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Happy Hour - Clóvis Haeser

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HORAS FELIZES Leia este livro do Clóvis como se tivesses sido convidado por aquele amigo mais íntimo para tomar umas ali no bar da esquina, encerrado o expediente. O Clóvis escreve como se fosse o teu amigo, este, falando das coisas lá da vida dele. Não tem frescura, mas tem critérios. É tudo direto. Na lata. Sem filosofice nem pieguice. E com aquele fino fio do humor que só os bons contadores de histórias – reais ou inventadas – sabem usar. Happy hour é um livro de memórias. Memórias reais, da infância, da família, do namoro, das pescarias... E como a gente tem por vocação aquela velha mania de adorar bisbilhotar, patrolar e patinhar na vida dos outros, pode ter certeza, meu amigo, que a vida agitada do Clóvis é como aquele bendito caneco de chope, suado, transbordante, revitalizador. E ainda vai nos render muitas… muitas horas felizes! Mauro Ulrich Poeta e jornalista


Cl贸vis Haeser


© 2012 Clóvis Haeser. Todos os direitos reservados ao autor. Editor Romar Rudolfo Beling Organização de Texto Mauro Ulrich Projeto Gráfico e Diagramação Henrique Scherer e Márcio Oliveira Machado Foto de Capa Vanessa Elisa Dickow Revisão Romar Rudolfo Beling • Editora Gazeta Santa Cruz Ltda. Rua Ramiro Barcelos, 1224 – Centro Santa Cruz do Sul – RS – Brasil CEP 96810-900 +55 (51) 3715-7800 redacao@editoragazeta.com.br www.editoragazeta.com.br H136h

Haeser, Clóvis Happy hour / Clóvis Haeser. 1. ed. – Santa Cruz do Sul : Editora Gazeta Santa Cruz, 2012. 260 p. : il. ISBN 978-85-63336-15-6 1. Crônicas sul-rio-grandenses. 2. Curiosidades. I. Título. CDD : 869.8

Catalogação: Bibliotecária Edi Focking CRB-10/1197


Sumário Apresentação  11

estÓRIAS DE BOTECO

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Restaurante Arroio Grande: O bagual e suas estórias  15 A aventura mal-sucedida  17 Os torcedores do Flamengo  19 As confusões do doutor  21 As apostas  23 Política e religião  25 O advogado  27 A fila  29 O júri  31 O assalto  33 A luta livre  35 O músico do Porto Ferreira  37 Os bons de copo  39 A capelinha  41 Os torcedores da dupla Gre-nal  43 O picica  45


A piada do Zé  47 A pizza  49 A festa  51 O folclórico Negão Zé  53 A vida campeira   55 O sacrifício do porco  57 O cachorrão da coxilha   59 O bate-boca  61 A cura do Nego Zé  63 A paixão do Foffo  65 As aventuras do Chimia  67 O taxista  69 Os amigos garanhões  71 O apartamento 410  75 Rabicó e a massagista  77 A candidata ideal para a política  81 O machão  83

AS VIVÊNCIAS

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Os primeiros passos em Trombudo (hoje Vale do Sol)   89 As escolas do interior  93


Os bailes no interior  95 As missas de domingos  97 O baile de Carnaval  99 O trabalho dos colonos  101 Bandidos × Mocinhos  105 Aventura  107 Os jogos de bolita  109 Os presentes no Natal  111 As novelas no rádio  113 O inédito aparelho de TV  115 o colono que vivia nas bibocas  117 Mudanças do interior para a cidade  119 Futebol de mesa  121 A matinê  123 Admissão ao ginásio  125 O legado que ficou dos pais  127 Lambreta  129 Preso pela ditadura militar  131 Namoro  135 Vó Catarina  137 O sogro e a casa do Porto das Mesas  139


As pescarias no Jacuí  141 A lancha desgovernada  143 Noivado  145 A festa do casamento  147 Adroaldo Valdir: O Irmão Mais Velho  149 Fumantes  151 A lua-de-mel frustrada  153 Professor Clóvis  155 Como nasceu o Grupo Teatral Polivalente  157 Os primeiros personagens  159 Entrevista na TV  161

AS viagens

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Aventura: Travessia Guarujá—Florianópolis  173 A chegada a Cananeia, primeiro porto seguro  177 Pescaria na Ilha do Bom Abrigo  179 Ilha do Cardoso  181 Guaraqueçaba  183 São Francisco do Sul  185 Passeio ecológico e pescaria: Paranaguá – Cananeia  187 Paranaguá  189


Pousada da Ilha Bela  191 As pescarias  193 Dificuldades para os moradores das ilhas  197 Cananeia  199 Ilha do Cardoso  201 Viagem de retorno  203 Viagem de trem  205 Grécia: Santorini  207 Passeio à Feira de Hanôver  209 A primeira grande viagem  213 Viagem à Grécia  215 Portugal  217 A viagem dos deuses: Itália, Croácia, Turquia e Grécia  221 Croácia: Dubrovnik  231 Turquia: Kuşadası  233 Grécia: Corfu  235 Viagem a Boston e Nova York  237


Apresentação Durante muitos anos, eu trabalhava no Sindicato dos Comerciários. À noite, saía de casa às 19 horas para começar novo expediente, no Colégio Polivalente. Depois da aula me deslocava até a Aliança Santa Cruz, quando então, num vapt-vupt, tomava a minha cerveja, rodeado de amigos que lá encontrava, para saber das últimas novidades do nosso clube, pois eu fazia parte da diretoria. Estava enjoado desta correria e do ambiente negativo que encontrava na escola: os professores reclamavam dos baixos salários e eram inimigos do “governo de plantão”. O governador era Antônio Brito, que instituiu o PDV (Pedido de Demissão Voluntária). Aproveitei a oportunidade e saí do Magistério. Antes, havia ficado dois anos afastado por Licença Interesse. Neste tempo, poderia decidir se ainda ficaria na função pública ou a abandonaria. Abandonei, sem reassumir e sem indenização do PDV. Lecionei durante 17 anos no Guilherme Fischer, em Vale do Sol; na Escola Polivalente e no Colégio Santa Cruz, em Santa Cruz. Foi muito gratificante este período. Ainda hoje revejo alunos daquele tempo, alguns casados e com família constituída, e, quando me encontram, vêm me cumprimentar efusivamente, relembrando os bons momentos. Naqueles anos, os alunos vinham de famílias humildes. Aprendiam em casa a ter amizade e respeito pelos professores. Hoje, os valores morais da boa convivência de alunos e professores são raros. O que tudo isto tem a ver com o Happy hour? Pois é, não perdi a mania de sair às 19 horas de casa, agora não mais para um compromisso de trabalho e sim para me encontrar com os amigos na mesa de um bar. Para quem gosta de tomar uma cervejinha, nada melhor do que aquela que a gente degusta fora do ambiente familiar e, principalmente, acompanhado de pessoas de profissões diferentes, algumas ainda na ativa, outras aposentadas, mas todas com suas manias, vícios e estilo peculiares. Gostaria de dividir com os leitores os personagens criados a partir de estórias verdadeiras (ou fictícias) contadas no bar, sempre usando uma pitada de humor a fim de torná-las mais agradáveis e de rápida leitura.

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ESTÓRIAS DE BOTECO

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Restaurante Arroio Grande: O bagual e suas estórias Frequento há muitos anos o Restaurante do Schera e do Bagual, tradicional estabelecimento do Arroio Grande, que recebe os moradores das redondezas, algum forasteiro de passagem pelo bairro e os eternos simpatizantes do Flamengo, clube de futebol venerado pela turma com mais de quarenta anos. Neste “famoso” restaurante do Arroio Grande, de segunda a sábado é servida uma comida colonial muito apetitosa; o sucesso do empreendimento se mede pelo número de clientes que frequentam o estabelecimento diariamente. O Schera cuida da venda de balcão e o Bagual é o churrasqueiro oficial e também serve as viandas, além de suprir o restaurante com as mercadorias compradas nas feiras rurais e nos supermercados. Vamos falar um pouco das características deste personagem, o Bagual: um pouco mais de 40 anos de idade, casado com a dona Neca, sem filhos, mora junto ao restaurante, onde cria dois cachorros de raça com muito carinho. Foi operado na “bacia” (como o amigo Doutor) e tem certa dificuldade para se locomover. Não gosta de visitar ninguém e nem de receber intrusos em sua casa. À noite, os dois se revezam no bar, sendo que cada um fica atrás do balcão atendendo os clientes durante uma semana. Atualmente, o bar não tem mais movimento à noite, pois, por decreto do Bagual, o fechamento se dá por volta das 19 horas. Voltando ao passado. O grande problema se dá quando o Bagual está de folga, pois se torna o maior cliente do bar. Devido à surdez num dos ouvidos, escuta muito mal. Em consequência, fala com um tom de voz estridente, “inundando” o ambiente e atrapalhando os que estão dialogando nas mesas. Torna-se impossível manter uma conversação, ainda mais quando está defendendo o Sérgio ou a dona Kelly Moraes, pois é fã incondicional destes dois políticos. Outro que ele defende com unhas e dentes é o “Excelentíssimo Senhor Doutor Luiz Inácio Lula da Silva”, como ele mesmo denomina o presiden15


te Lula. Fica excitado só de assisti-lo na TV, logicamente com o aparelho sintonizado no máximo volume, incomodando àqueles que não querem saber de noticiário. É torcedor fanático do Sport Club Internacional, e quando o Inter ganha trava discussões homéricas com o Vinte e Nove, gremista doente, que retruca, tornando impossível compreender o que realmente estão se gritando, cada um defendendo os clubes que tanto veneram. O pior acontece quando outros ainda se metem, tornando a discussão incompreensível. Bagual não entende nada de futebol, mas depois da oitava cerveja a sua “inteligência futebolística” fica muito aguçada.

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A aventura mal-sucedida Dizem as más línguas que este fato é real. Do personagem, por motivos óbvios, juro não saber o nome, e nesta altura do campeonato também não importa. Chamam-no pelo apelido de “Tony Ramos”; outros, de “Felpudo”, ambos pela grande semelhança que tem com o famoso ator global, pelos exagerados pelos no peito, nas costas… Depois de um jogo de cartas com os amigos, acompanhado de algumas cervejas, já bastante inspirado para alguma aventura extraconjugal, se deslocou para uma casa noturna de luz vermelha, a fim de se divertir e dançar mais à vontade. Ninguém é de ferro: trabalhara duro durante a semana, teria direito a uma diversão descontraída. Estas “per cantas” (termo usado pelos gaúchos para denominar as “meninas de vida fácil” ou “prostitutas”) têm bastante treino no saracoteio e no sensualismo das danças apropriadas para a ocasião. Abrilhantadas por músicos especialmente contratados, especialistas no repertório mais adequado para o ambiente. Deixam o macho louco com os carinhos não convencionais e o rebolado que esquenta o ambiente – e algumas outras partes do corpo, pois ninguém é insensível para aguentar tanta libertinagem. O Felpudo estava sentindo que a noite seria uma criança. A coroa Filó, com aquele corpinho cheio de celulite, o que no escuro não era notado pelo nosso entusiasmado festeiro, certamente o deixaria muito satisfeito. Na dança já demonstrava isso. Seria uma noite inesquecível! Cerveja prá lá, dose prá cá, rebolado, carinho. Duas horas da manhã! Combinado o preço, o entrevero acontece por debaixo dos edredons, tal qual se assiste no Big Brother. O Felpudo teve um desempenho espetacular, na sua ótica. A Filó realmente se satisfez com a grande atuação deste craque do sexo. Pelo menos, foi seu comentário com os amigos mais próximos. Aventura consumada, quatro horas da madrugada. Paga a conta, é chegada a bendita hora de voltar ao lar e enfrentar a “patroa”, que nestas alturas do campeonato já está com as “antenas” ligadas e preocupada com a ausência do “jogador de cartas”. A volta foi bastante difícil. Aquela linha que divide o asfalto estava dupla. Para garantir a volta sem nenhum acidente, na maior parte do trecho veio pelo acostamento. 17


A Gertrudes (nome da esposa) ingenuamente pensando que ele deve ter realmente se excedido no horário do jogo. Marido fiel, como sempre demonstrou ser; pai dedicado, sério, sóbrio, jamais trairia seus princípios em locais não recomendados para homens de bem e de bons costumes. Em casa, nem se dedicava muito ao sexo. Gostava de deitar e dormir. A esposa queria justificativas para o adiantado da hora, mas o nosso aventureiro não deu muito papo para a mulher, dizendo que de manhã explicaria. Estava muito cansado e o sono dos justos já atrasara. Teria que pensar numa desculpa bem elaborada, que realmente convencesse a patroa. Decidiria quando despertasse. De manhã, bem cedinho, a mulher foi verificar a roupa do desastrado dançarino. A camisa estava com um cheiro estranho, odor daqueles perfumes baratos comprados no Paraguai. As suspeitas começaram a aflorar e a investigação foi aprofundada, enquanto o marido roncava, exalando um bafo forte de cerveja com mistura de churrasco e salada de batatas, sua comida preferida. Finalmente, foi encontrada a prova desta traição libidinosa do “gostoso peludinho”, assim chamado pelas damas da noite. Coitado! Esquecida no bolso da camisa estava, intacta, a “comanda” (espécie de nota) da casa noturna, detalhando todos os gastos da noitada (cinco cervejas, três doses, chave…). Nem vale a pena dar maiores explicações, pois o forrobodó foi grande. Foi acordado a tapas. A mulher estava furiosa. Onde se viu este marmanjo ainda estar roncando, depois desta traição, que jamais será esquecida. Ficou marcado na “paleta”, ou melhor, no rosto, onde a agressão deixou sequelas. Ficou com as bochechas vermelhas, com cinco dedos tatuados. Parecia um carimbo. O problema do Tony Ramos é a cerveja em excesso e o resultado é trágico: perde a memória e o juízo. Eu, quando jovem, tinha um chefe de serviço que sempre me recomendava o seguinte: — Guri, pode beber, mas nunca beba o juízo! Aprendi a lição.

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Os torcedores do Flamengo Em certas ocasiões, reunidos em torno de duas mesas, cada um tomando sua cerveja separadamente, ouvi discussões apaixonadas daqueles que não concordam com a atual diretoria do Flamengo do Arroio Grande, que não quer a volta do clube ao futebol. Acredita que o futebol se tornou muito caro e ninguém mais joga por amor à camiseta, como o faziam os atletas do passado. Os ex-atletas do Flamengo, liderados pelo Schera, 45 anos, grande jogador no passado (tendo inclusive jogado no Avenida e treinado no Santa Cruz), hoje com um físico avantajado, pesando perto dos 100 kg, mas que ainda insiste em correr atrás de uma bola (é técnico dos veteranos da Associação Atlética da CEEE), defendem a volta do futebol amador, cada um tendo uma solução milagrosa, baseada num passado que dificilmente voltará. Todos são saudosistas, mas, questionados se são associados do clube, respondem que, enquanto esta diretoria estiver no comando, não serão sócios nunca. Respondo que desta maneira nunca poderão mudar os destinos da sociedade, pois não terão direito a voto e muito menos a serem votados. O ambiente do bar fica cada vez mais tumultuado e as vozes se tornam estridente. O Vinte e Nove é o mais apaixonado pelas causas flamenguistas, e já fazia parte no tempo de grandes conquistas municipais e regionais. No entanto, o velho Polaco, eterno Diretor de Patrimônio, não quer mais saber de futebol, argumentando que agora o que mais vale para o clube é o seu patrimônio; e deste com certeza está cuidando muito bem. O Caroço é sócio remido. Explico para quem não conhece o termo: é aquele que usufrui do clube, mas não paga mensalidade. A maioria que conheço é desta categoria. O empresário Caroço é profundo conhecedor das causas flamenguistas. Antigamente fazia o transporte gratuito dos jogadores e dos fanáticos torcedores com seus ônibus do Expresso Santos Claros. Defendeu com unhas e dentes a volta ao futebol, tendo, inclusive, sugerido pessoas de prestígio para compor a nova diretoria, que logo revolucionaria o Flamengo, e, por motivos óbvios, pôs o seu irmão, Vinte e Nove, no comando do futebol. O Bagual, que não entende absolutamente nada de futebol, recorda, pela nonagésima vez, de um lance de que o seu sócio e cunhado Schera 19


participou, defendendo as cores do glorioso Flamengo. Conta que, num jogo muito difícil pelo campeonato da cidade, o cunhado havia feito um gol de falta, com barreira, de fora da área, acertando um petardo no ângulo. E para dar maiores detalhes, diz que foi “lá onde a coruja dorme”. Para narrar o gol, imita, com toda a minúcia, a jogada espetacular; e como já havia ingerido muitas cervejas, tomou muita distância da pelota e quase se espatifou no chão, antes de chutar a bola imaginária. Dr. Libório, frequentador diário do ambiente, instigava para que a discussão em torno do Flamengo se tornasse cada vez mais barulhenta. Adorava ver o circo pegar fogo! E a cerveja descia cada vez mais redonda… Era o dia de folga do Bagual no restaurante, quando então se tornava o maior freguês da casa.

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As confusões do doutor Outro personagem folclórico do Restaurante do Arroio Grande é o Doutor Libório, com a idade entre 50 e 60 anos. O Doutor caminhava com muita dificuldade devido a uma cirurgia na “bacia”, usava os cabelos raspados com corte zero, gorduchinho, braços curtos e mãos pequenas. Tinha ótima comunicação, conhecia todos os fregueses, e era tido como o maior gozador nos ambientes onde frequentava. Muitas vezes se dava mal, brincava com quem não conhecia e o ofendido quase partia para a briga. Não era muito afeito ao trabalho. Vivia de rendas investidas na bolsa há muitos anos. Era muito mais fácil, pois era só acompanhar a oscilação da bolsa de valores. Todos os dias, pelas 17 horas, chegava ao bar. Sua mesa era sempre a mesma, exigindo dois cinzeiros (um para descansar o cigarro e outro para as cinzas), uma garrafa vazia de refrigerante para colocar os tocos de cigarros, copo especial acompanhado de dois guardanapos e um mata-moscas, instrumento importante para eliminar os insetos que eventualmente viessem lhe importunar. O perigo era se elas sentassem na testa de um colega da mesa. Enfim, era homem de muitas manias, e nem todos os donos de restaurantes admitiam tantas exigências, sendo que já fora convidado a se retirar de muitos ambientes. Se algum dos frequentadores pusesse um toco de cigarro no cinzeiro que estava ali posto para o descanso do seu, fazia o maior escarcéu, pois não permitia esta intromissão nas suas coisas. A cerveja era paga à vista, exigindo o troco na hora, centavo por centavo. Não confiava na anotação para pagamento posterior, pois o Schera – e em especial o Bagual – poderia se enganar e cobrar alguma garrafa a mais. O Doutor gostava de discutir futebol, dizendo-se fanático torcedor do Juventude de Caxias, time em que havia jogado quando jovem. Sua esposa, discordando desta afirmação, havia me confidenciado que na verdade a sua paixão era pelo imortal tricolor dos pampas, o Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense. Em Santa Cruz torcia pelo Esporte Clube Avenida e tinha verdadeira raiva do Futebol Clube Santa Cruz, pois dizia que quem mandava lá era o PDS, tradicional partido político que comandou a cidade por muitos anos, sendo sistematicamente contrário a estes “ditadores” da antiga Arena. 21


As apostas Em todos os jogos o Doutor Libório fazia apostas, desafiando os colegas de copo a jogar por cervejas. O “fiel depositário” do jogo era o dono do bar, que na semana seguinte pagava ao feliz ganhador as “loiras” a que fazia jus. Teve apostador que tomou cerveja de graça durante semanas, pois nos Gre-Nais jogava-se uma caixa. E o mais importante: bico seco. Haja sede para degustar tanta cerveja e ainda aguentar a flauta do ganhador. Outra aposta envolvendo dinheiro grosso, instigada pelo Doutor, foi feita entre o Bagual e o Zé Bagaço, e tinha como motivação a corrida para a eleição do prefeito da nossa cidade. Não era pouca coisa, pois se tratava de R$ 5.000,00. Preenchidos os cheques da aposta, quem os levou para casa foi o Polaquinho, frequentador considerado de muita confiança no bairro e aclamado como um dos maiores centroavantes da história do Flamengo. Além disso, era filho do seu Polaco, pessoa de muito conceito e honradez. Chegando em casa, conferiu os cheques e constatou que não havia assinatura na folha do Bagual, que espertamente esquecera de assinar o documento. No dia seguinte, a aposta foi desfeita. O Polaquinho jamais seria cúmplice desta safadeza. Adivinhem quem seria o ganhador da aposta?

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Política e religião As discussões mais polêmicas aconteciam na época das campanhas políticas. O nosso amigo Doutor era ferrenho defensor do PDT do Doutor Leonel de Moura Brizola e de seu compadre, Excelentíssimo Senhor Alceu de Deus Colares, padrinho de uma das suas filhas, assim nominados com toda esta pompa. Não era para menos; gabava-se de ser amigo de ambos. Bastava alguém da mesa discordar de suas posições fanatizadas e pender para o lado dos antigos integrantes da Arena que a briga estava feita, pois sempre repetia a mesma frase: “quem for a favor ou se juntar com o PDS, PT, Padre ou Freira, sou contra e é considerado inimigo”. Vejam a amplitude de seu ódio! Quem defendia fervorosamente a Igreja Católica era o seu Eti, antigo seminarista, pai do Schera e sogro do Bagual, dizendo que o Doutor pagaria muito caro pela heresia que pregava contra o catolicismo e que Deus gostava destas atitudes inspiradas pelo demônio. Domingo, na missa, rezaria pela salvação da alma deste grande pecador. No fundo, achava que não adiantaria pedir pela salvação da alma daquele herege. Pelo menos tentaria, talvez pudesse acontecer algum milagre, já que suas preces eram fortes e de muita fé. Tem uma estória que corria solta no bar e que dizem ser verdadeira: uma ocasião, o Doutor teve que ser hospitalizado no Ana Nery, sendo paciente de uma cirurgia muito delicada. A primeira atitude que tomou foi chamar a enfermeira e a obrigou a retirar o crucifixo pendurado na parede, pois não admitia nenhum santo no seu quarto. A ordem foi cumprida integralmente. Nunca pensou que esta atitude repercutisse no País: faz pouco tempo que os Tribunais caçaram os crucifixos de locais públicos. A Lei demorou a ser aprovada, mas a repercussão iniciou-se em Santa Cruz, em um apartamento de um hospital, e se espalhou aos quatro cantos. O Doutor era visionário!

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O advogado Em relação ao Dr. Libório, quando se formou advogado, se espalhou na cidade a fama do seu grande conhecimento jurídico adquirido na Faculdade de Direito da cidade, que já formara grandes e conceituados profissionais. Seu pai, pessoa de muitas posses, de família tradicional, montou um escritório no centro. De tirar o fôlego! Móveis finíssimos e exclusivos realçavam o ambiente, dando um toque aristocrático e cheio de charme para o escritório. A cadeira giratória, com encosto anatômico e inclinação quase horizontal, parecia construída especialmente para o nosso jovem advogado. Era imponente e confortável. O cantinho, atrás da sua mesa, era ornamentado com uma enorme folhagem vinda de Porto Alegre, adquirida a peso de ouro de uma floricultura conceituadíssima na capital. Os quadros, que enfeitavam as paredes… Ponham sua imaginação a funcionar, cansei. Certamente muitas mulheres o procurariam para resolver seus problemas conjugais. Sempre se dedicava bastante ao sexo frágil. O Doutor tinha queda pelas separadas. Apostava que todas seriam suas clientes devido à grande experiência adquirida entre quatro paredes, quando ficava sabendo, após longas conversas, dos segredos da separação. Montou uma biblioteca de dar inveja a qualquer colega de profissão. A estante tomava todo um lado da sala, e abrigava obras dos mais conceituados juristas do País e do exterior, principalmente da França. Não teria tempo de lê-los, mas não tinha importância: o certo é que impressionaria os futuros clientes. Tinha até aparelho de telefone, raríssimo naquele tempo, pois só os abastados conseguiam adquirir uma linha telefônica. A companhia era estatal, comandada pelos políticos, e se tornara um grande cabide de empregos, com raríssimas exceções do pessoal técnico. Chegou uma pessoa em seu escritório e o nosso jovem advogado pensou que se tratava de algum futuro cliente. Para impressioná-lo, pegou o telefone e iniciou um longo diálogo com um suposto interessado em seus serviços. Usou uma linguagem rebuscada, cheia de termos jurídicos. Depois de muito blá, blá, blá, perguntou ao visitante: — Em que posso ajudá-lo? 27


Este respondeu que se encontrava no endereço para ligar o aparelho telefônico do escritório, que até o momento estava sem linha. Disse que cumpria irrestritas e incontestáveis ordens do Zé Negão, gerente de Operações da CRT. O constrangimento do advogado foi grande (quase caiu da cadeira), confirmando o que diz o velho ditado: a mentira tem perna curta.

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A fila Num certo dia da semana, uma enorme fila se formou na rua principal, dobrando para os lados do antigo Colégio Mauá, no centro da cidade. O pai do jovem advogado Libório, vendo esta cena, correu para o escritório do filho. Ficou muito feliz, orgulhoso, eufórico com o sucesso do rapaz. Viu que realmente valera a pena investir no escritório mais bonito e charmoso da cidade. A bicha (dito gaúcho, que quer dizer “fila”) realmente impressionava, nada comum numa cidade pacata do interior. Só se via coisa igual na Catedral São João Batista, em dia de confissão, nas datas comemorativas da Páscoa ou do Natal. Coitado do padre que tinha que escutar esta enxurrada de pecados! Desculpem, estou fugindo do assunto principal… Para a decepção do pai, o povo aglomerado na fila estava esperando a Caixa Econômica Federal abrir para a retirada do PIS. Teria que esperar mais um pouquinho para ver o sucesso do filho!

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O júri Outra estória que faz parte do folclore, e que muitas vezes foi motivo de muitas brincadeiras no restaurante, também aconteceu com o Dr. Libório. Não tendo adquirido muita experiência na profissão, muito menos em júri popular, aceitou a difícil tarefa de defender o Gervásio, vulgo Pinguço, sujeito mal-encarado, 45 anos, desdentado. Sua fama de violento já se espalhara na região do Vale. Havia cometido um crime de latrocínio. Roubou o DKW Belcar, 1967, azul, duas portas, pneus novos, motor tinindo, recém-reformado pelo famoso mecânico Mariano. Nunca precisou ser empurrado, pegava de primeira e jamais deixou o seu Gumercindo Bodega na mão. Domingo seu Bodega passeava com sua família. No verão, levava a petizada para a Praia dos Folgados ou dos Panke, ambas do Rio Pardinho. As crianças vibravam, principalmente pelos banhos, pelo churrasco ao ar livre e pelo refrigerante. À tarde, até picolé ganhavam! Uma festa! Infelizmente, este convívio familiar foi interrompido pelo Pinguço. Atacou seu Bodega à traição, não permitindo a defesa da vítima, esfaqueando mortalmente o infeliz proprietário do DKW, conhecido dono do boteco da Churupita, considerado o bairro mais violento da cidade. Era muito popular entre os moradores do bairro porque, além da cachaça para os “bebuns” do beco, vendia fiado no caderninho. Era homem de muita confiança! Nunca enganara nenhum freguês. No dia do recebimento do salário, o acerto ocorria sem nenhum problema. O finado Gumercindo deixou muitas saudades no beco da Churupita! Dr. Libório estudou todos os detalhes do processo. Consultou os diversos livros de criminalistas renomados, entre eles o do Dr. Pires, que também fazia parte do acervo de sua variada biblioteca. Selecionou as teses de defesa capazes de livrar o criminoso da cadeia ou de diminuir a sua pena. A causa era meio perdida, pois a opinião pública já havia condenado o assassino; mesmo assim, procurou uma brecha na Lei que pudesse pelo menos amenizar a pena do violento réu. Certamente, se conseguisse atingir seus objetivos, seria manchete nos jornais do dia seguinte. Treinou por diversos dias, diante de um enorme espelho que havia no seu escritório, a oratória que faria no tribunal do júri, diante do Promotor, Dr. Juvenal, famoso por seus discursos inflamados e que, na maioria dos julgamentos, conseguia convencer os jurados para a condenação dos réus. 31


Realmente, o Promotor foi muito convincente. Era considerado o terror dos júris. Se fosse preciso, condenava até o padre da paróquia. Chegou o grande momento de o nosso amigo encarregado da defesa aplicar todo o profundo conhecimento que adquirira estudando todas as teses de defesa e mostrar, na prática, o discurso que fizera diante do espelho, testemunha mudo do seu grande esforço. Iniciou saudando o Meritíssimo Juiz, Sua Excelência, o Promotor; os jurados e, por último, o público e os estagiários de Direito, que compareceram em grande número e lotaram o auditório. Quando iniciou seu discurso, começou a se sentir mal. Suava frio, sua voz estava inaudível, gaguejava, suas pernas e mãos tremiam, não conseguia controlar o sistema nervoso; começou a sentir dores na barriga, antevendo um desastre que poderia fugir de seu controle. Naquele momento, pagaria uma fortuna para não precisar enfrentar a deprimente situação. Alguns jurados experientes, que já haviam atuado em outros júris e com advogados brilhantes, ficaram com pena e constrangidos com o jovem jurista. O Exmo. Juiz, homem honrado e muito respeitado na comunidade, vendo o estado lastimável do defensor, transferiu o júri para outra data. Solicitou que fosse nomeado outro defensor público gratuito para o réu. Com sua larga experiência na profissão, sentiu que a pena do réu seria a máxima caso o Dr. Libório continuasse atuando naquele júri. Foi a única e última causa do nosso amigo, que definitivamente abandonou a profissão e foi fazer outras coisas na vida. Porém, a fama negativa ficou para sempre. Abraçou a profissão de vendedor. Em Chapecó, tive a oportunidade de conhecer a maior caixa d’água vendida pelo nosso amigo a um balneário daquela localidade, comprovando a sua alta capacidade para as vendas, que geralmente eram feitas nos restaurantes dos hotéis, acompanhadas de muitas doses de uísque, que, logicamente, facilitavam os argumentos para o fechamento do negócio. Só faltava vender uma apólice de seguro contra incêndio. O homem era um fenômeno!

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O assalto A valentia do Bagual sempre é realçada em prosa e verso. Costuma dizer que não leva desaforo para casa e sua arma de fogo sempre está à mão para qualquer entrevero que possa acontecer. Certo dia, o nosso amigo teve que ir até o Banco do Brasil para fazer um depósito. Estava aguardando a sua vez na fila. Repentinamente, apareceram perigosos bandidos armados até os dentes, anunciando o assalto ao banco. Gritavam muito e pediram para que todos se deitassem de bruços. O Bagual, devido a sua surdez crônica, não escutou o alarido e não obedeceu. Quando se deu conta da realidade e da situação perigosa, encarou um dos bandidos, demonstrando muita coragem. Não se entregaria tão facilmente para aqueles delinquentes. Demonstravam não serem tão fortes e o Bagual imaginou que, com qualquer golpe marcial, que aprendera na sua infância, derrubaria os larápios e salvaria o banco do roubo. Até já imaginava a manchete do jornal no outro dia: “COMERCIANTE PÕE ASSALTANTES DE BANCO A DESISTIR DO ROUBO”. Embora as boas intenções do Bagual, não deu tempo para o nosso herói esboçar a defesa, pois levou uma coronhada na cabeça e ficou estendido ali mesmo, desmaiado, enquanto os bandidos faziam a “colheita” dos milhares de reais que roubaram do banco. Depois da confusão, levaram-no para o Hospital Ana Nery, onde levou diversos pontos na cabeça e, com certeza, não vai mais querer bancar o corajoso nestas ocasiões de grande perigo. O seguro de vida que tem no Banco do Brasil há muitos anos é muito bom, mas não compensa deixá-lo tão cedo para a esposa Neca. Sabe como é, viúva nova…

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A luta livre Outro dia, o Bagual se desentendeu com o amigo Chico, que havia sido um famoso lutador de luta livre nos tempos do Ringue Doze, programa muito assistido nos sábados à noite na TV Gaúcha, hoje RBS TV. Quando o Chico lutava mascarado, o seu apelido era “Cavaleiro Vermelho”; e sem máscara denominava-se “Moicano”. O nosso brigador de araque desconhecia estes predicados do seu oponente. O Bagual bufava de raiva e se pôs a dar socos naquele homem forte, treinado para levar os piores golpes dos brutamontes que desafiava no ringue. Inclusive já havia até enfrentado a sensação e o ídolo da época, Ted Boy Marino, loiro, boa pinta, cheio de músculos, cuja entrada no tatame fazia com que as meninas respirassem com mais sofreguidão, soltando gritinhos de puro êxtase, e a audiência na TV dobrava. O lutador era um show à parte. O Chico só se defendia, sem reagir às agressões do nosso famigerado brigador de rua dos tempos de guri. Cansou de tanto dar socos, de pular de um lado para o outro, tentando o melhor ângulo para acertar um golpe para nocautear o oponente. Sua mão já doía muito de bater, sem sucesso, naqueles músculos duros que nem uma rocha. Nunca mais vai se meter a valente com um cidadão que não conhece e que, no passado, fora lutador profissional. Até hoje o nosso amigo, forjado de músculos, frequenta o bar, demonstrando ser uma pessoa muito equilibrada emocionalmente, e que tem a admiração de todos os fregueses do bar. A fama do Chico foi além-fronteiras. Dizem que em tempos idos era amigo do Presidente Lula e do ex-governador Olívio Dutra – aquele mesmo que mandou a Ford embora para a Bahia. Fica na tua, Bagual!

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O músico do Porto Ferreira Uma das diversões do Bagual é frequentar a casa da beira do Rio Jacuí, no Porto Ferreira, adquirida com sacrifício, mas que tem resolvido o problema de estresse do nosso amigo, e eventualmente do Schera, seu cunhado, também proprietário do imóvel. Sexta-feira carrega a camioneta com uma caixa de cerveja, carne para churrasco, outros mantimentos menos importantes, e sua guitarra elétrica, instrumento que está aprendendo a tocar só de ouvido, já que não tem tempo para frequentar as aulas de música. Até tentou, mas achou difícil. Vai ser um aprendizado muito demorado, pois como tem problema grave de audição… Sou testemunha do grande esforço desprendido pelo nosso amigo para dominar as primeiras notas do seu instrumento musical, pois que fui convidado de honra para um suculento churrasco lá nas barrancas. Depois de degustar a oitava Brahma Extra, instala o seu aparelho na área da casa, perto da churrasqueira, de onde tem uma visão periférica da rua da frente e, de soslaio, consegue acompanhar o intenso movimento de pedestres na principal avenida do balneário, não deixando de cumprimentá-los com uma característica que é só dele: “Aí, irmão, como vai”? Continuando na preparação do seu grande concerto musical, instala um aparelho de CD com músicas de bandinhas alemãs e, com sua guitarra, acompanha o ritmo com muita seriedade e concentração. Dá gosto de ver a apresentação do nosso artista e seu show na barranca do rio, já reconhecido pelos moradores como uma das “obras-primas” que acontecem naquela localidade de lazer. O Felpudo, vizinho que mora a meia quadra de distância, reconhece que fica esperando ansiosamente, com sua família reunida na frente da casa, o início do grande show do Bagual. Confessa que a emoção toma conta de todos e, com lágrimas nos olhos, escutam as melodias que tocam fundo na alma. Sábados à noite, o bar que fica em frente à casa do Bagual sempre promove a apresentação de algum conjunto musical. O Bagual escutou os primeiros acordes da música. O som inundava o ambiente calmo do Porto Ferreira. Nosso músico não aguentou a ansiedade, atravessou a rua levando sua guitarra a tiracolo. Pediu uma oportunidade para participar como 37


músico do conjunto, pois já se achava treinado o bastante para acompanhá-los com sucesso. Pediu uma Brahma bem gelada, enquanto aguardava ligarem seu aparelho na caixa de som. Acompanhou com muito orgulho as músicas executadas no ambiente, se esforçando para não desafinar e não passar vergonha na frente dos amigos que frequentavam o ambiente. Até acenava, feliz, para todo aquele povo presente na festa. Até hoje não sabe que os músicos profissionais que se apresentavam no bar não ligaram seu aparelho nas caixas de som, fazendo só de conta que plugaram. Ainda bem que ninguém bateu com a língua nos dentes. Ficaria frustrado para o resto da vida. Porto Ferreira nunca mais será a mesma! Está dividida em “a.B.” e “d.B.” – antes do Bagual e depois do Bagual.

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Os bons de copo A mesa mais importante do bar era comandada pelo Magrão, 40 anos, casado, uma filha, longilíneo, fumante inveterado, investigador da Polícia Civil, líder incontestável dos amigos do copo e adeptos da boemia. Liderava os colegas de profissão e de copo, Garça e Brabo, e ainda Caroço, Vinte e Nove, Felpa, Polaco, Vô, Chico, Lambari, Tonhão, Rabicó e tantos outros que vinham esporadicamente. Muitos eram assíduos frequentadores, vinham quase todos os dias. Repentinamente desapareciam do ambiente. Mandavam anotar o consumo no caderno. Cobrados pelos proprietários do estabelecimento, desapareciam do nosso convívio para sempre. Prejuízo para os cofres dos nossos comerciantes. Naquela mesa imperava a alegria e a gozação, pois o lema de todos era de não falar dos problemas trazidos do trabalho e sim de futebol, política, e comentar alguma “furada” que algum incauto amigo havia deixado para os outros pegarem no pé, ou alguma aventura acontecida em algum “buraco” não convencional e que jamais poderia chegar aos ouvidos da “patroa”. Num ambiente tão diversificado de pessoas, sempre tem aqueles que gostam de “pular a cerca” e buscar alguma aventura mais emocionante nas casas de “luz vermelha” ou onde as gurias faceiras acham que todo homem é bonito, desde que tenha grana no bolso. Uma estória que ficou famosa “naquela mesa” foi quando o líder Magrão, acompanhado do Caroço, do Garça e do Brabo, depois de tomarem todas no bar, resolveram pegar o carro e se deslocaram ao Porto Ferreira para comer uma galinhada no Bar do Backes. A noite se tornava criança quando bebiam em excesso. Saindo do Posto do Sapo, no Arroio Grande, onde o Brabo abasteceu o veículo, chegando ao Pórtico da Souza Cruz, réplica de um forno de fumo, um pouquinho antes do trevo que vai para Rio Pardo, o Caroço, casado, 55 anos, dono de uma frota de ônibus cujo escritório central é no próprio bar, onde são tomadas as principais decisões da empresa, disse para os companheiros de viagem, puxando a carteira do bolso, em alto e bom som: “O pedágio eu pago, podem deixar comigo”. Confundiu o Pórtico com a Praça de Pedágio. Vejam o estado etílico em que se encontravam nossos amigos. Acredito, piamente, que nosso 39


motorista deveria estar sóbrio, se bem que ainda não existia a lei do uso do bafômetro. Esta “furada” rendeu muitas noitadas de gozação lá no bar.

