1
2
O RAP DELAS: A REPRESENTAÇÃO DO RAP FEMININO E PRETO NA MÍDIA
3
4
Jhyenne Yara Gomes Santana Ivanise Hilbig de Andrade Adriana Omena Santos
O RAP DELAS: A REPRESENTAÇÃO DO RAP FEMININO E PRETO NA MÍDIA 1a Edição Eletrônica
Uberlândia / Minas Gerais Navegando Publicações 2020
5
Navegando Publicações
www.editoranavegando.com editoranavegando@gmail.com Uberlândia – MG, Brasil Direção Editorial: Navegando Projeto gráfico e diagramação: Lurdes Lucena Arte da Capa: Daniel dos Santos Neri Júnior
Copyright © by autor, 2020. O18 – SANTANA, J. Y. G.; ANDRADE, I. H. de, SANTOS, A. C. O. O RAP delas: a representação do RAP feminino e preto na mídia. Uberlândia: Navegando Publicações, 2020. ISBN: 978-65-86678-30-7 10.29388/978-65-86678-30-7
1. RAP. 2. Feminismo 3. Mídia I. Jhyenne Yara Gomes Santana; Ivanise Hilbig de Andrade; Adriana Omena Santos II. Navegando Publicações. Título. CDD – 70 CDU - 316.77
Índice para catálogo sistemático Comunicação Social
316.77
6
Navegando Publicações
Editores Carlos Lucena – UFU, Brasil José Claudinei Lombardi – Unicamp, Brasil José Carlos de Souza Araújo – Uniube/UFU, Brasil
www.editoranavegando.com editoranavegando@gmail.com Uberlândia – MG Brasil
Conselho Editorial Multidisciplinar Pesquisadores Nacionais
Pesquisadores Internacionais
Afrânio Mendes Catani – USP – Brasil Anderson Brettas – IFTM - Brasil Anselmo Alencar Colares – UFOPA – Brasil Carlos Lucena – UFU – Brasil Carlos Henrique de Carvalho – UFU, Brasil Cílson César Fagiani – Uniube – Brasil Dermeval Saviani – Unicamp – Brasil Elmiro Santos Resende – UFU – Brasil Fabiane Santana Previtali – UFU, Brasil Gilberto Luiz Alves – UFMS – Brasil Inez Stampa – PUCRJ – Brasil João dos Reis Silva Júnior – UFSCar – Brasil José Carlos de Souza Araújo – Uniube/UFU – Brasil José Claudinei Lombardi – Unicamp – Brasil José Luis Sanfelice – Unicamp – Brasil Larissa Dahmer Pereira – UFF – Brasil Lívia Diana Rocha Magalhães – UESB – Brasil Mara Regina Martins Jacomeli – Unicamp, Brasil Maria J. A. Rosário – UFPA – Brasil Newton Antonio Paciulli Bryan – Unicamp, Brasil Paulino José Orso – Unioeste – Brasil Ricardo Antunes – Unicamp, Brasil Robson Luiz de França – UFU, Brasil Tatiana Dahmer Pereira – UFF - Brasil Valdemar Sguissardi – UFSCar – (Apos.) – Brasil Valéria Forti – UERJ – Brasil Yolanda Guerra – UFRJ – Brasil
Alberto L. Bialakowsky – Universidad de Buenos Aires – Argentina. Alcina Maria de Castro Martins – (I.S.M.T.), Coimbra – Portugal Alexander Steffanell – Lee University – EUA Ángela A. Fernández – Univ. Aut. de St. Domingo – Rep. Dominicana Antonino Vidal Ortega – Pont. Un. Cat. M. y Me – Rep. Dominicana Armando Martinez Rosales - Universidad Popular de Cesar – Colômbia Artemis Torres Valenzuela – Universidad San Carlos de Guatemala – Guatemala Carolina Crisorio – Universidad de Buenos Aires – Argentina Christian Cwik – Universität Graz – Austria Christian Hausser – Universidad de Talca – Chile Daniel Schugurensky – Arizona State University – EUA Elizet Payne Iglesias – Universidad de Costa Rica – Costa Rica Elsa Capron – Université de Nimés / Univ. de la Reunión – France Elvira Aballi Morell – Vanderbilt University – EUA. Fernando Camacho Padilla – Univ. Autónoma de Madrid – Espanha Francisco Javier Maza Avila – Universidad de Cartagena – Colômbia Hernán Venegas Delgado – Univ. Autónoma de Coahuila – México Iside Gjergji – Universidade de Coimbra – Portugal Iván Sánchez – Universidad del Magdalena –Colômbia Johanna von Grafenstein, Instituto Mora – México Lionel Muñoz Paz – Universidad Central de Venezuela – Venezuela Jorge Enrique Elías-Caro – Universidad del Magdalena – Colômbia José Jesus Borjón Nieto – El Colégio de Vera Cruz – México José Luis de los Reyes – Universidad Autónoma de Madrid – Espanha Juan Marchena Fernandez – Universidad Pablo de Olavide – Espanha Juan Paz y Miño Cepeda, Pont. Univ. Católica del Ecuador – Equador Lerber Dimas Vasquez – Universidad de La Guajira – Colômbia Marvin Barahona - Universidad Nacional Autónoma de Honduras - Honduras Michael Zeuske – Universität Zu Köln – Alemanha Miguel Perez – Universidade Nova Lisboa – Portugal Pilar Cagiao Vila – Universidad de Santiago de Compostela – Espanha Raul Roman Romero – Univ. Nacional de Colombia – Colômbia Roberto Gonzáles Aranas -Universidad del Norte – Colômbia Ronny Viales Hurtado – Universidad de Costa Rica – Costa Rica Rosana de Matos Silveira Santos – Universidad de Granada – Espanha Rosario Marquez Macias, Universidad de Huelva – Espanha Sérgio Guerra Vilaboy – Universidad de la Habana – Cuba Silvia Mancini – Université de Lausanne – Suíça Teresa Medina – Universidade do Minho – Portugal Tristan MacCoaw – Universit of London – Inglaterra Victor-Jacinto Flecha – Univ. Cat. N. Señora de la Asunción – Paraguai Yoel Cordoví Núñes – Instituto de História de Cuba v Cuba
7
8
SUMÁRIO Prefácio Arquimedes Diógenes Ciloni
11
Apresentação As Autoras
13
1. Introdução
15
2. O RAP: breve histórico no país
19
2.1 A origem do RAP
19
2.2 O RAP no Brasil
22
3. Mulheres no RAP
27
3.1 A representação das rappers pretas
29
3.2 Karol, Tássia e Yzalú
31
3.2.1 Karol Conka
32
3.2.2 Tássia Reis
33
3.2.3 Yzalú
34
3.2.4 Semelhanças e diferenças entre as rappers
34
4. As contradições e a representação da pretitude feminina no RAP
37
4.1 - Entrevista Karol Conka – Revista Trip
45
4.2 - Entrevista Tássia Reis– Revista Trip
49
4.3 - Entrevista Yzalú – Revista Trip
51
4.4 - Entrevista Karol Conka – Estadão
54
4.5 - Entrevista Tássia Reis – Estadão
58
4.6 - Entrevista Yzalú – Portal R7
62
5. Considerações finais
67
Referências
70
9
Anexos
73
ApĂŞndice A
77
Sobre as autoras
81
10
PREFÁCIO Como ex-Reitor da Universidade Federal de Uberlândia e, nessa condição, com orgulho de ser o idealizador do curso de Jornalismo, sendo esse já consolidado e um dos melhores do Brasil, tenho a honra de apresentar à comunidade científica e cultural de nosso país o livro “O Rap delas: a representação do Rap feminino e preto na mídia”. De leitura fácil e agradável, as autoras mostram como surgiu o RAP – nome este derivado da abreviação das palavras rhythm and poetry (ritmo e poesia): em meados dos anos 70 e como um dos braços do movimento hip-hop, o qual também inclui a expressão artística a partir da dança (break) e as artes visuais (graffite). À época, como contextualizam, surge como movimentação cultural em bairros de periferia em resposta às dificuldades encontradas pela juventude, especialmente negros e pobres, num cenário de falta de ofertas de trabalho e extinção de profissões em que aquele segmento da população era o mais atingido. A princípio com o intuito de reunir a comunidade, o RAP toma a dianteira nas denúncias que relatavam a falta do poder público, os preconceitos, e a realidade daquela sociedade. Tendo um cenário parecido, o movimento surge no Brasil, onde a juventude preta e pobre brasileira também passava por um momento de desalento no final da década de 1980, com índices de desemprego e de criminalidade crescentes e a impactar especialmente os mais pobres. O livro apresenta uma descrição dos grupos que surgiram nos dois países; sua importância pode ser retratada pelo fato de que um dos álbuns foi incluído como leitura obrigatória para o vestibular da Universidade de Campinas (Unicamp) em 2020, integrando o gênero “poesia”. Chega-se assim à grande contribuição do livro. Nos estudos sobre RAP no Brasil, prevalece até agora o componente masculino; como mostram as autoras, a presença da mulher no RAP tem sido ignorada por pesquisadores, embora desde o começo do movimento no País, mulheres sejam parte da história do RAP nacional. Jhyenne, uma das autoras, mulher e negra, conhece bem essa realidade que pretende, junto com as 11
demais autoras, reverter com este livro, pois dedicam grande parte do mesmo para falar sobre a mulher brasileira no RAP e a representação das rappers pretas, para o qual recorrem a uma série de entrevistas com três grandes representantes: as compositoras Karol Conka, Tássia Reis e Luíza Yara, a Yzalú, mulheres e artistas que representam a diversidade dentro do mesmo gênero musical. É a partir delas que as autoras constroem sua pesquisa e a transformam neste livro marcante. Por fim, quero destacar que o lançamento desta obra se torna ainda mais relevante pela oportunidade em que ocorre: pouco tempo após a centésima defesa de Dissertação de Mestrado no Programa de Pós-graduação que, a meu ver, marca a consolidação do curso de Jornalismo como polo referencial também em pesquisa, fruto do processo de amadurecimento de seus docentes que este livro também retrata. Ao encerrar esta apresentação, gostaria de cumprimentar a todos os autores e expressar os agradecimentos pelo trabalho. Esta obra, ao enriquecer o acervo da UFU, reforça os laços e compromissos desta Instituição como guardiã também das culturas populares, bem como dá ao país mostras da capacidade instalada em suas universidades públicas federais. Prof. Dr. Arquimedes Diógenes Ciloni Ex-Reitor da UFU Uberlândia, outubro de 2019.
12
APRESENTAÇÃO Este livro apresenta resultados de um trabalho final de graduação junto ao curso de Jornalismo da Universidade Federal de Uberlândia. Foi desenvolvido a partir de estudos iniciados durante a graduação, efetivamente finalizado durante o ano de 2018 e sua redação em livro elaborada em 2019. Foi, de certa forma, construído a seis mãos e ultrapassando fronteiras geográficas, haja vista que as autoras se encontravam geograficamente divididas entre Brasil (Uberlândia-MG/Salvador - BA) e Canadá (Ottawa-ON). Trata-se basicamente de uma pesquisa descritiva e documental que apresenta uma análise sobre a representação de rappers pretas na mídia brasileira. Para entender a forma como Karol Conka, Tássia Reis e Yzalú são representadas, foi utilizado o método histórico dialético, que permite analisar os contextos, as contradições e a historicidades presentes na temática. Sendo assim, foi possível um aprofundamento nas discussões sobre o objeto de estudo, cujo tema se mostra como interseccional, considerando gênero, raça e classe. Por meio da análise de reportagens e entrevistas da Revista Trip, Estadão e Portal R7 no período de 2016-2017, buscou-se compreender como a mídia registra o histórico e as produções de tais artistas. As análises revelaram a necessidade de outro caminho, outra abordagem da mídia brasileira quando se fala de mulheres pretas no RAP, um olhar que perceba o quanto a estrada para o reconhecimento delas é ainda maior e mais difícil. Este livro nasce do desejo de ver essa pesquisa ganhar o mundo, sair das prateleiras e arquivos da biblioteca para mobilizar corações e mentes. Foi pensado para ser uma resposta às inquietações sobre o modo como a mídia constrói a representação dessas rappers pretas e se essas condizem com os discursos delas sobre elas. Para responder essa questão, inicialmente foi preciso fazer um recorte temporal para situar historicamente e socialmente a origem do RAP enquanto estilo musical, o RAP no Brasil e, afunilando ainda mais, chegando até as primeiras mulheres rappers do país. A partir desse debate teórico, a pesquisa apresenta as trajetórias de vida das três rappers para, por fim, tensionar as contradi13
ções e representações da pretitude feminina no RAP brasileiro a partir da análise de entrevistas concedidas pelas cantoras a veículos de imprensa. A análise dialética realizada aponta uma homogeneidade na abordagem sobre as três rappers, apesar das diferenças de idade, tons de pele, experiências e vivências, mostrando o quanto sua complexidade é reduzida a visões estereotipadas e simplistas acerca dessas mulheres. Assim, mais uma vez, esse livro apela para a necessidade das e dos profissionais dos meios de comunicação repensarem a forma como representam e constroem discursos sobre as mulheres artistas, sobre as mulheres pretas, sobre a complexidade das histórias de vida e toda a sua poesia.
As autoras.
14
1. INTRODUÇÃO Desde a década de 1940, Abdias do Nascimento já questionava sobre a falta de representação do negro no protagonismo artístico, em especial no teatro brasileiro, uma realidade que mesmo após a consolidação da televisão e tecnologia no Brasil permaneceu a mesma. Com o advento da internet e em tempos de reivindicações por representatividade na TV, na música, no cinema e em todo lugar, faz-se necessário questionar como é construída a representação das pessoas pretas 1 nesses espaços, que ainda segue uma estereotipação que não representa a maior parte da sociedade. Especificamente no RAP, gênero musical que tem suas raízes na cultura negra, a construção da imagem desses sujeitos também segue tal caminho. Mesmo após conquistar diferentes espaços, sendo eles geográficos e sociais, a representação midiática do RAP ainda segue um padrão de criminalização e até certo desdém ao não abrir muito espaço para o gênero musical e para aqueles que o produzem. Seja por sua origem negra e periférica, seja por suas letras carregadas de referências, de problematização e denúncias, o RAP ainda é sub-representado na grande mídia. É interessante perceber a mudança que ocorreu no cenário do RAP desde o seu surgimento – com nomes como MV Bill, Racionais MC’s e Facção Central como expoentes do gênero no Brasil – até os dias atuais, com a ascensão de nomes como Emicida, Criolo e Djonga. Apesar de todas as transformações, um ponto ainda é comum: além de carregar o estigma que cerca o preto e pobre, o RAP torna-se um ambiente ainda mais hostil quando se fala em mulheres. Para aquelas que ousam se inserir e seguir seu caminho no RAP, a estrada para o reconhecimento é ainda maior e mais difícil e, para galgar seus espaços na mídia, essas mulheres precisam se provar diversas 1
Utilizamos o termo preto por uma questão política. Compreendemos que se entender enquanto preta ou preto é a autoafirmação de uma identidade construída no coletivo. Silva (2015) constatou que a partir de 1992 o termo “preto” foi resgatado como um marcador identitário, enquanto se minimizava o emprego do termo “negro”, de natureza mais conceitual positivada pelo movimento negro e a academia. Percebe-se então, que no movimento do hip-hop, o termo “preto” era utilizado com frequência, como forma de exprimir familiaridade e intimidade.
