimento público é que uma grande parcela de latinos nos Estados Unidos trabalha informalmente porque está ilegalmente naquele país. E esta informalidade aproxima ainda mais a situação dos latinos empregados em frigoríficos aos nossos pegadores de frangos. Muitos graxains não têm registro em carteira, nem férias, nem décimo terceiro. Mas são perfeitos para essa função... até lesionarem as costas ou os ombros. Sem saberem ao certo eles movimentam a agroindústria. Perguntei aos que entrevistei se achavam normal um frango ser criado em 41 dias. Nada mais normal. Aliás, me indagaram se havia outros lugares onde demorava mais do que isso. Não faziam ideia de que os frangos caipiras de Divino viviam mais de três meses antes de estarem prontos para a venda. Tinham vagas informações sobre aquele crescimento acelerado. Disseram que os frangos recebiam muitos hormônios para crescer. Sabiam quase nada sobre melhoramento genético. Sabiam menos ainda sobre a origem dos insumos. Uma das tendências nesse processo de cadeia produtiva verticalizada tem sido a instalação de “fábricas de ração” para frangos. Os principais ingredientes que compõem a ração são comprados de poucas multinacionais que formam um oligopólio mundial. De resto, os refugos do frango (as penas, por exemplo) são incorporados na mistura da qual resulta a ração. Entrevistei um operador que trabalhava numa dessas fábricas de ração, sediada na cidade de Cascavel/PR, que pertence a mesma cooperativa proprietária do maior frigorífico de frango daquela cidade. A fábrica fornecia ração para todos os frangos criados pelos avicultores integrados a um frigorífico também instalado naquela cidade. Na visão do entrevistado a fábrica era bastante automatizada, requerendo 15 trabalhadores para fazê-la funcionar (incluindo o pessoal da vigilância e da limpeza). Enfim, os fios que ligam seu trabalho às multinacionais estavam invisíveis para eles. Os graxains parecem estar na mais completa escuridão sobre esses assuntos. Os lugares onde trabalham os graxains no sul do país são pequenas propriedades de colonos. São minifúndios que variam entre 3 e 16 alqueires 17. No passado já foram maiores. Na região do Itajaí-mirim, em Santa Catarina, no início do século XX, imigrantes europeus se instalaram em lotes de 25 hectares. Durante muito tempo tais lotes foram preservados assim a custa de arranjos de herança e da compra ou concessão de novas terras. Contudo, a tendência mais forte não foi esta. A sucessiva partilha dos lotes originais preponderou como regra, arruinando aos poucos a capacidade de sobrevivência exclusivamente do trabalho na pequena propriedade18. Em pesquisa realizada sobre avicultores ligados ao frigorífico de frangos Copagril (sediado em Marechal Cândido Rondon) Irma Storti levantou a situação de 23 avicultores localizados nos municípios de Marechal e Toledo, dentro de um universo total de 109 avicultores vinculados a Copagril. Relativamente ao tamanho de suas propriedades Irma fez a seguinte tabulação: as terras de 43% dos avicultores mediam entre 6 e 10 hectares; de 30% mediam entre 10 e 20 hectares; de 19% mediam entre 20 e 30 hectares; e de 8% mediam entre 30 e 40 hectares. (STORTI, 2010) O hectare equivale a 10.000 m². Cada alqueire tem 2,42 hectares. 18 Em pesquisa realizada nos anos 70, Giralda Seyferth identificou um processo de minifundização das propriedades localizadas na região do Itajaí-mirim. Naquela época 2 / 3 das propriedades tinham menos de 10 hectares. Foram reduzidas a 17
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Isto também aconteceu na região Oeste do Paraná, mais ou menos a partir de 1970. O colono já foi símbolo de progresso e perseverança quando, nos anos 50 e 60, tombou matas e aniquilou todo tipo de animal nativo para plantar lavouras e instalar chiqueiros. O processo de acumulação de capital naquela fronteira agrícola fez-se também de seu esforço, e intensificouse com o agigantamento do maquinário e de insumos químicos que ressuscitavam terras esgotadas. Mas tratores, colhedeiras, pulverizadores e insumos custam muito dinheiro, e a capitalização pela via do mercado financeiro pode levar os colonos ao encontro de Zé da Mata, que amargou dívidas e viu suas parcas posses serem depauperadas. Sem essas senhas capitalistas a imagem do colono tornou-se pálida, associada à falta de dinheiro e ao atraso tecnológico. Este processo obrigou muitos de seus filhos a se proletarizar. É uma história bastante conhecida. Todavia, os colonos sobreviventes ficaram amarrados direta ou indiretamente à agroindústria. Inicialmente participaram da criação de cooperativas que assumiam a função de abastecê-los e armazenar sua produção visando melhores preços no mercado. Mas este tipo de upgrade, longe de potencializar a existência dos colonos, subordinou-os ainda mais à medida que sua posição de produtores individuais não só foi mantida, mas foi reforçada19. O principal nó que ata um colono à empresa capitalista (cooperativa ou não) é o financiamento feito para construir o aviário20. A empresa que contrata os colonos pavimenta a relação entre eles e o banco por meio de linhas de créditos, voltadas para a montagem dos aviários, que podem ser de 5 a 8 anos (com possibilidade de reforma ao final do prazo do empréstimo). Embora ela não assuma os riscos como avalista da dívida, a garantia de compra de toda a produção dos avicultores integrados é vista pelo banco como suficiente para a liberação dos empréstimos que viabilizam a construção dos aviários. Além disso, as empresas tendem a oferecer um kit técnico que indica os equipamentos a serem comprados e instalados. Faz parte desse tipo de assédio uma estimativa de custo do aviário e uma previsão de receita líquida anual21. A vantagem para a empresa é nítida, pois reduz divergências trabalhistas e compromete os colonos (agora convertidos em avicultores) com a engorda dos frangos. Antes da década de 1990 este sistema não predominava noutras regiões do país, como a sudeste e a nordeste. Lá era mais comum a cadeia de produção verticalizada onde toda a força de trabalho é proletarizada. O sistema integrador é mais lucrativo para as empresas porque externaliza funções e custos da produção ao mesmo tempo em que torna o avicultor diretamente envolvido com o sucesso da engorda dos frangos. No entanto, este sistema dificilmente se enraíza em lugares onde os minifúndios estão ausentes. Isto torna ainda mais
menos da metade do tamanho que tinham no início do século XX. Ao contrário de uma fuga em massa, uma grande parte daquelas famílias recorreu às fábricas têxteis instaladas na região, configurando o que Seyferth denominou de “colonosoperários”. (SEYFERTH, 1987, pp.103-120) 19 Tem razão José de Souza Martins ao observar que “Um esquema cooperativista que não esteja baseado em ganhos sociais, mas que se volte unicamente para assegurar maiores rendimentos individuais para lavradores isolados, sem afetar o seu modo de produzir, sem introduzir o cooperativismo na própria produção em geral, mantendo-se como empreendimento grupal e isolado, na verdade redunda em benefício e reforço do próprio capitalismo". (MARTINS, 1980, pp.63-64) 20 Este sistema foi primeiramente desenvolvido nos Estados Unidos. No documentário “Food, Inc.” o diretor Robert Kenner registrou casos emblemáticos de pequenos fazendeiros que se prendem aos grandes matadouros devido a empréstimos contraídos para instalar aviários. (KENNER, 2009) 21 A Copagril, cooperativa instalada em Marechal Cândido Rondon/PR, tem essa prática. Em 2005 divulgou publicação que detalhava a receita líquida anual referente ao investimento a ser feito e à dimensão do aviário. Assim, por exemplo, para o ano de 2005, um investimento de R$186.457,74 equivalia a um aviário de 130 x 14 metros, com uma receita líquida anual de R$30.923,73. Tal receita podia ser efetiva em condições normais de pressão e temperatura (isto é perfeitas).