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A capelinha Outro local tradicional do Arroio Grande é o Cachorrão do Gringo, carinhosamente apelidado de “A Capelinha”, que fica na esquina da Piauí com a Avenida Euclides Nicolau Kliemann, junto à passarela. É comandado pelo Cláudio, um italiano acostumado a trabalhar duro desde criancinha. Foi garçom em São Paulo e no Rio de Janeiro; deve estar beirando os 50 anos. Sua esposa, Ju, é uma gringa magrinha, mas muito ágil no atendimento aos clientes, e os filhos se chamam Michel e Carol. Ainda faz parte da equipe o sócio Nédio; ambos estão juntos há mais de 20 anos, tendo bastante experiência no ramo. Nas horas vagas, está sempre lendo, e se você tem alguma dúvida em qualquer assunto, ele sempre está com a resposta na ponta da língua. Lê até bula de remédio. A especialidade da casa é o xis, cuja fama já ultrapassou as fronteiras do bairro, pois vêm pessoas de todos os lados da cidade para saborear esta iguaria feita com esmero pelos “gringos”. Os ingredientes calóricos não assustam os consumidores, acostumados a trabalhar no pesado durante o dia. Nada melhor do que um xis para amenizar a fome e recompor as energias. Nos dias de jogos do campeonato brasileiro, a frequência do bar aumenta, para a felicidade geral dos “gringos”, pois a fatura do final de semana está garantida. E todos sabem a filosofia dos italianos: o dinheiro pode até entrar com facilidade, mas para sair daquela “guaiaca” não é nada fácil. O Michel que o diga, filho criado neste regime de austeridade. A laranja nunca cai longe do pé. O atendimento deles é muito especial, nota 10. O Cláudio, naquela prensa de xis, exibe uma habilidade tão grande que mais parece uma máquina operando. O sucesso deles não vem de graça, vem de muito trabalho. Todos pegam juntos. A folga é somente naqueles feriados de final de ano. O Michel e a Carol, filhos do Cláudio e da Ju, se criaram naquele ambiente do cachorrão, tendo adquirido muitos amigos entre os fregueses da casa. São muito simpáticos e responsáveis. O Michel está na Unisc, cursando a faculdade que envolve o Meio Ambiente, e a Carol no Segundo Grau do Luiz Dourado. O único gremista da família, para o nosso orgulho, é o Michel. O sócio Nédio também veste a camisa tricolor. Os demais são colorados roxos. Nem todos podem nascer perfeitos! 41


Os torcedores da dupla Gre-nal No final do campeonato brasileiro, houve uma situação inusitada no Rio Grande do Sul. O Grêmio jogava com o Flamengo do Rio, no Maracanã. O Inter enfrentava, no Estádio Beira-Rio, um dos rebaixados para a segunda divisão, o Santo André. Vencia o jogo com facilidade. O Grêmio, se empatasse ou vencesse o Flamengo, daria o título para o arquirrival, situação jamais admitida no nosso Estado. Os jogos foram simultaneamente transmitidos no Cachorrão do Gringo. De um lado, os colorados torcendo freneticamente para o Grêmio, e do outro os gremistas, torcendo para que o Grêmio perdesse. O tricolor dos pampas, para a infelicidade dos gremistas, estava ganhando em pleno Maracanã, e com este resultado dava o campeonato para os colorados. Nunca vi o Michel tão contrariado. Estava uma “fera” com os jogadores do time. Amenizou um pouco a situação quando o Flamengo empatou. Nunca tinha assistido coisa igual. Os fanáticos colorados, liderados pelo Jorge, o Jorginho Sete Horas, apelido dado pelo Taxista, torciam pelo rival como se fossem gremistas desde criancinhas. Para a felicidade geral da nação tricolor, perdemos o jogo por 2x1, dando o vice-campeonato para os vermelhos. A Ju, colorada fanática, até hoje lamenta.

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O picica Como não poderia deixar de ser, muitos personagens e estórias acontecem naquele cachorrão. O Picica, 75 anos, vendedor aposentado, apreciador de vinho e cachaça pura com limão, é frequentador assíduo do estabelecimento (“já faz parte da paisagem”, brincam os fregueses), sendo também aquele que acumula as mais variadas anedotas. Vive aprontando. Uma famosa que ele conta é a seguinte: todos os anos, a empresa onde trabalhava exigia que os funcionários realizassem o exame médico, que era feito no consultório do médico, no centro da cidade. Deslocou-se para o local, mas antes chegou à tabacaria para comprar cigarros, que a sua cunhada havia pedido, e os guardou no bolso da camisa. O médico fez os exames de praxe, mediu a pressão, escutou o coração e examinou os pulmões. Vendo os cigarros no bolso, recomendou ao Picica que deixasse de fumar; o vício estava afetando sua saúde. Surpreso, o paciente argumentou que nunca havia fumado na vida e que o diagnóstico do doutor estava equivocado. Aqueles maços que levava no bolso eram para satisfazer o vício da sua cunhada, Adalgisa; esta sim deveria passar por exames rigorosos do doutor, defendeu-se. O médico aproveitou e perguntou ao nosso amigo: – Bebes? De pronto, o Picica respondeu: – Sim, aceito. Ambos caíram na risada.

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A piada do Zé Uma estória que o Picica conta aconteceu com o Zé Negão, cor de cuia, franzino, cabelos lisos, metido a trovador, 55 anos, aposentado da Telefonia, hoje um grande criador de cavalos crioulos. Também administra fazendas no Albardão, interior de Vera Cruz, e nas horas vagas cultua o tradicionalismo gaúcho. O Zé é metido! Segundo o Picica, o Zé já estava bastante empolgado no acampamento gauchesco montado na Oktoberfest por ocasião do ENART. Já havia tomado muita cachaça servida na guampa. O porre estava grande. Nestas ocasiões, extravasa sua empolgação declamando poesias de Jaime Caetano Braun ou cantando “me chamam de grosso e não tiro a razão”, do saudoso Gildo de Freitas. O Zé diz que viu um vulto de vermelho naquele entrevero de gente e que estava de costas para o nosso gaúcho “de quatro costados”. A Banda do Exército executava o Hino Rio-grandense e o nosso Zé, com o pé que era um leque, com um traje gauchesco de “não botar defeito” e as botas caprichosamente bem-lustradas, pensou em dançar com a “chinoca de vermelho”. Os amigos intercederam, alegando que um hino jamais deveria ser dançado, seria uma falta de respeito; e que o personagem com que ele se engraçara era simplesmente um religioso do alto clero, o bispo. Será que o Zé estava realmente com o “pé molhado” ou Picica inventou este causo?

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A pizza Este episódio foi contado pelo Jorge, colorado fanático, que, após uma espetacular vitória de seu Inter, se perdeu nas horas e tomou algumas cervejas a mais. Quando se deu conta, já havia escurecido. Antevendo a “fera” que encontraria em casa, pois conhecia a sua esposa de longa data, pensou em agradá-la comprando uma gostosa pizza. Chegando à residência, encontrou a porta da frente fechada, sinal de que a sua barra não estava limpa. Não havia levado a chave. Largou a pizza no piso da frente e fez a volta pelos fundos, batendo na janela para acordar a companheira. Ela levantou furiosa, reclamando do adiantado da hora, e o Jorge, cheio de desculpas, disse para a mulher que havia comprado algo de que ela e as crianças gostavam muito. Voltou para a parte da frente da casa para buscar a recheadíssima pizza, pensando que, com este gesto, certamente a esposa o perdoaria por chegar tarde em casa. No escuro, acabrunhado com a recepção nada amistosa, buscou a pizza acondicionada numa caixa de papelão, que se encontrava na área da casa. Algo estranho havia acontecido neste espaço de tempo, pois a caixa estava um pouco danificada; quando chegou para entregar a delícia para a furiosa esposa, se deu conta de que o seu cachorro fez um banquete com a pizza, inclusive convidando a cachorrada dos vizinhos para o festerê. Conclusão: o cachorro dormiu de barriga cheia e o Jorge foi obrigado a dormir no sofá da sala. Pelo menos com a consciência tranquila de ter tentado reverter uma situação melindrosa. O único imprevisto foi a “cachorrada” do Totó.

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A festa Outro episódio contado pelo próprio Jorge. Todos os anos a empresa onde sua esposa trabalha faz uma festa de encerramento ao final de ano. O local escolhido foi o salão de festas do Country Club, localizado nos altos da Linha João Alves, cuja vista da cidade, principalmente à noite, é deslumbrante. O Jorge é um afrodescendente forte, quarenta e poucos anos, atarracado, um metro e noventa, pai de três lindas filhas, portador de um bigodinho que enfeita aquele sorriso simpático. Não era muito acostumado a frequentar aqueles ambientes elegantes, cheio de cerimônia. Mesas redondas, cobertas por toalhas que vão quase ao chão, pratos e talheres finíssimos, ar-condicionado central, lustres maravilhosos, decoração de cinema. O Jorginho das Sete não estava se sentindo muito à vontade, ainda mais que sua mesa se localizava no meio do salão e suas roupas sociais apertavam aquele corpanzil não afeito a essas “frescuras” da nossa sociedade. Preferiria mil vezes estar no cachorrão, vestido com aquela camiseta do Inter, bermudas e chinelo de dedo, deliciando-se com um xis, acompanhado de uma cervejinha bem gelada. Conformado com a situação e já mais ambientado, foi se servir naquele bufê com comidas e saladas variadas, um banquete dos deuses. O prato era enorme e caberiam muitas variedades deste manjar gostoso, mas o nosso herói foi com calma, serviu-se com dois filés meio avermelhados (não sabia o que era, achou que fosse frango, descobrindo depois tratar-se de salmão), cinco camarões gigantes e alguma salada. Não poderia encher aquele prato gigante, pois os presentes certamente pensariam que estivesse com muita fome. O Jorge, que não era afeito a comer frutos do mar, muito menos camarão, considerado comida de rico, se atracou direto naqueles crustáceos que deveriam estar deliciosos. Comeu três. De uma hora para outra, começou a sentir uma coceira danada no rosto, no corpo. Não parava de se coçar. Foi para o banheiro, para ficar mais à vontade naquela constrangedora situação. Olhando-se no espelho, viu seu rosto cheio de caroços, assustando o nosso infeliz festeiro. Nisso entrou outra pessoa no banheiro, que fora urinar. O Jorge ficou fitando aquela pessoa pelo espelho, ávido para pedir 51


ajuda. A maioria dos presentes era da área da saúde. Ficaram alguns minutos um cuidando do outro e a pessoa do xixi, não conhecendo o estranho indivíduo, certamente pensou: “Será que este afrodescendente está mal-intencionado comigo e pensa que sou boiola”? Desfeita a confusão, o técnico em enfermagem – esta era sua profissão – examinou o nosso amigo e constatou que ele estava intoxicado por ter saboreado aqueles três camarões. Pediu que ficasse em observação por mais vinte minutos e que tomasse muita água para expelir o veneno pela urina. Como não poderia mais saborear aquela comida deliciosa, perguntou para o enfermeiro se pelo menos, ao invés de água, poderia tomar aquela cerveja de marca famosa, abundante na festa, que faria o mesmo efeito. O pedido foi autorizado, mas, quando o azarado Jorge estava embalando na degustação das cervejas, foi urgentemente chamado pelos familiares da esposa: uma tia havia falecido. Rumou para casa e não teve alternativa: ingeriu bastante água gelada. Realmente, a bruxa estava solta!

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O folclórico Negão Zé O negão Zé nasceu no Piquiri, terra da melhor ovelha do Rio Grande do Sul. Segundo uma lenda que se espalhou naquelas redondezas, suas pastagens nasceram de uma muda de capim plantado pelo negão Zé quando ele brincava na chuva, fazendo taipinha para segurar a água que se acumulava no pátio de casa. Com aquele seu corpo esbelto, sobressaindo-se a sua magreza de bailarino de tango argentino, anda sempre bem-vestido com roupas da moda. Em momentos especiais do nativismo, usa um traje gauchesco impecável, com um chapéu de aba larga ou um boné a la César Passarinho, botas de cano longo, faca na cintura. Até já comprou um traje completo para seu neto. É uma pessoa muito bem-relacionada e de fácil amizade. Entre suas virtudes estão simpatia, descontração e inteligência sutil, sempre atento ao que acontece no mundo. Um dia desses, quis discutir política comigo e se deu mal. Afirmava que todo o sucesso da política econômica do Brasil se devia ao presidente Lula, que a estabilidade do país era fruto da sua boa governança, que a inflação teria sido controlada pelo atual governo… Retruquei afirmando que esta estabilidade tinha somente uma causa: o Plano Real, introduzido no Brasil pela equipe econômica do ministro Fernando Henrique Cardoso, no governo do presidente Itamar Franco, e que na época o PT do Lula era sistematicamente contra a implantação do Real. Também afirmei que o Zé estava mal-informado e que deveria ler mais. Esta informação tirei de um livro de 650 páginas que havia lido na praia, intitulado “A arte da política”, cujo autor foi o próprio Fernando Henrique. O Zé continuou retrucando, quando então disse que no outro dia traria o livro e o emprestaria para que ele também tivesse a oportunidade de aprender e estar à altura de poder discutir assunto tão importante comigo. No dia seguinte, entrei com o livro debaixo do braço e o coloquei sobre a mesa, dizendo para o Zé da grande oportunidade que ele teria para se instruir, lendo aquela obra. O Michel é testemunha da reação do Zé: ficou possesso de brabo, pois chegou à conclusão de que o estava chamando de 53


ignorante. Contei uma historinha para o Zé. Havia um comandante de um navio que navegava num rio e que de repente encalhou num banco de areia. Teve sorte. Começou a chover muito, o rio inundou e o barco desencalhou. O comandante disse que, graças a sua competência, havia salvado a embarcação e seus passageiros daquela situação. O Zé compreendeu a comparação e nunca mais discutiu. Mas não aceitou ler o livro, alegando falta de tempo.

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A vida campeira O Zé, cor de cuia, franzino, 55 anos, aposentado. Foi ele o responsável pela instalação do telefone do Dr. Libório, lembram? Uma de suas paixões é a vida campeira. Outrora fora um grande criador de cavalos crioulos lá pelas bandas do Capivarita, em Rio Pardo. Hoje lhe restaram oito cabeças. Sete se encontram na Fazenda do Tio Chico e a mais valiosa, uma égua gateada, Mimosa do Piquiri, coisa mais linda, está hospedada na fazenda, localizada em Albardão, de propriedade do amigo Prateado, 55 anos, gremista, cabelo grisalho (eis a origem do apelido), bem falante, muito amigo do nosso criador de cavalos. Segundo informações de amigos comuns, disseram que encontraram a tal de égua Mimosa do Piquiri vagando pelos corredores da localidade, expulsa pela esposa do Prateado, que estava incomodada com a sujeira que ela fazia na beira da linda piscina da propriedade. Não sei se o fato é verdadeiro, mas, pelo que fiquei sabendo, o Prateado andou intercedendo junto à esposa em favor da égua do Zé. Não aguentaria a dor do remorso se este animal valioso se perdesse pelos corredores do Albardão e causasse um prejuízo incalculável ao administrador da fazenda nas horas vagas. Argumentou com a esposa que também sofreria uma dor psicológica, tamanho o amor que sente pela égua Mimosa do Piquiri. Também não é para menos. A égua concorreu ao Freio de Ouro, em Esteio, ficando na penúltima colocação. Mesmo assim, é motivo de orgulho para o dono do animal. Bem fez o Prateado, pessoa de muito bom coração, evitando com este gesto a internação do Zé em algum Hospital Psiquiátrico, pois a depressão pegaria frouxa, que somente poderia ser curada pelo famoso Analista de Bagé, personagem do escritor Luís Fernando Veríssimo. Dizem que é coisa de amor platônico. O capataz da chácara é testemunha ocular da estória.

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O sacrifício do porco Ouvi falar, não sei se é verdade, mas todos sabem que com uma pessoa que está sempre em evidência os fatos acontecem ao natural. Como já disse, o Zé é metido. Era dia de carneação de porco na fazenda do Prateado. Depois de alguns copos de cachaça, a discussão transcorria acalorada para saber quem sangraria o porco. O Dinossauro, pedreiro das obras da fazenda, se pôs à disposição para tão difícil e macabra tarefa. Já tinha larga experiência, adquirida em outras matanças pelo campos afora. O Prateado, que assistia à discussão de camarote e como chefe natural, terminou com a bagunça. Sugeriu, ou melhor, impôs, que o Zé desse a estocada de misericórdia no bicho, pois a fama de exímio matador de porcos já havia se espalhado pela região. Seguraram o porco, cujo “berro” se espalhava pelas fazendas vizinhas. O amigo Dioguinho Presídio aproveitou para gravar o grito do porco, pois futuramente poderia ser útil para alguma novela. Segundo o Prateado, do porco tudo se aproveita. Como já vimos no episódio da égua, o Zé tem muito amor pelos animais e, no derradeiro momento de sangrar o porco, com o coração abalado e com muita pena do suíno, porque pensa que bicho também tem alma, errou o alvo onde a faca deveria entrar, e o porco escapou dos seus algozes. Saiu em desabalada correria campo afora. Contam que até os dias de hoje o porco anda vagando pelos descampados com a faca carneadeira do Zé, raridade que ganhou de herança do seu bisavô, enterrada no pescoço, assombrando os moradores das redondezas. Aqueles que já viram o animal falam que ele surge do cemitério que se localiza ao lado da fazenda. O Zé só tem dormido com o auxílio de soníferos, pois toda noite ouve os berros estridentes do porco moribundo nas cercanias de casa. Aliás, ultimamente tem ficado muito pouco em casa, preferindo andar sem rumo por este mundo de Deus. Muito bom para sua santa esposa, que não precisa preparar a sopa do Negão; depois de ingerir algumas cervejas a mais, sempre diz que vai para casa tomar um caldo e mais uma ducha. Precisa se recuperar para, no outro dia, continuar com a rotina de um aposentado feliz. 57


O cachorrão da coxilha Subindo a Av. Euclides Kliemann, na coxilha, perto do Supermercado Sol, encostado ao Posto da Figueira, fica a outra “capelinha” dos amigos da cerveja. Trata-se do Cachorrão do Jari, que ali atende seus clientes com toda a sua família, composta da esposa, das duas filhas e do futuro genro BIC, sendo sua especialidade a venda de xis, alaminuta e almoço, além das mais variadas bebidas. Nos fundos, tem uma churrasqueira, liberada para as turmas de amigos que queiram confraternizar, sendo que a carne tem o preço de custo e as cervejas e os refrigerantes são fornecidos pelo bar. O Jari, 43 anos, simpático, moreno, colorado convicto, fica sempre atento aos mínimos detalhes do que acontece no cachorrão. É mantenedor da ordem e da disciplina do ambiente; eis que, nos dias de jogos, e à medida em que os fregueses vão tomando sua cerveja, proporcionalmente alteram o tom da voz, e muitas discussões acontecem entre gremistas e colorados. Muitas vezes este bate-boca pode descambar para uma desavença mais grave. E para que isso não aconteça, o nosso amigo Jari intervém com energia e, se for o caso, puxa do cartão vermelho e expulsa o sujeito do estabelecimento. O homem não quer saber de brincadeiras.

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O bate-boca Depois de um jogo entre o Grêmio e o Internacional, os amigos dos finais de tarde se reuniram no Jari, no Cachorrão da Coxilha, para comentar os últimos detalhes do jogo. Lá estavam, entre outros, do lado colorado o Montenegro, aposentado, 70 anos, alto, magrinho, e o Alemão, 68 anos, alto, bem aposentado, proprietário de muitos bens alugados, casado. Do lado gremista, eu e o Diogo Gosmento, 48 anos, separado, funcionário público, que vive com segunda companheira, todos já com cervejas ingeridas acima da média, pois no calor do jogo a sede parece que aumenta. O Montenegro, colorado fanático, conhecedor profundo de variados assuntos, em termos de futebol e na defesa de seu Inter é bastante intransigente, tendo opiniões firmes, e não cede muito espaço dentro de suas convicções. A turma da mesa já sabe que qualquer contradição é motivo para buscar contra-argumentos lá do fundo do baú. E se por acaso alguém insistir em contrariar, já fecha o tempo. O homem não é fácil, e quando o assunto é futebol, piora! O Gosmento, 45 anos, gremista de quatro costados, fumante inveterado, se alimenta de cigarro, cuida dos filhos de duas famílias e é segurança do Presídio de Rio Pardo. Está contando os dias para se aposentar da função, mas, entra governo e sai governo, “ficam mudando a Lei”, reclama. Comentam os fofoqueiros do cachorrão que só há dois presos guardados naquele presídio, ou melhor, um deles fugiu no dia de plantão do Diogo. Os amigos afirmam que ele estava dormindo o sono dos justos na hora do expediente. Todos enganados; o Diogo estava escutando, no radinho de pilha, o jogo do tricolor, que ganharia espetacularmente do Corinthians! Nesta hora não tem preso que venha incomodar, ainda mais que todos são “ladrões de galinha”! Chama todos os amigos de “gosmentos”. Também é bastante convicto de sua opinião, defendendo com muita garra o campeoníssimo Grêmio. A discussão entre o Montenegro e o Gosmento estava bastante acalorada. O Gosmento afirmava para o Montenegro que o tricolor perdeu com um gol vergonhosamente impedido, que só aquele juiz “vendido e ladrão” não viu. Argumentou que é desta maneira que consegue a vantagem sobre 61


o rival. “Só roubando”! O Montenegro contra-argumentou que o gol fora legítimo e que o juiz jamais teria que roubar para seu glorioso Inter vencer aquele “timeco do Grêmio”. Os ânimos estavam à flor da pele! Paralelamente, eu e o Alemão, 65 anos, alemão de um caráter muito forte, boa gente, colorado, também discutíamos sobre o jogo da tarde. Ninguém mais se entendia naquela mesa. A nossa dose etílica já estava bem alterada. Segundo o Zé, devemos cochilar até o meio da tarde, tomar uma ducha e voltar a beber, devagarzinho, sem exagero. Conselho de quem conhece o assunto. Voltando à discussão, lembro-me que disse que o time do colorado era uma m… e outros predicados que não vêm ao caso. O Alemão se ofendeu, pagou a sua cerveja e foi embora, prometendo nunca mais olhar para a minha cara de gremista. Com toda a razão: um colorado nunca pode ser ofendido por um reles gremista e a recíproca é bem pior. Vendo que havia exagerado na discussão com o Alemão, levantei e fui pagar a minha conta. O Jari, 50 anos, dono de uma frota de táxi e comerciante, colorado fanático, disse, brabo, que esta não era uma atitude comportamental conveniente no ambiente do estabelecimento. Que eu cuidasse dos palavrões que havia pronunciado na mesa. Poderia ferir psicologicamente os fregueses presentes, e principalmente as mulheres, mais delicadas para com estes arroubos masculinos. O Jari não me deu nenhuma chance de ganhar um cartão amarelo, foi vermelho direto. Ausentei-me por diversas semanas daquele ambiente. Fiquei com muita vergonha desta situação criada por causa do futebol. Prometi nunca mais discutir… Até o próximo GRE-NAL.

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A cura do Nego Zé O especialista lá da fronteira, o Analista de Bagé, é amigo do Zé, um antigo frequentador do seu consultório, que fará a intermediação da consulta do Fofinho. Desde que sentiu os primeiros sintomas psicológicos, gosta que o chamem de “Fofinho”. Diz que fica mais íntimo. O tratamento do Zé durou um ano e já está quase curado. Quando dá uma recaída na doença, ele volta ao consultório. No local tem muitos pelegos espalhados pelo chão (o Zé não pode ver pelego), onde se esparrama e conta seus dramas ao Analista Gaudério. Até já viciou na cachaça. Explico: no final da seção psicanalítica, o doutor dá-lhe um banho de cachaça, a fim de que as mandingas não mais aflijam o negão e seu espírito se aquiete. A pinga vai direto para o sangue. Depois desta aplicação milagrosa, até trovador já virou. Toda vez que sente o cheiro da “malvada”, a inspiração dos versos surge instantaneamente, como que por encanto. Já foi convidado para participar do “Galpão Crioulo”, do Nico Fagundes. Não aceitou. Acredita que sua arte deva ser mostrada para todo o Brasil e não somente para o Rio Grande e Santa Catarina. O seu ego também inflou. Prometeu ao Foffo que na primeira consulta irá junto à Bagé, a fim de encorajar o jovem. Todos sabem que a primeira vez sempre é difícil. Por isso, a importância desse ombro fraterno do Zé, sempre pronto para auxiliar os amigos nos momentos mais difíceis.

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A paixão do Foffo Anda apaixonado perdidamente por uma menina muito bonita, e parece que é correspondido. Ela tem uma mistura de brasileira com italiana. Entre tapas e beijos, já estão 14 anos juntos, só com um detalhe importantíssimo: os dois moram com a mamãe, em casas separadas. Segundo o Paulo Santana, famoso colunista da Zero Hora, não existe casamento melhor e mais duradouro, pois se encontram somente no momento em que têm vontade de fazer amor. Romântico, não é? Quando completaram 13 anos de namoro, os pombinhos resolveram morar juntos em um lindo apartamento, contrariando as convicções do cronista. Apostava num convívio harmônico. O Foffo, quando os últimos raios de sol se escondem por detrás dos morros, toma a saideira, vai até o Supermercado Sol fazer as compras e retorna feliz para o convívio da amada. Às vezes, se esquece do compromisso do horário estabelecido, porque a cerveja está uma delícia e a conversa transcorre animada. Este seu atraso causa o maior rebuliço no apartamento. Desperta a curiosidade e a apreensão dos vizinhos, pois, antes de eles ocuparem a nova morada, não acontecia nenhum episódio de desavenças familiares, principalmente com pratos quebrados. Como é grande garanhão, que satisfaz os desejos íntimos da mulher, acalma a companheira com uma noitada de sexo selvagem (é especialista nesta modalidade). O Foffo sempre foi considerado um grande amante! Não há nada que uma bela noitada de amor não resolva. Mais uma do Foffo, cuja especialidade é manutenção de correias industriais. Incrivelmente, fica de sobreaviso 24 horas para qualquer socorro, muitas das quais passa no cachorrão, atento ao celular. O Foffo vive um drama existencial diário, pois não sabe de onde vem esta necessidade extrema de se encontrar todos os dias com os amigos e praticar o “alterocopismo cervejístico”, hábito comum de todos que se aglomeram e jogam conversa fora naquelas mesas do cachorrão da Coxilha. Até já é adepto da numerologia; por isso os dois efes no apelido. Outro problema: sofre de uma insônia crônica. Todavia, se vai à missa sábados à tarde, após saborear um gostoso churrasco, acompanhado de muitas cervejas, dorme sentado durante a homilia do padre. A suavidade 65


das palavras do evangelho lhe dá um sono danado. A noiva, que o acompanhava naquela missa rezada para lembrar o aniversário de morte de um parente, fica indignada, dando-lhe safanões para acordá-lo. Falta de respeito com a alma do falecido! O esforço da infeliz Maricota, jovem noiva, 25 aninhos de muita saúde, simpática, fora em vão, pois o Foffo voltara a dormir no banco da igreja. Não viu passar nem o saquinho das esmolas. O episódio nunca pode ser lembrado sob pena de dar uma briga fantástica com a Maricota. Até hoje ela não perdoa tamanha falta de respeito com o falecido. Vergonha. Nem lembrou que estava na igreja para rezar!

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As aventuras do Chimia “Schmier”, para quem não sabe, é um termo alemão, que dá nome a um doce que se espalha sobre o pão, e que é feito com as frutas da estação. Na colônia, ao invés de açúcar, usa-se caldo de cana no preparo. Não sei dizer o porquê do apelido, Chimia, 40 anos, mecânico de mão cheia, apaixonado pelo carro da marca Chevette, convicto que é o melhor automóvel do mundo. Por fazer muita força na profissão, de manhã treme muito e talvez seja um cacoete adquirido de tanto regular a lenta dos automóveis. Numa noite dessas, o Chimia se encontrou com outros amigos num bar lá da Carlos Trein. A conversa transcorria animada e o nosso amigo se emocionou com os assuntos, se passou da hora e tomou uma dúzia de cervejas. Voltaria dirigindo seu Chevette em direção ao seu doce lar, mas quando caminhou até o automóvel, notou que estava com o “pé molhado”, ou embriagado, como queiram. Concentrou-se o máximo possível na direção, ligou o “GPS da memória” e apertou o acelador, imprimindo uma velocidade nada aconselhável para aqueles momentos, pois, conforme nos ensinam, “o álcool e a direção não combinam”. O nosso motorista não se deu conta que a Brigada Militar o seguia, com as sirenes ligadas, também em alta velocidade. O Chimia, num lampejo de consciência, olhou pelo retrovisor do carro e viu aquelas luzes seguindo-o. Até pensou que fosse o carro que conduzia o Papai Noel, já que era época de Natal. Infelizmente se enganara: era a polícia mesmo e a perseguição cada vez mais se intensificava, parecendo aqueles filmes de ação. Na esquina da Ernesto Alves com a Felipe Jacobus, o nosso ébrio condutor entrou como um piloto da Fórmula Um, fazendo a curva em alta velocidade, cortando pela esquerda, na contramão. E a polícia atrás. Quando o Chimia dobrou para entrar na Pita Pinheiro, finalmente a polícia conseguiu que o nosso piloto parasse e, de armas em punho, pediu que o fugitivo saísse de braços erguidos. Este argumentou (vestia o macacão de mecânico), que havia “trancado” o acelerador do seu amado Chevette e abriu o capô (ficou se segurando o tempo todo para não cair, pois estava com as 67


pernas bambas) e fez de conta que o consertava. Deu a maior aglomeração de curiosos que aquela esquina já havia assistido. Também chegou uma amiga que reconheceu o Chimia, loira, com 1m70 cm de altura bem-distribuídos, com aqueles olhos verdes faiscantes e provocativos, e uma voz meiga e insinuante. Convenceu os brigadianos a não tomarem atitudes mais drásticas. Salvou o amigo daquela situação comprometedora contra todas as leis de trânsito brasileiras. Esta estória de perseguição se espalhou pelos quatro cantos do País e do mundo. Dirigiram-se a Santa Cruz cineastas famosos para adquirir os direitos autorais desta aventura fantástica. O nosso herói preferiu não se tornar famoso mundialmente, pois é muito melhor tomar a sua cervejinha no Jari, anonimamente, do que estar distribuindo autógrafos para os fãs. Coisa chata! Depois deste desempenho espetacular do Chimia com seu Chevette pelas ruas de Santa Cruz do Sul, a GM está com um projeto para relançar a marca para o mercado mundial. A fábrica até convidou o nosso amigo para ser o garoto propaganda exclusivo, mas ele declinou do convite alegando que tem muito serviço na sua oficina.

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O taxista Outra figura folclórica, sempre atenta aos acontecimentos do cotidiano, principalmente quando alguém do grupo deixa “algum furo”, é o Taxista, 45 anos, pai extremado de duas belas meninas, uma neta (sua paixão) e a adorada e respeitada esposa. Bastante avantajado fisicamente (não pratica nenhum exercício e se dedica muito a uma boa comida), bem-falante (principalmente depois da sexta cerveja), gremista roxo, chofer de carro de praça. Segundo o conceito do amigo Dentinho, trabalhar num táxi não é profissão, pois o cara passa o dia parado no ponto e, quando surge alguma corrida, aproveita para passear junto com o freguês. Esta opinião do Dentinho já deu muitas discussões acaloradas entre os dois. Outro dia, o Taxista foi comprar uma costela de porco no supermercado. Chegando ao Cachorrão da Coxilha, pediu para o Jari guardar o suíno na geladeira, até que ele fosse para casa. Tomou “todas” as cervejas, exagerando na dose. Era sexta-feira e tem aquela famosa música… Pediu para que o Fazendeiro o levasse até em casa, na Vila Schultz, mas antes passou no Lambert, depósito de bebidas da cidade, para reforçar o estoque de latinhas. Teriam que tomar a “saideira” quando chegassem ao destino. Foram várias “saideiras”, pois a sede continuava grande! Bota sede nisso! Sábado, o nosso amigo voltou ao cachorrão do Jari, indagando sobre a costela de porco que havia esquecido na noite anterior. O Jari disse que não havia nenhuma costela no local. O Pitt, frequentador assíduo, sempre pronto para contar uma piada ou aprontar uma sacanagem, irmão do Chimia, mecânico, escutando a conversa e o desespero do Taxista sobre o destino que havia tido a tal costela, inventou que o Fazendeiro estivera na sua oficina de manhã bem cedinho e teria questionado sobre uma carne que carregava no carro e se este não sabia de quem era. Diante da negativa do Pitt, o Fazendeiro teria levado a carne para a fazenda do Albardão, no município de Vera Cruz, a mesma em que o Zé cria a sua égua. O desespero tomou conta do Taxista. Sabendo que o Zé havia passado a noite na fazenda e que estava retornando para a cidade, telefonou questionando-o sobre a famosa costela. O Zé simplesmente disse que não sabia 69


de nada. Ficou desesperado, pensando que o Fazendeiro havia consumido com o porquinho. Que situação! À noite, passou na casa do Fazendeiro, na cidade, que estava secando a louça, castigo que a esposa havia lhe dado por ter chegado de madrugada ao lar. Questionou sobre a mercadoria, que, segundo afirmação do Pitt, estava no seu carro. O Fazendeiro ficou confuso, pois não sabia de nada; era tudo invenção do nosso amigo gozador, o Pitt. Aliás, esta chegada intempestiva do Taxista na casa do Fazendeiro causou a maior confusão entre o casal. A esposa, já desconfiada de uma eventual escapada do marido, queria saber detalhe por detalhe desta estória da carne, que poderia estar relacionada com a volta na madrugada da noite anterior. Triste, o Taxista voltou para a Vila Schultz sem a mercadoria, inconformado com a perda de tão valiosa carne, que seria assada com todo o carinho para a sua querida família, ávida para saciar a fome com a guloseima preferida de muitos amigos que frequentam o cachorrão do Jari. Esperançoso, deu uma última verificada na geladeira de casa. Estava lá, intacta, geladinha, a gostosíssima costela de suíno que tanto atormentou o nosso chofer do “carro de praça”. O que não fazem a tonturinha da cerveja e o estilo ardiloso do Pitt, que botou “minhoca” na cabeça do Taxista!

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Os amigos garanhões Sildo, 63 anos, conhecido como o “Terror da Madrugada”, corpo de bailarino de tango argentino, pedreiro de colher cheia, exímio assador do melhor churrasco, colorado doente, é um antigo frequentador dos botecos, cachorrões e quermesses que acontecem nos bairros e arredores da cidade. Galanteador, tem fama de famoso na lida com o sexo oposto. E adepto de um arrasta-pé, está sempre pronto para socorrer alguma amiga abandonada, carente e saudosa do carinho de um garanhão com muita experiência nestas aventuras extraconjugais, desde que sejam gratuitas, pois não admite pagar pelo amor de uma mulher. A presença do Sildo é ainda mais evidenciada, quando chega acompanhado do amigo Bigode, 50 anos, separado de papel passado, bigodinho bem aparado, charmoso, colega de profissão, gremista fanático. Falam que o Bigode paga o aluguel da Cleusinha, mulher muito experiente e que não se satisfaz com um homem só, sendo que um amigo comum divide esta despesa. Repartem a mulher e o aluguel! Num mês de inverno muito chuvoso, o pedreiro faturou pouco e pediu para o amigo bancar o aluguel daquele mês. O pior é que os dois não sabem: a Cleusinha não consegue ser fiel a ambos. Os trai toda a semana com o primeiro que pagar uma boa grana e que seja bom de cama. Na adolescência, Bigode era auxiliar de pedreiro do tio no cemitério católico e eu era seu chefe. Exercia o cargo de secretário-executivo da entidade e ganhava um salário mínimo para engordar meus vencimentos. O Bigode gostava desta lida. Cuidava dos defuntos, mas ganhava polpudas gorjetas dos parentes vivos para fazer reparos em algum túmulo. Alegava que o risco de aparecer alguma alma para importuná-lo era muito grande. Poderia se assustar com a assombração. Havia um lugar específico no cemitério onde os parentes acendiam velas para a alma do ente querido. De vez em quando, o Bigode levava algumas para casa. Se os responsáveis do campo santo descobrissem este pequeno delito, certamente o perdoariam, pois a causa era nobre. Antes de pegar no sono, tinha o cuidado de apagar as velas que pedia “emprestadas” do cemitério, pois na sua casa não havia luz elétrica. Não esquecia de rezar pelos mortos. 71


Os dois, quando apontam na localidade de Cerro Alegre Alto (um dos locais preferidos) com aquela raridade de Opala Comodoro, duas portas, esportivo, conservadíssimo, original de fábrica, com a pintura e amassados preservados com muito esmero pelo Sildo, a fim de que nunca perca valor de mercado, são saudados com entusiasmo pelas meninas, certas de que, com os dois no salão, a diversão e a cerveja estarão garantidos. E, quem sabe, também a carona de volta para a cidade. Certo dia fui dar uma olhada na Festa do Divino, da Igreja Espírito Santo, famosa por promover festas populares e saraus dançantes nos sábados e domingos à tarde. As bandinhas animam e empolgam os frequentadores. Observando as pessoas no arrasta-pé, lá estavam os dois amigos, acompanhados de lindas mulheres, experientes nos seus 40/50 anos de idade, descasadas ou solteironas, loucas para entrarem na folia e se divertirem. O Bigode estava com uma loira, Jurema, 45 anos, dentadura novinha em folha, confeccionada pelo famoso dentista Raulzito, especialista em arrancar dentes e colocação de chapas, habilidade esta que se espalhara pela região. A mulher trajava uma sensual minissaia que mostrava suas lindas pernas bronzeadas com muito sacrifício nas barrancas do Rio Pardinho. A celulite não aparecia muito, talvez pelos cremes caríssimos, importados do Paraguai, que aplicava para conservar aquele par de pernas, sensualíssimas. Os seios eram de uma diva, volumosos, durinhos (o sutiã era muito resistente), na cintura salientava uma pequena barriguinha, mas ainda demonstrava que conservava aquele bumbum saliente, que mais parecia um violão. Os lábios eram carnudos, pintados com um batom vermelho forte, a verdadeira cor do pecado. Nosso amigo Bigode, pedreiro, especialista na construção de um flerte bem sucedido, tomava cerveja gelada, feliz com a companhia da Jurema, já imaginando levá-la para a pensão da Tia Evita, pertinho do pavilhão da igreja. Dava para ir a pé, sem precisar da carona do famoso Opala do Sildo, evitando os olhares desejosos do Sildinho, assim chamado na intimidade. Não imaginava que seria importunado por um gaiato atrevido chamado Zé Dentuço, que começou a agarrar a guria demonstrando já conhecer as intimidades da mulher. Desconfiado de que pudesse perder a amada, nosso herói começou a reclamar do homem, alegando que chegara primeiro, estava pagando a cerveja e que a Jurema era sua conquista daquela tarde maravilhosa. A sorte que não deu nenhum entrevero entre os dois. O Zé 72


era conhecido nas redondezas como o “desmancha-prazer”. Livre do assédio do intruso, saiu faceiro rumo à pensão, acompanhado por aquela deusa, que certamente fez o Bigode estremecer debaixo dos edredons naquele quarto perfumado da pensão da Tia Evita, cuja penumbra aguçava a libido do casal. O gemido da Juju se escutava lá da casa do padre. Foi uma loucura! Que final de tarde prazerosa! Depois desta aventura, satisfeito, era só descer até o Cachorrão da Coxilha e tomar mais uma gelada. E saber o resultado do jogo do Grêmio.