15
vezes. Mas cabe lembrar que tais dificuldades não são exclusivas do RAP, elas são representações das relações sociais e culturais. Tendo como contexto esse gênero musical e a representação midiática da mulher preta e rapper no Brasil, chega-se às inquietações que levantaram questionamentos sobre o modo que a mídia brasileira aborda suas histórias e seu trabalho e, também, se essa é fiel ao discurso e à re presentação de tais mulheres. Nesse período de estudo, percebeu-se que as relações de gênero e raça estão sempre implícitas nas pesquisas e relatos sobre o RAP, mas quase nunca são o ponto de partida para os questionamentos. Mesmo entendendo que o RAP não destoa das construções sociais as quais somos apresentados, ainda é estranho perceber que, em mais de vinte anos de estudos sobre esse tópico no Brasil, a abordagem principal ainda consiste na análise do gênero musical sem considerar os sujeitos que criam e ressignificam o RAP. Quando levado em consideração o sujeito por trás da produção do RAP, a mulher é mais uma vez esquecida, seja pela predominância masculina, pelo provável preconceito velado e intrínseco na sociedade ou pelo ideal de mulher e artista que foi construído. Assim, o RAP é o contexto da pesquisa que desenvolvemos, a qual se desdobra na temática da mulher, em específico da mulher preta. Tal assunto tem se tornado muito caro, haja vista que cresce o interesse por conhecer mais sobre a situação das mulheres pretas em diversas áreas. Entender a função da mídia na representação dessas artistas e seu papel enquanto validadora do discurso apresentado é de grande valia social, midiática e profissional para o jornalista e, por isso, questões como construção de imagem e de representação e representatividade social e/ou midiática sempre permearam as minhas produções acadêmicas, e é a partir dos estudos teóricos abordados no curso de comunicação que tal pesquisa se justifica inicialmente. Cabe ainda considerar, em tal contexto, o papel das mídias como parte fundamental na construção das representações destas mulheres. É exatamente neste ponto que a relevância social e acadêmica se convergem, justificando também a pesquisa ora apresentada. De posse de tais reflexões, foram selecionadas a obra e a representação de mulheres pretas e rappers como universo para uma análise 16
que considerasse, além do próprio objeto, as contradições presentes na temática. Dessa maneira, a proposta inicial da pesquisa desenvolvido teve como objetivo geral analisar a representação da mulher preta e do RAP na mídia, a partir de reportagens sobre as rappers Karol Conka, Tássia Reis e Yzalú. Nos procedimentos metodológicos, foi utilizado o método histórico dialético para observar os dados coletados acerca das mulheres selecionadas que representam a diversidade dentro do mesmo gênero musical e constituem o corpus da pesquisa. Portanto, a pesquisa se fundamentou a partir das seguintes artistas: Karol Conka, 31 é rapper, compositora, produtora e apresentadora; Tássia Reis, 29, é rapper e compositora; Yzalú, 36, é rapper, compositora, violonista, sendo a primeira com seu RAP / POP, a segunda com sua mistura entre o gênero e o Jazz, e a última com sua “bossa que é treta”. O livro, resultado direto do trabalho de final de curso, possui três capítulos, além da introdução e das considerações finais. No segundo, são apresentadas breves considerações sobre a origem do RAP e seu desenvolvimento no Brasil. No terceiro, são desenvolvidas reflexões acerca das mulheres no RAP e apresentada uma breve descrição sobre as artistas Karol Conka, Tássia Reis e Yzalú. No quarto, são apresentadas as análises acerca das contradições e representações da pretitude feminina no RAP, seguido das considerações finais e referências utilizadas para construção do percurso percorrido durante o estudo.
17
18
2. O RAP: BREVE HISTÓRICO NO PAÍS 2.1 A origem do RAP Derivado da abreviação das palavras rhythm and poetry (ritmo e poesia), o RAP é um dos braços do movimento hip-hop, que também inclui a expressão artística a partir da dança (break), e as artes visuais (graffite). O RAP teve origem na convergência de experiências e do momento histórico que vivia os Estados Unidos da América em meados de 1970. O país se encontrava em um momento pós-industrialização, o que refletiu diretamente nas ofertas de trabalho, provocando extinção de profissões e novas demandas. Nesse período a juventude preta e pobre era a mais atingida por todas as mudanças sociais e políticas. De acordo com Silva (2015), surge então, nas ruas do Bronx, bairro de periferia, uma movimentação cultural como resposta às dificuldades encontrada pela juventude, ao medo da perda dos direitos civis recém-conquistados, o aumento do consumo de drogas e da violência e a territorialidade de gangues, que naquele momento se mostrava como a melhor alternativa para muitos jovens. Segundo Tricia Rose (1998), também citada por Silva (2015), o hip-hop tentou negociar as condições da nova economia e tecnologia bem como as novas formas de opressão, gênero e classe na América urbana. Como visto em diversos momentos durante a história, manifestações culturais aderem a performances e expressões de variadas culturas e com o RAP não foi diferente. Na década de 1960, houve uma migração em massa de latinos e caribenhos para os Estados Unidos (SILVA, 2015). O Bronx, como exemplo, era um dos muitos bairros de periferia com a população predominantemente negra e latino caribenha. Essa fusão cultural teve influência direta nas múltiplas transformações que o RAP teve ao decorrer do tempo. O jamaicano Clive Campbell, mais conhecido como Kool Herc é reconhecido como a principal influência para o surgimento do gênero. Clive se mudou para os Estados Unidos em 1967 e levou junto a si a ex19
periência das festas ao ar livre e em espaços públicos, além de uma aparelhagem conhecida como Sound System (SILVA, 2015). O Sound System consiste em um par de pick ups, dois toca discos interligados, dois amplificadores e um microfone. O sistema, além de potência, permite mobilidade da aparelhagem, facilitando a realização de festas em diversos locais. O Bronx foi considerado “o berço da cultura hip-hop”, porque foi nesse espaço inaugural que jovens de origem afro-americana e caribenha reinventaram tradições culturais sem perder de vista os elos com a contemporaneidade. (SILVA, 2015, p. 43)
Além dos recursos tecnológicos, o RAP teve grande influência de tradições afro-americanas e afro-caribenhas, como a oralidade exposta pelos griots – que na cultura africana são aqueles responsáveis por transmitir a cultura de um povo através da fala. Grand Master Flash foi um dos expoentes da primeira fase do RAP. O DJ foi o responsável pela introdução do scratch, técnica que consiste em “arranhar” o disco, em um movimento para frente e para trás repetidas vezes, produzindo uma sonoridade inédita até então. Ele também criou o back to back, ato de extrair um trecho da melodia e repeti-lo diversas vezes (SILVA, 2015). Naquele período, os Dj’s eram a grande estrela das festas urbanas. Em constante evolução, surgem os mestres de cerimônia (Master of Ceremony em tradução livre) ou, como ficaram mais conhecidos, os Mc’s. Representavam a tradição africana de contar histórias, animar as festas e apresentar os Dj’s, que se apropriaram de todo o aparato tecnológico que surgia. Atualmente, os Mc’s são aqueles que improvisam letras de RAP a partir de uma batida. Nas décadas de 1970 e 1980, a territorialidade era pungente nas periferias dos Estados Unidos, refletindo na construção dos grupos que surgiam. Nesta época surgiu outro expoente do movimento chamado África Bambaataa, que, a partir de influências alemãs, são considerados precursores ao introduzir sintetizadores nas músicas do gênero. Com a disseminação do RAP e a introdução nas block parties, festas espontâneas que aconteciam desde a década de 1950, as rixas territo20
riais começaram a sumir. Os Dj’s gravavam suas músicas ao vivo em fitas que eram distribuídas e vendidas nas ruas, ultrapassando até mesmo as fronteiras. Nesta época, o RAP ainda se encontrava no “underground”, sendo conhecido apenas por um público muito específico, havendo uma leve mudança com a gravação do primeiro disco oficial. Segundo Silva (2015), o primeiro registro fonográfico desse movimento foi o Rapper’s Delight (1979) do grupo Sugarhill Gang. As vendas do álbum surpreenderam, chegando a 2 milhões de cópias vendidas, o que permitiu um status comercial ao gênero musical. Segundo o autor, em 1982 Grand Master Flash and the Furious Five gravam o “The Message”, que representava o começo de um movimento onde as letras de música refletiam as situações cotidianas e a realidade das periferias. O RAP até aqui é conhecido como o old school. Uma nova fase surge com o primeiro álbum do grupo Public Enemy, que traz um forte discurso político em suas letras e referências a personalidades e ativistas negros importantes para a história recente, como Malcolm X e Martin Luther King. É possível perceber com este breve relato que o surgimento do RAP está diretamente ligado ao cenário político-social dos Estados Unidos da década de 1970, como afirma Rose (1998) citada por Silva (2015). No período pós-industrial muitos empregos se tornaram obsoletos, elevando a taxa de desemprego e fazendo com que novas exigências e qualificações profissionais surgissem. O período também conhecido como Reagan/Bush foi uma época de redução de fundos federais para a área social, afetando principalmente a parte pobre da sociedade: com tantos obstáculos a rua se tornou o único espaço para muitos. As gangues se tornaram a melhor oportunidade para jovens desempregados e sem perspectiva de conseguirem emplacar uma nova carreira, o consumo de drogas e o aumento da violência também foram consequências da falta de políticas sociais do governo americano. O que a princípio surge como uma manifestação cultural, com o intuito de reunir a comunidade, o RAP toma a dianteira nas denúncias que relatavam a falta de ação do poder público, os preconceitos, e a realidade daquela sociedade. Em “The Message” de Grand Master Flash and
21
The Furious Five, a denúncia apresenta 2: É como uma selva, por vezes, isso me faz pensar / Como é que consigo aturar / Vidro quebrado por toda parte / Gente mijando na escadaria, simplesmente não tão nem aí / Eu não aguento o cheiro, não suporto o barulho /Não tenho grana pra me mudar, acho que não tenho escolha / Ratos na sala da frente, baratas na de trás / Um drogado, em um beco com um taco de beisebol / Eu tentei fugir, mas não pude ir muito longe / Porque o cara do reboque, guinchou meu carro (tradução nossa). Visto com maus olhos por muito tempo, o RAP é uma representação da realidade periférica e uma ferramenta política que, desde o início, tem cumprido o papel de atuar como denunciante das mazelas da periferia e ferramenta para falar de sonhos, medos e anseios.
2.2 O RAP no Brasil O crescimento do movimento do hip-hop no Brasil não se diferencia muito da sua origem nos Estados Unidos. A juventude preta e pobre brasileira também passava por um momento de desalento no final da década de 1980, com aumento do desemprego, taxa de criminalidade e potencialidade das mazelas sociais e raciais. Nas décadas de 1960 e 1970, o ponto de encontro da juventude periférica e preta acontecia nos bailes blacks. Esses começaram como pequenas festas organizadas por grupos de amigos, onde o ritmo que tomava conta da noite pertencia à black music americana, como James Brown, Barrie White e outros (SILVA, 2015). Era um local de encontro, troca, diversão e paquera da juventude que se reunia para ouvi-la, abrindo também espaço para nomes nacionais como Tim Maia, Toni Tornado e Jorge Ben. Os bailes blacks foram essenciais para a disseminação do RAP em São Paulo, local em que clássicos do RAP norte-americano tinham local, mesmo que naquela época não associassem a música ao gênero. Nessas festas também eram realizados concursos de banda, o que atraía a participação de novos grupos (SILVA, 2015, p.71) 2
It's like a jungle sometimes, it makes me wonder How I keep from goin' under / Broken glass everywhere / People pissing on the stairs, you know they just don't care / I can't take the smell, I can't take the noise/ Got no money to move out, I guess I got no choice / Rats in the front room, roaches in the back / Junkie's in the alley with a baseball bat / I tried to get away, but I couldn't get far / Cause the man with the tow-truck repossessed my car. (tradução livre)
22
O autor recorda que a princípio esses bailes não tinham relação direta com o movimento do hip-hop no Brasil, no entanto, nos anos seguintes, foram os organizadores dos bailes que possibilitaram a produção de discos de RAP a partir das chamadas gravações independentes. O que começou com pequenas festas realizadas por amigos espalhou-se e tomou grandes proporções. A Chic Show foi a primeira a possuir uma estrutura maior, com recursos técnicos para grandes performances, como afirma Silva (2015). Diferenciados, conseguiam contratar artistas nacionais e internacionais para realizarem shows. A Chic Show surgiu na década de 1960 como uma pequena empresa de baile e apenas nos anos 1970 alcançou o patamar de estar entre as quatro maiores empresas do segmento no Brasil. Enquanto isso, nas ruas de São Paulo, o break, outro braço do hip-hop, invadia as ruas da capital, difundindo essa cultura. Nos bailes black as músicas de RAP ainda não eram reconhecidas com essa nomenclatura, amplamente tocada nas casas de shows e nos bailes, os RAPS americanos eram conhecidos como “balanço”. Nos últimos anos da década de 1980, a barreira foi quebrada e o break, até então uma forma de expressão exclusiva das ruas, juntou-se às músicas dos bailes blacks, logo ganhando espaço nas rádios brasileiras. A primeira programação de black music destinada ao público juvenil foi criada pela Chic Show. O programa intitulado Sambarilove era distribuído pela rádio Bandeirantes FM e obteve grande alcance. Segundo Silva (2015, p.74), o rádio se tornou um instrumento fundamental porque, além das músicas, veiculava também informações acerca dos eventos, possibilitando assim a articulação do público juvenil disperso na metrópole. Assim como nos Estados Unidos, o RAP no Brasil passou por mudanças: as músicas que embalavam a juventude em suas festas e influenciavam os estilos passaram a levar uma abordagem mais aprofundada. As temáticas diárias sobre o social e o político, a realidades de homens e mulheres pretos de periferia tomavam as pautas centrais nas letras. Segundo Silva (2015, p.91) foi especialmente no período entre 1990 e 1994 que surgiram os primeiros esforços no sentido de reinterpretar as relações raciais brasileiras. Para o autor, 23
A história do movimento hip-hop e as lutas sociais dos negros norte-americanos, registradas em discos, chegavam aos jovens paulistanos de maneira fragmentada, mas, mesmo assim, por meio desses elementos esparsos restabeleceram os nexos entre os dois contextos. Perceberam que os sons e imagens sugeriam mais semelhanças que diferenças. Símbolos da luta pelos direitos civis como Luther King, Malcolm X, Panteras Negras, e os contemporâneos Mandela, Steve Biko e Jesse Jackson tornaram-se alvo de curiosidade e admiração. (SILVA, 2015, P.92)
Na década de 1990 a nova geração do RAP norte-americano, tendo como exemplo o grupo Public Enemy, chegava aos redutos de São Paulo, e foi nessa “new school” que as críticas sociais se tornaram o carro chefe das letras. No Brasil, o grupo Racionais Mc’s se firmava como expoente dessa linha: constituído por Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e DJ KL Jay, ficou conhecido por suas músicas duras que denunciam problemas sociais e aborda a realidade nas periferias. Mesmo trinta anos após o surgimento do grupo, sua relevância social ainda é discutida. Sobrevivendo ao Inferno, lançado em 1997, é considerado até os dias atuais como um dos discos de maior sucesso do gênero. Este ano, foi anunciado que o álbum foi incluído como leitura obrigatória para o vestibular da Universidade de Campinas (Unicamp) em 2020, integrando o gênero “poesia”. Segundo Silva (2015) com base na experiência norte-americana, os jovens começaram a se perceber como parte de uma história comum, marcada por exclusões e conflitos que aproximavam os negros em diferentes contextos diaspóricos 3. Em 1991 ocorreu um movimento importante para a cena do RAP e as discussões pautadas pelo Movimento Negro chamado “Projeto Rappers Geledés”, que teve uma duração curta (1992-1998). Solimar Carneiro, coordenadora do Geledés - Instituto da Mulher Negra, relembra em uma reportagem de caráter institucional que o projeto nasceu a 3
Diáspora é a dispersão de um povo, seja por questões políticas ou religiosas. Tal termo derivouse da história do povo judeu. Na cultura negra, a diáspora é vista a partir da escravização de povos africanos. Em “A diáspora – Identidades e Mediações Culturais”, Stuart Hall discute sobre as identidades criadas a partir da diáspora africana no Caribe e a diáspora caribenha na GrãBretanha.