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específica a dominação do capital no campo, uma vez que esse tipo de arranjo produtivo não exige o controle direto sobre a propriedade da terra. Este é também o sistema mais rentável de exploração do trabalho dos avicultores e o que tem promovido o maior crescimento da produção de carne de frango. Para além dos estados do sul do país, que em 2009 concentraram 55% de toda a produção de frangos para corte, alguns estados do nordeste são ilustrativos deste processo, uma vez que aqueles que adotaram este sistema, como Bahia e Pernambuco, viram aumentar enormemente a produção e os lucros no setor comparativamente aos estados que não o adotaram. (EVANGELISTA, 2008) Em suma, empobrecidos donos de minifúndios, qualquer que tenha sido a dinâmica de expropriação que os tenha levado a tal situação, tornam-se vulneráveis frente às empresas integradoras. Mas não é esta a imagem divulgada pelas integradoras. A expansão da rede de integrados está escorada numa forte abordagem ideológica que promete “incremento da renda familiar e geração de novos empregos no campo”. Os exemplos são escolhidos a dedo. É o caso do avicultor, de aparente sucesso, apresentado em matéria da “Revista da Lar” (publicação da Cooperativa Lar, sediada em Cascavel/PR), veiculada na edição de janeiro / fevereiro de 2010. Sua propriedade de 18 hectares está dividida entre o aviário (capaz de abrigar até 17.500 frangos) e a plantação de soja, milho e fumo. Para que o aviário funcione é preciso agregar a força de trabalho da esposa e do filho maior. Em 2010, em condições ideais de pressão e temperatura, ele conseguiu apurar um valor líquido médio de R$ 4.000,00 por lote de frangos entregues à Cooperativa Lar, o que totalizou uma renda líquida anual de R$ 24.000,00, o equivalente a uma renda familiar mensal de R$ 2.000,00, ou uma renda per capita mensal de R$ 400,00. O ganho, considerado excepcional pela integradora, ficou abaixo do salário mínimo regional22. Mas nem mesmo esta situação é genérica aos avicultores integrados. Os contratos firmados entre os avicultores e as empresas têm sido denominados de Contratos de Parceria Avícola23. São dois os mecanismos principais que dispensam a necessidade de fiscalização e controle sistemáticos e diários (embora abram tal possibilidade para as empresas) sobre o trabalho dos avicultores. Nas cláusulas iniciais a empresa explicita as responsabilidades recíprocas de dois sujeitos, em situação de aparente igualdade, que se amarram juridicamente. A empresa será a fornecedora de insumos tais como os pintainhos, os medicamentos, a ração, a assistência técnica e o derradeiro transporte das aves. Quanto ao avicultor, transcrevo a elucidativa cláusula contida em um contrato padrão: O CRIADOR promoverá a criação dos frangos em aviários na sua propriedade, construído e equipado de forma a atender as exigências técnicas da [empresa], correndo as suas expensas as despesas com gás, cama, papel para alojamento, lenha, energia elétrica, mão-de-obra, funcionários, questões trabalhistas, previdenciárias e acidentárias.
Na forma da lei todos os custos implicados na etapa de engorda dos frangos são repassados ao avicultor, incluídos aqueles decorrentes da construção do próprio aviário. O contrato é um artefato que legaliza a externalização de funções produtivas. Igualado A família é formada de 5 pessoas. Se os três adultos trabalhassem como assalariados, recebendo um salário mínimo cada, a renda familiar seria de R$ 2.142,00. 23 Sobre o processo de trabalho de avicultores integrados por empresas como a Sadia na região Oeste do Paraná merece consulta o texto de Rosane Zen. (ZEN, 2009) 22
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juridicamente à empresa, o pequeno proprietário converte-se na prática em trabalhador integrado, envolvido e explorado no circuito de produção de carne de frango. O processo de trabalho no aviário não é autônomo e tampouco está sob o controle do avicultor e de sua família que, na maioria dos casos, é implicitamente recrutada no contrato. Antes de constituir ele mesmo um processo inteiro de trabalho, que recebe os pintainhos e os torna frangos, está completamente articulado ao processo mais amplo que visa a produção de carne de frango24. A empresa integradora especifica o processo e a rotina de trabalho à medida que determina a planta produtiva dos aviários, a escala de alimentação dos pintainhos, os procedimentos medicamentosos, a assistência técnica e a produtividade esperada. Esta última, se não observada, pulveriza a modesta parcela do resultado da produção que cabe ao avicultor. Sua remuneração prevista em contrato é definida pelo Índice de Eficiência Produtiva (IEP), estipulado na equação seguinte: IEP = (100 - % mortalidade) x Peso Médio dos Frangos Idade de Abate dos Frangos x Conversor Alimentar
x 100
Portanto, no âmbito da análise do processo produtivo pouco importa a etiqueta jurídica grudada no avicultor. Ele funciona como força de trabalho. Já o contrato funciona como um poderoso verniz ideológico, usado para encobrir e lubrificar a exploração do trabalho numa escala familiar. O contrato permite ainda expropriações adicionais sobre os avicultores quando os técnicos que representam as empresas conferem os lotes de frangos na hora da entrega. Qualquer vestígio de inobservância das prescrições feitas ao avicultor pode ser utilizado para reduzir o pagamento. Se a água contiver impurezas, se outras criações forem identificadas na propriedade, se a higiene dos aviários sofrerem notificações ao longo das inspeções, se as aves apresentarem algum tipo de deformação, enfim, há um menu de ardis técnicos que pode ser utilizado para reprovar o trabalho dos avicultores. Essas provas são literalmente colecionadas durante as visitas técnicas que os representantes realizam nos aviários de tal modo que as propriedades passam a estar sob o domínio das empresas. Um avicultor entrevistado por Rosane Zen tenta explicar o que ele mesmo se sente incapaz de entender, mas que é aceito por imposição de uma situação desigual que transborda do contrato de parceria: O mais difícil é você fazer o lote não ter calo de pata. Porque você trabalha e sempre dá [por mais que se trabalhe, o problema sempre acaba aparecendo]. Outra coisa são os condenados. Você olha o lote parece coisa mais linda... e depois dá um monte de condenação. Nem os técnicos entendem. Se a gente reclama é pior. Que daí eles começam a martelar em cima da gente, e judiar da gente. Acho que os técnicos enjoam se a gente só fica reclamando. (ZEN, 2009, p.52) Assim, o que é feito antes e depois do trabalho dos avicultores é controlado diretamente pelas empresas. Na etapa anterior trata-se de produzir os pintainhos, que serão engordados pelos avicultores até o peso ideal para o abate. Nesta fase o trabalho começa com a seleção e limpeza dos ovos. Em seguida eles são levados para a fumigação, feita a base formol em pó, o que elimina bactérias e prepara os ovos para a incubação, fase que dura aproximadamente 21 dias. Durante esse período os ovos são constantemente examinados e vacinados com vapor de água e antibióticos. Em média, uma Unidade de Produção de Pintainhos mobiliza uma dúzia de trabalhadores, incluindo aqueles que operam as incubadoras no período noturno. Findo o processo os pintainhos sadios são encaminhados aos avicultores. (MOREIRA, 2011) 24
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Este tipo de situação pode empurrar os avicultores a tentativas desesperadas de se verem livres dos aviários. Onde a avicultura predomina é bastante corriqueiro encontrar aviários anunciados nos classificados dos periódicos locais. Todavia, o avicultor pode facilmente ultrapassar este limite e chegar a exasperação de perder sua propriedade para os credores. Num caso ou noutro as empresas integradoras não perdem nada. Seguem praticando proselitismo, martelando a ideia de que ser integrado é um bom negócio. De fato, há conjunturas que dão suporte a essa ideia, fazendo a boa sorte dos avicultores. Afinal, uma mentira precisa ser minimamente palpável para que funcione. Mas tais conjunturas são curtas e desaparecem tão logo o número de avicultores sature a vantagem de ficar no limite (ou abaixo dele) da demanda apresentada pelas empresas. Os avicultores podem ser vistos também como produtos históricos da agroindústria avícola. Embora permaneçam como donos de terras são expropriados das condições que poderiam mantê-los independentes e numa distância razoável do empobrecimento. Isso os torna uma presa fácil para as empresas integradoras. Estas alimentam sistematicamente as expectativas que os avicultores têm de conseguir rendimentos que alinhem seu padrão de vida ao status de proprietários. Nesse caso a proletarização (como resultado de uma expropriação clássica) não é funcional à reprodução do capital enfronhado no setor avícola. E paradoxalmente é esta mesma esperança que os mantêm estacionados, sem sair do lugar, excepcionalmente experimentando alguma ascensão que, quando acontece, fertiliza o campo ideológico de onde brotam os novos avicultores dessa agroindústria.