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O apartamento 410 Estávamos reunidos no cachorrão da Coxilha, no dia do aniversário do Fazendeiro, que pagou um churrasco para a turma, em homenagem aos seus 55 anos bem-vividos e aproveitados ao máximo. Quando a carne é patrocinada, não faltam assadores para prepará-la. Nesta oportunidade foi a vez do Sildo, profundo conhecedor do ofício. Os assuntos a cada momento transcorriam mais animados e variados, à medida em que a cerveja ia sendo degustada. Como era festejado um aniversário muito especial, a dose etílica poderia ser extrapolada. Os mais tímidos até tentavam falar alguma novidade da semana, mas não conseguiam, pois o Zé Negão e o Montenegro monopolizavam a conversa. O primeiro com suas façanhas nas cavalgadas e as lides na fazenda e o segundo com as inúmeras estórias do passado trazidas da sua terra natal. O Montenegro, magrinho, bigodinho e cavanhaque cultivados com muito esmero, passando dos 60 anos, aposentado, colorado roxo, já havia exagerado naquela noite festiva e notava que a cerveja já causava uma tonturinha. A esposa estava esperando sua volta mais cedo, talvez até pudessem tentar reviver os velhos tempos de recém-casados. Saiu com seu fusquinha impecável. Ainda dirigia muito bem, os freios, os faróis, e o motor haviam sido reformados pelo PITT e pelo Chimia, exímios mecânicos da redondeza. A lataria e a pintura ficaram por conta do Hardy, especialista em reformas de carros antigos, seu hobby. Carro impecável, sem defeitos, cobiçado pelos colecionadores. Joinha! Voltando ao Montenegro. Chegou ao apartamento às 22 horas. Conseguiu manobrar a relíquia nos intrincados labirintos das garagens, sem nenhum arranhão. Recém havia se mudado e não conhecia muito bem todos os detalhes. Vinha muito animado, com a libido aguçada pelos desejos. Será hoje, pensou, subindo as escadas. Não tinha elevador e até este exercício fazia bem para suas pernas. Chegou esbaforido, mas feliz. Abriu a porta do apartamento e entrou. A cena que assistiu era inacreditável! A esposa estava irreconhecível naquele baby-doll vermelho, lingerie minúscula toda preta, combinando perfeitamente. Em certo momento até duvidou que fosse ela. A transformação havia sido radical. Para melhor, lógico. Parecia que rejuvenesce75


ra pelo menos 20 anos. Como havia imaginado, estava dando tudo certo para aquela noite de amor eterno, lembrando-se da noite de núpcias, que havia sido uma loucura! Como sua esposa havia imaginado suas intenções? Um milagre que há muito não acontecia. Estas cenas todas ocorreram na penumbra. Assustada com a invasão do intruso em seu apartamento, a vizinha acendeu todas as luzes e gritou por socorro. Foi aquela algazarra no edifício. Ainda mais que estava com aqueles trajes provocantes esperando a chegada do marido verdadeiro. O que diriam as solteironas do 303, conhecidas fofoqueiras do lugar. O apelido delas era as Irmãs Cajazeiras, famosas personagens de novela. Esta estória teria que ser toda esclarecida com detalhes, mas certamente algumas desconfianças ficariam naquelas mentes doentias das fofoqueiras de plantão do prédio. O coitado do Montenegro até hoje morre de vergonha de ter errado de apartamento. E o pior, de piso. Explicou para a digna senhora que havia se enganado, e que a chave coincidentemente servira naquela fechadura. Pediu mil desculpas, mas o estrago que aconteceu ficou marcado para sempre nas estórias pitorescas do edifício. Na próxima vez, que não se exceda na bebida! Hoje, é o primeiro a se retirar do happy hour. Serviu de lição.

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Rabicó e a massagista Rabicó, 45 anos, quase dois metros de altura, magrinho, loiro, separado, pai de duas meninas muito lindas, pedreiro de colher cheia, profissional muito requisitado na cidade pelo seu reconhecido capricho e por sua competência. Entrega uma obra pronta, sendo ajudado somente por um servente. A separação deixou o Rabicó muito abalado e desiludido com o sexo oposto. Nunca mais casou e prefere morar sozinho. Muitas mulheres já passaram na sua vida, com esperança de casar. Nunca aceitou as ofertas de amor eterno. Virou um devorador de corações femininos. Sua fama de insaciável no sexo já se espalhara entre a mulherada. O máximo que aceita é recebê-las na sua ampla casa para uma noitada de prazeres libidinosos. Sempre fala para os amigos que entre quatro paredes não tem regra definida nas posições, tendo se tornado um grande malabarista sexual. Havia enjoado do papai e mamãe. O Rabicó não é muito de se queixar, mas confessou que sofria muito de dores lombares e pediu para que alguém indicasse uma massagista. Não poderia ser homem. Preferia ser massageado por mãos femininas, mais delicadas. Os amigos logo se lembraram da Mercilda Mãos de Fada. A Mercilda, profissional muito séria, com muitos cursos no seu currículo, casada, meia idade (nunca descobrimos a idade das mulheres) e com uma ampla freguesia na cidade. Não cobrava barato pelos seus serviços. Frequentavam sua sala altos executivos e as madames grã-finas da cidade. O seu apelido de Mãos de Fada era justificado plenamente pelas massagens milagrosas. As pessoas saíam aliviadas das dores. Literalmente, o serviço começava pelos pés. Menos, logicamente, as partes mais íntimas. Ali não era lugar de massagens eróticas. Para esta sacanagem o cliente teria que procurar outro ambiente. A Mercilda jamais teria estas atitudes pecaminosas. O dia marcado pelo Rabicó finalmente chegou. Era uma sexta feira, 19 horas. Preferia que fosse depois do serviço. Teria mais tempo e ficaria mais despreocupado. A dona Mercilda pediu que tirasse a roupa e ficasse somente com a peça que tapava seu sexo. Ninguém lhe avisara que poderia vir de calção. O primeiro constrangimento do nosso amigo foi ficar somente de cuecas 77


com uma mulher que não conhecia. Achou meio estranho, mas enfrentou a situação. Deitou de bruços e a profissional cobriu-o com um cobertor. Estava frio e o Rabicó, marinheiro de primeira viagem nestas massagens, ficaria quentinho e suas “vergonhas” ficariam cobertas. Machão com suas namoradas, ficou impressionado com sua timidez perante esta nova situação. Ainda mais que sempre pensara que somente os “boiolas” procuravam uma massagista, nunca um homem acostumado com o serviço rude de pedreiro. Sentia certa vergonha da situação. Ainda bem que o Tonhão e seus amigos não ficariam sabendo. Ficaria quietinho. O que poderiam pensar? Mãos de Fada iniciou seu trabalho. Colocou bastante loção para facilitar a massagem e deslizar com mais facilidade pelo corpo do nosso amigo. Pés, pernas, até a virilha, costas, pescoço. Rabicó estava achando espetacular! Nunca uma mulher havia feito tanto carinho! Sentia um prazer que nunca sentira em sua vida, chegava a dar arrepios pelo corpo. Até tinha receio de se entusiasmar sexualmente, eis que começara a ter pensamentos mais eróticos. Sentia que estava se excitando. Será que a dona Mercilda também estava pensando em algo diferente? Não podia ser, mas suas mãos eram tão atrevidas! Ainda mais quando massageou suas virilhas. A reação daquele machão foi imediata. Oxalá, não pedisse que se virasse de frente, pois sua situação poderia ser notada. Não conseguiria mais se controlar. O pior aconteceu. A profissional pediu que invertesse a posição. O drama iria começar. Certamente ela não notaria o volume por debaixo da cueca. Seria rápido, para não ser notado. Quando se virou, conseguiu disfarçar e, se dona Mercilda notou, ignorou, acostumada com estes marinheiros de primeira viagem, jovens, com a libido aguçada. Não foi a primeira vez que acontecera. Compreendia esta juventude. Na segunda etapa da massagem, os procedimentos foram os mesmos. Pés, pernas, até a virilha, barriga, braços. A massagem das Mãos de Fada estava divina! A sorte que, quando se deitara na cama, havia se esquecido dos óculos, que colocara debaixo do cobertor. Para disfarçar seus maus pensamentos, concentrou-se no objeto. Fazia um movimento estranho, de baixo para cima, mais parecendo que estava utilizando do método solitário dos prazeres sexuais muito praticados pelos jovens para aliviar os desejos mais íntimos. Dona Mercilda compreendia todas as situações por que já passara com 78


sua profissão, ainda mais em se tratando de um jovem. Nunca permitiria tais atitudes que o Rabicó estava praticando por debaixo do cobertor. Que vergonha! Nunca passara por algo tão constrangedor. Tomou uma atitude intempestiva, no ato. Mostraria para este tarado que a massagem estava acabada e que nunca mais permitiria que frequentasse sua sala. Levantou o cobertor furtivamente, pensando em dar uma lição que jamais seria esquecida por este tarado. Que praticasse esta pouca-vergonha com suas mulheres, mais afeitas a estas atitudes. Muitas delas até ajudavam a satisfazer seus desejos mais íntimos. Ela, não, mulher séria que jamais permitiria estas libertinagens! Coitado do Rabicó! Foi pego de surpresa com a atitude da Mercilda. Jamais esperava tal reação. Apenas estava limpando seus óculos, para disfarçar seus pensamentos. O movimento que fazia parecia… Quem ficou vermelha de vergonha foi dona Mercilda, que nunca mais agiria desta forma precipitada. Os óculos ficaram limpinhos e o Rabicó nunca mais quis saber de massagens, coisa de boiola! Esta técnica poderia ser usada por suas namoradas, que certamente fariam bem melhor que a dona Mercilda.

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A candidata ideal para a política Jovem, linda, pele macia, alta, cabelos sedosos, corpo escultural, desinibida, voz meiga e sensual, olhos verdes, perfeita em todos os detalhes. Um violão! Que curvas! “Até temos que cuidar para não derrapar naquelas curvas!”, citação de um personagem de teatro a que assisti no Polivalente. Tinha uma mistura de raças que realçava sua beleza inigualável, origem italiana com alemã, digna de um príncipe. A Tatiana (ou Taty, para os mais íntimos) nascera na classe média, e com certeza ficaria famosa em todo o país. Sua cidade seria pequena para toda esta beleza. Estudou e se formou no Segundo Grau. Teve que interromper seus estudos, pois a fama logo se espalhou. Participou de concursos de beleza e conquistou diversos títulos nacionais. Até posou para revistas masculinas de circulação nacional, mostrando todos os seus atributos. Foi uma polvorosa na cidade! Festas maravilhosas, gente bonita. Homens elegantes com seus carrões e muito dinheiro na conta bancária. Certamente teve muitos momentos íntimos inesquecíveis. Desejada, frequentou mansões deslumbrantes! Enjoou de tanto glamour e badalação e voltou para a sua cidade natal. Certamente seria vitoriosa em outras iniciativas. O famoso deputado, Dr. S. J. Batista, notando sua grande capacidade política, filiou a Tatiana no seu partido, PIP, Partido dos Interesses Próprios. Há um grande movimento suprapartidário para que se candidate a vereadora da cidade, haja visto a sua grande experiência em todas as áreas da atuação humana, principalmente pelos seus contatos nacionais e internacionais com homens muito poderosos em todas as esferas. Além disso, o deputado Batista pensou que na propaganda na TV ficaria maravilhosa. Até imaginou que sua fotografia com trajes mínimos poderia ficar de fundo nos debates da majoritária. O povão iria babar, não prestaria atenção na plataforma e no discurso vazio da oposição, com certeza! Jogada de mestre! O povo estava cansado de ver homens feios e que não sabem dar um discurso convincente no plenário da câmara, ainda mais aparecendo na TV com aquelas caras e aqueles trajes ultrapassados. E pouco conheci81


mento nacional e internacional. O máximo que conheciam era o time do Internacional. Seria muitas vezes melhor ver um corpo escultural, uma voz manhosa, um rosto lindo. Nem precisaria discursar bem. Bastaria sua presença no meio daqueles barrigudos, malvestidos, antipáticos e puxa-sacos, e que nada acrescentam. Nada melhor do que a Taty! Seria perfeito! Nas sessões da câmara, seus eleitores viriam em massa e levariam a revista onde aparece nua, que mostram todas as suas curvas sinuosas, as intimidades aparecendo, aqueles seios divinos, aquela bunda torneada e queimadinha do sol, parecendo a Juliana Paes. No momento em que fosse para a tribuna, com aquele seu gingado e seu sensualismo, poderiam imaginar, só admirando, a maravilha que existe debaixo de sua roupa justíssima. A política merecia esta beleza incomparável! Aliás, acrescentaria muito para a cidade. Povo desta cidade, a nossa política merece a Taty como a mais votada vereadora da cidade. Nem precisa saber nada sobre política. Se for da oposição, vota contra, e se for da situação vota a favor do projeto em votação. Na tribuna, basta falar somente amenidades: moda, estética, maquiagem. Basta ensinar as mulheres a ficarem mais atraentes para fidelizar os maridos ou conquistar um namorado. Oxalá arraste mais três mulheres com sua votação! Todos sairão vencedores! Abaixo os homens na política! Espalhem entre o povo a revista com suas fotos em que aparece como veio ao mundo, que o voto estará garantido. Pelo menos dos marmanjos! S.J. Batista discursará nos comícios que a Taty é tão generosa que até a roupa doou para os pobres. Alma caridosa! Vamos gritar aos quatro ventos as seguintes palavras de ordem: “O POVO UNIDO COM A TATY, JAMAIS SERÁ VENCIDO!” “VOTEM NA TATY QUE JÁ POSOU NUA PARA OS SEUS ELEITORES!” OU “TATY, AQUELA QUE MOSTROU A URNA PARA O POVO”!

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O machão Valadão, apelido advindo do famoso personagem do cinema, 52 anos, trabalhador, colorado roxo, separado, pai de três filhos machos com mulheres diferentes, pé de valsa, frequentador assíduo dos bailões do interior e da periferia da cidade. Mora só ele num amplo sobrado, duas churrasqueiras, três quartos, suítes, banheira de hidromassagem e uma sacada, que tem uma vista panorâmica do bairro. Há um boato na cidade de que a Receita Federal sobrevoou de helicóptero e fotografou sua imensa obra. Nunca declarou nada para a Receita, pois sua renda não interessa para ninguém, muito menos para esses governos que botam fora nosso dinheiro com corrupção. Anda de carro velho para não escancarar seus ganhos. Se alguém quiser saber de algum acontecimento nos arredores, é só se dirigir para aquela esquina. As fofocas chegam quentinhas para o Valadão e sua equipe. Até os policiais buscam informações no local. Muitos marginais já foram presos graças à central de fofocas da “empresa”, sempre atualizada. Não escapa nada. Trabalha na parte térrea do sobrado amplo. É muito popular entre os santa-cruzenses e reconhecido pelo seu fanatismo pelo Internacional. O dia em que o colorado dos pampas conquista algum título ou o Grêmio perde alguma partida importante, no alto do mastro de sua casa coloca uma grande bandeira do seu time. Se o Grêmio perde o Campeonato, pendura um boneco, vestido com a camisa gremista, enforcado na armação que sustenta as sinaleiras. Desobedece qualquer lei de trânsito, mas a gozação aos gremistas é obrigada a acontecer. Os filhos, influenciados pelo fanatismo do Valadão, também são vermelhos xiitas. Tem uma casa de recreação em um balneário da região, na barranca do Rio Jacuí. É um fanático pescador e caçador. Gosta de se embrenhar nos matos e acampar à beira do rio. Ensinou todos os sobrinhos e filhos a gostar destas aventuras. Gosta de passar trabalho. Sempre argumenta que desperta seu lado machista. Machão, não admite que nenhuma mulher interceda na sua vida. Separou-se da primeira mulher, de papel passado, sendo desquitado, mas nunca admitiu que namorasse ou casasse com outro. Amigo de todos os 83


familiares da desposada, continua dando toda a assistência e proteção para seu primeiro amor. Só não admite morar junto. Teria que largar de seus bailões e das mulheres diversificadas que arruma nestas diversões. Fundamental para a namorada fortuita que encontra nos bailes: que seja carinhosa, saiba dançar e que tope qualquer parada no fim dos festejos. Antes de morar no seu amplo sobrado, dormia nos fundos da empresa, numa meia-água, pequena, mas que satisfazia plenamente o Valadão. Uma cama de casal, fogão, geladeira e alguns utensílios de cozinha. Num sábado à noite, de madrugada, uma mulher estava de olho no machão no baile. Ele naquele dia tinha dançado com outra e nem lhe dera atenção. Quanto desaforo e menosprezo! Ainda mais que nunca se esquecera daqueles momentos íntimos que havia passado com o insaciável garanhão. Por castigo, iria visitá-lo de madrugada, no seu “ninho do amor”. Passara duas semanas sem sexo. Cansado, o dançarino recolheu-se aos aposentos, dormiu e esqueceu-se de chavear a porta. A Joceline, Jô, para os mais íntimos, 50 anos, judiada na vida, ainda razoavelmente bonita, dentadura novinha, invadiu o local, tirou a roupa, ficou peladinha, cheia de amor para dar. Assustado, o Valadão acordou, armou-se do revólver 38 que guarda na gaveta e enfrentou a situação com muita valentia. Sonolento, pensou que fosse um perigoso ladrão ou sequestrador. Ligou a luz do abajur e deparou-se com a Jô, nua como viera ao mundo, desejosa, à sua frente. Não aguentou o apelo sensual e a malícia daquela visita inesperada! Foi uma madrugada de sexo selvagem naquele quartinho, que só terminou quando ambos escutaram o sino anunciando a missa das nove. Parecia que o som do sino saudava aquela madrugada prazerosa com a Joceline! Segundo a teoria do machão fanático, mulher é feita para satisfazer seus desejos sexuais, cuidar dos filhos e fazer comida. Usa aquela velha expressão: lugar de mulher é no tanque de lavar roupas, na cama ou na cozinha. E que não interfira na sua liberdade. Nunca admitiu e jamais permitirá tamanha ousadia por parte delas! Jamais negou nada para elas. Ganha o suficiente para sustentar as suas necessidades e vaidades. A despesa é sua e, consequentemente, a rédea também. O Valadão se defrontou com um pequeno problema na próstata. Nesta idade, não se brinca com esta doença. Criou coragem e foi enfrentar o exame. Sabia que o médico introduzia um dedo no seu reto (c…, expressão conhecida por ele) para constatar alguma alteração ou doença. Não esta84


va se sentindo muito à vontade. Deveria manter o máximo sigilo possível sobre a consulta, ainda mais que se tratava do Schmitão. O pior, ficou sabendo de uma estória que acontecera na cidade, que o paciente visitara o seu médico, depois da consulta. Luizão chegou, sentou na sala de espera, com um ramalhete de rosas e perguntou para a secretária do profissional: — Poderias conseguir um tempinho para falar com o Dr. Schmitão? — Pode ser no intervalo entre uma consulta e outra? — É rápido. Só quero falar com o Schmitão em particular. No intervalo, falou com o Doutor e entregou-lhe um buquê de rosas. — Qual o motivo por que estás me entregando estas flores vermelhas, símbolo da paixão? — Schmitão, depois da minha consulta com o senhor, não esqueci mais destes momentos maravilhosos que passei aqui no consultório. Apaixoneime perdidamente pelo Senhor. Não consigo esquecer. O Valadão enfrentou com muita coragem esta situação constrangedora, que certamente passaria logo. E ninguém ficaria sabendo. Engano seu. O açougueiro Miltão ficou sabendo. O Miltão, sempre pronto para alguma sacanagem, ligou para o amigo. — Alô, quem fala? — É o Valadão. — Aqui é o Dr. Schmitão. Como estás te sentindo após o exame? — Schmitão, está ardendo muito. O senhor me disse que não iriam ficar sequelas. Acredito que seu dedo é muito grande. Doeu muito. Virou anedota na cidade. O Miltão tratou de espalhar a estória. Todos já sabem, pelo menos os conhecidos. Quem mandou o Valadão ser machão. A gozação e a fama se espalham. Ainda bem que as vizinhas carolas da igreja não descobriram!

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as vivĂŞncias

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Os primeiros passos em Trombudo (hoje Vale do Sol) Nasci em Trombudo (Vale do Sol) em 2 de dezembro de 1950, numa casa que lá ainda se encontra, judiada, malcuidada, mas que resiste galhardamente, testemunha que foi do nascimento de toda a família do Edwino e da Elzira. Eu era o mais novo da casa. Meu pai, Edwino João Haeser, era alfaiate, ofício muito importante na localidade. Não havia estudado muitos anos, mas era muito culto. Aprendeu a ler, escrever e fazer as quatro operações de Matemática. Em casa falava a Língua Portuguesa, além da Alemã. Fez o primário completo. Na colônia, este aprendizado mínimo fazia muita diferença. Veio da vizinha Candelária e essa vivência com os moradores mais inteligentes e mais estudados da cidade proporcionou-lhe mais experiência. Tinha diversos irmãos e uma irmã. Aquele com que eu particularmente mais convivi foi o Tio Elíbio, conhecido como Libinho, que era Oficial de Justiça e um grande músico, além de um grande contador de estórias. Gostava de ouvir os fatos vividos na sua profissão. Bonachão com a gurizada, com muita paciência, contava os casos de alguns que tinha a obrigação de intimar por Ordem Judicial, mas estes reagiam com violência, ou não aceitavam. A profissão não era fácil. Os colonos, em datas importantes, como casamento, primeira comunhão dos filhos e Natal, mandavam confeccionar uma calça ou um terno novo, para ficarem bem-vestidos e demonstrar para os demais que a colheita havia transcorrido muito bem naquele ano. Na missa, nos bailes ou nos casórios era o momento de mostrar para a comunidade a sua roupa nova, confeccionada pelo alfaiate Haeser, nome de muito respeito na localidade, pois, além da profissão, lia jornais e escutava rádio, estando sempre atualizado para dar informações aos colonos. Nunca esqueço que na alfaiataria tinha um manequim masculino que meu pai deixava na janela. Os colonos que passavam de carroça, a pé ou a cavalo, cumprimentavam o boneco efusivamente. Abanavam ou tiravam o chapéu como sinal de respeito. Era muito engraçado. Na nossa casa, que se localizava bem na saída da estrada que vinha de Formosa, localidade vizinha, 10º distrito, a chegadinha dos colonos era sempre obrigatória, ávidos pelas novidades na política e na economia, principalmente de Santa Cruz do Sul. Trombudo era o seu 7º distrito. 89


O pai sempre foi um grande líder da comunidade e ajudava os candidatos a se elegerem nas suas campanhas políticas. Era filiado ao antigo PSD. A outra sigla forte era o PTB, cujo líder era o Dr. Jacobus, médico da localidade. Até hoje em Vale do Sol as eleições são decididas no detalhe. Já houve muita recontagem de votos. A rivalidade é muito grande. O prefeito Edmundo Hoppe, que militava no mesmo partido, na década de 50, nomeou-o subprefeito de Trombudo, cuja tarefa era liderar os funcionários, que mantinham as estradas conservadas, roçavam as suas beiradas, além de construir pontes e pontilhões nas mais remotas localidades do interior, entre outras inúmeras tarefas. Além deste cargo, também era obrigado a ser o subdelegado, para a apreensão dos familiares, pois lidava com os “bandidos” da época. Logicamente não se comparam com os marginais de hoje. O maior problema que acontecia era a desavença entre vizinhos, principalmente por divisas de terras. Em muitos casos, o colono, para se deslocar para a roça, usava o mesmo caminho para sua carroça. Com a proibição de invadir as terras, a briga parava na Delegacia para que o subdelegado intermediasse. A briga quase sempre era resolvida e comemorada com uma cerveja no Salão Machado. Também tinha os ladrões de galinha, que roubavam dos colonos algumas penosas para satisfazer a fome de sua família. Para justificar a vítima, o bandido era levado para o presídio, onde passaria a noite trancafiado. Meu pai não recebeu nenhum treinamento para o cargo, era só no “faro” e na coragem. Não era remunerado. Minha mãe, Dona Elzira Winter Haeser, cuidava dos cinco filhos (Adroaldo, Cláudio, Sidelga, Nilo e eu), das lides domésticas, e ainda ajudava na costura. Elzira era pessoa que irradiava alegria onde chegasse. Ainda nova, já tinha os cabelos branquinhos. As suas gargalhadas eram notadas de longe. Os vizinhos já adivinhavam que Dona Alcina, como a chamavam, estava presente. Sempre foi muito querida, bondosa e humilde. O irmão do padre Emílio, tetraplégico e mudo, quando via minha mãe, vibrava muito, a alegria saltava aos olhos. A mãe era muito benquista na comunidade. Como tinha a voz forte e lia bem, fazia a chamada das mulheres que jogariam o bolão de mesa na Sociedade de Damas. Lembro que acompanhava minha mãe para estes encontros no Salão Machado, em Trombudo. Para que não importunasse durante o jogo, ga90


nhava uma garrafa de Pepsi, que durava quase a tarde toda. Ingeria-se de gole em gole, de vez em quando, para não terminar logo. Era a única daquele fim de semana. Outra, somente no seguinte encontro das mulheres. Em casa, o máximo que se ganhava era um suco de limão-bergamota ou água da cacimba. Éramos uma família humilde, de poucas posses, mas os “velhos” sempre foram muito corretos e deixaram este legado para os seus filhos.

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As escolas do interior Estudei até a quinta série primária nas famosas “brizoletas”, quando então era governador do Estado o saudoso Leonel de Moura Brizola, que construiu, na época, 1700 destas escolas no Rio Grande do Sul, mostrando ao Brasil que a saída era a educação. A prova disto é que até pouco tempo atrás o gaúcho era considerado o povo mais culto e politizado do país. Eram prédios de madeira, pré-fabricados na capital e montados em todos os rincões do Estado. Aliás, foi a primeira fábrica a produzir prédios deste tipo no país. Ainda hoje existem por aí algumas destas escolas. Quando jovem, aprendi a língua alemã convivendo com as crianças da localidade, pois era a comunicação usual da maioria dos moradores. Em casa, só falávamos o português porque nosso pai sabia da importância do seu domínio. Na escola, seu uso seria fundamental para a aprendizagem, motivo, aliás, de sempre me destacar como o mais “inteligente” da turma. Os colegas que não dominavam o português tinham muitas dificuldades no aprendizado, principalmente na leitura e na escrita. Era muito comum a troca de letras (por exemplo, o “P pelo B”, o “T pelo D”) e a dificuldade era terrível, inclusive para a resolução dos problemas de matemática, pela dificuldade de interpretação. No recreio, corríamos atrás de uma bola de borracha ou daquelas bolas de tênis da Mercur. O “campo” era improvisado no pátio da escola, entre os plátanos. E de chão batido. Jogávamos de pés descalços e, de vez em quando, se tirava uma “tampa” do dedo, chutando o chão ou alguma raiz das árvores. Passava-se uma água limpa no dedo e continuava correndo atrás da bola. Em todas as estações do ano, o máximo que usávamos era um chinelo de couro ou alpargata (nem todos tinham). No inverno, os pés enrijeciam com o frio. Não era moleza, mas valia a pena viver. Aprendemos que só se conquista o sucesso com muito trabalho e perseverança. Nada vem de graça. Lembro-me daqueles filhos de colonos que enfrentavam muitos quilômetros para se deslocarem até a escola. Moravam nas bibocas mais longínquas. Eram muito atrasados culturalmente, sabiam somente o dialeto alemão. Em casa, não tinham nenhum conforto e viviam isolados. O vizinho mais próximo se localizava muito longe. Não havia luz. Rádio, nem 93


pensar, coisa de rico na época! As informações que recebiam eram mínimas. Apesar de sermos do interior, estes eram considerados “os colonos grossos” e aguentavam muitas brincadeiras e gozações dos colegas mais espertos. Na aula de Língua Portuguesa, o professor estava ensinando a conjugação verbal. Perguntou para o Hilbert: — Diga uma frase com o verbo “bastar”. O coloninho olhou pela janela e viu o gado no campo e não teve dúvidas e respondeu: — As vacas “BASTAM” no “gampo”. Até o professor não aguentou, a risada foi geral. Bem mais tarde, apareceram os primeiros tênis “Kichute”. Logicamente, para os guris de famílias mais abastadas e da vila. Os nossos contemporâneos se lembram da marca. Os professores eram considerados verdadeiras autoridades na localidade, juntamente com o padre, o médico, o farmacêutico e o comerciante (vendia as mercadorias no caderno e cobrava somente depois da safra). Quando algum acontecimento importante teria que ser resolvido pela comunidade, estes líderes davam seu parecer e os demais obedeciam, respeitando a hierarquia intelectual e econômica. Lembro-me dos professores, que tiveram muita importância no meu crescimento pessoal, e devo muito a Dona Leslie Scherer (a primeira a gente nunca esquece), Dona Terezinha Wink, o casal Elemar e Nougathe Bencke.

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Os bailes no interior O professor Elemar Bencke, que também era músico, fundou o famoso Jazz União de Trombudo, que fez muito sucesso na animação dos bailes em toda a região. Nunca me esqueço, eu ficava muito tempo sentado num banquinho ao lado do conjunto, apreciando a atuação dos músicos, especialmente o baterista. Tinha entre sete e dez anos de idade. Meu sonho era que um dia ganhasse um instrumento musical e que o professor Elemar me ensinasse a tocar. Infelizmente este sonho nunca se concretizou. Éramos obrigados a acompanhar os pais nestas reuniões dançantes realizadas no Salão Machado, que se localizava pertinho de casa. Era só atravessar a rua. Quando o sono tomava conta da piazada, acostumada a dormir cedo, a mãe nos colocava numa cama coletiva que ficava nos fundos do salão, enquanto os “velhos” se divertiam dançando as valsas e rancheiras tocadas pela “furiosa orquestra” contratada para o evento. Nunca me esqueço dos famosos KERB que aconteciam no Salão Machado. Três dias de festança, que se iniciavam depois da missa dominical. O salão era enfeitado com flores e folhas de coqueiros, decoração típica da colônia alemã. A comemoração iniciava-se ao meio-dia, com churrascos coletivos, em churrasqueiras improvisadas no pátio, perto do centro dos festejos. Cavavam enormes valetas e, para dar apoio aos espetos de pau, eram colocados troncos de bananeiras deitadas ao comprido. As mesas, também improvisadas, vinham dos pavilhões das quermesses. Eram colocados cavaletes e sobre eles tábuas compridas. Da mesma maneira os bancos. Fácil e rápida solução. Em cada mesa, almoçavam em torno de 20 pessoas. A carne era fornecida pelos criadores mais ricos do local, que doavam os bois para o churrasco. Antes da noite, o conjunto musical se reunia no pátio e em procissão puxava a comunidade para dentro do salão. Executava uma marchinha bem alegre e atrás vinha aquele povo, dançando descontraidamente com seus pares. A grande maioria já vinha embalada pela cerveja. A safra de fumo havia sido boa e nada mais justo que se divertir nestes três dias. Ninguém veio ao mundo só para trabalhar! 95


Outra festa tradicional das localidades do interior era o Baile de Damas, organizado pelas senhoras, esposas e filhas maiores dos colonos. Em cada vila havia uma sociedade, onde as pessoas se reuniam nos finais de semana e jogavam o tradicional bolão de mesa. Era jogado com um taco, que empurrava uma bolinha de madeira, que por sua vez passava por um pequeno túnel, cheio de curvas, construído na enorme mesa. No final deste trajeto da bolinha estavam armados os pequenos pinos, que deveriam ser derrubados. Este número de pinos era anotado no caderno pela secretária e no final era considerada vencedora aquela que mais pinos derrubou. As primeiras colocadas levavam prêmios para casa. Geralmente uma bacia, copos, pratos, açúcar, farinha de trigo. Utilidades para a casa. Todos os anos realizavam o Baile de Damas, quando as demais sociedades do interior eram convidadas para um grande torneio, que se realizava nos domingos à tarde. E à noite acontecia o baile. Antes dos festejos, faziam um grande desfile. Na frente de cada agremiação, uma associada carregava a bandeira, geralmente a presidente, seguida pelas demais mulheres, todas rigorosamente uniformizadas. O baile iniciava-se bem cedo e, nas primeiras horas do evento, quem escolhia o par para dançar era a moça solteira presente e os rapazes esperavam nas mesas. Era terminantemente proibido o homem tomar a iniciativa. Não era permitido dar “carão”, que consistia em se negar a dançar, mesmo que a moça fosse feia e desdentada. Qualquer negativa poderia ofender os pais. Diversos eventos se realizavam durante o ano em todas as comunidades do interior. Lembro-me dos salões de Linha Bernardino, Rio Pardense, Alto Trombudo, Formosa, Faxinal de Dentro, Linha Facão, e na sede tínhamos duas, Machado e Reincke, sendo a primeira a maior e mais importante. Em todos estes eventos acompanhava meus pais, apesar da tenra idade. Quando o sono nos abatia, a solução era a cama coletiva.

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As missas de domingos Domingos pela manhã a obrigação de todos os católicos era ir à missa. Fui um dos coroinhas que ajudava o padre. Tinha que chegar mais cedo à igreja para que não perdesse a vaga entre os dois principais ajudantes, que eram incumbidos de auxiliar o vigário em todas as tarefas durante a cerimônia, inclusive tocar a sineta na hora da consagração, a extrema glória para a gurizada. A liturgia era toda em latim. Tínhamos que decorar algumas respostas que dávamos para o padre durante a missa. Não sabíamos o significado, mas decorávamos as falas. Na verdade, todos os fiéis não entendiam nada, exceto os seminaristas. Homens e mulheres sentavam separados na igreja para evitar que a visão do sexo oposto despertasse maus pensamentos nos fiéis e pudessem se distrair ou desejar a mulher do próximo, um pecado capital! Neste dia sagrado, a mãe nos vestia com a roupa mais bonita que tínhamos, inclusive sapatos, que só usávamos nas ocasiões especiais. O problema maior eram as bolhas que causavam nos pés, não acostumados a este luxo durante a semana. Nosso alívio consistia em descalçá-los quando chegávamos em casa ou na saída da igreja. Muitos voltavam de pés descalços (adultos e crianças). O cascalho da rua era mais agradável e até mais confortável do que o sapato. Quando chegávamos ao lar, trocávamos a roupa domingueira. A gurizada vestia um calção ou uma calça usada, muitas vezes costurada ou furada nos fundilhos. A nova era guardada para o próximo evento importante na localidade. Os colonos vinham de longe para o compromisso dominical. Na frente da igreja, o estacionamento ficava repleto de carroças simples e outras de passeio, com molas e pneus de borracha, puxadas por burros ou cavalos. Os mais abastados tiravam o Ford 29 da garagem. Domingo era o grande dia de mostrar para a comunidade a sua prosperidade. Poucos tinham este luxo. O grande problema era fazê-lo funcionar. O motorista se instalava em seu lugar no Ford e alguém da família impulsionava o motor através de uma manivela. A maioria das vezes não funcionava na primeira manivelada. O coitado cansava de tanto fazer força. Uma vez roncando o 97


motor, lá ia a família, feliz e orgulhosa, para casa. Apesar da demora em fazer funcionar a geringonça, ainda ultrapassava todas as carroças, com a velocidade máxima de 30 km por hora. O cavalo também era muito utilizado como meio de transporte no interior, além da bicicleta, que tinha modelos especiais para as mulheres, que se diferenciavam por não ter o cano que atravessa do banco até o guidão. Como não usavam calças compridas, somente vestidos longos ou saias, imaginem se tivesse o cano, a vergonha que passariam perante os homens. Apareceria alguma parte das pernas, e seria um escândalo entre as beatas da localidade. Para que todos não faltassem a este compromisso, era terminantemente proibida a realização de bailes aos sábados, a fim de evitar qualquer atraso dos fiéis dorminhocos.

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O baile de Carnaval Um fato pitoresco aconteceu em Trombudo. Opersonagem mais importante foi o padre Emílio, hoje falecido. Os jovens progressistas daqueles tempos organizaram um baile de carnaval em pleno sábado, no Salão Machado, indo contra os costumes e o bom comportamento do rebanho católico, que estava proibido de acompanhar estas festas do “diabo”, ainda mais naquele dia. No domingo teria a Santa Missa, às oito horas. A folia corria animada pelo salão. Os jovens que não saíam de casa, meio desajeitados, não acostumados com os folguedos de Momo, evento que só acontecia na cidade, davam os primeiros pulos, animados com as marchinhas executadas pelo Jazz União. E o principal: acompanhados pelas jovens mais avançadas para uma época onde a repressão era muito grande com o sexo feminino. Os estudantes dos colégios de Santa Cruz, que voltavam para a casa dos pais nos fins de semana, tomavam a iniciativa. Para eles, o carnaval não era novidade. Até os católicos e os evangélicos confraternizavam, algo inadmissível para os mais velhos. Era uma heresia, pois, até aquela data, as quermesses e festas populares eram separadas, cada um para o seu lado. Aconteceu algo inesperado naquela noite, que chocou e deixou apreensivos os católicos. O padre se fez presente na festa. Teve o cuidado de subir numa mesa, pois do alto poderia vislumbrar melhor os presentes, principalmente os católicos. Teve o cuidado de anotar todos os nomes. Um escândalo, o padre de caderneta em punho, fazendo anotações. O burburinho foi grande. Os evangélicos aproveitaram a ocasião para tripudiar seus vizinhos e amigos católicos, pois todos se conheciam na localidade, com o escândalo causado pela presença do religioso. Trataram de espalhar o lamentável fato acontecido com os paroquianos da Comunidade São José. Não tinha internet naquela época, mas a repercussão ultrapassou as fronteiras, tanto que hoje estou relatando esta estória. As anotações do padre repercutiram. Os católicos não poderiam estar participando de um baile frequentado somente por libertinos e ateus. O castigo seria grande para aqueles hereges! 99


Na manhã seguinte, na missa das oito, o esperado e temido sermão aconteceu. E o pior: publicamente citou o nome de todos os presentes na festa pagã, primeiro na Língua Portuguesa e depois na Alemã, costume da época. Irado e veementemente, afirmou que todos seriam excomungados da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Vejam o problemão que estes fiéis teriam que enfrentar, além da ira dos mais velhos. Se ainda tivesse a Santa Inquisição, seriam todos queimados vivos, dando o exemplo para que os demais nunca desrespeitassem os ensinamentos que receberam na Primeira Comunhão e na Crisma. Que sirva de lição! O padeiro da localidade era pessoa muito polêmica, que por qualquer motivo causava um alvoroço na comunidade, principalmente nos jogos de futebol e com os vizinhos. Era terrível! Imaginem a indignação com o castigo imposto pelo vigário. Esbravejava todos os impropérios contra o padre. Enfrentava os 35 km até Santa Cruz todos os domingos e frequentava as missas da Catedral São João Batista. Lógico, na cidade Deus já havia evoluído, pensava com seus botões. Ficou inimigo do padre. Nunca mais forneceu pães para as quermesses. Este padreco iria saber com quem estava lidando!