24
partir da demanda por grupos do gênero que se sentiam perseguidos pela polícia nos shows. Como alternativa, o Instituto ofereceu um seminário sobre as temáticas que os rodeavam à luz das propostas do Geledés e das discussões sobre Direitos Humanos. Depois desse encontro, o Instituto e diversas bandas de São Paulo se reuniram no que ficaria conhecido como “Projeto Rappers Geledés”. Carneiro (2009, s.p.) afirma que: As bandas agregadas em torno do Projeto Rappers passaram a compor os Fóruns de Denúncia e Conscientização do Programa de Direitos Humanos do Geledés trazendo a originalidade de articular a atividade cultural com a ação política usando a linguagem musical como instrumento de conscientização e valorização da juventude negra introduzindo assim esse novo paradigma para a nossa organização.
Até então, nos estudos sobre RAP no Brasil, a lente adotada é a que aborda discussões sobre os homens no RAP. Eles são a maioria no cenário, é verdade, mas não foram os únicos que construíram e consolidaram o RAP no Brasil. O “Projeto Rappers Geledés” foi muito importante para discussões sobre gênero no RAP. Segundo Silva (2015, p. 96), Especialmente as jovens rappers, que tinha o apoio institucional do Geledés, puderam questionar diretamente as posturas sexistas, expressas, por exemplo, em músicas como Mulheres Vulgares (Racionais MC’s) e Garota sem Vergonha (PICH), (Doctor MC’s).
A presença da mulher no RAP tem sido ignorada por pesquisadores e por aqueles que dominavam a cena. Desde o começo do movimento do hip-hop no Brasil diversas mulheres conquistavam seu espaço, seja batendo tambor na São Bento, como b-girl ou grafiteira. Elas reivindicaram seu espaço e, direta e indiretamente, tornaram-se parte da história do RAP nacional. Desde o início, o gênero tem cumprido um papel de servir como denunciante das mazelas sociais e usado como ferramenta para falar de sonhos, medos, anseios e realidades do povo da periferia e do povo pre-
25
to. Roberto Camargos diz que o RAP é uma reprodução das relações sociais e [...] abre espaço para a construção de representações sobre a sociedade brasileira, articulando as narrativas das dores, das visões de mundo, da violência e do racismo presentes na história contemporânea. Ele é um importante via para adentrarmos no terreno dos conflitos, das tensões e do poder que opera desigualmente na vida social, conduzindo-nos a repensar os processos sócios históricos no Brasil atual (que, não raro, é visto com pessimismo pelos rappers) e as contradições que o cercam, mesmo quando a difusão do rap está associada, em alguma medida, à indústria cultural (particularmente a do entretenimento) e, por isso, seja tachada de alienante. (CAMARGOS, 2015 p.27)
Sendo uma representação da sociedade brasileira, o RAP e aqueles que o criam ainda são alvos de diversos tipos de preconceitos. Também é um espaço de perpetuação de muito machismo e sexismo, o que refletem a baixa representação das mulheres no cenário e na inserção delas na mídia, que nem sempre são reconhecidas por seu trabalho. É um processo perverso com o qual as rappers lidam diariamente, tornando-se parte das denúncias apresentadas em suas obras. A presença da mulher no RAP é o tema do próximo capítulo.
26
3. MULHERES NO RAP Como citado anteriormente, a presença da mulher no cenário é pequena. Essa constatação é tanto empírica como comprovada com base em levantamentos de bibliografias artísticas e acadêmicas para este projeto, junto aos autores Matsunga (2008), Camargos (2015) e Lima (2005). Uma das autoras consultadas, Matsunga (2008), afirma que a tentativa do movimento hip-hop de se incluir nos discursos atuais não os isenta de reproduzir o sexismo, algo que não é exclusividade do movimento. Para a autora A sociedade brasileira estrutura-se a partir da visão androcêntrica, e isto pode ser observado nas distinções sexuais quanto aos postos de trabalho ocupado por homens/mulheres, a diferença de salários, a hierarquia política, entre outros. Isto não é negar os avanços conquistados pelas mulheres, mas admitir que as relações sociais contemporâneas perpetuam discriminações quanto à distinção sexual, definindo espaços que podem ser ocupados por homens e mulheres. (MATSUNGA, 2008, p.114)
Com a baixa presença feminina nesse gênero musical os obstáculos aumentam quando se pretende analisar como são representadas. Para a autora, é possível encontrar dois núcleos de representação feminina: a mulher de luta, firmeza, que deve ser respeitada (muitas vezes na figura da mãe) e a mulher vulgar e fútil, cujo único propósito é ser usada. No entanto, a cultura do hip-hop e o RAP é composta por diversas mulheres, encaixando-se ou não nessas classificações e que trilham um caminho ainda mais longo do que os homens. São elas que se deparam com o preconceito de gênero, de classe e de raça. É também Matsunga (2008, p. 114) quem afirma que Autoras de suas letras também são autônomas e autoras de suas próprias histórias. Esta representação da mulher fornece referências para outras mulheres ocuparem espaços diferenciados, como espaços públicos. Esta busca de sentido revela que, para além da reiteração de concepções tradicionais da mulher, estão presentes 27
tanto no discurso feminino como em letras produzidas pelos hip hoppers (a mãe, a esposa, a fidelidade), a mulher é vista, pela mulher hip hopper, “conversando” com a agenda feminista que reivindica, entre outras coisas, direitos sociais igualitários.
Essa agenda feminista nem sempre é o carro-chefe dos discursos das rappers, mas as reivindicações por igualdade, respeito e maior espaço, pautas essas do feminismo são recorrentes em suas produções. Quando essas reconhecem que, por inúmeras vezes, as mulheres pretas encontram mais dificuldades para entrar no meio do que as mulheres brancas, percebem o preconceito de raça e o de classe enquanto contraditório já que o plano de fundo para a maioria das músicas de RAP são as denúncias de crimes na periferia e de descaso do governo. Assim, conscientemente ou não, as rappers se apoiam em um feminismo negro, que luta contra diversas opressões. Acerca do assunto é possível recorrer a autores como Larissa Amorim Borges, para quem O feminismo negro é um posicionamento contra a ideologia liberal individualista e tem como alicerce as redes de solidariedade, proteção, cooperação e afirmação que sustenta e apoia as mulheres e também homens negros em processos de a superação de situações e condições de opressão, empoderamento e emancipação. (BORGES, 2013 p.53)
Angela Davis, também discorre sobre o assunto e afirma em uma de suas obras que discute gênero, raça e classe (DAVIS, 2016) que o único feminismo possível é o interseccional. Nele, os preconceitos de gênero, raça e classe são vistos como integrantes de um processo estrutural, ou seja, opressões interligadas e que precisam ser consideradas em conjunto. Essas são características que permeiam o trabalho de três rappers pretas, Karol Conka, Tássia Reis e Yzalú, que aqui serviram de base para a construção da pesquisa que resultou neste livro.
28
3.1 A representação das rappers pretas Nos últimos anos, as palavras representação, representatividade e empoderamento tomaram conta dos discursos das redes sociais. Mais do que palavras da moda, representam o anseio de uma geração de mulheres, de pretas e pretos, de gordas e gordos, de LGBT’S e de pessoas com deficiência que, cada vez mais, exigem que seus jeitos, formas e expressões sejam incluídos em debates e que tenham espaços nas produções, sejam acadêmicas ou comerciais. Essas são identidades individuais e coletivas que precisam ser enxergadas. Para o teórico jamaicano Stuart Hall, as questões de representação são diretamente influenciadas por essa construção de identidade, que tem sido a principal reivindicação na pós-modernidade. Essas identidades são construídas e transformadas com o decorrer do tempo, sendo totalmente passíveis a influências que são definidas por grupos, região, etnia, entre outros. Para o autor Uma vez que a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida. Ela tornou-se politizada. esse processo é, às vezes, descrito como constituindo uma mudança de uma política de identidade (de classe) para uma política de diferença. (HALL, 2006, p.21).
Por isso, acredita-se que a reivindicação por representatividade é uma das maiores potências da atualidade, principalmente da juventude que, graças à pressão por essa expressão e ao alcance das redes sociais, têm a oportunidade de acesso a uma gama de discussões e imagens que irão influenciá-los no estabelecimento da identidade individual, o que reflete na construção coletiva. Assim, é possível afirmar que, para jovens mulheres pretas, ver uma semelhante em destaque é uma forma de empoderamento e conhecimento. Tal afirmação se sustenta nas considerações de Hall (2001, p. 150), quando afirma que
29
Dentro da cultura, às margens, embora continuem periféricas, nunca foram um espaço tão produtivo como o são hoje, que não se dá simplesmente pela abertura dentro da dominante dos espaços que podem ser ocupados pelos de fora. É também o resultado de políticas culturais da diferença, de lutas em torno da diferença, da produção de novas identidades e do aparecimento de novos sujeitos na cena política e cultural. Isso é válido não somente com relação à raça, mas também diz respeito a outras etnicidades marginalizadas, assim como em torno do feminismo e das políticas sexuais no movimento de gays e lésbicas, que é resultado de um novo tipo de políticas culturais.
Cabe ressaltar, que o RAP surgiu em um período de grandes mudanças de cunho político-social, e que se transmutou ao decorrer do tempo. Seja pela identificação com um gênero musical, estilo de roupas ou de linguagem, o RAP foi um agregador de identidades que transpassaram e ainda transpassam a comunidade negra, tanto nos Estados Unidos como no Brasil. Levando em consideração esses fatores pode-se justificar a importância de buscar conceitos dos Estudos Culturais para que sejam realizadas discussões acerca da representação de rappers pretas na mídia. Os Estudos Culturais surgem através do Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS) na Inglaterra, em meados dos anos de 1960, no período pós-guerra, e foi fundado por Raymond Williams, E.P. Thompson e Richard Hoggart. Stuart Hall foi um dos principais teóricos para Estudos Culturais mas não participou da fundação. Neste período pós-guerra havia uma intensa contestação dos valores tradicionais da sociedade. Movimentos identitários como o negro, o feminista e o punk, surgiram como resposta ao pensamento tradicionalista, quebrando paradigmas e influenciando produções acadêmicas a levarem em considerações questões como etnias, raças, identidades e culturas. Nos valemos dos Estudos Culturais para compreender melhor o conceito de representação, pois, segundo Wolf (2009, p.108), “o interesse dos cultural studies centra-se, principalmente, na análise de uma forma específica de processo social, relativa à atribuição de sentido à realidade, 30
à evolução de uma cultura, de práticas sociais partilhadas, de uma área comum de significados”. O conceito de representação para Hall (2006) se constrói dentro de um sistema de significados, e por meio destes representamos o mundo para nós e para os outros. Além do que se diz ou do que se pensa, as práticas sociais também fazem parte desse sistema de representação e, por isso, a forma como as rappers se vestem, se portam, sua linguagem oral e estética pessoal fazem parte de um processo que influenciará em sua imagem pessoal e midiática. E nessa construção de identidades, o corpo tem sido uma das maiores pautas. Assim como tantas outras mulheres, Karol Conka, Tássia Reis e Yzalú, lidam diariamente com a sexualização de seus corpos, em um processo perverso que reflete uma sociedade marcada pelo machismo e racismo que, há centenas de anos, sexualiza os corpos negros. Em contrapartida, elas têm ressignificado esse processo perverso. Seus corpos são partes importantes na autoimagem, em suas performances e em suas músicas e vão ao encontro de afirmações que nos induzem a pensar “[...] em como essas culturas têm usado o corpo - como se ele fosse, e muitas vezes é, o único capital cultural que possuímos. Temos trabalhado em nós mesmo como em telas de representação”. (HALL, 2001 p. 154) Sendo assim, a forma como as rappers são representadas pela mídia pode influenciar e promover diferentes formas de interpretações do RAP produzido por elas, mulheres e pretas.
3.2 Karol, Tássia e Yzalú Karol Conka tem 31 anos, é rapper, compositora, produtora e apresentadora. Tássia Reis tem 29 anos, é rapper e compositora. Yzalú com 36 anos, é rapper, compositora e violonista. Mulheres, pretas e rappers. Elas representam a diversidade dentro do mesmo gênero musical e foi a partir dessas três artistas que nossa pesquisa foi construída para viabilizar as análises da representação da mulher rapper e de suas produções na mídia que são apresentados em livro. 31
3.2.1 Karol Conka Karoline dos Santos Oliveira, mais conhecida como Karol Conka, nasceu em 1 de janeiro de 1987 na cidade de Curitiba. É rapper, compositora, apresentadora, produtora e atriz. Seu primeiro álbum, “Batuk Freak” de 2013, a levou para o estrelato. Em novembro de 2018 foi lançado seu segundo álbum de estúdio intitulado “Ambulante”. Conka cresceu no bairro Alto Boqueirão, próximo a um conjunto habitacional da Cohab. Em entrevista ao site da Biblioteca Pública do Paraná, Conka relatou que a alta taxa de crime nos bairros de periferia sempre foi presente em sua vida, o que lhe deixou marcas. Outro estigma que Karol carregou em sua vida foi o racismo. Quando criança, mergulhou suas mãos em um balde cheio de água sanitária para ficar branca e assim, ser bem-aceita pelos colegas da escola. Segundo a artista, seus pais foram fundamentais no processo de ressaltar sua beleza, e de lhe mostrar que o problema está em quem a vê como diferente. Esse trajeto foi fundamental para a construção da sua identidade, como conta em entrevista para a Rolling Stone. Em entrevista para o canal do Youtube Brasileiríssimos, em 13 de janeiro de 2016, Conka diz que seu contato com o RAP começou aos 17 anos, e foi nessa época que ela se libertou de ser “mina” e negra. Para ela, ser negra, pobre e viver em Curitiba a levou para um caminho de es crever músicas que ela mesma gostaria de ouvir. Conka classifica sua música como “RapConka”, um estilo diferente de RAP, fora dos padrões assim como sua vida, seu jeito e seu pensamento. Sobre a mensagem de suas músicas, diz: “eu acho que a gente tem que ser vista não só como rapper, mas como capazes de passar uma mensagem e não só rimar em cima de uma batida. A gente tem coisa para falar, a gente tem experiências para passar, sonhos para passar para as pessoas. A minha mensagem sempre foi a de autoestima e empoderamento. Porque? Por que na minha infância eu fui muito diminuída o tempo inteiro, até quando eu conheci o Rap”. (BRASILEIRÍSSIMOS, 2016, s.p)
32
O primeiro trabalho profissional de Karol Conka veio com seu EP “Karol Conka” lançado em 2001, exclusivamente online. Em 2011 lança seu segundo EP “Promo”. Seu primeiro álbum “Batuk Freak” só foi lançado em 2013, consolidando sua carreira.