2.2. No final dessa cadeia produtiva Camila é uma jovem de 22 anos. Mora com os pais em Eldorado, Mato Grosso do Sul. Cinco vezes por semana ela viaja até a cidade de Marechal Cândido Rondon, no Paraná, percorrendo uma distância de 210 quilômetros, somadas a ida e a volta. Ela acorda por volta das 4:00 horas, prepara um desjejum de pão com café e leite que é engolido rapidamente. Ato contínuo ela se arrasta até o lugar onde embarca num dos ônibus que transporta uma centena de trabalhadores para o frigorífico da Copagril. Isto geralmente acontece por volta das 4:30 horas. Depois disso, ela se acomoda como pode dentro do ônibus e tenta cochilar durante as 2 horas seguintes que marcam seu trajeto cotidiano até o trabalho. A matemática é fácil, mas cansativa. São 30 minutos entre o despertar e a rotina do ônibus, 2 horas na viagem de ida, 30 minutos aguardando o início do turno, 8 horas de trabalho, 30 minutos a esperar o ônibus e 2 horas na viagem de volta. São... 14 horas! Isto é, quando tudo sai bem. Pra que tanto esforço? O salário? Em 2010, quando o salário mínimo regional para trabalhadores na produção de bens e serviços equivalia a R$ 714,00, Camila via registrado em seu holerite R$ 699,56. No entanto, diversos descontos corroíam aproximadamente 22% daquele valor. Do salário de Camila eram subtraídos: INSS, Seguro de Vida Obrigatório, Alimentação, Mensalidade da Associação Recreativa, o transporte (?!), a Contribuição Sindical e a Contribuição Negocial Associativa (esta pérola da Reforma Sindical). 14 horas de seu dia eram trocadas por R$546,00 e a Carteira de Trabalho assinada. O trabalho? A literatura especializada tem sido prodigiosa em mostrar como o trabalho nas linhas de produção de frigoríficos avícolas é degradado. Aliás, esta expressão, forjada por Harry Braverman quando caracterizou o processo de expansão e intensificação do 135
trabalho sob a lógica do capital monopolista, ajuda bastante a definir a realidade vivida nos frigoríficos que completam esta celebrada cadeia de produção avícola. Trabalho degradado. No elenco de temas que não poupam a galinha dos ovos de ouro da agroindústria o aspecto mais sublinhado aponta para a relação entre este tipo de trabalho e as doenças ocupacionais. Já encontrei mais de dezenas de textos que exibem numerosas e convincentes evidências sobre a carnificina provocada pelo extenuante trabalho à frente de nórias sempre carregadas de frangos. (BOSI, 2011) Também conheci jovens trabalhadores com suas vidas embaraçadas e danificadas por este tipo de trabalho. (BOSI, 2009) Meu contato direto com esse universo começou em 2006 porque um aluno de graduação da universidade onde trabalho me procurou para candidatar-se a uma bolsa de iniciação científica. Ele argumentou que não tinha como manter-se no curso se tivesse que continuar trabalhando no frigorífico da Copagril. Não sei se ele teve a intenção de me comover, mas a história que me contou era pavorosa. Cresceu num bairro pobre da cidade de Cascavel se defendendo do alcoolismo do pai e de uma infância miserável. Desta situação até a conclusão do ensino médio não houve uma nota sequer de sua vida que destoasse daquela sinfonia inacabada. Ele estava por conta própria havia muito tempo e mudou-se de Cascavel para estudar História. Mas já não tinha energia para suportar o trabalho na Copagril e o curso de graduação. Depois dele reconheci muitos outros alunos e alunas que partilhavam esse universo, embora sem aquela mesma dramaticidade. Não. Nunca encontrei ninguém que desejasse ser um operário na linha de produção avícola. Retorno a história de Camila. Pergunto a ela sobre sua rotina de trabalho na Copagril. Nada excepcional. Sua função é desossar os frangos. Ela diz que isto precisa ser feito com rapidez. O manejo da faca segue sempre o mesmo plano, o mesmo desenho imaginário, os mesmos movimentos. Com o tempo a memória decora tudo aquilo, e os gestos se tornam quase automáticos. O tédio, a monotonia e a fadiga são sentimentos inescapáveis daquele enredo que sempre se repete. Mas as coisas, que já são ruins, podem piorar. Se algum trabalhador desfalca a linha de produção, ou se a carne se acumula na esteira, o caos se instala e o trabalho se torna mais difícil. Eles chamam tal situação de “vareio”. Pergunto a ela o que já perguntei a outros trabalhadores de frigoríficos naquela região: o vareio é utilizado como forma de protesto? “Não”, ela responde. Me sinto frustrado, pois esta é a resposta que tenho obtido sem exceção. A organização do trabalho onde Camila está empregada reflete um padrão que tem assegurado o lucro das empresas do ramo. Primeiramente, depois de anestesiada e morta, a ave vai para o setor de escaldagem. Esta fase é a mais mecanizada da produção porque a escaldagem é realizada numa temperatura média entre 52 e 54 ºC para o corpo do frango, e entre 70 e 80 ºC para os pés. Então a ave é limpa por uma série de depenadeiras, seguindo para o setor de evisceração onde são retirados o abdômen, o papo, a traquéia, o esôfago, os pulmões e as vísceras. Por fim, ela é resfriada para 3 ºC e cortada por máquinas automáticas que subtraem a pele e separam asas, coxas e peito. O que sobra da ave é então encaminhado para a terceira etapa da produção, o setor de esquartejamento do frango, onde trabalha a maioria dos homens e mulheres. Os trabalhadores refinam os cortes já realizados por máquinas, corrigindo suas imperfeições, retirando restos de pele e cartilagem, desossando coxa, sobre-coxa e peito, produzindo o filé para exportação que são endereçados ao Japão, Europa e Oriente Médio. 136
Não é uma ocupação atrativa. Longe disso, desde que o frigorífico da Copagril começou a operar em 2005, a rotatividade dos trabalhadores robusteceu-se de modo a se tornar uma das principais características deste trabalho. Rinaldo Varussa investigou esta realidade e identificou um turnover que beirou 100% dentro de um mesmo ano, o que foi interpretado por ele como uma rejeição massiva àquele tipo de trabalho. (VARUSSA, 2011) Em 2008, num universo aproximado de 1560 postos de trabalho no frigorífico, foram admitidos 1341 trabalhadores e demitidos 1318. Em 2009 foram admitidos 1795 e demitidos 1602. Em 2010 foram admitidos 1838 e demitidos 1711. Nesses três anos as demissões realizadas à pedido dos trabalhadores atingiram 59,4%, 54,6% e 57,7% respectivamente. Olhando para a mesma direção Diane Gemelli tabulou os números sobre a presença de trabalhadores nativos da cidade de Marechal Cândido Rondon no frigorífico. Sua conclusão indicou que essa presença declinou de 976, em 2008 (62,5%), para 716 em 2009 (44,5%), e para 666 em 2010 (43%). Atualmente, mais da metade dos trabalhadores vêm de outras cidades vizinhas, inclusive de municípios do Mato Grosso do Sul, como é caso de Camila. Embora a série inventariada por Gemelli seja curta verifica-se uma crescente ampliação da área onde o frigorífico busca braços para o trabalho. Em 2008, 11 municípios constituíam o manancial de trabalhadores. Este número subiu para 14 municípios em 2009 e chegou a 16 no ano de 2010. (GEMELLI, 2011) Um dos gerentes desse frigorífico, perguntado sobre as razões desta rotatividade, não pestanejou em responder: Olha, a demanda de mão-de-obra é bastante né?. Só que não existe a mão-de-obra suficiente pra suprir as necessidades da empresa. [...] Uma das grandes dificuldades que a gente vê ao nosso sucesso aqui em Marechal Cândido Rondon, principalmente nessa região, é que não existe a cultura nossa, ainda é muito resistente as pessoas trabalharem em turnos, levantar mais cedo pro trabalho né?. Que de repente ele não quer trabalhar de noite. Nossa cultura não está habituada a trabalhar em processo industrial ainda. (Grifo meu)
Seu diagnóstico – provavelmente elaborado nas instâncias superiores da empresa – identifica uma resistência dos trabalhadores nativos ao trabalho industrial. Parece ser uma avaliação sincera e uma hipótese interessante para a pesquisa. Podemos corroborá-la no plano teórico a partir de Marx, quando ele examinou o processo de acumulação inicial e identificou a necessidade de o capital quebrar qualquer resistência que o impedisse de tomar homens e mulheres como força de trabalho. É preciso que a classe trabalhadora, “por educação, tradição [e] costume [reconheça] as exigências daquele modo de produção como leis naturais evidentes”. (MARX, 1988, p.267) Ademais, a realização de tal tarefa implica fazer com que os trabalhadores repercutam as ideias dominantes como sendo suas, e isso não tem sido fácil para os que dirigem o frigorífico. É nesse contexto que suas ações têm assumido uma intensidade ideológica irradiada a partir, principalmente, da imprensa local e de campanhas publicitárias. A esse respeito, Aparecida Darc Souza mapeou a presença da indústria alimentícia no jornal “O Presente”. Sua conclusão indicou que diversos artigos e matérias deste jornal, desde 2000, celebram o crescimento da atividade industrial tratando-a “como sinônimo de progresso para a cidade e de possibilidade de ascensão e melhoria de vida para a população local”.
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(SOUZA, 2011) Por vezes, nem mesmo a propaganda oficial da empresa é tão incisiva como a que é divulgada no jornal. Numa campanha iniciada em 2011, o frigorífico lançou-se sobre os trabalhadores divulgando as vantagens oferecidas pela empresa. Pelo menos dois aspectos merecem destaque e rápida análise. O primeiro deles, “o pagamento de salários sem atrasos”, é apresentado como uma forte razão para o ingresso naquela empresa, uma verdadeira vantagem comparativa relativamente a outros empregadores. Mostrar-se disposto a pagar o salário sem atraso oferece uma caracterização insuspeita sobre as condições predominantes nesse mercado de trabalho na cidade. O segundo aspecto evidencia os laços entre a empresa e o sindicato que oficialmente representa os trabalhadores. Serviços prestados pela entidade de classe são oferecidos como parte do cardápio de benefícios apresentado pela empresa. “Cortes de cabelo e curso de informática para funcionários e dependentes”. Eis um artefato arqueológico da estrutura sindical varguista, bastante funcional ao capital em pleno século XXI25. Por fim, o cartaz traveste a dificuldade permanente de a empresa encontrar e recrutar trabalhadores, insinuando que está momentaneamente aberta a contratações. Imagem 16 - Cartaz fotografado no Sine de Marechal Cândido Rondon.
Fonte: Foto de Rinaldo José Varussa.