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O trabalho dos colonos Nas horas de folga das aulas, eu visitava a casa dos meus amigos, filhos dos agricultores Osvaldo e Salome Fischer, pais de 12 filhos, onde brincávamos ou ajudávamos na lavoura. Uma das tarefas incumbidas aos menores era carregar o fumo, colhido pelos mais velhos, até a carroça. A gurizada não tinha moleza nas horas de folga das aulas. Ajudavam nas lides da lavoura. Hoje, os direitos da criança e do adolescente não permitem. Os pais mostravam a importância do trabalho na vida de cada pessoa e como era difícil buscar o sustento das numerosas famílias dos colonos. Não me lembro de nenhum marginal no meio dos meus colegas, pois desde cedo aprendiam a importância do estudo, do trabalho e da honestidade na vida das pessoas. À tarde, como recompensa, ganhava um pão de milho feito em casa, que a mãe dos amigos assava no forno à lenha, com maestria, com uma cobertura de melado, requeijão e uma espessa camada de nata. Às vezes era acompanhada por uma linguiça, feita pelo seu Osvaldo no dia em que matavam um porco criado no chiqueiro de casa, tratado à base de mandioca e milho. Que delícia! A farinha de milho era fabricada nos moinhos coloniais, cujas máquinas, que trituravam os grãos, eram movidas por grande roda d’água, que girava continuamente com a força da água. Esta vinha canalizada e, com muita velocidade, impulsionava as máquinas do moinho. Até hoje é atração para os mais jovens. O colono que tinha algum milho sobrando o levava ao moinho para ter a farinha que garantia o consumo próprio. Os agricultores geralmente deixavam para os dias mais frios e chuvosos a atividade de carnear algum porco da propriedade. Era costume o vizinho mais próximo ser convocado para ajudar na matança. Como recompensa, levava um churrasquinho para casa. A gurizada ficava eufórica. Sinal de que ao meio-dia haveria churrasco de porco, cuja carne era muito gostosa, pois os suínos eram criados à base de mandioca e milho, cultivados em abundância na propriedade. No mesmo dia, a carne era moída pelas mulheres, temperada com muito esmero e, depois, eram feitas as linguiças, acondicionadas nas tripas do porco, que eram cuidadosamente limpas. 101


O fogo era aceso de manhã cedo e a água era fervida em um grande tacho de ferro. Depois, era usada para colocar sobre o porco e raspar os pelos do animal com mais facilidade. Carneado, as carnes eram cortadas com faca e serradas com serra manual, e toda a gordura era jogada para dentro do tacho, onde fritava sob intenso fogo, separando a banha e o toicinho. A banha era usada na cozinha e era guardada em latões. Azeite não existia. O toicinho era prensado numa máquina especial, cuja banha, que ainda era extraída, corria para a lata. Quem já comeu o torresmo, ou kriba, assim denominado no nosso dialeto alemão? Gostoso, proibido pela medicina por causa do colesterol alto, quem já consumiu agora sabe como era feito antigamente. A carne que sobrava depois de frita era guardada em latões, misturada com banha para conservá-la por tempo indeterminado. Não existia luz elétrica e nem geladeira. Os colonos mais abastados tinham geladeiras à gás. As galinhas eram criadas soltas no pátio. Comiam de tudo. A certa hora do dia, todas eram atraídas para perto da casa e tratadas com milho. À noite, se recolhiam para os poleiros, especialmente construídos, para não serem vítimas dos predadores, que eram as raposas. Por isso a expressão: “As próprias raposas vão cuidar do galinheiro”. Nada a ver com os dias atuais em Brasília. Aquelas galinhas que seriam abatidas para consumo próprio eram presas num cercado e tratadas somente com milho. Ficavam algumas semanas assim, para limpar a carne das impurezas que consumiam, livres no pátio. Toda colona caprichosa mantinha uma horta sortida pertinho da casa. Cultivava de tudo. Um pouquinho antes das refeições era só colher a verdura que necessitasse para acompanhar. A horta era o cartão de visitas da propriedade. A mãe também costurava com aquelas velhas máquinas movidas com os pés, que aprendera com sua mãe, que aprendera com… Faziam roupas novas ou reformavam as usadas pelos filhos mais velhos, e que seriam utilizadas pelos mais novos. Um passava para o outro. Para ir à roça, roupas bem velhas e cheias de remendos nos fundilhos e nos joelhos. Outra incumbência das mulheres era a feitura de compotas de doces para sobremesa (figo, ameixa, pêssego, pera) e conservas, principalmente pepinos. Também faziam a schmier caseira, que era usada para passar no pão. Quando a noite se aproximava, a mãe preparava a janta, enquanto o pai e os filhos tratavam os animais e concluíam as últimas lidas do dia. 102


As filhas ordenhavam as vacas, uma vez de manhã e outra antes da noite. O banho, no inverno, consistia numa meia sola no tanque, cuja água vinha da cacimba ou de algum córrego num local mais alto da propriedade, e que corria através de um cano puxado até a casa, sem nenhuma pressão, mas que quebrava o galho. Tiravam o suor do dia, lavavam os pés, as axilas e os braços. No inverno, banho completo mesmo somente aos sábados. A mãe preparava a água quente, misturava com a fria e enchia um latão com um chuveirinho improvisado. Não poderia demorar, pois a água terminava logo. Não havia sabonete. Era usado o sabão feito em casa ou, no máximo, sabão de coco, comprado na venda. Este era usado para lavar o cabelo. Depois da janta, pelas 21 horas, todos para a cama, que no outro dia teriam que levantar cedinho, ordenhar as vacas, tratar os animais… Certa vez, numa reunião, Dom Alberto Etges, nosso saudoso primeiro bispo, lamentou que a eletrificação rural estivesse entrando a passos largos na colônia. Alguém retrucou e disse a ele que isso era bom, que o colono teria luz elétrica, refrigerador, motor para a bomba do poço e assim por diante. Dom Alberto então falou: “É, mas junto vêm as parabólicas e a televisão, e isto é ruim. A cultura da colônia será alterada, os costumes serão influenciados pelas novelas cariocas, as músicas não serão mais as mesmas e as vocações religiosas irão diminuir muito!” Que visão de futuro tinha o nosso bispo! Nos dias de hoje não vejo mais esta inocência do homem do interior. Infelizmente, todos aculturados pelas redes de televisão. As bibocas estão repletas de parabólicas. Não se faz mais colono como antigamente! Dom Alberto tinha razão.

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Bandidos × Mocinhos Outra brincadeira comum naqueles tempos (década de 1940-50) consistia nas brigas dos mocinhos contra os bandidos, imitando os gibis (revistas em quadrinhos), que eram a nossa leitura predileta, quando algum meninos rico os emprestava para os mais pobres. Nestas revistas apareciam os grandes heróis como o Zorro, Billy The Kid, Tarzan, entre outros, e que realmente prendiam os malfeitores, nos ensinando que jamais os do mal venciam os do bem. Infelizmente, hoje, em alguns casos, inverteu esta verdade do passado. O nosso cavalo era feito de uma taquara, onde amarrávamos uma corda, que servia de rédea, e na cintura usávamos revólveres de brinquedo. Todos tinham de 6 a 12 anos de idade. O cavalo mais veloz era aquele montado pelo guri mais rápido na corrida e com mais resistência. No bar, construído com muito esmero pela gurizada, dava-se o encontro entre os mocinhos e os bandidos. Fatalmente acontecia o desentendimento, ocasionando sempre um tiroteio intenso. Os tiros eram emitidos por cada menino, escondido atrás de algum abrigo. Era “bam, bam, bam” que não acabava mais. Alguns usavam a espoleta, mas esta falhava muito e custava caro. Depois de a confusão ter cessado, o problema era saber quem matava quem, dando discussões muito sérias e às vezes até brigas à tapa entre os amigos. A coisa era séria. O uísque tinha que ser forte, como ensinava na revista, e usava-se o limão bergamota exprimido no copo, sem açúcar. Era servido no balcão pelo dono do salão. O dinheiro usado para o pagamento consistia em carteiras de cigarros vazias, sendo que as mais raras tinham maior valor. A cadeia era construída com taquaras de bambu, reforçada para que não houvesse perigo de o bandido fugir. Tinha até um soldado que ficava como guarda dos presos. Estas brincadeiras aconteciam num mato nos fundos da Escola Evangélica Osvaldo Cruz, e os personagens eram todos guris da vila, filhos daqueles que não exerciam a profissão de agricultores. Estes não podiam participar, pois ajudavam os pais na lavoura. Havia trilhas na mata e a maioria delas davam para o riacho, onde construímos os famosos fortes dos índios Apaches, considerados gente 105


malvada, ideia passada nas revistas americanas e nos filmes que rodavam nos grandes centros. A construção ficava na outra margem do rio. Os índios, todos pintados, nos esperavam com arcos e flechas para se defenderem e realmente atiravam contra nós, sendo que nos protegíamos atrás de alguma árvore a fim de não ter um olho furado. O arco era confeccionado com um galho de árvore que não quebrasse. Tinha que ser resistente para poder encurvar. As flechas tinham uma ponta aguda e realmente machucavam se acertassem algum menino. Algumas vezes alguém se feria com a brincadeira, mas nada que um bom curativo feito pela mãe não resolvesse. Depois das brincadeiras, todos confraternizavam, mocinhos e bandidos, tomando um gostoso banho no poço do Arroio Plums. Todos eram exímios nadadores e mergulhadores. Os mais corajosos subiam numa árvore e saltavam de ponta-cabeça na água. Outros usavam os cipós: davam um grande impulso a partir do barranco, geralmente bastante alto, e se jogavam na água. A alegria contagiava estes meninos inocentes do interior.

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Aventura Esta aventura dos jovens realmente era perigosa. O nosso grande desafio foi escalar uma montanha que separa Trombudo de Formosa. Vejam que loucura! Mato fechado, cobras peçonhentas, que se criavam no meio das pedras. Um perigo! Os pais não sabiam desta aventura dos moleques! Levávamos uma corda comprida e o guri que se sobressaía em escalada achava uma maneira de encontrar o melhor caminho para subir e, já lá no topo daquele morro, amarrava a corda e os demais escalavam com o auxílio da mesma. Depois de muito esforço, conseguíamos alcançar nosso objetivo. O mato era muito fechado e, com um facão, abríamos as trilhas. Só que estávamos perdidos, não sabíamos qual o lado da saída. Caminhamos a esmo. Até que um clarão apareceu e vimos uma grande plantação de milho. A salvo, vimos um bando de macacos devorando o milharal. Coitados dos colonos, trabalho perdido! Outro problema surgiu para os aventureiros de primeira viagem: como voltar para Trombudo. Sei que caminhamos muito por caminhos desconhecidos, atravessamos muitas plantações, seguíamos os caminhos de roça e finalmente nos localizamos. Avistamos o Arroio Plums. Estávamos em Linha Bernardino, localidade vizinha. Seguimos o curso do arroio e chegamos sãos e salvos em Trombudo. Cansados, mas felizes e orgulhosos da nossa aventura. Deu o que falar na localidade!

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Os jogos de bolita O jogo de bolas de gude (bolitas) representava uma verdadeira febre entre os amigos da época. Marcou muito nossa infância. Segundo os mais velhos, antigamente o jogo era feito com as bolitas de vidro que vedavam as garrafas de “gasosa”, refrigerante de limão. As bolitas eram retiradas quebrando-se as garrafas… Muita chinelada deve ter sido dada por causa das garrafas quebradas para confeccionar as bolitas. Mais tarde eram vendidas nos armazéns e botecos. Era jogado num terreno preferencialmente plano, onde se desenhava um triângulo em que eram postas as bolitas e uma linha reta a certa distância do mesmo, chamada de raia. Cada jogador lançava sua “joga” o mais próximo possível da linha. Quem ficasse mais próximo era o primeiro a jogar. Os jogadores deveriam acertar as bolitas do triângulo e aquelas que saíssem eram suas. Levava vantagem aquele que tivesse a melhor mira. Tínhamos colegas exímios na arte de acertar as bolitas e esta fama logo se espalhava na localidade, pois “pelavam” os adversários em poucas horas, isto quando o jogo era considerado “às deva” ou “verdas”; e quando não valia nada, era “às brincas”. São termos usados naquela época, que significavam apostas de perder ou ganhar as bolinhas de gude que o jogador conseguisse acertar e tirar do triângulo. Outro termo, quando não havia aposta, era “jogo de brincadeira”. Nem sempre a jogadeira ou “joga” era a bolita mais vistosa. Muitos raspavam a “joga” para ficar áspera e não escorregar na hora da jogada. Alguns usavam uma joga de aço, tirada de rolamentos velhos, que muitas vezes era proibida, pois quebrava as outras bolitas. As bolitas mais bonitas, que chamávamos de “argentinas”, tinham desenhos internos no vidro. Os meninos mais abonados tinham bolitas alemãs, de ágata. Havia também os bolões, que eram bolitas com o dobro de diâmetro das normais. No jogo, a mira era feita com a bola colocada na ponta do indicador e impulsionada pela unha do polegar. Quem jogava assim era considerado um ás… Os que mantinham a bolita acomodada no interior do indicador e depois a impulsionavam pela unha do polegar dizia-se que jogavam “cu de galinha”… Nos jogos “às ganha” aconteciam muitas discussões e brigas entre a 109


gurizada. Ninguém gostava de perder, pois então teria que comprar novas bolitas no armazém, e nem sempre o pai liberava os “pilas”, como chamávamos o dinheiro daquele tempo. Era muito escasso. As bolinhas eram carregadas num saquinho de pano, que as mães costuravam em casa. Não trazíamos todo o estoque para os jogos. As mais bonitas ficavam numa caixa. As argentinas, famosas pelo colorido, eram colocadas para serem apostadas no jogo, conforme o estado. Por exemplo: novinha valia duas ou mais das comuns. O troco era dado na hora. As lascadas não valiam quase nada. Para cada bolinha nova, eram colocadas diversas danificadas. As regras do jogo todos conheciam. Eram brincadeiras muito comuns nas casas dos amigos e na escola. Antes de entrar na sala de aula, o professor recolhia os sacos de bolita, pois elas faziam muito barulho e atrapalhavam as aulas. No fim, eram devolvidas… Nunca fui muito bom nesta prática, pois jogava “cu de galinha”, comum para quem aprendia quando criança. Jogava somente “às brincas”, não iria me meter com os “cobras” da bolinha de gude. Eram certeiros na pontaria, acertavam de longe e geralmente “pelavam” as bolitas daqueles que não tinham a mesma habilidade.

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Os presentes no Natal No Natal, o presente tradicional dos meninos era uma bola, e o das meninas, uma boneca. Os mais abastados ganhavam uma bola de couro, geralmente oval, feita pela fábrica do Hoppe, em Santa Cruz. Os meninos pobres tinham que se contentar com uma bola de borracha, que, quando chutada, fazia arder os pés descalços. Não havia tênis. Para o goleiro era um verdadeiro martírio. Dependendo da força com que era chutada, deixava uma marca vermelha nas costas ou na barriga, onde batia. Os times que jogavam no campinho da Escola Osvaldo Cruz eram formados pelo dono da bola de couro, na maioria das vezes “perna-de-pau” e muito chorão e mimado. Os demais guris eram criados à base de vara de marmelo. Quando o mimado dono da bola se incomodava por uma “canelada” mais forte de algum guri, ou se seu time estivesse perdendo, terminava o jogo. Levava o seu “brinquedo” triunfalmente para casa. No outro dia, depois de muita conversa e de concessões, voltávamos a jogar, mas tomando o cuidado para não incomodar o nosso poderoso amigo “dono da bola”. Numa tarde destas, jogávamos no campo da Escola Evangélica Osvaldo Cruz e, repentinamente, tive a ideia de convidar a turma para olharmos um trator de esteira, que trabalhava a 1 km de onde nos encontrávamos. Estavam abrindo um açude para o Dr. Luiz Jacobus. Este açude acredito que ainda exista e hoje quem mora na chácara é o Formigão, famoso radialista da Gazeta e filho do famoso médico, já falecido. Tínhamos todos a idade entre oito e dez anos e lá fomos, curiosos para assistir ao trabalho desta poderosa máquina. Lá chegando, vimos quatro colegas que subiram na parte traseira do trator em movimento, algo irresponsavelmente admitido pelo operador da máquina. Fui convidado pelo colega Flávio para também dar uma volta e aceitei, ficando no lugar dele. Na primeira volta, o trator deu uma ré e imprensou meu pé contra um toco que havia sido desenterrado, sendo que o pau entrou, literalmente, no meu calcanhar, causando uma dor insuportável. Socorrido às pressas, fui levado para o hospital. 111


Resumindo: sofri quatro cirurgias, quase perdi o pÊ e fiquei um ano vendo os meus colegas brincar. Foi um período de muito sofrimento para mim e para meus familiares. Hoje, graças a Deus, caminho naturalmente, mas a cicatriz ficou para sempre. E o promissor jogador de bola pendurou as chuteiras para sempre.

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As novelas no rádio Antes da televisão, o grande meio de comunicação era o rádio, ligado a uma bateria ou na luz, onde houvesse. Para funcionar, esperavam-se alguns minutos, até que as válvulas esquentassem. Um dos programas preferidos da minha mãe era escutar as rádio-novelas, que iam ao ar todos os dias após o Repórter Esso, tradicional noticiário apresentado pelo famoso locutor Lauro Hagemann, que pouco tempo atrás foi vereador em Porto Alegre e que fez história na radiodifusão gaúcha. Quando tocava a música característica do noticiário, todos aqueles que tinham rádio ficavam atentos. Raríssimas famílias tinham dinheiro para comprar o aparelho, caríssimo para a grande maioria do povo. Se não me engano, o apresentador era natural de Trombudo. Sei que o tio dele, seu Luiz Hagemann, morava naquela localidade. (Um parêntese: nunca esqueço o negro velho, cabelos brancos, surdo e mudo, que morava na chácara do seu Luiz. Não era comum acontecer isso no interior, havia muita discriminação.) Às treze horas em ponto, sentávamos, eu e minha mãe, próximo ao aparelho de rádio, e atentamente escutávamos o desenrolar dos capítulos, cujos personagens eram representados pelos artistas de teatro daquele tempo. Eram verdadeiros atores. Conseguiam transmitir as emoções somente na companhia de um frio microfone. O interessante era a imaginação que se aguçava em cada ouvinte, pois cada um construía, pela sua ótica, o local onde se desenrolava a história, as paisagens, as casas, as ruas, a característica física dos personagens. A mente não podia ficar preguiçosa, a imaginação tinha que funcionar. Hoje, recebemos tudo pronto pela TV. Fica bem mais fácil. Era impressionante a qualidade dos atores de teatro, que representavam as personagens de gente boa, má, os galãs e as moças que deveriam ser conquistadas para um final feliz. Tudo sempre terminava em casamento. Antes, acompanhado por um beijo apaixonado na boca, nada comum naqueles tempos. As performances dos artistas atingiam as pessoas no seu íntimo, mexendo com as emoções de cada um. Quantas vezes via a minha mãe rindo, chorando, xingando, vibrando, realmente “vivendo” cada episódio da trama. 113


A novela “O Direito de Nascer” foi um verdadeiro fenômeno de audiência nas novelas de rádio, hoje comparado com as novelas da TV Globo, respeitando-se as proporções de público da época e de hoje. Quem não tinha o aparelho de rádio, escutava no vizinho. Não perdia um capítulo sequer. Inesquecível!

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O inédito aparelho de TV Outro acontecimento que marcou época em Trombudo foi na década de 1960, quando surgiu o primeiro aparelho de televisão. Foi comprado pelo seu Machado, dono do salão de baile e da rodoviária, homem de muitas posses e muito respeitado na comunidade. A notícia da compra logo se espalhou como pólvora na localidade. Despertou a curiosidade daqueles que nunca tinham visto este aparelho, que refletia imagens. Coisa de outro mundo, incompreensível para aqueles ignorantes do interior. Esta conquista que ficava só no sonho da grande maioria pobre, que mal conseguia sustentar a família. Só os ricos tinham acesso à novidade. Custava uma fortuna! No fim de semana, tínhamos direito de assistir aos programas da TV Piratini, canal cinco, pioneira na retransmissão dos programas gerados pela TV Record, de São Paulo. Um dos programas gerados pela Record era do palhaço Carequinha, grande ídolo das crianças. Que saudades de um palhaço que marcou época no Brasil e realmente agradava às crianças! Tínhamos uma verdadeira admiração. O Carequinha era nosso ídolo. Até hoje pode ter aparecido algum palhaço parecido, mas este era especial. Divertia e ensinava as crianças do seu tempo. Uma das únicas atrações da TV local acontecia no ginásio da Brigada Militar: as lutas livres. Um estupendo sucesso em todos os recantos do Rio Grande e no Brasil. Grandes embates aconteciam. Os lutadores que tinham mais técnica venciam àqueles que usavam de golpes baixos na luta. Era comum apanharem durante a grande parte do embate, mas no último assalto davam uma surra no adversário, que levava o público ao êxtase. Este vibrava com a recuperação do lutador considerado de bom caráter. Sabíamos que era marmelada, mas mesmo assim levávamos a sério. A torcida era grande para o lado dos bons. A imagem gerada era de péssima qualidade. Cheia de chuviscos. O que realmente importava era a novidade, nunca vista pelo povo do interior. O único grande problema que acontecia no salão: o dono não admitia que os guris assistissem aos programas sem gastar com alguma bebida, 115


balas ou pirulitos. Os adultos tomavam cerveja. O difícil de acontecer era ganhar algum dinheiro dos pais. Os mais abastados compravam pirulitos para os mais pobres e estava resolvido o imbróglio, evitando assim que fossem expulsos do ambiente. Não tinha perdão. Gastava alguma coisa ou não podia assistir aos programas!

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O colono que vivia nas bibocas Neste resgate, de 30 a 50 anos atrás, vou falar daqueles agricultores que se criaram longe da civilização, sem rádio ou qualquer tipo de cultura mais avançada. Viviam naquele mundinho deles. O máximo de companhia eram os parentes que moravam por perto ou alguns conhecidos há muitos quilômetros de distância, mas que diziam que eram vizinhos e moravam logo ali adiante. As estradas eram precárias, caminhos de roça usados pelos carroceiros. Para se deslocar para a sede do distrito ou para a cidade, tinham que viajar usando as carroças de bois ou burros até que alcançassem a estrada geral, onde passava algum ônibus de linha, que se deslocava até a localidade central. A carroça e os animais eram deixados na casa de algum morador do local. Um ajudava o outro. A solidariedade era natural. Cada localidade tinha seu dialeto ou maneira de se expressar na língua alemã. Português, nem pensar. Essas pessoas eram boas e sinceras. Não tinham maldade. Desde que não se mexesse com algum conhecido ou familiar. Usar o facão era comum nas desavenças. Quando chegavam a Trombudo, um pouco mais evoluída, logo eram notados. Desajeitados, ariscos, desconfiados, com medo de serem enganados. A comunicação, péssima, limitada. Coitados, os espertos da “cidade” faziam chacotas com eles. Ainda bem que não notavam. O problema era enfrentar a grande cidade de Santa Cruz. Para atravessar alguma rua, que medo! O homem tomava a iniciativa. A coitada da mulher vinha correndo atrás do marido, que caminhava depressa. Todos da cidade notavam quando se tratava de algum “grosso” vindo do interior. Corriam para transpor a rua e a coitada da mulher que se virasse, pois vinha lá atrás em desabalada correria para não se perder do “educado” marido. Ela que se virasse, pois a pele dele estaria a salvo! No comércio, falar a língua alemã para o atendente era fundamental. Se não soubesse, o colono simplesmente não entrava no estabelecimento. De preferência que alguém já o chamasse para dentro da loja na língua que entendia perfeitamente. Se não, nada feito. A grande tradição do colono (e que ainda continua hoje), quando ganhava o dinheiro do fumo, antes de pegar o ônibus, era comer alguma 117


coisa e tomar uma cerveja no Bar do Sulzbacher. A rodoviária ficava na outra esquina. Lá, os colonos ainda se encontram até hoje. O dono do bar conhece a mania do pessoal do interior. Os pastéis, a linguiça, o bolinho de carne, o frango, tudo que é de comer tem que ser enorme para satisfazer este agricultor, acostumado a comer exageradamente pelo esforço desprendido na lavoura. Nas viagens de ônibus era permitido fumar cigarro de palha, charuto e até cigarro industrializado. As janelas vinham todas abertas. O grande problema nem era o fumo (a ele todos estavam acostumados), mas as axilas, que exalavam um cheiro de suor que se sentia de longe, insuportável. O banho era algo raro; desodorante, nem em sonho. Haja nariz para aguentar! Quando lecionei em Trombudo, enfrentava este problema três vezes por semana. Poeira, palheiro, superlotação, suor. Era um suplício!

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Mudanças do interior para a cidade Entre 1962 nos mudamos para Santa Cruz para continuar estudando. Em Trombudo, o máximo que se podia alcançar era o quinto ano primário. Como nos mudamos para a cidade no início do ano letivo, para não ficar sem estudar durante aquele ano, repeti a quinta série no Colégio Bartholomay, antigamente localizado na Rua Thomas Flores. Hoje continua pertinho do antigo endereço. Vou contar a minha primeira grande decepção na cidade. Acostumado com uma educação rígida e de muito respeito com os mais velhos, sendo os nossos professores considerados verdadeiros heróis no interior, fiquei estupefato pelas colossais desordens e pela bagunça que os alunos faziam na sala de aula. Não permitiam que a professora Dolores, magrinha e boníssima, passasse a matéria. Jogavam basquete com as borrachas de apagar. A cesta improvisada ficava entre o quadro negro e a parede. Faziam guerras com papéis, davam cascudo uns nos outros, gritavam, desrespeitavam as meninas, era um caos! Os alunos que não acompanhassem na malandragem sofriam ameaças e, às vezes, levavam uma surra no final da aula. Os líderes eram fortes e prevalecidos. A minha adaptação se deu à força. Hoje chamam de um nome em inglês, bullying, muito difundido nos dias atuais. Meus pais moravam na Rua Ramiro Barcelos e nosso terreno fazia fundos com a Travessa Antônio Zimmer. O bairro era chamado de Atrás do Céu, que fazia divisa com a Rua Rio de Janeiro. Fiquei decepcionado quando nossas autoridades não tiveram a sensibilidade de manter o antigo nome, que estava incorporado na tradição da nossa cidade. Localizava-se pertinho do centro, local mais alto e, por isso, chamado de Atrás do Céu. O bairro tinha três ruas: Ramiro Barcelos, Travessa Zimmer (os irmãos e pais desta família, os parentes, moravam todos naquela rua) e a Rua Rio de Janeiro, bem curtinha. Dava acesso à Chácara das Freiras e à caixa d’água, que abastecia o Hospital Santa Cruz e o Colégio das Irmãs. Naquela rua morava o delegado regional de Polícia, Itamar dos Reis, aficionado na criação dos galos de rinha, cujas brigas aconteciam no Faxinal. Não eram proibidas. As apostas extrapolavam o orçamento de muitas famílias, pois viciava as pessoas que gostavam disso. Hoje daria 119


para comparar com os famigerados jogos eletrônicos. O nosso divertimento preferido se dava nos campos de futebol, quando se fazia os famosos jogos contra a turma que morava na Rua Rio de Janeiro (os de cima), e nós (os de baixo) éramos os que residiam antes da subida. Era muito difícil terminar um jogo sem dar uma grande confusão entre os jogadores, pois a rivalidade era exagerada. Os “estádios” localizavam-se nos terrenos baldios, geralmente irregulares, e as goleiras eram feitas de taquara. Estes embates eram muito esperados pela gurizada. Geralmente terminavam em confusão. Não existia juiz e cada um interpretava o lance à sua maneira, puxando a “brasa” para o seu time.

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Futebol de mesa Outro esporte muito disputado era o futebol de mesa, especialmente fabricada para tal fim, jogado com botão de camada. Cada guri tinha um time formado por titulares e reservas, sendo que o Grêmio e o Internacional eram representados por aqueles que tivessem o melhor plantel. A bola era um botão de camisa bem pequeno, geralmente tirado da camisa social do pai ou comprado nos secos e molhados do Helfer. O meu time era o Cruzeiro, de Belo Horizonte. Recordo-me ainda de alguns nomes de jogadores. Recortados do jornal e colados com fita adesiva Durex em cada botão: Wilson Piazza, Dirceu Lopes, Tostão, Nelinho… Os jogadores de botão tinham valor de troca ou de venda, conforme a sua atuação e na precisão dos chutes a gol. O goleador do time, este sim valia uma “fortuna”, praticamente inegociável. Hoje seria comparado aos grandes craques de futebol, cujo centroavante também tem o valor que nenhum jogador alcança. Basta ser goleador. Se a transação acontecesse, recebíamos diversos botões do comprador. Muitas vezes nos arrependíamos do negócio. O time deixava de ser competitivo. Faltavam os gols, acostumados que estávamos com o nosso craque. Os jogos aconteciam sábados à tarde na casa do Braun ou do Hitler, apelido de Paulo Zimmer, já falecido, irmão de meu cunhado Norberto. A aglomeração era grande. Os jovens do bairro e mais aqueles das ruas vizinhas vinham assistir. Ficavam sempre de olho em algum jogador que se sobressaísse nos jogos. Tinha que ser goleador e também fazer gols de longa distância. O juiz era escolhido na hora, tomando-se o cuidado de ser um cara equilibrado e neutro, preferencialmente alguém que morasse em outro bairro. Os campos, confeccionados por marcenarias, assemelhavam-se aos de futebol. Eram postos sobre cavaletes. Para os jogadores deslizarem melhor, passávamos parafina no tablado, na palheta e nos jogadores. As regras tinham como base as do futebol. O campeonato se estendia durante meses e foi uma fase muito interessante da pré-adolescência e da adolescência. Movimentava a juventude daquele tempo. 121


A matinê Domingos à tarde o programa obrigatório dos jovens era se deslocar ao matinê no Cinema Apolo ou no Vitória. A noite era reservada para os adultos, acima dos 18 anos. Estes dois cinemas foram muito importantes para a formação dos moradores de Santa Cruz. O cine Apolo e o Vitória eram enormes. Conforme o filme, lotavam. Nunca me esqueço dos filmes da Sissi, sendo sua atriz principal a famosíssima Romy Schneider; Marcelino Pão e Vinho, os filmes de Elvis Presley, da Jovem Guarda e também os filmes de Teixeirinha. O Cine Apolo se localizava onde hoje é a Câmara de Vereadores e o Vitória onde hoje se localiza o Hotel Charrua. As filas faziam voltas na quadra. Assistíamos aos famosíssimos filmes americanos de faroeste com John Wayne, Jack Palance; os italianos com o Giuliano Gemma; às chanchadas brasileiras de Mazaropi, Grande Otelo, Zé Trindade, Oscarito; e ao mexicano Cantinflas. Antes de a sessão se iniciar, e no intervalo, a troca de gibis acontecia. A gurizada trocava entre si as revistas em quadrinho do Zorro, Pato Donald, Mickey, Zé Carioca, Patinhas, Billy The Kid, Roy Rogers, Fantasma, Bolinha, Tarzan, Luluzinha, entre outros, tornando o saguão de entrada uma verdadeira feira ambulante. Como o dinheiro era escasso, era uma forma de os meninos renovarem a sua leitura da semana. Antes do início e no intervalo da sessão, passava entre os corredores do cinema o vendedor ambulante. Carregava uma caixa pendurada no pescoço, abarrotada de bombons, pirulitos e chocolates. Fazia a alegria da garotada, que enchia os bolsos com estas gostosuras, que eram devoradas durante a exibição do filme. No saguão, vendiam pipocas feitas na hora. Foi no matinê que os adolescentes tiveram as suas primeiras aventuras com o sexo oposto. Estrategicamente nos sentávamos na fileira de banco que se localizava logo atrás das meninas mais bonitas. Quando as luzes do cinema apagavam, começava nosso assédio. O sinal era pegar nos cabelos da pretendida menina. Se aceitasse sem protestar, pedíamos para sentar ao seu lado. Era quando se iniciava a nossa sessão. O filme já não interessava mais. Os primeiros carinhos, beijinhos e as aventuras próprias dos adolescentes, aconteciam durante a exibição do filme. Tudo acontecia no escurinho do 123


cinema. O único problema era o lanterninha do cinema: se nos pegasse em alguma atitude mais atrevida, éramos expulsos do ambiente. Não tinha muita moleza! O lanterninha era meu amigo Gilberto Gabe, o popular “GG”. Sua função consistia em levar as pessoas mais abastadas para o segundo piso, cujas 242 cadeiras eram estofadas. As demais, que se localizavam no térreo, eram de madeira. No total, havia 2.400 lugares. Além de guiar as pessoas para seus lugares, o GG cuidava também da disciplina. Terminada a sessão, cada um seguia o seu caminho, fazendo de conta que nunca haviam se visto. No próximo domingo, talvez se encontrassem novamente, dependia do dinheiro da entrada. O dinheiro era muito escasso e nem em todos os domingos os pais liberavam o valor do ingresso. Não tinham. Muito mais importante do que a matinê era comprar um quilo de feijão. À noite, muitas vezes exibiam um filme proibido para menores de 18 anos, estrelado pela famosa Brigite Bardot e por Libertad Lamarque. Era considerada uma grande vitória o amigo adolescente que conseguisse “furar” na portaria, enganando o bilheteiro. Era menor de idade, mas sua altura enganava. No outro dia tinha a obrigação de contar para a turma o desenrolar do filme, que no máximo mostrava seios nus ou alguma perna desnuda, em cenas recheadas de beijos alucinantes, risíveis para nossa juventude atual. Hoje, os filmes da tarde (ou as novelas) seriam considerados pornografia pesada. Os costumes mudaram!

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Admissão ao ginásio Nos anos 60/70 se fazia o Admissão ao ginásio. Para aqueles que não pertenceram a nossa geração, explico. Naqueles anos, os alunos que vinham do primário tinham que se submeter a uma espécie de vestibular. Nesta seleção só conseguia êxito aquele que tinha feito um bom primário. As turmas que passavam nesta seleção eram mais homogêneas. Fiz os quatro anos de ginásio no Colégio Estadual Ernesto Alves de Oliveira, que se localizava bem defronte ao quartel. Ficava nos fundos do Colégio Santa Cruz, que tinha somente o primário (hoje seria o fundamental). Nos anos 60/70, as escolas estaduais tinham uma qualidade invejável. Os professores eram os do Colégio Mauá e do São Luís e o nível de exigência era muito rígido. Nos vestibulares, os alunos competiam de igual para igual, logicamente aqueles que tinham condições de continuar os estudos, que eram poucos. Aqueles anos em que estudei no Ernesto Alves foram muito difíceis para mim. Fui um aluno revoltado. Vivia sendo expulso da sala de aula, principalmente nas de Alemão, com a Frau Klemm, professora de um coração do tamanho do mundo, baixinha, gordinha. Tinha muita facilidade na matéria. Falava a Língua Alemã, aprendida no meio da colônia alemã, em Trombudo. A malandragem aprendi no ano anterior, na Escola Bartholomay. Cheguei a ser aconselhado a sair do diurno e estudar no noturno. O diretor Ivo Muller sugeriu que estudasse no meio dos adultos para adquirir mais maturidade. Alegou que eu estava dando mau exemplo para os alunos mais novos. Se continuasse, seria expulso, definitivamente, da escola. O “castigo” deu certo e foi uma bela lição de vida. Hoje compreendo o motivo de tanta revolta, pois em plena adolescência, quando chegava ao lar, via minha mãe morrendo aos poucos, estava com câncer terminal e a tristeza da eminente perda deixava-me arrasado. Descontava na escola. Esta é explicação que hoje encontro para tanta desobediência. Iniciei o 2º Grau no curso Científico, na mesma escola, que basicamente preparava para o vestibular, mas não gostei das matérias, tendo muita 125


dificuldade com a Química e a Matemática, e desisti. Hoje minha filha mais nova se sobressai nestas matérias. No ano seguinte, fiz a matrícula no Colégio São Luís, no curso de Técnico em Contabilidade, ministrado à noite, durante três anos. Infelizmente, perdi meus pais muito cedo, ficando órfão entre os 16 e 18 anos, mas continuei morando na casa que meu pai havia adquirido na Rua Ramiro Barcelos (Atrás do Céu), com meu irmão Nilo, recém-casado com a Célia, e lá fiquei até o meu casamento com a Lizete, em 1977.

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O legado que ficou dos pais Uma história que marcou muito a minha vida foi quando o meu pai, seu Edwino, faleceu. Dormia na casa da Sidelga Zimmer, minha irmã, quando de madrugada chegaram o irmão Cláudio e o cunhado Norberto, para avisar do falecimento do pai. Relataram que a última preocupação do pai foi comigo e que havia deixado algumas mensagens: que nunca deixasse de estudar; que fosse uma pessoa digna na sociedade; que evitasse me “perder” com a juventude transviada dos anos 60/70, época de grandes transformações nos costumes dos jovens. Vivíamos o auge da Jovem Guarda, dos Beatles e começou a surgir a geração “Paz e Amor” nos grandes centros urbanos. Já havia alguns vestígios do uso da droga, a era dos cabeludos, das calças jeans importadas dos Estados Unidos, da marca Lee. Consegui transpor todas as barreiras, nunca deixando de trabalhar e de pagar meus estudos no Colégio São Luís e na faculdade, obedecendo piamente o último pedido de meu pai. Eis mais uma prova da importância dos pais na formação dos filhos. O pai era muito rígido em casa. Desde pequeno, aprendemos a obedecer aos mais velhos, a nunca faltar com o respeito. Se alguma das regras impostas pelos pais não fosse cumprida, a vara de marmelo pegava, não tinha perdão. Lembro que, um dia, voltando para casa, alguém se queixou de uma travessura que eu havia feito na vizinhança. Naquela ocasião, apanhei tanto que minhas costas e pernas ficaram cheias de vergões da vara de marmelo. A mãe, com pena do filho mais novo, ministrou uma salmoura, que ardeu muito na hora de passar nos ferimentos, mas logo depois as dores aliviaram. Estou com 61 anos, mas nunca esqueci esta lição à base de vara de marmelo, recurso mais usado na época, pois a vara não quebrava e fazia a volta nas costas e pernas. Nunca precisei fazer isso com meus filhos e nem faria, mas antigamente era comum. Convivi poucos anos com meus pais, mas aprendi o suficiente para deixar este legado para os meus filhos: ser honesto e digno, em primeiríssimo lugar.