3.2.2 Tássia Reis Tássia Reis, 29 anos, nasceu em Jacareí, no interior de São Paulo. Sua trajetória no hip-hop começou ainda na adolescência quando entrou para um grupo de dança na sua cidade natal. Em sua infância, costumava ouvir Clara Nunes por influência da mãe, Jackson 5 por influência do pai e foi seu irmão que a influenciou sobre o RAP, eventualmente tornandose seu gênero musical preferido. Aos 20 anos mudou-se para São Paulo para continuar sua graduação em Moda, e foi nessa época que gravou seu primeiro single “Meu Rapjazz”, lançado em plataformas digitais. A cantora participa de dois projetos musicais paralelos que se interligam nas discussões de suas letras: o “Rimas e Melodias”, grupo composto só por mulheres rappers, e o “Salada de Frutas”, ao lado das cantoras Liniker e As Baianas e a Cozinha Mineira em um projeto que discute gêneros. Em entrevista para o canal Trip Tv, no Youtube, Tássia diz que o hip-hop é seu lifestyle, foi o que a formou politicamente e onde ela começou a se entender como mulher negra. Sobre ser mulher, negra e rapper, Tássia diz em entrevista ao canal “Alma Preta” que no RAP existe o machismo subjetivo, manifestando-se quando só a chamam para fazer refrão, ou dizem que ela não canta RAP por ter uma voz mais suave, como também existe o escancarado, quando em eventos não tem nenhuma mulher, ou chamam uma para “cumprir tabela”, ou quando as mulheres são chamadas apenas para eventos do 8 de março (dia internacional das mulheres) ou 20 de novembro (dia da consciência negra). Em diversos momentos, Tássia Reis relata que suas letras de músicas são inspiradas em sua própria experiência e que já ouviu falarem que sua música cura, mas que nunca pensou em criar músicas para os ou33
tros e sim para curar a si mesma. Tássia lançou seu primeiro EP homônimo em 2014 e seu primeiro álbum foi lançado em 2016 com o título de “Outra Esfera”.
3.2.3 Yzalú Luiza Yara Lopes Silva, 36 anos, nasceu em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. É cantora, compositora e violonista. Sua carreira musical começou com o MPB e aos 20 anos já se apresentava fazendo cover em bares de sua cidade natal, até que foi convidada para integrar um grupo de RAP feminino chamado “Essência Black”, em que tocava violão. Sua carreira como cantora começa anos mais tarde (GONZAGA, 2016, s.p). Durante sua carreira, participou de diversos projetos coletivos e de diversas gravações de RAP, mas só em 2016 lançou seu primeiro álbum solo intitulado “Minha bossa é treta”. Em entrevista para o canal “Revista R”, Yzalú conta que sua trajetória no cenário do hip-hop teve início com a mistura do RAP e violão. Desde pequena toca o instrumento e, com seu contato com o RAP, começou a experimentar diferentes formas. Ela relata que tocava Sabotagem no violão e ninguém percebia. Por sua mistura musical ser diferenciada e, somado ao fato de ser mulher, escuta por vezes que não é rapper. Yzalú reforça que suas músicas são pautas que precisam ser reivindicadas e que a arte anda junto com o ativismo. Pautas como o feminismo, deficiência, condição social da mulher negra são as frentes do seu álbum.
3.2.4 Semelhanças e diferenças entre as rappers O levantamento documental inicial, bem como o acompanhamento da carreira das rappers, permitiu aferir que as três reconhecem que a influência musical na infância foi de grande importância para a construção de suas identidades. Nomes como Jackson 5, Nina Simone e Dina Di foram influências para três garotas pretas de periferia que decidiram ser rappers. Bagagens culturais, sociais e familiares estão refletidas em suas composições musicais. 34
Karol Conka, com suas letras contendo mensagens consideradas empoderadoras, tem consciência de seu lugar de destaque e de como sua representação é importante para um público específico. Sem ligar para críticas ou rótulos, ela criou seu “RapConka” como uma alternativa de representação e entendimento para seu público, como pode ser constatado na música “É o poder” de 2015: Sociedade em choque eu vim pra incomodar / Aqui o santo é forte, é melhor se acostumar / Quem foi que disse que isso aqui não era pra mim se equivocou / Fui eu quem criei, vivi, escolhi me descobri e agora aqui estou / Não aceito cheque já te aviso não me teste / Se merece então não pede pra fazer algo que preste / Quem é ligeiro investe não só fala também veste / Juiz de internet caga se espalhando feito peste / Se não tá no meu lugar então não fale meu (não fale) / Se for fazer pela metade não vale (não vale) / Eu vivo com doses de só Deus que sabe / O resto ninguém sabe.
Em “Ouça-me”, Tássia Reis fala sobre as dificuldades em ser ouvida em seus próprios espaços e como sua luta para conquistar seu lugar ao sol nunca acaba: Ouça-me, ouça-me, ouça-me / Eu tentei falar baixinho mas ninguém me ouviu / Eu tentei com carinho e o sistema me agrediu / Então eu grito! elevo o meu agudo ao infinito! / Pra mim não tem dilema / Se tá difícil eu explico / Não tem coragem de reconhecer o próprio erro / Não são capazes pois querem sair dessa ilesos / Eu sou a resposta e a pergunta do seu desespero / O que eles tem de idiotice meu som tem de peso / Meu rap é crespo, melanina nesse rolê / Meu hair é bom, o que já não faço questão de ser / Eu vou ser ruim que é pra você perceber / Se não me dar o valor ceis vão pagar muito caro pra ver.
Em sua interpretação mais famosa “Mulheres negras”, da autoria de Eduardo Taddeo, Yzalú adiciona sua experiência ao falar de mulheres negras na mídia:
35
Sobrevivemos à ausência na novela, e no comercial / O sistema pode até me transformar em empregada / Mas não pode me fazer raciocinar como criada / Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo / As negras duelam pra vencer o machismo, o preconceito, o racismo / Lutam pra reverter o processo de aniquilação / Que encarcera afrodescendentes em cubículos na prisão / Não existe lei maria da penha que nos proteja / Da violência de nos submeter aos cargos de limpeza / De ler nos banheiros das faculdades hitleristas / Fora macacos cotistas / Pelo processo branqueador não sou a beleza padrão / Mas na lei dos justos sou a personificação da determinação.
As histórias de vida das três rappers são constantes em suas letras e dialogam com as pautas do feminismo interseccional. A representação, o espaço e o empoderamento são presentes em suas falas, entrevistas e em shows. As três artistas são coerentes em suas histórias, processos e vida artística. Considerando essas pautas, surge o questionamento a que se dedica a pesquisa ao buscar analisar como a mídia representa Karol Conka, Tássia Reis e Yzalú.
36
4. AS CONTRADIÇÕES E A REPRESENTAÇÃO DA PRETITUDE FEMININA NO RAP Karol Conka, Tássia Reis e Yzalú são mulheres que se diferenciam pelo tom de pele, pelas vivências e trajetórias de vida. O RAP foi o ponto de intersecção entre a história dessas três mulheres pretas. Para analisar como a mídia as representa, acreditamos na necessidade de levar em consideração as múltiplas variáveis de suas trajetórias e o caminho que o gênero tem percorrido desde os anos 1980 quando surgiu nos Estados Unidos até os dias atuais. Gênero, Classe e Raça são fatores importantes na construção da identidade de indivíduos e de comunidades, refletindo também na construção imagética da sociedade brasileira e, por conseguinte, no comportamento da mídia. Compreendendo todos esses pontos, o objetivo desta pesquisa teve como foco a análise da representação das rappers pretas na mídia. A pesquisa, portanto, apresenta um viés descritivo ao propor observar e entender os contextos históricos e, a partir deles, analisar as reportagens sobre as três artistas. Apresenta também um viés documental, pois artigos, jornais, revistas e similares foram a base para a pesquisa de informações sobre gênero e RAP, permitindo uma análise contextual e histórica. A delimitação do corpus refere-se à análise de reportagens em canais da grande mídia que retratam algum aspecto da carreira de Karol Conka, Tássia Reis e Yzalú. Assim, foram selecionadas publicações veiculadas no portal da Revista Trip, Estadão e Portal R7, no período de 2016 e 2017, as quais foram observadas à luz do método histórico dialético. Tal escolha partiu do pressuposto que a representação faz parte de uma construção histórica, sempre em transformação. Assim, utilizamos o método histórico dialético para nossa análise, uma vez que ele permite considerar no objeto analisado historicidade, contradições, concretude e complexidades envolvidas nas situações objetos de análises. Dialética, na Grécia Antiga, era a arte do diálogo. Na Modernidade, é o modo de pensarmos as contradições da realidade, o modo de compreendê-la enquanto essência contraditória e em permanente trans37
formação (KONDER, 1981). O método histórico dialético entende que os fatos sociais não podem ser dissociados dos contextos pré-existentes. Desta forma, a construção da representação das rappers pretas na mídia faz parte de um contexto complexo, que deve considerar questões de raça, gênero e classe. A análise dialética, segundo Konder (1981), é um modo de pensar nas contradições existentes na realidade em que vivemos. Para o autor, As conexões íntimas que existem entre realidades diferentes criam unidades contraditórias. Em tais unidades, a contradição é essencial: não é um mero defeito do raciocínio. Num sentido amplo, filosófico, que não se confunde com o sentido que a lógica confere ao termo, a contradição é reconhecida pela dialética como princípio básico do movimento pelo qual os seres existem. A dialética não se contrapõe à lógica, mas vai além da lógica, desbravando um espaço que a lógica não consegue ocupar. (KONDER, 1981, p. 47)
Portanto, trabalhamos aqui com uma metodologia que não tem como objetivo chegar a um resultado específico, mas sim problematizar as questões inerentes à representação das rappers pretas no Brasil. Para a análise, é necessário um entendimento prévio sobre as mulheres, sobre o RAP e sobre a mídia. As realidades dos tempos atuais são reflexos de construções anteriores, como a luta pela emancipação da mulher, do movimento negro, o histórico racista de nosso país, o capitalismo e a estrutura patriarcal. A partir desses dados históricos, conseguimos ter um melhor entendimento para a compreensão dos pontos que essa pesquisa buscou investigar. Ainda que não seja um caminho comum nas pesquisas em comunicação, a escolha foi motivada pela compreensão de que o método é de fundamental importância para essa pesquisa ao propor uma reflexão aprofundada sobre o tema, uma vez que Em síntese, o método dialético parte da premissa de que, na natureza, tudo se relaciona, transforma-se e há sempre uma contradi38
ção inerente a cada fenômeno. Nesse tipo de método, para conhecer determinado fenômeno ou objeto, o pesquisador precisa estudá-lo em todos os seus aspectos, suas relações e conexões, sem tratar o conhecimento como algo rígido, já que tudo está sempre em constante mudança (PRODANOV; FREITAS, 2013, p.35).
Para esta análise, o universo da pesquisa considerou produções jornalísticas encontradas entre os anos de 2016 e 2017 nos sites noticiosos da Revista Trip, Estadão e Portal R7. Nos critérios de inclusão e exclusão para constituição do corpus de análise, decidiu-se por esses anos pelo fato de serem recentes e permitirem uma análise considerando o período já findado, o que possibilita uma visão ampla sobre as reportagens veiculadas nos referidos canais. Também foram escolhidos por uma questão prática e de exequibilidade, já que nesse período a carreira de Karol Conka, Tássia Reis e Yzalú já estavam consolidadas. Para que as reportagens selecionadas fossem passíveis de comparação, alguns critérios de análise foram definidos e relacionados com o método histórico dialético. Por exemplo, matérias de serviços sobre as agendas de shows foram excluídas, enquanto outras que prezam por elementos visuais, como fotos e vídeos, foram priorizadas no critério de inclusão. Levando em consideração os parâmetros acima, chega-se a um universo que compreende dezessete materiais sendo reportagens, análises e entrevistas em portais online. Dessa totalidade, seis referem-se a Karol Conka, sete a Tássia Reis e quatro a Yzalú, como pode ser observado no quadro 1. Quadro 1 - Reportagens e entrevistas sobre Karol Conka, Tássia ou Yzalú. ARTISTA
TÍTULO
DATA
Karol Conka
Girl Crush: Ka- 25/12/2016 rol Conka e Maria Ribeiro
Família, ra- Revista Trip cismo, fama
Karol Conka
Gosto de cha- 01/02/2017
Entrevista
39
ASSUNTO
VEÍCULO
Gaúcha ZH
mar a atenção, mas tenho uma mensagem", diz Karol Conka, atração do Planeta Atlântida
curta
Karol Conka
Karol Conka so- 23/04/2017 bre a morte do pai: “Foi a maior dor que vivi”
Morte do Revista pai, trajetó- Quem ria e música
Karol Conka
Lalá', novo clipe 08/06/2017 de Karol Conka, tem uma mensagem que não deixa dúvidas
Sobre a HuffPost música, ins- Brasil piração e repercussão nas redes
Karol Conka
Qual a impor- 24/07/2017 tância social em ter os rappers negros Karol Conka e Rico Dalasam em horário nobre?
Representativi-dade
Karol Conka
“Hoje, adoles- 23/10/2017 cente negras tem quem as defenda”, diz Karol Conka
Assédio, re- Estadão presentatividade, machismo e trajetória.
Tássia Reis
Análise: Panca- 11/07/2016 das do racismo e do machismo sempre virão
Texto de Estadão Tássia Reis onde fala sobre a mulher no rap, o machismo e representatividade.
40
HuffPost Brasil
Tássia Reis
Tássia Reis lan- 20/09/2016 ça o disco 'Outra Esfera' e levanta a bandeira contra o machismo e o preconceito
Lançamento Estadão do álbum e posicionamento contra o machismo e racismo
Tássia Reis
Tássia Reis, Rai- 10/03/2017 nha
Vídeo: Ela Revista Trip conta sua trajetória
Tássia Reis
Uma conversa 17/03/2017 sobre apropriação cultural e empatia
Cita a fashi- Revista Trip on week. Mais dois rappers são entrevistados.
Tássia Reis
Tássia Reis fala 30/06/2017 sobre feminismo, empoderamento e preconceito racial
Entrevista Revista Masobre músi- rie Claire ca e corpo
Tássia Reis
Tássia Reis lan- 29/09/2017 ça clipe e grife própria: “Liberdade de mostrar quem sou”
Sua origem Revista Mae de onde rie Claire veio a inspiração para sua grife
Tássia Reis
Tássia Reis so- 09/11/2017 bre empoderamento: "você não pode dar talento, mas pode gerar oportunidade
PosicionaRevista Glamento dela mour enquanto artista e suas referências
Yzalú
“Às vezes a gen- 23/02/2016
Inserção no Revista Fó-
41
te se vê como minoria e, na verdade, é uma maioria”
hip-hop, rum mulheres no rap e temas abordados no álbum.
Yzalú
Cantora Yzalú 29/02/2016 lança disco de rap com influência da MPB
Lançamento Portal R7 do álbum, referências musicais e carreira.
Yzalú
A rapper Yzalú 29/02/2016 vai transformar toda treta em Bossa
Referências Revista Trip musicais, início no hip hop, deficiência
Yzalú
Yzalú mostra o 04/03/2017 repertório de "Minha Bossa é Treta", dia 11, no Itaú Cultural
Lançamento Portal R7 do álbum e pequena entrevista
Fonte: coleta de dados/pesquisa documental Deste universo de dezessete matérias foram selecionadas seis para análise (em negrito no quadro 1), sendo três referentes a entrevistas com cada uma das rappers no portal da Revista Trip, além de uma com Karol Conka no site do Estadão, outra com a Tássia Reis no site do Estadão e a última com a Yzalú no Portal R7, totalizando as seis entrevistas a serem analisadas no próximo tópico. Antes da análise, contudo, são apresentados os critérios de seleção dos textos do corpus. Destaca-se, também, que nesta pesquisa, tivemos acesso a outras reportagens nas quais uma ou mais artista foram citadas. Essas não foram consideradas para análise mas encontram-se disponíveis no quadro abaixo e classificadas em ordem cronológica.
42
Quadro 2 - Reportagens e entrevistas que Karol Conka, Tássia ou Yzalú são citadas. ARTISTA
TÍTULO
DATA
Cita Tássia
10 lançamentos 02/01/2 que deixaram o 017 rap menos machista
ASSUNTO
VEÍCULO
Cita álbum Nexo Jornal outra esfera
CITA Tássia Projeto quer 10/01/2 e Karol aumentar pro- 017 Conka tagonismo da mulher na música
Sobre o festi- Ad News val WME
Cita Tássia e Rappers femi- 17/02/2 Karol nistas comba- 017 tem machismo com suas rimas
Acho que Jornal USP hoje você ver mulheres como Tássia Reis, Karol Conka em uma revista, é o tipo de representatividade que precisa”,
Cita Karol O Racionais 02/06/2 Conka deixou de ser 017 nós quatro e virou uma comunidade', diz Ice Blue; leia bate-papo
História do Folha de São grupo Racio- Paulo nais Mc’s e novas referências do Rap.