Apesar desses apelos a rotatividade persiste e aumenta. Em matéria publicada no jornal “O Presente”, em 30 de abril de 2009, o prefeito da cidade (gestão 2009-2112) manifestou-se perplexo frente a tal situação: Ficamos preocupados com esses dados. Sabemos que há pessoas sem emprego no município. Pensamos que a Copagril é uma cooperativa conceituada e que oferece condições dignas de trabalho. Também temos a consciência de que ela possui atuação em A relação entre o Frigorífico e o SINTRASCOOPA (o mesmo sindicato citado no cartaz) é assumidamente de colaboração. Em estudo sobre ações trabalhistas contra o frigorífico Rinaldo Varussa identificou manifestações explícitas dos advogados patronais em favor do SINTRASCOOPA, notificando a Vara Trabalhista sobre “quem representa os empregados em cooperativa nesta região”. Esta preferência busca marginalizar outro sindicato, mais antigo, o SINTRANAL (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação de Marechal Cândido Rondon), fundado em 1989 (dez anos antes da criação do outro sindicato). O SINTRASCOOPA é ligado a UGT (União Geral dos Trabalhadores, central sindical de nítido corte conciliador). 25
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toda a região, mas muitas vezes a distância de locomoção dos trabalhadores não vale à pena. Vamos ajudar a Copagril neste problema e consequentemente colaborar com toda a população.
É uma tarefa inglória presumir o nexo pretendido pelo prefeito ao prometer ajuda a Copagril “e consequentemente colaborar com toda a população”. Afora isso, sabe-se que a prefeitura pavimentou uma ciclovia que segue paralela à principal avenida da cidade até as instalações do frigorífico. Esta pode ter sido a ajuda imaginada pelo prefeito, embora toda essa disposição em contribuir com o capital instalado na região pode não ser suficiente para mobilizar e convencer trabalhadores a empregarem-se no frigorífico da cidade. Sem recursos aparentes para conter a escassez de trabalhadores um dos gerentes do frigorífico revela, com singular naturalidade, a arquitetura de um plano B: [...] gostaríamos que toda a mão-de-obra fosse daqui de Marechal. Isso não encareceria os custos né?. [...] Nossa preferência é a mão-de-obra aqui de Marechal. Mas a gente sabe que é impossível a gente suprir a demanda que nós temos hoje. [...] A tendência é daqui a cinco anos automatizar todo... não todo o processo, mas uma parte. A gente viu que não existia mais a possibilidade da mão-de-obra aqui de Marechal né?. (grifo meu)
Retorno pela última vez a Camila. Releio sua entrevista e penso agora que ela não está em melhor posição do que Divino. Quando ele vendia suas galinhas caipiras expressava um modo de vida e de trabalho prenhe de sentido, embora considerado simples e humilde. Na pequena chácara onde plantava hortaliça e criava galinhas, Divino se via integrado de uma maneira ativa e visceral com seu trabalho. Não raras vezes seu mundo foi julgado como rude e atrasado. Mas ele levava a vida como podia, mergulhado em relações de forças que estabilizavam aquele mundo claramente em favor das classes dominantes. Hoje eu entendo que ele forçava algumas frestas naquelas relações para tentar impor-se como trabalhador, pai de família, homem honesto, honrado, de boa cepa. Sua clientela não comprava dele apenas o frango caipira. Aquela relação de troca costumava transbordar o valor mercantil, envolvendo conversas, interesse (nem sempre real) sobre a vida alheia, um sentimento de que ambos eram familiares. Esse tipo de valor afetivo endossava sua existência. É claro que sociólogos, antropólogos e historiadores menos vulneráveis às experiências da classe trabalhadora poderão me advertir mostrando que deveríamos interpretar o caráter de Divino como um papel prescrito, não só tolerado, porém esperado pelos dominantes. Também é preciso reter que o sentimento de viver numa comunidade pode disfarçar a dominação ou torná-la mais palatável. Tudo isso é igualmente verdadeiro. Mas o que não se pode negar é que a vida de Divino dependia menos do capital do que dependem hoje as vidas de graxains, avicultores e aqueles que trabalham no frigorífico. Divino tinha mais a perder do que trabalhadores como Camila.
3. Os domínios da cadeia avícola no trabalho e na moradia dos trabalhadores Uma das características interessantes na cadeia avícola no Brasil (com paralelo nos Estados Unidos) é a extensão de seu domínio sobre vilas, distritos, pequenas cidades e
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comunidades rurais onde residem potencialmente trabalhadores de frigoríficos, aviários e incubadoras. Resumidamente, a empresa agroindustrial “coloniza” o núcleo populacional tornando-o progressivamente dependente dos empregos oferecidos. É o caso da Vila Celeste onde a quase totalidade dos moradores trabalha para uma cooperativa agroindustrial e lida com diversas etapas da produção do frango que abastece os frigoríficos. Embora não tenha sido construída pela cooperativa, ser uma vila cujos moradores são majoritariamente empregados por uma única empresa a aproxima das típicas vilas operárias, comuns no século XIX e começo do XX. A Vila Celeste se localiza no interior de Santa Helena, pequena cidade às margens do lago de Itaipu, a 123 quilômetros de Foz do Iguaçu e a 608 quilômetros de Curitiba. Por sua vez, a empresa agroindustrial está dispersa em quase toda região. Uma de suas principais atividades é a produção avícola cuja escala vai da incubação de ovos ao abate e processamento de frangos. E para movimentar esta cadeia, a empresa depende de trabalhadores que moram em distritos e pequenas vilas no interior da região. Na outra ponta desta relação os trabalhadores dependem dos postos de trabalho oferecidos pela empresa. Sem desconhecer que os trabalhadores também se articulam nos locais de trabalho, o foco aqui é o espaço fora do trabalho. A hipótese supõe que a relação de dependência entre capital e trabalho é contraditória e desigual. Desigual porque favorece a cooperativa agroindustrial uma vez que o controle sobre o trabalho e a apropriação da riqueza está sob seu domínio. É contraditória porque a vila, tomada na perspectiva dos trabalhadores, pode funcionar como um lugar relativamente livre das pressões da empresa e, por essa razão, apropriado para pensar as relações de exploração vividas no trabalho. Vejamos os argumentos que avalizam esta hipótese. Quem conversa com trabalhadores residentes da Vila Celeste a respeito da empresa tem uma forte impressão de que se trata de uma vila operária, semelhante aos clássicos bairros organizados por indústrias ao longo do século XIX e da primeira metade do século XX. Exemplos típicos são a Companhia de Tecidos Paulista, em Pernambuco, (LOPES, 1988) e Fordilândia, a cidade criada pela Ford Motor Company, na Amazônia. (GRANDIN, 2010) Mas esse tipo de comparação não resiste por muito tempo. Originalmente, a Vila Celeste foi um núcleo de trabalhadores rurais e de famílias proprietárias de minifúndios. A sobrevivência de ambos, que não era fácil, tornou-se mais difícil depois que a empresa conseguiu controlar a produção e a força de trabalho na região, no contexto dos anos 80. Soja, milho, trigo e porco se tornaram produtos comprados quase exclusivamente pela empresa. Quanto à força de trabalho, ela veio de outros pontos da região onde os empregos eram escassos. No caso da Vila Celeste, no Oeste do Paraná, os trabalhadores buscavam as ocupações anunciadas pela empresa. Grande número de trabalhadores saiu dali mesmo, filhos de donos de minifúndios, empobrecidos e deserdados pelas circunstâncias, devido à inviabilidade de a terra dos pais, tão miúda, ser fatiada. Na literatura acadêmica, de modo geral, as vilas operárias aparecem denominadas de Company Town, e contam com quantidade razoável de registros históricos. (Crawford, 1995) Este interesse sugere que elas foram um evento importante na vida dos trabalhadores. Sugere igualmente que grandes empresas industriais as utilizavam como mecanismo de controle sobre os trabalhadores, principalmente em contextos de difícil mobilização de força de trabalho, as têm com enorme interesse. As Company Town também não escaparam dos escritos literários 140