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Lambreta Vale a pena abrir um espaço para contar um pouco a história das décadas 60/70, tão longínquas para os jovens de hoje. O grande sonho de consumo do jovem daquele tempo era comprar uma Lambreta (os motociclos eram raríssimos e importados). Comprei uma, usada, do amigo Tonico, mecânico da Varig, toda incrementada, de cor azul, e os componentes que se situavam acima do motor e o para-lama adaptado, todos cromados. O veículo chamava muita atenção, pois quando estacionava a raridade nas imediações do Quiosque, point dos jovens da época, todos paravam para admirá-lo. Nos fins de semana os lambretistas se reuniam e procuravam alguma quermesse na cidade ou no interior para paquerar as meninas. Era um sucesso absoluto a nossa chegada. Dezenas de Lambretas roncando ao mesmo tempo, fazendo aquele barulho, chamando a atenção de todos os frequentadores, principalmente do sexo feminino. Se alguma delas aceitasse uma carona, sentavam de lado no banco, pois não era permitido, pelos costumes da época, que sentassem igual ao homem no assento, e quem assim o fizesse era mal falada, mesmo que estivesse vestindo calças compridas, muito raras naquele tempo. A música era comandada pelos Beatles, sucesso estrondoso no mundo inteiro, e aqui no Brasil pela Jovem Guarda, liderada por Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Vanderlea, Os Fevers, Renato e seus Blue Caps, Jerry Adriani, entre tantos outros. Faziam o embalo da juventude dos cabelos compridos, das calças pantalona boca-de-sino, sapatos de plataforma, camisa volta ao mundo, da minissaia, revolução nos costumes da época e que incomodava os mais velhos, que diziam “que o mundo estava perdido”. Os meus cabelos eram compridos até o ombro e as roupas da moda eram compradas à prestação nas Lojas Renner, Waechter ou Kirst. Precisava estar bem vestido para arrumar uma namorada, porque me achava muito magro e feio e, com um nariz muito grande, era complexado e ao mesmo tempo, tímido. No Colégio São Luís conheci uma colega chamada Lizete Maria Spies e algo estranho me acontecia quando via a garota, o coração batia mais forte, e vi que havia me apaixonado loucamente. Correspondido, começa129


mos a namorar. Hoje, entre namoro, noivado e casamento, já estamos mais de 40 anos juntos. O namoro se consolidou nas boates da Aliança, o ponto de encontro dos jovens na cidade. Muitos casamentos aconteceram a partir do momento em que os pares se conheciam melhor nas boates. Era só a empatia acontecer entre os dois, iniciava-se o namoro. A Lambreta teve muita importância para este jovem, pois foi um marco da primeira grande conquista, e mostrou que outras poderiam ser almejadas, desde que houvesse força de vontade e muito trabalho, pois o cavalo um dia passaria encilhado. Era só montar e buscar as oportunidades, que apareceriam no futuro. Aos 36 anos aconteceu. O cavalo passou, montei e fundei a Haeser Seguros, que hoje faz 25 anos.

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Preso pela ditadura militar Na década de 70, em pleno governo do Presidente Médici, no auge da ditadura militar, eu estudava para ser professor de Língua Portuguesa, na Faculdade de Ciências e Letras de Santa Cruz do Sul. Primeiramente, estava localizada em salas construídas dentro do Pavilhão Central da FENAF (hoje Oktoberfest), e depois defronte ao Ginásio Poliesportivo, hoje Secretaria da Educação e Cultura. Exercia o cargo de vice-presidente do Diretório Acadêmico e os estudantes, quando participavam de algum congresso da categoria, eram fortemente reprimidos por tropas do exército, que, junto aos participantes, espalhavam espiões para descobrir algum estudante subversivo. Tínhamos de cuidar como exprimíamos nossos pensamentos. Cada palavra declarada contra o regime era motivo de repressão. Num belo dia de domingo, festejávamos o primeiro aniversário do Alexandre, filho do Nilo, meu afilhado, e vieram de Candelária, de jipe, os avós e os tios do aniversariante. Depois do almoço, aproveitamos para dar um passeio de jipe até o Colégio Santa Cruz, onde se realizava uma quermesse, eu e os jovens de Candelária, quando subíamos e descíamos, diversas vezes, a rua que passa defronte ao colégio, a fim de olhar para as meninas que ali se encontravam. Fiz um sinal para um colega de turma, Átila Schmidt, que estava de guarda na guarita do quartel, que se localiza, ainda hoje, do outro lado do educandário, dando a entender que, enquanto ele estava trabalhando, nós estávamos gozando a vida. Este fato chamou a atenção dos demais soldados. Continuamos o nosso vai e vem com o poderoso jipe e, quando menos esperávamos, um sargento do quartel, armado com um fuzil, trancou a nossa passagem e pediu que entrássemos no pátio do exército. Conduziu-nos até um tenente recalcado, que tirava serviço em pleno domingo, e este anunciou que estávamos presos, incomunicáveis, até que um caso de subversão acontecido em São Leopoldo fosse solucionado, sendo nós os principais suspeitos. Pedimos que nos deixasse, pelo menos, avisar os familiares deste acontecimento, trágico, nestas alturas, pois ficamos à mercê dos caprichos deste ditador de plantão, mas nada o demoveu da sua conduta deplorável com os jovens inocentes, principalmente com meus amigos de Candelária, humil131


des agricultores, que entraram de graça nesta encrenca. Depois de uma série de ameaças, apareceu, marchando, o pelotão da guarda, que nos posicionou na sua frente e tivemos que ir escoltados até a cadeia do quartel, onde fomos trancafiados. Nunca havíamos passado tamanha humilhação e estávamos, simplesmente, enrascados. Numa determinada hora, escutamos uma sirene e um dos nossos amigos, que já havia prestado o serviço militar, informou aos demais que estava sendo anunciada a chegada, em pleno domingo, do comandante ou do subcomandante, e, em consequência, o nosso problema estava se agravando cada vez mais. Até já fazíamos planos de como nos acomodaríamos na cadeia, pois havia somente uma cama. O sol já estava se pondo quando o pelotão da guarda voltou e nos conduziu até o subcomandante Zanon, que nos fez algumas perguntas, recolhendo as nossas identidades, e ordenou que nos escoltassem até a Delegacia de Polícia, onde continuaríamos presos, mas sob a condição de no outro dia nos reapresentarmos ao comandante Eurípides. Depois de os soldados se retirarem, pedimos ao inspetor de plantão que nos liberasse ou, ao menos, comunicasse aos nossos familiares a nossa situação, pois deveriam estar preocupadíssimos com o nosso desaparecimento. Não concordou com o nosso pedido e somente o delegado poderia fazê-lo, mas este não estava, fora assistir a um filme no cinema Vitória. Realmente, era costume das pessoas, aos domingos à noite, ir ao cinema e, após, tomar um chope no Quiosque da Praça e jogar conversa fora com os amigos até por volta da meia-noite. Nesta altura do campeonato, os nossos familiares já haviam nos encontrado na Delegacia, onde registrariam o nosso desaparecimento, por sugestão do Padre Emílio Backes, que participava do aniversário. Depois da meia-noite, com a chegada do Delegado, e vendo que éramos pessoas honestas, nos liberou, com a condição de estarmos às 7h da manhã de volta à Delegacia. No outro dia nos reapresentamos e depois fomos encaminhados ao quartel, quando tivemos uma rápida audiência com o comandante Eurípides, quando nos disse que não iria nos prejudicar e que somente faria um registro no DOPS do acontecido. Qualquer outro episódio que acontecesse conosco, daí sim, seríamos considerados subversivos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional. O fato que acontecera em São Leopoldo já havia sido solucionado, para o nosso alívio. Contei esta história porque ela marcou muito a minha vida e hoje ainda 132


escuto muitos afirmarem que têm saudades daquele tempo. Mas digo, com muita convicção, que nenhuma ditadura é boa, tanto de direita como de esquerda. A nossa maior conquista é a LIBERDADE COM RESPONSABILIDADE.

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Namoro Como já relatei anteriormente, conheci a Lizete no Colégio São Luís. Era colega de turma no 1º ano do curso Técnico de Contabilidade, estava apaixonado e, para meu desespero, ela não percebia e ainda trazia recados de outra menina que havia pulado o carnaval na Aliança comigo. Dizia que a amiga estava apaixonada por mim e que queria, ansiosamente, me encontrar. Ficava arrasado com a situação, pois meu interesse não era esse e sim que ela notasse a minha paixão por ela. Os recados se tornaram importantes, pois era mais uma grande oportunidade para ficar perto dela. Nas aulas de inglês do Professor Sefrin, não levava o livro de propósito, pois assim pedia para sentar ao lado dela e fazer os exercícios juntos. Era uma delícia! Esperava ansiosamente a aula seguinte e, mais uma vez, esquecia o livro em casa. Acredito que percebeu e começou a corresponder devagarzinho, pois a Lizete nunca foi de demonstrar muito os seus sentimentos, sendo mais reservada. Com o passar do tempo, a situação começou a melhorar para o meu lado, pois no recreio ficávamos no corredor do segundo piso do colégio, conversando. Nunca me esqueço de uma pequena verruga que eu tinha no dorso da mão e ela todas as noites arrancava uma plantinha de quebra-pedra, que nascera no canteiro de flores, e passava o líquido na minha mão, sendo que desapareceu como um encanto. Foi o primeiro grande “milagre” produzido pelo amor! Continuamos a nos encontrar no recreio e, com esta aproximação, que foi ficando cada vez mais intensa, tive a coragem de convidá-la para dançarmos no sábado à noite, na famosa boate da Aliança Santa Cruz, que arrastava a juventude de Santa Cruz para suas promoções e se tornou o ponto de encontro mais importante da época. Foi uma noite inesquecível, pois tivemos a oportunidade de dançar de rosto colado na hora das músicas lentas. O ambiente era iluminado pelas luzes negras, que realçavam as roupas claras, e era a grande novidade naquele tempo. Depois da noitada na Aliança, levei-a para casa, sempre acompanhados de uma amiga, chamada de “chá de pera”, pois não era conveniente que uma jovem andasse sozinha em companhia masculina. O máximo per135


mitido era andar de mãozinha e, na despedida, um rápido beijo no rosto. O primeiro beijo na boca só aconteceu depois de muitos encontros e quando ela me permitiu que a levasse de Lambreta para casa. Este momento sublime aconteceu no portão da casa dela numa noite de lua cheia e, o principal, sem o testemunho de ninguém. Era costume sermos vigiados por alguma irmã mais velha ou pela própria mãe. Que beijo gostoso! Entre namoro e noivado, ficamos seis anos juntos. Eu trabalhava no Sindicato e ela no setor pessoal da Phillip Morris, na Rua Borges de Medeiros, e lá labutou durante dez anos. Diariamente, na hora do meio-dia e à noitinha, depois do expediente, minha incumbência era buscar a Lizete e conduzi-la para casa de Lambreta. O seu Bruno, meu futuro sogro, esperava-me com uma caipirinha, sendo obrigatório tomar pelo menos um gole da famosa bebida. Nunca me furtava de experimentar. A casa do seu Bruno e da dona Ilka, um chalé que resiste ao tempo, se localiza na Rua Felipe Jacobus. Lá moravam – exceto o Lúcio (trabalhava na Randon, em Caxias) e a Lia (casada com o Dolvino) – o Luiz (que faleceu num acidente de moto), o Leandro, a Lorena, a Lígia, a Lurdes, a Leoni, a Laci, a Lizete e a vó Catarina. Uma família era composta de dez irmãos, muito unidos. A casa era muito movimentada, pois lá se dava o encontro dos amigos e das amigas da prole, sempre recebidos com muito carinho pela família. Não usavam chave na casa. Os ladrões ainda eram raros. Para namorar sossegado era complicado. Além de mim, frequentavam a casa o Irineu Overbeck, o Sílvio Thomas e o Adair Fagundes, respectivamente, namorados da Lorena, da Lígia e da Lurdes. Haja sofá para toda esta gente! Acredito que o Adair e o Sílvio seguiram na profissão de estofadores pelo trauma causado pela falta de sofá na casa do seu Bruno, principalmente nas quartas-feiras, dia consagrado aos namorados.

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Vó Catarina A vó Catarina, mãe da dona Ilka, minha sogra, era uma moradora muito especial da casa dos sogros; já tinha uma idade avançada, varando os 80 anos, e só se comunicava na Língua Alemã. Isto se tornava uma dificuldade para as pessoas que não dominavam a língua de Goethe e eu, oriundo de Trombudo, conseguia falar com a vó e, em consequência, virei ídolo da velha. Ai daquele que falasse mal de mim e da Lizete! Depois dos 90 anos, a vó foi internada no Hospital Santa Cruz. Estava muito mal de saúde, debilitada, desistindo de viver. As irmãs franciscanas permaneceram ao seu lado a noite toda, rezando. Acenderam velas para que tivesse uma morte tranquila. Estava muito fraca e não conhecia mais ninguém. Na manhã seguinte, a dona Ilka me pediu que lhe fizesse uma visita no hospital, para despedir-me dela. Lá chegando, fui bem pertinho do ouvido e comecei a cantar Schön Ist Die Jugen Zeit (tradução: Como é bom o tempo da juventude), uma das canções que sempre cantávamos em casa. Como por milagre, a velha começou a acompanhar-me na canção, com a voz que vinha lá do fundo e que foi se tornando cada vez mais forte. A sogra, assustada, alertou-me que a vó dela havia falecido cantando. Respondi que, se fosse o caso, a Vó Catarina também morreria desta maneira, cantando. Por milagre, o efeito foi ao contrário. Em cada canção que ela me acompanhava, a voz ficava mais forte. No outro dia voltou para casa e permaneceu entre nós mais alguns anos. Ficou comprovado que determinadas canções tocam fundo na alma das pessoas e que em certas músicas, quando compostas, os autores têm a inspiração divina!

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O sogro e a casa do Porto das Mesas Como fiquei órfão cedo, aprendi muito com o seu Bruno, meu futuro sogro. Ensinou-me a arte de assar um bom churrasco. Aos domingos, nunca faltava uma churrasqueira repleta de carne. Como precisava de um auxiliar para virar os espetos, colocava-me à disposição. Acompanhavanos um copo grande de caipira, degustada com muito prazer por todos da casa. Quando a carne ficava pronta para ser servida, nós também estávamos com a língua meio enrolada, efeito do excesso etílico, mas que era consertado com o lauto almoço servido ao meio dia, em ponto. A dona Ilka, a sogra, não permitia atrasos, pois às duas horas chegava a turma da canastra e às quatro era servido um lauto café colonial, tradição que até hoje permanece na casa. Depois do café da tarde, continuava a canastra. O “cassino” realmente funcionava a todo vapor. O seu Bruno também tem uma casa no Porto das Mesas, na beira do Jacuí, em Rio Pardo, no mínimo há 60 anos, hoje chamado de “O rancho dos netos”. Comecei a frequentá-la há mais ou menos 40 anos, quando, nos fins de semana, íamos de Lambreta, eu e a Lizete, aproveitar as delícias dos banhos de rio e o ambiente bucólico do local. Levava uma garrafa de cachaça para a caipira e mais três cervejas. Tudo era racionado, o dinheiro era escasso. Não havia luz elétrica e, quando a noite chegava, usávamos o liquinho, lampião à querosene ou velas para iluminar os ambientes da casa. A água para consumo era tirada de vertentes que brotavam da terra, sendo feita uma pequena barragem para o armazenamento do precioso líquido, límpido e fresquinho, e se enchia o balde de caneca. Não pensem que ficávamos sozinhos no local. Lá já estava nos esperando a família da Lizete, sempre com os olhos atentos para os jovens namorados. Naquele tempo não havia propaganda para o uso da camisinha e a educação sexual ainda era um tabu. Qualquer descuido de nossa parte poderia gerar uma gravidez precoce, vergonha para qualquer moça que se prezasse, e precipitaria um casamento, às pressas, o que não era o nosso desejo. Para mim estas idas para as praias de rio foram um grande aprendizado. Com 12 anos de idade nos mudamos para Santa Cruz e, consequente139


mente, abandonei os saudosos banhos do Plums, em Trombudo, quando explorávamos seus poços e procurávamos cascudos em suas tocas. Com a família do seu Bruno aprendi a acampar no Balneário do Getúlio, banhado pelo Rio Pardo. Todos dormiam no chão das barracas. Ensinaram-me a pescar, principalmente o pintado (no início alguém quebrava os ferrões, pois tinha receio de me ferir) e o lambari. Num destes fins de semana, eu e a Lizete atravessamos o Jacuí, juntamente com o seu Bruno, num barco a remo, para pescar traíras na Lagoa do Coração, local proibido pelos donos da fazenda, mas sempre invadida às escondidas pelos moradores do Porto das Mesas. Chegando ao local, iscamos os nossos anzóis com lambari e lançamos na água. Num determinado momento, senti uma fisgada e puxei com bastante força, sendo que o peixe voou. Ficou preso no alto de um arbusto, se debatendo. Corremos assustados, em direção ao sogro, para que ele nos socorresse, pois havíamos fisgado algo grande, não sabíamos o que era e tínhamos receio de tirá-lo de lá. Foi a primeira traíra de dois quilos que pescamos na nossa vida, mas que causou o maior susto ao jovem casal e, com certeza, muita satisfação e alegria para o nosso professor de pesca, que nos salvou na hora certa, pois acredito que até hoje estaríamos fugindo do bicho.

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As pescarias no Jacuí As primeiras pescarias no leito do rio foram feitas em pequenas embarcações de madeira, e que eram movidas a remo. O local preferido era o poço que ficava na frente da placa 35, perto da casa do seu Bruno, indicador da marinha e que servia de orientação para as embarcações que por ali navegavam. Também subíamos um pouco acima da ilha, onde pintado nunca faltava, mas em tamanho menor. Hoje a ilha desapareceu com as enchentes. Também era famoso para a pesca do pintado o lugar chamado “Nas Lajes”, mas muito longínquo para ir a remo. Quando tínhamos a oportunidade de pegar uma carona em algum barco a motor, íamos até o local. Há trinta anos, o Rio Jacuí dava muito peixe e o Porto das Mesas era famoso por possuir inúmeros poços, o que motivou a construção das casas, principalmente daqueles que gostavam de se dedicar à pesca. Mais tarde, progredi de vida e comprei um motor de 3 hp do mecânico Merz, que era uma adaptação de cortador de grama, transformado em motor de popa. Imaginem a velocidade que imprimia na água, empurrando um barco de alumínio novo. O grande problema era fazer funcionar a geringonça. Sorte que meus parentes todos são metidos a mecânicos. Muitas vezes atravessamos o rio para pescar ou íamos até a Lagoa Coração roubar alguma pescaria. O problema maior era quando o vento contrário à correnteza vinha forte e causava maretas no rio. Como o motor não era muito forte, esta travessia se tornava perigosa. Tínhamos que navegar contra as ondas para não virar o barco. Nas primeiras vezes, fiquei com muito medo. A minha primeira casa no Porto das Mesas era uma meia-água, comprada de segunda mão de um morador do bairro onde vivo até hoje, o Arroio Grande. O terreno ganhei de presente do Romildo Spies, por alguns favores que havia feito para ele. A casa era muito pequena, com cozinha improvisada e um quarto dividido por uma cortina. Brincava que podia receber dois parentes numa eventual visita e os demais deveriam esperar do lado de fora da casa. Com o aumento da nossa família, ampliamos a casa à medida em que íamos melhorando de vida.

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A lancha desgovernada Havia comprado um motor de 15 hp, o que tornava fáceis as pescarias, e também poderia pescar num local mais distante e procurar os pesqueiros mais abundantes. Muitos anos fiquei com este motor, comprado novinho da revenda Yamaha, da Loja Etges. Alguns anos após ter fundado a Haeser Seguros, com melhores condições financeiras, comprei uma lancha de 17 pés e um potente motor de 90hp, que até hoje ainda uso. Posso levar até oito pessoas. Os filhos, sobrinhos e amigos adoravam passear no Jacuí e visitar as praias vizinhas. Em 10 minutos subíamos até o Porto Ferreira. Uma barbada! As nossas pescarias começaram a acontecer bem mais longe. Em 45 minutos estávamos na barragem de Dom Marco, onde passávamos o dia. Com direito a um gostoso churrasco no barranco, debaixo de uma árvore frondosa, com sombra abundante. O Gustavo já era aventureiro e trouxe dos EUA, quando fora visitar a Disney, uma banana, que era amarrada no barco e puxada pelo potente motor. Podiam andar entre dois. Levavam muitos tombos na água, mas tudo era festa. Foi a sensação do Porto das Mesas, novidade que só se via nas praias de Santa Catarina, especialmente em Garopaba, nossa praia preferida. Num belo dia, andávamos no rio, nas imediações da casa de seu Bruno, meu sogro. A gurizada se revezava para andar no brinquedo. Era só alegria! Em dado momento, um rapaz que estava num barco de alumínio e com um motor de 15 hp nos seguiu. As ondas que o nosso barco e a banana causavam eram enormes, tornando-se um perigo andar muito perto. Numa mão o rapaz vinha tomando uma cerveja em lata e na outra segurava o leme. Uma das ondas desequilibrou o barqueiro e ele caiu na água. O barco continuou com o motor ligado, andando numa velocidade muito grande, e, desgovernado, começou a girar. A sorte que o rapaz era bom na água. Estava sem o colete salva-vida. Boiava no meio do rio, cuidando para não ser atingido pelo barco desgovernado, que cada vez fazia círculos mais curtos. Ele no meio dos círculos e eu não tive como salvar, pois o barco bateria no meu e o desastre seria maior ainda. Assustado, assistia o drama do infeliz morador. Cada vez o círculo ficava menor, até que a embarcação veio direto em direção ao náufrago, mas este, com uma agilidade nunca vista, mergulhava para se livrar das hélices, que, se 143


o pegassem, isso certamente seria fatal. Saía para respirar e este retornava mais uma vez em sua direção. Mergulhava e se livrava do acidente, por milagre. O socorro veio da barranca. O Sílvio Thomas e os Bastos, que assistiam, salvaram o rapaz. O barco rumara para a barranca. Por incrível que pareça, o bólido desgovernado subiu a barranca, transpôs as raízes das árvores e voltou para o leito do rio, já com a velocidade um pouco diminuída. O náufrago ficou no barranco para se recuperar e o Sílvio e o Bastos “amadrinharam” o barco sem rumo, como se faz com um cavalo xucro; puxaram a corda de segurança do motor e ele desligou. Todos sãos e salvos! Se filmado, faria sucesso no Faustão.

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Noivado Enquanto o tempo passava, o namoro cada dia ficava mais sério e o compromisso, que consolidava as intenções de casar, era o noivado, cuja data escolhida quase sempre eram a Páscoa ou o Natal. Lembro-me que fiquei muito corado e com as mãos tremendo no dia em que tive que fazer o pedido da mão da Lizete para o seu Bruno, que, apesar de ser um bonachão, transmitia muito respeito. Concordou com o meu pedido de noivado e daí foi feita uma pequena solenidade na colocação dos anéis na mão direita, símbolo do comprometimento do casal para uma vida mais séria, de transição e preparação para o casamento. Oficializado o noivado, começamos a comprar os móveis e utensílios da casa, que eram armazenados nas casas dos parentes, sendo que nosso enxoval estava bastante espalhado, um pouquinho em cada local. “Quem casa quer casa”, diz um velho ditado, e lá fomos nós para a conquista do terreno, que se localizava nos altos da Rua Padre Boelzer. O acesso era um trilho em que mal cabia um automóvel, bastante pedregoso. Os donos eram o seu Agenor e a dona Eva, que nos venderam em longas prestações mensais. O local não era muito valorizado, pois ficava longe do centro da cidade e ninguém imaginava a grande transformação do Arroio Grande, hoje chamado de bairro-cidade. O governo dos militares instituiu um plano para a construção da casa própria, através da Cohab, e que podia ser pago em longas prestações mensais, durante 25 anos. O financiamento teria que ser feito em nome da Lizete, funcionária da Phillip Morris, cujo plano estava vinculado ao SESI, mantido pelas indústrias. Antes de casarmos, conseguimos realizar o grande sonho de termos a nossa moradia pré-fabricada da Construtora Sampaio, com apenas 52 metros quadrados, grande o suficiente para acolher duas pessoas que estavam iniciando uma longa caminhada juntos. A nossa felicidade com esta nossa primeira grande conquista foi indescritível, pois o nosso dinheiro era “contadinho” para todos os compromissos assumidos. Até hoje moramos no mesmo local e, no decorrer dos anos, muitas modificações foram feitas, mas a casa pioneira continua intacta, como que abraçando todos os aumentos de área realizados nestes 35 anos, que somam 220 metros quadrados. 145


A festa do casamento A data do casamento foi marcada para o dia 22 de outubro de 1977. Os atos religiosos foram realizados na Catedral São João Batista. Confesso que a tremedeira tomou conta quando entrei naquele corredor, acompanhado da Célia, minha cunhada. A cerimônia foi fabulosa, com direito ao acompanhamento do músico da Orquestra Cassino, Elídio, que tocava pistão. A noiva, como sempre, atrasada, estava muito bonita. Verdadeiramente emocionante! A festa foi realizada na sede campestre do Sindicato dos Comerciários. Este ambiente era muito conhecido por mim. Acompanhei a aquisição e a construção de todas suas dependências, pois continuava sendo secretário -executivo da entidade e também organizava quase todas as sextas-feiras um churrasco regado a chope. A lista dos convidados para o casamento era extensa. A turma dos colegas e amigos do Sindicato iria pagar as bebidas, especialmente os barris de chope, sendo que a comida ficaria por nossa conta. Uma semana antes fui negociar dois porcos em Rio Pardinho, mais baratos que no açougue, e o sogro adquiriu a carne de gado. A festança foi grande e divertida. A sede foi enfeitada com folhas de coqueiro, e o ambiente mais parecia um salão do interior em dia de Kerb, tradicional festa germânica. Só que não constavam na nossa lista de convidados os parentes da Lizete, que vieram de Porto Alegre, numa Kombi lotada, e que quase fizeram com que passássemos vergonha pela falta de carne e saladas. Felizmente, deu tudo certo e a festa transcorreu feliz e sem incidentes, até a madrugada. Como estávamos ansiosos para a nossa primeira noite de núpcias, que foi passada na nossa casa recém-construída, pedi que meus vizinhos do Atrás do Céu, Elíbio e Eni Martin, nos dessem carona no seu flamante DKW, saindo sorrateiramente da festa, a fim de evitar sacanagens. De nada adiantou este nosso cuidado, pois, quando chegamos, já haviam carregado os coqueiros e suas folhas e empilhado na porta de entrada da nossa residência. Foi um tremendo trabalho remover o entulho. E a noite não foi das mais tranquilas, pois a toda hora vinha alguém, buzinava ou tocava a campainha. Foi uma noite mal-dormida, mas feliz! 147


Adroaldo Valdir: O Irmão Mais Velho Em especial, tenho que relatar um pouco sobre meu irmão mais velho, já falecido. Hoje teria mais de 70 anos. Saiu muito novo de casa e foi estudar e trabalhar em Santa Cruz. Em Trombudo, não teria futuro. O máximo que poderia estudar era o primário, hoje fundamental. Nosso pai arrumou uma pensão na cidade, barata. Depois o irmão teria que ir à luta para procurar um trabalho e sustentar seu estudo e sua manutenção. Não tinha moleza! Arrumou um emprego em Santa Cruz. O salário dava para pagar a pensão e o colégio. Nunca deixou de estudar. Tinha uma inteligência rara para um jovem oriundo do interior. Sempre foi muito determinado atrás de seus ideais. Depois de formado, o último emprego que exerceu foi como financeiro da Kuraschike, em Sapucaia, cujos principais acionistas eram japoneses. Casou com a Manuela e tiveram quatro filhos, que, apesar de terem perdido o pai muito cedo, aprenderam muito com o Adroaldo, estando todos hoje muito bem-situados na vida. O legado ficou. Meu irmão sempre teve muito diálogo com os filhos. Leandro, Marcelo, Adriano e Cândida que o digam. Eu gostava muito de conversar com o irmão mais velho. Ele vibrava com o sucesso de seu mano mais novo, que recém havia fundado a corretora de seguros. Também escutei muitos conselhos e incentivos. Lembro de um episódio que meus pais contavam lá em casa. Nas férias, meu irmão ia para Trombudo, visitava os amigos, filhos de colonos, e ajudava-os a colher o fumo. Tinha uma pele muito escura e no verão ficava literalmente preto. Lá em casa, era o mais preto. O apelido era Negão. Novo, namorava uma moça de Formosa, cujo nome era Lucilda. Era filha de um agricultor. Como visitava pouco a localidade, muitos não o conheciam, ainda mais sendo uma localidade vizinha de Trombudo, hoje Vale do Sol. Combinou com os amigos que haveria um baile em Formosa e que partiria um ônibus do Salão Machado diretamente para a festa. Os amigos concordaram e foram se divertir. Como meu irmão estava interessado numa menina, foi cheio de es149


perança para dançar e se divertir pertinho dela. Estava caidinho por ela. Quem sabe poderia dançar de rosto colado e talvez até “roubar” algum beijo. Meu pai, subdelegado de Trombudo, também foi ao baile, acompanhado de minha mãe. A comissão do baile, moradores do local que cuidavam para que tudo transcorresse na mais perfeita ordem, notaram uma presença indesejada dançando no salão. Naqueles tempos, os negros tinham seu baile e os brancos também não se misturavam. Jamais seria permitida a presença de um negro no baile, ainda mais dançando com uma menina da localidade. A comissão chamou o subdelegado, seu Edwino, e perguntou o seguinte: — Conheces aquele negro que dança todo feliz aqui no nosso baile, ainda mais com uma menina da nossa localidade? Que vergonha para nossa comunidade! Temos que expulsar este preto do salão. O pai, admirado, não vendo nenhum preto no salão, perguntou: — Não estou vendo nenhum. Onde está, que o expulso. Responderam: —Aquele ali. Está vendo agora? Está dançando com a filha do Brandt. O pai, dando-se conta que era o Adroaldo, seu filho, disse: — Das ist meine Sohn! — “este ali é meu filho”, Adroaldo. A comissão pediu desculpas pelo equívoco e o baile continuou com aquelas músicas tradicionais alemãs, que todos adoravam. Na próxima vez, teriam mais cuidado. Três horas da manhã. O conjunto deu um toque característico de pistão. Todos já sabiam que se tratava de algum ônibus que partiria. — Atenção, atenção. Daqui a dez minutos partirá o ônibus para Trombudo. Boa viagem de retorno — gritava no alto do palco o presidente da Comissão do Baile. Microfone não existia. Era no gogó mesmo.

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Fumantes Sou obrigado a confessar para meus leitores e amigos. Fui fumante durante 40 anos. Iniciei com este vício aos 20 anos e resolvi largar aos sessenta. Por livre e espontânea vontade. Meu médico nunca proibiu. Fazia exames de sangue periódicos. Olhava, orientava-me e nunca se meteu a me dar conselhos. Decerto pensava: está bastante crescidinho e deve saber o que lhe faz bem ou mal. Quantas vezes estava fumando e alguém (a grande maioria ex-fumantes) vinha dar-me conselhos: — Clóvis, este cigarro faz mal para a tua saúde. Aconselho-te a deixar de fumar. Não vês que estás prejudicando outrém com este teu famigerado vício? São fumantes passivos, também vão morrer de câncer por tua causa. Larga do cigarro. Para retrucar, brincava com o conselheiro: — Sabes fulano, vou te contar uma estória. Certo dia, lá em Paranaguá, um padre teve o sonho de voar com balões à gás. Levantou voo, perdeu-se e caiu no mar. Se fosse fumante, diriam que havia acendido um cigarro e a sua brasa foi culpada de furar os balões. Até hoje não se tem notícias do coitado do religioso! Noutra ocasião, acompanhado da minha esposa e da filha mais nova, resolvemos conhecer o Rio de Janeiro. Desbravamos a Cidade Maravilhosa. Andamos de táxi, metrô e ônibus. Decidimos, depois de passar pelos principais pontos turísticos, fazer compras no Barra Shopping, um dos maiores do Rio. Antes de entrar, acendemos um cigarro (a esposa também fuma). Veio um rapaz em nossa direção. Era da segurança. Educadamente, disse: — Aqui neste local os senhores não podem fumar. — Não estamos na parte interna e sim na externa — argumentei. — Qual o motivo para que não possamos fumar? — Debaixo da marquise é proibido — respondeu. — Por quê? Disse que eventualmente poderia passar uma criança e aspirar esta terrível fumaça. — Debaixo desta marquise pode-se consumir drogas ilícitas, por exemplo, cheirar? 151


— Pode. — Posso encher a cara de chope sob a marquise e depois pegar meu carro no estacionamento e sair dirigindo? — Pode. Continuei a argumentar: — Chegando agora aqui no Shopping escutei um tiroteio lá no morro. É algum carregamento de cigarro vindo do Paraguai? São terríveis fumantes invadindo o morro? — Não é por este motivo. Deve ter chegado algum carregamento de tóxico e a polícia está dando uma batida na favela. Este tiroteio para nós é normal — disse. — E nós somos tratados como bandidos aqui no Rio — finalizei, contrariado. De tanto sofrer o bullying dos xiitas antitabagistas, larguei do vício. Somente fico com muita pena de quem fuma, não pelo cigarro e sim por essa perseguição impiedosa da sociedade atual. O pior, hoje todos se sentem culpados por fumarem. Não sou defensor do cigarro e também não aconselho ninguém a fumar. Continuarei defendendo os fumantes com unhas e dentes. Gostaria de saber quais os interesses que se escondem por trás desta insistente campanha. Não acho justo a Anvisa querer terminar com toda a cadeia do tabaco no Brasil. Como se depois deste extermínio os casos de fumantes no Brasil não existissem mais. O Paraguai não venderá mais cigarros vagabundos, de baixíssima qualidade, para o Brasil. Quanta hipocrisia! No Brasil ninguém mais fumará cigarro das nossas indústrias e, consequentemente, as doenças causadas pelo fumo desaparecerão. Os impostos pagos pelo setor fumageiro brasileiro não existirão mais. Como ninguém mais ficará doente, estes impostos podem ser suprimidos. A Saúde Pública será salva sem os fumantes do fumo aqui produzido. Igualmente, as doenças advindas do cigarro importado do Paraguai… Bem esses males serão pagos pelo Paraguai. O governo, sempre atento para os maiores problemas que afligem seu povo, cobrará uma sobretaxa dos importadores clandestinos de cigarros do democrático e popular Paraguai. Todos os problemas estarão resolvidos. Graças à ampla visão dos nossos governantes. Os politicamente corretos serão os grandes vitoriosos, estarão livres destes párias indesejados da nossa sociedade. Enquanto isso o álcool, o crack, e outras drogas ilícitas…

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A lua-de-mel frustrada O Pepe, 23 anos, com muito sacrifício, dinheiro escasso, vinha de Rebentona e fazia a Faculdade de Direito aqui em Santa Cruz. Algumas vezes ficava na cidade, quando perdia o ônibus ou por qualquer outro motivo; almoçava na casa de algum parente e dormia. Cheio de sonhos, lutou com obstinação pelos seus ideais. Conseguiu cursar Direito. Almejava um dia ser juiz. Todos os seus sonhos e desejos se tornaram realidade. Passou na prova de juiz e, nomeado, foi um dos mais novos integrantes da Magistratura do nosso Estado. Por merecimento chegou a exercer o mais alto cargo na Justiça, desembargador. O seu grande inspirador foi seu pai, seu Juvenal, que exercia a função de escriturário da Prefeitura. Pobre, quando casou em Rebentona, não tendo dinheiro para pagar um hotel para a sua lua-de-mel, veio para a casa de um parente em Santa Cruz. Não custava nada. Tinha um velho DKW, que, na noite da festa de casamento, não funcionou. Nunca tinha visto oficina! Pediu uma Rural Willys emprestada de um parente. Quebrou na ponte, antes da entrada de Ferraz e Vera Cruz. Este primo também não levava para a oficina. Telefone celular, nem em sonho. Ficou empenhado até de manhã. Vamos raciocinar: como, naquela época, para fazer sexo, só casando, o Pepe estava louco para usufruir daquela primeira noite com a eterna amada. Até pensou em deitar no banco de trás da camioneta e fazer pelo menos uma tentativa. A esposa não concordou. Quem sabe debaixo da ponte? Piorou a situação. O socorro veio pelas nove da manhã. O mecânico demorou. O carro dele também enguiçou no trajeto. Muito azar. Teve que adiar aquele romântico momento para a plena luz do dia, com o sol a pino. Nada que não se resolvesse fechando bem a veneziana. Os vizinhos acharam estranhos os ruídos vindos da casa naquela manhã. A cama, velha, rangia muito. Cada movimento do garanhão, uma rangida. Suava muito, o coitado. A ansiedade, o grande esforço, o aprendizado de como funcionava o ato sexual. Não conhecia nada, muito menos a noiva. Antigamente não se falava destes pecados com os pais. O chalé não protegia nada contra o sol. Apesar do suador e do sufoco, o Pepe se saiu bem na primeira noite, ou melhor, na primeira manhã da lua-de- mel. 153


Professor Clóvis Continuei trabalhando e estudando. Fiz a Faculdade de Ciências e Letras, na qual me formei professor de Português. Prestei o concurso no Estado e lecionei durante três anos em Trombudo, hoje Vale do Sol, e após fui transferido para o Colégio Polivalente, onde fiquei durante 14 anos, no turno da noite. Neste educandário, uma das maiores felicidades que tive, além da amizade com centenas de alunos que ainda hoje vêm me cumprimentar, foi ter fundado, juntamente com o Professor Hilário Tornquist, o famoso Grupo Teatral Polivalente, que fez sucesso na época em toda a região e levantou a fama do nosso colégio. Até hoje, devido à amizade e à convivência em comum, permanecem conosco o Rogério (Xexéu), que foi um dos maiores atores do Grupo (fui professor dele quando tinha 14 anos), o Paulo Lourenço (aluno e ator), o Renato Schwengber (colega e mais tarde diretor, hoje falecido) e a Marli da Silva (aluna e também cobradora da Haeser por muitos anos). Também foi muito importante neste nosso trabalho teatral o professor Graciomar da Silveira, já falecido, que era nosso diretor artístico. Para meu orgulho, a árvore deu bons frutos e seguiram na profissão as atrizes Simone Bencke (diretora teatral e professora de Artes Cênicas) e Patrícia Vilela, atriz profissional no centro do país, hoje na equipe da novela Malhação, da Globo. Ganhamos muitos troféus em festivais no Estado e fomos agraciados, por duas vezes, com o Destaque em Cultura, prêmio este oferecido pelo Rotary. Paralelamente, continuava no meu emprego do Sindicato durante o dia, fazendo as horas normais, e à noite o expediente era das 19h15 até às 22h45. Aproveitávamos os fins de semana e os feriados para os ensaios. As peças mais famosas, dentre muitas, foram Cem gramas de homem, de Anselmo Domingos, e Viúva, porém honesta, de Nelson Rodrigues.