Cita Tássia
Política Rap
Mulheres orga- 12/06/2 nizam ato fe- 017 minista em favor das Diretas Já
43
e Carta Capital
Cita Tássia e Dez artistas 14/06/2 Karol empoderados 017 que estão trazendo a diversidade para a música
Minibiografia Portal IG de vários artistas
Cita Tássia e 29 músicas que 20/06/2 Karol Conka refletem o que 017 é ser negro no Brasil
Lista de HuffPost Bramúsicas e ar- sil tistas negros
Cita Tássia
09/08/2 017
Rap e Espiri- Revista Trip tualidade
10/10/2 017
Sobre a evo- Revista Trip lução do hip hop
Causa e efeito
Cita Tássia e Aula de RAP Karol Conka Cita Yzalú
12 músicas so- 16/11/2 Lista de artis- Catraca Livre bre racismo e 017 tas negros orgulho negro para você ouvir agora
Cita Yzalú
O dia e a hora 16/11/2 em que o racis- 017 mo vai acabar no Brasil
Yzalú apre- Catraca Livre senta uma breve resposta ao questionamento: Que dia e hora o racismo vai acabar no Brasil?
Fonte: coleta de dados/pesquisa documental Considerando o universo da pesquisa, destacamos que a escolha de três entrevistas na Revista Trip justifica-se pela importância de observar como as artistas são representadas em um mesmo portal, que segue a mesma linha editorial. O veículo midiático se aproxima de revistas de 44
comportamento, apresentando diversidade em seu conteúdo. Sobre a segunda sequência de reportagens, não foi possível localizar três entrevistas em um mesmo portal, no caso do Estadão. Diante do exposto, optou-se pela escolha da entrevista no Portal R7 por se assemelhar mais à proposta do veículo supracitado, já que ambos são portais de reportagens gerais, que apresentam segmentos como o de entretenimento, colunas, espaço de opinião, dentre outros. As matérias que serão analisadas a seguir podem ser identificadas com a marcação em negrito no Quadro 1.
4.1 - Entrevista Karol Conka – Revista Trip Publicada no dia 25 de dezembro de 2016, na plataforma online da Revista Trip, “Girl Crush: Karol Conka e Maria Ribeiro” é uma entrevista realizada com duas mulheres totalmente diferentes. Karol Conka é negra, rapper e de origem pobre, enquanto Maria Ribeiro é branca, atriz e de família de classe média alta. Abordando questões como carreira, sucesso, racismo, sexualidade e maternidade, a entrevista se propõe a fazer um contraponto ao entrevistar duas mulheres de etnias e classes sociais destoantes. De início já é notório esse contraponto. No abre da reportagem, no alto da página, somos apresentados a um breve parágrafo, carregado de dualidades, apresentando as entrevistadas da vez, como é possível observar no trecho: “Uma escutava que pobre não fica famoso. A outra escutava que quem é culto não pode ser vaidoso. Dois extremos que dizem muito sobre ser mulher hoje.” Como citado por Konder (1981), pensar nas contradições existentes na realidade em que vivemos é um dos processos previstos na dialética. Nesta entrevista, as contradições são explicitadas na comparação entre as realidades das artistas. Em seguida, essas também são vistas e interpretadas nas respostas dadas pelas entrevistadas, sendo possível observar que, desde a infância até a atualidade, o contexto no qual as duas mulheres foram criadas influenciou diretamente em seus posicionamentos, caminhos e na construção de suas carreiras.
45
Figura 1 – Foto apresentada no corpo da entrevista. Créditos: Christian Gaul.
Fonte: Revista Trip (2016, dez.) A entrevista conta com três fotos das duas artistas juntas, no começo meio e fim da página. Também acompanha um vídeo de três minutos e trinta e dois segundos, no qual é apresentado o Making of da sessão de fotos e também, de modo descontraído, as artistas ao lado de uma piscina bebendo Champagne, respondendo uma a outra às perguntas que estão contidas dentro de biscoitos da sorte. Alguns trechos se repetem ao longo da entrevista em formato de texto. A primeira pergunta direcionada à Karol Conka questiona como a artista tem lidado com sua vida de famosa, seguida de outro questionamento: “E como faz para não se deslumbrar”? A rapper respondeu que já vem se preparando para a fama há muito tempo, pois desde cedo era seu sonho. Atualmente, alguns pontos que a incomoda são as indagações 46
sobre uma fórmula de sucesso que para ela não existe, bem como dizerem que ela não é humilde por se recusar a responder perguntas do tipo. Sobre o deslumbre, Conka se diz muito centrada e muito “pé no chão”. Compartilha o incômodo que sente pelo fato de as pessoas só considerarem um artista especial caso ele apareça na Rede Globo de Televisão, referindo-se à sua participação na abertura das Olimpíadas, que ocorreu no Rio de Janeiro, em 2016 e que foi transmitida pelo canal. Em seguida, Conka é questionada sobre sua postura e visual em constante mudança e como ela encontrou esse lugar entre o “rap e a Beyoncé” – uma referência ao seu visual despojado e colorido muito relacionado ao gênero de música “POP”. Em um interessante relato, a artista diz que conheceu o RAP quando tinha 16 anos e, desde aquela época, sempre tentou se encaixar e se inteirar sobre o que podia ou não podia no cenário do hip-hop. Relata ter tentado “fazer uns raps mais sérios”, até que se libertou, assumiu seu jeito colorido e passou a reivindicar sua arte enquanto RAP. Neste trecho, fica evidente a necessidade de um olhar dialético para entender o RAP enquanto produção específica de Karol Conka. O contexto histórico e a postura que foi atribuída ao gênero e aos rappers fizeram parte de sua história, mas a sua individualidade, o seu contexto e sua expressão artística, que foram influenciados por diversos outros movimentos e gêneros musicais, constituem a identidade da artista e refletem em sua produção musical. Quando questionada sobre a recepção em Curitiba, sua terra natal, Conka afirma que hoje é reconhecida até em lugares frequentados por “playboys”, onde anteriormente não era bem tratada e, por isso, faz questão de retornar a esses lugares para, segundo ela, “ver qual vai ser.” Quando questionada se o sucesso a afastou do racismo, ela responde que virou uma “negra branca”, e que “quando um negro fica famoso, com dinheiro, ele não é negro, é sortudo. É assim que a gente aprende”. Neste trecho é possível observar que classe e raça andam juntos, e o reconhecimento de artistas negros sempre estão à mercê de uma interpretação meritocrática que desconsidera o histórico de luta e a trajetória percorrida para se chegar ao estrelato.
47
A entrevista segue com perguntas sobre o relacionamento de Conka com seu filho e a diferença entre as oportunidades que ele tem agora, por ser descendente de uma mulher famosa, e as oportunidades que ela teve em uma infância pobre. A bissexualidade da cantora também é pauta de discussão sobre sexualidade, relacionamentos e monogamia. A entrevista realizada pela Revista Trip coloca em evidência a diferença histórica de duas artistas de classe social e etnias diferentes. Nota-se, por meio das respostas às perguntas, que essas trajetórias tão diferentes tiveram influência direta na produção artística de Karol Conka e Maria Ribeiro, possibilitando uma análise dialética sobre esse fato. Destaco aqui que, assim como observado em diversos materiais encontrados no corpus, a produção musical, os valores e os processos em ser uma rapper negra no Brasil não são considerados pautas principais. O corpo, o racismo e a estética são os carros chefes na discussão sobre o mundo do hip-hop quando a artista em questão é mulher entendendo que, nesse caso, a artista é considerada mais importante que sua arte. Karol Conka pode ter sido a primeira mulher rapper a sair desse cenário “underground” e atingir o estrelato, agregando diversos públicos. Por isso, muitas vezes suas músicas não são consideradas RAP, por existir no imaginário da sociedade que o estilo deve ser algo sisudo, que só critica o sistema e não se abre para outras vertentes. Como visto no primeiro capítulo deste livro, o gênero adquiriu esse viés em meados dos anos 1990, tendo os Racionais como grande expoente no Brasil, e como pode ser analisado quando se considera as primeiras gravações, o RAP se assemelhava muito com o funk americano, com um viés mais dançante e sem assumir esse papel de denunciador das mazelas da sociedade. Karol Conka, a partir de suas vivências e do seu entendimento enquanto sujeito, decidiu seguir um caminho irreverente, abrindo portas para as discussões sobre a representação da mulher no RAP, a emancipação feminina, o empoderamento e libertação de seu corpo. Mas a rapper não é só isso: ela constitui uma gama maior de possíveis interpretações de sua arte. É possível observar, a partir desta entrevista e de outras matérias que foram lidas para essa análise que, desde sua ascensão, a mídia então tem comprado esse lado extrovertido e do empoderamento pela estética, desconsiderando quase que completamente suas construções sociais, suas críti48
cas e denúncias que estão presentes em todas as suas músicas, por vezes de jeito explícito, em outras embutido em frases que caíram no gosto do público sem um entendimento do que está nas entrelinhas. Enquanto a mídia insiste em perguntar para Karol Conka sobre como é ser colorida no mundo no RAP, sobre sua sexualidade, racismo e empoderamento, alimentam uma única identidade para um artista, que considera apenas o marketing e o imagético, desconsiderando que a rapper está inserida em um contexto maior.
4.2 - Entrevista Tássia Reis– Revista Trip Em 10 de março de 2017, a Revista Trip publicou uma entrevista intitulada “Tássia, Rainha” com a rapper Tássia Reis em sua plataforma online. O vídeo, que está no canal da Revista Trip no Youtube, tem duração de cinco minutos e trinta e três segundos, onde a rapper conta sobre seu contato com o RAP, sua formação em Moda, racismo e empoderamento. O vídeo combina cenas em primeiro plano e em close, com a cantora posicionada do lado direito do vídeo, trechos do videoclipe de “Meu Rapjazz” – primeiro single da cantora – e alguns trechos de Tássia cantando em frente a um espelho. Figura 2 - Screenshot do vídeo entrevista realizado pela Revista Trip
Fonte: Revista Trip (2017, março) 49
Segundo a rapper, foi no movimento do Hip Hop que ela se formou politicamente e começou a se entender enquanto mulher negra, fala essa que vai de encontro com as discussões realizadas neste livro. Mais que um gênero musical, o RAP, uma das vertentes do hip-hop que tem influenciado as construções sociais, no reconhecimento e no entendimento de diversos fatores da sociedade, principalmente em negras e negros, periféricos e jovens. Tássia Reis participou desse processo e o histórico com o movimento transcende a questão musical e se reflete no conjunto. No método histórico dialético, esse contexto não se desprende de suas ações atuais. Segundo Konder (1981, p.82) esse nos incita a revermos o passado à luz do que está acontecendo no presente. Tássia apresenta um relato que vai de encontro com o que diz o autor: ela revela que, durante a sua formação em moda, não obteve êxito em encontrar estágios e empregos no ramo escolhido e, só após o ocorrido, ao entender as estruturas racistas da sociedade, percebeu que o fato de não conseguir seguir sua carreira se deu por ser negra e ter o cabelo crespo. Essa reflexão de entender o presente à luz do passado relaciona-se com as estruturas racistas da sociedade brasileira que foram construídas e mantidas durante séculos. As consequências ainda reverberam na sociedade atual, quando se percebe que a cor da pele e ou a textura do cabelo podem ter sido os motivos para o não pertencimento de uma mulher negra no mundo da moda. Tássia conta ainda que, após sua formação, decidiu voltar para Jacareí, sua cidade natal no interior de São Paulo, e investir na sua carreira enquanto cantora. Com esse processo de autoconhecimento, agora ela diz ouvir, em diversas situações, que suas músicas ajudam a curar, mas ela nunca pensou em fazer isso para os outros e sim para ela mesma. Entendo aqui que, quando alguém identifica nas letras de Tássia Reis um motivo para cura, elas enxergam seus problemas que também foram enfrentados e sentidos pela rapper. Um sentimento pode permear toda uma comunidade e, ao ver e entender que outras pessoas passam pelo mesmo, o RAP aqui se define com o seu papel de manifestação, de mensagem e de movimento social.
50
A rapper finaliza a entrevista dizendo se sentir muito honrada em fazer parte dessa nova geração e, ao mesmo tempo, que carrega uma grande responsabilidade. Para ela, esse movimento permitiu que muitas pessoas se enxergassem no outro, em um processo de identificação e admiração que antes muitos não tiveram a oportunidade. Em sua opinião isso é um processo: “estamos conseguindo olhar na irmã, na prima e na amiga e dizer: você é foda. E isso é legal!”. Nesta entrevista, o formato do vídeo passa a sensação de que Tássia Reis está conversando diretamente com o espectador, em um bate-papo sobre sua vida e carreira. As confissões da rapper sobre a dor ao perceber o racismo, o processo de desconstrução enquanto aos padrões impostos pela sociedade e a importância do movimento do hiphop nesse processo mostra como o contexto social é muito marcante e determinante nas construções futuras. Para ela, os momentos difíceis foram como combustíveis para sair da zona de conforto, mas sem nunca deixar de relembrá-los para que não sejam esquecidos e repetidos. Segundo Camargos (2015) “esse vínculo inescapável entre arte e vida, entre vida e sociedade, institui o RAP como parte das questões de seu tempo, como linguagem que evidencia práticas sociais, representações, sentimentos e ações inscritas na vivência social”. O hip-hop foi o que proporcionou uma formação política para a artista. O RAP é político desde sempre, afinal, o pessoal também é político 4.
4.3 Entrevista Yzalú – Revista Trip “A rapper Yzalú vai transformar toda treta em bossa”, trocadilho com o nome do álbum “Minha bossa é treta”, é o título da entrevista com a cantora Yzalú publicada no dia 29 de fevereiro de 2016 no site da Revista Trip. Abaixo do título, os dizeres “cantora paulista está prestes a lançar seu primeiro disco – um grito furioso no combate ao machismo, ao racismo e ao preconceito contra pessoas com deficiência” já indica o tom sobre os temas abordados na entrevista.
4
Expressão cunhada pela feminista Carol Hanisch na década de 1970.
51
Figura 3 – Foto apresentada no corpo da entrevista. Créditos: Rogério Fernandes
Fonte: Revista Trip (2016, fev.) Diferentemente das duas entrevistas analisadas anteriormente, o leitor é apresentado ao encontro entre a rapper e o jornalista Rafael Gonzaga em São Bernardo do Campo. Detalhes sobre a casa, a mãe que a chama pelo nome de batismo e referências que a influenciaram durante sua trajetória e na concepção de seu disco são pequenos detalhes que possibilitam ao leitor se sentir mais próximo da artista. A entrevista antecedeu o lançamento do álbum “Minha bossa é treta” que, segundo a própria rapper, é uma referência a sua vida enquanto “mulher negra, moradora de periferia, filtrada pelo violão, que a acompanha no mundo do rap desde cedo”. Yzalú conta sobre suas referências musicais do MPB, a exemplo de Caetano Veloso e Gal Costa, sua relação com a música e com o violão, que foi sua porta de entrada para o mundo do RAP. Conta também de sua trajetória, desde cantar em barzinhos, conhecer pessoalmente Dina Di – uma das primeiras rappers brasileiras – a seu encontro com o grupo Essência Black, do qual foi integrante durante anos. Mas o ponto central da entrevista é a questão da representatividade que Yzalú apresenta enquanto mulher negra, rapper, periférica e deficiente. 52
Isso porque é através da música que a rapper vê possibilidades de mudança. Para ela, falar do próprio contexto é parte importante do processo de dar representatividade a uma parcela da sociedade historicamente silenciada. “Ser uma mulher negra da periferia é conviver com uma realidade onde existe uma linha que já está traçada e que você tem que desviar. Ou seja, se você de fato quer revolucionar sua própria vida, precisa traçar outro caminho. Hoje, a arte permite que problemas sociais sejam discutidos e colocados em pauta, o que vejo como uma solução. É um lance de uma menina preta de 5 anos ver a mãe escutando Mulheres Negras, ouvir também e já desenvolver uma consciência que ninguém mais vai tirar dela”, avalia. (GONZAGA, 2016, s.p.)