que sublinharam as condições de vida dos trabalhadores ao longo dos séculos XIX e XX, conferindo nitidez à tristeza e insalubridade dos casebres que acolhiam proletários de todo tipo. Em sequência cronológica pode-se citar “Tempos Difíceis”, de Charles Dickens, “Germinal”, de Emile Zola, “O Cortiço”, de Aloísio Azevedo, “Judas, o Obscuro”, de Thomas Hard, “O Tacão de Ferro”, de Jack London, e “The Jungle”, de Upton Sinclair. São clássicos que integram uma lista numerosa de títulos pautados neste tema. Mas nenhum desses casos se compara inteiramente ao que acontece em Vila Celeste. A cooperativa agroindustrial irriga a produção avícola com trabalhadores colhidos lá. Tal empresa detém o monopólio sobre a exploração dos trabalhadores radicados naquela vila. E existem pouquíssimos empregos que não sejam oferecidos pela empresa. Além disso, para a empresa há outras pequenas vilas e distritos que interessariam à sua fome de braços. Detroit, na outra ponta do planeta, é um paralelo que ajuda a pensar esta situação. O fechamento de montadoras de automóveis e de fábricas de autopeças, desde os anos 70, implicou uma diminuição de 60% da população residente naquela cidade. Os 2 milhões de habitantes recenseados no final dos anos 60 declinaram para menos de 700 mil no início do século XXI. (MUREMBYA, 2015) Além disso, a população que permaneceu ou que migrou para Detroit manteve-se lá em empregos precários e informais. Se a empresa se retirar de Vila Celeste a repercussão certamente será mais severa, talvez exterminando-a do mapa, ou reduzindo-a a algo parecido com uma cidade fantasma. Uma experiência equivalente reside no deslocamento de plantas produtivas de processamento de porcos nos Estados Unidos para pequenas cidades próximas dos rebanhos. Isso diminui custos com a logística e permite que os frigoríficos monopolizem o mercado de trabalho. É o caso da Iowa Beef Packers (IBP), uma das maiores empresas do setor. Ela tem transferido suas plantas produtivas para pequenas cidades do interior, especialmente comunidades rurais empobrecidas, onde a renda declinou e muitos pequenos fazendeiros declararam falência. Esta estratégia permite a IBP acessar, com alguma facilidade, a população desempregada ou sem renda, pagando salários que são 40% ou 50% menores que os salários pagos em lugares onde a presença de sindicatos é efetiva. Isto pode ser verificado em cidades localizadas no estado de Iowa, como Storm Lake, 8.769 habitantes, Columbus, 1.616 e Perry, 7.000 habitantes. (STULL, et all, 1995, p.31-32) Este quadro é útil para posicionar a relação entre a empresa e a Vila Celeste. Ele permite pensar a vila em termos históricos mais gerais e numa perspectiva comparada. Nos casos envolvendo Detroit, as pequenas comunidades do interior de Iowa e Vila Celeste, os arranjos feitos pelo capital definem relações de trabalho que colocam os trabalhadores em condição de desigualdade. Este é um ponto marcante no processo de expansão e de acumulação do capitalismo. Mas não deve operar sozinho como chave analítica sem antes realizar um exame das dimensões historicamente específicas à Vila Celeste e ao trabalho empregado na cadeia produtiva da empresa. A forma com que penso esta estratégia da empresa reconhece a desigualdade das relações entre trabalho e capital no contexto da Vila Celeste. Por isso, requer a compreensão e a interpretação das experiências sociais dos trabalhadores, principalmente no que se refere ao significado de morar ali. Vejamos o que isso representa no âmbito do trabalho. Existe uma estratificação entre os trabalhadores da Vila empregados na empresa. O grupo mais numeroso lida com ovos. É um trabalho estafante. As equipes são constituídas por 141
sete pessoas que descarregam as bandejas de ovos. Depois disso, elas são preparadas para a produção de pintainhos. As equipes trabalham cerca de seis horas de pé, sempre identificando deformidades nos ovos. Os ovos sujos, com rachaduras ou de gema dupla são considerados imprestáveis para a gestação de pintainhos. Tão logo se vê algum desses defeitos o descarte é feito e eles são encaminhados para a venda e o consumo a varejo. Os que escapam nesta triagem são acondicionados até serem deslocados para as máquinas de incubação. Permanecem lá durante dezenove dias, sempre supervisionados por trabalhadores da Vila Celeste. Sua tarefa é rejeitar os ovos estourados e ordenar aqueles que sobrevivem para novo transporte. Depois disso vão para as salas de vacina, onde são imunizados. Finalmente são levados para as chocadeiras eletrônicas. É quando os pintainhos nascem. Dentro de poucos dias eles ganham peso suficiente para habitar um aviário. (MOREIRA e FAGNANI, 2014) O segundo grupo de trabalhadores garante o funcionamento de muitos aviários. Nesse lugar acontece a engorda dos pintainhos até se tornarem aves que pesam em média 2,7 quilos, prontas para a produção de ovos que irão para os incubatórios. Geralmente os aviários são terceirizados pela cooperativa. Isso transfere parte dos custos de produção para os donos de minifúndios que comprometem suas propriedades com a criação de frangos. Neles há dois tipos de trabalho. O cuidado com os frangos é um deles. A dedicação dos trabalhadores é total porque a produção do frango ocupa 24 horas do dia. É um trabalho curioso, pois homens e mulheres subordinam suas necessidades às necessidades dessas aves. Onde elas vivem não pode ser muito quente nem frio demais. Não deve faltar comida nem água nos alimentadores. E a mortandade requer vigilância atenta. Noite e dia, dia e noite, os frangos precisam de supervisão. Não há dúvidas. A rotina dessas aves determina a rotina dos trabalhadores. (FAGNANI, 2014) Nos aviários também trabalham pessoas que pegam os frangos, os encaixotam e os removem para os caminhões que se destinam ao frigorífico. São conhecidos por graxains, um canídeo predador de pequenos roedores e de galinhas. Este apelido jocoso traduz a importância que a cadeia avícola confere aos jovens que ganham a vida perseguindo e aprisionando frangos. Muitos deles não têm registro em carteira, nem férias, nem décimo terceiro. Por fim, existem aqueles que trabalham na linha de produção, no corte da carne. Formam o grupo mais numeroso dessa cadeia, mas poucos residem na Vila Celeste. Equivalem a aproximadamente 80% do universo da força de trabalho contabilizada nas atividades com frango da cooperativa. Trabalham sob um frio glacial manejando partes do frango com facas afiadíssimas. As dezenas de movimentos executados para desossar ou preparar postas de frango demolem, dia a dia, seu próprio corpo. É uma das ocupações que mais adoecem os trabalhadores na atualidade. (BOSI, 2014) Termino aqui essa descrição aborrecida, porém esclarecedora. O tédio e o desalento presente nesse esboço coincidem com os sentimentos de trabalhadores entrevistados a respeito das tarefas que realizam. Em qualquer fase do processamento do frango o trabalhador vê seu trabalho com negatividade. Para a maioria não há motivação, exceto o salário. Isto não é somente uma leitura feita à distância. As queixas dos trabalhadores encorpam essa repulsão, mesmo quando ditas implicitamente. Claro, este não é um problema específico da cadeia avícola. A maior parcela da classe trabalhadora em todo o mundo se encontra nesta situação, de insatisfação com o trabalho. Importam-se mais com o que se pode 142
comprar com o salário, naturalizando o que é preciso fazer para ganhar o salário. Por isso é que trabalhar pelo salário, e apenas pelo salário, significa represar-se numa condição degradada. É praticamente uma deserção à vida. Talvez haja algum excesso nessa última constatação, apesar de os trabalhadores endossarem o que foi afirmado. De fato, as ofertas de emprego não são animadoras para quem não tem formação considerada adequada pelas empresas e seus departamentos de recursos humanos. Quando não existe alternativa de trabalho, não se abandona o emprego. Isto é algo óbvio. Todavia, a tolerância a este tipo de trabalho não pode ser explicada fora do contexto do capitalismo na vila e na região. De modo geral, a indústria, o comércio e a agricultura no Oeste paranaense não pagam mais do que 2 salários mínimos pela quase totalidade das ocupações. Relativamente a este teto a maioria dos trabalhadores se aproxima de 1 salário do que de 2 salários. (IPARDES) Outro ponto importante nessa discussão se relaciona ao modo com que esse tipo de isolamento vivido por quem mora em Vila Celeste impacta a disposição ao trabalho demonstrada pelos moradores empregados da empresa. Para estes, se não há alternativa de emprego nas imediações da vila, a possibilidade de afrouxar o ritmo na produção, ou de faltar ao trabalho, torna-se uma escolha arriscada. Na percepção dos trabalhadores esse tipo de pressão só relaxa depois de incorporada e naturalizada. Nesse caso, sem perspectivas melhores, a tendência é respeitar protocolos ligados à disciplina, tais como a assiduidade. E embora cada um desses trabalhadores possua características próprias de resistir a essa coerção sutilmente disfarçada, a reação mais comum a ela pode ser observada em termos coletivos. Um rápido desvio nesse trágico percurso traz uma referência para se pensar os trabalhadores da vila. Confesso de antemão que é um desenho otimista acerca dos trabalhadores da cadeia avícola. Na impossibilidade de encontrar emprego a consciência a respeito da ganância das empresas em geral se agudiza. Mas este não é um processo automático. Evidencia isso o fato de muitos trabalhadores embaralharem a repulsa à empresa com um sentimento de fracasso pessoal. O desemprego é visto e percebido como uma derrota, uma incapacidade. Em muitos casos a exclusão também é explicada como um defeito pessoal. Por óbvio, a resistência dentro da empresa é mais provável, principalmente porque experiências comuns no local de trabalho, interpretadas num mesmo sentido, podem abrir perspectivas para sociabilidades que agregam os trabalhadores em torno de uma identidade coletiva. No retorno às evidências, é preciso concordar com os trabalhadores no que diz respeito às condições de trabalho degradadas. Uma opinião diferente desta entre eles é uma raridade e, geralmente, expressa uma convicção sobre a ausência de opções relativamente ao emprego na empresa, naturalizando a intensidade e precariedade do trabalho já descritas acima. Ao mesmo tempo, a contradição entre trabalhar pelo salário e perceber as péssimas condições de trabalho também é naturalizada. Não há muito a acrescentar a este respeito. Por outro lado, a experiência desses trabalhadores quanto ao lugar onde vivem contrasta com a visão negativa formada a respeito do trabalho. Se para a empresa a vila representa um manancial de mão de obra, para os moradores ela é sua casa. É algo que deve ser desdobrado. As descrições dos entrevistados coincidiram em muitos detalhes, a começar pela porta principal de entrada da vila. Apesar da péssima conservação do asfalto, a dois ou três 143