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Como nasceu o Grupo Teatral Polivalente Desde jovem, ambicionava fazer parte de algum grupo musical ou mesmo ser um artista de teatro, locutor de rádio; ou seja, ter contato com o grande público e fazer sucesso. Este desejo, porém, foi frustrado devido às poucas condições financeiras da minha família, que não possuía o dinheiro nem para comprar uma gaita, quiçá proporcionar um curso de artes cênicas. As escolas do interior, por falta de recursos humanos, não incentivavam o teatro. Nas férias escolares, ficava extasiado assistindo às comédias teatrais apresentadas pelos seminaristas, que se constituíam num grande acontecimento na localidade, prestigiado pelos moradores católicos e preterido pelos evangélicos, tendo em vista a grande rivalidade existente entre os credos. Este gosto pelo teatro continuou depois que vim morar em Santa Cruz, quando assistia às grandes apresentações, no Cine Vitória, do GATI (Grupo Amador de Teatro Independente), cujo diretor era o saudoso Schneider Filho, e os atores eram o casal Paulo Rauber Filho e Gilda, dentre muitos outros que não recordo. Quando vim transferido para o Colégio Polivalente, no noturno, estranhei muito o pequeno número de alunos que frequentavam o estabelecimento. Havia somente quatro turmas de 5ª a 8ª séries, totalizando 80 jovens, pois a fama do Bairro Faxinal era de ser violento (até o presídio lá foi construído), inibindo com isto a matrícula, principalmente à noite. Lembro-me de alguns episódios acontecidos no colégio, cujas vítimas eram os professores. Bastava algum aluno não ir com a cara do mestre e, sendo contrariado com alguma atitude mais severa, no final da aula os pneus do carro do professor estavam todos murchos, causando um transtorno muito grande para todos os colegas, que se envolviam na solução do problema até a meia-noite. Em outra ocasião, o fusca da professora não saía do lugar, pois o mesmo havia sido alavancado para cima de um cepo, ficando com a tração sem contato com o solo, e os algozes, escondidos, deliciavam-se com o desespero da mestra. Que maldade! Não foi somente com os colegas que aconteceram dissabores, comigo também. Era considerado muito “caxias” com os alunos e um deles ficou 157


com muita raiva e espalhou para os colegas que iria me matar. Na noite seguinte, veio armado de uma faca, aquela de churrasco, para confirmar o seu intento. Alertado por outros alunos do “perigo iminente”, falei para o professor Hilário, grande amigo dos alunos rebeldes, e este, com uma boa conversa de “pé de ouvido”, demoveu o jovem desta sua intenção assassina. Vejam a encrenca da qual escapei! Hoje, pai de família e trabalhador da indústria fumageira, quando me encontra na rua, cumprimenta-me com entusiasmo e amizade. Coisa de guri! No Polivalente sobrava-me bastante tempo para participar de outra atividade extraclasse dos alunos, que casualmente estavam ensaiando um esquete teatral, que seria apresentado no Colégio das Irmãs. Haveria um festival patrocinado pelo educandário e do qual participariam o Colégio Mauá, o São Luís, o Ernesto Alves e o Polivalente, além do anfitrião. No dia da tão esperada apresentação, acompanhei os alunos para dar uma força. No final dos espetáculos, o corpo de jurados escolheu os colégios particulares como vencedores do Festival, revoltando os “artistas” do nosso colégio. Convidei-os para tomarmos um vinho na Aliança. Fazia muito frio. Disse que não precisariam se revoltar com o resultado. A derrota faz parte da nossa vida, só que do limão faríamos uma limonada. Propus a fundação de um grupo teatral que se apresentaria na cidade e na região. Mostraríamos a todos a força dos vencedores! Um dia seríamos invejados por aqueles que nos “derrotaram” neste festival. Todos concordaram com a ideia, mas no fundo não acreditando muito nesta “utopia”. No outro dia, como havia prometido, procurei o Paulo Rauber Filho. Contei a ideia de fundarmos um grupo teatral, já que o GATI, do qual ele era participante, havia encerrado suas atividades há dez anos. Indaguei se ele poderia emprestar-me uma peça teatral, comédia, de preferência, que havia feito sucesso na sua época. Cedeu-me Cem gramas de homem, de Anselmo Domingos, com a condição de copiar as 26 folhas datilografadas e devolvê-las no mesmo dia, o que cumpri com muito entusiasmo. Comecei a ler a história nas horas vagas, achando-a muito engraçada. Estava ávido para terminá-la e, à noite, na escola, passei um exercício para os alunos da 8ª série e continuei a leitura, já imaginando os alunos que se encaixavam aos personagens.

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Os primeiros personagens Como estava na sala da turma mais adiantada do colégio, pensando comigo, escolhi o Xexéu como ator principal e a sua colega Jovilde, já madura naquele tempo, para sua esposa. O personagem era casado com uma mulher muito braba, que mandava na casa. Assim fui imaginando o restante dos nove atores que completariam o elenco. Convidei o professor Hilário, de Matemática, para a difícil tarefa da formação do grupo e dos ensaios. Um detalhe muito importante que devo confessar: nenhum dos dois tinha algum conhecimento de teatro, mas fomos à luta. Há uma estória pitoresca a ser contada. Precisávamos de um aluno que fizesse o papel de gay. O personagem não era muito ligado em mulher, mas namorava a filha do Bezerra (Xexéu), que, entre namoro e noivado, já estava “enrolando” há dez anos, aproveitando-se de uma situação cômoda na casa. Ninguém se sujeitou a fazer este papel e tivemos que transformá-lo em um alemão grosso, vestido como se tivesse vindo lá das “grotas”. A transformação ficou muito boa, sendo que, a cada entrada em cena, o público achava muito engraçado; atingimos o nosso objetivo, que era fazer rir. Depois de algum tempo, veio transferido para o nosso colégio o professor Graciomar, já com uma larga experiência no teatro. Foi fundamental para o grupo, pois já havíamos feito a estreia e víamos que faltava um toque de quem já conhecia a técnica teatral. No início, fizemos muitas apresentações para um público pequeno, já que o nosso trabalho ainda não era reconhecido, sendo motivo de desânimo para a maioria que participava de forma amadora do projeto. Pesava contra nós o motivo de sermos de uma escola estadual e de um bairro pobre, considerado violento. Se não “plantássemos” uma notícia de alguma apresentação nos jornais Gazeta do Sul e Riovale, não publicavam nada espontaneamente. O começo foi muito desanimador, pois precisávamos acostumar o povo a sair de casa, abandonar as novelas e os noticiários da TV e assistir uma apresentação teatral, costume este abandonado há muitos anos, pela falta de apresentação de espetáculos cênicos, restritos aos grandes centros. Depois de uma das apresentações frustradas, sem a presença do grande público, prestigiada somente pelos pais, parentes e amigos dos atores, 159


levei o Xexéu, de carona no meu Opala, de volta para sua casa, quando ele me disse o seguinte, nunca mais esqueço: “Professor Clóvis, vamos desistir desta empreitada, ninguém nos dá valor. O senhor já começou a fumar novamente, de nervoso, vendo que o nosso projeto não é valorizado, gastando do seu bolso um monte de dinheiro para que cada espetáculo aconteça. Vamos largar de mão”. Respondi: “Xexéu, nunca devemos desistir de qualquer sonho projetado para o nosso futuro, diante da primeira pedra que se atravessa no nosso caminho. Desobstrua e continue em frente. O começo é assim mesmo. Primeiramente, precisamos provar que somos capazes e, para que isso aconteça, teremos que ser perseverantes, que o reconhecimento virá ao natural. Xexéu, pode ter certeza que um dia ainda te verei dando entrevista na RBS TV (na época, a repetidora era em Santa Maria) e aparecendo nos jornais da nossa região, com grandes manchetes estampadas em suas páginas”. Apesar das dificuldades, começamos a conquistar espaço, primeiramente com apresentações para as escolas e gradativamente fomos caindo nas graças do grande público; e a mídia já vinha, espontaneamente, fazer a cobertura dos nossos espetáculos. A empreitada mais difícil foi formar um grupo com bons atores, que realmente gostassem do mundo artístico e não desistissem por qualquer motivo. A preparação de uma peça, até a estreia, durava seis meses, quando tudo corria bem e os atores não faltassem aos ensaios, muito comum para aqueles que não decoravam o texto. Esta responsabilidade, este comprometimento, faltava para alguns. Esta necessidade de melhorar a qualidade dos atores fez com que eu e o Graciomar fôssemos assistir ao festival interno de esquetes do Colégio das Irmãs. Naquelas apresentações se destacaram duas alunas: Simone Bencke e Patrícia Vilela. De comum acordo, convidamos as meninas a fazer parte do nosso grupo. Gostaram, ficaram e fizeram bastante sucesso. A Simone, na peça Cem gramas de homem, e a Patrícia fazia a atriz principal num drama muito difícil de Dias Gomes, O santo inquérito. Foi uma ousadia do grupo encenar esta peça. A Patrícia arrasou em cena. O grande problema se dava quando viajávamos para outra cidade: as broncas do pai da Patrícia, fazendo mil e uma recomendações sobre a segurança de sua querida filha. Quase pedíamos de joelhos para o severo Fernando Vilela, que, depois de muitas promessas de nossa parte, liberava a menina. Hoje, para nosso orgulho, as duas fazem sucesso na profissão. A Patrícia já estreou na TV Globo, na novela Malhação. 160


Entrevista na TV Num belo dia, alguns anos depois da fundação do nosso grupo teatral, a Marla Hansen, apresentadora do Jornal do Almoço local, da RBS TV, telefonou-me, pedindo que levasse o Xexéu e a Maristela ao programa, a fim de darem uma entrevista sobre a peça PT Saudações, em que ambos contracenavam. Às 11h30 em ponto, estávamos nos estúdios da TV para combinar a pauta da entrevista, pois aconteceria ao vivo. Assisti sentado nos fundos do estúdio, atrás dos holofotes. Depois da apresentação ao vivo da entrevista, notei que o Xexéu tinha lágrimas nos olhos e me disse: — Professor, o senhor se lembra das palavras que me falou há anos, que um dia me veria dando entrevista em uma TV? Pois é, aconteceu, e para mim foi uma grande emoção e lição de vida. Imagine, quantas pessoas me viram, ao vivo, em suas casas, falando das nossas realizações teatrais. Não devemos desistir nunca diante da primeira pedra. — Pois é… tudo é possível, desde que perseveremos — respondi. A comédia Cem gramas de homem foi assistida por mais de 30 mil pessoas e arrancou muitas gargalhadas nos palcos da nossa região. No Festival Estadual de Erechim, a Simone Bencke conquistou o troféu de melhor atriz coadjuvante do Estado. Ser um dos fundadores e idealizadores do Grupo Teatral Polivalente foi uma das maiores satisfações da minha vida, pois, antes de qualquer coisa, provou que, para termos sucesso em qualquer empreendimento, precisamos trabalhar, acreditar, perseverar, querer, comprometer-nos e, principalmente, ter amor à causa. A vitória não se impõe, se conquista ao natural.

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DO ÁLBUM DE FAMília

Registro do casamento dos meus pais Meus pais, e a casa onde nasci, em Trombudo

Eu, em uma de minhas primeiras fotos O pai, soldado (à direita)

Construção da ponte em Linha Bernardino

Na 4ª série ginasial, formatura e viagem

Dr. Jacobus, Dr. Schroeder (dentista), meu pai e Arno Ullmann (farmacêutico)

Eu, minha irmã Sidelga e amiga

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Meus pais, em foto do seu casamento Meu pai, ainda jovem

Meus pais aparecem à esquerda nessa foto Professores da escola Guilherme Fischer

Turminha de crianças amigas, em Trombudo

Eu, à esquerda, na primeira comunhão

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Primeira comunhão, também em Trombudo

Turma da 4ª série, Ernesto Alves de Oliveira


Na formatura em Técnico de Contabilidade

Toda a turma, na formatura, no São Luís

Jovens, já em happy hour: Ilvo Kauffmann, eu, Claudio Grüner e Mário Müller

Eu, com estilo, aos 26 anos

Funcionário no Sindicato dos Comerciários

Eu, em mais um momento de happy hour

A minha famosa lambreta

Passeio de lambreta no trevo de Lajeado

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Namorados: eu e Lizete, Ivo Sandri e esposa

Carnaval: eu e Lizete

Cabelos compridos e calça boca-de-sino

Eu, ali pelos 22 anos

Meu primeiro automóvel, um DKW Lambretas roncam: a número 4 é a minha

Durante a formatura, na faculdade

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Também na cerimônia de formatura


Eu em ação como professor no Polivalente

O elenco do Grupo Teatral Polivalente

Cenas da peça “O Santo Inquérito”, que marcou época e chamou a atenção da imprensa

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Cena e o primeiro elenco da peça “Cem gramas de homem”, que igualmente fez sucesso

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Rogério dos Passos (Xexéu) e Simone Bencke em matéria da Gazeta sobre o Polivalente

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AS VIAGENS

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Aventura: Travessia Guarujá—Florianópolis Num fim de semana destes, estávamos eu, minha esposa e a filha mais nova na casa do Porto das Mesas, lazer de que não abrimos mão pela beleza e pela tranquilidade na beira do Jacuí. Guardo o meu barco em Rio Pardo, na marina do Carlos Pfaffenzeller, e quando quero pescar ele me larga no rio e na volta me busca, proporcionando uma mordomia de que a maioria dos meus amigos que me acompanha fica admirada. Não desembarcando do barco, não se sujam nem os pés. Naquele dia, o Pfaffenzeller, 45 anos, mecânico de motor de popa, me fez um convite inusitado. Relatou-me que ele, juntamente com dois amigos, havia comprado um barco em São Paulo, mais precisamente em Guarujá, e que iriam trazê-lo navegando pela costa brasileira, sendo que o trajeto daria mais ou menos 700 km de mar. O detalhe que chamava atenção é que o barco tinha oito metros de comprimento e era inflável, sendo tocado por dois motores de 120 hp, diesel. De início fiquei receoso. Nunca tinha enfrentado aventura semelhante e o tamanho da embarcação realmente assustava. Ouvi muita história de naufrágios acontecida nos oceanos e esse pavor passa pela cabeça da gente. O Carlos argumentou que o passeio seria inesquecível e o Valdomiro, 55 anos, natural de Pantano Grande, experiente aviador agrícola, já havia feito o percurso, solitariamente, com um barco à vela. Toda a rota foi elaborada seguindo a Carta Náutica da Marinha Brasileira, gravada no GPS. As condições climáticas seriam monitoradas por um computador, levado à bordo, e, antes de navegarmos em mar aberto, teríamos a certeza de que o mar estaria em condições normais de navegação. Diante dos argumentos favoráveis, aceitei o desafio, mas sempre com aquele sentimento de medo do desconhecido. Embarquei no avião da TAM no Salgado Filho e segui direto a São Paulo. Saí de casa de madrugada e, em Mariante, passei a 140 km por hora no Pardal, distraído e apreensivo, rumo a uma aventura absolutamente desconhecida para mim. O máximo que tinha navegado era com meu barco no Rio Jacuí. Meus amigos Carlitos Hammes, jovem de 35 anos, separado, junta173


mente com o Marcão, 60 anos, contador, radicado em Florianópolis, estava esperando com uma camioneta, que nos levou até Guarujá. Fiquei deslumbrado com a descida da serra, muito bonita, principalmente o túnel que atravessa os morros rumo às praias, que fazem o deleite dos paulistas nos fins de semana e nas temporadas de férias. Não conhecia o litoral paulista, lindo! No outro dia, bem cedinho, nos deslocamos até Bertioga, quando tivemos a oportunidade de conhecer o barco que nos levaria para esta aventura. Uma embarcação pequena para a grande empreitada. A nossa saída foi emocionante, pois os canais de Bertioga, de mar abrigado, têm uma natureza deslumbrante. Guiados pelo GPS, fomos desbravando aquelas águas calmas rumo ao Porto de Santos. Encontramos muitos pescadores durante o percurso, que, preguiçosamente, esperavam fisgar o seu peixe ou simplesmente desfrutavam da calmaria do lugar rodeado de morros verdejantes, fugindo do estresse da Grande São Paulo. As cidades industriais, que praticamente abraçam este local abençoado pela natureza, simplesmente ignoram estes aventureiros do Sul, pois para que o Brasil tenha progresso alguém tem que trabalhar. Não era o nosso caso. Pelas 10 horas da manhã chegamos ao Porto de Santos, quando então tivemos a oportunidade de encher os tanques de óleo diesel no posto flutuante da Petrobrás, situado no Ponto Sul de Bertioga. O movimento fluvial é muito intenso. Os barcos que fazem às vezes de táxi não param um minuto, providenciando a travessia das pessoas para os locais de trabalho no porto ou na cidade de Santos. Os grandes cargueiros, carregados de contêineres, seguem os seus destinos no canal que os levará ao alto-mar ou, simplesmente, para descarregar as mercadorias no Porto de Santos. Depois do abastecimento, seguimos rumo ao canal que nos levaria ao mar aberto, agitado e com ondas. O nosso destino seria Cananeia, ainda em São Paulo, quando então, pela primeira vez, tivemos que enfrentar um mar não tão amistoso quanto o de Bertioga. Teríamos 248 km até chegar ao nosso primeiro porto seguro; portanto, tínhamos muito mar pela frente. A navegação era feita em linha reta, previamente gravada no GPS, mais ou menos entre 20 ou 40 km da costa. A primeira grande cidade litorânea que avistamos foi Praia Grande, que às vezes se distanciava ou se aproximava, dependia da nossa distância. Perguntei ao Marcão quanto tempo levaríamos para atracar na cidade, se assim decidíssemos? Respondeu que 174


necessitaríamos, no mínimo, de uma a duas horas até chegar à praia. No mar, perde-se a noção de distância, pois olhando para todos os lados só se vê água. O meu maior receio era o enjoo, quando o Pfaffen ensinou-me que sempre procurasse olhar para o horizonte. Em todas as ilhas que avistávamos durante o percurso parávamos para pescar enchovas e, segundo promessa do nosso Comandante Valdomiro, encheríamos o barco de peixes. Contornávamos a ilha e jogávamos o anzol, tentando pegar um peixe para prepararmos à noite, em terra firme; mas, para o nosso azar, o dia não era do pescador. Para não perder tempo em explicações das nossas pescarias nas demais ilhas, quero dizer que saímos frustrados em todas, saindo, incrivelmente, invictos no Peixe Zero. Diante desse fracasso esplendoroso, deveríamos ter pleiteado o Fome Zero, do Presidente Lula. Nosso comandante Valdomiro deveria ter sido agraciado com o Troféu Guiness, pelo recorde negativo de termos navegado cinco dias e, literalmente, ficarmos “a ver navios” no quesito peixe. Realmente, em matéria de pescaria, o nosso amigo entende muito é de avião agrícola. Depois de várias horas navegando num mar relativamente calmo, principalmente de manhã, à tarde mudava o vento e as maretas se tornavam desagradáveis, dando a mesma impressão de uma estrada esburacada. Finalmente, chegamos ao “portal” de entrada de Cananeia, cuja ILHA DO BOM ABRIGO nos recepcionava majestosamente colocada por forças da natureza para dividir o mar grosso, bravio, ondulado, com o horizonte parecendo infinito, com as águas calmas da enseada deste paraíso que proporciona o deleite dos paulistas e forasteiros, que vêm de longe a fim de explorar suas belezas imensuráveis. Enquanto fazíamos o contorno da ilha, admirando a beleza da vegetação e das rochas, que pareciam ter sido ali plantadas para proteger aquele local do incansável vai-e-vem das ondas, o nosso comandante Valdomiro explicou o porquê do sugestivo nome de Bom Abrigo. Quando o mar não dá condições de entrar no único canal de acesso a Cananeia, os navegantes ficam abrigados do vento e das ondas indesejáveis durante vários dias naquela ilha, pescando, batendo papo e até trocando mantimentos. O próprio Valdomiro, quando fez, solitariamente, esta mesma aventura com o seu barco à vela, ficou cinco dias ali abrigado.

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Pequeno histórico retirado da internet: “Esta Ilha localiza-se entre a barra do mar de Cananeia, com uma extensão territorial média, seu ponto mais alto chega aproximadamente a 142 metros de altura. A Ilha é praticamente rodeada por costão rochoso, assim naturalmente protegida pelas fortes tempestades que ocorrem em certa época do ano. A Ilha é um lugar paradisíaco, que qualquer pessoa gostaria de visitar, atraindo-se pela bela paisagem vista através do Farol do Bom Abrigo, uma pequena enseada de praia para banho de mar, e atracagem para embarcações com turistas que buscam na ilha a inspiração de estar de bem com a natureza. Excelente para armar barraca para acampar ou fazer uma boa pescaria. Em seu habitat, espécies de aves emigram de vários lugares para se abrigar na ilha”.

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A chegada a Cananeia, primeiro porto seguro Após a exploração da Ilha do Bom Abrigo, procuramos a boia que indicava o canal que permitia acesso a Cananeia. Foi muito difícil a sua localização e, depois de muito tempo procurando, achamos o canal, com o auxílio de um binóculo. A maré estava enchendo, permitindo nosso acesso. Fomos recompensados pela belíssima recepção que tivemos dos golfinhos e dos botos. Brincavam e faziam acrobacias na nossa frente e ao lado do nosso barco, como que saudando os aventureiros que haviam saído vitoriosos nesta sua primeira empreitada em mar aberto. Comemoramos com várias garrafas de champanha francesas a chegada neste lugar lindo, afrodisíaco, pois a partir do outro dia viajaríamos 150 km de mar abrigado, com a Mata Atlântica à nossa esquerda e os manguezais à nossa direita. Atracamos o nosso barco no cais de Cananeia e o Carlitos, ajudante de ordem da tripulação, enquanto descarregávamos as nossas malas, era incumbido de procurar uma pousada para abrigar os cansados mas felizes viajantes. Alojados e de banho tomado, era o momento de caminhar e conhecer a localidade e, principalmente, achar um restaurante que servisse uma cerveja bem gelada, acompanhada de um peixe bem gostoso, quando então faríamos uma resenha de todos os acontecimentos da viagem. Comentei com a turma que, durante o percurso, tive a oportunidade de bater longo papo com o Carlitos, jovem que me confessou diversos problemas por que estava passando. Naqueles momentos eu encarnava o personagem de Luiz Fernando Veríssimo, O analista de Bagé, sucesso teatral na década de 70. Este prometeu que deixaria de fumar, viveria uma vida monogâmica e se mudaria para Florianópolis, a fim de organizar os passeios e as pescarias dos turistas no recém-adquirido barco, dando uma verdadeira guinada na sua agitada existência terrena, para a alegria geral de todas as pessoas que compartilhavam de sua amizade e de seu amor. Depois de muitas análises e de muitos estudos do meu personagem O analista de Bagé, reconhecido internacionalmente pela sabedoria e por seus infalíveis diagnósticos, este sentenciou para os colegas Valdomiro e 177


Carlos, testemunhado pelo caráter irretocável do Marcão, que o seu paciente Carlitos era um caso perdido e que nem uma tunda de relho ou um joelhaço no meio das pernas, tratamentos mais usuais e de maior sucesso do nosso famoso analista gaúcho, resolveriam o problema. Cansados, fomos dormir, pois no outro dia seríamos acordados cedinho pelo nosso dedicadíssimo ajudante de ordem, que mais uma vez falhou na sua dificílima tarefa matinal. O contrário aconteceu, sendo que eu e o Marcão tivemos muita dificuldade para tirá-lo da cama; seu relógio biológico deveria estar programado para despertar ao meio-dia. Cananeia: cidade ilustre do Brasil “Cananeia é uma ilha situada no extremo sul do litoral paulista, num dos últimos remanescentes de Mata Atlântica intocadas na costa brasileira, a pouco mais de 250 km da capital e de Curitiba”. “O Complexo Estuarino Lagunar de Iguape, Cananeia e Paranaguá – um dos mais importantes ecossistemas costeiros – é reconhecido como um dos mais produtivos do planeta por cientistas, ecologistas e organizações internacionais. Em 1999 esse ecossistema recebeu da UNESCO o título de Patrimônio Natural da Humanidade”. Cananeia: capital gastronômica do Vale da Ribeira “Com o incremento do turismo, a infraestrutura hoteleira, de restaurantes e serviços está em franco desenvolvimento, fazendo com que Cananeia já desponte como a capital gastronômica do Vale da Ribeira. Sua culinária diversificada atende desde a cozinha mais colonial até os serviços personalizados internacionais. A cidade conta com vários eventos gastronômicos no calendário turístico, sendo a Festa do Mar o mais badalado”. (dados obtidos na Internet).

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Pescaria na Ilha do Bom Abrigo Depois de uma noite bem-dormida, carregamos e abastecemos o barco e fomos tentar mais uma pescaria na Ilha do Bom Abrigo, o que, na verdade, foi um motivo para podermos desfrutar com mais calma desta verdadeira obra de arte “plantada” neste imenso oceano e que realmente é emocionante. Filmamos e tiramos muitas fotos. Conforme promessa do Valdomiro, estes próximos 150 km seriam em águas abrigadas e estaríamos livres das ondas de mar aberto. São inúmeros canais e a navegação só é possível com barcos pequenos e com a rota previamente gravada no GPS. O nosso destino seria a Ilha do Cardoso. A primeira parada foi num pequeno lugarejo, habitado por pessoas que vão desfrutar os fins de semana de pescarias e banho, similar ao Porto das Mesas, mas com natureza encantadora, incomparável às nossas praias de rio. Atracamos o barco perto de um bar e restaurante, que possui uma plataforma que avança mar adentro e onde os frequentadores ficam preguiçosamente sentados degustando um peixe gostoso, acompanhado por uma cerveja bem gelada. Imaginamos de como seria bom ficar ali, mas abastecemos o barco e seguimos viagem, desbravando aqueles canais dos mangues e da Mata Atlântica, santuário ainda preservado para a procriação dos peixes, que irão alimentar milhões de pessoas no mundo. Se fosse um local de fácil acesso, com certeza este mesmo bicho homem já teria destruído grande parte da natureza. Ao longo do percurso, encontramos muitas vilas de pescadores, isoladas da civilização e que certamente vivem mais felizes do que as pessoas que possuem todo o conforto na cidade, conturbadas pelo estresse de correr atrás do relógio e engolidas pelo trânsito, cada vez mais catastrófico, principalmente nos grandes centros. Outro espetáculo imperdível para os nossos olhos era quando avistávamos uma frondosa árvore lá longe, que parecia pintada de branco, mas quando nos aproximávamos víamos centenas de pássaros descansando das suas revoadas insistentes em busca de sua alimentação nesta natureza farta, abençoada por Deus.

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Ilha do Cardoso Chegamos à Ilha do Cardoso às 17 horas, quando então procuramos uma pousada para acomodar as nossas malas e tomar aquele banho reconfortante. Esta ilha realmente é sensacional, com poucas casas dos nativos e rigorosamente controlada, sendo que as barracas também são limitadas. Não tem luz elétrica, somente um gerador, que funciona até às 23 horas. O lado em que atracamos é de mar abrigado. Do outro, é de mar grosso, que pudemos visitar atravessando uma trilha que cortava a vegetação típica da região. Bonita foi a recepção que tivemos no único bar ali existente. Sentamos à sombra de uma frondosa árvore e pedimos uma cerveja bem gelada, acompanhada de peixes fritos. Conversamos sobre as maravilhas da nossa jornada, tiramos fotos e o Carlitos filmou todos os detalhes, pois havia outras pessoas presentes, inclusive algumas mulheres acompanhadas dos seus namorados ou maridos. Notamos que a filmadora do nosso intrépido cineasta insistia em filmar o sexo oposto e ficamos apreensivos quanto ao desfecho de tal atrevimento, pois estávamos em terra desconhecida. Fomos salvos pelo dono do bar, que veio munido de seu violão e nos homenageou com uma canção de Dorival Caymmi, que nos emocionou muito. O Marcão, com seus quase dois metros de corpo bem-distribuídos, desabou em lágrimas, pois jamais pensou que naquelas paragens longínquas e ermas tivesse uma homenagem tão singela e ao mesmo tempo tão marcante. Foi algo sensacional, inesquecível, que até o Carlitos se esqueceu das gurias e registrou estes momentos felizes. Depois do jantar, alguns companheiros foram dormir e outros continuaram no bar jogando conversa fora em companhia de uma bela loira, isto é, uma cerveja Skol bem gelada. Até nestas paragens tem Skol! Após muitas “geladas”, fui me recolher aos aposentos. Para meu espanto, as luzes estavam todas apagadas e, como não havia ainda me familiarizado com o local, foi com dificuldade que achei a pousada. Caminhando por uma trilha que já virara uma valeta, castigada pelo intenso movimento de pedestres, bicicletas e carrinhos, ficou difícil me manter dentro do caminho, por motivos óbvios. Por sorte, visualizei o pisca-pisca das luzes do 181


nosso barco e sabia que a pousada ficava defronte. As dificuldades continuaram, pois não achava o quarto. A escuridão era total. Fui apalpando, no escuro, até achar a porta da entrada. Lembravame que o quarto ficava à esquerda, primeira porta. Abri-a, cuidadosamente, com medo de estar invadindo o espaço ocupado por pessoas estranhas. O Marcão, sempre o Marcão, salvou esta pobre criatura em dificuldades, ligando a luz do seu celular e, nestas alturas do campeonato, parecia que haviam sido acesos os holofotes do Maracanã. São e salvo, fui dormir o sono dos justos. Lá pelas quatro da madrugada, com a bexiga estourando, fui procurar o banheiro coletivo, que ficava na parte externa do prédio, mas quem disse que desta vez me lembrei da luz do celular salvador, e que achei a porta da saída? Como estava meio sonâmbulo, o fracasso foi total. Tive que retornar à cama e sofrer até a chegada dos primeiros raios da claridade matinal, quando então levantei e corri feito um verdadeiro campeão de maratona ao encontro do mictório salvador. Que alívio!

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Guaraqueçaba Depois de um lauto café da manhã, seguimos rumo à Guaraqueçaba, sempre agraciados com a exuberante natureza que vislumbrávamos extasiados, durante todo o percurso. De vez em quando cruzava por nós, solitário, algum pescador na sua canoa de madeira, que certamente iria pescar algum peixe para o sustento de sua família. Pelo convívio diário, parecia indiferente a todas estas paisagens deslumbrantes. Por volta das duas da tarde, ancoramos o barco defronte a uma vila de pescadores, quando então “almoçamos” alguns sanduíches e nos deliciamos com várias latas de cerveja. O Marcão e o Valdomiro aproveitaram para tomar um banho naquelas águas calmas e límpidas do Atlântico. Munidos com um potente binóculo, curiosos, cuidamos a movimentação do lugarejo e vimos que lá havia uma grande festa. As crianças brincavam num miniparque e os adultos conversavam e tomavam bebidas. Para minha surpresa, visualizei que um dos frequentadores estava usando a camiseta do nosso glorioso Grêmio. Foi uma alegria para os gremistas do barco! Comentamos que o nosso time é realmente famoso, tendo torcedores espalhados em todos os lugares do mundo, inclusive neste lindo lugarejo, escondido e protegido pela Mata Atlântica. Depois de algumas horas, seguimos para Guaraqueçaba. Um pequeno incidente fez com que o barco ficasse encalhado num banco de areia, algo logo contornado pela maestria do nosso comandante Valdomiro. Após muitas discussões, localizamos a boia que nos orientava para a nova rota, que nos levaria à cidade. Tive muita dificuldade para pronunciar “Guaraqueçaba”, filmava as paisagens e comentava o que via no percurso. Chegamos quase à noite e, mais uma vez, o Carlitos foi procurar um hotel para o pernoite. Jantamos e, cansados das peripécias do dia, fomos dormir. A cidade é bastante antiga, histórica; pelo tamanho dos iates e dos barcos maravilhosos lá atracados, é muito visitada pelos endinheirados paranaenses e paulistas, que usufruem do local para passeios e pescarias.

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São Francisco do Sul Às seis da manhã, já estávamos todos embarcados, pois o Valdomiro disse que o tempo estava favorável para a navegação e o mar era de “Almirante”. Seguimos rumo a São Francisco do Sul, na divisa do Paraná com Santa Catarina. O Sol apareceu, majestosamente, nos espiando por detrás dos morros com seus primeiros raios ultra-vermelhos, cujo reflexo no mar deslumbrava todos os aventureiros, ávidos por desbravar novas paisagens com esta saudação da natureza. Certamente teríamos uma tranquilíssima navegada até o nosso próximo destino. Abastecemos em Pontal, local onde os barcos partem para a travessia dos turistas que vão visitar a Ilha do Mel e, logo após, rumamos para o canal que dá acesso ao mar aberto. Confesso que fiquei apreensivo com a violência das ondas de três metros na entrada da barra. O barco subia e caía com violência, parecendo um cavalo indomável. Esta sequência de solavancos realmente assustava este marinheiro de primeira viagem. Achei que seria minha última viagem e que, se caísse no mar, certamente daria um lauto almoço para os famintos tubarões. O Valdomiro, com sua experiência de marujo velho, tranquilizou-me dizendo que logo adiante estas ondas cessariam, era só sair do canal. Foi o que aconteceu. Fizemos uma parada estratégica nas ilhas maravilhosas da praia de São Francisco, quando deixamos o barco à deriva e apreciamos estas paradisíacas paisagens. Como era meio-dia, comemos sanduíche acompanhados por deliciosas cervejas, estupidamente geladas, quando então o Valdomiro sugeriu que seguíssemos nossa aventura até Florianópolis. O mar estava calmo e, no dia seguinte, entraria uma frente fria vinda do Sul, que certamente faria com que o mar ficasse revolto. Todos concordaram e seguimos calmamente até o nosso destino final, que seria a casa do nosso comandante. Sempre apreciando as belezas deslumbrantes das praias de Santa Catarina. Chegamos sãos e salvos ao destino final, 750 km até a casa do Valdomiro, que se localiza na Enseada dos Golfinhos, em Florianópolis. Lindo lugar! 185


À noite, aproveitamos para jantar num restaurante especializado em frutos do mar. Depois nos despedimos do Marcão, companhia super-agradável, que seguiu para o convívio familiar, em São José.

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Passeio ecológico e pescaria: Paranaguá – Cananeia No início de 2008, o Carlos Pfafenzeller e o Valdomiro Schramm comentaram que voltariam para Cananeia/Paranaguá, mas desta vez para curtir a natureza e pescar neste paraíso ecológico preservado pelo IBAMA e reconhecido pela UNESCO como um dos maiores criadouros de vida marinha do Atlântico Sul. Pediram que lhes ajudasse a formar uma turma. Eu já conhecia estas paragens e, em consequência, a argumentação seria facilitada para convencer os amigos que ainda não haviam participado deste passeio em águas abrigadas. Cabe aqui uma explicação para aqueles que não entendem o que significa “águas abrigadas”, ou “Lagamar”, como é denominada. Esta imensidão de água é formada pelo movimento das marés proveniente do mar aberto e são cinco barras que alimentam este manancial e também de todos os rios que nascem nas montanhas. De Paranaguá a Cananeia são 150 km de águas calmas e sem ondas e é preciso ter cuidado para navegar, pois a qualquer momento pode-se ficar preso num banco de areia, principalmente quando a maré está baixa. O fluxo da maré se dá de doze em doze horas. Consegui convencer a participar do passeio meus amigos Ernani Kahmann, empresário, 55 anos, e Dílson Fank, 65 anos, plantador de arroz e dono de uma imensa fazenda em Rio Pardo. Argumentaram que o mais difícil não seria eles concordarem em viajar, mas sim obter a licença das esposas, que logicamente não iriam junto e, sem as suas presenças fiscalizadoras, poderiam estes incautos viajantes cair nos caminhos fáceis dos pecados libidinosos, pois seriam longos sete dias de abstinência. Mal sabiam elas que ficaríamos todos estes dias longe da civilização. A maior prova tive pessoalmente. Na véspera da viagem acontecia na Sociedade Aliança o tradicional Baile de Aniversário. Em casa, a Lizete me perguntou qual seria o horário que eu gostaria de voltar para o lar, uma vez que no outro dia viajaria cedo para Porto Alegre (às 5h45), a fim de embarcar no voo para Curitiba. Falei que o ideal seria em torno de 1 hora, pois precisava descansar e estar inteiro para a viagem. 187


Estranhei a reação dela. Disse que quem decidiria o horário do término do baile seria ela e que eu deveria me submeter aos seus caprichos. Lá pelas 2 horas da madrugada, humildemente, quase que suplicando, pedi para nos ausentarmos da festa. Fiquei feliz, pois ela chamou o garçom e pensei que pediria para fazer o acerto da despesa da noitada. Solicitou mais uma cerveja. Nesta hora, um castigo para este bebedor inveterado, e sempre o último a sair dos encontros festivos. Fui dormir às 4 horas da manhã. Bota castigo nisso! E, para completar, o voo atrasou, por falta de teto, por mais de uma hora.

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Paranaguá Quando chegamos a Paranaguá, por volta do meio-dia, o Valdomiro e o Carlos nos esperavam com a embarcação devidamente abastecida. Estava ancorada bem pertinho da praça que havia sido o local onde o padre aventureiro alçou voo com seus mil balões, cujo destino seria Ponta Grossa, mas o vento o desviou para o alto-mar e até hoje não se tem notícias dele. O mais provável é que tenha sido devorado pelos tubarões. Nas semanas que antecederam a nossa chegada à localidade, esta notícia foi alvo dos principais meios de comunicação do mundo. No último contato que manteve com as equipes de resgate perguntou como funcionava o GPS. É muita ingenuidade embarcar numa aventura perigosa e não conhecer o uso do aparelho de navegação! Voltando à nossa aventura ecológica, com certeza muito menos perigosa do que a do padre desafortunado, pois viajaríamos somente em águas abrigadas, partimos rumo à Ilha das Peças, situada no conjunto de ilhas pertencentes ao município de Guaraqueçaba e, com calma, chegaríamos ao destino em quatro horas de navegação. No percurso, visitamos o Porto de Paranaguá, cujos navios ali atracados carregavam centenas de contêineres, que partiriam para o mundo, levando as riquezas aqui produzidas. Chamou a atenção um caminhão que, naquela hora, entrava para o interior do navio, a fim de descarregar, e faço este comentário só para ilustrar o tamanho da embarcação. Também costeamos a famosa Ilha do Mel e, nesta hora, o barco era conduzido, com muita habilidade, pelo nosso amigo Dílson Fank. Acostumado a dirigir caminhão e manobrar o trator na sua lavoura, saiu -se muito bem neste seu novo aprendizado. O GPS estava bem direcionado e ao, contrário do padre, o Valdomiro Schram é profundo conhecedor do aparelho. Pena que o vigário, na hora do aperto, não se orientou com o nosso comandante, que estava dando “sopa” na região. Com sua contumaz astúcia, não deixaria “o elemento”, conforme expressão usada pelo Carlos Pfafen, partir para a Eternidade.