A entrevista aborda a importância da capa de seu álbum, onde a rapper aparece seminua, coberta por seu violão e com a sua prótese na perna em evidência. Yzalú explica que sua deficiência é congênita, ou seja, existe desde sua infância, e que, mesmo que os casos de pessoas com deficiência representem um montante de 25% da população, ainda existe uma ideia de que não se pode ter orgulho de quem se é. Para ela, a prótese em evidência é apenas um detalhe, assim como é em sua vida, mas entende a importância da sua escolha de não esconder sua deficiência. De acordo com a artista, “a capa acaba tendo essa simbologia de empoderar”, e enfatiza que o movimento em busca de representatividade atingiu um patamar que não tem mais volta, em suas palavras “a gente está aqui para pegar o que é nosso também”. Ao apresentar a entrevista em texto corrido, com detalhes sobre o encontro, o jornalista propicia um sentimento de intimidade com a rapper. Em nove parágrafos faz um resgate histórico de forma que é possível observar o processo e os entendimentos que culminaram na produção do primeiro álbum. O encontro foi realizado apenas uma semana antes do lançamento do álbum “Minha Bossa é Treta” e o único questionamento sobre a pauta em questão centrou-se na decisão em posar para a capa com a prótese a mostra. Não seria pertinente apresentar algum detalhe sobre o álbum que estava por vir? Nesta e nas outras duas entrevistas é perceptível a falta de curiosidade ou interesse dos jornalistas sobre o produto das artistas. Com esse breve caminhar na história da 53
rapper, seria de esperar poder entender como as referências foram moldadas em sua arte. Até aqui foram analisadas as três reportagens publicadas na plataforma online da Revista Trip. A seguir, serão analisadas as três restantes, as quais apresentam um viés amplo com relação à linha editorial, às publicações e aos posicionamentos dos entrevistadores. Duas são realizadas pelo Estado de São Paulo e uma no site do Portal R7.
4.4 - Entrevista Karol Conka – Estadão Em 23 de outubro de 2017 o site do Estadão publicou uma entrevista com a rapper Karol Conka intitulada “Hoje as adolescentes têm quem as defenda, diz Karol Conka”. Após a foto de abertura da entrevista, o leitor é apresentado a alguns assuntos que serão discutidos, como machismo e assédio em transporte público. Nos dois parágrafos iniciais a entrevistadora apresenta um pouco do histórico de Conka contra o machismo, como desde cedo aprendeu com a avó que “homem desrespeitoso se trata na porrada” e qual foi a reação da rapper em uma das situações em que foi assediada dentro do transporte público, fazendo uma relação com as histórias que tomaram a mídia sobre uma onda de assédios dentro de meios de transporte públicos em São Paulo. Em seguida, o assunto muda para a questão do empoderamento e da representatividade, onde Conka diz receber mensagens de muitos professores que utilizam sua música para levar informações e que, com mais artistas que as representam, as adolescentes têm mais argumentos para se defender. A primeira pergunta é sobre preconceito [mesmo a entrevistadora não fazendo uso do termo a pergunta foi sobre racismo] citando o caso que Karol Conka já disse ter tentado descolorir a pele com água sanitária. Ela conta que a primeira vez que se sentiu uma “aberração” foi aos 6 anos de idade quando as professoras de uma creche disseram que o seu cabelo parecia um “sol espetado”, comentário que fez com que todos rissem da situação, inclusive a própria por não entender a conotação negativa. Só percebeu o caso de racismo quando seus pais conversaram 54
com ela e explicaram que tiraram sarro por ela ser negra, e que a partir dessa conversa ficou mais atenta e passou a identificar os diversos ataques racistas vindo de toda parte, inclusive de professores. Figura 4 - Foto apresentada no corpo da entrevista. Créditos: Silvana Garzaro e Estadão
Fonte: Estadão (2017, out., 23) Em seguida, Karol Conka é questionada sobre se sentir um exemplo de mulher bonita, o qual ela responde que se considera uma referência não só para mulheres negras, mas também para as brancas e até mesmo para homens. Diz que essa representação é positiva e que o sentimento de representar quem não tem voz sempre esteve dentro dela. Por isso, em um dos clipes, fez questão de chamar uma ruiva, uma asiática, uma negra, uma mulher gorda, uma mulher trans e uma anã, assegurando a representatividade. “Sente que as mulheres têm avançado na luta por igualdade de direitos?” Conka responde que é muito otimista e que vê melhoras. Atribui isso ao fato de as adolescentes de agora terem mais artistas que as representam, que a TV e os comerciais estão transmitindo “uma verdade” paras as pessoas e as marcas passando a olhar para as lutas das mulheres. As quatro perguntas seguintes são sobre o episódio em que o homem ejaculou na roupa de uma mulher dentro de um ônibus, sendo ab55
solvido por um juiz que alegou não haver constrangimento, e como foram as reações de Karol Conka frente a casos de assédio que ocorreram com ela. Não discorreremos mais sobre essas questões que estavam em evidência na época, provocando um agendamento do tema na mídia. Questionada sobre sua educação, a rapper relata que desde cedo sua mãe lia muito para ela e a ensinou que é preciso saber falar e se posi cionar, caso contrário não seria levada a sério. O preconceito e o machismo no RAP são os focos da pergunta a seguir, na qual a rapper relembra seu primeiro contato com o mundo do hip-hop. Conka relembra que foi para uma festa no centro de Curitiba, sem conhecer ninguém, mas queria conhecer esse movimento verdadeiramente. Ao adentrar o local, sentia olhares de reprovação do público, em especial das mulheres, pois ela “vestia saia, sapatinho, arrumadinha, e naquela época não podia ser assim”. A artista diz que nunca quis se vestir como “mano” e, naquela época, essa decisão gerou alguns problemas. Continuando no assunto, a jornalista questiona se as atitudes machistas estão mais enraizadas em algumas mulheres do que homens, afirmação com a qual a rapper concorda já que, segundo ela, as mulheres são mais afetadas pelo machismo e que por isso, acredita-se que têm pelo menos 1% de comportamento machista. Karol relembra também que naquela época, por não se vestir como “mano” e sempre gostar de performar sua feminilidade, era constantemente chamada de “vagabunda”. Ela é questionada se, mesmo se blindando contra essas ofensivas e se negando a envolver amorosamente com pessoas que integram a cena do RAP, sofreu algum abuso. A rapper conta, pela primeira vez, sobre uma situação de anos atrás, com um grupo para qual ela abria os shows: relata que dormiu na sala da casa de um dos integrantes do grupo e no meio da noite ela passou a mão em seu corpo. Assustada, ficou acordada a noite toda esperando pelo amanhecer. No dia seguinte, o homem que a assediou disse que, caso ela contasse o ocorrido, ninguém acreditaria e ameaçou proibi-la de cantar com eles. Após o ocorrido, Karol abandonou o grupo. Conka é questionada sobre um assunto que, segundo a entrevistadora, “deixou as feministas de cabelo em pé”, referindo-se a um momento em que ela disse só ser a favor do aborto em casos de estupro. A 56
rapper conta que se posicionou errado no dia e a entrevista foi “um pouco editada”, mas que ainda existem mulheres com o pensamento de que em qualquer caso de gravidez, é só abortar, o que ela discorda totalmente. Para ela, o aborto é uma questão de saúde pública. Maternidade é o assunto das últimas perguntas da entrevista. Sobre ser mãe cedo, Karol Conka conta que sofreu muito preconceito, que teve depressão pós-parto e foi muito julgada por não querer ficar com o pai de seu filho. Relata ter sentido muita pressão por ser mãe e artista, por ser constantemente questionada em como seguiria com sua vida e sendo apontada como a única errada pela gravidez, inclusive pela família do ex companheiro. Para superar essa fase iniciou uma autoanálise, momento em que pode perceber que ter o seu filho era maravilhoso, e que nesse período escrever poemas a ajudou. Nessa época percebeu que um artista não é valorizado por seu processo criativo, “só é valorizado quando ganha dinheiro e aparece na TV”. É perceptível que a abordagem das entrevistas centra-se em questões de gênero e raciais, colocando o trabalho da artista em segundo plano ao não relacionar essas questões com seu trabalho. Não precisaria ser assim. As músicas de Karol Conka abordam essas questões por serem diretamente ligadas à artista e, caso não seja claro nas letras, a conotação sempre foi exposta em shows e entrevistas. Observa-se uma abordagem muito engessada por parte dos entrevistadores, pois a arte e a artista estão intrinsecamente ligadas. A exemplo, Conka cita em uma resposta que diversos professores entram em contato para dizer que utilizam suas músicas para levar informação a seus alunos. A entrevistadora não instiga essa resposta. Que tipo de informações tais professores observam e em qual contexto são apresentadas a seus alunos? Na abertura da reportagem a artista é apresentada ao leitor como “uma das principais porta-vozes da “geração tombamento”, movimento que valoriza os negros através da música, estética e cultura”, avaliando uma tendência para debates acerca da estética, desde os casos de racismo na infância até o momento presente. Aqui cabe lembrar que Conka tornou-se apresentadora do programa “Super Bonita” do canal GNT sem apresentar de que forma a artista explicita e se configura como uma
57
porta-voz da “geração tombamento 5” que dialoga com as considerações de Hall (2001) a seguir. Em sua expressividade, sua musicalidade, sua oralidade, e na sua atenção rica, profunda e variada à fala; em suas inflexões para o vernacular e o local; em sua rica produção de contranarrativas; e, sobretudo, em seu uso metafórico do vocabulário musical, a cultura negra popular tem permitido trazer à tona, dentro de modos mistos e contraditórios, até da cultura popular mais comercial, os elementos de um discurso que é diferente – outras formas de vida, outras tradições de representação. (HALL, 2001, p.. 154)
Em diversos momentos no material analisado a rapper é apontada como alguém que luta pela valorização das mulheres e dos negros, partindo de uma concepção que a recepção e o entendimento de suas músicas são gerais, excluindo apresentações do trabalho, contextualizações, discussões e até questionamentos sobre a forma que tem sido apresentada. O movimento do empoderamento pela estética que tem ocorrido nos últimos anos foi uma importante ferramenta para jovens pretas e pretos, e é perceptível a participação da mídia nesse movimento. Entretanto, ao priorizar uma discussão exclusivamente acerca da estética, esta tende a excluir uma parcela de leitores da narrativa. A música e a cultura negra, apresentada por essas artistas pretas, tem ocupado um lugar de destaque e necessita de uma nova lente por parte da mídia. Avalia-se, então, uma abordagem fraca frente a gama de assuntos e oportunidades que se tem ao entrevistar uma mulher preta, rapper e de sucesso.
4.5 - Entrevista Tássia Reis – Estadão Ainda no site do Estadão, em 20 se setembro de 2016, foi publicada uma reportagem intitulada “Tássia Reis lança o disco 'Outra Esfera' e levanta a bandeira contra o machismo e o preconceito”. Em sete parág-
5
Movimento de jovens negros periféricos que aliam estética à militância pela igualdade racial e apresentam um estilo de vida com forte expressão na moda, música e ativismo político
58
rafos, o jornalista conta um pouco da trajetória da rapper e de sua importância no cenário do RAP. Figura 5 – Foto apresentada no corpo da entrevista. Créditos: Gabriela Biló e Estadão
Fonte: Estadão (2016, set., 20) A reportagem se inicia com um estilo narrativo mostrando que, por trás do estilo doce, meigo e toda a sutileza vista em Tássia Reis, pulsa uma mulher vigorosa que usa de sua arte para combater o machismo e o racismo, entrelaçando falas da rapper com a intenção de comprovar esse viés, como em “o racismo não me deixou ter um estágio na época da faculdade, por exemplo. Quando me dei conta de que estava à margem da sociedade, agarrei a oportunidade com unhas e dentes. Parei de ser enganada. Não estava tudo bem. E, desde então, me vi capaz de fazer alguma coisa para mudar.” O segundo parágrafo é destinado a falar sobre o álbum “Outra Esfera”, que a rapper acabara de lançar. Para o jornalista, “as sete faixas do álbum mostram uma artista heterogênea e consciente da sonoridade 59
que é capaz de produzir”, seguindo com a descrição de algumas referências percebidas em algumas faixas do álbum, como a aproximação ao MPB e o Samba em “Não se avexe não”. Em seguida, o leitor é apresentado às referências musicais que a rapper teve desde sua infância: escutava o que seus pais gostavam, como Clara Nunes e Fundo de Quintal. Foi na adolescência, quando teve seu primeiro contato com o hip-hop, que passou a escolher o que ouvia. No terceiro parágrafo da reportagem o jornalista conta ao leitor como foi o primeiro contato da rapper com a composição musical. Logo após concluir o Ensino Médio, Tássia Reis participou de uma oficina de redação que era ofertada na periferia de sua cidade natal, situação essa em que aprendeu a escrever seus poemas. No aniversário de uma professora Tássia a presenteou com um poema e foi nesse dia que ouviu que “aquelas palavras tinham ritmo, que aquilo, na verdade, era música”. A rapper conta que, tempos depois, começou a escrever com mais regularidade e que, apesar de não ser musicista e nunca ter aprendido a tocar um instrumento, percebeu que era capaz de criar textos com melodias. A seguir, o jornalista explora a parceria de Tássia Reis e a cantora transexual Liniker, na faixa “BoxOkê” do álbum Remonta, lançado em 2016 por Liniker. Revolução Crespa, em negrito, aponta o assunto considerado o destaque de suas músicas, o empoderamento feminino, reforçando que “suas músicas falam abertamente sobre o controle do corpo da mulher negra e do machismo enfrentado por elas diariamente.” Para o fechamento da reportagem, as falas de Tássia Reis sobre o machismo e o empoderamento feminino estão em destaque. Segundo a rapper, O machismo está dentro do próprio rap, se você quer saber. De todas as formas possíveis. Cite ao menos cinco rappers que você costuma ouvir? Eu aposto que são todos homens. Não vem mulher na sua cabeça e isso não significa que elas não existam no mundo do hip-hop. Elas estão em posição secundária e nunca vão ocupar o grupo da elite porque o sistema não permite que isso aconteça. (CARVALHO, 2016, s.p) 60
Como exemplo, Tássia cita o line-up dos festivais de RAP que se configuram pela predominância de artistas homens. Para ela, a mulher precisa sempre provar que é capaz de estar nesses espaços. Sobre a situação, enfatiza que só dirá que o cenário está melhor quando tiver as mesmas possibilidades que um homem e “isso, infelizmente, está muito longe de acontecer”. A reportagem de João Paulo Carvalho para o Estadão segue para uma abordagem diferente das anteriores, contemplando aspectos importantes da história de Tássia Reis em constante harmonia com o método histórico dialético, que considera a historicidade como fator fundamental para se entender o presente. Tássia diz ao entrevistador que retrata as coisas que vê, vive e sente. Se considerarmos as estruturas e abordagens encontradas nas entrevistas anteriores, esta frase seria de difícil compreensão. O leitor não teria uma contextualização e viveria com a impossibilidade de sequer imaginar-se no lugar da cantora para compreender o que ela vê, vive ou sente. No entanto, ao apresentar a história da artista e, mesmo que bre vemente, mostrar suas referências musicais, o contato com o hip-hop e o despertar para a música, o jornalista joga luz às discussões que são realizadas pela rapper em suas músicas. Por exemplo, em um trecho, o jornalista diz que sua música “exibe sua versatilidade com beats leves e psicodélicos. Já Se Avexe Não aproxima a rapper da MPB”. Em um primeiro momento essa mistura de ritmos poderia ser encarada com desconfiança, já que não é comum estarem presentes no RAP, mas que ao levar em consideração as referências que a rapper teve em sua infância, como Clara Nunes e Fundo de Quintal, torna-se compreensível a mistura de ritmos que sempre estiveram presentes em sua vida. Cabe ressaltar que o machismo no RAP foi uma pauta em comum nas seis entrevistas analisadas na pesquisa que resultou no presente livro. Na reportagem do Estadão o leitor é defrontado com um exemplo prático, citado pela própria artista quando convidada a fazer uma reflexão sobre seus cincos rappers preferidos, ou em explanar a configuração de festivais de músicas que são dominados por artistas homens.