quilômetros antes de se chegar à Vila Celeste, avista-se um corredor esverdeado, constituído de canjarana, maricá, ipês e outras árvores nativas da região. Não raras vezes as copas se inclinam em direção às outras e chegam a se tocar, armando uma longa sombra que compensa os buracos da estrada. É um corredor elegante, que anuncia a existência da vila ao final do caminho. Um rápido olhar definiria a vila como um punhado de casas, um comércio menos do que modesto e um mercado que abastece a maioria dos moradores. As poucas ruas são calçadas e um número menor delas são de chão batido. Uma observação mais próxima e paciente confirma a ideia de que as casas são humildes, com fachadas simples e sem grades ou muros que delimitem suas frentes. Muitas delas mantêm comunicação com as casas ao lado, de modo que o vizinho ou parente pode atravessar o limite que o separa da outra casa. Esta prática é comum na vila, o que tende a tornar as relações bem informais. Esse tipo de conexão, impensável para uma grande cidade, é facilitada por essa arquitetura desenhada pelos próprios moradores. Os alpendres e os jardins, com generosas sombras, servem a esta sociabilidade que acomoda cadeiras onde se descansa e se desfruta de algum tempo para conversas longe do trabalho. Ali se fala de tudo. Se fala sobre o que é televisionado, sobre política, mas, principalmente, sobre a vida na vila. Por isso, as relações sociais lá desenvolvidas integram-se pelas convergências e divergências entre os moradores. Por isso também, a articulação do tempo tem uma boa cota reservada às picardias. Definitivamente, pode-se dizer que a vila é pequena, mas nem de longe que é adormecida. Comparada à vida urbana das grandes cidades a realidade da vila parece defeituosa. O compasso da rotina de quem mora ali se faz por suspiros. É um tempo lento que só é interditado nas horas do trabalho na empresa. Esta é uma conclusão importante que sintetiza uma dimensão da experiência de morar nessa vila. Vale, principalmente, pelo contraste formado junto às necessidades da cooperativa. Por que? Do ponto de vista dos trabalhadores nem todo o seu tempo pertence a empresa. Em linguagem clássica, o tempo não gasto na produção deveria ser convertido em tempo para a reprodução da força de trabalho. De fato, ele é, caso se considere o descanso e o devido reparo nutricional e energético dos trabalhadores. Mas é difícil abonar essa afirmação quando os entrevistados são protagonistas de uma vida animada por compromissos que vão da família às redes de amigos, cujos desdobramentos disputam tempo e espaço com a cooperativa. Em condições desiguais, é verdade. A essa altura pode-se argumentar que a vida fora da empresa serve para que os trabalhadores aliviem suas tensões, refaçam e alarguem seu próprio arco de sociabilidades para reprimir e recalcar os desatinos e insatisfações com o trabalho. Isto é bastante provável, e há evidências desse processo nas falas de alguns entrevistados. Mas este fato não invalida uma linha de interpretação alternativa que reconhece a iniciativa de os trabalhadores de Vila Celeste construírem um lugar que seja seu, com razoável autonomia frente a fábrica. A realidade, neste caso, comporta essas duas possibilidades que igualmente exigem investigação. Vejamos isso mais de perto, a partir do raciocínio de duas entrevistadas cujas experiências de vida e de trabalho têm sensíveis diferenças. Alice tinha 49 anos de idade à época da entrevista, em 2014. Morava com uma de seus três filhos, o genro e um neto. Sua casa era das mais modestas, uma construção feita de madeira e de tijolos, fixada numa das ruas que faz divisa com as lavouras que margeiam a vila. 144
Apesar de simples e improvisada a casa era confortável. A arrumação dos móveis e dos equipamentos elétricos e eletrônicos e certa desordem comprovavam a energia e vivacidade de seus moradores. A tristeza naquele lugar não era um sentimento sistêmico. Quando nos recebeu, Alice demonstrou uma alegria indisfarçável e nos instalou num alpendre tomado por samambaias, ventilado e fresco contra uma temperatura escaldante do verão. Aquela foi sua segunda entrevista, e talvez por isso ela estava à vontade diante do gravador. Logo no início ela falou que não sabia o que poderia dizer que fosse do interesse de um professor universitário. Essa distância marcou a conversa até o ponto em que abordamos seus dilemas pessoais. Olhando retrospectivamente, me lembro que ela não negligenciou fatos importantes de sua vida e da família, mesmo quando chorou ao falar do filho que abortou no Paraguai por excesso de trabalho. Sua alma parece refletir sua casa, ou o contrário. Aberta e sem segredos. Alice mudou-se de Toledo-PR para Santa Helena-PR em meados dos anos 80, quando tinha aproximadamente 18 anos. De lá foi para Vila Celeste. Ela, o marido e o filho pequeno permaneceram cerca de seis anos na vila. Alice e o esposo trabalhavam como boias frias. Foram para o Paraguai depois de diversas notícias sobre as oportunidades econômicas naquele país. Arrendaram um pequeno lote de terras, 5 hectares, onde cultivavam milho, soja, algodão, arroz, feijão, e criavam porcos. Parecia um bom plano. Mas não funcionou. Ela trabalhava sozinha porque o marido se via impedido por uma lesão na perna. Aqueles 5 hectares que exigiam toda a energia dela. Sobre a experiência no Paraguai três pontos se revezavam com insistência em sua narrativa: a pulverização de veneno, a imobilidade do marido e os dois filhos nascidos lá. Dessa forma ela justificou seu fracasso. Em síntese, Alice disse que “de bom mesmo só o nascimento dos filhos”. Os tropeços se prolongaram durante 18 anos no Paraguai. Sem qualquer sinal de prosperidade, Alice pensou em voltar para o Brasil. Também se preocupava com a educação dos filhos. Comparava aquele tempo com o presente imediato de um modo bastante direto, embora abstrato. “Aqui, nós não tinha tanto sofrimento, era melhor do que o Paraguai”. Ato contínuo apontou diretamente para sua filha e expressou orgulho ao contar que “essa daí fazia faculdade pra ser professora. Sofri, mas se formou”. Isso deve ser visto como uma conquista mais simbólica do que material, uma vez que a filha, depois de concluir o ensino superior, continuava a trabalhar na empresa. De volta à Vila Celeste, Alice reuniu grande parte do dinheiro que tinha e comprou um lote onde hoje está a casa em que mora com uma filha, o genro e um neto. Trabalhou como boia fria e depois na empresa. Foi nesta condição que conseguiu financiar os estudos da filha. No Brasil, um diploma universitário e a aposentadoria do marido compuseram a única rota de fuga avistada por Alice. Nada disso funcionou. O curso superior não garantiu mudança na ocupação da filha. E o marido, se aposentou e se separou da família. Esses acontecimentos, sublinhados e narrados por Alice, cobrem cerca de três décadas de uma história autobiográfica. São importantes principalmente porque apresentam dimensões relevantes do mundo dos trabalhadores: o drama das seguidas migrações, as relações de trabalho no campo, a formação da família trabalhadora, uma densa trajetória ocupacional (que se diversificou ainda mais depois que ingressou na empresa), a autoridade feminina no círculo familiar. Mas não foram expostos cronologicamente por ela. O fluxo de sua memória os ordenou a partir de dois pontos: a família e a necessidade de trabalhar. Junto a isso, a aparente 145
desordem dos fatos recordados guardava uma lógica historicista. Os eventos narrados não foram objeto de uma simples contemplação do passado, de episódios externos a ela, mas estavam imersos em sua própria vida, como uma história inacabada. Por isso, morar na Vila Celeste permanecia sendo um ponto aberto em sua trajetória, embora fosse o ponto mais seguro de todo o seu percurso. Durante metade da entrevista, Alice descreveu suas diversas ocupações com nítido desencanto. Mencionou sua rotina na empresa com certo automatismo e constantemente mudava o assunto para o lado da família. De bom, só o tempo gasto entre a casa e a empresa, abreviado pelo ônibus da empresa. Uma pergunta direta sobre isso a fez ponderar a visão sobre seu trabalho. Como ela já havia dito, comparado ao que viveu no Paraguai, a empresa não representava o fim dos tempos. A primeira função de Alice na empresa foi a de pegar ovos e triá-los. Em pouco tempo ela se queixou de dores ao seu chefe imediato. Disse que “era muito movimento”. A reclamação surtiu efeito e a colocaram para lavar as caixas utilizadas com as galinhas poedeiras. Mas não fez diferença. Ela explicou que os movimentos de manuseio das caixas não eram diferentes daqueles executados na função anterior. A insistência fez aparecer um pequeno caroço no pulso. Seu chefe, o mesmo que lhe mudou de função, respondeu à reclamação aconselhando-a a enfaixar o pulso. Sem nenhum tratamento adequado a lesão não desapareceu, e ela se viu obrigada a uma cirurgia. Como o preço do procedimento médico custava