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Pousada da Ilha Bela Chegamos à Pousada da Ilha Bela no cair da tarde, tendo uma recepção calorosa do proprietário e dos seus filhos, que, prontamente, se colocaram à nossa disposição a fim de carregar as malas para os aposentos. Ficamos impressionados com a simplicidade do local e de seus anfitriões, acostumados com hotéis confortáveis e cheios de sofisticação, mas confesso que as surpresas que nos aguardavam superaram as nossas expectativas. Os quartos eram limpinhos, com uma roupa de cama cheirosa. Em todas as janelas foram colocadas telas finíssimas, a fim de proteger os hóspedes dos ataques dos mosquitos que, devido aos mangues, proliferam em quantidade exagerada. Para sorte nossa, nos dias que ali ficamos os bichinhos descansaram e nos deixaram em paz.A luz era fornecida por um gerador, que funcionava das 19h30 até às 10h30. A água do banho era aquecida por um chuveiro a gás. Tudo muito simples, mas bastante aconchegante. Sabemos todos daquele ditado de que “o homem morre pela boca” e, literalmente falando, foi o que nos aconteceu na pousada. O jantar que era servido pelo Jessé e pela filha do proprietário, Rafaela, uma linda menina na flor da idade, era simplesmente surpreendente; além da comida gostosíssima à base de frutos do mar, o atendimento dos dois era cheio das etiquetas. Eles pareciam até terem feito treinamento em hotel cinco estrelas. As refeições eram esperadas ansiosamente; sempre nos reservavam uma surpresa agradável, nunca repetindo o cardápio anterior, mesmo sendo peixe o prato principal. Acordávamos bem cedinho, em torno das 6h30, momento em que preparava o chimarrão oficial, com a erva Ximango. No dia anterior, o Carlos havia encilhado a sua cuia com uma erva absolutamente vencida, de cor amarelada, reprovada por todos que se atreveram a degustá-la. Confesso que não tive coragem de provar. A partir daquele momento, fui incumbido desta prazerosa tarefa. Abrigados debaixo de uma linda árvore, sorvíamos esta delícia gaúcha, botando a conversa em dia e admirando os primeiros raios de sol que nos espiavam por detrás dos morros, proporcionando verdadeiro espetáculo para os olhos, com o testemunho das gralhas azuis, que sobrevoavam o local e sentavam no alto das árvores. Com seu canto mavioso, saudavam o nascimento de mais um dia, que certamente seria maravilhoso para estes aventureiros. 191


As pescarias Depois do café da manhã, partíamos para a pescaria, acompanhados pelo Disney, filho do dono da Pousada, profundo conhecedor dos pesqueiros e do vai-e-vem das marés, fundamental para a pesca do Robalo, sendo estas águas consideradas o santuário de criação desta espécie. Primeiramente, íamos ao encontro de algum pescador que tivesse camarão, isca usual para a captura destes peixes, e precisa ser iscada no anzol enquanto estiver viva, pois dentro da água deve nadar para que o Robalo a ataque e, consequentemente, seja fisgado. Como os leitores podem notar, torna-se uma pescaria cara pela isca que é usada, e que certamente fica mais gostosa nas refeições servidas na pousada. Depois de alguns minutos de navegação, chegamos ao local da pescaria, que ficava encostada numa ilha ladeada de rochas. Os anzóis deveriam ser lançados bem na beira, na flor da água, quando então o robalo era fisgado. Somente o Valdomiro e o Carlos tinham a habilidade de lançar, enquanto o Ernani e o Dílson eram auxiliados pelo Disney, ajudante-de-ordens para todas as tarefas, inclusive para iscar e tirar os raros peixes fisgados pela dupla. A minha função era filmar e narrar toda a movimentação no barco. No primeiro dia, tentamos em diversos locais, mas foram raros os peixes que aproveitamos para levar para a pousada, mas valeu pelo divertimento da turma. À noitinha, antes de retornar à pousada, fomos até a Ilha dos Papagaios, assim chamada porque estes pássaros chegam em bando para passar a noite no local, fazendo uma barulheira infernal, parecendo um coral desafinado. Voam sempre em duplas. O casal é extremamente fiel e quando um morre o outro passa a viver sozinho. Achei interessante este detalhe. O pôr-do-sol foi um espetáculo esplendoroso que a Natureza nos proporcionou, sendo que diversos desenhos apareciam por entre as nuvens, infelizmente anunciando que no outro dia teríamos chuva, segundo as previsões do Centro Meteorológico Clima Tempo. Na manhã seguinte, sob chuva intensa, rumamos para Guaraqueçaba por um atalho, entre os manguezais, caminho conhecido pelos moradores do local. O Disney foi nosso capitão. Conduziu o barco com muita maes193


tria, pois conhece todos os desvios desta travessia, que poupa muito tempo para os navegadores das ilhas que vão fazer compras na cidade. Este canal só permite a passagem quando a maré está alta; do contrário, faria com que nosso barco encalhasse na areia ou no lodo que se forma no fundo das águas. O retorno teve que ser feito rápido e o Disney mais uma vez foi muito competente; não fosse ele, teríamos encalhado, e a solução seria esperar a maré chegar, o que levaria 12 horas. O ciclo é de seis em seis horas. A única coisa que poderia conformar a turma num desastre desses seria o estoque de cerveja na geladeira do barco ou as garrafas de Cataia, cachaça especial preparada pelos nativos e muito apreciada pelos nossos amigos aventureiros. Cabe aqui abrirmos um parágrafo para falar da cachaça que se tornou uma referência para os moradores das ilhas, que cultivam uma planta chamada Cataia e cujas folhas são usadas para “temperar” a bebida durante 25 dias, sendo que sua cor fica com um tom escuro, quando então está pronta para ser bebida. A cachaça usada no preparo desta iguaria é a 51. Segundo o nosso folclore, é a mesma que o nosso digníssimo ex-presidente da República, Lula, tomava nas suas viagens intercontinentais. Sugerimos que opte pela Cataia, que, ingerida, proporciona uma tonturinha gostosa e ao mesmo tempo cura o pileque, pois a planta tem um alto poder curativo. Para o Lula, seria uma belíssima solução. Estas más-línguas! Antes de retornarmos à Pousada da Ilha Bela, resolvemos pescar e, mais uma vez, fomos atrás de mais um estoque de camarões vivos. Os pescadores ribeirinhos notam a aproximação de qualquer embarcação estranha e sabem que vão faturar na venda das iscas, que estão amarradas numa estaca e armazenadas dentro de um viveiro, quando então são transferidas para o isopor do barco. O custo por unidade fica em cerca de R$ 0,25. Esta última pescaria foi muito bonita. Os camarões foram muito bem -aproveitados, falando-se em custo-benefício. Para cada peixe armazenado, o preço caiu vertiginosamente para R$ 25,00 por espécie, comparado ao dia anterior, que era de R$ 50,00. Não contando o enorme Robalo que o Ernani deixou resvalar para dentro da água e, no desespero de salvar esta raridade, quase tivemos o primeiro afogamento não fosse a agilidade do Disney, que ainda conseguiu segurar o nosso herói pelas pernas. Toda a tripulação do barco acre194


dita que nosso herói ficaria boiando, por motivos óbvios. Foi um Deus nos acuda! O Dílson era o único pescador de fundo, acostumado que está com a pesca do pintado no Jacuí, e sua habilidade superior foi demonstrada na hora em que fisgou dois peixes pela barriga. Foi aclamado o maior pescador que já havia aparecido naquelas redondezas. Pena que tivemos que partir no dia seguinte, pois já havia um movimento na ilha para prestar -lhe uma justa homenagem pelo raro talento. Se o pessoal do Rotary ficar sabendo, será homenageado no próximo Baile dos Destaques. O nosso voto ele já conquistou e sugerimos que o Disney faça a entrega do troféu na noite de gala. Também recomendamos a vinda da irmã, Rafaela, a nossa garçonete nota 10, com o aval do Pfaffen, sem dúvida. Como já anoitecia e as nossas iscas estavam terminando, retornamos à Pousada com uma quantidade bastante grande de peixes, desta maneira consagrando, com chave de ouro, esta nossa pescaria neste que é considerado o maior estuário de criação de peixes do Atlântico Sul.

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Dificuldades para os moradores das ilhas Toda a manhã eu assistia às crianças, munidas do material escolar, dirigirem-se a uma embarcação que as levaria até a escola, e que saía pontualmente às 9 horas.A responsabilidade de transportá-las era do filho do dono da Pousada. À tarde, retornavam, por volta das 16 horas. Todo o transporte é fluvial e um dos grandes problemas encontrados pelos moradores é quando uma pessoa adoece repentinamente e precisa procurar um hospital na cidade. Dependendo da gravidade do problema, muitas vezes não chega a tempo e morre no caminho. Geralmente estes problemas acontecem à noite, quando aumenta o grau de dificuldade. Uma das virtudes cultuadas entre os moradores é a solidariedade. Quando um deles se dirige à cidade a fim de fazer compras, avisa aos demais; na volta, vem carregado de mercadorias, e as despesas com a viagem são divididas. Outra curiosidade que tínhamos era saber de onde vinha a água potável que abastecia os moradores das ilhas. Eis que as águas do Lagamar eram salgadas. O Disney explicou que origem era de uma grande fonte que brotava num morro distante e vinha através de canos submersos na imensidão de águas que separava esta ilha das demais. Também relatou que o grande problema enfrentado pelos moradores era quando furava algum cano. Primeiramente verificavam todos os canos enterrados na ilha e, se o vazamento fosse em terra, não haveria dificuldade no seu conserto. Mas o grau de dificuldade aumentava para descobrir o furo do cano que estava submerso no fundo do Lagamar. A solução encontrada nestas ocasiões era a união de esforços dos moradores, que faziam um grande mutirão, reunindo diversas canoas e, em fila, com ganchos, içavam o cano para a superfície e verificavam onde estava o defeito, para posteriormente consertá-lo. Este procedimento era feito quando a maré estava baixa.

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Cananeia No outro dia, depois do café da manhã, carregamos as nossas malas e partimos com destino a Cananeia, desbravando os diversos canais que ligam as duas ilhas, sendo que navegamos diversas horas, conversando e admirando a natureza e suas belezas. Chegamos à cidade de Cananeia abaixo de chuva. Observávamos que o canal de acesso ao mar aberto estava bastante revolto. Nosso objetivo para o dia seguinte seria pescar em alto-mar, fato que nos deixou bastante frustrados, pois seria impossível atravessarmos o canal com ondas de até três metros. A previsão meteorológica dizia que o mau tempo continuaria por mais alguns dias. Visitamos os principais pontos turísticos de Cananeia. A Igreja e o Museu nos chamaram bastante atenção. Filmamos e tiramos muitas fotos. Cananeia é considerada uma das mais antigas cidades do Brasil. Segundo o relato de muitos historiadores, seria anterior a Porto Seguro, na Bahia. A briga histórica é muito grande entre estas duas cidades.

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Ilha do Cardoso Como o tempo não havia melhorado e a nossa pescaria definitivamente não aconteceria em alto-mar, resolvemos abandonar a civilização. Nosso grande objetivo era curtir os locais com pouco conforto, comparados com a qualidade de vida das cidades, mas que compensavam com a natureza deslumbrante, sua gente acolhedora e as comidas, à base de peixe, muito gostosas. Nosso destino foi a Ilha do Cardoso e ali pernoitamos por duas noites. O Valdomiro fizera contato com o dono da pousada; aquele fim de semana seria de bastante movimento, pois chegariam forasteiros de outras paragens, principalmente de São Paulo. O Ernani pegou uma gripe das brabas. Pegamos muita chuva nos nossos deslocamentos e, no primeiro dia, ficou meio amuado, sendo que nesta altura do campeonato a situação recomendava remédio contra febre e resfriado, e cama. Este descanso forçado fez com que o vivente no outro dia já estivesse mais disposto. Logicamente que a cachaça Cataia fazia parte deste tratamento milagroso contra a gripe, sugerido pelo nosso guru em assuntos de saúde, Dílson, que levava na sua mochila um saco transbordando de remédios para curar qualquer moléstia, inclusive caxumba. Como reza o ditado, “um homem prevenido vale por dois”. Nunca imaginaríamos que naquelas paragens fôssemos encontrar uma banda tão afinada, denominada Cataia, composta por músicos nativos e uma cantora muito bonita e afinada, cuja música predominante era o forró. Os turistas chegavam a levantar poeira no salão e nós, degustando uma cerveja bem gelada, acompanhávamos de perto a descontração que dominava o ambiente festivo. O dono do conjunto, um rapaz franzino e desengonçado, além de controlar o som, fazia questão de demonstrar aos presentes que a cantora era sua esposa, pois poderia aparecer algum atrevido, embalado pelas cervejas, a arrastar as asas para aquela deusa. Por sorte, tudo transcorreu na maior tranquilidade e não foi desta vez que aconteceu o pior. No futuro, a coisa pode complicar! Outra curiosidade que me chamou atenção foi que moradores das ilhas vizinhas vinham de barco de alumínio para participar do forró. 201


A volta naqueles pequenos barcos se tornava perigosa, devido à quantidade de cervejas ingeridas. Como o governo ainda não havia aprovado a Lei do Álcool Zero, não precisavam se submeter ao teste do bafômetro. Tínhamos mais um dia para desfrutar destas nossas férias longe do estresse e da civilização. Resolvemos retornar à Pousada da Ilha Bela, pois estávamos com saudades daquele povo que tão bem nos acolheu e que fazia uma comida esplendorosa. Com certeza, não nos arrependemos.

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Viagem de retorno No outro dia, o retorno a Paranaguá foi bastante complicado. A maré estava baixa e, num determinado momento da nossa viagem, o barco ficou encalhado num banco de areia. Foi muito complicada a sua remoção, mas nada era impossível para a nossa tripulação. Imediatamente, o Carlos desceu do barco, enfrentou, com muita galhardia, as águas geladas e tentou empurrar a embarcação para trás; no entanto, seu esforço foi em vão. O Ernani, experiente motorista criado na boleia de um caminhão, acostumado com os “tatus” enfrentados pelos seus ônibus nas estradas barrentas do interior de Sinimbu, achou a solução. Sugeriu que enterrassem a poita na areia e nós poderíamos ajudar a puxar pela corda no interior do barco, visto que não estávamos a fim de nos molhar. Com a união das forças, conseguimos desencalhar, evitando ficarmos horas esperando a maré cheia. O restante do percurso foi feito com muito cuidado, pois já havíamos marcado a nossa volta no trem turístico que faz o percurso subindo a serra, com destino a Curitiba, e, se acontecesse mais um encalhe, ficaríamos, literalmente, a ver navios.

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Viagem de trem Com paisagens de tirar o fôlego, eu, o Ernani e o Dílson, depois do desembarque do barco, pegamos o trem turístico em Paranaguá e fizemos o percurso até Curitiba, que se situa a mais ou menos mil metros acima do nível do mar. Está explicado o frio que faz na capital paranaense. A locomotiva se deslocava, preguiçosamente, entre túneis e pontes, curvas que contornavam os morros, verdadeiras obras de arte feitas no século 18, que ligavam um penhasco a outro. Lá em baixo, um rio com águas cristalinas descia a serra, parecendo com muita pressa para se encontrar com o mar, que se avistava lá longe, no horizonte. A paisagem deste percurso é deslumbrante! Infelizmente escureceu muito cedo e, como não víamos mais nada do lado de fora, a alternativa foi conversar com os passageiros e com a guia turística que nos dava informações sobre a construção da ferrovia. Aconteceu um episódio engraçado com a guia, uma mulher madura, beirando os 50 anos, que falava ao telefone com algum conhecido. Brincando, disse aos passageiros que se encontravam próximos dela que este amigo achava a voz dela ao telefone muito sensual. O Dílson, 65 anos, fazendeiro, galeantador inveterado, com sua veia de humor aguçada, concordou que realmente sua voz era muito sensual, que emoldurava muito bem a sua silhueta maravilhosa e enxuta, apesar da sua idade, muito bem conservada. Disse que o amigo dela tinha toda a razão. Também a achava bonita e seus dotes físicos eram extremamente atraentes. A conversa estava realmente esquentando. Dando-se conta do perigo que a senhora estava correndo, interferiu um turista de Belo Horizonte, salvando a guia daquela situação melindrosa. Esclareceu para a guia que o gajo estava há 10 dias longe da civilização e, em consequência, era muito perigoso provocar os seus instintos sexuais, adormecidos pela abstinência forçada. As gargalhadas foram generalizadas!

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Grécia: Santorini Realmente tivemos uma viagem inesquecível à Grécia, à Turquia e à Croácia, prêmio que ganhamos na campanha nacional da Liberty Seguros, com mais de cem colegas de todo o País. A organização, o roteiro, o navio, a GI, os gerentes e a diretoria da Liberty, tudo foi perfeito, pois fomos tratados como deuses. Maravilhoso! De manhã, bem cedinho, fui ao convés do navio apreciar a chegada a Santorini. Uma ilha de uma beleza deslumbrante, plantada no meio do mar pelas mãos de Deus, que, com sua onipotência, fez com que um vulcão “furioso” despejasse as suas lavas e formasse este verdadeiro espetáculo da natureza, para o eterno deleite das pessoas que vão como formigas visitá-la, despejadas pelos navios que ali atracam. Foi espetacular a nossa subida até o topo da montanha. Um bondinho nos transportou vertiginosamente, parecendo que colidiria com os postes de sustentação. A Lizete, minha esposa, e a Tereza, amiga paraibana, esposa do Domingos, gargalhavam e, desta forma, disfarçavam o medo que a “geringonça” causava na sua ascensão em direção ao Paraíso dos Deuses. Certamente esta Ilha foi fonte de inspiração aos organizadores para o slogan da campanha. Do topo da montanha tem-se uma vista que encanta os visitantes, que, deslumbrados, buscam os melhores ângulos para filmar e fotografar as paisagens inesgotáveis, uma mais bonita do que a outra. As casas, com seus telhados branquinhos, são construídas nas encostas dos penhascos, algumas parecendo coladas às rochas. Abrigam pousadas e barzinhos, que acolhem os turistas para tomar uma cerveja bem gelada, mas caríssima. Tudo compensa, pois lá embaixo vislumbramos um mar azul, adornado por diversas ilhas, e os navios se tornam minúsculos barcos, nunca parecendo que carregam tanta gente a bordo. Descemos pela escadaria, de quase 600 degraus, e a Tere, mulher madura, experiente, amiga e gerente da filial de Santa Cruz da Liberty, montou num burro, pois estava lesionada numa perna. A confusão foi grande, pois o Uli, esposo, um perfeito secretário prestimoso da amada, já havia pago para o grego que alugava o bicho, e nada de o burro ser montado pela Tere. Logicamente, ninguém se entendia naquela confusão, sendo que tudo que comunicavam para o Uli era literalmente grego para ele. Para 207


alívio de todos, o problema foi resolvido uns vinte minutos depois. Salvos o dinheiro e o burro, acalmou-se o aflito Uli, que pensava que sofrera um golpe em plena Grécia. Coitado, complexo de brasileiro! O trânsito de burros subindo e descendo a montanha é bastante intenso, parecendo uma avenida na hora do pique. Os pedestres têm que se abrigar atrás de algum poste no trajeto, pois, senão, literalmente, serão atropelados pelos quadrúpedes, que vêm em sua direção sem desviar um centímetro. Graças a Deus, chegamos sãos e salvos nessa empreitada cheia de perigos, e o cheiro que nos acompanhou em todo o trajeto não era nada agradável. Também nunca tinha ouvido falar que cocô de burro fosse cheirosinho!

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Passeio à Feira de Hanôver Acompanhei um grupo de empresários do Rio Grande do Sul, organizado pela Federação dos Administradores do nosso Estado. De Santa Cruz do Sul, fomos entre 22 colegas da ASSEMP. A nossa era a maior delegação. Na Alemanha, tivemos um Curso Internacional de Administração nas dependências da Escola Técnica de Deula, especializada no ensino dos filhos de agricultores das diversas técnicas especializadas da agricultura. Há jovens de muitos países que lá estudam. Esta escola também nos hospedava, e as refeições estavam incluídas. O representante no Brasil é o Sr. Erno Erdroveit, de Ijuí, que foi também nosso tradutor. Além do curso, visitamos a Feira de Hanôver, a fábrica da Volkswagen e uma fábrica de garrafas. Visitamos Hamburgo e Amsterdam, na Holanda. FRITZ, DIRETO DE SANTA CRUZ PARA A ALEMANHA. Nosso Fritz, 59 anos, loiro, olhos claros, alto, elegante, é um empresário muito bem sucedido da nossa cidade e muito conhecido, simpático e querido por toda a comunidade. Tem um forte sotaque da língua alemã, pois se criou na colônia e certamente falava somente o dialeto alemão em sua localidade. Este sotaque não atrapalha nem um pouco seus negócios; muito pelo contrário, sua perspicácia comercial é incomparável. Fui seu companheiro nas visitas. Na Feira de Hanôver, composta por 21 enormes pavilhões, começamos a acompanhar um colega empresário, que ficava muito tempo analisando um parafuso. Nós não tínhamos nenhum interesse naquilo. Perguntei para o meu amigo Fritz se estava interessado em parafuso, pois eu já não aguentava estas particularidades, e não queria perder tempo com algo que não me dizia respeito. Chega de parafuso. Vamos visitar a feira e olhar aquilo que nos interessa. Lá fomos nós, ajudados por um jovem padeiro, que nos guiava pelos diversos pavilhões. Atínhamo-nos somente naquilo que nos interessava. Conseguimos passar por todos os estandes. Se ficássemos olhando parafusos, teríamos visitado só o primeiro pavilhão. Alimentamo-nos com um lanche que consistia em uma linguiça de 20 cm de comprimento e um pão pequeno. O Fritz gostou muito do almoço. Lembrou-se dos cachorros-quentes degustados nas quermesses do interior. 209


Eram 16 horas e estávamos cansados. Damos uma descansada. O Fritz avistou uma loirinha muito bonita, que vendia algo em uma garrafa. Curioso, chamou-a e perguntou o que ela vendia, mas antes deu alguns elogios em língua alemã: “Haben sie so schönen auche”. Que quer dizer: “que olhos bonitos você tem!” Continuou falando em alemão e perguntou o que vendia. “Schnaps” (cachaça). “Gieb mich ein schluck.” (vende-me uma dose). Tomou num gole só, tinha muitas saudades da nossa cachaça. Quanto custa? “10 euros”, respondeu a alemã. O euro valia R$ 3,60, sendo que foi o gole mais caro que o Fritz já tomou em sua vida. R$ 36,00 pela dose. Se arrependimento matasse! Em outra ocasião, pegamos o trem e fomos até Hamburgo, belíssima cidade da Alemanha. Estava sentado em outra poltrona, pertinho do Fritz, que estava na janela do trem, admirando a paisagem. Num determinado momento, chamou-me, apontou para uma árvore e disse: — Clóvis, olha que dois bombons grandes sentados ali naquela árvore. Também os achei enormes. As colegas, que vinham sentadas no banco logo atrás, disseram: — Engraçado, olhamos para a árvore e não vimos bombons pendurados nos galhos. Respondi: — Não são os bombons (a guloseima doce) que vocês estão pensando e sim duas pombas grandes que ali estavam sentadas. Meu amigo Fritz tem um sotaque que muitas vezes confunde as pessoas que não conhecem esta sua particularidade. Além disso, também vende bombons. A risada foi geral. Outro dia, viajaríamos a Amsterdam. O ônibus chegou cedo ao alojamento. Acomodamo-nos no veículo, aguardando sua partida. O Fritz chegou mais tarde e se queixou que estava sentindo uma dor na barriga, que deveria ser de alguma linguiça que havia comido à noite e que não lhe fizera bem. Aconselhei meu amigo a procurar um banheiro. Disse que aguentaria, que estava passando. Foi momentâneo, as dores voltaram. Mais uma vez se queixou e eu disse para ir ao sanitário do ônibus. Não tinha ninguém, que aproveitasse. Quando o veículo se pôs em movimento, nosso amigo Fritz não aguentou mais. As necessidades já estavam colocadas em prontidão na porta de saída, loucas para se livrarem daquela teimosa barriga do Fritz. Sabem do que estou falando. Resolveu ir ao sanitário, poderia se borrar. Imaginem a manchete que sairia na Gazeta: “FAMOSO EMPRESÁRIO DA TERRA SE 210


BORROU NA ALEMANHA”. Não poderia passar esta vergonha! A fechadura da porta emperrou e não abriu, para desespero do amigo em apuros. Teria que fechar também a sua saída. Não foi fácil transpor aquele corredor do ôniibus, que parecia que tinha quilômetros de distância. O pior aconteceu. O motorista, teimoso como são todos os alemães, não quis estacionar. Xingando, disse que o ônibus estava parado por muito tempo e que o Fritz poderia ter procurado um WC. O Fritz implorou: — Estaciona que eu sento em qualquer local para resolver este grande problema que me aflige. Contrariado, o alemão foi lá e consertou a fechadura. Sei que o Fritz demorou muito naquele banheiro. Não consegui descobrir se houve algum descarte da cueca. Certamente esta não saiu incólume do episódio. Viajou sem esta parte de baixo para a Holanda. Segredo que ficou na Alemanha. Em Amsterdam visitamos diversos pontos turísticos e navegamos em seus canais, conhecendo um dos maiores portos da Europa. Naquele momento, estava saindo um dos maiores cargueiros do continente, onde cabiam centenas de automóveis que iam para outro país. Também chamou atenção a Rua dos Pecados, onde as mulheres estão nas vitrines, vestindo roupas íntimas e vendendo seus corpos para um programa para algum marinheiro, abstêmio de sexo por vários meses viajando em alto mar. Quando voltamos dos passeios, estávamos no centro da cidade, esperando nossa condução. Pedi para o Fritz tirar uma foto minha numa praça muito bonita. Prontamente atendeu meu pedido, mas antes pedindo que tirasse a fotografia perto dos lindos cavalos, que puxavam uma charrete de turismo. Fiz a pose. E nada de foto. Notei que o flash clareou o rosto do Fritz. Disse para ele virar e este se virou para o outro lado. Insisti: “Não, tu não te viras; vira a máquina”. Foi um parto tirar aquela fotografia. Na escola, nos aposentos, revendo as fotos que havia tirado na Holanda, vi um baita rosto com a língua de fora. De início, estranhei. Depois lembrei que era do Fritz. Depois da janta, reuníamos-nos no bar da escola para tomar a cerveja Heidegger, muito tradicional na Alemanha. Tínhamos o cuidado de gelá-la no congelador, pois os alemães tomam-na meio gelada. Reunidos todos os congressistas no bar, o Fritz pediu a palavra. Queria dar um discurso para coroar sua passagem pela terra alemã. 211


Iniciou e falou das maravilhas da Alemanha, da sua grandiosidade, do seu progresso, da organização e da pontualidade. No final de suas palavras, disse que nunca vira um cabelo mais bonito em toda a Alemanha, cuja tonalidade era azul, simplesmente inigualável em beleza. E era de homem. Todos ficaram curiosos e ao mesmo tempo desconfiados daquela paixão do Fritz pelo mesmo sexo. Será que tinha alguma tendência homossexual? Era casado e não poderia ter desmunhecado repentinamente, longe da mulher que deixara no Brasil. Poderia ser bissexual, tão comum hoje em dia. Notando a grande curiosidade dos colegas presentes finalmente revelou o seu segredo: que o cabelo do Clóvis não tinha igual em lugar nenhum, branco com tonalidade azulada, pelo xampu francês que usava. O Fritz continuava hetero, que alívio para todos os colegas! Era só brincadeira do Fritz. Visitamos também Berlim; recém faziam as reformas da capital. O muro havia caído e a cidade precisava ser reerguida, pois a parte Oriental era muito atrasada e velha. Este passeio na Alemanha ficou na minha lembrança para sempre, pois este País impressionou-me pela organização perfeita. Quando puder, volto.

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A primeira grande viagem A nossa primeira grande conquista como corretora de seguros foi uma viagem que ganhamos da Vera Cruz Seguradora, em 1995, quando conhecemos a matriz da Mafhre, em Barcelona. Depois fomos agraciados com um cruzeiro marítimo e apreciamos as belezas de Palma de Maiorca e Ibiza, praias famosíssimas da Espanha, e ainda estavam incluídas no roteiro Roma, com direito a bênção do Papa João Paulo VI, na praça de São Pedro; o Principado de Mônaco e Nice, na França. No dia em que estávamos reunidos na Praça de São Pedro, inventei uma brincadeira, que consiste no seguinte: lá longe, no meio de uma multidão de 40 mil pessoas, vinha o Papamóvel, que conduzia Sua Santidade, que distribuía suas bênçãos aos cristãos ali presentes. Quando se aproximou de onde nos encontrávamos, admirado, me reconheceu no meio do povaréu e perguntou: — Haeser, você também está aqui? Respondi: — Sim Papa, aqui estou. Os amigos sempre indagam de como “o homem” me reconheceu no meio de tanta gente? Respondo: — Lembram de quando o Papa esteve em Porto Alegre, no largo do Estádio Olímpico, e o povo aclamava “ucho, ucho, ucho, o Papa é gaúcho”? Pois é, fui eu que inventei o refrão e Sua Santidade nunca mais esqueceu. Boa explicação, não é verdade? Outra estória que aconteceu no mesmo local foi a seguinte: o André Pflug estava ao meu lado para ver a passagem do Papa João Paulo VI e eu não havia percebido que ele não se encontrava mais ali. Quando o procurei, estava lá longe, no pórtico da entrada, sentado à sombra. Os amigos me perguntam por que ele se afastara num momento tão importante de sua vida, pois não é todo dia que podemos ver um Papa de perto e receber a sua bênção. Eis que devolvo com a seguinte pergunta: — Vocês já viram um anão no meio de uma multidão? Brincadeiras de mau gosto, não acham? Deixando a brincadeira de lado, tivemos a oportunidade de conviver 213


com os principais corretores do país. Algo que nos impressionou muito foi a recepção que tivemos no Clube de Monte Carlo, local onde o Príncipe Rainier recepcionava seus convidados, quando a seguradora nos ofereceu um jantar à francesa. Num dado momento, escutamos um barulho e constatamos que o telhado estava se deslocando. Jantamos à luz de velas e das estrelas. A vista maravilhosa de Mônaco: o clube ficava bem no alto. Quem nos acompanhou neste passeio foi o André Pflug, pois a Carolina recém havia nascido, o que impediu a minha esposa de nos acompanhar. Foi um passeio espetacular!

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Viagem à Grécia Também era praxe da AGF Seguradora, hoje Allianz, a premiação anual, quando dava o direito a viagens internacionais para os vencedores da campanha. Tive a oportunidade, em maio de 1999, juntamente com minha esposa Lizete, de viajar a Atenas, onde ficamos dois dias, hospedados em um hotel em frente ao Palácio do Governo. Dos nossos aposentos, assistíamos, saboreando um gostoso chimarrão, a troca da guarda, cujo cerimonial é impressionante. Nos dois dias em que ficamos em Atenas, visitamos os principais pontos turísticos. Nos dias seguintes, fizemos um cruzeiro pelas Ilhas Gregas, no Mediterrâneo, onde conhecemos Patmos, Mikonos, Creta e Santorini. Em todas as ilhas fazíamos um tour, conhecendo as principais atrações, mas a que realmente impressiona é Santorini, cuja formação geológica vem da erupção de um vulcão. De longe, do deck do navio, conseguíamos visualizar as suas construções, todas branquinhas, bem no alto da montanha. O acesso à ilha se dava somente com um bondinho ou pelas escadarias (mais de 500 degraus), montado num cavalo, que era guiado por um nativo. Indescritível! Neste mesmo roteiro, chegamos à Turquia, pelo mar Egeu. Depois do passeio pelas ilhas, às 18 horas, voltávamos ao navio, que fazia às vezes de um hotel cinco-estrelas, onde aconteciam jantares maravilhosos, acompanhados de ótimos vinhos. Após, podíamos escolher entre um belo show (cantores, mágicos, dançarinas), jogar no cassino, dançar na boate, ir ao cinema e, lá pela meia-noite, descansar no camarote, para mais uma jornada de passeios no outro dia. Era cansativo, mas gostoso! A turma de gaúchos sempre andava reunida e tivemos a oportunidade de granjear grandes amizades, entre as quais Roberto Pansera, de Canoas; Fernando Sperb, de Novo Hamburgo; Gilberto Rodrigues, de Porto Alegre; Leocir, de Horizontina; e suas respectivas esposas; Gílson, gerente da AGF; e os mineiros, inseparáveis do nosso grupo, Léo e Peninha. Todos os dias, após às 18 horas, nos reuníamos no deck do navio para tomarmos um chimarrão, pois nunca dispensamos estes apetrechos, apesar de as nossas malas sempre serem as mais visadas para a inspeção nos aeroportos. Aliás, este nosso hábito chamava muito atenção dos demais passageiros. Estranhavam esse nosso costume. Fomos alvos de muitas fotos e ques215


tionamentos. Também os próprios brasileiros de outros estados se aproximavam para experimentar esse nosso “estranho” hábito.

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Portugal De 16 a 24 de junho de 2000, fomos agraciados com mais uma viagem à Europa pela AGF, cujo destino foi a belíssima Portugal, sendo a cidade do Porto o início da nossa descoberta das belezas deste país, de tantos laços afetivos e históricos com o nosso Brasil. Fizemos, de ônibus, uma verdadeira peregrinação pelos principais pontos turísticos, e os gaúchos que nos acompanharam foram os corretores Kiko Sperb, de Novo Hamburgo; Gilberto Rodrigues, de Porto Alegre; Ricardo Pansera, de Canoas; Leocir, de Horizontina; e o Ricardo Bossel, gerente da AGF, filial de Porto Alegre, todos com as respectivas esposas. A delegação era composta de 170 pessoas de todo o Brasil. Na chegada, o hotel reservado era o Porto Palácio, muito movimentado na época por hospedar representantes dos governos da União Europeia, pois lá acontecia uma reunião importantíssima, e havia um forte aparato de segurança (brincamos que era por nossa presença no local). Tivemos a oportunidade de fazer um belíssimo passeio pelo Rio Tejo, conhecendo as “cinco pontes” e margeando a deslumbrante paisagem da cidade ao pôr-do-sol. Tomamos todo o estoque de cerveja do barco. No outro dia, fomos a Guimarães, nos arredores do Porto, considerada o berço da nação portuguesa, onde conhecemos o Paço Ducal, palácio construído no século XV. À noite, jantamos nas Caves Taylor, que ficam do outro lado do Rio Tejo, e tivemos a oportunidade de degustar os principais vinhos e apreciar a maravilhosa vista da cidade do Porto. Um espetáculo! No dia 19 de junho rumamos à cidade de Sintra, ocasião em que conhecemos a famosíssima Universidade de Coimbra, a mais antiga e prestigiosa de Portugal e que tem uma biblioteca de 300 mil livros. Ficamos impressionados com a visita à Capela Universitária, toda dourada e cheia de morcegos. À tarde chegamos ao Hotel Penha Longa, um antigo mosteiro onde se hospedou a família real portuguesa, e desfrutamos das comodidades, como campo de golfe, quadras de tênis, piscinas interna e externa. No outro dia rumamos a Algarve, lugar de praias maravilhosas. Mas antes chegamos a Évora, onde visitamos a Capela dos Ossos, situada dentro da Igreja de São Francisco, que começou a ser construída no século XVII, com os restos mortais de 5 mil monges. Dá para imaginar? À noitinha, chegamos à praia e nos hospedamos no Vilamoura 217


Marinotel, frequentado pela alta sociedade de Portugal, de frente para a marina, com seus imponentes iates. Foi uma estada maravilhosa porque, além de desfrutar das mordomias do hotel, fizemos um passeio de barco, o Catamarã Top Cat. Depois de 3 horas de viagem, chegamos a Praia Marinha, onde aproveitamos para mergulhar em suas águas azuis e límpidas. Na volta, passamos pela famosíssima praia de Albufeira, quando observamos suas enseadas entre rochedos. Foi um passeio espetacular, e neste barco também terminamos com o estoque de cerveja a bordo. Um exagero! Nos dias 22 e 23 de junho desfrutamos das belezas de Lisboa, onde paramos no Hotel Dom Pedro, de alto padrão. Começamos o nosso tour conhecendo a Torre de Belém, construída entre 1515 e 1521 no meio do Rio Tejo. Era o ponto de partida dos navegadores portugueses, onde também pudemos observar o Monumento da Descoberta, sendo ali eternizados Pedro Álvares Cabral, Fernão de Magalhães e Vasco da Gama. Conhecemos ainda o Mosteiro dos Jerônimos, um monumento à riqueza na época dos descobrimentos. Visitar Portugal e não saborear os famosos pastéis de Belém, acompanhados do vinho do porto, fica impossível. E para provar essas maravilhas, fomos à casa dos Pastéis de Belém. Passamos novamente pela charmosa cidade de Sintra e retornamos a Lisboa pela estrada costeira, quando tivemos a oportunidade de conhecer as praias de Cascais e Estoril. À noite, em Lisboa, seguimos de bonde pela famosa Avenida da Liberdade, uma elegante via com fontes, monumentos, bares com mesas nas calçadas, muito movimento e detalhes para todos os lados, com destino à Praça do Comércio, uma imensa área na beira do Rio Tejo, que abrigou o palácio real por anos. O seu lado sul é considerado o mais belo portão de entrada de Lisboa, com suas escadarias de mármore. O lado norte conduz à Rua Augusta, e é o portão de entrada da Baixa. Subimos para a parte alta da cidade, em direção ao Castelo de São Jorge. O Bairro Alto é fascinante, com suas ruas de pedra, casas com pintura descascada, minúsculas mercearias, que vendem frutas e vinho local. No dia de embarque ao Brasil, que aconteceria à noite, tivemos tempo livre para fazer o programa que mais nos agradasse. Alugamos um carro em conjunto com o Ricardo Pansera, munidos de um mapa, viajamos por uma autoestrada de alta velocidade e conhecemos o famoso Santuário de Fátima, local de peregrinação dos católicos 218


do mundo inteiro, ocasião em que compramos diversas lembranças, que mandamos benzer por um padre que lá encontramos. Na volta, conhecemos Óbidos e, depois, já em Lisboa, visitamos o Oceanário, com espécies de peixes de todos os mares do mundo. Às 22h30 do dia 24 de junho embarcamos no jato da TAP rumo a São Paulo, já com muitas saudades de todas as belezas que deixamos em Portugal.