61
Ao afirmar “existe o machismo e o racismo. Os recortes estão ali o tempo inteiro e mudam o enredo da história”, Tássia coloca sua história enquanto mulher e preta em evidência. E ao apresentar o contexto no qual a artista é inserida, o jornalista permite um entendimento sobre qual local a rapper fala.
4.6 - Entrevista Yzalú – Portal R7 Em 29 de fevereiro de 2016, o Portal R7 publicou uma entrevista com a rapper Yzalú com o título “Cantora Yzalú lança disco de rap com influência da MPB”. O início da reportagem fala da voz “delicada e afinadíssima que combina perfeitamente com as letras de protesto e rimas contundentes do álbum”, seguido de um breve histórico sobre o início de sua carreira tocando raps em seu violão em bares de sua cidade natal e suas participações em trabalhos de outros rappers, como a parceria com o Eduardo, ex integrante do grupo Facção Central e o grupo Detentos do Rap. Figura 6 – Foto apresentada no corpo da entrevista. Créditos: Rogério Fernandes
Fonte: Portal R7 (2016, fev., 29) 62
Para o jornalista, o álbum “Minha bossa é treta”, de produção por Marcelo Sanches, tem como ponto forte “a variedade de estilos e a criatividade que Yzalú impõe na sua música, sem perder o engajamento do hip-hop”. Antes de iniciar a entrevista, o leitor é informado da região onde Yzalú cresceu, as referências para a capa do álbum e sobre sua deficiência congênita. Yzalú é questionada sobre o início de sua carreira, que brevemente responde que teve início nos anos 2000, cantando em bares. Diferentemente de todas as outras entrevistas e ou reportagens lidas e analisadas, o jornalista traz à tona uma outra vertente da vida da rapper: O que você fazia antes [da música]? A cantora relata que sempre trabalhou paralelamente à música, sendo seu último trabalho analista em uma empresa multinacional. Outro ponto importante da entrevista concentra-se nas referências musicais e familiares que Yzalú teve contato. Ela conta que seu irmão, Hugo, a acompanhava cantando enquanto ela tocava e que, desde pequena, sempre teve muito contato com a cultura negra por meio de seus pais. Ela conta que, na década de 1980, seu pai era proprietário de um salão de beleza especializado em estética negra e promovia desfiles nos concursos nos bailes blacks, como a Chic Show, nos quais sua mãe “capoeira” era modelo nos bailes blacks. A rapper, ao olhar para trás, consegue perceber que esses fatores influenciaram no que ela faz atualmente. Sobre a proposta do álbum, Yzalú enfatiza que é uma realização pessoal, mas que, além disso, se propõe a discutir temas importantes, como a revista vexatória nos presídios brasileiros e, também, sobre amor. A rapper conta que apenas quatro músicas de seu álbum foram feitas em parcerias, sendo ela a compositora do restante. Sobre o violão que a acompanha há muito tempo, a artista relembra que, aos 15 anos, juntou dinheiro para comprar aquele que seria seu primeiro e, desde essa época, está a seu lado. Como a própria rapper já disse, pessoalmente tem algumas referências da cultura negra e do hip-hop, e quando questionada sobre, cita o grupo Essência Black – do qual ela fez parte – Lauryn Hill, Dina Di, Karol RC, Thaíde, Racionais, Sabotage, Eduardo e Dexter. Por parte da 63
black music, Elza Soares, Erykah Badu, Sandra de Sá, Paula Lima, foram os nomes elencados. As perguntas a seguir são sobre colaborações para o álbum “Minha bossa é treta”, sendo citadas duas: o rapper Pazsado, que também é residente de São Bernardo do Campo, e Mariel Reis, poeta carioca. Na outra via, relembra as próprias nos projetos que mais marcaram sua carreira, sendo participação no DVD do grupo Detentos do Rap e o projeto Divas do Hip-Hop, comentando também sua relação com Eduardo, ex membro da Facção Central, autor da letra “Mulheres Negras” interpretado pela rapper. Um tema comum em todas as entrevistas analisadas é a presença da mulher no RAP. Yzalú diz acreditar que o espaço tem aumentado devido a nomes como Dina Di, Negra Li, Rúbia RPW, Cris SNJ, Sharylaine, que iniciaram a discussão sobre o assunto. Atualmente, mulheres como Tássia Reis, Preta Rara e Tati Botelho assumem essa discussão e mostram que [...] a cena é crescente, e como o rap é uma linguagem universal, seria inevitável que outras realidades fossem relatadas, passamos da fase de preencher refrões apenas, não tem mais como fugir, a mulher é uma realidade no rap e quanto mais nomes surgirem melhor para a cena, assim, o rap fica cada vez mais forte, como uma corrente difícil de quebrar. (GUIMARÃES, 2016, s.p)
No encerramento da entrevista, o jornalista pergunta sobre o conceito da capa do álbum “Minha bossa é treta” é questionada “como perdeu a perna?”. Uma foto dos anos de 1970 em que Gal Costa aparece nua com um violão foi a principal referência, combinada à proposta de ser “vintage” e que também remeta a uma “bossa nova, uma bossa marginal”. A rapper enfatiza, assim como na entrevista da Revista Trip como analisado anteriormente, que estampar sua “limitação física” foi apenas um detalhe. Este expõe a realidade dela e de grande parte da população, sendo uma forma de empoderamento, de desconstruir paradigmas e o padrão imposto pelo mercado. Yzalú finaliza a entrevista explicando que sua deficiência é congênita, ou seja, usa prótese desde nascença. 64
A entrevista realizada pelo portal R7 também apresenta uma abordagem que se diferencia do que foi observado nas quatro primeiras entrevistas. Assuntos em comum podem ser observados nesta entrevista, como a escolha em aparecer nua na capa do álbum, o começo na música, a deficiência da artista e a presença da mulher no RAP. Outros aspectos foram encontrados pela primeira, como as participações no álbum “Minha bossa é treta”, as influências fora do hip-hop, o histórico musical de sua família e a possibilidade de uma carreira paralela. Ao perguntar sobre as referências que a levaram a cantar, Yzalú relata que tudo começou em família. Conta sobre o mundo dos bailes blacks da qual sua família participava, do ambiente e das representações que a cercavam quando criança – graças ao salão especializado em cabelo afro que seu pai era proprietário. Todas essas influências construíram a artista do presente, fator reconhecido pela própria rapper. Tal constatação dialoga diretamente com o levantamento bibliográfico uma vez que A cultura popular carrega esta ressonância afirmativa por causa da proeminência da palavra “popular”. E, em certo sentido, a cultura popular tem sempre sua base em experiências, prazeres, memórias e tradições do povo. Ela se conecta a expectativas e aspirações locais, tragédias locais e cenários locais que são práticas e experiências cotidianas de pessoas comuns. (HALL, 2001, P.152)
Os conectivos das diferentes vivências e realidades permitem um cenário plural mas interligado às principais discussões como, por exemplo, o machismo no RAP, o racismo e sub-representatividade. Considerando tais aspectos, torna-se possível analisar e formular proposições para novas formas de abordagem de tais assuntos, seja nesse ou em qualquer outro gênero musical. O debate precisa se aprofundar para que o posicionamento da mídia e de seus consumidores não se tornem rasos. A representatividade não pode ser proferida como um kit mágico e instantâneo, ela é também um processo histórico. Outro ponto importante nesta entrevista se dá na abertura para que o leitor possa entender não apenas as referências com as quais a rapper teve contato em sua infância, mas nas construções atuais que se de65
ram por meio de participações em outros projetos de RAP e, principalmente, daqueles que contribuíram para o dela. Esse entrelace dos assuntos permite uma concepção prévia para aquela ou aquele que ouvirá o álbum e entender, por exemplo, porque Yzalú decidiu falar sobre as revistas vexatórias realizadas nos presídios brasileiros. Cabe ressaltar que os dados analisados dialogam novamente com a revisão bibliográfica, uma vez que para Konder (1981) uma das características essenciais da dialética é o espírito crítico e autocrítico, condições que deveriam ser aderidas por todos os agentes da sociedade. Ao desconsiderar diversos aspectos importantes da vida das rappers em preterimento da questão estética e do empoderamento, a mídia brasileira tem reforçado um estereótipo que não se sustentará por muito tempo, afinal, toda discussão presente nas obras é baseada no contexto que elas viveram. Assim, com os dados coletados e que viabilizaram as análises, foi possível observar um padrão seguido pela mídia ao representar as mulheres pretas e rappers sem contemplar a riqueza dos sujeitos representados. Conclui-se, portanto, que ao excluir suas obras e reforçar a questão estética os veículos midiáticos contribuem para uma problemática no campo da representação que não atende as subjetividades inerentes aos diferentes temas contemporâneos.
66
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS A pesquisa que resultou no presente livro buscou analisar a representação de Karol Conka, Tássia Reis e Yzalú na mídia. Partindo do entendimento das diferenças explícitas entre as três artistas, como o tom de pele, o corpo, e o estilo que adotaram dentro do RAP, a problemati zação central do trabalho procurou responder se a exibição dessas rappers pretas na mídia é condizente com seus discursos. Para a análise foi de fundamental importância o entendimento do processo histórico, seja do RAP e do movimento do hip-hop, das lutas pela emancipação feminina, por uma educação antirracista ou do contexto no qual cada artista surgiu. Neste modo, o método histórico dialético cumpre um papel determinante para que se compreenda a premissa estudada. A partir do estudo realizado, observou-se que a representação das mulheres pretas na mídia carece de uma abordagem diferente. Nas entrevistas, elas são as responsáveis por falar, incansavelmente, sobre o machismo e o racismo da sociedade, que reflete no movimento hip-hop e no RAP. As situações de racismo pelas quais passaram na infância e na adolescência são questionadas à exaustão, sem, em qualquer momento, promover uma reflexão sobre questões básicas, como o fato de que discriminação por raça é considerada crime no Brasil. O leitor é apresentado a questões como “empoderamento” e “revolução feminista” de forma que o leva a entender que esses movimentos são recentes, desconsiderando, novamente, a história das lutas. Com base na análise também foi possível constatar que, mesmo sendo consideradas expoentes do movimento, cada uma à sua maneira, Karol Conka, Tássia Reis e Yzalú estão em posição de distinção, principalmente por seus atos ligados à estética. Em quatro das seis reportagens analisadas os destaques foram aspectos da vida das artistas, enquanto suas produções artísticas não foram consideradas. Tal situação é avaliada na pesquisa como um equívoco da mídia ao abordar tais mulheres. No entanto, quando entrevistados, o quão questionados sobre paternidade, sexualidade, racismo e machismo os artistas negros são? Eles aceitariam 67
que suas vidas pessoais fossem o destaque em vez de sua arte? Nesse caso, sim, poderia ser considerado um deslize por parte da mídia. Surge, então, o estranhamento e a inquietação sobre a que ou a quem interessa a mídia prolongar um retrato tão raso sobre as mulheres pretas. Afinal, elas estão galgando seus espaços e precisam se provar diariamente. Seria papel da mídia, considerando seu impacto e sua importância, ofertar um novo olhar para suas obras e sobre essas representações, considerando a importância social para essa e para as futuras gerações. Ressaltamos que, nas entrevistas analisadas, em nenhum momento as músicas das rappers são apresentadas, nem como sugestão, ou com disponibilização de um link para ouvir depois. As seis entrevistas analisadas abordam questões sobre a presença da mulher no RAP, sobre machismo e racismo, mas não são capazes de relacionar as respostas das artistas às suas próprias produções musicais. Também é possível concluir que a mídia parte do princípio de que todo leitor está em um mesmo nível de conhecimento acerca da historicidade das artistas e de entendimento sobre discussões como empoderamento, sexualidade, machismo e racismo. Os resultados obtidos nas análises apontam uma homogeneidade na abordagem sobre as três, sendo elas de locais, idades e tons de pele diferentes, sendo elas criadas em contextos múltiplos, ainda assim é preocupante observar uma mesma abordagem da mídia para três trajetórias tão distintas. Negro não é uma categoria, muito menos homogênea. Neste sentido, faz-se necessária uma abordagem que avalie as experiências e as vivências individuais e, só depois, trace o paralelo com os pontos de convergência de suas histórias, bem como uma que considere o coletivo e, dentro dele, as mais diversas formas de expressão. Portanto, torna-se urgente uma nova perspectiva e novas análises referentes à representação destas mulheres e suas produções artísticas. Como citado anteriormente, as denúncias sobre o racismo e o machismo que foram relatadas por essas mulheres que vivenciam a cultura do hip hop e que se expressam através do RAP são reflexos da sociedade brasileira. Não é uma exclusividade de um gênero musical, é estrutural.
68
A proposta de estudo desenvolvido, e agora apresentada em forma de livro, nunca se concentrou em algo conclusivo, mas sim em avaliar o contexto, as histórias e as contradições a partir do que pode ser observado pela perspectiva oferecida pelo método histórico dialético. Com a proposta de uma abordagem aprofundada sobre essas temáticas, sem ignorar o histórico, foi possível, ainda que breve, um melhor entendimento sobre a condição da mulher preta e rapper no Brasil. E, com esse método, esperamos compreender e apresentar seu papel na sociedade brasileira. Durante o processo de análises da pesquisa, as artistas Karol Conka e Tássia Reis lançaram novas produções. Em 8 de novembro de 2018, Conka lançou seu álbum “Ambulante”, cinco anos após o “Batuk Freak”. Em 10 de novembro do mesmo ano, Tássia Reis lançou o single e videoclipe de “Shonda”. Algumas análises e críticas sobre as novas produções já circulam na mídia e, a partir deste ponto, acredita-se na possibilidade de que pesquisas futuras possam avaliar se haverá uma mudança no posicionamento das artistas e, principalmente, em como a mídia representa essas artistas.