quatro vezes o seu salário, ela buscou o Sistema Único de Saúde e realizou a cirurgia. Depois de 15 dias afastada para recuperação, Alice retornou ao trabalho lidando com a eclosão dos ovos e o nascimento dos pintinhos, mas não podia permanecer lá devido à grande quantidade de formol na sala onde ficava. A cirurgia no pulso ainda não estava inteiramente cicatrizada. Exposto ao formol, o corte suturado poderia infeccionar. O desfecho dessa história repetiu a sorte de outros trabalhadores ocupados na cadeia avícola. Àquela altura, seu chefe lhe propôs que fizessem um acerto, provavelmente para evitar uma ação trabalhista. Disse também que a chamaria para trabalhar depois de 6 meses. Com algum rancor e desapontamento Alice lamentou: “e nunca mais me procurou”. Sem alternativa de trabalho na vila, Alice conseguiu pequenos serviços em Santa Helena. Limpava casa, lavava roupa, fazia faxina, mas o pagamento não cobria as despesas com o deslocamento e a alimentação. Então, passou a aceitar qualquer atividade que aparecesse na vila. Ela varria pátio, lavava roupa, carpia lote, roçava. Alice não voltou a trabalhar na empresa. Diversas vezes preencheu uma ficha no setor de recursos humanos. O esforço foi em vão. Nem a empresa nem o ex-chefe a chamaram. O sentimento de abandono e de injustiça tornou-se, ao longo dos anos, ressentimento. Alice distribuiu sua insatisfação entre a empresa e o ex-chefe, uma síntese provisória de sua relação com a empresa. Contudo, sua queixa é maior em relação ao ex-chefe que a convenceu a sair da empresa e não cumpriu o trato de empregá-la depois de 6 meses. Seu antigo chefe parece ter utilizado o protocolo da empresa em casos como este. Alice foi descartada a partir de um acerto financeiro considerado legal, que permitiu a ela receber uma quantia maior do que geralmente se paga quando se pede demissão. Para a empresa este desfecho evitou uma indenização pelo ferimento no pulso. Também tornou pouco viável uma ação trabalhista movida por Alice. Vale ainda comentar que, embora legal, este tipo de acerto foi proposto para ela com o objetivo de disfarçar a responsabilidade da 146
empresa com a lesão de Alice. Tal procedimento não está registrado em nenhum manual ou norma interna sobre protocolos administrativos ou trabalhistas. É uma conduta padrão, sem lastro nem vestígio na documentação da empresa. Nessa situação, com a vida organizada em Vila Celeste e com quase 50 anos de idade, Alice insistiu na busca de uma nova ocupação e, ao mesmo tempo, manteve uma ponta de esperança de ser convocada pela empresa. Conseguiu empregar-se como graxaim. Trabalhava para um funcionário público, morador numa cidade vizinha, dono de um negócio na área de transporte de galinhas frangos. Alice se esforçou bastante para se adaptar à nova função porque, geralmente, as condições e as relações de trabalho degradavam os trabalhadores. Ela disse que esse trabalho era pesado e sujo. O carregamento de galinhas e frangos para as caixas era estafante devido à intensidade das tarefas e a repetição de movimentos arqueados que estressam quase que inteiramente a parte motora do corpo humano. A captura das aves era insalubre porque provocava muita sujeira. Levantava o pó que se desprendia da maravalha (a cama dos frangos, feita de serragem e das próprias fezes das aves) e expunha os trabalhadores aos detritos das galinhas e dos frangos. No final, Alice saía coberta de fezes e de urina. Além disso, as marcas da nova ocupação são tão visíveis quanto diferentes. Seus braços são desproporcionais. A circunferência dos bíceps é exageradamente ressaltada, hipertrofiada devido ao movimento repetitivo e intenso realizado para pegar as aves. É um sinal indisfarçável. Não se sabe, inclusive, se é uma característica do tipo de trabalho ou um defeito. A favor desse trabalho ela argumenta que sua posição é de chefia. “Eu mando lá. Tipo assim, ele [patrão] me liga aqui [em casa]. ‘Alice, precisa de fulano’, e tu vai atrás. ‘Alice, tu fala com a fulana’. Corro atrás de peão. Eu faço o pagamento. Eu sou a cabeça dele, né?” É certo que ela enxerga algum status nessa relação, o que a coloca numa zona intermediária entre os demais trabalhadores e seu patrão. Contudo, parte desse imaginário rui quando ela informa que trabalha sem carteira assinada, recebendo aproximadamente 1,4 salários mínimos, sem descontos de natureza trabalhista, sem direitos. Ademais, ter se socorrido no trabalho de graxaim reforça a ideia de que, em Vila Celeste, não há alternativa de emprego fora da cadeia avícola controlada pela empresa. De fato, o escrutínio dessa realidade contrasta com a leitura feita por ela sobre si mesma. Não é o caso de aferir qual interpretação dessa realidade é mais verdadeira, senão entender a sua escolha. Em parte, Alice vê sua vida nos termos do tempo presente mais imediato. Ela faz isso de modo a comparar dimensões de sua história e formar uma escala que classifica os eventos relatados entre bons e ruins. Esta é uma maneira comum de ordenar a memória e reunir as experiências consideradas relevantes. No caso dos eventos considerados ruins, ressentimentos, traumas e tabus podem ficar de fora desse tipo de categorização. Humilhações sofridas por Alice sob os olhares assustados e tristes dos filhos, o aborto ocorrido no Paraguai decorrente de esforço excessivo no trabalho e a conflituosa relação com o marido não apareceram como pontos fora da curva, contados sob forte carga emocional ou fora do registro gravado da entrevista. Muitas vezes o ouvido estranho é o mais adequado para confissões e desabafos. Tais fatos interrompem o fluxo da narrativa, como se ficassem desajeitados relativamente à história que é contada. Também por isso são deixados de fora. Eles existem, mas não são facilmente confessados. De toda forma, no caso de Alice a avaliação feita a respeito do
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passado é rigorosamente pior do que sua leitura do tempo presente imediato, mesmo tendo vivido 18 anos no Paraguai. A narrativa de Alice pode ser melhor compreendia quando comparada a de Márcia, a segunda entrevistada. Durante a entrevista, Márcia mostrou-se cerimoniosa. Havia uma desconfiança sutil. Sua narrativa encheu-se de cuidados. Preparava suas respostas à medida em que observava minhas reações. Mas essa postura não deixou a entrevista desinteressante. Ao contrário disso, essa suspeição ajudou a caracterizar a visão de Márcia sobre o mundo no qual vivia e trabalhava. Nesse sentido, há muitos contrastes com o acidentado percurso de Alice. Um dos principais é o trabalho. A visão que cada uma tem sobre ele é distinta entre si. Grosso modo, pode-se qualificar a leitura histórica de Alice pouco otimista, bem menos entusiasmada do que a de Márcia. Ao mesmo tempo, a primeira se mostrou espontânea, desinibida, enquanto a segunda revelou-se comedida, acanhada. Mas há pontos em comum entre as duas. A cortesia ao nos acomodar nas cadeiras foi a mesma. Num dia quente, nos recebeu no alpendre improvisado da casa que servia também como garagem. Não demorou para que seus braços hipertrofiados se apresentassem como uma característica de quem trabalha catando e encaixotando galinhas. Embora o trabalho signifique para elas tão somente uma fonte para o consumo salário -, Alice está pior localizada nesse mundo dos trabalhadores do que Márcia. Mas não é preciso quantificar e contrastar os infortúnios para pressupor isso. Podemos avaliar comparativamente os sentimentos de ambas que conectam o trabalho à vida. Embora cargas emocionais ligadas às experiências de viver e de trabalhar não tenham referências seguras que as modulem, é nesses termos que se pode compreender como Márcia vê sua experiência de trabalhar na empresa e de viver em Vila Celeste. Márcia tem 30 anos de idade, 17 a menos do que Alice. A empresa foi seu primeiro emprego com carteira assinada. Mudou-se para Vila Celeste quando tinha 20 anos de idade, já casada. Antes, morou em Toledo-PR. Seu marido preferiu sair de lá em direção a Vila Celeste para trabalhar na empresa. Seu irmão instalou-se em Santa Helena e abriu um mercado. Essas foram as duas primeiras razões elencadas por Márcia que a levaram até Vila Celeste. Nos dois primeiros anos Márcia fez bicos no mercado do cunhado. Mas isso não foi suficiente. Ingressou na empresa quando tinha 22 anos de idade, e se manteve no mercado. Lá ela continua trabalhando em horário comercial. Chega às 8 horas, para às 11:20, retorna às 13 horas e termina às 17. Seu trabalho na empresa começa depois desse expediente. Durante dois dias da semana Márcia trabalha na empresa, na função de pegar e colocar galinhas em caixas para o transporte até o frigorífico. Mas ela não reclamou disso. Nessa condição, Márcia trabalhou seis anos, até ter um bebê. Depois disso, decidiu deixar a empresa para cuidar do filho. Por iniciativa própria pediu e assinou um acerto trabalhista. Isto aconteceu após o término de sua licença maternidade, usufruída em 4 meses, dois a menos do que o estabelecido em lei. Márcia argumentou que não queria deixar seu filho, tão novo, na creche. Baseada nesse arranjo ela ficou 18 meses cuidando exclusivamente do bebê. Passado este tempo, Márcia deixou-o na creche e foi recontratada pela empresa. O último ponto desta descrição permite constatar a diferença de tratamento conferido pela empresa a Alice e a Márcia. No primeiro caso, o acerto para a demissão partiu do exchefe com a promessa de recontratação, coisa que não aconteceu. Para Márcia, a escolha de cuidar do filho não cancelou nem exasperou a conexão com a empresa. Talvez, embora ela 148