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A viagem dos deuses: Itália, Croácia, Turquia e Grécia A Haeser participou de uma campanha de vendas proporcionada pela Liberty Seguros, que se iniciou em outubro de 2007 e se estendeu até 31 de maio de 2008, sendo uma das nove corretoras agraciadas no Sul do país, para orgulho de toda a equipe de vendedores, que mais uma vez colocou a nossa empresa no topo. Antes da viagem, para comemorar esta conquista, fizemos uma grande festa à fantasia na sede da Liberty, aqui em Santa Cruz, regada a muito chope, acompanhado de um gostoso churrasco. Em determinado momento da comemoração, recebi o telefonema do Maranhão, diretor da Região Sul, que oficializou a conquista da Haeser, muito comemorado por todos os presentes. A Tereshina Gerhard e seu esposo Uli também estavam radiantes, pois a filial, que ela gerencia com muita competência, igualmente foi agraciada para participar deste roteiro maravilhoso. Foi impressionante o tratamento VIP que recebemos da Companhia, e que já se iniciou no traslado até o aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, quando um carro foi especialmente deslocado para nossa cidade a fim de nos buscar na porta da nossa casa. O detalhe é que outro carro buscou a Teresinha e o Uli. Mordomia total, a que certamente não estávamos acostumados a receber. Na volta da viagem, os carros estavam esperando no aeroporto para nos levar para casa. Até questionei com a Tere que poderia ter sido um carro só, mas ela argumentou que, se acontecesse um acidente grave no percurso, os dois casais não poderiam usufruir da viagem e que até nisso os organizadores da viagem foram prevenidos. Concordei. Os voos que saíram de São Paulo, no dia 28 de agosto de 2008, foram em três companhias aéreas distintas: Air France (conexão em Paris), Alitália (conexão em Roma) e Iberia (conexão em Madri). O destino final para todos foi Veneza. Pelas sete horas da manhã chegamos a Paris, no aeroporto que leva o nome de um dos presidentes mais famosos da França, Charles de Gaulle. E uma frase sobre o nosso Brasil varonil é historicamente atribuída a ele: “O Brasil não é um país sério”. Dizem que não é dele, mas vamos deixar 221


por isso mesmo. Tínhamos muito tempo de espera no aeroporto para a conexão a Veneza e estávamos confinados tipo “gado para engorda”; os fumantes sofriam muito, pois não havia nenhum espaço para que pudessem satisfazer este contestado vício. Em compensação, num dos bares tinha uma agitação incomum. Quando fui verificar o motivo de tanto euforia, estavam lá o Matias (vice-presidente da Cia.) e alguns colegas de São Paulo tomando cerveja com gelo. Estranhei muito esta atitude, justificada na primeira cerveja que abri: também aderi à nova moda, pois a cerveja que pedi, além de custar sete euros pela lata, estava estupidamente quente. Olhem as incoerências humanas: fumar não pode em lugar nenhum, mas tomar cerveja até encher a cara, pode. Chegamos ao hotel de Veneza na tarde de sexta-feira, dia 29 de agosto, descansamos e aproveitamos para caminhar e conhecer um pouco a cidade, que se situa na parte continental. À noite, fomos recepcionados pela Diretoria e por funcionários da Liberty com um jantar de boas-vindas numa pizzaria da cidade, quando então provamos a verdadeira pizza italiana, feita pelos seus inventores e que depois foi espalhada pelo mundo. Confesso que nós já superamos os nossos mestres, principalmente no recheio, que no Brasil vem com uma camada generosa e de uma variedade muito diversificada. A festa transcorreu com muita animação e foi a primeira grande oportunidade para revermos colegas de outras excursões. À medida em que íamos bebendo o vinho ou a cerveja, a descontração tomou conta do ambiente. Com este clima de alegria geral, tivemos uma pequena demonstração do que seriam os próximos dias da viagem. Um jovem casal de Porto Alegre foi alvo de muitas brincadeiras, pois havia esquecido as malas com roupas e outros apetrechos em casa; foram se dar conta do inusitado acontecimento somente quando chegaram em São Paulo. Se houvessem extraviado no Aeroporto, ainda poderia se aceitar, mas esquecer em casa, não havia explicação aceitável. A sorte que havia um corretor retardatário que fez a gentileza de trazer a mala do “desligado” casal. Os colegas “pegaram no pé” dos jovens desde o primeiro encontro até o fim da viagem. Na manhã seguinte, bem cedinho, duas embarcações estavam nos esperando para atravessar os famosos canais, que nos transportaram até os portões de entrada da famosíssima ilha de Veneza. 222


Saindo dos canais, começamos a navegar no mar que circunda as ilhas. Ficamos maravilhados com o trânsito de barcos, que fazem o translado de pessoas e mercadorias, e que se deslocam às centenas naquele vai-e-vem vertiginoso pelas “estradas” demarcadas por postes, com placas de sinalização iguais às com que estamos acostumados nas ruas de uma cidade. Nas transversais, a preferência é da “avenida” que faz a ligação entre o continente e a ilha. Antes de embarcar para esta viagem havia lido uma reportagem na revista Veja de que as autoridades estavam preocupadas com a velocidade excessiva imprimida pelos barcos nas “estradas” de Veneza, e que estavam causando muitos acidentes. Realmente, verifiquei que os barcos que trabalham como táxis andam muito rápidos, fazendo ultrapassagens muito perigosas, mas também demonstrando muita habilidade dos “motoristas profissionais” no volante daqueles possantes motores de popa, pois estão acostumados desde crianças com este único meio de transporte. Aqui, quando o jovem completa 18 anos, os pais mais abastados presenteiam o filho com uma moto ou um carro; lá, imagino que deve ganhar um barco a motor, para que possa se deslocar até a Universidade, para uma balada ou mesmo para visitar a namorada e dar uma banda ao local frequentado pela juventude a fim de curtir a vida ao lado da amada. Veneza é patrimônio artístico de toda a Humanidade pela particularidade de sua localização geográfica e pelos seus bonitos monumentos, testemunhos da enorme riqueza da República Veneziana, sobretudo nos séculos XVII e XVIII. Simplesmente única, a cidade de Veneza é um arquipélago formado por 118 ilhas, entrecortadas por 170 canais. Por milhares de anos a cidade foi o mais importante mercado marítimo da história. Hoje, toda esta importância comercial deu espaço ao turismo, que muitas vezes é superior ao que a cidade suporta. Chegamos a Veneza com um calor insuportável e logo nos deslocamos para a Praça de São Marcos, onde fomos recepcionados por centenas de pombas, que simplesmente “atropelam” os visitantes com seus voos rasantes, ávidas para se alimentar da comida abundante ofertada pelos turistas. A praça está rodeada por edifícios do século XVIII, de uma magnífica beleza arquitetônica, e pela Basílica de São Marcos e pelo Palácio Ducale, imponente prédio onde está situado o governo da República Veneziana, cujo chefe tem o nome de “Doge”. No outro lado do canal encontra-se a prisão de “dei Piombi”. O edifício 223


está unido ao Palácio Ducal pela ponte dos Suspiros, carregada de lendas. Os criminosos sussurravam quando cruzavam a ponte e viam as últimas luzes da cidade antes de seu confinamento. Não visitamos estes monumentos históricos, pois havia uma fila imensa e levaríamos muito tempo esperando. Imaginamos, só vendo pelo lado externo, a suntuosidade destas construções medievais na sua parte interna. Depois do encontro de todo o grupo na praça e das orientações passadas pelos guias, nos dispersamos e cada um tomou um destino diferente para conhecer este lugar simplesmente incrível. Caminhamos pelas ruas estreitas, verdadeiros labirintos, repletas de lojas de artesanatos, joias, roupas de grife, de bares e restaurantes e repletas de pessoas vindas de todos os recantos do planeta. Uma verdadeira mistura de raças e línguas diferentes. Pessoas curiosas para conhecer cada detalhe do local e se jogar freneticamente nas compras das quinquilharias mais caras do mundo. Pela multidão que transitava naquelas ruelas estreitas, ficava muito difícil utilizar a filmadora ou tirar uma foto, pois sempre aparecia alguém para “atravessar” na nossa frente. Aqui no Brasil, certamente punguistas e batedores de carteira fariam a “mala” naquele burburinho de gente. Depois desta caminhada, chegamos ao Grande Canal, onde circulam as gôndolas, todas com uma ornamentação fantástica, conduzidas pelos nativos com seus trajes típicos. Eles levam casais a passear nas águas calmas, reacendendo a chama do romantismo e do amor entre os emocionados passageiros. Não andamos de gôndola pelo pouco tempo que nos restava e também pelo alto custo para uma hora de passeio, exagerados 100 euros. Às margens do Grande Canal há uma infinidade de palacetes dos séculos 17 e 18, que contam com detalhes toda a história de luxos e extravagâncias desta cidade. A cidade-símbolo do romantismo continua a mesma desde a Idade Média. Suas ruelas, seus canais e seus palácios atraem multidões. Cansados de perambular pelas ruelas desta cidade encantadora, voltamos à Praça de São Marcos e, juntamente com a Teresinha e o Uli, sentamos num bar e pedimos dois sanduíches e uma cerveja pequena para cada casal. Não gostei do sanduíche, mas a cerveja estava bem gelada e o custo para cada casal foi de 48 euros. Quase caímos da cadeira! A Coca-Cola era vendida a sete euros. Ainda bem que a Liberty havia nos brindado com 100 224


euros para as despesas. É a velha Lei da Oferta e da Procura, pois a cidade o ano inteiro fica inundada pelo mar e por um turbilhão de turistas. Após esta breve visita a Veneza, estava na hora de embarcar no fabuloso navio Splendour of the Seas, um verdadeiro gigante dos mares, que nos esperava com suas variadas atrações: 11 decks com atividades, entretenimento e diferentes opções de restaurantes e cabines; Bar Schooner y Champagne Terrace; moderno centro de fitness e SPA, parede de escalada, Solarium com teto de vidro retrátil, piscina coberta, jacuzzis e bar, Átrio de sete decks com elevadores de vidro que levam os passageiros ao ponto mais alto do navio: a discoteca – com vista panorâmica de 360 graus, café internet, capacidade para levar 2.446 passageiros, com um comprimento de 279 metros e largura de 32 metros. Este embarque aconteceu no dia 30 de agosto de 2008. Após sermos identificados na entrada do navio, quando fomos fotografados e recebemos um cartão, nos dirigimos a nossa cabine, composta de uma cama de casal muito confortável, banheiro e janela com vista para o mar. As nossas malas já nos esperavam na cabine, pois desde a saída do hotel em Veneza não as víamos mais. Enquanto a Lizete tomava um banho e ajeitava as roupas nos armários, fui dar uma primeira conferida nos ambientes do navio e procurei um bar para tomar a primeira cerveja. Peguei o elevador e fui até o sétimo andar; vi que aquele seria o local que os passageiros mais frequentariam. Ali se localizavam também os restaurantes, as piscinas e a música ao vivo, além de ser permitido fumar. Sentei num banco ao redor do enorme balcão do bar, olhei as cervejas expostas e pedi para o garçom, um simpático negrinho americano, uma Foster. Solicitou o cartão de identificação e viu que eu fazia parte do grupo da Liberty, e que aquela marca de cerveja, por ser mais cara, não fazia parte daquelas que a Seguradora pagaria. Eu disse que não haveria problema em ele me cobrar aquela cerveja. A partir daquele momento, descobri que não precisaríamos pagar as cervejas consumidas no navio, desde que fosse a Budweiser, que vinha numa garrafa de alumínio grosso, nas cores vermelha (normal), azul (light) e preta (forte). Cada garrafa custava cinco dólares. A comida no restaurante também estava liberada durante o dia todo. Tínhamos quatorze bifês à nossa disposição, com uma comida bastante variada. Após este rápido reconhecimento do deck, era hora de tomar meu banho e preparar um gostoso chimarrão. 225


Toda a noite tinha um jantar no deck quatro, por volta das 21 horas, quando toda a delegação dos corretores participava deste espetacular ágape, num amplo salão decorado maravilhosamente com lustres enormes e cheios de detalhes, tapetes finíssimos, dois ambientes distintos, ligados por escadarias que davam um charme todo especial ao ambiente. As mesas eram redondas e acomodavam de seis a oito pessoas. O cardápio era variado, composto por entrada, prato principal e sobremesa. O garçom que atendia a nossa mesa era um espanhol muito simpático e brincalhão, sempre com um astral lá nas nuvens. Como contei que eu tinha muita glicose no sangue, toda a comida que me servia falava que era sem açúcar. Inclusive a cerveja. Toda a noite repetia a mesma história, descontraindo os nossos colegas da mesa com suas brincadeiras. Os fumantes são cada vez mais excluídos em qualquer ambiente que frequentam, e não seria o navio uma exceção, muito menos no salão onde as pessoas se alimentavam. Na nossa mesa havia viciados inveterados, que a toda hora abandonavam o local da janta e davam uma fugidinha para o fumódromo, que se localizava na parte externa do navio. Esta turma enfrentava a fria ventania do mar com muita galhardia, pois o que importava era satisfazer o seu corpo com as doses necessárias de nicotina. Os cinzeiros, verdadeiros baldes, estavam transbordando de tocos de cigarros. Eis a prova de que ainda existem muitos (in)felizes tabagistas, que se auto-protegem contra este verdadeiro exército de fanáticos xiitas, comandados por ex-fumantes, contrários ao prazer máximo desta escória renegada pelos próprios irmãos. Entre estes fugitivos perseguidos pelos antitabaco (qualquer semelhança com certos partidos políticos da esquerda é mera coincidência) cito a Tere, gerente da Liberty aqui da nossa cidade; a Tereza e o Marcílio, lá de João Pessoa; eu e a Lizete. O Uli Gerhard já conseguiu largar do vício, mas não virou xiita. Graças a Deus, menos um para azucrinar a nossa vida! Oxalá todos nós nos tornemos ex-fumantes e sigamos o exemplo sublime do Uli, marido exemplar da dona Tere. O presidente da Liberty, Luiz Maurette, e sua esposa Mariana, um casal de argentinos muito simpáticos, destoavam completamente daqueles que conhecemos pelo futebol ou que nos visitam no verão nas nossas praias. Convidavam todas as noites corretores diferentes para lhes fazerem companhia na sua mesa de jantar. Tivemos a honra de sermos distinguidos, eu e 226


minha esposa, juntamente com dois corretores de Santa Catarina, a passarmos horas muito agradáveis com o nobre casal, que nos relatou, numa maneira muito descontraída, a sua lua-de-mel em Santorini, que teve lances cinematográficos. O presidente relatou que preparava o banho de sua musa numa ampla banheira e usou muito xampu, sendo que a espuma se espalhou no recinto, causando o maior embaraço para o jovem nubente. Foi um Deus nos acuda no hotel! Rimos muito da história do presidente, que tocou neste assunto porque no outro dia iríamos visitar Santorini. O que menos se falou foi de seguro. No último jantar, houve a despedida do pessoal da cozinha e dos garçons, que em grupo se dirigiram às escadarias: as luzes foram apagadas, ficando somente as velas acesas nas mesas, criando um ambiente emocionante. Todos tremulavam suas toalhas brancas, cantando e saudando os presentes freneticamente, contagiando os turistas, que ovacionaram em agradecimento àqueles trabalhadores que tão carinhosamente nos atenderam durante o cruzeiro marítimo. Após este verdadeiro show, voltaram, triunfalmente, em fila indiana, para começar a servir as mesas. Foi muito marcante! Durante o dia, as atrações se concentravam no sétimo andar, onde os turistas aproveitavam as piscinas para um banho gostoso ou simplesmente para se bronzear naquele sol esplendoroso do Mediterrâneo. A turma da Liberty se reunia em torno do bar, quando então, lá pelas 11 h da manhã, começava a beber cerveja, apreciando um conjunto musical, que animava o ambiente com músicas em ritmo eletrizante. Até samba “arriscaram” tocar, mas víamos que faltava a ginga que somente os brasileiros possuem. Muitos passageiros, depois de ingerir umas que outras, se transformavam em exímios dançarinos, dando um verdadeiro show para a “plateia” que ali se encontrava. Até os garçons entravam neste clima de alegria; ao ritmo das músicas, faziam seus contorcionismos no chão, equilibrando garrafas na testa. Depois desta performance voltavam ao trabalho, pois continuávamos com muita sede. A delegação dos gaúchos, liderados pela Teresinha Gerhard e pelo Uli, sempre procurava ficar junto. Alguns casais de outros estados, que se identificavam conosco, optaram por nos acompanhar naqueles momentos prazerosos, pois a cerveja “corria solta” o dia todo, ininterruptamente, quando não saíamos do navio para conhecer as ilhas. A Budweiser foi a grande “estrela” da 227


turma; além de bem geladinha e gostosa, era uma cortesia da Liberty. O almoço e o café da manhã eram servidos num enorme restaurante, cuja comida era distribuída em 14 bufês, e não tinha hora determinada para a alimentação, pois este ambiente ficava à disposição dos passageiros até às 18 horas, quando então fechava. À noite, depois do jantar, a festa continuava no Piano Bar, que ficava anexo ao Cassino; na Boate, que se localizava no último deck do navio; ou no próprio Cassino, onde os aficionados ficavam horas apostando suas fichas, logicamente sempre pensando em sair com muitos dólares no bolso, isto quando a sorte os ajudava, pois a tradição diz que a banca nunca sai perdendo. No Piano Bar, muitos casais aproveitavam para dançar músicas românticas, interpretadas por um cantor muito afinado. Continuávamos a tomar as nossas cervejas, servidas por dois garçons brasileiros, muito animados e de alto astral. Outra noite, os organizadores da excursão reuniram todos os agraciados e suas respectivas acompanhantes num grande salão do navio para a Festa do Chapéu. Todos, sem exceção, deveriam usar um chapéu mais exótico possível. Alguns capricharam muito com o adereço e nós, juntamente com a Tere e o Uli, levamos os chapéus confeccionados pela irmã da Lizete, Lurdes Ana Pereira, da Hiper Festas, exclusivamente para esta noite maravilhosa. Foi muito difícil carregar na mala, pois eram chapéus enormes. O meu homenageava o nosso glorioso Grêmio, o Imortal Tricolor dos Pampas, e o da Lizete se baseava na exuberante natureza brasileira, a la Carmen Miranda. A nossa entrada no salão foi simplesmente espetacular, principalmente no meu caso, que aguçava a tradicional rivalidade Gre-Nal, sendo saudado efusivamente pelos gremistas presentes e vaiado pela ala dos fanáticos colorados. Na festa se encontrava a sobrinha do presidente do Grêmio, Paulo Odone, que pediu para tirar uma foto comigo e disse que a mandaria, com muito orgulho, para o tio, em Porto Alegre. Este ficaria muito contente com a homenagem que eu fazia para nosso clube nos longínquos mares do Mediterrâneo. Outro orgulho que tivemos, eu e a Lizete, foi quando o Matias, da Liberty, nos presenteou com uma belíssima sacola de viagem como vencedores da Festa do Chapéu, e também o presidente Luiz Maurette, argenti228


no, fez questão de usar o chapéu e tirar uma fotografia com a gente, confessando que aqui no Sul sempre foi torcedor do Grêmio. Para não trazer o chapéu de volta, visto que ocupava muito espaço na mala, o dei de presente a um garçom gremista que trabalhava no navio.

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Croácia: Dubrovnik Dubrovnik é uma cidade costeira da Croácia, localizada no extremo sul da Dalmácia, banhada pelo Mar Adriático. É um dos balneários mais importantes do país, bem como um porto, e a capital do condado de Dubrovnik-Neretva. Com população de 43.770 habitantes, sua maior parte é de origem croata. Por sua beleza natural e pelo que representa para a história, Dubrovnik é conhecida como a “pérola do Adriático”, e considerada patrimônio da humanidade pela UNESCO. Fortes e muralhas bem-conservadas, a arquitetura medieval, renascentista e barroca; a paisagem do Adriático e os cafés e restaurantes fazem de Dubrovnik um destino singular. A cidade antiga é dividida ao meio pela Placa, o passeio público, com cafés e restaurantes, além de diversos monumentos e edifícios históricos. São pontos de interesse a Igreja de São Salvador, o Mosteiro Franciscano, a Torre do Relógio, o Palácio Sponza, a Catedral da Assunção da Virgem, o Mosteiro Dominicano e as impressionantes muralhas. Quando lá chegamos, a primeira atitude que tomamos foi fazer a escalada na muralha, cujas escadarias são estreitas e sobem quase que verticalmente, tirando o fôlego do turista quando chega lá em cima. Mas a paisagem que se vislumbra lá do alto também é de tirar o fôlego! Caminhamos quatro quilômetros para contornar toda a extensão do muro, que na verdade foi construído para a defesa da população do local contra os ataques inimigos que vinham pelo mar. Estrategicamente colocados, vimos muitos canhões, que hoje se tornaram atração turística e que eram usados para bombardear os navios inimigos. Esta muralha foi parcialmente reconstruída, pois parte dela foi destruída na guerra contra a Sérvia. A visita a este local foi muito rápida, se resumiu a muitas fotos e filmagens, às compras de souvenires e ao almoço, que não vou mais esquecer, pois pedi um bife, achando que era frito, mas para minha surpresa a carne era crua e temperada com um molho bastante forte. O Uli, a Tere e a Lizete pediram o trivial, uma pizza. Fui salvo pelo Uli, que conhecia e gostava da iguaria que eu havia pedido, degustando-a com muito prazer. Saí do almoço com muita fome, mas em compensação o chope que serviam estava muito gostoso. O garçom era um sujeito muito simpático, fã número 231


um do Brasil, pois conhecia e gostava muito da nossa Seleção Brasileira, dizendo de cor e salteado as escalações dos times que se sagraram campeões do Mundo.

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Turquia: Kuşadası Kuşadası é a porta de entrada para Éfeso – uma das maiores civilizações do mundo antigo e mais importante sítio arqueológico e religioso da época. Algumas das obras mais importantes do mundo antigo estão em Kuşadası, incluindo o Templo de Ártemis (uma das sete maravilhas do mundo antigo), a Basílica de São João, onde o apóstolo está enterrado, e a Casa da Virgem Maria. Situada na costa oeste da Turquia, 90 km ao sul de Esmirna (terceira maior cidade da Turquia), Kuşadası possui muitos locais importantes na história, como Éfeso, Dídimos, Priene e Mileto – locais lindos para quem gosta de apreciar grandes paisagens e monumentos! Foi a segunda visita que eu e a Lizete fizemos a este local histórico da humanidade, onde praticamente se iniciou a civilização. Na primeira, viajamos com a AGF Seguradora, hoje Allianz. É impressionante vermos as construções de uma época remotíssima, com seus palácios e suas bibliotecas restaurados com uma fidelidade a toda prova e a cidade, com um sistema de esgoto moderníssimo. Pelo que li nas placas existentes, este trabalho de restauração foi realizado por profissionais alemães. Também chamou muita atenção um estádio, que tinha a capacidade para abrigar 25 mil espectadores, número que realmente dá a dimensão de como o povo daquele tempo gostava de espetáculos. Depois desta visita sob um sol escaldante, subimos o morro de ônibus; os caminhos estreitos serpenteavam nas encostas até chegarmos ao topo e nos depararmos com um lugar de intensa peregrinação dos fiéis católicos do mundo inteiro, pois ali ainda se encontra edificada a Casa da Virgem Maria, que, segundo a história, ali viveu após a morte de Jesus. A construção de pedras é pequena e a visitação é feita em fila. Os turistas podem apreciar o seu interior, que realmente emociona. No fundo, junto ao altar, se ouve uma freira cantando, bem baixinho, uma das melodias em homenagem à Virgem Maria conhecidas mundialmente pelos católicos, o que nos toca profundamente e, sinceramente, a gente se arrepia e dá um friozinho danado por dentro. Na saída, há um grande muro onde os visitantes fazem três pedidos à Virgem; a fachada é crivada de papéis, e a Lizete não perdeu a oportu233


nidade. Espero que tenha sido atendida, pois os desejos até hoje não sei quais foram. Também a água que corre das torneiras dizem que é benta. Enchemos uma garrafa de plástico e a carregamos com todo cuidado para trazê-la ao Brasil. Infelizmente, ela não passou despercebida dos fiscais do aeroporto de Veneza, que a confiscaram. Argumentamos que era uma inofensiva água benta e que até abençoaria a nossa viagem aérea, mas de jeito nenhum pudemos carregá-la para o avião. Alegaram que poderia ser um material perigosíssimo, carregado por dois terríveis terroristas que estavam a fim de explodir o avião. Este universo está cada vez mais louco a partir do atentado às Torres Gêmeas, e sentimos essa paranoia, principalmente nos aeroportos, pois os fiscais só faltam exigir que passemos nus pelo detector. O maior estresse para os turistas são os aeroportos, que cada vez mais complicam a nossa vida, em nome de uma minoria de loucos espalhados por este mundo de Deus.

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Grécia: Corfu A mais conhecida de todas as ilhas do mar Jônico, Corfu fica na costa da Albânia, mas tem uma extensão razoável e suficiente para manter parte de seu território intocado, distante das faixas de terra dos vários balneários construídos em 1960. A principal cidade de Corfu é uma capital movimentada, perto do aeroporto e das balsas que levam ao continente grego e à Itália. Tem bairros históricos espremidos entre fortalezas construídas pelos diversos invasores da ilha, que a ocuparam no último milênio. A ilha é uma prefeitura da Grécia, pertencente à periferia das Ilhas Jônicas. É perenialmente conectada à história da Grécia, partindo da mitologia grega, pois seu nome é conectado a Posídon, deus do mar, e a Asoon, importante rio grego. Tivemos uma passagem muito rápida por esta ilha e não tivemos a oportunidade de conhecer os principais pontos turísticos desta cidade. Passeamos pelas suas ruas estreitas, apinhadas de visitantes de todos os lugares, e nos limitamos às compras, pois seria a nossa última oportunidade para esta atividade. As opções eram muito variadas nas centenas de lojas ali concentradas, uma ao lado da outra. Como a Lizete espera até a última oportunidade a fim de comprar os presentes para filhos e parentes, foi em Corfu que enchemos as sacolas de roupas e quinquilharias. Voltamos cedo para o navio. A sede era grande e as cervejas Budweiser estavam nos esperando, geladinhas. Era o último embarque no Splendour of the Seas, com destino a Veneza. No outro dia começaria nosso suplício nos aeroportos e já pensava no Charles de Gaulle, em Paris, que simplesmente é uma prisão para os fumantes. Estes ficam horas e horas de castigo, perambulando sem destino neste gigante de concreto. Não gostei de Paris, pois me limitei a conhecer somente o seu aeroporto, frio e desumano. Não quero mais voltar a Paris.

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Viagem a Boston e Nova York No ano de 2004 fomos agraciados com uma viagem aos Estados Unidos, numa campanha nacional realizada para os corretores de todo o Brasil, pela Liberty Seguros. O objetivo, além de visitar Boston e Nova York, era conhecer a matriz e tomar um café da manhã com o presidente internacional da seguradora e seus principais executivos mundiais. No dia 15 de maio chegamos a São Paulo, onde houve a recepção aos corretores de todo Brasil no recém-inaugurado Hotel Caesar Park. Estavam presentes os principais executivos da Liberty no Brasil, entre os quais o presidente Luiz Mauretti, o vice-presidente Comercial, Matias Ávila, velho conhecido da AGF; e João Maranhão, diretor comercial da região Sul, que também nos acompanharam na viagem. À noite, depois do jantar, nos fizeram uma surpresa agradabilíssima, quando tivemos um show exclusivo do cantor Sérgio Reis, acompanhado de seus dois filhos. Eles nos brindaram com as canções de seu recém-lançado CD. Foi espetacular! Até o Mathias deu uma demonstração dos seus dotes artísticos, acompanhando com muita afinação algumas composições do cantor famoso. Foi um avant-première de tantas outras surpresas que nos aguardavam nesta privilegiada viagem à terra do Tio Sam. No dia seguinte, chegamos ao destino de nossa viagem, Estados Unidos. Em Boston, fomos alojados no confortável Marriott Boston Copley Palace Hotel e, cansados do longo percurso, jantamos e nos recolhemos aos aposentos. Durante a nossa estada em Boston, tivemos a oportunidade de fazer diversos passeios, conhecendo as principais atrações turísticas da cidade. Os corretores e suas esposas eram conduzidos por dois ônibus, especialmente contratados. No nosso grupo, em sua maioria do Sul, o nosso “guia” principal eram o presidente Mauretti e sua esposa. Andamos no Duck Tours, que se locomove na terra e na água, proporcionando momentos emocionantes e muito divertidos aos passageiros. Também nos foi oportunizado conhecer a famosa mansão The Breakers, residência oficial da família, que era ocupada especialmente no verão. Simplesmente deslumbrante! Outro local que admiramos muito foi Newport, balneário favorito daqueles que representavam o poder socioeconômico no passado. A arquitetura é colonial; data de 1539. 237


À noite, fomos convidados para um belíssimo passeio de barco nas águas que banham esta maravilhosa cidade americana. O ponto culminante foi o lauto jantar a bordo; após, todos se divertiram ao som de muita música e dança. Logicamente, a bebida estava liberada e a festa se estendeu até altas horas da noite. No último dia em Boston, visitamos a matriz internacional da Liberty. Foi um encontro bastante proveitoso, onde fomos apresentados ao presidente internacional, sr. Tom Ramey, que, no seu pronunciamento, falou dos projetos futuros desta grande empresa para a América do Sul, especialmente para o Brasil. Também tivemos a oportunidade de questionar as diferenças entre o mercado americano e o brasileiro, incipiente e complicado para as companhias que aqui se instalaram, principalmente para aquelas que inovaram com a implantação do perfil do condutor dos veículos segurados, que é o caso da Liberty, pioneira neste procedimento. Perguntamos se nos Estados Unidos também usavam o perfil, quando nos responderam que lá o segurado é controlado pela placa do veículo, que não muda na compra de um novo, sendo que todas as companhias têm acesso a estas informações e o segurado pagará o preço justo pelo controle da sua sinistralidade. O café da manhã dos americanos é muito diferente do nosso. Parece mais um almoço, pois servem muita comida gordurosa, como bacon, linguiça apimentada, ovos fritos, cozidos, salame e, incrível, até pão, como acompanhamento. É uma verdadeira sessão de engorda; por isso, os Estados Unidos são uma nação campeã em obesos. Outra visita muito interessante que fizemos em Boston foi à Universidade Harvard, que fica localizada num lugarejo muito pequeno e calmo, perfeito para abrigar os melhores alunos oriundos do mundo inteiro. A parte interna da universidade é um imenso jardim, com muito gramado, árvores, arbustos e flores. São diversas edificações, espalhadas numa enorme área, tornando-se um lugar perfeito para estudo, pesquisas, na formação dos jovens que mais tarde irão ter os cargos mais valorizados no mundo dos negócios, da ciência e da tecnologia. No dia 18 de maio, de ônibus, seguimos à cosmopolita Nova York, onde fomos hospedados no famosíssimo Hotel Waldorf Astoria, localizado na Ilha de Manhattan. Ocupa todo um quarteirão defronte ao Central Park. O hall de entrada simplesmente é de maravilhar qualquer pessoa, sendo revestido de tapetes majestosos e com lustres deslumbrantes. No centro do ambiente há um enorme relógio, revestido com um ma238


terial muito bonito e valioso. Era ponto de referência para o encontro de toda a delegação dos corretores, que desciam dos seus apartamentos e de lá saíam para os passeios. Símbolo de luxo e glamour em Nova York, o hotel foi fundado por dois primos milionários, William Waldorf Astor e John Jacob Astor IV, que uniram os hotéis Waldorf e Astória, na esquina da Quinta Avenida e da 33rd Street. O prédio original, inaugurado em 1893, deu lugar ao Empire State Building em 1929, e os Astor transferiram-se para a Park Avenue. O hotel já serviu de residência para os generais Dwight Eisenhower e Douglas MacArtur, hospedou o presidente John F. Kennedy e a atriz Marilyn Monroe; e foi homenageado em uma canção de Cole Porter. Em Nova York andamos muito de ônibus, conhecendo seus principais locais turísticos. No Central Park, fizemos uma breve visita ao memorial de John Lennon, onde compôs a mais famosa de suas canções, “Imagine”. Ele foi um assíduo frequentador do parque e era comum vê-lo dedilhar o seu violão no local. Morava num apartamento vizinho ao parque. Entre muitos locais que visitamos na cidade destacamos a charmosíssima Quinta Avenida, onde se situam as mais famosas grifes, sendo a Meca do comércio mundial; basta ter dólares em abundância, o que não era o nosso caso. Também vimos o local onde houve os atentados às torres gêmeas com os aviões da American Airlines, patrocinados pelos fanáticos seguidores de Bin Laden. Além de uma cerca com os nomes das vítimas, apenas vimos um enorme buraco, prova da enorme desfaçatez humana e, no horizonte, podíamos avistar a Estátua da Liberdade, como que colocada naquele local para testemunhar perante a História esta hecatombe sem precedentes. À noite, tivemos maravilhosos jantares em restaurantes famosos do lugar, sempre com patrocínio total da seguradora. Naquele ano o dólar estava valendo R$ 3,60, proporcionando preços proibitivos para a nossa moeda enfraquecida. Para darmos uma ideia, tomamos dois chopes no hotel, sendo que quase caímos de costas no chão, pois quando fomos pagar a conta fechou em R$ 48,00. Outra surpresa patrocinada para a turma foi a apresentação do Cirque de Soleil, espetáculo maravilhoso, concorridíssimo no mundo todo, algo de indescritível beleza. O ingresso para o casal equivalia a R$ 500,00, preço absurdo para os nossos padrões. Sinceramente, valeu a pena! Estas premiações são realmente muito valiosas. Além do congraçamento com os colegas de outras regiões deste imenso Brasil e dos altos 239


executivos da Companhia, faz com que conheçamos, em pequenas proporções, a opulência de uma nação que comanda os destinos do mundo. Em contrapartida, como é bom voltar ao nosso País, cheio de problemas de toda ordem, mas com um calor humano e uma alegria de viver sem precedentes neste globo terrestre.

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DO ÁLBUM DE VIAGENS

Na saída de Bertioga para Florianópolis: Valdomiro, Carlitos, Marcão, eu e Pfaffen

Vista do atracadouro na deslumbrante paisagem de Ilha Bela, que encantou o nosso grupo

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Na Praça de Cananeia

NĂŁo haveria como resistir a um bom lanche a bordo, para restaurar as energias

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Momento para o chimarr達o, de manh達, cedinho, na Ilha Bela

Eu conduzindo o barco, curtindo a viagem

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Um registro da pescaria durante a viagem

Ilha do Bom Abrigo, na entrada de Cananeia

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Eu e o MarcĂŁo, num registro durante a viagem

Navegando, em algum trecho das ĂĄguas abrigadas

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Perspectiva da Praça São Pedro, em Roma A primeira viagem de navio, pela Europa

Chimarrão no Waldorf Astoria, Nova York Roma, com a Basílica em meio a reformas

Mônaco, com a vista sempre deslumbrante

Em frente ao Coliseu, em Roma

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Diretoria da Liberty, em Boston (EUA)

Loja que fica junto a Harvard


Homenagem a Lennon, Central Park

Instalados no hotel, em Nova York

O esplendor do Waldorf Astoria, Nova York

Eu e Lizete, hall do Waldorf Astoria

Mais um registro defronte a Harvard

Passeio de barco que fizemos em Boston

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Durante a festa, no barco, em Boston

Os corretores que ganharam a viagem

Passeio de trem pela Alemanha

Passeio de barco em Amsterdam

Na Deula, na Alemanha

Um trecho do Muro de Berlim

Amigos, esperando o trem, na Alemanha

Registro da passagem por Amsterdam

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O grupo na Feira de Hannover

TambĂŠm na Feira de Hannover

Durante passeio de barco em Amsterdam

Eu, em Amsterdam, na foto feita pelo Fritz

Com a Lizete, em Portugal

Lizete, em FĂĄtima, em Portugal

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Festa no Casino Estoril, em Portugal

Um registro junto aos canais de Veneza, na Itรกlia

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Mais uma perspectiva da estonteante beleza de Veneza

A saĂ­da do navio para o alto-mar, em Veneza

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Perspectiva do muro, na Croรกcia

Lizete junto ao muro, com a vista deslumbrante da Croรกcia

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Ainda o Mar Mediterr창neo, na costa croata

Jantar especial do comandante, no navio

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Eu e Lizete em Kusadasi, na Turquia

Junto Ă casa da Virgem Maria, na Turquia

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Lizete junto ao muro dos pedidos para a Virgem Maria

Na Ilha de Santorini, na GrĂŠcia

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Diante das inesquecĂ­veis paisagens de Santorini

As escadarias, na Ilha de Santorini

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Teresinha descendo Santorini montada num burro

Os canais de Veneza, que n茫o saem mais da mem贸ria

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Happy hour foi composto em tipo Minion Pro 10/12 pt e impresso sob papel Off-set 90 g/m2 (miolo) e Cartรฃo Triplex Royal 250 g/m2 (capa) na Grรกfica LupaGraf, para a Editora Gazeta Santa Cruz Ltda., em dezembro de 2012, numa tiragem de 500 exemplares.


C

M

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CM

MY

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CMY

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Natural de Trombudo, hoje Vale do Sol, o empresário Clóvis Haeser é, como o leitor deste livro logo o descobre, e não sem deliciar-se, um exímio contador de histórias. Com a segurança e com a sutileza que a vida empresta só aos que souberam aprender com as experiências, desafia-se a revisitar circunstâncias de seu passado, que têm o salutar dom de fazer lembrar das vivências de cada um de nós. Aprendizagens, desafios, viagens, paixões, descobertas, alegrias e frustrações que ao cotidiano são inerentes, Clóvis os escrutina com rara capacidade de síntese. Que belo presente: Happy hour é um convite a ser feliz. O Editor


“Lembro que acompanhava minha mãe para estes encontros no Salão Machado, em Trombudo. Para que não importunasse durante o jogo, ganhava uma garrafa de Pepsi, que durava quase a tarde toda. Ingeria-se de gole em gole, de vez em quando, para não terminar logo. Era a única daquele fim de semana. Outra, somente no seguinte encontro das mulheres. Em casa, o máximo que se ganhava era um suco de limão-bergamota ou água da cacimba.” De “Os primeiros passos em Trombudo (hoje Vale do Sol)”

*** “Nos dois dias em que ficamos em Atenas, visitamos os principais pontos turísticos. Nos dias seguintes, fizemos um cruzeiro pelas Ilhas Gregas, no Mediterrâneo, onde conhecemos Patmos, Mikonos, Creta e Santorini. Em todas as ilhas fazíamos um tour, conhecendo as principais atrações, mas a que realmente impressiona é Santorini, cuja formação geológica vem da erupção de um vulcão. De longe, do deck do navio, conseguíamos visualizar as suas construções, todas branquinhas, bem no alto da montanha.” De “Viagem à Grécia”

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