69
REFERÊNCIAS BOCK, L. Girl Crush: Karol Conka e Maria Ribeiro. TRIP. TPM#171. 2016. Disponível em: <https://revistatrip.uol.com.br/tpm/karol-conkae-maria-ribeiro-monogamia-racismo-filhos-e-antidepressivos>. Acesso em: 03 out. 2018. BORGES, L. A. Nas periferias do gênero: uma mirada negra e feminista sobre a experiência de mulheres negras jovens participantes no hip hop e no funk. Belo Horizonte, 2013. Dissertação (Pós-Graduação em Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas). Universidade Federal de Minas Gerais, 2013. BRÊDA, L. É o poder. Rolling Stone. Edição 127. 2017. Disponível em: <https://rollingstone.uol.com.br/edicao/edicao-127/karol-conka-eo-poder//>. Acesso em: 25 out. 2018. CAMARGOS, R. Rap e política: percepções da vida social brasileira. – 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2015. CARNEIRO, S. Projeto Rappers - Memória Institucional de Geledés, Geledés Instituto da mulher negra. 2009. Disponível em:<https:// www.geledes.org.br/projeto-rappers/>. Acesso em: 20 set.2018. CARVALHO, J.P. Tássia Reis lança o disco ‘Outra Esfera’ e levanta a bandeira contra o machismo e o preconceito. Estadão. 20/09/2016. Disponível em: <https://cultura.estadao.com.br/noticias/musica,tassiareis-lanca-o-disco-outra-esfera-e-levanta-a-bandeira-contra-o-machismoe-o-preconceito,10000077025>. Acesso em: 10 out. 2018. CONKA, K. Tombei. Letras. 2015. Disponível em: <https://www.letras.mus.br/karol-conka/tombei/>. Acesso em: 15 set. 2018. DAVIS, A. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo Editorial, 2016. GONZAGA, R. A rapper Yzalú vai transformar toda treta em bossa. TRIP. TPM. 2016. Disponível em: <https://revistatrip.uol.com.br/ tpm/rapper-yzalu-machismo-racismo-preconceito-com-deficientes>. Acesso em: 03 out. 2018. 70
GUIMARÃES, J. Cantora Yzalú lança disco de rap com influência da MPB. R7 Música. 29/02/2016. Disponível em: <https:// diversao.r7.com/pop/musica/cantora-yzalu-lanca-disco-de-rap-cominfluencia-da-mpb-13062017>. Acesso em: 10 out. 2018. HALL, S. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Liv Sovikv(orgs); Tradução de Adelaide La Guardia Resende et al. Belo Horizonte, MG: Editora: UFMG. 2006a. Original inglês. ______. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2006b. Tradução de The question of cultural identity. ______. Que “negro” é esse na cultura popular negra?. Lugar Comum n.13/14, p.147-159, 2001. KONDER, L. O que é a dialética. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981. LIMA, M. S. de. Rap de batom: família, educação e gênero no universo rap. 2005. 124 f. Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de pós-graduação em Educação. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, São Paulo, 2005. MATSUNGA, P.S. Mulheres no hip hop: Identidades e representações. Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Estadual de Campinas, SP, 2006. PRODANOV, C. C.; FREITAS, E. C. Metodologia do Trabalho Científico: métodos e técnicas de pesquisa e do trabalho acadêmico. 2. ed. Novo Hamburgo: FEEVALE, 2013. PUGLIESI, A. Hoje, adolescentes negras têm quem as defenda, diz Karol Conka. Biblioteca Pública do Paraná. 2014. Disponível em: <http://www.bpp.pr.gov.br/modules/noticias/article.php? storyid=520>. Acesso em: 20 nov. 2018. RACY, S. Hoje, adolescentes negras têm que as defenda, diz Karol Conka. Estadão. 23/10/2017. Disponível em: <https://cultura.estada-
71
o.com.br/blogs/direto-da-fonte/hoje-adolescentes-negras-tem-quem-asdefenda-diz-karol-konka/>. Acesso em: 10 out. 2018. R,R. Revista R entrevista Yzalú, Youtube. 2015. (4m56s). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=SbcnsC-7csU>. Acesso em: 12 set. 2018. REIS, T. Ouça-me. Letras. 2016. Disponível em: <https://www.letras.mus.br/karol-conka/tombei/>. Acesso em: 15 set. 2018. SILVA, J. G. da. Rap na cidade de São Paulo, Juventude Negra, Música e Segregação Urbana (1984-1998). Uberlândia: EDUFU, 2015. TADDEO, E. Mulheres Negras, 2012. Disponível em: <https:// ww.letras.mus.br/yzalu/mulheres-negras/>. Acesso em: 15 set. 2018. TÁSSIA Rainha. TRIP. TPM. 2017. Disponível em: <https://revistatrip.uol.com.br/trip-tv/tassia-reis-rap-empoderamento-feminino-musica>. Acesso em: 03 out. 2018. SANGION, J. UNICAMP. Unicamp divulga lista de obras de leitura obrigatória para o vestibular de 2020. Unicamp. 2018. Disponível em: <https://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2018/05/24/unicampdivulga-lista-de-obras-de-leitura-obrigatoria-para-o-vestibular-2020>. Acesso em: 20 nov. 2018. WOLF, M. Teorias da Comunicação. 10. ed. Lisboa: Editora Presença, 2009.
72
ANEXOS
Fonte: TRIP, 2016.
Fonte: TRIP, 2017.
73
Fonte: TRIP, 2016.
Fonte: EstadĂŁo, 2017.
74
Fonte: EstadĂŁo, 2016.
Fonte: Portal R7, 2016.
75
76
APÊNDICE A – Agradecimentos inseridos pela autora Jhyenne Gomes em sua monografia apresentada à Universidade Federal de Uberlândia em dezembro de 2018. Nos últimos quatro anos aprendi a necessidade de ocupar todos os espaços. Entendi, em um processo muito doloroso, que enquanto mulher, preta, pobre e cotista, ainda assim sou uma mulher de privilégios. Poucos de nós conseguiram sustento para terminar os estudos, poucos de nós conseguiram entrar em uma universidade pública. Decidi, então, fazer da minha graduação em Jornalismo um espaço de resistência e uma oportunidade para levar mais dos meus para dentro dos portões da universidade. Entendi que sempre foi e sempre será nós por nós. Sou grata por ter encontrado nesse tempo a Educomunicação. Com ela, aprendi a necessidade de escutar, de se doar, e do trabalho em equipe. Aprendi a importância da popularização e da socialização do conhecimento e, por isso, concluo esse meu ciclo na academia escrevendo sobre mulheres pretas e sobre uma das mais potentes formas de expressão da comunidade periférica e preta do Brasil: o RAP. Escrevo, não com a pretensão de ser detentora de algum saber, mas sim com o anseio e com a urgência de compreender e falar com aqueles que tenho certeza que irão ocupar todos os lugares que historicamente nos foram negados. Escrevo essa monografia como um ato político. Nesta caminhada encontrei pessoas fantásticas, que contribuíram para as minhas novas formas de pensar e agir. Meu eterno agradecimento ao PET CNX Educomunicação e a todos os petianos que nestes três anos em que participo, me apoiaram, me empurram, brigaram, mas principalmente, me deram a oportunidade de me entender, de não ter vergonha de ocupar os espaços e de me posicionar. A vocês serei eternamente grata. Agradeço aos meus professores que possibilitarem o entendimento da profissão que decidi seguir, que nos mostraram a necessidade da ética, da compaixão, do compromisso e da verdade. Em especial à 77
Prof.ª Diva Silva, por todo seu apoio e compaixão em tantos momentos nesta graduação e também por ser defensora de Paulo Freire. Saio desta graduação mais crítica, mais consciente e, sem dúvidas, cheia de potência. Meus agradecimentos ao Prof. Gerson de Sousa. Sinto-me acolhida em nossas conversas e sou muito privilegiada de poder ser sua aluna. Não consigo descrever a emoção que é poder aprender com você, enquanto pesquisador, enquanto homem negro. Obrigada por compartilhar seus conhecimentos. Tenho a certeza de que a formação crítica oferecida pelo curso de Jornalismo da UFU me preparou para exercer meu papel enquanto jornalista nestes tempos sombrios. Resistiremos! Não sei o que seria de mim sem o apoio da Elaíny Carmona. Obrigada pelos momentos de debate, por se dispor a escutar minhas angústias e por estar sempre presente. Choramos e rimos juntas e nesse processo começamos a entender o nosso papel nesta loucura de mundo. Eu te amo, gêmea, e serei eternamente grata por todos esses momentos. Não poderia deixar de agradecer à Jéssica Ribeiro, Nadja Nobre, Juliana Izabel, Gabriela Luz e Lucas Daniel. Ao lado de vocês vivi as melhores experiências. Juntos produzimos o Cidade Leste, um dos meus maiores orgulhos e a concretização da paixão e do respeito por nossa profissão. À Adriana Omena, todo meu amor e minha gratidão. Você me apoiou nos piores momentos desta graduação e nunca esquecerei disto. Obrigada pelos abraços nos momentos mais necessários, pelos puxões de orelhas, pelas conversas sinceras e por todo apoio. Te conheci enquanto professora e te levo para a vida como uma companheira. Você foi parte fundamental no meu crescimento e entendimento dos meus processos enquanto pesquisadora, ao me incentivar a pesquisar sobre o RAP e sobre mulheres e a defender a importância de minhas pesquisas. Foi a primeira pessoa a entender que não era mais preciso viver com a casca que construí durante toda minha vida e, graças a suas palavras, aprendi a voar. Minha gratidão à Ivanise Andrade, professora e orientadora querida, por se dispor a nos acompanhar no processo de produção do Cidade Leste e desta pesquisa. Com você aprendi a não ter medo de defender meus ideais e a não ter medo de falar sobre o que desejam esconder. A 78
ideia de que se o jornalismo não incomoda é porque não é jornalismo ficou muito mais forte após nossos encontros. Obrigada por todas as indagações e por todo o ensinamento. Não poderia deixar de registrar meus eternos agradecimentos ao meu tio Marcos Antônio, que me apresentou o RAP quando eu era uma garotinha de oito anos. Foi por intermédio dele que conheci a primeira rapper, Andrea Felix, que anos mais tarde descobri ser uma pioneira do RAP em Uberlândia e que tive o prazer de conhecer e compartilhar algumas histórias. Só estou aqui, escrevendo esses agradecimentos, graças ao apoio e ao sacrifício da minha família. Mãe, obrigada por ser a mulher forte que tu és. Obrigada por seu amor, sua dedicação. Com você aprendi e compartilhei as dores de ser mulher, preta e pobre. Com a senhora aprendi que não existe um caminho predestinado e que cabia a mim criar o meu. Obrigada, mãe, por ser sempre a minha melhor amiga e por lamber minhas feridas. Peço perdão por meus erros e rezo, todos os dias, para que possamos seguir juntas pelo máximo de tempo possível. Ao meu pai, que desde cedo me incentivou a estudar. Que me deu a liberdade para eu ser quem queria. Pai, tenho muito orgulho em saber que compartilhamos o ambiente acadêmico. Orgulho em te acompanhar nesse processo e de te ver ocupando a universidade enquanto homem preto e pobre depois dos 40 anos de idade. Aos meus avós, que até hoje me dão colo nos momentos difíceis e que me oferecem as melhores conversas e os melhores cafés. E à tia Edivânia por sempre acreditar e me apoiar. Amo vocês! À minha irmã por sempre me defender. À Laura Luiza, minha afilhada e à Alice, minha sobrinha. Vocês transformaram o mundo e me instigam a ser uma pessoa melhor a cada dia. Meus agradecimentos a Bianca Alves, Otávio Augusto, Fabiana Fraga e Viviane Cação, amigas de longa data que acompanharam o meu desejo de entrar na universidade. Vivemos na pele o afastamento, cada um em seu próprio caminho. Mas, além as adversidades, sabemos da força de nossas amizades. Vocês são minha base.
79
E ao Daniel, meu amigo e companheiro. Aprendo com você diariamente e, juntos, temos nos entendidos enquanto um casal preto nesta sociedade racista. Com você tenho aprendido que amar também é um ato de resistência e que, juntos, somos mais fortes. Obrigada, por me apoiar, por me incentivar e por cuidar de mim. Escolhi ser sua companheira na vida e esta tem sido uma das melhores decisões. Te amo! Escrever estes agradecimentos foi um momento doloroso. Revivi as dificuldades de ser cotista em uma universidade tão elitizada, de ter escolhido uma profissão tão desafiadora, revivi as dores físicas e emocionais ao tentar ocupar esses lugares que me foram negados. Mas, principalmente, revivi e recriei a minha rede de apoio. Eu, mulher preta e pobre, me formar em Jornalismo não é um exemplo de meritocracia. Só estou aqui por causa do sacrifício da minha família e por toda essa rede de apoio que não permitiu que eu desistisse. Em tempos como estes também não posso deixar de lembrar que nos últimos 15 anos, pretos e pobres tiveram mais oportunidades de acesso às universidades, graças a programas sociais de governo. Não fizeram mais do que a obrigação, é verdade, mas nunca nos esqueceremos desses atos, pois, diariamente, tentam nos subjugar, nos humilhar e nos matar. Lutaremos para continuar a ocupar esses lugares. Somos a maioria e resistimos. “Tanta ofensa, luta intensa nega a minha presença. Chega! Sou voz das nega que integra resistência” Drik Barbosa- Mandume
80
SOBRE AS AUTORAS Adriana C. Omena Santos – Publicitária pela Unimep, Mestre e Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e Pós Doutorado em Comunicação Pública da Ciência junto ao Institute for Science, Society and Policy na University of Ottawa, Canadá. Atualmente é docente no curso de Jornalismo, faz parte do quadro de docentes do Programa de Pós-graduação em Tecnologias, Comunicação e Educação - PPGCE (mestrado profissional) e do Programa de Pós-Graduação em Educação - PPGED (mestrado e doutorado) todos na Universidade Federal de Uberlândia. É membro da Diretoria Executiva da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (INTERCOM) nos últimos três mandatos. Foi tutora do PET Conexões de Saberes (2010-2018), coordenadora do curso de Jornalismo (2009 - 2012) e coordenadora do Programa de Pós-graduação em Tecnologias, Comunicação e Educação PPGCE (2013 - 2017) todos na Universidade Federal de Uberlândia. Desenvolveu atividades no Ministério da Educação como membro da Executiva Nacional do Programa Conexões de Saberes junto ao MEC/SECAD/SESU (representação sudeste), e membro da Comissão Nacional de Avaliação do PET junto ao MEC/SESU. Mais recentemente, esteve vinculada como pesquisadora/professora visitante na Universidade de Ottawa, Ontário, Canadá (2018-2019). Tem trabalhado em pesquisas nas áreas de Comunicação, com ênfase em comunicação pública, comunicação política, políticas públicas, tecnologias e comunicação. E-mail: adriomena@gmail.com Ivanise Hilbig de Andrade - Jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e mestre em Estudos de Linguagens (UFMS). Atualmente, é professora adjunta na Faculdade de Comunicação da UFBA e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (UFBA), além professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Tecnologias, Comunicação e Educação da Universidade Federal de Uberlândia. Vice-líder do Centro de Estudo e Pesquisa em Análise do 81
Discurso e Mídia (CEPAD/UFBA) e consultora do Centro de Comunicação, Democracia e Cidadania (CCDC/UFBA). É membro da Diretoria Executiva da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (INTERCOM) nos últimos dois mandatos. Tem trabalhado em pesquisas nas áreas de Teorias da Comunicação, Jornalismo, Análise de Discursos e Semiótica. E-mail: ivaniseha@gmail.com Jhyenne Yara Gomes Santana - Jornalista pela Universidade Federal de Uberlândia. Foi bolsista no Programa de Educação Tutorial (PET) Conexões de Saberes – Educomunicação (2015-2019), período em que aprofundou seus estudos em temáticas relacionadas às questões da negritude, representação da mulher preta na mídia e as mulheres no RAP. Foi coordenadora do grupo de estudos e projeto de extensão “Identidades negras: mesmos corpos, novas narrativas” no Pet Cnx Educomunicação UFU2019. É autora do livro-reportagem “Cidade Leste”, contemplado por edital da Universidade Federal de Uberlândia. E diretora do documentário “Eu sou esse povo”, produzido em 2018. Atua profissionalmente como freelancer na área da comunicação e academicamente nas áreas de pesquisa sobre mulheres pretas, RAP e mídia. E-mail: jhyennegomes@gmail.com
82
Afirmamos que caso seja infringido qualquer direito autoral, imediatamente, retiraremos a obra da internet. Reafirmamos que é vedada a comercialização deste produto.
Formato
15,5 x 23,0 cm
1a Edição
Dezembro de 2020
Navegando Publicações
www.editoranavegando.com editoranavegando@gmail.com Uberlândia – MG Brasil
83
84
85
86