não tenha dito, o tempo que ficou fora da empresa para cuidar do filho mostrou-se vantajoso para a empresa uma vez que o tempo e a concentração no trabalho não seriam divididos com o filho. Mas é uma suposição. O certo é que a empresa, ao recontratar Márcia, reconheceu-a como ótima trabalhadora. Também é verdadeiro que tal juízo da empresa considerou positivamente o estado funcional de Márcia, jovem, vigorosa e sem lesões. De seu lado, Márcia disse acreditar que esta visão permitia a ela estabelecer, ao seu modo, uma estabilidade informal. Outros dois pontos ligam entre si as experiências de Márcia e de Alice. O primeiro diz respeito aos reflexos do trabalho em suas vidas ou o reflexo de suas vidas no trabalho. Alguns deles já foram analisados aqui. De maior importância, resta pensar a dimensão simbólica das relações de trabalho referidas no contexto da Vila Celeste. Começando por Alice, percebe-se a importância atribuída por ela à sua função improvisada de chefe – “cabeça” – na tarefa de carregar e descarregar o caminhão que transporta as galinhas para o frigorífico e o caminhão que leva as aves prontas para a produção. “Eu faço a maioria ali dentro. Sou eu quem governa”. Este cargo informal sustenta seu discurso. Ela se vê como a “cabeça” dos negócios do funcionário público para quem trabalha. Com esse sentimento ela constrói uma quase perífrase, reconhecendo a si mesma como a “chefe”. Mas objetivamente ela não tem registro em carteira, razão de muitas reclamações. E a remuneração pelo “cargo” que ocupa é um acréscimo financeiro que dificilmente ultrapassa 20% do valor costumeiro de seu salário. Alice explica seu trabalho com ambivalência desde o emprego na empresa. Ora ela sublinha sua posição de líder durante o tempo em que esteve na empresa e na atual ocupação, ora justifica sua tolerância face uma atividade considerada tão pesada e suja. Seu argumento é um lugar comum. “Eu faço pra não ver meus filhos passarem fome e pedindo na casa dos outros”. Simultaneamente, ela assume um papel de suposto destaque frente os colegas de trabalho e, em menor grau, diante do universo das pessoas com as quais ela se relaciona. Nesse caso, tal tipo de recompensa – ou compensação – é de natureza simbólica. Salário e status. São esses dois elementos que equilibram a relação com os pontos negativos do trabalho que geram frustração. A fadiga, o tédio, o calor demasiado, a poeira e as próprias galinhas. Aos olhos de ambas esse sofrimento requer gratificação. Márcia, mais do que Alice, repercute seu status. As menções que fez a sua condição de líder dentro do setor onde trabalha na empresa foram voluntárias e repetitivas. O segundo ponto tem relação com a estabilidade financeira e com diferentes tipos de tranquilidade que podem decorrer dela. Na casa de Alice a renda é composta por seu salário, conseguido numa ocupação informal, e pelos salários da filha e do genro, empregados na empresa. A soma chega a 3,2 salários mínimos, uma renda média de 1,06 salários mínimos. Na casa de Márcia a renda da família também resulta do trabalho de duas pessoas e totaliza 4 salários mínimos brutos. Seu marido recebe 1,5 salários no setor onde atua como líder. Márcia recebe 2,5 salários, somados 1,5 salários pagos pela função de líder na cata de galinhas e 1 salário pelo trabalho no mercado do cunhado. Igualmente à família de Alice, Márcia também contabiliza uma criança pequena. Comparando os valores, a renda da família de Márcia é de 2 salários mínimos, o dobro da renda da família de Alice. É uma diferença que estabelece, aos olhos das duas, clivagens no universo social de Vila Celeste. A narrativa de Márcia, por exemplo, não cedeu espaços para incertezas e 149
inseguranças a respeito de seu percurso. Sequer deu sinais sobre qualquer correção de rota. Ela não apresentou queixas durante a entrevista, o que não quer dizer que inexistam problemas relacionados ao seu trabalho. Otimismo é um substantivo hiperbólico para medir-lhe o estado de ânimo em termos financeiros. Sua visão sobre a história estrutura uma convicção acerca do sucesso, um tipo de autoconfiança assentado em realizações materiais bastante visíveis. Elas funcionam também como uma vitrine exibida aos vizinhos e familiares. Aparecem como evidências de uma história de vida. Este movimento de exposição e de reconhecimento alimenta sua autoconfiança e injeta motivação na energia gasta no trabalho. Os elementos mais explícitos são um automóvel, uma motocicleta e uma casa construída no que se pode considerar a parte central de Vila Celeste. É com a moto que Márcia se desloca diariamente até Santa Helena, onde está o mercado no qual trabalha. A casa ainda se prolonga à custa de uma reforma. Até certo ponto isso espelha a vida da família. Pode ser interpretado também como sinal de progresso, estampado na renda e nos bens materiais. E este não é um traço peculiar de Márcia, senão uma atitude quase geral no contexto do capitalismo toda vez que um bem ou equipamento doméstico de conforto se torna igualmente um objeto de ostentação. Esse fetiche da mercadoria pode ser visto, em Vila Celeste, como um atestado do grau de vinculação de Márcia ao capitalismo. Mesmo num pequeno universo social existem escalas de status financeiro, sutilmente manejadas e expostas. Em resumo, se a narrativa de Alice está próxima do historicismo, a narrativa de Márcia pode ser vista como cliometrista, voltada para o futuro a partir de certezas construídas no presente imediato. Muitos pontos discutidos até aqui dizem respeito a um mundo mais amplo que a Vila Celeste. Podem e são encontrados num sem-número de percursos de gente pobre no Brasil que também relacionam o trabalho exclusivamente ao salário. E assim como Alice e Márcia, esses trabalhadores vivem sitiados pelo capital. São estimulados a escapar de seu lugar social, mas esta é uma fuga improvável porque agem sozinhos, cada um à sua maneira. Enfrentam barreiras o tempo todo. Eles escutam que sua escolaridade é insuficiente, que eles não têm aparência adequada para certos empregos, que não têm expertise, vocabulário apropriado, cordialidade dissimulada, enfim, que são e permanecerão pessoas incompletas. Quais respostas os trabalhadores dão a isso? Alice e Márcia oferecem uma importante chave de análise, conforme tentei desenvolver. A relação que as duas estabeleceram com a Vila Celeste tem especificidades. Alice, mais do que Márcia, reafirmou sua ligação com a vila durante e depois de pequenas e grandes tragédias que definiram os limites de sua trajetória. Mais jovem, Márcia não revelou desgastes em sua vida. Aliás, mostrou-se convicta de que ela e o marido estão no caminho certo, sem interesse de olhar para trás. Podemos acrescentar outros pontos em que os percursos delas se cruzam e expressam experiências e interpretações distintas. Nesses casos, o fato é que muitas das intersecções das vidas de Alice e de Márcia não são obrigatórias. Mas o que elas têm em comum, no trabalho e na vida em Vila Celeste, é a experiência da exploração, algo que não podem escapar, embora possam interpretar distintamente. Com isso voltamos ao começo. A Vila Celeste está sitiada pela agroindústria. O sentido dessa afirmação não é metafórico. A maioria de seus moradores depende dos empregos da cooperativa para trabalhar. Trata-se, como busquei mostrar, de um mercado de trabalho controlado. Uma realidade como essa estreita as possibilidades para os trabalhadores. 150
Em linguagem teórica, representa reconhecer limites e determinações para as ações de gente como Alice e Márcia. Desde Marx (MARX, 1987), essa tem sido uma questão política importante com notável repercussão nas organizações dos trabalhadores e nos estudos acadêmicos. E vez ou outra, ela ganha novo fôlego, sendo recolocada fortemente como problema para reflexão e investigação. A historicidade da experiência dos moradores de Vila Celeste é, ela própria, um argumento sobre a força dos trabalhadores e sobre como e em que condições eles enfrentam a cooperativa, mesmo quando Alice e Márcia parecem interpretar seus percursos individuais deixando de lado o capitalismo do contexto em que vive, trabalham e lutam.
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SOBRE O AUTOR Antonio de Pádua Bosi é professor de História na Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Doutor pela Universidade Federal Fluminense (2002). Bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq há doze anos. Foi presidente do Sindicato Docente da Unioeste e 1º Tesoureiro do Sindicato Nacional de Docentes das Instituições de Ensino Superior. Coordenou o Programa de Pós-Graduação em História da Unioeste. Atualmente coordena o Curso de Graduação em História na mesma universidade. Participou como docente colaborador no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Uberlândia. Coordena atividades de pesquisa vinculadas ao Acordo de Cooperação Internacional estabelecido entre o Laboratório de Trabalho e Movimentos Sociais/Unioeste e o Labor Studies and Employment Relations of the School of Management and Labor Relations/Rutgers – The State University of New Jersey.
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